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Eixo temático: Educação e Docência; Políticas Públicas; Direitos Humanos; Ética e Cidadania. Docência Plural – Formação em Interculturalidade e Bilinguismo Enap, 2023 Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional SAIS - Área 2-A - 70610-900 — Brasília, DF Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional Conteudista/s Edleise Mendes (conteudista, 2023); Eliana Sturza (conteudista, 2023); Isis Berger (conteudista, 2023); Luana Ferreira Rodrigues (conteudista, 2023). Sumário Módulo 1: Fronteiras Linguísticas e Culturais ...................................................... 7 Unidade 1: Línguas, Culturas, Fronteiras e suas Complexidades .....................7 1.1 Território, Territorialidade e Comunidades Linguísticas ..................................... 7 1.2 Fronteiras Linguísticas, Culturais, Econômicas e Simbólicas .............................. 9 1.2.1 Em Busca de Definições ....................................................................................... 10 1.2.2 Que Tal Pensar na Prática? .................................................................................. 14 Referências ............................................................................................................ 17 Unidade 2: Fronteiras e Políticas Territoriais ....................................................19 2.1 Formação e Estabelecimento das Fronteiras Sul-Americanas: entre Tratados e Conflitos .......................................................................................................................... 19 2.2.1 Arco Norte ............................................................................................................. 26 2.2.2 Arco Central ........................................................................................................... 28 2.2.3 Arco Sul .................................................................................................................. 31 Referências ............................................................................................................ 34 Unidade 3: Fronteiras, o Desenvolvimento Social e a Educação ......................35 3.1 Fronteira como Problema e Espaço de Controle.................................................. 35 3.2 Fronteira como Recurso para o Desenvolvimento Social ................................. 39 3.3 E os Possíveis Caminhos? ....................................................................................... 43 Referências ............................................................................................................ 50 Módulo 2: Interculturalidade e Educação Linguística Plural ............................52 Unidade 1: Interculturalidade: Conceitos Fundamentais ................................52 1.1 Conceitos de Língua, Cultura e Repertório Linguístico na Construção da Interculturalidade .............................................................................................. 52 1.1.2 A Ideia de Língua como Prática Social ............................................................... 53 1.1.3 A Cultura como Rede de Significados ................................................................ 56 1.1.4 Repertórios Linguísticos e Contextos Bi/multilíngues ..................................... 58 1.2 Mitos e Conceitos Sobre a Interculturalidade ...................................................... 60 A Interculturalidade como Movimento de Vida ......................................................... 64 1.1.5 Língua, Cultura e Interculturalidade – A Construção de um Terceiro Lugar . 65 Referências ............................................................................................................ 69 4Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: A Educação Linguística Intercultural .............................................70 2.1 Educação Linguística Intercultural e seus Elementos Constitutivos ................. 70 2.1.1 Educação Linguística Intercultural e Formação de Professores para uma Educação Plural ............................................................................................................. 75 Referências ............................................................................................................ 79 Unidade 3 - A Interculturalidade nas Práticas Educativas Plurais ..................81 3.1 Experiências Interculturais: Análise e Reflexão sobre Situações-Problema .... 81 3.1.1 Experiências e Memórias de Professores(as) de Línguas ............................... 82 3.1.2 A Avaliação como Prática Intercultural: Análise de Atividades Avaliativas .... 87 3.2 A Interculturalidade na Prática: Materiais e Recursos Didáticos ....................... 91 Referências ............................................................................................................ 95 Módulo 3: Fenômenos Linguísticos das Fronteiras Hispano-Brasileiras .........98 Unidade 1: A Constituição do Espaço Multilíngue nas Fronteiras .................98 1.1 Situações do Bilinguismo: Português/Espanhol ................................................ 101 1.2 Espaço Multilíngue: Outras Línguas nas Fronteiras da América do Sul ......... 108 Referências .......................................................................................................... 114 Unidade 2: Estratégias Comunicativas no Contexto Multilíngue .................116 2.1 Estratégias Comunicativas nas Práticas Sociais no Contexto Multilíngue ...... 118 Glossário ........................................................................................................................ 129 Referências .......................................................................................................... 131 Unidade 3: Fenômenos Linguísticos na Cultura Fronteiriça ..........................133 3.1 Repertório Linguístico dos Fronteiriços ............................................................... 133 3.2 Línguas de Fronteira nas Expressões Culturais ................................................. 134 Referências .......................................................................................................... 141 Módulo 4: Gestão de Línguas na Escola em Contextos Plurais ......................143 Unidade 1: Políticas Linguístico-educacionais e Gestão de Línguas .............143 1.1 Multilinguismo, Políticas Linguísticas e Políticas Linguístico-educacionais .. 144 1.2 Gestão de Línguas na Escola ................................................................................ 151 Referências .......................................................................................................... 156 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 5 Unidade 2: Educação Bi/Multilíngue: Conceitos e Modelos ...........................158 2.1. O que é Educação Bilíngue? ............................................................................... 158 2.2 Modelos de Educação Bilíngue ........................................................................... 161 2.2.1 Educação Multilíngue para as Demandas do Século XXI ............................... 165 Referências .......................................................................................................... 168 Unidade 3: A Promoção de Línguas e Culturas na Escola ...............................170 3.1. Desafios da Educação em Contextos Plurais .................................................... 170 3.2 Ações em Contextos Multilíngues de Fronteira ................................................. 172 3.2.1 O Programa Escolas Interculturais de Fronteira ............................................ 172 3.3 Princípios para a Promoção de Línguas e Culturas na Escola ......................... 176 Referências ..........................................................................................................182 6Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Apresentação e Boas-vindas Seja bem-vindo e bem-vinda. Neste curso você irá explorar uma série de temas ligados a uma docência plural. Aqui serão debatidos temas como as fronteiras linguísticas e culturais, a interculturalidade e a educação linguística, assim como os fenômenos linguísticos das fronteiras hispano-brasileiras, as políticas linguísticas- educacionais e as práticas pedagógicas para contextos plurais. Bons estudos! Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 77 Módulo Fronteiras Linguísticas e Culturais1 Comumente definido como uma grande extensão de terra, o território pode ser visto desde distintas óticas das áreas do conhecimento que se debruçam sobre seu estudo, em especial pela Geografia Política.Tendo em vista essa definição, é possível pensar em quatro dimensões básicas que orientam as diferentes concepções sobre o território, de acordo com Haesbaert (2016). Política ou jurídico-política Visão do território como um espaço delimitado e sob controle, sobre o qual se exerce algum tipo de poder que pode ser o poder político do Estado ou de outros agentes. Neste módulo você irá explorar os conceitos de fronteira, território e territorialidade, tratando, também, sobre as fronteiras simbólicas e seus múltiplos funcionamentos. Além disso, terá a oportunidade de se aprofundar e compreender o potencial das fronteiras linguísticas e culturais enquanto recurso para o desenvolvimento social. Siga para entrar em contato com as reflexões contidas na unidade 1. Unidade 1: Línguas, Culturas, Fronteiras e suas Complexidades Objetivo de aprendizagem Compreender conceitos relevantes sobre as fronteiras linguísticas e culturais como um espaço complexo. 1.1 Território, Territorialidade e Comunidades Linguísticas Você já parou para pensar como o território e as línguas estão relacionados? Partindo dessa ideia, comece esta unidade conhe- cendo um pouco sobre o conceito de território, territorialidade e territórios linguísticos. 8Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Cultural ou simbólico-cultural Nesse caso, o território é visto desde uma perspectiva de valorização e apropriação simbólica de um determinado grupo em relação ao espaço que habita, priorizando uma noção mais simbólica e subjetiva. Econômica Apresenta uma noção menos difundida, com foco no território como recurso para as relações econômicas, tendo como base o conflito entre as classes sociais e a relação entre capital e trabalho. Natural(ista) Como o nome indica, aqui a noção de território se baseia nas relações entre natureza e sociedade. Em busca de uma concepção mais ampla podemos unir essas dimensões e propor uma definição mais integradora que vê o território como um espaço de poder político significado simbólica e culturalmente pelos grupos que o habitam e que configura uma importante fonte de recursos naturais e econômicos. Esse território é marcado pelas territorialidades que ocupam esse espaço, uma vez que a territorialidade se constrói a partir dos usos que as pessoas fazem do espaço em que vivem, das relações econômicas e culturais que estabelecem, dando significado a esse lugar. Essas territorialidades estão diretamente relacionadas ao estabelecimento dos territórios linguísticos, uma vez que um faz parte do outro. Ao estabelecer relações culturais e econômicas em seus territórios, as pessoas lançam mão de seus repertórios linguísticos, demarcando assim seus territórios linguísticos. Sobre os territórios linguísticos cabe a definição proposta por Berger (2015, p. 46): esferas de uso das línguas, não somente as demarcadas pelo poder exercido via instrumentos legais ou por intermédio de instâncias governamentais, mas também por outros agentes e grupos que, no campo das relações, agem sobre os usos das línguas, demarcando espaços de controle e fronteiras relacionais entre os grupos que delas compartilham, de forma descontínua. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 9 Assim, é possível compreender que o território pode ser demarcado a partir de critérios geopolíticos determinados pelos Estados Nacionais, porém também é preciso refletir sobre as territorialidades que constituem esses espaços e que vão influenciar na demarcação simbólica e fluida dos territórios fronteiriços, representadas pelas línguas que são faladas nas diferentes situações e práticas sociais dos grupos que ali transitam. Para refletir um pouco mais sobre o conceito de território linguístico, assista a videoaula a seguir: 1.2 Fronteiras Linguísticas, Culturais, Econômicas e Simbólicas Mas o que são as fronteiras? As definições mais gerais dispostas nos dicionários trazem alguns termos em comum quanto ao vocábulo “fronteira”: Chuva de ideias comuns sobre a definição de fronteira. Elaboração: CEPED/UFSC (2023). Videoaula: O Conceito de Território Linguístico https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo01_video01/index.html 10Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 1.2.1 Em Busca de Definições Ao longo do tempo pesquisadores de distintas áreas do conhecimento buscaram definir as fronteiras com base nos critérios mais adequados à suas áreas de pesquisa. Se sobressaem estudos da área da Geografia Política, representada por cientistas como Ratzel (1897), Ancel (1930) e Raffestin (1993). Friedrich Ratzel (1897) vai localizar a fronteira como subordinada ao Estado, indissociável das questões territoriais, classificando-as em naturais, políticas e artificiais, conforme as definições a seguir (CATAIA, 2008). A fronteira costuma ser definida como um espaço de divisão, separação, imposição de limites e controle entre dois territórios, conforme observa-se na Constituição Federal do Brasil, de 1988: Vemos, portanto, que o Estado brasileiro reconhece oficialmente a fronteira como esse espaço importante para a manutenção da soberania territorial nacional. No entanto, é preciso conhecer outros aspectos intrínsecos à fronteira que fazem com que esse espaço seja tão complexo e relevante para pensar políticas em prol do bi/ multilinguismo. Portanto é hora de buscar algumas definições. Art. 20 § 2º A faixa de até cento e cinquenta quilômetros de largura, ao longo das fronteiras terrestres, designada como faixa de fronteira, é considerada fundamental para defesa do território nacional, e sua ocupação e utilização serão reguladas em lei. Naturais • marcos físicos: rios, montanhas, reservas, áreas protegidas; • boas: oferecem boas condições de proteção do Estado; • más: oferecem más condições para a proteção do Estado. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 11 Jacques Ancel (1930) vê a fronteira como um espaço de pressão e tensão política e as classifica em fronteiras plásticas, físicas, modernas e humanas. Entre as fronteiras humanas, aponta duas subdivisões: fronteiras de pressão, representadas por isóbaras políticas e as fronteiras de civilização, representadas pelas religiões e pelas línguas, por exemplo. Claude Rafesttin (1993), por sua vez, traz a noção de fronteira associada à uma zona camuflada em linha, propondo a divisão entre fronteiras internas e externas. Nas perspectivas apresentadas é possível observar que a busca por uma definição de fronteira está atravessada por questões que remetem aos conceitos de Estado, território, linhas e zonas de delimitação político-administrativa. Porém, chama a atenção a noção de fronteiras de civilização propostas por Ancel (1930) ao incluir as línguas como parte da classificação das fronteiras humanas. Veja outras definições e conceitualizações em torno da fronteira que serão adotadas e relevantes para todo seu estudo: “Fronteiras são fator e contingência da existência dos Estados Nacionais e, antes deles, com menor precisão, de diversos tipos de ordens sociais, das tribos aos impérios multiétnicos. Marcam o alcancede um poder, permitem medir a capacidade de imposição da violência legítima, definem a inclusão e a exclusão, o Políticas • simples: não se limita com outro território político; • dupla: limita dois territórios nacionais; • fechada: fronteiras dentro de um território político; • descontínua: são parte de um Estado mesmo estando fora de seus domínios territoriais (ex.: Brasil faz fronteira com a União Europeia ao considerarmos os limites com a Guiana Francesa); • deficiente: deficiências de demarcações anteriores que levam a conflitos; • elástica: resultam de erros cartográficos levando ao aumento ou diminuição de um território. Artificiais • demarcadas: fronteiras demarcadas por tratados, por exemplo. 12Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública dentro e o fora, são o termômetro para as mudanças na balança da hegemonia. Definem, enfim, uma grandeza essencial para a existência humana: o território” (OLIVEIRA, 2016, p. 59). E, também: As definições dispostas acima se relacionam a três tipos de fronteira que são de grande relevância para os seus estudos: as fronteiras geopolíticas, as fronteiras simbólicas e as fronteiras culturais. Pensar a fronteira desde uma perspectiva geopolítica implica compreender as relações de poder entre os estados nacionais para a manutenção de seus territórios, jogos de disputa e tensões que vão configurar os limites políticos do espaço fronteiriço. E essas tensões também se relacionam a questões simbólicas e culturais presentes nesse espaço entre os sujeitos que o habitam. Veja na imagem a seguir, uma síntese de possíveis definições para as fronteiras simbólicas, culturais e linguísticas: “As zonas de fronteiras são campos de força e choques políticos e simbólicos, mas também de variadas misturas culturais e formas de integração. Essa complexa realidade fronteiriça não pode ser apreendida por meio de categorias sociológicas separadas. Os próprios conceitos se misturam e entram em tensão na tentativa de compreensão do fenômeno fronteiriço” (ALBUQUERQUE, 2008, p. 56, grifo nosso). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 13 Outros tipos de fronteira. Elaboração: CEPED/UFSC (2023). Diante do exposto, é possível afirmar que fronteiras linguísticas vão estar diretamente relacionadas aos territórios linguísticos mencionados anteriormente, uma vez que os limites fixados para o início e fim de um território político não irá coincidir com os limites linguísticos estabelecidos pelas fronteiras simbólicas e culturais dos grupos que vivem nesses espaços: Além disso: “A fronteira linguística, como o território que ela circunscreve, não será apenas resultado e um dado, mas uma produção determinada por uma socialização e um posicionamento por parte dos diversos atores sociais envolvidos” (VIAUT, 2004, p. 7, tradução nossa). “A língua é um dos parâmetros paradoxais da fronteira – a do Estado-nação – contribuindo tanto para determiná-lo como sendo influenciado por sua 14Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Refletindo sobre as ideias de Viaut (2004), é possível pensar que as relações entre língua e fronteira são indissolúveis e as fronteiras linguísticas nos territórios fronteiriços se (re)constroem na interação social, na escolha dos repertórios linguísticos daqueles que se movem em determinado espaço. Para refletir um pouco mais sobre as fronteiras, assista a videoaula a seguir: presença ou transcendendo-o. A fronteira constrói ou modifica a língua tanto quanto o inverso” (VIAUT, 2004, p. 7, tradução nossa). Outra forma de se classificar as fronteiras é em relação ao seu acesso. Dizemos que uma fronteira é seca quando o limite divisório entre os países não possui rios ou lagos. Enquanto que, quando a linha passa por esses limites naturais, é chamada de fronteira fluvial. 1.2.2 Que Tal Pensar na Prática? Em uma cidade localizada na fronteira entre Brasil e Uruguai, por exemplo, não são os limites territoriais demarcados por esses dois Estados que irão definir até onde chega o português e a partir de onde se fala o espanhol, ou se um membro dessa comunidade se vê como um uruguaio ou brasileiro, ou um doble chapa. Essas fronteiras subjetivas serão definidas a partir das práticas sociais que irão forjar as identidades dos membros dessas comunidades. Bandeiras do Brasil e do Uruguai. Elaboração: CEPED/UFSC (2023). Videoaula: As Fronteiras https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo01_video02/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 15 Outro exemplo são as fronteiras culturais e linguísticas que se constroem no contexto migratório de pessoas expulsas de seus territórios em função de diferenças culturais e simbólicas entre os demais grupos, como é o caso da perseguição religiosa a indivíduos que possuem uma cosmovisão que difere de uma religião hegemônica. Sobre esse contexto migratório, Moreira (2012, p. 23) afirma que: Esse exemplo vai ao encontro do que está sendo discutido quando é levado em consideração que essas pessoas vivem em seus territórios de origem tensões e conflitos que surgem das fronteiras simbólicas, culturais e étnicas que vão levar ao deslocamento forçado de um contingente de pessoas. E essa migração forçada vai levar à formação de outras fronteiras, que é o que acontece nos casos dos campos de refugiados ao longo das fronteiras da União Europeia, por exemplo. Esses campos de refugiados são exemplos de espaços multiculturais onde convivem indivíduos de diferentes nacionalidades, línguas e culturas. Nesse espaço, fronteiras linguísticas são construídas, derrubadas e ressignificadas, a partir do momento em que diferentes grupos que ali convivem precisam lançar mão de diferentes repertórios comunicativos para a interação social. os motivos que os levam a fugir de seus países abarcam conflitos intra ou interestatais, provocados por questões étnicas, religiosas, culturais, políticas e econômicas, assim como regimes repressivos e outras situações de instabilidade política, violência e violações de direitos humanos. 16Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O Brasil também tem recebido grupos de migrantes oriundos de distintos países, mas cabe destacar a chegada dos haitianos e venezuelanos, em função do quantitativo. Hoje, caminhando em um bairro da cidade de Manaus, por exemplo, é possível perceber os distintos territórios linguísticos que se formaram com a presença desses grupos de imigrantes. Para entender um pouco mais sobre as fronteiras linguísticas e as línguas na fronteira e sobre essa visão de língua como problema, é preciso compreender como se deu o estabelecimento das fronteiras geopolíticas entre o Brasil e os países com os quais se limita desde os primórdios da ocupação no período colonial. Nessa unidade você conheceu alguns conceitos importantes para compreender os estudos direcionados para a fronteira, entendendo-a a partir de diferentes concepções e visões. Viu que falar sobre a fronteira não significa apenas um lugar de divisão, limite, controle territorial, uma vez que a fronteira vai além de questões meramente políticas ou geográficas, ao falar sobre as fronteiras simbólicas, linguísticas e culturais. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Refugiados. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 17 ALBUQUERQUE, J. L. C. Fronteiras e identidades em movimento: fluxos migratórios e disputa de poder na fronteira Paraguai-Brasil. Cadernos CERU, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 49-63, 2008. DOI: 10.1590/S1413-45192008000100004. Disponível em: https:// www.revistas.usp.br/ceru/article/view/11843. Acesso em: 2 mar. 2023. ANCEL, J. Geopolitique. Paris: Delagrave, 1930. BERGER, I. R. Gestão do multi/plurilinguismo em escolas brasileiras na fronteira Brasil – Paraguai:um olhar a partir do Observatório da Educação na Fronteira. 2015. Tese (Doutorado em Linguística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988, 292 p. CATAIA, M. A. Fronteiras: territórios em conflito. In: Encontro Paranaense de Estudantes de Geografia (EPEG), 13., 2008, Cascavel. Anais do XIII Encontro Paranaense de Estudantes de Geografia (EPEG). 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Disponível em: https://geoftp.ibge. gov.br/organizacao_do_territorio/estrutura_territorial/municipios_da_faixa_de_ fronteira/2021/Municipios_da_Faixa_de_Fronteira_2021.pdf. Acesso em: 2 mar. 2023. MOREIRA, J. B. Refugiados no Brasil: reflexões acerca do processo de integração local. 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Ocupar o desconhecido território das Américas não foi uma tarefa simples para os portugueses e espanhóis durante o período colonial. Entre as principais dificuldades é possível elencar a dificuldade de acesso e penetração do território que desencadeou uma carência populacional e a dificuldade de controle militar dos territórios e a proteção contra outras invasões estrangeiras. Ao refletir sobre o período colonial e a demarcação de limites, o primeiro tratado que vem à memória é o Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha em 1494, com o objetivo de dividir as recém “descobertas” terras durante a expansão marítima dos dois reinos. Porém, depois, com a chegada dos portugueses ao Brasil, as disputas se tornaram mais acirradas e várias negociações foram feitas para se chegar aos limites entre as colônias portuguesas e espanholas. Veja os principais tratados que visaram pôr fim aos conflitos territoriais no período colonial: Unidade 2: Fronteiras e Políticas Territoriais Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer os processos de formação e estabelecimento das fronteiras sul-americanas. 2.1 Formação e Estabelecimento das Fronteiras Sul-Americanas: entre Tratados e Conflitos Tratado de Utrech - (1713 e 1715) Assinado como forma de encerrar a Guerra de Sucessão Espanhola. O primeiro, em 1713, anulou o Tratado de Tordesilhas e estabeleceu limites para as fronteiras entre as colônias espanholas, portuguesas no que hoje corresponde à região norte do Brasil, sendo as duas margens do Amazonas pertencentes a Portugal. O segundo, em 1715, estabeleceu os Nesta unidade você vai ver um breve resumo que vai passar pelas principais políticas territoriais que se relacionam ao atual estabelecimento das fronteiras geopolíticas brasileiras. 20Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Tratado de Madri - (1750) Tratado de San Ildefonso - (1777) Tratado de Badajoz - (1801) limites das colônias ao sul, quando o limite da coroa portuguesa passa a ser o rio da Prata e a Espanha devolve a Colônia do Sacramento a Portugal. Firmado entre Portugal e Espanha no ano de 1750 com o objetivo de definir os limites territoriais terrestres e marítimos das coroas, demarcando as fronteiras nas colônias americanas. O tratado foi elaborado com base no princípio do uti possidetis, ou seja, aquele que ocupa a terra é o verdadeiro dono. O Mapa das Cortes, elaborado em 1749, foi usado como documento que demonstrava a ocupação por parte dos súditos portugueses. Confirmou o Tratado de Madri e redefiniu a posse da Ilha de Santa Catarina, voltando ao poder da Coroa Portuguesa, enquanto a Colônia do Sacramento e a região dos Sete Povos das Missões passava a pertencer à Coroa Espanhola. Devolve os Sete Povos das Missões aos domínios portugueses. A título de curiosidade, conheça o Mapa das Cortes, também denominado de Mapa dos confins do Brasil: Mapa dos confins do Brasil com as terras da coroa de Espanha na américa meridional – “Mapa das Cortes” (1893). Fonte: Confins (2019). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 21 É importante destacar que o impacto das políticas territoriais do período colonial para os povos originários se reflete até a atualidade. De acordo com Costa (1988, p. 27-30), antes do estabelecimento dos tratados mencionados, uma das iniciativas estabelecidas pelos portugueses para garantira ocupação territorial no período colonial foi o sistema de colonização semiprivada que garantia: • concessão de terras a colonos; • autonomia dos colonos sobre as terras concedidas; • ocupação do litoral até a Foz do Amazonas, com a fundação de Belém em 1616; • instalação de um sistema de pecuária extensiva no sertão nordestino; • estabelecimento de missões dos jesuítas no extremo norte; • abertura de vias de circulação no sudeste pelos bandeirantes; • povoamento do litoral sul em confronto com os espanhóis. Essas medidas visaram garantir o domínio territorial dos portugueses sobre a colônia, mas apesar disso e dos tratados firmados, os limites dos territórios entre Portugal, Espanha e França não foi um tema pacificado até a Proclamação da República, quando se fizeram necessárias novas negociações, representadas pelo Barão do Rio Branco, em questões relacionadas ao território de Palmas com a Guiana Francesa, as fronteiras com a Bolívia (incluindo a anexação do Acre ao Brasil em 1903), Peru, Colômbia e Venezuela. A partir do período do Estado Novo, podemos destacar um caráter mais nacionalista em relação ao território com a implementação de projetos nacionais que podem ser verificados a seguir: As estratégias de ocupação do que hoje corresponde à região norte do Brasil passaram pela política de “pacificação dos indígenas” através das missões que deram um grande poder de controle do território do Vale do Amazonas aos missionários de distintas ordens religiosas. 22Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Até o momento você viu como se estruturaram as principais políticas de definição do território brasileiro a partir de uma perspectiva política e administrativa, que priorizou a garantia da soberania e manutenção dos domínios de poder do Estado, como é possível verificar até os dias atuais. Essas políticas em relação ao território fronteiriço vão revelar a ideia da fronteira como um problema que precisa ser controlado desde o ponto da segurança nacional. A seguir, veja como as fronteiras brasileiras são geridas atualmente pelo Estado brasileiro. Década de 1930 Década de 1960 Década de 1980 Instituição de projetos nacionais em prol da integração nacional. Como por exemplo o projeto político da “Marcha para o Oeste”, lançado em 1938, durante o governo de Getúlio Vargas. No período da Ditadura Militar, o território passou a ser visto desde a ótica da regionalização como ação em prol do desenvolvimento industrial e econômico do Estado e da iniciativa privada. Segundo Pereira (2007), há um avanço da ideologia que vai levar a uma gestão neoliberal do território, representada pelas redes de infraestrutura (por exemplo, construção de estradas, ferrovias, entre outras) que se baseavam nos interesses do mercado e não nas necessidades dos usuários do território. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 23 Arcos da faixa de fronteira. Fonte: BRASIL (2005). O Brasil possui em sua fronteira um total de 588 municípios em 11 estados de três regiões, sendo 122 limítrofes e 33 cidades gêmeas. Desta forma, a faixa de fronteira ocupa 27% do território brasileiro e se limita com praticamente todos os países da América do Sul. Na próxima figura, você pode observar a localização das cidades gêmeas e demais municípios localizados na faixa de fronteira: Cidades gêmeas: de acordo com o extinto Ministério da Integração Nacional, são consideradas gêmeas as cidades, com população superior a 2 mil habitantes, localizadas na linha da fronteira, com grande possibilidade de integração cultural e econômica. 24Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Municípios da faixa de fronteira. Fonte: IBGE (2021). A definição dos arcos foi proposta após estudos realizados pelo Programa de Promoção do Desenvolvimento da Faixa de Fronteira (PPDFF), do Ministério da Integração Nacional, com base no posicionamento geográfico, em aspectos culturais e étnicos de formação da população e em indicadores socioeconômicos. Em 2010, um decreto de lei criou a Comissão Permanente para o Desenvolvimento Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 25 e a Integração da Faixa de Fronteira (CDIF), com o objetivo de “propor medidas e coordenar ações que visem ao desenvolvimento de iniciativas necessárias à atuação do Governo Federal naquela região” (BRASIL, 2010). No ano de 2019 esse decreto foi revogado pelo Decreto Nº 9.961/2019 e a CDIF passou a integrar o Ministério do Desenvolvimento Regional, em função da extinção do Ministério da Integração Nacional. Atualmente essa comissão é composta por representantes de distintos órgãos da federação e tem como competência as seguintes ações: I – definir, respeitadas as especificidades de atuação dos órgãos competentes, critérios de ação governamental conjunta para o desenvolvimento e a integração na área abrangida pela faixa de fronteira, de modo a estimular a integração das políticas públicas e a parceria com os demais entes públicos para promover a complementaridade das ações; II – colaborar com a Câmara de Políticas de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional no âmbito de suas competências; III – propor ações que visem ao desenvolvimento regional que considerem a importância de programas para a integração fronteiriça e para a integração sul-americana; IV – zelar pela melhoria da gestão multissetorial para as ações do Governo federal no apoio ao desenvolvimento e à integração da área abrangida pela faixa de fronteira; V – buscar a articulação com as ações do Comitê-Executivo do Programa de Proteção Integrada de Fronteiras e submeter à apreciação do referido Comitê-Executivo as propostas de ações de articulação com o Programa no âmbito de suas competências; VI – propor o desenvolvimento de sistema de informações para o gerenciamento das ações a que se refere o inciso III; VII – apresentar planos regionalizados de desenvolvimento e integração fronteiriços; VIII – interagir com núcleos regionais estabelecidos para debater questões de desenvolvimento e integração fronteiriços; e IX – emitir pareceres e recomendações sobre questões do desenvolvimento regional na faixa de fronteira (BRASIL, 2019). 26Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Que tal conhecer esses arcos? Desta forma, a CDIF continua sendo um importante instrumento para pensar políticas voltadas para o desenvolvimento das fronteiras, assim como o fez ao propor a organização das fronteiras em arcos. Para refletir um pouco mais sobre os arcos, assista a videoaula a seguir: Observe a imagem a seguir: 2.2.1 Arco Norte Arco Norte: Tipologia Básica das Sub-regiões. Fonte: BRASIL (2005). Videoaula: Os Arcos O arco norte representa 12% da faixa de fronteira brasileira e é considerado o “arco indígena” em função de possuir em seu território o maior contingente de terras e povos indígenas. Compreende um total de 71 municípios localizados em 5 estados e se limita com 7 países: Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana Inglesa, Suriname, Peru e Venezuela. https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo01_video03/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 27 Esses municípios fazem parte de seis sub-regiões. Oiapoque-Tumucumaque Considerada a maior em superfície da Faixa de Fronteira, possui 350 mil km2, está localizada na fronteira entre o Brasil, as Guianas e o Suriname. Abrange dezessete municípios nos Estados do Amapá, Pará, Roraima e Amazonas, banhados pelos rios Oiapoque, Jarí e Trombetas: Caroebe, São João da Baliza e São Luiz do Anauá, no Estado de Roraima; Oiapoque, Laranjal do Jarí, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Ferreira Gomes, Pracuúba, Calçoene, Amapá no Estado do Amapá; Alenquer, Almeirim, Faro, Oriximiná, Óbidos no Estado do Pará; Urucará, Nhamundá, no Estado do Amazonas. Campos do Rio Branco Nessa sub-região está localizada a demarcada Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. Abrange os municípios de Boa Vista, Bonfim, Cantá, Caracaraí, Mucajaí, Normandia, Rorainópolis, Pacaraima e Uiramutã (dentro da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol), no Estado de Roraima. É a sub-região com melhor conexão rodoviária do arco norte, ligando as capitais Manaus e Boa Vista através da BR-174, seguindo rumo à Venezuela e Costa do Caribe, e a BR-401, que liga Boa Vista à Costa do Caribe, passando pela Guiana. Parima Alto Rio Negro Sub-região com mais de 70% de sua população formada por indígenas (abriga diversas Reservas e Terras Indígenas nas proximidades dos rios Negro, Japurá-Caquetá, Uaupés-Vaupés, sendo os principais povos: Tukano, Baniwa, Baré, Karapanã, Maku, Miriti Tapuia, e Makuna). Se caracteriza pelo difícil acesso. Compreende os municípios de Alto Alegre, Amajari e Iracema, no Estado de Roraima; Barcelos, Japurá, São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, no Estado do Amazonas. Alto Solimões Nessa sub-região está localizada a tríplice fronteira do Trapézio Amazônico, formada por Brasil, Colômbia e Peru. Compreende municípios localizados no estado do Amazonas: Tabatinga, Benjamim Constant, Atalaia do Norte, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Jutaí, Tonantins. Alto Juruá Se estende do sudoeste do Amazonas ao Estado do Acre, fazendo fronteira com o Peru na zona-tampão do Parque Nacional da Serra do Divisor (AC). Nessa sub-região se encontram os municípios de Envira, Guajará, Ipixuna, no Estado do Amazonas; Cruzeiro do Sul, Feijó, Jordão, Mâncio Lima, Manoel Urbano, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Santa Rosa do Purus e Tarauacá, no Estado do Acre. 28Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Vale do Acre-Alto Purus Possui a menor densidade demográfica e compreende os municípios de Acrelândia, Assis Brasil, Brasiléia, Bujari, Capixaba, Epitaciolândia, Plácido de Castro, Porto Acre, Rio Branco, Sena Madureira, Senador Guiomar e Xapuri, no Estado do Acre; Boca do Acre, Canutama, Lábrea e Pauini, no Estado do Amazonas. Faz fronteira com o Peru e a Bolívia, através das cidades gêmeas Assis Brasil (Brasil)-Iñapari (Peru)-Bolpebra (Bolívia) e Brasiléia/ Epitaciolândia (Brasil)-Cobija (Bolívia). 2.2.2 Arco Central Arco Central. Fonte: BRASIL (2005). Observe a imagem a seguir: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 29 Uma das características mais relevantes do arco central é a sua localização, uma vez que se encontra entre a Amazônia e a área Centro-Sul do Brasil, onde estão localizadas as duas principais bacias hidrográficas da América do Sul: Bacia Amazônica e a Bacia Paraná-Paraguai. Como vimos no mapa, se divide em oito sub-regiões, abrangendo 99 municípios e 17% da faixa de fronteira. Madeira-Mamoré Conectando o Vale do Amazonas e do Acre ao Sudeste do país através da BR 364 e da hidrovia do Rio Madeira, essa sub-região se limita com a Bolívia e compreende municípios localizados no estado de Rondônia: Campo Novo de Rondônia, Buritis, Guajará-Mirim (cidade-gêmea), Nova Mamoré e Porto Velho. Fronteira do Guaporé De perfil mais rural e com atividades econômicas incentivadas pelo antigo modelo de estrutura fundiária herdado da ditadura militar, também compreende municípios localizados em Rondônia como Costa Marques, Seringueiras, São Miguel do Guaporé, Alvorada, Nova Brasilândia d’Oeste, Novo Horizonte do Oeste, Rolim de Moura, Alta Floresta d’Oeste, São Francisco do Guaporé, Alto Alegre dos Parecis, Corumbiara, Cerejeiras, Pimenteiras do Oeste e Cabixi. Chapada dos Parecis Principal área produtora e exportadora de soja do país, essa sub-região compreende os municípios de Chupinguaia, Colorado do Oeste, Parecis, Pimenta Bueno, Primavera de Rondônia, Santa Luzia d’Oeste, São Felipe do Oeste e Vilhena, no Estado de Rondônia; Comodoro, Conquista d’Oeste, Campos de Júlio, Sapezal, Nova Lacerda e Tangará da Serra, no Estado de Mato Grosso. Alto Paraguai Com baixa densidade demográfica, essa sub-região faz fronteira com a Bolívia e abrange os municípios de Araputanga, Barra do Bugre, Curvelândia, Figueirópolis d’Oeste, Glória d’Oeste, Indiavaí, Jauru, Lambari d’Oeste, Mirassol d’Oeste, Pontes e Lacerda, Porto Esperidião, Porto Estrela, Reserva do Cabaçal, Rio Branco, Salto do Céu, São José dos Quatro Marcos, Vale de São Domingos, Vila Bela da Santíssima Trindade no Estado de Mato Grosso. Pantanal Fazendo fronteira com o Chaco boliviano e com o Paraguai, essa sub- região se destaca pela diversidade natural. Compreende os municípios Barão de Melgaço, Cáceres, Nossa Senhora do Livramento e Poconé, 30Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública no Estado de Mato Grosso; Aquidauana, Anastácio, Corumbá, Ladário, Miranda, Porto Murtinho no Estado de Mato Grosso do Sul. Bodoquena Se destacam duas atividades em seus domínios: a criação extensiva de gado do Pantanal e o cultivo da soja. A sub-região engloba os municípios de Bela Vista, Bodoquena, Bonito, Caracol, Guia Lopes da Laguna, Jardim e Nioaque, no Estado de Mato Grosso do Sul. Dourados Compreende os municípios de Caarapó, Deodápolis, Dois Irmãos do Buriti, Douradina, Dourados, Fátima do Sul, Glória de Dourados, Itaporã, Jateí, Laguna Carapã, Maracajú, Novo Horizonte do Sul, Rio Brilhante, Sidrolândia, Taquarussu e Vicentina no Mato Grosso do Sul. Cone Sul-mato-grossense Abrange os municípios de Amambaí, Antônio João, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Eldorado, Iguatemi, Itaquiraí, Japorã, Juti, Mundo Novo, Naviraí, Paranhos, Ponta Porã, Sete Quedas e Tacuru, localizados no Mato Grosso do Sul. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 31 Arco Sul. Fonte: BRASIL (2005). Representa 69% da faixa de fronteira brasileira e se divide em 3 sub-regiões, abrangendo um total de 418 municípios. 2.2.3 Arco Sul Observe a imagem a seguir: 32Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Sub-região Portal do Paraná Localizada entre os arcos central e sul, essa sub-região se caracteriza pela diversidade de fluxo migratório de sujeitos oriundos das regiões nordeste e sudeste e membros da comunidade nipônica. Compreende os municípios de Altônia, Cafezal do Sul, Cidade Gaúcha, Cruzeiro do Oeste, Douradina, Esperança Nova, Guaíra, Icaraíma, Ivaté, Maria Helena, Nova Olímpia, Perobal, Pérola, Querência do Norte, Rondon, Santa Cruz do Monte Castelo, Santa Isabel do Ivaí, Santa Mônica, São José do Patrocínio, Tapejara, Tapira, Umuarama, Vila Alta e Xambrê, no Estado do Paraná. Sub-região Vales Coloniais Sulinos É a sub-região com um grande potencial industrial e a que engloba o maior número de municípios localizados no Segmento Sudoeste do Paraná, Segmento Oeste de Santa Catarina e Segmento Noroeste do Rio Grande do Sul.. Sub-região Fronteira da Metade Sul do Rio Grande do Sul Cortada por uma importante malha rodoviária e limitando-se com Uruguai e Argentina, essa sub-região é a mais urbanizada do Arco Sul e compreende os municípios de: Aceguá, Alegrete, Arroio do Padre, Arroio Grande, Bagé, Barra do Quaraí, Caçapava do Sul, Cacequi, Candiota, Canguçu, Capão do Sipó, Capão do Leão, Cerrito, Chuí, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Garruchos, Herval, Hulha Negra, Itacurubi, Itaqui, Jaguarão, Jagurari, Jarí, Lavras do Sul, Maçambara, Manoel Viana, Morro Redondo, Nova Esperança do Sul, Pedras Altas, Pedro Osório, Pelotas, Pinheiro Machado, Piratini, Quaraí, Rio Grande, Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santa Vitória do Palmar, Santana da Boa Vista, Sant’Ana do Livramento, Santiago, São Borja, São Francisco de Assis, São Gabriel, São José do Norte, São Lourenço do Sul, São Sepé, São Vicente do Sul, Tupanciretã, Turucu, Unistalda, Uruguaiana e Vila Nova do Sul no Rio Grande do Sul. A apresentação detalhada dos arcos nessa unidade teve como objetivo mostrar a extensão e a complexidade da fronteira quando se utilizam critérios para a organização e o planejamento desse territórioque vão além do estabelecimento de limites geopolíticos ou de defesa da soberania nacional. O espaço fronteiriço é construído, reconstruído e constrói diferentes versões do território a partir dos sistemas simbólicos que se desenvolvem nas práticas de interação dos grupos sociais que compartilham esse espaço. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 33 É possível perceber, portanto, que a história do estabelecimento das fronteiras no Brasil não pode ser vista apenas desde um ponto de vista geopolítico, uma vez que a fluidez dos espaços transacionais reside justamente no movimento das fronteiras simbólicas, étnicas e culturais e, claro, linguísticas. De modo que a fronteira não é estática, a fronteira é viva e pulsante. É o espaço em que o encontro das semelhanças e diferenças se cruzam e convergem na formação de novas construções identitárias. Afinal, como afirma Sturza (2006, p. 69) Nesta unidade você viu um breve panorama das principais políticas territoriais desde o período colonial com o objetivo de compreender como seu deu a atual delimitação político-administrativa das fronteiras brasileiras. Pode conhecer os principais tratados e acordos firmados no período colonial e as disputas entre Portugal e Espanha, as quais se conectam com as fronteiras linguísticas que compartilhamos em nossa faixa de fronteira. Viu também a atual definição das fronteiras com os Arcos Sul, Central e Norte e as principais políticas de gestão da fronteira promovidas pelo Estado. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! “dizer e significar a fronteira, também, é dizer e significar outras fronteiras”. 34Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública BRASIL. Proposta de reestruturação do Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira: bases de uma política integrada de desenvolvimento regional para a faixa de fronteira. Brasília, DF: Ministério da Integração Nacional. Secretaria de Programas Regionais. Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira. 2005. Disponível em: https://www.paho.org/bra/dmdocuments/livro_completo.pdf. Acesso em: 3 mar. 2023.. BRASIL. Decreto de 08 de setembro de 2010. Institui a Comissão Permanente para o Desenvolvimento e a Integração da Faixa de Fronteira - CDIF. Brasília, DF: Presidência da República, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2010/dnn/dnn12853.htm. Acesso em: 3 mar. 2023. BRASIL. Decreto Nº 9.961, de 08 de agosto de 2019. Institui a Comissão Permanente para o Desenvolvimento e a Integração da Faixa de Fronteira – CDIF. Brasília, DF: Presidência da República, 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9961.htm. Acesso em: 3 mar. 2023. CONFINS. Mapas dos Confins, mapa das Cortes. Confins, n. 39, 2 mar. 2019. Disponível em: https://journals.openedition.org/confins/19181?lang=pt. Acesso em: 3 mar. 2023. COSTA, W. M. O Estado e as políticas territoriais no Brasil. São Paulo: Contexto, 1988. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA ESTATÍSTICA. Mapa dos municípios da faixa de fronteira. Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Disponível em: https://geoftp.ibge. gov.br/organizacao_do_territorio/estrutura_territorial/municipios_da_faixa_de_ fronteira/2021/Municipios_da_Faixa_de_Fronteira_2021.pdf. Acesso em: 2 mar. 2023. PÊGO, B. et al. (Orgs.). Fronteiras do Brasil: uma avaliação do Arco Norte. Rio de Janeiro: IPEA - MI, 2018. STURZA, E. R. Línguas de fronteira e política de línguas: uma história das ideias linguísticas. 2006. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006. Referências http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/dnn/dnn12853.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/dnn/dnn12853.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9961.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/D9961.htm https://geoftp.ibge.gov.br/organizacao_do_territorio/estrutura_territorial/municipios_da_faixa_de_fronteira/2021/Municipios_da_Faixa_de_Fronteira_2021.pdf https://geoftp.ibge.gov.br/organizacao_do_territorio/estrutura_territorial/municipios_da_faixa_de_fronteira/2021/Municipios_da_Faixa_de_Fronteira_2021.pdf https://geoftp.ibge.gov.br/organizacao_do_territorio/estrutura_territorial/municipios_da_faixa_de_fronteira/2021/Municipios_da_Faixa_de_Fronteira_2021.pdf Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 35 A fronteira sempre foi vista como um problema para a garantia do poder territorial dos Estados. Desta forma, as políticas voltadas para esse espaço estiveram e estão focadas na ocupação territorial e na militarização da faixa de fronteira, considerada uma terra sem lei, onde se propagam atos ilícitos como o contrabando e o tráfico de drogas. Veja nas abas (RODRIGUES, 2021, p. 98) os principais acordos e tratados firmados entre Brasil, Colômbia e Peru sobre as áreas de fronteira: Neste momento você irá refletir sobre a visão da fronteira como um valioso recurso para o desenvolvimento social e não apenas como um espaço que precisa de controle e monitoramento permanente, visão que corrobora com a manutenção de estereótipos e preconceitos negativos sobre a fronteira e tudo que é produzido nesse espaço. Unidade 3: Fronteiras, o Desenvolvimento Social e a Educação Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de compreender o potencial das fronteiras linguísticas e culturais enquanto recurso para o desenvolvimento social. 3.1 Fronteira como Problema e Espaço de Controle 36Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A autora realizou um levantamento dos principais acordos e tratados firmados entre o Brasil, a Colômbia e o Peru que compartilham uma tríplice fronteira, com o objetivo de verificar o teor dessas tratativas. Você pode observar na imagem que as ações contempladas por esses acordos desde a década de 70 tinham foco em atividades econômicas e de controle de atividades criminosas, ou seja, voltadas para a fronteira como um espaço problemático. Entre as iniciativas do governo federal brasileiro com esse mesmo viés podemos citar o Programa Calha Norte, criado em 1985 no âmbito do Ministério da Defesa, que tem como objetivo garantir a defesa nacional, maior presença do poder público e a ocupação e fixação de habitantes na faixa de fronteira da região norte, como foco na Amazônia setentrional. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 37 Fronteira da Região Norte. Fonte: Grupo Retis (2005). O programa continua em funcionamento com o apoio logístico e financeiro das Forças Armadas e, atualmente, abrange 442 municípios localizados nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Matogrosso, Matogrosso dos Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. No ano de 2010 o Grupo de Trabalho Interfederativo de Integração Fronteiriça, composto por membros de distintas instituições, lançou as “Bases para uma proposta de desenvolvimento e integração da faixa de fronteira”. Nesse documento se reconhece que: Mas e em relação ao desenvolvimento social das fronteiras, o que tem sido feito? 38Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Na esteira dessa visão compartilhada pelo Ministério da Integração Nacional surgem projetos de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da fronteira como você pode acompanhar a seguir Projeto SIS - Fronteira – Ministério da Saúde O Sistema Integrado de Saúde das Fronteiras foi criado em 2005 pelo Ministério da Saúde com o objetivo de melhorar a atenção à saúde em mais de 100 municípios situados ao longo da faixa de fronteira. O projeto já não está em operação. Projeto Fronteiras (Sinivem) e Questões Migratórias - Programa Pronasci Fronteiras – Ministério da Justiça/Departamento de Polícia Federal O Pronasci-Fonteirasé um desdobramento do Programa Nacional de Segurança Pública e Cidadania, criado para propor ações que visem garantir a segurança pública com foco também no desenvolvimento de ações de cidadania. Questões Migratórias - Ministério do Trabalho e Emprego Uma das ações de destaque foi a criação da Casa do Migrante em Foz do Iguaçu, em 2003, a qual atende pessoas que vivem nesse contexto de fronteira. Concertação de Fronteiras e Frontur e Simitur - Ministério do Turismo Frontur (Seminário Internacional de Turismo de Fronteiras) e o Simitur (Seminário Internacional sobre Migração e Turismo) Fizeram parte do acordo de concertação das fronteiras com o objetivo de desenvolver e regulamentar as ações sobre o turismo na fronteira. Projeto Intercultural Bilíngue Escolas de Fronteira – Ministério da Educação Com base em um modelo de ensino comum, espelhado, em escolas A integração de fronteiras requer esforços conjuntos dos entes federados nacionais e de seus correspondentes nos outros países, uma vez que a complexidade do enfrentamento dos problemas envolve questões de soberania, de adequação de ordenamentos jurídicos, questões econômicas, sociais e até mesmo, culturais (BRASIL, 2010, p. 34). significar outras fronteiras”. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 39 localizadas nas fronteiras entre o Brasil e Argentina, o projeto surgiu como uma forma de pensar a educação intercultural com foco no ensino de português e de espanhol. As propostas abarcavam áreas estratégicas do desenvolvimento do espaço fronteiriço como saúde, economia, turismo, segurança e educação. Entre as propostas está o Projeto Intercultural Bilíngue Escolas de Fronteira, a primeira iniciativa em prol da educação bilingue em contexto fronteiriço que surge na esteira de uma visão de integração dos países da América do Sul, com o estabelecimento do Mercosul. Par começar, reflita sobre um conceito importante para desenvolver uma linha de raciocínio sobre as regiões transfronteiriças (RTF): Partindo dessa visão, as regiões transfronteiriças passam a integrar um espaço importante para o desenvolvimento econômico de sua comunidade e do país por meio da produção de bens e serviços de consumo. No entanto, não se pode excluir o fato de que além de bens e serviços de consumo e sua importância geoeconômica, a fronteira é um espaço de produção de patrimônios culturais e simbólicos, tendo como eixo central as suas línguas. 3.2 Fronteira como Recurso para o Desenvolvimento Social As RTFs tornaram-se objetos políticos específicos e não apenas territórios econômicos espontâneos e naturais. Nesse sentido, representam formas específicas de inovação em relação ao espaço, lugar e escala. Implicam a produção de novos tipos de lugares ou espaços de produção, de desenvolvimento de serviços, de trabalho e de consumo. Eles estão ligados a novos métodos de produção do lugar ou do espaço para criar vantagens específicas do lugar para a produção de bens e serviços e oferecer novas estruturas regulatórias, infraestrutura, economias de escala, novos mercados de trabalho etc. (JESSOP, 2004, p. 32) 40Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Neste sentindo e entendendo que passamos por um período de mudanças geopolíticas importantes que geram impactos nos territórios, precisamos compreender que a gestão do espaço fronteiriço precisa buscar o seu desenvolvimento. Um dos patrimônios culturais que pode ser utilizado como recurso nesse processo é justamente a língua e os modelos de gestão da pluralidade linguística que caracteriza a fronteira. Há dois problemas elencados pelos pesquisadores que participaram do estudo e que se relacionam à temática desse estudo (PÊGO, 2018, p. 162-163): • falta integração produtiva, redes de APLs para atender às demandas, escolas binacionais nas cidades gêmeas (há projeto de escola de fronteira em Bonfim e em Pacaraima), problemas de idioma ao se cruzar a fronteira; • oferta restrita e de baixa capilaridade na área da educação. Por exemplo: faltam escolas binacionais e cursos de língua estrangeira, sendo o idioma um grave problema de comunicação e interação; ausência de ensino técnico- profissionalizante, de comércio exterior etc., e nível superior. Ambas as questões colocam em evidência o desproporcional tratamento dado ao território brasileiro, especialmente quando referido à Região Norte do país. Porém, a ausência de políticas públicas com foco na educação na fronteira é uma realidade que se reflete em todos os arcos, em diferentes proporções. Um novo modelo de gestão, adequado ao quadro da globalização atual, deve entender que se deve assumir como uma componente de uma gestão integrada do território, precisamente na medida em que as problemáticas culturais são claramente territoriais (KANT, 1999; OOSTERBEEK, 2007; SAMASSEKOU, 2012 apud OOSTERBEEK, 2017). Essa visão é corroborada por pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em parceria com o Ministério da Integração, que culminou na publicação do livro “Fronteiras do Brasil: uma avaliação de política pública” em 2018, especialmente no volume 3 da coletânea, em que se dá ênfase ao Arco Norte. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 41 Conheça alguns exemplos de utilização da fronteira como recurso para o desenvolvimento social e econômico. EuroAirport Basel-Mulhouse-Freiburg No âmbito europeu, cuja organização e gestão dos territórios de fronteira se baseia em outros contextos diferentes da nossa realidade, podemos citar o Euro-Aeroporto Basel-Mulhouse-Freiburg como exemplo de utilização da fronteira como recurso para a economia local. O aeroporto é operado por França e Suíça e beneficia também aqueles que se deslocam à Freiburg, na Alemanha. Integrierter Bachelorstudiengang Lehramt Sekundarstufe (Licenciatura Integrada em Docência do Ensino Secundário) Na mesma região onde se localiza o aeroporto mencionado, é possível verificar outra ação que colabora com o desenvolvimento social da fronteira no que tange à educação. O programa binacional (franco- alemão) de formação de professores bilíngues é oferecido pela Universidade de Educação de Freiburg, na Alemanha, em cooperação com a Université Nice Sophia Antipolis, na França. Programa Binacional de Educación Migrante (Probem) Criado em 1982 em parceria entre os governos dos Estados Unidos e do México, tem como objetivo auxiliar na integração de crianças migrantes ao sistema educativo dos países envolvidos e promover o intercâmbio docente de forma a contribuir com a: atenção educativa a meninas e meninos migrantes; os Estados membros do Grupo Mexicano do Probem e do Grupo dos Estados Unidos desenharam e estruturaram conjuntamente apoios educativos específicos para esta população escolar; o Probem constitui um valioso fator de mudança e um instrumento que favorece, fortalece, consolida e amplia todos esses propósitos e ações, orientados a oferecer aos migrantes binacionais mexicanos melhores oportunidades de progresso e, com isso, um ambiente propício para acessar melhores níveis de vida (informação disponível no site do Governo do México). Projeto Escolas Bilingues e Interculturais de Fronteira (PEBIF) É um projeto de cooperação entre Portugal e Espanha e as Comunidades Autônomas, em parceria com a Organização dos Estados Ibero- Americanos (OEI). Tem como objetivo criar uma rede de escolas que promovam a educação e o desenvolvimento social e econômico dos territórios de fronteira entre os países signatários do projeto. 42Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Proyecto binacional Educación Superior (Brasil-Uruguai) Se refere a um projeto interinstitucional binacional, com sede nas cidades de Rivera (Uruguai) e Santa do Livramento (Brasil) do qual participam, ofertando cursos de graduação, técnicos e de pós-graduação binacionais, as seguintes instituições: Universidad de la República, UniversidadeFederal do Pampa, Universidad Tecnológica del Uruguay, Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Centro Regional de Profesores del Norte, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense, Instituto de Formación Docente, Universidade da Região da Campanha, Escuela Técnica Superior de Rivera e Polo Educativo Tecnológico de Rivera. Conheça o programa binacional franco-alemão acessando clicando aqui. Visite também a página do PEBIF. Analisando o caso do Proyecto Binacional Educación Superior e outras iniciativas em prol do desenvolvimento social da fronteira, verifica-se que ocorreram em um período de políticas progressistas que entendiam a necessidade de uma aproximação dos países vizinhos como parte do desenvolvimento econômico, político e social. Nesse caso, especificamente, a fronteira é utilizada como recurso para o desenvolvimento de modelos de gestão da educação binacional e produção de conhecimento científico nas instituições envolvidas. Um exemplo interessante no campo da educação foi a instituição, no ano de 2013, do Campus Binacional do Oiapoque, localizado no estado do Amapá, nas cidades de Oiapoque e Laranjal do Jari. Acompanhe: 2007 - 2008 08/01/2009 Iniciaram acordos e negociações entre o presidente Nicolas Sarkozy e Luiz Inácio Lula da Silva com a finalidade de criar uma universidade na fronteira entre Oiapoque e Guiana Francesa. O Protocolo Adicional ao Acordo de Cooperação Técnica e Científica entre os dois governos, publicado no Diário Oficial da União (DOU), instituiu o Centro Franco-Brasileiro da Biodiversidade Amazônica, com estrutura física alocada para diferentes instituições de pesquisa do Estado. https://www.dfh-ufa.org/programme/studienfuehrer/integrierter-bachelorstudiengang-lehramt-sekundarstufe https://oei.int/pt/escritorios/secretaria-geral/escuelas-de-frontera/proyecto Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 43 2010 2013 A Secretaria de Educação Superior (Sesu) convocou o então reitor da Universidade Federal do Amapá, Prof. Dr. José Carlos Tavares, para assinar um termo de pactuação não mais do referido centro, mas de um campus da Unifap no Oiapoque que atendesse à “ideia de Campus Binacional”. A Licenciatura Intercultural Indígena, implantada em 2007, obedece a uma perspectiva interdisciplinar e apresenta um núcleo comum de conhecimentos ou de disciplinas. Os cursos do campus de Oiapoque implantados em 2013 seguiram essa mesma concepção e organizaram-se em um tronco comum ou em um mesmo eixo temático (Projeto Político Pedagógico do Curso de Letras- Português/Francês da UNIFAP). O campus binacional está localizado em uma área onde vivem povos originários de distintas etnias como Karipuna, Galibi-Marworno, Palikur-Arukwayene, Galibi-Kalinã ou Galibi do Oiapoque e Wajãpi com suas línguas das famílias Kheuol, Karib, Aruak e Tupi-Guarani, em contato com o português e o francês, por isso a importância de uma Licenciatura Indígena. As iniciativas ainda são tímidas em nossas fronteiras, por isso é preciso uma revisão da ideia de que a fronteira é um espaço que precisa de controle e limites. Nesse sentido, o Brasil caminha a passos muito lentos quando o tema é o desenvolvimento social de suas fronteiras, conforme afirmam Oliveira e Morello (2019, p. 54): 3.3 E os Possíveis Caminhos? A questão das fronteiras é especialmente sensível para a geopolítica brasileira, já que o Brasil tem a terceira mais longa linha fronteiriça do mundo depois da Federação Russa e da China (15.735 km com 10 países). 44Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Os exemplos apresentados partem de diferentes contextos de fronteira em que operam uma série de elementos que se relacionam inclusive a aspectos geopolíticos, se pensarmos nos conflitos e problemas existentes na fronteira entre México e Estados Unidos, por exemplo. Porém, você pode observar que todos buscam utilizar o território fronteiriço como um espaço onde as diferenças e as semelhanças possam integrar um único objetivo: a utilização dos patrimônios das fronteiras como um importante recurso para o desenvolvimento dos grupos sociais que vivem nesse espaço. Entre possíveis iniciativas é possível pensar no estabelecimento de acordos de cooperação com foco especial na construção de um sistema educativo transnacional e na formação docente que visem a promoção das línguas das comunidades da fronteira, ou seja, com foco no desenvolvimento de uma educação intercultural plurilíngue, como propõe Rodrigues (2021, p. 195): Logo, seria de se esperar que o Brasil tivesse formulado políticas sistemáticas para a análise e o aproveitamento do bilinguismo português-espanhol nas fronteiras, e tivesse tentado transformar esse bilinguismo em um recurso geopolítico, mas veremos que este tampouco foi o caso. Acordos de cooperação. Fonte: Freepik (2023). Estabelecer acordos de cooperação transfronteiriços com foco especial na construção de um sistema educativo transnacional e na formação docente que visem àpromoção das línguas das comunidades da fronteira, ou seja, uma educação intercultural plurilíngue. O estabelecimento de acordos de cooperação transfronteiriços é importante para que a gestão da educação na fronteira seja compartilhada entre os Estados, permitindo mais investimentos e o desenvolvimento de um sistema educativo com base na interculturalidade e na promoção das línguas da fronteira como um recurso para o desenvolvimento de suas comunidades. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 45 Universidades bi/trinacionais. Fonte: Freepik (2023). Elaboração de leis. Fonte: Freepik (2023). Novas instituições de ensino superior. Fonte: Freepik (2023). Propor a criação de universidades bi ou trinacionais nas fronteiras e fomentar pesquisas nos programas de pós-graduação. Elaborar leis que regulamentem a educação em contexto fronteiriço, desde a educação básica ao ensino superior. Como desdobramento da proposta anterior, acordos como o firmado entre Brasil e Uruguai para a educação superior binacional poderiam funcionar como um modelo de gestão da fronteira como recurso para a produção de conhecimento científico na fronteira que poderia ser implementado em toda a faixa de fronteira, permitindo a criação de novas instituições de ensino superior (IES) e/ou a ampliação do processo de interiorização dessas IES. 46Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Cooficialização das línguas. Fonte: Freepik (2023). Elaboração de instrumentos legais. Fonte: Freepik (2023). Implementação no currículo escolar. Fonte: Freepik (2023). Ampliar o processo de cooficialização das línguas das comunidades fronteiriças e garantir seu ensino- aprendizagem no currículo escolar. A elaboração de instrumentos legais que coloquem a educação na fronteira como parte do sistema educativo nacional, respeitando as singularidades e complexidades desse espaço, pode colaborar com outros pontos aqui expostos. Afinal, a atual base nacional curricular comum contempla contextos em que os repertórios comunicativos dos habitantes se movimentam entre o português e o espanhol, por exemplo. Atrelar a cooficialização de línguas à sua implementação no currículo escolar como política linguística baseada na demanda das comunidades onde essas línguas são parte de sua construção identitária. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 47 Escolas Interculturais de Fronteira. Fonte: Freepik (2023). Formação continuada dos agentes educacionais. Fonte: Freepik (2023). Retomar e ampliar o Programa Escolas Interculturais de Fronteira, com foco no bi/plurilinguismo. A continuidade desse programa é de suma importância para a estruturação de uma educação intercultural na fronteira, sendo um modelo a ser implementado em toda a faixa de fronteira. Portanto, a retomada e ampliação do Programa Escolas Interculturais de Fronteira é uma das principais açõesem prol da utilização da fronteira como recurso, uma vez que exige que a formação seja pensada de forma indissociável, desde a formação do professor no curso de licenciatura ao aluno da educação básica, passando pela formação continuada de todos os agentes da educação em atuação. Antes de tudo, é preciso mudar a forma como a sociedade enxerga as fronteiras. É importante que elas sejam vistas como espaços interculturais e que as políticas públicas reflitam essa visão. Além disso, é essencial que os modelos de gestão das línguas nas fronteiras sejam utilizados como exemplo para a educação em nível nacional, uma vez que a presença de diferentes línguas nas escolas já é uma realidade em várias cidades devido às migrações. Este exemplo mostra que as barreiras linguísticas e culturais não se limitam apenas às fronteiras geográficas. Elas estão presentes em diversos aspectos da vida cotidiana, como no mercado local administrado por um sírio, nas escolas com a presença de estudantes venezuelanos e haitianos, e nos atendimentos médicos feitos por um médico cubano. 48Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Nesse sentido, as fronteiras culturais estão sempre em transformação, em fluxo, como propõe Barth (2005, p. 17): Ao compartilhar modelos culturais e se engajarem mutuamente, esses indivíduos compartilham suas línguas, fazem uso de seus repertórios linguísticos que seguem o fluxo das interações, rompendo as fronteiras construídas por eles mesmos. Por isso, as fronteiras linguísticas são descontínuas, fluidas, móveis, se fecham e se abrem de acordo com as necessidades dos seus falantes. Para finalizar, é importante que você reflita sobre como a fronteira pode ser utilizada Diversidade. Fonte: Freepik (2023). “devemos pensar a cultura como algo distribuído por intermédio das pessoas, entre as pessoas, como resultado das suas experiências. Ao terem experiências semelhantes e se engajarem mutuamente em reflexões, instruções e interações, as pessoas são induzidas a conceitualizar e, em parte, compartilhar vários modelos culturais. Sugiro que um aspecto crucial das coisas culturais é a forma pela qual elas se tornam diferencialmente distribuídas entre pessoas e entre círculos e grupos de pessoas”. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 49 como um recurso para a construção de uma educação intercultural bi/multilíngue durante todo o seu estudo. Para refletir sobre as fronteiras, assista as videoaulas a seguir: Nesta unidade você notou que o olhar foi direcionado para a fronteira como recurso para o desenvolvimento social das comunidades, tendo como foco a educação e a gestão das línguas nesse contexto. Assim, foram elencadas possíveis propostas de intervenção sobre a fronteira que contribuem para o seu desenvolvimento, mas que também podem posicioná-lo como centro de irradiação de modelos de gestão da educação e das línguas. Que bom que você chegou até aqui! Agora é hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! Videoaula: Um Olhar sobre a Fronteira https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo01_video04/index.html 50Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública BARTH, F. Etnicidade e o conceito de cultura. Antropolítica, Niterói, n. 19, p.15- 30, 2º semestre. 2005. Disponível em: https://www.ppgcspa.uema.br/wp-content/ uploads/2015/06/docslide.com_.br_barth-etnicidade-e-o-conceito-de-cultura.pdf. Acesso em: 3 mar. 2023. BRASIL. Proposta de reestruturação do Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira: bases de uma política integrada de desenvolvimento regional para a faixa de fronteira. Brasília, DF: Ministério da Integração Nacional. Secretaria de Programas Regionais. Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira. 2005. Disponível em: https://www.paho.org/bra/dmdocuments/livro_completo.pdf. Acesso em: 3 mar. 2023. BRASIL. Decreto de 08 de setembro de 2010. Institui a Comissão Permanente para o Desenvolvimento e a Integração da Faixa de Fronteira - CDIF. Brasília, DF: Presidência da República, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2010/dnn/dnn12853.htm. Acesso em: 3 mar. 2023. COLÔMBIA. Lei nº 2135 de 2021. Estabelece um regime especial para os departamentos fronteiriços. Bogotá: Congreso de Colombia, 2021. Disponível em: https://www. cancilleria.gov.co/sites/default/files/Normograma/docs/ley_2135_2021.htm. Acesso em: 3 mar. 2023. FREEPIK COMPANY. 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A fronteira como recurso: o bilinguismo português- espanhol e o Projeto Escolas Interculturais Bilíngues de Fronteira do MERCOSUL Referências https://www.ppgcspa.uema.br/wp-content/uploads/2015/06/docslide.com_.br_barth-etnicidade-e-o-conceito-de-cultura.pdf https://www.ppgcspa.uema.br/wp-content/uploads/2015/06/docslide.com_.br_barth-etnicidade-e-o-conceito-de-cultura.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/dnn/dnn12853.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/dnn/dnn12853.htm https://www.cancilleria.gov.co/sites/default/files/Normograma/docs/ley_2135_2021.htm https://www.cancilleria.gov.co/sites/default/files/Normograma/docs/ley_2135_2021.htm https ://www.gob.mx/ime/acciones-y-programas/programa-binacional-de-educacion-migrante-probem-61464 https ://www.gob.mx/ime/acciones-y-programas/programa-binacional-de-educacion-migrante-probem-61464 https ://www.gob.mx/ime/acciones-y-programas/programa-binacional-de-educacion-migrante-probem-61464 http://www.retis.igeo.ufrj.br/wp-content/uploads/Amazon-PCN-Vertente-Civil-03-07.jpg http://www.retis.igeo.ufrj.br/wp-content/uploads/Amazon-PCN-Vertente-Civil-03-07.jpg Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 51 (2005-2016). Revista Iberoamericana de Educación, Madrid, v. 81, n. 1, p. 53-74. 2019. Disponível em: https://rieoei.org/RIE/article/download/3567/4054/. Acesso em: 3 mar. 2023. OOSTERBEEK, L. Do património ao território: agendas para um futuro incerto. In: PADOIN, A. M; NOVALES, A. F (Org.). História: Poder, Cultura e Fronteiras. Santa Maria: Facos-UFSM, 2017. p. 7-20. PEBIF. Projeto Escolas Bilingues e Interculturais de Fronteira. Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), Madrid, [20--]. Disponível em: https://oei.int/pt/escritorios/secretaria-geral/escuelas-de- frontera/proyecto. Acesso em: 3 mar. 2022. PÊGO, B. Et al. (Orgs.). Fronteiras do Brasil: uma avaliação do Arco Norte. Rio de Janeiro: IPEA - MI, 2018. RODRIGUES, L.F. Práticas e Políticas Linguísticas no Alto Solimões: plurilinguismo, formação de professores na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. 2021. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021. UNIFAP. Projeto Político-Pedagógico do Curso de Letras - Português/Francês da UNIFAP. Macapá, AP: Coordenação do Curso de Letras Português/Francês, 2013. Disponível em: https://www2.unifap.br/letras/files/2013/12/Projeto- Pedag%C3%B3gico-do-Curso-de-Letras-Portugu%C3%Aas-Franc%C3%Aas1.2.pdf. Acessoem: 3 mar. 2023. UNIVERSITÉ FRANCO-ALLEMANDE. Université Franco-Allemande. IntegrierterBachelorstudiengang Lehramt Sekundarstufe. Friburgo em Brisgóvia, [2023]. Disponível em https://www.dfh-ufa.org/programme/studienfuehrer/ integrierter-bachelorstudiengang-lehramt-sekundarstufe. 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Como é possível compreender a cultura e sua relação com a língua? No Módulo 2, você terá como tema central a “Interculturalidade e Educação Linguística Plural”, abordando aspectos importantes para a formação de professores(as) de línguas em uma perspectiva mais sensível à diversidade linguística e cultural dos contextos de ensino bi/multilíngues e às pessoas envolvidas no processo de ensino-aprendizagem. Unidade 1: Interculturalidade: Conceitos Fundamentais Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer os conceitos de língua, cultura, repertório linguístico e interculturalidade, além de seus reflexos na construção de uma educação linguística bilíngue e intercultural. 1.1 Conceitos de Língua, Cultura e Repertório Linguístico na Construção da Interculturalidade Questionamentos. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 53 Assista aos dois vídeos e reflita sobre “O que é cultura” e “Cultura Objetiva vs Cultura Subjetiva”. Para você compreender a interculturalidade, é importante refletir sobre a visão de língua/linguagem que orienta uma educação linguística comprometida com os desafios da diversidade, característica dos espaços híbridos e multilíngues. Ela é prática social, política e ideológica, pois as experiências de interação com o mundo e com as pessoas que estão ao redor são profundamente marcadas por nosso entorno social e cultural e por nossas experiências pessoais, pelo modo como nos dizemos no mundo. 1.1.2 A Ideia de Língua como Prática Social A língua é um fenômeno histórico que se constitui e se renova na vida e através de seus falantes, visto que é ação situada social e culturalmente, atividade que se constrói à medida que há interação com outros(as). Língua é cultura. Fonte: Freepik (2023). Videoaula: O que é Cultura? Videoaula: Cultura Objetiva vs Cultura Subjetiva https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video05/index.html https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video06/index.html 54Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A língua não está na cultura ou a cultura na língua – as duas estão no mesmo lugar, porque língua é cultura. Por isso, produzir conhecimento sobre a língua e na língua é necessariamente olhar para o que as pessoas fazem quando estão ensinando e aprendendo a viver em português, espanhol, italiano, francês, Libras, inglês... Nesse sentido, é preciso compreender a língua que ensinamos e aprendemos, em contexto de língua materna ou estrangeira/segunda, sem que fiquemos: Em uma educação linguística intercultural, não há lugar para uma “concepção de língua limpa, sem rascunhos, sem sujeitos, sem história, sem política” (MUNIZ, 2016, p. 783). Assim, é necessário pensar na língua a partir de uma nova chave, de modo que você compreenda como atuar em contextos multilíngues e diversos, como são os espaços educativos de fronteira, sejam elas físicas ou simbólicas. Para lhe ajudar nessa reflexão, analise o quadro a seguir. “enredados na trama da pureza linguística, da não historicidade da língua, do apagamento dos sujeitos e ideias racializadas que permeiam este desejo pela pureza” (MUNIZ, 2016, p. 783). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 55 Como você pode ver, é preciso superar as visões sistêmicas e formalistas de se compreender as línguas e as práticas de linguagem, visto que sem fazer isso não será possível implementar mudanças na educação linguística em espaços diversos e multilíngues, transformando-a em verdadeiramente plural. Assim, as ações pedagógicas devem ser voltadas para ensinar a estudantes não a gramática fria e árida, mas modos de ser e de viver em português e nas outras tantas línguas que fazem parte do seu repertório linguístico. Comparações entre visões de língua/linguagem. Elaboração: CEPED/UFSC (2023). 56Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Assista também a videoaula que fala sobre Visões de língua e linguagem. A cultura precisa ser entendida como uma rede, uma matriz geradora de sentidos, como uma complexa rede de significados que são interpretados por elementos que fazem parte da mesma realidade social, que a modificam e são modificados por ela. Assim, ela é uma dimensão que não existe sem a realidade social que lhe serve de ambiente. É a vida em sociedade e as relações dos indivíduos que moldam e definem os fenômenos culturais, e não o contrário. 1.1.3 A Cultura como Rede de Significados A cultura não é algo que está fora do que produzimos ao vivê-la. Não é apenas um conteúdo a ser ensinado e transmitido de pai para filho, como um baú de recordações. A cultura se constrói na teia da vida que vivemos. Videoaula: Língua como Prática Social Videoaula: Visões de Língua e Linguagem Assista a uma videoaula que fala sobre a Língua como prática social. Faz-se necessário pensar em alguns aspectos para construir uma ideia de cultura mais aberta, flexível e significativa para a compreensão dos espaços plurais nos quais ensinamos e aprendemos. Cultura como evolução de relações. Fonte: Freepik (2023). https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video07/index.html https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video08/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 57 Cultura como rede complexa de significados. Fonte: Freepik (2023). Cultura como evolução de relações. Fonte: Freepik (2023). Cultura como heterogeneidade. Fonte: Freepik (2023). Cultura como rede complexa de significados Ela engloba uma teia complexa de significados que são interpretados pelos elementos que fazem parte de uma mesma realidade social, os quais a modificam e são modificados por ela. Esse conjunto de significados inclui as tradições, os valores, as crenças, as atitudes e conceitos, assim como os objetos e toda a vida material. Cultura como heterogeneidade Não é inteiramente homogênea e pura, mas constrói- se e renova-se de maneira heterogênea através dos fluxos internos de mudança e do contato com outras culturas. Cultura como evolução de relações Ela não é estática, um conjunto de traços que se transmite de maneira imutável através das gerações, mas um produto histórico, inscrito na evolução das relações sociais entre si, as quais transformam-se num movimento contínuo através do tempo e do espaço. 58Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Língua-cultura. Fonte: Freepik (2023). produto da vivência, da ação e da interação dos indivíduos. Fonte: Freepik (2023). Cultura como produto da vivência, da ação e da interação dos indivíduos Está presente em todos os produtos da vivência, da ação e da interação dos indivíduos.Portanto, tudo o que é produzido, material e simbolicamente, no âmbito de um grupo social é produto da cultura desse grupo. Língua-cultura A língua, então, não faz parte da cultura ou vice-versa. A língua é a própria cultura — uma língua-cultura. Assim, olhar para a língua é olhar para os indivíduos que a utilizam e o contexto histórico, cultural, político e econômico em que as interações ocorrem. Uma língua- cultura é o próprio lugar de interação, é prática social, é o modo como somos e agimos no mundo, e não se mantém presa a uma ideia de país ou nação. A língua-cultura representa uma certa maneira de interpretar a realidade e de inserir um grupo social no mundo que o cerca (MENDES, 2012, 2015). Os espaços que compreendem as nossas salas de aula e todo o seu entorno sociocultural são diversos e complexos, embora muitas formas de opressão atuem para defini-los como homogêneos e imutáveis. As fronteiras, por exemplo, sejam elas territoriais ou simbólicas, são ambientes heterogêneos, nos quais línguas e culturas mesclam-se num emaranhado de sentidos. 1.1.4 Repertórios Linguísticos e Contextos Bi/multilíngues Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 59 No entanto, como muitos estudiosos apontam, os repertórios não se desenvolvem linearmente, ordenadamente e com propósitos bem definidos, mas sim de acordo com as diversas situações de interação e de comunicação. Por isso, é importante compreender que as pessoas desenvolvem práticas de linguagem, fazendo um uso situado de seus recursos, que mudam de acordo com o contexto e com as demandas comunicativas. Em contextos bi/multilíngues e multiculturais como são as fronteiras, mais do que o uso de variadas línguas em si, temos o uso de diversos recursos semióticos que, juntos, orientam as práticas de linguagem e de interação das pessoas. Como aponta Blommaert (2010, p. 102), os contextos multilíngues não devem ser vistos como espaços onde os sujeitos lançam mão de uma coleção de línguas, mas sim de “Nesse processo, alguns recursos são permanentes e duradouros, enquanto outros mais temporários e dinâmicos” (OLIVEIRA, 2021, p. 27). [...] um complexo de recursos semióticos específicos, alguns dos quais pertencem a uma ‘língua’ convencionalmente definida, enquanto outros pertencem a uma outra ‘língua’ [...] Desse modo, para compreendermos esses espaços híbridos, é importante que você conheça o conceito de repertório linguístico, como um conjunto de recursos linguísticos e multissemióticos de que as pessoas fazem uso em suas práticas de interação e de produção de sentidos em ambientes bi/multilíngues. 60Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Tais recursos concretos são sotaques, variedades linguísticas, registros, gêneros, modalidades como a escrita – formas de usar a língua em contextos comunicativos particulares e esferas da vida, incluindo as ideias que as pessoas têm sobre tais formas de uso, suas ideologias linguísticas. Multiculturalidade. Fonte: Freepik (2023). Nos últimos tempos, a interculturalidade vem sendo tema de interesse de variados campos do saber e tem sido definida e compreendida de diferentes formas. No entanto, há muitos mitos e confusões relacionados ao termo e é necessário pensar sobre eles. Multiculturalismo, Interculturalidade e transculturalidade são a mesma coisa? 1.2 Mitos e Conceitos Sobre a Interculturalidade Reflexão. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 61 O multiculturalismo e a interculturalidade não podem ser compreendidos como a mesma coisa. O primeiro representa uma característica e condição de existência das sociedades contemporâneas, marcadas pela diversidade e pela complexidade humana e cultural. Por isso, quando se diz que as sociedades são multiculturais, há o reconhecimento de que elas são marcadas pela diversidade e pelas relações entre identidade e diferença, o que é uma evidência. A interculturalidade e transculturalidade também não significam a mesma coisa. A interculturalidade não representa simplesmente a convivência ou contato entre os diferentes, mas sim uma intervenção na realidade multicultural. Portanto, o multiculturalismo é uma condição das sociedades contemporâneas e a interculturalidade é um modo de intervenção e de ação nos contextos multiculturais. Interculturalidade Representa um modo de vida, uma intervenção no mundo, com o propósito de construir espaços de diálogo, de convívio harmonioso e colaborativo, marcado pelo respeito às diferenças. Transculturalidade Como o prefixo “trans” indica, representa a compreensão dos modos como as culturas se relacionam entre si, num mundo marcado pela superdiversidade. Significa que não há culturas singulares, mas entrecruzamentos e interpenetrações constantes entre culturas, em contextos cada vez mais híbridos e complexos. Mas seria a interculturalidade apenas um modismo? Pensar a interculturalidade como uma moda passageira significa não compreender bem o seu significado, uma vez que ela: • revela um posicionamento diante da complexidade e da diversidade das sociedades contemporâneas, especialmente os espaços de fronteira, físicas e simbólicas; • representa uma postura, um modo de ser e de agir, voltado para a negociação das diferenças; 62Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Então a interculturalidade significa trocar informações sobre as línguas e culturas em contato? A interculturalidade não é algo que se constrói através do compartilhamento de conteúdo e informações sobre línguas, culturas e grupos sociais em contato ou da comparação sobre o que “eu penso” e o que “o outro pensa”, mas: Videoaula: Mitos sobre a Interculturalidade • é dimensão necessária para a erradicação de todos os tipos de discriminação, de preconceito e de atitudes que ofendem e prejudicam os indivíduos e/ ou seus direitos básicos e universais, especialmente o direito de viver em diferentes línguas, nos espaços de sala de aula e, também, fora deles. Para enriquecer os seus estudos, veja duas videoaulas que falam de Mitos sobre interculturalidade. • revela-se na abertura ao outro e ao que ele desempenha no mundo, em um esforço mútuo de compreensão das diferenças; • promove a interação, a integração e a cooperação entre indivíduos de diferentes contextos culturais, criando áreas de negociação, de interseção – entrelugares; • significa contribuir para construção conjunta de conhecimentos na(s) língua(s) e cultura(s) em que se vive, se ensina e se aprende – língua-culturas em interação. E a pedagogia intercultural não ensina língua? A interculturalidade na prática educativa e, em especial, na educação linguística, orienta todas as ações pedagógicas, valorizando e fortalecendo os conhecimentos e saberes das pessoas em interação. Conheça mais sobre a pedagogia intercultural: Interação As ações de ensino-aprendizagem são centradas no sentido e nas experiências das pessoas em interação. Cada pessoa é um elo importante na construção do conhecimento, sempre partilhado e colaborativo. https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video09/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 63 Vivência O conhecimento da(s) língua(s) emerge do uso e da reflexão constante sobre esse uso. Aprende-se língua, vivendo a língua. Realidade As práticas de linguagem realizam-se em situações reais de comunicação e de interação, visando a construção de repertórios linguísticos, em espaços multilíngues e multiculturais como são as fronteiras. Práticas A língua desenvolve-se a partir do desenvolvimento de práticas de leitura, escrita, oralidade e análise linguística, sempre contextualizadas às situações de ensino-aprendizagem e ao seu ambiente sociocultural A interculturalidade permite o diálogo com outras perspectivas epistemológicas e metodológicas? A interculturalidade, como um modo de ser e de agir,como uma filosofia de vida, não se sobrepõe ou concorre com outras abordagens, métodos e perspectivas diversas para a educação linguística em contextos multiculturais e multilíngues complexos, como são os espaços híbridos e de fronteira. Assim, ela dialoga com perspectivas que: • concebem a língua como fenômeno histórico, que se constitui e se renova nas práticas de linguagem de seus falantes; atividade que se constrói à medida que interagimos com outros; prática social, política e ideológica; língua como cultura e vice-versa; • compreendem a prática educativa como experiências sensíveis culturalmente às pessoas envolvidas no processo de ensinar e aprender língua(s), professores(as) e alunos(as); • compartilham a visão de proficiência linguística como a capacidade de desempenhar ações no mundo através da linguagem, com um propósito social. 64Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Depois de você refletir sobre variados mitos em torno da interculturalidade, é importante que ela seja compreendida como uma atitude diante do mundo que nos cerca, visto que exercitá-la exige de nós uma mudança de comportamento, um compromisso com a crítica e a ação em prol da justiça social, da criação de ambientes de convivência respeitosa entre as pessoas, do enfrentamento às mais diversas formas de violência social, física, intelectual e moral. A interculturalidade não se caracteriza como uma abordagem de ensino em si, uma vez que A Interculturalidade como Movimento de Vida essa compreensão restringiria a sua ação como dimensão mais ampla das relações humanas e das práticas de linguagem que desenvolvemos ao interagir com outros(as). No entanto, ela é um dos mais importantes elementos da educação linguística, contribuindo para o desenvolvimento de pedagogias mais democráticas, inclusivas e que consideram a língua/linguagem como prática social, como atividade situada, sempre marcada pelos contextos culturais e políticos nos quais se desenvolve, como visto. Desse modo, embora não se restrinja a uma abordagem de ensino, a interculturalidade tem orientado o desenvolvimento de ações pedagógicas culturalmente sensíveis, capazes de construir nas salas de aulas de línguas diálogos entre as línguas-culturas que estão em interação. Em resumo, a interculturalidade: • É um modo de ação que orienta as práticas cotidianas de interação e de convivência nos espaços educativos e, também, fora deles. • É o viver, o fazer e o pensar junto com outros(as). • É ação sempre em construção. • É o exercício cotidiano da escuta, da sensibilidade e da empatia. • O intercultural não existe como algo pronto. Precisa ser construído. Interculturalidade como movimento. Fonte: Freepik (2023). A Interculturalidade Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 65 Para refletir um pouco mais sobre a interculturalidade, assista a videoaula a seguir. A partir do que você estudou até aqui, é possível compreender que através do diálogo entre línguas e culturas, no qual a troca e a análise de experiências, o respeito às diferenças e a intersubjetividade tenham lugar, é possível construir um espaço de um terceiro tipo, formado pela interseção das experiências de professores e aprendizes. Esse espaço é formado em parte pelas interpretações de mundo de cada um e de todos ao mesmo tempo, pela comunhão de vontades, desejos e anseios; pela busca da descoberta de um lugar no qual (con)viver com a diferença é a porta de entrada para que as variadas vozes em interação possam ser ouvidas. A ideia de um ‘outro lugar’ construído a partir do encontro de diferentes culturas, ou línguas-culturas, vem tomando corpo em diferentes áreas do pensamento, especialmente a partir da década de 70, sobretudo nas discussões sobre os diferentes grupos humanos e a sua convivência no mundo contemporâneo. Para Bhabha (1998), a articulação social da diferença, de mundos culturais distintos, é sempre uma negociação complexa, marcada por experiências liminares, fronteiriças, intersticiais. Essas experiências de fronteira, as quais marcam a instância do “terceiro espaço” ou entrelugar (Bhabha (1996, 1998) utiliza a expressão “in-between”), incitam o desejo de reconhecimento de “outro lugar e de outra coisa” e fornecem o ambiente para a elaboração de estratégias de subjetivação que possibilitam a criação de novos signos de identidade, 1.1.5 Língua, Cultura e Interculturalidade – A Construção de um Terceiro Lugar Os trabalhos desenvolvidos pelo antropólogo indiano Homi Bhabha (1996, 1998), por exemplo, sedimentaram essa ideia a partir da definição dos ‘espaços híbridos’ e suas diferentes configurações, como são, por exemplo, os espaços de fronteira. Videoaula: O que é a Interculturalidade? https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video10/index.html 66Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública “[...] a encenação da identidade como interação, a recriação do eu no mundo da viagem”. pertencem a uma outra ‘língua’ [...] É nesses espaços híbridos, através de processos que Bhabha (1998, p. 27-29) denomina “processos simbólicos de tradução e negociação”, onde se articulam elementos antagônicos, contraditórios e conflituosos, de modo a permitir que polaridades, como dominador/dominado, desenvolvido/subdesenvolvido, eu/outro, negro/branco, homem/mulher, rico/pobre, culto/inculto, dentro/fora, tenham os seus limites, “bordas” e fronteiras flexibilizados, “deslizantes”. Isso possibilita a existência de um espaço de intervenção no qual os interstícios culturais introduzem “[...] a invenção criativa dentro da existência”. É nesse espaço de troca, de tensão e, também, de diálogo que emerge a possibilidade de uma vivência intercultural (MENDES, 2008, 2015). Desse modo, é esse espaço, esse “terceiro lugar”, que uma pedagogia intercultural busca estabelecer. No entanto, isso não significa o equilíbrio ou neutralização de qualquer tensão ou conflito. Ao contrário, esses espaços são marcados pela tensão constante entre sujeitos-mundos diferentes e que, como todo ambiente de produção e troca de significados, alimenta-se e reestrutura-se a partir dessa própria tensão-negociação-troca. Espaços híbridos. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 67 Ensinar e aprender línguas sob a orientação de uma abordagem que se pretende intercultural, de modo a promover experiências de vida entre diferentes culturas, significa contribuir para a criação dessas zonas fronteiriças, desses espaços “inter”, “entre” ou os entrelugares, “terceiros lugares”. Desejar esse outro lugar, no entanto, não significa deixar de lado as próprias identidades, experiências e vontades de ir à luta, nem, tampouco, representa uma escolha neutra, uma opção de “ficar em cima de muro”. Significa desejar um lugar onde a minha existência e a do outro funcionem como instâncias em interação, movidas pela busca mútua de compreensão. Um lugar onde as oposições binárias, do tipo paulista/baiano, indígena/branco, padrão/não-padrão, rural/urbano, sul-americano/europeu, brasileiro/argentino, português/espanhol, falante nativo/falante não-nativo, L1/L2, não representem fronteiras instransponíveis, nos limites das quais sempre um dos lados é o território do estranho, do estrangeiro. Assim, ao buscar apreender, aprender, tomar parte de outros modos de produção de sentidos, socialmente determinados, eu deixo o meu espaço privilegiado e construo outro lugar, esse espaço de interlocução formado por parte do que eu sou e por parte do que eu quero conhecer (MENDES, 2008, 2015). Espaços de interlocução. Fonte: Freepik (2023). 68Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Construir relações dentro de um modo de ser, pensar, agir e sentir culturalmente sensível aos sujeitos participantes do processo de aprendizagem é um modo mais humano de se construir um diálogo intercultural.No entanto, isso exige o esforço de pesquisadores, professores e alunos, da escola e das instituições formadoras para iniciarem a mudança e dissolverem as fronteiras que fazem do processo de ensinar e aprender línguas, ou qualquer outro conteúdo escolar, um resultado de práticas homogeneizantes, bipartidas e exclusivas de se lidar com a realidade que nos cerca. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 69 BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. BHABHA, H. K. Culture’s in-between. In: HALL, S. DU GAY, P. Questions of cultural identity. London: SAGE, 1996. p 53-59. BLOMMAERT, J. The sociolinguistics of globalization. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. FREEPIK COMPANY. [Banco de Imagens]. Freepik, Málaga, 2023. Disponível em: https://www.freepik.com/. Acesso em: 6 mar. 2023. MENDES, E. Língua, cultura e formação de professores: por uma abordagem de ensino intercultural. In: Mendes, E.; Castro, M. L. S. (Org.) Saberes em português: ensino e formação docente. Campinas: Pontes, 2008. p. 57-77. MENDES, E. Aprender a ser a viver com o outro: materiais didáticos interculturais para o ensino de português LE/L2. In: SCHEYERL, D. SIQUEIRA, S.. Materiais didáticos para o ensino de línguas na contemporaneidade: Contestações e proposições. Salvador: EDUFBA, 2012a. p. 355-378. MENDES, E. O conceito de língua em perspectiva histórica: reflexos no ensino e na formação de professores de português. In: LOBO, Tânia et al. Linguística histórica, história das línguas e outras histórias. Salvador: EDUFBA, 2012b. p. 667-678. MENDES, E. A ideia de cultura e sua atualidade para o ensino-aprendizagem de le/ l2. EntreLínguas, Araraquara, v.1, n. 2, p. 203-221, jul./dez., 2015. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/entrelinguas/article/view/8060. Acesso em: 3 mar. 2023. MENDES, E. Educação escolar indígena no Brasil: multilinguismo e interculturalidade em foco. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 71, n. 4, p. 43-49, out. 2019. Disponível em: http:// cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng= en&nrm=iso. Acesso em: 3 mar. 2023. MENDES, E. Educação linguística intercultural. In: LANDULFO, C.; MATOS, D. (Orgs.). Suleando conceitos e linguagens: decolonialidades e epistemologias outras. Campinas, SP: Pontes Editores, 2022. p. 123-133. Kassandra. Ainda sobre a possibilidade de uma linguística: performatividade, política e identificação racial no brasil. Delta: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 32, n. 3, p. 767-786, dez. 2016. FapUNIFESP (SciELO). Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0102-445063437589564459. Acesso em: 7 mar. 2023. Referências http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng=en&nrm=iso http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng=en&nrm=iso http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng=en&nrm=iso 70Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para começar a refletir sobre a educação linguística em uma perspectiva intercultural, clique aqui e assista ao vídeo “Virada educação: encontros no território educador”. Como você pode ver, a experiência apresentada no vídeo mostra como os nossos espaços educativos podem se transformar em ambientes de criatividade, de partilha de conhecimentos, de diálogo intercultural, de experimentações culturais e artísticas variadas. A educação linguística intercultural, justa- mente, busca potencializar esses territórios e fazê-los transbordar de conhecimentos e saberes! Unidade 2: A Educação Linguística Intercultural Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz reconhecer as características dos elementos constitutivos da educação linguística intercultural e seus reflexos nas práticas educativas. 2.1 Educação Linguística Intercultural e seus Elementos Constitutivos Assim, todos os espaços de nossa atuação, especialmente os marcados pela diversidade linguística e cultu- ral, como são as fronteiras, são terri- tórios educadores privilegiados. O que se pode almejar para a educação linguística do século XXI. Freepik (2023). Então você pode se perguntar: o que se pode almejar para a educação linguística no século XXI, em um momento em que exis- tem tantos problemas sociais, ambientais, econômicos e políticos no mundo? https://youtu.be/bn_kvwpou1o Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 71 O cenário dos nossos tempos nos desafia a pensar de modo mais alargado, fazendo o exercício que nos propõe Ailton Krenak (2020, p. 27), que é viver a experiência da nossa própria circulação e atuação pelo mundo, “não como uma metáfora, mas como uma fricção”, contando uns/umas com os(as) outros(as), respeitando uns/ umas aos(às) outros(as). Assim, precisamos pensar uma educação linguística outra, tão diversa quantos são os contextos de seu desenvolvimento, sendo um campo de atuação e de luta, de resistência e de renovação, e que interroga as epistemologias que não aceitam o pensamento divergente e o reconhecimento de que a vivência das línguas e as línguas se dá de modo conjunto, num roçar de experiências de vida e a partir de deslocamentos constantes. A Educação Linguística Intercultural (ELI) representa uma dimensão mais ampla da democratização do acesso às línguas, maternas e estrangeiras/segundas, e inclui não apenas o processo de ensino-aprendizagem de línguas em si, mas também: • a formação de professores(as); • o desenvolvimento de currículos; • o desenho de materiais instrucionais; • os processos de avaliação e certificação e as políticas linguísticas criadas. Na videoaula a seguir, reflita um pouco mais sobre a Educação Linguística Intercultural (ELI): Nessa perspectiva, uma ELI deve ser pensada considerando-se as suas dimensões constitutivas. Videoaula: Educacao Linguistica Intercultural (ELI) https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video11/index.html 72Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Dimensões constitutivas da Educação Linguística Intercultural (ELI). Fonte: Elaborado pela autora (2023). Para que você possa compreender melhor cada uma dessas dimensões constitutivas, assista à videoaula a seguir. Como visto, a ELI aqui está sendo compreendida como campo de ação e de construção de saberes, práticas e epistemologias diversas, e não como processo individual. Já que ela é concebida como dimensão da experiência de interação e de produção conjunta de conhecimentos, não se constrói sem as pessoas, agentes que atuam a partir de diferentes posições de sujeito, professores(as), alunos(as), pesquisadores(as), gestores(as), criadores(as) de políticas, entre outros(as). Videoaula: Dimensões Constitutivas da Educação Linguística Intercultural (ELI) https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo02_video12/index.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 73 Por ser aberta e movente, a educação linguística numa perspec- tiva intercultural pressupõe ação criativa e propositiva em to- das as suas dimensões constitutivas, em busca da construção de espaços interculturais nos quais a experiência da diferença é a sua maior força motriz. Como é uma instância sempre em movimento e que se alimenta das perguntas que são feitas na medida em que se desenvolve, a ELI reconhece que todo processo educativo é atravessado por incertezas e incompletudes, porque não há respostas prontas, enlatadas, empacotadas. Por isso, ela tem como primeiro objetivo promover a paz, a equidade e a justiça social, visto que é, sobretudo, um ato político de resistência e de luta contra todo tipo de discriminação e de racismo, pois como nos diz Nascimento (2019, p. 19): A ELIdesloca os sujeitos de suas certezas, obriga-os a se interrogar sempre. A interrogação constrói o exercício crítico cotidiano de questionamento das estrutu- ras de poder e de opressão, que operam em diferentes instâncias da vida social e que favorecem os privilégios de uns/umas em detrimento de outros(as). A ELI obriga professores(as) a fazerem o exercício constante de “desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo” (RIBEIRO, 2019, p. 9), as variadas formas de opressão linguística e cultural, os diversos modos de preconceito contra pessoas e seus modos de existência, de modo a criar meios de responsabilização e de ação social e educativa. “uma vez que admitimos que o racismo está na estrutura das coisas, precisamos admitir que a língua é uma posição nessa estrutura”. 74Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O que movimenta a ELI são as interrogações (quando, por quê, onde, para quê, para quem), condição fundamental para qualquer processo educativo que se constrói à medida que caminha. Nesse sentido, o desenvolvimento de uma educação linguística intercultural, antes de ser um exercício de constru- ção teórica, deve obedecer a um crite- rioso processo de planejamento e es- truturação. Assim, a ELI recusa todo tipo de explicação e de prática que não seja construída na experiência, buscando incorporar no fazer teórico e pedagógico outras episte- mologias, outras cosmogonias, outros modos de ensinar e aprender línguas, mais sensíveis às pessoas e ao que elas significam no mundo. Por sua natureza proativa e movente e por buscar construir uma pedagogia ou- tra, a ELI nos obriga a rever nossas crenças e concepções sobre os significados de língua/linguagem, de ensinar e aprender e dos papeis que assumem as pessoas envolvidas no processo educativo, professores(as) e alunos(as), bem como outros agentes que dele participam, direta ou indiretamente. Também é necessário repensar o espaço da sala de aula, os currículos e desenhos de cursos, os materiais didáticos e o processo de avaliação, o que impactará na própria visão de proficiência linguística, entre outros aspectos. O que movimenta a ELI? Fonte: Freepik (2023). A educação linguística intercultural e seu processo de planejamento. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 75 Este processo envolve desde o estabelecimento dos princípios norteadores da ação pedagógica, até o planejamento de cursos, seleção e produção de materiais e recursos didáticos e elaboração de estratégias de monitoramento e avaliação, sempre tendo em vista qual é o público ao qual se destina a ação pedagógica, em que contexto, ou contextos, e sob que condições. Esse tipo de cuidado e orientação, fundamental para o processo de ensino/ aprendizagem intercultural, impede-nos de incorrer no erro clássico de tratar o processo de ensinar e aprender como uma fórmula única e imutável, a qual se presta às mais diferentes situações, de modo homogêneo. Todos os conteúdos e reflexões com que você entrou em contato até aqui têm como pano de fundo a necessidade de que a formação, inicial e continuada, de professores de línguas prepare-os para atuar em contextos de ensino- aprendizagem complexos e marcados por diferenças linguísticas e culturais. Compreender as relações entre língua e cultura na construção de uma educação linguística intercultural pressupõe desenvolver capacidades no professor para analisar as tradições em seu contexto de atuação em uma nova perspectiva, mais dinâmica e que considera as interações linguísticas como ações situadas e altamente marcadas contextualmente. Assim, ensinar e aprender devem ser compreendidos como processos dialógicos, nos quais professores e alunos aprendem juntos, com a contribuição de todos, porque a rigidez das posições bem-marcadas cede lugar à flexibilidade e ao diálogo de identidades. 2.1.1 Educação Linguística Intercultural e Formação de Professores para uma Educação Plural Não basta apenas ao professor dominar o objeto do seu ensino, a língua, mas saber atuar e intervir em ambientes cada vez mais multilíngues e multiculturais, visto que lidamos com sujeitos ativos, assentados em diferentes histórias de vida, e que levam para a sala de aula a diversidade de suas experiências no mundo. 76Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Assim, numa educação linguística intercultural, torna-se relevante que o professor seja capaz de organizar as experiências de ensinar e aprender com foco no sentido, no uso da língua que se desenvolve na interação e que, por isso, é altamente situado, em detrimento da prática excessiva e descontextualizada de estruturas formais e gramaticais. Quaisquer que sejam os conteúdos tomados como ambientes para o desenvolvimento da aprendizagem, para práticas de leitura, escrita, oralidade e análise linguística, o importante é o modo como esses conteúdos funcionam como pontes e passaportes de acesso a novas experiências e significados construídos em conjunto, por todos os sujeitos em interação. Os materiais e recursos didáticos, por sua vez, devem funcionar como fonte, como ponto de partida para as experiências de ensinar e de aprender, e não o único conteúdo que circula em sala de aula. A seleção dos “gatilhos” que disparam experiências de interação deve privilegiar conteúdos autênticos, culturalmente significativos, centrados nos interesses e necessidades dos aprendizes. Professores e alunos, ainda, ao ensinarem e aprenderem língua, participam de processos que englobam, além dos aspectos linguísticos, aspectos que caracterizam o uso da linguagem, como: • socioculturais; • cognitivos; • afetivos; e • psicológicos. Processo de ensinar e aprender. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 77 Esses são processos que visam ao engrandecimento do indivíduo, como sujeito histórico, cultural e como cidadão, e ao uso comum da nova língua-cultura como passaporte para a inserção pacífica e dialógica do sujeito no mundo à sua volta. Faz parte desse modo de ser e de agir de professores e alunos abrir-se para a aceitação do novo e praticar a humildade e a tolerância, ao mesmo tempo em que agem como analistas e críticos das experiências que partilham para que possam intervir, complementar e modificar o seu processo de aprendizagem com autonomia, criatividade e responsabilidade. A avaliação tem como foco o desenvolvimento do processo de aprendizagem e não o seu fim, assim como se preocupa com a qualidade do que foi aprendido, e não com a quantidade, num contínuo movimento de alimentação e retroalimentação. Portanto, é importante ressaltar que todas as ideias, princípios e conceitos discutidos são insuficientes se não forem mobilizados nas práticas educativas cotidianas. Para isso, os professores precisam refletir, repensar e problematizar as Desse modo, professores e alunos atuam como agentes de interculturalidade, que promovem o diálogo entre culturas através da interação e da produção conjunta de conhecimentos, guiados por sentimentos de cooperação, colaboração, respeito mútuo e respeito às diferenças. Ademais, é importante ressaltar, nesse processo, a relevância da avaliação, que se transforma em análise crítica das experiências de ensinar e aprender, envolvendo todos os participantes do processo, em regime de colaboração e de partilha. A relevância da avaliação. Fonte: Freepik (2023). 78Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública antigas práticas, transformando o seu espaço pedagógico em um ambiente mais sensível à diversidade e mais respeitoso às diferenças, assumindo o seu papel como mediador intercultural e como transformador da realidade que o cerca. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 79 FREEPIK COMPANY.[Banco de Imagens]. Freepik, Málaga, 2023. Disponível em: https://www.freepik.com/. Acesso em: 6 mar. 2023. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. MENDES, Edleise. Abordagem comunicativa intercultural: uma proposta para ensinar e aprender língua no diálogo de culturas. 2004. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada) - Programa de Pós-graduação em Lingüística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 2004. MENDES, Edleise. Língua, cultura e formação de professores: por uma abordagem de ensino intercultural. In: Mendes, Edleise; Castro, M. L. S. (Org.) Saberes em português: ensino e formação docente. Campinas: Pontes Editores, 2008. p. 57-77. MENDES, Edleise. Por que ensinar língua como cultura? In: SANTOS, Percília. ORTIZ, Maria Luisa. Língua e cultura em contexto de ensino de português para falantes de outras línguas. Campinas: Pontes Editores, 2010. p. 53-77. MENDES, Edleise. O português como língua de mediação cultural: por uma formação intercultural de professores e alunos de PLE. In: Mendes, Edleise. (Org.) Diálogos interculturais: ensino e formação em português língua estrangeira. Campinas: Pontes, 2011. p. 139-158. MENDES, Edleise. A ideia de cultura e sua atualidade para o ensino-aprendizagem de le/ l2. EntreLínguas, Araraquara, v.1, n.2, p. 203-221, jul./dez. 2015. Disponível em: https:// periodicos.fclar.unesp.br/entrelinguas/article/view/8060. Acesso em: 7 mar. 2023. 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Ainda sobre a possibilidade de uma linguística: performatividade, Referências https://periodicos.fclar.unesp.br/entrelinguas/article/view/8060 https://periodicos.fclar.unesp.br/entrelinguas/article/view/8060 http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng=en&nrm=iso http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252019000400013&lng=en&nrm=iso 80Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública política e identificação racial no brasil. Delta: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 32, n. 3, p. 767-786, dez. 2016. FapUNIFESP (SciELO). Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0102-445063437589564459. Acesso em: 7 mar. 2023. NASCIMENTO, Gabriel. Racismo linguístico – Os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019. RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. http://dx.doi.org/10.1590/0102-445063437589564459 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 81 Para iniciar os estudos desta unidade clique aqui e assista ao vídeo “Olhe para além das fronteiras” e reflita um pouco sobre a experiência realizada. Como você pode ver na experiência mostrada no vídeo, quando nos aproximamos do que é diferente de nós, o primeiro impacto é sempre de estranheza, de deslocamento e até um pouco de desconforto. Isso é natural, porque somos orientados socialmente a reproduzir padrões de todos os tipos: • de conduta; • de classe; • moral; • físico; • étnico; • racial, entre outros. Nesse sentido, todo encontro entre culturas e línguas representa uma espécie de estranhamento, a princípio, mas que a depender de como são construídas as relações e interações, pode se transformar em aprendizado mútuo. Unidade 3: A Interculturalidade nas Práticas Educativas Plurais Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de refletir criticamente sobre a experimentação pedagógica a partir de situações de ensino-aprendizagem e da análise de materiais e recursos didáticos. 3.1 Experiências Interculturais: Análise e Reflexão sobre Situações-Problema https://www.youtube.com/watch?v=dgSKHniUtVU 82Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Nas práticas de formação de professores, inicial ou continuada, um dos principais problemas que se tem discutido é o fato de que as instituições desenvolvem políticas de formação para professores sem os professores. Isso significa que são feitos planejamentos de cursos com modelos pedagógicos e materiais inovadores, mas que não consideram perguntas preliminares e básicas, como as seguintes: • O que esses(as) professores(as) sabem? • De que modo eles(as) ensinam? • Quais são as suas experiências e como elas podem auxiliar no processo de renovação pedagógica? Assim, nenhum processo de formação pode ser bem-sucedido se não levar em consideração as experiências, histórias, memórias e práticas dos professores em formação. Afinal, somente se pode aprender o novo refletindo sobre o que se sabe. Além disso, já há muito foi superada a ideia de que o que os professores fazem em sala de aula não tem valor teórico, porque são teorias “informais” que se constroem em sala de aula. Pelo contrário, todo professor é um produtor de teorias e de práticas entrelaçadas. 3.1.1 Experiências e Memórias de Professores(as) de Línguas Assim, no vídeo, é possível perceber o desconforto inicial das pessoas, mas, em seguida, pela simples disposição que elas têm de “enxergar o outro”, a experiência se transforma em empatia, em afeto, em comunhão. Para ampliar a reflexão, durante o estudo dessa unidade, a proposta será pensar sobre algumas experiências de deslocamento e de atuação de professores em ambientes complexos e marcados pela diversidade linguística e cultural. Por isso, desenvolver ambientes de diálogo intercultural, o que é fundamental para desenvolvermos uma educação linguística intercultural e crítica, exige das pessoas envolvidas no processo de ensinar e aprender a disposição para a escuta atenta e a sensibilidade de se colocar não apenas “no lugar do outro”, mas ao lado dele. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 83 Para refletir mais sobre esse tema, analise algumas experiências relatadas por professores participantes do curso A Docência Plural – Formação em interculturalidade e bi/multilinguismo. O curso foi realizado pelo Projeto Cruzando Fronteiras, da OEI, em modalidade híbrida, com carga horária de 40 horas, em novembro de 2022. Os nomes dos professores foram omitidos, para assegurar o seu anonimato. Primeiro Relato “A Interculturalidade é vista e vivida no cotidiano social e escolar. E verdadeiramente traz influência, interação, mudanças no linguajar e perspectivas humanas do outro. Enquanto professora de Literatura e Língua Portuguesa, vejo, na prática, como esta gera ações, reações, pensamentos, neologismos, enriquecimento (por vezes nem tanto) pessoal e acadêmico. Neste relato, é possível perceber que a interculturalidade é vista pelo(a) professor(a) como um fenômeno capaz de empreender mudanças, de produzir novos sentidos e de recriar o mundo. A diversidade, ao invés de ser um problema, passa a ser um recurso importante para a construção de ambientes de acolhimento e de partilha. Também é algo que se constrói no dia a dia, a partir de toda a sorte de encontros, tanto na sociedade quanto na educação escolar. Segundo Relato “Não tenho experiência intercultural, mas gostaria muito de vivenciar essas situações e obter experiências tão ricas que só quem vive nas fronteiras sabe explicar. Temos que ter a consciência que somos iguais em direitos e diferentes em cultura. Como seres plurais devemos respeitar e aceitar o outro.” Interculturalidade como fenômeno capaz de empreender mudanças. Fonte: Freepik (2023). 84Enap Fundação Escola Nacionalde Administração Pública Nesse segundo relato, o(a) professor(a) acredita não ter experiência intercultural, porque não vive em região de fronteira. No entanto, as fronteiras não são somente aquelas físicas, mas também as fronteiras simbólicas, invisíveis “a olho nu”, mas que impactam muito a vida das pessoas. Com certeza, o(a) professor(a) já vivenciou diferentes possibilidades de encontros com o diferente, mas ainda não percebeu como eles podem ter influenciado a sua percepção sobre ele(a) mesmo(a) e sobre o mundo. Além disso, ele(a) reconhece a pluralidade social e ressalta o fato de que todas as pessoas devem ter direitos iguais. Esse é um primeiro passo para se pensar a interculturalidade. Terceiro Relato “Nos últimos 30 anos, ministrei aulas numa região de fronteira terrestre, divisa da Guiana Francesa com o Brasil, onde há tribos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, além de alunos com DV (deficiência visual) e DA (deficiência auditiva), todos convivendo harmônica e respeitosamente no mesmo ambiente. Víamos uma mescla das tradições, falares, saberes, costumes em que um passava naturalmente ao outro, aprendendo e ensinando. Verdadeiramente, uma troca cultural e de linguagem. E por mais simples que fosse a escola, com recursos parcos, costumava-se trabalhar, por lá... com a valorização do que eles possuem como próprio. Para facilitar a compreensão dos alunos, o aprendizado é fazer com que fossem valorizados, que criassem um vínculo de aprendizado que passe pelo gostar de apreender e construir saber, com um sentido profundo de pertencimento. Não se despreza a cátedra, mas se usa o informal como apoio pedagógico para o fazer científico.” Interculturalidade como possibilidade de encontro. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 85 A riqueza de conviver. Fonte: Freepik (2023). Nesse relato, o(a) professor(a) descreve a riqueza de sua experiência em conviver com a diversidade apresentada por diferentes grupos de pessoas com os quais conviveu, compartilhando línguas, culturas e vivências, quase que numa relação simbiótica. Isso acontece quando as experiências de encontro são orientadas por comportamentos de abertura, de solidariedade e de empatia. Também é relevante ressaltar neste relato o fato de que, nas práticas escolares do(a) professor(a), sempre foram beneficiadas as experiências e saberes dos alunos, “por mais simples que fossem”, visto que, em sua ação de construção da interculturalidade, está a compreensão de que somente valorizando as pessoas, o que elas são e representam, é possível construir pertencimento e produção do conhecimento compartilhado e colaborativo. Quarto Relato “Há 25 anos atrás, quando lecionava em Itapecerica da Serra (SP), experienciei o processo de escolarização de crianças da comunidade cigana seminômades, de etnia Calon. Pude conhecer a identidade, os costumes, a vestimenta e, principalmente, a língua ágrafa distinta dessa comunidade: Shib Kalé ou Caló (mistura de Romanês ou Romani, Português e Espanhol), o que diferencia o povo cigano do não cigano. Uma troca incrível! Nessa troca, observei a cultura pouco, ou quase nada, entendida, seja por preconceitos seja por medo, de um povo que chegou ao Brasil no início do período colonial, mas só neste ano (2022) é que teve aprovado o Estatuto dos Povos Ciganos. Muitos anos depois, participei de uma pesquisa sobre a “Escravidão Urbana na 86Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública região metropolitana de São Paulo: Os latino-americanos ilegais e a espoliação capitalista do Brasil” em que também pude perceber que, apesar da Constituição Federal, não somos uma nação monolíngue, mas uma nação multilíngue. E essas duas experiências mostraram que, aqui em São Paulo, embora não façamos fronteiras com nenhuma outra nação, somos uma verdadeira Torre de Babel de diversidade linguística.” Construção da interculturalidade. Fonte: Freepik (2023). Há, nesse relato, variados aspectos relevantes para compreender como em nossa prática cotidiana como professores vamos produzindo experiências de deslocamento e de ruptura com ideias rígidas e pré-concebidas sobre o mundo e sobre as pessoas. O(a) professor(a) relata o quão rico foi conhecer um grupo tão discriminado e marginalizado como o dos ciganos, quase sempre alijados do convívio social das cidades, por desconhecimento das pessoas sobre as suas histórias e riquezas culturais. Ao conhecer o diferente e valorizá-lo, foi possível empreender a mudança, através do olhar atento e da escuta sensível. Também o(a) professor(a) reconhece que vivemos em um país multilíngue e multicultural e que as diferenças estão em cada esquina. Isso nos mostra que viver e construir a interculturalidade começa pela vontade de ver o diferente com outros olhos, de modo que possamos compreender, profundamente, o quanto temos a aprender uns com os outros. Quinto Relato “Moro na fronteira com a Bolivia em Corumbá, Mato Grosso do Sul, e é muito visível a necessidade de se trabalhar com a interculturalidade no dia a dia. Temos um fluxo muito grande de Bolivianos com que convivemos diretamente em nossas ruas, presentes em feiras livres, em restaurantes e, principalmente, no comércio. A cidade respira esse convívio. No último Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 87 dia 10/11 comemora-se o dia da Saltenha, uma comida típica boliviana, e, na cidade, no domingo 13/11, tivemos o dia festivo para essa comida e foi um sucesso. Teve até show a tarde toda na orla do porto com cumbias e grupos musicais. Um grande acontecimento. Momento de aprendizagem e convivências com outras culturas. Ou seja, interculturalidade presente!” Como se constrói a interculturalidade? Vivendo-a! É isso que nos mostra o relato do(a) professor(a), pois reconhece que as experiências de convivência e de entrelaçamento de culturas, línguas, memórias e histórias são fontes inesgotáveis de aprendizado, para todos os envolvidos. Além disso, ele(a) destaca a compreensão da interculturalidade, como já estudamos aqui, como algo que se constrói no dia a dia, nas práticas cotidianas de interação com os outros e com o mundo que nos cerca. Mas, para isso, é necessário que tenhamos um comportamento de abertura e de partilha, para que possamos compreender e dialogar com o diferente e não apenas conviver com ele. Construção da interculturalidade. Fonte: Freepik (2023). Para muitos professores, avaliar o desenvolvimento da aprendizagem tem significado muitas coisas. Entre as diferentes feições que a avaliação pode apresentar, serão vistos dois grandes blocos. Avaliações que Priorizam a Quantidade De um lado, estão os procedimentos de avaliação que priorizam a quantidade do que se aprende, e não a qualidade, que estabelecem como foco da avaliação o aluno e elegem o professor como o único capaz de avaliar. A preocupação nesse tipo de avaliação tem sido voltada para a “medição” e 3.1.2 A Avaliação como Prática Intercultural: Análise de Atividades Avaliativas 88Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública De acordo com uma abordagem de ensino culturalmente sensível e dentro de uma educação linguística intercultural, a avaliação não deve ser algo que acontece à parte do que alunos e professores fazem em sala de aula. Pelo contrário, assim como avaliar é uma ação natural que realizamos a todo o momento em nossas vidas, assim deve ser quando ensinamos e aprendemos línguas. Avaliações focadas no processo de ensinar e aprender O outro bloco ou conjunto de procedimentos de avaliação representaria as iniciativas que visam empreender mudanças no processo de avaliação como um todo e, consequentemente, no desenvolvimento do processo de ensinar e aprender línguas. Aqui a preocupação não é a quantidade, e sim a qualidade do que se aprende. constatação do conteúdo que foi dado em sala de aula, e se esse conteúdo foi aprendido em quantidade suficientepara que o aluno seja aprovado ou alçado para outro nível de proficiência na língua. A questão é: que tipo de proficiência o aluno adquiriu? Ou, melhor, que qualidade de proficiência ele alcançou? Nesse tipo de avaliação, essas questões importam menos. Felizmente, as discussões relativas à avaliação de aprendizagem no ensino/ aprendizagem de línguas têm focalizado a necessidade de se empreender mudanças, não só nos modos e procedimentos de avaliação, mas também na postura de professores e alunos e das instituições diante desse processo. O questionamento, então, diz respeito ao tipo de conhecimento que desejamos que os nossos alunos construam, ou seja,w o que desejamos que eles aprendam? A questão é: qual a importância do meu aluno comprovar o domínio de todos os conteúdos e aspectos gramaticais da língua, fornecidos em sala de aula, se ele não sabe contextualizá-los socioculturalmente, transformá-los em ação que o permita interagir através da língua? O que importa na avaliação não é a meta final que devemos alcançar, mas o desenvolvimento da aprendizagem em todas as suas etapas, o qual inclui também a reflexão sobre as atuações dos sujeitos envolvidos e os acontecimentos em sala de aula, com o objetivo de promover mudanças. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 89 Para sistematizar o que está sendo discutido, veja o que significa avaliar em uma perspectiva intercultural. 1. Avaliar é Estar Atentos ao que Fazemos Avaliar é estarmos atentos para o que fazemos e como fazemos quando aprendemos, e para o que devemos fazer para que possamos avançar. Esse avanço não é solitário, a responsabilidade pelo progresso é de todos. Nessa perspectiva deixamos de ser apenas espectadores, passamos a agir como protagonistas na construção de nossos saberes (MENDES, 2022). Para sistematizar o que está sendo discutido, veja o que significa avaliar em uma perspectiva intercultural. 2. Significados de Avaliar numa Perspectiva Intercultural A avalição como prática intercultural desenvolve-se na vivência com o outro, na experiência de construir repertórios na língua para agir no mundo. Avaliar é partilhar e colaborar, porque sou sensível àqueles(as) com quem eu divido a experiência de aprender. Avaliar é estar atento ao que fazemos. Fonte: Freepik (2023). Vivência com o outro para construir repertórios e agir no mundo. Fonte: Freepik (2023). 90Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 3. Dinâmica da Avaliação Geradora Veja que é possível visualizar a dinâmica da avaliação geradora na perspectiva da educação linguística intercultural: Dinâmica da avaliação geradora. Fonte: Elaborada pela autora (2023). A avaliação, em toda a sua amplitude e importância, deve ser uma ferramenta, uma estratégia complementar do processo de aprendizagem como um todo, de modo que contribua para o enriquecimento das experiências desenvolvidas em sala de aula e, consequentemente, para o avanço da aprendizagem. Pensando também nos aspectos que estão além da sala de aula, destaca-se a importância de que sejam incluídas, nas práticas de formação de professores de línguas, em estágio inicial ou em serviço, a reflexão sobre a avaliação. Isso não se refere apenas à avaliação de proficiência, mas de todo o sistema envolvido no processo mais amplo de ensinar e aprender línguas, incluindo-se aí as instituições que o abrigam. O professor que não reflete sobre a importância da avaliação em sua prática cotidiana, ainda que seja bem-intencionado, correrá o risco de ver os seus esforços de mudança esbarrarem em dificuldades, visto que avaliar, como aqui destacamos, é mais do que uma etapa final do processo de ensinar e aprender, mas uma ação Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 91 aliada, capaz de contribuir para que a sala de aula de línguas seja mais democrática e inclusiva, ambiente no qual o conhecimento seja construção de todos. A avaliação, sendo responsabilidade de todos(as) e estando voltada para a qualidade e não a quantidade, para o avanço e não o retrocesso, para o respeito e a colaboração e não a discriminação, pode ser capaz de seduzir professores(as) e alunos(as) no sentido de fazer do ato de avaliar algo mais prazeroso, através do qual todos(as) trabalham juntos(as) para empreender as mudanças e para construir novos conhecimentos na/com a língua-cultura alvo. A avaliação como prática intercultural é um modo de mediação das experiências de ensinar e aprender língua, atuando para promover a equidade, a empatia e a justiça social, dentro e fora da sala de aula. Para começarmos o estudo sobre os materiais e recursos didáticos, cabe inicialmente a pergunta: o que são materiais? Materiais podem ser compreendidos como um conjunto de recursos, físicos e/ou digitais, organizados como fonte, como mediadores nas práticas situadas de ensinar e aprender línguas, com base em princípios teóricos e metodológicos comuns. 3.2 A Interculturalidade na Prática: Materiais e Recursos Didáticos O livro didático é apenas um modo de organização dos materiais, que desejavelmente devem ser flexíveis, abertos e manter um baixo grau de previsibilidade quanto às experiências que promovem na aprendizagem da língua em uso (MENDES, 2012, 2018, 2019). 92Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O livro didático. Fonte: Freepik (2023). Em uma educação linguística intercultural, as experiências de ensinar e aprender uma nova língua-cultura devem ser significativas, desenvolvidas dentro de contextos e voltadas para a interação entre os sujeitos participantes do processo de aprendizagem. A partir desse princípio, é necessário que os materiais sofram uma mudança de enfoque. O teórico indiano Prabhu (1988) adota a denominação de source materials (materiais fonte) para descrever os materiais e recursos que são altamente flexíveis, abertos e que possibilitam variadas formas de planejamento de lições, atividades e tarefas, promovendo insumos variados, em diferentes níveis de dificuldades e em diferentes quantidades, deixando o professor livre para aproveitá-los de acordo com as necessidades e oportunidades concretas vivenciadas em sala de aula. Para este estudo será adotada essa nomenclatura. Veja, a seguir, algumas características do material fonte: De Baixa a média previsibilidade: o material é o ponto de partida para as experiências de uso da língua. Múltiplo: possibilita ser expandido, ampliado, reconstruído. Desafiador: desafiador para professores(as) e alunos(as), pois permite interações centradas em experiências reais de uso da língua. Crítico e Intercultural: deve ser potencialmente crítico e intercultural. Experiencial: promove experiências de interação e de construção de conhecimento. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 93 No contexto de ensino-aprendizagem de línguas, especialmente em ambientes complexos e diversos, as exigências do público aprendiz estão cada vez maiores e mais diversificadas e os materiais didáticos que temos disponíveis no mercado não dão conta dessa diversidade, sobretudo quando consideramos situações de aprendizagem marcadas pela grande complexidade do seu público, como são as fronteiras. Independentemente das dificuldades que enfrentamos para a produção e a publicação de novos materiais, precisamos criar alternativas, diversificar, ampliar as possibilidades de escolha do professor que, entre tantas tarefas, também é produtor de materiais e recursos, ao longo de sua prática cotidiana (MENDES, 2012). Em resumo, os materiais didáticos produzidos sob essa orientação devem permitir, quanto à sua estrutura e conteúdo: O planejamento e a elaboração de um material que funciona como fonte, como ponto de partida e não de chegada, devem ser orientados por uma abordagem crítica e culturalmente sensível, de acordo com as características de uma educação linguística intercultural. 1 Funcionar como suporte, apoio e fonte de recursosque criem oportunidades de interação entre alunos, professores e materiais, possibilitando a realização de experiências de uso da língua-cultura e, consequentemente, maiores chances de desenvolvimento e avanço da aprendizagem; 2 Ser ajustado, modificado e adaptado de acordo com os desejos, interesses e necessidades dos alunos e com as percepções do professor do que acontece em sala de aula; 3 Ter um baixo grau de previsibilidade, quanto ao que deve ser ensinado, como deve ser ensinado e em que quantidade, permitindo aos alunos e professores decidirem os caminhos a seguir na construção do conhecimento em sala de aula; 4 Flexibilizar a ordenação e sequência dos conteúdos, unidades, atividades e tarefas de acordo com as necessidades e avanços dos aprendizes e/ou percepções do professor; propor as atividades e tarefas como pontos de partida, pontapé inicial, gatilho para que se construam novas experiências de uso da língua-cultura em sala de aula, e não objetivo final ou etapa a ser cumprida dentro do planejamento da aula; Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 94 Além disso, quanto aos princípios teórico-metodológicos, os materiais e recursos didáticos em uma perspectiva intercultural são orientados por uma concepção de língua como prática social, que é indissociável da cultura. Veja a seguir. Que bom que você chegou até aqui! Agora é hora de você testar seus conhecimentos. Então, acesse o exercício avaliativo que está disponível no ambiente virtual. Bons estudos! 5 Organizar as suas atividades e tarefas dentro de ambientes propícios, para o uso da língua-cultura, os quais são compostos por áreas de uso culturais/ interculturais que permitam o diálogo e troca de experiências das línguas- culturas em interação; 6 Deslocar o foco nas formas estruturais da língua para um segundo plano, ou seja, devem deixar de ter um papel de destaque para emergir em decorrência das situações de uso da língua-cultura, das necessidades e interesses dos alunos e das dificuldades e/ou necessidades observadas pelo professor no desenvolvimento do processo de aprendizagem (MENDES, 2012). Materiais e recursos didáticos em uma perspectiva intercultural. Fonte: Elaborada pela autora (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 95 BHABHA, Homi K. O local da cultura. 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Acesso em: 7 mar. 2023. https://espanholdobrasil.wordpress.com/2015/08/01/discurso-de-fabian-severo-pronunciado-en-la-mesa-de-apertura-del-16o-congresso-brasileiro-de-professores-de-espanhol/ https://espanholdobrasil.wordpress.com/2015/08/01/discurso-de-fabian-severo-pronunciado-en-la-mesa-de-apertura-del-16o-congresso-brasileiro-de-professores-de-espanhol/ https://espanholdobrasil.wordpress.com/2015/08/01/discurso-de-fabian-severo-pronunciado-en-la-mesa-de-apertura-del-16o-congresso-brasileiro-de-professores-de-espanhol/ 98Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Módulo Fenômenos Linguísticos das Fronteiras Hispano-Brasileiras3 As zonas de fronteiraentre o Brasil e os demais países da América do Sul apresentam- se com diferentes configurações geográficas, culturais, econômicas, sociais e também linguísticas. No chamado arco sul da divisão das grandes regiões das fronteiras brasileiras, como se vê no mapa a seguir, está localizada uma quantidade de cidades de ambos lados das fronteiras, identificadas como cidades gêmeas. Neste módulo você vai conhecer, reconhecer e identificar os fenômenos linguísticos das fronteiras hispano-brasileiras. Aqui a proposta é que você saiba mais sobre as práticas linguísticas dos falantes que vivem nas zonas de fronteira do Brasil com os demais países latino-americanos. Você contará com um conjunto de registros da ocorrência dos fenômenos linguísticos na forma de paisagens linguísticas, presentes em diferentes lugares dessas fronteiras, localizadas no Arco Sul do Brasil, com os demais países sul-americanos. Bons estudos! Unidade 1: A Constituição do Espaço Multilíngue nas Fronteiras Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer os fenômenos linguísticos da fronteira do Português/Espanhol na América do Sul. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 99 Mapa das cidades gêmeas. Fonte: Grupo Retis (2011). A existência das cidades gêmeas é determinante para a fluidez do contato entre os moradores fronteiriços, pois facilita a intensidade das trocas cotidianas que caracterizam a vida social na fronteira. Nessas condições, como dito, a fronteira é um espaço de muita diversidade, porque há também nelas a presença de uma variedade de línguas além do português e do espanhol, reconhecidas com as duas principais línguas nacionais na América do Sul. A intensidade dos contatos e a dinâmica econômica e social de cada fronteira favorecem uma maior comunicação entre os fronteiriços, que buscam estratégias de aproximação e interação com os vizinhos. A necessidade de se comunicar, negociar, comercializar, trocar, vender e comprar, estudar, visitar amigos e parentes, por exemplo, leva-os a encontrar meios para interagirem do modo mais eficiente possível nas suas conversações. As práticas sociais típicas da realidade cotidiana das fronteiras possibilitam que os falantes busquem apoiar sua comunicação e interlocução na utilização de estratégias baseadas em práticas linguísticas que deem conta de resolver as suas interações linguísticas com o vizinho do outro lado do rio ou da avenida. Deste modo, os falantes optam por estratégias que resolvam suas necessidades imediatas. Misturar 100Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública as línguas pode ser uma delas, assim como falar alternadamente cada uma das línguas dominantes, com a mesma habilidade (bilinguismo) ou com domínio parcial de uma das línguas. Todas essas são estratégias usadas pelos fronteiriços quando se trata de interagir com o outro, que fala uma língua diferente da sua. A pergunta que pode ser feita a partir da ideia de que nas fronteiras hispano-brasileiras temos de um lado o português e de outro o espanhol é se de fato temos situações de bilinguismo nas zonas de fronteiras. A probabilidade do bilinguismo resulta da história de como as línguas se fizeram presentes nas comunidades fronteiriças, do quanto os falantes têm uma proficiência e qual seu grau, bem como saber se as línguas, no caso o português e o espanhol, têm a mesma representatividade para vida social dos falantes. É importante destacar que cada zona de fronteira tem sua característica geopolítica. A sua dinâmica social está determinada por um conjunto de práticas sociais locais, uma história de ocupação e de como se constitui o seu povoamento, as etnias que contribuíram para conformação de cada sociedade fronteiriça e como se desenvolve a economia da fronteira, fator que movimenta as trocas de moedas, de mercadorias, de serviços, entre outros. As fronteiras linguísticas entre o português e o espanhol na América do Sul não seguem sempre as linhas demarcatórias das fronteiras que definem os limites geopolíticos entre os países. As populações se deslocam, cruzam para o território vizinho, organizam seus núcleos familiares e mantêm suas línguas familiares/maternas. Nesta unidade, você vai conhecer mais das situações linguísticas nos contextos de fronteira, destacando aquelas sobre as quais já há um conjunto de estudos e Assim, as estratégias de comunicação funcionam como recursos linguísticos que são experimentados pelos falantes que vivem entre línguas diferentes, pois estão em contato cotidiano com uma língua além da sua. Essa é uma realidade nas fronteiras hispano-brasileiras, sobretudo nas cidades gêmeas. Estratégias de comunicação nas fronteiras. Fonte: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 101 pesquisas que discutem não só o bilinguismo, mas também o multilinguismo no contexto de fronteira. Juntando esses dois fatores, percebe-se que o tópico de discussão, a relação de intimidade entre interlocutores, o nível de formalidade do ambiente, as condições psicológicas e físicas dos indivíduos, por exemplo, são fatores que afetam não somente o grau de proficiência que os indivíduos irão adquirir em cada um dos domínios de habilidade (fala, escrita, etc) nas duas ou mais línguas, como também determinam em que medida os indivíduos irão alternar entre um e O conceito de bilinguismo está relacionado aos enfoques dados pelas diferentes dimensões sobre as quais ele é abordado: social, cognitiva e linguística. De acordo com Zimmer, Finger & Scherer (2008) as primeiras classificações foram apresentas por Roberts, em 1939, que o classificou como sendo de dois tipos: bilinguismo subordinado e bilinguismo coordenado. Posteriormente, nos anos 50 do século XX, Weinrich (1953) acrescentou um terceiro, estabelecendo três categorias de bilinguismo, tomando como base a relação entre léxico e sistemas conceituais nas duas línguas: As abordagens contemporâneas consideram os propósitos que levam um bilingue a usar uma ou outra língua. Outro aspecto é que o sistema linguístico do bilíngue se apresenta muito mais complexo, além de que o uso da linguagem por um bilíngue está fortemente relacionado a um contexto específico e ao nível de proficiência na segunda língua (BUTLER; HAKUTA, 2006 apud ZIMMER; FINGER; SCHERER, 2008). As autoras acrescentam: 1.1 Situações do Bilinguismo: Português/Espanhol 1 o bilinguismo coordenado, em que duas palavras (uma de cada língua falada pelo bilíngue) representariam conceitos separados; 2 o bilinguismo composto, em que duas palavras (uma de cada língua falada pelo bilíngue) representariam um único conceito combinado; 3 o bilinguismo subordinado, em que uma palavra da L2 seria acessada por intermédio da sua tradução na L1 (ZIMMER; FINGER; SCHERER, 2008, p. 3). 102Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública outro sistema e se serão capazes de usá-los de forma separada (ZIMMER; FINGER; SCHERER, 2008, p. 4). O que estudos sobre bilinguismo concluem é que já não se pode esperar que os sujeitos sejam bilíngues perfeitos, pois há muitos fatores atualmente que são considerados no uso de duas línguas para definir se um sujeito é de fato bilíngue. A ideia de bilíngue perfeito olha para a questão do bilinguismo de modo unidimensional, sem considerar outros aspectos, como o psicológico, o cognitivo, o social, o contextual e o cultural. Megale (2005), apoiada em Harmers e Blanc (2000), afirma que o bilinguismo é multidimensional, ou seja, os fatores que classificam uma situação de bilinguismo são múltiplos: “competência relativa; organização cognitiva; idade de aquisição; presença ou não de indivíduos falantes da L2 no ambiente em questão; status das duas línguas envolvidas e identidade cultural” (MEGALE, 2005, p. 3). A autora reproduz o quadro de classificação proposto por Harmers, que nos apresenta um panorama das múltiplas dimensões que definem os tipos de bilinguismo.Veja o quadro reproduzido por Megale (2005, p. 6-7): Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 103 Tipos de bilinguismo Fonte: Megale (2005). Português no norte do Uruguai. Fonte: Rona (1965). No caso específico das fronteiras hispano-brasileiras, faz-se necessário ponderar sobre o tipo de bilinguismo português-espanhol. Em primeiro lugar, sobre as cidades fronteiriças, há poucos mapeamentos sociolinguísticos e os existentes não são estudos em grande escala, ou seja, que sirvam para demonstrar de modo definitivo se existem zonas com um bilinguismo extenso, tampouco existem zonas bilíngues oficialmente reconhecidas. Exemplo disso é que não existe em funcionamento um sistema público de educação bilíngue nas fronteiras hispano- brasileiras, resultado, justamente, do não reconhecimento, sobretudo, do status das línguas e das identidades culturais que coexistem no contexto dessas fronteiras. Ainda, nesse caso, o bilinguismo depende também da forma como as famílias ou núcleos familiares estão compostos: um pai e/ou mãe brasileiros e um pai e/ou mãe argentina, paraguaia, boliviana, uruguaia etc. Para ilustrar, veja o seguinte mapa que descreve a presença de brasileiros na zona norte do Uruguai, fronteira com extremo sul do Brasil, onde predomina o português como a língua materna da população local. 104Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O mapa elaborado por José Pedro Rona em meados dos anos 50 do século XX (RONA, 1965), descreve a extensão da língua portuguesa no norte do Uruguai, região que foi povoada por brasileiros já no século XVIII. Observe que a presença do português em território uruguaio ocorre ao longo da fronteira com todo o extremo sul do Brasil. A manutenção de uma variedade do português como língua materna dos brasileiros e seus descendentes possibilitou que a língua portuguesa se mantivesse como a língua falada no âmbito das famílias e nas pequenas comunidades rurais. Criou-se, nessas condições de funcionamento de duas línguas com funções diferentes, um sistema diglóssico: o espanhol, uma língua de prestígio, o chamado idioma nacional no Uruguai, e uma variedade do português brasileiro com uso restrito aos âmbitos familiares e grupos sociais que compartilham da mesma língua materna, o português brasileiro. Em contato com o espanhol, a língua portuguesa foi se constituindo em uma variedade do Português do Uruguai (PU), com bastantes empréstimos do espanhol. Atualmente, cada vez mais, se nomeia também de Portunhol. Assim é prática linguística de grande parte da população da região norte do Uruguai. Para compreender melhor como os falantes fronteiriços usam as línguas e o que elas representam na construção das suas identidades, vamos assistir a um documentário realizado na fronteira Brasil-Uruguai. Agora, veja uma videoaula e reflita sobre o que você viu no documentário: Para ilustrar, em uma escola da comunidade rural de Cerro Pelado, no interior da cidade de Rivera, zona com predomínio de descendentes de brasileiros, as crianças usam nos ambientes internos da escola o espanhol, já para se comunicarem com os colegas no pátio da escola, utilizam o chamado Português do Uruguai, uma variedade do português brasileiro com uma significativa interferência do espanhol. As crianças se comunicam entre seus pares, meninos e meninas que vivem na mesma comunidade e, de modo geral, têm essa variedade de português como língua materna. É a língua dos seus pais, avós, vizinhos e amigos. Para saber mais assista o documentário “A linha imaginária”. https://www.youtube.com/watch?v=yLkSZhO4i5w Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 105 A situação linguística da fronteira Brasil – Uruguai é propícia ao bilinguismo, embora a variedade do português seja pouco prestigiada, porque não é a variedade padrão, as duas línguas, português e espanhol, têm usos muito determinados pelos status de cada uma e pelas necessidades de uso segundo as práticas sociais onde uma ou outra é mais requerida ou eficiente na comunicação diária. Outro aspecto a ser destacado é que o português é ensinado como segunda língua desde anos iniciais nas escolas públicas da região norte do país. O português é reconhecido como uma língua da região, portanto sua oferta é obrigatória nas escolas primárias até 6º ano. As aulas de português são relacionadas aos temas das disciplinas escolares, ou seja, não se ensina sobre a língua, mas ela está presente no ensino de conteúdos que são previamente combinados com a professora de espanhol. A partir do 6º ano, os alunos podem seguir estudando o português ou outra língua no Centros de Línguas, de modo gratuito. O ensino de português nas escolas do norte uruguaio contribuiu para introduzir a variedade padrão do português, frente à variedade de uso que é o português do Uruguai (PU), variedade reconhecida nos documentos que orientam o sistema educacional uruguaio. Na vida cotidiana, observa-se o uso do espanhol, do português padrão e do português do Uruguai. Os usos dependem do contexto, do propósito e da situação: o espanhol como língua majoritária, nacional e dominante, usado em situações formais e informais; o português padrão, língua da escolarização, de uso em situações formais; e o português do Uruguai, língua materna ou segunda, minoritária, usada em situações informais e ambientes familiares. Veja dois exemplos do uso das duas línguas: Placa de padaria em Rivera/Uruguai Foto: Eliana Sturza. Videoaula: A Situação Linguística da Fronteira Brasil-Uruguai https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo03_video13/index.html 106Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Placa de padaria em Rivera/Uruguai Foto: Eliana Sturza. Observe que a figura acima, é uma padaria localizada no lado uruguaio e há um cartaz fixado ao lado do caixa com um aviso em português, informando que só podem usar o banheiro do estabelecimento aqueles que estão comprando ou consumindo lanches no local. Evidentemente, o cartaz está dirigido aos clientes brasileiros. A imagem acima é um anúncio de um salão de beleza localizado na Avenida Sarandi, a avenida principal da cidade de Rivera, que se utiliza das duas línguas para informar os serviços oferecidos pelo salão. As imagens mostram como as duas línguas funcionam com a mesma importância. Nesse local há brasileiros e uruguaios comprando, vendendo, consumindo, negociando e realizando várias outras atividades. Nos exemplos, é possível ver a relevância do contexto de uso das duas línguas e a importância dos espaços urbanos onde há maior movimento do comércio, dos negócios, da compra e venda de mercadoria. Os vendedores das lojas, por exemplo, se comunicam nas duas línguas e, muitas vezes, se utilizam também de uma mistura de línguas, o que popularmente chamam de “Portunhol”. Agora, veja também como o mesmo ocorre no Brasil, o que mostra a condição para bilinguismo social, nas duas imagens abaixo: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 107 Aviso bilíngue na cidade de Rosário (Sul do Brasil). Foto: Eliana Sturza. Aviso bilíngue na cidade de Quaraí (Sul do Brasil). Foto: Eliana Sturza. A figura traz um aviso bilíngue de identificação do banheiro em um restaurante localizado na cidade de Rosário do Sul, local frequentado por turistas uruguaios e argentinos, caminho de passagem para o litoral brasileiro. A cidade está situada dentro da faixa de fronteira do Brasil, definida assim por estar dentro de um território de até 150km para dentro do Brasil. A figura mostra um aviso em espanhol em um restaurante localizado na cidade brasileira de Quaraí, fronteira com Artigas, no Uruguai. O aviso do restaurante é porque o sistema é de serviço por quilo, o que não existe no Uruguai, e está escrito em espanhol porque a orientação do aviso está dirigida ao cliente uruguaio. Embora não se tenha uma descrição ampla e detalhada do funcionamento de 108Enap Fundação EscolaNacional de Administração Pública bilinguismo na população local que dê conta de todas as situações comunicativas, observa-se que, do ponto de vista do status, existe um bilinguismo social, embora seja mais evidente nos fronteiriços uruguaios. As figuras, mais uma vez, mostram como os fronteiriços criam estratégias comunicativas de acordo com as necessidades impostas pela vida cotidiana. Para entender o bilinguismo social, é preciso definir os dois tipos definidos por Appel & Muskyen (1996). Bilinguismo aditivo Nele o falante acrescenta uma segunda língua ao seu repertório, favorecido pelo fato de que há outra língua a sua disposição. Ambas, a primeira e a segunda língua, têm o mesmo prestígio. Seria o caso das famílias nas quais pais e filhos aprendem as duas línguas e as usam em todas as suas habilidades. Bilinguismo subtrativo Se caracteriza em razão de que uma das línguas não tem o mesmo prestígio que a outra. Este seria caso do português dos brasileiros que vivem na fronteira argentina, em lugares nos quais o português falado pelos migrantes não é um português padrão, ao que eles chamam de “brasilero”, assim como muitos descendentes de brasileiros, que ainda vivem no norte uruguaio, usam uma variedade de português brasileiro da região sul do Brasil. As diferentes maneiras como as fronteiras se formaram, os tipos de travessias, o controle da entrada e saída de pessoas, os acordos locais entre as cidades gêmeas, tornam a fronteira um lugar poroso, de idas e vindas, contribuindo para que ela seja um espaço de encontros. Desta maneira, as línguas também transitam, tornando a fronteira um espaço multilíngue. A mobilidade de pessoas de diferentes lugares e o trânsito frequente são características das cidades fronteiriças, formando-se um espaço muito diverso, onde se produzem muitas interações, contatos sociais, culturais, comerciais e linguísticos. Em relação às línguas, destacamos o que afirma Oliveira (2016): 1.2 Espaço Multilíngue: Outras Línguas nas Fronteiras da América do Sul Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 109 Ser da fronteira, portanto, é pertencer a uma comunidade de prática: em muitos casos aquela que usa, em maior ou menor grau, diferentes línguas em contextos adequados, alternando-as, ou conversando em mais de uma língua concomitantemente, mesmo que às vezes apenas passivamente, e mesmo que às vezes a contragosto. É pertencer, portanto, a mais de uma comunidade linguística, o que coloca vários problemas para as identidades pessoais construídas sob a orientação de Estados monolíngues. (p. 66) Os deslocamentos e migrações, no passado e no presente, contribuem fortemente para ampliar a presença de outras línguas nas zonas de fronteira. São brasileiros que cruzam para países vizinhos em busca de trabalho e oportunidades, são bolivianos que se deslocam para trabalhar em São Paulo, são os venezuelanos em busca de refúgio, são os haitianos de passagem na procura por acolhimento. E, acrescentamos a estes, as populações de indígenas de diferentes etnias, sobretudo, ao longo da fronteira do arco central e do arco norte. Assim é que a fronteira se constitui em um grande território multilíngue. Para ilustrar, o mapa a seguir descreve a presença do português ao longo das zonas de fronteira em territórios dos países vizinhos. Português além das fronteiras. Fonte: Lipski (2017). 110Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O mapa apresenta a distribuição do português dentro de territórios dos países vizinhos ao Brasil. Observe a fronteira oeste do Brasil com o nordeste da Argentina, na divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul com a Província de Misiones. Nesta região existem comunidades de brasileiros que atravessaram o Rio Uruguai para a exploração das terras argentinas para agricultura. A leva de famílias formaram a base de povoados como “El Soberbio”, onde se fala português majoritariamente, além do espanhol, do alemão e do guarani mybiá. O depoimento de um morador de uma colônia na região de San Javier, fronteira com a cidade brasileira de Porto Xavier, descreve como se constituiu o repertório linguístico dos habitantes dessa região: “Nosotro aprendimo alemán por los padres, porque ellos son antes, vinieron de Europa y ahí… y allá aprendimo el brasilero, el portugués, y hablo el castellano, todo medio mezclado, porque estamo acá en la frontera. (Ralf Kramer, 71, Piñalito” (CERNO, 2019). Para compreender melhor, veja a tradução desta fala: "Nós aprendemos alemão pelos padres, porque eles vieram antes, vieram da Europa e aí... e depois aprendemos o brasileiro, o português, e falo o castelhano, tudo meio misturado, porque estamos aqui na fronteira." Em relação à dinâmica da vida nas comunidades localizadas do outro lado da fronteira, na província de Misiones, segundo Daviña (2003, p. 6): Tales movimientos están sostenidos en entramados culturales de negociaciones in vivo y de sostenimiento intergeneracional (también de segregaciones y negaciones), que dan forma a una dialogía vital que sustenta su valor como lenguas identitarias y de sentido de pertenencia grupal –no sin tensiones y contradicciones con las demandas e interpelaciones ideológicas de lealtad lingüística oficial. En los mercados, las charlas vecinales y radiales, en las ruedas de mate, la posibilidad de ‘mudar lenguas’, de traspasar de una a otra según edades o temas, operan entre turnos conversacionales o acontecen en distintos tramos de un mismo enunciado; los protagonistas – hablantes nativos de español (o portugués o guaraní) – se disponen también a sostener la mutua intercomprensión en un diálogo a dos lenguas, sin abandonar los mutuos territorios propios/apropiados. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 111 Para compreender melhor, veja a tradução desta citação: "Tais movimentos estão sustentados nos entrosamentos culturais de negociações ao vivo e de sustentação intergeracional (também de segregações e negações), que dão forma a um diálogo vital que sustenta seu valor como línguas identitárias e de sentido de pertença em um grupo - não sem tensões e contradições com as demandas e interpelações ideológicas de lealdade linguística oficial. Nos mercados, nas conversas com vizinhos e no bairro, nas rodas de mate, a possibilidade de 'mudar línguas', de passar de uma a outra de acordo com idades ou temas, operam entre turnos de conversas ou acontecem em diferentes partes de um mesmo enunciado; os protagonistas - falantes nativos de espanhol (ou português, ou guarani) - se dispõem também a sustentar a mútua compreensão em um diálogo de duas línguas, sem abandonar os mútuos territórios próprios/apropriados." Também na fronteira do Brasil com o Paraguai, um grande contingente de brasileiros e seus descendentes ocuparam terras paraguaias para exploração com lavouras de soja e arroz, a tal ponto que o domínio de brasileiros e seus descendentes na região fez com que eles passassem a ser identificados como brasiguaios. Nessa região, a língua portuguesa circula em âmbitos comunitários e familiares e ainda divide seu espaço com o espanhol e o guarani. Nas fronteiras de grande fluxo comercial há também a presença de árabes, libaneses, palestinos e chineses que mantêm o uso das suas línguas. Este é o caso de Ciudad del Leste e de Foz do Iguaçu. A primeira por ser um polo de comércio de free shops e a segunda pelo turismo. Além disso, ambas formam a tríplice fronteira com a cidade argentina de Puerto Iguazú, cidade fronteiriça que atrai muitos brasileiros e tem um comércio e turismo dirigido tanto ao público falante de espanhol como o de falantes de português. Clique aqui e você poderá conhecer mais da fronteira argentino-brasileira e seu multilinguismo no documentário “Mixtura de vidas”. Para esclarecer sobre o multilinguismo e plurilinguismo, Oliveira (2016) aponta que: Se as fronteiras, como outros espaços, são multilíngues, isso não querdizer necessariamente que sejam plurilíngues. Temos feito a distinção entre o termo que aponta para a presença de várias línguas numa https://www.youtube.com/watch?v=IcAxdQ6m760 112Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública localidade ou sociedade – o multilinguismo, um termo descritivo, portanto. Plurilinguismo, em contraste, seria o termo que aponta para uma valorização positiva deste multilinguismo, a sua utilização como efetivo recurso para a vida das pessoas envolvidas nas práticas comunicativas em questão, para as instituições e para o país: somente neste caso falamos de plurilinguismo. Assim, as nossas fronteiras são espaços multilíngues, mas dada a geopolítica dos Estados e muito especialmente do Estado brasileiro, recém começam a ser espaços plurilíngues” (OLIVEIRA¨, 2016, p.71). Fasold (1996), quando aborda sobre a origem histórica do plurilinguismo, inclui as zonas de fronteira, reforça a ideia de que as fronteiras geopolíticas não coincidem com as fronteiras linguísticas, destacando a função das fronteiras geopolíticas para os estados nacionais. Cruzar de um lado a outro das fronteiras define a composição sociocultural da fronteira. Em síntese, o plurilinguismo é uma condição dos falantes que apresentam habilidades linguísticas em mais de duas línguas, o repertório linguístico desses falantes é plural. Já o multilinguismo é como o espaço se caracteriza pela presença de várias línguas às quais os falantes estão expostos. O Projeto Observatório da Educação na Fronteira (OBEDEF) realizado pelo Instituto de Desenvolvimento em Políticas Linguísticas (IPOL) mapeou as línguas em circulação em três fronteiras (Roraima, Acre e Mato Grosso do Sul). O mapeamento sociolinguístico identificou as línguas faladas nas fronteiras dessas regiões, mostrando-nos um conjunto de línguas indígenas brasileiras e outras dos países vizinhos, línguas nacionais, e os diferentes nomes atribuídos a elas pelos falantes, e práticas linguísticas como o Portunhol. Os resultados do mapeamento mostram um conjunto de línguas que nos revela o quanto a fronteira é um espaço multilíngue. Para saber mais sobre o Projeto Observatório da Educação na Fronteira, clique aqui. http://obedf2010.blogspot.com/p/o-observatorio.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 113 Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! 114Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública APPEL, René; MUYSKEN, Pieter. Bilinguismo y Contacto de Lenguas. Ariel editorial: Barcelona – Espanha, 1996. CAMBLONG, Ana. Habitar la frontera, un viaje perpetuo a lo paradójico. 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Os contextos e as dinâmicas características dessas fronteiras, o contato interpessoal e as interações cotidianas e frequentes contribuem para o contato entre os falantes do português e do espanhol, assim como para a exposição dos fronteiriços a um conjunto de outras línguas que circulam nas fronteiras. Unidade 2: Estratégias Comunicativas no Contexto Multilíngue Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer o espaço multilíngue dos territórios fronteiriços, por meio de exemplos presentes no repertório linguístico dos falantes. Línguas que circulam nas fronteiras Foto: Freepik (2023). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 117 As duas figuras que você vê a seguir são capas de dois dicionários elaborados por alunos de 6º ano de duas escolasbrasileiras da cidade de Itaqui, fronteira com a cidade de Alvear, na Argentina. Eles são produtos de um trabalho realizado conjuntamente entre as escolas, a coordenação do Programa das Escolas Interculturais de Fronteira (PEIF) e o grupo PET Letras da Universidade Federal de Santa Maria. A seleção de palavras para compor os dicionários foi feita pelos alunos, bem como as fotos e desenhos que ilustraram os dois volumes. A experiência possibilitou o registro, com definição e exemplos, de uma quantidade de palavras do espanhol já incorporados ao Português Gaúcho da Fronteira (PGF). Ou seja, na variedade do português usada pelos falantes brasileiros que vivem nesta fronteira, encontramos léxicos que são empréstimos do espanhol e já fazem parte do vocabulário dos fronteiriços. Palavras como: remolacha, a la pucha, entrevero, avil, churipán, paisano, macanudo, hermano, entre outras. Se tiver curiosidade, veja os significados dessas palavras em português no glossário ao final desta unidade. Para ilustrar situações nas quais identificamos os fenômenos linguísticos existentes nas fronteiras hispano-brasileiras, estamos utilizando imagens registradas em diferentes fronteiras do nosso contexto em foco. O que estamos trazendo são exemplos de paisagens linguísticas. Línguas de fronteira. Fonte: Dicionário Compartilhado de Língua de Fronteira (2014). Mas você pode estar se perguntando: O que são paisagens linguísticas? 118Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública As paisagens linguísticas estão dispostas nos espaços públicos. Permitem-nos identificar como as línguas estão presentes em anúncios, placas, avisos, sinalizações, entre outras formas de inscrevê-las na paisagem. Ao observar, é possível notar como essas paisagens visibilizam as línguas, e passamos a prestar atenção no nosso entorno linguístico. Assim veremos como ele está constituído de outras línguas além da nossa língua nacional. Para esclarecer, analise a descrição de Berger & Lecheta (2019): As paisagens linguísticas aqui apresentadas objetivam não só exemplificar os fenômenos linguísticos, mas despertar o olhar de quem tem interesse pelos temas das línguas da fronteira, do bilinguismo e, especialmente, de como nossos ambientes são espaços multilíngues. O campo da Paisagem Linguística (doravante PL) visa analisar a forma como as línguas se fazem presentes nos espaços de convívio social, sejam públicos ou privados, com vistas a depreender como se manifestam as relações de poder entre elas (ecologia das línguas) em espaços de visibilidade, bem como identificar políticas linguísticas (implícitas ou explícitas) que culminam na exposição ou marginalização de línguas (e mensagens nessas línguas) em dado território. As imagens a seguir são paisagens linguísticas presentes em cidades fronteiriças bem distantes, mas com uso de estratégias comunicativas muito similares. A primeira é na cidade de Foz do Iguaçu, é o registro de uma placa escrita em espanhol identificando um estabelecimento que vende comida árabe, “pastas árabes”. 2.1 Estratégias Comunicativas nas Práticas Sociais no Contexto Multilíngue Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 119 Cidade de Foz do Iguaçu. Foto: Eliana Sturza. Barra do Quaraí/Brasil. Foto: Eliana Sturza. A segunda é a placa, também escrita em espanhol, de um supermercado localizado na cidade de Barra do Quaraí, tríplice fronteira do Brasil, Argentina e Uruguai. A tríplice fronteira no extremo sul do Brasil é formada pelas cidades de Barra do Quarai - Brasil; Monte Caseros - Argentina e Bella Unión - Uruguai. Fenômenos linguísticos como esses ocorrem pelo contato entre comunidades linguísticas e mostram a relação com outras línguas e culturas presentes na vida fronteiriça. O contato das línguas pode produzir diferentes interferências e mesclas linguísticas, sempre usadas como estratégias na comunicação e interação cotidianas. Na sequência, você verá aqueles fenômenos linguísticos mais recorrentes e que vêm sendo descritos por pesquisadores brasileiros, uruguaios, argentinos. O uso dessas estratégias está relacionado à necessidade imediata dos falantes de 120Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Cidade de Uruguaiana/Brasil. Foto: Emanuele Coutinho. manterem uma conversação fluída, uma interlocução que avance na boa e eficiente compreensão do que se está falando. São elas: Alternância de códigos Os falantes alternam as línguas. É uma estratégia muito utilizada, e acontece quando cada falante usa a sua língua (nacional e/ou materna). A alternância não impede o grau de compreensão e entendimento entre eles. O code-switching, ou alternância do código linguístico, também é uma característica do falante bilíngue. Ele faz escolhas de acordo com a situação de fala e com o interlocutor, com objetivo de desenvolver estratégias de adequação à situação comunicativa na qual se encontra. Empréstimos Linguísticos O empréstimo linguístico pode ser de palavras, de expressão, do modo de pronunciar. O mais frequente é o uso de um léxico tomado de empréstimo, ou de uma palavra da outra língua cumprindo a função gramatical da outra. Vemos no exemplo abaixo como se toma de empréstimo do espanhol a expressão nominal “La Frontera” para destacar o nome do estabelecimento, localizado no lado brasileiro, na cidade de Uruguaiana, fronteira com a Argentina. Logo abaixo do nome, está a especificação de quais produtos são vendidos na loja, escritos em português: “Moda jovem gaúcha”. De acordo com Mozzillo (2013, p. 190) “Lançar mão de elementos de uma e outra língua durante a conversação bilíngue ativando e desativando-as é um recurso comunicativo natural e inerente à condição de usuário de mais de um idioma, sendo uma estratégia de adaptação comunicativa interessante do ponto de vista pragmático.” Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 121 Mistura de línguas A mistura de línguas é uma estratégia muito utilizada, em especial com falantes de português e espanhol. A transparência entre as duas línguas facilita a comunicação. Por outro lado, a mistura sempre é aleatória, depende do contexto de fala e do quanto se sabe da outra língua. Falar misturado é algo comum na fronteira. Segundo Mozzillo (2013, p.193) Alternância com frases feitas e vocativos É a introdução de palavras de uma língua na outra para chamar atenção, exclamar ou evocar. a) Buenas, tudo tranquilo? b) Hola, que tal? Tudo bem? c) Dios mío, o que aconteceu? Alternância intra-oracional Ocorre com a introdução de uma palavra de outra língua no meio do enunciado. Ou seja, uma palavra do espanhol no meio do enunciado em português ou vice-versa. Isso ocorre muito com o inglês, quando introduzimos um vocábulo do inglês no meio de um enunciado em português: vou fazer o check in. Veja alguns exemplos da fronteira: a) Não gosto daquela mulher, ela fala muito chisme. b) Tem de enchufar na parede. O exemplo da imagem abaixo é um aviso fixado no guichê do posto de imigração brasileiro na fronteira de Santana do Livramento e Rivera. Neste caso, é uma palavra do espanhol em um enunciado em português: um “llamado”. “O que define o grau da mistura não é apenas o conjunto de evidências gramaticais, mas as funções comunicativas e a história sociolinguística dos falantes. O grau vai depender da história da aquisição linguística de cada usuário, das pressões sociolinguísticas que influenciam sua vida e seus falares, além dos vários contextos e funções da situação de contato que levam aos sistemas mistos.” Se você tem curiosidade para saber mais sobre os tipos de alternância de códigos, veja que há pelo menos três tipos: 122Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Alternância inter-oracional Ocorre entre enunciados, alterna-se um enunciado em cada língua. O falante vai alternando enunciados como se os separasse em fragmentos, cada um deles em uma língua,embora faça isso de modo natural e intuitivo e demonstre assim que tem domínio de ambas as línguas. Por exemplo: a) Pero aquí é una frontera e tudo o mundo fala eh… saben castellano mas falam brasilero aqui. (Patricia Da Luz, 62, Itacaruaré) (CERNO, 2019, p.146) b) Cliente- Sí, ¿no tienes más chico? (um tempo depois) a ver cómo queda... c) Camila- Só tem uma coisinha no bolso só (tempo depois). ¿Cómo quedó? (GONÇALVES, 2013, p. 72) No cartaz você pode ver uma lista de produtos oferecidos pelo restaurante aos clientes brasileiros que cruzam a fronteira de Foz de Iguaçu - Puerto Iguazú para fazer compras. Os nomes dos produtos estão em espanhol, mas o destaque é para o cliente brasileiro e está em português. Ficam claras as palavras “aqui”, “agora”, “pastel na hora”, “preços especiais”, por exemplo. Cidade de Santana do Livramento/Brasil. Foto: Eliana Sturza. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 123 Bar em Puerto Iguazú/Argentina. Foto: Eliana Sturza. De acordo com Haugen (1950), citado por Appel & Muysken (1996), existem dois processos básicos no empréstimo linguístico: importação e substituição. Conheça-os a seguir: E se você tem curiosidade para saber mais sobre a mistura de línguas, continue sua leitura. A alternância de códigos, o empréstimo e a interlíngua contribuem para a compreensão e para interação. Por essa razão, “falar misturado” o português e o espanhol, popularmente, é falar “portunhol”. Vale ressaltar que as misturas podem ser variadas, dependem do contexto comunicativo e do quanto o falante sabe da outra língua. Se consideramos os modos de falar misturado, temos, também, o Yaporá, mistura do guarani com espanhol, que se usa no Paraguai. A seguir, você poderá, clicando aqui, escutar um áudio disponível no YouTube, no qual a pessoa entrevistada mistura o espanhol com o português. Importação Implica acrescentar o modelo de uma língua outra. Na fronteira Brasil – Uruguai e Brasil – Argentina o uso da expressão “que sei eu”, emprestada da expressão “qué sé yo”, do espanhol, usada para indicar falta de certeza do que se está dizendo, como um “sei lá”. Substituição Implica mudar algo de uma outra língua na língua nativa. Uso de “remolacha”, do espanhol, no lugar de “beterraba”, no português. Ou então, usar a palavra “plancha” para “ferro de passar roupa”. https://www.youtube.com/watch?v=6w4z4PJNm4M 124Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Agora, preste atenção nas seguintes imagens: Nessas imagens você pode ver que se misturam línguas de tal modo que se produz uma alteração na grafia da palavra “aceitonas”, que em espanhol seria “aceitunas” e em português “azeitonas”, para assim se produzir uma terceira palavra. Os fronteiriços usam estratégias comunicativas constantemente, pois estão em contato com pessoas que vêm e vão na travessia da fronteira, com os que chegam e se estabelecem ou interagem por causa do trabalho, da escola, dos negócios, das festas e comemorações. Puerto Iguazú/Argentina Foto: Eliana Sturza Puerto Iguazú/Argentina Foto: Eliana Sturza. Veja como os moradores sabem usar essas estratégias no relato feito por uma moradora de uma comunidade de brasileiros na província de Misiones, Argentina. Ela descreve como mistura as línguas e também como muda de língua conforme a língua da pessoa com quem ela conversa. Refere-se à mescla como “portunhol”. Este exemplo também reforça a importância das práticas linguísticas usadas nas relações interpessoais entre os fronteiriços: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 125 Cada região da fronteira do Brasil com os demais países sul-americanos tem modos diferentes de nomear o jeito misturado de falar. Ou seja, os falantes dão um nome para a língua misturada que usam nas suas relações cotidianas, do português com o espanhol ou, também, do guarani com o espanhol, no caso do Paraguai. A interlíngua como fenômeno linguístico descreve uma situação frequente ao longo do processo de aprendizagem de uma segunda língua ou língua estrangeira. Refere-se ao momento em que o aprendiz mistura as línguas na busca de alcançar a proficiência na língua alvo, aquela que ele está aprendendo. Ocorre no aprendizado de outras línguas, não é um fenômeno exclusivo do contato português – espanhol. “Hay caso en que vos estás hablando en portuñol y de repente seguís hablando en castellano. Como si nada. Y después estás hablando en castellano y empezás a hablar el portugués, esa mezcla.” (Liliana Radtke, 36, Andresito) (CERNO, 2019, p. 138) O “aprendizer” mistura as línguas. Fonte: Freepik (2023). 126Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Um bom exemplo é o dos alunos que fazem cursos de português ou espanhol. É normal que, em fases iniciais, os aprendizes misturem as línguas, em especial porque o português e o espanhol são línguas próximas e com gramáticas muito transparentes, com estruturas morfossintática e semântico-lexical com muitas semelhanças. Um brasileiro aprendendo espanhol tende a transferir palavras e estruturas do português para o espanhol porque identifica essas semelhanças inclusive como um recurso, um apoio no momento do aprendizado. Mas a interferência linguística deve ser entendida como uma fase a ser superada, pois nem sempre funciona para que o aprendiz brasileiro se comunique de modo eficiente em espanhol em situações de uso da língua que requerem uma proficiência maior. É justamente por essa razão que a interlíngua é característica do processo de aprendizagem, entendendo-a como uma fase, não como objetivo do aprendizado a ser alcançado. Selinker (1991), um dos pesquisadores que pela primeira vez definiu a interlíngua como parte de um processo de aprendizagem de uma segunda língua ou, como ele se refere, uma língua objeto (LO), afirma que há comportamentos linguísticos em que a produção de enunciados do aprendiz estaria composta por: • locuções na língua materna (LM); • locuções na interlíngua (IL); e • locuções na segunda língua ou língua objeto (LO). No caso das fronteiras hispano-brasileiras, há autores que identificam a mistura de línguas como um processo de interlíngua. São perspectivas teóricas de olhar o fenômeno linguístico e identificar o que é o resultado de uma mistura de línguas como estratégia de comunicação. No entanto, é importante destacar que, para Selinker (1991, p.83-84), a interlíngua tem a ver com as tentativas de aprender uma outra língua e seria, portanto, uma estratégia determinada pela estrutura psicológica dos aprendizes, como um recurso, um apoio no momento que se dispõe a aprender. A interlíngua, portanto, é uma estratégia comunicativa identificada e assim nomeada pelos estudiosos que se dedicam ao ensino-aprendizagem de línguas. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 127 A intercompreensão, do mesmo modo que a mistura de línguas, baseia-se na transparência entre o português e o espanhol, devido à sua mesma origem românica. Ela é usada como um recurso estratégico que facilita a interação e a comunicação entre os falantes dessas línguas. A intercompreensão, inclusive, pode ter graus diferentes, ou seja, pode ser alta ou pode ser baixa. O fato de as línguas serem aparentadas contribui muito para a compreensão do contexto, pois falar cada A intercompreensão facilita a interação e comunicação. Fonte: Freepik (2023). Cidade de Jaguarão/Brasil. Fonte: Foto: Eliana Sturza. um em sua língua também depende do ambiente, da familiaridade entre os falantes. No caso da fronteira amplia-se em razão de que o modo de viver e habitar a fronteira, as práticas sociais comuns, as atividades cotidianas, são reconhecidas por todos. A dinâmica da vida potencializa a intercompreensão nas práticas comunicativas cotidianasdos falantes. Veja no anúncio a seguir como um restau- rante na fronteira brasileira oferece no cardápio os pratos típicos do Uruguai: mi- lanesa, pancho e chivito, juntamente aos pratos brasileiros: a la minuta e chuleta. A intercompreensão tem sido muito dis- cutida como uma abordagem pedagógica e didática para ensino de línguas, justa- mente porque se parte do princípio de que os aprendizes de línguas podem ter um aprendizado mais amplo e plural se conseguem aprender concomitante mais de uma língua, neste caso, as de uma mesma família linguística. No caso das lín- guas românicas, é considerar que o por- tuguês e espanhol têm um potencial alto de intercompreensão. 128Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Nesta perspectiva de centrar a intercompreensão em uma metodologia para ensino das línguas, Capucho (2010) recupera a ideia de uma abordagem desta natureza: Todos esses fenômenos linguísticos ocorrem porque há uma proximidade geográfica, por se tratar de territórios limítrofes nas fronteiras hispano-brasileiras; uma aproximação social e cultural pela existência de cidades, povoados, comunidades na vizinhança; e uma transparência linguística entre o português e o espanhol, duas línguas com a mesma origem românica. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Intercompreensão (IC) é, como o afirmava recentemente Jean-Pierre Chavagne (2009: 1), uma prática ancestral e um fenómeno recente. Reportada numa tradição secular de práticas comunicativas entre habitantes de regiões limítrofes ou inserida nas vivências dos viajantes de todos os tempos, a IC foi recuperada há cerca de vinte anos por investigadores no âmbito da Didáctica das Línguas, da Linguística Aplicada, da Sociolinguística, da Psicolinguística ou da Linguística Contrastiva, para referir apenas as disciplinas mais frequentemente solicitadas (CAPUCHO, 2010, p. 102). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 129 1 A la pucha: expressão de surpresa; puxa; puxa vida; nossa; 2 Avil: isqueiro; 3 Aceitunas: azeitona; 4 Aceite de oliva: azeite de oliva; 5 Buenas: equivale a Como estás?; uma saudação; 6 Chisme: fofoca, barulho; agito; 7 Chivito: lanche típico do Uruguai; xis-burger; 8 Churipán: pão com linguiça, em “espanhol” choripan; 9 Cómo quedó: como ficou; 10 Díos mío: Meus Deus; 11 Enchufar: ligar na tomada; 12 Empanada: pastel assado recheado, típico da culinária sul-americana, com algumas diferenças de um país para outro, pode ser assado ou frito; 13 Entrevero: comida feita com várias carnes diferentes; confusão; 14 Hamburguesa: hambúrguer; 15 Hermano: irmão, parceiro; 16 Hola: saudação em espanhol, oi, alô; 17 La Esfirraria: local onde se vende esfirra; 18 Llamado: chamado; Glossário Este glossário apresenta palavras e/ou expressões em espanhol ou em portunhol que aparecem nos exemplos desta unidade: 130Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 19 Macanudo: muito bom, ótimo; 20 Milanesa: comida típica da Argentina e Uruguai, bife à milanesa; 21 Paisano: camarada; gente boa; 22 Pancho: cachorro quente; 23 Plancha: ferro de passar roupa; 24 Qué tal: Como vais?, cumprimento; 25 Remolacha: beterrada. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 131 APPEL, René; MUYSKEN, Pieter. Bilinguismo y Contacto de Lenguas. Barcelona: Ariel Editorial, 1996. BERGER, Isis Ribeiro; LECHETA, Michelle. A paisagem linguística de um campus universitário fronteiriço: língua e poder em perspectiva. Entrepalavras, Fortaleza, v. 9, n. 2, p. 396-414, maio-ago, 2019. Disponível em: http://www.entrepalavras.ufc.br/ revista/index.php/Revista/article/view/1486. Acesso em: 6 mar. 2023. CAPUCHO, M. F. Ciência, ideologia, intervenção: a Intercompreensão para além das utopias, Synergies Europe, n. 5, p. 101-103, 2010. CERNO, Leonardo. Portugués, español, alemán y brasilero. Lenguas y variedades en contacto en el alto Uruguay (Misiones, argentina). Avá. Revista de Antropología, n. 34, p. 131-153, 2019. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1851-16942019000100006. Acesso em: 6 mar. 2023. DICIONÁRIO compartilhado da língua de fronteira. Dicionário compartilhado da língua de fronteira. Santa Maria: UFSM, 2014. Disponível em: http://coral.ufsm.br/ diciofronteira/. Acesso em: 6 mar. 2023. FREEPIK COMPANY. [Banco de Imagens]. Freepik, Málaga, 2023. Disponível em: https://www.freepik.com/. Acesso em: 6 mar. 2023. GONÇALVES, Dânia. O falar dos comerciantes brasileiros na fronteira de Jaguarão- Río branco. 2013. Dissertação (Mestrado em Letras) - UFPEL: Programa Pós-Graduação em Letras, Pelotas, 2013. KERSCH, Dorotea. Aspectos identitários e de atitudes dos falantes bilíngues da região da fronteira do Uruguai com o Brasil – os dados do ADDU. In: MATZENAUER, Carmen L. B. et al (Orgs.). Anais do VII Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul [CD -ROM]. Pelotas: EDUCAT, 2008. Disponível em: http://www.leffa.pro.br/ tela4/Textos/Textos/Anais/CELSUL_VII/dir/arq24.pdf. Acesso em: 7 mar. 2023. MOZZILLO, Isabela. Aspectos do portunhol na fronteira Brasil-Uruguai. 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In: LICERAS, Juana Muñoz (comp.). La Adquisición de las Lenguas Extranjeras. Madrid: Visor Lingüística y Conocimiento, 1991. STURZA, Eliana. Portunhol: a intercompreensão em uma língua da fronteira. Revista Iberoamericana de Educación, v. 81, n. 1, p. 97-113, 2019. Disponível em: https:// rieoei.org/RIE/article/download/3568/4055/. Acesso em: 6 mar. 2023. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 133 Nesta unidade você irá conhecer a produção cultural da fronteira, dando ênfase para textos literários que utilizam uma língua misturada como expressão da cultura fronteiriça. Além disso, verá exemplos dessa produção para abordar a relação da cultura local da fronteira e as identidades fronteiriças. O Portunhol e o Portunhol Salvaje/Selvagem são práticas linguísticas que têm sido utilizadas para reivindicar o espaço da fronteira como um território diferenciado em relação aos outros territórios nacionais. Si poesia fuera istrela Cuando se fuese u sol Ficaría iluminada a frontera Dus versos en Portuñol (Lingua Mae – Nu ceu num tem frontera) Unidade 3: Fenômenos Linguísticos na Cultura Fronteiriça Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade você será capaz de identificar a presença dos fenômenos linguísticos nas expressões da cultura e da identidade dos fronteiriços. Assim como no Brasil há variedades linguísticas do português que são definidas pelo recorte regional e social, também há nas fronteiras hispano-brasileiras variedades do espanhol usadas no contexto da América Latina. Também existem outras línguas presentes e circulando em diferentes âmbitos dos territórios fronteiriços. A seguir, veja os diferentes nomes dados às duas línguas nacionais predominantes na fronteirahispano-brasileira e os nomes dados às variedades e às práticas linguísticas resultantes dos contatos linguísticos. O repertório linguístico dos fronteiriços pode conter mais de duas línguas, portanto, justamente esse repertório ampliado com práticas linguísticas como portunhol ou yaporá, além de muitas outras línguas que circulam nas fronteiras, torna os espaços fronteiriços multilíngues. 3.1 Repertório Linguístico dos Fronteiriços 134Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Os exemplos de nomes mencionados foram coletados de vários registros feitos por pesquisadores da área da Sociolinguística, Sociologia da Linguagem, Política Linguística e da Linguística Aplicada. São registros de como os falantes nomeiam as línguas que falam ou como identificam o seu modo de falar. Um boliviano não diz que fala espanhol, diz que fala castellano, assim como um uruguaio. O boliviano ainda pode acrescentar outras línguas do seu repertório como o quechua e/ou aymara. Um argentino diz que fala castelhano, mas também diz que fala argentino. Um descendente de imigrante brasileiro no Uruguai pode dizer que fala fronterizo, Portuñol ou brasilero, do mesmo modo que um brasileiro vivendo na fronteira de Misiones (Argentina). Um paraguaio pode dizer que fala castelhano, paraguaio, guarani ou yaporá. 3.2 Línguas de Fronteira nas Expressões Culturais LÍNGUAS DA FRONTEIRA: Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 135 O primeiro verso do poema de Fabián Severo, autor uruguaio, fronteiriço da cidade Artigas, fronteira com a cidade de Quaraí (Brasil), na língua misturada com que ele escreve, nos mostra o sentimento do fronteiriço em relação a este modo falar, que não está nos dicionários e nas gramáticas: “Mi lengua le saca la língua al diccionario”. Para Grimson (2000), a fronteira é um lugar de encontro e de desencontros. E apesar da linha divisória, as interações sociais e culturais, muitas vezes, são o centro das dinâmicas da vida fronteiriça. Para ele O número de produções culturais que centralizam as temáticas sobre a fronteira, os fronteiriços, sua arte, sua música, sua literatura e suas línguas tem crescido nos últimos anos. Vale destacar algumas dessas produções com objetivo de pensar o papel das línguas na articulação entre as expressões culturais e as identidades fronteiriças. Neste caso, o foco estará nos autores que escrevem alternando o português e o espanhol ou usando o Portunhol e o Portunhol Salvaje/Selvagem. O primeiro autor apresentado é Fabián Severo. Ele é uruguaio de Artigas, cidade uruguaia mapeada nos estudos de Rona (1965), Elizaincín, Barrios & Behares (1987) como uma das regiões de ocorrência, no caso do primeiro, do chamado “Fronterizo” e, no segundo, o que os três autores nomearam de Dialecto Portugués del Uruguay (DPU). Observem que os temas também se referem à vida na fronteira: pobreza, contrabando, injustiça, natureza, clima, língua. Veja exemplos da sua poesia: Si a frontera noum escu uma frontera as pedra presiosa que pisamo enyenarían nosos prato Mas aquí us patrón tapan con gayeta esc a boca da yente, i cuelgan a inyustisa uescuezoso. (Viento de Nadie) Las fronteras son espacios de condensación de procesos socioculturales. Esas interfases tangibles de los Estados nacionales unen y separan de modos diversos, tanto en términos materiales como simbólicos. Hay fronteras que solo figuran en mapas y otras que tienen muros de acero, fronteras donde la nacionalidad es una noción difusa y otras donde constituye la categoría central de identificación e interacción. Esa diversidad, a la vez, se encuentra sujeta a procesos y tendencias. 136Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Artigas teim uma língua sin dueño. (Noitunnu Norte) Rosa (2015), define o Portunhol dessa fronteira e explica historicamente como essa prática linguística se instituiu como língua dos fronteiriços na fronteira Brasil – Uruguai. Outro exemplo de escrita da literatura da fronteira, são os textos do escritor brasileiro e fronteiriço Aldyr Schlee. Os personagens se movem para ambos os lados da fronteira e usam as línguas conforme a situação narrada pelo autor. Pode- se dizer que há no seu texto vários empréstimos do espanhol. A escrita destaca uma variedade do português brasileiro: o da fronteira. Em várias passagens do texto é possível verificar o uso de palavras e enunciados em espanhol, além da narrativa tematizar de modo recorrente o que é habitar fronteira e o que é ser fronteiriço: a travessia, a vida de um lado e outro, a nacionalidade compartilhada em Brasil e o Uruguai, entre outros temas. Veja agora dois fragmentos do livro “O Outro Lado. Noveleta Pueblera” (2018): Fragmento I José Jacinto vai seguido a Jaguar e Río Branco, e Melo e Treinta y Tres; já esteve em Bagé e Santa Vitória do Palmar, e no Herval. Mas é homem andariego que mais gosta de pueblos do que de cidades Fragmento II - Mire – podia ter dito – eu sou assim como me vê, meio uruguaio, mas não sou do outro lado; nasci brasileiro e até sentei praça no Regimento - Bueno...- foi só o que disse, quando pagou e saiu, depois de volcar o copo. Observe que no fragmento I e II aparecem palavras em espanhol como: andariego, pueblos, mire, bueno, volcar, além das referências geográficas, quando menciona os nomes de cidades brasileiras e uruguaias localizadas na zona de fronteira. A seguir, veja o trecho de uma música do cantor riverense (Uruguai) Chito de Mello. Para ele, os fronteiriços são rompidiomas, porque misturam as línguas, ou seja, são falantes de Portunhol. El Portuñol, lengua de la frontera Uruguay-Brasil, hablada por fronterizos de ambos países, pero mayoritariamente por uruguayos norteños, está instalado en estas tierras antes mismo que el Estado Nación hubiera nacido. Surge del contacto entre ambiciones imperiales, luego entre disputas nacionales, sobrevive la persecución policiaca de la alfabetización, se reproduce en el contacto del comercio y de los medios de comunicación. (2015, p.13) Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 137 Soy de Rivera, soy de lo fronterizo. Donde cualquiera habla entreverado Medio mestizo sin compromiso desde guri Tengo mi doma, no canto broma Soy rompidioma y no toy ni aí Capa do livro Rompidioma. Fonte: De Mello (2005). Capa do livro Triple Frontera Dreams. Fonte: Diegues (2015). As letras das músicas de Chito de Mello descrevem a dinâmica da fronteira, enfatizam o modo de viver, a língua misturada e a integração da cidade de Rivera e Santana do Livramento. Clique aqui e ouça a música La Misturada. Na fronteira Brasil/Paraguai há outro escritor que também tematiza a fronteira, escreve seus textos em uma língua que ele nomeou como Portunhol Salvaje ou Selvagem, Douglas Diegues. Chama-se Portunhol Salvaje porque, de acordo com o escritor, a mistura de línguas ocorre entre português, o espanhol e o guarani. A sua escrita, embora predominantemente seja em Portunhol Salvaje, tem palavras em outras línguas, mostrando justamente como a fronteira é um lugar de passagem de gente de toda parte, de línguas de vários lugares, um espaço multilíngue. Diegues usa as línguas da fronteira na sua linguagem literária, no título de uma das suas obras podemos identificar: espanhol e inglês. https://www.youtube.com/watch?v=TRTvjNZ4QHM 138Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O que o autor nomeia de Portunhol Salvaje, língua da sua escrita literária, representa ainda um olhar sobre os modos de viver na fronteira. Ele aborda a fronteira e escreve em uma língua da fronteira. Na sua obra “Uma Flor na Solapa da Miséria” (2005), ele define o que é o Portunhol Salvaje: U portunhol salvaje es la língua falada en la frontera do Brasil com u Paraguai por la gente simples que increíblemente sobrevive de teimosia, brisa, amoral imposible, mandioca, vento y carne de vaca. Es la lengua de las putas que de noite vendem seus sexos en la linha de la fronteira. Brota como flor de la bosta de las vakas. Es una lengua bizarra, transfronteriza, rupestre, feia, bella, diferente. Pero tiene una graça salvaje que impacta. O espaço multilíngue representado na linguagem literária de Diegues reflete o quanto a fronteira é plural. A fronteira possibilita o trânsito das pessoas e das línguas. As línguas e as misturas linguísticas do Portunhol Salvaje presentes na escrita do autor contribuem para dar visibilidade ao multilinguismo que existe ao longo das fronteiras hispano-brasileiras. O fenômeno do uso do Portunhol como língua das expressões culturais é fato recente. De ser um “estigma” para os falantes, o Portunhol tornou-se uma língua dos afetos, de identificação com a origem dos seus falantes e de sua representação social, ou seja, do que é ser fronteiriço, especialmente no contexto da fronteira Brasil – Uruguai. O vínculo entre a língua e a identidade dos fronteiriços dessa região incentivou agentes e coletivos culturais a reivindicar o Portunhol como patrimônio cultural. Sturza (2019) destaca: Essa fronteira é singular, nela os que têm famílias compostas por brasileiros e uruguaios têm uma dupla nacionalidade e são chamados popularmente de “doble chapas”, uma referência ao uso, em uma determinada época, de duas placas nos carros: uma brasileira e outra uruguaia. Cada fronteira tem sua complexidade cultural, social e linguística. No arco central e norte há outras etnias e línguas que entram no repertório linguístico dos fronteiriços. O Portunhol ou Portuñol remete: à mistura do português e do espanhol; o “mal falar” uma dessas línguas; a uma língua de contato; a uma prática linguística caraterística das fronteiras hispano-brasileiras; e a língua que expressa uma identidade fronteiriça. A “língua dos afetos” está na relação do portunhol uruguaio com sua história, com o ambiente familiar e, portanto, remete a uma população que se reconhece pela língua. O portunhol uruguaio tem apelo afetivo por seu uso social e sua relação com a cultura fronteiriça, de origem luso-brasileira, que quer se diferenciar de outras regiões do país. Há visivelmente uma mudança cultural na sociedade fronteiriça em busca de valorização do Portunhol. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 139 Atualmente, o Portunhol vem sendo cada vez mais reconhecido como uma língua da fronteira hispano-brasileira. Outro aspecto relevante é que tem ganhado registro escrito, ou seja, deixado de ser uma prática apenas oral. A literatura escrita em Portunhol não só valoriza uma cultura da fronteira como também contribui para o seu registro escrito. Outro aspecto também importante é que todo este movimento de valorização do Portunhol e de seu reconhecimento como um patrimônio cultural, especialmente no norte do Uruguai, dá um novo status e prestígio a um modo de falar que está diretamente relacionado com um modo de vida: o da fronteira. Para ilustrar, veja o mapa publicado no verbete “Portuñol Riverense” da Wikipedia. Estes registros contribuem para a divulgação e circulação do Portunhol como uma língua vinculada à fronteira e um património cultural a ser valorizado, não negado. Aqui uma breve lista com sugestões de outras produções culturais, de documentários e grupos musicais. Entre eles: • Linha Imaginária: Mixturade Vida; • Fronterizos; • Portuñol; Imagem do verbete Portuñol Riverense. Fonte: Wikimedia (2020). 140Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Contrabando; • Grupo Musical Língua mae; • Grupo musical Doble Chapa; • Rompidioma. Esses exemplos são indícios da expressividade que uma língua de contato português – espanhol demonstra ao estar fortemente vinculada à necessidade do reconhecimento social dos falantes. Observa-se que o Portunhol vem perdendo sua relação com a ideia de “mal falar” o português ou o espanhol, justamente por sua valorização nas diferentes formas de expressão cultural: música, poesia, narrativas, vídeos e documentários. Que bom que você chegou até aqui! Agora é a hora de você testar seus conhe- cimentos. Para isso, acesse o exercício avaliativo disponível no ambiente virtual. Bons estudos! Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 141 BARRIOS, Graciela. La denominación de variedades lingüísticas en situaciones de contacto: dialecto fronterizo, DPU, portugués uruguayo, portugués fronterizo o portuñol. In: HIPPERDINGER, Y. (comp.). Lenguas: conceptos y contactos. Bahía Blanca, EdiUNS (Editorial de la Universidad Nacional del Sur), 2014. p. 77-105. CAPUCHO, M. F. Ciência, ideologia, intervenção: a Intercompreensão para além das utopias, Synergies Europe, n. 5, p. 101-103, 2010. DE MELLO, Chito. Rompidioma. Montevideo: Ediciones Recortes, 2005. Disponível em: https://pmb.parlamento.gub.uy/pmb/opac_css/index.php?lvl=categ_see&id=100430. Acesso em: 7 mar. 2023. DIEGUES, Douglas. Um Flor na Solapa da Miséria (en Portuñol). Buenos Aires: Eloísa cartonera, 2005. DIEGUES, Douglas. Foto Douglas Diegues 2015. 2015. 1 fotografia. 624×911 pixels. Disponível em: https://malhafinacartonera.wordpress.com/2016/02/17/a-resistencia- das-cartoneras/. Acesso em: 7 mar. 2023. ELIZAINCÍN, A.; BARRIOS, G.; BEHARES, L. Nos falemo brasilero. Dialectos Portugueses en Uruguay. Montevideo: Amesur, 1987. FREEPIK COMPANY. [Banco de Imagens]. Freepik, Málaga, 2023. Disponível em: https://www.freepik.com/. 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Unidade 1 - Políticas Linguístico-educacionais e Gestão de Línguas Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade,você será capaz de reconhecer o que são políticas linguístico- educacionais e as formas de gestão de línguas em espaços escolares plurais, como os de fronteira. 144Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 1.1 Multilinguismo, Políticas Linguísticas e Políticas Linguístico- educacionais Bem-vindo em múltiplas línguas. Fonte: Freepik (2023). Estima-se a existência de mais de 7000 línguas no planeta, em um total de 193 países reconhecidos internacionalmente pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esses números indicam que a maioria dos países é multilíngue. Há países mais multilíngues do que outros, em que coexistem diferentes línguas nas mais variadas formas e funções sociais, sejam elas línguas de comunidades originárias (como línguas de indígenas), línguas incorporadas aos territórios por colonizadores ou línguas de imigrantes que levam suas memórias e sua herança cultural para os países receptores em diferentes momentos históricos. Também é possível afirmar que há países em que existem mais pessoas bilíngues ou plurilíngues, com repertórios linguísticos mais plurais e que se comunicam cotidianamente em mais de uma língua em diversas atividades cotidianas (trabalho, estudo, comércio, viagens). Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 145 De quantas línguas você já ouviu falar? Fonte: Freepik (2023). Que línguas você listou? Ao fazer esse exercício, é provável que venha à sua mente primeiramente as línguas que você fala e compreende. Depois, tente listar aquelas línguas que possuem alguma função social importante em nosso país, como a de ‘língua oficial’, ‘língua nacional’ ou ‘língua de instrução dos conteúdos escolares’. É possível pensar também naquelas que fazem parte de nosso contexto social, que as pessoas usam na comunidade ou no comércio, as línguas que possuem prestígio internacional e que se destacam como línguas de produção científica, do turismo e de trocas econômicas. E as línguas faladas em países mais distantes ou presentes em culturas? É possível que você liste também línguas que considere mais distantes de sua realidade, ou línguas que considere como ‘exóticas’. Após essa breve reflexão, é possível concluir que há mais línguas ao nosso redor e no mundo, do que cotidianamente percebemos. Todas essas línguas, as que listamos e todas as demais que possivelmente não cabem em nossa rápida contagem, são importantes e fazem parte da enorme riqueza do planeta. Infelizmente, a grande maioria dessas línguas, principalmente línguas de comunidades originárias, estão ameaçadas de extinção, conforme dados da UNESCO. Pense por alguns minutos e liste todas as línguas que você conhece e das quais já ouviu falar. 146Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Uma grande parte dessas milhares de línguas são faladas por minorias étnicas que, muitas vezes possuem desvantagens em diversos níveis. Uma dessas desvantagens é o fato de que várias dessas línguas não estão presentes em práticas escolares, ou seja, embora sejam faladas em muitos lares, elas não estão presentes no planejamento pedagógico de muitas escolas. Por esse motivo, muitas crianças que falam em suas casas e em suas comunidades línguas diferentes das línguas das atividades escolares estão em situação de grande vulnerabilidade em relação ao sucesso nas diferentes etapas de escolarização. Esse desequilíbrio promove desigualdades educacionais, econômicas e sociais. Por essa razão, organizações internacionais e diversos países vêm propondo ações e implementando esforços para valorização da pluralidade de línguas, compreendidas como veículos de culturas, memórias coletivas e valores. E no Brasil? De acordo com especialistas, no Brasil existem cerca de 300 línguas, além da língua portuguesa, que é a língua oficial, declarada na Constituição Federal de 1988 e da Libras (Língua Brasileira de Sinais), que foi reconhecida e regulamentada como meio legal de comunicação e expressão dos surdos do país no ano de 2002. O Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), identificou 274 línguas indígenas no país e pesquisadores apontam mais de 50 línguas de imigração que compõem o mosaico linguístico e cultural brasileiro. Algumas dessas línguas indígenas e de imigração possuem o status especial de línguas cooficiais em mais de 20 municípios brasileiros. Para saber mais sobre as muitas línguas do mundo, acesse a página do Ethnologue, maior catálogo sobre as línguas existentes no planeta. Para saber mais sobre as línguas cooficiais em municípios brasileiros, acesse a página do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL). https://www.ethnologue.com/insights/how-many-languages/ http://ipol.org.br/lista-de-linguas-cooficiais-em-municipios-brasileiros/ Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 147 Nas regiões de fronteiras nacionais, entre Brasil e outros países da América do Sul, o multilinguismo é uma característica marcante. As interações linguísticas e culturais são intensificadas, devido aos movimentos circulares entre os territórios nacionais e, por isso, esses ambientes se caracterizam pela presença de um contingente expressivo de indivíduos bilíngues e plurilíngues que fazem uso de diferentes línguas, de forma dinâmica, em diversas situações e espaços sociais. Mas se há tantas línguas no Brasil e no mundo, por que, em geral, se desconhece essa realidade? O conhecimento ou o desconhecimento sobre a realidade linguística e plural de um país podem ser reflexos das ações e decisões sobre as línguas e sobre os lugares que as diferentes línguas ocupam nas práticas no imaginário social. Chamamos as determinações e decisões referentes às línguas na sociedade de políticas linguísticas. No Brasil, ao longo de seus mais de 500 anos de história, foram tomadas várias decisões e ações que, infelizmente, resultaram na perda e esquecimento de muitas línguas. Estamos falando de línguas de centenas de povos indígenas e de línguas de imigrantes e seus descendentes. É possível citar dois exemplos de intervenções sobre as línguas que marcam a história linguística do país: Exemplo 1 Um deles foi o documento intitulado Diretório dos Índios, de 1758, em que Marquês de Pombal, um diplomata e estadista português, obrigava o uso da língua portuguesa na colônia e proibia o uso e ensino das línguas indígenas. Exemplo 2 O outro exemplo é o conceito de ‘crime idiomático’ instituído em 1939, durante o período do Estado Novo, que criminalizava o uso de línguas estrangeiras em território nacional. Essa foi uma decisão que fazia parte da campanha de nacionalização para forçar a integração dos imigrantes estrangeiros no Brasil, para impor entre eles a língua portuguesa e para reduzir as influências estrangeiras no ideal de cultura brasileira. Para Morello (2016, p. 18) “[…] as realidades multilíngues e plurilíngues se impõem. Elas são parte da história, estão ligadas aos movimentos migratórios, à convivência entre distintos grupos humanos e alicerçam, desde longa data, lutas políticas por direitos cidadãos equânimes. As línguas, em sua diversidade e diferenças, são dinâmicas, persistem e pressionam os limites do monolinguismo.” 148Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Ambos os exemplos evidenciam uma faceta das ações sobre as línguas, orientadas por uma perspectiva de que a pluralidade de línguas era um problema. Atualmente, no Brasil e no mundo, vivenciamos um movimento internacional de valorização e promoção das mais diversas línguas e culturas do mundo. Isso porque as línguas são cada vez mais reconhecidas como patrimônios da humanidade, como direitos dos seus falantes e como elementos constitutivos de identidades individuais e coletivas, pois são repositórios de memórias e culturas das mais diversas. Por essa razão, hoje o multilinguismo é um recurso importante para promoção deuma cultura sustentável e de paz. Nessa perspectiva, podemos citar o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, decretado no Brasil no ano de 2010, como um exemplo desse novo movimento em direção à valorização do multilinguismo. O inventário tem o objetivo de produzir conhecimentos e documentação sobre as muitas línguas brasileiras e contribuir para a garantia dos direitos linguísticos de muitas comunidades. A partir desses exemplos, podemos compreender o que são as políticas linguísticas. Também chamadas de políticas de línguas, podemos afirmar, de modo geral, que essas decisões podem ser sobre as formas das línguas (ortografia, alfabetos, vocabulário), sobre sua função em várias esferas da vida social (na legislação, na mídia, no espaço público, na educação etc.), assim como sobre seus usos e sua difusão nos sistemas de ensino. Veja mais alguns exemplos de políticas linguísticas: • A determinação da função social de ‘língua oficial’, por meio de legislação, é uma política linguística; • Uma reforma ortográfica que tem o objetivo fazer mudanças e normalizar a forma de escrita de uma língua é uma política linguística; • A promoção de uma língua, em diversos meios, para representar uma cultura ou identidade nacional é uma política linguística; • A proibição de uma língua em determinado espaço da vida pública (escola, igreja, comércio) é uma política linguística; • A obrigatoriedade do uso de determinadas línguas em instituições públicas é uma política linguística; • A decisão sobre quais línguas devem ser ensinadas e praticadas nas escolas é uma política linguística. Nesse caso, é considerada uma política linguístico- educacional, termo que exploraremos na sequência. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 149 A partir desses exemplos, podemos afirmar que as políticas linguísticas podem ser expressas na forma de documentos e podem ser identificadas por meio de práticas e da cultura linguística de dada sociedade. Isso significa que as decisões sobre as línguas podem ser identificadas não só em instrumentos legais (leis, decretos etc.), de forma explícita, mas também por meio de práticas consolidadas em relação às línguas. As políticas linguísticas geram efeitos sobre as coletividades, pois as decisões sobre as línguas e seus usos orientam nossas opiniões e escolhas sobre nossas práticas linguísticas nas mais variadas situações cotidianas. E as políticas linguístico-educacionais? É possível dizer que as políticas linguístico-educacionais são as decisões e deliberações sobre as línguas na e da escola. Elas se referem às decisões, ações e estratégias de gestão das línguas, voltadas para os espaços de ensino-aprendizagem, em especial para os espaços de escolarização formal. Elas são comumente adotadas por governos centrais, regionais ou locais. Mas também podem ser adotadas por membros de comunidades escolares, que deliberam sobre quais línguas devem ser ensinadas, sobre as suas formas de aprendizagem e sobre aquelas que servirão de meios de instrução dos conteúdos escolares. Para Shohamy (2006), as políticas linguístico-educacionais são os mecanismos usados para criar práticas linguísticas nas instituições educacionais. Cultura linguística é a soma de ideias, valores, crenças, atitudes, preconceitos, mitos, estruturas religiosas e todo o complexo que conforma a bagagem cultural que os falantes das línguas imprimem às suas relações com as línguas a partir de sua cultura (SCHIFFMAN, 2006). Para Spolsky (2009), “[…] a política linguística existe mesmo naqueles contextos em que ela não foi explicitada ou estabelecida oficialmente. Muitos países, instituições e grupos sociais não têm uma política linguística formal, de modo que a natureza de sua política linguística deve ser derivada a partir do estudo de suas práticas e crenças linguísticas. Mesmo naqueles contextos em que há uma política linguística formal seu efeito nas práticas linguísticas não é garantido nem consistente.” 150Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Veja três exemplos de políticas linguístico-educacionais explícitas, ou seja, decisões sobre as línguas que estão presentes na legislação de diferentes países da América do Sul: No primeiro exemplo, destacamos um trecho da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Brasileira, em que há a menção explícita sobre qual língua deve ser usada como língua de instrução dos conteúdos escolares: a língua portuguesa. No segundo, vemos o trecho da lei que garante o ensino de Libras em cursos de formação de professores no Brasil. No terceiro exemplo destacamos um artigo da Lei de Línguas do Paraguai (Ley de Lenguas no. 4.251/2010), que versa sobre os idiomas na educação. O texto explicita a obrigatoriedade do uso das línguas oficiais do país (castelhano e guarani) em todos os níveis do sistema educativo. Em grande parte dos países, com sistemas educacionais centralizados, as decisões sobre as políticas linguístico-educacionais são feitas por autoridades governamentais, sendo, portanto, alinhadas às políticas linguísticas nacionais. “§ 3º O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.” (Parágrafo 3º do Artigo 32, da Seção III da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/1996). “Art. 4o O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais - Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, conforme legislação vigente.” (Artigo 4º da Lei no. 10.436/2002 que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências). “Artículo 29.- De las lenguas oficiales como instrumentos didácticos. Las lenguas oficiales serán utilizadas como medio en la enseñanza en todos los niveles del sistema educativo: inicial, escolar básica, media y superior, de conformidad con la competencia requerida para cada nivel.” (PARAGUAY, 2010) Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 151 “A escola [...] não é uma instituição neutra, mas contribui para um processo de escolarização das línguas e dos modos de aprendizagem.” (SEVERO, 2020, p. 297). Agora que você já compreendeu a relação entre o multilinguismo, políticas linguísticas e políticas linguístico-educacionais, vamos aprender sobre a gestão de línguas e diferentes perspectivas em relação à pluralidade de línguas. Quando falamos em gestão, nos referimos a um conjunto de ações que tem como propósito administrar e organizar algo, visando alcançar um objetivo. Portanto, ao usar o termo ‘gestão’ de línguas na escola, está se falando sobre as diversas estratégias e etapas de planejamento em relação às línguas no espaço escolar. A gestão das línguas na escola está vinculada às políticas linguísticas. Para os pesquisadores Kaplan e Baldauf (1997), o planejamento de línguas na educação é o recurso mais potente para propiciar mudanças. Ele se refere, por exemplo, à seleção de línguas como meios de instrução e às línguas a serem ensinadas. E esse planejamento está condicionado a questões sociais, econômicas e culturais que impactam na forma como os diversos grupos expressam suas opiniões em relação às línguas. 1.2 Gestão de Línguas na Escola Gestão de línguas na escola. Fonte: Freepik (2023). 152Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Assim, é possível definir gestão de línguas na escola como a administração da presença e do lugar das línguas na escola, por meio de estratégias e práticas adotadas por diferentes agentes, interferindo nas relações da comunidade escolar com as línguas em uso (BERGER, 2017). A seguir, veja algumas das decisões que estãoimplicadas no que se chama de ‘gestão de línguas na escola’: • A escolha sobre as línguas que compõem os currículos escolares; • A escolha sobre quais línguas serão meios de instrução dos conteúdos escolares; • A definição dos lugares das línguas nos currículos (língua materna; língua estrangeria; língua adicional etc.); • A distribuição da carga horária de estudo das línguas ou de exposição nas línguas; • A escolha do modelo de educação bi ou multilíngue mais adequado ao contexto de ensino-aprendizagem; • A definição das metodologias a serem usadas para o ensino das línguas; • A formação de recursos humanos (professores) para implementarem as propostas pedagógicas determinadas; • A escolha ou elaboração de materiais instrucionais para ensino das línguas; • A definição de critérios e sistemas de avaliação da aprendizagem nas línguas; • A avaliação da gestão das línguas para fins de aperfeiçoamento. Como é possível perceber, não se trata somente de tornar explicita a decisão sobre as línguas na legislação. Uma série de estratégias e ações posteriores são necessárias para colocar em prática uma determinação. Instâncias governamentais regionais e locais, profissionais da educação e comunidade escolar fazem parte do conjunto de agentes que podem participar dessas ações, dependendo do grau de autonomia dos sistemas escolares. Por isso, podemos afirmar que professores podem participar dessa gestão. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 153 As línguas que compõem os currículos escolares e que estão presentes nas várias etapas da escolarização como línguas de instrução dos conteúdos escolares tendem a ser aquelas que, em geral, possuem reconhecido lugar como língua oficial do país e/ ou que possuem prestígio social. Em muitos casos, os currículos são pré-estabelecidos por instâncias superiores, o que faz com que, nem sempre, a comunidade escolar local possa fazer modificações na forma como as línguas estão presentes na distribuição dos conteúdos escolares. Em escolas localizadas em contextos multilíngues e plurais, como é o caso de muitas regiões de fronteira, muitas vezes as práticas da comunidade e do entorno social não estão refletidas nos currículos escolares ou não são mencionadas nos Projetos Político Pedagógicos. Por essa razão, o tema do multilinguismo em espaços de escolarização vem sendo debatido intensamente nos últimos anos. A partir de Berger (2015), podemos dizer que a gestão das línguas na escola se dá em dois eixos integrados: • A gestão que se dá na forma como as línguas são mencionadas e reguladas em instrumentos normativos e que é a base para a composição dos currículos; • A gestão que se dá na forma como as línguas são praticadas e geridas nas práticas escolares cotidianas, pela comunidade escolar local. Várias pesquisas demonstram fenômenos e problemáticas relacionadas aos modelos de gestão de línguas na escola. A presença de estudantes que falam línguas diferentes das línguas da escola, ou de alunos bi e plurilíngues, com repertórios linguísticos cada vez mais plurais nos espaços de escolarização, exige que as comunidades escolares e sistemas educacionais adotem novas formas de lidar com essa pluralidade de línguas e culturas, propondo práticas pedagógicas mais adequadas para esses estudantes. A pluralidade de línguas como um problema, um direito ou um recurso? Um influente pesquisador do campo das Políticas Linguísticas, Richard Ruiz, em 1984, publicou um texto em que discutiu a existência de três diferentes perspectivas em relação à pluralidade de línguas: língua como problema; língua como direito; e língua como recurso. 154Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Essas perspectivas, chamadas por ele de orientações, estão na base de decisões sobre as línguas e podem ser identificadas em diferentes políticas linguísticas. Para Ruiz (1984), essas orientações delimitam o que e como falamos sobre as línguas e sobre seus papéis na sociedade. Aplicadas à gestão das línguas na escola, podemos explicar essas perspectivas da seguinte forma: Língua como problema é uma perspectiva que compreende a pluralidade de línguas na escola ou as línguas maternas dos alunos como problemas a serem resolvidos. Em geral, os modelos de gestão de línguas que partem dessa perspectiva tendem a desconsiderar o valor das línguas maternas dos alunos e visam à substituição linguística a curto e médio prazo. Para contornar o problema, segundo essa perspectiva, uma língua é escolhida pela escola para ser o alvo do processo de ensino-aprendizagem e as demais são pouco a pouco desconsideradas. Língua como direito é uma perspectiva que compreende que as línguas maternas dos alunos são constitutivas de direitos humanos fundamentais. Por isso, são consideradas como repositórios de suas culturas e expressão de suas identidades individuais e coletivas. Por esse motivo, nessa perspectiva o uso de suas línguas maternas pelos alunos é um direito a ser respeitado e garantido pela escola, em suas práticas pedagógicas. Modelos de educação que partem dessa orientação tendem a respeitar as experiências multilíngues na escola, garantindo aos alunos a possibilidade de interagirem em suas línguas. Língua como recurso é uma perspectiva que compreende que as diferentes línguas podem ser um potencial recurso ao desenvolvimento cognitivo e educacional e podem agregar valores à sociedade e àqueles que as falam. Desse modo, não somente alunos que possuem línguas maternas diferentes da língua majoritária na sociedade, e da língua da escola, como também os demais podem ser beneficiados pelas experiências multilíngues. Podemos depreender essas perspectivas língua como problema, língua como direito e língua como recurso não somente nas políticas linguísticas como também em práticas escolares cotidianas. Veja algumas possibilidades de como isso pode ocorrer no dia-a-dia da escola. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 155 A compreensão dessas diferentes perspectivas é também a chave para o entendimento dos diferentes modelos de educação bi e multilíngue, como os que abordaremos no próximo tópico. Também é importante que compreendamos essas perspectivas para diagnosticar abordagens em relação à gestão das línguas em escolas situadas em contextos plurais, como os de fronteira. Agora, assista a videoaula a seguir para compreender melhor a questão da gestão das línguas na escola. Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! Videoaula: Gestão das Línguas na Escola Perspectivas da língua. Fonte: Adaptado de Berger (2015). https://cdn.evg.gov.br/cursos/918_EVG/video/modulo04_video14/index.html 156Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública BERGER, I. R. Gestão do multi/plurilinguismo em escolas brasileiras na fronteira Brasil – Paraguai: um olhar a partir do Observatório da Educação na Fronteira. 2015. Tese (Doutorado em Linguística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015. BERGER, Isis Ribeiro. 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Language Planning: from practice to theory. Clevedon: Multilingual Matters, 1997. MORELLO, Rosângela. Línguas, Fronteiras e Perspectivas para o Ensino Bilíngue e Plurilíngue no Brasil. In: MORELLO, R. MARTINS, M. F. Política Linguística em contextos plurilíngues: desafios e perspectivas para a escola. Florianópolis: Editora Garapuvu, 2016. PARAGUAY. Ley nº 4251, de 2010. Ley de Lenguas. Assunção: Secretaría Nacional de Cultura. Disponível em: https://www.bacn.gov.py/leyes-paraguayas/2895/ley-n-4251- de-lenguas. Acesso em: 7 mar. 2023. RUIZ, Richard. Orientations in language planning. NABE Journal, v. 8, n. 2, p. 15-34, 1984. SCHIFFMAN, Harold. Language policy and linguistic culture. In: RICENTO, Thomas (ed.). An introduction to language policy: theory and method. Malden: Blackwell, 2006. p. 111-125. SEVERO, Cristine Gorski. UNESCO e a Educação Multilíngue: revisões e problematizações. Travessias Interativas. São Cristóvão, n. 22 v. 10, p. 295–312, jul-dez. 2020. 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Você provavelmente já ouviu falar em Educação Bilíngue. A proposição de um programa de educação bi ou multilíngue é um exemplo de gestão de línguas na escola e pode ser explicitado por meio de uma política linguístico-educacional pública, no caso de haver legislação específica ou diretrizes para seu desenvolvimento. O termo Educação Bilíngue é bastante abrangente, o que significa dizer que não há um único modelo, mas muitos deles. Eles variam dependendo do objetivo social e educativo, da proposta de ensino-aprendizagem, do público alvo, do contexto sociopolítico e educacional de implementação, da forma como os currículos são organizados, do tempo de exposição que será destinado às línguas do programa, dentre outros elementos. Desde a década de 1920, pesquisas sobre esse tema vêm sendo realizadas, o que explica o grande volume de publicações sobre o assunto. Há diversos pressupostos teóricos que orientam os modelos e programas envolvendo o uso de duas ou mais línguas como meios de instrução. Por essa razão, apresentaremos esse tema Educação Bilíngue. Fonte: Freepik (2023). 2.1. O que é Educação Bilíngue? Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 159 de maneira abrangente e introdutória, fornecendo as principais bases para a compreensão desse assunto tão vasto. Você terá a oportunidade de aprender sobre esse assunto para refletir sobre seu contexto plural de ensino-aprendizagem. Tradicionalmente, o termo Educação Bilíngue pode se dar em dois caminhos diferentes. Há modelos voltados para a escolarização de crianças falantes de línguas minoritárias, diferentes da língua da sociedade em geral, como é o caso de comunidades indígenas e de imigrantes. E há modelos que se referem ao ensino de conteúdos escolares por meio de diferentes línguas e, paralelamente, visando ao ensino de línguas adicionais. Não somente as línguas são objeto desses modelos, como também aspectos culturais a elas relacionados. Para Antonieta Megale, pesquisadora de referência em Educação Bilíngue no Brasil, “a definição do conceito de Educação Bilíngue é complexa e pode variar em diferentes contextos, pois depende de uma série de aspectos, entre eles a comunidade em que se insere, os interesses dos agentes nela envolvidos, o status econômico e social dos sujeitos que a compõem, a presença (ou não) de regulamentação para seu funcionamento, o prestígio das línguas utilizadas e como os meios de comunicação compreendem e propagam o fenômeno” (MEGALE, 2019, p. 21). Quando falamos em Educação Bilíngue, diversos elementos devem ser considerados dependendo do contexto em que ela será implementada, pois sua proposição e estruturação envolve questões políticas, sociolinguísticas, econômicas, administrativas e metodológicas. Também as línguas escolhidas para compor os programas, bem como as metodologias adotadas, são fatores que interferem no modo como compreendemos Educação Bilíngue. No Brasil, por exemplo, você provavelmente já ouviu falar em Educação Bilíngue para surdos, em Educação Escolar bilíngue e intercultural para os povos indígenas e em Educação Bilíngue em língua inglesa em escolas privadas. São propostas bastante distintas que se aplicam a públicos igualmente diferentes, cujas línguas a serem aprendidas também possuem diferentes valores sociais. Pense um pouco mais sobre isso. Propor um modelo de Educação Bilíngue em um contexto geopolítico de fronteira, em que diferentes línguas estão em situação de contato no entorno social e onde há um grande número de alunos que falam várias línguas é diferente de pensar um modelo de Educação Bilíngue voltado para a oferta de uma única língua adicional ao longo do processo de escolarização, para pessoas majoritariamente monolíngues. As diferenças se dão tanto no plano contextual, como no plano estrutural. ParaHornberger (1996), as características contextuais são formuladas em termos 160Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública do perfil do público-alvo, do perfil linguístico da comunidade, dos aspectos sociais, do valor atribuído às línguas na comunidade ou de aspectos socioeconômicos. As características estruturais se referem ao modo de implementação do programa na escola, às metodologias a serem adotadas, à organização curricular e ao modo como as línguas serão usadas em sala de aula. A seguir, veja os aspectos estruturais que são levados em consideração para distinguir os diferentes programas: • o tempo de instrução a que os alunos são submetidos para a aprendizagem das línguas; • o perfil linguístico do alunado-alvo (membros de grupos linguísticos majoritários ou minoritários); • o perfil que se espera que o alunado possua ao final da instrução (monolíngues em uma língua majoritária; bilíngues com limitações em termos de proficiência em uma das línguas; bilíngues com desenvolvimento da habilidade oral e escrita em ambas as línguas; plurilíngues com competências em diversos níveis em várias línguas); • a organização do currículo escolar para inserção das línguas ao longo do processo de escolarização (línguas ensinadas de forma concomitante ou sequencialmente); • quais línguas de instrução serão usadas em sala de aula para ministrar diferentes conteúdos e disciplinas. No Brasil, é muito comum ouvir o termo Educação Bilíngue em escolas da rede privada, que ofertam o ensino-aprendizagem de inglês como língua adicional de modo diferenciado em seus programas curriculares, devido ao valor econômico e ao prestígio internacional que a língua alcançou no decorrer dos anos. No entanto, no contexto da América do Sul em que se destaca a língua espanhola, bem como tantas outras línguas originárias e regionais, é preciso contemplar o leque de possibilidades e oportunidades que o contexto oferece. Vejamos alguns dos possíveis objetivos que podem ser identificados em modelos de Educação Bilíngue: • Promover a assimilação linguística e cultural de grupos minoritários em uma sociedade em que há uma língua majoritária; Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 161 • Preservar e valorizar identidades linguísticas, culturais, étnicas e religiosas; • Promover a inclusão social por meio do acesso à educação, via línguas maternas de grupos minoritários; • Prover habilidades linguísticas em uma língua visando empregabilidade e prestígio em um mundo economicamente competitivo; • Fortalecer as línguas de grupos dominantes e suas posições linguísticas privilegiadas na sociedade; • Promover o equilíbrio entre línguas diferentes em um contexto socialmente bilíngue. • Promover uma educação linguística com foco na sensibilização para a pluralidade de línguas e culturas. 2.2 Modelos de Educação Bilíngue Aqui você conhecerá algumas formas de classificar modelos de Educação Bilíngue. Como as pesquisas sobre essa temática ocorrem há mais de um século, em diversos contextos entre os países do mundo, as formas de classificar os modelos de Educação Bilíngue e os tipos de programas já propostos podem variar. Uma forma tradicional de distinguir os programas de Educação Bilíngue é a partir de seu objetivo do ensino-aprendizagem. Ou seja, se ao final da escolarização se promoverá o bilinguismo aditivo ou o bilinguismo subtrativo. Veja a diferença entre os dois: Bilinguismo Aditivo Como a palavra indica, os programas que enfatizam o bilinguismo aditivo têm como objetivo adicionar outra língua ao repertório linguístico dos alunos no decorrer dos anos de permanência na escola. Podemos dizer que, nesse caso, os alunos podem ser bi ou plurilíngues no sistema escolar, tendo aprendido ou desenvolvido na escola mais de uma língua para se comunicarem, em diferentes contextos sociais e com variados níveis de proficiência, dependendo da forma como o programa é estruturado. 162Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Bilinguismo Subtrativo Quando falamos em bilinguismo subtrativo, a subtração de línguas do repertório dos alunos é uma consequência do tipo de programa proposto. Nesse caso, de modo geral, alunos falantes de línguas diferentes da língua majoritária de determinada sociedade, como é o caso de imigrantes, são instruídos tanto em sua língua materna quanto na língua majoritária no início da vida escolar. Porém, ao longo do processo de escolarização, a língua materna dos alunos é eliminada do programa, sendo, aos poucos, substituída pela língua de maior prestígio social. Diante dessas primeiras considerações, uma forma de distinguir os modelos de Educação Bilíngue é caracterizá-los como: modelo de transição, modelo de manutenção ou modelo de enriquecimento. Você poderá perceber que a definição desses modelos é muito parecida com o que explicamos anteriormente. Veja a seguir a explicação: Modelos de transição têm como objetivo a assimilação linguístico-cultural de forma que os alunos – geralmente indivíduos de grupos linguísticos minoritários – integrem-se ao grupo linguístico de maior prestígio em detrimento de suas línguas. Entendemos por assimilação o processo pelo qual um grupo é levado a estar em conformidade com uma cultura e língua dominantes, por meio de práticas de coerção. Essas práticas visam a substituição de suas línguas e culturas pelas do grupo dominante, que possui maior prestígio social em dada sociedade. O modelo de transição abrange programas que visam à mudança linguística, à assimilação cultural e à incorporação social de minorias em uma sociedade nacional. Podemos chamar esse modelo também de subtração, conforme mencionamos anteriormente, pois seu objetivo é subtrair e substituir a língua e a cultura do aluno por outra, considerada mais prestigiosa. A longo prazo, esse tipo de Educação Bilíngue pode levar à perda linguística entre as gerações, ou seja, há uma tendência a abandonar a língua materna e de herança em favor da língua considerada mais valorosa pela instituição escolar. Como é possível supor, programas de Educação Bilíngue desse modelo são orientados por uma perspectiva de língua como problema, ou seja, as línguas maternas dos alunos são consideradas problemas a serem resolvidos pela escola, por meio de seu paulatino apagamento e do ensino e difusão da língua majoritária da sociedade em que se inserem. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 163 “Educar crianças em uma língua que elas não compreendem geralmente conduz ao insucesso escolar. Se o espaço da língua majoritária não incluir a prática linguística das crianças e se o professor não maximizar a comunicação lançando mão das práticas linguísticas de seus alunos, o insucesso na comunicação e na educação certamente ocorrerá.” Para refletir: No contexto dos Estados Unidos da América, a perspectiva ‘língua como problema’ orientou a formação de Educação Bilíngue de transição, amplamente difundido no país, com o objetivo de fazer com que imigrantes aprendessem o inglês de modo efetivo. O bilinguismo estava associado a problemas de escolarização e problemas sociais e era relacionado à educação dos mais pobres e incapacitados, bem como de imigrantes não desejados no país. Por isso, vários modelos de Educação Bilíngue desenvolvidos naquele país tinham o objetivo de desenvolver nas crianças a fluência em inglês e não valorizavam a experiência linguística prévia dos alunos. Por isso, a perspectiva de língua como problema desencadeou um problema do ponto de vista do desenvolvimento e fomento do multilinguismo, aspecto hoje presente na agenda da Unesco e em uma diversidade de pesquisas acadêmicas. Agora é hora de compreender os modelos de manutenção. Os programas que são orientados por essa perspectiva proporcionam a aquisição de uma segunda língua pelos alunos ao mesmo tempo em que preservam suas línguas maternas e suas línguas de herança cultural, tidascomo um dos elementos constitutivos de sua identidade. Programas concebidos a partir desse modelo visam à afirmação dos direitos civis e linguísticos dos grupos étnicos e não têm como objetivo a substituição das línguas dos alunos. Para Baker (2006), um importante pesquisador dos estudos em Educação Bilíngue, o modelo de manutenção pode ser subdividido em dois tipos: um deles visando Assista a um curto trecho do Documentário “Escolarizando o Mundo”. Nesse trecho você assistirá relatos de uma instituição de ensino que possui uma abordagem que pode ser considerada um exemplo de modelo de transição. O trecho de interesse dessa passagem se encontra entre 41min34s 43min20s. Para a renomada pesquisadora Ofélia Garcia (2009): https://www.youtube.com/watch?v=6t_HN95-Urs&list=PL9sh1Wo2vFZQgAb1j0yQJUdZ3vDpJXD__&ab_channel=CamilaLucena https://www.youtube.com/watch?v=6t_HN95-Urs&list=PL9sh1Wo2vFZQgAb1j0yQJUdZ3vDpJXD__&ab_channel=CamilaLucena 164Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública à manutenção da língua do aluno no mesmo nível de proficiência que ele tinha quando ingressou no sistema de ensino. Nesse caso, verifica-se uma manutenção e estabilização da língua de casa; e o outro tipo visando ao desenvolvimento tanto da língua materna do aluno e como das demais línguas que ele aprende na escola, também chamado de manutenção evolutiva, já que as línguas de casa continuam sendo desenvolvidas nas práticas escolares. É possível dizer que a perspectiva que orienta esses modelos é a de língua como direito, uma vez que a língua que o aluno traz de seu convívio familiar é reconhecida pela instituição escolar. Vejamos agora o modelo de enriquecimento. Esse tem como objetivo atender grupos de comunidades linguísticas minoritárias ou majoritárias, e não se restringe somente à manutenção da língua materna trazida pelo aluno para a escola. Esse modelo visa também ao desenvolvimento e à ampliação das línguas minoritárias, ao pluralismo cultural e à integração social com base na autonomia de grupos culturais. Podemos dizer que, nesse caso, a Educação Bilíngue ou Multilíngue é orientada por uma perspectiva de língua como um recurso potencial para o desenvolvimento social e sustentável por meio das línguas. Veja uma síntese: Modelo de transição substituição das línguas maternas dos alunos pela língua da sociedade majoritária e assimilação cultural; Modelo de manutenção manutenção das línguas maternas dos alunos e fortalecimento de sua identidade linguística e cultural; Modelo de enriquecimento enriquecimento e desenvolvimento dos repertórios linguísticos dos alunos, visando á pluralidade de línguas e culturas. Em se tratando de programas de Educação Bilíngue para contexto de fronteira, trazemos como exemplo o Programa de Educação Bilíngue por Imersão em escolas públicas do Uruguai. O Programa de Educação Bilíngue por immersión em escuelas públicas del Uruguay, foi implementado na zona de fronteira uruguaio-brasileira e gerenciado pela Administración Nacional de Educación Pública (ANEP). O programa foi um exemplo de política linguístico-educacional pública visando a valorização das práticas linguísticas fronteiriças e a busca pela qualidade da educação pública primária no país. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 165 Avenida que ‘divide’ as cidades de Rivera (Uruguai) e Livramento (Brasil). Foto: Eliana Sturza. Implementado em escolas localizadas em áreas fronteiriças situadas nos Departamentos de Artigas, Rivera, Cerro Largo e Rocha, o programa adotou um modelo de imersão dual em espanhol e em português, em que os conteúdos escolares são ensinados nas duas línguas, de modo equilibrado, ou seja, com o mesmo tempo de exposição nas duas línguas, visando à formação de alunos bilíngues. O programa, portanto, desenvolveu um modelo que se caracteriza como bilinguismo aditivo em escolas de tempo integral. Para a pesquisadora Claudia Brovetto (2010), a metodologia de imersão supõe a utilização do português para a apresentação dos conteúdos curriculares, sem que a língua se constitua foco de atenção explícita das atividades escolares. Isso significa que não se ensina a língua por meio de apresentação explícita de sua estrutura. Diferentemente, a língua é utilizada como meio de instrução de conteúdos programáticos em diversas áreas, por um docente que possua competência avançada em língua portuguesa. Isso leva os alunos a aprenderem a língua de modo indireto, por meio da exposição. Além disso, como a língua faz parte do cenário sociolinguístico da região, a imersão os leva a adquirirem a língua naturalmente em contexto real de uso. 2.2.1 Educação Multilíngue para as Demandas do Século XXI Devido à percepção cada vez maior, a nível mundial, de que a pluralidade de línguas é um importante patrimônio da humanidade e um recurso que deve contribuir para a promoção de vivências harmoniosas entre diferentes povos, podemos ampliar a noção de Educação Bilíngue para a de Educação Multilíngue, possibilitando maiores oportunidades de conhecimentos e ampliando as oportunidades de trocas em mais línguas. 166Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Programas de Educação Multilíngue que considerem as práticas linguísticas plurais dos alunos bilíngues como potencialidades para o desenvolvimento de estratégias didático-pedagógicas podem construir novas possibilidades educacionais e de comunicação para os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. No ano de 2021, a Unesco enfatizou o fomento ao multilinguismo para a inclusão social na educação e na sociedade. A organização reconhece que as línguas e o multilinguismo podem propiciar a inclusão, o que vai ao encontro de uma das metas mundiais de desenvolvimento sustentável que é “não deixar ninguém para trás”. A organização parte da compreensão de que a educação deve valorizar e ter como base as primeiras línguas dos sujeitos nos primeiros anos da escolarização, como fundamento para a aprendizagem de modo que os indivíduos tenham acesso e valorizem o seu legado cultural. É nesse contexto que diversas pesquisas vêm sendo desenvolvidas internacionalmente sobre abordagens pedagógicas plurais visando uma Educação para o multilinguismo. Essas abordagens possuem como princípio a sensibilização quanto à multiplicidade de línguas e culturas, o desenvolvimento de atitudes positivas diante da diversidade, bem como a valorização das experiências e vivências dos alunos em relação às línguas de sua comunidade. A complexidade linguística e cultural do século XXI, caracterizada pelo fluxo de pessoas entre as fronteiras, pela disponibilização de informações e serviços em línguas diversas, pela crescente migração, faz com que os países tenham que lidar, cada vez mais, com novas formas de gestão de línguas em seus territórios. Dessa realidade emergem diferentes modelos educacionais, em contextos sociopolíticos variados, para contemplar e atender ao público escolar cada vez mais plural, do ponto de vista linguístico e cultural. Para Berger (2015), “os modelos centrados no ensino de uma língua nacional única, que tratam as demais línguas somente sob o estatuto de línguas estrangeiras, são considerados inadequados nesse novo milênio. O reconhecido multilinguismo existente no âmbito dos países (ainda que tardio) e o intenso fluxo de pessoas, suas línguas e culturas colocam, dentre os desafios da atualidade, a necessidade de se pensar outras formas de encarar a presença e o lugar das línguas nas escolas e outras formas de encarar o bi/multi/plurilinguismo, de modo que deixem de ser tidos como um problema para os processos de ensino-aprendizagem e possam ser encarados como potencialidade para a construção de sociedades plurais.” Nesse contexto surgem as seguintes abordagens: abordagem intercultural para o ensino de línguas e culturas; a abordagem da intercompreensão entre línguas próximas; e a abordagem da conscientização linguística.A pesquisadora Ingrid Kuchenbecker Broch, referência em estudos sobre Educação para o Plurilinguismo Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 167 no Brasil defende que a educação precisa promover uma sensibilização para o plurilinguismo, pois é de responsabilidade das instituições de ensino reconhecer o multilinguismo como um fenômeno natural e indispensável a todos os contextos (BROCH, 2014). Você chegou ao final desta Unidade de estudo. Caso ainda tenha dúvidas, reveja o conteúdo e se aprofunde nos temas propostos. Até a próxima! No ano de 2020, o Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou o parecer que normatiza a educação bilíngue no Brasil, por meio das Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue. Até então, não havia uma política linguística pública explícita, em nível nacional, para a regulamentação e criação de um modelo de ensino de bilíngue. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=156861-pceb002-20&category_slug=setembro-2020-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=156861-pceb002-20&category_slug=setembro-2020-pdf&Itemid=30192 168Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública BAKER, Collin. Foundations of Bilingual Education and Bilingualism. Bristol: Multilingual Matters, 2006. BERGER, Isis Ribeiro. Gestão da diversidade linguística na educação formal no Brasil: desafios para uma política linguística. Revista (Con)textos Linguísticos. v. 11 n. 20, p. 54-69, dez. 2017. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/contextoslinguisticos/ article/view/16959 . Acesso em: 7 mar. 2023. BERGER, Isis Ribeiro. Gestão do multi/plurilinguismo em escolas brasileiras na fronteira Brasil – Paraguai: um olhar a partir do Observatório da Educação na Fronteira. 2015. Tese (Doutorado em Linguística) - Programa de Pós-Graduação em Linguís, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015. BROCH, Ingrid Kuchenbecker. Ações de promoção da pluralidade linguística em contextos escolares. 2014. Tese (Doutorado em Letras) – Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014. BROVETTO, Cláudia. Educación bilingüe de frontera y políticas lingüísticas en Uruguay. Pro-Posições, Campinas, v. 21, n. 3 , p. 25-43, set./dez. 2010. 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Desafios da Educação em Contextos Plurais Em contextos intensamente multilíngues e multiculturais, é quase impossível se comunicar sem ser afetado pela experiência da diversidade. Por essa razão, as salas de aulas localizadas nesses espaços devem considerar as línguas e culturas da comunidade, bem como as práticas linguísticas locais no cotidiano das ações escolares. Ao fazer isso, além de propiciar maior integração entre o que ocorre na vida cotidiana e o que se passa na escola, as salas de aula também podem se tornar espaços de reconhecimento e valorização da pluralidade. Como consequência, as escolas podem ser espaços de fomento à convivência harmoniosa entre pessoas de línguas e culturas diversas. Convivência harmoniosa entre pessoas de línguas diversas. Fonte: Freepik (2023). Quando falamos em práticas pedagógi- cas para contextos plurais, como os de fronteira, nos referimos a procedimentos e atividades desenvolvidos em espaços de ensino-aprendizagem em que há cir- culação de línguas e culturas diferentes. Trata-se de práticas que tenham como objetivo valorizar diferentes culturas e promover diálogos em diferentes lín- guas que permitam construir e compar- tilhar conhecimentos de forma plural. Essas práticas podem se dar tanto no plano da documentação escolar, como no plano das práticas pedagógicas im- plementadas por educadores, nos dife- rentes espaços em que o trabalho peda- gógico se realiza. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 171 No que se refere ao espaço da sala de aula, cujas práticas são orientadas pelos currículos e pelas formas como a construção de conhecimentos é concebida pela instituição escolar e educadores, há desafios a enfrentar em contextos multilíngues. Os desafios são multifacetados, principalmente em contextos em que os sistemas educacionais foram historicamente construídos a partir de perspectivas monolíngues, ou seja, de perspectivas que valorizam uma única língua ou que creditam ao multilinguismo a noção de que a diversidade é um problema a ser resolvido. Nesse caso, a ausência de políticas linguístico-educacionais próprias para esses contextos educacionais plurais é um agravante. Por isso, há lacunas no que se refere à oferta de subsídios teóricos e práticos para preparar professores para essas realidades. Para a pesquisadora Elizabeth Coelho (2012), o ensino em situações de diversidade linguística e etnocultural pode apresentar desafios especiais para os professores, que provavelmente receberam pouca ou nenhuma preparação durante a formação inicial para lecionar em realidades de salas de aula multilíngues e multiculturais. Muitos professores novos esperam ensinar os alunos da forma como eles mesmos aprenderam, por isso pode ser um choque que alguns dos alunos ainda não sejam proficientes na língua de ensino ou tenham um conhecimento cultural diferente daquele presente no currículo e materiais didáticos que os professores devem usar. O grande desafio das escolas localizadas nesses contextos está em propor formas de gestão da pluralidade linguística nas práticas pedagógicas, que tenham como objetivo valorizar a presença de alunos bilíngues e plurilíngues, respeitando e acolhendo seus repertórios diversificados e compreendendo-os como potenciais recursos para a construção de espaços plurais que visem o enriquecimento linguístico e cultural de todos. Não há uma única proposta, assim como pudemos constatar na diversidade de programas de Educação Bilíngue já desenvolvidas mundo afora. Por essa razão, nas próximas seções destacamos algumas experiências e, posteriormente, alguns subsídios para que escolas em contextos pluraispossam prover os encaminhamentos para fins de uma educação plural que acolha e oportunize o desenvolvimento linguístico e cultural da comunidade. 172Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 3.2 Ações em Contextos Multilíngues de Fronteira 3.2.1 O Programa Escolas Interculturais de Fronteira Aqui você terá oportunidade de conhecer três ações desenvolvidas em regiões multilíngues de fronteira, cujos princípios foram a formação docente para promover a sensibilização e reflexões sobre as especificidades da educação na fronteira, o atendimento das demandas socioeducacionais desses contextos, bem como o desenvolvimento de práticas inovadoras voltadas para a valorização das experiências linguísticas e culturais das fronteiras. Muito conhecido pela sua sigla PEIF, o Programa Escolas Interculturais de Fronteira teve seu início em 2005, a partir de um esforço bilateral, entre Brasil e Argentina, para construir uma identidade regional bilíngue em português e espanhol, no âmbito do Mercosul , respaldado em uma cultura de paz e de cooperação fronteiriça. A partir do ano de 2006, as relações se estenderam a outros países fronteiriços, tendo um perfil multilateral. O programa desenvolveu um modelo de ensino-aprendizagem na forma de intercâmbio entre professores de escolas dos países participantes, viabilizando a vivência do encontro e de trocas linguísticas e culturais que privilegiavam a descoberta e a pesquisa como centro das atividades pedagógicas. Professoras de ambos os países cruzavam a fronteira, em um movimento que ficou chamado de cruce, para ministrar aulas da educação infantil no país vizinho, adotando suas línguas maternas como línguas de instrução. Com isso, os alunos de ambos os países tiveram a oportunidade de vivenciar práticas de ensino-aprendizagem na língua do país vizinho, bem como ter vivências interculturais diversas. Esse programa foi inicialmente concebido na forma de projeto, com o nome Projeto Escolas Interculturais Bilíngues de Fronteira (PEIBF). Somente no ano de 2012, a ação foi instituída como Programa Escolas Interculturais de Fronteira pelo Ministério da Educação do Brasil, por meio da Portaria no. 789 (19 de julho de 2012), envolvendo a Secretaria de Educação Básica (SEB), universidades federais brasileiras, Secretarias Estaduais e Municipais de Educação e escolas fronteiriças. Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 173 A pesquisadora Eliana Sturza, explica: As atividades pedagógicas foram planejadas tendo como fundamentos o fomento à interculturalidade e ao bilinguismo, marcadamente em português e espanhol, característico das regiões de fronteira da América do Sul. Além disso, foi proposta a metodologia de ensino via projetos de ensino- aprendizagem, construídos na vivência e negociações entre professores e alunos, propiciando a centralidade e participação ativa dos alunos como centro do processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, o currículo das atividades do programa foi construído levando em conta as peculiaridades de cada região de fronteira, em suas características históricas e culturais. Sobre as práticas pedagógicas desenvolvidas no PEIF, a coordenadora geral do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Políticas Linguísticas (IPOL), Dra. Rosângela Morello (2011, p. 15), avalia: “O ‘cruce’ é a travessia, que em algumas fronteiras é a ponte; em outras, a balsa; em outra, apenas a rua. Mas cruzar, na dinâmica proposta para esse programa, é muito mais, pois coloca o professor no centro do processo à medida que é ele que leva a língua, a cultura e o conhecimento, mediando-os com os alunos da escola parceira. O professor articula, planeja e desenvolve projetos em conjunto com o colega argentino, paraguaio, venezuelano e uruguaio” (STURZA, 2014, p. 5). “[...] a construção de um modelo de ensino comum supõe uma perspectiva de atuação que não imponha um modelo de ensino de um país sobre o outro. Por isso, elege-se como unidade de trabalho projetos de ensino-aprendizagem (ou de pesquisa) propostos pelas turmas, de cujo planejamento todos participam, organizando a partir deles suas atuações.” Como o programa foi desenvolvido em diferentes contextos socioculturais de fronteira, foram muitas as experiências acumuladas por docentes e alunos dessas regiões. 174Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O Observatório da Educação na Fronteira O projeto multi-institucional Observatório da Educação na Fronteira (OBEDF) foi desenvolvido entre os anos 2011 e 2013 em articulação às iniciativas do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Políticas Linguísticas (IPOL), duas universidades públicas brasileiras e a parceria de cinco escolas públicas brasileiras localizadas em municípios fronteiriços. O Observatório da Educação na Fronteira O projeto teve como prioridade a ampliação do campo de observação sobre a fronteira e sobre os processos educativos peculiares a essas regiões e seus efeitos, visando ao fomento de pesquisas e políticas linguísticas para os espaços de escolarização em contextos plurais. Desse modo, os objetivos foram a construção de um panorama da situação social e linguística de escolas localizadas na fronteira, seus efeitos nos processos de ensino- aprendizagem e o desenvolvimento de investigações para fins de proposição de metodologias de ensino-aprendizagem e políticas educacionais públicas em prol da valorização da diversidade linguístico-cultural. Conheça um pouco do trabalho desenvolvido na fronteira Brasil – Argentina – Paraguai, sob a gestão Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Para saber mais sobre essa ação, acesse também o vídeo. Marca gráfica do projeto Observatório da Educação na Fronteira. Fonte: Observatório da Educação na Fronteira (2012). http://peifunila.blogspot.com/?view=snapshot http://peifunila.blogspot.com/?view=snapshot https://www.youtube.com/watch?v=-oFwW0iqt9w&ab_channel=Muka Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 175 Entre as muitas atividades realizadas, procedeu-se a realização de diagnósticos das línguas e culturas entre a comunidade de cada uma das escolas parceiras, observações sistematizadas de aulas e de práticas escolares, seminários de estudos e debates em torno dos temas língua/educação/fronteira, planejamento e implementação de propostas metodológicas para ensino bi ou multilíngue. No que se refere às práticas pedagógicas, para os contextos plurais de fronteira em que o observatório foi desenvolvido, as escolas participantes propuseram, a partir de seus quadros docentes, atividades que incorporassem as línguas do entorno social nas aulas regulares dos primeiros anos do ensino fundamental. A presença de professores bi e plurilíngues nas escolas viabilizou modos de docência em que os limites entre as línguas não foram impostos nas explicações dos conteúdos e das atividades, no auxílio aos alunos e nas atividades lúdicas. Com isso, muitos alunos que, antes, se sentiam alijados das interações em sala de aula, por não se sentirem aptos a se comunicarem na língua majoritária de instrução (o português), tornaram-se sujeitos ativos nos processos de ensino-aprendizagem, participando e colaborando ativamente com o coletivo. Destacamos, dessa experiência, os relatos de professoras participantes do projeto e que lecionam em escolas de Pedro Juán Caballero, MS, fronteira entre Brasil e Paraguai. Naquele contexto, as línguas oficiais do Estado Brasileiro e do Estado Paraguaio (português), castelhano e guarani estão em situação de encontro cotidiano. Relato Prof. Rosa “Então... com o OBEDF eu tive uma outra visão, eu pude me colocar no lugar do aluno e imaginar como seria difícil eu estudar num lugar onde a língua materna não fosse a minha, fosse diferente, e que eu tivesse que conviver com aquela língua, tivesse que esquecer tudo o que eu sei para começar a aprender uma nova língua.” (Professora Rosa) (BERGER,2015) Relato Prof. Helena “Com o OBEDF eu aprendi que a gente pode estar trabalhando com as três línguas com os alunos. Antes do OBEDF eu não trabalhava com eles. Era só o português, né. Depois com a pesquisa feita com o observatório, as pesquisas feitas em sala de aula, observação com os alunos, eu fui interagindo com eles em guarani, espanhol e tive muitos... ótimos resultados na aprendizagem das crianças.” (Professora Helena) (BERGER, 2015) 176Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para saber mais sobre o OBEDF, clique aqui. 3.3 Princípios para a Promoção de Línguas e Culturas na Escola Conforme você viu, a promoção de línguas e culturas na escola implica em uma série de decisões, que demandam reflexão e planejamento por parte dos agentes envolvidos na formulação dos objetivos educacionais e sociais almejados para a comunidade escolar. Também é necessária a existência de políticas linguístico-educacionais que possibilitem a formulação de currículos escolares adequados aos contextos plurais e de fronteira. Esse é um dos importantes elementos que determinam as bases para que práticas diferenciadas sejam propostas e consolidadas nos espaços das escolas. Acrescenta-se, ainda, a importância de formação docente que contemple e problematize as especificidades e demandas linguístico-educacionais de contextos plurais. Formar educadores para o século XXI demanda um olhar para a pluralidade. Sobre isso, veja a afirmação de Berger (2015): São diversas as experiências didático-pedagógicas e abordagens plurais que podem servir de modelo para a formulação de novas práticas. Abordagens plurais são aquelas que têm como princípios os seguintes: • Sensibilização quanto à multiplicidade de línguas e culturas; • Desenvolvimento de atitudes positivas diante da diversidade; • Valorização das experiências e vivências dos alunos em relação às línguas de sua comunidade. A Educação Intercultural é um exemplo de abordagem plural para o ensino de línguas e culturas. “Ao não se contemplar a questão da pluralidade linguística e das políticas linguísticas como parte essencial e indispensável à formação de professores, precisamente nos dias de hoje, em que os fluxos migratórios levam a configurações demográficas plurais no âmbito dos países, estados e cidades, corre-se o risco de formar professores para atuarem em um mundo uniforme e homogêneo que não existe” (BERGER, 2015, p. 157). http://obedf2010.blogspot.com/p/o-observatorio.html Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 177 Com o objetivo de contribuir para a criação de um percurso que culmine na promoção de línguas e culturas na escola, a partir de Berger (2015), destacamos princípios para a proposição de ações que podem ser desenvolvidas no contexto escolar, visando subsidiar o reconhecimento da realidade plural da comunidade escolar e a vivência de novas experiências bi ou multilíngues e pluriculturais nos processos pedagógicos. Cada um dos princípios apresentados é seguido de perguntas para que a reflexão esteja no cerne do desenvolvimento de ações entre a equipe pedagógica: 1º Princípio: Conhecer e refletir sobre o contexto plural de línguas e culturas onde a escola se situa Contextos multilíngues e plurais, em que há circulação de falantes de diferentes línguas, como é o caso das regiões de fronteiras, são espaços de oportunidades de trocas interculturais. Escolas localizadas nessas regiões geralmente recebem alunos com repertórios linguístico-culturais diversos e que trazem consigo histórias e vivências que precisam ser consideradas pela escola. Por esse motivo, perceber, conhecer e compreender o entorno social em sua diversidade é uma importante tarefa que cabe à escola para a construção de práticas pedagógicas realistas frente ao público atendido. Vejamos algumas questões que servem de base para reflexão entre a equipe pedagógica: • Quais as características do contexto em que a escola se localiza? • É uma região de fronteira? Educação Intercultural. Fonte: Freepik (2023). 178Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Que línguas são usadas nesse contexto? • Que línguas podem ser visualizadas e percebidas no espaço público urbano (paisagem linguística)? • Em que ambientes as várias línguas são mais ou menos usadas? 2º Princípio: Conhecer e refletir sobre a relação da comunidade escolar com as línguas e culturas do entorno social Compreender e refletir sobre a relação da sociedade local com as línguas e culturas do entorno social são caminhos para a sensibilização da equipe pedagógica em relação às oportunidades e tensões que o contexto oferece. As tensões entre falantes de línguas diferentes e suas culturas tendem a ser fundadas em relações socioeconômicas assimétricas, em desigualdades culturais, em conflitos históricos, ou em valores socialmente reproduzidos. Por essa razão, é importante compreender que tipo de relação a comunidade escolar estabelece com as línguas do entorno social, de modo que esse conhecimento possibilite o planejamento de ações na escola. Seguem algumas possibilidades de questões: • As relações da comunidade escolar com as línguas e culturas do entorno social contribuem para a construção de um espaço favorável à diversidade e à integração? De que forma? • O que se pensa em relação às línguas e culturas do entorno interfere na forma como os educadores lidam com a presença dessas línguas e com os seus falantes nas práticas pedagógicas? De que forma? • A escola pode promover mudanças em relação às atitudes de alunos e equipe pedagógica diante das línguas/falantes na escola e na sociedade do entorno? De que forma? 3º Princípio: Identificar e refletir sobre o perfil linguístico e cultural da comunidade escolar (alunos, pais, professores) Para que possamos conhecer em profundidade, o perfil linguístico e cultural dos diversos membros da comunidade escolar (alunos, pais, educadores, dentre outros), é necessário que sejam realizados mapeamentos linguístico-escolares. Esse mapeamento pode ser realizado no ato da matrícula dos alunos ou no decorrer do ano letivo, conforme disponibilidade da equipe pedagógica. O desenvolvimento Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 179 desse tipo de ação parte do pressuposto que a percepção e identificação do perfil linguístico e cultural da comunidade é o primeiro passo do percurso para a valorização das experiências plurais na escola (BERGER; KUERTEN, 2021). Destacamos algumas questões que podem compor esse tipo de mapeamento: • Que línguas os educadores e a equipe pedagógica declaram falar ou compreender? • Qual o nível de conhecimento dos educadores em relação a essas línguas? • Que línguas os alunos que ingressam na escola falam e compreendem? • Que línguas fazem parte da história familiar desses alunos? • Qual o nível de conhecimento que os alunos possuem nas línguas que falam ou compreendem? • As línguas que os alunos falam e compreendem são usadas, por eles, na escola? Em que situações? • O Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Políticas Linguísticas possui largo conhecimento e tradição na realização de diagnósticos sociolinguísticos. 4º Princípio: Conhecer e analisar a legislação educacional e os documentos que orientam o ensino de/nas línguas e os seus usos na escola Conforme você teve a oportunidade de estudar neste módulo, as políticas linguístico- educacionais são reconhecidas como importantes bases para a formulação de ações nas escolas. Por esse motivo, conhecer e analisar a legislação educacional é tarefa que envolve todos os educadores, uma vez que esses documentos e decisões incidem no trabalho pedagógico. • Quais políticas linguístico-educacionais orientam o trabalho pedagógico? • Que documentos orientam as práticas pedagógicas em relação às lín- guas e culturas na escola? • Esses documentos contemplam as especificidades do contexto plural em que a escolase localiza? 180Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Que línguas são priorizadas nos documentos que orientam o trabalho pedagógico? • Qual é o lugar que essas línguas ocupam nesses documentos (língua ma- terna, língua estrangeira, língua adicional, língua da comunidade etc.)? • Os educadores participam na construção de documentos orientadores das atividades da escola? “A realidade plurilíngue do entorno e evidenciada na escola pressupõe políticas e planejamento linguístico-educacionais próprios para atender as demandas educacionais desses contextos, de modo que as instituições de ensino tenham condições de prover condições de acesso e permanência de alunos de diversas origens e culturas na escola” (BERGER; KUERTEN, 2021, p. 88). 5º Princípio: Conhecer e analisar o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, em relação às línguas e culturas do contexto plural em que se situa O Projeto Político Pedagógico de uma instituição de ensino deve ser o seu plano global em que se definam as ações que se deseja implementar na educação e seus objetivos em razão da realidade em que se situa e que se pretende construir. Esse documento deve refletir a identidade da instituição e seu posicionamento em relação à comunidade atendida. Por isso, em se tratando de escolas localizadas em contextos plurais e de fronteira, o PPP deve incorporar reflexões quanto ao entorno social e a forma de atender às demandas linguístico-educacionais na comunidade. Listamos algumas perguntas que servem de base à análise do documento institucional: O PPP da escola faz menção ao ambiente sociolinguístico da fronteira e ao bi ou multilinguismo presente no espaço escolar? Os encaminhamentos didático-pedagógicos do PPP preveem estratégias para lidar com o bi ou multilinguismo em sala de aula e fora dela? Os PPP e os planejamentos docentes tratam da avaliação de alunos com repertórios plurais e das especificidades linguístico-culturais do contexto? E então... de que forma sua escola ou instituição de ensino lida com a pluralidade de línguas e culturas do entorno social? Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 181 Você chegou ao final de seus estudos, fica a expectativa de que esse material tenha auxiliado a conhecer e refletir criticamente sobre seu contexto de ensino- aprendizagem e lhe proporcionado um olhar diferenciado em torno da multiplicidade que está ao redor. Que bom que você chegou até aqui! Agora é a hora de você testar seus conhecimentos. Para isso, acesse o exercício avaliativo disponível no ambiente virtual. Bons estudos! 182Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública BERGER, Isis Ribeiro. Experiências e ações de Política Linguística no âmbito do Observatório da Educação na Fronteira. Revista do GEL, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 138- 163, 2015. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/rg/article/view/465. Acesso em: 6 mar. 2023. BERGER, Isis Ribeiro. Princípios para a gestão do plurilinguismo na escola: questões para reflexão e proposição de ações. In: MORELLO, R.; MARTINS, M. F. Política Linguística em contextos plurilíngues: desafios e perspectivas para a escola. Florianópolis: Editora Garapuvu, 2016. BERGER; Isis Ribeiro; KUERTEN, Miriam Regina Giongo. Mapeamento linguístico escolar em um município da fronteira plurilíngue Brasil-Paraguai-Argentina: percepções e práticas docentes. In: RIBEIRO; Simone Beatriz Cordeiro; BELONI, Wânia Cristiane. Pesquisas em Políticas Linguísticas e Ensino de Línguas. São Carlos: Pedro e João Editores, 2021. p. 87-108. D BRASIL. Portaria nº 798, de 19 de junho de 2012. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2012. Disponível em: https://abmes.org.br/legislacoes/detalhe/1271/portaria- mec-n-798. Acesso em: 7 mar. 2023. BROVETTO, Cláudia. Educación bilingüe de frontera y políticas lingüísticas en Uruguay. Pro-Posições, Campinas, v. 21, n. 3 , p. 25-43, set./dez. 2010. Disponível em: https:// www.scielo.br/j/pp/a/8CmSfxDCNVrv8wsbyyK3qMd/?format=pdf&lang=es. Acesso em: 6 mar. 2023. COELHO, Elizabeth. Language and Learning in Multilingual Classrooms: A Practical Approach. Multilingual Matters: Bristol, 2012. FREEPIK COMPANY. [Banco de Imagens]. Freepik, Málaga, 2023. Disponível em: https://www.freepik.com/. Acesso em: 6 mar. 2023. MORELLO, Rosângela. Educação linguística: compartilhar a gestão, promover as línguas, qualificar as políticas – desafios e novos protagonismos. In: Ideação, Cascavel, v. 13, n. 2, p. 11-20, 2. sem., 2011. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index. php/ideacao/article/view/6071/0. Acesso em: 6 mar. 2023. MORELLO, R. MARTINS, M. F. Política Linguística em contextos plurilíngues: desafios e perspectivas para a escola. Florianópolis: Editora Garapuvu, 2016. OBSERVATÓRIO da Educação na Fronteira. [Site institucional]. 2012. Disponível em: http://obedf2010.blogspot.com/. Acesso em: 7 mar. 2023. Referências https://abmes.org.br/legislacoes/detalhe/1271/portaria-mec-n-798 https://abmes.org.br/legislacoes/detalhe/1271/portaria-mec-n-798 https://www.scielo.br/j/pp/a/8CmSfxDCNVrv8wsbyyK3qMd/?format=pdf&lang=es https://www.scielo.br/j/pp/a/8CmSfxDCNVrv8wsbyyK3qMd/?format=pdf&lang=es https://e-revista.unioeste.br/index.php/ideacao/article/view/6071/0 https://e-revista.unioeste.br/index.php/ideacao/article/view/6071/0 Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 183 STURZA, E. R. Das experiências e dos aprendizados no Programa Escolas Interculturais de Fronteiras. In: BRASIL. TV Escola. Salto para o Futuro. Escolas Interculturais de Fronteira. Ano XXIV - Boletim 1. maio, 2014. Unidade 1 - Línguas, Culturas, Fronteiras e suas Complexidades 1.1 Território, Territorialidade e Comunidades Linguísticas Unidade 1: Interculturalidade: Conceitos Fundamentais 1.1 Conceitos de Língua, Cultura e Repertório Linguístico na Construção da Interculturalidade Referências Unidade 3 – Fronteiras, o Desenvolvimento Social e a Educação 3.1 Fronteira como Problema e Espaço de Controle 3.2 Fronteira como Recurso para o Desenvolvimento Social 3.3 E os Possíveis Caminhos? Referências Unidade 2 - Fronteiras e Políticas Territoriais 2.1 Formação e Estabelecimento das Fronteiras Sul-Americanas: entre Tratados e Conflitos 2.2.1 Arco Norte 2.2.2 Arco Central 2.2.3 Arco Sul Referências 1.2 Fronteiras Linguísticas, Culturais, Econômicas e Simbólicas 1.2.1 Em Busca de Definições 1.2.2 Que Tal Pensar na Prática? Unidade 1 - A Constituição do Espaço Multilíngue nas Fronteiras Referências Unidade 3 - A Interculturalidade nas Práticas Educativas Plurais 3.1 Experiências Interculturais: Análise e Reflexão sobre Situações-Problema 3.1.1 Experiências e Memórias de Professores(as) de Línguas 3.1.2 A Avaliação como Prática Intercultural: Análise de Atividades Avaliativas 3.2 A Interculturalidade na Prática: Materiais e Recursos Didáticos Referências Unidade 2: A Educação Linguística Intercultural 2.1 Educação Linguística Intercultural e seus Elementos Constitutivos 2.1.1 Educação Linguística Intercultural e Formação de Professores para uma Educação Plural Referências 1.1.2 A Ideia de Língua como Prática Social 1.1.3 A Cultura como Rede de Significados 1.1.4 Repertórios Linguísticos e Contextos Bi/multilíngues 1.2 Mitos e Conceitos Sobre a Interculturalidade A Interculturalidade como Movimento de Vida 1.1.5 Língua, Cultura e Interculturalidade – A Construção de um Terceiro Lugar Unidade 1 - Políticas Linguístico-educacionais e Gestão de Línguas Referências Unidade 3 - Fenômenos Linguísticos na Cultura Fronteiriça 3.1 Repertório Linguístico dos Fronteiriços 3.2 Línguas de Fronteira nas Expressões Culturais Referências GLOSSÁRIO Unidade 2 - Estratégias Comunicativas no Contexto Multilíngu 2.1 Estratégias Comunicativas nas Práticas Sociais no Contexto Multilíngue Referências 1.1 Situações do Bilinguismo: Português/Espanhol 1.2 Espaço Multilíngue:Outras Línguas nas Fronteiras da América do Sul Referências Unidade 3 - A Promoção de Línguas e Culturas na Escola 3.1. Desafios da Educação em Contextos Plurais 3.2 Ações em Contextos Multilíngues de Fronteira 3.2.1 O Programa Escolas Interculturais de Fronteira 3.3 Princípios para a Promoção de Línguas e Culturas na Escola Referências Unidade 2 – Educação Bi/Multilíngue: Conceitos e Modelos 2.1. O que é Educação Bilíngue? 2.2 Modelos de Educação Bilíngue 2.2.1 Educação Multilíngue para as Demandas do Século XXI Referências 1.1 Multilinguismo, Políticas Linguísticas e Políticas Linguístico-educacionais 1.2 Gestão de Línguas na Escola