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Neste livro são encontradas as principais categorias explicativas e al- guns dos principais autores (clássicos e contemporâneos) que contribuem para o entendimento do debate das lutas de classe e sua relação com a constituição dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina. Esta obra favorece o acesso a fatos e fenômenos históricos, econômi- cos, culturais, territoriais e sociais que demarcaram a história das lutas de classe, bem como aos novos elementos que permeiam o debate atual des- sa temática. Também favorece compreender de modo mais aprofundado a relação do Serviço Social com os movimentos sociais, principalmente no que diz respeito ao exercício da cidadania, da democracia e da efetivação do usufruto dos direitos constitucionais. CLASSES E MOVIMENTOS SOCIAIS MIRIAN CRISTINA LOPES Código Logístico 59263 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6604-9 9 7 8 8 5 3 8 7 6 6 0 4 9 Classes e movimentos sociais Mirian Cristina Lopes IESDE BRASIL 2020 © 2020 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Abscent/ Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ L854c Lopes, Mirian Cristina Classes e movimentos sociais / Mirian Cristina Lopes. - 1. ed. - Curiti- ba [PR] : IESDE, 2020. 122 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6604-9 1. Estrutura social. 2. Movimentos sociais. 3. Capitalismo - Aspectos sociais. I. Título. 20-63421 CDD: 306.342 CDU: 316.344.2 Mirian Cristina Lopes Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Análise da Questão Social pela UFPR e graduada em Serviço Social pela mesma instituição. Professora em instituições de ensino superior, produtora de materiais didáticos, palestrante e ministrante de cursos de capacitação continuada em instituições públicas e privadas. Atua na implantação de projetos de extensão comunitária e como técnica de Serviço Social. Temas de interesse: políticas sociais, novas alternativas em educação e elites políticas e suas relações com a desigualdade brasileira. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 9 1.1 O que são movimentos sociais 10 1.2 O sujeito político dos movimentos sociais 13 1.3 Movimentos sociais na desconstrução da ideologia burguesa 18 1.4 Características dos movimentos sociais 21 1.5 Movimentos sociais e a dimensão sócio-histórica 24 1.6 Movimentos sociais no contexto capitalista 30 2 Movimentos sociais e perspectivas teóricas 36 2.1 Abordagem teórica dos movimentos sociais 36 2.2 A influência das teorias marxistas clássicas nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais 38 2.3 A influência da tradição marxista nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais, após a década de 1960 47 2.4 A influência dos teóricos clássicos estadunidenses nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais 52 2.5 A década de 1960 e as novas influências nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais 54 3 A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 62 3.1 As origens da organização sociopolítica na perspectiva de classes 62 3.2 A influência da cultura política na organização sociopolítica 67 3.3 A organização sociopolítica na perspectiva de classes e de outros grupos identitários 72 3.4 Novas configurações no campo de luta 75 4 Os movimentos sociais contemporâneos 85 4.1 A banalização dos direitos políticos e dos demais direitos fundamentais 85 4.2 A criminalização dos movimentos sociais 89 4.3 As novas estratégias de reorganização e resistência dos movimentos sociais 95 5 O Serviço Social e os movimentos sociais 101 5.1 O projeto ético-político do Serviço Social e os movimentos sociais 101 5.2 A experiência do Serviço Social junto aos movimentos sociais 105 5.3 Políticas públicas, Serviço Social e movimentos sociais 110 6 Gabarito 117 A compreensão dos elementos fundantes das lutas de classe é imprescindível ao Serviço Social, visto que é com base nela que se fundamenta toda a construção ético-política, teórico-metodológica e técnica-operativa da profissão. Trata-se, portanto, de uma temática que deve ser indissociável do processo formativo de assistentes sociais. Nesse sentido, exaltamos a importância deste livro e a prioridade de sua leitura, visto que nele são encontradas as principais categorias explicativas e alguns dos principais autores (clássicos e contemporâneos) que contribuem para o entendimento do debate das lutas de classe e sua relação com a constituição dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina. Além disso, esta obra favorece o acesso a fatos e fenômenos históricos, econômicos, culturais, territoriais e sociais que demarcaram a história das lutas de classe, bem como aos novos elementos que permeiam o debate atual dessa temática. Também favorece compreender de modo mais aprofundado a relação do Serviço Social com os movimentos sociais, principalmente no que diz respeito ao exercício da cidadania, da democracia e da efetivação do usufruto dos direitos constitucionais. Para que a leitura não seja exaustiva, o livro foi produzido de modo didático, no sentido de facilitar o entendimento. Está dividido em cinco capítulos que dialogam entre si, ampliando a perspectiva do leitor acerca de classes e movimentos sociais. Na mesma linha, são apresentadas dicas de outros referenciais para aprofundamento, como livros, artigos, filmes, documentários e materiais diversos que podem contribuir com seus estudos e pesquisas. Em suma, trata-se de um livro construído com base na perspectiva crítica, ou seja, demarcado por uma visão de mundo que se orienta pelo projeto ético-político do Serviço Social brasileiro. Norte que vislumbra uma prática profissional balizada por um projeto societário de luta permanente contra a desigualdade social. Portanto, desejamos que a leitura seja proveitosa e que possa estimular a busca por aprofundamentos. Bons estudos! APRESENTAÇÃO A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 9 1 A construção sócio-histórica dos movimentos sociais Este capítulo reserva a você a oportunidade de compreender os movimentos sociais e sua importância diante da criação e or- ganização da vida em sociedade. Para tal, apresenta fatos e fenô- menos sociais, históricos, econômicos, culturais e territoriais, bem como conceitos e categorias explicativas que ajudarão no entendi- mento amplo acerca dos movimentos sociais e de sua construção sócio-histórica. Na mesma direção, oferece elementos que contribuirão para a desconstrução de concepções equivocadas que, porventura, tenham como base informações simplistas ou naturalizadas. Isso não quer dizer que somente com este capítulo você será capaz de atingir um aprofundamento pleno sobre a temática,afinal, aden- trar a história da Constituição e da práxis dos movimentos sociais também envolve submergir na história da construção social das sociedades em geral. O capítulo enfatiza, assim, a importância da emergência e da permanência dos movimentos sociais com relação à organização das sociedades como conhecemos hoje. Enfatiza, também, a im- prescindível atuação desses movimentos na criação e no exercí- cio da cidadania, da democracia e da efetivação do usufruto dos direitos constitucionais. Trata-se de uma introdução aos marcos interpretativos que possibilitam, de algum modo, instituirmos a atribuição de sentido e significado aos movimentos sociais. 10 Classes e movimentos sociais 1.1 O que são movimentos sociais Vídeo O entendimento do conceito de movimento social pode ser bastante complexo. Primeiramente porque nenhum conhecimento de mundo é neutro, ou seja, diferentes tipos de vivência geram diferentes interes- ses e, portanto, diferentes olhares sobre o mundo e as coisas que o compõem. Em outras palavras, cada compreensão acerca do que são movimentos sociais resulta em variadas conceituações, intrinsecamen- te relacionadas ao lugar de fala de quem as constrói (origem, cultura, status social, motivações). Há também que se avaliar que essas conceituações existem em dis- tintos campos de estudo, e nenhum deles está livre da disseminação de informações simplistas ou naturalizadas. Isso se complexifica ainda mais na contemporaneidade, dada a velocidade com que as informa- ções são criadas, compartilhadas e destituídas ou substituídas (estrate- gicamente ou não). Outro fator importante diz respeito ao abraçamento tardio do as- sunto pelo universo acadêmico, o que significa que o estudo e a concei- tuação acerca dos movimentos sociais ainda são muito recentes e, de certo modo, reduzidos se comparados a outros conhecimentos sociais. Se também considerarmos que a ciência tradicional ainda caminha a passos lentos, no que se refere ao intuito de valorar e proporcionar lugar de voz ao conhecimento empírico 1 , podemos dizer que existe a possibilidade de que os conceitos criados até então sobre os movimen- tos sociais apresentem fragilidades. Os estudos dos movimentos sociais localizam-se majoritariamente no campo das ciências sociais, no qual é possível identificar diferentes posicionamentos. Podemos sinalizar como ponto nevrálgico do deba- te a origem dos movimentos sociais, dado que a sua demarcação exata depende do entendimento de cada autor. Caso considerássemos qualquer mobilização coletiva como um movi- mento social, seria possível demarcar esse surgimento nos primórdios da história. Um exemplo explícito são as lutas sociais que se desen- rolaram na Roma Antiga, entre a última década do século VI a.C. e o começo do século V a.C. Logo após a queda da Monarquia e a institui- ção da República, o povo romano se manifestou por meio de revoltas populares ao verificar que suas demandas não eram consideradas pelo novo Estado estabelecido (PLUTARCO, 1951). Faz referência ao conhecimento adquirido por meio da vivência e/ou da observação. Como se trata do conhecimento que oriunda da experiência humana, e não de experiências científicas comprovadas, é também denominado senso comum. 1 nevrálgico: em sentido figurado, quer dizer crucial; central; ponto mais importante de uma questão. Glossário A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 11 Essas mobilizações da plebe romana resultaram na criação do Tribu- no do Povo, um tipo de cargo estatal para garantir a representatividade dos plebeus. É uma das revoltas mais conhecidas na história da Roma Antiga, por se tratar de um marco na construção da cidadania romana. Nessa linha de análise, portanto, toda ação de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por meio do embate político é conceituado como movimento social. Com base nesse pressuposto, um movimento social teria como propósito uma ou mais alterações no modo como a sociedade institui algum processo. A ação social em si, nessa perspectiva, é considerada um movimento social, isto é, refere- -se ao modo como a sociedade se movimenta (toda mobilização, ação, batalha ou revolta organizada). Por outro viés de análise, manifestações, atos, protestos e marchas políticas configuram-se como ações sociais geradas por movimentos sociais. São estratégias criadas para expressar insatisfações, articular membros e dar visibilidade às pautas de luta. Podem ser compreendi- das como ações políticas que geram ou não o nascimento de movimen- tos sociais, bem como resultam ou não da organização deles. Assim, o movimento social seria o grupo organizado, e não a ação desenvolvida. Enfatizado que não existe uma única perspectiva sobre os movi- mentos sociais, que o desafio de determinar seu surgimento é perma- nente e que esse debate está longe de ser esgotado, cabe agora expor o que são movimentos sociais e como se organizam. Percorreremos, para tanto, uma leitura de mundo mediada pela teoria crítica da Escola de Frankfurt, mais precisamente sob os critérios analíticos do materia- lismo histórico-dialético de Karl Marx 2 . Nossas contribuições ao estudo de classes e movimentos sociais, desse modo, estarão em consonância com o método de investigação da vida proposto por Karl Marx, ou seja, com o entendimento da so- ciedade pela análise de sua totalidade, sem desconsiderar as particu- laridades que constituem o seu todo (elementos culturais, históricos, territoriais, políticos, econômicos e sociais). Considera-se que a vida é dinâmica, contraditória e em constante movimento, transformando-se e se materializando historicamente conforme os fenômenos sociais se relacionam com as forças sociais que os geram. Para exemplificar a questão, observemos as Mães da Sé, que reúnem mães de filhos desapa- recidos a manifestarem-se na Praça da Sé (São Paulo/SP) e em outros cantos do mundo. Elas buscam notícias sobre o para- deiro de seus filhos e reclamam contra a ineficiência do Estado diante do desaparecimento de crianças no Brasil. Contudo, ainda que as Mães da Sé estejam organizadas e institucionali- zadas por meio da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD), não se configuram enquanto um movimento social, visto que não questionam a raiz da estrutura social imposta (papéis, posições, funções, instituições, organizações, sistemas etc.). Obtenha mais informações na página oficial, disponível em: http://www.maesdase.org.br/ Paginas/default.aspx. Acesso em: 22 jun. 2020. Curiosidade Entende-se como materialismo histórico-dialético a teoria crítica criada por Karl Marx, que oferece um arcabouço capaz de proporcionar análises mais apro- fundadas e amplas acerca da realidade social. Essa teoria rom- pe com diversas outras, como a funcionalista e a positivista. Para Marx, as teorias existentes eram limitadas e equivocadas, visto que consideravam o mundo e o sistema social estático, fatalista e messiânico. 2 12 Classes e movimentos sociais Consequentemente, temos como ponto de partida a compreensão dos movimentos sociais como coletivos de poucos ou muitos sujeitos que se aproximam e permanecem unidos por uma identidade social, questionam a estrutura social vigente, constroem projetos de socieda- de segundo o que acreditam ser mais justo. Coletivos que, por meio de ações sociais, se organizam para expressar na sociedade modos de ver o mundo e reivindicar politicamente respostas às demandas que lhes são pertencentes (majoritariamente, lutar por condições adequadas de vida). Movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. Suas ações es- truturam-se a partir de repertórios criados sobre temas e pro- blemas em situações de conflitos, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processosocial e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Essa identidade decorre da força do princípio da solida- riedade e é construída a partir da base referencial de valores cul- turais e políticos compartilhados pelo grupo. (GOHN, 2000, p. 13) Vemos na explicitação desse conceito, em linhas gerais, que um mo- vimento social é mais do que um ato organizado coletivamente. Sua complexidade se caracteriza por dimensões que norteiam embates po- líticos, valores, ideais, tensões sociais, construções identitárias, estraté- gias planejadas, um projeto societário, articulações em rede, inscrição na história e estruturas organizacionais (lideranças, comitês, brigadas, partidos e veículos de comunicação). São mais que uma simples revolta (as jacqueries camponesas), mais que um grupo de interesses (câmara de comércio), mais que uma iniciativa com autonomia do Estado (ONGs). Os movi- mentos nascem da percepção de objetivos como metas de ação, mas para existirem no tempo necessitam um processo de insti- tucionalização. (TOURAINE, 1999, p. 112) Dada a complexidade que constitui um movimento social, para compreendê-lo, é preciso verificar as estruturas sociais nas quais ele emerge, resiste e se manifesta. Dito de outro modo, toda sociedade funciona sob as rédeas de determinados grupos (elites econômicas e políticas), desenvolve-se tendo em vista contextos políticos, econômi- cos, históricos, culturais e territoriais bem específicos, além de se fun- damentar em valores e crenças diversas e estabelecer relações sociais constantemente tensionadas por disputas de classe. A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 13 1.2 O sujeito político dos movimentos sociais Vídeo É um equívoco conceituar ou buscar compreender os movimentos sociais sem considerar que cada sociedade vivencia um tipo de moder- nidade, uma forma de governo e diferentes processos com relação à formação de sujeitos sociais. Isso nos remete ao fato de que a constitui- ção dos movimentos sociais também é demarcada por aspectos econô- micos, geográficos e territoriais. Nessa linha de análise, há uma categoria explicativa que merece atenção especial: a formação do sujeito político, o ser que constrói – segundo vivências e conjunturas estruturais peculiares – e encaminha a ação. Entendemos, então, que o sujeito da ação social se difere de acor- do com o meio e o território em que vive, as oportu- nidades de ação de seu tempo e suas experiências. A respeito da construção do sujeito político, nes- sa perspectiva, torna-se mais fácil a visualização das motivações que permeiam a criação dos movimen- tos sociais e, portanto, sua legitimidade. Assim se descortina a raiz dos movimentos sociais, que nas- cem do real vivido, sendo possível compreender o porquê de se comprovarem necessários. Para melhor explicitar a questão, tomemos o mo- vimento dos trabalhadores como exemplo em que esses elementos se mostram aparentes. O movi- mento do proletariado nasceu no século XIX devido às péssimas condições de trabalho e vidas imputa- das pelo sistema capitalista. A construção da luta contra a exploração dos trabalhadores emergiu da necessidade, visto que a pobreza extrema se alarga- va e, com ela, surgiam novas problemáticas sociais. Esse contexto se revela de modo drástico na maioria das sociedades, uma vez que o capitalismo se reconfigurou em meados do século XIX, passan- do de sua forma mercantilista originária (comercial) para um modelo mais elaborado, o sistema indus- trial. Se com a expansão marítima e colonial (prá- ticas que demarcaram os primórdios do sistema O capitalismo é um sistema econômico e social cuja ori- gem ocorreu sob a influência das ideias iluministas e liberalistas. É uma proposta de desenvolvimento da so- ciedade com base na ideia do fortalecimento das liberdades, principalmente quanto ao livre comércio com intervenção estatal mínima e à liberdade do estabelecimento da pro- priedade (da terra e de outros bens). O sistema instaura a divisão de classes (burguesia versus proletariado) entre os que detêm os meios para a produção e os que possuem apenas a força de trabalho para sua sobrevivência. Diferentemente de todos os regimes de governo e modos de economia anteriores, o ca- pitalismo instaura a exploração do homem pelo homem de maneiras complexas e contra- ditórias. Trata-se de um divisor temporal no que se refere às tipificações de modos de vida social, político, econômico e cultural. Saiba mais 14 Classes e movimentos sociais capitalista) o mundo já sentiu o braço dos processos exploratórios, na sua segunda fase, o capitalismo instaurou níveis ainda mais complexos de exploração. Inaugurou-se a era da divisão internacional do trabalho, medida estratégica de alta exploração com os objetivos de reduzir in- vestimentos e ampliar ainda mais os lucros. O mundo foi dividido segundo as necessidades de empoderamento do sistema capitalista. De um lado, grandes metrópoles se ergueram e se instituíram enquanto produtoras de mercadorias em grande escala. Demarcou-se, então, o poderio das elites por sua propriedade dos meios de produção, assumindo o posto de centro do mundo. Do outro lado, houve o lugar de servidão dos países colonizados, campo de exploração de matérias-primas e de mão de obra (em maioria, quase escrava). As grandes metrópoles se anunciaram como modelos de desenvol- vimento para o mundo. O processo de produção industrial inviabilizou os tradicionais métodos de vida que a sociedade conhecia: a produção artesanal, já no início dessas mudanças, foi banida – aos artesãos, só restou a oferta da mão de obra. A vida rural camponesa também foi inviabilizada, levando famílias inteiras para os grandes centros indus- triais em busca de alguma chance de emprego e salário. Culturas, há- bitos, tradições e símbolos foram drasticamente alterados, e a vida em sociedade nunca mais foi a mesma. Após a revolução tecnológica industrial, o capitalismo se tornou a única possibilidade de subsistência. As cidades industriais surgiram sem planejamento adequado e sem trabalho e emprego para a maio- ria. Houve, portanto, o acentuamento do pauperismo, da violência urbana, das periferias, do uso descontrolado de psicoativos, de destrui- ções de contextos familiares em massa e, entre outras consequências, da exacerbação dos mais severos níveis de desigualdade social. Em 1945, ao observar o trabalho fabril e a vida dos trabalhadores na Europa, Engels 3 registrou tempos de barbárie e extrema injustiça social. A maioria da população vivia em barracos improvisados ou em cortiços aglomerados, e o tempo de trabalho atingia mais de 17 horas por dia (crianças e mulheres grávidas trabalhavam na mesma medida). O salário mal cobria a despesa com alimentação, não havia qualquer subsídio fi- nanceiro ou serviço para atendimento da saúde dos trabalhadores, bem como qualquer tempo reservado para férias ou descanso. Metade das crianças morria antes dos cinco anos de idade (ENGELS, 2010). Sugerimos o filme Germinal, produzido pelo escritor Émile Zola, que proporciona a visualiza- ção dos níveis desuma- nos da exploração do sistema capitalista no período histórico do seu surgimento. Direção: Claude Berri. Bélgica, Itália, França: Renn Productions, 1993. Filme pauperismo: extrema pobreza; miséria; paupérie. Glossário Friedrich Engels assumiu, na In- glaterra, a direção de uma gran- de fábrica de sua família, onde pôde observar as mazelas sociais criadas pelo sistema capitalista. Conheceu os dois lados do capitalismo, primeiramente dado à sua origem social e, depois, por meio de suas vivências enquanto teórico e militante revolucio- nário. Após anos dedicados ao estudo minucioso da situação da classe trabalhadora na Inglaterra (título de uma de suas principais publicações), Engels concluiu que a história da humanidade é a história da luta de classes. 3 A construção sócio-histórica dos movimentossociais 15 Diante de processos exploradores e desumanos, os trabalhadores passaram a se construir enquanto sujeitos políticos. Nasceu, então, o movimento social dos trabalhadores proletariados, que passaram a se reconhecer enquanto classe antagônica à classe dos capitalistas (pela primeira vez na história, organizaram greves de dimensões considerá- veis). No mesmo período, conheceram os manuscritos de Karl Marx 4 , passaram a questionar o capitalismo e a denunciá-lo ao mundo como um sistema econômico que beneficia os proprietários dos meios de produção e que se sustenta da exploração dos trabalhadores. Na perspectiva de análise de autores da tradição marxista/marxia- na, teoria de influência hegemônica no Serviço Social, temos o sécu- lo XIX como o marco do surgimento do movimento social de classe (o mais próximo das organizações que conhecemos na atualidade). Com ele, ocorre o nascimento do sujeito social e político que se desenvolveu como ator social. Esse desenvolvimento pode ser identificado em importantes eta- pas, organizadas didaticamente a seguir: O sujeito da industrialização que construiu o movimento dos trabalhadores (que tem a disputa de classe no centro do processo) e que inspirou o nascimento de outros movimentos sociais. O sujeito consciente do seu processo de transformação e construção enquanto sujeito político e ator social. O sujeito, pós-sociedade industrializada, que vivenciou os movimentos sociais e fez nascer desse processo o sujeito coletivo transformador, iniciando o processo de criação dos movimentos sociais para além das lutas de classe. Karl Marx foi um militante formado em Sociologia, História, Economia e Jornalismo. Sua teoria, o materialismo histórico- -dialético, influenciou diversos campos da ciência. Ele se de- dicou a explicitar as estratégias capitalistas para proporcionar à classe trabalhadora acesso aos conhecimentos necessários à sua libertação dos processos de exploração e injustiça social. Pro- duziu livros, jornais e manifestos, como Manifesto Comunista (1848) e O Capital (1867-1894). Sacrificou sua condição social e econômica em busca de sua meta, foi exilado, perseguido e boicotado no campo da ciência e da política. Foi Marx, em suma, quem desvendou o capitalismo e o explicitou em suas mais diver- sas dimensões. Falou e instigou trabalhadores a se organizarem coletiva e internacionalmente, com o propósito de derrubar o sistema que os aprisionava na condição de explorados, aliena- dos e escravizados. Suas ideias foram expandidas tendo em vista diferentes interpretações, algumas equivocadas sobre sua obra. 4 16 Classes e movimentos sociais De acordo com Touraine (1994), o sujeito social histórico se constrói em meio e ao longo de processos sociais. Evitando ser somente deter- minado pelo contexto em que vive, é o sujeito que constrói a vontade de agir e alterar o seu meio social. É o ser social e político que constrói sua liberdade na relação com o outro e sob a promessa da democracia, que se torna atuante em seu mundo pessoal e social (ainda que inicial- mente esse processo ocorra de modo inconsciente). Uma sociedade democrática é uma sociedade que reconhece o outro, não na sua diferença, mas como sujeito, quer dizer, de modo a unir o universal e o particular [...], uma vez que o sujeito é ao mesmo tempo universalista e comunitário, e ser sujeito é estabelecer um elo entre esses dois universos, ensaiar viver o corpo e o espírito, emoção e razão. (TOURAINE, 1994, p. 1-2) Em suma, os movimentos sociais são legítimos e necessários, pois emergem e resistem na luta contra as desigualdades implementadas pela própria estrutura social. Os conflitos sociais se alteram segundo a influência dos fenômenos vivenciados em cada período, o que nos leva ao entendimento de que os movimentos sociais existem em todas as sociedades – campo da produção, pautas culturais e, mais atualmente, nas questões identitárias. Como estudamos, há registros históricos de conflitos sociais que datam desde os primórdios da humanidade, mas foi na sociedade ca- pitalista que os sujeitos políticos configuraram os moldes institucionali- zados que caracterizam os movimentos sociais na atualidade. No contexto capitalista, os movimentos sociais asseguram possibi- lidades de resistência e luta aos grupos que historicamente são negli- genciados, excluídos ou invisibilizados devido à sua condição de classe, sua posição cultural ou sua condição identitária. A inexistência dos movimentos sociais seria extremamente benéfica ao ideário capitalis- ta, uma vez que não haveria grupos a denunciar as desumanidades e barbáries que caracterizam suas estratégias de perpetuação. A compreensão da ideologia capitalista, bem como das práticas so- ciais que a materializam, se faz essencial ao entendimento dos movi- mentos sociais, pois ainda que a desigualdade social seja anterior ao sistema capitalista e exista em toda parte do mundo (independente- mente do tipo de governo ou do sistema econômico em vigência), é na luta de classes que se apresentam os níveis mais complexos de contra- dição e injustiça social. Logo, o entendimento conceitual dos movimen- A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 17 tos sociais só é possível se considerados os conflitos de classe, ainda que estes não sejam o único determinante de sua existência. Desde a sua origem, portanto, o capitalismo altera muito mais do que a ordem econômica: ele institui novos valores e modos de ser em sociedade. No século XIV, um manual distribuído pelos burgueses aos comerciantes já demonstrava o que estava por vir: a projeção do des- prezo pelos pobres, a incitação ao egoísmo, o incentivo à corrupção, a elevação da propriedade privada ao sagrado e a supremacia da obten- ção de lucros. O manual orientava: não frequentes os pobres, pois nada tens a esperar deles; tu não deves servir os outros, deixando de te servir em teus pró- prios negócios; lembre-se que as dádivas tornam cegos os olhos dos sábios e muda a boca dos justos. Se para obter o resultado esperado da transação mercantil for preciso subornar, por que não fazê-lo? É um grande erro fazer o comércio de modo empírico, o comércio deve ser feito racionalmente. (RIBEIRO, 1995, p. 210, grifos do original) Ainda na contemporaneidade, vemos um grupo minoritário com- posto de elites econômicas e políticas que tem sob seu poder Estados, indústrias, empresas, bancos, veículos de comunicação em massa, grandes complexos industriais monopolizados e incontáveis proprie- dades de terra em todo o mundo. É inegável, então, a importância absoluta dos movimentos sociais, visto que ainda se configuram enquanto espaço de construção de su- jeitos políticos, que se expressam, organizam e instituem modos de en- frentamento das desigualdades e injustiças criadas ou intensificadas pelo sistema capitalista. São os movimentos sociais os porta-vozes dos sujeitos cujos direitos são negligenciados, reduzidos ou retirados. Os movimentos sociais proporcionam meios para que os sujeitos se aproximem, expressem suas demandas individuais e sociais, se identi- fiquem em suas vivências, compartilhem saberes e conhecimentos de todos os tipos, inclusive os políticos. Por meio da aproximação com os grupos organizados, são viabilizados o acesso a estudos, debates e outras vivências que resultam no entendimento dos sujeitos de sua própria condição de vida. Condição essa que nem sempre é escolhida, tendo em vista que, em prol da manutenção de sua ideologia burguesa, o sistema capitalista dificulta ou impede a ascensão social de pobres, mulheres, indígenas, negros, homossexuais, lésbicas, travestis, religio- 18 Classes e movimentos sociais sos e de qualquer grupo que questione ou ameace o pleno funciona- mento da ordem capitalista. O movimento social é cenário e palco para o fortalecimento de re- lações de identidade, a descoberta do modo como as relações sociais são construídas e o entendimentoda origem das formas sociais de ex- ploração e dominação política – campo de extrema importância para que o sujeito possa tomar ciência de sua alienação. Importante res- saltar que a alienação é aqui compreendida como um dos pilares para a construção da ideologia burguesa, sendo a base que proporciona ao capitalismo as máximas necessárias à sua perpetuação. Quando o sujeito não percebe que sua vida e o funcionamento do sistema social em que vive são construídos em parte por ele próprio, por meio da reprodução das regras que regem a estrutura social, dize- mos que está na condição de alienado. Nessa situação de “ignorância”, não percebe, por exemplo, sua condição de explorado, elevando a res- ponsabilidade pela criação das sociedades e das suas próprias condi- ções de vida ao divino, ao Estado, ao destino, à ciência etc. Uma pessoa alienada que vive na condição de extrema pobreza, por exemplo, natu- raliza sua situação e, por isso, tende a não questioná-la. Como enfatizado, a compreensão teórica do que é um movimen- to social é uma tarefa complexa, pois mesmo entre teóricos não há um consenso quanto a uma conceituação. Ao considerar o fato de que adentramos em termos e conceitos equivocamente simplificados para uso no senso comum, a situação fica ainda mais difícil. 1.3 Movimentos sociais na desconstrução da ideologia burguesa Vídeo Para além do impasse quanto à determinação do surgimento e do próprio conceito de movimentos sociais, e considerando os termos ne- vrálgicos já abordados (estrutura social, sujeito político, ação social, ca- pitais sociais, alienação, proletariado, burguesia, elites etc.), outro termo que exige atenção é ideologia, essencial à sequência dessa reflexão. Ideologia apresenta significados diversos e opostos. No senso co- mum, é utilizada como sinônimo de visão/ideia de mundo, implicando o entendimento de que existem diferentes ideologias segundo o que A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 19 cada um deseja com relação ao funcionamento da sociedade. Já no âmbito conceitual crítico, ideologia é sinônimo de realidade previamente inventada, que se concretiza por meio de um conjunto sistemático de ideias, valores e símbolos voltados à manutenção das relações de do- minação impostas pelas elites. Karl Marx foi o autor que conceituou ideologia como um instrumen- to de dominação. Explicitou, em seus trabalhos, que a ideologia cria uma realidade imaginária/falsa, visto que o funcionamento dos ideais da elite dominante depende da ocultação de diversos aspectos da rea- lidade. A ideologia serve, por exemplo, para que o trabalhador não se perceba enquanto explorado. A ideologia orienta que esse trabalhador deve ser grato pelo salário que recebe, satisfeito por fazer parte da construção do progresso e fiel às regras do sistema, sem questioná-las para não provocar o caos, porque seu lugar na organização da socieda- de foi “naturalmente” construído. Como estratégia de dominação, a ideologia burguesa cria realidades que nos fazem acreditar que o Estado é o culpado pelas injustiças. Com isso, oculta o fato de que o Estado está a serviço das elites – quanto maior o nível de corrupção de uma nação, mais visível se torna a questão, uma vez que os cargos políticos são ocupados pela classe dominante. Nesse contexto, um dos principais papéis dos movimentos sociais é o de descortinar a realidade ou, como diria Marx (1985, p. 620), “mos- trá-la para além do real aparente”. São os movimentos sociais os agen- tes políticos capazes de questionar o vivido, porque, enquanto sujeitos coletivos, se tornam fortes, e nada é mais temido pelas elites dominan- tes do que a força da massa popular. Foram os movimentos sociais os responsáveis pelo questionamen- to da história contada. São eles que passaram a cobrar a sociedade quanto à história dos negros, dos índios, das mulheres, das crianças, dos camponeses etc. Sem o poder construído pelo povo, ainda estaría- mos estudando nas escolas apenas sobre os brancos, os poderosos, os ricos e seus feitos. É com base em estratégias que ocultam ou confundem que as elites dominantes (políticas e econômicas) continuam no poder. A ideologia lhes fornece os instrumentos necessários para garantir sua hegemonia. Outro aspecto de extrema importância com relação ao entendimen- to dos movimentos sociais se refere à vulgarização e à marginalização A ideologia burguesa é um conjunto sistemático de ideias que instituem na sociedade o culto de que a história das socie- dades é a história do progresso. Com essa estratégia, oculta-se a história real e os sujeitos reais que atuam na construção da sociedade, escondendo, assim, que as elites dominantes fazem uso do progresso para dominar todas as esferas da vida. Nessa ideologia, todo tipo de exploração, alienação e fetiche é mantido em sigilo, de modo que se faz aparente apenas a necessidade do progresso e do desenvolvimento “natural” das sociedades. Assim, mantém-se a ascensão e a manutenção das elites burguesas (CHAUÍ, 1988). Saiba mais Pray the Devil Back to Hell é um excelente documen- tário para compreender a importância da organiza- ção social ante mudanças que desejamos no mundo. A produção da assistente social Leymah Gbowee revela os pro- testos organizados por mulheres muçulmanas e cristãs que, como resul- tado, conquistaram o fim da Segunda Guerra Civil da Libéria, em 2003. Direção: Gini Reticker. USA: Fork Films, 2008. Documentário 20 Classes e movimentos sociais dos grupos que se organizam para enfrentar a ordem vigente. Compete à ideologia dar conta de escrever na história a versão de que os movi- mentos sociais não passam de grupos de pessoas desocupadas, loucas e, consequentemente, perigosas. O fortalecimento popular não interessa à ideologia burguesa, uma vez que o poder popular pode colocar em risco o projeto de sociedade que as elites dominantes perpetuam há séculos – apenas lhes interessa o poder de mobilização da massa alienada. As pesquisas dos sociólogos brasileiros Jessé de Souza (2017) e Ri- cardo de Oliveira (2001) revelam que a elite dominante se constrói e se perpetua por meio de relações sociais familiares que se conectam e lhes possibilitam acumular capitais sociais, políticos e econômicos ao longo de diversas gerações. Não se trata de mérito, visto que a maioria das famílias mais poderosas do mundo apresenta redes de poder que se transformam em benefícios, privilégios e artifícios diversos materia- lizados na sociedade em nepotismos, relações clientelistas e corrupção. Os pesquisadores comprovam que as famílias mais ricas e poderosas da atualidade pertencem e/ou estão associadas à mesma elite domi- nante há mais de 500 anos. A estrutura de poder não é uma abstração, ela se materializa em situações objetivas de posse de riqueza, se reproduz e se con- solida graças a redes políticas, sociais e de parentesco. As redes políticas de poder são definidas como conexões de interesses envolvendo, basicamente, empresários e cargos políticos no aparelho de Estado, no executivo, legislativo e no judiciário e, também, em outros espaços de poder buscando assegurar van- tagens e privilégios para os participantes. (OLIVEIRA, 2004, p. 1) Em suma, a monstruosa desigualdade da sociedade capitalista não é natural, e sim construída sob a ideologia burguesa, sob as rédeas de nomes ilustres da política e da economia. Além da mesma ideolo- gia (estratégia de dominação), formam um grupo coeso, constituído de pessoas que se conhecem desde a infância, uma vez que herdam as relações de poder de seus pais, que também já se conheceram por meio de seus avós. Frequentam as melhores escolas, universidades, clubes, festas familiares e recebem as melhores oportunidades, pois as famílias têm em seu poder as indústrias mais influentes, os escritó- rios jurídicos mais renomados, as escolas e universidades mais tradi- cionais e reconhecidas. Quando alguma porta não lhes pertence, têm a influência de seus sobrenomese o poder econômico necessário para fazê-la abrir. Sobretudo, sabem que a existência e a permanência de seu poderio dependem da manutenção das desigualdades sociais. A revista Forbes divulgou, em publicação de maio de 2014, quais seriam as quinze famílias mais ricas do Brasil. Segundo as informações apresentadas, elas detêm sozinhas 15% do PIB nacional. Apenas cinco dos bilionários brasileiros possuem mais dinheiro do que a metade da população pobre do Brasil. Saiba mais na reportagem: QUINZE famílias mais ricas do Brasil são donas de 5% do PIB. Estadão, São Paulo, 15 mai. 2014. Disponível em: https:// economia.estadao.com.br/ noticias /geral,quinze-fami- lias-mais-ricas -do-brasil-sao- -donas-de-5-do-pib ,184946e. Acesso em: 22 jun. 2020. Curiosidade A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 21 1.4 Características dos movimentos sociais Vídeo É inegável a amplitude, a complexidade e a importância dos movi- mentos sociais, pois, mais do que apenas manifestações ou aglomera- dos de pessoas que, por motivos particulares, decidem quebrar regras, são o reflexo do povo com relação à construção histórica da sociedade. Não se trata de indivíduos que, por não se adaptarem e/ou não es- tarem privilegiados no desenho da estrutura social, resolvem levantar bandeiras até que seus lugares sejam garantidos. Sobretudo, não se constituem por motivos e/ou meios simplistas. São os movimentos sociais a “chama da democracia”, a união dos injustiçados e oprimidos e, principalmente, a fundamental porta para a construção do sujeito político, do ator social, do ser social “desalie- nado” que, em meio a outros sujeitos com os quais se identifica, cons- troem relações de identidade, acessam e aprofundam conhecimentos sobre a história da própria gente. O filme Selma: a marcha da liberdade retrata a luta liderada por Martin Luther King pela defesa dos direitos da comu- nidade negra nos EUA. Milhares de pessoas par- ticiparam de uma marcha durante a campanha para a igualdade de direitos ao voto. Como resultado, o então presidente Lyndon B. Johnson implementou a Lei dos Direitos de Voto, em 1965. Direção: Ava DuVernay. EUA: Plan B Entertainment, 2014. FilmeCom isso, cotidianamente aprendem uns com os outros, desenham modos de construir bases e instrumentos em que possam expressar e reclamar suas demandas, tais como: reuniões, assembleias, greves, paralisações, passeatas, protestos, fóruns, conselhos, partidos, oficinas e cursos, organizações da sociedade civil (OSCs), centros e diretórios, sedes e outros pontos de encontros diversos. Apresentam um modo peculiar de organização: estabelecem bandeiras, símbolos, planos de ação, redes de comunicação, articulação e mobilização. Produzem e partilham materiais de estudo, instru- mentos de divulgação e de arrecadação de fundos econômicos. Engendram estratégias de ocupação de postos políticos e outros espaços que lhes possibi- litem demarcar representatividade, poder de fala e de voto. Criam atividades culturais e festivas que be- neficiem seus integrantes e a quem possa interessar (comumente eventos públicos). Movimentam-se conforme a conjuntura sócio-his- tórica de cada época – em busca de mudanças pon- 22 Classes e movimentos sociais tuais, pequenas alterações, grandes transições ou mesmo revoluções mais drásticas. Operam por meio de ações isoladas ou partilhadas com outros movimentos e grupos da sociedade, segundo seus interesses ou suas necessidades (como estratégia de resistência, fortalecimento, necessidades emergenciais/crônicas e empatia). Pautam a liberdade, a equidade, o fortalecimento da democracia, a ampliação e a garantia de direitos políticos, civis e sociais; afinal, debatem acerca da justiça social. Apresentam diferentes tipos, mas não é possível classificá-los na íntegra, visto se tratar de organizações altamente complexas, permea- das por dimensões que ultrapassam o mensurável. Porém, para fins didáticos, é aceitável construir categorias, por exemplo: características comuns, atributos peculiares, experiência sócio-histórica, recursos fi- nanceiros e projetos societários. As características em comum constituem-se por meio da identifica- ção e do aprimoramento de ideias, valores, condições de existência (ca- pitais econômicos, sociais e culturais). Visam alterar a estrutura social vigente em prol do atendimento das demandas que lhes são peculiares e se relacionam de modo cíclico com o Estado (no enfrentamento e/ou no apoio de regimes ou planos de governo). Nesse sentido, também é possível diferenciá-los enquanto movi- mentos sociais clássicos/históricos e movimentos sociais contempo- râneos/novos. Os denominados movimentos clássicos e/ou históricos fazem referência aos mais antigos da sociedade: dos trabalhadores, das negritudes, dos povos indígenas, eclesiásticos, feministas e dos tra- balhadores sem-terra. Já os novos movimentos sociais são oriundos das últimas décadas e estão relacionados com a defesa: do meio am- biente e da paz, das questões de gênero e sexualidade, da população com deficiência, da população em situação de rua, dos povos do campo e das florestas, dos animais e da diversidade cultural. Constituem-se em coletivos que incrivelmente resistem, mesmo diante de desafios gigantescos como o desprezo social, a repressão estatal e militar, a ignorância social e a falta de recursos (econômicos, físicos, culturais e tecnológicos). O desafio do financiamento dessas or- ganizações é uma realidade que os assombra, desde os primórdios do A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 23 surgimento dos movimentos sociais. Ainda que eles apresentem dife- rentes tipos de arrecadação de fundos, todos se deparam com esse desafio, seja pela dificuldade de arrecadação devido à sua marginali- zação pelas elites, seja por problemas internos de gestão, por alianças políticas ou por cerceamentos resultantes dos níveis de dependência das fontes pagadoras. Carregam o fardo do julgamento equivocado (devido ao desvirtua- mento de sua história social) e o peso de memórias recheadas pela dor do sofrimento de seus antepassados, de seus companheiros de cami- nhada e dos momentos vivenciados em sua própria realidade social. Enquanto atores da história, foram e são os responsáveis por diversas das conquistas vivenciadas na contemporaneidade por meio de inicia- tivas como: a Revolução Russa de 1917; as manifestações de 1948 a 1994 contra o Apartheid na África do Sul; o protesto de maio de 1968, que reuniu mais de nove milhões de manifestantes em Paris contra o governo do general De Gaulle; o Massacre da Praça da Paz Celestial de Pequim em 1969; o Panelaço Argentino de 1971 contra a ditadura militar no país; o protesto de 1977 das Mães da Praça de Maio, na Ar- gentina, pelo reclame dos filhos desaparecidos na ditadura militar; as manifestações conhecidas como Diretas Já de 1983/1984, quando a po- pulação foi às ruas no Brasil pelo fim da ditadura militar e pelo reclame de eleições presidenciais diretas; entre outras ações sociais, como os protestos dos estudantes contra o aumento das passagens de ônibus, conhecidos como as Jornadas de 2013. São os movimentos sociais, portanto, coletivos de sujeitos sociais e políticos que têm como marca histórica as negligências, ausências e violências que lhes fizeram ser quem são. Em outras palavras, são os movimentos sociais a parte organizada do povo que tornou possível a democracia, que deu concretude ao nascimento das políticas públi- cas e que, entre muitos outros papéis sociais, é o principal responsável pelo avivamento da memória dos bilhões de injustiçados que tiveram sua dignidade e vida ceifadas pela ideologia burguesa. O filme Norma Rae apresenta o contexto da exploração do trabalho fabril e as questões in- trínsecas à luta feminista. A protagonista, ciente de que o salário não é compatível com as longas horas de trabalho e das péssimascondições da fábrica, lidera entre seus colegas a luta pela cria- ção de um sindicato. Direção: Martin Ritt. USA: Twentieth Century Fox, 1979. Filme 24 Classes e movimentos sociais 1.5 Movimentos sociais e a dimensão sócio-histórica Vídeo Antes de adentrarmos os fatos e elementos que têm configurado os movimentos sociais ao longo da história das sociedades, cabe considerar que existem significativas diferenças entre os movimentos sociais euro- peus e os latino-americanos, tanto nas demandas requeridas quanto nas formas de organização. Isso ocorre por serem realidades sócio-históri- cas diferentes com relação ao contexto político, cultural e territorial. Devido às sociedades europeias serem mais antigas em comparação à brasileira, estranho seria se os movimentos sociais europeus não de- monstrassem peculiaridades, como maturidade política mais elaborada, força política mais acentuada e, em alguns casos, resistência armada. A maioria dos países europeus apresenta, em sua história, algum tipo de manifestação política que antecede o início da contemporaneidade. Contudo, na perspectiva conceitual já apresentada, seria um equí- voco afirmar que os eventos ocorridos na Europa anteriormente ao marco da contemporaneidade se trataram de movimentos sociais. É preciso considerar que a maioria das manifestações ocorridas foi cons- truída por personalidades que compunham, de algum modo, a elite de seu tempo. Afirmação certeira, pois ainda que se tratassem de algum tipo de questionamento ao poder instituído, o povo não era consultado e, quando participava, apenas cumpria estratégias sob o comando de lideranças (aristocratas, fidalgos etc.). Em suma, não havia um processo em que a construção do sujeito político fosse oportunizada. Assim, ao tomar a contemporaneidade enquanto marco de análise, podemos afirmar que os primeiros registros de organização popular e formação de sujeitos políticos da Europa ocorreram na segunda meta- de do século XVIII, por meio de dois importantes levantes populares: a Festa do Chá, ocorrida em Boston em 1773 (movimento que antece- deu a Revolução Americana) e a Queda da Bastilha (movimento que resultou na queda da monarquia francesa que imperava há mais de treze séculos). Esses dois eventos são os primeiros movimentos sociais europeus de que se tem registro, nos quais uma massa “popular” foi às ruas manifestar-se contra o poderio da Igreja em diversas cidades europeias. Conforme registros do filósofo Hegel 5 , as massas pareciam O filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel dedicou sua vida ao estudo do idealismo alemão. Para alguns, Hegel foi o criador do entendimento da dialética como modo de compreensão da história, da filosofia e do mundo: uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. 5 O filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel dedicou sua vida ao estudo do idealismo alemão. Para alguns, Hegel foi o criador do entendimento da dialética como modo de compreensão da história, da filosofia e do mundo: uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. 5 A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 25 ter se levantado todas de uma vez, invadindo as capitais europeias, ins- pirando e gerando representações pela Europa e América Latina. Essas mobilizações demonstraram a força da organização de mas- sa e geraram bases que conduziram a Revolução de 1848, conhecida como a Primavera dos Povos. Essa revolução teve como norte a revolta dos povos contra as humilhações, explorações e injustiças que sofriam. Em meio a essa revolução, nasceu a organização dos trabalhadores proletários que, encontrando apoio em Karl Marx, Engels e outros in- telectuais, organizaram o levante popular mais conhecido do mundo. Karl Marx foi o primeiro intelectual da história a dedicar a maior parte da vida ao fortalecimento da luta popular. Por meio de seus escritos, denunciou as barbáries geradas pelo capitalismo, ao mesmo tempo que anunciou ao povo que estaria à frente da revolução, não para lhe dizer o que fazer, mas tudo que poderia fazer. Ainda é, na atualidade, um dos autores mais “perseguidos” e “mal interpretados” da história. Afirmava em meio aos trabalhadores e registrou, em seus livros, a força do poder popular. Segundo ele, caberia ao povo a mudança necessária capaz de elevar a história da humanidade a um patamar superior, e não à elite que repetia a injustiça social como forma de perpetuação de poder. Marx é, no Serviço Social, a referência teórica hegemônica de maior importância e, sem dúvida, uma das figuras mais influentes. A práxis realizada por assistentes sociais em todo o mundo tem como base o método de análise social construído pelo autor: o já mencionado mate- rialismo histórico-dialético. Enquanto militante, Marx convidou o mun- do a construir uma aliança máxima entre intelectuais e proletários, a fim de que se firmassem em grandes movimentos comunistas. Na vi- são do autor, são as massas que fazem a história: Os comunistas não se rebaixam a ocultar suas opiniões e os seus propósitos. Declaram abertamente que os seus objetivos só po- derão ser alcançados pela derrubada violenta de toda ordem so- cial existente. Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser suas prisões, têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos! (MARX; ENGELS, 1977, cap. IV) De acordo com Elias Canetti (1995), autor do clássico Masse und Macht (Massa e Poder, em tradução livre), após a Festa do Chá, a Queda da Bastilha e a Primavera dos Povos, as manifestações populares ganharam força e o povo sentiu o gosto do poder popular, acessou conhecimentos Em 1848, Karl Marx e Friedrich Engels concluíam o Manifesto do Partido Comunista, material que convoca os trabalhadores de todo o mundo a lutarem contra a exploração do capitalismo. Eles conclamavam a tomada do poder pela massa popular e, por meio da ciência, registraram que a destruição do capitalismo e o triunfo da sociedade comunista são inevitáveis. Saiba mais 26 Classes e movimentos sociais jamais imaginados (como a leitura do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Engels) e, ainda que a história afirme que tenha perdido, venceu. Um fenômeno tão enigmático quanto universal é o da massa que repentinamente se forma onde, antes, nada havia. Umas poucas pessoas se juntam – cinco, dez ou doze, no máximo. De repente, o local preteja de gente. As pessoas afluem, provindas de todos os lados, e é como se as ruas tivessem uma única direção. Muitos não sabem o que aconteceu e, se perguntados, nada têm e res- ponder; no entanto, têm pressa de estar onde a maioria está. Em seu movimento, há uma determinação que difere inteiramente da expressão de curiosidade habitual. O movimento de uns – po- de-se pensar – comunica-se aos outros; mas não só isso: as pes- soas têm uma meta. E ela está lá antes mesmo que se encontrem palavras para descrevê-la: a meta é o ponto mais negro – o local onde a maioria encontra-se reunida. (CANETTI, 1995, p. 14) A Primavera dos Povos demarcou o nascimento do movimento social organizado a nível mundial, visto que repercutiu e resultou na formação de diversos movimentos e ações sociais com características de massa. Contudo, nem todos os movimentos emergiram do povo, alguns foram criados pelas elites da época – a burguesia, por exemplo, mesmo subordinada à Igreja e monarquia, conseguiu reverter a situa- ção e derrubar o regime absolutista. Na Áustria, por sua vez, não houve manifestação da massa popular, mas integrantes da aristocracia fizeram rebelião contra a monarquia. A Alemanha apresentou dois tipos de movimentos: a favor da unificação do país e da libertação dos trabalhadores (revoltas operárias e campo- nesas, nesse sentido, foram constantes). Na França, enquanto resulta- do das rebeliões, a República foiproclamada (o rei Luís Filipe I abdicou do trono em 1848) e, algum tempo depois, finalizou-se a disputa polí- tica com a derrubada definitiva do absolutismo e vitória da burguesia. Infelizmente, os reclames levantados pelos movimentos sociais po- pulares da Europa foram por “água a baixo”, pois, de modo geral, no mesmo período, a elite também se articulou e, além de estabelecer estratégias de controle das rebeliões populares, aprimorou seu pró- prio movimento: a revolução burguesa, que já estava em prática desde 1640, teve êxito em meados de 1850 e atingiu seu auge em 1870. Guia- dos pelas ideias iluministas 6 e pelo liberalismo 7 , a burguesia instaurou a Segunda Revolução Industrial. O Iluminismo foi um movimento oriundo da Europa e projetado por intelectuais no século XVIII. Sob bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade, reforçava-se a necessidade de efetivação da ideologia bur- guesa. Isso pode ser observado pelas pautas defendidas pelo movimento dos intelectuais da época, pois, ainda que de modo indireto, defendiam a liberdade econômica, ou seja, a não intervenção do Estado na economia, o antropocentrismo, o avanço da ciência e da razão – em suma, o predomínio da ideologia burguesa. 6 Grosso modo, podemos falar que o Liberalismo resultou do movimento iluminista burguês. É o nome dado ao conjunto das ideias que constituem a ideologia burguesa. 7 A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 27 A Segunda Revolução Industrial corresponde ao período do capitalismo em que houve o aperfeiçoamento tecnológico da industrialização por meio da ma- nipulação avançada do aço, da introdução da eletricidade e da descoberta de novos usos do petróleo na produção industrial. Foi um período demarcado pela produção em massa, diversificação da exploração dos trabalhadores e criação de novas relações sociais. Foi uma época histórica em que foram criados os modelos fordista e taylorista de produção. Na realidade latino-americana, o processo ocorreu de modo dife- renciado do europeu. Primeiramente por serem territórios que apre- sentam diferenças extremas no que diz respeito à temporalidade histórica de seu surgimento. Outro ponto significativo faz referência ao fato de que a Revolução Industrial já havia sido instaurada na Europa há muito tempo e, com ela, a “promessa do progresso tecnológico”, isto é, as elites dos países periféricos já teriam a expectativa de se tornarem espelhos das grandes potências europeias e americanas. Contudo, é fato que os países da América Latina só entraram no jogo porque se configuravam como fonte dos recursos necessários à expansão do ca- pitalismo europeu e americano. Embora as várias mutações do capitalismo sejam sempre os arqué- tipos causadores da condição exploratória dos países periféricos, não se pode negar que alguns dos resultados exploratórios visualizados na América Latina também se objetivaram fora dela. Dito de outro modo, existem elementos comuns do capitalismo em diferentes territórios, ainda que cada nação tenha servido para um determinado tipo de ne- cessidade do sistema capitalista. Isso se sustenta no fato de que nem mesmo entre os países tidos como desenvolvidos o processo aconte- ceu de modo igualitário. Na América Latina, por exemplo, embora todos os países que a com- põem tenham sido peças essenciais à efetivação e manutenção da inter- nacionalização do capital a nível mundial, os processos decorreram de modo diferenciado em cada um deles (Bolívia, Venezuela, México, Peru, Argentina e Brasil), resultando em histórias e implicações diversas. Além dos conflitos culturais e de classe, outro elemento importante na formação dos movimentos sociais organizados na América Latina foi o regionalismo dentro de cada país. Segundo os estudos de José Luis Roca (1979), o regionalismo exerce um significativo papel, pois, 28 Classes e movimentos sociais para além das particularidades de cada período em que o capitalismo se instaurou e da diversidade de matérias-primas de cada nação, há a questão dos diferentes tipos de cultura e formação de Estado. Nesse ínterim, cada país da América Latina dependeu da sorte no que se refere à exploração e extração de produtos, com o propósito de potencializar a internacionalização do capital. A oferta de investi- mento na criação ou no fortalecimento da estrutura estatal foi a condi- ção primária desse processo, o que se deu desde a década de 1940 aos dias atuais. O Estado Nacional tem se mostrado essencial à efetivação do sistema capitalista – arranjo político e econômico que não se desfez nem nos períodos de ditadura. A internalização do capital, também denominada mundialização do capital e entendida por algumas vertentes enquanto globalização, é um processo em que as relações econômicas e sociais entre diferentes nações são intensifica- das. Teve início com as expansões marítimas e com as novas configurações no modo de produção e exploração do trabalho. Na produção, as principais mudanças com vistas à expansão e internacionalização do capital ocorreram após o término da Segunda Guerra Mundial, quando o capitalismo se percebe em crise e cria estratégias de sobrevivência. O fordismo que em tempos anteriores garantiu lucro e crescimento aos países capitalistas centrais, no período pós-guerra, já não poderia oferecer o mes- mo retorno e foi substituído pela flexibilização dos processos de trabalho e de produção. A flexibilização do trabalho, da produção e dos limites territoriais aconteceu, principalmente, pela aliança de grupos corporativos, os chamados monopólios e oligopólios (poucos vendedores para muitos compradores), que entraram no debate do mercado mundial como resposta capaz de combinar maior produtividade, capacidade de inovação e ampla competitividade. De acordo com Thomas Hobbes (1992), a figura do Estado mais pró- xima à que conhecemos na atualidade surgiu entre os séculos XV e XVI. Para ele, o surgimento do Estado esteve atrelado à necessidade das elites de resguardarem seus patrimônios, de modo que não tivessem de estar em constante alerta de guerra. Desse modo, criaram o Estado enquanto instituição social, econômica e política que teria como pre- missa o julgamento das liberdades individuais (e coletivas) por meio de uma nova organização jurídica. O Estado era compreendido, então, como criação estratégica das elites dominantes, voltada à garantia da sua própria estabilidade social e segurança pessoal (HOBBES,1992). A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 29 Com relação à conceituação de Estado, John Locke (1998) acrescenta que, no modelo de governo estatal, a propriedade funciona como uma ditadora dos tipos de relações sociais, visto que liberdade e proprieda- de estão imbricadas. Se antes da criação do Estado o nivelamento das liberdades decorria pelo que cada rei entendia como adequado aos seus diferentes grupos de súditos (classes e estamentos sociais), na formação de Estado Nacional, a liberdade é nivelada pelo governo, com base na proporção de propriedade dos meios de produção (LOCKE, 1998). Em uma leitura mais atual do mesmo contexto, Mészáros (2002) nos mostra que o Estado Moderno e o sistema capitalista foram criados e configurados de modo paralelo. Para o autor, não se trata de uma coincidência, uma vez que, desde os primórdios do seu nascimento, a instituição tem funcionado como a única estrutura corretiva compatível com os parâmetros estruturais do capital que opera onde o controle social se dá de modo metabólico. Imbricada ao Estado, sempre esteve a revolta popular (a luta dos indígenas, a dos escravos, a dos trabalhadores e a das mulheres), ainda que o processo se tenha efetivado de modo particularizado, conforme a condição de consciência de cada país quanto ao avanço capitalista. Os nativos brasileiros, por exemplo, não tinham a informação de que o processo de chegada dos estrangeiros era parte estratégica de um sistema altamente elaborado, que pretendiaa escravização local. Da mesma forma, não sabiam os escravos que sua condição étnica con- denaria as suas gerações a níveis escravistas ainda mais desumanos. Fato é que o sistema capitalista complexificou as desigualdades e os conflitos já existentes a níveis jamais vistos na história social. Os con- flitos raciais, étnicos, de gênero e culturais (patriarcado, intolerância religiosa etc.) foram intensificados. E ainda que esses poucos grupos tenham sido os primeiros a enfrentarem a ordem estabelecida, por meio das rebeliões que mancharam o Brasil de sangue, foi somente por meio da luta de classes que o sistema capitalista foi enfrentado como um inimigo que se conhecia na íntegra. Em outras palavras, é na luta de classes que temos identificado a formação dos movimentos sociais como luta organizada que se levanta contra o projeto de socie- dade instaurado, tanto na Europa quanto na América Latina. 30 Classes e movimentos sociais 1.6 Movimentos sociais no contexto capitalista Vídeo Os períodos mencionados, com relação à instauração dos novos modos de produção da vida, produziram na sociedade diferentes níveis de desenvolvimento. Os países periféricos sofreram de modo drástico a industrialização tardia: além de servirem como fonte de extração de matéria-prima, tiveram seus territórios marcados por mudanças socio- culturais até então inimagináveis. Políticas e estruturas de dominação foram implantadas sob o dis- curso do desenvolvimento de todas as nações, e o capitalismo se ins- taurar na sua forma mercantilista foi suficiente para o estabelecimento de economias escravas. Populações inteiras foram devastadas, e as que sucumbiram foram escravizadas. As cidades feudais desparece- ram, artesãos e produtores do campo não conseguiram resistir à des- leal concorrência, a produção em troca de assalariamento aos poucos foi instaurada em todo o mundo. A venda da força de trabalho foi o que restou à maior parcela da população mundial. O movimento operário inaugura na história o pressuposto necessário à organização e à luta política organizada por meio de lutas populares. Indignados com os absurdos níveis exploratórios e armados de ideias motivadas por escritos, como o já mencionado Manifesto Comunista e outros, os operários traduziram suas dores em ações políticas. Foram responsáveis por diversas reconstruções históricas, o que nos remete ao entendimento de que não podemos acreditar que as sociedades foram construídas unicamente pelos sujeitos que as governam e dominam. Pensar desse modo seria ter uma leitura superficial das sociedades, visto que diversos movimentos e revoltas populares ciclicamente têm se ma- nifestado com vistas ao enfrentamento das amarras que os prendem. Os direitos tidos como fundamentais (individuais e coletivos), por exemplo, resultaram das lutas sociais travadas historicamente por di- ferentes grupos e movimentos sociais, tais como os conhecemos na atualidade. Esses direitos emergem e são instaurados em nome da ampliação da justiça social e da redução das desigualdades sociais, ou seja, de condições essenciais à garantia da democracia (bandeira da maioria dos movimentos sociais). No mesmo contexto, se insere a cria- ção dos direitos humanos, dos direitos civis e políticos, das políticas públicas em geral e das políticas públicas sociais. Na Constituição brasileira, são conhecidos como direitos fun- damentais individuais o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Os chamados direitos fundamentais coletivos dizem respeito ao direi- to da organização social política enquanto exercício da cidadania, como o direito a reuniões, as- sembleias e atos políticos – são também relacionados à criação de associativismos diversos (movimentos, manifestações, associações, organizações da sociedade civil – OSCs, coopera- tivas e outros). Curiosidade A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 31 Nesse ponto, contudo, cabe considerar que há um abismo entre a realidade ocidental europeia, a dos Estados Unidos da América do Norte e a latino-americana, uma vez que, na primeira e na segunda, o exercício da cidadania emerge da participação do povo na formação dos Estados nacionais, por meio dos constantes conflitos de classe, raça, etnia e gênero 8 . Na realidade latino-americana, especificamente, o processo não ocorreu do mesmo modo, pois o estágio avançado da expansão capitalista configurou impedimentos drásticos à construção da participação cidadã. A esse respeito, vale mencionar o conceito ori- ginal de cidadania para uma compreensão histórica: A origem do conceito de cidadania é grega. Foi em Atenas, há mais ou menos VIII séculos a.C., que surgiu no Mediterrâneo uma experiência singular: a ideia de Pólis, espécie de cidade autônoma, independente e soberana que era governada, em última instância, por uma Assembleia de Cidadãos (politai). Daí decorria que cidadão entre os gregos antigos era o homem livre, senhor de si e que tinha direito de participar da Assembleia de Cidadãos. Esse direito de participar da politai, portanto, não era extensivo aos escravos, mulheres e crianças, mas apenas aos ho- mens livres que exerciam a prática do direito de decidir sobre os destinos políticos, culturais e econômicos da Pólis [...] A Reforma Protestante foi um marco histórico que também exerceu grande influência na criação da cidadania, visto que inaugurou valores éticos e políticos inovadores: o fim do domínio político da Igreja Católica, o surgimento de liberdades políticas; liberdade de culto e de religião; liberdade de imprensa; liberdade de pensamen- to e, principalmente, liberdade de cátedra nas Universidades. (GONZALEZ, 2010, p. 10) No Brasil, os direitos fundamentais apareceram pela primeira vez na Constituição de 1824, após a implantação do Estado Nacional brasilei- ro, processo construído pelas elites locais sem a participação do povo (SARLET, 2001). Lembremos, portanto, que o tipo de processo quanto à instauração de um país (colonização versus exploração) e o tipo de criação de Estado interferem diretamente na capacidade de construção das lutas sociais e, portanto, na criação da cidadania e da democracia – no caso do Brasil, por exemplo, é importante considerar que suas raízes históricas envolvem a escravidão e o aniquilamento de índios. Com base no exposto, é correto afirmar que a cidadania (em seu sentido histórico e amplo) ainda está em construção no Brasil e na maioria dos países da América Latina. É, portanto, mais um elemento A questão de gênero é empregada neste contexto com relação às lutas feministas, visto que somente nas décadas mais recentes surgiram outras categorias. 8 32 Classes e movimentos sociais que complementa a necessidade e a importância das lutas e dos movi- mentos sociais. No Brasil, há registro de lutas sociais que se manifestam desde os seus primórdios, contudo, foi com a instauração do Regime Militar de 1964 que os movimentos sociais se intensificaram, constituindo-se como formações organizadas e demonstrando alta capacidade de en- frentamento, mesmo ante forte repressão da época. Desde então, o Estado brasileiro e as elites têm a ciência de que há, no Brasil, um alto poder de organização e enfrentamento, como demonstrado em diver- sos momentos pelos movimentos sociais históricos e mais atuais, tam- bém denominados novos movimentos sociais. Podemos citar alguns movimentos como exemplos: Movimento Operário, Movimento Indígena, Movimento Negro, Movimento Fe- minista, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Movimento Estudantil e Movimento das Ligas Camponesas. Também há os movimentos sociais conservadores, como o Movimento Eclesiástico de Base (Marcha da Família com Deus pela Liberdade), e os denominados novos movimentos sociais, como o Movimento Contra a LGBTTIQ+fobia (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, transgêneros, queers e afins), em Defesa doMeio Ambiente, o Movimento Vegano, o Movimento das Pessoas com Deficiência e diferentes movimentos urbanos. Como visto, a constituição dos movimentos sociais está entrelaça- da à história das sociedades e, principalmente, à evolução do sistema capitalista. Desse modo, a análise da dominação de uns sobre outros é indissociável do processo de acúmulo e expansão econômica. Nes- sa convergência, Marx (1975) enfatiza que os moldes hierárquicos que caracterizam nossa organização social advêm em grande parte das es- truturas que dão forma à organização da produção da vida material. As estruturas sociais não são inabaláveis, nem mesmo as capitalis- tas (ainda que estas demonstrem certa facilidade de adaptação e reor- denação conforme cada conjuntura histórica se apresenta). Embora a injustiça social permaneça, e pareça mais mascarada do que nunca, diversos movimentos têm conseguido alterá-la a fim de que possam atender às suas reivindicações. É notável que os conflitos gerados pe- los movimentos sociais, históricos ou novos, têm construído transfor- mações nas estruturas sociais. O vídeo Documentário Obser- vatório dos Movimentos Sociais, publicado pelo canal Andriza Andrade, mostra as atividades desenvolvidas por esse progra- ma de extensão da Universidade Federal de Viçosa. O programa fortalece e potencializa as ações dos movimentos sociais da Zona da Mata Mineira desde 2012. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=pJH_f50OBu4 Vídeo A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 33 Para aprofundar os conceitos apresentados, recomendamos ler as pesquisas listadas a seguir, das autoras que desenvolveram excelentes materiais com foco na análise dos movimentos sociais: • GOHN, M. G. 500 anos de lutas sociais no Brasil: movimentos sociais, ONGs e terceiro setor. Revista Mediações, Londrina, v. 5, n. 1, p. 11-40, jan./jun. 2000. • MINAYO, M. C. de S. De ferro e flexíveis: marcas do Estado empresário e da privatização na subjetividade operária. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. CONSIDERAÇÕES FINAIS O entendimento e a análise dos movimentos sociais perpassam his- toricidades e contextos socioculturais em que debates importantes são realizados sobre relações de desigualdade e igualdade, organização social e poder popular, dominação histórica e pontual, padrões e ciclos sociais, sistemas e instituições. As desigualdades configuradas pelas estruturas sociais demonstram quão injusta tem sido a humanidade no que diz respeito aos modos ins- tituídos para a construção da vida social. Ao mesmo tempo que a huma- nidade demonstra sua alta potencialidade para a construção de ações e estruturas, com vistas a responder suas necessidades, apresenta imensas dificuldades em instituir desenhos de sociedades mais sustentáveis em todos os aspectos que compõem a vida humana no planeta. Temos insistido na exploração como premissa para a vida em socieda- de e, com base nessa concepção, instituímos mecanismos e processos de dominação capazes de aniquilar grande parte de tudo o que nos constitui humanos. Temos vivido de modos que prejudicam nossa própria evolu- ção, tão preocupados em nos proporcionar meios e estilos de vida que nos induzem a uma prática cotidiana robotizada, voltada à criação e ao acúmulo de bens a qualquer custo. Em meio a esse contexto, geramos processos que nos conduzem à percepção de nossas contradições e, com isso, geramos conflitos e ten- sões sociais que atuam como caminhos que podem nos garantir alguma salvação. Como resultado, de tempos em tempos, chegamos a consen- sos ou nos contra-atacamos, geramos guerras ou acordos de paz que, às vezes, nos elevam a patamares mais evoluídos ou, em sua maioria, nos conduzem à destruição. Não podemos negar que historicamente “navegamos por mares” que, apesar de conhecidos, não parecem suficientes para nossa permanência 34 Classes e movimentos sociais neste planeta. Há a necessidade de entendermos que as estruturas so- ciais construídas (exploração, dominação e acúmulo de recursos) têm nos encaminhado para a extinção. Por fim, arriscamos afirmar que este capítulo oportuniza a compreen- são dos movimentos sociais para além de sua importância sócio-histórica, no que diz respeito à construção da cidadania, da democracia e de um desenho em que a vida social se institua de modo mais justo. O objetivo era instigar a reflexão sobre a importância dos movimentos sociais em seu poder de reconstruir nossos moldes de vida na sociedade, a fim de que nossa existência e coexistência continuem a ser viáveis. ATIVIDADES 1. Para a implantação e a permanência do sistema capitalista, uma instituição foi enfatizada como primordial. Por meio dela, ocorreu a efetivação das estratégias necessárias à exploração e à dominação da maioria dos povos do globo. Qual instituição cumpriu esse papel determinante? 2. Ao considerar a importância da emergência e da permanência dos movimentos sociais na criação e concretização da cidadania, da democracia e do usufruto dos direitos constitucionais, qual é a origem do termo cidadania e a quais aspectos ela está relacionada? 3. O que são movimentos sociais? REFERÊNCIAS CANETTI, E. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. CHAUÍ, M. O que é Ideologia. 26. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988. ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010. GOHN, M. G. 500 anos de lutas sociais no Brasil: movimentos sociais, ONGs e terceiro setor. Revista Mediações, Londrina, v. 5, n. 1, p. 11-40, jan./jun. 2000. GONZALEZ, E. T. Movimentos Sociais e direitos fundamentais coletivos e difusos no Brasil. Cadernos de Direito, Piracicaba, v. 10, n. 19, p. 7-19, jul./dez. 2010. HOBBES, T. Do cidadão. São Paulo: Martins Fontes, 1992. LOCKE, J. Dois tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1998. MARX, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. MARX, K. O capital: crítica da economia política. 10. ed. São Paulo: Difel, 1985. MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. In: Cartas filosóficas e outros escritos. São Paulo: Grijalbo, 1977. MÉSZÁROS, I. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2002. A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 35 OLIVEIRA, R. C. de. A construção do Paraná moderno: políticos e políticas no Governo do Paraná de 1930 a 1980. Curitiba: SETI, 2004. OLIVEIRA, R. C. de. O silêncio dos vencedores: genealogia, classe dominante e Estado no Paraná. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001. PLUTARCO, M. L. As vidas dos homens ilustres de Plutarco: Sólon. São Paulo: Editora das Américas, 1951. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. ROCA, J. L. Fisonomía del Regionalismo Boliviano. La Paz: Los Amigos del Libro, 1979. SARLET, I. W. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001. SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: LeYa, 2017. TOURAINE, A. ¿Cómo salir del liberalismo? México: Editorial Paidós, 1999. TOURAINE, A. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994. 36 Classes e movimentos sociais 2 Movimentos sociais e perspectivas teóricas Este capítulo oferece subsídios que podem contribuir para compreender a construção de debates e teorias, principalmente com relação às influências e vertentes analíticas que favorecem as atuais abordagens dos movimentos sociais. Para isso, com base em divisões de cunho didático a fim de pro- porcionar um entendimento amplo dos movimentos sociais, são apre- sentadas: a abordagem teórica desse tema, a influência dos marxistas clássicos, as influências estadunidenses, as influências marxistas mais atuais e uma introdutória análise sobre a influência pós-moderna. 2.1 Abordagem teórica dos movimentos sociais Vídeo Nos últimos tempos, os movimentos sociais alcançaram lugar de maior destaque, o que deve ser compreendido pelos marcosinterpre- tativos da história social, visto que sua configuração atual é resultado de um longo processo de lutas. Sua visibilidade também não é mais a mesma. Ainda que algumas fontes midiáticas continuem a criminalizá-los, encontraram no adven- to das tecnologias da comunicação a possibilidade de criar modos de organização e mobilização, assim como novos tipos de articulação. Se- gundo Manuel Castells (2013), articulados em redes e repletos de senti- mentos como indignação e esperança, os movimentos sociais têm feito da contemporaneidade palco de sua visibilidade, por meio de diferen- tes estratégias e contextos sociais. Os estudos mais reconhecidos no âmbito acadêmico se mostram vol- tados à análise dos movimentos sociais pela ótica da disputa de classes e/ou dos debates culturalistas. Segundo Maria da Glória Gohn 1 Socióloga brasileira de maior referência teórica sobre os mo- vimentos sociais na atualidade. Produziu mais de vinte livros para o entendimento de cida- dania, terceiro setor, conselhos, sociedade civil, educação não formal, entre outros temas, especialmente os movimentos sociais. 1 (2007), a teorização dos movimentos sociais apresenta três grandes eixos refe- Movimentos sociais e perspectivas teóricas 37 renciais: os clássicos europeus, os clássicos estadunidenses e os estu- dos mais recentes produzidos a partir da década de 1960. A década de 1960 é um importante marco da teorização mais atua- lizada dos movimentos sociais. Os estudos pós-modernos entendem que as sociedades atuais avançaram na organização racional do tra- balho e da economia de tal modo que os estudos clássicos acerca dos conflitos de classe não têm mais razão para existir. As publicações de Alain Touraine 2 Touraine afirma ser um pós-colonialista, ainda que, em suas produções, seja possível identificar críticas à vertente teórica. Uma das principais contribuições desse autor para a teorização dos movimentos sociais é o fato de ter evidencia- do o sujeito (ator social) “como elemento dinâmico da história, verdadeiro agente de transfor- mação social” (GOHN, 2007). 2 (1971, p. 80-85, tradução livre) sobre o movimento es- tudantil de maio de 1968, por exemplo, anunciam que, nas sociedades programadas, isto é, pós-industriais, se observam “vias de enriqueci- mento e de institucionalização dos conflitos do trabalho [...], que invia- bilizam o antigo lugar central dos conflitos de classe”. Na perspectiva crítica marxiana, os estudos pós-colonialistas/pós- -modernos insistem em ignorar o fato de que as transformações ins- tauradas pela estratégia de internacionalização do capital (globalização) instituíram manobras que resultaram na fragilização da organização popular. A insegurança causada pelos novos moldes de flexibilização do trabalho alocou o movimento dos trabalhadores na condição de ne- gociadores, retirando deles a força de confronto que outrora compôs o conflito de classes (NETTO; BRAZ, 2006). O debate entre as diferentes vertentes teóricas exerce importante papel no que diz respeito ao melhor entendimento da constituição dos movimentos sociais. Isso ocorre principalmente porque esse debate aproxima o universo acadêmico à realidade vivenciada, para além do que o real aparenta. O melhor trabalho sobre o conceito de classe tem sido deter- minado por uma percepção aguda das relações complexas, às vezes tensas, entre situações de classe diversificadas e desiguais e a construção frágil e contingente de interesses e identidades de classe mais amplos. (GRAY, 1994, p. 114) Robert Gray (1994), Geoff Eley e Keith Nield (2013) afirmam ser ver- dadeira a atual conjuntura de afastamento dos movimentos sociais do debate da disputa de classes. Trata-se de movimentos que apresen- tam uma identidade coletiva direcionada a outros focos. Estão em alta seus silêncios, demarcações e ações, mas, em sua maioria, constituem a mesma classe que antes fora unificada. Para esses autores, a decom- posição da clássica disputa de classes é, em si, uma história social re- configurada pela dinâmica das sociedades pós-industriais. 38 Classes e movimentos sociais Por fim, notamos que a teorização dos movimentos sociais latino-americanos se esforça para acompanhar, explicar e analisar as recentes dinâmicas dos movimentos sociais no curso de sua aproxi- mação, organização, articulação e manifestação de luta. O que se pode destacar a mais é o fato de que há movimentos sociais da atualidade que têm demonstrado certa contradição ao manifestarem propensão a aceitar e reproduzir, de modo acrítico, as “inclusões” teóricas conser- vadoras e de cunho historicamente burguês. 2.2 A influência das teorias marxistas clássicas nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais Vídeo Os primeiros estudos sobre os movimentos sociais emergiram da tradição marxista, ou seja, apresentam grande influência das visões de mundo de Karl Marx. Além de explicar o funcionamento da lógica da exploração capitalista, ele foi o responsável pela formulação da teoria que fornece o mais rico dos detalhamentos com relação aos meandros que constituem a disputa de classes: o materialismo histórico-dialético. A esse respeito, cabe considerar que Karl Marx foi o autor socialista alemão que criou, no século XIX, a teoria que se tornou posteriormen- te a primeira matriz teórica das ciências sociais 3As ciências sociais se constituem de três matrizes teóricas: Karl Marx, Durkheim e Max Weber. 3 – matriz que gerou tendências diversas segundo a leitura criada por cada intelectual que exercitou interpretá-lo. Cabe dizer também que Marx não foi apenas um teórico, mas um militante comunista e, como tal, exerceu forte in- fluência na organização do movimento comunista de seu tempo. Contudo, Marx morreu em 1883, tendo publicado em vida apenas o primeiro livro do conjunto dos livros que constitui a obra mais impor- tante de sua vida: O Capital. Além disso, duas das suas principais obras só foram publicadas após sua morte – A Ideologia Alemã, por exemplo, que explica as premissas do pensamento de Marx, só foi publicada em 1932. Esse ponto é importante porque explica que as ideias de Karl Marx foram interpretadas de modo dilacerado tanto nas universida- des quanto fora delas. Suas ideias, além de fracionadas, também foram simplificadas e até mesmo vulgarizadas, a fim de torná-las mais acessí- veis aos trabalhadores. Movimentos sociais e perspectivas teóricas 39 Dos cem volumes de anotações e teorias produzidas pelo autor, me- nos de um terço foi publicado até o século XX. Desse contexto, nascem críticas infundadas à teoria de Karl Marx, bem como interpretações fa- talistas de sua obra. Entre essas interpretações, podemos citar a afir- mativa de que Marx acreditava na existência de um fator que comanda todos os outros, ou seja, o determinismo econômico. Essa é uma inter- pretação simplista baseada no panfleto construído por Marx e Engels, chamado Manifesto Comunista, com o objetivo de tornar sua teoria mais acessível aos trabalhadores. Esse panfleto não era a síntese da obra do autor, especialmente porque Marx deixa explícito em sua teoria que há várias determinações. Marx, portanto, focaliza os interesses e as aspirações de uma classe social; não fala das individualidades. O autor se dedicou a ler o processo histórico real, o protagonismo da classe trabalhadora que se levantava contra suas condições exploratórias. Para isso, trouxe a essência dos acontecimentos, o que estava oculto na apa- rência. A influência do autor ultrapassa o campo acadêmico, visto que suas ideias resultaram na organização efetiva dos trabalhado- res, com vistas à revolução proletária. A organização da Comuna de Paris, por exemplo, teve forte influência da teoria marxista e serve para demonstrar que diferentes grupos fa- ziam diferentes interpretações de Marx. O advento da Comuna de Paris ocorreu na França, em 1871, após a guerra entre o Império Francês e o Reino da Prússia. Tratou-se de uma revolta armada doproletariado francês, com apoio momentâneo da burguesia francesa, contra o novo governo republicano. Desse processo, resultou a implantação de um re- gime socialista, que teve apenas 40 dias de exercício, porque os trabalha- dores foram traídos pela mesma burguesia que inicialmente os apoiara (alguns integrantes da Comuna foram presos e outros, executados). Segundo Marx, o movimento da Comuna de Paris não sairia ven- cedor do processo, pois, ainda que fosse realmente revolucionário, não estava pronto para enfrentar o adversário que viria após a des- tituição da República, ou seja, a burguesia. Faltava um planejamen- to estratégico que pudesse derrotar a burguesia por completo, o que, para o autor, exige a desconstrução completa da máquina do Estado (em sua versão burguesa). Em sua advertência, Marx ressal- tou ao movimento que o período escolhido para a revolução não era o mais adequado. Para ele, as estratégias do movimento ainda Sugere-se o filme O Jovem Karl Marx, que apresenta, ainda que parcialmente, a trajetória do autor em sua fase inicial. Direção: Raoul Peck. EUA: California Filmes, 2017. Livro Com a queda de Napoleão III, por renúncia, as condições de trabalho e de vida chegaram a níveis drásticos. Os trabalhadores (apoiados pela pequena burgue- sia) não aceitaram a renúncia de Napoleão e se mantiveram em oposição ao novo regime republicano. Em resposta às revoltas do povo francês, o governo anunciou a elevação de impostos para pagar as dívidas da Coroa e uma resposta armada se houvesse discordância. E, assim, travou-se a revolução. Saiba mais 40 Classes e movimentos sociais estavam imaturas, apresentavam traços ditatoriais e base em aná- lises de conjuntura incompletas (NETTO, 2011). Nas cartas escritas por Marx a Kugelmann 4Ativista de esquerda, Kugelmann era integrante da associação internacional dos trabalhadores e amigo íntimo de Karl Marx, o que se comprova nas cartas trocadas entre ambos. 4 , em abril de 1871, du- rante a Comuna de Paris, encontramos uma passagem na qual o autor manifesta a seguinte análise: reli o último capítulo do meu 18 de Brumário. Afirmo que a re- volução em França deve tentar, antes de tudo, não passar para outras mãos a máquina burocrática e militar – como se tem feito até aqui – mas quebrá-la. Eis a condição preliminar para qual- quer revolução popular do continente. Eis também o que tenta- ram os nossos heroicos camaradas de Paris, ainda que de modo precoce. (LENIN, 1981, p. 709) Figura 1 Barricada na Comuna de Paris W ik im ed ia C om m on s Apesar da relevância de sua teorização a respeito da ordem da so- ciedade burguesa, Marx morreu antes de concluir seus estudos. O que ele deixou foram os fundamentos de uma teoria social, ainda aberta, que contribui em muito para a compreensão da sociedade atual, visto que a ordem burguesa permanece. Movimentos sociais e perspectivas teóricas 41 Com base na influência teórica e revolucionária de Marx, intelectuais e militantes construíram análises particulares que, posteriormente, de- ram subsídios para práticas e teorizações acerca dos movimentos sociais na continuidade do que hoje conhecemos como marxismo. Cabe enfati- zar que nem mesmo seus sucessores, Lenin e Rosa Luxemburgo, tive- ram acesso à totalidade da teoria social produzida por Marx, visto que já haviam morrido quando os principais textos dele foram publicados. Dado o exposto, a seguir, apresentaremos três marxistas que mais contribuíram para o entendimento dos movimentos sociais: Vladimir Ilyich Ulyanov Lenin, pela prática revolucionária alicerçada na teoria científica; Antonio Francesco Gramsci, pelas inovações produzidas no que se refere à teoria marxista; e Rozalia Luxenburg (Rosa Luxembur- go), pela práxis revolucionária e representação da mulher na teoriza- ção e na história de luta dos movimentos sociais. Vladimir Lenin preconizou ideias propagadas em várias partes do mundo, além de ter se colocado à frente de todas as etapas da Revolução Russa (1917). Apesar de também não ter construído uma teoria sobre os movimentos sociais, publicou várias de suas ideias a fim de proporcionar ao movimento operário bases para sua organização e resistência. Lenin conheceu os inscritos de Marx aos 19 anos e, desde então, passou a construir análises sobre a natureza do capitalismo russo e suas consequências. Dedicou-se também ao entendimento do papel desenvolvido pela burguesia russa frente ao capitalismo internacional. Construiu incríveis análises acerca do modo como a Rússia capitalista passou a explorar ferozmente as regiões periféricas, o que intitulou de colonização interna. Após a revolução de 1905, Lenin dedicou-se a analisar o Estado e sua relação com a burguesia, o que chamou de monarquia burguesa. Uma de suas grandes preocupações era fazer uso das teorias para de- senvolver pensares e estratégias que pudessem promover a tomada de consciência da classe operária. Para o revolucionário, não devia ha- ver separação entre teoria e prática social, assim como o valor efetivo dos intelectuais se provava apenas quando se envolviam organicamen- te com os movimentos sociais (KRAUSZ, 2017). Para Lenin, o regime burguês era o principal responsável pela alienação dos trabalhadores, visto que só havia brechas para um 42 Classes e movimentos sociais tipo de participação controlada: a sindicalização (vanguarda mili- tante). Advertia também que os trabalhadores precisavam se orga- nizar em rede, tanto por vias legais quanto ilegais, a fim de garantir a efetividade da comunicação e das atividades entre os diferentes grupos da sociedade. Já em sua época, Lenin falava sobre o recru- tamento das massas (KRAUSZ, 2017). A primeira medida na revolução para Lenin, portanto, era a demoli- ção da máquina estatal militar e burocrática. E, ao contrário do que se tem propagado ao longo da história, Lenin não apoiava as concepções anarquistas que veem o Estado como responsável pela desigualdade social. Para o pensador, a derrubada total e rápida do Estado aniqui- laria as garantias necessárias à revolução. A derrubada do Estado bur- guês “não pode ser iniciada por ele mesmo, mas pela transformação das formas e relações de produção, pela transformação da economia” (KRAUSZ, 2017, p. 271-272). Segundo Tamáz Krausz (2017), especialista em história russa, Lenin fazia críticas severas à autocracia, ao nepotismo, ao esquerdismo mes- siânico, às interpretações anarquistas da obra de Marx, ao modo como o capitalismo instituía a opressão das mulheres e dos negros, e à falta de valorização das vanguardas revolucionárias. Lenine, como também era conhecido, esteve à frente do Estado russo de 1917 a 1924, porém, em nenhum momento da sua trajetória enquan- to líder da Revolução Soviética, afirmou que o socialismo já estava ins- taurado na Rússia. Em seus discursos, Lenin afirmava que a Revolução Russa estava em processo de instauração e o que se tinha até então era um tipo de organização capitalista, ainda desconhecida em outras re- giões do mundo (KRAUSZ, 2017 apud JARDIM; MONTEIRO, 2018). A influência de Lenin na teorização dos movimentos sociais se insti- tuiu devido ao modelo organizacional por ele criado, no qual comprova a efetividade das análises marxistas sobre a possibilidade real do fim da sociedade de classes. Lenin protagonizou e orquestrou o movimen- to revolucionário mais formidável da história moderna, o que o tor- na indispensável, dadas as suas contribuições para a compreensão de suas práticas, bem como para o questionamento de suas influências teóricas (HOBSBAWM, 2007). É, portanto, relevante conhecer com maior profundidade as ideias de Lenin, especialmente porque esse brilhante teórico/militante já foi Movimentos sociais e perspectivas teóricas 43 vulgarmente nivelado no senso comum como líder de um movimento fracassado. Trata-se do efeito de avaliações construídas em leituras su- perficiais das ideias de Lenin, visto que, descontextualizadas quanto à temporalidadee às condições vivenciadas na Revolução Russa, deixam de valorar a incrível capacidade organizacional da liderança desse revo- lucionário – demanda caríssima aos movimentos sociais da atualidade. Antonio Francesco Gramsci, por sua vez, igualmente contribuiu para a teorização dos movimentos sociais ao enriquecer as análises da tradição marxista, por meio da criação de novas categorias explicativas e de novos instrumentos práticos. Cabe enfatizar que esse intelectual ainda não foi superado em suas análises e, na contramão das várias crí- ticas destinadas a Lenin ou Marx, Gramsci é um dos poucos de seu tem- po que permanece inviolável e comprovadamente utilizado enquanto referência teórica, até mesmo para os que consideram o marxismo uma teoria ultrapassada. A principal influência teórica de Gramsci foram as análises produzi- das por Karl Marx, visão de mundo que culminou no seu envolvimen- to no movimento comunista italiano. Essa atividade lhe proporcionou publicizar ideias e posicionamentos com relação ao sistema capitalista, levando, como resultado, ao seu encarceramento enquanto preso po- lítico aos 39 anos. Gramsci permaneceu em situação de cárcere até os 46 anos, quando recebeu liberdade condicional devido à sua precária condição de saúde, vindo a falecer em 1937, logo após ter sido liberto. Foi no contexto do cárcere que esse brilhante intelectual es- creveu uma das mais respeitadas e prestigiadas análises sobre as transformações sociopolíticas ocorridas em seu tempo. Por meio de cartas destinadas a familiares e amigos e de registros em cader- nos (32 cadernos que totalizaram 2.848 páginas), Gramsci construiu um arcabouço teórico que, além de ter ampliado a análise marxista de Estado, inaugurou o conceito de hegemonia cultural, enriqueceu as análises referentes à alienação (trouxe novos elementos frente à formação educacional dos trabalhadores), apresentou elementos para distinção do entendimento entre sociedade política e socieda- de civil e, sobretudo, apresentou aos trabalhadores a necessidade de se organizarem com vistas à construção de uma nova hegemonia, ou seja, um novo direcionamento para o tocar das sociedades que não fosse a ideologia burguesa (DURIGUETTO, 2007). 44 Classes e movimentos sociais Para Gramsci, é na sociedade civil que os movimentos populares deveriam desprender mais esforços, e não somente frente à ideia da derrubada do Estado, visto que a ideologia burguesa conta com diferentes mecanismos para efetivar e manter o poder da classe burguesa. Desse modo, caberia aos movimentos sociais ter a ciência de que o Estado é apenas um dos mecanismos de dominação. Esse espaço, portanto, poderia ser estrategicamente ocupado e tomado pelos trabalhadores como força a ser estruturada e utilizada para garantir dirigência (COUTINHO, 1992). Na visão do autor, o despertar em massa da sociedade civil é condi- ção essencial para a revolução real, o que somente se viabiliza por meio de processos educativos que tenham como premissa o descortinar das redes estratégicas de dominação para além das que estão aparentes na infraestrutura social. Toda relação de “hegemonia” é necessariamente uma relação educacional que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõe, mas em todo campo in- ternacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais. (GRAMSCI, 1986, p. 210) Dito de outro modo, Gramsci revisitou o termo hegemonia descrito por Lenin, conceituando-o com alto nível de detalhamento e aplican- do um viés interpretativo nunca visto anteriormente. Com isso, enfati- zou o potencial interventivo da sociedade civil enquanto massa que se constitui e que age segundo a ideologia da classe dirigente. Com base nessa perspectiva, Gramsci enfatizou que é na esfera da sociedade civil que se dão as disputas pela hegemonia. Ele fez extraor- dinárias análises acerca da potencialidade da participação dos intelec- tuais nos processos que constituem a elaboração de culturas sociais e políticas (seja para o constructo da visão de mundo requerida pela burguesia ou pelos trabalhadores) e os apontou como ditadores de realidades (PORTELLI, 1977). A ampliação da conceituação de Estado e a alocação da sociedade civil no centro do poder foram as principais contribuições de Gramsci, dado que, se o Estado é a materialização da força da burguesia (políti- ca e econômica), também pode se constituir por completo como força transformadora a serviço dos trabalhadores: infraestrutura social: termo muito utilizado pelos marxistas e conceituado por Karl Marx. Refere-se à parte social que constitui as forças produtivas e, portanto, às relações sociais de produção. Glossário Sugerimos o documen- tário Requiém for the American Dream (O fim do sonho americano, em tradução livre), resultado de uma série de entre- vistas nas quais o crítico social Noam Chomsky discute como a concen- tração de riqueza e poder entre uma pequena elite polarizou a sociedade americana e provocou o declínio da classe média. Direção: Jared P. Scott; Kelly Nyks; Peter D. Hutchison. EUA: PF Pictures; Naked City Films, 2015. Documentário Movimentos sociais e perspectivas teóricas 45 a conquista de uma consciência superior: e é graças a isso que alguém consegue compreender seu próprio valor histórico, sua própria função na vida, seus próprios direitos e seus próprios deveres. Mas nada disso pode ocorrer por evolução espontânea, por ações e reações independentes da própria vontade, como ocorre na natureza vegetal e animal [...]. O homem é sobretu- do espírito, ou seja, criação histórica, e não natureza. (GRAMSCI, 2004, p. 58) E por que não uma revolução construída em campo mais ame- no de disputa, conforme a leitura de Maria da Glória Gohn (2007, p. 178) a seguir? Uma atraente arena para a luta pela transformação social, não apenas um mecanismo de dominação, mas um local que me- rece ser democratizado e gerido de forma participativa, emba- sado nas forças organizadas da sociedade civil [...] espaço para execução da solidariedade citada por Marx, que se refere a uma relação social pautada no mesmo interesse e para o mesmo ob- jetivo: a emancipação dos trabalhadores. Nesse contexto, vale trazer Rosa Luxemburgo à continuidade da reflexão. Foi uma mulher revolucionária que marcou a história como liderança do movimento comunista alemão, incansável desafiante de seus adversários e de “seus companheiros”, além de jornalista, pro- fessora e militante. Enquanto teórica, protagonizou análises acerca do imperialismo e deixou um legado que facilitou o entendimento das di- vergências existentes dentro do movimento comunista de seu tempo. Rosa nasceu na Alemanha, filha de judeus e herdeira de significativo patrimônio cultural e social, na contramão da maioria das mulheres e, até mesmo, dos filhos homens das famílias abastadas de seu tempo, es- colheu o caminho da luta revolucionária. Dedicou a maior parte da sua vida aos estudos e à luta por uma sociedade livre, justa e humanizada. Devido ao seu grau de influência, envolvimento e direção do movimen- to comunista alemão, foi condenada ao cárcere por diversas vezes e executada em 1919, no auge de sua maturidade política (aos 48 anos). Consciente de seu alto grau de conhecimento, da sua excelente orató- ria e da sua independência financeira e emocional, quando questionada, respondia assertivamente, conquistando respeito de adversários ou alia- dos políticos. A despeito do machismo presente em toda a caminhada da 46 Classes e movimentos sociais militante comunista, por vezes ofendida em espaços de debate, nunca titubeou. A águia polonesa, como era chamada por Lenin, enfrentava o machismo sem piedade; com sua postura libertária, oratória impecável e conhecimento teórico-político inquestionável, ocupava espaços de re- presentação e luta, majoritariamente masculinos (LOUREIRO, 2005). Ainda que não tenha se dedicado à elaboração de uma teoria para o feminismo,Rosa Luxemburgo produziu textos sobre a ideologia burguesa, que tanto enfrentava, ser a mesma responsável por alocar a mulher na condição de submissão e no isolamento da vida privada (avaliação orientada por seus estudos de Marx). Além de ser a única pensadora de economia política de seu tempo, foi também a única mu- lher a exercer a profissão de professora de Economia Política na Escola do Partido Social-Democrata da Alemanha (EVANS, 2017). Com relação à sua principal contribuição para a teorização dos mo- vimentos sociais, enfatizamos suas análises acerca do imperialismo e/ou da internacionalização do capital em um debate mais atual. No material intitulado A Acumulação do Capital: uma contribuição para uma explicação económica do imperialismo, produzido em 1913, Luxemburgo argumentou que o capitalismo se direcionava para um tipo de expan- são que não teria outro fim além do seu próprio colapso. Para Luxemburgo, o quadro de guerra entre os países imperialis- tas forneceria as condições ideias para que o proletariado assumisse a frente da organização social e política das sociedades. Arriscamos dizer que essa certeza foi a responsável pelas últimas palavras que registrou, na noite que antecedeu sua execução: “A ordem reina em Berlim! La- caios estúpidos! A vossa ‘ordem’ está construída em areia. A revolução vai levantar-se outra vez e para vosso terror proclamará ao som de trompetes: Eu fui, eu sou, eu serei” (HOLMSTROM, 2006, p. 18-19). Luxemburgo não foi a primeira a teorizar o modo expansionista do capital, visto que Marx foi o precursor, seguido de Lenin e Gramsci. Contudo, a tese dela se difere dos demais intelectuais revolucionários de sua época pelo fato de que, ao registrar o imperialismo como uma fase do capital, o levaria a esgotar suas estratégias de acumulação, afirma que a revolução proletária só ocorreria como uma necessidade objetiva. Isso, em última análise, retira dos movimentos sociais a espe- rança e a motivação revolucionária de cunho protagonista, ou seja, a derrubada do capitalismo pelas “mãos dos trabalhadores”. Um divisor Movimentos sociais e perspectivas teóricas 47 e tanto de águas, não é? Para a esperança dos movimentos sociais pro- letários, sobre esse tema, Lenin deixou significativo legado: 1. A concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criaria monopólios, os quais passariam a desempenhar um papel decisivo na vida econômica; 2. A criação da fusão do capital bancário com o capital industrial, e a criação da oligarquia, baseada nesse capital financeiro; 3. A exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias; 4. A formação de associações internacionais monopolistas de ca- pitalistas, que partilhariam o mundo entre si; 5. A criação de termos de partilha territorial do mundo, entre as potências capitalistas mais importantes. (LENIN, 1977, p. 107) Luxemburgo ainda oferece excelentes materiais de análise, seja do ponto de vista histórico ou político. Pesquisá-la é responsabili- dade das mulheres do nosso tempo. O Dia Internacional da Mulher, por exemplo, resultou da militância política de Luxemburgo e Clara Zetkin, deputada do partido comunista alemão e uma das compa- nheiras de caminhada de Luxemburgo. Além dos autores mencionados nesta seção, houve muitos outros que marcaram a tradição marxista. Destes, alguns ainda influenciam a teorização dos movimentos sociais: Friedrich Engels, por exemplo, além de ter caminhado lado a lado com Karl Marx e de ter escrito al- gumas obras em parceria (a exemplo, O Manifesto Comunista), foi o res- ponsável por publicar, e até mesmo concluir O Capital, com base no que Marx já havia deixado registrado antes de sua morte. Neste livro, o autor não foi priorizado, dado que já existem materiais suficientes ao entendimento dessa parceria e de seu papel nas produções marxistas. Com relação a produções de mulheres marxistas sobre o feminismo e/ou à militância feminina de influência marxista, destacam-se para estudo: Alexandra Kollontai, Gayatri Spivak, Heleieth Saffioti, Luce Irigaray, Nancy Fraser, Valerie Bryson, entre outras. Curiosidade 2.3 A influência da tradição marxista nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais, após a década de 1960 Vídeo O estudo marxista sobre os movimentos sociais até a década de 1960 apresentou análises majoritariamente pautadas nas teorias clás- sicas aqui já descritas. Tinha como foco a disputa de classes, o debate revolucionário, as formas de organização partidária e a relação entre esses campos analíticos. 48 Classes e movimentos sociais Contudo, após a década de 1960, algumas sociedades contemporâ- neas visualizaram o nascimento de novos movimentos, com caracterís- ticas peculiares não prestigiadas com profundidade nas obras de Karl Marx, pois esses elementos não existiam na época do autor – ainda que as demandas levantadas por esses novos grupos apresentem raízes so- cioculturais tão antigas quanto a própria humanidade, a exemplo das questões étnico-raciais e dos debates de gênero. Com a entrada de novas pautas de luta e de novos grupos de repre- sentatividade sociopolítica nos campos de disputa (construídos e/ou fortalecidos na atualidade), um novo debate se abriu: a teoria marxista ainda oferece subsídios adequados de análise após o surgimento dos denominados novos movimentos sociais (NMS)? Essa questão foi levan- tada devido às particularidades reivindicadas por esses movimentos, com relação a aspectos que não envolvem necessariamente o debate da disputa de classes. Com isso, o campo de influência da teoria marxista com relação à teorização dos movimentos sociais ficou dividido, visto que vários teó- ricos (orgânicos ou não) passaram a dedicar esforços ao entendimento dos NMS: Movimento dos Estudantes, Movimento Negro, Movimento Feminista, Movimento Indígena, Movimento LGBTTIQ+, Movimentos da População do Campo, Movimentos Urbanos, Movimentos Ambientalis- tas e Movimentos Globais. Uma parcela de teóricos marxistas se manteve inalterável diante desse questionamento, considerada como marxista anacrônica/vulgar. Ainda que poucos, esses teóricos insistem em se fechar absolutamente nas leituras de Karl Marx e buscam aplicar, na atualidade, com pouca ou nenhuma crítica, as análises do autor, como se fosse possível um encaixe perfeito. São marxistas que não consideram que as produções do autor são inseparáveis do seu tempo, ou seja, uma conjuntura que ditava sua realidade em meados de 1880. Desconsideram, também, as diferentes fases intelectuais de Marx (jovem Marx e Marx maduro). Na linha de influência teórica do marxismo frente à teorização dos movimentos sociais, encontra-se também o grupo de teóricos mar- xistas que continuam a valorar e utilizar as categorias analíticas de Karl Marx (grupo que entende que as teorias de Marx ainda se fazem atuais em contextos específicos). Esses se intitulam marxianos, mas A sigla LGBTTIQ+ se transforma de modo processual e a intenção primária em sua configuração é trazer a visibilidade das individualidades/peculiaridades de cada grupo que compõe o movimento. A sigla se refere a lésbicas, gays, bissexuais, tra- vestis, transexuais, intersexuais, queer e outros. “O ‘mais’ indica que há pessoas com orientações sexuais e identidades de gênero que não aparecem nesse acrôni- mo. Como as pessoas agênero e as não binárias, além de tantas outras” (REIS apud CISCATI, 2019). Para saber mais, acesse: https://www.brasildedireitos. org.br/noticias/500-por-que- -a-sigla-lgbti-mudou-ao-lon- go-dos-anos. Acesso em: 22 jun. 2020. Curiosidade Movimentos sociais e perspectivas teóricas 49 são conhecidos como marxistas ortodoxos, ou seja, um grupo de teóri- cos marxistas usa o método do materialismo histórico-dialético para a construção de suas análises. Trata-se de um grupo da atualidade que faz uso das teorias do velho Marx e de outros clássicos marxistas sem ignorar as grandes contribui- ções de novospensadores, no sentido de criar diálogos e embates com autores de tradições teóricas diferentes, para construir novas análises sobre temas da atualidade. Além disso, compreendem que a teoria de Marx não pode ser aplicada em sua totalidade em tempos atuais. Emergiram também os neo-marxistas, intitulados intelectuais hete- rodoxos. Trata-se de um grupo que entende que Karl Marx não se aplica mais à realidade atual, principalmente no que se refere aos novos mo- vimentos sociais. Na concepção desse grupo, as teorias de Marx, além de dogmáticas, são reducionistas, visto que privilegiam apenas uma classe enquanto propulsora de transformações sociais. Fomentam um tipo de marxismo aberto e, em suma, incorporam elaborações teóricas de diferentes vertentes (NETTO, 2015). Podemos assumir que não existe uma única influência marxista, o que quer dizer que dentro de uma mesma tradição teórica há divergên- cias e posicionamentos distintos. É evidente que o marxismo é uma das tradições teóricas essenciais ao entendimento dos movimentos sociais, tanto dos movimentos sociais de vanguarda (que protagonizaram as lutas sociais) quanto dos novos movimentos. E mesmo as críticas das grandes referências teóricas da atualidade têm cometido equívocos na interpretação de Marx, o que corrobora com a tentativa de supressão de suas contribuições para a análise dos movimentos sociais. No entendimento do Serviço Social, hegemonicamente falando, as análises de Karl Marx permanecem intrigantes há dois séculos, sua contribuição é inegável e muitas de suas análises ainda não foram su- peradas. Para ele, os movimentos políticos e os movimentos de classe são frutos do conjunto de relações sociais entre sujeitos que têm cons- ciência de seu lugar na história. Não possibilitar a constituição dessa consciência é uma das grandes metas do capitalismo. Em seu tempo, até havia ações em prol de colocar em debate outras pautas que não fossem as lutas de classes, mas a luta organizada pelo movimento ope- rário era o que imperava. 50 Classes e movimentos sociais Nesse sentido, o que Marx fez foi conceituar o que era e/ou deveria ser um movimento de classe e um movimento político. Contudo, em tentativas forçadas de encaixá-lo ao tema (a fim de comprovar sua de- fasagem ou algo do tipo), diversas confusões teóricas são criadas. Mes- mo Gohn demonstra cometer algumas interpretações equivocadas a esse respeito, visto que autora também usa citações de Karl Marx como se fizesse menção a uma teorização dos movimentos sociais. Porém, quando pesquisado diretamente, as contribuições de Marx ficam bem explícitas: ao falar de movimentos, ele se referia a mudanças políticas, e não a movimentos sociais como conhecemos na atualidade. O que Marx fez foi mostrar que toda mudança política é uma mudança social: todo o movimento em que a classe operária enfrenta como clas- se as classes dominantes e tenta obrigá-las por meio de uma pressão externa é um movimento político. A tentativa, por exem- plo, de impor aos capitalistas isolados uma redução do tempo de trabalho numa só fábrica ou num dado ramo industrial por meio de greves etc. [...] é um movimento puramente econômi- co; em contrapartida, o movimento para impor uma lei das oito horas etc., é um movimento político. E, deste modo, surge, em toda a parte, a partir dos movimentos econômicos isolados dos operários, um movimento político, isto é, um movimento da clas- se, para impor os seus interesses de uma forma geral, de uma forma que possua força geral, socialmente coercitiva. Se estes movimentos supõem uma certa organização prévia, eles são igualmente, por seu lado, meio do desenvolvimento dessa orga- nização. (MARX, 1982, p. 459-460) Outra crítica muito utilizada contra o autor é a de que ele não con- siderou o debate feminista em suas análises. Marx alertou que os capitalistas sabem que devem retirar a possibilidade de as mulheres ocuparem espaços decisórios e, por isso, a elas designam espaços de subalternidade e submissão. Nas análises marxistas, o “ser mulher” é um padrão, um produto social construído em cada período da história, e, ao feminino, tem sido empregado o pior dos papéis no capitalismo: Movimentos sociais e perspectivas teóricas 51 a família capitalista foi instituída pelo capitalismo. Foi a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas econômicas, e concretamente no triunfo da propriedade priva- da sobre a propriedade comum primitiva, originada esponta- neamente [...]. A monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mu- lher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de sexo pelo outro, como proclamação de um conflito entre os sexos, ignorado, até então, na pré-história [...] a condição social histo- ricamente variável da mulher e seu lugar na sociedade, estão intimamente ligados com a propriedade privada, a família e o Estado, que é o aparato que legaliza tais relações e as impõem e sustenta pela força. (ENGELS, 1984, p. 17) A citação de Engels demonstra que Marx não ignorava o constructo de mulher na sociedade – assim como não ignorou as questões étnicas 5 O debate contemporâneo marxista sobre a questão étnica pode ser acessado em diferentes perspectivas. Farias (2017) recomenda algumas delas, entre as quais destacamos: 1) Dossiê Marxismo e questão racial (men- cionado na Revista Margem Esquerda, n. 27, publicada pela Editora Boitempo em 2016); 2) Marxismo e questão racial, mencionado pelo Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (Neils), ligado ao Progra- ma de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais (PUC-SP), em edição especial (v. 19, n. 34, 2015); 3) Panafricanismo e comunismo: conversa com Hakim, em entrevista realizada por Selim Nadi. 5 –, como vulgarmente afirmam algumas análises pós-modernas. É preciso valorar que, mesmo em seu tempo, além de não ignorar, Marx demons- trou saber exatamente onde e por que as mulheres são “usadas”. Não se dedicou a priorizar o tema, mas essa não pode ser uma razão para des- qualificá-lo nas análises pós-modernas como alguns teóricos fazem. Marx especializou-se, aprofundou-se em sua grande meta, ou seja, a exposição do capital e de suas estratégias de exploração. Ainda que por diferentes vieses, diversos intelectuais e militantes interpretaram, dialogaram e/ou fizeram uso da teoria marxista em todo o mundo, principalmente, os oriundos das Escola de Frankfurt. Al- guns não a destacaram, outros nem sequer fizeram qualquer menção a Marx, muito embora se possa identificar constructos dele em suas produções. O que mais importa é que cada um, a seu tempo e segundo as demais vertentes teóricas que os conduziram, tem servido a apro- fundamentos teóricos importantes. Assim, independentemente das dúvidas sobre as diferenças e os em- bates acerca da influência de Karl Marx, para os que desejarem adentrar nessa caminhada, importa saber que alguns elementos pontuados na teo- ria dele são inegáveis à análise e à compreensão dos movimentos sociais: 52 Classes e movimentos sociais 1. A divisão de classes permanece, ainda que na atualidade a luta se aparente desconfigurada em relação ao passado. 2. A história das sociedades é a história das lutas de classes, a relação entre dominantes e dominados e/ou de exploradores e explorados. 3. Somos o que somos porque nos transformamos e trans- formamos o mundo a nossa volta. Estamos, portanto, em constante movimento, e disso depende a construção da vida que idealizamos. 4. Evoluímos e nos constituímos socialmente por meio de ações e relações sociais, tendo a atividade do trabalho como a principal dentre delas. Dependendo da organização e das condições de trabalho, configuramos determinados tipos de vida e de ser em sociedade. 5. Enquanto houver divisão de classes, haverá desigualdade. 6. A liberdade só existe para um “ser social” que se constitua livree que, portanto, possa fazer escolhas entre opções concretas. 7. Nossas pulsões são o que torna possível o movimento, ou seja, a ação se realiza por meio de sistemas de mediações que constituem a cultura. Assim, quanto mais mediatizada é a nossa vida, mais social ela é. Na sociedade capitalista, essas pulsões não são naturais, e sim preestabelecidas. 8. A pesquisa, ou seja, o estudo teórico, deve ter como premis- sa a identificação e o diálogo das determinações históricas que constituem o social. 9. O conhecimento real só pode ser construído por uma concepção democrática do conhecimento. Devemos, então, conhecer o máximo de teorias sobre um determinado objeto, não a fim de mesclá-las e/ou repeti-las, mas para que seja possível debatê-las, enfrentá-las ou, no mínimo, dialogar com elas, a fim de verificar os potenciais de análise que oferecem. 10. O que Marx oferece é uma teoria do social, construída em seu tempo, não acabada e aberta a novas construções. Por fim, cabe ressaltar que teorias são como lentes que potenciali- zam a visão, contudo, não encerram em si mesmas a realidade concreta. 2.4 A influência dos teóricos clássicos estadunidenses nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais Vídeo Outros intelectuais importantes se constituíram como influências clássicas às abordagens teóricas dos movimentos sociais. Autores oriundos da tradição sociológica estadunidense (Escola de Chicago), por exemplo, produziram estudos que influenciam o campo analítico dos movimentos sociais até os dias atuais. Fundada em 1892, a Escola de Chicago foi erguida por meio do fi- nanciamento de John Rockefeller, feito realizado devido ao envolvimen- to direto de seu filho Davison com as ciências sociais. A Escola ficou muito conhecida pelos estudos gerados com base em um significativo número de pesquisas voltadas à investigação dos fenômenos sociais que constituíam a cidade de Chicago. Segundo alguns pesquisadores formados na instituição, havia dife- rentes grupos e, no mínimo, duas modalidades de constructo de pes- quisa: os grupos de orientandos, que produziam estudos e pesquisas com base nas referências ditadas por um orientador, e os grupos de Movimentos sociais e perspectivas teóricas 53 trabalho, que não partilhavam necessariamente da mesma influência teórica, mas desenvolviam atividades e estudos que se complementa- vam. O que os aproximava e os movia a trabalharem juntos era o inte- resse pela compreensão dos problemas culturais (BECKER, 1996). Entre os estudos produzidos na Escola de Chicago que influencia- ram as abordagens teóricas sobre os movimentos sociais, destacamos os do sociólogo alemão Georg Simmel. As análises de Simmel foram construídas para a compreensão das problemáticas sociais em meio aos diferentes espaços urbanos da cidade de Chicago. As pesquisas do autor o levaram a concluir que as sociedades oriundam de interações sociais, construídas com base em relações de interdependência entre diferentes sujeitos, ou seja, sociações de reciprocidade, nas quais nem sempre se identificam acordos quanto a interesses. Com base nessas conclusões, Simmel construiu contribuições teóri- cas acerca da constituição das massas e do conflito entre elas. Elaborou, portanto, o conceito de sociação. Essa conceituação de Simmel propõe que o principal fator de formação das massas não são as características individuais de cada sujeito que compõe um determinado grupo social. Para ele, as massas são formadas porque existem características em comum entre as diferentes pessoas, fato que possibilita sua sociação. Entende-se, assim, que mesmo quando constituído em massa, o movi- mento social não representa a soma das características que compõem o grupo. As massas não representam realmente o todo, e o que lhes é realmente comum pode até não ser percebido e/ou acordado pelo todo. Em uma passeata, por exemplo, nem todos do grupo realmen- te têm consciência do que está sendo requerido, mas, ainda assim, compõem multidões de reclames. O que se identifica com mais fa- cilidade é o motivo pelo qual decidiram fazer essa sociação, des- de opiniões como “o movimento parece legal, quero ver o que está rolando”; “conheço pessoas, que conhecem pessoas, que disseram que é importante”; “meus amigos participam da organização do mo- vimento”; e “todo mundo vai, então também vou” até o esclareci- mento de “sei do que se trata e defendo a ideia”. O conceito de sociação, de Simmel, propõe que alguns dos princi- pais problemas da vida moderna se localizam na inevitável relação de conflito entre o indivíduo e a sociedade. Para o autor, a investigação dos tipos de individualidades construídos pelas sociedades fornece ele- Ainda que fosse o homem mais rico do mundo, por ter estudado Karl Marx, o filho de John Davison Rockefeller demonstrava uma diferenciada comoção pela filantropia. Talvez um modo de agradar a Deus, visto que a família era fortemente vinculada à Igreja Batista e/ou, quem sabe, um modo de purificar sua imagem social e da família, diante dos escândalos gerados em algumas negociações consi- deradas irregulares no período, como os monopólios. Essas são nossas especulações a partir da leitura de biografias da família. Curiosidade 54 Classes e movimentos sociais mentos para compreender os tipos sociais existentes dentro dos cole- tivos, o que é uma condição necessária ao entendimento do porquê de suas ações (WAIZBORT, 2013). Uma das individualidades identificadas por Simmel em meio às mas- sas faz referência à individualidade do pobre. O autor explica que, se considerado o fato de que a pobreza é julgada pela coletividade (o todo social), e que, com base nisso, criam-se processos estigmatizantes, o pobre tende a se isolar e/ou é isolado de muitos tipos de interação. A situação de humilhação social o conduz a não construir sentimentos de pertencimento a uma classe social, visto que cria um tipo de individua- lidade que resulta no distanciamento, até mesmo dos seus (PAUGAM; SCHULTEIS, 1998). Se considerarmos, por exemplo, que o interesse pela política resul- ta de experiências vivenciadas, os tipos de individualidade de Simmel podem explicar (ao menos em parte) um dos mais desafiantes proble- mas identificados pelos movimentos sociais: a não participação políti- ca, bem como o porquê do distanciamento das lutas de classes. Dado que, na condição de excluídos, os pobres não compreendem e não se percebem dignos de compreender os problemas sociais, visto que se entendem como um deles. Por fim, sobre Simmel, é inegável a representatividade de sua influência nas análises dos movimentos sociais atuais, uma vez que os principais debates teóricos sobre o tema permeiam a questão da individualidade dentre as coletividades. Uma coerência teórica, dada a atual conjuntura quanto aos tipos de organização e à for- mação dos movimentos sociais. 2.5 A década de 1960 e as novas influências nas abordagens teóricas sobre os movimentos sociais Vídeo Após a eclosão dos chamados novos movimentos sociais (NMS) nos anos 1960, a suficiência da tradição marxista foi questionada, visto que se argumentava não terem nada em comum com os movimentos so- ciais clássicos anteriores. Assim, somada a um novo entendimento de mundo, emerge, em meio ao campo universitário internacional, uma oposição ferrenha às análises marxistas – mais precisamente na déca- Movimentos sociais e perspectivas teóricas 55 da de 1980 –, bem como um significativo esforço direcionado à criação de paradigmas teóricos para explicar os movimentos sociais. A pauta cultural e individual adentra o centro dos debates, sob o carimbo das teorias pós-modernas. Segundo o que afirmam alguns intelectuais europeus, como Alain Touraine, destacado na sequência desta seção, a ruptura com a tra- dição marxista foi necessária, visto que os NMS da Europa (iniciados pelos estudantes) não tinham a questão das disputas de classes como centro de debate. Essa concepção encontra como principal perspectivaa ideia de que, na pós-modernidade, não há mais um sujeito revolucio- nário, principalmente em debates organizados por partidos políticos. O que passa a imperar, nesse contexto, é o sentido que o sujeito atribui aos processos sociais: a sua representação, o seu imaginário e as indi- vidualidades que os constituem. Segundo Netto (2011), a compreensão desse debate requer conside- rar que, a partir da instauração das novas medidas da macropolítica do capitalismo contemporâneo, a perda da força dos interlocutores do so- cialismo foi irremediável, ocasionando a quase total eliminação da pro- dução cultural dos partidos comunistas. Esse processo configurou um desprestígio acadêmico aos intelectuais vinculados à tradição marxista, que, além de perder espaço e representatividade, perderam o financia- mento de suas pesquisas. Enquanto saída, encontraram, em geral, mo- dos de se inserir no debate pós-moderno com base em um mix analítico. Para Netto (2011), ainda, este é o fenômeno de um sistema causal diretamente relacionado às estratégias capitalistas. Isso não quer dizer que as contribuições pós-modernas não tenham construído significati- vas análises para o entendimento do Serviço Social. É preciso conside- rar também o advento das novas tecnologias, visto que reconfiguraram a dimensão espacial, ou seja, as mudanças foram efetivas, mas perma- neceram configuradas pelo capital. Não há dúvidas de que há novos processos, novos movimentos, no- vas configurações no campo teórico, contudo, as alterações implicadas pela divisão intelectual e técnica do trabalho não podem ser ignoradas. Não se pode ignorar também que a ideologia burguesa ainda se faz hegemônica na maior parte do mundo. Em resposta às críticas destinadas aos intelectuais da tradição mar- xista, José Paulo Netto (2009) e Manuel Castells (1999) consideram que 56 Classes e movimentos sociais o deslocamento da disputa de classes do centro dos debates dos movi- mentos sociais está intrinsecamente relacionado ao fato de que, após a década de 1960 – mais precisamente a partir da década de 1990, no que diz respeito à realidade brasileira –, a organização dos trabalha- dores foi fortemente influenciada pelas novas estratégias capitalistas voltadas à internacionalização do capital. Esse é um fato pouco considerado nas análises pós-modernas, mas que deveria ocupar o centro deste embate, visto que a conjuntura ins- taurada pela internacionalização do capital e pelas medidas macroeco- nômicas que a sustentam resultaram em profundas repercussões no interior de diversos países (sobretudo, nos países periféricos), princi- palmente quanto ao desemprego e à precarização da força humana de trabalho. Enquanto consequência, restaram apenas duas condições aos trabalhadores: a condição de trabalhador indispensável, altamen- te preparado para atender às qualificações requeridas pelo sistema (privilégio dos poucos que conseguem construir uma formação educa- cional), ou a condição de peça dispensável, que, em suma, tem como única possibilidade de subsistência ocupar lugar na fila entre os demais trabalhadores que constituem a mão de obra de reserva exploratória do capitalismo, executando trabalhos precarizados, flexibilizados, frag- mentados e/ou terceirizados (CASTELLS, 1999). São elementos que resultaram na desmobilização dos trabalhadores, na cooptação de dirigentes e organizações partidárias e afetaram dire- tamente a visão de mundo, a capacidade de resistência e de reorganiza- ção do movimento dos trabalhadores. Pode-se dizer que esse fato vem sendo pouco considerado nas análises teóricas dos novos movimentos sociais, as quais descartam categorias explicativas da tradição marxista, essenciais à compreensão dos movimentos sociais da atualidade. Quando se adentra com maior profundidade nas leituras dos textos produzidos por Engels com Marx, uma questão importante é encontrada: “a história de toda a sociedade até aqui é a história das lutas de classes” (MARX; ENGELS, 1987, p. 29). Nesse contexto, é válido indagar: trata-se mesmo de novos movimentos sociais ou de novas configurações de luta? A história de toda a sociedade até aqui é a história das lutas de classes [...] “Homem” livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burgueses de corporação e oficial, em suma, opressores Movimentos sociais e perspectivas teóricas 57 e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta. Nas anteriores épocas da história, encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos es- tados [ou ordens sociais – Stände], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga, temos patrícios, cavaleiros, ple- beus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, bur- gueses de corporação, oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares. A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas. (MARX; ENGELS, 1987, p. 29-30) Alain Touraine é um dos teóricos da vertente pós-moderna cujas contribuições são diversas acerca das representações e relações constitutivas da identidade social. Foi um dos primeiros intelectuais a teorizar sobre o nascimento de uma sociedade pós-industrial, confi- gurada pela produção de serviços e não mais pela indústria, como tra- dicionalmente ocorria. Nas análises do autor, a globalização destruiu o social, visto que a política foi engolida pela economia, então não há mais espaço para forças sociais. Touraine entende que as forças indi- viduais são as únicas que demonstram ainda alguma chance de mol- dar as sociedades, sendo elas: o novo movimento feminista, o novo movimento negro e, entre outros, os novos movimentos fundados na defesa do meio ambiente. Segundo Touraine, em curto espaço de tempo, presenciaremos primeiramente a separação completa da economia e da sociedade e, posteriormente, o fim de instituições como escolas e sistemas de previ- dência social. Ele acrescenta: já que o que chamamos de sociedade são instituições que usam recursos, com os quais fazemos escolas, estradas, sistemas de previdência social, aviões, o que se quiser. Bem, o que nós vive- mos por trás da crise é a globalização, ou seja, o fato de que a economia mundial hoje está essencialmente ligada às finanças. A existência de empresas, em si, não é um problema. Mas nós não estamos mais em mundo de empresas, estamos em um mundo de mercado, de mercado globalizado, e ninguém pode controlar isso. (TOURAINE, 2011) 58 Classes e movimentos sociais Touraine afirma também que os movimentos sociais da atualida- de submergiram as classes, colocaram-se acima delas, porque quanto mais se penetram em si mesmos, enquanto sujeitos, mais se tornam livres. Nessa nova constituição enquanto sujeitos, tornam-se libertos de dependências e, assim, tem-se o nascimento da ética da autentici- dade. Com base em suas individualidades, criam coletividades a fim de combater leis, culturas e símbolos que lhes impeçam de ser quem são e/ou quem desejam ser (TOURAINE, 2002). Para Malfatti, essa concepção de Touraine pode colocar qualquer regime democrático em risco e, até mesmo, instaurar guerras. Isso porque a ideia de Touraine propõe a conquista à margem da lei, con- cepção que poderia resultar no entendimento: caso não se tenha o que deseja, se pode tomar. Os movimentos sociais atuam exatamente contra um status quo que lhes parece injusto no sentido de que a lei os discri- mina e prejudica. Por isso, posicionam-se contra a lei estabe- lecida. Se o movimento social pleiteia um pedaço de terra é porque seus membros acham que não possuem terra porque, por algum motivo, estão impedidosde possuí-la. Para tanto, é preciso abolir a lei que não lhes dá oportunidade e, por isso, devem lançar mão de outros meios para alcançar seu objetivo. Ora, este modo de pensar pode ser estendido a qualquer mem- bro da sociedade que não possua determinado bem que outros têm e ele não tem. Então, quando se começa a agir à margem da lei. (MALFATTI, 2011, p. 220) Apesar dessa ressalva, Touraine é, na atualidade, um dos autores mais referenciados nas abordagens dos movimentos sociais dado o seu estilo de pensar e produzir teorias frente à contemporaneidade, na perspectiva pós-moderna. Um ponto marcante das contribuições des- se autor é o fato de que ele não acredita nas formas de representação existentes nas sociedades. Para ele, as desigualdades reclamadas pelos movimentos sociais não serão solucionadas por partidos políticos nem por sistemas de governo, tampouco por uma revolução de classes. O autor entende que nenhum dos modelos vivenciados resultou em soluções reais, pois, quando o Estado é forte, todas as decisões cabem ao Executivo, lugar de domínio das elites econômicas e polí- ticas, ou seja, continua a prevalecer os interesses dos dominantes. Quando o Estado é fraco, ganham espaço as representações terro- ristas e/ou revolucionárias. Quando se derruba o Estado, o povo Movimentos sociais e perspectivas teóricas 59 fica à mercê da fome e da falta de importantes suportes, como educação e saúde. As ideias de Touraine levam ao entendimento de que esse ponto ainda está no campo do desconhecido, ou seja, ainda precisa ser desenvolvido (TOURAINE, 1996). CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo dos movimentos sociais ainda é recente, se considerada a temporalidade histórica. Portanto, no entendimento do Serviço Social, de- vem ser analisados sob a perspectiva crítica, dada a segurança de uma vertente teórica estabelecida há mais de dois séculos. É importante também ter em vista que muitos dos estudos construí- dos aquém da influência marxista e principalmente pelos pós-modernos, a partir da eclosão dos novos movimentos sociais, contribuíram para o campo da teorização dos movimentos sociais. Em outras palavras, se faz urgente dialogar com eles. Contudo, é inegável também que os movimentos sociais nascem e se estruturam em pleno processo de implantação das novas estratégias de aprimoramento do sistema capitalista, portanto, novos ou não, se estrutu- raram em meio às rédeas do capital. E dado que ninguém, sem exceção, explicou o capital melhor do que Karl Marx, sua teoria social (mesmo que construída em outra época) ainda pode fornecer instrumentos para que nos seja possível identificar características/leis da sociedade atual. A fim de instigar ao aprofundamento de leituras e pesquisas, demar- camos a finalização deste capítulo com as seguintes questões: o capitalis- mo reserva um “lugar específico” para determinados grupos (indígenas, negros, mulheres, grupos LGBTTIQ+, deficientes, idosos, crianças e ado- lescentes) ou as condições de negligência, violência, territorialidade, su- balternidade e invisibilidade social que vivenciam nada manifestam com relação ao sistema econômico atual? Se o capitalismo se instaura em to- das as esferas da produção da vida, não teriam também esses novos mo- vimentos certa marca desse processo, ou seriam eles superiores à lógica da ideologia burguesa? ATIVIDADES 1. Após 1960, a sociedade europeia vivenciou a eclosão de novas configurações no campo dos movimentos sociais, o que inaugurou um complexo debate acerca da validade da tradição marxista com relação ao uso de suas teorias frente aos movimentos sociais desse período. 60 Classes e movimentos sociais Alain Touraine foi um dos precursores desse debate e, também, um dos teóricos que mais tem sido utilizado para análises dos movimentos sociais na contemporaneidade. Dado o contexto, explique: qual é o principal elemento de análise utilizado pelos teóricos da tradição marxista em resposta aos questionamentos frente à validade de seus princípios epistemológicos? 2. Na contramão dos movimentos sociais clássicos, ou seja, do movimento operário cujo debate central era a disputa de classes, os movimentos que surgiram a partir da década de 1960 apresentam outras características. Tendo em vista o exposto, registre quais são as principais características desses novos movimentos na perspectiva pós-moderna. 3. Várias vertentes influenciam a abordagem teórica dos movimentos sociais e, portanto, estão baseadas em diferentes entendimentos sobre os fenômenos sociais. Suas análises traduzem os acontecimentos do mundo em teorias e teses, a fim de explicar as sociedades. Nesse sentido, qual é o nome dado à teoria de Karl Marx e como se pode explicá-la? REFERÊNCIAS BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, out. 1996. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93131996000200008. Acesso em: 22 jun. 2020. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CASTELLS, M. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. CISCATI, R. Por que a sigla LGBTI+ mudou ao longo dos anos. Brasil de Direitos, 30 set. 2019. 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São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH-USP; Editora 34, 2013. 62 Classes e movimentos sociais 3 A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes Este capítulo aborda os elementos que constituem a forma- ção da cultura política, assim como em que medida interferem no modo de os sujeitos construírem o entendimento da política e suas ações no curso dela. Apresenta também o debate das disputas de classes, a fim de mensurar o importante lugar que ocupam na construção dos sujeitos políticos. Trata-se de um conteúdo elaborado com base no entendimen- to de que a construção política é um tipo de capital. Como tal, se apresenta norteado de relações de poder, que são determinantes para o nível de discernimento e de comprometimento dos sujeitos com a questão política. 3.1 As origens da organização sociopolítica na perspectiva de classes Vídeo As sociedades modernas 1 são marcadas pelo sombrio cenário da divisão de classes sociais. Essa separação configura uma realidade com- posta por altos níveis de desigualdade social, onde uma minoria peculiar (elites políticas e econômicas) exerce domínio sobre a organização social. Da relação contraditória entre capital e trabalho, emergem tanto as leis que regulam e afixam a ideologia burguesa quanto as possi- bilidades de construção e luta por um novo projeto de sociedade, na perspectiva dos trabalhadores. Dado o exposto, insistimos em reafir- mar que todas as lutas travadas, em todas as sociedades já existentes, foram e são lutas de classes (MARX, 1989). Partindo desse pressuposto, entendemos que a organização social moderna é constituída por um complexo conjunto de determinantes Este capítulo aborda diferentes sociedades, mas será demarcado pela realidade brasileira. Para o âmbito geral, usaremos o termo sociedade moderna e para a realidade brasileira, nossa sociedade. 1 A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 63 históricos que preestabelecem os tipos de organizações sociopolíticas que conhecemos na atualidade. Essa configuração social se revela em um sistema de relações contraditórias que permitem brechas organi- zacionais, segundo a capacidade de movimento e de luta social de cada lado em disputa. As organizações sociopolíticas que se originam da sociedade capi- talista têm duas classes protagonistas: a fundamental e a transitória. A primeira é formada pela burguesia e pelo proletariado, e a segunda é constituída pelos sujeitos que compõem a classe média. A burguesia como parte da classe fundamental, constituída pelos “donos do poder” (herdeiros das aristocracias, das oligarquias e das capitanias hereditárias, ou seja, banqueiros, empresários industriais de diferentes ramificações, agropecuaristas, políticos de carreira, coronéis, papas e bispos, diretores de empresas, funcionários de alto escalão do Estado etc.), forma um grupo peculiar lavrado nas raízes sócio-históri- cas das nações e reconfigurado estrategicamente, segundo os moldes da economia e os tipos de fazer política que ela própria constrói. o Brasil é um país dominado pelas elites (conservadoras) econô- micas e políticas que, através de mecanismos de poder, instituem regras, valores, crenças, costumes, símbolos e tipos de regime. A história comprova que, em alguns momentos, os dominados criam mecanismos de poder a fim de lutar por justiça social e assim alcançaram o que hoje conhecemos por direitos. Mas ainda que tenham obtido algumas conquistas frente às imposições das elites políticas, não conseguiram instituir estratégias para confron- tar, na mesma medida, as estruturas do poder econômico. Fato que pode ser exemplificado pela não instauração da reforma de Estado prevista na década de 1980. Em outras palavras, nesse pe- ríodo, grupos socialmente excluídos e explorados conseguiram, de certa forma, se organizar no que então parecia ser uma brecha democrática e conquistaram a materialização de direitos sociais. Contudo, essa brecha foi rapidamente contornada pelo dispositivo Estado neoliberal (que na época se consolidava), que rapidamente criou um tipo de inclusão que só seria possível se subordinada à lógica de mercado. (LOPES, 2014, p. 133) Podemos assumir, segundo Lopes, que a burguesia tem como al- gumas de suas principais características o conservadorismo e a cons- ciência de seu lugar de classe. Essa minoria muito distinta, por deter poderes econômicos e políticos, constitui capitais sociais que perfei- tamente a instrumentam ante os objetivos de perpetuação do poder 64 Classes e movimentos sociais que, para ela, lhe é merecido (LOPES, 2014). Sobre o indivíduo burguês, portanto, é válida a definição: o burguês é aquele que “mora no seu quarto”, que vive isola- do da sociedade e da natureza em torno, gozando, todavia, de seus frutos, mas sem se dar conta da fluidez extrema da situação do mundo real que ignora. Sua preocupação é consigo mesmo e com seus pares burgueses, mesmo por não conseguir perce- ber a necessidade de qualquer preocupação com o mundo real. (RAMALHETE, 2016) Constituindo o outro lado da classe fundamental, vemos o prole- tariado, grupo oriundo das mais severas condições de sobrevivência (descendentes de escravos, trabalhadores braçais assalariados e tra- balhadores informais, grande parte das mulheres, indígenas urbanos, refugiados e imigrantes, trabalhadores do campo etc.), ou seja, dos po- bres que, além de historicamente explorados, vivenciam a miséria. Na definição elitista romana-burguesa, aquele “que só é útil pelos filhos que gera” (DICIO, 2020). O proletariado é aquela classe da sociedade que tira o seu sus- tento única e somente da venda do seu trabalho e não do lucro de qualquer capital; [aquela classe] cujo bem e cujo sofrimen- to, cuja vida e cuja morte, cuja total existência dependem da procura do trabalho e, portanto, da alternância dos bons e dos maus tempos para o negócio, das flutuações de uma concor- rência desenfreada. Numa palavra, o proletariado ou a classe dos proletários é a classe trabalhadora do século XIX. (MARX; ENGELS, 1982, p. 56) Podemos assumir o proletariado como grupo peculiar que é oriun- do da sociedade capitalista e, mesmo na condição de não escravo, continua a ser explorado, negligenciado em seus direitos, sem ter as condições adequadas e, tampouco, mínimas a uma vida digna. Cabe considerar que o capitalismo não foi responsável pela inven- ção da pobreza, pois essa condição de ser em sociedade já existe desde os primórdios da humanidade. As antigas condições de pobreza deriva- ram de um quadro generalizado de escassez, que se constituía devido ao baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas materiais e sociais dos períodos históricos que antecederam o capitalismo. Contudo, a partir da sociedade capitalista, mais precisamente após a Revolução Industrial, emergeum novo tipo de pobreza (jamais cons- tatado na história para os “sujeitos livres”), a pobreza absoluta enquan- A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 65 to barbárie estratégica do capital. Isso se constata pelo fato de que, diferentemente das precárias condições de produção anteriores, a po- breza passou a ser acentuada na mesma medida em que se aumentava a capacidade social de produzir riquezas. Uma incoerência proposital. Pela primeira vez na história registrada, a pobreza crescia na razão direta em que aumentava a capacidade social de produzir riquezas. Tanto mais a sociedade se revelava capaz de progressi- vamente produzir mais bens e serviços, tanto mais aumentava o contingente dos seus membros que, além de não terem acesso efetivo a tais bens e serviços, viam-se despossuídos até das con- dições materiais de vida de que dispunham anteriormente. Se, nas formas de sociedade precedentes à sociedade capitalista, a pobreza estava ligada a um quadro geral de escassez (quadro em larguíssima medida determinado pelo baixo nível de desenvol- vimento das forças produtivas materiais e sociais), agora ela se mostrava conectada a um quadro geral tendente a reduzir com força a situação de escassez. (NETTO, 2012, p. 203) Desde então, os proletários têm sido designados à condição de pauperismo, ao sentimento de insegurança e ao afastamento das possibilidades de aprimoramento enquanto seres sociais 2 “Na tradição marxista, o ser social é um ser real, concreto, histórico e dialeticamente consti- tuído na vida, em contraposição à proposta idealista. O ser social se diferencia dos animais pela sua capacidade de transformar a própria natureza, de tal modo que, ao transformá-la, transfor- ma a si mesmo. [...] O primeiro ato humano e social, segundo os apontamentos marxistas, é a criação das condições materiais para a sua sobrevivência. Deste modo, para que possa fazer sua própria história, deve, primeira- mente, estar em condições para isso” (MARX; ENGELS, 2007 apud BRAGHINI; DONIZETI; VERONEZE, 2013, p. 2). 2 . Passaram a compor o exército de mão de obra de reserva do capitalismo, sem qualquer meio para produzir de modo autônomo a sua subsistência, restando-lhes apenas a venda de sua força de trabalho e, como con- sequência, a insegurança social – em termos mais fidedignos, o campo do desespero social. Mas quem é o proletário? Segundo os dados apre- sentados em diferentes pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pode-se definir o perfil da população pobre brasileira da seguinte maneira: sujeitos que vivem em condições precárias de vida, podendo ser pobres, extremamente pobres e/ou menos pobres [...] não desfrutam de alimentação adequada e, por isso, sofrem de di- ferentes tipos de desnutrição alimentar [...] são aqueles(as) que ainda cozinham com lenha, porque não podem custear o gás e a eletricidade sem políticas públicas que possibilitem seu uso [...] vivem em péssimas condições de moradia, isso quando as possuem (barracos, aglomerados, favelas, casas inacabadas). Em maioria, alocados nas regiões mais periféricas das cidades e/ou em terrenos irregulares, em áreas de proteção ambiental (morros, encostas, beiras de rio) [...] quando possuem renda, tratam-se majoritariamente, de famílias com renda inferior a 70$ por pessoa da família e também os grupos beneficiários de 66 Classes e movimentos sociais programas de renda mínima como, por exemplo, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada [...] grupos que dependem exclusivamente de políticas públicas para acessar, atendimentos de saúde, formação educacional, saneamento, garantia de renda etc. [...] em relação ao trabalho, são famílias que não detém os meios para produzir e, que portanto, dependem em maioria de trabalhos gerados na informalidade (bicos), do trabalho de salá- rio mínimo [...] constituem também este grupo, os analfabetos totais e os analfabetos funcionais [...] uma população majorita- riamente negra ou parda e constituída em maioria por mulheres [...] Em suma, três tipos de família constituem a população extre- mamente pobre: aquelas cuja conexão com a renda do trabalho é agrícola, precária ou inexistente. (IBGE, 2017; 2018) O proletariado e a burguesia constituem as classes fundamentais porque, no sistema capitalista, as principais disputas ocorrem entre eles. Disputas que atuam como a força motriz da história, pois configu- ram a sociedade moderna. Trata-se de um debate que não considera princípios morais individuais, e sim os diferentes projetos societários que concorrem desde os primórdios das sociedades civilizadas. Tendo em vista o exposto, cabe refletir sobre a classe transitória, ou seja, a classe média, nas atuais configurações da sociedade moder- na. Essa classe se constitui tanto de privilégios, negociados por meio de relações pessoais diretas com as elites, quanto da gama de direitos conquistada pela luta dos trabalhadores. Ela é a criação não planejada, mas rapidamente cooptada pelo capital. É uma classe de condição econômica intermediária, que se localiza majoritariamente nos espaços da intelectualidade curricular (univer- sitários), entre os pequenos proprietários, no funcionalismo estatal e nas organizações da sociedade civil. Enquanto característica peculiar, é constituída de sujeitos que receiam retornar à condição de proletários que ocuparam ou de que emergiram e, portanto, desenvolvem um tipo de rejeição que os cega a ponto de passarem a se perceber como elites, ainda que na realidade não controlem nada (SOUZA, 2018). Desse modo, passam a referendar e reproduzir as características mais perversas da ideologia burguesa: discurso meritocrático, estraté- gias capitalistas de desenvolvimento, criminalização da pobreza, julga- mento moral e fascista do pobre e, principalmente, hábitos culturais A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 67 e morais elitizados. Além de não possuírem consciência do seu lugar de classe, ignoram sua condição de serviçais e de peças utilizáveis. Na estrutura organizacional burguesa, a classe média cumpre também a função de necessária consumidora, alimento aos “motores capitalis- tas”, visto que a elite pouco consome produtos nacionais. Se os proletários se constituem como a mão de obra de reserva do capitalismo, a classe média se configura como um exército de servi- çais, facilmente manipuláveis e manejados para o consumo nacional. Trata-se de uma classe transitória, visto que seu lugar de classe não é estável, pois está diretamente relacionado à manutenção dos direitos conquistados pelos trabalhadores e ao entendimento do capital diante da demanda de seus serviços nas relações sociais e no mercado. São, portanto, uma espécie de “capatazes das elites”. É nesse contexto de desigualdade e contradições que emerge a or- ganização sociopolítica da sociedade na perspectiva de classes. Assim, organizações, instituições e diferentes tipos de relações são desenvolvi- dos a fim de colocar em movimento as frentes de luta pelos diferentes projetos de sociedade. Afinal, ainda que a hegemonia burguesa esteja instaurada, isso não impede processos de disputa. Dessa lógica, surgem as instituições e representações sociais como as conhecemos na atualidade: família, Estado, ordenamento jurídico, escolas, universidades e outras. São criados também os ti- pos de organizações representativas: partidos, institutos, lideranças políticas e religiosas, chefias de Estado e demais cargos representa- tivos. Uma totalidade em movimento, regida e materializada na ação (com participação) dos sujeitos. 3.2 A influência da cultura política na organização sociopolítica Vídeo Toda organização sociopolítica é materializada por meio de ações e instituições, o que requer a participação dos sujeitos no processo, ao menos na perspectiva dos regimes democráticos, pois, quando não há traços de democracia, não há participação social – processo que só 68 Classese movimentos sociais ocorre mediante espaço de disputa concreta, o que, por exemplo, é quase inexistente em regimes nazistas 3 . A participação é entendida como oportunidade de ação, gerada pela criação de oportunidades reais, em que se executam reivindicações in- dividuais e coletivas contra as forças internas e/ou externas, que, por estarem em disputa, incidem sobre o social. Trata-se de um espaço de debate, posicionamento e enfrentamento das problemáticas sociais, que se instituem por meio de processos de luta permanente e de con- quistas processuais. É algo construído e não cedido/dado, além de ter começo, meio e fim. É um instrumento das classes e dos mais diversos grupos sociais étnicos, de gênero, de faixa etária, de tradição, regiona- lidade e de território (PATEMAM, 1992; DEMO, 1998). A participação é um dos mecanismos estratégicos que torna possível a disputa e a mediação de classes ante os projetos sociopolíticos que são disputados. Nas sociedades atuais, a participação tem sido construída enquanto conquista do processo de luta pela instauração da democracia participativa, mas fiscalizada pela ordem burguesa (DAGNINO, 1994). A participação é o primeiro plano de constituição do sujeito políti- co. É sujeito porque é socialmente constituído por meio de diferentes vivências que emergem de diversos tipos de relações sociais. Estas ge- ram diferentes discursos, determinados pertencimentos e sentimen- tos, que se manifestam em narrativas, símbolos e culturas, os quais influenciam e constroem modificações e/ou transformações sociais. O sujeito político é, então, orientado pela cultura política (valores, crenças e símbolos, que constituem tipos de caráter, comportamento, regimes etc.) de cada povo, nação e território. Cultura que, por ser po- lítica, é social, e, portanto, também é poder, visto que interfere no nível de democracia e, principalmente, na condição de mobilidade social em meio às estruturas de poder – isso considerando que a cultura política também se constitui de determinantes econômicos, políticos e cultu- rais (LOPES, 2014). Dado que a cultura política é um determinante sócio-histórico da ação política, por ser construída em contextos históricos diversos que, por sua vez, carregam condições históricas repletas de códigos cultu- rais, é inegável que ela determina os tipos de participação social na construção da organização sociopolítica das sociedades. A organização sociopolítica brasileira, por exemplo, é desenhada principalmente pela Surge da crença de que a grandeza presente e futura da Alemanha e de toda a “raça ariana” dependia da luta pela “pureza racial”; essa “pureza”, concebida em termos biológicos, impunha o afastamento e, no limite, a destruição dos grupos humanos “inferiores”, cujo epíto- me era representado pela “raça” judaica (FAUSTO, 1998). 3 A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 69 herança deixada pelas redes de parentesco e de poder que têm se per- petuado ao longo de séculos e que demarcam as raízes da desigualda- de social percebida nesse território. Essa herança social reproduz o ciclo de dominação das elites (por meio de diferentes mecanismos de dominações econômica, ideológi- ca e cultural) a fim de subalternizar sociopolítica e economicamente a população, pelo prevalecimento da cultura do favor em detrimento da concepção de direitos. Esse mecanismo, fundado com base nos privi- légios oriundos dos tempos do Brasil Colônia, se materializou em po- derios econômicos capazes de forjar falsas e/ou reduzidas cidadanias. Processo que se instaura, visto que: quando reduzidos os recursos econômicos para satisfazer as de- mandas materiais básicas, o processo de desagregação da vida social se dá de forma acelerada, pois, em condições precárias de subsistência, dificilmente se estabelecem formas de cultura política participativa e por consequência, o que se tem é a apatia política. (BAQUERO, 2003, p. 5) Outro importante determinante da cultura política brasileira é o fato de que a organização das estruturas sociais, econômicas, políti- cas e culturais é majoritariamente engendrada pela ordem burguesa, o que resulta na criação de espaços de participação política controlada. Vejamos: se a ideologia burguesa rege todas as sociedades capitalistas (que só é capitalista, porque é burguesa), é certo dizer que todas as estruturas sociais nessa ordem são criadas para atender aos interesses de apenas uma classe social – a burguesa. Assim, mesmo quando os proletariados lutam, saem vitoriosos das disputas travadas e conquis- tam espaços voltados ao exercício da participação política, ainda assim continuam a ser controlados (direta ou indiretamente). Esse processo ocorre por meio de um tipo de fiscalização estratégi- ca especializada, pela manipulação do voto em relações clientelistas e paternalistas entre burgueses, classe média e proletários. Ocorre tam- bém por meio da pressão gerada pelo poderio econômico das elites, que se manifesta na ocupação do Estado, tanto como campo estraté- gico de institucionalização e legalização dos ideais burgueses quanto como espaço de armazenamento legítimo de força militar (acionada quando os interesses do capital estão em risco, devido aos enfrenta- mentos travados contra o poder popular). 70 Classes e movimentos sociais Outro ponto de relevância nesse contexto se trata da amarração econômica das instituições da sociedade civil, que vemos na depen- dência dos movimentos sociais com relação aos recursos estatais (fi- nanciamentos e negociações). Assim, de modo globalizado, vemos nas medidas macroeconômicas do capital internacional que, além de dita- rem o tipo de desenvolvimento, se configuram uma ameaça constante aos direitos duramente conquistados pelos trabalhadores, incidindo na insegurança da classe proletária, na cooptação de lideranças e, portan- to, no enfraquecimento e descrédito da organização partidária. Esses são alguns dos elementos da cultura política brasileira, que influencia e, por vezes, determina a constituição dos sujeitos políticos e a organização sociopolítica da sociedade. A cultura política é, em qual- quer sociedade, um complexo conjunto de elementos que se materia- lizam por meio de: normas, crenças, mais ou menos largamente partilhados pelos membros de uma determinada unidade social e tendo como objetos fenômenos políticos (BOBBIO, 2000, p. 306). Segundo os apontamentos do mesmo autor, existem três tipos de cultura política: a das sociedades simples, a cultura política da sujeição e a cultura política da participação. O primeiro tipo se dá quando as instituições e os papéis de caráter especificamente políticos não existem ou ajustam-se as estruturas e aos papeis de cunho econômico e religioso. O segundo acontece quando os sujeitos se envolvem diretamente com o sistema político, porém com foco especifico na execução dos encaminhamentos dados e não nos processos decisórios, como por exemplo, o que acontece nos regimes políticos mais autoritários. A cultura política de par- ticipação que se refere à terceira tipificação também faz relação com o envolvimento direto dos sujeitos, porém o que diferencia o terceiro do segundo tipo é o fato de que na participação os po- sicionamentos são mais amplos e a ação dos sujeitos é analisada tanto nos processos decisórios quanto na execução do já decidi- do. (BOBBIO, 2000 apud LOPES, 2014, p. 105-110) Assim, a cultura política ocupa lugar central na formação sociopo- lítica das sociedades e se materializa segundo as características pecu- liares de cada tipo de território, história étnica, tipo de regime político e jurídico, além da moralidade estabelecida. Quanto à formatação do sujeito político, torna-se menos ou mais democrática conforme o grau A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 71 de formação educacional, o nível de dependência e fragilidade econô- mica populacional e, sobretudo, a ideologia hegemônica. A cultura política é responsávelpela condução de diversos proces- sos e comportamentos, influencia diretamente a formação da opinião e a ação dos sujeitos, resultando na moldagem da democracia e, prin- cipalmente, na qualificação e no nível de poderio das ações humanas ante as estruturas sociais. A cultura política exerce influência no coti- diano, no modo como as pessoas partilham informações, criam expec- tativas e vivem. Com base nos pressupostos criados pela cultura política de cada povo, cria-se a organização social, fundada nos valores eleitos para dar legitimidade às instituições políticas. Portanto, diferentemente do que se acredita e se espalha no senso comum, a cultura política não é de- terminada pelos tipos de regime, e sim pela ideologia que, por ocupar lugar hegemônico, conspira e cria organizações favoráveis a seus idea- lizadores. Na experiência brasileira, a cultura política é criada majori- tariamente pela ideologia burguesa, o que caracteriza uma sociedade marcada por níveis extremos de desigualdade social. Vemos uma sociedade timbrada pelo uso das políticas públicas como “moeda de troca eleitoral”, constituída por grupos que, na condi- ção de alienados, servem de massa de manobra a partidos, instituições religiosas e diferentes lideranças. Ainda se faz presente o tipo de orga- nização sociopolítica que é conduzida pelo medo da tirania de famílias políticas de poderio econômico, herdado na época do Brasil Colônia, que se constituem vencedoras silenciosas mesmo com a ascensão de debates sobre cidadania e direitos sociais, ainda perpetuando seus ne- gócios e tramas exploratórias (OLIVEIRA, 2015). Contudo, ainda que não se observem transformações mais totali- zantes, não se pode negar os avanços instituídos por meio das lutas so- ciais travadas. Na contramão dos processos burgueses, encontramos estratégias de enfrentamento e luta dos movimentos sociais de classe, dos movimentos identitários e dos demais grupos que constituem o bloco dos novos movimentos sociais. Sujeitos que se diferenciam da massa comum devido aos tipos de capitais sociais e políticos que cons- truíram e que, na resistência, têm contribuído para alterar significativa- mente a cultura política brasileira. 72 Classes e movimentos sociais O conceito de capitais sociais e políticos, de Pierre Bourdieu, faz referência a um tipo de poder construído com base em relações sociais que, em primeira medida, são acessadas por relações de proximidade e interesses oriundos do poder econômico, mas não o são em si. Um pobre, por exemplo, pode conseguir construir capital social e/ou político, ainda que não possua poder econômico, mas são possibilidades mais raras, oportunidades que devem ser planejadas. Quando optamos, por exemplo, pela carreira do Serviço Social, tem-se implícito que nossa caminhada dificil- mente nos colocará do mesmo lado dos capitalistas, o que resultará na construção de relações mais implícitas com os sujeitos com os quais nos identificamos, seja uma luta consciente ou não. Desse modo, dificilmente seremos convidados e, tampouco, vamos desejar estar à mesa em que os grandes industriais celebram a exploração da vida. Na mesma linha, dificilmente seremos amigos pessoais das elites, ainda que, em algum momento, por um motivo ou outro, ocupemos os mesmos espaços. Já os que optam por carreiras que elevam os capitais econômicos, como Medicina e Direito, são conduzidos a determinados estilos de vida que constroem relações muito próximas ao alto escalão. Essa caminhada possibilitará construir um capital entre as possibilida- des de poder, resultantes das relações pessoais reforçadas pelo poderio econômico que já tinham. Por fim, cabe considerar que a cultura política não é estática, man- tendo-se passível de alterações e rupturas radicais. Isso possibilitou a conquista de um significativo leque de direitos sociais que, a partir do advento da tecnologia da informação, com a sociedade em rede, tor- nou possível dar visibilidade às disputas políticas. A conexão em rede, além de permitir acessar diferentes deba- tes, trâmites e encaminhamentos decorrentes da luta de classes, também possibilita a organização sociopolítica e a ascensão de movimentos e grupos representativos, antes desconhecidos na his- tória das sociedades. Movimentos imprescindíveis para “a denún- cia” de processos de corrupção e de artimanhas históricas como o coronelismo, o clientelismo, o nepotismo e o primeiro-damismo 4 . Na sociedade em rede, pouco fica oculto, nada se mostra imóvel e tudo gera pensares. 3.3 A organização sociopolítica na perspectiva de classes e de outros grupos identitários Vídeo No campo exequível da participação popular contemporânea, localizamos as organizações dos setores representativos (partidos, categorias profissionais com seus conselhos, agremiações estu- dantis e centros acadêmicos de universidades), os institutos, as organizações da sociedade civil (OSC) e o Estado, compreendido como estrutura base dessas relações. O primeiro-damismo resulta na negação do direito social, na desprofissionalização das políticas sociais e na condição subalterna da mulher. Consiste no deslocamento do direito so- cial para uma ode à filantropia, ao voluntariado e à solidariedade indiferenciada. Reside no reforço do papel tradicional da mulher em uma sociedade patriarcal, submetendo-a a múltiplas e extenuantes jornadas de trabalho (remunerado e/ou não) e a profundas desigualdades na divisão sexual do trabalho, no racismo, nas relações de poder e na apropriação privada da riqueza (CFESS, 2016). 4 A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 73 Na organização partidária, localizamos as lideranças, os militantes em geral e os “seguidores de partidos”. Os partidos são formados por pessoas que, com base em lideranças, se associam em prol de seus inte- resses. Trata-se de um tipo contemporâneo de representação por voto direto, tal como os princípios constitucionais democráticos determinam, mas que nem sempre se cumprem devido aos elementos constitutivos da cultura política brasileira. Essas lideranças formam a assembleia re- presentativa, responsável por criar normalidades jurídicas, executar a função de fiscalizar o bem público e legislar sobre a nação. Assim, alocam-se em espaços de câmaras ordenadas (bancadas) segundo interesses majoritários. São exemplos de frentes a bancada ruralista, a bancada sindical, a bancada evangélica e a bancada ambien- talista. A bancada das câmaras, em regra, é constituída por parlamenta- res de diferentes partidos aliados, comumente denominados de partidos da direita, da esquerda e os autodenominados de centro/meio. Um dos elementos da cultura política que constitui a divisão par- lamentar brasileira são as relações familiares (a patriarcal enquanto hegemônica), fato característico da tradição imperialista, clientelista e nepotista da época do Império e da Primeira República. Famílias de poderio econômico quase não dimensionável, além do prestígio e das relações de parcerias de poder que estabelecem entre si (direita, ex- trema direita e, de modo frequente, o centro), também usufruem de relações que lhes garantem o uso legitimado das forças armadas (a bancada militar). Desse modo, essas famílias têm ocupado suas gerações no ofício de manter mando e domínio sobre o Estado, e o fazem por meio do con- trole quase total dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como do Tribunal de Contas da União. Historicamente, podemos vê- -las no comando da produção da informação e do conhecimento, por meio da indústria da mídia e, em menor proporção, dos espaços da arte (OLIVEIRA, 2015). Em sua maioria, essas famílias defendem pautas relacionadas à manutenção do conservadorismo, das liberdades indi- viduais, das tradições, do não gasto e/ou da redução de investimentos nas áreas do Direito Público, de privilégios e, não raro, de ideias impe- rialistas, conservadoras e ditatoriais. As representações dos grupos de centro, por sua vez, apresentama característica do trânsito entre as demais posições, ainda que majorita- 74 Classes e movimentos sociais riamente apoiem as frentes de interesse dos grupos da direita. Identifi- cam-se em geral como liberalistas, cumprem a função de mediadores, equilibram para haver consensos, mas, em momentos extremos em que se colocam em risco os princípios conservadores e/ou o rumo da divisão econômica, historicamente apoiam a direita. No campo dos grupos de esquerda, representados pelas bancadas relacionadas às lutas sindicais e aos direitos humanos (atualmente, conduzidas pelos reclames dos novos movimentos sociais), encontra- mos as lideranças do partido dos trabalhadores, dos estudantes das universidades públicas, dos intelectuais (orgânicos), dos artistas e de movimentos como o das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos LGBTTIQ+ e outros. A esquerda se associa por interesses que envolvem a luta pela efetivação de direitos, pelo exercício da cidadania, pela igualdade e equidade de oportunidades a diferentes etnias e gêneros. Representa também a luta pelos direitos humanitários, pela redução ou fim da de- sigualdade na distribuição da renda socialmente produzida, bem como se agrega a pautas voltadas à garantia dos direitos dos trabalhadores, às regionais, ao laicismo do Estado e à liberdade religiosa. Cabe considerar que, no cenário contemporâneo, essas divisões apresentam outras diversas variações, segundo o nível de envolvi- mento ideológico e tático com os projetos societários em disputa e segundo o que apresentam as pautas históricas e/ou mais atuais. No campo representativo da direita e da esquerda, infelizmente, encon- tramos mostras de fanatismos, sexismos, racismos e outros extremis- mos inconstitucionais. Mesmo depois de passados, mais de 30 anos da instituição da Constituição de 1988, o Brasil não instituiu processos que ga- rantissem (de modo livre, efetivo e concreto), que a participação sociopolítica fosse de fato democrática. Os princípios da carta constitucional não se tornaram uma realidade, ainda que tenha sinalizado a sociedade brasileira a superação muitas das práticas anteriores. No campo da institucionalidade jurídico constitucio- nal, principalmente no que se refere ao tocar da “coisa pública”, permaneceram as tendências tradicionais de se fazer política. (LOPES, 2014, p. 116) A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 75 Assim se configura a organização sociopolítica brasileira, modelo de representação e de espectros políticos que tem sido questionado. As práticas partidárias de agenciamento dos atores políticos, as cor- rupções empregadas por suas lideranças e as incansáveis negociações para a manutenção de poder, a qualquer custo, têm exaurido a po- pulação que não ocupa lugar de militância e ação política direta, de- cepcionando também a nova geração de sujeitos políticos da internet. Tal conjunto de descréditos conduz as últimas gerações a exercitarem novos modos de pensar e fazer política, ainda que nenhuma mudança estrutural tenha sido apresentada. 3.4 Novas configurações no campo de luta Vídeo A organização sociopolítica brasileira que conhecemos na atualida- de resultou de um histórico de luta. A partir da instituição da Constitui- ção Federal de 1988, o Brasil adentrou a era dos direitos, conjuntura originada dos processos de luta instituídos entre as décadas de 1960 e 1980, quando a esquerda brasileira se organizava para enfrentar o governo militar, unindo o movimento dos trabalhadores, alguns grupos de intelectuais e artistas, categorias profissionais e, principalmente, es- tudantes universitários. A luta travada não foi fácil. O governo militar foi instituído em 1964, quando os militares assumiram o poder do Brasil. Foram mais de 20 anos caracterizados por negação do direito ao debate, à ação po- lítica e a qualquer movimento que colocasse em dúvida a ordem do regime instituído. A banalização do autoritarismo e a indiferença aos direitos humanos se materializavam por meio de diferentes barbáries, como perseguição política, sequestro, tortura e assassinato. Filme Sugerimos assistir ao filme O que é isso compa- nheiro?, que apresenta a trajetória de dois pro- tagonistas envolvidos na luta armada contra o governo militar. Favorece a compreensão do contexto da época. Direção: Bruno Barreto. Brasil: Pandora Film, 1997. 76 Classes e movimentos sociais Figura 1 Manifestação estudantil contra o governo militar Ar qu ivo N ac io na l/W ik im ed ia C om m on s Os depoimentos de algumas assistentes sociais que vivenciaram o período do governo militar foram registrados em um livro produzido pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), em 2017, intitulado Serviço Social, memórias e resistências contra a ditadura: depoimentos. Nesse material, encontramos testemunhos das barbáries vivenciadas no período: fui levada para o DOI CODI/ OBAN–SP, sendo torturada por uma semana, com tortura física e psicológica, forçada a depor, com- pletamente despida, por equipes que se revezavam ininterrup- tamente. Estando no primeiro mês de gravidez, tive ameaça de aborto em consequência das torturas. No DOI-CODI, estive todo o tempo em cela escura solitária durante cinquenta e cinco dias [...]. Em 14 de setembro, em uma sala do 12º RI, para onde fui le- vada pelo capitão Lacerda, fui torturada até 3h30 da madrugada pelo capitão Sebastião Geraldo Peixoto e pelo capitão Schubert, que me deram mais de 15 descargas elétricas. Só interrompe- ram a tortura quando eu desmaiei, caindo da cadeira onde me haviam posto. (CFESS, 2017) A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 77 Os movimentos venceram a disputa e, a partir da nova Constituição Federal de 1988, deu-se início ao projeto de redemocratização do Bra- sil, direcionado majoritariamente pelos princípios fundamentais da car- ta cidadã: soberania popular, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, bem como pluralismo político. A partir desse processo, abriu-se o leque da construção de po- líticas públicas materializadas pelo tripé da seguridade social brasileira: saúde, assistência e previdência social. Contudo, ao mesmo passo que a sociedade brasileira adentrava o novo quadro das possibilidades do exercício real da cidadania, as eli- tes econômicas e políticas também davam início à implantação de uma nova era com relação à economia e à internacionalização do capital. Dito de outro modo, o Brasil assinou acordos internacionais que pre- viam a aplicação de medidas macroeconômicas voltadas à reorgani- zação da lógica neoliberal e dos processos de produção de produtos, bens e serviços. As medidas macroeconômicas propostas e impostas pelos países imperialistas (por meio de acordos para a liberação de financiamentos, amarrados a contrapartidas que têm custado a autonomia, os recursos humanos e naturais do país) se alicerçam na estratégia de flexibilização dos meios de produção, das condições e dos recursos. Assim, ao mes- mo tempo em que o país iniciava a caminhada dos direitos sociais, civis e políticos, também tinha à espreita processos programados para des- regulamentar qualquer lei que se colocasse como impedimento e/ou di- ficuldade à implantação do que comumente chamamos de globalização. Entende-se que o Brasil nem sequer chegou a vivenciar um ver- dadeiro Estado de bem-estar social 5 Entre os modelos de Estado requeridos pela população após as crises econômicas e sociais que assolaram o mundo no con- texto pós-guerra, o welfare state (estado de bem-estar social) propõe uma estrutura na qual a intervenção estatal nas áreas sociais é ampliada e priorizada com vistas a garantir, de modo pleno e adequado, os serviços de educação, saúde e previdência social a toda a população. 5 nesse contexto, bem como não conseguiu efetivar todos os princípios da carta cidadã. Quando iniciou essa caminhada, foi atropelado por um adversário muito maior do que enfrentarahá pouco internamente. O capital internacional adentra as fronteiras brasileiras fortemente organizado, aparado tanto pelos grandes grupos econômicos quanto pelos grupos políticos que, mesmo após o governo militar, continuaram a disputar os espaços de repre- sentatividade na nova ordem estatal. Afinal, mesmo diante da queda do regime que os favorecia, continuavam absolutas as disputas de clas- ses diante da defesa de seus projetos societários. Recomendamos conhe- cer o site Memórias da ditadura, que reúne e or- ganiza uma das maiores fontes de materiais sobre o assunto. Disponível em: http:// memoriasdaditadura.org. br/?gclid=EAIaIQobChMIm9X- vuPPf6AIVF4GRCh2JUAyKEAAYA- SAAEgKp5fD_BwE. Acesso em: 22 jun. 2020. Site 78 Classes e movimentos sociais Esse novo processo de regulação e reorganização da economia ain- da está em implantação e, na atualidade, tem se mostrado completa- mente adverso às aspirações tecidas pelas mobilizações populares que participaram dos movimentos contra o governo militar e deram rumo à criação da nova Constituição brasileira. As medidas que possibilitam a internacionalização do capital têm instituído diversas desregulamen- tações de ordem trabalhista, fiscal e/ou ambiental. Trata-se de um retrocesso que pode ser caracterizado pela abertura das fronteiras nacionais à implantação de empresas que exploram nos- sos recursos naturais, além das diferentes modalidades de exploração da força de trabalho dos brasileiros. As medidas de flexibilização do capital acarretam também altos índices de desemprego e insegurança social, visto que os espaços de trabalho são cada vez mais reduzidos, privatizados, informalizados, desregulamentados e terceirizados. Esse quadro foi instituído mais fortemente no Brasil a partir da dé- cada de 1990 e, desde então, resulta no alargamento das desigualda- des já existentes e na criação de outras expressões da questão social. Quanto mais o capital avança, mais flexibilizados se tornam os proces- sos no campo econômico e na esfera social. A criação de novos tipos de contratos de trabalho, nos quais se fir- mam a redução e a eliminação de direitos trabalhistas em detrimento do favorecimento dos patrões, é um exemplo das medidas flexibiliza- doras implementadas pelo capital. Essa estratégia tem ocasionado o desmonte processual do regime CLT brasileiro e, portanto, a decadên- cia das condições de trabalho. No campo da exploração territorial, encontramos as medidas de re- dução e eliminação das leis e das práticas de punição fiscal, que, até então, eram direcionadas à imposição de limites ao capital industrial. Medidas de flexibilização como essas permitem aos grandes grupos internacionais instituir vias exploratórias descontroladas, causando, in- clusive, desastres ambientais e sociais impagáveis. A respeito de medidas que beneficiam grandes indústrias na exploração de recursos naturais e força de tra- balho, podemos citar como exemplo a Vale S.A, a maior mineradora brasileira e a terceira maior companhia do mundo na área de extração de minerais metais. A Vale é a prova de que as leis de proteção ambiental não vêm sendo aplicadas como deveriam, visto que, além dos desastres ambientais gerados nas cidades de Brumadinho e Mariana (MG), comumente dispersa metais pesados, altera a paisagem do solo, contamina os corpos hídricos, causa danos à flora e à fauna, além de desmatamentos, erosão e morte de trabalhadores (MILANEZ; LOSEKANN, 2016). CLT faz referência à Consolidação das Leis Trabalhistas, organizadas por um regime jurídico que unificou leis anteriormente existentes e inseriu novas. A CLT é, sem dúvida, a mais ampla lei de direitos dos trabalhadores, pois define direitos e deveres tanto do empregador quanto do empregado. Foi instituída em 1943, por meio da aprovação do Decreto-lei n. 5.452/1943, durante o governo do então presidente Getúlio Vargas. Curiosidade A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 79 Articulado à fragilização das leis e práticas de fiscalização, encon- tramos também o grande leque de flexibilizações das leis de isenção fiscal. Essa dupla proporciona diversas vantagens aos países imperialis- tas, como a desnacionalização da economia brasileira e a transferência da riqueza socialmente produzida no Brasil para as economias inter- nacionais, fortalecendo a exploração desenfreada dos nossos recursos naturais e humanos. Essa conjuntura é um deleite a países que imperam no capitalismo mundial, visto que lhes favorece privatizar no Brasil serviços de alta relevância, como as telecomunicações, os bancos e a distribuição de energia, setores que, cada vez mais, são transferidos da “mão do Esta- do” para o domínio das multinacionais. Embora pareça distante, a internacionalização do capital exerce in- fluência direta na composição da organização sociopolítica e, principal- mente, nas possibilidades de acesso à formação dos sujeitos políticos. As empresas multinacionais americanas, por exemplo, dominam 80% do setor que produz a comunicação de massa e o entretenimento em todo o mundo. Esses monopólios de todos os campos, na realidade brasileira, atuam também na cultura política. São gigantes esmagado- res que ocupam locais estratégicos, voltados à garantia da manutenção de seus espaços de poder e dominação. Com relação aos movimentos sociais, esses elementos afetam a configuração do campo de luta, visto que as medidas macroeconômi- cas implantadas pela flexibilização das leis trabalhistas e dos modos de produção, por exemplo, fizeram a insegurança se sobrepor ao campo do trabalho. Além dos extremos níveis de desemprego e da fragilização das leis trabalhistas ocasionados para favorecer os capitalistas, passou-se a exigir dos trabalhadores uma formação especializada conquistada so- mente por processos educacionais que, em sua maioria, não são de fácil acesso (cursos técnicos ou universitários, especializações e domínio de línguas estrangeiras). Estabeleceu-se, assim, uma conjuntura de deses- pero, que levou ao desmonte da força da organização dos trabalhadores. Alguns anos após o auge das manifestações dos movimentos sindi- cais, militantes e suas lideranças se espalharam por diversos setores da sociedade. Podemos assumir ser um encaminhamento coerente, dado que a era de direitos que recém iniciara necessitava de protagonistas em diversas frentes. 80 Classes e movimentos sociais Comprometido em suas frentes, com vistas a contribuir com a implan- tação do tripé da seguridade social e com os debates referentes aos di- reitos humanos, talvez tenha passado desapercebido ao movimento dos trabalhadores que uma outra disputa já havia se instaurado. Um número significativo de lideranças foi cooptado, sindicalistas foram convidados, convencidos e/ou ameaçados para exercer novos papéis no “chão de fá- brica”. Surgiram modalidades de “negociação” entre o proletariado e a burguesia, para as quais essas lideranças foram “convidadas” a participar. As lideranças que resistiram foram ameaçadas com ações mais incisivas, como a aplicação de multas impagáveis aos sindicatos se descumprissem e/ou não aceitassem as novas normativas, outras foram convencidas pe- las promessas de participação nos lucros e/ou de novos postos de poder político (fiscais, encarregados, subgerências, coordenadores de áreas etc.). Houve, ainda, aquelas que se envolveram profundamente com as pautas individuais dos debates a favor dos direitos humanos (negritu- des, mulheres, indígenas, ambientalistas, infância e adolescência etc.) e parecem ter se perdido. A habilidade do capital conduziu processos que tornaram essas lideranças dependentes de financiamentos e alian- ças com o Estado e/ou com o mercado. Institucionalizadas em fundações, associações, agremiações, cen- tros e diretórios acadêmicos, organizações não governamentais e or- ganizações da sociedade civil em geral, aos poucos (cientes ou não dos arranjos), passaram a compor a terceirização dos serviços sociais esta- tais,visto que foram institucionalizados pela ordem capitalista. Desse contexto, inaugura-se o terceiro setor da sociedade, no qual majorita- riamente se aplicam ações, programas e políticas com base na lógica do favor, e não dos direitos sociais, como preconizava a Constituição Federal que inicialmente os guiara. Assim, novos sujeitos políticos adentraram o campo de luta, no- vas perspectivas e condições emergiram. O movimento sindical per- deu espaço de articulação, além de ter caído em descrédito depois de beneficiar-se com as novas configurações. Houve, sim, grupos de resistência, afinal, os sindicatos ainda existem, mas são pouco valo- rizados na atualidade. Assim, a partir do debate e da relação afinada com o Estado, novos grupos sociais surgiram, em maioria, distantes do debate da luta de classes. A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 81 Nesse contexto, novas configurações foram construídas no campo de luta: os espaços representativos foram alterados; diferentes partidos es- tabeleceram alianças; a luta de classes deixou de ocupar lugar central nos debates e nas manifestações; as individualidades ganharam força, visibi- lidade, espaço, financiamento, institucionalidade e apoio estatal. Com o aumento das coalizões e negociações entre os diferentes grupos, gerou-se maior visibilidade das práticas de corrupção, dado que o próprio trânsito de disputa de interesses resultava na denúncia “uns dos outros”. Desse processo mais amplo, emergem as descrenças e até um tipo de repúdio ao exercício da política. E, a partir do advento da sociedade em rede, a cultura política brasileira, enfim, imprime sua cara: uma cul- tura política da desconfiança, que ora move os sujeitos à luta política enquanto desabafo, outrora os aloca na apatia política e na decisão da não prática política por diferentes históricos de decepção. Essa organi- zação sociopolítica e essa condição de “sujeito apolítico” vêm muito a calhar aos interesses de quem as faz prioritárias, afinal, os políticos de carreira adoram as inúmeras conexões de subordinação social. Portanto, cabe compreender que a organização sociopolítica só pode ser compreendida em sua complexidade quando considerada a importância do entendimento do processo de construção do sujeito político, pois toda a estrutura social que conhecemos resulta das re- lações políticas travadas no âmbito da sociedade. Relações essas que predeterminam o tipo de liberdade política, o tipo de regime político e, portanto, o tipo de vida dos sujeitos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A cultura política é um dos mais importantes mecanismos de poder, visto que oferece incontáveis potencialidades para ventricular a socieda- de. É também uma das mais célebres criações da sociedade, visto que é, em si, objeto, meio e espelho de mudança. Atualmente, a cultura política brasileira tem sido majoritariamente influenciada pela ordem burguesa. As elites políticas e econômicas apropriam-se dela como instrumen- to que viabiliza o uso arbitrário de poder. Com base nisso, imprimem na cultura política características conservadoras, patrimonialistas, sexistas e meritocráticas, ou seja, todo um conjunto de elementos socioculturais a fim de justificar a injustiça na distribuição da renda produzida socialmente. 82 Classes e movimentos sociais Para manutenção desses elementos, contam com a influência do conhe- cimento produzido por seus intelectuais nos espaços das universidades. Dessas relações, surgem as “verdades” fundamentadas, as ciências a serviço das elites. Para expandi-las e validá-las, detêm a produção do sa- ber e os condutores de comunicação, resultando na formação de opinião de massa que legitima as ideias burguesas. Por meio de relações de pa- rentesco e de proximidade, legalizam e legitimam seu projeto de socieda- de nos mais diferentes espaços institucionais. E, quando questionados e/ ou ameaçados, contam com o poder do Estado para mediar, com a força militar se preciso, e assegurar a manutenção de seus ideais. Por fim, entendemos que as novas configurações no campo de luta apontam para difíceis fatalidades: a atual configuração sociopolítica do país imprime diariamente o risco do desmonte dos direitos duramente conquistados pelos trabalhadores. Essa classe, na atualidade, parece es- tar colhendo os resultados de seus desvios e consensos e, em meio a condições contraditórias (próprias das lutas de classes), segue a passos lentos, como quem se percebe caminhando e, enquanto caminha, tam- bém para, a fim de observar. Por sua vez, os novos movimentos sociais, ainda que pareçam ter inaugurado elementos no fazer político, pouco mostram forças diante de transformações mais estruturais. O que se observa, de fato, é que os avanços conquistados estão à mercê de regimes e/ou planos de governo e se caracterizam provisórios. Portanto, de mais concreto no atual campo de luta, há a oportunida- de de aprendizado dos diferentes movimentos diante de governos que ameaçam diversos princípios constitucionais. Trata-se de uma oportu- nidade para o entendimento real da cultura política brasileira, em suas potencialidades e barbaridades. Os diferentes projetos societários não se mostravam tão evidentes desde a luta contra o governo militar e, do mesmo modo, o debate político nunca foi tão acessado e partilhado como agora. Emerge, no campo de luta, uma nova ferramenta: a conexão em rede para que os movimentos sociais possam se fortalecer. Então, impri- me-se a seguinte questão reflexiva: o que eles estão esperando? ATIVIDADES 1. A organização social moderna que conhecemos foi construída com base em diferentes determinantes que, além de históricos, são sociais e, portanto, políticos. Nesse contexto, apresente quais contradições estão presentes no processo de construção da cultura política brasileira. A construção dos sujeitos políticos na sociedade de classes 83 2. As organizações sociopolíticas que originam a sociedade capitalista têm duas classes protagonistas: as classes fundamentais e as classes transitórias. Exercite explicar as principais características dos sujeitos que compõem essas classes. 3. Na atualidade brasileira, tem-se questionado os tipos de organização sociopolítica, tanto os modelos de representação existentes quanto as medidas políticas que resultam dessa configuração política. Disserte sobre os processos que têm ocorrido para que o quadro atual seja de descrença da população brasileira com relação ao modo de se fazer política. REFERÊNCIAS BAQUERO, M. 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Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Setor De Ciências Humanas, Letras E Artes, Universidade Federal do Paraná. MARX, K. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S. A., 1989. (Livro 1. O processo de produção do capital, 2v.) MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. In: MARX, K.; ENGELS, F. Obras escolhidas em três tomos. Lisboa: Edições Avante!, 1982. MILANEZ, B.; LOSEKANN, C. (orgs.). Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição. Rio de Janeiro: Folio Digital; Letra e Imagem, 2016. NETTO, J. P. Capitalismo e barbárie contemporânea. Argumentum, Vitória, v. 4, n. 1, p. 202-222, jan./jun. 2012. Disponível em: http://www.abepss.org.br/arquivos/anexos/ netto-jose-paulo-201608060404028661510.pdf. Acesso em: 22 jun. 2020. OLIVEIRA, R. C. de. Nepotismo Estrutural do Paraná em 2015. In: OLIVEIRA, R. C. de. Estado, Classe Dominante e Parentesco no Paraná. Blumenau: Nova Letra, 2015. 1v. PATEMAN, C. 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Neste capítulo, você terá a oportunidade de ampliar suas análi- ses diante dos elementos constitutivos da desigualdade social bra- sileira, visto que poderá correlacioná-los à realidade atual, ou seja, ao mesmo tempo em que as coisas ainda ocorrem. 4.1 A banalização dos direitos políticos e dos demais direitos fundamentais Vídeo O Brasil de direitos é uma realidade recente, visto que, somente a partir da instituição da Constituição Federal de 1988, a sociedade bra- sileira começou a vivenciar, de modo amplo e na perspectiva da demo- cracia, a era do exercício dos direitos sociais, civis e políticos. Desde então, foram instituídos diversos tipos de penalização e um significati- vo leque de direitos a todos os cidadãos, por exemplo: o enquadramen- to da tortura enquanto crime inafiançável; a garantia de organização e participação política; a amplitude dos direitos trabalhistas e da seguri- dade social; a criação de políticas públicas de critérios sociais; e tam- bém a instituição de políticas públicas. Os direitos civis podem ser individuais e/ou coletivos e deles advêm os demais direitos. Eles preveem o direito à vida sem violação, à liberdade, à igualdade e, dentre outros, o direito ao jul- gamento justo. Os direitos sociais abarcam o leque de leis que predizem as garantias necessárias à manutenção da vida em sociedade como o direito à educação, à saúde e à assistência social. Já os direitos políticos são os que dão materialidade à prática democrática, ou seja, os direitos relativos à participação cidadã e ao voto direto para escolha de representantes, bem como à organização e à manifestação de ideais, insatisfações e projetos de sociedade. 86 Classes e movimentos sociais Nessa linha, configurou-se ao Estado brasileiro a ampliação de seu poder e de sua responsabilidade diante da regulação, do financiamen- to e da implantação de direitos sociais, o que, segundo Pereira (2013), foram os fatores que preconizaram o atual caráter distributivo da se- guridade social, bem como a definição da concepção de direito a um conjunto de direitos sociais mínimos a quem precisar. Em suma, os princípios constitucionais prescreveram uma nova or- ganização das relações sociais, com vistas à implantação de um proces- so democrático participativo e descentralizado, no qual se garantisse participação direta nos processos decisórios à população brasileira. Vislumbrava-se uma nova ordem social pública, capaz de promover a seguridade social dos cidadãos, por meio de uma rede de proteção am- pla e consistente. Contudo, como visto anteriormente, a Constituição Cidadã foi uma conquista que não se deu em território ameno e, portanto, continuou em disputa pelos diferentes grupos que compõem a re- lação contraditória entre capital, Estado e sociedade. Desse modo, não podemos afirmar que vivenciamos uma democracia plena, pois o processo de materialidade plena dos direitos é constantemente ameaçado pelas ações oriundas da ideologia burguesa. As atuais es- tratégias empregadas pelo Estado, a fim de reproduzir e fortalecer as medidas neoliberais orquestradas pelos países imperialistas, têm sido o fermento desse processo. As políticas macroeconômicas são medidas estratégicas advindas da fase monopolista do capitalismo, nas quais ocorre a fusão de empre- sas, cartéis e bancos, que dão origem a monopólios de proporções gi- gantescas que, em suma, eliminam de pequenos a grandes produtores, a fim de acumular lucro. Nessa mesma linha, estabelecem conexões e fusões a nível global e passam a determinar quem e por que sobrevi- ve no mercado, segundo seus interesses de acumulação. O Brasil, por exemplo, entra nessa lógica enquanto campo aberto para a exploração desenfreada de recursos naturais e humanos. Assim, a democracia brasileira, que ainda engatinhava quanto aos objetivos traçados, já em meados da década de 1990, foi atropelada pela imposição dessas medidas macroeconômicas.Advindas dos paí- ses imperialistas, essas medidas tinham como objetivo a flexibilização de qualquer lei que demonstrasse impedimento à internacionalização Os movimentos sociais contemporâneos 87 do capital. Desde então, é frequente o uso da máquina estatal por par- te das elites econômicas e políticas para instituir ações reducionistas, punitivas e repressivas à classe trabalhadora. Segundo Lopes (2014), os princípios constitucionais da Carta Cida- dã de 1988 ameaçaram a hegemonia burguesa brasileira, portanto as elites políticas e econômicas agiram rápido. Construíram articulações que culminaram na eleição do então presidente Collor de Mello, figura política que representava o novo projeto de modernidade da classe do- minante. Desde então, a universalidade dos direitos sociais, previstos na Constituição, aos poucos, foi transfigurada pelas reformas de cunho neoliberal, impostas pelo capital internacional e pacificamente aceitas pelas elites brasileiras. Desse processo, resultou a terceirização das funções estatais, por meio da privatização e da entrega de uma parcela significativa do patri- mônio público brasileiro ao capital estrangeiro, bem como pelo fomen- to da criação do terceiro setor da sociedade. Isso delegou grande parte das necessidades sociais dos mais pobres à filantropia, o que constan- temente os condiciona a viver aquém dos direitos sociais. O Brasil, a partir desse contexto, segue regido por incoerências ad- ministrativas diversas, que levam ao processual desmonte dos direitos preconizados pela sua lei maior: políticas públicas marcadas por crité- rios celetistas e privatizantes; priorização da população contribuinte, limitando a garantia de direitos a um enorme número de trabalhado- res que desenvolvem atividades de modo informal; flexibilização de leis trabalhistas e ajustes fiscais que, dentre suas principais medidas, ampliou o tempo de atuação no mercado de trabalho, prejudicando seriamente os trabalhadores; comprometimento do orçamento pú- blico e corte de gastos sociais em função da imposição do superávit primário; e a forte ênfase nos programas de transferência de renda de caráter compensatório, o que prejudica seriamente as condições de mudança estrutural de vida da população brasileira. Em uma perspectiva gramsciana, podemos dizer que o funciona- mento do Estado brasileiro atual se encontra redefinido a fim de ser- vir às estratégias de acumulação de lucro do capitalismo imperialista. Além disso, o Estado exerce papel central no apaziguamento das dispu- tas entre as diferentes classes, no sentido de assegurar que não ecloda uma revolução social. Assim, quando o neoliberalismo é questionado superávit primário: termo utilizado por economistas para se referir ao valor que sobra nos cofres públicos após o pagamen- to de despesas, ou seja, o saldo positivo. Glossário 88 Classes e movimentos sociais pelos movimentos sociais, o Estado entra em campo. Essa estratégia, composta por elementos de tradição ideoburguesa e que se materia- liza por meio de aspectos econômicos, culturais e políticos, desenha uma sociedade hegemonicamente capitalista (GRAMSCI, 1968). A hegemonia é a capacidade de obter e manter poder sobre a so- ciedade pelo controle que mantém sobre os meios de produção econômicos e sobre os instrumentos de repressão, mas, prin- cipalmente, por sua capacidade de produzir e organizar o con- senso e a direção política, intelectual e moral dessa sociedade. A hegemonia é, ao mesmo tempo, direção ideológico-política da sociedade civil e combinação de força e consenso para obter o controle social. (ACANDA, 2006, p. 178) Desse modo, mantêm-se os discursos da prática cidadã e da garan- tia de direitos, por parte do Estado, na mesma medida que se aplicam formas de desmonte dos princípios constitucionais. Esse contexto é permeado de conflitos de classes contidos pelo Estado, com base em mecanismos repressivos, inclusive das forças armadas, sempre que os sujeitos organizados questionam a ordem vigente em manifestações organizadas pelos movimentos sociais. Dado que o Estado é a instituição que, sem dúvida, ocupa lugar cen- tral na manutenção da hegemonia burguesa, os impeditivos com vistas ao reclame dos direitos são cada vez mais amplos, pois cabe ao Estado a interpretação e a aplicabilidade das leis que regulam todas as esferas da vida social. Desse modo, nas sociedades capitalistas, o poder Judiciá- rio desempenha papéis incompatíveis com a efetivação da democracia plena. Isso porque, quando pressionado sobre o aprofundamento das mazelas e injustiças sociais geradas pelo sistema capitalista, o poder Judiciário é acionado para fomentar o consenso entre as classes (por meio das políticas públicas e sociais), passando a efetivar a criminaliza- ção e a punição dos sujeitos. Dito de outro modo, a mesma via que de- veria garantir aos sujeitos o exercício pleno dos direitos políticos, civis e sociais é aquela que contraditoriamente os penaliza. O modelo neoliberal vigente parece ter conseguido estabelecer padrões de comportamento em que os cidadãos e as autoridades públicas se tornam indiferentes à continuidade de um conjunto de procedimentos que, claramente, compromete a construção democrática efetiva no país. Um dos pontos a enfatizar é o acú- mulo de experiências que ocorre no país e, como forma antide- mocrática de resolução de problemas, uma vez internalizado Os movimentos sociais contemporâneos 89 pelas pessoas, constitui a base de uma memória coletiva difícil de ser alterada. Nessa dimensão, a ausência de capital social, fruto da falta de confiança interpessoal e da falta de confiança nas instituições, pode levar à manutenção de um sistema demo- crático permanentemente instável. (BAQUERO, 2001, p. 104) A esse cenário se deve a atual configuração da sociedade brasilei- ra no que diz respeito à banalização dos direitos constitucionais e ao lugar criminalizado dos sujeitos e movimentos sociais. Essa realidade se materializa em formas diversas de injustiças sociais, como o encar- ceramento do pobre, a criminalização da negritude, o isolamento de grupos considerados “não rentáveis” ao capitalismo (pessoas com de- ficiências e com necessidades específicas, por exemplo), a vulgarização da diversidade sexual, a penalização da condição de gênero da mulher, a tutelação e o aniquilamento da população indígena, a invisibilidade da população em situação de rua, o constante ataque armado aos tra- balhadores do campo e, dentre outros, o assassinato de milhões de sujeitos. É na contramão da lógica neoliberal que resistem sujeitos e movimentos em prol da luta pela efetivação dos direitos preconizados na Constituição Federal de 1988. 4.2 A criminalização dos movimentos sociais Vídeo A criminalização dos movimentos sociais é uma temática nova, ain- da que a história das sociedades comprove que sua prática é tão an- tiga quanto a própria humanidade. Como prática, a criminalização é norteada por um conjunto de elementos sociais (morais, econômicos e políticos) utilizados pelos grupos que ocupam o poder para comba- ter a manifestação e a resistência dos sujeitos que, de algum modo, questionam a hegemonia vigente. Quanto mais próximo chegam de conquistar seus reclames, mais severas são as medidas criminalizató- rias que enfrentam. Trata-se de um fenômeno social utilizado ao longo da história como estratégia para a manutenção do poder; um tipo de mando que pode ser individual ou coletivo e que se firma como uma condenação moral, sustentada por arranjos e mecanismos de poder como instituições e procedimentos administrativos judiciais (ARROYO, 2015; BECKER, 2008; MISSE, 2008). 90 Classes e movimentos sociais Segundo Duriguetto (2017, p. 105), na contemporaneidade, a cri- minalização se compõe de “ações sociopolíticas orquestradas pelos Estados, como respostas às expressões das desigualdades sociais (acentuadas pelas ofensivas do capital para recuperação de sua expan- são e valorização)”. Estados essesque, como vimos anteriormente, fun- dam-se com base nas influências direta e indireta do poder das elites econômicas que detêm o domínio das rédeas do capital. Esse fenômeno social se materializa por meio de culturas conser- vadoras de entendimento sobre os sujeitos, suas condições de vida, status social e posicionamento diante da estrutura social orquestrada (pobreza, racismo, machismo, sexismo e, dentre outros, a condição de produtividade para o capital). Quanto maior a sua capacidade de orga- nização e enfrentamento, ou seja, quanto mais expressivos se tornam, mais drásticas são as ações de resposta. Os movimentos sociais são criminalizados pelo fato de que, em maio- ria, oriundam de sujeitos historicamente considerados inferiores por grupos peculiares que acreditam ser superiores. Esse é o cerne dessa problemática. Trata-se de uma lógica de fácil leitura, mas que historica- mente tem sido mascarada por culturas sociopolíticas, socioterritoriais e socioeconômicas que antecedem o berço da contemporaneidade, mas que nela foram acentuadas, agravadas e notoriamente complexificadas. Perguntas simples podem conduzir esse caminho de análise: qual é o perfil dos sujeitos que constituem o movimento operário, o movimento feminista, o movimento da população sem-terra, o movimento das negri- tudes, o movimento indígena, o movimento LGBTTIQ+ e, dentre outros, o movimento da população em situação de rua? Quais pautas levantam? A fim de ampliar seus conhecimentos acerca dos movimentos sociais contemporâneos, sugerimos ler o artigo Movimentos sociais na contempora- neidade, publicado pela autora Maria da Glória Gohn na Revista Brasileira de Educação (v. 16, n. 47, maio/ago. 2011). Acesso em: 22 jun. 2020. https://www.scielo.br/pdf/rbedu/v16n47/v16n47a05.pdf Artigo Os movimentos de luta pela garantia do direito à terra, por exem- plo, são constantemente criminalizados e punidos, visto que, entre suas pautas, centraliza-se o forte questionamento aos elementos que regulam a propriedade privada. Elementos esses que alocam os movi- Os movimentos sociais contemporâneos 91 mentos agrários e o movimento da população indígena no campo de principais inimigos do Estado, pois denunciam que um dos principais pilares de sustentação da divisão de classes sociais está intrínseco na questão da centralização da posse da terra. Esse processo remete às raízes da história brasileira, dado que o Brasil, assim como todos os países latino-americanos, foi configu- rado com base na exploração dos grupos considerados inferiores por seus colonizadores: escravos, indígenas e mestiços, além das de- mais pessoas tidas como desviantes do padrão de sociedade ideali- zado pelas tradicionais elites, herdeiras do modo de operacionalizar a vida advindo das sociedades europeias. A esses foi negado o direi- to à terra, bem como o direito à cidadania efetiva, visto que foram criminalizados por serem quem são. Excluídos de qualquer processo igualitário, a força de trabalho foi o que lhes restou para manter a existência. Assim, a terra foi centralizada nas mãos dos poderosos e por eles destinada segundo seus interesses particulares. Podemos notar que esse processo culminou em um con- junto de desigualdades sociais que ainda se expressa no cotidiano da atualidade, pois a estrutura social de um país é, sem dúvida, o reflexo da estrutura fundiária instaurada (LINHARES; SILVA, 1999). Nesse ínterim, as condições de pobreza e de extrema pobreza fo- ram impostas a determinados grupos sociais, dado que, ao centralizar a posse da terra nas mãos de poucos, também se centraliza a riqueza produzida e, portanto, seu usufruto. Dito de outro modo, a crimina- lização dos grupos e dos movimentos sociais se constitui enquanto principal estratégia para abafar o debate da exploração humana e da desigualdade social. Na mesma linha de exploração, de discriminação e de criminaliza- ção, encontramos demarcada a população negra. Os marcos regulató- rios da institucionalização da criminalização da população negra são encontrados em diversos instrumentos legais da história brasileira, como no 2º ato oficial da lei complementar à Constituição do Impé- rio de 1824, que legislou sobre a proibição da população negra de fre- quentar a escola, bem como a Lei das Terras de 1850, que proibiu a população negra de comprar espaços de terra. 92 Classes e movimentos sociais Para aprofundamento, sugerimos a leitura do artigo O negro e a Constituição de 1824, do autor Paulo Eduardo Cabral, publicado na Revista de Informação Legislativa (v. 11, n. 41, jan./mar. 1974). É um artigo interessante por apre- sentar os incisos constitucionais do período de modo didático. Acesso em: 22 jun. 2020. http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/180818 Artigo O Brasil foi o último país do continente americano a instaurar o fim da escravidão de negros e, se não bastasse tal título, prosseguiu por séculos com abordagens institucionais racistas que, além de crimina- lizá-los, condenou-os a severas condições de vulnerabilidade social. Mesmo após terem conquistado a tão sonhada liberdade, foram man- tidos fora do planejamento da sociedade. Inclusive o lugar de trabalha- dores, por muito tempo, foi retirado da população negra, dado que a sociedade brasileira não admitia remunerá-la. Desse contexto, oriunda a substituição do trabalho escravo pela força de trabalho dos imigran- tes alemães, italianos e japoneses no século XIX. Sem acesso à educação, à terra e ao trabalho, os negros ainda fo- ram institucionalmente criminalizados por sua condição de pobreza. Fatos históricos que se comprovam na legislação brasileira a partir do Decreto-Lei n. 1.688/1941, conhecido como Lei de 1941, que criminaliza a condição de ociosidade, e outras leis que se seguiram para legislar sobre a proibição de manifestação pública da cultura negra, a fim de coibir a organização da população negra, como o Código Penal de 1890. Aquém de direitos sociais, a população negra ainda foi estigmatizada de diversas maneiras, elementos que comprovam que o encarcera- mento demasiado da população negra não é eventual. O contexto comprova, portanto, que o racismo é estrutural e ain- da está instaurado na sociedade atual, dado que a cultura racista está a serviço dos interesses das elites dominantes. O racismo permanece porque também permanece o conservadorismo de ideais e práticas de- sumanas. Como já pontuado anteriormente, a supremacia das elites depende da permanência da condição de subalternidade dos sujeitos e do enraizamento da pobreza. Assim, a população negra também se configura como inimiga dos donos do poder. O movimento negro incomoda, visto ser uma denún- Para saber mais sobre a Lei de 1941, sugerimos ler a reportagem crítica publicada no Migalhas Quentes, em 18 de março de 2019, intitulada Mendigar deixou de ser contravenção penal há apenas dez anos. Disponível em: https://www. migalhas.com.br/quentes/297910/ mendigar-deixou-de-ser-contra- vencao-penal-ha-apenas-dez-anos. Acesso em: 22 jun. 2020. Saiba mais Os movimentos sociais contemporâneos 93 cia do fato de que os valores burgueses são severos e desarticulados dos direitos fundamentais. Afinal, à população negra delegou-se a mo- radia nas favelas, os espaços de trabalho mais precarizados, as piores condições de acesso a bens e serviços, assim como o distanciamento da efetividade dos direitos já garantidos aos demais grupos populacio- nais, como o acesso à educação pública e ao atendimento de saúde. Na mesma linha de manifestação de desigualdades estruturais, en- contram-se as condições de vida da população feminina, bem como a vulgarização e a criminalização do movimento feminista. Esse mo- vimento também incomoda os detentores do poder, uma vez que de- nunciam as extremas desigualdades de gênero e os altos índices de feminicídio como resultantes das ideias conservadoras burguesas sobre o “lugar da mulher” na sociedade capitalista – lugar esse da su- balternidade e da perda de liberdadecom relação aos processos deci- sórios que lhe dizem respeito. A precária condição de existência que foi delegada à mulher, a partir da instituição da propriedade da terra, teve duas dimensões principais: a primeira com relação ao nível da superestrutura, com base na des- qualificação das capacidades femininas em função da manutenção da supremacia masculina, e a segunda no plano estrutural, envolvendo a marginalização das funções produtivas da mulher. No processo de individualização inaugurado pelo modo de pro- dução capitalista, a mulher contaria com uma desvantagem social de dupla dimensão: no nível superestrutural era tradicional uma subvalorização das capacidades femininas traduzidas em termos de mitos justificadores da supremacia masculina e, portanto, da ordem social que a gerara; no plano estrutural, à medida que se desenvolviam as forças produtivas, a mulher vinha sendo progres- sivamente marginalizada das funções produtivas, ou seja, perife- ricamente situada no sistema de produção. (SAFFIOTI, 2013, p. 18) Assim, designa-se à mulher uma herança que se materializa no afastamento do usufruto das liberdades, no distanciamento da efeti- vidade da cidadania, bem como em obstáculos severos, nos mais di- ferentes campos da vida social: adequação a estereótipos de beleza e quanto a funções a executar; exploração do trabalho doméstico; res- ponsabilização pelos cuidados para com a família; menores salários; assédio; abuso; exploração e violência sexual; violência doméstica, psicológica e sexual; desvalorização do trabalho no lar; obrigatorie- feminicídio: homicídio de mulheres motivado por “I - violência doméstica e familiar; II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, tipificado como crime pela Lei n. 13.104, de 9 de março de 2015. Glossário 94 Classes e movimentos sociais dade de reprodução; condicionamento da vida no espaço do lar; e, dentre outros, estupro e feminicídio. Embora as hierarquias de classe e raça incidam na definição de quem tem acesso aos espaços de poder, a divisão sexual do tra- balho e as formas da construção do feminino a ela relacionadas fazem com que as mulheres, por serem mulheres, tenham menores chances de ocupar posições na política institucional e de dar ex- pressão política, no debate público, a perspectivas, necessidades e interesses relacionados a sua posição social. Têm, com isso, me- nores chances também de influenciar as decisões e a produção das normas que as afetam diretamente. A cidadania das mulheres é, portanto, comprometida pela divisão sexual do trabalho, que em suas formas correntes converge em obstáculos ao acesso a ocupações e recursos, à participação política autônoma e, numa frente menos discutida neste estudo, à autonomia decisória na vida doméstica e íntima. (BIROLI, 2016, grifos do original) A condição de vulnerabilidade social dos sujeitos que compõem os mo- vimentos sociais é o principal condicionante utilizado pelos poderosos para efetivar os processos de seletividade, de exclusão e de aniquilação (como no caso da população indígena) de suas iniciativas de organização para o enfrentamento do capital e dos demais eixos que constituem a ideologia burguesa. Segundo Zaffaroni (2002), em seu sentido etimológico, a pala- vra vulnerabilidade corresponde ao entendimento da condição de vida vul- nerável que faz com que se fortaleçam as possibilidades de a pessoa ser ferida. Essa condição se apresenta na vida de todos os grupos que ainda precisam lutar para ver garantidos os seus direitos fundamentais. Grupos que são constantemente feridos, criminalizados e penalizados por serem quem são e, principalmente, pelos enfrentamentos que concretizam. Os elementos apresentados dificilmente são tratados no senso co- mum, visto que a grande massa também não reconhece o valor dos movimentos sociais diante da garantia de direitos. Com base nisso, infe- lizmente, também os criminalizam, o que fragiliza sua organização e ca- pacidade de resistência, visto que, mesmo diante de repressão violenta e armada, não se unem à causa que lhes é comum. E, mesmo diante de altíssimos índices de mortalidade advindos desse sistema punitivo, não se indignam o suficiente. Esse processo é influenciado, principalmente, pela monopolização da televisão, do rádio e da indústria midiática. A massa populacional entende os movimentos sociais por meio do que lhe é descrito pelos meios de comunicação e entretenimento. Igno- Os movimentos sociais contemporâneos 95 ram o fato de que esses meios são controlados pelos grandes grupos monopolistas que estão à frente do capital mundial. Segundo Meirelles (2018), esse quadro mundial também se apresenta na particularidade brasileira, dado que 80% das empresas multinacionais do Brasil liga- das a esse setor são controladas pelo capital estadunidense. Esse fato remete ao entendimento de que tais empresas determinam a visão e a opinião dos sujeitos sobre o mundo e sobre o processo de pensá-lo. A grande massa populacional, portanto, ainda se mantém aliena- da quanto às estratégias burguesas de dominação e as reproduzem, na medida que entendem os processos sociais pela ótica das elites. Quando consideradas as particularidades das culturas social e política do Brasil, esse processo se mostra ainda mais complexo, pois é preciso considerar o fato de que a democracia brasileira ainda é jovem, da- tando de menos de 35 anos. Podemos dizer que o país ainda não teve tempo hábil para superar os marcos sócio-históricos causados pela au- sência de direitos sociais, civis e políticos dos últimos séculos. 4.3 As novas estratégias de reorganização e resistência dos movimentos sociais Vídeo A compreensão das práticas efetivadas pelos movimentos sociais na contemporaneidade é um elemento essencial ao entendimento da democracia, visto que a era dos direitos não seria uma realidade sem as frentes que organizam e resistem na luta social. A partir da Constituição Federal de 1988, novos modos de participa- ção social foram instituídos, a fim de firmar o Estado democrático de di- reito. Tivemos o início da descentralização dos processos propositivos e decisórios no âmbito estatal. Esse direcionamento levou à implanta- ção de mecanismos voltados a garantir a ampliação da cidadania, por meio da participação popular. Assim, pautados nos direitos fundamentais e tendo como reali- dade efetiva os novos modos de participação social, os movimentos sociais ocuparam diversos espaços de representação, como as con- ferências e os conselhos de direitos. Vivenciaram algumas décadas de abertura política, tempos em que acessaram, pela primeira vez na história da sociedade brasileira, recursos voltados ao fomento do em- poderamento popular. 96 Classes e movimentos sociais Contudo, como vimos anteriormente, podemos compreender que nossa democracia ainda é frágil. Além de a nossa Constituição ainda ser jovem (com início em 1988), teve seu processo de implantação atro- pelado pelas medidas macroeconômicas internacionais (aderidas pelo Brasil em 1990) – medidas que, aos poucos, resultam no desmonte de diversos direitos sociais, civis e políticos. Nesse campo de disputa, materializam-se diferentes discursos e es- tratégias. O Estado e os grupos conduzidos pela hegemonia burguesa insistem em abafar e/ou conter as lutas sociais. Assim, quanto mais avançam as lutas sociais, mais severas e incisivas são as ações contra os levantes populares, envolvendo a criminalização e subalternização dos grupos em movimento, que, em sua maioria, apresentam pautas com denúncias e questionamentos à ordem social vigente. A democracia brasileira nasceu e se desenvolve em território mina- do, visto que diferentes projetos de sociedade permanecem em dis- puta. Nos últimos anos, vimos diferentes líderes se protegerem nas estruturas estatais para perseguir e, até mesmo, acionar forças mili- tares contra os movimentos sociais. A mídia brasileira, sob o comando das elites, é pouco confiável na divulgação e na contextualizaçãoreal dos enfrentamentos mais diretos. Na resistência, os movimentos sociais enfrentam desafios diversos, tais como: a ausência de oportunidades de acesso a processos edu- cacionais que os instrumentem adequadamente para potencializar a organização e a luta; a falta de recursos essenciais (renda, alimentação, moradia, meios para deslocamento, para produção de materiais e para garantir a defesa dos integrantes criminalizados); e a falta de valoriza- ção social pelo importante papel que desempenham na sociedade. Contudo, mesmo diante das condições adversas, os movimentos sociais têm se mantido resistentes. Ora revelam-se mais empodera- dos, segundo as condições de organização e de financiamento, ora menos vitoriosos, mas sempre atuantes. Na linha das conquistas, encontra-se o poder educativo gerado pelas práticas que advêm do exercício da participação social. Há um caráter educativo nas práticas que se desenrolam no ato de participar, tanto para os membros da sociedade civil, como para a sociedade mais geral, e também para os órgãos públicos envolvidos – quando há negociações, diálogos ou confrontos. Uma das premissas básicas a respeito dos movimentos sociais Os movimentos sociais contemporâneos 97 é: são fontes de inovação e matrizes geradoras de saberes. En- tretanto, não se trata de um processo isolado, mas de caráter político-social [...]. Os movimentos realizam diagnósticos sobre a realidade social, constroem propostas. (GOHN, 2011, p. 333-334) Segundo Gohn (2011), a criação de saberes e a implantação de no- vas diretrizes foram conquistas dos movimentos sociais, a partir das alterações fomentadas pela Constituição Federal de 1988. Por meio de diferentes articulações, negociações, diálogos e possibilidades de em- bate, os movimentos sociais se aprimoraram e avançaram para cam- pos antes desconhecidos e/ou pouco ocupados. A participação direta nos espaços onde se debate e se propõe a coi- sa pública instrumentalizou os movimentos sociais, no que diz respeito ao entendimento ampliado dos trâmites que compõem as instituições públicas e privadas, bem como ante as diferentes disputas de poder na sociedade. Na mesma linha, por meio das políticas públicas voltadas a garantir o acesso à educação superior, os movimentos sociais aces- saram a universidade, o que possibilitou aos sujeitos uma abordagem com propriedade ainda mais ampla sobre o seu lugar de fala. Outros importantes elementos que caracterizam os atuais movi- mentos sociais são os patamares de entendimento e de prática política, construídos com base nos novos aprendizados gerados pela atuação em cotidianos mais institucionalizados e politizados. São formas apri- moradas de interação e conexão social, que, em primeira medida, fo- mentam e proporcionam a constituição de novas culturas políticas. Aprendizado coletivo, mútuo e que, além de se manter em constante movimento, tem sido precursor de novos tipos de comunicabilidade. Atuando em redes, constroem ações coletivas que agem como resistência à exclusão e lutam pela inclusão social. Constituem e desenvolvem o chamado empowerment de atores da socie- dade civil organizada à medida que criam sujeitos sociais para essa atuação em rede. Tanto os movimentos sociais dos anos 1980 como os atuais têm construído representações simbólicas afirmativas por meio de discursos e práticas. Criam identida- des para grupos antes dispersos e desorganizados, ao realizar essas ações, projetam em seus participantes sentimentos de pertencimento social. Aqueles que eram excluídos passam a se sentir incluídos em algum tipo de ação de um grupo ativo. (GOHN, 2011, p. 336) A criação dessa nova comunicabilidade em rede antecede o advento da internet. São saberes gerados pela conexão dos movimentos sociais com diferentes instituições, grupos identitários, regionalidades e cultu- 98 Classes e movimentos sociais ralidades diversificadas. A internet ampliou e potencializou a rede de interação e conexão que já existia. Seu uso pelos movimentos sociais é estratégico e fundamental, visto ser uma ferramenta de extrema im- portância para potencializar tanto a organização dos sujeitos que os compõem quanto a publicização de suas bandeiras, ações e intenções. Por meio da conexão virtual em rede, os movimentos sociais estrei- taram distâncias, potencializaram ações, abarcaram um maior número de adeptos e criaram modelos de financiamento, espaços de debate e tipos de participação. A distância territorial deixou de ser uma barreira para a aproximação dos grupos que compartilham debates, propostas e encaminhamentos. O enfrentamento do monopólio das mídias foi viabilizado devido à internet possibilitar que os movimentos sociais veiculem o seu lado da história, além de denunciar abusos, massacres e falsas verdades a respeito deles. A dificuldade de gerar renda e meios de trabalho para a manutenção das práticas de luta, aos poucos, também vem sendo viabilizada. A rede conectada proporciona o acionamento de milhares de pessoas para a resolução de problemas que podem ser de muitos, de poucos e/ou de um único sujeito. Assim, os movimentos sociais seguem na resistência, reinventan- do estratégias, criando aprendizagens cada vez mais coletivas, mais instrumentalizadas, cientificamente respaldadas, coletivamente cus- teadas e modernamente organizadas. A cada década, reduzem os muros territoriais, a cada conjuntura, adequam os mecanismos uti- lizados e, ainda que aparentem apáticos e/ou passivos, resistem, se articulam e expressam suas demandas por meio de ações sociais, políticas e culturais diversificadas. Os movimentos sociais se localizam nos âmbitos local, municipal, estadual, nacional e internacional e, por meio de denúncias e de dife- rentes tipos de mobilizações, materializam suas lutas. Demarcam suas pautas por meio de marchas e passeatas, bem como enfrentam a or- dem hegemônica por meio de atos de desobediência civil. Ainda que historicamente “remem na contramão das correntes”, suas ações são indiscutivelmente as principais responsáveis por todas as conquistas alcançadas a nível mundial no que se refere à criação e à efetivação de direitos sociais, civis e políticos. Os movimentos sociais contemporâneos 99 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os movimentos sociais são os principais responsáveis pela exposição do mundo como ele realmente é, ou seja, constituído sob estruturas de- siguais e, em muitos casos, desumanas. Nesse campo, é necessário mo- vimentar-se e impor-se de modo organizado e coletivo, a fim de reunir forças para denunciar as barbáries que assombram cotidianamente mi- lhares de sujeitos em todo o mundo. Se não fossem as lutas promovidas pelos movimentos sociais, não viveríamos a modernidade como se apresenta, ou seja, permeada de diversidades sociais, políticas, culturais e artísticas; organizada com base em leis humanizadas e regulada por princípios de liberdade, igualdade e respeito. A era dos direitos e da cidadania, que hoje consti- tui nossa realidade, jamais se tornaria real sem as forças coletivas que travaram milhares de lutas. Em tempos atuais, a luta dos movimentos sociais é o que pode ga- rantir a permanência da era dos direitos, visto que o desmonte deles está em alta nos encaminhamentos do governo brasileiro, que mani- festa por vezes uma visão conservadora e um projeto de sociedade que ameaçam os avanços com relação às organizações social, civil, cul- tural, econômica e política. Portanto, cabe aos profissionais da área social fomentar a organização popular e o empoderamento das classes subalternizadas. De sua organi- zação depende a organização de uma sociedade mais igualitária. ATIVIDADES 1. A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, o Brasil adentrou o período sócio-histórico denominado de era dos direitos. Esse processo ocorreu a partir de muitas lutas de diversos movimentos sociais, que direcionaram a nação a instituir princípios fundamentais para as organizações social, civil e política do país. Contudo,esse processo vem sendo ofuscado em nome de intervenções econômicas internacionais, materializadas por meio das medidas macroeconômicas impostas pelos países imperialistas. Exercite contextualizar em que medida essas ações de intervenção econômica prejudicam a implantação das políticas públicas e sociais. 2. Entre os principais desafios impostos aos movimentos sociais estão a superação e o enfrentamento dos processos estigmatizantes e criminalizantes direcionados às suas ações e à sua razão de existir. Qual 100 Classes e movimentos sociais conjunto de elementos tem sido utilizado pelos grupos hegemônicos para estigmatizar e criminalizar os movimentos sociais? 3. Como os movimentos sociais têm resistido historicamente, principalmente na atualidade? REFERÊNCIAS ACANDA, J. L. Sociedade civil e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006. ARROYO, M. G. O direito à educação e a nova segregação social e racial: tempos insatisfatórios? Educação em Revista, v. 31, n. 3, p. 15–47, 2015. 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O Serviço Social e os movimentos sociais 101 5 O Serviço Social e os movimentos sociais Neste capítulo, será apresentada a história da construção da relação social entre o Serviço Social e os movimentos sociais. Também, teremos a oportunidade de adentrar um dos debates mais sofisticados da profissão: o ideário do projeto ético-político do Serviço Social. Com base nesse debate, poderemos compreender os princí- pios que regem a atuação do Serviço Social e dimensionar por que a proximidade dessa área com os movimentos sociais é uma condição indispensável. 5.1 O projeto ético-político do Serviço Social e os movimentos sociais Vídeo Com o passar dos séculos, a experiência da humanidade constituiu aprimoramentos de níveis diversos e, sem dúvida, a prática do pla- nejamento está entre os elementos que mais promoveram sua evo- lução. Nesse ínterim, passamos a traçar metas e construir projetos de sociedade segundo as expectativas de vida dos diferentes grupos sociais. Nas palavras de Netto (1999, p. 2), são projetos societários construídos com base em “antecipações ideais da finalidade que se pretende alcançar, com a invocação dos valores que a legitimam e a escolha dos meios para lográ-la”. Nas sociedades capitalistas, duas das características que constituem os projetos societários são indispensáveis à compreensão da vida em sociedade: a dimensão macro e o processo de construção demarcado por identificação de classe. Isso implica dizer que, na base de constru- ção de projetos societários, existe uma dimensão política, permeada 102 Classes e movimentos sociais por relações de poder de diferentes níveis e faces que são alocadas para organizar a vida de modo macro. Podemos entender, assim, o motivo pelo qual, mesmo nas socieda- des democráticas, ainda persiste o fato de que os projetos construídos pelas classes trabalhadoras e subalternizadas não dispõem de condi- ções favoráveis à sua implantação e desenvolvimento. Uma lógica sim- ples, visto que, no capitalismo, a aplicabilidade de projetos societários requer uma disposição mínima de recursos humanos, econômicos e culturais, bem como exige tempo e consciência de classe – condições das quais raramente as classes subalternizadas dispõem. Na mesma linha, as categorias profissionais constroem projetos de atuação segundo seus entendimentos de mundo. Esses projetos visam conduzir a uma caminhada de atuação profissional hegemôni- ca, ou seja, unificada e afinada com os princípios e as diretrizes que a regulam. Isso não significa que dentro de uma mesma categoria profis- sional não existam projetos alternativos, afinal, os corpos profissionais são constituídos de sujeitos plurais, que originam e constroem dife- rentes capitais econômicos e culturais, refletindo, portanto, diferentes visões de mundo. Assim, a hegemonia de um projeto se dá por meio do debate e do consenso de ideias e expectativas de mundo. Os projetos profissionais apresentam a autoimagem de uma profissão, elegem os valores que a legitimam socialmente, de- limitam e priorizam seus objetivos e funções, formulam os re- quisitos (teóricos, práticos e institucionais) para o seu exercício, prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as bases das suas relações com os usuários de seus serviços, com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais privadas e públicas (inclusive o Estado, a que cabe o reconhecimento jurídico dos estatutos profissionais). (NETTO, 1999, p. 4) Nesse contexto, na década de 1960, inicia-se a construção do projeto ético-político do Serviço Social brasileiro, processo que se realizou com base no debate e no consenso acerca do tipo de sociedade que a profissão passou a almejar, após atuar por mais de trinta anos no exercício de atender às vulnerabilidades sociais da organização social criada pelo sistema capitalista. Rompia com uma atuação conservadora e repressiva 1 As ações desenvolvidas pelo Ser- viço Social até o movimento de reconceituação eram norteadas pela crença de que os indivíduos eram os únicos responsáveis por sua “má sorte”, ou seja, a profissão os culpava pelas misérias e pelas demais mazelas sociais que vivenciavam. Acreditava-se que eram sujeitos desajustados, ou seja, ignoravam o sistema de injustiças e de desigualdades de oportunidades ao qual estavam condicionados e condenados. 1 , que servia de suporte à reprodução da lógica de exploração das classes populares. O Serviço Social e os movimentos sociais 103 Nesse período, os assistentes sociais construíram o entendimento de que a desigualdade social é um fator inseparável da lógica capitalista, pois sua ampliação e sua permanência são elementos indispensáveis à própria existência do capital. Esse fato os conduziu ao entendimento de que, ao contrário do que acreditavam, suas práticas estavam a ser- viço da máquina que criava a miséria e o desespero humano. Portanto, não só iniciaram um movimento de revisão e reconstrução de suas prá- ticas, como também passaram aalmejar uma nova ordem societária. Esse é um movimento de luta e de reconstrução que surgiu sob forte influência dos movimentos sociais que efervesciam na América Latina, enquanto resultado do questionamento do povo latino-americano sobre as relações econômicas e sociais produzidas pelo capitalismo. Ganhou corpo e força no Brasil, por meio da eclosão dos movimentos sociais gerados pelas forças populares, no confronto do regime ditatorial. Assim, da década de 1970 a 1980, o Serviço Social brasileiro debateu e construiu seu projeto ético-político como enfrentamento das raízes conservadoras da profissão, processo de renovação profissional co- nhecido como Movimento de Reconceituação 2 Processo iniciado formalmente no Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, em 1979, na cidade de São Paulo, amadureci- do nos anos seguintes por meio do aprimoramento acadêmico da profissão e consolidado, en- quanto hegemônico, na década de 1990, mediante a instituição do novo Código de Ética do Serviço Social, em 1993. 2 . As vivências ocorridas nesses períodos históricos conduziram os profissionais a se percebe- rem enquanto classe trabalhadora e esse foi o divisor de águas que demarcou a construção do projeto ético-político da profissão. Um dos elementos relevantes desse processo é o aprimoramento das bases intelectuais da profissão. Afinal, para instaurar a ruptura com as práticas conservadoras, se fazia necessário romper, na mesma medida, com as bases teóricas que as fundamentavam. Desse modo, era preciso incorporar matrizes teóricas e metodológicas compatíveis com o novo modo de analisar o social sem reproduzir a injustiça social. Foi nesse contexto que o Serviço Social brasileiro se aprofun- dou nos estudos da perspectiva crítica, produzidos por Karl Marx e pelos demais autores de tradição marxista. Assim, um novo perfil profissional passou a ser traçado, visto que as bases curriculares do processo formativo da profissão também foram reformuladas. Como resultado desse processo, houve o abandono das tradicionais práticas conservadoras e a instauração da crescente ressignificação das modalidades prático-interventivas, com vistas a contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa. O tradicionalismo do Serviço Social é entendido como bases teóricas e práticas empiristas, reiterativas, paliativas e buro- cratizadas, pautadas na ética liberal-burguesa que deu base ao surgimento da profissão e orientou as intervenções profis- sionais até meados da década de 1970 e 1980 (AVILLA, 2017). Curiosidade 104 Classes e movimentos sociais Foi também nesse contexto sócio-histórico que a profissão elegeu as expressões da questão social 3As problemáticas sociais que têm origem na questão social são, por exemplo, a pobreza, a miséria, a violência, o desem- prego, o analfabetismo e, dentre muitas outras, a situação de rua. 3 como objetos de sua primazia interven- tiva, campos prioritários de atuação, onde a profissão passou a assumir grande responsabilidade com relação à emancipação humana. Definição de norte interventivo que foi aprimorada na mesma medida em que o Serviço Social se aprofundou e se especializou na sua consciência sobre a divisão social e técnica do trabalho na qual está inserido. Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas suas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública, etc. Questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem, se opõem. É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade. (IAMAMOTO, 1997, p. 14) Questão social é, portanto, entendida como a denominação para fazer referência ao fator que gera e/ou amplia as desigualdades e mazelas sociais, ou seja, a relação contraditória entre capitalistas e pro- letários. É contraditória porque ambos produzem toda a riqueza social, mas, dado que a ideologia burguesa sustenta o capitalismo, apenas os capitalistas se apropriam dela. É uma relação de desigualdade e injusti- ça que, enquanto condena os trabalhadores proletariados a condições indignas de vida, é o fator que os impulsiona à organização de classe e, portanto, ao reclame de direitos. Nesse ínterim, foi concretizado o projeto ético-político do Serviço Social que, norteado por valores de liberdade, justiça e democracia, estabeleceu, enquanto primazia ética central, o comprometimento com o desenvolvimento da emancipação humana. E, na mesma li- nha, elegeu os sujeitos que compõem a classe trabalhadora como alvos prioritários desse processo. Com vistas a efetivar esses valores, a profissão se orienta e se nor- matiza por meio de seu Código de Ética profissional (implementado juridicamente em 1993). O documento materializa os princípios e as diretrizes para a atuação profissional do Serviço Social no Brasil e, já nos cinco primeiros dos seus onze princípios fundamentais situa a pro- fissão quanto ao seu papel social prioritário: Sugerimos a leitura integral do Código de Ética do Assistente Social – Lei n. 8.662/1993 de regula- mentação da profissão. É importante conhecê-lo para tornar sua atuação mais consistente. BRASIL. 10. ed. Brasília: CFESS, 2012. Disponível em: http://www. cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS- -SITE.pdf. Acesso em: 22 jun. 2020. Leitura http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf O Serviço Social e os movimentos sociais 105 I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbí- trio e do autoritarismo; III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto so- cialização da participação política e da riqueza socialmente produzida; V. Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão demo- crática. (CFESS, 2012, p. 23-24) Regida por princípios e diretrizes construídos com base um debate ético ao longo de décadas 4 A história da construção do debate da ética no Serviço Social pode ser observada por meio dos diferentes códigos de ética elaborados pela profissão: três códigos de ética que antecederam a década de 1980 e que apresentam princípios e diretrizes conservadoras, devido à sua origem (Código de Ética Profissional do Assistente Social de 1948, Código de Ética de 1965 e Código de 1975), bem como, com base no Código de Ética profissional do Serviço So- cial de 1986, que perdurou por sete anos, até a elaboração do atual Código de Ética da profis- são, criado em 1993 (construído com base em uma perspectiva crítica de sociedade, resultante das lutas sociais travadas no Brasil, enquanto enfrentamento ao regime ditatorial). 4 , na atualidade, a profissão se apresenta amadurecida em seus pressupostos epistemológicos (teorias e técni- cas). Com isso, o Serviço Social brasileiro assume para si o desenvol- vimento de intervenções, com vistas a corroborar com a construção de um novo projeto societário, em que a justiça social seja a grande regente dos processos. Essa trajetória pode ser efetivada apenas por meio do desenvolvi- mento de uma atuação que seja construída com os movimentos so- ciais. Isso porque eles representam a luta das classes popularespor igualdade e por equidade de direitos, conforme o compromisso ético- -político legalmente assumido pela profissão. 5.2 A experiência do Serviço Social junto aos movimentos sociais Vídeo O questionamento da postura conservadora de atuação que imperou no Serviço Social brasileiro por mais de trinta anos, con- forme explicitado anteriormente, foi o que tornou possível a cons- trução da profissão como se apresenta na realidade atual. Trata-se de um fator que está intrinsecamente ligado à luta de classes, as- sim como indiscutivelmente enraizado nos aprendizados sócio-his- tóricos construídos junto aos movimentos sociais. 106 Classes e movimentos sociais Fato é que a própria constituição da profissão em sua versão atual é resultado da relação do Serviço Social com os movimentos sociais. Um campo de extremas contradições, visto que, conforme as estratégias capitalistas se complexificam, mais frágeis se revelam os espaços en- contrados pela profissão para efetivar a sua participação, consideran- do que se compõem de trabalhadores que também devem participar ativamente da organização sociopolítica. Dito de outro modo, após a promulgação da Constituição Cidadã, os espaços de atuação do Serviço Social foram ampliados e aprimorados, com vistas a efetivar a nova organização do sistema de proteção social brasileiro. Devido à sua experiência histórica de atuação na área social, os assistentes sociais foram chamados a desempenhar o papel de pro- positores, executores e avaliadores de políticas públicas sociais. Desse modo, na mesma medida em que avançavam na linha de frente da implantação do novo Estado de direitos, também se afas- tavam da participação cotidiana por dentro dos movimentos sociais. Esse processo conduziu o Serviço Social a atuar mais em função de prestar serviços sociais aos movimentos do que compô-los enquan- to classe trabalhadora. Assim, gradativamente, os profissionais assumiram postos em áreas específicas, desenvolvendo suas atividades nos âmbitos federal, estadual e municipal. Grande parte estava localizada em microrregiões, nas novas secretarias de assistência social, à frente do conjunto de mecanismos criados para efetivar as novas políticas sociais. A relação do Serviço Social com os movimentos sociais, desse modo, se manteve majoritariamente por meio da efetivação dos acessos individuais às políticas públicas. Nessa nova relação, enfatizamos a condição imutável de agentes que involuntariamente desenvolvem papéis contraditórios, dado que, por um lado, atuam com vistas a fomentar a emancipação dos sujei- tos e fortalecer as organizações social e política dos trabalhadores enquanto, na contramão, engendram a manutenção do ideário capita- lista. Essa é uma atuação na qual existem resistência e posicionamento crítico constante diante das medidas pontuais e imediatistas impostas pelo Estado e, também, pelo viés da responsabilidade social que foi terceirizada ao capital nas últimas décadas. Trata-se de uma via de mão dupla que se estabelece devido ao fato de que, enquanto trabalhadores assalariados, também são requeridos O Serviço Social e os movimentos sociais 107 para desenvolver atividades tecnicistas, burocráticas, individualizadas e, muitas vezes, assistencialistas. Condicionantes relacionados às obri- gações institucionais a que são incumbidos, para efetivar o controle da vida social requerido pelo Estado ou pelas empresas quando funcioná- rios do âmbito privado. Contudo, mesmo diante das contradições que permeiam o campo de atuação, os assistentes sociais conseguem desenvolver estratégias direcionadas ao fomento da organização sociopolítica. Orientam os movimentos sociais com relação às possibilidades de participação na lógica estatal (conselhos de direito e conferências) e capacitam lideran- ças, no sentido de prepará-las para o desenvolvimento de projetos e ações coletivas. Além disso, encaminham os integrantes para a rede de serviços da esfera pública, conforme as necessidades identificadas. No que diz respeito à relação direta com os coletivos, a profissão tem desenvolvido sua trajetória, mais precisamente, voltada à presta- ção de serviços de assessoria e/ou consultoria – trabalho desenvolvido tanto via contratações remuneradas quanto voluntárias. Nesse campo, destacamos as atividades realizadas junto aos movimentos sindicalis- tas, rurais e urbanos, bem como as atuações construídas em parceria com os movimentos da saúde e os socioambientais. Nos últimos anos, ainda, as ações de assessoria e/ou consultoria oriundas do mundo uni- versitário (projetos de extensão) têm crescido significativamente. A atuação junto aos movimentos sociais foi instituída, enquanto uma competência profissional, expressa no artigo 4º (inciso 9) da Lei de Regulamentação da Profissão (nº 8662/93), em que consta a nossa reconhecida capacidade de “prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas so- ciais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade”. Bem como também é um direito do/a assistente social, posto em seu Código de Ética (Capítulo IV, Art.12, inciso b), “apoiar e/ou participar dos movimentos sociais e organizações populares vinculados à luta pela consolidação e ampliação da de- mocracia e dos direitos de cidadania”. (CFESS, 2012, p. 2) Ainda que historicamente recente, o trabalho de assessoria e de consultoria realizado pelo Serviço Social junto aos movimentos sociais tem demonstrado grande potencial. Essa atuação cada vez mais se comprova por meio do reconhecimento dos movimentos sociais, o que se expressa, por exemplo, na manutenção das contratações, revelando a relação de confiança depositada no trabalho desses profissionais. 108 Classes e movimentos sociais Assessoria/consultoria é a ação desenvolvida por um profissio- nal com conhecimento na área, que toma a realidade como obje- to de estudo e detém uma intenção de alteração da realidade. O assessor não é aquele que intervém, deve sim, propor caminhos e estratégias ao profissional ou à equipe que assessora e estes têm autonomia em acatar ou não as suas proposições. Portanto, o assessor deve ser alguém estudioso, permanentemente atuali- zado e com capacidade de apresentar claramente as suas propo- sições. (MATOS, 2010, p. 31) Um dos levantamentos realizados por um dos grupos de trabalho do XV Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social (ENPESS) demonstra que a profissão tem abarcado, em suas temáticas de pes- quisa e em seu quadro de atuação, todos os campos existentes no que diz respeito aos movimentos sociais: sindicalistas, feministas, pela li- berdade de orientação sexual, quilombolas, urbanos e rurais, étnico- -raciais, relacionados à pauta da juventude, da população em situação de rua, ambientalistas e, dentre outros, os movimentos em prol dos direitos da pessoa idosa, da pessoa com deficiência e da proteção da infância e a da adolescência. Outro elemento de extrema importância se refere ao fato de que o Serviço Social é uma das categorias profissionais que mais desen- volve pesquisas e instrumentos técnicos para a compreensão e o en- frentamento das problemáticas sociais vivenciadas pelos movimentos sociais. As produções das pesquisadoras Maria Lucia Duriguetto (2014), Maristela Dal Moro e Morena Gomes Marques (2011), por exemplo, de- monstram que o Serviço Social tem feito diferença na organização e no aprimoramento dos movimentos sociais, principalmente com relação ao fazer sociopolítico voltado à construção da autonomia e da emanci- pação dos sujeitos. Segundo as pesquisadoras mencionadas, a atuação direta dos assis- tentes sociais junto aos movimentos sociais tem se materializado por diferentes vias. Abramides e colaboradores (2016), por exemplo, citam: Conselho Federal de Serviço Social (CFESS); Conselho Regional de Servi- ço Social (CRESS); Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS); representação em conselhos de Direito;participação em fóruns, seminários, colóquios, congressos, debates, coordenação de nú- cleos de pesquisa e de extensão universitária; participação em frentes de lutas; e, dentre outras, na construção de campanhas articuladas aos movimentos sociais. O Serviço Social e os movimentos sociais 109 A relação do Serviço Social com os movimentos sociais, contudo, ainda requer debate, compreensão, fortalecimento e revisão, especial- mente quanto à práxis realizada e aos elementos contraditórios, que, nas últimas décadas, têm configurado um quadro preocupante. No campo da sistematização da experiência, por exemplo, menos de 10% das produções publicadas são sobre os movimentos sociais. Isso reme- te ao entendimento de que a profissão está distante das bases de luta, ou seja, se faz necessário incentivar pesquisas acerca dos movimentos sociais tanto no espaço acadêmico quanto no profissional. Outro ponto que chama atenção é o fato de que grande parte das análises sobre os movimentos sociais é influenciada pelas teorias pós- -modernas, visto que elas carregam elementos explicativos de algumas das peculiaridades que caracterizam os novos movimentos sociais, principalmente com relação à pauta dos grupos identitários. Contudo, essas teorias não estão em consonância com os pressupostos teórico- -metodológicos e ético-políticos que dão corpo à lei que regulamenta o exercício profissional do Serviço Social. Trata-se de uma incoerência epistemológica que deve ser urgen- temente questionada a fim de que a profissão não se perca em seu propósito principal, ou seja, o empoderamento da classe trabalhadora diante da luta de classes. Em suma, ainda que as terias pós-moder- nas apresentem contribuições sobre os pressupostos da modernidade, não oferecem os subsídios necessários para o debate da raiz que cria e sustenta a desigualdade social, isto é, o sistema capitalista. O uso descontextualizado das teorias pós-modernas, conforme já problematizado, pode comprometer a postura investigativa da profissão, pois não se tem a visão da totalidade. Isso pode condu- zir a uma leitura rápida e fragmentada da realidade, além de ele- mentos analíticos frágeis culminarem com os interesses do ideário burguês, e não com a construção da nova ordem societária, como requer a classe trabalhadora organizada em sua luta contra a ex- ploração que cotidianamente a aflige. Neste cenário, desfavorável aos trabalhadores e de crimi- nalização de sua resistência, faz-se necessário potencializar propostas de fortalecimento dos movimentos sociais calca- das na perspectiva contrária à sociabilidade do capital, obje- tivando à viabilização prático-política do projeto profissional. Nesta pesquisa, têm-se o exemplo significativo das práticas de 110 Classes e movimentos sociais assessoria aos movimentos sociais, instrumentalizando-fortale- cendo-capacitando distintos sujeitos coletivos em sua luta coti- diana. (MORO; MARQUES, 2011, p. 42) A relação do Serviço Social com os movimentos sociais é tão antiga quanto a própria origem da profissão, relacionada às vivências cons- truídas junto aos movimentos de base da Igreja Católica na década de 1930: a conhecida história das moças provenientes de famílias mais abastadas, que, orientadas sob a ética cristã, debruçavam-se a agir na realidade social. Essa relação se aprimora e se reconfigura por meio dos movimentos sociais que efervesceram no país desde a década de 1960, ganhando novo rumo e concretizando-se entre o final da década de 1980 e o início de 1990, a partir da repaginação da profissão, que teve como resultado a criação de uma identidade profissional. O Serviço So- cial e os movimentos sociais têm, portanto, uma relação indissociável. 5.3 Políticas públicas, Serviço Social e movimentos sociais Vídeo O novo Serviço Social, que emergiu a partir da década de 1960, par- ticipou ativamente das reivindicações populares contra o regime dita- torial (em vigência no país) e em prol da efetivação da cidadania. Como resultado, ao final da década de 1980, comemorou junto aos movimen- tos sociais a promulgação da Constituição Federal Brasileira de 1988, adentrando a década de 1990 designado a atuar na linha de frente da efetivação do tripé da seguridade social, previsto na Carta Magna. Os reclames populares, enfim, encontraram lugar de efetivação; os movimentos sociais brasileiros vibravam e saboreavam a conquis- ta da nova Constituição, que se anunciava capaz de reverter mais de 500 anos de história de negligência, tirania, crueldade e injustiças diver- sas. A pauta da universalidade de direitos, do abandono das práticas clientelistas, assistencialistas e reducionistas, da ampliação do sistema previdenciário, da criação da transparência, da organização descentra- lizada e, entre outras demandas, da partilha dos espaços decisórios to- maram conta da nação. Contudo, como vimos anteriormente, o sonho foi interrompido, visto que, na contramão da cobertura de direitos preconizados pela Constituição de 1988, o Estado brasileiro iniciou a implantação de um A seguridade social foi mencionada pela primeira vez na Constituição Federal de 1988 como o conjunto de direitos prioritários a serem garantidos aos cidadãos brasileiros. Alguns desses direitos são os serviços voltados à saúde, à previdência social contributiva e à assistência social, para quem dela precisar, o que configura um novo entendi- mento e uma nova organização do sistema de proteção social brasileiro. Curiosidade O Serviço Social e os movimentos sociais 111 conjunto de medidas reformistas, voltadas à organização do país com vistas a efetivar as estratégias expansionistas neoliberais. Essas medi- das, em suma, objetivavam empoderar o capital internacional e, para tal, reduzir o investimento no social. Desse modo, efetivou-se o contra-ataque das elites políticas e econô- micas, o que culminou na não implementação de muitos dos elementos constituintes do novo sistema de proteção social brasileiro. Esse proces- so se deu por meio de significativos cortes orçamentários, do desvio dos recursos anteriormente previstos para a implantação da seguridade so- cial e da terceirização de serviços públicos essenciais, encaminhamentos que, dentro outros, progressivamente transfiguraram o que se propu- nha na Carta Magna. Esse contexto de reformas que demarcam o man- do e o desmando das elites dominantes avança e, paralelamente, leva à regressão dos direitos sociais, bem como dos direitos civis e políticos. É uma rede de poderes muito bem articulada, que vende a ideia da ampliação de políticas emergenciais e desmonta as políticas de caráter permanente. Como grupo dominante, cria tendências e setores para desresponsabilizar o Estado por meio do desvirtuamento da concep- ção de direito para o entendimento de ajuda. Em suma, vislumbra e trabalha em prol da despolitização geral dos trabalhadores e das desi- gualdades sociais, de modo a materializar o ideário neoliberal em to- dos os âmbitos da esfera estatal (MOTTA, 2006). Assim, caracteriza-se o campo de atuação do Serviço Social, principal- mente com relação às políticas de Estado, da década de 1990 aos dias atuais. Uma “máquina” que nunca paralisa e continua a inovar em estra- tégias voltadas ao desmonte de direitos fundamentais. Campo minado que, na atualidade, aloca o Serviço Social em uma via de mão dupla, visto que, na mesma medida em que atua na linha de frente da implantação e da manutenção dos direitos sociais, é chamado a efetivar o projeto neo- liberal, dado que o Estado é o principal agente contratante da categoria. O chamado neoliberal se materializa na execução de políticas emer- genciais e reducionistas, bem como de projetos e ações voltados a manter a população sob controle diante das mazelas cotidianas. Para o capital, o que interessa é a supressão da miséria, e não a erradicação da pobreza, visto que pobres, enquanto consumidores, sustentam o capital. O que prevalece no ideário neoliberal é a criação de medidasque mantenham a raiz dos problemas sociais. Para tal, a burguesia avança 112 Classes e movimentos sociais para dentro da organização estatal, a fim de ocupar os espaços de po- der que lhes garantem a legitimidade necessária para engendrar a per- petuação do lugar de pobre e de despolitizada à classe trabalhadora. Na mesma linha de uso da máquina do Estado brasileiro, as eli- tes designam o Serviço Social para reprodução da pobreza, seja por meio da entrega de cestas básicas para acalmar a fome imediata, a fim de que a indignação não resulte em atos de contestação da ordem vigente, seja na seleção dos mais miseráveis para a repro- dução dos sistemas burocráticos que os distanciam do acesso aos reclames sociais de que têm direito. Dito de outro modo, a atuação do Serviço Social se materializa em campos cada vez mais adversos, pois, para além das muitas formas de expressão da questão social com que se deparam cotidianamente, sem que disponham dos mecanismos adequados frente à garantia de direitos, há também o fato de que atuam em equipes insuficientes e em espaços inapropriados. Assistentes sociais são trabalhadores assalariados, que resistem no enfrentamento das desigualdades sociais. Profissionais que se diversi- ficam por meio de estratégias criativas para responder às demandas que lhes são encaminhadas, que se desdobram em meio às adversi- dades constituintes de seus espaços de trabalho, fortalecidos por um compromisso ético-político que cada vez menos encontra, na esfera estatal, “terreno fértil para plantio” de esperança. Trata-se de profissionais que, mesmo diante de tantas contradi- ções, mantêm-se na resistência dos princípios que regem a profissão com a qual assumiram compromisso. Assim, fazem uso de toda e qual- quer oportunidade em prol de favorecer avanços e transformações nas condições de vida dos usuários que passam pelos mecanismos onde atuam. Nesse sentido, desempenham esforços voltados à construção de processos socioeducativos para orientar e conduzir os sujeitos rumo ao acesso de seus direitos, segundo a necessidade de cada um de- les. Dedicam-se a criar encaminhamentos que possibilitem a eman- cipação humana, o fortalecimento da participação e da organização política e, principalmente, o desvelamento da ordem capitalista, no sentido de se posicionarem e, na mesma medida, incentivarem a população a também fazê-lo. O Serviço Social e os movimentos sociais 113 Atuando em organizações públicas e privadas dos quadros do- minantes da sociedade, cujo campo é a prestação de serviços sociais, o Assistente Social exerce uma ação eminentemente “educativa”, “organizativa”, nas classes trabalhadoras. Seu obje- tivo é transformar a maneira de ver, de agir, de se comportar e de sentir dos indivíduos em sua inserção na sociedade. Essa ação incide, portanto, sobre o modo de viver e de pensar dos traba- lhadores, a partir de 10 situações vivenciadas no seu cotidiano, embora se realize através da prestação de serviços sociais, pre- vistos e efetivados pelas entidades a que o profissional se vincula contratualmente. (IAMAMOTO, 2007, p. 40) É nesse contexto que o Serviço Social resiste enquanto profissão que se orienta pelo seu código de ética profissional, a fim de materializar seus princípios e diretrizes, de modo que possam captar, no cotidiano de atuação, meios viáveis para efetivar os direitos sociais e ampliá-los. Cien- tes de que se trata de uma caminhada complexa, processual e permeada de duros enfrentamentos, esses profissionais seguem no exercício de apreender a realidade para além do que ela aparenta. Os movimentos sociais, nesse sentido, são grandes aliados, dado que representam os sujeitos que vivenciam cotidianamente injustiças diversas e mazelas sociais, que somente por eles podem ser explicita- das na sua complexidade. Vivências que historicamente os acometem, tornando-os, portanto, especialistas no que se refere às resultantes da questão social. Ao Serviço Social, cabe apreender essas vivências em sua realidade concreta para captar as reais possibilidades de mudança, ou seja, de transformação da realidade vivida. Para isso, dispõe de atribuições privativas e competências construí- das com base em uma profissão centenária, que privilegiadamente oriunda e permanece atuando com vistas a construir respostas às desi- gualdades sociais. Um trabalho de extrema complexidade, que encon- tra nas políticas sociais públicas, bem como nos espaços de atuação na esfera privada, vias de conquista de direitos, para que as populações empobrecidas, negligenciadas e/ou excluídas possam tomar consciên- cia de classe e, portanto, materializar seus campos de luta. Essa prática se faz possível nos detalhes da atuação profissional cotidiana, visto que, embora se tenha ciência de que, nas sociedades capitalistas, o Estado se configure enquanto instrumento de efetivação dos interesses dos grupos dominantes, ou seja, das elites políticas e econômicas, também é instituição que se revela campo de cobertura Para compreender melhor a trajetória da profissão, indicamos assistir ao vídeo Serviço Social no Brasil – 80 anos de história, ousadia e lutas, publicado pelo canal Cortez Editora. Nele, é feita uma análise crítica a respeito das diferentes perspectivas do Serviço Social. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=qExDNXsdy2A. Acesso em: 22 jun. 2020. Vídeo 114 Classes e movimentos sociais dos interesses da classe trabalhadora. O Estado é, em si, a área onde se mostram as contradições manifestadas pela luta de classes. De acordo com Poulantzas (1977), no espaço do Estado, manifes- tam-se as lutas de classe, os diferentes interesses. Isso caracteriza o campo estatal como área de disputa de poder, ou seja, espaço viável de conquistas da classe trabalhadora, ainda que em menor grau, devido às configurações de sua origem enquanto instituição capitalista. No en- tendimento do autor, esse processo se constitui por meio da unidade própria de poder institucionalizado do Estado capitalista. A classe ou fração hegemônica polariza os interesses contradi- tórios específicos das diversas classes ou frações no bloco no poder, constituindo os seus interesses econômicos em interes- ses políticos, representando o interesse geral comum das clas- ses ou frações do bloco no poder: interesse geral que consiste na exploração econômica e na dominação política [...]. O pro- cesso de constituição da hegemonia de uma classe ou fração difere quando essa hegemonia se exerce sobre as outras clas- ses e frações dominantes – bloco no poder –, ou sobre o con- junto de uma formação, inclusive sobre as classes dominadas. (POULANTZAS, 1977, p. 233-234) Nesse sentido, a organização do trabalho se realiza na relação di- reta com os usuários das políticas públicas, no empoderamento das lideranças comunitárias, na disseminação de informações sobre o fun- cionamento do Estado, principalmente acerca das mais variadas for- mas de acesso a reclames sociais, bem como no planejamento e no acompanhamento minucioso da construção dos espaços de participa- ção da população, enquanto representações da sociedade civil organi- zada. Também se realiza por meio dos espaços de gestão das políticas sociais, lugar de poder mais ampliado devido às possibilidades de re- querimento de serviços e mecanismos sociais. Cabe considerar que uma das principais problemáticas da atualida- de com relação ao Serviço Social e aos movimentos sociais se localiza no fato de que, embora a relação da profissão com os movimentos sociais seja oriunda do passado, no presente, essa relação se faz notar mais distanciada. É um processo elaborado pelo ideário capitalista, seja por meio dos desmontes de direitos institucionalizados nos últimos tempos, pelas precárias condições de trabalho dos profissionais, seja por meio das estratégias de desmobilização, estratificação e vulgariza- O Serviço Social e os movimentos sociais 115 ção da organização dos trabalhadores, que cada vezmais os afasta de construir movimentos de unificação. Portanto, enfatizamos que a relação do Serviço Social com os mo- vimentos sociais deve ser íntima, permanente e estruturalmente ar- ticulada, visto que, na esfera da construção das políticas públicas, permanecem os espaços conquistados pela Constituição Cidadã. Essa conexão se faz indispensável à manutenção da hegemonia dos princí- pios que regem o projeto ético-político do Serviço Social. No nosso entendimento, a efetiva intervenção da profissão diante da realidade social depende dessa aliança. Primeiramente porque os mo- vimentos sociais carregam as pautas atualizadas das condições de vida que estão ocultas na aparência da realidade social e, depois, porque a história social dos povos comprova que é somente por meio da força coletiva que se torna possível construir novas organizações estruturais. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Serviço Social é uma profissão crítica e eticamente comprometida com a luta pelo enfrentamento da desigualdade social. Desde a sua ori- gem, a profissão se pauta como categoria não conformada com as desi- gualdades e, ainda que, no período do seu surgimento, não tivesse uma postura crítica, já nasce para intervir no social. Trata-se de uma profissão que acumula experiências centenárias e que tem, em toda a sua trajetória constitutiva, uma estreita relação com os movimentos sociais latino-americanos. Nesse sentido, a profissão tem uma natureza interventiva inegável e um compromisso peculiar com a mudança social, que são mais antigos do que os próprios instrumentos que criou para tal. Nesse ínterim, os movimentos sociais são, para o Serviço Social, ori- gem, meio e fim. Não há razão de ser para a profissão se não for para atuar no fortalecimento da organização social e política dos sujeitos, a fim de que, cientes de seu lugar de classe, unam-se aos seus iguais e, juntos, construam um novo projeto de sociedade, no qual, no mínimo, sejam re- duzidas as extremas desigualdades. Desse modo, os movimentos sociais devem encontrar no Serviço So- cial apoio, acolhimento, fomento, suporte, orientação, capacitação e sus- tentação para a construção dos caminhos que lhes são necessários, com vistas à efetivação de processos emancipatórios. 116 Classes e movimentos sociais ATIVIDADES 1. O debate sobre o projeto ético-político do Serviço Social remete ao entendimento da natureza das intencionalidades dos profissionais da área com relação ao tipo de orga- nização social que vislumbram poder desenvolver com suas atividades. Apresente ao menos duas características do projeto ético-político do Serviço Social. 2. No Serviço Social, o debate da ética também é um debate político, visto que, na visão da categoria profissional, ambas as dimensões estão conectadas no que diz respeito à estrutura social. Explicite ao menos três dos princípios prescritos aos assistentes sociais em seu Código de Ética Profissional, enquanto suporte para suas atuações. 3. Uma das dimensões mais importantes da atuação do Serviço Social é a educativa, visto que constrói meios para que os sujeitos sociais possam se constituir enquanto agentes de transformação da sua própria história. Assim, os assistentes sociais criam estratégias, instrumentos e técnicas voltados a inserir pensares e mudanças, no que diz respeito ao modo de viver e ser em sociedade. Processo este que se faz necessário para o enfrentamento das mazelas sociais criadas pela questão social. Tendo em vista o contexto, explique o conceito de questão social. REFERÊNCIAS ABRAMIDES, M. B. et al. Relatório do Grupo de Trabalho Serviço Social e Movimentos Sociais. XV Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social – ENPESS: Formação e Trabalho Profissional: Reafirmando as diretrizes curriculares da ABEPSS. Anais [...], São Paulo, 4 a 9 de dezembro de 2016. Disponível em: http://www.abepss.org.br/arquivos/ anexos/relatorio-mov-sociais-coloquio-do-xv-enpess-2016-201810081142335331990.pdf. Acesso em: 22 jun. 2020. AVILLA, L. S. Projeto Ético-político brasileiro e o trabalho profissional. II Seminário Nacional de Serviço Social, Trabalho e Políticas Sociais, Universidade Federal de Santa Catarina , Anais [...], Florianópolis, 23 a 25 de outubro de 2017. Disponível em: https://repositorio. ufsc.br/bitstream/handle/123456789/180160/102_00233.pdf?s. Acesso em: 22 jun. 2020. CFESS – Conselho Federal de Assistência Social. Código de Ética do/a Assistente Social – Lei n. 8.662/93 de Regulamentação da Profissão. 10. ed. Brasília: CFESS, 2012. Disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf Acesso em: 22 jun. 2020. DURIGUETTO, M. L. A questão dos intelectuais em Gramsci. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 118, p. 265-293, abr./jun. 2014. IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na contemporaneidade: dimensões históricas, teóricas e ético-políticas. Fortaleza: CRESS-CE, Debate n. 6, 1997. IAMAMOTO, M. V. Renovação e conservadorismo no serviço social. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2007. MATOS, M. C. Assessoria e consultoria: reflexões para o Serviço Social. In: MATOS, M. C.; BRAVO, M. I. S. (orgs.). Assessoria, Consultoria & Serviço Social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2010. MORO, M. D.; MARQUES, M. G. A relação do Serviço social com os movimentos sociais na contemporaneidade. Temporalis, Brasília (DF), ano 11, n. 21, p. 13-47, jan./jun. 2011. MOTTA, A. E. Seguridade Social Brasileira: Desenvolvimento Histórico e Tendências Recentes. In: Saúde e Serviço social: formação e trabalho profissional, 2006. Disponível em: http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/texto1-2.pdf. Acesso em: 22 jun. 2020. NETTO, J. P. A construção do projeto ético político contemporâneo. In: Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo 1. Brasília: CEAD/ABEPSS/CFESS, 1999. POULANTZAS, N. As transformações atuais do Estado, crise política e a crise do Estado. In: O Estado em crise. Rio de Janeiro: Graal, 1977. Gabarito 117 GABARITO 1 A construção sócio-histórica dos movimentos sociais 1. A instituição que exerce um dos principais papéis no que diz respeito à manutenção do sistema capitalista é o Estado, visto que, desde o seu surgimento, ele esteve atrelado à necessidade das elites de resguardarem seus patrimônios, de modo que não estivessem em constante alerta de guerra. Desse modo, o Estado, enquanto instituição social, econômica e política, teria como premissa o julgamento das liberdades individuais e coletivas por meio de uma nova organização jurídica. O modelo de Estado Nacional é o que melhor funciona para assegurar as propriedades e o poderio das classes dominantes, pois elas encontram na estrutura do Estado um lugar garantido para a execução de suas estratégias. 2. O conceito de cidadania se originou na Grécia Antiga, na cidade de Atenas, há aproximadamente oito séculos a.C. Sua origem está relacionada à “ideia de Pólis, uma espécie de cidade autônoma, independente e soberana que era governada, em última instância, por uma Assembleia de Cidadãos (politai)” (GONZALEZ, 2010, p. 10). Logo, a ideia de ser cidadão está associada a ser um homem livre, com o direito à participação nos debates e nas decisões que permeiam a cidade. 3. Movimento social diz respeito a coletivos de muitos ou de poucos sujeitos, que se aproximam e permanecem unidos por uma identidade social, questionam a estrutura social vigente, constroem projetos de sociedade segundo o que acreditam ser mais justo. Organizam-se coletivamente e, por meio de ações sociais, expressam na sociedade modos de ver o mundo e reivindicam politicamente respostas às demandas que lhes são pertencentes (majoritariamente, lutam por condições adequadas de vida). Trata-se também de grupos que geram inovações e uma identidade coletiva. Segundo Gohn (2000, p. 13), “os movimentos sociais são, portanto, mais que ações coletivas construídas por sujeitos ativistas. Suas ações estruturam-se a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de conflitos, litígiose disputas”. 118 Classes e movimentos sociais 2 Movimentos sociais e perspectivas teóricas 1. Os teóricos marxistas chamam a atenção para a ausência do debate da internacionalização do capital nas análises teóricas pós- modernas, visto que, na visão dos autores da tradição marxista, essa fase do capitalismo instaurou processos de insegurança que resultaram na desmobilização e na desarticulação dos trabalhadores. Principalmente porque alterou, de modo ofensivo, as bases de funcionamento dos meios de produção, alocando os trabalhadores em novas condições exploratórias. 2. Reconfiguração do Movimento Indígena, fortalecimento e reorganização do Movimento Negro, fortalecimento do Movimento Feminista, surgimento do Movimento LGBTTIQ+, surgimento de Movimentos Sociais Urbanos, articulação internacional dos Movimentos do Campo, surgimento dos Movimentos Globais, bem como a ampliação da visibilidade de alguns grupos (deficientes, idosos, crianças e adolescentes). 3. Materialismo histórico-dialético é a teoria de Karl Marx sobre o funcionamento da vida social na ótica das sociedades capitalistas. Trata-se de uma explicação que faz referência à dinâmica da vida, no que diz respeito a um curso contraditório que tem como resultado múltiplas relações de desigualdade social, e que emerge a partir de uma lógica exploratória cuja premissa é a acumulação de riqueza e poder para um determinado grupo da sociedade. Marx oferece elementos, caminhos que proporcionam melhores análises do campo social e das conjunturas relacionadas às desigualdades sociais, trazendo como principais categorias explicativas: a dialética, a historicidade dos fenômenos sociais e a sua materialidade no campo da vida. 3 A construção do sujeito político na sociedade de classes 1. A principal contradição é o fato de que, apesar de todos os grupos da sociedade contribuírem para a produção da riqueza do país, apenas um grupo minoritário se apropria dela (capitalistas). Aos demais, designa-se a sujeição social a diferentes níveis de insegurança, provocados pelas condições em que vivem os sujeitos. A principal contradição se localiza no fato de que a desigualdade social resulta dos processos exploratórios instituídos por um humano sobre outro Gabarito 119 ser humano, a fim de garantir a poucos a apropriação dos lucros do que é produzido pela maioria da sociedade. 2. O proletariado e a burguesia constituem as classes fundamentais porque, no sistema capitalista, as principais disputas ocorrem entre eles. Os proletários são os grupos que vivem em condição de pauperismo, com o sentimento de insegurança e o afastamento das condições de aprimoramento enquanto seres social. Já a burguesia é constituída pelos grupos conservadores, uma minoria muito distinta que, por deter poderes econômicos e políticos, tem sido a precursora da injustiça social. A classe média constitui a classe transitória, constituída de sujeitos que receiam retornar à condição de proletários que ocuparam ou de que emergiram e, portanto, desenvolvem um tipo de rejeição, a qual os cega a ponto de passarem a se perceber como elites, ainda que, na realidade, não controlem nada. 3. Muitos são os fatores que têm resultado na descrença da população brasileira com relação ao modo de se fazer política. As práticas partidárias de agenciamento dos atores políticos, as corrupções empregadas por suas lideranças e as incansáveis negociações para a manutenção de poder, a qualquer custo, têm exaurido a população, que não ocupa lugar de militância e ação política direta, decepcionando também a nova geração dos sujeitos políticos da internet. Conjunto de descréditos que tem conduzido as últimas gerações a exercitarem novos modos de se pensar e fazer política. 4 Os movimentos sociais contemporâneos 1. As medidas macroeconômicas implementadas pela máquina estatal, em suma, são voltadas à expansão do mercado internacional, o que ocorre por meio da exploração de recursos naturais e humanos de países tidos como periféricos, como o Brasil. Para tal, as elites políticas e econômicas mundiais fazem uso da máquina estatal e, por meio dela, instituem ações com vistas à redução de direitos trabalhistas e ao desmonte do sistema de seguridade social com cortes de investimentos sociais públicos, a fim de redirecionar os investimentos para o setor econômico. Por meio de emendas, flexibilizam e desregulamentam as leis de proteção ambiental para instituir processos exploratórios sem punição, naturalizando a pobreza, reduzindo o leque de políticas públicas a políticas de caráter emergencial e desqualificando a efetividade do serviço público, em prol de promover a privatização e 120 Classes e movimentos sociais terceirização das responsabilidades estatais. Costuram essas medidas por meio de relações pautadas no clientelismo e no mandonismo. 2. A estigmatização e a criminalização dos movimentos sociais têm sido as principais estratégias de contenção da força da organização popular, visto que são práticas instituídas por meio de um conjunto de elementos sociais, morais, econômicos, políticos e culturais que criam ideias e valores equivocados sobre os grupos organizados para o enfrentamento da hegemonia vigente. 3. Os movimentos sociais enfrentam desafios diversos, como a ausência de oportunidades de acesso a processos educacionais que os instrumentem adequadamente para potencializar sua organização e/ou a falta de recursos essenciais (renda, alimentação, moradia, deslocamento e produção de materiais, meios para garantir a defesa dos integrantes criminalizados) e de valorização social pelo importante papel que desempenham na sociedade. Contudo, por meio de aprendizados coletivos, constroem novos saberes e instrumentos que garantem sua permanência no campo de luta, por exemplo, o aperfeiçoamento técnico e acadêmico, a instrumentalização ante os mecanismos e as burocracias estatais, bem como o uso da conexão em rede, tanto no campo físico quanto no virtual. 5 O Serviço Social e os movimentos sociais 1. O projeto ético-político do Serviço Social é construído sobre o debate de uma ética em consonância com a política, o que significa não ser neutro, ou seja, está voltado a efetivar os interesses de um determinado grupo da sociedade, no caso, da classe trabalhadora. Outra característica muito relevante é o fato de que os trabalhadores ocupam a centralidade do projeto, no sentido de que as ações da profissão têm como orientação proporcionar aos trabalhadores possibilidades efetivas de construção de liberdade e de emancipação. 2. Conforme prescrito no Código de Ética do Serviço Social de 1993, os profissionais da área devem atuar segundo onze princípios fundamentais: I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa pri- mordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; Gabarito 121 IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socializa- ção da participação política e da riqueza socialmente produzida; V. Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que asse- gure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática. VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, in- centivando o respeito à diversidade, à participação de grupos so- cialmente discriminados e à discussão das diferenças; VII. Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profis- sionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual; VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação,ex- ploração de classe, etnia e gênero; IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissio- nais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as trabalhadores/as; X. Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à popula- ção e com o aprimoramento intelectual, na perspectiva da com- petência profissional; XI. Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discri- minar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física. (CFESS, 2012, p. 23-24) 3. A questão social é a categoria explicativa, ou seja, a denominação que simboliza a relação contraditória existente entre o capital e os trabalhadores. Trata-se de uma relação de conflitos e tensões que se estabelece e se complexifica, visto que, na sociedade capitalista, todo bem e serviço existente é produzido, de modo conjunto, pelas duas diferentes classes, contudo, apenas uma delas toma para si os frutos do trabalho realizado. Essa relação gera desigualdades sociais extremas, que resultam em problemáticas sociais de variadas formas, como a extrema pobreza, o desemprego, a violência etc. CLASSES E MOVIMENTOS SOCIAIS MIRIAN CRISTINA LOPES Código Logístico 59263 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6604-9 9 7 8 8 5 3 8 7 6 6 0 4 9 Página em branco Página em branco