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Prévia do material em texto

PhD. Luiz Figueira Pinto
&
PhD. Saulo Andrade Caldas
 
 
Obstetrícia Veterinária
 
 
 
 
Rio de Janeiro
2016
 
 
 
 
Prefácio
 
A Obstetrícia Veterinária é uma especialidade Médica Veterinária
reconhecida, ramo da Clínica Cirúrgica Veterinária, e com campos de
atuação bem definidas na criação e exploração dos animais domésticos. O
caráter preventivo e curativo da especialidade obstétrica colabora para
manutenção de manejos sanitários e nutricionais adequados das fêmeas em
idade reprodutiva.
Na grade curricular do curso de graduação em Medicina Veterinária
da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) a disciplina de
Obstetrícia Veterinária ocupa um lugar de destaque, seja por complementar
a formação clínica cirúrgica e a de fisiopatologia da reprodução quanto por
favorecer a profissionalização dos alunos do curso de Medicina
Veterinária. Isto pode ser constatado ao se verificar a grande casuística da
rotina do Serviço de Obstetrícia no Hospital Veterinário e dos
atendimentos às fêmeas gestantes e parturientes da Fazenda Universitária
da UFRRJ.
Esta obra contempla todo o conteúdo abordado na disciplina de
Obstetrícia Veterinária onde o aluno encontrará os principais temas
obstétricos veterinários com informações e referencias bibliográficas
atualizadas, além de um roteiro de estudos para exercícios.
 
 
Rio de Janeiro
2016
 
 
Luiz Figueira Pinto
Saulo Andrade Caldas
 
 
Prefácio
Índice
A Obstetrícia Veterinária
A pélvis óssea
Pelvimetria
O aparelho reprodutor feminino
Mastologia Veterinária
Anexos do embrião e do feto
Placentas
Circulação sanguínea fetal e neonatal
Aspectos clínicos e fisiológicos da gestação
Aspectos clínicos e fisiológicos do parto e do puerpério
Cesariana
Patologias da gestação
Distocias nos animais domésticos
Distocias fetais
Distocias maternas
Puerpério patológico
Cuidados com o recém-nato
Fetotomia.
A Obstetrícia Veterinária
 
A Obstetrícia tem esta denominação em homenagem às parteiras em
sua ação hábil de assistência ao parto. A raiz da palavra é de origem grega
(obstetrix = estar à frente) e se refere à sua posição em relação à parturiente e
à sua habilidade. O termo Tocologia (do latim tocus = parto) é uma
sinonímia também empregada e que dá origem a diversos termos utilizados
como jargão profissional na especialidade, por exemplo: eutocia, distocia,
ocitocina, etc..
A Obstetrícia Veterinária é uma área de conhecimento que abrange a
clínica médica e cirúrgica, além da fisiopatologia da reprodução animal. A
sua finalidade é o estudo dos fenômenos fisiológicos e patológicos de fases
especiais na vida da fêmea, como a gravidez, o parto e o puerpério, a fim de
garantir a saúde da gestante e de sua prole.
Em medicina veterinária a obstetrícia assume grande importância
devido a ocorrência freqüente de distúrbios da reprodução animal que
comprometem a evolução da gestação e o curso natural do parto, seja nos
animais de companhia ou nos animais de produção.
A prática obstétrica veterinária se apóia no adequado conhecimento
da anatomia descritiva e topográfica da pélvis, assim como dos processos
fisiológicos que regulam a evolução da gestação e do parto. Além disto,
compete ao obstetra veterinário orientar e identificar a adoção de adequado
manejo nutricional e sanitário como parte dos cuidados pré-nupciais e pré-
natais. O perfeito domínio deste conhecimento básico permite ao tocólogo
compreender a origem de certas distocias maternas e fetais e proceder às
manobras cirúrgicas e obstétricas adequadas, com as melhores condições de
preservação das estruturas moles do canal do nascimento e do corpo do feto.
Isto contribui para a manutenção da vida e o retorno ao estado de saúde, tanto
da parturiente quanto do produto. Dessa forma, o obstetra estará atuando de
acordo com as premissas máximas da propedêutica médica, as quais são:
Primum non nocere (em primeiro lugar, não causar o mal), “abster-se do
impossível” e “quando o fizeres faça o da melhor maneira”, enunciadas por
Hipócrates.
 
 
A pélvis óssea
 
A anatomia obstétrica veterinária compreende o estudo da pélvis, das
glândulas mamárias, da circulação fetal, dos anexos embrionários e fetais, e
do cordão umbilical (Quadro 1), por se constituírem locais de importância
clínica e cirúrgica durante a gestação e o parto.
A pélvis óssea no sentido tocológico é o cinturão pélvico que rodeia
parcialmente a cavidade pélvica. É a parte menos flexível da pélvis, mas que
permite certa ampliação no momento do parto (Figuras 1 e 2).
Durante o parto o sacro se desvia algo para cima e os ângulos internos
do ílio se afastam ocorrendo ampliação nos diâmetros vertical e transversal
do canal do nascimento. Quanto mais curto e móvel se apresentar o sacro
mais fácil será o parto.
 
 
 
 
Figura 1. Pélvis óssea bovina. Vista cranial.
Observa-se ainda que no momento do parto há um aumento do
diâmetro da via fetal e uma diminuição do volume do feto, principalmente do
volume cefálico nos primatas, por apresentarem as suturas cranianas que
permitem a compressão do crânio sem prejuízo funcional das estruturas
nervosas.
 
Figura 2. Pélvis óssea bovina. Vista caudal.
 
Osso Ílio
O Ílio é um osso par e irregularmente triangular que apresenta duas
faces, a dorsal e ventral; três bordos, o anterior, o medial e o esterno; e três
ângulos, o interno, o externo e o acetabular. Estas estruturas constituem o
corpo e a asa do ílio (Figura 3).
A face dorsal do Ílio é côncava e constitui a superfície glútea do
ilíaco, onde se inserem os músculos glúteos e dorsais. Apresenta ainda a linha
glútea, que é proeminente na vaca, e que em seu bordo interno se continua
com a espinha isquiática.
A face ventral do Ílio é convexa, sendo denominada de face pélvica.
Apresenta sulcos produzidos pelos vasos e nervos obturadores. Possui uma
parte triangular, rugosa, e que serve de inserção ligamentar; e outra
quadrangular, onde se localiza a linha iliopectínea, por onde correm os vasos
ílio-femurais; e o tubérculo do Psoas, onde se inserem os tendões dos
músculos psoas menor.
 
Figura 3. Osso Íleo. Face dorsal.
O bordo anterior do Ílio é côncavo, grosso e rugoso, serve de apoio
ligamentar para os músculos dorsais, e é denominado de crista do ilíaco. O
bordo medial é côncavo e apresenta a escotadura ciática maior e a espinha
isquiática. E, o bordo esterno é côncavo e rugoso e apresenta um sulco para
os vasos iliolombares.
O ângulo interno do Ílio constitui a porção medial da asa do ílio, e se
denomina de tuberosidade sacral. O Ílio se articula ventro-medialmente com
o Sacro formando a articulação sacro-ilíaca, de grande importância no parto.
O ângulo externo do Ílio é rugoso devido às inserções musculares.
Constitui a porção lateral da asa do Ílio formando a tuberosidade coxal.
O ângulo acetabular pertence ao corpo do Ílio e forma 2/5 do
acetábulo, onde se une ao Ísquio e ao Púbis.
A avaliação obstétrica da pélvis se inicia com a inspeção clínica do
animal em procura de simetria entre as tuberosidades coxais do ílio, a fim de
descartar lesão óssea e irregularidades no canal do nascimento. Neste aspecto
verifica-se que os eqüinos apresentam mais comumente lesão no ângulo
esterno do íÍio provocada por quedas. E, no exame obstétrico do canal do
nascimento, por meio de palpação vaginal, se pesquisa na região acetabular a
presença de irregularidades ósseas, por se constituir em uma região mais
susceptível às fraturas ósseas. A presença de calo ósseo na região do corpo
do ílio próximo ao acetábulo resulta em assimetria e diminuição do diâmetro
do canal do nascimento, o que constitui em obstáculo à passagem do feto
durante o parto vaginal.
 
Osso Ísquio
O osso Ísquio é um osso par e quadrangular que forma a parte caudal
do piso ventral da pélvis. Apresenta duas faces, quatro bordos e quatro
ângulos (Figura 4).
A face pelviana é lisa e côncava nas fêmeas, enquanto que a face
ventral é rugosa e serve de apoio para a inserção dos músculos adutores dos
membros posteriores.
 
Figura 4.Piso ventral da pélvis. Face pelviana.
 
O bordo anterior do osso Ísquio constitui o rebordo posterior do
buraco obturador, que se completa com o osso púbis. O bordo posterior
forma o arco isquiático, que pode ser avaliado por inspeção e palpação
externa quando de um exame obstétrico. Serve de referencial anatômico e
topográfico quando de uma cirurgia corretiva de anaplastia vulvar.
O bordo lateral do Ísquio apresenta a escotadura ciática menor, que se
une a escotadura ciática maior do ílio e serve de apoio para a inserção do
ligamento ciático.
O bordo medial do ísquio forma a sínfise isquiática com o seu
homólogo e que se continua com a sínfise pubiana formando a sínfise
pélvica.
O ângulo ântero–interno do Ísquio se denomina ramo sinfisário e se
articula com o púbis, e o ângulo ântero–externo se denomina ramo acetabular
e apresenta a espinha isquiática, que é proeminente na vaca e na porca.
O ângulo posterior-interno do Ísquio se une com o ísquio homólogo,
enquanto o ângulo posterior-externo forma a tuberosidade isquiática. 
 
Osso Púbis
É o menor dos ossos da pélvis e forma a parte cranial do assoalho
pélvico (Figura 4). Em sua descrição encontram-se duas faces, pélvica e
ventral; três bordos, anterior, medial e posterior; e quatro ângulos, medial,
acetabular e posterior.
A face pelviana do Púbis é lisa e côncava nas fêmeas. Na vaca jovem
pode haver uma tuberosidade pronunciada na parte cranial da sínfise púbica,
o que pode ser causa de contusão ou laceração das partes moles do canal do
nascimento, em uma distocia. A face ventral é convexa e rugosa, onde se
inserem ligamentos. Encontra-se nesta região o sulco púbico que aloja o
plexo vásculo-nervoso oriundo do buraco obturador.
No bordo anterior do Púbis encontra-se a eminência iliopectínea, que
serve de apoio para o músculo pectíneo, e o tubérculo púbico que serve de
inserção para os músculos abdominais e o ligamento mediano do úbere. O
bordo medial, denominado sínfise púbica, constitui a porção cranial da sínfise
púbica, que se articula com o púbis oposto. E, o bordo posterior constitui o
rebordo anterior do buraco obturador, que se completa com o osso ísquio.
Os ângulos púbicos internos do Púbis formam os ramos púbicos
sinfisários e os ângulos externos formam o ramo acetabular e o ramo
isquiático.
 
Acetábulo
É uma cavidade cotilóide que aloja a cabeça do fêmur, formando a
articulação coxofemoral (Figura 5). O Acetábulo é formado pela fusão do
ângulo acetabular do Ílio, ângulo ântero–externo do Ísquio e o ramo
acetabular do Púbis. Geralmente estão presentes nesta articulação os
ligamentos transverso, redondo e acessório, que promovem a inserção da
cabeça femural na cavidade acetabular. Nos bovinos pode não haver qualquer
ligamento ou estar presente apenas o ligamento redondo.
Figura 5. Vista lateral da pélvis e do acetábulo.
 
Buraco obturador
Acidente anatômico localizado no assoalho da pélvis e constituído
pela união da borda posterior do Púbis com a borda anterior do Ísquio (Figura
6). Encontra-se preenchido pelos músculos obturadores internos e externos e
dá passagem a um complexo vásculo-nervoso (artéria, veia e nervo
obturadores).
 
Figura 6. Face pelviana do assoalho pélvico. Buraco obturador.
 
Sacro
É uma unidade óssea constituída pela fusão de cinco vértebras
(Figuras 7 e 8). A sua forma de crucifixo lhe gerou a denominação (sacro=
sagrado).
Em sua face dorsal, o osso Sacro forma a espinha sacral, formada pela
fusão das apófises espinhosas das vértebras sacrais fusionadas. Os bordos
laterais formam a asa do Sacro, formada pela fusão das apófises transversas
das vértebras sacrais.
Na porção ventral do bordo anterior do osso Sacro, que corresponde à
primeira vértebra sacral, encontra-se o Promontório. Este é um ponto de
referencia importante em pelvimetria e pode se constituir em um obstáculo
para o parto, por contribuir na diminuição do diâmetro da abertura de entrada
do canal do nascimento.
 
Figura 7. Osso Sacro. Face pelviana.
 
Figura 8. Osso Sacro. Face dorsal
 
Diferenças entre as pélvis masculinas e femininas
O diâmetro de entrada é menor nos machos;
O arco isquiático é mais estreito nos machos;
A cavidade pélvica é menor nos machos;
A sínfise pélvica é sinestosada nos machos;
A porção cranial do assoalho pélvico é convexo nos machos e côncavo
nas fêmeas.
 
Causas de luxação coxofemoral na vaca na hora do parto
a) Acetábulo raso;
b) Falta de musculatura dos membros posteriores potente;
c) Pode faltar o ligamento redondo, que é fraco e pequeno quando existe;
d) Andar peculiar jogando as pernas;
e) Falta do ligamento acessório do redondo.
 
Articulações da Pélvis
 Articulação sacro–ilíaca
É uma diartrose entre as asas do osso Sacro e as tuberosidades sacrais
do osso Ílio. Esta articulação tem a finalidade de oferecer estabilidade à
pélvis e certa mobilidade articular na hora do parto.
É de grande importância para a dilatação do canal do nascimento no
parto, seja quando da passagem do feto com a parturiente em estação, ou
quando a parturiente se coloca em decúbito e apóia a tuberosidade coxal do
osso Ílio de encontro ao solo, o que permite a mobilidade do Ílio oposto.
 Articulação lombo–sacra
É uma articulação formada pela última vértebra lombar e a primeira
vértebra sacral. Local de acesso para o emprego da anestesia epidural em
cabra, porca e cadela., empregada em determinados procedimentos
obstétricos.
 Articulação sacrococcígea
É a articulação entre a ultima vértebra sacral e a primeira vértebra
coccígea. É de grande importância obstétrica para o emprego da anestesia
epidural em vacas e éguas.
 
 
 
 Sínfise ísquio–púbica
É uma articulação sinestosada nos machos, mas que apresenta certa
mobilidade nas fêmeas no momento do parto, o que permite certa ampliação
do assoalho do canal do nascimento, contribuindo para o aumento das
dimensões da pélvis na hora do parto.
 Articulação coxofemoral
É uma diartrose entre o acetábulo e a cabeça femural. A vaca
apresenta uma predisposição à luxação coxofemoral em decorrência da
conformação anatômica da cavidade cotilóide. O acetábulo na vaca é raso, a
musculatura do membro pélvico é fraca e estão ausentes os ligamentos
articulares.
 
Ligamentos pélvicos
Os ligamentos pélvicos complementam a pélvis óssea, mantém a
relação entre a pélvis e a coluna vertebral e auxiliam no trabalho das
articulações, principalmente o da articulação sacro–ilíaca. Compreendem os
ligamentos sacro-ilíacos, com suas porções dorsal, lateral e ventral, o sacro–
isquiático e o tendão pré-púbico.
O ligamento sacro–ilíaco dorsal é uma estrutura ligamentar forte, em
forma de cinta, que se insere na tuberosidade sacral e no vértice da espinha
sacral.
O ligamento sacro–ilíaco lateral forma uma lamina triangular espessa
que se insere na frente da tuberosidade sacral, por cima da escotadura ciática
maior e por baixo no bordo lateral do sacro. Este ligamento se une
dorsalmente ao ligamento sacro–ilíaco dorsal, para proporcionar firmeza e
rigidez à articulação sacro–ilíaca.
O ligamento sacro–ilíaco ventral envolve a articulação sacro–ilíaca
ventralmente e preenche o ângulo entre a asa do osso Sacro e a face ventral
da porção medial do osso Ílio.
O ligamento sacro–isquiático, também denominado sacro–ciático ou
simplesmente ligamento isquiático, se apresenta como uma extensa folha
ligamentar quadrangular que completa a parede lateral da cavidade pélvica, e
forma o arcabouço do canal do nascimento. Este ligamento sofre o processo
de embebimento hormonal no momento do parto, o que proporciona um
relaxamento ligamentar, que iguala o diâmetro da abertura caudal ao da
abertura cranial. Este relaxamento proporciona o aparecimento de um sinal
clínico de proximidade do parto, que é o relaxamento da anca, facilmente
identificado na vaca. Na inserção deste ligamento identificam-se os bordos
dorsal, ventral e posterior. O bordo dorsal é lateral ao sacro e às apófises
transversas das trêsprimeiras vértebras coccígeas. O bordo ventral se insere
na espinha ciática e na tuberosidade isquiática, enquanto o bordo posterior se
fusiona com a cabeça vertebral dos músculos semimembranosos. Nos cães
identifica-se o ligamento sacro-tuberoso, que é uma estrutura forte, formado
pelo espessamento da porção caudal do ligamento isquiático, que se insere
no bordo lateral do osso Sacro e na tuberosidade isquiática.
O tendão pré–púbico é o tendão de inserção dos músculos
abdominais, exceto dos transversos abdominais. È fortemente aderido ao
bordo anterior cranial dos ossos Púbis e bastante desenvolvido na vaca, o que
pode modificar as dimensões da pélvis e dificultar o trabalho de parto.
Nervos pélvicos
A inervação da pélvis é promovida pela ramificação dos nervos
ciático, pudendo obturador e femural.
O nervo ciático ou isquiático é o maior nervo do corpo animal, e é
constituído pelas raízes nervosas de L5, L6, S1 e S2. Emerge pelo forame
ciático maior e segue como uma larga cinta plana e que se fusiona em sua
origem com o nervo glúteo posterior.
O nervo pudendo fornece ramificações para a bexiga, uretra e reto,
com o seu ramo pudendo interno; e para o esfíncter anal, músculo
isquiocavernoso, clitóris e vulva, com o seu ramo pudendo externo. 
O nervo obturador é um nervo motor que inerva os músculos
obturador externo, pectíneo, adutor e a porção reto interna do músculo
quadríceps femural. É o nervo mais vulnerável no momento do parto por se
dispor de encontro à face ventral do osso Ílio e ficar sujeito à compressão
pelo feto em sua passagem pelo canal do nascimento. A ocorrência de
traumas por compressão do nervo obturador acarreta em paresia ou paralisia
de um membro posterior, o que mantém a vaca em decúbito lateral, e
constitui uma das etiologias da síndrome da vaca caída.
O nervo femural é derivado das raízes dos nervos lombares L4 e L5 e
sua continuidade forma o nervo safeno.
Artérias e veias da pélvis
A vascularização da pélvis é promovida pela artéria ilíaca interna,
também denominada artéria hipogástrica, ramo da aorta abdominal. As veias
são satélites e se reúnem na veia cava caudal (Quadro 2).
 
 
Roteiro de estudo: Anatomia obstétrica
1. O que significa cinturão pélvico?
2. Quais são os principais acidentes anatômicos presentes no osso Ílio?
3. Quais são as regiões do ílio mais sujeitas a fraturas por traumas?
4. Quais são os principais acidentes anatômicos presentes no osso Ísquio?
5. Qual a região do Ísquio empregada como referencial anatômica em uma
anaplastia vulvar?
6. Quais são os principais acidentes anatômicos presentes no osso Púbis?
7. Quais são as estruturas anatômicas que sofrem lesão em uma desmorrexia
pré-púbica?
8. Explique por que a vaca tem predisposição à luxação coxofemoral na hora
do parto.
9. Onde se localiza o promontório e qual a importância de sua identificação
no exame obstétrico?
10. Cite as articulações que compõem a pélvis óssea.
11. Quais são os ligamentos que compõem a pélvis?
12. Quais são os nervos presentes na região pélvica?
13. Quais são as principais artérias presentes na região pélvica?
 
Referências bibliográficas
1. DYCE, K.M.; SACK, W.O.; WENSING, C.J.G. Tratado de anatomia
veterinária. 3º ed. Rio de Janeiro: Elsevier. 2004, 799p.
2. GETTY, Robert; SISSON, Septimus; GROSSMAN, James Daniels.
Sisson/Grossman Anatomia dos animais domésticos. 5. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 1986. 2 v.
3. POPESKO, P. Atlas of topographical anatomy of the domestic animals. 2ª
ed. V. 1. Philadelphia: Sauders, 1977, 205p.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pelvimetria
 
O estudo das dimensões da pélvis contribui para compreensão das
características da capacidade da pélvis óssea no parto. Principalmente para as
fêmeas uníparas, em que a proporção materno fetal alcança os limites para a
passagem na via sacra, durante o parto vaginal.
A determinação das dimensões da pélvis óssea se denomina
pelvimetria. Ela pode ser obtida por meio da mensuração direta, o que se
denomina de pelvimetria interna; ou indireta, que por sua vez se denomina de
pelvimetria externa.
Pelvimetria interna
É realizada em peças ósseas com o intuito de estudar as características
pélvicas de uma determinada raça ou espécie. Neste estudo se procura avaliar
o espaço interno da cavidade pélvica e sua capacidade de ampliação
baseando-se nas mensurações dos diferentes diâmetros.
a) Nomenclatura
 - Abertura cranial: é também denominada orifício de entrada do
canal do nascimento. Está delimitada dorsalmente pelo promontório do sacro,
lateralmente pelas linhas iliopectíneas dos ílios, e ventralmente pelas bordas
anteriores dos púbis.
 - Diâmetro Vertical (DV): este diâmetro é também denominado
diâmetro conjugado, verdadeiro ou sacro-púbico. Trata-se de uma linha
imaginária que vai desde o promontório do sacro até a extremidade anterior
da sínfise pubiana. Na vaca o DV é de aproximadamente 22-24 cm enquanto
que na égua o DV é de aproximadamente 21-24 cm.
- Diâmetro Transversal (DT): é também denominado diâmetro
médio ou bi-ilíaco. É formado por uma linha imaginária que passa acima dos
tubérculos dos Psoas, de um lado ao outro. Na vaca o DT é de
aproximadamente 16-18 cm enquanto que na égua o DT é de
aproximadamente 21-24 cm.
 - Eixo Pélvico ou Linha de Condução: é uma linha imaginária
ideal, que une os centros de todos os diâmetros verticais traçados em todo o
trajeto do canal do nascimento e que indica a direção do conduto pélvico.
Consiste na trajetória que o feto realiza na fase expulsiva do parto, sendo,
portanto, a linha por onde se deve conduzir o feto quando se faz necessária a
manobra de tração em uma intervenção obstétrica.
 - Abertura caudal: é a denominação do orifício de saída do
canal do nascimento. Na descrição dos seus limites anatômicos temos
dorsalmente as três primeiras vértebras coccígeas; laterodorsalmente, as
bordas caudais dos ligamentos sacroisquiáticos; lateroventralmente, as
bordas internas dos músculos semimembranosos; e ventralmente, o arco
isquiático.
 
Quadro 1. Classificação das pélvis.
Espécie Forma do
Eixo
Pélvico
Distocia
púbis-
isquio
DV/DT Denominação
da Pélvis
Tipo de
Parto
Vaca Em ͠ "S"
O sacro
reto, ísquio
p/ cima
Longa DV>DT Dolicopélvica Difícil
Égua Em plano
sacro e
ísquio p/
baixo
Curto DV=DT Mesatipélvica Fácil
Ovelha
 
≠ Curta DV<DT Platipélvica Fácil
Cadela ≠ Curta Depende da Fácil
raça
 
Fatores que determinam a marcha rápida do parto
a) Eixo pélvico plano
b) Eixo pélvico curto
c) Eixo pélvico c/ inclinação caudal
d) Grande distância do sacro à tuberosidade isquiática
Outro fator relacionado à facilidade ou dificuldade na parição é a
dimensão fetal. Enquanto o bezerro apresenta um tórax e anca largos,
dificultando o parto, o potro possui o corpo alongado e fino, o que facilita o
parto. 
 
Pelvimetria externa
A pelvimetria externa é um método indireto de obtenção de medidas
da pélvis por mensuração de determinadas partes externas do corpo do
animal, empregando-se determinados coeficientes (Quadro 2).
 
 
Quadro 2: Coeficientes Pelvimétricos.
Valores dos
Coeficientes
VACA ÉGUA OVELHA CABRA
Coeficiente de DV 0,180 0,143 0,180 0,160
Coeficiente de DTs 0,36 0,43 0,51 0,45
Coeficiente DTi - 20 mm - 48 mm + 5 mm + 6 mm
Coeficiente de
Circunferência
3,44 3,60 3,50 3,40
 
a) Nomenclatura:
 
 - Circunferência Pélvica: é a medida da área pélvica em sua
abertura cranial ou de entrada.
 - Diâmetro Transversal Superior ou DTs: é obtido medindo-se a
largura da garupa, que é a distância de uma tuberosidade coxal à outra, e
multiplicando-se pelo coeficiente de DTs.
 - Diâmetro Transversal Inferior ou DTi: é obtido a partir do DTs,
subtraindo o coeficiente de DTi.
 - Diâmetro Vertical ou DV: é obtido a partir da altura do animal,
medido da cernelha ao solo, e multiplicando-se pelo coeficiente de DV.
 - Coeficientes: relações matemáticasentre partes anatômicas do
corpo do animal.
 
Cálculo da Circunferência Pélvica
 
Onde:
DTs = largura da garupa x coeficiente de DTs
DTi = DTs – coeficiente de DTi
DV = altura da cernelha x coeficiente de DV
 
 
 
Roteiro de estudo: Pelvimetria
1. Diferencie pelvimetria interna de pelvimetria externa.
2. Quais são os componentes anatômicos que delimitam o orifício de entrada 
e o de saída do canal do nascimento?
3. Defina o que é DV e DT.
4. Defina eixo pélvico?
5. Cite o tipo de pélvis da vaca, égua, ovelha e cadela.
6. Qual a fórmula empregada para o cálculo da circunferência pélvica? 
7. Quais são os fatores anatômicos que determinam a marcha rápida do parto?
8. Cite as diferenças entre as pélvis masculinas e femininas.
 
Referências bibliográficas
1. DYCE, K.M.; SACK, W.O.; WENSING, C.J.G. Tratado de anatomia
veterinária. 3º ed. Rio de Janeiro: Elsevier. 2004, 799p.
2. GETTY, Robert; SISSON, Septimus; GROSSMAN, James Daniels.
Sisson/Grossman. Anatomia dos animais domésticos. 5. ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 1986. 2 v.
3. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O aparelho reprodutor feminino
 
As partes moles do canal do nascimento compreendem a vulva, o
vestíbulo vaginal, a cérvice e o útero. Estas estruturas podem apresentar
modificações em seu trajeto criando obstáculos à passagem do feto no parto.
Com exceção da vulva estas estruturas estão localizadas na cavidade pélvica,
sendo mantidas anatomicamente por ligamentos e um tecido conjuntivo
ricamente hidratado. A condição hormonal na gestação modifica
fisiologicamente a situação topográfica destes órgãos, de modo que o útero se
desloca completamente para a cavidade abdominal, e a vulva adquire
dimensões avantajadas para permitir a passagem do feto. 
Vulva ou pudendo feminino
É a porção externa da genitália feminina. Nos animais domésticos está
constituída por um par de lábios vulvares bem desenvolvidos, pigmentados e
não pilosos, ao contrário da mulher que está constituída por dois pares de
lábios vulvares, os pequenos e os grandes lábios (Figura 1).
O encontro dos lábios vulvares forma uma linha de união em forma
de fenda e disposta em direção dorso-ventral, denominada de rima vulvar, e
que constitui a abertura do canal vaginal. Nos mamíferos quadrúpedes a
porção superior da rima vulvar constitui a comissura dorsal, enquanto que em
sua porção inferior encontra-se a comissura ventral da vulva, que envolve o
clitóris.
 
Figura 1. Vulva de égua.
O exame obstétrico da vulva consiste em se verificar a
homogeneidade e simetria da rima vulvar, suas dimensões, coloração da pele
e da mucosa vulvar, presença ou não de secreções, nodosidades, tumores,
feridas, lacerações ou cicatrizes. Na vaca é comum a ocorrência de tumores,
como papilomas e carcinomas, e cicatrizes provenientes de suturas indevidas;
enquanto que nas éguas, é essencial verificar o posicionamento da comissura
dorsal em relação com o assoalho pélvico, que devem coincidir, a fim de se
descartar a presença de lacerações que possibilitem a ocorrência de
pneumovagina.
Na realização de suturas de contenção, quando da redução de prolapso
vaginal ou uterino, deve-se evitar o tecido vulvar para a fixação dos fios de
sutura, a fim de se evitar a formação de fibroses, que podem prejudicar a
dilatação da vulva no parto. A referência anatômica da fixação das suturas
consiste em se fixar os pontos de sutura na região de transição entre a parte
pilosa e a região glabra (não-pilosa), lateralmente à vulva.
 
Vestíbulo vaginal
Nos animais domésticos, o vestíbulo vaginal é longo e situado
internamente, enquanto que na mulher é curto e constitui uma parte do
pudendo feminino. Encontram-se as seguintes estruturas anatômicas no
vestíbulo vaginal dos animais domésticos:
 Óstio ou meato externo da uretra: localizado no assoalho do vestíbulo
vaginal, e constitui o limite com a vagina;
 Divertículo sub-uretral: localizado imediatamente após o meato uretral
externo, como uma depressão em fundo de saco;
 Desembocadura dos ductos de Gartner: ambém denominados ductos
epoóforos longitudinais, situados a cada lado da desembocadura da uretra, e
bastante desenvolvidos nos ruminantes domésticos;
 Glândulas vestibulares maiores ou de Bartholin: situadas nas paredes
laterais, e tem a função de lubrificação no coito;
 Glândulas vestibulares menores: situadas na parede ventral;
 Clitóris: órgão erétil da fêmea cuja origem embriológica é a mesma do
pênis. Situa-se no assoalho do vestíbulo vaginal e próximo à comissura
ventral da vulva, envolvido pelos lábios vulvares. A sua porção saliente
constitui a glande do clitóris, que está protegido por uma prega da mucosa, o
prepúcio do clitóris. A glande está presa ao corpo do clitóris, o qual é
constituído pela união de dois ramos provenientes da tuberosidade isquiática.
Vagina
É o órgão copulador feminino. Consiste em uma estrutura tubular que
se estende horizontalmente através da cavidade pélvica, desde o colo do útero
até o vestíbulo vaginal. A separação anatômica entre o vestíbulo vaginal e a
vagina se faz por uma prega transversal, denominada prega himenal, ou
simplesmente hímen, presente nas virgens e nulíparas, como ocorre nas
espécies humana, eqüina e suína. Nas fêmeas que já pariram o hímen
constitui as carúnculas himenais. A vagina e o vestíbulo vaginal constituem a
parte mole do canal do nascimento.
O canal vaginal possui uma grande capacidade de dilatação limitada
apenas pela parede óssea da pélvis. Fisiologicamente se dilata quando da
penetração do pênis ou da passagem do feto. Normalmente o seu espaço é
virtual, estando as paredes dorsal e ventral colabadas, ficando a cavidade
vaginal reduzida a uma fenda transversal.
Topograficamente o canal vaginal relaciona-se dorsalmente com o
reto; lateralmente, com a parede pélvica; e, ventralmente com a bexiga e a
uretra. Mede cerca de 15 a 20 cm, e o vestíbulo vaginal de 7 a 10 cm, de
comprimento, na Vaca. Em sua porção caudal forma um fundo de saco que se
denomina fórnix vaginal, tendo no centro o cérvix.
Podem estar presentes na parede vaginal os canais de Gartner, que
consistem em vestígios embrionários dos ductos paramesonéfricos ou ductos
de Wolff. Estas estruturas podem encistar projetando-se para a luz do canal
do nascimento e dificultar a progressão do feto no parto.
Cérvix ou colo uterino
É uma estrutura essencialmente muscular que exerce a função de
esfíncter, e que se projeta caudalmente na vagina. Anatomicamente, o cérvix
é caracterizado por várias proeminências. Nos ruminantes estas
proeminências têm a forma transversa ou espiralada com saliências fixas
conhecidas por anéis, que apresentam vários graus de desenvolvimento nas
diferentes espécies.
Na vaca os anéis cervicais são proeminentes (geralmente em número
de quatro anéis), e na ovelha adaptam-se um no outro ocluindo a cérvix com
segurança.
Na porca os anéis cervicais dispõem-se em forma de saca-rolhas
adaptando-se à extremidade torcida em espiral do pênis no macho.
Na égua são características e visíveis as dobras na mucosa da cérvix e
as alças que se projetam para dentro da vagina. A cérvix da égua é muscular,
e não cartilaginosa.
Em todas as espécies, a cérvix permanece firmemente fechada, exceto
durante o cio, quando relaxa levemente e permite a entrada do
espermatozóide no útero, e também no parto para a saída do feto. As
reentrâncias da cérvix têm a função de aumentar a superfície de contato para
produção de muco pela mucosa. A maior atividade secretora destas células
ocorre no cio, onde o muco facilitará a movimentação dos espermatozóides.
As criptas cervicais são mais desenvolvidas na vaca do que em outras
espécies domésticas. A secreção de muco cervical é estimulada pelos
estrógenos ovarianos e inibida pela progesterona. As alterações mais
favoráveis das propriedades do muco cervical, como aumento na quantidade,
viscosidade, cristalização e pH, assim como a diminuição da viscosidade e do
conteúdocelular, ocorrem durante o cio e a ovulação; elas se invertem
durante a fase luteínica, na qual a penetração dos espermatozóides na cérvix é
inibida.
Durante a gestação, o muco que oclui o canal cervical é altamente
viscoso, espesso, turvo e não se cristaliza; deste modo, age como barreira
eficiente contra o trânsito espermático e invasão bacteriana no útero,
prevenindo infecções uterinas.
Na fase de dilatação do parto a cérvix se dilata por um mecanismo
antagônico às metrossístoles, como todo esfíncter em um órgão tubular,
libera o tampão mucoso e permite a passagem do feto e das membranas fetais
na fase de expulsão do parto.
A dilatação da cérvix ocorre da luz uterina para a luz vaginal, em
processo denominado de apagamento do colo, aonde cada anel cervical se
dilata por vez. 
Útero
É o órgão na qual o ovo se implanta ou faz a nidação, e se desenvolve
em embrião e em feto, até o nascimento. O útero permite o transporte
espermático e possui mecanismos de controle luteolítico. É altamente
especializado e adaptado para aceitar e nutrir o(s) produto(s) da concepção,
desde a implantação ou nidação até o parto. Produz um fluido endometrial
produzido pelas glândulas endometriais, denominado de leite uterino, que
cria um ambiente favorável para a captação espermática e condições
nutritivas para o blastocisto.
É composto de dois cornos uterinos, um corpo e uma cérvix (colo).
As proporções relativas, assim como a forma e disposição dos corpos, variam
de espécie para espécie.
O útero da porca é do tipo bicornual. Os cornos são dobrados ou
convolutos, podendo atingir de 4 a 5 metros de comprimento, enquanto que o
corpo uterino é curto. Este comprimento é uma adaptação anatômica para
carregar satisfatoriamente a leitegada.
O útero bipartido é típico da vaca, ovelha e égua. Estas fêmeas
apresentam um septo que separa os dois cornos e um proeminente corpo
uterino. Superficialmente o corpo do útero da vaca e da ovelha parece ser
maior do que ele é realmente, isto porque as porções caudais dos cornos são
ligadas pelo ligamento intercornual. As paredes laterais do útero são unidas
às paredes pélvicas e abdominal pelo ligamento largo.
O útero é constituído por uma membrana mucosa interna
(endométrio), uma camada intermediária de músculos lisos (miométrio) e
uma fina camada serosa externa (perimétrio ou serosa). O endométrio é uma
estrutura mucosa glandular que varia em espessura e vascularização, de
acordo com a presença de hormônios ovarianos durante o ciclo estral e a
gestação. O miométrio é uma porção muscular da parede uterina, constituído
de fibras musculares transversais, oblíquas e circulares.
O útero amplia o seu tamanho consideravelmente durante a gestação,
por hipertrofias e hiperplasias celulares, sendo capaz de reabsorver
rapidamente estas células no puerpério. 
Durante a gestação o útero da vaca se dispõe com a sua curvatura
maior em posição dorsal, o que torna o órgão instável e predisposto a torção
uterina no terço final da gestação. Enquanto que na égua a disposição ventral
da curvatura maior do útero favorece a ocorrência de defeito de
posicionamento fetal na hora do parto. O útero convoluto da porca favorece a
ocorrência de flexão uterina na hora do parto, de difícil diagnóstico.
Ovidutos ou trompas uterinas
São dois tubos pares que recolhem os óvulos de cada ovário, permite
a sua fertilização e a sua condução até o respectivo corno uterino. Os
ovidutos são revestidos pelo mesossalpinge, que é uma prega peritonial
derivada do extrato lateral do ligamento largo. A migração do óvulo e do ovo
ou zigoto, em sua luz é possível graças à corrente de liquido peritoneal em
direção ao útero, promovida pelo movimento dos cílios da mucosa e pela
peristalse da camada muscular.
O oviduto é dividido em infundíbulo, ampola e istmo. O infundíbulo
constitui-se na porção proximal ovariana dos ovidutos e possui fímbrias ou
franjas que envolvem os ovários e se movimentam em direção aos folículos
dominantes permitindo que os ovócitos sejam capturados. A ampola tubárica
é a porção intermediaria e mais dilatada das trompas e onde ocorre a
fecundação. O istmo liga-se diretamente ao corno uterino; durante o cio o
istmo contrai sua musculatura e movimenta seus cílios, no sentido corno-
ampola, o que ajuda os espermatozóides a alcançarem o óvulo. Após a
ovulação o sentido da peristalse se inverte e passa a ser no sentido ampola-
corno, transportando o óvulo fecundado para o útero. O comprimento do
oviduto de uma vaca é, em média, de 15 a 30 cm.
A presença de disfunções nervosas ou de processos inflamatórios
pode interferir na peristalse tubárica e no movimento ciliar e acarretarem
gravidez ectópica ou tubárica.
Ovários
Os ovários são dois órgãos nodulares de forma e volume variáveis
com a espécie animal e com a fase do ciclo estral. Estão situados na entrada
da pélvis, numa localização inconstante. Na Égua tem a forma de feijão, e
estão situados imediatamente abaixo da 4ª ou 5ª vértebra lombar; na Vaca,
tem a forma de amêndoas, e estão localizados nos bordos laterais da entrada
da pélvis, aproximadamente em frente às artérias ilíacas externas. E, na
Cadela, atrás do pólo caudal dos rins, abaixo da 3ª ou 4ª vértebra lombar,
aproximadamente na metade da distancia entre a última costela e a crista do
ílio. Na Cadela estão comumente revestidos pela bolsa ovariana e por uma
camada de gordura. Os ovários da Porca assemelham-se a um cacho de uvas,
em decorrência da presença dos múltiplos folículos salientes e dos corpos
lúteos.
Os ovários são constituídos pelo córtex, que contém folículos
ovarianos e/ou corpos lúteos em vários estágios de desenvolvimento e
regressão, e pela medula ovariana constituída de tecido conjuntivo fibro-
elástico, e responsável pela foliculogênese, ovogênese, produção de
estrógenos, formação de corpo lúteo e produção de progesterona.
Cada ovário é sustentado pelo ligamento mesovário, proveniente do
ligamento largo e que se projeta para o corno do útero formando o
mesossalpinge e o ligamento próprio do ovário. Na Cadela e Gata encontra-se
ainda o ligamento suspensório do ovário, de natureza mais fibrosa.
 
 
 
 
Roteiro de estudo: O aparelho reprodutor feminino
1. Quais são as estruturas que compõem a parte mole do canal do
nascimento?
2. O que vem a ser rima vulvar?
3. Qual a alteração anatômica que predispõe a égua à pneumovagina?
4. Qual o cuidado anatômico a ser seguido quando da realização de suturas de
contenção na redução de prolapsos? E por que?
5. Quais são as estruturas anatômicas presentes no vestíbulo vaginal?
6. Qual a estrutura que delimita o vestíbulo vaginal da vagina?
7. Qual a origem de uma estrutura cística no canal vaginal?
8. O que vem a ser tampão mucoso?
9. Explique o processo de apagamento do colo uterino.
10. O que vem a ser “leite uterino”?
11. Por que a vaca é predisposta à torção uterina?
12. Por que a égua é predisposta à distocia fetal por defeito de
posicionamento fetal?
13. Por que a porca é predisposta à flexão de útero na hora do parto?
14. Quais os ligamentos que sustentam os ovários em sua posição
anatômica?
 
Referências bibliográficas
1. DYCE, K.M.; SACK, W.O.; WENSING, C.J.G. Tratado de anatomia
veterinária. 3º ed. Rio de Janeiro: Elsevier. 2004, 799p.
2. GETTY, Robert; SISSON, Septimus; GROSSMAN, James Daniels. 
Sisson/Grossman. Anatomia dos animais domésticos. 5. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 1986. 2 v.
 
 
 
 
Mastologia Veterinária
 
A presença das glândulas mamárias caracteriza e dá nome à classe dos
Mamíferos (Classe MAMMALIA), grupo mais desenvolvido do Reino
Animal.
O aparelho mamário é uma estrutura adaptativa que surgiu em dado
momento no processo da evolução animal e que permitiu o aleitamento
materno, característica comum dos Mamíferos, e que se constitui em um dos
cuidados à prole, e que alcança o máximo na espécie humana. A avançada
especialização funcional dos Mamíferos se reflete na fragilidade de suas
crias, que requerem cuidados maternos especiais e quedevem ser
continuados no pós-parto por um tempo variável de acordo com as
características da espécie animal.
A fase de amamentação consiste na fase oral do desenvolvimento do
indivíduo, tão necessária para o adequado desenvolvimento imunológico,
digestivo e psicológico, e que favorece a uma adequada adaptação ambiental
e social do indivíduo.
As glândulas mamárias se desenvolvem na gestação e alcançam o seu
máximo desenvolvimento na época do parto, quando o organismo materno se
prepara para a amamentação. Estes dois períodos são os de maiores
exposições a distúrbios patológicos, principalmente os de natureza
traumáticas ou infecciosas, sendo de interesse da obstetrícia o incremento de
medidas preventivas e curativas.
A vaca leiteira ocupa uma posição de destaque entre as fêmeas
domésticas, pois o leite bovino é um alimento de primeira necessidade na
alimentação humana, o que denota a responsabilidade da obstetrícia
veterinária em procurar soluções para os problemas de saúde animal que
acarretam decréscimo da reprodução animal e da produção leiteira.
A casuística das patologias mamárias nos animais domésticos difere
em relação a cada espécie. Enquanto que nas cadelas e gatas predominam a
ocorrência de neoplasias e represamento lácteo ("empedramento"), nos
ruminantes observa-se freqüentemente traumatismo por pisaduras, lacerações
por objetos cortantes e processos infecciosos intramamário. A égua e a porca
são as espécies de animais domésticos menos acometidos por mastopatias.
Desenvolvimento do aparelho mamário
A glândula mamaria histologicamente é uma glândula túbulo-alveolar
composta derivada do folheto embrionário ectodérmico. Nos grandes
animais, aproximadamente por volta da 6ª semana do desenvolvimento
embrionário, surgem duas cristas ectodérmicas paralelas denominadas linhas
do leite, que com o desenvolvimento tornam-se descontínuas, formam
aglomerações celulares, e surgem nódulos de células epidérmicas que se
infiltram na derme e dão origem aos botões mamários. Ao nascimento estão
presentes as cisternas da glândula e dos tetos, além doas estruturas para
formação dos condutos galactóforos.
Na puberdade com elevação dos níveis de estrógenos circulantes há
crescimento e ramificação dos condutos galactóforos, e durante a gestação
com a produção de progesterona surgem os condutos galactóforos mais finos
e os alvéolos mamários. A liberação de prolactina durante a parição e a
amamentação provoca a secreção de leite, e a glândula mamária alcança o seu
pleno desenvolvimento.
Anatomia do aparelho mamário dos Bovinos
Em todos os Mamíferos, desde os Monotrematas até os Placentários, a
glândula mamária possui estrutura anatômica semelhante, ficando as
diferenças relacionadas à sua arquitetura, no número de unidades glandulares,
na posição ou distribuição ventral, e na forma anatômica.
De modo geral, as glândulas mamárias estão estruturadas da seguinte
forma:
a. Parênquima glandular do úbere
O tecido glandular está constituído por um epitélio secretor cujas
células se agrupam em ácinos denominados de alvéolos. Estas células
secretoras alveolares retiram do sangue os ingredientes para a síntese do leite.
Os alvéolos são estruturas diminutas que variam de 100 a 300 micra
de tamanho e apresentam uma forma de saculações ou de pêra, cuja parede
consiste de um simples extrato de células epiteliais, e um curto capilar
lactífero que se comunica com um canalículo um pouco mais calibroso
denominado de dúctilo de 1ª ordem. Cada alvéolo é circundado por uma
camada de células mioepiteliais estreladas e por um delicado estroma no qual
repousa um fino reticulo capilar.
O parênquima da glândula mamaria está constituído por um agregado
de ácinos e tabiques conjuntivos. Certos números de alvéolos, em grupo de
até 200 unidades, são unidos por um duto comum e estes alvéolos são
envolvidos por tecido conjuntivo mais espesso, dando origem a um lobo
mamário. A secreção deste lobo mamário ocorre por um duto comum. Os
lobos por sua vez formam a glândula.
 
 
b. Vias excretoras do úbere
A drenagem do leite se faz dos alvéolos para os dúctilos através do
capilar lactífero. À medida que os canalículos se confluem formam os
dúctilos de 2ª ordem, que por sua vez, se reúnem para constituírem os
dúctilos de 3ª ordem, e assim sucessivamente, até os dúctilos de 7ª ordem,
denominados canais galactóforos ou ductos excretores. Os canais
galactóforos desembocam na cisterna da glândula. Desta o leite passa para a
cisterna do teto e vai ao exterior através do canal do teto. Esta saída é
controlada pelo esfíncter do teto. Este esfíncter é mantido em constante baixa
pressão por impulso do sistema nervoso autônomo, e se a inervação for
bloqueada neste ponto o leite da vaca tende a gotejar.
Na parte superior do canal do teto fica localizada a roseta de
Fürstemberg, que apresenta de quatro a oito membranas radiais, que evitam o
escapamento do leite sem a necessidade de contração dos músculos dos
esfíncteres. Além disto, o canal estriado (ductos papilares) impede a saída do
leite do úbere antes da ordenha e evita a entrada de bactérias e outros
elementos nocivos para o interior da glândula.
c. Mecanismo suspensório do úbere
Nas vacas de alta produção o úbere pode alcançar mais de 40 Kg, o
que requer uma resistente estrutura ligamentar conjuntiva para sustentação.
O estroma conjuntivo presente na glândula mamária é formado por
um sistema de fibras conectivo-elásticas envolvendo os ácinos e os ductos
excretores, que formam uma trama conjuntiva, que sustenta de modo perfeito
o sistema secretor e excretor, sem que o peso da glândula se faça sentir sobre
os canalículos menores.
Na vaca encontram-se os seguintes ligamentos de sustentação do
úbere: ligamento suspensório mediano, o qual se origina a partir dos tendões
da parede abdominal (túnica flava), que separa a glândula direita da esquerda;
e, os ligamentos laterais superficiais e profundos, os quais se originam no
tendão pré-púbico e tendão sub-púbico, ao longo da superfície ventral da
pélvis óssea. Os ligamentos laterais são principalmente fibrosos e os mediais
contém muitas fibras elásticas.
d. Vascularização do úbere
Para a síntese do leite é necessária uma abundante irrigação
sanguínea. As vacas de alta produção necessitam em torno de 500 litros de
sangue circulante nos alvéolos glandulares para cada litro de leite secretado.
Enquanto que nas vacas de baixa produção esta proporção chega a 1000:1.
As artérias pudendas externas deixam o abdome através do canal
inguinal e originam as artérias mamarias cranial e caudal, as quais se
anastomosam com as artérias perineais. A artéria subcutânea abdominal é
ramo da artéria mamaria. As veias são duas a três vezes mais calibrosas que
as artérias e são satélites destas.
e. Sistema linfático do úbere
O sistema linfático da glândula mamária dos bovinos está
representado pelo linfonodo retro mamário ou supra-mamário, que se
encontram na parte caudal entre os dois quartos mamários caudais.
.f. Inervação do úbere
O aparelho mamário recebe inervações somática e autônoma. Os
nervos espinhais L1, L2, L3 e L4 e o nervo perineal possuem fibras aferentes
sensoriais provenientes da parte anterior do úbere, parede abdominal
adjacente e períneo. O sistema nervoso autônomo simpático controla o fluxo
de sangue e inerva os músculos lisos e os esfíncteres do teto. 
Anatomia do aparelho mamário das cadelas
Comumente os cães possuem cinco pares de glândulas mamárias, que
são nomeadas de acordo com sua localização. O primeiro par de glândulas é
denominado de torácica cranial, o segundo par é denominado de torácica
caudal, o terceiro par é denominado de abdominal cranial, o quarto par é
denominado de glândulas abdominais caudais e o quinto par é denominado de
glândulas inguinais.
É observada distinta separação na linha média, entre as cadeias
mamárias direita e esquerda. A irrigação sanguínea das glândulas mamárias
nos cães provém dos ramos externais das artériastorácica interna, intercostal
e torácica lateral (Glândulas 1 e 2); da artéria epigástrica superficial cranial
(Glândula 3), e das artérias epigástrica superficial caudal, epigástrica
profunda cranial, abdominal segmentada, labial e ilíaca circunflexa profunda
(Glândulas 4 e 5). A drenagem venosa das glândulas é bastante similar à
irrigação arterial, exceto que pequenas veias podem cruzar a linha média
entre as glândulas direita e esquerda.
Os vasos linfáticos podem cruzar a linha média e podem penetrar nas
paredes abdominal e torácica. O linfonodo axilar recebe a drenagem linfática
das glândulas 1 e 2, e o linfonodo inguinal superficial recebe a drenagem das
glândulas 4 e 5. Os linfáticos da terceira glândula mamária comumente
drenam através do linfonodo axilar, mas podem drenar caudalmente.
Os linfonodos inguinais superficiais, também chamados de linfonodos
mamários nas fêmeas, além de fazerem a drenagem linfática das mamas
caudais, fazem a drenagem da pele e tecido subcutâneo do abdome, da vulva
e membros pélvicos. Estão situados na gordura inguinal entre a parede
abdominal ventral e a mama inguinal, e geralmente encontram-se de dois a
quatro linfonodos. Estes linfonodos drenam, através do anel inguinal, para os
linfonodos ilíacos mediais, situados na cavidade abdominal.
O linfonodo axilar está localizado junto ao plexo axilar, envolto em
uma massa de gordura ventral à artéria torácica dorsal, na região entre a
primeira e a segunda costela. Podem estar presentes dois linfonodos de cada
lado. O linfonodo axilar drena as primeiras mamas craniais, a pele, o tecido
celular subcutâneo e parte da musculatura dos membros torácicos.
A drenagem linfática pode seguir para a veia jugular comum ou
formar conexões com os troncos traqueais e ducto torácico. A mama torácica
cranial drena somente para o linfonodo axilar, através de um canal linfático
isolado. A mama torácica caudal pode drenar apenas para o linfonodo axilar
e/ou para o inguinal. A mama abdominal cranial pode drenar para o linfonodo
axilar, inguinal ou ambos. A mama abdominal caudal e a mama inguinal
drenam para o linfonodo inguinal.
Podem existir conexões linfáticas plexiformes entre as mamas
torácica caudal e as abdominais, o que pode explicar a drenagem da mama
torácica caudal para o linfonodo inguinal e da mama abdominal caudal para o
linfonodo axilar. As duas mamas torácicas e a abdominal cranial podem
drenar ainda para os linfonodos externais craniais, que são pouco estudados
por não serem acessíveis à cirurgia. Comunicações linfáticas entre as cadeias
esquerda e direita não são observadas.
Anatomia do aparelho mamário das gatas
As gatas possuem de quatro a cinco pares de glândulas mamárias, que
são nomeadas de acordo com sua localização. O primeiro e o segundo par de
glândulas torácicas são denominadas, respectivamente, de torácica cranial e
caudal; As glândulas do terceiro e do quarto par são denominadas,
respectivamente, de glândulas abdominais craniais e caudais, e o quinto par
de glândulas inguinais.
As glândulas mamárias nas gatas são muito pequenas nas fêmeas
virgens e não gestantes e desenvolvem-se bastante nas fêmeas paridas e
lactantes. São recobertas por pêlos, que podem esconder completamente as
papilas mamárias. As tetas (papilas da mama) são curtas e em seus ápices
apresentam de seis a 12 pequenos orifícios dos ductos excretores.
A irrigação sanguínea das glândulas mamárias torácicas provém dos
ramos externais das artérias torácica interna, intercostal, torácica lateral e
epigástrica profunda cranial; a das glândulas abdominais provém das artérias
epigástrica superficial cranial, epigástrica superficial caudal e abdominal
segmentada, e a irrigação das glândulas inguinais provém das artérias labial e
ilíaca circunflexa profunda. A drenagem venosa é bastante similar à irrigação
arterial. Os vasos linfáticos podem cruzar a linha média e penetrar nas
paredes abdominal e torácica.
Fisiologia da secreção láctea
A secreção do leite se faz por três tipos de secreção: tipo Holócrino,
resultante da desintegração total da célula epitelial que se transforma em
parte da secreção (glândulas sebáceas); tipo Apócrino, em que ocorre ruptura
parcial da membrana plasmática e a saída parcial dos produtos secretados
(glândula mamária); e o tipo Merócrino, em que o movimento dos produtos
secretados através da membrana plasmática ocorre sem injuria desta
membrana (salivar e sudorípara). Portanto, o leite provém da síntese e
filtração de material proveniente do sangue, em um processo continuo e
reversível. A secreção do leite é desencadeada pela liberação de prolactina
durante a parição e ordenhas.
A ejeção do leite
A ejeção do leite é provocada por reflexo neuro-hormonal em
resposta à estimulação de receptores no teto ou outro estimulo associado à
ordenha. Estes estímulos alcançam o hipotálamo e causam liberação de
ocitocina pelo lobo posterior da hipófise. A ocitocina promove contração das
células mioepiteliais que envolvem os alvéolos forçando o leite dos alvéolos
em direção aos ductos mamários. A interferência de distúrbios emocionais,
como o medo e o estresse, provoca a inibição da ejeção de leite em animais
em lactação devido à ativação do sistema neuro-adrenal com liberação de
adrenalina. A adrenalina provoca vaso constrição local, o que impede a
atuação da ocitocina e promove contração dos esfíncteres do teto.
 
 
 
 
 
 
Mastopatias em Bovinos
 
a) Papilomatose bovina
A papilomatose é a principal neoplasia cutânea bovina que acomete o
úbere, que é uma enfermidade neoplásica benigna ocasionada pelo vírus
Bovine papillomavirus (BPV), da família Papillomaviridae, que infecta as
células basais do epitélio.
A incidência de papilomatose cutânea bovina é considerável, podendo
atingir de 30 a 75% do rebanho, o que resulta em sérios prejuízos à produção
animal. Os animais jovens são mais afetados que os adultos.
Um animal acometido por papilomatose pode disseminar o vírus por
contato direto com lesões ou irritações da pele ou mucosas, por contato
sexual ou indiretamente por objetos contaminados. Quando infectado o
animal produz resposta imunocelular e a extensão e duração da enfermidade
estão relacionados à idade, à receptividade genética, ao manejo inadequado e
à imunodeficiência.
Os papilomas podem ocorrer em qualquer região do corpo do animal,
e inclusive abranger as regiões urogenital e orofaríngea. Estas regiões
afetadas podem resultar em problemas relacionados com a fertilidade e
diminuição da produtividade. A presença de papilomas no úbere dificulta a
ordenha e predispõe a ocorrência de mamite.
Umas das ocorrências comuns no rebanho acometido por papiloma é
o alto índice de miíases, o que colabora para aumentar o prejuízo na produção
animal.
O controle da papilomatose na pecuária bovina nacional é de grande
importância devido a sua alta incidência e por contribuir para perdas
econômicas. Os animais afetados apresentam diminuição da produção
leiteira, sofrem desvalorização quando comercializados e há depreciação do
couro. 
A literatura especializada apresenta inúmeros tratamentos para a
papilomatose, mas a grande maioria revelou-se insatisfatória na prática de
campo. Os principais tratamentos conhecidos consistem no implante autólogo
pedunculado de papiloma, na auto-hemoterapia, nas vacinas autógenas, e nos
medicamentos antipapilomatosos injetáveis ou tópicos.
O emprego da técnica de implante axilar de papilomas apresenta bons
resultados, no entanto requer intervenção cirúrgica e seus resultados
demoram até dois meses para se evidenciar. A utilização de vacinas
autógenas, apesar de desenvolver alguma resposta imunitária, é preparada
com uma cepa viral e torna-se onerosa pelo tratamento individual e
laboratorial; e apesar da auto-hemoterapia apresentar bons resultados, requer
mão-de-obra especializada e pode debilitar ainda mais o animal, da mesma
forma que a remoção cirúrgica dos papilomas seguida de cauterização local.
Enquanto que o emprego de drogas à base de clorobutanol, podofilina, ácidosulfúrico ou azul de metileno, associado ou não a outros tratamentos, não
apresenta uma boa relação custo-benefício.
Há de se considerar que a papilomatose é uma enfermidade
autolimitante e a resposta clínica ao tratamento pode variar. E, é reconhecido
que a cura espontânea pode ocorrer na dependência da capacidade de resposta
humoral e citomediada. Na comparação entre a eficiência da repetição entre
os diversos tratamentos, o porcentual de recuperação tem variado entre 15 a
50%, sendo que a autovacina apresenta os melhores resultados. E, apesar de
pouco conhecido, o adequado emprego do medicamento homeopático Thuya
ocidentalis 6CH pode colaborar para controlar e diminuir a morbidade desta
enfermidade.
b) Carcinoma mamário em ruminantes
O carcinoma de células escamosas (CCE) é um tumor maligno dos
queratinócitos. É também conhecido como carcinoma de células espinhosas,
carcinoma espinocelular ou carcinoma epidermóide. Existem muitos fatores
que estão associados ao desenvolvimento de carcinomas de células
escamosas, incluindo a exposição prolongada à luz ultravioleta, falta de
pigmento na epiderme, perda de pêlos ou cobertura de pêlos muito esparsa
nos locais afetados (RAMOS et al., 2007). O tumor pode ocorrer em
diferentes localizações nas diferentes espécies. Nos bovinos os carcinomas
de células escamosas ocorrem primariamente nas junções muco-cutâneas,
particularmente nas pálpebras e vulva (RAMOS et al., 2007).
Carcinomas mamários em vacas quase nunca são encontrados nos
EUA (KENNY, 1942). E, o que se observa é que os carcinomas de células
escamosas envolvendo a pele do úbere, com invasão da glândula mamária é
muito mais comum que neoplasias primárias do parênquima. Povey &
Osborne (1969) encontraram 21 tumores mamários bovinos em sua revisão
literária desde 1902, e adicionaram um caso deles próprios. Eles encontraram
relatos de nove carcinomas, com fibromas em repouso, fibrossarcomas,
adenomas papilares, osteomas, e adenofibromas.
Neoplasias mamárias também são raramente encontradas em cabras,
exceto quando estas vivem até atingir idades avançadas, como na Índia
(SINGH & LYER, 1972). Na África do Sul, em cabras da raça Saanen e
Angorá esta neoplasia é encontrada mais no úbere e geralmente vem
associada a papilomas (SMITH, 2006).
c) Lesões traumáticas pérfuro-cortantes no Úbere Bovino
As lesões traumáticas da glândula ou dos tetos mamários são
freqüentes em gados leiteiros, juntamente com estenose dos ductos mamários,
o que podem requerer correção cirúrgica. Além disto, a presença de mastites
crônicas e miíases podem acarretar na necessidade de procedimentos
cirúrgicos para sua resolução.
As mastites crônicas e as miíases resultam em fibrose do parênquima
glandular mamário e dificuldade de drenagem das transudações patológicas,
com conseqüente irresolução do processo patológico. Estes casos podem
requerer debridamento da ferida, no caso das miíases, e da ressecção
cirúrgica total do teto no caso das mastites supurativas crônicas. Estes
procedimentos são complementados com a irrigação profunda de solução de
iodo na ferida cirúrgica.
Para a correção de determinados processos patológicos do teto
mamário de vacas há um grupo de instrumental especial que podem ser
utilizados nos procedimentos cirúrgicos, conforme descrito a seguir:
 Lanceta de Hug e bisturi de Steffen: são úteis para seccionar lactólitos,
cálculos e cistos lácteos no interior do conduto do úbere e podem ser também
empregados para ampliar este conduto;
 Evacuador suíço: é utilizado para dilatar os condutos lácteos estreitados;
 Evacuador de HUG: além de ser utilizado para dilatar o conduto lácteo
pode ser utilizado para recolher pequenos lactólitos ou papilomas no interior
da cisterna da glândula mamária;
 Evacuador DANES: é útil para ampliar o esfíncter do teto mediante três
cortes simultâneos no canal estriado ou no conduto do úbere;
 Cureta de ULLNER: empregado para eliminar fibroses cicatriciais ou
papilomas do conduto ou cisterna da glândula mamária.
 
Correção cirúrgica das feridas pérfuro-cortantes dos tetos mamários
 
Lacerações traumáticas dos tetos mamários com arames farpados e
objetos pontiagudos são comuns na espécie bovina. Se a lesão ocorrer nas
primeiras seis horas podem ser suturadas; com até 12 horas os bordos da
ferida deverão ser debridados e suturados; e, nas feridas instaladas com 24
horas ou mais deverá ser conduzida a cicatrização por segunda intenção.
Os fatores que afetam a evolução e prognóstico das lesões traumáticas
do teto são: envolvimento da cisterna do teto, direção da ferida (feridas
longitudinais são de melhor resolução que as transversais), integridade do
aporte sanguíneo, presença de infecção e quantidade de pele perdida (Figura
1).
 
Figura 1. Lesão pérfuro-cortante com comprometimento da cisterna
da teta.
 
As feridas superficiais devem ser consideradas contaminadas e o
tratamento consiste em realização de limpeza profunda, com água e sabão,
seguido de aplicação de anti-séptico diluído não irritante, como o Povidine®
ou Clorexidine®. Estas feridas não recebem sutura, mas podem necessitar de
debridamento dos tecidos traumatizados e/ou necrosados.
As feridas profundas, que além da pele envolvem planos mais
profundos como subcutâneo e músculos do canal do teto, requerem
procedimentos cirúrgicos mais extensos. Estes casos requerem o emprego de
anestesia local com lidocaína 2%, sem vasoconstrictor, e colocação de
garrote, ao redor da base do teto, após limpeza higiênica. A seguir, a ferida é
debridada e revitalizada, o que é seguido por rafia dos planos incididos. O
plano muscular pode ser reparado com sutura tipo contínua, com fio de sutura
monofilamentoso absorvível (categute 000), e a pele, pode ser suturada com
pontos simples interrompidos, com fio de nylon 0,40 (fio de pesca).
As lesões traumáticas dos tetos que alcançam a cisterna do teto
requerem debridamento de todos os planos anatômicos, o que inclui a mucosa
do canal do teto. A rafia destas feridas pode ser executada de quatro modos:
a) sutura contínua (Técnica de Lazzeri); b) sutura de Donatti (“U” vertical);
c) sutura de Wolff (“U” horizontal); e, d) sutura com pontos simples verticais
em “8”.
A técnica preconizada pelos professores da disciplina de Obstetrícia
Veterinária da UFRRJ é a de sutura contínua com fio de nylon (Técnica de
Lazzeri), conforme segue: introdução da agulha de sutura dorso lateralmente
à comissura dorsal da ferida cirúrgica seguido pela realização de sutura
contínua do plano submucoso até alcançar o plano ventrolateral da comissura
ventral da ferida cirúrgica. Neste plano de sutura a extremidade do fio
remanescente na entrada da ferida é de aproximadamente 10cm, e antes de se
iniciar o segundo plano de sutura se estica as extremidades do fio para se
aproximar os bordos da mucosa, fechando-se com isto o canal do teto. Então
se inicia a sutura do plano subcutâneo, introduzindo a agulha de sutura na
pele, ventrolateralmente à comissura ventral da ferida, prévia colocação de
“capton” ventral, e faz-se a sutura contínua do plano subcutâneo até ser
alcançado a comissura dorsal da ferida, quando se promove a saída da agulha
de sutura na região dorso lateral oposto à sua entrada inicial. Deste modo,
têm se duas extremidades de fio de sutura que devem ser atadas após
colocação do “capton” dorsal. O fio recomendado é o fio de pesca nᵒ 020.
No pós-operatório das cirurgias de teto é recomendado a higiene local
diária seguida da aplicação de pomadas cicatrizantes e repelentes até a
retirada dos pontos de pele, após transcorridos 10 dias. Nas feridas profundas
que alcançam o canal do teto deve-se utilizar antibiótico intramamário diário
até a retirada dos pontos, prévia drenagem do leite com sonda estéril.
 
Correção cirúrgica dos defeitos embrionários do úbere
bovino
 
Os principais defeitos embrionários que ocorrem no úbere bovino são:
tetas supranumerárias, tetas duplas unidas (funcionais), tetas cegas (tetas sem
orifícios), polimastia e politelia, ea presença de mamilo ao longo da linha
mamária embriológica.
As tetas supranumerárias (Figura 2) é a anomalia mais comum no
úbere bovino, e ocorre com menor incidência em cabras. É uma anomalia
congênita e hereditária que ocorre principalmente por uma má formação da
linha do leite, também denominadas de cristas ectodérmicas paralelas. Os
tetos anômalos tendem a ser pequenos, comumente caudais ou anexados ao
teto normal. A remoção cirúrgica é o procedimento mais indicado em caso de
mama supranumerária e em animais jovens (até nove meses de idade).
 
Figura 2. Teta supranumerária.
A amputação dos tetos também pode ser indicada em vacas com
danos graves onde a cirurgia reconstrutiva e o retorno à função normal não
podem ser esperados.
O procedimento deverá ser realizado com administração de anestesia
local a base de lidocaína a 2% (sem vaso constritor), ao redor do teto, seguido
por anti-sepsia com produtos a base de iodo; a diérese será realizada
eqüidistante um a dois cm distal à junção úbere-teto; a mucosa deverá ser
fechada através de sutura contínua na submucosa (fio absorvível) e sutura
com fios inabsorvíveis na pele (pontos simples ou clipes de metal); antes do
término da sutura deve-se administrar antibiótico intramamário.
Na mamite gangrenosa, o procedimento será semelhante ao indicado
anteriormente, porém utilizar garrote na junção com o úbere e remove-lo após
dois dias, para permitir melhor drenagem do conteúdo. Higiene local diária e
emprego de soluções diluídas de H2O2 são úteis.
 
Neoplasias mamárias nas cadelas e gatas
A neoplasia de mama é o tumor mais freqüente nas fêmeas canina e
felina. Nas cadelas os tumores de mama representam aproximadamente 52%
de todas as neoplasias, sendo que, no momento do diagnóstico clínico metade
delas já possui caráter maligno e ocorre na proporção de um macho para cada
99 fêmeas.
O estudo oncológico comparativo do câncer de mama revela uma
relativa semelhança entre a ocorrência na mulher e na cadela. Entre estas,
podem ser citadas: faixa etária de aparecimento, morfologia, efeito protetor
da ovariohisterectomia, presença de receptores de estrógeno e progesterona
na massa tumoral, órgãos alvo de metástase, evolução clínica e a
hereditariedade em alguns casos.
Na cadela cerca de 50% dos tumores mamários são malignos. E,
cadelas com tumores mamários benignos apresentam um risco três vezes
superior de desenvolverem neoplasias malignas. Os tumores mamários
afetam principalmente cadelas não castradas, sendo a idade média de
manifestação entre os 10 e 11 anos Estudos recentes indicam que as cadelas
não castradas apresentam um risco de 25% de desenvolverem tumores de
mama, e a prática de ovariohisterectomia em cadelas jovens reduz
significativamente o risco de desenvolvimento destes.
O tratamento de eleição para os tumores de mama na cadela e na gata
é a excisão cirúrgica, exceto no caso do carcinoma inflamatório ou quando
existem metástases à distância.
Em 2010, foi realizado o “I Encontro de Patologia Mamária em
Cadelas” que reuniu profissionais de vários estados brasileiros como
patologistas, clínicos, cirurgiões e oncologistas para a discussão e definição
de parâmetros que possam nortear o diagnóstico, prognóstico e o tratamento
das neoplasias mamárias na espécie canina. Como resultado foi elaborado um
documento de consenso nacional que apresenta métodos padronizados
referentes ao diagnóstico anatomopatológico, fatores considerados preditivos
e prognósticos na doença, bem como as condutas terapêuticas (cirurgia e
quimioterapia). A iniciativa evoluiu para o II Encontro de Patologia Mamária,
onde foram discutidos os resultados observados a partir do documento
publicado em 2011. Os pontos que geraram maior discordância foram sobre a
técnica cirúrgica que melhor se emprega em cada estadiamento e tipo
histológico das neoplasias, bem como os protocolos quimioterápicos
adjuvantes a serem utilizados, além da associação da ovariohisterectomia no
mesmo procedimento cirúrgico.
 
Etiopatogenia das neoplasias mamárias
A etiologia da neoplasia maligna de mama é multifatorial, com a
participação de componentes genéticos, ambientais, nutricionais e
principalmente hormonais.
Os hormônios estimulam a proliferação celular predispondo às
alterações genéticas que darão origem à célula neoplásica. O estrógeno, a
prolactina, a progesterona, os andrógenos e até mesmo os hormônios
tireoidianos estão envolvidos na carcinogênese mamária.
A principal neoplasia maligna nas cadelas e gatas é o carcinoma
simples, que é constituído apenas por um tipo de célula, epiteliais luminais ou
mioepiteliais. Consoante a sua diferenciação e comportamento biológico,
este tipo de tumor subdivide-se em três tipos, ordenados por grau crescente
de malignidade: carcinoma túbulo-papilífero, carcinoma sólido e carcinoma
anaplásico.
A neoplasia benigna mais comum na cadela é o tumor misto benigno,
que é raro na gata. Este tipo de neoplasia resulta da proliferação de células
epiteliais luminais e mioepiteliais, associadas às células de tipo
mesenquimatoso, produtoras de tecido fibroso.
O adenoma complexo é uma neoplasia benigna mais comum na
cadela do que na gata e é constituída por células epiteliais luminais e por
células morfologicamente semelhantes a mioepiteliais, de baixo índice
mitótico. O adenoma simples é de ocorrência rara na cadela e na gata, assim
como o papiloma ductal.
 
Estadiamento Clínico Tumoral (Sistema TNM)
Um tratamento de sucesso dos tumores depende da erradicação de
todas as células neoplásicas e para isto é necessário conhecer a extensão total
da doença, nomeadamente a neoplasia primária e a sua localização, e a
possibilidade de recidiva ou de metastização. E, ao se classificar uma
neoplasia mamária, o clínico pode fornecer informações precisas ao
patologista sobre o material enviado para análise.
O estadiamento clínico consiste na avaliação da progressão do
processo neoplásico no organismo. Um sistema muito utilizado para este
processo é o Sistema TNM (Tumor - Nódulo linfático - Metástase). Este
sistema de classificação foi desenvolvido por Pierre Denoix, entre os anos de
1943 e 1952, para a classificação das neoplasias malignas (Instituto Nacional
de Câncer do Ministério da Saúde, 2004), e tem como princípio a
determinação da extensão da doença durante o exame clínico antes do
planejamento do tratamento. O emprego do sistema TNM permite determinar
o prognóstico, planejar o tratamento e avaliar os seus resultados e facilitar a
troca de informações entre médicos.
Segundo o sistema de classificação TNM, o estadiamento clínico
compreende a determinação de três parâmetros clínicos, os quais são:
tamanho da neoplasia primária (T), metastização para os linfonodos regionais
(N), e a metastização à distância (M).
O tamanho da neoplasia primária (T) deve ser aferido criteriosamente,
pois as neoplasias malignas são caracterizadas por um padrão de crescimento
invasivo e infiltrativo, e a tendência para recidiva vai depender
principalmente da remoção da totalidade ou não da neoplasia, e menos das
suas demais características.
A metastização para os linfonodos regionais (N) pode ocorrer
principalmente nos carcinomas, linfomas, melanomas, mastocitomas, e nos
sarcomas de tecidos moles. A sua definição pode ser realizada por palpação
regional e confirmada por histopatologia da amostra retirada cirurgicamente.
A metastização à distância (M) pode ocorrer por disseminação
hematógena de neoplasias malignas, como nos sarcomas de tecidos moles,
nos osteossarcomas e nos melanomas malignos. A disseminação por via
linfática é peculiar aos carcinomas e mastocitomas. O local preferencial de
metastização depende da localização da neoplasia primária, sendo o fígado e
o pulmão, dois órgãos bastante atingidos numa primeira fase de metastização.
Mas, podem ocorrer metástases em outros órgãos, como a pele, os ossos, o
cérebro, a medula espinhal e órgãos internos como o baço, os rins e o
coração. A detecção de metástases é problemática, isto porque, as neoplasias
só se tornamdetectáveis num estádio relativamente tardio do seu
desenvolvimento.
O estadiamento clínico das neoplasias mamárias é importante como
indicador de prognóstico e na definição seqüencial do tratamento. A
Organização Mundial de Saúde estabeleceu o sistema TNM, criado por Owen
em 1980, para classificação das neoplasias mamárias na mulher, e que foi
adaptado por Caixinha (2011), para as cadelas e gatas (Tabela 1).
Desta forma, a categorias T1 a T3 são ainda classificáveis de a, b ou c
consoante o tumor não esteja aderente, esteja aderente aos planos superficiais
ou esteja aderente aos planos profundos, respectivamente. Nos casos em que
se verifique a presença de múltiplas neoplasias, considera-se sempre a fase da
neoplasia de categoria T mais elevada, ou seja, a de maior gravidade.
A categoria N1 apresenta também subdivisões em a e b,
correspondendo a primeira a linfonodos móveis e a segunda a linfonodos
fixos aos tecidos adjacentes.
Quanto à existência de metástases (M), Peleteiro e Correia (1993)
consideram a existência de uma categoria não contemplada na tabela 1, que
diz respeito à impossibilidade de avaliar a existência de metástases,
designada Mx.
 
 
 
Tabela 1. Classificação TNM dos tumores mamários de canídeos e felídeos
(2).
 
Uma vez classificada uma neoplasia ou um conjunto de neoplasias
pelo sistema TNM, é possível estabelecer-se em qual fase ou estádio de
evolução do processo neoplásico mamário encontra-se a cadela (Estádio de I
a V) ou a gata (Estádio de I a IV), conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2. Estadiamento dos tumores mamários de Canídeos e
Felídeos (2).
 
Tratamento cirúrgico das neoplasias mamárias
 
O tratamento de eleição para os tumores de mama continua a ser a
excisão cirúrgica, exceto no caso do carcinoma inflamatório ou quando
existem metástases à distância. Existem outros tratamentos complementares
como a quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal e imunomoduladores,
que começam a ganhar importância em Medicina Veterinária. No entanto,
suas utilizações encontram-se limitadas pela escassez de informação sobre os
mesmos. 
A escolha da técnica cirúrgica é geralmente determinada pelo
tamanho do tumor, fixação aos tecidos adjacentes, número e localização das
lesões e probabilidade de se conseguir a cura local. As principais técnicas
usualmente empregadas para a exérese de massas tumorais mamárias são a
nodulectomia, e as mastectomias simples, regional, unilateral e bilateral.
O protocolo cirúrgico nos tumores de mama adotado na disciplina de
Obstetrícia Veterinária da UFRRJ consiste nos procedimentos descritos a
seguir.
Nas cadelas e gatas diagnosticadas como portadoras de tumores de
mama devem ser realizados o Estadiamento Tumoral e os seguintes exames
complementares: hemograma completo, exame radiográfico da cavidade
torácica e eletrocardiograma, para determinação do risco cirúrgico e previsão
prognóstica.
Para o Estadiamento Tumoral são consideradas as dimensões do
tumor primário (T), se livre (Ta) ou aderido a planos anatômicos superficiais
(Tb) ou profundos (Tc); a existência de metastização aos linfonodos
regionais, se presente e livres (N1) ou fixos (N1b) aos tecidos adjacentes. A
pesquisa de metástases à distância será realizada a partir da avaliação
radiográfica simples do tórax (M0, ausente; e M1, presente).
Para as mastectomias em que o Estadiamento Tumoral indicar
remoção dos linfonodos regionais pode ser empregado o corante azul patente
(0,5 a 1 ml na região próximo ao tumor) por via subcutânea, e assim os
linfonodos sentinelas ficarão corados com a cor azul, facilitando sua
identificação e posterior exérese.
Nas cadelas e gatas classificadas nos estádios I, II e III, e I e II,
respectivamente, de acordo com as tabelas 1 e 2, serão realizadas a
mastectomia associada à exérese do linfonodo regional; nas classificadas no
estádio IV e III, respectivamente, serão realizadas a mastectomia associada à
exérese do linfonodo regional seguida por quimioterapia; nas classificadas no
estádio V e IV, respectivamente, serão realizados exclusivamente o
tratamento quimioterápico.
Em relação à quantidade de tumores e localização será realizada a
mastectomia torácica total direita e/ou esquerda, com exérese do linfonodo
regional, na presença de um ou mais tumores exclusivamente nos
parênquimas mamários torácicos direito ou esquerdo (Mamas I e II); a
mastectomia inguinal total direita e/ou esquerda, com exérese do linfonodo
regional será realizada na presença de um ou mais tumores exclusivamente
nos parênquimas mamários inguinais direito ou esquerdo (Mamas III, IV e V,
nas cadelas e Mamas III e IV, nas gatas); e, a mastectomia tóraco-inguinal
direita e/ou esquerda, com exérese do linfonodo regional será realizada na
presença de um ou mais tumores nos parênquimas mamários torácicos e nos
parênquimas mamários inguinais direito e/ou esquerdo.
Procedimentos anestesiológicos nas mastectomias de cadelas e gatas
Na pré-anestesia para os procedimentos cirúrgicos preconizados são
empregados um dos seguintes pré-anestésicos,: Acepromazina a 0,2%, na
dose de 0,2mg/kg); Cloridrato de Tramadol a 5%, na dose de (2mg/kg);
Cloridrato de Xilazina a 2%, na dose de 2 mg/kg; ou Diazepan a 0,5% , na
dose de 0,5 mg/kg, todos por via intramuscular. 
A indução anestésica geral será realizada com a substância
diisopropilfenol a 1% (Propofol), na dose de 14 a 16 mg/kg, por via
intravenosa.
A manutenção anestésica geral será realizada com os anestésicos
voláteis Isoflurano ou Halotano, em circuito fechado de anestesia.
 
Técnicas cirúrgicas nas mastectomias de cadelas e gatas
a) Mastectomias Torácicas Direita e/ou Esquerda (Quadrantectomia
Torácica): incisão elíptica ao redor das Mamas Torácicas I e II, direita ou
esquerda, distantes entre 2 a 3 cm lateralmente às tetas. A seguir, é realizada
dissecção digital, com o emprego de compressa de gaze, separando o
parênquima mamário do plano aponeurótico adjacente, seguindo um plano de
clivagem anatômica. A seguir, é realizada hemostasia dos vasos sanguíneos
regionais (artéria e veia epigástrica superficial cranial e seus ramos)
seccionados, com pinça hemostática e ligadura com categute simples 00 ou
000, e exérese do linfonodo axilar adjacente à Mama I, direita ou esquerda. 
A rafia da pele deve ser realizada com pontos simples e fio de nylon 0 ou 00.
 
b) Mastectomias Inguinais e Abdominais Direita e/ou Esquerda
(Quadrantectomia Inguinal): incisão elíptica ao redor das Mamas
abdominais I e II e Inguinais, direita ou esquerda, nas cadelas, distantes entre
2 a 3 cm lateralmente às tetas. A seguir, é realizada dissecção digital, com o
emprego de compressa de gaze, separando o parênquima mamário do plano
aponeurótico adjacente, seguindo um plano de clivagem anatômica. A seguir,
será realizado hemostasia dos vasos sanguíneos regionais (artéria e veia
epigástrica superficial caudal e seus ramos) seccionados, com pinça
hemostática e ligadura com categute simples 00 ou 000, pinçamento, ligadura
e secção do plexo vásculo-nervoso inguinal, junto ao anel inguinal, direito ou
esquerdo, seguido pela exérese do linfonodo axilar, direito ou esquerdo,
adjacente à Mama IV na gata, e Mama V na cadela. Deve ser inserido um
dreno tipo Pen-Rose no plano subcutâneo, com drenagem lateral à
extremidade caudal da ferida cirúrgica. A rafia da pele deve ser realizada com
pontos simples e fio de nylon 0 ou 00.
c) Mastectomias Tóraco-Inguinais Direita ou Esquerda: incisão elíptica
(Figura 3) ao redor das Mamas I, II, III, IV e V, direita ou esquerda, nas
cadelas, e I, II, III e IV, direita ou esquerda, nas gatas, distantes entre 2 a 3
cm lateralmente às tetas. A seguir, deve ser realizada dissecção digital, com o
emprego de compressa de gaze, separando o parênquima mamário do plano
aponeurótico adjacente, seguindo um plano de clivagem anatômica. A seguir,
é realizada hemostasia dos vasos sanguíneos regionais (artérias e veias
epigástricas superficiais craniais e caudais) (Figura 4) seccionados, com pinça
hemostática e ligadura comcategute simples 00 ou 000, exérese do linfonodo
axilar adjacente á Mama I, direita ou esquerda, pinçamento, ligadura e secção
do plexo vásculo-nervoso inguinal, junto ao anel inguinal, direito ou
esquerdo, seguido pela exérese do linfonodo axilar direito ou esquerdo,
adjacente às glândulas mamárias inguinais. Deve ser inserido um dreno tipo
Pen-Rose no plano subcutâneo, com drenagem lateral à extremidade caudal
da ferida cirúrgica. A rafia da pele deve ser realizada com pontos simples e
fio de nylon 0 ou 00.
Figura 3. Incisão elíptica na mastectomia tóraco-inguinal.
 
Figura 4. Identificação da artéria e veia epigástrica superficial caudal.
 
d) Mastectomia Total: incisão elíptica ao redor dos pares de Mamas
Torácicas, abdominais e inguinais, distantes entre 2 a 3 cm lateralmente às
tetas. A seguir, deve ser realizada dissecção digital, com o emprego de
compressa de gaze, separando o parênquima mamário do plano aponeurótico
adjacente, seguindo um plano de clivagem anatômica. A seguir, é realizada
hemostasia dos vasos sanguíneos regionais (artérias e veias epigástricas
superficiais craniais e caudais) seccionados, com pinça hemostática e ligadura
com categute simples 00 ou 000, exérese dos linfonodos axilares adjacente às
Mamas I, direita e esquerda; pinçamento, ligadura e secção do plexo vásculo-
nervoso inguinal, junto ao anel inguinal, direito e esquerdo, seguido pela
exérese do linfonodo axilar direito e esquerdo, adjacente às Mamas IV na
gata, e Mamas V na cadela. Devem ser colocados dois drenos de Pen-Rose
no subcutâneo, com drenagem lateral às extremidades caudal da ferida
cirúrgica. A rafia da pele deve ser realizada com pontos simples e fio de
nylon 0 ou 00.
Pós-operatório nas mastectomias em cadelas e gatas
Após o procedimento cirúrgico e recuperação pós-anestésica é
realizado curativo local compressivo, prévio tratamento da ferida cirúrgica
com pomada a base de sulfadiazina de prata.
Os animais devem receber ainda as seguintes medicações:
a) Antibioticoterapia à base de Amoxilina com Clavulanato, na dose de 20
mg/kg, de 12 em 12horas, durante 10 dias, ou Enrofloxacina (50 mg), na dose
de 5 mg/kg, durante cinco a sete dias;
b) Anti-inflamatório não esteroidal Meloxican, na dose de 0,1 mg/kg, a cada
24 horas durante três dias;
c) Analgésicos a base de morfina, Dorless (12 mg), Tramadol (50 mg), na
dose de 1 a 4 mg/kg, durante três a cinco dias, ou Dipirona sódica, na dose de
1 gota/kg, ou comprimidos de 500 mg, na dose de 25 mg/kg, durante 5 dias.
É preconizada aplicação de curativo local diariamente e retirada do
dreno, quando houver, no terceiro dia de pós-operatório, e, no 10° dia, a
retirada dos pontos da ferida cirúrgica.
As amostras das massas tumorais e dos linfonodos coletadas na
cirurgia serão conservadas em formol a 10%, em frascos identificados, e
encaminhadas para exame histopatológico ao setor de Anatomia Patológica
do Instituto de Veterinária da UFRRJ.
Após recuperação pós-operatória e laudo histopatológico, as cadelas
classificadas no Estádio IV, e as gatas classificadas no Estádio III, do Sistema
TNM, receberão tratamento quimioterápico. Os animais acometidos por
carcinomas complexo, papilífero, tubular, e sólido, classificados nos estádios
II, III ou IV do Sistema TNM deverão receber os quimioterápicos
Doxorrubicina e Ciclofosfamida, associados, por via endovenosa, na dose de
30 mg/m2 e 200 mg/m2, de superfície corporal, respectivamente, a cada 21
dias, durante três a seis ciclos dependendo do estádio. Nos casos de
carcinomas inflamatórios será recomendada a associação de Carboplatina e
Firocoxib. A Carboplatina será utilizada na dose de 300 mg/m2 de superfície
corporal, e aplicada por via endovenosa a cada 21 dias, totalizando seis ciclos
de aplicação. O Firocoxib será administrado por via oral, na dose de 5 mg/Kg
de peso, a cada 24 horas, durante três a seis meses de acordo com a tolerância
do paciente.
 
 
Represamento lácteo
O represamento lácteo ocorre quando há ingurgitamento mamário e
um não esvaziamento das mamas. É de ocorrência comum nas cadelas e
gatas, principalmente após a ocorrência de pseudociese, por não haver recém
nascido para mamarem e ocorrer o represamento lácteo. Ocorre ainda
naquelas fêmeas que parem poucos filhotes ou quando há natimortos. A
conseqüência do represamento lácteo acarreta no endurecimento das
glândulas mamárias, o que é conhecido como empedramento mamário ou
leite empedrado.
O tratamento para o empedramento lácteo pode variar em função da
extensão do ingurgitamento e tempo de ocorrência. Em alguns casos ocorre
ulceração da pele adjacente por compressão mecânica, o que deve ser
diferenciado de carcinomas. De modo geral, o tratamento consiste em:
a) Dieta hipoprotêica por 7 a 10 dias, principalmente na pseudociese;
b) Compressas mornas e massagens sobre as mamas, seguidos por
esgotamento mamário duas a quatro vezes ao dia;
c) Curativo local das feridas cutâneas com glicerina iodada.
A droga Metergolina, um derivado sintético do Ergot, com ação
antagonista serotoninérgica em nível de receptores do sistema nervoso
autônomo, que inibe a secreção de prolactina, é recomendado pela literatura
em certos casos de pseudociese seguido por empedramento lácteo. Os
medicamentos homeopáticos, tais como Pulsatilla nigricans 6 CH e Lac
caninum 6 CH, são também recomendados.
 
Roteiro de estudo: Mastologia Veterinária
 
1. Qual a origem embrionária da glândula mamária?
2. Qual o tipo histológico a que pertence a glândula mamária?
3. Descreva o desenvolvimento da glândula mamária desde o período
embrionário até a idade adulta.
4. O que é “linha do leite”?
5. Explique a ocorrência de glândulas extranumerárias.
6. Como está estruturado o parênquima mamário?
7. Quais são as estruturas que participam das vias excretoras mamárias?
8. Quais são os ligamentos do úbere?
9. Quais os vasos sanguíneos que irrigam as glândulas mamárias?
10. Descreva como ocorre a drenagem linfática das glândulas mamárias.
11. Descreva a inervação do aparelho mamário.
12. Descreva a anatomia topográfica do aparelho mamário das multíparas.
13. Explique como ocorre o processo secretor do leite.
14. Explique o mecanismo de ejeção do leite.
15. Quais as principais neoplasias que acometem as glândulas mamarias das
gatas e cadelas?
16. Quais as principais patologias que acometem o úbere bovino?
17. Descreva os procedimentos obstétricos preconizados no tratamento de
papilomas no úbere.
18. Descreva o procedimento cirúrgico na correção de uma ferida pérfuro-
cortante na teta do úbere.
19. Qual o procedimento cirúrgico no caso de um abscesso crônico em um
quarto mamário?
20. Em que consiste o sistema TNM? Explique a sua aplicabilidade.
21. Descreva o protocolo cirúrgico nas neoplasias mamárias adotado no
Serviço de Obstetrícia do Hospital Veterinário da UFRRJ.
22. Descreva os procedimentos anestesiológicos em uma mastectomia de
cadelas e gatas.
23. Descreva a técnica cirúrgica de uma quadrantectomia torácica
(mastectomia torácica direita ou esquerda).
24. Descreva a técnica cirúrgica de uma quadrantectomia inguinal
(mastectomia inguinal direita ou esquerda).
25. Descreva o pós-operatório em uma mastectomia de cadelas e gatas.
26. Descreva o procedimento obstétrico nos casos de empedramento lácteo.
 
Referências bibliográficas
1. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Autoexame da
pele. Rio de Janeiro: INCA; 2004. [citado em 14 set 2005]. Disponível em:
http:// www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=136.
2. CAIXINHA, M. R. S. N. Estudo clínico e anatomopatológico de
neoplasias mamárias na cadela e na gata. 2011. 120f. Dissertação (Mestrado
em Reprodução animal) – Universidade Técnica de Lisboa: Faculdade de
Medicina Veterinária.
3. CUNNINGHAM, James G; KLEIN, Bradley G. Tratado de fisiologia
veterinária. 4. ed. Rio de Janeiro: Saunders Elsevier, 2008.
4. GETTY, R. Anatomia dos animais domésticos. 5.ed. Rio de Janeiro:
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5. KENNY, J.E. Primary adenocarcinoma of the udder of a Milk cow. Vet.
http://www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=136
Rec. v. 54, p. 240-241, 1942.
6. PELETEIRO, M.C.; CORREIA, J. J. Classificação TNM dos tumores
mamários de cadela egata. Medicina Veterinária, 44, 47-50, 1993.
7. POVEY, R.C.; OSBORNE, A.D. Mammary gland neoplasia in the cow: a
review of the literature and reporto f a fibrosarcoma. Path Vet. v. 6, p. 502-
512, 1969.
8. RAMOS, A.T.; NORTE, D.M.; ELIAS, F.; FERNANDES, C.G.
Carcinoma de células escamosas em bovinos, ovinos e eqüinos: estudo de 50
casos no sul do Rio Grande do Sul. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. v. 44, p. 5-
13, 2007.
9.SINGER, B.; IYER, P.K.R. Mammary gland of the dog and cat. Small
animals practice. v. 7, p. 441-446, 1972.
10. SMITH B.P. Medicina interna de grandes animais. 3ª ed. São Paulo:
Editora Manole, p.892-895, 2006.
11. SLATTER, D. Manual de cirurgia de pequenos animais. 2ªed. São Paulo:
Manole, 1998.
Anexos do embrião e do feto
 
Os anexos do embrião e do feto são estruturas formadas pelos folhetos
embrionários e que servem para a proteção, a alimentação e o
desenvolvimento do embrião e do feto. Comumente, são denominados
erroneamente de placentas.
Tipos de anexos embrionários ou fetais
Em relação ao tempo de permanência dos anexos embrionários ou
fetais durante o período gestacional pode-se classificá-los em duas
categoriais, a do anexo transitório, no qual o único anexo transitório é a
vesícula vitelina, que desaparece com a evolução da gestação para a fase
fetal; e a dos anexos permanentes, que são aqueles que persistem durante toda
a gestação, como o córion, o alantóide, e o âmnio. Nesta categoria também se
inclui o cordão umbilical como um anexo fetal permanente (Figura 1).
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1. Anexos embrionários permanentes.
 
Características dos anexos embrionários ou fetais
A Vesícula Vitelina
A vesícula vitelina desenvolve-se assim que se inicia a fase
embrionária da gestação, a partir do folheto embrionário denominado
endoderma, sendo o primeiro anexo que se forma e desaparece tão logo que
se inicia a fase fetal do desenvolvimento gestacional nos mamíferos. Nas
aves consiste na gema do ovo.
A vesícula vitelina é um órgão que armazena nutrientes e participa
ativamente da nutrição do produto. A partir de suas células se estrutura a
primeira circulação sangüínea, que se denomina de circulação
onfalomesentérica, constituída por duas artérias e duas veias, encarregada da
transferência de nutrientes da vesícula vitelina para o embrião, enquanto a
circulação útero-placentária esta sendo estabelecida.
Além da função de armazenamento de nutrientes e de nutrição do
embrião, a vesícula vitelina exerce a função hematopoiética até que o fígado
fetal a exerça, o que ocorre a partir da 6ª semana de vida intra-uterina. A
vesícula vitelina inicia a sua involução tão logo surge o anexo alantóide. No
ser humano a vesícula vitelina separa-se do intestino por volta da 15ª semana
de vida intra-uterina, sendo que em cerca de 2% da população ocorre a sua
persistência, se mantendo como um divertículo aderido à porção ileal do
intestino, o que se denomina de divertículo de Meckel.
O Córion
O córion é o anexo mais externo, pois se origina a partir do
trofoblasto, e deste modo envolve todo o corpo do embrião, como uma bolsa.
O trofoblasto forma uma capa espessa que se adere à capa externa do
alantóide, que apresenta os vasos sangüíneos placentários, constituindo uma
capa dupla, sendo denominada de capa alanto-córion ou córion-alantóide.
Esta capa constitui a porção fetal da placenta, que é também denominada de
placenta fetal, pois se relaciona diretamente com o endométrio materno,
permitindo a troca metabólica entre a circulação sangüínea materna e a
embrionária em sua superfície.
A capa córion-alantóide no inicio do seu desenvolvimento é
vascularizada em toda a sua superfície, e denomina-se de córion viloso. Em
algumas espécies animais, à medida que a gestação progride a superfície
externa da capa córion-alantóide se modifica e passa a apresentar áreas
desprovidas de vascularização, denominadas de córion liso, que modifica a
arquitetura externa e forma diferentes tipos de placentas fetais.
O Alantóide
O alantóide surge durante a 2ª ou 3ª semana de gestação nos embriões
bovinos, como um divertículo da parte posterior do intestino, e se desenvolve
como uma continuidade da vesícula urinária, atravessa o cordão umbilical e
envolve o âmnio para formar uma bolsa, com sua expansão limitada pelo
córion. A porção do alantóide presente no cordão umbilical e em
comunicação com a bexiga se denomina de úraco.
A capa externa do alantóide é vascular e se fusiona com o trofoblasto
para constituir a capa córion-alantóide, enquanto que a capa interna é
avascular e se funde com o âmnio formando a capa âmnio-alantóide. A bolsa
alantoidiana é preenchida pelo liquido alantoidiano, resíduo do catabolismo
fetal, que é proveniente da bexiga. E, à medida que a gestação evolui aumenta
o volume do líquido alantoidiano, que pode podem chegar a uma média de 12
litros na vaca, 15 litros na égua, 1 litro nos pequenos ruminantes e em torno
de 0,5 litro nas cadelas.
O liquido alantoidiano apresenta comumente massas ou corpos
amorfos semi-sólidos, de coloração âmbar, e de consistência mole e pegajosa,
que são denominados de “boomanes” nos bovinos, e “hipoomanes” nos
eqüinos. Alguns autores denominam estes corpos de cálculos alantoidianos
devido ao fato destes apresentarem um núcleo central de fragmento de células
descamadas sobre as quais se dispõem camadas concêntricas de um
complexo mucoproteico desnaturalizado e minerais, sobretudo o fosfato de
cálcio.
Durante o parto das uníparas, o rompimento da bolsa alantoidiana
caracteriza o término da fase de dilatação e início da fase de expulsão. Nos
bovinos pode ocorrer o rompimento da bolsa amniótica antes da bolsa
alantoidiana, sem que isto comprometa a evolução da parição. Este fato se
deve à disposição da bolsa alantoidiana que não envolve completamente a
bolsa amniótica em sua porção dorsal.
O Âmnio
O âmnio consiste no anexo mais externo do embrião/feto e surge a
partir do ectoderma entre o 13º e o 16º dia na vaca, égua e ovelha.
Anatomicamente, consiste em uma membrana que envolve todo o cordão
umbilical e se reflete sobre o embrião/feto, para formar uma bolsa protetora
que se preenche de líquido. Este líquido, denominado de liquido amniótico, é
claro, incolor e de natureza mucóide, rico em proteínas, enzimas, lipídios,
frutose, e sais minerais. Ele é produzido pelo epitélio amniótico e pela
rinofaringe e glândulas salivares do embrião/feto. O componente mucóide do
liquido amniótico é de origem faringeal e salivar e contribui para a
lubrificação do feto e das partes moles do canal do nascimento na hora do
parto.
No inicio da gestação o liquido amniótico aumenta de volume e à
medida que o feto alcança dimensões elevadas ele se concentra e tende a
diminuir de volume. Este líquido circula livremente na cavidade oral e no
tubo digestivo do embrião/feto, o que favorece o desenvolvimento e a
funcionalidade deste sistema. Porém, ele nunca é inalado. A presença de
mecônio no liquido amniótico no momento do parto indica sofrimento fetal
(hipoxia) e risco de vida do neonato.
Na superfície interna da membrana amniótica há pequenas projeções,
exceto nos suínos e carnívoros, de forma irregular e coloração branca, que
são denominados de placas amnióticas ou formações papilares. Estas regiões
são grandes secretoras de liquido amniótico.
As funções dos líquidos amnióticos e alantoidianos
a) Proteção fetal contra traumas e desidratações;
b) Evita aderências do feto com os anexos;
c) Permite o desenvolvimento fetal simétrico;
d) Permite a movimentação fetal;
e) Receptáculo de nutrientes para o feto;
f) Auxilia na dilatação para o parto;
g) Promove lubrificação do canal do nascimento;
h) Função bactericida no canal do nascimento;
i) Função laxativa para o recém-nato.
 
O cordão umbilical
O cordãoumbilical é formado pelos anexos fetais, com exceção do
córion. A sua superfície externa é constituída pelo âmnio, e em seu conteúdo
encontra-se o úraco, que representa o alantóide, e vestígios da vesícula
vitelina. Encontra-se ainda uma artéria e duas veias umbilicais (Figura 2).
Estas estruturas são circundadas por uma secreção mucóide denominada de
gelatina de Wharton. Esta secreção pode-se constituir em um excelente meio
de cultura para germes anaeróbicos no pós-parto, o que contra-indica a
ligadura do cordão umbilical ao nascimento.
O cordão umbilical se apresenta de modo contorcido devido a
disposição dos vasos umbilicais. A artéria umbilical é mais curta que as veias
umbilicais, o que permite ao cordão sofrer dobras e distensões sem alterações
estruturais e funcionais.
A cicatrização do cordão umbilical se processa por mumificação das
suas estruturas, o que é favorecido pela ação desidratante do álcool, que deve
ser empregado no controle antisséptico.
Figura 2. Placas amnióticas no cordão umbilical.
 
Roteiro de estudo: Anexos do embrião e do feto
1. Cite os tipos de anexos do embrião e do feto.
2. Quais as funções e as estruturas formadas pela vesícula vitelina?
3. Qual o anexo que realiza a função hematopoiética?
4. O que é divertículo de Meckel?
5. Qual o folheto embrionário que forma a Vesícula vitelina?
6. Qual a origem embrionária do córion?
7. O que vem a ser a membrana cório-alantóide?
8. Qual a estrutura que forma a parte fetal da placenta?
9. Diferencie córion liso de córion viloso.
10. Qual a origem do alantóide?
11. Como está constituído o alantóide?
12. Como se forma e qual a função do liquido alantoidiano?
13. Por que na vaca durante o parto a bolsa amniótica pode se romper
antes da bolsa alantoidiana?
14. O que vem a ser Boomane e Hipoomane?
15. Qual a função do úraco?
16. Quais as estruturas que compõem o cordão umbilical?
17. Descreva os principais cuidados no manejo terapêutico do cordão
umbilical.
 
Referencias bibliográficas
1. JUNQUEIRA, L. C. & CARNEIRO, J. Noções básicas de histologia e
embriologia. 6ªed. São Paulo:Livraria Nobel. 1975.152p.
2. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. Guanabara Koogan, 2006.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Placentas
 
O termo “placenta” (do latim Plaknos = bolo) foi originalmente
atribuído à placenta humana devido ao seu aspecto exterior quando disposta
em uma superfície plana. O termo foi generalizado para todas as espécies
animais pertencentes à ordem dos placentários, da classe dos mamíferos. Nos
marsupiais (do latim Marsupio= bolsa) não há uma estrutura placentária
completa, e sim uma estrutura membranosa no útero que facilita a passagem
dos nutrientes do corpo da mãe para o embrião. Os Monotrematas (Ex:
Ornitorrinco) são mamíferos primitivos, não possuem placentas e são
ovíparos (põem ovos).
Desenvolvimento da placenta
No inicio do período embrionário gestacional ocorre o
reconhecimento materno da gestação a partir do contato do trofoblasto com o
endométrio materno. Com o desenvolvimento do sinciciotrofoblasto e a
modificação endometrial inicia-se o processo de placentação, constituindo-se
a porção fetal (corio-alantóide) e a porção materna (endométrio modificado).
Classificação das placentas
As placentas podem ser classificadas de acordo com três referenciais:
quanto à sua forma anatômica, quanto às características da modificação
endometrial, e quanto às modificações histológicas que apresenta.
Tipos de placentas quanto à forma anatômica
As placentas das diferentes espécies de mamíferos podem assumir
distintas formas anatômicas, também denominadas de placentação, e daí
serem denominadas como: difusa, zonária, cotiledonária ou discoidal.
a) Placenta Difusa: neste tipo de placenta toda a superfície do córion se
mantém vascular (porção fetal da placenta) e em contato com o endométrio
(porção materna da placenta) durante toda a gestação. Este tipo de placenta é
peculiar às espécies eqüina e suína.
b) Placenta Zonária: neste tipo de placenta o córion vascular (córion viloso)
forma um cinturão ou banda ao redor do saco coriônico oval que se conecta
no endométrio (porção materna da placenta) na circunferência interna da luz
uterina. Os carnívoros (como os cães e gatos) apresentam este tipo de
placenta.
c) Placenta Cotiledonária: O córion vascular (córion viloso) se restringe a
pequenas áreas circulares, em número variável entre 80 a 120, distribuída
pela superfície do córion liso, e constitui a porção fetal da placenta
(cotilédone). A superfície do endométrio que entra em contato com o
cotilédone constitui a porção materna da placenta e denomina-se de
carúncula, e o conjunto recebe o nome de placentoma. Este tipo de placenta é
encontrada nos ruminantes.
d) Placenta Discoidal: este tipo de placenta apresenta uma forma discoidal
do córion viloso e que ocupa a maior parte da superfície corial. A conexão
com o endométrio modificado é bem intricada. Esta placenta é peculiar aos
primatas e roedores.
Tipos de placentas quanto à modificação da mucosa uterina
a) Placenta Deciduada: este termo (do latim deciduus: uma queda) se refere
àquelas placentas que apresentam desprendimento total do endométrio
modificado juntamente com a porção fetal da placenta durante o parto. É o
tipo de placenta dos primatas, roedores, carnívoros e da coelha.
b) Placenta Adeciduada: neste tipo de placenta o endométrio modificado
(porção materna da placenta) não se desprende quando a porção fetal da
placenta (córion viloso) se desprende na hora do parto. É o tipo de placenta
dos ruminantes, eqüinos e suínos.
Tipos de placentas quanto às estruturas histológicas
a) Placenta Epitélio-Corial: neste tipo de placenta existem seis estruturas
histológicas interpostas entre o sangue materno e o fetal. Na placenta materna
tem-se o endotélio vascular, o tecido conjuntivo de preenchimento e o
epitélio endometrial; e, na placenta fetal tem-se o epitélio corial, o tecido
conjuntivo de preenchimento e o epitélio vascular. É o tipo de placenta que
impede a passagem de macromoléculas, como as imunoglobulinas, e o feto
fica desprovido de imunidade passiva, o que o torna dependente do colostro
após o nascimento. Está presente nos bovinos, ovinos, eqüinos, e suínos.
b) Placenta Sindesmo-Corial: tipo de placenta intermediaria entre a placenta
epitélio-corial e a endotélio-corial. Alguns autores consideram ser este o tipo
de placenta dos bovinos.
c) Placenta Endotélio-Corial: nesta placenta há quatro estruturas
histológicas que separam o sangue materno do sangue fetal. Na parte materna
só existe o endotélio vascular que entra em contato direto com o epitélio
corial. O sangue precisa transpor este epitélio, o conjuntivo e o endotélio
vascular corial para alcançar a circulação fetal. Este tipo de placenta
encontra-se nos carnívoros, como os caninos e felinos.
d) Placenta Hemo-Corial: a placenta fetal se implanta no endométrio
modificado, sendo banhado diretamente pelo sangue materno. Há, portanto,
somente três barreiras interpostas entre o sangue materno e o fetal. Ocorre
nos primatas, incluindo-se o homem, e nos roedores.
Funções da placenta
A placenta é um órgão altamente especializado por apresentar células
multifuncionais que desempenham funções especificas de vários órgãos do
corpo animal, funções estas essenciais para manutenção da gestação e
promoção do desenvolvimento embrionário e fetal.
A placenta realiza diversas funções metabólicas, dentre elas as de
troca gasosa (como os pulmões), as de transferência de nutrientes (função
digestiva), as de eliminação de catabólitos (função renal), as de síntese de
hormônios (função endócrina), etc. Pode-se agrupar estas funções em quatro
categorias:
1. Função de transferência
a) Gases: o oxigênio, o gás carbônico e o monóxido de carbono atravessam a
barreira placentáriapor difusão simples.
b) Nutrientes:
 Água: passa livremente na barreira placentária;
 Glicose: por difusão simples;
 Eletrólitos: o cálcio e o fósforo são absorvidos ativamente e os demais por
gradiente de concentração. O ferro tende a ser mais abundante no sangue
fetal;
 Vitaminas: as hidrossolúveis atravessam a barreira placentária mais
rapidamente que as lipossolúveis. Todas atravessam por difusão simples
exceto a vitamina C que transpõe a barreira contra um gradiente de
concentração;
 Colesterol, triglicerídios, fosfolipídios e ácidos graxos livres: transpõem a
barreira com certo grau de dificuldade;
c) Hormônios:
 Protéicos: dentre os hormônios protéicos somente o T3 e o T4 que
atravessam livremente, os demais não atravessam e necessitam ser
sintetizados;
 Esteróides: os esteróides não conjugados atravessam a barreira enquanto
que os conjugados não atravessam;
 Anticorpos: na dependência do tipo de placenta;
 Globulinas: alfa e beta não atravessam ou atravessam em quantidades
muito pequenas;
 Gamaglobulinas (Ig-G): atravessam alguns tipos de placentas;
 Catabólitos: os principais resíduos do metabolismo, como a uréia, o ácido
úrico e o gás carbônico, atravessam a barreira placentária por difusão
simples;
 Drogas: as drogas costumam atravessar livremente a barreira placentária.
Em relação às drogas empregadas em anestesia, como a succinil-colina e o
curare, estas não atravessam a barreira placentária, enquanto que os demais
relaxantes musculares atravessam. Todos os sedativos e os analgésicos
transpõem com facilidade a barreira placentária do mesmo modo como
atravessam a barreira hemato-encefálica;
 Micro-organismos: os seres microbianos geralmente não atravessam a
barreira placentária, exceto alguns vírus. No entanto, alguns agentes
microbianos conseguem se colonizar na placenta. Existem algumas larvas de
helmintos que atravessam a placenta facilmente e vão se alojar no feto.
2. Função Metabólica: a placenta é capaz de sintetizar as seguintes
substâncias orgânicas: glicogênio, colesterol, algumas enzimas e
hormônios.
3. Secreção Endócrina:
 Hormônios protéicos:
 GCH (gonadotropina coriônica humana)
 SCH (somatomamotropina coriônica humana)
 LPH (lactogênio placentário humano)
 PMSG (gonadotropina sérica da égua prenha)
 STH (tireotropina)
 Esteróides (estrogênio, progesterona, relaxina)
4. Armazenamento de nutrientes.
 
Roteiro de estudo: Placentas
1. Qual a origem do nome placenta?
2. Descreva a finalidade da Placenta.
3. Descreva os tipos de placentas abaixo:
a. Difusa:
b. Zonária:
c. Cotiledonária:
d. Discoidal:
e. Deciduada:
f. Adeciduada:
g. Epiteliocorial:
h. Endoteliocorial:
i. Hemocorial:
j. Sindesmocorial:
 
4. Cite o tipo de placenta da vaca, égua, cadela, gata e dos primatas.
5. Explique as seguintes funções da placenta: transferência, metabolismo e
secreção endócrina.
 
Referências bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ªed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan. 1979. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
3. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ªed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
4. REZENDE J. Obstetrícia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1969. 
 
 
Circulação sanguínea fetal e neonatal
 
O sistema cardiovascular fetal é estruturado de modo a atender às
necessidades pré-natais e permitir ao nascimento modificações que
estabeleçam o padrão circulatório pós-natal. No momento do parto, quando
se dá interrupção da circulação placentária conjuntamente com a expansão
pulmonar nos primeiros movimentos respiratórios modifica-se a dinâmica
circulatória, e se estabelecem a pequena e a grande circulação sanguínea.
Desta forma, fica estruturado o trajeto circulatório sangüíneo definitivo.
A circulação sanguínea fetal
A circulação fetal visa atender as necessidades do feto de oxigênio, de
absorção de nutrientes e eliminação de catabólitos, o que é realizado pela
placenta.
O sangue oxigenado proveniente do organismo materno atravessa a
placenta e chega à veia umbilical, que penetra no abdome fetal e se dirige
para o fígado fetal. Cerca de metade do sangue proveniente da placenta passa
através dos sinusóides hepáticos, enquanto o restante é desviado do fígado
fetal e segue pelo ducto venoso para a veia cava caudal ou inferior. Exceto
nos eqüinos e nos suínos que não possuem ducto venoso. O fluxo sanguíneo
que passa pelo ducto venoso é regulado por um esfíncter próximo da veia
umbilical, o qual impede a sobrecarga do coração quando o fluxo venoso é
alto na veia umbilical.
Após um curto percurso na veia cava caudal ou inferior, o sangue
segue para o átrio direito do coração. Este sangue não é tão oxigenado quanto
o da veia umbilical porque a veia cava caudal inferior também contém sangue
desoxigenado oriundo dos membros inferiores, do abdome e da pelve.
A maior parte do sangue presente no átrio direito se dirige pela borda
inferior do septum secundum, atravessa o forame de Botal, também
denominado forame oval ou orifício oval, e passa para o átrio esquerdo. O
restante do sangue que permanece no átrio direito, cerca de 5 a 10%, se
mistura com o sangue proveniente da veia cava cranial ou superior, torna-se
menos oxigenado, passa para o ventrículo direito e segue para os pulmões
pelas artérias pulmonares e retorna pelas veias pulmonares, sem ser
oxigenado, ao átrio esquerdo. Uma parte deste sangue, entretanto, é desviada
para a aorta, por meio do ducto arterioso, que une a artéria pulmonar
esquerda à crossa da aorta. O sangue presente no átrio esquerdo segue para o
ventrículo esquerdo e daí segue pela aorta, recebendo uma pequena porção de
sangue pelo ducto arterioso, e segue para todo o corpo.
As regiões anatômicas que recebem sangue mais oxigenado são: as
artérias do coração, a cabeça, o pescoço e os membros superiores. O fígado é
o órgão melhor oxigenado por receber diretamente o sangue da veia
umbilical.
A aorta abdominal na entrada da pelve se ramifica em tronco ilíaco
que forma as artérias ilíacas internas e externas. Por sua vez, as artérias
ilíacas internas emitem um ramo em direção a bexiga, denominado artérias
vesicais superiores, que em sua porção caudal constitui as artérias
umbilicais, que seguem para o cordão umbilical, retornando à placenta para
re-oxigenação e trocas metabólicas.
A circulação sanguínea neonatal
Ajustes circulatórios importantes ocorrem no momento do parto
quando cessa a circulação do sangue fetal pela placenta e os pulmões do
recém nato começam a funcionar. A interrupção da circulação placentária no
momento do parto acarreta em queda da pressão sangüínea na veia umbilical,
ducto venoso e ducto arterioso, que conjuntamente com a modificação do
fornecimento de oxigênio e conseqüente inibição da ação enzimática de
prostaglandinas (PgE1, PgE2), há o fechamento e fibrosamento destas
estruturas. Desta forma, o sangue que era parcialmente desviado do fígado
passa agora a circular totalmente pelos sinusóides hepáticos.
No momento em que o recém nato realizar o primeiro movimento
respiratório haverá expansão pulmonar com diminuição da resistência
vascular e aumento da complacência vascular pulmonar, este fenômeno
associado à diminuição imediata da pressão sangüínea na veia cava inferior e
no átrio direito, devido a oclusão da circulação placentária, levará a uma
elevação da pressão sangüínea no átrio esquerdo, em comparação com a do
átrio direito, determinando o fechamento do forame de Botal.
A parede ventricular direita é mais espessa do que a parede do
ventrículo esquerdo nos fetos e nos recém-nascidos, porque o ventrículo
direito vinha trabalhando com mais intensidade. Ao final do primeiro mês, a
parede do ventrículo esquerdo fica mais espessa do que a parede do
ventrículo direito, pois agora é o ventrículo esquerdo que trabalha mais.
Posteriormente, a parede doventrículo direito torna-se mais fina, devido à
atrofia associada a uma carga de trabalho mais leve.
Durante a vida fetal, a manutenção da abertura do ducto arterioso é
controlada pelo baixo nível de oxigênio no sangue que o atravessa e pela
produção endógena de prostaglandinas, que atuam sobre as células
musculares da parede do ducto, mantendo-as relaxadas. A hipóxia e outras
influências mal definidas dão origem à produção das prostaglandinas E1 e
E2, que mantêm o ducto aberto. Inibidores da síntese de prostaglandina,
como a indometacina, podem provocar a constrição do ducto arterioso aberto
em bebês prematuros.
A mudança da circulação sangüínea do padrão fetal para o do adulto
não é uma ocorrência súbita. Algumas mudanças ocorrem com o primeiro
movimento respiratório, enquanto outras levam horas ou dias. Durante o
estágio de transição, pode haver um fluxo da direita para a esquerda pelo
orifício oval. Embora o ducto arterioso se contraia ao nascimento, geralmente
ele permanece patente por dois ou três meses. O fechamento dos vasos fetais
e do orifício oval é, inicialmente, uma alteração funcional; mais tarde há o
fechamento anatômico resultante da proliferação dos tecidos endotelial e
fibroso.
Modificações ocorridas ao nascimento
Ao nascimento, logo após a realização do primeiro movimento
respiratório, as artérias umbilicais contraem-se para evitar que o sangue
escape do corpo do recém nato. Gradualmente elas se transformam em
estruturas fibrosas, os ligamentos vesicais laterais. Por sua vez, a porção
intra-abdominal da veia umbilical transforma-se no ligamento redondo do
fígado, e o ducto venoso no ligamento venoso, enquanto que o ducto
arterioso se transforma em ligamento arterioso (Figura 1). O fechamento do
forame de Botal completa a transformação da circulação sangüínea.
O conhecimento da circulação fetal, do desenvolvimento do coração e
dos vasos sanguíneos, das modificações circulatórias no nascimento e da
fisiologia circulatória e respiratória, está na base da compreensão das
malformações congênitas do coração.
Figura 1. Artérias e veias umbilicais.
Roteiro de estudo: Circulação fetal
1. Descreva o trajeto do sangue proveniente da placenta no feto.
2. Descreva o trajeto do sangue no recém-nato após corte do cordão
umbilical.
3. Quais as estruturas anatômicas existentes na circulação fetal que sofrem
modificações ao nascimento? Cite as resultantes destas modificações.
4. O que é úraco e qual a principal conseqüência de sua não involução?
 
Referências bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ªed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan. 1979. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
3. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ªed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
4. REZENDE J. Obstetrícia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1969. 
Aspectos clínicos e fisiológicos da gestação
 
A gestação é uma fase especial na vida da fêmea em que ela leva em
seu interior o produto da concepção. Em relação ao feto, este período é
definido como o período de vida intra-uterina.
Quando a fêmea é fertilizada pela primeira vez, e se torna primigesta,
ela alcança o seu pleno desenvolvimento orgânico e mental, por exercer
funções anabólicas primordiais para o desenvolvimento fetal, com uma
perfeita integração entre todos os seus sistemas funcionais orgânicos, com os
seus órgãos trabalhando em um limiar mais elevado a fim de atender as
necessidades do desenvolvimento fetal. Concomitante, são ativados diversos
núcleos cerebrais no sistema límbico que determinam um perfil
comportamental direcionados para a preservação da espécie. A gestante se
apresenta sensível psiquicamente aos diferentes estímulos ambientais,
evitando estímulos nocivos que possam por em risco a sua vida e a da prole,
como a presença de predadores.
O período gestacional vai da fertilização ou concepção à parturição,
ou nascimento de um produto. Na natureza as fêmeas são fecundas quando
alcançam o seu desenvolvimento gonadal. Quando ocorre a primeira gestação
(primigesta) as fêmeas deixam de ser púberes para se tornarem maduras,
completando o seu desenvolvimento mamário e biotipológico.
A progesterona produzida inicialmente pelo corpo lúteo e
posteriormente pela placenta é responsável pela determinação de um
metabolismo anabólico e manutenção da gestação. O hormônio prolactina
durante a gestação possui efeito luteotrófico, o que contribui para
manutenção das taxas elevadas de progesterona.
As elevadas taxas de progesterona durante a gravidez competem com
o estrogênio nos receptores celulares dos osteoblastos nas cartilagens de
conjugação e nas células dos núcleos de calcificação óssea interrompendo as
mitoses sucessivas, acarretando em uma interrupção do crescimento ósseo e
conseqüentemente encerrando o processo de desenvolvimento corpóreo.
Geralmente, em condições naturais, o primeiro cio fértil da fêmea
ocorre quando ela apresenta um pleno desenvolvimento corpóreo. De modo
geral, deve-se evitar a cobertura das fêmeas em seu primeiro cio clínico a fim
de se evitar uma interrupção do seu desenvolvimento ósseo que poderia
acarretar em uma diminuição do porte animal e ainda uma pelve diminuta, o
que poderia predispor a ocorrência de distocias. Nesses casos o fenótipo do
animal poderá não corresponder ao seu padrão genético.
Tipos de gestação
As fêmeas dos mamíferos podem ser classificadas em uníparas ou
multíparas, de acordo com o numero de filhotes que desenvolvem em cada
gestação. As uníparas desenvolvem um ou dois produtos por gestação
(gestação gemelar), enquanto que as multíparas desenvolvem de três a 16
produtos. A vaca e a égua são espécies uníparas (Figura 1), enquanto que a
cadela, gata e porca são multíparas (Figura 2).
 
Figura 1. Vaca gestante (Unípara).
 
Figura 2. Porca gestante (Multípara).
Quando uma fêmea unípara apresenta uma ovulação múltipla seguido
de fecundação de vários óvulos, em um mesmo cio, se diz que ocorreu uma
forma especial de gestação denominada de superfecundação, ensaiando a
fêmea uma condição de multiparidade. Há ainda outra forma especial de
gestação, denominada de superfetação, onde a fêmea unípara uma vez
grávida apresenta um novo cio fértil que caso haja cobertura e fecundação
desenvolverá simultaneamente duas gestações de idade diferente. O parto
pode ser fisiológico e ocorrerá em datas diferentes. Tem sido relatada essa
ocorrência em vacas, éguas e na mulher. Estes fenômenos denotam a
capacidade de variabilidade funcional reprodutiva dos mamíferos que os
habilitam a uma adaptação evolutiva.
O terço final da gestação é também designado como período pré-
natal. Podemos encontrar diversas designações para este período, tais como, a
fêmea esta prenha, cheia, gestando ou mojando.
O período pré-natal é a fase da vida menos conhecida, sendo,
entretanto uma das mais importantes. A taxa de mortalidade neste período é
maior do que em qualquer outro período da vida, de igual comprimento,
posterior ao nascimento. A morte precoce do ovo fecundado ou do pequeno
embrião, que resulta em absorção ou aborto, é freqüentemente considerada
como esterilidade ou infertilidade, pois geralmente passa despercebida.
Fases da gestação
O período gestacional pode ser didaticamente dividido em três etapas,
de acordo com o desenvolvimento de seus tecidos e órgãos em: fase tubárica
ou blastogênica, fase embrionária ou organogênica e fase fetal.
a) Fase tubárica ou blastogênica: na vaca este período dura de 10 a 12 dias,
e se estende desde o momento da fecundação, que ocorre habitualmente
dentro de poucas horas após a ovulação até o desenvolvimento das
membranas embrionárias. A fecundação ocorre no terço médio da trompa
uterina, a ampola tubárica, originando o ovo ou zigoto, que passa por mitoses
sucessivas ou clivagens, ate chegar ao estagio de mórula que apresenta 16 a
32 blastômeros. A mórula entra no útero por volta do 4o dia, quando se
forma uma cavidade no seu interior pela penetraçãode liquido proveniente da
cavidade uterina. Esta secreção é produzida pelo endométrio modificado e é
designado de leite uterino. A mórula é então convertida em blastocisto.
O blastocisto se constitui em uma massa celular externa, designada de
trofoblasto, e um grupo de células que forma uma massa celular interna ou
embrioblasto, o que ocorre por volta do 6° ao 10° dia gestacional. O
trofoblasto gradualmente se diferencia em duas camadas: uma interna, o
citotrofoblasto, e outra interna, o sinciciotrofoblasto. Enquanto o Blastocisto
se implanta ou se adere, dependendo da espécie animal, tem inicio a
diferenciação do embrião a partir da massa celular interna surgindo uma
camada de células, formando o endoderma embrionário, que constitui uma
espessa lâmina chamada disco embrionário.
A fase tubárica culmina com a formação dos anexos embrionários,
que na fase seguinte se desenvolverão em anexos fetais, a partir dos folhetos
embrionários: o âmnio se origina do ectoderma; o alantóide terá o seu folheto
interno originado do endoderma e o folheto externo da vesícula vitelina; o
saco vitelino se forma do mesoderma extra-embrionário; e o córion terá sua
origem a partir do trofoblasto.
b) Fase embrionária ou organogênica: este período se estende desde o 12o
ao 15o dia até por volta do 45o dia de gestação na vaca; do 11o ate
aproximadamente 34º dia na ovelha; e provavelmente do 12º ao 55º ou 60º
dia na égua.
A fase embrionária se caracteriza pela formação da primeira
circulação sanguínea, denominada onfalomesentérica, diferenciação sexual e
placentação (aderência da membrana córion-alantóide ao endométrio). Neste
período se formam os tecidos, os órgãos e os sistemas mais importantes do
corpo. É quando ocorrem quase todos os defeitos de desenvolvimento ou
anomalias teratogênicas mais graves e também o embrião pode morrer e ser
expulso no estro seguinte sem que se perceba, ou macerar-se e ser absorvido
sem sinais externos. Estas duas primeiras fases da gestação são muito
sensíveis e quando se deve ter maiores cuidados, principalmente na
realização de exames clínicos que requeiram contenção ou toque retal e ainda
a realização de certos exames complementares, como exames radiográficos
ou invasivos.
c) Fase fetal ou de crescimento fetal: este período se estende por volta do
34º dia de gestação nos ovinos e caninos; 45º dia em bovinos e 55º a 60º dia
em eqüinos, ate o parto. Caracteriza-se pelo desenvolvimento do feto. O
crescimento do feto se faz de modo geométrico, no qual o peso do feto
bovino e eqüino aumenta muito rapidamente nos últimos dois a três meses de
gestação, chegando a triplicar o seu peso.
Duração da gestação
A duração da gestação ocorre em período de tempo variável, e ela é
calculada como sendo o intervalo entre o serviço fértil e o parto e depende da
espécie animal. Nos mamíferos domésticos conta-se como inicio da gravidez
o dia da copula ou da inseminação e a hereditariedade e a influencia do meio
ambiente podem ser responsáveis pela sua duração. O conhecimento da
duração da gravidez é fundamental para se saber a idade ou maturidade do
feto ao nascimento (Quadro 1).
 
Quadro 1: Duração da gestação nos animais domésticos.
 
Maturidade fetal ao nascimento
a) Feto normal ou maduro: está completamente formado ao nascimento e
logo após o parto é capaz de se locomover e se amamentar sozinho. A sua
pelagem se apresenta com uma coloração própria da raça e o seu peso se
encontra na faixa de normalidade para a espécie. O bezerro apresenta um
peso ao nascimento em torno de 6 a 8% do peso da vaca, enquanto o potro
apresenta um peso na ordem de 1/14 a 1/15 do peso da égua (Figura 3).
b) 
Figura 3. Feto normal ou maduro.
 
c) Feto imaturo: apresenta uma pelagem com pelos curtos, pouco
pigmentados, e podem faltar em algumas regiões do corpo. O pelo do umbigo
é curto, ralo e despigmentado. O peso corporal é abaixo da média (Figura 4).
 
Figura 4. Feto imaturo de 7 meses de idade gestacional.
 
d) Feto demasiado maduro: A pelagem é vasta, com os pelos longos e
encaracolados. O recém nato é avantajado, com o peso corporal acima da
média.
Fórmula de Keller
O diagnóstico da idade gestacional de fetos abortados pode ser
realizado pelo emprego da fórmula de Keller. Para aplicação desta fórmula se
realiza a mensuração do comprimento do corpo do produto abortado à partir
do segundo mês de gestação nas grandes fêmeas (Figura 5).
A fórmula de Keller é a seguinte:
X (X + 2) = Y onde:
X = numero de meses da gestação
2 ou 1 = constante para a vaca e égua, respectivamente.
Y = comprimento do feto, tomado na coluna vertebral (da crista do occipital à
base da cauda).
Figura 5. Feto imaturo abortado.
 
Fatores que podem influenciar na duração da gestação
a) Raça: nas raças precoces a gestação evolui mais depressa do que nas
menos aperfeiçoadas;
b) Sexo do feto: de modo geral os bezerros e potros do sexo masculino
nascem de um a três dias mais tarde do que as fêmeas;
c) Idade da Mãe: nas primíparas o período gestacional é menor. As novilhas
parem os fetos 1 ou 2 dias a menos que as vacas;
d) Tamanho e numero de fetos: os fetos mais desenvolvidos nascem mais
cedo do que os de menor desenvolvimento, e quanto mais numerosos tanto
menor será a gestação;
e) Estação do ano: na estação chuvosa (época de boa alimentação) os
bezerros nascem mais cedo, e na estação seca (época de alimentação
deficiente) verifica-se o contrário.
Sinais clínicos de gestação
 A gestação tem um curso fisiológico que proporciona a manifestação
de sinais clínicos que devem ser investigados para confirmar a existência da
própria gravidez, como a identificação da idade gestacional.
A presença de sinais clínicos de origem materna não confirma a
existência de gravidez e requer pesquisa para diagnóstico diferencial,
principalmente com pseudociese ou gravidez psicológica. Há necessidade de
pesquisa da presença de sinais clínicos de origem fetal para se confirmar a
existência de gravidez. Portanto, considera-se que os sinais clínicos de
gestação podem ser classificados como sinais maternos ou prováveis e sinais
fetais ou certos.
a) Sinais maternos ou prováveis
Ausência de cio
Aumento do poder de assimilação
Aumento do aparelho mamário
Mudança de hábitos
Modificação da garupa
b) Sinais fetais ou certos
Movimentos ativos do feto
Presença do feto
Batimentos cardíacos
Exames complementares: radiológicos, biológicos, hormonal.
 
O Pré-natal nas cadelas e gatas
As cadelas e gatas são espécies multíparas que apresentam
características gestacionais próprias e outras comuns às demais espécies.
Além de desenvolverem múltiplos fetos em uma mesma gestação estas
fêmeas apresentam um rápido desenvolvimento gestacional, que requer
cuidados pré=natais apropriados para se alcançar um parto fisiológico e uma
lactação adequada.
A incidência de problemas reprodutivos na espécie é freqüente, e a
falta de orientação associada ao crescimento da população canina e felina na
sociedade atual tem se refletido no aumento do atendimento obstétrico às
cadelas e gatas gestantes nas clínicas veterinárias de animais de companhia.
A existência de diferentes raças, principalmente de cães, com
biotipologia e proporções esqueléticas variadas, associado às coberturas
inapropriadas, pode acarretar em desproporção materno-fetal na hora do
parto. Neste aspecto, os principais cuidados preventivos a serem adotados
consistem na liberação de fêmeas somente após o 2º cio, na adequação do
porte dos machos ao das fêmeas, e na quantidade e intervalo adequados de
coitos durante o período do cio. Pois, enquanto que o número reduzido de
fetos resulta em fetos avantajados, o número elevado de fetos na mesma
gestação acarreta em aumento excessivo do útero, o que em ambos os casos
resulta em prejuízo na dinâmica do parto.
As necessidades metabólicas aumentam consideravelmente após o 40º
dia de gestação, o que requer suplementação alimentar. O manejo nutricional
dever ser adequado para garantir o aporte de nutrientes que permita
manutençãode um peso corpóreo ideal, pois as fêmeas devem ser mantidas
com escore corporal adequado, e não podem estar magra ou obesa.
No manejo sanitário considera-se que as fêmeas aptas à reprodução
sejam vacinadas preferencialmente na fase de anestro, pelo menos com um
mês antes da manifestação do cio, e recebam controle terapêutico contra a
infestação por endo e ectoparasitos. Durante todo o período gestacional deve
ser evitado o emprego de drogas terapêuticas, tais como antibióticos, anti-
inflamatórios, carrapaticidas, vermífugos e outros, pois estas substâncias
podem apresentar efeitos indesejáveis tanto ao organismo materno quanto ao
embrião ou feto. O uso de acupuntura, fitoterápicos ou medicamentos
homeopáticos podem ser empregados com critério.
As cadelas e gatas que tenham alcançado o terço final da gestação
devem ser avaliadas clinicamente e os proprietários serem orientados quanto
ao progresso da parição e as medidas a serem tomadas para um curso
fisiológico do parto. As fêmeas gestantes devem ter um lugar apropriado para
fazerem seu “ninho” na hora do parto, e devem-se evitar trocas de ambientes
e o uso indevido de desinfetantes no ambiente.
O exame clínico destas gestantes deve ser realizado com delicadeza e
precisão. A contenção mecânica deve ser realizada de modo cuidadoso para
não submeter a paciente ao estresse, a palpação abdominal deve ser feita com
cuidado e o exame do canal vaginal deve ser evitado, exceto quando
indicado. O emprego de Raios-X para avaliação obstétrica nesta fase está
liberado, por não expor o feto à riscos, e mesmo assim, pode ser substituído
por exame ultrassonográfico.
 
O Pré-natal nas vacas
A prática obstétrica inclui procedimentos preventivos direcionados ao
desenvolvimento de uma gestação fisiológica, que resulte em uma eutocia e o
nascimento de recém natos (RN) fortes e saudáveis. Os cuidados obstétricos
preventivos nos bovinos garantem uma eficiência reprodutiva e a garantia de
uma produtividade animal rentável.
As medidas obstétricas preventivas se iniciam antes da cópula com a
seleção de machos e fêmeas adequados à reprodução animal, que sejam
isentos de enfermidades transmissíveis e defeitos genéticos, que apresentem
uma maturidade orgânica e um bom escore corporal que revela adequado
estado de saúde. Estas medidas podem contribuir para o desenvolvimento de
fetos saudáveis e de tamanho adequado à sua espécie e raça.
Na espécie bovina sabe-se que o touro é o responsável pela
transmissão de características da pélvis de suas descendentes, devendo ser
eliminado da reprodução aquele que comprovadamente imprima em sua prole
medidas pélvicas inadequadas a uma boa parição.
As novilhas não devem ser cobertas precocemente, estando somente
liberadas após alcançarem a maturidade orgânica. O critério adotado para as
vacas é o peso corpóreo, que deve ter atingido um mínimo de 240 kg, para as
Zebuínas, e 320 kg, para as Holandesas. A adoção deste critério garante que
as vacas alcancem pleno desenvolvimento da pélvis, e não sofram interrupção
do processo de crescimento ósseo promovido pelos altos níveis de
progesterona gestacional.
Uma vez iniciado o período gestacional, as vacas devem ser atendidas
em suas necessidades nutricionais basais e suplementadas de acordo com o
tipo de solo, pastagem e época do ano. O manejo das pastagens deve permitir
que as vacas gestantes tenham à disposição um pasto sempre viçoso, com
uma boa proporção de gramíneas (Brachiaria sp.; Panicum sp., Cynodon
spp.) e leguminosas (Leucena sp., Soja perene, etc.). E não pode faltar cocho
com sal mineral, áreas sombreadas e água à vontade. Certos manejos que
possam estressar a vaca, como mudança de pastagens, intromissão de novos
animais, ou transportes devem ser evitados.
A vaca gestante não pode estar com o seu peso corpóreo abaixo nem
tampouco acima da média, devendo receber uma alimentação balanceada, de
forma quantitativa e qualitativa, que garanta um bom desenvolvimento fetal
sem comprometer a economia orgânica materna. O fornecimento de
concentrados no cocho deve ser adequado à fase da gestação e à produção
leiteira diária, pois o desenvolvimento do feto segue graficamente uma curva
sigmóide evidenciando um crescimento acentuado no terço final da gestação.
Durante todo o período gestacional deve ser evitado o emprego de
drogas terapêuticas, tais como antibióticos, antiinflamatórios, carrapaticidas,
vermífugos e outros, principalmente na fase inicial da gestação, pois estas
substâncias podem apresentar efeitos indesejáveis tanto ao organismo
materno quanto ao embrião ou feto, além de deixarem resíduos no leite. O
uso de acupuntura, fitoterápicos ou medicamentos homeopáticos podem ser
empregados com critério, na produção orgânica. 
A vaca leiteira gestante deve ser “seca” quando atinge o 7º mês de
gestação para se ter um período de descanso da lactação de dois meses a fim
de se garantir um bom desenvolvimento corpóreo, com níveis de cálcio e de
glicose suficientes para um bom trabalho de parto e uma nova fase
lactacional. O que está de acordo com um bom planejamento de produção
animal no qual a vaca fornece um bezerro por ano e leite por 10 meses.
Nesta fase final da gestação, a vaca deve ser conduzida para um pasto
maternidade onde possa ser assistida e tenha água potável à vontade, sol,
sombra, ventilação, pasto limpo e se sinta segura em relação a invasão de
predadores. É recomendada a aplicação de vacina antibacteriana, em duas
doses, 30 dias antes do parto, a fim de se melhorar a qualidade imunogênica
do colostro.
A assistência ao parto compreende a identificação do início da fase
prodrômica, que pode durar de três dias à três semanas, quando a vaca
desenvolve edemas que se estende da vulva até o úbere e se prepara para a
dilatação do canal do nascimento e expulsão do produto. Deve-se ficar atento
à ocorrência de prolapso vaginal nesta fase nas vacas de alta produção. Ao
final desta fase, a vaca procura se isolar e inicia a expulsão do produto em
decúbito e conclui em estação e em posição de cócoras. Imediatamente à
expulsão do recém nato a vaca presta assistência materna e aproximadamente
após 30 minutos o bezerro fica em estação e instintivamente procura o úbere
para mamar. Caso a parturiente esteja impossibilitada de progredir a parição
deve-se prestar imediata assistência obstétrica.
 
Roteiro de estudo:
Aspectos clínicos e fisiológicos da gestação
1. Defina os termos:
a. Primigesta:
b. Gestação única:
c. Gestação múltipla:
d. Superfecundação:
e. Superfetação
2. A partir de que idade a fêmea está apta a gestar? Explique.
3. Cite cinco sinonímias para gestação.
4. Quais as fases em que se divide o período gestacional?
5. Quais os principais fenômenos que ocorrem na fase blastogênica da
gestação?
6. Diferencie implantação de nidação do blastocisto.
7. Quais os principais fenômenos que ocorrem na fase embrionária da
gestação?
8. Quais os principais fenômenos que ocorrem na fase fetal da gestação?
9. Qual a duração e a variação fisiológica da gestação na jumenta, égua,
vaca, cabra, porca, cadela e gata?
10. Qual a diferença entre aborto e parto prematuro?
11. Como diferenciar um feto imaturo de um maduro ou demasiado maduro?
12. Qual a importância do conhecimento da fórmula de Keller, e quando
pode ser empregada?
13. Qual a idade de um produto bovino abortado que apresentou 44 cm de
comprimento de coluna vertebral?
14. Quais os fatores que podem influenciar na duração da gestação nos
animais domésticos?
15. Cite os sinais clínicos maternos da gestação.
16. Cite os sinais clínicos fetais da gestação.
17. Qual a importância para o diagnóstico de gestação dos sinais clínicos
prováveis e os sinais clínicos certos da gestação?
18. Quais são os principais cuidados obstétricos preventivos no pré-nupcial
dos animais domésticos? Explique.
19. Descreva os principais cuidados pré-natais a serem preconizados com as
cadelas e gatas.
20. Descreva os principais cuidados pré-natais a serem preconizadoscom as
vacas, cabras, éguas e porcas.
 
Referências bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ªed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan. 1979. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
3. JAINUDEEN, M.R., HAFEZ, E.S.E., 1993. In: Hafez, E.S.E., Hafez, B.
(Eds.), Reproduction in farm animals. Lea & Febiger, Philadelphia, pp. 330–
342
4. MCDONALD, L.E. Veterinary endocrinology and reproduction. 4ªed.
Philadelphia: Lea & Febinger. 1989.
5. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ªed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
 
 
Aspectos clínicos e fisiológicos do parto e do puerpério
 
O desencadeamento do parto fisiológico caracteriza o término da
gestação e ocorre por maturidade fetal. A parição é um processo fisiológico
de esvaziamento uterino no qual é expulso de seu interior o(s) feto(S) vivo(s),
os anexos fetais, e a placenta (Figura 1). É o que se denomina Eutocia. A não
expulsão de parte ou do todo destes elementos denota uma distocia quando
então se deve prestar assistência obstétrica para dar término ao parto com o
esvaziamento completo do útero.
 
Figura 1. Porca recém parida.
O parto eutócico vaginal à termo resulta em um recém nato maduro e
viável. O parto prematuro é aquele em que a gestação não chegou à termo,
com a idade gestacional abaixo da variação fisiológica da duração da
gestação característica da espécie animal. A tendência é a de nascer um
recém-nato imaturo viável ou não. Se uma gestação estender-se além de seu
período fisiológico acarretará em um parto retardado, que poderá ter um
curso fisiológico ou patológico e o recém nato ser normal ou demasiado
maduro.
Um recém nascido normal ou maduro está totalmente formado após o
nascimento, é capaz de se locomover e mamar sozinho logo após o parto.
Apresenta uma coloração da pelagem própria da raça e o seu peso se encontra
dentro da faixa de normalidade para a espécie e a raça. Por exemplo, um
bezerro pesa em média 6% a 8% do peso da mãe, enquanto que um potro
pesa em torno de 1/14 a 1/15 do peso materno.
Um recém nascido imaturo possui um peso abaixo da média para a
espécie e a raça, apresenta pêlos curtos e com algumas regiões desprovidas de
pêlos. Na região do umbigo os pêlos são curtos, ralos e despigmentados.
Um recém nascido demasiado maduro possui um peso elevado e uma
pelagem espessa e bem pigmentada, com os pelos longos e encaracolados.
O curso fisiológico do parto é bem semelhante nas diversas espécies
dos mamíferos, As diferenças na parição estão principalmente relacionadas
com o número de filhotes que as fêmeas desenvolvem em cada período
gestacional. Ou seja, se as fêmeas são uníparas ou multíparas.
O papel do Veterinário Obstetra é a de orientar aos proprietários de
animais gestantes quanto ao curso fisiológico do parto, das características e
exigências pertinentes à espécie e a de quando solicitar assistência
profissional. O exame obstétrico deve diferenciar uma progressão fisiológica
de uma evolução patológica do parto, para garantir a sobrevivência da
parturiente e de sua prole.
Principais aspectos fisiológicos do parto
O preparo para o parto se inicia no terço final da gestação quando o
feto alcança um grau de desenvolvimento dos sistemas nervoso e endócrino,
e adquire habilidades adaptacionais que o prepara para o nascimento.
Concomitante ao amadurecimento neuroendócrino do feto vão ocorrendo
modificações uterinas e placentárias que permitirão o desencadeamento do
parto.
Ao término da gestação a placenta atinge o cume do seu
desenvolvimento e surgem receptores uterinos para as prostaglandinas e a
ocitocina. Estudos em cirurgias experimentais de ablação de glândulas
endócrinas, tanto do organismo materno quanto do fetal, alem dos registros
das ocorrências naturais de gestações prolongadas devido a anomalias fetais
congênitas, indicam que o feto à termo determina o término da gestação e
participa ativamente do processo de nascimento, cabendo à mãe a
determinação do momento ou da hora mais adequada para a parição.
A participação do organismo materno é influenciada por
comportamento instintivo de proteção contra danos ou possíveis predadores,
refletindo-se como cuidados maternos à prole.
Na vaca, ovelha, porca e cadela durante os estágios finais da gestação
há um aumento significativo de cortisol no plasma fetal, devido a liberação
de ACTH pela hipófise fetal. Os estudos experimentais em ovelhas revelam
que os níveis crescentes de cortisol fetal estimulam progressivamente a
placenta que passa a converter progesterona em estrogênio, pela ativação da
enzima 17,a-hidroxilase. Conseqüentemente, o nível de progesterona
decresce e os de 17, ß-estradiol e estrona se elevam. Esta alteração hormonal
induz a lise do corpo lúteo nas espécies corpo lúteo-dependentes, como a
porca, a cabra e a vaca, e há um aumento de prostaglandina-F2α (PGF2α) e o
desenvolvimento de receptores para a ocitocina no miométrio.
A progesterona desempenha um papel primordial na manutenção da
prenhes por meio da inibição da contratilidade do miométrio, o que é
facilitado pela presença do hormônio inibina imunorreativa. O
desencadeamento do parto se torna possível pela conversão da progesterona
em estrogênio.
Os estrógenos e a PGF2α atuam sinergicamente na fase inicial do
trabalho de parto promovendo amadurecimento da musculatura da cérvix e
no desenvolvimento de receptores de ocitocina no útero. Os estrogênios
causam ainda um relaxamento das partes moles do canal do nascimento por
promover o fenômeno de solvatação das fibras conjuntivas, que adquirem
polarização elétrica permitindo a atração eletroquímica da molécula de água.
Este fenômeno se denomina de embebimento hormonal. Posteriormente,
ocorre a liberação de ß-endorfinas periféricas, que elevam o limiar de dor da
parturiente, além da produção de neurohormônios de ação amnésica.
Na égua ocorrem níveis relativamente altos de progesterona e baixos
de estrógenos no sangue materno no momento do parto. Entretanto, estes
níveis hormonais não refletem a concentração hormonal placentária.
As metrossístoles
O preparo do útero para a parição ocorre após o completo
amadurecimento do feto e da placenta no final da gestação. O útero adquire a
capacidade de se contrair e a cérvix de se dilatar suficientemente para que
haja uma completa expulsão do feto e dos seus anexos. Este processo segue
princípios físicos que podem ser compreendidos pelo estudo da “lei mecânica
da resistência mínima”.
O útero se comporta como um corpo elástico em que as forças
contráteis produzem um vetor resultante que se direciona no sentido do colo
uterino, de forma análoga a uma bola de inflar, que uma vez cheia permite o
escape do ar pela abertura do bico. O feto assume papel ativo neste processo
ao se dispor adequadamente no canal do nascimento concomitante ao
recebimento da força expulsiva sobre o seu corpo prosseguindo na direção da
menor resistência, que diminui progressivamente, e pela via mais reta.
O miométrio tem as características histológicas de um músculo liso,
sendo capaz de se contrair em ondas rítmicas, semelhantes à peristalse
gastrointestinal, no que se denomina de metrossístoles. Estas contrações
ocorrem durante toda a gestação, porem são de baixa amplitude e freqüência.
No trabalho de parto as ondas contrácteis se dirigem desde os cornos para o
corpo uterino e a cérvix, mostrando uma transição de ondas não coordenadas
isoladas no inicio do parto para ondas coordenadas regulares na fase
expulsiva do parto.
Nos bovinos pode ocorrer uma contração a cada 2,5 minutos, com
duração de 80 a 100 segundos, uma a duas horas antes do parto. A
intensidade destas contrações foi mensurada em um tocodinamômetro e
registrou-se valores em torno de 66 mmHg na fase de dilatação do parto, e
chegando a 99 mmHg na fase expulsiva do parto. A esta força se soma a da
contração abdominal da ordem de 71 mmHg, resultante do reflexo de
Ferghünson, que ocorre por estimulação de receptores localizados no tetovaginal pela entrada do feto no canal do nascimento. A conversão destes
valores para o sistema KgF resulta em valores aproximados de 80kg, que
denota a intensidade de força necessária a ser aplicada sobre o feto bovino
para o seu nascimento.
A dilatação da cérvix ocorre por um mecanismo antagônico às
contrações uterinas. Durante a gestação o miométrio encontra-se relaxado
enquanto a cérvix apresenta-se em espasmo, e durante o parto as contrações
uterinas promovem o relaxamento cervical. O amadurecimento da cérvix é
hormônio dependente sendo influenciado pelos elevados níveis de
estrogênios, relaxina e PGF2α no inicio da parição, os quais promovem
mudanças nas características do colágeno cervical tornando-os mais
complacentes.
Fases clínicas do parto
Os mamíferos comportam-se de modo mais ou menos semelhante no
momento do parto, com algumas variações entre as espécies e entre os
sucessivos partos. As alterações orgânicas ocorrem especialmente na pélvis,
órgãos genitais e glândulas mamarias, com manifestações comportamentais
típicas do parto. Didaticamente, pode-se dividir o parto nas seguintes fases:
a. Fase prodrômica do parto
As parturientes fornecem indícios de parto próximo com
o desenvolvimento de edema vulvar e mamário. A vulva aumenta suas
dimensões, se apresenta flácida e com a mucosa umedecida e hiperêmica; o
aparelho mamário se torna intumescido e com secreção de colostro que tem
um aspecto denso e pegajoso (Figuras 2 e 3). O relaxamento do ligamento
sacro-isquiático é mais pronunciado na vaca, dando o sinal de “vaca funda”,
como denominado vulgarmente no campo.
 
 
Figura 2. Edema de úbere em fase prodrômica do parto.
 
 
Figura 3. Fase prodrômica do parto na porca.
 
O comportamento típico das parturientes nesta fase é o de se isolar na
tentativa de fazer um “ninho” adequado e protegido de possíveis ataques de
predadores à sua prole. A porca, a cadela e a gata procuram fazer uma
“cama” onde irão parir, sendo comum a anorexia em um período de 12-24
horas que antecede o parto. Para cadelas podem ser empregadas caixas de
parto, para garantir um adequado local de parição. Nesta espécie observa-se
queda de 1ºC na temperatura corpórea durante a fase prodrômica.
Na fase prodrômica a vaca se afasta do rebanho, e a égua procura
isolamento e a quietude das horas noturnas. A égua costuma apresentar um
gotejamento de colostro entre seis a 48 horas antes do parto.
As fêmeas na fase prodrômica do parto se ressentem do estresse, o
que pode resultar em demora ou interrupção da parição. O manejo na
exploração animal deve garantir a tranqüilidade necessária para a fêmea
progredir fisiologicamente no trabalho de parto.
A duração desta fase é de difícil determinação, e é extremamente
variável, podendo ocorrer entre algumas horas a semanas. Na maior parte das
espécies de animais domésticos dura entre um a dois dias, enquanto que na
vaca pode durar de três dias a três semanas.
b. Fase de dilatação do parto
Esta fase se caracteriza pelo aparecimento das “dores do parto”
devido às contrações ativas das fibras musculares da parede uterina
(metrossístoles) e conseqüente dilatação da cérvix. Estas contrações são de
duração curta e variável, entre cinco a 30 segundos, assim como a sua
intensidade. Ocorrem de forma irregular e não sincrônica. O processo de
dilatação da pélvis se denomina de apagamento do colo, por ocorrer
progressivamente à dilatação seqüencial de cada anel cervical, no sentido do
canal vaginal para o útero, e concomitante ocorre eliminação do tampão
mucoso cervical (Figura 4).
 
Figura 4. Vaca com eliminação de tampão mucoso.
 
A égua apresenta um quadro típico de cólica abdominal leve
manifesto por inquietude, transpiração no pescoço, olhar para o flanco, um
arrastar das pinças dos membros anteriores no solo, decúbito lateral com
rolamento, logo seguido por retorno à estação. Este comportamento de rolar
colabora para a mudança de estática fetal da posição dorso-pubiana para uma
posição dorso-sacral, por meio de sua rotação.
Na vaca, porca, cadela e gata as dores do parto são mais discretas do
que nas éguas, especialmente nas pluríparas. De modo geral, é comum a
anorexia, o aumento das freqüências cardíacas e respiratórias, e uma discreta
queda de temperatura corpórea. A parturiente pode apresentar micção e
evacuação nesta fase.
A fase de dilatação do parto dura de uma a quatro horas na égua, de
uma a 24 horas na vaca e de duas a 12 horas nas multíparas. Ela culmina com
o rompimento da membrana cório-alantóide, percebido pela saída de liquido
alantoidiano e inicio da progressão do feto envolvido pela bolsa amniótica no
canal do nascimento.
c. Fase expulsiva do parto
Esta fase se caracteriza pelo aparecimento de metrossístoles vigorosas
e rítmicas e conseqüente progressão do feto no canal do nascimento. A
chegada do feto no canal do nascimento promove o aparecimento do reflexo
de Ferghünson que resulta na liberação de ocitocina e conseqüente aumento
na freqüência e intensidade das metrossístoles e do aparecimento
concomitante das contrações abdominais e diafragmáticas. Este fenômeno
caracteriza a fase expulsiva do parto, também denominada de trabalho de
parto ou labor propriamente dito (Figuras 5, 6 e 7).
 
Figura 5. Fase expulsiva do parto em vaca.
 
Figura 6. Parto em porca.
 
Figura 7. Fase expulsiva do parto em cadela.
 
Nas multíparas para cada recém nato há uma fase expulsiva seguido
por um período de repouso uterino, de duração variada entre o nascimento de
cada produto. Os fetos mais próximos a cérvix são os mais maduros e
expulsos primeiramente, tendendo a ocorrer alternância de expulsão dos
produtos de cada corno uterino. Com a expulsão de cada recém nato, a cadela
comumente rompe a bolsa amniótica e o cordão umbilical por roedura, ingere
a placenta e lambe todo o corpo do recém nato. Estes procedimentos
maternos estimulam a micção, a defecação, a respiração e o reflexo de sucção
do recém nato. A secreção esverdeada produzida pelo descolamento
placentário na cadela resulta da decomposição fisiológica do sangue, sendo
denominada de útero-verdina.
A fase expulsiva do parto dura em torno de quatro horas na vaca, de
meia-hora à duas horas nas ovelhas, em torno de 30 minutos na égua, de seis
a 12 horas nas cadelas e gatas, e em torno de seis horas nas porcas.
A expulsão da placenta denota o termino do parto. As contrações
uterinas permanecem após a saída do feto, porem com menor intensidade e
maior freqüência a fim de promover a limpeza do útero e a sua involução.
Nos carnívoros domésticos a expulsão das placentas ocorre de forma
irregular entre a saída de cada feto. Enquanto que nas porcas é comum a
expulsão das placentas retidas algumas horas após a saída do ultimo feto. A
égua expulsa a placenta entre meia-hora à três horas depois do nascimento do
potrinho, enquanto que na vaca o processo é mais lento, e pode demorar até
12 horas.
O puerpério
O puerpério fisiológico é o período compreendido entra a expulsão da
placenta e o aparecimento de um cio fértil na vaca e égua, por reativação do
controle neuroendócrino entre o hipotálamo, a hipófise e os ovários. A sua
duração é variável de acordo com cada espécie animal.
No inicio do puerpério ocorre a eliminação de uma secreção uterina,
inicialmente sanguinolenta e que vai se tornando de aspecto achocolatado,
viscosa, densa e que vai se tornando purulenta, e daí se torna esbranquiçada e
de menor volume ate o seu completo desaparecimento. Esta secreção uterina
se denomina de lóquio (Figura 8).
 
Figura 8. Lóquio puerperal fisiológico.
 
O principal fenômeno do puerpério é a involução uterina com
regeneração do endométrio, a fim de permitir nova fase gestacional. Nesta
fase é importante a adoção de medidas higiênicas e nutricionais para se
atingir o equilíbrio fisiológico de fêmea com o mínimo de transtornos
metabólicos, e garantir o inicio de um novo período fértil.
 
Roteiro de estudo: Aspectos clínicos e fisiológicos do parto
1. Defina Parto.
2. Defina eutocia, distocia e partoprematuro.
3. Explique sucintamente o mecanismo fisiológico que determina a parição.
4. Explique o mecanismo eficiente das metrossistoles na efetivação do parto.
5. Descreva o procedimento obstétrico na assistência ao parto.
6. Descreva as fases clínicas que caracterizam a evolução do parto nas
seguintes espécies: vaca, égua, cabra, porca, cadela e gata. 
7. Defina puerpério.
 
Referências bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ªed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan. 1979. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
3. LUZ et al. Gestação e parto em cadelas: fisiologia, diagnóstico de gestação
e tratamento das distocias. Rev. Bra. Reprod. Anim., Belo Horizonte, v.29,
n.3/4, p.142-150, jul./dez. 2005.
4. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ªed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
 
 
 
 
 
Cesariana
 
A operação cesariana é definida como sendo a retirada do(s) feto(s)
do interior do útero materno através de laparotomia e uterotomia seguida de
uterorrafia e laparorrafia. Neste procedimento inclui-se em muitas espécies a
retirada total da placenta.
A origem do termo cesariana está provavelmente relacionada a uma
lei denominada Lex Cedaere, incluída na Lex regia por Numa Pompulius
(715-673 a.C.), que determinava a proibição de se enterrar a mulher grávida
falecida com o seu filho na barriga, obrigando a emissão de dois óbitos e
enterros distintos. A palavra latina caedare significa cortar e compõe algumas
palavras do jargão médico na língua portuguesa como cesariana e sedação,
dentre outras.
Os primeiros relatos da realização de cesariana em humanos e animais
datam do inicio do século XIX, mas a sua ocorrência estima-se ser mais
remota. Estas eram realizadas por açougueiros que tinham a pratica e o
conhecimento anatômico necessários.
A execução da operação cesariana tem-se constituído em solução
única para uma série muito diversificada de situações obstétricas nas
diferentes espécies animais. A cesariana que cursa com a manutenção do
útero se denomina conservativa, enquanto que aquela em que se retirada todo
o útero se denomina cesariana radical. A escolha do método depende de
considerações clínicas, zootécnicas ou conveniência social. Os avanços
médicos nas áreas de farmacologia, anestesiologia e técnica operatória vêm
contribuindo significativamente na diminuição das taxas de mortalidade
materna e neonatal. Conseqüentemente, observa-se um incremento em sua
realização além do limite de seus benefícios, aumentando a morbidade e os
custos. De modo geral, a solução pode se transformar em um problema
socioeconômico, principalmente na clínica de pequenos animais.
Indicações da cesariana
O desfecho clínico da cesariana depende de sua correta indicação e
das condições clínico-cirúrgicas da parturiente e do(s) feto(s), no momento
do procedimento. Para isto deve-se proceder a um exame obstétrico apurado
antes da realização da cirurgia.
A cesariana está sempre indicada quando o parto normal (vaginal) não
ocorre e quando as manobras obstétricas ou fetotomia não puderem ser
executas. A indicação é dita absoluta quando o feto está vivo e não há outro
recurso para o seu nascimento. A indicação relativa é aquela em que a
cesariana não é o único procedimento possível para a extração do feto.
Em todos os casos, devem-se avaliar as condições cirúrgicas para a
realização da cesariana. As condições cirúrgicas internas são aquelas
referentes às condições clinicas da parturiente, enquanto que as externas são
aquelas que dizem respeito às condições técnicas e instrumentais da
realização da cirurgia.
As principais indicações da cesariana são:
• Macrossomia fetal;
• Monstruosidades fetais: esquistossomo reflexo, etc.;
• Morte fetal;
• Mumificação fetal;
• Estreitamento do canal pélvico;
• Fratura pélvica;
• Gestação prolongada;
• Gestação abdominal ou ectopia fetal;
• Hidropisias dos anexos fetais;
• Inércia uterina;
• Torções uterinas irreversíveis.
 
Contra-indicações da cesariana
Nos animais de produção a cesariana não deve ser realizada quando a
parturiente se apresentar com a existência de distúrbios gerais graves, lesões
graves ou afecções irreversíveis, tais como fraturas ou hérnias abdominais,
comprometimento cardiorrespiratório ou septicemia. Nos animais de
estimação procura-se preservar a vida da parturiente e dos filhotes viáveis. De
modo geral, a operação cesariana não deve ser realizada quando não se puder
responder pelo êxito final.
 
Condições clínicas da parturiente
A operação cesariana é freqüentemente um procedimento de
emergência e a sua finalidade é preservar a vida da parturiente que não
consegue dar a luz e retirar os filhotes com vida. Para a obtenção de uma
anestesia ideal em que se alcança um satisfatório grau de analgesia, um
adequado relaxamento muscular e uma rápida sedação devem ser
considerados as alterações fisiológicas que ocorrem no organismo materno ao
longo da gestação e que alcançam o seu máximo no labor. As condições
clínicas da parturiente distócica modificam-se progressivamente com a não
evolução do parto e logo se desenvolve um esgotamento orgânico geral, e
com a inevitável morte do feto a situação clínica se complica ainda mais.
No momento do parto são as seguintes alterações fisiológicas
promovidas pela gravidez:
a. Aparelho cardiovascular: o débito cardíaco encontra-se
aumentado entre 30% a 50% no final da gestação e sofre ainda um
acréscimo de 10% a 25% durante o trabalho de parto; o volume sanguíneo
aumenta em torno de 40% sendo acompanhado de uma diminuição da
concentração de hemoglobina; e a pressão arterial e a pressão venosa
central permanecem inalteradas enquanto a resistência vascular periférica
diminui. Estas condições implicam em cuidados anestesiológicos especiais
com o decúbito dorsal, a anestesia epidural, o tipo de drogas anestésicas e
as doses a serem empregadas a fim de se evitar a falência cardíaca. Em
todos os casos deve-se evitar sempre estresse adicional. As parturientes
portadoras de cardiopatias apresentam alto risco cirúrgico, por
apresentarem risco de congestão pulmonar e falência cardíaca.
b. Aparelho respiratório: o volume minuto encontra-se
discretamente aumentado enquanto que a pressão parcial de gás carbônico
(PaCO2) sofre diminuição predispondo a uma alcalose respiratória, mas o
pH sangüíneo permanece inalterado. O consumo de O2 aumenta em torno
de 20% mas o a pressão parcial de oxigênio (PaO2) não sofre alterações.
As vias aéreas se ampliam e a resistência pulmonar diminui o que é
acompanhado também da diminuição da capacidade residual funcional.
Estas alterações clinicas implicam em uma tendência a hipoxemia e
hipercapnia, o que implica em maiores riscos quando do emprego de
drogas depressoras respiratórias, devendo-se manter um monitoramento da
ventilação e promoção de oxigenação da parturiente. No caso do emprego
das anestesias inalatórias deve-se levar em conta que a concentração
alveolar mínima (CAM) encontra-se diminuído (em torno de 25% para o
halotano, 32% para metoxiflurano e 40% para isoflurano).
c. Aparelho gastrintestinal: com o desenvolvimento do útero
aumenta-se a pressão intragástrica e o tempo de esvaziamento do tubo
digestivo, especialmente do estômago. A motilidade e o pH das secreções
sofrem diminuição. Concomitante ocorre ainda diminuição do tônus do
cárdia. Clinicamente isto implica na tendência a regurgitação e aspiração
de conteúdo gástrico o que pode ser prevenido com o emprego da atropina
no pré-operatório e da entubação traqueal.
d. Rins e Fígado: encontram-se discretamente aumentados os
níveis séricos das transaminases e da desidrogenase láctica; e a retenção da
bromosulfoftaleína sódica sofre pequeno aumento. A concentração
plasmática de colinesterase sofre diminuição enquanto há um aumento do
fluxo plasmático renal e da taxa de filtração glomerular. Os níveis de uréia
e creatinina podem encontrar-se discretamente aumentados, e os níveis de
sódio(Na+) e o balanço hídrico não sofrem alterações. Deve-se evitar o
uso de organofosforados, as tetraciclina, os aminoglicosídios, e o
metoxiflurano.
e. Fluxo sangüíneo uterino: a vitalidade do feto depende
diretamente do fluxo sangüíneo uterino, que por sua vez é diretamente
proporcional à pressão de perfusão sangüínea e inversamente proporcional
à resistência vascular uterina. Portanto, o emprego dos anestésicos
hipotensores e da ocitocina pode acarretar em diminuição do fluxo
sangüíneo uterino e contribuir para o sofrimento fetal e sua conseqüente
morte.
Considerações anestesiológicas na cesariana
A escolha do melhor procedimento anestesiológico depende da
espécie animal e de suas condições orgânicas no momento da cirurgia. Pode-
se realizar desde uma anestesia geral, venosa ou inalatória, a um bloqueio
loco-regional, ou uma simples infiltração anestésica na linha de incisão. Não
há um protocolo anestésico ideal geral aplicável à toda parturiente. O melhor
protocolo é aquele em que o obstetra esteja familiarizado com a técnica
anestésica, de forma a promover a realização da intervenção com rapidez, e
que resulte em segurança para a parturiente e o feto.
A principal consideração farmacológica a ser observada é a de que a
barreira placentária comporta-se como a barreira hemato-encefálica no
tocante a passagem das drogas anestesiológicas. A farmacodinâmica das
drogas usualmente empregadas resulta em concentrações ativas tanto no
sangue materno quanto no fetal. O grau de depressão cardiorrespiratória
observado na parturiente sob ação de drogas anestesiológicas se reflete em
um grau mais acentuado no feto. Neste aspecto é importante se compreender
os fatores que influenciam na quantidade de droga que atravessa a placenta e
alcança a circulação fetal, o que pode ser avaliado pela equação de Fick,
conforme segue:
 
Fórmula de Fick
Q/t = k A (Cm – Cf)
D
Onde:
Q/t = quantidade da droga difundida por unidade de tempo
K = constante de difusão da droga
A = área da placenta
D = espessura da placenta
Cm = concentração da droga no sangue materno
Cf = concentração da droga no sangue fetal
 
A constante K é especifica de cada droga sendo determinada pelo
peso molecular, grau de ligação com proteínas plasmáticas, lipossolubilidade
e grau de ionização da molécula. O grau de ionização é determinado pelo pKa
da droga e pelo pH do sangue. A maior parte das drogas anestésicas possui
um valor de K elevado por apresentarem baixo peso molecular, alta
lipossolubilidade, baixo grau de ionização e baixo grau de ligação protéica. A
exigência de barbitúricos se torna menor nas acidemias, pois o seu pKa é
igual a 7,6 e na presença de pH < 7,6 ocorre aumento da fração não-ionizada,
que é a ativa. Deve-se considerar ainda que o sangue fetal apresenta-se com
um pH em torno de 0,1 unidades menor do que o sangue materno. Isto
acarreta em um grau maior de ação anestésica, além de favorecer maior
concentração das drogas de caráter básica no sangue fetal, como os opiáceos
e os anestésicos locais. Outro fator de complicação para a vitalidade fetal é o
não amadurecimento do seu sistema microssomal hepático.
 
 
 
Protocolo anestesiológico na cesariana
As drogas a serem empregadas desde a pré-medicação, incluindo-se a
pré-anestesia, a própria anestesia e a recuperação pós-anestésica devem ser
cuidadosamente selecionadas e apropriadamente administradas para evitar
tanto a depressão materna quanto a fetal, além de não acarretar em prejuízo
da vitalidade e do vigor neonatal.
Todo procedimento anestesiológico deve ser rápido e permitir
imediata intervenção cirúrgica para pronta retirada do(s) feto(s). Dependendo
das condições clínicas da parturiente no momento da intervenção, o
procedimento anestesiológico pode-se restringir ao emprego de contenção e
anestésico local na linha de incisão, seguido ou não de indução anestésica
após a retirada do(s) feto(s). Este procedimento deve ser adotado, de modo
geral, nas parturientes que são atendidas depois de transcorridos mais de 24
horas de trabalho de parto e se encontram em profundo estado de
esgotamento e toxemia, e o feto em processo de decomposição. Deve-se
tomar cuidado redobrado com as parturientes da espécie suína, pois estas
apresentam uma grande labilidade cardiorrespiratória, o que as torna
susceptível ao estresse adicional por baixo limiar orgânico adaptacional. De
modo geral, pode-se adotar um protocolo que segue as seguintes
recomendações:
a. Pré-medicação: pode ser adotado o emprego de glicose, soro
fisiológico, oxigênio com mascara (três a cinco minutos) e atropina (0,04
mg/kg) ou glicopirrolatos (0,011 mg/kg);
b. Pré-anestesia: deve-se evitar o emprego de tranquilizantes,
sedativos, hipnóticos e opiáceos. Exceto em pacientes agitados e
agressivos. Os fenotiazídicos, as butirofenonas, os benzodiazepínicos, a
xilazina e os opiáceos cruzam rapidamente a placenta e causam depressão
respiratória, além de letargia, hipotonia e hipotermia no feto. Quando não
causam a morte do feto observa-se um efeito residual que pode
permanecer por mais de 24 horas;
c. Anestesia local: é o procedimento mais empregado. Os
anestésicos ester – derivados ou para-aminobenzóicos, como a procaína, e
a tetracaína, são mais recomendados por serem metabolizados pela
pseudocolinesterase plasmática materna ou fetal. Enquanto que os
anestésicos aminoderivados, como a lidocaína, mepivacaína, bupivacaína
e etidocaína, requerem metabolização pelo sistema microssomal hepático,
o que acarreta em maior risco de intoxicação, principalmente para o feto.
Podem ser empregadas a anestesia local na linha de incisão, a técnica do L
invertido, a paravertebral ou a anestesia epidural (Figuras 1 e 2). Nesta
última, devem-se tomar cuidados com o decúbito, principalmente nos
pequenos animais, e a dose que deve sempre ser menor do que a usual
devido ao aumento da congestão vascular no canal medular na parturiente.
Há sempre um risco de hipotensão por bloqueio simpático que deve ser
prevenido pelo emprego de infusão intravenosa de fluidos;
 
Figura 1. Anestesia epidural na cadela.
 
Figura 2. Localização para infiltração em "L" invertido de anestésico
local.
 
d. Anestesia geral: os barbituratos, como o thiopental, thiamylal,
methohexital, podem ser empregados, pois provocam pouca depressão
respiratória fetal quando empregados em doses inferiores a usual na
espécie. O etomidato é um hipnótico não-barbiturato que também pode ser
empregado. Pode ser empregado na indução a associação de anestésico
geral de ação ultracurta com relaxantes musculares, como a succinilcolina
ou o pancurônio, por estes não atravessarem a barreira placentária. A
cetamina pode ser empregada para indução, exceto para cães, em
substituição aos barbituratos com certas vantagens, seguido de entubação e
administração de anestésicos voláteis. O propofol (2,6 diisopropylphenol)
é um agente hipnótico intravenoso, e pode substituir os barbituratos com
algumas vantagens. Os agentes inalatórios cruzam a barreira placentária
rapidamente e podem causar hipotensão materna, diminuição do fluxo
sangüíneo uterino e acidose fetal. Os agentes menos solúveis como o
halotano, isoflurano e enflurano são preferíveis ao metoxiflurano, que é
muito solúvel. O sevofluorano, que possui baixo coeficiente de
solubilidade sangüínea, tem sido empregado atualmente por produzir
indução e recuperação anestésicas rápidas, permitindo fácil controle da
profundidade anestésica. O oxido nitroso por causar mínima depressão
fetal pode ser empregado associado ao agente inalatório para diminuir a
quantidade final deste.
e. Recuperação pós-anestésica: alguns medicamentos da
terapêutica homeopática apresentam eficientes resultados na recuperação
operatória, dentre estes pode ser utilizado imediatamente após a estubação
ou o término da cirurgia o medicamento homeopático Nux vomica 6H, na
dose entre cinco a 10 gotas, por via oral, a cada cinco minutos, até
completa recuperação dos reflexos pela parturiente.
 
Técnica operatória da cesariana
Os procedimentosde antissepsia e assepsia assim como o melhor
protocolo anestesiológico para a parturiente em questão devem ser
assegurados para garantir um desfecho favorável da intervenção cirúrgica. A
paciente deve ser adequadamente contida, seja em estação ou em decúbito,
dentro dos procedimentos preconizados para cada espécie animal e em função
do seu estado clínico.
O acesso cirúrgico universal é a incisão pelo flanco, exceto nos
primatas. Nos bovinos a incisão é sempre pelo lado esquerdo, estando o
animal em estação ou em decúbito esterno-abdominal. Os pequenos
ruminantes são mantidos em decúbito lateral direito. Nas cadelas, gatas e
porcas a lateralidade é indiferente e o decúbito é sempre o lateral (Figura 3).
As principais vantagens da incisão pelo flanco nos pequenos animais quando
comparado com a laparotomia mediana consiste em menor risco de
hipotensão e de contaminação da ferida cirúrgica, menor incômodo durante a
amamentação e cicatrização mais rápida. Nas éguas a escolha do lado da
incisão no flanco é determinada pela lateralidade do corno uterino gestante,
verificada previamente por toque retal. Nesta espécie a cesárea pode ser
realizada em estação ou em decúbito lateral.
 
Figura 3. Cadela em decúbito lateral para acesso ao flanco.
 
A incisão cutânea na laparotomia deve ser disposta centralmente no
vazio do flanco tendo como limites anatômicos dorsalmente a musculatura
dorsal e as extremidades das apófises transversas; e, lateralmente, a
tuberosidade coxal de um lado e o arco costal do outro lado. O limite inferior
da incisão inclui a dobra do flanco na altura do joelho, podendo chegar até
próximo a base do aparelho mamário nas cadelas e gatas. A incisão inclui a
pele, tecido celular subcutâneo, fáscia e aponeurose superficial. Os músculos
oblíquos abdominais externo e interno, e o músculo transverso devem ser
divulsionados individualmente por manobra digital. A fáscia abdominal
interna e o peritônio podem ser divulsionados ou cortados com a tesoura,
tomando-se cuidado com a superfície do útero ou do rúmen nos ruminantes,
do epiploo, e das alças intestinais. Neste acesso pode ocorrer ruptura de
ramos da artéria ilíaca circunflexa que emerge próximo à tuberosidade coxal,
realizando-se a sua hemostasia somente após extração do feto.
Nos grandes animais, após a laparotomia, localizam-se as partes
salientes de uma das extremidades do feto pela região dorsal uterina e
traciona-se o órgão em direção à incisão, promovendo-se uma torção uterina
de até 90º. Desta forma tem-se a canela do feto projetando-se pela parede
uterina na incisão. A incisão no útero é realizada sobre o membro do feto, de
dimensão suficiente para a extração do feto sem que ocorra laceração da
parede uterina nas comissuras da incisão, com o emprego de bisturi,
abrangendo somente a serosa do órgão. A abertura uterina é completada com
o emprego de tesoura abrangendo a camada muscular e a endometrial.
Nos pequenos animais, após a laparotomia, realiza-se a total
evisceração uterina dispondo toda a superfície ventral uterina sobre o quarto
posterior da parturiente (Figura 4), e a incisão uterina ocorre em sua
superfície dorsal e na forma de um semi-arco, com a sua concavidade voltada
para o septo mediano no corpo uterino.
 
Figura 4. Evisceração uterina na cadela.
 
Nos grandes animais, caso as bolsas alantoidiana e amniótica não
tenham sido rompidas estas devem ser abertas antes da extração do feto. Este
é retirado do útero materno por tração exercida pelos membros,
preferencialmente os posteriores, e de forma lenta e progressiva, com a ajuda
de um auxiliar. O cordão umbilical é seccionado prévia drenagem sangüínea
por compressão retrógrada digital. Nas éguas a placenta é mantida aderida ao
endométrio enquanto que nas vacas extrai-se toda a placenta se não houver
aderências. No caso de aderências extraem-se as partes exteriorizadas. Nos
cães e gatos os fetos são extraídos dentro do saco coriônico e a abertura das
bolsas fetais ocorre no momento da assistência neonatal. Deve-se evitar que
liquido uterino caia na cavidade abdominal, caso isto ocorra deve-se lavar a
cavidade com soro fisiológico morno, antes de seu fechamento.
A sutura da incisão uterina é invaginante, do tipo Lembert ou
Cushing, e abrange os planos anatômicos da serosa e da muscular, com o
emprego de fio absorvível do tipo categute cromado, e pode ser realizada em
um ou dois planos.
Após a sutura do útero este é reposto na cavidade e realiza-se a
laparorrafia. O peritônio pode ser suturado juntamente com a fáscia muscular
interna, com sutura tipo bolsa de tabaco ou por meio de sutura continua tipo
Reverdin, com fio absorvível, tipo categute cromado. Os planos musculares
devem ser suturados individualmente por meio de um ou dois pontos de
aproximação, do tipo simples, em x ou de Sultão, com fio absorvível. A pele
pode ser suturada com fio inabsorvível, de algodão ou nylon, com pontos
simples ou pontos de Wolff.
A cesariana na vaca pode também ser realizada pelo acesso ventro-
lateral esquerdo por meio da incisão denominada para-mamária esquerda.
Esta cirurgia é realiza em decúbito lateral direito e os limites da incisão são a
prega do joelho, a veia subcutânea abdominal, e a base do úbere. A incisão é
feita abaixo da prega do joelho sendo transpostos a pele, o tecido subcutâneo,
a túnica flava (fáscia abdominal externa), o músculo reto abdominal e suas
fáscias, e o peritônio.
A laparorrafia segue em três planos, no primeiro plano sutura-se o
peritônio e o músculo reto abdominal e suas fáscias com fio absorvível e
ponto de Reverdin interrompido, no segundo plano a túnica flava com fio
inabsorvível e ponto em x, e no terceiro plano a pele com fio inabsorvível e
pontos simples ou de Wolff.
Pós-operatório de cesariana
O pós-operatório da cesariana pode variar em função da espécie
animal e da indicação da cesariana. De modo geral, o procedimento
terapêutico segue a rotina de uma cirurgia abdominal com a indicação de
antibióticos e antiinflamatórios. Especificamente, é indicado o emprego de
ocitocina para induzir a involução uterina, associado ao gluconato de cálcio.
O curativo local deve ser trocado diariamente até completa
cicatrização e retirada dos pontos, o que ocorre depois de transcorridos 10
dias.
De forma simples e eficaz podem ser indicados os medicamentos
homeopáticos Arnica montana 6CH, Calendula officinalis 6 CH, Pulsatila
6CH ou Actea racemosa 6 CH, por via oral, e a pomada de Calendula
officinalis para aplicação tópica.
Principais complicações pós-operatórias
• Hemorragias;
• Deiscência de sutura;
• Colapso e choque;
• Toxemia ou Intoxicações puerperais;
• Septicemia;
• Morte.
 
Roteiro de estudo: Cesariana
1. Defina o termo “Operação Cesariana”.
2. Cite as principais patologias obstétricas que requerem a intervenção
cirúrgica cesariana. Diferencie as indicações absolutas das relativas.
3. Cite as principais contra-indicações da operação cesariana.
4. Quais as principais modificações fisiológicas promovidas pela gestação no
aparelho cardiovascular?
5. Quais as principais modificações fisiológicas promovidas pela gestação no
aparelho respiratório?
6. Quais as principais modificações fisiológicas promovidas pela gestação no
aparelho gastrointestinal?
7. Quais as principais modificações fisiológicas promovidas pela gestação
nos rins e no fígado?
8. Qual a possível conseqüência do emprego de anestésicos hipotensores e da
ocitocina na vitalidade do feto durante o parto? Explique.
9. Descreva a fórmula de Fick e sua aplicabilidade na anestesiologia
obstétrica.
10. Descreva um protocolo anestesiológico para a realização de uma
tomotocia de indicação absoluta em uma cadela em fase adiantada do parto
com fetos vivos.
11. Descreva um protocolo anestesiológico para a realização de uma
tomotocia em uma vaca em fase adiantada do parto com feto vivo.
12. Quais as principais vantagens do acesso pelo flanco em comparação ao
mediano em uma cesariana em uma cadela?
13. Descreva o procedimento anestesiológico para uma intervenção cesarianano vazio do flanco em uma vaca excitada, e com fortes contrações
abdominais.
14. Descreva a técnica operatória em uma cesariana pelo flanco em uma vaca.
15. Descreva o pós-operatório de uma cesariana.
16. Quais as possíveis complicações de uma cesariana?
 
Referências bibliográficas
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de grande porte. 1a.ed. São Paulo: Roca. 2002. 341p
 
 
Patologias da gestação
 
A função reprodutiva possui uma baixa hierarquia funcional quando
comparada com outras funções orgânicas. A espécie pode sofrer extinção se
não houver reprodução, mas o indivíduo sobrevive sem se reproduzir. O
organismo está apto à reprodução quando atinge uma dinâmica funcional
plena, o que garante sobrevivência da prole e evidencia capacidade adaptativa
ambiental. Se o organismo feminino estiver sob condições de estresse
orgânico, a sua natureza, na maioria dos casos, desvia os gastos metabólicos
para as funções mais ativas e mantêm as funções reprodutivas em
metabolismo basal. 
A gestação é um estado fisiológico do organismo materno de grande
exigência metabólica funcional e sujeita a cursar com distúrbios orgânicos de
causalidade tanto intrínseca quanto extrínseca. Um adequado pré-natal é
aquele que contribui tanto para adaptar a gestante às exigências inerentes,
quanto para preservar a integridade funcional e prevenir as distintas
patologias específicas desta fase.
As diversas situações clínicas passíveis de ocorrerem durante a
gestação são abordadas nas disciplinas que tratam do estudo de Medicina
Interna. O campo de atuação da Obstetrícia Veterinária é nas patologias que
requerem medidas cirúrgicas e obstétricas, como nas hidropisias, edemas
gestacionais, pseudocieses, desmorrexia pré-púbica, etc.
Hidropisia dos anexos fetais
Os anexos fetais fisiologicamente constituem verdadeiras bolsas
repletas de líquido. A bolsa amniótica é a mais interna e envolve o embrião
ou feto e os mantêm imersos no liquido amniótico. O volume deste líquido ao
longo da gestação acompanha o desenvolvimento do feto e tende a se manter
em uma proporcionalidade com o volume fetal, pois ao mesmo tempo em que
é produzido é consumido pelo feto. A bolsa alantoidiana envolve a bolsa
amniótica e tende a aumentar de volume progressivamente com o
desenvolvimento do feto por ser produto final de seu metabolismo.
 
 
 
O aumento do volume do líquido alantoidiano e/ou amniótico além
dos limites fisiológicos durante o terço final do período gestacional se
denomina de hidropisias. É uma patologia freqüente nos bovinos,
principalmente nas gestações gemelares (Figura 1). É pouco citada nos
demais ruminantes e é considerada rara nas demais espécies. A forma mais
comum de ocorrência é o hidro-alantóide (85% a 95% dos casos), sendo
menos comum o hidro-âmnio (5% dos casos) e a forma associada hidro-
âmnio-alantóide (5% a 10% dos casos).
 
Figura 1: Vaca com hidropisia dos anexos fetais.
 
Etiopatogenia das hidropisias fetais
As hidropisias fetais não apresentam uma causa definida. Alguns
animais que desenvolvem as hidropisias fetais apresentam-se com
desnutrição ou com sobrecargas orgânicas, como nas gestações gemelares,
enquanto outros apresentam alterações estruturais e funcionais nas
membranas córion-alantóides ou nas carúnculas, como as molas placentárias.
Os principais achados anatomopatológicos nos fetos são: más-formações
fetais (como anencefalia, hidronefrose, e esquistossomo reflexo),
hidronefrose e rins císticos, e torções ou compressões do cordão umbilical.
Sintomas das hidropisias fetais
As hidropisias fetais podem evoluir de forma branda com poucos
sintomas ou de forma rápida com acentuada manifestações sintomática.
Quanto menor for a idade gestacional mais grave esta patologia poderá se
tornar.
Nos casos leves ocorre um ligeiro aumento do volume abdominal, que
pode confundir com gestação gemelar. O volume acumulado nestes casos nas
bolsas alantoidianas situa-se entre 40 a 80 litros de um líquido claro, aquoso e
com característica de transudato. As membranas fetais podem ser resistentes
e romper-se com dificuldade. O útero encontra-se muito aumentado e atônico,
sendo o feto pouco desenvolvido para a idade gestacional e comumente
apresenta-se edemaciado e com ascite. A gestante pode apresentar alterações
do estado geral e das funções vitais devido à compressão e deslocamento de
órgãos abdominais. Geralmente ocorre um parto prematuro e o feto morre
logo após o nascimento.
Nos casos graves há um rápido desenvolvimento da hidropisia, num
intervalo de cinco a 20 dias, acarretando um aumento exagerado e
característico da cavidade abdominal, devido ao acúmulo de líquido que
ultrapassa os 80 litros, podendo alcançar até o volume de 200 litros. O animal
se apresenta com transtornos gerais, sem apetite e manifestando muito
desconforto e evitando mudar de posição (Figura 1). Observa-se uma
dispnéia com movimentos respiratórios superficiais e curtos, além de
gemidos expiratórios. A freqüência cardíaca encontra-se aumentada, o pulso
é fraco e filiforme com reduzida plenitude vascular. Há diminuição ou parada
dos movimentos ruminais com conseqüente timpanismo, constipação e
ressecamento intestinal, polidipsia e uma desidratação intensa. Na palpação
retal observa-se distensão uterina que ultrapassa o nível retal e a
impossibilidade de se perceber placentomas e a presença de feto, devido a
intensa tensão da parede uterina.
Diagnostico diferencial nas hidropisias fetais
A hidropisia fetal deve ser diferenciada da gestação gemelar
fisiológica, ascite ou mucometra, o que é facilmente realizado pelo histórico e
exame clínico.
Tratamento das hidropisias fetais
Nos casos leves de hidropisia fetal é preconizada terapêutica
sintomática para permitir a evolução gestacional e aguardar o parto.
Nas formas graves de hidropisia fetal procede-se à drenagem do
liquido fetal por meio de punção dos envoltórios fetais, realizada na região
para-mamaria esquerda, aproximadamente há quatro dedos medialmente à
prega do joelho esquerdo (Figura 2), com trocater de 20 a 25 cm de
comprimento. Deve ser retirado entre 20 a 30 litros de liquido fetal por
punção para se evitar o colapso por descompressão para se aliviar a gestante
enquanto se aguarda sinais clínicos de parto próximo quando pode ser
realizada a extração do feto via vaginal ou cesariana. Nas éguas promove-se
dilatação manual da cérvix seguido de punção dos envoltórios fetais.
 
Figura 2. Local para punção uterina
 
Edemas da gestação
A ocorrência de edemas de forma branda é comum na fase final da
gestação. Em certas situações pode ocorrer um edema gestacional delocalização especifica e que ultrapassa a intensidade e a extensão quando
comparado com o edema fisiológico da fase prodrômica do parto.
O edema gestacional é de ocorrência comum em vacas,
principalmente nas primíparas, de alta produção leiteira na fase final da
gestação e que são mantidas estabuladas ou com pouca movimentação e são
alimentadas com alta taxa de concentrados protéicos. O edema gestacional
ocasionalmente ocorre nas éguas.
Etiopatogenia do edema da gestação
A fisiopatologia do edema gestacional se deve a um distúrbio
hormonal que promove conjuntamente congestão e estase circulatória,
extravasamento de liquido para o interstício e embebimento hormonal. Está
relacionado com o manejo zootécnico de animais de alta produção leiteira em
que predominam altas taxas de hormônios sexuais e anabolismo.
Sintomas do edema da gestação
A vaca encontra-se em fase final da gestação e apresenta edemas
localizados desde a vulva até a barbela, acometendo o úbere e o baixo ventre.
As tetas estão aumentadas em todas as suas dimensões. Os membros podem
estar acometidos e então desaparecem os contornos das articulações, o que
contribui para um aumento da dificuldade de locomoção. Clinicamente o
edema gestacional adquire características de anasarca, com o risco de
infecções graves após mínimas lesões cutâneas (Figura 3).
Figura 3. Edema gestacional em vaca.
 
Diagnostico diferencial do edema gestacional
O edema gestacional deve ser diferenciado clinicamente do ofidismo
e de traumatismos, os quais não apresentam simetria das lesões. 
Tratamento do edema gestacional
Deve se controlar a evolução do edema gestacional, pois desaparecem
naturalmente logo após o parto. É contra-indicado o uso de diuréticos ou
antiinflamatórios que não eliminam a causa e podem comprometer a gestação
e o desenvolvimento do feto.
As seguintes medidas terapêuticas podem ser adotadas no tratamento
do edema gestacional:
1. Exercícios moderados: movimentar o animal no passo por ½ hora, pelo
menos 2x/dia;
2. Mantê-los em baia espaçosa;
3. Trocar a cama diariamente;
4. Ducha sob pressão;
5. Emplasto com as ervas moura ou caruru, diariamente;
6. Desinfecção e tratamento de feridas cutâneas com glicerina iodada;
7. Reduzir a alimentação concentrada;
8. Esgotamento parcial do úbere.
9. Terapêutica homeopática: Pulsatila 6CH e/ou Apis mellifica 6CH, 5
glóbulos ou gotas, 2x/dia, durante 15 dias.
 
 
Pseudociese
A pseudociese é também denominada de falsa gravidez ou gravidez
psicológica. É um distúrbio endócrino no qual a fêmea comporta-se como se
estivesse prenha, em trabalho de parto ou em pós-parto, sem que tenha
havido fertilização, com a ocorrência ou não de cópula.
Este fenômeno é de ocorrência comum em fêmeas que apresentam um
forte instinto materno ou o desejo de procriação e não há disponibilidade de
machos para a cópula. A pseudociese é de ocorrência comum nas cadelas,
ocorrendo ocasionalmente nas gatas, coelhas, éguas e nas mulheres.
Etiopatogenia da pseudociese
A pseudociese é um distúrbio hormonal ovariano em que ocorre
persistência do(s) corpo(s) lúteo(s) metaéstrico, que mantém a fêmea em uma
fase luteínica. Desta forma, há uma alta produção de progesterona que
mantém níveis hormonais semelhantes aos da fase gestacional determinando
alterações clinicas no aparelho mamário e no trato reprodutor.
Sintomas da pseudociese
A manifestação de pseudociese inicia-se naquelas fêmeas jovens em
idade reprodutiva e que comumente ainda não desenvolveu gestação e parto.
Estas fêmeas após a ocorrência de um cio sem ocorrência de fecundação
desenvolvem todos os sinais clínicos de gestação, sem a existência de feto no
útero materno. Há aumento do peso corpóreo e do volume abdominal
concomitante ao desenvolvimento do aparelho mamário. Depois de
transcorrido um período de tempo coincidente com a duração fisiológica da
gestação na espécie a fêmea apresenta edema vulvar, corrimento vaginal
viscoso, edema mamário, e secreção láctea. Nesta ocasião, há manifestação
de comportamento típico da fase prodrômica do parto de “fazer ninho” e
comumente a adoção de objetos inanimados. Ocasionalmente estas fêmeas
tornam-se mães adotivas devido ao seu instinto materno. 
O desenvolvimento do aparelho mamário pode acarretar em processos
inflamatórios, retenção láctea, mamite e abscesso. No útero desenvolve-se
uma hiperplasia endometrial cística que predispõe ao aparecimento de
piometrite.
Diagnostico diferencial da pseudociese
O principal diagnóstico diferencial se faz com a própria gestação onde
estão presentes os sinais maternos ou prováveis da gestação e os sinais fetais
ou certos da gravidez.
Tratamento da pseudociese
A literatura especializada cita o tratamento da pseudociese à base de
hormônios como os estrógenos ou a testosterona, e recomenda ainda a
inibição do cio com o uso de progestágenos. Estes tratamentos não são
seguros e confiáveis e resultam em efeitos colaterais indesejáveis. A
liberação da fêmea para a reprodução satisfaz o desejo de procriação e evita a
pseudociese.
O tratamento cirúrgico por meio de histerectomia e/ou ooforectomia
pode ser recomendado na fase de anestro ou na ocorrência de piometra.
A terapêutica homeopática tem se mostrado a terapêutica de eleição
no tratamento e controle da pseudociese e de suas complicações, sendo
Pulsatilla nigricans 6CH o principal medicamento
Desmorrexia pré-púbica
A desmorrexia pré-púbica consiste no desgarramento do tendão pré-
púbico de sua inserção na borda anterior do osso púbis. O tendão pré-púbico
é formado pelas fáscias e aponeuroses dos músculos reto-abdominais, os
quais se inserem na borda anterior do púbis (Figura 4).
 
Figura 4. Égua com desmorrexia pré-púbica.
 
A ocorrência de desmorrexia pré-púbica é maior na vaca gestante,
apesar de que a égua não apresenta o tendão sub-púbico, que reforça a ação
do tendão pré-púbico.
A Desmorrexia pré-púbica ocorre em um estágio avançado da
gestação por falta de resistência mecânica da inserção ligamentar. Observa-se
a sua ocorrência principalmente em fêmeas desnutridas, na gestação gemelar,
e nas hidropisias.
O abdome do animal cede ao peso das vísceras e se apresenta baixo e
o úbere fica túrgido devido às dificuldades circulatórias e se encontra mais
próximo ao solo. O flanco se encontra murcho e há desconforto abdominal.
O diagnóstico diferencial da desmorrexia pré-púbica deve descartar a
ocorrência de hérnias ou eventração.
Para o tratamento da desmorrexia pré-púbica recomenda-se a
manutenção da gestação até o feto ser viável e sua posterior retirada por
cesariana. A fêmea deve ser descartada da produção.
 
Roteiro de estudos: Patologias da gestação
1. Defina hidro-amnio-alantoide.
2. Quais as possíveis causas das hidropisias dos anexos fetais?
3. Descreva os sintomas de uma hidropisia de evolução branda na vaca.
4. Descreva os sintomas de uma hidropisia de evolução grave na vaca.
5. Quais os diagnósticos diferenciais a serem realizados no caso de
hidropisia dos anexos fetais?
6. Descreva o tratamento da hidropisia dos anexos fetais na vaca.
7. Descreva o tratamento da hidropisia dos anexos fetais na égua.
8. Ao se examinar uma vaca, com 270 dias de idade gestacional, observa-
se a presença de um abdome excessivamente volumoso, dificuldade de se
locomover, dispnéia com gemido expiratório, taquicardia, desidratação
(+++/4), ressecamento intestinal e útero distendido acima do nível retal,
sendo o feto somente percebido por meio de manobra de punho percussão
abdominal. Pergunta-se: Qual o diagnóstico e o tratamento preconizado?
9. Qual a etiologia do edema de gestação na vaca?
10. Descreva o tratamento para o edema de gestação na vaca.
11. Qual a possível complicação do edema de gestação na vaca?
12. Qual o procedimento obstétrico ao se examinar uma vaca PO, no terço
final gestacional, que apresenta edema vulvar acentuado (+++/4) que se
estende ate a barbela, e com o úbere tumefeito e as tetas distendidas?
13. Ao se examinar uma cadela nulípara com histórico de cio sem
cobertura há 60dias, observa-se a presença de abdome globoso, secreção
láctea à expressão mamilar, comportamento de adoção de objetos
inanimados, e ausência de sinais fetais. Qual o diagnóstico e o tratamento
preconizado?
14. Qual a etiopatogenia da pseudociese?
15. Cite os sintomas clínicos da pseudociese.
16. Qual a principal complicação da pseudociese na cadela?
17. Defina desmorrexia pré-púbica e explique a causalidade e o tratamento
preconizado.
Referencias bibliográficas
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Distocias nos animais domésticos
 
O termo distocia é a designação para um nascimento difícil ou
problemas com o prosseguimento do parto. O seu diagnóstico e tratamento
constituem uma parte extensa e importante da obstetrícia. Em termos
didáticos, a distocia pode ser de origem fetal ou de origem materna. No
entanto, o problema deve ser considerado em relação aos defeitos nos três
componentes do processo de nascimento: as forcas expulsivas, o canal do
nascimento e o feto. Por exemplo, ocorrerão dificuldades ao nascimento
quando as forcas expulsivas forem insuficientes, quando o canal do
nascimento estiver estreitado ou quando o diâmetro do feto for
extraordinariamente grande.
O conhecimento da fisiologia do parto é essencial para o
reconhecimento de Distocias e a intervenção do médico veterinário deve ser
precisa e adequada a fim de se procurar preservar tanto a vida da parturiente
quanto a do(s) feto(s). Além disto, o profissional deve se preocupar em
prevenir a ocorrência de distocias nas criações animais e procurar detectar
causas hereditárias, tais como a alta incidência de inércia uterina em algumas
raças caninas de pequeno porte, como a raça Terrier escocês, a existência de
abertura pélvica pequena nas cadelas de raças braquicefálicas, e a tendência
de certos touros produzirem novilhas pequenas. As causas ambientais podem
também ser de grande importância em algumas situações, como as falhas no
manejo nutritivo e o pequeno número de filhotes nas multíparas, dentre
outras ocorrências.
Incidência das distocias nos animais domésticos
A incidência de distocias é maior nos bovinos do que nas outras
espécies animais. A seguir vêm os pequenos ruminantes, as cadelas, e as
gatas; e, por fim as éguas e a porcas.
A distocia de origem fetal é mais freqüente nas vacas, nas ovelhas e
nas éguas, enquanto que a distocia materna é mais freqüente nas cadelas,
gatas e porcas.
Considerando-se as uníparas, a presença de feto macho, a prenhez
precoce ou prolongada e o parto gemelar trazem complicações na hora do
parto, pois o útero toma parte importante na extensão dos membros do feto, e
defeitos de postura são mais comuns em gêmeos e prematuros quando há
certo grau de inércia uterina. E, na prenhez prolongada o feto se apresenta
mais desenvolvido. Nas multíparas com ninhada anormalmente pequena em
numero há uma predisposição a formação de grandes fetos, o que gera
dificuldades na hora do parto.
As distocias são mais comuns nas primíparas que nas multíparas,
além de que a subnutrição ou cobertura muito precoce nas primeiras se
constituem em fatores deletérios que causam desenvolvimento esquelético
retardado. Por outro lado, o estrito confinamento e a superalimentação
materna contribuem para problemas na hora do parto. 
Tipos de distocias nos animais domésticos
a) Vacas
 Tamanho fetal exagerado relativo ou absoluto;
 Irregularidades na postura da cabeça e dos membros;
 Casos teratológicos: esquistossomo reflexo, perossomus elumbis,
fetos retorcidos e celossômicos, bezerros acondroplásicos;
 Inércia uterina;
 Torção uterina;
 Dilatação incompleta da cérvix.
 
b) Cabras e ovelhas: semelhante às vacas
 
c) Éguas
 Irregularidades na apresentação, posição e postura do feto, como a
apresentação transversa, a posição ventral ou lateral ou todas as formas de
posturas irregulares;
 Torção uterina: consiste em 5% das distocias eqüinas e são de grande
gravidade.
 
d) Porcas
 Inércia uterina;
 Obstrução do canal do nascimento;
 Desvio para baixo do útero;
 Apresentação simultânea;
 Desvio da cabeça;
 Grande tamanho fetal;
 Casos teratológicos: xifópagos, esquistossomo reflexo, perossomus
elumbis, hidrocefalias.
 
e) Cadelas e Gatas
 Inércia uterina;
 Desproporção materna fetal;
 Irregularidades de postura dos membros são de pouca importância
quando os filhotes são de tamanho normal;
 Irregularidades de postura da cabeça são comuns: apresentação de
vértice, desvio lateral da cabeça;
 Anormalidades de posição são comuns: posição ventral ou lateral;
 Apresentação transversa é rara e quando ocorre a cadela geralmente
esta prenha e com feto único em gestação bicórnea. Em geral é acompanhada
de inércia uterina;
 Hidrocefalia fetal e anasarca são encontradas ocasionalmente.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Distocias fetais
 
Os problemas relativos ao parto podem ser causados pelo feto, o que é
denominado de distocia fetal. O feto pode se tornar causa de distocias quando
ocorre hipertrofia fetal, morte fetal ou disposição fetal anômala.
 
Hipertrofia fetal
O feto pode se apresentar em dimensões avantajadas para a sua
espécie ou raça na presença de uma pélvis materna de dimensões normais, o
que se denomina de hipertrofia fetal absoluta. Neste caso, diz-se que o
diâmetro ou peso do feto está além da capacidade da pélvis materna (Figura
1). Porém, quando o feto apresenta tamanho compatível com a sua raça e a
parturiente possui uma pélvis diminuta diz-se que se trata de uma hipertrofia
fetal relativa. Em todos estes casos há uma desproporção materno-fetal. Nos
bovinos a raça mais afetada é a Holandesa e a menos afetada é a Jersey. Nos
primatas relacionam-se as dimensões da cabeça fetal com as dimensões da
pélvis e quando há uma relação desfavorável denomina-se de desproporção
céfalo-pélvica.
Figura 1. Hipertrofia fetal absoluta.
 
 
 
Morte fetal
O feto a termo participa ativamente do processo dinâmico do parto.
Quando ocorre a morte fetal durante a gestação não ocorre o
desencadeamento do parto e pode se desenvolver uma gestação prolongada.
Diversas causas podem estar implicadas, tais como processos infecciosos,
traumatismos, intoxicações ou iatrogenias farmacológicas. A resolução desta
situação poderá ocorrer por indução do parto, fetotomia ou tomotocia.
 
Disposição fetal anômala
O modo como o feto se dispõe no interior do útero materno é
denominado de estática fetal e o seu estudo é de grande importância nas
fêmeas uníparas. A maneira como o feto se apresenta no terço final da
gestação é extremamente variável e pode modificar-se em poucos segundos.
No momento do parto, em um curso normal, ele adota uma posição adequada.
Na descrição da estática fetal utilizam-se referências inerentes à mãe
e/ou ao feto. Na resenha da estática fetal descreve-se a apresentação, a
posição e a postura fetal.
 
Manobras obstétricas
São manobras praticadas sobre o feto nas manipulações obstétricas e
consistem em:
 Retropulsão: significa pressionar o feto do canal do nascimento para
dentro do útero. É empregada para retificação de qualquer disposição fetal
anômala. Tanto quanto possível a força de repulsão deve ser exercida nos
intervalos entre os esforços expulsivos, podendo ser manual ou com
forquilha;
 Extensão: refere-se àextensão das articulações fletidas quando estão
presentes defeitos de postura. Recomenda-se a aplicação da força exercida
pelas mãos ou falhando estas por cordas ou ganchos;
 Rotação: é a alteração da posição do feto pelo movimento rotacional
ao redor do seu eixo longitudinal. Esta manobra é empregada na retificação
da posição ventral para a posição dorsal;
 Versão: significa a alteração da apresentação transversa ou vertical
para a apresentação longitudinal por movimento binário do feto. Esta
manobra é extremamente arriscada e de difícil execução;
 Tração: significa a aplicação de força às partes presentes do feto
com o objetivo de suplementar ou em alguns casos de substituir as forças
maternas. Esta manobra visa extrair o feto do canal do nascimento e pode se
aplicada manualmente ou por meio de cordas ou ganchos.
Resenha da estática fetal e sua correção
Apresentação fetal
É a relação existente entre a coluna vertebral do feto e a coluna
vertebral da mãe. É denominada de apresentação longitudinal quando as
colunas vertebrais do feto e da mãe estão paralelas. Recebe a denominação de
apresentação longitudinal anterior quando o feto insinuar primeiro os
membros anteriores, e apresentação longitudinal posterior quando insinuar
primeiro os membros posteriores.
Quando a coluna vertebral do feto se dispõe transversalmente à
coluna vertebral da mãe tem-se a apresentação transversa, o que acarreta em
distocias fetais graves.
As forças naturais que produzem as alterações na polaridade do feto
não estão totalmente compreendidas. Contudo, é presumível que ocorram
movimentos fetais reflexos devido às contrações uterinas, às contrações
abdominais e aos movimentos das vísceras abdominais adjacentes.
O centro de gravidade do feto mais próximo à cabeça, nas idades
gestacionais iniciais permite uma apresentação posterior. Com o
desenvolvimento do sistema nervoso do feto e conseqüente percepção da
gravidade o feto iniciaria a execução de reflexos lineares que tenderiam a
levantar a cabeça fetal da porção pendente do útero. Se isto for real, a
apresentação posterior em vez de ser considerado como um acidente
obstétrico poderia então ser causado tanto por um retardo no
desenvolvimento do feto quando comparado à sua idade gestacional, como
também por um útero cujo tônus seja deficiente.
Nas grandes fêmeas domésticas cerca de 95% dos fetos assumem uma
apresentação longitudinal anterior entre a metade do sexto mês até a metade
do oitavo mês da idade gestacional. Nas fêmeas multíparas cerca de 30% a
40% dos fetos nascem em apresentação longitudinal posterior, acarretando
problemas somente aqueles que apresentam membros flexionados.
Todas as distocias que surgem dos defeitos de apresentação são sérias
e na maioria dos casos somente é resolvida por meio de intervenção cirúrgica.
A correção por meio de manobras obstétricas em todos os casos é realizar a
versão do feto de modo que uma apresentação vertical ou transversa seja
convertida em uma apresentação longitudinal.
Tipos de apresentação fetal defeituosa
1. Apresentação longitudinal posterior.
2. Apresentação dorso-vertical obliqua.
3. Apresentação ventro-vertical obliqua.
4. Apresentação dorso-transversa.
5. Apresentação ventro-transversa.
 
Resenha da estática fetal e sua correção
Posição fetal
A posição fetal é conceituada como sendo a relação existente entre
partes bem definidas do feto, como o dorso, o lombo e a cabeça; e partes bem
caracterizadas da mãe, como o ílio, o ísquio, o púbis e o sacro.
A tendência natural do feto e de se dispor com o seu dorso contra a
curvatura maior do útero. Desta forma, o feto eqüino dispõe-se no útero em
decúbito dorsal com as patas para cima, e o feto bovino assume uma posição
vertical durante a gestação adiantada. O feto bovino mantém esta posição
durante o nascimento, porém na égua o feto altera a sua disposição de ventral
para uma posição dorsal durante a fase de dilatação do trabalho de parto.
Conforme poderia ser esperado, as posições ventral e lateral são mais comuns
nos eqüinos.
Tipos de defeitos de posição fetal e sua correção
1. Posição lateral ou dorso-ilíaca direita ou esquerda.
2. Posição ventral ou dorso-pubiana.
• Correção: nestas posições provoca-se uma resposta convulsiva
reflexa do feto pressionando-se os globos oculares seguido por rotação do
feto na direção apropriada. Nos fetos indiferentes pode-se empregar a rotação
mecânica com a forquilha de Cämmerer ou de Kuhn. Após estas manobras se
efetiva a extração fetal por tração manual.
3. Posição lateral ou lombo-ilíaca direita ou esquerda.
4. Posição lateral ou lombo-pubiana.
- Correção: nestas posições há graves riscos de lesões na vagina, reto e
períneo. As manobras que podem ser empregadas são retropulsão,
seguida de tentativas de rotação do feto. A tração será exercida após
correção da posição. Com o feto vivo geralmente é indicada a cesariana.
 
Resenha da estática fetal e sua correção
Postura Fetal
A postura fetal é denominada em função da relação existente entre
partes moveis do feto e seu próprio corpo. A sua nomenclatura é dada de
acordo com cada estrutura móvel.
A disposição anatomofisiológica do feto no final da gestação
corresponde a apresentação longitudinal anterior, posição dorso-sacral ou
dorso-pubiana (eqüino) com flexão de todas as articulações dos apêndices
moveis. Esta disposição postural de flexão universal proporciona o máximo
de economia de espaço. Na hora do parto ocorre a extensão dos membros
devido aos reflexos fetais estimulados pelas contrações do miométrio e queda
na concentração de progesterona.
Todos os defeitos posturais nos grandes animais são facilmente
retificados por manipulação obstétrica, desde que o tratamento se processe no
inicio da terceira fase do trabalho de parto.
1. Postura de flexão de carpo
Pode estar afetado um ou ambos os membros anteriores. No caso
unilateral, o carpo flexionado está engastado na abertura pélvica e a outra
pata anterior pode ser vista na vulva. A correção de faz iniciando-se por uma
retropulsão, apoiando-se na cabeça ou no ombro fetal, e a seguir a pata retida
é segura e se executa um movimento em arco, para cima e para trás. E, à
medida que o carpo é puxado para cima, o casco é trazido para frente e se
promove a extensão do membro. O casco do feto deve sempre ser trazido
para a borda pélvica sob a mão do obstetra. E, numa manobra final, se
promove a tração do feto.
2. Postura de flexão do ombro ou retenção completa do(s)
membro(s) anterior(es). 
A postura de flexão do ombro pode ser uni ou bilateral. Quando
ocorre retenção completa dos membros anteriores o diagnóstico pode ser
dado pela inspeção ao se constatar a presença da cabeça fetal parcial ou
completamente nascida, sem sinal de casco(s) insinuado(s). Na flexão carpal
a cabeça não pode avançar tanto.
A correção desta disposição fetal se efetiva em dois estágios. Primeiro se
provoca a retropulsão e ao se apoiar a mão no membro se desloca o mesmo
por um movimento em arco para cima e para trás, transformando a flexão de
ombro em flexão de carpo e o segundo estagio de correção se procede como
no caso anterior.
3. Desvio lateral da cabeça
Disposição fetal anômala muito comum nos bovinos, sendo mais
grave nos eqüinos devido a maior extenso do pescoço e da cabeça.
A correção se inicia pela retropulsão em que o feto é repelido por
pressão aplicada na base do pescoço. A mão do operador é então rapidamente
transferida para o focinho do animal e em casos mais inacessíveis o focinho
do animal pode ser alcançado após tração preliminar na comissura bucal. A
mandíbula é laçada e a correção se faz por movimentos combinado de
retropulsão e extensão da cabeça. Depois de instalada a disposição correta da
cabeça promove-se a tração do feto.
 
4. Deslocamento inferior da cabeça (postura em vértice).
Nesta disposiçãoa narina do feto se prende a borda pélvica e a testa é
introduzida na pélvis. Promove-se uma retropulsão suficiente e a extensão da
cabeça seguida por tração.
5. Postura de flexão de jarrete
Esta disposição anômala geralmente é bilateral. A correção se
processa por uma retropulsão aplicando-se uma força no períneo fetal e o
jarrete é firmemente seguro e se flexiona numa trajetória arqueada para cima
e para trás o quadril. Com o casco na mão este é elevado sobre a borda
pélvica e estendido para dentro da vagina seguido pela tração do feto.
 
6. Postura de flexão do quadril (apresentação de nádegas)
A postura de flexão do quadril geralmente é bilateral. A correção é
difícil sendo variável o grau de impactação do feto na pélvis materna. O
objetivo é converter a condição em postura de flexão do jarrete, procedendo
então de acordo com esta. O procedimento manipulativo consiste em
promover a retropulsão do feto, repelindo o períneo fetal para frente e para
cima, visando tornar os membros acessíveis. A tração no membro converte
esta em postura de flexão do jarrete e então se prossegue como no caso
anterior.
Considerações finais
A distocia fetal será mais simples quando ela ficar ao nível de postura
e complexa quando for ao nível de apresentação. E as mais complexas
quando forem combinadas.
A resenha se faz na seqüência apresentação, posição e postura,
enquanto a correção se faz do mais fácil para o mais difícil na seqüência
postura, posição e apresentação.
Os defeitos em apresentação posterior e transversa são os de correção
mais dificultosa e na grande maioria dos casos só ocorre correção através de
cirurgia ou fetotomia.
Nas manobras obstétricas é de grande importância a anestesia
epidural, a suplementação de líquidos fetais, a retropulsão e a execução de
tração adequada após lubrificação do canal vaginal. O cuidado e a delicadeza
na execução das manobras obstétricas são de grande valor, pois há um
constante perigo de perfuração acidental do útero.
Roteiro de estudo: Distocia fetal
1. Defina distocia.
2. Quais os principais componentes a serem considerados no processo de
nascimento? Explique.
3. Quais as distocias mais freqüentes nas uníparas (vaca e égua)?
4. Quais as distocias mais freqüentes nas multíparas (porca, cadela e gata)?
5. Quais as três principais causas de distocia fetal?
6. Diferencie hipertrofia fetal absoluta de relativa.
7. Explique a razão pela qual a morte do feto acarreta em distocia.
8. Quais os elementos de resenha empregados na descrição da estática fetal?
9. Quais são as manobras obstétricas praticadas na ocorrência de defeitos de
estática fetal?
10. Explique o termo apresentação fetal e comente sobre a sua evolução ate o
momento do parto.
11. Defina posição fetal.
12. Quais os tipos de defeitos de posição fetal?
13. Defina postura fetal.
14. Quais são os tipos de defeitos de postura fetal?
15. Descreva a correção do defeito de postura em flexão de ombro unilateral.
16. Descreva a correção do defeito de postura em flexão de quadril unilateral.
17. Uma égua da raça Mangalarga iniciou o trabalho de parto durante a
madrugada e a placenta já está rompida há pelo menos duas horas. Embora
existam contrações e os membros do feto já estejam expostos, não se constata
progressão do parto. Observando-se os membros é possível concluir que a
apresentação do feto é longitudinal anterior e a posição superior. A conduta
mais recomendada é:
 
Referências Bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ªed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan. 1979. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. Porto Alegre:
Sulina. 1982.
3. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ªed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
 
 
 
Distocias maternas
 
A evolução do parto pode ocorrer por alguma dificuldade anatômica
ou funcional com sede no organismo materno, quando então se considera a
existência de uma distocia materna. Os problemas na hora do parto podem
ocorrer devido a modificações anatômicas do canal do nascimento ou a
disfunção fisiológica ou hormonal dos órgãos ou glândulas reprodutivas
femininas. O seu estudo se reverte de grande importância, pois orienta no
sentido da correção terapêutica a ser empregada e o momento mais adequado
para ser efetivado.
Distocias por vícios pélvicos
São alterações anatômicas que ocorrem na via fetal dura. Isto é, nos
ossos da pélvis materna. Os vícios pélvicos sempre acarretam angustia do
canal do nascimento. É freqüentemente observado na mulher, na novilha e
em cães acondroplásicos.
Os vícios pélvicos, segundo suas origens, podem ser classificados em:
 Pélvis juvenil: é a pélvis que não alcança o seu pleno desenvolvimento.
Como ocorre nas novilhas cobertas precocemente;
 Pélvis estreita: é a pélvis de determinadas raças de cães miniaturas, de
alguns suínos e caprinos;
 Estreitamento secundário da via fetal dura: observa-se em inúmeras
enfermidades que interferem na formação, estrutura e desenvolvimento ósseo,
tais como, osteoporose, osteomalácea, fraturas e calos ósseos.
Tratamento dos vícios pélvicos
O ideal é instituir medidas preventivas no manejo reprodutivo dos
animais domésticos que evitem a ocorrência de vícios pélvicos. Uma vez
identificado o problema a extração do feto pode ser efetivada por meio de
tração, quando houver possibilidade. E quando não for possível a tração pelo
canal vaginal executa-se a fetotomia, caso o feto esteja morto, ou cesariana se
o feto estiver vivo. Uma vez identificado a ocorrência de vício pélvico a
fêmea deve ser descartada da reprodução.
 
 
 
Distocias das vias genitais
A ocorrência de distocias maternas podem ocorrer por anomalias
diversas que ocorrem na via fetal mole (vulva, vagina e útero).
A via fetal mole apresenta três pontos críticos à passagem do feto na
hora do nascimento: a vulva, o anel himenal e a cérvix. Estas estruturas
podem constituir obstáculos a passagem do feto, separadamente ou
conjuntamente por dilatação insuficiente.
Distocias causadas pela vulva e pela vagina
 Causas adquiridas: fibroses, estenoses oclusivas, tumores, edemas, bridas
(Figura 1), reversos vaginais e prolapsos;
 
Figura 1. Presença de brida vaginal em vaca.
 
 Causas congênitas: vulva infantil, persistência da prega himenal ou do
tabique dorsoventral e das estruturas remanescentes dos ductos de Muller.
Tratamento das distocias causadas pela vulva e pela vagina
Nas formas consideradas leves pode ser tentada extração cuidadosa do
feto sob lubrificação e proteção do períneo. A episiotomia dorso-lateral deve
ser praticada sempre que a vulva se constituir em obstáculo. A cesariana ou a
fetotomia fica reservada para os casos específicos. 
 
 
Distocias causadas pelo útero
Torção uterina (torsio uteri)
É a rotação do órgão sobre seu eixo longitudinal. É uma complicação
do final da fase de dilatação ou do inicio da fase expulsiva do parto. A
espécie mais afetada é a bovina provavelmente devido à instabilidade do seu
útero, pois nesta espécie a curvatura maior do útero situa-se dorsalmente e o
órgão se dispõe anteriormente a sua sustentação sub-ileal promovida pelos
ligamentos largos do útero. Outros elementos contribuem para a ocorrência
de torção uterina na vaca, tais como os movimentos desordenados do feto, o
peso fetal excessivo, a idade avançada da vaca, o abdome dilatado e a
aplicação equivocada de ocitocina quando não há passagem.
Classificação das torções uterinas
 Torção de primeiro grau: é uma torção de até 90 graus, sendo
considerada uma torção simples ou moderada;
 Torção de segundo grau: é uma torção de até 180 graus, sendo
denominada de torção media. A sintomatologia presente já denota certo grau
de gravidade e urgência do caso;
 Torção de terceiro grau: é uma torção que pode se estender até 360
graus. É uma torção de grande gravidade clinica, podendo acarretar em
choque hemorrágico.
Diagnóstico das torções uterinas
É realizado por meio da palpação da porção anterior davagina que se
encontra estenosada e cujas paredes estão, em geral, dispostas em espiral
obliqua, os quais indicam a direção da rotação uterina. Segundo a literatura,
75% das torções uterinas são no sentido anti-horário. A palpação retal pode
indicar se a torção é pré-cervical ou pós-cervical.
Tratamento da torção uterina
 Distorção direta do útero por via vaginal: consiste em promover a
rotação do feto pela vagina aplicando-se uma força rotacional ao útero
através do feto. A eficácia depende da dilatação cervical e se o feto está vivo;
 Distorção indireta com rolamento da parturiente: consiste em
promover a rotação do corpo da vaca pela ação de rolar. Procura-se rolar
rapidamente o corpo da vaca na direção da torção enquanto o útero
permanece relativamente fixo. Utiliza-se uma prancha de madeira, de três a
quatro metros de comprimento, por 20 a 30 centímetros de largura, apoiada
no flanco da vaca em decúbito lateral. Enquanto um assistente sobe na
prancha, a vaca é criteriosamente girada para o decúbito oposto por tração
das cordas fixadas nos membros;
 Correção cirúrgica da torção uterina: pratica-se a cesariana nas vacas
nos casos de torção irreversível, e nas emergências como ocorrem nas demais
espécies, como nas éguas, nas cadelas e nas porcas.
 
Inércia uterina (Parto vagaroso)
O parto é denominado de vagaroso quando há ausência ou deficiência
de contrações uterinas durante o parto. Nestas condições, o número e a
energia das contrações uterinas são menores que as observadas durante um
parto normal, o que caracteriza uma extensão da fase de repouso do ciclo
contráctil do miométrio.
A inércia uterina pode ser classificada em:
1. Inércia uterina primária: é aquela em que desde o inicio do trabalho de
parto não houve contração uterina devido há uma deficiência original no
potencial contráctil do miométrio. Não há tônus muscular. É menos comum
que a inércia uterina secundaria e ocorre na cadela, na porca e
ocasionalmente na vaca. As causas implicadas estão relacionadas à
deficiência neuro-hormonal, como por exemplo, uma relação estrogênio-
progesterona alterada, deficiência de ocitocina, de íons cálcio e/ou magnésio.
A senilidade, degeneração tóxica ou infecções bacterianas, como a erisipela
na porca, e o estiramento uterino demasiado, feto excessivamente grande,
hidro-alantóide ou parto gemelar podem ser causas responsáveis pela inércia
uterina;
2. Inércia uterina secundaria: neste caso o animal apresentou a fase
expulsiva contráctil do parto, mas estas contrações desapareceram. Esta
inércia ocorre por exaustão uterina. É de ocorrência mais freqüente que a
inércia uterina primaria. Pode ser causada por feto relativamente ou
absolutamente grande, monstros fetais, torção uterina, defeitos na estática
fetal, etc.
Diagnóstico de inércia uterina
É baseado no quadro sintomático particularmente na ausência de
contrações da musculatura abdominal e relaxamento do miométrio, apesar da
dilatação da via fetal mole. Geralmente o canal cervical se apresenta dilatado
ou parcialmente dilatado na forma secundaria, pois a fêmea apresentou a fase
prodrômica e a de dilatação do parto.
Tratamento da inércia uterina
Na forma primaria pode ser utilizado o estrogênio, ocitocina,
gluconato de cálcio e solução de glicose. Porém, devem ser avaliadas as
condições fetais a fim de se praticar outras medidas de solução mais rápida.
Na forma secundaria as medidas praticadas consistem em manobras
obstétricas ou cesariana. Após o parto podem se instalar complicações como
retenção de placenta, metrite ou piometra que devem ser prevenidas. 
 
Excesso de contrações uterinas (Parto tumultuoso)
É um aumento exagerado das contrações uterinas de maneira
desordenada e arrítmica. Ocorre principalmente nas fêmeas agitadas ou
nervosas, como nas éguas da raça Puro Sangue Inglês, e nas cadelas de
pequeno porte, como o Pequinês e o Poodle, que fazem muita força antes do
tempo e passam para a fase de expulsão antes de completar a fase de
dilatação. Pode ocorrer também naquelas fêmeas que são agitadas ou sofrem
de estresse durante a parição, como ocorrer ao se prender a gata em uma
caixa, ou a cadela no banheiro, assim como trocar a égua de pasto ou
estábulo, etc. Estes manejos inadequados podem culminar em parto
tumultuoso.
Tratamento e complicações do parto tumultuoso
O tratamento do parto tumultuoso consiste em tranqüilizar a
parturiente com tranqüilizantes ou sedativos e controlar as dores do parto
com o emprego de anti-espasmódicos. Comumente se efetiva a cesariana
enquanto o feto está vivo.
As complicações mais freqüentes de um parto tumultuoso são:
prolapso uterino, torção e inércia uterinas, espasmo de colo uterino, ruptura
de períneo, morte fetal e choque hemorrágico da parturiente.
 
Espasmo de colo uterino
É uma anomalia funcional onde ocorre impossibilidade de dilatação
da cérvix uterina sem que ocorra qualquer alteração anatômica. Pode ocorrer
por inércia uterina primaria, excesso de contrações uterinas ou por deficiência
da estrutura funcional da cérvix que não obedece aos estímulos hormonais.
No tratamento dos espasmos de colo uterino estão indicados o
emprego de estrogênio, anti-espasmódico, dilatação manual e cesariana.
 
Versão e flexão de útero
Nas espécies que apresentam posição horizontal da coluna vertebral
considera-se fisiológico a inclinação ventral do útero durante a gestação.
Porém, se houver uma acentuação desta inclinação ventral do útero, de modo
que este se torne perpendicular ao eixo longitudinal da fêmea gestante,
instala-se uma condição patológica denominada de versão ventral do útero.
Se esta se acentuar origina a flexão ventral do útero.
A ruptura ventral da musculatura abdominal e o abdome frouxo de
fêmeas velhas ou desnutridas predispõem a ocorrência de versão ou flexão do
útero.
Na vaca pode ocorrer a versão ou flexão lateral situando-se o útero à
esquerda do rúmen.
Ruptura do útero
Pode ser produzido por um parto tumultuoso, distúrbios das vias
pélvicas, emprego errôneo de ocitocina ou instrumentos ou manobras
obstétricas. Estas rupturas são graves porque levam ao choque hemorrágico
ou peritonite, principalmente na égua.
A correção pode ser antieconômica em certos casos. A ráfia por via
vaginal pode ser tentada em algumas situações. A laparotomia deve ser
efetivada rapidamente quando se resolve intervir.
Roteiro de Estudo: Distocia materna
1. Explique o termo vicio pélvico.
2. Diferencie pélvis juvenil de pélvis estreita.
3. Qual o tratamento preconizado para a ocorrência de vícios pélvicos?
4. Quais são as principais causas de distocias causadas pela vulva e vagina?
5. Qual o tratamento preconizado para as distocias causadas pelas vias
genitais?
6. Qual a espécie mais predisposta à torção uterina? Por quê?
7. Classifique os tipos de torção uterina.
8. Descreva o diagnóstico da torção uterina.
9. Descreva os tipos de tratamento para torção uterina.
10. Diferencie inércia uterina primária da secundária.
11. Qual o tratamento preconizado para a inércia uterina?
12. Explique o termo parto tumultuoso.
13. Qual o tratamento para o excesso de contrações uterinas?
14. Quais são as possíveis complicações em um parto tumultuoso?
15. Explique o termo espasmo de colo uterino e qual o seu tratamento.
16. O que é versão e flexão uterina?
17. Que situações podem acarretar em ruptura uterina?
 
Referências bibliográficas
1. ARTHUR, G.H. Reprodução e obstetrícia em veterinária. 4ª Ed., Rio de
Janeiro: Guanabara, 1975. 573p.
2. GRUNERT, E.; BIRGEL, E. H. Obstetrícia veterinária. 3a Ed. Porto
Alegre: Sulina. 1982. 323p.
3. PRESTES, C. N. & LANDIM-ALVARENGA, F. C. Obstetrícia
veterinária. 1ª Ed. São Paulo: Guanabara Koogan. 2006.
4. ROBERTS SJ. “Diseases and accidents during gestation period”
“Diagnosis and treatment of the various types of dystocia” “Injuries and
disease of the puerperal period” Veterinary Obstetrics and genital diseases,
third edition, Woodstock, 230-233, 337-343, 357-359,1986.
5. SIMÕES J, TEIXEIRA F, MASCARENHAS R. “Resolução de torções
uterina por método de rolamento em vacas: um estudo retrospectivo de 9
casos” Veterinaria.com.pt, v. 1, Nº1e 25, 2008.
6. SLOSS V, DUFTY JH. (Eds). Handbook of bovine obstetrics. Baltimore:
Williams and Wilkins Co. 1980.
 
 
 
Puerpério patológico
 
A ocorrência de puerpério patológico nos grandes animais retarda o
início do serviço em cerca de 60 a 80 dias, que acarreta uma perda na
eficiência reprodutiva do rebanho e, conseqüentemente, prejuízo econômico
por elevar os custos da produção.
As causas dessas afecções no pós-parto estão relacionadas à
ocorrência de distocias, tanto maternas quanto fetais. O conhecimento da
evolução do parto pode contribuir para a resolução de um puerpério
patológico, pois todo fator que contribuir para a não involução uterina e
retardar o restabelecimento da função neuroendócrina do ciclo estral favorece
o curso de um puerpério patológico.
 
Retenção de placenta
A retenção de placenta, também denominada retenção das secundinas,
é uma afecção puerperal bastante comum na exploração de bovinos leiteiros,
e de um modo geral incomum nas éguas. Nas cadelas e porcas ocorre
conjuntamente com a retenção dos fetos, em uma freqüência variável. A
ocorrência de retenção de placenta no puerpério denota um curso patológico
do parto, representando um sintoma do transtorno etiológico da distocia que
lhe originou e que prejudica o processo natural de involução uterina.
Após a expulsão do feto há um período de tempo fisiológico para a
expulsão da placenta, especifico para cada espécie animal. O diagnóstico de
retenção de placenta só pode ser emitido depois de transcorrido este período
de tempo.
Etiologia da retenção de placenta
Em um puerpério fisiológico a deiscência e a expulsão das secundinas
é um processo complexo que inclui uma redução da irrigação sangüínea
seguida de retração das estruturas placentárias maternas e fetais, alterações
degenerativas e fortes contrações uterinas.
A retenção das secundinas é resultado de uma insuficiência nas
contrações uterinas após a fase expulsiva do parto ou de uma lesão
placentária que afeta a união física entre o endométrio modificado e as
vilosidades coriônicas.
As principais causas implicadas na ocorrência de retenção de placenta
consistem em distensão excessiva do útero, inércias uterinas, parto
prematuro, abortos, níveis baixos de estrógenos ou PGF2α, deficiência
nutricional de vitaminas (principalmente, A e E) e de minerais
(principalmente cálcio e selênio), e ainda as infecções uterinas.
Sintomatologia da retenção de placenta
O principal sintoma de não involução uterina, depois de transcorrido o
período fisiológico de expulsão das secundinas, é a eliminação de lóquio
patológico com ou sem a insinuação de anexos fetais pela rima vulvar (Figura
1).
 
Figura 1. Retenção de placenta em vaca.
 
Na retenção de placenta o lóquio patológico se torna denso, pútrido e
fétido, e a sua eliminação suja a região vulvar, a base posterior do úbere, e a
cauda do animal. O estábulo, piquete ou pasto, onde transita o animal
também fica sujo, e atraindo moscas e predadores. Tudo isso contribui para
estressar o animal e prejudicar sua condição orgânica.
Na vaca, depois de transcorrido mais de 48 horas da expulsão do feto,
o colo uterino tende a se manter com um discreto grau de dilatação devido
aos baixos níveis de estrogênio e prostaglandinas, o que dificulta a
eliminação da placenta retida. Entretanto, pode ocorrer a auto-cura, sem que
se processe qualquer tratamento, entre três a 10 dias, podendo a placenta ser
expulsa em forma de uma massa putrefeita.
Nos casos de resolução rápida podem ocorrer ligeiras cólicas
acompanhadas de esforços expulsivos e uma discreta redução da produção
leiteira.
Nos casos complicados a vaca apresenta sintomas moderados a
graves, tais como: inapetência, diminuição da ruminação, aumento da
temperatura corpórea, discreta taquicardia e taquipnéia. Estes sintomas estão
sempre associados a uma queda sensível ou supressão da secreção láctea.
As vacas que apresentam retenção de placenta grave podem
apresentar complicações clínicas como mastite, metrite, peritonite, vaginite
necrótica, paresia da parturiente e acetonemia.
Nas éguas a retenção das secundinas depois de transcorridos mais de
12 horas pode se complicar em laminite e toxemia severas (Figura 2). As
porcas, cadelas, gatas podem apresentar toxemia, ruptura uterina, peritonite e
morte.
 
Figura 2. Retenção de placenta em égua.
 
Tratamento da retenção de placenta
Há vacas que se curam sem qualquer tratamento, enquanto outras
apresentam complicações clínicas sérias. Os procedimentos para resolução da
retenção das secundinas nas vacas variam de acordo com o tempo
transcorrido após o parto.
Nas primeiras 24 a 48 horas deve-se realizar tração moderada, após
torcer os anexos fetais expostos como uma corda, e promover o descolamento
manual da união dos placentomas acessíveis, e a seguir cortar a porção
exposta dos anexos fetais, o mais interno possível, a nível do vestíbulo
vaginal. A seguir, se realiza massagem uterina por via retal e procede-se com
a higienização do posterior do animal e do ambiente exposto. Este
procedimento deve ser conduzido diariamente até a expulsão completa da
placenta. Pode-se empregar ocitocina, na dose de 25 a 30 UI, por via intra-
muscular após os procedimentos obstétricos empregados.
A abordagem da retenção de placenta ocorrida há mais de 48 horas do
pós-parto inclui o emprego de hormônios. Por não haver mais receptores
uterinos para ocitocina pode ser necessário o emprego de estrógenos para se
promover a dilatação do colo uterino. Nestes casos, o útero se encontra
distendido e com acúmulo de liquido no interior, o que torna necessário a
realização de infusão uterina, seguido de sifonagem, com uma solução
aquosa de KMnO4, ou mesmo água com sabão, para a limpeza da cavidade
uterina. Este procedimento deve ser repetido até que a solução de KMnO4
retorne da cavidade uterina com a cor original. A seguir, procede-se com a
massagem uterina por via retal e os procedimentos higiênicos tópicos e
ambientais. Este tratamento é realizado diariamente ate a completa resolução
da retenção da placenta.
 
Prolapso vaginal ou uterino
O prolapso vaginal ou uterino é conseqüente a um relaxamento da
fixação destes órgãos na cavidade pélvica, devido à edema e proliferação da
mucosa, o que promove uma modificação da posição de parte da parede
tubular que introspecta pelo próprio órgão e se insinua através da rima vulva.
O prolapso vaginal pode ocorrer em toda fêmea ao final da gestação,
mas ocorre principalmente na fase prodrômica do parto. Nas cadelas é mais
comum ocorrer durante o cio, e parece haver maior predisposição em
algumas raças, como se tem verificado na raça Boxer (Figura 3).
 
Figura 3. Prolapso vaginal em cadela.
 
O prolapso uterino ocorre após a expulsão dos fetos durante o parto.
Ele sucede em tempo a uma inversão uterina, e de acordo com as partes
exteriorizadas o prolapso pode ser parcial, completo ou total. O útero pode se
prolapsar ao final da fase expulsiva do parto na vaca e nos pequenos
ruminantes, sendo menos freqüente na porca, e raro nas éguas e na cadela
(Figuras 4 e 5).
Figura 4. Prolapso uterino em vaca.
 
Figura 5. Prolapso uterino em égua.
Etiologia do prolapso vaginal ou uterino
Diversos fatores podem estar envolvidos na etiologia dos prolapsos
vaginal ou uterino. Em todos os casos encontram-se níveis elevados de
estrogênios responsáveis pelo embebimento hormonal e conseqüente
amolecimento dos ligamentos pélvicos e genitais. Os principais fatores
envolvidos são: predisposição hereditária; retenção de secundinas ou lesões
da via fetal mole; mal estado nutricional; estabulação em ambientes com piso
em declive acentuado; atonia uterina acompanhada de hipocalcemia e
contrações abdominais intensas; extração forçada de fetos enfisematosos; e,
edema dos órgãos genitais.
Sintomatologia dos prolapsos vaginale uterino
O prolapso uterino é sempre de ocorrência puerperal, enquanto que o
prolapso vaginal na vaca ocorre principalmente na fase prodrômica do parto,
e na cadela durante o cio.
Na inspeção se observa parte do órgão (vagina ou útero) revertida e
situada fora da rima vulvar, expondo a mucosa. O útero pode pender até
alcançar o nível dos jarretes, e no inicio a sua mucosa se apresenta
avermelhada passando a vermelho escuro mais brilhante e nos casos mais
antigos há perda do brilho com ressecamento, podendo apresentar
escoriações, rupturas, contaminações e infecções. Na presença de gangrena
uterina a mucosa se torna azulada e sem brilho e as partes necrosadas
enegrecidas.
A paciente se apresenta com um desconforto abdominal, cólicas e
tenesmo, o que limita as suas atividades rotineiras. Nas vacas as partes
exteriorizadas ficam expostas a lesões mecânicas e a ataques de predadores.
Algumas cadelas costumam se auto-mutilar.
Tratamento dos prolapsos vaginal e uterino
Inicialmente se avalia o estado geral da fêmea a fim de se descartar a
presença de hemorragias internas, e a seguir se promove um exame obstétrico
avaliando-se as condições da mucosa uterina ou vaginal exposta, o grau de
prolapso, e a presença ou não de secundinas retidas. A capacidade de
recuperação do órgão é surpreendente, mas na ocorrência de gangrena e
necrose recomenda-se a amputação do órgão (Figura 6).
O tratamento visa repor o órgão prolapsado em sua posição anatômica
original, o que se obtém por meio de massagens e o uso de compressas frias,
para redução do edema, seguidas por manobra de retropulsão do órgão. A
mucosa deve ser lubrificada para sua proteção e facilitar a reposição. No caso
de prolapso uterino na vaca pode ser necessário um lençol limpo e úmido
para apoiar e suspender o órgão. Em alguns animais pode ser necessário o
emprego de sedativos ou anestesia epidural.
 
Figura 6. Prolapso cérvico-vaginal com áreas de necrose.
 
Após a redução do prolapso deve ser realizada uma infusão intra-
uterina de uma solução aquosa de permanganato de potássio (KMnO4),
seguida de sifonagem, para se desfazer a inversão que porventura tenha
permanecido. O uso de pessários ou velas uterinas não se faz necessário.
Todos estes procedimentos devem ser realizados com o animal em estação,
contido em uma rampa, com a parte anterior do corpo em declive.
A manutenção da situação anátomo-topográfica da vagina e do útero
pode ser efetivada por meio das técnicas cirúrgicas de Matress, Flessa ou
Bühner, como segue:
a) Técnica de Matress: consiste na execução de três pontos de Wolff
captonados eqüitativamente distribuídos ao longo da rima vulvar. Os pontos
são aplicados no centro de cada terço vulvar e apresentam como limites
laterais a transição das regiões glabra e pilosa. São empregados um trocater
fino, agulha curva cortante, e fios de sutura inabsorvíveis (Mononylon). O
ponto inferior deve permitir a saída de secreções (urina e lóquio). É a técnica
mais comumente empregada, e pode ser realizada em todas as espécies
animais.
b) Técnica de Flessa: consiste na oclusão da vulva com o aparelho de Flessa,
que consiste em três pinos metálicos, tipo parafuso com rosca e porca, e dois
trilhos laterais de metal ou plástico para apoio dos pinos. A aplicação dos
pinos e trilhos segue as mesmas referências adotadas na técnica de Matress. É
recomendada para emprego nas vacas e éguas.
c) Técnica de Bühner: o estreitamento vulvar é promovido por meio de uma
ligadura periférica, tipo bolsa de tabaco. Inicialmente penetra-se uma agulha
comprida, tipo “Gerlach”, em um ponto localizado ligeiramente abaixo e ao
lado da comissura vulvar ventral, e segue-se para cima pelo tecido
perivaginal, e sai em um ponto ligeiramente acima e lateral à comissura
vulvar dorsal. A seguir, coloca-se um fio tipo fita umbilical na extremidade
da agulha e o traciona em direção ao furo de entrada da agulha. O fio corre
sob o limite da região glabra e pilosa. Repete-se esta operação do lado
oposto, pegando-se a extremidade remanescente do fio na porção dorsal da
vulva. As duas extremidades do fio são atadas na porção ventral da vulva,
comprimindo-a até que a sua abertura permeie de dois a três dedos, para
permitir a saída de secreções e urina. Esta técnica é indicada para emprego
nas grandes fêmeas.
d) Cervicopexia ou Técnica de winkler: consiste na fixação do fórnix
vaginal no ligamento pré-púbico. Deve-se realizar uma anestesia epidural
antes do procedimento. Emprega-se uma agulha semicircular com bordos
cortantes de 8 a 10cm, e o fio a ser utilizado pode ser nylon ou “vetafil”. A
agulha deverá ser passada sob o orifício externo da cérvix (fundo de saco
vaginal ou fórnix), atravessando o tendão pré-púbico em direção látero-
medial, no sentido sínfise púbica e logo retornar em direção ao piso vaginal.
Esta sutura deve incluir 4 a 5cm do piso vaginal e 2 a 2,5cm do tendão pré-
púbico.
e) Vaginopexia (Técnica de Minchev): técnica utilizada em animais de alta
produção e com recidivas de prolapso uterino. Antes do procedimento deve-
se realizar tricotomia e antissepsia na região sacral e a anestesia epidural. O
procedimento consiste na fixação da vagina (parede cranial), na região sacral.
De acordo com a técnica pode-se utilizar uma agulha tipo “Gerlach” ou
trocater; a agulha deve ser introduzida na pele (5cm lateral da vértebra
sacral), em direção caudal do ligamento sacro-isquiático e passar pelo forame
isquiático menor até atingir o fundo de saco vaginal, no qual deverá ser
colocado um capton ou botão. Na pele também deverá ser colocado um
botão. O fio utilizado pode ser nylon ou uma fita umbilical. O mesmo
procedimento deverá ser realizado no lado oposto (Figura 7).
 
Figura 7. Técnica de vaginopexia.
 
Ruptura de períneo
É um ferimento das porções caudais das partes moles do canal do
nascimento caracterizado por uma dilaceração da vulva e do vestíbulo vaginal
atingindo com profundidades variáveis os tecidos adjacentes. Neste sentido, a
ruptura do períneo é considerada parcial quando não há comprometimento do
esfíncter anal e da mucosa retal; e, na ruptura total ocorre dilaceração total do
períneo formando-se uma “cloaca”, ou seja, uma comunicação caudal do
canal vaginal com a luz intestinal.
A ruptura de períneo geralmente é ocasionada por fetos grandes, má-
disposição fetal que impeça seguir o eixo pélvico, existência de vulvas com
retrações cicatriciais, partos que cursam com contrações violentas e rápidas,
manobras obstétricas mal feitas, parto seco, etc.
As rupturas de períneo são comuns em fêmeas primíparas e animais
que apresentam má formação. Em eqüinos pode ocorrer ruptura de períneo
devido ao feto permanecer em uma posição dorso-pubiana ou lombo-pubiana,
e se desviar da trajetória do eixo pélvico durante a sua expulsão no parto,
acarretando em laceração do teto vaginal e o períneo.
Sintomatologia na ruptura de períneo
Após se instalar a ruptura de períneo, o puerpério segue com graus
variados de flogose no canal do nascimento e no períneo podendo ocorrer
complicações infecciosas, como o tétano nos eqüinos.
A modificação da dimensão e da regularidade da rima vulvar, assim
como da modificação de sua disposição vertical para obliqua, favorece a
aspiração de ar instalando-se um quadro de pneumovagina, pneumometra e
pneumorreto, que evoluem para uma vaginite, cervicite e endometrite. A
conseqüência inevitável é uma sub-fertilidade ou infertilidade com
diminuição da produtividade animal.
Tratamento da ruptura de períneo
Nos casos recentes, dentro das primeiras 12 horas após o incidente,
deve-se promover a cicatrização por primeira intenção. Após este período de
tempo deve-se aguardar que ocorra a cicatrização da ferida por segunda
intenção, realizando-se curativos diários na ferida.
Na ruptura parcial do períneo a técnica operatória corretiva consiste
em uma vulvoplastia, com reparação da disposição da rima vulvar e da
comissura dorsal da vulva (Técnica de Carlisk modificada). São empregados
fios absorvíveis e pontos de Donnati captonados,que se estendem da pele
perineal até o plano da submucosa no teto vaginal e vulvar (Figuras 8 e 9).
Figura 8. Determinação do limite da comissura vulvar dorsal original.
 
Na ruptura total do períneo emprega-se a técnica de Götze, que
consiste em se separar a mucosa retal e vaginal e a aplicação de pontos de
Donnati modificados apoiados no septo reto-vaginal, no sentido crânio-
caudal. Estes pontos partem da mucosa vaginal em direção à submucosa retal
de um lado ao outro e retornam para a mucosa vaginal do lado oposto,
transpassando o septo reto-vaginal. A pele perineal pode ser suturada no final
com pontos simples e fio inabsorvível. A recuperação do paciente é delicada
e requer cuidados especiais com a defecação. 
 
Figura 9. Sutura de Donnati captonada na vulva.
 
Roteiro de Estudo: Patologias do puerpério
1. Cite as principais causas de retenção de placenta na vaca.
2. Descreva os sintomas da retenção de placenta na vaca.
3. Qual a possível evolução da retenção de placenta na cadela ou porca?
4. Descreva o tratamento da retenção de placenta na vaca.
5. Diferencie inversão de prolapso uterino.
6. Cite os principais fatores envolvidos na ocorrência de prolapso uterino na
vaca.
7. Descreva o tratamento obstétrico no caso de prolapso uterino na vaca em
que se observa uma mucosa uterina integra.
8. Descreva a técnica de Matress para contenção de prolapso uterino.
9. Descreva a técnica de Flessa para contenção de prolapso uterino.
10. Descreva a técnica de Bühner para contenção de prolapso uterino.
11. Descreva a técnica de Cervicopexia para prevenção de prolapso vaginal e
uterino.
12. Diferencia a ruptura de períneo parcial da total.
13. Qual a principal causa de ruptura de períneo em éguas?
14. Descreva a técnica de Carslick modificada para redução de ruptura de
períneo.
15. Descreva a técnica de Götze para redução de ruptura de períneo.
16. Quais são as complicações clinicas de uma ruptura de períneo?
 
Referências bibliográficas
1. PRESTES, N.C.; MOYA, C.F.; PIAGENTINI, M.; LEAL, L.S. Prolapso
total ou parcial de vagina em vacas não gestantes: uma nova modalidade de
patologia? Rev. Bras. Reprod. Anim., v. 32, n. 3, p. 182-190, 2008.
2. ROBERTS, S.J. Obstetrícia veterinária y patologia de la reproducion:
Teriogenologia. Buenos Aires: editorial Hemisferio Sur S. A. 1983. 1020p.
3. TURNER, A. S.; MCLLWRAITH, C. W. Técnicas cirúrgicas em animais
de grande porte. 1a.ed. São Paulo: Roca. 2002. 341p.
4. WALKER, D.F.; VAUGHAN, J.T. Bovine and equine urogenital surgery.
Ed. Lea e Febiger, Philadelphia. USA, lª ed. 1980.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cuidados com o recém-nato
 
A prática obstétrica inclui procedimentos preventivos direcionados ao
desenvolvimento de uma gestação fisiológica, que resulte em uma eutocia e o
nascimento de recém-natos (RN) fortes e saudáveis.
Os cuidados obstétricos preventivos garantem uma eficiência
reprodutiva adequada a uma moderna exploração animal e podem ser
consideradas antes do nascimento, durante o nascimento e após o nascimento.
O período de vida neonatal se estende até a segunda semana de vida
para a maioria dos animais domésticos, período caracterizado pela
imaturidade das principais funções orgânicas, como as funções hepática,
renal, cardiopulmonar, gastrintestinal, imunológica e nervosa, o que inclui a
termorregulação.
Cuidados antes do nascimento
De um modo geral, os cuidados antes do nascimento compreendem a
orientação na cobertura (cuidados pré-nupciais) e os cuidados pré-natais das
gestantes. Os cuidados pré-nupciais são direcionados no sentido de se
escolher parceiros isentos de enfermidades transmissíveis e defeitos
genéticos, que apresentem uma maturidade orgânica e um bom estado de
saúde que permita à mãe desenvolver adequadamente a gestação e parir de
modo eficiente um ou mais fetos de tamanho adequado à sua espécie e raça.
As fêmeas não devem ser cobertas precocemente, estando somente
liberadas após alcançarem a maturidade orgânica, o que ocorre na idade
adulta. O critério adotado para as vacas é o peso corpóreo, que deve ter
atingido um mínimo de 240 kg, para as Zebuínas, e 320 kg, para as
Holandesas; enquanto que para as éguas o critério é a idade, que fica
estabelecido entre os 2,5 e 3,5 anos. Para as cadelas e gatas, o referencial
adotado é a repetição do ciclo estral sendo consideradas aptas àquelas que já
alcançaram o terceiro cio.
Na espécie bovina sabe-se que o touro é o responsável pela
transmissão de características da pélvis de suas descendentes, devendo ser
eliminado da reprodução aquele que comprovadamente imprima em sua prole
medidas pélvicas inadequadas a uma boa parição.
Nos pequenos animais deve-se adequar o tamanho do macho com o
da fêmea, além de se permitir cópulas suficientes e em dias próximos para se
garantir fetos de proporções e maturidade adequadas. O macho deve ser
trazido às fêmeas que já tenham evoluído do pro-estro para o estro.
Uma vez iniciado o período gestacional, as gestantes devem ser
atendidas em suas necessidades nutricionais basais e suplementadas de
acordo com sua atividade rotineira e com a fase gestacional. O
desenvolvimento do feto segue graficamente uma curva sigmóide
evidenciando um crescimento acentuado no terço final da gestação, quando a
fêmea deve ser suprida com um fornecimento maior de alimento.
A fêmea gestante não pode estar com o seu peso corpóreo abaixo nem
tampouco acima da média, devendo receber uma alimentação balanceada, de
forma quantitativa e qualitativa, que garanta um bom desenvolvimento fetal
sem comprometer a economia orgânica materna. Além disto, preconiza-se
uma diminuição de sua atividade de trabalho rotineira. Em relação aos
bovinos, a vaca leiteira gestante deve ser “seca” quando atinge o 7º mês de
gestação para se ter um período de descanso da lactação de dois meses a fim
de se garantir um bom desenvolvimento corpóreo, com níveis de cálcio e de
glicose suficientes para um bom trabalho de parto e uma nova fase
lactacional.
Durante todo o período gestacional deve ser evitado o emprego de
drogas terapêuticas, tais como antibióticos, antiinflamatórios, carrapaticidas,
vermífugos e outros, pois estas substâncias podem apresentar efeitos
indesejáveis tanto ao organismo materno quanto ao embrião ou feto. O uso de
acupuntura, fitoterápicos ou medicamentos homeopáticos podem ser
empregados com critério. Certos manejos que possam estressar o organismo
materno, como mudança de pastagens, de residências ou intromissão de
novos animais deve ser evitados. Nos pequenos animais não se recomenda
qualquer vacinação durante a gravidez, enquanto que nos bovinos é
recomendada a aplicação de vacina antibacteriana, em duas doses, 30 dias
antes do parto, a fim de se melhorar a qualidade imunogênica do colostro.
Nesta época, a vaca deve ser conduzida para um pasto maternidade onde
possa ser assistida e tenha água potável à vontade, sol, sombra, ventilação,
pasto limpo e se sinta segura em relação a invasão de predadores. O mesmo
deve ser realizado em relação aos pequenos ruminantes e às éguas. Para as
cadelas e as gatas deve ser preparado um local previamente onde elas possam
preparar o “ninho”.
 
 
Cuidados ao nascimento
O trabalho de parto em uma exploração animal deve ser assistido para
se poder intervir quando necessário. Deve ser garantido à parturiente
condições mínimas para o seu progresso, o que inclui uma ambientação
segura e tranqüila que proporcione conforto adequado durante todo o seu
labor. Como cada parto é único e apresenta duração variável deve-se
inspecionar o seu curso garantindo o progresso do nascimento dentro de
parâmetros fisiológicos.
Quando o parto é normal a própria mãe presta os primeiros
atendimentos ao recém nato (RN), e o principal objetivo do Obstetra é
identificar o momento em que o parto deixa de ser fisiológico e passa a ter
um curso patológico, quando então dever ser realizado procedimento
obstétrico específico, a fim de se garantir a vida da parturiente e a
sobrevivência do produto. Em algumas situaçõesum parto via vaginal pode
ser tornar esgotante impedindo que a parturiente realize os primeiros
cuidados com o recém-nato, da mesma forma nos partos cesáreos, devendo
então ser realizado os primeiros cuidados ao nascimento.
Logo após o nascimento, entre um a cinco minutos, o filhote deve ser
avaliado clinicamente para se determinar a sua viabilidade. Um sistema de
escore de vitalidade fetal pode ser empregado em medicina veterinária, à
semelhança do que é realizado com os seres humanos com o sistema
APGAR, conforme esquematizado nos Quadros 1, 2 e 3.
Quadro 1: Avaliação clínica do neonato bovino (Sistema APGAR)
Fonte: Born (1981).
 
Quadro 2: Avaliação clínica do neonato equino (Sistema APGAR)
Fonte: Turner (1994).
 
 
Quadro 3: Avaliação clínica do neonato canino (Sistema APGAR)
Fonte: Veronesi et al. (2009).
 
No sistema APGAR, um escore entre 7 e 8 traduz um estado clinico
normal; e, entre 4 e 6 traduz depressão moderada; enquanto que um escore
entre 0 e 3 denota depressão severa. Os cuidados serão maiores e mais
urgentes quanto menor os valores de escore.
Cuidados com o cordão umbilical
O cordão umbilical se rompe espontaneamente ou com ajuda da mãe
nas eutocias. Quando necessário o cordão umbilical deve ser cortado com o
auxilio de uma tesoura mantendo-se um coto de três a cinco centímetros de
comprimento. Este não deve receber qualquer ligadura, exceto em casos de
hemorragias, para não retardar o processo de mumificação e evitar a
instalação de infecção anaeróbica. Posteriormente, após regularização das
condições clinicas do RN, o curativo local pode ser feito com álcool
hidratado, tintura de iodo ou acido pícrico a 0,5%, diariamente, até a sua
queda e cicatrização do umbigo.
Assistência cardiorrespiratória ao neonato
Imediatamente à passagem do RN pelo canal do nascimento devem-se
desobstruído as vias aéreas superiores, para que ele possa realizar o primeiro
movimento inspiratório, promover a expansão pulmonar e realizar a
hematose. As narinas do RN devem ser drenadas por gravidade mantendo-se
a sua cabeça para baixo, podendo ser combinadas com massagens nasais
externas, aspiração com pêra de borracha, sonda com seringa ou aspirador
mecânico. A respiração normal precisa ser restabelecida dentro de dois a três
minutos após o nascimento. Caso isto não ocorra, é necessário o
estabelecimento de ventilação artificial por meio de mascara respiratória ou
entubação orotraqueal visando a oxigenação do RN.
A presença de mucosas pálidas e tempo de preenchimento capilar
lentificado podem indicar colapso cardiorrespiratório.
Fluídos endovenosos podem ser dados a razão de 1ml para cada
30gramas de peso vivo, durante cinco a 10 minutos, ou até que os batimentos
cardíacos, os movimentos respiratórios e o tempo de preenchimento capilar
sejam restaurados.
Neonatos exibindo disfunção neurológica, choque ou desidratação
severa deve receber glicose parenteral por via endovenosa, na dose de 0,25ml
para cada 25gramas de peso vivo, de solução de dextrose a 20%.
 
Temperatura ambiente ideal ao neonato
O recém-nato deve ser mantido em uma temperatura ambiente entre
25° a 32°C, e uma umidade relativa do ar entre 50 a 60%. Todo filhote em
um parto assistido deve ser friccionado com um pano seco ou com compressa
cirúrgica, do sentido da cabeça para o tronco, para aquecê-lo e estimulá-lo.
Posteriormente, podem ser empregados colchões térmicos, bolsas de água
quente, lâmpadas, garrafas com água aquecida, etc., com o cuidado de não
expor os animais a queimaduras ou a ambientes muito quentes. Um RN
hipotérmico, com uma temperatura corpórea entre 23° e 35°C, pode estar
evoluindo para uma depressão cardiocirculatória e respiratória, paralisia
gastrintestinal e coma.
Cuidados após o nascimento
Todos os mamíferos necessitam ser amamentados logo após o
nascimento, para obter fonte de nutrientes e energia. Devido aos diferentes
tipos de placentas nos animais domésticos a necessidade do colostro é
variável, chegando a ser essencial nos ruminantes e eqüinos, que se tornam
dependentes da transferência passiva de imunoglobulinas. A qualidade do
colostro está relacionada com os níveis de imunoglobulinas, que deve conter
um mínimo de 3000mg Ig-G/dl, o que resulta em uma densidade do colostro
maior que 1.060. Toda propriedade de criação animal deve manter colostro
estocado sob refrigeração ou congelamento para o caso de aleitamento
artificial dos RN órfãos.
Após o nascimento os RN devem apresentar o reflexo de sucção nos
primeiros 30 minutos de vida. Um potro ou bezerro RN normal geralmente
mantém-se em decúbito esternal por um a 10 minutos, e depois se levantam e
procuram o úbere da mãe em torno de uma a duas hora de nascimento. Caso
isso não ocorra deverão ser auxiliados com a contenção da mãe. O fato de o
RN demorar a se alimentar pode indicar debilidade causada por asfixia nos
primeiros minutos de vida.
O estômago dos RN possui uma capacidade volumétrica em torno de
50ml/Kg. No caso de aleitamento artificial dos potros ou bezerros estes
devem receber de um a dois litros de colostro através de mamadeira ou sonda
gástrica, divididos em mamadas de hora em hora. Os cães inicialmente
ingerem 10ml cada quatro a seis horas, enquanto que os gatos ingerem 5ml
cada quatro a seis horas. Esta quantidade vai sendo gradualmente aumentada. 
O RN que não é amamentado nas primeiras horas apresenta ausência de
atividade gastrointestinal e não se beneficia do efeito laxativo do colostro.
O RN deve expulsar o mecônio entre quatro a 12 horas após o seu
nascimento. E, caso o bezerro ou potro não defecar neste período deve ser
utilizado um enema via retal para auxiliar essa eliminação e evitar a
ocorrência de cólicas fatais. Os cães e gatos devem ser estimulados por meio
de massagens na região perineal com algodão umedecido em água morna.
Avaliação clínica dos neonatos caninos e felinos
O exame clínico do neonato tem o intuito de avaliar a sua viabilidade
e inicia-se pelo histórico do parto e dos acontecimentos e manejo realizados
com os filhotes até o momento do atendimento.
O local adequado para o exame físico do neonato compreende um
local macio e de superfície aquecida, e com manipulação delicada e de forma
progressiva. De preferência o exame deve ser realizado na ausência da mãe e
em ambiente tranquilo.
A primeira avaliação clínica se faz pela observação da vitalidade e das
atitudes e reflexos do neonato durante a sua manipulação, o que pode revelar
a necessidade de procedimentos clínicos imediatos.
As mensurações clínicas físicas consistem em avaliar o peso
corpóreo, que deve ser comparado com o peso ao nascimento, com o de 12
horas após e com aqueles realizados diariamente durante as duas primeiras
semanas, caso houver. Um filhote canino deve duplicar seu peso em 10 a 12
dias de vida. A desidratação é uma importante causa de perda de peso
corpóreo diário nos primeiros dias de vida.
A temperatura corpórea deve sempre ser mensurada. A temperatura
retal de um recém-nascido deve estar entre 36 e 37°C durante as duas
primeiras semanas, havendo um aumento gradativo até atingir 37,5°C, na
quarta semana, decorrente da progressiva maturidade do sistema
termorregulador, da aquisição dos reflexos do tremor e da piloereção.
A freqüência cardíaca deve ser verificada, sendo que a freqüência
normal é de aproximadamente 200 bpm até duas semanas de idade. No caso
de sinais clínicos de dificuldades de perfusão sanguínea devem ser
pesquisadas possíveis cardiopatias congênitas.
A freqüência respiratória deve ser verificada, sendo que a freqüência
normal oscila entre 15 a 35 movimentos por minuto. Caso haja sinais de
cianose persistente, deve ser verificado a desobstrução das narinas e
implementada a oxigenioterapia com o auxílio de máscara.
O exame físico se complementa pelo exame da abertura dos olhos, os
quais abrem por volta do 12° e o 15° dias, para os cães, e entre o 6° e o 14°
dias, para os gatos. Deve se verificar a abertura do conduto auditivo externo,
o que acontece entre o 14° e o 17° dias, nos cães, e entreo 6° e 14° dias nos
gatos.
A avaliação neurológica se faz pela observação da atitude mental, do
tipo de sono (paradoxal nesta fase – com tremores e vocalização), e pela
resposta a estímulos externos, como a resposta de acordar subitamente
quando o animal é retirado da mãe, e a qualidade do choro. O ato de
amamentar também fornece informações à respeito da vitalidade do neonato,
que mamam a cada uma ou duas horas. O reflexo anogenital também pode
ser verificado, no ato em que a mãe os lambe estimulando os reflexos de
micção e defecação ou provocado por uma massagem regional com algodão
umedecido e quente.
Outros reflexos a serem avaliados são: a. Termotropismo positivo, em
que o filhote nos primeiros quatro dias de vida procura fonte de calor, o que é
essencial para sua sobrevivência por favorecer menor risco de esfriamento ou
desnutrição, e o estabelecimento do vínculo com a mãe e os outros filhotes da
ninhada; b. Reflexo de estimulação do focinho, que permite o filhote
empurrar com o focinho na direção dos mamilos da mãe. Este reflexo
desaparece após a abertura dos olhos; c. Reflexo de sucção, quando o neonato
manifesta tentativa de sucção quando se estimula os lábios, mas não é muito
pronunciado nas primeiras 48 horas; d. Aprumo vestibular, que pode ser
verificado pela capacidade do filhote em voltar ao decúbito esternal quando
colocado em decúbito lateral, flexionando-se os membros de apoio; e por fim,
e. Reflexo de dor, por estímulo por pressão mediana no espaço interdigital.
Cuidados nutricionais dos neonatos caninos e felinos
A amamentação do neonato deve ser vigorosa e ativa, em quantidade
e qualidade adequadas de leite materno, o que dispensa quaisquer cuidados
especiais, e estes só precisam comer e dormir.
No caso dos neonatos órfãos ou debilitados, as primeiras 36 horas de
vida constituem um período crítico do ponto de vista nutricional, quando
necessitam receber colostro nas primeiras 24 horas e aleitamento artificial.
Atualmente, existe no mercado substitutos comerciais do leite canino e felino.
Mas, formulações caseiras podem ser empregadas, conforme as formulações
sugeridas nos Quadros 4 e 5, e distribuídas ao longo do dia, conforme consta
no Quadro 6.
Quadro 4: Formulações caseiras de sucedâneos do leite materno para cães.
Fonte: Moore (2000); Prats (2005).
 
Quadro 5: Formulação caseira de sucedâneo do leite materno para felinos.
Fonte: Prats (2005).
 
Quadro 6: Distribuição das refeições substitutivas às mamadas
Fonte: Prats (2005).
Roteiro de Estudos: Cuidados com o recém-nato
1. Quando que se iniciam os cuidados obstétricos visando um parto normal?
2. Qual o principal cuidado obstétrico pré-nupcial e por quê?
3. Quais são os parâmetros de seleção pré-nupcial relacionados ao macho?
4. Quais são os parâmetros de seleção pré-nupcial relacionados à fêmea?
5. Quais são os principais cuidados obstétricos no pré-natal?
6. Explique o papel educativo que o veterinário deve exercer no atendimento
pré-natal.
7. Quando que se deve intervir com os cuidados obstétricos nos recém natos?
8. Quais os principais cuidados obstétricos ao nascimento?
9. Explique o escore empregado para avaliação de depressão respiratória.
10. Quais são os principais cuidados obstétricos após o nascimento?
 
Referências bibliográficas
1. DOMINGOS, T.C.S.; ROCHA, A.A.; CUNHA, I.C.N. Cuidados básicos
com a gestante e o neonato canino e felino: revisão de literatura. Jornal
Brasileiro de Ciência Animal 2008 v.1, n.2 , p. 94-120.
2. LEONEL, R. A. B. et al. Neonatologia de grandes animais. Revista
Científica Eletrônica de Medicina Veterinária. Ano VII, n. 12, Janeiro de
2009. 
3. SILVA, L.C. et al. Avaliação clínica neonatal por escore Apgar e
temperatura corpórea em diferentes condições obstétricas na espécie canina.
RPCV (2008) 103 (567-568) 165-170.
4. VASSALO F.G. et al. Escore de Apgar: história e importância na medicina
veterinária. Rev. Bras. Reprod. Anim. Belo Horizonte, v.38, n.1, p.54-59,
jan./mar. 2014.
 
Fetotomia
 
A fetotomia consiste na ressecção parcial ou total do feto morto no
interior do útero materno para permitir a sua retirada por via vaginal. Ela
deve ser realizada principalmente nas fêmeas uníparas, como a vaca e a égua,
quando não for possível a realização de parto vaginal por tração do feto
morto devido à desproporção materna fetal. A fetotomia evita a realização
desnecessária de uma cesariana com a presença de feto morto. 
Indicações
• Gigantismo fetal absoluto ou relativo;
• Feto enfisematoso;
• Monstruosidade fetal.
Cuidados Gerais
A execução de uma fetotomia requer certos cuidados com a
parturiente para resguardá-la de complicações sistêmicas e localizadas, tais
como perfuração uterina, lacerações de mucosa vaginal ou não esvaziamento
completo do útero. As principais medidas sequenciadas a serem tomadas são:
• Contenção adequada da parturiente;
• Reposição de líquidos fetais;
• Lubrificação do canal do nascimento;
• Proteção das partes moles do canal do nascimento;
• Esvaziamento completo do útero;
• Acompanhamento da involução uterina.
Material Necessário
A realização de uma fetotomia requer o emprego de um fetótomo
adequado para a espécie, como o fetótomo de Thygesen ou Lies indicado
para vacas e éguas. O equipamento completo consiste em:
1. Vareta metálica;
2. Guia de fio serra modelo Sand;
3. Ganchos de Key–Schöttler;
4. Correntes obstétricas com puxadores;
5. Fetótomo modelo Thygesen ou Lies;
6. Fio serra;
7. Mucilagem e luvas obstétricas.
 
Técnicas de Fetotomia
A realização da fetotomia consiste em dispor o fio serra ao redor da
parte do corpo a ser seccionada e a execução dos cortes, que podem ser no
sentido transversal, longitudinal ou diagonal em relação à disposição do
fetótomo, seguidos pela extração da peça anatômica seccionada.
A fetotomia pode ser realizada de forma completa (fetotomia total),
quando todos os cortes são executados, ou incompleta (fetotomia parcial)
quando somente alguns cortes são realizados, o que permite a retirada do feto
do interior do útero materno. 
A seguir são apresentadas as técnicas de fetotomia para as
apresentações longitudinal anterior e posterior e a apresentação transversa:
Técnica de fetotomia total em apresentação longitudinal anterior e
membros insinuados em extensão.
a. Colocar as correntes nas quartelas;
b. Adaptar o fetótomo na altura das articulações carpo–metacarpianas:
seccionar (corte transversal);
c. Colocar as correntes nas partes distais dos rádios, e o gancho na
mandíbula;
d. Adaptar o fetótomo na base do pescoço: seccionar (corte transversal);
e. Adaptar o fetótomo no tórax atrás das escapulas: seccionar até o meio da
coluna vertebral (corte transversal);
f. Mudar o sentido do fetótomo para o meio do peito: seccionar (corte
longitudinal);
g. Adaptar o fetótomo no semitórax atrás da escapula que remanescente:
seccionar (corte transversal);
h. Eviscerar;
i. Colocar o gancho na coluna vertebral;
j. Adaptar o fetótomo ao tórax – abdômen com 15 a 20 cm de largura :
seccionar (corte transversal), 1 a 2 vezes;
k. Colocar o gancho na coluna vertebral;
l. Adaptar o fetótomo no púbis: seccionar (corte longitudinal).
 Técnica de fetotomia parcial em apresentação transversa e membros
insinuados
 
a. Colocar as correntes nas quartelas posteriores e anteriores;
b. Adaptar o fetótomo na altura das articulações tarso-metatarsianas e carpo-
metacarpianas: seccionar (corte transversal);
c. Colocar os ganchos nas partes distais das tíbias;
d. Adaptar o fetótomo na altura das articulações fêmur– tíbio– patelar:
seccionar;
e. Colocar o gancho na mandíbula e as correntes na parte distal dos rádios;
f. Adaptar o fetótomo na base do pescoço: seccionar (corte longitudinal).
 
Roteiro de Estudo: Fetotomia
1. Defina fetotomia
2. Quando é que está corretamente indicado uma fetotomia?
3. Quais os principais cuidados gerais a serem adotados quando da realização
de uma fetotomia?
4. Qual o material necessário a ser empregado em uma fetotomia?
5. Descreva a técnicade fetotomia total em apresentação longitudinal anterior
e membros insinuados em extensão.
6. Descreva a técnica de fetotomia total em apresentação longitudinal
posterior e membros insinuados em extensão.
7. Descreva a técnica de fetotomia parcial em apresentação transversa e
membros insinuados.
Referencias bibliográficas
1. FRAZER, G. S. Fetotomy technique in the mare. Equine Veterinary
Education, v. 14, n. S5, p. 33-40, 2002.
 
 
	Prefácio
	A Obstetrícia Veterinária
	A pélvis óssea
	Pelvimetria
	O aparelho reprodutor feminino
	Mastologia Veterinária
	Anexos do embrião e do feto
	Placentas
	Circulação sanguínea fetal e neonatal
	Aspectos clínicos e fisiológicos da gestação
	Aspectos clínicos e fisiológicos do parto e do puerpério
	Cesariana
	Patologias da gestação
	Distocias nos animais domésticos
	Distocias fetais
	Distocias maternas
	Puerpério patológico
	Cuidados com o recém-nato
	Fetotomia.
	Fetotomia.

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