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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI FUNDAMENTOS DA LÍNGUA PORTUGUESA GUARULHOS – SP SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 4 2 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NO CONTEXTO EDUCACIONAL ...................... 5 2.1 Estratégias de leitura – texto e contexto .................................................................................. 5 2.1.1 Contexto: conceituando ........................................................................................................ 5 2.2 Contexto e compreensão ......................................................................................................... 6 2.3 Contexto na Escrita .................................................................................................................. 7 3 LEITURA: UMA PERSPECTIVA DA ESCOLA PARA A FORMAÇÃO CIDADÃ . 10 4 O PRAZER EM LER ........................................................................................... 12 4.1 A Imaginação, a Fantasia e a Literatura Infantil..................................................................... 13 4.2 O trabalho com os textos literários ......................................................................................... 16 5 LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS: ASPECTOS SOCIAIS E CULTURAIS DO MEIO 18 5.1 Alargando os repertórios de letramento dos nossos alunos .................................................. 18 5.2 O trabalho com os gêneros do discurso ................................................................................ 19 5.3 Planejando tarefas com textos ............................................................................................... 21 5.4 Produção de texto e reflexão linguística ................................................................................ 23 6 NOÇÃO DE TEXTO, TIPOLOGIA TEXTUAL E GÊNERO TEXTUAL ................. 25 6.1 Circuito Fechado .................................................................................................................... 25 6.1.1 Texto oral versus texto escrito ........................................................................................... 27 6.1.2 Texto literário versus texto não literário ............................................................................. 27 6.1.3 Texto verbal versus texto não verbal ................................................................................. 29 6.2 Tipologia Textual .................................................................................................................... 29 6.2.1 Texto narrativo.................................................................................................................... 30 6.2.2 Texto descritivo .................................................................................................................. 33 6.2.3 Texto dissertativo (expositivo e argumentativo) ................................................................. 35 6.2.4 Texto explicativo (injuntivo e prescritivo) ........................................................................... 39 7 GÊNERO TEXTUAL ........................................................................................... 41 8 PRODUÇÃO DE TEXTO – CONCEITOS DE COESÃO E COERÊNCIA ........... 46 8.1 Conceitos de coesão e coerência .......................................................................................... 46 8.2 Recursos coesivos em textos................................................................................................. 50 8.3 Diferentes gêneros textuais e sua forma de comunicar ......................................................... 57 9 PARÁGRAFOS E SUA ESTRUTURA ................................................................ 61 9.1 Qualidades essenciais de um parágrafo ................................................................................ 61 9.2 A coerência na construção de parágrafos ............................................................................. 64 9.3 Elaborando parágrafos com coesão e coerência................................................................... 68 10 AS RELAÇÕES ENTRE LINGUAGEM ORAL E ESCRITA ................................ 72 10.1 A oralidade e a escrita ............................................................................................................ 72 10.2 Oralidade e performance ........................................................................................................ 75 10.3 As fórmulas orais na escrita ................................................................................................... 78 10.3.1 Literatura exclusivamente oral ....................................................................................... 78 10.3.2 Literatura oral com registro escrito ................................................................................. 78 11 A FALA, A LEITURA E A ESCRITA .................................................................... 80 11.1 A relação entre a escrita e a leitura ....................................................................................... 80 11.2 Estruturação ........................................................................................................................... 81 11.3 Léxico ..................................................................................................................................... 83 11.4 Hábito e desenvolvimento ...................................................................................................... 86 12 A IMPORTÂNCIA DA ADEQUAÇÃO NA PRODUÇÃO TEXTUAL ..................... 87 12.1 Adequação discursiva e linguística ........................................................................................ 88 13 REVISÃO TÉCNICA ........................................................................................... 90 13.1 A importância da revisão textual ............................................................................................ 90 13.2 Roteiro para revisão textual ................................................................................................... 91 13.3 A importância da reescrita ...................................................................................................... 92 14 ADEQUAÇÃO VOCABULAR .............................................................................. 93 14.1 Adequação aos interlocutores ................................................................................................ 93 14.2 Inadequações e sinônimos ..................................................................................................... 94 15 GÊNEROS TEXTUAIS ACADÊMICO-CIENTÍFICOS ......................................... 95 15.1 Como escrever ....................................................................................................................... 98 15.1.1 Resumo .......................................................................................................................... 99 15.1.2 Resenha ....................................................................................................................... 100 15.1.3 Artigo ............................................................................................................................ 101 15.1.4 Monografia .................................................................................................................... 102 15.2 Para que escrever ................................................................................................................ 103 16 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 105 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece queo material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 5 2 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NO CONTEXTO EDUCACIONAL 2.1 Estratégias de leitura – texto e contexto 2.1.1 Contexto: conceituando A leitura é uma atividade complexa de produção de sentidos. Ela ocorre com base em elementos linguísticos que estão presentes na superfície e na forma de organização do texto. Contudo, requer a mobilização de um conjunto de saberes diverso e vasto. Um texto é construído na interação entre sujeito e texto. Para a produção de sentido, é necessário considerar o contexto. Para Solé (1998), a leitura é o processo pelo qual a linguagem escrita é compreendida. Esse processo envolve o texto, o leitor e ainda suas expectativas e conhecimentos prévios. Isso porque, para ler, é necessário ter o domínio das habilidades de decodificação, a definição do objetivo da leitura e a ativação de ideias e experiências prévias. Todos esses conhecimentos constituem diferentes tipos de contextos subsumidos por um contexto mais abrangente, o contexto sociossignificativo. É importante levar em conta quais significados devem se tornar explícitos. Isso vai depender do uso que o produtor do texto fizer dos fatores contextuais. Dessa forma, a explicitude do texto escrito em contraposição à parte implícita do texto falado não passa de um mito. Tanto na fala quanto na escrita, os produtores fazem uso de uma multiplicidade de recursos, muito além das simples palavras que compõem as estruturas (KOCH; ELIAS, 2006). Na leitura, o contexto linguístico, chamado pelas autoras de cotexto, orienta o leitor na construção da imagem do que ele lê. Porém, além da questão linguística, a leitura do texto também demanda a reativação de outros conhecimentos armazenados na memória. “A produção de sentido se realiza à medida que o leitor considera aspectos contextuais que dizem respeito ao conhecimento da língua, do mundo, da situação comunicativa, enfim.” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 59). 6 De acordo com as autoras, o contexto é um dos conceitos centrais nos estudos em linguística textual. Elas citam como exemplo a metáfora do iceberg: ele possui uma pequena superfície à flor da água (o que é explícito) e uma imensa superfície subjacente, que é o fundamento da interpretação (o implícito). Você pode considerar que o contexto é o iceberg como um todo, sendo tudo aquilo que contribui para (ou determina a) construção do sentido de alguma forma. 2.2 Contexto e compreensão Como se pode ver, para que haja compreensão do texto e para a construção da coerência textual, é imprescindível que se considere o contexto. Ele engloba não apenas o cotexto, mas também a situação de interação imediata, a situação mediata (entorno sociopolítico e cultural) e o contexto cognitivo dos interlocutores. De acordo com Koch e Elias (2006), o contexto cognitivo dos interlocutores subsome os demais. Isso ocorre pois ele reúne todos os tipos de conhecimento arquivados na memória dos atores sociais que precisam ser mobilizados por ocasião do intercâmbio verbal. São eles: O conhecimento linguístico propriamente dito; O conhecimento enciclopédico, que pode ser declarativo (que se recebe pronto e é introjetado na memória “por ouvir falar”) ou episódico (adquirido por meio da convivência social e armazenado em “bloco” sobre as diversas situações e eventos da vida cotidiana); 7 O conhecimento da situação comunicativa e de suas “regras” (situacionalidade); O conhecimento superestrutural ou tipológico (gêneros e tipos textuais); O conhecimento estilístico (registros, variedades da língua e sua adequação às situações comunicativas); O conhecimento de outros textos que permeiam a cultura (intertextualidade). Nesse sentido, Koch e Elias apontam que o contexto é constitutivo da própria ocorrência linguística. Nessa esteira, afirmam “[...] que se pode dizer que certos enunciados são gramaticalmente ambíguos, mas o discurso se encarrega de fornecer condições para sua interpretação unívoca.” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 64). Assim, o contexto é, de acordo com as autoras, um conjunto de suposições que tem por base os saberes dos interlocutores, mobilizados para a interpretação de um texto. Koch e Elias (2006, p. 66-67) afirmam que um estudo de texto sem a consideração do contexto é altamente insuficiente, pois: Certos enunciados são ambíguos, mas o contexto permite fazer uma interpretação unívoca; O contexto permite preencher as lacunas do texto, isto é, estabelecer os “elos faltantes”, por meio de interferências-ponte; Os fatores contextuais podem alterar o que se diz; Tais fatores se incluem entre aqueles que explicam ou justificam por que se disse isso e não aquilo (o contexto justifica). 2.3 Contexto na Escrita Koch e Elias (2006) afirmam que é preciso distinguir entre contexto de produção e contexto de uso. No que concerne à interação face a face, esses contextos coincidem. Mas, quando se trata da escrita, não, pois nessa o contexto de uso é o mais importante para a interpretação. Conforme as autoras (2006), independentemente da situação comunicativa, o sentido de um texto não se relaciona apenas com a estrutura textual em si mesma. Grande parte dos objetos de discurso a que o texto faz referência é apresentada de forma incompleta. Desse modo, muita coisa permanece implícita na mensagem. 8 Quem produz o texto pressupõe que o leitor/ouvinte possui conhecimentos textuais, situacionais e enciclopédicos. Então, não deixa explícitas as informações que considera redundantes ou desnecessárias. É preciso fazer um “balanceamento” do que necessita ser explicitado e do que pode permanecer implícito. Isso supondo que o interlocutor poderá recuperar essa informação por meio de inferências. Nas palavras das estudiosas: “O leitor/ouvinte espera sempre um texto dotado de sentido e procura, a partir da informação contextualmente dada, construir uma representação coerente, por meio da ativação de seu conhecimento de mundo e/ou deduções que o levam a estabelecer relações de temporalidade, causalidade, oposição, etc.” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 72). Desse modo, o leitor/ouvinte usa todos os componentes e estratégias cognitivas que tem à disposição para dar ao texto uma interpretação dotada de sentido. Assim, as estudiosas afirmam que, para que duas ou mais pessoas possam se compreender mutuamente, é imprescindível que seus contextos sociocognitivos sejam semelhantes, nem que seja parcialmente. Nas Figuras 1 e 2, você pode ver alguns exemplos em que o contexto é importante para a compreensão da mensagem. 9 Ambas as charges, feitas por Laerte e Latuff, possuem conotação política e estão ligadas a um contexto. Para alguém que não sabe o que aconteceu, fica difícil compreender o que as imagens estão ironizando. A primeira, por exemplo, trata de um capítulo polêmico da história brasileira, em que deputados propuseram que a concepção de família,por lei, fosse considerada apenas a tradicional: homem, mulher e filhos. Já a segunda está relacionada a um episódio em que o governador eleito em 2014 no estado do Rio Grande do Sul fez uma piada, dizendo que, se os professores quisessem piso (no caso, eles reivindicavam o piso salarial de professor), deveriam procurar na Tumelero (uma loja de produtos para construção civil). Agora, leia a crônica a seguir (CARPINEJAR, 2016): E quando uma cidade inteira morre? Uma cidade para no ar? Quando uma cidade some e o sangue se transforma em vento? Quando os relâmpagos emudecem. Quando as estrelas ficam envergonhadas de brilhar e o sol de aparecer. Quando uma cidade perde as suas residências dentro de um avião? Porque cada homem era uma casa, uma família, uma esperança. A queda da aeronave na Colômbia que levava o time do Chapecoense matou toda Chapecó na madrugada desta terça- 10 feira (29/11). Porque Chapecó era o Chapecoense. Nunca vi uma torcida como aquela: pais, mães e filhos levantando bandeiras na Arena Condá. As ruas se esvaziavam para ouvir melhor o coração do estádio. Uma equipe movida pela alegria dos moradores que incentivaram com a loucura infantil do bairrismo e da gincana. Um viveiro de vozes, uma caixa de ressonância de gritos. Uma equipe que veio de baixo, da mais simples e monocromática chuteira, da pobreza da grama em 43 anos de história, que subiu da série D para A em apenas seis anos em 2013, campeão catarinense por cinco vezes, que se manteve com prestígio na elite do futebol brasileiro e que disputaria a final da Copa Sul-Americana na próxima quarta, o que seria seu maior título. Novatos no triunfo, mas veteranos na resiliência. 22 mil pessoas nas arquibancadas eram 210 mil pessoas na cidade. 74 mortos são 210 mil chapecoenses. Não duvido que um país inteiro não tenha definhado junto em Rionegro, perto de Medellín, na Colômbia. Jamais contaremos os mortos da tragédia. Jamais saberemos ao certo o número de mortos. Somos hoje todos desaparecidos. Esse texto, intitulado “Somos todos Chapecoense”, de Fabrício Carpinejar, é do dia 29 de novembro de 2016 e fala sobre a tragédia que o time de futebol Chapeconse, da cidade de Chapecó (SC), sofreu quando viajava para um disputa importante: a final da Copa Sul-Americana, na Colômbia. O avião em que o time estava caiu, matando 74 pessoas. Nessa crônica, o reconhecimento dos fatos é um pouco mais fácil do que nos exemplos anteriores, pois há certa contextualização das informações no texto. 3 LEITURA: UMA PERSPECTIVA DA ESCOLA PARA A FORMAÇÃO CIDADÃ Paulo Freire (2011), em sua obra A Importância do Ato de Ler, afirma a relevância de formar cidadãos críticos para o mundo. Uma vez que a interpretação está associada à vida na sociedade e àquilo que se vive constantemente, ele afirma o quanto é necessário que o leitor seja primeiro um leitor de mundo. Afinal, a leitura do mundo vem antes da leitura do texto. Ao ler o mundo e entender como ele funciona, os sujeitos estão aptos a ler um texto. E, ao ler esse texto, eles voltam para o seu próprio mundo com uma leitura totalmente diferente. Eles aprendem novos sentidos e os aplicam na sua realidade. Dessa forma, se constroem leitores críticos e conscientes do contexto social em que vivem, bem como do que realmente é importante fazer para melhorar essa situação. Por meio desse ciclo, o que ocorre no leitor é o que Freire (2011) chama de transformação: ele se torna um sujeito crítico. 11 Com esses questionamentos propostos, os alunos terão que pensar sobre as partes que constituem os textos, as imagens e os vídeos. Assim, segundo Mary Kato (1985), a leitura é um processo estratégico de compreensão do texto. Por meio de métodos de análise e síntese, pode-se obter fluência e acuidade em uma leitura. Para que você seja um leitor ou uma leitora competente, precisa saber o ritmo de cada leitura a que é exposto: às vezes top-down, às vezes bottom-up. Sendo assim, fica clara a importância dada pelos autores à interpretação de imagens e textos, além da relevância da relação existente entre o aluno, sua realidade e os livros. Como efeito de finalização dos conceitos sobre o tema central - leitura, não podemos deixar de sinalizar aos professores o que se entende e como se trabalha a pré-leitura e a pós-leitura. Para realizar uma atividade de leitura, temos que realizar um aquecimento dos alunos, uma espécie de ativação do conhecimento prévio deles e também uma sinalização do que virá adiante. Logo após uma atividade de pré-leitura, se apresenta a leitura proposta para o aluno; no entanto, a leitura não se finaliza nela mesma, ela exige que haja um fechamento pontual, e esse encerramento se faz através da pós-leitura. A pós-leitura é o momento e o espaço dado à transformação, à intervenção social, à voz do aluno sobre o que lhe foi exposto desde a pré-leitura. Essa intervenção do aluno pode corroborar ou refutar os elementos provocadores da pré-leitura e da pós-leitura (MARY KATO, 1985). Este texto tem como objetivo ajudar a formar e a alimentar o repertório dos alunos, com o intuito de que eles tenham criticidade ao ler o (seu) mundo. É importante que eles entendam que até leitores proficientes se utilizam de leituras lineares devido ao grau de complexidade e novidade que um texto pode ter. Isso vem com as experiências de leitura de cada um, já que as pessoas dominam esferas distintas em alguns momentos da sua vida. Com atividades de leitura, formação e contação de histórias, o imaginário se reforça e se dá sustentação à criatividade. Você deve ter em mente, portanto, que despertar o interesse pela leitura, em todas as suas esferas possíveis (mundo, mídia, livro, imagens), é fundamental para que cada vez mais se possa dialogar com o outro. Dessa forma, você deve buscar saber como e com o que o outro completou esses furos constitutivos. Nesse sentido, pode ajudar na proficiência da leitura dos alunos, processo em que eles buscarão as 12 implicaturas de um texto, fazendo inferências e constatações. A leitura solicita uma competência: essa competência é mais que interpretar um texto, é compreendê-lo (JOUVE, 2002, p. 19). 4 O PRAZER EM LER A partir do domínio da leitura, os sujeitos se habilitam para participar ativamente do contexto social em que estão inseridos, transformando a realidade. Ou seja, a leitura é essencial para o exercício pleno da cidadania. Dessa forma, a escola, assim como a família, é responsável por criar situações de vivência e de experiência de leitura. A escola, portanto, desempenha o papel de oportunizar, para todos, o interesse pela leitura. A aproximação entre aluno e escola se dá por meio do educador, responsável direto por realizar o intermédio entre o texto e o educando, tendo como base a sua própria formação. Tal formação deve ser pautada no trabalho com o texto e focar o desenvolvimento de sujeitos leitores. Isso se inicia nas séries iniciais e deve ser realizado ao longo de toda a trajetória escolar. Logo, a capacitação do educador para o trabalho com a literatura infantil nas séries iniciais é fundamental. Afinal, a leitura deve ser uma prática estabelecida em sala de aula, e o professor é responsável por viabilizá-la. Portanto, para a formação de leitores, é fundamental que o professor esteja preparado. Ele servirá como exemplo para os seus alunos e será responsável por motivar a leitura. Veja o que afirma Solé (1998, p. 116): O processo de leitura deve garantir que o leitor compreenda os diversos textos que se propõe a ler. É um processo interno, porém deve ser ensinado. Uma primeira condição para aprender é que os alunos possam ver e entender como faz o professor para elaborar uma interpretação do texto: quais as suas expectativas, que perguntas formula, que dúvidas surgem, como chega à conclusão do que é fundamental para os objetivos que oguiam, que elementos toma ou não do texto, o que aprendeu e o que ainda tem de aprender... em suma, os alunos têm de assistir a um processo/modelo de leitura, que lhes permita ver as “estratégias em ação” em uma situação significativa e funcional. 13 Como se pode ver, Solé (1998) explica que os alunos devem assistir a um modelo de leitura para que entendam as dinâmicas postas em uso no processo de leitura. Há codificação, decodificação, interpretação e ação em relação ao texto. Essas práticas podem ser demonstradas pelo professor, que as exemplifica para que os alunos, como leitores, compreendam os diversos textos e saibam agir conforme as solicitações de cada tipo de texto. A formação docente deve fazer com que os professores sejam multiplicadores da consciência da importância do ato de ler. Veja o que afirma Nóvoa (1992, p. 27): A formação pode estimular o desenvolvimento profissional dos professores, no quadro de uma autonomia contextualizada da profissão docente. Importa valorizar paradigmas de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, que assumam a responsabilidade do seu próprio desenvolvimento profissional e que participem como protagonistas na implementação das políticas educativas. Nesse contexto, é necessária uma formação de professores articulada com a leitura. Ou seja, é básico que, na formação do professor, a leitura esteja presente; mas, mais do que isso, a leitura deve ser estudada de forma atenta. Ou seja, a perspectiva metodológica dessa atividade deve ser abordada na formação docente. Apenas com essa reflexão é possível perceber a leitura como significativa. Mas o que significa uma abordagem metodológica da leitura? Significa que, no processo de formação docente, os indivíduos devem ser expostos à diversidade oferecida pelas literaturas e que também devem conhecer as possibilidades de trabalho em sala de aula com cada uma delas. Em se tratando das séries iniciais, por exemplo, o docente em formação deve conhecer as leituras indicadas para essa etapa e as metodologias adequadas para a formação de leitores. Conforme reforçam Farias e Bortolanza (2012, p. 36), “[...] o professor é o agente organizador das práticas educativas em sala de aula, é a ele que se atribui o sucesso ou o fracasso da aprendizagem da leitura [...]”. 4.1 A Imaginação, a Fantasia e a Literatura Infantil A imaginação e a fantasia são elementos importantes na formação da criança. Mas você sabe por quê? Em que sentido esses elementos contribuem para a 14 formação e para o desenvolvimento infantil? E como é possível estimular a imaginação e a fantasia no mundo da criança? Essas perguntas devem ser trabalhadas na formação docente para que o futuro professor, responsável por formar leitores, tenha em mente a importância desses elementos e busque estratégias diversificadas para utilizar em sala de aula, a fim de motivar nos alunos a imaginação, a fantasia e a criatividade. Uma aliada nessa tarefa é a literatura. O indivíduo estabelece contato com a atividade de criar já na primeira infância, embora isso varie de acordo com o contexto em que a criança está inserida. Mas, independentemente das condições oferecidas, a criança desenvolve a sua criatividade — da forma que for possível e com os recursos disponíveis. A atividade de criar é mais intensa na fase que se estende dos 2 aos 7 anos. Nessa fase, a criação está relacionada com a imaginação e a fantasia. De acordo com a proposta de Piaget (1994) para o desenvolvimento da criança, existem fases que são observáveis. A segunda delas, que interessa especialmente aqui, compreende a passagem do período sensório-motor para o que Piaget (1999) denomina de “período pré-operatório”. Ou seja, é nessa etapa que se identifica o surgimento da função simbólica ou semiótica. Ou seja, é a etapa emergente da linguagem. É na fase pré-operatória que os estímulos ao desenvolvimento da linguagem devem ser intensos. Ao professor, por exemplo, cabe oferecer o contato com os mais diversos textos para motivar a criança, pois o desenvolvimento da linguagem promove modificações importantes no próprio processo cognitivo dela. Além disso, o trabalho com a linguagem se relaciona ao desenvolvimento afetivo e social, pois a linguagem possibilita mais intensidade nas interações entre os indivíduos. Nessa fase, é importante trabalhar com representações para que a criança seja motivada a atribuir significados à realidade que a cerca. É nessa fase, sobretudo, que a criança desenvolve a imaginação e a memória. Dessa forma, torna-se evidente que o trabalho com a literatura é imprescindível nessa etapa. Nesse estágio simbólico em que a criança se encontra, há egocentrismo, pois ela não percebe o mundo para além dela mesma; tudo no mundo é dela: “meu papai”, “minha mamãe”, “meu livro”, “meu carro da minha mamãe”, etc. Portanto, com a inserção da literatura, do mundo da imaginação e da 15 fantasia, o professor estimula o desenvolvimento da linguagem e também amplia a capacidade de socialização da criança pelo uso da linguagem; isso deve ser praticado por meio da contação de histórias, dos desenhos e das dramatizações. Na fase pré-operatória, a criança já é capaz de simbolizar e de evocar objetos que estão ausentes; ou seja, ela maximiza a sua habilidade de diferenciar significante e significado. Assim, a criança começa a distanciar o sujeito do objeto, criando imagens mentais, isto é, a criança consegue imitar gestos e situações, mesmo que não esteja na presença de modelos. E isso significa imaginar, fantasiar e criar. Por isso é tão importante utilizar os textos infantis para motivar a imaginação e a fantasia, considerando que nesse período a criança desenvolve a linguagem e passa progressivamente de uma fase egocêntrica (pré-operatória) para uma fase em que tem a inteligência concreta e é capaz de realizar ações interiorizadas. Ou seja, com a inserção da literatura, com o incentivo ao desenvolvimento da imaginação e da fantasia, a criança desenvolve a capacidade de estabelecer relações com os outros e com o mundo a partir da observação de diferentes pontos de vista. O mundo dos textos infantis é importante para que a criança consiga raciocinar de forma mais coerente. No seu desenvolvimento inicial, ela entende tanto os esquemas conceituais como as ações que executa mentalmente, mas na fase pré-operatória é preciso que a criança seja estimulada para compreender que é possível executar ações mentalmente. Por exemplo, é possível apresentar a ela dois palitos de tamanhos diferentes e pedir que indique qual é o maior. Na fase pré- operatória, ela vai manipular os dois palitos para indicar a resposta correta; na fase operatória, ela vai desenvolver esse raciocínio mentalmente, pois “imagina” os dois palitos e realiza a comparação sem precisar manuseá-los. Portanto, quanto mais a criança tiver contato com os textos infantis, mais imagens mentais, a partir da imaginação e da fantasia, ela vai criar; consequentemente, vai observar mais atentamente o mundo que a cerca. Nesse contexto, então, está em jogo, por exemplo, a capacidade de uma criança de pegar uma espiga de milho, transformá-la em uma boneca e (re)contar uma história. A imaginação e a fantasia são as atividades criadoras dessa fase. Os personagens, os contextos e o mundo dos textos infantis são importantes para motivar o desenvolvimento da fase de criação. A imaginação e a fantasia estão ligadas à criação de imagens mentais; é por isso que objetos comuns, como uma 16 vassoura ou uma espiga de milho, podem ser interpretados e transformados pela imaginação, pela fantasia e pela criatividade da criança. O professor deve saber valorizar a imaginação infantil, pois ela é aliada da criatividade. 4.2 O trabalho com os textos literários Como vimos anteriormente, a escola deve possibilitarque a criança entre em contato com os textos literários desde o início do seu ingresso nesse ambiente. Isso significa que a escola e o professor devem oportunizar o manuseio de diferentes textos, a escuta de diferentes histórias e a possibilidade de as crianças (re)contarem as histórias que manipulam. Os livros e as histórias mostram para as crianças a amplitude do mundo da fantasia e da imaginação, algo que elas trazem para a escola, pois faz parte da etapa do seu desenvolvimento. Logo, a escola deve ampliar o contato com esses elementos para incentivar nos alunos o interesse pela leitura, consequentemente incentivando a formação de sujeitos leitores. Para trabalhar com os textos literários, é importante valorizar as situações em que as crianças, mesmo aquelas com dificuldades para aprender a ler ou que ainda não estejam alfabetizadas, narrem as histórias a partir da sua imaginação. As figuras representativas nas histórias (desenhos, ilustrações, etc.) possibilitam que a criança conte histórias infinitas para além daquela apresentada pelas palavras do autor. Essa é uma atividade que desperta o interesse por descobrir o desconhecido, por desvendar o que as letras podem estar contando sobre as ilustrações observadas. Isso motiva a criança a aprender a ler para saber o que está escrito naquelas linhas. O professor, como intermediário entre o texto e a criança, deve considerar o seguinte: [...] para formar um leitor é imprescindível que entre a pessoa que lê e o texto se estabeleça uma espécie de comunhão baseada no prazer, na identificação, no interesse e na liberdade de interpretação. É necessário também que haja esforço, e este se justifica e se legitima justamente através dessa comunhão estabelecida (AZEVEDO, 2004, p. 39). Dessa forma, o professor serve como modelo para a formação de leitores. Ele lê e demonstra o interesse, a beleza, os elementos, a palavra, a emoção, entre 17 outros atrativos, a partir da leitura oral, da escrita e da contação de histórias. Considere o seguinte: Ao ler uma história, a criança também desenvolve todo potencial crítico. A partir daí, ela pode pensar, dividir, perguntar, questionar [...] Pode se sentir inquieta, cutucada, querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de opinião [...] E isso não sendo feito uma vez ao ano [...] Mas fazendo parte da rotina escolar, sendo sistematizado, sempre presente — o que não significa trabalhar em cima dum esquema rígido e apenas repetitivo (ABRAMOVICH, 1999, p. 143). Para isso, o professor deve utilizar a maior variedade possível de textos, sempre adequados a cada uma das etapas de ensino. Veja a seguir alguns exemplos de textos adequados às séries iniciais. Marcelo, Marmelo, Martelo (2011): escrito por Ruth Rocha e ilustrado por Adalberto Cornavaca, reúne três contos que contam histórias do cotidiano a partir da inserção de personagens infantis que enfrentam impasses de forma criativa e com muita imaginação. A Borboleta Azul (2008): escrito e ilustrado por Nicolas Van Pallandt e traduzido por Gilda de Aquino, o livro conta a história de um urso que avista uma linda borboleta e que a acompanha em diferentes cenários. A Galinha que Sabia Nadar (2008): escrito e ilustrado por Paul Adshead e traduzido por Gilda de Aquino, essa obra conta a história de uma pata que foi criada por uma galinha. Ao longo da trajetória da personagem, ela percebe as diferenças e busca autoconhecimento. O objetivo da história é trabalhar com temas como: adoção, autoconhecimento e aceitação das diferenças. Os Três Lobinhos e o Porco Mau (2011): escrito por Eugene Trivizas, ilustrado por Helen Oxenbury e traduzido por Gilda de Aquino, esse é um excelente livro para trabalhar em paralelo com outro: Os Três Porquinhos (MACHADO, 2004). O autor inverte os papéis do lobo mau e dos porquinhos: quem era caçador vira caça e vice-versa. Contudo, é mantida a separação entre os personagens bons e maus, bobos e espertos, mas com outro ponto de vista. É a reinvenção de uma história para gerar muita conversa em sala de aula. 18 Essas são apenas algumas sugestões de leitura, pois o mundo dos textos literários é vasto. É importante que o professor observe os seus alunos a cada ano que receber a regência de uma turma nova. Afinal, as necessidades são diferentes e os textos não podem ser sempre os mesmos; o trabalho com o texto não pode ser mecânico e uniforme. O professor deve considerar que as histórias ampliam o diálogo; portanto, sempre que surgir alguma situação que precisa ser trabalhada em sala de aula, ele deve recorrer a textos que ofereçam aos alunos diferentes pontos de vista, motivando debates e promovendo a formação de leitores. 5 LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS: ASPECTOS SOCIAIS E CULTURAIS DO MEIO 5.1 Alargando os repertórios de letramento dos nossos alunos Acreditamos que ao ler e posicionar-se de maneira analítica, crítica e responsiva diante do texto, o aluno desenvolva as competências necessárias para participar das práticas sociais na linguagem. Porém, é importante frisar que “[...] um texto só encontra unidade significativa ao ser vinculado ao contexto efetivo de interlocução, desde sua produção e recepção até o retorno dos seus efeitos de sentido sobre os envolvidos [...]” (SIMÕES et al., 2012, p. 138). Por isso, é fundamental escolher textos autênticos, pois eles materializam as práticas de uso da linguagem, apresentando os propósitos sociais veiculados aos seus reais participantes. Quando pensamos em práticas sociais, as possibilidades de uso da língua se expandem e tomam uma dimensão que vai muito além do que inicialmente pensava- se como escopo do trabalho para dentro da sala de aula. Como maneira de motivar os alunos e instigar uma reflexão sobre as diferenças de práticas na língua portuguesa, faz sentido retornar aos textos que já lhes são familiares, porém, com o objetivo de incitá-los para que olhem para o texto por outro viés. Os alunos já estão posicionados como participantes ativos dessas práticas – leitores dos textos, debatedores entre outros fãs em mídias sociais e rodas de amigos, críticos em sites de compra e resenhas. Portanto, é necessário retornar aos textos para promover 19 uma análise: o que eu faço quando, por exemplo, escrevo uma postagem no Facebook sobre o meu fim de semana? Qual é o propósito desse texto? Quem eu estou buscando atingir com a mensagem? O que motiva as minhas escolhas quando uso determinado vocabulário ou expressão? Ao incentivar os alunos a se posicionarem de maneira mais crítica com relação ao uso que eles já fazem da língua em determinados contextos, é preciso, como professores, fazer outras perguntas para guiar nossas escolhas: em quais outros contextos os meus alunos querem/podem/devem circular? Quais outras práticas sociais farão do meu aluno um participante efetivo e ativo da comunidade? Quais textos são importantes que ele conheça – como leitor e/ ou autor – para que possa criticamente pensar sobre a sociedade? É fundamental expor os alunos a diferentes gêneros do discurso e preparar unidades didáticas que promovam a oportunidade de perceber a diversidade de situações que constituem as interações. Ao ter consciência dessa diversidade e ser capaz de refletir sobre os usos de cada gênero, o ideal seria que, após ler e produzir diversos gêneros, o aluno contasse com autonomia suficiente para que escolha de quais práticas quer fazer parte, ou seja, quais textos ele vai ler e produzir. Conhecer bem os nossos alunos nos ajuda a perceber não só suas práticas de letramento habituais, mas em quais esferas de letramento eles gostariam de participar e como podemos ajudá-los a ampliar a sua participação em diferentes comunidades de prática (SIMÕES et al., 2012). 5.2 O trabalho com os gêneros do discurso Todos os momentos em que usamosa língua para agir em conjunto com outras pessoas em diferentes situações de convívio social são pautados por um modo de organizar a linguagem. Todos nós aprendemos esses modos de organizar a linguagem ao longo da vida, aprendemos a associar certas situações a certos modos de usar a língua. Essa aprendizagem contribui para o entendimento que temos do que está acontecendo na interação. Os modos de organizar as ações da linguagem são os gêneros do discurso. Estamos constantemente decidindo qual gênero é mais apropriado para determinada situação social. 20 Não é possível compreendermos a concepção de gênero do discurso e seu papel central na aula de Língua Portuguesa se não entendermos a linguagem como ação dialógica. Os gêneros do discurso estão relacionados a algumas perguntas que fazemos diante de uma situação de interação: para quê, quem, para quem, onde e quando? Adaptamos nossos discursos de acordo com as respostas que damos a essas perguntas. Como já comentado, os gêneros do discurso são modos de organizar o uso da língua, passíveis de escolha em determinada situação. Eles têm uma forma reconhecível que se repete de um texto para outro. Existem duas questões importantes para levarmos em consideração quando pensamos nos gêneros do discurso: os elementos da situação de interação a que os textos pertencem e os elementos formais do texto. Essa concepção de gênero do discurso é entendida a partir da obra do autor russo Mikhail Bakhtin (2011), que faz uma reflexão a partir de textos literários e situações sociais cotidianas. Bakhtin (2011) define os gêneros como tipos relativamente estáveis de enunciados. O autor afirma também que os gêneros, assim como as atividades humanas, são infinitos. Para Bakhtin (2011), os três aspectos que darão estabilidade ao gênero são o seu conteúdo temático, a sua composição e o seu estilo. Se considerarmos o contexto da aula de Língua Portuguesa, podemos pensar em gêneros que possam ser recriados no contexto da escola, por meio da leitura significativa e da produção de textos. No momento em que os gêneros do discurso tornam-se centrais no nosso planejamento, estamos permeando o trabalho escolar com esferas de vida, além de criar condições para que os conhecimentos adquiridos na escola afetem a participação dos alunos nessas esferas da vida. Um bom ponto 21 de partida é pensar nas práticas sociais em que os alunos se envolvem e, a partir delas, nas práticas em que poderiam passar a se envolver com a mediação da escola. Na abordagem de ensino de línguas através dos gêneros do discurso, acredita-se que a aprendizagem se dá pela interação, pela participação social e aprofundamento da nossa compreensão do nosso lugar no mundo (SIMÕES et al., 2012). 5.3 Planejando tarefas com textos Ao lermos, nossa reação diante de um texto não é a procura pelo presente do indicativo ou conjunções subordinadas, mas sim uma postura crítica e responsiva. Podemos responder a um texto de diferentes formas: falando, refletindo, escrevendo sobre ele, etc. Se leitura é interação, não podemos evitar o diálogo existente entre leitor e autor que precisa ser reiterado na nossa aula. No processo de didatização do texto, o entendimento de leitura como diálogo entre sujeitos não pode perder-se no caminho. Uma sequência comum nas nossas tarefas de leitura é: tarefa de pré-leitura, de leitura e compreensão do texto, de estudo do texto e de resposta ao texto, esta última estando relacionada à prática de produção de novos textos. A tarefa de pré-leitura facilita a aproximação do aluno com o texto. Por exemplo, se os alunos irão ler um artigo de um professor de história sobre a situação do impeachment no Brasil, é importante discutir quais são as experiências e conhecimentos prévios que os alunos têm sobre essa temática: já leram/ouviram outros textos sobre isso? O que esperam que um professor de história diga sobre o assunto? Qual o suporte desse texto? Outra oportunidade interessante aqui é a conversa com os alunos sobre as suas experiências com o gênero em foco: já leram outros artigos desse tipo? A próxima etapa da sequência parte então da comparação entre as expectativas e a realidade do texto. Nesse contexto, podemos dizer que a tarefa central da sequência é a leitura e compreensão do texto, tarefa na qual o professor dá encomendas específicas de leitura aos alunos. Note-se, no entanto, que o aluno é preparado para desempenhar essa tarefa central, e não recebe a encomenda sem uma preparação prévia, daí a 22 importância tanto de se pensar a escolha do texto quanto de planejar as tarefas de pré-leitura. Partindo então para a leitura de um texto escrito, por exemplo, o professor pode optar por diferentes práticas de leitura: leitura em voz alta, leitura silenciosa ou, no caso de textos mais longos, a leitura feita como tarefa de casa. Independentemente de como o texto será lido, as encomendas específicas devem levar o aluno a focar sua atenção em elementos que o ajudem a ler o texto de forma global. A próxima etapa da nossa sequência, o estudo do texto, leva-nos a uma maior didatização do texto, saindo do global e entrando no mais específico: relação entre as partes do texto, estruturas gramaticais, vocabulário, etc. Após a tarefa de estudo do texto, os alunos trabalham na produção de uma resposta, que novamente pode apresentar-se em diferentes gêneros textuais, orais ou escritos. Apesar de os alunos já terem respondido criticamente ao texto no momento da leitura e compreensão do texto, é nessa etapa que essa atitude responsiva torna-se um texto a ser publicado. Reiteramos que assim como os textos trabalhados em aula, os textos produzidos pelos alunos não podem tornar-se apenas instrumentos para correções gramaticais, dos quais o único “interlocutor” é o professor e a única atitude responsiva do professor é marcar os usos incorretos de estruturas. Para mantermos a característica dialógica do texto, os textos de nossos alunos precisam ter diferentes interlocutores que respondam de maneiras diferentes. 23 5.4 Produção de texto e reflexão linguística Parte importante do trabalho com o texto é a reflexão sobre sua estrutura, principalmente quando estamos pensando na reescrita dos textos produzidos pelos alunos. Esses momentos dedicados à reflexão linguística, as aulas de gramática, são importantes na construção de competências de escrita e de leitura. Essas aulas de gramática que estamos descrevendo aqui são muito diferentes das aulas tradicionais de gramática normativa, nas quais o ensino da gramática se dava de forma descontextualizada e pouco significativa, com foco na estrutura da palavra e da frase, sem pensar no texto e no contexto. Ao usarmos a expressão reflexão linguística, estamos afirmando que o conhecimento sobre a língua não se define como conhecimento sobre a nomenclatura e a estrutura de um modelo gramatical. O planejamento das aulas de reflexão linguística pode se basear na análise das produções iniciais do aluno e, partindo das dificuldades diagnosticadas pelo professor, podemos pensar em um trabalho mais sistemático sobre elementos linguísticos específicos. É fundamental que esse trabalho seja realizado antes da solicitação da reescrita do texto para que os alunos possam revisar e melhorar seus textos a partir dessas reflexões feitas conjuntamente em aula. Simões et al. (2012) trazem algumas perguntas que o professor deve se fazer antes do planejamento dessas aulas: 1. A julgar pela produção inicial dos alunos, que conhecimento(s) linguístico(s) específico(s) aprimoraria(m) significativamente boa parte dos textos desta turma? Quais deles vou selecionar para preparar aulas de reflexão linguística? 2. De que forma os recursos linguísticos (palavras, expressões, classes ou estruturas gramaticais, etc.) autorizamdeterminadas atribuições de sentido (e não outras) aos textos que serão lidos? Que tarefas posso propor para criar oportunidades de reflexão sobre isso? 3. Considerando o gênero do discurso estruturante, que recursos linguísticos podem/devem ser trabalhados? 4. De que forma o conhecimento da gramática pode auxiliar na produção/ reescrita deste gênero específico? 5. É preciso introduzir terminologia gramatical para que o aluno alcance uso mais refletido e eficaz dos recursos implicados? É desejável? Até onde quero chegar? 6. Como vou auxiliar os alunos a construírem seus conceitos sobre o funcionamento semântico/sintático/morfológico das categorias ou conjuntos de palavras sob estudo? 7. Que recados as aulas de reflexão linguística dão sobre língua e linguagem? 24 O professor que segue essa sequência de perguntas na hora do seu planejamento é capaz de desenvolver uma aula na qual a gramática faz sentido para os alunos. É importante lembrar, ao selecionar os conteúdos a serem trabalhados na aula de reflexão linguística, que a variedade padrão é uma entre diversas variedades que podem ser trabalhadas em aula. O trabalho com a variedade padrão é muito importante porque ela é a variedade mais adequada em muitas situações de uso e é preciso preparar nossos alunos para circularem nesses contextos. Após realizar o trabalho de reflexão linguística, os alunos poderão reescrever seus textos, preparando-os para uma versão final. É fundamental que eles recebam feedbacks pontuais que os auxiliem nesse processo de melhoramento do texto. Caso o professor não consiga agendar conversas individuais de atendimento aos alunos, uma boa estratégia é o uso de bilhetes orientadores – mensagens individuais que guiem os alunos no processo da reescrita do texto. Por fim, é importante lembrar os alunos de que a linguagem estudada será avaliada nas produções finais, que isso estará presente na grade de avaliação dos textos, assim como as questões de função e forma dos gêneros. 25 6 NOÇÃO DE TEXTO, TIPOLOGIA TEXTUAL E GÊNERO TEXTUAL 6.1 Circuito Fechado Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, ní queis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro- negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro (RAMOS, 1998). Você considera o segmento acima um texto? Se não, por que não? Se sim, por que sim? Afinal, o que é um texto? Para muitos, texto é apenas uma junção de palavras. Para outros, texto é uma junção de palavras desde que haja sentido entre elas e que comuniquem uma mensagem. Outros justificam que para ser texto deve existir mais de duas frases ou orações. Há, ainda, aqueles que consideram texto qualquer manifestação verbal, independentemente do seu tamanho. Alguns defendem que texto é somente uma produção escrita. Outros, que texto pode ser escrito ou oral. Repito, portanto, a pergunta: afinal, o que é um texto? 26 Podemos definir texto como uma manifestação linguística de tamanho variável (podendo ir desde uma palavra até uma composição mais extensa) que faça sentido e comunique uma mensagem em um determinado contexto. Em outras palavras, um texto não é apenas um amontoado de palavras. Para ser considerado texto, é preciso que a manifestação linguística (independentemente de seu tamanho) carregue uma mensagem que faça sentido. Para ilustrar essa ideia, vamos considerar três situações diferentes: 1. Você está folheando uma revista e de dentro dela cai uma folha com apenas a palavra “fogo”. 2. Você está em uma aula de tiro e o instrutor grita “fogo”. 3. Você está em uma floresta e alguém passa correndo e gritando “fogo”. Em qual situação (ou em quais delas) a palavra “fogo” pode ser considerada texto? Resposta: Nas situações 2 e 3. Embora na situação 1 tenhamos um exemplo de manifestação linguística escrita que, para muitos, poderia ser classificada como texto só por isso, ela não comunica nenhuma mensagem naquele contexto. Obviamente, um papel escrito “fogo” poderia exercer uma função comunicativa em outra situação, mas naquela especificamente, não pode ser considerada texto por não fazer sentido. Já nas situações 2 e 3, a palavra “fogo” possui um sentido e carrega uma mensagem. No caso 2, a palavra usada é uma instrução para que os alunos da aula de tiro atirem. Já no caso 3, a palavra serve como um aviso de que em certo local da floresta começou um incêndio. Com base nesses exemplos, podemos tirar as seguintes conclusões: um texto não precisa ser apenas escrito, ele também pode ser oral; para ser considerado texto, a extensão da manifestação linguística é variável, pois uma palavra pode ser considerada um texto; texto não é qualquer palavra ou aglomerado de palavras aleatórias, ele precisa fazer sentido e comunicar uma mensagem. algumas vezes, a mesma manifestação linguística pode ser considerada como texto em um contexto e não ser considerada em outro. 27 Vamos retornar, agora, ao “Circuito Fechado”, apresentado como exemplo para abrir esta seção. Baseando-se nos preceitos acima, você diria que “Circuito Fechado” é um texto? Em um primeiro momento, a composição parece ser apenas um aglomerado de palavras. Parece não haver um sentido entre elas e temos a sensação de que, possivelmente, elas não transmitem mensagem alguma. Dessa forma, descreditamos a produção como texto. Contudo, e se eu lhe disser que todas as palavras apresentadas representam a descrição da rotina de um homem em ordem sequencial? Assim, observamos a produção como, de fato, um texto. Observe que ele começa com “Chinelos, vaso, descarga” e termina com “Coberta, cama, travesseiro”. Ao lermos os substantivos mantendo em mente o contexto situacional, conseguimos entender de forma bastante clara a mensagem que o texto tenta transmitir. Portanto, a produção deixa de ser apenas um aglomerado de palavras e se torna um texto. O que aconteceria se todas as palavras do mesmo texto fossem apresentadas de uma forma diferente, de um modo totalmente aleatório? Será que ainda assim poderia ser considerado comotexto? Muito possivelmente não, porque um texto não se caracteriza apenas pelo seu conteúdo de palavras, mas também pela sua estrutura e forma de organização. Existem diferentes formas de classificar um texto, além das tipologias e dos gêneros textuais. Eles podem ser classificados em: 6.1.1 Texto oral versus texto escrito Texto oral é aquele manifesto oralmente, sem que haja registro escrito. Texto escrito, por sua vez, é aquele que se manifesta de forma escrita. Alguns teóricos consideram texto somente a forma escrita, mas para a linguística, um texto pode ser uma manifestação oral, escrita ou visual. 6.1.2 Texto literário versus texto não literário Texto literário é o tipo de texto que tem por objetivo emocionar ou engajar o leitor em uma determinada trama, como poemas, narrativas, contos, etc. Textos não 28 literários são considerados textos “verídicos”, pois têm por objetivo informar o leitor, tais como receitas, artigos de jornal, bula de remédio, etc. Na Figura 1, podemos observar um trecho do livro A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, considerado um texto literário. Na Figura 2, temos o exemplo de uma notícia de jornal, considerado texto não literário. 29 6.1.3 Texto verbal versus texto não verbal Embora, para muitas áreas da linguística, um texto é apenas aquele que contém palavras (texto verbal), algumas áreas consideram que existem manifestações linguísticas não verbais que podem ser consideradas texto: são os textos não verbais. Texto não verbal é aquele que não possui palavras, apenas imagens, como placas de trânsito, tirinhas, charges, etc., como no exemplo da Figura 3. Portanto, podemos concluir que para ser considerado um texto, é preciso que ele comunique uma mensagem em um determinado contexto. A dimensão de um texto é variável, podendo, algumas vezes, sequer conter palavras (como no caso dos textos não verbais). Por outro lado, quando um texto contém palavras, só pode ser considerado texto o tipo de manifestação linguística que faça sentido e que comunique algo, independente de ser composto de uma palavra ou de milhares. Além do conteúdo, textos respeitam estruturas e formas que os classificam de acordo com seus objetivos e com seus leitores, podendo ser classificados em diferentes tipologias textuais e diferentes gêneros que, embora se confundam algumas vezes, são duas ideias distintas (CORTINA, 2018). 6.2 Tipologia Textual Tipologia textual (tipos de texto) se refere às diferentes formas que um texto pode se apresentar. Elas se caracterizam e diferenciam não só pelo conteúdo, mas também – e principalmente ─ por suas formas e objetivos. Cada tipo textual se 30 apresenta de uma determinada maneira, seguindo regras de estruturas e apresentações que diferem um tipo do outro. Em outras palavras, a tipologia textual é responsável por apresentar modelos que delimitam tanto a estrutura quanto os aspectos linguísticos de um texto. Existem diferentes tipos de texto que divergem de acordo com a finalidade e propósito de cada um, sendo que cada tipo apresenta distinções no que diz respeito à estrutura, linguagem, vocabulário, organização sintática, relações lógicas, interações com o leitor, etc. As principais tipologias textuais são quatro, e cada uma delas possui características próprias. 6.2.1 Texto narrativo O texto narrativo tem por objetivo contar um fato, acontecimento ou história por meio de um desencadeamento sequencial. Essa narrativa pode ser real ou fictícia. Dentre os componentes principais de um texto narrativo, segundo Brasileiro (2016), estão: Personagens: são entidades (pessoas, animais, objetos, sentimentos, ideias, entre outros.) que “atuam” na história ou sobre quem a história é contada. Os personagens podem ser caracterizados de forma direta (contada pelo narrador ou por outros personagens durante o enredo) ou indireta (deduzidos com base em seus comportamentos e no que acontece durante a história). Eles podem ser principais, aqueles que são essenciais para a história, como 31 os protagonistas ou antagonistas (que se opõem ao protagonista), ou secundários que colaboram para o enredo da história e apoiam (ou atrapalham) os personagens principais durante o desenvolver da narrativa. Tempo: em uma narrativa, o tempo pode ser entendido como a época em que a narrativa ocorre (passado, presente, futuro) e também como o tempo em que a história se desencadeia: de forma cronológica, com flashbacks (voltando ao passado), etc. O tempo cronológico se refere à passagem natural do tempo, com os acontecimentos ocorrendo de forma sucessiva. O tempo psicológico diz respeito às lembranças e impressões dos personagens, sendo bastante subjetivos e influenciados pela personalidade e pelo estado de cada personagem. Espaço: se refere ao local onde acontece a narrativa, podendo ser físico (como em uma cidade, hospital, etc.) ou psicológico (nos pensamentos ou lembranças de um personagem ou narrador, por exemplo). Enredo: são os acontecimentos que se desencadeiam durante a história. Narrador: é quem conta a história, podendo assumir diferentes perspectivas de acordo com sua posição na narrativa. Podem ser: Narrador onisciente e onipresente: o que conhece todos os detalhes de todas as partes da história, geralmente representado por uma narrativa em terceira pessoa (embora, algumas vezes, utilize-se de primeira pessoa e se confunda com um personagem). Narrador personagem: o que faz parte da história e conta o enredo em primeira pessoa. Geralmente, tem conhecimento limitado sobre os outros personagens e sobre o desencadeamento dos fatos e participa do enredo de modo a demonstrar suas impressões sobre o desenrolar da história (opiniões, emoções, sensações, entre outros). Narrador observador: o tipo que conta uma história sem se envolver nela, mantendo-se imparcial e desconhecendo os detalhes de cada personagem e do enredo. No que diz respeito à estrutura de um texto narrativo, eles geralmente são estruturados em: 32 Introdução: onde personagens são apresentados, o tempo é definido e o tipo de narrador é observado. Serve como uma abertura para a narrativa, de forma que o leitor possa se situar a respeito do que irá ler. Desenvolvimento: onde o enredo se desenvolve. Conclusão: finalização da narrativa, que pode apresentar um final conclusivo ou deixar a trama em aberto para futuras continuações ou para a imaginação do leitor. Observemos agora um exemplo de texto narrativo em fragmentos do primeiro capítulo do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Nesses parágrafos, podemos perceber a definição de tempo (“Era no tempo do rei”), a definição de espaço (“O canto dos meirinhos”, “Rio de Janeiro”) e o tipo de narrador que iremos encontrar na história. Além desses elementos, o narrador também nos apresenta uma definição de “meirinho”, do qual ele continua discorrendo ao longo dos próximos parágrafos e que será fundamental para o 33 entendimento da história. Adiante, o autor nos apresenta Leonardo-Pataca, que podemos identificar como um personagem da história que se desencadeará. Esse capítulo serve como introdução ao texto, definindo, para o leitor, os elementos constituintes do enredo necessários para que ele possa se situar. A tipologia de texto narrativo se constitui e se caracteriza por apresentar não só uma linguagem específica para se comunicar com o leitor, mas também uma estrutura padrão que a distingue das outras. Entre os exemplos de textos narrativos, estão: romances, novelas, fábulas, depoimentos, entre outros. 6.2.2 Texto descritivo O principal objetivo de um texto descritivo, como o nome já diz, é apresentar uma descrição de algo (seja uma pessoa, umobjeto, ou até mesmo, um conceito), de forma que o leitor possa formar uma imagem mental do que está sendo descrito e relacioná-la à realidade ou criar uma figura imaginária. A descrição pode ser feita em diferentes níveis e por meio de diferentes recortes, podendo ser mais objetiva ou mais subjetiva de acordo com os objetivos do texto e do escritor. Embora a estrutura do texto descritivo seja similar à do texto narrativo (introdução, desenvolvimento e conclusão), os componentes dessa estrutura podem ser entendidos de forma um pouco distinta, de modo que a introdução sirva como uma identificação (ou apresentação) daquilo que será descrito e o desenvolvimento, a descrição em si. A conclusão, por sua vez, pode ser entendida não como um componente, mas como um processo. A conclusão ocorre quando o autor do texto está satisfeito com a descrição pretendida (CORTINA, 2018). Diferente do texto narrativo, o texto descritivo está isento de limitação temporal ou espacial. Ele se estrutura como uma descrição estática, independente de uma cronologia ou de um espaço temporal específico. Geralmente, textos descritivos são cheios de substantivos, adjetivos e advérbios. Os verbos utilizados para esses textos geralmente são mais restritos do que os utilizados em narrativas, sendo, em sua maioria, verbos de estado (ser, estar, parecer, etc.). 34 A linguagem utilizada em textos descritivos se caracteriza por ser bastante rica, a fim de fornecer uma descrição detalhada, fazendo uso, portanto, de figuras de linguagem, comparações, enumerações, de forma que a linguagem se torne dinâmica e interessante para o leitor (CORTINA, 2018). Existem diferentes tipos de descrições, de acordo com o objetivo de cada texto, podendo ser caracterizadas em: Descrição objetiva: é o tipo de descrição precisa e exata do objeto a ser descrito, tentando eliminar ambiguidades e objetivando evocar na mente do leitor uma imagem mais próxima e verossímil da realidade. Utiliza linguagem clara e precisa, tentando tornar o texto verídico, e apoia-se na linguagem denotativa. Descrição subjetiva: é o tipo de descrição que leva em consideração um aspecto pessoal ao que está sendo descrito, de forma que não precise ser completamente verossímil e realístico, considerando emoções e sentimentos. A linguagem utilizada pode ser bastante simbólica e metafórica e se apoia na linguagem conotativa. Descrição sensorial: é o tipo de descrição que tem por objetivo provocar sensações no leitor, sejam elas auditivas, visuais, olfativas, táteis ou gustativas. Observe, a seguir, um exemplo de texto descritivo que tem por objetivo descrever uma cidade: 35 No texto acima, podemos observar que o autor teve por objetivo descrever a cidade Wisconsin Dells de forma que o leitor pudesse criar uma imagem mental a respeito do lugar e entender o que é possível encontrar lá. Exemplos de textos descritivos são: cardápios, classificados, folhetos turísticos, informações técnicas de produtos, etc. 6.2.3 Texto dissertativo (expositivo e argumentativo) Um texto dissertativo se caracteriza por ter como objetivo informar o leitor a respeito de um determinado assunto de forma rica, rigorosa e detalhada. Essa tipologia textual se divide em dois tipos: expositivo e argumentativo. Dissertativo-expositivo: expõe conhecimentos, detalhes e ideias. Esse tipo de texto não tem por objetivo convencer o leitor, apenas relatar fatos sobre um determinado tema, servindo como transmissor de conhecimento e escrito de forma que tente evitar qualquer tipo de erro ou informação não verídica ou não confirmada (CORTINA, 2018). Textos dissertativos-expositivos devem ser elaborados de forma clara e organizada, de modo que possam ser entendidos por diversos leitores. 36 Geralmente, textos expositivos trazem um grande número de informações relacionadas ao assunto sobre o qual dissertam, a menos que o autor tenha por objetivo fazer apenas um recorte específico. Nesse tipo de texto, encontramos definições, clarificações, características, comparações, enumerações e exemplos que abordam de maneira correta e eficaz o assunto a ser exposto. Observe, a seguir, um exemplo de texto dissertativo-expositivo, representado por um fragmento de um texto enciclopédico sobre o Simbolismo. Repare que o texto acima não tem por objetivo convencer o leitor a respeito de nada, apenas abordar o assunto de forma extensiva, tentando explicitar o significado, o surgimento e outros detalhes que o autor considerou importante a respeito do Simbolismo. 37 Como exemplo de textos dissertativos-expositivos, podemos citar: enciclopédias, entradas de dicionários, textos informativos escolares, etc. Dissertativo-argumentativo: tem por objetivo convencer e persuadir o leitor por meio de sua dissertação. Nesse tipo de texto, o autor utiliza não somente fatos, mas também suas crenças, opiniões, valores e ideias para tentar convencer o leitor de algo ou fazê-lo concordar com seus pressupostos e teses. Embora o texto dissertativo-argumentativo possa apresentar a opinião do autor, ele deve ser composto de forma clara e objetiva, com base em dados verídicos e concretos, tais como estatísticas, comparações, depoimentos, entre outros (CORTINA, 2018). Um dos objetivos desse tipo de texto é despertar uma reflexão que leve o leitor a seguir uma linha de raciocínio e ser convencido pelo autor a respeito de sua lógica, hipóteses ou argumentos. Observe, a seguir, um exemplo de texto dissertativo-argumentativo no qual o autor tenta convencer os leitores a respeito de seu pensamento sobre a sociedade e seu futuro. O texto apresentado é composto de fragmentos do manifesto chamado “A Sociedade Industrial e seu Futuro”, escrito por Theodore Kaczynski, um terrorista americano conhecido como Unabomber que, nos anos 1990, exigiu que os jornais americanos divulgassem seu texto, garantindo, em troca, que os atentados realizados por ele cessariam no momento que seu manifesto fosse publicado. 38 39 Por mais que não concordemos com algumas ideias apresentadas pelo autor, sua composição textual é formada por definições, exemplos e comparações que além de dissertar sobre um determinado ponto, também servem como fundamentos e bases para as premissas que serão dispostas ao longo do texto. Esse manifesto é um exemplo bastante claro de texto dissertativo- argumentativo por trazer não apenas fatos, mas também a opinião do autor como uma tentativa de convencer o leitor sobre seu ponto de vista. Entre os exemplos de textos dissertativo-argumentativos, estão: manifestos, textos introdutórios de abaixo-assinados, artigos de opinião, sermões, entre outros. 6.2.4 Texto explicativo (injuntivo e prescritivo) O texto explicativo é aquele que tem como principal objetivo instruir o leitor a respeito de algum processo ou procedimento. Esses textos se caracterizam por linguagens que instruam e incentivem a ação, direcionando o comportamento do leitor. O tipo de linguagem empregada por esse tipo de texto é, geralmente, objetiva e clara, com um grande número de verbos no imperativo, no infinitivo ou no presente do indicativo. Embora muitas vezes possam ser entendidos como sinônimos, existe uma distinção entre texto explicativo-injuntivo e explicativo-prescritivo, que se diferem pelo grau de obrigação ao seguir as instruções dadas. Os textos explicativos- injuntivos informam, aconselham, ajudam e recomendam, de forma que o leitor tenha um certo grau de liberdade, e os textos explicativos-prescritivos exigem, demandam e obrigam, sem que o leitor tenha liberdade (CORTINA, 2018). Observe, a seguir, um texto que se caracteriza como explicativo-injuntivo. 40 Nas instruções acima, observamos um tipo de texto que orienta o leitora fazer pão de queijo. Os procedimentos dados servem como conselhos de qual a melhor maneira de proceder (de acordo com o autor) para que a receita seja bem- sucedida. Contudo, podemos observar que o texto dá um certo grau de liberdade para que o leitor tome ações diferentes do que é instruído (como ferver os ingredientes em uma leiteira em vez de uma panela ou fazer bolinhas de 3 cm em vez de 2 cm). Observe, agora, um exemplo de texto explicativo-prescritivo: No texto acima, que é um exemplo de contrato de compra e venda, podemos observar que a linguagem é bastante objetiva e que o leitor (que seria o vendedor ou o comprador no caso do exemplo) não tem liberdade alguma de agir de forma diferente do que diz o texto. 41 Diferentemente do texto explicativo-injuntivo – que orienta e aconselha o leitor ─, o texto explicativo-prescritivo obriga o leitor a agir da forma determinada por ele. Entre os exemplos de textos explicativos-injuntivos estão os manuais de instrução, os livros de autoajuda, as receitas culinárias, etc. Como exemplos de textos explicativos-prescritivos, podemos mencionar contratos, leis de trânsito, edital de concursos, entre outros. Observe que as tipologias textuais, além de utilizar linguagens diferentes, também apresentam estruturas distintas que devem ser seguidas e respeitadas para que um texto possa se enquadrar corretamente em um certo tipo, de acordo com seus objetivos. Além das tipologias textuais, textos também podem ser classificados de acordo com gêneros textuais, como veremos a seguir. 7 GÊNERO TEXTUAL Agora que aprendemos sobre as diferentes tipologias textuais, podemos estudar os diferentes gêneros textuais. Gêneros textuais são textos que apresentam características distintas e que exercem funções comunicativas específicas; ou seja, esses textos se caracterizam por compartilhar os mesmos traços entre textos do mesmo gênero, por apresentar traços distintos de outros gêneros e por cumprir objetivos diferentes (CORTINA, 2018). Pense, primeiramente, na diferença entre uma carta, um romance e uma lista de supermercado. A carta tem por objetivo conectar duas (ou mais) pessoas e transmitir informações, um romance tem por finalidade entreter um leitor e contar 42 uma história; já a lista de supermercado se caracteriza por conter nomes de itens que devem ser comprados. Agora, pense no formato de apresentação de cada um desses textos. Você acharia muito estranho se recebesse uma “carta” com trezentas páginas, com uma capa e um sumário, certo? Mas não acharia estranho receber um romance com esse formato. E já pensou se você recebesse uma lista de compras antes de ir ao mercado e, chegando lá, abrisse e encontrasse o próximo texto? Certamente essa não é a disposição que estamos acostumados a receber para uma lista de compras. Os gêneros textuais, além de conteúdos que sejam propícios aos seus fins comunicativos, também são caracterizados pela forma de apresentação dos textos, que está altamente relacionados ao papel que cada texto deve cumprir. Um leitor que recebesse o texto acima como uma “lista de compras” certamente perderia tempo no mercado lendo frases que não são necessárias para as compras e, ainda por cima, correria o risco de esquecer algum item por não estar facilmente indicado no corpo do texto. Um texto que deveria ter quatro palavras (farinha, ovo, leite, milho) foi disposto em setenta palavras de forma não usual para o seu objetivo. Segundo Cortina (2018), gêneros textuais devem levar em consideração todos os aspectos que proporcionem uma comunicação eficiente, como emissor, receptor, objetivo, canal, mensagem. Diferente das tipologias textuais, os gêneros textuais são de inúmeros tipos e surgem de acordo com as necessidades sociais distintas para cada ação comunicativa. 43 Entre os exemplos de gêneros textuais estão: carta (pessoal e empresarial), telefonema, notícia de jornal, artigo de revista, artigo de jornal, artigo acadêmico, piada, receita, bula de remédio, biografia, entrevista, romance, poesia, conto, monografia, aviso, lenda, fábula, lista de compras, ensaio, editorial, e-mail, abaixo- assinado, diário, currículo, entrada de dicionário, texto enciclopédico, entre outros. Os exemplos mencionados acima servem apenas para ilustrar a grande variedade de gêneros textuais existentes. Como já foi dito, cada necessidade comunicativa pode abrir espaço para o surgimento de um gênero textual diferente. Observe, na sequência, três exemplos de textos: 44 Lendo e observando os textos acima, você, leitor, consegue ver alguma diferença entre eles? Várias, correto? O texto 1 é uma bula de remédio, o texto 2 é uma parte de um diário, e o texto 3 é um poema. Talvez nem fosse necessário ler o conteúdo total dos textos para identificar a que gênero eles pertencem. Essa convenção de formatação de diferentes textos ajuda a caracterizar diferentes gêneros textuais. Além de conteúdos e linguagens diferentes, os três textos também possuem objetivos diferentes. O primeiro texto serve como informativo a respeito de um remédio, o segundo serve como registro de um dia em um diário (e também como narrativa para informar e entreter um leitor de um livro que foi baseado nesse diário) e o terceiro tem por objetivo conscientizar ou despertar emoções. 45 Esses três textos são exemplos claros de diferentes gêneros textuais, que se caracterizam não só pelo conteúdo e linguagem, mas também – e principalmente ─ por sua disposição e seus objetivos comunicativos. Agora que já conhecemos as diferentes tipologias textuais e sabemos que existem diversos gêneros textuais, vamos relacionar as duas classificações e apresentar exemplos de gêneros textuais que se enquadram em cada uma das tipologias textuais, conforme vemos em Cortina (2018): Gêneros textuais que se enquadram no tipo textual narrativo: histórias, fábulas, romances, contos, novelas, crônicas, histórias curtas, dramas, teatro. Gêneros textuais que se enquadram no tipo textual descritivo: classificados, menus de restaurante, páginas de diários, informativos turísticos, informações técnicas de produtos. Gêneros textuais que se enquadram no tipo textual dissertativo: enciclopédias, artigos acadêmicos, artigos de opinião, manifestos, sermões. Gêneros textuais que se enquadram no tipo textual explicativo: receitas, manuais de instrução, editais, contratos, livros de autoajuda. Neste capítulo, aprendemos que texto não é apenas um aglomerado de palavras, mas sim uma manifestação linguística que comunica e carrega algum significado dentro de um contexto, apresentando sentido. Aprendemos, também, que um texto se manifesta de diferentes formas e que pode ser composto em diferentes extensões. Ademais, observamos a diferença entre tipologias textuais (que se caracterizam por sua forma e objetivos) e gêneros textuais (que se definem pela sua função comunicacional e social), identificando que, embora as tipologias textuais sejam limitadas e definidas, os gêneros textuais se classificam e se manifestam de diferentes formas, surgindo de diferentes situações e necessidades comunicacionais. Voltando ao exemplo que iniciou o capítulo (Circuito Fechado), podemos concluir que ele é, de fato, um texto, cuja tipologia textual é narrativa e cujo gênero textual pode ser entendido como um conto. 46 8 PRODUÇÃO DE TEXTO – CONCEITOS DE COESÃO E COERÊNCIA 8.1 Conceitos de coesão e coerência A produção de um texto exige a formação de tramas entre cada ponto tratado, ou seja, um texto se forma com várias palavras, orações e ideias amarradas umas às outras. Nesse sentido, a elaboração de um texto costuma estar associada à arte de tecer: quando se tece, um fio pode ser conduzido para lugares diferentes, mas sempreestá entrelaçado a outros fios, compondo a rede. A forma como as ideias são articuladas, ou seja, a combinação entre palavras e frases, determina se a estrutura da textualidade foi atingida. Isso significa que a relação entre as ideias e as frases deve revelar uma sequência harmônica e uma organização interna entre as partes do texto. Se não há textualidade, tem-se apenas um amontoado de frases desconexas, e não uma unidade de sentido. Para que uma palavra seja conectada a outra e uma oração se ligue a outra, formando um entrelaçamento de ideias, é preciso coesão e coerência no texto (BIZELLO, 2019). Halliday e Hasan (1976, p. 4) publicaram um clássico sobre o assunto e definiram coesão textual como algo que “[...] ocorre quando a interpretação de algum elemento no discurso é dependente da de outro. Um pressupõe o outro, no sentido de que não pode ser efetivamente decodificado a não ser por recurso ao outro”. Como se evidencia, os autores consideram a coesão como parte do sistema de uma língua, pois ocorre uma relação no sistema léxico-gramatical. Veja o que afirma Koch (2010, p. 12): Para esses autores, a coesão é, pois, uma relação semântica entre um elemento do texto e algum outro elemento crucial para a sua interpretação. A coesão, por estabelecer relações de sentido, diz respeito ao conjunto de recursos semânticos por meio dos quais uma sentença se liga com a que veio antes, aos recursos semânticos mobilizados com o propósito de criar textos. A cada ocorrência de um recurso coesivo no texto, denominam “laço”, “elo coesivo”. Segundo Antunes (2005), a coesão é o mecanismo que unifica diversos elementos textuais para dar sentido e proporcionar unidade temática no decorrer do discurso. Já a coerência “[...] é uma propriedade que tem a ver com as possibilidades de o texto funcionar como uma peça comunicativa, como um meio de interação verbal” (ANTUNES, 2005, p. 176). 47 A coesão é a própria costura entre os elementos do texto, pois os mecanismos coesivos estabelecem um entrelaçamento na superfície textual. Isso ocorre tanto na inter-relação entre orações, períodos e parágrafos quanto em segmentos maiores, como na relação entre o parágrafo de conclusão e os parágrafos anteriores. Aliás, a coesão é decisiva para que o tema tratado se mantenha ao mesmo tempo em que progride, daí a sua ligação com a coerência. O sentido do texto se constrói com o encadeamento de todas as suas partes. Portanto, a função da coesão é promover a continuidade do texto, ligar (interligar) cada parte do texto para que não se perca o fio de raciocínio. É exatamente essa unidade que favorece a interpretabilidade. Dessa forma, todos os segmentos de um texto têm de estar presos uns aos outros. Nas palavras de Antunes (2005, p. 48), Por causa das sucessivas ligações que se vão estabelecendo, a interpretação de cada segmento, de cada período, por exemplo, vai sendo afetada pela interpretação das outras anteriores ou subsequentes. Não há segmento que se baste a si mesmo, que prescinda do concurso de outros segmentos. Tudo está em relação. Associam-se à coesão mais dois elementos da textualidade: a intencionalidade e a aceitabilidade. Travaglia e Koch (2007) defendem que o produtor de um texto tem, necessariamente, determinados objetivos ou propósitos, isto é, intencionalidade. É por essa razão que o emissor procura, de modo geral, construir seu texto de modo coerente e dar pistas ao receptor que lhe permitam constituir o sentido desejado. Assim, na contrapartida, está a aceitabilidade: quando duas pessoas interagem, esforçam-se para serem entendidas. Elas fornecem pistas do texto, ativando o conhecimento de mundo do interlocutor. Portanto, mesmo que um texto não se apresente, à primeira vista, como perfeitamente coerente, o receptor tenta estabelecer a sua coerência, dando-lhe a interpretação que lhe pareça possível. Outro princípio fundamental da coerência é a não contradição. Para que um texto seja coerente, não pode apresentar contradições nem externas, nem internas. Ou seja, não se pode afirmar algo que não coincida com a realidade nem se pode apresentar afirmações contraditórias no mesmo texto. 48 Note que, se bem utilizada, a coesão contribui de forma decisiva para que o assunto do texto se mantenha e progrida ao mesmo tempo. Assim, a coesão acaba se tornando um dos recursos responsáveis pela coerência textual. Isso significa que, concomitantemente, ocorrem as articulações possíveis de se perceber na superfície e outros encadeamentos menos fáceis de se identificar no nível semântico. Assim, se há ligações na superfície, é porque elas estão de acordo com o sentido e com as intenções pretendidas. Essas ligações, portanto, são essenciais para que o texto tenha sentido e para que o leitor elabore interpretações. Afinal, não é apenas o valor semântico das palavras que garante o sentido global do texto. É preciso ir e voltar às unidades diferentes do texto a fim de estabelecer relações, ligações, encadeamentos. Dessa forma, preserva-se a continuidade do texto, isto é, a sequência interligada das suas partes. É desse modo que se efetiva a unidade de sentido e das intenções da mensagem e se pode atingir o objetivo de comunicar com eficiência. A continuidade promovida pela coesão é uma continuidade semântica, ou seja, os segmentos vão se ligando em sequência e se relacionando conceitualmente. Essa continuidade que se instaura pela coesão se expressa pelas relações de reiteração, associação e conexão (BIZELLO, 2019). Essas relações no podem ser melhor compreendidas no Quadro 1, a seguir. 49 Como você pode ver no quadro acima, todos os tipos de relações estabelecem ligações. Elas se diferem pela forma como a ligação é feita. A seguir, vamos ver como cada relação organiza essas ligações. A reiteração ocorre pela retomada de segmentos anteriores. O desenvolvimento do texto, nesse caso, depende do que foi dito antes. É esse movimento que assegura ao texto a continuidade de seu fluxo. Assim, cada elemento fornece o acesso aos outros. Um exemplo desse movimento é o uso de um pronome ou de um sinônimo para reiterar a palavra expressa previamente. Já a associação se estabelece na ligação de sentido entre as diversas palavras presentes no texto. Um recurso muito utilizado nessas relações é a 50 aplicação de termos do mesmo campo semântico ou de campos afins. Esse tipo é o que garante que nenhuma palavra fique solta no texto: há sempre uma relação semântica, por mais tênue que seja, sendo estabelecida entre as palavras. Isso significa que a associação contribui diretamente com a unidade temática, pois ela condiciona a proximidade semântica entre as palavras do texto. Portanto, as relações que garantem a coesão não são de cunho ortográfico ou fonológico, por exemplo, e sim de cunho semântico, pois a escolha das palavras que compõem o texto depende da intenção do autor, daquilo que ele quer dizer (BIZELLO, 2019). A conexão refere-se à relação semântica entre as orações (ou ainda entre os períodos e parágrafos). As conjunções, as preposições, as locuções conjuntivas e as locuções prepositivas conectam os segmentos, por isso são chamadas de “conectores”. Os conectores indicam a relação semântica que o autor do texto pretende estabelecer entre as orações, períodos e parágrafos. Nesse sentido, são responsáveis pela condução da direção argumentativa do texto. Ou seja, ao funcionarem como elos entre as partes do texto, promovem relações de causalidade, temporalidade, oposição, finalidade, adição, explicação, etc. Em suma, a coesão e a coerência dependem da articulação entre palavras, orações, frases e parágrafos. Para que os procedimentos de reiteração, associação e conexão se concretizem, são necessários alguns recursos coesivos. 8.2 Recursos coesivos em textos A coesão refere-seà sustentação do texto, ou seja, é seu alicerce gramatical e semântico. A coesão gramatical é responsável pela articulação de elementos 51 linguísticos; logo, observa as regras das relações sintáticas e a estrutura. A coesão semântica busca relacionar os elementos linguísticos que fazem referência a determinado campo semântico. Para que essas relações se estabeleçam e se concretizem, há o auxílio de procedimentos e recursos. Antunes (2005, p. 58) afirma que “[...] as relações de reiteração, associação e conexão se realizam pelos procedimentos de repetição, substituição, seleção lexical e conexão sintático-semântica”. O autor (2005) destaca que os textos falados e escritos resultam da interação verbal e que “produzir um texto coeso e coerente é muito mais que emitir palavras em cadeia ou interligar orações e períodos”. Contudo, o que ocorre na superfície do texto é essencial para que ele seja adequadamente interpretável. A seguir, serão apresentadas as características e o funcionamento dos procedimentos e recursos. Quando se pretende reiterar ideias e palavras, aplicam-se procedimentos de repetição e substituição. O primeiro funciona com a volta a um segmento prévio do texto, e o segundo retoma a ideia ou o antecedente com o uso de variados termos constituintes do nexo textual. Nesses casos, é comum o uso de pronomes, advérbios, sinônimos. A repetição ocorre com os recursos de paráfrase, paralelismo e repetição propriamente dita. A paráfrase é utilizada para dizer novamente algo que já foi dito antes — a fim de poder explicar melhor, por exemplo. Nesse sentido, a intenção é dizer de uma forma mais transparente algo que já foi dito. Essa reformulação costuma ser introduzida por expressões como: “ou seja”, “isto é”, “em outras palavras”, “em síntese”, etc. O paralelismo é um recurso utilizado para coordenar segmentos sintáticos idênticos; ou melhor, a unidades semânticas similares deve corresponder uma estrutura gramatical similar. Antunes (2005, p. 64) afirma o seguinte: O paralelismo não constitui propriamente uma regra gramatical rígida. Constitui, na verdade, uma diretriz de ordem estilística — que dá ao enunciado uma certa harmonia — e constitui ainda um recurso de coesão — que deixa o enunciado numa simetria sintática que é por si só articuladora. Vale ressaltar que o paralelismo tem tanto função coesiva quanto estilística. A repetição propriamente dita refere-se ao esforço de fazer reaparecer uma unidade (palavra, sequência de palavras, frase inteira) que já tinha surgido 52 anteriormente no texto. É um recurso fundamental para a continuidade textual exigida pela coerência, pois o caráter reiterativo do texto revela as articulações entre as partes, que não permitem que se construa apenas um amontoado de frases soltas. Isso significa que, ao contrário do que afirmam muitos manuais de redação, a repetição é um recurso textual significativo. Ela só não pode contribuir com a monotonia nem modificar o foco de atenção do leitor. Antunes (2005) apresenta algumas funções da repetição: marcar a ênfase que se pretende atribuir a determinado segmento; marcar o contraste entre dois segmentos do enunciado; servir de gancho para uma correção; expressar uma espécie de quantificação; e, principalmente, marcar a continuidade do tema em foco. Portanto, voltar a usar uma palavra é um recurso natural para um texto que trata de um tema específico, afinal é preciso manter a unidade e a continuidade temáticas. Entretanto, repetir palavras não é a única forma de marcar a relação semântica entre partes do texto. A substituição pode atingir o mesmo efeito por vias diferentes: a substituição de uma palavra por um pronome, um advérbio ou outra palavra com equivalência semântica é um recurso coesivo essencial para a escrita clara de um texto. Esse recurso coesivo se subdivide em substituição gramatical e substituição lexical. Os pronomes são muito utilizados como mecanismos da substituição gramatical. A carga significativa plena dos pronomes pessoais, por exemplo, só ocorre quando eles se relacionam a um substantivo. Logo, os pronomes revelam-se uma peça fundamental na arquitetura da amarração de um texto. Dessa forma, a grande função textual dos pronomes é assegurar a cadeia referencial de um texto, assim, possibilitam a reiteração e a continuidade que o texto exige para ser coerente. O substantivo a que o pronome se refere pode aparecer antes ou depois desse pronome. No primeiro caso, há uma anáfora, quando o termo antecedente é retomado por um pronome. Veja um exemplo: Encontrei a casa dos meus sonhos! Ela é fantástica! No segundo caso, há uma catáfora, isto é, o pronome antecipa o substantivo que substitui. Veja: 53 Ela é fantástica! A casa de que te falei! Segundo Antunes (2005, p. 88), é preciso: [...] tomar consciência de que o procedimento da substituição pronominal é um recurso altamente frequente em nossas interações verbais, faladas e escritas, e que decidir por substituir ou não uma palavra por um pronome requer a competência de saber avaliar seus efeitos. Com uma substituição, um texto pode ficar mais conciso, mais enxuto, ou, ao contrário, pode ficar menos claro e mais sujeito a ambiguidades ou a interpretações dúbias. As competências para tomar decisões desse tipo é que são as verdadeiras competências textuais, aquelas para as quais devíamos dirigir nossas maiores atenções. A substituição de uma palavra por um pronome ou por um advérbio é uma forma de criar a continuidade necessária à referência. Dessa forma, surge um nexo de ligação entre o termo referente e o termo substituto; e a ocorrência de vários nexos forma uma cadeia coesiva. Esses nexos podem ser constituídos de pronomes demonstrativos, possessivos, relativos e indefinidos, ou seja, não só de pronomes pessoais. O importante é que retomem ou antecipem referências anteriores ou subsequentes. Contudo, é preciso ter cuidado para não criar construções ambíguas ou imprecisas. Para tanto, segundo Bizello (2019): os pronomes possessivos devem associar a ideia de posse às pessoas do discurso, relacionando a coisa possuída com a pessoa do possuidor; os pronomes relativos devem ser empregados de acordo com a estrutura de cada tipo; os pronomes demonstrativos devem fazer referência ao substantivo que preenche o significado da pessoa do discurso a que se relacionam, indicando a posição do substantivo em relação ao que se declara sobre ele; os pronomes indefinidos precisam se referir a uma terceira pessoa de forma imprecisa. 54 Veja alguns exemplos: A intenção era aproximar o aluno da sua realidade. A instituição cujos princípios estavam sendo elaborados... O pai conversou com o filho. Este pareceu alheio aos conselhos paternos. O jogador entregou a bola a outro e saiu do campo. Na substituição gramatical, portanto, os pronomes não têm autonomia referencial, pois dependem do termo que retomam. Isso significa que eles funcionam especificamente como substituidores. Outro recurso de coesão textual é a substituição lexical. Nesse caso, há a ligação entre dois ou mais segmentos textuais, ou seja, uma palavra é aplicada no lugar de outra que seja equivalente no âmbito textual. Para que essa substituição seja feita com adequação, é necessário um ato de interpretação, isto é, é preciso avaliar se o termo substituidor atingirá o objetivo. Veja o que afirma Antunes (2005, p. 96): Pela substituição se consegue [...] a volta a uma referência ou a uma predicação já feitas no texto e, por isso, ela é reiterativa. Tal como a repetição, a substituição é um recurso da continuidade do texto, ou, ainda, outra forma de se mostrar que dois ou mais segmentos estão semanticamente inter-relacionados [...] Em relação à repetição, a substituiçãooferece uma vantagem, que é aquela de se poder acrescentar informações ou dados acerca de uma referência já introduzida anteriormente. 55 Geralmente, usam-se sinônimos, hiperônimos e expressões descritivas no processo de substituição lexical. Veja um exemplo: A família precisava conter os gastos. As despesas domiciliares estavam acima do que poderiam pagar. Note que o uso do termo “despesas” garante a continuidade do tema do texto, ou, no caso do exemplo, do tópico do parágrafo, pois se formou uma cadeia, uma sequência. Além disso, a palavra “despesas” aumenta o grau de persuasão, pois o leitor tem acesso a uma nova informação (as despesas eram domiciliares), o que pode acentuar o seu interesse. Afinal, o uso de sinonímias vai além do valor semântico: elas são “[...] os nós que ligam subpartes do texto. Elas tecem o texto; elas são elementos de sua organização e construção” (ANTUNES, 2005, p. 102). A substituição por hiperonímia põe em cadeia dois segmentos, que serão interpretados como equivalentes. Justamente por sua versatilidade, os hiperônimos podem assumir diferentes equivalências, mas isso não significa que eles possam substituir qualquer palavra: existem algumas restrições. Esse é o caso, por exemplo, de alguns designadores rígidos, como os nomes das espécies naturais. A hiperonímia é um tipo de substituição que: [...] além de constituir uma forma de ligar subpartes do texto, concorre ainda para sinalizar as visões que as pessoas assumem ao dizer certas coisas [...] esse tipo de retomada é também percebido como uma espécie de resumo, de recapitulação de blocos anteriores (ANTUNES, 2005, p. 106). A descrição situacional retoma um referente por meio de uma expressão que descreve esse referente. Essa expressão, muitas vezes, aproxima-se da hiperonímia, porém, ao contrário dela, tem função qualificadora a partir dos elementos pertinentes na circunstância expressa. No Quadro 2, veja algumas expressões qualificadoras consagradas. 56 Como se pode ver no quadro acima, esse tipo de retomada mobiliza o conhecimento de mundo. Assim, ao sinalizar que determinado objeto tem certas características em dada situação, essa forma de substituição está promovendo a continuidade do texto. Muitas vezes, a escolha pelas palavras que constituem a expressão de retomada revela o ponto de vista do locutor. A substituição por elipse é uma das mais usadas e mais estudadas. Ela ocorre com o ocultamento de um termo da oração, que pode ser identificado ou pelos elementos gramaticais, ou pelo contexto. Segundo Antunes (2005, p. 119), “[...] a elipse pode ser um indicativo de que algo continua em foco. Por isso mesmo é que a elipse é considerada, na perspectiva do texto, uma espécie de reiteração”. Já o procedimento de associação semântica entre palavras refere-se às ligações entre o significado e o léxico. A escolha do autor/falante será determinada pelo tema do texto e pela sua finalidade. Entretanto, as relações semânticas mais 57 comuns são de: antonímia, co-hiponímia e partonímia. Em todas essas possibilidades, atua o conhecimento de mundo: os esquemas de organização da realidade são uma base significativa para as associações semânticas. O procedimento de conexão é realizado pelo uso de conectores (conjunções, preposições, advérbios e suas locuções), que promovem a sequência de diferentes partes do texto, ou seja, a ligação estabelecida ocorre em pontos determinados do texto. Em suma, há diferentes recursos para se estabelecerem relações coesivas entre as palavras, as orações, os períodos e os parágrafos. Para que tais recursos cumpram sua função coesiva, devem promover a continuidade do texto e auxiliar na clareza das informações. 8.3 Diferentes gêneros textuais e sua forma de comunicar No seu dia a dia, nos deparamos com vários tipos de textos, escritos e falados. Mas o que os diferencia? Dois aspectos significativos para a diferenciação dos gêneros são a situação e o contexto de produção. Além disso, cada texto pode ter uma finalidade específica. Numa situação de interação verbal, a escolha do gênero tem relação com o emissor, com o receptor, com a finalidade, com o momento histórico, etc. Essas escolhas orientam a forma de comunicar. Consequentemente, alguns procedimentos e recursos coesivos são privilegiados. A seguir, você vai ver alguns gêneros textuais e analisar alguns exemplos para verificar como isso ocorre na prática. Um dos gêneros mais utilizados no meio acadêmico é o argumentativo. Como esse tipo de texto mobiliza o autor a explorar um assunto, explicando-o e persuadindo o leitor, leva à elaboração de uma tese e à construção de uma opinião fundamentada. Os concursos vestibulares geralmente solicitam a escrita de um texto dissertativo-argumentativo. Dessa forma, o candidato deve analisar um assunto ou um problema e se posicionar, tentando convencer o leitor de seu ponto de vista. Leia um parágrafo de uma redação que recebeu nota máxima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2018 (TAUMATURGO apud CAMPOS, 2019, documento on-line): 58 Segundo as ideias do sociólogo Habermas, os meios de comunicação são fundamentais para a razão comunicativa. Visto isso, é possível mencionar que a internet é essencial para o desenvolvimento da sociedade. Entretanto, o meio virtual tem sido utilizado, muitas vezes, para a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados, podendo induzir o indivíduo a compartilhar determinados assuntos ou a consumir certos produtos. Isso ocorre devido à falta de políticas públicas efetivas que auxiliem o indivíduo a “navegar”, de forma correta, na internet, e à ausência de consciência, de grande parte da população, sobre a importância de saber utilizar adequadamente o meio virtual. Essa realidade constitui um desafio a ser resolvido não somente pelos poderes públicos, mas também por toda a sociedade. Note que, nesse tipo de texto, as frases são mais complexas e as orações mostram-se mais articuladas. Assim, é preciso estabelecer uma harmonia que deixe o enunciado com uma simetria sintática. Esse é o caso do trecho “Essa realidade constitui um desafio a ser resolvido não somente pelos poderes públicos, mas também por toda a sociedade” (TAUMATURGO apud CAMPOS, 2019, documento on-line). As expressões “não somente” e “mas também” revelam um processo correlativo de adição, um tipo de estrutura paralela comum nos textos dissertativos. Observe ainda a expressão “essa realidade”: ela descreve a situação de problemas oriundos do mundo virtual em apenas duas palavras. É comum nos textos longos, principalmente nos argumentativos, o uso de descrições situacionais como forma de retomar um termo anterior. Além disso, a própria descrição revela o ponto de vista da autora: os problemas citados na frase anterior são o que ela considera uma realidade. Portanto, o uso dessa expressão é uma escolha de ordem sociocognitiva e mostra determinada percepção acerca da realidade. De qualquer maneira, é visível que um dos pontos fortes da organização do texto analisado é o uso de conectores. Ao longo dos parágrafos e dos períodos, encontram-se elementos que orientam o interlocutor na direção pretendida. Observe: Visto isso, é possível mencionar que a internet é essencial para o desenvolvimento da sociedade. Entretanto, o meio virtual tem sido utilizado, muitas vezes, para a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados (TAUMATURGO apud CAMPOS, 2019, documento on- line). Atente ao uso de “entretanto”: essa conjunção não apenas estabelece uma ligação entre duas orações e dois períodos, mas também introduz uma direção argumentativa contrária à que vinha sendo apresentada. Aliás, mais do que orientar 59 para uma ideia oposta, o uso de “entretanto” demonstra uma relação de concomitânciaentre as duas informações: o meio virtual é essencial para o desenvolvimento da sociedade e contribui para a manipulação do comportamento do usuário. Note que a unidade temática do texto é mantida com o uso de diferentes termos da mesma família: “internet”, “meio virtual”, “usuário”, “navegar”. Contudo, essas palavras só têm sentido dentro do contexto apresentado na redação. Assim, evidencia-se que o “usuário” é aquele que acessa a internet e que “navegar” é utilizar esse meio. Agora, você vai analisar outro gênero: o jornalístico. Leia um fragmento de uma reportagem sobre as eleições para a presidência da Argentina: O resultado da eleição foi o mais balsâmico possível. Alberto Fernández derrotou, mas não varreu, o que permitiu que o macrismo se tornasse uma forte oposição. Também o comportamento de Macri e Fernández foi balsâmico. Diferente do áspero alívio de quatro anos atrás, em que Cristina Kirchner se recusou a entregar os símbolos presidenciais a Macri, desta vez os dois rivais deixaram de lado sua antipatia mútua e se declararam dispostos a trabalhar juntos (GONZÁLEZ, 2019, documento on-line). Observe que a repetição do termo “balsâmico” foi uma maneira que o jornalista encontrou para marcar a falta de contraste entre os adversários políticos. Nesse sentido, ele não apenas informou sobre a reação de cada concorrente diante do resultado das eleições como revelou o teor de todo o processo eleitoral. Portanto, a repetição pode ser um recurso coesivo importante em textos que pretendem informar enfatizando alguns aspectos. Observe a o uso da repetição no poema de Carlos Drummond de Andrade (2019): E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? 60 Veja que a frase “E agora, José?” é um recurso que une as pontas do texto: do começo ao fim do poema, há uma indicação clara de que o tema do texto é o que José pode fazer diante de algumas situações difíceis. A pergunta se repete, mas as demais partes do texto progridem, alterando as circunstâncias em que cabe o questionamento a José. Nos textos científicos, também é comum que apareçam palavras repetidas. Veja: Como já mencionado neste trabalho, o Brasil é hoje o quarto país do mundo em número de smartphones, com aproximadamente 70 milhões de aparelhos, segundo dados da consultoria especializada Morgan Stanley, divulgados em 2013. Contudo, para que possamos entender o real impacto dos smartphones na sociedade e em sua cultura, articulados com os conceitos já vistos, como cibercultura, convergência midiática, redes sociais, crossmídia e transmídia, e tentando responder aos objetivos específicos deste trabalho, importantes perguntas devem ser colocadas em relação a estes dados: quem são estes usuários? Quais são suas características? Como eles utilizam os smartphones e quais são seus hábitos de consumo? (COUTINHO, 2014, documento on-line). Nesse tipo de texto, a repetição se deve mais à especificidade do assunto. Como a nomenclatura é bastante especializada, as possibilidades de substituição lexical são mais restritas. Os textos explicativos, principalmente os de cunho didático, costumam apresentar paráfrases para inserir as mesmas explicações de forma diferente. Veja um exemplo extraído de um livro didático sobre signo linguístico (NICOLA, 2006. p. 128): “Entretanto, tal ligação entre representação (significante) e ideia (significado) é totalmente arbitrária, ou seja, não há nada que indique que deve haver uma relação entre elas”. Observe que a paráfrase funciona como um recurso para clarificar um conceito. Essa nova formulação dos itens do enunciado permite uma ligação entre os dois segmentos textuais por meio de palavras diferentes. Em síntese, cada gênero textual está mais suscetível a determinados recursos e procedimentos coesivos. Desse modo, conforme as intenções comunicativas e as circunstâncias de interação, são mobilizados recursos que auxiliam na continuidade e na articulação das partes de um texto. 61 9 PARÁGRAFOS E SUA ESTRUTURA 9.1 Qualidades essenciais de um parágrafo O Brasil enfrenta, hoje, críticas nacionais e internacionais aos aspectos referentes à avaliação da aprendizagem dos alunos da educação básica realizada em larga escala. Essas avaliações, que constituem o Índice da Educação Básica (IDEB), avaliam também os aspectos referentes à aquisição das habilidades de escrita e leitura, que ainda precisam melhorar consideravelmente para alcançarmos padrões internacionais de aprendizagem. Pode parecer estranho começar a estudar sobre o parágrafo dessa maneira, mas acreditamos que a contextualização é importante neste momento, visto que aprender a construir um bom parágrafo é um passo muito importante na formação básica de nossos alunos. Um parágrafo bem escrito apresenta uma estrutura que, quando aprendida e ampliada, leva-nos a compor bons textos, bons artigos, boas dissertações, boas teses, etc. Dessa forma, se aprendermos a escrever bem o parágrafo, conhecendo as suas características, os seus componentes e as suas qualidades essenciais, teremos grandes possibilidades de fazer uso eficiente da língua portuguesa, tornando-nos hábeis escritores. Afinal, “[...] a escrita é importante na escola porque é importante fora da escola, e não o inverso” (FERREIRO, 1999, p. 21). Ou seja, nossa vida social está repleta de situações que exigem que sejamos capazes de exercer a escrita, seja de forma manual ou mesmo digital. Entretanto, como podemos definir parágrafo? E quais seriam as suas qualidades essenciais? Com o intuito de responder a esses questionamentos, leia o comentário de Garcia (1998, p. 203) a respeito do parágrafo padrão: [...] esse conceito se aplica a um tipo de parágrafo considerado como padrão, e padrão não apenas no sentido de modelo, de protótipo, que se deva ou que convenha imitar, dada a sua eficácia, mas também no sentido de ser frequente ou predominante na obra de escritores — sobretudo modernos — de reconhecido mérito. Como se pode perceber, o parágrafo padrão costuma ser amplamente utilizado devido à sua eficácia; ou seja, em virtude da possibilidade de atingir o seu resultado, tornando inteligíveis e passíveis de compreensão as ideias que se procura 62 transmitir. O que leva um parágrafo a ser considerado padrão é a existência de algumas partes específicas em sua estrutura, conforme você pode observar na Figura 1, a seguir. A introdução do parágrafo padrão pode ser composta por um ou mais períodos, e é neste momento inicial que se dá a construção do tópico frasal, também conhecido como frase núcleo, o qual informará ao leitor qual é o principal assunto, isto é, a ideia central que será trabalhada no parágrafo. No desenvolvimento, seguem os períodos que servirão para elaborar melhor a ideia apontada no tópico frasal, possibilitando formas de entendimento deste. A conclusão, por sua vez, é utilizada para realizar um fechamento das ideias trabalhadas no parágrafo. Por exemplo, veja o parágrafo destacado na Figura 2 e observe os elementos em sua estrutura. Observe que, no parágrafo da Figura 2, o autor tem como objetivo principal destacar a importância do desenvolvimento da capacidade de escrita nas pessoas. 63 No entanto, não seria interessante abordar diretamente essa ideia, de modo que o autor escreveu, então, um período introdutório, o qual procurou amarrar junto ao tópico frasal. A partir da exposição da ideia central, começam a ser expostos os argumentos em torno da proposição principal, sendo eles: a possibilidade de exercer melhor a cidadania e a melhoria nas relações sociais, pessoais e profissionais. Ao final, o autor conclui o parágrafo realizando um fechamentodas ideias expostas e, ainda, provocando o leitor a posicionar-se em relação a isso ao terminar com uma interrogação. Comece a observar os parágrafos que você tem produzido: eles têm apresentado esses elementos? Ou alguns deles não têm sido utilizados? É comum observarmos, por exemplo, que o elemento de conclusão dos parágrafos (assim como das redações em geral) costuma ser negligenciado pelos escritores principiantes (BES, 2019). Fica, então, o desafio: tente elaborar seus parágrafos a partir de agora utilizando a estrutura aqui estudada. Squarisi e Salvador (2013) se referem ao processo de escrita fazendo uma analogia com o trabalho de um ourives, em que, nesse caso, o ourives do texto é o próprio autor. Cabe ao autor lapidar a sua escrita, percebendo se esta não poderia ser aprimorada em alguns detalhes que compõem cada período construído, bem como nas partículas de ligação entre eles, que são capazes de propor as qualidades essenciais almejadas com o parágrafo padrão. Algumas das qualidades essenciais requeridas com a produção de um parágrafo padrão são sintetizadas a seguir: clareza; coesão; unidade; 64 coerência; sentido; comunicação. Por meio dessas qualidades essenciais, percebe-se que um parágrafo padrão precisa ser claro, objetivo, de modo a transmitir ao leitor precisamente aquilo que se intenciona, sem rodeios desnecessários, indo direto ao ponto. Para que consiga atingir esse objetivo, de modo que o leitor consiga extrair sentido do parágrafo, o autor do parágrafo precisa estar atento aos mecanismos de coesão necessários, bem como à busca pela coerência durante o processo de escrita. Agora, aprenderemos sobre os mecanismos de coesão e coerência. 9.2 A coerência na construção de parágrafos Definimos anteriormente que um parágrafo padrão é aquele que atinge com eficácia os seus objetivos, dessa forma, é construído de forma a ser facilmente interpretado pelos seus leitores. Para que isso ocorra, existem alguns cuidados que precisam ser considerados por aquele que produz (produtor) o parágrafo, ou o texto, para que este tenha lógica, que produza significado àqueles que o leem (receptores). Esse sentido é produzido a partir da meticulosa criação dos parágrafos, em que cada elemento escrito deve ser articulado e conectado, levando ao entendimento do todo. Podemos apontar, ainda, que um parágrafo apresenta dois importantes mecanismos: a coesão (interna) e a coerência (externa). Começaremos pelo estudo da coerência (BES, 2019). É possível definir coerência como uma relação lógica entre as ideias apresentadas, que devem se complementar e, ao mesmo tempo, não se contradizer na composição do parágrafo. Claro que a coerência envolve fatores externos à 65 escrita do parágrafo, como, por exemplo, o conhecimento do produtor e do receptor a respeito do assunto que está sendo abordado, bem como seu nível de conhecimento de mundo e da própria língua portuguesa em si, que fornecem condições (ou não) de realizar essa leitura com coerência. Ao buscar uma definição possível para coerência, Koch e Travaglia (2010, p. 21) afirmam que esta pode ser entendida como “[...] um princípio de interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido deste texto”. Esse sentido, evidentemente, deve ser do todo, pois a coerência é global. Para entender melhor o que os autores apresentam, observe o exemplo a seguir. Como a coerência é global e se relaciona aos formatos literários adotados pelo produtor, bem como aos recursos linguísticos que este procura utilizar ao 66 produzir seus textos, existem, segundo Koch e Travaglia (2010), vários fatores que contribuem para a existência de coerência em uma produção escrita, conforme o Quadro 1, a seguir. 67 Ao referir-se ao fator de coerência “conhecimento de mundo” e associá-lo à capacidade leitora produzida pela coerência textual, destacando sua importância para a vida em sociedade, Gonçalves e Dias (2003, documento on-line) acrescentam que: É o conhecimento de mundo que favorece o processo de compreensão que se realiza por meio da construção do mundo textual, da articulação entre os elementos do texto e do estabelecimento da continuidade de sentido. Assim, o conhecimento de mundo ou saber enciclopédico se constitui em um dos fatores responsáveis pela construção de sentido e, consequentemente, pela coerência textual. Dessa forma, pode-se destacar a importância da escola ou dos processos de escolarização formais que procuram repassar aos estudantes, durante todos os níveis de sua escolarização, os conhecimentos acumulados pela cultura humana. Tal repertório, normalmente adquirido pela exposição realizada pelos professores ou pelas incursões leitoras em temas de interesse, produzem nos indivíduos maior ou menor capacidade de entender os textos e encontrar sentido em seus parágrafos. Outro ponto muito importante a ser destacado é o fato de que, ao escrevermos um texto, deve também existir esta mesma coerência entre os parágrafos que o compõem, devendo o produtor do texto preocupar-se com a manutenção do seu sentido e com a lógica que é proposta durante o seu desenvolvimento. Cabe esclarecer que a estrutura de um texto básico, como uma redação, por exemplo, segue as mesmas etapas do parágrafo padrão, apresentando um parágrafo de introdução, em que se aponta o objetivo principal do texto (frase- núcleo ou tópico frasal); alguns parágrafos de desenvolvimento; e um parágrafo final de conclusão, com o desfecho das ideais discorridas ao longo de toda a escrita (BES, 2019). 68 Ao considerarmos, porém, a construção de uma história pelo autor, veremos que podem existir outros elementos que facilitarão a coerência do texto, como a existência de uma narrativa em que as personagens, seu enredo e seu desfecho transcorram ao longo da produção. Imagine uma história em que as personagens não se mantenham ao longo da narrativa, simplesmente desapareçam, ou sejam substituídas por outras, sem qualquer explicação, ou ainda, que no seu desfecho, as personagens principais se ausentem: não seria estranho? Incoerente? Dessa forma, percebe-se que a coerência textual é um fenômeno que envolve tanto o autor quanto o leitor do texto. Ao referirem-se à coerência necessária em uma história, Spinillo e Martins (1997, documento on-line) questionam: Existiriam diferentes níveis de coerência entre uma história em que o tema e os personagens principais não são mantidos sistematicamente ao longo da narrativa, e outra em que o tema e os personagens mantêm-se do começo ao final da história? Teriam diferentes níveis de coerência uma história em que o desfecho não apresenta relação estreita com os episódios anteriormente narrados, e uma história em que existe uma relação estreita entre ambos? Como podemos perceber, o ato de escrever bem, produzindo textos capazes de serem entendidos e decifrados pelos leitores, constitui-se em um processo detalhado, de busca pela construção de possibilidades de coerência. Esses processos se relacionam diretamente com o tipo de texto construído (gênero literário), bem como com a intenção e a capacidade de comunicação escrita do produtor e do receptor. 9.3 Elaborando parágrafos com coesão e coerência Aprendemos que um parágrafo padrão apresenta elementos estruturais básicos e qualidades essenciais que devem estar presentes em sua construção. Também estudamos a respeito da coerência e dos fatores que contribuem para esta. Neste tópico aprenderemos sobre a coesão textual e como esta contribui para a elaboração de parágrafos. A coesão diz respeito aos aspectos linguísticos que envolvem a escrita de um parágrafo, servindo para conectar e complementar os períodosexistentes. Koch e Travaglia (2010, p. 47) comentam que “[...] a coesão se estende a ligação, a relação, 69 aos nexos que se estabelecem entre os elementos que constituem a superfície textual”. Dessa forma, a coesão e a coerência dos parágrafos estão estreitamente relacionadas. Uma das formas de se analisar a coesão textual é por meio de sua divisão em três tipos diferentes, listados a seguir: coesão referencial; coesão recorrencial; coesão sequencial. A coesão referencial é observada quando a língua se utiliza de alguns itens que proporcionam a referência necessária para o entendimento de outros, ou seja, ajuda na interpretação. Esse tipo de coesão costuma se apresentar por substituição ou reiteração. Veja os exemplos a seguir. Exemplo 1: “Tenho uma moto. Ela é vermelha”. Exemplo 2: “Gosto muitíssimo de doces. Quindim, então, adoro”. No Exemplo 1, a coesão ocorre a partir do uso do pronome pessoal “ela”, que exerce a função de substituição do objeto direto do parágrafo: a moto. Já no Exemplo 2, a coesão por reiteração se estabelece a partir do hiperônimo entre “quindim” e “doces”, em que quindim faz parte de uma relação do tipo todo – parte e torna possível a compreensão deste como um dos possíveis itens de uma série de doces. 70 A coesão recorrencial é aquela em que, mesmo que exista a retomada de estruturas utilizadas pelo autor, o texto apresenta uma progressão. Brown e Yule (1983, p. 26) comentam que esse tipo de coesão “[...] constitui um meio de articular a informação nova (aquela que o escritor/locutor acredita não ser conhecida) à velha (aquela que acredita conhecida ou porque está fisicamente no contexto ou porque já foi mencionada no discurso)”. Talvez por esse motivo esse tipo de coesão seja tão encontrado no gênero poético. Por exemplo, analise o trecho a seguir do poema Irene no Céu, de Manuel Bandeira (1958). Exemplo 3: “Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor [...]” Ou ainda, observe o verso a seguir, de Fernando Pessoa (1960), em que a recorrência ao termo “cansaço” acaba por tornar concreto ao leitor esse sentimento. Exemplo 4: “O que há em mim é sobretudo cansaço. Não disto nem daquilo, nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço, assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.” Ao observar esses exemplos, percebe-se que a coesão serve para intensificar, dar ênfase, bem como deixar o texto fluir. Já a coesão sequencial é aquela que permite que o texto flua, mas sem recorrer a termos já utilizados, adotando sequências temporais por conexão ou conjunção, como são mais conhecidas. Observe os exemplos a seguir. Exemplo 5: “Levantou. Escovou os dentes. Tomou banho e saiu”. Exemplo 6: “Se Maria é mulher, então é mortal”. O Exemplo 5 apresenta uma coesão temporal, dando ao leitor a possibilidade de interpretação de que esses atos transcorrem em uma sequência de ações que progridem, fluem como o sujeito do parágrafo escrito. Já o Exemplo 6 apresenta 71 uma coesão sequencial que mantém uma relação de causalidade entre a primeira e a segunda oração. Como você pode perceber, dominar tanto a coesão e os seus mecanismos quanto os fatores de coerência são importantes para que se possa redigir parágrafos padrão eficazes, logo, capazes de comunicar ao receptor que os lê aquilo que se objetiva informar ou apresentar. Cabe-nos, nesse caso, estudar a língua portuguesa, nos apropriando de suas estruturas linguística e semântica e nos aventurando na produção de textos, procurando sempre nos aperfeiçoar a partir deles. Para ter noção do impacto de um parágrafo padrão bem construído, leia a citação a seguir da Apresentação da obra Escrever melhor: guia para passar os textos a limpo, de Squarisi e Salvador (2013): A frase passou de boca em boca, caiu no gosto do povo e virou sabedoria: escrever exige 10% de inspiração e 90% de transpiração. Sim, senhor, escrever é trabalho árduo, equivalente ao do ourives. Textos passam por processos de lapidação como os diamantes. São cortados, aumentados, transformados, virados pelo avesso, amassados, condensados. O texto, como o diamante, só brilha depois de muito apanhar. Pode-se perceber, na construção do parágrafo dos autores, que as ideias desenvolvidas nele são coerentes e coesas, ou seja, tanto articulam-se os períodos propostos entre si, dando continuidade à ideia central proposta, quanto apresentam- se conectadas entre si por mecanismos de coesão que lhes proporcionam um sequenciamento lógico e progressivo. Se perguntássemos sobre a construção desse parágrafo, qual o seu objetivo ou qual a sua ideia principal, facilmente conseguiríamos responder que os autores, ao compararem o processo de escrita com o trabalho do ourives, estão procurando comunicar a ideia de que o texto pode ser melhorado, ou seja, que é possível aperfeiçoar nossa capacidade de produção textual se nos aprimorarmos, nos exercitarmos e buscarmos, de fato, ser melhores nessa habilidade. Vindo ao encontro dessa mesma ideia, Figueiredo (1995, p. 2) acrescenta que “[...] construir parágrafos é organizar e desenvolver ideias, umas ligadas às outras. Organizar e desenvolver ideias é difícil; por isso, requer um método que facilite o trabalho do escritor. Esse método depende da cultura e do modo de pensar de cada povo”. É necessário, no Brasil, que haja uma mudança na maneira de entender a importância da apropriação correta da língua portuguesa em nossas vidas e do 72 aperfeiçoamento do processo de produção textual dentro de nossa cultura, o que deve começar pela Educação Básica, já na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, onde as crianças, ao vivenciarem seus primeiros ambientes alfabetizadores, possam, além de tomar gosto pela leitura e pela escrita, desenvolver as aprendizagens necessárias que servirão de base para a sua educação permanente posterior, de modo que a organização das ideias se torne facilitada pelo preparo e conhecimento e os alunos se tornem hábeis e competentes na escrita a partir da prática. Para finalizar os estudos sobre a produção do parágrafo padrão e sua importância para a produção textual, gostaríamos, ainda, de apontar uma sugestão importante indicada por Figueiredo (1995, p. 94), quando trata da revisão necessária pelo autor após a escrita, conforme segue: Ao revisar a coesão e a coerência dos parágrafos, o escritor verifica cuidadosamente se as ideias secundárias (especificações e detalhes) estão bem cimentadas entre si e ligadas à ideia central (período tópico) por meio de palavras e de expressões transicionais (assim, contudo, porque, naquele dia) e conforme uma sequência organizada (primeiro, segundo, terceiro); e se o parágrafo anterior está bem amarrado ao parágrafo posterior, também por meio de conectivos. Qualquer que seja o tipo do parágrafo desenvolvido, ele deve apresentar coesão e coerência internas entre si e em relação aos outros parágrafos. A conexão entre orações, períodos e parágrafos por meio de palavras ou expressões de ligação toma o texto mais suave e claro, fácil de ler e de compreender. Aprendemos alguns princípios importantes necessários para produzir parágrafos padrão com eficácia àqueles que realizam sua leitura. A partir disso, e seguindo os procedimentos de revisão e edição do que escrevemos, a escrita se torna mais fácil, cabendo a nós a decisão de nos engajarmos ou não nessa tarefa. 10 AS RELAÇÕES ENTRE LINGUAGEM ORAL E ESCRITA 10.1 A oralidade e a escrita Os mais antigos registros de culturas – em qualquer parte do mundo – remetem ao canto e à dança. Essas práticas coletivas estavam associadas aos rituais religiosos e às festas de colheita. Aí está, por exemplo, a origem da tragédia 73 grega, surgida nas festas em homenagem a Dionísio (ou Baco), o deus grego das festas e dosciclos da vida. Inicialmente uma homenagem ao deus, feita por meio de cantos e danças, a tragédia foi se consolidando como um gênero dramático de grande relevância, inclusive para a história da literatura (FLACH, 2010). Hoje em dia, estamos imersos na cultura escrita. Nossa comunicação passa, necessariamente, pelo registro escrito. Raras comunidades ainda podem ser consideradas totalmente ágrafas. Mesmo assim, a oralidade – a mais primordial forma de comunicação e interação – tem espaço garantido em nossas práticas sociais. Mais especificamente em relação à literatura, a oralidade tem espaço nas rodas de contação de histórias, nos saraus, nos repentes, nas adivinhações. O jogo de palavras, sua sonoridade, o efeito da voz, tudo isso compõe um estilo literário bem específico. Na literatura popular, de modo especial, esse estilo tem grande expressividade. É claro que, com o avanço da escrita, ao longo dos séculos, ocorreram mudanças significativas nos processos de uso e valorização da oralidade. Em culturas antigas, por exemplo, a palavra proferida pelo xamã, pelo pajé ou pelo sábio tinha valor de lei. Hoje, nossos sistemas “legais” não prescindem do documento escrito. Para que você perceba o quanto a oralidade está presente na literatura escrita, vamos mencionar duas obras clássicas da literatura universal cuja importância para as sociedades ocidentais é inquestionável: A Ilíada e A Odisseia. Desde a origem desses textos, há um mistério sobre sua autoria. Ela costuma ser atribuída ao poeta grego Homero. Mas quem foi ele? Pouco se sabe sobre sua vida, ou mesmo se ele existiu de verdade. Há, inclusive, a hipótese de que Homero fosse 74 cego, um poeta popular que transmitia (oralmente) essas histórias, até que alguém as fixou pela escrita. A questão homérica, como ficou conhecida essa polêmica, levou muitos pesquisadores a desenvolverem teorias sobre o processo de composição dessas epopeias. Havia certa resistência em reconhecer a origem oral dessas importantes obras. Muito recentemente, estudiosos concluíram que, em A Ilíada e A Odisseia, há fortes indícios de um método oral de composição. Ou seja, o tipo de verso, as repetições, os epítetos, entre outras evidências, indicam um processo de composição oral. As histórias eram repetidas de memória, seguindo certo padrão mnemônico (FLACH, 2010). 75 Por que essa descoberta é revolucionária? Porque o fato de obras tão valorizadas nos círculos literários (nos quais a escrita era soberana) terem uma origem oral eleva a importância de uma literatura de transmissão oral. Além disso, indica uma relação estreita entre a oralidade e a literatura erudita e escrita, diferentemente do que se pensava até então. Basicamente, a origem oral desses textos indica a possibilidade de existir uma sistemática complexa e refinada nas produções orais. Até então, a literatura oral era vista como mais simples, menos dotada de artifícios. Os poetas orais eram considerados menos hábeis em suas composições. 10.2 Oralidade e performance Ao refletirmos sobre a literatura oral, precisamos destacar dois aspectos – de um lado, a materialização de uma voz e de um corpo que comunicam; de outro, a presença e a intervenção do ouvinte no momento em que o texto se constitui. Se você pensar no processo de produção de um texto cuja origem e divulgação se deem na escrita, vai perceber que seu autor produz segundo caraterísticas e modelos que considera adequados ao fim daquela obra. Ele tem em vista um público leitor a quem dirige seu texto. Trata-se de um trabalho individual e solitário. A realização plena desse texto se dá no momento em que é recebido pelo leitor e, efetivamente, lido. Ainda que tenha interpretações diversas e sentidos que podem se ampliar, o mesmo texto escrito pode ser lido diversas vezes, pelo mesmo leitor e/ou por vários leitores, que irão se deparar sempre com a mesma sequência linguística. Flach (2010) comenta que um texto oral se constrói na presença do ouvinte, leva em conta as reações deste e, ainda, incita-o a participar do processo composicional. Na oralidade, esse processo constitui um momento único, irrepetível. É impossível replicar aquele mesmo instante comunicativo do mesmo modo. 76 No texto oral, ao contrário do que ocorre no texto escrito, não se pode repetir a mesma sequência de palavras exatamente do mesmo jeito. Embora a história seja a mesma, por exemplo, quem a conta recorre à memória, improvisando certas partes, incluindo novos componentes, sendo influenciado por outras reações dos ouvintes. A ideia de autoria também precisa ser considerada em suas especificidades no que se refere à oralidade. Muitas das histórias orais que conhecemos (e repetimos) não têm um autor conhecido, já que adquirem sempre uma nova versão conforme são contadas. Em certa medida, há uma autoria coletiva, uma vez que os textos orais vão sendo contados e recontados. Mas, como cada performance é única, não se pode minimizar o talento de cada um que se apropria desses textos e dá vida a eles por meio de sua voz. O interesse e as características dos ouvintes também interferem no modo de contar e precisam ser contemplados por quem conta a história. Imagine como seria desagradável se a história contada não atraísse a atenção do público ou o tema não fosse de seu interesse. Mais do que na literatura erudita, na literatura popular, o público a quem o texto se dirige é plenamente conhecido (está diante de quem fala). Os exemplos e os costumes contidos nos textos populares devem atender às expectativas daqueles a quem se destinam, devem transmitir conhecimentos, interferindo, de algum modo, na vida de quem ouve as histórias (FLACH, 2010). A seguir, você vai ler duas versões de um conto popular chamado A Formiga e a Neve. Ambas foram registradas em livros, mas circulam por aí por meio da oralidade. 77 Conto 1 Uma formiga prendeu o pé na neve. “Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prendes!” Responde a neve: “Tão forte sou eu que o Sol me derrete”. “Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!” Responde o Sol: “Tão forte sou eu que a parede me impede”. [...] “Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!” Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva”. (COELHO, 1999, p. 85-86.) Conto 2 Uma vez uma formiga foi ao campo e ficou presa num pouco de neve. Então ela disse à neve: “Oh, neve, tu és tão valente que meu pé prendes?” A neve respondeu: “Eu sou valente, mas o sol me derrete”. Ela foi ao sol e disse: “Oh sol, tu és tão forte que derretes a neve, a neve que meu pé prende?” O sol respondeu: “Eu sou valente, mas a nuvem me esconde”. [...] Vai ao homem: “Oh, homem, tu és tão valente que matas a onça, que devora o cachorro, que bate no gato, que come o rato, que fura a parede, que para o vento, que desmancha a nuvem, que esconde o sol, que derrete a neve que meu pé prende?” – “Eu sou valente, mas Deus me acaba. Foi a Deus: “Oh, Deus, tu que és tão valente que acabas o homem, que mata a onça, que devora o cachorro, que bate no gato, que come o rato, que fura a parede, que para o vento, que desmancha a nuvem, que esconde o sol, que derrete a neve que meu pé prende?” Deus respondeu: “Formiga, vai furtar”. Por isso é que a formiga vive sempre ativa e furtando. (ROMERO, 1985, 108-109.) A história narrada nos dois contos é bem conhecida. Inclusive, a estrutura de conto cumulativo é um recurso próprio da oralidade, uma espécie de desafio à memória. A estrutura formular favorece a memorização e o encadeamento. Mesmo sendo textos narrativos, você pode perceber neles certo ritmo,dado tanto pelas repetições quanto pelas rimas. O primeiro conto foi coletado em Portugal. O segundo, no Brasil. Isso exemplifica a circularidade e a persistência da literatura popular, que vai se transformando e se adaptando ao longo do tempo e conforme a região. Entre ambos os contos, é possível notar certas regularidades e, também, diferenças. O conto 2 tem um final um pouco diferente, inclusive com a explicação sobre o motivo de a formiga estar sempre andando e carregando coisas. 78 Muito provavelmente, podemos atribuir essas diferenças às adaptações feitas pelos contadores das histórias, que levam em consideração o público a quem se dirigem e os hábitos do lugar. No conto português, há uma referência ao “carniceiro”, ou açougueiro, termo pouco usado no Brasil. Na versão brasileira, temos a “onça” como elemento regional. Como você pode constatar, a oralidade requer certa reprodução de formas fixas (como a sequência previsível nos contos), mas também envolve a memória, que adapta e recria essas formas, de modo a encantar e conquistar os ouvintes. 10.3 As fórmulas orais na escrita De acordo com Flach (2010), à medida em que compreende as relações entre oralidade e escrita, é preciso considerar as diferentes presenças da oralidade no texto. Assim, fique atento à seguinte divisão, que tem fins didáticos: literatura exclusivamente oral, literatura oral com registro escrito e literatura escrita com influência da oralidade. 10.3.1 Literatura exclusivamente oral É aquela transmitida de pessoa a pessoa, envolvendo a performance. Mesmo que as histórias sejam conhecidas e repetidas, possuem fontes diversas e não têm registro escrito ou autoria definida. Toda vez que um grupo de pessoas se reúne para ouvir uma história, estamos diante desse tipo de literatura, que se produz no instante da interação. O registro mais fiel, porém não plenamente completo, seria em vídeo. 10.3.2 Literatura oral com registro escrito Envolve as produções orais que são fixadas em coletâneas, antologias. Em geral, são histórias de amplo conhecimento, com várias versões. Seu registro, apesar de manter resquícios da oralidade, conta com a intervenção de quem faz a coleta (que não é, necessariamente, seu autor). Assim, essa pessoa pode optar, por exemplo, por utilizar a norma culta da língua ou uma variação mais coloquial. 79 Nesse item, podemos incluir as leituras coletivas, ou seja, aquelas leituras feitas a partir de um livro, destinadas à audiência de um grupo. No Brasil, por exemplo, no período colonial, as grandes fazendas dispunham de enormes livros com romances populares (importados da Europa). Como quase ninguém sabia ler, sempre que alguém se dispunha a fazê-lo, recebia a atenção de todos. Daí em diante, as pessoas iam repetindo oralmente as histórias que ouviram ler. Essa é uma das hipóteses que explica a existência de tantas narrativas envolvendo temas medievais no Brasil, onde, sabidamente, a cultura medieval não existiu (FLACH, 2010). Veja um trecho desses romances medievais que circulavam aqui no Brasil pela tradição popular dos cantadores: O cavaleiro Roldão Carlos Magno era irmão De uma gentil donzela Não houve naquele tempo Outra que fosse mais bela Era o orgulho da França E Berta era o nome dela Religiosa e composta Das belezas corporais Cheia de mil perfeições Dos dons espirituais E por isso o seu irmão Gostava dela demais Todos os príncipes vizinhos Desejavam sua mão Queriam mas tinham medo Do poder de seu irmão Ela empregou amizade Ao senhor duque Milão. (PROENÇA, 1986, p. 314.) Os versos se referem à lenda de Roldão (também conhecido como Rolando), na época da dinastia carolíngia, no século VIII. Na Europa, é famoso o poema épico La chanson de Roland, sobre o mesmo motivo. É interessante notar como esse tema, que circulava entre as elites das sociedades medievais como um elogio das virtudes do herói, chega à forma popular em um país cuja tradição cavalheiresca não se desenvolveu. 80 11 A FALA, A LEITURA E A ESCRITA 11.1 A relação entre a escrita e a leitura José Saramago afirmou: “Antes do interesse pela escrita, há um outro: o interesse pela leitura. E mal vão as coisas quando só se pensa no primeiro, se antes não se consolidou o gosto pelo segundo. Sem ler, ninguém escreve.” Imagine que você não tem experiência alguma na cozinha, mas precisa preparar uma receita (que encontrou na internet) para visitas bastante exigentes. Nessa receita, consta que você irá precisar de açafrão, curry, coentro e manjericão. Como você abre o seu armário e encontra apenas dezenas de pacotes de macarrão instantâneo (sua especialidade), chega à conclusão de que precisa ir ao mercado buscar esses ingredientes (e os demais, a menos que sua receita elaborada seja macarrão instantâneo com temperos). Chegando no mercado, encontra a seção de temperos, mas nenhum deles está nomeado. Como você vai identificar o que é cada um? Para pessoas inexperientes, açafrão e curry são muito parecidos. Coentro e manjericão, também. Logo, como você irá escolher os ingredientes? E sem eles, como fará a receita? Você resolve, então, tentar a sorte e escolhe alguns ingredientes. Chegando em casa, segue todos os passos e finaliza sua receita. Suas visitas chegam e você serve o seu prato, que, aparentemente está bem parecido com as fotos da internet. Após algumas garfadas, você percebe a insatisfação estampada no rosto das pessoas. Descobre, então, que em vez de açafrão, você comprou cúrcuma. E em vez de manjericão, comprou hortelã. Em outras palavras, sua receita não ficou como deveria estar. Refletindo sobre o infortúnio, você conclui, então que se quiser aprender a cozinhar, precisará, antes, aprender a identificar os ingredientes, ter contato com eles, saber a diferença entre um e outro. Dessa forma, aprimorando-se de suas prioridades e usos, você poderá, então, começar a aprender a cozinhar (passo a passo) e um dia, quem sabe, tornar-se um bom cozinheiro (ou pelo menos não confundir manjericão com hortelã). Existe, portanto, uma relação extremamente forte entre ingredientes e receita. Da mesma forma se dá com a escrita. É possível escrever sem conhecer as 81 palavras? E como conhecer as palavras sem ter contato com elas? E como não ter contato com elas a não ser pela leitura? As palavras, em nossa analogia, são nossos ingredientes; a leitura é o que nos coloca em contato com esses ingredientes, pois nos ensina sobre suas propriedades e seus usos. A escrita é, portanto, a execução de uma receita, ou seja, o produto que provém da leitura. Embora leitura e escrita possam ser consideradas atividades independentes (por muitos anos elas foram ensinadas independentemente no sistema escolar brasileiro), elas são, na verdade, intrinsecamente dependentes. A leitura influencia a escrita e a escrita influencia a leitura. Para se tornar um escritor proficiente é preciso, antes, ser um leitor proficiente (CORTINA, 2017). Pelo fato de a escrita ser um processo comunicativo, é preciso que ela seja eficiente e que cumpra determinados propósitos. Estes são provenientes de convenções que ditam o que é necessário para que a comunicação seja eficaz, e essas convenções são encontradas em outros materiais escritos, ou seja, acessados pela leitura. Ao tratarmos da escrita como convenção e entendermos que ela é compartilhada dentro de um certo grupo, podemos classificá-la como um produto cultural. A escrita não é uma prática que se adota – exclusivamente – dentro de contextos escolares, mas uma prática cultural, uma vez que textos estão presentes na nossa realidade de forma constante. Embora, antes de ingressar na escola, uma criança possa não conseguir decifrar os signos linguísticos e, portanto, ler e escrever, ela certamente já está em contato direto com aspalavras e com a leitura. Assim como toda forma de manifestação cultural, a escrita também precisa de padronização e manutenção. Essa manifestação se dá pelo produto da escrita, os textos, que são acessados por meio da leitura, formando, assim, um ciclo constante entre ler e escrever. 11.2 Estruturação Vamos pensar agora na leitura como forma de entretenimento, por meio da literatura. Quando se escolhe um livro para ler, se espera encontrar nele certos padrões linguísticos que tornarão a leitura fluída. Para isso, é preciso que o autor 82 tenha respeitado regras estruturais e, também, feito escolhas lexicais coerentes com o texto produzido. Sabemos que existem diversos gêneros textuais e que cada um deles aceita ou rejeita certos padrões. Seria muito estranho se este capítulo começasse, por exemplo, com “era uma vez”, pois você sabe que este material se classifica como acadêmico, e não como ficção. Você só conhece esses padrões por ter experiência com leitura, e, da mesma forma, o autor do texto só conhece esses comportamentos linguísticos também por intermédio dela. A estruturação textual, segndo Cortina (2017), é uma convenção linguística que se carrega e se transmite como hábitos. Parte-se de um modelo considerado canônico e passa-se a usá-lo como referência de forma, organização e até mesmo escolha de palavras para a produção de outros textos do mesmo gênero. Suponhamos que você nunca tivesse lido uma poesia, apenas escutado. E digamos que em uma atividade escolar a professora tivesse pedido para que você transcrevesse no papel uma poesia lida por ela. Será que você saberia como uma poesia se compõe no papel sem ter previamente visto a estruturação de uma? Será que conseguiria transcrever a leitura da professora em formas de versos, como se espera de um poema? Agora, vamos imaginar que você precise escrever um artigo acadêmico para submeter a um periódico. Se você não tivesse lido um artigo acadêmico, ou pelo menos entrado em contato com um previamente, será que conseguiria produzir o texto nos padrões corretos? E se o enunciado de um trabalho apenas constasse: “você precisa escrever um artigo sobre...”, será que você saberia diferenciar a estrutura de um artigo acadêmico de um artigo jornalístico? Só é possível reconhecer as diferentes estruturas textuais quando se tem contato com elas por meio da leitura. A criança, nos processos de alfabetização, começa a trabalhar com estruturas. Ela aprende o símbolo que representa cada letra, depois começa a identificar os sons que duas ou mais letras juntas formam; mais adiante, começam a formar letras, criar palavras e desenvolver frases. Após isso, com o passar do tempo, começam a escrever parágrafos, de parágrafos a textos e assim por diante. Cognitivamente, a única forma de uma criança aprender a escrever e formular frases e textos é por meio de um processo de imitação que provém, diretamente, da leitura. 83 A leitura serve não somente como um exemplo de grafia, mas como um “protótipo” para habilidades fonéticas. Durante o processo de alfabetização, é preciso uma constante repetição sobre a combinação das letras para que a criança internalize que B + A forma o som /ba/, por exemplo. Não basta apenas dizer uma vez, é preciso repetir. A leitura auxilia a formação fonética como uma ferramenta mnemônica que mostra para o leitor em formação que B + A forma /ba/, como na palavra “babá”. Nesse processo, a leitura (mesmo que a nível silábico) é tomada como um modelo instrucional a ser repetido e copiado. Além da leitura servir como modelo de organização de um texto, ela também auxilia o desenvolvimento cognitivo-linguístico das crianças (e até dos adultos que estão sendo alfabetizados), de forma que elas possam se basear nesses modelos como forma de organização de pensamentos e ideias de maneira coerente (CORTINA, 2017). 11.3 Léxico Pensemos agora não somente no nível estrutural da composição de um texto. Antes de entrarmos em detalhes sobre a relação entre leitura e escrita, vamos ponderar sobre o nível lexical de um texto. Certamente, podemos aprender (e aprendemos) diversas palavras novas por meio da comunicação oral. Logo, é possível dizer que a leitura não é necessária para que alguém aumente seu vocabulário. Podemos, por exemplo, escrever “casa” sem nunca ter lido a palavra, apenas por ter ouvido. Contudo, será que a palavra seria escrita com a grafia correta sem que nunca se tenha visto a palavra escrita? Pode ser que sim, mas também há chances de que ela seja escrita com grafias diferentes, como “kasa” ou “caza”. Obviamente, nossos conhecimentos da língua portuguesa nos fazem estranhar uma palavra que inicie com a letra K ou a letra Z no meio de duas vogais (por sabermos que o S tem som de Z quando posicionado entre duas vogais), mas será que saberíamos esses detalhes para todas as palavras? Pense agora na palavra “intrinsecamente”, ou em “ascensão”. Será que, apenas ao ouvirmos as duas palavras, saberíamos que “intrinsecamente” não se escreve com “i” (embora muitas vezes seja pronunciada como /intrinsicamente/)? E 84 “ascensão”? Saberíamos que é com SC e depois com um S? Quantas vezes já não caímos nas dificuldades das grafias com SC, com S, com SS, com Ç e todas as demais variações? Nós, como adultos, já carregamos uma bagagem linguística muito grande. Então, muitos leitores, enquanto leem este parágrafo, devem pensar: “isso não faz sentido. Não é assim que acontece.” Pois bem, os leitores deste capítulo possivelmente têm um grau de proficiência maior do que muitos outros e um conhecimento linguístico mais avançado. Contudo, pense em uma criança que acabou de iniciar seu letramento. Pense em você mesmo nas séries iniciais. Será que você saberia, eximiamente, a grafia de todas as palavras? Lembra-se de quantas vezes erramos algumas palavrinhas nos ditados que a professora passava? Ainda no nível lexical, existe um conceito linguístico conhecido como “opacidade”, termo que determina o quanto a língua falada difere da grafia escrita. Em outras palavras, quando falamos uma palavra e a escrevemos com letras que os sons emitidos não indicariam, como a letra H em “homem”, por exemplo. Logo, sabemos que existem muitas palavras que falamos de uma forma e escrevemos de outra. Por conseguinte, entrar em contato com a palavra escrita nos faz internalizar a ortografia das palavras e saber, por exemplo, que a primeira letra de “homem” é H, e não O. Tratando ainda do léxico, Cortina (2017) defende que a leitura também colabora para processos indutivos de formação de palavras. Muitas vezes, nos deparamos, em textos, com palavras cujo significado não sabemos. Contudo, pelo costume proveniente da leitura, conseguimos induzir o significado da palavra apenas por sua formação. Vamos exemplificar com a palavra “indubitavelmente”. Digamos que nos deparamos com essa palavra em um texto pela primeira vez. Embora possamos não saber exatamente o que ela significa, conseguimos deduzir sua definição apenas pela composição. Sabemos que o prefixo “in-” geralmente significa “sem”, que o sufixo “-vel” forma um adjetivo e que o sufixo “-mente” caracteriza um advérbio de modo. Lembramos também que a raiz “dubit” é bastante semelhante à palavra “dúvida”. Com essas informações (que podem vir às nossas mentes de forma quase imperceptível e bastante rápida), conseguimos concluir que 85 “indubitavelmente” significa “sem dúvida”. Esse processo e essa indução são provenientes, em grande parte, dos hábitos de leitura. Quando o significado da palavra pode não ser induzido pela sua formação, ainda existem outros recursos da leitura que auxiliam a expansão de vocabulário por um leitor: a significação pelo contexto e a significação pelo dicionário (CORTINA, 2017). Obviamente, a busca pelo significado de uma palavra em umdicionário depende, quase que exclusivamente, da leitura; portanto, não precisamos nos deter nessa questão. Entretanto, como ocorre a expansão de vocabulário pelo contexto? Isso não é um mito? Observe o seguinte parágrafo: “Martin estava com pressa. Ele corrovou para casa, de forma que seus passos eram apressados. O chão estava reberto de folhas caídas das árvores. A casa era grande e bonita e as paredes eram pintadas em um forte tom de jerdelo.” Com absoluta certeza, você não sabe o significado de pelo menos três palavras do parágrafo acima (corrovou, reberto e jerdelo) porque elas acabaram de ser inventadas. Porém, não saber o significado exato de cada uma delas certamente não impediu você de entender o significado macro do parágrafo. Embora você não conhecesse o que cada uma das palavras significa (até porque elas não existem), o contexto e as demais palavras das frases ajudaram você a supor que “corrovou” é, possivelmente, um verbo de movimento, como correu ou caminhou. Também lhe fez inferir que “reberto” deveria significar “coberto” ou “repleto de”, uma vez que falava sobre folhas caídas das árvores e também que “jerdelo” possivelmente fosse uma cor, por causa das palavras “forte tom de”. Dessa forma, você conseguiu entender o significado macro do parágrafo sem entender o significado de cada um de seus componentes. Esse processo só ocorreu por causa da bagagem de leitura acumulada cognitivamente por você. Junto com a formação das palavras, o contexto comunicativo sugeriu significações que lhe possibilitaram entender o todo. A formação contextual e o hábito de entender contextos e situações só ocorre por meio de leituras prévias. 86 11.4 Hábito e desenvolvimento Vamos imaginar agora que você, brasileiro, acaba de se mudar para os Estados Unidos e que se matriculou em uma escola. Na matrícula, foi pedido que você escolhesse um esporte como atividade eletiva. Na lista, você encontrou a opção “futebol americano” (vamos supor que a ficha estivesse em português só para os fins deste exemplo). Contudo, você nunca ouviu falar de futebol americano, mas supõe que ele deve ser parecido com o futebol brasileiro, e nesse você é craque. Chegando no primeiro dia de treino, o treinador pede que você vista um uniforme bastante estranho. Você logo pensa: “como esses americanos são diferentes, precisam até de capacete para jogar uma pelada”. Quando chega no campo, depara-se com a bola e observa que ela não é redonda, mas oval. Aí você começa a perceber que o tal do futebol americano não tem nada a ver com o futebol brasileiro com o qual está acostumado. Após uma hora de treino, você percebe que, embora o esporte não seja como imaginava, é algo que você gostou e decide, então, continuar a praticá-lo. Certamente, você não vai aprender todos os movimentos e se tornar bom no jogo em apenas um dia. Assim como em qualquer esporte, será preciso muita prática para que você se torne habilidoso. Além da prática, durante o jogo você não pode simplesmente supor os movimentos que devem ser feitos, pois deve também observar os outros jogadores, analisar padrões e comportamentos e tentar imitá-los. Você já era bom com o futebol brasileiro (embora, seguramente, precisou de prática para se tornar bom), agora terá a chance de se tornar bom com o futebol americano. Talvez você perceba que pode ser ótimo no esporte, ou depois de muito tentar observa que não nasceu para isso ─ pode até jogar, mas nunca vai ser tão bom quanto aqueles que praticam há anos. Assim também é a escrita em relação a leitura. Podemos ilustrar a escrita como um esporte: é preciso prática para que ela se torne proficiente e é preciso observação (leitura) de outros materiais escritos para que tome formas corretas. Podemos pensar também em gêneros textuais como diferentes modalidades de esportes. Você pode estar acostumado a escrever narrativas, mas ter dificuldades em escrever textos acadêmicos. O que vai lhe permitir escrever um ou 87 outro não é somente a prática, mas o contato com esses diferentes gêneros através da leitura. Ao levarmos em consideração que a escrita é um espelho da leitura, podemos concluir que escrever só é possível porque lemos e que a qualidade da nossa leitura implica, automaticamente, na qualidade da nossa escrita. 12 A IMPORTÂNCIA DA ADEQUAÇÃO NA PRODUÇÃO TEXTUAL A atividade de escrita, no entender de Antunes (2003), é uma atividade interativa de expressão, pois não deixa de envolver aquele que escreve e a quem ele escreve, uma vez que todo texto é produzido para ser lido por alguém. Nesse sentido, as palavras são pontes entre quem escreve e quem lê. Além disso, a autora (2003) lembra que a escrita sempre cumpre uma função comunicativa: pela escrita é possível informar, anunciar, advertir, lembrar, descrever, explicar, opinar, argumentar, instruir, resumir, documentar, fazer literatura, registrar e muitas outras funções. Por esse motivo, sempre que você for escrever um texto, deve lembrar da necessidade de adequá-lo ao objetivo, ao leitor e àquilo que pretende comunicar. Também é importante lembrar que a escrita compreende várias etapas, como o planejamento, a organização, a escrita em si, a revisão e a reescrita. A adequação ao vocabulário, ao estilo e ao suporte também são essenciais na hora de produzir um texto. Levando isso em conta, leia a história a seguir para inspirar sua jornada de estudos sobre o tema: 88 A história acima é contada por Squarisi (2011), em seu Manual de Redação e Estilo. A autora inicia seu livro com essa história para mostrar a importância da adequação na escrita. Quando iniciamos um texto, precisamos ter em mente seus objetivos, para quem se dirige e em qual suporte circulará. Assim, a história do Sultão nos mostra a importância do como dizer, ou seja, da adequação em um texto. Um texto acadêmico-científico certamente não será escrito da mesma forma que um artigo de jornal. De igual modo, quando publicamos algo na internet, adequamos à maneira de dizer, pois a internet exige síntese, exige uma linguagem mais simples. Tendo isso em vista, observe alguns critérios essenciais para escrever um texto adequado em qualquer situação. 12.1 Adequação discursiva e linguística A adequação discursiva, segundo Laginestra e Pereira (2014, p. 126), refere- se “[...] à conformidade do texto à situação de produção [...]”. 89 Segundo as autoras (2014), é preciso que o autor observe se o texto aborda o tema, se deixa claros os objetivos ao leitor e se está de acordo com a organização geral necessária. Um bom exemplo de como conferir a adequação discursiva encontra-se no Caderno do Professor da Olimpíada de Língua Portuguesa (LAGINESTRA; PEREIRA, 2014), relativo ao gênero crônica, que deveria ser produzido pelos alunos. Alguns dos critérios apresentados no Quadro 1, relativos à adequação, são utilizados na avaliação dos textos que concorrem à Olimpíada de Língua Portuguesa: O Quadro 1 também apresenta a adequação linguística, que está relacionada ao modo como a linguagem é empregada para construir a adequação discursiva. Segundo Laginestra e Pereira (2014, p. 126), é preciso que o autor observe se a 90 linguagem que foi utilizada está adequada aos objetivos do texto, estando “[...] a serviço da produção e da organização textual [...]”. 13 REVISÃO TÉCNICA 13.1 A importância da revisão textual A importância da revisão de textos pode estar diretamente ligada ao início da impressão tipográfica. Isso porque a passagem do texto manuscrito para o texto impresso fez com que um número maior de cópias fosse produzido, gerando, consequentemente, erros em maior escala. A revisão textual, no entanto, não deve ser restrita aos textos profissionais. Qualquer texto escrito pode e deve ser revisado. A atividade de revisão é, segundo Rocha (2012,p. 36), “[...] um processo de transformação da linguagem de um texto em outro para torná-lo mais inteligível [...]”. Isso aponta para a necessidade de, após redigir um texto, realizar sua leitura atenta para, então, reescrever o que for necessário. Por isso, Rocha (2012) fala em transformação, uma vez que nenhum texto permanece igual após uma boa revisão. Ao contrário do que geralmente se pensa, a revisão não se restringe a uma aplicação de regras gramaticais a um texto. Não basta ser conhecedor das regras, é preciso também entender que cada tipo de texto deve se adequar a uma linguagem, padrão e estilo diferente. Além de realizar uma revisão gramatical, é preciso, também, “[...] estar atento aos efeitos discursivo e de sentido no texto [...]” (Rocha, 2012, p. 36). Uma revisão gramatical está relacionada tanto à verificação de erros de ortografia, de falta ou duplicação de letras, sinais e espaços quanto à substituição de palavras repetidas, de períodos muito curtos, muito longos ou incompletos. Além disso, na hora de revisar um texto, é preciso perceber se ele faz sentido, se as ideias estão bem concatenadas e se há coerência entre as partes. 91 13.2 Roteiro para revisão textual Como você viu anteriormente, a revisão do texto é uma etapa importante da produção textual. Segundo Antunes (2003, p. 56), ela é o momento de [...] análise do que foi escrito, para confirmar se os objetivos foram cumpridos, se conseguiu a concentração temática desejada, se há coerência e clareza no desenvolvimento das ideias, se há encadeamento entre os vários segmentos do texto, se há fidelidade às normas da sintaxe e da semântica [...]. Tendo isso em mente, o momento de revisão é aquele em que você deve refletir: O texto é adequado ao público a quem se dirige? É adequado ao tema e ao objetivo a que se propõe? Há uma introdução do assunto a ser abordado? Há um bom desenvolvimento do conteúdo? Há um fechamento das ideias no último parágrafo? Quantos parágrafos o texto possui? Eles são suficientes para desenvolver o assunto? Há algum parágrafo que possa ser dispensável ou repetitivo? Há algum parágrafo com apenas uma frase? No que diz respeito à gramática: Os períodos são muito longos ou muito curtos? Os conectivos cumprem sua função? Estão empregados corretamente? Há algum erro de concordância verbal ou nominal? Os plurais estão empregados corretamente? Os gêneros das palavras concordam? Você possui dúvidas quanto à escrita de alguma palavra? Consultou um dicionário? Há crase em frente a palavras masculinas ou verbos? A pontuação do texto expressa aquilo que você quer transmitir? As vírgulas são excessivas ou estão em falta? Há palavras repetidas? 92 Há letras faltando em alguma palavra? O texto mistura as 1ª e 3ª pessoas? Em relação aos aspectos semânticos do texto: Há alguma frase que você gostaria de ter escrito de outra maneira? Algum trecho pode ser reagrupado ou separado para estar mais de acordo com o sentido que você gostaria de transmitir? Alguma frase não faz sentido? Há alguma ambiguidade? A linguagem está apropriada ao objetivo do texto? Como você pôde observar, a etapa de revisão é também o momento de testar seus conhecimentos sobre a língua, compreender se há dificuldade em algum aspecto e buscar melhorar. A seguir, você vai perceber que a etapa de reescrita caminha junto com o processo de revisão textual. 13.3 A importância da reescrita A etapa de reescrita é tão importante quanto a de revisão do texto. Isso porque você terá a oportunidade de, após rever o que foi escrito, confirmar suas escolhas. Ou seja, será possível avaliar a adequação do seu texto aos objetivos propostos e refazer aquilo que não estava adequado. Nesse sentido, o objetivo da reescrita não é apenas “passar a limpo” seu texto, mas sim repensá-lo e ter a oportunidade de escrevê-lo de modo mais adequado. Também não é desejado que a reescrita seja um processo de “consertos ortográficos”, ou seja, você não vai apenas revisar seus erros de escrita e reescrevê- los, mas sim repensar todo o texto, como você viu na etapa de revisão. Um dos mais interessantes recursos nas etapas de revisão e reescrita é exercitar o vocabulário, refletindo: isso poderia ter sido escrito de outro modo? Nesse exercício, você pode refletir se as palavras estão adequadamente empregadas àquela situação de comunicação, ao contexto, aos interlocutores, enfim, aos objetivos do seu texto. 93 Desse modo, podemos dizer que a reescrita é o fechamento do texto, a conclusão de um processo de produção que vai muito além do rascunho/escrita oficial. 14 ADEQUAÇÃO VOCABULAR A adequação vocabular é de extrema importância para a produção do texto. Isso porque as palavras possuem tanto poder que uma única palavra empregada de maneira errada pode fazer toda a diferença em um texto, tornando-o estranho, inadequado ou até mesmo incompreensível. Assim como você viu anteriormente, um texto deve ser adequado de diversas maneiras ao seu objetivo, e uma delas é o conjunto lexical escolhido para representá-lo. Veja agora alguns tipos de adequações necessárias para uma boa produção textual. 14.1 Adequação aos interlocutores Como você viu anteriormente, um texto é uma atividade interativa. Logo, dirige-se sempre a alguém e atende sempre a um objetivo específico de comunicação. Assim sendo, é preciso refletir sobre o interlocutor do seu texto ao escrevê-lo. Sobre isso, Carneiro (2001) traça quatro tipos de cenários aos quais devemos atentar na adequação vocabular aos interlocutores. São eles: Atividade profissional: é preciso saber que a linguagem utilizada em um determinado campo profissional, por vezes, não corresponde a outros. Logo, se você vai escrever um ofício de uma empresa de tecnologia destinado a um órgão público, não deve utilizar os jargões estrangeiros comuns a empresas desse ramo. Imagem social: se você é um estudante e escreve um e-mail a um diretor/ coordenador de curso da sua universidade, é adequado que utilize os pronomes de tratamento corretos e que mantenha um tom mais formal. 94 Idade: lembre-se que a língua varia com o tempo. Logo, uma pessoa idosa pode não compreender você plenamente se utilizar muitas gírias atuais. Origem/região: os regionalismos são muito difíceis de evitar na fala, pois muitas vezes estão naturalizados em nós. No entanto, na produção textual, é possível revisar seu texto procurando expressões típicas de uma região do País que dificultariam a comunicação com interlocutores de outras regiões. 14.2 Inadequações e sinônimos Na língua escrita — ao contrário da língua falada, que não exige rigor formal — deve-se buscar sempre a adequação à norma culta. No entanto, a língua não é rígida, portanto, não há um sentido único para uma palavra ou expressão, os sentidos dependem do contexto de uso. Nesse sentido, muitas vezes uma palavra parece inadequada a uma situação de comunicação, motivo pelo qual é necessário substituir por seus sinônimos. Sinônimos, ao contrário do que geralmente se pensa, não são palavras com sentido idêntico, mas sim, palavras que possuem sentidos semelhantes, que se adequam melhor a uma ou outra situação. Por esse motivo, por vezes, ocorrem inadequações vocabulares justamente por uso de sinônimos. Veja um exemplo trazido por Oliveira (2006): a) O gorila fugiu da jaula. O animal já foi capturado. b) O gorila fugiu da jaula. A fera já foi capturada. c) O gorila fugiu da jaula. O primata já foi capturado. O autor traz esses exemplos funcionando em uma notícia de jornal imaginária. Qual das opções você consideraria mais adequada a esse tipo de texto? Ou, ainda, qual dessas opções seria inadequada? Para o autor, a opção C não seria adequadapara o texto de notícia de jornal, pois “primata” seria um vocábulo muito específico da biologia, que poderia não ser adequado ao interlocutor (leitor do jornal) e ao gênero (notícia), uma vez que ambos os critérios possuem a simplicidade como foco. 95 Nesse exemplo, vemos o funcionamento do sinônimo podendo tanto salvar o texto como arruiná-lo. Outro exemplo de inadequação apresentado por Oliveira (2006) é: A Argentina tem mais turistas do que o Brasil. Observe que nesse caso não basta um sinônimo para tornar o texto adequado, pois aqui há um problema de incompatibilidade semântica entre o verbo “ter” e os países Argentina e Brasil. Um país não tem ou possui turistas, ele os recebe. Assim, o correto seria: A Argentina recebe mais turistas do que o Brasil. Pense novamente sobre a adequação relativa ao objetivo do texto. Muitas vezes, nesse âmbito, ocorre inadequações de informalidade excessiva em um texto formal. Veja mais um exemplo trazido por Oliveira (2006): A moleza da justiça tem uma explicação! Você percebe a informalidade desse enunciado? Ele poderia ser escrito em uma postagem de uma rede social, por exemplo, mas nunca em uma notícia de jornal ou em um artigo dissertativo. A adequação vocabular, portanto, não possui regras muito específicas a serem seguidas, pois sempre depende do contexto maior em que o texto é escrito. No entanto, é possível contar com o bom-senso e sempre revisar o texto após escrevê-lo. Assim, você garante que sua produção esteja sempre adequada. 15 GÊNEROS TEXTUAIS ACADÊMICO-CIENTÍFICOS Os gêneros textuais são motivados e estruturados a partir das necessidades de um grupo social. Dessa forma, algumas áreas apresentam certo número de gêneros textuais mais comuns ou de uso frequente. Pense, por exemplo, nas áreas 96 jurídica, médica, docente e publicitária. Nelas, são compostos e lidos textos como o acórdão, a petição; o laudo, a prescrição; o relatório, a prova, o parecer; a peça publicitária e o slogan. Assim, as áreas acadêmicas e científicas (geralmente juntas no Brasil) também apresentam gêneros mais comuns (PAIL, 2018). Resumo Um resumo é um texto que apresenta as ideias centrais de um texto/trabalho maior (doravante original). Nele não é apresentado juízo de valor e, em geral, não se fazem citações diretas ou indiretas. Isso porque o objetivo é prover informações centrais de outro texto de forma sintética e objetiva. Um resumo deve ser escrito de modo coeso e coerente, nunca em tópicos. Há dois tipos de resumo. O resumo descritivo apresenta descrição acerca do tipo de informação encontrado no original, sem indicar dados quantitativos ou qualitativos (MEDEIROS, 2003). Esse tipo de resumo tem no máximo cem palavras e é comum com livros e com filmes (sinopses), ou na submissão de trabalhos para eventos acadêmicos e científicos (dependendo sempre das regras desses eventos). Nesse caso, o resumo apresenta metodologia, escopo e objetivos. O resumo informativo precisa apresentar metodologia, objetivos, escopo, resultados e conclusões. Nele também são expostos os argumentos centrais encontrados no original. Esse tipo não ultrapassa, geralmente, 10% do tamanho do original, variando de uma disciplina para outra, de 250 (como em artigos) a 500 palavras (como em teses e dissertações). Resenha A resenha é um dos gêneros mais explorados no âmbito acadêmico, por exercitar a capacidade de resumir, analisar e criticar outro trabalho. De acordo com Fiorin e Savioli (2007, p. 426), “[...] resenhar significa fazer uma relação das propriedades de um objeto, enumerar cuidadosamente seus aspectos relevantes, descrever as circunstâncias que o envolvem [...]”, o que constitui a resenha descritiva. No caso de uma resenha crítica, há também “[...] apreciações, notas, correlações estabelecidas pelo juízo crítico”. 97 Artigo O artigo científico, uma das principais formas de publicação em revistas acadêmicas, trata de problemas científicos, apresentando o resultado de estudos e pesquisas (MEDEIROS, 2003). Pode-se classificar artigos em três categorias. Segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT, 2003), o artigo científico apresenta e discute ideias, métodos, técnicas, processos e resultados em diversas áreas do conhecimento. O artigo de revisão resume, analisa e discute informações que já foram publicadas. Já o artigo original apresenta temas ou abordagens inéditos. Monografia A monografia é um texto predominantemente dissertativo de autoria de uma única pessoa (o que dá origem ao nome). Nela se trata de um assunto de forma sistemática e o mais completa possível. Ela pode ser a demanda de um curso de graduação (chamada de trabalho de conclusão de curso — TCC) ou especialização, ou um dos requisitos para a obtenção dos graus de mestre (dissertação) e doutor (tese). A diferença entre esses textos está no grau de profundidade e complexidade (e, potencialmente, originalidade). Contudo, eles apresentam os mesmos componentes básicos e o mesmo ponto de partida (que também serve para o artigo científico): um projeto de pesquisa. O projeto de pesquisa é o plano a ser desenvolvido para a aplicação de uma proposta. Nele são especificadas as etapas da investigação, o tema (com delimitação), o problema, as hipóteses, os objetivos, a justificativa, o referencial teórico, os materiais necessários, a metodologia, o cronograma, etc. Outros gêneros Alguns outros gêneros relevantes a esse domínio discursivo são o ensaio, o fichamento e o mapa conceitual (PAIL, 2018). Esses dois últimos são ótimos para auxiliar o estudo, já o primeiro leva em conta o desenvolvimento da habilidade argumentativa. O ensaio é sobre um assunto, diferentemente de uma resenha, que é sobre um trabalho. No âmbito acadêmico, ele se caracteriza como “[...] uma exposição 98 metódica dos estudos realizados e das conclusões originais a que se chegou após apurado exame de um assunto [...]” (MEDEIROS, 2003, p. 246). Por sua vez, o fichamento é um levantamento bibliográfico sobre o assunto a ser pesquisado e estudado. Além das informações bibliográficas, são feitas anotações livres sobre o material, permitindo não só a organização das ideias, como sua recapitulação. O mapa conceitual é um organograma com informações sobre conceitos e termos e a relação entre eles. Ele é mais visual. Cada nó (que conterá um termo-chave ou um conceito) é ligado a outro por meio de uma palavra ou frase de ligação. Isso ajuda a sintetizar e organizar um assunto ou conteúdo. São importantes, ainda, o inventário acadêmico, que é um levantamento sobre assuntos e questões vinculados ao mundo acadêmico, tais como procedimentos, dados e fatos; e o relatório, a etapa final de atividades desenvolvidas em uma pesquisa. Nele é relatado o que foi feito e o que aconteceu, indicando local, data e envolvidos. Além desses, há alguns gêneros híbridos, que lidam com modalidades orais e escritas, como a comunicação e o pôster. A comunicação é uma apresentação oral de 15 a 20 minutos, com uso ou não de slides, vídeos, etc. Ela envolve inicialmente um resumo, para submissão e seleção de trabalho para um evento, e também posterior publicação de artigos (essa não é obrigatória, mas é importante). O pôster é uma apresentação visual e concisa de pesquisa, também acompanhada de fala, caso haja questionamentos por parte do público presente. 15.1 Como escrever É preciso pesquisa e organização para escrever qualquer texto, de qualquer gênero. Com algum conhecimento do assunto sobre o qual se vai escrever, se torna mais fácil organizar um plano para esse texto, um roteiro. Esse roteiro ajuda a manter a coerência do texto, a eleger os argumentos ou pontos mais relevantes, a avaliar se é necessário mais pesquisa e leitura. O que o gato de Cheshire dizpara Alice vale também para a produção textual: “se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”; ou seja, sem um planejamento claro, se torna fácil produzir um trabalho (seja texto, seja pesquisa) incoerente, confuso e/ou não conseguir levá- lo adiante. 99 15.1.1 Resumo Antes de começar qualquer resumo, é preciso conhecer o texto original. Se o texto original for de sua autoria, você pode começar elaborando seu roteiro de produção. Entretanto, com texto de autoria de terceiros, é preciso estudar o texto original primeiramente. O ideal é uma leitura prévia para se ter conhecimento do todo, conforme Fiorin e Savioli (2007). Essa leitura deve responder à seguinte questão: do que trata o texto? A partir dessa leitura, destaque as ideias e argumentos centrais do autor. Os resumos apresentam, primeiro, as informações mais importantes, preservando o estilo e a linguagem do original, por meio de palavras-chave e frases que identificam rapidamente o conteúdo e o foco do original. Como você pode imaginar, é necessária uma linguagem clara e objetiva. É preciso prestar atenção nos elementos principais do texto lido. De acordo com Koopman (1997), um artigo acadêmico-científico é composto pelos itens listados a seguir. Motivação: é a indicação da razão para se escrever sobre aquele assunto e desenvolver aquela pesquisa. Nessa parte é indicada também a relevância do assunto. Problema: consiste no problema que se procurou/procura resolver, bem como na abrangência (tema geral ou situação específica). Em certas situações, é indicado expor o problema antes, principalmente quando o público-alvo não tiver familiaridade com o assunto. Metodologia: consiste em como o trabalho foi realizado, quais procedimentos foram planejados e seguidos para resolver o problema, quais abordagens e modelos foram usados para a análise. Resultados: são os resultados a que se chegou. Também se pode descrevê- los de modo específico ou geral. Conclusão: discute as implicações das respostas a que se chegou com o trabalho, se os resultados são gerais, potencialmente generalizáveis ou específicos a um caso. 100 É importante incluir, ao final do resumo, as palavras-chave. Elas são indicadas em nova linha, com o termo “Palavras-chave” em negrito, seguido de dois pontos e com três a cinco palavras ou expressões que representem o assunto do trabalho. Cada uma delas deve ser separada das demais por ponto e vírgula ou por ponto. 15.1.2 Resenha Assim como para escrever um resumo, também é necessário estudo do trabalho alvo para a resenha. É importante uma leitura inicial para se ter conhecimento do todo (no caso de trabalhos escritos, já que se pode fazer resenhas sobre filmes, peças, etc.). Essa primeira leitura deve ser seguida de quantas outras forem necessárias para a elaboração da resenha (PAIL, 2018). A resenha descritiva contém duas partes, enquanto a crítica também apresenta apreciação. A seguir, você pode ver os elementos que compõem a resenha. Informações de referência: nome(s) do(s) autor(es); título completo e exato da obra (ou do artigo); nome da editora; lugar e data de publicação; número de volumes e páginas. Resumo (digesto): indicação do assunto da obra e da perspectiva teórica (ponto de vista), método, tom, etc. organização do trabalho (conteúdo dos capítulos ou das partes) Apreciação: julgamento crítico da obra; avaliação da relevância; posicionamento sobre se há originalidade; descrição do estilo do autor (conciso, prolixo, metódico, etc.). 101 15.1.3 Artigo Independentemente do tipo de artigo, ele possui mais ou menos os mesmos elementos, mas alguns deles podem apresentar uma ordem diferenciada, dependendo das normas de publicação e do meio a que se submete o trabalho. Os artigos apresentam: título do trabalho, autor, credenciais do autor, local das atividades, resumo (na língua vernácula ou estrangeira), corpo do texto (introdução, desenvolvimento e conclusão), referências. Tradicionalmente, qualquer gênero acadêmico deve ser escrito ou na terceira pessoa do singular (impessoal) ou na primeira pessoa do plural. Se for um texto sobre o trabalho de outra pessoa, prefira sempre a terceira pessoa. Se for sobre trabalho próprio, você pode escolher, mas lembre-se de manter a mesma pessoa em todo o texto. A linguagem deve ser clara e objetiva. Você também pode usar uma linguagem específica de determinada área quando o público é específico, ou uma linguagem menos técnica quando o texto é dirigido a leigos. Na introdução, são apresentados o contexto (precedentes) da pesquisa, o tema, os objetivos e a justificativa. Se for um artigo teórico-argumentativo (como é comum nas ciências sociais e áreas humanas), o desenvolvimento é mais livre. Entretanto, quando o artigo envolve experimentos, a estrutura é mais delimitada. Nesse caso, é preciso tratar de metodologia, resultados e discussão. Na metodologia, é descrito como foi feito o experimento, o local, as condições, o tamanho das amostras ou do corpus, o delineamento e os tratamentos, o controle das condições experimentais, as variáveis e o controle de variáveis, a análise estatística e o parecer da comissão de ética (quando for o caso). Nos resultados, estes são descritos, incluindo a análise estatística. Na discussão, é feita a relação entre hipóteses e resultados, implicações teóricas e práticas e a explicitação dos limites das conclusões, assim como recomendações para pesquisas futuras. Por último, são apresentadas as conclusões a que se chegou com a pesquisa (PAIL, 2018). 102 15.1.4 Monografia Independentemente do tipo de monografia, há três grupos de elementos que a compõe: pré-textuais, textuais e pós-textuais. Observe o Quadro 1. A introdução ajuda a guiar a produção escrita. Contudo, é fundamental que seja um dos últimos elementos a serem escritos. A introdução, assim como a conclusão, é sobre todo o trabalho e deve apresentar coesão e coerência. Na 103 introdução, você deve apresentar: objeto do trabalho e delimitação, objetivos, problema/problematização, hipótese(s), justificativa, metodologia, destaque de abordagens teóricas relevantes no texto, descrição de como o texto está organizado (quantos capítulos ou seções e sobre o que se fala em cada um). A maior parte desses elementos é estabelecida no projeto. Logo, se este tiver sido bem feito, boa parte de sua introdução estará encaminhada. Há dois tipos de objetivos. O objetivo geral é o resultado que se espera com a pesquisa/trabalho, isto é, “onde você quer chegar”. Os objetivos específicos são os passos que você precisa traçar para alcançar esse objetivo geral. Quaisquer que sejam os objetivos, eles são sempre expressos com verbos no infinitivo. A questão norteadora ou problema é o que você quer resolver, descobrir. A resposta provisória é a hipótese, que será corroborada ou refutada. É importante também informar qual é a relevância do seu trabalho, interna (importância teórica) e externa (prática), ou seja, a justificativa para o seu trabalho, o motivo pelo qual você está elaborando-o. Quanto à metodologia, é uma apresentação breve do método que foi utilizado para realizar a pesquisa, contendo também seu tipo (teórico-argumentativo, experimental ou de caso). O desenvolvimento é o centro do trabalho, a etapa em que se desenvolve a argumentação e a dissertação dos pontos principais a serem levantados. Ele deve apresentar a fundamentação teórica, a metodologia de modo completo, a discussão dos resultados e as hipóteses. Por último, há a conclusão, em que se deve retomar o que foi feito e os resultados obtidos, além de sumarizar as hipóteses, informando se foram ou não corroboradas. A conclusão também inclui perspectivas sobre o tema e o trabalho, como potencial aplicaçãoe assuntos a serem desenvolvidos ou aprofundados (PAIL, 2018). 15.2 Para que escrever Todos os gêneros textuais têm um propósito, isto é, uma razão pela qual são escritos. Eles atendem a uma função e aos objetivos de quem escreve. A seguir, você pode ver os propósitos dos gêneros textuais que estudou neste capítulo. Um resumo tem dois objetivos centrais, conforme informação do The Writing Center (c2018) da Universidade da Carolina do Norte: seleção e indexação. Ele ajuda os leitores a selecionar o texto original, por permitir avaliar se este é relevante 104 ou não a seus objetivos. Permite a bancos de dados indexar trabalhos maiores. Os resumos são escritos quando se vai submeter um artigo a uma revista; concorrer a financiamento de pesquisa; escrever uma proposta de livro, de capítulo de livro, de artigo para uma conferência; ou completar a tese ou a dissertação. Uma resenha, principalmente a crítica, permite à audiência (ouvinte, telespectador) ter uma ideia prévia sobre a qualidade do trabalho, não só sobre seu conteúdo ou relevância. As resenhas sobre filmes (críticas) apresentam um impacto sobre a audiência, podendo torná-la mais ou menos receptiva, valendo o mesmo princípio para obras literárias. Já no âmbito acadêmico, ajudam também a compreensão do leitor, como ocorre com as reviews. Para o resenhista, como já dito, a escrita de resenhas é um ótimo exercício. Por seu caráter crítico, elas auxiliam no desenvolvimento da discussão teórica de trabalhos maiores, como artigos e monografias. Os artigos servem, quando publicados, para divulgação e difusão de conhecimento. Além disso, permitem (no caso de estudos experimentais) a repetição das experiências para corroboração ou refutação dos resultados publicados. Eles também são usados para exercício e para avaliação em instituições de ensino. O TCC não é mais obrigatório, o que significa que cada instituição, cada curso, tem autonomia de colocá-lo como requisito. Já a dissertação e a tese são requisitos obrigatórios para obtenção de grau, ou seja, não dependem da instituição. É comum que esses textos sejam transformados em um ou mais artigos após a conclusão do curso, por sua extensão e seu escopo mais abrangente (PAIL, 2018). 105 16 REFERÊNCIAS ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 5. ed. São Paulo: Scipione, 1989. ADSHEAD, P. A galinha que sabia nadar. São Paulo: Brinque Books, 2008. AZEVEDO, R. Formação de leitores e razões para a literatura. In: SOUZA, R. J. (org.). Caminhos para a formação do leitor. São Paulo: DCL, 2004. ALMEIDA, M. A. Memórias de um Sargento de Milícias. Brasília: Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, [2009?]. ANDRADE, C. D. E agora, José? In: MARCELLO, C. Poema "E agora, José?" de Carlos Drummond de Andrade. [S. l.: s. n.], 2019. 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