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191 M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Capítulo 13 As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I Ao realizar um estudo sobre gestão do conhecimento, você deve ter percebido que há uma clara associação entre o conhecimento e o aprendizado. O aprendizado, individualmente, é um processo no qual se adquire conhecimento, além de habilidades e até formas de agir e prin- cípios que nortearão a vida das pessoas. Se no aprendizado individual já é complexo gerenciar esse processo, no âmbito organizacional pode-se considerar que se trata de um desafio ampliado. Assim, neste capítulo e no próximo, faremos uma imersão no tema organizações que aprendem, com ênfase no processo e nas discipli- nas que compõem essa aprendizagem. Tomaremos por base, nesse 192 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . estudo sobre aprendizado organizacional, principalmente o livro clás- sico de Peter Senge: A quinta disciplina. A arte e a prática da organiza- ção que aprende. Especificamente neste capítulo, abordaremos o que é a quinta disciplina e como promover a mudança de mentalidade em prol do aprendizado organizacional. Ao final desse estudo, você irá compreen- der o modelo de Peter Senge e sua quinta disciplina da aprendizagem organizacional e refletirá sobre sua relação com o contexto atual da administração. 1 O que é a quinta disciplina Neste livro, estudamos o aprendizado em alguns capítulos e, se fi- zermos uma retrospectiva, iremos recordar que é notória a necessidade de envolvimento para haver esse tão esperado aprendizado, o qual im- plicará mudança – de nível de conhecimento, de valores, de atitude. O aprendizado, portanto, sempre nos muda. A mudança, como também já estudamos, abala a zona de conforto e exige que o indivíduo tenha uma postura proativa em relação a passar pelo período de adaptação ao novo, compreendendo que sua performance terá uma queda tem- porária nesse processo de aprendizado e ajuste da própria curva de aprendizado. Prado, Silva Filho e Soffner (2008), ao citarem Rocha Neto (2003), relembram que a aprendizagem é uma capacidade que os seres huma- nos apresentam de fazerem, de modo cada vez mais aprimorado, o que eles não sabiam fazer antes. Então, a aprendizagem, indubitavelmente, implica mudança. Partindo da premissa de que não há como se manter igual quando se aprende, vamos iniciar a discussão sobre o que é preci- so para que a organização aprenda. Primeiro é preciso compreender que há diferenças entre o apren- dizado individual e o organizacional. Fleury (2001), apud Prado, Silva 193As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Filho e Soffner (2008), relembra que o aprendizado organizacional está mais associado a um modelo chamado cognitivista, que envolve aspec- tos objetivos e subjetivos, comportamentos e crenças que impactam no modo como o indivíduo aprende. Garvin (1993), apud Alvarenga Neto (2008), considera uma organização como inteligente quando ela não somente aprende, mas quando pode criar, adquirir e transferir o conhe- cimento aprendido. Logo, há aqui dois aspectos importantes para a compreensão do que é uma organização que aprende: ela se modifica e compartilha o conhecimento adquirido. Em uma analogia com o que foi discutido em capítulos anteriores, a organização que aprende consegue transformar, de forma eficaz, o conhecimento tácito em explícito e, ainda, estimula a criação do conhecimento tácito, em uma espiral positiva, como desta- cam Nonaka e Takeuchi (2008). A questão está em como a organização aprende. Senge (2013) afir- ma que o que distingue as organizações que não possuem caracterís- ticas em favor do aprendizado e as que aprendem é o domínio que estas últimas têm do que o autor chama de disciplinas. Sua definição de disciplina é “um caminho de desenvolvimento para a aquisição de determinadas habilidades ou competências” (SENGE, 2013, p. 44). IMPORTANTE Observe que o aprendizado é infindável. Sempre estamos aprendendo algo novo ou aprimorando algo que já aprendemos. Por isso, “praticar uma disciplina é ser um eterno aprendiz” (SENGE, 2013, p. 45). As disciplinas defendidas por Senge como essenciais ao aprendiza- do organizacional abrangem cinco pontos vitais: 194 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Figura 1 – Disciplinas da aprendizagem organizacional Pensamento sistêmico Domínio pessoal Disciplinas de aprendizagem organizacional Modelos mentais Visão compartilhada Aprendizado em equipe Quinta disciplina permite o encadeamento das outras quatro disciplinas Fonte: adaptado de Senge (2013). 1.1 Domínio pessoal Na visão de Senge (2013), o domínio pessoal é a disciplina que apro- funda a visão do indivíduo, permite-lhe concentrar energia no que almeja e ter paciência para alcançar a meta desejada e concretizar resultados. Uma palavra bastante importante, aqui, é comprometimento. As pessoas que têm domínio pessoal são comprometidas com seu próprio aprendi- zado e, no dizer de Senge (2013, p. 39), essa disciplina é “uma pedra de toque essencial para a organização que aprende – seu alicerce espiritual”. Desenvolvendo um pouco mais essa ideia de alicerce, é preciso re- lembrar que o aprendizado depende não somente de acesso a meios para adquirir conhecimento; ele depende, e muito, de atitude. Uma or- ganização com pessoas que têm atitude para o aprendizado e estão 195As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. conscientes de que esse aprendizado requer tempo, dedicação e es- forço é uma organização propensa à aprendizagem como grupo. Essa atitude de querer aprender como organização irá envolver esforços con- juntos em prol do enfrentamento da mudança em todos os âmbitos. 1.2 Modelos mentais Modelos mentais são a forma com que as pessoas enxergam o mundo à sua volta, os chamados pressupostos que nos levam a agir de determinada maneira, derivada dessa forma de ver o mundo. Para Senge (2013), os modelos mentais são trabalhados quando as pessoas começam a trazer à tona as imagens que carregam internamente. A importância de aflorar essas imagens está em que somente com elas expostas é que será possível sua análise e a consequente compreen- são de como tais imagens moldam as decisões do ser humano (CHOO, 2002 apud ALVARENGA NETO, 2008). 1.3 Visão compartilhada Essa disciplina está associada ao compartilhamento da visão que parte de uma liderança e é disseminada pela organização. Saber com- partilhar uma visão, tornando-a comum a um grupo, é uma poderosamaneira de incentivar a participação e estimular o engajamento. Quando há envolvimento verdadeiro, não é necessário exigir que uma pessoa faça algo na organização, isso ocorre de maneira natural. Senge (2013, p. 42) usa uma expressão bem pertinente ao que que- remos demonstrar no que diz respeito ao conceito de visão comparti- lhada: “quando existe uma visão genuína [...] as pessoas dão tudo de si e aprendem, não porque são obrigadas, mas porque querem”. A vi- são compartilhada envolve, claramente, a socialização (conversão do conhecimento tático em novo conhecimento tácito), como destaca Carvalho (2012), ao apresentar uma visão geral do modelo SECI, de Nonaka e Takeuchi (2008). 196 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . NA PRÁTICA A unidade cearense da Empresa Brasileira de Consórcios – Embracon buscou construir a visão compartilhada em sua organização, visando à perenidade por meio do comprometimento dos funcionários. Estudo realizado por Leite et al. (2015) demonstra que, por meio de divulgação de sua visão, sua missão e seus valores, de forte comunicação interna, de política de portas abertas e de práticas de acolhimento e envolvimento dos funcionários e entre eles, a empresa obteve um resultado que indica alto nível de satisfação e comprometimento da parte dos funcionários, relações afetivas estreitas entre chefes e subordinados e visão comum compartilhada, levando as pessoas a querer permanecer na organização. Tem interesse em saber mais? Detalhes desse estudo podem ser obtidos no artigo “Visão compartilha- da e comprometimento organizacional: um estudo de caso na EMBRA- CON – Empresa Brasileira de Consórcios”. Revista de Administração da UFSM, v. 8, n. 3, p. 482-498, jul-set. 2015. 1.4 Aprendizagem em equipe Aprender em equipe exige saber compartilhar e ter espaço para esse compartilhamento. Podemos afirmar que a aprendizagem em equipe é uma combinação da conversão de conhecimento tácito em tácito (a socialização do modelo SECI), com o contexto capacitante (Ba), de Nonaka e Takeuchi (2008). Senge (2013) preocupa-se com a aprendizagem em equipe porque entende que o resultado pode ser muito melhor quando há aprendiza- do coletivo. Esse resultado, ademais, não é apenas melhor do ponto de vista coletivo. As pessoas que participam do aprendizado em equipe também se desenvolvem mais e mais rapidamente do que se tiverem um aprendizado individual. 197As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. PARA PENSAR Se o aprendizado em equipe gera resultados melhores e mais rápidos, por que é mais difícil obtê-lo na prática organizacional? Será que as exi- gências de resposta no curto prazo e por resultados imediatos não são bloqueadores desse aprendizado? Diversas podem ser as respostas que você talvez tenha encontrado. Recordando o que vimos estudando, há facilitadores de aprendizagem e há bloqueadores. Um dos mais importantes facilitadores é o diálogo, no compartilhamento de ideias; por sua vez, o inverso, o monólogo, as deci- sões estritamente top down em empresas impositivas e controladoras, em geral são fatores limitantes da aprendizagem, porque, além de impe- direm a troca de ideias, desmotivam a criatividade e minam o interesse e o envolvimento. Logo, é mais difícil ocorrer o aprendizado em equipe nos locais nos quais predominam esses fatores bloqueadores. Cumpre ressaltar que o aprendizado organizacional é algo maior do que o aprendizado em grupo. Fleury (2001), apud Prado, Silva Filho e Soffner (2008), relembra que a aprendizagem ocorre em três distintos níveis: o primeiro é o nível do indivíduo; o segundo, o do grupo, por meio de um compartilhamento do aprendizado individual; e o terceiro, o ní- vel organizacional, em que a aprendizagem ocorre entre os grupos de forma institucionalizada e podem ser encontrados os quatro modos de conversão do modelo SECI, de Nonaka e Takeuchi (2008): • a socialização (conversão do conhecimento tácito em tácito, de indivíduo para indivíduo); • a externalização (conversão do conhecimento tácito em explícito, do indivíduo para o grupo); • a combinação (conversão do conhecimento explícito em explíci- to, entre grupo e organização); • a internalização (conversão do conhecimento explícito em tácito, da organização para o indivíduo). 198 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . A figura 2, a seguir, resume essa ideia: Figura 2 – O processo de aprendizagem em níveis e o modelo SECI Aprendizagem organizacional Aplicação dos quatro modos de conversão do modelo SECI Aprendizagem grupal Do tácito para o explícito e do explícito para o explícito Aprendizagem individual Do tácito para o tácito Fonte: adaptado de Senge (2013); Carvalho (2012); Nonaka e Takeuchi (2008). 1.5 Pensamento sistêmico – a quinta disciplina Pensamento sistêmico é uma capacidade bastante especial para as organizações que aprendem. Senge (2013, p. 39) o conceitua como “um quadro de referência conceitual, um conjunto de conhecimentos e ferra- mentas desenvolvido ao longo dos últimos cinquenta anos para escla- recer os padrões como um todo e ajudar-nos a ver como modificá-los efetivamente”. O pensamento sistêmico é o que dá a liga às outras quatro discipli- nas que estudamos aqui. De forma sucinta, é o que propicia a compre- ensão de que “a soma das partes pode exceder o todo” (SENGE, 2013, p. 47). De maneira prática, o pensamento sistêmico é o que nos permite ter uma visão holística da organização e do ambiente que a cerca. Ao realizar a associação entre as quatro disciplinas anteriormente descri- tas, o pensamento sistêmico associa teoria com prática, permitindo à organização aprender. 199As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Somente organizações que aprendem conseguem compreender o mundo como algo interligado, ir além dos limites interdepartamentais ou locais e entender os fenômenos da maneira como de fato eles são: um conjunto de fatores que estão associados e, havendo um impacto em um, todos os demais poderão sofrer consequências. Note que, em geral, as organizações tendem a analisar um proble- ma de maneira isolada – trata-se de um problema no departamento de marketing, uma situação problemática no departamento financeiro, e assim por diante. As situações da vida real nunca são problemas que podem ser contidos em caixinhas, logo, é preciso compreender as inter- ligações, nem sempre aparentes, existentes entre os problemas. É isso que o pensamento sistêmico faz, nos permite compreender a inter-rela- ção entre fenômenos, bem como ter uma visão de futuro. A figura 3 apresenta uma síntese da relação entre o pensamento sis- têmico e as demais disciplinas: Figura 3 – Relaçãoentre as quatro disciplinas e o pensamento sistêmico de Senge Domínio pessoal – estimula o aprendizado contínuo de como nossas ações afetam o mundo Visão compartilhada – estímulo ao comprometimento e compromisso de longo prazo Modelos mentais – mostram os limites da forma como compreendemos o mundo Pensamento sistêmico – permite plantar a semente da visão em terreno fértil, estimula a crença de que a visão de futuro pode ser realidade, permite compreender os modelos mentais e como os indivíduos aprendem Aprendizagem em equipe – busca da visão do todo, que é maior que a visão individual Fonte: adaptado de Senge (2013). 200 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . 2 Como promover a mudança de mentalidade em prol do aprendizado organizacional Você pode constatar que o pensamento sistêmico, como elemento agregador de modelos mentais, visão compartilhada, aprendizagem em equipe e domínio pessoal, envolve, por sua vez, uma mudança no modo de pensar, porque cada disciplina estudada está relacionada a um que- rer executar algo, a uma modificação de padrão, a um jeito diferente de compreender o que ocorre em seu entorno. Como apresentado anteriormente, estamos acostumados a analisar os problemas que se apresentam de forma compartimentada; consi- deramos os eventos que ocorrem, mas não os inter-relacionamentos entre esses eventos. Identificamos partes do problema, porém não o problema como um todo. Por causa dessa visão não sistêmica, linear, não conseguimos, muitas vezes, atingir a causa raiz de um problema e seguimos lidando com as folhas. O que fazer, então, para que haja uma alteração nesse padrão, pre- sente na maior parte das organizações? Para que ocorra um círculo virtuoso que agregue as cinco disciplinas e traga aprendizado organi- zacional é preciso haver o que Senge (2013) denomina de mudança de mentalidade, ou metanoia. A palavra metanoia merece um adendo aqui, porque traz uma asso- ciação bastante forte com o aprendizado. De origem grega, a palavra representa algo que vai além da mente. No dicionário, significa “modo novo de conceber ideias, de se comportar, de enxergar a vida e a realida- de” (DICIONÁRIO, 2017). A metanoia é, portanto, uma espécie de conver- são, uma mudança profunda do modo de agir, intimamente relacionada com a ideia de aprendizagem que Senge (2013, p. 49) defende: “A ver- dadeira aprendizagem chega ao coração do que significa ser humano. Através da aprendizagem, nos recriamos [...] tornamo-nos capazes de fazer algo que nunca fomos capazes de fazer”. 201As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. PARA SABER MAIS A palavra metanoia tem um conceito bastante amplo, mas representa, fundamentalmente, um modo diferente de agir. Para saber mais sobre a aplicação desse conceito no mundo dos negócios, você pode ler o livro Metanoia: um novo olhar sobre a liderança e os negócios, de Roberto Adami Tranjan. São Paulo: Palavra Acesa Editora/Gente Editora, 2012. Essa mudança de mentalidade envolve “ver inter-relacionamentos, em vez de cadeias lineares de causa–efeito; ver processos de mudança, em vez de simples fotos instantâneas” (SENGE, 2013, p. 134). Tudo tem início com o reconhecimento de padrões ou estruturas que se repetem – a esse reconhecimento, Senge (2013) denomina feedback. Feedback significa, nesse contexto, o reconhecimento de um padrão, ou estrutura, recorrente em uma questão, ou seja, é a demonstração de como uma ação pode reforçar ou neutralizar outra, em um “fluxo recíproco de influ- ência” (SENGE, 2013, p. 37). Vamos a um exemplo: A organização não está vendendo muito, e o dono decide contratar mais pessoas a fim de vender mais produtos. Esse é um raciocínio line- ar, que tem a seguinte estrutura: Figura 4 – Fluxo recíproco de influência Maior volume de vendas Baixo volume de vendas Avaliação do número de vendedores O pensamento sistêmico nos faz encontrar círculos de influência, o que condiz com a complexidade dos problemas que ocorrem na vida real. Precisamos encontrar quais são os fluxos de influência, com o pro- pósito de identificar os padrões que irão se repetir e afetar o problema, seja para maior, seja para pior. No exemplo: observe que ter um bai- xo volume de vendas não é consequência de ter poucos vendedores. 202 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Posso contratar mais profissionais de venda e não ter um aumento do número de vendas, até porque a causa não necessariamente é a baixa quantidade de vendedores. Posso ampliar o volume de vendas não ape- nas com a contratação de mais vendedores, mas também com outras ações, como verificar a ação da concorrência e fazer ajustes no produ- to. Aliás, é mais prudente primeiro verificar como está a concorrência, qual a demanda real pelo meu produto e o que me permite ajustá-lo para, aí sim, contratar mais vendedores. O pensamento sistêmico per- mite identificarmos a complexidade das relações e termos um feedback mais genuíno. Figura 5 – Diagrama sistêmico Ampliação do volume de vendas Baixo volume de vendas Verificação da ação da concorrência Ajuste do produto Contratação de mais vendedores Fonte: adaptado de Senge (2013). Observe que há um círculo de causalidade – não há uma única cau- sa para o baixo volume de vendas, e a relação entre as ações pode ser lida de distintas maneiras: posso começar com um ajuste no produto, 203As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. posso começar pela verificação da ação da concorrência, posso até contratar mais vendedores antes de tudo, mas o fato é que a realidade é mais bem representada pelo círculo, porque ela é circular. Os fatos são causa e consequência, a linguagem da realidade é uma figura geométri- ca mais complexa do que a reta linear à qual nos acostumamos. Note que, no círculo de causalidade, não há um culpado, como o pen- samento linear nos faz crer – neste, claramente o “culpado” pelo baixo volume de vendas é o número diminuto de vendedores; ao ampliar o quadro, automaticamente a empresa pensa que terá mais vendas; con- tudo, esse raciocínio pode não corresponder à verdade. Por sua vez, no raciocínio sistêmico, encontra-se uma série de fatores que podem levar à ampliação do volume de vendas; por conseguinte, não há um único responsável ou um “culpado”. Os problemas são complexos e dinâmi- cos, apresentam uma inter-relação e precisam de um raciocínio sistê- mico e de tempo para dar conta de abarcá-los e resolvê-los de forma mais efetiva. Em suma, “toda influência é ao mesmo tempo causa e efeito. Nada é sempre influenciado em apenas uma única direção” (SENGE, 2013, p. 137); a estrutura, ao mesmo tempo em que leva a um comportamen-to, isto é, à causa, é também influenciada por ele, o que significa sofrer a consequência do ato e ser modificada. Assim, todos os participantes têm uma responsabilidade compartilhada pelos problemas advindos do sistema. Por se tratar de um sistema, ele irá influenciar e ser influenciado por seus componentes, como a clássica lei da física “a toda ação, correspon- de uma reação”. Para Senge (2013) haverá, pois, dois tipos de feedback nesse sistema: o de reforço, que impulsiona à ação e é considerado propulsor do conhecimento, e o de equilíbrio, que gera a reação a fim de manter a estabilização do sistema. No exemplo dado anteriormente, o feedback de reforço levaria à contratação de mais profissionais de ven- das e, com a ampliação dos resultados, poderia haver mais incentivo à 204 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .contratação de mais vendedores, até um ponto em que o sistema iria reagir, indicando saturação, e haveria um feedback de equilíbrio, redu- zindo a força de vendas. Um último ponto que envolve a mudança de mentalidade é o tempo de defasagem, ou seja, o espaço temporal entre a ação tomada e a re- ação ou o resultado esperado. Quanto menor o tempo de defasagem, maior será a probabilidade de redução do problema e de alcance da meta ou do resultado desejado. É simples: se, por exemplo, aumenta- mos o número de vendedores achando que aumentaremos o volume de vendas de determinado produto e isso não acontece, podemos ser tentados a diminuir o número de vendedores e, como ao mesmo tempo estamos melhorando nosso produto ou verificando a concorrência, po- deremos ter uma procura maior pelo produto e não estaremos prontos para atender à demanda, gerando insatisfação e perda de vendas, em um efeito contrário ao que desejávamos. Considerações finais Estudamos, neste capítulo, o modelo de Peter Senge e sua quinta disciplina da aprendizagem organizacional, o pensamento sistêmico. Este funciona como fator agregador das disciplinas que estimulam o aprendizado organizacional, quais sejam: modelos mentais, visão com- partilhada, aprendizagem em equipe e domínio pessoal. A fim de que essa agregação ocorra, é preciso uma mudança profunda de mentali- dade, ao que chamamos de metanoia. A metanoia implica compreender que o mundo não é linear e que as relações entre causa e consequência tampouco são simples e dire- tas. Envolve o reconhecimento, também, de que não há um único res- ponsável por um problema – o problema é dinâmico e complexo; para resolvê-lo, é preciso reconhecer que há uma estrutura por trás de cada problema. Essa estrutura deve ser reconhecida por meio do feedback, 205As organizações que aprendem: modelo de Peter Senge – Parte I M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. isto é, da demonstração da clássica lei da física de que a toda ação cor- responde uma reação. O feedback pode ser de reforço (estímulo à ação) e de equilíbrio (reação para manter o sistema estabilizado), e tanto um quanto o outro serão influenciados pelo tempo de defasagem entre a ação e a consequência; quanto menor o tempo de defasagem, melhor será a possibilidade de haver a resolução do problema de forma mais assertiva. Você também identificou quanto o raciocínio linear e a busca de resultados de curto prazo podem levar a organização a um resultado diferente, em geral oposto, ao que era o esperado. A mudança de men- talidade exige a adoção do pensamento sistêmico e das quatro disci- plinas, aplicando-os em um círculo sistêmico que permite encontrar as diversas relações de causa e consequência presentes no dia a dia das organizações. No próximo capítulo, daremos prosseguimento ao estudo aprofun- dado dos modelos mentais e de como aplicar a aprendizagem em equi- pe e a visão compartilhada, reforçando os elementos essenciais para o exercício da quinta disciplina em prol do aprendizado organizacional. Referências ALVARENGA NETO, Rivadávia Correa Drummond de. Gestão do conhecimento em organizações: proposta de mapeamento conceitual integrativo. São Paulo: Saraiva, 2008. CARVALHO, Fábio Câmara Araújo de. Gestão do conhecimento. São Paulo: Pearson, 2012. LEITE, Ana Maria Andreazza Araújo et al. Visão compartilhada e comprometi- mento organizacional: um estudo de caso na EMBRACON – Empresa Brasileira de Consórcios. Revista de Administração da UFSM, v. 8, n. 3, p. 482-498, jul./set. 2015. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/reaufsm/article/view/10866/ pdf>. Acesso em: 31 jul. 2017. https://periodicos.ufsm.br/reaufsm/article/view/10866/ 206 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .METANOIA. In: Dicionário Online de Português. 2017. Disponível em: <https:// www.dicio.com.br/metanoia/>. Acesso em: 28 jul. 2017. NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. Gestão do conhecimento. Tradução Ana Thorell. Porto Alegre: Artmed, 2008. PRADO, Viviane Crevelari do; SILVA FILHO, Cândido Ferreira da; SOFFNER, Renato Kraide. As organizações que aprendem. In: SILVA FILHO, Cândido Ferreira da; BENEDICTO, Gideon Carvalho de (Org.). Aprendizagem e gestão do conhecimento: fundamentos teóricos e experiências práticas. Campinas: Editora Alínea, 2008. 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