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VEJA 2 783 (ISSN 0100-7122), ano 55/nº 13. VEJA é uma publi ca ção sema nal da Editora Abril. Edições ante rio res: Venda 
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Editora Executiva: Monica Weinberg Editor Especial: Daniel Hessel Teich Editor Sênior: Marcelo Marthe 
Editores: Amauri Barnabe Segalla, André Afetian Sollitto, Carlos Eduardo Valim Banhos Henrique, Cilene Gomes 
Pereira, Clarissa Ferreira de Souza e Oliveira, José Benedito da Silva, Raquel Angelo Carneiro, Sergio Roberto Vieira 
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Carrasco Serviços Internacionais: Associated Press/Agence France Presse/Reuters
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Redação e Correspondência: Rua Cerro Corá, 2175, lojas 101 a 105, 1º e 2º andares, Vila Romana, São Paulo, SP, CEP 05061-450
IMPRESSA NA PLURAL INDÚSTRIA GRÁFICA LTDA. 
Av. Marcos Penteado de Ulhôa Rodrigues, 700, Tamboré, Santana de Parnaíba, SP, CEP 06543-001
carta ao leitor
1 | 4
A históriA se repete
Fotos: Renato pinheiRo/divulgação petRobRas; RicaRdo stuckeRt/pR
GiGante corporativo avaliado em quase 90 bilhões 
de dólares, a Petrobras é uma empresa peculiar sob vários as-
pectos. Apesar de ter como seu principal controlador o gover-
no brasileiro, trata-se de uma companhia de capital aberto e 
ações negociadas em bolsa, num regime misto, com milhões 
de acionistas no Brasil e no exterior. Sua mais recente estraté-
A pesAdA mão estAtAl 
Getúlio Vargas na criação da 
Petrobras e Lula e Dilma: 
intervenções temerárias 
provocaram prejuízos e perdas 
para o próprio governo
2 | 4
gia de negócios alinha a política de preços às cotações do pe-
tróleo no exterior, uma forma de garantir a própria sobrevi-
vência, bem como evitar riscos de desabastecimento no mer-
cado nacional, que ainda depende de 30% de importação do 
produto e seus derivados. Infelizmente, desde sua criação, em 
1953, por Getúlio Vargas, ela sempre foi alvo da ingerência 
dos governantes, como aconteceu durante a gestão petista, 
quando acabou engolfada no escândalo do chamado petrolão.
Nas últimas semanas, tal roteiro de interferência gover-
namental novamente se repetiu. O aumento no preço inter-
3 | 4
nacional dos combustíveis a partir da crise deflagrada na 
guerra da Ucrânia levou o governo a pôr a Petrobras na mi-
ra do presidente da República, Jair Bolsonaro. Preocupado 
com os reflexos que a política de preços da empresa possa 
ter no humor do eleitorado às vésperas da eleição, ele ado-
tou, em um primeiro momento, um discurso hostil em rela-
ção à companhia e seus dirigentes, responsabilizando-os di-
retamente pelo alto custo da gasolina, do gás de cozinha e 
do diesel. Em um segundo passo mais radical, abandonou as 
ameaças e vitupérios disparados em suas lives para encam-
par a intervenção explícita na empresa, ao anunciar a demis-
são de seu presidente, o general Joaquim da Silva e Luna, 
depois de uma constrangedora fritura pública.
Nomeado pelo próprio Bolsonaro há um ano para substi-
tuir Roberto Castello Branco, que ocupava o cargo desde o 
início do governo, Silva e Luna havia presidido a Itaipu Bi-
nacional e suportou com disciplina militar os ataques do pre-
sidente. Na semana passada, logo depois da confirmação de 
sua saída, ele falou a respeito do assunto em entrevista ex-
clusiva a VEJA, publicada nesta edição. Em tom emociona-
do, o general detalhou os episódios em que Bolsonaro tentou 
influenciar os rumos da empresa e impor medidas temerá-
rias — todas refutadas. Tal zelo com a governança corpora-
tiva, contudo, acabou levando ao seu desligamento. 
Em obediência aos ritos que regem a Petrobras, seu novo 
número 1 só deve ser empossado no dia 13 de abril, quando 
ocorre a próxima reunião do conselho. O economista Adria-
4 | 4
no Pires, 64 anos, é o indicado do governo ao posto e deve 
tornar-se o quadragésimo presidente da petroleira. Respei-
tado por suas posições equilibradas e alinhadasaos princí-
pios liberais, Pires foi bem-aceito pelo mercado. Tomara 
que em sua gestão à frente do colosso petrolífero ele tenha 
mais sorte (e tranquilidade) que seu antecessor. ƒ
https://realestate.jhsf.com.br/?utm_source=qrcode-veja&utm_medium=cpm&utm_campaign=app&utm_term=revistaveja
A políticA 
dA fricção
Ex-ministro da Cidadania diz que ações do governo 
evitaram uma catástrofe social durante a pandemia 
e afirma que o Judiciário está provocando 
desequilíbrio entre as instituições
Laryssa Borges
s
er
g
io
 d
u
tt
i
1 | 10
entrevista João roma
Quando assumiu o Ministério da Cidadania, em feve-
reiro de 2021, João Roma nem sequer conhecia o presiden-
te Jair Bolsonaro. Aos 49 anos, deputado de primeiro man-
dato, ele foi indicado ao cargo pelo Republicanos, um dos 
partidos do chamado Centrão, que havia acabado de fechar 
uma aliança política com o governo. A crise provocada pe-
la pandemia transformou uma pasta de pouquíssima visibi-
lidade até então na principal e talvez mais importante vitri-
ne do governo, especialmente em ano eleitoral. Seu princi-
pal programa, o auxílio emergencial, mitigou um tsunami 
social de consequências imprevisíveis. No embalo, o gover-
no também reformulou o programa Bolsa Família, que 
agora se chama Auxílio Brasil, aumentando o valor do be-
nefício e incluindo 3 milhões de famílias, além das mais de 
14 milhões já cadastradas. Bem-sucedido em ambas as mis-
sões, Roma, o desconhecido, caiu nas graças do presidente 
e, agora, pretende disputar com o apoio dele o governo da 
Bahia. Nesta entrevista a VEJA, o agora ex-ministro, que é 
bacharel em direito, fala sobre o aumento da miséria, do 
quanto a personalidade irascível de Bolsonaro ajuda a criar 
confusões e faz críticas pesadas ao Supremo Tribunal Fe-
deral. A seguir, os principais trechos.
 
O presidente sempre foi um crítico de programas de 
transferência de renda e hoje conta com o Auxílio Brasil 
para alavancar votos, em especial no Nordeste. O que 
mudou? Bolsonaro tinha muitos senões a programas so-
2 | 10
“Os beneficiários do Bolsa Família hoje 
veem o valor do programa triplicado e 
com perspectivas de saírem da situação 
de pobreza em que se encontram. 
Eles querem voltar ao passado?”
ciais, porque ele tinha a percepção de que o Bolsa Família 
dava esmola ao cidadão. Não era uma coisa palatável para 
ele. Um dia, com o dedo apontado para o rosto do presi-
dente, eu falei: “O Bolsa Família nunca vai ter a sua cara 
porque o senhor tem vergonha até de entregar uma cesta 
básica no Pará”. Dias depois ele me disse: “Faça o que você 
acha que é certo, mas faça de tudo para ajudar os mais ne-
cessitados”. Foi uma ordem bem abstrata mesmo. Foi aí que 
criamos o Auxílio Brasil.
Quanto a equipe econômica influenciou no valor final de 
400 reais para o auxílio? A definição dos valores foi uma 
grande epopeia político-administrativa. O Auxílio Brasil era 
o caminho natural para atravessarmos a pandemia, mas para 
o fortalecimento social era preciso tratar com a equipe eco-
nômica. Paulo Guedes estava muito fechado, sempre bus-
3 | 10
cando responsabilidade fiscal, mas sem sinalizar exatamente 
qual era o valor possível. Parecia que cada um falava uma 
língua diferente. Se houvesse uma estrutura de coordenação 
no Executivo, atritos e ruídos poderiam ter sido evitados. 
O presidente não é a fonte principal desses atritos e ruí-
dos? Bolsonaro representa uma mexida de placa tectôni-
ca no tabuleiro político brasileiro. Ele tem uma forma mui-
to própria de se relacionar e de projetar o caminho das 
ações do governo. Isso propiciou um governo que não fosse 
estabelecido em concordâncias e harmonizações. É um go-
verno que tem como premissa a fricção.
Acabar com o Bolsa Família não deu discurso aos oposi-
tores do governo? O projeto social do PT não era o Bolsa 
Família, era o Fome Zero — e foi um fiasco. Depois, criou-
se o Bolsa Família, que foi importante, mas teve algumas 
cicatrizes, como denúncias de que vereadores do PT esta-
vam colocando gente para receber o benefício. O Bolsa Fa-
mília deu escala à política de transferência de renda, mas já 
estava completando dezoito anos e precisava de avanços, 
como a porta de saída para o beneficiário. Veremos no mé-
dio prazo de maneira forte como o nosso programa vai es-
timular as pessoas na superação da pobreza.
Por que o programa social de Bolsonaro não tem se ma-
terializado em intenções de voto ou em reconhecimento 
4 | 10
do governo? Quem disse que não? Tivemos uma melhora 
nos índices do presidente. Sobre pesquisa, fica a máxima: 
se Bolsonaro acreditasse em pesquisa ele não seria hoje 
presidente da República. Por isso digo que em eleições trei-
no é treino, jogo é jogo. Os beneficiários do Bolsa Família, 
que eram muito vinculados ao Lula, hoje veem a fila do 
programa zerada, o valor do programa triplicado e com 
perspectivas de saírem da situação de pobreza em que se 
encontram. Eles querem voltar ao passado?
O Brasil voltou ao Mapa da Fome da FAO. A fome nunca vai 
zerar completamente. É como cortar o cabelo em um mês e 
no mês seguinte ter de cortar de novo. Mas acho que criamos 
os pilares para superar esse tema em uma geração. Estamos 
passando por uma grande pandemia e há também a questão 
inflacionária, mas não tivemos crise de desabastecimento. 
O retrato mais recente da fome é de pessoas procuran-
do ossos para comer, imagem que está sendo usada 
politicamente para caracterizar a situação de miséria 
provocada pelo governo Bolsonaro. Não se pode deposi-
tar no governo a responsabilidade de um fenômeno que, 
após a II Guerra, foi o mais impactante do globo: a pande-
mia. Especialmente quando o presidente, desde o princípio, 
disse que precisávamos cuidar da saúde e da economia. O 
“fique em casa” gerou consequências adversas para a socie-
dade. Claro que as cenas são chocantes, mas o governo fede-
5 | 10
ral fez de tudo e não faltou à população brasileira. A dificul-
dade que a sociedade atravessa é um fenômeno global, e não 
uma ação pontual do governo.
De saída do governo, o senhor pode dizer de forma fran-
ca o que acha do presidente? Bolsonaro tem um jeito de 
se expressar muito rude de vez em quando, ou mais que de 
vez em quando. Ele é como um carro que não tem caixa de 
marcha, vai direto, é extremamente espontâneo. Bolsonaro 
não consegue sequer fazer silêncio sobre uma coisa que ele 
não precisava comentar. Essa é a essência dele e isso provo-
ca ruídos, algumas confusões, quedas de braço, como as 
que se veem com o Judiciário. 
O senhor concorda com as críticas que o presidente faz 
ao Judiciário? Não posso atestar se é uma coisa direciona-
da, mas percebo um crescente ativismo judicial. E nenhum 
país consegue evoluir, superar suas dificuldades e alcançar 
o pleno desenvolvimento se não estiver no plano de segu-
rança jurídica. Nosso Judiciário não tem dado bons exem-
plos. Parece que cada ministro do Supremo rasgou uma pá-
gina da Constituição e a colocou debaixo do braço. O mi-
nistro Alexandre de Moraes, por exemplo, atua como au-
tor, investigador e julgador. Ele é tudo dentro do processo.
Isso justificaria manifestações que pedem, entre ou-
tras coisas, o fechamento do STF? A sociedade tem 
6 | 10
“Nosso Judiciário não tem dado bons 
exemplos. Parece que cada ministro 
do STF rasgou a Constituição e a 
colocou debaixo do braço. O ministro 
Alexandre de Moraes, por exemplo”
clamado por um Judiciário que demonstre tranquilidade 
e credibilidade à população, mas muitas vezes não en-
contra nada disso, e sim juízes ocupando nichos e olhan-
do para o seu umbigo. No limite, quando o cidadão não 
puder reclamar do abuso da polícia ou da Justiça e não 
puder confiar no sistema, vamos ter um problema social. 
Se a população não acredita mais no sistema, vai pedir 
apoio a quem? Do miliciano? Do traficante? O sistema está 
desequilibrado e isso não é nada bom.
Como restabelecer a normalidade entre os pode-
res? Precisamos reequilibrar a tripartição dos poderes 
com o protagonismo do Legislativo.Não sei se o Legislati-
vo consegue mais estabelecer esse equilíbrio porque talvez 
já tenha passado do Cabo da Boa Esperança. O gigantismo 
do Judiciário é tamanho que permite, inclusive, que eles 
7 | 10
desfaçam o espírito das leis e gerem personalismos. O tom 
está aumentando, e é muito ruim para a sociedade.
O senhor considera que existe uma ação deliberada contra 
o governo? É óbvio que não há a melhor das relações pes-
soais entre Bolsonaro e o Supremo, mas acho que as funções 
que determinado ministro exerce estão muito além das fron-
teiras da nossa legislação. Também houve alguma exacerba-
ção do lado do presidente da República, mas ele não veio para 
harmonizar, e sim, como já disse, para provocar um movimen-
to de placas tectônicas do Estado brasileiro. O que se vê com 
clareza é que Bolsonaro é nada litúrgico. E talvez essa falta de 
liturgia muitas vezes sirva de provocação ao Judiciário.
O senhor foi um dos integrantes do governo que saiu em 
defesa do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, demi-
tido após pastores cobrarem propina no MEC. A demis-
são não fragiliza o discurso anticorrupção do gover-
no? Não, porque não há instalado no governo Bolsonaro 
nenhuma engrenagem, nenhum viés de acobertamento, 
não tem essa coisa cadenciada como ocorreu no passado. 
Pode até haver descoordenação do governo, ações deslei-
xadas do governo, mas não há um centro operativo de cor-
rupção como havia em governos passados.
O senhor deixa o Executivo para se candidatar ao gover-
no da Bahia e dar palanque a Bolsonaro. A polarização 
8 | 10
Lula-Bolsonaro tomará conta das eleições nos estados. 
Qualquer um aqui pode estar até em aniversário de bonecas, 
mas vai falar de política, seja do que alguns chamam de ge-
nocida, seja do que outros chamam de nove dedos. Na Bahia 
o processo será similar, haverá uma verticalização das elei-
ções, com eleitores divididos entre candidatos ligados a 
Lula e a Bolsonaro. Não sou a terceira via. Eu sou o único 
opositor ao governo petista do estado.
O ex-prefeito ACM Neto, com quem o senhor rompeu re-
lações, representa o que nessa equação? ACM Neto re-
presenta por si só um projeto de poder. Ele diz que Bolso-
naro tem mais de 60% de rejeição e que, por isso, ele não 
pode se aproximar dele. É uma falácia porque essa rejeição 
é apenas a fotografia do momento e pode mudar. Também 
diz que Lula não é seu adversário, o que significa que o pla-
no dele não é se opor ao PT. Ele está se matando, deixando 
o papel de liderança e fazendo o pior caminho da política.
O senhor se filiou recentemente ao PL. Sente-se cons-
trangido em ter como presidente do seu partido um ex- 
presidiário condenado por corrupção? Bolsonaro tem 
hoje uma base de sustentação procedente do PP, do PL e do 
Republicanos, que formam um tripé. O Brasil vive um no-
vo momento e os partidos políticos são peças essenciais no 
fortalecimento da democracia. Não dá para avançar em re-
formas sem estabelecer diálogo com essas forças políticas. 
9 | 10
O presidente está filiado ao PL e eu resolvi acompanhá-lo a 
fim de apresentar um novo caminho para a Bahia. Acho 
que todos nós somos responsáveis pela nossa história. O 
presidente Valdemar é um dirigente partidário que está de-
vidamente constituído, ele cumpriu sua sentença, e o PL 
está se transformando no maior partido do Brasil. ƒ
10 | 10
imagem da semana
1 | 2
Robyn beck/AFP
Levou o oscar… 
e perdeu a razão
A 94ª edição do oscAr tinha tudo para se tornar uma 
grande celebração da retomada da vida normal no pós-
pandemia. A festa exibia pela primeira vez um time 100% 
feminino de apresentadoras, a neozelandesa Jane Campion 
fez história como a terceira mulher a ganhar a estatueta de 
direção — e a Academia de Hollywood deu uma aula de 
inclusão ao escolher como melhor filme No Ritmo do 
2 | 2
Coração, e premiar como coadjuvante uma de suas estrelas, o 
deficiente auditivo Troy Kotsur. Tudo lindo, mas a imagem 
que ficou foi a de um show de descortesia: o tapa desferido 
por Will Smith em Chris Rock em pleno palco do 
Oscar. O humorista provocou, é verdade, ao fazer uma piada 
de tremendo mau gosto e falta de sensibilidade com a esposa 
do ator, Jada Pinkett Smith, portadora de alopecia, doença 
que causa queda de cabelos. O comportamento de Rock, 
porém, deixou de ser uma questão no instante em que Smith, 
visivelmente transtornado e agressivo, tascou-lhe um tapa no 
rosto ao vivo. De volta ao seu lugar, ainda proferiu palavrões 
ouvidos por uma audiência de mais 15 milhões de pessoas 
apenas nos Estados Unidos. A violência ofuscou a primeira 
estatueta da carreira de Smith — que, após três indicações, 
venceu por seu papel em King Richard. No discurso de 
vitória, o ator se desculpou e disse que “o amor faz a gente 
cometer loucuras”. No dia seguinte, divulgou uma nova nota 
se dizendo envergonhado. Depois, até pediu perdão a Rock. 
Mas era tarde: o arroubo de agressividade manchará para 
sempre sua carreira. Ele levou o Oscar, mas perdeu a razão. ƒ
Felipe Branco Cruz
1 | 3
Conversa Karol ConKá
“FUI VÍTIMA DO ÓDIO”
A rapper paranaense de 36 anos conta como enfrentou 
uma implacável onda de cancelamento nas redes sociais em 
2021 e garante que dará a volta por cima com novo disco
ApedrejAdA Karol: a crônica da autoimolação da imagem 
no altar da televisão
Jo
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D
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A
ç
ã
o
2 | 3
Seu novo álbum, Urucum, sai um ano após a elimina-
ção do BBB com recorde de 99,17% dos votos. Temeu 
pelo fim da carreira diante de tamanha rejeição? Senti 
um impacto real e de longo prazo, mas extraí daí a inspira-
ção para compor meu novo álbum. O BBB deu a oportuni-
dade de me autoconhecer e entender para onde eu iria após 
a turbulência. Podemos tirar algo de bom de toda expe-
riência ruim. Transformei minhas dores em canções que 
me trouxeram alívio e cura.
Até o programa, seu nome era incensado por famosos e 
sua imagem era a de feminista e defensora de minorias 
— mas saiu de lá chamuscada como egoísta, xenófoba e 
acusada de praticar bullying. Acredita que errou lá den-
tro? Durante o programa, eu estava ciente de que as mi-
nhas atitudes não eram legais e revi minha postura antes 
mesmo de ser eliminada. Eu me arrependi do que fiz na ca-
sa, mas isso foi ignorado aqui fora. 
O processo de cancelamento que a atingiu nas redes 
sociais veio tanto do público quanto de celebridades. 
Como lidou com isso? Entendi que tudo passa. Percebi 
que há o tal “efeito manada”: as pessoas se sentem reali-
zadas em destruir a vida dos outros. O mais triste foi per-
ceber a quantidade de pessoas públicas, com milhões de 
seguidores, que usaram suas redes sociais para destilar 
intolerância contra mim. Sofri cancelamento por sadis-
3 | 3
mo. Fui vítima do ódio: queriam que eu me destruísse. 
Não se reeduca o mundo assim.
Na época, seu filho, de 15 anos, também foi alvo de ata-
ques. Como mãe, como se sentiu? Machucou muito. Como 
é que podem atacar uma criança? Conversei com meu filho e 
expliquei a situação. Eu disse que as minhas atitudes no BBB 
eram um exemplo do que não fazer. Minha conta com ele já 
está acertada. Muitas outras pessoas ao meu redor também 
foram atacadas e sofreram devido às minhas atitudes. 
Nos shows, você se apresenta como uma mulher empo-
derada. Como é a Karoline na vida real? No palco, eu sou 
como a Beyoncé, que tem o alter ego da Sasha Fierce, ou co-
mo a Larissa, que tem a Anitta. Com o microfone, me sinto 
imbatível contra o preconceito e contra o machismo, e repre-
sento a força da mulher. Antes dessa onda de cancelamento, 
eu me sentia frágil fora dos palcos. Mas, após ter sido ape-
drejada, percebi que sou na vida real tudo aquilo que eu 
mostro nos meus shows. ƒ
Felipe Branco Cruz
Datas
1 | 4
AquArelA do BrAsil
manoel marques/divulgação
Houve um tempo, quando as bolachas de vinil gira-
vam nas vitrolas sem parar, em que antes mesmo das 
descobertas musicais compravam-se discos de MPB pe-
INCONFUNDÍVEL 
Andreato e algumas de 
suas capas de discoda MPB dos anos 
1970: realismo e sonho
2 | 4
las capas — e elas eram, invariavelmente, 
de Elifas Andreato. Em mais de quaren-
ta anos de carreira, o ilustrador nascido 
no Paraná e radicado em São Paulo fez 
desenhos para a embalagem de mais de 
300 LPs, de Adoniran Barbosa a Chico 
Buarque, de Paulinho da Viola a Marti-
nho da Vila, de Clementina de Jesus a 
Clara Nunes.
Seu traço, a um só tempo realista e 
onírico, é a cara de um tempo, os anos 
1970 do Brasil engolido pela ditadura mi-
litar, e que respirava por meio de can-
ções. Andreato tinha estilo inconfundí-
vel, capaz de tingir de cores a essência do 
trabalho dos artistas a quem dava as 
mãos. Como não se emocionar, antes mesmo de pôr pa-
ra tocar Nervos de Aço, com o choro de Paulinho da 
Viola a segurar um ramo de flores? Como não sorrir 
com o rabisco infantil da Arca de Noé, de Vinicius de 
Moraes e Toquinho, e a linha pontilhada para ser recor-
tada a sugerir: “faça você mesmo a sua capa”. O irmão 
do artista plástico, o ator Elias Andreato, postou nas re-
des sociais: “Tudo o que ele tocava com as suas mãos vi-
rava coisa colorida, até a dor que ele sentia era motivo 
da tinta que sorria”. Morreu em 29 de março, em São 
Paulo, aos 76 anos, em decorrência de infarto.
3 | 4
A FILhA qUErIDA
Na primeira versão de A Grande Família, de 1973, a mima-
da e escandalosa Bebel, a filha de Lineu e Nenê, casada com 
Agostinho Carrara, foi interpretada por Djenane Machado. 
De sorriso aberto e olhos verdes, querida pelos fãs, fez imenso 
sucesso, atalho para diversos convites no cinema, o que incluiu 
inclusive a participação em pornochanchadas. Filha de Carlos 
Machado, um dos mais celebrados produtores de musicais e 
teatro do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960, ela entraria em 
depressão depois da morte do pai. Havia mais de vinte anos 
estava afastada dos palcos e das telas. Djenane morreu em 23 
de março, aos 70 anos, de causas não reveladas pela família.
SUCESSO Djenane Machado: a Bebel da 
primeira versão de A Grande Família, de 1973
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4 | 4
VErSAtILIDADE NAS bAqUEtAS
Com o fim do Nirvana, depois do suicídio de Kurt Co-
bain, o baterista da banda grunge de Seattle, Dave Grohl, 
decidiu criar um outro grupo. Deu a ele o nome colado a um 
apelido cunhado pelos pilotos de aviões americanos para os 
óvnis: Foo Fighters. Tentou um baterista, William Gold-
smith, mas a aquisição não funcionou. Chegou a taylor 
hawkins, que se destacava na trupe de Alanis Morissette. E 
então a longa cabeleira loira e a versatilidade de Hawkins, 
afeito a misturar momentos de energia com leveza, viraram 
a cara do quarteto criado por Grohl. Em 25 de março, na 
véspera de viajar para o Brasil, onde se apresentaria no festi-
val Lollapalooza, Hawkins foi encontrado sem vida em um 
hotel de Bogotá, na Colômbia. Morreu de overdose. Em seu 
corpo havia pelo menos dez substâncias diferentes, entre 
elas maconha, heroína e antidepressivos. Tinha 50 anos. ƒ
OVErDOSE Taylor Hawkins: no corpo do roqueiro foram 
encontradas pelo menos dez substâncias
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1 | 6
Os dOnOs dO pOder
Muita gente pode achar o caso dos pastores e do Minis-
tério da Educação algo um tanto bizarro e irrelevante. Não é o 
meu caso. O episódio todo, que levou à saída do ministro Mil-
ton Ribeiro, mostra a sobrevivência de velhos males de nosso 
mundo político. Para começar, a desorganização da política 
pública. Um órgão que se supunha técnico, como o FNDE, 
surge como presa fácil ao pequeno grupo de compadrio, com 
acesso ao poder. Com uma agravante: a mistura da religião 
com política, algo sem cabimento em um Estado laico. Por úl-
timo, a lembrança de que nosso velho patrimonialismo conti-
nua vivo e forte. Sua melhor definição foi aquela frase do mi-
nistro: “A prioridade são os amigos do pastor Gilmar”. É a rea-
lização da profecia de Sérgio Buarque: a cordialidade como o 
doce pecado de nosso mundo público. A vitória do trato pes-
soal sobre o procedimento técnico, imparcial, regrado, repu-
blicano. A polidez que esconde critérios de exclusão, de quem 
comanda, e não faz muito segredo disso. 
O escândalo do MEC é uma escaramuça pré-eleitoral ou 
traduz um padrão no trato da coisa pública? “Não há novi-
dade nenhuma nisso”, ouvi de um comentarista. “Em Brasí-
lia tem pressão de tudo que é lado.” Se o veredicto é esse, se-
gue-se o barco. Meu ponto é dizer que não. Há um problema 
Fernando Schüler
2 | 6
aí precisamente porque se configura um padrão, feito da 
captura de nacos de poder, recursos, pequenos e grandes 
monopólios por parte do estamento público. Ainda esta se-
mana se divulgou o excelente estudo do professor Luciano 
de Castro e outros pesquisadores sobre nosso Congresso. Os 
dados são de cair o queixo. Nosso Parlamento custa 0,15% 
do PIB. É o mais caro do mundo. Cada parlamentar custa 5 
milhões de reais por ano. Na Inglaterra, 477 000 reais. Eles 
fizeram o Bill of Rights, em 1688, e são bem mais ricos do 
que nós, mas custam dez vezes menos. Vamos lá, só pode 
haver um problema bastante complicado por aqui. 
No mundo dos partidos e das eleições, o padrão se repe-
te. Estudo conduzido pela economista Marina Helena San-
tos mostrou a situação do Fundão Eleitoral. Candidatos que 
já eram parlamentares, nas últimas eleições, receberam, na 
média, 996 000 reais para fazer campanha. Os de fora, 
70 000 reais. Os deputados-candidatos já tinham seus 25 
assessores, dinheiro para viagens e despesas, e já haviam 
distribuído coisa de 60 milhões de reais, em emendas indi-
viduais, ao longo do mandato. No final, levam catorze vezes 
mais recursos do que seus competidores de primeira via-
gem. É o que o cinismo nacional costuma chamar de garan-
tir mais “equidade” na disputa eleitoral. 
No campo do Judiciário não é diferente. Nosso sistema 
de Justiça é o mais caro, proporcionalmente, entre as gran-
des democracias. Nos custa 1,4% do PIB, contra apenas 
0,4% na Alemanha. Colecionamos notícias de vencimentos 
3 | 6
Você paga Raimundo Faoro (1925-2003): 
a conta é do contribuinte
AMICUCCI GALLO
muito acima do teto do funcionalismo, por parte de nossos 
magistrados. Mesmo assim, tramita no Congresso, com 
chances de aprovação, a PEC 63, criando um adicional de 
5% a cada cinco anos, nos vencimentos da magistratura. E 
pasmem: com chance de ser retroativo, extensivo aos apo-
sentados e não sujeito ao teto salarial. Temendo alguma in-
justiça, o Senador Alessandro Vieira propôs que o benefício 
seja dado a todo o funcionalismo. Ou seja: além de termos 
engavetado a reforma administrativa, que iria extinguir as 
progressões por tempo de serviço, corremos o risco de criar 
agora uma superprogressão. O mesmo Congresso que des-
cumpre a determinação da Constituição, no Artigo 41, de 
disciplinar a avaliação de desempenho dos servidores, arris-
4 | 6
ca criar agora um benefício sem conexão alguma com méri-
to. Talvez não passe. Mas só o fato de que isso seja seria-
mente considerado já é um indicativo do peso da cultura es-
tamental, na elite política de Brasília. 
Muita gente não vê problema algum nisso tudo. “A demo-
cracia custa caro”, escuto em rodas elegantes. Custa caro no 
Brasil, respondo. Temos a maior carga tributária da América 
Latina, fora Cuba, e fomos o país que mais expandiu o gasto 
público, na década que se seguiu à crise de 2008. Em pouco 
mais de dez anos, fomos de 29,5% para 41% de comprometi-
mento do PIB com despesa pública. Pouco mais de 13% gas-
tamos com funcionalismo. Nosso aparado estatal tem tama-
nho europeu; nossa miséria, padrão latino-americano. Gasta-
mos o equivalente à Itália e países com welfare state consoli-
dado, como o Canadá e a Alemanha. Em matéria de pobreza, 
ficamos atrás de países como Peru, Bolívia e Paraguai. 
Vai aí o dilema: nosso aparato público é caro, para o con-
tribuinte, e funciona, ele mesmo, como entrave ao crescimen-
to e fator a mais de concentração de renda. Não há como en-
tender isso sem decifrar nosso vezo patrimonialista. O vezo 
que vemdo fundo de nossa formação. Do país que nasce do 
Estado. Do rei que se apossa da terra e distribui à vassalagem, 
“Fora Cuba, fomos o país que 
mais expandiu o gasto público”
5 | 6
da república dos coronéis, do Estado Novo organizando o sin-
dicalismo oficial. O vezo que está lá, em cada privilégio, em 
cada monopólio, em cada priorização dos “de cima”, em cada 
desoneração fiscal gerada pelo lobby. Signo de um país vulne-
rável à ação dos grupos organizados, diante de uma socieda-
de passiva e uma legião de brasileiros dependentes de transfe-
rências públicas. País carente de grupos de advocacy para os 
interesses difusos, a começar pelos direitos do contribuinte, e 
de uma cultura frágil de direitos individuais. 
Por essas e outras que volto à leitura da obra-prima de 
Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Ela já tem mais de 
seis décadas, mas prossegue atual. Nos mostra como a opo-
sição fundamental de nosso mundo político não se dá entre 
quem produz, no mercado, seja grande ou pequeno em-
preendedor, trabalhador com carteira ou entregador de apli-
cativo, nas ruas de São Paulo. A clivagem essencial é entre o 
mundo que gira em torno da captura do Estado e o restante 
da sociedade, que paga a conta. O contribuinte, o cidadão 
destituído de lobby, o usuário dos serviços públicos, o toma-
dor de risco, na economia real. 
É sobre isso o debate que vamos travar nas eleições deste 
ano. Haverá muita bobagem, como sempre, mas a questão 
central continua a mesma: se desejamos um país moderno e 
de mercado, com um Estado enxuto e feito de direitos iguais, 
ou se vamos seguir com nossos pastores-lobistas, e parla-
mentares recebendo 528 vezes a renda média de um traba-
lhador. Se o desejo for de mudança, será preciso enfrentar a 
6 | 6
“social enormity”, na expressão dura de Faoro, que herdamos 
da tradição. A deformação segundo a qual “instituições ana-
crônicas frustram o florescimento do mundo virgem”. Vai aí 
meu toque de otimismo. A tradição nos puxa pelo pé, mas não 
nos amarra. A democracia nos dá, a cada momento, uma no-
va chance. Nos assopra ao ouvido a ideia por vezes incômoda 
de que somos o resultado de nossas próprias escolhas. ƒ
ƒ Os textos dos colunistas não refletem 
necessariamente as opiniões de VEJA
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
SobeDeSce
1 | 2
tite 
Com a goleada de 4 a 0 sobre 
a Bolívia na última terça, 29, 
o técnico garantiu a melhor 
campanha da seleção brasileira 
na história das eliminatórias. 
Agora, só falta ganhar a Copa... 
aspirina 
Segundo estudo da Universidade 
George Washington, o remédio 
reduz em 13,6% o risco de 
morte por Covid-19. 
apple 
O braço cinematográfico da empresa 
passou a perna na Netflix e se tornou 
a primeira plataforma de streaming a 
vencer o Oscar de melhor filme, com 
No Ritmo do Coração.
SOBE
2 | 2
gilberto kassab 
Após a recusa do senador Rodrigo 
Pacheco, foi a vez de o tucano 
Eduardo Leite dizer não à oferta 
do cacique do PSD para ser o 
presidenciável da sigla. 
fiat 
A montadora foi a campeã no país 
em reajustes nos preços de carros 
novos: 22,82% em média, muito 
acima da inflação de 10,06% ao ano 
registrada pelo IPCA em 2021. 
boris johnson 
A Scotland Yard aplicou vinte 
multas por violação das regras 
sanitárias nas festas realizadas na 
residência oficial do premiê britânico 
durante a pandemia. 
DESCE
veja essa
1 | 5
Edição: lizia bydlowski
sérgio lima/afp
“Hoje é um novo ciclo 
que se inicia. Mil 
coisas passam nas 
nossas cabeças. 
Mas Deus está no 
controle de todas 
as coisas. Eu sei 
que, assim como 
ele foi fiel em 2019, 
ele será em 2022.”
MiCHEllE bolsoNaRo, 
primeira-dama, creditando 
à vontade divina a reeleição 
do marido, em evento 
do seu partido, o PL
2 | 5
“Determino à autoridade policial 
e à Secretaria de Estado de 
Administração Penitenciária 
do Distrito Federal que procedam 
à fixação imediata do equipamento 
de monitoramento eletrônico.”
alEXaNdRE dE MoRaEs, ministro do STF, ao ordenar 
a volta da tornozeleira do deputado Daniel Silveira (União 
Brasil-RJ) por descumprimento dos termos da sua soltura. 
Ele foi preso por ameaças contra integrantes do Supremo
“Eu falo da tribuna: não será acatada 
a ordem de Alexandre Moraes. (...) 
Quem decide isso são os deputados. 
Alexandre, cumpra a Constituição.”
daNiEl silVEiRa, o deputado ainda sem tornozeleira — 
ele se refugiou no gabinete e diz que só sai 
de lá quando a ameaça for suspensa
“Depois dele eu não votei em mais ninguém, 
só justifiquei. Tenho todas as minhas 
justificativas. Eu não sou responsável 
por boa parte do Brasil que está aí.”
JosÉ lUiz daTENa, apresentador e candidato 
ao Senado, negando que apoie Jair Bolsonaro e 
revelando que a última vez que votou foi em Lula
3 | 5
“Estamos fazendo história — construindo 
uma nova arquitetura regional baseada em 
progresso, tecnologia, tolerância religiosa, 
segurança e cooperação.”
yaiR laPid, ministro das Relações Exteriores de Israel, 
ao receber, em inédito encontro, os colegas de Bahrein, 
 Egito, Marrocos e Emirados Árabes Unidos
“Nosso objetivo, como empresa, 
é que essa lei seja revogada pelo 
Legislativo ou rejeitada nos tribunais.”
disNEy, empregadora de 80 000 pessoas na Flórida, 
posicionando-se contra a legislação assinada pelo governador 
Ron DeSantis que proíbe qualquer menção a questões de 
sexo e gênero nas escolas até o fim da terceira série
“Estamos saindo da área de 
Washington, mas não estamos 
abandonando nossa missão.”
MaRCUs soMMERs, um dos líderes do comboio 
de caminhões que passou três semanas nos arredores 
da capital americana, buscando uma saída honrosa para a 
desmobilização, sem que se concretizasse o caos prometido
4 | 5
“Temos uma grande e ótima surpresa: mais 
um Baldwinito vai chegar no fim do ano.”
HilaRia baldwiN, mulher do ator Alec — autor do tiro 
acidental que matou uma diretora de fotografia no set —, 
ao anunciar que o casal espera o sétimo filho
“Verdade, justiça e superação. Esperamos 
que a Igreja finalmente dê início a uma 
reconciliação expressiva e duradoura.”
Cassidy CaRoN, presidente do Conselho do Povo Métis, do 
Canadá, após audiência com o papa Francisco. A população 
nativa canadense quer receber do Vaticano um pedido formal 
de desculpas pelos abusos sofridos por 150 000 crianças 
em escolas católicas ao longo de um século
“Nosso querido Bruce está passando por 
problemas de saúde e foi diagnosticado com 
afasia, o que afeta sua capacidade cognitiva.”
RUMER willis, filha do ator Bruce Willis, comunicando no 
Instagram que o pai decidiu se afastar da carreira por causa do 
distúrbio de linguagem, geralmente uma decorrência de AVC
5 | 5
“Fiquei com 
bastante flacidez 
abdominal e 
tenho até hoje.”
THais FERsoza, 
apresentadora, em momento 
sinceridade. Ela atribui a 
imperfeição — que ninguém 
nota — à diferença de 
apenas onze meses 
entre os dois filhos
vinicius mochizuki/tv
RadaR
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Robson bonin 
Com reportagem de Gustavo Maia, 
Laísa Dall’Agnol e Lucas Vettorazzo
SomoS muitoS Aras: alvo de Rosa Weber, 
ele recebeu apoio de ministros do STF
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Estamos com você
Depois da dura decisão de 
Rosa Weber, nesta semana, 
que rejeitou o arquivamen-
to do inquérito contra Jair 
Bolsonaro e ainda mandou 
recados a Augusto Aras, o 
chefe da PGR recebeu a 
solidariedade de sete mi-
nistros do STF.
Xadrez supremo
Nos telefonemas, ficou cla-
ro para Aras que os minis-
tros não concordavam com 
a postura de Rosa. A dis-
cussão no plenário do Su-
premo, no entanto, não se-
rá tão fácil. A ministra já 
está trabalhando para re-
verter a maioria. 
2 | 6
Mesa vazia
Antes da pandemia, na ges-
tão de Dias Toffoli, os mi-
nistros do STF haviam 
combinado de realizar um 
almoço por mês para entro-
sar a Corte. O ritual morreu 
e não há sinais de que vai 
voltar. Hoje, a Corte tem 
dois grupos: um próximo e 
outro distante dogoverno.
Reação intempestiva 
Bolsonaro descascou Rosa 
Weber quando foi informa-
do da decisão da ministra de 
rejeitar o pedido de arquiva-
mento da PGR no caso das 
vacinas. O que o presidente 
disse, nas palavras de um in-
terlocutor, “é impublicável”. 
Brincando com o perigo 
Horas depois de ter alta de 
mais uma internação, Bol-
sonaro não resistiu à tradi-
cional linguiça de Maraca-
ju (MS), feita de pedaços 
de carne bovina. Comeu 
quatro peças grandes. Co-
mo de costume, sem mas-
tigar direito.
Toma juízo, meu filho 
Ao lado do presidente, o 
general Augusto Heleno 
ainda tentou intervir di-
zendo a Bolsonaro que, 
por ordens médicas, ele 
não deveria nem estar ali 
no evento, quanto mais se 
empanturrando de lingui-
ça. O presidente, claro, ig-
norou o chefe do GSI.
Rainha da Inglaterra 
A caminho da Defesa, o ge-
neral Paulo Sérgio caiu nu-
ma armadilha. Será minis-
tro, mas terá pouco poder 
na pasta. Braga Netto man-
terá sua equipe nos cargos 
mais importantes e seguirá 
dando as cartas do Planal-
3 | 6
to, como assessor direto de 
Bolsonaro na área militar. 
Ele não escuta 
Recentemente, Arthur Lira 
ponderou com Bolsonaro 
que seria melhor indicar polí-
ticos de peso aos ministérios 
para “não passar uma ima-
gem de fim de governo”. Bol-
sonaro loteou as pastas entre 
nomes do segundo escalão.
Briga em família 
Onyx Lorenzoni enfrentará 
uma guerra no Sul contra 
outro bolsonarista, o sena-
dor Luis Carlos Heinze. Al-
vo de fake news que credita 
a Onyx, Heinze detona: 
“Tenho Bolsonaro, mas te-
nho partido e base sólida. 
Ele não tem”.
Casa cheia 
Os advogados que gravitam 
o entorno de Lula estão em 
guerra. As novas amizades 
do petista deixam pouco es-
paço para antigos aliados. 
Até vaga no STF (hoje um 
terreno na Lua) já virou 
motivo de discórdia. 
Todo-poderosa 
A turma pode chorar quanto 
quiser. Janja, a noiva de Lu-
la, não só vai continuar in-
fluenciando as conversas do 
petista como terá papel im-
portante na campanha. “Jan-
ja já conquistou o espaço de-
la”, diz um aliado do petista.
My love 
Nesse giro com políticos e 
artistas no Rio, Janja, aliás, 
só chamava Lula por uma 
palavra: “amor”.
Pronto para mais uma 
Em clima de já ganhou, o 
PT diz que Gilberto Kassab 
“perdeu o bonde da histó-
4 | 6
ria” ao não filiar Geraldo 
Alckmin e indicar o vice de 
Lula. Kassab pensa diferen-
te: “Teremos candidato”.
Silêncio de conveniência 
A escolha de Marcos Mon-
tes, do PSD de Kassab, para 
comandar a Agricultura de-
sagradou a uma ala do bol-
sonarismo ruralista. En-
quanto os cofres da pasta 
estiverem abertos, no entan-
to, ninguém vai reclamar.
Mais confusão 
Célio Faria, o chefe de gabi-
nete de Bolsonaro que virou 
ministro no lugar de Flávia 
Arruda, já tem um dossiê 
para chamar de seu. Coisa 
pesada.
Apostas lucrativas 
As relações de Gilson Ma-
chado com o lobby no Tu-
rismo em torno dos jogos 
de azar também vão provo-
car dor de cabeça para o 
sanfoneiro candidato.
De olho no futuro 
Futuro chefe do TCU, Bru-
no Dantas quer engajar a 
Fiesp de Josué Gomes no 
debate sobre desafios para 
a economia. Ambos estão 
muito próximos.
Foco nas contas
Dantas terá conversas com 
representantes de todos os 
presidenciáveis para firmar, 
desde já, compromissos 
com a responsabilidade fis-
cal em 2023.
 O lado bom
A empresários franceses, 
Paulo Guedes admitiu: seu 
grande legado será mesmo 
a reforma de marcos regu-
latórios. Foi o que deu pa-
ra fazer.
5 | 6
Convite premium 
A caminho da iniciativa pri-
vada no fim do ano, Fábio 
Faria deve trabalhar com 
Elon Musk. O bilionário, 
que virá ao Brasil, tem su-
gerido essa possibilidade. 
É grave 
Roberto Campos Neto aler-
tou o Planalto nesta semana. 
A greve no Banco Central 
pode paralisar todo o siste-
ma de pagamentos do Brasil. 
O voto da garotada 
Deputada mais jovem da Câ-
mara, Luisa Canziani fechou 
com Edson Fachin uma par-
ceria com o TSE para lançar 
uma campanha de incentivo 
ao voto jovem. Depois dos ar-
tistas, o tribunal e o Legislati-
vo irão atrás da garotada.
Trem da alegria 
Em três meses, a Câmara já 
bancou catorze viagens inter-
nacionais para deputados par-
ticiparem de feiras e passeios. 
Carla Zambelli levou 2 431 
reais em diárias para “visitar 
o Parlamento americano”.
Homenagem póstuma 
A Record lança nos próxi-
mos meses o livro de João 
Gilberto Noll, morto em 
2017. Organizado por Ed-
son Migracielo, Educação 
Natural reúne 26 contos e 
parte de um romance que 
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PrimeirA vez Luisa: 
no TSE, a deputada lidera 
ação por voto jovem
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o premiado autor deixou 
inacabado. 
Tropicália de sucessos 
Meu Nome É Gal, longa 
que retrata a trajetória da 
icônica cantora e composi-
tora, terminou de ser roda-
do nesta semana. Com di-
reção de Dandara Ferreira 
e Lô Politi, o filme é estre-
lado por Sophie Charlotte 
(Gal), Rodrigo Lelis (Cae-
tano Veloso), Dan Ferreira 
(Gilberto Gil) e terá partici-
pação especial de Fábio 
Assunção como empresá-
rio musical. O lançamento, 
no início de 2023, será pela 
Paris Filmes. ƒ
DivulgAção
NA teLoNA Sophie: a atriz viverá Gal Costa 
em longa sobre a vida da musa 
1 | 10
NINHO EM CHAMAS
Ameaça de João Doria de renunciar à corrida pela 
Presidência, não cumprida, eleva ao máximo as 
disputas internas do PSDB e tumultua ainda mais o 
já atribulado caminho da terceira via
RenAto S. CeRqueiRA/FutuRA PReSS
ElEiçõEsBrasil
BRUNO RIBEIRO, REYNALDO TUROLLO JR. 
e TULIO kRUsE
IDAs E vINDAs 
Doria: volta atrás na 
decisão de desistência 
após apoio da direção 
nacional do partido 
2 | 10
revisto para fazer parte do ritual de despedidas de 
João Doria do governo de São Paulo e marcar o 
início de sua nova caminhada na tentativa de che-
gar ao Palácio do Planalto como presidenciável 
escolhido nas prévias do PSDB, o jantar ocorrido 
na última quarta, 30, na mansão do empresário 
Marcos Arbaitman, no Jardim Europa, um dos bairros mais 
valorizados da capital paulista, contou com um discurso 
emocionado do homenageado. Citando no começo de suas 
palavras o anfitrião, que é uma das pessoas mais próximas 
ao governador, Doria falou sobre atitudes de grandeza na 
política e a expectativa do que pode acontecer nos próximos 
dias de positivo e de bom para o Brasil. “Esse respeito não 
parte do pressuposto de que tem de ser eu”, disse, sem citar 
explicitamente a briga dele com outros candidatos para se 
tornar o nome de consenso de PSDB, MDB e União Brasil, 
os partidos que trabalham nos bastidores para marchar jun-
tos com um candidato capaz de representar a terceira via. 
“Essa grandeza, a religião nos ensina... Tenha o espírito ele-
vado e exercite o diálogo no limite do possível”, completou. 
Num primeiro momento, as palavras não soaram como 
novidade para o grupo de convidados, que incluiu quase to-
dos os secretários de Doria. Afinal, em ocasiões anteriores, 
ele já havia dito publicamente que estaria disposto a abrir 
mão de encabeçar a chapa da terceira via em nome da 
união do centro contra a polarização entre Lula e Bolsona-
ro. Poucos, é verdade, levavam a sério essas palavras, dada 
P
3 | 10
a obstinação com que o go-
vernador se entrega ao seu 
projeto presidencial. Esse ti-
po de discurso sempre foi en-
carado como um antídoto às 
críticas recorrentes de adver-
sários de que ele sempre põe 
seus interesses pessoais aci-
ma de qualquer acordo. Foi o 
mesmo sentimento que o dis-
curso causou na maior parte 
dos presentes ao evento na 
casa de Arbaitman. O que ne-
nhum deles sabia é que, desta 
vez, as palavras eram para 
valer. Horas antes, num gesto 
surpreendente, Doria tinha 
comunicado a um dos seus 
principais nomes de confian-
ça sua desistência de concorrer ao Palácio do Planalto. 
Além disso, contou que não mais renunciaria ao governo de 
São Paulo para se manter no cargo até o fim do mandato, 
em dezembro. A falta de união do PSDB em torno da sua 
candidatura presidencial, inegavelmente, era o principal 
motivo para amudança brusca de direção. 
Num rápido e tenso encontro no Palácio dos Bandeiran-
tes, Doria comunicou os novos planos ao vice Rodrigo Gar-
TENsãO 
Garcia: movimento recente 
de Doria tende a tornar 
convivência mais difícil 
entre eles nas campanhas
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cia, que não gostou nada da história. Oriundo do DEM, 
Garcia assinou a ficha de filiação ao PSDB para se lançar o 
candidato à sucessão de Doria. Preterido por essa escolha 
do governador, Geraldo Alckmin, que alimentava o sonho 
de voltar ao Palácio dos Bandeirantes, bateu asas do ninho 
tucano e, recentemente, acertou o ingresso no PSB para se 
tornar o vice da chapa presidencial de Lula. Pouquíssimos 
imaginavam que o governador seria capaz de romper o 
pacto com Garcia, ainda mais pelo fato de que um depende 
do outro no pleito deste ano. Pouco conhecido do eleitora-
do, o vice precisa se amparar no bom saldo de realizações 
da atual gestão e contar com a máquina do governo para 
decolar na campanha. Por sua vez, o bom desempenho lo-
cal de Garcia ajudaria Doria a diminuir a rejeição dele junto 
ao eleitorado, uma das mais altas entre os presidenciáveis. 
TApETãO eduardo Leite: adversário disse que respeitaria 
as prévias que perdeu, mas ainda tenta articular candidatura
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Na conversa entre os dois ocorrida por volta das 17 horas 
da última quarta, na sala do governador, Doria comunicou 
que continuaria apoiando Garcia como seu sucessor. O diá-
logo durou cerca de vinte minutos e terminou com Garcia 
deixando o local bastante contrariado. Apesar de a convi-
vência ter sido diplomática entre os dois nos últimos anos no 
Palácio dos Bandeirantes, a diferença de estilos sempre foi 
enorme. Mais recentemente, em meio à agitação com a pro-
ximidade das eleições, enquanto o chefe ficava cada vez 
mais isolado politicamente dentro e fora do PSDB, o vice 
construiu um formidável arco de alianças em São Paulo, 
com o apoio de mais de 500 prefeitos e acordos formados 
junto ao MDB, União Brasil, Cidadania e Solidariedade. 
Garcia contava ainda com um tempo para se distanciar da 
imagem de Doria, de forma a não ter que carregar na cam-
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OpOsIçãO Aécio Neves: articulação 
contra as pretensões políticas de Doria 
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panha a alta rejeição do governador. Quando estivesse for-
talecido nas pesquisas de São Paulo, Garcia prometia voltar 
a se reaproximar de Doria, ajudando na eleição nacional. 
Entre a madrugada de quarta e a manhã de quinta houve 
um esforço para reverter a situação, que se revelou bem-su-
cedido. Em conversa com o presidente do PSDB, Bruno 
Araújo, Doria pediu uma declaração pública de apoio à sua 
pretensão presidencial e foi atendido. “As prévias serão res-
peitadas pelo partido”, dizia a nota. No início da tarde de 
quinta, Doria voltou a se reunir com Garcia e acertou os pon-
teiros. Horas depois, no Palácio dos Bandeirantes, o governa-
dor confirmou publicamente a manutenção do plano origi-
nal. “Sim, serei candidato à Presidência da República pelo 
PSDB, o PSDB (enfatizou), o nosso partido. Vamos vencer o 
populismo, a maldade e a corrupção”, discursou, em um au-
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ALTERNATIvA Simone Tebet, do MDB: baixo índice de 
rejeição é um dos principais ativos dela para tentar se cacifar
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ditório com mais de 1 500 pessoas. Até esse momento, tuca-
nos paulistas insatisfeitos com as idas e vindas de Doria che-
garam a mandar recados ameaçando-o de impeachment ca-
so mantivesse a decisão de não deixar o cargo (só não ficou 
claro por qual motivo o governador seria obrigado a sair). 
Vários fatores pesaram na surpreendente movimentação 
de Doria, a começar pela encruzilhada política. Depois da vi-
tória nas prévias de seu partido para a disputa presidencial, 
ele não conseguiu apaziguar o ninho e, nos últimos dias, 
cresceu enormemente a possibilidade de ser descartado por 
um nome de consenso entre os dirigentes de PSDB, MDB e 
União Brasil. Mesmo derrotado por Doria na disputa interna, 
o governador gaúcho Eduardo Leite nunca abandou o sonho 
presidencial e, após flertar seriamente com o PSD de Gilber-
to Kassab, acabou sendo enquadrado a permanecer no PSDB 
BOmBEIRO Bruno Araújo: carta reforçando o apoio do 
PSDB era condição de Doria para voltar atrás na sua decisão
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pelo senador Tasso Jereissati 
e pelo deputado federal Aécio 
Neves, dois dos maiores ad-
versários de Doria. Nesse 
contexto, a renúncia de Leite 
ao cargo foi interpretada co-
mo mais um sinal de que ga-
nha corpo o movimento para 
tirar o governador paulista da 
disputa ao Planalto. Caso 
realmente os tucanos deci-
dam rasgar o resultado das 
prévias, que consumiram 
6 milhões de reais em dinhei-
ro público, via Fundo Parti-
dário, a imagem da legenda, 
já bastante desgastada, pode-
ria chegar ao fundo do poço. 
Outro obstáculo que pe-
sou na ameaça de Doria de recolher as asas para o tão so-
nhado voo mais alto é o próprio Doria. A despeito de sua 
capacidade de gestão acima da média e da carreira pública 
até aqui extremamente bem-sucedida, ele continua sendo 
um estranho no ninho entre seus pares, que enxergam nele 
um comportamento artificial, uma vaidade exacerbada e 
uma dificuldade enorme de entender e seguir as mais bási-
cas regras do bom catecismo político. A visão do eleitorado 
ARTIcULAçãO 
Baleia Rossi, presidente do 
MDB: tentativa de chapa 
única ao lado do União Brasil 
e do PSDB
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hoje não é muito diferente, como demonstram os decepcio-
nantes resultados dele nas projeções de votos dos institutos 
especializados. Uma pesquisa qualitativa que circulou re-
centemente entre os tucanos jogou um novo balde de água 
fria nas possibilidades de Doria virar esse jogo. Segundo o 
levantamento, até o maior ativo do governador, o eficiente e 
corajoso trabalho para iniciar no país a vacinação contra a 
Covid-19, é motivo de críticas. Para muitas pessoas, o exa-
gero de Doria em faturar politicamente com a CoronaVac, 
contrapondo-se ao negacionismo do presidente Jair Bolso-
naro, foi um exemplo que comprova como os políticos agem 
sempre movidos por seus interesses — no caso, a vontade 
de Doria em suceder ao próprio Bolsonaro no Palácio do 
Planalto. A pesquisa apontou ainda a enorme dificuldade 
para a candidatura roubar votos dos favoritos Lula e Bolso-
naro, agravada pelo fato de ele ainda disputar o eleitorado 
com outros nomes da terceira via, em particular o de Sergio 
Moro — que resolveu se filiar ao União Brasil, mas decidiu 
abrir mão da campanha presidencial nesse momento, con-
forme nota divulgada por ele.
Mesmo com tantas dificuldades, Doria acha perfeitamen-
te possível reverter a situação. Só que, inegavelmente, sua 
movimentação recente criou ainda mais tumulto na já bas-
tante atribulada terceira via. Além de Doria e Moro, estão na 
disputa Eduardo Leite, a senadora Simone Tebet, pré-candi-
data do MDB, Ciro Gomes e até o deputado Federal André 
Janones, do Avante. Por enquanto, só um fator une essa hete-
10 | 10
rogênea turma: todos eles possuem baixas intenções de votos 
nas pesquisas. Mesmo com essa realidade, Doria acredita 
que, à medida que a campanha avançar, alguns desses perso-
nagens sairão do páreo e sua eficiente gestão, além da atua-
ção durante a pandemia, será reconhecida pelos brasileiros. 
É claro que as circunstâncias confusas do lançamento de sua 
candidatura não ajudam muito, assim como o desgaste que 
isso provocou na sua relação com Rodrigo Garcia. 
Empresário bem-sucedido na iniciativa privada antes de 
decidir entrar na política (veio literalmente de baixo, traba-
lhando até de office-boy na juventude no período de graves 
problemas familiares), Doria nunca se sentiu totalmente à 
vontade nesse meio, mas sempre se jactou de sua capacidade 
decomunicação e de ser um craque em marketing, atributos 
que considera terem ajudado decisivamente em sua trajetó-
ria pública. Para um político conhecido por seu comporta-
mento extremamente metódico, as recentes mudanças brus-
cas de rumo só podem ser explicadas por alguém que, isola-
do e sob intensa pressão, teve como única alternativa de so-
brevivência a arriscada tática de incendiar de vez o ninho 
tucano, chamuscando de quebra o tortuoso caminho da ter-
ceira via. Aparentemente, se nenhuma novidade surgir, ele 
entrou de vez no páreo. Mas ainda falta muito para que Do-
ria, ou algum outro nome alternativo, consiga avançar a 
ponto de ameaçar os favoritos Lula e Bolsonaro. E o relógio 
eleitoral é cruel para quem busca espaço: restam apenas seis 
meses para o pleito. ƒ 
1 | 5
mudança 
de planos
Reclamando de boicotes, intrigas e falta de dinheiro, 
Sergio Moro troca de partido e abre mão da candidatura 
à Presidência. No íntimo, ele ainda sonha com o Planalto 
laryssa borges
casa nova Moro: mudança 
em busca de estrutura e recursos
TwiTTeR @SF_MoRo
eleiçõesbrasil
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Postada numa rede social pelo presidenciável Sergio 
Moro, a fotografia ao lado registrava a parte final de um 
jantar num restaurante em Brasília, na segunda-feira 28. 
Presentes, além do candidato, o advogado Luís Felipe 
Cunha, coordenador da campanha do Podemos, e o depu-
tado Luciano Bivar, presidente do União Brasil. A imagem 
vinha acompanhada da seguinte legenda: “Reforçamos a 
necessidade de termos um único candidato do centro polí-
tico democrático contra os extremos. Bivar seria um ótimo 
vice-presidente ou cabeça de chapa. Estaremos juntos de 
2022 a 2026, pelo menos”. O conjunto parecia um protoco-
lar aceno político a um potencial futuro aliado, mas era 
mais que isso. Isolado em seu partido, Moro já estava nego-
ciando a própria transferência para o União Brasil — con-
firmada três dias depois, embaralhando ainda mais o já 
confuso cenário das candidaturas de centro.
O semblante tranquilo de Sergio Moro na foto escondia 
uma insatisfação crescente dele com os rumos da campa-
nha, do partido e, principalmente, com alguns aliados que, 
segundo afirma, trabalham intensamente para sabotar sua 
candidatura. O ex-juiz já havia reclamado da inação do Po-
demos quando o Tribunal de Contas da União vasculhou 
seus contratos de trabalho na iniciativa privada, da falta de 
apoio dos parlamentares da legenda e da demora dos diri-
gentes em definir os recursos que seriam reservados para 
sua campanha. No domingo 27, esse conjunto de insatisfa-
ções foi discutido numa reunião entre o candidato, três se-
3 | 5
nadores do Podemos e a 
presidente do partido, 
deputada Renata Abreu. 
Rosangela Moro, mulher 
do ex-juiz, sem meias-
-palavras, criticou a pos-
tura omissa da legenda. 
Diante do impasse, Ser-
gio Moro foi então insta-
do a considerar uma das 
hipóteses que ele mesmo 
já vinha articulando. 
Ao lançar sua pré-
candidatura em novem-
bro do ano passado, Mo-
ro acreditava que ela de-
colaria por inércia. A fa-
ma conquistada pela 
condução da Lava-Jato, que desmantelou uma quadrilha de 
corrupção operada pelo PT, capturaria automaticamente os 
eleitores que rejeitam o ex-presidente Lula. E a demissão do 
Ministério da Justiça, por sua vez, atrairia o contingente de-
cepcionado com o governo do presidente Jair Bolsonaro. 
Feitas as contas, o ex-juiz projetava que, sem fazer muita 
força, terminaria o mês de março com índices de intenção 
de voto na casa de dois dígitos, o que seria suficiente para 
ele se consolidar como principal nome da chamada terceira 
linha direta 
Rosangela Moro: reclamações 
incisivas sobre a falta de apoio 
ao marido no Podemos
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via. Como consequência, imaginava, haveria uma aglutina-
ção natural em torno de sua candidatura, abrindo para ele 
as portas da política e os cofres dos partidos. O problema é 
que o mês de março terminou e nada disso aconteceu.
Na última pesquisa do Datafolha, Moro apareceu com 
8% das intenções de voto, abaixo, portanto, do que a coor-
denação da campanha do Podemos havia projetado. Se le-
vadas em consideração, porém, a condição de neófito do 
ex-juiz, a estrutura modesta do partido e a limitação dos 
recursos financeiros, o resultado era razoável. O presiden-
ciável aparecia à frente de políticos experientes como o 
pedetista Ciro Gomes (6%), que já disputou três eleições 
presidenciais, o tucano João Doria (2%) e a emedebista Si-
mone Tebet (1%). Ainda assim, o Podemos, dono de um 
fundo eleitoral superior a 170 milhões de reais, não dava 
garantias ao ex-juiz de que ele teria os recursos considera-
dos necessários para a campanha. Moro queria 60 mi-
lhões de reais. O partido informou que podia assegurar, 
no máximo, 30 milhões. 
Na pré-campanha, a dificuldade financeira gerou si-
tuações de constrangimento. Dias atrás, o ainda candida-
to do Podemos fez um giro internacional. Em Berlim, na 
Alemanha, ele se reuniu com políticos e empresários para 
expor seu plano de governo. Visitou o Parlamento, falou 
sobre a necessidade de acordos multilaterais e criticou a 
posição do governo brasileiro em relação à guerra da 
Ucrânia. Em tempos de campanha, expedições assim ser-
5 | 5
vem para os candidatos transmitirem aos eleitores a ima-
gem de que são capazes de participar de grandes debates 
internacionais. A viagem, porém, quase foi cancelada por 
falta de dinheiro. Isso só não aconteceu porque, na última 
hora, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) topou pa-
gar do próprio bolso as despesas de Moro e da equipe que 
acompanhou o candidato.
A filiação de Sergio Moro ao União Brasil foi selada em 
uma reunião, na noite de quarta-feira 30, entre Luciano Bi-
var e Luís Felipe Cunha. É, em princípio, um bom negócio 
para as duas partes. O União é o terceiro maior partido do 
Congresso, dono de um fundo eleitoral de cerca de 800 mi-
lhões de reais, mas não tem em seus quadros nomes que 
possam catapultar um projeto presidencial ou ser puxado-
res de votos para uma grande bancada. Isso não quer dizer 
que o ex-juiz será ungido como um dos líderes da legenda. 
Pelo contrário. No União há muitos políticos que torcem o 
nariz para Moro e, por essa razão, o partido exigiu que ele 
abrisse mão da candidatura à Presidência. Moro concor-
dou, mas ainda vai tentar reconstruir um consenso interno 
para se viabilizar, o que, obviamente, não será fácil. “Moro 
fez um gesto para o mundo político que quer buscar uma 
terceira via democrática e mostrou desprendimento muito 
grande em prol de um projeto amplo, não personalista”, dis-
se a VEJA a deputada Dayane Pimentel (União-BA), uma 
de suas aliadas. Ou seja, nesse terreno conturbado da ter-
ceira via, tudo ainda pode acontecer — inclusive nada. ƒ
1 | 8
FORÇA AUXILIAR
Condenado por corrupção, sem mandato e inelegível, 
o presidente do PL dá a volta por cimae ressurge 
como um dos políticos mais influentes do país 
letícia casado e RicaRdo chapola
paRceRia Bolsonaro e Valdemar Costa Neto: filiação do 
presidente, do candidato a vice e maior bancada da Câmara
Sergio Dutti
Poderbrasil
2 | 8
No eveNto de lançamento da pré-candidatura de Jair 
Bolsonaro, no domingo 20, em Brasília, Valdemar Costa 
Neto, comandante do PL, aparece como se fosse apenas 
mais um em meio aos apoiadores que prestigiavam o discur-
so do presidente da República. A discrição de Valdemar, que 
usou do microfone basicamente para saudar as autoridades 
presentes, não reflete o prestígio que o ex-deputado — e ex- 
presidiário — tem atualmente. Depois de renunciar ao man-
dato para não ser cassado em 2005 e de ser preso em 2013, 
em ambos os casos em razão do escândalo do mensalão, 
Valdemar se transformou num dos políticos mais poderosos 
do país. Um dos líderes do Centrão, ele indicou apadrinha-
dos para cargos de primeiro e segundo escalões do governo, 
filiou o presidente e outros campeões de voto ao PL e alçou 
a sigla à condição de maior bancada da Câmara, com 69 de-
putados, maisque o dobro dos 33 eleitos em 2018. O futuro 
parece ainda mais promissor. Em outubro, Valdemar espera 
eleger setenta deputados, o que faria do PL o mais impor-
tante partido do Congresso, com o qual o presidente eleito 
muito provavelmente terá de negociar — seja ele Bolsonaro, 
o novo aliado, ou Lula, o aliado de antigamente.
A redenção de Valdemar é resultado de uma combinação 
de fatores, do empenho às articulações de bastidores às 
apostas políticas certeiras, passando ainda pelo controle ab-
soluto da engrenagem partidária e por uma dose cavalar de 
pragmatismo. Mesmo quando esteve na cadeia, condenado 
a oito anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro 
3 | 8
pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do men-
salão, Valdemar nunca deixou de dar as cartas no PL e a ne-
gociar com o governo de turno. Após sacramentar a indica-
ção do empresário José Alencar para vice de Lula nas cha-
pas vitoriosas de 2002 e 2006, o ex-deputado apoiou Dilma 
Rousseff na eleição de 2010. Em 2011, viu a presidente pro-
mover uma faxina no Ministério dos Transportes e nas esta-
tais associadas à pasta, que eram feudos do PL. Valdemar 
do céu... Valdemar e Lula, no auge: a aliança 
com o PT terminou em escândalo
AiLton De FreitAS/Ag. o gLoBo
4 | 8
aceitou em silêncio, já 
que Dilma gozava de 
popularidade à época, 
mas deu o troco em 
2014. Naquele ano, 
mesmo encarcerado no 
Presídio da Papuda, ele 
fez chegar ao Palácio do 
Planalto o recado de 
que ou o então ministro 
dos Transportes, César 
Borges, era demitido ou 
o PL apoiaria o tucano 
Aécio Neves na suces-
são presidencial.
Como a eleição se 
anunciava acirrada e a 
popularidade já não era 
a mesma, Dilma se ren-
deu à chantagem, e Valdemar recuperou a sua antiga área 
de influência no segundo mandato da petista. O episódio da 
faxina também ilustra como Valdemar muda de posição de 
acordo com a conveniência. Quando seus aliados foram var-
ridos do ministério em 2011, Valdemar atribuiu a origem 
das denúncias de corrupção contra integrantes do PL ao ser-
vidor Tarcísio Gomes de Freitas, que à época era auditor da 
Controladoria-Geral da União (CGU) e, entre janeiro de 
...ao infeRno O presidente 
do PL na Papuda: 
preso por corrupção
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2019 e março deste ano, ganhou notoriedade como ministro 
da Infraestrutura. Até hoje, Valdemar nutre por Tarcísio um 
desapreço sincero, mas que ele deixou de lado temporaria-
mente em nome de um objetivo maior. Para se filiar ao PL, 
Bolsonaro exigiu que a legenda apoiasse Tarcísio ao gover-
no paulista. Valdemar aceitou pagar a fatura, abandonou 
um acerto prévio de apoio ao nome do PSDB em São Paulo e 
formalizou a parceria com Tarcísio, que, até pelas arestas 
pessoais, acabou se filiando ao Republicanos, outro expoen-
te do Centrão. Prevaleceu o pragmatismo, o mesmo que fa-
voreceu a aproximação de Valdemar e Bolsonaro.
Nos tempos em que eram deputados federais, os dois 
nunca foram grandes amigos. Valdemar sempre teve rela-
ção mais próxima com petistas ilustres, caso de José Dirceu. 
Apesar disso, o PL quase compôs a chapa de Bolsonaro em 
2018, quando o então senador Magno Malta, integrante da 
sigla, foi cotado para o posto de vice. Não deu certo. Mesmo 
na atual administração, a parceria foi de certa forma tardia. 
O PL pegou carona na negociação realizada entre o coman-
dante do PP, Ciro Nogueira, e o presidente da República pa-
ra a entrada do Centrão na base de apoio ao governo. A tran-
sação prosperou. Hoje, Ciro é ministro-chefe da Casa Civil. 
Já Valdemar indicou sua colega Flávia Arruda para a Secre-
taria de Governo e afilhados políticos para cargos estratégi-
cos, como uma diretoria do Fundo Nacional de Desenvolvi-
mento da Educação (FNDE), que tem orçamento anual de 
mais de 50 bilhões de reais. Os dois caciques do Centrão es-
6 | 8
tão na coordenação de campanha à reeleição de Bolsonaro. 
Tamanho é o prestígio de Valdemar que o evento do PL no 
domingo contou com a participação até do general Augusto 
Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, 
aquele que cantou em 2018 “se gritar pega Centrão...”
Integrante do rol de políticos condenados por corrupção 
que se consideram injustiçados pela imprensa, Valdemar 
não costuma dar entrevistas nem se posicionar publicamen-
te sobre temas diversos, a não ser quando considera extre-
mamente necessário. Num vídeo recente, pregou contra as 
“Eu não sabia que tinha grupos 
de extrema direita no Brasil. 
O Bolsonaro tirou esse pessoal 
do armário”
Valdemar Costa Neto, 
em uma reunião no TSe
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privatizações dos aeroportos de Congonhas e Santos Du-
mont, defendidas pela equipe de Paulo Guedes. Uma con-
versa a que VEJA teve acesso ajuda a entender um pouco 
como o cacique do PL analisa a atual conjuntura. “Eu não 
sabia que havia grupos de extrema direita no Brasil. O Bol-
sonaro tirou esse pessoal do armário”, declarou. Em outra 
passagem, ele ecoa os petistas mais realistas e projeta uma 
campanha muito disputada: “Vamos ter de enfrentar o pes-
soal do Lula, que tem gente fanática. Vai ser uma eleição ra-
dical, a mais difícil da história”. Essas observações foram 
“Vamos ter de enfrentar o pessoal 
do Lula, que tem gente fanática. 
Vai ser uma eleição radical, 
a mais difícil da história”
Valdemar Costa Neto, sobre 
a disputa presidencial
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feitas numa reunião com os ministros do STF Alexandre de 
Moraes e Edson Fachin, que na ocasião representavam o 
Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No encontro, é possível notar um clima bastante amisto-
so entre os presentes, bem diferente da beligerância predo-
minante na relação entre o presidente da República e os ma-
gistrados. Moraes chega a elogiar a atitude de Valdemar de 
ajudar o tribunal na época em que Bolsonaro defendia a vol-
ta do voto impresso. “Valdemar foi um grande parceiro da 
Justiça Eleitoral. Nesses dez minutos que nós já estamos (na 
reunião), o PL já deve ter mais uns quatro deputados”, brin-
cou Moraes, relator de inquéritos que investigam Bolsonaro 
e os familiares dele no STF. No tempo em que esteve preso, 
o mandachuva do PL apresentou bom comportamento, con-
cluiu o curso de “direito de família” e trabalhou por 36 dias 
em um restaurante. Conseguiu a redução da pena e, mais 
tarde, foi beneficiado por um indulto. Em liberdade, seus 
planos agora são bem mais ambiciosos. O PL filiou Bolsona-
ro, bons puxadores de votos e até o general Braga Netto, que 
deve ser o vice na chapa à reeleição. A meta do partido é ele-
ger a maior bancada da Câmara e dobrar a de senadores, 
hoje com sete integrantes. Independentemente do resultado 
da sucessão presidencial, a tendência é que o PL saia fortale-
cido das urnas. A maior vitória de Valdemar, quem diria, 
parece encaminhada. ƒ
Colaborou Rafael Moraes Moura
1 | 3
Uma Nova 
Globalização
TanTo a pandemia de Covid-19 quanto a invasão rus-
sa da Ucrânia atingiram dramaticamente o processo de glo-
balização. As repercussões foram amplas e em quase todos 
os segmentos. A pandemia afetou o trabalho, as viagens, a 
cultura e o convívio social. Hábitos trazidos pela Covid vão 
perdurar por um bom tempo. As políticas assistenciais au-
mentaram em mais de 20% o meio circulante no mundo, 
contribuindo para um processo inflacionário. Políticas anti-
cíclicas foram adotadas para evitar a paralisia da economia. 
Porém, quando o mundo ainda estava saindo da tragédia 
pandêmica, a agressão russa na Ucrânia aconteceu para afetar 
ainda mais a globalização e as relações internacionais. Nunca, 
em tempos recentes, um conflito teve tamanho impacto na 
economia planetária. Mesmo que a guerra acabe logo, seus 
efeitos serão duradouros. As políticas de defesa — antes priori-
tárias a países em regiões mais turbulentas — passaram a ser 
um tema geral. A Europa e os Estados Unidos vão se rearmar 
em decorrência do temor dos ímpetos expansionistas russos.Murillo de ArAgão
O Brasil precisa estar atento 
às transformações 
2 | 3
Mas o conflito na Ucrânia vai mais além das questões 
tradicionalmente bélicas. As sanções adotadas — pelos paí-
ses e pelas corporações — contra personalidades e o gover-
no russo são inéditas na história e jogam questionamentos 
sobre como o mundo livre, defensor da liberdade econômi-
ca, vai lidar — de ora em diante — com parceiros econômi-
cos que adotam práticas antidemocráticas. Exemplos signi-
ficativos estão em curso. O Reino Unido, após décadas sen-
do um paraíso fiscal de bilionários de origem obscura, agora 
intensifica uma campanha contra os oligarcas. Outros paí-
ses também adotam medidas semelhantes. 
A questão poderá ir mais além quando consumidores co-
meçarem a reagir contra produtos de países que agem de 
forma antidemocrática, não respeitam a boa convivência in-
ternacional ou não desenvolvem práticas sustentáveis. Pela 
pressão dos consumidores, empresas poderão ser mais cau-
“Tanto a pandemia quanto 
a invasão russa impõem 
reflexões sobre como 
o jogo da geopolítica 
vai ser jogado”
3 | 3
telosas em lidar com regimes amparados em cleptocracias 
ou que não respeitem os direitos das minorias. 
No âmbito da infraestrutura, o mundo da energia está 
em transformação. Não apenas pela tentativa de redução do 
uso de combustíveis fósseis. O conflito na Ucrânia, passa-
gem do gás natural russo para a Europa, está impondo uma 
revisão dos planos energéticos da Europa, que, tampouco, 
quer ficar na dependência dos humores de Vladimir Putin. 
Já estão em curso boicotes ao petróleo russo e planos para 
reduzir ao máximo a dependência do mesmo. 
Talvez seja prematuro dizer que viveremos uma nova glo-
balização. Até mesmo pelo fato de que — em sendo um pro-
cesso — a globalização está em permanente evolução. Novos 
atores são integrados à dinâmica, bem como novos compor-
tamentos sociais afetam o rumo dos acontecimentos. A rea-
ção da sociedade civil à invasão da Ucrânia é um exemplo. 
Ao cabo, tanto a pandemia quanto a invasão russa im-
põem reflexões sobre como o jogo da geopolítica vai ser jo-
gado. O Brasil, mesmo sendo um player regional, deve ficar 
atento às transformações que, obrigatoriamente, geram 
oportunidades e desafios. ƒ
1 | 8
BATALHA ANTECIPADA
Manifestações no Lollapalooza, propaganda na 
TV e uso intensivo de redes sociais evidenciam 
que, estimulada por regras eleitorais frouxas, a 
caça ao voto já começou 
reynaldo Turollo Jr.
FeLipe Branco cruz
legislaçãobrasil
2 | 8
show políTico Fresno (ao 
lado) e Pabllo Vittar (acima): o 
festival virou palco para 
manifestações contra Bolsonaro 
e a favor do ex-presidente
reprodução
Em maio dE 2021, a dezessete meses das eleições, o Tribu-
nal Superior Eleitoral recebeu a primeira ação contra campa-
nha antecipada referente à disputa presidencial de 2022. 
O PCdoB acusou Jair Bolsonaro (PL) de fazer discurso eleito-
ral durante um evento oficial em Açailândia (MA), onde na 
véspera haviam sido instalados outdoors em apoio ao presi-
dente. No mês seguinte, chegou a segunda ação: a Procurado-
ria-Geral Eleitoral pediu a condenação do mandatário por 
3 | 8
exibir em Marabá (PA) uma camiseta com os dizeres “Bolso-
naro 2022”, o que, para o órgão, teve “conotação eleitoral evi-
dente”. Desde então, o TSE já acumula treze ações por cam-
panha antecipada contra presidenciáveis. Nos tribunais do 
país há pelo menos 27 ações por campanha extemporânea em 
geral, ilícito cuja pena prevista é branda — multa de 5 000 a 
25 000 reais. O cenário deixa evidente que, extraoficialmente, 
os políticos já estão trabalhando na rua há muito tempo. E is-
so, claro, vai antecipar o calendário de confusões.
O clima esquentou de vez no último fim de semana, quan-
do o partido de Bolsonaro acionou o TSE contra as manifesta-
ções das cantoras Pabllo Vittar e Marina no festival Lollapa-
looza, em São Paulo — a primeira ergueu uma toalha com o 
rosto do ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquan-
to a cantora britânica xingou o atual ocupante do Planalto. 
Numa decisão que representou um ponto fora da curva no 
TSE, o ministro substituto Raul Araújo mandou a organiza-
ção vetar manifestações de artistas com teor político — o que, 
é claro, mostrou-se inviável e resultou em mais manifestações 
no dia seguinte. O presidente do TSE, Edson Fachin, prome-
teu levar o caso ao plenário e expressou o seu desconforto 
com a decisão amalucada. “A posição do tribunal será a deci-
são majoritária da Corte, cujo histórico é o da defesa intransi-
gente da liberdade de expressão”, disse. Antes disso, porém, 
diante da saraivada de críticas, o próprio Araújo arquivou o 
caso, em cima de pedido do PL, que desistiu da ação depois 
da péssima repercussão. Curiosamente, ao mesmo tempo que 
4 | 8
rolava o Lollapalooza, Bolsonaro promovia em Brasília um 
ato de lançamento de sua pré-candidatura, algo não previsto 
na lei — o PL mudou o foco para “evento de filiação” depois 
que a equipe jurídica da sigla alertou para os riscos. Mesmo 
assim, houve protestos da oposição. Os dois episódios foram 
uma amostra do que está por vir neste ano eleitoral, até agora 
marcado pelo clima de extrema polarização.
Há vários motivos que explicam a sensação de que a 
campanha, cujo início oficial será no dia 16 de agosto, já está 
por todo lado. A bagunça se tornou possível devido a mu-
danças na legislação feitas a partir de 2015. O Congresso re-
duziu drasticamente o tempo de campanha oficial, de no-
venta para 45 dias, mas flexibilizou de tal forma as regras 
bom senso Edson Fachin: contrário à 
amalucada tentativa de censura
aBdias pinheiro/secoM/Tse
5 | 8
para a pré-campanha que praticamente tudo passou a ser 
permitido, exceto pedir votos expressamente. A ideia das 
normas anteriores, mais restritivas, era evitar abuso do po-
der político e econômico. Cabia, então, ao Judiciário arbi-
trar. A pretexto de combater a subjetividade de interpreta-
ção das leis nesse período, foram feitas as mudanças. De 
acordo com o advogado Sidney Neves, consultor da Comis-
são de Direito Eleitoral da OAB, o movimento representou 
uma reação do Legislativo ao Supremo Tribunal Federal, 
que havia acabado de proibir que empresas privadas doas-
sem dinheiro para as campanhas. “Como resposta, os parla-
mentares tiraram do TSE a margem de tutela, de regulação 
do processo político”, diz. Agora, como mostram as recentes 
confusões, fica claro que o tiro saiu pela culatra: na atual era 
do vale-tudo, o volume de queixas vem aumentando e elas 
fatalmente acabam parando no TSE. 
Outro elemento que contribuiu para a antecipação das 
campanhas foi a volta da propaganda partidária no horário 
nobre da TV no primeiro semestre (ela havia sido extinta em 
2017). Mais do que divulgar suas ideias, os partidos têm apro-
veitado as inserções na TV aberta para apresentar seus candi-
datos a presidente, como fizeram até agora Lula, Ciro Gomes 
(PDT), Sergio Moro (Podemos) e Simone Tebet (MDB), ape-
sar de a norma vetar que as propagandas sirvam para “pro-
moção de pretensa candidatura, ainda que sem pedido explí-
cito de voto”. As inserções do PL de Bolsonaro estão progra-
madas para junho.
6 | 8
Contribui também para a campanha precoce a infinida-
de de redes sociais à disposição dos candidatos — na eleição 
de 2018, apenas o Facebook e o WhatsApp tinham relevân-
cia eleitoral. No campo da internet, aliás, o TSE inovou em 
uma das resoluções que trazem as normas para as eleições 
deste ano, admitindo pela primeira vez que, no período de 
pré-campanha, os pretensos candidatos — que só serão for-
malizados nas convenções partidárias, de 20 de julho a 5 de 
agosto — façam o impulsionamento de conteúdo nas redes 
sociais, “desde que não haja pedido explícito de votos e que 
seja respeitada a moderação de gastos”. O problema, segun-
do Marcelo Vitorino, especialista em marketing político e 
professor da ESPM, é que não existe critério para que as 
campanhas saibam quanto podem gastar com esseimpul-
ileGal Outdoor bolsonarista na Bahia: propaganda deste 
tipo é vetada, mas é difícil identificar os autores para punição
Luiz TiTo/FuTura press
7 | 8
sionamento. “Há um temor dos candidatos de, lá na frente, 
responderem a ações por abuso de poder econômico”, diz. 
Não há informação de quanto os presidenciáveis estão inves-
tindo em impulsionamento de mensagens. Já para o Minis-
tério Público, o problema é outro: não há como fiscalizar 
abusos, devido à grande variedade de plataformas existen-
tes e o tamanho de seu alcance — o Telegram, por exemplo, 
tem canais com mais de 1 milhão de inscritos.
Dentro do campo político, um dos efeitos da batalha elei-
toral antecipada é que ela leva à cristalização das intenções 
de voto muito mais cedo, segundo o cientista político Cláu-
dio Couto, da FGV. A mais recente pesquisa Datafolha, feita 
em 22 e 23 de março, mostra que 67% dos eleitores dizem já 
estar totalmente decididos sobre em quem votar, ante 32% 
horário nobre Ciro na TV: 
presidenciáveis ocupam o espaço dos partidos
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que afirmam que ainda podem mudar de candidato. “Isso 
produz uma alteração na forma como o debate vai se dar. O 
eleitor fica menos aberto a alternativas. Não há dúvidas de 
que esse é um dos fatores que dificultam o crescimento de 
uma terceira via”, diz Couto. 
Bolsonaro, por exemplo, faz campanha praticamente des-
de o início do mandato — em 2020, o Ministério Público já 
estudava processá-lo por causa de outdoors instalados em es-
tados como Bahia e Mato Grosso. Lula também está na caça 
ao voto desde que foi reabilitado eleitoralmente pelo STF, em 
março de 2021. A partir dali, passou a cumprir agendas públi-
cas, tem falado em voltar ao poder e apresentado ideias para 
um eventual governo. Foi também a partir da decisão do Su-
premo a favor do petista que Bolsonaro radicalizou seus dis-
cursos de viés eleitoral, virando alvo das primeiras ações no 
TSE, e intensificou pelo país a agenda de motociatas, que cla-
ramente têm apelo eleitoral. Segundo o último Datafolha, 
Lula tem 43% das intenções de voto, e Bolsonaro, 26%. 
Há, ainda, um outro componente que deve agravar o clima 
de vale-tudo: a fartura de dinheiro. Ao mesmo tempo que as 
leis eleitorais foram afrouxadas, o Congresso decidiu injetar 
no financiamento das campanhas de 2022 o maior volume de 
dinheiro público da história: 4,9 bilhões de reais. Consideran-
do a disposição dos políticos para elevar o volume da briga, 
não deverão faltar nos próximos meses embates como os do 
último fim de semana. O estopim da guerra foi aceso de for-
ma precoce e a batalha só tende a esquentar ainda mais. ƒ
1 | 3
Faltam 
estadistas
Há 58 anos, um golpe militar instaurou no Brasil uma di-
tadura que durou 21 anos e censurou, perseguiu, prendeu, 
exilou, torturou, matou. O obscurantismo e a estupidez pro-
vocaram enorme sofrimento e criaram um apagão na cultura, 
hiperinflação, arrocho salarial, concentração de renda. 
Nem o período mais nefasto de nossa história produziu, no 
entanto, um presidente com personalidade mais autoritária do 
que Jair Bolsonaro, e dá arrepios imaginar o que ele faria se tives-
se o poder de um Geisel. Isso não é impossível: os golpes de hoje 
não se dão com tanques, mas pelo desmonte das instituições, 
processo em que Bolsonaro vem sendo bem-sucedido. Se ganhar 
mais um mandato, pode destruir a democracia por completo. 
É grave que os maiores interessados na preservação da de-
mocracia não se mobilizem. Metade do Congresso Nacional, 
incluindo boa parte da oposição, segue Artur Lira e Ciro No-
gueira e se vende a Bolsonaro pelos bilhões do orçamento se-
creto. Parafraseando Churchill, alimentam o crocodilo na es-
perança de serem devorados por último. 
ricardo rangel
Os interessados na preservação 
da democracia não se mobilizam
2 | 3
Ainda mais grave é que os progressistas não consigam se 
organizar para enterrar Bolsonaro em outubro. Alckmin, sa-
botado por João Doria, migrou para o PSB para ser vice de 
Lula. A adesão, eleitoreira, não inclui agenda programática, e 
Alckmin fica calado enquanto Lula ataca bandeiras históri-
cas do PSDB. A adesão serve apenas para que Lula finja que 
acena ao centro.
Eduardo Leite concorreu nas prévias do PSDB e perdeu. 
Quis ganhar no tapetão e perdeu. Decidiu abandonar o par-
tido para ser candidato, desistiu ao perceber que não teria 
chance. Ainda quer jogar a final mesmo tendo sido derrota-
do na semifinal. Ciro Gomes tampouco cogita renunciar. 
Sergio Moro aceitou ser ministro de um presidente que, 
como juiz, ajudou a eleger. Foi seu cúmplice por dezesseis me-
ses e saiu atirando. Não tem preparo nem proposta e não con-
vence como democrata, não uniu. Anunciou sua desistência 
não por desprendimento, mas porque se viu emparedado.
“Lula poderia negociar 
agenda comum com o centro, 
mas prefere defender 
propostas incendiárias”
3 | 3
Doria já se desentendeu com Alckmin, Eduardo Leite, 
Tasso Jereissati, Bruno Araújo, José Aníbal etc.: não conse-
gue unir seu próprio partido, muito menos a oposição. Em 
um gesto unilateral e inesperado, anunciou a desistência de 
concorrer à Presidência, jogando seu partido no caos. De-
pois, desistiu da desistência... e ninguém mais sabe onde is-
so vai dar. 
Lula lutou pelo impeachment de todos os presidentes 
não petistas exceto Bolsonaro, que poupou por acreditar 
ser mais fácil de derrotar. Poderia negociar uma agenda co-
mum com o centro e até vencer no primeiro turno, mas se-
gue defendendo propostas incendiárias. Quer governar so-
zinho, como sempre fez. 
O PT não mudou, por sinal. Em 1985, na eleição indire-
ta entre Paulo Maluf, homem da ditadura e corrupto notó-
rio, e Tancredo Neves, democrata indiscutível e de caráter 
ilibado, o PT determinou o voto nulo e expulsou quem vo-
tou no democrata. Tancredo venceu, mas não exerceu a 
Presidência. Sabendo-se doente, atrasou a internação por 
medo de que os militares impedissem a redemocratização; 
acabou internado de emergência na véspera da posse e 
morreu semanas depois. 
Estadistas, como Tancredo Neves, sacrificam os inte-
resses pessoais, e até a vida, pelo país. Os políticos de hoje 
parecem dispostos a sacrificar o país por seus interesses 
pessoais (se arriscam a sacrificar os dois). ƒ
1 | 6
agora, SEM 
SoBrESSaLToS
Bolsonaro promove uma nova e provavelmente a última 
reforma ministerial — a primeira distante de teorias da 
conspiração ou disputas internas Daniel Pereira
Sergio Lima/aFP
governobrasil
2 | 6
Por uma imPosição da lei, que exige a desincompa-
tibilização de ocupantes de cargos públicos que serão can-
didatos nas eleições, Jair Bolsonaro realizou mais uma re-
forma ministerial. Dez ministros deixaram seus postos 
para concorrer em outubro — entre eles, Tarcísio Gomes 
de Freitas (Infraestrutura), que disputará o governo de 
São Paulo, Tereza Cristina (Agricultura), que tentará uma 
3 | 6
vaga no Senado por Mato Grosso do Sul, e o general Bra-
ga Netto (Defesa), cotado para vice na chapa à reeleição 
do presidente da República. Essas trocas em anos eleito-
rais são rotineiras e ocorreram também em governos an-
teriores, mas na gestão de Bolsonaro chamam a atenção 
por um motivo: foram uma rara mudança ministerial con-
vencional, sem sobressaltos, em uma administração mar-
ministério de largada
Dos 21 ministros que tomaram posse com Bolsonaro no 
início do governo, em 2019, doze deixaram o cargo ao longo 
dos últimos três anos, cinco saem para disputar eleições e 
apenas quatro permanecem nos postos 
Saíram:
André Mendonça (AGU), Ricardo Salles (Meio Ambiente), 
Santos Cruz (Secretaria de Governo), Gustavo Canuto 
(Desenvolvimento Regional), Marcelo Álvaro Antonio (Turismo), 
Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral), Fernando Azevedo 
(Defesa), Sergio Moro (Justiça), Ernesto Araújo (Relações 
Exteriores), Ricardo Vélez (Educação), Henrique Mandetta 
(Saúde), Osmar Terra (Cidadania)
Disputarão as eleições:
Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), OnyxLorenzoni (Casa Civil), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Tereza 
Cristina (Agricultura), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) 
Permanecem: 
Paulo Guedes (Economia), Augusto Heleno (Segurança 
Institucional), Wagner Rosário (CGU), Bento Albuquerque 
(Minas e Energia)
4 | 6
cada pela instabilidade, como dá prova a alta rotatividade 
em cargos estratégicos. Entre a posse na Presidência e a 
nova reforma, Bolsonaro trocou um ministro a cada 43 
dias. Só a pasta da Saúde, responsável por coordenar o 
trabalho de combate à pandemia de Covid-19, teve quatro 
comandantes desde janeiro de 2019.
Como quase nada ocorre sem turbulência na atual ges-
tão, a reforma “convencional” exigida pela legislação foi pre-
cedida de uma demissão que estava fora dos planos do pre-
sidente, mas se tornou necessária para conter danos eleito-
rais. Na segunda-feira 28, Bolsonaro exonerou do cargo de 
ministro da Educação Milton Ribeiro, que permitiu que dois 
pastores sem vínculo com a administração pública interme-
diassem a liberação de recursos da pasta para prefeituras, 
conforme revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo. A situa-
ção de Ribeiro ficou insustentável depois que prefeitos disse-
ram ter recebido dos pastores-lobistas pedidos de dinheiro e 
ouro, entre outros tipos de propina, para cuidar da liberação 
da verba. Alegando preocupação com a possibilidade de ter 
a imagem arranhada, a poderosa bancada evangélica aban-
donou Ribeiro. Já o Centrão, sempre disposto a abocanhar 
um novo quinhão na máquina pública, defendeu a demissão 
do ministro. Restou a Bolsonaro, mesmo depois de declarar 
que botava a cara no fogo por Ribeiro, mandá-lo para casa. 
“São três anos e três meses sem qualquer denúncia de cor-
rupção nos nossos ministérios”, bradou o presidente antes 
de formalizar a demissão.
5 | 6
Escolhido como forma 
de agradar aos evangéli-
cos, que constituem uma 
das principais bases de 
apoio do presidente, o pas-
tor presbiteriano Milton 
Ribeiro foi o quarto minis-
tro nomeado para a Edu-
cação. Antes dele, caíram 
Ricardo Vélez Rodriguez, 
Abraham Weintraub, ra-
dical ideológico demitido 
após defender a prisão de ministros do Supremo Tribunal 
Federal (STF), e Carlos Decotelli, que perdeu o posto depois 
de reveladas inconsistências em seu currículo. Essa alta ro-
tatividade não ajuda a boa gestão pública. Nem sempre o su-
cessor tem ou segue as mesmas prioridades do antecessor. 
“Por mais burocratizado que seja, por mais estável que se-
jam seus funcionários, mudanças de ministros sempre im-
pactam nas rotinas ministeriais”, lembra o cientista político 
Renato Perissinotto, da Universidade Federal do Paraná. Ele 
acrescenta que, no caso de Milton Ribeiro, Bolsonaro optou 
pela demissão para tentar estancar a sangria da suspeita de 
pagamento de propina — e tentar preservar também a cre-
dibilidade de seu controverso discurso de intransigência 
com a corrupção. “A improbidade sempre afeta governos 
que se apresentam como os únicos portadores da virtude 
caiu Ribeiro: demissão 
após denúncias sobre 
pastores-lobistas
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pública. É difícil segurar por muito tempo um sujeito que se 
envolveu com práticas suspeitas”, acrescenta Perissinotto.
O caso da Educação não é exceção. Bolsonaro já teve 
quatro ministros da Casa Civil, quatro da Saúde e três da 
Justiça. O chefe da Economia é o mesmo desde o início do 
mandato, mas aceitou ter as suas funções esvaziadas. As 
substituições na equipe começaram cedo e ocorreram por 
motivos diversos. Dos 21 ministros que formaram a primei-
ra equipe de governo, doze ficaram pelo caminho. O presi-
dente demitiu Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presi-
dência) e Sergio Moro (Justiça) por suspeitar de traição. 
Com o agravamento da tensão com outros poderes, foi con-
vencido a reduzir a influência da ala ideológica e exonerou 
Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Wein-
traub. Diante de sua insistência em impor um receituário ne-
gacionista no combate à pandemia de Covid-19, perdeu dois 
comandantes da Saúde: Henrique Mandetta e Nelson Teich. 
Houve também uma rodada de mudança ministerial mais 
convencional, influenciada pela necessidade de aumentar a 
base de apoio no Congresso e facilitar as negociações para a 
formação de uma coligação eleitoral em 2022. Foi quando 
Bolsonaro escancarou as portas do governo para o Centrão. 
“Rotatividade ministerial quase sempre reflete conflitos e 
negociações entre o Executivo e sua base de apoio no Con-
gresso, nas Forças Armadas ou nos movimentos sociais”, diz 
o cientista político Paulo Kramer. Conflito é uma palavra 
que combina bem com a administração Bolsonaro. ƒ
1 | 5
Meu próprio 
caMinho
Desgarrada do clã que domina a política de 
Pernambuco, Marília Arraes causa ruído na aliança 
PT-PSB ao se apresentar como candidata de Lula 
ao governo caio Sartori e ricardo Ferraz
Provocadora Marília, com Paulinho: 
no Solidariedade, mas fazendo o “L” de Lula
GenivAL PAPArAzzi/Onzex PreSS e iMAGenS/AG. O GLOBO
Pernambucobrasil
2 | 5
Em PErnambuco, o sobrenome Arraes funciona como 
um passaporte para a vida pública. Desde que Miguel, o 
“Véio Arraia”, se elegeu para o governo do estado, em 1986, 
a família domina a cena política local, unida em torno do 
PSB. À exceção de Marília Arraes, a neta rebelde do patriar-
ca, que há mais de uma década trava uma batalha pública 
com os primos Campos. Formado por filhos e netos de Ana 
Arraes, filha de Miguel e tia de Marília, esse ramo lidera o 
clã e o partido. O primeiro embate da prima desgarrada com 
os parentes se deu em 2014, quando ela pediu o apoio do en-
tão governador (e primo) Eduardo Campos para se candida-
tar à Câmara dos Deputados. Disputando a corrida presi-
dencial, ele negou, alegando que isso desagradaria a adver-
sários de quem tentava se aproximar. Descontente, Marília 
migrou para o PT, legenda pela qual disputou e perdeu a 
prefeitura do Recife para o filho de Eduardo, João Campos, 
em 2020. Eleita deputada federal dois anos antes, ela agora 
apronta nova encrenca: foi do PT para o Solidariedade e por 
ele brigará pelo governo pernambucano. Mas não desgruda 
de Lula, o que pode respingar na aliança petista com o PSB. 
Na festa de sua filiação ao Solidariedade, um cartaz tra-
zia a foto de Marília ao lado do ex-presidente. Após um 
discurso em que ela e seu novo aliado, o sindicalista Pauli-
nho da Força, afirmaram que Lula é maior do que o PT, a 
deputada posou fazendo um “L” com os dedos. A postura 
vem despertando a fúria dos caciques do PSB, partido com 
o qual o PT costura uma aliança estratégica em torno da 
3 | 5
Vice-Presidência, na figura do neossocialista Geraldo 
Alckmin, e da retirada do PT do páreo em estados onde o 
PSB tem chance, sendo Pernambuco o principal deles. Pa-
ra piorar o clima, Marília conversou com Lula, quatro dias 
antes da filiação ao Solidariedade, em uma reunião na 
qual, segundo integrantes do alto-comando petista, dispa-
rou num tom chulo, curto e grosso: “O PSB quer botar no 
meu c..., mas meu c... não é cacimba, não é poço”. Para 
abafar as labaredas, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, 
tratou de ligar para Carlos Siqueira, presidente do PSB, e 
para Paulo Câmara, governador do estado, e assegurar que 
Lula manterá distância do palanque de Marília. 
rebeldia O avô Arraes, Marília e 
João Campos (assinalados): briga no clã
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Considerada pessoa de difícil trato, junto aos colegas a 
deputada mostra-se engraçada e cativante, sobretudo em 
festas, quando costuma soltar a língua apontando desafetos 
e expondo sua vida pessoal, em termos muitas vezes irre-
produzíveis. Ao negociar apoios, é acusada de pôr os inte-
resses próprios à frente dos partidários. “Em primeiro, se-
gundo e terceiro lugares, vem ela. Em quarto, o retrato dela”, 
alfineta um parente com quem cortou relações. A rusga com 
Eduardo Campos foi tão profunda que Renata, viúva do go-
vernador, mandou dizer que ela não seria bem-vindano ve-
lório do marido, morto em um acidente de avião durante a 
campanha de 2014. E Marília obedeceu. Os recorrentes 
conflitos renderam-lhe a alcunha de “arengueira”, sinônimo 
de briguenta no Nordeste. “É puro machismo”, rebate ela, no 
segundo casamento e mãe de duas filhas. “Homens podem 
ser contundentes, mulheres não têm esse direito”, completa. 
Apesar das diferenças regionais, a deputada tinha con-
seguido construir boas pontes com a direção nacional do 
PT. Isso começou a mudar quando ela atropelou João Da-
niel, candidato dos petistas, e obteve a segunda secretaria 
da Câmara com o apoio de deputados ligados ao bloco que 
elegeu Arthur Lira (PP) à presidência da casa. O caldo en-
tornou de vez quando a direção do PT, no afã de preservar 
as alianças em um estado estratégico, decidiu lançá-la ao 
Senado. O nome de Marília chegou a ser aprovado até pelo 
desafeto Paulo Câmara — Gleisi convenceu o governador a 
deixar antigas diferenças de lado. Marília, àquela altura de 
5 | 5
malas prontas para o Solidariedade, nem compareceu à 
reu nião do diretório estadual em que seu destino seria sela-
do. “Ela nos desmoralizou. Nos obrigou a tomar uma deci-
são que não queríamos e depois esnobou”, diz um dirigente 
petista. “Sequer fui consultada”, rebate Marília. “Uma deci-
são dessas não cabe somente ao partido. Não procuro car-
gos, mas um projeto”, proclama. 
As chances de Marília se eleger governadora são incer-
tas, mas ela larga muito bem. Em pesquisa divulgada na 
quinta-feira 31, a primeira com seu nome, aparece na dian-
teira com 28% das intenções de voto. “A imagem dela ainda 
é muito atrelada ao Lula e ao PT. Não se sabe se terá a mes-
ma força sem esses apoios”, diz Adriano Oliveira, professor 
de ciências políticas da UFPE. A estratégia do Solidarieda-
de é articular palanques com outros partidos da oposição 
para apoiá-la. Daqui até a eleição, muita encrenca Marília 
ainda pode aprontar. ƒ
1 | 19
“Não coloco meus 
valores em xeque”
Depois de uma demissão constrangedora, o general 
Silva e Luna revela em entrevista exclusiva o 
histórico de pressões e tentativas de intervenção 
de Jair Bolsonaro na Petrobras
Victor irajá e Felipe mendes
Frustração Silva e Luna, de olhos marejados na entrevista 
a VeJA: ingerências vistas como ameaça à própria biografia
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EstataisEconomia
capa: Foto De Sergio Dutt e montagem com FotoS De ShutterStock
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s últimos dias do general Joaquim Silva e Luna no 
posto de presidente da Petrobras têm transcorrido 
em um escritório a algumas quadras de distância 
do monumental edifício em estilo brutalista que 
serve de sede da empresa na Avenida Chile, no 
centro do Rio de Janeiro. Uma grande reforma, 
que Silva e Luna não verá concluída, provocou a mudança 
para um segundo prédio da companhia nos arredores. Foi 
lá, em uma sala do último andar com vista para a Baía de 
Guanabara e para a sede histórica, que o general recém-de-
mitido pelo presidente Jair Bolsonaro recebeu a reportagem 
de VEJA para uma entrevista emocionada e em tom de de-
sabafo na terça-feira 29. Um dia antes, ele havia atendido a 
um telefonema do ministro de Minas e Energia, Bento Albu-
querque, quando se preparava para ir a Brasília, e recebido 
uma notícia que já esperava havia dias. A surpresa, no caso, 
estava nos detalhes de como se daria a operação para seu 
afastamento do cargo. Seu nome seria retirado da ata para a 
renovação do conselho de administração da empresa, o que 
na prática significa que ele não ocupará mais a presidência 
da petroleira. Tal ritual burocrático deve acontecer no dia 13 
de abril. Até lá, ele segue no posto.
Desde o escândalo popularizado como petrolão, que 
marcou as gestões dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e 
Dilma Rousseff, a Petrobras passou por muitas mudanças. 
Uma série de medidas foram adotadas em um rígido proces-
so de saneamento e de implementação de normas que tem 
O
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por objetivo evitar novos malfeitos prejudiciais aos acionis-
tas minoritários privados e ao próprio governo como acio-
nista majoritário. Entre elas está a responsabilização judicial 
dos dirigentes da empresa caso adotem uma gestão temerá-
ria. Ao tomar posse em abril do ano passado, Silva e Luna 
assumiu o cargo em meio a um cenário movediço, em que 
teria de se equilibrar entre as fortes pressões do acionista 
principal representado pela figura sentada no Palácio do 
Planalto, em Brasília, e o interesse dos minoritários e da pró-
pria companhia. No currículo, carregava uma elogiada ges-
noVo presidente O economista Adriano Pires: a defesa 
do livre mercado durante a carreira tranquilizou investidores 
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inFluência Landim, o amigo de Bolsonaro: 
eminência parda na companhia
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tão à frente da Itaipu Binacional e, antes disso, reputada pas-
sagem pelo Ministério da Defesa no governo de Michel Te-
mer. Sua missão era substituir Roberto Castello Branco, que 
havia desidratado no posto depois de refutar as tentativas de 
ingerência de Bolsonaro na empresa. Agora, deixa o cargo 
em uma situação praticamente idêntica à do antecessor.
Desde o princípio, Silva e Luna sabia que o desafio era 
complexo e cheio de armadilhas. No entanto, sua maior 
frustração não diz respeito às pressões ou dificuldades na 
presidência de um colosso de regime misto que vale 90 bi-
5 | 19
lhões de dólares, mas a seu desfecho, com um processo de 
fritura que considera desrespeitoso a sua biografia de militar 
e de gestor. E quando fala sobre isso seus olhos se enchem 
de lágrimas e a voz lhe foge. “Tem coisas para mim que são 
sagradas, e a mais importante é minha biografia. Quero mi-
nha reputação íntegra, para quem quiser olhar. Não aceito 
que ninguém jogue pedra nisso aqui e, por consequência, na 
própria empresa”, disse Silva e Luna a VEJA, no momento 
mais emocionado de sua entrevista (confira o quadro). O ge-
neral também se sentiu ferido na maneira como foi dispen-
primeira Vítima Castello Branco: 
o ex-presidente foi alvejado antes de Luna
tânia rego/agência BraSiL
6 | 19
sado da função pelo presidente da República, que o convi-
dou para o cargo. “A atitude poderia ter sido diferente. Que 
tivesse me sido prestado um contato telefônico dizendo: 
‘Olha, precisamos do seu cargo’. É coisa simples”, afirmou. 
“Poderia ter sido de forma mais respeitosa”, avalia. Pernam-
bucano da cidade de Barreiros, o militar de 72 anos revelou 
que em sua gestão sofreu pressões para indicar diretores na 
empresa e, apesar de garantir que não carrega mágoa, man-
dou recados claros. “Não vendo minha alma a ninguém, não 
coloco meus valores em xeque.”
No começo do mês, Bolsonaro afirmou que a Petrobras 
“cometia um crime” contra a população e reclamou do últi-
mo aumento do preço dos combustíveis, afirmando que “to-
do mundo no governo pode ser substituído”. Foi o primeiro 
sinal de que a relação com Silva e Luna escalava em tensão. 
Em suas declarações públicas e lives de quinta-feira, o presi-
dente atacava a gestão da estatal. Entre os vitupérios que lhe 
são típicos, Bolsonaro chegou, inclusive, a colocar em dis-
cussão o salário do general à frente da companhia. “O dire-
tor ganha 110 000 por mês. O presidente, mais de 200 000 
por mês e, no final do ano, ainda tem alguns salários de bo-
nificação. Os caras têm que trabalhar”, disse. Com discipli-
na militar, Silva e Luna resistiu às agressões, que cresciam 
em intensidade. Mas com a incursão tresloucada de Vladi-
mir Putin na Ucrânia, e o consequente aumento no preço in-
ternacional do petróleo para próximo de 140 dólares, o que 
era ruim ficou péssimo. Em uma evidente provocação a Sil-
7 | 19
va e Luna, Bolsonaro indicou o engenheiro e presidente do 
Flamengo, Rodolfo Landim, para o posto de presidente do 
conselho de administração da empresa no lugar do almiran-
te Eduardo Bacelar. Ex- presidente da BR Distribuidora e ex- 
braço direito — e depois inimigo figadal — do empresário 
Eike Batista em suasempreitadas pelo setor de óleo e gás, 
Landim já havia cruzado o caminho de Silva e Luna ante-
riormente. Em setembro do ano passado, o engenheiro o 
procurou para uma conversa e sugeriu que, se estivesse à 
riqueza submarina exploração do pré-sal: uma das 
várias justificativas equivocadas para intervenções políticas
anDré riBeiro/agência PetroBraS
8 | 19
frente de uma diretoria da petroleira, conseguiria baixar os 
preços dos combustíveis. Aproveitou também para deixar 
explícita sua proximidade com o presidente da República. 
Silva e Luna declinou da sugestão.
Sob o comando do general, o preço da gasolina subiu 
32% e o do diesel, 56%. Ainda assim, mesmo com os au-
mentos, houve um cuidado de se equilibrar a brutal volatili-
dade internacional no período, com a companhia absorven-
do parte dos custos. Assim como havia feito Castello Bran-
co, o general resistiu a pressões que vinham de congressistas 
e membros do governo para que rompesse a diretriz de ali-
nhamento ao mercado global e segurasse os preços. Com is-
so, ganhou o respeito do mercado financeiro, que temia ver 
um “testa de ferro” do presidente à frente da maior empresa 
de capital misto do país. Atender aos desejos do governo e 
seus aliados, além da possibilidade de render complicações 
legais para os executivos da empresa, poderia causar desa-
bastecimento de combustíveis no Brasil, uma vez que preços 
muito abaixo do cenário no exterior desestimulam a impor-
tação de gasolina e diesel refinado por outros competidores 
e provocam uma diminuição da oferta interna. 
Em 68 anos de história, repete-se na Petrobras um pa-
drão relativo a seus presidentes. Uma rápida análise na lis-
ta de 39 nomes que já passaram pela empresa mostra que, 
quanto mais complicada a situação econômica e política 
do governo, maior a dança das cadeiras na empresa — e, 
consequentemente, as tentativas de interferência. Foi as-
9 | 19
HISTÓRICO TUMULTUADO
Adriano Pires será o 40º 
presidente da empresa
Em média, eles
ficaram no cargo por
um ano e oito meses
As gestões com mais trocas 
foram as de José Sarney e 
Fernando Collor, ambos com
5 presidentes
Apenas Getúlio Vargas,
Jânio Quadros e Itamar Franco 
passaram toda a gestão com o 
mesmo presidente da Petrobras
Dados sobre o comando da Petrobras em 
suas quase sete décadas
10 | 19
sim durante as gestões de José Sarney e de Fernando Col-
lor de Mello (os campeões em mudanças, com cinco presi-
dentes nos mandatos), e também nas de João Goulart e de 
Dilma Rousseff (quatro e três presidentes, respectivamen-
te). Infelizmente, o modelo se repete sob Bolsonaro, que 
apontará o terceiro executivo chefe da companhia em pou-
co mais de três anos de governo. É nessa condição que as-
sume o posto o economista e consultor Adriano Pires, só-
cio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), 
a partir do dia 13 de abril. 
Aos 64 anos, Pires chega à Petrobras com o aval do Cen-
trão e do mercado financeiro. O bom trânsito com congres-
sistas na estruturação de propostas para o setor de óleo e 
gás fez com que seu nome fosse endossado pelo presidente 
da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e pelo ministro da Casa 
Civil, Ciro Nogueira. “Lira foi a porta de entrada para Pires. 
Nogueira foi o carimbador”, diz uma fonte próxima ao con-
sultor. “Ele é jeitoso para falar. O general não falava e peita-
va o governo. Ele fez uma excelente gestão, diga-se de pas-
sagem, mas era difícil de conversar”, completa a mesma fon-
te. Se do ponto de vista político o problema parece resolvido, 
a sucessão ainda preocupa os acionistas minoritários da em-
presa, que preferiam manter Silva e Luna no seu comando. 
Fico triste com tantas trocas de presidente da empresa. Isso 
não é boa prática de gestão e gera insegurança e desvio de 
atenção nos funcionários”, afirma Marcelo Mesquita, repre-
sentante dos minoritários no conselho de administração.
11 | 19
Economista formado pela Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (UFRJ), em 1980, e com doutorado em economia in-
dustrial pela Universidade Paris XIII, Pires se orgulha de di-
zer que acumula quatro décadas de experiência no setor de 
energia. Reconhecido por seu trabalho no âmbito acadêmico 
e como consultor de grandes empresas, agora terá o maior 
desafio de sua carreira, já que nunca dirigiu uma grande 
companhia. Crítico contumaz dos governos do PT, sempre 
defendeu uma política de livre mercado no setor de energia. 
Além disso, em diversas entrevistas a VEJA, mostrou-se re-
fratário ao intervencionismo na empresa. “Espero e torço pa-
ra que Bolsonaro resista à tentação de intervir na Petrobras. 
Histórico Protesto na década de 60: o lema 
“O petróleo é nosso” ainda perdura
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Esse seria o pior caminho”, disse no início de março, exata-
mente no começo do processo de fritura de Silva e Luna. “O 
congelamento dos preços é a pior política possível. O resulta-
do imediato é gerar um desabastecimento dos combustíveis.”
Com tal histórico de declarações, o mercado se tranquili-
zou quando seu nome foi revelado como substituto de Silva 
e Luna, em informação divulgada por VEJA na tarde da se-
gunda-feira 28. No pregão do dia seguinte, as ações da Pe-
trobras subiram 2,22%, puxando o Ibovespa para cima. A 
expectativa é que Pires não tomará medidas radicais e anti-
liberais na condução da empresa, como alterar a política de 
preços de paridade de importação, adotada durante a presi-
dência de Pedro Parente em 2016 e mantida por seus três 
sucessores. “O Adriano é um profissional da área. Tem uma 
biografia a zelar e um histórico de posicionamentos consis-
tentes”, diz Castello Branco, o antecessor de Silva e Luna. 
“Mas só o tempo vai dizer o que vai acontecer.” Também os 
representantes dos competidores da Petrobras na venda de 
combustíveis refinados apostam numa postura responsável. 
“Pires é um profissional atuante no mercado. Ele participa 
ativamente dos debates dos principais temas de energia no 
setor de óleo e gás. Sempre defendeu um mercado aberto, 
alinhado com a paridade de importação. Ele tem muita cre-
dibilidade”, explica Sergio Araujo, presidente da Associação 
Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). 
Se a política de preços deve ser mantida, a dúvida é como 
Pires poderá atender aos anseios políticos que o levaram ao 
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“Não imagiNava esse 
tipo de armadilha”
De saída da presidência da Petrobras, o general Joaquim 
Silva e Luna revela tentativas de interferência na empresa 
por parte do presidente Bolsonaro e decepções com a for-
ma como foi demitido. Confira os principais pontos da en-
trevista a VeJA.
constrangimento Jair Bolsonaro 
e Silva e Luna: desgaste público
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o senhor se sente traído pelo presidente jair bol-
sonaro? Não. O presidente é um político, minha relação 
com ele foi respeitosa. Mas, ao final, em razão de não poder 
alterar preços, não aceitar interferência dentro da empresa, 
não aceitar mudar pessoas aqui dentro, trocar diretores, 
esse foi o desfecho. Não vendo minha alma a ninguém, não 
coloco meus valores em xeque. A diretoria que trabalha co-
migo tem confiança em mim. Tenho dever e lealdade com o 
presidente da República, mas algumas coisas não posso fa-
zer. Não fiz. 
como se deram as pressões do presidente em re-
lação ao senhor? As pressões sempre foram crescen-
tes. em torno do preço dos combustíveis, por troca de dire-
tores. Foram todas absorvidas, nunca cedidas. Nenhuma. 
essas resistências foram crescendo, foram feitas algumas 
sinalizações públicas. Mas eu não abandonaria o campo de 
batalha. Não me senti surpreendido com o desfecho. A for-
ma me surpreendeu um pouco. 
surpreendeu como? esperava um contato telefônico, 
algo nesse sentido. Como estou aqui para um mandato de 
dois anos, não imaginava esse tipo de armadilha. Tive con-
tato com a lista a ser enviada ao conselho de administração 
de última hora, tirando meu nome e colocando outros. Cabe-
15 | 19
ria uma maneiramais respeitosa de se fazer isso. Conside-
ro como parte do processo. Mas não custava dizer que pre-
cisava do cargo, me ligar. estaríamos resolvidos. Não tenho 
apego a cargo, a nada. O final do filme não foi surpresa, mas 
jamais imaginei que chegaria a esse momento. Não negocio 
com minha alma. Não vendo minha alma a ninguém.
o presidente imaginou que, ao nomeá-lo para o 
cargo, o senhor cederia com mais facilidade? 
Houve um equívoco. A minha história de vida é de entregas. 
O presidente conhecia meus resultados, pelos trabalhos 
em Itaipu e no Ministério da Defesa. então, uma série de ex-
pectativas que poderia haver em torno da empresa podem 
ter sido frustradas. Tenho responsabilidade social, não pa-
ra fazer política pública ou partidária. existiu um período 
turvo na Petrobras, todos sabem disso. ela passou pelo va-
le da morte, foi a empresa mais endividada do país. Mas a 
empresa não faz política, as normas de governança não 
permitem isso.
 
a pressão o incomodou? Pressão nunca me intimi-
dou. Passou a me incomodar quando começaram a falar 
coisas que não são verdadeiras, porque impactam a com-
panhia. Tenho a responsabilidade de zelar pela imagem da 
empresa. Isso me incomodou. Disseram que ganho 200 000 
16 | 19
reais mensais. Isso é mentira, não existe nada disso. Não é 
verdade, não ganhei nem metade disso. Não vim para cá por 
causa de dinheiro, vim para servir ao país. Isso incomoda. 
Tem coisas que são sagradas para mim.
bolsonaro pediu a nomeação de diretores? Houve 
indicações nesse sentido, mas confesso que isso não me in-
comodou. eu não ia fazer. então, eu dormia tranquilo. Meu 
apego a cargo é zero, nunca tive. Vim para servir. entendi 
que tinha de cuidar da empresa, a parte política não cabia a 
mim. Saio com a alma lavada e com muito orgulho. A Consti-
tuição fala de legalidade, impessoalidade, moralidade, publi-
cidade e eficiência. Honrei todos esses cinco princípios aqui 
dentro e posso mostrar. O lucro é eficiência, tenho retorno. 
É fruto de uma boa gestão. Fico muito tranquilo. Sensação 
de dever cumprido? Não. Mas tenho certeza de que entrego 
ao meu sucessor uma empresa na melhor condição que ela 
esteve em toda a sua existência.
como recebeu a indicação de rodolfo landim pa-
ra o conselho da empresa? Tive um único contato com 
ele. em setembro do ano passado, ele esteve aqui na em-
presa, conversamos cerca de quarenta minutos. Na época, 
ele comentou que tinha condições de baixar o preço dos 
combustíveis, mas que precisaria ter um cargo na empresa 
17 | 19
— uma direção, um conselho. e se mostrou muito próximo 
do presidente. Mas não passou disso. 
o que explica os preços tão altos dos combustí-
veis? estamos em uma sequência de três grandes pro-
blemas: Covid-19, a crise hídrica do ano passado e, agora, 
a guerra no Leste europeu, que impacta o mundo inteiro. 
Não é privilégio do Brasil.
se lula for eleito, como o senhor avalia que isso 
impactará a petrobras? eu confesso que gostaria que 
o resultado das eleições fosse outro, mas, se isso acontecer, 
para mudar algo na Petrobras, vai ter de mudar muita norma, 
muita lei. Tenho dito de forma contundente que aqui não cabe 
aventureiro, hoje a governança da Petrobras não permite is-
so. Graças à governança, não vejo possibilidade para que 
aconteça algo parecido com o que ocorreu no passado.
até onde bolsonaro vai pressionar para baixar 
o preço dos combustíveis, e com isso tentar au-
mentar sua popularidade e buscar se reele-
ger? Não tenho ideia, não. Mudar a legislação fica difícil. 
Mexer na política de preços é como mexer na lei da gravi-
dade. A forma de baixar o preço é torcer para a guerra 
passar. Não vejo solução a partir da Petrobras.
18 | 19
cargo. Congressistas do Centrão alinhados com o Planalto 
esperam a colaboração do economista em pautas que pos-
sam resultar em diminuição dos atuais níveis de inflação no 
país. Parlamentares aprovaram recentemente a criação de 
um fundo de estabilização de preços que seria administrado 
com recursos de dividendos recebidos da empresa pela 
União. Pires, provavelmente, será requisitado para ajudar na 
formulação desse projeto.
Enquanto aguarda a aprovação do seu nome, o novo pre-
sidente pode se beneficiar de uma mudança conjuntural ca-
paz de facilitar seu trabalho. Nos últimos dias, o preço do 
petróleo registrou queda. O lockdown em algumas grandes 
alíVio Lockdown em Xangai na semana passada: 
preços menores do petróleo
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cidades chinesas ameaçadas pela volta de casos de Covid-19, 
como Xangai, fez com que a cotação da commodity oscilas-
se para baixo com a possibilidade de uma demanda menor 
de petróleo no mundo. Se a tendência for confirmada, e 
combinada com o arrefecimento da guerra entre a Rússia e a 
Ucrânia, além do declínio do dólar, o petróleo entrará em 
um ciclo de desvalorização. Tal cenário desanuviado favo-
rece Bolsonaro, que poderá incorporar ao seu discurso elei-
toral o mérito de ter agido para derrubar o preço dos com-
bustíveis no Brasil. E, mais uma vez, a Petrobras será usada 
para alimentar os interesses de políticos populistas, uma 
realidade recorrente independentemente do matiz ideológi-
co do governo. “A Petrobras nasceu em meio a uma estraté-
gia política e econômica de forte cunho estatista e naciona-
lista”, diz Gilberto Braga, professor da escola de negócios Ib-
mec, do Rio de Janeiro. “Desde então, as decisões da empre-
sa têm relevância eleitoral, pois os recursos de que dispõe 
costumam ser decisivos para sustentar as localidades onde 
atua. Daí tanta interferência dentro da companhia.” É algo 
que, em quase sete décadas de história, já deveria ter acaba-
do. Mas a tumultuada destituição de Silva e Luna prova que 
essa ainda é uma realidade distante. ƒ
1 | 7
Na hora e No 
lugar certos
A chance de polir a imagem de estadista nas 
respostas do Ocidente à invasão da Ucrânia 
ajudou Emmanuel Macron a se firmar como 
favorito na eleição presidencial do próximo dia 10
CAIO SAAD
frAnCO fAvOrItO Emmanuel Macron em campanha: menos 
comícios e debates, mais tempo para tratar de “coisas sérias”
LUdOvic MARiN/AFP
françainternacional
2 | 7
uando o Ministério da Defesa da Rússia anunciou, 
na segunda-feira 28, que o aparato militar em tor-
no da capital ucraniana, Kiev, seria reduzido “dras-
ticamente”, chegando a aventar até um possível en-
contro entre os presidentes Vladimir Putin e Volo-
dymyr Zelensky, os líderes ocidentais correram ao 
telefone para avaliar o que parecia ser um primeiro 
movimento russo na direção de um cessar-fogo. No fim, op-
taram pelo ceticismo, visto que as bombas não pararam de 
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rIvAl A direitista Marine Le Pen: em segundo, 
apesar da suavizada no discurso
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cair, ao menos até quinta-feira 31 de março. O que é ruim pa-
ra a Ucrânia, contudo, pode render pontos para Emmanuel 
Macron. Faltando poucos dias para o primeiro turno da elei-
ção francesa, no dia 10, o presidente, que busca um segundo 
mandato, teve de novo a chance de se posicionar, ao lado do 
americano Joe Biden e do britânico Boris Johnson, no núcleo 
que determina as respostas do Ocidente à inaceitável invasão 
russa. Além de ressaltar seu papel de estadista influente, a 
guerra reduziu sua presença em debates e comícios, por estar 
“ocupado com coisas mais relevantes”. 
Nada mau para quem lidera todas as pesquisas e quer 
continuar assim. Com 28% das intenções de voto, Macron 
tem confortável vantagem sobre a ultradireitista Marine 
Le Pen, com 17,5%. No segundo turno, a previsão é de que 
vença por 57% a 43%. Mas baques anteriores na populari-
dade levam sua equipe a tratar a dianteira com cautela. Le 
Pen, que aprendeu a amenizar posições para se tornar 
mais palatável, chegou a ultrapassá-lo nas pesquisas em 
alguns momentos. A entrada do mais direitista ainda Éric 
Zemmour na corrida, no fim do ano passado, chacoalhou 
o cenário eleitoral— escritor e frequentador de progra-
mas de TV, ele arrastou multidões para comícios onde 
exaltava as glórias passadas da França e atribuía todas as 
mazelas do país aos imigrantes. O entusiasmo inicial não 
durou e Zemmour está hoje em quarto lugar, com 11% das 
intenções de voto — atrás até do esquerdista radical Jean- 
Luc Mélenchon (14%). Curiosamente, tanto Zemmour 
4 | 7
quanto Mélenchon se desculparam por terem, no passado, 
tecido elogios a Putin.
Uma certeza, anotada por todos os candidatos, foi a vira-
da da França para a direita, caracterizada pela latente insa-
tisfação na área rural e entre os trabalhadores menos quali-
ficados — tradicionais redutos da esquerda e que hoje se 
preocupam mais com o preço da gasolina e da energia e 
com a deterioração dos serviços públicos — e pelo desinte-
resse dos jovens pela política, o que aumenta o peso do elei-
tor mais velho e conservador. Hoje, 37% do eleitorado se de-
clara de direita, 4 pontos a mais do que na votação de 2017, e 
tuDO IguAl Bombeiros removem vítima de bombas russas 
em Mykolaiv, no sul da Ucrânia: o recuo anunciado não aconteceu
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20% se dizem de esquerda, 5 pontos a menos do que há cin-
co anos. La gauche francesa, força política e intelectual cuja 
influência ia muito além das fronteiras, implodiu, pulveriza-
da em vários partidos pequenos. La droite, ao contrário, 
apoiando-se no ressentimento contra imigrantes e batendo 
na tecla nacionalista, ganhou espaço. 
O próprio Macron, que saiu do mercado financeiro para 
a vida pública e é até hoje visto como “presidente dos ricos”, 
ajustou o perfil liberal e técnico aos novos tempos. Hoje ele 
defende com vigor a preservação do patrimônio cultural 
francês frente a influências de fora, abrindo fogo contra o 
woke — uma espécie de versão radical do politicamente cor-
reto nascida nos Estados Unidos. Além disso, ampliou os 
poderes da polícia em nome do combate à criminalidade e 
aprovou leis para defender os “valores da República” contra 
o “separatismo islâmico”. A atuação do governo durante a 
pandemia, duramente criticada no início, acabou sendo 
bem-aceita pela população, sobretudo devido às medidas de 
preservação de empregos e salários. Com esse currículo, e a 
sempre eficiente bandeira de melhor opção entre dois extre-
mos, o presidente passou à frente dos adversários e assumiu 
o posto de favorito nas eleições.
No plano externo, a ambição de Macron de liderar uma 
Europa unida e fortalecida ganhou tração com a saída de ce-
na da alemã Angela Merkel. O novo chanceler, Olaf Scholz, 
ainda está se aclimatando ao cargo e o outro rival em poten-
cial, Mario Draghi, da Itália, economista amplamente res-
6 | 7
peitado por sua atuação no Banco Central Europeu, tem 
problemas suficientes dentro de casa. A guerra na Ucrânia 
veio acentuar o protagonismo de Macron em uma situação 
acompanhada de perto pela França e por toda a Europa. 
Levantamento do Centro de Pesquisas Políticas da uni-
versidade Sciences Po Paris mostrou que a invasão é fato de-
cisivo para 50% dos franceses e 90% têm medo de suas con-
sequências. Visitando Putin, atuando em reuniões da Otan 
(organismo do qual, no passado, decretou “morte cerebral”) 
e cultivando a imagem de negociador, Macron vem receben-
do manifestações de apoio de todos os lados — até da adver-
vOz AtIvA Conversa com Biden: no núcleo 
que decide a reação do Ocidente
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sária Marine Le Pen. “Fotografias com líderes europeus re-
unidos para discutir a guerra têm um peso significativo na 
construção de um perfil de liderança a ser seguida”, diz o 
pesquisador Gilles Ivaldi, um dos responsáveis pelo estudo.
Partidário de uma União Europeia que toma decisões 
em bloco e independe de alianças, Macron sempre insistiu 
na necessidade de cada país investir em sua defesa, em vez 
de riscar esse item do orçamento e confiar na proteção da 
Otan, aliança em que a voz dos Estados Unidos fala mais 
alto. Agora, vê sua proposta ser aceita até pela Alemanha, 
país ferrenhamente antimilitarista desde o fim da II Guer-
ra, que, após a invasão da Ucrânia, resolveu se armar. “Ele 
tem sido o agente diplomático europeu mais ativo no con-
flito”, confirma Tara Varma, pesquisadora do Conselho 
Europeu de Relações Exteriores. Com a Rússia emitindo 
sinais divergentes — otimismo nas negociações de paz e 
bombardeios onde anunciou que iria recuar —, o caos hu-
manitário se ampliando na Ucrânia e países europeus mo-
vidos a gás russo cogitando racionar energia, Macron se 
prepara para apostar as fichas do seu futuro. Ao que tudo 
indica, com boas chances de ganhar. ƒ
1 | 3
Por que enrolar-se 
na bandeira?
Em quE circunstâncias o leitor estaria disposto a 
largar tudo, tentar abrigar a família da maneira mais prote-
gida possível e, mesmo nunca tendo encostado em nada 
mais letal do que uma faca de churrasco, pegar em armas 
para defender o Brasil de uma agressão externa? A pergunta 
provavelmente é feita por muitos que assistem à resistência 
quase inacreditável dos ucranianos, a começar pelo presi-
dente, um humorista que transformou camiseta verde- oliva 
em figurino de herói, passando pelo prefeito da capital, o ex-
campeão de boxe Vitali Klitschko, que regularmente dispa-
ra frases cinematográficas, do tipo “É melhor morrer do que 
viver como escravo”. Com 2,01 metros de altura e cara es-
culpida nos ringues, ele parece mais adequado ao papel do 
que o miúdo Vladimir Zelensky. Como bala não respeita ta-
manho, a resistência de ambos reflete o espírito de luta exis-
tencial que se implantou no país.
O sentimento patriótico, de luta pela sobrevivência da nação, 
é um dos elementos que mais causa admiração num mundo em 
vilma gryzinski
Na Ucrânia, há o embate entre 
nacionalismo do bem e do mal
2 | 3
que esse tipo de coisa parecia relegada aos pedaços piores dos 
livros de história, com a diluição das identidades nacionais — 
um fenômeno não necessariamente bom, mas supostamente 
inevitável e até desejável para apagar da memória os males pro-
vocados pelo nacionalismo furioso, resumido em três elemen-
tos: Alemanha nazista, Itália fascista e Japão imperial.
De tantas vezes ser invocada, inclusive no contexto erra-
do, o patriotismo como “último refúgio do canalha”, segun-
do o pensador inglês Samuel Johnson, virou um chavão se-
rial. Mas o caso da Ucrânia está ressuscitando o conceito de 
nacionalismo ruim e nacionalismo bom. Este, “um naciona-
lismo cívico baseado no patriotismo e no estado de direito”, 
na definição da autora americana Anne Applebaum. O mau, 
obviamente, é retratado pelos discursos sinistros, a realida-
de alterada, a manipulação pervertida e até as feições distor-
cidas de Vladimir Putin.
Como em tantas outras coisas, George Orwell deu a me-
lhor definição dos dois fenômenos. O bom, ele chamou de 
“O ‘patriotismo como 
último refúgio do canalha’, 
segundo Samuel Johnson, 
virou um chavão”
3 | 3
patriotismo, “a devoção a um lugar e a um modo de vida es-
pecíficos, que acreditamos ser o melhor do mundo, mas não 
desejamos impor a outras pessoas”. O (mau) nacionalismo, 
ao contrário, “é inseparável do desejo de poder”.
O que nos leva de volta à primeira pergunta: quem resis-
tiria de armas na mão a um desejo avassalador desse tipo? 
Com uma narrativa nacional riquíssima e vencedora, anco-
rada numa espécie de religião cívica em que a liberdade é 
cultuada como valor supremo, os americanos decepciona-
ram na resposta. Segundo uma pesquisa da Quinnipiac, 
apenas 55% disseram que continuariam nos Estados Uni-
dos e participariam da resistência; 38% simplesmente fugi-
riam do país. Na faixa dos 18 aos 34 anos, a “resistência” cai 
para 45%. “Projetando para a escala nacional, seriam 125 
milhões de ianques caindo fora da Terra dos Não Mais Li-
vres e Pátria dos Não Especialmente Bravos”, ironizou a es-
critora americana Lionel Shriver. Ela mesma disse que co-
locaria uma caixa de vinho na traseira do SUV e daria o fo-
ra. E o leitor, fariao quê? ƒ
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Jana Sampaio
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Cada vez mais extrovertida e falante nesta nova fa-
se da vida, após quase 25 anos de contrato com a 
Rede Globo, a apresentadora angélica, 48 anos, 
resolveu expor um fato doloroso que nunca havia 
comentado: o abuso sexual de que foi vítima quando 
adolescente. Falando a um site, disse que, aos 15 
anos e no auge do sucesso da música Vou de Táxi, 
se viu cercada por rapazes que passaram a mão em 
seu corpo durante uma sessão de fotos em Paris. 
“Só agora consegui entender que esse episódio foi 
uma violência absurda. É incômodo relembrar, mas 
é o tipo de situação que marca para sempre”, dis-
se Angélica a VEJA. Ela pretende participar 
de uma “passeata virtual” contra abusos 
de crianças e adolescentes, marcada 
para 18 de maio. “A gente não pode to-
lerar nenhum tipo de violência por 
achar que não é grave o suficiente. Se 
tivesse a cabeça que tenho hoje, não teria 
me calado”, afirma.
3 | 5
campEão falido 
Há cinco anos, o tenista alemão boriS becker, vencedor de 
seis torneios do Grand Slam, teve sua falência pessoal decretada, 
com dívidas de 10 milhões de libras. Agora, ele volta ao banco dos 
réus em Londres, onde mora, para responder a 24 acusações de 
bens ocultados no processo, entre eles suas medalhas e troféus, 
duas propriedades na Alemanha, parte de um apartamento de lu-
xo em Londres e 1 milhão de libras em dinheiro. No depoimento, 
Becker, 54 anos — sempre acompanhado da namorada, lilian 
de carvalho, analista de risco político nascida em São Tomé e 
Príncipe —, negou as acusações e chorou as mágoas: disse que fi-
cou “envergonhado” pela falência e que perdeu sua fortuna de 50 
milhões de libras, entre prêmios e patrocínios, porque sustentava 
“um estilo de vida muito caro”. O julgamento continua.
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companhia duvidosa
Durante semanas, o reino se perguntou: elizabeth vai ou não vai 
à cerimônia religiosa em memória do marido, Philip, morto há um 
ano? Com dificuldade de locomoção e pouquíssimas aparições em 
pessoa nos últimos meses, todas elas em um salão do Castelo de 
Windsor, a rainha, de 95 anos, estaria hesitante em atravessar a 
Abadia de Westminster de cadeira de rodas, para ela uma inaceitá-
vel mostra de fraqueza. Pois bem: Elizabeth não só compareceu, 
apoiada em uma bengala, como teve por companhia o príncipe an-
drew, 62, filho caído em desgraça ao pagar para se livrar de uma 
acusação de exploração sexual de menor. Com aparência frágil, 
mas bem disposta, a rainha sentou e levantou várias vezes, cantou 
os hinos e, em momento de excepcional emoção, ficou com os olhos 
marejados. O próximo grande compromisso é o Fim de Semana do 
Jubileu, de 2 a 5 de junho.
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vêm aí a rainha 
E sEu bEbê 
Pela primeira vez, após catorze anos 
seguidos de malhadíssimo corpo per-
feito, a rainha da bateria do Salgueiro 
vai desfilar na Sapucaí, dia 22, com 
uma discreta barriguinha. Explica-se: 
aos 47 anos, em plena pré-menopausa, 
viviane araúJo está grávida do pri-
meiro filho ou filha (ela faz suspense sobre 
o sexo). “Vou estar com quatro meses e mi-
nha gravidez não é de risco. Mas fui 
orientada a não pular, nem rebolar 
muito”, diz Viviane, que usará uma 
fantasia mais comportada e salto 
menos alto do que o normal. Maria 
Alice ou Joaquim é fruto de uma ferti-
lização in vitro realizada em dezem-
bro, três meses depois do casa-
mento com o empresário Guilher-
me Militão. Animada, ela avisa: “Te-
mos mais um embrião congelado e 
a ideia é aumentar a família assim 
que for possível”. ƒ@ar
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Pesquisa mundial coloca os brasileiros no 
topo da lista dos povos que sempre partem 
do pressuposto de que vão ser enganados — 
só 11% dizem que confiam nas outras pessoas
ShutterStock
comportamentoGeral
País de desconfiados
DuDa monteiro De barros
De olho O próximo sob suspeita: os brasileiros 
não confiam em ninguém
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ão faltam relatos de estrangeiros que sofreram gol-
pes no Brasil simplesmente porque acreditaram 
em alguma informação falsa e confiaram na pes-
soa que a repassou. Na maioria dos casos, a reação 
dos brasileiros é criticar a ingenuidade e a falta de 
discernimento da pessoa engambelada. Mas, no 
plano mais amplo da convivência em sociedade, será que a 
insuspeição é um erro — ou errados estão aqueles que sem-
pre desconfiam de tudo e de todos? A questão se impõe aqui, 
onde confiança é artigo de luxo. Em pesquisa inédita do Ins-
tituto Ipsos, que apresentou a pergunta “Você confia no pró-
ximo?” a 22 500 pessoas em trinta países, o Brasil aparece 
em último lugar — só 11% responderam “sim”, muito abaixo 
da média global, de 30%. Não há dúvida de que, nestas 
praias, o mais prudente é manter o pé atrás até prova em 
contrário, mas essa atitude tem seu preço. “Quem desconfia 
sempre se fecha para os outros. Não se trata de confiar cega-
mente, mas compensa dar uma chance às pessoas”, pondera 
a psicóloga Lidia Aratangy. 
São vários os motivos citados para a desconfiança atávi-
ca dos brasileiros e parte deles remonta à própria formação 
do Brasil colônia, na qual a ausência de um projeto comum 
entre os nativos e os portugueses desembocou na constru-
ção de uma sociedade sem harmonia, onde prevalecia o 
conflito. “A confiança se estabelece quando há uma relação 
comunitária e pessoas com objetivos semelhantes, algo im-
possível em uma época em que um lado temia ser escraviza-
N
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Apenas 1 em cada 10 brasileiros 
afirma confiar no próximo 
No mundo, são
3 pessoas em cada 10
do, explorado pelo outro”, avalia o cientista político José Ál-
varo Moisés. A indiferença original da sociedade ao interes-
se coletivo resultou na criação de instituições vacilantes, su-
jeitas a manobras e interesses, e abriu espaço para a impuni-
dade. Não por acaso, a pesquisa do Ipsos mostra que a pro-
fissão com menor prestígio no país é a de político — 63% 
dos entrevistados a consideram “não confiável”. 
A desconfiança sempre patente se acirra ainda mais em 
consequência da polarização, que ruge com força em ano 
eleitoral. Nesse contexto, desconhecidos são inimigos em 
potencial e as barreiras emocionais se tornam ainda mais 
impenetráveis. “Existe uma crise global de ceticismo, mas a 
4 | 9
Traição amarga
Foi ao descobrir 
que uma de suas 
melhores amigas 
havia lhe aplicado 
um golpe que o 
comerciante iury 
nunes, 20, entrou 
para o time dos 
desconfiados. 
“Mudei totalmente a 
forma de me 
relacionar. Sou mais 
cauteloso e vivo 
com medo de ser 
enganado”, admite.
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situação brasileira é especialmente preocupante”, afirma a 
cientista política Nara Pavão, da Universidade Federal de 
Pernambuco. “A ideia de ‘nós’ contra ‘eles’ separa as pes-
soas.” O bancário carioca Luiz Roberto Abreu, 56 anos, é 
um cético assumido, depois de ser alvo de seguidas mano-
bras que o prejudicaram no trabalho e de se decepcionar 
com o poder público em sucessivos momentos. “Na primeira 
oportunidade, as pessoas agem para te lesar. E os políticos, 
que deveriam zelar pela população, só atuam em benefício 
próprio. Não tem para onde correr”, diz. 
O célebre jeitinho, afirmam os especialistas, contribui 
para o alto índice de desconfiança. Sua origem está no “ho-
mem cordial” definido em Raízes do Brasil (1936), de Sérgio 
Buarque de Holanda. Segundo o historiador, trata-se de um 
artifício psicológico incrustado na formação dos brasileiros 
que faz com que ponham as relações afetivas acima das im-
pessoais. “A tendência é favorecer aquele com quem se tem 
afinidade. Não existe uma cultura que ponha o correto aci-
ma de tudo”, diz Bernardo Conde, antropólogo da PUC-Rio. 
Com frequência, como todo mundo sabe, esse jeito torto de 
obter as coisas descamba para o suborno deslavado, inchan-
do ainda mais a maré de desconfiança. Há, felizmente, quem 
nade contra ela,se dobrando com convicção às regras. A fi-
sioterapeuta carioca Larissa Teixeira, 26 anos, fez a prova 
de direção quatro vezes e não conseguiu a habilitação. Pre-
feriu desistir a pagar um fiscal e comprar a carteira, como 
muitos fazem. “Senti que fui reprovada de propósito, para 
6 | 9
apelar, nunca
A fisioterapeuta larissa teixeira, 26, prefere sair 
prejudicada a recorrer ao famoso “jeitinho”, a troca 
ilícita de favores que estimula o alto nível de 
desconfiança no Brasil. “O certo tem de estar 
acima dos nossos interesses pessoais”, diz.
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ganharem dinheiro. Mas acho que burlar as normas sempre 
prejudica alguém”, desabafa.
A pesquisa instala a China no primeiro lugar em con-
fiança — lá, quase 60% da população põe a mão no fogo 
pelo próximo. Para o CEO do Ipsos, Marcos Calliari, isso 
se deve ao Estado forte e à ênfase na coletividade, ainda 
que os dois fatores se apoiem em um regime ditatorial. 
“A estabilidade econômica e política se reflete diretamente 
na forma como as pessoas constroem suas relações”, diz 
Calliari, observando que as democráticas Holanda, Suécia, 
“Aquele que 
não tem 
confiança 
nos outros 
não lhes 
pode ganhar 
a confiança.”
lao-tsé 
(604 a.C.-531 a.C.)
reflexões sobre a confiança
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Austrália, Irlanda e Suíça também estão entre os dez paí-
ses com maior índice de confiança. 
Entre os entrevistados pelo Ipsos, as mulheres e os jovens 
se mostraram mais desconfiados do que os homens adultos. 
“Os altos índices de violência de gênero e a cultura patriar-
cal explicam esse comportamento”, afirma Calliari. No caso 
dos jovens, a tendência está atrelada ao intenso fluxo de in-
formação a que têm acesso, onde não faltam provas de cam-
balacho. O comerciante baiano Iury Nunes, 20 anos, sentiu 
na pele o golpe aplicado por sua melhor amiga, que lhe ar-
“Um ato de 
confiança dá paz 
e serenidade.” 
Fiódor Dostoiévski 
(1821-1881) 
“O primeiro dever da 
inteligência é desconfiar 
dela mesma.” 
albert einstein 
(1879-1955)
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rancou 700 reais através de mentiras. Ele ameaçou 
denunciá- la à polícia e o dinheiro foi devolvido, mas a má-
goa permaneceu. “Levei tempo para entender que estava 
sendo roubado. Hoje não empresto 1 centavo para ninguém 
e não consigo confiar nem em amigos e familiares”, admite. 
Nem sempre, porém, desconfiar é o pior caminho. Há situa-
ções que justificam plenamente manter um pé atrás e outras 
em que duvidar abre horizontes inesperados. O cientista Al-
bert Einstein (1879-1955), do alto de sua sabedoria, pontifi-
cava: “O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela 
mesma”. Mas quem se fecha à possibilidade de acreditar nas 
outras pessoas pode acabar mais sozinho do que gostaria. 
“Sentir-se acolhido e confiar formam uma via de mão du-
pla”, observa Lídia Aratangy. No país dos desconfiados, um 
voto de confiança pode fazer toda a diferença. ƒ
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CALOR DE RACHAR
Temperaturas recordes nas regiões polares 
e novos estudos sobre o degelo no Ártico 
ressaltam a necessidade de encarar as mudanças 
climáticas com urgência luiz felipe castro
ruptura Fenda aberta na Antártica: fenômenos como 
esse se tornaram cada vez mais comuns nos últimos anos
AFP
ambientegeral
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O secretáriO-geral das Nações Unidas (ONU), o 
português António Guterres, não usou meias-palavras du-
rante a COP26, a conferência climática realizada no fim do 
ano passado em Glasgow, na Escócia. No evento, ele disse 
que a humanidade está “caminhando para uma catástrofe 
climática” e “cavando a própria cova”. Líderes mundiais, pes-
quisadores e ativistas ambientais denunciaram de forma re-
corrente, ao longo das últimas décadas, os perigos das mu-
danças climáticas causadas pela emissão de gases de efeito 
estufa, pelo efeito colateral da queima de combustíveis fósseis 
e pelo desmatamento. Eles, contudo, nem sempre foram ou-
vidos e, muitas vezes, foram até ridicularizados. O negacio-
nismo e os interesses econômicos seguem travando a pauta 
ambiental, mas a natureza e a ciência têm dado sinais cada 
vez mais contundentes sobre a triste sina do planeta.
Em março, ondas de calor incomuns atingiram tanto o 
Ártico, no Polo Norte, quanto a Antártica, o chamado conti-
nente gelado, no Polo Sul. A estação Hopen, na Noruega, na 
região ártica, chegou a marcar temperaturas cerca de 30 
graus acima do normal. Enquanto isso, a estação Concordia, 
base de pesquisa na Antártica, marcou 11,5 graus negativos, 
quando a média na região, tida como a mais gelada da Ter-
ra, é de 50 graus negativos. A extraordinária escalada dos 
termômetros chamou ainda mais a atenção por ocorrer na 
mesma época do ano, mas em estações opostas. 
No ano passado, outros eventos causaram espanto e um 
rastro de mortes, sobretudo de idosos, os mais vulneráveis às 
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Os alertas e os compromissos 
firmados na COP26 de 2021
O MAPA DO PERIGO
Onde ocorreram e por que as incomuns ondas
de calor registradas neste ano intrigam cientistas
R E C O R D E S
A temperatura da Terra está entre 1,1° C e 
1,2° C acima dos níveis pré-industriais
C O M P R O M I S S O
Os países se comprometeram a limitar o 
aumento da temperatura em 1,5° C. Para isso, 
as emissões de CO2 devem ser reduzidas em 
45% até 2030 e chegar a zero até 2050
O Brasil é o 4º país que mais poluiu desde 
1850, atrás apenas de EUA, China e Rússia. 
A maior parte das emissões do país vem
da derrubada de florestas e do uso do
solo para pecuária e agricultura
R A N K I N G M U N D I A L
Fontes: Nações Unidas e Carbon Brief
É o solo congelado das regiões 
polares, cuja temperatura permanece 
inferior a 0 grau. Retém 1,6 trilhão de 
toneladas de carbono orgânico, quase 
o dobro do encontrado na atmosfera 
terrestre. Seu degelo, portanto, pode 
liberar CO2 e metano, aumentando 
drasticamente as concentrações de 
gases de efeito estufa. A taxa de 
erosão do permafrost pode mais
que dobrar até 2100, segundo a 
Universidade de Hamburgo
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Oceano Atlântico
Cobre o território de oito países (Rússia, 
Canadá, EUA, Dinamarca, Noruega, Finlândia, 
Suécia e Islândia) e águas internacionais
FAUNA: variada, ursos-polares, renas, lobos, 
raposas, baleias, morsas e focas
PERIGO: em março, alguns pontos do Ártico 
registraram 30 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 3,3 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: 4 milhões de habitantes
A N T Á R T I C A ( P O L O S U L )
O “continente gelado” tem 14,2 milhões de km²
de território (quase o dobro do Brasil). Argentina, 
Chile, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Reino 
Unido e França reivindicam seu território
FAUNA: pinguins, focas e pássaros
PERIGO: em março, alguns pontos da Antártica 
registraram 40 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 4,8 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: cerca de 4 000 de 
pesquisadores no verão e 800 no inverno
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Os alertas e os compromissos 
firmados na COP26 de 2021
O MAPA DO PERIGO
Onde ocorreram e por que as incomuns ondas
de calor registradas neste ano intrigam cientistas
R E C O R D E S
A temperatura da Terra está entre 1,1° C e 
1,2° C acima dos níveis pré-industriais
C O M P R O M I S S O
Os países se comprometeram a limitar o 
aumento da temperatura em 1,5° C. Para isso, 
as emissões de CO2 devem ser reduzidas em 
45% até 2030 e chegar a zero até 2050
O Brasil é o 4º país que maispoluiu desde 
1850, atrás apenas de EUA, China e Rússia. 
A maior parte das emissões do país vem
da derrubada de florestas e do uso do
solo para pecuária e agricultura
R A N K I N G M U N D I A L
Fontes: Nações Unidas e Carbon Brief
É o solo congelado das regiões 
polares, cuja temperatura permanece 
inferior a 0 grau. Retém 1,6 trilhão de 
toneladas de carbono orgânico, quase 
o dobro do encontrado na atmosfera 
terrestre. Seu degelo, portanto, pode 
liberar CO2 e metano, aumentando 
drasticamente as concentrações de 
gases de efeito estufa. A taxa de 
erosão do permafrost pode mais
que dobrar até 2100, segundo a 
Universidade de Hamburgo
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Oceano Atlântico
Cobre o território de oito países (Rússia, 
Canadá, EUA, Dinamarca, Noruega, Finlândia, 
Suécia e Islândia) e águas internacionais
FAUNA: variada, ursos-polares, renas, lobos, 
raposas, baleias, morsas e focas
PERIGO: em março, alguns pontos do Ártico 
registraram 30 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 3,3 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: 4 milhões de habitantes
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O “continente gelado” tem 14,2 milhões de km²
de território (quase o dobro do Brasil). Argentina, 
Chile, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Reino 
Unido e França reivindicam seu território
FAUNA: pinguins, focas e pássaros
PERIGO: em março, alguns pontos da Antártica 
registraram 40 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 4,8 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: cerca de 4 000 de 
pesquisadores no verão e 800 no inverno
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Os alertas e os compromissos 
firmados na COP26 de 2021
O MAPA DO PERIGO
Onde ocorreram e por que as incomuns ondas
de calor registradas neste ano intrigam cientistas
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A temperatura da Terra está entre 1,1° C e 
1,2° C acima dos níveis pré-industriais
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Os países se comprometeram a limitar o 
aumento da temperatura em 1,5° C. Para isso, 
as emissões de CO2 devem ser reduzidas em 
45% até 2030 e chegar a zero até 2050
O Brasil é o 4º país que mais poluiu desde 
1850, atrás apenas de EUA, China e Rússia. 
A maior parte das emissões do país vem
da derrubada de florestas e do uso do
solo para pecuária e agricultura
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Fontes: Nações Unidas e Carbon Brief
É o solo congelado das regiões 
polares, cuja temperatura permanece 
inferior a 0 grau. Retém 1,6 trilhão de 
toneladas de carbono orgânico, quase 
o dobro do encontrado na atmosfera 
terrestre. Seu degelo, portanto, pode 
liberar CO2 e metano, aumentando 
drasticamente as concentrações de 
gases de efeito estufa. A taxa de 
erosão do permafrost pode mais
que dobrar até 2100, segundo a 
Universidade de Hamburgo
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Oceano Atlântico
Cobre o território de oito países (Rússia, 
Canadá, EUA, Dinamarca, Noruega, Finlândia, 
Suécia e Islândia) e águas internacionais
FAUNA: variada, ursos-polares, renas, lobos, 
raposas, baleias, morsas e focas
PERIGO: em março, alguns pontos do Ártico 
registraram 30 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 3,3 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: 4 milhões de habitantes
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O “continente gelado” tem 14,2 milhões de km²
de território (quase o dobro do Brasil). Argentina, 
Chile, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Reino 
Unido e França reivindicam seu território
FAUNA: pinguins, focas e pássaros
PERIGO: em março, alguns pontos da Antártica 
registraram 40 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 4,8 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: cerca de 4 000 de 
pesquisadores no verão e 800 no inverno
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alterações bruscas de temperatura. Em julho, o sudoeste do 
Canadá e o noroeste dos Estados Unidos experimentaram 
uma “onda de calor excepcional e perigosa”, segundo a Orga-
nização Mundial da Saúde (OMS), beirando incríveis 50 graus. 
Um mês depois, o mesmo ocorreu em partes do Mediterrâneo, 
especialmente em Siracusa, na ilha italiana da Sicília, onde foi 
estabelecido o recorde de temperatura já registrada na Europa: 
48,8 graus. Os chamados anticiclones de bloqueio, que impe-
dem a chegada de ar frio, e o fenômeno La Niña, que afeta as 
correntes atmosféricas, foram apontados como explicações 
mais prováveis. Alguns especialistas relutaram em cravar 
uma relação direta entre os casos com o chamado aquecimen-
to global e ressaltaram que eventos extremos sempre ocorre-
ram, muitas vezes de forma aleatória e isolada. No entanto, já 
é consenso que as mudanças climáticas causadas pelo descui-
do humano podem aumentar não só a probabilidade como a 
frequência e a trágica intensidade desses fenômenos. 
O termo “aquecimento global”, forma como antes eram 
resumidos os perigos ambientais, caiu em desuso, já que diz 
respeito a apenas um dos efeitos das mudanças climáticas 
(este, sim, o termo mais amplo) em escala global. Para além 
da temperatura média da Terra — que, segundo o IPCC, o 
painel ambiental da ONU, subiu entre 1,1 e 1,2 grau acima 
dos níveis pré- industriais de 1850 —, há outras questões de 
risco, como alterações dos regimes de chuva, intensificação 
de eventos extremos, sejam de seca, umidade, calor ou frio, 
e o enfraquecimento da circulação oceânica. 
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O degelo nas regiões polares é uma preocupação antiga, 
mas descobertas feitas recentemente por um pesquisador 
brasileiro tiveram repercussão internacional. David Mar-
colino Nielsen liderou um estudo da Universidade de Ham-
burgo, na Alemanha, publicado em fevereiro pela revista 
Nature Climate Change, que apontou os riscos do aumento 
da erosão da região costeira do Ártico. Os efeitos do des-
congelamento do permafrost, como é chamado o solo con-
gelado das regiões polares, podem ser catastróficos, pois a 
degradação da matéria orgânica ali contida pode liberar 
enorme quantidade CO2 e metano, aumentando a tempe-
ratura média da Terra. 
infernal Queimadas na Sibéria, em 2021: 
o planeta está vulnerável
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risco imediato Pinguins em marcha: 
as colônias estão cada vez menores
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Nielsen explica que, à medida que a temperatura so-
be, a taxa de erosão aumenta em metros e também em 
milhões de toneladas de carbono liberadas. Com base 
em uma inovadora combinação de modelos computacio-
nais, ele e sua equipe concluíram que, caso as emissões 
de gases de efeito estufa permaneçam sem controle, a ta-
xa de erosão poderá dobrar até o fim do século. “O efeito 
e o destino do material orgânico e o seu papel no clima 
ainda são altamente incertos, mas é fato que, quanto 
mais conseguirmos limitar a magnitude das mudanças 
globais, menor será o prejuízo para a sociedade”, disse 
Nielsen a VEJA.
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Os alertas e os compromissos 
firmados na COP26 de 2021
O MAPA DO PERIGO
Onde ocorreram e por que as incomuns ondas
de calor registradas neste ano intrigam cientistas
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A temperatura da Terra está entre 1,1° C e 
1,2° C acima dos níveis pré-industriais
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Os países se comprometeram a limitar o 
aumento da temperatura em 1,5° C. Para isso, 
as emissões de CO2devem ser reduzidas em 
45% até 2030 e chegar a zero até 2050
O Brasil é o 4º país que mais poluiu desde 
1850, atrás apenas de EUA, China e Rússia. 
A maior parte das emissões do país vem
da derrubada de florestas e do uso do
solo para pecuária e agricultura
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Fontes: Nações Unidas e Carbon Brief
É o solo congelado das regiões 
polares, cuja temperatura permanece 
inferior a 0 grau. Retém 1,6 trilhão de 
toneladas de carbono orgânico, quase 
o dobro do encontrado na atmosfera 
terrestre. Seu degelo, portanto, pode 
liberar CO2 e metano, aumentando 
drasticamente as concentrações de 
gases de efeito estufa. A taxa de 
erosão do permafrost pode mais
que dobrar até 2100, segundo a 
Universidade de Hamburgo
Á R T I C O ( P O L O N O R T E )
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Oceano Atlântico
Cobre o território de oito países (Rússia, 
Canadá, EUA, Dinamarca, Noruega, Finlândia, 
Suécia e Islândia) e águas internacionais
FAUNA: variada, ursos-polares, renas, lobos, 
raposas, baleias, morsas e focas
PERIGO: em março, alguns pontos do Ártico 
registraram 30 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 3,3 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: 4 milhões de habitantes
A N T Á R T I C A ( P O L O S U L )
O “continente gelado” tem 14,2 milhões de km²
de território (quase o dobro do Brasil). Argentina, 
Chile, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Reino 
Unido e França reivindicam seu território
FAUNA: pinguins, focas e pássaros
PERIGO: em março, alguns pontos da Antártica 
registraram 40 graus acima da média. No geral, 
aumento foi de 4,8 graus sobre a média de 1979 a 2000
POPULAÇÃO: cerca de 4 000 de 
pesquisadores no verão e 800 no inverno
P O L O N O R T E
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P O L O S U L
P E R M A F R O S T
P O L O S U LP O L O N O R T E
10 | 11
Eis o xis da questão: os efeitos do degelo podem até ser 
benéficos, caso limitados a níveis mínimos, a depender do 
compromisso da humanidade com a causa. Em cenários de 
mudanças climáticas mais acentuadas, o permafrost poderá 
se converter em uma fonte de gases de efeito estufa, em con-
sequência da degradação da matéria orgânica que descon-
gelaria e ficaria disponível para a decomposição. Por outro 
lado, em cenários de desenvolvimento sustentável, o perma-
frost pode se tornar em uma região de captura de carbono 
atmosférico. “O possível aquecimento leve da superfície e o 
aumento da concentração de CO2 atmosférico tornariam a 
região gelada mais fértil, favorecendo o crescimento de ve-
getação”, diz Nielsen. Para isso, é preciso seguir a velha re-
ceita: preservar áreas verdes e substituir combustíveis fós-
seis e não renováveis, como petróleo, gás natural e carvão, 
por fontes renováveis, como solar, eólica e biocombustíveis.
Engana-se quem pensa que os fenômenos climáticos 
nos polos não interferem em todo o planeta. Com o au-
mento do nível dos oceanos e a incidência de casos extre-
mos, ilhas e regiões costeiras poderão desaparecer. “A 
maioria das nações foi colonizada da costa para o interior, 
especialmente os países em desenvolvimento, como o Bra-
sil. Estamos vulneráveis”, aponta Tércio Ambrizzi, profes-
sor do Departamento de Ciências Atmosféricas da IAG/
USP. O país sofre com a falta de planejamento e prevenção 
a eventos como as chuvas torrenciais que no verão acome-
tem a Região Sudeste e causam milhares de mortes e dei-
11 | 11
xam desabrigados todos os anos. Por outro lado, fenôme-
nos de estiagem colocam em risco o abastecimento de 
água e a geração de energia hidrelétrica. 
Os especialistas alertam para o fato de que, por sua posi-
ção geográfica e abundância de recursos, o Brasil deveria li-
derar o debate climático, mas isso não vem ocorrendo. “Di-
versas regiões abrem a possibilidade de maior geração de 
energia eólica e fotovoltaica. São setores da economia que 
podem ser mais bem direcionados”, diz Ambrizzi. Há con-
senso de que o governo Bolsonaro falhou na questão am-
biental. Para David Nielsen, falta ao Brasil investimento em 
instituições independentes que poderiam investigar melhor 
o tema: “Nos últimos anos, órgãos essenciais sofreram cor-
tes de verbas e foram ignorados pelos tomadores de deci-
são”. Tércio Ambrizzi diz que é preciso conciliar necessida-
des sustentáveis com econômicas: “O argumento sempre é 
financeiro, mas é uma falácia dizer que a floresta atrapalha 
a agricultura. Ambas podem conviver”. Não há mais como 
negar a gravidade das mudanças climáticas. Os avanços tec-
nológicos, como o processo de eletrificação de automóveis, e 
a maior conscientização abrem novas vias de esperança. O 
esforço, porém, tem de ser coletivo — de norte a sul. ƒ 
1 | 6
A voz do cérebro
Um novo sistema criado por médicos alemães 
permite, pela primeira vez, que uma pessoa 
impossibilitada de andar, falar e abrir os olhos 
se comunique com o mundo Cilene pereira
Wyss Center
Medicinageral
Conexão Implante: pessoas 
com ELA perdem o controle 
muscular. No detalhe, eletrodo 
colocado no paciente estudado
2 | 6
ElE não consEguE mais se movimentar, falar e sequer 
abrir os olhos, mas foi capaz de fazer uma declaração de 
amor. Imobilizado por causa da esclerose lateral amiotrófi-
ca (ELA), um paciente alemão de 34 anos expressou o senti-
mento pelo filho, de 4 anos, por meio de uma frase estampa-
da na tela de um computador: “Eu amo o meu lindo filho”, 
escreveu ele com a ajuda de um sistema que, pela primeira 
vez, possibilitou a um indivíduo nessas circunstâncias co-
municar-se usando sentenças inteiras, muito além do “sim” 
e “não” que grande parte da tecnologia permite. 
A ELA é uma doença que progressivamente afeta o sis-
tema nervoso, levando à paralisia motora irreversível. Por 
essa razão, o paciente aos poucos perde a capacidade de 
executar as funções que requerem a ação dos músculos, 
como andar, falar, deglutir, respirar e abrir os olhos. Quan-
do isso acontece, ele entra no estado que em inglês é cha-
mado locked- in, algo como trancado em si mesmo. Em 
português, a condição recebe o nome de pseudocoma. 
Nessa etapa, quando a janela para o mundo se fecha, en-
cerrava-se também a única forma de comunicação possí-
vel, feita por meio do piscar ou com a ajuda de equipamen-
tos como os que usou o físico britânico Stephen Hawking 
(1942-2018), que sofria de ELA. Os aparelhos viabilizam a 
expressão dos pensamentos em sistemas digitalizados, 
mas somente se o paciente controlar o movimento dos 
olhos. Caso contrário, a doença o obriga à terrível tribula-
ção de viver aprisionado em si mesmo.
3 | 6
É nesse estado que se encontra o jovem cuja conquista 
mostrou ser possível reabrir uma fresta por onde a mente de 
pessoas como ele consiga expressar a própria voz. Diagnosti-
cado em 2015, o paciente tem a identidade protegida. Sua jor-
nada para preservar a interação com as pessoas ao seu redor 
começou em 2017, quando familiares procuraram os médicos 
da Universidade de Tübingen, na Alemanha. Eles haviam 
criado um sistema que permitira a três pessoas em pseudoco-
ma responderem “sim” e “não”. Àquela altura, o paciente co-
meçava a ter dificuldade para se comunicar movimentando 
os olhos. Aceito o pedido de socorro, os médicos iniciaram 
uma corrida contra o tempo. Era importante aproveitar as ca-
pacidades cognitiva e auditiva ainda presentes para detectar 
os modelos cerebrais a ser explorados. Isso foi feito por meio 
do implante de dois microeletrodos no córtex cerebral, área 
fundamental para a correta manifestação do pensamento. 
leitura Registro dos sinais elétricos: ondas neurais
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DA PROFUNDEZA
DA MENTE
O sistema capta e 
traduz a intenção de 
fala do paciente
Dois microeletrodos 
foram implantados 
em pontos do 
córtex cerebral
1
São conectados
a um amplificador 
instalado na parte 
externa do crânio
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As sentenças são 
exibidas na tela do 
computador
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Os sinais são decodificados por 
um processador de sinais neurais
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DA PROFUNDEZA
DA MENTE
O sistema capta e 
traduz a intenção de 
fala do paciente
Dois microeletrodos 
foram implantados 
em pontos do 
córtex cerebral
1
São conectados
a um amplificador 
instalado na parte 
externa do crânio
2
As sentenças são 
exibidas na tela do 
computador
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Os sinais são decodificados por 
um processador de sinais neurais
6 | 6
Os dispositivos foram conectados a um sistema de tra-
dução instalado no quarto do paciente. Depois de muito 
treino, ele estava apto a selecionar mentalmente as letras 
de um teclado virtual. Tipo a tipo, as frases começaram a 
ser formadas. Na medida em que os olhos se fechavam, ex-
pandiam-se no cérebro o vocabulário e a velocidade com 
que os caracteres eram mencionados até alcançarem a 
marca de um a cada minuto. No dia 253 pós-implante, o 
paciente perguntou ao filho se gostaria de ver o filme Ro-
bin Hood, da Disney, brincou pedindo batata com curry e 
que pusessem cerveja no tubo de alimentação. Ainda disse 
à mulher que colocasse para tocar músicas da banda ame-
ricana Tool. A declaração de amor ao filho significou o 
ápice desse processo. A história está relatada em artigo pu-
blicado na revista científica Nature Communications. De-
pois, contudo, o paciente perdeu a capacidade de se comu-
nicar tão sofisticadamente, provavelmente porque o cére-
bro rejeita os implantes e os sinais elétricos estão mais fra-
cos. É tolo, no entanto, pensar que o esforço foi em vão. As 
vitórias entregaram à medicina um horizonte de possibili-
dades. “Quanto mais cedo o sistema for adotado, melhores 
serão os resultados”, disse a VEJA Jonas Zimmermann, 
um dos médicos da equipe. “Mas teremos de trabalhar 
com outros pacientes e segui-los ao longo dos anos para 
obter os dados de que precisamos.” É isso. A voz da mente 
do rapaz alemão é apenas o começo de mais uma magnífi-
ca estrada trilhada pelo ser humano. ƒ
1 | 5
O IMPÉRIO 
CONTRA-ATACA
Com a atração Galactic Starcruiser, a Disney 
convida fãs de Star Wars a se tornar personagens 
dos episódios. Experiências imersivas são a nova 
tendência dos parques ANDRÉ SOLLITTO
FANTASIA Dentro da nave: turistas podem se vestir 
a caráter e assumir o papel de heróis ou vilões da série
AllEn J. SChAbEn/loS AnGElES TimES/GETTy imAGES
turismoGeral
2 | 5
Na mitologia de Star Wars, a fantástica saga criada pe-
lo cineasta americano George Lucas, o contrabandista Han 
Solo e a Princesa Leia se apaixonam, casam e passam a lua 
de mel em um cruzeiro galáctico, o luxuoso Halcyon. Ago-
ra, os fãs da série poderão ao menos ter um vislumbre de co-
mo foi a aventura. Isso porque a espaçonave deixou o mun-
do da ficção para se tornar a nova atração do Disney World, 
o complexo de parques temáticos localizado em Orlando, na 
Flórida. Desde que comprou os direitos da franquia, em 
2012, a Disney explora ao máximo as possibilidades de ne-
gócios geradas pela aquisição. 
Nesse contexto, novos filmes, séries, games, livros e qua-
drinhos são lançados com frequência. Em 2019, a empresa 
inaugurou em seus parques uma área inteira dedicada aos 
personagens. Entre as atrações, destaca-se uma réplica da 
nave Millennium Falcon, além de lojas de brinquedos e res-
taurantes. A proposta do novíssimo Galactic Starcruiser, no 
entanto, é completamente diferente.
Durante dois dias, o visitante embarca em uma viagem 
que inclui alimentação, hospedagem em uma cabine do 
“cruzeiro espacial” e uma série de atividades que reprodu-
zem os acontecimentos da cronologia oficial, entre os epi-
sódios VI e VII. O turista é convidado a se tornar um per-
sonagem da franquia, vestindo-se a caráter e interpretando 
o papel que desejar, seja o de herói destemido, seja o de vi-
lão implacável. Cada funcionário do parque atua o tempo 
inteiro, e monitores convocam os hóspedes a sabotar um 
3 | 5
motor, ajudar um espião ou participar de um treinamento 
de sabres de luz. O visitante pode escolher se vai se tornar 
um simpatizante da Nova República — os “mocinhos” dos 
filmes — ou se aliar à Primeira Ordem, cujos integrantes 
assumiram o posto de malvadões após a morte de Darth 
Vader. Cada escolha abre uma série de novas atividades e 
encontros com personagens clássicos, como Chewbacca. O 
ambiente é quase todo fechado, com “janela” exibindo ce-
nas do espaço. Tudo para não quebrar a fantasia.
Confiante no poder de fogo da novidade, a Disney aposta 
suas fichas no projeto. “A atração vai mudar as possibilida-
des do que se espera de experiências imersivas”, diz Scott 
NAS ALTURAS Um robô da saga: o ingresso 
para a família custa 6 000 dólares
AllEn J. SChAbEn/loS AnGElES TimES/GETTy imAGES
4 | 5
FIcçãO A Millennium Falcon no cinema: 
a franquia gera negócios bilionários 
Trow bridge, criador de entretenimento da empresa, ou 
“imagineiro”, como são conhecidos os profissionais que tra-
balham desenvolvendo atrações para os parques. Não à toa, 
a mistura de hotel, parque temático e jogo de interpretação 
está sendo comparada ao ambiente da série Westworld, em 
que os visitantes entram em uma recriação extremamente 
detalhada do Velho Oeste. É o máximo de imersão que um 
fã da saga espacial pode esperar.
Evidentemente, o mergulho no universo criado por 
George Lucas não custa barato. O valor da experiência com-
pleta para um casal começa em 4 800 dólares, o equivalente 
a quase 23 000 reais, e chega a 6 000 dólares para quatro 
luCASfilm lTS. AnD Tm
5 | 5
pessoas (três adultos e uma criança). O preço não inclui be-
bidas alcoólicas e acesso a alguns acessórios necessários pa-
ra a jornada, como as roupas temáticas e o sabre de luz pró-
prio. Os custos elevados não estão restritos às novas atra-
ções. Embora o preço dos ingressos tenha permanecido o 
mesmo, as acomodações estão mais caras. O aluguel dos 
quartos no hotel mais acessível do complexo subiu 75% des-
de 2013, acima da inflação. E serviços antes gratuitos, como 
o transfer do aeroporto e métodos para pular filas, agora 
também são cobrados.
Nada, porém, parece afetar a demanda por férias na 
Disney. Desde que as restrições impostas pela pandemia 
foram retiradas, a procura pelos parques disparou. Em 
dias mais movimentados, especialmente nos fins de se-
mana, os ingressos estão esgotados e é preciso planejar o 
passeio com meses de antecedência. Se o Galactic Star-
cruiser se tornar um sucesso, e tudo indica que vai, dado o 
interesse, é possível imaginar que a Disney deva investir 
ainda mais em atrações imersivas. Sorte dos fãs, que po-
derão “vivenciar” as aventuras mágicas de seus persona-
gens favoritos. Era uma vez — e mais do que nunca ainda 
é — numa galáxia distante... ƒ
1 | 5
AMIGOS 
PARA SEMPRE
A clonagem de animais de estimação ganha força 
e faz sucesso nas redes, mas quem espera uma 
cópia com o mesmo temperamento do original 
pode se decepcionar sabrina brito
companhia Cão clonado: o serviço tem fila de espera, 
apesar dos preços altos e prazos longos
RooM/GETTY IMAGES
bichosgeral
2 | 5
Quem tem animais de estimação sofre só de pensar 
em perder o melhor amigo. Com o passar dos anos, a amiza-
de construída entre o tutor e o pet passa a ser indissociável e 
não é raro que o animal ocupe o posto de companheiro nú-
mero 1, sobrepondo-se até mesmo aos relacionamentos en-
tre humanos. A dor da partida, portanto, pode ser dilace-
rante. A novidade é que, graças aos avanços tecnológicos 
dos últimos anos, passou a ser possível aliviar um pouco a 
angústia da morte de cães ou gatos. Conquistas sem prece-
dentes na área da clonagem levaram empresas de genética a 
se especializar em criar cópias geneticamente idênticas dos 
bichinhos de estimação, dando origem a uma indústria tão 
inovadora quanto polêmica.
Uma das maiores expoentes do ramo é a americana Via-
Gen, que oferece o serviço de clonagem de cães, gatos e ca-
valos. Em linhas gerais, os cientistas coletam amostras do 
pet vivo e depois cultivam as células em laboratório por 
meio de processosartificiais até que se transformem em um 
embrião (veja no quadro). Ele, então, é gestado para algum 
tempo depois resultar em uma cópia 100% fiel, pelo menos 
em termos genéticos, do pet original. Para clonar um ca-
chorro, a ViaGen demora oito meses. Gatos — cuja sabedo-
ria popular diz que são possuidores de sete vidas — dão 
mais trabalho, exigindo ao menos um ano para a conclusão 
do processo. O custo também é alto: 240 000 reais para ca-
ninos e 167 000 reais para felinos. Não que os valores assus-
tem. A empresa tem fila de espera de tutores dispostos a 
3 | 5
contratar o serviço. Embora a companhia não divulgue o 
número exato de animais clonados, os negócios dobraram 
nos últimos cinco anos.
O fenômeno não está restrito aos Estados Unidos. Em-
presas como a Sooam Biotech, da Coreia do Sul, e a Sinoge-
ne, da China, também atuam no ramo da clonagem domés-
tica. Em vídeos no TikTok, diversos usuários mostram o dia 
a dia com os pets clonados. No Brasil, a prática ainda não é 
permitida. Mas em janeiro a Comissão de Meio Ambiente e 
Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados 
aprovou um Projeto de Lei que regulamenta a pesquisa, pro-
dução e venda de animais domésticos clonados. Por enquan-
to, apenas bichos de interesse zootécnico — bois, ovelhas, 
cavalos, porcos, coelhos e aves, entre outros — podem ser 
copiados, mas já se discute a autorização para pets.
O tema é fascinante, mas é preciso fazer uma ressalva: em-
bora os animais resultantes da clonagem sejam biologicamen-
te idênticos, o clone não terá o mesmo temperamento do pet 
original. Se o objetivo do tutor for “ressuscitar” o bichinho que 
morreu, ele provavelmente ficará frustrado com o processo. A 
ciência sabe que o ambiente em que o animal for criado e ex-
periências diferentes ao longo da vida moldam a sua persona-
lidade. Ou seja, um pet com comportamento brincalhão pode, 
por exemplo, dar origem a uma cópia agressiva. 
A mesma regra, ressalte-se, vale para os chamados gê-
meos monozigóticos, os humanos geneticamente idênti-
cos. “O clone é como se fosse um irmão gêmeo”, reforça 
4 | 5
CÓPIA FIEL
Como funciona o processo
As células do 
pet são colhidas 
e cultivadas em 
laboratório
O DNA é 
transferido 
para um óvulo 
sem núcleo
O óvulo
é estimulado
por processos
artificiais e se
torna um embrião
O embrião
é gestado e
se torna uma 
cópia perfeita 
do animal
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Marcelo Demarchi Goissis, professor do Departamento 
de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veteri-
nária e Zootecnia da USP. “Irmãos gêmeos, mesmo expos-
tos a condições de desenvolvimento muito similares, têm 
comportamentos diferentes, cada um com sua individua-
lidade.” No caso de animais de raças específicas, há um 
espectro de comportamento esperado, mas não dá para 
obter uma cópia idêntica.
Devem-se acrescentar questões éticas ao debate. E se as 
famílias quiserem clonar seus parentes queridos? Até que 
ponto isso é moralmente aceitável? Quais são os riscos en-
volvidos na produção em larga escala de clones? A ciência 
não tem respostas definitivas para tais dúvidas, e elas cer-
tamente ganharão volume nos próximos anos. Existem, 
contudo, possibilidades mais promissoras. Desde que o 
britânico John Gurdon descobriu um modo de clonar sa-
pos africanos, na década de 50, e principalmente após o 
nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero da his-
tória a ser clonado a partir de uma célula adulta, em 1996, 
os cientistas não param de se debruçar sobre o assunto. 
Um caminho que se desenha é a revitalização de espécies 
quase extintas por meio da clonagem dos escassos espéci-
mes ainda vivos. É uma possibilidade real, embora assus-
tadora, sinônimo da fascinante — e por vezes controversa 
— aventura da ciência. ƒ
1 | 5
Flores para vestir
Pétalas, folhas e sementes agora enfeitam tecidos 
por meio da chamada impressão botânica. 
Os resultados são estampas estilosas de mãos dadas 
com os cuidados ambientais Simone BlaneS
Rafael CanutO
Modageral
Para caSar 
Roupa de festa 
em tom campestre: 
evocação de 
boas memórias
2 | 5
O cientista e químico francês Antoine Lavoisier (1743-
1794) usou a célebre frase “Na natureza nada se cria, nada se 
perde, tudo se transforma”, em 1777, para provar o princípio 
da conservação de massas. Em tempos atuais, o conceito 
poderia ser aplicado à impressão botânica — ou Eco Print 
—, uma técnica de estamparia sustentável que usa o calor e 
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FeSta de coreS 
Tintas naturais: 
tons e sobretons da 
natureza aparecem 
nos modelos como 
um carimbo delicado 
e colorido
instagRam @iRitdulman
3 | 5
o contato para transferir diferentes pigmentos e formas de 
plantas para tecidos. O método se baseia na busca e coleta 
de folhas, flores, sementes, cascas, ervas e raízes para criar 
padronagens orgânicas e de alta duração. “É como se fosse 
um carimbo da planta”, diz Adriana Fontana. Ao lado da fi-
lha, Maria, ela comanda As Tintureiras, marca especializa-
da em impressão manual botânica e tingimento natural. 
Diferentemente da tintura natural, técnica que colore o 
tecido inteiro com a tinta extraída de pigmentos de plantas, 
como o vermelho do pau- brasil ou o amarelo da camomila, 
a estamparia botânica imprime os próprios vegetais, e suas 
formas específicas, em pontos da peça a ser decorada. É um 
processo relativamente novo, criado pela artista visual India 
Flint, da Austrália, a partir de experiências com folhas de 
eucalipto. Por ser absolutamente artesanal, exigindo uma 
delicada expertise na sua execução, a Eco Print tornou-se, 
na moda, sinônimo de exclusividade associada a uma impo-
sição dos novos tempos: o interesse por produtos naturais. 
Eles são atalho para a reconexão dos consumidores com a 
natureza, ao evocar as memórias afetivas que flores e folhas 
são capazes de despertar, sem danos ao ambiente. 
Há um quê de etéreo nessa constatação, mas a atual gera-
ção de jovens, sobretudo ela, só consome com zelo e cuida-
do. Por essa razão, os tecidos com estampas da natureza co-
meçam a aparecer entre os preferidos por noivas, interessa-
das em colocar nos vestidos toques de leveza e de lembran-
ças por meio da impressão de pétalas ou folhagens associa-
4 | 5
das a momentos felizes. “Geralmente, elas querem algum 
componente botânico que remeta a uma memória de ternu-
ra”, diz a estilista Camila Machado. A empresária desenvol-
veu uma forma de produção completamente sustentável e 
dentro dos princípios do upcycling — reutilização de insu-
mos em outros produtos — na manufatura de suas roupas 
casuais e sapatos, além dos vestidos de noiva. As peças vão 
de 1 900 a 19 000 reais, caso do traje de casamento. 
Fora do Brasil, a moda se espalha pelas mãos de artesãs 
como a israelense Irit Dulman ou a italiana Alessandra 
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a mão Técnica: 
o processo artesanal 
garante a fidelidade 
do desenho da planta, 
como no avental (à esq.)
5 | 5
Micolucci, cujas coleções são cobiçadas. A matéria-prima 
usada na estamparia botânica é variada. Folhas de laran-
jeira, café, eucalipto, hibisco, castanheira e sementes de 
urucum costumam estar entre os escolhidos pelas artesãs. 
O passo a passo é extenso e cuidadoso,pode levar horas. 
Os tecidos — linho, seda, renda, cânhamo e algodão orgâ-
nico, mas nunca sintético — são tingidos à base de um fi-
xador 100% natural. As peças, depois da manipulação e 
compressão das plantas selecionadas, são cozidas ou fervi-
das. Leva tempo, portanto, e requer paciência. 
Dá-se o encanto com o lindo efeito da flor, folha ou se-
mente impressas no tecido em forma de desenhos delicados, 
com texturas e cores deslumbrantes. Sem usar nenhum tipo 
de corante artificial, é possível extrair tons de vermelho, 
azul, lilás, rosa, amarelo, verde, cinza, além de outros mati-
zes naturais do próprio vegetal. “É como alquimia”, resume 
a estilista Adriana, de As Tintureiras. De fato, da mistura de 
efeitos químicos e sensoriais criam-se jardins floridos onde 
antes havia apenas tecido. Vale para essa onda primaveril, 
aceno à vida depois de dois anos de quarentena, repetir uma 
frase da escritora Clarice Lispector: “Sejamos como a pri-
mavera, que renasce cada dia mais bela, exatamente porque 
nunca são as mesmas flores”. ƒ
Primeira Pessoa
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Arquivo PessoAl
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NÃO SOU MALUCO
O catarinense Vinicius dos Santos relata a emoção de 
ter surfado a maior onda da história, em Portugal
Vinte e noVe metros e 68 centímetros. Segundo 
cálculos feitos por um especialista, esse foi o tamanho da 
onda que surfei na famosa Praia de Nazaré, em Portugal, 
em fevereiro. É um prédio de dez andares! A marca ainda 
precisa ser homologada como recorde mundial, que por 
ora pertence a meu ídolo, o paulista Rodrigo Koxa, que 
surfou 24,38 metros, também no famoso canhão lusitano. 
Minha jornada até o chamado “Everest do surfe” foi longa. 
Sou de Florianópolis, tenho 32 anos e surfo desde os 3. 
Sempre gostei de ondas grandes, de descer a ladeira. Na 
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infância, me dividia entre as praias da Joaquina, na capital, 
e da Vila, em Imbituba. Também pratiquei o salvamento 
aquático, que me ensinou a lidar com imprevistos no mar. 
Venho de uma família de surfistas, mas meus pais sempre 
insistiram para que eu estudasse. Por isso cursei engenha-
ria agrônoma na Federal de Santa Catarina e achava que o 
surfe seria apenas um hobby.
Aos 25 anos, com a economia no Brasil em alta, dei 
uma pausa nos estudos, juntei uns trocados e viajei para vi-
ver o sonho havaiano. É lá que estão as ondas perfeitas. 
Pude me desenvolver tanto no tubo quanto nas ondas 
maiores. Me inspirei nos chamados mad dogs, os brasilei-
ros que desbravaram as ondas de Jaws, tidas como as 
maiores do planeta antes da descoberta de Nazaré. Traba-
lhei num food truck de comida tailandesa, que servia len-
das como Kelly Slater, John John Florence. Eles sempre me 
trataram com muito carinho, aquele era o meu mundo. 
Entre um bico e outro, um país e outro (dei até aula de 
surfe no Japão), e com a ajuda de amigos que realizavam 
vaquinhas, pude participar de campeonatos e ganhar ex-
periência. Juntei uma grana e me mandei para Nazaré, 
me sentia preparado. Lá, a dificuldade é que nem sempre 
a onda quebra no mesmo lugar, não existe um canal, uma 
zona segura. É preciso muita presença de espírito, estar 
com os sentidos em dia. Quando a energia da onda en-
contra a bancada, quebram as famosas pirâmides de Na-
zaré. É boa de pegar e boa de assistir. A água é muito ge-
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lada, e a entrada e a saída do mar são muito violentas e 
propícias a acidentes.
Surfar sem moto aquática em Nazaré é quase impossí-
vel, mas foi o que fiz durante meus três primeiros anos sem 
patrocinador. Vinha literalmente remando da praia. Perdi 
as contas de quantas vezes me machuquei. Uma vez, a on-
da quebrou na minha cabeça, me prendi em minha roupa 
de borracha e fiquei sufocado. Quando consegui sair, vi 
minha prancha quebrada ao meio, estava à deriva. Outra 
vez, a prancha voou em direção à minha cabeça, levei 27 
pontos. E da última, cai já torcendo o joelho e tomei mais 
uns quatro caldos até ser resgatado. O maior susto até hoje 
foi na Califórnia, quando uma moto aquática me salvou de 
um tubarão enorme. Existe toda uma comunidade do sur-
fe preparada para acidentes, com ambulância, guarda-vi-
das, drones, uma porção de coisas que não existem no sur-
fe convencional. É por isso que Nazaré é considerada não 
só o Everest do surfe, mas também a sua Fórmula 1. 
Muita gente deve pensar que sou maluco. Nada disso! 
Surfo porque amo vida, não o contrário, quero aproveitar o 
momento. Quando estou na água, me entrego completa-
mente, vivencio o aqui e o agora. É como uma meditação: 
me sinto muito conectado com a natureza. É claro que te-
nho medo, mas toda vez que volto para casa em segurança 
o temor se transforma em uma gratidão enorme. 
Agora com um patrocínio, quero poder explorar ondas 
ainda melhores. Mais até do que o recorde, minha grande 
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meta é ser novamente indicado ao Big Wave Awards, o 
Oscar das ondas gigantes. Seja como for, já me considero 
abençoado de poder desfrutar a beleza do oceano. ƒ
Depoimento dado a Luiz Felipe Castro
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IMPÁVIDO 
COLOSSO
A mãe de todas as telas, a Independência ou 
Morte, de Pedro Américo, passa por uma 
restauração afeita a trazer à tona as cores vivas 
originais AlessAndro giAnnini
Helio Nobre
ArtegerAl
reCAUCHUTAgeM - Independência ou Morte, de Pedro 
Américo: pintura icônica é uma das principais atrações do 
Museu do Ipiranga renovado
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Não acoNteceu exatamente como Pedro Américo 
(1843-1905) retratou no imenso Independência ou Morte 
(1888). Eternizado pelo pintor brasileiro, o gesto seguinte 
ao brado retumbante foi, na realidade, bem menos gran-
dioso. Naquele 7 de setembro de 1822, dom Pedro, então 
príncipe regente, voltava de uma viagem a Santos quando 
parou próximo do Riacho do Ipiranga. Havia razões ínti-
mas e inconfessáveis: ele estava indisposto, com dor de 
barriga. Montado em uma mula baia, melhor animal para 
vencer as condições do terreno na época, o monarca preci-
sava se aliviar. De acordo com relatos de integrantes da co-
mitiva, depois de fazer uma visita à mata, estava no alto da 
colina quando recebeu mensageiros vindos do Rio de Ja-
neiro. As cartas do ministro José Bonifácio e da princesa 
Maria Leopoldina diziam que a Corte portuguesa encon-
trava-se muito próxima de devolver o Brasil à condição de 
colônia, e não mais de reino, e que ele estava fadado a ser 
destituído de sua posição. Após jogar a papelada no chão e 
trocar algumas palavras com os mais próximos, dom Pe-
dro proclamou o país, para sempre, separado de Portugal. 
O épico grito “Independência ou morte”, relatado por ape-
nas uma das testemunhas que acompanhavam dom Pedro, 
foi uma fantasia que se perpetuou no título da pintura de Pe-
dro Américo. Dela se espalhou nos livros de história do Bra-
sil e chegou ao filme de 1972 em que Tarcísio Meira dá vida a 
um enfurecido príncipe regente. Depois de quase quatro 
anos, incluindo o hiato em que os museus públicos foram fe-
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ÀS MARGENS PLÁCIDAS
O que foi feito na icônica obra
Ao longo do tempo, a pintura adotou um tom 
amarelado devido a restaurações anteriores, 
aos vernizes utilizados e ao acúmulo de 
sujeira na superfície. No trabalho, essas 
camadas foram limpas e ressurgiram as 
cores vivas, originalmente usadas por
Pedro Américo na enorme tela
O céu do lado esquerdo era o local 
mais prejudicado, com algumas 
áreas da tela afetadas. As partes 
foram limpas, niveladas e os 
espaços, preenchidos
Um exame com luz infravermelha 
revelou os “arrependimentos” do 
pintor, que mudou a assinatura de 
lugar (da caixa no carro de boi para o 
canto inferior esquerdo). A moldura, 
que também tem a assinatura de 
Américo, foi restaurada, tendo partes 
reconstituídas e a folheação de ouro 
em muitos pontos refeita
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ÀS MARGENS PLÁCIDAS
O que foi feito na icônica obra
Ao longo do tempo, a pintura adotou um tom 
amarelado devido a restaurações anteriores, 
aos vernizes utilizados e ao acúmulo de 
sujeira na superfície. No trabalho, essas 
camadas foram limpas e ressurgiram as 
cores vivas,originalmente usadas por
Pedro Américo na enorme tela
O céu do lado esquerdo era o local 
mais prejudicado, com algumas 
áreas da tela afetadas. As partes 
foram limpas, niveladas e os 
espaços, preenchidos
Um exame com luz infravermelha 
revelou os “arrependimentos” do 
pintor, que mudou a assinatura de 
lugar (da caixa no carro de boi para o 
canto inferior esquerdo). A moldura, 
que também tem a assinatura de 
Américo, foi restaurada, tendo partes 
reconstituídas e a folheação de ouro 
em muitos pontos refeita
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ÀS MARGENS PLÁCIDAS
O que foi feito na icônica obra
Ao longo do tempo, a pintura adotou um tom 
amarelado devido a restaurações anteriores, 
aos vernizes utilizados e ao acúmulo de 
sujeira na superfície. No trabalho, essas 
camadas foram limpas e ressurgiram as 
cores vivas, originalmente usadas por
Pedro Américo na enorme tela
O céu do lado esquerdo era o local 
mais prejudicado, com algumas 
áreas da tela afetadas. As partes 
foram limpas, niveladas e os 
espaços, preenchidos
Um exame com luz infravermelha 
revelou os “arrependimentos” do 
pintor, que mudou a assinatura de 
lugar (da caixa no carro de boi para o 
canto inferior esquerdo). A moldura, 
que também tem a assinatura de 
Américo, foi restaurada, tendo partes 
reconstituídas e a folheação de ouro 
em muitos pontos refeita
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chados em razão da pandemia de Covid-19, a mãe de todas 
as telas e de todas as impressões equivocadas, de 4,15 por 
7,60 metros, está prestes a ter mais uma restauração comple-
tada. Nesta semana, uma mão de verniz de última geração 
selará o trabalho conduzido pela arquiteta Yara Petrella ao 
longo de pouco mais de seis meses. A restauração da icônica 
obra faz parte do projeto de reforma e ampliação do Museu 
do Ipiranga, desenvolvido desde outubro de 2019 a um custo 
de 211 milhões de reais — em patrocínios promovidos pela 
Lei de Incentivo à Cultura, aportes diretos e verba do gover-
no. A ideia é entregá- lo à população nas comemorações do 
bicentenário da Independência do Brasil, em setembro. 
Encomendada em 1886 pelo governo imperial brasileiro, 
a tela foi pintada por Américo em um estúdio em Florença, 
na Itália. Concluída em 1888, embarcou para o Brasil devi-
damente enrolada, com a moldura (também projetada pelo 
artista) desmontada. Ao chegar, seguiu para o salão nobre 
do Museu Paulista, nome oficial do Museu do Ipiranga, que 
seria inaugurado e aberto ao público somente em 1895. Uma 
vez montada, tornou-se uma das principais atrações do 
acervo e nunca mais foi removida de seu lugar. Para o traba-
lho de agora, a equipe de restauradores decidiu mantê-la on-
de estava. Castigada pela ação do tempo, pelo acúmulo de 
sujeira e com as cores alteradas por intervenções passadas, a 
pintura passou por uma recauchutagem completa. No pro-
cesso, o verniz antigo que imprimiu o tom levemente amare-
lado foi removido, assim como a poeira e outros pequenos 
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detritos acumulados. A parte mais deteriorada, o céu no 
canto superior esquerdo, estava com a tinta se desprenden-
do. “Removemos tudo que cobria a fina camada pictórica, 
nivelamos a pintura nas partes afetadas e preenchemos o 
que havia sido perdido”, explica Yara Petrella, que liderou a 
restauração. “O que veio à tona foram as cores vivas, muito 
próximas das usadas originalmente por Pedro Américo.”
A restauração incluiu ainda uma análise química das tin-
tas usadas e uma varredura com luz infravermelha. Ambos 
os processos permitem traçar a origem dos materiais utiliza-
dos por Américo e também a evolução da tela, com a revela-
ção dos “pentimentos” (arrependimentos) do artista, os re-
toques feitos durante a pintura. Entre outros detalhes, ficou- 
se sabendo que o autor mudou a assinatura de lugar (veja no 
quadro). A moldura também foi reconstruída em vários 
pontos e a folheação de ouro foi refeita.
Quando o Museu do Ipiranga for reaberto, essas e outras 
informações estarão disponíveis visualmente e por meio de 
um sistema multimídia. “E as trataremos inclusive com o viés 
crítico, pois é uma imagem icônica, mas interpretativa de um 
momento factual”, diz Sérgio Sá Leitão, secretário de Cultura 
e Economia Criativa do Estado de São Paulo. Pedro Américo 
pode ter pesado a mão nas tintas, mas preservar sua visão do 
grito da Independência é fundamental como registro de um 
instante do país, mesmo idealizado e longe do que realmente 
ocorreu. Mas a restauração traz um ensinamento: é sempre 
possível corrigir alguma coisa, pequena que seja. ƒ
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piada sem graça
Dez anos depois de sua morte, o patrimônio de Chico 
Anysio não chega para pagar as dívidas acumuladas. 
Segundo os filhos, a culpa é da viúva, Malgarette 
sofia cerqueira
MARCIO NUNES/REDE GLOBO
sociedadegeral
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acusações Malga e Chico nos bons tempos: 
a ação movida pelos filhos do humorista 
pede esclarecimentos sobre a movimentação 
financeira enquanto ela foi inventariante
Um dos grandes nomes da história do humor no 
país, criador de mais de 200 personagens ao longo de 65 
anos de carreira, Chico Anysio morreu em março de 
2012, aos 80 anos, deixando viúva e oito filhos com dife-
rentes mulheres — os quais, seguindo o roteiro infeliz, 
mas tão comum nesses casos, agora travam uma batalha 
na Justiça. O que está em jogo não é a fortuna do humoris-
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ta, que virou pó. A questão agora é como pagar a vultosa 
dívida que se acumulou em uma década de má gestão do 
patrimônio. Os filhos e Malgarette Dall Agnol de Oliveira 
Paula, a Malga, última mulher de Chico, repartiriam bens 
avaliados em 4 milhões de reais. Em vez disso, estão ten-
do de administrar uma dívida de 7 milhões de reais, boa 
parte em impostos atrasados. 
Desse total, 1,4 milhão de reais em IPTU e condomínio 
não pagos são responsabilidade direta de Malga, que exer-
ceu a função de inventariante por cinco anos e é acusada 
de lesar os demais herdeiros. A fatura, porém, pode ser 
bem maior. “Não sabemos precisar o montante que desa-
pareceu do espólio porque não houve prestação de contas. 
Só isso já configura apropriação indébita — para não falar 
em furto”, afirma o advogado Roberto Edward Halbouti, 
representante de cinco dos herdeiros. “Não recebi nada, 
nem 1 centavo”, rebate Malga.
Em meio aos disparos da artilharia familiar, VEJA teve 
acesso com exclusividade a duas ações ajuizadas na 2ª Va-
ra de Família da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde 
está o inventário. Em uma delas, de 2018, os filhos pedem 
que a madrasta preste esclarecimento de tudo o que foi (ou 
deveria ter ido) para a conta do inventário e de como usou 
os bens — três lojas no shopping Barra Garden e um apar-
tamento de quatro quartos no Condomínio Península, na 
Zona Oeste carioca — entre 2012 e 2017, quando geriu o 
patrimônio. O documento lista uma série de irregularida-
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des. Malga teria alugado 
tanto as lojas quanto o 
apartamento (no qual mo-
rou com Chico Anysio e do 
qual possui 50%) sem de-
positar o dinheiro recebido 
na conta judicial. Também 
leva ntou “o va lor de 
168 075,23 reais em 31 de 
maio de 2012 (pouco depois 
da abertura do inventário) 
para quitar dívidas médicas 
e trabalhistas” — parte dele 
depositado pela TV Globo 
— e nunca pagou ninguém. 
Oito profissionais de saúde 
que atenderam o artista no 
Hospital Samaritano, onde 
ele morreu de falência de 
múltiplos órgãos, recorrem 
à Justiça para receber os honorários que, em valores atuais, 
somam meio milhão de reais. E mais: a defesa dos herdei-
ros diz que Malga foi procurada por oficiais de Justiça em 
dois endereços no Rio, dois em São Paulo e um no Rio 
Grande do Sul e escapou deles em todas as ocasiões.
Refugiada na casa dos pais, no Sul do país, ela falou com 
VEJA por telefone e alegou que isso não aconteceu. “Eu 
troca Bruno Mazzeo: 
à frente do inventário 
após a destituição de Malga
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nem sei por que um oficial de Justiça viria atrás de mim. 
Não é só falar com meus advogados?”, questiona. Malgase 
diz esgotada pelo enrosco familiar. “Eu não os agrido. Já 
eles disseram que sou mentirosa e até roubei. Não tenho 
mais saúde mental, passei por duas internações psiquiátri-
cas”, diz a viúva de 52 anos, quatorze deles casada com 
Chico Anysio. Além da ação referente ao período em que 
ela foi inventariante — cargo do qual foi destituída e substi-
tuída por um dos filhos do humorista, o ator Bruno Mazzeo 
—, os herdeiros movem um segundo processo em que pe-
dem, desde 2020, a reintegração de posse do apartamento 
da Barra que Malga havia alugado a terceiros. No momen-
to, o imóvel está fechado, com móveis sendo devorados por 
cupins e seis carros, entre eles um Honda blindado, enfer-
rujando na garagem. Como a herança de um ícone da TV 
que, segundo a própria viúva, tinha salário de 600 000 
reais chegou a esse ponto? Malga, sexta mulher no humo-
rista, afirma que nunca deixou dívidas, que foi “roubada” 
por um advogado e que os enteados sabem disso.
Halbouti rebate ponto a ponto essa versão. Segundo ele, 
a conta do espólio estava zerada quando Mazzeo assumiu 
o controle do patrimônio. Até os direitos autorais que a TV 
Globo paga ao inventário — que somam, por baixo, 
100 000 reais anuais — haviam evaporado. De acordo com 
Halbouti, não se sabe nem quanto Chico tinha no banco ao 
morrer, já que tudo era controlado por Malga. “Ele entre-
gava toda a parte burocrática nas mãos da mulher, que 
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nem sequer providenciou sua declaração de imposto de 
renda nos últimos três anos de vida”, enfatiza. A maior 
parte da dívida atual — 5 milhões de reais, diz ele —, aliás, 
se refere a tributos pendentes de uma das empresas em no-
me do humorista, da qual a viúva teria vendido sua parte 
já com o marido doente.
O próprio inventário sofreu reviravoltas. O testamento 
deixado por Chico Anysio foi anulado em 2019 por não 
constar o nome do filho Lug de Paula, o Seu Boneco — a 
Justiça brasileira não permite que um herdeiro necessário 
seja alijado. Malga sustenta que o desejo do marido era que 
ela ficasse com os bens materiais e os filhos, com o seu pa-
patrimônio Três lojas em um shopping e um apartamento 
fechado: bens insuficientes para cobrir a dívida de 7 milhões
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trimônio intelectual, o que eles não aceitam. A relação entre 
as duas partes azedou ainda mais quando Malga, que ofe-
rece na internet cursos de como se tornar uma “influencia-
dora vegana”, falou em um pod cast especializado no tema e 
destilou comentários sobre os enteados. “Alguns foram 
mais radicais e não quiseram sentar para conversar. Um de-
les (Cícero Chaves) morreu enquanto eu estava em coma 
(ela teve Covid-19 no ano passado). Olha que ironia. Ele ti-
nha 39 anos e ficou brigando comigo durante quase dez 
anos para ter algo que não irá receber”, comentou. Em seu 
Instagram, outro irmão, o ator Nizo Neto, se mostrou hor-
rorizado: “Essa declaração, usando o nome do meu falecido 
irmão, foi realmente um golpe baixo”. Procurado, Nizo dis-
se que “não tinha nada mais a falar”. Os advogados de Mal-
ga, Carlos Sanseverino e Denise Giardino, não responde-
ram às perguntas da reportagem. Enquanto a briga pelo in-
ventário e pela posse dos bens segue na Justiça, a dívida — 
bem maior do que tudo o que está em litígio — cresce sem 
parar. Sem dúvida, é uma história sem nenhuma graça. ƒ
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PUXANDO PAPO
“Está com cara de que hoje à tarde vem mais chuva, 
né?” Um comentário assim, despretensioso, dirigido a uma 
pessoa desconhecida no elevador, pode condensar toda a 
história da sociabilidade. Exagero? Acredito que não. 
Quem fala sobre o tempo nessa circunstância em geral 
quer dizer mais do que isso. No fundo, a mensagem é: 
“Olha, já que estamos aqui sem fazer nada por um instan-
te, que tal trocarmos umas palavras e ver aonde elas nos 
levam?” As possibilidades estão sempre abertas. O outro 
pode agregar uma informação nova — uma previsão espe-
cífica para aquela área da cidade — ou agradecer você, 
porque já ia esquecendo o guarda-chuva. Ou a conversa 
pode evoluir por outras amenidades até que, de repente, os 
dois descobrem um interesse comum que dará origem — 
quem sabe? — a uma amizade.
Falar sobre o tempo é a manifestação mais comum de 
uma arte que os ingleses chamam de small talk. Os dicio-
nários traduzem como “conversa fiada”. Não está errado, 
LuciLia Diniz
Conversas amenas geram saudável 
sensação de pertencimento
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claro, mas acho um pouco pejorativo. Prefiro “conversi-
nha”, gosto muito dessa afetividade tão brasileira expressa 
no uso do diminutivo. Entendo por que um dos nossos 
grandes poetas gostava de ser chamado de “poetinha”. A 
conversinha boa requer alguns cuidados. Não é por ser li-
geira e superficial que deva ser impensada. A primeira coi-
sa a ser levada em consideração é que existe uma tríade 
proibida. Não tente puxar conversa falando sobre religião, 
saúde e, ainda mais neste ano, política.
Esporte é sempre uma boa pedida. Tênis, por exemplo. 
“Você viu que vão deixar o Djokovic jogar em Roland Gar-
ros?” Ou, para quem gosta, pode perguntar o resultado do 
futebol, aliás, como faz um freguês em Conversa de Bote-
quim, o gostoso samba de Noel Rosa. Gastronomia tam-
bém é tema que rende um bom papo. Quem não quer co-
nhecer uma receita nova? Ou uma dica de restaurante?
Conversinhas amenas são mais do que parecem ser. 
Outro dia, li que estudos recentes apontaram que fazem 
“Uma sugestão é evitar 
perguntas fechadas, 
aquelas cujas respostas 
são ‘sim’ ou ‘não’”
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bem à saúde. Não duvido. Desarmar o espírito, se expor 
ao outro, exercer a civilidade, cativar a atenção alheia, tu-
do isso gera uma sensação de pertencimento que tende a 
proteger nosso organismo e mente. Algumas pessoas, no 
entanto, receiam tomar a iniciativa, temem ser considera-
das intrometidas. O ideal é avaliar cada situação. Uma 
primeira pergunta, tateante, é sempre o.k. Se em resposta 
o outro grunhir um “pois é” ou algo do gênero, esqueça. 
Mas se o sinal verde acender, é bom saber como se com-
portar na sequência.
Uma sugestão é evitar perguntas fechadas, aquelas 
cujas respostas são “sim” ou “não”. No restaurante, por 
exemplo, em vez de perguntar ao maître se o talharim ao 
vôngole é bom, diga: “Que tal o prato?”. Perguntas abertas 
como essa convidam ao discurso mais elaborado, um bom 
antídoto contra silêncios constrangedores. Outra sugestão: 
seja todo ouvidos ao interlocutor. Nada esfria mais uma 
conversa do que a desatenção. Se o celular tocar, não aten-
da. Em geral, dá-se importância excessiva ao que se fala. 
Mas saber ouvir é ainda mais relevante. Só quem ouve de 
verdade sabe o que perguntar. “Hoje vai chover de novo. 
Você está lembrando do guarda-chuva?” ƒ
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as duas faces 
do horror
Novo livro expõe as semelhanças entre as 
mentes de Hitler e Stálin e traz lições para 
combater os ditadores de qualquer tempo
vinícius müller
ANN RoNAN PictuReS/PRiNt collectoR/Getty imAGeS ullSteiN bild/Getty imAGeS
LivroscuLtura
o lado nazista Hitler: arrogante 
e altivo, mas capaz de se unir ao 
inimigo por seu projeto infame
o lado comunista 
Stálin: paranoico e obcecado 
por sua imagem pública
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o saber do sucesso na negociação do célebre pac-
to de não agressão entre União Soviética e Ale-
manha às vésperas da II Guerra, em 1939, Josef 
Stálin manifestou preocupação com os termos 
festivos do acerto com os nazistas. Após tanta 
hostilidade entre os dois países, calculava ele, 
não pegaria bem posarem de amigos. Stálin insinuou ao 
ministro das Relações Exteriores de Adolf Hitler, Joachim 
von Ribbentrop, que a euforia dificultava o trabalho dos 
propagandistas dos dois ditadores — que passaram anos 
difamando um ao outro. De fato, soviéticos e nazistas se 
viam como inimigos, mas seus respectivos líderes acha-
vam que isso era menos importante do que seus objetivos 
políticos e ideológicos. Por isso, Stálin manifestava sua 
preocupação em como explicar o acordo com os nazistas, 
mas também sabia que, a qualquerhora, o pacto entre eles 
poderia ser desfeito — como acabou acontecendo. Em seu 
incomum receio relativo à opinião pública, Stálin teve seu 
pedido atendido, e logo os termos do acordo foram refei-
tos com maior sobriedade. Após a mudança, um telefone-
ma entre Hitler e o ditador soviético autorizou o brinde 
entre representantes dos dois governos que marcaram o 
século XX por seus horrores e brutalidade. 
É esse tipo de comportamento cínico e atroz que carac-
teriza os autocratas, como demonstram as histórias reve-
ladoras de Hitler e Stálin: os Tiranos e a Segunda Guerra 
Mundial. O alentado estudo do britânico Laurence Rees 
A
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retrata como os dois maiores dita-
dores do século XX tomaram suas 
decisões e provocaram algumas 
das mais sangrentas tragédias da 
história contemporânea. Rees não 
deixa de apontar que o sistemático 
assassinato de judeus pelos nazis-
tas foi incomparável até para os 
padrões stalinistas, mas prova, ao 
longo da narrativa, que os símbo-
los maiores do totalitarismo eram 
como duas faces da mesma moe-
da. Apesar das diferenças ideoló-
gicas, eles ora se aproximavam, 
ora se distanciavam — e o autor 
examina esses movimentos furti-
vos à luz do contexto histórico e 
das ações dos dois líderes relata-
das em minúcias escabrosas por 
sobreviventes e pessoas que trabalharam para os dois. 
Começar o livro com o Pacto Ribbentrop-Molotov de 
1939 é um acerto, na medida em que o momento desnuda 
o caráter e as maquinações de Hitler e Stálin. Nele, Ale-
manha e União Soviética definiram não só um acordo de 
não agressão, mas como dominariam alguns países e po-
vos, especialmente a Polônia. No lado soviético, havia a 
desconfiança de que a Inglaterra agia para permitir o 
hitler e stálin, 
de Laurence Rees 
(tradução de 
Claudio Salles 
Carina; Crítica; 
592 páginas; 
124,90 reais e 89,90 
reais em e-book)
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avanço nazista para o Leste, em direção a um conflito 
com a União Soviética. Para Hitler, um acordo com os co-
munistas possibilitaria que ele voltasse suas forças a um 
acerto de contas com o Ocidente europeu, que humilhara 
a Alemanha ao fim da I Guerra, em 1918. Mas, para além 
da geopolítica, o tratado de 1939 revelava um fundamen-
to do nazismo e do stalinismo: o desprezo por povos con-
siderados “fracos”. Sentimento que, vinculado às expe-
riências particulares dos ditadores (ambos tinham em co-
mum, por exemplo, o ódio à Polônia), resultou em mi-
lhões de mortos em uma escala de atrocidade que torna 
os relatos obtidos por Rees chocantes mesmo após tanto 
tempo. Talvez porque a mecânica prática da opressão 
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criada por Hitler e Stálin, amparada no direito que ima-
ginavam ter sobre povos “subalternos”, esteja entre as ba-
ses da ação de outros ditadores. Inclusive do presente: em 
muitos trechos do livro, é inevitável vir à mente o russo 
Vladimir Putin, ironicamente comparado tanto a Hitler 
quanto a Stálin em protestos contra a recente invasão na 
Ucrânia pela Rússia. 
As semelhanças entre os dois também apareciam ao 
se apresentarem em público. De Valentin Berezhkov, in-
térprete que trabalhava nas reuniões entre soviéticos e 
alemães, veio o testemunho de que ambos recebiam a 
mesma idolatria de famílias ansiosas para que seus filhos 
recebessem os afagos dos líderes, em meio aos retratos e 
fantasmas Putin é comparado 
a Hitler e Stálin em protestos contra a 
guerra na Ucrânia: ameaça presente
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manifestações que enalteciam os respectivos regimes. 
Durante um comício de Hitler, o jovem intérprete con-
cluiu que “Stálin era assim”. 
Os dois comungavam a disposição em matar as pes-
soas que se interpunham em seus caminhos, mas nuances 
importantes distinguiam suas personalidades. Enquanto 
Hitler era mais altivo e arrogante, Stálin revelava-se des-
confiado e introspectivo. O ditador da Alemanha, vislum-
brando a criação de um império, reconhecia a importân-
cia de seus assessores e da estrutura institucional. Já o so-
viético, preocupado com seu poder interno, não hesitava 
em ser dúbio e em perseguir quem discordasse de suas or-
dens ou lhe despertasse desconfiança. 
O livro tem o mérito de desvendar os mecanismos da 
mente de dois dos maiores facínoras da história. E expor, 
enfim, como os opostos se atraíam: Hitler e Stálin nutriam 
certa admiração mútua, principalmente por atitudes rela-
cionadas à frieza no uso da violência e à capacidade de su-
perar diferenças com os desafetos em nome de vantagens 
imediatas ou de vitórias futuras. Em tempos de guerra da 
Rússia de Putin contra a Ucrânia, entender que ditadores 
agem a seu modo, e pensando no poder acima das convic-
ções, nos ajuda a lembrar dos riscos de ser condescenden-
tes com eles. Todos os dias servem para condená-los. ƒ
1 | 3
O midas de um 
hit imprOvável
Quem é o cantor de Hear Me Now, música brasileira 
campeã de execuções no streaming até hoje. 
Agora, Zeeba (esse é o nome dele) quer se 
reinventar como expoente da MPB
Latino e americano Zeeba: dupla nacionalidade 
 e 1 bilhão de execuções
YvA SAntoS
Músicacultura
2 | 3
Em 2016, o jovem Marcos Lobo Zeballos — que atende pe-
lo singelo nome artístico de Zeeba — estava em um estúdio 
de São Paulo com o colega Bruno Martini quando o estrela-
do DJ Alok apareceu e os ouviu tocando ao violão uma bala-
dinha de rock. Na hora, Alok farejou na melodia fácil canta-
da por Zeeba um futuro sucesso e perguntou aos músicos se 
poderia fazer um remix dela. O que se originou daí foi algo 
muito maior do que Zeeba jamais imaginara: Hear Me Now 
virou daqueles hits farofa que perseguem os pobres huma-
nos até no elevador. Ilustre desconhecido, o rapaz com bar-
ba e jeito hipster de repente se converteu na voz brasileira 
mais ouvida do mundo. Isso mesmo: Hear Me Now já acu-
mula mais de 1 bilhão de execuções nas plataformas de 
streaming. No Spotify, é a música brasileira mais ouvida da 
história, com 580 milhões de audições — para se ter ideia, 
Envolver, arrasa-quarteirão de Anitta que atingiu recente-
mente o primeiro lugar global na plataforma, tem até o mo-
mento 100 milhões de reproduções. 
Agora, aos 29 anos, Zeeba quer mostrar ao Brasil o artista 
por trás daquele falsete intoxicante — e, suprema ironia, li-
vrar-se da sombra de seu hit. Nascido nos Estados Unidos, fi-
lho de pais brasileiros, ele até tentou capitalizar em cima de 
Hear Me Now. Como a música é cantada em inglês, seu em-
presário sugeriu que se apresentasse como americano. “Não 
aceitei. Não fazia o menor sentido”, diz. De 2016 para cá Zee-
ba rodou o mundo ao lado de Alok e lançou com ele outros 
dois hits, Ocean e Never Let Me Go. Mas ele sempre teve uma 
3 | 3
angústia existencial: garante nunca ter se empolgado com o 
gênero eletrônico que o projetou. “Eu me identifico com a no-
va MPB, que traz esse pop com brasilidade, como Manu Ga-
vassi, Lagun, Mariana Nolasco, Melim e Vitor Kley”, explica. 
A tentativa de se desvincular do passado fica patente no tí-
tulo de seu recém-lançado primeiro álbum: Tudo ao Contrá-
rio. Nas dez faixas, a maioria em português, Zeeba investe no 
pop fofinho e em parcerias com músicos como Carol Biazin e 
Mallu Magalhães — com quem, aliás, estudou até a 4ª série. 
Para gravar a canção Só Pensando em Você ao lado de Mallu, 
ele viajou para Portugal, onde reencontrou a amiga depois de 
anos. Na letra, só versos good vibes: “Meu mundo é tão lindo 
quando eu penso em você”, ele canta. Com alguns clipes gra-
vados na casa dos avós e letras que falam sobre amor e amiza-
de, Zeeba pretende se valer do alto-astral para reinventar sua 
carreira. É uma dúvida que vale 1 bilhão de execuções saber 
se alguém ainda vai ouvi-lo após Hear Me Now. ƒ
Felipe Branco Cruz
1 | 5
A receitA do 
sucesso
Na década de 60, Julia Child ensinou os americanos a se 
aventurar na culinária (entre muitas outras coisas). Julia, 
a série da HBO, demonstra o arrojo que isso exigiu 
isabela boscov
SeaCia PavaO/HBO MaX
TELEVISãOCuLTura2 | 5
Em 1948, a californiana Julia Child, ex-pesquisadora da 
agência de Inteligência que deu origem à CIA, mudou-se pa-
ra Paris com o marido, o diplomata Paul Child, e descobriu o 
que só gastronomias como a francesa podem revelar: gratifi-
car o paladar é não só um dos prazeres mais completos, co-
mo uma atividade que predispõe o praticante aos outros pra-
zeres sensuais e, por que não, espirituais da vida. Conhecida 
pelos níveis transbordantes de energia e iniciativa, Julia fez o 
que, à época, era uma façanha: entrou na escola Le Cordon 
Bleu e saiu de lá uma chef ou, como preferia dizer, uma cozi-
nheira — e, em 1961, lançou com a amiga Simone Beck um 
clássico, Dominando a Arte da Cozinha Francesa, que expli-
cava tim-tim por tim-tim como executar 524 receitas que de 
outra forma as americanas (ninguém então cogitaria incluir 
homens entre o público- alvo) veriam como um Himalaia 
culinário. Entretanto, em 1962 os boêmios e viajados Child 
se viram de volta a Boston, a cidade de Paul, sem perspectiva 
de novas aventuras. A maior delas, porém, estava por come-
çar — e é esse o ponto de que parte Julia, a apropriadamente 
deliciosa série que acaba de estrear na HBO Max.
Não há nada aqui de requentado, e a série recorre a ingre-
dientes e preparos bem diversos daqueles vistos no filme Ju-
lie & Julia, de 2009. Meryl Streep era um deleite arrulhando 
para soles meunière e suspirando com sauces béarnaises, 
mas a Julia da soberba atriz inglesa Sarah Lancashire é irre-
sistível à sua própria maneira, e pelas outras facetas dela que 
emergem aqui. Convidada para falar de seu livro em um 
3 | 5
programa literário da minúscula TV pública local, Julia es-
colhe os atos às palavras: arruma uma chapa quente, saca da 
bolsa frigideira, ovos e manteiga (mais sal e pimenta, claro) 
e, após se ajoelhar no chão à cata de uma tomada, prepara 
uma omelete úmida e cremosa diante do atônito e esnobe 
apresentador. Sucesso: a emissora recebe um recorde de 27 
cartas. Muitas tratativas e subterfúgios depois, Julia inicia 
seu experimento inédito, que se provaria colossalmente po-
pular e influente: o programa The French Chef, em que, 
sempre tagarelando com seu jeito único e espirituoso, ensi-
nava mulheres e agora também homens a destrinchar aves e 
MasTeR cHeF Sarah Lancashire e, acima, Julia: 
 o espírito da modernidade
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4 | 5
então cercá-las de molhos esplêndidos, levar suflês às altu-
ras, assar bolos pecaminosos e metamorfosear a compra no 
supermercado do bairro em coisas de dar água na boca. No 
país da comida enlatada e do jantar congelado, ela foi a pre-
cursora do food porn: descortinou um mundo de sabores e 
ensinou a ter curiosidade, a pôr para lá a culpa asso cia da à 
comida e a errar. Queimou, grudou, empelotou? Ou há jeito 
ou não há, e bola para a frente.
Muito mais que uma maneira de abordar a culinária, Julia 
expressou uma filosofia de vida, e é a ela que a série tão bem 
faz justiça. Virou-se como pôde para bancar a produção, por-
que era algo que queria e queria muito. Fez amigos antigos 
mergulharem junto com ela no projeto, como Avis DeVoto 
(Bebe Neuwirth), a quem The French Chef arrancou de um 
luto prolongado, e a editora Judith Jones (Fiona Glascott), que 
estava no primeiro terço de seu trajeto rumo ao Olimpo literá-
rio. Deu a primeira chance a muitos jovens profissionais, aqui 
representados na figura de uma jovem assistente, Alice Na-
man (Brittany Bradford), e transformou a carreira de outros, 
como o produtor Russ Morash (Fran Kranz), que se tornaria 
um pioneiro na TV americana. E viveu tudo isso a par e passo 
com Paul (David Hyde Pierce), com quem teve um casamento 
que, como descreveu a VEJA o criador da série, Daniel Gold-
farb, foi sempre ótimo, mas passou de tradicional a moderno 
no espaço da primeira temporada de The French Chef.
Aos 51 anos, quando inaugurou o programa, e com 1,88 
metro de altura, cintura ampla, voz esganiçada e exuberân-
5 | 5
cia incontível, Julia é não raro lembrada como figura folcló-
rica. Mas, nos esforços conjuntos do elenco e dos criadores, 
o que vem para o primeiro plano na série são justamente a 
modernidade e a independência de uma mulher que confiou 
mais em si do que nos outros e virou ícone pela força da per-
sonalidade (em um dos episódios, a decana do feminismo 
Betty Friedan fere Julia na alma ao dizer que ela é uma 
agente do retrocesso). O mais surpreendente ao espectador 
de hoje, porém, talvez seja algo tão antigo que virou novo, e 
que Sarah Lancashire expressa com habilidade incomum: a 
desprevenção com que ainda era possível a uma pessoa 
olhar na lente de uma câmera e ser apenas ela mesma. ƒ
1 | 6
a força da 
imperfeição
Na série Cavaleiro da Lua, a Marvel usa a liberdade 
do streaming para uma saborosa ousadia: 
mergulhar na cabeça de um super-herói 
com transtorno mental amanda capuano
filosofia pop O Cavaleiro da Lua em ação: 
trama que usa deuses do Antigo Egito para um debate moral
Marvel StudioS
televisãoCultura
2 | 6
Steven Grant é a síntese do fracasso. Solteiro, ele vi-
ve sozinho em um apartamento abarrotado de livros so-
bre o Antigo Egito e implora por um emprego de guia no 
museu onde trabalha vendendo lembrancinhas. Sua reali-
dade, porém, está longe da monotonia: com apagões de 
memória e sonhos perturbadores em que é perseguido por 
portar um escaravelho, Grant dorme acorrentado à cama 
com medo do que pode fazer adormecido. Tudo muda 
quando ele encontra um celular escondido na parede de 
casa e atende a ligação de uma mulher que insiste em cha-
má-lo de Marc. Perturbado com a espiral de bizarrices 
que toma sua vida, embarca em uma investigação e chega 
à conclusão de que os tais sonhos não são apenas produto 
de sua mente: Grant tem um distúrbio de identidade dis-
sociativa e é também Marc Spector, mercenário que ofer-
tou seu corpo como receptáculo dos poderes do deus 
egípcio Khonshu após ser salvo da morte por ele. O acor-
do faz dele Cavaleiro da Lua — herói justiceiro criado pe-
la Marvel em 1975, que agora tem sua história dissecada 
na minissérie homônima do Disney+ protagonizada pelo 
versátil Oscar Isaac (confira a entrevista abaixo).
Dirigida pelo egípcio Mohamed Diab, primeiro cineas-
ta do Oriente Médio a assumir o leme de uma produção 
da Marvel, a série é a nova aposta do estúdio no strea-
ming — e sua mais sombria e original incursão na seara 
até agora. Com tempo de sobra para desenvolver persona-
gens e longe da pressão de angariar bilheterias arrebata-
3 | 6
Oscar Isaac, 43 anos, fala de seu herói em Cavaleiro da Lua e 
dos papéis marcantes em Duna e Star Wars.
Seu personagem em Cavaleiro da Lua tem um 
transtorno de identidade. É importante mostrar a 
vulnerabilidade de um herói? Sem dúvida. O que me in-
teressa em um personagem como Super- Homem, por exem-
plo, é o Clark Kent. Ele soca coisas e solta lasers, mas é o cara 
de quem pegam no pé no escritório. O modo como essas coi-
sas se complementam e se contradizem me atrai. Vulnerabili-
dade gera identificação.
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a
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el
 S
tu
d
io
S
“hesitei em voltar para a marvel”
versátil Isaac: “Personagens 
vulneráveis geram identificação”
4 | 6
você já esteve na marvel em X-Men como o vilão 
apocalipse. o que o fez retornar? Hesitei em voltar. 
Cresci colecionando quadrinhos de X-Men. Meu lado fã me le-
vou até o filme, mas não funcionou muito bem. Não queria es-
tar nessa situação de novo, em que a ideia é excitante, mas o 
desenvolvimento é complicado e você fica à mercê dele. Mas 
percebi que era uma oportunidade de fazer um personagem in-
comum e um trabalho colaborativo interessante.
você se divide entre projetos populares, como Star 
Wars, e dramas profundos, como Cenas de um Ca-
samento, da HBo. como é transitar entre eles? Gos-
to de trabalhos que me deixam ansioso pelo despertador de 
manhã. O gênero importa menos do que a conexão emocional. 
Aprecio personagens isolados pela própria existência.É o ca-
so de Leto em Duna, do marido de Cenas de um Casamento e 
do Grant de Cavaleiro da Lua. Ainda tenho essa ideia antiga de 
uma arte pretensiosa, de contar e viver histórias que ajudem 
as pessoas a lidar com problemas da vida.
fará outras produções do mcu? É incrível como o uni-
verso Marvel se expande, mas não posso falar sobre isso. Não 
há nada engatilhado, e não sei se continuaremos. Mas é possí-
vel. Eu amo esse personagem mais do que achei que amaria.
5 | 6
doras, o que leva a uma abordagem mais conservadora 
nos cinemas, o Disney+ virou um celeiro de experimenta-
ção para narrativas que fogem, em menor ou maior grau, 
da fórmula bem-sucedida do Universo Cinematográfico 
Marvel, o MCU. São histórias que comungam de uma car-
ga psicológica mais densa e tramas peculiares. “Há tantos 
super-heróis na Marvel que eles precisam ser reinventa-
dos de tempos em tempos. O Cavaleiro da Lua faz parte 
da renovação, e a saúde mental dele é um ponto importan-
te”, disse Diab a VEJA. 
Exemplo inaugural da premissa, WandaVision trans-
formou a jornada da Feiticeira Escarlate em uma ode às 
sitcoms, mas também em alegoria sombria dos efeitos do 
luto e da negação da perda na mente humana. Lançada em 
seguida, Loki usa o narcisismo do vilão para adentrar no 
terreno psicológico de uma figura que lida com o trauma 
do abandono e vive na corda bamba moral. Ambos ainda 
têm um pé no que poderia ser um filme da Marvel, seja pe-
los personagens conhecidos do cinema, seja pelas revira-
voltas mirabolantes. Cavaleiro da Lua vai além na ousa-
dia: apresenta um herói até então pouco conhecido e faz de 
sua história um estudo sobre autonomia e personalidade. 
Paralelamente à angústia de Grant, que lida com a cul-
pa de ter sangue nas mãos e de não saber quem é, a produ-
ção ainda mergulha em uma disputa filosófica: enquanto 
o deus Khonshu defende a vingança contra aqueles que 
cometeram crimes, Ammit, outra divindade egípcia cujo 
6 | 6
receptáculo na Terra é vivido com brilho por Ethan 
Hawke, entende que a maldade é intrínseca a alguns seres 
humanos, que devem ser eliminados. “Trama de super- 
herói virou um gênero em que é possível fazer de tudo, do 
horror ao drama”, diz o diretor. Cavaleiro da Lua é a pro-
va indisputável disso. ƒ
1 | 8
cultura veja recomenda
crime e 
castigo 
Olivia Colman e 
David Thewlis 
em Landscapers: 
casal em fuga após 
cometer assassinato
televisão 
LANDSCAPERS 
(Inglaterra/Estados Unidos, 2021), na HBO Max 
Já na abertura do primeiro de seus quatro episódios, a mi-
nissérie Landscapers (“paisagistas”) informa que Susan e 
Christopher Edwards (Olivia Colman e David Thewlis) fo-
ram presos por assassinato em 2014, mas ainda alegam 
inocência. Contrapor versões é a tática do criador, Ed Sin-
clair (aliás, marido de Olivia), que começa com o casal de 
meia-idade vivendo em penúria na França para se manter 
a salvo da polícia inglesa — a qual, no entanto, descobre os 
dois corpos enterrados no jardim da casa em que eles mo-
ravam anos antes. Mais que responder a perguntas, a meta 
é compor um retrato de duas pessoas que acham alguma 
alegria uma na outra mas não escapam dos efeitos da de-
solação que haviam vivido até ali.
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B
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2 | 8
disco 
HigHER, de Michael Bublé (Warner), 
disponível nas plataformas de streaming 
Aos 46 anos, o canadense Michael 
Bublé se notabiliza como um dos 
mais impecáveis intérpretes de stan-
dards americanos na atualidade. Em seu 11º álbum, ele usa 
seu vozeirão para dar nova vida a canções como A Nightin-
gale Sang in Berkeley Square (1940), de Vera Lynn, ou Ma-
ke You Feel My Love (1997), 
de Bob Dylan, transfor-
mando-as em pérolas ro-
mânticas daquelas para 
dançar de rosto colado. Há 
ainda uma cover classuda 
de Crazy (1961), de Willie 
Nelson, em que o próprio 
participa nos vocais. Mas a 
melhor versão é My Valen-
tine: a canção de Paul Mc-
Cartney ganha tons inson-
dáveis na voz de Bublé.
vozeirão Bublé: cantor 
canadense dá outra vida a 
clássicos americanos
RiCHARD DoBSoN/NEwSPix/gEtty imAgES
3 | 8
livro
ÁguA fRESCA PARA AS fLoRES, de Valérie Perrin (tradução de Carolina 
Selvatici; Intrínseca; 480 páginas; 69,90 reais e 46,90 em e-book) 
Há vinte anos, Violette Toussaint vive entre os túmulos 
do cemitério do qual é zeladora. Paciente, ela empresta o 
ombro às lamúrias de quem vai ao local se despedir de en-
tes queridos. Sua serenidade, porém, é abalada pela che-
gada de Julien Seul, um homem que deseja colocar as cin-
zas da mãe no túmulo de um desconhecido, conduzindo a 
zeladora a uma viagem dolorida às feridas de seu próprio 
passado. Tocante e delicada, a obra da francesa Valérie 
Perrin é uma conversa de peito aberto sobre a morte, o 
valor da vida e as dores de quem fica. ƒ
4 | 8
cultura os mais vendidos
 6 de Abril, 2022 89
AutoAjudA e esoterismo
Ficção Não Ficção
iNFANtojuveNil
Os mais vendidOs
1 8 caminhos que levam à riqueza 
Pablo Marçal [0 | 2#] BUZZ
2 mais esperto que o Diabo 
Napoleon Hill [1 | 150#] CITADEL
3 o homem mais rico Da babilônia 
George S. Clason [2 | 71#] HARPERCOLLINS BRASIL
4 os segreDos Da mente milionária 
T. Harv Eker [4 | 360#] SEXTANTE
5 Do mil ao milhão 
Thiago Nigro [3 | 159#] HARPERCOLLINS BRASIL
6 12 regras para a viDa 
Jordan B. Peterson [6 | 13#] ALTA BOOKS
7 minDset 
Carol S. Dweck [7 | 109#] OBJETIVA
8 quem pensa enriquece 
Napoleon Hill [0 | 78#] CITADEL
9 o poDer Do hábito 
Charles Duhigg [8 | 266#] OBJETIVA
10 como Fazer amigos & inFluenciar 
pessoas Dale Carnegie [0 | 52#] SEXTANTE
1 É assim que acaba 
Colleen Hoover [1 | 33#] GALERA RECORD
2 a garota Do lago 
Charlie Donlea [2 | 131#] FARO EDITORIAL
3 os sete mariDos De evelyn hugo 
Taylor Jenkins Reid [3 | 49#] PARALELA
4 torto araDo 
Itamar Vieira Junior [5 | 61#] TODAVIA
5 a revolução Dos bichos 
George Orwell [7 | 178#] VÁRIAS EDITORAS
6 tuDo É rio 
Carla Madeira [6 | 12#] RECORD
7 toDas as suas imperFeições 
Colleen Hoover [4 | 17#] GALERA RECORD
8 o guia Do mochileiro Das galáxias — 
versão ilustraDa Douglas Adams [0 | 1] ARQUEIRO
9 box — george orwell 
George Orwell [8 | 24#] PRINCIPIS
10 1984 
George Orwell [0 | 120#] VÁRIAS EDITORAS
1 mulheres que correm com os 
lobos Clarissa Pinkola Estés [1 | 99#] ROCCO
2 rápiDo e Devagar 
Daniel Kahneman [3 | 155#] OBJETIVA
3 cabeça Fria, coração quente 
Abel Ferreira [2 | 3] GAROA LIVROS
4 sapiens: uma breve história Da humaniDaDe 
Yuval Noah Harari [4 | 265#] L&PM/COMPANHIA DAS LETRAS
5 o Diário De anne Frank 
Anne Frank [5 | 265#] VÁRIAS EDITORAS
6 quarto De Despejo — Diário De uma 
FavelaDa Carolina Maria de Jesus [10 | 21#] ÁTICA
7 laDy killers: assassinas em sÉrie 
Tori Telfer [6 | 61#] DARKSIDE
8 socieDaDe Do cansaço 
Byung-Chul Han [0 | 22#] VOZES
9 lula, volume 1 
Fernando Morais [8 | 16] COMPANHIA DAS LETRAS
10 o contaDor De histórias 
Dave Grohl [0 | 4#] INTRÍNSECA
1 amor & gelato 
Jenna Evans Welch [1 | 37#] INTRÍNSECA
2 vermelho, branco e sangue azul 
Casey McQuiston [2 | 52#] SEGUINTE
3 mil beijos De garoto 
Tillie Cole [7 | 17#] OUTRO PLANETA
4 harry potter e a peDra FilosoFal 
J.K. Rowling [9 | 335#] ROCCO
5 coleção harry potter 
J.K. Rowling [3 | 108#] ROCCO
6 harry potter e a câmara secreta 
J.K. Rowling [0 | 189#] ROCCO
7 o pequeno príncipe 
Antoine de Saint-Exupéry [0 | 339#] VÁRIAS EDITORAS
8 a rainha vermelha 
Victoria Aveyard [6 | 94#] SEGUINTE
9 os Dois morrem no Final 
Adam Silvera [5 | 10#] INTRÍNSECA
10 bisa bia, bisa bel 
Ana Maria Machado [0 | 1] SALAMANDRA
5 | 8
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Ficção Não Ficção
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Os mais vendidOs
1 8 caminhos que levam à riqueza 
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2 mais esperto que o Diabo 
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3 o homem mais rico Da babilônia 
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4 os segreDos Da mente milionária 
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5 Do mil ao milhão 
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Jordan B. Peterson [6 | 13#] ALTA BOOKS
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Carol S. Dweck [7 | 109#] OBJETIVA
8 quem pensa enriquece 
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9 o poDer Do hábito 
Charles Duhigg [8 | 266#] OBJETIVA
10 como Fazer amigos & inFluenciar 
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1 É assim que acaba 
Colleen Hoover [1 | 33#] GALERA RECORD
2 a garota Do lago 
Charlie Donlea [2 | 131#] FARO EDITORIAL
3 os sete mariDos De evelyn hugo 
Taylor Jenkins Reid [3 | 49#] PARALELA
4 torto araDo 
Itamar Vieira Junior [5 | 61#] TODAVIA
5 a revolução Dos bichos 
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6 tuDo É rio 
Carla Madeira [6 | 12#] RECORD
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Colleen Hoover [4 | 17#] GALERA RECORD
8 o guia Do mochileiro Das galáxias — 
versão ilustraDa Douglas Adams [0 | 1] ARQUEIRO
9 box — george orwell 
George Orwell [8 | 24#] PRINCIPIS
10 1984 
George Orwell [0 | 120#] VÁRIAS EDITORAS
1 mulheres que correm com os 
lobos Clarissa Pinkola Estés [1 | 99#] ROCCO
2 rápiDo e Devagar 
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Yuval Noah Harari [4 | 265#] L&PM/COMPANHIA DAS LETRAS
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Byung-Chul Han [0 | 22#] VOZES
9 lula, volume 1 
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10 o contaDor De histórias 
Dave Grohl [0 | 4#] INTRÍNSECA
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2 vermelho, branco e sangue azul 
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Tillie Cole [7 | 17#] OUTRO PLANETA
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J.K. Rowling [9 | 335#] ROCCO
5 coleção harry potter 
J.K. Rowling [3 | 108#] ROCCO
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8 a rainha vermelha 
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Ana Maria Machado [0 | 1] SALAMANDRA
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7 minDset 
Carol S. Dweck [7 | 109#] OBJETIVA
8 quem pensa enriquece 
Napoleon Hill [0 | 78#] CITADEL
9 o poDer Do hábito 
Charles Duhigg [8 | 266#] OBJETIVA
10 como Fazer amigos & inFluenciar 
pessoas Dale Carnegie [0 | 52#] SEXTANTE
1 É assim que acaba 
Colleen Hoover [1 | 33#] GALERA RECORD
2 a garota Do lago 
Charlie Donlea [2 | 131#] FARO EDITORIAL
3 os sete mariDos De evelyn hugo 
Taylor Jenkins Reid [3 | 49#] PARALELA
4 torto araDo 
Itamar Vieira Junior [5 | 61#] TODAVIA
5 a revolução Dos bichos 
George Orwell [7 | 178#] VÁRIAS EDITORAS
6 tuDo É rio 
Carla Madeira [6 | 12#] RECORD
7 toDas as suas imperFeições 
Colleen Hoover [4 | 17#] GALERA RECORD
8 o guia Do mochileiro Das galáxias — 
versão ilustraDa Douglas Adams [0 | 1] ARQUEIRO
9 box — george orwell 
George Orwell [8 | 24#] PRINCIPIS
10 1984 
George Orwell [0 | 120#] VÁRIAS EDITORAS
1 mulheres que correm com os 
lobos Clarissa Pinkola Estés [1 | 99#] ROCCO
2 rápiDo e Devagar 
Daniel Kahneman [3 | 155#] OBJETIVA
3 cabeça Fria, coração quente 
Abel Ferreira [2 | 3] GAROA LIVROS
4 sapiens: uma breve história Da humaniDaDe 
Yuval Noah Harari [4 | 265#] L&PM/COMPANHIA DAS LETRAS
5 o Diário De anne Frank 
Anne Frank [5 | 265#] VÁRIAS EDITORAS
6 quarto De Despejo — Diário De uma 
FavelaDa Carolina Maria de Jesus [10 | 21#] ÁTICA
7 laDy killers: assassinas em sÉrie 
Tori Telfer [6 | 61#] DARKSIDE
8 socieDaDe Do cansaço 
Byung-Chul Han [0 | 22#] VOZES
9 lula, volume 1 
Fernando Morais [8 | 16] COMPANHIA DAS LETRAS
10 o contaDor De histórias 
Dave Grohl [0 | 4#] INTRÍNSECA
1 amor & gelato 
Jenna Evans Welch [1 | 37#] INTRÍNSECA
2 vermelho, branco e sangue azul 
Casey McQuiston [2 | 52#] SEGUINTE
3 mil beijos De garoto 
Tillie Cole [7 | 17#] OUTRO PLANETA
4 harry potter e a peDra FilosoFal 
J.K. Rowling [9 | 335#] ROCCO
5 coleção harry potter 
J.K. Rowling [3 | 108#] ROCCO
6 harry potter e a câmara secreta 
J.K. Rowling [0 | 189#] ROCCO
7 o pequeno príncipe 
Antoine de Saint-Exupéry [0 | 339#] VÁRIAS EDITORAS
8 a rainha vermelha 
Victoria Aveyard [6 | 94#] SEGUINTE
9 os Dois morrem no Final 
Adam Silvera [5 | 10#] INTRÍNSECA
10 bisa bia, bisa bel 
Ana Maria Machado [0 | 1] SALAMANDRA
7 | 8
 6 de Abril, 2022 89
AutoAjudA e esoterismo
Ficção Não Ficção
iNFANtojuveNil
Os mais vendidOs
1 8 caminhos que levam à riqueza 
Pablo Marçal [0 | 2#] BUZZ
2 mais esperto que o Diabo 
Napoleon Hill [1 | 150#] CITADEL
3 o homem mais rico Da babilônia 
George S. Clason [2 | 71#] HARPERCOLLINS BRASIL
4 os segreDos Da mente milionária 
T. Harv Eker [4 | 360#] SEXTANTE
5 Do mil ao milhão 
Thiago Nigro [3 | 159#] HARPERCOLLINS BRASIL
6 12 regras para a viDa 
Jordan B. Peterson [6 | 13#] ALTA BOOKS
7 minDset 
Carol S. Dweck [7 | 109#] OBJETIVA
8 quem pensa enriquece 
Napoleon Hill [0 | 78#] CITADEL
9 o poDer Do hábito 
Charles Duhigg [8 | 266#] OBJETIVA
10 como Fazer amigos & inFluenciar 
pessoas Dale Carnegie [0 | 52#] SEXTANTE
1 É assim que acaba 
Colleen Hoover [1 | 33#] GALERA RECORD
2 a garota Do lago 
Charlie Donlea [2 | 131#] FARO EDITORIAL
3 os sete mariDos De evelyn hugo 
Taylor Jenkins Reid [3 | 49#] PARALELA
4 torto araDo 
Itamar Vieira Junior [5 | 61#] TODAVIA
5 a revolução Dos bichos 
George Orwell [7 | 178#] VÁRIAS EDITORAS
6 tuDo É rio 
Carla Madeira [6 | 12#] RECORD
7 toDas as suas imperFeições 
Colleen Hoover [4 | 17#] GALERA RECORD
8 o guia Do mochileiro Das galáxias — 
versão ilustraDa Douglas Adams [0 | 1] ARQUEIRO
9 box — george orwell 
George Orwell [8 | 24#] PRINCIPIS
10 1984 
George Orwell [0 | 120#] VÁRIAS EDITORAS
1 mulheres que correm com os 
lobos Clarissa Pinkola Estés [1 | 99#] ROCCO
2 rápiDo e Devagar 
Daniel Kahneman [3 | 155#] OBJETIVA
3 cabeça Fria, coração quente 
Abel Ferreira [2 | 3] GAROA LIVROS
4 sapiens: uma breve história Da humaniDaDe 
Yuval Noah Harari [4 | 265#] L&PM/COMPANHIA DAS LETRAS
5 o Diário De anne Frank 
Anne Frank [5 | 265#] VÁRIAS EDITORAS
6 quarto De Despejo — Diário De uma 
FavelaDa Carolina Maria de Jesus [10 | 21#] ÁTICA
7 laDy killers: assassinas em sÉrie 
Tori Telfer [6 | 61#] DARKSIDE
8 socieDaDe Do cansaço 
Byung-Chul Han [0 | 22#] VOZES
9 lula, volume 1 
Fernando Morais [8 | 16] COMPANHIA DAS LETRAS
10 o contaDor De histórias 
Dave Grohl [0 | 4#] INTRÍNSECA
1 amor & gelato 
Jenna Evans Welch [1 | 37#] INTRÍNSECA
2 vermelho, branco e sangue azul 
Casey McQuiston [2 | 52#] SEGUINTE
3 mil beijos De garoto 
Tillie Cole [7 | 17#] OUTRO PLANETA
4 harry potter e a peDra FilosoFal 
J.K. Rowling [9 | 335#] ROCCO
5 coleção harry potter 
J.K. Rowling [3 | 108#] ROCCO
6 harry potter e a câmara secreta 
J.K. Rowling [0 | 189#] ROCCO
7 o pequeno príncipe 
Antoine de Saint-Exupéry [0 | 339#] VÁRIAS EDITORAS
8 a rainha vermelha 
Victoria Aveyard [6 | 94#] SEGUINTE
9 os Dois morrem no Final 
Adam Silvera [5 | 10#] INTRÍNSECA
10 bisa bia, bisa bel 
Ana Maria Machado [0 | 1] SALAMANDRA
8 | 8
[A|B#] — A] posição do livro na semana anterior B] há quantas semanas 
o livro aparece na lista #] semanas não consecutivas
Pesquisa: Yandeh / fontes: Aracaju: Escariz,Balneário Camboriú: Curitiba, Belém: 
Leitura, SBS, Belo Horizonte: Disal, Leitura, SBS, Vozes, Betim: Leitura, 
Blumenau: Curitiba, Brasília: Disal, Leitura, Saraiva, SBS, Vozes, Cabedelo: 
Leitura, Cachoeirinha: Santos, Campina Grande: Leitura, Campinas: Disal, Leitura, 
Loyola, Saber e Ler, Vozes, Campo Grande: Leitura, Campos dos Goytacazes: 
Leitura, Canoas: Santos, Capão da Canoa: Santos, Cascavel: A Página, Caxias do Sul: 
Saraiva, Colombo: A Página, Confins: Leitura, Contagem: Leitura, Cotia: Prime, 
um Livro, Criciúma: Curitiba, Cuiabá: Vozes, Curitiba: A Página, Curitiba, Disal, 
Livraria da Vila, SBS, Vozes, Florianópolis: Curitiba, Livrarias Catarinense, 
Saraiva, Fortaleza: Leitura, Saraiva, Vozes, Foz do Iguaçu: A Página, Kunda 
Livraria universitária, Frederico Westphalen: Vitrola, Goiânia: Leitura, Palavrear, 
Saraiva, SBS, Vozes, Governador Valadares: Leitura, Gramado: mania de Ler, 
Guaíba: Santos, Guarapuava: A Página, Guarulhos: Disal, Livraria da Vila, Leitura, 
Ipatinga: Leitura, Itajaí: Curitiba, Jaú: Casa Vamos Ler, João Pessoa: Leitura, 
Saraiva, Joinville: A Página, Curitiba, Juiz de Fora: Leitura, Vozes, Jundiaí: Leitura, 
Lins: Koinonia Livros, Londrina: A Página, Curitiba, Livraria da Vila, Macapá: 
Leitura, Maceió: Leitura, Manaus: Leitura, Vozes, Maringá: Curitiba, Mogi das 
Cruzes: Leitura, Saraiva, Natal: Leitura, Niterói: Blooks, Palmas: Leitura, 
Paranaguá: A Página, Passo Fundo: Santos, Pelotas: Vanguarda, Petrópolis: Vozes, 
Poços de Caldas: Livruz, Ponta Grossa: Curitiba, Porto Alegre: A Página, Cameron, 
Disal, Santos, Saraiva, SBS, Vozes, Porto Velho: Leitura, Recife: Disal, Leitura, 
Saraiva, SBS, Vozes, Ribeirão Preto: Disal, Saraiva, Rio Claro: Livruz, Rio de 
Janeiro: Blooks, Disal, Janela, Leitura, Saraiva, SBS, Vozes, Rio Grande: 
Vanguarda, Salvador: Disal, Escariz, LDm, Leitura, Saraiva, SBS, Vozes, Santa 
Maria: Santos, Santana de Parnaíba: Leitura, Santo André: Disal, Saraiva, Santos: 
Loyola, Saraiva, São Caetano do Sul: Disal, São José: Curitiba, São José do Rio Preto: 
Leitura, São José dos Campos: Curitiba, Leitura, São José dos Pinhais: Curitiba, São 
Luís: Leitura, São Paulo: Aeromix, A Página, Blooks, CuLt Café Livro música, 
Curitiba, Disal, Leitura, Livraria da Vila, Loyola, megafauna, Nobel Brooklin, 
Saraiva, SBS, Vozes, wmf martins fontes, Serra: Leitura, Sete Lagoas: 
Leitura, Sorocaba: Saraiva, Taboão da Serra: Curitiba, Taguatinga: Leitura, Taubaté: 
Leitura, Teresina: Leitura, Uberlândia: Leitura, SBS, Vila Velha: Leitura, Saraiva, 
Vitória: SBS, Vitória da Conquista: LDm, internet: A Página, Amazon, Americanas.
com, Authentic E-commerce, Boa Viagem — Ecommerce, Bonilha Books, 
Curitiba, Leitura, magazine Luiza, Saraiva, Shoptime, Submarino, 
Vanguarda, wmf martins fontes
1 | 4
Falso delito
Os arcaicOs meios e modos da política brasileira, que 
sabidamente não acompanharam a evolução de variados se-
tores desde a redemocratização do país, volta e meia dão as 
caras. Suscitam breves debates, mas de pronto voltam ao re-
côndito de suas obsoletas tocas.
Foi o caso da tentativa do partido do presidente de inter-
ditar, via Tribunal Superior Eleitoral, manifestações de ar-
tistas no festival Lollapalooza. A decisão de um juiz do TSE 
provocou indignação geral, mas o assunto candidatou-se ao 
esquecimento em meio ao turbilhão de acontecimentos e de-
pois de Jair Bolsonaro mandar o PL retirar a ação. 
Ato desastrado aquele, diga-se, pois que reclamações à 
Justiça Eleitoral no curso das campanhas não é hábito dos 
partidos. Preferem a tolerância cúmplice, por medo de que 
decisões contrárias ao adversário venham a confirmar que a 
madeira bate com intensidade igual em Chico e em Francisco. 
Provavelmente essa conta de reciprocidade inspirou a or-
dem de Bolsonaro para o PL recolher os flaps. Com a cena 
tomada pela demissão do ministro da Educação, a troca de 
comando na Petrobras e, num segundo plano, a volta de 
Eduardo Leite à disputa pela legenda do PSDB para concor-
Dora kramer
2 | 4
rer à Presidência, o tema das restrições a campanhas subiu 
no pódio das irrelevâncias. 
Não deveria, dada a importância do assunto. Com esse 
desdém per de-se a chance de lançar luz, dúvidas e contes-
tações sobre a questão: precisamos mesmo que o Estado 
nos diga quando, onde e como deve ser permitido fazer 
campanha eleitoral? Claro que não, assim como não temos 
a menor necessidade de ser obrigados a votar, por definição 
o exercício de um direito. 
São amarras estatais absolutamente anacrônicas, tentati-
vas de controle incompatíveis com a realidade que, além de 
infantilizar o eleitorado, desviam o foco daquilo que real-
mente precisa ser combatido e corrigido. Deixemos por ora 
de lado o voto obrigatório para nos concentrarmos na ques-
tão da campanha antecipada, cuja urgência reside demons-
trada em sua total incompatibilidade com os fatos. 
A lei que estabelece o momento a partir do qual as cam-
panhas eleitorais são permitidas data de 1997, ocasião em 
que o mundo era outro e nem se sonhava com o uso amplia-
do da internet na forma como agora conhecemos. Até 2015, 
as campanhas tinham duração de noventa dias, mas desde 
então o prazo foi reduzido para 45 dias e assim é ainda hoje. 
Antes disso não são permitidos comícios, divulgação de 
candidaturas nos espaços reservados aos partidos no rádio e 
na televisão e muito menos pedir votos em quaisquer atos 
públicos. Pergunto: tais regras, individualmente ou em con-
junto, são respeitadas? 
3 | 4
“Imposição de prazo às 
campanhas atenta contra a 
liberdade e não combate o 
criminoso abuso de poder”
Não são. Inexiste fiscalização, viceja a tolerância por par-
te da Justiça Eleitoral, grassa a cumplicidade leniente entre 
partidos, mas principalmente não são normas respeitadas 
porque não fazem sentido. Comícios tais como se faziam an-
tigamente já não existem. Se a regra fosse aplicada com ri-
gor, estariam enquadradas nela as manifestações de nature-
za política que acontecem o tempo todo e nas quais o pedido 
de votos está implícito. 
Temos campanhas autorizadas por 45 dias e vivemos em 
clima de eleição há mais de três anos, desde a proclamação 
dos resultados eleitorais de 2018. Não só Bolsonaro se com-
porta como candidato diuturnamente. Luiz Inácio da Silva 
governou por oito anos ao modo de palanque. 
Se os presidentes dão o exemplo — cuidado aqui para não 
se atribuir culpa à reeleição, pois o defeito não é da norma, é 
dos homens e das mulheres —, natural que seus adversários 
atuem da mesma maneira. Esperado que a imprensa registre 
os movimentos e normal que a parcela da sociedade interes-
4 | 4
ƒ Os textos dos colunistas não refletem 
necessariamente as opiniões de VEJA
sada em política entre na onda. De acordo com a lei, são to-
dos infratores: políticos, partidos e brasileiros engajados na 
discussão eleitoral. 
A restrição em vigor cria um falso delito lastreado em 
amarra arcaica. Fere a liberdade de expressão, mas deixa de 
lado o que realmente é grave: o criminoso, por inconstitu-
cional, abuso de poder político e econômico cometido prin-
cipalmente, mas não só, por governantes. 
Essa é a delinquência mestra a que a Justiça, o Ministério 
Público, o Congresso, as demais instâncias de fiscalização e 
as torcidas eleitorais deveriam dar, mas não dão, a devida 
atenção. O controle deveria estar aí, e não na tutela do exer-
cício da liberdade e dos direitos dos cidadãos. ƒ
abr.ai/pesquisaentregaveja
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSe5y4fn9qXfhvp618JaijpsUUPn4lwkdFBGCSUEMFb0lmIGLg/viewform
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