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AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NEUROCIÊNCIA DAS EMOÇÕES 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Debora Berger Schmidt 
 
 
 
 
2 
TEMA 1 – O QUE SIGNIFICA SER INTELIGENTE? 
O conceito de “inteligência” está presente em toda a história da Psicologia 
e em alguns pontos até se misturam. Diversos autores, com diferentes 
perspectivas, se debruçaram a estudar sobre a inteligência e construíram, a partir 
disso, conceitos divergentes sobre ela. Podemos, de forma bastante simples, 
resumir a grande discussão divergente em algumas perguntas para que 
possamos refletir um pouco antes de adiantarmos com o nosso conteúdo. O que 
é ser uma pessoa “inteligente”? É aquela pessoa que apresenta um bom 
desempenho das mais diversas áreas, de forma mais global, ou é aquela que se 
destaca em uma habilidade? E ainda... uma pessoa que apresenta um 
desempenho especialmente alto em uma disciplina, ou em uma habilidade 
específica, como lógico-matemática, tende a ir igualmente bem em outras áreas? 
Ou essa relação não existe, de modo que essa mesma pessoa que apresenta 
uma habilidade excepcional na habilidade lógico-matemática, apresentar também 
dificuldades expressivas em áreas da linguagem, como Língua Portuguesa? 
Vamos agora partir para uma retomada histórica do conceito de 
inteligência, partindo de uma compreensão mais específica do conceito, até a sua 
ampliação para o que hoje chamamos de inteligência emocional. Em uma 
perspectiva histórica, Charles Spearman, no século XX foi um dos primeiros e 
mais importantes pesquisadores desse conceito. Spearman postulava que a 
inteligência seria formada pelo fator g, ou inteligência geral, uma base neurológica 
que daria sustentação para a realização de trabalhos intelectuais; e também seria 
por fatores específicos, mais dependentes da aprendizagem. Em resumo, 
pressupor um fator geral de inteligência nos permite pensar que existe uma 
relação entre os diferentes fatores de inteligência, de modo que o desempenho 
em uma atividade nos permite pressupor o seu desempenho em outras áreas 
(Schelini, 2006). 
Uma alternativa à compreensão da inteligência é representada por 
Gardner, que apresenta na década de 80 sua teoria. A teoria de inteligência 
múltipla do autor parte da observação de que os gênios dificilmente têm 
desempenho expressional em todas as áreas, concluindo então que a inteligência 
é composta por 7 diferentes dimensões, e que essas dimensões são 
independentes (Strehl, 2000): 
 
 
3 
1. Inteligência Linguística: habilidade de aprender idiomas e de usar a fala e 
a escrita. 
2. Inteligência Musical: aptidão para tocar, apreciar e compor padrões 
musicais. 
3. Inteligência Lógico-matemática: habilidade de realizar operações 
numéricas e de fazer deduções. 
4. Inteligência Espacial: capacidade para reconhecer e manipular situações 
que envolvam apreensões visuais. 
5. Inteligência Físico-cinestésica: potencial para usar o corpo com o fim de 
resolver problemas ou fabricar produtos. 
6. Inteligência Interpessoal: capacidade de entender as intenções e os 
desejos dos outros e estar inserido adequadametne em sociedade. 
7. Inteligência Intrapessoal: se conhecer e usar o entendimento de si mesmo. 
Mais tarde, o autor acrescentou três novas inteligências (Almeida et al., 
2009): 
8. Inteligência Naturalista: reconhecer a categorizar objetos da natureza. 
9. Inteligência Espiritual: aptidão para lidar com conceitos abstratos e difusos 
acerca da existência e de processos complexos como a consciência 
individual. 
10. Inteligência Existencial: capacidade para se questionar e se compreender 
sobre a condição humana, como a vida, morte, existência de outra vida ou 
experimentar profundamente o amor por alguém ou aproveitar uma 
produção artística. 
 
Crédito: nichtoon/shutterstock. 
 
 
4 
Essa perspectiva parece fazer bastante sentido quando pensamos, por 
exemplo, em uma criança que apresenta ótimo desempenho na inteligência 
espacial, transitando, empinando pipa e brincando por ruas estreitas, e ainda 
assim apresenta um desempenho inferior em outras habilidades. Ou seja, uma 
pessoa pode ter um desempenho excepcional em uma área, e em outras não 
necessariamente. 
A teoria de Cattell-Horn-Carroll - CHC das Habilidades Cognitivas vem 
como uma opção mais integradora entre as citadas acima. Ela foi apresentada na 
década de 90, integrando a construção teórica de três autores e apresenta uma 
visão multidimensional e hierárquica de inteligência. Ela seria composta por dez 
fatores ligados a áreas amplas do funcionamento cognitivo, sendo elas 
associadas aos domínios da linguagem, raciocínio, memória, percepção visual, 
recepção auditiva, produção de ideias, velocidade cognitiva, conhecimento e 
rendimento acadêmico. Em suma, esse modelo indica que existe uma 
variabilidade em termos de capacidades relacionadas à inteligência, de modo que 
não devemos referir que um sujeito é ou não inteligente, e, sim, que apresenta 
algumas capacidades (quaisquer que sejam elas) mais desenvolvidas do que 
outras. 
O que vimos até aqui é uma introdução que ilustra quão complexo é o 
conceito de inteligência. Como assinalado no início deste capítulo, a história da 
Psicologia é significativamente preenchida por estudos teóricos e conceituais 
sobre a inteligência, e também por tentativas de mensuração (ou seja, de 
avaliação) da inteligência, exemplo disso são os instrumentos amplamente 
utilizados em avaliações psicológicas a neuropsicológicas por psicólogos para 
avaliação da inteligência e compreensão do QI (coeficiente de inteligência) das 
pessoas avaliadas. Esses instrumentos buscam avaliar uma combinação de 
fatores específicos da inteligência permitindo uma melhora compreensão das 
capacidades de uma pessoa. Atualmente, partimos de uma compreensão da 
inteligência que ultrapassa a resolução de um determinado problema ou teste 
psicológico. É uma qualidade que permite ao ser humano a sua adaptação e a 
sua sobrevivência. De uma forma bastante generalizada, podemos definir a 
inteligência como: 
Uma capacidade mental muito geral que, entre outras coisas, implica a 
habilidade para raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de 
maneira abstrata e aprender da experiência. Não se pode considerar um 
mero conhecimento enciclopédico, uma habilidade acadêmica particular 
ou uma destreza para resolver um teste. Entretanto, reflete uma 
 
 
5 
capacidade mais ampla e profunda para compreender o ambiente – 
perceber, dar sentido às coisas ou imaginar o que se deve ser feito. 
(Gottfredson, 1997, p.13, citado por Flores-Mendonza; Saraiva, 2018, p. 
22) 
Porém, uma questão importante percebida pelos pesquisadores é que a 
inteligência humana abarca outras dimensões ainda desconhecidas que 
ultrapassam aquelas que os testes alcançam, especialmente abrangendo a esfera 
emocional. Trata-se aqui de uma aproximação da inteligência com a emoção, tal 
como vimos esse encontro em outras esferas em conteúdos anteriores (mente e 
cérebro, cognição e emoção). Nos aprofundaremos sobre isso nos capítulos 
seguintes. 
TEMA 2 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: DEFINIÇÃO 
É bem importante que possamos iniciar esse tópico elucidando sobre o 
conceito de inteligência emocional. Embora a autoria do conceito seja comumente 
atribuída a Daniel Goleman, Ricardo Primi (2003) destaca que foram Peter 
Salovey, John Mayer e David Caruso quem criaram esse conceito, 
compreendendo a inteligência emocional como capacidade cognitiva. A definição 
de Goleman incluiu características de traços de personalidade na compreensão 
da inteligência emocional e, embora trouxesse pouca novidade no campo 
conceitual e se afastasse da ideia original dos autores, ganhou um espaço 
importante no mundo dos negócios (Primi, 2003). 
Por muito tempo os estudiosos da inteligência mantinham seus olhares 
para entender como ocorre o processamento de informações, sem dar a devidaatenção aos aspectos afetivos envolvidos nesse processo. Trata-se, obviamente, 
de uma compreensão simplista, como já vimos anteriormente, porque não aborda 
a complexidade humana. Embora ainda hoje algumas pessoas insistam em dizer 
que a emoção atrapalha alguns processos de pensamento e que a sua presença 
significa falta de “controle da mente”, hoje sabemos que as emoções têm efeitos 
importantes na capacidade do ser humano se adaptar e, portanto, de ser 
inteligente, e que esses efeitos não são necessariamente negativos. 
Um primeiro aspecto importante é o caráter funcional e adaptativo das 
emoções. As emoções são um conjunto organizado de reações 
programadas evolutivamente no cérebro para enfrentar situações-
problema que ameaçam a sobrevivência do organismo. Elas fazem parte 
de sua sabedoria evolutiva. Um segundo aspecto é que os diferentes 
tipos emoções estão associados a diferentes temas ou enredos padrão 
ligados à sobrevivência. As reações disparadas pelas emoções são 
 
 
6 
condizentes com o enfrentamento destas situações específicas. (Primi, 
2003, p. 72) 
 A citação acima nos permite resgatar que as emoções possuem um papel 
importante para a adaptação e, portanto, estão diretamente relacionadas com a 
inteligência. Sob um ponto de vista evolucionista, a emoção está associada a 
áreas mais primitivas do cérebro e não precisam ser deliberadas, ou seja, não 
precisam ficar conscientes para acontecer. Tanto a inteligência quanto a emoção 
ajudam uma pessoa a ter comportamentos adaptativos, o que acontece, portanto, 
é que as pessoas possuem uma certa capacidade para lidar com emoções no 
processo adaptativo, alguém em menor e outras em maior grau. A inteligência 
emocional se relaciona justamente com isso, com a capacidade para lidar com as 
informações emocionais e usá-las a favor do processo adaptativo (Primi, 2003). A 
inteligência emocional pode ser dividida em quatro níveis (Primi, 2003): 
• Capacidade de perceber as emoções: está relacionada à capacidade de 
uma pessoa em perceber as suas emoções e as emoções de outras 
pessoas, identificando qual emoção se trata e ainda avaliar a sua 
veracidade ou tentativa de manipulação. Conhecer e reconhecer os 
próprios sentimentos é uma experiência introspectiva, mas que também se 
relaciona com a capacidade de desenvolver um comportamento empático, 
ou seja, de entender os sentimentos de outras pessoas com mais 
profundidade. 
• Capacidade de usar as emoções para facilitar o pensamento: usar as 
emoções para facilitar o pensamento é conseguir direcionar a atenção e o 
pensamento para as informações importantes, sejam elas internas ou 
externas. Por exemplo, uma pessoa com estado de humor mais negativo 
tende a ser mais realista na avaliação e nos seus julgamentos. Perceber 
esses efeitos do estado de humor sobre o pensamento é favorável à 
adaptação. 
• Conhecimento emocional: está ligada à capacidade que temos em 
conceituar nossas emoções e reconhecer as diferenças entre elas. Vimos 
anteriormente, por exemplo, que o choro pode ser expressão da tristeza, 
mas pode expressar alegria em algumas circunstâncias. Conhecer e 
conceituar as emoções nos permite reconhecer as transições entre um 
estado emocional e outro, e é importante para a nossa adaptação. 
 
 
7 
• Regulação emocional: é o gerenciamento das emoções, ou seja, o seu 
controle reflexivo para promover o crescimento emocional. Essa faceta 
envolve o automonitoramento e instrumentaliza que possamos manter ou 
modificar nossas emoções conforme a necessidade. A regulação 
emocional não se limita à capacidade de regular os nossos próprios 
humores (que nos permite escolher situações que são prazerosas ou evitar 
as desagradáveis, por exemplo), mas também envolve a regulação dos 
humores de outras pessoas, entendendo que nossos comportamentos 
afetam os outros e, portanto, podemos atuar diretamente sobre elas. 
De forma resumida, Primi (2003) define que a inteligência emocional é a 
capacidade de identificar e perceber emoções, utilizando-as para regular as 
emoções de si e dos outros e para facilitar o pensamento. O uso adequado deste 
processo permite a adaptação aos diferentes eventos da vida. 
TEMA 3 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E A INFÂNCIA: COMPETÊNCIA 
EMOCIONAL 
 O modelo de inteligência emocional apresentado por Mayer, Salovey e 
Carus foi elaborado principalmente para o pensamento adulto, porém, Franco e 
Santos (2015) nos lembram de que um bebê, com poucos dias de vida, já 
consegue perceber emoções e vai adquirindo e aprimorando suas habilidades 
emocionais ao longo do seu desenvolvimento na infância até a idade adulta. 
Alguns estudos, ainda que timidamente, se destacam ao buscar 
compreender o desenvolvimento infantil e sua relação com a inteligência 
emocional. Geralmente os autores usam o temo “competência emocional” para se 
referir à inteligência emocional no desenvolvimento infantil (Franco, Souza, 2015). 
Embora os autores não sejam unânimes em definir de forma consistente 
esse conceito na infância, podemos agrupar três componentes da inteligência 
emocional em crianças (Franco; Souza, 2015). Sendo elas: 
• Expressão emocional: habilidade de moderar emoções negativas e 
potenciar emoções positivas, sem reprimir ou exagerar a informação que 
elas transmitem. 
• Regulação emocional: capacidade de modular a intensidade ou duração 
dos estados emocionais de acordo com a cultura ou uma expectativa social 
(por exemplo, a inibição da agressividade). 
 
 
8 
• Compreensão das emoções: capacidade de identificar, reconhecer e 
nomear as emoções, diferenciando-as e compreendendo as emoções de 
outras pessoas a partir da leitura das suas expressões faciais e do contexto 
emocional. 
A compreensão emocional se destaca na competência emocional porque 
se associa diretamente com o ajustamento social e saúde mental. Isso porque a 
partir dessa habilidade que a criança consegue ter uma integração mais adequada 
em seus contextos sociais, comunicando seus estados emocionais e 
reconhecendo a emoção de outras pessoas. Existem ainda alguns estudos que 
abordam que a capacidade de compreensão emocional está associada com 
melhores resultados acadêmicos e melhor aprovação social, pois conseguem 
negociar as situações com seus pares (veremos mais sobre isso no decorrer desta 
etapa). 
Santos (2015), ao discutir sobre o desenvolvimento da compreensão 
emocional, destaca que nos primeiros dias de vida uma criança é capaz de imitar 
expressões faciais e gestos, e que possui as habilidades completamente maduras 
para o reconhecimento facial perto dos 6 meses de idade. Entre imitar expressões 
faciais de forma rudimentar e conseguir identificar com precisão os significados 
das expressões emocionais, existe uma trajetória que depende da aquisição da 
linguagem, de modo que próximo dos 3 anos de idade a maioria das crianças já 
consegue nomear emoções como alegre, triste, com raiva e medo. O 
desenvolvimento social a partir dos 3 anos é exponencial, e veremos a seguir 
conforme Santos (2015) apresenta. 
3.1 Primeira fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre os 
3 aos 6 anos) 
 Essa fase também pode ser nomeada como fase externa, em que é 
esperado que a criança seja capaz de identificar as expressões emocional e 
entenda que situações externas podem causar emoções, ou ainda que uma 
lembrança de uma situação vivenciada pode causar uma reação emocional. 
 
 
 
9 
3.1.1 Segunda fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre 
os 5 aos 9 anos) 
É uma fase caracterizada pela aprendizagem de emoções que resultam de 
crenças e desejos individuais e não somente de fatores externos como 
anteriormente. É esperado que elas sejam capazes de compreender a 
possibilidade de esconder um estado emocional. Nesse período, as crianças 
também tendem a desenvolver a capacidade de distinguir entre emoções reais e 
fingidas, porém, somente no final desseperíodo é que essas habilidades estão 
melhor estabelecidas. 
3.1.2 Terceira fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre 
os 8 aos 12 anos) 
A terceira fase é marcada pela capacidade de compreender emoções 
mistas e morais (como a culpa, por exemplo), ou seja, desenvolvem a capacidade 
de compreensão da existência de múltiplas ou até contraditórias (ambivalentes) 
respostas emocionais. E, mais do que esconder um estado emocional como 
referido na fase anterior, aqui é esperado que elas compreendam a sua 
capacidade de controlar as experiências emocional. 
As diferenças individuais no desenvolvimento da Competência Emocional 
das crianças são individuais e não são aleatórias, contemplando características 
psicológicas (pessoais) e sociais (como as relações com colegas e adultos) como 
veremos a seguir. 
Por fim, entendemos que, embora não se questione o papel da inteligência 
emocional para o desenvolvimento e adaptação das crianças, e do quanto ela 
pode ser preditora de dificuldades sociais, emocionais e comportamentais, ainda 
há necessidade de amplo avanço nas pesquisas para a instrumentalização de 
intervenções eficazes de promoção de saúde mental nos diferentes contextos em 
que estão inseridas. 
TEMA 4 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E O DESEMPENHO 
ACADÊMICO/ESCOLAR 
A definição do construto inteligência emocional, como vimos até aqui, 
permitiu que as emoções desocupassem um lugar negativo (aquela que atrapalha 
 
 
10 
o pensamento) para serem colocadas em uma posição não somente de quem não 
atrapalha, mas ajuda os processos cognitivos. Os estudos sobre a inteligência 
emocional nos permitiram compreender que as emoções tornam o pensamento 
mais inteligente e auxilia uma pessoa a pensar suas emoções e a das outras 
pessoas, tornando-a adaptada a um contexto. Os resultados desses estudos 
apontam que maiores índices de inteligência emocional estão associados a 
melhores relações sociais, familiares, íntimas e de trabalho: “os indivíduos de 
inteligência emocional elevada são encarados pelos outros como pessoas com 
quem é mais agradável estar, mais empáticas e socialmente mais hábeis do que 
os indivíduos de inteligência emocional baixa” (Silva, 2012, p. 23). 
Essa valorização das emoções e sobre o seu papel importante em diversos 
contextos (família, escola e trabalho) pode representar parte das contribuições 
das neurociências sobre o desempenho acadêmico. Pais, alunos, professores e 
instituições escolares se interessam pelo sucesso escolar, cada um sob sua 
perspectiva própria. Se pensarmos, por exemplo, que o sucesso escolar está 
associado ao desempenho dos estudantes mensurado a partir da progressão nos 
cursos e notas, temos a perspectiva de que o insucesso, por sua vez, é 
caracterizado pelo baixo rendimento escolar do aluno que não conseguiu atingir 
as competências esperadas em um determinado período de tempo ou não atingiu 
os objetivos desejados. Ou seja, os índices de sucesso/insucesso variam de 
acordo com o contexto. 
O exemplo acima representa um padrão de representação de 
sucesso/insucesso escolar próprio do sistema escolar, em que o sujeito (o aluno) 
deve atender aos critérios institucionalmente estabelecidos a partir de uma 
perspectiva objetiva. Porém, o que sabemos e valorizamos hoje, é que o sucesso 
escolar também abrange critérios subjetivos, que são individuais de cada aluno, 
dependentes das suas ambições e perspectivas (Silva; Duarte, 2012). Com isso, 
é preciso valorizar que há um risco em reduzir o sucesso escolar/acadêmico em 
uma medida objetiva e desconsiderar outros fatores contextuais que estão 
envolvidos na manifestação de um talento que não se resumem no construto 
inteligência, como por exemplo, esforço, dificuldade de uma tarefa, cansaço, a 
influência do professor, condições inadequadas de estudo, fraca qualidade de 
orientação bibliográfica de apoio, entre outros. 
Porém, quando se analisa a variável “inteligência emocional” e o 
rendimento escolar e acadêmico objetivo, alguns estudos apontam para uma 
 
 
11 
relação entre esses dois fatores, de modo que alunos com índices mais elevados 
em inteligência emocional tendem a ter melhores desempenhos escolar e 
acadêmico (Silva; Duarte, 2012). A justificativa para essa relação está na 
consideração que a inteligência emocional daria sustentação para o 
desenvolvimento emocional e social das habilidades que são pré-requisitos 
básicos para a aprendizagem e adaptação no ambiente escolar e acadêmico 
(Moutinho et. al., 2019; Woyciekoski; Hutz, 2009). 
A importância de tal relação também demonstra que seria possível educar 
pessoas que, diante se contextos externos, não adquiriram competências 
emocionais suficientes por meio de treinamento. Desta forma, a educação 
emocional visaria desenvolver e/ou aprimorar a capacidade de reconhecer seus 
sentimentos, expressá-los e regulá-los. Veremos, a seguir, o papel da escola no 
desenvolvimento da inteligência emocional. 
TEMA 5 – A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E O CONTEXTO 
FAMILIAR E SOCIAL 
Sabemos que as emoções se desenvolvem na interação com o meio 
externo por meio da socialização. Desta forma, as emoções de uma pessoa são 
influenciadas pela qualidade da relação de quem está próximo dela, e também 
pela sociedade e cultura em que se cresce e se desenvolve. Nesse sentido, os 
primeiros vínculos emocionais estabelecidos são a base do desenvolvimento das 
relações sociais na criança, e eles geralmente acontecem no âmbito familiar 
(salvo os casos em que as crianças são institucionalizas e outras pessoas 
exercem essa função). 
Além do mais, na medida em que a criança cresce e passa a estar inserida 
em outros contextos, especialmente na escola (e isso tem acontecido cada vez 
mais cedo em nossa sociedade, por diferentes motivos), de modo que ela vai 
expandindo também cada vez mais a sua participação na formação das crianças 
e adolescentes. A escola deixou de ser um local de aquisição de conhecimento e 
passou a ser um local também de desenvolvimento das competências sociais e 
emocionais, pois é um dos locais (se não o local) onde as crianças e os jovens 
passam a maior parte do seu tempo, constituindo um dos maiores agentes de 
socialização (Cardeira, 2012). Obviamente que não se trata de reduzir a 
compreensão de que a escola deve ser o lugar exclusivo de desenvolvimento 
emocional, mas de constatar que hoje a educação e a socialização são 
 
 
12 
compartilhadas entre escola e família (mesmo que haja uma discordância e 
expectativas diferentes de cada uma das partes). 
5.1 Inteligência Emocional de quem aprende 
 Sensíveis à produção dos novos conhecimentos sobre a integração da 
cognição às emoções, bem como da compreensão da inteligência de forma mais 
abrangente e o papel fundamental das emoções sob ela, bem como do contexto 
atual sobre o papel da escola, alguns autores defendem que deve estar em seu 
escopo também a chamada educação emocional ou educação socioemocional. O 
nome dado difere entre os autores, mas se refere a estratégias de promoção da 
inteligência emocional. 
 A educação para as emoções tende a ser um conteúdo presente no plano 
de atividade pré-escolar, mas quando se inicia o ciclo de escolaridade regular, há 
uma valorização do ensino-aprendizagem focado nas competências lógico-
matemáticas e fonético-linguísticas, o que está diretamente associado ao 
aproveitamento escolar. As inteligências espacial, musical, corporal-cinestésica 
vão sendo adicionadas, mas nem sempre com tamanha importância. As emoções 
ficam em segundo plano e a educação fica aquém do que deveria, não preparando 
os alunos para a vida pessoal e em sociedade, afinal, cada fator de inteligência 
promove uma percepção da realidade para o sujeito (Cardeira, 2012): 
A Educação Emocional é um processo contínuo de aprendizagem ao 
longo da vida, podendo ser encarada como uma forma de prevenção, 
visto que previneou minimiza a vulnerabilidade face a contextos 
adversos. Neste sentido, aumenta a possibilidade de condutas 
construtivas e diminui as de caráter destrutivo. Todos os indivíduos estão 
sujeitos a ter pensamentos e comportamentos agressivos relativos a si 
e aos outros, o que pode levar a que ocorram toxicodependências, 
depressões, auto-mutilações, desordens alimentares, stress, ansiedade, 
etc. (Cardeira, 2012, p. 6) 
A educação emocional promove a capacidade da criança de aprender a 
expressar sentimentos e compreender como esses sentimentos influenciam os 
outros, assim como permite a pessoa atribuir a si próprio a responsabilidade pela 
consequência das suas atitudes emocionais. Portanto, a educação emocional 
carrega consigo o pressuposto do autoconhecimento e também por isso pode 
estar associado com o processo de ensino aprendizagem: conhecer sobre os 
meus sentimentos me permite compreender sobre as minhas motivações, 
favorecendo o meu envolvimento com determinadas atividades. Regular as 
minhas emoções pode me ajudar a controlar alguns impulsos e permite afastar 
 
 
13 
distrações e controlar impulsos para poder acompanhar o ensino, por exemplo 
(Cardeira, 2012; Silva; Ferreira, 2020). 
Outro impacto da educação emocional estaria associado à violência. Sendo 
a inteligência emocional um construto que permite uma pessoa ser capaz de 
compreender as emoções e instrumentaliza a mediação e resolução de conflitos, 
ela pressupõe a capacidade de comportamentos não instintivos, recorrendo a uma 
forma de regulação capaz de adequar a resposta à situação de forma não violenta 
(Cardeira, 2012). 
É importante registrar que no Brasil não há legislação sobre a necessidade 
de implantar nas escolas a educação emocional como em outros países que 
promovem programas de educação socioemocionais, ficando a cargo da 
sensibilidade dos seus cuidadores o reconhecimento da importância da educação 
emocional (Da Silva; Da Silva, 2018). 
5.2 Inteligência Emocional de quem ensina 
Para que cidadãos emocionalmente inteligentes sejam formados, são 
necessários cuidadores (sejam estes pais ou professores) emocionalmente 
inteligentes. 
Não é difícil compreender que, se um pai apresenta dificuldade em 
identificar o seu próprio sentimento de tristeza, ele terá consequentemente 
dificuldade de reconhecer e ser capaz de ajudar o seu filho quando a tristeza 
aparecer, seja em um momento de perda, de melancolia decorrente da cena de 
um filme, ou se está “para baixo” em consequência de algum evento significativo. 
Com esse exemplo, fica claro que promover inteligência emocional está 
diretamente relacionado com pessoas que sejam capazes de reconhecer, nomear 
e regular as emoções. Idealmente seria fundamental que os primeiros cuidadores, 
especialmente os pais, fossem capazes de criar um ambiente emocionalmente 
protetivo e promotor de inteligência emocional, mas sabemos que isso nem 
sempre é possível, porque cada um apresenta sua história carregada por suas 
vivências e crenças (histórias familiares, marcos culturais e geracionais, por 
exemplo). 
Por isso, alguns autores defendem que a educação emocional deve incluir 
os ambientes em que as crianças estão inseridas, e, obviamente, os atores 
envolvidos com seus cuidados, como os pais e os professores, promovendo a sua 
 
 
14 
inteligência emocional para que possam auxiliar o desenvolvimento emocional das 
crianças. Sobre isso, sabe-se que: 
A educação Infantil tem três atores: crianças, famílias e profissionais da 
educação, por isso, é extremamente importante auxiliar as crianças a 
criarem suas próprias identidades. Para isso é preciso oferecer 
oportunidades afetivas para o aprendizado e desenvolvimento da 
criança, através de uma parceria onde haja a participação da família, dos 
professores e da escola, sendo uma das mais complexas fases do 
desenvolvimento humano no que tange aos aspectos de 
desenvolvimento intelectual, emocional, social e motor da criança. 
(Santos, 2021, p. 6) 
 Trazendo o tema em discussão para a perspectiva do professor, é possível 
compreender o quão vulnerável suas questões emocionais estão diante da 
precária situação do ensino em parte importante das escolas brasileiras. A 
profissão que já traz consigo seus desafios, tem esses potencializados quando o 
professor se depara com inúmeros problemas sociais de seus alunos (exemplo 
clássico disso é a violência). Portanto, ter competências emocionais o auxilia no 
enfrentamento do estresse laboral e das demandas emocionais de seus alunos. 
O desenvolvimento socioemocional não dever ser considerado como uma tarefa 
do professor, mas sim um caminho para construir um ambiente favorável a 
aprendizagem (para o aluno) e para o ensino (para o professor) (Trevizani, Marin, 
2020). 
 Enquanto a educação escolar vai sendo depositada com novas demandas 
e responsabilidades, é preciso ser cuidadoso para que elas não sobrecarreguem 
o professor. Por isso, políticas públicas que promovam a perspectiva emocional 
para professores são fundamentais, embora ainda tímidas no nosso país. Alguns 
estudos citam ações integradas de programas escolares que buscam promover a 
inteligência emocional integrando pais e professores, com objetivo de se 
estabelecer condições para o desenvolvimento da competência emocional nos 
alunos. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, L. S. et al. Inteligências múltiplas de Gardner: É possível pensar a 
inteligência sem um factor g?. Psychologica, n. 50, p. 41-55, 2009. 
CARDEIRA, A. Educação emocional em contexto escolar. Portal dos 
Psicólogos, 2012. 
FLORES-MENDOZA, C.; SARAIVA, R. B. Avaliação da inteligência: Uma 
introdução. In: Avaliação psicológica da inteligência e da personalidade. 
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