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AULA 4 NEUROCIÊNCIA DAS EMOÇÕES Profª Debora Berger Schmidt 2 TEMA 1 – O QUE SIGNIFICA SER INTELIGENTE? O conceito de “inteligência” está presente em toda a história da Psicologia e em alguns pontos até se misturam. Diversos autores, com diferentes perspectivas, se debruçaram a estudar sobre a inteligência e construíram, a partir disso, conceitos divergentes sobre ela. Podemos, de forma bastante simples, resumir a grande discussão divergente em algumas perguntas para que possamos refletir um pouco antes de adiantarmos com o nosso conteúdo. O que é ser uma pessoa “inteligente”? É aquela pessoa que apresenta um bom desempenho das mais diversas áreas, de forma mais global, ou é aquela que se destaca em uma habilidade? E ainda... uma pessoa que apresenta um desempenho especialmente alto em uma disciplina, ou em uma habilidade específica, como lógico-matemática, tende a ir igualmente bem em outras áreas? Ou essa relação não existe, de modo que essa mesma pessoa que apresenta uma habilidade excepcional na habilidade lógico-matemática, apresentar também dificuldades expressivas em áreas da linguagem, como Língua Portuguesa? Vamos agora partir para uma retomada histórica do conceito de inteligência, partindo de uma compreensão mais específica do conceito, até a sua ampliação para o que hoje chamamos de inteligência emocional. Em uma perspectiva histórica, Charles Spearman, no século XX foi um dos primeiros e mais importantes pesquisadores desse conceito. Spearman postulava que a inteligência seria formada pelo fator g, ou inteligência geral, uma base neurológica que daria sustentação para a realização de trabalhos intelectuais; e também seria por fatores específicos, mais dependentes da aprendizagem. Em resumo, pressupor um fator geral de inteligência nos permite pensar que existe uma relação entre os diferentes fatores de inteligência, de modo que o desempenho em uma atividade nos permite pressupor o seu desempenho em outras áreas (Schelini, 2006). Uma alternativa à compreensão da inteligência é representada por Gardner, que apresenta na década de 80 sua teoria. A teoria de inteligência múltipla do autor parte da observação de que os gênios dificilmente têm desempenho expressional em todas as áreas, concluindo então que a inteligência é composta por 7 diferentes dimensões, e que essas dimensões são independentes (Strehl, 2000): 3 1. Inteligência Linguística: habilidade de aprender idiomas e de usar a fala e a escrita. 2. Inteligência Musical: aptidão para tocar, apreciar e compor padrões musicais. 3. Inteligência Lógico-matemática: habilidade de realizar operações numéricas e de fazer deduções. 4. Inteligência Espacial: capacidade para reconhecer e manipular situações que envolvam apreensões visuais. 5. Inteligência Físico-cinestésica: potencial para usar o corpo com o fim de resolver problemas ou fabricar produtos. 6. Inteligência Interpessoal: capacidade de entender as intenções e os desejos dos outros e estar inserido adequadametne em sociedade. 7. Inteligência Intrapessoal: se conhecer e usar o entendimento de si mesmo. Mais tarde, o autor acrescentou três novas inteligências (Almeida et al., 2009): 8. Inteligência Naturalista: reconhecer a categorizar objetos da natureza. 9. Inteligência Espiritual: aptidão para lidar com conceitos abstratos e difusos acerca da existência e de processos complexos como a consciência individual. 10. Inteligência Existencial: capacidade para se questionar e se compreender sobre a condição humana, como a vida, morte, existência de outra vida ou experimentar profundamente o amor por alguém ou aproveitar uma produção artística. Crédito: nichtoon/shutterstock. 4 Essa perspectiva parece fazer bastante sentido quando pensamos, por exemplo, em uma criança que apresenta ótimo desempenho na inteligência espacial, transitando, empinando pipa e brincando por ruas estreitas, e ainda assim apresenta um desempenho inferior em outras habilidades. Ou seja, uma pessoa pode ter um desempenho excepcional em uma área, e em outras não necessariamente. A teoria de Cattell-Horn-Carroll - CHC das Habilidades Cognitivas vem como uma opção mais integradora entre as citadas acima. Ela foi apresentada na década de 90, integrando a construção teórica de três autores e apresenta uma visão multidimensional e hierárquica de inteligência. Ela seria composta por dez fatores ligados a áreas amplas do funcionamento cognitivo, sendo elas associadas aos domínios da linguagem, raciocínio, memória, percepção visual, recepção auditiva, produção de ideias, velocidade cognitiva, conhecimento e rendimento acadêmico. Em suma, esse modelo indica que existe uma variabilidade em termos de capacidades relacionadas à inteligência, de modo que não devemos referir que um sujeito é ou não inteligente, e, sim, que apresenta algumas capacidades (quaisquer que sejam elas) mais desenvolvidas do que outras. O que vimos até aqui é uma introdução que ilustra quão complexo é o conceito de inteligência. Como assinalado no início deste capítulo, a história da Psicologia é significativamente preenchida por estudos teóricos e conceituais sobre a inteligência, e também por tentativas de mensuração (ou seja, de avaliação) da inteligência, exemplo disso são os instrumentos amplamente utilizados em avaliações psicológicas a neuropsicológicas por psicólogos para avaliação da inteligência e compreensão do QI (coeficiente de inteligência) das pessoas avaliadas. Esses instrumentos buscam avaliar uma combinação de fatores específicos da inteligência permitindo uma melhora compreensão das capacidades de uma pessoa. Atualmente, partimos de uma compreensão da inteligência que ultrapassa a resolução de um determinado problema ou teste psicológico. É uma qualidade que permite ao ser humano a sua adaptação e a sua sobrevivência. De uma forma bastante generalizada, podemos definir a inteligência como: Uma capacidade mental muito geral que, entre outras coisas, implica a habilidade para raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de maneira abstrata e aprender da experiência. Não se pode considerar um mero conhecimento enciclopédico, uma habilidade acadêmica particular ou uma destreza para resolver um teste. Entretanto, reflete uma 5 capacidade mais ampla e profunda para compreender o ambiente – perceber, dar sentido às coisas ou imaginar o que se deve ser feito. (Gottfredson, 1997, p.13, citado por Flores-Mendonza; Saraiva, 2018, p. 22) Porém, uma questão importante percebida pelos pesquisadores é que a inteligência humana abarca outras dimensões ainda desconhecidas que ultrapassam aquelas que os testes alcançam, especialmente abrangendo a esfera emocional. Trata-se aqui de uma aproximação da inteligência com a emoção, tal como vimos esse encontro em outras esferas em conteúdos anteriores (mente e cérebro, cognição e emoção). Nos aprofundaremos sobre isso nos capítulos seguintes. TEMA 2 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: DEFINIÇÃO É bem importante que possamos iniciar esse tópico elucidando sobre o conceito de inteligência emocional. Embora a autoria do conceito seja comumente atribuída a Daniel Goleman, Ricardo Primi (2003) destaca que foram Peter Salovey, John Mayer e David Caruso quem criaram esse conceito, compreendendo a inteligência emocional como capacidade cognitiva. A definição de Goleman incluiu características de traços de personalidade na compreensão da inteligência emocional e, embora trouxesse pouca novidade no campo conceitual e se afastasse da ideia original dos autores, ganhou um espaço importante no mundo dos negócios (Primi, 2003). Por muito tempo os estudiosos da inteligência mantinham seus olhares para entender como ocorre o processamento de informações, sem dar a devidaatenção aos aspectos afetivos envolvidos nesse processo. Trata-se, obviamente, de uma compreensão simplista, como já vimos anteriormente, porque não aborda a complexidade humana. Embora ainda hoje algumas pessoas insistam em dizer que a emoção atrapalha alguns processos de pensamento e que a sua presença significa falta de “controle da mente”, hoje sabemos que as emoções têm efeitos importantes na capacidade do ser humano se adaptar e, portanto, de ser inteligente, e que esses efeitos não são necessariamente negativos. Um primeiro aspecto importante é o caráter funcional e adaptativo das emoções. As emoções são um conjunto organizado de reações programadas evolutivamente no cérebro para enfrentar situações- problema que ameaçam a sobrevivência do organismo. Elas fazem parte de sua sabedoria evolutiva. Um segundo aspecto é que os diferentes tipos emoções estão associados a diferentes temas ou enredos padrão ligados à sobrevivência. As reações disparadas pelas emoções são 6 condizentes com o enfrentamento destas situações específicas. (Primi, 2003, p. 72) A citação acima nos permite resgatar que as emoções possuem um papel importante para a adaptação e, portanto, estão diretamente relacionadas com a inteligência. Sob um ponto de vista evolucionista, a emoção está associada a áreas mais primitivas do cérebro e não precisam ser deliberadas, ou seja, não precisam ficar conscientes para acontecer. Tanto a inteligência quanto a emoção ajudam uma pessoa a ter comportamentos adaptativos, o que acontece, portanto, é que as pessoas possuem uma certa capacidade para lidar com emoções no processo adaptativo, alguém em menor e outras em maior grau. A inteligência emocional se relaciona justamente com isso, com a capacidade para lidar com as informações emocionais e usá-las a favor do processo adaptativo (Primi, 2003). A inteligência emocional pode ser dividida em quatro níveis (Primi, 2003): • Capacidade de perceber as emoções: está relacionada à capacidade de uma pessoa em perceber as suas emoções e as emoções de outras pessoas, identificando qual emoção se trata e ainda avaliar a sua veracidade ou tentativa de manipulação. Conhecer e reconhecer os próprios sentimentos é uma experiência introspectiva, mas que também se relaciona com a capacidade de desenvolver um comportamento empático, ou seja, de entender os sentimentos de outras pessoas com mais profundidade. • Capacidade de usar as emoções para facilitar o pensamento: usar as emoções para facilitar o pensamento é conseguir direcionar a atenção e o pensamento para as informações importantes, sejam elas internas ou externas. Por exemplo, uma pessoa com estado de humor mais negativo tende a ser mais realista na avaliação e nos seus julgamentos. Perceber esses efeitos do estado de humor sobre o pensamento é favorável à adaptação. • Conhecimento emocional: está ligada à capacidade que temos em conceituar nossas emoções e reconhecer as diferenças entre elas. Vimos anteriormente, por exemplo, que o choro pode ser expressão da tristeza, mas pode expressar alegria em algumas circunstâncias. Conhecer e conceituar as emoções nos permite reconhecer as transições entre um estado emocional e outro, e é importante para a nossa adaptação. 7 • Regulação emocional: é o gerenciamento das emoções, ou seja, o seu controle reflexivo para promover o crescimento emocional. Essa faceta envolve o automonitoramento e instrumentaliza que possamos manter ou modificar nossas emoções conforme a necessidade. A regulação emocional não se limita à capacidade de regular os nossos próprios humores (que nos permite escolher situações que são prazerosas ou evitar as desagradáveis, por exemplo), mas também envolve a regulação dos humores de outras pessoas, entendendo que nossos comportamentos afetam os outros e, portanto, podemos atuar diretamente sobre elas. De forma resumida, Primi (2003) define que a inteligência emocional é a capacidade de identificar e perceber emoções, utilizando-as para regular as emoções de si e dos outros e para facilitar o pensamento. O uso adequado deste processo permite a adaptação aos diferentes eventos da vida. TEMA 3 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E A INFÂNCIA: COMPETÊNCIA EMOCIONAL O modelo de inteligência emocional apresentado por Mayer, Salovey e Carus foi elaborado principalmente para o pensamento adulto, porém, Franco e Santos (2015) nos lembram de que um bebê, com poucos dias de vida, já consegue perceber emoções e vai adquirindo e aprimorando suas habilidades emocionais ao longo do seu desenvolvimento na infância até a idade adulta. Alguns estudos, ainda que timidamente, se destacam ao buscar compreender o desenvolvimento infantil e sua relação com a inteligência emocional. Geralmente os autores usam o temo “competência emocional” para se referir à inteligência emocional no desenvolvimento infantil (Franco, Souza, 2015). Embora os autores não sejam unânimes em definir de forma consistente esse conceito na infância, podemos agrupar três componentes da inteligência emocional em crianças (Franco; Souza, 2015). Sendo elas: • Expressão emocional: habilidade de moderar emoções negativas e potenciar emoções positivas, sem reprimir ou exagerar a informação que elas transmitem. • Regulação emocional: capacidade de modular a intensidade ou duração dos estados emocionais de acordo com a cultura ou uma expectativa social (por exemplo, a inibição da agressividade). 8 • Compreensão das emoções: capacidade de identificar, reconhecer e nomear as emoções, diferenciando-as e compreendendo as emoções de outras pessoas a partir da leitura das suas expressões faciais e do contexto emocional. A compreensão emocional se destaca na competência emocional porque se associa diretamente com o ajustamento social e saúde mental. Isso porque a partir dessa habilidade que a criança consegue ter uma integração mais adequada em seus contextos sociais, comunicando seus estados emocionais e reconhecendo a emoção de outras pessoas. Existem ainda alguns estudos que abordam que a capacidade de compreensão emocional está associada com melhores resultados acadêmicos e melhor aprovação social, pois conseguem negociar as situações com seus pares (veremos mais sobre isso no decorrer desta etapa). Santos (2015), ao discutir sobre o desenvolvimento da compreensão emocional, destaca que nos primeiros dias de vida uma criança é capaz de imitar expressões faciais e gestos, e que possui as habilidades completamente maduras para o reconhecimento facial perto dos 6 meses de idade. Entre imitar expressões faciais de forma rudimentar e conseguir identificar com precisão os significados das expressões emocionais, existe uma trajetória que depende da aquisição da linguagem, de modo que próximo dos 3 anos de idade a maioria das crianças já consegue nomear emoções como alegre, triste, com raiva e medo. O desenvolvimento social a partir dos 3 anos é exponencial, e veremos a seguir conforme Santos (2015) apresenta. 3.1 Primeira fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre os 3 aos 6 anos) Essa fase também pode ser nomeada como fase externa, em que é esperado que a criança seja capaz de identificar as expressões emocional e entenda que situações externas podem causar emoções, ou ainda que uma lembrança de uma situação vivenciada pode causar uma reação emocional. 9 3.1.1 Segunda fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre os 5 aos 9 anos) É uma fase caracterizada pela aprendizagem de emoções que resultam de crenças e desejos individuais e não somente de fatores externos como anteriormente. É esperado que elas sejam capazes de compreender a possibilidade de esconder um estado emocional. Nesse período, as crianças também tendem a desenvolver a capacidade de distinguir entre emoções reais e fingidas, porém, somente no final desseperíodo é que essas habilidades estão melhor estabelecidas. 3.1.2 Terceira fase do desenvolvimento da Competência Emocional (entre os 8 aos 12 anos) A terceira fase é marcada pela capacidade de compreender emoções mistas e morais (como a culpa, por exemplo), ou seja, desenvolvem a capacidade de compreensão da existência de múltiplas ou até contraditórias (ambivalentes) respostas emocionais. E, mais do que esconder um estado emocional como referido na fase anterior, aqui é esperado que elas compreendam a sua capacidade de controlar as experiências emocional. As diferenças individuais no desenvolvimento da Competência Emocional das crianças são individuais e não são aleatórias, contemplando características psicológicas (pessoais) e sociais (como as relações com colegas e adultos) como veremos a seguir. Por fim, entendemos que, embora não se questione o papel da inteligência emocional para o desenvolvimento e adaptação das crianças, e do quanto ela pode ser preditora de dificuldades sociais, emocionais e comportamentais, ainda há necessidade de amplo avanço nas pesquisas para a instrumentalização de intervenções eficazes de promoção de saúde mental nos diferentes contextos em que estão inseridas. TEMA 4 – A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E O DESEMPENHO ACADÊMICO/ESCOLAR A definição do construto inteligência emocional, como vimos até aqui, permitiu que as emoções desocupassem um lugar negativo (aquela que atrapalha 10 o pensamento) para serem colocadas em uma posição não somente de quem não atrapalha, mas ajuda os processos cognitivos. Os estudos sobre a inteligência emocional nos permitiram compreender que as emoções tornam o pensamento mais inteligente e auxilia uma pessoa a pensar suas emoções e a das outras pessoas, tornando-a adaptada a um contexto. Os resultados desses estudos apontam que maiores índices de inteligência emocional estão associados a melhores relações sociais, familiares, íntimas e de trabalho: “os indivíduos de inteligência emocional elevada são encarados pelos outros como pessoas com quem é mais agradável estar, mais empáticas e socialmente mais hábeis do que os indivíduos de inteligência emocional baixa” (Silva, 2012, p. 23). Essa valorização das emoções e sobre o seu papel importante em diversos contextos (família, escola e trabalho) pode representar parte das contribuições das neurociências sobre o desempenho acadêmico. Pais, alunos, professores e instituições escolares se interessam pelo sucesso escolar, cada um sob sua perspectiva própria. Se pensarmos, por exemplo, que o sucesso escolar está associado ao desempenho dos estudantes mensurado a partir da progressão nos cursos e notas, temos a perspectiva de que o insucesso, por sua vez, é caracterizado pelo baixo rendimento escolar do aluno que não conseguiu atingir as competências esperadas em um determinado período de tempo ou não atingiu os objetivos desejados. Ou seja, os índices de sucesso/insucesso variam de acordo com o contexto. O exemplo acima representa um padrão de representação de sucesso/insucesso escolar próprio do sistema escolar, em que o sujeito (o aluno) deve atender aos critérios institucionalmente estabelecidos a partir de uma perspectiva objetiva. Porém, o que sabemos e valorizamos hoje, é que o sucesso escolar também abrange critérios subjetivos, que são individuais de cada aluno, dependentes das suas ambições e perspectivas (Silva; Duarte, 2012). Com isso, é preciso valorizar que há um risco em reduzir o sucesso escolar/acadêmico em uma medida objetiva e desconsiderar outros fatores contextuais que estão envolvidos na manifestação de um talento que não se resumem no construto inteligência, como por exemplo, esforço, dificuldade de uma tarefa, cansaço, a influência do professor, condições inadequadas de estudo, fraca qualidade de orientação bibliográfica de apoio, entre outros. Porém, quando se analisa a variável “inteligência emocional” e o rendimento escolar e acadêmico objetivo, alguns estudos apontam para uma 11 relação entre esses dois fatores, de modo que alunos com índices mais elevados em inteligência emocional tendem a ter melhores desempenhos escolar e acadêmico (Silva; Duarte, 2012). A justificativa para essa relação está na consideração que a inteligência emocional daria sustentação para o desenvolvimento emocional e social das habilidades que são pré-requisitos básicos para a aprendizagem e adaptação no ambiente escolar e acadêmico (Moutinho et. al., 2019; Woyciekoski; Hutz, 2009). A importância de tal relação também demonstra que seria possível educar pessoas que, diante se contextos externos, não adquiriram competências emocionais suficientes por meio de treinamento. Desta forma, a educação emocional visaria desenvolver e/ou aprimorar a capacidade de reconhecer seus sentimentos, expressá-los e regulá-los. Veremos, a seguir, o papel da escola no desenvolvimento da inteligência emocional. TEMA 5 – A RELAÇÃO ENTRE INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E O CONTEXTO FAMILIAR E SOCIAL Sabemos que as emoções se desenvolvem na interação com o meio externo por meio da socialização. Desta forma, as emoções de uma pessoa são influenciadas pela qualidade da relação de quem está próximo dela, e também pela sociedade e cultura em que se cresce e se desenvolve. Nesse sentido, os primeiros vínculos emocionais estabelecidos são a base do desenvolvimento das relações sociais na criança, e eles geralmente acontecem no âmbito familiar (salvo os casos em que as crianças são institucionalizas e outras pessoas exercem essa função). Além do mais, na medida em que a criança cresce e passa a estar inserida em outros contextos, especialmente na escola (e isso tem acontecido cada vez mais cedo em nossa sociedade, por diferentes motivos), de modo que ela vai expandindo também cada vez mais a sua participação na formação das crianças e adolescentes. A escola deixou de ser um local de aquisição de conhecimento e passou a ser um local também de desenvolvimento das competências sociais e emocionais, pois é um dos locais (se não o local) onde as crianças e os jovens passam a maior parte do seu tempo, constituindo um dos maiores agentes de socialização (Cardeira, 2012). Obviamente que não se trata de reduzir a compreensão de que a escola deve ser o lugar exclusivo de desenvolvimento emocional, mas de constatar que hoje a educação e a socialização são 12 compartilhadas entre escola e família (mesmo que haja uma discordância e expectativas diferentes de cada uma das partes). 5.1 Inteligência Emocional de quem aprende Sensíveis à produção dos novos conhecimentos sobre a integração da cognição às emoções, bem como da compreensão da inteligência de forma mais abrangente e o papel fundamental das emoções sob ela, bem como do contexto atual sobre o papel da escola, alguns autores defendem que deve estar em seu escopo também a chamada educação emocional ou educação socioemocional. O nome dado difere entre os autores, mas se refere a estratégias de promoção da inteligência emocional. A educação para as emoções tende a ser um conteúdo presente no plano de atividade pré-escolar, mas quando se inicia o ciclo de escolaridade regular, há uma valorização do ensino-aprendizagem focado nas competências lógico- matemáticas e fonético-linguísticas, o que está diretamente associado ao aproveitamento escolar. As inteligências espacial, musical, corporal-cinestésica vão sendo adicionadas, mas nem sempre com tamanha importância. As emoções ficam em segundo plano e a educação fica aquém do que deveria, não preparando os alunos para a vida pessoal e em sociedade, afinal, cada fator de inteligência promove uma percepção da realidade para o sujeito (Cardeira, 2012): A Educação Emocional é um processo contínuo de aprendizagem ao longo da vida, podendo ser encarada como uma forma de prevenção, visto que previneou minimiza a vulnerabilidade face a contextos adversos. Neste sentido, aumenta a possibilidade de condutas construtivas e diminui as de caráter destrutivo. Todos os indivíduos estão sujeitos a ter pensamentos e comportamentos agressivos relativos a si e aos outros, o que pode levar a que ocorram toxicodependências, depressões, auto-mutilações, desordens alimentares, stress, ansiedade, etc. (Cardeira, 2012, p. 6) A educação emocional promove a capacidade da criança de aprender a expressar sentimentos e compreender como esses sentimentos influenciam os outros, assim como permite a pessoa atribuir a si próprio a responsabilidade pela consequência das suas atitudes emocionais. Portanto, a educação emocional carrega consigo o pressuposto do autoconhecimento e também por isso pode estar associado com o processo de ensino aprendizagem: conhecer sobre os meus sentimentos me permite compreender sobre as minhas motivações, favorecendo o meu envolvimento com determinadas atividades. Regular as minhas emoções pode me ajudar a controlar alguns impulsos e permite afastar 13 distrações e controlar impulsos para poder acompanhar o ensino, por exemplo (Cardeira, 2012; Silva; Ferreira, 2020). Outro impacto da educação emocional estaria associado à violência. Sendo a inteligência emocional um construto que permite uma pessoa ser capaz de compreender as emoções e instrumentaliza a mediação e resolução de conflitos, ela pressupõe a capacidade de comportamentos não instintivos, recorrendo a uma forma de regulação capaz de adequar a resposta à situação de forma não violenta (Cardeira, 2012). É importante registrar que no Brasil não há legislação sobre a necessidade de implantar nas escolas a educação emocional como em outros países que promovem programas de educação socioemocionais, ficando a cargo da sensibilidade dos seus cuidadores o reconhecimento da importância da educação emocional (Da Silva; Da Silva, 2018). 5.2 Inteligência Emocional de quem ensina Para que cidadãos emocionalmente inteligentes sejam formados, são necessários cuidadores (sejam estes pais ou professores) emocionalmente inteligentes. Não é difícil compreender que, se um pai apresenta dificuldade em identificar o seu próprio sentimento de tristeza, ele terá consequentemente dificuldade de reconhecer e ser capaz de ajudar o seu filho quando a tristeza aparecer, seja em um momento de perda, de melancolia decorrente da cena de um filme, ou se está “para baixo” em consequência de algum evento significativo. Com esse exemplo, fica claro que promover inteligência emocional está diretamente relacionado com pessoas que sejam capazes de reconhecer, nomear e regular as emoções. Idealmente seria fundamental que os primeiros cuidadores, especialmente os pais, fossem capazes de criar um ambiente emocionalmente protetivo e promotor de inteligência emocional, mas sabemos que isso nem sempre é possível, porque cada um apresenta sua história carregada por suas vivências e crenças (histórias familiares, marcos culturais e geracionais, por exemplo). Por isso, alguns autores defendem que a educação emocional deve incluir os ambientes em que as crianças estão inseridas, e, obviamente, os atores envolvidos com seus cuidados, como os pais e os professores, promovendo a sua 14 inteligência emocional para que possam auxiliar o desenvolvimento emocional das crianças. Sobre isso, sabe-se que: A educação Infantil tem três atores: crianças, famílias e profissionais da educação, por isso, é extremamente importante auxiliar as crianças a criarem suas próprias identidades. Para isso é preciso oferecer oportunidades afetivas para o aprendizado e desenvolvimento da criança, através de uma parceria onde haja a participação da família, dos professores e da escola, sendo uma das mais complexas fases do desenvolvimento humano no que tange aos aspectos de desenvolvimento intelectual, emocional, social e motor da criança. (Santos, 2021, p. 6) Trazendo o tema em discussão para a perspectiva do professor, é possível compreender o quão vulnerável suas questões emocionais estão diante da precária situação do ensino em parte importante das escolas brasileiras. A profissão que já traz consigo seus desafios, tem esses potencializados quando o professor se depara com inúmeros problemas sociais de seus alunos (exemplo clássico disso é a violência). Portanto, ter competências emocionais o auxilia no enfrentamento do estresse laboral e das demandas emocionais de seus alunos. O desenvolvimento socioemocional não dever ser considerado como uma tarefa do professor, mas sim um caminho para construir um ambiente favorável a aprendizagem (para o aluno) e para o ensino (para o professor) (Trevizani, Marin, 2020). Enquanto a educação escolar vai sendo depositada com novas demandas e responsabilidades, é preciso ser cuidadoso para que elas não sobrecarreguem o professor. Por isso, políticas públicas que promovam a perspectiva emocional para professores são fundamentais, embora ainda tímidas no nosso país. Alguns estudos citam ações integradas de programas escolares que buscam promover a inteligência emocional integrando pais e professores, com objetivo de se estabelecer condições para o desenvolvimento da competência emocional nos alunos. 15 REFERÊNCIAS ALMEIDA, L. S. et al. 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