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PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Victor Andrei Silva Texto, som e imagem Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Distinguir o produto audiovisual do impresso, web e radiofônico. Definir as principais características do texto para um audiovisual. Produzir textos para um audiovisual noticioso. Introdução A audição e a visão são dois componentes muitos importantes no pro- cesso comunicativo. Certamente, se não houvesse um deles, talvez o processo comunicativo que conhecemos hoje seria muito diferente ou até mesmo inviável. Nesse sentido, quando equacionamos ou somamos os elementos visuais e sonoros, chegamos ao audiovisual. A soma desses dois elementos interfere diretamente nos sentidos humanos e no modo como enxergamos o mundo. Atualmente, o uso da tecnologia está ligado à necessidade constante de interação e comunicação que o ser humano possui em sociedade. Como essa necessidade de interação vem se exacerbando, o audiovisual ganha cada vez mais espaço entre crianças, jovens e adultos. Pela junção de recursos tecnológicos em um único aparelho, as novas tecnologias mostram-se a serviço da produção audiovisual. Neste capítulo, você vai aprender a reconhecer as diferenças entre produtos audiovisuais, impressos, da web e radiofônicos. Além disso, verá como o texto é aplicado e elaborado ao meio audiovisual. 1 O texto e a palavra Nossa ideia aqui não é fazer um resgate histórico sobre os conceitos, a desco- berta do texto e sua evolução cronológica ao longo do tempo, e sim examinar o texto em sua roupagem contemporânea. De acordo com Camocardi e Flory (2003, p. 7), “[...] a palavra existe a serviço da comunicação e, assim sendo, vai ser sempre um vazio a ser preenchido pela consciência do receptor da mensagem”. Nesse sentido, o desejo de comunicação de nossas ideias é mediado por uma unidade menor, chamada de signo. Um signo é o símbolo de objetos ou ideias que se deseja comunicar, seja pela expressão oral ou pela expressão escrita (CAMOCARDI; FLORY, 2003). A maneira como articulamos as palavras e as organizamos em um texto determina o nosso discurso, bem como nossa expressão pessoal, que é basicamente o estilo. No texto, a palavra ou vocabulário de palavras usadas representa o signo linguístico que tem como objetivo expressar uma ideia que pode ser repre- sentada por um determinado objeto, imagem, sentido perceptivo ou um ser. O texto é a matéria-prima da expressão. O jornalismo impresso e televisivo faz o uso inteligente dessa ferramenta. É muito comum vermos profissionais de comunicação, sejam eles jornalistas, publicitários ou profissionais de relações públicas, expressarem-se com ma- estria pelo uso do texto nos jornais impressos. Mas como podemos definir o que é um texto? De modo simples e didático, Camocardi e Flory (2003, p. 7) definem texto: [...] como uma unidade de linguagem, de extensão variável, produzido a partir de determinado contexto ou situação. Além do contexto ou situação, há outros dois elementos dos quais depende a significação do texto: o locutor, emissor ou sujeito e o interlocutor, receptor ou destinatário. O ser humano começou a comunicar entre si por meio de gestos e sons. Sons se transformaram em palavras, palavras dão sentidos e sentidos geram sentimentos. De forma sintética, esse ciclo nos conduziu até o momento atual, mas ainda assim temos muitas dificuldades de compreender como ocorre o processo comunicativo em nossos dias. Uma hipótese instigante vem recebendo cada vez mais defensores nas áreas de história, linguística e psicologia. Você pode aprender mais sobre ela buscando na internet o texto “Linguagem humana evoluiu de forma abrupta, mostra estudo da FFLCH”, publicado no site oficial da Universidade de São Paulo (UP). A referência completa pode ser encontrada ao final deste capítulo, na seção Leituras recomendadas. Texto, som e imagem2 É bem verdade que o conceito de texto tem, ao longo dos últimos anos, evoluído, e não somente de textos escritos e verbais, mas também de textos na forma oral e visual, cujo principal objetivo é a comunicação e a apresentação de um sentido. A comunicação precisa fazer sentido e ter significado, caso contrário não é comunicação. Um dos objetivos da comunicação é a troca de informação entre os envolvidos, e o texto tem exatamente essa função. Para Field (2001, p. 22), [...] todo texto exige pesquisa e pesquisa significa reunir informação. Lembre- -se: a parte mais difícil de escrever é saber o que escrever. Fazendo pesqui- sa — seja em fontes escritas como livros, revistas e jornais, ou através de entrevistas pessoais — você adquire informação”. 2 Audiovisual: texto, som e imagem No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (AUDIOVISUAL, 2009, p. 343), o conceito de audiovisual é defi nido como qualquer comunicação, mensagem, recurso, material “[...] que se destina a ou visa estimular os sentidos da audição e da visão simultaneamente”. O audiovisual é utilizado em todas áreas, desde a educação ao entretenimento. Vídeos institucionais, animações, jogos de videogame, fi lmes, podcast, vídeos no YouTube, curtas-metragens ou apresen- tações são alguns exemplos de audiovisuais que reúnem texto, som e imagem. O processo de produção de audiovisual, embora pareça simples, segue um fluxograma que pode ser entendido conforme o esquema da Figura 1. Figura 1. Da concepção ao produto: a cadeia de produção do audiovisual. Fonte: Adaptada de Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (2008). Tal processo não é um modelo-padrão adotado por empresas ou por áreas envolvidas com o produto audiovisual. Na verdade, esse modelo funciona como uma base fundamental e, dependendo do produto que se deseja alcançar, esse processo pode ser muito mais complexo. 3Texto, som e imagem [A] pré-produção é onde se produz o roteiro, define a equipe que será res- ponsável pelo projeto e inicia o processo criativo do produto. Em seguida, inicia-se a produção, que é onde se reúnem os materiais como câmeras, luz, filmagem, equipe técnica e figurinos, por exemplo. Na pós-produção, realiza-se a edição dos materiais, regulagem de som etc. A distribuição é o processo de entrega dos materiais finalizados para a veiculação na televisão, internet ou por mídias físicas (RABIGER, 2011, p. 118, acréscimo nosso). A Walt Disney Animation Studios é uma pioneira mundial na criação de animações. O estúdio é responsável pela criação de diversos produtos, mas dentre seus audiovisuais que deram o pontapé inicial nesse segmento está Branca de Neve e os Sete Anões. A animação foi lançada nos Estados Unidos em 1937 e chegou ao Brasil em janeiro de 1938. Audiovisual é a junção de texto, movimento e sonoridade em um mesmo produto. Por isso, seu processo produtivo é complexo, pois é necessário que haja o envolvimento de diversos profissionais, que se encarregam da realização de cada tarefa para então, em determinados momentos, encontrarem para a concepção audiovisual ficar completa. Aristóteles definiu as três unidades de ação dramática: tempo, espaço e ação. O filme hollywoodiano normal tem a duração aproximada de duas horas, ou 120 minutos, ao passo que os europeus, ou filmes estrangeiros, têm apro- ximadamente 90 minutos. Uma página de roteiro equivale a um minuto de projeção. Não importa se o roteiro é todo descrito em ação, todo em diálogos ou qualquer combinação de ambos; em geral, uma página de roteiro corres- ponde a um minuto de filme (FIELD, 2001, p. 13). O audiovisual: a web, o impresso e o rádio Na categoria de impressos, são considerados livros, jornais, revistas, folhetos e todo tipo de material gráfi co em formato físico. Textos jornalísticos impressos são elaborados com determinadas características e especifi cidades, que visam atingir determinado segmento ou público (FIELD, 2001). Normalmente, tal público é mais criterioso e exigente com relação ao consumo de notícias e informações. Nesse sentido, no textoimpresso o uso da linguagem é mais formal. Outro fator importante é que no jornal a publicação só é realizada após a apuração dos fatos e das notícias, ou seja, diversos critérios precisam ser seguidos. Texto, som e imagem4 Já o aspecto funcional e prático é a diagramação do material impresso, que representa sua limitação técnica. Por se tratar de material físico, fatores como tinta, tipos de papéis, qualidade das máquinas e conhecimento dos profissionais fazem parte do complexo sistema produtivo para se chegar ao produto final, neste caso o jornal impresso. Nos dias de hoje, alguns grupos jornalísticos centenário no Brasil, mesmo enfrentando sérias dificuldades financeiras, tentam sobreviver bravamente ao avanço dos aparatos tecnológicos que fomentam as notícias numa velo- cidade nunca vista antes. É uma luta ingrata e desleal, mas que em breve pode ter um fim. Existem organizações comerciais jornalísticas que utilizam equipamentos mais modernos e processos mais simplificados que a produção de um jornal, como aquelas que produzem revistas, catálogos e folhetos. É bem verdade que em muitas cidades brasileiras o jornal impresso já deixou de existir, mas mesmo assim o processo de produção segue resistindo Brasil afora em alguns lugares. De acordo com Rodriguez (2006, p. 56): [...] com essa recente democratização da internet no Brasil e a evolução tec- nológica, veio também a facilidade de acesso ao consumo de informações e dados e, com isto, o crescimento do produto audiovisual alcançou um status muito importante como ferramenta disseminadora de conteúdos. É fácil notar essa nova evidência, bastando observar quando se está passeando em um parque ou até mesmo por uma rua de uma cidade qualquer. É muito comum vermos pessoas fazendo selfies, realizando filmagens, tirando fotos com um único aparelho em mãos, o smartphone. Essa cena é muito comum e retrata a forma de viver da nova geração tecnológica. Termo muito utilizado no Brasil de forma recente, a selfie é um neologismo da língua inglesa que significa “autorretrato”. Essa palavra ganhou popularidade após a massi- ficação do uso de celulares para fazer fotos em grupos ou individuais. Seu objetivo é fazer com que o próprio "fotógrafo" apareça na foto. 5Texto, som e imagem Pelo verdadeiro bombardeio constante das redes sociais, esse novo compor- tamento tem muito a ver com a nova geração, que está bastante preocupada com os movimentos e dinamismos que o novo padrão de sociedade impõe (RODRI- GUEZ, 2006). Será que podemos dizer que hoje os indivíduos são educados pelo audiovisual? Essa é uma pergunta de resposta complexa, mas não podemos negar que com a popularização dos celulares, notebooks, tablets, smart TVs e produtos similares o audiovisual passou a fazer parte da vida das pessoas de forma quase que totalitária. Usamos a tecnologia audiovisual para tudo. Hoje, na era das tecnologias da informação e da comunicação, com um celular nas mãos todas as pessoas são autoridades, leitores do mundo e cinegra- fistas. Todo portador de uma tecnologia é um difusor de produto audiovisual. Um vídeo qualquer pode viralizar em questão de minutos (RABIGER, 2011). Quando ocorre um acidente de trânsito, por exemplo, antes mesmo da chegada dos socorristas e da impressa para realizar a cobertura, é possível quase que imediatamente fazer uma transmissão ao vivo por qualquer mídia social e transmitir o ocorrido para dezenas ou centenas de pessoas. A produção radiofônica, assim como a produção audiovisual, requer a participação de diversos profissionais. Evidentemente, temos algumas exce- ções que fogem à regra, pois há rádios que rodam com poucos profissionais, sobretudo rádios FM, em que os locutores acumulam diversas funções que vão da locução à área comercial, por exemplo. A produção radiofônica, assim como a produção do audiovisual, também requer uma sequência. De acordo com Field (2001, p. 278), na produção de rádio: [...] estão o diretor (quem comanda a equipe), o roteirista (quem escreve o programa), o produtor (responsável pela preparação do programa), o operador de áudio (opera os equipamentos), o programador musical (responsável pela parte musical) e o locutor (quem narra os fatos). Assim, as etapas da produção de rádio podem ser definidas da seguinte forma (FIELD, 2001): Etapa 1: definir o roteiro. Etapa 2: voz (gravação). Etapa 3: tratamento da voz. Etapa 4: aplicação de efeitos e trilhas. Etapa 5: mixagem da voz. Etapa 6: masterização. Texto, som e imagem6 Hoje é muito comum encontrar programas de rádio transmitidos pela inter- net nas mídias sociais e sites, o chamada rádio web. Esse fenômeno também ocorre com o jornal, que, além de físico, é disponibilizado em formato digital. De maneira geral, o audiovisual, o impresso, a web e o produto radiofônico formam um pacote interativo. Juntos, compõem um combo de comunicação que visa unicamente a atingir os públicos desejados. Hoje, o audiovisual é uma pode- rosa ferramenta no uso de propagação de ideias a uma velocidade assustadora. 3 As características do texto para o audiovisual Assim como nos demais contextos, o texto para o audiovisual possui ca- racterísticas próprias que lhe conferem identidade única. De acordo com Paternostro (2006, p. 87), “[...] quando pensamos em criar ou construir um produto audiovisual, é necessário observar o tipo de narrativa a ser empregada, ou seja, que tipo de texto será empregado”. A primeira regra a ser seguida no audiovisual é saber contar uma boa história. Assim, é importante saber se expressar ou transmitir uma ideia por meio de imagens, o que nos remete ao texto literário. A relação do texto literário com os demais tipos de textos, entre eles os jornalísticos, sempre foi próxima. Desde o texto para teatro até as adaptações de novelas, os textos para audiovisuais também têm uma relação bem íntima com a literatura. Essa relação é antiga, pois as obras literárias sempre serviram como uma espécie de exemplo ou fonte inspiradora para a produção de telenovelas, minisséries, fi lmes ou até mesmo desenhos Para Pereira (2002, p. 165), no Brasil: [...] o texto televisivo é de longe o veículo de comunicação com maior força de penetração em todo o conjunto da população, seja pelo modelo de massa, ou TV aberta, que difunde um patrimônio de informação para públicos vastos e diversificados, seja pelo modelo segmentado, ou TV fechada, voltado para um público de maior poder aquisitivo, com demandas mais particularizadas. Com novos aparatos técnicos surgindo a todo o momento, a linguagem textual do audiovisual se renova. Por possuir uma gramática de identidade própria, a imagem e o som, juntamente com as palavras, criam uma estrutura inteligente que, aliada aos diversos meios de comunicação, visa dar sentidos e significados por meio de sensações, informações e ideias para influenciar seu público-alvo. 7Texto, som e imagem [...] a construção textual no audiovisual é um trabalho coletivo em que oralidade e imagem fundem-se na linguagem audiovisual. Pelo próprio imbricamento entre texto verbal e texto visual, significante e significado atrelam-se causando efeitos de sentido com um nível relevante de argumentatividade (BARTHES, 1992, p. 45). Ainda conforme Barthes (1992, p. 43), “[...] na linguagem audiovisual, a representação do signo pode se dar de modo que um significante verbal invoque um significado imagético e vice-versa, e os planos de expressão e conteúdo alternam-se conforme a necessidade do ato comunicativo”. Processo de elaboração textual para um audiovisual noticioso Cerca de 100 anos atrás, a única fonte de informação era o jornal impresso. Não muito tempo depois, vieram a televisão e o rádio. Ainda mais tarde, chegou a era da internet, que transformou as coisas. Hoje, a informação está a um clique de distância e plenamente acessível para qualquer pessoa. Ao contrário de outras épocas, em que o público era específico e definido, atu- almentetemos um público virtual, não compondo um destinatário especificamente definido. Para Maingueneau (2013, p. 60), “[...] toda enunciação, mesmo produzida sem a presença de um destinatário, é de fato marcada por uma interatividade consti- tutiva, uma troca, explícita ou implícita, com outros enunciadores, virtuais ou reais”. No processo de produção para produtos audiovisuais, é preciso sempre pensar no público, ou seja, com quem iremos falar. As questões regionais, por exemplo, devem ser muito bem avaliadas nesse quesito. Em se tratando de comunicação audiovisual, devemos compreender que o destinatário é virtual, sendo preciso existir um diálogo simulado por meio de uma narrativa ilustrada por imagens que representam algo que expresse a realidade (MAINGUENEAU, 2013). O texto jornalístico sempre teve como objetivo informar seu leitor (FIELD, 2001). O texto para o audiovisual noticioso, como no próprio jornalismo, deve possuir uma linguagem mais coloquial e concisa, pois a veiculação ou transmissão tem a intenção de atingir o maior número de telespectadores. Nesse sentido, o texto coloquial garante mais credibilidade e imparcialidade. Segundo Rodriguez (2006, p. 134), “[...] o texto do audiovisual noticioso também deve cuidar e evitar ao máximo certo vícios de linguagem, como as gírias e até sotaques”. Quando pensamos na abrangência nacional de veiculação de um produto audiovisual, o sotaque do jornalista pode criar certas barrei- ras, sobretudo no aspecto cultural. Vivemos num país que possui dimensões continentais e que apresenta diferenças culturais peculiares, ou seja, sem uma identidade cultura única. Texto, som e imagem8 Outro fator a ser considerado no texto para o audiovisual noticioso é a criação de lides diretos, ou seja, iniciando a apresentação do telejornal pela ideia principal. O audiovisual de notícias, seja ele transmitido na televisão ou na internet, tem como uma regra básica a instantaneidade e obtém melhores efeitos com uma linguagem mais direta. O apresentador desempenha um papel importante nesse contexto. Como o lide no vídeo é basicamente interpretado por quem narra o texto, o fator instantaneidade é mais evidenciado no audiovisual televisivo. Nos demais produtos, como vídeos e animações, isso já não acontece, por causa do roteiro que precisa ser seguido. No lide, procura-se responder a cinco perguntas básicas: O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Vale ressaltar o emprego de frases com verbos, objetos e sujeitos (CAMOCARDI; FLORY, 2003) A mecânica do lide nos produtos audiovisuais tem o mesmo funcionamento daquele aplicado ao jornalismo impresso e radiofônico. Na televisão, o texto é o lide que o apresentador do jornal lê, e seu objetivo é reter a atenção do telespectador para a notícia. Se não houver um apresentador para a leitura do lide, essa informação se dá em off. Assim como no jornalismo impresso, o lide também destaca e responde as perguntas que são a base de uma notícia, seja para o impresso ou para a televisão. Nos demais produtos audiovisuais, como vídeos e animações, o lide tem a mesma função, mas sua ação é minimizada e estruturada de outras formas. Por se tratar de uma técnica de aplicação chamada pirâmide invertida, o lide no produto audiovisual segue a mesma regra utilizada no jornalismo impresso, ou seja, uma estrutura baseada na apresentação da informação principal que busca responder para o telespectador as cinco perguntas recém-mencionadas. A diferença aqui é a presença do apresentador, que fará o papel de intermediador no processo de explanação da notícia. Os produtos audiovisuais noticiosos são normalmente de curta duração e as matérias precisam ter início, meio e fim. Nesse sentido, a descrição das imagens precisa ser feita com muita lucidez. Vídeos e vinhetas, por exemplo, são dois produtos que que devem possuir essa característica. É pela clareza que o público irá entender a história que está sendo contada. Somente com a história sendo compreendida é que será possível emitir alguma opinião a respeito do conteúdo noticiado. A criatividade no emprego das palavras também precisa fazer parte do processo de criação para produtos audiovisuais noticiosos. O uso de sinônimos deixa o texto menos cansativo e repetitivo para o público. E nem é preciso dizer que concordâncias verbais precisam ser respeitadas (PATERNOSTRO, 2006). 9Texto, som e imagem Embora pareça simples, o processo criativo de texto para produtos au- diovisuais noticiosos, sejam eles telejornais, documentários, vídeos, curtas- -metragens e até mesmo cinema, precisa ser minuciosamente detalhado. O processo deve ser muito bem estabelecido e conciso, desde a criação do roteiro, passando pelo uso da linguagem até a história a ser contada. De modo geral, é preciso compreender que existem muitas possibilidades de construção de linguagens em produtos audiovisuais e que não há um mé- todo único que possa ser considerado o ideal, mas sim modelos que vêm se mostrando mais ou menos eficazes (MOLETTA, 2009). AUDIOVISUAL. In: INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS DE LEXICOGRAFIA. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. BARTHES, R. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, 1992. CAMOCARDI, E. M.; FLORY, S. F. V. Estratégias de persuasão: em textos jornalísticos, literários e publicitários. São Paulo: Arte e Ciência, 2003. FIELD, S. Manual do roteiro: os fundamentos do texto cinematográfico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. MAINGUENEAU, D. Análise de textos de comunicação. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2013. MOLETTA, A. Criação de curta-metragem em vídeo digital: uma proposta de produção de baixo custo. 4. ed. São Paulo: Summus, 2009. PATERNOSTRO, V. I. O texto na TV: manual de telejornalismo, 7ª edição, Editora Campus, São Paulo, 2006. PEREIRA, C. A. M. Televisão e cultura no Brasil na virada do século. In: OLINTO, H. K.; SCHØLLHAMMER, K. E. (org.). Literatura e mídia. São Paulo: Loyola, 2002. RABIGER, M. Direção de documentário. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. RODRIGUEZ, A. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Senac SP, 2006. Leituras recomendadas BARBEIRO, H.; LIMA, P. R. Manual de jornalismo para rádio, tv e novas mídias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. REIS, G. L. Linguagem humana evoluiu de forma abrupta, mostra estudo da FFLCH. 2015. Disponível em: https://www5.usp.br/93831/linguagem-humana-evoluiu-de-forma- -abrupta-mostra-estudo-da-fflch/. Acesso em: 7 abr. 2020. Texto, som e imagem10 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS. Produção audiovisual: estudos de mercado Sebrae/ESPM. Brasília: Sebrae/ ESPM, 2008. (E-book). (Série Mercado). TURNER, D.; MUÑOZ, J. Para os filhos dos filhos de nossos filhos: uma visão da sociedade internet. São Paulo: Summus, 2002. 11Texto, som e imagem PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Victor Andrei Silva Produção audiovisual e convergência de mídias Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o papel do audiovisual nas informações radiofônicas, im- pressas e na web. Caracterizar a narrativa transmídia e seu papel no contexto de con- vergência midiática. Desenvolver um produto audiovisual para complementar um pro- grama de rádio, uma coluna de jornal e uma página da web. Introdução O consumo e a busca por produtos audiovisuais têm aumentando a cada ano que passa. A tecnologia potencializa esse efeito, pois dá a quem consome diversas formas e possibilidades de alcance e consumo de produtos audiovisuais dos mais diversos tipos. Isso é reflexo do hábitode consumo das pessoas, que anos atrás consumiam produtos audiovi- suais com menor frequência e hoje, devido às tecnologias à disposição, não param de consumir. Assim, as novas tecnologias da informação e da comunicação mudaram sensivelmente a forma de interação entre público e mídia. Neste capítulo, você conhecerá o papel do audiovisual nas informa- ções radiofônicas, impressas e na web. Além disso, estudará detalhes da narrativa transmídia e seu papel no contexto de convergência midiática. Por fim, verá como produtos audiovisuais complementam um programa de rádio, uma coluna de jornal ou uma página da web. 1 O audiovisual e as informações radiofônicas, impressas e digitais A utilização sincronizada do som (áudio), imagem (vídeo) e o texto (palavras) constitui o produto audiovisual, que ao longo do tempo vem passando por mudanças quase que constantes. Esses elementos, de maneira conjunta, se tornam em informação. De acordo com Marques (2007, p. 69) :“[...] a informa- ção audiovisual possui sentidos multidisciplinares que, ao longo do tempo, foi se modifi cando e atualizando, conforme a própria sociedade está evoluindo, assim como o próprio produto audiovisual”. Essa evolução ocorreu e ocorre de maneira natural e influenciou outras áreas. Aspectos ligados ao audiovisual sempre geraram fascínio nas pessoas. A fotografia é um exemplo disso, pois funcionou como combustível para que essa mudança fosse ainda mais rápida e acelerada. A fotografia saiu do preto e branco e foi para o colorido, saiu do filme e foi para o digital. Evoluiu das câmeras para as lentes do smartphones. Há não muito tempo, a fotografia era o único recurso instrumental para se contar uma história, narrar fatos e registrar acontecimentos, mesmo que houvesse na mesma época o jornal impresso publicando e relatando as notícias e informações aos leitores. Em seguida, vieram os filmes por película, que deram no cinema e até na própria televisão, considerados meios de comunicação de vanguarda. A televisão, por exemplo, revolucionou a forma de se dar notícia. Em quase um século de sua existência, a televisão revolucionou a forma como as pessoas veem o mundo. As grandes descobertas da ciência, as guerras das décadas de 1990 e 2000, a chegada do homem à lua em 1969, os eventos espor- tivos como a olimpíadas (1972) e a Copa do Mundo de Futebol transmitidos ao vivo para vários países desde 1966. Os filmes de Hollywood puderam se popularizar ao redor do planeta dispensando a necessidade de se sair de casa para ir ao cinema. Tragédias foram transmitidas ao vivo, bem como grandes eventos internacionais (SANTOS, 2019, p. 11). A cada momento da era moderna, as novas tecnologias da informação e co- municação se tornam cada vez mais populares. Não existe mais a possibilidade de acompanhar ou segurar esse movimento. Vivemos na era da geração da conecti- vidade e da interação, em que os recursos audiovisuais se tornaram ferramentas estratégicas de aplicação no uso da disseminação da informação (Figura 1). Produção audiovisual e convergência de mídias2 Figura 1. Nos últimos anos, as novas tecnologias ajudaram a mudar o com- portamento das pessoas. Fonte: fkdkondmi/Shutterstock.com. Para Castells (1999, p. 44): “[...] as novas tecnologias da informação ex- plodiram em todos os tipos de aplicações e usos que, por sua vez, produziram inovação tecnológica, acelerando a velocidade e ampliando o escopo das transformações tecnológicas, bem como diversificando suas fontes”. O audiovisual tem um papel muito importante para o engajamento do público. O potencial enquanto ferramenta é uma das principais caracte- rísticas que o produto do audiovisual possui no uso da disseminação da informação. Para Primo (2007, p. 1) “[...] o audiovisual é muito importante por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações”. Produtos audiovisuais se fazem valer de outros produtos noticiosos para justificarem suas existências, seja uma simples notícia jornalística, filmes publicitários, podcasts, produtos para o cinema, animações ou vídeo para a internet. De acordo com Prado (1985, p. 48): [...] nunca houve consenso sobre a definição de notícia. Diversos autores, escolas e diversas épocas dão assim mesmo definições diversas [....] [A] notícia radiofônica obriga o ouvinte a realizar um exercício de transfor- mação das ideias transmitidas pelas imagens sonoras em imagens visuais imaginárias. Produção audiovisual e convergência de mídias 3 Com o auxílio de produtos audiovisuais, essa tarefa se torna muito mais fácil, pois a mesma notícia dada pela televisão, por exemplo, pode ter um maior engajamento e surtir muito mais resultados. No cinema, a história se repete. A chamada indústria cinematográfica iniciou suas atividades de forma humilde e têm como seus percussores os irmãos Lumière e Thomas Edison, que criaram engenhocas que captavam e projetavam imagens. Foi assim que o cinema, em meados de 1894, deu seus primeiros passos e ficou conhecido como “cinema mudo”, pois não havia reprodução do áudio. Os irmãos franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière e Louis Jean Lumière, também conhecidos como irmãos Lumière, são os criadores do cinématographe, traduzido para português como cinematógrafo. Assim foi inaugurada a era da chamada “imagem-movimento”. A primeira exibição de um filme, com o título de La sortie de l'usine Lumière à Lyon, ou A saída da fábrica Lumière em Lyon, ocorreu no dia 22 de março de 1895. Desde então, seja tentando contar uma história real ou fictícia, o fato é que o cinema introduziu o que chamamos de linguagem visual e mudou a maneira de se criar conteúdos. Do produto jornalístico impresso, evoluiu-se para a produção de rádio e, em 1950, com a chegada da televisão, deu-se o início ao produto audiovisual chamado de telejornalismo, que ao longo dos anos não parou de evoluir, alcançando até a internet e se tornando o webjornalismo. O audiovisual também tem e teve um papel muito importante na construção do chamado webjornalismo. O jornalismo começou sua viagem no mundo virtual há pouco mais de duas décadas. A internet foi a porta de entrada e, desde então, o processo de crescimento não parou mais (EDGAR-HUNT; MARLAND; RAWLE, 2013) Para Barbosa (2005, p. 2) “[...] como forma de jornalismo mais recente, o webjornalismo é a modalidade na qual as novas tecnologias já não são consideradas como ferramentas, mas, sim, como constitutivas dessa prática jornalística”. Sob a ótica do produto noticioso para web, o audiovisual criou uma nova forma de se praticar o jornalismo convencional. Produção audiovisual e convergência de mídias4 O webjornalismo não é apenas "jornal na internet”, pois envolve aspectos tecnológicos, tem editoriais diferentes e particularidades interessantes se serem compreendidas. Para se aprofundar no assunto, procure na internet pela monografia “Características e gerações do Webjornalismo: análise dos aspectos tecnológicos, editoriais e funciona”, de Thiara Luiza da Rocha Reges. A referência completa encontra-se ao final do capítulo, na seção Leituras Recomendadas. Seja como ferramenta de utilização para a construção das informações em produtos radiofônicos, impressos ou digitais (web), seja como um mero processo evolutivo do ato de se comunicar, o papel do audiovisual foi fundamental para romper com paradigmas centenários e ajudou a reconstruir a forma de atuação dos meios de comunicação existentes, criando um hibridismo que automaticamente leva à convergência das mídias (CHONG, 2011). 2 O papel da narrativa transmídia na convergência midiática Já faz algum tempo que as tecnologias estão presentes nas vidas das pessoas e, por costume, elas já fazem parte de uma nova formatação de sociedade. Ou seja, a tecnologia está “formando” novos tipos de cidadãos. Tudo, absoluta- mente tudo, incluindo uma casa automatizada, carros inteligentes, aparelhos telefônicos modernos, televisores interativos e diversosoutros mecanismos, contribui para a criação dessa nova sociedade. Por estarem tão presentes nas vidas pessoas, essas tecnologias vêm alterando a forma dessas pessoas interagirem entre si, pois romperam com suas funções e características iniciais de criação. É o caso, por exemplo, do telefone móvel, que há 20 anos tinha como função principal a mobilidade de contato direto com demais pessoas e hoje basicamente serve para diversas funções, tendo seu uso para “ligações” quase que inutilizado. Antes da explosão da democratização da internet, que disseminou novos formatos de mídias, cada conteúdo era bem definido para um determinado meio. Jornais eram vendidos em bancas, novelas eram produzidas para ser exibidas na televisão e livros, para serem vendidos fisicamente em livrarias (CAMORCADI; FLORY, 2003). Produção audiovisual e convergência de mídias 5 As atuais tecnologias possuem funções e usabilidades que praticamente se fundem, ou seja, convergem entre si. Devido a essa convergência, quem consome cada produto constrói uma ideia com base na captação de fragmentos e informações que o meio de comunicação oferece. De acordo com Jenkins (2009, p. 30): “[...] a convergência é um processo que ocorre dentro do cérebro das pessoas e reflete nas suas interações sociais com os outros”. A definição de convergência midiática pode ser entendida como: [...] mudanças tecnológicas, industriais, culturais e sociais no modo como as mídias circulam em nossa cultura. Algumas das ideias comuns expressas por este termo incluem o fluxo de conteúdos através de várias plataformas de mídia, a cooperação entre as múltiplas indústrias midiáticas, a busca de novas estruturas de financiamento das mídias que recaiam sobre os interstícios entre antigas e novas mídias, e o comportamento migratório da audiência, que vai a quase qualquer lugar em busca das experiências [...] que deseja (JENKINS, 2009, p. 377). A convergência entre as tecnologias afeta diversas áreas do mercado e recria conceitos que estão transformando diversas empresas. Quer saber como as empresas de TI estão sendo impactadas? Procure na internet pela postagem “Convergência tecnológica: como o conceito vem transformando as empresas de TI” no blog Runrun.it. A referência completa pode ser encontrada na seção Leituras Recomendadas, ao final deste capítulo. Os anos se passaram e as tecnologias e os meios de comunicação evo- luíram para a multiplicação de usabilidades. Hoje, produtos audiovisuais podem ser consumidos por diversos tipos de plataformas. Além dos meios tradicionais de comunicação, podemos acompanhar uma partida de futebol do nosso time do coração pelo celular, pelo notebook ou no computador na casa de um amigo. A mesma regra vale para diversos outros produtos, como reality shows, shows musicais, eventos esportivos, novelas, séries, entre outros (SANTOS, 2019). De acordo com Evans (2011, p. 21): “[...] a narrativa transmídia foi utilizada pela primeira vez por Marsha Kinder e Mary Celeste Kearney como uma prática promocional envolvendo merchandising, adaptações, sequências e Produção audiovisual e convergência de mídias6 franquias”. A terminologia narrativa transmídia foi utilizada por diversos artistas, estudiosos e críticos, ganhando certa popularidade durante deter- minado período da indústria cultural. O termo narrativa transmídia fez sucesso, pois era entendido por muitos como um novo modelo de narrativa. Para Jenkins (2009, p. 138), ela: [...] se desenrola por meio de múltiplas plataformas de mídia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. [...] Na forma ideal de narrativa transmídia, cada meio faz o que faz de melhor — a fim de que uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado em parques de diversão. Cada acesso à franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário ver o filme para gostar do game e vice-versa. De maneira simplista, podemos dizer que a narrativa transmídia é ba- sicamente uma forma de contar histórias, sustentada por três pilares muito importantes, que são a participação cultural, a inteligência da coletividade e a convergência das mídias (JENKINS, 2009). As narrativas transmídias são objetos de estudos de diversas áreas, entre elas a narrato- logia. A narratologia estuda os princípios da narrativa e também suas representações. De acordo com Costa e Novaes (2016, p. 1), a participação cultural ou “[...] a cultura participativa enxerga os consumidores de mídia como possíveis participantes que interagem para formar novos conteúdos”. Já nas palavras de Lévy (2003, p. 28), a inteligência coletiva pode ser explicada com “[...] uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”. Por sua vez, a convergência midiática, conceito amplamente defendido por Jenkins, estuda a tendência que os meios de comunicação estão seguindo para se adaptarem à internet (Figura 2). Produção audiovisual e convergência de mídias 7 Figura 2. A convergência midiática. Fonte: r.classen/Shutterstock.com. Uma narrativa pode ter seu papel desempenhado nas convergências mi- diáticas de diferentes maneiras. Jenkins (2009, p. 183) aponta que elas são “[...] o potencial de compartilhamento versus profundidade, o potencial de continuidade versus multiplicidade, imersão e extração, a construção de universos, a serialidade, a subjetividade e a performance”. Profissionais que atuam na área ou em departamentos de comunicação podem, por exemplo, usar a narrativa transmídia de forma bem estratégica em suas campanhas publicitárias e de comunicação. De acordo com Massarolo e Mesquita (2014, p. 8), “[...] a área de marketing, para suprir as demandas de transmidiação de conteúdos, utiliza como principal estratégia comunicacional e discursiva o storytelling das marcas”. Além do marketing tradicional, agências especializadas em marketing digital tam- bém estabelecem para suas campanhas as estratégias transmídias. No âmbito digital, elas podem ser vistas nas redes sociais, sites, plataforma de vídeos, plataforma de fotos, etc. Produção audiovisual e convergência de mídias8 3 O produto audiovisual como elemento complementar Durante muitos anos, antes da chegada da televisão, o rádio foi, sem sombra de dúvida, um grande veículo de comunicação. Era comum ver pessoas reunidas ao redor do rádio para ouvir programas sobre notícias, jogos de futebol ou até radionovelas. Quando pensamos no rádio, logo nos vem à mente o papel oral da lingua- gem, ou seja, os fatos são narrados para que os ouvintes escutem o que está sendo dito. O rádio também é marcado pela improvisação, instantaneidade e sensorialidade, ou seja, o ato de envolver e conquistar o ouvinte por meio de uma conversa mental. Ao mesmo tempo, desperta a imaginação através da emocionalidade das palavras e dos recursos de sonoplastia, permitindo que as mensagens tenham nuances individuais, de acordo com as expectativas de cada um. No caso da televisão, a decodificação das mensagens também se dá ao nível sensorial, só que a imaginação é limitada pela presença da imagem. No caso dos veículos impressos, a sensorialidade está muito mais contida, permitindo uma deco- dificação ao nível racional, sem envolvimentos emocionais que são criados pela presença da voz (ORTRIWANO, 1985, p. 80). Mas quem nunca ouviu falar do ditado popular “uma imagem vale mais que mil palavras” ou da frase “se não tem foto não tem fato”? Esses ditos podem ser muito bem empregados quando o assunto é o rádio. Para construir uma ideia na mente do ouvinte, sempre foi característico o uso das palavras, sendo certamente necessário usar no rádio bem mais de mil palavras para se criar uma determinada imagem na mente do ouvinte. Essa ideia traduz um conceito sobre um novo sistema de comunicação. É precisamentedevido a sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as formas de expressão, bem como a diversidade de interesses, valores e imagi- nações, inclusive a expressão de conflitos sociais (CASTELLS, 1999, p. 461). Isso é possível porque somos programados para imaginar e para criar o imaginário em nossas cabeças. Somos dotados de emoções, razões, desejos e sentimentos. Somos dotados da capacidade de criação e temos a condição de Produção audiovisual e convergência de mídias 9 transformar palavras em imagens e imagens em sentimentos (JENKINS, 2009). Nossos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos e no decorrer de nossa formação, educação e experiências, por exemplo, são fatores condicionantes que nos ajudam a criar esse imaginário. Para Castells (2007, p. 398): “[...] o novo sistema de comunicação transforma radicalmente o espaço e o tempo, as dimensões fundamentais da vida humana”. O autor, nesse sentido, refere-se ao novo comportamento adotado pela sociedade de buscar no uso das imagens uma forma de comunicação plena. Nunca se consumiu tantos produtos audiovisuais como agora. Smartphones, aparelhos de televisão, tablets e notebooks se tornaram “extensões dos nossos corpos”. A produção audiovisual se tornou uma ferramenta de apoio para a produ- ção de produtos radiofônicos, jornalísticos e para a web, seja em canais no YouTube, em portais de notícias, sites ou redes sociais. Devido ao alto grau de consumo de conteúdo, a convergência midiática tem crescido cada vez mais em nos nossos dias e a produção audiovisual funciona nesse sentido como um potencializador (BARBEIRO; LIMA, 2013). Tomemos o exemplo do rádio. A grande maioria dos carros comercializados no mundo possui centrais multimídia em que é possível “ver e ouvir rádio”. “Ver rádio” é acompanhar a programação normal, porém transmitida via câmera no estúdio. Vários estúdios produzem programas de rádio para serem transmitidos por multiplataformas. Você pode acompanhar um determinado programa do seu carro ou ainda do celular, tablet ou computador em seu local de trabalho. Os aplicativos de comunicação complementam a interação entre emissora e público. A internet não para de “recrutar” novos seguidores, e o jornal segue esse mesmo caminho. Em alguns lugares, o formato de jornal impresso já deixou de existir, restando apenas o jornal televisivo e o webjornalismo (jornalismo on-line). É preciso deixar claro que os jornais não migraram para a web; eles criaram, isso sim, braços de atuação no ambiente digital. Essa ação nos leva mais uma vez ao movimento da convergência midíatica. Toda a estrutura jornalística e forma de atuação é pensada em multiplataformas, visando atender os diversos tipos de públicos com conteúdos complementares. O produto audiovisual tem ser tornado uma ferramenta bem estratégica na produção de conteúdo nos meios radiofônicos, impressos e na web. O processo de produção de conteúdos audiovisuais é bem definido e tem se encaixado perfeitamente nos meios de comunicação mais tradicionais. Estamos na era do consumo da comunicação visual e essa característica foi moldada pela atual sociedade, que busca nos meios de comunicação cada vez mais entretenimento, conteúdo, interatividade e informação. Produção audiovisual e convergência de mídias10 Produção audiovisual e convergência de mídias 11 BARBEIRO, H.; LIMA, P. R. Manual de jornalismo para rádio, tv e novas mídias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. BARBOSA. S. Bases de dados e webjornalismo em busca de novos conceitos. In: CAMOCARDI, E. M.; FLORY, S. F. V. Estratégias de persuasão: em textos jornalísticos, literários e publicitários. São Paulo: Arte e Ciência, 2003. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 10. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1. CHONG, A. Animação digital. Porto Alegre: Bookman, 2011. COSTA, F. S.; NOVAES, L. C. K. O. Cultura Participativa: uma Análise de Representação das Fanfictions da Telenovela Carrossel. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUDESTE, 21., 2016, Salto. 2016. Anais [...]. Salto, SP: Intercom, 2016. EDGAR-HUNT, R.; MARLAND, J.; RAWLE, S. A linguagem do cinema. Porto Alegre: Book- man, 2013. EVANS, E. Transmedia television: audiences, new media and daily life. New York: Rou- tledge, 2011. JENKINS, H. A cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009. LÉVY, P. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2003. MARQUES, A. Ideias em movimento: produzindo e realizando filmes no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. MASSAROLO, J. C.; MESQUITA, D. Reflexões teóricas e metodológicas sobre as narrativas transmídia. In: ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO (COMPÓS), 23., 2014. Belém. Anais [...]. Belém: Compós, 2014. ORTRIWANO, G. S. A informação no rádio: os grupos de poder e determinação de conteúdo. São Paulo: Summus, 1985. PRADO, E. Estrutura da informação radiofônica. São Paulo: Summus, 1985. PRIMO, A. Interação mediada por computador: comunicação, cibercultura, cognição. Porto Alegre: Sulina, 2007. SANTOS, C. R. P. A TV pública não pública: as televisões não comerciais do Brasil. Jundiaí: Paco Editorial, 2019. SOPCOM 2005. 4º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação. P. 1417–1458, 2005. Anais [...]. Aveiro, Portugal, 2005. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Produção audiovisual e convergência de mídias12 Leituras recomendadas REGES, T. L. R. Características e gerações do webjornalismo: análise dos aspectos tecno- lógicos, editoriais e funcionais. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) — Faculdade São Francisco de Barreiras, 2010. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/ reges-thiara-caracteristicas-e-geracoes-do-webjornalismo.pdf. Acesso em: 05 abr. 2020. RUNRUN IT. Convergência tecnológica: como o conceito vem transformando as em- presas de TI. 2018. Disponível em: https://blog.runrun.it/convergencia-tecnologica/. Acesso em: 05 abr. 2020. ROST, A. Interatividade: definições, estudos e tendências. In: CANAVILHAS, J. (Org.). Webjornalismo: 7 características que marcam a diferença. Covilhã, Portugal: LabCom, 2014. p. 53–88. PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Victor Andrei Silva A reportagem televisiva Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o papel da TV na evolução do audiovisual. Identificar os elementos de noticioso de televisão. Analisar as etapas da produção e veiculação de uma reportagem de TV. Introdução Nos últimos tempos, o telejornalismo e a reportagem em televisão têm sido objeto dos mais diversos tipos de estudos. Em meio à multiplicação das plataformas de informação e comunicação, produzir notícia em televisão tem se tornado um grande desafio para emissoras de todos os tamanhos e portes no Brasil e no mundo. O consumo de informações tem sido frenético por parte do público, mas a televisão, nesse sentido, não acompanha tamanha velocidade, por apresentar características bem peculiares. De todo modo, com o passar dos anos, a evolução tecnológica levou naturalmente ao desenvolvimento da televisão, e hoje ela se torna uma mídia cada vez mais interativa e convergente com os demais meios de comunicação. Neste capítulo, vamos estudar o papel da televisão na evolução do audiovisual, identificar quais são os elementos presentes na notícia em televisão e analisar as etapas da produção e veiculação de uma repor- tagem de TV. 1A televisão e a evolução do audiovisual Considerada um dos principais meios de comunicação do século XX, a televisão foi e continua sendo um dos meios mais consumidos pelas sociedades ao redor de todo o mundo. Por muito tempo, a televisão vem sendo considerada um dos meios mais efi cientes para a difusão de informações, ideias e conteúdos. Desde sua criação, é uma mídia que revolucionou a forma de divulgar e compreender o que é comunicação. Desde sua invenção até os dias atuais, a televisão passou por diversas fases, com destaque para a mudança de sinal analógico para digital. Hoje esse processo de digitalização está acelerando e modificando a forma de se produzir conteúdos para televisão. A atual expansão da televisão no Brasil está ligada diretamente à convergência digital que vem sendo aplicada na produção de conteúdos multipltaformas. As transformações mais significativas da televisão aberta brasileira decorrem de processos de duas ordens que repercutiram nos meios de comunicação como um todo: de um lado, o desenvolvimento acelerado das tecnologias digitais e, de outro lado, a intensificação dos fluxos mediáticos transnacionais (RIBEIRO; SACRAMENTO; ROXO, 2010, p. 280). Diante desse contexto evolutivo, a cada dia cresce o número de produções audiovisuais no Brasil e no mundo, e a qualidade também acompanha esse crescimento. Já é possível produzir conteúdo 4K nas mais diversas plataformas audiovisuais. Além disso, existe uma grande oferta de telejornais, portais de notícias, jornais on-line, plataformas de canais de vídeos, filmes, animações, webinários e diversos outros produtos audiovisuais. A programação televisiva vem convergindo em podcasts, blogs, sites e smartphones. Assim, a questão transmídia já é uma realidade no âmbito da televisão. A atual produção de conteúdo para a televisão visa à interatividade, e para que exista essa interatividade, essa produção baseia-se em convergência. Hoje, busca-se constantemente a participação direta do expectador nos programas, ou seja, sua interatividade, o que pode ser articulado de diversas formas. A televisão deixou de desempenhar o papel de ferramenta de monólogos como sempre ocorreu. Para Ribeiro, Sacramento e Roxo, (2010, p. 280): [...] essa articulação assume as mais distintas formas de manifestação. Temos hoje programas de auditório que reproduzem os vídeos mais comentados na internet, que exibem vídeos enviados por internautas. [...] Neste mesmo contexto evolutivo da comunicação, os telejornais também se convergem para as plataformas web [e] os assuntos abordados na edição do telejornal do dia passam a ser oferecidos em textos complementares (serviços, documentos na integra, receitas etc.) ou conversas por meio de chats com especialistas. A reportagem televisiva2 Automação na captação de leads, realidade virtual, câmeras compactas, protocolos de internet e one touch — essas são apenas algumas das últimas tecnologias adotadas no âmbito do audiovisual nos últimos anos. Para ficar por dentro dessas e outras novidades, consulte o artigo “O que evoluiu em tecnologia audiovisual”, assinado por Luiz Gustavo Pacete (2017), publicado no site Meio & Mensagem. Nos dias atuais, produzir conteúdos e produtos audiovisuais para fins televisivos tem sido desafiador para veículos, meios e programas de televisão, mas mesmo diante dessas dificuldades a televisão tem se reinventado e sido uma grande fomentadora para o crescimento de produtos audiovisuais no Brasil e no mundo. O processo natural de evolução e revolução da televisão ocorrido nos últimos anos vem impulsionando o crescimento das chamadas convergências midiáticas. Não apenas a televisão, mas a web, mídias sociais, canais de vídeos e plataformas de streaming caminham para se tornar um complemento unitário de comunicação e informação. A criação de produtos televisivos, entre eles o jornalismo, passa sobretudo pelo o entendimento prático da aplicação de conteúdos, além de convergi-los para diversos outros canais. Praticar convergências entre as mídias não é uma mera questão de mudança tecnológica ou mesmo de adaptação, como erroneamente muitas pessoas acreditam ser. É usar estrategicamente os meios de comunicação em prol de um bem comum, a mensagem. Nas palavras de Jenkins (2008, p. 27), convergência refere-se ao: [...] fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à coopera- ção entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando. Quando o assunto é conteúdo, o uso da imagem e o apelo visual têm represen- tado nos dias atuais um grande atrativo para a sociedade de consumo. Recursos audiovisuais têm um grande apelo e, além de serem extremamente convidativos à 3A reportagem televisiva interação, são ferramentas importantes quando o objetivo é o convencimento. Essa é uma das maiores contribuições que a televisão propiciou para o desenvolvimento e evolução do audiovisual no mundo. Podemos dizer que esse legado contribuiu para a difusão das demais tecnologias audiovisuais que conhecemos. Com a chegada da internet, o audiovisual tornou-se mais democrático. Diariamente, conteúdos veiculados na televisão são compartilhados por pes- soas nas mais diferentes plataformas. Muitos autores e estudiosos da área sustentam que essa evolução avança para a construção da chamada era da civilização audiovisual. 2 A televisão e os elementos noticiosos Todos os dias, a população consume notícias pela televisão. Seja em canais abertos ou fechados, existem diversos tipos de telejornais e editoriais informa- tivos, e o ritmo de oferta desses produtos tem sido frenético. Para grande parte da população, a televisão ainda é o único instrumento de acesso à informação. Esse fator pode ser compreendido pela característica desse veículo tão poderoso enquanto meio de comunicação gratuito. Ao longo do dia, os telejornais da televisão aberta das mais variadas emissoras ainda são a fonte primordial de informação para grande maioria da população, reportando sobre esportes, política, aspectos econômicos, etc. Os níveis de au- diência demonstram que, mesmo em meio às diversas outras formas de mídia, a televisão ainda ocupa um espaço cativo de preferência no cotidiano das pessoas quando o assunto é a busca pela notícia. A televisão é o mecanismo-chave que faz o telejornalismo ter essa função e, ao abordar o telejornalismo, é necessário pensar em seus elementos noticiosos como um todo, entre eles a notícia. Mas o que é a notícia? Para Henn (1996, p. 111), “A notícia desenvolve-se como leitura e tradução do mundo, condição denominada de atividade inter- pretante, segundo a semiótica peirceana. Sendo tradução, recria o mundo, dando-lhe formato narrativo e hierarquizado”. A notícias são selecionadas como resumos diários para pessoas com pouco tempo e precisam ser traduzidas em texto e comunicação as mais diversas idades, culturas e níveis sociais. O processo de criação de uma notícia em televisão passa, sobretudo, pela interferência do jornalista que seleciona, lê e compreende o ocorrido, para então fazer uso do recurso visual para narrar os fatos. Porém, isso depende da captação da imagem feita pelo repórter ci- nematográfico, que faz a mediação nesse processo de elaboração do produto inicial em produto final, ou seja, na prática, a transformação da notícia em A reportagem televisiva4 reportagem. De acordo com Araújo (2017, p. 179): “[...] a reportagem na tele- visão é a narrativa de uma história contada por palavras através do jornalista e de seus entrevistados, com o uso de sons (ambiente ou editado) e imagens (registradas pelas câmeras ou produzidas pela arte digital)”. Os gêneros do telejornalismopodem ser categorizados em jornalismo informa- tivo, jornalismo de opinião, interpretativo e de divertimento (GOMES, 2002). O jornalismo informativo lida com os formatos nota, notícia, reportagem, entrevista e prestação de serviço. Já o jornalismo de característica opinativa lida com os formatos editorial, comentários, resenhas, crônicas e caricaturas. Por fim, o jornalismo de divertimento visa entreter com notícias do cotidiano e de interesse comum, enquanto o jornalismo interpretativo aborda pesquisas, por exemplo. (GOMES, 2002). Elementos noticiosos Quando falamos em elementos noticiosos, é importante distinguir e entender suas diferenças e a importância de sua aplicação e utilização. Para Pena (2005, p. 70): [...] a distinção entre nota, notícia e reportagem está na progressão dos acon- tecimentos. A nota corresponde ao relato dos acontecimentos, a notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social e a reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que repercutiu no organismo social. Para que um telejornal vai ao ar, vale ressaltar a importância técnica da aplicação de alguns elementos, como nota pelada (NP), nota coberta (NC), flash ou boletim, stand up, matéria e reportagem. A objetividade e a clareza de conteúdo na utilização desses elementos são fundamentais para se atingir o objetivo proposto por um telejornal. Em quaisquer desses elementos, quando se estrutura um texto apresentando logo no início suas informações mais importantes, isso tende a estimular os espectadores a prosseguir até o fim do conteúdo. NP é um termo jornalístico que se aplica quando uma notícia é veiculada e o apresentador do telejornal narra o fato sem o recurso visual. NPs são comuns no telejornalismo, pois refletem o interesse do veículo de comunicação em 5A reportagem televisiva noticiar o fato. Limitações técnicas, de infraestrutura e de equipamentos das emissoras são fatores que contribuem para a utilização de NPs nos telejornais. Por sua vez, uma NC corresponde “[...] ao texto lido em off pelo apre- sentador e coberto por imagens referentes ao assunto” (PENA, 2005, p. 70). Em transmissões ao vivo, as NCs têm a função de ajudar os telespectadores a entender melhor os fatos. Vale ressaltar que seu texto não tem a função de descrever as imagens, apenas de complementá-las. Um boletim ou flash é basicamente a intervenção ou entrada do repórter durante o fato. Essa entrada pode ser ao vivo ou gravada. Comparado à NP e à NC, este elemento da notícia é mais completo, pois exige a presença de jornalistas no local do fato. Em sua aplicação prática, o boletim se assemelha muito com o stand up, afora que este último inclui um entrevistado no local da notícia, podendo ser direta ou indiretamente. É esse entrevistado quem fornecerá informações que complementarão a notícia, dando mais credibilidade à reportagem. Além disso, é muito comum haver confusão sobre o que é matéria e o que é uma reportagem. Para Pena (2005), a matéria é algo mais factual e mais resumido. Trata-se, assim, de uma síntese bem estruturada que leva menos tempo para ser produzida. Por outros lado, ainda de acordo com Pena (2005, p. 70): “A reportagem é mais completa, é mais elaborada e detalhada e, para se construir uma reportagem, se gasta mais tempo, pois seu conteúdo é mais complexo e extenso”. Obviamente, ambos tipos de textos jornalísticos buscam a imparcialidade. Conforme Araújo (2017, p. 181), na notícia ou reportagem “[...] os textos jornalísticos são sempre divididos em três partes, sendo o título (manchete), o lead (resumo) e o corpo do texto (detalhamento das informações)”. Os gêneros de reportagem televisiva apresentam as seguintes características: textos em primeira ou terceira pessoa, temas de interesse social, linguagem simples, clara e dinâmica, discurso direto e indireto, objetividade ou subjetividade e textos assinados pelos autores. Dentre os tipos de reportagens, existe a chamada reportagem de ação (action story), que é aquela que apresenta o desenrolar dos fatos. Geralmente, inicia-se pelo acon- tecimento mais atraente e vai se deslocando para outros que contribuem para o detalhamento da história. A reportagem televisiva6 Em geral, a aplicação técnica de certos elementos na notícia pode trazer inúmeros benefícios. Na televisão, o uso do texto narrativo, por exemplo, confere um maior poder de persuasão e profundidade ao tema. Essa técnica fará com que o conteúdo seja mais criativo e gere o interesse desejado para o leitor. Além disso, não se pode esquecer de uma regra básica e que deveria ser óbvia: toda notícia deve ter início, meio e fim. Enfim, cada fato e cada notícia deve ser apresentado ao telespectador de uma forma corrente e gradual, baseando-se sempre no contexto como um todo. 3 Reportagem para televisão: da produção à veiculação Somos movidos por informação e impactados por conteúdos. Todos os dias, quando ligamos nossa TV logo pela manhã e escolhemos o canal de nossa preferência, um telejornal regional ou nacional estará sendo transmitido. Nesse telejornal, certamente estarão passando reportagens de interesse coletivo das mais diversas particularidades e importâncias, abordando temas como saúde, emprego, economia, políticas públicas, etc. Embora pareça uma simples transmissão de notícias, a junção de textos, artes, imagens e narrações de fatos não é algo simples ou fácil de criar e executar. A corrida contra o tempo é grande e diversos desafios precisam ser superados por quem produz conteúdo para televisão. Tivemos, porém, avanços tecnológicos e, com eles, novas maneiras de se fazer reportagens. Independentemente de sua linha jornalística, a reportagem assumiu um papel de mediação nas discussões de assuntos de interesse geral (ARAÚJO, 2017). A produção de uma reportagem costuma exigir uma equipe formada por profissionais de vídeo e de áudio, dependendo da estrutura e do tamanho de cada emissora. De acordo Araújo (2017), a uma reportagem para a televisão pode ser dividida em pré-produção, produção e pós-produção. Na pré-produção, elabora-se a pauta jornalística definem-se as fontes de pesquisas e os persona- gens da entrevista. Na produção, busca-se os fatos e ajusta-se o material bruto. Por fim, na pós-produção o material é editado e disponibilizado para ir ao ar. De acordo Squirra (1993, p. 84) “[...] a produção de reportagem para o telejornalismo requer muita atenção, pesquisa, checagem, além de muito profissionalismo da parte de todos os envolvidos no processo”. Nesse sentido, uma reportagem jornalística é estruturada em pauta, informação apurada (investigação), entrevistas, texto e edição final para veiculação. 7A reportagem televisiva A pauta Construir pautas para telejornais requer esforço, pesquisa, estudo e dinamismo. Antes de qualquer notícia ir ao ar e chegar à televisão de cada telespectador, vários profi ssionais envolvidos no telejornalismo (repórteres, apresentado- res, editores, produtores, cinegrafi stas e técnicos) atuam com um objetivo comum: a busca de informações para a proposição ou construção de pautas. Esse exercício é realizado em conjunto pelas diversas áreas de um programa telejornalístico. Nesse contexto, toda matéria jornalística é pautada por um determinado assunto e deve ser debatida. Dependendo do perfil do programa, a escolha da pauta é feita pelas equipes de produção e edição, que se reúnem com demais membros para definir qual será o foco de cada matéria. Definida a pauta, parte-se para a produção. Para se construir boas pautas, o conteúdo é o segredo. Assim, estar antenado ao que está acontecendo local ou nacionalmente é fundamental. Isso varia conforme a abrangência e alcance do telejornal, e pode fazer uma grande diferença em termos de reportagens televisivas. A busca pela informação Buscar informações é parte importante da produção de uma reportagem tele- jornalística e dever de quem está produzindo um conteúdo que será veiculado para dezenasde milhares de pessoas. A existência de documentação que comprove os fatos e entrevistas com envolvidos ajudam a compor os elementos do texto, que são os personagens e as fontes. Esses elementos não podem faltar na reportagem televisiva ou em qualquer outro veículo de comunicação. Para Lage (2009, p. 62): “[...] as fontes podem ser mais ou menos confiáveis (confiança, como se sabe, é coisa que se conquista), pessoais, institucionais ou documentais”. São esses elementos que dão maior credibilidade ao veículo de comunicação e à reportagem. Proteger as fontes é uma medida fundamental que deve ser praticada pelo jornalismo. Portanto, a ética deve ser colocada sempre em primeiro lugar para que a matéria ou reportagem jornalística tenha o efeito desejado. A reportagem televisiva8 São consideradas fontes confiáveis: órgãos do governo, institutos, organiza- ções, entidades, associações e sindicatos. As fontes fazem parte da reportagem e sua checagem deve ser muito rigorosa, avaliando sempre de forma imparcial a veracidade dos fatos. São as fontes jornalísticas que ajudarão a estruturar o conteúdo de uma notícia. Para Cruz Neto (2008, p. 32): “[...] o uso das fontes deve seguir um caminho du- plo: é preciso ouvir as fontes autorizadas sobre o assunto em pauta, mas é necessário estar sempre atento a outras opiniões, a pessoas que tenham algo novo a dizer”. As entrevistas De acordo com Lage (2009, p. 66): “[...] a entrevista é o procedimento clássico de apuração de informações em jornalismo. É uma expansão da consulta às fontes, objetivando, geralmente, a coleta de interpretações e a reconstituição de fatos”. Para a realização de reportagens em televisão, o tipo de entrevista de ocasião é a que mais cria interação. Entrevistas desse tipo costumam ser realizadas ao vivo e permitem ao entrevistado falar de situações com since- ridade por estar compromissado com a verdade. A entrevista em televisão tem o poder de transmitir o que o jornalismo impresso nem sempre consegue: a exposição da intimidade do entrevistado. Os gestos, o olhar, o tom de voz, o modo de se vestir, a mudança no semblante influenciam o te- lespectador e a própria ação do entrevistador, que ao adquirir experiência consegue tirar do entrevistado mais do que ele gostaria de dizer (BARBEIRO, 2013, p. 85). É importante lembrar que uma entrevista é baseada numa estrutura básica em que deve existir a interação entre os participantes, representados na pessoa do entrevistador e do entrevistado. Essa interação será o fator gerador de credibilidade ao fato. O jornalismo brasileiro possui em sua galeria brilhantes profissionais que ao longo de suas carreiras protagonizaram grandes entrevistas. No site Observatório da Imprensa, o professor de jornalismo Pedro Celso Campos (2002), da Unesp–Bauru, publicou o artigo “Técnicas de entrevista”, que traz uma compilação de definições, dicas e estratégias de renomados repórteres brasileiros. 9A reportagem televisiva O texto e a edição final Quando nos referimos ao texto em telejornalismo, estamos falando de off , que também pode ser chamado de narrativa textual da reportagem telejornalística. Segundo Rezende (2000, p. 149), off é a parte da notícia gravada pelo repór- teres ou pelo apresentador “[...] para ser conjugada com as imagens do fato, sem que o rosto de quem faz a leitura apareça no vídeo. Nas matérias em off , a narração do locutor ou do repórter deve estar harmoniosamente conjugada com as imagens que cobrem o texto lido”. Assim como no rádio, na televisão o texto deve ser coloquial. Para Barbeiro (2013, p. 97), o jornalista precisa ter em mente que está contando uma história para alguém, em “[...] um casamento da palavra com a imagem”. Nesse caso, podem ser usadas imagens coletadas por repórteres cinematográfi cos ou imagens produzidas por artistas gráfi cos. Despois de gravadas as imagens e o texto, resta a edição final do material, que será conduzida por profissionais de audiovisual que cuidarão do som e da imagem e de tudo mais que for necessário para deixar o material com qualidade para ser veiculado. É muito importante a presença do profissional de sonoplastia no telejornalismo. Esse profissional está apto a cuidar do som e criar efeitos e fundos sonoros na reportagem, com o objetivo de atrair e mexer com emoção do telespectador. Na edição final do material, inicia-se o processo de refinamento, em que profissionais e repórteres dão os ajustes necessários para que o material atenda a seu propósito inicial, que é transmitir o conteúdo e a notícia sem o mínimo de ruído possível. Na edição, observa-se o texto, a fala do entrevistado, o volume do áudio captado, o ajuste de cores da câmera e a cronometragem do material. O responsável por essas e outras ações é o editor. Para Barbeiro (2013, p. 102): [...] a função de editor na TV é trabalhosa, dá pouca visibilidade ao jorna- lista, mas é de fundamental importância, pois a edição é a montagem final da reportagem que vai ao ar no telejornal. É nessa etapa de elaboração da matéria que fica mais clara a ação do jornalista em excluir e suprimir parte do material colhido, sob ação da subjetividade. A reportagem televisiva10 A veiculação da notícia em qualquer telejornal parte da escolha feita pelo editor. Se uma determinada reportagem tem a intenção de atingir determinado público, até o horário é escolhido estrategicamente. Em geral, o objetivo é prender a atenção do telespectador e gerar curiosidade sobre o assunto. Isso implica a criação de artes, vinhetas, chamadas e até efeitos visuais, se necessário. A utilização desses efeitos gráficos passou a fazer parte do contexto jornalístico nos anos 1970. A carência de imagens, em certas situações, fez com que profissionais de computação gráfica começassem a fazer parte da equipe de produção jornalística, atuando como novos mediadores nesse processo de produção da reportagem televisiva. ARAÚJO, G. F. Telejornalismo: da história às técnicas. Curitiba: Intersaberes, 2017. BARBEIRO, H.; LIMA, P. R. Manual de jornalismo para rádio, tv e novas mídias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. CAMPOS, P. C. Técnicas de entrevista. Observatório da Imprensa, 13 mar. 2002. 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Você também vai conhecer conceitos relacionados com a produção audiovisual institucional, uma ferramenta de comunica- ção poderosa para a criação, a manutenção ou a mudança da imagem de empresas e instituições. Além disso, você vai ver as peculiaridades da produção audiovisual institucional, bem como acompanhar uma reflexão acerca do trabalho do comunicador responsável por tal processo. Hora de gravar: a produção audiovisual Uma produção audiovisual exige um projeto e um planejamento detalhados. É preciso defi nir o que se quer dizer, como contar, com o que gravar, com quem trabalhar e para quem. Ou seja: muitas perguntas têm de ser respondidas para evitar erros, surpresas ou esquecimentos, minimizando possíveis imprevistos, atrasos e difi culdades que possam surgir durante a gravação. Só depois é que se passa para o estágio de fi lmagem. A maneira como a gravação vai se desenvolver depende de que produto se deseja obter ao final da produção. A primeira diferença fundamental é em relação à abordagem, ou seja, é preciso definir se a produção será uma ficção ou um documentário. Na produção de ficção, tudo deve ser muito mais controlado, fechado e medido. Há pouco espaço para improvisação ou mudanças importantes. Geralmente, há a exigência de uma grande equipe para uma produção de ficção profissional. Tudo deve ser controlado minu- ciosamente para se obter um bom resultado e não haver dispêndio de verbas não previstas. Já a produção de documentários ou reportagens é muito mais aberta no momento da gravação ou filmagem. É comum a equipe de produção se ver frente a situações que não haviam sido antecipadas, que podem conferir mais riqueza ao produto em elaboração. O roteiro do documentário é muito mais aberto, por exemplo, e em muitas ocasiões ele só fica completo no momento da produção. As filmagens geralmente são feitas com muito menos recursos humanos e materiais. As pessoas ou animais que aparecem nos documentários são geralmente personagens reais, e não atores ou atrizes. Composição A composição, Segundo Dondis (1991, p. 6), se aplicada à pintura, é con- ceituada como “[...] a arte de agrupar as fi guras e acessórios para obter o melhor efeito, de acordo com o que se quer representar”. Em uma produção audiovisual, pode-se dizer que a composição é a arte de ordenar, selecionar e arranjar os elementos necessários para comunicar ao público o que se pretende dizer. A câmera oferece milhares de possibilidades para compor ou enquadrar uma cena. O enquadramento é tudo o que se coleta através do visor da câmera. A composição que se realiza dentro da estrutura da câmera depende: do ponto de vista, ou seja, de onde a câmera é colocada; do tipo de plano utilizado; do tipo de objetivo narrativo. O ponto de vista é definido pelo lugar onde a câmera é colocada para a gravação: pode ser um pouco mais alto ou um pouco mais baixo, um pouco para a esquerda ou mais para a direita, na frente ou atrás da personagem. Dependendo de onde se coloca a câmera, gera-se um efeito ou outro. Assim, de acordo com o ângulo em que se posiciona a câmera em relação ao assunto, é possível obter três tipos de enquadramento. Veja a seguir. Produção de audiovisual institucional2 Ângulo normal: a câmera é colocada na mesma altura dos olhos do sujeito que está sendo gravado. É a altura usual do horizonte e a presente na maior parte do tempo nas produções. É o plano que menos impressiona porque as pessoas estão acostumadas a olhar a partir dessa posição. Ângulo picado: a câmera é colocada acima dos olhos do assunto gra- vado. Esse ângulo estabelece uma relação de superioridade em relação ao personagem registrado, que é visto de maneira inferior pelo observador. O ângulo picado também ajuda a fazer planos muito amplos de uma cidade, um campo ou uma paisagem. Ângulo contrapicado: a câmera está localizada abaixo dos olhos do assunto gravado. Assim, uma relação de inferioridade é estabelecida perante o personagem que está sendo gravado, que parece superior e mais importante do que o observador. Por sua vez, a escolha de um tipo de plano tem implicações em termos do grau de proximidade e da privacidade que a câmera estabelece em relação ao assunto. O tipo de plano também se relaciona à quantidade de informação que se deseja fornecer. É possível priorizar o contexto, em um plano geral, ou a expressão do rosto, em um primeiro plano. A seguir, veja os principais tipos de planos. Grande plano geral: plano muito aberto em que a figura humana é mal percebida e em que prevalece o contexto geral. Serve para situar a narração em seu espaço. Plano geral: a figura humana é vista em seu contexto. Esse plano ajuda a situar a personagem na cena e a dar informações ao espectador sobre os elementos e as pessoas que a cercam. Plano americano: a figura humana é vista dos joelhos para cima. Esse plano também é chamado de plano três quartos. Ele era muito usado nos westerns porque permitia ver os cartuchos dos caubóis. Nesse plano, o espaço em torno das mãos também é importante. Plano médio: a figura humana é vista da cintura para cima. Esse tipo de plano permite uma abordagem maior sobre o assunto em questão. É um plano amplamente utilizado nos diálogos entre as personagens. Primeiro plano: a figura humana é vista do pescoço para cima. É um tipo de plano em que a força da imagem recai sobre o rosto e a expressão 3Produção de audiovisual institucional da personagem. A abordagem da câmera informa sobre a importância dessa personagem e confere certo grau de intimidade com a pessoa retratada e com os seus sentimentos. Nesse tipo de plano, o contexto desaparece, porque não importa muito onde a personagem está, mas como ela fala ao interlocutor. Esse tipo de plano é amplamente utilizado em entrevistas íntimas ou depoimentos em que se almeja identificação e empatia com a pessoa retratada. Primeiríssimo plano: detalhe da face da figura humana. Procura uma abordagem mais próxima da pessoa do que no caso do primeiro plano. Esse plano serve para focalizar o olhar do observador em um ponto da personagem, tais como olhos ou lábios. Plano detalhe: detalhe de qualquer elemento, seja da figura humana ou de um objeto. É uma espécie de plano que, embora não seja fundamental na sequência narrativa gravada, pode facilitar a montagem e melhorar o ritmo dela, além de fornecer mais informações. Aprenda mais sobre planos de enquadramento no link a seguir. https://qrgo.page.link/6PfXw O tipo de objetivo narrativo que se usa também é decisivo na composição. Os objetivos são as formas de captação da visão, que variam de acordo com o tipo de lente utilizada no processo de gravação. O ângulo de visão depende da distância focal da lente. Basicamente, pode-se falar sobre três tipos de objetivos, como você pode ver a seguir. Lente objetiva normal:tem um ângulo de visão semelhante ao do olho humano, cerca de 45º. Lente grande-angular: tem ângulos de visão amplos, em torno de 60º ou 180º. Serve para desenhar grandes planos gerais. Ela provoca a sensação de que o assunto se separa do fundo. Produção de audiovisual institucional4 Lente teleobjetiva: tem ângulos de visão muito estreitos, entre 20º e 1º; portanto, aproxima o espectador do assunto. Pode-se usá-la para close-ups e para trabalhar detalhes, pois a teleobjetiva consegue isolar o assunto e desfocar o fundo. Hoje, a maioria das câmeras utilizadas é equipada com lentes de zoom, que são muito práticas. Elas reúnem as três opções que você acabou de ver: normal, angular e teleobjetiva. Com o zoom, permite-se, por meio de um botão, alternar entre os três tipos de ângulos para selecionar o que melhor convier. Outro tópico relevante em relação à produção audiovisual é o tipo de iluminação. No link a seguir, você pode conferir alguns esquemas utilizados na produção de vídeos. https://qrgo.page.link/VPk5x Equipe de produção Como você sabe, geralmente um grande número de pessoas está ligado à produção de uma obra audiovisual. O número de profi ssionais depende, é claro, das características específi cas do trabalho. Pode-se dizer que cabe ao produtor estabelecer o tamanho apropriado da equipe. Em certas produções, seria um risco não ter pessoas sufi cientes (por exemplo, extras ou pessoal de fotografi a). No entanto, a tendência atual é que as equipes sejam cada vez mais concisas, não só por razões econômicas, mas pela funcionalidade da própria rodagem. Obviamente, a evolução na técnica e no equipamento de captação também possibilita a redução das equipes, visto que algumas funções se tornaram obsoletas na era digital. Quando se fala da equipe, em primeiro lugar, deve-se considerar a figura do produtor, que é a pessoa que dá vida a um projeto. Na sequência, há o diretor, que é a maior autoridade criativa/artística de um filme. A 5Produção de audiovisual institucional sua concentração deve ser total e, portanto, os requisitos que surgem dos aspectos logísticos e financeiros são uma distração. Durante as filmagens, o diretor tem a função de dar instruções (especialmente para atores e ci- negrafistas, embora, obviamente, a toda a equipe criativa). Essa função é o que define o diretor. No cinema de autor, o diretor está envolvido no trabalho desde a própria ideia que dá origem à obra. Assim, ele escreve o roteiro (embora não seja incomum que os colaboradores façam isso), seleciona os seus principais aliados (atores e chefes de departamento) e também participa de ações posteriores à filmagem, como a orientação e a aprovação da assembleia, que, às vezes, ele mesmo realiza. Por vezes, a figura do produtor e a do diretor concentram-se em uma só pessoa, especialmente no cinema. Porém, no caso de peças audiovisuais voltadas para a comunicação geral, é comum que os papéis sejam assumidos por pessoas diferentes. Embora em trabalhos de dimensões modestas a produção possa ficar a cargo de uma ou duas pessoas, é comum encontrar vários nomes em produções de maior orçamento. A seguir, veja alguns cargos e suas funções. Produtor: gerente e proprietário do trabalho audiovisual. Produtor executivo: chefe administrativo e responsável pela gestão do dinheiro; também pode participar da obtenção de recursos para o trabalho. Produtor associado: título normalmente usado como consideração pela ajuda dada ao filme. Os investidores podem ser produtores associados, por exemplo. Produtor de campo: pessoa encarregada da logística durante as filmagens. Produtor de linha, coordenador, chefe ou supervisor de produção: são diferentes graus de responsabilidade, derivados da delegação de funções na organização de um filme, de acordo com a sua complexidade. Seguindo em hierarquia, de acordo com o tipo de trabalho de produ- ção, há o diretor de fotografia (que está encarregado da iluminação e da relação dela com o tipo de câmera e o sistema de registro usado), o Produção de audiovisual institucional6 operador de câmera (embora alguns diretores também operem a câmera), o diretor de arte ou designer de produção (que orienta o set, o cenário, os adereços, os figurinos, a maquiagem e também conceitua todos os tópicos relacionados ao aspecto visual do trabalho) e o engenheiro de som (cujo trabalho ganhou espaço nos últimos tempos, agregando uma carga mais criativa do que técnica). Todas essas pessoas exigem, por sua vez, assistentes em funções especí- ficas. Há, por exemplo, o primeiro assistente de câmera, que muitas vezes é responsável pelo assunto de foco (foquista), e o primeiro assistente de direção, que não apenas deve apoiar o diretor em seu trabalho, mas também lidar com a supervisão de questões de produção para que elas não afetem o desenvolvimento adequado das filmagens. Há ainda outras pessoas que desempenham funções especializadas, como eletricistas, montadores e maquiadores. Além do pessoal envolvido nos aspectos técnicos e artísticos da obra audiovisual, há aquelas pessoas que cuidam dos aspectos financeiros, legais e operativos. É sempre aconselhável ter o conselho de um advogado e um contador. No trabalho audiovisual de baixo orçamento, isso pode ser visto como um luxo desnecessário; no entanto, seja devido a questões de direitos autorais ou à proteção da produção, essas figuras são fundamentais. O audiovisual para além do comercial O uso de peças audiovisuais como ferramenta promocional envolve diversas possibilidades em diferentes áreas de negócio e comunicação. Por esse motivo, diferentes formatos são usados, dependendo da natureza de cada organização. O vídeo corporativo e o vídeo institucional apresentam a identidade de uma organização por meio de imagens, ou seja, transmitem seus valores, sua missão e sua visão. No entanto, enquanto o vídeo corporativo representa uma empresa, o vídeo institucional se concentra em instituições, como ministérios, funda- ções, prefeituras, museus, entre outras. Por outro lado, há o vídeo industrial, usado para divulgar as instalações e fases de produção de uma empresa, por exemplo, linhas de fabricação, processos industriais, automação ou armazenamento de produtos. O vídeo corporativo é uma produção que apresenta uma empresa privada e lucrativa, compartilhando seus valores, sua visão, sua missão, sua força de trabalho, etc. Esse audiovisual corporativo visa a mostrar a operação da entidade em detalhe, a sua estrutura, as suas complexidades, a sua personali- 7Produção de audiovisual institucional dade. A ideia é deixar claro como ela funciona, como a equipe se sente, quais ferramentas ela tem para alcançar os seus objetivos, etc. Geralmente, o vídeo corporativo tem seu foco em investidores. O vídeo institucional faz o mesmo com instituições de grande porte, geralmente de natureza pública e sem fins lucrativos ou de interesse geral. Busca-se conhecer a imagem da instituição, o seu trabalho, os seus objetivos, a sua metodologia de atuação, etc. O foco do vídeo institucional, de maneira geral, é a opinião pública. Steffen (2003, p. 39) afirma que “[...] institucional é a área das relações públicas que estabelece e institui formas sociais para garantir a continuidade do sistema social organização-públicos”. Tanto produções corporativas quanto produções institucionais buscam informar e apresentar a instituição/empresa em questão para transmitir uma imagem ajustada ao espectador. Apesar desse foco menos mercadológico, indiretamente, o seu objetivo final é voltado para a captação de clientes e a manutenção de uma boa opinião pública. Da mesma forma, esses dois tipos de produções audiovisuais são geralmente divulgados nos sites de empresas ou instituições e em apresentações. Esses tipos de peças audiovisuais (o corporativo, o institucional e até o industrial) têm em comum o fato de poderem ser usados tanto em uma cam- panha de marketing interna quantoem uma campanha de marketing externa. Por outro lado, por meio do vídeo promocional, a empresa busca se destacar da concorrência, mostrando de forma sugestiva as características de seus produtos ou serviços. Esse vídeo é também uma ferramenta de comunicação com os clientes que busca influenciar positivamente as vendas e promover o lançamento de produtos. Como você pode notar, embora os diferentes tipos de vídeo sejam destinados a organizações de naturezas distintas, o desenvolvimento de todos eles visa a uma comunicação, interna ou externa, que valorize a imagem da empresa ou instituição. Ficou curioso a respeito das questões relacionadas à imagem institucional? Acesse o link a seguir para aprender mais sobre o assunto. https://qrgo.page.link/LH3uq Produção de audiovisual institucional8 Produção de peças institucionais As etapas de criação de uma peça audiovisual institucional em muito se as- semelham às etapas tradicionais de qualquer realização do tipo. Afi nal, uma peça institucional é apenas um dos exemplos da ampla gama de possibilidades que o audiovisual oferece. Todavia, alguns fatores pontuais a distanciam das produções publicitárias clássicas, visto o seu objetivo. O vídeo institucional é uma ferramenta importante na comunicação dirigida de uma organização, pois disponibiliza informações relevantes para os seus públicos de interesse. O conteúdo dessas peças audiovisuais, costumeiramente, apresenta histórico, principais produtos, estrutura física e organizacional, missão e visão da empresa, bem como as suas relações sociais e as suas atitudes relacionadas ao meio ambiente. Para cumprir os seus objetivos, uma produção audiovisual institucional exige alguns passos, como você pode ver a seguir. 1. Obter informações, antes da gravação, sobre o tema a ser abordado, com base em uma pesquisa documental e, se possível, videográfica. A ideia é confrontar as informações repassadas com o material au- diovisual anteriormente produzido (caso exista). Isso manterá certa harmonia e dará consistência à imagem institucional. Mesmo que a motivação da nova produção seja modificar a imagem anterior, é interessante saber o que já foi produzido a fim de identificar qual caminho não tomar. 2. Estabelecer as personagens e os locais mais apropriados para a gravação, de acordo com os tópicos a serem explorados, buscando valorizar a mensagem da organização. 3. Elaborar um plano da gravação com a programação das sessões, con- siderando datas, horários, locais, deslocamento e recursos (técnicos, pessoais, financeiros) de acordo com as necessidades. 4. Criar um roteiro ou plano de filmagem. A equipe de produção deve ter um guia claro para as imagens, os sons e os testemunhos ou entrevistas a serem realizadas. 5. Elaborar um orçamento de acordo com os recursos técnicos e de pessoal necessários. Deve-se levar em consideração os insumos da instituição e os que precisam ser contratados ou subcontratados. Os momentos específicos da realização audiovisual devem ser levados em conta: pré-produção, produção e pós-produção. 9Produção de audiovisual institucional Uma peça institucional contém a filosofia da empresa, transmitindo-a sem o intuito imediato da venda de produtos ou bens de consumo. A preocupação é vender e consolidar uma imagem positiva para a organização em questão. Veja o que afirmam Xavier e Zupardo (2004, p. 76): [...] especialistas em vídeos empresariais ressaltam que, normalmente, o cliente faz um programa institucional para vender/apresentar a imagem da empresa para seus clientes, instituições financeiras, investidores, fornecedores, órgãos governamentais e comunidade. Um institucional mostra, na verdade, o conceito da empresa e sua filosofia. Segundo Kunsch (2003, p. 169), “[...] a apropriação dos modelos de produção editorial tradicional pelos da moderna multimídia permite criar uma comuni- cação ágil e interessante aos olhos dos públicos”. Isso confere às instituições a possibilidade de repassar informações de maneira mais atraente e com uma linguagem simples, dando ênfase e credibilidade aos seus objetivos. Entretanto, na realização de peças audiovisuais institucionais, é preciso medir critérios ao utilizar essas possibilidades, visto que a responsabilidade de produção é imensa e fundamental para a imagem corporativa. Dessa maneira, mesmo com a popularização das ferramentas de produção audiovisual, é recomendada a con- tratação de uma produtora de vídeo especializada, garantindo a qualidade técnica de imagem e som. Simões (1995, p. 160) corrobora com isso afirmando o seguinte: [...] esse cuidado para que todo instrumento de relações públicas possua também um traço de arte, acrescido dos limites de capacidade do ser humano, no caso o profissional de relações públicas, leva à dedução de que, preferivelmente, um perito e um artista na execução das técnicas devam ser contratados para produzi-las, não cabendo ao profissional a obrigação ou pretensão de imple- mentar sozinho todos os seus projetos. No entanto, o profissional da organização não deve se ausentar, acom- panhando o trabalho especializado da produtora e conferindo todo tipo de material e informação necessários para a realização satisfatória do projeto. O profissional encarregado da imagem da organização deve estar ciente e vigilante em relação à produção, desde suas etapas iniciais, com a roteirização, até o período posterior às filmagens, na pós-produção. Afinal, como você sabe, uma frase ambígua, uma imagem de má qualidade ou uma trilha sonora inadequada pode comprometer a interpretação da mensagem da instituição. Conforme García (2001), a produção audiovisual institucional envolve alguns elementos. Veja a seguir. Produção de audiovisual institucional10 Deve haver segurança na divulgação, além de força retórica e visual e controle de conteúdo. Está em jogo a transmissão de fatos, ideias ou julgamentos relacionados com a totalidade da instituição, o que torna mais fácil para o público ter um conceito integral da entidade. Além de informações sobre questões específicas, os interlocutores precisam acolher percepções gerais sobre a instituição, a fim de orientar o seu comportamento em relação a ela. Além disso, o autor afirma o seguinte: Audiovisual institucional não se resume a estratégias publicitárias, mas tam- bém intervém nos processos de construção social. Esta produção é um espaço do público, não apenas como um lugar onde instituições vigiam o interesse geral, mas, especialmente, como um lugar para a comunicação entre os indi- víduos, os grupos e as instituições (GARCÍA, 2001, p. 18, tradução nossa). Losada (1998, p. 145–146, tradução nossa) complementa: [...] [para] produzir audiovisual no campo institucional é necessário ter em conta um conjunto de fatores específicos cuja magnitude e singularidade justificam a relevância de um projeto de pesquisa que permite projetar um modelo de comunicação para a instituição. A peculiaridade do serviço for- necido, tendo-se que historicamente qualidade é diretamente relacionada à personalidade, prestígio e credibilidade da instituição [...], reforça a transcen- dência da importância da imagem pública. Na esfera interna, deve-se levar em conta diferenças entre os funcionários, colaboradores, administração ou serviços, bem como o índice de heterogeneidade dos mesmos: eles vêm de uma infinidade diversa de contextos geográficos, sociais e culturais, econômicos, políticos e ideológicos. Portanto, a produção audiovisual institucional deve executar as suas fun- ções em um contexto aberto à sociedade. Em especial, dois fatores devem ser observados: a produção audiovisual institucional precisa saber o que a sociedade exige da instituição para projetar todos os seus objetivos; a sociedade deve ser capaz de compreender, por meio da mensagem, o que a instituição oferece, o que é, o que faz, quais são as suas crenças e as suas responsabilidades. 11Produção de audiovisual institucionalNo link a seguir, você encontra algumas dicas de produtores que trabalham com a realização de audiovisuais institucionais. https://qrgo.page.link/oX2LT DONDIS, D. A. A sintaxe da linguagem visual. 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Definir o público consumidor do audiovisual. Identificar estratégias de linguagem e seu respectivo impacto. Introdução Quando você liga uma câmera e a aponta para um espaço, captando e regis- trando uma imagem em movimento, automaticamente uma linguagem está sendo usada. Assim como a fala e a escrita, também há uma língua chamada audiovisual. Mesmo quando não estamos conscientes disso, ela está sempre pronta para traduzir imagens e sons em mensagens completas e complexas. Ninguém nos ensina a assistir televisão ou filmes no cinema. Com o tempo, interagimos com esses meios e vamos absorvendo e compreendendo sua linguagem dia após dia. É dessa forma que somos alfabetizados audiovisual- mente sem perceber, pois se trata de um aprendizado constante e sequencial. Neste capítulo, você vai conhecer um pouco sobre a linguagem audio- visual e como seus códigos são construídos por meio de diferentes técnicas. 1 A influência do ambiente sobre a linguagem Ao assistir programas de televisão, fi lmes, vídeos na internet, entre outros, estamos adquirindo uma bagagem de expressões auditivas e visuais que vão organizando nossa compreensão sobre aquilo que recebemos. É dessa maneira, por repetição, que os códigos vão sendo estabelecidos. Assim, quando nós mesmos temos de produzir esse tipo de conteúdo, a tendência é repetirmos aquilo que apreendemos como espectadores. Por isso, quando você for fi lmar algo com uma câmera, estará usando uma linguagem que conhece, um código que já domina. O limiar da humanidade coincide com o advento da linguagem, que funda uma nova relação do homem consigo mesmo e com o mundo. A linguagem suscita uma consciência da consciência. A história introduz, sobreposta à hereditariedade natural, uma hereditariedade cultural. Esboça, assim, uma nova dimensão da consciência humana (JAPIASSU, 1978, p. 103). Nesse sentido, vale uma questão para discutirmos mais adiante nesta unidade: como estão se desenvolvendo os códigos audiovisuais na contempora- neidade à medida que vários produtos audiovisuais recebem rótulos diferentes do que estampavam no passado? Como a linguagem está se transformando e de que maneira isso vai afetar a produção audiovisual num futuro não tão distante? Retornaremos a essas questões ao final do capítulo, mas, para que possamos refletir sobre elas, precisamos conhecer a fundo a linguagem audiovisual. Para isso, vamos tratar de entender o que é um código. Um código é um sistema de signos, ou seja, símbolos que, por convenção, permitem a transmissão de mensagens que vão de um emissor para um recep- tor. De forma geral, a linguagem é uma combinação de códigos. E, no atual momento, em que os meios se misturam, podemos perceber que os códigos transitam e se renovam. Cada meio é codificado, definindo-se um código pela repetição periódica, mas cada código é um estado perpétuo de transcodificação ou de transdução. A transcodificação ou transdução é a maneira pela qual um meio serve de base para um outro ou, ao contrário, se estabelece sobre um outro, se dissipa ou se constitui no outro. Justamente, a noção de meio não é unitária: não é apenas o vivo que passa constantemente de um meio para o outro, são os meios que passam um no outro, essencialmente comunicantes (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 118). Segundo McLuhan (2011), além do meio, há o ambiente exercendo influência sobre a mensagem. Esse ambiente é invisível. O olhar atento, de fora do meio, pode entrever como ele age sobre os objetos e como pode ir produzindo novos tipos de códigos. É, então, nesse ambiente, onde diversas forçam convivem, que devemos entrar para observar a construção dos códigos. As linguagens visuais e audiovisuais têm uma relação direta com a cons- trução de sentido, o qual se completa naquele que está diante dessas obras. Portanto, um significado é estabelecido a partir da maneira como a pessoa compreende o código ofertado. Tal entendimento remonta a um passado muito remoto. Para isso, basta voltarmos às imagens rupestres e aos desenhos impres- sionantes de bisões. Naquela época, talvez o significado fosse diferente daquele que compreendemos atualmente, pois o que fazemos hoje são conjecturas a Linguagem e técnica do audiovisual2 partir da imaginação. Daquela época até os dias atuais, podemos verificar diferentes códigos que vão estabelecendo as mais variadas linguagens escritas, visuais e sonoras. O audiovisual foi se estabelecendo dentro desse cenário. A arte rupestre é uma das mais antigas representações artísticas conheci- das, datada do período Paleolítico Superior (entre 50 mil e 10 mil anos atrás). Trata-se de uma arte feita de gravuras nas cavernas, nas paredes de rocha. Os códigos e, consequentemente, a linguagem podem ter começado no interior desses espaços. A finalidade das gravuras em Altamira (Figura 1), na Espanha, ou Lascaux, na França, parecia puramente utilitária na sua época. Dessa forma, seria possível traduzir essa arte nos dias de hoje e compreender inteiramente o sentido que seus criadores queriam passar? Figura 1. Arte rupestre na caverna de Altamira, Espanha. Fonte: Cave of Altamira (2008, documento on-line). Seria praticamente impossível traduzir essa arte totalmente, pois teríamos que conhecer com precisão os códigos que regiam o grafismo dos símbolos da época. O processo é comparável a nossa relação com um texto: à medida que o lemos, nosso cérebro vai traduzindo configurações gráficas em códigos preestabelecidos que conhecemos anteriormente. Assim, a tradução se efetiva. Quando não dominamos o código, o que podemos fazer é supor algo, como o que ocorre quando tentamos ler a arte rupestre, esbarrando em aproximações. 3Linguagem e técnica do audiovisual A explicação mais provável para essas pinturas rupestres ainda é a deque tratam-se das mais antigas relíquias da crença universal no poder produzido pelas imagens; dito em outras palavras, parece que esses caçadores primitivos imaginavam que, se fizessem uma imagem da sua presa — e até a espicaças- sem com suas lanças e machados de pedra —, os animais verdadeiros tam- bém sucumbiriam ao seu poder. Tudo isso, é claro, não passa de conjecturas (GOMBRICH, 1999, p. 42). Tratando dos códigos audiovisuais, podemos dizer que áreas como a se- miótica, a comunicação e as artes têm se preocupado bastante em discutir para fazer evoluir seus conceitos. Há outros campos que também realizam pesquisa sobre linguagem; entretanto, o que parece nos interessar mais para refletir acerca do audiovisual perpassa essas três grandes áreas. As expressões de arte rupestre mais significativas foram encontradas na Europa, em particular no norte da Espanha e sul da França, datando de aproximadamente 35.000 a 15.000 a.C., portanto, no Paleolítico Superior. A descoberta das cavernas de Altamira (Espanha) e Lascaux (França) fomentaram uma revolução no que até então se conhecia sobre o passado da arte. Altamira foi descoberta em 1868, sendo o primeiro conjunto pictórico pré-histórico de grande extensão conhecido até então. Lascaux foi descoberta em 1940, sendo caracterizada por um conjunto de corredores de aproximadamente 250 metros de comprimento, com desnível de 30 metros (NOVAES, 2008). 2 Os códigos e seus públicos específicos A linguagem audiovisual pode ser entendida como “o conjunto das formas de organizaç ã o artifi cial da imagem e do som que utilizamos para transmi- tir ideias ou sensaç õ es, ajustando-o à capacidade humana de percebê -las e compreendê -las” (BRAVO, 2006, p. 27). Portanto, há có digos organizados que ofertam sentidos, buscando que os espectadores reconheçam aquilo que estão assistindo. Linguagem e técnica do audiovisual4 Bordwell e Thompson (2013) acreditam que um audiovisual se torna envol- vente para o público quando existe um determinado padrão desenvolvido pelos elementos que formam a obra. Isso acaba despertando o interesse das pessoas, pois vai ao encontro daquilo que elas buscam dentro de suas expectativas, suas experiências e seus repertórios. Observaremos a seguir componentes que fazem parte da linguagem e que formam os estilos e os produtos audiovisuais. São eles que vão se estruturar para criar padrões que vão ao encontro do público. É importante ressaltar que muito daquilo que se estuda acerca da linguagem e técnica audiovisual passa necessariamente pelo cinema, pois foi com ele que as imagens em movimento se iniciaram e nele que os códigos foram se estabelecendo para transitar para outros meios, como vídeo, televisão, internet, entre outros. Quando assistimos a um produto audiovisual, estamos sempre diante de pistas, ou seja, de códigos estruturados para nos dizer alguma coisa. Tudo o que estamos vendo não foi colocado ali por acaso, sem que fosse pensado e planejado. Os elementos visuais e sonoros que vemos estão organizados de forma a afetar uns aos outros e aos espectadores. Um filme não é um conjunto aleatório de elementos. Como todo trabalho artístico, um filme tem uma forma. Por forma fílmica, no sentido mais amplo, entendemos o sistema geral de relações que percebemos entre os elementos do filme todo (BORDWELL; THOMPSON, 2013, p. 111). Enquadramentos, movimentos de câmera, angulações e fotografia são alguns dos elementos que dão forma aos produtos audiovisuais e criam seus estilos próprios. Tais elementos se relacionam e podem influenciar no desenvolvimento de uma história ou intensificar aquilo que vemos. Um filme, por exemplo, ao repetir certas combinações daquilo que o constitui, cria um sistema de regras próprias, internas, que vai criando nos espectadores expectativas do que pode e deve se concretizar. Portanto, podemos dizer que as obras vão criando convenções a partir de experiências anteriores já apresentadas no filme e daquilo que os espectadores já têm como conhecimento adquirido por terem assistido algo parecido no passado. No entanto, também é possível que alguns produtos audiovisuais sejam desenvolvidos sem utilizar códigos estabelecidos. Nesse caso, tais obras também podem criar suas próprias convenções: 5Linguagem e técnica do audiovisual Uma obra de arte não usual tem suas próprias regras, o que cria um sistema formal não ortodoxo que podemos aprender a reconhecer e ao qual é possível reagir. Consequentemente, os sistemas apresentados por obras não conven- cionais podem eles mesmos criar novas convenções, gerando assim novas expectativas (BORDWELL; THOMPSON, 2013, p. 117). A partir disso, podemos dizer que cada realizador de uma obra usa um estilo, seja próprio ou baseado em algo existente. A forma muda de acordo com a intenção daquilo que se quer transmitir como informação: entretenimento, notícia, propaganda, etc. Entretanto, para todos há técnicas em comum da linguagem audiovisual sendo utilizadas. De forma abrangente, o elemento da linguagem audiovisual que abordare- mos é a imagem. Ela é um componente básico marcado por uma ambivalência, pois, ao mesmo tempo em que é produto de um aparelho técnico (câmera) que reproduz a realidade, também inventa o seu mundo por meio de conceitos. Ao apontar uma câmera para um determinado local e enquadrar um espaço, o realizador está escolhendo mostrar aquilo que lhe interessa. Portanto, podemos dizer que há um recorte a partir do olhar de alguém. Essa escolha passa pela câmera que capta as imagens. Podemos dizer que isso ocorre desde que houve a primeira exibição pública de um filme, em 28 de dezembro de 1895. Naquele dia, nos porões do Grand Café de Paris, os irmãos Lumière apresentaram filmes curtos, cada um possuindo em torno de 1 minuto, no máximo. Neles, era possível assistir situações do cotidiano, como pessoas jogando cartas, um bebê fazendo um lanche, operários saindo de uma fábrica ou um trem chegando a uma esta- ção. Por mais que fossem imagens únicas, sem corte e sem edição, pode-se dizer que existia atrás da câmera uma pessoa que operava o cinematógrafo (aparelho desenvolvido por eles para registrar e também projetar imagens), ou seja, alguém que olhava pela lente e fazia a escolha do que mostrar. 3 Os elementos visuais da linguagem Desde os primórdios até os dias atuais, todo realizador audiovisual usa técnicas que codifi cam as escolhas e traduzem as imagens em intenções. Os componentes que organizam aquilo que é produzido como imagem são apresentados a seguir. Linguagem e técnica do audiovisual6 Plano O plano é uma imagem entre dois cortes. Trata-se do tempo transcorrido entre ligar a câmera e desligá-la. É a menor unidade dramática de um produto au- diovisual, não existindo numa obra unidade inferior ao plano. É nele que tudo se passa: imagens e sons. A duração de cada plano determina o ritmo de um fi lme, que é concretizado pela montagem ou edição, quando são organizados os planos, uns após os outros. O take (tomada) é o número de vezes que um mesmo plano é repetido durante uma fi lmagem. Cena A cena é um conjunto de planos com a mesma unidade dramática. Normalmente (mesmo que não seja uma regra), uma cena pode ser identifi cada como aquilo que transcorre em um mesmo cenário. Sequência A sequência é formada por um conjunto de cenas. As sequências são carac- terizadas por ter início, meio e fi m. A sequência de uma festa, por exemplo, pode ser formada pelas pessoas se preparando para sair; elas chegando ao local da festa; dançando, conversando, sorrindo, etc.; saindo da festa; e voltando para casa. Tipos de planos Os planos são uma tradução visual de um roteiro escrito. É com eles que um fi lme, uma telenovela, um programa de televisão ou um vídeo são concreti- zados. Cada tipo de plano é classifi cado a partir daquilo que ele enquadra do espaço que está registrando. Assim, eles podem ser divididos em planos des- critivos, planos narrativos e planos aproximados. Cadadivisão tem subdivisões e existem diferentes nomenclaturas para cinema e televisão. A classifi cação aqui apresentada se baseia em Rodrigues (2002). 7Linguagem e técnica do audiovisual Planos descritivos: servem para descrever os lugares; a relação da câmera é maior com o espaço captado, ou seja, com os cenários. ■ Grande Plano Geral (GPG) — são planos muito abertos; servem para si- tuar o espectador em que cidade ou local a cena se desenvolve (Figura 2). Figura 2. GPG da cidade do Rio de Janeiro. Fonte: Rio de Janeiro (2008, documento on-line). ■ Plano Geral (PG) — plano afastado, utilizado para mostrar prédios ou casas onde a cena se desenvolve (Figura 3). Figura 3. PG de um prédio. Linguagem e técnica do audiovisual8 ■ Plano Geral Aberto (PGA) — utilizado para mostrar cenas localizadas em exteriores ou interiores amplos, permitindo captar de uma só vez o espaço da ação (Figura 4). Figura 4. Exemplo de PGA. Fonte: Wilfredor (2014 documento on-line). ■ Plano Geral Fechado (PGF) — usado para mostrar a ação dos atores e atrizes em relação ao espaço cênico (Figura 5). Figura 5. PGF de atores. Fonte: Kozlik/Shutterstock.com. 9Linguagem e técnica do audiovisual ■ Plano de Conjunto Aberto (PCA) — plano que enquadra três ou mais personagens (Figura 6). Figura 6. PCA de atores. Fonte: George Rudy/Shutterstock.com. ■ Plano de Conjunto Fechado (PCF) — empregado para enquadrar duas personagens com a mesma função dramática. É um plano muito usado em conversas (Figura 7). Figura 7. PCF de conversa. Fonte: Roman Samborskyi/Shutterstock.com. Linguagem e técnica do audiovisual10 Planos de situação (establishing shots) são planos que localizam ou relocalizam o espectador no espaço cênico. Quando migramos do exterior de um prédio para uma sala no interior deste prédio, por exemplo, é recomendável um plano exterior que situe o espectador no ambiente que se desenrola a cena. Outro exemplo é quando uma pessoa está sentada no banco de um parque. Nesse caso, o ideal é mostrar inicialmente um PGA do parque, pois assim, quando aparecer o banco, o espectador saberá onde ele está inserido. Planos narrativos: servem para narrar a história, pois os planos se aproxi- mam mais das personagens e da relação que estes estabelecem entre si e com os cenários. Portanto, há uma atenção dividida entre personagens e cenários. ■ Plano Inteiro (PI) — a câmera enquadra a personagem de corpo inteiro, da cabeça aos pés. Sobra um pequeno espaço acima e abaixo da personagem (Figura 8). Figura 8. PI de pessoa. Fonte: Ljupco Smokovski/Shutterstock.com. ■ Plano Americano (PA) — a personagem é mostrada do joelho até a cabeça. A origem deste tipo de plano está nos filmes de faroeste norte-americanos, tendo o objetivo de mostrar o coldre do revólver que fica na cintura do caubói (Figura 9). 11Linguagem e técnica do audiovisual Figura 9. PA de caubói. Fonte: Nomad_Soul/Shutterstock.com. Planos aproximados: servem para dar ênfase dramática, pois se aproxi- mam das personagens, enquadrando-as bem de perto. Podemos dizer que são os planos que possuem a maior carga dramática de todos utilizados. ■ Plano Médio (PM) — a câmera enquadra a personagem da cintura até a cabeça. É um plano muito usado para mostrar movimento das mãos em relação ao corpo das personagens. Também é bastante utilizado na apresentação dos telejornais (Figura 10). Figura 10. PM de apresentador. Linguagem e técnica do audiovisual12 ■ Plano Próximo (PP) — também chamado de Primeiro Plano, nele a personagem é enquadrada do busto até a cabeça, dando grande destaque à sua presença e servindo para mostrar suas características e atitudes. Este plano é o mais utilizado em telejornais, pois o apresentador fica próximo à câmera e, consequentemente, do espectador (Figura 11). Figura 11. PP de jornalista. Fonte: claudia veja images/Shutterstock.com. ■ Close (CL) — também chamado de Primeiríssimo Plano, mostra o rosto da personagem, do ombro para cima, e define sua carga dramática (Figura 12). Figura 12. Exemplo de CL. 13Linguagem e técnica do audiovisual ■ Superclose (SCL) — é um close fechado apenas no rosto da per- sonagem, enquadrando o queixo e o limite da cabeça (Figura 13). Figura 13. Exemplo de SCL. Fonte: shutterstock.com.br ■ Plano-Detalhe (PD) — é um plano que mostra alguma parte do corpo, como pormenores da boca, orelha ou mão, por exemplo. Também é utilizado para mostrar objetos (Figura 14). Figura 14. PD de mão. Fonte: Serhii Brovko/Shutterstock.com. Há outros tipos de planos que fazem parte da técnica e que não se enquadram na classificação aqui apresentada. São eles: Linguagem e técnica do audiovisual14 Plano-máster: capta uma cena por inteiro, a partir de um ponto fixo. Serve para diminuir riscos de erros de continuidade, pois é utilizado em conjunto com vários outros planos que mostram outras posições de câmera e enquadramentos. Portanto, o plano-máster é uma base sobre a qual vários outros planos são inseridos. Plano-sequência: mostra uma cena por inteiro, com a câmera se deslo- cando no espaço cênico, variando angulações, aproximando e afastando os enquadramentos, sem que haja corte. Atualmente, há filmes rodados inteiramente em plano-sequência. Arca Russa (2002), dirigido por Aleksandr Sokurov, foi o primeiro filme rodado inteira- mente em um único plano-sequência. Portanto, do início ao fim do filme não há corte algum ao longo de seus 96 minutos. O filme leva o espectador a um passeio através de 35 salas do Museu Hermitage, em São Petersburgo, recriando diversos momentos da história russa entre os séculos XVII e XX. Outras curiosidades da produção é que participam do filme 2.000 figurantes e 3 orquestras que tocam ao vivo (VILLAÇA, 2002). Por sua vez, as angulações são utilizadas para acentuar algo dentro do enquadramento. Portanto, todo plano, quando utilizado com algum tipo de angulação que seja diferente da normal (convencional), tem alguma oferta de sentido maior. Assim, há uma combinação de plano e ângulo para instigar o sentido que o espectador vai formar quando assistir a uma imagem. A seguir, estão relacionados alguns tipos de angulações que servem para situações específicas e são utilizadas como convenções estabelecidas nos audiovisuais. Câmera sobre o ombro (over shoulder — OS):posicionada atrás da personagem, mostrando seu ombro e, consequentemente, apresentando outra pessoa que fica à sua frente. Trata-se de um plano muito usado para relacionar duas personagens em situação de diálogo. É também chamado de campo e contracampo. Plongée: também chamada de câmera alta. Capta a imagem com a câmera posicionada de cima para baixo. É comumente utilizada para passar ideia de inferioridade àquilo que está sendo mostrado. 15Linguagem e técnica do audiovisual Contra-plongée: angulação também chamada de câmera baixa. Aqui a câmera capta a imagem de baixo para cima. Muito usada para valorizar aquilo que está sendo mostrado. Câmera subjetiva: é um tipo de angulação em que a câmera substitui os olhos das personagens. Assim, o espectador passa a ver aquilo que a personagem vê. Assim, o ponto de vista do espectador e da personagem são idênticos. A câmera na mão do operador assume um ponto de vista de um ator ou atriz em movimento. Há ainda os planos neutros, os quais são usados para mudar a direção da ação ou criar uma situação inesperada. Também podem ser utilizados para mudar o eixo de câmera. Eis alguns exemplos desses tipos de planos: Plano frontal: é um plano em que a pessoa que aparece está falando diretamente para a câmera ou o espectador. Plano muito utilizado no telejornalismo, em conjunto com o PM ou o PP. Cut in: trata-se de um CL dentro da ação filmada. Um exemplo é mostrar um CL nos pés de uma pessoa que caminha em direção à câmera, o que permite cortar para ela mesma caminhando em outra direção no plano seguinte. Cut away: é um plano ou CL de outra ação interligada a ela e usado pelosmesmos motivos de um cut in. Plano zenital: este plano é feito a 90° diretamente sobre a cabeça das personagens. Raccord no eixo: quando utilizamos um plano fechado complementando uma determinada ação no próprio eixo. A câmera está na mesma angulação e mostra a mesma ação com um corte que aproxima a imagem. Um exemplo disso seria um plano médio de uma pessoa abrindo uma porta, seguido de um CL no próprio eixo do plano anterior da pessoa abrindo a porta. Até aqui, caracterizamos elementos da linguagem a partir de uma obser- vação de imagens, na sua maior parte, fixas. Entretanto, o código audiovisual utiliza técnicas que fazem os planos serem realizados em movimento. Assim, veremos agora a nomenclatura dos planos em movimento. Travelling: é um tipo de movimento em que a câmera é colocada em uma plataforma chamada dolly (um carrinho), que se desloca sobre trilhos para frente, para trás ou em curvas. Os movimentos também podem ser conjugados com os movimentos da câmera sobre seu próprio eixo, para cima, para baixo, esquerda ou direita. Linguagem e técnica do audiovisual16 Steadycam: é um equipamento que fica acoplado ao corpo da câmera e a um cinto no cinegrafista. Ele permite fazer os mais variados movimentos com a câmera, apresentando estabilidade o tempo inteiro. Câmera na mão: este movimento é usado para mostrar instabilidade. Muito utilizado para acentuar cenas de ação e deslocamentos das per- sonagens. Em conjunto com a câmera subjetiva, ajuda a dar a impressão do espectador estar vendo com os olhos da personagem. Grua: é um equipamento parecido ao dolly. Entretanto, faz movimentos verticais e diagonais, pois a câmera é colocada em um braço mecânico que sobe e desce. Panorâmica: é um movimento horizontal da câmera sobre seu próprio eixo, seja da esquerda para a direita ou vice-versa. Tilt: é o mesmo tipo de movimento que a panorâmica. A diferença é que se trata de um movimento vertical, de baixo para cima e vice-versa. Zoom in e zoom out: são movimentos realizados pelas lentes dentro das objetivas das câmeras. Portanto, a câmera aproxima (zoom in) ou afasta (zoom out) a imagem sem se deslocar. A câmera fica no mesmo ponto e a lente se desloca, ao contrário do travelling, em que a câmera passeia por meio de um carrinho, mudando de local. Foco das lentes: mudar o foco das lentes de uma personagem para outra dentro de um mesmo enquadramento também pode simular um movimento de câmera. Os planos, as angulações e os movimentos de câmera em conjunto com outros códigos, como a iluminação, a cor, a montagem, a arte e o som, vão definir o estilo da produção audiovisual. As técnicas são utilizadas em prol da escolha de formatos e estilos, sejam no cinema, na televisão ou no vídeo. O estilo [...] é o uso de um padrão de técnicas ao longo do filme. Qualquer filme tende a se valer de opções técnicas específicas ao criar o seu estilo, e estas são escolhidas pelo cineasta, dentro das limitações das circunstâncias históricas. Também podemos ampliar o termo estilo para descrever o uso característico de técnicas de um cineasta individual ou de um grupo de cineastas. O espectador pode não perceber conscientemente o estilo do filme, mas este, não obstante, contribui para a sua experiência do filme (BORDWELL; THOMPSON, 2013, p. 476). Cada elemento que contribui para definir um determinado estilo está diretamente ligado ao tipo de público que vai assistir a produção resultante. Afinal, todo produto tem por finalidade chegar as pessoas, pois uma obra só se completa em seu espectador. 17Linguagem e técnica do audiovisual BORDWELL, D.; THOMPSON, K. A arte do cinema: uma introdução. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Edusp, 2013. BRAVO, A. R. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. São Paulo: Senac, 2006. CAVE OF ALTAMIRA. Wikiwand, 2008. Disponível em: https://www.wikiwand.com/en/ Cave_of_Altamira. Acesso em: 19 fev. 2020. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2008. v. 4. GOMBRIHCH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999. JAPIASSU, H. Nascimento e morte das ciências humanas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. MCLUHAN, M. Entrevista com Marshall McLuhan. 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Introdução A produção audiovisual tratada neste capítulo faz parte de amplos pro- cessos comunicacionais, os quais distribuem mensagens e dependem dos meios de comunicação de massa e dos digitais para circularem. É nesse território que se dá a produção jornalística e, também, onde os gêneros são criados e se desenvolvem. O trabalho jornalístico segue normas e padrões e se divide ao menos em dois estágios que são complementares: os gêneros e os formatos. Assim, é quase impossível tratar de um sem mencionar o outro. Neste capítulo, você conhecerá definições, distinções e classificações de gêneros jornalísticos e os diferentes padrões de veiculação de infor- mações na TV. 1 A ideia de gênero Para chegar aos gêneros no telejornalismo é preciso, antes de mais nada, abordar o que é gênero e, em seguida, passar pelo jornalismo. Isso porque pode-se considerar que os gêneros jornalísticos são derivados dos gêneros literários. O aparecimento de diferentes tipos de gêneros ocorreu no início da civi- lização. Para Marcuschi (2005), sua origem está ligada às atividades sociais, culturais e tecnológicas. Com a alfabetização se desenvolvendo, a comu- nicação oral começou a conviver com a escrita. A partir daí, ampliaram-se os gêneros textuais. Na Grécia Antiga, Platão propôs uma classificação binária sobre gêneros. Ele estabelecia uma divisão entre gênero sério, o qual incluía a tragédia, e gênero burlesco, que abrangia a comédia. O próprio Platão posteriormente desenvolveu uma nova classificação. Esta era dividida em três modalidades, baseadas nas relações entre literatura e realidade: gênero mimético ou dramá- tico (tragédia e comédia), gênero expositivo ou narrativo (ditirambo, nomos, poesia lírica) e gênero misto, que era composto pelas duas classificações anteriores (epopeia).Esse foi o fundamento da tripartida dos gêneros literários. Pode-se dizer que os gêneros, a partir da Grécia Antiga, e também com a contribuição de Aristóteles, refletiam a identidade do texto, sendo o meio de distinção entre formas diferentes. Portanto, era uma maneira de identificar a poesia, a prosa ou outros tipos de discursos. Mais recentemente, essa divisão da literatura foi também inserida no cinema e, por fim, no rádio e na televisão. Ao longo do século XX, o russo Mikhail Bakhtin reforçou o conceito, trazendo novas contribuições para o termo, passando a se tornar uma das maiores referências em relação aos gêneros do discurso. Segundo o autor, os gêneros são “[...] tipos relativamente estáveis de expressões linguísticas desen- volvidas em situações comunicacionais específicas que se refletem na forma, no conteúdo e na estrutura” (BAKHTIN, 1997, p. 60). O gênero vai orientar a utilização da linguagem em um determinado meio em que se manifestam as tendências mais expressivas e mais organizadas que são acumuladas ao longo do tempo. “Gêneros são articulações discursivas que organizam e definem a textualidade. Os gêneros são inconcebíveis fora do texto; sem os gêneros, o texto se esfarela” (MACHADO, 1999, p. 49). Portanto, os gêneros do discurso, tanto quanto o texto e a fala, possuem uma interdependência. Os gêneros possuem forma, conteúdo e linguagem próprias. Mesmo sendo eventos linguísticos, não se definem apenas por isso, pois estão ligados a esferas da sociedade e se apresentam como atividades sociodiscursivas. Também pode-se dizer que os gêneros são fenômenos histórico moldados culturalmente. Assim, nunca estão fechados, mostrando-se em constante atualização. “Quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares” (MARCUSCHI, 2005, p. 29). Dessa maneira, diferentes tipos de textos podem se adaptar a diferentes gêneros, dependendo da necessidade do momento em que se age e do propósito Gêneros jornalísticos na produção audiovisual2 comunicativo. São formas de organizar a comunicação e que podem expressar diversos significados. Eles devem ser sempre ser pensados em termos de forma e conteúdo. A forma precisa ser vista como funcional, como tendo uma finalidade, uma razão de ser ou produzindo certo efeito de sentido. E, em contrapartida, o conteúdo precisa ser visto como algo semiótico, já que as ideias somente são veiculadas e mesmo pensadas através de signos. Ou seja, as ideias não são coisas puramente psicológicas ou cognitivas: elas se materializam através de sons, de palavras e estruturas, razão pela qual as ideias dependem da forma (ALVES FILHO, 2011, p. 29). 2 O gênero jornalístico No campo do jornalismo, o gênero é um assunto tratado de diversas maneiras. Muitas vezes, confunde-se gênero com formato, dentre outras possibilidades. Alguns autores tratam de criar categorias a partir de critérios que também são, muitas vezes, difíceis de defi nir até onde vão. O campo da comunicação é constituído por conjuntos processuais, entre eles a comunicação massiva, organizada em modalidades significativas, inclusive a comunicação periodística (jornal/revista). Esta é estruturada, por sua vez, em categorias funcionais, como é o caso do jornalismo, cujas unidades de mensagem se agrupam em classes, mais conhecidas como gêneros, extensão que se divide em outras, denominadas formatos, os quais, em relação à pri- meira, são desdobrados em espécies, chamadas tipos (MELO, 2009, p. 35). Kindermann (2003, p. 36) define o gênero no jornalismo como o “[...] conjunto de parâmetros de textualização que, em função do hipergênero (o jornal), estrutura um propósito, linearizando uma unidade textual identificável como totalidade”. Já Melo e Assis (2015) compreendem o gênero jornalístico da seguinte maneira: “[...] classe de unidades da comunicação massiva periódica que agrupa diferentes formas e respectivas espécies de transmissão e recupe- ração oportuna de informações de atualidade, por meio de suportes mecânicos ou eletrônicos (aqui referidos como mídia), potencialmente habilitados para atingir audiências anônimas, vastas e dispersas (MELO; ASSIS, 2015, p. 30). Melo ainda sustenta que o gênero consiste em um conjunto das circuns- tâncias que determinam o relato que a instituição jornalística vai difundir para um público. Esse relato vai estar vinculado às especificidades regionais, embora também apresente tem transnacionais e interculturais. “É a articu- 3Gêneros jornalísticos na produção audiovisual lação que existe do ponto de vista processual entre os acontecimentos (real), sua expressão jornalística (relato) e a apreensão pela coletividade (leitura)” (MELO, 2009, p. 64). Nesse sentido, os gêneros jornalísticos fazem parte de algo maior, os chamados de gêneros midiáticos, que têm relação direta com os meios de comunicação. O jornalismo é uma atividade de transmissão de informações acerca de assuntos de interesse público. Essa é uma característica que distingue os gêneros jornalísticos da literatura, pois enquanto um trata de fatos reais, informando as pessoas sobre os acontecimentos, no outro há uma construção de ficção com base em personagens e acontecimentos semelhantes à realidade. Identificamos gênero jornalístico como um conjunto de parâmetros textuais selecionados em função de uma situação de interação e de expectativa dos agentes do fazer jornalístico, estruturado por um ou mais propósitos comuni- cativos que resulta em unidades textuais autônomas, relativamente estáveis, identificáveis no todo do processo social de transmissão de informação por meio de uma mídia/suporte (COSTA, 2015, p. 47). A partir da década de 1960, vários estudos começaram a classificar oficial- mente os gêneros jornalísticos. As primeiras classificações, desenvolvidas por Luiz Beltrão em Pernambuco (SEIXAS, 2009), estabeleceram três gêneros: informativo, opinativo e interpretativo. A proposta do jornalismo informativo é ficar limitada à narração dos fatos, passando a notícia de maneira objetiva. O jornalismo opinativo expressa a opinião do ponto de vista do autor e pode ser notado em artigos, crônicas e editoriais. Já o jornalismo interpretativo trata de aprofundar uma notícia por meio de uma investigação maior acerca do assunto. Tal classificação destacava, em muitos casos, apenas a principal caracte- rística de cada gênero. Isso, de certa forma, poderia ser tomado como uma deficiência, já que suas fronteiras não eram rígidas. Dessa maneira, nenhum gênero poderia ser considerado totalmente puro. Para José Marques de Melo (2009), estudioso da área que começou a se destacar nos anos 1980, os gêneros se modificariam conforme a cultura em que estariam inseridos. Assim, passou a identificar outros gêneros que surgiam no jornalismo impresso, não sendo mais suficiente o modelo que se colocava até então. Desde lá até os dias atuais, a classificação mais conhecida é aquela com cinco categorias de jornalismo: informativo, opinativo, interpretativo, utilitário (auxiliar o leitor em situações do cotidiano, como horários de transportes, bancos e pagamentos de impostos) e diversional (que tem o objetivo de ofertar entretenimento às pessoas). Essa mudança de perspectiva foi muito bem observada por Lia Seixas, ao comparar as duas classificações citadas anteriormente: “No Brasil, Luiz Gêneros jornalísticos na produção audiovisual4 Beltrão falava de função, enquanto José Marques de Melo classificou os textos produzidos pela indústria jornalística por intencionalidade dos relatos e natureza estrutural dos relatos” (SEIXAS, 2009, p. 63). O estudo dos gêneros é algo bem complexo, pois não devem ser avaliadas apenas as suas qualidades linguísticas ou textuais. O jornalismo não pode ser julgado somente pela sua mensagem, mas também por todas as técnicas que norteiam e fazem parte da atividade. Os gêneros vão se caracterizarpor seu agrupamento de formatos. Assim, é importante destacar que a função do formato está diretamente relacionada ao tipo de grupo de gênero do qual ele faz parte. O formato não age de ma- neira isolada. Pode-se dizer, dessa forma, que o formato é um modo em que determinado gênero cumpre a sua função. Manuel Chaparro (2008) é outro autor reconhecido em estudos relacionados aos gêneros jornalísticos. Ele apresenta uma classificação diferente das anteriores, dividida em relato e comentário. Tal distinção leva em consideração a noção de formatos híbridos, rompendo a barreira entre opinião e informação. Informações sobre seu livro Sotaques d’aquém e d’além mar: travessias para uma nova teoria de gêneros jornalísticos podem ser encontradas na seção Leituras Recomendadas, ao final deste capítulo. Muitas classificações, de certa forma, parecem limitar a compreensão daquilo que se pensa sobre os gêneros jornalísticos. Costa (2015) cita que isso acontece devido à fragmentação da atividade jornalística, por trabalhar com uma diversidade de mídias existentes, o que se intensificou após o advento da internet. Entretanto, o autor observa que as classificações de gêneros funcionam como instrumentos pedagógicos no ensino do jornalismo e na compreensão do tema. Martin-Barbero (1997) observa que os gêneros servem de mediação entre as lógicas do sistema produtivo e as lógicas dos usos. Assim, com suas regras, institui os diferentes formatos televisuais. Segundo essa perspectiva, os gêneros funcionam como estratégias de comunicabilidade, sendo categorias discursivas e culturais que se manifestam sob a forma de subgêneros e formatos. Cada gênero e seus respectivos formatos televisuais preveem o reconhecimento de algumas regularidades que funcionam como promessas que despertam os interesses dos espectadores. 5Gêneros jornalísticos na produção audiovisual 3 O jornalismo e os gêneros televisivos e audiovisuais Ao falarmos em gênero televisivo ou audiovisual, é importante destacar que existe uma relação entre o campo da produção e da recepção, pois há sempre uma expectativa criada pela audiência diante de um produto midiático. Nesse sentido, vale observarmos que é por meio do gênero que o público tem a possibilidade de escolher a sua programação, ou seja, de assistir aquilo que tem vontade: um fi lme, uma telenovela, um telejornal, uma série, etc. Os gêneros são formas reconhecidas socialmente a partir das quais se classifica um produto midiático. Em geral, os programas individualmente pertencem a um gênero particular, como a ficção seriada ou o programa jornalístico, na TV, e é a partir desse gênero que ele é socialmente reconhecido. No caso da recepção televisiva, por exemplo, os gêneros permitem relacionar as formas te- levisivas com a elaboração cultural e discursiva do sentido (GOMES, 2011, 19). Além disso, Gomes (2011) destaca os programas jornalísticos como uma variação específica na programação da televisão. Para a autora, eles formam um gênero chamado de programa jornalístico televisivo. Suas regras vêm do campo jornalístico, assim como da TV, e seus subgêneros seriam os telejornais, documentários televisivos e programas de entrevistas, por exemplo. Por gênero televisivo, compreende-se uma macroarticulação de categorias semânticas capazes de abrigar um conjunto amplo de produtos televisuais que partilham umas poucas categorias comuns. Os gêneros seriam modelizações virtuais, modelos de expectativa, constituindo-se em uma primeira mediação entre produção e recepção; referem-se ao tipo de realidade que um produto televisual constrói, considerando o tipo real que tome como referência o regime de crença que propõe ao telespectador (DUARTE, 2007, p. 5). Naquilo que Duarte propõe, é possível percebermos que o gênero na televi- são não passa de uma virtualidade, e que é atualizado a partir de uma articu- lação entre subgêneros e formatos. Estes obedecem a uma série de normas de estruturação que envolvem combinações de variados níveis. Portanto, o gênero é percebido a partir da realização, pois é assim que temos acesso ao gênero. Voltando à classificação de gêneros jornalísticos proposta por Melo, que é a mais difundida no Brasil, vejamos no Quadro 1 como ocorre a distribuição dos formatos. Gêneros jornalísticos na produção audiovisual6 Fonte: Adaptado de Melo (2015). Gênero informativo Gênero opinativo Gênero interpretativo Gênero diversional Gênero utilitário Nota Editorial Análise História de interesse humano Indicador Notícia Comentário Perfil História colorida Cotação Reportagem Artigo Enquete Roteiro Entrevista Resenha Cronologia Serviço Coluna Dossiê Caricatura Carta Crônica Quadro 1. Gêneros jornalísticos no Brasil Cada item possui suas próprias características, que os tornam únicos, definindo os formatos e estabelecendo distinções entre si. Entretanto, ao nos aprofundarmos na mídia televisiva, percebemos que nela há particularidades que são dos meios audiovisuais e, por isso, existe uma classificação um pouco diferente dos gêneros. Souza (2004) sustenta que existem três categorias na programação televisiva: informação/telejornalismo, educação e entretenimento. Para Rezende (2009), há várias subcategorias no telejornalismo, conforme veremos a seguir. Entrevista Na televisão, a entrevista transmite a intimidade do entrevistado, além da mensagem verbal. Isso é feito de várias formas, como expressões corporais, faciais, entonação do texto, fi gurino e maquiagem. A ideia é que se consiga tirar mais do entrevistado, além daquilo que ele fala. A entrevista serve para midiatizar uma informação. Há vários tipos de entrevistas: em estúdio, na rua ou enquete, gravadas ou ao vivo. Quanto ao número de entrevistados, há programas com apenas um entrevistador (ao estilo Roberto D’ávila) ou com vários entrevistadores (Roda Viva). Existem 7Gêneros jornalísticos na produção audiovisual entrevistas factuais para comprovar a veracidade de um fato e aquelas empá- ticas, que revelam aspectos de personalidade do entrevistado. Outro aspecto é a interação entre entrevistador e entrevistado. Quando os dois permanecem em pé, a tendência é que a entrevista seja rápida; quando sentados, ela tende a se alongar. Reportagem É a principal fonte de matérias do telejornalismo. A proposta é oferecer um serviço ao telespectador, pois a reportagem articula os fatos antecedentes e as consequências do acontecimento. A força da reportagem na televisão é poder articular os códigos linguístico, sonoro e principalmente a imagem em movimento. Ela envolve o telespectador, colocando-o no clima do aconteci- mento. A reportagem pode ser gravada ou ao vivo. Quando é realizada ao vivo, a televisão passa a valer-se de uma de suas principais características, a instantaneidade. Transmissões de jogos de futebol, basquete, voleibol, entre outros, são exem- plos de reportagem. Nesse caso, a reportagem abriga formatos informativos (entrevistas com atletas) e opinativos (comentários sobre esquemas táticos). Programa de debate Diferentemente da entrevista, em que pode haver apenas um entrevistador e um entrevistado, aqui há várias pessoas participando. O número de pessoas é o que cria o debate. Os assuntos podem variar, assim como o número de parti- cipantes. Normalmente há um apresentador para conduzir o debate. O formato mais frequente é o de mesa-redonda, muito utilizado em programas de debate esportivo ou político. O debate serve muito para assuntos colocados em pauta que gerem controvérsias. Assim, estimula-se um debate de ideias. Documentário Com origem no cinema, o documentário se propõe a apresentar o máximo de informação sobre um determinado assunto, utilizando vários formatos, como debate, entrevista, videoclipe, etc. De acordo com Jespers (1998), os documen- tários são realizados de diversas maneiras, como a grande reportagem, que mostra um série de informações sobre um acontecimento da realidade. Exemplo disso é o Globo Repórter,da Rede Globo. Outra forma de documentário, menos comum, é o inquérito. Trata-se de uma reportagem investigativa ou Gêneros jornalísticos na produção audiovisual8 explicativa. Há ainda o documentário de criação, mais usual no cinema, pois mostra subjetividade, falando em primeira pessoa. As modalidades anteriores procuram não mostrar subjetividade. Plantão Trata-se da abertura de um espaço dentro da programação normal de uma emissora para mostrar um fato de grande interesse e repercussão que esteja ocorrendo ou que acaba de acontecer. Como o plantão tem caráter excepcional, é sinalizado por vinhetas para chamar atenção do espectador. Os formatos mais comuns dos plantões são: nota, notícia, entrevista, comentário e boletim. Emissões de jornalismo especializado São produções direcionadas a públicos segmentados (agropecuaristas, investi- dores, desportistas, cientistas, educadores e alunos) ou mais gerais (programas policiais). Aqui há vários formatos, como nota, notícia, reportagem, comentário, crônica, resenhas culturais. Programas como Globo Rural e Pequenas Ideias Grandes Negócios são exemplos dessa subcategoria. Espetáculos midiáticos Envolvem eventos que interrompem a rotina, como manifestações artísticas, casamentos e sepultamentos de celebridades, ou competições como Olimpíadas e Copa do Mundo de futebol. Telejornal Esta é a subcategoria por excelência da categoria telejornalismo. São noti- ciários com apresentadores em estúdio que chamam matérias e reportagens sobre os fatos mais recentes. O telejornal é transmitido ao vivo, o que lhe dá o tom de atualidade. No telejornal, podemos observar variados gêneros e formatos. Mesmo que não existam limites rigorosos entre eles, é possível perceber para que lado pende mais uma informação jornalística, seja de cunho informativo, opinativo, interpretativo, diversional ou utilitário. O gênero utilitário aparece com frequência nos telejornais, em indicadores econômicos e informações sobre horários de serviços públicos, por exemplo. Já os interpretativos e diversionais comparecem mais em programas documentais, 9Gêneros jornalísticos na produção audiovisual como o Globo Repórter, e em revistas eletrônicas, como o Fantástico. Os gêneros informativo e opinativo são aqueles mais utilizados em telejornais, por serem factuais. A seguir, veremos seus detalhes. Formatos do jornalismo informativo Nota A nota é uma pequena notícia que visa comunicar uma breve informação. É um relato objetivo e sintético acerca de um fato acontecido ou por acontecer. A nota pode assumir duas formas: nota simples ou ao vivo e nota coberta. A nota simples ou ao vivo é a forma mais simples de apresentar uma notícia na televisão. Também é chamada de “nota pelada”, pois é uma notícia lida pelo apresentador sem imagens, sendo formada apenas por texto. Por sua vez, a nota coberta é formada por duas partes que vão se com- plementar, ou seja, texto e imagem. Ela se assemelha à nota simples, por ser um relato objetivo sobre um acontecimento. Normalmente se inicia com uma cabeça, lida pelo apresentador aparecendo em quadro, e prossegue com um off, quando o apresentador segue narrando o fato enquanto aparecem imagens sobre o ocorrido. Há ainda outro tipo de nota, chamada de nota-pé, que se caracteriza por ser um breve fecho para compor o texto final de uma matéria, comple- mentando-a com alguma informação que não foi veiculada ou que chegou de última hora. Notícia É o relato de fatos ou acontecimentos atuais e mais completo que a nota, combinando apresentação ao vivo e uma narração em off coberta por imagens. Neste formato, o repórter não aparece e sua participação leva em torno de 45 segundos de duração. É um pouco maior que a nota, mas bem menor que a reportagem. Entrevista Caracteriza-se por possuir um diálogo entre entrevistador e entrevistado. É realizada por meio de perguntas e respostas para extrair informações, ideias e opiniões a respeito de fatos, assuntos de utilidade pública ou sobre a vida Gêneros jornalísticos na produção audiovisual10 do entrevistado. Geralmente acontece ao vivo, mas também pode ser gravada e editada posteriormente. Reportagem Trata-se da forma mais completa. e também complexa, da notícia na televi- são. Numa reportagem, vemos a presença de texto, imagens, apresentador, repórter e entrevistados. É o formato do jornalismo informativo que oferta um grande relato sobre determinado acontecimento, mostrando causas e repercussões. Numa estrutura completa, a reportagem possui cinco partes: cabeça, off, boletim, sonoras e nota-pé. Cabeça — texto lido pelo apresentador para “chamar” ou introduzir a reportagem antes dela iniciar. Off — texto gravado pelo repórter, sem aparecer. Boletim — gravação em que aparece na tela apenas o repórter passando infor- mações de forma resumida. Sonora — uma entrevista ou um trecho de entrevista. Nota-pé — informações complementares lidas pelo apresentador ao final de uma reportagem. Indicador Baseia-se em informações objetivas, com a intenção de passar um serviço de utilidade ao espectador, como previsão do tempo, dados do mercado fi nanceiro, informações sobre condições de trânsito, etc. Formatos do jornalismo opinativo Editorial Geralmente é um texto lido pelo apresentador e que exprime a opinião da emissora sobre algum assunto. Também pode representar a opinião dos edi- tores do telejornal. 11Gêneros jornalísticos na produção audiovisual Comentário Trata-se de uma matéria jornalística na qual um jornalista especializado em algum assunto (como economia, política, esporte, cinema, etc.) faz uma análise de um fato do cotidiano. A credibilidade do jornalista pesa bastante no comentário. Crônica É um formato que está no limite entre a produção literária e jornalística. É do gênero opinativo e vai muito além de uma simples avaliação jornalística da realidade. Trata-se de uma visão livre e pessoal, resultando em um olhar lírico ou irônico sobre um assunto. Usa recursos como texto, imagem e música para se expressar. Vale ressaltar que é possível identificar outras nomenclaturas para designar, muitas vezes, os mesmos elementos. Eles nos mostram uma ligação mais pró- xima da prática do telejornalismo. Assim, é comum nas rotinas de produção dos telejornais haver outros termos, diferentes das classificações utilizadas até aqui com base nos conceitos de Rezende (2009). Ao final deste capítulo, é importante destacar que a cultura da convergência veio para alterar de alguma maneira as formas de produzir jornalismo. Isso vai ocorrer também nos meios audiovisuais. Com a mudança do cenário, as notícias do rádio, jornal ou televisão não atendem mais às exigências de um público que recebe alta dose de informações pela internet por meio de diversos canais de comunicação. A convergência não depende de qualquer mecanismo de distribuição especí- fico. Em vez disso, a convergência representa uma mudança de paradigma — um deslocamento de conteúdo de mídia específico em direção a um conteúdo que flui por vários canais, em direção a uma elevada interdependência de sistemas de comunicação, em direção a múltiplos modos de acesso a conte- údo de mídia e em direção a relações cada vez mais complexas entre a mídia corporativa, de cima para baixo, e a cultura participativa, de baixo para cima (JENKINS, 2006, p. 325). A linguagem audiovisual também vai mudando com o público, que tem cada vez mais informação à disposição. O Profissão Repórter, da Globo, é um exemplo de adequação aos novos tempos, pois vem procurando trazer novos formatos de se fazer jornalismo. O programa foge do padrão off, passagem e sonora instituído pelo telejornalismo e passa a criar uma nova relação entre palavra e imagem. Gêneros jornalísticos na produção audiovisual12 Outro ponto que pode mudar um pouco as ideias dos formatos é a utilização do YouTube para informar as pessoas. Na maior parte das vezes, as emissoras usam esse meio apenas para copiara televisão e postar na internet. Entretanto, a nova mídia tem possibilidades distintas da TV e oferta diferentes formas de se trabalhar audiovisualmente as informações. O canal do YouTube chamado Nostalgia é um exemplo de mudança de formato. Embora não seja jornalista, seu produtor, Felipe Castanhari, pode nos dar exemplos de abordagem jornalística na internet. Ele produz vídeos pautados pela televisão, a partir de notícias veiculadas naquele meio, para serem veiculados especificamente no YouTube. Uma das propostas do canal é entender o que é pautado pelo jornalismo em uma produção mais longa, mais livre e com aprofundamento no assunto, pois normalmente seus vídeos têm 10 minutos, enquanto nos telejornais as reportagens ficam em torno de 3 minutos. Portanto, o ambiente proporciona um tipo de produto audiovisual que é diferente da televisão. Assim, podemos perceber que muitos são os desafios impostos ao audio- visual com a convergência de meios, fazendo com que gêneros, subgêneros e formatos estejam em constante mutação. Hoje o jornalismo audiovisual encontra sua tradição na televisão, mas a partir dela e da internet novas pers- pectivas se abrem para desenvolver produtos que vão caminhar por lugares ainda não desvendados. ALVES FILHO, F. Gêneros jornalísticos: notícias e cartas de leitor no ensino fundamental. São Paulo: Cortez, 2011. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Fontes, 1997. COSTA, L. A. Gêneros jornalísticos. In: MELO, J. M.; ASSIS, F. (Org.). Gêneros jornalísticos no Brasil. 2. ed. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2015. p. 43–84. DUARTE, E. B. Televisão: entre gêneros, formatos e tons. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30., 2007. Anais [...]. 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Por sua vez, a televisão faz algo similar, ainda que com linguagem às vezes bem diferente, em suas telas menores. Ambos veículos são alimentados e retroalimentam a sociedade em que se inserem. Neste capítulo, você conhecerá a origem da arte cinematográfica e o desenvolvimento histórico do cinema. Além disso, examinará as semelhanças e diferenças entre o cinema e a televisão. 1 Origem da arte cinematográfica De acordo com Stam (2003), já no século XV Leonardo da Vinci realizou experiências com a projeção da luz em superfícies, utilizando-se de uma câmara escura, que havia sido inventada pelo físico napolitano Giambattista Della Porta. A câmara escura é uma caixa fechada com um pequeno orifício coberto por uma lente. Através dela penetram e se cruzam os raios refl etidos pelos objetos exteriores. A imagem, invertida, projeta-se na face do fundo, no interior da caixa. Fernando Mascarello, em História do cinema mundial (2006), conta que no século XVI já havia os chamados teatros de luz, em que os chineses projetavam sobre a parede um jogo de sombras de diferentes figuras recortadas e mani- puladas, próprio do seu teatro de marionetes. No século XVII, foi inventado o primórdio dos projetores, a lanterna mágica, que tinha como objetivo projetar imagens em um fundo branco, O processo da lanterna mágica foi baseado na alegoria da caverna de Platão, segundo a qual imagens eram projetadas através da sua entrada numa parede ao fundo, em que era possível observar vultos dos objetos reais externos. A partir do século XIX, esses experimentos com imagens paradas passa- ram a suscitar nos pesquisadores a vontade de vê-las em movimento. Muitos aparelhos capazes de estudar o fenômeno da persistência retiniana foram desenvolvidos. Joseph Antoine Plateau foi o primeiro a medir a fração de segundos que uma imagem se mantém na retina, concluindo que uma ilusão de movimento exige uma série de imagens fixas, sucedendo-se a um ritmo de dez imagens por segundo. Em 1832, Plateau criou o fenacistoscópio, que apresentava em um disco várias figuras de uma mesma pessoa em posições diferentes, de forma que, ao girá-lo, elas passavam a ideia de movimento (NEVES, 2012). Foi em 1878 que o fisiologista francês Étienne-Jules Marey desenvolveu o fuzil fotográfico. Buscando analisar o movimento de animais, ele registrou o fenômeno em várias fotos em sequência, o que deu origem ao primeiro registro de imagem em movimento e contribuiu para a criação do primeiro cinematógrafo, um tambor forrado por dentro com uma chapa fotográfica circular (STAM, 2003). Mais tarde, Thomas Edison (conhecido por ter inventado a luz elétrica), desenvolveu, com a ajuda de William Kennedy Dickson, engenheiro chefe da Edison Laboratories, o filme perfurado em celulose e um aparelho para a visão individual de filmes, chamado cinetoscópio. Nele, um filme perfurado era projetado em uma tela no interior da máquina, na qual cabia uma única pessoa por apresentação. A projeção precisava ser vista por uma lente de aumento. Em 1890, Edison rodou uma série de filmes curtos em seu estúdio, que foi o primeiro da história do cinema, apelidado de Black Maria. Pouco tempo depois, viriam os irmãos Lumière, mas eles não foram os primeiros a fazer uma exibição de filmes pública e paga. Em 1º de novembro de 1895, dois me- ses antes da famosa apresentação do cinematógrafoLumière no Grand Café, em Paris, os irmãos Max e Emil Skladanowsky fizeram uma exibição de 15 minutos no teatro Wintergarten, em Berlim, utilizando o chamado bioscópio, seu sistema de projeção de filmes, (MASCARELLO, 2006). O cinematógrafo foi criado foi a partir do aperfeiçoamento do cinetos- cópio. Ao mesmo tempo filmador, copiador e projetor, o cinematógrafo foi Televisão e cinema: semelhanças e diferenças2 considerado o primeiro aparelho realmente qualificado de cinema. No dia 28 de dezembro de 1895, foi organizada a primeira sessão de cinema em Paris, proporcionada pelos franceses Auguste e Louis Lumière. Os cineastas realizaram um documentário curta-metragem intitulado La sortie de l’usine Lumière à Lyon (A saída dos empregados da fábrica Lumière em Lyon), com 45 segundos de duração. Na sequência da evolução cinematográfica vieram os intertítulos, pequenas frases que indicavam o tempo para sanar a dificuldade do público de entender as passagens temporais das cenas. Em 1907, Nova York já concentrava grande produção cinematográfica, época em que Edwin S. Porter se firmara como diretor de The great train, considerado modelo dos filmes de ação. Seu se- guidor foi David Wark Griffith, que começou como ator num filme de Porter. Nesse período, também surgiram os efeitos de montagem, tendo Griffith como protagonista. Ele usava a montagem para fazer suspense e mostrar a motivação e o perfil psicológico dos personagens, bem como para criar emoção. Segundo Costa (2006), mesmo que Griffith não tenha inventado a montagem alternada, ele transformou essa técnica em um método narrativo providencial para criar cenas de suspense. Essa técnica tem como objetivo aumentar a frequência de alternâncias entre duas ou até três situações diferentes, o que permite encurtar a duração dos planos. The birth of a nation (O nascimento de uma nação, 1915), de D.W. Griffith, foi considerado o primeiro filme comercial, com 190 minutos de duração (COSTA, 2006). 2 História do cinema De acordo com grande parte dos estudiosos do cinema, seus primórdios podem ser divididos em duas fases: o cinema de atrações (de 1895 a 1907) e o período de transição (de 1907 a 1915), quando o cinema que mostrava fatos cotidianos passou a ter a perspectiva de contar histórias. Segundo Fernando Mascarello (2006) a transição marca a evolução do cinema para a arte. Assim, as histórias passam a ter construções narrativas com enredos, roteiro, personagens, o que não existia nas primeiras experiências. Além disso, as narrativas fi cam mais longas. Com todas essas modificações, o cinema começou a ser visto como uma indústria no ramo da cultura. No início da década de 1910, o cinema passou a ter um forte apelo comercial. Em seguida, com a Primeira Guerra Mundial, a produção cinematográfica se transferiu em grande parte para os Estados Unidos e Hollywood se transformou no berço de grandes estúdios como conhecemos até hoje. 3Televisão e cinema: semelhanças e diferenças Durante a Primeira Guerra Mundial, a produção europeia, por falta de matéria-prima e de energia, quase parou, mas os europeus buscavam o cinema como modo de entretenimento. Assim, os norte-americanos conseguiram entrar no mercado europeu. Segundo Stam (2003), por volta de 1920 a maioria dos estúdios norte-americanos (Metro-Goldwyn-Mayer, Columbia, Warner e Universal) já estavam instalados e a preocupação passava a ser os grandes lucros. Os chefes dos estúdios visavam os negócios e não os artistas, gerando uma crise de criatividade. Com isso, a Europa voltou a fazer a maioria das ações de inovações ocorridas nessa década. Em meados da década de 1920, foi criado um sistema que coordenava o áudio contido em um disco com as imagens geradas por um projetor. Em 1927, a Warner lançou o filme The jazz singer (O cantor de jazz), com Al Jolson. Originalmente, o produto final não seria falado, contendo apenas efeitos sonoros e músicas. No entanto, durante o processo de sonorização, Jolson pegou o microfone e proferiu o que falava em seus shows: “Esperem um pouco, esperem um pouco. Vocês ainda não ouviram nada”. A partir daí, a Warner passou a substituir quatro quadros legendados por diálogos falados e as canções. Era o fim do cinema mudo. Outra grande transformação que o cinema sofreu foi ao final da Segunda Guerra Mundial, quando o cinema internacional entrou em uma transição, cujas principais características foram o repúdio às formas tradicionais de produção e um inédito compromisso ético dos artistas. As produções passaram a ter uma atitude mais crítica em relação aos problemas humanos. Tal cinema rompeu com ditadura dos estúdios e transmitiu a realidade das ruas, das pessoas e das realidades (SILVA, 2014). Atualmente o cinema é um mercado promissor para diferentes áreas do saber. Não são apenas os atores que brilham em premiações como o Oscar ou Cannes. As produções apresentadas a um público cada vez mais exigente, tanto em âmbito local quanto internacional, são frutos do trabalho de um grande número de profissionais, com destaque para: Roteirista — escreve a história, as narrativas e os diálogos dos personagens. Diretor — tem a função de coordenar, direta e indiretamente, o trabalho de todas as pessoas envolvidas com o filme, da concepção à finalização. Diretor de fotografia — profissional de artes visuais com sensibilidade e competência para decidir como iluminar uma cena, que lentes serão melhores para determinados ângulos, o tipo de filme a ser rodado, entre outras atribuições. Televisão e cinema: semelhanças e diferenças4 Compositor musical — responsável pela trilha sonora do filme. Produtor — pessoa ou grupo de pessoas que se encarrega de viabilizar a realização do filme. Técnico de efeitos especiais — responsável por aplicar efeitos visuais e sonoros às cenas já filmadas, inclusive utilizando inserção de efeitos posteriores por computador. Técnico de som — pessoa encarregada dos diferentes microfones durante as gravações, cuidando para que só haja a captação do que se julgue essencial. Operador de câmera — responsável por focar os ângulos solicitados pelo diretor. Editores — trabalham numa ilha de edição, juntos com o diretor ou com um mapa onde se encontram organizados as cenas, os sons, a trilha sonora, etc. Figurinistas — responsáveis pelo cast da produção. Maquiadores — profissionais de apoio ligados ao cast da produção. Em geral, esses são os fundamentos de qualquer produção audiovisual: objetivos — o que se pretende com a produção; público — para quem se comunica; conteúdo — o produto em si; recursos — com o que comunicar; formato — como comunicar (ambiente); resposta — para toda ação uma reação (o que se espera do público). O advento da televisão A tecnologia televisiva se tornou possível com a descoberta do selênio, em 1817, pelo barão Jöns Jacob Berzelius, médico, químico e professor sueco. Ele des- creveu sua descoberta como um elemento sem utilidade prática, identifi cando-o como selenium por se assemelhar à luminosidade lunar (selene signifi ca lua em grego antigo). O elemento químico selênio está na base do processo de transmissão de imagens por permitir, como se descobriu, transformar energia luminosa em energia elétrica. Esse foi o caminho para se chegar à transmissão de imagens por corrente elétrica, a chave para a origem da televisão. 5Televisão e cinema: semelhanças e diferenças Anos mais tarde, em 1884, o alemão Paul Nipkow, técnico e inventor, ficou mundialmente conhecido por ter inventado o disco de Nipkow, uma espécie de disco de escaneamento. Por meio de impulsos elétricos em uma célula de selênio, Nipkow propagou uma imagem em movimento, criando o primeiro sistema de televisão eletromecânica. Segundo Mattos (2002, p 164): “[...] prosseguindo nas pesquisas, em 1897 outro alemão, K. F. Braun, desenvolveu o tubo de vidro a vácuo, invento que viabilizou a televisão eletrônica. Já neste século, em 1906,a válvula de três polos foi patenteada pelo norte-americano Lee de Forest”. A palavra televisão foi criada em 1900 pelo francês Constantin Perskyi. O vocábulo vem da junção das palavras tele (longe, em grego) e videre (ver, em latim). No IV Congresso Internacional de Eletricidade, organizado durante a Exposição Universal de Paris, em 1900, Perskyi apresentou um projeto cujo título era “Televisão por meio da eletricidade”. A tese descrevia um equipamento baseado nas propriedades dos fotocondutores de selênio, que transmitiam imagens à distância (CASTRO, 2000). Conforme Mattos (2002), foi em 1913 que cientistas alemães conseguiram substituir o selênio da célula fotoelétrica por outro elemento, derivado do potás- sio, dando maior sensibilidade à célula e facilitando o aumento da velocidade de transmissão das linhas. Apesar do avanço dos Estados Unidos na tecnologia televisiva, registros indicam que John Logie Baird foi o responsável pelas primeiras demonstrações de imagens de rostos humanos com tonalidades de luz e sombra, em Londres, 1926. Em 1936, a BBC de Londres já mantinha no ar duas horas diárias de programação regular de televisão. As transmissões foram interrompidas em fins de 1939, devido à Segunda Guerra Mundial. Com o término da guerra, em 1945, a televisão recomeçou a ganhar espaço, mesmo em países da Europa, que encaravam um difícil processo de recons- trução. A França voltou a transmitir sinal de televisão com um equipamento instalado na Torre Eiffel, e a BBC-TV, depois de sete anos fora do ar, retomou sua transmissão externa em junho de 1946, exibindo o desfile do primeiro aniversário da vitória na guerra. Nos Estados Unidos, uma nova rede de televisão norte-americana, a American Broadcasting Company (ABC), dava seus primeiros passos. Televisão e cinema: semelhanças e diferenças6 Ao contrário das redes privadas que iam surgindo do outro lado do Atlântico, naquele mesmo período os países europeus apresentavam um comportamento diferente, não alterando sua forma de ver e fazer televisão. Eles entendiam que o veículo televisão, por sua importância e influência política, devia ser estatal, sustentado por impostos pagos pelos proprietários dos receptores. Enquanto isso, nos Estados Unidos, mantinha-se a iniciativa privada e a comercialização das transmissões pela inserção de patrocinadores de programas, como desde seu início. O desenvolvimento da televisão no Brasil A primeira emissora do Brasil foi a TV Tupi, Canal 3 (depois Canal 4), inau- gurada no dia 18 de setembro de 1950, na cidade de São Paulo, numa iniciativa de Assis Chateaubriand, dono do grupo de comunicação Diários e Emissoras Associados, proprietário de diversos jornais, de emissoras de rádio e da hoje lendária revista O Cruzeiro, editada semanalmente de 1928 a 1975. De acordo com Bergesch (2010), o projeto começou em 1944, quando, em visita aos Estados Unidos, Chateaubriand, em Nova York, recebeu honras de Chefe de Estado, sendo recebido pelo então prefeito Fiorello La Guardia. Chateaubriand deu entrevista coletiva para jornais norte-americanos, corres- pondentes estrangeiros e agências noticiosas na redação do mais importante jornal local, The New York Times, onde foi recebido pelo presidente da RCA, David Sarnoff, para negociar a compra de novos transmissores de ondas médias para suas emissoras de rádio em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador. Segundo Bergesch (2010), após uma reunião em que foram acertadas as negociações, Sarnoff levou Assis Chateaubriand para uma grande sala de reuniões, com espetacular vista para a cidade de Nova York e a vizinha Nova Jersey. Ali, nas janelas, estavam montadas câmeras de TV e monitores, mostrando nitidamente, em cores naturais, o que se via a olho nu. Assim, Chateaubriand comprou os primeiros equipamentos para a instalação de duas emissoras de televisão. “Chateaubriand optara pelos americanos, pela longa relação comercial anterior, [...] pela robustez do equipamento e, ainda, pelos custos praticados para um grande cliente” (BERGESCH, 2010 p. 54). Assim, a televisão no Brasil começava por decisão de um empresário da iniciativa privada, e não por uma vontade de governo. Por essa razão, tal tecnologia definitivamente atrelou-se no país não apenas ao padrão técnico, mas também à forma norte-americana de fazer TV: iniciativa privada, es- sencialmente comercial, ao contrário da europeia, na época somente com emissoras estatais, sem veiculação de comerciais. 7Televisão e cinema: semelhanças e diferenças 3 Semelhanças e diferenças entre cinema e televisão Tanto o cinema quanto a televisão veiculam linguagens que estão na categoria audiovisual. Desde o início deste século, comenta-se muito sobre o crescimento da qualidade das obras fi ccionais televisivas em comparação com o cinema. Isso não necessariamente quer dizer que a qualidade da obra televisiva tenha melhorado muito, uma vez que o cinema, com certas exceções, vai mal em termos de qualidade produzida pelos grandes estúdios. Assim, o espectador não vê nada de novo nos fi lmes de cinema e volta-se para as produções televisivas, que lhe oferecem conteúdos semelhantes. Ao se assistir um episódio de Game of Thrones, pode-se afi rmar que nos quesitos visuais e de acabamento geral em nada tal produção fi ca a dever a grandes obras cinematográfi cas recentes. Porém, a grande diferença não está na linguagem em que se constrói a narrativa no cinema ou na televisão, e sim na maneira como uma e outra são apreendidas. A diferença não é como se faz, e sim como se vê. Para começar, analisemos um detalhe que nos passa despercebido, mas que é primordial: a luz. Não a que vem da tela, e sim a que circunda quem assiste à obra. Quando assistimos televisão, é comum ficarmos com a luz acesa, e por isso temos todo um mundo chamando atenção ao nosso redor. Isso significa que o espectador de televisão não consegue imergir por completo na obra que assiste. No cinema, por sua vez, a luz totalmente apagada em um local dedicado exclusivamente à apresentação do filme propicia a imersão do espectador na obra. Na sala de cinema, o mundo que rodeia o espectador deixa de existir. Como consequência, temos um novo fator de diferença entre o cinema e a televisão. Uma obra televisiva tem a necessidade de conquistar o espectador logo em suas primeiras cenas, porque o desinteresse pode gerar a troca de canal e a perda da audiência. Já o cinema tem a oportunidade de ir conquistando o espectador, levando-o a entrar pouco a pouco no mundo criado pelo autor. Outro ponto de diferença entre as mídias cinema e televisão advém de suas exigências distintas de roteiro e narrativa. Como as produções para televisão têm de “segurar” o telespectador desde os primeiros minutos, a narrativa visa inteirá-lo de todos os detalhes da trama que se desenrola, valendo-se principalmente de diálogos. Por essa característica, vale ressaltar que o te- lespectador nem precisa fitar a tela da TV constantemente para, bem ou mal, seguir acompanhando o que se passa na transmissão. Essa diferença de narrativa adveio do tamanho reduzido dos primeiros televisores, que não proporcionavam boas experiências imagéticas ao espec- tador e tinham que compensar essa limitação por meio do som. Além disso, Televisão e cinema: semelhanças e diferenças8 essa escolha narrativa se deu pelo fato da televisão ser a sucessora do rádio e já haver em seus primórdios uma cultura ouvinte por parte do público. Mas não são apenas esses aspectos que distinguem cinema e televisão. Os argumentos que distanciam esses dois canais midiáticos acusam a televisão de ser uma indústria de entretenimento de massa, com produções ficcionais fortemente subordinadas a necessidades comerciais, sem os elementos estéticos e narrativos relacionados à sétima arte. Miriam de Souza Rossini, já no início do seu artigo “Traduções audiovisuais: múltiplos contatos entre o cinema e a tevê”, declara sua posição: “[...] há entre ocinema e a TV nuances que marcam seus respectivos desenvolvimentos e que se tornam impossíveis de serem mutuamente traduzidas” (ROSSINI, 2009. p. 29). Essas imbricagens (estéticas, comunicativas e talvez até técnicas) podem ser compreendidas como aquilo que é próprio de cada veículo. Para Cathrine Kellison (2007, p. 58–59), especialista em produções para a TV: Escrever para televisão não é como escrever para o cinema. A principal di- ferença são os personagens que compõem o núcleo da história. Em um filme para o cinema, os personagens e suas histórias são apresentados, a história começa, chega ao clímax, acaba e está tudo resolvido. Quando o filme acaba, a história também acaba. Já na maioria nos gêneros televisivos, os persona- gens e suas histórias continuam. Os roteiristas de TV podem capitalizar essa duração ao criar primeiramente com personagens fortes, e depois, escrever a história que se desenrola ao redor deles. Construindo essa história a partir de duas reações e sempre os testando. Os espectadores ficam familiarizados como os personagens e suas histórias. O público passa a conhecê-los bem, trazendo suas memórias e experiências acumuladas ao lado do programa para cada episódio. O cinema tem sua narrativa centrada na imagem, com histórias conta- das por detalhes imagéticos e apresentadas de forma mais progressiva. Para comprovar essa universalidade da linguagem imagética, podemos nos valer de um filme de Chaplin. Mesmo que não se leia os cartões explicativos, não se perde o contexto. O que realmente vale são os trejeitos. Carlitos é a síntese do cinema porque não precisa de palavras para ser entendido. Temos aí uma grande diferença entre as duas plataformas: uma muito mais propensa ao uso do diálogo, a outra mais propensa à utilização imagética. Porém, existem autores que acreditam que as diferenças entre cinema e televisão ficam apenas por conta das necessidades técnicas de cada plataforma de difusão. Carlos Gerbase, em seu livro Impactos das tecnologias digitais na narrativa cinematográfica (2003), aborda essas afinidades e divergências entre 9Televisão e cinema: semelhanças e diferenças os veículos. Ele defende que a linguagem é a mesma tanto no cinema quanto na televisão, e que as diferenças eventuais estão na verdade relacionadas aos meios físicos de manifestação, mesmo em suportes diferentes. “Um filme, um programa de TV e um vídeo narrativo são formas da mesma linguagem ou manifestações distintas de um mesmo objeto” (GERBASE, 2003, p. 57). Pode-se dizer que cinema e televisão são canais midiáticos com muitas semelhanças, e que sugerem na mesma proporção diversas diferenças, não somente por questões estéticas e estruturais, mas também por causa das características dos meios físicos em que esses canais são difundidos. BERGESCH, W. Os televisionários. Porto Alegre: Edições Ar do tempo, 2010. CASTRO, J. de A. Tupi: pioneira da televisão brasileira. São Paulo: Fundação Assis Cha- teaubriand, 2000. COSTA, F. C. Primeiro cinema. In: MASCARELLO, F. (org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006. GERBASE, C. Impactos das tecnologias digitais na narrativa cinematográfica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. KELLISON, C. Produção e direção para TV e Vídeo. São Paulo: Campus, 2007. MASCARELLO, F. (org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006. MATTOS, S. História da televisão brasileira: uma visão econômica, social e política. Pe- trópolis: Vozes, 2002. NEVES, L. História do cinema. 2012. Disponível em: https://lutimarneves.wordpress. com/2012/09/24/historia-do-cinema/. Acesso em: 3 jun. 2020. STAM, R. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2003. SILVA, J. F. da. História do cinema no mundo. 2014. Disponível em: https://www.colada- web.com/artes/cinema. Acesso em: 3 jun. 2020. Leituras recomendadas AUMONT, J. A imagem. Campinas: Papirus, 1993. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1992. DELEUZE, G. A imagem tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990. Televisão e cinema: semelhanças e diferenças10 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. DIDI-HUBERMAN, G. Images malgré tout. Paris: Les Editions de Minuit, 2003. FRANÇA, A. A reencenação no cinema documentário. Revista MATRIZes, v. 4, nº. 1, p. 149–161, jul./dez. 2010. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/matrizes/article/ download/38282/41097/. Acesso em: 3 jun. 2020. MACHADO, A. Pré-cinemas e pós-cinemas. São Paulo: Papirus, 2012. RANCIÈRE, J. Les écarts du cinéma. Paris: La Fabrique Éditions, 2011. SILVA, A. R. da; ROSSINI, M. de S. (org.). Do audiovisual às audiovisualidades: convergência e dispersão nas mídias. Porto Alegre: Asterisco, 2008. VAUGHAN, D. Television documentary usage. In: ROSENTHAL, A. (org.). New challenges for documentary. Los Angeles: University of California Press, 1988. p. 34–47. WINSTON, B. Lies, damn lies and documentaries. London: British Film Institute, 2000. 11Televisão e cinema: semelhanças e diferenças PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Otavia Alves Cé Uso do audiovisual nas relações públicas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a relevância do audiovisual na comunicação. Definir as etapas de uma realização audiovisual. Aplicar conceitos e estratégias audiovisuais às relações públicas. Introdução Neste capítulo, você vai ver a importância da produção audiovisual na comunicação, considerando a ligação entre o som e a imagem e a sua recepção pelo público-alvo. Na sequência, você vai conhecer as etapas da realização audiovisual: da pré-produção à pós-produção, passando pelo processo de ação efetiva, a produção. Por fim, você vai ver como aplicar conceitos e estratégias audiovisuais ao terreno das relações pú- blicas, tomando como exemplo a utilização do storytelling, uma forma de influenciar a opinião pública. Audiovisual e comunicação Transmitir uma mensagem ou ideia normalmente é mais fácil e mais efi caz face a face do que no papel ou via e-mail. Isso ocorre porque a comunicação escrita ou de áudio possui certas limitações que podem atrapalhar a mensa- gem ou resultar em mal-entendidos. Já a comunicação audiovisual quebra as barreiras tradicionais da comunicação escrita para garantir que o público entenda a mensagem com facilidade. Isso resulta em melhores discussões e colaborações em negócios, educação e aplicativos pessoais. Um dos principais benefícios dos meios audiovisuais para a comunicação é a clareza. Quando uma pessoa envia um e-mail ou escreve uma mensagem de texto, por exemplo, sabe o tipo de tom e de humor usado. Todavia, a in- terpretação do receptor pode ser diferente daquela do emissário. Por sua vez, a entrada audiovisual permite a utilização de expressões faciais e gestos, a aplicação de tons e inflexões na voz. A ideia é usar pistas de origem tanto sonora quanto visual para esclarecer significados e posições dos discursos enunciados. Segundo Levy (1993, p. 16), trabalhar com audiovisual Não se trata de recorrer à imagem para ilustrar ou enfeitar o texto clássico, mas de realmente inaugurar uma nova escrita: um instrumento de conhecimento e de pensamento que seja também e intrinsecamente imagem animada. Nós não queremos enterrar a escrita e celebrar o espetáculo audiovisual; pelo contrário, queremos fazê-la renascer diversificando suas formas e multipli- cando seus poderes. A cultura audiovisual é o resultado da interação entre os sons e as imagens. Ela desperta os espectadores para leituras claras, fornecendo uma espécie de visibilidade que é facilmente capturada pelos sentidos, conforme postulaPaternostro (1987, p. 41): “[...] é com imagem que a televisão concorre com rádio e jornal, exercendo seu fascínio para prender a atenção das pessoas [...]”. Para o autor, a televisão, bem como qualquer peça audiovisual, tem um caráter especial, dado o fato de que possui um código icônico — a imagem associada ao som. Outro fator a ser levado em consideração é a velocidade com a qual uma mensagem transmitida via suporte audiovisual chega até o seu interlocutor. Há pouco mais de cem anos, a comunicação por meio de correspondência escrita ou boca a boca costumava levar semanas ou até meses para alcançar o seu destino. Em comparação, a comunicação de hoje é praticamente imediata: os meios audiovisuais, como chamadas com vídeo, conectam pessoas que estão fisicamente distantes. Essa velocidade é crucial para a sociedade globalizada contemporânea. A combinação do uso de áudio e vídeo em peças de comunicação, sejam elas instrucionais, publicitárias, institucionais, etc., aumenta a retenção de mensagens. De acordo com uma pesquisa do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos datada de 2001 (KIZILCEC, 2014), 10% das informações são mantidas quando apresentadas apenas oralmente, e 35% delas são mantidas quando apresentadas apenas visualmente. Mas quando as ferramentas de áudio e imagem são combinadas para apresentar uma mensagem ou ideia, 65% das informações são mantidas. Uso do audiovisual nas relações públicas2 Dessa forma, softwares de apresentação e videoconferências podem ser ferramentas eficazes em reuniões e palestras, por exemplo. Por meio dessas ferramentas, o público recebe e processa as informações com mais eficácia do que com a utilização de abordagens ditas tradicionais. De acordo com Ferreira e Silva Júnior (1975, p. 38), “[...] a retenção de informações três dias após uma reunião ou outro evento é seis vezes maior quando a informação é apresentada por meios visuais e orais do que quando a informação é apresentada apenas pela palavra falada [...]”. A combinação de visão e som, juntamente a folhetos escritos, é um componente necessário da retenção de informações e pode ser encontrada na maioria das organizações de treinamento experientes. Para compreender melhor como funciona a retenção de informações, observe a Figura 1, a seguir. Figura 1. Retenção da informação. Fonte: Baseada em Ferreira e Silva Junior (1975). O espectador assimila a interação entre sons e imagens de várias maneiras ao se ver frente a mensagens audiovisuais. Esse processo não ocorre apenas quando se assiste a peças audiovisuais; ele é constante e contínuo, ocorrendo antes mesmo do ato de assistir. Tal processo depende do conhecimento ad- 3Uso do audiovisual nas relações públicas quirido por meio da experiência no decorrer da vida do espectador e continua enquanto o destinatário recebe a mensagem televisiva e até mesmo depois. Afinal, as mensagens estão invariavelmente relacionadas com a memória, permitindo uma relação intra e extratextual mesmo após a exibição de um anúncio, por exemplo. Ao adicionar vídeos, recursos visuais e sonoros a uma peça de comunicação, você cria uma experiência multimídia. Isso ajuda o processo comunicacional a se tornar mais envolvente para o público. O uso de processos audiovisuais, em geral, preenche o interlocutor com uma espécie de “encantamento”: configura- -se como uma maneira rápida e fácil de atingir o interesse do público e obter a memorização da mensagem. Etapas audiovisuais O processo de realização audiovisual envolve três etapas básicas: pré-produção, produção e pós-produção. A seguir, você vai conhecer cada um desses processos e as suas principais fases. Pré-produção A pré-produção é a primeira etapa do processo; é o momento de transformar uma ideia em algo concreto. De forma geral, a pré-produção envolve etapas como: roteiro, escolha da equipe, planejamento, custos de planejamento/ produção (viagens, reuniões, etc.), consultorias e ensaios. O roteiro é o suporte escrito que serve de base para qualquer produção audiovisual. Ele pode ser escrito por um ou vários profissionais. Geralmente, após o roteiro ser finalizado, é feita a sua decupagem por meio de storyboards; estes são organizadores gráficos que possibilitam pré-visualizar a produção. Entre as vantagens do uso de storyboards, você pode considerar: apoio ao planejamento, informando o que deve ser adquirido, demonstração visual de todas as etapas e possibilidade de maior controle e êxito no projeto. Como elementos instrutivos, os storyboards funcionam como uma ferramenta de apoio para a compreensão do que se pretende produzir. Na Figura 2, a seguir, veja um exemplo de storyboard. Uso do audiovisual nas relações públicas4 Figura 2. Storyboard. Fonte: Mila Basenko/Shutterstock.com. Não existe uma forma única de se fazer um storyboard. Ele pode conter apenas imagens, ser um conjunto de desenhos e informações verbais breves, ou até mesmo apresentar uma concepção mais formal e completa, contendo indicação de ângulos, duração de planos, tempos de corte e sincronia sonora. Por vezes, são utilizadas plantas baixas em conjunto com os storyboards, para facilitar a pré-produção. Essas plantas baixas são desenhos arquitetônicos que demonstram a visão superior da construção e auxiliam no posicionamento das câmeras, de profissionais e demais objetos no momento da gravação. A escolha da equipe implica um primeiro contato entre o produtor e o diretor, que deliberam a respeito da equipe que comporá a produção. A composição geralmente é feita a partir de testes (chamados de casting). A escolha da equipe abrange desde as funções técnicas de produção até o elenco (caso necessário). O planejamento consiste, como o nome sugere, em planejar o desenvol- vimento da produção. Faz-se um organograma com as principais fases. Elas podem ser divididas em: definição da quantidade de diárias para gravar, equipamentos a serem utilizados, contratação dos membros da equipe, defi- nição dos lugares onde vão acontecer as gravações, contatos com os atores/ entrevistados, cronograma de filmagem, preparação das autorizações de uso de imagem, etc. 5Uso do audiovisual nas relações públicas De posse do planejamento, é possível fazer uma estimativa dos custos. Essa etapa se caracteriza pelo levantamento financeiro do que será gasto com a produção. Procura-se fazer uma adequação de acordo com o orçamento disponível, previamente estabelecido (seja por meio de patrocínio, políticas de editais, recursos próprios, etc.). Nessa etapa também é feita uma análise técnica por meio de tabelas, em que se discriminam todos os itens necessários para a produção a fim de ter uma visão mais ampla e total. Ainda na fase preparatória, ocorrem as consultorias. Elas são importantes e consistem em pesquisas em materiais diversos e consultas a profissionais que dominam o tema a ser tratado na produção. Em termos de comunicação e relações públicas, as consultorias envolvem reuniões e análises mais apro- fundadas do processo de briefing. Por fim, os ensaios, que ocorrem em todas as produções, são treinos, experimentos prévios dos atores e profissionais envolvidos, a fim de evitar possíveis falhas. Produção No campo do audiovisual, muitas vezes falta um acordo mínimo sobre o signi- fi cado dos termos mais utilizados. Por um lado, alguns conceitos vêm de outros meios. Por outro lado, algumas palavras são usadas em gírias profi ssionais de forma ambígua. Além disso, algumas traduções de termos anglo-saxões não estão isentas de equívoco. Um desses termos vagos é “produção”. No Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, (AUMONT; MARIE, 2003) há as seguintes defi nições do conceito: período de filmagem da peça audiovisual que é a continuação do período de pré-produção e ocorre antes da pós-produção; filme que foi, está sendo ou vai ser produzido; financiamento de um filme para que possa ser feito; conjunto de tarefas realizadas pelo produtor e pelos outros membros da produçãoinerente à filmagem original, edição e outros trabalhos preparatórios que levam à apresentação, pré-estreia ou estreia; área que inclui o produtor e outros membros da equipe de produção. Portanto, “produção” é um termo polissêmico aplicado a diferentes aspectos do trabalho audiovisual. Por um lado, refere-se ao processo geral de criação de uma obra audiovisual, ou seja, a toda a atividade que parte da ideia e termina Uso do audiovisual nas relações públicas6 com a obtenção da cópia padrão. Assim, diz-se, por exemplo, que a produção começou ou que se está trabalhando em várias produções em paralelo. Por outro lado, e de modo geral, a produção é compreendida como a fase que coincide com o disparo ou a gravação. A produção é a etapa de realização concreta do projeto. Nesse momento, cabe ao produtor marcar e conciliar horários de gravações, entrada da equipe, almoço e descanso, levantando e definindo locais. Ele também deve provi- denciar o transporte dos participantes e da equipe, conseguir autorizações dos participantes e dos locais, providenciar a mídia, anotar o conteúdo da mídia gravada, encaminhar o material de edição (relatório de gravação, ro- teiro, decupagem) para o editor e realizar todos os encargos de preparação e finalização da produção. Durante as gravações, é importante ter controle da mídia utilizada e do material gravado. Também se devem manter anotações de tudo o que foi realizado, evitando possíveis problemas futuros. Realizado o processo de captação, é essencial o encaminhamento de todo o material necessário para a edição (relatório, roteiro, número de arquivos). A produção também é o momento da realização das concepções artísticas da obra. Isso inclui questões relacionadas com composição de imagens, aplicação de cores, projeção de iluminação, escolha de planos e ângulos de gravação e de movimento de câmera. Todos esses processos interferem na percepção e na interpretação da obra produzida. A produção de uma obra audiovisual é um trabalho complexo que requer um planejamento cuidadoso para que se atinja, em cada uma das etapas, a melhor performance. Produzir um filme, uma série, um comercial ou um anúncio é um processo que passa por diferentes etapas e em que elementos de naturezas distintas estão em jogo: aspectos criativos — são aqueles relacionados ao script e à realização; aspectos de direção e gestão — são aqueles voltados para a organização e a programação das necessidades; aspectos de monitoramento e controle — garantem um perfeito cum- primento do plano de trabalho; aspectos econômicos — estão ligados à manutenção de custos; aspectos de mercado — afetam as motivações e desejos do cliente e dos espectadores. 7Uso do audiovisual nas relações públicas Outro ponto relevante são os contratos de produção. Os contratos de pro- dução regulam as relações entre as partes envolvidas na produção de uma obra audiovisual. Pode-se distinguir três grandes grupos ou categorias. Veja a seguir. Comissão de produção: a produção é confiada a uma produtora de obras audiovisuais em troca de seu financiamento completo. Por exemplo, uma rede de televisão confia um programa a uma empresa de produ- ção ou a uma agência a quem encomenda um anúncio. É o contrato com o menor risco para a empresa de produção, que não depende do funcionamento do trabalho para receber remuneração. No entanto, se o trabalho for bem-sucedido, é a rede de televisão que pode explorar o resultado e obter benefícios. Produção própria: nesse caso, a empresa produtora, por iniciativa própria, produz a obra audiovisual, cujas propriedade e exploração lhe pertencem com exclusividade. Coprodução: nessa modalidade, duas ou mais empresas concordam em realizar a produção de uma obra audiovisual e cada uma delas faz uma contribuição determinada. No contrato entre as partes, são estabelecidos os termos que regulamentam a elaboração conjunta e a porcentagem correspondente de propriedade e trabalho. Pós-produção Após o término das gravações, ocorre a montagem do material, a edição. Ela requer, às vezes, alguns recursos como: computação gráfi ca, efeitos, trilha sonora, dublagem, locução e outros. Para isso, é necessário saber quais recursos o editor utilizará para contatar os profi ssionais e providenciar os equipamentos. Algumas das etapas de pós-produção são: edição de imagens; geração de efeitos visuais de computação gráfica (CG); edição de som; gravações de dublagens; mixagem; finalização; copiagem. Uso do audiovisual nas relações públicas8 Na Figura 3, a seguir, veja as etapas de uma realização audiovisual. Figura 3. Etapas de uma realização audiovisual. Fonte: Mila Basenko/Shutterstock.com. Acesse o link a seguir para aprofundar e complementar os seus conhecimentos a respeito das três etapas da realização audiovisual. https://qrgo.page.link/fzJRK Audiovisual e relações públicas O uso de recursos audiovisuais nas relações públicas, bem como na comuni- cação empresarial e no treinamento, é importante por vários motivos. Cada indivíduo entende e retém informações de maneira diferente, e é por isso que as organizações e os profi ssionais de relações públicas usam várias ferramentas de áudio e vídeo durante sessões de apresentação. Esse tipo de sessão é co- mumente conhecido como “apresentação multimídia” e pode incluir métodos escritos, visuais, auditivos e às vezes interativos. 9Uso do audiovisual nas relações públicas O uso de recursos audiovisuais auxilia na compreensão e na interpretação da mensagem recebida. A utilização desses recursos também é uma maneira de economizar tempo na apresentação, especialmente se o assunto em pauta contiver informações longas ou complexas demais se expostas somente por meio da comunicação escrita ou oral. Gráficos interativos, curtas-metragens e animações podem ajudar a explicar o assunto rapidamente e de maneira que seja mais facilmente absorvido pelo interlocutor. Nos dias de hoje, em que todos os processos comunicacionais são muito rápidos e fluidos, o tempo de exibição se torna um artifício valioso. Devido à dinamicidade da comunicação atual, leva pouco tempo para um interlocutor perder o interesse em uma peça. Daí a importância da implementação oportuna e efetiva da aplicação audiovisual. Os recursos audiovisuais, por sua acessibilidade, tendem a ser mais agradáveis ao público em geral do que longos textos escritos, por exemplo. A conexão entre o audiovisual e as relações públicas busca apoio em ima- gens e conceitos, como o cinema, para procurar um universo comum entre o espectador e o criador da mensagem. É importante considerar que, na ânsia de se conectar com o consumidor, é mais seguro e mais confortável utilizar linguagens que se relacionam facilmente com o público em questão. Veja o que afirma Jover (2007, p. 100): Quanto às influências da sétima arte na comunicação, estas são excedentes conhecidos, cada vez mais acusando-se de sua estética, bem como de seu referencial. Alusões icônicas, verbais e visuais são usadas em vários anúncios, desde musicais, personagens ou atores que fazem parte do imaginário coletivo, enquanto em outros apela-se para questões estéticas que atraem diretamente para o filme: cor, encenação, iluminação. Um exemplo dessa relação de intertextualidade é a publicidade, que apre- senta vieses temáticos e formais diretamente conectados a filmes de determi- nado gênero. Esse dinâmica se aproveita do fato de que os indivíduos buscam informações que consideram interessantes e importantes, selecionando e descartando conteúdos de acordo com seus gostos. Para Farhat (1992, p. 6), “[...] estar com a opinião pública, contar com seu apoio e obter seu reconhecimento são o supremo desejo de quem tem alguma coisa a propor ou vender à sociedade [...]”. Afinal, é nessa relação entre público e organização que se atingem resultados mais positivos para empresas, tanto em relação à imagem institucional quanto à lucratividade. Valeapontar que a opinião pública não é apenas a soma das opiniões individuais, e sim um processo contínuo de avaliação e balanço de opiniões calçadas em uma ampla gama de experiências, como explica Poyares (1997, p. 84): Uso do audiovisual nas relações públicas10 O público é certamente alguma coisa além de uma soma de indivíduos. É uma coletividade que existe porque alguns indivíduos têm em comum certas experiências, certas lembranças e tradições e certas condições de vida. Inclusive, numa comunidade muito pequena, a coletividade não é uniforme. Empresas e instituições devem ficar atentas à opinião pública e atualizar- -se para que não percam espaço no mercado. Elas devem estabelecer uma comunicação horizontal, ouvindo e acatando os anseios de seu público, com o apoio de um profissional adequado para atuar com compromisso e respon- sabilidade. Entra aí a figura do relações-públicas, cada vez mais requisitado na construção e na manutenção de imagens corporativas. Storytelling O termo storytelling possui diversas conceituações. Todavia, todas culminam na conexão entre narração, audiovisual e histórias. Algumas defi nições carac- terizam o storytelling como “[...] uma tentativa de humanização do espaço de interação [...]” (DOMINGOS, 2010, documento on-line), ou ainda como a “[...] inserção da oralidade e da contação de histórias no domínio contemporâneo da midiatização [...]” (MAGALHÃES, 2013, p. 11). Independentemente do conceito formal, a prática narrativa possui um papel fundamental na comunicação entre empresa e consumidor: Narrar-se é criar a ilusão no narrador de que o mesmo se tornou uma perso- nagem protagonista arquetípica, em geral eufórica, do texto, então, narrado. Como não há narrativa que não seja seleção de fatos vividos por personagens em um determinado tempo e espaço, o ato de narrar é inevitavelmente um ato de deslocamento e de negociações entre a consciência e a inconsciência, gerando significadas formas de ser e estar do mundo. É uma forma de se mostrar e esconder-se, ao mesmo tempo. É o ponto de vista que determina a sequencialidade das ações narradas, em que o narrador seleciona da vida o que ele deseja narrar. Portanto, não há jamais na narrativa um eu puro; ele sempre será um ser humano que traz em si não só os primórdios de sua existência, como os adapta às novas maneiras de narrar a vida (DOMINGOS, 2009, documento on-line). Na esfera das relações públicas, o storytelling é o ato de contar uma his- tória atrativa e de simples compreensão, facilmente identificável por diversos públicos, com o intuito de formar uma imagem. Ele é uma estratégia das instituições para se relacionarem de forma mais humana com os seus públicos. Esse instrumento audiovisual possui uma linguagem persuasiva, sustentada pela publicidade e pela propaganda, pois está em jogo o poder de formatar 11Uso do audiovisual nas relações públicas pensamentos (SALMON, 2007). Tal técnica é uma forma de compartilhar experiências profissionais com o objetivo de fortalecer as ações da organização e a sua relação direta com a opinião pública. O uso do storytelling no audiovisual é considerado uma estratégia eficiente nos processos de gerenciamento de crises. Afinal, esse recurso pode forta- lecer a opinião pública com dados e informações apresentados de maneira narrativa, trabalhando resultados que contribuam para novos posicionamentos individuais e coletivos. Assim, o storytelling é uma ferramenta poderosa nas mãos do profissional de relações públicas, que pode utilizar essa ferramenta não somente para evitar crises, mas também para a manutenção de uma relação positiva entre empresa, clientes e até mesmo colaboradores. Nesse sentido, “O storytelling é capaz de fazer com que o público se identifique com a narração, utilizando a persuasão e fazendo com que mude de opinião a partir de uma produção informativa, contextualizada e que remete à sensibilização das pessoas [...]” (ALMEIDA; TAVARES, 2016, p. 203). Acesse o link a seguir para ver uma peça audiovisual da Coca-Cola. Nela, por meio de storytelling, a marca busca se aproximar de seu público e manter uma imagem corporativa positiva. https://qrgo.page.link/PuQTd ALMEIDA, C.; TAVARES, V. Storytelling como estratégia audiovisual de relações públicas na gestão de crises. Revista de Humanidades, Fortaleza, v. 31, n. 1, p. 193-205, jan./jun. 2016. APOLONIO, C. Workflow. 2016. Disponível em: https://somdefilmespernambuco.wor- dpress.com/workflow/. Acesos em: 12 jul. 2091. AUMONT, J.; MARIE, M. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas: Papirus, 2003. Uso do audiovisual nas relações públicas12 DOMINGOS, A. A. Storytelling: evolução, novas tecnologias e mídia. 2010. Disponível em: http://mentesinterativas.blogspot.com/2010/06/storytelling-evolucao-novas- -tecnologias.html. Acesso em: 12 jul. 2019. FARHAT, S. O fator opinião pública: como se lida com ele. São Paulo: T. A. Queiroz, 1992. FERREIRA, O. M. C.; SILVA JUNIOR, P. D. Recursos audiovisuais para o ensino. 3. ed. São Paulo: EPU, 1975. LEVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. JOVER, R. El cine en la publicidad de automóviles. 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DataGramaZero, João Pessoa, v. 3, n. 1, p. 1-13, fev. 2002. Disponível em: http://www.brapci.inf.br/index.php/res/v/6792. Acesso em: 12 jul. 2013. KUNSCH, M. M. K. (org.). Obtendo resultados com relações públicas. 2. ed. São Paulo: Thomson, 2006. MARQUES, B. Etapas da produção audiovisual. 2016. Disponível em: https://prezi.com/ biiv34jboamy/etapas-da-producao-audiovisual/. Acesso em: 12 jul. 2019. 13Uso do audiovisual nas relações públicas PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Michael Abrantes Kerr A música no audiovisual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir paisagem sonora e consciência sonora no contexto audiovisual. Analisar a utilização do som na linguagem audiovisual. Descrever o uso do som como narrativa: da trilha musical ao efeito sonoro. Introdução A sonorização cumpre diferentes papéis nas narrativas visuais e, quando realizamos a mistura de imagens e sons, estamos criando uma nova dimensão de algo que se completa na mente dos espectadores. Dessa forma, em materiais audiovisuais acabados, as dimensões visual e sonora agem de maneira conjunta para ofertar sentidos que serão completa- dos pelos espectadores que assistem aos produtos resultantes desses processos. Neste capítulo, você vai conhecer o que é a paisagem sonora no audiovisual e seus elementos. Além disso, vai entender como música, vozes, ruídos e silêncio atuam na construção da trilha sonora, juntamente com as imagens em movimento. 1 O que ouvimos no audiovisual Ao estudarmos o audiovisual, temos que levar sempre em consideração que o produto resultante e a sua relação com as pessoas é multissensorial. Assim, é de fundamental importância estudarmos o som, o qual, junto com os demais elementos, age no processo de construçãode sentido. Barthes (1982) já dizia que existem três tipos de escuta. No primeiro, chamado casual, o ser humano dirige sua atenção para índices, como um ruído, visto apenas como possibilidade. Assim, um ruído, por exemplo, pode se revelar algo mais concreto dependendo muito da sua associação com algum outro sentido que o complete. O segundo tipo, chamado semântico, é uma decifração. Nesse caso, há a transformação do índice em sinal. É o momento da decodificação, quando a escuta coloca em relação o som com o sujeito. Já o terceiro tipo de escuta Barthes chama de moderno: [...] a terceira escuta, enfim, cuja abordagem é moderna (o que não quer dizer que seja superior às duas outras), não visa — ou não espera — signos determi- nados, classificados: não aquilo que é dito, ou emitido, mas aquele que fala, aquele que emite. [...] a escuta apodera-se, pois, para transformá-la e lançá-la sem cessar no jogo da transferência, de uma “significância” geral, que já não é concebível sem a intervenção do inconsciente (BARTHES, 1982, p. 217). Nesse sentido, pensar em som no audiovisual é estar mais voltado para este último tipo de escuta do qual fala o autor, que revela o sentir, pois muitas camadas sonoras vão fazer parte daquilo que assistimos e, dessa forma, boa parte do que nos afeta se dá de maneira inconsciente. Assim, além da imagem em movimento, temos que voltar nossa atenção de forma aprofundada para a trilha sonora, a qual é formada basicamente por três partes: música, voz e ruídos. Não podemos esquecer que o silêncio também é um elemento impor- tante e pode participar do processo da construção de sentido do audiovisual. O que é música? A música pode ser considerada um dos elementos dramáticos mais podero- sos numa produção audiovisual, pois possui capacidades expressivas muito grandes. Para Chion (2011), a música participa diretamente na emoção de uma cena de fi lme, dando, por exemplo, seu ritmo e seu tom para denotar alegria ou tristeza. Ela pode também transmitir indiferença, quando se desenrola de maneira sempre igual, sem ter qualquer tipo de alteração. O que é silêncio? O silêncio se destaca quando interrompe o som e o reverbera, mas também ocorre o contrário: “Quando o silêncio precede o som, a antecipação nervosa o torna mais vibrante” (SCHAFER, 2001, p. 355). O silêncio também realça ao espectador situações importantes para a compreensão de uma narrativa. Assim, quando não ouvimos determinados sons que deveriam estar acompanhando a imagem, estamos frente a alguma situação que deve chamar a atenção. A música no audiovisual2 O que é a voz? A voz é representada pela palavra que é falada e normalmente se apresenta em narração, em diálogos ou em murmúrios. A voz sustenta a expressão verbal. Isso ocorre tanto no audiovisual quanto no nosso dia a dia, quando por meio da voz temos, além de uma informação, um sentido agregado às palavras em forma dramática, psicológica ou afetiva. Isso só é possível por meio da entonação com que as palavras são faladas. Se o ser humano ouvir vozes no meio de outros sons que o rodeiam (sopro do vento, música, veículos), são essas vozes que captam e concentram logo a sua atenção. Depois, em rigor, se as conhecer e souber quem está a falar e o que dizem, poderá então interessar-se pelo resto. Se essas vozes falarem numa língua que lhe seja acessível, vai começar por procurar o sentido das palavras, e só passará à interpretação dos outros elementos quando o seu interesse sobre o sentido estiver saturado (CHION, 2011, p. 13). O que são os ruídos? De certa maneira, podemos dizer que há um entendimento claro daquilo que é música e do que são diálogos. Entretanto, para os ruídos, é possível dizer que se trata de tudo aquilo que nem é música nem diálogo, mas que compõe a camada sonora. Portanto, no audiovisual, são todos os sons captados ou criados em pós-produção que funcionam como o som do ambiente onde um produto está sendo realizado. Portanto, se certa cena de um fi lme se passa em uma fábrica de automóveis, provavelmente teremos sons de produção industrial. Se temos outra cena em uma praia, o som deverá ser do marulho e do vento. Sobre o termo ruído, podemos encontrar algumas definições em Schafer (2001): som não desejado, som não musical, qualquer som forte ou distúrbio em qualquer sistema de sinais. Entretanto, o autor cita seu mais satisfatório conceito como “som não desejado”, tornando o termo bem subjetivo, pois o que é ruído para uma pessoa pode não ser para outra. Assim, música, silêncio, voz e ruídos fazem parte do cotidiano. É possí- vel perceber, dessa maneira, que existem diferentes ambientes acústicos em cada local que estamos. É isso que, de certo modo, os audiovisuais procuram reproduzir em filmes, séries, telenovelas, animações, etc. Outra informação importante sobre esse tema está relacionada às mudanças que vão ocorrendo com a introdução de novos equipamentos, máquinas e tecnologias no cotidiano das pessoas e que vão alterando o ambiente acústico em que vivemos. 3A música no audiovisual 2 A paisagem sonora Dentro desse cenário, surge nos estudos de som um conceito importante. Pai- sagem sonora (world soundscape) é um termo desenvolvido pelo compositor e professor Raymond Murray Schafer nos anos 1970, quando pretendia unir as artes e as ciências dos estudos sonoros para o desenvolvimento de uma interdisciplina que poderia ser chamada Projeto Acústico. A proposta desse projeto era produzir análises do panorama sonoro de diversos locais do mundo, com o objetivo de entender quais transformações ocorreram nesses espaços após a introdução de novas tecnologias pós-Revolução Industrial. Para ele, a poluição sonora seria um problema mundial. O projeto também procurava compreender como isso poderia afetar as relações entre as pessoas. Nesse sentido, o autor se questionava sobre a relação que poderia existir entre as pessoas e os sons do ambiente e o que aconteceria quando estes se modificassem. O estudo partiu de uma tese que procurava entender a acústica ambiental a partir de uma abordagem positiva, colocando os próprios ruídos como sons que devem ser ouvidos para que se compreenda a poluição sonora. A paisagem sonora do mundo está mudando. O homem moderno começa a habitar um mundo que tem um ambiente acústico radicalmente diverso de qualquer outro que tenha conhecido até aqui. Esses novos sons, que diferem em qualidade e intensidade daqueles do passado, têm alertado muitos pes- quisadores quanto aos perigos de uma difusão indiscriminada e imperialista de sons, em maior quantidade e volume, em cada reduto da vida humana (SCHAFER, 2001, p. 17). O conceito de paisagem sonora diz respeito ao ambiente acústico, aos sons do ambiente como um todo. Schafer (2001) procurou fazer um levantamento de paisagens sonoras naturais de todo o mundo, mas também o termo pode ser relacionado a paisagens sonoras construídas, como as composições musicais e programas de rádio. Schafer (2001, p. 20) trata o mundo como uma grande composição musical, considerando que “[...] todos os sons fazem parte de um campo contínuo de possibilidades, que pertence ao domínio compreensivo da música”. Dentro dessa perspectiva a orquestra, é o universo sonoro e os músicos poderiam ser qualquer um e qualquer coisa que soe. Ao apreciarmos o ambiente acústicos, estaremos tentando entender que recursos podem auxiliar na orquestração da paisagem sonora mundial. A publicação original de Schafer — A afinação do mundo — data de 1977, sendo lançada no Brasil em 2001. Mesmo tendo passado mais de 40 anos de A música no audiovisual4 seu lançamento, o autor segue sendo o mais citado em diversos estudos que se referem ao som. Schafer, além de apresentar o que chama de paisagem sonora, também propôs um método de análise e um projeto acústico. Com o seu grupo de pesquisa intitulado World Soundscape Project, Scha- fer estudou sons que ouviu em determinados lugares e tempos históricos juntamente comtextos literários, assim como textos sagrados religiosos. Portanto, naquele momento estava criando um modo particular de construir o conhecimento acerca da paisagem sonora, por meio de diversas relações. A proposta de Schafer é tentar identificar os diversos ambientes sonoros que envolvem a vida cotidiana. Nesse sentido, pode-se dizer que a paisagem sonora é um elemento tradutor do meio ambiente. Isso ocorre por meio de sonoridades que estão normalmente ligadas a um lugar, como uma cidade ou um bairro, os sons de microambientes que podem representar espaços sonoros, ou seja, paisagens. “A paisagem sonora mundial é uma composição indeterminada, sobre a qual não temos controle, ou seremos nós os seus compositores e exe- cutantes, encarregados de dar-lhe forma e beleza?” (SCHAFER, 2001, p. 19). Até aqui, parece simples a ideia de representar um local por meio de sons. Entretanto, estudar o som é lidar com elementos bem abstratos. Para Wisnik (1999), o som lida com o imaginário e, por isso, é invisível e impalpável. A falta de materialidade faz com que se tenha sempre uma abertura para variadas interpretações e compreensões, conferindo ao som um caráter subjetivo. Schafer (2001) sustenta que é mais difícil ter uma impressão exata de uma paisagem sonora do que de uma paisagem visual. Para ele, não há nada em sonografia que possa corresponder, por exemplo, a uma impressão instantânea que uma fotografia pode criar. A imagem que resulta de uma câmera oferece uma impressão imediatamente evidente, por mais que seja um recorte de um local. Já o microfone capta uma amostragem de detalhes e possibilita uma impressão próxima à realidade do espaço captado. A paisagem sonora resulta de eventos ouvidos, em vez de objetos que são vistos. Se por um lado a imaterialidade não dá precisão às coisas, por outro ela possibilita que os indivíduos façam suas conexões com mundos imaginários, que sugerem sensações só produzidas pela experiência da escuta. Segundo Wisnik (1999, p. 28): “O som tem um poder mediador, hermético: é o elo co- municante do mundo material com o mundo espiritual e invisível. O seu valor de uso mágico reside exatamente nisto: os sons organizados nos informam sobre a estrutura oculta da matéria no que ela tem de animado”. Normalmente, experimentamos mais sensações subjetivas quando estão associadas a estímulos acústicos que ainda não codificamos, ou seja, que não fazem parte de nosso rol de sons que já foram ouvidos anteriormente. Isso 5A música no audiovisual não quer dizer que um som, mesmo que reconhecido, terá sempre um único significado. Isso vai depender de diversos fatores e associações, sejam sonoras, visuais, olfativas ou táteis. Assim, o valor expressivo, ou seja, aquilo que é expresso por um som e compreendido pelo ser humano, vai depender muito de fatores que se combinam com o som para que seu sentido seja concluído. O mesmo som pode ter sentidos diferentes, dependendo de vínculos combi- natórios externos, além daquilo que a pessoa tem como lembrança e como repertório na sua memória. Quando pensamos em audiovisual, podemos perceber que ao produzirmos uma cena de um filme, por exemplo, temos a possibilidade de tratar os objetos sonoros alterando a sua forma. Numa cena, um som pode ser ouvido sem que se veja a fonte de onde provém. Isso oferece abertura para a criação de sugestões para a compreensão, sem que necessariamente o espectador assista àquilo que emitiu o som dentro do filme. Portanto, percebe-se aqui uma situação na qual a subjetividade pode interferir na oferta de sentido proposto pela peça audiovisual. Portanto, é possível observar que a parte sonora dá amplitude à forma. Enquanto o visual persiste até o seu desaparecimento, o sonoro se mantém no silêncio, ressoando. Percebemos então como o som pode ser fenomenológico. O espaço sonoro é muito aberto, maleável. O projeto acústico de Schafer procurava relacionar ciência, sociedade e artes. Seu objetivo era documentar aspectos dos sons e observar suas seme- lhanças, diferenças e tendências. Tinha como proposta fazer uma coleção de sons ameaçados de extinção, além de estudar sons novos antes que fossem colocados no ambiente. Também procurava refletir sobre o simbolismo dos sons e padrões do comportamento humano em diferentes ambientes sonoros para que pudesse usar esses dados no planejamento de futuros ambientes. Uma dúvida suscitada por Schafer (2001) era determinar se a paisagem sonora do mundo representava uma composição indeterminada, sem o controle das pessoas, ou se seriam os humanos os responsáveis por compor e executar os sons, dando-lhes forma e beleza. Isso tudo faria parte da ecologia acústica, ou seja, do “[...] estudo dos sons em relação à vida e à sociedade” (SCHAFER, 2001, p. 287). Dentro de uma perspectiva positiva, o projeto acústico usa como base a reorganização dos sons, fazendo com que uma paisagem sonora desequilibrada volte a ser o que era anteriormente. Estabelecendo uma analogia com a música, o projeto acústico pensa a reorganização da paisagem sonora como se fosse uma orquestração em que todos os sons possam ser ouvidos “favoravelmente” (SCHAFER, 2001). A música no audiovisual6 É de extrema importância observar a aproximação que Schafer faz entre a música e a paisagem sonora, tanto é que o próprio autor chama a atenção para a origem do nome de seu livro A afinação do mundo, como na passagem a seguir: A pesquisa que pretendo descrever representa uma reafirmação da música como busca das influências harmonizadoras dos sons do mundo sobre nós. Em Utriusque Cosmi Historia, de Robert Fludd, há uma ilustração intitulada “A afinação do mundo”, na qual a terra forma o corpo de um instrumento sobre o qual cordas são esticadas e afinadas por mão divina. É preciso reencontrar o segredo desta afinação (SCHAFER, 2001, p. 22). Para Schafer, havia no passado uma cultura auditiva significativa, com uma harmonia natural, a qual foi destruída pela modernidade. Segundo o autor, os compositores, como arquitetos do som, teriam papel fundamental em planejar efeitos destinados a provocar nos ouvintes algumas respostas específicas. 3 Paisagem sonora audiovisual e narrativa Entretanto, ao pensarmos mais profundamente sobre a paisagem sonora e sua relação com o audiovisual, teremos que considerar sempre a imagem que está montada em conjunto com os sons. E, como imagem, ela sempre vai trazer ou vai sugerir um som que a acompanhe, normalmente um som do ambiente. Então, se para Schafer a paisagem sonora estuda todo o campo acústico, temos que lembrar que os sons do ambiente fazem parte disso. No caso específi co do audiovisual, os sons do ambiente devem levar em consideração as imagens que estão sendo montadas numa sequência. Para Murch (2004), quando realizamos a mistura de imagens e sons, estamos criando uma nova dimensão de algo que se completa na mente dos espectadores. As dimensões sonora e visual se afetam reciprocamente e formam uma unidade na cabeça de quem assiste. O som modifica a imagem, assim como a imagem modifica o som. É dessa maneira que a narrativa de um produto audiovisual é construída e chega às pessoas. Chion (2011) vai afirmar que a percepção de elementos da imagem e do som no cinema (que acontece de maneira conjunta) ocorre de maneira diferente de cada elemento quando considerados de forma isolada. Trata-se de uma atividade que, estranhamente, nunca é considerada na sua novidade: continua-se a dizer “ver” um filme ou programa, ignorando a modificação introduzida pela banda sonora. Ou então, contentamo-nos com 7A música no audiovisual um esquema aditivo. Assistir a um espetáculo audiovisual equivaleria, em suma, a ver imagens e a ouvir sons, mantendo-se cada percepção perfeitamente isolada. [...] no contrato audiovisual, uma percepção influencia a outra e a transforma: não “vemos” a mesma coisa quando ouvimos; não “ouvimos” a mesma coisa quando vemos (CHION, 2001, p. 7). Nesse sentido, parece fundamentaldestacar algumas características que devem ser abordadas sobre a paisagem sonora, que estão muito relacionadas ao audiovisual, pois a ambientação sonora vai surgir pela combinação de diferentes maneiras de usar o som. É importante salientar que numa paisagem sonora há alguns aspectos significativos, os quais são sons importantes, devido à sua individualidade, quantidade e preponderância. Schafer (2001) categoriza os principais temas da paisagem sonora, chamando-os de sons fundamentais, sinais e marcas sonoras. Além desses, o autor inclui os sons arquetípicos, que seriam imbuídos de simbolismo, herdados da Antiguidade ou da Pré-História. Os sons fundamentais estariam ligados à noção de “figura e fundo”. A figura é aquilo que é visto, enquanto o fundo existe para dar o contorno à figura. Entretanto, a figura não existe sem o seu fundo. Ao retirarmos o fundo, aquela figura deixa de existir. Portanto, mesmo que os sons fundamentais não sejam sempre ouvidos de forma consciente, apenas o fato deles estarem presentes já sugere uma influência sobre o comportamento e o estado de espírito das pessoas. Numa paisagem, por exemplo, os sons fundamentais são criados pela geografia e pelo clima, como água, vento, relevo, pássaros, insetos e outros animais. Muitos desses sons podem oferecer um significado arquetípico, pois podem estar pré-configurados no imaginário das pessoas; se não estivessem ali, haveria um empobrecimento da paisagem. O comportamento e o estilo de vida de uma sociedade podem ser afetados pelos sons fundamentais. Os sinais são aqueles sons destacados, ou seja, são ouvidos de maneira consciente. Comparados à categoria anterior, podemos dizer que são mais figuras que fundo. São normalmente sinais sonoros que estão comumente organizados em códigos bem elaborados. A marca sonora está relacionada a um som de uma comunidade com caráter único e peculiar, que o distingue como significativo para um determinado local. As marcas sonoras conferem um aspecto singular à vida sonora de uma comunidade. Por isso, um projeto acústico deve sempre valorizar as marcas sonoras de um lugar e preservá-las. A ideia é que sua memória não seja apagada pelo tempo. Exemplo disso é o som do Big Ben em Londres. A música no audiovisual8 Cada comunidade terá suas marcas sonoras, mesmo que nem sempre sejam bonitas ou agradáveis. Portanto, alguns sons inusitados, como o arrastar de cadeiras pesadas de metal por cafeterias ou o bater das portas dos velhos vagões do metrô de Paris podem ser tomados como marcas sonoras. Vemos, então, que o mundo todo está repleto de sons que não são simulados e funcionam como lembranças sonoras. Podemos dizer que essas categorias desenvolvidas por Schafer sempre serão trabalhadas dentro de produtos audiovisuais, contribuindo para a construção de mundos imaginários que quase sempre buscam uma identificação com a realidade. Em outros momentos, a proposta sonora é destacar algo quase como irreal. Tudo depende da intenção da obra. A percepção conjunta dos elementos sonoros e imagéticos em uma obra audiovisual é diferente de uma percepção isolada de cada um deles. Tal cons- tatação já era feita desde o início da história do cinema, o qual começou com a película muda, mas sempre teve a música fazendo parte das suas narrativas, com músicos tocando na própria sala de exibição. Portanto, o filme da película projetado no cinema associado à música executada em tempo real fazia tanto a imagem quanto o som assumirem novos significados para o público. O cinema nasceu mudo. Afirmação audaciosa, uma vez que, se por um lado o filme era mudo por não reproduzir fisicamente o som, por outro [...] en- tenderemos que o cinema se pretendia sonoro mesmo enquanto mudo, por sugerir sons. Os primeiros filmes realizados pelos irmãos Lumiè re não tinham nenhum acompanhamento sonoro. Vale lembrar que, para eles, o cinema era resultado de uma experiência científica, portanto longe da ideia de espetá- culo ou entretenimento. No entanto, acompanhar o movimento da saída dos trabalhadores da fábrica dos Lumiè re (La sortie de l’Usine Lumiè re à Lyon — 1895), ou ver o trem aproximar-se da estação (L’á rrivé e d’un train en gare de La Ciotat - 1896) — ações enquadradas em planos gerais próximos e em ângulo frontal —, coloca-nos diante de uma sensação sonora que emana da imagem (MANZANO, 2003, p.11). Assim, alguns recursos começaram a ser utilizados de forma a levar o som às projeções. Pianistas, músicos e orquestras executando músicas nas salas de exibição, dublagens “ao vivo” realizadas por cantores e atores que ficavam atrás da tela ou ainda locutores narrando partes da história também passaram a ser usados nas projeções dos filmes. A proposta era entusiasmar o público e dar mais dinamismo à exibição. Desde então, começava a se perceber as diversas contribuições que o som estava trazendo ao cinema. Eis algumas delas, conforme Martin (2005): 9A música no audiovisual Realismo ou a impressão de realidade: o som aumenta o coefi- ciente de realidade material e estética da imagem; a credibilidade da imagem é elevada, fazendo com que o espectador reencontre um mundo “real”. Continuidade sonora: enquanto as imagens de um filme são compostas de uma sequência de fragmentos, a banda sonora funciona reestabele- cendo e auxiliando na continuidade, seja em uma percepção mais direta ou como sensação estética. A banda sonora costuma ficar mais próxima de um realismo quando se pensa em ambiência sonora. Além disso, a música ajuda muito na continuidade sonora, seja de forma dramática ou material, ao dar ritmo à montagem das imagens. Utilização normal da palavra: a partir da introdução do som, há a possibilidade de retirada das legendas, libertando, de alguma maneira, a imagem de uma função explicativa. Assim, ela passa a ter uma função muito mais expressiva. Isso faz com que, muitas vezes, não haja ne- cessidade de se mostrar algo que pode ser dito em som. A partir desse momento, começa-se a usar a voz “fora de campo”, ou seja, uma situação em que se ouve a voz de uma pessoa enquanto a imagem mostra outra coisa. Sem som, esse recurso expressivo não podia ser usado. Silêncio: a partir da introdução do som na película cinematográfica, o silêncio, que antes era um “defeito” (pois não estava gravado no filme), passa a ser promovido como um valor positivo. A falta de som em determinado contexto pode acrescentar significado à narrativa. O silêncio pode sublinhar com vigor a tensão dramática de um determinado momento em uma história. Elipses possíveis do som e da imagem: com o advento do som, começou a haver a possibilidade de omissão de informações a partir da combi- nação entre banda sonora e visual. Novos códigos puderam ser criados e facilmente identificados no contexto pelo espectador. Um exemplo é encontrado no filme Sob os telhados de Paris (de René Clair, 1913), quando duas personagens discutem atrás de uma porta de vidro sem que percebamos o sentido de suas palavras, ou então quando podemos identificar um assassino por uma mera melodia no filme M, o vampiro de Düsseldorf (de Fritz Lang, 1931), ou ainda no filme Tubarão (de Steven Spielberg, 1975), em que precisamos ouvir apenas duas notas musicais para sabermos que um tubarão se aproxima. Justaposição de som e imagem como contraponto ou contraste: ocorre quando a imagem mostra uma coisa e o som não é, em princípio, coincidente com a imagem. Trata-se da inclusão de um som que não A música no audiovisual10 está em sincronia e não faz parte da imagem original. Sua utilização serve para chamar a atenção a alguma coisa na trama. Música: pode ser um elemento de ação, acompanhando o ritmo de uma cena ou, mais do que isso, a música constitui um material expressivamente muito rico, pois pode sublinhar acontecimentos dentro de um produto audiovisual, acentuando as sensações ofertadas pelas imagens. Ao assistir um filme, o espectador está recebendo uma mistura de elemen-tos visuais e sonoros como um conjunto. Naquele momento, não é comum assistir e discernir simultaneamente quais são os elementos imagéticos e sonoros. Tanto a imagem quanto o som de um produto audiovisual são compostos de diversas camadas que se misturam e criam os ambientes visuais e sonoros. Seja como for, é fato que poucas vezes os espectadores levam em conside- ração a parte sonora, especificamente. Isso ocorre porque no cinema o que se destaca é a imagem. Culturalmente, há uma preponderância do visual sobre o som. Para que consigamos prestar atenção no que compõe o som, devemos decompor essa mistura audiovisual. Quando percebemos os sons apenas em sincronismo com a imagem, po- demos estar reduzindo-os a meros efeitos de redundância. Nesse viés, o som resultaria nos mesmos significados que a imagem está trazendo. Entretanto, parece mais interessante e produtivo também refletirmos sobre a noção de som como vestígio ou pista. Isso está relacionado à ideia de que a presença de uma emissão acústica está numa outra dimensão, diferente daquela encontrada na imagem. Essa é apenas uma abordagem possível para pensarmos o uso do som na narrativa audiovisual. Há ainda outras características da construção de narrativas audiovisuais com a utilização das camadas sonoras. Michel Chion (2001) é um dos teóricos que mais escreveu acerca da relação entre som e imagem. Para ele, a música exerce diversos papéis dentro de uma obra audiovisual, tais como: A música leva o espectador para qualquer tempo e qualquer espaço. A música pode ser diegética (executada dentro da cena) ou não diegética (produzida por uma fonte que está fora da cena, sendo sobreposta à imagem). Existem diversas combinações possíveis entre música e imagem. Ao experimentarmos diferentes músicas sobre uma mesma cena teremos resultados e significados diversos. 11A música no audiovisual Falas, ruídos e música podem se relacionar de forma contínua ou des- contínua a partir de zonas de interseção entre si. A música, como um tema, pode simbolizar um filme. Portanto, pode descrever de forma resumida o sentimento principal da narrativa. Valor agregado é um efeito criado por meio de um acréscimo de atmosfera, de emoção. É quando colocamos mais alguma informação, por exemplo, como um efeito sonoro que é espontaneamente projetado pelo espectador. Assim, quando agregarmos à imagem de um rosto neutro uma música feliz, essa imagem vai assumir a característica proposta pela música. Esse fenômeno também pode ocorrer de forma contrária. Podemos definir um filme como um conjunto de ritmos. A música cria em vários momentos, em conjunto com as imagens, um padrão rítmico, cronométrico. Esse ritmo pode afetar a imagem por meio da montagem. A música auxilia na percepção da dimensão de um cenário. Em filmes que mostram altas montanhas, por exemplo, é difícil traduzir visual- mente, mesmo em plano geral, a vastidão de um cenário, pela falta de referências para o olhar. Nesse caso, a música é chamada para salvar a cena. Em alguns momentos de um filme pode não haver diálogo, como uma pausa de um personagem pensando. É aí, então, que a música tem o potencial de manter a continuidade da presença humana, a subjetividade dos personagens. A música pode ser empática, quando parece aderir ao sentimento da cena, ou anempática, quando parece estar indiferente em relação ao que está acontecendo na imagem. A trilha musical vem sendo cada vez mais estudada, focando-se na escuta ou na linguagem em relação à imagem, assim como relacionando-se com variados estilos, como a música erudita contemporânea ou a música popular, por exemplo, tudo mediado por processos de criação musical que incluem a utilização de novas tecnologias. Ao finalizar este capítulo, é importante destacar o papel fundamental que os elementos sonoros têm na narrativa, possuindo grande força expressiva nas obras audiovisuais. A música no audiovisual12 BARTHES, R. O óbvio e o obtuso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. CHION, M. A audiovisão. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011. MANZANO, L. A. F. Som-imagem no cinema: a experiência alemã de Friz Lang. São Paulo: Perspectiva, 2003. MARTIN, M. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2005. MURCH, W. Num piscar de olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. SCHAFER, R. M. A afinação do mundo. São Paulo: Unesp, 2001. WISNIK, J. M. O som e o sentido: uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 13A música no audiovisual PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Michael Abrantes Kerr A sonorização do audiovisual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever os diferentes processos de produção da narrativa sonora. Definir sincronia e temporalidade do som. Identificar elementos da finalização de áudio para produtos audiovisuais. Introdução Nosso imaginário é permeado de experiências sonoras passadas. Com isso, os produtos audiovisuais procuram trabalhar imagens e sons que de alguma maneira se aproximem de realidades vividas anteriormente pelos espectadores. Assim, ao encontrarem essas familiaridades, espectadores acabam mergulhando no mundo criado pelas obras audiovisuais. É por isso que os roteiros devem ser bem estruturados também do ponto de vista sonoro, imitando situações cotidianas para que os espectadores se identifiquem com aquilo que assistem. Neste capítulo, você estudará a narrativa sonora como um dos ele- mentos-chave no planejamento de um produto audiovisual. Assim, verá por que é fundamental desenvolver um processo de produção sonora organizado para que se tenha um produto final bem acabado. 1 Processo criativo da narrativa sonora A trilha sonora de um produto audiovisual é composta por música, vozes, ruídos e silêncio. Todos esses elementos devem ser articulados com as imagens para desenvolver as ações dentro de uma obra e narrar algum acontecimento ou alguma história, seja em documentários, telejornais, fi lmes, séries, videoclipes ou qualquer outro tipo de produção. Uma das fases iniciais para que isso ocorra está na criação de um roteiro audiovisual. Trata-se de transformar uma ideia que está na cabeça ou adaptar alguma história já pronta (um conto, um livro, etc.) em textos que nos digam como serão os sons e as imagens de nosso produto audiovisual. Podemos dizer que o roteiro seria uma ferramenta de transição entre a história que temos e a finalização de um audiovisual. Percebemos, assim, que a escrita do roteiro define como será a produção da trilha sonora para a construção da narrativa e como os sons vão influenciar os espectadores na compreensão da história e nas sensações que vão sentir ao longo do tempo em que estiverem assistindo a algum obra. Portanto, há claramente influência direta dos sons sobre a imagem a partir da sua combi- nação ao longo da narrativa. Segundo Doane (1991), essa mistura estabelece uma relação entre filme e espectador. Para a elaboração por escrito dos sons em um roteiro, é fundamental ima- ginar como os recursos sonoros (música, vozes, ruídos e silêncio) afetam ritmo, tempo, sincronia e espaço audiovisual. Assim, vejamos como é possível, inicialmente, escrever o roteiro de um filme tendo como base a construção do som. A partir disso, é possível perceber como se desenvolve a produção e a pós-produção sonora audiovisual. Quase todos os autores que escrevem manuais de roteiro parecem dar mais importância à imagem do que ao som. Veja, por exemplo, umadessas abordagens: O roteiro, enquanto “sistema”, é feito de finais, inícios, pontos de virada, planos e efeitos, cenas e sequências. Juntos, unificados pelo impulso dramático de ação e personagem, os elementos da história são “arranjados” de uma forma particular e depois revelados visualmente para criar a totalidade conhecida como “o roteiro”. Uma história contada em imagens (FIELD, 2001, p. 86). A última frase de Field destaca que o roteiro se trata de uma história que é contada em imagens. Nessa história feita de imagens em movimento, há espaço de sobra para destacar as ações que se desenvolvem. Entretanto, seria bem importante ter também um amplo espaço dedicado à banda sonora. Assim como Field (2001), diversos outros autores usam a imagem como o ponto de partida e de chegada para o desenvolvimento do roteiro, afinal uma das funções do roteiro é ajudar a conceber imagens a partir de descrições detalhadas. Acontece que o mesmo pode ser feito para a concepção sonora de uma obra audiovisual. A sonorização do audiovisual2 Para Comparato (1998), o roteiro é a forma escrita de um projeto audiovisual. Além disso, afirma que o roteiro é o início de um processo visual e não o final de um processo literário. Mckee (2005) é outro teórico que recorre ao visual para abordar o ponto de vista ao escrever roteiro. Segundo ele, as histórias são ambientadas em tempo e lugar específicos, ressaltando que devemos notar onde estamos no espaço quando imaginamos uma ação a ser desenvolvida. Rodrigues (2002) também destaca mais o papel da imagem que o do som quando conceitua o que é roteiro: Um roteiro é uma história contada com imagens, expressas dramaticamente em uma estrutura definida, com início, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Se, ao lermos um roteiro, tivermos dificuldades em visualizar a cena, certamente ele tem problemas. Um bom roteiro não é a única condição para o planejamento eficiente do tempo e do custo de filmagem, mas contribui para que o filme seja preparado de modo mais adequado (RODRIGUES, 2002, p. 50). É possível perceber pelos meros conceitos de alguns teóricos que, de forma geral, a atenção é sempre maior à imagem quando se está desenvolvendo um roteiro audiovisual. Há também uma tendência de relacionar o som mais diretamente aos diálogos, sem dar grande destaque à trilha sonora como um todo. Isso seria baseado em duas formas de construção de cena: Geralmente, há dois tipos de cenas: um em que algo acontece visualmente, como uma cena de ação — a perseguição que abre Guerra nas Estrelas ou as cenas de luta em Rock, um Lutador. O outro é a cena de diálogo entre uma (monólogo) ou mais pessoas. A maioria das cenas combina os dois tipos. Numa cena de diálogo, geralmente há alguma ação acontecendo, e numa cena de ação há geralmente algum diálogo transcorrendo (FIELD, 2001, p. 118). Quando falam sobre som, diversos autores destacam imagem e diálogos como os principais componentes de um roteiro audiovisual. Isso chama a atenção pelo fato de, muitas vezes, o restante da trilha sonora ficar em segundo plano nessa etapa, o que pode fazer a escrita esquecer de detalhes que podem comprometer o resultado final de uma obra audiovisual. É importante destacar que o diálogo sempre foi importante no audiovisual, mesmo antes do advento do cinema sonoro. Tanto é que não se ouvia o que os atores falavam, mas se compreendia o que queriam dizer por meio de mímicas e de intertítulos que ficavam entre uma imagem e outra. 3A sonorização do audiovisual Quanto a música e ruídos, os autores sugerem não exagerar na escrita de seus detalhes em roteiro: Efeitos sonoros e música são sempre grafados em maiúsculas. Não exagere nos efeitos. O último passo no processo de produção de filmes é colocar a música e os efeitos sonoros. O filme está fechado, isto é, a pista de imagens não pode ser mudada ou alterada. Os editores correm todo o roteiro procurando deixas de músicas e de efeitos sonoros, e você pode ajudá-los colocando as referências a música e efeitos sonoros em maiúsculas (FIELD, 2001, p. 161). A partir dessa perspectiva, o som acaba ficado bastante relacionado à pós- -produção. Entretanto, ele funciona como fio condutor, fazendo-nos adentrar na narrativa. Assim, podemos observar como o som pode ser trabalhado desde a pré-produção voltando nosso olhar para as diferentes maneiras de aplicação, de tratamento e de tipos de som, resultando em estilos sonoros variados. É importante salientar que há várias narrativas audiovisuais em que o som é importante, como filmes, videoclipes, programas de televisão, séries, etc. No entanto, nossas reflexões aqui terão como foco o cinema, pois histori- camente é o ponto de partida para outros meios e aquele que mais vem se desenvolvendo e sendo estudado. Roteiro e som Partindo do pressuposto de que temos numa obra audiovisual duas percepções (auditiva e visual) que se afetam reciprocamente, também é fundamental notarmos que elas agem diretamente no contrato que estabelecem com o es- pectador. Portanto, quem vai ao cinema no dias de hoje, por exemplo, imagina que vai ver imagens em movimento e ouvir sons enquanto assiste a um fi lme. Com isso, temos então a ideia de que som e imagem são indissociáveis para a oferta de sentidos no audiovisual. Partindo desse princípio, vejamos em mais detalhes como o som pode ser mais trabalhado na etapa de criação de roteiro, como parte de uma construção da narrativa sonora. Elementos como tempo, ritmo e sincronia já devem ser observados nessa etapa para um melhor desenvolvimento da produção como um todo. Os teóricos que tratam sobre a parte sonora também têm a imagem como o elemento inicial para desenvolver a narrativa. Chion (2011) nos diz que talvez a função mais cumprida pelo som no cinema é a unificação do fluxo das imagens no espaço e no tempo. O som certifica a presença das imagens, como se as tornassem mais realistas. Assim, a banda sonora potencializaria A sonorização do audiovisual4 o efeito das imagens sobre os espectadores. Isso é resultado de uma tradição histórica, desde que o cinema e o som começaram a se relacionar. O advento do som introduziu no espaço cinematográfico inúmeras possibili- dades de jogos com a imagem. Ordinariamente considerado como detalhe na representação fílmica, o som, assim como a imagem, participa da figuração diegética tanto quanto o enredo do filme (FLÔRES, 2013, p. 24). O primeiro autor a propor uma classificação dos elementos sonoros para a narrativa em cinema foi a professora norte-americana Claudia Gorbman em 1976. Ela diferenciou os sons diegéticos dos não diegéticos. O som diegético seria aquele composto de sonoridades objetivas. Trata-se de todo o universo sonoro que é perceptível pelos personagens em cena. Aqui entram a paisagem sonora (som de carros, multidão, pássaros, música que é emitida por um aparelho de som na cena, etc.) e os diálogos. Já o som não diegético abrange as sonoridades subjetivas. São todos os sons da cena que não são percebidos pelos personagens, mas que influenciam no modo como os interpretamos. São representados pela voz de narração, música de fundo ou efeitos sonoros. A subordinação do som em relação à imagem é uma questão histórica e tecnológica, por um ter se desenvolvido antes do outro. Porém, tal subordinação também pode estar relacionada a uma ideia que existe em algumas formas de se fazer cinema, como o clássico, em que a montagem de imagens deve ser invisível. Isso quer dizer que os cortes devem ser quase imperceptíveis ao espectador, dando a impressão de que existe uma suave continuidade em tudo o que se está assistindo. Com o som isso também acontece. Como boa parte dele é produzida em pós-produção, o som parece muitas vezes aderir à imagem. Assim, quem assiste a um filme não percebe a banda sonora como uma parte discreta da produção da obra, e sim como uma parte imiscuída ao todo, como algo casado com a imagem. A inclusão de elementos da trilha sonoradeve ser sinalizada no roteiro para que som e imagem sejam trabalhados em consonância desde o início de uma produção audiovisual e para que se possa garantir um bom desenho de som do filme. “No cinema, sempre existe a imagem visual, sua montagem, e tudo o que está ligado a ela através de um roteiro, principalmente os diálogos. Estes são os pontos de partida da banda sonora, os primeiros elementos sonoros de uma trilha” (FLÔRES, 2013, p. 52). 5A sonorização do audiovisual Portanto, partido da sugestão de Flôres, podemos trabalhar o som no roteiro assim que consigamos perceber um diálogo. Essa é a maneira mais clara e fácil de iniciar o processo na fase de roteirização para que se consiga colocar detalhes necessários à produção posterior. Há o exemplo de um filme clássico no qual o som deve ter sido pensado na fase inicial de criação da obra. Em M, o Vampiro de Dusseldorf, de 1931, o assassino tem sempre o hábito de assobiar uma música, razão pela qual ele acaba sendo descoberto. Dessa forma, é fácil imaginar que essa ideia deve ter sido estruturada na construção do roteiro, pois é fundamental para entendermos a trama. Assim, é muito importante ter em mente que o som precisa agregar valor à narrativa. Além das imagens, a paisagem sonora também é portadora de informações. Inicialmente, na construção de um filme, há um roteiro literário. Nele consta aquilo que se quer dizer, ou seja, a história que será contada. É a partir da leitura do roteiro que se poderá trabalhar para incluir elementos que consigam transformar um texto que está em palavras em uma obra audiovisual. É a essa altura que se desenvolve o roteiro técnico, com variadas informações que vão além da história. Aqui entram enquadramentos, movimentos de câmera, angulações, iluminação, indicação de cenário, diálogos, música e sons de todos os tipos, dentre outras informações que indiquem a forma do filme. Portanto, podemos dizer que o roteiro literário tem relação com o que queremos dizer, enquanto o roteiro técnico seria como vamos dizer. 2 Sincronia e tempo a partir do som Devemos lembrar que a banda sonora de qualquer produto audiovisual é composta por música, vozes, ruídos e silêncio. É com esses elementos que vamos construir toda a estética sonora de uma obra. Dependendo da proposta, podemos criar um ambiente sonoro que procure aquilo que é diferente, que parece não se encaixar com a imagem. Isso costuma ocorrer em fi lmes ou vídeos que experimentam com a linguagem audiovisual. No entanto, em quase todos os produtos audiovisuais narrativos tentamos aproximar os espectadores da realidade vivida por eles cotidianamente. Para isso, uma das técnicas fun- damentais é utilizar aquilo que Chion (2011) chama de princípio da síncrese, ou seja, encontrar a sincronia entre som e imagem. Isso quer dizer que sempre que trabalharmos com música, vozes, ruídos ou silêncio em sincronia com a imagem estaremos aproximando o produto da realidade, pois no espaço sonoro em que vivemos os sons são síncronos A sonorização do audiovisual6 com aquilo que estamos vendo. Portanto, para que o som se materialize mais fortemente, é necessário o estabelecimento de uma relação imediata entre aquilo que se vê e aquilo que se ouve. Assim, quando dois fenômenos sensoriais e simultâneos que têm origem na mesma fonte são percebidos imediatamente como um só evento, acaba ocorrendo a criação de uma “entidade audiovisual”, que é a essência formada pela combinação de imagem e som. Por isso, é já na fase de preparação do roteiro que se deve planejar qual será a intenção em termos de sincronismo. O som em sincronia com a imagem ajudará a imergir o espectador profundamente no ambiente audiovisual. Além disso, essa ideia de sincronia está diretamente ligada à noção de audiovisão, da qual trata Chion (2011), que afirma que associação de som e imagem acaba gerando uma percepção bem distinta daquela que cada um produziria de forma separada: Com audiovisão designamos o tipo de percepção própria do cinema e da televisão, mas que também experimentamos com frequência in situ, e no qual a imagem é o núcleo consciente da atenção, mas onde o som aporta a todo o momento uma série de efeitos, de sensações e de significados que, mediante um fenômeno de projeção, se atribuem à imagem e parecem derivar naturalmente dela (CHION, 2011, p. 276). As informações sonoras e visuais são resultados de uma mescla, a partir de uma noção de valor agregado em que o som enriquece a imagem e vice-versa, um influenciando o outro quando percebidos de forma conjunta. É nesse sentido que a síncrese afeta diretamente a percepção audiovisual do espec- tador, já que trabalha com a coincidência exata entre imagens e sons. Aquilo que seria separado aparece indivisível aos sentidos. Desse modo, pode-se até mesmo realizar experimentos com efeitos de contradição, pois a sincronia faz as pessoas ligarem som e imagem. Independentemente de qualquer lógica racional, o sincronismo nos faz acreditar que o som que estamos ouvindo é proveniente daquilo que está em ação na imagem. Outro valor agregado, segundo Chion (2011), está relacionado ao tempo na imagem, o qual pode ser muito influenciado pelo som. A temporalidade a partir do som no audiovisual pode ser observada a partir de três aspectos: Animação temporal da imagem: ocorre quando o som estimula nossa percepção sobre a passagem do tempo. Exemplos disso aparecem quando vemos espaços vazios, personagens imóveis ou um plano fixo sem movimento interno. Nessas situações, percebemos que não se trata de uma imagem congelada, já que os sons conferem duração a ela. 7A sonorização do audiovisual Linearização temporal dos planos: quando apresentada sob uma trilha de áudio com som em sincronia, uma sequência de imagens impõe uma ideia de sucessão. Portanto, a sincronicidade faz com que haja continuidade entre as imagens, passando a ideia de que a sequência de planos foi registrada no mesmo instante. Direcionamento ou dramatização dos planos — antecipação: aqui os sons indicam direções, evoluções, criando um sentimento de expectativa. O ritmo sonoro funciona como vetor, fazendo com que o som nos leve em direção a um evento eminente, criando expectativa. Talvez o mais célebre exemplo de direcionamento no cinema moderno seja a trilha para sugerir e antecipar a presença do Tubarão (1975), no filme de Steven Spielberg. Para isso, John Williams, que assinou a trilha, recorreu ao minimalismo e ao uso de ostinatos — frases musicais curtas e repetitivas — para criar algo que entendemos hoje como umas das epítomes universais do suspense. Em crítica publicada no site Plano Crítico, intitulada “Tubarão (trilha sonora original)”, Leonardo Campos (2017) esmiúça alguns detalhes saborosos sobre o tema, como o fato de que, por restrições de orçamento, o tubarão-robô criado em estúdio apareceria em poucas cenas, cabendo à trilha substituir sua presença por toda a primeira metade do filme. A interferência da trilha sonora na temporalidade da imagem pode acontecer com maior ou menor intensidade. Isso vai depender de fatores como: O tipo de sustentação do som (quanto mais estáveis e contínuos, menor o efeito rítmico), o grau de previsibilidade da progressão (sons mais regulares tendem a temporalizar menos as imagens do que os irregulares), grau de previsibilidade dos pontos de sincronia (quanto maior a irregularidade, maior a velocidade), presença de microrritmos visuais (movimentos de chuva, neve, água, fumaça e qualquer tipo de granulação), grau de diegese do som (os diegéticos impõem um tempo linear; os não diegéticos criam a sensação de simultaneidade) e utilização de música (MORAES, 2015, p. 7). O som cumpre um papel essencial na narrativa audiovisual, pois é um elemento que tem o poder de juntar ou separar estruturalmente sequências de imagens em movimento que mostram uma mesma cena a partir de diferentes pontos de vista. A trilha sonora funciona como um instrumento organizadorA sonorização do audiovisual8 do visual, na medida em que a continuidade sonora se aproxima muito da lógica da percepção humana. Muito importante também é perceber como o som é construído no espaço quando pensamos em audiovisual. Isso deve ser abordado desde a captação sonora até a edição do som na fase de pós-produção. O cinema é filmado plano após plano. Posteriormente, a montagem reúne e conecta todas as imagens, colocando-as em uma ordem que está determina pelo roteiro técnico. É assim que se consegue dar uma continuidade visual ao que ocorre em diferentes planos, pois cada parte de uma ação ocorre em planos diferentes. Por fim, tem-se uma ação completa quando se conectam várias imagens na sequência. O som tem um papel fundamental de auxílio à continuidade espacial, reconstruindo a sonoridade de um local. Nesse sentido, a trilha sonora pode transmitir com grande precisão sensações espaciais. Isso está relacionado aos locais onde as fontes sonoras estão localizadas. É importante destacar que a localização da fonte sonora pode variar dentro do espaço da imagem e até ter sua origem fora dela. A partir disso, podemos identificar diferentes tipos de sons: Som in: a fonte sonora faz parte da diegese e aparece na imagem. Portanto, faz parte do mundo que a imagem traz. Som off: é um som diegético, mas a fonte sonora está ausente da imagem. Também é chamado de som fora de campo. Trata-se de um som que se ouve sem que enxerguemos a sua origem, Som over: a fonte sonora não é digética e nem está visível na imagem. Está num lugar alheio à situação, assim como o tempo. Exemplos: narração, comentários e música produzida por uma fonte que não faz parte da cena. As denominações aqui mencionadas servem para dar uma ideia daquilo que pode ser construído como ambiente sonoro dentro do espaço do audiovisual. Entretanto, a relação entre fontes sonoras e imagens é bem complexa, fazendo surgir diferentes abordagens para se trabalhar no campo audiovisual. Tanto é que a ideia de Chion (2011) sobre som ambiente está próxima da noção de paisagem sonora de Schafer (2001). Tais conceitos se referem aos sons que formam um ambiente acústico de um local. Schafer (2001) afirma que o ritmo dos acontecimentos está relacionado ao ambiente acústico em que as pessoas se encontram. Trazendo isso para o cinema, por exemplo, vamos perceber que as ações e os personagens serão influenciados pela paisagem sonora. Nesse sentido, o som vai interferir também no tempo e no ritmo a partir da maneira como um audiovisual será montado. 9A sonorização do audiovisual 3 A montagem do som Passadas as etapas de roteirização e produção, chegamos à fase de pós-pro- dução, quando acontece a montagem ou edição de áudio. Este é o momento em que são acrescidos os sons não diegéticos, como narrações ou músicas produzidas por uma fonte imaginária ausente da ação, assim como os diegé- ticos, que podem ser determinados ruídos, efeitos, músicas executadas dentro da ação ou dublagens das vozes das pessoas que não foram bem registradas anteriormente. Na finalização de uma obra audiovisual, a edição oferece ferramentas para que o profissional possa agir de modo criativo e funcional para a nar- rativa que deseja construir. Assim, ao incluir diversas camadas para criar o ambiente sonoro, o editor deve ficar atento para que sua composição possa ser compreendida pelo ouvido dos espectadores. Em geral, são cinco as camadas que o ouvido é capaz de compreender até que surja a tal incapacidade de distinção. Por camada entendemos aqui um grupo homogêneo de som que seja distinto de outras camadas. Num filme, o diálogo constitui uma camada, o telefone a tocar ao fundo, outra, o som da chuva nas janelas, outra, etc. Todas elas são absolutamente distintas umas das outras (JORGE, 2002, p. 63). Nesse sentido, é sempre importante ponderar a quantidade de informação sonora que será acrescida ao visual, pois caso sejam incluídas mais de seis camadas, corre-se o risco de que apenas cinco sejam de fato percebidas, mesmo que isso possa variar um pouco. Também é fundamental levar em consideração o seguinte: ao dizermos que o ouvido tem capacidade de ouvir cinco camadas, isso não quer dizer cinco diálogos simultâneos. Essas camadas funcionam se os sons forem distintos entre si, como diálogo, chuva, música, carros e pessoas falando ao fundo. Esses sons cobrem diferentes frequências sonoras e, por isso, não suscitam confusão quando mesclados. Já a nossa capacidade de percebermos sons semelhantes simultaneamente é mais reduzida. Murch (2004) considera que conseguimos distinguir dois sons de mesma natureza. Como exemplo, cita vários cães a ladrar ao mesmo tempo. Quando um começa, nós compreendemos totalmente. Assim que um segundo inicia, nós conseguimos identificar cada um deles. Entretanto, quando um terceiro começa a ladrar, deixamos de percebê-los individualmente e passamos a ter apenas uma ideia de conjunto: os cães estão a ladrar. A mesma regra serve para os diálogos quando são colocados simultaneamente. A sonorização do audiovisual10 Uma das tarefas da pós-produção de som é realizar uma mistura para obter densidade sonora. Isso faz com que o som esteja no espaço cênico para ajudar a convencer o espectador sobre aquilo que ele assiste. Nesse sentido, é fundamental buscar clareza para que todos os sons presentes possam ser percebidos. Quando cada som ocupa um lugar diferente no espectro sonoro, podemos ouvi-los melhor e o conjunto sonoro flui de maneira mais natural. Numa mistura bem equilibrada, tudo é percebido naturalmente. Seja como for, o som não deve destoar da imagem, ao mesmo tempo em que não deve ser apenas um complemento. Som e imagem devem um reforçar um ao outro para que a narrativa seja compreendida como um todo. Atualmente, existem programas de software específicos para montagem ou edição de som. Eles servem para cortar, recortar, mixar canais, inserir músicas, colocar efeitos ou ruídos, incluir vozes ou silêncio. Portanto, a montagem de toda a paisagem sonora que vai formar a trilha planejada desde a pré-produção pode ser realizada em programas dedicados inteiramente ao som, para que este possa ser sincronizado com a imagem no produto audiovisual. Um dos programas mais conhecidos e utilizados é o Sound Forge. Outro, que é gratuito, e também bastante usado no mercado audiovisual é o Audacity. CAMPOS, L. Crítica | Tubarão (Trilha Sonora Original). Plano Crítico, 20 out. 2017. Dis- ponível em: https://www.planocritico.com/critica-tubarao-trilha-sonora-original/. Acesso em: 04 maio 2020. CHION, M. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011. COMPARATO, D. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. DOANE, M. A. A voz no cinema: a articulação de corpo e espaço. In: XAVIER, I. (Org.). A experiência do cinema: antologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991. p. 457–475. FIELD, S. Manual do roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. FLÔRES, V. O cinema: uma arte sonora. São Paulo: Annablume, 2013. GORBMAN, C. Teaching the soundtrack. Journal Quarterly Review of Film Stu- dies, v. 1 n. 4, p. 446–452, 1976. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/ abs/10.1080/10509207609360969. Acesso em: 04 maio 2020. 11A sonorização do audiovisual Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. JORGE, R. P. Edição de som: algumas perspectivas. Caleidoscópio: Revista de Comunicação e Cultura, n. 2, p. 59–67, 2002. McKEE, R. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte e Letra, 2005. MORAES, C. A. A figura sonora na pausa audiovisual:rastros, percursos e moldurações. Compós, 2015. Disponível em: http://www.compos.org.br/biblioteca/compos-2015- 12d0238b-7b0d-4bd0-a01b-f3742e03324b_2762.pdf. Acesso em: 04 maio 2020. MURCH, W. Num piscar de olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. RODRIGUES, C. O cinema e a produção. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. SCHAFER, R. M. A afinação do mundo. São Paulo: Unesp, 2001. A sonorização do audiovisual12 PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Michael Abrantes Kerr A sonorização do audiovisual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever os diferentes processos de produção da narrativa sonora. Definir sincronia e temporalidade do som. Identificar elementos da finalização de áudio para produtos audiovisuais. Introdução Nosso imaginário é permeado de experiências sonoras passadas. Com isso, os produtos audiovisuais procuram trabalhar imagens e sons que de alguma maneira se aproximem de realidades vividas anteriormente pelos espectadores. Assim, ao encontrarem essas familiaridades, espectadores acabam mergulhando no mundo criado pelas obras audiovisuais. É por isso que os roteiros devem ser bem estruturados também do ponto de vista sonoro, imitando situações cotidianas para que os espectadores se identifiquem com aquilo que assistem. Neste capítulo, você estudará a narrativa sonora como um dos ele- mentos-chave no planejamento de um produto audiovisual. Assim, verá por que é fundamental desenvolver um processo de produção sonora organizado para que se tenha um produto final bem acabado. 1 Processo criativo da narrativa sonora A trilha sonora de um produto audiovisual é composta por música, vozes, ruídos e silêncio. Todos esses elementos devem ser articulados com as imagens para desenvolver as ações dentro de uma obra e narrar algum acontecimento ou alguma história, seja em documentários, telejornais, fi lmes, séries, videoclipes ou qualquer outro tipo de produção. Uma das fases iniciais para que isso ocorra está na criação de um roteiro audiovisual. Trata-se de transformar uma ideia que está na cabeça ou adaptar alguma história já pronta (um conto, um livro, etc.) em textos que nos digam como serão os sons e as imagens de nosso produto audiovisual. Podemos dizer que o roteiro seria uma ferramenta de transição entre a história que temos e a finalização de um audiovisual. Percebemos, assim, que a escrita do roteiro define como será a produção da trilha sonora para a construção da narrativa e como os sons vão influenciar os espectadores na compreensão da história e nas sensações que vão sentir ao longo do tempo em que estiverem assistindo a algum obra. Portanto, há claramente influência direta dos sons sobre a imagem a partir da sua combi- nação ao longo da narrativa. Segundo Doane (1991), essa mistura estabelece uma relação entre filme e espectador. Para a elaboração por escrito dos sons em um roteiro, é fundamental ima- ginar como os recursos sonoros (música, vozes, ruídos e silêncio) afetam ritmo, tempo, sincronia e espaço audiovisual. Assim, vejamos como é possível, inicialmente, escrever o roteiro de um filme tendo como base a construção do som. A partir disso, é possível perceber como se desenvolve a produção e a pós-produção sonora audiovisual. Quase todos os autores que escrevem manuais de roteiro parecem dar mais importância à imagem do que ao som. Veja, por exemplo, uma dessas abordagens: O roteiro, enquanto “sistema”, é feito de finais, inícios, pontos de virada, planos e efeitos, cenas e sequências. Juntos, unificados pelo impulso dramático de ação e personagem, os elementos da história são “arranjados” de uma forma particular e depois revelados visualmente para criar a totalidade conhecida como “o roteiro”. Uma história contada em imagens (FIELD, 2001, p. 86). A última frase de Field destaca que o roteiro se trata de uma história que é contada em imagens. Nessa história feita de imagens em movimento, há espaço de sobra para destacar as ações que se desenvolvem. Entretanto, seria bem importante ter também um amplo espaço dedicado à banda sonora. Assim como Field (2001), diversos outros autores usam a imagem como o ponto de partida e de chegada para o desenvolvimento do roteiro, afinal uma das funções do roteiro é ajudar a conceber imagens a partir de descrições detalhadas. Acontece que o mesmo pode ser feito para a concepção sonora de uma obra audiovisual. A sonorização do audiovisual2 Para Comparato (1998), o roteiro é a forma escrita de um projeto audiovisual. Além disso, afirma que o roteiro é o início de um processo visual e não o final de um processo literário. Mckee (2005) é outro teórico que recorre ao visual para abordar o ponto de vista ao escrever roteiro. Segundo ele, as histórias são ambientadas em tempo e lugar específicos, ressaltando que devemos notar onde estamos no espaço quando imaginamos uma ação a ser desenvolvida. Rodrigues (2002) também destaca mais o papel da imagem que o do som quando conceitua o que é roteiro: Um roteiro é uma história contada com imagens, expressas dramaticamente em uma estrutura definida, com início, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Se, ao lermos um roteiro, tivermos dificuldades em visualizar a cena, certamente ele tem problemas. Um bom roteiro não é a única condição para o planejamento eficiente do tempo e do custo de filmagem, mas contribui para que o filme seja preparado de modo mais adequado (RODRIGUES, 2002, p. 50). É possível perceber pelos meros conceitos de alguns teóricos que, de forma geral, a atenção é sempre maior à imagem quando se está desenvolvendo um roteiro audiovisual. Há também uma tendência de relacionar o som mais diretamente aos diálogos, sem dar grande destaque à trilha sonora como um todo. Isso seria baseado em duas formas de construção de cena: Geralmente, há dois tipos de cenas: um em que algo acontece visualmente, como uma cena de ação — a perseguição que abre Guerra nas Estrelas ou as cenas de luta em Rock, um Lutador. O outro é a cena de diálogo entre uma (monólogo) ou mais pessoas. A maioria das cenas combina os dois tipos. Numa cena de diálogo, geralmente há alguma ação acontecendo, e numa cena de ação há geralmente algum diálogo transcorrendo (FIELD, 2001, p. 118). Quando falam sobre som, diversos autores destacam imagem e diálogos como os principais componentes de um roteiro audiovisual. Isso chama a atenção pelo fato de, muitas vezes, o restante da trilha sonora ficar em segundo plano nessa etapa, o que pode fazer a escrita esquecer de detalhes que podem comprometer o resultado final de uma obra audiovisual. É importante destacar que o diálogo sempre foi importante no audiovisual, mesmo antes do advento do cinema sonoro. Tanto é que não se ouvia o que os atores falavam, mas se compreendia o que queriam dizer por meio de mímicas e de intertítulos que ficavam entre uma imagem e outra. 3A sonorização do audiovisual Quanto a música e ruídos, os autores sugerem não exagerar na escrita de seus detalhes em roteiro: Efeitos sonoros e música são sempre grafados em maiúsculas. Não exagere nos efeitos. O último passo no processo de produção de filmes é colocar a música e os efeitos sonoros. O filme está fechado, isto é, a pista de imagens não pode ser mudada ou alterada. Os editores correm todo o roteiro procurando deixas de músicas e de efeitos sonoros, e você pode ajudá-los colocando as referências a música e efeitos sonoros em maiúsculas (FIELD, 2001, p. 161). A partir dessa perspectiva, o som acaba ficado bastante relacionado à pós- -produção. Entretanto, ele funciona como fio condutor, fazendo-nos adentrar na narrativa. Assim, podemos observar como o som pode ser trabalhado desde a pré-produção voltando nosso olhar para as diferentes maneiras de aplicação, de tratamento e de tipos de som, resultando em estilos sonoros variados. É importante salientar que há várias narrativas audiovisuais emque o som é importante, como filmes, videoclipes, programas de televisão, séries, etc. No entanto, nossas reflexões aqui terão como foco o cinema, pois histori- camente é o ponto de partida para outros meios e aquele que mais vem se desenvolvendo e sendo estudado. Roteiro e som Partindo do pressuposto de que temos numa obra audiovisual duas percepções (auditiva e visual) que se afetam reciprocamente, também é fundamental notarmos que elas agem diretamente no contrato que estabelecem com o es- pectador. Portanto, quem vai ao cinema no dias de hoje, por exemplo, imagina que vai ver imagens em movimento e ouvir sons enquanto assiste a um fi lme. Com isso, temos então a ideia de que som e imagem são indissociáveis para a oferta de sentidos no audiovisual. Partindo desse princípio, vejamos em mais detalhes como o som pode ser mais trabalhado na etapa de criação de roteiro, como parte de uma construção da narrativa sonora. Elementos como tempo, ritmo e sincronia já devem ser observados nessa etapa para um melhor desenvolvimento da produção como um todo. Os teóricos que tratam sobre a parte sonora também têm a imagem como o elemento inicial para desenvolver a narrativa. Chion (2011) nos diz que talvez a função mais cumprida pelo som no cinema é a unificação do fluxo das imagens no espaço e no tempo. O som certifica a presença das imagens, como se as tornassem mais realistas. Assim, a banda sonora potencializaria A sonorização do audiovisual4 o efeito das imagens sobre os espectadores. Isso é resultado de uma tradição histórica, desde que o cinema e o som começaram a se relacionar. O advento do som introduziu no espaço cinematográfico inúmeras possibili- dades de jogos com a imagem. Ordinariamente considerado como detalhe na representação fílmica, o som, assim como a imagem, participa da figuração diegética tanto quanto o enredo do filme (FLÔRES, 2013, p. 24). O primeiro autor a propor uma classificação dos elementos sonoros para a narrativa em cinema foi a professora norte-americana Claudia Gorbman em 1976. Ela diferenciou os sons diegéticos dos não diegéticos. O som diegético seria aquele composto de sonoridades objetivas. Trata-se de todo o universo sonoro que é perceptível pelos personagens em cena. Aqui entram a paisagem sonora (som de carros, multidão, pássaros, música que é emitida por um aparelho de som na cena, etc.) e os diálogos. Já o som não diegético abrange as sonoridades subjetivas. São todos os sons da cena que não são percebidos pelos personagens, mas que influenciam no modo como os interpretamos. São representados pela voz de narração, música de fundo ou efeitos sonoros. A subordinação do som em relação à imagem é uma questão histórica e tecnológica, por um ter se desenvolvido antes do outro. Porém, tal subordinação também pode estar relacionada a uma ideia que existe em algumas formas de se fazer cinema, como o clássico, em que a montagem de imagens deve ser invisível. Isso quer dizer que os cortes devem ser quase imperceptíveis ao espectador, dando a impressão de que existe uma suave continuidade em tudo o que se está assistindo. Com o som isso também acontece. Como boa parte dele é produzida em pós-produção, o som parece muitas vezes aderir à imagem. Assim, quem assiste a um filme não percebe a banda sonora como uma parte discreta da produção da obra, e sim como uma parte imiscuída ao todo, como algo casado com a imagem. A inclusão de elementos da trilha sonora deve ser sinalizada no roteiro para que som e imagem sejam trabalhados em consonância desde o início de uma produção audiovisual e para que se possa garantir um bom desenho de som do filme. “No cinema, sempre existe a imagem visual, sua montagem, e tudo o que está ligado a ela através de um roteiro, principalmente os diálogos. Estes são os pontos de partida da banda sonora, os primeiros elementos sonoros de uma trilha” (FLÔRES, 2013, p. 52). 5A sonorização do audiovisual Portanto, partido da sugestão de Flôres, podemos trabalhar o som no roteiro assim que consigamos perceber um diálogo. Essa é a maneira mais clara e fácil de iniciar o processo na fase de roteirização para que se consiga colocar detalhes necessários à produção posterior. Há o exemplo de um filme clássico no qual o som deve ter sido pensado na fase inicial de criação da obra. Em M, o Vampiro de Dusseldorf, de 1931, o assassino tem sempre o hábito de assobiar uma música, razão pela qual ele acaba sendo descoberto. Dessa forma, é fácil imaginar que essa ideia deve ter sido estruturada na construção do roteiro, pois é fundamental para entendermos a trama. Assim, é muito importante ter em mente que o som precisa agregar valor à narrativa. Além das imagens, a paisagem sonora também é portadora de informações. Inicialmente, na construção de um filme, há um roteiro literário. Nele consta aquilo que se quer dizer, ou seja, a história que será contada. É a partir da leitura do roteiro que se poderá trabalhar para incluir elementos que consigam transformar um texto que está em palavras em uma obra audiovisual. É a essa altura que se desenvolve o roteiro técnico, com variadas informações que vão além da história. Aqui entram enquadramentos, movimentos de câmera, angulações, iluminação, indicação de cenário, diálogos, música e sons de todos os tipos, dentre outras informações que indiquem a forma do filme. Portanto, podemos dizer que o roteiro literário tem relação com o que queremos dizer, enquanto o roteiro técnico seria como vamos dizer. 2 Sincronia e tempo a partir do som Devemos lembrar que a banda sonora de qualquer produto audiovisual é composta por música, vozes, ruídos e silêncio. É com esses elementos que vamos construir toda a estética sonora de uma obra. Dependendo da proposta, podemos criar um ambiente sonoro que procure aquilo que é diferente, que parece não se encaixar com a imagem. Isso costuma ocorrer em fi lmes ou vídeos que experimentam com a linguagem audiovisual. No entanto, em quase todos os produtos audiovisuais narrativos tentamos aproximar os espectadores da realidade vivida por eles cotidianamente. Para isso, uma das técnicas fun- damentais é utilizar aquilo que Chion (2011) chama de princípio da síncrese, ou seja, encontrar a sincronia entre som e imagem. Isso quer dizer que sempre que trabalharmos com música, vozes, ruídos ou silêncio em sincronia com a imagem estaremos aproximando o produto da realidade, pois no espaço sonoro em que vivemos os sons são síncronos A sonorização do audiovisual6 com aquilo que estamos vendo. Portanto, para que o som se materialize mais fortemente, é necessário o estabelecimento de uma relação imediata entre aquilo que se vê e aquilo que se ouve. Assim, quando dois fenômenos sensoriais e simultâneos que têm origem na mesma fonte são percebidos imediatamente como um só evento, acaba ocorrendo a criação de uma “entidade audiovisual”, que é a essência formada pela combinação de imagem e som. Por isso, é já na fase de preparação do roteiro que se deve planejar qual será a intenção em termos de sincronismo. O som em sincronia com a imagem ajudará a imergir o espectador profundamente no ambiente audiovisual. Além disso, essa ideia de sincronia está diretamente ligada à noção de audiovisão, da qual trata Chion (2011), que afirma que associação de som e imagem acaba gerando uma percepção bem distinta daquela que cada um produziria de forma separada: Com audiovisão designamos o tipo de percepção própria do cinema e da televisão, mas que também experimentamos com frequência in situ, e no qual a imagem é o núcleo consciente da atenção, mas onde o som aporta a todo o momento uma série de efeitos, de sensações e de significados que, mediante um fenômeno de projeção, se atribuem à imagem e parecem derivar naturalmente dela (CHION, 2011, p. 276). As informações sonoras e visuais são resultados de uma mescla, a partir de uma noção de valor agregado em que o som enriquece a imagem e vice-versa, um influenciando ooutro quando percebidos de forma conjunta. É nesse sentido que a síncrese afeta diretamente a percepção audiovisual do espec- tador, já que trabalha com a coincidência exata entre imagens e sons. Aquilo que seria separado aparece indivisível aos sentidos. Desse modo, pode-se até mesmo realizar experimentos com efeitos de contradição, pois a sincronia faz as pessoas ligarem som e imagem. Independentemente de qualquer lógica racional, o sincronismo nos faz acreditar que o som que estamos ouvindo é proveniente daquilo que está em ação na imagem. Outro valor agregado, segundo Chion (2011), está relacionado ao tempo na imagem, o qual pode ser muito influenciado pelo som. A temporalidade a partir do som no audiovisual pode ser observada a partir de três aspectos: Animação temporal da imagem: ocorre quando o som estimula nossa percepção sobre a passagem do tempo. Exemplos disso aparecem quando vemos espaços vazios, personagens imóveis ou um plano fixo sem movimento interno. Nessas situações, percebemos que não se trata de uma imagem congelada, já que os sons conferem duração a ela. 7A sonorização do audiovisual Linearização temporal dos planos: quando apresentada sob uma trilha de áudio com som em sincronia, uma sequência de imagens impõe uma ideia de sucessão. Portanto, a sincronicidade faz com que haja continuidade entre as imagens, passando a ideia de que a sequência de planos foi registrada no mesmo instante. Direcionamento ou dramatização dos planos — antecipação: aqui os sons indicam direções, evoluções, criando um sentimento de expectativa. O ritmo sonoro funciona como vetor, fazendo com que o som nos leve em direção a um evento eminente, criando expectativa. Talvez o mais célebre exemplo de direcionamento no cinema moderno seja a trilha para sugerir e antecipar a presença do Tubarão (1975), no filme de Steven Spielberg. Para isso, John Williams, que assinou a trilha, recorreu ao minimalismo e ao uso de ostinatos — frases musicais curtas e repetitivas — para criar algo que entendemos hoje como umas das epítomes universais do suspense. Em crítica publicada no site Plano Crítico, intitulada “Tubarão (trilha sonora original)”, Leonardo Campos (2017) esmiúça alguns detalhes saborosos sobre o tema, como o fato de que, por restrições de orçamento, o tubarão-robô criado em estúdio apareceria em poucas cenas, cabendo à trilha substituir sua presença por toda a primeira metade do filme. A interferência da trilha sonora na temporalidade da imagem pode acontecer com maior ou menor intensidade. Isso vai depender de fatores como: O tipo de sustentação do som (quanto mais estáveis e contínuos, menor o efeito rítmico), o grau de previsibilidade da progressão (sons mais regulares tendem a temporalizar menos as imagens do que os irregulares), grau de previsibilidade dos pontos de sincronia (quanto maior a irregularidade, maior a velocidade), presença de microrritmos visuais (movimentos de chuva, neve, água, fumaça e qualquer tipo de granulação), grau de diegese do som (os diegéticos impõem um tempo linear; os não diegéticos criam a sensação de simultaneidade) e utilização de música (MORAES, 2015, p. 7). O som cumpre um papel essencial na narrativa audiovisual, pois é um elemento que tem o poder de juntar ou separar estruturalmente sequências de imagens em movimento que mostram uma mesma cena a partir de diferentes pontos de vista. A trilha sonora funciona como um instrumento organizador A sonorização do audiovisual8 do visual, na medida em que a continuidade sonora se aproxima muito da lógica da percepção humana. Muito importante também é perceber como o som é construído no espaço quando pensamos em audiovisual. Isso deve ser abordado desde a captação sonora até a edição do som na fase de pós-produção. O cinema é filmado plano após plano. Posteriormente, a montagem reúne e conecta todas as imagens, colocando-as em uma ordem que está determina pelo roteiro técnico. É assim que se consegue dar uma continuidade visual ao que ocorre em diferentes planos, pois cada parte de uma ação ocorre em planos diferentes. Por fim, tem-se uma ação completa quando se conectam várias imagens na sequência. O som tem um papel fundamental de auxílio à continuidade espacial, reconstruindo a sonoridade de um local. Nesse sentido, a trilha sonora pode transmitir com grande precisão sensações espaciais. Isso está relacionado aos locais onde as fontes sonoras estão localizadas. É importante destacar que a localização da fonte sonora pode variar dentro do espaço da imagem e até ter sua origem fora dela. A partir disso, podemos identificar diferentes tipos de sons: Som in: a fonte sonora faz parte da diegese e aparece na imagem. Portanto, faz parte do mundo que a imagem traz. Som off: é um som diegético, mas a fonte sonora está ausente da imagem. Também é chamado de som fora de campo. Trata-se de um som que se ouve sem que enxerguemos a sua origem, Som over: a fonte sonora não é digética e nem está visível na imagem. Está num lugar alheio à situação, assim como o tempo. Exemplos: narração, comentários e música produzida por uma fonte que não faz parte da cena. As denominações aqui mencionadas servem para dar uma ideia daquilo que pode ser construído como ambiente sonoro dentro do espaço do audiovisual. Entretanto, a relação entre fontes sonoras e imagens é bem complexa, fazendo surgir diferentes abordagens para se trabalhar no campo audiovisual. Tanto é que a ideia de Chion (2011) sobre som ambiente está próxima da noção de paisagem sonora de Schafer (2001). Tais conceitos se referem aos sons que formam um ambiente acústico de um local. Schafer (2001) afirma que o ritmo dos acontecimentos está relacionado ao ambiente acústico em que as pessoas se encontram. Trazendo isso para o cinema, por exemplo, vamos perceber que as ações e os personagens serão influenciados pela paisagem sonora. Nesse sentido, o som vai interferir também no tempo e no ritmo a partir da maneira como um audiovisual será montado. 9A sonorização do audiovisual 3 A montagem do som Passadas as etapas de roteirização e produção, chegamos à fase de pós-pro- dução, quando acontece a montagem ou edição de áudio. Este é o momento em que são acrescidos os sons não diegéticos, como narrações ou músicas produzidas por uma fonte imaginária ausente da ação, assim como os diegé- ticos, que podem ser determinados ruídos, efeitos, músicas executadas dentro da ação ou dublagens das vozes das pessoas que não foram bem registradas anteriormente. Na finalização de uma obra audiovisual, a edição oferece ferramentas para que o profissional possa agir de modo criativo e funcional para a nar- rativa que deseja construir. Assim, ao incluir diversas camadas para criar o ambiente sonoro, o editor deve ficar atento para que sua composição possa ser compreendida pelo ouvido dos espectadores. Em geral, são cinco as camadas que o ouvido é capaz de compreender até que surja a tal incapacidade de distinção. Por camada entendemos aqui um grupo homogêneo de som que seja distinto de outras camadas. Num filme, o diálogo constitui uma camada, o telefone a tocar ao fundo, outra, o som da chuva nas janelas, outra, etc. Todas elas são absolutamente distintas umas das outras (JORGE, 2002, p. 63). Nesse sentido, é sempre importante ponderar a quantidade de informação sonora que será acrescida ao visual, pois caso sejam incluídas mais de seis camadas, corre-se o risco de que apenas cinco sejam de fato percebidas, mesmo que isso possa variar um pouco. Também é fundamental levar em consideração o seguinte: ao dizermos que o ouvido tem capacidade de ouvir cinco camadas, isso não quer dizer cinco diálogos simultâneos. Essas camadas funcionam se os sons forem distintos entre si, como diálogo, chuva, música, carros e pessoas falando ao fundo. Esses sons cobrem diferentes frequências sonoras e, por isso, não suscitam confusão quando mesclados. Já a nossa capacidade de percebermos sonssemelhantes simultaneamente é mais reduzida. Murch (2004) considera que conseguimos distinguir dois sons de mesma natureza. Como exemplo, cita vários cães a ladrar ao mesmo tempo. Quando um começa, nós compreendemos totalmente. Assim que um segundo inicia, nós conseguimos identificar cada um deles. Entretanto, quando um terceiro começa a ladrar, deixamos de percebê-los individualmente e passamos a ter apenas uma ideia de conjunto: os cães estão a ladrar. A mesma regra serve para os diálogos quando são colocados simultaneamente. A sonorização do audiovisual10 Uma das tarefas da pós-produção de som é realizar uma mistura para obter densidade sonora. Isso faz com que o som esteja no espaço cênico para ajudar a convencer o espectador sobre aquilo que ele assiste. Nesse sentido, é fundamental buscar clareza para que todos os sons presentes possam ser percebidos. Quando cada som ocupa um lugar diferente no espectro sonoro, podemos ouvi-los melhor e o conjunto sonoro flui de maneira mais natural. Numa mistura bem equilibrada, tudo é percebido naturalmente. Seja como for, o som não deve destoar da imagem, ao mesmo tempo em que não deve ser apenas um complemento. Som e imagem devem um reforçar um ao outro para que a narrativa seja compreendida como um todo. Atualmente, existem programas de software específicos para montagem ou edição de som. Eles servem para cortar, recortar, mixar canais, inserir músicas, colocar efeitos ou ruídos, incluir vozes ou silêncio. Portanto, a montagem de toda a paisagem sonora que vai formar a trilha planejada desde a pré-produção pode ser realizada em programas dedicados inteiramente ao som, para que este possa ser sincronizado com a imagem no produto audiovisual. Um dos programas mais conhecidos e utilizados é o Sound Forge. Outro, que é gratuito, e também bastante usado no mercado audiovisual é o Audacity. CAMPOS, L. Crítica | Tubarão (Trilha Sonora Original). Plano Crítico, 20 out. 2017. Dis- ponível em: https://www.planocritico.com/critica-tubarao-trilha-sonora-original/. Acesso em: 04 maio 2020. CHION, M. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011. COMPARATO, D. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. DOANE, M. A. A voz no cinema: a articulação de corpo e espaço. In: XAVIER, I. (Org.). A experiência do cinema: antologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991. p. 457–475. FIELD, S. Manual do roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. FLÔRES, V. O cinema: uma arte sonora. São Paulo: Annablume, 2013. GORBMAN, C. Teaching the soundtrack. Journal Quarterly Review of Film Stu- dies, v. 1 n. 4, p. 446–452, 1976. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/ abs/10.1080/10509207609360969. Acesso em: 04 maio 2020. 11A sonorização do audiovisual Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. JORGE, R. P. Edição de som: algumas perspectivas. Caleidoscópio: Revista de Comunicação e Cultura, n. 2, p. 59–67, 2002. McKEE, R. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte e Letra, 2005. MORAES, C. A. A figura sonora na pausa audiovisual: rastros, percursos e moldurações. Compós, 2015. Disponível em: http://www.compos.org.br/biblioteca/compos-2015- 12d0238b-7b0d-4bd0-a01b-f3742e03324b_2762.pdf. Acesso em: 04 maio 2020. MURCH, W. Num piscar de olhos: a edição de filmes sob a ótica de um mestre. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. RODRIGUES, C. O cinema e a produção. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. SCHAFER, R. M. A afinação do mundo. São Paulo: Unesp, 2001. A sonorização do audiovisual12 PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Marcilene Forechi Competências do profissional do audiovisual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar competências relevantes para o profissional do audiovisual. Descrever técnicas utilizadas na produção audiovisual. Reconhecer os campos de atuação do profissional do audiovisual. Introdução Em um mundo dominado por imagens, em que cada pessoa munida com um dispositivo móvel pode produzir e distribuir conteúdo na internet, podemos perguntar o que caracteriza um profissional do audiovisual e quais são as competências para exercer a atividade. O audiovisual é uma expressão que abrange diversos produtos, entre eles o cinema, videocli- pes, transmissões ao vivo, programas de televisão, séries de TV e peças publicitárias. A diversidade de produtos supõe que haja também uma diversidade de exigências e competências técnicas para seu respectivo desenvolvimento. Um profissional do audiovisual poderá exercer ativi- dades como direção, produção, fotografia, edição, montagem, sendo muito comum em produções para multimídia nas plataformas digitais que ele seja multitarefas. Nesse capítulo, você vai estudar as principais competências do pro- fissional do audiovisual, além de examinar algumas técnicas usadas em produções audiovisuais e conhecer um pouco sobre os campos de atu- ação desse profissional. 1 Competências relevantes Vivemos na era da imagem, em que o apelo para as publicações audiovisuais está na própria arquitetura dos sites e aplicativos disponibilizados para profi s- sionais e usuários comuns. Sites de redes sociais, como Facebook e Instagram, disponibilizam recursos que permitem capturar, editar e publicar vídeos de forma simplifi cada e sem necessidade de edição em equipamentos externos. Na cultura digital, todos com acesso à internet e a um dispositivo móvel se transformaram em potenciais produtores de conteúdos em vídeo. Essa realidade nos mostra a importância de se estabelecer critérios para que possamos identificar características e competências de um profissional do audiovisual. Afinal de contas, a pergunta pode ser: o que distingue o profissional de audiovisual de um cidadão comum que captura imagens e cria vídeos diretamente do seu celular, podendo compartilhá-los com o mundo por meio das redes sociais e de plataformas como o YouTube, por exemplo? Mas quem são e o que fazem os profissionais do audiovisual? Antes disso, é importante saber que a expressão “audiovisual” refere-se a quatro abordagens e situações distintas: uma forma de comunicação que combina som e imagens; os produtos obtidos por essa forma de comunicação; a tecnologia empregada para o registro da comunicação; a linguagem usada para gerar significados por meio dessa combinação de sons e imagens. Marcelo Ribaric (2013, p. 4) destaca que o audiovisual trabalha com uma linguagem que leva o espectador “a consumir um produto intangível, carregado de significados e valores simbólicos”. Em um artigo no qual trata da publi- cidade audiovisual e das relações com o cotidiano, esse pesquisador afirma que é preciso nos atermos, nos dias atuais, às novas percepções e reações dos usuários frente ao computador e à internet, bem como às tecnologias digitais desenvolvidas para transmitir filmes no cinema e na televisão, o que exige uma adequação das linguagens cinematográficas e televisivas para esse novo universo digital (RIBARIC, 2013). Podemos definir audiovisual como uma área de produção artística, cultural e multimídia, sendo que o termo tem sido usado de formas diversas pelos diferentes campos de conhecimento. No meio acadêmico, houve nos últimos anos um incremento na oferta de cursos de produção audiovisual, em subs- Competências do profissional do audiovisual2 tituição aos cursos de cinema e produção cinematográfica. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, transformou seu antigo curso de cinema e televisão, ministrado até 2000, em um curso superior de audiovisual. Outro cursotradicional de cinema, oferecido pela Universidade Federal Fluminense (UFF), acrescentou a expressão “audiovisual” ao nome, passando a se chamar Curso de Cinema e Audiovisual. Isso sem falar de novos cursos como o de Realização Audiovisual, criado em 2003 pela Unisinos, e o curso de Comunicação Social Audiovisual, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), criado em 2010. Essas mu- danças e a criação de novos cursos — de graduação, pós-graduação e livres — alinham-se a essa ambiência comunicativa, à valorização das produções audiovisuais e à necessidade de formar profissionais capacitados para operar nesse novo ambiente. Esse panorama reduzido sobre como o termo audiovisual tem sido inserido nas produções e nos cursos de formação de profissionais para o setor aponta para dois aspectos: um incremento na demanda por esse tipo de profissional e uma ampliação das possibilidades de atuação, o que leva, consequentemente, à necessidade de adequação do termo, das práticas e competências. Na contemporaneidade, o termo “audiovisual” tem sido usado para abranger uma gama maior de produções que envolvem, além do cinema, videoclipes, programas de televisão, documentários, peças publicitárias, transmissões feitas em dispositivos móveis, canais em plataformas digitais, lives, etc. A internet, os conteúdos streaming e a facilidade de produzir conteúdo tornaram o segmento de audiovisual bastante promissor, se pensarmos na perspectiva profissional. Na descrição do seu curso de cinema e audiovisual, Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará (UFC) enumera as compe- tências necessárias para um profissional que deseja atuar nesse ramo. Essas competências não se limitam ao domínio das técnicas, e passam também por questões éticas, estéticas, políticas, sociais e de gestão. De acordo com o ICA, são competências essenciais para o profissional de audiovisual (UNIVERSI- DADE FEDERAL DO CEARÁ, 2020): conhecer os conceitos e as teorias formuladas no campo do cinema e do audiovisual; compreender as diferentes linguagens e proposições estéticas do campo do cinema, do audiovisual e das artes; estabelecer diálogos com as outras artes, como artes cênicas, artes visuais, literatura, música, circo e manifestações da cultura popular; 3Competências do profissional do audiovisual relacionar a atuação artística com problemas éticos, sociais, econômi- cos e culturais, entendendo sua própria produção como parte de um processo político; compreender as diversas etapas do processo de criação em cinema e audiovisual; planejar e gerenciar os projetos de cinema e audiovisual, tendo a dimen- são local e global dos modos de circulação e seus diferentes suportes; pensar a inserção da obra em diferentes circuitos, como festivais, mos- tras, salas de cinema, cineclubes, portais na internet, museus, galerias, emissões televisivas, videotecas, etc; gerenciar projetos de cinema e audiovisual, coordenando atividades de captação de recursos, como os editais de fomento, os concursos da área, as linhas de financiamento, etc. Um profissional de audiovisual pode atuar em diversas atividades, algu- mas delas estritamente operacionais e outras que exigem uma visão mais abrangente de toda a produção. Não existe uma obrigatoriedade de formação específica na área para exercer uma das muitas atividades envolvidas no campo do audiovisual. Geralmente, os profissionais que atuam nessa área possuem formação em comunicação, publicidade, cinema, audiovisual, marketing ou fotografia. E o nível de formação também é diverso: cursos de graduação, cursos técnicos, pós-graduações e cursos livres. Segundo Bittencourt e Trigo (2018), a produção audiovisual é uma atividade coletiva e o pensamento audiovisual demanda um diálogo com o olhar dos outros. Os autores destacam o caráter colaborativo da atividade, uma vez que operadores de câmera, diretor de arte, maquiadores, entre outros, trabalham com um objetivo compartilhado. Além do domínio de técnicas, o profissional deve desenvolver habilidades como criatividade, colaboração, autonomia, atitude crítica e compreensão da diversidade. Podemos dizer que vivemos na era do audiovisual e que esta condição altera a forma como percebemos e nos relacionamos com a realidade. O diálogo interartístico torna-se mais fecundo com a possibilidade de reprodução técnica e a ampliação das possibilidades narrativas. Atualmente, é preciso considerar as competências para a compreensão e uso das ferramentas tecnológicas, uma vez que as produções cada vez mais se voltam para meios digitais. Assim, mesmo um profissional com ampla experiência em produção para televisão, por exemplo, precisa incorporar ao seu rol de competências formações que envolvam as tecnologias digitais. Competências do profissional do audiovisual4 Devemos considerar ainda que o profissional de audiovisual constitui cada vez mais um profissional multitarefas, devendo ser capaz de desenvolver várias atividades dentro da cadeia de produção do audiovisual, quer isso envolva uma série de vídeos extremamente simples para um canal do YouTube ou um curta metragem ou documentário. Vejamos a seguir algumas das funções exercidas pelo profissional do audiovisual, de acordo com a Academia Internacional do Cinema (AIC, sem data). Editor ou montador Engana-se quem pensa que um editor é apenas um técnico que opera os equi- pamentos ou manipula um software de edição. Esse profi ssional é responsável por fazer cortes, imprimir ritmo e linearidade às sequencias de imagens e por realçar aspectos artísticos do projeto. Por isso, um editor de imagens deve ter pensamento crítico e criatividade para aplicar as diferentes linguagens de montagem. Atualmente, o editor de imagem incorpora também as funções de editor de som, devido aos equipamentos que permitem esse tipo de edição de forma mais abrangente e integrada. Roteirista O trabalho do roteirista inclui a criação do enredo, dos personagens, dos argumentos, dos diálogos e das ambientações. Trata-se de um profi ssional indispensável, seja em produções cinematográfi cas, em vídeos institucionais ou pedagógicos. Em produções menos grandiosas, é comum que um mesmo profi ssional exerça as diferentes funções e contribua para todas as etapas do projeto. Além de criatividade, o roteirista deve entender de diferentes formatos e possibilidades do audiovisual, além de dominar aspectos técnicos, estéticos e fi losófi cos da linguagem audiovisual. Produtor Esse é o profi ssional que tira o roteiro do papel. Ou seja, ele é responsável pelos aspectos administrativos e fi nanceiros de um projeto. Tanto na produção cinematográfi ca quanto na produção audiovisual, há subdivisões, podendo existir a fi gura do produtor executivo, do produtor de locação, do produtor de casting, e do diretor de produção. Essa também é uma função que pode ser multitarefas, com um mesmo profi ssional podendo acumular diversas responsabilidades, como buscar recursos e coordenar a produção e a edição. 5Competências do profissional do audiovisual Diretor de fotografia A fotografi a é peça-chave na produção cinematográfi ca ou audiovisual. É esse profi ssional que traduz em imagens o roteiro e a linguagem da produção. Ele deve ser um profundo conhecedor das técnicas de captação de imagens e do uso de recursos de iluminação, fi ltros, lentes, movimentos de câmera, enquadramentos e condições de exposição. Assim como nas demais funções, esse profi ssional deve ter criatividade e conhecimento técnico, além de vastas referências teóricas e práticas. As competências técnicas de um profissional de audiovisual exigem que ele tenha domínio de um repertório bem específico, descrito por termos que são usados corri- queiramente no segmento. Conheça alguns deles (EQUIPE HOTMART, 2019). Casting — é o processo pelo qual são selecionados atores e figurantes para uma produção. É usado em filmes, documentários, vídeos, peças publicitáriase outros produtos no qual haja pessoas ou personagens interagindo. Estabilizador — é fundamental durante a captação de imagens, pois permite mais qualidade e evita os efeitos tremidos no caso de imagens em movimento (da câmera ou do objeto). Um tripé pode ser considerado um estabilizador. Fast cutting — termo que pode ser traduzido por “edição rápida”. Consiste em usar shots consecutivos de curta duração (mais ou menos 3 segundos). Mixagem — é um processo de pós-edição em que o som é ajustado para que seja sincronizado à imagem e ao processo de edição. Luz de enchimento — também chamada de luz secundária, é responsável por corrigir possíveis defeitos de sombra e contraste. Movimento de câmera — podemos resumir os movimentos de câmera em: tra- velling, quando objeto e câmera se movimentam; panorâmica, que é o movimento horizontal da câmera; e tilt, que diz respeito ao movimento vertical da câmera. Background (BG) — diz respeito a tudo que está ao fundo da imagem, envolvendo cenário e produção de objetos. Também refere-se ao som que está ao fundo, que acompanha a cena ou uma apresentação musical. Diafragma fotográfico — é o responsável por controlar a quantidade de luz que entra na câmera no momento da captura da imagem. Competências do profissional do audiovisual6 Quando foi criado, em 2005, o YouTube era uma simples plataforma de compartilha- mento, nada parecida com o que conhecemos hoje. O primeiro vídeo postado foi um vlog de um dos fundadores contando sobre uma visita ao zoológico, com duração de 19 segundos. Passado algum tempo, a plataforma chamou a atenção de grandes marcas, sendo que a primeira a apostar no formato foi a Nike, com um vídeo do jogador Ronaldinho Gaúcho calçando as chuteiras. 2 Técnicas de produção audiovisual A produção de um audiovisual depende de vários fatores que vão determinar as técnicas a serem usadas. Devemos nos lembrar que produzir um audiovisual envolve aspectos técnicos e criativos, sendo a criatividade uma das competên- cias fundamentais para os profi ssionais do setor. Muitas pessoas pensam em técnicas de produção como aquelas que começam na execução propriamente dita, como a captura das imagens e a edição. Antes de iniciar a produção de um audiovisual, no entanto, existem algumas etapas que devem ser seguidas, geralmente abrangidas pelo termo pré-produção. A primeira delas é o briefing do cliente, pois essa ferramenta lhe dirá o que o cliente deseja, o que ele precisa, como é o negócio dele, de quais recursos ele dispõe, etc. É nesse momento que o profissional do audiovisual deve compreender os anseios do cliente, suas expectativas e o público-alvo do audiovisual. Só após esse briefing é possível começar a pensar conceitual e tecnicamente o projeto, incluindo o tipo de audiovisual, o tamanho e o meio em que será será veiculado. A segunda etapa do projeto de criação de um audiovisual é a pesquisa, que envolve conceitos e também referências práticas, estéticas e contextuais. Nessa etapa, inicia-se o processo de criação propriamente dito, pois você de- finirá como as demandas do cliente serão alinhadas à linguagem audiovisual. A elaboração do roteiro é parte desse processo, pois é a partir dele que todo o resto vai se desenvolver: recursos, cenários, equipamentos, iluminação, personagens (se houver), sons (música, diálogos, sons de ambiente), ritmo e estilo do audiovisual. Com o roteiro pronto, passa-se à captação das imagens e, posteriormente, ao processo de edição. 7Competências do profissional do audiovisual Atualmente, os recursos audiovisuais têm sido bastante utilizados no marketing digital, o que torna a produção bem mais diversificada e passível de ser disponibilizada nas mídias digitais, sobretudo nas redes sociais. As técnicas usadas para a produção de audiovisual têm objetivos específicos, como o brainstorm, por exemplo, que é parte do processo criativo, quando se capturam o máximo de ideias para desenvolver um projeto. Outras técnicas já dizem respeito à própria produção e concepção, como o storytelling, que tem sido bastante explorado pelo marketing, pela publicidade e por vários segmentos da comunicação empresarial. Vejamos algumas técnicas de criação empregadas na produção de audiovisual. Brainstorming De modo bem amplo, o termo se refere a uma técnica usada para encontrar soluções para um problema específi co, criada em 1948 pelo publicitário Alex Osborn. O termo pode ser traduzido como “tempestade de ideias” e seu uso extrapolou o limite da publicidade, passando a ser usado em diversas situações e contextos. No audiovisual, o brainstorm pode ser usado por agências de comunicação e marketing diante de uma demanda para a produção de uma peça publicitária, de um conteúdo educativo ou algum outro tipo de produto. A ideia é que o brainstorming leve a equipe a soluções e ideias inovadoras e criativas. Por se tratar de uma prática que tem como principal objetivo encontrar soluções a partir do máximo de ideias possíveis, algumas regras são fundamentais para que o método funcione. Uma delas é que não são permitidos julgamentos ou críticas às ideias apresentadas, por mais que pare- çam sem propósito ou inadequadas. Outra regra fundamental é que as ideias apresentadas podem (e devem) ser usadas como ponto de partida para novas ideias, formando uma cadeia que vai se alimentando à medida que a técnica avança (PATEL, 2018). Copywriting É uma técnica de produção de textos persuasivos usada no marketing e na publicidade. O copywriter é o profi ssional criativo que produz esses textos que levam o público a comprar uma ideia, produto ou serviço. O resultado desse trabalho é o copy, um texto altamente persuasivo que pode ser usado Competências do profissional do audiovisual8 em diferentes produtos, incluindo os audiovisuais. O copywriter, portanto, é um profi ssional que produz textos para anúncios, peças publicitárias, roteiros para vídeos, e-mail marketing e artigos. É muito comum que se confunda o copywriting com a redação publicitária, que também é um texto altamente persuasivo. Podemos apontar, no entanto, três aspectos presentes no copy (texto produzido pelo copywriter) que são capazes de distingui-lo do texto publicitário. O primeiro aspecto é o embasa- mento em dados de marketing, o segundo está relacionado ao uso intenso de gatilhos mentais e o terceiro aspecto está no uso de estratégias para vencer objeções (PATEL, 2019). Storytellling Trata-se da arte de contar uma boa história, de modo a comunicar uma ideia de forma envolvente e criativa, usando diferentes recursos textuais, de sons e imagens. A técnica de storytelling tem sido bastante usada pela publicidade e pelo marketing e é uma das estratégias usadas pelo copywriter na produção e seus textos. O storytelling é uma ferramenta persuasiva que se utiliza de gatilhos mentais, principalmente o da identifi cação. A técnica do storytelling pode ser usada na produção de conteúdo, em processo de vendas e em consultorias especializadas. No caso do audiovisual, a técnica pode ser inserida no roteiro, levando-se em consideração o objetivo do produto e o público ao qual ele se destina. Assim, ao usar essa técnica, a concisão é essencial, pois é preciso contar a história de forma breve e, ao mesmo tempo, envolvente. Um bom storytelling é capaz de provocar identificação, despertar curiosidade, promover o engajamento e criar conexões por meio de metáforas e relações (PATEL, 2020). Gatilhos mentais Os gatilhos mentais podem ser defi nidos, de modo geral, como facilitadores na decisão de compra. É uma estratégia persuasiva bastante usada no marketing digital e na publicidade, pois seu uso ativa mecanismo cerebrais já presentes no mapa mental dos consumidores. É importante atentar para o fato de os gatilhos mentais devem ser escolhidos em consonância com o tipo de copy que está sendo preparado e com a mídia na qual o produto será veiculado. Os gatilhos mentaismais usados são os apresentados a seguir. (PATEL, 2015). 9Competências do profissional do audiovisual Escassez — parte-se da ideia de que as pessoas valorizam aquilo que é escasso e que pode faltar. Esse gatilho cria a ideia da falta de algo de modo a produzir o desejo. Exemplo: “Restam poucas unidades”. Urgência — costuma estar está associado ao gatilho da escassez. A ideia é levar a pessoa a tomar uma decisão rápida motivada pela possibilidade de perda. Exemplo: “Oferta válida apenas hoje”. Autoridade — é preciso que o público reconheça a empresa ou pessoa como uma autoridade no assunto que está sendo tratado, pois autoridade inspira confiança. Exemplo: peça publicitária em que dentistas recomendam um tipo de pasta ou escova dental. Reciprocidade — este gatilho se relaciona com a empatia. Ao sentir que está “ganhando”, a reação do público tende a ser a de doar alguma coisa. Nesse caso, essa doação se reflete na compra de um produto ou adesão a uma ideia ou causa. Exemplo: ao comprar um produto, o cliente recebe outro. Prova social — somos influenciados pelas experiências alheias. Um cliente que fala sobre os benefícios de um produto ou serviço desperta uma iden- tificação capaz de levar à compra. Exemplo: audiovisuais que usam como fio condutor o depoimento de consumidores. Antecipação — este gatilho consiste em criar a necessidade e o desejo por algo que ainda não faz parte da vida do púbico. Pode ser usado para lançar um novo produto ou para sugerir novos modos de ser e agir. Exemplo: um produto que mostre como alguém obteve sucesso adotando uma atitude sustentável. Novidade — o novo é um dos elementos mais persuasivos. Ao vender um telefone celular, por exemplo, uma empresa pode oferecer o mais novo, o mais moderno, o que tem alguma funcionalidade que os outros não têm. O novo desperta desejo. Curiosidade — este gatilho caminha lado a lado com o gatilho da novidade. É o famoso teaser, que lança uma ideia, uma charada, uma pergunta sem que o público saiba do que se trata. Os termos persuasão e manipulação não são sinônimos. Persuasão diz respeito ao ato de convencer alguém a mudar de ideia ou a comprar um produto mediante argumentos. Persuadir se relaciona com convencer. Já manipulação tem um sentido pejorativo na comunicação, relacionando-se à falsificação de dados sobre a realidade. Pode ser visto ainda como uma manobra para ocultar e levar a uma ação. Competências do profissional do audiovisual10 3 Campos de atuação Como mencionamos nos itens anteriores, o termo audiovisual é bem abrangente e abarca uma variedade de tipos e gêneros, que vão de produtos a televisão, cinema, organizações, publicidade, marketing, mídias sociais, etc. Além do meio para o qual se destina, devemos levar em consideração que há produções de fi cção e de não fi cção. As produções de fi cção costumam ser destinadas ao cinema e à televisão (entretenimento). Assim, vamos nos concentrar nas produções de não fi cção, por representarem um espectro maior de possibilidades de atuação. Diante dessa variedade, a pergunta que muitos aspirantes a profissionais do audiovisual fazem é onde trabalhar ou em que ramo atuar. Examinamos no item anterior as competências que um profissional deve ter e quais técnicas deve dominar para atuar no setor. Vejamos algumas áreas em que ele pode ingressar lançando mão de suas competências e de técnicas variadas. De acordo com a Lei dos Direitos Autorais (BRASIL, 1998), podem ser consideradas obras audiovisuais: Comerciais, propagandas e trailers — obras que promove um produto, serviço, ideia, empresa ou pessoa. Podem ser disponibilizadas em veículos de comunicação de massa, nas mídias sociais ou em ambien- tes privados, como, vídeos feitos por companhias aéreas para serem veiculados a passageiros no interior de aeronaves. Compilações — um tipo que une duas ou mais obras em uma nova produção. Documentários — é uma obra que se caracteriza por seu compromisso com fatos ou histórias, personagens ou ambientes. Apesar de seu caráter de não ficção, é um tipo de obra que se distingue da grande reportagem por lançar mão de mais recursos estéticos e da narrativa cinematográfica. Séries, novelas, minisséries — são obras de ficção produzidas para a televisão, tanto para canais abertos quanto para canais de assinatura. Nos últimos anos, no entanto, o mercado de séries e minisséries se ampliou com a oferta de produtos por plataformas de vídeos e filmes, como a Netflix e Amazon Prime. Educacionais — obras destinadas a programas didáticos na televisão, para plataformas educativas na internet e cursos à distância. Filmes — podem ser longas ou curtas metragens produzidos para ci- nema ou televisão. Eventos ao vivo — obras que têm origem em eventos ao vivo, como debates, shows, jogos e campeonatos, eventos da natureza. Atualmente, os eventos ao vivo (as lives) se popularizaram nas redes sociais, sendo 11Competências do profissional do audiovisual realizadas dentro da própria plataforma ou por meio de plataformas exclusivas. Multimídia — combinação interativa de imagem, áudio, texto e artes visuais. Nessa classificação estão os jogos e filmes interativos. Videoclipes — todo produto que tem por objetivo divulgar, lançar ou promover músicas e artistas. Reportagens — produtos jornalísticos que inicialmente tinham a te- levisão como principal canal de veiculação. Atualmente, podem ser produzidas reportagens independentes para sites, portais, blogs ou plataformas de vídeo (YouTube). Videogames — mercado em alta demanda e que representa um campo promissor de trabalho para profissionais de audiovisual. A proliferação dos dispositivos móveis e as possibilidades oferecidas pelas plataformas de redes sociais e de compartilhamento, como o YouTube, não deixam dúvida de que produzir vídeos se tornou uma oportunidade para as marcas divulgarem seus produtos e para pessoas comuns compartilharem os mais diversos conteúdos na internet. A produção audiovisual, diante do contexto comunicacional em que vivemos, envolve pensar entretenimento e informação de forma conjunta. Isso significa que a convergência de meios, conforme aponta Jenkins (2009), não impõe mudanças apenas nas técnicas, mas envolve compreender que as pessoas mudaram seus modos de consumir informação e entretenimento. Além do desenvolvimento de cursos à distância, a produção de audiovisual na internet tem sido uma ferramenta fundamental para as estratégias de grandes marcas e profissionais das mais diversas áreas. Trata-se de um segmento que envolve as áreas artística, cultural e multimídia de produções para circulação em diferentes meios. De acordo com o Guia de Carreira (2020), o profissional formado em audiovisual trabalha na elaboração e produção de peças publici- tárias, conteúdos jornalísticos, artísticos e cinematográficos, sendo que sua atuação pode ser bastante especializada, podendo atuar como iluminador, roteirista, cinegrafista, fotógrafo, finalização, etc. Competências do profissional do audiovisual12 BITTENCOURT, M.; TRIGO, I. Não é o olho que vê: a produção audiovisual no primeiro plano da aprendizagem colaborativa Curitiba: Appris, 2018. BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 20 fev. 1998. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/l9610.htm. Acesso em: 13 maio 2020. EQUIPE HOTMART. Fique por dentro dos nove principais termos da produção au- diovisual. Hotmart Blog, 20 fev. 2019. Disponível em: https://blog.hotmart.com/pt-br/ producao-audiovisual/. Acesso em: 13 maio 2020. GUIA DE CARREIRA. Produção audiovisual. 2020. Disponível em: https://www.guiada- carreira.com.br/cursos/producao-audiovisual/. Acesso em: 13 maio 2020. JENKINS, H. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009. PATEL, N. Brainstorming: o que é, como fazer (passo a passo). Neil Patel, 23 jan. 2018.Disponível em: https://neilpatel.com/br/blog/o-que-e-brainstorming/. Acesso em: 13 maio 2020. PATEL, N. Copywriter: o que é e como ser um. Neil Patel, 17 dez. 2019. Disponível em: https://neilpatel.com/br/blog/copywriter-o-que-e/. Acesso em: 13 maio 2020. PATEL, N. Gatilhos mentais: o que são e como aplicar a persuasão em sua estratégia. Neil Patel, 02 dez. 2015. Disponível em: https://neilpatel.com/br/blog/15-licoes-de- -persuasao-que-voce-pode-aprender-com-a-estrategia-de-upsell-da-amazon/. Acesso em: 13 maio 2020. PATEL, N. Storytelling: o que é e para que serve e exemplos práticos [2020]. Neil Patel, 18 mar. 2020. Disponível em: https://neilpatel.com/br/blog/como-usar-storytelling- -para-aumentar-suas-conversoes/. Acesso em: 13 maio 2020. RIBARIC, M. E. A narrativa audiovisual publicitária e a vida cotidiana. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 36., Manaus, 2013. Disponível em: http:// www.intercom.org.br/papers/nacionais/2013/resumos/R8-1761-1.pdf. Disponível em: 13 maio 2020. UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ. Sobre o curso: competências e habilidades. Cinema Audiovisual, 2020. Disponível em: http://www.cinemaeaudiovisual.ufc.br/?page_id=277. Acesso em: 13 maio 2020. 13Competências do profissional do audiovisual Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Leituras recomendadas ACADEMIA INTERNACIONAL DE CINEMA. Direção de Fotografia. 2020. Disponível em: https://www.aicinema.com.br/cursos/direcao-de-fotografia/#. Acesso em: 13 maio 2020. LUCENA, L. C. Como fazer documentários: conceito, linguagem e prática de produção. São Paulo: Summus, 2012. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=44 wbuAFevAUC&printsec=copyright&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 13 maio 2020. MOLETTA, A. Criação de curta metragem em vídeo digital: uma proposta de produção de baixo custo. São Paulo: Summus, 2009. SILVA, M. L. H.; ROCHA, L. V. Twitter e Cibercultura: um estudo sobre as funcionalidades da ferramenta de comunicação. Revista Iniciacom, v. 3, n. 1, 2011. Disponível em: http:// portcom.intercom.org.br/revistas/index.php/iniciacom/article/view/621. Disponível em: 13 maio 2020. Competências do profissional do audiovisual14 PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Marcilene Forechi O financiamento do audiovisual no Brasil Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as leis que regulamentam os financiamentos do audiovisual no Brasil. Reconhecer as fontes de financiamento para a produção audiovisual independente no Brasil. Explicar os projetos de captação de recursos públicos e privados para o audiovisual. Introdução Os primeiros anos da década de 1990 marcaram o início de um modelo de financiamento do audiovisual no Brasil. Uma política pública para o setor, no entanto, só ocorreria alguns anos mais tarde, com a criação de uma estrutura legal e o estabelecimento de parcerias estratégicas com a iniciativa privada e agentes financeiros. Em seguida, entidades foram criadas como resposta do governo à reivindicação de produtores culturais e agentes para que fossem implementadas medidas que garantissem o fomento à produção do audiovisual e do cinema no Brasil. Neste capítulo, você vai conhecer as leis e os mecanismos de financia- mento do audiovisual no Brasil, as fontes de financiamento de produções independentes e também os elementos necessários para a produção de projetos de captação de recursos públicos e privados. 1 Regulamentação de financiamentos A Agência Nacional do Cinema (Ancine), criada em 2001 por medida provi- sória, pode ser considerada o coração das políticas públicas voltadas para o audiovisual e o cinema no Brasil. Porém, foi a partir da aprovação da Lei nº. 11.437 pelo Congresso Nacional, em 28 de dezembro de 2006, que o Brasil passou a contar com uma estratégia articulada envolvendo o poder público e parceiros privados para o desenvolvimento do audiovisual. Um pouco mais tarde, a partir de 2014, essa política pública se consolidou, de fato, com a adoção de uma série de mecanismos articulados. Para entendermos essas medidas e as leis que regulam o financiamento do audiovisual no Brasil, é importante conhecer sua trajetória, ainda que de forma breve, que culmina com uma política pública para o setor. Tam- bém cabe observar que a partir de 2018, com a extinção do Ministério da Cultura, mudanças na condução da Ancine e redução de incentivos trou- xeram dúvidas e incertezas para o setor, que sempre foi alvo de disputas, polêmicas e desafios. As bases de um modelo de fomento à cultura do audiovisual, como co- nhecemos hoje, surgiram nos anos 1990, com a criação de dois importantes mecanismos de financiamento cultural: a Lei Rouanet, em 1991, e a Lei do Audiovisual, em 1993. Antes desse período, as produções culturais e a distribuição de audiovisuais eram centralizadas pelo Estado, um período conhecido como “era Embrafilme”, conforme publicação editada pela Ancine (BRASIL, 2017). A criação da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual obedeciam, segundo essa mesma publicação, a uma lógica de diminuição da participação do Estado e estabelecimento da renúncia fiscal como principal fonte de re- cursos para as produções culturais no Brasil. Na prática, esse é um modelo que posiciona a gestão dos recursos públicos voltados para a cultura sob a responsabilidade do setor privado, que passou a responder pela distribui- ção desses recursos e a escolher os tipos de produções a serem apoiadas (BRASIL, 2017). Apesar de ter sido um avanço, as leis e a nova política de financiamento que se desenhava naquele período não se mostraram suficientes para serem consideradas uma política pública, fosse para a cultura de um modo geral ou para a produção do audiovisual de modo específico, de modo a valorizar a diversidade e a descentralização dos recursos para a produção no país. O financiamento do audiovisual no Brasil2 Em julho de 2000, profissionais do audiovisual e do cinema se reuniram no 3º Congresso Brasileiro de Cinema, em Porto Alegre, para discutir a situação do cinema brasileiro naquele momento. Foi a partir desse congresso que o então presidente Fernando Henrique Cardoso instituiu o Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, responsável por traçar um diagnóstico que apontasse os gargalos que “[...] impediam o desenvolvimento de uma indústria sustentável no Brasil” (BRASIL, 2017, p. 15). Como um dos desdobramentos desse trabalho, foi criada, em 2001, a Ancine, por meio da Medida Provisória nº. 2.228-1 (BRASIL, 2001). A consolidação de uma política pública para o audiovisual se deu com a criação de uma estrutura e o estabelecimento de parcerias estratégicas. Antes da criação da Ancine, havia uma legislação difusa e inconsistente. A criação da agência restituiu a ideia da responsabilidade do Estado para com as produções culturais audiovisuais. Uma política pública para o setor começou a se desenhar de fato com a criação do Plano de Diretrizes e Metas (PDM) e com o lançamento do Programa Brasil de Todas as Telas. O PDM, aprovado em 2012 pelo Conselho Superior de Cinema, repre- sentava um mapa orientador para a Ancine. Uma das metas do plano era transformar o Brasil no quinto mercado audiovisual do mundo até o ano de 2020, incluindo produções para o cinema, televisão e novas mídias. O audiovisual passou a ser considerado, a partir do PDM, como “[...] uma atividade fundamental para o desenvolvimento econômico e cultural do país e como ferramenta de inclusão social e de afirmação da identidade nacional” (BRASIL, 2017, p. 84). O PDM definiu,então, 11 diretrizes básicas para o audiovisual: 1. ampliar e diversificar a oferta de serviços de exibição e facilitar o acesso da população ao cinema; 2. desenvolver e qualificar os serviços de TV por assinatura e de vídeo sob demanda, oferecidos em todos os ambientes, e ampliar a participação das programadoras nacionais e do conteúdo brasileiro nesses segmentos de mercado; 3. fortalecer as empresas distribuidoras brasileiras e a distribuição de filmes brasileiros; 4. dinamizar e diversificar a produção independente, integrar os segmentos do mercado audiovisual, fortalecer as produtoras e ampliar a circulação das obras brasileiras em todas as plataformas; 3O financiamento do audiovisual no Brasil 5. capacitar os agentes do setor audiovisual para a qualificação de métodos, serviços, produtos e tecnologias; 6. construir um ambiente regulatório caracterizado pela garantia da liber- dade de expressão, defesa da competição, proteção a minorias, consu- midores e direitos individuais, fortalecimento das empresas brasileiras, promoção das obras brasileiras, em especial as independentes, garantia de livre circulação de obras e promoção da diversidade cultural; 7. aprimorar os mecanismos de financiamento da atividade audiovisual e incentivar o investimento privado; 8. aumentar a competitividade e a inserção brasileira no mercado inter- nacional de obras e serviços audiovisuais; 9. promover a preservação, difusão, reconhecimento e cultura crítica do audiovisual brasileiro; 10. estimular a inovação da linguagem, dos formatos, da organização e dos modelos de negócio do audiovisual; 11. desenvolver centros e arranjos regionais de produção e circulação de conteúdo audiovisual e fortalecer suas capacidades, organização e diversidade. Por sua vez, o Programa Brasil de Todas as Telas foi um conjunto de medidas práticas e articuladas pela Ancine, Ministério da Cultura e Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual, já no governo da presidente Dilma Rousseff. O programa foi lançado em 2014 e teve como proposta principal atuar em todos os elos da cadeia produtiva audiovisual, articulando parcerias público-privadas e novos modelos de negócios, em quatro eixos prioritários: 1. desenvolvimento de projetos, roteiros, marcas e formatos; 2. capacitação e formação profissional; 3. produção e difusão de conteúdos brasileiros; 4. implantação e modernização de salas de cinema. Marcos regulatórios do audiovisual no Brasil Quem atua ou deseja atuar na produção de audiovisual no Brasil se depara com uma série de leis que regulam o mercado e defi nem os mecanismos de fi nan- ciamento. Assim, é importante conhecer não apenas as leis isoladamente, mas O financiamento do audiovisual no Brasil4 as relações de umas com as outras e as mudanças que esses mecanismos legais sofreram ao longo do tempo. Esse conhecimento permite dominar aspectos téc- nicos e compreender as disputas ideológicas, econômicas e políticas que pairam sobre as produções culturais no país, em especial, as produções audiovisuais. Vale destacar que o audiovisual — tanto o cinema quanto outras produ- ções, como documentários e programas de televisão — não passou a existir e a obter financiamentos a partir desses marcos aqui apresentados. Contudo, foram essas legislações que mudaram o modo como o audiovisual passou a ser percebido e que instituíram regras mais claras para sua produção, fomento e distribuição. A primeira lei específica voltada para o financiamento privado de projetos culturais, por meio de incentivos fiscais ou doações, ficou conhecida como Lei Sarney (Lei nº. 7.505). Ela foi criada em 2 de julho de 1986, um ano após a criação do Ministério da Cultura, que era, até então, integrado ao Ministério da Educação. Por meio dessa lei, produtores e artistas puderam obter um registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural (CNPC), ficando aptos a receber recursos a título de patrocínio ou doação, tendo que prestar contas, posteriormente, ao Ministério da Cultura. Havia muitos aspectos considerados negativos na lei, entre eles o fato da prestação de contas ser uma ação pós-produção e ainda a possibilidade de realização de eventos privados com recursos previstos na lei. Apesar disso, deve-se considerar que a Lei Sarney representou um avanço em relação ao contexto que antecedeu sua existência. Em 1990, durante o governo Collor, tal lei foi suspensa (HERCULANO, 2012), mas viria a servir de inspiração para a criação da Lei nº. 8.313, em 23 de dezembro de 1991, que ficou conhecida como Lei Rouanet, em referência ao nome do Ministro da Cultura da época, Paulo Sérgio Rouanet. Essa lei instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e, apesar de ter sido considerada uma inovação, foi e continua sendo motivo de críticas e disputas. Em 2019, a Lei Rouanet sofreu alterações, passando a se chamar Lei Federal de Incentivo à Cultura. Por sua vez, a Lei do Audiovisual (Lei nº. 8.685), publicada em 20 de julho de 1993, criou os mecanismos de fomento às atividades do audiovi- sual (Figura 1). Inicialmente, a previsão era que durasse até 2001, mas foi prorrogada por 20 anos, por meio da Medida Provisória nº. 2.228, editada em 2001 (BRASIL, 2001). Essa lei regulamenta incentivos fiscais a pessoas físicas e jurídicas, permitindo que o valor investido em obras audiovisuais 5O financiamento do audiovisual no Brasil seja abatido no Imposto de Renda devido, de acordo com os percentuais definidos. Os apoiadores recebem um Certificado de Investimento Audio- visual, ou seja, títulos representativos de cotas de participação em obras cinematográficas. Figura 1. O filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, dirigido por Carla Camurati, foi con- siderado um dos marcos da retomada do movimento cinematográfico brasileiro a partir da implementação das leis Rouanet (1991) e do Audiovisual (1993). Mesmo lançado com poucas cópias, o filme conseguiu alcançar um milhão de ingressos vendidos. Fonte: Carlota... (2019, documento on-line). Em 2001, por meio da Medida Provisória nº. 2.228-1, foi criada a Ancine. A me- dida também estabeleceu os princípios gerais da Política Nacional do Cinema, criou o Conselho Superior de Cinema, instituiu o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Cinema Nacional (Prodecine) e autorizou a criação de fundos de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional (Funcines). Mas foi apenas em 2006 que o Fundo Setorial do Audiovisual foi instituído, por meio da Lei nº. 11.437. O financiamento do audiovisual no Brasil6 2 Financiamento de audiovisual independente no Brasil Na seção anterior, abordamos brevemente a trajetória da regulamentação do audiovisual no Brasil e destacamos as principais leis que instituíram um marco legal para a atividade, constituindo, a partir de então, uma política pública e o mecanismos legais de fi nanciamento para o setor. As leis de incentivo à cultura, de um modo geral, podem apoiar projetos audiovisuais, mas algumas produções devem ser direcionadas à lei específi ca, a Lei do Audiovisual, levando-se em consideração as características da produção. A Lei do Audiovisual fomenta o apoio aos seguintes projetos: longa, mé- dia ou curta-metragem; minissérie; obra seriada; programa de televisão de caráter cultural ou educativo; telefilme; festivais de audiovisual; distribuição de filmes; preservação de acervo; e infraestrutura técnica. Nesse caso, os incentivos fiscais são destinados a produções consideradas independentes, ou seja, que não estejam vinculadas a meios de comunicação de massa. Segundo a produtora cultural Adriana Mota ([20--?], documento on-line, um mecanismo de incentivo à produção audiovisual independente é o “[...] conjunto de pe- ças combinadas de maneira específica para estimular o desenvolvimento de produtos audiovisuais por pessoas ou empresas que não estejam associadas a empresas de radiodifusão e comunicação eletrônica de massa”. A Ancine é uma agência reguladoraque tem como atribuições o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil. É uma autarquia especial, atualmente vinculada ao Ministério da Cidadania, com sede e foro no Distrito Federal, escritório central no Rio de Janeiro e escritório regional em São Paulo. A agência é administrada por uma diretoria colegiada aprovada pelo Senado e composta por um diretor-presidente e três diretores, todos com mandatos fixos, aos quais se subor- dinam cinco superintendências: Análise de Mercado, Desenvolvimento Econômico, Fiscalização, Fomento e Registro. O Conselho Superior de Cinema, criado no mesmo decreto que criou a Ancine, foi transferido do Ministério da Cidadania para a Casa Civil, por meio do Decreto nº. 9.919, de 19 de julho de 2019. Além da transferência, o decreto altera a composição do conselho, que passa a ter menos representantes da sociedade civil (AGÊNCIA NACIONAL DO CINEMA, 2019). 7O financiamento do audiovisual no Brasil Obra audiovisual é o produto da fixação ou transmissão de imagens, com ou sem som, que tenha finalidade de criar a impressão de movimento, independentemente dos processos de captação, suporte utilizado inicial ou posteriormente para fixá-las ou transmiti-las, ou dos meios utilizados para sua veiculação, reprodução, transmissão ou difusão. Obra audiovisual independente é aquela cuja empresa produtora, detentora majoritária dos direitos patrimoniais sobre a obra, não tenha qualquer associação ou vínculo, direto ou indireto, com empresas de serviços de radiodifusão de sons e imagens ou operadoras de comunicação eletrônica de massa por assinatura (BRASIL, 2001). O financiamento do audiovisual pode ocorrer de forma indireta ou de forma direta. As possibilidades indiretas são por meio das leis de incentivo, como a Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) ou a Lei do Audiovisual. Já no financia- mento direto, os recursos são destinados via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Tanto a Lei Federal de Incentivo à Cultura quanto a Lei do Audiovisual autorizam produtores culturais a captarem recursos junto à iniciativa privada. Em contrapartida, as empresas podem abater até 100% do valor investido no Imposto de Renda devido naquele ano, desde que não ultrapassem o valor máximo permitido pelas leis. No caso de audiovisual, apenas projetos inde- pendentes de curta-metragem e documentários podem ser submetidos à Lei Federal de Incentivo à Cultura. A Lei Federal de Incentivo à Cultura e a Lei do Audiovisual são duas leis federais que, junto a outros mecanismos de fomento, regulação e distribuição cultural, integram uma política pública cultural no país. Com base em diretrizes formuladas por essa política cultural, cada estado e os municípios criam seus planos de cultura e fomento por meio de leis e fundos específicos. No estado de São Paulo, por exemplo, temos o Programa de Ação Cultural (Proac) enquanto na cidade de São Paulo foi instituído, em 2017, o Programa Municipal e Apoio a Projetos Culturais (Lei SP Cultura). No Rio Grande do Sul, o governo estadual possui duas formas de apoio a projetos culturais: a Lei de Incentivo Cultural (LIC) e o Fundo Estadual de Cultural (FAC), que integram o Procultura, o programa estadual de apoio às atividades culturais. O financiamento do audiovisual no Brasil8 No caso de fomento direto ao audiovisual, temos o FSA, que é destinado à cadeia produtiva da atividade desde 2006, quando foi criado. Ele foi considerado um marco na trajetória do cinema brasileiro, pois contempla toda a cadeia produtiva associada ao setor de audiovisual, como produção, distribuição, exibição e infraestrutura de serviços. O FSA possui duas fontes de financiamento: verbas da União e da Contri- buição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), um tributo pago por qualquer um que exiba uma obra audiovisual no cinema, na TV ou em ambiente doméstico. A gestão desse fundo é feita por um comitê que envolve a Ancine, representantes da indústria do audiovisual e agentes financeiros. Para receber recursos do FSA, os projetos devem ser aprovados antes pela Ancine. Os primeiros editais do FSA foram lançados em 2008, com a abertura de quatro chamadas públicas. Até o final de 2018, foram R$ 4, 7 bilhões de recursos liberados em diversas chamadas públicas e outros projetos lançados pelo FSA, sendo que 70% dos recursos foram destinados a produções cinematográficas de longa-metragem, ao projeto Cinema Perto de Você e a produções para televisão, de acordo com um estudo que aponta os resultados dos investimentos do FSA ao longo de dez anos (AGÊNCIA NACIONAL DO CINEMA, 2019). Além do financiamento às obras audiovisuais por meio de destinação direta ou indireta de recursos, como o FSA e as leis de incentivo, foi criado em 2012 o Regime Especial de Tributação para o Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica (Recine), com o objetivo expandir e modernizar o parque cinematográfico brasileiro. Esse regime determina que: [...] as operações de aquisição no mercado interno ou de importação voltadas à implantação ou à modernização de salas de cinema sejam desoneradas de todos os tributos federais, como Imposto de Importação, IPI, PIS/Pasep, Cofins, PIS-Importação e Cofins-Importação (PLANO NACIONAL DE CULTURA, 2018, documento on-line). O Recine integra o Programa Cinema Perto e Você voltado à inclusão da classe C, por meio da descentralização geográfica das salas, com estímulo especial para as regiões Norte e Nordeste e cidades com pequeno contingente populacional. 3 Captação de recursos públicos e privados para o audiovisual Agora que você já conhece as leis de incentivo e já sabe de onde podem vir os recursos para realizar uma produção audiovisual, é importante conhecer detalhes da elaboração dos projetos para captação desses recursos. Primeiro, 9O financiamento do audiovisual no Brasil é fundamental ter um verdadeiro projeto, e não apenas uma ideia. Depois, é preciso conhecer profundamente a legislação e todos os requisitos que um projeto deve cumprir para ser inscrito em um edital de fundo de fi nanciamento ou encaminhado a uma das leis de incentivo. A Lei Federal de Incentivo à Cultura e a Lei do Audiovisual possuem dire- trizes que acabam por orientar a produção de leis e fundos de apoio nos estados e municípios. Além de conhecer essas leis, é importante ficar atento aos editais lançados tanto pelo poder público quanto por empresas que buscam no mercado projetos para financiar. A maioria desses editais lançados por empresas ou insti- tuições ligadas a elas, como o Instituto Ford, Itaú Cultural, entre outras, costuma destinar recursos a projetos já autorizados a captação por meio das leis federais. Um projeto cultural possui como eixo central as produções culturais em diversos formatos: literatura, audiovisual, desenvolvimento de games, eventos, pesquisas, restauração, criação de espaços culturais, realização de festivais (audiovisual, teatrais e musicais, etc.), inovação tecnológica, entre outras possibilidades. Um projeto cultural constitui um documento que apresenta de forma detalhada como será operacionalizada uma ideia. De um modo geral, um projeto deve conter os elementos discriminados nos itens a seguir — ainda que para cada edital ou lei haja exigências específicas (SEBRAE, 2014). Duração limitada Um projeto deve ter início, meio e fi m. Seja qual for o mecanismo para pleitear recursos, é preciso que isso esteja bem claro no projeto. Não existe projeto por tempo ilimitado ou indefi nido. O que pode ocorrer é um projeto que tenha como proposta a continuidade. Mas ao inscrever um projeto audiovisual para um edital ou para uma lei de incentivo é preciso defi nir o tempo de duração, que pode ser de um dia, uma semana, um ano. Objetivo específico Todo projeto deve ter um objetivo específi co, que possa ser mensurado e que seja viável. É esse objetivo que vai guiar todo o desenvolvimento do projetoe sua execução. O produto ou serviço resultante do projeto deve atender a esse objetivo específi co. Caso o objetivo específi co seja, por exemplo, produzir um curta-metragem sobre a recuperação de um manancial, o produto fi nal não poderá ser outro que não esse curta-metragem. Além disso, o objetivo não pode envolver um audiovisual qualquer, devendo especifi car se será um longa-metragem, uma série de TV, um game ou um documentário. O financiamento do audiovisual no Brasil10 Recursos limitados Os recursos humanos, materiais e fi nanceiros são limitados e devem constar de forma detalhada no projeto a ser apresentado aos mecanismos de fi nanciamento. Ainda que haja mudanças no decorrer do desenvolvimento, o que é muito possível, é preciso saber exatamente quantas pessoas irão atuar, qual será a capacitação necessária dessas pessoas, quais equipamentos serão necessários e qual montante de recursos será sufi ciente para arcar com todos esses custos. Há casos de projetos em que não se preveem algumas despesas e, nesse caso, elas não poderão ser apresentadas na prestação de contas. Autonomia É importante que um projeto seja desenvolvido por uma equipe especialmente designada para esse fi m. Uma empresa de eventos e gestão cultural, por exem- plo, trabalha com diversos projetos e possui uma estrutura administrativa e fi nanceira que deve ser separada dos projetos em andamento. Isso porque os recursos advindos de fundos ou de leis de incentivo devem ser investidos conforme os objetivos e cronogramas defi nidos no projeto. Ao elaborar um projeto cultural, você deve considerar que as exigências detalhadas poderão variar dependendo do tipo de produção e do edital plei- teado. Por isso, a primeira dica para quem pretende criar um projeto cultural é conhecer a lei e/ou o edital para o qual o projeto será submetido. Assim, comece respondendo as seguintes perguntas (SEBRAE, 2014): O quê — refere-se ao que você pretende desenvolver. Exemplo: produzir um curta-metragem sobre a recuperação do manancial X, na cidade Y. Por quê — você deve ter um motivo claro e com um caráter de interesse público e abrangente. Exemplo: a fim de mostrar a importância da iniciativa de preservação ambiental de pequenas comunidades do interior do estado e ainda chamar a atenção para as questões ligadas às mudanças climáticas. Quem — qual será o público beneficiado pelo projeto e quem serão as pessoas que irão trabalhar na sua execução. Exemplo: o curta-metragem será direcionado a profissionais da área da educação e será usado para atividades educativas em escolas, além de ser disponibilizado na internet. Para realizar o audiovisual, serão necessárias X pessoas, que irão atuar nas atividades de produção, captação de imagem, edição, etc. Como — aqui você mostra como irá fazer para que a ideia se transforme em um produto. Exemplo: o projeto será desenvolvido por meio da 11O financiamento do audiovisual no Brasil captação de imagens do trabalho realizado pela equipe de recuperação do manancial e captação de novas imagens, além de entrevistas e de- poimentos de moradores da comunidade. Quanto — qual será o custo do projeto e de onde virão os recursos. Você pode informar, caso haja esse campo no formulário, outras fontes de recursos, como financiamento coletivo. É importante que você apresente valores e especifique a fonte de financiamento. Exemplo: o projeto custará R$ 90 mil e será financiado por meio de captação de recursos via lei de incentivo fiscal. Quando — qual será o prazo para a realização do projeto. Exemplo: o projeto terá duração de 12 meses, de janeiro a dezembro. Onde — aqui você deve informar o local, ou os locais, onde o projeto será desenvolvido e exibido (no caso de audiovisual). Exemplo: o projeto será desenvolvido no município X, no estado Y, e será distribuído para escolas públicas da região geográfica abrangida pelo manancial. Orientações para a elaboração de um projeto cultural Não há uma única forma de construir um projeto cultural, mas existem alguns elementos básicos que devem ser observados em qualquer um deles. Obvia- mente, esses elementos serão adaptados em função da natureza do projeto — literário, audiovisual, teatral, etc. – e do edital ou lei de fi nanciamento. É importante que você conheça cada uma dessas etapas e saiba quais são suas características e exigências, de modo a fazer as adequações necessárias. De modo geral, um projeto cultural deve conter os seguintes elementos: apresentação, objetivo, justificativa, público-alvo, equipe, etapas de trabalho, cronograma de atividades, orçamento, plano de divulgação/comercialização, plano de distribuição e plano de contrapartida. Um dos grandes erros cometidos por produtores culturais na hora de elaborar e apresentar um projeto é ignorar alguma das etapas, acreditando que ela não será importante. Geralmente, o preenchimento dos formulários é algo trabalhoso e detalhado. Por isso, preste atenção a cada um dos itens obrigatórios de forma a aten- der exatamente o que se pede. Um dos principais motivos para negativas de projetos é a inconsistência nos dados e falta de articulação entre os diversos elementos que compõem o projeto. Todos os elementos são fundamentais, mas podemos afirmar que o objetivo é essencial, pois todas as demais atividades giram em torno desse elemento. O financiamento do audiovisual no Brasil12 Afinal de contas, é possível apresentar uma justificativa consistente se não houver clareza sobre o objetivo do projeto? É possível construir uma metodologia (Como) se o objetivo é difuso e não se conhece o tema, a duração e o tipo de audiovisual? É possível desenvolver um projeto sem que se defina seu público- -alvo? Como pensar em um cronograma quando não há clareza quanto às etapas e modos de executar o projeto? Podemos fazer várias perguntas e todas nos levarão a pensar que cada um dos elementos deve estar articulado com o objetivo específico. Outra questão importante em relação ao objetivo é que você pode dividi-lo em um objetivo geral e outros mais específicos, os quais devem dialogar entre si e fazer sentido ao serem comparados com a justificativa e com a metodologia. O tema e o objeto do seu projeto orientarão também a sua justificativa, que deve ser fundamentada e consistente. Caso você decida produzir um documentário sobre determinado assunto, na sua justificativa devem constar dados de estudos e pesquisas que apontem a importância do tema e também a abrangência envolvida. AGÊNCIA NACIONAL DO CINEMA. Resultados consolidados do fundo setorial do audiovi- sual. 2019. Disponível em: https://fsa.ancine.gov.br/sites/default/files/atas-atividades/ Resultados-Consolidados-FSA-10-anos.v2.pdf. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Medida Provisória nº. 2.228-1, 6 de setembro de 2001. Estabelece princípios gerais da Política Nacional do Cinema, cria o Conselho Superior do Cinema e a Agência Nacional do Cinema — ANCINE, institui o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Cinema Nacional — PRODECINE, autoriza a criação de Fundos de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional — FUNCINES, altera a legislação sobre a Con- tribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 10 set. 2001. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/mpv/2228-1.htm. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Uma nova política para o audiovisual. Rio de Janeiro: Agência Nacional do Cinema, 2017. (E-book). CARLOTA Joaquina, princesa do Brasil. In: ADORO CINEMA, 2019. Disponível em: http:// br.web.img2.acsta.net/r_1280_720/pictures/19/08/18/18/11/3894750.jpg. Acesso em: 24 maio 2020. HERCULANO, M. Lei Sarney, lei Rouanet, Procultura: história, avanços e polêmicas. Cultura e Mercado, 2012. Disponível em: https://www.culturaemercado.com.br/site/lei- -sarney-lei-rouanet-procultura-historia-avancos-e-polemicas/. Acesso em: 24 maio 2020. 13O financiamento do audiovisualno Brasil MOTA, A. O que são mecanismos de incentivo à produção audiovisual independente? [20--?]. Disponível em: https://produtorantenado.com.br/o-que-sao-mecanismos-de- -incentivo-a-producao-audiovisual-independente/. Acesso em: 24 maio 2020. PLANO NACIONAL DE CULTURA. Recine. 2018. Disponível em: http://pnc.cultura.gov. br/tag/recine/. Acesso em: 24 maio 2020. SEBRAE. Projetos culturais: como elaborar, executar e prestar contas. Brasília: Instituto Alvorada Brasil, 2014. (E-book). Leituras recomendadas AGÊNCIA NACIONAL DO CINEMA. Apresentação. [20--?]. Disponível em: https://www. ancine.gov.br/ancine/apresentacao. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Decreto nº. 9.919, de 18 de julho de 2019. Transfere o Conselho Superior do Cinema para a Casa Civil da Presidência da República e altera o Decreto nº 4.858, de 13 de outubro de 2003, que dispõe sobre a composição e o funcionamento do Conselho Superior do Cinema. Diário Oficial da União, Brasília, 19 jul. 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Decreto/D9919.htm. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Lei nº. 7.505, de 2 de julho de 1986. Dispõe sobre benefícios fiscais na área do imposto de renda concedidos a operações de caráter cultural ou artístico. Diário Oficial da União, Brasília, 3 jul. 1986. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l7505.htm. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Lei nº. 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Restabelece princípios da Lei n° 7.505, de 2 de julho de 1986, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 24 dez. 1991. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8313cons.htm. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Lei nº. 8.685, de 20 de julho de 1993. Cria mecanismos de fomento à atividade audiovisual e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 21 jul. 1993. Dis- ponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8685compilado.htm. Acesso em: 24 maio 2020. BRASIL. Lei nº. 11.437, de 28 de dezembro de 2006. Altera a destinação de receitas decorrentes da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional -CONDECINE, criada pela Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, visando ao financiamento de programas e projetos voltados para o desen- volvimento das atividades audiovisuais; altera a Medida Provisória nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, e a Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993, prorrogando e instituindo mecanismos de fomento à atividade audiovisual; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 29 dez. 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11437.htm. Acesso em: 24 maio 2020. O financiamento do audiovisual no Brasil14 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. BRASIL. Plano nacional de cultura: diretrizes gerais. 2. ed. Brasília: Ministério da Cultura, 2008. (E-book). LEVIN, T. Com projeto de lei, governo quer cortar 43% do FSA. 2019. Disponível em: ht- tps://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2019/09/11/com-projeto-de-lei- -bolsonaro-quer-cortar-43-do-fsa.html. Acesso em: 24 maio 2020. PREFEITURA DE SÃO PAULO. Imposto sobre serviços (ISS) sujeito passivo. 2007. 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Introdução Como o Brasil historicamente sempre teve elevados índices de analfabe- tismo e de analfabetismo funcional, meios de comunicação impressos sempre foram preteridos no país em relação aos meios audiovisuais. Isso ajudou na rápida popularização do rádio, do cinema e da televisão como meios da população brasileira consumir informações e entretenimento. A tendência segue até os dias de hoje, explicitada na naturalidade com que as produções difundidas e consumidas pela internet tomam de assalto a nação, cultivando em pouco tempo uma população que lida naturalmente com plataformas de streaming e produz conteúdos audiovisuais em massa. Neste capítulo, você estudará a produção audiovisual no Brasil pelo prisma da predominância da oralidade como forma de comunicação nacional, o que promove esse gênero ao status de meio mais popular e disseminado no país. 1 Produção audiovisual no Brasil Apesar da imprensa ter surgido em 1440, com Johannes Gutenberg, e poste- riormente ter sido adaptada para a produção de jornais impressos no início do século XVIII, a principal forma de comunicação no Brasil sempre se baseou na oralidade, já que o país sempre teve elevados índices de analfabetismo e de analfabetismo funcional, fazendo com que parte da população sequer pudesse ter acesso às informações divulgadas inicialmente pelos meios de comunicação impressos. Por isso, a chegada do rádio no Brasil foi tão importante para seus cida- dãos, já que essa foi a primeira forma de comunicação efetiva entre a mídia e o povo, pela potencialidade do rádio informar para as massas por meio da oralidade. Entretanto, quando a TV chegou ao Brasil e se popularizou, ela se tornou a principal forma de comunicação entre a imprensa e os cidadãos por ir além da oralidade, incluindo também a imagem. Com isso, grande parte da população teve acesso a informações e ao entretenimento possibilitado pela televisão. De modo similar, o cinema foi gradativamente se popularizando no Brasil, tornando-se uma atividade cada vez mais comum para os brasileiros, que passavam a consumir filmes nas próprias telas de cinema e também em casa, em suas televisões, reforçando a importância do audiovisual no país. A onipresença dessa oralidade é reforçada por resultados de última Pes- quisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD Contínua), de junho de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que afirma que 6,8% da população acima de 15 anos é analfabeta no Brasil, o que representa mais ou menos 11,3 milhões de brasileiros que não sabem nem ler e nem escrever (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2019). Outra pesquisa, intitulada Índice Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2018, que é realizada pela ONG Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com o Ibope, revelou que 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais, aqueles que sabem ler e escrever de forma básica, mas não são capazes de entender e interpretar um texto que leu (INSTITUTO PAULO MONTENEGRO, 2018). Além disso, segundo dados da PNAD Contínua TIC 2017, realizada pelo IBGE, a TV está presente em 97,2% dos lares brasileiros. Já em relação ao mercado do audiovisual, com destaque para a produção cinematográfica, o Brasil também se notabiliza por ter gerado R$ 2,4 bilhões nessa área apenas no ano de 2018. Outra pesquisa relacionada ao mercado audiovisual no Brasil, realizada pela Tendências Consultoria Integrada em 2014, apontou que o setor do audiovisual contava com cerca de169 mil empregos diretos e 327 mil empregos indiretos (TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA, 2019). Dentre os meios de comunicação, a Internet, espaço em que também é possível propagar o audiovisual, é o que mais vem crescendo em alcance, estando presente em 74,9% dos lares brasileiros, número que é muito signi- A produção audiovisual brasileira2 ficativo, mas que ainda está longe do alcance da televisão, reforçando ainda mais a “colonização audiovisual” no Brasil. Parte desse crescimento da internet também está associada a uma nova forma de consumo do audiovisual no país, seja por meio de plataformas de vídeo como o YouTube, seja por plataformas de streaming, que têm ganhado cada vez mais importância, por possibilitar uma nova forma de consumir o audiovisual no Brasil. A Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM) 2016 entrevistou 15.050 pessoas, com o objetivo de saber quais meios de comunicação são mais consumidos no Brasil. Os dados apontaram que 63% dos entrevistados afirmaram que utilizam a televisão com sua principal fonte de informação, enquanto 26% escolheram a internet com primeira opção de informação (BRASIL, 2016). Já em relação aos dois meios de comunicação mais utilizados, a TV alcançou 89% da preferência dos entrevistados e a internet foi citada por 49%, reforçando a importância da televisão no Brasil, bem como o crescimento da internet como segundo meio de comunicação mais utilizado pelos brasileiros (BRASIL, 2016). Nesse segundo momento da pesquisa, o rádio obteve 30% das citações e o jornal impresso, 12%, números bem inferiores aos da TV e da internet (Figura 1). Figura 1. Resultados da PBM 2016. Fonte: Brasil (2016, documento on-line). No Brasil, o audiovisual é o tipo predominante entre os meios de comuni- cação pelo fato de sua população ser baseada na oralidade e na transmissão de conteúdos mediante a somatória texto + imagem em movimento, o que 3A produção audiovisual brasileira possibilita narrativas que gerem uma maior proximidade e identificação com os cidadãos e represente uma inovação em relação ao impresso, ao rádio, etc. Nesse sentido, podemos descrever a produção audiovisual no Brasil a partir da fragmentação entre o cinema e a televisão, principais expoentes do audiovisual no país, mas com destaque para a televisão, por seu alcance e influência entre os meios de comunicação brasileiros. Em relação ao cinema, ele surgiu no Brasil por incentivo dos irmãos italianos Paschoal Segreto e Affonso Segreto em 1887, e logo se iniciaram as produções nacionais em território brasileiro já no ano de 1898. Mas foi no século XX que a produção cinematográfica ganhou destaque no cenário nacional. A partir das décadas de 1910 e 1920, principalmente com os movimentos de Adaptações Literárias (1911–1926), Cavação (1916–1935) e Ciclos Regionais (1913–1929), intensificaram-se as produções nacionais, enquanto nas décadas de 1930 e 1940 o país passou por uma crise na produção audiovisual, com a forte entrada do cinema dos Estados Unidos, com destaque para Hollywood (CÉ, 2019). Depois disso, nas décadas de 1950 e 1960 iniciou-se no Brasil o Cinema Novo, que possuía uma proposta revolucionária e foi responsável por colocar a indústria nacional em evidência, principalmente pelo fato de mostrar a sociedade brasileira de forma realista e para além do samba e carnaval (CÉ, 2019). Após altos e baixos, chegamos ao século XXI com o cinema brasileiro adquirindo novamente reconhecimento mundial e tendo várias produções com indicações para festivais e Oscar. O cinema, antes visto com desconfiança ou desinteresse pelo historiador, por não passar de uma diversão popular, por construir justamente mundos autônomos, fantasiosos e de escape, ganha um outro relevo: é lugar das cons- truções e projeções do imaginário, da aferição de sensibilidades e práticas sociais, lugar da representação (SCHVARZMAN, 2007, documento on-line). A partir desse papel de protagonismo, o cinema foi ganhando espaço no cenário nacional e internacional. Outras produções audiovisuais também começaram a emergir no Brasil, principalmente na televisão, com as teleno- velas e minisséries, que foram ganhando relevância no audiovisual brasileiro. Por sua vez, a transmissão televisiva, principal expoente do audiovisual no Brasil, que chegou ao país na década de 1950 com Assis Chateaubriand, foi pouco a pouco conquistando espaço pela novidade da produção de imagens em movimento e por se basear na oralidade, sendo possível que qualquer pessoa compreendesse o que estava se passando na tela da TV, ainda que não fosse letrada. A produção audiovisual brasileira4 Se a televisão chegou ao país como um meio de comunicação elitista, devido aos altos custos do aparelho, com o passar do tempo foi se tornando um importante instrumento de convivência, já que famílias e amigos se uniam nas salas e escritórios em volta da tela da TV. Por sua possibilidade de represen- tação e de mexer com imaginários e emoções, juntamente com sua expansão e barateamento dos aparelhos, a televisão foi se tornando o principal meio de comunicação de massa do país. Baseada na produção audiovisual, assim que chegou às massas, a TV pouco a pouco foi construindo uma grade de programação diversa, que se revezava entre programas de auditório, telenovelas, telejornais, filmes e outros produtos, e que tornou o meio de comunicação parte do cotidiano do brasileiro. Outra observação pertinente é a de que a imagem em movimento, principal- mente esta imagem de natureza eletrônica, televisual/audiovisual tem um poder inigualável na vida das pessoas: ela persuade, seduz, embriaga, além de provocar diferentes emoções e sensações de reconhecimento e pertenci- mento (ou não) até o desejo de dominar a linguagem e o processo produtivo (COUTINHO; EMERIM, 2019, p. 26). Outro fator que favoreceu a expansão da televisão no território nacional foi a questão de seu sinal ser transmitido pelo espectro radioelétrico, da mesma maneira que acontece com as emissoras de rádio AM e FM e com operadoras de telefonia móvel, sendo possível assim a rápida ampliação do sinal de TV para lugares que possuíam um acesso mais difícil a informações e entretenimento. Em relação às produções audiovisuais televisivas, o principal produto no Brasil consiste nas telenovelas, que estão presentes nas telas da TV desde 1951 e que foram conquistando espaço e público no cenário nacional por sua reconhecida qualidade e possibilidade de representação da vida cotidiana do brasileiro contada a partir de narrativas fictícias. À medida que as telenovelas se aproximavam cada vez mais da vida real, o seu sucesso junto ao público se fortalecia. Inicialmente seduzindo as mulheres, com o tempo foram se transformando em um produto que atingia o público em geral. Na década de 1970, juntamente com o telejornalismo, representavam os programas de maior audiência da televisão (FADUL, 2000, documento on-line). Além disso, o telejornalismo ganhou muito destaque na produção audio- visual brasileira por seu caráter informativo, opinativo e interpretativo, divi- dido entre telejornais e programas de cunho jornalístico, mas com diferentes linguagens. Segundo Edna Mello (2017), o telejornalismo já passou até agora 5A produção audiovisual brasileira por cinco fases, que também podem ser utilizadas para compreendermos as etapas em que as produções audiovisuais passaram na televisão brasileira: 1. telejornalismo falado; 2. telejornalismo com externas; 3. telejornalismo all news; 4. telejornalismo convergente; 5. telejornalismo expandido. É a partir da fase do telejornalismo expandido que a Internet também entra como um espaço a mais para produção e reprodução de conteúdos, com destaque para o audiovisual. Por se tratar de telejornalismo, a expansão é mais evidente em mídias sociais e aplicativos que têm como base o formato audiovisual (Snapchat), ou apresenta ferramentas que permitem a produção e postagens de vídeos (no Facebook, Twitter ou Instagram,Facebook Live, Periscope e Instagram Stories) (MELLO, 2017, documento on-line). Com isso, da mesma forma que o telejornalismo passa a produzir e repro- duzir conteúdos audiovisuais no ambiente web, outras produções de caráter audiovisual ganham forma com a internet, principalmente nas redes sociais, já que todas as principais dentre elas possibilitam a introdução de conteúdos audiovisuais, com destaque para Snapchat, Instagram, YouTube, entre outras, que são, sobretudo, audiovisuais em sua essência. Nesse sentido, tanto as telenovelas produzem narrativas fictícias baseadas no dia a dia da população brasileira quanto o telejornalismo passa a produzir narrativas do mundo real, que é o que Coutinho (2012) chama de dramaturgia do telejornalismo, na medida em que o telejornalismo cria histórias com início, meio, fim, moral da história e personagens, de modo a se aproximarem do público e transmitirem um conteúdo de forma mais representativa e capaz de gerar maior identidade. Por meio dessa colonização audiovisual que ocorreu no Brasil com a televisão e também com a indústria cinematográfica, outras formas de produção audiovisual passaram a surgir no âmbito da internet, como vídeos de diferentes naturezas no YouTube, stories e publicações de Instagram e Facebook, entre outras produções audiovisuais que tornam esse tipo de conteúdo cada vez mais frequente e difundido no cenário nacional, em um país que continua se pautando pela oralidade. A produção audiovisual brasileira6 Além disso, surgem plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime, GloboPlay, EI Plus, DAZN e outras plataformas de filmes, séries e esportes que têm ganhado cada vez mais espaço por oferecerem uma opção a mais para os usuários. No início do século XXI, o cinema brasileiro voltou a ter protagonismo no cenário global, com diversas produções de sucesso que receberam indicações em premiações internacionais, como Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), Tropa de Elite (2007), Enquanto a noite não chega (2009) e Que horas ela volta? (2015). 2 Principais linhas de abordagem da produção audiovisual brasileira Uma primeira e essencial linha de abordagem da produção audiovisual brasi- leira consiste na questão do resgate à memória, já que uma produção audiovisual carrega signifi cados históricos, culturais e afetivos, produzindo uma criação de vínculos entre o espectador e a representação audiovisual (CORRÊA; ROSENDAHL, 2009). Já Magalhães (2007) afi rma que a produção audiovisual possui um grande potencial de resgate de memória devido ao seu poder de estimular muitos sentidos em quem consome aquele material, possuindo um caráter sensibilizador. Ao abordar a televisão como um imaginário social brasileiro, Musse (2012) destaca que resgatar a memória desse meio de comunicação significa um mergulho na história do país, bem como uma noção de identidade e perten- cimento, seja por meio do telejornalismo ou da produção audiovisual, já que a TV teria uma função de encantamento. Nesse sentido, da mesma forma que o cinema e a televisão produzem um resgate da memória, o ambiente web possibilita uma ressignificação da memória, já que a internet se colocaria como um espaço privilegiado para o audiovisual (MUSSE; MUSSE, 2014). Essa ressignificação potencializa co- municações mais descentralizadas, incluindo a ideia de produção de conteúdos audiovisuais que geram representações do cotidiano por parte dos próprios cidadãos, os transformando em novos atores sociais. 7A produção audiovisual brasileira Além disso, Christina e Mariana Musse (2014, documento on-line) des- tacam uma necessidade cada vez maior de registrar momentos vividos, de modo “[...] que o registro garante lastro à existência, dá-lhe sentido, isto é, constrói uma narrativa que, de alguma forma, gera uma identidade”, sendo a produção audiovisual a forma mais próxima da realização de registros que possam proporcionar experiências a partir da memória, devido à união dos elementos áudio e vídeo. Voltando aos primórdios da produção audiovisual no Brasil, ela nasce no país com o cinema, no final do século XIX, e vai pouco a pouco se expandindo e evoluindo, da mesma forma que a sociedade brasileira passa por um momento de evolução, mas que inicialmente se concentra muito no eixo Rio–São Paulo. Podemos afirmar que a concentração da produção cultural no país, identificada na localização das grandes empresas e estúdios de cinema no Rio de janeiro e em São Paulo, somada à presença da Rede Globo no Rio, faz-se necessária para a viabilização de uma indústria. Por outro lado, pode-se afirmar tam- bém que esta concentração prejudica movimentos favoráveis à expressão da diversidade cultural, gerando conflitos de interesses (PFEIFFER, 2009, documento on-line). Entretanto, com o surgimento e rápida expansão do cinema hollywoodiano, somado à Primeira Guerra Mundial, as produções norte-americanas acabaram dominando o mercado audiovisual, sendo necessário que o cinema brasileiro se reinventasse. Foi a partir desse domínio de Hollywood que a produção au- diovisual efetivamente se espalhou por todas as regiões brasileiras, ganhou um caráter mais regional e voltou ao protagonismo no Brasil. O cinema nacional ganhou então um tom de denúncia social sobre temas ligados às realidades regionais, preconceito, luta por preservação das diferenças e pela expressão de identidades que fogem aos padrões hegemônicos estabelecidos, já que as produções audiovisuais buscavam ir além dos modelos hollywoodianos e tinham como objetivo retratar o pluralismo e a diversidade no cenário nacional. Cada região do país cuidou de desenvolver e consolidar suas próprias tradições culturais de uma forma tão própria que por vezes se tem a impressão de que existem vários brasis diferentes convivendo dentro de um só. Este processo, evidentemente, nem sempre ocorreu de forma natural e amigável e acabou culminando na formação de um país de expressivas contradições, onde o potencial econômico convive com um progresso social que está muito aquém dos níveis ideais e compatíveis com sua real capacidade produtiva (PFEIFFER, 2009, documento on-line). A produção audiovisual brasileira8 A partir da década de 1960, com o Cinema Novo, essas temáticas de cunho social e político vão ganhar ainda mais força. Juntamente com a chegada da televisão no Brasil, a produção audiovisual ganha um fôlego a mais com pro- duções cinematográficas e também telenovelas, que, em geral, faziam críticas sociais e tinham como objetivo falar das realidades cotidianas no Brasil, ainda que as produções de caráter humorístico também ganhassem notoriedade nesse momento, já que essa foi uma estratégia adotada para a conquista do público. Aliado ao discurso de denúncia social, o movimento de preservação am- biental também ganhou força nessa época, já que ao olharem mais para o local e regional, as produções audiovisuais também se depararam com as narrativas voltadas para os impactos ambientais, atrelados principalmente à questão dos índios e da poluição das grandes cidades. Ao trabalharem com essa perspectiva, Costa, Machado e Branquinho (2016) buscam compreender a questão da educação ambiental e a poluição causada pelo petróleo no Rio de Janeiro a partir do conceito de comunicação popular, que representa uma forma alternativa de comunicação e que ganhou força na década de 1970, com destaque para a produção audiovisual, fosse por meio de filmes ou documentários. Ao observar com mais atenção a questão ambiental, o audiovisual brasileiro passou a retratar essa temática com maior proximidade e interesse. Para além do Cinema Novo, surge ainda o Cinema Marginal, que se alinhava ao movimento da contracultura e das ideologias pregadas pelo tropicalismo em um momento em que a censura estava presente no Brasil. Nesse contexto histórico, a produção audiovisual representava uma oportunidade de denunciar o regime militar. Ambos movimentos conquistaram os brasileiros pela questão da identidadee representação que continham e foram um sucesso até o início da década de 1980, quando a crise econômica assolou o país e a produção caiu drasticamente. No entanto, se de um lado a produção cinematográfica perdeu espaço, as telenovelas ganharam as telas, principalmente com a Rede Globo, produzindo vários sucessos e se tornando o maior expoente da produção audiovisual no Brasil. Soma-se a isso o fato de que a televisão começava a se popularizar no cenário nacional, impulsionando ainda mais as produções televisivas como as telenovelas. A partir do sucesso das telenovelas como o principal produto audio- visual brasileiro, as emissoras de televisão passaram a ganhar um espaço cada vez maior no cenário audiovisual nacional, posteriormente inves- tindo também em produções que fossem além das temáticas cotidianas 9A produção audiovisual brasileira do cidadão brasileiro e se dedicando a outros produtos ligados ao meio ambiente, à cultura, à política, à diversidade e outras tantas temáticas que emergiram na televisão principalmente em forma de documentários e séries ou minisséries. Já a produção cinematográfica voltou a ganhar corpo já no início do século XXI, com produções premiadas internacionalmente e que demonstram a qualidade do audiovisual brasileiro, que a essa altura possuía uma base muito bem consolidada no cinema e também na televisão, com o crescente sucesso de telenovelas. Junto com esse ressurgimento da produção audiovisual cine- matográfica, já no fim da primeira década do século XXI a internet ganhou espaço como mais um local de produção audiovisual, à época muito mais voltada para produções amadoras e para temáticas que não eram abordadas nos meios de comunicação convencionais. Entretanto, o potencial da internet como uma alternativa a mais para a produção de audiovisual ganhou nova cara com o surgimento dos serviços de streaming, que são em sua maioria audiovisuais e representam uma maneira diferenciada de experimentar esse meio. Com isso, as produções e reproduções sob demanda passaram a ganhar notoriedade, principalmente com o YouTube e mais tarde com a Netflix e outras plataformas ligadas a filmes e séries. Assim, abriu-se uma nova linha de abordagem, que é a da produção da maior quantidade possível de conteúdos, de modo a agradar todos os gostos e públicos. Atualmente, tanto o cinema quanto a televisão sofrem os efeitos das pla- taformas de streaming e também passam a se reinventar na produção de conteúdos que sejam de interesse do público e que consigam mobilizar as massas, ainda que sob uma lógica de produção e de reprodução diferente daquela dos serviços de streaming. Na publicação “História do Cinema Brasileiro”, para o site Toda Matéria, a pesquisadora Laura Aidar busca recuperar a história completa do cinema brasileiro, desde sua criação até os dias atuais. Vale a pena navegar pela página, já que a história do cinema no Brasil é muito próxima à história da produção audiovisual no âmbito nacional. Você encontra a referência completa para a publicação ao final deste capítulo, na seção Leituras Recomendadas. A produção audiovisual brasileira10 3 Produções audiovisuais × plataformas de streaming no Brasil Durante muito tempo, as produções audiovisuais no Brasil e no mundo foram desenvolvidas com o objetivo de ir para os cinemas e televisões e assim ganhar notoriedade frente à opinião pública, com destaque para fi lmes, minisséries, séries, telenovelas, documentários, programas jornalísticos, musicais, entre outros formatos. A principal forma de engajamento do público com essas produções audiovisuais consistia na fi delização, fosse por meio da espera até que um fi lme chegasse aos cinemas, até que um documentário fosse lançado em DVD ou mesmo na televisão e até que uma telenovela fosse se desenrolando ao longo dos dias e semanas, o que produzia uma relação de dependência do público para com as grades de programação da televisão ou para com as logísticas de pré-estreia e estreia no caso do audiovisual produzido para a indústria cinematográfi ca. Durante muito tempo, essa foi a única forma possível de consumo das produções audiovisuais no Brasil, que faziam sucesso pelo seu elevado poder de captação do público, que era capaz de ligar a televisão todo dia em um mesmo horário para assistir a seu telejornal ou telenovela favoritos, ou ainda esperar a data exata para que um filme fosse lançado. Além disso, o público se tornava refém da grade de programação de uma emissora de televisão ou mesmo dos cinemas, já que se uma novela terminasse ou se você perdesse um dia de programação, isso poderia prejudicar a sua compreensão dos conteúdos. De modo similar, após um filme sair de cartaz nos cinemas, eram necessários longos períodos de espera até que ele fosse lançado em fita cassete e posteriormente em DVD. Entretanto, com a expansão da internet como uma nova possibilidade de pro- dução de conteúdos, o cenário audiovisual passou por uma grande reformulação, principalmente por conta das plataformas de streaming, que revolucionaram a forma de se produzir audiovisual no Brasil e no mundo. O streaming pode ser definido como uma tecnologia que se baseia no fluxo de dados multimídia enviados por meio da utilização de redes da internet, permitindo que os usuários reproduzam mídias como áudios ou vídeos da forma que escolherem e sem que precisem seguir uma grade de programação. “No ambiente das plataformas de vídeo sob demanda, a visualização conectada permite novas experiências de se assistir televisão, sem as amarras de uma grade de programação fixa e que obedecem somente ao próprio ritmo de fruição (time-shifting e binge watch)” (MASSAROLO; MESQUITA, 2016, documento on-line). 11A produção audiovisual brasileira Massarolo e Mesquita (2016), ao se referirem às plataformas de streaming, definem time-shifting como sendo o hábito de gravar um programa para assisti-lo fora do horário de exibição normal, “pulando” as peças publicitárias; e binge-watching, como o poder dos usuários acessarem conteúdos por diversos dispositivos, com a possibilidade de “maratonarem” seriados. Com o avanço da internet, o YouTube se coloca como um dos pioneiros na produção de audiovisual via streaming, sendo possível visualizar o conteúdo desejado da maneira que o usuário preferir, sem nenhum tipo de limitação, e com grande parte de seu conteúdo sendo disponibilizado de forma gratuita, embora atualmente haja também produções contidas na plataforma que são pagas. Nesse sentido, o YouTube causou uma grande revolução na produção de au- diovisual no Brasil, por sua possibilidade de produção e reprodução de conteúdos em diferentes tamanhos, formatos e linguagens, tornando-se, inclusive, um espaço de repositório de muitas emissoras de TV e também de produtoras de audiovi- sual no país. Além disso, ao se tornar pioneiro na grande difusão de serviços de streaming on demand, que são aqueles em que o usuário escolhe o modo como deseja consumir os conteúdos, o YouTube também abriu as portas para que di- versas pessoas, chamadas popularmente de youtubers, utilizassem a plataforma para produzirem conteúdos de diferentes categorias, como humor, curiosidades, atualidades, jornalismo, músicas, documentários, tutoriais, etc. Isso revolucionou tanto as formas de consumo, já que agora era possível assistir a conteúdos fora das grades de programação das emissoras de televisão, quanto as fontes de produção, já que se ampliaram as possibilidades de se fazer audiovisual no Brasil e no mundo. Na esteira do Youtube, diversas outras plataformas surgiram com o obje- tivo de possibilitar que os usuários consumam o audiovisual a partir de suas próprias escolhas e experiências, sem que fosse necessário estar ligado a uma grade de programação. Nesse sentido, o Netflix assume o protagonismo como plataforma de streaming de filmes, séries, documentários, entre outras modalidades. É possível consumir todo e qualquer conteúdo que esteja inserido na plataformacomo e quando o usuário preferir, sendo possível inclusive assistir fora da ordem cronológica em que as produções são feitas, além de possibilitar que a visualização desses conteúdos esteja sempre ao alcance de quem consome esses serviços. Uma diferença em relação ao YouTube é que a Netflix é uma plataforma paga. A produção audiovisual brasileira12 Uma das marcas da plataforma é seu catálogo de obras que se adequa ao gosto do usuário, além de focar a criação de conteúdo original de qualidade desde 2012, espelhando-se nas grandes produções da televisão por assinatura norte-americana. Neste processo, a tecnologia de streaming provoca uma série de rupturas no modelo televisivo e quebra o fluxo enquanto característica fundamental do meio (MASSAROLO; MESQUITA, 2016, documento on-line). Do mesmo modo como a Netflix se popularizou no Brasil, outras tantas plataformas de streaming foram conquistando espaço e público nessa nova forma de se produzir e consumir conteúdos audiovisuais, com destaque para outras plataformas de filmes e séries, inclusive aquelas vinculadas a emissoras de TV, como é o caso do GloboPlay, que permite que seus assinantes tenham acesso a produções originais do Grupo Globo como telenovelas, documentários, séries e minisséries que foram ou não ao ar na emissora de TV. Além disso, há também serviços de streaming ligados ao setor do esporte, como EI Plus, DAZN, FoxSports+ e ESPN+, que possibilitam a visualização de diversos conteúdos ao mesmo tempo e em uma ou mais telas. No entanto, a produção audiovisual convencional, ou seja, aquela que não é feita por meio de serviços de streaming, continua a ser transmitida e consumida nas telas de cinema e também na TV, com destaque para filmes, telenovelas e programas de jornalísticos e de entretenimento. A diferença é que essas produções têm se adaptado a essas novas formas de consumo do audiovisual, o que permite que esses produtos estejam veiculados tanto na lógica da grade de programação quanto nos serviços de streaming. O que muda é a experiência dos usuários em relação à produção de conteúdos audiovisuais. Por um lado, é possível assistir a uma telenovela, a uma série ou a um programa de entretenimento a partir da grade de programação estabelecida pelas emissoras de TV, que se baseia no caráter da novidade; por outro, existe a opção de esperar que esse conteúdo esteja todo disponível nas plataformas de streaming, bastando então para escolher a melhor maneira de consumir essas produções. Em publicação para o site CanalTech intitulada “Além da Netflix | 12 serviços de streaming diferentes que você precisa conhecer”, Natália Rosa (2018) apresenta 12 plataformas audiovisuais de streaming que, apesar de não serem tão conhecidas, possuem muitas produções interessantes e diferenciadas. Na seção Leituras Recomendadas, ao fim deste capítulo, você pode encontrar a referência completa para essa publicação. 13A produção audiovisual brasileira BRASIL. Pesquisa brasileira de mídia 2016: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília: Secom, 2016. (E-book). CÉ, O. A. História do cinema. In: JESUS, A. M. V. de; CÉ, O. A. (org.). Produção audiovisual no Brasil. Porto Alegre: Sagah, 2019. p. 13–31. CORRÊA, R. L.; ROSENDAHL, Z. Cinema, música e espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009. COSTA, R. N.; MACHADO, C. J. S.; BRANQUINHO, F. T. B. Produção audiovisual no con- texto da educação ambiental exigida no licenciamento de petróleo e gás no Estado do Rio de Janeiro. 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Introdução Frente às demais formas de produção de conteúdos, a produção audio- visual apresenta um claro protagonismo, já que é capaz de proporcionar aos mais diversos públicos uma experiência eminentemente completa e acessível. O potencial de encantamento inerente à junção do áudio com a imagem em movimento traz consigo também uma maior responsabi- lidade do ponto de vista ético, já que seu potencial também é maior em termos de exposição indesejada de pessoas e instituições. Neste capítulo, você estudará aspectos éticos e seus limites na pro- dução audiovisual, examinando o uso de subterfúgios jornalísticos para a obtenção de informações e os marcos legais aplicados no Brasil. 1 O papel social da grande reportagem telejornalística A produção audiovisual ocupa um papel central no Brasil, já que, por se basear na oralidade, permite amplo acesso em um país que contém uma ele- vada taxa de analfabetismo (6,8%) e analfabetismo funcional (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2018). Nesse cenário, a produção audiovisual possibilita uma experiência do público em várias esferas, que vão do entretenimento, como fi lmes e telenovelas, até a informação, como telejornalismo e documentários. Com isso, estabelece-se alguns limites éticos nessa produção audiovisual. Se por um lado a união dos elementos de áudio e vídeo representam uma inovação em relação aos outros meios de comunicação e possibilitam uma experiência sensorial mais completa, por outro há uma maior exposição de pessoas, fontes, lugares, instituições e outros tantos fatores que estão im- plicados em uma produção audiovisual, seja ela fictícia ou não fictícia, de entretenimento ou informativa. Devido a essa maior complexidade do audiovisual, os limites éticos são ainda mais prementes, e é necessário que as produções de caráter audiovisual tomem alguns cuidados extras em relação aos demais meios de comunicação, para assim resguardar tanto os profissionais quanto as outras partes envol- vidas nesses conteúdos. Em uma tentativa de estabelecer alguns limites para a produção e preservação audiovisual no Brasil, a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) estabelece em seu Código de Ética (AS- SOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL, 2016) alguns objetivos, como: respeito ao valor das imagens, sons e materiais documentais a partir de sua significação cultural, histórica e artística; busca por documentação e menor intervenção possível durante todo o processo produtivo; ampliação da difusão e acesso aos conteúdos; compromissos profissionais para com os conteúdos produzidos. Além disso, existem outros limites éticos que envolvem regras específicas para cada área de atuação, devido a demandas específicas dos diferentes campos da produção audiovisual brasileira. Entretanto, neste capítulo, va- mos nos concentrar em alguns objetivos da produção audiovisual de caráter jornalístico, com destaque para o papel social das grandes reportagens no telejornalismo, que demandam uma produção e linguagem específicas, o uso da câmera escondida e do off na reportagem investigativa e a legislação e os limites éticos da produção audiovisual no Brasil, nesse caso, não nos restringindo ao jornalismo. A reportagem pode ser definida como um gênero textual jornalístico de caráter predominantemente informativo e que possui uma maior liberdade em relação à estrutura de produção que outros gêneros como a notícia, a nota e a entrevista (MELO; ASSIS, 2016). Nessa modalidade, o jornalista dispõe Limites éticos na produção audiovisual2 de um tempo maior para apuração e produção e não se encontra vinculado diretamente à cobertura de fatos ou acontecimentos cotidianos, e sim à con- textualização de assuntos, sejam eles factuais ou não. Nesse sentido, a grande reportagem é a modalidade jornalística que possui maior papel social, já que, diferentemente da notícia, que busca narrar os fatos da vida cotidiana de forma clara e objetiva, na reportagem o repórter vai além dos fatos, empreendendo uma apuração mais ampla e profunda que buscar contextualizar o tema e entender suas causas e desdobramentos. Além disso, a reportagem possui uma maior liberdade de estrutura e de formatos, não se limitando a uma abordagem exclusivamente informativa. Assim, pode ter caráter expositivo, apresentando os fatos de forma imparcial e objetiva, opinativo, apresentando os fatos juntamente com o ponto de vista do jornalista, ou interpretativo, analisando os fatos em conjunto com outros elementos e sugerindo uma conclusão ou moral da história sobre o tema trabalhado. Embora a reportagem não prescinda da atualidade, esta não terá o mesmo caráter imediato que determina a notícia, na medida em que a função do texto é diversa: a reportagem oferece detalhamento e contextualização àquilo que já foi anunciado, mesmo que seu teor seja predominantemente informativo (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 18). Cremilda Medina (1988, p. 72) aponta quatro características fundamentais em uma grande reportagem ou reportagem em profundidade: ampliação das informações imediatas (notícia); o rumo da humanização, que seria a busca por individualização de um fato social por meio de uma narrativa e personificação de um perfil representativo, ou seja, uma ou mais pessoas que representem o con- teúdo abordado; ampliação do fato imediato no seu contexto; o rumo da reconstituição histórica do fato. Já Lobato (2016) destaca que a grande reportagem possui em sua essência uma busca por contextualização e historicização, reforço da narratividade, trabalho testemunhal, singularização do fato por meio de personagens e his- tórias de vida e uso de técnicos e índices de ficcionalização. 3Limites éticos na produção audiovisual Ao trabalhar com o jornalismo televisivo, Coutinho (2012) propõe o conceito de dramaturgia do telejornalismo, já que a todo momento há uma busca por criar histórias com começo, meio e fim, além de moral da história e uso de personagens, de modo a aproximar essas “histórias da vida real” dos cida- dãos. Nesse sentido, a reportagem se destaca por ser um gênero jornalístico em que essas histórias ganham mais tempo, personagens, contextualização e recuperação dos fatos que antecedem a temática abordada, por possibilitar maior intensidade na geração de sentimentos de pertencimento, identidade e representação. Na reportagem, a contextualização permite abordar melhor as questões con- flituais. A recuperação da memória em torno dos antecedentes do fato, as correlações e entrevistas para subsidiar o telespectador são outros procedimen- tos que permitem fugir ao lugar comum, tecendo os nexos do acontecimento (DEGL’IESPOSTI, 2009, p. 107). A partir dessa aproximação com o cidadão por meio da narrativa de histórias da vida real, a reportagem busca a produção de conteúdos de interesse público, já que essa contextualização dos fatos permite uma melhor compreensão por parte dos telespectadores. Essa preocupação com o papel social da grande reportagem telejornalística se dá pela própria construção desses conteúdos, que envolvem uma maior aproximação e conhecimento de causa por parte do repórter em relação ao cidadão. Assim, há mais oportunidade de dar voz aos personagens para que eles apresentem suas realidades de forma humanizada e aprofundada, já que o jornalista tem mais tempo para apuração e checagem dos fatos, permitindo que apresente informações de interesse público que normalmente não costumam ter grande repercussão na mídia, por não estarem ligadas a acontecimentos cotidianos. Ou seja, um dos principais papéis sociais da grande reportagem é abordar temas que outros gêneros jornalísticos não costumam