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Sociologia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Dra. Vivian Fiori Revisão Textual: Profa. Ms. Luciene Oliveira da Costa Santos Sociologia Urbana • Sociologia Urbana • O Processo de Urbanização pelo Mundo • Segregação Social nas Cidades • Megacidades e Metrópoles · Discutir conceitos e temáticas relativas à Sociologia Urbana. Tratar das segregações sociais nas cidades OBJETIVO DE APRENDIZADO Sociologia Urbana Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como o seu “momento do estudo”. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo. No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Sociologia Urbana Introdução Nesta unidade, vamos tratar da Sociologia Urbana, tanto de seus aspectos teóricos, quanto de estudos sobre o tema na perspectiva de situações existentes no mundo e também especificamente no Brasil. A Sociologia Urbana é um ramo da Sociologia que estuda as relações sociais entre os grupos e agentes sociais no espaço urbano. Tais estudos têm interface principalmente com a Ciência Política, Geografia e Antropologia Cultural. Muitos estudos desta área da Sociologia têm relação com pobreza, tendências socioeconômicas e demográficas nas cidades, migrações para e nas cidades, segregação social, problemas raciais e cultura no urbano, entre outros temas. O Processo de Urbanização pelo Mundo Atualmente, segundo dados da UN-HABITAT (2016), a maioria da população do mundo vive em áreas urbanas, mas há poucas décadas a maioria ainda vivia em áreas rurais, principalmente na Ásia e na África. O processo de urbanização vem se ampliando em todos os continentes do mundo. Mas o que é urbanização? O sociólogo espanhol Manuel Castells (2000, p. 46) assim define: O termo urbanização refere-se ao mesmo tempo à constituição de formas espaciais específicas das sociedades humanas, caracterizada pela concentração significativa das atividades das populações num espaço restrito, bem como à existência e à difusão de um sistema cultural específico, a cultura urbana. Trata-se de um processo que gera grande concentração de atividades econômicas e população num dado espaço, principalmente em atividades de serviços, comércio e indústria. Buscando definir estes processos relativos ao campo e cidade, Henri Lefebvre definiu três períodos da história: · O primeiro foi a era camponesa, na qual predominava a atividade agrícola e a vida no campo; · Outro foi o período industrial, a partir da Revolução Industrial (século XVIII-XIX) que se iniciou na Europa Ocidental e foi propagada pela expansão capitalista, com predomínio da indústria e de sua forma racional na organização do espaço e nas condições do trabalho; · E, por fim, a era urbana, com predomínio do modo de vida urbano, ou da sociedade urbana. 8 9 Na perspectiva de Lefebvre, o urbano é o modo de vida predominante, que che- ga a interferir atualmente até no campo, ou seja, as formas de vida do meio urbano estão cada vez mais no campo porque as referências propiciadas pela cidade pre- dominantes. Desse modo, para esse autor, a cidade e o urbano não são sinônimos. Como explica Oscar Sobarzo, em referências sobre o urbano: Em primeiro lugar, a sociedade urbana deve ser entendida no contexto de um processo que nasce da industrialização [...] a industrialização invade a realidade urbana anterior e a transforma [...] em função da industrialização concentra (pessoas, atividades, riquezas, coisas, objetos, instrumentos, meios, idéias) e projeta fragmentos múltiplos e disjuntos (periferias, subúrbios, residências secundárias, satélites etc.). (SOBARZO, 2006, p. 59). Contudo, cabe ressaltar que nem todos os lugares do mundo passaram por estes três períodos destacados por Lefebvre. É fundamental sempre verificar as especificidades dos lugares e suas diversas temporalidades e contextos. Na África, por exemplo, só na segunda metade do século XX vai se iniciar um processo mais intenso de urbanização, que, no entanto, não foi precedido de um processo de industrialização. Além disso, o grau de urbanização no continente ainda é bastante baixo quando comparado a outras partes do mundo. As grandes transformações do modo de vida de rural para urbano ocorreram mais intensamente a partir da segunda metade do século XIX na Europa e em parte dos EUA. Nesse período, as cidades começam a receber um grande contingente de imigrantes vindo do campo (muitos de outros países), sendo que o processo de industrialização foi o motor da urbanização do momento. No final do século XIX e início do século XX, com a expansão do processo capitalista e da industrialização, a separação do local de trabalho e da moradia ocasionou o surgimento dos apinhados prédios de cortiços nas cidades industrializadas na Europa e nos EUA – criando um padrão de segregação social. Figura 1 – Nova York e Os Imigrantes - 1910 Fonte: Wikimedia Commons 9 UNIDADE Sociologia Urbana Em relação às condições de acesso à moradia, com o capitalismo surge a propriedade privada e o acesso à terra torna-se uma disputa que atende ao interesse dos novos agentes sociais do mercado imobiliário, bem como dos proprietários fundiários urbanos, ou seja, os proprietários de terra urbana. Em geral, as cidades antigas tinham como marcos templos para os deuses. Na Europa, durante a Idade Média, a igreja era o centro onde se reproduziam as relações sociais; já na paisagem da cidade industrial, o relógio da fábrica, o cortiço e os bairros das elites vão evidenciando as novas mudanças. No século XX, a urbanização intensifica-se no mundo, já com uma lógica mais global, sobretudo após a 2ª Guerra Mundial (1939-1945). As grandes metrópoles passam a ser as cidades que concentram principalmente atividades de serviços e comércio especializados. Nessas metrópoles dos países subdesenvolvidos, há também muita pobreza, trabalho informal, formas de moradias bastante precárias. Importante! País Subdesenvolvido Um país subdesenvolvido é um país onde há grandes desigualdades sociais e alguns indicadores socioeconômicos que não são adequados, caso, por exemplo, de: menor renda per capita, menor escolaridade, maior taxa de analfabetismo, maior mortalidade infantil, menor expectativa de vida etc. Fundamental que não se confunda crescimento econômico, que se refere ao aumento da produção econômica de um paísou região – com desenvolvimento – que pressupõem melhorias no nível socioeconômico de uma sociedade – de um país ou região. Você Sabia? Segregação Social nas Cidades As classes sociais são condicionantes importantes na estruturação social e no modo como as pessoas vivem nas áreas urbanas. Embora não sejam as únicas condicionantes sociais são importantes e geram segregação social nas cidades. Classes Sociais Para Marx e Engels, as classes sociais são principalmente fruto da divisão social do trabalho que, no capitalismo, opôs a burguesia (detém os meios de produção) e o proletariado (é o operário que vende sua força de trabalho em troca de um salário). Para Marx, o fator econômico é importante, mas também o cultural, político e ideológico atuam na formação das classes sociais. Evidenciam também a questão da consciência de classe e o “desvio de consciência de classe”. Ex pl or 10 11 Conforme comentam Marx e Engels: Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta toda a superestrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. (MARX; ENGELS apud FERRAZ, 2009, p. 284) Por segregação social e espacial entende-se um determinado espaço com certa uniformidade ou com alguns aspectos em comum, por exemplo, de indicadores como renda, escolaridade das famílias ou mesmo do ciclo de vida e do tipo da característica da família (bairros mais jovens ou de idosos etc.), entre outros, que os diferenciem do entorno. Podemos ter um bairro, por exemplo, com grande número de idosos, ou um bairro de classes populares com baixa renda e baixa escolaridade etc. Existe uma diferença entre a segregação social e residencial dos mais ricos, que escolhem onde querem morar, numa situação de autossegregação social (caso dos condomínios de luxo), e a dos mais pobres, que sofrem uma segregação imposta pela ordem social e econômica vigente. A situação das classes sociais estabelece onde morar, estudar, ter lazer, comprar, ser cidadão. Neste sentido, a localização é fundamental numa cidade, e possibilita auferir uma renda diferencial, conceito este definido por Marx, que assim afirma: Onde quer que exista renda, a renda diferencial aparece por toda parte obedece às mesmas leis que a renda diferencial agrícola. Onde quer que forças naturais sejam monopolizáveis e assegurem um sobrelucro ao industrial que as explora, seja uma queda d’água, uma mina rica, um pesqueiro abundante ou um terreno para construção bem localizado, aquele cujo título sobre uma parcela do globo terrestre o torna proprietário desses objetos da natureza subtrai esse sobrelucro, na forma de renda, ao capital em funcionamento. (MARX, 1988, p. 222) A renda diferencial é obtida por meio de uma localização diferenciada na cidade, embora para Marx a terra urbana em si não seja uma mercadoria, ganhando valor pela localização e situação na qual se encontre. Para as classes populares esta valorização de certas partes das cidades afasta a possibilidade de ali morar, de usufruir desta urbanização e de sua infraestrutura e serviços. Logo, os agentes do mercado imobiliário agem buscando valorizar os espaços e se interessam em produzir moradias somente para as classes sociais dominantes. 11 UNIDADE Sociologia Urbana No Brasil, e em vários países subdesenvolvidos, devido à grande desigualdade social existente e à dificuldade de acesso a uma habitação regularizada e em condições boas de habitabilidade, há vários tipos de moradias precárias que colocam a vida do morador em risco. Figura 2 – Dharavi- Favela em Mumbai- Índia Fontes: http://www.a-i-d.org Ao tratarmos da organização das cidades, é fundamental perceber os agentes sociais que participam do processo de existência do urbano. Um ator importante, sobretudo nas grandes cidades e metrópoles, são os promotores imobiliários. Tais atores são formados por construtoras, incorporadoras, grupos técnicos de arquitetos e engenheiros, sistema financeiro de habitação, entre outros. Os promotores imobiliários, em muitos casos, só se interessam por produzir imóveis para as famílias de renda mais alta, sobrando ao Estado construir moradia aos mais pobres. Os grupos excluídos usam o espaço principalmente como abrigo, para morar. Em geral, vivem em áreas menos valorizadas, com menor infraestrutura urbana e onde existem vários problemas socioambientais. O Estado tem um papel crucial nesse processo, ao criar normas e leis, políticas públicas e obras de diferentes tipos que influenciam, ou têm relação, com a organização das cidades. E, em grande, parte o Estado age em apoio às classes dominantes de proprietários de terras, dos promotores imobiliários e dos donos de indústria, enquanto os grupos sociais excluídos ficam à mercê de buscar morar onde é possível, trabalhando horas a fio. Logo, as classes sociais são condicionantes importantes no processo de segregação residencial e social. As classes dominantes acabam por influir em formas de pensamento dominante, pois esta classe possui os meios de produção, diferentes modos de exercer o poder e também os meios de produção intelectual. De forma que se trata de um discurso dominante, como explicam Marx e Engels: 12 13 [...] os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias do seu domínio. (MARX; ENGELS, 2008, p.47) Nas cidades, e nas relações sociais urbanas, principalmente nos países subde- senvolvidos, é comum percebermos discursos que são de interesse exclusivo das classes dominantes, mas aparentemente parecem ser de toda a sociedade. Logo, é fundamental perceber por quem está sendo feito o discurso. Quem é o agente social que o está produzindo e a quem realmente interessa. Existem relações de poder que levam a desigualdades neste processo de organização espacial. O que é aparentemente desorganizado, na verdade esconde premissas de interesses de alguns agentes sociais em detrimento de toda a população. Serviço Público nas Cidades O serviço público, a princípio, deve ser igual para todas as classes sociais e, segundo a norma brasileira, deve atender à coletividade, sendo dever do Estado. Há casos comuns de serviços públicos que funcionam plenamente em algumas partes da cidade e não em outras. Mas não é público? Não deveria funcionar igualmente em toda a cidade do mesmo modo? Como exemplo: há serviços de limpeza pública, estações de trem e metrô, linhas de ônibus que ocorrem em condições distintas quando comparamos as áreas mais pobres da cidade com outras de classe média alta ou alta. Quantos exemplos no Brasil e no mundo temos para evidenciar as desigualdades sociais nas cidades? O discurso dominante acaba camufl ando a real necessidade das classes sociais populares em detrimento dos interesses da elite. Ex pl or Quantos exemplos de obras são realizados nascidades no Brasil e também em outros países que atendem somente aos interesses da classe dominante? Muitas vezes, o discurso dominante faz com que parcela das classes populares adote o mesmo discurso – num desvio de consciência de classe social. Entretanto, cabe ressaltar que parte das classes populares é organizada por meio dos movimentos sociais que buscam lutar por melhores condições de vida (associações de moradores, ONG com atividades sociais etc. Tais movimentos são considerados agentes sociais que buscam se contrapor ao modo dominante e ao discurso hegemônico. 13 UNIDADE Sociologia Urbana Desse modo, segregação social, classes sociais, discurso dominante, movimentos sociais populares são condições que interagem nos processos de existência social nas cidades do Brasil e no mundo. Em geral, os mais pobres moram em favelas, cortiços, loteamentos irregulares e clandestinos, ou em conjuntos habitacionais populares no Brasil. No mundo, há casos de moradias em telhados, antigas tumbas de cemitérios, e milhares na rua, caso de algumas cidades na Índia. Roberto Lobato Corrêa pesquisador de problemáticas urbanas afirma: Para se entender a questão do como morar é preciso que se compreenda o problema da produção da habitação. Trata-se de uma mercadoria especial, possuindo valor de uso e valor de troca, o que faz dela uma mercadoria sujeita aos mecanismos de mercado. Seu caráter especial aparece na medida em que depende de outra mercadoria especial -a terra urbana -, cuja produção é lenta, artesanal e cara, excluindo parcela ponderável, senão a maior parte, da população de seu acesso, atendendo apenas a uma pequena demanda solvável. (CORRÊA, 2000, p. 62-63) Esta desvalorização, por exemplo, comum em áreas do centro antigo de algumas cidades do mundo, leva à existência de prédios inteiros que viram cortiços e tornam- se moradia popular, especialmente nas cidades que crescem rapidamente e onde são criadas novas centralidades. Isso é comum em grandes cidades no Brasil e no mundo. As áreas centrais são comumente os lugares onde este processo de valorização e desvalorização – e, eventualmente, até revalorização – ocorre mais intensamente, havendo diferentes agentes sociais interessados nesses espaços. Um desses agentes são os promotores imobiliários, que buscam valorizar tais áre- as com novos empreendimentos comerciais e residenciais, enquanto aos mais pobres interessa que existam moradias as quais eles possam viver, já que nas áreas centrais concentram-se muitos empregos e não teriam custos adicionais com transportes. Em algumas cidades, ocorrem intervenções por parte do poder público, proporcionando mudanças no sentido de revalorizar urbanisticamente determinadas áreas degradadas, visando a atrair uma população de maior poder aquisitivo. Este processo é denominado por alguns autores de gentrificação. Barcelona (Espanha), Los Angeles (EUA) e Buenos Aires (Argentina) são alguns exemplos. Importante! O que é gentrificação? Trata-se de um termo que foi definido pela socióloga Ruth Glass, em 1964, por meio de uma pesquisa sobre a cidade de Londres, na Inglaterra, na qual se evidenciou uma dinâmica em alguns bairros operários da cidade, que passaram a ser ocupados posteriormente por parte de uma classe média, ou seja, havia uma mudança social urbana em termos de classe social e a substituição das classes populares por uma classe média ou média-alta. Você Sabia? 14 15 Em geral, o conceito de “gentrificação” pode ter diferentes definições. Comumente é definido como um processo de mudança social urbana na qual algumas áreas da cidade são transformadas tanto em sua morfologia e forma espacial quanto do ponto de vista das classes sociais que as habitam: O que é a gentrification continua sendo uma pergunta sem uma única resposta válida para todos os casos. Parece aceito, de qualquer modo, que se trata de um processo de mudança social urbana, no sentido de que determinadas áreas da cidade são transformadas tanto morfológica quanto socialmente. Mas, quais são as causas? Quais são as consequências? Quais atores participam? Qual é o papel nessas mudanças na transformação geral das cidades? Todas essas questões permanecem em aberto. (RIGOL, 2005, p. 99) Assim, além da segregação social condicionada pelas condições socioeconômi- cas da população, há também alguns agentes sociais como o mercado imobiliário e o Estado que, muitas vezes, de forma conjunta agem a favor das classes dominan- tes em detrimento das demais classes sociais. Megacidades e Metrópoles Apesar de chegarmos ao começo do século XXI, com um número cada vez maior de grandes cidades em todo o mundo, em muitas delas, imperam formas de moradias precárias. Alguns pesquisadores e entidades, como a Organização das Nações Unidas (ONU), denominam de megacidades aquelas cidades, cujo número de população é grande, com mais de 10 milhões de habitantes. Contudo, não se podem confundir megacidades com metrópoles, pois podemos ter casos de megacidades que não são consideradas metrópoles, dada a menor centralidade em termos de atividades econômicas, entre elas, o de serviços e atividades comerciais. Assim como, há metrópoles que não são megacidades, pois não alcançam 10 milhões de habitantes. Importante! O que é metrópole? Trata-se de um conceito que diz respeito a cidades que têm grande centralidade político-econômica e concentram grande quantidade de serviços e comércio, em quantidade e diversidade. São Paulo, por exemplo, é uma metrópole nacional porque tem diversifi cados tipos de serviços comuns e especializados nas áreas de educação, saúde, ambiental, de auditoria, de informação, entre outros, e que atendem também a uma grande população externa. Você Sabia? 15 UNIDADE Sociologia Urbana Até o século XIX, era mais comum que grandes cidades estivessem localizadas nos países desenvolvidos ou de urbanização mais antiga, caso da China e Índia. Já era comum naquela época uma segregação espacial existente entre ricos e pobres em diversificadas situações. Assim, nas cidades de Nova Iorque, Londres e Paris, no final do século XIX e começo do século XX, era comum a existência de cortiços, onde geralmente mora- vam os trabalhadores e imigrantes, enquanto de outro lado havia bairros burgueses. Apesar da globalização da economia e da divisão territorial do trabalho, atualmente, há diversas formas de existência pelo mundo. A caracterização das cidades é muito influenciada por aspectos culturais regionais, o que dificulta, inclusive, uma comparação entre elas, devido às peculiaridades históricas, culturais, raciais e étnicas. A difusão dos sistemas técnicos de informação, de tecnologia e de produção, no contexto da sociedade capitalista, tornou as características das cidades um pouco mais globais, com formas de existência mais homogêneas e disseminadas. No continente africano, por exemplo, onde o grau de urbanização ainda é mais baixo quando comparado a outros continentes, há diversificadas formas de existências urbanas. Em muitos casos, há a dificuldade de se definir claramente o que é urbano e o que é rural, tecnicamente. Há muitos casos de aldeias, por exemplo, próxima às cidades, ou de favelas que estão entre o rural e o urbano. Como pode se observar no gráfico, a seguir, o continente onde se concentra o maior número de grandes cidades (com 500 mil ou mais habitantes) é a Ásia, com 56%; das 7 cidades mais populosas do mundo, 10 encontram-se no conti- nente asiático. Figura 3 – Distribuição da População em Grandes Cidades (por continente - 500 mil ou mais habitantes Fonte: Acertvo do Conteudista Conforme apontam relatórios do Programa das Nações Unidas para Assentamentos – UN-HABITAT1 (2016) e do site DEMOGRAPHIA (2014), especializado em população, a maioria da população atualmente já vive em áreas urbanas, em condições cada vez mais periféricas do ponto de vista das infraestruturas, ou seja, em condições de vida precárias. 1 UnitedNations Human Settlements Programme (UN-HABITAT) 16 17 Dessa maneira, é importante destacar que definir a existência da maioria da po- pulação como urbana, não significa uma urbanização com infraestrutura adequada, nem tampouco características de urbanização nos moldes europeus, por exemplo. Conforme explica o relatório Demographia World Urban Áreas (Demografia das Áreas Urbanas do Mundo): Mais de metade da população de grandes áreas urbanas (500.000 ou mais) é da Ásia e vive em 473 das 922 grandes áreas urbanas do mundo. Nos últimos anos, o mundo passou a ter mais da metade da população urbana, pela primeira vez na história. Esta edição do ano indica que existem 28 megacidades no mundo (áreas urbanas com mais de 10 milhões de habitantes). Além disso, é possível que com duas outras cidades- Lahore e Kinshasa esse número chegue a um total de 30; se os dados dos Censos mais atuais foram disponibilizados. Aparecem, ainda, um total de 69 áreas urbanas com 5.000.000 ou mais de habitantes. No entanto, seria um erro dar a entender que os moradores urbanos do mundo vivem em configurações semelhantes a 5ª Avenida, em Nova Iorque, ou dentro do quarto anel rodoviário de Pequim ou na cidade de Paris. (DEMOGRAPHIA, 2014, p. 2) Desde 1990, vem aumentando a população em áreas urbanas em todo o mundo, segundo UN-HABITAT das Nações Unidas (2016) de 57 milhões entre 1990-2000 aumentou para 77 milhões entre 2010-2015. Em 1990, 43% (2,3 bilhões) da população mundial viviam em áreas urbanas; até 2015, esta tinha crescido para 54% (4 bilhões). A Ásia tem, de longe, o maior número de pessoas que vivem em áreas urbanas, seguidas pela Europa, África e América (vide gráfico a seguir). O fato de que 2,1 bilhões de pessoas Ásia vivem em áreas urbanas, o que não é exatamente sinônimo de desenvolvimento, pois muitos vivem de forma precária. Figura 4 Fonte: Acervo do Conteudista 17 UNIDADE Sociologia Urbana No final do século XX, houve uma notável transformação econômica chinesa, impulsionada pela urbanização, principalmente no sul da China, onde antes áreas que eram rurais ou pequenas cidades transformaram-se nas últimas décadas do século XX em grandes cidades. Figura 5 – Cidade de Xangai - China Fonte: iStock/Getty Images Contudo, as taxas de crescimento urbano pelo mundo foram muito mais rápidas em algumas regiões do que outros. A maior taxa de crescimento entre 1995 e 2015 ocorreu nos países subdesenvolvidos, sendo que em alguns países da África foi maior. Ou seja, apesar da África ser menos urbanizada do que outras partes do mundo as cidades deste continente vêm crescendo mais nas últimas décadas. A taxa de crescimento urbano da África é quase 11 vezes mais rápida do que a taxa de crescimento da Europa. A rápida urbanização da África é impulsionada pelo crescimento natural da população, pela migração rural-urbana, pela expansão das áreas urbanas (em áreas que eram antes rurais e foram incorporadas ao espaço urbano), devido a guerras e conflitos políticos que fazem as pessoas a migrarem para as cidades. Contudo, muitas cidades de países subdesenvolvidos, como Nova Délhi na Índia ou no Cairo no Egito, não têm infraestrutura e serviços públicos adequados para esta população que vem crescendo. Há também estudos urbanos como do sociólogo Wacquant que relaciona a questão da marginalidade e da formação dos guetos com a questão racial e cultural existente nas grandes cidades. Sobre isso, o cientista social Heitor Frugoli Jr. comenta: Tendo em vista tal densidade sociológica, Wacquant (2001) voltou-se à análise de outros contextos marcados por certas formas de marginalidade e segregação socioespacial, como no caso de um banlieue parisiense – La Courneuve –, com traços socioculturais que aparentemente o aproximariam dos guetos norte-americanos, mas cuja comparação criteriosa demonstra que, apesar do agravamento das condições de vida local, a (des)qualificação de gueto a tal espaço seria explicada em boa 18 19 parte pela articulação entre discursos de uma determinada imprensa interessada em abordagens catastróficas para aumento das tiragens, de agentes públicos ou de ONGs empenhados em acirrar uma visão dramática sobre tais locais – em busca de prioridade para programas (incluindo negociações clientelistas) ou captação de recursos. (FRUGOLI JR, 2005, p. 147) Atualmente, no século XXI, com o grande processo de migração para países europeus, tem se ampliado a tensão entre os moradores locais e imigrantes, principalmente em algumas cidades na França, Alemanha e Itália. Geram-se novos processos de segregação sociocultural e racial, formando novos guetos urbanos. Isso aumenta a marginalidade e cria novas tensões sociais. Dessa maneira, sobre Sociologia Urbana, verifica-se que existe uma gama de estudos em relação à questão social, pobreza, segregação social, tensão sociocultural e racial que são alvo deste ramo da Sociologia. 19 UNIDADE Sociologia Urbana Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Programas de Erradicação, Reassentamento e Urbanização das Favelas: Delhi e Mumbai DUPONT, Véronique; SAGLIO-YATZIMIRSKY, Marie-Caroline. Programas de erra- dicação, reassentamento e urbanização das favelas: Delhi e Mumbai. São Paulo, Estudos Avançados, 23 (66), 2009. https://goo.gl/7CbwUj Campo e Cidade, Rural e Urbano no Brasil Contemporâneo HESPANHOL, Rosangela Ap. de Medeiros. Campo e cidade, rural e urbano no Brasil contemporâneo. Revista Mercator, Fortaleza, v. 12, número especial (2), set. 2013, p. 103-112. https://goo.gl/bloJHk O que é Urbano no Mundo Contemporâneo MONTE-MÓR, Roberto Luís. O que é urbano no mundo contemporâneo. Belo Horizonte: UFMG/Cedeplar, Jan. 2006, p. 1-14. https://goo.gl/7PdQjn Dinâmica Urbano-Regional: Rede Urbana e suas Interfaces PEREIRA, Rafael Henrique Moraes; FURTADO, Bernardo Alves (orgs.). Dinâmica urbano-regional: rede urbana e suas interfaces. Brasília: IPEA, 2011. https://goo.gl/dpJs23 20 21 Referências BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 2004. CASTELLS, Manuel. A questão urbana. Trad. de Arlene Caetano. São Paulo: Paz & Terra, 2000. CORRÊA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 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