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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE INSTITUTO DE PSIQUIATRIA PROGRAMA DE MESTRADO PROFISSIONAL SILVANA DO MONTE MOREIRA DISCUSSÃO SOBRE PROLES DE FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS PELA VIA DA ADOÇÃO, SOB A ÓTICA DAS JOVENS E DOS JOVENS ADOTADOS RIO DE JANEIRO 2021 Silvana do Monte Moreira DISCUSSÃO SOBRE PROLES DE FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS PELA VIA DA ADOÇÃO, SOB A ÓTICA DAS JOVENS E DOS JOVENS ADOTADOS Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Atenção Psicossocial do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial à obtenção do título de Mestre Profissional em Atenção Psicossocial. Orientadora: Profa. Dra. Maria Tavares Cavalcanti RIO DE JANEIRO 2021 CIP - Catalogação na Publicação Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ com os dados fornecidos pelo(a) autor(a), sob a responsabilidade de Miguel Romeu Amorim Neto - CRB-7/6283. MM838d Moreira, Silvana do Monte Discussão sobre proles de famílias homoafetivas pela via da adoção, sob a ótica das jovens e dos jovens adotados / Silvana do Monte Moreira. -- Rio de Janeiro, 2021. 151 f. Orientadora: Maria Tavares Cavalcanti . Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psiquiatria, Programa de Mestrado Profissional em Atenção Psicossocial, 2021. 1. Adoção. 2. Homossexualidade. 3. Famílias. 4. Minorias sociais e de gênero. 5. Diversidade. I. Tavares Cavalcanti , Maria , orient. II. Título. AGRADECIMENTOS Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Eu sou amarelo claro Sou meio errado Pra lidar com amor No mundo tem tantas cores São tantos sabores Me aceita como eu sou Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Eu sou ciumento, quente, friorento Mudo de opinião Você é a rosa certa Bonita e esperta Segura na minha mão Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Que o mundo é sortido Toda vida soube Quantas vezes Quantos versos de mim em minh’alma houve Árvore, tronco, maré, tufão, capim, madrugada, aurora, sol a pino e poente Tudo carrega seus tons, seu carmim O vício, o hábito, o monge O que dentro de nós se esconde O amor O amor A gente é que é pequeno E a estrelinha é que é grande Só que ela tá bem longe Sei quase nada meu Senhor Só que sou pétala, espinho, flor Só que sou fogo, cheiro, tato, plateia e ator Água, terra, calmaria e fervor Sou homem, mulher Igual e diferente de fato Sou mamífero, sortudo, sortido, mutante, colorido, surpreendente, medroso e estupefato Sou ser humano, sou inexato Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Eu sou amarelo claro Sou meio errado pra lidar com amor No mundo tem tantas cores São tantos sabores Me aceita como eu sou Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou Eu sou ciumento, quente, friorento, mudo de opinião Você é a rosa certa, bonita e esperta Segura na minha mão Passarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou (Renato Luciano. De toda cor) À minha orientadora Professora Maria Tavares Cavalcanti À minha família sem a qual eu não teria motivação para prosseguir na vida Aos companheiros dos grupos de apoio à adoção Aos meus amigos, minhas amigas e minhes amigues da diversidade de ser e de amar Aos jovens que aceitaram participar desse trabalho Ao meu amigo Lindomar Darós que me apoiou e incentivou a cada momento Aos meus colegas de turma que fizeram esse caminhar mais feliz Apesar de tudo estamos vivos Pro que der e vier prosseguir Com a alma cheia de esperanças Enfrentando a herança que taí (Meu deus do céu) Nós atravessamos mil saaras E eu nunca vi gente melhor resistir A tanta avidez, a tanta estupidez Ao cada um por si, ao brilho da ilusão Digo na maior - melhores dias virão É um desejo deste imenso coração E vamos cuidar da úlceras E vamos tratar dos pústulas Justiça remédio sensacional Pra recuperar nossa moral E pra fortalecer o ânimo E pra fortalecer o fôlego Um vinho constituinte popular cai legal (E cai então) (Gonzaguinha. Bom dia) RESUMO MOREIRA, Silvana do Monte. Discussão sobre proles de famílias homoafetivas pela via da adoção, sob a ótica das jovens e dos jovens adotados. Rio de Janeiro, 2021. Dissertação (Mestrado Profissional em Atenção Psicossocial) – Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021 Nas últimas décadas verifica-se no Brasil a crescente formação de famílias homoafetivas com base na adoção. Adoção é o processo legal de assunção dos direitos e deveres da família biológica pela adotiva. Ainda há escassez de conhecimento de como se dá o processo de filiação à nova família, principalmente na família formada por pessoas do mesmo sexo. O fato de casais do mesmo sexo constituírem prole tem gerado na sociedade civil, no direito, nas ciências sociais e na psicologia questionamentos sobre os pontos que permeiam tais vínculos parentais. A partir da constatação de que essas famílias existem e que sua inserção na sociedade é um fato inconteste, apresentamos uma pesquisa qualitativa envolvendo filhos e filhas com a capacidade civil suprida, de cinco casais homoafetivos, cuja filiação seja decorrente da adoção e realizada com base na Lei nº 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente. As entrevistas foram realizadas através do aplicativo Zoom, em função da situação de pandemia em que se encontra o mundo, e revelou concepções de família e perspectivas de gênero, que subjazem às demandas formuladas pelos adotantes e passam para a realidade de filhos e filhas que se empoderaram desse lugar em tal configuração familiar. Na perspectiva desses casais, ter um filho ou uma filha é considerado um passo importante na afirmação de sua capacidade de constituir uma família. Nas entrevistas realizadas verificou-se uma visão de família sem qualquer tipo de preconceito ou diferenciação do modelo heteronormativo, onde filhos e filhas se entendem e colocam-se nesse lugar de pertencimento. Os resultados nos trazem a certeza de que pesquisas profundas precisam ser realizadas especificamente com os filhos e filhas na qualidade de sujeitos de direitos cujo instituto da adoção objetiva atender, sempre no superior interesse desses e dessas. Com pesquisa, que se constitui em importante dispositivo para o enfrentamento, inclusive abrangendo crianças e adolescentes em famílias homoafetivas, contemplando aspectos biopsicossociais desses filhos e filhas, conseguiremos romper a barreira do preconceito e da discriminação. Palavras-chave: adoção; homossexualidade; minorias sociais e de gênero; família. ABSTRACT MOREIRA, Silvana do Monte. Discussão sobre proles de famílias homoafetivas pela via da adoção, sob a ótica das jovens e dos jovens adotados. Rio de Janeiro, 2021. Dissertação (Mestrado Profissional em Atenção Psicossocial) – Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021 In recent decades we have seen in Brazil the growing formation of homo-affective families based on adoption. Adoption is the legal process of assuming the rights and duties of the biological family for the adoptive one. There is still a lack of knowledge on how the process of affiliation to the new family takes place, especially in families formed by people of the same sex. The fact that same-sex couples have offspring has raised questions in the civilsociety, in law, in social sciences, and in psychology about the issues that permeate such parental bonds. Based on the verification that such families exist and that their insertion in society is an undeniable fact, we present qualitative research involving sons and daughters with civil capacity, from five homosexual couples, whose filiation is a result of adoption and based on the Law no. 8069/90 - Child and Adolescent Statute. The interviews were carried out through the Zoom application, due to the pandemic situation in which the world finds itself, and revealed conceptions of family and gender perspectives, which underlie the demands formulated by the adopters and pass on to the reality of sons and daughters who have empowered themselves in such a family configuration. From the perspective of these couples, having a child is considered an important step in the affirmation of their ability to form a family. In the interviews carried out, we verified a vision of family without any kind of prejudice or differentiation from the heteronormative model, where sons and daughters understand and place themselves in this place of belonging. The results bring us the certainty that in-depth research must be carried out specifically with sons and daughters as subjects of rights whose adoption institute aims to attend, always in their best interest. Through research, which constitutes an important device including for coping, research that covers children and adolescents in homo-affective families, contemplating biopsychosocial aspects of these children, will we be able to break the barrier of prejudice and discrimination. Keywords: adoption; homosexuality; social and gender minorities; family. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS a.C. Antes de Cristo ABRAFH Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas ADI Ação Direta de Inconstitucionalidade ADPF Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental ADO Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão ANGAAD Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção APA Associação Americana de Psicologia Art. Artigo CCB Código Civil Brasileiro CDHO Comissão de Direito Homoafetivo CEJA Comissão Estadual Judiciária de Adoção CF Constituição Federal CFM Conselho Federal de Medicina CID-9 Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde CID-10 Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde CIJ Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado CND Comissão Nacional de Adoção CNJ Conselho Nacional de Justiça DJ Dia do julgamento DNA Ácido desoxirribonucleico Dr. Doutor ECA Estatuto da Criança e do Adolescente EGHO Encontro de Grupos Homossexuais Organizados ENEM Exame Nacional do Ensino Médio. GAA Grupos de Apoio à Adoção GGB Grupo Gay da Bahia GRAAU Grupo de Apoio a Adoção em Uberaba HIV Human Immunodeficiency Virus IBDFAM Instituto Brasileiro de Direito de Família INAMPS Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Nacional LGBT+ Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero LGBTQI+ Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênero e Queer LINDB Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro MHB Movimento Homossexual Brasileiro MP Ministério Público OAB-RJ Ordem dos Advogados do Brasil secção do estado do Rio de Janeiro OEA Organização dos Estados Americanos OMS Organização Mundial de Saúde ONU Organização das Nações Unidas PLS Projeto de Lei do Senado REsp Recurso Especial SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SNA Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento SP Estado de São Paulo STF Supremo Tribunal de Federal STJ Supremo Tribunal de Justiça TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TJES Tribunal de Justiça do Espírito Santo TJRJ Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro TJRS Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul TJSP Tribunal de Justiça de São Paulo UOL Universo Online SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 13 1 PARENTALIDADE ................................................................................................ 26 1.1 SOBRE SEXUALIDADES, PARENTALIDADES E LEGALIDADES .................. 26 1.2 CONSECUÇÃO DO AFETO ............................................................................... 34 1.3 AVANÇOS E PRECONCEITOS ......................................................................... 37 1.4 ADOÇÃO ............................................................................................................ 40 1.4.1 A Evolução Histórica da Adoção .................................................................. 41 1.4.2 A Adoção e o Abandono no Brasil................................................................ 44 1.4.3 Do Conceito e da Natureza Jurídica da Adoção .......................................... 48 1.4.4 Legitimidade para Postular a Adoção .......................................................... 48 1.4.5 Consentimento dos Detentores do Poder Familiar ..................................... 51 1.4.6 Concordância do Adotando .......................................................................... 52 1.4.7 Reais Benefícios para o Adotando ............................................................... 53 1.5 ADOÇÃO POR CASAIS HOMOAFETIVOS – RESGATE HISTÓRICO ............. 54 1.6 ADOÇÃO HOMOAFETIVA NA ATUALIDADE ................................................... 58 1.7 ADOÇÃO TRANSAFETIVA ................................................................................ 62 2 CONTAÇÂO DE HISTÓRIAS OU DAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIAS ................... 64 2.1 O EUROPEU ....................................................................................................... 66 2.2 REVERENDA ALEXYA, A HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA HOMOTRANSAFETIVA .................................................................................................................................. 67 2.3 A VIDA NA VISÃO DE LINDA ............................................................................ 71 2.3.1 Sobre os pais .................................................................................................. 74 2.4 NOS BAILES DA VIDA DA MENINA BAILARINA ............................................. 78 2.5 NOS CAMINHOS DO PENSAMENTO DA MENINA PENSATIVA ..................... 82 2.6 A MODELO ......................................................................................................... 86 2.7 O ESCRITOR ...................................................................................................... 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS É PAU, É PEDRA, É O FIM DO CAMINHO............... 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 117 ANEXO A PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP ......................................... 126 ANEXO B ENTREVISTA SEMI ESTRUTURADA COM JOVENS PROLE DE FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS PELA VIA DA ADOÇÃO ......................................... 128 ANEXO C HISTÓRIAS EM QUADRINHOS ............................................................ 129 ANEXO D E-BOOK “QUANTAS FAMÍLIAS TÊM NO MUNDO?” ......................... 134 13 INTRODUÇÃO Minha experiência profissional nas áreas do Direito da Criança – aqui consideradas de 0 a 18 anos incompletos, na forma dos normativos internacionais – e da diversidade sexual e de gênero, notadamente no trabalho em processos de adoção há mais de vinte anos, tem me propiciado a oportunidade de observar e participar das questões relacionadas com o exercício da parentalidade. Em especial, me requerem um olhar para além do jurídico as transversalidades que constituem o modo como chegam ao sistema de justiça às famílias constituídaspela adoção. Entendo que minha atuação profissional como membro fundador da Comissão de Direito Homoafetivo (CDHO) e presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA) da Ordem dos Advogados do Brasil secção do estado do Rio de Janeiro (OAB-RJ), da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), presidente da Comissão Nacional de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), advogada, mãe por adoção, me qualifique para a realização desta pesquisa. A presente pesquisa delineou-se na perspectiva de entender que as famílias, todas elas, existem dentro de sua pluralidade e que para algumas os caminhos a serem percorridos são mais áridos e tortuosos. A presente pesquisa delineou-se na perspectiva de entender que as famílias, todas elas, existem dentro de sua pluralidade e que para algumas os caminhos a serem percorridos são mais áridos e tortuosos. Caminho pela justificativa e fundamentação teórica, adentrando na metodologia, local da pesquisa, participantes, instrumentos e análise de dados, no capítulo 2, onde o leitor terá uma visão da forma de realização da pesquisa. Passo pela indispensável consecução do afeto, tratando-se do elo formador das famílias. Foco nos avanços e nos preconceitos que permeiam as questões das parentalidade LGBTQIAP+, traçando o percurso das famílias homoafetivas no seu caminho para a legitimação frente ao Estado para o exercício homoparental na sua plenitude. Passamos à adoção como instituto, com as observações de natureza legal, abordando a história da adoção de forma suscinta, sua evolução histórica, sem perder de vista o histórico do abandono no Brasil; passamos ao conceito e à natureza jurídica da adoção, que é medida protetiva de colocação em família substituta que estabelece o parentesco civil de primeiro grau entre adotantes e adotados; à legitimidade para postular a adoção, ao consentimento dos detentores do poder familiar, sobre a 14 concordância do adotando – sujeito de direitos a quem a adoção deve atender -, daí a abordagem dos reais benefícios que a adoção traz para o adotando, fechando com a adoção por casais homoafetivos realizando um necessário resgate histórico até a atualidade, perpassando brevemente pela adoção transafetiva. Nessa parte o leitor e a leitora poderão assimilar e compreender o modo como a pesquisa foi construída, a partir de quais pontos e apercebendo-se da visão particular da pesquisadora. A abordagem histórica da adoção e de suas diversas finalidades ao longo dos séculos, passando para o fechamento com o direito na relação de cuidados e proteção de crianças e adolescentes, o percurso longo e sofrido da homoparentalidade que encontra, em 2011, seu reconhecimento na esfera jurídica, mas que continua rotineiramente a lutar pelo seu não apagamento, usando o termo mais adequado e moderno para a invisibilização dos seres diversos, dos afetos transversais e que não seguem a regra da heteronormatividade e do binarismo. Adentro então, no segundo capítulo, na contação de histórias. Não há nada mais adequado do que o título contação de histórias e muito bem poderia começar com “era uma vez” e, eventualmente, findar com “e foram felizes para sempre”. O que faço é contar histórias de 5 jovens filhos e filhas de pais e mães do mesmo sexo, famílias homoparentais que passaram a exercer a parentalidade adotiva enquanto seus filhos e filhas ainda eram crianças, ou seja, adoções judiciais realizadas na forma do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990). A contação se faz com músicas iniciais que traduzem um pouco as personagens, todas as melodias escolhidas de conformidade com a natureza e singularidades de cada um e cada uma e do bojo das famílias, tal qual Paula e Bebeto de Milton Nascimento. Contar histórias é algo que aprendi ou apreendi ainda no curso de letras, que me deu algo que considero um dom: gostar de escrever. Trago a história não contada do Europeu, onde não pude concluir com um happy end ou não, porque isso ficou no campo da imaginação de que esteja feliz, bem-sucedido em algum lugar da Europa, ou não, como no famoso romance aberto. Passo a Alexya, mulher trans, seu marido e um filho e duas filhas, a partir de sua própria visão e não como fruto da pesquisa. Sigo com a música para trazer Linda, menina negra, empoderada, adotada por dois pais juntamente com seus três irmãos. Linda conta seus segredos no balanço da música escolhida para homenageá-la. E vamos para Bailarina que se encontra envolta em um mundo cor-de-rosa, traspassado pelo azul de seus pais e irmão. Não há aqui conotação de “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”, mas sim a vontade de 15 brincar com as cores que terminam, sempre, em um belo arco-íris. Bailarina é aquela que podemos definir com o foram felizes para sempre, pois esse é o sentimento que expressa, afinal, todo mundo tem perebas, só a bailarina que não tem. Passamos para Pensativa, filha de duas mães, negra, consciente de sua negritude, com mais três irmãos. Para Pensativa é um momento que nos leva a emoção, pensamento positivo que faz bem ao coração. Em seguida encontramos a Modelo, filha de duas mães divorciadas, negra, vaidosa, empoderadíssima não apenas com relação à postura antirracista, mas, também, com relação à LGBTfobia. A modelo realmente não anda, ela desfila. Ela é top, capa de revista. É a mais mais, ela arrasa no look. Tira foto no espelho, pra postar no Facebook. Continuo a contação com o Escritor, jovem negro, gay, adotado por dois pais. Escritor tem dois irmãos não naturais entre si. Escreve pelo exemplo de seus pais, ambos acadêmicos. Escritor empunha a bandeira da diversidade, traz questionamentos, daí seu espírito em ebulição. É necessário quebrar os padrões, é necessário abrir discussões. Alento pra alma, amar sem portões; Amores aceitos sem imposições, Singulares, plural. Fecho com música a quinta e última contação de histórias de vidas. Nas considerações finais, faço alusão à música de Antonio Carlos Jobim, eternizada na Voz de Elis Regina: É PAU, É PEDRA, É O FIM DO CAMINHO... (Águas de Março), oportunidade na qual me debruço sobre o meu próprio lugar de fala. E busco inspiração na fala de Darós1: Assim, aposto no devir, inclusive no devir família, em seu constante vir a ser... Considero ainda que os encontros com a Professora Orientadora produziram fortes efeitos no delineamento da metodologia da pesquisa realizada. Existem distintos posicionamentos sobre as particularidades da forma de parentar homoafetiva e seus impactos psicológicos nas crianças perfilhadas. Existem, ainda, raras pesquisas científicas sobre a questão focada nas filhas e filhos de casais homoafetivos. Ou seja, como se portam as crianças, adolescentes e jovens que têm dois pais ou duas mães? As filhas e filhos por adoção judicial estão confortáveis com o modelo parental de inserção? Quais são as dificuldades experimentadas? Parte da maior visibilidade de pessoas LGBT+ como pais e mães resulta de uma crescente aceitação pública para essa realidade. Busco partir de situações de estabelecimento 1 DARÓS, L. E. S. http://ppfh.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Tese-NORMALIZADA-1.pdf 16 de maternidade ou paternidade com pessoas casadas ou em união estável2. Desejo também apreender as experiências de jovens que são filiados por casais homotransafetivos. Isto porque devido a minha experiência profissional com pessoas homotransafetivas, pude observar que, majoritariamente, buscam por perfis de crianças e adolescentes tidos como “inadotáveis”. Na minha percepção, grande parte dos casais homotransafetivos, por terem sofrido agruras e se mantido à margem da sociedade, teriam uma capacidade maior de parentar aquelas crianças e adolescentes que também não são vistos pela grande maioria dos habilitados, ou seja, que estão “dentro do armário” dainvisibilidade. Esse é um sentimento pessoal baseado na prática. Mas, é necessário pontuar que o desejo e o exercício da parentalidade de recém-natos saudáveis, são realidades existentes entre os casais homotransafetivos, não sendo, portanto, uma regra absoluta a adoção de “invisíveis”. Na minha percepção, grande parte dos casais homotransafetivos, por terem sofrido agruras e se mantido à margem da sociedade, teriam uma capacidade maior de parentar aquelas crianças e adolescentes que também não são vistos pela grande maioria dos habilitados, ou seja, que estão “dentro do armário” da invisibilidade. Esse é meu sentimento, baseado na em minha prática profissional. Mas, é necessário pontuar que o desejo e o exercício da parentalidade de recém-natos saudáveis, são realidades existentes entre os casais homotransafetivos, não sendo, portanto, uma regra absoluta a adoção de “invisíveis”. Partindo da prática profissional onde os filhos e filhas já são, em pequena parte, adultos, procurei aquelas e aqueles em que atuei direta ou indiretamente das adoções. Explicando: diretamente para aqueles que atuei como advogada do processo de adoção; indiretamente por conhecer e acompanhar o procedimento mesmo sem atuar no caso. Sendo assim, a proposta é perceber as experiências de subjetivação dos jovens e das jovens que foram adotadas por famílias não normativas. 2WESTON, K. Families we choose: lesbian, gays, kinship. New York: Columbia University Press, 1991. HAYDEN, C. Gender, genetics and generation: reformulating biology in lesbian kinship. Cultural Anthropologie, v. 10, n. 1, p. 41-63, 1995; DUNNE, G. A. Opting into motherhood: lesbians blurring the boundaries and transforming the meaning of parenthood and kinship. Gender & Society, v.14, n. 1, p. 11-35, 2000; HAIMES, E.; WEINER, K. 'Everybody's got a dad. Issues for lesbian families in the management of donor insemination. Sociology of Health and Illness, v. 22, n. 4, p. 477-499, 2000.LUCE, J. Beyond expectation: lesbian/bi/queer women and assisted reproduction. Toronto: University of Toronto Press, 2010; DARÓS, L. E. S. Adoção judicial de filhos e/ou filhas em conjugalidades LGBTTIQ – rupturas com a heteronormatividade. Curitiba: Editora Appris, 2021. 17 O momento político atual, no meu perceber, tem gerado um enorme receio na população LGBT+, que tem se retraído em seus projetos parentais por temor que os filhos venham a ser perseguidos por terem duas mães ou dois pais, por exemplo. Não se trata de não buscarem mais a parentalidade adotiva, mas de analisarem mais profundamente a questão. Baseando-me em Zambrano 3 , utilizarei o termo homoparentalidade e em Darós4, adoção por casais não normativos, sem perder de vista as singularidades de cada modo de ser da existência. Faz-se necessário colocar em análise as especificidades que atravessam os arranjos familiares possíveis. Os processos de adoção são todos eles complexos e singulares, dificílimo trabalhar friamente sem que ocorra envolvimento emocional com os adotantes ou com os filhos e filhas. Minha aposta ético-político-metodológica constitui-se a partir da ruptura com o conceito de neutralidade, uma vez que todos estamos implicados. No lugar de afirmar uma farsa que é a premissa da neutralidade, ouso afirmar a necessidade da análise de implicações tanto da escolha do tema a ser pesquisado quando do caminhar metodológico. No Brasil, o reconhecimento de direitos para a população LGBT+ ainda se encontra em uma fase muito embrionária. Vemos, a cada dia, que tais direitos podem ser amputados. No caso específico da adoção, os proponentes de projetos de lei5 que visam proibir a adoção por casais homoafetivos têm em mente o direito dos adotantes (adultos) e não das crianças de terem uma família e terem respeitados os princípios insertos no artigo 227 da Constituição Federal (CF)6. A razão de buscar a pesquisa dentro do universo homotransafetivo, no presente momento sociopolítico do país, visa problematizar a ideia de que filhos de casais LGBT+ tendem a ter algum tipo de patologia de ordem social ou psíquica. Sendo assim, pretendo, por meio de entrevistas com esses jovens, buscar apreender seus processos de subjetivação, os olhares sobre suas mães e pais, sobre a adoção e 3ZAMBRANO, E. Parentalidades “impensáveis”: pais/mães, homossexuais e travestis. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 12, n. 26, p. 123-147, jul./dez. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ha/v12n26/a06v1226.pdf. Acesso em: 01 mar. 2021. 4DARÓS, op.cit. 2021. 5 PL 4.508/2077. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=420940. Acesso em: 01 mar.2021. 6 BRASIL. Constituição Federal de 1988. art. 227. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 01 mar. 2021. 18 sobre a família. Nesta perspectiva, a pesquisa objetivou conhecer a questão social e jurídica de adoção de um ponto de vista dos jovens e das jovens que se tornaram filhos e filhas pela adoção judicial por casais que rompem com a tríade heterossexualidade-casamento-filiação 7 , ou seja, a adoção de crianças e adolescentes, hoje jovens, por modos de se ser família que não atendem à heteronormatividade, pontuando a situação atual dessas filhas e filhos adotados por casais LGBT+. Logo, a relevância do trabalho reside nas razões e no sentir dos jovens por meio do uso de informações construídas diretamente com eles. As jovens e os jovens adotados precisam ser vistos como participantes ativos do processo, ao invés de meros coadjuvantes. Além disso, esta pesquisa justifica-se socialmente porque traz para discussão aspectos nem sempre considerados por aqueles responsáveis pela formalização do processo de adoção e através dela podem entender como é sua vivência no processo de filiação, sendo importante não apenas pelas questões já mencionadas, mas por abordar outras que ainda necessitam de aprofundamento e divulgação. Devem incentivar a realização de novas pesquisas incluindo crianças e adolescentes, assim como a visão dos pais quanto aos filhos e às filhas que, por sua vez, também rompem com os critérios da normatividade. Em termos pessoais, as vulnerabilidades como um todo sempre tiveram papel preponderante, as exclusões e invisibilidades jamais permitiram que me aquietasse diante de injustiças. Sempre optei por dar voz a crianças e adolescentes invisibilizados, literalmente varridos para debaixo do tapete da sociedade. Assim, como lutar por todas as letras do LGBTQIAP+ ao infinito. Não posso, no exercício pleno da minha cidadania, calar-me diante do genocídio de crianças e adolescentes negros de periferia, do extermínio de crianças, adolescentes e jovens LGBTQIAP+ e muito menos diante daqueles que desejam suprimir os poucos direitos que tais sujeitos conquistaram a duras penas. O objetivo geral desta pesquisa consiste em colocar em análise a situação dos filhos e das filhas de famílias homoafetivas constituídas pela adoção judicial. Como objetivos específicos, temos: 7ÁRAN, M. Políticas do desejo na atualidade; o reconhecimento social e jurídico do casal homossexual. In: PRATA, Maria Regina. Sexualidade. Rio de Janeiro: Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, 2010. 19 •Situar as famílias pesquisadas em recortes éticos, sociais e econômicos, assim como de gênero e formação; •Analisar de que forma os jovens e as jovens vivenciam a parentalidade homoafetiva; •Analisar de que forma os filhos dessas famílias homoafetivas se comportam nessa formação familiar que foge a heteronormatividade •Analisar noções conceituais importantes para se pensar a adoção homoafetiva no Brasil; •Pensar as concepções de parentalidade, filiação, infância e sexualidade; •Obter dados para fundamentar a assertiva de que casais homoafetivos buscam parentar os perfis menos procuradose com menos visibilidade; •Obter informações sobre o estado de felicidade de filhos e filhas já adotados por famílias homoafetivas. O presente trabalho consiste em uma pesquisa qualitativa, a partir de entrevistas abertas e a posterior narração das histórias a mim contadas durante os encontros destinados às entrevistas, ou seja, trata-se de uma pesquisa voltada aos aspectos da parentalidade homotransfetiva, considerando a reflexividade enquanto pesquisador dos vieses que perpassam tal forma constitutiva de família, e utiliza-se do ideário de Rey (2005), ao dizer que o conhecimento é construção e produção humana, tendo, assim, caráter construtivo-interpretativo. Assim trata o autor: A epistemologia qualitativa defende o caráter construtivo interpretativo do conhecimento, o que de fato implica compreender o conhecimento como produção e não como apropriação linear de uma realidade que se nos apresenta. A realidade é um domínio infinito de campos interrelacionados independente de nossas práticas; no entanto, quando nos aproximamos desse complexo sistema por meio de nossas práticas, as quais, neste caso, concernem à pesquisa científica, formamos um novo campo de realidade em que as práticas são inseparáveis dos aspectos sensíveis da realidade. São precisamente esses os aspectos suscetíveis de serem significados em nossa pesquisa8 . O autor trata a Epistemologia Qualitativa como um método que não traz preocupação específica com determinados aspectos geralmente focados na pesquisa Quantitativa, tais como a generalização dos resultados e o tamanho da amostragem, dando maior peso a outros aspectos, tais quais: 8 REY, F. G. O compromisso ontológico na pesquisa qualitativa. In. REY., F. G. Pesquisa Qualitativa e Subjetividade: os processos de construção da informação. São Paulo, Pioneira Thomson Learning, 2005. p. 5. 20 [...] a legitimização do singular como instância de produção do conhecimento científico, [...] o valor singular está estreitamente relacionado a uma nova compreensão acerca do teórico, no sentido de que a legitimação da informação proveniente do singular se dá através do método teórico que o pesquisador vai desenvolvendo no curso da pesquisa9. A Epistemologia Qualitativa como possibilidade de estudar a subjetividade, tanto individual como social, surge como um caminho que assim foi concretizando-se, e com isto, a superação de diferentes limitações resultantes de modelos hegemônicos foi possível a partir da junção de uma nova base epistemológica, em que se uniram novos recursos teóricos da Teoria da Subjetividade numa perspectiva cultural histórica. Assim, com base na análise das citadas informações singulares e com o objetivo de conhecer como se constituem as famílias homotransafetivas reconfiguradas a partir da adoção, com o intuito de conhecer os agora jovens que foram inseridos em tais famílias ainda crianças, busco o universo onde atuo como advogada nas adoções e pessoas com as quais tenho contato através das várias redes LGBT+ que componho, além da própria militância pela causa da adoção. O presente estudo identifica e analisa dados que não podem simplesmente ser mensurados em termos numéricos, como exemplo a observação e análise de sentimentos, percepções, intenções, comportamentos, adequações etc. Os resultados serão apresentados a partir do enfoque do público pesquisado, com rompimento da pretensa noção de neutralidade da pesquisadora na relação com um dado objeto a ser desvelado. Esta pesquisa objetiva compreender fenômenos e descrevê-los de acordo com o ponto de vista dos sujeitos, no caso, pessoas que foram adotadas por famílias homoparentais enquanto eram crianças; sendo uma pesquisa com abordagem qualitativa, através de 5 (cinco) histórias. Nesta perspectiva metodológica, as pesquisas adquiriram contribuições originais e, assim, ampliam nosso conhecimento, são apresentadas as etapas a serem seguidas nesta abordagem, elucidando-as com alguns exemplos de parte de entrevistas realizadas numa pesquisa que teve como objetivos verificar a situação atual de pessoas adotadas por famílias homoafetivas, além de desenvolver e validar um modelo teórico representativo dessa experiência. A pesquisa qualitativa permite a elaboração de questões que buscam verificar o estágio atual das famílias não normativas já constituídas, buscando quebrar 9 Ibidem. p. 6 21 preconceitos, paradigmas e “lendas urbanas”, rompendo com a perspectiva de coleta de dados e investir na produção de dados com os sujeitos partícipes do processo de investigação10. As pessoas entrevistadas relataram suas experiências individuais na constituição parentalidade-filiação, permitindo-me elaborar questões e relatar tais experiências de cunho individual, através de dados obtidos por meio de entrevistas abertas, pela descrição estrutural de suas experiências, baseadas em “análises reflexivas, interpretações ou histórias dos participantes da pesquisa” 11 , além de conversar com os pais ou mães, eventualmente através da leitura do próprio processo de adoção. No que tange aos procedimentos metodológicos foi realizado levantamento bibliográfico sobre adoção de crianças por casais que rompem com o modelo heteronormativo, no sentido de produzir diálogos possíveis, à semelhança do trabalho levado a termo por Uziel (2007) 12 em processos referente à homoparentalidade adotiva de homossexuais masculinos solteiros e em Darós (2021) 13 que contou diversas histórias de famílias não normativas, que adotaram judicialmente seus filhos. Buscarei, ainda, romper as fronteiras dos saberes instituídos sendo necessário, muitas vezes, uma aproximação entre diferentes disciplinas, tais como Direito, linguística, Literatura, Psicologia, Antropologia, Filosofia, Sociologia, História e Serviço Social, baseando-me em Darós (2021)14. Igualmente ressalto que trabalho em uma perspectiva transdisciplinar, em que não há hierarquizações entre os saberes. Tentarei evitar termos eminentemente jurídicos, mas até por vício profissional posso cair nessa armadilha. Esther Maria de Magalhães Arantes15 traz no início de seu texto “Mediante quais práticas a Psicologia e o Direito pretendem discutir a relação? Anotações sobre o mal-estar”, duas inserções totalmente adequadas ao rumo do presente trabalho: O que vem a ser a Psicologia? Para que ela serve?” Ante a nossa confusão, perplexidade e demora, Cláudio Ulpiano nos disse: “- Depende das forças que se apoderam dela! Coloquem suas forças em batalha para produzirem 10 KASTRUP, 2005 apud DARÓS. op. cit. 2016. p. 28. 11 HOLANDA. op. cit. 2006. 12 UZIEL, A. P. Homossexualidade e adoção. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. 13 DARÓS. op. cit. 2021. 14 DARÓS. op. cit. 2021. 15 ARANTES, E. M. M. Mediante quais práticas a Psicologia e o Direito pretendem discutir a relação? Anotações sobre o mal-estar. [s.d.]. Disponível em: http://www.aasptjsp.org.br/. Acesso em: 15 jun. 2021. 22 uma Psicologia afirmativa”. Sobre o tema do debate de hoje, “Psicologia e Direito: um encontro possível?” eu gostaria de refletir sobre algumas preocupações que tenho com esse encontro. Que encontro é esse? O que se pretende encontrar, quando se fala em Direito e Psicologia? A Psicologia deseja encontrar qual Direito? Utilizo-me de entrevistas escritas realizadas pelo aplicativo WhatsApp e tele presenciais pelo aplicativo Zoom com os jovens e as jovens que aceitaram participar desta pesquisa. Quanto às etapas: 1) A abertura de diálogo com os jovens e as jovens que aceitarem participar da pesquisa, sendo a etapa seguinte, a partir da identificação das pessoas que aceitaram essa participação, foi composta de perguntas a serem dirigidas aos filhos e filhas dessas famílias homoconjugais; 2) conversa com os pais para a verificação do interesse em participar da pesquisa. A partir da assinatura do Termo de ConsentimentoLivre e Esclarecido (TCLE), apresentado no Anexo A, realizei as entrevistas propriamente ditas. Pretendo com esta pesquisa dar visibilidade ao exercício materno-paterno-filial em arranjos familiares que rompem com os marcos do patriarcado, a partir do exercício do cuidado com a infância. Foco nas vidas de jovens que já encontram com suas adoções judiciais concluídas. A ideia foi entrevistar diferentes jovens percorrendo diversas etapas de suas experiências de vida: dizerem de suas origens e a percepção que têm da intervenção estatal da retirada de suas famílias de origem ou de suas entregas; a chegada na família; a adaptação; a convivência. Para tanto, realizei os encontros com os jovens através de conversas, contando as histórias de vida a partir das narrativas das/dos protagonistas, possibilitando afirmar uma família outra que não exclusivamente aquela delineada pelo patriarcado e pela heteronormatividade 16 (BENTO, 2006; BUTLER, 2003). Busquei apreender seus processos de subjetivação, os olhares sobre suas mães e seus pais, sobre a adoção e sobre suas famílias. Desta forma, a pesquisa tem como objetivo lançar um olhar sobre a questão social, jurídica e emocional da adoção homoparental de um ponto de vista das pessoas adotadas por famílias que rompem com a perspectiva fundada na tríade 16BENTO. op. cit. 2006. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 23 heterossexualidade-casamento-filiação17, ou seja, a adoção de crianças por modos de ser família que não atendem à heteronormatividade18 As metodologias utilizadas partiram do próprio percurso enquanto pesquisadora, sem que as direções fossem pré-determinadas, diferentemente de uma dissertação eminentemente jurídica. Não busquei a realização de uma pesquisa aberta através dos formulários públicos geralmente utilizados, e sim a partir daquelas adoções a mim relacionadas pelo trabalho e/ou pelo afeto. Explico: Linda, atuei em seu processo de adoção; Escritor, atuei em seu processo de adoção e, posteriormente, no dos irmãos; Modelo, atuei no processo de adoção do irmão caçula; Bailarina, atuei no processo de adoção do irmãos caçula e, Pensativa, sou amiga das mães. Minha vida pessoal e profissional é atravessada pelas vulnerabilidades do ser humano, tanto que coordeno um curso de pós-graduação em direito das vulnerabilidades. Dentre essas parcelas vulneráveis da população cresceu a preferência, inicialmente, por crianças e adolescentes e, quase que simultaneamente, pela população LGBT+. Pontuo que minha pretensão original era de tratar do universo de crianças e adolescentes adotados judicialmente por casais homo e transafetivos, contudo o caminhar da pesquisa estabeleceu jovens com a capacidade civil suprida, excluindo, nesse momento do estudo, as famílias homotransafetivas. Pretendia, também, antes do nosso estágio pandêmico, viajar para ter conversas reais com as jovens e com os jovens entrevistados, o que foi impossível. Dessa forma, a presente dissertação traz uma contação de histórias de vidas de cinco jovens e de suas famílias Posso afirmar que foi um caminhar metodológico feliz, mas a construção não foi fácil, talvez em função da formação jurídica, mas, acredito, que eu tenha conseguido sobrevoar de forma razoável pelos vários saberes. O presente estudo foi realizado em uma instituição pública de Ensino Superior, no município do Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro, envolvendo jovens residentes em vários locais do Brasil e no exterior. A escolha do locus deu-se em razão da existência de pessoas perfilhadas pela adoção já com a capacidade civil suprida, evitando questionamentos possíveis quanto à realização com crianças e 17 ÁRAN. op. cit. 2005. 18 BENTO. op. cit. 2006; BUTLER. op. cit. 2006. 24 adolescentes. Participaram da pesquisa 5 (cinco) jovens cuja filiação deu-se pela via da adoção judicial enquanto eram crianças. Assim, participaram desta pesquisa 4 (quatro) mulheres e 1 (um) homem, sendo 3 (três) filhos de casais formados por homens e 2 (dois) filhos de casais formados por mulheres. Devido ao sigilo da pesquisa, os jovens, assim como seus pais e mães, tiveram seus nomes modificados. Os codinomes são inspirados na realidade de cada jovem, nas aptidões e sonhos de cada um. As entrevistas foram realizadas em fevereiro e março de 2021 partindo de perguntas previamente enviadas. As respostas foram rápidas, e as conversas muito prazerosas. As conversas duraram entre 45 minutos e 1 hora, abrindo espaço para que se expressassem da melhor maneira sobre seus sentimentos. As entrevistas foram realizadas a partir de questionário semiestruturado – conforme Anexo B - pelos aplicativos WhatsApp e Zoom Meeting. Entrevistar é apreender narrativas com o objetivo de obtenção de matéria para conhecimento e análise de um determinado processo social do sujeito entrevistado, auxiliando os estudos acerca da identidade, inclusive da memória cultural. Nas palavras de Muylaert (201419): As entrevistas narrativas se caracterizam como ferramentas não estruturadas, visando a profundidade, de aspectos específicos, a partir das quais emergem histórias de vida, tanto do entrevistado como as entrecruzadas no contexto situacional. Esse tipo de entrevista visa encorajar e estimular o sujeito entrevistado (informante) a contar algo sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social (1). Tendo como base a ideia de reconstruir acontecimentos sociais a partir do ponto de vista dos informantes, a influência do entrevistador nas narrativas deve ser mínima. Nesse caso, emprega-se a comunicação cotidiana de contar e escutar histórias. Jovchelovich e Bauer (1) ainda alertam para a importância de o entrevistador utilizar apenas a linguagem que o informante emprega sem impor qualquer outra forma, já que o método pressupõe que a perspectiva do informante se revela melhor ao usar sua linguagem espontânea. Essas asserções se assentam na compreensão de que a linguagem empregada constitui uma cosmovisão particular e, portanto, é reveladora do que se quer investigar: o “aqui” e o “agora” da situação em curso Durante as entrevistas, de forma simultânea, fiz anotações sobre as falas pontuando aquelas com maior ênfase e onde ocorreram as demonstrações de sentimentos de forma mais expressiva. Em alguns casos foram verificados os processos de adoção em si, casos nos quais, como advogada, mantenho os arquivos por mim escritos quando do ajuizamento das ações. 19 MUYLARTE, C.J. et ali. Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa. Rev Esc Enferm USP 2014; 48(Esp2):193-199 www.ee.usp.br/reeusp, Acesso 19 Jul 2021. 25 As entrevistas passaram pela transcrição e inserção no texto histórico dos relatos familiares – textos obtidos em processos originalmente ajuizados por mim como advogada dos pais ou das mães – e, posteriormente, incluído o texto referente à entrevista com os(as) jovens. Para os jovens e as jovens para os(as) quais não atuei no processo de adoção, a partir de relatos históricos dos pais e das mães, fazendo o fecho com a entrevista do(a) jovem. Houve dificuldade na localização de jovens em idade adulta para a participação na pesquisa, pois a grande maioria dos filhos e filhas de casais homoparentais ainda se encontra na adolescência. 26 CAPÍTULO 1 PARENTALIDADE 1.1 Sobre sexualidades, parentalidades e legalidades Homoafetividade é o termo escolhido para tratar relações afetivas entre casais do mesmo sexo – remonta à Grécia Antiga, e inspirou outras culturas, culminando sua influência na conhecida expressão “amor grego”20. Foi com o advento do cristianismo que se reforçou a dicotomia prazer/pecado, favorecendo o surgimento da intolerância social em relação às práticas homossexuais e em relação às pessoasque as praticavam21. A sexualidade humana sempre foi algo contido, escondido, conforme nos ensina Foucaut22: Parece que, por muito tempo, teríamos suportado um regime vitoriano e a ele nos sujeitaríamos ainda hoje. A pudicícia imperial figuraria no brasão da nossa sexualidade contida, muda, hipócrita. Diz-se que no início do século XVII ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas não procuravam o segredo, as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce, tinha-se com o ilícito uma tolerante familiaridade. Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados como século XIX. Gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas, crianças astutas vagando, sem incômodo nem escândalo, entre risos dos adultos: os corpos “pavoneavam”. A Medicina, notadamente a Psiquiatria, teve papel preponderante na formação de crenças estereotipadas acerca da homossexualidade. Durante um longo período – demasiado, inclusive – em seus códigos internacionais de doenças, a Medicina classificava a homossexualidade como homossexualismo, tipificando-a como desvio ou transtorno sexual23. O sufixo ismo, de origem grega, denota, dentre outras coisas, “condição patológica”, ou seja, uma doença. A Sexualidade, a partir de Freud e de sua revelação do inconsciente, passou a ter, no início do século XX, uma dimensão de maior amplitude. Nos séculos XX e XXI os questionamentos cresceram junto com a maior visibilidade da expressão individual 20SOUZA, I. M. Homossexualismo, uma construção reconhecida em duas grandes civilizações. In: Instituto Interdisciplinar de Direito de Família (IDEF) (Coord.).Homossexualidade − Discussões jurídicas e psicológicas. Curitiba: Editora Juruá, 2001. p. 101-113. 21GRAÑA, R. B. É a homossexualidade um problema "clínico"? In: IDEF. Homossexualidade − discussões jurídicas e psicológicas. Curitiba: Editora Juruá, 2001. p. 157-168 22FOUCAUT, M. História da sexualidade I – a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda, 1979. p. 9 23DIAS, M. B. União homoafetiva – o preconceito & a justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. 27 da sexualidade, da orientação sexual e da própria identidade de gênero, conforme nos ensina Jorge (2007)24. Trata-se, na psicanálise, do advento de um novo conceito de sexualidade. Freud fala de uma “teoria da sexualidade”, na qual os autores só expunham longamente seus casos clínicos sem qualquer teorização a respeito deles. Antes de Freud, não há propriamente um conceito clínico sobre a sexualidade. A degenerescência de Krafft-Ebing e a psicologia associativa de Binet, que se opunha a ela, são duas concepções extremamente simplistas, que apenas aplicam a antiga dicotomia médica hereditário/adquirido aos problemas levantados pela sexualidade. Mas nenhum conceito emana dessas discussões que os sexólogos freudianos empreenderam. O mérito desses autores foi, em primeiro lugar, o de ter aberto o diálogo sobre a sexualidade para o campo da ciência, e, em segundo, o de ter tornado evidente, com seus trabalhos, a enorme frequência das chamadas “aberrações sexuais”. Não é à toa que este é o título do primeiro ensaio que abre a obra de Freud, fazendo referência aos autores mais importantes de sua época que tratavam do assunto. É sobre eles que Freud vai instaurar um corte. Este corte é conceitual e tem um nome: pulsão25. As letras que indicam a enormidade de orientações sexuais e identidades de gênero passaram das famosas LGBT, para LGBTQI+, atualmente LGBTQIAP+ indicando o “mais” que não se trata de uma identificação estanque, e que a partir da saída do exílio da heteronormatividade, as letras tendem ao infinito, assim como infinitos somos em nossas próprias individualidades. Essa denominação LGBTQI+ é utilizada para denominar Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexual e Pansexual. Sendo utilizada desde meados dos 1990, a sigla é considerada uma adaptação de LGB, em inglês, e GLS, no Brasil, utilizada desde então para substituir o termo “gay” ao fazer referência à comunidade LGBT no fim dos anos 198026. A teoria psicanalítica da sexualidade humana caminha pelos estudos do desejo e do pertencimento, analisado em conjunto com os fenômenos de ordem sexual e 24JORGE, M. A. C. A teoria freudiana da sexualidade 100 anos depois (1905-2005). Psyche (São Paulo), São Paulo, v. 11, n. 20, p. 29-46, jun. 2007. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141511382007000100003&lng=pt&nrm=i so. Acesso em: 02 mar. 2021. 25 Ibidem 26 MOVIMENTO LGBT: o que é, história e muito mais. 6 maio 2021. Disponível em: https://www.stoodi.com.br/blog/atualidades/movimento-lgbt-o-que-e/. Acesso em: 28 fev. 2021. 28 afetiva. Todos, nós humanos, somos seres essencialmente desejantes e nossos desejos se expressam com o outro, com o mundo27, assim fala do desejo: Segundo Rajchman (1993, p.47), a psicanálise lança seu olhar para o problema moderno "de haver algo em nosso desejo que vai além do que dirigiria para o que pensamos querer para nós". Esse imprevisto que nos interpela vindo de nós mesmos não pode ser conhecido de antemão, de forma que não podemos, através do conhecimento, formular um princípio que oriente nossas ações, "é que a lei do desejo não constitui um princípio geral de que sejamos desconhecedores; ao contrário, ela reside, precisamente, nos efeitos de ocorrências que não podemos situar dentro de nenhuma regra geral”28. A partir da publicação de “Psychopatia Sexualis”, de Kraft-Ebing, em 1886, os pensamentos e direcionamentos no campo da medicina foram influenciados. Kraft- Ebing considerou as relações homossexuais como perversas, uma vez que não objetivavam a procriação, sendo tal conduta decorrente da “degeneração do sistema nervoso central ou de indicadores de doença cerebral hereditária29. Em 1973, a associação entre homossexualidade e patologia foi abandonada pela Associação Americana de Psiquiatria e, em 1990, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Conselho Federal de Medicina (CFM), por sua vez, realizou a adequação em 1985, retirando a homossexualidade da condição de “transtorno sexual”. Importante mencionar que se tratou de uma vitória dos movimentos sociais30. Desde dezembro de 1973, a homossexualidade deixou de ser classificada como transtorno mental pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), sendo retirada do Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Psiquiátricas; em 1975, a Associação Americana de Psicologia adotou o mesmo procedimento, deixando de considerar a homossexualidade como doença, distúrbio ou perversão. No Brasil, em 1985, o Conselho Federal de Medicina (CFM) deixa de considerar a homossexualidade como desvio sexual, esclarecendo aos médicos, em particular aos psiquiatras, que homossexualismo não pode ser aplicado nem sustentado como diagnóstico médico. A 43ª Assembléia Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 17 de maio de1990, retirou a homossexualidade da sua lista de doenças ou transtornos mentais, suprimindo-a do Código Internacional de Doenças (CID- 10), a partir de 199331. 27SILVA, M. M. Para além da saúde e da doença: o caminho de Freud. Ágora, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, dez 2009. doi.org/10.1590/S1516-14982009000200007. Acesso 15 mar. 2021. 28Ibidem. 29GRAÑA, op. cit. 2001. 30GONÇALVES, A. O. Religião, política e direitos sexuais: controvérsias públicas em torno da “cura gay”, Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 39, n. 2, p. 175-199, 2019. 31 CFP (Conselho Federal de Psicologia). Nota Pública – Comissão Nacional de Direitos Humanos apoia decisão do CFP, 06/08/2009. Disponível em: https://site.cfp.org.br/nota-pblica-comisso- nacional-de-direitos-humanos-apia-deciso-do-cfp/. Acesso em: 30 jul. 2021. 29 Segundoa antropóloga Regina Facchini, com os primeiros indícios de abertura política no final da década de 1970 e início da década de 1980, o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), impulsionado pela fundação e atuação do grupo Somos - Grupo de Afirmação Homossexual e, posteriormente, pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), começou a se organizar para reivindicar, por meio de ações políticas, direitos universais e civis plenos. Foi neste momento que o ativismo homossexual iniciou a luta pela revogação do Código de Saúde do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Nacional, o INAMPS, que seguia a orientação do Código Internacional de Doenças em classificar a homossexualidade como desvio e transtorno sexual32. A título de ilustração do envolvimento político em relação ao tema, destaca-se a realização do I Encontro de Grupos Homossexuais Organizados (EGHO) e o I Encontro Brasileiro de Homossexuais, organizado pelo grupo Somos, em São Paulo, em 1980. Com a participação de organizações homossexuais em nível nacional, firmou-se o compromisso das organizações e grupos participantes na ação pela alteração do código de doenças referentes a transtornos sexuais e a proposta de extinção do parágrafo 302.0 da CID-9 da OMS. Com a dissolução do grupo Somos-SP em 1983, as deliberações apanhadas não foram levadas adiante. Entre 1981 e 1985 a campanha pela despatologização foi articulada principalmente pelo Grupo Gay da Bahia, tendo como principal liderança o antropólogo Luiz Mott. Em 1985, a campanha pela despatologização e pela extinção do parágrafo 302 contava com o apoio de diversas organizações e associações científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Brasileira de Antropologia, a Associação Brasileira de Estudos Populacionais, a Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais, a Associação Brasileira de Psiquiatria, 308 políticos, além de mais de 16 mil assinaturas de cidadãos brasileiros de todo o país33. Após intensos debates e negociações, em 9 32FACCHINI, R. Histórico da luta de LGBT no Brasil. Psicologia e diversidade sexual. In: Psicologia e diversidade sexual. 6. ed. São Paulo: CRPSP, 2011. 33 CARNEIRO, A. J. S. Salvador dos homossexuais: militância homossexual e homossociabilidade na Bahia nos anos 1980. Temporalidades – Revista Discente do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG. v. 7, n. 3, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/temporalidades/article/view/5593/3526. Acesso em: 20 jan. 2021. 30 de fevereiro de 1985 o Conselho Federal de Medicina atendeu às reivindicações e retirou a homossexualidade do código 302. A CID-9 inclui a "Homossexualidade" como sub-categoria (302.0) da categoria "Desvios e Transtornos Sexuais" (302), no Capítulo dos "Transtornos Mentais" (Capítulo V).34 Com a extinção do parágrafo 302, o Código de Saúde do INAMPS, seguido o mesmo posicionamento pela OMS, em maio de 1990, a luta institucional contra a patologização parecia ser uma causa ganha, de modo que as frentes de atuação do movimento LGBT foram direcionadas a outros setores. No entanto, em 11 de julho de 1998, oito anos após a OMS retirar a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças, o jornal Folha de São Paulo publicou a matéria intitulada “Encontro em Minas quer ‘curar’ homossexuais, que versava sobre o 3º Encontro Cristão sobre Homossexualismo promovido pela organização Interdenominacional Exodus Brasil. De acordo com a matéria, o objetivo do encontro, ocorrido em Viçosa, Minas Gerais, seria “oferecer saídas a homossexuais que desejam retornar ao heterossexualismo”35. O Conselho Federal de Psicologia, em 1999, através da Resolução CFP n° 001/99, assevera: “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, estabelecendo orientações para nortear a prática dos psicólogos em suas práxis. Desde então a “cura gay” passou a ser banida (CFP, 1999), por mais que presente até os dias de hoje. Da referida Resolução, transcrevemos: Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas. Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a 34 PC/CFM/Nº 05/1985 PROCESSO CONSULTA CFM-CONS. Nº 32/84, Consulta referente à orientação para a correta aplicação da CID, questão a que interessa o pleito formulado pelo auto- denominado "GRUPO GAY DA BAHIA". Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/pareceres/BR/1985/5_1985.pdf. Acesso em 30 jul. 2021. 35BIANCARELLI, A. “Encontro em Minas quer ‘curar’ homossexuais”. Folha de São Paulo, 11 de jun. 1998. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff11069830.htm. Acesso em: 09 mar. 2021. 31 reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica36. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi alterado em 2009 pela Lei 12.010, que ficou conhecida como a Lei Nacional da Adoção e em 2017, pela Lei nº 13.509, denominada Lei dos Prazos, dentre outras várias alterações. O aludido Estatuto, mesmo antes das alterações referidas, afirmava ser o acolhimento institucional ou familiar medida provisória e excepcional, constituindo-se, deste modo, instrumento legal suficiente para atender aos direitos humanos de crianças. Contudo, inúmeras delas ficaram, e ficam, acolhidas até a maioridade. Segundo Lourau, “isto tem conexão com uma miríade de instituídos atinentes aos (des)cuidados com a infância, considerando as referências teóricas da análise institucional”37. A partir das alterações legislativas supracitadas (2009 e 2017) crianças não poderiam, em tese, permanecer em situação de acolhimento, familiar ou institucional, por período superior a dois anos (2009)38 e dezoito meses (2017)39, excetuando-se àquelas situações, baseadas em parecer técnico fundamentado das equipes interprofissionais dos programas de acolhimento (familiar ou institucional) e das Varas com Competência em Infância, Juventude e Idoso (VIJI), bem como de promoções ministeriais e decisões dos juízes, as quais também têm que expressar os motivos da continuidade do acolhimento. Assim, passados mais de vinte e oito anos, o Congresso Nacional, provocado por movimentos da sociedade civil organizada e pelo próprio Ministério da Justiça, produziu alterações no ECA, no tocante à convivência familiar e comunitária e nos prazos que afetam drasticamente o transcorrer saudável da infância. Em 1 de junho 2021, são 4.956 crianças disponibilizadas à adoção, ou seja, com a ação de destituição do poder familiar com trânsito em julgado, enquanto o 36CONSELHO FEDERAL DE PSICOLLOGIA. Resolução CFP n° 001, de 22 de março de 1999. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf. Acesso em: 09 mar. 2021. 37 LOURAU, R. Análise Institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993. 38 BRASIL. Lei nº 12.010, de 3 de agosto de 2009. Dispõe sobre adoção; altera as Leis nos 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29 de dezembro de 1992; revoga dispositivos da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12010.htm.Acesso em: 15 jun. 2021. 39 BRASIL. Lei n. 13.509, de 22 de novembro de 2017. Dispõe sobre adoção e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2017/lei/l13509.htm. Acesso em: 15 jun. 2021. 32 número total de crianças acolhidas é de 30.27240. Os números não fecham não em razão, apenas, do perfil dos 32.876 habilitados, e sim em função da extrema morosidade da máquina do judiciário que leva até 7,6 anos para destituir o poder familiar, enquanto o próprio ECA determina que a tramitação total da ação seja de 120 dias. As alterações legislativas, notadamente a que culminou com a promulgação da Lei nº 13.509/2017, surgiram do próprio executivo através do lançamento de pesquisa pública do Ministério da Justiça com proposição de Anteprojeto de Lei de alteração ao ECA, com base, inclusive, na demora exacerbada dos processos de adoção. O Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), a Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD), dentre outras entidades formadoras da rede de proteção à criança, atuaram ativamente nas etapas que se sucederam, seja na realização de audiências públicas, seja como consultores convidados pelo próprio Ministério da Justiça. A adoção judicial é o processo legal que consiste no ato de se incluir espontaneamente como seu filho uma criança disponibilizada para esse tipo de inserção familiar, desde que respeitadas as condições jurídicas para tal, passando a existir laços de parentalidade e filiação sem qualquer tipo de diferenciação quanto à parentalidade natural de filho das próprias entranhas. Essa parentalidade constitui-se por sentença, sendo um meio possível de propiciar filiação às crianças que não podem, por motivos diversos, conviver com seus genitores ou família extensa. Considero que a partir do ECA, transformações ocorreram no que se refere à possibilidade de se adotar filhas e filhos no Brasil. Quanto à adoção por casais LGBT+, há que se considerar – agora mais que nunca – o terreno instável que permeia tal possibilidade, posto que a interpretação do texto constitucional sobre a necessidade de haver a diferença de sexo para se considerar a formação de uma união estável constitui-se em premissa para magistrados e promotores públicos Brasil afora41, não obstante a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2011, sobre a constitucionalidade das uniões estáveis homoconjugais. Faz-se necessário considerar que o reconhecimento da constitucionalidade das uniões estáveis homoafetivas pelo Supremo Tribunal Federal é, ainda, recente, e não 40BRASIL. CNJ. SNA. op. cit. jun. 2021. 41 DIAS. op. cit. 2009. 33 se consubstancia em Lei, por mais que exista projeto de Lei denominado Estatuto das Famílias, proposto pelo IBDFAM, PLS 470/201342 da ex-senadora Lídice da Mata, e que não se confunde com o nefasto Estatuto da Família, de autoria do Deputado Federal Anderson Ferreira. Deste modo, há que se colocar em análise, não apenas do ponto de vista do Direito, mas em uma dimensão ético-política-social-psicológica, como se situam as famílias homoafetivas no momento atual. Os mesmos dilemas ético-políticos-social-psicológicos precisam ser enfrentados também nos processos de adoção, guarda e tutela, uma vez que apenas divergem acerca da natureza jurídica dos vínculos, não dos afetos que circulam entre crianças e adultos que se relacionam. O tema da pesquisa realizada surgiu a partir do REsp do STJ Superior Tribunal de Justiça (STJ – REsp n. 889.852/RS – 4ª Turma – Rel. Min. Luis Felipe Salomão – DJ: 27 abr. 2010) que traz em seu bojo estudos da Universidade de Virgínia, da Universidade de Valência e da Academia Americana de Pediatria, que assim indicam43: •“ser pai ou ser mãe não está tanto no fato de gerar, quanto na circunstância de amar e servir”; •“nem sempre, na definição dos papéis maternos e paternos, há coincidência do sexo biológico com o sexo social”; •“o papel de pai nem sempre é exercido por um indivíduo do sexo masculino”; •os comportamentos de crianças criadas em lares homossexuais “não variam fundamentalmente daqueles da população em geral”; •“as crianças que crescem em uma família de lésbicas não apresentam necessariamente problemas ligados a isso na idade adulta”; •“não há dados que permitam afirmar que as lésbicas e os gays não são pais adequados ou mesmo que o desenvolvimento psicossocial dos filhos de gays e lésbicas seja comprometido sob qualquer aspecto em relação aos filhos de pais heterossexuais”; •“educar e criar os filhos de forma saudável o realizam semelhantemente os pais homossexuais e os heterossexuais”; •“a criança que cresce com 1 ou 2 pais gays ou lésbicas se desenvolve tão bem sob os aspectos emocional, cognitivo, social e do funcionamento sexual quanto a criança cujos pais são heterossexuais”. Assim, as noções de família, de possibilidades e competências para o cuidado de crianças, a colocação no lugar de filho, o exercício pleno da parentalidade é tão 42 BRASIL. Senado Federal. PLS n. 470, de 2013. Dispõe sobre o Estatuto das Famílias e dá outras providências. Disponível em: https://legis.senado.leg.br/sdleg- getter/documento?dm=4590857&ts=1594021233924&disposition=inline. Acesso em: 15 jun. 2021. 43BRASIL. STJ. op. cit. RE n. 889.852 RS 2006/0209137-4. R 34 bem realizado por casais héteros como por casais homotransafetivos. A ideia é, então, apreender o que os filhos e as filhas dessas famílias têm a dizer sobre o assunto. Bailey et al. em pesquisa realizada no Departamento de Psicologia da Universidade Americana Northwestern verificaram que mais de 90% dos filhos de pais homossexuais são heterossexuais44. Já, Zambrano ressalta que, na conjuntura da adoção, os pontos mais importantes encontram-se nas relações socioafetivas 45 . “Entre esses aspectos, sobressaem a capacidade de cuidar e a qualidade dos relacionamentos, que funcionam como protagonistas da boa parentalidade”46. O ECA afirma o direito à convivência familiar de crianças, o que implica em enfrentar as questões que acabam por infringir a milhares de crianças a condição de acolhidas. Não há que se falar em novos arranjos familiares, pois famílias constituídas por modos de se ser família que rompem com a tríade mãe-pai-filho existem no curso da história. Todavia, os arranjos familiares considerados desviantes não reivindicavam ao Estado a chancela de família. Não apenas existiam famílias homoconjugais, mas, muitas delas tinham filhos, naturais ou adotivos. Desta feita, a novidade estaria na busca pelo reconhecimento do estatuto de família dos arranjos que não se enquadravam no padrão heteronormativo47. 1.2 Consecução do Afeto Passadas as questões médicas e psicológicas, em um breve histórico, seguimos para a consecução do afeto, que, segundo Maria Berenice Dias, dá base às famílias homoafetivas por terem “mútua assistência afetiva”48. O afeto, pois, é o fio condutor dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, sendo o alicerce para a constituição da família. É também de Dias, inclusive, a autoria do termo homoafetivo, em sua visão de ativista pela causa LGBT+, além de doutrinadora das áreas dos direitos das famílias, 44 BAILEY, J. M. et al. Sexual orientation of adult son of gays father. Developmental Psychology, Leicester, v. 35, n. 1, p. 124-129, 1995. 45 ZAMBRANO. op. cit. 2006. 46 ARAÚJO, L. F. A.; OLIVEIRA, J. S. C. A adoção de crianças no contexto da homoparentalidade. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 60, n. 3, 2008. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/2290/229017563006.pdf. Acesso em: 01 jun. 2021. 47DÁROS. op. cit. 2021. 48 DIAS, 2009, loc.cit. 35 da mulher e da criança. Para ela o fundamento do relacionamento entre duas pessoas não é mais a “função procriacional”, mas sim a vivência autêntica desse afeto mútuo49. Darós50, por sua vez, critica o termo ao entender que: (...) o neologismo referido é uma tentativa de dessexualizar homossexuais, no intuito de lhes garantir direitos. Direitos esses que deveriam ser garantidos a quaisquer pessoas, independentemente de orientação sexual e identidade de gênero. Atrelado a essas questões, pontuamos o papel da sexualidade nos âmbitos público e político. A homoafetividade questiona a formulação de direitos que têm como base o exercício da sexualidade dos indivíduos, e que, ao mesmo tempo, contribui para excluir esses mesmos sujeitos do direito fundamental à liberdade e, portanto, do direito de exercer sua forma de expressão do corpo e do afeto. Como sujeitos sociais que são, os sujeitos homoafetivos reivindicam para si o direito de constituírem família, o direito à cidadania e o direito ao exercício da educação e da socialização de seus filhos, quer biológicos, quer adotivos51. Os mitos de que as crianças/adolescentes adotados por casais homoafetivos, ainda designados na grande maioria da literatura pátria como “pares homoafetivos”, não teriam as necessárias “referências” comportamentais e seriam, também, incentivados a exercerem a sexualidade nos moldes familiares, como se ocorresse uma forma de estímulo a também serem homoafetivos, não possuem fundamentos reais. Uma vez que sujeitos homoafetivos são filhos de relacionamentos heterossexuais, não existe uma relação direta entre tais aspectos52. Em meio a todas essas questões de natureza, inclusive, dogmáticas, observa- se o constante aumento do número de crianças e adolescentes inseridas no SNA – Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, no aguardo de uma família. As crianças acolhidas não são as de perfil padrão dos habilitados brasileiros, pois a criança real não guarda similaridade com a criança idealizada. Em 01 de junho de 2021, o número total de crianças acolhidas, no Brasil, é de 30.272, sendo que apenas 4.956 estão disponíveis à doção, ou seja, apenas 16,37% estão disponíveis, enquanto o restante 49 IDEM, Ibidem. 50 DARÓS, L. E. S. Adoção judicial de filh@s por casais homossexuais: a heteronormatividade em questão. 2016. Tese (Doutorado em Políticas Públicas e Formação Humana) -Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: http://ppfh.com.br/wp- content/uploads/2018/05/Tese-NORMALIZADA-1.pdf. Acesso em: 20 dez. 2020. 51 MELLO, L. Outras famílias: A construção social da conjugalidade homossexual no Brasil. Cadernos Pagu, v. 24, n. 1, p. 197-225, 2005. 52 DIAS, op. cit., 2009. 36 continua no limbo. Do total acolhido, 18.382 têm a partir dos 9 anos de idade; 9.716 têm irmãos; 21% são pardos; 6,5% são pretos; 13,9% são brancos; 58,1%, têm etnia não informada e 50,1% são do sexo masculino53. Segundo Lidia Weber, tais crianças têm dificuldades de inserção social e no estabelecimento e na manutenção de vínculos afetivos, além de terem a formação de uma autoimagem negativa, ocasionando problemas nas esferas do desenvolvimento humano e psicossocial de suas vidas54. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)55 determina em seu artigo 4º que toda criança e todo adolescente possuem o direito à “convivência familiar e comunitária”. Tal inserção é advinda de princípios constitucionais insertos no artigo 227 da Constituição Federal, norteando, dessa forma, a necessidade humana de vínculos afetivos e sociais, além dos direitos à saúde, educação, cultura, lazer, dentre outros. Portanto, a convivência familiar deve ser estabelecida a todas as crianças, independentemente da orientação sexual da família adotante, vez que a modalidade de família adotiva é a única e derradeira possibilidade dessas crianças serem parte de uma família e ocuparem o lugar de filho ou filha que lhes é de direito. Os critérios para a seleção do que venha a ser uma família ideal e apta para adotar são grandes e perpassam por uma análise acurada dos pretendentes e independe de sexo, gênero ou estado civil. Os pretendes à parentalidade responsável passam por preparação que, a depender da comarca, vão de 3 a 10 encontros em Grupos de Apoio à Adoção – GAA; juntam todos os documentos pessoais, atestados de sanidade física e mental, certidões cíveis e criminais; são submetidos a estudos psicológicos e sociais; passam pelo crivo do Ministério Público, para, ao final, serem inseridos, quando da prolação da sentença, no já citado Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento. Para Weber, torna-se necessário ampliar e superar os debates concernentes à adoção, à família e à orientação sexual56. A adoção é um ato jurídico, um processo judicial com todas as suas intercorrências, guiadas pelo ECA, pelo Código Civil e pelo 53 BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Sistema Nacional de Adoção. 2021. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/adocao/. Acesso em: 01 jun. 2021. 54 WEBER, L. N. Aspectos psicológicos da adoção. Curitiba: Juruá, 2007. 55 BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 20 jan. 2021. 56 WEBER, op. cit. 2007. 37 Código de Processo Civil, mas ainda alicerça o parentesco com base no fator biológico, em detrimento da dimensão afetiva manifestada pelas partes envolvidas57. Maria Berenice Dias assevera – o que é uma realidade escancarada, que muitos não querem enxergar – que famílias homoafetivas existem desde sempre, que casais formados por pessoas do mesmo sexo têm filhos58. Contudo, o preconceito ainda existe e, pelo que se verifica, aumenta nos tempos atuais. O preconceito foi entendido ora como disposição da personalidade59, ora como “estilo cognitivo” 60 . A questão, contudo, deve ser analisada sob os aspectos psicossociais, já que envolve questões de ordem política e ideológica 61 . Como sublinham Camino, Silva e Machado62, a partir desse enfoque psicossocial, verifica- se que o preconceito parte de grupos majoritários (proprietários do poder político), mediante comportamentos de discriminação em relação aos grupos minoritários. Numa interpretação livre e pessoal verifico que o preconceito parte dos que entendem ter poder – e alguns efetivamente o tem –, em face daqueles em situação de vulnerabilidade. Traduzindo para uma linguagem clara e coloquial, o preconceito é utilizado para extirpar seus próprios demônios, sendo uma atitude covarde dos que detém a força física ou o poderio socioeconômico-político. Essa é uma rápida pontuação pelo momento de conservadorismo que passa o mundo globalizado em pleno século XXI. 1.3 Avanços e Preconceitos Como bacharela em Letras, verifico que a sociedade acompanha a arte ou a arte acompanha a sociedade, numa montanha russa de luzes e trevas, que, ao pontuarmos nos estilos literários, tornam-se claras as diferenças que marcam os estilos. Por exemplo, o Barroco, movimento que tem início na Europa, nos séculos XVII e XVIII (primeira metade) e no Brasil tem o seu início em 1601, com a publicação 57 DIAS, op. cit. 2009. 58 DIAS, M. B. Filhos do afeto. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. 59 ADORNO, T. W. et al. The authoritarian personality. New York: Harper and Row, 1950. 60 GAERTNER, S. L.; MCLAUGHLIN, J. P. Racial stereotypes: associations and ascriptions of positive and negative characteristics. Social Psychology Quarterly, v. 46, n. 1, p. 23–30, 1983. doi.org/10.2307/3033657. 61BILLIG, M. Racismo, prejuicios y discriminacion. In: MOSCOVICI, S. (ed.). Psicologia social II: pensamiento y vida social. Barcelona: Paidós, 1984. p. 575-600. 62 CAMINO, L., SILVA, P., MACHADO, A. As novas formas de expressão do preconceito racialno Brasil: estudos exploratórios. In: LIMA, M.; PEREIRA, M. E. (orgs.). Estereótipos, preconceitos e discriminação: perspectivas teóricas e metodológicas. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 121-140. 38 de Prosopopeia, de Bento Teixeira, e segue até 1768. Assim como a literatura a sociedade muda, e nessa toada constatamos que na atualidade convivemos com o denominado preconceito sutil. Essa forma de preconceito é o que existe e persiste no Brasil, já que temos o combate a lgbtfobia como preceito legal a ser seguido63. Em países onde há leis contra a homofobia, esse fenômeno passa a ocorrer de forma velada, e se dá através de manifestações e/ou atitudes que denotam a não aceitação de pessoas e/ou grupos homoafetivos. De fato, no Brasil, mesmo havendo o reconhecimento da família homoafetiva desde 5 de maio de 2011, através do julgamento no Supremo Tribunal de Federal (STF), com base no entendimento do artigo 3º, inciso IV, da Constituição Federal (CF), que veda qualquer discriminação em virtude de sexo, raça, cor e que, nesse sentido, ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua orientação sexual. “O sexo das pessoas, salvo disposição contrária, não se presta para desigualação jurídica”, para concluir que “qualquer depreciação da união estável homoafetiva colide, portanto, com o inciso IV do artigo 3º da CF”. Transcrevemos, para melhor elucidar a questão, a seguinte parte do voto do Ministro Relator Ayres Britto: Pelo que dou ao art. 1.723 do Código Civil interpretação conforme à Constituição para dele excluir qualquer significado que impeça o reconhecimento da união contínua, pública e duradoura entre pessoas do mesmo sexo como “entidade familiar”, entendida esta como sinônimo perfeito de “família”. Reconhecimento que é de ser feito segundo as mesmas regras e com as mesmas conseqüências da união estável heteroafetiva. 64. 63 Em 13 de junho de 2019 o Plenário do STF entendeu que houve omissão inconstitucional do Congresso Nacional por não editar lei que criminalize atos de homofobia e de transfobia. O julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26, de relatoria do ministro Celso de Mello, e do Mandado de Injunção (MI) 4733, assim, por maioria de oito votos a favor e três contrários, a Corte reconheceu a mora do Congresso Nacional para incriminar atos atentatórios a direitos fundamentais dos integrantes da comunidade LGBTI. De tal sorte que a conclusão foi: Por maioria, o Plenário aprovou a tese proposta pelo relator da ADO, ministro Celso de Mello, formulada em três pontos. O primeiro prevê que, até que o Congresso Nacional edite lei específica, as condutas homofóbicas e transfóbicas, reais ou supostas, se enquadram nos crimes previstos na Lei 7.716/89 e, no caso de homicídio doloso, constitui circunstância que o qualifica, por configurar motivo torpe. No segundo ponto, a tese prevê que a repressão penal à prática da homotransfobia não alcança nem restringe o exercício da liberdade religiosa, desde que tais manifestações não configurem discurso de ódio. Finalmente, a tese estabelece que o conceito de racismo ultrapassa aspectos estritamente biológicos ou fenotípicos e alcança a negação da dignidade e da humanidade de grupos vulneráveis. GONÇALVES, A. B. STF e a criminalização da homofobia. Migalhas, 2020. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/319644/stf-e-a-criminalizacao-da-homofobia Acesso em: 25 maio 2021. 64 BRASIL. Superior Tribunal Federal. Arguição de descumprimento de preceito fundamental 132 Rio de Janeiro. Relator.: Ministro Ayres Britto. Brasília, DF, 05 maio 2011. Disponível em: 39 Há, ainda, a Resolução nº 175/201365 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determinou aos cartórios de registro civil de todo o Brasil a realizarem casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Assim, existe a regulamentação legal e de proteção das famílias homoparentais, sendo que as adoções já eram realizadas antes de 2011, mas a partir daquela data não há que se propor qualquer objeção às adoções homoafetivas, uma vez que para adotar em conjunto, na forma do ECA, artigo 42, §2º, as pessoas devem estar casadas ou convivendo em união estável. A decisão do STF tem força vinculante, é erga ominis, e obrigatoriamente tem que nortear as decisões dos juízes de primeiro grau, desembargadores na segunda instância e dos próprios tribunais superiores – STJ para matérias infraconstitucionais e STF para matérias constitucionais. Contudo, ainda nos vemos diante de questões, como a recentemente divulgada na mídia, quando um casal homoafetivo teve parecer negativo do Promotor de Justiça do caso para a conversão da união estável em casamento, por ele entender – através de seus dogmas pessoais – que duas pessoas do mesmo sexo não constituem família. A reportagem que cita esse caso traz como manchete: “[...] Do total de 46 habilitações de casamentos homoafetivos em 2019, todas foram impugnadas pela promotoria de Florianópolis responsável por fiscalizar os pedidos, mas autorizadas judicialmente”66. Decisão do STF e resolução do CNJ garantem direito ao enlace de casais do mesmo sexo. As questões em Florianópolis (SC) não são recentes, desde 2018, já ocorriam tais interpretações supressoras de direitos67. Passamos do casamento à adoção, vez que para a adoção conjunta é necessário que os adotantes sejam casados civilmente ou mantenham união estável, comprovada a estabilidade da família (ECA: §2º, art. 41). As manifestações acerca da adoção de crianças por casais homoafetivos ainda trazem opiniões e reações https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628633&pgI=46&pgF=50. Acesso em: 01 jun. 2021. 65 BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução n. 175, de 14 de maio de 2013. Dispõe sobre a habilitação, celebração de casamento civil, ou de conversão de união estável em casamento, entre pessoas do mesmo sexo. Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/files/resolucao_175_14052013_16052013105518.pdf. Acesso em: 01 jun. 2021. 66 HOLLAND, C. Na contramão das demais capitais, promotoria em Florianópolis se opõe a casamentos homoafetivos. G1 SC, 24 jan. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sc/santa- catarina/noticia/2020/01/24/na-contramao-das-demais-capitais-promotoria-em-florianopolis-se-opoe- a-casamentos-homoafetivos.ghtml. Acesso em: 25 maio 2021. 67 MACHADO, L. 'Não temos os mesmos direitos dos héteros': o casal de mulheres que luta na Justiça para manter união. BBC News Brasil, 20 jun. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44556376. Acesso em: 25 maio 2021. 40 antagônicas, exigindo dos militantes e ativistas pelos direitos humanos um olhar sempre atento sobre as manifestações na mídia e nas redes sociais. Em 2020, ocorreram manifestações contrárias como, por exemplo, a do Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Estado de São Paulo, Dom Jorge Pierozan, afirmando, em homilia transmitida no dia 26 de dezembro, através do canal do Youtube, que casais homoafetivos não devem adotar68. Assim disse Dom Jorge: Tem que ser politicamente correto com a menina que tem duas mães. Juntou as duas sujeitas lá, foram para o cartório e adotaram uma criança que paga o preço depois. Não celebra o Dia dos Pais, porque ela não tem pai. Como é que vai ser? Prossegue o referido Bispo: Aparecem dois barbudos de mãos dadas, um menino que adotaram e o colégio tem que se adaptar. Não vamos nem discutir se aquele pacto lá está valendo do ponto de vista civil. Não quero saber. Não adota filho, não. Deveria se levar muito a sério essa questão da adoção por casais assim. Posições como a do Bispo são replicadas, advém dos sistemas de crenças, da bagagem pessoal e social do sujeito/grupo, que foi construída histórica e socialmente num Brasil majoritariamente cristão, que já foi, inclusive, o maior país católico do mundo em números exatos. São falas como essas que produzem respostasnegativas, que geram ainda mais preconceito e intolerância. A homoparentalidade pela via da adoção, mesmo com sua legalidade plena, ainda perpassa por questões afetas à sexualidade, às necessidades de afirmação do indivíduo, ao afeto e às normas e valores vigentes numa sociedade ainda conservadora. 1.4 Adoção A adoção é a modalidade de colocação em família substituta mais completa, uma vez que há a inclusão da criança ou adolescente no seio de um núcleo familiar. Ela transforma o adotando em um membro da família, criando laços de parentesco em primeiro grau, o que confere ao adotando maior proteção e maior dignidade, posto que receberá o nome da família de inserção além dos direitos inerentes à filiação. Por outra vertente, quando se fala em adoção, nos vem a ideia de pessoas que buscam um filho, e assim sendo, escolhem uma criança que preencha este vazio, e a 68 DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO. Bispo Jorge Pierozan fala contra a adoção de crianças por casais LGBT: “Não tem Dia das Mães para eles”. DCM-O Essencial, 29 dez. 2020. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/bispo-jorge-pierozan-fala-contra-a-adocao-de- criancas-por-casais-lgbt-nao-tem-dia-das-maes-para-eles/. Acesso em: 03 maio 2021. 41 levam para casa, complementando a família. Porém, tanto a Constituição da República Federativa do Brasil, quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) pregam o inverso, pois que a escolha não é realizada pelos adultos e sim pela criança ou adolescente. São eles que escolhem a família, em um processo de amor, somado à vontade de ambas as partes de serem felizes, assim é atendido o superior interesse da criança à convivência familiar. A adoção, na visão atual trazida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), inverte o paradigma da busca de crianças para famílias, trazendo a criança como sujeito de direitos que têm o direito à convivência familiar, assim buscando-se famílias para as crianças. Crianças aqui compreendidas, conforme artigo 1º da Convenção Internacional sobre Direitos das Crianças69, de 0 a 18 anos: Art. 1º - Para efeito da presente Convenção, considera-se como criança todo ser humano com menos de 18 anos de idade, salvo quando, em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes. 1.4.1 A Evolução Histórica da Adoção A adoção é um instituto encontrado nos sistemas jurídicos dos antigos povos, tendo sofrido, ao longo dos séculos, expressiva evolução até os dias de hoje. Desde as mais longínquas eras, as civilizações instituíram a adoção com o intuito de dar filhos àqueles que não podiam tê-los; para que desta forma, ficasse perpetuada a religião da família. Tendo-se como exemplos, dessa positivação da adoção, nos Código de Hamurabi e Manu, no Deuteronômio, na Grécia Antiga e em Roma (a.C.), onde o instituto alcançou seu auge de importância. “Aquele que a natureza não deu filhos pode adotar um, para que não cessem as cerimônias fúnebres”70.. Maria Berenice Dias71, assim remonta a adoção: Moisés foi encontrado em um cesto no Rio Nilo e adotado pela filha do Faraó. Rômulo e Rêmulo, fundadores de Roma, foram criados por uma loba. Esses relatos - verdadeiros ou não – dão notícias de uma realidade histórica: mães abrem mão dos filhos quando não têm meios de mantê-los consigo. 69 UNICEF. Convenção sobre os direitos da criança. 1990. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca. Acesso em: 01 jun. 2021 70COULANGES, F. A cidade antiga. [tradução Fernando de Aguiar]. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 71 DIAS. op. cit. 2016. p. 63 42 A adoção era a medida utilizada, com a finalidade de preservar os cultos domésticos. Assim poderiam adotar aqueles que não tivessem filhos, e tal fato, pudesse acarretar a extinção da família. No direito romano a adoção teve seu auge, vindo a ser mais bem regulamentada. Os romanos, além da função religiosa, davam à adoção função de natureza familiar, política e econômica. A religião não permitia, que a família fosse extinta, e assim, quando a natureza não permitisse, que o cidadão romano tivesse filhos, ele poderia socorrer-se da adoção72. Cícero, em Pro Domo, assim define a adoção: “adotar é pedir à religião e à lei aquilo que da natureza não se pode obter”73. Quanto aos efeitos de ordem política, os romanos faziam com que obtivesse a cidadania romana, transformando-o de plebeu para patrício. A adoção permitia que um homem passasse a deter a condição de pai de família, exigida por lei, para ocupação de cargos públicos, e era também uma forma de continuar a tradição política familiar. Na história de Roma, a adoção teve um papel importante na formação de dinastias, pois muitos imperadores e governantes romanos foram adotados ou adotaram74. Na Idade Média, a adoção foi ameaçada de extinção, devido, principalmente, às regras que iam ao encontro dos anseios dominantes do período. Com a morte de uma pessoa sem deixar herdeiros, seus bens eram herdados pelos senhores feudais ou pela Igreja75. Nessa época, nas raras vezes que a adoção era utilizada, tinha apenas o intuito de proteger o adotando, não concedendo, quase nenhum direito decorrente das relações de parentesco aos adotados76. E ainda, havia a crença de que os filhos eram uma dádiva ao casal, logo, aqueles que não podiam ter filhos, estariam sendo castigados pelas entidades divinas da crença pessoal de cada família. Castigo esse, que não deveria ser remediado pela adoção. 72 GRANATO, E. F. R. Adoção doutrina e prática. Curitiba: Editora Juruá, 2010. 73 Apud SIQUEIRA, Libórni. Adoção, doutrina e jurisprudência. 10. ed. Rio de Janeiro: Folha Carioca, 2004, p. 25. 74 VEYNE, P. (org.). Do Império Romano ao ano mil – história da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, v. 1. WEBER, L. N. Pais e filhos por adoção no Brasil: características, expectativas e sentimentos. Curitiba: Editora: Juruá, 2001. 75 PEREIRA, C. Instituições de direito civil. 25. ed. atual. Rio de Janeiro: Forense, 2017. v. 5. 76 WEBER, L. N. Aspectos psicológicos da adoção. Curitiba: Juruá, 1999. ABREU, D. No bico da cegonha: histórias de adoção e da adoção internacional no Brasil. Rio de Janeiro. Relume Dumará, 2002. 43 A adoção retornou ao direito moderno com o advento do Código de Napoleão, na França em 1804; pois Napoleão foi um dos defensores do referido instituto, uma vez que não podia ter filhos com sua imperatriz e por óbvio, pensava em adotar77. A partir de então o instituto da adoção passou a fazer parte de todos os sistemas jurídicos ocidentais, haja vista a forte influência do Código de Napoleão nas legislações da época78. Com o retorno da adoção aos diplomas legais, o instituto voltou a ter um expediente para dar filhos a quem não podia tê-los. Felizmente, com o passar dos anos, a adoção passou a significar dar uma família a quem não a possui, desfigurando assim seu caráter potestativo, passando de vez a ter um cunho assistencialista. Já no século XX, em decorrência da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), muitas crianças ficaram órfãs ou abandonadas. Fato que comoveu a população, trazendo à evidência, novamente, a necessidade do instituto da adoção79. No Brasil, a adoção sempre esteve presente no direito pátrio e existia, desde as Ordenações do Reino, que estiveram vigentes até 1916 quando foi promulgado o primeiro Código Civil brasileiro80. De acordo com Cunha81, necessário se faz referenciar o instituto da adoção no direito português, por ter enorme influência a sua aplicação no Brasil. Em Portugal, com a adoção, o adotante não adquire o poder familiar e no que diz respeito à sucessão, era necessário prévia autorização do Príncipe para que o adotando tivesse direito à herança da família adotiva. Ou seja, a adoção em Portugal servia para requerer alimentos e só adquiria as característicasdo direito romano com o assentimento do príncipe. Ainda nesse tocante, em Portugal existia a figura da perfilhação, de conceito e abrangência, mais restrita do que a adoção e ainda, cada vez mais, controlada pela 77 CUNHA, T. M. A evolução histórica do instituto da adoção. Âmbito Jurídico, 28 nov. 2011. Disponível em: https://conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/26739/a-evolucao-historica-do- instituto-da-adocao. Acesso em: 10 maio 2021. 78 ABREU, op. cit. 2002. 79 CAMARGO, M. L. Adoção tardia: representações sociais de famílias adotivas e postulantes à adoção (mitos, medos e expectativas). Assis: MLC, 2005. 80 BRASIL. Senado Federal. Biblioteca Digital. Código Philippino, ou, Ordenações e leis do Reino de Portugal: recopiladas por mandado d'El-Rey D. Philippe I. 2021. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/242733. Acesso em: 02 jun. 2021; BRASIL. Planalto. Código Civil Brasileiro de 2016. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3071.htm#:~:text=Art.- ,1.,bens%20e%20%C3%A1s%20suas%20rela%C3%A7%C3%B5es.&text=A%20personalidade%20ci vil%20do%20homem,Art. Acesso em: 02 jun. 2021. 81 CUNHA, op. cit. 2011. 44 coroa. Sendo limitada aos nobres, para que não houvesse, acesso dos nobres aos recursos da coroa. Porém era franqueada às pessoas do povo. A perfilhação esteve presente em nosso ordenamento jurídico, desde o ano de 1828, tendo os juízes de primeira instância, competência para concessão, das “Cartas de Perfilhação”82. 1.4.2 A Adoção e o Abandono no Brasil No que tange às crianças abandonadas, (expostas ou enjeitadas, termos da época anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente), foram criados orfanatos com a finalidade assistencialista, e para evitar os infanticídios, instituições como as Santas Casas de Misericórdia83. Nessa época, antes da década de 1990, havia ainda a necessidade de preservar a identidade dos genitores da criança, que era considerada fruto de um erro, mas notadamente da lascívia de seus pais pecadores. Bem como a necessidade de preservar a vida das crianças inocentes. Assim sendo, foram criadas, nas Santas Casas de Misericórdia, as “Rodas dos Expostos”, que eram um mecanismo utilizado para entregar as crianças indesejadas, de modo que quem colocasse a criança na “roda” não seria identificado. E por esse mecanismo, as crianças eram introduzidas dentro dos muros do orfanato, onde as freiras as recolhiam. Um dos exemplos mais emblemáticos era a “Roda dos Expostos” da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.84 Assim trata a matéria Trindade (1999) em seu estudo sobre O abandono de crianças ou a negação do óbvio: A lógica do abandono passa pelo rigor do termo e sua contextualização. No Brasil, desde a colônia até a crise do império, no final do século XIX, a criança 82 MORENO, A. Z. Criando como filho: as cartas de perfilhação e a adoção no império luso-brasileiro (1765-1822). Cadernos Pagu, n. 26, p. 463–474, 2016. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8644752. Acesso em: 02 jun. 2021. 83 TRINDADE, J. M. B. O abandono de crianças ou a negação do óbvio. Disponível em: Dossiê: Infância e Adolescência. Rev. Bras. Hist., v. 19, n. 37, 1999. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102- 01881999000100003. Acesso em: 30 maio 2021. 84BATISTA JR, J. A história de paulistanos deixados na roda dos expostos da Santa Casa: dispositivo que operou de 1825 a 1950 recebeu 4 696 crianças abandonadas pelos pais. Veja São Paulo, 17 jun. 2016. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cidades/roda-dos-expostos-santa-casa/. Acesso em: 25 maio 2021. COSATI, L.C.M. Assistência à Infância na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro: a transformação da Casa dos Expostos (1888-1920). Paraíba, Casa de Oswaldo Cruz, 2018. Disponível em: https://www.16snhct.sbhc.org.br/resources/anais/8/1545155216_ARQUIVO_ArtigoLeticiaCondeMorae sCosati(rev).pdf. Acesso em: 25 maio 2021. 45 abandonada era tratada pelos termos "expostos" e "enjeitados". Esses termos correspondiam ao tipo de abandono mais comum para o período, qual seja, o de recém-nascidos, e se consubstanciavam nas práticas de enjeitar as crianças expondo-as em locais onde seriam, muito provavelmente, recolhidas. Os locais mais comuns eram as igrejas e conventos e, mais tarde, as "rodas dos expostos"85. Em parte, devido à ausência de registros e não domínio da escrita, pode-se observar grandes dificuldades nos estudos sobre a criança e o abandono no Brasil. O alto índice de analfabetismo e a dependência administrativa até as primeiras décadas do século XIX pontuam com grandes lacunas os registros e fontes tradicionalmente utilizadas para a história do Brasil. No que se refere às rodas e orfanatos, somam-se ainda o descaso com os arquivos das Santas Casas de Misericórdia86. No Brasil, o Decreto 5.083/26 instituiu o Código de Menores, que cuidava dos infantes expostos e dos menores abandonados. Sendo que no ano seguinte, foi instituído, o Código de Mello Matos, Decreto nº 17.943-A/192787, que consolidou as leis de assistência e proteção aos menores, utilizando o seguinte critério: quem tiver menos de 18 anos de idade, seria submetido pela autoridade competente às medidas de assistência e proteção contidas no referido decreto. O Código Civil de 191688 dispôs sobre adoção em seus artigos 368 a 378, no Título V (Relações de Parentesco), Livro I (Direito de Família). Em 1957, foi promulgada a Lei 3.13389, que alterou o Código Civil, reduzindo a idade mínima do adotante para trinta anos. No ano de 1965, foi promulgada a Lei 4.65590 que veio dar novo feitio a adoção, permitindo que os adotados tivessem uma maior integração com a família (legitimação adotiva). Tal legitimação era mais benéfica para criança do que o sistema de adoção simples, disposto no Código Civil. Rodrigo da Cunha Pereira91 assim fala sobre a matéria: Até o advento da Lei nº 4.655/65, que introduziu a “Legitimação Adotiva”, o processo de adoção era visto com um simples ato bilateral. Bastava a manifestação de vontade do adotante e adotado – se capaz, ou de seu representante legal, se incapaz ou nascituro – para que se efetivasse a adoção. Era feito mediante Escritura Pública (Art. 375, CCB 1916), instituindo 85 TRINDADE, op. cit. 1999. 86 Ibidem. 87 BRASIL. Planalto. Decreto nº 17.943, de 12 de outubro de 1927. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.htm Acesso em: 25 maio 2021. 88 BRASIL. Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916. Institui o Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l3071.htm. Acesso em: 29 abr. 2021. 89BRASIL. Lei n. 3.133, de 8 de maio de 1957. Atualiza o instituto da adoção prescrita no Código Civil. Disponível em: L3133 (planalto.gov.br). Acesso em: 10 maio 2021. 90 BRASIL. Lei n. 4.655, de 2 de junho de 1965. Dispõe sobre a legitimidade adotiva. Disponível em: L4655 (planalto.gov.br). Acesso em: 10 maio 2021. 91PEREIRA, R. C. Direito das famílias. Rio de Janeiro: GEN, 2020. 46 parentesco apenas entre o adotante e o adotado, sem a necessidade de intervenção judicial. Era, ainda, dado ao adotado o direito de desligar-se da Adoção ao cessar a menoridade ou a interdição, admitindo a dissolução do vínculo da adoção por acordo e nos casos em que era admitida a deserdação. A adoção legítima, por outro lado, deveria, necessariamente, ser feita via processo judicial, com a presença do Ministério Público e a sentença definitiva era averbada no registro de nascimento da criança, limitado apenas ao nome do adotante ou adotantes, isto porque o parentesco ainda não se estendia ao restante da família. Com o Código de Menores (Lei nº 6.697/79)92 ficou estabelecido, em nosso sistema jurídico, a adoção simples e a adoção plena. A adoção simples era utilizada para os menores de 18 anos em situação irregular,nos termos do Código Civil vigente, efetivando-se por meio de escritura pública. A adoção plena era aplicada aos menores de 7 anos de idade, através de procedimento judicial, tendo caráter assistencial, substituindo a legitimação adotiva. A adoção plena atribuía ao adotando a condição de filho, cortando todos os laços do mesmo com a família biológica, através da expedição do mandado de cancelamento do registro original. Dias93 ressalta que (...) a absoluta igualdade e a proibição de designação discriminatória só veio com a Constituição Federal de 1988 (227 § 6º). Reconhecido como um princípio, adquiriu eficácia imediata e alcançou inclusive as adoções que haviam sido levadas a efeito em momento anterior. A justificativa para a concessão de eficácia retroativa ao preceito constitucional foi não existir direito adquirido à limitação de direitos. A adoção plena foi mantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), denominada apenas adoção, em face da extinção da “adoção simples”. A Constituição Federal de 1988 deu nova forma ao Direito de Família, e por consequência, também à adoção. Em decorrência dessa mudança, foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), através da Lei 8.069 de 1990, trazendo uma nova sistemática para adoção de crianças e de adolescentes. Passa-se então, a ter dois ordenamentos: a adoção regida pelo ECA, específica a crianças e adolescentes, por meio judicial, e a adoção de maiores de 18 anos, disciplinada pelo Código Civil. O ECA manteve a adoção de adultos regida pelo Código Civil, e a adoção de crianças e adolescentes, foi integralmente disciplinada por ele, tendo ainda o referido estatuto, determinado, que em qualquer modalidade de adoção, rompia-se todos os vínculos familiares anteriores. 92 BRASIL. Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-6697-10-outubro-1979-365840- publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: 10 maio 2021. 93 DIAS, op. cit. 2016. p. 66. 47 O Código Civil de 2002 determinou a unificação da adoção, impondo novo e completo vínculo familiar, com efetiva participação do poder público. Bem como determinou a existência, apenas da adoção plena e ainda, que qualquer tipo de adoção só se aperfeiçoaria, através de sentença constitutiva, não sendo mais possível a adoção por meio de escritura pública94. Por fim, conforme o disposto nos artigos 1.618 e 1.619 do Código Civil de 2002, a adoção de crianças e adolescentes será regida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Enquanto, a adoção de adultos, que também conta com a imprescindibilidade de sentença judicial constitutiva, será regida pelo próprio Código Civil. Ressaltando ainda que os artigos 1.620 a 1.629 do Código Civil de 2002, foram revogados. Assim sendo, hodiernamente, todas as adoções, salvo a de adultos, serão regidas pelo ECA95. Mesmo com a aparente evolução, ainda impera a invisibilidade de crianças e adolescentes. Dias assim traduz: Apesar de haver aparente preocupação para que crianças e adolescentes não fiquem sem um lar, os entraves para a concessão da adoção são tantos, e de tal ordem, que eles crescem e apodrecem dentro de verdadeiros depósitos. Além de praticamente inviabilizar a adoção, continua sendo privilegiado o interesse dos adotantes, ao ser estabelecido que a adoção é feita de acordo com a ordem cronológica de habilitação e disponibilidade de crianças ou adolescentes adotáveis (ECA, 197E). Do mesmo equívoco se ressente a nova versão do Cadastro Nacional de Adoção – CNA, que não permite a busca ativa de pais. A adoção é considerada medida excepcional. De forma repetitiva – e exaustivamente – a lei prioriza e incentiva a permanência de crianças e adolescentes no âmbito da família biológica. O ECA repete 11 vezes a preferência pela família natural ou extensa,96 como se assim desse eficácia ao comando constitucional que assegura a crianças e adolescentes o direito à convivência familiar (CF 227). O equívoco é evidente. Essa expressão não significa família consanguínea. Quando alguém entrega um filho à adoção, é porque não tem como permanecer com ele, nem sua família tem condições de acolhê-lo. E, quando uma criança é retirada da convivência dos pais, significa que a própria família nada fez para protegê-la. Não manifestou qualquer interesse em assumir a responsabilidade de criá-la. 94 BRASIL. op. cit. 2002. 95 MARONE. N. S. Evolução histórica da adoção. Âmbito jurídico, 1 de março de 2016. Disponível em: https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-146/a-evolucao-historica-da-adocao/. Acesso em: 20 maio 2021. 96 BRASIL, op. cit. 1990, arts. 19, 19§ 3º, 23, 23 § 1º, 25, 39 § 1º, 45, 166, §§ 2º a 5º. 48 1.4.3 Do Conceito e da Natureza Jurídica da Adoção A adoção pode ser conceituada como medida protetiva de colocação em família substituta que estabelece o parentesco civil de primeiro grau entre adotantes e adotados (ECA, 28 a 32 e 39 a 52D)97. No que tange ao conceito, ele foi apresentado de forma bem eclética pelos doutrinadores. Para Arnoldo Wald, “um ato jurídico bilateral que gera laços de paternidade e filiação entre pessoas para as quais tal relação inexiste naturalmente”98. Já para Orlando Gomes99 o ato adoção é o ato jurídico pelo qual se estabelece, independentemente do fato natural da procriação, o vínculo de filiação. Trata-se de ficção legal, que permite a constituição, entre duas pessoas, do laço de parentesco do primeiro grau na linha reta. Maria Helena Diniz100 explica: A adoção é, portanto, um vínculo de parentesco civil, em linha reta, estabelecido entre adotante, ou adotantes, e o adotado um liame legal de paternidade e filiação civil. Tal posição de filho será definitiva ou irrevogável, para todos os efeitos legais, uma vez que desliga o adotado de qualquer vínculo com os pais de sangue, salvo os impedimentos para o casamento (CF, art. 227, parágrafos 5º e 6º), criando verdadeiros laços de parentesco entre o adotado e a família do adotante (CC, art. 1.626). Todos os conceitos aqui mencionados, convergem para um ponto comum, qual seja, a criação de um vínculo jurídico de filiação. É, então, ponto pacífico que a adoção atribui a alguém o estado de filho. A esta modalidade de filiação, denomina-se parentesco civil ou parentesco conferido pela lei, pois não está atrelado à consanguinidade. E ainda, a esta relação de filiação, é vedado atribuir-se qualquer tipo de discriminação, conforme dispõe o preceito constitucional (artigo 227 §6º da CF)101. 1.4.4 Legitimidade para Postular a Adoção O Estatuto estabelece como única exigência para a adoção, que o adotante seja maior e plenamente capaz para os atos da vida civil, nos termos do art. 42, caput 97 Ibidem. arts. 28 a 32 e 39 a 52. 98 WALD, Arnoldo. Direito civil: direito de família. 18. ed. reform. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 343. 99 GOMES, Orlando. Direito de família. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 369. 100 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, volume 5 - direito de família, 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 507. 101 BRASIL. op. cit. 1988. art. 227 §6º. 49 do ECA. Não existindo nenhuma restrição, no que tange: sexo, religião, cor, situação financeira, orientação sexual, identidade de gênero e idade, esse último limitado ao suprimento da capacidade civil, ou seja, no mínimo 18 anos, ressalvada a diferença mínima de 16 anos entre adotante e adotado102. Entretanto, algumas pessoas estão impedidas de adotar, podendo o impedimento ser parcial (o impedimento pode ser superado, nos termos do art. 44 do ECA) ou total (é insuperável, nos termos do art. 42 § 1º do ECA), visando-se visa resguardar o superior interesse da criança ou do adolescente103. O impedimento parcial é superado quando o tutor ou curador der conta de sua administração e saldar o seu alcance,podendo, então, adotar o tutelado ou curatelado. Já o impedimento total, em tese, não poderia ser superado, sendo impedidos de adotar totalmente os avós e os irmãos do adotando. Decisão de 2020 do STJ Superior Tribunal de Justiça admitiu tal possibilidade, conforme a seguir transcrito: PARA QUARTA TURMA, SITUAÇÕES EXCEPCIONAIS PODEM JUSTIFICAR ADOÇÃO DE MENOR PELOS AVÓS Apesar da proibição prevista no parágrafo 1º do artigo 42 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a adoção pelos avós (adoção avoenga) é possível quando for justificada pelo melhor interesse do menor. Seguindo esse entendimento, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou provimento a recurso do Ministério Público e manteve decisão que permitiu a adoção de uma criança pela avó paterna e por seu companheiro, avô por afinidade. O colegiado alinhou-se à posição da Terceira Turma, que, em casos julgados em 2014 e 2018, já havia permitido esse tipo de adoção para proteger o melhor interesse do menor. Segundo o relator do recurso analisado pela Quarta Turma, ministro Luis Felipe Salomão, a flexibilização da regra do ECA, para autorizar a adoção avoenga, exige a caracterização de uma situação excepcional. Entre as condições para isso, Salomão destacou a necessidade de que o pretenso adotando seja menor de idade; que os avós exerçam o papel de pais, com exclusividade, desde o nascimento da criança; que não haja conflito familiar a respeito da adoção e que esta apresente reais vantagens para o adotando. Dependência química O recurso julgado diz respeito a uma mãe que, alguns dias após o parto, entregou a criança aos cuidados da avó paterna e de seu companheiro, que ficaram com a guarda provisória. Oito meses depois, os avós ajuizaram a ação de adoção, informando que os pais biológicos eram dependentes químicos e que a mãe aparecia frequentemente drogada para visitar a criança, ameaçando retomar a guarda. 102 BRASIL. op. cit. 1990. art. 42. 103 Ibidem, art. 44. 50 Na petição inicial, os avós afirmaram que a adoção era necessária para preservar a integridade física do menor. Narraram que seu irmão por parte de mãe havia sido morto em uma possível vingança de traficantes. Citados, os pais concordaram com a adoção. Em primeira instância, o pedido foi julgado procedente – decisão confirmada pelo tribunal estadual. Desde o início, o Ministério Público discordou da medida, alegando violação ao texto literal do ECA. Fim social Ao justificar a adoção avoenga, o ministro Salomão se referiu aos precedentes firmados pela Terceira Turma e disse que a medida deve ser permitida em situações excepcionais, como a dos autos, "por se mostrar consentânea com o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente". Ele considerou que tal possibilidade contempla o fim social objetivado pelo ECA e também pela Constituição de 1988. Além das condições mencionadas estarem atendidas no caso, Salomão afirmou que o estudo psicossocial atestou a parentalidade socioafetiva entre os adotantes e a criança. Ele ressaltou que o lar reúne condições necessárias ao pleno desenvolvimento do menor. "A pretensão de adoção funda-se em motivo mais que legítimo, qual seja, desvincular a criança da família materna, notoriamente envolvida em criminalidade, o que já resultou nos homicídios de seu irmão biológico de apenas nove anos de idade e de primos adolescentes na guerra do tráfico de entorpecentes" – enfatizou o relator. Conceito de família Nesta terça-feira (10), na conclusão do julgamento do recurso, o ministro Marco Buzzi apresentou voto-vista, acompanhando a posição do relator e apontando um fundamento adicional, relativo ao conceito de família para fins de adoção. Ele lembrou que, quando amplamente demonstradas a afetividade e a afinidade da criança com os parentes que pretendem adotá-la – desde que preenchidos os demais requisitos legais, como a diferença mínima de idade e o rompimento dos vínculos socioafetivos com os pais –, a adoção é plenamente admitida, "já que a própria lei, nos termos do artigo 19 do ECA, assegura à criança e ao adolescente o direito de serem criados e educados no seio de sua família". O ministro destacou que a criança reconhece a avó paterna como mãe e não tem vínculo afetivo com os pais biológicos. Esse posicionamento do colegiado, segundo Marco Buzzi, "não constitui ativismo judicial, mas um dever imposto ao julgador intérprete de salvaguardar o melhor interesse da criança e conferir uma ponderação equilibrada e concatenada da vontade social exercida pela atuação do legislador". O número deste processo não é divulgado em razão de segredo judicial104. É imprescindível que, em relação a criança ou adolescente a ser adotado, não haja a menor possibilidade de reintegração familiar. Uma vez que a regra é a 104 BRASIL, STJ, Comunicação e notícia, Brasília, 11/3/20020. Disponível em: https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/Para-Quarta-Turma--situacoes- excepcionais-podem-justificar-adocao-de-menor-pelos-avos.aspx Acesso: 30 jul. 2021. 51 reintegração familiar e a exceção, a colocação em família substituta, à luz do direito à convivência familiar, nos termos do art. 19 e § 1º ao 39, do ECA105. O correto deve ser sempre tentar a reintegração familiar, mas nunca a ponto de inviabilizar a colocação, da criança ou adolescente, em família substituta. Uma vez que é fato notório o desinteresse por parte dos adotantes de crianças mais velhas e adolescentes. Cabe aqui, para uma maior elucidação do tema, exemplificar algumas hipóteses, em que não há a menor possibilidade da reintegração familiar, da criança ou do adolescente, a saber (CCB, Art. 1.638)106: 1. castigar imoderadamente o filho; 2. deixar o filho em abandono; 3. praticar atos contrários à moral e aos bons costumes; 4. incidir, reiteradamente, nas faltas previstas no artigo antecedente. 5. entregar de forma irregular o filho a terceiros para fins de adoção. Parágrafo único. 6. praticar contra outrem igualmente titular do mesmo poder familiar: 7. praticar contra filho, filha ou outro descendente: a) homicídio, feminicídio ou lesão corporal de natureza grave ou seguida de morte, quando se tratar de crime doloso envolvendo violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher; b) estupro, estupro de vulnerável ou outro crime contra a dignidade sexual sujeito à pena de reclusão. 1.4.5 Consentimento dos Detentores do Poder Familiar Com a adoção, novo vínculo de parentesco é criado com a família substituta. Rompe-se o vínculo natural/civil e cria-se o vínculo adotivo/civil, entre adotantes e adotados. Os genitores podem consentir com a adoção nos termos dos artigos 45107 e 166108 do ECA, ou têm o poder familiar destituído ou extinto nos termos do Código 105 Ibidem, art. 19 e § 1º ao 39. 106 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10620032/artigo-1638-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002. Acesso em: 10 maio 2021. 107 Idem, 1990. art. 45. A adoção depende do consentimento dos pais ou do representante legal do adotando. § 1º. O consentimento será dispensado em relação à criança ou adolescente cujos pais sejam desconhecidos ou tenham sido destituídos do poder familiar § 2º. Em se tratando de adotando maior de doze anos de idade, será também necessário o seu consentimento. 108 Ibidem. art. 166. Se os pais forem falecidos, tiverem sido destituídos ou suspensos do poder familiar, ou houverem aderido expressamente ao pedido de colocação em família substituta, este poderá ser formulado diretamente em cartório, em petição assinada pelos próprios requerentes, dispensada a assistência de advogado. 52 Civil Brasileiro. No caso de não ser obtido o consentimento dos genitores ou dos representantes legais, o juiz deverá decidir, àluz do princípio do superior interesse da criança e do adolescente, destituindo, por consequência, o poder familiar dos pais biológicos. Na mesma esteira, os seguintes arestos: Ausente o consentimento da mãe do menor para adoção, o pedido não preenche os requisitos que a Lei prevê para a espécie, não podendo assim ser deferido, tendo em vista, ainda não haver prejuízo ao interesse do menor. Sentença confirmada.” (TJES, Apelação n° 052.930.002.077, Relator: Dês. José Eduardo Granai Ribeiro)109. ECA. Adoção. A teor do art. 45, §1º do ECA, imprescindível o consentimento dos pais biológicos ao pedido de adoção, a não ser quando desconhecidos ou previamente destituídos do pátrio do poder. Apelo improvido, retificando- se, de ofício, a sentença, para extinguir o feito sem julgamento de mérito. (TJRS, 7ª Câm. Civ. Ap. 70001166131, Rel. Des. Maria Berenice Dias)110 1.4.6 Concordância do Adotando A oitiva da criança a partir dos 12 anos é regra obrigatória, nos termos do § 2º do art. 45111 do ECA, vez que sua opinião há de considerada, pelo juiz, por ocasião da sentença de adoção. A criança, até os 12 anos incompletos, também deverá ser ouvida, respeitado seu estágio de desenvolvimento e grau de compreensão sobre as implicações da medida, no caso, pela equipe interprofissional do juízo, nos termos do § 1º do art. 28 e do § único, XII do art. 100, ambos do ECA112. Cabe ressaltar que a oitiva da criança com idade inferior a 12 anos pela equipe interprofissional não impede que ela seja ouvida em audiência pelo juiz e pelo Ministério Público. Vez que com relação ao adolescente essa oitiva obrigatória, nos termos do § 2º do art. 29 do ECA, como leciona Luiz Paulo Santos Aoki: [...] é o reconhecimento do direito da criança e do adolescente de expressar sua opinião a respeito daquilo que fatalmente os atingirá, pois, dependendo do entrosamento maior ou menor com a família substituta, poderá, o julgador aferir conveniência de sua colocação naquele meio.113 O magistrado, ao decidir, tem liberdade de guiar-se conforme seu livre convencimento, considerando o superior interesse do adotando, bem como a sua 109 BORDALHO, G. A. C. Curso de direito da criança e do adolescente: aspectos teóricos e práticos. 4. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2010. p. 234. 110 Ibidem. p. 235. 111 BRASIL. op. cit. 1990. art. 45, § 2º. Em se tratando de adotando maior de doze anos de idade, será também necessário o seu consentimento. 112 Ibidem. art. 28, § 1º e art. 100, § único, XII. 113 AOKI, L. P. S. Estatuto da criança e adolescente comentado. 7. ed. rev. São Paulo: Malheiros, 2005, p.131. 53 opinião. Ouvir à criança e ao adolescente é fundamental em qualquer processo de colocação, dos mesmos, em família substituta. Se necessário, o juiz pode requisitar a presença de membros da equipe interprofissional do juízo. Todo o processo tramita em segredo de justiça, apenas têm acesso ao mesmo os envolvidos. O adotado tem direito de conhecer sua origem biológica, bem como de obter acesso irrestrito ao processo no qual a medida foi aplicada e seus eventuais incidentes, após completar 18 (dezoito) anos (ECA: art. 48). Pode, também, o processo ser desarquivado pelos adotantes, na qualidade de partes do processo, em qualquer momento anterior a maioridade civil do adotado. Como atuante na área do direito da criança e do adolescente, recomendamos que todo o processo seja copiado e mantido com os adotantes para, quando e se o adotado desejar, possa conhecer sua realidade biológica. 1.4.7 Reais Benefícios para o Adotando Os reais benefícios para o adotando, previstos no art. 43 do ECA, são as efetivações práticas do princípio do superior interesse da criança e do adolescente e da doutrina da proteção integral114. O processo de adoção gira em torno da criança e do adolescente, assim sendo, todos os atos devem ter como finalidades a verificação e a comprovação de que a colocação dos mesmos em família substituta será vantajosa em todos os sentidos, pois caso contrário não deve o juiz deferir a adoção. As referidas vantagens devem ser verificadas no âmbito do afeto, que atualmente é tratado pela doutrina e jurisprudência, como um valor jurídico. Levando- se ainda em conta que os adotandos já trazem em si a marca da rejeição e do desamor, muitas vezes marcas físicas, além das psicológicas e emocionais. Logo, é de extrema importância, que as equipes interprofissionais avaliem de forma criteriosa, se os adotantes são possuidores das condições necessárias para proporcionar ao adotando um lar estável, onde ele possa ser acolhido e amado. A decisão judicial deverá sempre estar pautada nas circunstâncias que evidenciem reais vantagens para o adotando e fatores que assegurem o seu desenvolvimento como pessoa. Não se pode perder o foco, de que sempre deve ser analisada a conveniência da sua manutenção no seio da família biológica ou a 114 BRASIL. op. cit. art. 43. 54 colocação em família substituta. Assim sendo, tanto na família biológica, quanto na família substituta, resguarda- se o direito da criança e do adolescente à convivência familiar, nos termos do art. 19 do ECA 115 , sempre buscando a família onde seus interesses sejam mais bem atendidos. Nessa esteira, segue decisões de nossos Tribunais: “RECURSO DE APELAÇÃO-ADOÇÃO-ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE-CONSENTIMENTO-INEXISTÊNCIA-GUARDA- REVOGAÇÃO-MENOR-INTERESSE-FAMILIA SUBSTITUTA-ADAPTAÇÃO- RECURSOS-IMPROVIMENTO. A adoção exige o consentimento dos pais ou do representante legal do adotando, só dispensado se desconhecidos ou destituídos do ‘pátrio poder’. Expressa discordância do pedido pela mãe biológica. Aplicação do art. 45 e § 1º da Lei n.8.069/90. A colocação em família substituta deve primordialmente atender os interesses do mesmo. Para que seja revogada a guarda é necessária a comprovação de que os interesses da criança serão melhores com a modificação da situação de fato já consolidada. Não reunindo a mãe biológica condições psicossociais para mantê-la em sua companhia e de se manter incólume a guarda e responsabilidade existente. Recurso. Improvido.” (TJPR, Ap. 0002827-4. C.M., 8-5-1995, Rel. Des. Altair Patitucci)116. 1.5 Adoção por casais homoafetivos – resgate histórico Os questionamentos em torno da adoção por casais homoafetivos, no Brasil ou no exterior, levaram muito tempo para vislumbrar um fechamento, face aos posicionamentos dos aplicadores do direito, a favor ou contra, à adoção, por tais modelos parentais. Porém, é de suma importância, a priori, ressaltar que o legislador pátrio não impôs nenhum óbice à adoção, face a orientação sexual dos adotantes ou mesmo com relação a identidade de gênero, o que por si só, já colocaria um ponto final, na polêmica ainda existente em nossos tribunais. Os que se posicionam contra a adoção por casais homoafetivos, respaldam-se no fato de que o tipo de vida levada por esses adotantes, não seria “saudável” para os adotandos. Visão essa, de caráter totalmente discriminatório e eivada de preconceito, além de ser homofóbica. Quanto aos que se colocam a favor dessas adoções, o fazem pautados em estudos e pareceres técnicos, que entendem que a 115 Ibidem, art. 19. 116 BRASIL Ministério Público do Paraná. Adoção. Exigência de consentimento dos pais ou prévia destituição de pátrio poder. Guarda. Revogação. Rec. Ap. 0002827-4. C.M., 8-5-1995, Rel. Des. Altair Patitucci. Disponível em: https://crianca.mppr.mp.br/pagina-179.html. Acesso em: 08 jun. 2021. 55 orientação sexual dos pais e das mães, não influencia a dos filhos, ou causa qualquer tipo de dano, à formação psicológica e moral deles. Com intuito de finalizar a celeuma, nossos tribunais, à luz dos princípios da dignidade humana, isonomia e não discriminação, passaram a conceder o direito de adotar aos casais homoafetivos. ADOÇÃO. Elegibilidade admitida, diante da idoneidadedo adotante e reais vantagens para o adotando. Absurda discriminação, por questão de sexualidade do requerente, afrontando sagrados princípios constitucionais e de direitos humanos e da criança. Apelo improvido, confirmada a sentença positiva da Vara da Infância (TJRJ. Apelação Cível 14.979/98. Rel. Des. Severino Aragão) apud Andrade (2005, p.18)117. ADOÇÃO. Pedido efetuado por pessoa solteira com a concordância da mãe natural – Possibilidade – Hipótese onde os relatórios social e psicológico comprovam condições morais e materiais da requerente para assumir o mister, a despeito de ser homossexual – Circunstância que, por si só, não impede a adoção que, no caso presente, constitui medida que atende aos superiores interesses da criança, que já se encontra sob os cuidados da adotante há mais de 3 (três) anos. Recurso não provido. (TJSP- Câmara Especial, Apelação Cível 51.111.015-00. Rel. Otterer Guedes, unânime, j. 11- 11-1999)118. Esses corretos entendimentos devem ser adotados em nosso ordenamento jurídico, uma vez que verificado, no curso do processo de adoção, que a adoção atenderá aos interesses do adotando e é fundada em motivos legítimos, é imperioso, que tal medida seja deferida. Sendo certo que o sentimento paterno-filial ou materno- filial emergirá independente de credo, sexo, cor, idade. E para o adotando, a adoção trará reais vantagens, posto que sairá da situação de abandono e indignidade, para ingressar no seio de uma família, onde terá chance de ser amado e protegido. Entretanto, não podemos esquecer dos problemas gerados no passado recente em decorrência do pedido de adoção partir de duas pessoas do mesmo sexo. Problema este que surgia na simples dicção do § 2º do art. 42 do ECA, uma vez que impõe para a adoção conjunta (pedido de duas pessoas), que os requerentes devam ser casados ou manter união estável, com estabilidade familiar119. 117 ANDRADE, D. C. M. Adoção entre pessoas do mesmo sexo e os princípios constitucionais. Revista Brasileira de Direito de Família, v. 7, n. 30, p. 99-123, jun./jul. 2005. 118 BRIGAGÃO, P.N. Nuances da Lei 12.010/2009. Ambiente Jurídico, 01 nov. 2012. Disponível em: https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-106/nuances-da-lei-12-010-2009/. Acesso em: 20 maio 2021. 119 BRASIL. op. cit. 1990. art. 42, § 2º. 56 A vedação caiu por terra quando do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, em 5 de maio de 2011, da ADPF 132120 e da ADI 4277121 que trouxe seus reflexos na seara do casamento civil e do próprio exercício da parentalidade. Nesse ponto lamentamos que toda a evolução doutrinária e jurisprudencial não seja refletida em Lei, no que tange a regulamentação da união homoafetiva, em nosso ordenamento pátrio. Nossos legisladores por conveniência, ou pressão de setores religiosos e conservadores da sociedade, sempre se acovardaram, quanto à legalização das uniões homoafetivas, e projetos de leis que tentaram disciplinar o tema, nunca foram votados no Congresso Nacional. Assim sendo, enquanto a covardia e o preconceito imperarem no poder legislativo, e não nos dermos conta da arrogância e inutilidade das facções religiosas em nossa sociedade, tais uniões, como fatos sociais que são, continuarão a existir e caberá ao judiciário as soluções dos casos concretos. É ainda indispensável saber que nenhum direito pode ser violado por falta de previsão legal, em decorrência do princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição (art.5º, XXXV da CF), ou seja, o juiz não pode deixar de julgar sob o pretexto de omissão da lei122. Os julgadores, face a dita omissão legal, no que tange a união homoafetiva, preenchem esta lacuna, com a exegese do art. 226, caput, da CF como norma de inclusão e seus § 3º e 4º como exemplificativos, em consonância com os princípios da dignidade humana, da igualdade, liberdade e afetividade. Para de forma extensiva, incluírem como espécie do gênero união estável, às uniões homoafetivas123. Ainda em tempos recentes, em que pese não se vislumbrar nenhum óbice na adoção por casais do mesmo sexo, sendo a sua recusa fundada, unicamente, no preconceito. Ainda há resistência o que leva alguns casais a optarem pela adoção monoparental e sendo deferida a adoção em tais casos, o adotando só terá vínculo de filiação com um dos adotantes. O que reflete claramente a cultura do “pode, mas 120 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADPF 132/RJ- Rio de Janeiro. Relator Ministro Luiz Fux. DJ: 05 maio 2011. Diário de Justiça Eletrônico, n. 198, 14 out. 2011. Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628633&pgI=46&pgF=50. Acesso em: 12 mar. 2021. 121 IDEM. ADI 4277/DF – Distrito Federal. Relator Ministro Ayres Brito. DJ: 05 maio 2011. Diário de Justiça Eletrônico: 14 out. 2011, v. 02607/3, p. 0341. Disponível em: https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/20627236/acao-direta-de-inconstitucionalidade-adi-4277-df- stf. Acesso em: 12 mar. 2021. 122 BRASIL. op. cit. 1988. art.5º, XXXV. 123 Ibidem. art. 226, caput, § 3º e 4º. 57 não pode muito”. Tendência muito difundida em nossa triste cultura de “fazer pela metade”, ou ainda, “à brasileira”. Face a presente realidade, levando-se em conta a certeza da longa espera, no que concerne a legislação regulamentadora das uniões homoafetivas, ganha relevância a interpretação legal, aplicando-se a analogia e os princípios gerais do direito, como determina a LINDB (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro), a fim de se atender os anseios de um grupo social e de crianças que desejam uma família que as acolham, as amem e as protejam. Por outra vertente, a adoção por casais homoafetivos, é deferida com base nos princípios constitucionais da convivência familiar, do superior interesse da criança e da doutrina da proteção integral, nos termos do art. 227 da CF e do art. 4º do ECA. E ainda, pelo fato das reais vantagens para o adotando, e ter como fundamento, motivos legítimos (art. 43 do ECA). Segundo Maria Berenice Dias, “a adoção de crianças por homossexuais nem precisaria ser tratada de forma destacada”124. Concordo plenamente com tal assertiva, inclusive já retirei de minhas peças processuais qualquer alusão à adoção homoafetiva, mantendo, apenas, as questões gerais ligadas ao próprio instituto da adoção. Por fim, qualquer que seja a modalidade do núcleo familiar que será formado com a adoção, existindo afeto, amor, formação do vínculo parento-filial e a integração do adotado à nova família, cumprido estará o propósito maior da adoção, e, em decorrência, os princípios fundantes do direito das crianças e do adolescente. Na mesma esteira segue a jurisprudência de nossos tribunais125.´ APELAÇÃO CÍVEL. ADOÇÃO. CASAL FORMADO POR DUAS PESSOAS DO MESMO SEXO. POSSIBILIDADE. Reconhecida como entidade familiar, merecedora da proteção estatal, a união formada por pessoas do mesmo sexo, com características de duração, publicidade, continuidade e intenção de constituir família, decorrência inafastável é a possibilidade de que seus componentes possam adotar. Os estudos especializados não apontam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homossexuais, mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que as liga aos seus cuidadores. É hora de abandonar de vez preconceitos e atitudes hipócritas desprovidas de base científica, adotando-se uma postura de firme defesa da 124 DIAS. op. cit. 2016. p. 64. 125 BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Apelação Cível n. 700112801592. Rel. Des. Luiz Felipe Brasil Santos, DJ. 5.4.2006. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2006-abr- 05/justica_gaucha_autoriza_adocao_casal_homossexual#:~:text=APELA%C3%87%C3%83O%20C% C3%8DVEL.,ADO%C3%87%C3%83O.&text=Reconhecida%20como%20entidade%20familiar%2C%2 0merecedora,que%20seus%20componentes%20possam%20adotar. Acesso:15/02/2021. 58 absoluta prioridade que constitucionalmente é assegurada aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 227 da Constituição Federal). Caso em que o laudo especializado comprova o saudável vínculo existente entre as crianças e as adotantes. NEGARAM PROVIMENTO UNÂNIME (Tribunal de Justiça do RS, Apelação Cível n. 700112801592. Rel. Des. Luiz Felipe Brasil Santos, DJ. 5.4.2006). Nas palavras de Mariana Chaves: “enquanto o Legislativo cochila, o Judiciário faz valer os princípios constitucionais da igualdade e liberdade126”. 1.6 Adoção homoafetiva na atualidade A adoção homoafetiva a partir das concepções já utilizadas, com alterações para o caso concreto: é o ato jurídico pelo qual se estabelece, independentemente do fato natural da procriação, o vínculo de filiação, tendo como adotantes arranjos familiares não normativos, que rompem, inclusive, com a concepção de díades conjugais127. Trata-se de ficção legal, que permite a constituição entre duas ou mais pessoas, do laço de parentesco do primeiro grau em linha reta. O STJ, ao decidir sobre adoção realizada por duas mulheres (Recurso Especial 889.852/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 27/4/2010), teve como base diversos e respeitados estudos especializados sobre o tema, fundados em fortes bases científicas (realizados nas Universidade de Virgínia e Valência, na Academia Americana de Pediatria), que “não indicam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homossexuais, mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que as liga a seus cuidadores”.128 No supra referido Recurso constam, ainda, as seguintes constatações com fortes fundamentos científicos, das mesmas instituições mencionadas, as quais indicam129: 126 CHAVES, M. O julgamento da ADPF 132 e da ADI 4277 e seus reflexos na seara do casamento civil. JusBrasil, 2011. Disponível em: https://arpen-sp.jusbrasil.com.br/noticias/2978105/artigo-o- julgamento-da-adpf-132-e-da-adi-4277-e-seus-reflexos-na-seara-do-casamento-civil. Acesso em: 25 maio 2021. 127 DARÓS, L.E.S. Adoção Judicial de Filhas e/ou Filhos em Conjugalidades LGBTTIQ. Curitiba: Appris, 2021. P. 154/160. 128 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial n. 889.852 RS 2006/0209137-4. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. DJ: 27 abr. 2010. Jus Brasil, 2010. Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/16839762/recurso-especial-resp-889852-rs-2006-0209137-4. Acesso em:10 jan. 2021. 129 Ibidem. 59 • ser pai ou ser mãe não está tanto no fato de gerar, quanto na circunstância de amar e servir; • nem sempre, na definição dos papéis maternos e paternos, há coincidência do sexo biológico com o sexo social; • o papel de pai nem sempre é exercido por um indivíduo do sexo masculino; • os comportamentos de crianças criadas em lares homossexuais não variam fundamentalmente daqueles da população em geral; • as crianças que crescem em uma família de lésbicas não apresentam necessariamente problemas ligados a isso na idade adulta; • não há dados que permitam afirmar que as lésbicas e os gays não são pais adequados ou mesmo que o desenvolvimento psicossocial dos filhos de gays e lésbicas seja comprometido sob qualquer aspecto em relação aos filhos de pais heterossexuais; • educar e criar os filhos de forma saudável o realizam semelhantemente os pais homossexuais e os heterossexuais; • a criança que cresce com 1 ou 2 pais gays ou lésbicas se desenvolve tão bem sob os aspectos emocional, cognitivo, social e do funcionamento sexual quanto à criança cujos pais são heterossexuais. A Justiça brasileira já constituiu jurisprudência suficiente para que a adoção homoafetiva seja uma realidade indubitável e independente do legislativo, o qual continua com sua visão obtusa, covarde e violenta, vez que não consegue legislar sem preconceitos ou estereótipos preconcebidos e eivados de uma religiosidade incompatível com a laicidade do Estado brasileiro. Como bem especifica Maria Berenice Dias o que importa é o amor: A filiação socioafetiva se sobrepõe sobre qualquer outro vínculo, quer biológico, quer legal. Negar a possibilidade do reconhecimento da filiação que tem por base a afetividade, quando os pais são do mesmo sexo é uma forma perversa de discriminação que só vem prejudicar quem apenas quer ter alguém para chamar de mãe, alguém para chamar de pai. Se são dois pais ou duas mães, não importa, mais amor irá receber130. Indispensável inserir no presente texto o marco do reconhecimento das famílias homoafetivas através do julgamento da ADPF 132/RJ, e da ADI 4277, da qual retiramos a parte final do antológico voto do então Ministro Ayres Britto131: Dando por suficiente a presente análise da Constituição, julgo, em caráter preliminar, parcialmente prejudicada a ADPF 132-RJ, e, na parte remanescente, dela conheço como ação direta de inconstitucionalidade. No mérito, julgo procedentes as duas ações em causa. Pelo que dou ao art. 1.723 do Código Civil interpretação conforme à Constituição para dele excluir qualquer significado que impeça o reconhecimento da união contínua, pública e duradoura entre pessoas do mesmo sexo como “entidade familiar”, entendida esta como sinônimo perfeito de “família”. Reconhecimento que é de ser feito segundo as mesmas regras e com as mesmas consequências da união estável heteroafetiva. 130 DIAS. op. cit. 2016. 131 BRASIL. op. cit. ADF 132. 60 Importante, ainda, fixar a importância da Advogada Maria Berenice Dias, ex- desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, atual Presidente da Comissão de Direito Homoafetivo do IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família), ex-presidente da Comissão da Diversidade Sexual do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, que cunhou o termo “homoafetividade” para identificar o vínculo de afeto e solidariedade entre os arranjos familiares não normativos ou casais do mesmo sexo. A palavra homoafetividade foi inserida no mundo jurídico por Dias132 que assim trata a questão: Há palavras que carregam o estigma do preconceito. Assim, o afeto a pessoa do mesmo sexo chamava-se 'homossexualismo'. Reconhecida a inconveniência do sufixo ‘ismo’, que está ligado a doença, passou-se a falar em ‘homossexualidade’, que sinaliza um determinado jeito de ser. Tal mudança, no entanto, não foi suficiente para pôr fim ao repúdio social ao amor entre iguais. Hamad (2010)133, assim se refere às formações familiares: As pessoas sozinhas contam com os homossexuais entre elas. Por esse fato, é difícil avaliar com exatidão o número de acordos concedidos a esses candidatos. O debate na França, como, aliás no Ocidente, interessa-se por dois problemas essenciais: 1) o sucesso na integração de crianças adotadas em sua família e na sociedade de acolhimento. É um problema ainda mais difícil quando concerne à estrutura da família em sua mutação atual: pode se tratar de pessoa sozinha, muitas vezes uma mulher, ou de uma pessoa homossexual sozinha ou vivendo em casal, que cria uma criança; 2) o segundo problema concerne a inquietação geral no tocante à evolução familiar. A adoção não garante mais à criança um casal parental, e mesmo quando a solicitação é feita por um casal, este não será forçosamente mais duradouro. A família está mais e mais frágil, ela se rompe, se recompõe e às vezes em tal recomposição não se sabe mais como denominar o elo que une as crianças entre si, e, às vezes, aos adultos. A adoção não escapa mais a essa realidade. Ela tem mesmo a tendência a tornar ainda mais complexas situações já frágeis. Hamad continua a falar especificamente do lugar das adoções internacionais realizadas na França, mas não cria qualquer abordagem diferenciada a orientação sexual dos casais, vez que outras questões são as que realmente importam. E continua abordandoque a adoção não garante mais viver em uma família clássica134: A instabilidade dos casais, a taxa elevada de divórcios, o grande número de famílias recompostas, a normalização dos laços entre os homossexuais e seu 132 BRASIL. op. cit. ADI 4277. p. 08. 133 HAMAD, Nazir. Adoção e parentalidade: questões atuais. Porto Alegre: CMC, 2010. p. 18 134 Ibidem, p. 19 61 direito a ter crianças fazem que uma criança criada por seus dois pais biológicos vivendo juntos não seja mais a norma dos países desenvolvidos. [...] Para mim, uma mulher que não tem filhos em razão de sua preferência sexual não apresenta necessariamente problemas como poderia apresentar outra mulher que se diz heterossexual, as “passeia como saco de pimenta moída em sua bolsa, com o objetivo de atirar seu conteúdo na cara do homem que ousar abordá-la com outras ideias na cabeça”. A homossexualidade não é uma contradição maior para adoção, pois ela não é a invenção de um casal homossexual. Por outro lado, um casal heterossexual não induz seus filhos necessariamente a um devir heterossexual. Em troca, o que me parece condenável é a adesão de muitos ao discurso que faz da sexualidade uma preferência, como se tratasse, no fundo, de uma escolha consciente. O Dicionário Houaiss135 assim definiu o verbete família: “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária”. Assim, seja na esfera jurídica – doutrina e jurisprudência –, quer na esfera linguística, a família homoafetiva tem pleno reconhecimento como umas das várias formas de formação familiar. Como dito por Rogério Koscheck, ex-presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), tais famílias só são formadas a partir da vontade de seus membros, pois não existe forma para a procriação natural ou por descuido. Seguindo no caminho da desconstrução do preconceito: Na minha trajetória profissional, ao longo de alguns anos de atividade na área da adoção, pude perceber que crianças adotadas por famílias homoafetivas são muito amadas, cuidadas, parentadas com responsabilidade, não havendo a constatação de qualquer diferença com relação às famílias heteroafetivas ou monoparentais. Acresço a tal constatação o fato que casais ou pares homoafetivos buscam ou têm interesse voltado àquelas crianças que fogem do estereótipo mais buscado em termos de adoção. Minha análise parte do ponto que as pessoas homoafetivas tiveram muitas dificuldades na vida, a partir da assunção da orientação sexual, de um relacionamento com pessoa do mesmo sexo, assim buscam as crianças e adolescentes que também estão presas no armário da invisibilidade e que já sofreram abandonos, maus-tratos, negligência – cursos de vida similares na dor e no sofrimento136. Moreira (2014, p.577-588 apud Dias, 2016, p.94)137 traz abordagem social dos questionamentos acerca das adoções homoafetivas: Mesmo que ainda enfrente alguma resistência por parte de segmentos conservadores ligados a religiões fundamentalistas, não existe nenhuma objeção científica à adoção homoparental. O Dogma estabelecido pela sociedade e, de certa forma, transferido ao direito, consiste, em tese, da ideia retrograda de que criança necessitaria das figuras materna e paterna para se desenvolver na sua plenitude. É o Estereótipo da normalidade socialmente 135 Dicionário Houaiss. Verbete Família. 2021. Disponível em: https://www.dicio.com.br/familia/. Acesso em: 01 jan. 2021. 136 MOREIRA, Silvana. Adoção: desconstruindo mitos. Curitiba: Juruá, 2020. p. 61 137 DIAS. op. cit. 2016. p. 94. 62 imposto por grupos que, historicamente, podem ter tido as mais variadas razões para o estabelecimento de padrões, mas se encontram, agora, na retaguarda da marcha dos avanços sociais. 1.7 Adoção transafetiva Conforme explica Moreira “transafetiva é um tipo de adoção que ocorre quando um dos adotantes ou ambos são transgêneros, ou seja, uma pessoa que nasce com um sexo biológico e identifica-se com o sexo oposto”138 . Segundo Flavio Tartuce, a “transexualidade é uma experiência identitária, caracterizada pelo conflito com as normas de gênero” 139 . Transexuais são pessoas que “ousam reivindicar uma identidade de gênero em oposição àquela informada pela genitália e ao fazê-lo podem ser capturados pelas normas de gênero mediante a medicalização e patologização da experiência”140. Existem, ainda, adoções de crianças ou adolescentes identificadas como crianças transgêneras141, que podem, de igual forma, identificar a adoção como transafetiva. Em pesquisas realizadas, quase nada encontramos sobre famílias transafetivas. Um dos poucos estudos vem da minha terra natal, Alagoas, através da dissertação de Liv Lessa de Holanda sobre o tema “Pela afirmação do direito à filiação homoafetiva e transafetiva decorrente das técnicas de reprodução humana assistida no Brasil: das decisões judiciais favoráveis ruma à necessária legislação”. Holanda 2019 (p. 125) objetiva em sua pesquisa142: [...] construir academicamente, com base na avançada doutrina e nas decisões jurisprudenciais de vanguarda, argumentos razoáveis que justifiquem a regulamentação do direito à filiação originárias das técnicas de reprodução humana assistida à família homoafetivas e transafetivas. As transformações por que passou a sociedade resultam no surgimento de novos agrupamentos familiares, dentre eles, emergem as famílias formadas por homossexuais e transexuais, que viviam relegadas à invisibilidade e condenadas aos limites e ditames da heteronormatividade. É de se pontuar 138 MOREIRA. op. cit. 2020. p. 54. 139 TARTUCE, F. Transexualidade ou "transexualismo”? A construção da cidadania trans. JusBrasil, 2014. Disponível em: https://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/144342466/transexualidade-ou- transexualismo. Acesso em: 10 jun. 2021. 140 BENTO, B. O que é transexualidade? São Paulo: Brasiliense, 2008. 141 DARÓS, LINDOMAR EXPEDITO SILVA. Genitália não é gênero - transmeninas, transmeninos e a afirmação da diferença: o direito à orientação sexual e a identidade de gênero de crianças. In: DARÓS, Lindomar Expedito Silva; BUENO, Marina Fernandes (Organizadores). Escritos sobre políticas públicas e diversidade. Curitiba [PR]: CRV, 2020 142 HOLANDA, L. L. Pela afirmação do direito à filiação homoafetiva e transafetiva decorrente das técnicas de reprodução humana assistida no Brasil: das decisões judiciais favoráveis rumo à necessária legislação. 2019. 146 f. Dissertação (Mestrado em Direito) –Faculdade de Direito, Programa de Pós-graduação em Direito, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2019.Disponível em: http://www.repositorio.ufal.br/handle/riufal/5760. Acesso em: 25 maio 2021. 63 que não são famílias formadas exclusivamente pela sexualidade, mas notadamente pelo afeto. Valéria Silva Galdino Cardin e Carlos Alexandre Moraes, no artigo intitulado Do reconhecimento jurídico das uniões poliafetivas como entidade familiar (2018), discorrem sobre o poliafeto e as uniões poliafetivas, de onde transcrevemos: Os relacionamentos poliafetivos estão pautados, sobretudo, nos vínculos afetivos, os quais são criados de uma forma não-monogâmica, fugindo da norma padrão que a sociedade impõe como modelo familiar. Dessa maneira, o presente trabalho teve como finalidade analisar, pelo método teórico, o reconhecimento jurídico das uniões poliafetivas como entidade familiar. Para tanto, demonstrou-se o conceito da poliafetividade, a evolução histórica do direito de família ao qual conduziu a sociedade ao novo modelo familiar. Da mesma forma, examinam-se os princípios norteadores do direito de família, que demonstram que as uniões poliafetivas podem ter seu status familiar reconhecidos por meio do conceito da pluralidade familiar, bem como do direito a não intervenção do Estado nas relações particulares143. Moreira trata da adoção poliafetivacom os seguintes argumentos: Voltamos ao estudo linguístico por um breve momento apenas para configurar o prefixo “poli” que significa multiplicidade, assim uma adoção poliafetiva é aquela onde coexistem 3 pais ou mães, ou ambos ou mais ainda, não havendo uma prefixação do número de pessoas no exercício dessa parentalidade144. Maria Berenice Dias nomeia esse tipo de adoção como multiparental. Ela especifica que “não há como restringir o número de adotantes”, e de fato não existe forma de limitar essa multiparentalidade145. De forma interessante verificamos que sentenças em casos de parentalidade poliafetiva foram exaradas no tradicional estado de Pernambuco. Como alagoanos acostumados com o tradicionalismo da sociedade nordestina, nos causou espécie vislumbrar em um magistrado nordestino tamanha sensibilidade no seu julgar. Reconhecemos, então, que são do Recife, Pernambuco, as primeiras decisões que tomamos conhecimento sobre adoção poliafetiva, que é aquela quando uma criança passa a ter no registro, além do nome do pai e da mãe biológicos ou adotivos, mais um terceiro nome (pai ou mãe). As decisões de vanguarda na área do direito da criança e do adolescente são de lavra do Juiz Élio Braz Mendes da 2ª Vara da Infância e Juventude da capital de Pernambuco e versam, todas elas, sobre o cumprimento do princípio do superior interesse da criança146. 143 CARDIN, V. S. G.; MORAES, C. A. Do reconhecimento jurídico das uniões poliafetivas como entidade familiar. Revista Jurídica Cesumar, v. 18, n. 3, set./dez. 2018. Disponível em: https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/6870. Acesso em: 25 maio 2021. 144 MOREIRA. op. cit. 2020. p. 84. 145 DIAS. op. cit. 2006. 146 MOREIRA. op. cit. 2020. passim. 64 CAPÍTULO 2 CONTAÇÂO DE HISTÓRIAS OU DAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIAS Êh, vida, vida, que amor brincadeira, à vera Eles se amaram de qualquer maneira, à vera Qualquer maneira de amor vale a pena Qualquer maneira de amor vale amar Pena, que pena, que coisa bonita, diga Qual a palavra que nunca foi dita, diga Qualquer maneira de amor vale aquela Qualquer maneira de amor vale amar Qualquer maneira de amor vale a pena Qualquer maneira de amor valerá Eles partiram por outros assuntos, muitos Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito Qualquer maneira que eu cante esse canto Qualquer maneira me vale cantar Eles se amam de qualquer maneira, à vera Eles se amam, é pra vida inteira, à vera Qualquer maneira de amor vale o canto Qualquer maneira me vale cantar Qualquer maneira de amor vale aquela Qualquer maneira de amor valerá Pena, que pena, que coisa bonita, diga Qual a palavra que nunca foi dita, diga Qualquer maneira de amor vale o canto Qualquer maneira de amor vale me vale cantar Qualquer maneira de amor vale aquela Qualquer maneira de amor valerá (Milton Nascimento. Paula e Bebeto) Contação de histórias de vidas do ponto de vista das jovens e dos jovens que foram adotados por casais homoafetivos. São histórias construídas por eles e elas, a partir dos sentimentos deles e delas. Algumas podem lembrar a princesa resgatada do castelo do dragão que viveu feliz para sempre, noutras um sentimento maior de dor, sofrimento, insegurança. Essas são as históricas de cada um, contadas por quem as conhece, conhece seus pais e suas mães, vibra com cada conquista, inquieta-se com as angústias e indefinições de um mundo complexo, complicado, que subtrai um pouco da nossa alegria a cada dia. Com os relatos pude vislumbrar o crescimento de crianças agora adultas, suas trajetórias, verificar como a adoção foi a linha de corte entre ter e não ter futuro. A amostra é direcionada, pois, em tempos pandêmicos não há como ampliar a amostragem. Poderia buscar outros e outras, talvez, mas a adoção homoafetiva tem seu marco inicial em 2009 e o segundo marco em 2011, em função de decisões dos tribunais superiores conforme já tratado. Sendo assim, não existem tantos jovens com 65 capacidade civil suprida, adultos, maiores, sendo a maioria ainda crianças e adolescentes. Os jovens e as jovens identificam-se da forma que gostam de ser denominados, a grande maioria autorizou o uso do próprio nome, mas preferimos a identificação poética, e fiz a escolha de músicas para cada um(a) deles e delas. Começando com música, finalizando com música. Penso nas vidas alteradas, transmutadas, refeitas, descontinuadas e repaginadas numa outra formação, conjuntura, onde os afetos se fazem presentes, onde a possibilidade da expansão do eu interior, até então por uma vida sem oportunidades de afetos, avanços e crescimentos. Nessa trajetória da contação de histórias não intenciono demonizar as famílias de origem. As construções familiares não se baseiam apenas no ECA, lei fria e abstrata, e que, apesar de tudo dispõe sobre a proteção integral de crianças e adolescentes. Daí que temos na sua aplicação as temperanças necessárias, valorando os momentos e os fatos para sua aplicação, com o fito de conceder um mínimo de cidadania a quem corre o risco de não a ter. Com o propósito, talvez, de não as igualar aos adultos no modo de pensar citado por Louis Pergaud (1882-1915 in “A guerra dos botões”): “Pensar que quando formos grandes talvez sejamos tão estúpidos como eles”147. Obviamente que não é isso o que almeja a justiça ao destituir o poder familiar de genitores que descumprem com os deveres inerentes ao poder familiar, e de conceder a parentalidade responsável por sentença de adoção a terceiros não ligados pela mesma cadeia de DNA ao adotando. A pretensão à proteção da criança não é e não pode ser um mero discurso populista, mas uma preocupação contínua daqueles e preceito constitucional e infralegal, que, talvez, conheçam um pouco, na prática de convivência, a miséria material e moral do ser humano. Assim como qualquer criança, nossos personagens e todas as crianças têm o direito de existir por ela mesma e ser criada num ambiente de afeto, que propicie o seu crescimento físico e mental para que possa formar o seu caráter e ser um adulto feliz. Esses jovens, enquanto crianças, tiveram esse direito violados. Não podemos reputar a essas famílias de forma exclusiva a responsabilidade pelos desafetos, o Estado é coparticipe de tudo. 147 PERGAUD, Luiz. A guerra dos botões. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. 66 A ausência do Estado permeia toda a contação, estado esse que nega a educação, a cultura, a habitação, a alimentação, a saúde e desmantela o pouco que se conseguiu produzir em 521 anos desse país. Estado esse que nega a vida a crianças negras – pretas e pardas – das periferias e favelas. O Estado Mínimo vem a ser aquele onde seu papel na sociedade deve ser o mínimo possível para que o Estado consiga entregar serviços públicos de qualidade para a sociedade, com maior eficiência, deixando apenas nas mãos de iniciativas privadas funções consideradas não essenciais. Para, Norberto Bobbio em “Dicionário da Política” o Estado Mínimo é: “…a noção corrente para representar o limite das funções do estado dentro da perspectiva da doutrina liberal”148. Ocorre que o Brasil abandona o Estado do Bem-estar Social, conhecido com welfare state149, sem sequer tê-lo atingido. E é nessa toada de desalento com o nosso Brasil que contamos as histórias de Linda, Bailarina, Modelo e Pensativa e do Escritor. Cinco jovens que tiveram a chance de reinventar a própria trajetória. Antes de contar as histórias preciso pontuar aquela que não escrevi, a do menino Europeu e, também, pontuar a história da reverenda Alexya. Serão apenas pontuações, pois, não conseguimos evoluir na história do Europeu e a história de Alexya e filhos e filhas ficará para um novo trabalho. 2.1 O Europeu O Europeu, 23 anos, mudou com seus dois pais e seu irmão, hoje com 18 anos para um dos países mais evoluídos da Europa, pois um de seuspais possui dupla cidadania. Os motivos para a mudança dos pais foram os prenúncios de um contexto sociopolítico marcado pelo recrudescimento, onde dois homens com dois filhos homens, sendo um deles o Europeu, rapaz negro, não teriam a tranquilidade 148 BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de política. Brasília, DF: Editora UNB, 1992. 149 O welfare state é um modelo de Estado assistencialista e intervencionista, fundado nos direitos sociais universais dos cidadãos. Nele, o governo é responsável pela garantia do bem-estar social e qualidade de vida da população, além da promoção da igualdade. Além de criar políticas sociais que asseguram saúde, educação e moradia, esse tipo de governo intervém para regular a economia e se sustenta com um sistema tributário de grande peso. No entanto, a crise fiscal acabou inviabilizando o modelo na maioria dos países do mundo. CAPITALNOW. Welfare state: o que é e quais suas características? 2020. Disponível em: https://www.capitalresearch.com.br/blog/investimentos/welfare- state/. Acesso em: 18 abr. 2021. 67 necessária para viver. Viver na amplitude da palavra vida, do direito constitucional à vida. Viajei até o país onde mora a família, aproveitando o momento anterior à pandemia, mas não foi possível realizar a entrevista com o Europeu. O Europeu, sem maiores discussões, diálogos ou conversas, simplesmente sumiu de casa e não se sabe os rumos que tomou na vida. Os pais entraram em profundo sofrimento, não conseguem, quase dois anos depois da saída do Europeu, saber as razões da sua saída. A família, onde se inclui o irmão, está em sofrimento, com angústias sobre como está o filho e irmão, o que tem feito, como vive, como está lidando com a pandemia. Conheço o Europeu desde 2009, foi durante muitos anos amigo da minha filha, pois têm idades próximas. Nada poderia indicar esse desfecho, pois, fazia parte do desejo da família como um todo o desejo de morar na Europa. A saída do Europeu do núcleo familiar se deu depois de já se encontrar com a nacionalidade europeia. 2.2 Reverenda Alexya, a história de uma família homotransafetiva Alexya, uma amiga querida, casada com Roberto e mãe de Gabriel, um garoto com deficiência. Mulher trans, professora. Roberto, homem cis-hétero e professor. Nos conhecemos no Congresso da ABRAFH – Associação de Famílias Homotransafetivas. Hoje Alexya é vice-presidente da associação. Uma noite recebi uma mensagem por WhatsApp perguntando se conhecia no meio LGBT+ algum casal habilitado para criança transexual. Imediatamente pensei em Alexya. A ligação foi rápida, perguntei se o casal estava habilitado e ela respondeu que sim. Então passei a Alexya a história de Ana Maria, que se encontrava numa instituição de acolhimento na cidade de Jaboatão, estado de Pernambuco. O IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família aborda essa questão em 2016150: 150 IBDFAM. Justiça de Pernambuco concede guarda de criança transexual para mulher trans. 2021. Disponível em: https://ibdfam.org.br/noticias/6135/Justi%C3%A7a+de+Pernambuco+concede+guarda+de+crian%C3 %A7a+transexual+para+mulher+trans. Acesso em: 18 abr. 2021. 68 Uma juíza de Pernambuco concedeu a guarda de uma criança transexual para um casal de professores de Mairiporã (SP). O caso chamou a atenção, pois a mãe da menina, A.L.E, 35 anos, também é transgênero. Os pais, que já haviam adotado um menino especial, estão muito felizes e consideram a chegada da nova integrante da família uma grande vitória. “Meu companheiro e eu estamos casados há sete anos e sempre nutrimos o desejo de ter filhos. Em agosto de 2014, numa visita ao abrigo de nossa cidade, conhecemos o G. Todo o processo durou um ano e dois meses até que, em 2015, nos foi dada a guarda. Agora, estamos ainda mais realizados com a adoção da A.M”, conta a mãe das crianças. Antes de ser adotada pela nova família, A.M, 9 anos, que nasceu menino, mas sempre se identificou como garota, viveu por um ano e meio em um abrigo, localizado em Jaboatão dos Guararapes (PE). O casal a encontrou através dos serviços da Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado (CIJ) e da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) de Pernambuco. De acordo com Patrícia Gorisch, presidente da Comissão de Direito Homoafetivo do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), as transexuais ainda encontram muitas dificuldades no Brasil. “A identidade de gênero é pouco entendida pela sociedade e pelas pessoas que poderiam mudar a questão. Nós não temos políticas públicas de inclusão social e o panorama brasileiro é muito ruim. Dados recentes da Organização dos Estados Americanos (OEA) indicam que somos o país com maior número de mortes de travestis nas Américas “, afirma. A.L.E explica que, por ser transgênera, poderá ajudar a filha a superar o preconceito e ser uma pessoa feliz e realizada como ela é. “Busco passar para ela tudo o que aprendi sozinha na vida, no enfrentamento diário do preconceito, a fim de que minha filha não vivencie o que já experimentei um dia. Ela está radiante, frequentando a escola, que a recebeu muito bem, e adorando ter um irmãozinho. Parece que são gêmeos”, conta. Conforme a advogada Patrícia Gorisch, o caso de sucesso entre mãe e filha transgênero é muito importante e nos mostra que a cirurgia para readequação de sexo deve ser realizada apenas quando a pessoa sentir que é extremamente necessária. “Ninguém é obrigado a fazer um procedimento cirúrgico para ser quem é. Além de ter que esperar anos na fila, a pessoa poderá enfrentar sérios transtornos. Não é justo obrigar alguém a se mutilar, pois a transexualidade não é opção”, diz. Patrícia afirma ainda que, neste caso, a jurisprudência terá um papel muito importante. “Com a concretização desta adoção, finalmente teremos essa discussão em nosso judiciário. A juíza teve muita sensibilidade ao conceder a doação de uma criança trans para uma mulher também transexual. Considero um marco para a Justiça e para a causa”, completa. A amizade com Alexya solidificou-se, nunca perdemos o contato, conversamos eventualmente e sempre, quando apresento adoções homoafetivas nas aulas dos cursos de pós-graduação que ministro, seminários, congressos e grupos de apoio à adoção, peço a autorização da família para trazer as fotos e a história, por mais que já se encontre devidamente publicizada. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas... cai. Uma outra noite recebo uma mensagem sobre uma menina transexual no interior de São Paulo. Mais uma vez liguei para Alexya que, mais uma vez, disse estar com a habilitação 69 válida para uma criança pequena. Disse que não era tão pequena e Alexya, Roberto, Ana Maria e Gabriel receberam Dayse. A história de Alexya e sua família está publicada em vários locais, assim trazemos a publicação da UOL:151 Sempre tive o sonho de ter filhos. Vim de uma família muito grande e, desde muito jovem, dizia que queria ter pelo menos três. Mas não imaginava que eu seria mãe, muito menos que eu seria a mulher que eu sou hoje [Alexya fez a transição de gênero aos 28 anos]. Quando me casei com o Roberto, há 12 anos, fomos nutrindo esse desejo, até que nos sentimos prontos para ser pais. Em 2014, eu já tinha feito a minha transição, e comecei a pesquisar histórias de mulheres trans ou travestis que tinham passado por um processo de adoção, e não encontrei nada. Isso me deu muito medo. Fomos conversar com a Cecília Coimbra, advogada especialista em adoção há mais de 18 anos, e ela disse: No ano seguinte, encontramos o Gabriel, nosso primeiro filho, que é um menino com necessidades especiais. Quando nós conhecemos ele, entramos no Cadastro Nacional de Adoção, e durante todo o processo eu tive medo da adoção ser interrompida por preconceito, algo assim. Se eu falar que em algum momento eu fui tratada com preconceito ou violência de forma direta, estarei mentindo, mas sofri como preconceito velado: olhares, desconfortos, sabe? Na época, eu ainda não tinha retificado meus documentos, e as pessoas claramente não estavam acostumadas a ver uma mulher trans tentando ser mãe. A gente fala tanto de adoção homoafetiva, de família homoafetiva, mas ainda não fala em famílias transafetivas. Em outubro de 2015, eu saí do fórum com a documentação que dizia que eu e Roberto éramos os responsáveis pelo Gabriel. Detalhe: a juíza teve a sensibilidade de usar meu nome social nos documentos. Foi uma conquista dupla. Aquela foi a primeira vez que uma travesti saiu do fórum com seu marido e uma criança adotada por meios legais. Ali, eu me tornei mãe. Mas ainda faltavam duas crianças para minha família ficar completa. A gente não tinha pressa, queríamos curtir a chegada do Gabriel, mas sabíamos que queríamos mais filhos. A história se repete Em agosto do ano seguinte, meu telefone tocou. Era a Christiana Caribé, juíza da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes (PE). Ela tinha visto uma entrevista minha, na TV, dizendo que tinha o sonho de adotar uma criança trans, e me ligou porque tinha uma criança com características de ser uma menina trans na comarca dela. Perguntou: "Quer conhecê-la?". Em duas semanas, compramos passagem e fizemos reserva num hotel. Nesse período, fizemos aproximação com ela por vídeo. A psicóloga do abrigo filmava a rotina dela e mandava para a gente, e nós filmamos a nossa rotina para ela conhecer. Fizemos imagens tomando café da manhã, levando o Gabriel para a escola, indo para a igreja [Alexya é reverenda em uma igreja de São Paulo], brincando com os cachorros. Numa conversa por telefone, antes de eu conhecê-la pessoalmente, ela pediu: "Mainha, me traz roupa de menina?". Ela não queria sair do abrigo vestida de menino. Pediu vestido, calcinha, sutiã. Tudo aquilo tinha sido negado para ela. Em setembro, fomos para Jaboatão, e nosso encontro foi lindo. Quando eu desci do carro e vi aquele muro alto do abrigo, me deu a sensação de que ela 151 SALVADOR, Alexya. Minha história: “Fui a 1ª travesti a adotar no Brasil. Hoje, sou mãe de duas meninas trans". [Entrevista cedida a] Marina Gonzalez. Universia, [São Paulo], 2 abr., 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/04/12/fui-a-1a-travesti-a-adotar-no-pais- tenho-duas-filhas-trans.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 18 abr. 2021. 70 ia nascer. Quando abriram a porta, ela veio correndo lá de dentro gritando "mainha, mainha". A gente chorou muito, o pai também. Perguntei para ela qual nome queria usar, e ela pediu que eu escolhesse, afinal, eu já era mãe dela. Eu sempre quis que minha primeira filha tivesse o nome da minha mãe, então escolhi Ana Maria. Passamos pela audiência de guarda, e saímos do fórum com ela sendo a nossa filha. Nossa família, que já existia, estava ganhando mais cor, mais forma, mais sabor. Além disso, naquele dia, ela também teve o nome social reconhecido pela primeira vez, e os papéis da guarda foram impressos com nome Ana Maria Evangelista Salvador. Isso me deixa muito aliviada, porque ela vai viver uma realidade diferente da minha: não vai conhecer a transfobia do balcão, não vai ser chamada por um nome que não é o seu em voz alta, com todo mundo olhando. Em 2019, a gente viu a história se repetir: meu telefone tocou novamente, porque outra menina trans, de 7 anos, estava à espera de adoção em Santos [litoral de São Paulo]. No mesmo dia, pegamos o carro e fomos até lá para conhecer a nossa terceira filha. Quando chegamos, ela já se apresentou como Dayse. Era uma menina. Uma semana depois, o juiz nos deu a guarda dela. Hoje, ela passa no ambulatório de crianças trans do Hospital das Clínicas de São Paulo, junto com a Ana. Família transafetiva Nós somos uma família como qualquer outra: a gente dá amor, educa, coloca no cantinho da reflexão quando um deles faz alguma coisa errada. Mas carregamos essa bandeira de ser uma família transafetiva. Depois da adoção da Ana, comecei a ouvir histórias de crianças que se encontram em situação de acolhimento pelo estado e são trans, de várias idades. Elas ainda são invisíveis, e não têm suas demandas atendidas, seus direitos garantidos. Tanto a Ana quanto a Dayse me contam algumas falas bastante transfóbicas que ouviam dentro dos abrigos, coisas como "você não é uma menina, e papai do céu castiga se você falar isso". Embora tenha feito a transição com quase 30 anos, eu fui uma criança trans sem saber, sem ser identificada dessa forma. Por isso, meu trabalho é garantir que as minhas filhas não passem pelo que eu passei. Sei que a Ana e a Dayse têm em mim um modelo e eu tento ser a melhor mãe possível para garantir que elas possam continuar crescendo com seus direitos garantidos, suas demandas atendidas, e, ao mesmo tempo, com experiências de qualquer outra criança ou adolescente. Ser pai e mãe não é simplesmente ser pai e mãe, tem que ter vocação. Não é fácil educar, e meus três filhos têm históricos de abandono e violência. Eles lembram de tudo isso. A Ana, por exemplo, conheceu vários casais que desistiram da adoção porque ela dizia que era uma menina, dava sinais de ser trans. Para além da rejeição da família genitora, ela foi rejeitada por outras famílias até ser adotada. Mas uma criança trans é uma criança como qualquer outra. Toda criança, cisgênero ou trans, vai ter demandas particulares. Minhas filhas fazem acompanhamento no ambulatório trans, e minhas sobrinhas, por exemplo, fazem tratamento médico para a asma. Elas têm que tomar remédio e ir a consultas com determinada frequência, exatamente como as minhas filhas. Todos os dias vejo notícias de adolescentes trans que são mortas, esfaqueadas. Nessas horas, abraço minhas filhas muito forte, e fico aliviada por saber que eu e meu marido conseguimos garantir que elas tenham uma vida plena, sem medo. A gente sabe que a maioria das meninas trans de 15 anos, como a Ana, não têm apoio da família e nem do estado, estão por aí, sozinhas, numa sociedade que quer nos ver mortas. Eu digo às minhas filhas: "Vocês podem ser o que quiserem, mamãe e papai vão apoiar em tudo". Meu sonho é que os três cresçam com acesso à cidadania e direitos garantidos. Mas, acima de tudo, quero que os três sejam muito felizes, que vivam a vida de maneira leve, com as profissões que eles quiserem, com a família que eles decidirem formar." 71 * Alexya Salvador, 37, é pastora e coordenadora pedagógica em uma escola de São Paulo. Meu desejo de abordar a situação de crianças e adolescentes transgêneros persiste, mas entendo não ser o foco do presente trabalho. Contudo, não há como não mencionar essa bela história. 2.3 A vida na visão de Linda ... Linda, conte a mim teu segredo Pro meu sonho, diga quem é você Livre, nunca mais tenha medo Pois quem ama, tudo pode vencer. (Kiko Pereira e Tavinho Paes. Linda Demais) Linda escolheu ser Linda e cria um ambiente de carinho ao chamar-me de tia. De fato, conheço-a desde os 11 anos quando ainda não se considerava linda. Linda foi adotada aos 11 anos por seus pais Roger e William juntamente com seus três irmãos, Carla, de 2 anos; Luiz, de 1 anos e Luiza, de 4 meses. Linda começa sua narrativa lembrando da história de Nico e Felix. O pai Roger sempre conta essa história quando conversa sobre a adoção dos filhos. Ele diz que a preocupação sempre foi muito grande com Linda, por ser a mais velha. Então, no segundo encontro Linda perguntou a Roger se ele e William eram irmãos. Roger respondeu que não, que eram casados. Linda, naturalmente, disse que eles eram iguais a Nico e Félix152. Linda lembra que estava em um abrigo de famílias com a genitora, o padrasto e seus três irmãos. Uma Kombi os levou para um abrigo de crianças, retirando-os daquele abrigo de adultos devido à falta de cuidados protetivos naquele equipamento. Lembra, também, que a genitora não maltratava os filhos, mas permitiaque o padrasto maltratasse. Segundo ela, sua genitora era totalmente submissa ao padrasto. Durante o acolhimento na instituição para crianças, Linda sentiu-se criança, brincava e estudava na escola pública do bairro. Nas conversas com a psicóloga e com a assistente social do abrigo sempre reforçou que desejava ser adotada junto com seus irmãos, nunca sozinha. Chegou a ser perguntada se gostaria de ser filha única, mas linda sempre expressou sua vontade de ser adotada em conjunto com 152 Casal de uma novela que estava em exibição à época ou que tinha passado recentemente. 72 seus três irmãos. Essa noção de manutenção dos laços fraternos sempre esteve presente em Linda. Linda lembra do primeiro encontro com seus pais, diz que tinha muita gente em cima deles, muitas crianças, parecia uma festa. Lembra que Roger e William deram atenção para todas as crianças. Linda perguntou se eles estavam ali para adotar ela e os irmãos e disse a eles, mostrando o livro, que gostava muito de estudar inglês e perguntou se eles falavam inglês. Ficou muito feliz quando soube que ambos falavam inglês. Linda acredita que já era um prenúncio da vida na Inglaterra. Quando foi morar com seus pais, Linda passou a estudar em uma escola perto de casa. Em pouco tempo, com a ajuda dos pais e de uma explicadora contratada para auxiliá-la, Linda já ganhava prêmios no colégio. Linda foi uma excelente aluna nessa escola onde foi estudar, praticamente sem estar alfabetizada. Linda fala da orientação sexual de seus pais com muita facilidade, não se sente diferente por ter dois pais, mas ambos sempre a alertam para ter cuidado, pois vivemos tempos de intolerância. A família há cerca de onze meses, no início de 2020, mudou-se para a Inglaterra, para uma cidade próxima a Londres, na chamada countryside153. Linda foi com William inicialmente em função do mestrado do pai. Roger e as três crianças menores seguiram em setembro, início do ano letivo. As lembranças do passado, de sua vida anterior, ainda trazem sofrimento, mas entende que com amor e cuidado esse sentimento vai ficar cada vez menor. Gostaria de ter sido mais protegida por sua genitora. Não observo em Linda ódio, mas mágoa pela desproteção de sua infância. Linda, quando narra suas memórias, pausa sua fala, embarga a voz, essa lembrança traz imagens dos maus-tratos impingidos por seu padrasto que, mesmo sendo do conhecimento de sua genitora, não foram por ela coibidos. Importante, agora, abrir parênteses para tratar da genitora de Linda, mulher negra, humilde, desassistida pelo estado, com deficiência mental e portadora de HIV. A padrasto de Linda, homem violento, provedor da família, que concedia à mãe de Linda uma psseudossegurança, fazendo com que essa mulher não conseguisse, 153 Em livre tradução do inglês, “cidade no campo”. 73 dentro de sua limitação intelectual, vislumbrar o quanto a presença daquele homem era perniciosa para toda a prole. Importante pontuar que, para uma mulher hipossuficiente, com gap intelectual, portadora de HIV, sem condições de prover o próprio sustento e de seus rebentos, a submissão torna-se uma característica comum. O Estado, por sua vez, não acolhe tais mulheres, pois a situação do Brasil é do encaminhamento para o estado mínimo, abandonando o Estado do Bem-estar, o estado assistencial que garante padrões mínimos de educação, saúde, habitação, renda e seguridade social a todos os cidadãos. Linda se recompõe a partir de lembranças felizes trazidas por mim, sobre como chegou ao Grupo de Apoio à Adoção Pós-Natal da Adoção, em 2014, onde era a maior das crianças. Linda chegou ao pós-natal com os pais e os três irmãos e frequentaram o grupo até 2018, sem faltar. Daquele momento até hoje Linda floresceu, tornou-se uma mulher. Linda se considera uma jovem feliz, uma adulta, negra, empoderada, com cabelo afro, do tipo mulherão. Linda diz se sentir muito amada pelos pais e familiares extensos de ambos. Para Linda, a adoção foi um divisor de águas na sua vida e de seus irmãos, pois, em suas palavras, toda criança quer amor, liberdade, ser amada. Para ela o abrigo é uma prisão, um local que não é adequado para viver154. Linda se identifica como mulher negra, linda, cis-hétero, completa e determinada, mas se considera muito tímida. Linda também se diz divertida, feliz e sociável. Aprendeu com os pais a ser inclusiva e a respeitar a diversidade, e nunca foi uma pessoa que tivesse qualquer sentimento homofóbico. Além da ótima convivência com a família extensa, Linda pontua a importância dos padrinhos, Maria e Nilo. Com Maria Linda discute os assuntos e tira suas dúvidas do mundo feminino. Maria é a figura feminina de referência escolhida por Linda. Diz que vivenciou vários preconceitos no Brasil, inclusive por ser negra e ter dois pais, considera que o preconceito é racial, pois quando a viam com seu pai Roger, 154 ALTOÉ, Sônia. Infâncias perdidas: o cotidiano nos internatos-prisão. Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1990. 74 branco, sempre sentia um olhar de desconfiança. Relata, inclusive, situação ocorrida em uma das estações do metrô onde ela e o pai foram alvo de vários olhares de desconfiança. Na Inglaterra, Linda relata nunca ter sofrido qualquer tipo de preconceito, atribui ao fato de estarem em pandemia e com quase nenhuma exposição pública, pois acredita que a homofobia e o racismo existem em todos os locais do mundo e não acredita que na Inglaterra seja diferente. Linda deseja que as crianças que estão na situação em que ela se encontrava com os irmãos, recebam amor e carinho, pois todas merecem uma família. Para ela, a adoção lhe trouxe, e aos irmãos, a felicidade, o pertencimento. Antes ela relata sua vida como triste e vazia, hoje se encontra plena de amor e passou a ter brilho. 2.3.1 Sobre os pais Os pais Roger e William vivem em união estável desde 2007, com escritura de união estável firmada em 2013, casaram-se em novembro de 2018, certos de que a força do afeto se sobreporia a todas as dificuldades, problemas e preconceitos. Com determinação conquistaram o apoio e o respeito da família e de grande parte dos antigos amigos. Trata-se de uma família homoafetiva na verdadeira acepção da palavra. Os pais se habilitaram à adoção na Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro, capital, com processo iniciado em 2013 e encerrado em 2014, com sentença155 favorável. 155 Cuida-se de processo de jurisdição voluntária de Habilitação para Adoção, formulado por Roger e William. A inicial vem instruída com os documentos de fls. 02/61. À fl. 63 foi despachada a inicial, determinando-se o integral cumprimento do disposto no art. 197-A e 197-B da lei 8.069/90. Relatório da Equipe Social, à fl. 65/69, com parecer favorável ao pleito do casal homoafetivo. No mesmo sentido, às fls. 70/74, note-se informação da Equipe de Psicologia favorável ao requerimento do casal. À fl. 81, manifestou o Ministério Público pugnando pelo deferimento do pedido de Habilitação para Adoção. É o relatório. Passo a decidir. Em caso vertente, percebe-se que os autos versam de pedido de Habilitação para Adoção, elaborado por casal homoafetivo que tem por escopo a Adoção. Conforme relatado, os laudos produzidos pela Equipe Técnica lotada neste Juízo são incontestes ao afirmar que o casal em epígrafe reúne todas as condições afetivas, financeiras e psicológicas para receber uma criança em Adoção. Outrossim, o MP pugna pelo Deferimento da aludida Habilitação, tendo em vista que todas as exigências legais foram supridas. Pelo exposto, DEFIRO a Habilitação e inclusão dos Requerentes no Cadastro de pessoas interessadas em adotar. Dê-se ciência ao Ministério Público. Remetam-se os autos ao Serviço Social para expedição de Certificado de Habilitação para Adoção e competente Registro, cientificando-se os Requerentes das crianças disponíveis àAdoção. Após, encaminhem-se os autos ao Cartório para baixa e arquivamento, até ulterior indicação de criança ou adolescente. P.R.I. 75 Roger e William, então com 58 e 44 anos, respectivamente, buscavam a concretização de uma grande família, para tanto iniciaram procedimento de habilitação na comarca da capital onde obtiveram a habilitação. Nunca duvidaram de que realizariam tal sonho, vez que desde sempre este foi o projeto de vida: a construção de uma família completa da qual participariam: os pais de ambos, Catharina (filha biológica do Roger), os irmãos e sobrinho de William, seus tios e primos, seus irmãos escolhidos, seus amigos - em suma, toda a família extensa e envolvida em seus projetos. Os pais nunca pensaram em procurar caminhos para terem filhos biológicos, sendo a opção, desde que começaram a projetar esse futuro, a adoção. Receberam uma indicação para 4 crianças de outro estado e começaram a pensar nessa possibilidade e se aperceberam que quatro crianças eram viáveis de serem adotadas. Tal indicação não prosseguiu, mas a semente já fora plantada. Assim, quando foram acionados pela Vara da Infância, da Juventude e do Idoso para conhecerem os irmãos Linda, Carla, Luiz e Luiza, já se sentiam aptos para um grupo de irmãos com quatro, e não três crianças, e iniciaram a visitação dos irmãos na instituição de acolhimento onde se encontravam. Inicialmente compareceram na visitação pública da entidade de acolhimento institucional e conversaram com a Psicóloga e a Assistente Social da entidade, que os indagaram sobre suas vidas, anseios, etapas do processo, o que esperavam desse encontro etc. As técnicas conversaram um pouco sobre as quatro crianças: eram quatro irmãos com a mesma mãe (portadora de HIV e com retardo mental), mas com pais diferentes (um é genitor da filha mais velha, outro da segunda filha e outro dos dois mais novos). As crianças estavam em acolhimento desde outubro de 2013. A mais nova havia chegado uma semana depois de seu nascimento, sendo portadora do HIV. Roger e William então, conhecendo os fatos gerais acerca da situação de vida e saúde das crianças e despidos de qualquer forma de preconceito, solicitaram participar da visitação pública e com a orientação das profissionais de que não deveriam falar sobre adoção e interagir com todas as crianças. Linda lembra que quando os viu já sabia que estavam ali por ela e pelos irmãos. A impressão geral que tiveram é de uma entidade simples, mas as crianças apresentavam condições muito boas. Pareciam bem alimentadas e cuidadas, limpas e serenas. 76 Conheceram a criança mais velha, Linda, que foi muito gentil com eles. Posteriormente Carla, identificada pelas técnicas da entidade como a mais arredia e distante, sentou-se no colo de Roger por iniciativa própria. Os pais também ficaram com Luiz, o único menino dos irmãos, muito próximo e pedindo colo e carinho. Uma das cuidadoras trouxe a bebê Luiza do berçário e a deixou com os pais. A partir da primeira visitação o casal entendeu que os quatro irmãos eram seus filhos e comunicaram a vara a intenção de permanecer na fase de aproximação com as crianças. Receberam autorização para a realização de visitas diárias na entidade de acolhimento e para que passeassem com as crianças e as entregassem no abrigo ao final do passeio. Nesse período, o casal passou a conjugar as situações práticas em casa, nos trabalhos, junto às famílias, para poder receber os quatro filhos com todo o conforto possível, além de carinho, dedicação e amor. Projetaram o acompanhamento efetivo e direto dos primeiros seis meses de convívio direto, com a obtenção de licença paternidade (para Roger) e com a diminuição expressiva das atividades no escritório de William, já que consolidou uma excelente estrutura administrativa e funcional para essa finalidade. O primeiro final de semana de convivência integral com as crianças foi perfeito, a interação foi ótima. Roger e William já se posicionavam como pais e as crianças demonstravam serem seus filhos. Segundo eles lidar com fraldas, mamadeiras, carrinhos, foi uma grande aventura e se saíram bem. Os finais de semana seguintes já foram de conjugação do dia a dia da família com situações específicas, tais como: levar ao médico e ao dentista para avaliação, iniciar a terapia de Linda, visitar o futuro colégio, conviver com a família extensa, passear pelo bairro, fazer atividades culturais, jogar cartas e comer pipoca assistindo televisão. Os pais, assim como os quatro irmãos, estavam ansiosos para que a família fosse formalizada legalmente com a maior rapidez possível, mas estavam conscientes de que todo esse processo envolvido no estágio de convivência tem o lado altamente benéfico de promover a interação e o conhecimento mútuo, possibilitando a construção de um vínculo definitivo entre pais e filhos. 77 De fato, a família já estava constituída pela junção de duas famílias: o casal, que era uma família sem filhos, e as crianças formavam uma família sem mãe/pai. Quando do bom encontro, uma nova família foi constituída. As crianças também faziam birras e comportavam-se como qualquer outro grupo de irmãos na faixa etária de Linda, Carla, Luiz e Luiza. Os pais já se sentiam aptos para educá-los e direcioná-los e entendiam todas as questões envolvidas na adoção. Em suma, o estágio de convivência provou-se excelente e os irmãos sentiam- se verdadeiros filhos de Roger e William, se comportavam como filhos dos dois. O casal, por sua vez, já era afetivamente pais dos quatro irmãos que acolheram pelo carinho, pelo afeto e pelo cuidado como verdadeiros filhos. Os genitores das quatro crianças encontravam-se com o poder familiar suspenso por decisão do Juízo. Ao que se tem notícia, as crianças foram acolhidas por abandono e por ser uma família negligenciada. Com relação ao padrasto de Linda, pai dos dois irmãos menores, inclui-se maus-tratos. A criança mais nova, Luiza, foi infectada com HIV, assim como também foi infectado Luiz, por total negligência da genitora que, sequer, tinha consciência das implicações da própria doença, pois a ausência de políticas públicas sérias sobre os direitos à saúde, aos direitos sexuais e reprodutivos sempre foram uma constante na vida dessa mulher. Os genitores foram, então, destituídos do poder familiar e a adoção foi prolatada em 25 de fevereiro de 2016. Linda é o melhor exemplo da estória “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, pois a conheci aos 11 anos, tímida, de cabelinho reco, ou na régua como falam os jovens, um tanto quanto infantil para a idade, até desengonçada; hoje tenho o prazer de vê-la com exuberante cabeleira afro, amadurecida. Linda é linda, um verdadeiro cisne-mulher. Minha formação inicial em letras (português/inglês) me faz pontuar meus escritos com literatura, notadamente a infantil. Andersen personifica Linda, assim como as demais meninas que têm seu lugar social pré-definido, produzindo nela uma idealização do que a sociedade dela espera. Contudo o ser humano é mutável, vivo, em estado de constante ebulição, assim a metamorfose de Linda a faz falar de outro 78 lugar. O discurso literário transforma-se em discurso social156, quer pela mudança impressa na vida de Linda e de seus irmãos, quer pela constante transformação na vida familiar. Viajo, inúmeras vezes, no meu próprio pensamento sobre as vidas dessas crianças que floresceram com a adoção. Não apenas Linda tornou-se um belo cisne, mas resplandeceu, iluminou-se de amor e cuidado. Impossível não pensar nas milhares de outras Lindas que não terão essa mesma oportunidade de florescer, de serem filhas. 2.4 Nos bailes da vida da Menina Bailarina Procurando bem Todo mundo tem pereba Marca de bexiga ou vacina E tem piriri, tem lombriga, tem ameba Só a bailarina que não tem E não tem coceira Verruga nemfrieira Nem falta de maneira Ela não tem Futucando bem Todo mundo tem piolho Ou tem cheiro de creolina Todo mundo tem um irmão meio zarolho Só a bailarina que não tem Nem unha encardida Nem dente com comida Nem casca de ferida Ela não tem Não livra ninguém Todo mundo tem remela Quando acorda às seis da matina Teve escarlatina Ou tem febre amarela Só a bailarina que não tem Medo de subir, gente Medo de cair, gente Medo de vertigem Quem não tem Confessando bem 156 Quanto às questões apresentadas pelos autores, entende-se que o discurso constitui as práticas sociais, numa relação dialética, pois as práticas sociais, por sua vez, constituem o discurso. A noção de discurso, para a ACD, é uma representação da vida social, uma forma de “conceber e verbalizar um fenômeno social” (OLIVEIRA; CARVALHO, 2013, p. 284). Um mesmo fenômeno social pode receber diferentes interpretações, opiniões ou representações, porque é verbalizado por diferentes discursos, cada um condicionado por sua ideologia. É importante salientar que o discurso contribui “para a construção de identidades sociais, posições, sujeitos, relações sociais, sistemas de conhecimento e crenças” (OLIVEIRA; CARVALHO, 2013, p. 283), entretanto: [...] a constituição discursiva da sociedade não emana de um jogo de ideias nas cabeças das pessoas, mas de uma prática social firmemente enraizada em estruturas materiais concretas, orientando para elas (FAIRCLOUGH, 2008 apud OLIVEIRA; CARVALHO, 2013, p. 283). 79 Todo mundo faz pecado Logo assim que a missa termina Todo mundo tem um primeiro namorado Só a bailarina que… (Priscila Alcântara. Ciranda da bailarina) A história da Bailarina começa em 2014 quando seu irmão, Julinho, foi adotado pelo casal Gustavo e Daniel. Gustavo, 55 anos, jornalista, Daniel, 39 anos, corretor de imóveis, estavam devidamente habilitados à adoção em um longo procedimento iniciado, ainda, em São Paulo. Procedimento esse transferido para o Rio de Janeiro, capital, quando o casal se mudou para aquela cidade. O casal é branco, classe média alta, ambos de nível superior. O casal sempre teve perfil aberto quanto ao sexo, etnia e faixa etária da criança a ser adotada, mas tinham fixado o número de filhos: apenas um. Gustavo soube que Julinho estava disponível para adoção, recém devolvido aos 5 anos, por uma família que não se encontrava apta a lidar com uma criança, pois criança não se devolve e de adoção não se desiste. As alegações cruéis para a entrega de Julinho ao abrigo são de tamanha desumanidade e insensatez que fazem qualquer um duvidar que existe empatia entre os humanos. O casal, junto há 17 anos, com uma união sólida, com a participação e apoio de seus familiares, dirigiram-se ao Vale do Jequitinhonha, no estado de Minas Gerais, para conhecer Julinho. A viagem foi longa, cansativa, chegaram exaustos, mas, com bastante entusiasmo para conhecerem aquele que seria seu filho. Foram ao abrigo e lá encontraram várias crianças, mas Julinho se destacava: negro, magro, comprido, com um sorriso enorme, a ligação foi-se construindo desde o primeiro encontro. O casal ficou na cidade por cerca de 7 dias e na visita seguinte já o trouxeram para o Rio de Janeiro. O processo de Julinho terminou em 2014 quando ele passou a ser juridicamente o que já era de fato, filho de Gustavo e Daniel. A Bailarina tinha, então, 14 anos. Gustavo e Daniel não tiravam da cabeça aquela menina esbelta, bonita, com o mesmo sorriso largo que Julinho estampava e estampa no rosto e buscaram o abrigo, no mesmo Vale do Jequitinhonha, para saber se poderiam apadrinhar a Bailarina. 80 A resposta veio, a Bailarina gostaria de ser apadrinhada e veio ao Rio de Janeiro uma, duas vezes, conviveu com Julinho, com os pais, tios, primos, tios e tias e Julinho até que Gustavo e Daniel resolveram perguntar se ela, a Bailarina, lhes daria a honra de ser filha delas. A Bailarina tinha, então, 17 anos. E correu tudo muito rápido. Os genitores da Bailarina já tinham o poder familiar destituído. O irmão da Bailarina, o sapeca Julinho, estava super inserido na família por adoção, só faltavam os estudos, a audiência e a Bailarina voltaria a ser irmã de Julinho. E fez-se a mágica jurídica através da sentença de adoção: aos 17 anos a Bailarina tornou-se filha de Gustavo e Daniel. Com a situação na capital do estado do Rio de Janeiro, aumento da violência, ventos fortes de intolerância trazidos pelo contexto sociopolítico pelo qual passa a humanidade, sem adentrar nas questões políticas domésticas, a família, por decisão entre todos os membros, mudou para o interior do estado, para uma casa grande, com galinhas, patos, cachorros, muitas arvores e um belo pomar. A Bailarina adentrou ainda mais no mundo da dança que iniciara na capital, apresentou-se lindamente no teatro da cidade e para os pais embevecidos lá estava ela fazendo plié, tendu, jeté e outros passos. A apresentação foi festejada tanto por seus pais como para ela que não cabiam em si de tanta felicidade. A Bailarina cessou com a dança, até diz sentir saudades daqueles momentos. Hoje cursa veterinária, está com 20 anos, linda e totalmente plena. Os pais, duas pessoas orgulhosas da prole, que se dividem entre as letras, a culinária, os cuidados com os animais domésticos, são pessoas totalmente “família”, daquelas que não se desgrudam dos irmãos sobrinhos, primos, pais e filhos. A Bailarina transparece felicidade, assim como Julinho correndo de calção atras dessa ou daquela galinha, comendo uma fruta na arvore. A Bailarina, seus pais e seu irmão de 11 anos constituem uma família típica que realiza as refeições juntos, conversam bastante e discutem as questões do dia a dia. Sobre sua vida anterior à inserção em sua família, a Bailarina discorre que não podia nem tinha muitas coisas para fazer, pois vivia numa cidade muito pequena no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. A limitação da cidade a levava às limitações dos próprios sonhos. Viveu acolhida dos 11 aos 16 anos, já Julinho ficara quatro anos no acolhimento. Quando Julinho foi adotado, a Bailarina se sentiu muito só, ficou desejosa de também ser adotada e quando essa possibilidade lhe foi trazida ela deu a resposta 81 afirmativa no dia seguinte. Para ela o desejo de ser adotada partiu dela e foi traduzido por seus pais. Sua trajetória, segundo suas lembranças e marcas que traz em sua vida, foi bastante difícil, nunca, anteriormente à chegada em sua família, sentiu-se amada como filha, não conheceu o genitor e jamais teve carinho da genitora. Seus relatos sobre o passado são pausados, como se remontassem a uma vida que não é a dela, mas que traz marcas indeléveis em sua vida. Hoje, com um sorriso largo, diz se sentir muito amada, se sente finalmente filha. A Bailarina relata que a orientação sexual de seus pais, logo que os conheceu, a impactou bastante e justifica por ter passado sua infância e parte da adolescência em um lugar pequeno, com ranços de preconceito, mas que percebeu que seus pais formavam uma família como qualquer outra. Aproveita para definir a família como tranquila, aberta, onde pode falar de qualquer assunto com liberdade, recebendo dos pais as orientações que necessita. Pontua que com suas avós tem conversas mais femininas, assuntos do universo da mulher, pois com elas também tem total liberdade para tirar suas dúvidas e buscar ensinamentos. Relata ter com as avós o relacionamento natural entre avós e netas, além de se sentir segura ao tratar com elas dessas “questões de mulheres”. Continua trazendo sua família extensa relatando ter excelente convívio com seus tios e tias, como numa verdadeira família que compõe. Quanto a Julinho, relata que com ele brinca, corre, se diverte com os cachorros, pois, ele é muito infantil e adora brincar. Sente-se muito próxima ao irmão, o que considerafeliz, muito feliz. A Bailarina é uma jovem-mulher inteligente, perspicaz que se define como ainda tímida. Diz que era muito fechada, de enorme timidez e que hoje mudou muito física e emocionalmente. Diz que está mais extrovertida, que floresceu e se sente feliz. De fato, a Bailarina é uma moça linda, elegante, que se reconhece e se empodera em sua negritude. Para a Bailarina, a orientação sexual de seus pais não afeta seu próprio direcionamento, não causa qualquer tipo de problemas para ela ser filha de dois homens, relata ser uma pessoa sem qualquer tipo de preconceito e, principalmente ser uma pessoa feliz. 82 A Bailarina se identifica como uma mulher cis-hétero, no momento ainda não apaixonada, mas que deseja constituir sua família. 2.5 Nos caminhos do pensamento da Menina Pensativa Você precisa saber O que passa aqui dentro Eu vou falar pra você Você vai entender A força de um pensamento Pra nunca mais esquecer Pensamento é um momento Que nos leva a emoção Pensamento positivo Que faz bem ao coração O mal não O mal não Sempre que para você chegar Terá que atravessar A fronteira do pensar A fronteira do pensar E o pensamento é o fundamento Eu ganho o mundo sem sair do lugar Eu fui para o Japão Com a força do pensar Passei pelas ruínas E parei no Canadá Subi o Himalaia Pra no alto cantar Com a imaginação que faz Você viajar, todo mundo Estou sem lenço e o documento Meu passaporte é visto em todo lugar Acorda meu Brasil com o lado bom de pensar Detone o pesadelo pois o bom ainda virá Você precisa saber O que passa aqui dentro Eu vou falar pra… (Emicida e Martinho da Vila. Pensamento) Pensativa tem 18 anos, foi adotada por Carla, 62 anos, enfermeira aposentada, casada com Alda, 54 anos, microempresária. Pensativa tem 4 irmãos, também por adoção, Elton, 16 anos, Álvaro, 12 e Alberto, 11 anos. Pensativa está aguardando o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Pensativa assim se denominou por pensar muito na vida, no passado, presente e futuro. Diz gostar de cozinhar e que aplicará no ENEM para gastronomia, pensa em ser chef de cuisine no futuro. Atualmente trabalha como secretária no GAA onde suas mães são voluntárias. Gosta muito de lidar com o universo adotivo, diz ela. 83 Pensativa relata ter sido adotada aos cinco anos de idade. Sobre sua vida na família de origem hoje lembra bem pouco, mas diz já ter lembrado mais. Suas lembranças são de moradias em barracas, carroças, de banhos do rio. Não lembra de mais passagens de sua vida anterior, mas lembra de ser uma menina triste naquela época. Pensativa relata ter mais duas irmãs que não desejaram ser adotadas, as irmãs se visitam e mantiveram os vínculos fraternos. Hoje pensativa se considera inserida numa família de verdade, unida, diferente e muito amorosa. Pensativa é uma jovem-mulher bonita, um pouco tímida, não gosta muito de falar. Declara não ter sentido muito preconceito por ter duas mães, alguns colegas de colégio falaram sobre esse assunto, uma colega veio até sua casa e disse que as mães dela eram sapatões e nunca mais essa menina voltou a casa. Pensativa se afastou dessa menina, mas não desenvolveu sentimento de ódio por ela. Pensativa se sente bem com suas duas mães, declara gostar de ter duas mães e se sente feliz, aliás diz que é sim uma pessoa feliz. Pensativa é uma jovem negra, de belos cabelos afro, magra, esbelta e muito bonita. Se identifica como uma mulher cis-hetero. Já teve um namorado que foi aprovado por suas mães, agora se diz solteira. Pensativa mantem ótimo relacionamento com sua família extensa, diz que a avó por parte de Alda é mais protetora com ela que com os netos naturais. Cita o tio, Adelmo, irmão de Alda, como uma de suas referências masculinas. Nas famílias de ambas as mães o acolhimento se deu de forma diferente dela e dos demais irmãos, a diferença foi em termos de tempo, alguns se integraram de forma mais rápida, outros mais lentamente, mas todos se encontram acolhidos e inseridos como netos, sobrinhos, primos. Pontua que uma das irmãs de Alda, extremamente evangélica, hoje já mudou sua concepção sobre as famílias homoafetivas. Lembra que essa tia disse no casamento de suas mães que não aceitava aquela relação, mas hoje, com sobrinhos e sobrinhas, sua negação à homoafetividade foi debelada pelo amor que vê na família. Ser negra nunca afetou a vida da Pensativa, e se sofreu algum tipo de preconceito atesta que sequer percebeu. 84 Sobre sua genitora Pensativa informa que em 2020 ela tentou fazer contato, pediu fotos, mas os irmãos não quiseram abrir essa possibilidade. Alda contatou a genitora e explicou a decisão da filha. Já o genitor é morto e dele não tem lembranças. Sobre a história de Alda e Carla elas sempre nutriram o desejo de adotar, desde que já estavam juntas há 4 anos, em 2006. Pensaram muito sobre isto, discutiram, estudaram, procuraram conhecer outros casais homoafetivos que também estavam vivendo esse processo. Em maio de 2007, participaram da criação do GRAAU (Grupo de Apoio a Adoção em Uberaba) e em setembro do mesmo ano, receberam a sentença de habilitação para a Adoção. Nessa época, apesar de Alda ter participado de todo o processo psicossocial, preferiram solicitar a habilitação apenas no nome de Carla, pois estavam ainda inseguras quando ao deferimento de “adoção para casais homoafetivos”. Em outubro de 2007 foram chamadas para conhecer 02 crianças (de 05 e 08 anos) na cidade de Conceição das Alagoas-MG. Na época não havia “estágio de convivência” obrigatório e decidiram, após conversar muito com as crianças sobre a família, que iriam requerer a guarda delas. Na véspera de buscá-las, receberam uma comunicação da Vara da Infância sobre o irmão mais novo (3 anos) que não iria mais ser adotado por uma família em outro estado e os corações de ambas pediram para não separar os três irmãos. Levaram, então os três irmãos, mas a convivência com a mais velha foi mais difícil. Na realidade o desejo dela era voltar para a genitora (que prometeu várias vezes buscá-la na Instituição). Então, após nove meses de muitas tentativas a família decidiu, com o apoio do judiciário, levá-la de volta. A adoção da Pensativa e de Elton foi apenas em nome de Carla, na modalidade monoparental, em 2011. A adoção por Alda foi sentenciada em 2012, assim, ambas, constam como mães da Pensativa e de Elton, irmãos biológicos entre si. Pensativa, em 2020, soube que a genitora conseguiu o contato das irmãs mais velhas e mostrou o desejo de se encontrar com Pensativa e Elton. Discutido essa possibilidade abertamente com os filhos eles disseram que no momento não gostariam de encontrá-la. As mães respeitam o desejo deles. Na época do Processo de Alda e Carla não existia uma “fila única para a adoção” e, em 2009, foram chamadas em uma outra comarca para uma criança de 2 meses de idade. E assim chegou o Álvaro, a primeira criança a ter o nome de duas mães na 85 certidão em Uberaba e a segunda no estado de Minas Gerais (em 2011). Foi um processo tranquilo, com o apoio do Promotor da Vara de Infância157 e outros amigos advogados que estudaram muito sobre a Legislação. Por fim, ainda em 2011, foram procuradas pelo Grupo de Apoio a Adoção de Belo Horizonte para saberem sobre uma criança de 3 anos de vida, com problemas neurológicos, apta a ser adotada. Mais uma vez o coração falou mais alto e o Alberto veio completar o “Quarteto Fantástico”. As reações das pessoas em relação a adoção foram variadas, muitas incentivaram e outras acharam “loucura”. Assim foi também na família extensa: alguns aceitaram e os incluíram rapidamente; outros precisaram de um tempo maior. Nestes casos as mães respeitaram o tempo de cada um. E o que perceberam foi que, com o tempo, as próprias crianças foram conquistando a atenção, o amor, e o lugarna família. E assim seguem caminhando. Tiveram (e têm) algumas dificuldades. Tudo era muito novo para as mães e para os filhos. Cometeram alguns erros, no desejo de fazer “tudo certo”. Do outro lado, os filhos mais velhos apresentaram dificuldades com as regras e com a rotina familiar. Os mais novos necessitam de acompanhamento profissional especializado: Álvaro faz tratamento com psiquiatra, neurologista e psicólogo e Alberto com neurologia, endocrinologista e geneticista, além de equoterapia e necessita de uma mediadora em sala de aula. Mas, apesar das dificuldades, elas têm a certeza de que “Adoção vale a pena”. A vida de ambas mudou muito, é mais rica. E cada um dos filhos, com a sua história e suas particularidades vai descobrindo os seus talentos e o seu próprio caminho (Pensativa trabalha como secretaria e Elton faz trabalhos de computador para a confecção de Alda). Alguns fatores ajudam no crescimento individual e enquanto família: • Usar sobretudo a verdade, dependendo da maturidade. As mães acreditam que os filhos têm o direito de saber tudo o que se refere a eles e, conforme a situação, têm direito de tomar as próprias decisões; • Incentivar a participação de grupos onde são aceitos e onde aprendem “valores humanos” (reuniões em família, grupos de apoio a adoção, evangelização, circo teatro e grupo de escoteiros); 157 Promotor de Justiça do Estado de Minas Gerais André Tuma. 86 • Procurar ajuda de profissional quando necessário. Enfim, esta é a família: homoafetiva, interracial, formada através da adoção. Uma família como tantas outras, com dificuldades e alegrias, mas que está crescendo e aprendendo a cada dia “fazer o melhor”. 2.6 A Modelo Deixa ela passar Não olha, nem mexe Rá, ela é terrível! Ela não anda, ela desfila Ela é top, capa de revista É a mais mais, ela arrasa no look Tira foto no espelho Pra postar no Facebook Ela não anda, ela desfila Ela é top, capa de revista É a mais mais, ela arrasa no look Tira foto no espelho Pra postar no Facebook (Rá!) Onde ela chega, rouba a cena Deixa os moleque babando Na bota do bico, arruma buchicho E as invejosas xingando Ba-baladeira de ofício Não gosta de compromisso E encanta com seu jeitinho Ela não é de ninguém Mas é chegada num lancinho Quando chega no baile, ela é atração Fica descontrolada, solta o tamborzão De vestido coladinho ela desce até o chão Rá, ela é terrível! Ela não anda, ela desfila Ela é, ela é top, capa de revista É a mais mais, ela… (MC Bola. Ela é top) A modelo reside com a mãe Alexandra, sua mãe Selma reside no mesmo prédio e se encontram esporadicamente, mas sem convivência estipulada. A modelo escolheu essa denominação por gostar muito de estilo, maquiagem e moda. Ela grava tutoriais para o Instagram e posta fotos produzida. A modelo é hoje uma mulher parda, com cabelo afro, pele clara, olhos expressivos, esbelta e muito bonita. Diz não ter interesse algum em conhecer seus genitores e demais familiares de origem, se sente confortável com sua realidade biológica que nunca lhe foi negada. A modelo se diz feliz e grata a todos os envolvidos com sua vida e trajetória, inclusive os pais biológicos e suas mães por adoção. 87 A modelo diz ter feito sessões de constelações familiares e que, em razão desse trabalho, reconhece a importância de sua família biológica e de sua própria ancestralidade. Reconhece a constelação familiar como bastante útil. Quanto à própria orientação sexual, a Modelo se declara uma mulher cis-hétero, aberta a outras experiências, pois entende que o amor é dirigido à pessoa e não ao sexo ou gênero. Nunca teve experiência homoafetiva, mas não está fechada quanto a essa possibilidade, tudo dependerá do amor. Não lembra de ter frustrações ligadas à adoção, entende que seus genitores foram instrumentos ou veículos para que chegasse a sua verdadeira família. Sua origem não interfere em sua vida. Quanto à orientação sexual de suas mães, entende que interfere positivamente em sua formação, pois é uma mulher que respeita a diversidade e luta por esse respeito. Através de suas mães aprendeu a se defender e a ter uma cabeça aberta para o mundo. Já foi vítima de preconceito quando era mais nova. Alguns amigos e amigas do colégio não podiam frequentar sua casa porque ela tinha duas mães. Sentia que a homofobia em não permitirem a convivência de outras crianças com ela partia de famílias neopentecostais, que não aceitam a formação familiar homoafetiva. A Modelo entende que sempre conviveu com as pessoas certas, abertas e inclusivas como ela mesma, mas se recente desse preconceito. A Modelo prefere que suas mães sejam identificadas como lésbicas ou gays, ou homossexuais, mas não gosta da expressão sapatão – acha grosseira, além de suas duas mães serem femininas e não estereotipadas. Com relação às questões étnicas, sabe defender sua etnia negra, assim como o fato de ter duas mães e ser adotada. Convive muito bem com sua realidade própria e familiar e sabe se defender em todas as situações nas quais vive. Entende que no passado recente, ter duas mães foi algo que gerou estranhamentos, mas agora a reação das pessoas é de achar superlegal ter duas mães. Acha superinteressante essa mudança de postura. A Modelo se considera “do bem” e só escolhe pessoas iguais para se relacionar. Diz que sempre se impôs com suas características e sem negar suas origens. Não lembra ter carregado consigo tantos sofrimentos em função de sua origem ou por ter duas mães, também não considera qualquer sofrimento ser negra. 88 A Modelo se define como uma pessoa que procura resultados, que tem foco na vida profissional, mas ainda mantem uma certa confusão com alguns aspectos de sua vida, como, por exemplo, a questão racial que permeia sua existência, mulher negra, com duas mães e um irmão brancos. Para ela o mundo está em ebulição, com muitas mudanças e informações. Pontuou, positivamente, a maior união com sua mãe Alexandra em decorrência da pandemia, assim como aumentou, através de leituras sobre o racismo, seus conhecimentos sobre o assunto. Se considera responsável pelo empoderamento racial por ser mulher e negra, são bandeiras que vem não apenas de Alexandra, mas como um clamor da sociedade. Para ela esse movimento de empoderamento é muito importante, pois reconhece-se como uma criança que tinha baixo-estima, não se sentia bonita. Hoje tem autoestima elevada, se acha bela. A Modelo informa ter excelente relacionamento com a família extensa, principalmente por parte de Alexandra, a madrinha e o padrinho, a quem ama de paixão. Diz ter ótimo relacionamento com a família da mãe Selma, mas seus laços são mais estreitos com os padrinhos. A madrinha, Lucia, irmã de Alexandra, é para a Modelo uma terceira mãe. Relata que Lucia e Alex adotaram duas crianças, hoje com 6 e 8 anos respectivamente, mas antes dos primos chegarem, as atenções eram todas para ela. Acredita que ela supria a ausência de filhos de seus padrinhos. Lucia sempre foi extremamente maternal e amorosa, diferente das outras duas mães que são amorosas, mas não são carinhosas. Revela ter sentido ciúmes quando da chegada dos primos. Alexandra, sobre a questão de não ser carinhosa, atribui ao fato de ser de origem nordestina, e que os nordestinos não são de beijos e abraços, mas amam demais. Relata que o avô foi adotado e que a adoção já existia desde sempre em sua vida. Relata que sua melhor amiga é nordestina, e é carinhosa. Ainda falando sobre carinho, a Modelo diz que o irmão Paulo mudou a família, pois todas e todos são extremamente carinhosos com ele. Diz amar muito o irmão. A Modelo posiciona-se como uma pessoa feliz, empoderada, e respeita muito a criação que recebeu para sentir-se como hoje. Diz ser feliz por ter sido adotada, pois jamais poderia se imaginar compondo outra família. Ela se diz escolhidae demonstra enorme gratidão por essa escolha, termina dizendo que tudo isso é absolutamente incrível. 89 A Modelo pensa, reflexiva, e diz que são histórias de vida, trocas, complementações. Acha que as pessoas se incomodam por tanta felicidade e que “causa” quando fala da família, pois sempre foi envolta em muito amor. Considera que ser filha adotiva, irmã adotiva traz-lhe um sentimento absurdo, é como se houvesse uma conexão espiritual. Ela acredita que é porque tinha que ser, pois não há como explicar tanto amor. A Modelo conversa com o irmão sobre a adoção, vai contando a história de Paulo para ele entender o que significa ser adotado, principalmente porque Paulo, quando da separação, fantasiou que ele seria filho de Selma, e a Modelo, filha de Alexandra. Diz que não gostava da relação das mães com a genitora de Paulo, sempre sentiu que iria dar problemas no futuro. Entende que a adoção cria uma nova e única família, que não há razões para manter os vínculos com a família biológica. Ficou muito feliz quando essa convivência acabou. A Modelo diz sempre ter tido amigos caracterizados como vulneráveis e que isso é importante para ela, ajuda no exercício da empatia e da humanidade. Por fim considera-se uma pessoa em construção, muito bem resolvida com relação à adoção, feliz como pessoa. Alexandra, a mãe, solteira, de orientação sexual homoafetiva, na época com 32 anos, funcionária pública estadual, sempre nutriu o desejo de ser mãe, sonho que desejava muito realizar. Na época frequentava um centro de Candomblé onde a genitora da Modelo também frequentava, sendo uma das mães de santo do local. A genitora, mulher preta, na faixa dos 30 anos, disse a Alexandra que acabara de descobrir que estava grávida e que não tinha condições de cuidar da criança, desejando entregá-la a alguém conhecido para da criança cuidar e adotá-la legalmente. Alexandra se encheu de felicidade e via seu desejo se realizar como em um verdadeiro sonho. A etnia da criança que iria adotar não importava, pois, acreditava que sua filha ou filho seria negro como a genitora. A genitora, inclusive, questionou várias vezes Alexandra sobre a vontade de maternar uma criança negra, recebendo dela sempre a certeza de que já era a mãe da criança que a genitora carregava no ventre. 90 A modelo nasceu, sendo uma criança parda, e foi diretamente entregue a Alexandra que já tinha o quarto montado e contou com o apoio de sua irmã Lucia e de seu cunhado Alex, madrinha e padrinho da modelo. Lucia e Alex, a época, não tinham filhos e apoiavam Alexandra em tudo, apoiando a Modelo com muito amor e carinho. Alexandra ajuizou imediatamente o processo de adoção consensual em conjunto com a genitora. Em 2003 tais processos corriam tranquilamente, inclusive para pessoas não habilitadas à adoção como Alexandra. Moreira158 (2020) explica: “consensual, pronta ou intuitu personae: esse tipo de adoção ocorre quando a genitora, ou genitores, resolvem entregar o filho em adoção a determinada pessoa, ou pessoas.” No transcorrer do processo foram realizados os estudos social e psicológico quando a genitora da Modelo declarou não saber quem seria o pai da menina. Como a modelo era branca e sua mãe negra, a equipe técnica entendeu ser o pai da criança branco, mas mesmo com tal informação a genitora manteve sua versão de não saber quem era o pai. Posteriormente informou ter descoberto que o genitor era um homem casado. O genitor foi chamado à Vara da Infância e da Juventude e então questionado sobre a criança, causando nele e na genitora enorme nervosismo e inquietação. O suposto pai negou-se a assumir a criança e informou não ter desejo de fazê-lo, assim como a própria genitora disse que apenas ela faria parte do processo. Os genitores nunca mais se viram, esse foi o último encontro entre ambos. Alexandra tem pela genitora da Modelo enorme carinho, sabia seu endereço assim como das razões para fazer a entrega da criança de forma consensual, ela enfrentava problemas de ordem social, moral e financeiro. A genitora tinha muitos irmãos morando no mesmo local e ela própria já tinha um filho mais velho sendo criado pelo pai. Foi uma entrega por amor, e não um abandono. A modelo sabe de todos os acontecimentos de sua vida, Alexandra comprometeu-se, durante as entrevistas técnicas da fase processual, a nunca omitir nada da filha, entende que a verdade é uma das bases do amor verdadeiro. Em 2008, Alexandra passou a residir com sua companheira, Selma, então com 39 anos, que se preparava para concurso. 158 MOREIRA. op. cit. 2020. 91 Entre 2009 e 2010 Selma passou no concurso e manifestou seu desejo de também maternar a Modelo. Ajuizou, com a anuência de Alexandra e da própria modelo, a ação de adoção unilateral da criança que passou, com a sentença, a ter duas mães. O casal, posteriormente, em 2013, adotou Paulo, hoje com 8 anos. A adoção de Paulo também foi realizada de forma consensual, com a concordância da genitora. O casal permaneceu junto por 9 anos, quando então ocorreu uma separação litigiosa e muito complexa em 2016. Além do desgaste da separação, enfrentaram problemas com a genitora de Paulo que veio a desistir da adoção da criança. Uma das razões para a desistência da genitora foi justamente ser a criança adotada por um casal homoafetivo, pois à época da entrega acreditava estar entregando-a para uma mulher solteira. O processo foi muito sofrido, longo, desgastante, mas findou com a adoção de Paulo em 2019. A Modelo diz que se dá muito bem com o irmão Paulo, brincam muito, pois ele é uma criança. Pontua que com a separação o irmão ficou gago, pois havia muita confusão entre as duas mães, uma verdadeira guerra que refletiu nos filhos. Para a Modelo, a pandemia gerou paz entre as mães. Ela não tem um grande relacionamento com Selma, sente que na separação Selma optou por ser mãe de Paulo e não dela. Esse é um sentimento que nutre, mas, não demonstra tristeza com essa constatação. As duas mães exercem a guarda compartilhada de Paulo. Alexandra continua sozinha e Selma já se encontra convivendo com outra mulher e com casamento marcado. Alexandra diz ter priorizado a família e não deseja, no momento, outro relacionamento, mesmo declarando-se aberta ao amor. Todos tiveram COVID de forma branda, já plenamente recuperados e sem sequelas. A história da Modelo ficou complicada para Alexandra quando a filha relatou que Selma batia nela. Alexandra tem a filosofia da não violência e não aceita esse tipo de comportamento. Em função dessa realidade as mães chegaram a brigar fisicamente, e Alexandra buscou apoio psicológico para ela e a família. Passou, então, a frequentar uma igreja inclusiva onde o pastor era psicólogo e a apoiou naquele momento de intranquilidade. 92 A modelo iniciou terapia e realiza até hoje acompanhamento psicológico. Alexandra parou com a terapia, mas pretende voltar. A modelo sentiu bastante a ruptura familiar. As mães ainda estão em litígio em razão de alimentos. 2.7 O Escritor Uma bala Quase hétero Etérea, massa, complexo De não se entender Um canalha Quase hétero Ignorar amor por complexo Medo de nele se ver É necessário quebrar os padrões É necessário abrir discussões Alento pra alma, amar sem portões Amores aceitos sem imposições Singulares, plural Se te dói em ouvir, em mim dói no carnal Mas se tem um jeito esse meu jeito de amar Quem lhe dá o direito de vir me calar? Eu sou todo amor, medo e dor, se erradicar Feito o sol que ilumina a umidade suspensa do ar Homo, homo, homo Homo, homo, homo Homo, homo, homo Homo sapiens, errou Homo, homo, homo Homo, homo, homo Homo, homo, homo Homo sapiens, errou (Criolo. Etérea) O Escritor tem 20 anos, é um rapaz pardo, esquio, comprido, cabelos cacheados e fartos, mora com amigos, faz faculdade de educação física, temdois irmãos, também por adoção – que não são seus irmãos biológicos, mas irmãos entre si, Joyce e Fred, respectivamente com 18 e 16 anos. Os pais são Luiz Antônio e Manoel, professores, de 56 e 62 anos respectivamente O Escritor chegou à família adotiva aos 11 anos, uma adoção já tida como tardia, atualmente denominada adoção necessária. O Escritor completou o ensino médio com louvor, fala espanhol e japonês, tem dupla cidadania, é bailarino profissional, tem uma irmã de 18 anos, Joyce, e um irmão de 16 anos, Fred, irmãos entre si, ambos também adotados por Manoel e Luiz. 93 O Escritor hoje mora com amigos em outra cidade, cursa faculdade de educação física e alçou voo. Traduz-se como muito feliz e realizado por todo o que tem e por tudo o que aprendeu com seus pais. Hoje refez o contato com sua mãe biológica, passando com ela oito meses durante a pandemia, resgatando sua origem. Esse envolvimento o tornou mais completo. Para ele, foi importante esse resgate para entender as razões de seu acolhimento. A experiência de antes da adoção é muito dolorosa, pois sempre foi afeminado e sofria com isso. Sempre gostou de dançar, andava muito com as meninas e não gostava das atividades dos meninos, mais brutas, como futebol. Assim, não lembra da fase escolar com alegria. Viveu até os 7 anos com sua mãe biológica que, por perda do poder familiar da genitora com relação ao filho, culminou em seu acolhimento numa instituição de acolhimento e, posteriormente, colocado em acolhimento familiar, em família acolhedora, onde permaneceu por dois anos até conhecer seus pais. Os motivos para tal foram maus-tratos impingidos ao Escritor. A genitora fora denunciada ao conselho tutelar, e foi verificada a situação de risco em que se encontrava o menino. A família extensa foi consultada, mas não houve interesse em assumir a guarda da criança. Lembra que era muito levado, muito terrível mesmo, não gostava de ler nem de estudar, mas aprendeu a amar a leitura a partir dos exemplos de seus pais. Ele via os pais estudando e aprendeu a estudar e a amar a leitura a ponto de se transformar em escritor, já tendo dois livros publicados. Ele se diz muito levado, super mal-educado e que sequer sabia ler e escrever. No que se transformou deve a seus pais. Fala dos pais com gratidão e amor, entende que tudo o que é deve a seus pais, a sua irmã que é super madura e dá toques excelentes nele, e ao seu irmão caçula. As palavras do Escritor são lotadas de carinho e emoção verdadeiros. Nas palavras do menino Escritor: minha família é tudo para mim. Minha família é perfeita, lógico que tem brigas, mas é tudo para mim. Hoje se identifica como gay, mas já sentiu atração por meninas, já chegou a beijar meninas, assim não pode fechar sua orientação sexual como gay; pode ser, 94 também, bissexual. Não sente qualquer necessidade de ser rotulado com essa ou aquela orientação sexual. Passou por um momento difícil com a saída de casa, a mudança de estado, de cidade; deixar os pais e os irmãos é complexo, mas precisava vencer a inercia e a acomodação. Sobre sentir a homofobia ou a simples estranheza com a composição familiar diz que algumas vezes foi perguntado onde estava a mãe, principalmente nas festas da escola. Isso foi logo no princípio, pois, quando falava que tinha dois pais os colegas falavam que ele, o Escritor, era igual a eles, ou seja, gay. Sentia também olhares nos passeios, parques, locais públicos. Confessa que se sentiu envergonhado em algumas situações. Como o Escritor se traduz: como um menino feliz, que já passou por poucas e boas na vida, já sofreu muito, mas hoje é, sim, muito feliz; que tem muito para aprender ainda, que se frusta quando não consegue fazer coisas planejadas, por não conseguir fazer o que deseja e precisa, por não conseguir seguir em frente em seus projetos. Ele diz não entender por que não consegue prosseguir em alguns de seus objetivos, sendo esse o motivo da frustração. Essa inquietação traz sofrimentos ao Escritor. Identifica-se como uma pessoa muito boa, mas muito complicado de se lidar. Do início da família do Menino Escritor, ou de como o Menino Escritor tornou- se filho. Em 2011, dois homens, casados, receberam o chamamento da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, capital, para conhecerem o Menino Escritor, à época com 11 anos, cujo poder familiar da genitora já havia sido destituído. Esse chamado se deu em decorrência de um serviço denominado busca ativa, onde os grupos de apoio à adoção buscam pretendentes para aquelas crianças e adolescentes que não têm pretendentes. O Escritor, por ser efeminado, não tinha adotantes que tivessem interesse por ele. Os pais ingressaram com requerimento para inscrição-adoção perante o Juízo de Direito da 2ª Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Curitiba/PR em 06/10/2005. Em 20/10/2005 o Juiz de Direito da Vara da Infância e Juventude – Adoção proferiu o seguinte despacho159: 159 OLIVEIRA NETO, A. et al. Alienação parental e família contemporânea: um estudo psicossocial. 2015. Disponível em: https://crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/alienacao_parental/alienacao_parental_e_familia_conte mporanea_vol2.pdf. Acesso em: 15 abr. 2021. 95 1. Tratando-se de união entre duas pessoas do mesmo sexo, admito o pedido de habilitação com base nos artigos 42 e 50 da Lei 8069/90, combinado com os artigos 3º, inciso V; 5º, “caput” e inciso XLI; e 226 da Constituição Federal; 2. À Equipe Técnica para realização de entrevista inicial e sindicância sócio- moral-econômica a respeito dos interessados; 3. Após, abra-se vista à representante do Ministério Público. O estudo técnico dos pais foi realizado pela psicóloga e pela assistente social, na forma do relatório datado de julho de 2006, donde se destacam160: Verificamos, através das abordagens realizadas com os requerentes em tela, que estes desfrutam de condição conjugal estável, apresentam comportamento emocional ajustado, percebe-se a existência da afetividade e amor. Os candidatos possuem condições de prover à criança, recursos materiais que lhe proporcionem boa alimentação, escola, assistência médica, lazer, convivência com demais familiares e comunitária. Manuel e Luiz, desejam dar a seus filhos uma orientação sexual real das diferenças sexuais. (...) À alegação de que a adoção por homossexuais pode causar distúrbios na identidade sexual do adotado, estudo nesta área tem afastado essa hipótese, embora se reconheça que os filhos herdam muito da história de vida de seus pais. O que se verifica é que a homossexualidade dos pais, por si só não determina a identidade de gênero e orientação sexual. (...) Nas intervenções técnicas, não observamos nada que possa inviabilizar o pleito. Percebemos que os requerentes levam um (sic) ajustada, com comportamento ético e fiel aos seus princípios.” (grifos nossos). Os pais participaram, no mês de junho de 2006, do Curso de Preparação dos Pretendentes à Adoção com carga horária de 06 (seis) horas. O Ministério Público do Estado do Paraná assim manifesta-se com relação ao pedido de habilitação formulado pelos dois pais161: Diante de todo o exposto, esta subscritora, opina pelo deferimento do pedido de inscrição dos candidatos MANUEL AGUSTO e LUIZ ANTONIO, para adoção de até duas crianças (um menino e uma menina), de cor indiferente, inclusive portadora do vírus HIV, com idade entre zero e cinco anos, com base nos artigos 5º, 6º, 29, 42, 43 e 50, parágrafos 1º e 2º, todos do Estatuto da Criança e do Adolescente e artigos 3º, IV, 5º, I e X, 7º, XXX e 226, parágrafo 3º, todos da Constituição Federal e artigo 4º da LICC. (grifos nossos). Em 15 de maio de 2008 foi proferida sentença com a seguinte parte dispositiva162: 160BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. 3ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso. Processo nº 00119205420148190202,2006. fls. 2/3. 161Ibidem fl. 3. 162 Ibidem. 96 ANTE O EXPOSTO e o mais que dos autos consta, visando o melhor interesse da criança e adolescente como fundamento principal em uma adoção, JULGO PROCEDENTE o pedido de inscrição para adoção formulada por MANUEL AUGUSTO e LUIZ ANTONIO, com fundamento no artigo 50, parágrafos 1º e 2º do diploma legal supracitado, que estarão habilitados a adotar crianças ou adolescentes do sexo feminino na faixa etária a partir dos 10 anos de idade. Registre-se no livro próprio de pessoas em condições de adotar (art. 50, in fine, do ECA), com ciência à equipe interprofissional deste juízo, aguardando- se oportunidade para indicação.” Manuel Augusto e Luiz Antonio interpuseram Recurso de Apelação buscando reformar parcialmente a sentença notadamente quanto à delimitação do sexo e da idade do adotando, vez que restou fartamente demonstrado no processo, devidamente corroborado por parecer da equipe técnica daquela vara e por manifestação favorável do representante do Ministério Público a capacidade e a legitimidade dos dois em adotar uma criança. O recurso apenas foi recebido no seu efeito devolutivo163: O representante do Ministério Público, em sua manifestação, pronuncia-se pela procedência em parte do apelo para o fim de excluir a limitação relativa ao sexo e aumentar a limitação da idade para doze anos conforme preconiza da lei. (grifo nosso) A decisão foi mantida pelo juízo a quo, sendo os autos remetidos à Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná. O Promotor de Justiça, convocado para o julgamento em segundo grau, traz à seguinte conclusão164: Ante o exposto, o pronunciamento do Ministério Público de segundo grau é no sentido de que seja reconhecida a invalidade da r. sentença de fls. 155/185, que deferiu a inscrição para adoção em conjunto dos apelantes, em razão da: a) incongruência entre motivação e conclusão da decisão; b) incompetência absoluta do Juízo da Infância e Juventude para decidir incidentalmente matéria afeta ao Juízo de Família; c) violação do direito fundamental de convivência familiar de crianças e adolescentes e d) evidente violação das regras de ordem pública previstas no art. 226, § 3º da CF, art. 1622 do CC, art. 1723 do CC e arts. 19, 25 e 43 do ECA.” Os Magistrados integrantes da Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator, com a seguinte ementa165: 163 O recorrente delimita os capítulos que pretende sejam reexaminados pelo tribunal, ficando este restrito àquilo que, voluntariamente, foi impugnado por meio da interposição do apelo, ficando, dessa forma, limitado aos capítulos da sentença impugnados. Ibidem 164 Ibidem, fl. 3. 165 Recurso Extraordinário n. 846102 – Paraná/PR. Disponível em: http://www.direitohomoafetivo.com.br/jurisprudencia-categoria/sub26adocao-conjunta/37/1, acesso em 15 fev.2021. 97 APELAÇÃO CÍVEL. ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO. SENTENÇA TERMINATIVA. QUESTÃO DE MÉRITO E NÃO DE CONDIÇÃO DA AÇÃO. HABILITAÇÃO DEFERIDA. LIMITAÇÃO QUANTO AO SEXO E À IDADE DOS ADOTANDOS EM RAZÃO DA ORIENTAÇÃO SEXUAL DOS ADOTANTES. INADMISSÍVEL. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. APELO CONHECIDO E PROVIDO. (TJPR – AC -529.976-1, Rel. Juiz Conv. De’Artagnan Cerpa Sá, J11.03.2009). O Ministério Público interpôs Embargos de Declaração em face do acórdão nº 11379 proferido pela Décima Segunda Câmara Cível, os quais foram rejeitados por ausência de omissão, contradição ou obscuridade. Ato contínuo, o Ministério Público interpôs Recurso Especial e Recurso Extraordinário em face dos acórdãos nº 11379 e 1237. Ambos os recursos foram admitidos e remetidos aos Tribunais Superiores. O fundamento utilizado pelo Ministério Público para tais recursos tem base na já superada tese de que pessoas do mesmo sexo possam adotar em conjunto. Manuel Augusto e Luiz Antonio, à época da adoção do Escritor, continuavam habilitados a adoção. Eis que os recursos não foram recebidos no efeito suspensivo, ou seja, não houve suspensão da habilitação à adoção. O procedimento de habilitação findou em 18 de março 2015, com a seguinte ementa166: DECISÃO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. RECONHECIMENTO DE UNIÃO ESTÁVEL HOMOAFETIVA E RESPECTIVAS CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS. ADOÇÃO. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE N. 4.277. ACÓRDÃO RECORRIDO HARMÔNICO COM A JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO AO QUAL SE NEGA SEGUIMENTO. Relatório 1. Recurso extraordinário interposto com base na al. a do inc. III do art. 102 da Constituição da República contra o seguinte julgado do Tribunal de Justiça do Paraná: “APELAÇÃO CÍVEL. ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO. SENTENÇA TERMINATIVA. QUESTÃO DE MÉRITO E NÃO DE CONDIÇÃO DA AÇÃO. HABILITAÇÃO DEFERIDA. LIMITAÇÃO QUANTO AO SEXO E À IDADE DOS ADOTANDOS EM RAZÃO DA ORIENTAÇÃO SEXUAL DOS ADOTANTES. INADMISSÍVEL. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. APELO CONHECIDO E PROVIDO. 1. Se as uniões homoafetivas já são reconhecidas como entidade familiar, com origem em um vínculo afetivo, a merecer tutela legal, não há razão para limitar a adoção, criando obstáculos onde a lei não prevê. 2. Delimitar o sexo e a idade da criança a ser adotada por casal homoafetivo é transformar a sublime relação de filiação, sem vínculos biológicos, em ato de caridade provido de obrigações sociais e totalmente desprovido de amor e comprometimento” (doc. 6). Os embargos de declaração opostos foram rejeitados. 2. O 166 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n. 846102 PR – PARANÁ. Decisão Recurso Extraordinário. Constitucional. Reconhecimento de união estável homoafetiva e respectivas consequências jurídicas. Adoção. Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4277. Relator Ministra Cárrmen Lúcia. Brasília, DF, 05 de março de 2015. Disponível em: https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/178770481/recursoextraordinario-re-846102-pr-parana. Acesso em: 05 fev. 2021. 98 Recorrente alega contrariado o art. 226, § 3º, da Constituição da República, afirmando haver “duas questões jurídicas que emergem do contexto apresentado, para que se possa oferecer solução ao presente recurso: i) se há possibilidade de interpretação extensiva do preceito constitucional para incluir as uniões entre pessoas do mesmo sexo na concepção de união estável como entidade familiar; ii) se a interpretação restritiva do preceito constitucional incorreria em discriminação quanto à opção sexual. (…) Logicamente, nem dois homens e uma mulher; nem duas mulheres e um homem (fatos estes que não chegam a ser tão raros em certas regiões do Brasil); nem dois homens ou duas mulheres; foram previstos pelo constituinte como configuradores de uma união estável, ainda que os integrantes dessas relações, hipoteticamente consideradas, coabitem em caráter análogo ao de uma união estável, ou seja, de forma pública e duradoura, e estabelecida com o objetivo de constituição de família. (…) Com isso, a nível constitucional, pelo que foi dito, infere-se, em primeiro lugar, que não há lacuna, mas sim, uma intencional omissão do constituinte em não eleger (o que perdura até a atualidade) a união de pessoas do mesmo sexo como caracterizadores de entidade familiar. (…) E vamos além, a generalização, no lugar da individualização do tratamento jurídico a ser dado a situações materialmente diversas, poderá, sim, se não respeitadas e previstas as idiossincrasias e particularidades dos relacionamentos homoafetivos, vir em maior prejuízo que benefício aos seus integrantes, ferindo axialmente o princípio da igualdade, por tratar igualmente situações desiguais” (doc. 7). Apreciada a matéria trazida na espécie, DECIDO. 3. Razão jurídica não assiste ao Recorrente. 4. No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 4.277 e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 132, Relator o Ministro Ayres Britto,por votação unânime, este Supremo Tribunal Federal deu interpretação conforme ao art. 1.723 do Código Civil, “para dele excluir qualquer significado que impeça o reconhecimento da união contínua, pública e duradoura entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, entendida esta como sinônimo perfeito de família. Reconhecimento que é de ser feito segundo as mesmas regras e com as mesmas consequências da união estável heteroafetiva” (DJe 14.10.2011). No voto, o Ministro Relator ressaltou que “a Constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquela existente ao rés dos fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva. Por isso que, sem nenhuma ginástica mental ou alquimia interpretativa, dá para compreender que a nossa Magna Carta não emprestou ao substantivo “família” nenhum significado ortodoxo ou da própria técnica jurídica. Recolheu-o com o sentido coloquial praticamente aberto que sempre portou como realidade do mundo do ser. Assim como dá para inferir que, quanto maior o número dos espaços doméstica e autonomamente estruturados, maior a possibilidade de efetiva colaboração entre esses núcleos familiares, o Estado e a sociedade, na perspectiva do cumprimento de conjugados deveres que são funções essenciais à plenificação da cidadania, da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho. Isso numa projeção exógena ou extramuros domésticos, porque, endogenamente ou interna corporis, os beneficiários imediatos dessa multiplicação de unidades familiares são os seus originários formadores, parentes e agregados. Incluído nestas duas últimas categorias dos parentes e agregados o contingente das crianças, dos adolescentes e dos idosos. Também eles, crianças, adolescentes e idosos, tanto mais protegidos quanto partícipes dessa vida em comunhão que é, por natureza, a família. Sabido que lugar de crianças e adolescentes não é propriamente o orfanato, menos ainda a rua, a sarjeta, ou os guetos da prostituição infantil e do consumo de entorpecentes e drogas afins. Tanto quanto o espaço de vida ideal para os idosos não são os albergues ou asilos públicos, muito menos o relento ou os bancos de jardim em que levas e levas de seres humanos abandonados despejam suas últimas sobras de gente. Mas o comunitário ambiente da própria família. Tudo conforme os expressos dizeres dos artigos 99 227 e 229 da Constituição, este último alusivo às pessoas idosas, e, aquele, pertinente às crianças e aos adolescentes. Assim interpretando por forma não-reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso ou homofóbico. Quando o certo - data vênia de opinião divergente - é extrair do sistema de comandos da Constituição os encadeados juízos que precedentemente verbalizamos, agora arrematados com a proposição de que a isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo à formação de uma autonomizada família. Entendida esta, no âmbito das duas tipologias de sujeitos jurídicos, como um núcleo doméstico independente de qualquer outro e constituído, em regra, com as mesmas notas factuais da visibilidade, continuidade e durabilidade”. O acórdão recorrido harmoniza-se com esse entendimento jurisprudencial. Nada há, pois, a prover quanto às alegações do Recorrente. 5. Pelo exposto, nego seguimento a este recurso extraordinário (art. 557, caput, do Código de Processo Civil e art. 21, § 1º, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal). Publique-se. Brasília, 5 de março de 2015. Ministra CÁRMEN LÚCIA Relatora (STF - RE: 846102 PR - PARANÁ, Relator: Min. CÁRMEN LÚCIA, Data de Julgamento: 05/03/2015, Data de Publicação: DJe-052 18/03/2015) Os pais conheceram o Escritor por indicação da Vara Infância, da Juventude e do Idoso, iniciando com a criança a convivência que resultou na vontade de concretizar a adoção. O Escritor foi apresentado aos pais no Fórum e foram passear no Shopping, almoçaram e conversaram bastante. Em tal oportunidade o menino escritor contou vários detalhes de sua vida, tanto do passado como da atualidade. Os então candidatos a pais informaram ao Escritor que formavam um casal composto por dois homens, e falaram sobre as pessoas que são mais próximas a eles. Desde o primeiro contato formou-se um vínculo afetivo forte entre o Escritor e seus futuros pais. O Escritor retornou à casa da família acolhedora para pernoite no dia 13/09/2011 e no dia seguinte os futuros pais mantiveram uma longa conversa com a família acolhedora sobre o menino. Posteriormente saíram com a criança para um passeio pelo Centro da cidade e almoçaram com um casal de amigos, os quais, inclusive, são, hoje, os padrinhos do menino. Ainda no dia 14/09/2011 os requerentes passearam com o Escritor pela Rua Uruguaiana até a Cinelândia. Passearam de metrô até Copacabana e caminharam pela na orla. Devido ao tempo frio e chuvoso não foi possível aproveitar a praia conforme previsto. Os futuros pais aproveitaram, então, para realizar algumas compras de material didático para o Escritor. Retornaram, após as despedidas 100 sofridas para todos, a cidade de Curitiba, permanecendo o Escritor no acolhimento familiar na capital do Rio de Janeiro. Os pais sentiram a vontade de adotar o Escritor desde o primeiro encontro, pois, tiveram a certeza de ter encontrado o filho pelo qual tanto lutaram. Informaram tal vontade à equipe técnica da vara, inclusive, com relação ao pensamento nutrido por ambos que o Escritor precisaria concluir os estudos no Rio de Janeiro para não ter prejuízos em sua vida acadêmica, assim como pela necessidade de o Escritor se preparar para a transição e poder, também, demonstrar sua vontade em ser adotado por dois pais. O segundo encontro ocorreu nos dias de 11 a 17 de outubro de 2011 quando os pais, mais uma vez, deslocaram-se de Curitiba para o Rio de Janeiro para buscar a criança e levá-la a Curitiba com o objetivo de conviver com ela no local de residência. Durante o período de convivência em Curitiba os laços entre os pais e o Escritor estreitaram-se ainda mais e os pais perceberam o quanto a criança era inteligente e como conquista facilmente a amizade das pessoas. O Escritor nunca foi uma criança inibida, tinha iniciativa própria. Era uma criança bastante ativa, com paixão por música. Nesse encontro os pais se depararam com situações que foram assinaladas no curso promovido pela Vara da Infância de Curitiba sobre adoção tardia, no sentido de a criança querer testar os limites. Os pais foram firmes e mantiveram o diálogo com o Menino e explicaram os motivos por dizer não a alguns de seus pedidos. Procuraram estabelecer limites e atividades combinadas com a criança, de modo que seria possível dialogar novamente com base no que tinha sido combinado. Tal atitude por parte dos pais foi bem aceita pelo menino que se sentiu inserido numa verdadeira família. Durante esse período a família passou por momentos de brincadeiras, diversão e reflexão. Antes de sair para o almoço no último dia, o Escritor, já demonstrando suas habilidades, pediu se poderia digitar um texto, o qual se transcreve: Escritor Oi meu nome é Escritor Eu vim viajar em Curitiba passar uma semana aqui para ir embora na segunda feira e voltar dia 20 de dezembro para vim morar com meu pai Manuel e meu pai Luiz de vês com eles gostei muito da Maria AMOR 101 Esta convivência consubstanciou-se em uma oportunidade para os pais e para o filho se conhecerem melhor. Os momentos passados juntos foram tidos pelos paiscomo ótimos e com o retorno do Escritor para o Rio de Janeiro ficaram com uma enorme saudade e um sentimento de vazio. Os pais tiveram a absoluta certeza de que Escritor era realmente o filho que buscavam. Depois da convivência em Curitiba os pais tiveram a certeza de que desejavam ter o Escritor como filho. O terceiro encontro se deu no Rio de Janeiro de 18 a 20 de novembro de 2011, pois os requerentes desejavam comemorar o aniversário de Escritor com a criança. O período de convivência foi ótimo e Escritor já passou a chamar os requerentes de “Pai Manoel” e “Pai Luiz”. No final da tarde do domingo, houve uma pequena festa de aniversário para o Escritor e depois da festa os pais retornaram a Curitiba. Desde o primeiro encontro em setembro, os requentes mantiveram contato regularmente com a mãe acolhedora e com o Menino Escritor por telefone. A família extensa dos pais e os amigos apoiaram e incentivam a adoção de Escritor. Na audiência realizada na Vara da Infância e da Juventude da Capital do Estado do Rio de Janeiro os pais foram ouvidos diante da Juízo e do Ministério Público, confirmando o desejo de adotar o Escritor. Luiz, mais falante, disse da felicidade com o encontro do filho e que a família estava formada. Manuel, mais reservado, concordava balançando a cabeça. Quando a magistrada perguntou ao Escritor se gostaria de ser adotado por Luiz e Manuel, para surpresa, ele disse que gostaria de experimentar morar em Curitiba. A adoção, então, teve prosseguimento com a requisição de estudos para o acompanhamento do estágio de convivência naquela capital, recebendo os pais a guarda provisória para fins de adoção do Escritor. O final da audiência foi de sorrisos, lágrimas e abraços. Daqui a advogada, eleita tia-madrinha, acompanhava o desenvolvimento do Escritor com relatos do pai Luiz sobre a evolução do filho e o orgulho com suas conquistas. Em a sentença de adoção foi proferida com a seguinte redação167: 167 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Processo n. 0034641-05.2011.8.19.0202 RJ-Rio de Janeiro. Requerimento de Adoção. Disponível em: tjrj.jus.br. Acesso em: 21 fev. 2021. (em segredo de justiça). 102 Processo nº: 0034641-05.2011.8.19.0202. Tipo do Movimento: Sentença Descrição: Trata-se de requerimento de Adoção, formulado por MANUEL AUGUSTO e LUIZ ANTÔNIO com relação a criança MENINO ESCRITOR. Inicial de fls. 2/20, instruída com os documentos de fls. 21/429. Audiência especial, com oitiva das partes e deferimento da guarda provisória da criança, às fls. 432. Petição do advogado, às fls. 438/439, requerendo a renovação da guarda provisória. Petição do advogado, às fls. 441/442, juntando requerimento dos requerentes para inclusão no CNA (fls. 443); CD com oitiva dos requerentes e da criança, às fls. 444; Documentos escolares da criança, às fls. 445/456; Desenhos da criança, às fls. 457/458; Estudo psicológico favorável, às fls. 491/493; Fotografias da família, às fls. 503/512. Reportagem acerca da rejeição, pelo STF, do recurso do MP do Paraná que requeria idade limite para adoção por casal homoafetivo, às fls. 514 e 518/519. Parecer final do MP, às fls. 521/538, pelo deferimento do pedido de adoção da criança aos requerentes, uma vez que o pleito se embasa em motivos legítimos e corresponde a reais vantagens ao infante. É, em síntese, o relatório. Decido. A genitora foi destituída do poder familiar na Ação de Destituição do Poder Familiar Nº 2010.202.024974-4, às fls. 129/131, tendo a sentença transitado em julgado. Não houve registro paterno, sendo que a mãe, em sua oitiva em Juízo declinou o primeiro nome do pai biológico de Alyson, que seria Gilson (Ação de Destituição do Poder Familiar Nº 2010.202.024974-4, às fls. 126), mas não soube precisar a qualificação completa, inviabilizando a localização do mesmo. As exigências legais foram atendidas, tendo o processo regular tramitação, decorrendo-se cerca de 6 meses de estágio de convivência. A presente ação versa sobre adoção por casal homoafetivo, questão extremamente recente e sem maiores precedentes, devendo ser destacado que o art. 1622 do CC não veda a adoção por casal homossexual, ao contrário, permite expressamente a adoção nesse caso ao afirmá-la possível por duas pessoas que mantém união estável, como é o caso dos requerentes acima mencionados. A nova Lei de adoção, qual seja, a Lei 12010/09, em seu artigo 42, menciona o seguinte: ´Art. 42. Podem adotar os maiores de 18 (dezoito) anos, independentemente do estado civil. § 2º - Para adoção conjunta, é indispensável que os adotantes sejam casados civilmente ou mantenham união estável, comprovada a estabilidade da família. ´ Pela leitura do dispositivo acima, pode-se inferir que em nenhum momento ficou especificado que seria a união estável entre homem e mulher, que asseguraria o direito a adoção conjunta. Diante deste fato, para que seja reconhecida a união estável como entidade familiar, faz-se necessário que estejam presentes as características da estabilidade (durabilidade e continuidade), a publicidade e a afetividade com o intuito de constituir uma família. Na verdade, tanto no que se refere ao casamento como a união estável do artigo 226 parágrafo 3º da Lei Maior, que reconhece e protege a união entre o homem e a mulher como entidade familiar, há uma clara reafirmação da diversidade de sexos para o legislador. Entretanto, o mencionado art. 226, em nenhum momento, excluiu expressamente a união homoafetiva como entidade familiar, mas tão somente não a destacou. Portanto, os dispositivos legais e constitucionais dispõem que reconhecem como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher e não que a união estável é a entidade familiar composta entre o homem e a mulher, devendo-se a interpretação ser feita com base nos princípios fundamentais da pessoa humana. O ilustre Gustavo Tepedino em seu livro ´A Disciplina Civil-Constitucional das Relações Familiares´, menciona que o centro da tutela constitucional deslocou-se do casamento para as relações familiares, que não se esgotam no casamento, de forma que a proteção da instituição familiar, como centro de produção e reprodução dos valores culturais, éticos, religiosos e econômicos, passou a ser vista como um núcleo de desenvolvimento da personalidade dos filhos e de promoção da dignidade de seus membros. O conceito tradicional de família se modificou e não se 103 restringe mais ao casamento de pessoas do sexo oposto, devendo se salientar que a jurisprudência tem reconhecido usualmente a união estável de casal homoafetivo para efeitos sucessórios e previdenciários, sendo que no dia 4/5/2011, o STF julgando ADIN 4277 e a Argüição de Descumprimento de Preceito Cominatório nº 132, reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo, sendo relator o Ilustre Ministro Ayres Britto. A psicanalista e antropóloga Elisabeth Zambrano, em matéria divulgada pelo Diário de Justiça em 10 de dezembro de 2004 defende que: ´...A família é uma construção social e por isso acompanha os movimentos sociais, inserindo hoje em suas novas configurações, a homoparentalidade. ... As principais entidades americanas de psiquiatra e pediatria apontam, baseadas em pesquisas, que não existe um impedimento para adoção de crianças por homossexuais do ponto de vista do desenvolvimento...´ Deve-se levar em conta ainda, que a adoção não persegue os canais da natureza, pois o vínculo de parentesco por ela criado é puramente jurídico e não consangüíneo, tanto assim que admite adoção por somente uma pessoa, enquanto que na concepção, excluída a clonagem, depende da participação do homem e da mulher. Na verdade, o ponto crucial a ser considerado não é o da homossexualidade, mas sim as reais condições psicológicas, afetivas, materiais daqueles que pretendem a adoção, devendo ser consideradas em primeira mão, as condições nas quais permanecerão o adotando. Cabe lembrar que a adoçãoé um instituto com forte caráter de ficção jurídica, pelo qual se cria um vínculo parental que não corresponde à realidade biológica, sendo que ao decidir sobre uma possível adoção, o Juiz deve levar em conta as reais vantagens para a criança que poderão advir da adoção, que deverá se fundar em motivos legítimos decidindo sempre pelo bem-estar da criança. O estudo psicológico de fls. 491/493 revela que os requerentes são pessoas dedicadas à criança, revelando afeto no trato com o mesmo, agindo como pais no cuidado com a prole e como diz Leonardo Boff ́ os mitos antigos e pensadores contemporâneos dos mais profundos nos ensinam que a essência humana não se encontra tanto na verdade, o suporte real de criatividade, da liberdade e da inteligência. No cuidado se encontra o ethos fundamental do humano. Quer dizer, no cuidado, identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das ações um reto de agir´. Ora, a configuração familiar dos requerentes, não é empecilho para que este cuidado seja prestado à criança e para que esta cresça em um lar harmônico e saudável, dando provas no estágio probatório de que o cuidado foi prestado com louvor. Por fim, cumpre ainda destacar julgado da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul em apelação 700138015902, onde consta como presidente a Desembargadora Maria Berenice Dias, referente a adoção por casal formado por duas pessoas de mesmo sexo conforme mencionado abaixo: EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. ADOÇÃO. CASAL FORMADO POR DUAS PESSOAS DE MESMO SEXO. POSSIBILIDADE. Reconhecida como entidade familiar, merecedora da proteção estatal, a união formada por pessoas do mesmo sexo, com características de duração, publicidade, continuidade e intenção de constituir família, decorrência inafastável é a possibilidade de que seus componentes possam adotar. Os estudos especializados não apontam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homossexuais, mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que as liga aos seus cuidadores. É hora de abandonar de vez preconceitos e atitudes hipócritas desprovidas de base científica, adotando-se uma postura de firme defesa da absoluta prioridade que constitucionalmente é assegurada aos direitos das crianças e das crianças (art. 227 da Constituição Federal). Caso em que o laudo especializado comprova o saudável vínculo existente entre as crianças e as adotantes. NEGARAM PROVIMENTO. Os julgados, portanto, se baseiam no pressuposto de que o tratamento que deve ser dispensado à união entre pessoas do mesmo sexo que convivem de modo durável com o objetivo de constituir família, deve ser o mesmo dado em nossa legislação constitucional 104 e infraconstitucional às uniões estáveis, tendo também as duas entidades familiares os mesmos direitos quanto a adotar filhos em conjunto. A 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça em recente julgamento de Resp. 889.852-RS se manifestou sobre a possibilidade de adoção de crianças por pessoas que mantém união homoafetiva, conforme publicado no informativo nº 0432, da seguinte forma: MENORES. ADOÇÃO. UNIÃO HOMOAFETIVA. Cuida-se da possibilidade de pessoa que mantém união homoafetiva adotar duas crianças (irmãos biológicos) já perfilhadas por sua companheira. É certo que o art. 1º da Lei n. 12.010/2009 e o art. 43 do ECA deixam claro que todas as crianças e crianças têm a garantia do direito à convivência familiar e que a adoção fundada em motivos legítimos pode ser deferida somente quando presentes reais vantagens a eles. Anote-se, então, ser imprescindível, na adoção, a prevalência dos interesses dos menores sobre quaisquer outros, até porque se discute o próprio direito de filiação, com consequências que se estendem por toda a vida. Decorre daí que, também no campo da adoção na união homoafetiva, a qual, como realidade fenomênica, o Judiciário não pode desprezar, há que se verificar qual a melhor solução a privilegiar a proteção aos direitos da criança. Frise-se inexistir aqui expressa previsão legal a permitir também a inclusão, como adotante, do nome da companheira de igual sexo nos registros de nascimento das crianças, o que já é aceito em vários países, tais como a Inglaterra, País de Gales, Países Baixos, e em algumas províncias da Espanha, lacuna que não se mostra como óbice à proteção proporcionada pelo Estado aos direitos dos infantes. Contudo, estudos científicos de respeitadas instituições (a Academia Americana de Pediatria e as universidades de Virgínia e Valência) apontam não haver qualquer inconveniente na adoção por companheiros em união homoafetiva, pois o que realmente importa é a qualidade do vínculo e do afeto presente no meio familiar que ligam as crianças a seus cuidadores. Na específica hipótese, há consistente relatório social lavrado por assistente social favorável à adoção e conclusivo da estabilidade da família, pois é incontroverso existirem fortes vínculos afetivos entre a requerente e as crianças. Assim, impõe-se deferir a adoção lastreada nos estudos científicos que afastam a possibilidade de prejuízo de qualquer natureza às crianças, visto que criadas com amor, quanto mais se verificado cuidar de situação fática consolidada, de dupla maternidade desde os nascimentos, e se ambas as companheiras são responsáveis pela criação e educação dos menores, a elas competindo, solidariamente, a responsabilidade. Mediante o deferimento da adoção, ficam consolidados os direitos relativos a alimentos, sucessão, convívio com a requerente em caso de separação ou falecimento da companheira e a inclusão dos menores em convênios de saúde, no ensino básico e superior, em razão da qualificação da requerente, professora universitária. Frise-se, por último, que, segundo estatística do CNJ, ao consultar-se o Cadastro Nacional de Adoção, poucos são os casos de perfiliação de dois irmãos biológicos, pois há preferência por adotar apenas uma criança. Assim, por qualquer ângulo que se analise a questão, chega-se à conclusão de que, na hipótese, a adoção proporciona mais do que vantagens aos menores (art. 43 do ECA) e seu indeferimento resultaria verdadeiro prejuízo a eles. RESP 889.852-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 27/4/2010. A ética do cuidado deve sempre completar a ética da justiça, pois tal como defendido por Rodrigo da Cunha Pereira, ´o moralista prefere sempre a formalidade e a lei em sua literalidade, enquanto o ético, a essência do Direito, e, por isso, buscará sempre nos princípios a fundamentação para a mais justa adequação´. A formalidade da lei pode não atender, de maneira expressa, as necessidades de cuidado de Fabiano, mas cabe ao magistrado, com base no ético e no justo, adequar o Direito a realidade social e aos princípios e valores fundamentais do homem. Ressalto ainda que o casal não estava escrito no CNA porque teria sido habilitado para adoção de adolescentes do sexo feminino, havendo recurso ao TJ do Paraná (apelação cível nº 529976-1), que proveu o apelo. Hoje há recurso especial no STJ, o qual não tem efeito suspensivo, razão pela qual os requerentes já 105 deveriam estar devidamente inscritos no CNA, desde 11/3/2009, data do provimento da apelação cível. Diante do exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido e DEFIRO aos requerentes MANUEL AUGUSTO e LUIZ ANTÔNIO a adoção da criança MENINO ESCRITOR, criando entre adotantes e adotado uma relação de parentesco independente do fato natural da procriação. Determino que após o trânsito em julgado sejam expedidos os atos necessários para: 1 - O cancelamento nos assentos de nascimento da criança no registro civil competente, arquivando-se o mandado, advertindo o Sr. Oficial de Registro que nenhuma observação sobre a origem do ato poderá constar nas certidões de registro. 2 - Seja a criança registrada com o nome de MENINO ESCRITOR. Possível dúvida pode pairar sobre a realizaçãodo assento de nascimento. No caso, deverá constar que a adotando é filho de MANUEL AUGUSTO e LUIZ ANTÔNIO, possuindo como avós MMR e MCMR; e ADS e WH, sem mencionar as palavras pai e mãe, da mesma forma, em relação aos avós também não explicitará a condição materna ou paterna. Sem custas, nos termos do art. 141, par. 2º do E.C.A. Cumpridas as formalidades legais, procedam-se às necessárias diligências e demais providências de estilo. Publicado em audiência, registre-se. Intimados os presentes. Após o trânsito em julgado e a realização das diligências, dê-se baixa e arquive-se. Luiz e Manuel fizeram uma espécie de contrato com o filho onde ele ganhava pontos pelas tarefas realizadas, onde se incluía a leitura. Escritor tem um blog onde traz assuntos importantes como o direito dos animais, saúde, sobre violência nas escolas, dentre outros assuntos. Uma de suas resenhas transcrevo abaixo por demonstrar a importância da família para o Escritor, com observação de que todos os nomes foram alterados: Jantar Filosófico em família Se Eu Fosse Outra Pessoa Jantamos conversando sobre papos filosóficos de sexta-feira. Na primeira rodada a pergunta foi: “se você não fosse você, quem você seria? Fred queria ser filho da rainha da Inglaterra, porque queria ter luxo, Joyce queria ser a Angelina Jolie, porque ela tem coração bom e humildade, Escritor gostaria de ser o papai Luiz pela sua sabedoria, Douglas gostaria de ser o Menor da VG pelo dom de fazer músicas boas, O Luiz gostaria de ser o Manoel, porque ele iria se casar com ele, o Manoel gostaria de ser a Mariana Góes por se relacionar bem com as pessoas .Na segunda rodada discutimos sobre uma ilha e quem levaríamos pra lá, Felipe levaria toda a família, e a professora Dinah. Joyce levaria o Douglas e Karina, Douglas levaria Silvia, Everaldo e Jonas, Escritor levaria a família nuclear a família Biológica e mais três pessoas importantes em sua vida, Manoel levaria a família toda. Luiz levaria a Giulia a família e o Leandro Karnal. Na terceira rodada discutimos o que nos marcou em 2019, Fred gostou do jantar sobre a caneta azul pois foi um jantar muito divertido, o que marcou para Joyce foi o fato dela dizer que nunca iria namorar e agora está namorando, o que marcou para Douglas foi a festa na qual conheceu a Joyce e o dia que ele pediu ela em namoro, Escritor se marcou com o emprego perdido, e saída de casa, aprendeu muito. Manoel ficou marcado com o congresso e a reforma da RNP, Luiz ficou marcadu pela sua capacidade de se adequar às situações distintas novas. (Escritor relatou). #AltoPapos #FinalDeAno 106 Inspirador também o que o Escritor escreve sobre ficar adulto: Quando somos criança somos cuidados pelos nossos pais e o principal objetivo deles é ensinar tudo de correto para o filho crescer e virar um adulto de bom caráter para a sociedade. Desde criança nós somos ensinados pelos nossos pais a sermos uma pessoa de caráter, a respeitar a sociedade, respeitar cada pessoa e, principalmente, respeitar o limite de cada um. Nessa transição entra a escola, que é onde aprendemos a estudar, a ler e escrever. Eu o Escritor já passei por tudo isso e agora estou em transição para a fase adulta da minha vida. Meus pais me ensinaram a ler, a escrever, a ser uma pessoa de caráter. De onde eu vim eu não aprendi a ter caráter. Eu precisava roubar e mentir para sobreviver. Hoje tenho 17 anos e estou na famosa fase “Ficando adulto”. Essa transição é bem difícil. É o memento que você vai se separando dos seus pais, o momento que você começa a trabalhar, o momento de mostrarmos tudo que aprendemos com eles. Para mim, Escritor, está sendo um momento muito difícil. Comecei a trabalhar e senti na pele o que é trabalhar para pagar algo. Antes eu não tinha noção disso, eu pedia dinheiro para meus pais e não sabia como era difícil trabalhar para conseguir e agora eu trabalho e pago minhas coisas. No começo não soube administrar nada, gastei tudo no primeiro momento e depois não tinha mais nada. Estou ficando adulto e peço obrigado aos meus pais por terem me ensinado tudo que sei hoje por que senão eu não iria ser ninguém na vida. O Escritor tem um forte sentimento de pertencimento e amor à família. Ele passa pelas inquietudes da juventude que, principalmente nessa fase pandêmica, tem demonstrado um verdadeiro desalento com o futuro. Os livros escritos pelo Escritor tratam de adoção. O primeiro fala de uma menina negra adotada por dois homens e o segundo sobre um menino em adoção tardia, sofrimento e superação. 107 CONSIDERAÇÕES FINAIS É PAU, É PEDRA, É O FIM DO CAMINHO... Me perguntei, por inúmeras vezes, ao longo do caminhar pelo Mestrado Profissional em Atenção Psicossocial, o que eu, advogada, estava fazendo ali. Dois anos depois, aduzo que estava crescendo como pessoa e que o conhecimento nunca é excessivo, mesmo para quem já está velha168. Nunca fui uma pessoa desligada da política e da indignação com a pobreza, miséria, assassinatos, racismo, LGBTfobia. Na minha época de universitária, fui parte integrante da UNE – União Nacional de Estudantes –, em plena ditadura militar, da UMA – União de Mulheres de Alagoas –, do DCE – Diretório Central dos Estudantes – da UFAL. Fiz campanha por uma constituinte livre, nacional e soberana e pelas Diretas Já. Lembro que meu pai, filho de senhor de engenho, homem tradicional, o verdadeiro patriarca, tentava barrar meus impulsos, enquanto membro ativo da UMA, de conversar com as meninas nos dois grandes prostíbulos de Maceió: Mossoró e Rosilda. Lá fui, por inúmeras vezes, para discutir com as meninas possibilidades de futuro, para indicar caminhos através da educação e do trabalho formal, assim como transmitia noções de como poderiam se prevenir de DSTs. Lembro-me dos presentes que ganhava, tudo importado, recebidos por elas dos clientes do cais do porto de Maceió. Para meu pai uma menina bem-nascida e educada não deveria ir até aqueles locais, mesmo que imbuída de um objetivo legítimo de ajudar outras mulheres. Estou falando do final da década de 1970 e início de 1980. A vida pregressa me trouxe essa inquietude com as injustiças e a necessidade de manter-me ativa. Acredito que tenha sido, inclusive, a base para trabalhar com vulnerabilidades tão pungentes: infância e LGBTs. 168 BRUMM, E. Me chamem de velha. Em pauta: 08/03/2014. Disponível em https://www.geledes.org.br/chamem-de-velha-por-eliane-brum/ Acesso: 19 jul 2021. A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem. Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos. 108 Construí-me antirracista, vindo de uma família de origem escravagista, onde a mão de obra escrava fora utilizada nos engenhos e nas vastas plantações de cana em São Luiz do Quitunde, interior de Alagoas. Moldei-me inclusiva e diversa, mesmo tendo raízes de certa maneira tradicionais. Contudo, não posso asseverar a existência de homofobia em meu núcleo familiar de origem, já que tal assunto não era tratado até minha adolescência, vez que meu melhor amigo e confidente no ensino médio era declaradamente gay. No meu modelo familiar já havia quebra de paradigmas fortíssimos para o Nordeste,vez que meus pais se desquitaram quando eu tinha por volta dos oito anos de idade. Os diálogos familiares eram escassos. De fato, passamos todos, por muito preconceito. Simone de Beauvoir169, filósofa, escritora e ícone do pensamento feminista e existencialista, escreve em seu livro O Segundo Sexo: “Ninguém nasce mulher: torna- se mulher”. Para ela: nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino. Juliana Souza Barbosa e Maria Betânia Almeida Pereira170, assim tratam essa construção: Quando a filósofa e escritora Simone de Beauvoir em sua célebre obra Segundo Sexo (2009) afirma que “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, Beauvoir está justamente fazendo emergir na mentalidade e cultura vigentes o entendimento de que “nenhum dispositivo biológico, psíquico ou econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino” Em outras palavras, a percepção do que é “ser mulher” perpassa por um construto social. Em sociedades marcadas pela lógica do patriarcado, compreendendo-o enquanto poder e dominação dos homens sobre as mulheres, dentro de uma determinada estrutura e ordem social, cabia a mulher apenas a esfera 169 BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2009. 170 PEREIRA, M. B. A.; BARBOSA, J. S. A intelectualidade negra em Conceição Evaristo: voz insurgente no campo acadêmico literário. 2009. p 37. Disponível: https://www.historiaeparcerias.rj.anpuh.org/resources/anais/11/hep2019/1571744139_ARQUIVO_7fc5 ae00e2415aa4fec9473f51a8ed6f.pdf Acesso: 27/4/2021. 109 privada, a vida doméstica. Esta mulher teria como “missão” a procriação, ou seja, gerar filhos, enquanto aos homens caberia a esfera pública. Desde a antiguidade, entre os grandes filósofos gregos, havia de maneira bastante contundente, a concepção da condição subalterna da mulher frente aos homens. Aristóteles em sua obra A Política já explicitava que “Quanto ao sexo, à diferença é indelével: qualquer que seja a idade da mulher, o homem deve conservar sua superioridade”171. O filósofo reitera que “a força da mulher se apresenta em sua árdua tarefa de vencer a dificuldade de obedecer enquanto a força do homem consiste em se impor”172. Camilla Mariana Rehem Ferreira173 traz sua narrativa no artigo O amor dito por uma mulher – a transmissão de Diotima a Sócrates: É por meio de um discurso, de uma narrativa de origem remota que tem como personagens deuses e seres sobrenaturais, que Diotima, a Estrangeira, diz, através da fantasia, uma verdade, uma realidade. Contrariando todo o método socrático e quase que remetendo-nos aos sofistas da época de Sócrates, ela nos captura, fascina-nos, ao contar uma história precisa, carregada de sentido e que, supostamente, nos revela uma verdade. Essa verdade, não obstante, é fundamentada essencialmente numa aporia, numa contradição, numa falácia, pois não há outra forma de se fazer, no discurso, o amor, sem que sejamos induzidos ao engano, ao logro. É essa torção que faz mulher, o amor, e é por isso que Sócrates passa a palavra a Diotima. Ela não apenas transmite a Sócrates um saber fazer, no discurso, o amor, mas ela transmite um saber fazer, no discurso, e através do amor, a mulher. É esse truque que enlaça a mulher e o amor, e é por isso que Sócrates passa a palavra a Diotima. Ela não apenas transmite a Sócrates, no discurso, um saber fazer com as coisas do amor, mas transmite, discursivamente, um saber fazer mulher, através do amor. Felipe Soares Silva174, em seu artigo O amor e o feminino (no discurso de Sócrates-Diotima no Banquete de Platão), assim trata da questão: Platão não é claro em relação à sua interpretação da figura da mulher em suas obras, talvez nos coloque em uma de suas aporias mais uma vez ao colocar a figura da mulher no Banquete de uma maneira bastante positiva e sugestiva à uma interpretação de que ela tenha um papel muito importante na vida do homem. Examinar o Banquete é uma alternativa de encontrar uma saída ou um argumento que possa ser utilizado para falar de uma defesa ou uma função da mulher nas questões do amor, ainda que, defendamos aqui, que existiria um amor feminino ou pelo menos uma experiência das mulheres que ajuda a compreender o conceito de amor como um todo, no Banquete. 171 ARISTÓTELES. A política. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo. Martins Fontes. 1991. p. 29. 172 Ibidem. p. 31. 173 FERREIRA, C. M. R. O amor dito por uma mulher a transmissão de Diotima a Sócrates. Trivium, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 184-191, 2017. dx.doi.org/10.18379/2176-4891.2017v2p.184. Acesso em: 18 jun. 2021. 174 SILVA, F. S. O amor e o feminino no discurso de Sócrates-Diotima no Banquete de Platão. Revista Sícifo, v. 1, n. 6, 2021. Disponível em: http://www.revistasisifo.com/2017/11/o-amor-e-o-feminino-no- discurso-de.html Acesso em: 28 abr. 2021. 110 Como todas as experiências gregas, o amor necessita ser aprendido e ensinado: na narração da experiência com Diotima, é Sócrates que reconhece a necessidade de aprender sobre o amor com um mestre – διδασκάλων – (Symp. 206 d). O autor continua: Podemos aqui levantar a hipótese de um apelo educativo ao amor onde a mulher seria o modelo mais primário e ao mesmo tempo mais importante para falarmos o que é o amor. Sócrates dá testemunho de um aprendizado de sucesso nas coisas do amor, cena esta que ganha contraste frente ao fracasso de Alcibíades, relato da cena posterior a de Sócrates. Ora, só se aprende a amar com as mulheres? Ou seria a mulher o modelo de amor? Qual a importância então pode ser inferida da figura feminina a partir do Banquete? Estas perguntas podem ser respondidas se considerarmos o fato de que o amor no Banquete aparece como um aprendizado, e Platão talvez de fato, encontre em sua obra, um espaço para mostrar a importância da figura da mulher como educadora da intimidade do homem: o amor é uma forma profunda e que nos liga à todas as coisas. Os próprios relatos do Banquete mostram que o amor é um deus poderoso (quem fala), um princípio que está em todas as coisas (Erixímaco) e um princípio restaurador da condição humana (mito dos andróginos)175. Interessante pensar a mulher da atualidade com essa conotação do amor, onde seria o modelo mais primário e ao mesmo tempo mais importante para falarmos o que é o amor. Tornar-se mulher, tornar-se gay, tornar-se lésbica, tornar-se deficiente, tornar- se negro, não são construções simples. Neuza Santos Souza176. Escreve que uma das formas de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo. Discurso que se faz muito mais significativo quanto mais fundamentado no conhecimento concreto da realidade Para a autora, seu livro Tornar-se Negro representa seu anseio e tentativa de elaborar um gênero de conhecimento que viabilize a construção de um discurso do negro sobre o negro, no que tange a sua emocionalidade. Sobre o livro, Santos diz: Ele é um olhar que se volta em direção à experiência de ser-se negro numa sociedade branca. De classe e ideologia dominantes brancas. De estética e comprometimento brancos. De exigências e expectativas brancas. Este olhar se detém, particularmente, sobre a experiência emocional do negro que, vivendo nessa sociedade, responde positivamente ao apelo de ascensão social, o que implica na decisiva conquista de valores, status e prerrogativas brancos177. Volto a minha posição de fala e assim, entendo que me construí de vivências e aperfeiçoei-me com os aprendizados e convivência com pessoas de diferentes 175 Ibidem. 176 SOUZA, N. S. Tornar-se negro. 2. Ed. Rio de Janeiro: Edição Graal 1983. p. 17. 177 Ibidem. p. 3.111 saberes, tornei-me o que sou, construí-me de experiências, por isso o caminhar pelas vulnerabilidades. Durante as abordagens realizadas com as jovens e os jovens, com as conversas e as trocas veio-me a plena convicção de: você estava certa, todos e todas estão felizes, pois assim se declararam quando realizamos nossos encontros. Sou consciente que a felicidade é um estado de espírito, que não há plenitude nessa forma de sentir natural de total felicidade. Seria a felicidade uma utopia? Como materializá-la senão em momentos felizes? Luciano Esposito Sewaybrike em sua dissertação sobre “A felicidade na sociedade contemporânea: contraste entre diferentes perspectivas filosóficas e a modernidade líquida178”, assim traz: Platão já escrevia: “Não é verdade que nós, homens, desejamos ser felizes? (COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 2). Pascal, muito tempo depois, completava: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homes, inclusive dos que vão se informar...” (COMTE-SPONVILLE, 2006, p. 10). Além desses, muitos outros, em especial filósofos, reforçaram a importância da felicidade e fizeram dela um tema tão popular entre as pessoas. Dias179 trata maravilhosamente bem do direito à felicidade, posso dizer, sem medo de trocadilhos, que foi muito feliz em sua construção. Ao se colocar a palavra felicidade no Google aparecem nada menos do que 8 milhões e 260 mil referências. Assim, não dá para duvidar que, ao menos por constar de modo tão reiterado neste imenso banco de dados, a felicidade existe mesmo. E, se há unanimidade em algum sonho, certamente é o sonho da felicidade. Não há qualquer pessoa no mundo que não almeje, procure e sonhe com ela. O estrondoso sucesso do Prosac – a chamada pílula da felicidade – que garantiu a felicidade da indústria farmacêutica, evidencia que todos anseiam 111lcança-la. Ainda assim, é difícil conceituar o que seja a felicidade. O Dicionário Houaiss define como a qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar. O interesse em conseguir apreender o seu significado acompanha a própria história do homem. Aristóteles dizia que felicidade é a finalidade da natureza humana, um bem supremo que todos desejam e perseguem. Mas acrescentava que a felicidade também requer bens exteriores... Há 23 séculos, Epicuro já afirmava que o propósito da filosofia é propiciar uma vida feliz. Dizia ele que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis. Dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais. Dos necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade. E conclui: não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça e não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. São Tomás de Aquino sustentava que toda a pessoa age por um fim que é um bem: a felicidade. Foi este 178 USP, Biblioteca Digital. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde- 13082012-100938/pt-br.php Acesso: 19 jul 2021. 179 DIAS, Maria Berenice. Direito fundamental à felicidade. 2011. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/230232803.pdf. Acesso em: 27 abr. 2021. p. 201. 112 pensamento que influenciou Hobbes, Locke e Rousseau a criarem a figura do pacto social para assegurar os direitos naturais e manter a paz. Onde se encontra? A esta pergunta responde Rui Barbosa: “A felicidade está na doçura do bem, distribuído sem ideia de remuneração. Ou, por outra, sob uma fórmula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso.” O direito à felicidade consta no preâmbulo da Declaração de Independência dos Estados Unidos do ano de 1776, que traz as palavras de Thomas Jefferson: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”180. Mais que ser pai e mãe, os adotantes de Linda, Pensativa, Bailarina, Modelo e Escritor queriam ser felizes e que seus filhos e filhas fossem felizes. As histórias foram contadas como num arco-íris de cores, umas mais cores-de- rosas, com brilhinhos de purpurina, outras com a cor purpura da dor do passado. A Bailarina se sente completa, plena, fácil visualizá-la de tutu rosa, sapatilhas de igual cor, bailando leve e suave. Já nas abordagens de Linda e do Escritor há resquícios de sofrimentos e inquietações que pontuam de cores mais densas suas falas. Observei dúvidas, sofrimentos, inquietações, mas, acima de tudo o empoderamento da cor, o orgulho que cada um e cada uma traz de sua negritude assumida e festejada. Me faz feliz perceber esse orgulho pelo pertencimento às raízes afro tão desmerecidas no Brasil. O recorte étnico-racial é fundamental, pois, são quatro jovens negras e um jovem negro que, não pontuam sua cor como base de sofrimento e dor, mas que já sentiram racismo e têm consciência de que terão enfrentamentos raciais futuros, são conscientes do racismo estrutural. Torno-me feliz por perceber em cada um a atitude antirracista e pauso para dizer que, de igual forma, minhas duas filhas são mulheres antirracistas. GIRARDI181 (2005) traz em seus escritos: A sociedade brasileira, refletida na Constituição de 1988, se pretende mais justa e os direitos fundamentais, de forma explicita no conteúdo do seu artigo 5º, afirmaram a proibição de toda e qualquer forma de preconceito ou discriminação. Festejando a igualdade e tendo como fundamento a dignidade da pessoa humana, buscou inaugurar um novo momento para o povo brasileiro, em que a ciência do direito, mais do que garantir, deverá promover direitos e, assim, efetivar o sentido maior da cidadania. 180 Ibidem. 181 GIRARDI, V. Famílias contemporâneas, filiação e afeto – A possibilidade jurídica da adoção por homossexuais. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2005. 113 Trinta e dois (32) anos depois da promulgação da nossa constituição cidadã ainda estamos longe de chegarmos ao patamar de país que respeita a dignidade humana, mesmo tendo os princípios da República e a função do Estado sido movida para uma revolucionária preocupação com a humanização decorrente da busca pela plena satisfação das necessidades humanas, imanentes que são à realização pessoal e social de todo e qualquer cidadão brasileiro182. Contínuo nessa viagem sobre os aspectos vistos nesse trajeto de estudo que se abre no já mencionado arco-íris de cores e afetos. Jonas Alves Junior183 diz que: Falar sobre diversidade sexual demanda considerar certos elementos constantes na literatura das ciências humanas sobre sexualidade. Essa literatura, que não para de crescer desde a década de 1980, possuí aspectos instigantes, pois está longe de uma consonância no que alude à demarcação da “sexualidade”. Loyola (1998) considera que essa delimitação modifica-se com base nos esquemas conceituais empregados e em função dos pontos de vista a partir dos quais o assunto é tratado. A sexualidade pode ser interpretada sob o aspecto da família e/ou parentesco, concebida como essencial à subjetividade e/ou à identidade individual e social, pensada como representação, desejo, ou, simplesmente deduzida como atividade ou comportamento. Nesse ângulo de acordo com alguns autores (VANCE 1995) é preciso ressaltar que os comportamentos sexuais em conjunto com o erotismo propendem a ser entendidos como a essência da sexualidade. O autor menciona algo completamente atual: “Se se contemplar minuciosamente na história, ver-se-á que a sexualidade sempre foi assentada em discurso como alvo de continua inquietação”. De fato, falta-me o necessário entendimento, ou internalização, das razões que fariam a sexualidade do outro afetar a mim, a minha família ou a própria sociedade. Moreira(VIEIRA, 2015)184 assevera que: O grande desafio social e jurídico é garantir que todas as crianças tenham seus direitos garantidos independentemente da orientação sexual de seus pais. É preciso buscar a conscientização de que o reconhecimento da família homoparental não é apenas uma luta da população homoafetiva. É uma batalha social pelo atendimento do melhor interesse da criança. Desvirtuar esse objetivo é desconhecer a realidade de crianças e adolescentes institucionalizados, os ditos “filhos do estado” aos quais são negados os direitos de compor uma família. 182 Ibidem. 183ALVES JUNIOR, J. Rompendo a mordaça: representações de professores e professoras do ensino médio sobre homossexualidade. 2010. Tese (Doutorado em Educação) -Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. 184 VIEIRA, T. R. (org.). Minorias sexuais – direitos e preconceitos. Brasília/DF: Editora Consulex, 2015. 114 Seis anos passados da redação do parágrafo anterior de minha autoria (2015) o pensamento continua o mesmo, acredito que o que buscamos é o atendimento ao superior interesse de crianças e adolescentes a serem família. Faltou pontuar a razão das músicas inseridas antes de cada contação de história, penso sermos seres musicais, poéticos, coloridos diversos. Nós somos instantes E num instante Não somos mais Nós somos instantes E num instante tudo fica para trás Tudo é uma questão de escolher Entre o ter e o ser Quem não cuidar do amanhã Logo fará sua manhã Que amanhã Não seja o sinônimo de nunca Nem o ontem, o mesmo que nunca mais Não queira o que passou Não espere a semana pela sexta O mês pelo salário O ano pelo Ano Novo Aos tropeços, recomeços Que desatem os nós, vós, eles Nós somos instantes E num instante Não somos mais Nós somos instantes E num instante tudo fica para trás Tudo é uma questão de escolher Entre o ter e o ser Quem não cuida do amanhã Logo fará sua manhã Quanto a mim Eu sou anti, antirracional Antissocial até anteontem Eu sou um antiquário Até que provem o contrário E contra a minha vontade imemorial Conste que penso Que o hoje é um instante E um sopro Num instante tudo fica para trás Nós somos instantes E num instante Não somos mais Antiquário. (Guilherme De Sá) 115 Somos os antiquários de nossas vidas e entre erros, tropeços e acertos nos constituímos singulares. Dentro da minha singularidade de mulher branca, cis-hétero, nordestina, de classe média, que teve acesso a boa educação, ao mundo, saúdo todos e todas aqueles e aquelas que, mesmo iguais na única raça humana que existe, são diversos. Que reconheçamos e respeitemos as diferenças de forma inclusiva, que nosso brado seja antirracista e sem qualquer tolerância. De igual forma assumamos o posicionamento necessário e antifascista, antilbgtfóbico, pela luta pelo Estado Democrático de Direito. Creio não ser a toa que minha música predileta é Somewhere Over The Rainbow185 de Harburg E. Y./Arlen Harold, interpretada por Israel Kamakawiwo’ole, jovem havaiano que morreu ainda muito jovem e que interpreta de forma maviosa essa canção que, não por acaso, traz um belo arco-íris. Em algum lugar além do arco-íris Bem lá no alto E os sonhos que você sonhou Uma vez em um conto de ninar Em algum lugar além do arco-íris Pássaros azuis voam E os sonhos que você sonhou Sonhos realmente se tornam realidade Algum dia eu vou desejar à uma estrela Acordar onde as nuvens estão muito atrás de mim Onde problemas derretem como balas de limão Bem acima dos topos das chaminés é onde você me encontrará Em algum lugar além do arco-íris pássaros azuis voam E o sonho que você desafiar, por que, por que eu não posso? Algum dia eu vou desejar à uma estrela Acordar onde as nuvens estão muito atrás de mim Onde problemas derretem como balas de limão Bem acima dos topos das chaminés é onde você me encontrará Em algum lugar além do arco-íris bem lá no alto E o sonho que você desafiar, por que, por que eu não posso? OO oo oo Somewhere ... Assim, ao finalizar essa jornada, desejo a todos e todas, nas suas diversidade de cores, etnias, raças, orientações sexuais, identidades de gênero, classes sociais, todos e todas seres da diversidade, que busquem incessantemente a felicidade e sejam felizes, que algum dia, ou hoje, ou sempre, façam um pedido a uma estrela 185 Tradução livre de Somewhere over the Rainbow. 116 para acordar onde as nuvens fiquem muito atras, onde os problemas derretam como balas de limão, bem acima dos topos das chaminés e dos telhados, onde cada um se encontrará, longe, muito além do arco-íris onde pássaros azuis voam. Afirmo a manutenção necessária da luta pela superação das desigualdades, em que a diversidade sexual e de gênero, como todas as demais sejam afirmadas como potência, não como desprezo e violência. É essa a imagem que trago na minha mente como viajante desse percurso de cuidado. **** Ao término das conversas, das leituras e da contação de histórias, fui surpreendida por uma solicitação de uma das instituições de acolhimento da capital sobre indicação de livros para crianças que tinham como pretendentes casais homoafetivos. Fiz algumas indicações, mas fiquei com o pensamento voltado a facilitar tais encontros, assim, providenciei o livro Quantas Famílias no mundo? E as cinco histórias em quadrinhos que foram realizadas pelo caricaturista Marcelo Martins. (ANEXO C). 117 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, D. No bico da cegonha: histórias de adoção e da adoção internacional no Brasil. Rio de Janeiro. Relume Dumará, 2002. ADORNO, T. W. et al. The authoritarian personality. New York: Harper and Row, 1950. ALMEIDA, Cândido Mendes de (comp.). Código filipino, ou, ordenações e leis do reino de Portugal: recopiladas por mandado d'El-Rey D. Philippe I. Brasília, DF: Senado Federal, 2012. 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Arguição de descumprimento de preceito fundamental 132 Rio de Janeiro. Arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF). Perda parcial de objeto. Recebimento, na parte remanescente, como ação direta de inconstitucionalidade. União homoafetiva e seu reconhecimento como instituto jurídico [...]. Requerente: Governador do Estado do Rio de Janeiro. Relator: Min. Luiz Fux. Diário de Justiça Eletrônico: n. 198, 14 out. 2011, Brasília, DF, 05 maio 2011. Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628633&pgI=4 6&pgF=50. Acesso em: 12 mar. 2021. BRIGAGÃO, P.N. Nuances da lei 12.010/2009. Ambiente Jurídico, n. 106, 2012. Disponível em: https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-106/nuances-da-lei-12- 010-2009/. Acesso em: 20 maio 2021. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 120 CAMARGO, M. L. 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Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 12, n. 26, p. 123-147, jul./dez. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ha/v12n26/a06v1226.pdf. Acesso em: 01 mar. 2021. 126 ANEXO A PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP 127 128 ANEXO B ENTREVISTA SEMI ESTRUTURADA COM JOVENS PROLE DE FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS PELA VIA DA ADOÇÃO 1. Como você gostaria de ser identificado? ______________________________________________________________ 2. Qual a sua atividade? (trabalho, estudo) ______________________________________________________________ 3. Com Quantos anos você está agora? ______________________________________________________________ 4. Onde você reside e com quem? ______________________________________________________________ 5. Como e do que você lembra da sua vida antes da inserção na sua família por adoção? _____________________________________________________________ 6. Como você sente sua trajetória adotiva? _____________________________________________________________ 7. A orientação sexual de seus pais ou de suas mães foi determinante para sua orientação sexual? _____________________________________________________________ 8. Sob seu olhar, como você descreve a sua família? _____________________________________________________________ 9. Existe, para você, algum sentimento de preconceito para com a formação familiar homoafetiva? _____________________________________________________________ 10. Quem é você? _____________________________________________________________________ 11. Como seus pais ou suas mães contribuíram para você ser quem você é? ______________________________________________________________ 12. Você se sentiu, ainda quando era criança e na sua adolescência: com mais ou menos cuidados que seus e suas colegas de escola e atividades extracurriculares? ______________________________________________________________ 13. Como é, hoje, sua configuração familiar? _____________________________________________________________ 14. Como é sua família extensa? (avós, tios, primos) _____________________________________________________________ 15. Qual a sua orientação sexual? _____________________________________________________________ 16. Você se considera uma pessoa feliz? _____________________________________________________________ 129 ANEXO C HISTÓRIAS EM QUADRINHOS 130 131 132 133 134 ANEXO D E-BOOK “QUANTAS FAMÍLIAS TÊM NO MUNDO?” 135 136 137 138 139 140 141 142 143144 145 146 147 148 149 150