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Vol.
I
A u g u s t u s H o p k i n s
STRONG
P r e f á c i o d e R u s s e 11 S h e d d
AUGUSTUS
HOPKINS STRONG
Nasceu em Nova York
(Rochester), E.U.A., Em
1836. Homem de grande
vigor intelectual, literato,
filósofo e teólogo, Strong
cresceu e se formou dentro
da Igreja Batista. Tal perfil
se faz presente em sua obra,
não de forma limitante, mas
criativa e atenta às mudanças
que fervilhavam em sua
época “fin-de-siécle”. Sua
obra teológica, prezando a
reflexão teológica qualificada
e aprofundada mais que a
quantidade, marcou toda
uma geração de estudantes
do início do século pas
sado, inclusive no Brasil.
Dentre suas obras, desponta
a Systematic Theology, sua opus
magnum.
T E O L Q G I A
SISTEMATICA
A u g u s t u s H o p k i n s
STRONG
P r e f á c i o d e R u s s e l l S h e d d
A D o u tr in a d e D eus
Vol.
I
A
NAGNOS
C opyright © 2003 por Editora H agnos
S u p e r v isã o E d ito r ia l
Luiz Henrique Alves cia Silva
Rogério cie Lima Campos
Silvestre M. c/e Lima
Silvia Cappelletti
T ra d u çã o
Augusto Victorino
R ev isã o
Cláudio J. A. Rodrigues
D ig ita ç ã o de tex to s
Regina de Moura Nogueira
C apa
Rogério A. de Oliveira
L a y o u t e A r te F in a l
Comp System
D ia g r a m a ç ã o
Pr. Regi no da Silva Noqueira
Cícero J. da Silva
C o o r d e n a d o r de P ro d u çã o
M auro W. Terrengui
Ia edição - m arço 2003 - 3000 exem plares
Im p re ssã o e a c a b a m en to
Im prensa da Fé
D a d o s In te r n a c io n a is de C a ta lo g a çã o na P u b lic a ç ã o (C IP )
(C â m a r a B r a s ile ir a do L iv r o , SP, B r a s il)
Strong, A ugustus H opkins
Teologia sistem ática/ A ugustus H opkins S trong ;
prefácio de Russell Shedd ; [tradução A ugusto V ictorino].
- São Paulo : H agnos, 2003.
T ítu lo o rig inal: System atic theology
Conteúdo: V. 1. A doutrina de Deus
1. B atistas - D outrinas 2. Teologia doutrinai
I. Shedd, Russell. II. Título.
ISBN 85-89320-09-X
03-0919 C D D -230
ín d ic e s p a ra c a tá lo g o s is te m á tic o :
I. Teologia sistem ática : Religião 230
Todos os direitos desta edição reservados à
ED ITO RA HAGNOS
Rua B elarm ino C ardoso de A ndrade, 108
São Paulo - SP - 04809-270 Tel/Fax: (x x ll) 5666 1969
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PREFÁCIO
Foi uma grande surpresa saber que a Teologia Sistemática de Strong, aquela obra
monumental de pensamento teológico da minha juventude na Escola Graduada de
Wheaton, bem como no Seminário da Fé, estava sendo traduzida e editada em portu
guês. Confesso que não tenho lido muito desta teologia, tão conhecida no mundo evan
gélico durante mais de cem anos. Mas descobri que é uma vasta fonte de informação
teológica e bíblica. Não é necessário concordar com tudo que Strong escreveu para
aproveitar a impressionante coletânea de ensinamentos e textos que o incansável teólo
go ajuntou. Augustus Strong foi eleito presidente e professor de Teologia Bíblica do
Seminário Teológico de Rochester no estado de Nova Iorque em 1872. Ocupou estes
dois cargos durante 40 anos, após pastorear a Primeira Igreja Batista de Cleveland,
estado de Ohio, por sete anos. Não abandonou o espírito pastoral na “torre de marfim”
do seminário.
A Teologia Sistemática de Strong (primeira edição, 1886) encontra o seu centro
em Cristo. Em suas palavras, “A pessoa de Cristo foi o fio da meada que segui; sua
divindade e sua expiação eram os dois focos da grande elipse” (citado por W. R. Estep,
Jr. na Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã, ed. W. A. Elwell, Ed.Vida
Nova, 1990, Vol. III, p. 420).O leitor não precisa ler os dois volumes para perceber a
riqueza de apoio bíblico e teologia histórica. Entre os teólogos mais destacados dos
Batistas do Sul dos Estados Unidos, E. Y. Mullins e W. T. Conner receberam forte
influência de Strong Espero que o aparecimento desta Teologia Sistemática seja bem
recebido no Brasil. Deve ser um referencial para os que procuram uma âncora para sua
fé, mesmo que tenha sido escrita antes dos teólogos liberais tais como Paul Tillich e
Rudolf Bultmann.
A Deus toda a glória!
P r . D r . R u s s e l l S h ed d
José dos Reis
E-Books Digital
A g rad ecem o s a W AGN ER E D U A R D O D E
L IM A f p o r quem se v iab ilizo u ed ita r esta.
obra em lín g u a p o rtu g u esa .
OS EDITORES
PREFÁCIO DO AUTOR
A presente obra é um a revisão e ampliação da m inha Systematic Theology,
prim eiramente publicada em 1886. Da obra original foram impressas sete edi
ções, cada uma das quais incorporando sucessivas correções e supostos apri
moramentos. Durante os vinte anos que mediaram entre a prim eira publica
ção, reuni muito material novo, que agora ofereço ao leitor. M eu ponto de
vista filosófico e crítico nesse período também sofreu alguma mudança. Con
quanto ainda eu sustente as doutrinas antigas, interpreto-as diferentemente e
exponho-as com m aior clareza, porque a m im m e parece ter chegado a uma
verdade fundamental que lança novas luzes sobre todas elas. Esta verdade
tentei estabelecer em meu livro intitulado Christ in Creation, e delas faço refe
rências ao leitor para mais informações.
Que Cristo é aquele único Revelador de Deus, na natureza, na humanida
de, na história, na ciência, na Escritura, a meu juízo, a chave da teologia. Este
ponto de vista im plica um a concepção m onística e idealista do mundo, junta
mente com um a idéia evolutiva quanto à sua origem e progresso. Mas é o
próprio antídoto do panteísmo que reconhece a evolução como único método
do Cristo transcendente e pessoal, que é tudo em todos e que faz o universo
teológico e moral a partir do centro da sua circunferência e desde o seu come
ço até agora.
Nem a evolução, nem a alta crítica tem algo de aterrador para aquele que as
considera como parte do processo criador e educador da parte de Cristo. O mes
mo Cristo em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conheci
mento fornece todas as salvaguardas e limitações necessárias. Tão somente
porque Cristo tem sido esquecido é que a natureza e a lei tem sido personifica
da, e a história tem sido considerada como um desenvolvimento sem propósi
to, que se tem feito referência ao judaísm o como tendo um a origem simples
mente humana, que se tem pensado que Paulo tirou a igreja do seu próprio
curso mesmo antes de iniciar o seu próprio curso, que a superstição e ilusão
vieram a parecer o único fundamento do sacrifício dos mártires e o triunfo das
missões modernas. De modo nenhum creio num a evolução irracional e ateísta
como esta. Contrariamente, creio naquele em quem consistem todas as coisas,
8 Augustas H opkins Strong
que está com o seu povo até o fim do mundo e prometeu conduzi-lo em toda a
verdade.
A filosofia e a ciência são boas servas de Cristo, mas pobres guias quando
rejeitam o Filho de Deus. Quando chego ao meu septuagésimo ano de vida e,
no meu aniversário escrevo estas palavras, sou grato por aquela experiência
da união com Cristo que me capacitou a ver na ciência e na filosofia o ensino
do meu Senhor. Porém esta m esm a experiência pessoal fez-me mais conscien
te do ensino de Cristo na Escritura, e fez-me reconhecer em Paulo e João uma
verdade mais profunda do que a que foi descoberta por quaisquer escritores,
um a verdade com relação ao pecado e a sua expiação e que satisfaz os mais
profundos anseios da m inha natureza e que por si m esm a é evidente e divina.
Preocupam-me algumas tendências teológicas dos nossos dias, porque creio
que elas são falsas tanto na ciência como na religião. Como homens que se
sentem pecadores perdidos e que um a vez receberam o perdão do seu Senhor
e Salvador crucificado podem daí em diante rebaixar seus atributos, negar a
sua divindade e expiação, arrancar da sua fronte a coroa do milagre e sobera
nia, relegá-lo ao lugar de um mestre sim plesmente moral que nos influencia
apenas como o fez Sócratescom palavras proferidas através dos tempos, pas
sa pela minha compreensão. Eis aqui o meu teste de ortodoxia: Dirigimos
nossas orações a Jesus? Invocamos o nom e de Cristo como Estêvão e toda a
igreja primitiva? O nosso Senhor vivo é onipresente, onisciente, onipotente?
Ele é divino só no sentido em que nós tam bém o somos, ou é ele o Filho
unigênito, Deus manifesto em carne, em quem habita corporalmente toda a
plenitude da divindade? Que pensais vós de Cristo? esta ainda é a pergunta
crítica, e a ninguém que, diante da evidência que ele nos forneceu, se não pode
responder corretamente, assiste o direito de chamar-se cristão.
Sob a influência de Ritschl e seu relativism o kantiano, muitos dos nossos
mestres e pregadores têm deslizado para negação prática da divindade de Cristo
e da sua expiação. Parece que estamos à beira do precipício de uma repetida
falha unitária, que esfacelará as igrejas e com pelirá a cisões, de maneira pior
que a de Channing e Ware há um século. Os cristãos americanos se recupera
ram daquele desastre somente ao afirmar vigorosam ente a autoridade de Cris
to e a inspiração das Escrituras. Necessitam os de um a visão do Salvador como
a que Paulo teve no caminho de Damasco e João na ilha de Patmos, para nos
convencermos de que Jesus está acima do espaço e do tempo, que a sua exis
tência antedata a criação, que ele conduziu a m archa da história dos hebreus,
que ele nasceu de um a virgem, sofreu na cruz, levantou-se dentre os mortos, e
agora vive para sempre, é Senhor do universo, o único Deus com quem nos
relacionamos, nosso Salvador aqui e Juiz no futuro. Sem haver avivamento
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 9
nesta fé nossas igrejas se tom arão secularizadas, a m issão morrerá, e o casti
çal será removido do seu lugar como ocorreu às sete igrejas da Ásia e como
tem sido com as igrejas da Nova Inglaterra, que se apostataram.
Imprimo esta edição revista e am pliada da m inha “Systematic Theology”,
na esperança de que a sua publicação possa fazer algo para refrear esta veloz
maré que avança, e confirmar a fé nos eleitos de Deus. Não tenho dúvida de
que os cristãos, em sua grande maioria, ainda mantêm a fé que, de um a vez por
todas foi entregue aos santos e que eles, cedo ou tarde, hão de separar-se
daqueles que negam o Senhor que os comprou. Quando o inimigo entra como
um dilúvio, o Espírito do Senhor levanta o estandarte contra ele. E preciso que
eu faça a minha parte levantando tal estandarte. E preciso que eu conduza
outros a reconhecer, como eu, a despeito das opiniões arrogantes da moderna
infidelidade, a minha firme crença, reforçada somente pela experiência e refle
xão de meio século nas velhas doutrinas da santidade como atributo funda
mental de Deus, de um a transgressão e pecado de toda a raça humana, na
preparação divina da história hebréia da redenção do homem, na divindade,
na preexistência, nascimento virginal, expiação vicária e ressurreição corpo
ral do nosso Senhor Jesus Cristo, e na sua futura vinda para julgar os vivos e
os mortos. Eu creio que estas são verdades da ciência assim como da revela
ção; que ainda se verá que o sobrenatural é mais verdadeiramente natural; e
que não o teólogo de mente aberta, mas o cientista de mente estreita será
obrigado a esconder a sua cabeça na vinda de Cristo.
O presente volume, ao tratar do M onism o Ético, da Inspiração, dos Atribu
tos de Deus e da Trindade, contém um antídoto para a mais falsa doutrina que
agora ameaça a segurança da igreja. Desejo agora cham ar especialmente a
atenção para o assunto Perfeição e os Atributos por ela envolvidos, porque eu
creio que a recente fusão da Santidade com o Am or e a negação prática de que
essa Retidão é fundamental na natureza de Deus são responsáveis pelos pon
tos de vista utilitários da lei e os pontos de vista superficiais sobre o pecado
que agora prevalecem em alguns sistemas de teologia. Não pode haver nenhu
ma apropriada doutrina da retribuição, quando se recusa a sua preeminência.
O amor deve ter um a norma ou padrão, e isto só pode ser encontrado na San
tidade. A velha convicção do pecado e do senso de culpa que conduz o peca
dor convicto à cruz são inseparáveis de um a firm e crença no atributo de Deus
logicamente auto-afirmante, anterior ao auto-com unicante e condicionado a
ele. A teologia da nossa época carece de um novo ponto de vista sobre o Justo.
Tal ponto de vista esclarecerá que deve haver um a reconciliação com Deus
antes que o homem seja salvo, e que a consciência hum ana seja apaziguada só
na condição de que se faça um a propiciação à Justiça divina. Neste volume eu
10 Augnstus Hopkins Strong
proponho o que considero a verdadeira Doutrina de Deus, porque nela deve
basear-se tudo o que se segue nos volumes sobre a D outrina do Homem e a da
Salvação.
A presença universal de Cristo, luz que ilum ina a todo homem tanto em
terras pagãs como cristãs, para dirigir ou governar todos os movimentos da
mente humana, dá-me a confiança de que os recentes ataques à fé cristã fra
cassarão no seu propósito. Torna-se evidente, por fim, que não só atacam-se
as obras primorosas, mas até mesmo a cidadela. Pede-se que se abandone toda
a crença na revelação especial. Dizem que Jesus Cristo veio em carne exata
mente como qualquer um de nós, e ele era antes de Abraão senão só no mesmo
sentido que nós somos. A experiência cristã sabe como caraterizar tal doutrina
tão logo se estabelece de um modo claro. E a nova teologia entrará em voga
possibilitando que até mesmo crentes comuns reconheçam a heresia destrui-
dora de almas mesmo sob a m áscara de professa ortodoxia.
Não faço apologia algum a do elem ento hom ilético do meu livro. Para ser
verdadeira ou útil, a teologia deve ser um a paixão. Pectus est quocl teologum
facit, e nenhum zom bador que apregoa a “Teologia Peitoral” rae impedirá de
sustentar que os olhos do coração devem ser iluminados para perceber a ver
dade de Deus e qiie, para conhecer a verdade, é necessário praticá-la. A teolo
gia é um a ciência cujo cultivo pode ser bem sucedido somente em conexão
com sua aplicação prática. Por isso, em cada discussão dos seus princípios
devo assinalar suas relações com a experiência cristã, e a sua força para des
pertar emoções cristãs e levar a decisões cristãs. Teologia abstrata, na verda
de, não é científica. Só é científica a teologia que traz o estudioso aos pés de
Cristo. Eu anseio pelo dia em que, em nome de Jesus, todo joelho se dobre.
Creio que, se cada um servir a Cristo, o Pai o honrará, e ele honrará o Pai. Eu mes
mo não me orgulharia de crer tão pouco, mas sim de crer muito. Fé é a medida
com que Deus avalia o homem. Por que haveria de duvidar que Deus falou aos
pais pelos profetas? Por que haveria de pensar que é incrível Deus ressuscitar
os mortos? O que é impossível aos homens é possível a Deus. Quando o Filho
do homem vier, porventura achará fé na terra? Queira Deus que encontre fé
em nós, que professamos ser seus seguidores. N a convicção de que as trevas
presentes são apenas temporárias e que serão banidas por um glorioso alvore
cer, ofereço ao público esta nova edição da m inha “Teologia” rogando a Deus
para que qualquer que seja a boa semente que frutifique e qualquer que seja a
planta que o Pai não plantou que seja arrancada.
ROCHESTER THEOLOGICAL SEMINARY
ROCHESTER, N. Y„ 3 de agosto de 1906.
SUMÁRIO
Parte I - PROLEGÔMENOS
Capítulo I - IDÉIA DE TEOLOGIA...........................................................................21
I. Definição de Teologia................................................................................................21
II. Alvo da Teologia....................................................................................................... 22
III. Possibilidade da Teologia........................................................................................ 23
1. Na existência de um Deus que se relaciona com o universo..........................23
2. Na capacidadehumana de conhecer D eus........................................................ 26
3. Na revelação do próprio D eus............................................................................ 35
IV. Necessidade da Teologia......................................................................................... 41
1. No instinto organizador da mente humana....................................................... 41
2. Na relação da verdade sistemática com o desenvolvimento do caráter........42
3. Na importância dos pontos de vista definidos e justos da doutrina cristã
para o pregador ........................................................................................................43
4. Na íntima conexão entre a doutrina correta e o firme e agressivo poder
da igreja.....................................................................................................................44
5. Nas injunções diretas e indiretas da Escritura......................................................45
V. Relação da Teologia com a Religião......................................................................... 46
1. Derivação...................................................................................................................46
2. Falsas Concepções................................................................................................... 47
3. Idéia Essencial..........................................................................................................49
4. Inferências ................................................................................................................ 50
Capítulo II - MATERIAL DA TEOLOGIA.................................................................53
I. Fontes da Teologia........................................................................................................53
1. A Escritura e a natureza........................................................................................54
2. A Escritura e o Racionalismo .............................................................................. 59
3. A Escritura e o Misticismo.................................................................................... 61
4. A Escritura e o Romanismo................................................................................. 64
II. Limitações da Teologia................................................................................................66
1. Na finitude do entendimento humano.................................................................. 66
2. No estado imperfeito da ciência natural e metafísica........................................ 67
3. Na inadequação da língua...................................................................................... 67
4. No nosso conhecimento incompleto das Escrituras........................................... 68
5. No silêncio da revelação escrita ........................................................................... 68
6. Na falta de discernimento espiritual causada pelo pecado............................... 69
. 69
. 69
. 70
. 72
. 72
. 72
. 73
. 73
. 74
. 75
.75
. 76
. 80
. 88
. 88
89
. 93
. 95
.95
.97
.98
106
113
118
120
121
123
124
128
131
138
138
139
139
144
144
151
158
165
12 Augiistiis Hopkins Strong
III. Relações do Material com o Progresso da Teologia....................................
1. É impossível um sistema perfeito de teologia.........................................
2. Apesar de tudo isso a teologia é progressiva...........................................
Capítulo III - MÉTODO DA TEOLOGIA........................................................
I. Requisitos para o Estudo da Teologia............................................................
1. Uma mente disciplinada...............................................................................
2. Um hábito mental intuitivo distinto de um outro simplesmente lógico.
3. Conhecimento das ciências física, mental e m ora l..................................
4. Conhecimento das línguas originais da B íblia.........................................
5. Afeição santa para com Deus......................................................................
6. A influência iluminadora do Espírito Santo ............................................
II. Divisões da Teologia........................................................................................
III. História da Teologia Sistemática.....................................................................
IV. Ordem de Tratamento na Teologia Sistemática............................................
1. Vários métodos de ordenação dos tópicos de um sistema teológico....
2. O método sintético.......................................................................................
Parte II - A EXISTÊNCIA DE DEUS
C apítulo I - ORIGEM DA NOSSA IDÉIA DA EXISTÊNCIA DE DEUS .,
I. Primeiras Verdades em G era l..........................................................................
1. Sua natureza..................................................................................................
2. Seus critérios.................................................................................................
II. A Existência de Deus, uma Primeira Verdade...............................................
III. Outras Supostas Fontes da Nossa Idéia..........................................................
IV. Conteúdo desta Intuição...................................................................................
C apítulo II - EVIDÊNCIAS CORROBORATIVAS DA EXISTÊNCIA DE
D EU S.............. ....................................................................................................
I. Argumento Cosmológico..................................................................................
1. Defeitos do Argumento Cosmológico.......................................................
II. Argumento Teleológico....................................................................................
1. Mais explicações..........................................................................................
2. Defeitos do Argumento Teleológico..........................................................
III. Argumento Antropológico...............................................................................
IV. Argumento Ontológico.....................................................................................
1. De Samuel Clarke .......................................................................................
2. De Descartes .................................................................................................
3. De Anselmo...................................................................................................
Capítulo III - EXPLICAÇÕES ERRÔNEAS E CONCLUSÃO...................
I. Materialismo......................................................................................................
II. Idealismo M aterialista......................................................................................
III.Panteísmo Idealista............................................................................................
IV. Monismo Ético.................................................................................
T e o l o g ia S ist e m á t ic a 13
Parte III - AS ESCRITURAS, UM A REVELAÇÃO
DA PARTE DE DEUS
Capítulo I - CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES.............................................. 175
I. Razões a Priorí para Esperar uma Revelação da Parte de D eu s..........................175
1. Necessidades da natureza do homem................................................................ 175
2. Pressuposição de um suprimento....................................................................... 177
II. As Marcas da Revelação que o Homem pode Esperar....................................... 179
1. Quanto à sua substância..................................................................................... 179
2. Quantoao seu método......................................................................................... 180
3. Quanto à sua certificação.................................................................................... 183
III. Os Milagres, um Atestado da Revelação D ivina................................................. 183
1. Definição de Milagre .......................................................................................... 183
2. Possibilidade do Milagre .................................................................................... 189
3. Probabilidade dos M ilagres............................................................................... 192
4. Testemunho necessário para se provar um milagre......................................... 197
5. Força Evidenciai dos Milagres .......................................................................... 198
6. Falsos M ilagres..................................................................................................... 203
IV. Profecia Atestando uma Revelação D ivina............................................................206
1. Definição................................................................................................................ 206
2. Relação da profecia com os milagres ................................................................ 208
3. Requisitos na profecia, considerados como Evidência da Revelação.........208
4. Caraterísticas Gerais da Profecia nas Escrituras ..............................................209
5. Profecia messiânica em geral.............................................................................. 210
6. Profecias especiais pronunciadas por C risto ....................................................210
7. Sobre o duplo sentido da Profecia......................................................................212
8. Propósito da Profecia - até onde não se cumpriu............................................ 214
9. Poder Evidenciai da Profecia - quando cumprida........................................... 216
V. Princípios de Evidência Histórica Aplicáveis à Prova de uma Revelação
Divina........................................................................................................................... 217
1. Quanto à evidência documentária........................................................................217
2. Quanto ao testemunho em geral.......................................................................... 218
Caítulo II - PROVAS POSITIVAS DE QUE AS ESCRITURAS SÃO A
REVELAÇÃO DIVINA............................................................................................222
1. Genuinidade dos Livros do Novo Testamento.................................................. 223
2. Genuinidade dos Livros do Velho Testamento.................................................250
II. Credibilidade dos Escritores da B íblia................................................................... 259
III. O Caráter Sobrenatural do Ensino da Escritura.................................................... 262
1. O ensino da Escritura em g era l........................................................................... 262
2. Sistema Moral do Novo Testamento.................................................................. 266
3. A pessoa e o caráter de Cristo............................................................................ 279
4. O testemunho do próprio Cristo..........................................................................282
IV. Resultados Históricos da Propagação da Doutrina da Escritura......................... 285
14 Augustus Hopkins Strong
C apítulo III - INSPIRAÇÃO NAS ESCRITURAS................................................... 293
I. Definição de Inspiração..............................................................................................293
II. Prova da Inspiração.................................................................................................... 296
III. Teorias Sobre a Inspiração........................................................................................302
1. Teoria da Intuição ..................................................................................................302
2. Teoria da Iluminação..............................................................................................305
3. Teoria do D itado.....................................................................................................311
4. Teoria da Dinâmica................................................................................................314
IV. União dos Elementos Divino e Humano na Inspiração......................................... 316
V. Objeções à Doutrina da Inspiração ..........................................................................330
1. Erros em matéria de Ciência............................................................................331
2. Erros em matéria de História........................................................................... 336
3. Erros no campo da M oral..................................................................................341
4. Erros de Raciocínio............................................................................................345
5. Erros na citação ou interpretação do Velho Testamento.............................. 347
6. Erros na Profecia................................................................................................349
7. Alguns livros não merecem um lugar na Escritura inspirada..........................351
8. Porções dos livros da Escritura escritos por outras pessoas que não são
aquelas a quem são atribuídos.............................................................................353
9. Narrativas Céticas ou Fictícias.............................................................................356
10. Reconhecimento da não inspiração de mestres da Escritura e de seus
escritos..................................................................................................................359
Parte IV - NATUREZA, DECRETOS E OBRAS DE DEUS
Capítulo I - ATRIBUTOS DE D E U S........................................................................ 363
I. Definição do Termo Atributos.................................................................................. 364
II. Relação dos Atributos Divinos com a Essência D ivina....................................... 364
1. Os atributos têm uma existência objetiva...................................................... 364
2. Os atributos são inerentes à essência divina..................................................366
3. Os atributos pertencem à essência divina como tal ......................................367
4. Os atributos manifestam a essência d iv in a ....................................................367
III. Métodos para Determinar os Atributos D ivinos................................................... 368
1. Método racional.....................................................................................................368
2. Método bíblico.......................................................................................................369
IV. Classificação dos Atributos...................................................................................... 369
V. Atributos Absolutos ou Imanentes .......................................................................... 372
Primeira divisão - Espiritualidade e os atributos envolvidos por e la .................372
1. V id a ......................................................................................................................... 374
2. Pessoalidade................................................. ......................................................... 376
Segunda Divisão - Infinitude e os atributos envolvidos por e la ......................... 378
Terceira Divisão - Perfeição e os atributos por ela envolvidos.......................... 388
1. Verdade...................................................................................................................388
I
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 15
2. Am or......................................................................................................................... 391
3. Santidade..................................................................................................................399
VI. Atributos Relativos ou Transitivos........................................................................... 410
Primeira Divisão - Atributos relacionados com Tempo e Espaço...................... 410
1. Eternidade................................................................................................................ 410
2. Imensidade............................................................................................................... 415
Segunda Divisão - Atributos relacionados com a C riação...................................417
1. Onipresença.............................................................................................................417
2. Onisciência.............................................................................................................. 421
3. Onipotência..............................................................................................................427
Terceira Divisão - Atributos relacionados com os seres m orais.........................430
1. Veracidade e Fidelidade ou Verdade transitiva..................................................430
2. Misericórdia e Bondade ou Amor Transitivo......................................................431
3. Justiça e Retidão, ou Santidade Transitiva......................................................... 433
VII. Nível e Relações dos Vários Atributos .................................................................440
1. Santidade, atributo fundamental de D eus...........................................................441
2. A santidade de Deus, a base da obrigação m o ra l............................................. 445
Capítulo II - DOUTRINA DA TRINDADE..............................................................452
I. Na Escritura há Três que são Reconhecidos como D eus......................................454
1. Provas do Novo Testamento................................................................................ 454
2. Indicações do Velho Testamento..........................................................................472
II. Estes três são Descritos na Escritura de tal Modo que Somos Compelidos
a Concebê-los como Pessoas Distintas.................................................................... 479
1. O Pai e o Filho são pessoas distintas uma da outra ..........................................479
2. O Pai e o Filho são pessoas distintas do E spírito............................................. 480
3. O Espírito Santo é uma pessoa.............................................................................480
III. Esta Tripessoalidade da Natureza Divina não é Simplesmente Econômica e
Temporal, mas Imanente e Eterna............................................................................. 485
1. Prova da Escritura de que estas distinções de pessoalidade são eternas.... 485
2. Erros refutados pelas passagens anteriores........................................................ 486
IV. Esta Tripessoalidade não é Triteísmo; pois, Conquanto Haja Três Pessoas,
há Apenas Uma Essência........................................................................................... 491
V. As Três Pessoas, Pai, Filho, e Espírito Santo, são Iguais .................................... 496
1. Estes títulos pertencem às Pessoas...................................................................... 496
2. Sentido qualificado destes títulos ....................................................................... 497
3. Geração e processos consistentes com a igualdade..........................................504
VI. Inescrutável, Embora não Autocontraditória, esta Doutrina Fornece a
Chave para Todas as Outras Doutrinas.................................................................... 509
1. O modo desta existência triúna é inescrutável.................................................. 509
2. A Doutrina da Trindade não é autocontraditória.............................................. 512
3. A doutrina da Trindade tem importantes relações com outras doutrinas .... 514
Capítulo III - OS DECRETOS DE DEUS..................................................................522
I. Definição de Decretos............................................................................................... 522
16 Augustus Hopkins Strong
II. Prova da Doutrina dos Decretos...............................................................................525
1. Da Escritura............................................................................................................ 525
2. Da Razão................................................................................................................ 527
III. Objeções à Doutrina dos Decretos.......................................................................... 532
1. Que eles são inconsistentes com a livre atuação do homem .......................... 532
2. Que eles afastam todo o motivo do exercício humano.................................. 536
3. Que eles fazem Deus o autor do pecado............................................................ 539
VI. Notas Finais............................................................................................................. 544
1. Empregos práticos da doutrina dos decretos.................................................... 544
2. O verdadeiro método da pregação da doutrina................................................. 545
Capítulo IV - AS OBRAS DE DEUS; OU A EXECUÇÃO DOS DECRETOS . 547
SEÇÃO I - CRIAÇÃO
I. Definição de Criação................................................................................................. 547
II. Prova da Doutrina da C riação.................................................................................. 551
1. Declarações diretas da Escritura..........................................................................551
2. Evidência indireta da Escritura........................................................................... 556
III. Teorias que se opõem à Criação ............................................................................. 556
1. Dualismo................................................................................................................ 556
2. Emanação............................................................................................................... 564
3. Criação a partir da eternidade............................................................................. 568
4. Geração espontânea..............................................................................................573
IV. O Relato Mosaico da C riação..................................................................................575
2. Interpretação adequada..........................................................................................579
V. O Fim de Deus na Criação......................................................................................... 583
1. O testemunho da Escritura...................................................................................583
2. O testemunho da razão......................................................................................... 585
VI. Relação da Doutrina da Criação com as outras Doutrinas................................ 590
1. Com a santidade e a benevolência de D eus...................................................... 590
2. Com sabedoria e livre vontade de Deus ............................................................592
3. Com Cristo como revelador de Deus................................................................. 594
4. Com a Providência e a Redenção .......................................................................597
5. Com a observância doSábado............................................................................ 598
SEÇÃO II - PRESERVAÇÃO
I. Definição de Preservação......................................................................................... 602
II. Prova da Doutrina da Preservação........................................................................... 603
1. Da Escritura............................................................................................................ 603
2. Da Razão............ ....................................................................................................604
III. Teorias que virtualmente negam a doutrina da Preservação............................... 607
1. D eísm o....................................................................................................................607
2. Criação contínua ................................................................................................... 609
IV. Notas sobre a Parceria D ivina..................................................................................612
SEÇÃO III - PROVIDÊNCIA
I. Definição de Providência......................................................................................614
17
615
615
622
625
625
626
627
632
632
633
642
646
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650
655
658
660
673
673
674
677
677
678
T e o l o g ia S ist e m á t ic a
II. Prova da Doutrina da Providência..........................
1. Prova escriturística...............................................
2. Prova racional .......................................................
III. Teorias opostas à Doutrina da Providência...........
1. Fatalismo...............................................................
2. Casualismo............................................................
3. Teoria de uma providência simplesmente geral
IV. Relações da Doutrina da Providência....................
1. Com os milagres e com as obras da graça........
2. Com a oração e a resposta...................................
3. Com a atividade cristã.........................................
4. Com os maus atos dos agentes liv res................
SEÇÃO IV - OS ANJOS BONS E OS MAUS
I. Afirmações e Sugestões da Escritura.....................
1. Quanto à natureza e atributos dos anjos ...........
2. Quanto ao seu número e organização...............
3. Quanto ao seu caráter moral ..............................
4. Quanto às suas funções.......................................
II. Objeções à Doutrina dos A n jos...............................
1. À doutrina dos anjos em geral ...........................
2. À doutrina dós anjos maus em particular..........
III. Empregos práticos da Doutrina dos A n jo s ...........
1. Emprego da doutrina dos anjos bons.................
2. Empregos da doutrina dos anjos maus..............
Parte I
PROLEGÔMENOS
C a p í t u l o I
IDÉIA DE TEOLOGIA
I. D EFIN IÇÃO DE T E O L O G IA
Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo.
Embora a palavra “teologia” seja empregada às vezes em escritos dogmá
ticos para designar um simples departamento da ciência que trata da nature
za e atributos divinos, o uso prevalecente, desde A be la rdo (1079-1142 A .D.),
que intitulou seu tratado geral “Theologia Christiana”, o qual abrange sob este
termo todo o acervo da doutrina cristã. Por isso, a teologia trata, não só de
Deus, mas das relações entre Deus e o universo, motivo por que falamos da
Criação, da Providência e da Redenção.
Os Pais chamam o Evangelista João de “o teólogo”, porque ele trata mais
plenamente do relacionamento interno das pessoas da Trindade. G r e g ó r i o
N a z i a n z e n o (328) recebeu esta designação porque defendia a divindade de
Cristo contra os arianos. Para um exemplo moderno deste emprego do termo
“teologia” no sentido restrito, veja o título do primeiro volume do D r . H o d g e :
“Systematic Theology, Vol. I: Teologia". Mas teologia não é somente “a ciên
cia de Deus”, nem mesmo “a ciência de Deus e do homem”. Ela também dá
conta das relações entre Deus e o universo.
Se o universo fosse Deus, a teologia seria a única ciência. Visto que o
universo é apenas uma manifestação de Deus e distingue-se dele, há ciências
da natureza e da mente. A teologia é a “ciência das ciências”, não no sentido
de incluir todas estas, mas no de empregar os seus resultados e mostrar a
sua base subjacente; (ver W ardlaw , Theology, 1.1,2). A ciência física não é
uma parte da teologia. Somente como físico, Humboldt não precisava mencio
nar o nome de Deus em seu Cosmos (contudo vejamos Cosmos, 2.413, onde
ele diz: “O Salmo 104 apresenta uma imagem do cosmos todo”). O Bispo de
C a rlis le : “A ciência é atéia, mas nem por isso pode ser ateísta”.
Só quando consideramos as relações das coisas finitas com Deus é que o
estudo delas fornece material para a teologia. A antropologia é uma parte da
teologia porque a natureza do homem é obra de Deus e porque a forma de
Deus tratar o homem lança luz sobre o caráter de Deus. Deus é conhecido
através das suas obras e das suas atividades. Por isso a teologia dá conta
destas obras e atividades na medida que elas acompanham o nosso conheci
mento. Todas outras ciências exigem a teologia para sua explicação completa.
2 2 Augustus H opkins Strong
Proudhon: “Se você se aprofundar muito na política, esteja certo de entrar na
teologia”.
II. ALVO DA TEOLOGIA
O alvo da teologia é a certificação dos fatos que dizem respeito a Deus e às
relações entre Deus e o universo, e a apresentação de tais fatos em sua unida
de racional como partes conexas de um formulado e orgânico sistema de ver
dade.
Ao definirmos a teologia como ciência, indicamos o seu alvo. A ciência
não cria; descobre. A teologia responde a esta descrição da ciência. Desco
bre fatos e relações, mas não os cria. Fisher, Nature and Method of Revelation,
141 - “S c h ille r , referindo-se ao ardor da fé em Colombo, diz que, se o grande
descobridor não tivesse achado um continente, ele o teria criado. Mas a fé
não é criativa. Se Colombo não tivesse achado a terra - não teria havido uma
resposta objetiva da sua crença - sua fé teria sido mera fantasia”. Porque a
teologia trata de fatos objetivos, recusamo-nos a defini-la como “ciência da
religião”; versus Am. Theol. Rev., 1850.101-126, eTHORNWELL, Theology, 1.139.
Tanto os fatos como as relações de que a teologia trata têm uma existência
independente dos processos mentais subjetivos do teólogo.
Ciência não é apenas observação, registro, verificação e formulação de
fatos objetivos; é também o reconhecimento e explicação das relações entre
estes fatos e a síntese tanto dos fatos como dos princípios racionais que
os unem em um sistema abrangente, corretamente proporcional e orgânico.
Tijolos e madeiramento espalhados não são uma casa; braços, pernas, cabe
ças e troncos separados numa sala de dissecção não são homens vivos; e
fatos isolados não constituem ciência. Ciência = fatos + relações; W h e w e l l ,
Hist. Inductive Sciences, I, Introd., 43 - “Pode haver fatos sem ciência, como
no conhecimento do cavouqueiro; pode haver pensamento sem ciência, como
na antiga filosofia grega”. A. M acDonald: “O método a priori relaciona-se com
o método a posterioricomo as velas com o mastro de uma embarcação: quanto
melhor é a filosofia, maior é a providência de um número suficiente de fatos;
doutra forma ocorre o perigo de transtornar o empreendimento”.
Presidente W oodrow W ilson: “A enfática injunção da nossa era diz aos
historiadores: ‘dai-nos os fatos’. ... Mas os fatos em si não constituem a ver
dade. A verdade não é concreta; é abstrata. É só a idéia, a revelação correta,
do sentido que as coisas têm. Ela só é evocada pela distribuição e ordenação
dos fatos que sugerem o sentido”. Dove, Logic of the Christian Faith, 14 -
“Perseguir a ciência é perseguir as relações”. Everett, Science of Thought, 3
- “Logia” (p.ex. na palavra “teologia”), de Xóyoç,, = palavra + razão, expressão
+ pensamento, fato + idéia;cf. Jo. 1.1 - “No princípio era o Verbo”.
Como a teologia trata de fatos objetivos e suas relações, assim a disposi
ção destes fatos não é opcional, mas determinada pela natureza da matéria
de que ela trata. A verdadeira teologia repensa os pensamentos de Deus e os
põe na disposição de Deus, como os construtores do templo de Salomão
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 23
tomaram as pedras já lavradas e as fixaram nos lugares para os quais o
arquiteto as havia designado; Reginald Heber: “Não caiu nenhum martelo,
nenhum machado tiniu; Como a longa palmeira, surgiu a fábrica mística”. .
Os cientistas não temem que os dados da física bitolem ou comprimam o seu
intelecto; nem devem temer os fatos objetivos que são os dados da teologia.
Não podemos fazer teologia do mesmo modo que não podemos fazer uma lei
da natureza física. Como o filósofo natural é “Naturae minister et interpres”,
assim o teólogo é servo e intérprete da verdade objetiva de Deus.
m . POSSIBILIDADE DA TEOLOGIA
A possibilidade da Teologia tem um a tríplice base: 1. Na existência de um
Deus que se relaciona com o universo; 2. N a capacidade da m ente humana de
conhecer Deus e algumas de tais relações; 3. N a provisão de meios pelos quais
Deus se põe em real contato com a m ente ou, em outras palavras, na provisão
de um a revelação.
Qualquer ciência em particular só se torna possível quando combina três
condições, a saber, a verdadeira existência do objeto de que ela trata, a capa
cidade subjetiva da mente humana conhecer tal objeto, e a provisão de meios
definidos pelos quais os objetos entram em contato com a mente. Podemos
ilustrar as condições da teologia a partir da selenologia - a ciência, não da
“política lunar”, que de modo tão infundado John S tu a r t M i l l pensava perse
guir, mas da física lunar. A selenologia é possível sob três condições:
1. a existência objetiva da lua; 2. a capacidade subjetiva da mente humana de
conhecê-la; e 3. a provisão de aiguns meios (p.ex., os olhos e o telescópio)
pelos quais a lacuna entre o homem e a lua se ligam e pelos quais a mente
pode apossar-se do conhecimento verdadeiro dos fatos relativos à lua.
1. Na existência de um Deus que se relaciona com o universo
Tem-se objetado, na verdade, que desde que Deus e estas relações são
objetos apreendidos só pela fé, não são objetos próprios do conhecimento ou
assuntos próprios da ciência.
Respondemos:
a) A Fé é conhecim ento e o mais elevado tipo de conhecimento. - A ciên
cia física também se apoia na fé - fé na nossa existência, na existência de um
mundo objetivo e exterior a nós e na existência de outras pessoas além de nós
mesmos; fé nas nossas convicções prim itivas,tais como espaço, tempo, causa,
substância, desígnio, certeza; fé na confiabilidade das nossas faculdades e no
testem unho dos nossos semelhantes. Nem por isso a ciência física é invalida
da, porque tal fé, em bora diferente na percepção sensorial ou demonstração
2 4 Augustus Hopkins Strong
lógica, é ainda um ato cognitivo da razão e pode ser definido como certifica
ção relativa à m atéria em que a verificação é impossível.
A citada e respondida objeção à teologia expressa-se nas palavras de S ir
W illiam Hamilton, Metaphysics, 44, 531 - “Fé - crença - é o órgão pelo qual
nós apreendemos o que está além do nosso conhecimento”. Mas ciência é
conhecimento e o que está além do nosso conhecimento não pode ser maté
ria de ciência. O Presidente E. G. Robinson diz com precisão que o conheci
mento e a fé não podem ser separados um do outro, como os compartimen
tos de um navio, dos quais o primeiro pode ser esmagado enquanto o segundo
ainda mantém o navio flutuando. A mente é uma só, - “ela não pode ser seccio-
nada em duas com uma machadinha”. Fé não é antítese do conhecimento, -
eia é um tipo maior e mais fundamental de conhecimento. Ela nunca se opõe
à razão, mas apenas à vista. Tennyson estava errado quando escreveu: “Nós
temos somente fé: não podemos conhecer; Porque conhecemos aquilo que
vemos” (In Memoriam, Introd...). Isto tornaria os fenômenos sensitivos os úni
cos objetos do conhecimento. A fé nas realidades supra-sensíveis, ao contrá
rio, é o mais elevado exercício da razão.
S ir W illiam Hamilton declara consistentemente que a mais elevada con
quista da ciência é o levantamento de um altar “Ao Deus Desconhecido”.
Esta, entretanto, não é a representação da Escritura. Cf. Jo. 17.3 - “a vida
eterna é esta, que te conheçam a ti como único verdadeiro Deus”; e Jr. 9.24 - “o
que se gloriar glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor”.
Para a crítica de Hamilton, ver H. B. Smith, Faith and Philosophy, 297-336.
Fichte: “Nós nascemos na fé”. Até mesmo Goethe se dizia alguém que crê
nos cinco sentidos. B a lfo u r, Defense of Philosophic Doubt, 277-295, mostra
que as crenças intuitivas nas categorias de espaço, tempo, causa, substân
cia, justiça pressupõem uma aquisição de todo o conhecimento. Dove, Logic
of the Christian Faith, 14 - “Se se deve destruir a teologia porque parte de
termos e proposições primárias, deve-se, então, proceder de igual modo com
todas as ciências”. Mozley, Miracles, define fé como a “razão não verificável”.
b) A fé é um conhecim ento condicionado pelo sentimento santo. - A fé que
apreende o ser divino e sua obra não é opinião ou imaginação. É certeza rela
tiva às realidades espirituais sobre o testem unho da nossa natureza racional e
sobre o testemunho de Deus. Sua única peculiaridade como ato cognitivo da
razão é que está condicionado ao sentim ento santo. Como a ciência da estética
é produto da razão incluindo o poder de reconhecer o belo praticam ente inse
parável do amor ao belo e como a ciência da ética é produto da razão incluin
do o poder de reconhecer o moralm ente correto praticam ente inseparável do
amor ao m oralm ente correto, assim a ciência da teologia é produto da razão,
mas da razão que inclui o poder de reconhecer o Deus, que é praticamente
inseparável do am or a Deus.
Empregamos aqui o termo “razão" para significar a força total do conheci
mento. Razão, neste sentido, inclui o estado de sensibilidade desde que seja
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 25
-.dispensável ao conhecimento. Não podemos conhecer uma laranja só de
olhá-la; para entendê-la, é tão necessário saboreá-la como vê-la. A matemá-
::ca do som não pode dar-nos entendimento da música; é necessário também
ouvi-la. Só a lógica não pode demonstrar a beleza do pôr do sol, ou de um
caráter nobre; o amor ao belo e à justiça antecede o conhecimento do belo e
da justiça. Ullman chama a atenção para a derivação de sapientía, sabedoria,
de sapere, saborear. Não podemos conhecer Deus só pelo intelecto; o cora
ção deve acompanhar o intelecto a fim de possibilitar o conhecimento das
coisas divinas. “As coisas humanas”, diz Pascal, só precisam ser conhecidas
para serem amadas; mas as coisas divinas primeiro precisam ser amadas
para serem conhecidas”. “Esta fé [religiosa] do intelecto”, diz Kant, “funda
menta-se na aceitação do temperamento moral”. Se alguém fosse totalmente
indiferente às leis morais, continua o filósofo, até mesmo as verdades religio
sas “teriam o apoio dos fortes argumentos da analogia, mas, do mesmo modo
que o coração obstinado, o cético não poderia conquistá-las”.
A fé, então, é o mais elevado conhecimento porque é a ação integral da
alma, a perspicácia, não somente de um olho, mas dos dois olhos da mente,
do intelecto e do amor a Deus. Com um olho podemos ver um objeto plano,
mas, se quisermos vê-lo como um todo e captar o efeito estereótipo, deve
mos empregar ambos os olhos. Não é o teólogo, mas o astrônomo não devo
to que tem a ciência caolha e, portanto, incompleta. Os erros do racionalista
são os da visão defeituosa. O intelecto tem-se divorciado do coração, isto é,
da disposição correta, das afeições corretas e do propósito correto da vida.
O intelecto diz: “Não posso conhecer Deus”; e o intelecto está certo. O que ointelecto diz, a Escritura também o diz: 1 Co. 2 .14 - “O homem natural não
compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e
não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente”; 1.21 - “na
sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus”.
Por outro lado, a Escritura declara que “pela fé, entendemos” (Hb. 11.3).
Para a Escritura a palavra “coração” significa tão somente a disposição
governante ou sensibilidade + vontade; e ela indica que o coração é um órgão
do conhecimento: Ex. 35.25 - “mulheres que eram sábias de coração”;
SI. 34.8 - “provai e vede que o Senhor é bom” = o provar vem antes do ver;
Jr. 24.7 - “Dar-lhes-ei um coração para que me conheçam”; Mt. 5.8 - “Bem-
aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”; Lc. 24.25 -
“tardos de coração para conhecer”; Jo. 7.17 - “Se alguém quiser fazer a von
tade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou falo de mim
mesmo”; Ef. 1 . 1 8 - “tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para
que saibais”; 1 Jo. 4.7,8 - “qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a
Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus”.
c) Portanto, a fé, e só a fé pode fornecer o m aterial adequado e suficiente
para um a teologia científica. - Como um a operação da mais elevada natureza
racional do homem, em bora distinta da visão ocular ou do raciocínio, a fé é o
mais elevado tipo de conhecimento. Ela nos dá o entendim ento que só pelos
sentidos seria inacessível, a saber, a existência de Deus e ao menos algumas
das relações entre Deus e a sua criatura.
26 Augustas Hopkins Strong
Phillippi, Glaubenslehre, 1.50, segue G erhard, ao to rna r a fé um ato con
jun to do in te lecto e da vontade. Hopkins, Outline Study of Man, 77,78, fa la não
só da “razão estética” , mas da “ razão m oral” . Murphy, Scientific Bases of Faith,
91, 109, 145, 191 - “Fé é a certeza a respeito daquilo em que é impossível a
verificação”. Emerson, Essays, 2.96 - “A crença consiste em aceitar as afir
mações da alma - a descrença em rejeitá-las”. M o re ll, Philos. of Religion,
38,52,53, cita C o lle rid ge : “A fé consiste na síntese da razão e da vontade do
indivíduo, ... e em virtude daquela (isto é, da razão), a fé deve ser uma luz,
uma forma de conhecimento, uma contemplação da verdade”. A fé, então,
não deve ser representada como uma menina cega apegada a uma cruz - a
fé não é cega - “Doutra forma a cruz pode muito bem ser um crucifixo ou uma
imagem de Gautama”, “A cega descrença”, não a fé cega, “sem dúvida deve
errar, e esquadrinhar suas obras em vão”. Como na consciência reconhece
mos uma autoridade invisível, conhecemos a verdade em exata proporção
com o nosso desejo de “praticar a verdade”, assim na religião só a santidade
pode conhecer a santidade e só o amor pode entender o amor (cf. Jo. 3.21 -
“quem pratica a verdade vem para a luz”).
Se um estado correto do coração for indispensável à fé bem como o
conhecimento de Deus, pode haver qualquer “ theologia irregenitorum”, ou
teologia dos irregenerados? Sim, respondemos; do mesmo modo que um
cego pode ter uma ciência da ótica. O testemunho dos outros dá sua reivindi
cação a ele; a obscura luz que penetra a obscura membrana corrobora este
testemunho. O irregenerado pode conhecer a Deus como poder e justiça, e
temê-lo. Mas isto não é o conhecimento do mais íntimo caráter de Deus; ele
fornece um certo material para uma teologia defeituosa ou desproporcional;
mas não fornece material suficiente para uma correta teologia. Como, para
tornar esta ciência da ótica satisfatória e completa, um oftalmologista compe
tente deve remover a catarata dos seus olhos, assim, para qualquer teologia
completa ou satisfatória, é preciso que Deus lhe retire o véu do coração
(2 Co. 3 .15 ,16 - “o véu está posto no coração deles. Mas, quando [marg. ‘os
homens’] se converterem ao Senhor, o véu se tirará”).
A nossa doutrina da fé é o conhecimento e o mais elevado de todos; deve
distinguir-se do de Ritschl, cuja teologia é um apelo ao coração para a exclu
são da cabeça - para a fiducia sem notitia. Mas fiducia inclui notitia; doutra
forma é cega, irracional e anticientífica. R o be rt Brow ning igualmente caiu num
profundo erro especulativo quando, para comprovar sua fé otimista, estigma
tizou o conhecimento humano como simplesmente aparente. O apelo tanto
de R itsch l como de Browning da cabeça para o coração deve mais ser um
apelo do mais estreito conhecimento do simples intelecto para o maior
conhecimento condicionado à correta afeição.
2. Na capacidade humana de conhecer Deus
Porém tem-se argumentado que tal conhecimento é impossível pelas seguin
tes razões:
A) Podemos conhecer apenas os fenômenos.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 27
Respondemos:
á) Como conhecemos os fenômenos físicos assim tam bém conhecemos os
mentais, b) Conhecendo os fenômenos, quer físicos, quer mentais, conhece
mos a substância subjacente aos fenômenos, m anifestada através deles e que
constitui a base de sua unidade, c) A nossa m ente traz à observação do fenô
meno não só o conhecimento da substância, mas tam bém de tempo, de espaço,
de causa e de justiça, realidades que em nenhum sentido são fenomenais. Por
que estes objetos do conhecim ento não são fenomenais, o fato de que Deus
não é fenomenal não nos impede de conhecê-lo.
Não precisamos aqui determinar o que é substância. Quer sejamos realis
tas ou idealistas, somos compelidos a admitir que não pode haver fenômenos
sem os númenos, não pode haver aparências, não pode haver qualidades
sem algo que seja qualificado. Este algo que serve de base ou está sob a
aparência ou qualidade chamamos substância. Em nossa filosofia somos mais
iotzeanos do que kantianos. Dizer que não conhecemos o eu, mas apenas as
suas manifestações no pensamento, é confundir o eu com o seu pensamento
e ensinar psicologia sem alma. Dizer que de modo nenhum conhecemos o
mundo exterior, mas apenas as suas manifestações nas sensações, é ignorar
o princípio que liga tais sensações; porque, sem algo a que as qualidades
são inerentes, elas não têm base alguma para sua unidade. De igual modo,
dizer que não conhecemos nada de Deus a não ser suas manifestações, é
confundir Deus com o mundo e praticamente negar que haja Deus.
S tãh lin , em sua obra sobre Kant, Lotze e R itsch l, 186-191,218,219, diz
com precisão que “a limitação do conhecimento dos fenômenos envolve, na
teologia, a eliminação de todas as reivindicações do conhecimento dos obje
tos da fé cristã como são em si mesmas”. Esta crítica, com justiça, põe na
mesma classe R its c h l junto com Kant, ao invés de pô-los com Lotze que
sustenta que, conhecendo os fenômenos, conhecemos também os númenos
manifestos neles. Conquanto R itsch l professe seguir Lotze, toda a tendência
da sua teologia caminha na direção da identificação kantiana do mundo com
as nossas sensações, a mente com os nossos pensamentos e Deus, com
atividades tais que lhe são peculiares como nós as percebemos. Nega-se a
natureza divina, independente das suas atividades, o Cristo preexistente, a
Trindade imanente. Afirmações de que Deus é amor e paternidade conscien
te de si mesmo tornam-se juízos de valor meramente subjetivo.
Admitimos que conhecemos Deus só até onde as suas atividades o reve
lam e até onde as nossas mentes e corações são receptivos à sua revelação.
Deve-se exercer o conjunto de faculdades apropriadas - não as matemáti
cas, as lógicas ou as que se referem à prudência, mas a ética e a religiosa.
Ritschl tem o mérito de reconhecer a razão prática da especulativa; seu erro
não consiste em reconhecer que, quando usamos adequadamente os pode
res do conhecimento, tomamos posse não simplesmente da verdade subjeti
va, mas também da objetiva e não somente entramos em contato com as
atividades de Deus, mas com o próprio Deus. Os juízos religiosos normais,
embora dependam das condições subjetivas, não são apenas “juízos de
2 8 Augustus Hopkins Strongmérito”, ou “juízos de valor”, - elas nos fornecem o conhecimento das “próprias
coisas”. Edward Caird diz do seu irmão John Caird (Fund. Ideas of Chrístianity,
Introd... cxxi) - “A pedra fundamental da sua teologia é a convicção de que se
pode conhecer e conhece-se a Deus e de que, no sentido mais profundo,
todo o nosso conhecimento é o dele”.
O fenomenalismo de R its c h l está aliado ao positivismo de Comte, que
considera todo o assim chamado conhecimento de outro tipo que não sejam
os objetos fenomenais puramente negativos. A expressão “Filosofia Positiva”
na verdade implica que todo o conhecimento da mente é puramente negativo;
ver Comte, Pos. Philosophy, tradução de M artineau, 26,28,33 - “Para obser
var o vosso intelecto deveis fazer uma pausa nas atividades - embora quei
rais observar essa mesma atividade. Se não puderdes fazer a pausa, não
podereis observar; se a fizerdes, nada há a observar”. Dois fatos refutam este
ponto de vista: 1) a consciência e 2) a memória; porque a consciência é o
conhecimento do eu ao lado do conhecimento dos seus pensamentos e a
memória é o conhecimento do eu ao lado do conhecimento do passado dela.
Os fenômenos são “fatos, distintos da sua base, princípio, ou lei”; “não se
percebem os fenômenos nem as qualidades, como tais, mas os objetos, as
percepções, ou os seres; e é por um pensamento posterior ou por um reflexo
que estes se ligam como qualidades e são tidos como substâncias”.
Os fenôm enos podem se r in te rio res, /'.e., pensam entos; neste caso, o
núm eno é a m ente cujas m anifestações são os pensam entos. Por ou tro lado,
os fenôm enos podem ser exteriores, e.g., a cor, a dureza, a form a, o tam a
nho; neste caso, o núm eno é a m atéria, cu jas qualidades são as m anifesta
ções. Mas as qualidades, quer mentais, quer m ateria is, im plicam a existência
de um a substância a que pertencem ; não se pode concebê-las com o uma
existência a parte da substância, mais do que com o um lado superio r de uma
tábua assim com o não se pode concebê-las com o existentes sem um lado
inferior; ver M artineau, Types of Ethical Theory, 1.455,456 - “A suposição de
Comte de que a m ente não pode conhecer a si m esm a ou os seus estados
opõe-se à de Kant, de que a m ente nada pode conhecer a não ser a si m es
ma. ... É exatam ente porque todo o conhecim ento vem dos re lacionam entos
que ele não vem e nem pode v ir só dos fenôm enos. O absoluto não pode se
conhecido per se porque, ao ser conhecido, ele se re lac ionaria ipso facto e
não mais seria absoluto. Mas nem o e lem ento fenom enal pode ser conhecido
per se, i. e., com o fenom enal, sem a cognição sim u ltânea do que é o não
fenom enal” . McCosh, Intuitions, 138-154, estabelece as caraterísticas das subs
tâncias com o 1) ser, 2) poder, 3) perm anecer. Diman, Theistic Argument, 337,363
- “A teo ria que re je ita Deus, re je ita o m undo exte rio r e a existência da alm a” .
C onhecem os algo além dos fenôm enos, a saber, lei, causa, força, - ou não
podem os ter ciência.
B) Porque só podemos conhecer o que tem analogia com a nossa natureza
ou experiência.
Respondemos: d) Para o conhecim ento não é essencial que haja seme
lhança de natureza entre conhecedor e conhecido. Conhecem os tanto pela
diferença como pela semelhança, b) N ossa experiência passada, apesar de
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 29
facilitar grandem ente novas aquisições, não é a m edida do nosso conhecimen-
t : possível. Se assim fosse, seria inexplicável o prim eiro ato de conhecimento
e toda a revelação dos mais elevados caracteres até os menores seria excluída
assim como todo o progresso no conhecim ento que ultrapassa o nosso presen
te conhecimento, c) M esmo que o conhecim ento dependesse da semelhança
entre a natureza e a experiência, poderíamos conhecer Deus, visto que somos
feitos à sua imagem e há importantes analogias entre a natureza divina e a nossa.
a) O dito de Empédocles, “Similia similibus percipiuntur”, deve ser suple
mentado por um outro: “Similia dissimilibus percipiuntur”. Mas conhecer é dis
tinguir, e deve haver um contraste entre os objetos a fim de nos despertar a
atenção. Deus conhece o pecado, embora este seja a antítese do seu santo
ser. O eu conhece o não-eu. Não podemos conhecer até mesmo o eu sem
considerá-lo objetivamente, distinguindo-o dos seus pensamentos e conside-
rando-o como um outro.
b) Versus H e rb e rt Spencer, First Principies, 79-82 - “Conhecimento é o
reconhecimento e a classificação”. Mas retrucamos que é necessário perce
ber primeiro uma coisa para reconhecê-la, ou compará-la com outra; e isto é
verdade, tanto a respeito da primeira sensação como da última e as mais
definidas formas de conhecimento; na verdade, não há nenhuma sensação
que não envolva, como complemento, ao menos uma percepção incipiente.
c) P o rte r, Human Intellect, 486 - “A indução só é possível baseada na
suposição de que o intelecto do homem é um reflexo do divino, ou que o
homem é feito à imagem de Deus”. Note, contudo, que o homem é feito à
imagem de Deus, e não Deus à imagem do homem. A pintura é a imagem
paisagística, não o contrário a paisagem, a imagem da pintura; porque há
muito na imagem que não tem nada que corresponda a ela na pintura.
A idolatria perversamente faz Deus à imagem do homem e deifica as fraque
zas das impurezas do homem. A Trindade em Deus pode não ter a exata
contrapartida na atual constituição do homem, embora possa descortinar-nos
o objetivo do desenvolvimento futuro do homem e o sentido da crescente
diferenciação das forças do homem. G ore, Incarnation, 116 - “Se o antropo-
morfismo aplicado a Deus é falso, ainda o teomorfismo aplicado ao homem é
verdadeiro; o homem é feito à imagem de Deus, e as suas qualidades não são,
a medida das divinas, mas a contrapartida destas e a verdadeira expressão”.
C) Porque conhecem os apenas aquilo que podem os conceber, no sentido
de formar um a imagem mental adequada.
Respondemos: d) É verdade que conhecem os só aquilo que podemos con
ceber se pelo term o “conceber” significamos nossa distinção entre o pensa
mento do objeto conhecido e os demais objetos. M as b) a objeção confunde
concepção com o que é meramente seu acessório ocasional e auxílio, a saber,
o quadro que a imaginação faz do objeto. N este sentido, não é teste final da
verdade, c) Torna-se claro que a form ação de um a im agem mental não é
3 0 Augustus H opkins Strong
essencial à concepção ou ao conhecim ento, quando lembramos que, de fato,
tanto concebemos como conhecemos muitas coisas de que não podemos for
m ar im agem mental seja ela qual for e que em nada corresponde à realidade;
por exemplo: força, causa, lei, espaço, nossas próprias mentes. Assim pode
mos conhecer Deus apesar de que não podem os form ar im agem mental ade
quada a respeito dele.
A objeção aqui refutada se expressa mais claramente nas palavras de
H e rb e rt Spencer, First Principies, 25-36, 98 - “A realidade subjacente às apa
rências é total e permanentemente inconcebível por nós”. Mansel, Prolego-
mena Logica, 77,78 (cf.. 26) sugere que a fonte deste erro encontra-se num
ponto de vista falho da natureza do conceito: “A primeira caraterística distinti
va de um conceito, a saber, que não pode por si mesmo ser descrito no sen
tido e na imaginação”. P o rte r, Human Intellect, 392 (vertb. 429,656) - “Con
ceito não é uma imagem mental” - só a percepção o é. Lotze: “De um modo
geral não se representa a cor através de qualquer imagem; ela não se apre
senta nem verde nem vermelha, mas não tem qualquer caraterização”. O cava
lo, genericamente, não tem uma cor particular, embora individualmente pos
sa ser preto, branco ou baio. S ir W illiam H am ilton fala das “noções de
inteligência impossíveis de ser representadas em pintura”.
M artineau, Religion and Materialism, 39,40 - “Esta doutrina da Nesciência
encontra-se na mesma relação com o poder causai, quer você a construa
com o Poder Material,quer com a Atuação Divina. Nem pode ser observada',
deve-se aceitar um ou outro. Se você admite para a categoria do conheci
mento o que se aprende a partir da observação, seja particular, seja genera
lizada, então se trata de uma Força desconhecida; se você amplia a palavra
ao que é importado pelo próprio intelecto em nossos atos cognitivos, para
torná-los assim, então se conhece Deus”. A matéria, o éter, a energia, o pro
toplasma, o organismo, a vida, - nenhum deles pode ser retratado para a
imaginação; contudo, o S r. Spencer os trata como objetos da Ciência. Se não
são inescrutáveis, por que ele considera inescrutável a Força que dá unidade
a todas estas coisas?
Na verdade, H e rb e rt Spencer não é coeren te consigo m esm o, pois, em
diversas partes dos seus escritos, ele cham a Realidade inescrutável dos fenô
m enos a Existência Abso lu ta , Poder e C ausa unas, eternas, ubíquas, in fin i
tas, últim as. “ Parece” , diz o Padre D alga irns, “que se conhece m uita coisa do
D esconhecido” . Chadwick, Unitaríanism, 75 - “A pobre expressão ‘D esconhe
c ido ’ torna-se, depois das repetidas designações de Spencer, tão rica com o
todo o conhecim ento sa lvador de C reso” . Matheson: “Saber que nada sabe
mos já s ign ifica te r chegado a um fato do conhec im en to ” . Se o S r. Spencer
pretendia exclu ir Deus do reino do Conhecim ento, devia prim eiro tê-lo excluído
do reino da Existência; porque adm itir que ele é, já é adm itir que nós não
podem os conhecê-lo , mas, na verdade, em certo ponto, nós o conhecem os.
D) Porque podemos conhecer, na verdade, só o que conhecemos no todo,
não em parte.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 31
Respondemos: a) A objeção confunde conhecim ento parcial com o
conhecimento de um a parte. Conhecemos a m ente em parte, mas não conhe
cemos um a parte da mente, b) Se a objeção fosse válida, nenhum conhecimen
to real de qualquer coisa seria possível, visto que não conhecemos um a só
coisa em todas as suas relações. Concluímos que, em bora Deus não seja for
mado de partes, podemos ainda ter um conhecim ento parcial dele e tal conhe
cimento, em bora não exaustivo, pode ser real e adequado aos propósitos da
ciência.
a) A objeção mencionada no texto é estimulada por Mansel, Limits of
Religious Thought, 97, 98 e é M artineau, Essays, 1.291 quem a responde.
A mente não existe no espaço e não tem partes: não podemos falar do seu
quadrante sudoeste, nem podemos dividi-la em metades. Contudo, encontra
mos o material para a ciência mental no conhecimento parcial da mente.
Assim, conquanto não sejamos “geógrafos da natureza divina” ( B o w n e , Review
of Spencer, 72), podemos dizer com Paulo, não que “agora conhecemos uma
parte de Deus”, mas que “agora conheço [Deus] em parte” (1 Co. 13.12).
Podemos conhecer verdadeiramente o que não conhecemos exaustivamen
te; ver Ef. 3 . 1 9 - “conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento”.
Não me entendo perfeitamente, contudo me conheço em parte; assim posso
conhecer a Deus, apesar de não entendê-lo perfeitamente.
b) O mesmo argumento que prova que Deus é incognoscível prova tam
bém que também o mundo o é. Visto que todas partículas da matéria atraem-
se mutuamente, nenhuma delas pode ser explicada exaustivamente sem
levar em conta as demais. Thomas C a rly le : “É um fato matemático que o lan
çamento desta pedra da minha mão altera o centro de gravidade do universo”.
Tennyson, Higher Pantheism: “Flor na parede rachada, eu a arranco das
rachaduras; / Segure-se aqui, raiz e tudo, na minha mão, ó florzinha, porém
não posso entender / O que é você, raiz e tudo, e em tudo, / Devo conhecer
o que Deus é e o que é o homem”. Schurman, Agnosticism, 119 - “Mesmo
parcial como é, esta visão do elemento divino transfigura a vida do homem
sobre a terra”. P fle id e re r, Philos. Religion, 1.167 - “O agnosticismo de cora
ção fraco é pior que o arrogante e titânico gnosticismo contra o qual ele pro
testa”.
E) Porque todos os predicados de Deus são negativos e, por isso, não for
necem conhecim ento real. Respondemos: a) Os predicados derivados da nos
sa consciência, tais como, espírito, amor e santidade são positivos, b) Os ter
mos “infinito” e “absoluto” , contudo, expressam não m eram ente um a idéia
negativa, mas positiva, - a idéia, naquele caso, da ausência total de limite, a
idéia de que o objeto assim descrito continua e continua sempre; a idéia, neste
caso, de inteira auto-suficiência. Porque os predicados de Deus, portanto, não são
meramente negativos, o argumento acim a m encionado não fornece nenhuma
razão válida por que não podemos conhecê-lo.
32 Augustus Hopkins Strong
Versus S ir W illiam Hamilton, Metaphysics, 530 - “O absoluto e o infinito
podem ser concebidos somente com a negação do objeto do pensamento;
a saber, de qualquer modo não temos em outras palavras nenhuma a con
cepção do absoluto e do infinito”. Hamilton aqui confunde o infinito, ou ausên
cia de todos limites, com o indefinido, ou a ausência de todos limites conheci
dos. Per contra, ver Calderwood, Moral Philosophy, 248, e Philosophy of the
Infinite, 272 - “A negação de uma coisa só é possível através da afirmação de
outra”. P o r te r, Human Intellect, 652 - Se os moradores da Ilha de Sandwich,
por falta de nome, tinham chamado o boi de não porco (not-hog), o emprego
de um nome negativo não autoriza necessariamente a inferência de falta de
concepções definidas ou conhecimento positivo”. Deste modo com o infinito,
ou não finito, o incondicionado ou não condicionado, o independente, ou não
dependente, - estes nomes não implicam que não podemos conceber e
conhecer como algo positivo. Spencer, First Principies, 92 - “O nosso conhe
cimento do Absoluto, embora indefinido, não é negativo, mas positivo”.
Schurman, Agnosticism, 100, fala da “farsa da nesciência atribuindo à onis-
ciência os limites da ciência”. “O agnóstico”, diz ele, “erige o quadro invisível
de um Grand Être, sem forma e sem cor, separado de modo absoluto do
homem e do mundo - branco interiormente e vazio por fora - com sua exis
tência indistinguível da sua não existência e, curvando-se diante da criação
idólatra, derrama a sua alma em lamentações sobre a incognoscibilidade de
tal mistério e pavorosa ausência de identidade. ... A verdade é que se desco
nhece a abstração agnóstica da Deidade, porque tal abstração é irreal”. Ver
McCosh, Intuitions, 194, nota; M ivart, Lessons from Nature, 363. Deus não é
necessariamente infinito em todos aspectos. Ele só é infinito em toda a exce
lência. Um plano ilimitado em um aspecto de comprimento pode ser limitado
em outro aspecto, como, por exemplo, a respiração. A nossa doutrina aqui
não é, por isso, inconsistente com o que se segue de imediato.
F) Porque conhecer é limitar ou definir. Por isso o Absoluto como ilimita
do e o Infinito com o indefinido não pode ser conhecido. Respondemos:
a) Deus é absoluto, não como existindo sem nenhum a relação, mas como exis
tindo sem nenhum a relação necessária; e b) Deus é infinito, não excluindo
toda a coexistência do finito com ele mesmo, mas como a base do finito, e
assim, não algemado por ele. c) Deus, na verdade, está limitado pela imutabi
lidade de seus atributos e distinções pessoais bem como pela auto-escolha das
suas relações com o universo que ele criou e com a humanidade na pessoa de
Cristo. Portanto, Deus se limita e se define no sentido de tornar possível o
conhecimento dele.
Versus Mansel, Limitations ofReiigious Thought, 75-84, 93-95; cf. Spinoza:
“Omnis determinatio est negatio"; por isso definir Deus é negá-lo. Responde
mos, entretanto, que a perfeição é inseparável da limitação. O ser humano
pode ser um outro além do que é: com Deus não acontece isso, ao menos
interiormente. Mas tal limitação inerente em seus imutáveis atributos e distin
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 33
ções pessoais, é a perfeição de Deus. Exteriormente, todas limitações sobre
Deus são auto-limitaçõese, portanto consistentes com a sua perfeição. Esse
Deus não deve ser capaz de limitar-se na criação e a redenção tornaria todo
o seu sacrifício impossível e o sujeitaria à maior das limitações. Pelo exposto
podemos dizer que 1. A perfeição de Deus envolve sua limitação a) a pesso-
alidade, b) à Trindade, c) à retidão; 2. A revelação de Deus envolve sua auto-
limitação a) no decreto, b) na criação, c) na preservação, d) no governo, e) na
educação do mundo; 3. A redenção envolve sua infinita auto-limitação a) na
pessoa e b) na obra de Jesus Cristo.
Bowne, Philos. of Creation, 135 - “O infinito não é o todo quantitativo; o
absoluto não é o não relacionado ... Tanto o absoluto como o infinito signifi
cam apenas a base independente das coisas”. Ju lius M ü lle r , Doct. of Siri,
Introd..., 10 - “A religião tem a ver não com um Objeto que deve ser por si
mesmo conhecido porque da sua própria existência é contingente em
ser conhecido, mas com o Objeto com que nos relacionamos, na verdade,
submissos, na dependência dele e no aguardo da sua manifestação”. James
M artineau, Study of Religion, 1.346 - “Não devemos confundir o infinito com o
total. ... A abnegação própria da infinitude é tão somente a forma de auto-
afirmação e a única em que ela pode revelar-se. ... Embora o pensamento
onisciente seja instantâneo, embora certa a força onipotente, sua execução
tem de ser distribuída no tempo e deve ter uma ordem de passos sucessivos;
em outros termos, o eterno pode tornar-se temporal e o infinito falar articula-
damente no finito”.
A pessoalidade perfeita exclui não a determinação própria, mas a que
vem de fora através de um outro. As auto-limitações de Deus são as do amor
e, consequentemente, as evidências da sua perfeição. São sinais não de fra
queza, mas de poder. Deus limitou-se ao método da evolução desenvolven
do-se gradualmente na natureza e na história. O governo dos pecadores por
um Deus santo envolve constante auto-repressão. A educação da raça é um
longo processo de abnegação divina. H erder: “As limitações do aluno são
também as do mestre”. Na inspiração, Deus se limita através do elemento
humano por quem ele opera. Sobretudo, na pessoa e obra de Cristo, temos
infinita auto-limitação: A infinitude se estreita até na encarnação e a santida
de suporta as agonias da Cruz. As promessas de Deus são também auto-
limitações. Deste modo tanto a natureza como a graça são restrições impos
tas a si mesmo por Deus e são os recursos através dos quais ele se revela.
G) Porque todo o conhecim ento é relativo ao agente conhecedor; isto é, o
que conhecemos, conhecemos, não como é objetivamente, mas só no que se
relaciona com nossos sentidos e faculdades. Respondemos: d) Admitimos que
podemos conhecer só o que se relaciona com as nossas faculdades. Mas isto
somente eqüivale a dizer que conhecemos só aquilo que vem ao nosso contato
mental, isto é, conhecemos apenas o que conhecemos. M as b) negamos que
conhecemos aquilo que vem ao nosso contato mental como outra coisa além
do que é. Até onde conhecemos, conhecemos como é. Em outras palavras, as
leis do nosso conhecimento não são m eram ente arbitrárias e regulativas, mas
3 4 Augustus H opkins Strong
correspondem à natureza das coisas. Concluímos que, em teologia, temos a
garantia de adm itir que as leis do nosso pensam ento são as leis do pensamento
de Deus e que os resultados do pensamento norm alm ente conduzido em rela
ção a Deus correspondem à realidade objetiva.
Versus S ir W illiam Hamilton, Metaph., 96-116 e H e rb e rt Spencer, First Prin
cipies, 68-97. Esta doutrina da relatividade deriva de Kant, que, na Crítica da
Razão Pura, sustenta que os juízos a priori são somente “reguladores”. Res
pondemos, entretanto, que, quando se acha que as crenças primitivas são
apenas reguladoras, elas deixam de regulamentar. As formas de pensamento
são também fatos da natureza. Diferentemente do vidro de um caleidoscópio,
a mente não fornece as formas; ela reconhece que estas têm existência exte
rior a ela mesma. A mente lê as suas idéias não rumo ao interior da natureza,
mas nela. Nossas intuições não são lentes verdes que fazem o mundo todo
parecer verde: são lentes de um microscópio, que nos capacitam a ver o que
é objetivamente real (Royce, Spirit of Mod. Philos., 125). Kant chamava o
nosso entendimento de “legislador da natureza”. Mas isto é verdade, só como
descobridor das suas leis, não como seu criador. A razão humana impõe as
suas leis e formas sobre o universo; mas, fazendo isso, ela interpreta o senti
do real dele.
Ladd, Philos. of Knowledge: “Todo juízo implica uma verdade objetiva
segundo a qual julgamos e que constitui o padrão e com a qual temos algo
em comum, /.e., as nossas mentes são parte de uma mente infinita e eterna”.
Aforismo francês: “Quando você está certo, você está mais certo do que pen
sa estar”. Deus não nos põe em permanente confusão intelectual. Foi debal-
de que Kant escreveu “trânsito não impedido” sobre a razão em seu mais
elevado exercício. Martineau, Study of Religion, 1.135 ,136 - “Bem ao contrá
rio da suposição de K ant de que a mente nada pode conhecer além de si
mesma, podemos estabelecer a suposição de Comte, igualmente sem garan
tia, de que a mente não pode conhecer-se a si mesma ou os seus estados.
Não podemos ter filosofia sem suposições. Você dogmatiza se diz que as
formas correspondem à realidade; mas igualmente você dogmatiza se diz
que não correspondem. ... 79 - Que as nossas faculdades cognitivas corres
pondem às coisas tais quais são, é muito menos surpreendente do que se
elas correspondem às coisas que não são". W. T. H arris , in Journ. Spec.
Philos., 1.22, expõe as contradições próprias de Spencer: “Todo o conheci
mento não é absoluto, mas relativo; nosso conhecimento deste fato, entretan
to, não é relativo, mas absoluto”.
R itsch l, Justification and Reconciliation, 3.16-21, estabelece limites, com
uma correta afirmação da natureza do conhecimento, e adere à doutrina de
Lotze, distinta da de Kant. A declaração de R its c h l pode resumir-se da
seguinte maneira: Tratamos, não do Deus abstrato da metafísica, mas do
Deus que a si mesmo se limitou e se revela em Cristo. Não conhecemos ou
as coisas, ou Deus independentemente dos seus fenômenos ou manifesta
ções, como imaginava Platão; não conhecemos os fenômenos ou manifesta
ções sozinhos, sem conhecer as coisas ou Deus, como supunha Kant; mas,
na verdade, conhecemos tanto as coisas como Deus nos fenômenos e mani-
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 35
'estações, como ensinava L o tz e . Não sustentamos a união mística com Deus,
:endo como retaguarda toda a experiência religiosa, como ensina o Pietismo;
a alma está sempre e somente em atividade e a religião é a atividade do
espírito humano no qual o sentimento, o conhecimento e a vontade combi
nam-se numa ordem inteligível”.
Porém o Dr. C. M. M ead, Ritschl’s Place in the History of Doctrine, bem
~iostra que R it s c h l não seguiu L o tz e . Seus “juízos de valor” são apenas uma
aplicação do princípio “regulador” de K a n t à teologia. Ele sustenta que pode
mos conhecer as coisas não como são em si mesmas, mas só como se nos
apresentam. Retrucamos que, o que as coisas são para nós depende do que
são em si mesmas. R it s c h l considera as doutrinas da preexistência de Cristo,
divindade e expiação como intromissões da metafísica na teologia, matéria a
respeito da qual não podemos conhecer e com a qual nada temos a ver. Não
há propiciação ou união mística com Cristo; e Cristo é o nosso exemplo, mas
não o nosso Salvador expiador. R its c h l faz bem em reconhecer que o amor
em nós dá olhos à mente e nos capacita a ver a beleza de Cristo e sua verda
de. Mas o nosso juízo não é, como ele defende, um juízo de valor meramente
subjetivo, - é uma entrada em contato com o fato objetivo.
3. Xa revelação do próprio Deus
Como neste lugar não tentamos apresentar um a prova positiva da existên
cia de Deusou da capacidade que o hom em tem de conhecer a Deus, assim
não tentamos, por ora, provar que Deus entrou em contato com a m ente huma
na através da revelação. Daqui para frente consideraremos as bases desta crença.
Por ora, nosso alvo é simplesmente m ostrar que, admitindo o fato da revela
ção, é possível um a teologia científica. Isto tem sido negado nas seguintes
bases:
A) Que a revelação, como um processo de tom ar conhecido, é necessaria
mente interior e subjetiva - quer seja um modo de inteligência, quer um des
pertar das forças cognitivas - e, por isso, não pode fornecer nenhum fato obje
tivo que constitua material próprio para ciência.
M o r e l l , Philos. fíeligion, 128-131,143 - “A Bíblia não pode com a estrita
exatidão da língua, ser chamada de revelação, visto que uma revelação sem
pre implica um verdadeiro processo de inteligência em uma mente viva”.
F. W. Newm an, Phases of Faith, 152 - “Nada conhecemos do nosso Deus
moral e espiritual exteriormente - sempre interiormente”. T h e o d o re P a rk e r :
“A revelação verbal nunca pode comunicar uma simples idéia como a de Deus,
da Justiça, do Amor, da Religião”. James M a rtin e a u , Seat ofAuthority in Religion:
“Tantas mentes quantas existem conhecem a Deus ao primeiro contato, tem
havido tantos atos reveladores e tantos quantos o conhecem indiretamente
são estranhos à revelação”; assim, admitindo que a revelação exterior seja
impossível, M a rt in e a u sujeita todas provas de tal revelação à desleal crítica
destrutiva. P f le id e r e r , Philos. Religion, 1 .1 8 5 - “Como toda revelação é origi-
36 Augustus Hopkins Strong
nariamente uma experiência de vida interna, o aparecimento da verdade reli
giosa no coração, nenhum evento pode pertencer de si mesmo à revelação,
independente de ser natural ou sobrenaturalmente ocasionado”. P r o f . G e o rg e
M . F o rb e s : “Nada nos pode ser revelado que não se prenda à nossa razão.
Segue-se que, na medida em que a razão age normalmente, ela é uma parte
da revelação”. R itc h ie , Darwin and Hegel, 30 - “A revelação de Deus é o
desenvolvimento da sua idéia”.
Em resposta a esta objeção, apresentada principalm ente pelos idealistas na
filosofia:
d) Admitimos que a revelação, para ser eficaz, deve ser o meio de induzir a
um novo modo de inteligência, ou, em outras palavras, deve ser entendida.
Admitimos que este entendim ento das coisas divinas é impossível sem um
despertar das forças cognitivas do homem. Além disso, admitimos que a revela
ção, quando originariamente transmitida, via de regra era interior e subjetiva.
M a th e s o n , Moments on the Mount, 51-53, sobre Gl. 1 .16 - “revelar o seu
Filho em mim”; “A revelação no caminho de Damasco não teria iluminado
Paulo se não fosse somente uma visão dos seus olhos. Nada pode ser reve
lado para nós que não tenha sido revelado dentro de nós. O olho não vê a
beleza da paisagem, nem o ouvido ouve a beleza da música. Do mesmo
modo a carne e o sangue não nos revelam Cristo. Sem o ensino do Espírito,
os fatos exteriores serão somente como as letras de um livro para uma crian
ça que não sabe ler”. Podemos dizer com C h a n n in g : “Estou mais certo de que
minha natureza racional vem de Deus mais do que qualquer livro que expres
se a sua vontade”.
b) Mas negamos que a revelação exterior é, por isso, inútil e impossível.
M esmo que as idéias religiosas surgissem totalmente de dentro, um a revelação
externa podia despertar os poderes dormentes da mente. Contudo, as idéias
não surgem totalmente de dentro. A revelação exterior pode transmiti-las.
O hom em pode revelar-se através de com unicação exterior e, se Deus tem
poder igual ao do homem, pode revelar-se de igual maneira.
R o g e rs , Eclipse of Faith, indaga assinaladamente: “Se a S ra . M o r e l l e a
S ra . Newman ensinam através de um livro, não pode Deus fazer o mesmo?”
L o tz e , Microcosm, 2.660 (livro 9, cap. 4), fala da revelação “contida em algum
ato divino, da ocorrência histórica ou repetido continuamente no coração do
homem”. Mas, na verdade, não há nenhuma alternativa aqui; a força do credo
cristão é que a revelação de Deus é tanto exterior quanto interior. R ainy, Criti
cai Review, 1.1-21, diz com precisão que, sem garantia, M a r t in e a u isola da
alma do indivíduo a testemunha de Deus. As necessidades interiores preci
sam ser combinadas com as exteriores a fim de assegurar que não se trata
de um capricho da imaginação. É necessário distinguirmos as revelações de
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 37
Deus das nossas fantasias. Daí, antes de dar-nos o padrão interior, Deus, via
se regra, nos dá o exterior, através do qual testamos nossas impressões.
Somos finitos e pecadores e necessitamos de autoridade. A revelação exterior
recomenda-se como tendo autoridade sobre o coração que reconhece as suas
necessidades espirituais. A autoridade exterior evoca o testemunho interior e
ihe dá maior clareza, mas só a revelação histórica fornece prova inconteste
de que Deus é amor e nos dá a segurança de que os nossos anseios para
com Deus não são vãos.
c) Por isso a revelação de Deus pode ser e, com o veremos daqui em diante,
é. em grande parte, um a revelação exterior em obras e palavras. O universo é
um a revelação de Deus; as obras de Deus na natureza precedem as suas pala
vras na história. Contudo, reivindicamos que, em muitos casos em que se
comunicou a verdade originariamente de form a interior, o mesmo Espírito
que a comunicou efetuou seu registro exterior, de modo que a revelação inte
rior pôde ser transm itida a outros além dos que prim eiro a receberam.
Não devemos limitar a revelação às Escrituras. O Verbo eterno antedatou
a palavra escrita e, através do Verbo eterno, Deus se fez conhecido na natu
reza e na história. A revelação exterior precede e condiciona a interior.
No tempo certo a terra aparece antes do homem e a sensação antes da per
cepção. A ação expressa melhor o caráter e a revelação histórica ocorre mais
pelos fatos do que pelas palavras. D o r n e r , Hist. Prot. Theol., 1.231-264 -
“O Verbo não está apenas nas Escrituras. Toda a criação o revela. Na nature
za Deus mostra o seu poder; na encarnação a sua graça e verdade. A Escri
tura dá testemunho delas, mas não é a Palavra essencial. Na verdade, a
Escritura a apreendeu e apropriou quando, nela e através dela vemos o Cris
to vivo e presente. Ela não só confina a si os homens, mas aponta para Cristo
de quem testifica. Cristo é a autoridade. Nas Escrituras ele nos aponta para si
mesmo e demanda a nossa fé nele. Uma vez gerada esta fé, ela não nos leva
a uma nova apropriação da Escritura, mas à uma nova crítica a respeito dela.
Cada vez mais encontramos Cristo na Escritura e ainda julgamo-la cada vez
mais segundo o padrão que há em Cristo”.
Newm an S m ith , Christian Ethics, 71-82: “Há somente uma autoridade-Cris
to. Seu Espírito opera de muitas maneiras, mas principalmente de duas: pri
meiro, a inspiração das Escrituras e segundo, a condução da igreja rumo à
verdade. Esta não deve isolar-se ou separar-se daquela. A Escritura é a lei da
consciência cristã, e a consciência cristã no tempo faz a lei voltar-se para a
Escritura - interpretando-a, criticando-a, verificando-a. A palavra e o espírito
respondem um ao outro. A Escritura e a fé são coordenadas. O protestantis
mo tem exagerado a primeira; o romanismo a segunda. M a rtin e a u deixa de
captar a coordenação entre a Escritura e a fé.”
d) Com este registro exterior também veremos que ocorre sob adequadas
condições a influência especial do Espírito de Deus, de modo a despertar os
38 Augustus Hopkins Strong
poderes cognitivos que o registro exterior reproduz em nossas mentes as idéias
de que as mentes dos escritores estavam divinam ente cheias.
Podemos ilustrar a necessidade da revelação interna a partir da egiptolo-
gia, que é impossível até onde a revelação externa nos hieróglifos não é inter
pretada; a partir do tique-taquedo relógio no escuro compartimento, onde só
a vela acesa capacita-nos a narrar o tempo; a partir da paisagem espalhada
em volta do Rigi na Suíça, invisível até que os primeiros raios do sol toquem
os nevosos picos da montanha. A revelação exterior (çavépcoaiç, Rm. 1.19,20)
deve ser suplementada pela interior (à7toKáXtn(/iç 1 Co. 2.10,12). Cristo é o
órgão da revelação exterior, o Espírito Santo da interior. Em Cristo (2 Co. 1.20)
estão o “sim” e “o Amém” - a certeza objetiva e a subjetiva, a realidade e a
realização.
A certeza objetiva deve tornar-se subjetiva para a teologia científica. Antes
da conversão temos a primeira, a verdade exterior de Cristo; só na conversão
e depois dela passamos a ter a segunda, “Cristo formado em nós” (Gl. 4.19).
Temos a revelação objetiva no Sinai (Ex. 20.22); a revelação subjetiva no
conhecimento que Eliseu teve de Geazi (2 Re. 5.26). Jam es R u s s e l L o w e ll,
Winter Evening Hymn to my Fire: “Por isso, contigo gosto de ler os nossos
bravos poetas antigos: ao teu toque como despertas a Vida nas palavras
secas! Como a correnteza retrocede as sombras do Tempo! e como os lam
peja ainda pela sua massa morta o verso incandescente, Como quando
sobre a bigorna do cérebro lança o brilho, ciclopicamente produzido Através
dos velozes malhos latejantes do pensamento do poeta!”
é) As revelações interiores assim registradas e as exteriores assim interpre
tadas fornecem ambas fatos objetivos que podem servir como material pró
prio para a ciência. Apesar de que a revelação, em seu mais amplo sentido
pode incluir e, constituindo a base da possibilidade da teologia na verdade
inclui, tanto o discernim ento como a iluminação, tam bém pode ser empregada
para denotar simplesmente um a provisão dos recursos exteriores do conheci
mento e a teologia tem que ver com as revelações interiores só na medida em
que se expressam neste padrão objetivo ou que concordam com elas.
Já sugerimos aqui o vasto escopo e ainda as insuperáveis limitações da
teologia. Em qualquer lugar em que Deus se revela, quer na natureza, na
história, na consciência, ou na Escritura, a teologia pode encontrar material
para a sua estrutura. Porque Cristo não é somente o Filho de Deus encarna
do, mas também o Verbo eterno, o único Revelador de Deus, não existe teo
logia alguma separada de Cristo e toda ela é teologia cristã. A natureza e a
história são apenas mais sóbrios e generalizados descortinos do Ser divino,
de que a Cruz é o clímax e a chave. Deus não tem a intenção de ocultar-se.
Ele quer ser conhecido. Ele se revela em todos os tempos tão plenamente
como a capacidade das suas criaturas o permitem. O intelecto infantil não
pode entender a infinitude de Deus, nem a disposição perversa entender a
T e o lo g ia S is t e m á t ic a 39
desinteresseira afeição de Deus. Apesar do que, toda a verdade está em
Cristo e está ao dispor do descobrimento pela mente e pelo coração preparados.
O Infinito, em qualquer lugar em que não se revela, sem dúvida é desco-
"necido do finito. Mas o Infinito, onde quer que se revela, é conhecido. Isto
sugere o sentido das seguintes declarações: Jo. 1 . 1 8 - “Deus nunca foi visto
por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer”;
14.9 - “Quem me vê a mim vê o Pai”; 1 Tm. 6 .16 - “a quem nenhum dos
homens viu, nem pode ver”. É por isso que nós aprovamos a definição de
K a f t a n , Dogmatik, 1 - “A Dogmática é a ciência da verdade cristã crida e
reconhecida na igreja baseada na revelação divina” - até onde ela limita o
escopo da teologia à verdade revelada por Deus e apreendida pela fé. Porém
a teologia pressupõe tanto a revelação externa de Deus, como a interna e
estas, como veremos, incluem a natureza, a história, a consciência e a Escri
tura.
B) Que muitas das verdades assim reveladas são dem asiadam ente indefini
das para constituir m atéria para ciência porque pertencem à. região dos senti
mentos, porque estão além do nosso pleno entendimento, ou porque são desti-
raídas de um arranjo ordenado.
Respondemos:
d) A teologia tem que ver com os sentimentos subjetivos só naquilo em que
rodem ser definidos e apresentados como efeitos da verdade objetiva na men
te. Elas não são mais obscuras que os fatos da moral e da psicologia e a mesma
objeção que excluiria tais sentimentos da teologia tornaria impossíveis estas
ciências.
Ver Ja co b i e S c h le ie rm a c h e r , que consideram a teologia como mero relato
dos sentimentos dos devotos cristãos, em cuja base encontram-se fatos his
tóricos objetivos, matéria de relativa indiferença (H a g e n b a ch , Hist. Doctrine,
2.401-403). Por isso S c h le ie rm a c h e r chamou seu sistema de teologia “Der
Chrístliche Glaube”, e muitos, a partir da sua época, passaram a chamar os
seus respectivos sistemas pelo nome “Glaubenslehre”. Os “juízos de valor”
de R its c h l, de igual modo, fazem da teologia uma ciência simplesmente subjeti
va, se é que se pode ter ciência subjetiva. K a fta n vai além de R its c h l , admitin
do que conhecemos, não só os sentimentos cristãos, mas também os seus
fatos. A teologia é a ciência de Deus e não somente da fé. Em aliança com o
ponto de vista já mencionado encontra-se o de F e u e rb a c h , para quem a reli
gião é matéria de fantasia subjetiva; e o de T y n d a l l , que remete a teologia à
região da aspiração e do sentimento vago, mas o exclui do reino da ciência.
b) Os fatos da revelação que estão além do nosso pleno entendimento
podem, como a hipótese nebular na astronom ia, a teoria atômica na química,
ou a teoria da evolução na biologia, fornecer um princípio de união entre as
4 0 Augustus H opkins Strong
grandes classes de outros fatos irreconciliáveis. Podemos definir nossos con
ceitos de Deus e mesmo da Trindade ao menos o suficiente para distingui-los
de outros conceitos; e qualquer que seja a dificuldade que possa embaraçar a
linguagem só mostra a importância de tentá-lo e o valor de um sucesso próximo.
Horace B ushnell: “A Teologia nunca pode ser uma ciência em vista da
debilidade da linguagem”. Porém este princípio tornaria vaga tanto a ciência
ética quanto a política. F isher, Nat. and Meth. of Revelation, 145 - “Hume e
Gibbon fazem referência à fé como algo demasiado sagrado para apoiar-se
em provas. Assim as crenças religiosas são feitas para enforcar, suspenso,
sem qualquer apoio. Mas o fundamento destas crenças não é menos sólido
para a razão que os testes empíricos inaplicáveis a elas. Os dados nos quais
se apoiam são reais e, com razão, tiram-se inferências a partir dos dados”.
H odgson, na verdade, destila descontentamento em todo o método intuitivo
ao dizer: “Qualquer coisa que você ignora totalmente, afirma ser a explicação
de todas as outras coisas!” Contudo, é provável qúe admita começar suas
investigações a partir da sua própria existência. Não compreendemos inte
gralmente a doutrina da Trindade e aceitamo-la, a princípio, apoiados no tes
temunho da Escritura; a sua prova completa encontra-se no fato de que cada
uma das sucessivas doutrinas da teologia liga-se a ela e com ela permanece
ou cai. A Trindade é racional porque explica a experiência e a doutrina cristãs.
c) M esmo que não houvesse um arranjo ordenado destes fatos, quer na
natureza quer na Escritura, um a cuidadosa sistematização delas pela mente
hum ana não se provaria impossível, a não ser que se admitisse um princípio
que m ostrasse tam bém a im possibilidade de toda a ciência física. A astrono
mia e a geologia se constróem reunindo múltiplos fatos que, à prim eira vista,
parecem não ter nenhum a ordem. O mesmo tam bém ocorre com a teologia.
Contudo, apesar de a revelação não nos apresentar um sistema dogmático pron
to, este não está só implicitam ente contido nisso, mas partes do sistema se
operam nas epístolas do Novo Testamento, como por exemplo, em Rm. 5.12-19;
1 Co. 15.3,4; 8.6; 1 Tm. 3.16; Hb. 6.1,2.
Podemos ilustrar a construção da teologiaa partir de um mapa dissecado,
do qual um pai reúne duas peças, deixando ao filho a tarefa de reunir as
restantes. Ou podemos ilustrar a partir do universo físico, que, sem pensar,
revela pouco da sua ordem. “A natureza não tem cercas”. Parece que uma
coisa desliza para a outra. A preocupação do homem é distinguir, classificar e
combinar. Orígenes: “Deus nos dá a verdade em simples laçadas, que pode
mos tecer em uma textura acabada”. A ndrew Fuller diz que as doutrinas da
teologia “estão unidas como encadeamento de projéteis, de tal modo que, se
um entra no coração os demais seguem o mesmo caminho”. G eorge H erbert:
“Ah! se eu pudesse combinar todas as tuas luzes, e a configuração da sua
glória; vendo não apenas como brilha cada verso, Mas toda a constelação da
história”!
T e o lo g ia S is t e m á t ic a 41
A Escritura sugere possibilidades de combinação, em Rm. 5.12-19, com
seu agrupamento de fatos sobre o pecado e a salvação em torno de duas
pessoas: Adão e Cristo; em Rm. 4.24,25, ligando a ressurreição de Cristo à
rossa justificação; em 1 Co. 8.6, indicando as relações entre o Pai e Cristo;
em 1 Tm. 3.16, resumindo de forma poética os fatos da redenção; em
-ò . 6.1,2 afirmando os primeiros princípios da fé cristã. O fornecimento de
fatos concretos da teologia por Deus, os quais nós mesmos deixamos de
sistematizar, está em plena concordância com o seu método processual rela
tivo ao desenvolvimento de outras ciências.
IV. NECESSIDADE DA TEOLOGIA
Esta necessidade baseia-se:
1. No instinto organizador da mente humana
Este princípio organizador faz parte da nossa constituição. A mente não
pode continuar suportando a confusão ou aparente contradição nos fatos
conhecidos. A tendência de harm onizar e unificar seu conhecimento aparece
tão logo a mente com eça a refletir; na proporção exata dos dotes e cultura é
im pulsionada a sistem atizar e form ular o desenvolvim ento. Isto é verdade em
todos os departamentos da pesquisa humana, mas particularm ente no nosso
conhecimento de Deus. Porque a verdade relativa a Deus é a mais importante
de todas, a teologia vai ao encontro da mais profunda necessidade da natureza
racional do homem. Se todos sistemas teológicos existentes fossem hoje des
truídos, novos sistemas surgiriam amanhã. Tão inevitável é a operação desta
lei que os que mais desacreditam a teologia m ostram que eles têm feito um a
teologia para si mesmos e com freqüência m uito m agra e disparatada. A hos
tilidade à teologia, onde não origina temores equivocados na corrupção da
verdade de Deus, ou na estrutura naturalm ente ilógica do pensamento, fre
qüentemente procede da licenciosidade da especulação que não pode tolerar o
comedimento de um sistem a escriturístico completo.
P residente E. G. Robinson: “Todo homem tem tanto de teologia quanto
possa comportar”. Consciente ou inconscientemente, filosofamos, tão natu
ralmente quanto falamos. “Se moquer de Ia philosophie c’est vraiment philo-
sopher”. G ore, Incarnation, 2 1 - 0 cristianismo tornou-se metafísico, só por
que o homem é racional. Esta racionalidade significa que ele deve tentar ‘dar
conta das coisas’, no dizer de Platão, ‘porque ele é homem, e não somente
porque ele é grego’”. Freqüentemente os homens denunciam a teologia siste
mática ao mesmo tempo em que enobrecem a ciência da matéria. Será que
Deus deixou os fatos relativos a si mesmo num estado de tal modo não rela
cionados que o homem não pode coordená-los? Todas as outras ciências só
4 2 Augustus Hopkins Strong
têm valor na medida em que elas contêm ou promovem o conhecimento de
Deus. Se é louvável classificar os besouros, pode-se permitir raciocinar a
respeito de Deus e da alma. Ao falar de S c h e ll in g , R o y c e , Spirít of Modem
Philosophy, 173, satiricamente nos exorta: “Confiai no vosso gênio; segui o
vosso nobre coração; mudai a vossa doutrina sempre que o vosso coração
mude, e mudai-o freqüentemente, - como acontece com o credo dos român
ticos”. R it c h ie , Darwin and Hegel, 3 - “Exatamente aquelas pessoas que
negam a metafísica são às vezes mais capazes de ser infectadas pela doen
ça que professam detestar - e não sabem quando isto ocorreu”.
2. Na relação da verdade sistemática com o desenvolvimento do caráter
A verdade integralm ente digerida é essencial ao desenvolvim ento do cará
ter cristão no indivíduo e na igreja. Todo o conhecim ento de Deus influi no
caráter, porém principalm ente de todo o conhecim ento dos fatos espirituais
em seus relacionamentos. A teologia não pode, como muitas vezes se tem
objetado, m ortificar os sentimentos religiosos, visto que só tira de suas fontes
e estabelece conexão racional de um as para com as outras verdades que
m elhor se prestam a alim entar os sentimentos religiosos. Por outro lado, os
mais fortes cristãos são os que têm a mais firm e segurança nas grandes doutri
nas do cristianism o; as épocas heróicas da igreja são as que têm mais consis
tente testemunho delas; a piedade que pode ser ferida pela sua sistemática
exibição deve ser fraca, ou mística, ou equívoca.
Para a conversão é necessário algum conhecimento - pelo menos do
pecado e de um Salvador; a união destas duas grandes verdades é o começo
da teologia. Todo o subseqüente desenvolvimento do caráter está condicio
nado à evolução do conhecimento. Cl. 1 .10 - a\)Çavó|ievoi xfl èTciyvcoaei toá)
0Eoá) [omitir èv] = crescendo através do conhecimento de Deus”; o dativo ins
trumental representa o conhecimento de Deus como o orvalho ou a chuva
que alimenta o desenvolvimento da planta; cf. 2 Pe. 3.18 - “crescei na graça
e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Para os textos
que representam a verdade como alimento ver Jr. 3.15 “vos apascentem com
conhecimento e inteligência”; Mt. 4.4 - “Não só de pão viverá o homem, mas
de toda palavra que procede da boca de Deus”; 1 Co. 3.1,2 - “como crianças
em Cristo ... leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido”; Hb. 5.14 - “o
mantimento sólido é para os perfeitos”. O caráter cristão apoia-se na verdade
cristã como alicerce; ver 1 Co. 3 .10-15 - “pus eu ... um fundamento e outro
edifica sobre ele”.
A ignorância é a mãe da superstição, não da devoção. T alb o t W. C h am be r s :
- “A doutrina sem o dever é uma árvore sem frutos; o dever sem a doutrina é
uma árvore sem raízes”. A moralidade cristã é um fruto que cresce só a partir
da árvore da doutrina cristã. Não podemos por muito tempo guardar os frutos
da fé depois de cortarmos a árvore na qual eles cresceram. B a l f o u r , Found.
of Belief, 82 - “A virtude naturalista é parasitária e, quando o hospedeiro
T e o lo o ia S is t e m á t ic a 43
perece, o parasita perece também. A virtude sem a religião também morre
rá”. K id d , Social Evolution, 2 14 - Porque o fruto sobrevive por algum tempo
quando removido da árvore, e mesmo maduro e saboreável diremos que é
independe da árvore?” As doze maneiras pelas quais os frutos da árvore-
do-natal só se prendem é que eles nunca crescem lá, e nunca reproduzem
a sua espécie. A maçã murcha incha num recipiente vazio, mas voltará outra
vez à sua forma mirrada primitiva; o mesmo ocorre com a retidão própria
dos que se retiram da atmosfera de Cristo e não têm o ideal divino com o
qual se comparam. W. M. L is l e : “É um equfvoco e um desastre do mundo
cristão procurar os efeitos ao invés das causas”. G e o r g e G o r d o n , Christ of
To-day, 28 - “Sem o Cristo histórico e o amor pessoal por esse Cristo, a
grande teologia atual se reduzirá a um sonho, incapaz de despertar a igreja
do seu sono”.
3. Na importância dos pontos de vista definidos e justos da doutrina cristã
para o pregador
A sua principal qualificação intelectual deve ser o poder de conceber clara
e compreensivamente e expressar precisa e poderosam ente a verdade. Ele pode
ser o agente do E spírito Santo na conversão e santificação dos homens
só quando pode brandir “a espada do Espírito, que é a palavra deDeus”
(Ef. 6.17), ou, em outra linguagem, só quando pode im primir a verdade nas
mentes e consciências de seus ouvintes. Sem dúvida, nada mais anula seus
esforços do que a confusão e inconsistência na apresentação da doutrina. Seu
objetivo é substituir as concepções obscuras e errôneas entre os seus ouvintes
pelas corretas e vividas. Ele não pode fazer isto sem conhecer os fatos relati
vos a Deus e suas relações - em resumo, conhecê-los como partes de um
sistema. Com esta verdade ele se investe de confiança. M utilar a doutrina ou
interpretá-la falsamente não é só um pecado contra o seu Revelador, - pode
levar à ruína as almas dos homens. A m elhor salvaguarda contra tal mutilação
ou falsa interpretação é o estudo diligente das várias doutrinas da fé nas inter-
relações e especialm ente nas relações com o tem a central da teologia, a pes
soa e obra de Jesus Cristo.
Quanto mais refinada e refletida for a época mais requer razões para sen
tir a Imaginação exercida na poesia e na eloqüência e, como na política ou na
guerra, não é menos forte do que antigamente, - só é mais racional. Note o
progresso vindo do “Buncombe” (N .T ra d linguagem desarrazoada e não sin
cera), na oratória legislativa e forense, no discurso sensível e lógico. B as s â n io ,
no Mercador de Veneza de S h a k e s p e a r e , - “Graciano profere uma porção infi
nita de nulidades. ... Seus raciocínios são como dois grãos de trigo perdidos
em dois alqueires de palha”. O mesmo ocorre na oratória de púlpito: não
bastam simples citação da Bíblia e férvido apelo. O mesmo ocorre com um
uivante daroês (N.Trad.: religioso muçulmano), a comprazer-se na jactanciosa
4 4 Augustus Hopkins Strong
declamação. O pensamento é a matéria prima da pregação. Pode aparecer o
sentimento, desde que com a finalidade exclusiva de conduzir os homens
“para conhecerem a verdade” (2 Tm. 2.25). O pregador deve fornecer a base
do sentimento, produzindo a convicção inteligente. Ele deve instruir mais que
comover. Se o objetivo primordial do pregador é o conhecer Deus e, a seguir,
tornar Deus conhecido, o estudo da teologia é absolutamente necessário ao
seu sucesso.
Com o pode o m édico exe rcer a m ed ic ina sem estudar fis io log ia , ou o
advogado exercer o d ire ito sem estudar ju risp rudênc ia? P ro f. B la c k ie : “Bem
se pode esperar de um m estre em esgrim a faze r-se um grande patriota, do
m esm o m odo que de um sim ples retórico, um grande orador” . O pregador
necessita de conhecer doutrina para não se to rna r um sim ples realejo, tocan
do sem pre, sem pre as m esm as m úsicas. John Henry Newman: “O fa lso prega
dor tem de dizer a lgum a coisa; o verdade iro pregador tem algum a coisa para
d ize r” . Spurgeon, Autobiography, 1.167 - “M udança constante de credo s ign i
fica, sem dúvida, estar perdido. Se se tive r que a rrancar um a árvore duas ou
três vezes por ano, não haverá necessidade de um arm azém m uito grande
para guardar as m açãs. Q uando se m uda m uito de princíp ios doutrinários,
não se espere a produção de m uitos f ru to s . ... Nunca terem os grandes prega
dores enquanto não tiverm os grandes teó logos. Não espere, de estudantes
superfic ia is, grandes pregadores que convençam a lm as” . Pequenas d iver
gências da doutrina corre ta da nossa parte podem se r danosam ente exage
radas naqueles que nos sucederem . 2 Tm . 2.2 - “E o que de mim, entre
m uitas testem unhas, ouviste, con fia -o a hom ens fié is, que sejam idôneos para
tam bém ensinarem os ou tros” .
4. Na íntima conexão entre a doutrina correta e o firm e e agressivo poder
da igreja
A segurança e o progresso da igreja dependem do “padrão das sãs pala
vras” (2 Tm. 1.13), e de ser “coluna e esteio da verdade” (1 Tm. 3.15).
O entendim ento defeituoso da verdade, mais cedo ou mais tarde, resulta em
falhas de organização, de operação e de vida. A com preensão integral da ver
dade cristã como um sistem a organizado fornece, por outro lado, não só uma
incalculável defesa contra a heresia e a imoralidade, mas também indispensá
vel estímulo e instrumento no agressivo labor da conversão do mundo.
Os credos da cristandade não se originaram de uma simples curiosidade
especulativa e de minuciosos artifícios lógicos. São afirmações da doutrina
em que a igreja atacada e em perigo procurou expressar a verdade que cons
titui a sua própria vida. Os que zombam dos credos primitivos têm uma redu
zida concepção do ápice intelectual e da seriedade moral que contribuiu para
a sua feitura. Os credos do terceiro e quarto séculos incorporam os resulta
dos das controvérsias que esgotaram as possibilidades de heresia relativas à
Trindade e à pessoa de Cristo e que fixaram barreiras contra a falsa doutrina
do fim dos tempos. M ahafi: “O que converteu o mundo não foi o exemplo da
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 45
vida de Cristo, - foi o dogma da sua morte”. C o l e r id g e : “Aquele que não resis
te, não está em lugar firme”. S r a . B r o w n in g : “A total tolerância intelectual é a
marca daqueles que não crêem em nada”. E. G. R o b in s o n , Christian Theology,
360-362 - “Doutrina é apenas um preceito no estilo de uma proposição; pre
ceito é apenas doutrina em forma de uma ordem. ... A teologia é o jardim de
Deus; suas árvores são o seu plantio; e “avigoram -se as árvores do
Senhor” (SI. 104.16).
B o s e , Ecumenical Councils: “O credo não é católico porque um concilio de
muitos ou poucos bispos o decretou, mas porque expressa a convicção
comum de gerações inteiras de homens e mulheres que puseram em novas
formas de palavras a sua compreensão do Novo Testamento”. D o r n e r :
“Os credos são a precipitação da consciência religiosa dos homens e tempos
poderosos”. F o s t e r , Chríst. Life and Theol., 162 - “Freqüentemente ela
requer o choque de algum grande evento para despertar os homens para a
clara apreensão e cristalização da sua crença substancial. Tal choque ocor
reu através da rude e grosseira doutrina de Á r io , sobre a qual chegou à con
clusão, no Concilio de Nicéia, seguido tão rapidamente na gelada água os
cristais de gelo que às vezes se formarão quando o vaso que os contém
recebe um golpe”. B a l f o u r , Foundations of Belief, 287 - “Os credos não eram
explicações, mas negações de que as explicações arianas e gnósticas eram
suficientes e declarações de que irremediavelmente empobreciam a idéia de
Deus. Insistiam em preservar a idéia em toda a sua inexplicável plenitude”.
D e n n y , Studies in Theology, 192 - “As filosofias pagãs tentaram atrair a igreja
para os seus próprios fins, e voltar-se para uma escola. Em sua defesa pró
pria, a igreja foi compelida a tornar-se uma espécie de escola por sua própria
conta. Ela teve de fixar seus fatos; teve de interpretar a seu modo os fatos
que os homens estavam interpretando falsamente”.
P r o f . H o w ar d O s g o o d : “O credo é como a espinha dorsal. O homem não
tem necessidade de usá-la diante de si; mas ele precisa tê-la, e que esteja
correta, ou ele será flexível se não for um cristão corcunda”. É bom lembrar
que os credos são credita, não credenda\ as afirmações históricas do que a
igreja tem crido, não prescrições infalíveis do que a igreja deve crer. G eo rge
D a n a B o a r d m a n , The Church, 98 - “Os credos podem tornar-se celas prisio
nais”. S c h u r m a n , Agnosticism, 151 - “Os credos são fortificações defensivas
da religião; elas deveriam ter se tornado, às vezes, artilharia contra a própria
cidadela”. T. H . G r e e n : “Dizem-nos que devemos ser leais às crenças dos
Pais. Sim, mas em que os Pais creriam hoje?” G eo r g e A. G o r d o n , Christ of
To-day, 60 - “A suposição de que Espírito Santo não se preocupa com o
desenvolvimento do pensamento teológico, nem se manifesta na evolução
intelectual da humanidade, é superlativa heresia da nossa geração.... A meta
física de Jesus é absolutamente essencial à sua ética. ... Se o seu pensa
mento é um sonho, seu empenhopelo homem é uma ilusão”.
5. Nas injunções diretas e indiretas da Escritura
A Escritura nos estimula ao estudo integral e abrangente da verdade (Jo. 5.39,
“examinai as Escrituras”), à com paração e harm onização de suas diferentes
4 6 Augustus Hopkins Strong
partes (1 Co. 2.13 - “com parando as coisas espirituais com as espirituais”), à
reunião de tudo em torno do fato central da revelação (Cl. 1.27 - “que é Cristo
em vós, esperança da glória”), à pregação na form a sadia assim como em suas
devidas proporções (2 Tm. 4.2 “prega a palavra”). O ministro do evangelho é
chamado “escriba que se fez discípulo do reino do céu” (Mt. 13.52); os “pas
tores” das igrejas devem ser ao m esm o tempo “m estres” (Ef. 4.11); o bispo
deve ser “apto para ensinar” (1 Tm. 3.2), “que maneja bem a palavra da verda
de” (2 Tm. 2.15), “retendo firm e a palavra fiel, que é conforme a doutrina,
para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer
os contradizentes” (Tt. 1.9).
C om o um m eio de ins trução da ig re ja e de ga ran tia do p rogresso no
entend im ento da verdade cristã, é bom que o pastor pregue regularm ente,
a cada mês, um serm ão doutrinário e exponha os princ ipa is artigos da fé.
O tra tam ento da doutrina em ta is serm ões deve ser bastante sim ples a fim de
ser com preensíve l à in te ligência jovem ; convém torná-lo v iv ido e in teressante
auxiliado por b reves ilustrações; e pelo m enos um terço de cada serm ão deve
ser dedicado a ap licações prá ticas da doutrina proposta, ver o serm ão de
Jonathan Edwards sobre a Im portância do C onhecim ento da Verdade Divina,
in Works, 4.1-15. Os verdade iros serm ões de Edwards, contudo, não servem
de m odelo para a pregação doutrinária para a nossa geração. Eles são de
form a m uito esco lástica, de substância m uito m etafís ica; há muito pouco de
B íb lia e m uito pouco de ilustração. A p regação dou triná ria dos Puritanos
Ing leses de igual m odo se d irig ia quase som ente a adultos. Por outro lado, a
pregação do nosso Senhor adap tava-se tam bém às crianças. Nenhum pastor
se consideraria fiel, se perm itisse aos seus jovens crescerem sem a instrução
regular do pú lp ito no círcu lo in te iro da doutrina cristã. S hakespeare, Rei Henri
que VI, 2- parte, - “A ignorância é a m aldição de Deus; o conhecim ento é a
asa com que voam os ao céu ” .
V. RELAÇÃO DA TEOLOGIA COM A RELIGIÃO
A teologia e a religião relacionam -se um a com a outra como efeitos em
diversas esferas da m esm a causa. Como a teologia é o efeito produzido na
esfera do pensamento sistemático com os fatos relativos a Deus e o universo,
assim a religião é o efeito que estes mesmos fatos produzem na esfera da vida
individual e coletiva. Com relação à palavra ‘religião’, note:
1. Derivação
a) A derivação de religare, “ligar novam ente” (o homem a Deus), é negada
pela autoridade de C ícero e dos m elhores etim ologistas modernos; em vista
da dificuldade, nesta hipótese, de explicar form as tais como religio, religens;
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 47
e pela necessidade, em tal caso de pressupor um conhecim ento mais completo
do pecado e da redenção do que era com um ao mundo antigo.
b) A derivação mais correta é relegere, “reexam inar” , “ponderar cuidado
samente” . Portanto, seu sentido original é “observância reverente” (dos deve-
res para com os deuses).
2. Falsas Concepções
a) Religião não é, como declarava H egel, um tipo de conhecimento; pois,
então, só seria um a forma incom pleta de filosofia e a m edida do conhecimen
to em cada caso seria a m edida da piedade.
No sistema do panteísmo idealista, como o de H egel, Deus é tanto o sujei
to como o objeto da religião. A religião é o conhecimento do próprio Deus
através da consciência humana. H egel não ignora totalmente outros elemen
tos na religião. “O sentimento, a intuição e a fé pertencem-lhe”, diz ele, “e o
conhecimento desacompanhado é caolho”. Contudo, H egel sempre aguarda
va o movimento do pensamento em todas formas da vida; Deus e o universo
são apenas um desenvolvimento da idéia primordial. “O que o conhecimento
precisa saber”, pergunta ele, “se Deus é incognoscível?” O conhecimento de
Deus é a vida eterna e o pensamento é também a verdadeira adoração”.
O erro de Hegel está em considerar a vida como um processo do pensamen
to, ao invés de considerá-lo como um processo da vida. Eis aqui a razão da
amargura entre Hegel e Schleiermacher. H egel considera corretamente que o
sentimento deve tornar-se inteligente antes que seja verdadeiramente religio
so, mas não reconhece a suprema importância do amor no sistema teológico.
Ele abre menos espaço para a vontade do que para as emoções, e não vê
que o conhecimento de Deus de que fala a Escritura não se limita ao intelecto,
mas compreende o homem todo, incluindo a natureza afetiva e a voluntária.
G oethe: “Com o pode o hom em vir a conhecer a si m esm o? Nunca através
dos pensam entos, m as da ação. Tente p ra ticar o seu dever e você saberá o
que você m erece. Você não pode toca r um a flau ta apenas soprando, - você
prec isa em pregar os de do s” . Do m esm o m odo nunca podem os chegar a
conhecer a Deus só através do pensam ento . Jo. 7 .1 7 - “Se alguém q u e rfa ze r
a von tade dele, pe la m esm a doutrina, conhecerá se ela é de Deus” . Os Gnós-
ticos, S tapfer, Henrique VIII, m ostraram que pode haver m uito conhecim ento
teo lóg ico sem a verdade ira re lig ião. A m áxim a de C hillingworth, “Som ente a
Bíblia, a re lig ião dos pro testantes” , é inadequada e im precisa; porque a Bíblia
sem a fé, o amor, e a obed iência pode to rna r-se um fe tiche e uma arm adilha:
Jo. 5.39,40 - “Vós examinais as Escrituras, ... e não quereis vir a mim para
terdes vida”.
b) A religião não é, como sustentava Sch le ierm ach er, o simples sentimen
to de dependência; pois tal sentimento de dependência não é religioso, a não
ser quando exercido para Deus e acompanhado por esforço moral.
48 Augustus Hopkins Strong
Na teologia alemã, Schleiermacher constitui a transição do velho raciona-
lismo para a fé evangélica. “Como Lázaro, com a mortalha da filosofia pante-
ísta embaraçando os seus passos”, embora com a experiência morávia da
vida de Deus na alma, ele baseou a religião nas certezas interiores do senti
mento cristão. Mas o presidente Fairbairn assinala: “A emoção é impotente a
não ser que ela fale baseada na convicção; e onde há convicção existe a
emoção que é poderosa para persuadir”. Se o cristianismo for apenas um
sentimento religioso, não há diferença alguma entre ele e as outras religiões
porque todas são produto do sentimento religioso. Mas o cristianismo se dis
tingue das outras religiões pelas suas concepções religiosas peculiares.
A doutrina precede a vida e a doutrina cristã, não o simples sentimento reli
gioso, é a causa do cristianismo como religião distintiva. Apesar de que a fé
começa com o sentimento, não termina aí. Vemos o demérito do sentimento
nas emoções transitórias dos que vão ao teatro e nos ocasionais fenômenos
avivaiistas.
S abatier, Philos. Relig., 27, acrescenta ao elemento passivo da depen
dência de S chleiermacher, o elemento ativo da oração. Kaftan, Dogmatik, 10 -
“S chleiermacher considera Deus como a Fonte do nosso ser, mas esquece
que ele também é o nosso Firri’. A comunhão e o progresso são elementos
tão importantes como a dependência; a comunhão deve anteceder o progres
so - ela pressupõe perdão e vida. Parece que S chleiermacher não crê nem
num Deus pessoal nem na sua imortalidade pessoal; ver Life and Letters,
2.77-90; Martineau, S tudy of Religion, 2.357. C harles Hodge compara-o a uma
escada num poço - boa coisa para quem quer sair, mas não para quem quer
entrar. Dorner: “A irmandade morávia era a sua mãe; a Grécia a sua pagem”.
c) Religião não é, como sustentava K an t, moralidade ou ação moral; pois
m oralidade é conform idade com um a lei abstrata de direito,enquanto a reli
gião é essencialm ente relação com um a pessoa de quem a alma recebe bênção
e a quem se entrega em am or e obediência.
Kant, Kritikderpraktischen Vernunft, Beschluss: “Conheço apenas de duas
coisas belas: o céu estrelado acima da minha cabeça e o senso do dever
dentro do meu coração”. Mas o simples senso do dever quase sempre causa
angústia. Fazemos objeção à palavra “obedecer” como um imperativo da
religião porque 1) faz da religião somente matéria da vontade; 2) a vontade
pressupõe o sentimento; 3) o amor não está sujeito à vontade; 4) faz que
Deus seja todo lei e não graça; 5) faz do cristão apenas um servo, não um
amigo; cf. Jo. 15 .15 - “Já vos não chamarei servos ... mas tenho-vos chama
do amigos” - uma relação não de serviço mas de amor (W estcott, Bib. Com.,
in loco). A voz que fala é a voz do amor, em vez da voz da lei. Fazemos
objeção também à definição de Matthew A rnold: “Religião é a ética elevada,
iluminada, acendida pelo sentimento; é a moral tocada pela emoção". Isto
exclui o elemento receptivo na religião assim como a sua relação com o Deus
pessoal. A afirmação mais verdadeira é que a religião é a moral em direção a
Deus, como a moral é a religião em direção ao homem. Bowne, Philos. of
Theism., 251 - “A moral que não vai além da simples consciência deve recor-
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 4 9
rer à religião”; ver Lotze, Philos. of Religion, 128-142. G oethe: “A atividade
desqualificada, seja de que tipo for, conduz, por fim, à bancarrota”.
3. Idéia Essencial
Religião, em sua idéia essencial, é vida em Deus, vivida no reconhecim en
to de Deus, em comunhão com Deus e sob o controle do Espírito de Deus que
habita o homem. Porque é vida, não pode ser descrita como consistindo unica
m ente no exercício de qualquer das forças do intelecto, do sentimento e da
vontade. Como a vida física envolve unidade e cooperação de todos os órgãos
do corpo, assim a religião, ou vida espiritual, a obra unificada de todas as
forças da alma. Para sentir, contudo, devemos atribuir prioridade lógica, visto
que todo o sentimento para com Deus com unicado na regeneração é condição
para o verdadeiro conhecimento de Deus e para o verdadeiro serviço prestado
a ele.
1/erGoDET, on the Ultimate Design of Man - “ Deus no homem, e o homem
em Deus” - Princeton Review, nov. 1880; Pfleiderer, D/e Religion, 5-79, e
Religionsphilosophie, 255 - A relig ião é “Sache des ganzen G eisteslebens”
(N.T.: O objetivo da vida espiritual com o um todo): C rane, Religion of To-mor-
row, 4 - “ Religião é a influência pessoal do Deus im anente” ; Sterrett, Reason
Authorityin Religion, 31,32 - “A Relig ião é a re lação recíproca ou a com unhão
entre Deus e o homem, envolvendo 1) a revelação, 2) a fé; D r. J. W. A. S tewart:
“Religion is fe llow sh ip w ith G od” ; Pascal: “P iedade é a sensib ilidade de Deus
para com o coração” ; R itschl, Justif. and Reconci!., 13 - “O cristianism o é
um a e lipse com dois focos - C risto com o R edentor e C risto com o Rei, Cristo
por nós e Cristo em nós, redenção e m ora lidade, re lig ião e ética” ; Kaftan,
Dogmatik, 8 - “A re lig ião cris tã é 1) o reino de Deus com o a meta acim a do
m undo, a ser a ting ida pelo desenvolv im ento m oral aqui, e 2) reconciliação
com Deus pe rm itindo a tin g ir esta m eta a despe ito dos nossos pecados.
A teologia cristã, uma vez estabelecida no conhecimento que o homem tem
de Deus; agora partimos para a religião, /.e., o conhecimento cristão de Deus,
que chamamos fé”.
H erbert S pencer: “Religião é uma teoria a príori do universo”; Romanes,
Thoughts on Religion, 43, acrescenta: “que admite a personalidade inteligen
te como a causa originadora do universo; a ciência trata do Como, o processo
fenomenal, a religião trata do Quem, a Personalidade inteligente que opera
através do processo”. Holland, Lux Mundi, 27 - “A vida natural é a vida em
Deus que ainda não chegou a tal reconhecimento” - o reconhecimento do
fato de que Deus está em todas as coisas - “contudo, não é, como tal, reli
gioso; ... A religião é a descoberta, através do filho, de um Pai, que está em
todas as suas obras, embora distinto de todas elas”. D ewey, Psychology, 283
- “O sentimento acha a sua expressão absolutamente universal na emoção
religiosa, que é o encontro ou realização do eu em uma personalidade com
pletamente realizada, que reúne em si a verdade, ou a unidade completa da
5 0 Augustus H opkins Strong
relação de todos os objetos, beleza ou unidade completa de todos os valores
ideais, e retidão ou a unidade completa em todas as pessoas. A emoção que
acompanha a vida religiosa é aquela que acompanha a nossa atividade com
pleta; o eu se realiza e encontra a sua verdadeira vida em Deus”. Upton,
Hibbert Lectures, 262 - “A ética é simplesmente o discernimento que se
desenvolve na sociedade e o esforço para atualizar-se nela, o senso do rei
nado fundamental e a identidade substancial em todos homens; conquanto a
religião seja emoção, e a devoção que assiste a realização em nossa consciên
cia própria sobre o mais íntimo relacionamento espiritual provindo dessa uni
dade de substância que constitui o homem o verdadeiro filho do Pai eterno”.
4. Inferências
Desta definição de religião segue-se:
a) Que, a rigor, só há um a religião. O hom em é, na verdade, um ser reli
gioso, que tem a capacidade desta vida divina. Contudo, ele é realm ente reli
gioso, só quando entra nesta relação viva com Deus. As falsas religiões são
caricaturas que os homens fazem do pecado, ou a imaginação que o homem
tateia após a luz, form a da vida da alm a em Deus.
P eabody, Christianity the Religion of Nature, 18 - “Se o cristianismo for
verdadeiro, não é uma religião, mas a religião. Se o judaísmo também for
verdadeiro, não se distingue do cristianismo, mas coincide com ele, que é a
única religião com que pode relacionar-se. Se houver porções de verdade em
outros sistemas religiosos, estes não são porções de outras religiões, mas da
única que, de uma forma ou de outra se incorporaram a fábulas e falsidades”.
J ohn Caird, Fund. Ideas of Christianity, 1.25 - “Você nunca pode alcançar a
verdadeira idéia ou essência da religião somente tentando descobrir algo
comum a todas religiões; não são as inferiores que explicam as mais eleva
das, mas, ao contrário, a mais elevada explica todas as inferiores”. G eorge
P. F isher: “O reconhecimento de alguns elementos da verdade nas religiões
étnicas não significa que o cristianismo tem defeitos que devem ser corrigi
dos tomando de empréstimo delas; significa que as crenças étnicas têm em
fragmentos o que o cristianismo tem no seu todo. A religião comparativa não
traz para o cristianismo alguma verdade nova; ela fornece ilustrações de como
a verdade cristã vai ao encontro das necessidades humanas e aspirações e
dá uma visão completa daquilo que o mais espiritual e o mais dotado entre os
pagãos só discernem obscuramente”.
D r. Parkhurst, Sermon on Pv. 2 0 .2 7 - “O espírito do homem é a lâmpada
do Senhor” - “Uma lâmpada, mas não necessariamente iluminada; uma lâm
pada que pode ser acesa só pelo toque de uma chama divina” = o homem
tem natural e universalmente capacidade para a religião, mas não é natural e
universalmente religioso. Todas as falsas religiões têm algum elemento de
verdade; caso contrário nunca poderiam ter obtido e conservado o apoio
sobre a humanidade. Precisamos reconhecer tais elementos de verdade ao
tratá-los. Há alguma prata em um dólar falsificado; caso contrário, não en
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 5 1
ganaria ninguém; mas o fino banho de prata sobre o chumbo não impede que
seja um dinheiro de má qualidade. C l a r k e , Chrístian Theology, 8 - “Veja os
métodos de Paulo tratar a religião pagã, em Atos 14 com o grosseiro paganis
mo e em Atos 17 com a sua forma erudita. Ele a trata com simpatia e justiça.
A teologia cristã tem a vantagem de andar à luz da manifestação própria de
Deusem Cristo, enquanto as religiões pagãs tateiam em Deus e o adoram na
ignorância”; cf. At. 14 .15 - “e anunciamo-vos que vos convertais dessas vai-
dades ao Deus vivo”; 17.22,23 - “em tudo vos vejo acentuadamente religio
sos. ... Esse que honrais não conhecendo é o que eu vos anuncio”.
M a tth e w A r n o l d : “O cristianismo é totalmente exclusivo, porque é absolu
tamente inclusivo. Ele não é um amálgama de religiões, mas tem em si tudo
de melhor e mais verdadeiro de outras religiões. É a luz branca que contém
todas as demais cores.”
M a t h e s o n , Messages of the Old Religions, 328-342 - “Cristianismo é
reconciliação. Inclui a aspiração do Egito; vê, nesta aspiração, Deus na alma
(bramanismo); reconhece o poder do mal do pecado com o Zoroastrismo;
retrocede a um início puro como a China; entrega-se à fraternidade humana
como Buda; extrai tudo do interior como o judaísmo; torna bela a vida presen
te como a Grécia; procura o reino universal como Roma; apresenta o desen
volvimento da vida divina como os teutões. O cristianismo é a múltipla sabe
doria de Deus”.
b) Que o conteúdo da religião é m aior do que o da teologia. Os fatos da
religião se nivelam aos da teologia só naquilo que podem ser concebidos de
um modo definido, precisam ente expressos em linguagem e postos em relação
racional uns com os outros.
Este princípio capacita-nos a definir os limites próprios de uma comunhão
religiosa. Deve ser de tal modo amplo como a própria religião. Mas é impor
tante lembrar o que é a religião. Ela não deve ser identificada com a capaci
dade de ser religioso. Nem podemos considerar as perversões e caricaturas
da religião como méritos da nossa comunhão. Caso contrário, poder-se-ia
requerer que tivéssemos comunhão com o culto aos demônios, com a poliga
mia, com o banditismo e com a inquisição; porque tudo isso tem sido dignifi
cado em nome da religião. A verdadeira religião envolve um certo conheci
mento, embora rudimentar, do verdadeiro Deus, o Deus da justiça; algum
senso do pecado como o contraste entre o caráter humano e o padrão divino;
um certo lançamento da alma sobre a misericórdia divina e o processo divino
da salvação em lugar da justiça própria para obter o mérito e a confiança nas
obras e nas sua memórias; algum esforço prático para realizar o princípio
ético em uma vida pura e na influência sobre os outros. Sempre que aparece
rem estas marcas da verdadeira religião, ainda que nos unitários, romanistas,
judeus ou budistas, reconhecer-se-á a demanda de comunhão. Mas atribuí
mos também estes germes da verdadeira religião na operação da obra do
Cristo onipresente, “a luz que alumia todo homem” (Jo. 1.9), e vemos neles o
incipiente arrependimento e a fé, embora o seu objetivo ainda seja nominal
mente desconhecido. A comunhão cristã deve ter maior base na verdade cristã
52 Augustus Hopkins Strong
aceita e a comunhão da igreja ainda maior base no reconhecimento comum
do ensino do N.T. no que se refere à igreja. A comunhão religiosa, neste
sentido mais amplo, apoia-se no fato de que “Deus não faz acepção de pes
soas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz
o que é justo” (At. 10.34,35).
c) Que a religião pode distinguir-se do louvor formal, que é simplesmente
a expressão exterior da religião. Como tal expressão, o louvor é “a comunhão
formal entre Deus e seu povo” . Nele Deus fala ao homem e o hom em a Deus.
Portanto, inclui adequadamente a leitura da Escritura e a pregação da parte de
Deus e a oração e o cântico da parte do povo.
S t e r r e t t , fíeason and Authority in Religion, 166 - “A adoração cristã é o
pronunciamento do espírito”. Porém no verdadeiro amor existe mais do que
se pode pôr numa letra amorosa e, na religião, existe mais do que se pode
expressar quer na teologia, quer na adoração. A adoração cristã é comunhão
entre Deus e o homem. Mas a comunhão não pode ser unilateral. M a d a m e de
S t a ê l , que H ein e chamava de “torvelinho em saias”, encerra um dos seus
brilhantes solilóquios, dizendo: “Que deliciosa conversa tivemos!” Podemos
achar uma ilustração melhor da natureza do culto nos diálogos de T hom as à
K em pis entre o santo e o seu Salvador, na Imitação de Cristo. G o e t h e : “Contra
a grande superioridade de uma outra pessoa não há remédio senão o amor.
... Louvar um homem é pôr-se no seu nível”. Se este for o efeito do amor e
louvor ao homem, qual não deve ser o de amar e louvar a Deus! Inscrição na
Igreja em Grasmere: “Quem quer que sejas tu que entras na igreja, não a
deixes sem um louvor a Deus por ti mesmo, por aqueles que ministram, e por
aqueles que adoram neste lugar”. Tg. 1.27 - “A religião pura e imaculada
para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribula-
ções, guardar-se da corrupção do mundo” - “religião”, epricrKeía, é cuitus
exterior, e significa “o serviço exterior, o garbo externo, o próprio ritual do
cristianismo, é vida de pureza, amor e devoção própria. O escritor não diz
qual pode ser a sua verdadeira essência, o recôndito do seu espírito, mas
deixa que se infira”.
C a p í t u l o II
MATERIAL DA TEOLOGIA
L FONTES DA TEOLOGIA
Em últim a análise, o próprio Deus deve ser a única fonte do conhecimento
a respeito do seu ser e relações. Portanto, a teologia é um resumo e explicação
do conteúdo das revelações que Deus faz de si mesmo. São estas, em primeiro
lugar, a revelação de Deus na natureza; em segundo lugar e supremamente a
revelação de Deus nas Escrituras.
A m b r ó s io : “A quem creditarei maior grandeza a respeito de Deus senão ao
próprio Deus”? V on B a a d e r : “É impossível conhecer Deus sem Deus; não há
conhecimento sem aquele que é a fonte primordial”. C. A . B r ig g s , Whither, 8 -
“Deus revela a verdade em diversas esferas: na natureza universal, na cons
tituição da humanidade, na história da nossa raça, nas Escrituras Sagradas,
mas, acima de tudo, na Pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor”. F. H. J o h n s o n ,
Whatis Reality?, 399 - “O mestre interfere quando é necessário. A revelação
auxilia a razão e a consciência, mas não as substitui. O catolicismo,
porém, afirma que a igreja as substitui, e o protestantismo que é a Bíblia que
faz isto. A Bíblia, como a natureza, dá muitos dons gratuitos, porém, em germe.
O crescimento dos ideais éticos deve interpretar a Bíblia”. A. J . F. B e h r e n d s :
“A Bíblia é apenas um telescópio; não é o olho que vê, nem as estrelas que o
telescópio traz à vista. Você tem a preocupação e eu também de ver as estre
las com os nossos próprios olhos”. S c h u r m a n , Agnosticism, 178 - “A Bíblia é
uma lente através da qual se vê o Deus vivo. Mas ela é inútil quando você
desvia dela os olhos”.
Só podemos conhecer a Deus na medida em que ele se revela. Conhece-
se o Deus imanente, mas o Deus transcendente não conhecemos como só
conhecemos uma das faces da lua, a que se volta para nós. A. H. S tr o n g ,
Christin Creation, 1 1 3 - “A palavra ‘autoridade’ deriva de auctor, augeo, ‘acres
centar’. A autoridade acrescenta alguma coisa à verdade comunicada. O que
se acrescenta é o elemento pessoal do testemunho. Isto é necessário sem
pre que não se pode remover a ignorância com o nosso próprio esforço, ou a
falta de vontade que resulta do nosso próprio pecado. Na religião preciso
acrescentar ao meu próprio conhecimento aquilo que Deus concede. A razão,
a consciência, a igreja, a Escritura, todas são autoridades delegadas e
5 4 Augustus Hopkins Strong
subordinadas; a única autoridade original e suprema é o próprio Deus revela
do e que se fez compreendido por nós”. G o r e , Incarnation, 181 - “Toda a
legítima autoridade representa a razão de Deus, educando a razão do
homem e comunicando-se com ela. ... O homem foi feito à imagem de Deus:
ele é, na capacidade fundamental, filho de Deus, e torna-se assim de fato, e
completamente, através da união com Cristo. Por isso, na verdade de Deus,
como Cristo a apresenta a ele, podereconhecer como sua a melhor razão, -
usando a bela expressão de P la tã o , ele pode saudá-la com a força do instinto
como alguma coisa que está aquém de si mesmo, antes que dê satisfação
intelectual dela”.
B a l f o u r , Foundations of Belief, 332-337, sustenta que não existe a razão
desassistida e, mesmo que houvesse, a religião natural não é um dos seus
produtos. Diz ele: atrás de toda a evolução da nossa própria razão, está a
Razão Suprema. “A consciência, os ideais éticos, a capacidade de admirar,
a simpatia, o arrependimento, a justa indignação, assim como o prazer no
belo e na verdade, tudo deriva de Deus”. K a f t a n , in Am. Jour. Theology,
1900.718,719, sustenta que não há outro princípio para a dogmática além da
Escritura Sagrada. Embora ele sustente que o conhecimento nunca vem dire
tamente da Escritura, mas da fé. A ordem não é: Escritura, doutrina, fé; mas
Escritura, fé, doutrina. A Escritura não é uma autoridade direta mais do que a
igreja. A revelação se dirige a todo o homem, isto é, à vontade do homem e
reivindica obediência da parte dele. Visto que todo conhecimento cristão é
mediado através da fé, ele se apoia na obediência à autoridade da revelação
e a revelação é a manifestação própria da parte de Deus. K afta n devia ter
reconhecido mais plenamente que não só a Escritura, mas toda a verdade
capaz de ser conhecida, é uma revelação de Deus e que Cristo é “a luz que
alumia todo homem” (Jo. 1.9). A revelação é um todo orgânico, que começa
na natureza, mas tem seu clímax e chave no Cristo histórico que a Escritura
nos apresenta.
1. A Escritura e a natureza
Por natureza significamos aqui não som ente os fatos físicos ou os fatos
relativos às substâncias, propriedades, forças e leis do mundo material, mas
também os fatos espirituais ou fatos relativos à contribuição intelectual e moral
do homem e o arranjo ordenado da sociedade e história humanas.
Empregamos aqui a palavra “natureza” no sentido comum, incluindo o
homem. Existe um outro emprego de tal palavra mais próprio que a torna
somente um complexo de forças e seres sob a lei de causa e efeito. O Homem
só pertence à natureza, neste sentido a respeito do seu corpo, enquanto ima-
terial e pessoal ele é sobrenatural. A livre vontade não está sob a lei da física
e da causa mecânica. É como diz B u s h n e l l : “A natureza e o elemento sobre
natural constituem juntos o sistema único de Deus.” D r u m m o n d , Natural Lawin
the Spiritual World, 232 - “As coisas são naturais ou sobrenaturais conforme
a posição em que se encontram. O homem é sobrenatural com relação ao
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 55
elemento mineral; Deus é sobrenatural com relação ao homem”. Em capítu
los posteriores empregaremos o termo “natureza” em sentido mais restrito.
O emprego universal da expressão “Teologia Natural”, contudo, compele-nos
neste capítulo a valermo-nos da palavra “natureza” em seu sentido mais
amplo, incluindo o homem, apesar de fazê-lo sob protesto e explicando este
sentido mais adequado do termo.
E. G. Robinson: “ Bushne ll separa a natureza do sobrenatura l. A natureza é
um cego encadeam ento de causas. Deus nada tem a ver com ela, exceto que
anda nela. O hom em é sobrenatura l porque está fora da natureza, tendo o
poder de orig inar um independente encadeam ento de causas” . Se esta fosse
a concepção adequada da natureza, poderíam os ser com pelidos a conclu ir
com P. T. F orsyth , Faith and Criticism., 100 - “Não há nenhum a revelação na
natureza. Não pode haver, porque não há perdão. Não podem os estar certos
dela. Ela é apenas estética. Seu ideal não é a reconciliação, mas harm onia.
...pois a consciência acom etida ou forte, não tem palavra... A natureza não
contém a sua própria te leo log ia e porque a a lm a m oral que recusa ser a lim en
tada de fantasia, C risto é o sorriso lum inoso na tenebrosa face do m undo” .
Mas isto con fina v irtua lm ente a reve lação de C risto à Escritura ou à encarna
ção. Com o havia um a astronom ia sem o te lescóp io, assim havia um a teo log ia
antes da Bíblia. G eorge H a r r is , Moral Evolution, 411 - “A natureza é tanto
um a evo lução com o um a revelação. Tão logo a questão Como é respondida,
levantam -se as questões De onde e Porquê. A natureza é para Deus o que a
fa la é para o pensam ento. O títu lo do livro de Henry Drummond devia te r sido:
“A Lei Espiritual no Mundo Natural”, porque a natureza é tão somente a ativi
dade livre embora natural de Deus; o que chamamos sobrenatural é somente
a sua obra extraordinária.
à) Teologia natural - O universo é um a fonte da teologia. As Escrituras
afirmam que Deus se revelou na natureza. Não há apenas um testemunho
exterior da sua existência e caráter na constituição e governo do universo
(Sl. 19; At. 14.17; Rm. 1.20), mas tam bém um testemunho interno da sua
existência e caráter no coração de cada hom em (Rm. 1.17-20,32; 2.15).
A sistem ática apresentação destes fatos derivados da observação, história ou
ciência, constitui a teologia natural.
Testemunho externo: Sl. 19.1-3 - “Os céus declaram a glória de Deus”;
At. 14 .17 - “Não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá
do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos”; Rm. 1.20 - “Porque as coisas
invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua
divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão cria
das”, Testemunho interno: Rm. 1 .19 — tò yvcocttov to ú 9eov> = “o que de Deus
se pode conhecer neles se manifesta”. Compare o àjioKaMm-tetai do evan
gelho no vs. 17, com o àKOKaXvmemi da ira no vs. 18 - duas revelações,
uma da ôpyri, a outra da x á p iç ; uerSHEDD, Homiletics, 11 . Rm. 1.32 - “conhe
cendo a justiça de Deus”; 2 .1 5 - “mostram a obra da lei escrita no seu cora
ção”. Por isso mesmo os pagãos são “inescusáveis” (Rm. 1 .20). Há dois
56 Augustus Hopkins Strong
livros: A Natureza e a Escritura - uma escrita, a outra não: e há necessidade
de estudar ambos.
S purgeon falava de uma pessoa piedosa que, quando descia o Reno,
fechava os olhos para não ver a beleza da cena que desviaria a sua mente
dos temas espirituais. O puritano virava as costas para portulaca, dizendo
que não levaria em conta coisa alguma encantadora na terra. Mas isto é des
prezo às obras de Deus. J. H. Barrows: “O Himalaia contém as letras em alto
relevo em que nós, crianças cegas púnhamos os dedos para ler o nome de
Deus". Desprezar as suas obras é desprezar o próprio Deus. Ele está presen
te na natureza e fala através dela. SI. 19.1 - “Os céus declaram a glória de
Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” - verbos no presente.
A natureza não só é um livro, mas também uma voz. H utton, Essays, 2.236 -
“O conhecimento direto da comunhão espiritual deve ser suplementado pelo
dos processos divinos provindos do estudo da natureza. A negligência do
estudo natural dos mistérios do universo conduz a uma intromissão arrogante
e ilícita das aceitações morais e espirituais num mundo diferente. Esta é a
lição do livro de Jó”. Hatck, Hibbert Lectures, 85 - “O homem, servo e intér
prete da natureza também o é, consequentemente, do Deus vivo”. Os livros
científicos são o registro das interpretações passadas do homem relativas às
obras de Deus.
b) Teologia Natural Suplementada - A revelação cristã é a principal fonte
da teologia. As Escrituras declaram plenam ente que a revelação de Deus
na natureza não supre todo o conhecim ento de que um pecador necessita
(At. 17.23; Ef. 3.9). Portanto, esta revelação é suplem entada por outra na qual
os atributos divinos e as m isericordiosas provisões só obscuramente projeta
das na natureza tom am -se conhecidas ao homem. Esta últim a revelação con
siste em um a série de eventos sobrenaturais e com unicações cujo registro é
apresentado nas Escrituras.
At. 17.23 - Paulo mostra que, embora os atenienses, na edificação do
altar a um Deus desconhecido, “reconhecessem uma existênciadivina além
de qualquer que os ritos comuns da sua adoração reconheciam, tal Ser ainda
lhes era desconhecido; eles não tinham uma concepção exata da sua nature
za e suas perfeições” (H ackett, in loco). Ef. 3.9 - “o mistério que esteve oculto
em Deus” - mistério este que, no evangelho, tornou conhecida ao homem a
salvação. H egel, Philosophy of Religion, diz que o cristianismo é a única reli
gião revelada porque o Deus cristão é o único de quem ela pode vir. Podemos
acrescentar que, como a ciência é o registro da interpretação progressiva do
homem relativa à revelação de Deus no reino natural, do mesmo modo a
Escritura é o registro da interpretação progressiva do homem sobre a revela
ção de Deus no reino espiritual. A expressão “palavra de Deus” não indica
primordialmente um registro, - é a palavra falada, a doutrina, a verdade vita-
lizadora, descortinada por Cristo; Mt. 13 .19 - “Ouvindo a palavra do Reino”;
Lc. 5.1 - “ouvir a palavra de Deus”; At. 8.25 - “tendo falado a palavra
do Senhor”; 13.48,49 - “glorificavam a palavra do Senhor: ... a palavra do
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 57
Senhor se divulgava”; 19 .10 ,2 0 - “ouviram a palavra do Senhor,... a palavra do
Senhor crescia poderosamente”; 1 Co. 1.18 - “a palavra da cruz” - designan
do não um documento, mas uma palavra não escrita; cf. Jr. 1.4 - “veio a mim
a palavra do Senhor”; Ez. 1.3 - “veio expressamente a palavra do Senhor a
Ezequiel, o sacerdote”.
c) As Escrituras, o padrão f in a l de apelo - A ciência e a Escritura lançam
luz um a sobre a outra. O mesmo Espírito divino que deu ambas revelações
ainda está presente, capacitando o crente a interpretar um a pela outra e, assim,
progressivam ente chegar ao conhecim ento da verdade. Por causa da nossa
adequação e por causa do pecado o registro total das comunicações de Deus
passadas na Escritura é mais fidedigna fonte da teologia do que nossas con
clusões a partir da natureza ou nossas im pressões particulares do ensino do
Espírito. A teologia, portanto, encara a própria Escritura como sua principal
fonte de m aterial e seu padrão final de apelo.
Existe uma obra interna do Espírito divino através da qual a palavra exte
rior tornou-se a obra interior e a sua verdade e poder manifestam-se no cora
ção. A Escritura representa a obra do Espírito, não concedendo uma nova
verdade, mas uma iluminação da mente para que perceba a plenitude do
sentido que se encontra envolto na verdade já revelada. Cristo é “a verdade”
(Jo. 14.6); “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e
ciência" (Cl. 2.3); Jesus diz que o Espírito Santo “há de receber do que é meu
e vo-lo há de anunciar” (Jo. 16.14). A encarnação e a cruz expressam o cora
ção de Deus e o segredo do universo; todas as descobertas da teologia são
apenas desdobramento da verdade que estes fatos envolvem. O Espírito de
Cristo capacita-nos a comparar a natureza com a Escritura e vice-versa e
corrigir os equívocos na interpretação de um à luz do outro. Porque a igreja
como um todo através da qual entendemos o conjunto dos verdadeiros cren
tes em toda a parte e em todos os tempos tem a promessa de ser conduzida
“em toda a verdade” (Jo. 16.13) é que podemos confiantes esperar o progres
so da doutrina cristã.
A experiência cristã às vezes é considerada como uma fonte original de
verdade religiosa. Contudo, ela é apenas teste e prova da verdade contida
objetivamente na revelação de Deus. A palavra “experiência” deriva de expe-
rior, testar, tentar. A consciência cristã não é “norma normans”, mas “nor
ma normata”. Como a vida, a luz nos vem através da mediação dos outros.
Embora esta vem de Deus como realmente aquela, da qual sem hesitação
dizemos: “Deus me fez”, apesar de termos pais humanos. Como através do
encanamento recebo a mesma água que se encontra armazenada nos reser
vatórios no alto da montanha, assim nas Escrituras eu recebo a verdade que
o Espírito Santo originariamente comunicou aos profetas e apóstolos. Calvi-
no, tnstitutes, livro I, cap. 7 - “Como a natureza tem uma manifestação imedi
ata de Deus na consciência, uma manifestação mediata nas suas obras,
assim a revelação tem uma manifestação imediata de Deus no Espírito, e
mediata nas Escrituras”. “A natureza do homem”, diz Spurgeon, “não é uma
58 Augustus H opkins Strong
mentira organizada, embora sua consciência interior tenha sido deformada
pelo pecado e apesar de que uma vez tenha sido um guia infalível à verdade
e ao dever o pecado a fez muito enganadora. O padrão de infalibilidade não
está na consciência do homem, mas nas Escrituras. Quando em qualquer
matéria a consciência contraria a Palavra de Deus, devemos saber que ela
não é a voz de Deus, mas do diabo”. D r. G eoge A. G ordon diz que “a história
cristã é a revelação de Cristo adicional ao conteúdo do Novo Testamento”.
Não deveríamos dizer “ilustrativa”, em vez de “adicional”?
H. H. B a w d e n : Deus é a autoridade máxima apesar de que existem autori
dades delegadas, tais como a família, o estado, a igreja; os instintos, os sen
timentos, a consciência; a experiência genérica da raça, as tradições, o valor
utilitário; a revelação na natureza e na Escritura. Porém a autoridade de maior
valor para os homens na moral e na religião é a verdade a respeito de Cristo
contida na literatura cristã. A verdade a respeito de Cristo, encontra-se deter
minada 1) pela razão humana condicionada pela atitude correta dos senti
mentos e da vontade; 2) à luz de toda a verdade derivada da natureza, inclu
indo o homem; 3) à luz da história do cristianismo; 4) à luz da origem e
desenvolvimento das próprias Escrituras. A autoridade da razão em geral e a
da Bíblia são correlatas visto que se desenvolveram sob a providência de
Deus e esta em grande escala porém como reflexo daquela. Este ponto de
vista capacita-nos a uma concepção racional da função da Escritura na reli
gião. Este ponto de vista capacita-nos a raciocinar sobre o que se chama
inspiração da Bíblia, natureza e extensão da inspiração, a Bíblia como ele
mento histórico - registro do desdobramento histórico da revelação; a Bíblia
como literatura - compêndio dos princípios de vida, mais do que um livro de
regras; a Bíblia cristocêntrica - encarnação do pensamento e da vontade
divinos e no pensamento humano e na linguagem”.
d) A teologia da Escritura não é antinatural - A pesar de termos falado que
as verdades sistem atizadas da natureza constituem a teologia natural, não
devemos inferir que a teologia escriturística é fora do natural. Porque as Escri
turas têm o mesmo autor que a natureza, os mesmos princípios são ilustrados
em um a como na outra. Todas doutrinas da Bíblia têm sua razão na mesma
natureza de Deus que constitui a base de todas as coisas materiais. O cristia
nismo é um a dispensação suplementar, não contradizendo ou corrigindo erros
na teologia natural, porém de modo mais perfeito revelando a verdade. O cris
tianismo é o plano base no qual toda a criação é edificada - a verdade original
e eterna cuja teologia natural é apenas um a expressão parcial. Por isso a teolo
gia da natureza e a teologia da Escritura são interdependentes. A teologia
natural não só prepara o caminho para a teologia escriturística, mas recebe o
estímulo e auxílio dela. A teologia natural pode agora ser um a fonte da verda
de, que, antes que a Escritura viesse, ela não poderia fornecer.
J ohn Caird, Fund. Ideas of Chrístianity, 23 - “Não existe esta coisa que se
chama religião natural ou religião da razão distinta da revelada. O cristianis
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 5 9
mo é mais profunda, compreensiva e racionalmente, mais concorde com os
mais profundos princípios da natureza e pensamento humanos que a religião
natural; ou, como podemos situá-lo, o cristianismo é a religião natural engran
decida e feita religião revelada”. P eabody, Christianity the Religion of Nature,
preleção 2 - “Revelação é o desvendamento, o descobrimento daquilo queantes já existia e exclui a idéia de novidade, de invenção, de criação.... A reli
gião terrena revelada é a religião natural do céu.” Compare Ap. 13.8 - “o
Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” = a vinda de Cristo não
se fez por mudança; no verdadeiro sentido, a Cruz existiu desde a eternidade;
a expiação é a revelação de um fato eterno no ser divino.
Observe a ilustração de Platão da caverna que facilmente pode ser amea
çada por alguém que tinha entrado com uma tocha. A natureza é uma luz
embaçada que vem da entrada da caverna; a tocha é a Escritura. Kant para
Jacobi, in Jacobi’s Werke, 3.523 - “Se o evangelho não tivesse ensinado as
leis morais universais, a razão não teria adquirido tão perfeito discernimento
delas”. A lexander M cLaren: “O s pensadores não cristãos falam agora elo
qüentemente sobre o amor de Deus e até mesmo rejeitam o evangelho em
nome de tal amor, chutando a escada pela qual subiram. Mas foi a cruz que
ensinou ao mundo o amor de Deus e independentemente da morte de Cristo
os homens podem esperar que haja um coração no centro do universo, mas
nunca estão certos dele”. O papagaio fantasia que ele ensinou os homens a
falar. Do mesmo modo o S r . S pencer fantasia que inventou a ética. Ele só
está empregando o crepúsculo depois que o sol se pôs. Dorner, Hist. Prot.
Theol., 252,253 - “Na Reforma, a fé primeiro forneceu certeza científica; daí
em diante continuou a banir o ceticismo na filosofia e na ciência”.
2. A Escritura e o Racionalismo
Apesar de que as Escrituras tornam conhecido muito do que está além do
poder da razão humana desauxiliada para descobrir ou com preender plena
mente seus ensinos, quando tomados juntos, de modo nenhum contradizem
um a razão condicionada em sua atividade pelo santo sentimento e iluminada
pelo Espírito de Deus. As Escrituras apelam para a razão, em seu amplo senti
do, incluindo o poder da m ente de reconhecer Deus e as relações morais - não
no sentido estrito de um simples raciocínio ou o exercício da faculdade pura
mente lógica.
A) O ofício apropriado da razão, neste sentido amplo, é: a) Fornecer-nos as
idéias primárias de espaço, tempo, causa, substância, desígnio, justiça e Deus,
que são as condições de todo o subseqüente conhecim ento, b) julgar com rela
ção à necessidade de um a revelação especial e sobrenatural da parte do homem.
c) Exam inar as credenciais da comunicação que professam ser tal revelação
ou dos documentos que professam registrá-la. d) Avaliar e reduzir a um siste
ma os fatos da revelação quando estes foram achados apropriadam ente ates
tados. é) Deduzir destes fatos suas conclusões naturais e lógicas. Assim a
6 0 Augustus Hopkins Strong
própria razão prepara o caminho para um a revelação acim a da razão e garante
um a confiança em tal revelação quando dada.
Dove, Logic of the Christian Faith, 318 - A razão termina na proposição:
“Conte com a revelação”. Leibnitz: “A revelação é o vice-rei que apresenta
logo as suas credenciais à assembléia provincial (razão) e, depois, ele mes
mo preside”. A razão pode reconhecer a verdade depois que ela se tornou
conhecida, como por exemplo nas demonstrações da geometria, embora ela
nunca possa descobrir a verdade por si mesma, vera ilustração de Calderwood
sobre o grupo perdido nos bosques, que toma sabiamente o curso indicado
por alguém que se encontra no topo da árvore com maior visão do que a dele
(Philosophy of the Infinite, 126). O noviço faz bem em confiar seu guia na
floresta ao menos até que aprenda a reconhecer por si mesmo as marcas
chamuscadas sobe as árvores. Luthardt, Fund. Thruts, lect. viii - “A razão
nunca podia ter inventado um Deus auto-humilhante, tendo como berço uma
manjedoura e morrendo numa cruz”. Lessing, Zur Geschichte und Litterature
(A Respeito da História e da Literatura), 6 .134 - “Qual o sentido de uma reve
lação que não revela nada”?
R itschl nega que as pressuposições de qualquer teologia baseada na
Bíblia como a infalível palavra de Deus por um lado, e na validade do conhe
cimento de Deus obtido por processos científicos e filosóficos por outro. Por
que os filósofos, cientistas e mesmo os exegetas, não concordam entre si,
ele conclui que nenhum resultado fidedigno é atingível pela razão humana.
Admitimos que a razão sem o amor cairá em muitos erros relativos a Deus e
que, por isso, a fé é, portanto, o órgão pelo qual a fé religiosa deve ser apre
endida. Reivindicamos que a fé inclui a razão e esta na sua mais elevada
forma. A fé critica e julga os processos da ciência natural bem como o conteú
do da Escritura. Mas ela também reconhece, anteriormente, na ciência e na
Escritura a operação do Espírito de Cristo que é a fonte e autoridade da vida
cristã. R itschl ignora as relações terrenas de Cristo e, por isso, seculariza e
deprecia a ciência e a filosofia. A fé na qual ele confia como a fonte da teolo
gia, sem garantia, está separada da razão. Torna-se um padrão subjetivo e
arbitrário ao qual, mesmo o ensino da Escritura deve ter precedência. Sus
tentamos um ponto de vista contrário; o de que observam-se resultados na
ciência e na filosofia e na interpretação da Escritura como um todo e que tais
resultados constituem uma revelação que tem autoridade, ver O rr, The The-
ology of Ritschl', Dorner, Hist. Prot. Theoi., 1.233 - “A questionável razão na
razão empírica é escrava da fé, que é a verdadeira razão nascente, não con
fiante em si mesma, mas defensora do cristianismo objetivo”.
B) Por outro lado, o racionalismo sustenta que a razão é a fonte últim a de
toda a verdade religiosa enquanto a Escritura é a autoridade só naquilo que
suas revelações concordam com as conclusões prévias da razão ou pode ser
dem onstrada racionalmente. Cada forma de racionalismo, portanto, comete
ao menos um dos seguintes erros: d) O de confundir a razão com o simples
raciocínio, ou com o exercício da inteligência lógica, b) O de ignorar a
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 61
necessidade de um sentimento santo como condição de toda a correta razão
nos assuntos religiosos, c) O da negação da nossa dependência das revelações
de Deus no nosso estado presente de pecado, ã) O de considerar a razão desa-
poiada mesmo em seu estado norm al e desapaixonado, como capaz de desco
brir, com preender e dem onstrar toda a verdade religiosa.
Não se deve confundir razão com raciocínio, ou simples arrazoado.
Vamos seguir a razão? Sim, mas não o arrazoado individual contra o teste
munho dos que têm melhor informação do que nós; nem insistir na demons
tração, na qual a evidência provável por si só é possível; nem confiar somen
te na evidência dos sentidos quando estão em jogo as coisas espirituais.
Coleridge, respondendo aos que argumentavam que todo o conhecimento
nos vem dos sentidos, diz: “De qualquer modo devemos trazer à luz todos os
fatos como os vemos”. É isto que o cristão faz. A luz do amor revela muita
coisa que, de outra forma, seria invisível. W ordsworth, Excursion, book 5
(598) - “A razão desnuda não deve garantir o apoio da mente. A verdade
moral não é uma estrutura mecânica edificada através de regras”.
O racionalismo é a teoria matemática do conhecimento. A ética de S pinosa
é uma ilustração disso. Ela deduziria o universo a partir de um axioma.
O D r. Hodge muito erroneamente descreveu o racionalismo como “um abuso
da razão”. Mais do que isso é o uso de uma razão anormal, pervertida, inade
quadamente condicionada; ver Hodge, Syst. Theol., 1.34,39,55, e a crítica de
M ille r , O Fetiche na Teologia. A expressão “intelecto santificado” apenas signi
fica o intelecto acompanhado de justos sentimentos para com Deus e instru
ídos na operação sob a influência deles. Bispo B u tle r : “Observe-se a razão,
mas não se deixe que criaturas como nós continuem a opor-se a um esque
ma infinito a ponto de não vermos a necessidade ou utilidade de todas
as suas partes e a isto chamemos razão”. Newman Smith, Death’s Place in
Evolution, 86 - “A descrençaé uma haste imersa nas trevas da terra. Afunde-
a mais e aparecerá no raio solar do outro lado da terra”. As pessoas mais
desarrazoadas do mundo são as que dependem exclusivamente da razão, no
sentido restrito. “Quanto mais elas exaltam a razão, mais tornam o mundo
irracional”. “A galinha que choca patinhos anda com eles até à beira da água,
mas pára ali e fica assustada quando eles avançam. Do mesmo modo a
razão pára e a fé continua encontrando o seu elemento mais adequado no
invisível. A razão são os pés que se apoiam na terra sólida; a fé são as asas
que nos capacitam a voar; o homem normal é uma criatura que tem asas”.
Compare yvcòcnç (1 Tm. 6 .2 0 - “falsamente chamada ciência”) com èmyvcocn.ç
(2 Pe. 1.2 - “conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor” = pleno
conhecimento, ou verdadeiro conhecimento).
3. A Escritura e o Misticismo
Como o racionalismo reconhece que muito pouca coisa vem de Deus assim
o misticismo reconhece-a excessiva.
6 2 Augustus Hopkins Strong
A) O Verdadeiro Misticismo - Vimos que há um a iluminação das mentes
de todos os crentes pelo Espírito Santo. Contudo, o Espírito não faz nenhuma
revelação nova da verdade já revelada por Cristo na natureza e nas Escrituras.
A obra ilum inadora do Espírito é, portanto, a de abrir as mentes dos homens
para entender as revelações prévias de Cristo. Como um iniciado nos mistérios
do cristianismo, cada crente verdadeiro pode ser chamado de místico. O ver
dadeiro m isticismo é o mais alto conhecim ento e com unhão que o Espírito
Santo concede através do uso da natureza e da Escritura como meio subordi
nado e principal.
“Místico” = iniciado, de núco, “fechar os olhos” - provavelmente para que a
alma possa ter a visão interior da verdade. Porém a verdade divina é um
“mistério”, não só como algo em que alguém deve iniciar-se, mas como
Ú7cep(3áA.A,o-ucya xfiç yvcooeok; (Ef. 3.19) - ultrapassando o pleno conhecimento,
mesmo para o crente; verMEYER sobre Rm. 11.25 - “Não quero, irmãos, que
ignoreis este mistério”. Os alemães têm a palavra Mystik com um sentido
favorável, Mysticismus com um sentido desfavorável, - correspondendo, res
pectivamente, ao nosso verdadeiro e falso misticismo. O verdadeiro misticis
mo é sugerido em João 16 .13 - “aquele Espírito da verdade ... vos guiará em
toda a verdade”; Ef. 3.9 - “dispensação do mistério”; 1 Co. 2 .10 - “Deus
no-las revelou pelo seu Espírito”. N itzsch, Syst. OfChrist. Doct, 35 - “Sempre
que a verdadeira religião revive, há um clamor contra o misticismo, /'.e., um
conhecimento mais elevado, uma comunhão, uma atividade através do Espí
rito de Deus no coração”. Compare a acusação contra Paulo de que ele esta
va louco, em At. 26.24,25, com a sua própria vindicação em 2 Co. 5.13 - “se
enlouquecemos, é para Deus”.
Inge, Chrístian Mysthicism, 21 - “Harnack fala do misticismo como racio
nalismo aplicado à esfera acima da razão. Ele deveria ter dito razão aplicada
à esfera acima do racionalismo. Sua doutrina fundamental é a unidade de
toda a existência. O homem pode realizar a sua individualidade apenas trans
cendendo-a e achando-se na unidade maior do ser divino. O homem é um
microcosmo. Ele recapitula a raça, o universo, o próprio Cristo”. Ibid., 5 -
O misticismo é “a tentativa de realizar no pensamento e no sentimento a ima-
nência do temporal no eterno e do eterno no temporal. Isto implica 1) que a
alma pode ver e perceber a verdade espiritual; 2) que o homem, para conhe
cer a Deus, deve ser participante da natureza divina; 3) que, sem a santidade,
ninguém pode ver o Senhor; 4) que o verdadeiro hierofante dos mistérios de
Deus é o amor. A ‘scala perfectionis’ é a) a vida purificadora; b) a vida ilumina-
tiva; c) a vida unificadora”. Stevens, Joanninne Theol., 239,240 - “O misticis
mo de J oão ... não é do tipo subjetivo que absorve a alma na autocontempla-
ção e devaneio, mas objetivo e racional, que vive no mundo da realidade,
apreende a verdade divinamente revelada e baseia sua experiência nela.
É um misticismo que se alimenta, não dos seus próprios sentimentos e fanta
sias, mas de Cristo. Envolve uma aceitação e obediência a ele. O seu mote é:
Perseverando em Cristo”. Como a pressão da força não pode dispensar o
tipo, assim o Espírito de Deus não dispensa a revelação externa de Cristo na
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 63
natureza e na Escritura. E. G. Robinson, Christian Theology, 364, - “A palavra
de Deus é uma forma ou molde ao qual o Espírito Santo nos entrega quando
nos recria”; cf. Rm. 6.17 - “obedecestes de coração à forma de doutrina a que
fostes entregues”.
B) Falso Misticismo - O m isticismo, contudo, como se usa comumente o
termo, erra ao sustentar a aquisição do conhecim ento religioso pela comuni
cação direta de Deus e da absorção passiva das atividades humanas na divina.
Parcial ou totalmente perde de vista a) os órgãos externos da revelação, da
natureza e das Escrituras; b) a atividade dos poderes humanos na recepção de
todo conhecimento religioso; c) a personalidade do hom em e, por conseqüên
cia, a personalidade de Deus.
Em oposição ao falso misticismo, devemos lembrar que o Espírito Santo
opera através da verdade revelada exteriormente na natureza e na Escritura
(At. 14 .17 - “Não se deixou a si mesmo sem testemunho”; Rm. 1.20 - “as
suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, ... claramente se vêem”;
At. 7.51 - “vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como os
vossos pais”; Ef. 6.17 - “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”).
Através desta verdade já entregue devemos provar toda a nova comunicação
que contradiz ou vai além dela (1 Jo. 4.1 - “não creiais em todo espírito, mas
provai se os espíritos são de Deus”; Ef. 5 .10 - “aprovando o que é agradável
ao Senhor”). Através destes testes podemos por à prova o Espiritismo, o Mor-
monismo, Swedenborgianismo. Note a tendência mística em Francisco de
Sales, em Tomás à Kempis, em Madame Guyon, em Thomas C. Upham. Tais
escritores parecem, às vezes, defender uma abnegação insustentável da nossa
razão e vontade e uma “absorção do homem em Deus”. Mas Cristo não nos
priva da razão e da vontade; ele só nos tira a perversidade da nossa razão e
o egoísmo da nossa vontade; assim restauram-se a razão e a vontade à sua
clareza normal e força. Compare SI. 16.7 - “o Senhor me aconselhou; até o
meu coração me ensina de noite” = Deus ensina o seu povo através do exer
cício das próprias faculdades deste.
O falso misticismo está presente, embora, às vezes, não reconhecido.
Toda expectação dos resultados sem o emprego de recursos participa dele.
M artineau, Seat of Authoríty, 288 - “A vontade preguiçosa gostaria de ter a
visão enquanto o olho que a apreende dorme”. Pregar sem preparação é
como lançarmo-nos do pináculo de um templo e depender de que Deus man
de um anjo a amparar-nos. A Ciência Cristã confiaria em agentes sobrenatu
rais enquanto deixa de lado os agentes naturais que Deus já providenciou;
como se aquele que está se afogando confiasse na oração, recusando-se a
agarrar na corda. Usando a Escritura “ad aperturam libri” é como guiar a ação
de alguém lançando o dado. A llen, Jonathan Edwards, 171, nota - “Tanto
C harles como John W esley concordavam em aceitar o método morávio de
solucionar as dúvidas como curso de uma ação, abrindo a Bíblia ao acaso e
considerando a passagem em que o olho se fixou primeiro como uma revela
ção da vontade de Deus sobre o assunto”; cf. W edgwood, Life of Wesley, 193;
6 4 Augustus Hopkins Strong
S o u th e y , Life of Wesley, 1.216. J. G. Paton, Life, 2.74 - “Após muitas orações
e lutas e lágrimas, pus-me a sós diante do Senhor e, de joelhos, lancei sorte,
com um solene apelo a Deus, e veio a resposta: ‘Volte!’”. Uma única vez ele
fez isso na sua vida, em esmagadora perplexidade, sem encontrar luz vinda
do conselho humano. “A quem quer que tenha esta fé”, diz ele, “obedeça-lhe”.
F. B. M e y e r , Chrístian Living, 18 — “É um equívoco buscarum sinal do céu;
correr de conselheiro a conselheiro; tirar sorte; ou confiar em alguma coinci
dência fortuita. Isto não significa que Deus não possa revelar a sua vontade
̂ desta forma; mas que este é um comportamento duro de um filho para com o
Pai. Há um caminho mais excelente”, - a saber, o próprio Cristo que é sabe
doria e, quando avançamos, é certo que seremos guiados à medida em que
se der um novo passo, ou a cada palavra proferida, ou decisão tomada.
O nosso culto deve ser “um culto racional” (Rm. 12.1); a ação cega e arbitrária
é inconsistente com o espírito do cristianismo. Este tipo de ação nos torna
vítimas de temporário sentimento e presas do engano satânico. No caso de
perplexidade, aguardando a iluminação e aguardando a vontade de Deus,
freqüentemente nos tornaremos capazes de tomar uma decisão inteligente,
porque “o que não é de fé é pecado” (Rm. 14.23).
“O falso misticismo alcançou seu resultado lógico na teosofia budista. Nes
se sistema o homem torna-se mais divino na extinção da sua própria pessoa-
lidade. Chega-se ao Nirvana através de oito passos do ponto de vista correto,
da aspiração, da palavra, da conduta, do viver, do esforço, da mente, do êxta
se; Nirvana é a perda da capacidade de dizer: ‘Este ser sou eu’, e ‘Isto é meu’.
Tal foi a tentativa de Hipatéia, através da sujeição própria, ao ser impelida aos
braços de Jove. G eorge Eliot equivocava-se quando dizia: ‘A mulher mais
feliz não tem história’. A autonegação não é auto-anulação. O sino quebrado
não tem individualidade. Em Cristo tornamo-nos completos”. Cl. 2 .9 ,1 0 - “por
que nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade e nele estais
perfeitos”.
Royce, World and Individual, 2.248,249 - Impõe-se o homem espiritual;
O homem natural é abnegado. A carnalidade do eu é a raiz de todos os males;
o eu espiritual pertence ao reino mais elevado. Mas este eu espiritual jaz, a
princípio, fora da alma; ele se torna nosso somente pela graça. Platão está
certo quando faz das idéias eternas a fonte de toda a verdade e bonda
de humanas. A sabedoria vem ao homem como o vcruç de A ristóteles” . A. H.
Bradford, The Inner Light, ao fazer o ensino direto do Espírito Santo a fonte
suficiente senão a única do conhecimento religioso, parece ignorar o princípio
da evolução na religião. Deus constrói sobre o passado. A sua revelação aos
profetas e apóstolos constitui a norma e correção da nossa experiência indivi
dual, mesmo quando a nossa experiência lança novas luzes sobre a revelação.
4. A Escritura e o Romanismo
Enquanto a história da doutrina, m ostrando a progressiva apreensão e des
dobramento da verdade contida na natureza e na Escritura da parte da igreja é
um a fonte subordinada da teologia, o protestantism o reconhece a Bíblia, sob
Cristo, como a autoridade prim eira e final.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 65
O Romanismo, por outro lado, comete o duplo erro de a) tom ar a igreja, e
não a Escritura, a fonte im ediata e suficiente do conhecimento religioso; e
b i de fazer a relação do indivíduo com Cristo depender de sua relação com a
igreja, ao invés de fazer tal relação com a igreja depender, seguir e expressar
sua relação com Cristo.
Há no Catolicismo Romano um elemento místico. As Escrituras não são
o completo e final padrão de fé e prática. Deus dá ao mundo, de tempo
em tempo, através de papas e concílios, novas comunicações da verdade.
C ipriano: “Quem não tem a igreja como sua mãe não tem Deus como seu
Pai". A gostinho: “Eu não creria na Escritura, se a autoridade da igreja também
me influenciasse”. Francisco de Assis e Inácio de Loyola representam a pes
soa verdadeiramente obediente como um morto, movimentando-se só quan
do movido por seu superior; o verdadeiro cristão não tem vida própria, antes
é um instrumento cego da igreja. J ohn H enry N ewman, Tracts, Theol. andEccl.,
287 - “Os dogmas cristãos estavam na igreja desde o tempo dos apóstolos, -
substancialmente sempre foram o que são agora”. Mas demonstra-se que
isto não é verdade a respeito da concepção imaculada da Virgem Maria;
a respeito do tesouro dos méritos distribuídos em indulgências; da infalibilida
de do papa (ver G ore, Incarnation, 186). Em lugar da verdadeira doutrina,
“Ubi Spiritus, ibi ecclesia”, o romanismo emprega a máxima, “Ubi ecclesia, ibi
Spiritus”. Lutero viu nisto o princípio do misticismo quando disse: “Papatus
est merus enthusiasmus”.
Em resposta ao argumento romanista de que a igreja é antes da Bíblia e
que o mesmo corpo que deu a verdade no princípio pode fazer acréscimos à
verdade, dizemos que a palavra não escrita existiu antes da igreja e possibi
litou esta mesma igreja. A palavra de Deus existiu antes que fosse escrita e
por aquela palavra os primeiros discípulos bem como os posteriores foram
gerados (1 Pe. 1.23 - “fostes regenerados ... mediante a palavra de Deus”).
A contextura da verdade na doutrina católica romana se expressa em 1 Tm. 3.15
- “a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” = a igreja é a procla-
madora da verdade, eleita por Deus; cf. Fp. 2 .16 - “retendo a palavra da
vida”. Mas a igreja só pode proclamar a verdade edificada sobre a verdade.
Deste modo podemos dizer que a República Americana é a coluna e base da
liberdade no mundo; mas isto só é verdade desde que a República seja edifi
cada no princípio da liberdade como seu alicerce. Quando o romanista per
gunta: “Onde estava a sua igreja antes de Lutero?” o protestante pode retru
car: “Onde estava o seu rosto antes de você lavá-lo? Onde estava a farinha
antes que o trigo fosse para o moinho?” Lady Jane G rey, três dias antes da
sua execução, em 12 de fevereiro de 1554, disse: “A minha fé está fundamen
tada na palavra de Deus, não na igreja; pois, se a igreja for boa, a sua fé deve
ser testada pela palavra de Deus, e não a palavra de Deus ser testada pela
palavra da igreja, nem ainda a minha fé”.
A Igreja Romana queria manter os homens em perpétua infância - fazen
do-os ir a ela em busca da verdade, ao invés de ir diretamente à Bíblia; “como
a mãe tola que guarda o menino em casa para que não tope o seu artelho; e
quer amá-lo mais fazendo-o permanecer sempre um bebê e assim continuar
6 6 Augustus H opkins Strong
sendo a sua mãe”. M a r t e n s e n , Christian Dogmatlcs, 30 - “O romanismo está
de tal modo preocupado com a construção de um sistema de salvaguardas
que esquece a verdade do Cristo que ela quer garantir”. G e o r g e H e r b e r t :
“Que desastre pode causar-lhe qualquer lugar, Cuja casa é repugnante
enquanto ele adora a sua vassoura!” É uma doutrina meio parasita de segu
rança sem inteligência ou espiritualidade. O romanismo diz: “O homem para a
máquina!” O protestantismo: “A máquina para o homem!” O catolicismo repri
me a individualidade; o protestantismo devolve-a. Não obstante o princípio
romanista aparece em igrejas ditas protestantes. O catecismo publicado pela
Liga da Santa Cruz, da Igreja Anglicana, contém o seguinte: “Só ao sacerdote
a criança deve confessar seus pecados, se desejar que Deus lhes perdoe.
Sabe por quê? É porque Deus, quando na terra, deu aos seus sacerdotes, e
só a eles, o poder de perdoar pecados. Vá ao sacerdote, que é o médico da
sua alma e que cura em nome de Deus”. Mas isto contradiz Jo. 10.7 - “eu sou
a porta”; e 1 Co. 3.11 - “ninguém pode pôr outro fundamento além do que já
está posto, o qual é Jesus Cristo” = atinge-se a salvação pelo acesso imedia
to a Cristo e não há nenhuma porta entre a alma e ele.
II. LIMITAÇÕES DA TEOLOGIA
Apesar de a Teologia derivar seu material da dúplice revelação de Deus,
ela não professa dar um exaustivo conhecim ento de Deus e de suas relações
com o universo. Depois de m ostrar que material temos, devemos m ostrar que
m aterial não temos. Já indicamos as fontes da Teologia; examinaremos agora
suas limitações. São elas:
1. Na finitude do entendimento humano
Isto dá surgimento a um a classe de mistérios necessários, ou mistérios em
conexão coma infinitude e incom preensibilidade da natureza divina (Jó 11.7;
Rm. 11.33).
Jó 1 1 . 7 - “a lcançarás tu os cam inhos de Deus, ou chegarás à perfe ição do
Todo-poderoso?” Portanto, cada doutrina tem seu lado inexplicável. Eis aqui o
sentido próprio das palavras de T e r tu lian o : “Certum est, quia im possibile est;
quo absurdius eo verius” ; de Anselm o: “Credo ut in te lligam ” ; e de Abelardo:
“Qui credi cito, levis corde est” . Drummond, Nat. Law in Spirít World. “Desco
nhece-se a c iência sem m istério; é absurdo um a religião sem m istério” . E. G.
Robinson: “Um ser finito não pode captar até m esm o suas próprias relações
com o Infin ito” . H o v e y , Manual ofChrist. Theol., 7 - “ Inferir da perfe ição de Deus
que todas as obras [natureza, homem, inspiração] serão absoluta e imutavel-
mente perfe itas; in fe rir do perfe ito am or de Deus que não pode haver pecado
algum ou sofrim ento no m undo; in fe rir da soberan ia de Deus que o homem
não é um agente moral livre; - tudo isso é precip itação; são inferências a partir
da causa para o efe ito enquanto se conhece a causa de um modo im perfe ito ” .
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 67
2. No estado imperfeito da ciência natural e metafísica
Isto dá surgimento a um a classe de m istérios acidentais, ou mistérios que
consistem na natureza aparentem ente irreconciliável das verdades que, toma
das separadamente, são perfeitam ente compreensíveis.
Somos vítimas de um astigmatismo, que permite ver só um ponto da ver
dade como se fossem dois. Vemos Deus e homem, sabedoria divina e liber
dade humana, o natural e o sobrenatural, respectivamente, como dois fatos
desconexos, quando numa visão talvez mais profunda seria apenas uma.
A astronomia tem suas forças centrípetas e centrífugas, embora sejam indu
bitavelmente uma só. A criança não pode segurar duas laranjas ao mesmo
tempo na sua mãozinha. Disse um pregador negro: “Você não pode carregar
duas melancias debaixo de um braço”. S h a k e s p e a r e , Antony and Cleopatra,
1 .2 - “No infinito livro secreto da natureza, Eu, pequenino, leio”. Cooke, Cre-
dentials of Sciense, 34 - “O progresso do homem na ciência tem sido tão
constante e rapidamente acelerado que se tem obtido mais durante a vida do
ser humano que durante toda a sua história passada”. E, contudo, podemos
dizer com D’A rcy, Idealism and Theology, 248 - “A posição do homem no
universo é excêntrica. Só Deus é o centro. Só em torno dele orbita a verdade
completamente exposta. ... Há circunstâncias em que para nós o momento
adiante da verdade pode parecer retrocesso”.
3. Na inadequação da língua
Porque a língua é um meio pelo qual se expressa e se form ula a verdade, a
invenção de um vocabulário na Teologia, com o em cada um a das outras ciên
cias, é condição e critério de seu progresso. As Escrituras reconhecem um a
dificuldade peculiar no emprego das verdades espirituais em linguagem terre
na (1 Co. 2.13; 2 Co. 3.6; 12.4).
1 Co. 2.13 - “não com palavras ensinadas pela sabedoria humana”; 2 Co. 3.6
- “a letra mata”; 12.4 - “palavras inefáveis”. Deus se submete a condições de
revelação; cf. Jo. 16 .12 - “Tenho ainda muita coisa que vos dizer, mas vós
não o podeis suportar agora”. Tem de ser criada a linguagem. As palavras
tem de ser tomadas do emprego comum e ser postas numa aplicação mais
ampla e sagrada de modo que “variem sob o peso do sentido” - p.ex., a
palavra “dia”, em Gn. 1, a palavra àyánri em 1 Co. 13. yerGouLD, 1 Co. 13.12
- “agora vemos como em espelho obscuramente” - metálico, cuja superfície
é obscura e cujas imagens são obscuras = Agora contemplamos a Cristo, a
verdade, apenas refletido na fala imperfeita - “mas então face a face” = ime
diatamente, sem a intervenção de um meio imperfeito. “Tão veloz como um
túnel num banco de areia do pensamento, as pedras da linguagem devem ser
construídas em paredes e arcos, para um futuro progresso rumo à mina ilimi
tada”.
68 Augustus H opkins Strong
4. No nosso conhecimento incompleto das Escrituras
Porque não é a simples letra das Escrituras que constitui a verdade, o pro
gresso da Teologia depende da Herm enêutica, isto é, da interpretação da Pala
vra de Deus.
Note o progresso ao comentar, do homilético ao gramatical, ao histórico,
ao dogmático, ilustrado em S c o t t , E l l ic o t t , S t a n le y , L ig h tf o o t . J ohn R o b in s o n :
“Na verdade estou persuadido de que o Senhor tem mais verdade ainda para
revelar a partir da sua palavra”. Uma crítica recente mostrou a necessidade
de estudar cada porção da Escritura à luz da sua origem e conexões. Tem
havido uma evolução na Escritura, tão verdadeira como na ciência natural e o
Espírito de Cristo que estava nos profetas causou um progresso desde a
expressão germinal e típica até a completa e clara. Contudo, ainda necessita
mos de apresentar a oração do SI. 119 .18 - “Desvenda os meus olhos para
que eu veja as maravilhas da tua lei”.
5. No silêncio da revelação escrita
Para nossa disciplina e prova, muito se nos oculta, do que podemos com
preender com nossas atuais forças.
Exemplo de silêncio da Escritura sobre a vida e morte da Virgem Maria, o
aparecimento pessoal de Jesus e suas realizações no começo da sua vida, a
origem do mal, o método de expiação, o estado depois da morte. A mesma
coisa sobre questões sociais e políticas, tais como a escravidão, o tráfico de
bebida alcoólica, virtudes domésticas, corrupção dos governantes. “Jesus
estava no céu na revolta dos anjos, embora ele nos conte pouca coisa a
respeito dos anjos ou do céu. Ele não faz discurso a respeito do Éden, ou
de Adão, ou da queda do homem, ou da morte como resultado do pecado
de Adão; e pouco diz dos espíritos desencarnados, se estão perdidos ou
salvos”. Foi melhor inculcar princípios e incumbir aos seus seguidores a
sua aplicação. Seu evangelho não pretendia gratificar uma vã curiosidade.
Ele não desviaria a mente dos homens de perseguir uma coisa necessária;
cf. Lc. 13.23,24 - “Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhes respon
deu: Porfiai por entrar pela porta estreita, porque eu vos digo que muitos pro
curarão e não poderão”. O silêncio de Paulo sobre questões especulativas que
ele deve ter ponderado com absorvedor interesse é a prova da sua inspiração
divina. Cf. Jo. 13.7 - “O que eu faço não o sabes tu, agora, mas tu o saberás
depois”. A coisa mais bela no rosto é aquilo que um quadro nunca pode
expressar. Aquele que podia falar bem podia omitir bem. S to r y : “A parte silen
ciosa é a melhor de cada obra nobre; De todas expressões que não podem ser
expressas”. Cf. 1 Co. 2.9 - “As coisas que os olhos não viram e os ouvidos
não ouviram e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou
para os que o amam”; Dt. 29.29 - “As coisas encobertas são para o Senhor,
nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para os nossos filhos”.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 69
6. Na fa lta de discernimento espiritual causada pelo pecado
Porque o sentimento santo é condição do conhecim ento religioso, toda a
imperfeição moral no cristão individualmente, bem como na igreja, serve como
embaraço na operação de um a Teologia completa.
Jo. 3.3 - “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”.
As eras espirituais produzem mais progresso para a teologia - é o testemu
nho da metade do século após a Reforma e a metade do século após o gran
de avivamento na Nova Inglaterra na época de J o n ath an E d w a r d s . Ueberweg,
Logic (trad. de L in d sa y ), 514 - “A ciência tem sofrido muita influência da von
tade; e a veracidade do conhecimento depende da pureza da consciência.
A vontade não tem poder algum para resistir à evidência científica; mas não
se obtém evidência científica sem a lealdade contínua à vontade”. Lorde B acon
declara que o homem não pode entrar no reino da ciência do mesmo modo
que não se pode entrar no reino do céu sem se tornar uma criança. D arw in
descreve a sua própriamente como tendo se tornado uma espécie de máqui
na de triturar as leis gerais das grandes coleções de fatos que resultam na
“atrofia da parte do cérebro de que dependem os mais elevados sabores”.
Porém é possível semelhante atrofia anormal no caso da faculdade moral e
religiosa (u e rG o R E , incarnation, 37). O Dr. A llen diz na sua Introd. Lecture at
Lane Theol. Seminary. “Estamos muito alegres ao vê-los na qualidade de
estudantes; mas as cadeiras dos professores estão todas ocupadas”.
m . RELAÇÕES DO MATERIAL COM O PROGRESSO DA TEO
LOGIA
1. É impossível um sistema perfeito de teologia
Não temos esperança de construir tal sistema. Toda a ciência apenas refle
te a presente aquisição da m ente humana. Nenhum a ciência é com pleta ou
conclusa. Aconteça o que acontecer com as ciências da natureza e do homem,
nunca se chegará a um conhecimento exaustivo da ciência de Deus. Não pode
mos esperar que se dem onstrem todas as doutrinas apoiados em bases racio
nais, ou mesmo em cada caso ver o princípio de conexão entre elas. Onde não
podemos fazer isto, devemos, como em cada um a das outras ciências, estabe
lecer os fatos revelados em seus respectivos lugares e aguardar mais luz, ao
invés de ignorá-las ou rejeitar qualquer um a delas porque não as podemos
entendê-las ou não podemos entender a sua relação com as outras partes do
nosso sistema.
Três problemas insolúveis os egípcios transmitiram à nossa geração:
1) a duplicação do cubo; 2) a trissecção do ângulo; 3) a quadratura de um
7 0 Augustus Hopkins Strong
círculo. D r . J o h n s o n : “ O s dicionários são como vigias; o pior é melhor do que
nenhum; não se pode esperar que seja perfeitamente verdadeiro”. H ood fala
da “Contradição” do D r . J o h n s o n , tanto “interior” quanto “exterior”. S ir W illiam
T h o m s o n (L o r d e K elv in ) no qüinquagésimo aniversário de magistério disse:
“Uma palavra carateriza o mais árduo esforço para o avanço da ciência que
eu, persistentemente, fiz por cinqüenta e cinco anos: a palavra é falha; eu não
entendo mais de energia elétrica e magnética ou das relações entre o éter, a
eletricidade e a matéria ponderável, ou de afinidade química, do que sei e
tentei ensinar os meus alunos de filosofia natural cinqüenta anos atrás em
minha primeira sessão como professor”. A ll e n , Religious Progress, menciona
três tendências. “ A primeira delas diz: Destrua o novo! A segunda diz: Des
trua o velho! A terceira diz: Não destrua nada! Deixe o velho gradual e silen
ciosamente desenvolver-se rumo ao novo, como queria E r a s m o . Devemos
aceitar as contradições quer sejam intelectualmente soiucionáveis quer não.
A verdade nunca prosperou forçando alguma ‘via media’. A verdade se encon
tra mais na união das proposições opostas, como divindade e humanidade
de Cristo e graça e liberdade. B la n c o partiu de Roma para a infidelidade;
O res te s B r o w n s o n da infidelidade para Roma; assim os irmãos J o hn H enry
N e w m a n e F ran c is W. N e w m a n , e os irmãos G e o r g e H e r b e r t d e B e m er to n e
L o r d e H e r b e r t d e C h e r b u r y . Um queria secuiarizar o divino, o outro divinizar o
secular. Mas se um estava certo, o outro também. Adotemos ambos. Todo
progresso é uma penetração mais profunda no sentido da antiga verdade e
sua maior apropriação”.
2. Apesar de tudo isso a teologia é progressiva
É progressiva no sentido de que nosso entendim ento subjetivo dos fatos
pode e na verdade se aperfeiçoa. Porém a Teologia não é progressiva no sen
tido de que seus fatos objetivos mudam, quer em número, quer em sua nature
za. Com M artineau podemos dizer: “A religião tem sido rejeitada como não
sendo progressiva; sendo imperecível, tem feito correções” . Apesar de o nos
so conhecimento poder ser imperfeito, ainda terá grande valor. Nosso sucesso
em construir um a Teologia dependerá da proporção que os fatos claramente
expressos da Escritura têm para com as simples inferências e sobre o grau em
que elas são coerentes a respeito de Cristo, pessoa e tem a centrais.
O progresso da teologia está na apreensão da parte do homem, não no
progresso da comunicação da parte de Deus. A originalidade na astronomia
não está na criação de novos planetas, mas na descoberta dos que nunca
foram vistos antes, ou no esclarecimento das relações entre aqueles de cuja
existência nunca se suspeitara. R o b e r t K err E c c l e s : “A originalidade é um
hábito de se voltar às origens - o hábito de garantir a experiência pessoal
através da sua aplicação a fatos originais. Não se trata de uma inferência a
partir de coisas novas quer da natureza, quer da Escritura, quer da consciên
cia; em vez disso é o hábito de recorrer a fatos primitivos e garantir as expe-
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 71
riências pessoais que surgem do contato com tais fatos”. F is h e r , Nat. And
Meth. Of Revelation, 48 - “Os céus estrelados são agora o que eram desde a
antigüidade; não há um aumento no universo estelar, a não ser que surja
através do aumento da capacidade e emprego do telescópio”. Não podemos
imitar o ingênuo marinheiro que, quando começou a dirigir, disse que tinha
“navegado através daquela estrela”.
M a r t in e a u , Types, 1.492,493 - “A metafísica desde que seja verdadeira no
seu desempenho, é estacionária, exatamente porque trata não do que come
ça ou do que termina, mas do que sempre é .... É absurdo louvar o movimento
porque sempre faz o caminho, enquanto zomba do espaço porque ele ainda
é o que sempre foi: como se o movimento que você prefere pudesse existir,
sem o espaço que você reprova”. N e w m an S m it h , Christian Ethics, 45,67-70,79
- “O verdadeiro conservadorismo é o progresso que provém do passado e
cumpre o que é bom; o falso conservadorismo é uma limitadora e desespe
rançada volta ao passado, e que trai a promessa do futuro. Jesus não veio
‘destruir a lei ou os profetas'; ele não veio ‘destruir, mas cumprir’ (Mt. 5.17)....
O último livro sobre a Ética Cristã não será escrito antes do Dia do Juízo”.
J o hn M ilto n , Areopagitica: “A verdade é comparada na Escritura a uma fonte
corrente; se as suas águas não fluírem em progressão perpétua, elas adoe
cerão na lagoa lodacenta da conformidade e tradição. O homem pode ser um
herege na verdade”. Paulo em Rm. 2 .16 e 2 Tm. 2.8 - menciona o “meu
evangelho”. É dever de cada cristão ter seu próprio conceito sobre a verdade,
conquanto respeite os dos outros. Não esperamos novos mundos, nem neces
sitamos de esperar novas Escrituras; mas podemos esperar progresso na
interpretação de ambos. Os fatos findam, a interpretação não.
C a p í t u l o III
MÉTODO DA TEOLOGIA
I. REQUISITOS PARA O ESTUDO DA TEOLOGIA
Os requisitos para o bem sucedido estudo da Teologia já foram em parte
indicados quando se falou das suas limitações. Em que pese alguma repetição,
contudo, m encionamos os seguintes:
1. Uma mente disciplinada
Só essa m ente pode, com paciência, coletar os fatos, sustentar em suas
mãos muitos fatos de um a vez, inferir através de contínua reflexão seus prin
cípios que estabelecem conexão, suspender um julgam ento final até que suas
conclusões sejam verificadas pela Escritura e pela experiência.
R o b e r t B r o w n in g , Ring and Book, 175 (Pope, 228) - “A verdade não está
em nenhum lugar, embora esteja em todos, nisto; Não em uma porção abso
luta, apesar de evoluída pelo todo: por fim evolui dolorosamente, sustentada
por mim de modo vigoroso”. Os mestres e alunos podem dividir-se em duas
classes: 1) os que já conhecem o suficiente; 2) os que querem aprender mais
do que conhecem agora. O lema da Escola de Winchester na Inglaterra: “Dis-
ce aut discede” [N.T.: Estuda ou retira-te]. B u t c h e r , Greek Genius, 213,230 -
“Os sofistas fingiam que estavam comunicando educação quando somente
estavam transmitindo resultados. A r is tó te le s ilustra o método deles, dando o
exemplo do sapateiro que, professando ensinara arte de fazer sapatos indo-
lores, põe na mão do aprendiz um grande sortimento de sapatos já prontos.
Um espirituoso francês põe na mesma classe os que supostamente tornam
popular a ciência, inteligível a metafísica e respeitável o vício. A palavra oxóA/n,
que, inicialmente, significava ‘ócio’, daí ‘discussão filosófica’, e, finalmente,
‘escola’, mostra o puro amor do aprendizado entre os gregos”. R o b e r t G.
In g e r s o ll dizia que, em média, o clero provincial é como a terra do Potomac
na fala de T o m R a n d o l p h , quase indigna do seu estado original e transformada
totalmente assim pela cultura. L o t z e , Metaphysics, 1.16 - “o amolar constan
te da faca é tedioso se ela não se dispõe a cortar”. “Fazer os seus deveres é
apenas uma diversão”, é a descrição que T u c íd id e s apresenta sobre o caráter
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 73
a te n ie n s e . C hitty p e rg u n to u a u m p a i s o b re a s q u a l i f ic a ç õ e s d a le i: “ O se u
f i lh o p o d e c o m e r s e r ra g e m s e m m a n te ig a ? ”
2. Um hábito mental intuitivo distinto de um outro simplesmente lógico
- ou, confiar nas convicções primitivas assim como em seu processo de
raciocínio. O teólogo deve ter insight (N.T.: discernimento), assim como enten
dimento. Ele deve acostum ar-se a ponderar os fatos espirituais bem como os
sensoriais e materiais; a ver estas coisas em suas relações interiores como
também em suas formas exteriores; acalentar confiança na realidade e unida
de da verdade.
V in e t, Outlines of Philosophy, 39,40 - “Se eu não sinto que o bem é bem
quem o provará a mim?” P a s c a l: “A lógica, que é uma abstração, pode abalar
tudo. Um ser puramente intelectual será irremediavelmente cético”. C a lv in o :
“Satanás é um teólogo refinado”. Algumas pessoas vêem uma mosca na
porta de um celeiro à uma milha de distância, e não vêem a porta. Z e l le r ,
Outlines of Greek Philosophy, 93 - “O sofista G ó rg ia s era capaz de mostrar,
metafisicamente, que nada existe; que não podemos conhecer aquilo que
existe; e que aquilo que conhecemos não se pode transmitir aos outros” (cita
do por W e n le y , Sócrates and Christ, 28). A r is t ó t e le s diferia dos moderados
que pensavam ser impossível passar pelo mesmo rio duas vezes, - sustenta
va que isto não podia ser feito nenhuma vez (cf.. W o r d s w o r th , Prelude, 536).
D o ve , Logic ofthe Christian Faith, 1-29 e especialmente 25, dá uma demons
tração da impossibilidade do movimento: Uma coisa não pode mover-se no
lugar onde está; não pode mover-se nos lugares onde não está; mas o lugar
onde está e os lugares onde não está são os lugares que existem; por isso
uma coisa não pode mover-se. H a za rd , Man a Creative First Cause, 109, mostra
que o fundo de um poço não se move porque não recua tão rápido como o topo
também não avança. Uma fotografia instantânea torna a parte superior uma
mancha confusa enquanto ele se refere à parte inferior distintamente visível.
A bp. W h a te ly : O s argumentos fracos freqüentemente são confiados diante do
meu caminho; porém, embora não sejam mais substanciais, não é fácil des
truí-los. Não se conhece proeza mais difícil do que cortar uma almofada com
uma espada”. Cf. 1 Tm. 6.20 - “oposições da falsamente chamada ciência”;
3.2 - “que o bispo seja ... sóbrio” — aáxppcov = “bem equilibrado”. A Escritura
fala da “sã [t>yiíiç = sadia] doutrina” (1 Tm. 1.10). Contraste com 1 Tm. 6.4 -
[vocrâv = doentia] “delira acerca de questões e contendas de palavras”.
3. Conhecimento das ciências física, mental e moral
O método para conceber e expressar a verdade da Escritura é assim afetado
por nossas noções elem entares de tais ciências e as armas com as quais a
Teologia é atacada e defendida são tão freqüentem ente tiradas dos arsenais
que o estudante não pode permitir-se ignorá-las.
7 4 Augustus Hopkins Strong
G o e th e explica sua própria grandeza através da fuga da metafísica: Mein
Kind, Ich habe es klug gemacht: Ich habe nie über’s Denken gedacht” - “Meu
filho, tenho sido sábio em nunca pensar em torno de uma coisa”; ele teria sido
mais sábio se tivesse ponderado mais profundamente nos princípios funda
mentais da sua filosofia. Muito do sistema teológico caiu, como C a m pa n ile
em Veneza, porque os seus alicerces eram inseguros. S ir W illia m H a m ilto n :
“Nenhuma dificuldade levanta na teologia aquilo que antes não tinha emergi
do na filosofia”. N. W. T a y lo r : “Dá-me um moço na metafísica e eu não terei
preocupação com ele em teologia”. P r e s id e n te S am so n T a l b o t : “Amo a metafí
sica, porque ela trata de realidades”. A máxima “Ubi tres mediei, ibi duo athei”
(Onde há três médicos, lá estão dois ateus), atesta a verdade das palavras de
G a le n o : ã p ic rco ç ia tp ò ç te a i <piA,óao<poç — “o melhor médico é também filósofo”.
A teologia não pode dispensar a ciência nem a ciência pode dispensar a filo
sofia. E. G. R o b in s o n : “A ciência não invalidou qualquer verdade fundamental
da revelação, embora tenha modificado a afirmação de muitos. ... A ciência
física, sem dúvida, chocar-se-á na cabeça de alguns dos nossos deuses de
barro e quanto mais depressa melhor”. Há grande vantagem para o pregador
em dedicar-se, como o fez F r e d e r ic k W. R o b e r ts o n , a uma ciência após outra.
A química entrou na sua estrutura mental, como dizia ele, “como o ferro no
sangue”.
4. Conhecimento das línguas originais da Bíblia
Isto é necessário para capacitar-nos não só a determ inar o sentido dos ter
mos fundamentais da Escritura, tais como, santidade, pecado, propiciação,
justificação, mas, também, a interpretar declarações da doutrina através das
suas conexões com o contexto.
Emerson dizia que o homem que lê um livro num a língua estrangeira, quando
pode ler num a boa tradução, é um tolo. O D r. Behrends retruca que é tolo
quem se satis faz com o substitu to . E. G. Robinson: “A língua é um grande
organ ism o e nenhum estudo d isc ip lina a m ente com o dissecção de um orga
nism o” . Crisóstom o: “ Eis a causa de todos os m ales - o nosso desconheci
m ento das Escrituras” . Contudo, um erudito m oderno disse: “A Bíblia é o mais
perigoso de todos os dons que Deus concedeu ao hom em ”. É possível adorar
a le tra enquanto de ixam os de perceber o espírito . Uma in terpre tação bito lada
pode con trad izer o seu sentido. Depende m uito da conexão das expressões,
com o por exem plo, o Sià to w o e ècp’ cp, em Rm. 5.12. O P ro f. Philip Linosley,
de Princeton, 1813-1853, d iz ia aos seus a lunos: “ Um dos m elhores preparos
para a m orte é o conhecim ento in tegra l da g ram ática grega” . E r a s m o , na sua
juventude: “Q uando recebo algum dinheiro , adqu iro a lguns livros de Grego e,
depois disso, a lgum as roupas” . As línguas m ortas, na verdade, são vivas -
livres do perigo do fa lso en tend im ento provindo da m udança do em prego.
A Providência divina pôs a revelação em formas fixas no Hebraico e no Gre
go. S ir W illia m s H am ilto n , Discussions, 330 - “Ser um teólogo competente é,
de fato, ser um erudito".
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 7 5
5. Afeição santa para com Deus
Só o coração renovado pode adequadam ente sentir sua necessidade da
revelação divina ou entender tal revelação quando concedida.
S I. 25.14 - “O segredo do Senhor é para os que o temem”; Rm. 12.2 -
“para que experimenteis qual seja ... a vontade de Deus”; cf. SI. 36.1 -
“A prevaricação do ímpio fala no íntimo do seu coração”. “Não é o cérebro,
mas o coração que chega ao altíssimo”. “Aprender de cor é mais que apren
der através da mente, ou da cabeça (N.Trad.; “de cor” é uma locução que, em
Latim, significa de coração, ou relativo ao coração, ou a partir do coração).
Toda heterodoxia (N.Trad.; falsa doutrina) é precedida da heteropraxia (N.Trad.:
falsa prática, ou comportamento). No “Peregrino”, de B u n y a n , o Fiel não atra
vessa o Pantanaldo Desânimo, como fez o Cristão; e ao atravessar por cima
da cerca, deve achar um caminho mais fácil para que o Cristão e o Esperan
çoso entrem no Castelo da Dúvida e se entreguem nas mãos do Gigante
Desespero. “Grandes pensamentos vêm do coração”, diz V a u v e n a r g u e s .
O pregador não pode, como fazia o D r . K a n e , acender uma fogueira com
lente de gelo. A r is t ó t e le s : “O poder de alcançar a verdade moral depende de
agirmos com justiça”. P a s c a l : “Conhecemos a verdade, não só pela razão, mas
pelo coração.... O coração tem razões que a razão desconhece”. H o b b e s : Até
mesmo os axiomas da geometria seriam questionados se as paixões huma
nas não se preocupassem com eles”. M a c a u la y : “ A lei da gravidade ainda
seria controvertida se ocorresse a interferência de interesses pessoais”. N o r -
d a u , Degeneration: “Os sistemas filosóficos somente apresentam as descul
pas que a razão demanda para os impulsos da raça durante um dado período”.
L orde B a c o n : “Uma tartaruga no seu passo normal vence um corredor no seu
passo errado”. G o e th e : “Tais são as inclinações como as opiniões.... A cabeça
só pode compreender uma obra de arte com a acessória do coração. ... Só a
lei pode dar-nos liberdade”. F ic h t e : “ N o s s o sistema de pensamento mui fre
qüentemente é a história do coração. ... A verdade descende da consciência.
... A vontade dos homens não atende a sua razão, mas a razão é que atende
a sua vontade”. O lema de N ean d er era: “Pectus est quod theologum facit” -
“O coração é que faz o teólogo”. J o hn S t ir l in g : “Terrível é o olho que pode
dividir-se a partir de um vivo coração celestialmente humano, e ainda conser
var sua visão introspectiva, - tal como o olho das Górgonas”. Porém acres
centamos que esse olho não é introspectivo. E. G. R o b in s o n : “Nunca estude
Teologia com sangue frio”. W . C. W ilk in s o n : “A cabeça é uma agulha magné
tica cuja verdade aponta para um dos pólos. Mas o coração é uma massa de
ferro magnético oculta. A cabeça é atraída para o seu pólo natural, a verdade;
mas a maior parte é atraída pelo magnetismo mais próximo”.
6. A influência iluminadora do Espírito Santo
Como somente o Espírito sonda as coisas de Deus, só ele pode iluminar
nossas mentes para apreendê-las.
7 6 Augustus Hopkins Strong
1 Co. 2 .11,12 - “ninguém sabe as coisas de Deus senão o Espírito de
Deus. Mas ... foi-nos dado o espírito que provém de Deus, para que pudésse
mos conhecer”. C íc e r o , Natura Deorum, 66 - Nemo igitur vir magnus sine
aliquo adflato divino unquam fuit”. P r o f . B e c k d e T ü b in g e n : “Para o estudante
não há nenhum caminho privilegiado que conduz à verdade; o único é o mes
mo do inculto; é o da regeneração e da gradual iluminação através do Espírito
Santo; sem ele, a teologia não só é uma pedra fria, como um perigoso vene
no”. Como todas as verdades dos cálculos diferenciais e integrais estão
envoltas no mais simples axioma da matemática, do mesmo modo toda a
teologia está compreendida na declaração de que Deus é santidade e amor,
ou no proto-evangelho proferido nos portais do Éden. Entretanto, as mentes
embotadas não podem por si mesmas desenvolver os cálculos a partir do
axioma, nem os corações pecadores desenvolver a teologia a partir da pri
meira profecia. É preciso que os mestres demonstrem os teoremas geométri
cos, e que o Espírito Santo nos mostre que o “novo mandamento”, ilustrado
na morte de Cristo, é o único “antigo mandamento que tivestes desde o prin
cípio" (1 Jo. 2.7). Os Princípios de Newton são uma revelação de Cristo do
mesmo modo que as Escrituras. O Espírito Santo nos capacita a penetrar no
sentido das revelações de Cristo tanto na Escritura como na natureza; a inter
pretar uma através da outra; e assim elaborar as demonstrações e aplicações
originais da verdade; Mt. 13.52 - “Por isso, todo escriba instruído acerca do
Reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro
coisas novas e velhas”.
II. DIVISÕES DA TEOLOGIA
Comumente a Teologia se divide em Bíblica, Histórica, Sistemática e Prá
tica.
1. A Teologia Bíblica tem como alvo ordenar e classificar os fatos da reve
lação limitando-se às Escrituras quanto ao seu m aterial e tratando a doutrina
só na m edida em que ela se desenvolveu até o fim da era apostólica.
Por exemplo: D e W e t t e , Biblische Theotogie\ H o f m a n n , Schriftbeweis;
N itz s c h , System of Christian Doctrine. Contudo, esta última tem mais de ele
mento filosófico do que de Teologia Bíblica. O terceiro volume de Justificação
e Reconciliação pretende ser um sistema de Teologia Bíblica; o primeiro e
segundo volumes são pouco mais do que uma introdução histórica. Mas a
metafísica, de realidade e fenomenalismo kantianos, penetra tão grandemente
na avaliação e interpretações de R its c h l , que torna suas conclusões parciais
e racionalistas. Observe um emprego questionável do termo Teologia Bíblica
para designar a parte da teologia de uma parte da Escritura separada do
resto, como na Teologia Bíblica do Velho Testamento de S t e u d e l ; Teologia
Bíblica do Novo Testamento de S c h m id t e nas expressões comuns: Teologia
Bíblica de Cristo, ou de Paulo. Estas expressões são passíveis de objeção ao
indicar que os livros da Escritura têm uma origem humana. Aceitando a hipó
tese de que não há uma autoria divina comum da Escritura, concebe-se a
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 7 7
Teologia Bíblica como uma série de fragmentos correspondentes a diferentes
ensinos dos vários profetas e apóstolos e sustenta-se que a teologia de Paulo
não tem garantia e é um acréscimo incôngruo à teologia de Jesus.
2. A Teologia Histórica traça o desenvolvim ento das doutrinas bíblicas
desde o tempo dos apóstolos até os nossos dias e dá conta dos resultados deste
desenvolvimento na vida da igreja.
O desenvolvimento doutrinário é o progressivo desenvolvimento e absor
ção que a igreja assume da verdade explfcita e implicitamente contida na
Escritura. Ao explicar a forma da fé cristã nas declarações doutrinárias, a
Teologia Histórica é chamada História da Doutrina. Ao descrever o resultado
e acompanhamento das mudanças exteriores e interiores na vida da igreja, a
Teologia Histórica é chamada História da Igreja.
3. A Teologia Sistemática tom a o material fornecido pelas Teologias Bíbli
ca e H istórica e, com este material, busca edificar um todo orgânico e consis
tente do nosso conhecimento de Deus e de suas relações com o universo, quer
este conhecimento seja originariamente derivado da natureza, quer das Escri
turas.
Por isso a Teologia Sistemática é chamada teologia propriamente dita; a
Teologia Bíblica e a Histórica são seus estágios incompletos e preparatórios.
Deve-se distinguir a Teologia Sistemática da Teologia Dogmática. No empre
go estrito, Teologia Dogmática é a sistematização das doutrinas expressas
nos símbolos da igreja, associando a sua base às Escrituras e à apresenta
ção, até onde possível, da sua necessidade racional. Por outro lado, a Teolo
gia Sistemática não começa com os símbolos, mas com as Escrituras. Ela
não indaga primeiro qual a crença da igreja, mas qual a verdade de Deus
revelada na sua palavra. Examina a palavra com todos os acessórios que a
natureza e o Espírito lhe deram, utilizando a Teologia Bíblica e a Histórica não
como mestras, mas como suas servas e auxiliares. Note aqui o emprego técni
co da palavra “símbolo”, de av>|xpSáXXco, = breve lançamento conjugado, ou
afirmação condensada da essência da doutrina cristã. Sinônimos: Confissão,
credo, consenso, declaração, formulário, cânones, artigos de fé.
O dogm atism o estim u la os resu ltados inevitáveis. Contudo, dogm atism o
não deriva de “dog” , com o jov ia lm en te sugere Douglas J e r ro ld quando diz
que “o dogm atism o é o can in ism o na p len itude do seu desenvo lv im ento” , mas
de SoKéco, penso, opino. A Teologia D ogm ática tem dois princípios: 1) A autoridade absoluta dos credos, nas decisões da igreja ; 2) A aplicação de tais
credos da lóg ica form al com o propósito de dem onstra r sua verdade, visando
ao entendim ento. Na Igreja C ató lica Rom ana, a au toridade decis iva não se
encontra na Escritura, m as na ig re ja e no dogm a dado por ela. C ontrariam en
te, o princíp io pro testante é que a Escritura decide e é ela que ju lga o dogma.
Seguindo Schleierm acher, A lb e r t Schw eitzer defende o pensam ento de que o
78 Augustus Hopkins Strong
termo “Dogmatik” deve ser descartado como essencialmente anti-protestante
e que “Glaubenslehre” deve ocupar o seu lugar; e Harnack, Hist. Dogma, 6,
assinala que o “dogma sempre, no progresso da história, tem devorado seus
progenitores”. Conquanto seja verdadeiro que cada novo e avançado pensa
dor na teologia tem sido contado como herege, sempre tem havido uma fé
comum “a fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd. 3) - e o estudo da Teolo
gia Sistemática tem sido um dos principais meios de preservar esta fé no
mundo. Mt. 15 .13 ,14 - “Toda planta que o Pai celestial não plantou será
arrancada. Deixai-os; são condutores cegos”; = a verdade é plantada por Deus
e tem vida divina permanente. Os erros humanos não têm vitalidade perma
nente e por si mesmos perecem.
4. Teologia Prática é um sistem a de verdades considerado como um meio
de renovar e santificar o hom em ou, em outras palavras, a Teologia em sua
disseminação e reforço.
Pertencem a este departamento da teologia a Homilética e a Teologia Pas
toral, visto que estas são apenas apresentações científicas dos métodos cor
retos de desdobrar a verdade cristã e de trazer aos homens e à igreja.
Às vezes se afirma que há outros departamentos da teologia não incluí
dos nos acima mencionados. Porém eles, em sua maioria, senão todos eles,
pertencem a outras esferas da pesquisa e não podem apropriadamente ser
classificados dentro da teologia. A assim chamada Teologia moral, ou ciência
da moral cristã, ética, ou ética teológica, na verdade, é o resultado da teolo
gia, mas não deve confundir-se com ela. A assim chamada teologia espe
culativa, que trata a verdade como matéria de opinião, ou é extra-escriturísti-
ca e assim pertence ao campo da filosofia da religião, ou é uma tentativa de
explicar a verdade já revelada e, deste modo, entra no campo da Teologia
Sistemática. “A teologia especulativa parte de alguns princípios a priori, e
deles empreende determinar o que é e o que deve ser. Deduz seu esquema
da doutrina das leis da mente ou de axiomas que supõe operar-se em sua
constituição”. Biblia Sacra, 1852.376 - “A teologia especulativa tenta mostrar
que os dogmas concordam com as leis do pensamento enquanto a filosofia
da religião tenta mostrar que as leis do pensamento concordam com os dog
mas”. A Enciclopédia (a palavra significa “instrução em círculo”) Teológica é
uma introdução geral a todas as divisões da Teologia, juntamente com um
cômputo das relações entre elas. A Enciclopédia de H e g e l era uma tentativa
de apresentar os princípios e conexões de todas as ciências.
As relações da teologia com a ciência e a filosofia têm sido variadamente
estabelecidas, mas nenhuma melhor do que a de H. B. S mith, Faith and Philo-
sophy, 18 - “A filosofia é um modo do conhecimento humano - não o conhe
cimento todo, mas um modo dele - o conhecimento racional das coisas”.
A ciência pergunta: “O que conheço?” A filosofia pergunta: “O que posso
conhecer?” W illiam James, Psychology, 1.145 - “A metafísica não significa
nada senão um incomum esforço obstinado de pensar claramente”. A ristóte
les: “A s ciências em particular são o operário que trabalha com afinco
enquanto a filosofia é o arquiteto. Os operários são escravos; existe para eles
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 79
um senhor livre. Deste modo é que a filoso fia governa a c iência” . Com rela
ção à filoso fia e à c iência Lorde Bacon assina la: “A que les que têm m anejado
o conhecim ento têm sido hom ens ou observadores ou raciocinadores abstra
tos. Aque les são com o a form iga: só coletam o m ateria l e o põe em uso im e
diato. Os raciocinadores abstra tos são com o as aranhas que fazem as teias
da sua própria substância. M as a abe lha assum e um meio term o: ela colhe o
seu m ateria l das flo res do ja rd im e do cam po e o transfo rm a e d igere o que
ajuntou através da sua própria força. Não difere da obra do filóso fo ” . Novalis:
“A filoso fia pode não assar nenhum pão; mas ela pode apresentar-nos Deus,
liberdade e im orta lidade” . Prof. D e W itt de P rinceton: “A ciência, a filoso fia e
a teo log ia são os três grandes m odos de organ izar o un iverso em um sistem a
inte lectual. A c iência nunca desce abaixo das causas secundárias; se o faz,
já não é mais ciência , - to rna-se filosofia . A filo so fia encara o un iverso como
um a un idade e a sua m eta é sem pre procura r encon tra r a fon te e o centro
desta unidade - o Abso lu to , a Causa Prim eira. Tal m eta da filosofia é o ponto
de partida para a teo log ia . O que a filoso fia está lu tando para achar, a teo log ia
afirm a que já achou. Por isso a teo log ia parte do A bso lu to , a Causa P rim eira” .
W. N. C larke, Christian Theology, 48 - A c iênc ia exam ina e c lassifica os fatos;
a filosofia inquire os m eios esp irituais. A c iênc ia procura conhecer o universo;
a filosofia , en tendê-lo ” .
Balfour, Foudantions ofBelief, 7 - “A ciência natural tem com o assunto as
co isas m ate ria is e eventos. A filo so fia é a ap resen tação s is tem á tica das
bases do nosso conhecim ento . A m etafís ica é o nosso conhecim ento sobre
as rea lidades não fenom enais, /.e., Deus e a a lm a” . Knight, Essays in Philo-
sophy, 81 - “O alvo das c iências é o crescim ento do conhecim ento através da
descoberta de leis em que todos fenôm enos podem ser incluídos e por meio
dos quais podem ser exp licados. Por ou tro lado, o alvo da filoso fia é explicar
as c iências inclu indo-as e, ao m esm o tem po, transcendendo-as. A substân
cia e essência são a sua esfe ra ” . Bowne, Theory of Thoughtand Knowledge,
3-5 - “ F ilosofia = doutrina do conhecimento (é a m ente passiva ou ativa no
conhecim ento? - Epistem ologia) + doutrina do ser (é fundam enta l que seja
m ecân ica e não in te ligen te , ou propos ic iona l e in te ligen te? - M etafís ica).
Os s istem as de Locke, H ume e Kant são proem inen tem ente teorias do conhe
cim ento; os s istem as de S pinosa e de Leibnitz são proem inen tem ente teorias
do ser. H istoricam ente as teorias do ser vêm em prim eiro lugar porque o ob je
tivo é o único determ inante do pensam ento reflexo. Porém o instrum ento da
filoso fia é o próprio pensam ento. Então, em prim eiro lugar, devem os estudar
a Lógica, ou a teoria do pensam ento; em segundo lugar, a Epistem ologia, ou
a teo ria do conhecim ento ; em terce iro , a M etafís ica , teo ria do ser” .
P rof. G eorge M. Forbes sobre a Nova Psicologia: “Locke e Kant represen
tam as duas tendências da filosofia - por um lado, a empírica, física, científi
ca, e, por outro, a racional, metafísica, lógica. Locke fornece a base para os
esquemas associativos de Hartley, M ills e Bain ; Kant para o esquema idea
lista de F ichte, S chelling e H egel. As duas não são contraditórias, mas com-
plementares e os escoceses Reid e Hamilton combinam ambas em reação
contra o extremo empirismo e o ceticismo de H ume. H ickok, Porter e McC osh
representam a escola escocesa na América. É exclusivamente analítica', sua
psicologia é a das faculdades; representa a mente como um feixe de faculdades.
80 Augustus Hopkins Strong
A filosofia un itária de T. H. G reen, Edward Caird, na Grã Bretanha e, na A m é
rica, de W. T. Harris, G eorge S. Morris e John D ewey fo i um a reação contra a
ps ico log ia das facu ldades, sob a in fluência de Hegel. A segunda reação sob a
in fluência da doutrina herbartiana da apercepção{N.Trad.: = intu ição, facu l
dade de apreender im edia tam ente peia consc iênc ia e sem in term ediário lógi
co, um a idéia, um a verdade) substitu i a função pe la facu ldade to rnando todos
processos fases da apercepção. G. F. Stout e J. Mark Baldwin representam
esta ps ico log ia . Um a te rce ira reação vem da in fluênc ia da c iência física.
Todas tentativas de unificação relegam -se a um hades m etafísico. Nada há a
não ser estados e processos. A única un idade são as leis da sua coexistência
e sucessão. Não existe nada a priori. W undt iden tifica a apercepção com a
von tade e cons idera -a com o um princ íp io un itário. K ülpe e T itchener não
encontram um eu, ou um a vontade, ou um a alm a, mas tratam isto com o in te
resses quase sem garantia. A sua psico log ia não tem alm a. A antiga psico
logia era exclus ivam ente estática, enquanto a nova dá ênfase ao ponto de
vista genético. O crescim ento e desenvo lv im ento são as idéias m estras de
H erbert S pencer, Preyer, T racy, e Stanley Hall. W illiam James é explícito,
enquanto G eorge T. Ladd é descritivo. Cattel, S cripture, e M ünsterberg ap li
cam os m étodos de Fechner e o seu órgão é a Psichological Review. O erro
de les está em sua a titude negativ is ta . A an tiga ps ico log ia é necessária à
suplem entação da nova. Tem m aior escopo e um a significação mais prática.
III. HISTÓRIA DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA
1. Na Igreja do Oriente, pode-se dizer que a Teologia Sistem ática teve seu
início e fim com J oão Damasceno (700-760).
Inácio (+115 A.D. Tralles, cap. 9) dá-nos “a prim eira declaração de fé d is
tin ta com posta de um a série de proposições. Tal s is tem atização form ou, mais
tarde, a base de todos os esfo rços” (P rof. A. H. N ewman). O rígenes de A lexan
dria (186-254) escreveu o seu nspi ’Ap%râv; A tanásio de A lexandria (300-373)
seu tra tado sobre a Trindade e a D iv indade de Cristo; e G regório de N issa na
Capadócia (332-398) seu Aóyoç k o c t t i x t|i : i k ò ç ó |iéyaç. Hatch, Hibbert Lectures,
323, considera o “De Principiig' de O rígenes com o o prim eiro s is tem a com ple
to de dogm a” , e considera O rígenes com o “o d iscípu lo de C lemente de A lexan
dria, o prim eiro grande m estre do cris tian ism o filo só fico ” . Mas enquanto os
Pais m encionados parecem ter conceb ido o p lano de exposição ordenada
das doutrinas e m ostrar o seu re lac ionam ento de umas com as outras, na
verdade, foi J oão Damasceno (700-760), quem prim eiro executou ta l plano.
Seu "E k Soctiç àKpipfiç -cfjç ôp0o5ó^on nía-cecoç (Transm issão Exata da Fé O rto
doxa) pode ser cons ide rada a m ais an tiga obra de Teolog ia S is tem ática.
N eander cham a-a “o mais im portan te texto doutrinário da Igreja G rega” . Como
a Ig re ja G rega, em geral, J oão é especu la tivo , teo lóg ico , sem i-pe lag iano,
sacram enta lista . O assim cham ado Credo dos Apóstolos, na sua fo rm a p re
sente, não é an terio r ao século quinto; ver Schaff, Creeds of Cristendom,
1.19. O S r. G ladstone sugere que o Credo dos A pósto los é um desenvo lv i
m ento da fó rm ula batism al. M cG iffert, Apostles’ Creed, atribui à fraca form a
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 81
original uma data do terceiro quartel do segundo século, e considera provável
a origem romana do seu símbolo. Foi estruturado como fórmula batismal,
mas não especificamente em oposição aos ensinos de M a r c iã o , que, naquela
época, causava muita perturbação a Roma. Contudo, H a r n a c k data o Credo
Apostólico original no ano de 150 e Z ahn em 120.
2. Na Igreja do Ocidente, (com H agenbach) podem os distinguir três períodos:
a) Período do Escolasticismo, - in troduzido por P e d ro L om bardo ( 1 1 0 0 -
1 1 6 0 ) , chegando ao c lím ax com Tomás de A qu in o ( 1 2 2 1 - 1 2 7 4 ) e D uns S co tu s
1 2 6 5 -1 3 0 8 ) .
Em bora a Teolog ia S is tem ática tivesse tido o seu com eço na Igreja do
Oriente, seu desenvo lv im ento lim itou-se quase to ta lm ente ao O cidente. A gos
tinho (353-430) escreveu o seu “Encheiridion ad Laurentiurri’ e a “ De Civitate
Dei', J oão Scoto Erígena (t 850), Roscelino (1092-1122) e A belardo (1079-
1142), na sua ten ta tiva de um a exp licação racional da doutrina cris tã prefigu-
ravam as obras dos grandes m estres escolásticos. A nselmo de Cantuária (1034-
1109), com seu “Prosiogion de Dei Existentia" e “Cur Deus Homo”, tem sido,
às vezes cham ado, em bora erroneam ente , o fundador do Escolasticism o.
A llen, Continuity of Christian Thought, apresenta a transcendência de Deus
com o o princíp io con tro lador da teo log ia agostin iana e da Ocidental. A Igreja
Oriental, sustenta ele, tinha baseado a sua teo log ia na im anência de Deus.
Paine, Evolution of Trinitarism, m ostra que isto é errado. Agostinho era um
teísta da linha monista. Ele declara que “Dei voluntas rerum natura est” (N.Trad.:
a vontade de Deus é a natureza das coisas), e considera a preservação de
Deus um a criação contínua. A teo log ia ocidenta l reconhece a im anência de
Deus tan to com o a sua transcendência.
Contudo, P edro Lombardo (1100-1160), o “m ag ister sen tentia rum ” , foi o
prim eiro grande s is tem atizador da Igreja O cidenta l e seu “ Libri Sententiarum
Q uator” foi o livro de texto da Idade M édia. M estres pro feriram pre leções com
base nas “Sen tenças” (Sententia = sentença, Satz, locus, ponto, artigo de fé),
com o fizeram nos livros de Aristó te les, que fo rneceu ao Escolastic ism o seu
im pulso e d ireção. C ada dou trina é tra tad a na ordem das quatro causas
de A ristóteles: m aterial, form al, e fic ien te e fina l. (“C ausa” aqui = requisito:
1) m atéria em que um a co isa consiste, p.ex. tijo los e argam assa; 2) form a
que assum e, p.ex. o plano ou projeto; 3) agente produtor, p.ex., o constru tor;
4) a finalidade por que foi feita, p.ex., moradia). A organização da ciência
física bem como da teológica deve-se a A r is t ó t e l e s . D a n t e o chamou “o mes
tre dos que conhecem”. J a m e s Ten B r o e k e , Bap. Quar. fíev., jan. de 1892 .1-26
- “O Avivamento do Aprendizado mostrou ao mundo que o verdadeiro A r istó
te le s era muito mais aberto que o Aristóteles escolástico - informação muito
bem-vinda à Igreja Romana”. Para a influência do Escolasticismo, compare
os métodos literários de A g o s tin h o e de C a lv in o , - aquele nos dá o seu mate
rial em desordem, como soldados em bivaque durante a noite; este, pondo-os
em ordem como os mesmos soldados formados para a batalha.
C a n d lis h , art.: Dogmatic, In Encyl. Brit., 7.340 - “Ao lado de uma poderosa
força intelectual tem preponderância todo o material dogmático coletado, e
82 Augustus Hopkins Strong
crescido sem os grandes sis tem as esco lásticos, que têm sido com parados
com as grandes ca tedra is gó ticas obra da m esm a época” . O dom in icano
T omás de A quino (1221-1274), o “doctor ange licus” , agostin iano e realista, - e
o franciscano Duns Scotus (1265-1308), “docto r sub tilis ” , - e laboraram a teo
logia esco lástica de modo mais com ple to e de ixaram atrás de si, em suas
Summae, gigantescos m onum entos de indústria in te lectual e argúcia. O esco
lastic ism o tinha com o alvo a prova e s is tem atização das doutrinas da Igreja
por m eio da filoso fia de A ristóteles. Por fim , to rnou-se um ilim itado charco de
sutilezas e abstrações e acabou no ce tic ism o nom ina lis ta de Guilherme d e
O ccan (1270-1347).
b) Período do Simbolismo, - representado pela Teologia Luterana de Filipe
M elanchton (1497-1560) e pela Teologia Reform ada de J oão C alvino (1509-
1564); aquela em conexão com a Teologia A nalítica de C alixto (1585-1656)
e esta em conexão com a Teologia Federal de C occeius (1603-1669).
Teologia Luterana - Os pregadores vêm antes dos teó logos; Lutero (1485-
1546) era mais pregador do que teó logo. Mas M elanchton (1497-1560), “o
precep to r da A lemanha” , com o era cham ado, incorporava a teo log ia da Igreja
Luterana em suas “Loci C om m unes” = pontos de doutrina com uns aos cren
tes (p rim e ira ed ição agostin iana , depo is sub s tanc ia lm e n te arm in iana ; um
desenvolv im ento das pre leções sobre a Epísto la aos Rom anos). Foi seguido
de C hemnitz (1522-1586), “claro e prec iso” , o m ais cu lto dos discípulos de
M elanchton. L eonhard H utter (1563-1616), cham ado “ Lutherus red iv ivus” e
João G erhard (1582-1637) seguiram Lutero m ais do que M elanchton. “C in
qüenta anos após a m orte de M elanchton, Leonhard Hutter, seu sucessor na
cade ira de teo log ia em W ittenberg , num a época quando se ape lava para
a autoridade de M elanchton, destronava-se da parede o retrato do grande
Reform ador, e se esm agava sob os pés na presença da assem blé ia” (E. D.
Norris, num jo rna l por ocasião do 609 an ive rsário do Sem inário de Lane).
G eorge Calixto (1586-1656) seguiu M elanchton em vez de Lutero. Ele ensi
nava um a teo log ia que reconhecia o lado bom tan to na doutrina reform ada
com o na rom anista e a isto cham ava “s incre tism o” . S eparava a Ética da Teo
logia S is tem ática e ap licava a esta o m étodo analítico de investigação, com e
çando com o fim , ou a causa final, de todas as coisas, a saber: a bem -aventu-
rança. E em seu m étodo analítico ele foi segu ido por Dannhauer (1603-1666),
que tra tava a teo log ia de um a form a a legorizante; C alóvio (1612-1686), “o
mais in transigen te de fensor da o rtodox ia lu te rana e o m ais drástico po lem ista
contra Calixto” ; Q uenstedt (1617-1688), que Hovey cham a “culto, abrangente
e lóg ico” ; e Hollaz (t 1730). A teo log ia lu terana tinha com o alvo purifica r a
igre ja existente, sustentando que aquilo que não é contra o evangelho é por
ele. Dava ênfase ao princíp io m ateria l da Reform a: a jus tificação pela fé; mas
conservava m uitos costum es rom anistas não pro ib idos expressam ente na
Escritura. Kaftan, Am. Jour. Theol., 1900.716 - “ Porque a filoso fia escolar
m edieval sustentava princ ipa lm ente o em prego da arm a, a teo log ia pro tes
tante, representando a nova fé, acom odava-se necessariam ente ao conheci
mento por ela condic ionado, isto é, as fo rm as essencia lm ente ca tó licas” .
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 83
Teologia Reformada - A pa lavra ‘R e fo rm ada” é aqui em pregada no sen ti
do técnico, designando aque la fase da nova teo log ia que se orig inou na Suí
ça. O re form ador suíço Zw ínglio (1484-1531), dife rindo de Lu te ro quanto à
Ceia do Senhor e quanto à Escritura, mais do que L u te ro era cham ado pelo
nom e de teó logo sistem ático. A lguns dos seus escritos podem ser considera
dos o com eço da teo log ia reform ada. M as coube a João Calvino (1509-1564),
após a m orte de Zwínglio, pôr em ordem os princíp ios daquela teo log ia em
form a sistem ática. Calvino cavou canais para que o d ilúvio de Zw ínglio flu ís
se, com o aconteceu com M elanchton em relação a Lu te ro . Seus Institutos
(“ Institutio Relig ionis C hristianae), é um a das m aiores obras de teo log ia (como
obra s is tem ática superio r à “ Loci” de M elanchton). Calvino foi seguido por
Pedro, o M ártir (1500-1562), Chamier (1565-1621) eTEODORO Beza (1519-1605).
B eza levou a doutrina ca lv in is ta da predestinação ao extrem o do supralapsa-
rianism o, que é m ais h íper-ca lv in is ta do que ca lv in ista . Cocceius (1603-1669)
e, depois dele, W its ius (1626-1708) fizeram da teo log ia o centro em torno da
idéia dos concertos e fundaram a teo log ia Federal. Leydecker (1642-1721)
tratou da teo log ia na ordem das pessoas da Trindade. Am iraldo (1596-1664)
e Plaques de Saumur (1596-1632) m odificaram a doutrina calv in ista , esta atra
vés da teoria da im putação m edia ta e aque la através da defesa do hipotético
un iversalism o da graça divina. T u r re t t in (1671-1737), esclarecido e podero
so teó logo cuja obra a inda hoje é livro de texto em Princeton e P ic te t (1655-
1725), am bos federa lis tas m ostram a in fluência da filoso fia cartesiana. A teo
logia re form ada tinha com o alvo ed ifica r um a nova igreja, a firm ando que o
que não deriva da Bíblia é con tra ela. Dava ênfase ao princíp io form al da
Reform a: a autoridade única da Escritura.
Em geral, enquanto a linha entre católicos e protestantes na Europa corre
do Ocidente para o Oriente, a linha entre os luteranos e reformados corre do
sul para o norte; a teologia reformada flui com a corrente do Reno para o
norte a partir da Suíça para a Holanda e para a Inglaterra, na qual os trinta e
nove Artigos representam a fé reformada, conquanto o Livro de Oração da
Igreja Inglesa é substancialmente arminiano.
c) Período da Crítica e da Especulação, - nas suas três divisões: a Raciona-
lista, representada por S emler (1725-1791); a Transitória, por S chleierma-
cher (1768-1834); a Evangélica por Nitzsch, M üller, Tholuck e Dorner.
Primeira Divisão. Teologias racionalistas: Apesar de a Reforma, em gran
de parte, ter livrado a teologia dos laços do escolasticismo, após um cer
to tempo vieram outras filosofias. O exagero das forças da religião natural
Leibnitzianas e Wollfianas abria o caminho para os sistemas racionalistas de
teologia. B u d deus (1667-1729) combatia os novos princípios, mas a teologia
de S em ler (1725-1791) foi edificada sobre eles e representava as Escrituras
como tendo um caráter simplesmente local e temporário. M ic h ae lis (1716-
1784) e D o e d e r le in (1714-1789) seguiram S em ler e a filosofia crítica de K an t
(1724-1804) para quem “a revelação era problemática e a religião positiva
simplesmente um meio através do qual comunicam-se as verdades práticas,
assistiu grandemente a tendência para o racionalismo” (H a g e n b a c h , Doctrine
8 4 Augustus Hopkins Strong
Hist., 2.397). A m m o n (1766-1850) e W e g s c h e id e r (1771-1848) representavam
esta filosofia. D a u b , M a r h e in e c k e e S t r a u s s (1808-1874) eram dogmáticos
hegelianos. O sistema de S t r a u s s assemelhava-se “a teologia cristã como o
cemitério assemelha-se a uma cidade”. S t o r r , (1746-1805), R ein h a r d (1753-
1812) e K napp (1753-1825), empenhados em reconciliar a revelação com a
razão, no centro evangélico, porém não eram mais nem menos influenciados
pelo espírito racionalizante. Pode-se dizer que B r e ts c h n e id e r (1776-1828) e
D e W ette (1780-1849) tinham defendido uma base intermédia.
Segunda Divisão. Transição para uma teologia mais escriturística. H erder
(1744-1803) e J acobi (1743-1819), com a sua filosofia mais espiritual, prepara
ram o caminho para S c h leie r m a c h er (1768-1834) formar a base da sua doutrina
nos fatos da experiência cristã. Os escritos de S c h leie r m a c h er marcaram época
e tiveram grande influência no livramento que a Alemanha teve das armadi
lhas do racionalismo em que ela havia caído. Agora podemos falar de uma.
Terceira Divisão - e nesta podemos mencionar os nomes de N ea n d er e
T h o l u c k , T w e s te n e N itz s c h , M ü ller e L u t h a r d t , D o r n e r e P h il ip p i, E brard e
T h o m a s iu s , L an g e e K a h n is , todos eles expoentes de uma teologia bem mais
pura e evangélica do que era comum na Alemanha de um século atrás. Con
tudo, duas novas formas de racionalismo apareceram na Alemanha: uma
baseada na filosofia de H e g e l , que contava entre os seus seguidores S trau ss
e B a u r , B ie d e r m a n n , L ips iu s e P f le id e r e r ; a outra baseada na filosofia de K a n t
e defendida por R its c h l e seus seguidores: H a r n a c k , H erm an n e K a f ta n ; aque
la dava ênfase ao Cristo ideal e esta ao histórico; porém nenhuma delas reco
nhecia plenamente o Cristo vivo presente em cada crente (verJohnson’s Cycio-
peedia, art. Theoiogy, de A. B . S t r o n g ).
3. Entre os teólogos de pontos de vista diferentesda fé protestante prevale-
cente, podem ser m encionados os seguintes:
a) B elarmino (1542-1621), Católico Romano.
Além de Belarmino, “o mais con trovertido escrito r da sua época” (Bayle), a
Igreja C ató lica Rom ana conta entre os seus notáveis teólogos: - Petávio (1583-
1652), cuja teo log ia dogm ática G ibbon cham a de “um a obra de incrível labor e
a lcance” ; M elchior Canus (1523-1560), um opos ito r dos jesuítas e seus m éto
dos esco lásticos; Bossuet (1627-1704), que idealizou o cato lic ism o em sua
Exposição da D outrina e atacou o pro testantism o na sua H istória das Igrejas
P ro testantes; J ansen (1585-1638), que ten tou , em opos ição aos jesuítas,
reproduzir a teo log ia de A gostinho, e que contou no seu poderoso auditório
com Pascal (1623-1662). O jansen ism o, no que se refere às doutrinas da
graça, m as não aos sacram entos, é o pro testantism o virtua l dentro da Igreja
Cató lica Rom ana. O S im bolism o de M oehler, as “P relectiones Theo log icae”
de Perrone e o “C om pendium Theo log iae D ogm aticae” de Hurter são as ú lti
mas e as exposições de m aior aprovação da D outrina Cató lica Romana.
b ) Arm ínio (1560-1609), o opositor da doutrina da predestinação.
Entre os seguidores de A rmínio deve-se contar E pisc o piu s (1583-1643), que
levou o arminianismo aos extremos do pelagianismo; H ugo G rotius (1553-1645),
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 85
jurista e estadista, autor da teoria governamental da expiação; e L im bo rch
(1633-1712), o mais completo expositor da doutrina arminiana.
c) L élio S ocínio (1525-1562) e Fausto S ocínio (1539-1604), líderes do
movimento unitário.
As obras de Lélio Socínio e do seu sobrinho, Fausto Socínio constituíram -
se o in íc io do un itarism o m oderno. Lé lio Socínio era pregador e reform ador e
Fausto Socínio, o teó logo; ou, com o se expressa Baumgarten Crusius: “aquele
foi o fundador do socian ism o e este o fundador da se ita ” . Os seus escritos
estão co letados na B ib lio theca Fratrum Polonorum . O Catecism o Racoviano,
que tom ou este nom e devido à c idade po lonesa de Racow, contém a mais
resum ida exposição dos pontos de v is ta deles. Em 1660, a Igreja Unitária dos
Coccíneos, na Polônia, foi destru ída por um a perseguição; um a ram ificação
dela, na Hungria, conta com mais de cem congregações.
4. Teologia Britânica, representada pelos seguintes grupos;
d) Os Batistas, J ohn Bunyan (1628-1688), John G ill (1697-1771) e A ndrew
Fuller (1754-1815).
Parte da melhor teologia britânica é batista. Entre as obras de J ohn B un y an ,
podemos mencionar “ Verdades Abertas do Evangelho’’, apesar de que
“O Peregrino” e a “Guerra Santa" são tratados teológicos em forma alegóri
ca. M ac a u lay chama M ilton e B unyan de as duas mentes criativas da Inglater
ra durante a última parte do século XVII. “O Organismo da Divindade Prática”
de J. G ill apresenta muita habilidade, apesar de que o aprendizado rabínico
do autor apresenta-se numa curiosa exegese, como na análise da palavra
“Abba” ele assinala: “Vós vedes que esta palavra que significa ‘Pai’ é lida da
mesma forma para frente ou para trás; o que sugere que Deus é o mesmo e
de qualquer modo que o vemos”. “As Cartas sobre a Divindade Sistemática”
de A n d r e w F u ller são um breve compêndio de teologia. Seus tratados sobre
doutrinas especiais são marcados por um sadio juízo e um claro discernimen
to. Eles foram o mais influente fator de salvaguarda contra o antinomismo nas
igrejas evangélicas da Inglaterra. Justificam o epíteto que R o be r t H a l l , um
dos maiores pregadores batistas, lhe deu: “sagaz”, “esclarecido”, “poderoso".
b) Os Puritanos John O wen (1616-1683), R ichard Baxter (1615-1691),
John Howe (1630-1705) e Thomas R idgeley (1666-1734).
O wen foi o mais rígido, do mesmo modo que Baxter o mais liberal dos
puritanos. A Enciclopédia Britânica assinala: “Como pensador e escritor teo
lógico, John Owen mantém o seu próprio lugar distintamente definido entre
aqueles titânicos intelectos dos quais a época era abundante. Ultrapassado
por Baxter no assunto e no sentimento por Howe na imaginação e na mais
elevada filosofia, não tem rival no poder do desdobramento dos ricos sentidos
86 Augustus Hopkins Strong
da Escritura. Nos seus escritos foi proem inentem ente o grande teólogo” . Baxter
escreveu um “M ethodus T heo log iae” , e um a “Teolog ia C ató lica” ; John Howe é
conhecido princ ipa lm ente por seu “Tem plo V ivo” ; T homas R idgeley por seu
“ C orpo da D iv in d a d e ” . C harles H. S purgeon nu nca de ixou de e s tim u la r
os seus estudantes a se fam ilia rizarem com os Puritanos A dams, A mbrósio,
Bowden, Manton e S ibbes.
c) Presbiterianos escoceses Tomás B oston (1676-1732), J ohn D ick (1764-
1833) e Thomas C halmers (1780-1847).
Dos presbiterianos escoceses, Boston é o mais prolífico, D ick o mais cal
mo e justo, C halmers o mais fervoroso e popular.
ã) Os Metodistas John W esley (1703-1791) e R ichard W atson (1781-1833).
Dos metodistas, a doutrina de John W esley encontra-se presente na “ Teolo
gia Cristã", coletada dos seus escritos pelo Rev. T hornley S mith. O maior livro
de texto metodista é “Institutos” de W atson, que sistematizou e expôs a teolo
gia wesleyana. Pope, recente teólogo inglês, segue o arminianismo modificado
e aprimorado de W atson, enquanto W hedon e Raymond, escritores america
nos recentes, defendem um arminianismo radical e extremo.
e) Quacres [quakers], George Fox(1624-1691) e Robert B arclay (1648-1690).
Com o Jesus, o pregador e reform ador, p recedeu o teó logo Paulo; como
Lutero, preced ia M elanchton; com o Zwínglio preced ia C alvino; com o Lélio
S ocínio preced ia Fausto Socínio; com o W esley preced ia W atson; assim Fox
preced ia Barclay. Barclay escreveu um a “A po log ia à Verdadeira D ivindade
C ristã” , que o D r. E. G. Robinson descreve com o “um tra tado não form al de
Teologia S istem ática, porém a mais hábil exposição dos pontos de v is ta dos
Q uacres” . G eorge Fox era reform ador, W illiam P enn o fundador social, Robert
Barclay, o teó logo dos quacres.
f ) Clérigos ingleses, R ic h a rd H o ok er ( 1 5 5 3 - 1 6 0 0 ) , G i lb e r t B u rn e t ( 1 6 4 3 -
1 7 1 5 ) e John P e a rso n ( 1 6 1 3 - 1 6 8 6 ) .
A igreja inglesa não produziu nenhum grande teólogo sistemático (veras
razões em D orner, Geschichte derProtest. Theologie, 470). O judicioso Hooker
ainda é o seu maior escritor teológico, apesar de que a sua obra encontra-se
apenas na “Política Eclesiástica”. O B ispo B urnet é o autor da “Exposição dos
XXXIX Artigoé’, e a “ Exposição do Credo" do B ispo P earson. Ambos são livros
de textos ingleses comuns. Um recente “ Compêndio de Teologia Dogmática”
de L itton mostra uma tendência para a volta do arminianismo comum da Igre
ja Anglicana para o velho agostinianismo; assim também os “Esboços da
Doutrina Cristã’ do B ispo M oule e a “Fé do Evangelho" de Mason.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 87
5. Teologia Americana, em duas linhas:
a) O sistema Reform ado de J onathan Edwards (1706-1758), m odificado
sucessivamente por Joseph Bellamy (1719-1790), S amuel Hopkins (1721-1803),
Timothy Dwight (1752-1817), Nathanael Emmons (1745-1840), Leonard W oods
(1774-1854), C harles G. Finney (1792-1875), Nathanael W. Taylor (1786-1858)
e Horace B ushnell (1802-1876). O calvinism o assim m odificado, é freqüen
temente chamado de teologia da N ova Inglaterra, ou da N ova Escola.
Jonathan Edwards, um dos m aiores m etafís icos e teó logos, é um idealista
que sustenta que Deus é a ún ica verdade ira causa, quer no reino da m atéria,
quer no da mente. Ele considera o principa l bem com o fe lic idade - um a form a
de sensib ilidade. A virtude é a esco lha vo lun tá ria deste bem. Por isso a união
com Adão nos atos e exercíc ios é sufic iente. Esta von tade de Deus causou
a iden tidade do ser com Adão. Isto conduz iu ao s is tem a de exe rc íc iode
Hopkins e Emmons, por um lado, e à negação da parte de B elamy e de Dwight
de qua lquer a tribu ição do pecado de Adão ou depravação inata, por outro
lado - em que com a últim a negação concordam m uitos outros teó logos da
Nova Ing la terra que rejeitam o esquem a de exercíc io, com o, p.ex. Strong,
Tyler, S mally, Burton, W oods e Park. O D r. N. W. T aylor acrescenta um ele
m ento m ais d is tin tam ente arm iniano: o poder da esco lha contrária - e com
este ensino da teo log ia de New Haven, Carlos Finney, de Oberlin, substan
c ia lm ente concorda. Horace Bushnell p ra ticam ente sustenta o ponto de vista
sabe liano da T rindade , e a teo ria de um a in fluê nc ia m ora l na exp iação.
Assim , a partir de certos princíp ios adm itidos por Edwards, que sustenta prin
c ipa lm ente a teo log ia da Velha Escola, desenvo lveu-se a Nova Escola.
R o b e rt H a ll cham ava Edwards “ o m aior do filhos dos hom ens” . O D r.
Chalmers considerava-o com o “o m aior dos teó logos” . O D r. Fairbairn diz:
“ Ele não é apenas o m aior de todos os pensadores que a Am érica produziu,
m as tam bém o m ais e levado gênio especu lativo do sécu lo dezoito. Em um
grau bem mais elevado que Spinoza ele era ‘um homem intoxicado de Deus’” .
Sua noção fundam enta l de que não há nenhum a causa lidade senão a divina
tornou-se a base de um a teoria da necessidade que está nas mãos dos deís-
tas a que ele se opõe e que é estranha não só ao cristian ism o, mas tam bém
ao teísm o. Edwards não podia te r recebido o seu idea lism o de Berkeley; pode
te r-lhe sido sugerido pe los escritos de Locke o u de Newton, C udw orth ou
Descartes, John N o rr is o u A r th u r C o llie r .
b) O velho Calvinismo representado por C harles Hodge, o pai, (1797-
1878) e A . A . Hodge, o filho, (1823-1886), juntam ente com Henry B. S mith
(1815-1877), Robert J. B reckinridge (1800-1871), S amuel J. Baird e W illiam
G. T. S hedd (1820-1894). Todos estes, apesar das pequenas diferenças, sus
tentavam pontos de vista sobre a depravação hum ana e graça divina em mais
próxim a conform idade com a doutrina de A gostinho e C alvino e por esta
razão se distinguem dos teólogos da N ova Inglaterra e seus seguidores pelo
título popular de Velha Escola.
88 Augustus Hopkins Strong
A teologia da Velha Escola, com o seu ponto de vista da predestinação,
exalta Deus; a teologia da Nova Escola, dando ênfase à livre vontade, exalta
o homem. Ainda mais importante é notar que a Velha Escola tem como dou
trina caraterística a culpa pela depravação inata. Mas entre os que sustentam
tal ponto de vista, uns são federalistas e criacionistas e justificam a condena
ção de todos os homens por Deus baseados em que Adão representava a
sua posteridade. Em geral são teólogos de Princeton, incluindo C harles Hodge,
A. A. Hodge, e os irmãos A lexander. Contudo, entre os que sustentam a dou
trina da Velha Escola sobre a depravação inata, há outros que são traducio-
nistas e justificam a aplicação do pecado de Adão à sua posteridade basea
dos na união natural entre aquele e esta. O “Elohim Revelado” de Baird e o
ensaio de S hedd sobre o pecado original (Pecado como natureza e a culpa da
natureza) representam esta concepção realista do relacionamento da raça
com o seu pai. R. J. Breckenridge, R. L. Dabney e J. H. T hornwell defendem o
fato da corrupção inerente e culpa, mas recusam-se a admitir qualquer razão
para isso, embora tendam para isso. H. B. S mith sustenta firmemente a teoria
da atribuição mediata.
IV. O R D E M D E T R A TA M EN T O NA T E O L O G IA S IST E M Á T IC A
1. Vários métodos de ordenação dos tópicos de um sistema teológico
d) O método analítico de C a lix to com eça com o admitido fim de todas
as coisas, bênçãos e daí passa para o sentido pelo qual ele é assegurado.
b ) O método trinitário de L eydecker e M arten sen considera a doutrina cristã
um a m anifestação sucessiva do Pai, do Filho e do Espírito Santo, c) O método
federal de Cocceius, de W itsius e de Boston trata a Teologia sob duas alian
ças. d) O método antropológico de C halm ers e R othe; aquele com eça com a
doença do homem e passa para o remédio; este, dividindo a sua dogmática em
consciência do pecado e consciência da redenção, e ) O método cristológico de
Hase, Tomasius e A n drew F u l le r trata de Deus, do homem, como pressuposi
ções da pessoa e obra de Cristo. Também pode-se fazer menção./) do método
histórico seguido por U rsino e adotado pela História da redenção de Jonathan
Edwards e g) o método alegórico de D annhauer, no qual o homem é descrito
como um peregrino, a vida como um a estrada, o Espírito Santo como uma luz,
a igreja como um candeeiro, Deus como o fim e o céu como o lar; do mesmo
modo é a Guerra Santa de Bunyan e o Templo V ivo de Howe.
A conhecida H/st. of Redemption de Jonathan Eduards “era na realidade
um sistema de teologia em forma histórica. Ela “começava e terminava com a
eternidade, com todos os grandes eventos e épocas do tempo sendo visto
'sub specie eternitatis’. As três palavras - céu, terra e inferno - seriam as
cenas deste grande drama. Era para incluir os tópicos da teologia como fatores
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 89
vivos, cada um deles em seu próprio lugar", e formando um todo completo e
harmonioso; verALLEN, Jonatham Eduards, 379,380.
2. O Método Sintético
Que adotamos neste compêndio, é o mais com um e mais lógico de pôr em
ordem os tópicos da teologia. Parte da causa para o efeito, ou, empregando a
linguagem de Hagenbach (História da Doutrina), “com eça com mais elevado
princípio, que é Deus, e destina-se ao homem, Cristo, a redenção e, para
encerrar, o fim de todas as coisas” . Em tal form a de tratar a teologia, podemos
pôr em ordem os nossos tópicos na seguinte disposição:
I o A existência de Deus.
2o As Escrituras, um a revelação de Deus.
3o Natureza, decretos e obras de Deus.
4° O homem, sem elhança original com Deus e subseqüente apostasia.
5° A redenção através da obra de Cristo e do Espírito Santo.
6o Natureza e leis da igreja de Cristo.
T O fim do atual sistem a de coisas.
Parte II
A EXISTÊNCIA DE DEUS
C a p í t u l o I
ORIGEM DA NOSSA IDÉIA
DA EXISTÊNCIA DE DEUS
Deus é o Espírito infinito e perfeito em quem todas as coisas têm sua fonte,
sustento e fim.
Outras definições; Calovius: “Essentia spiritualis infinita”; Ebrard: “A fonte
eterna de tudo o que é temporal”; Kahnis; “O Espírito infinito”; J ohn H owe: “Um
ser eterno, não causado, independente, necessário, que tem poder ativo, vida,
sabedoria, bondade e qualquer outra excelência na mais elevada perfeição
em si e de si mesma”; Catecismo de Westminster: “Um Espírito infinito, eter
no, imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e ver
dade”; A ndrew F uller: “A primeira causa e o último fim de todas as coisas”.
A existência de Deus é um a verdade primeira; em outras palavras, o conhe
cimento da existência de Deus é um a intuição racional. Logicamente precede
e condiciona toda a observação e raciocínio. Cronologicamente, só o reflexo
sobre os fenômenos da natureza e da m ente ocasiona seu surgimento na cons
ciência.
O termo intuição significa somente o conhecimento direto. Lowndes (Phil.
of Primary Beliefs, 78) e M ansel (Metaphysics, 52) empregam o termo apenas
para designar o nosso conhecimento direto das substâncias, como o eu e o
corpo; Porter aplica-o, de preferência, ao nosso conhecimento das primei
ras verdades como já foram mencionadas. Harris (Philos. Basis of Theism.,
44-151, esp. 45,46) inclui ambos. Ele divide as intuições em duas classes:
1. Presentes, como a autoconsciência (em virtude da qual percebo a existên
cia do espírito e já entro em contato com o sobrenatural), e a percepção atra
vés do sentido (em virtude da qual percebo a existência da matéria, ao menos
em meu próprio organismo e entro em contato com a natureza); 2. Racionais,
como espaço, tempo, substância, causa,causa final, justiça, ser absoluto.
Podemos aceitar esta nomenclatura, empregando os termos “primeiras ver
dades” e “intuições racionais” como equivalentes uma à outra, classificando
as intuições racionais sob o título de 1) intuições de relações, como espaço e
tempo; 2) intuições de princípios, como substância, causa, causa final, justiça;
9 4 Augustus H opkins Strong
e 3) intuição do Ser absoluto, Poder, Razão, Perfeição, Personalida
de, como Deus. Sustentamos que, na ocasião em que os sentidos conhecem
a) a extensão da matéria, b) sucessão, c) qualidades, d) mudança, e) ordem,
f) ação, respectivamente, a mente conhece (a) espaço, (b) tempo, (c) subs
tância, (d) causa, (e) desígnio, (f) obrigação, ao conhecermos nossa adequa
ção, dependência e responsabilidade, a mente conhece diretamente a exis
tência de uma Autoridade Infinita e Absoluta, Perfeição, Personalidade de que
depen-demos e perante a qual somos responsáveis.
Bowne, Theory of Thought and Knowledge, 60 - “Quando andamos em
completa ignorância dos nossos músculos, pensamos, com freqüência, na
ignorância completa dos princípios que fundamentam e determinam o pensa
mento. Porém como a anatomia revela que o ato aparentemente simples de
andar envolve uma atividade muscular altamente complexa, do mesmo modo
a análise revela que o ato aparentemente simples de pensar envolve um sis
tema de princípios mentais”. Dewey, Psychology, 238,244 - “A percepção, a
memória, a imaginação, a concepção - cada uma delas é um ato de intuição.
... Cada ato concreto do conhecimento envolve uma intuição de Deus”. Marti-
neau, Types, 1.459 - A tentativa de despojar a experiência de cada um dos
preceitos ou intuições é “como a tentativa de raspar uma bolha na pesquisa
das suas cores e seu conteúdo: in tenuem ex oculis evanuit auram”; (N.Trad
desaparece dos olhos com a suave brisa) Study, 1.199 - “tente com todas as
suas forças fazer algo difícil, p.ex., fechar a porta contra o furioso vento e
você reconhecerá o Eu e a Natureza - vontade causai, contra a causalidade
externa; 65 - “Como a Percepção nos dá a Vontade na forma de causalidade
contra nós no não eu, assim a Consciência nos dá a Vontade na forma de
Autoridade contra nós no não eu”; Types, 2.5 - “Na percepção, é o eu e a
natureza, na moral o eu e Deus, que frente a frente estão em antítese subje
tiva e objetiva”; Study, 2.2,3 - “Na experiência volitiva enfrentamos a causali
dade objetiva; na experiência moral, a autoridade objetiva, - ambas são obje
to do conhecimento imediato, no mesmo nível de certeza que a apreensão do
mundo material exterior. Não conheço nenhuma vantagem lógica que a cren
ça nos objetos finitos possa ostentar sobre a crença na Causa infinita e justa
de tudo”; 51 - “No reconhecimento de Deus como causa destacamos a Univer
sidade; no reconhecimento de Deus como Autoridade, destacamos a Igreja”.
Kant declara que a idéia de liberdade é a fonte da nossa idéia de persona
lidade; esta consiste na liberdade da alma inteira sobre o mecanismo da
natureza. Lotze, Metaphysics, par. 244 - “Até onde e até quando conhece a si
mesma como idêntica à experiência interior, é, e é chamada tão somente por
esta razão, substância”. Illingworth, Personality, Human and Divine, 32 -
“Nossa concepção de substância não deriva do mundo físico, mas do mental.
Antes de nada, substância é aquilo que apoia nossos sentimentos mentais e
manifestações”. J ames, Will to Believe, 80 - “Como diz Kant, substância signi
fica ‘das Beharrliche’, o persistente, aquilo que será como tem sido, porque o
ser é essencial e eterno”. Neste sentido temos uma crença intuitiva em uma
substância permanente que apoia os nossos pensamentos e vontade e a isto
chamamos alma. Mas temos também uma crença intuitiva em uma substân
cia permanente que apoia todos fenômenos naturais e todos os eventos da
história, e este ser denominamos Deus.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 95
L PRIMEIRAS VERDADES EM GERAL
1. Sua natureza
a) Negativamente - Uma verdade prim eira não é a) Verdade escrita antes
da consciência sobre a substância da alm a - pois tal conhecimento passivo
im plica um ponto de vista m aterialista da alma; b) O verdadeiro conhecimen
to de que a alm a tem posse no nascim ento - pois não se pode provar que a
alma o tem; c) Um a idéia, não desenvolvida no nascimento, tem o poder de
autodesenvolvimento independentem ente da observação e da experiência -
pois isto contraria todo o conhecim ento das leis do desenvolvimento mental.
O rígenes, Adv. Celsum, 1.4 - “Os homens não seriam culpados se não
tivessem em suas mentes noções comuns de moralidade, inatas e escritas
com letras divinas”. C alvino, institutes, 1.3.3 - “Os que julgam corretamente
sempre concordarão em que há um indelével senso de divindade inscrito nas
nossas mentes”. Fleming, Vocab. of Philosophy, art.: “Idéias inatas”- “Supõe-
se que Descartes tenha pensado (e Locke dedicou o primeiro livro dos seus
Ensaios à refutação da doutrina) que as idéias são inatas ou conatas à alma;
/'.e., o intelecto acha a si mesmo no nascimento, ou tão logo desperta para a
atividade consciente a fim de ser possuído de idéias às quais cabe-lhe ape
nas atribuir nomes adequados, ou juízos que ele apenas precisa expressar
em proposições adequadas - /'.e., antes de qualquer experiência sobre cada
objeto”.
Royce, Spirit of Modem Philosophy, 77 - “Descartes ensina que, em cer
tas famílias, a boa conduta e a queda são inatas. Contudo, naturalmente, os
filhos de tais famílias precisam ser instruídos nas boas maneiras e as crian
ças, aprendendo a andar, parecem perfeitamente felizes por estarem livres
da queda. Do mesmo modo a geometria nos é inata, mas não vem ao nosso
conhecimento sem muito esforço”; 79 - Locke não encontra idéias inatas.
Em resposta, ele sustenta que “as crianças, com as suas matracas, não dão
sinais de consciência de que as coisas são iguais às mesmas que são iguais
entre si”. Schopenhauer diz que “Jacobi tem a banal fraqueza de tomar tudo o
que aprendeu e aprovou antes dos quinze anos como idéias inatas da mente
humana”. Bowne, Principies of Ethics, 5 - “Ninguém questiona que a expe
riência dos sentidos condiciona as idéias racionais e são conseqüência dela
(/'.e., da experiência); do mesmo modo ninguém duvida de que a experiência
mostra uma ordem sucessiva de manifestações. Mas o sensacionalista tem
sempre apresentado uma curiosa cegueira sobre a ambigüidade de tal fato.
Para ele, o que vem depois deve ser uma modificação daquilo que veio antes;
contudo, ela pode ser aquilo, e pode ser uma nova manifestação de uma
natureza ou lei imanente, apesar de condicionada. Afinidade química não é
gravidade, embora aquela não se manifeste até que a gravidade estabeleça
certas relações entre os elementos”.
Pfleiderer, Philosophy of Religion, 1 . 1 0 3 - “Este princípio não se encontra
va presente desde o começo na consciência do homem; pois, para produzir
9 6 Augustas Hopkins Strong
idéias no pensamento, a razão, que no primeiro homem da raça podia ser de
tal modo pequena como nas crianças, precisa desenvolver-se claramente.
Contudo, isto não exclui o fato de que havia desde o começo o impulso racional
inconsciente que é base da formação da crença em Deus, por múltiplos que
possam ter sido os motivos que cooperam com ele”. O eu implica o mais
simples ato de conhecimento. Os sentidos nos apresentam duas coisas, p.ex.,
preto e branco; mas não posso compará-los sem estabelecer a diferença para
mim. Diferentes sensações não fazem nenhum conhecimento, sem um eu
que as reúna. U pton, Hibbert Lectures, prel. 2 - “Pode-se provar tão facilmen
te a existência de um mundo exterior ao ser humano que não tem sentidos
para percebê-lo, como se pode provar a existência de Deus a alguém que
não tem consciência dele”.
b) Positivamente - Um a verdade prim eira é um conhecimento que, apesar
de desenvolvido na ocasião da observação e reflexão, não deriva nem de uma,
nem deoutra; ao contrário, tem tal prioridade lógica que deve ser assumida ou
suposta a fim de tom ar possível qualquer observação ou reflexão. Por isso,
tais verdades não são primeiro reconhecidas na ordem do tempo; algumas
delas são admitidas em um período um tanto tardio no desenvolvimento da
mente; para a grande m aioria dos homens elas nunca são totalmente formula
das. Contudo, constituem as suposições necessárias nas quais repousa todo o
conhecimento, e a mente não só tem a capacidade inata de envolvê-los tão
logo se apresentem as ocasiões adequadas, mas o seu reconhecimento é inevi
tável logo que a m ente começa a contar com o seu próprio conhecimento.
M ansel, Metaphysics, 52, 279 - “Descrever a experiência como a causa
da idéia do espaço seria tão impreciso como falar do solo em que foi planta
do, como a causa do carvalho - embora o plantio no solo seja a condição
para que se manifeste a força do seu fruto”. C oleridge: “Vemos antes de
sabermos que temos olhos; mas uma vez tomado conhecimento disso, per
cebemos que os olhos devem ter preexistido para capacitar-nos a ver”. C ole-
ridge fala das primeiras verdades como “aquelas necessidades da mente
ou formas de pensamento, que, embora reveladas a nós pela experiência,
devem ter preexistido para torná-la possível”. M cC osh, Intuitions, 48,49 -
As instituições são “como a flor e o fruto, que estão na planta desde o seu
embrião, mas não podem ser realmente formados enquanto não tenham exis
tido caule, ramos, e folhas”. Porter, Human Inteilect, 501, 519 - “Não se pode
conhecer algumas verdades ou assenti-las antes de tudo”. Algumas chegam
ao fim de tudo. A intuição moral freqüentemente se desenvolve tarde e às
vezes, até mesmo, por ocasião de um castigo físico. “Todo homem é tão
ocioso quanto lhe permitam as circunstâncias”. A nossa ociosidade física é
ocasional; nossa ociosidade mental é freqüente; nossa ociosidade moral é
incessante. Somos excessivamente ociosos para pensar e especialmente para
pensar em religião. Por conta dessa depravação da natureza humana deve
mos esperar que, finalmente, a intuição para Deus se desenvolva. O homem se
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 97
esquiva do contato com Deus e de pensar em Deus. Na verdade o seu desa
grado da intuição para Deus o leva, não raro, a negar todas as outras intuições,
mesmo as de liberdade e de justiça. Daí a moderna “psicologia sem alma”.
Schurman, Agnosticism and Religion, 105-115 - “A idéia de Deus ... se
desenvolve mais tardiamente na consciência clara ... e deve ser mais tardia
porque é a unidade da diferença entre o eu e o não eu, porque estes são
pressupostos”. Mas “ela não tem menor valor em si; não atribui menos fide
digna certeza de realidade que a consciência do eu ou a do não e u .... A cons
ciência de Deus é o prius lógico da consciência do eu e do mundo. Mas, como
já se observou, não o (prius) cronológico; porque, conforme a profunda
observação de Aristóteles, o que vem em primeiro lugar na natureza das
coisas é a ordem do desenvolvimento final. Exatamente porque Deus é o
primeiro princípio do ser e do conhecer, ele deve ser o último a manifestar-se
e a ser conhecido. ... O finito e o infinito são conhecidos simultaneamente e é
tão impossível conhecer um sem conhecer o outro como apreender um ângulo
sem os lados que o formam”.
2. Seus critérios
São três os critérios pelos quais as verdades prim eiras devem ser testadas:
b) Sua universalidade. Isto não significa que o homem concorda com elas
ou as entenda quando propostas em forma científica, mas que todos os homens
manifestam um a crença prática nelas através da linguagem, das ações e das
expectações.
b) Necessidade. Não significa que é im possível negar estas verdades, mas
que a mente é com pelida por sua própria constituição a reconhecê-las com
base na ocorrência de condições próprias e em pregá-las em seus argumentos
para provar sua não existência.
c) Independência e prioridade lógicas. Significa que estas verdades não
podem ser resolvidas em nenhum a outra; que elas pressupõem a aquisição de
todos os outros conhecim entos e, portanto, não podem derivar de nenhuma
outra fonte que não seja um poder cognitivo da mente.
Exemplos da negação reconhecida e formal das primeiras verdades: o
positivista nega a causalidade; o idealista nega a substância; o panteísta nega
a pessoalidade; o necessitário nega a liberdade; o niilista nega a sua própria
existência. De igual modo o homem pode argumentar que não há necessida
de de uma atmosfera; mas ainda enquanto ele argumenta, ele respira. É um
exemplo de argumento arrasador para demonstrar a liberdade da vontade.
Admito minha própria existência ao duvidar dela; pois “cogito, ergo sum”, como
o próprio Descartes insiste, na verdade, significa “cogito, scilicet sum”; H. B.
S mith: “Declaração é análise, não prova”. Ladd, Philosophy of Knowledge, 59
- “O cogito, no Latim bárbaro = cogitans sum: pensar é ser consciente de si
mesmo”. B entham - “A palavra deve é de impostura de autoridade e precisa
ser banida do reino da moral”. S pinoza e H egel, na verdade, negam a cons
98 Augustus Hopkins Strong
ciênc ia própria quando fazem do hom em um fenôm eno do in fin ito . Royce
assem elha o hom em que nega a pessoa lidade para aquele que sai da sua
própria casa e decla ra que ninguém m ora ne la porque, quando olha para
dentro da janela, não vê ninguém .
O Prof. J ames, em sua Psichology, admite a realidade de um cérebro, mas
recusa-se a admitir a realidade de uma alma. Esta é essencialmente a posi
ção do materialismo. Porém esta suposição de um cérebro é metafísica,
embora o autor reivindique estar escrevendo uma psicologia sem metafísica.
Ladd, Philosophy of Mind, 3 - “O materialista crê na causa própria ao explicar
a origem da mente a partir da matéria, mas, quando se lhe pede que veja na
mente a causa da mudança física, no mesmo instante ele se torna um sim
ples fenomenalista”. Royce, Spirit of Modem Philosophy, 400 - “Eu sei que
todos seres, desde que saibam apenas contar, acham que três e dois são
cinco. Talvez os anjos não saibam contar; mas, se eles souberem, este axio
ma é verdadeiro também para eles. Se eu encontrasse um anjo que declaras
se que a sua experiência ocasionalmente havia mostrado que três e dois não
são cinco, eu saberia de uma vez que tipo de anjo era ele”.
II. A E XIST Ê N C IA DE DEUS, U M A P R IM E IR A VERD AD E
I . Que o conhecimento da existência de Deus responde ao primeiro crité
rio da universalidade é evidente a partir das seguintes considerações:
d) É fato reconhecido que a grande m aioria dos homens na verdade tem
reconhecido a existência de um ser ou seres espirituais de quem eles supõem
depender.
Os Vedas declaram: “Há apenas um Ser - não um segundo”. Max M üller,
Origin and Growth of Religion, 34 - “Não se invocam os seres visíveis, sol,
lua, e estrelas, mas algo que não pode ser visto”. As tribos inferiores têm
consciência, têm medo da morte, crêem em bruxas, fazem propiciação ou
exorcizam os maus fados. Mesmo o adorador de fetiche, que chama a pedra
ou a árvore um deus, mostra que já tem a idéia de Deus. Não devemos medir
as idéias dos pagãos pela sua capacidade de expressão, nem julgar a cren
ça da criança na existência do seu pai pelo seu sucesso ao desenhar um
quadro dele.
b) As raças e nações que, a princípio, parecem destituídas de tal conheci
mento, uniformemente, têm sido encontradas com o possuindo-o, de modo que
nenhum a tribo de que temos conhecim ento pode ser considerada desprovida
de um objeto de culto. Podemos adm itir que tal conhecim ento será visto como
verdadeiro mais adiante.
M offat, que relata certas tribos africanas destituídas de religião, foi corri
gido pelo testemunho do seu genro, L ivingstone: “A existência de Deus e de
T e o l o g ia S is t e m á t jc a
uma vida íu\ura é reconhecida em toda a parte da Áírica”. Onde os homens
são os mais destituídos de qualquer conhecimentoformulado de Deus, as
condições do despertar da idéia são as mais ausentes. Uma macieira pode
ser de tal modo condicionada que nunca produza maçã. “Não julgamos os
carvalhos pelo não crescimento, ou espécimens sem flores nos confins do
Círculo Ártico”. A presença de um ocasional cego, ou surdo ou mudo não
anula a definição de que o homem é uma criatura que vê, ouve e fala. B owne,
Principies of Ethics, 154 - “Não precisamos tremer por causa da matemática,
mesmo que se encontrem algumas tribos que desconhecem a tabuada. ...
Sempre nos deparamos com a existência sub-moral e sub-racional no caso
de crianças; e, se encontrássemos isto em outra parte, não teria maior impor
tância”.
V ítor H ugo: “Alguns homens negam o infinito; alguns também negam o
sol; são cegos”. G ladden, What is Left?, 148 - “O homem pode escapar da
sua sombra indo para o escuro; se vem para a luz, ei-la de volta. Do mesmo
modo o homem pode ser mentalmente tão indisciplinado que não reconheça
estas idéias; mas aprenda ele a utilizar a razão e reflita sobre os seus próprios
processos mentais e conhecerá que tais processos são idéias necessárias”.
c) Corrobora esta conclusão o fato de que os indivíduos em terras pagãs ou
cristãs que professam não ter qualquer conhecim ento de um poder ou poderes
superiores a eles m anifestam indiretam ente a existência de tal idéia em suas
mentes e sua influência positiva sobre eles.
Comte diz que a ciência conduz Deus à fronteira e daí o lança fora agrade
cendo os serviços prestados. Mas H erbert S pencer afirma a existência de
uma “Força de que não se concebe limite algum de tempo e de espaço, da
qual todos os fenômenos presentes na consciência são manifestações”.
A intuição de Deus, embora formalmente excluída, está contida implicitamen
te no sistema de S pencer, na forma de “irresistível crença” num Ser Absoluto,
que distingue a sua posição da de Comte; ver H. S pencer, que diz: “Uma ver
dade deve tornar-se sempre mais clara - uma inescrutável existência mani
festa em toda a parte, que nem podemos encontrar e cujo princípio ou fim não
podemos conceber - aquela certeza absoluta de que estamos sempre na
presença de uma energia infinita e eterna da qual procedem todas as coisas”.
O S r. S pencer admite unidade na Realidade subjacente. Frederick Harrison,
escarnecendo, pergunta-lhe: “Por que não dizer ‘forças’ em vez de ‘força’?”
Enquanto Harrison nos dá um ideal moral supremo sem base metafísica,
S pencer dá-nos um princípio metafísico último sem propósito moral final.
A idéia de Deus é a síntese das duas: “São apenas luzes que partem de Ti, e
tu, ó Senhor, és mais do que elas” (T ennyson, in Memoriam).
S ólon fala de Deus como ó 0eóç e como tò Oeíov, e S ó fo c le s como ó ^éyaç
Oeóç. O termo para Deus é idêntico em todas línguas indo-européias e, por
isso, pertence a uma época anterior à separação daquelas línguas. Na Eneida
de V irg ílio , Mezêncio é um ateu e despreza os deuses e confia só na lança e
em seu braço direito; mas, quando lhe trazem o cadáver de seu filho, seu
1 0 0 Augustus Hopkins Strong
prim eiro ato é levantar as mãos ao céu. Hume era cético, mas disse a Ferguson,
em um a noite estre lada: “Adão, Deus existe” ! V oltaire orou num a tem pestade
trove jan te nos A lpes. S helley escreveu seu nom e no livro de v is itantes na
pousada em M ontanvert, e acrescentou: “ Dem ocrata, filantropo, a teu” ; con tu
do, ele gostava de pensar num “fino espírito penetrando o un iverso” ; e tam
bém escreveu: “Aquele perm anece, m uitos m udam e passam ; a luz do Céu
brilha sem pre, a som bra da te rra voa ” . Strauss adora o Cosm os porque “a
ordem e a lei, a razão e a bondade” são a sua alma. Renan confia na bondade,
no desígnio, nos fins. Charles Darwin, Life, 1.274 - “Nas m inhas extrem as
flutuações, nunca fui ateu, no sentido de negar a existência de Deus”.
d) Este acordo entre indivíduos e nações tão amplam ente separados no
tempo e no espaço pode ser satisfatoriamente explicado supondo que tem sua
base, não em circunstâncias acidentais, mas na natureza do homem como tal.
As diversificadas e im perfeitamente desenvolvidas idéias do supremo ser que
prevalecem entre os homens são levadas em conta de m elhor forma como
falsas interpretações e perversões de um a convicção intuitiva comum a todos.
H uxley, Lay Sermons, 163 - “Há selvagens sem Deus, em qualquer senti
do apropriado da palavra; mas não há nenhum sem espíritos”. M artineau,
Study, 2.353, retruca com propriedade: “Ao invés de fazer outros povos volta-
rem-se para os espíritos e daí um apropriar-se de nós mesmos [e atribuir
outro a Deus, podemos acrescentar] por imitação, partimos do senso de con
tinuidade pessoal, e depois atribuímos os mesmos predicativos de outros,
sob as figuras que conservam a maior parte do elemento físico e perecível”.
G rant A llen descreve as mais elevadas religiões como “um grosseiro desen
volvimento de um fungóide”, que se reuniu em torno do culto ancestral. Mas
isto faz derivar o maior do menor. S ayce, Hibbert Lectures, 358 - “Não vejo
nenhum traço de culto ancestral na literatura babilônica que tenha sobrevivi
do até nós” - isto parece fatal para o ponto de vista de H uxley e de A llen de
que a idéia de Deus deriva da primitiva crença do homem nos espíritos dos
mortos. C. M. Tyler, in Am. Jour. Theol., jan., 1899.144 - “Parece impossível
deificar um morto, a não ser que haja uma consciência primitiva embrionária
anterior ao conceito de divindade”.
Renouf, Religion of Ancient Egypt, 93 - “Toda a mitologia do Egito ... gira
em torno das histórias de Rá e Osíris. ... Descobriram-se textos que identifi
cam Osíris e Rá. ... Conhecem-se outros textos em que Rá, Osíris, Ámon e
outros deuses desaparecem, a não ser como simples nomes, e afirma-se a
unidade de Deus na mais nobre linguagem da religião monoteísta”. Estes
fatos são mais antigos que qualquer culto aos ancestrais. “Eles apontam para
uma idéia original da divindade acima da humanidade” (ver H il l , Genetic
Philosophy, 317). Podemos acrescentar a idéia do elemento sobre-humano,
antes de considerarmos o animismo ou culto aos ancestrais em uma religião.
Tudo o que o homem primitivo via na sua natureza sugeria tal elemento
sobre-humano, especialmente a vista dos altos céus e aquilo que ele conhe
ce de causalidade relacionado com eles.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 0 1
2. Ver-se-á que o conhecimento da existência de Deus responde ao segun
do critério da necessidade, considerando-se:
a) Que o homem, sob circunstâncias adequadas à manifestação deste conhe
cimento, não pode deixar de reconhecer a existência de Deus. A contem pla
ção da existência finita, inevitavelm ente sugere a idéia de um ser infinito como
seu correlato. Quando a m ente percebe a sua finitude, dependência, responsa
bilidade, im ediata e necessariam ente percebe a existência de um ser infinito e
incondicionado de quem ela depende e perante o qual ela é responsável.
Não podemos reconhecer o finito como tal a não ser comparando-o com
um padrão já existente - o Infinito. M ansel, Limits of Religious Thought, prel. 3
- “A constituição da nossa mente nos compele a crer na existência de um Ser
Absoluto e Infinito - crença que parece impor um complemento da nossa
consciência do relativo e do finito”. F isher, Jour. Chr. Philos., jan. 1883.113 —
“O ego e o não ego, cada um condicionado pelo outro, pressupõe um ser não
condicionado de que eles dependem. O ser não condicionado é a pressupo
sição de todo o nosso conhecimento”. O ser dependente percebido implica
um independente; o independente é perfeitamente autodeterminante; auto
determinação é Personalidade infinita. J ohn W atson, in Philos. Re v., set.
1893.526 - “Não há consciência do eu sem a consciência de outros eus e de
outras coisas; não há consciência do mundo sem a consciência da Realidade
simples que ambos pressupõem”. E. Caird, Evolution of Religion, 64-68 -
Cada ato da consciência implicaelementos primários: “a idéia do objeto, ou
do não eu; a idéia do sujeito, ou do eu; e a idéia da unidade que pressupõe a
diferença entre o eu e o não eu que agem e reagem numa relação recíproca”.
b) Que o homem, em virtude da sua humanidade, tem capacidade para a
religião. Tal reconhecida capacidade para a religião é prova de que a idéia de
Deus é necessária. Se a mente, na ocasião própria, não desenvolvesse esta
idéia, não haveria nada no hom em para o que a religião pudesse apelar.
“É a sugestão do Infinito que distancia a linha do horizonte, vista acima da
terra ou do mar, muito mais do que as belezas de qualquer paisagem limitada”.
Em situações de choque e de perigo, esta intuição racional torna-se cognos-
cível; o homem se torna cada vez mais consciente da existência de Deus do
que da existência dos seus companheiros e instintivamente clama por auxílio
da parte de Deus. Nos mandamentos ou reprimendas de natureza moral a
alma reconhece um Legislador e Juiz de cuja voz a consciência é simples
mente um eco. A ristóteles chamava o homem de “um animal político”; há
mais verdade na declaração de Sabatier, de que “o homem é um religioso
incurável”. São Bernardo: “Noverim me, noverim te”. O. P. G iffort: “Como a
nata do leite que, em condições adequadas não sobe, não é leite, do mesmo
modo o homem que, no tempo proprio, não apresenta nenhum conhecimento
de Deus, não é homem; é bruto”. Entretanto, não se deve esperar nata de um
leite congelado. Há necessidade de condições e ambiente próprios.
1 0 2 Augustus Hopkins Strong
É o reconhecimento de uma personalidade divina na natureza que consti
tui o maior mérito e encanto da poesia de W ordsworth. Em sua obra Abadia
de Tintem, ele fala de “Uma presença que me perturba com a alegria de pen
samentos elevados; um senso de algo muito mais profundamente mesclado
Cuja moradia é a luz dos sóis poentes e o redondo oceano e o ar vivente, e o
céu azul e, na mente do homem: Um movimento e um espírito que impele
todas as coisas pensantes, todos os objetivos de todo pensamento, e rola
através de todas as coisas”. Robert B rowning vê Deus na humanidade, como
W ordsworth vê Deus na natureza. Na sua Hohenstiel-Schwangau ele escre
ve: “Eis a glória concebida, ou sentida ou conhecida em todos: Eu tenho uma
mente - Não minha, mas como se o fosse - porque é a dupla alegria que faz
todas as coisas por mim e eu em seu favor”. J ohn Ruskin sustenta que a fonte
da beleza no mundo é a presença de Deus. Ele nos diz que, em sua juventu
de, tinha “uma contínua percepção da santidade na natureza toda, desde as
menores às mais vastas coisas - um misto instintivo de temor e prazer, uma
indefinível comoção tal como às vezes imaginamos indicar a presença de um
espírito desencarnado”. Porém o Espírito que nós vemos é encarnado. N itzsch,
Chrístian Doctríne, par. 7 - “A não ser que a consciência inata de Deus como
uma predisposição operante preceda a educação e a cultura, nada há que
estas consigam realizar”.
c) Que aquele que nega a existência de Deus deve tacitamente assumir tal
existência em seu próprio argumento, em pregando processos lógicos cuja vali
dade se apoia no fato da existência de Deus. A plena prova disto se encontra
no subtítulo seguinte.
“Deus sabe que eu sou ateu” - é o absurdo que dá início à desaprovação
da existência divina. C utler, Beginnings of Ethics, 22 - “Mesmo os niilistas,
cujo primeiro princípio é que Deus e o dever são grandes espantalhos a
serem abolidos, admitem que Deus e o dever existem e são impelidos pelo
senso do dever a aboli-los”. S ra. Browning, The Cry of the Human: ‘“Não há
Deus’, diz o néscio; Porém ninguém diz: ‘Não há tristeza’; E a natureza sem
pre clama por fé; Na amarga necessidade tomará emprestado; Olhos que o
pregador não pode ensinar Pelas sepulturas à beira do caminho levantam-se;
e os lábios dizem, ‘Deus tem piedade’, nunca dizem, ‘Louvado seja Deus”’.
D r. W. W. Keen, chamado para tratar da afasia de um irlandês, disse: “Bem,
Dennis, como vai você?” “Oh! doutor, eu não posso falar!” “Mas, Dennis, você
está falando”. “Oh! doutor, há muitas palavras que eu não sei falar!” “Bem,
Dennis, vou tentar ajudá-lo. Veja se você não pode dizer: ‘cavalo’”. “Oh! que
rido doutor, ‘cavalo’ é uma palavra que eu não sei dizer!”
3. Pode-se m ostrar que o conhecimento da existência de Deus responde ao
terceiro critério da independência lógica e prioridade da seguinte maneira:
a) Im plica todos outros conhecimentos como condição e fundamentação
lógica. A validade dos mais simples atos mentais, tais como percepção senso-
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 0 3
rial, consciência própria e m em ória depende da aceitação de que existe um
Deus que constituiu as nossas mentes de m odo a dar-nos o conhecimento das
coisas como são.
Pfleiderer, Philos. of Religion, 1.88 - “Não se deve encontrar a base da
ciência e do conhecimento em gerai, nem no sujeito, nem no objeto per se,
mas só no pensar divino a combinar os dois, que, como base comum das
formas de ser em todas as coisas, possibilita a correspondência entre aquele
e este, ou, em uma palavra, possibilita o conhecimento da verdade”. 91 -
“Pressupõe-se a crença religiosa em todo o conhecimento cientifico, como
base da sua possibilidade”. Este é o pensamento do SI. 36.9 - “Na tua luz
veremos a luz”. A. J. Balfour, Foundations of Belief, 303 - “Não se pode
provar a uniformidade da natureza a partir da experiência, pois é ela que
possibilita a prova da experiência. ... Admita-o e acharemos que os fatos se
conformam com ela. ... 309 - Só se pode estabelecer a uniformidade da natu
reza com o auxílio desse mesmo princípio que necessariamente está com
prometido nas tentativas de prová-lo. ... Deve haver um Deus que justifique a
nossa confiança nas idéias inatas”.
Bowne, Theory of Thought and Knowledge, 276 - “A reflexão mostra que a
comunidade de inteligências individuais só é possível através de uma Inteli
gência totalmente abrangente, originadora e criadora das mentes finitas”.
A ciência apoia-se no postulado de uma ordem mundial. H uxley: “O objetivo
da ciência é a descoberta da ordem racional que permeia o universo”. Esta
ordem racional pressupõe um Autor racional. Dubois, New Englander, nov.
1890.468 - “Admitimos a uniformidade e a continuidade, ou não podemos ter
ciência. Uma Vontade Criativa inteligente é uma hipótese científica genuína
[postulado?] que a analogia sugere e a experiência confirma, não contradi
zendo a lei fundamental da uniformidade, mas explicando-a”. R itchie, Darwin
and Hegel, 18 - “A natureza como um sistema é uma suposição subjacente
às mais antigas mitologias: preenche esta concepção no objetivo da mais
tardia ciência”. Royce, Relig. Aspect of Philosophy, 435 - “Existe uma coisa
que se chama erro; mas o erro é inconcebível a não ser que haja uma sede
da verdade, um Pensamento ou uma Mente que inclui tudo; é por isso que a
referida Mente existe”.
b) Só se pode confiar nos mais com plicados processos da mente, tais como
a indução e a dedução, supondo um a divindade pensante que fez as várias
partes do universo e os vários aspectos da verdade corresponderem -se uns aos
outros e às faculdades investigadoras do homem.
Argumentamos a partir de uma maçã para com as outras que estão na
árvore. A partir da queda de uma maçã Newton raciocinou sobre a gravita-
ção na lua e em todo o sistema solar. A partir da química do nosso mundo
Rowland raciocinou sobre a de Sírius. Em todos esses raciocínios admite-se
um pensamento unificador e uma Divindade pensante. Este é o “emprego
científico da imaginação” de T yndall. Diz ele: “Alimentado pelo conhecimento
1 0 4 Augustus Hopkins Strong
em parte adquirido e ligado pela cooperação da razão, a imaginação é o mais
poderoso instrumento da física; descobridora”. O que T yndall chama de “ima
ginação” é, na verdade, o discernimento relativo aos pensamentos de Deus,
o grande Pensador. O discernimento prepara o caminho para o raciocíniológico; não é um simples produto do raciocínio. Por esta razão G oethe chama
a imaginação “Die Vorschule des Denkens”, “a pré-escola do pensamento”.
P eabody, Christianity, the Religion of Nature, 23 - “A indução é um silogis
mo cujo termo constante são os imutáveis atributos de Deus”. Porter, Hum.
Intellect, 492 - “A indução apoia-se na suposição, quando demanda como
base, que existe uma Divindade pessoal ou pensante”; 658 - “Ela não tem
sentido ou validade a não ser que admitamos que o universo é constituído de
tal modo que pressupõe um originador não condicionado, mas absoluto de
suas forças e leis”; 662 - “Analisamos os vários processos do conhecimento
em suas suposições subjacentes e achamos que a subjacente a todas é a de
uma Inteligência auto-existente que o homem não só pode, mas deve conhe
cer para que possa conhecer outras coisas mais”. Harris, Philos. Basis of
Theism, 81 - “Os processos de pensamento reflexivo implicam que o univer
so se fundamenta na razão e em sua manifestação”; 560 - “A existência de
um Deus pessoal é um dado necessário do conhecimento científico”.
c) N ossa crença prim itiva na causa final ou, em outras palavras, nossa con
vicção de que todas as coisas têm o seu fim, que o desígnio permeia o universo,
envolve um a crença na existência de Deus. Adm itindo que há um universo,
que é um todo racional, um sistema de relações de pensamento, admitimos a
existência de um pensador absoluto, de cujo pensamento o universo é expressão.
P fleiderer, Philos. of Religion, 1.81 - “Só se pode pensar no real se se
tra ta r de um pensam ento realizado, p rev iam ente e laborado, que pode repetir-
se. Por isso, o real, para ser ob je to do nosso pensam ento , deve te r sido rea
lizado a partir da criação, de um a Razão d iv ina eterna que se apresenta ao
nosso pensar cogn itivo” . Royce, World and Individual, 2.41 - “A teo log ia un i
versa l constitu i a essência de todos os fa tos” . A. H. B radford, The Age of
Faith, 142 - “O sofrim ento e a tris teza são un iversais. Q uer Deus possa ou
não im ped i-los e, por isso, ele nem é benéfico, nem am oroso; ou será que ele
não pode im pedi-los e consequentem ente há algum a coisa m aior que Deus
e, por isso, não há Deus? M as eis aqui o em prego da razão no raciocínio
individual. O raciocín io no ind ivíduo necessita a razão abso lu ta ou universal.
Se há uma razão absoluta, então o universo e a história são administrados
em harmonia com a razão; nesse caso o sofrimento e a tristeza nem podem
ser sem sentido, nem finais, porque seriam uma contradição da razão. Não é
possível no universal e absoluto aquilo que, no homem, contradiz a razão”.
d) Nossa crença prim itiva na obrigação m oral ou, em outras palavras, nos
sa convicção de que o direito tem autoridade universal, envolve a crença na
existência de Deus. Admitindo que o universo é um todo moral, admitimos a
existência de um a vontade absoluta, de cuja justiça o universo é expressão.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 0 5
Pfleiderer, Philos. of Religion, 1 :88 - “A base da obrigação moral não é
encontrada nem no sujeito nem na sociedade, mas somente na vontade uni
versal e divina que combina a ambas ... 103 - A idéia de Deus é a unidade da
verdade e do bem, ou das duas idéias mais altas que nossa razão pensa
como razão teorética, mas requer como razão prática ... Na idéia de Deus nós
encontramos a única síntese do mundo que é - o mundo da ciência e do
mundo que deve ser - o mundo da religião.” S eth, Ethical Principies, 425 -
“Isto não é uma demonstração matemática. A filosofia jamais é uma ciência
exata. É, pelo contrário, oferecida como o único fundamento suficiente da
vida moral ... A vida de bondade ... é uma vida baseada na convição de que
sua fonte e sua propagação estão no Eterno e no Infinito.” Como verdade e
bondade finitas só são compreensíveis à luz de algum princípio absoluto que
fornece a elas um padrão ideal, desse modo a beleza finita é inexplicável
exceto quando ali existe um padrão perfeito com o qual pode ser comparado.
A beleza é mais do que o agradável ou o útil. Proporção, ordem, harmonia,
unidade na diversidade - tudo isto são características da beleza. Todas elas,
porém, implicam um ser intelectual e espiritual, de quem elas procedem e por
quem elas podem ser medidas. Tanto a beleza física quanto a moral, em
coisas e seres finitos, são símbolos e manifestações daquele que é o autor e
amante da beleza e que é em si mesmo a infinita e absoluta beleza. A beleza
na natureza e nas artes mostra que a idéia da existência de Deus é logica
mente independente e anterior. 1/erCousiN, The True, The Beautiful, and the
Good, 140-153; Kant, Metaphysic of Ethics, que sustenta que a crença em
Deus é a pressuposição necessária da crença no dever.
Repetindo estes quatro pontos de outra form a - a intuição de um a razão
absoluta é d) pressuposição necessária de todos os outros conhecimentos de
modo que não podem os conhecer a existência de qualquer coisa sem, antes de
mais nada, adm itir que Deus existe; b) a base necessária de todo o pensamento
lógico de modo que não podemos confiar em qualquer dos nossos processos
de raciocínio a não ser admitindo que um a divindade pensante construiu nos
sas mentes com relação ao universo e à verdade; c) a implicação necessária de
nossa crença prim itiva no desígnio de modo que podem os adm itir que todas as
coisas existem com um propósito, fazendo um a pressuposição de que existe
um Deus proponente - pode considerar o universo como um pensamento somente
postulando a existência de um Pensador absoluto; e d) o fundamento necessá
rio da nossa convicção de obrigação moral de m odo que podemos crer na
autoridade universal do direito, só adm itindo que existe um Deus de justiça
que revela sua vontade tanto na consciência do indivíduo como na moral do
universo em toda a sua extensão. Não podem os provar que Deus é; mas pode
mos m ostrar que, para a existência de qualquer conhecimento, pensamento,
razão, consciência, o hom em precisa adm itir que Deus é.
Eis o que J acobi diz a respeito do belo: “Es kann gewiesen aber nicht
bewiesen werden” - pode-se mostrar, mas não provar. Bowne, Metaphysics,
1 0 6 Augustus Hopkins Strong
472 - “O nosso conhecimento objetivo a respeito do finito deve apoiar-se na
confiança ética no infinito”; 480 - “O teísmo é o postulado absoluto de todo
conhecimento, ciência e filosofia”; “Deus é o fato mais certo do conhecimento
objetivo”. Ladd, Biblia Sacra, out. 1877.611-616 - “Cogito ergo Deus est. Somos
constrangidos a postular um ser que não é nós mesmos e que age em favor
da racionalidade assim como da justiça”. W. T. Harris: “Até mesmo a ciência
natural é impossível, onde a filosofia ainda não ensinou que a razão fez o
mundo e que a natureza é a revelação do racional”.
Pascal: “A N atu reza con funde o p irrôn ico e a Razão con funde o dogm á
tico. Tem os um a incapac idade de dem onstração que aque le não pode ven
cer; tem os um a concepção da verdade que este não pode pe rtu rba r” . “Não
ex is te nenhum incrédulo ! Q ua lque r que diz ‘A m an hã ’, ‘o D esconhec ido ’ , ‘o
F u tu ro ’ , con fia que a Força soz inha não ousa repud ia r” . J ones, Robert Brow
ning, 314 - “ Na verdade não podem os p rovar Deus com o um a conc lusão de
um s ilog ism o, porque ele é a p rim e ira h ipó tese de todas as p rovas” . Robert
Browning, Hohenstiel-Schwangau: “ Eu sei que ele está ali, com o eu estou
aqui, com a m esm a prova, que parece não p rova r nada, e isto vai além das
fo rm as fam ilia res de p rova” ; Paracelsus, 27 - “C onhecer cons is te em abrir
cam inho pelo qual o esp lendor ap ris ionado pode escapa r em vez de efe tuar
a en trada de um a luz que se supõe es ta r do lado de fo ra ” . T ennyson, O
Santo G raal: “Q ue as v isões da no ite ou do dia venham quando qu iserem e
m uitas vezes. ... Nos m om entos quando ele sen te que não pode m orrer e
não conhece nenhum a v isão de si m esm o, e nenhum a de Deus nos altos,
nem daque le S e r que ressusc itou” ; O Antigo Sábio, 548, - “Tu não podes
provar o Inom inável, ó m eu filho ! nem podes p rovar o m undo em que tu te
m oves. Tu não podes p rovar que tu és só um corpo, nem que tu és só esp í
rito, nem que tu és am bos em um. Tu não podes p rovar que tu és im orta l,
não, nem a inda que tu és m orta l. Ora, m eu filho , tu não podes p rovar que
eu, que fa lo con tigo , não estou em conversa con tigo m esm o. Porque nada
que m erece prova pode-se provar, nem re je ita r: P ortanto, sê sáb io , apega-
te sem pre ao lado mais enso larado da dúvida e sobe em esca lada para a fé
além das fo rm as da fé ” .
III. O U T R A S SU PO ST A S FON TES D A N O SSA IDÉIA
Nossa prova de que a idéia da existência de Deus é um a intuição racional
não se com pletará enquanto não mostrarmos que são insuficientes as tentati
vas de contar, por outros meios, a origem da idéia e requerem como pressupo
sição a própria intuição que elas suplantariam ou reduziriam a um a posição
secundária. Reivindicamos que isto não pode derivar de qualquer outra fonte
que não seja um a força cognitiva originária da mente.
1. Não da revelação exterior, quer com unicada a) através das Escrituras,
quer b) através da tradição; pois, a menos que o homem tivesse de outra fonte
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 0 7
um conhecimento prévio da existência de um Deus a partir do qual pudesse
vir um a revelação, esta não teria nenhum a autoridade para ele.
a) H. B. S mith, Faith and Philosophy, 18 - “Uma revelação tem como certo
que aquele a quem ela se faz tem algum conhecimento de Deus, embora
possa ampliá-lo e purificá-lo”. Não podemos provar Deus a partir da autorida
de das Escrituras e daí provar as Escrituras a partir de Deus. A própria idéia
da Escritura como revelação pressupõe a crença em um Deus que pode fazê-
la. N ewman S myth, New Englander, 1878.355 - Não podemos derivar do reló
gio de sol nosso conhecimento da existência de um astro deste tipo. O relógio
de sol pressupõe o sol e não pode ser entendido sem um prévio conhecimen
to deste. W uttke, Christian Ethics, 2 .103 - “A voz do ego divino não vem
primeiro à consciência do ego do indivíduo a partir de fora; ao contrário disto,
cada revelação externa pressupõe a interna; deve ecoar vindo de dentro do
homem algo ligado à revelação exterior para ser reconhecido e aceito como
divino”.
Fairbairn, Studies in Philos. of Relig. and Hist., 21.22 - “Se o homem
depende da revelação externa para a sua idéia de Deus, então ele deve ter
aquilo que, com felicidade, Schelling expressou, denominando de ‘um ateís
mo original da consciência’. Em tal caso a religião não pode estar enraizada
na natureza do homem; ela deve ser implantada a partir de fora”. S churman,
Beliefin God, 78 - “A revelação primitiva de Deus dotara o homem da capaci
dade de apreender sua origem divina. Tal capacidade, como qualquer outra,
realiza-se apenas na presença de condições apropriadas”. C larke, Christian
Theology, 112 - “A revelação não pode demonstrar a existência de Deus,
porque deve admiti-la; mas manifestará sua existência e caráter aos homens
e lhes servirá como a principal fonte de certeza a respeito de Deus porque
lhes ensinará o que não poderiam conhecer por outros meios”.
b) Nem a nossa idéia de Deus vem primeiramente da tradição porque
“esta só pode perpetuar o que já foi originado” (Patton). Se o conhecimento
assim transmitido é o de uma revelação primitiva, então, aplica-se o argu
mento já estabelecido - que a própria revelação pressupunha naqueles que
primeiro a receberam e pressupõe naqueles a quem é transmitida algum
conhecimento de um ser de quem tal revelação poderia vir. Se o conhecimen
to assim transmitido é somente o dos resultados dos raciocínios da raça,
então o conhecimento de Deus vem originariamente da razão - explicação
que consideraremos adiante.
Semelhantes respostas devem ser dadas a muitas explicações comuns
sobre a crença do homem em Deus. “Primus in orbe deos fecit timor” (Primei
ro o medo na terra fez um deus); a Imaginação fez a religião; os Sacerdotes
inventaram a religião; a Religião é matéria de imitação e moda. Porém per
guntamos ainda: O que causou o medo? Quem fez a imaginação? O que
tornou possível os sacerdotes? O que tornou natural a imitação e a moda?
Dizer que o homem adora somente porque vê outros homens adorarem é tão
absurdo como dizer que o cavalo come feno porque vê outros cavalos come
rem-no. Deve haver na alma fome a ser satisfeita ou as coisas exteriores
nunca atrairiam o homem à adoração. Os sacerdotes nunca poderiam impor
1 0 8 Augustus Hopkins Strong
aos homens com tanta continuidade se não houvesse na natureza humana
uma crença universal em um Deus que pudesse comissionar os sacerdotes
como seus representantes. Por si mesma a imaginação requer alguma base
de realidade, que aumenta à medida que a civilização avança. O fato de que
a crença na existência de Deus amplia o apoio sobre a raça, que aumenta a
cada século, mostra que, ao invés de o medo ter causado a crença em Deus,
a verdade é que a crença em Deus causou o temor; na verdade, “o temor do
Senhor é o princípio de toda a sabedoria” (SI. 111.10).
2. Não da experiência, quer esta signifique a) percepção sensorial e refle
xão do indivíduo (Locke), b) os resultados acumulados das sensações e asso
ciações das gerações passadas da raça (Herbert S pencer), quer c) o real con
tato da nossa natureza sensitiva com Deus, realidade supra-sensível, através
do sentimento religioso (Newman S myth).
A prim eira forma desta teoria é inconsistente com o fato de que a idéia de
Deus não é a idéia de um objeto sensível ou material, nem um a combinação de
tais idéias. Porque o espiritual e o infinito são opostos diretos do material e
finito, nenhum a experiência destes pode contar com a nossa idéia daqueles.
Com Locke (Essay on Hum. Understanding, 2.1.4), experiência é recepti
vidade passiva das idéias pela sensação e pela reflexão. A teoria da “tábula
rasa” de Locke confunde a ocasião das nossas idéias primitivas com a causa
destas. Para a sua afirmação: “Nihil est in intellectu nisi quod ante fuerit
in sensu” (N.Trad.: Nada há no intelecto, que não esteja anteriormente no
sentido), Leibnitz responde: “Nisi intellectus ipse” (N.Trad.: a não ser o próprio
intelecto). Às vezes a consciência é chamada a fonte do nosso conhecimento
de Deus. Mas a consciência, como um simples conhecimento acessório de
nós mesmos, ou dos nossos estados, não é propriamente a fonte de qualquer
outro conhecimento. O alemão Gottesbewusstsein = não a “consciência de
Deus”, mas o “conhecimento de Deus”; Bewusstsein aqui = não um “com-
ciência”, mas o “ser-ciência”.
Fraser, Locke, 143-147 - As sensações são os tijolos e a associação a
argamassa, do edifício mental. B owne, Theory of Thought and Knowtedge, 47
- “Desenvolver a linguagem permitindo que os sons se associem e evoluam o
sentido por si mesmos? Contudo este é o exato paralelo da filosofia cujo
objetivo é edificar a inteligência a partir da sensação. ... 52 - “Aquele que não
sabe ler debalde olha para o sentido de uma página impressa e debalde pro
cura auxiliar a sua deficiência utilizando óculos fortes”. Contudo, mesmo que
a idéia de Deus fosse um produto da experiência, não teríamos a garantia de
rejeitá-la como irracional. verBROOKS, Foundations ofZoology, 132 - “Não há
nenhum antagonismo entre os que atribuem o conhecimento à experiência e
os que o atribuem à nossa razão inata; entre os que atribuem o desenvolvi
mento do germe a condições mecânicas e os que o atribuem à potencialidade
inerente do próprio germe; entre os que sustentam que toda a natureza esta
va latente no vapor cósmico e os que crêem que tudo na natureza tem uma
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 0 9
intenção imediata e predeterminada”. Todos estes podem ser métodosdo
Deus imanente.
A segunda forma da teoria está aberta à objeção de que mesmo a primeira
experiência do prim eiro hom em do mesmo m odo que a últim a experiência do
homem pressupõe tal intuição assim como outras intuições e portanto não
podem ser a sua causa. Contudo, mesmo que esta teoria da origem fosse corre
ta, ainda assim seria impossível pensar no objeto da intuição como se não
existisse, ainda representaria para nós a mais elevada m edida de certificação
atualmente ao alcance do homem. Se a evolução das idéias destina-se à verda
de ao invés da falsidade, é a parte da sabedoria que age sobre a hipótese de que
a nossa prim itiva crença é verdadeira.
M artineau, Study, 2.26 - “A natureza tanto é digna de confiança em seus
processos, como em suas dádivas”. Bowne, Examination of Spencer, 163,164
- “Devemos nós buscar a verdade nas mentes dos macacos pré-humanos,
ou nas cegas excitações de qualquer massa primitiva? Nesse caso podemos,
na verdade, pôr de lado toda a nossa ciência, mas, juntamente com ela, pôr
de lado a grande doutrina da evolução. A filosofia-experiência não pode esca
par a esta doutrina; ou os pronunciamentos positivos da consciência da nos
sa natureza devem ser aceitos como se apresentam ou toda a verdade deve
ser declarada impossível”.
Charles Darwin, em uma carta escrita um ano antes da sua morte, referin-
do-se às suas dúvidas quanto à existência de Deus, pergunta: “Podemos nós
confiar nas convicções da mente de um macaco?” Podemos responder: “Pode
mos confiar nas conclusões de alguém que outrora foi bebê”? Bowne, Ethics,
3 - “A gênese e emergência de uma idéia são uma coisa; sua validade é bem
outra. O valor lógico da química não pode ser decidido recitando princípios da
alquimia; e o valor lógico da astronomia independe do fato de que ela come
çou com a astrologia. ... 11 - Mesmo que o homem viesse do macaco, não
teríamos necessidade de tremer pela validade da sua tabela de multiplicação
ou da Regra Áurea. Se temos discernimento moral, não importa como o
adquirimos; e se não temos tal discernimento, não há auxílio algum para qual
quer teoria psicológica. ... 159 - Não devemos apelar para os selvagens e
bebês a fim de encontrar o que é natural para a mente humana.... No caso de
qualquer coisa que está sob a lei do desenvolvimento podemos achar a sua
verdadeira natureza, não retrocedendo às suas rudes origens, mas estudan
do o resultado acabado”. Dowson, Mod. Ideas of Evolution, 13 - “Se a idéia de
Deus for o fantasma de um cérebro símio, podemos confiar na razão ou cons
ciência em qualquer outra matéria? Não podem a ciência e a filosofia por si
mesmas ser semelhantes a fantasias, envoltas por mero acaso ou pelo ele
mento desarrazoado?” Mesmo que o homem viesse do macaco, não há como
explicar suas idéias através das dele: “O homem é o homem porque o é”.
Devemos julgar os princípios pelos fins, não os fins pelos princípios.
O importante não é como ocorre o desenvolvimento do olho nem como era
imperfeito o sentido da visão, já que o olho agora nos dá a informação correta
1 1 0 Augustus Hopkins Strong
dos objetos exteriores. Do mesmo modo não importa como se originaram as
intuições de justiça e de Deus, visto que agora elas nos dão o conhecimento
da verdade objetiva. Temos que admitir como certo que a evolução das idéias
não vêm a partir do sentido para o não sentido. C. H. Lewes, Study of Psycho-
logy, 122 - “Podemos entender a ameba e o pólipo só através da luz refletida
do estudo do homem”. S eth, Ethical Principies, 429 - “O carvalho explica o
fruto até de modo mais veraz que o oposto”. S idgwick: “Ninguém apela do
senso de belo do artista para o da criança”. Os maiores matemáticos não são
menos verdadeiros porque podem ser apreendidos só pelo exercício do inte
lecto. Não se atribui nenhuma importância estranha ao que se sentiu ou se
pensou em primeiro lugar". Robert B rowning, Paracelsus: “O homem, tendo
descoberto, imprime para sempre a sua presença a todas as coisas inertes.
... Um refluxo suplementar da'luz ilustra todos os graus inferiores, explica
cada passo anterior no círculo”. O homem, com as suas mais elevadas idéias,
mostra o sentido e conteúdo de tudo o que se destina a ele. Ele é o último
degrau na subida da escada e, a partir deste mais elevado produto e de suas
idéias, podemos inferir quem é o seu Criador.
B ixby, Crisis in Morais, 162,245 - “A evolução dá ao homem apenas tama
nha altura que ele pode ao menos discernir as estrelas da verdade moral que
outrora estiveram abaixo do horizonte. Isto é muito diferente de dizer-se que
as verdades morais são apenas produtos transmitidos da experiência da uti
lidade. ... O germe da idéia de Deus como da idéia de direito devem ter esta
do no homem logo que ele se tornou homem; ganhando do bruto, ela o tornou
um homem. A razão não é apenas um registro dos fenômenos físicos e da
experiência de prazer e de dor: é também criativa. Discerne a unidade das
coisas e a supremacia de Deus”. S ir Charles Lyell: “A presunção é enorme
porque todas as nossas faculdades, embora sujeitas a errar, são verdadeiras
na essência e apontam para os reais objetivos. A faculdade religiosa no
homem é, de todas, uma das mais fortes. Existiu nas mais primitivas eras e,
ao invés de desgastar-se ante o avanço da civilização, torna-se cada vez
mais forte e hoje é mais desenvolvida entre as mais elevadas raças do que
jamais fora antes. Penso confiar seguramente que ela aponta para uma gran
de verdade”. F isher, Nat. and Meth. of Rev., 137, cita A gostinho: “Securus
judicat orbis terrarum” (N.Trad.: O universo seguro julga as terras), e diz-nos
que se admite ser o intelecto um órgão do conhecimento, embora possa ter
evoluído. Mas, se o intelecto é digno de confiança, também a natureza o é.
G eorge A. Gordon, The Christ of To-day, 103 - “Para H erbert S pencer, a his
tória humana é apenas um incidente da história natural e suprema é a força.
Para o cristianismo a natureza é tão somente o começo e o homem a sua
consumação. O que é que dá a mais elevada revelação da vida da árvore: a
semente, ou o fruto?”
A terceira parte da teoria parece fazer Deus um objeto sensorial a reverter
a apropriada ordem do conhecimento e sentimento, a ignorar o fato de que em
todo o sentimento há pelo menos algum conhecim ento de um objeto e a esque
cer que a validade deste mesmo sentimento só pode ser mantida admitindo
anteriormente a existência de um a divindade racional.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 1 1
N ewman S myth diz-nos que o sentimento vem em primeiro lugar; a idéia
em segundo. Não se negam as idéias intuitivas, mas declara-se que são
reflexos diretos dos sentimentos no pensamento. São elas a percepção ime
diata daquilo que ele sente que existe. Considera-se idealista o conhecimen
to direto de Deus pela intuição; considera-se que, chegar-se a Deus por infe
rência, é uma tendência racionalista.
Admitimos que, mesmo no caso dos impenitentes, grande perigo, grande
regozijo, grande pecado freqüentemente transformam a intuição racional de
Deus em intuição perceptível aos sentidos. Contudo, não se pode afirmar que
a intuição perceptível aos sentidos seja comum a todos os homens. Não for
nece fundamento ou explicação de uma capacidade universal para a religião.
Sem a intuição racional, não seria possível a intuição perceptível aos senti
dos, visto que é só o racional que capacita o homem a receber e a interpretar
o elemento perceptível aos sentidos. A própria confiança que depositamos no
sentimento pressupõe uma crença intuitiva em um Deus verdadeiro e bom.
Em 1869 T ennyson dizia: “Sim, é verdade que há momentos quando a carne
nada é para mim; quando eu sei e sinto que a carne é a visão; Deus e o
elemento espiritual são o elemento real; ele me pertence mais do que as
minhas mãos e pés. Você pode dizer-me que as minhas mãos e os meus pés
são apenas símbolos imaginários da minha existência; posso até crer em
você; mas você nunca, nuncapode convencer-me de que o eu não é uma
Realidade eterna e de que o espiritual não é a minha parte real e verdadeira”.
3. Não do raciocínio, porque:
d) A verdadeira aparição deste conhecim ento na grande m aioria das men
tes não resulta de qualquer processo consciente de raciocínio. Por outro lado,
com base na ocorrência de condições próprias, ele lampeja sobre a alma a
rapidez e força de um a revelação imediata.
b) O poder da fé do homem na existência de Deus não é proporcional ao
poder da faculdade de raciocinar. Por outro lado, o hom em de m aior poder
lógico é freqüentem ente um inveterado cético, enquanto o de fé não oscilante
está entre os que não podem mesmo entender os argumentos da existência de
Deus.
c) Há mais neste conhecimento que o raciocínio jamais poderia ter forne
cido. O homem não lim ita a sua crença em Deus às conclusões do argumento.
Os argumentos da existência divina, valiosos para os propósitos a serem mos
trados daqui para frente, não bastam por si mesmos para garantir nossa con
vicção de que existe um ser infinito e absoluto. Aparecerá apoiado no exame
que um argumento a priori só é capaz de provar um a proposição abstrata e
ideal, mas nunca pode conduzir-nos à existência de um Ser real. Parece que os
argumentos aposteriori da existência m eram ente finita, nunca podem demons
trar a existência do infinito. Nas palavras de S ir W m. Hamilton - “Uma demons
tração do absoluto a partir do relativo é logicam ente absurda como em tal
1 1 2 Augustus Hopkins Strong
silogismo podemos colecionar na conclusão o que não está distribuído nas
prem issas” - em resumo, a partir das premissas finitas não podemos tirar con
clusão infinita.
S ir W m . Hamilton: "Saindo do particular, admitimos que não é possível, em
nossas mais elevadas generalizações, transcendermos o finito”. E. G. Robin-
son: “A mente humana revela maior provisão do que jamais contiveram os
grandes reservatórios”. Existe mais na idéia de Deus do que poderia ter esco
ado de um tão pequeno funil como é o raciocínio humano. Uma simples pala
vra, uma nota acidental, ou uma atitude de oração sugere a idéia a uma crian
ça. H elen Keller contou a Phillips Brooks que ela sempre soubera que há
um Deus, mas não o conhecia pelo nome. Ladd, Philosophy of Mind, 119 —
“Há uma tola suposição de que nada se pode conhecer ao certo a não ser que
seja alcançado como resultado de um processo silogístico, ou que, quanto
mais complicado e sutil for tal processo, mais certa é a conclusão. O conheci
mento por inferência sempre depende da certeza superior do conhecimento
imediato”. G eorge Duncan, in Memorial ofNoah Porter, 246 - “Toda a dedução
apoia-se num prévio processo de indução, ou nas intuições de tempo e espa
ço que envolvem Infinito e Absoluto”.
d) Nem os homens chegam ao conhecim ento da existência de Deus por
inferência; pois a inferência é silogismo condensado e, como forma de racio
cínio, está igualmente aberto à objeção já mencionada. Vimos, contudo, que
todo processo lógico se baseia na aceitação da existência de Deus. Evidente
m ente o que se pressupõe em todo raciocínio não pode ser provado pela razão.
Referimo-nos, naturalmente, à inferência, mediata, porque na imediata
(p.ex., “Todos os governantes são justos; logo, nenhum dos governantes
injustos governa bem”) não há nenhum raciocínio e nem progresso no pensa
mento. A inferência mediata é raciocínio - é silogismo condensado; e o que é
muito condensado pode ampliar-se em forma lógica regular. Inferência dedu
tiva: “O negro é uma criatura como eu; logo aquele que bate no negro é uma
criatura como eu”. Inferência indutiva: “O primeiro dedo fica antes do segun
do; logo fica antes do terceiro”.
Flint, Theism, 77 e H erbert, Mod. Realism Examed, chegariam ao conhe
cimento da existência de Deus pela inferência. Esta declara que Deus é inde-
monstrável, mas, quanto à sua existência, infere-se como a dos nossos
semelhantes. Replicamos, porém, que, neste último caso, só inferimos o fini
to a partir do finito, mas, no caso de Deus, infere-se o infinito a partir do finito.
Contudo, este processo de raciocínio pressupõe a existência de Deus como
Razão absoluta, pelo processo já demonstrado.
Substancialmente, H. B. S mith, Introd. to Chr. Theol., 84-133, e D iman, Theistic
Argument, 316,364, ambos cometem o mesmo erro dos que admitem um ele
mento intuitivo, mas empregam-no só para suprir a insuficiência do raciocí
nio. Consideram que a intuição nos fornece apenas uma idéia abstrata, que
não contém em si nenhuma prova da existência de um verdadeiro ser que
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 1 3
corresponde à idéia e que só chegamos ao ser real pela inferência dos fatos
da nossa natureza espiritual e do nosso mundo exterior. Replicamos, entre
tanto, com as palavras de M cCosh, que “as intuições, em primeiro lugar, diri-
gem-se individualmente aos objetos”. Não conhecemos o infinito no abstrato,
mas o espaço e o tempo infinitos, e o Deus infinito.
S churman, Belief in God, 43 - “Sou incapaz de atribuir à nossa crença em
Deus uma certeza mais elevada que aquela que possuímos através da hipó
tese da ciência ... 57 - A abordagem mais próxima que a ciência faz à nossa
hipótese da existência de Deus encontra-se na afirmação da universalidade
da lei ... baseada na convicção da unidade e na conexão sistemática de toda
a realidade ... 64 - Só se pode encontrar esta unidade no espírito autocons-
ciente”. O defeito deste raciocínio é que ele não nos dá nenhum elemento
necessário ou absoluto. Exemplos de hipóteses são a nebulosa na astrono
mia, a lei da gravitação, a teoria atômica da química, o princípio da evolução.
Nenhuma destas é logicamente independente ou tem prioridade. Cada uma
delas é provisória e cada uma pode ser ultrapassada por nova descoberta.
Não é o caso da idéia de Deus. Todas as outras pressupõem esta idéia como
condição de cada processo mental e garantia da sua validade.
IV. CONTEÚDO DESTA IN TU IÇÃO
1. Neste conhecimento fundamental de que Deus é, necessariamente está
implicado que, em certa extensão, o homem conhece intuitivamente o que
Deus é, a saber, a) a Razão na qual se baseiam os processos mentais; tí) um a
Força superior de que o homem depende; c) um a Perfeição que impõe a lei
sobre a natureza moral; d) um a Personalidade que pode ser reconhecida na
oração e no louvor.
Sustentar que temos um a intuição racional de Deus de modo nenhum impli
ca que é impossível um a intuição presente de Deus. Tal intuição presente tal
vez fosse característica do hom em decaído; às vezes pertence ao cristão; será
um a bênção do céu (Mt. 5.8 - “os limpos de coração verão a Deus” ; Ap. 22.4
- “verão a sua face”). As experiências dos hom ens de apreenderem Deus face
a face, em perigo ou senso de culpa, dão algum a razão para crer que um
conhecimento de Deus pela sua presença é condição norm al da humanidade.
Mas como esta intuição da presença de Deus não está no nosso estado univer
sal atual, reivindicamos aqui somente que todo o hom em tem um a intuição
racional de Deus.
Convém lembrar, contudo, que a perda do am or a Deus obscureceu até
mesmo a intuição racional, de modo que a revelação da natureza nas Escritu
ras necessita de ser despertada, confirm ada e aum entada e a obra do Espírito
de Cristo no sentido de tom ar conhecida pela amizade e comunhão. Assim,
a partir do conhecimento a respeito de Deus, conhecem os Deus (Jo. 17.3 -
1 1 4 Augustus Hopkins Strong
“A vida eterna é esta, que te conheçam a ti” ; 2 Tm. 1.12 - “Eu sei em quem
tenho crido”).
P latão dizia que a substância não pode ser nenhum cm oi5ev sem algo à
oTSev. Harris, Philosophical Basis of Theism, 208 - “Através da intuição racio
nai o homem sabe que o Ser absoluto existe; seu conhecimento daquilo que
é progressivo, como progressivo é o conhecimento do homem e da natureza”.
H utton, Essays: “Uma presença assombrosa assusta o homem atrás e
adiante. É um mal a que ele não podeescapar. Dá novos sentidos aos seus
pensamentos e novo terror aos seus pecados. Torna-se intolerável. O homem
é levado a estabelecer um ídolo esculpido segundo a sua própria natureza,
que tomará o seu lugar - um Deus não moral que não perturbará o seu sonho
de descansar. É uma Vida e uma vontade justa, não uma simples idéia de
justiça que importuna tanto os homens”. Porter, Hum. Int., 661 - “O Absoluto
é um Agente pensante”. A intuição não se desenvolve na certeza; o que se
desenvolve é a ansiedade por aplicá-la e o poder de expressá-la. A intuição
não é complexa; complexo é o Ser intuitivamente conhecido.
O conhecimento de uma pessoa torna-se conhecimento pessoal através
da verdadeira comunicação ou revelação. Em primeiro lugar vem o conheci
mento intuitivo de Deus, o qual todo homem possui - a suposição de que
existe uma Razão, uma Força, uma Perfeição, uma Pessoalidade que torna
correto o pensamento e possível a ação. Em segundo lugar, vem o conheci
mento do ser de Deus e os atributos que a natureza e a Escritura fornecem.
Em terceiro lugar, surge o conhecimento pessoal vindo através da experiên
cia, derivado da verdadeira reconciliação e intercomunicação com Deus, atra
vés de Cristo e do Espírito Santo. Stearns, Evidence of Christian Experience,
208 - “A experiência cristã verifica as reivindicações da doutrina pela experi
mentação, transformando o conhecimento provável em conhecimento real”.
Biedermann, citado por Pfleiderer, Grundriss, 18 - “Deus se revela ao espíri
to humano, 1. como uma Base infinita, na razão; 2. como uma Norma infinita,
na consciência; 3. como uma Força infinita, na ascendência à verdade reli
giosa, à bem-aventurança e à liberdade”.
Objetarei eu a esta experiência cristã, só porque relativamente poucos a
possuem e não estou entre eles? Porque eu não vi as luas de Júpiter, como
duvidarei do testemunho do astrônomo quanto à sua existência? A experiên
cia cristã como a visão das luas de Júpiter, não é possível a todos. C larke,
Christian Theoiogy, 113 - “Quem tiver prova completa da realidade da bonda
de de Deus deve submetê-la ao teste experimental. Deve tomar o bom Deus
como real e receber a confirmação que se seguirá. Quando a fé atinge Deus,
ela o encontra.... Aqueles que o encontram serão os mais sensatos e os mais
verdadeiros do seu gênero e as suas convicções estarão entre as mais segu
ras entre os homens. ... Os que vivem em comunhão com o bom Deus cres
cerão em bondade, e apresentarão evidência prática da sua existência além
do testemunho oral que possam dar”.
2. As Escrituras, portanto, não tentam provar a existência de Deus, mas,
por outro lado, tanto admitem como declaram que o conhecim ento de Deus é
T e o l o g ia S is t e m á t ic a U 5
universal (Rm. 1.19-21,28,32; 2.15). Deus embutiu a evidência desta verdade
fundam ental na própria natureza do hom em de m odo que em parte algum a há
ausência de testem unho a seu respeito. O pregador pode, com confiança,
seguir o exemplo da Escritura admitindo-a. M as deve tam bém explicitamente
declará-la como faz a Escritura. “Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno
poder e d iv indade, são c laram en te v istos desde a criação do m undo.”
(xaG opaxai - espiritualm ente vistos); o órgão para este propósito é a voúç
(voofyieva); mas, então - eles são “percebidos m ediante as coisas criadas”
ítoTç 7ravrijj.aGiv, Rm. 1.20).
Sobre Rm. 1.19-21, verW Eiss, Biblische Theologie des Neuen Testament,
251, nota; i/ertambém os comentários de Meyer, A lford, T holuck e W ordsworth;
tò yvcootov toí3 Geou = não “o que se pode conhecer”, mas “aquilo que se
conhece” de Deus; vooúp.£va KccGopâ-coci = vêem-se claramente no que é
percebido pela razão - voo-úp.eva expressa o modo de KaGopâ-uca (M eyer);
comp. Jo. 1.9; At. 17.27; Rm. 1.28; 2.15. Sobre 1 Co. 15.34, ver Calderwood,
Philosophy of Infinite, 466 — ày v co a íav 6eot> Tivèç ê x o u a i = não possuais o
conhecimento de Deus especialmente exaltado, que pertence aos crentes
em Cristo (cf. 1 Jo. 4.7 - “qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a
Deus”). Sobre Ef. 2.12, ver Pope, Theology, 1.240 - â 6 e o i èv KÓqiep opõe-
se a estar em Cristo, e significa mais abandonado de Deus do que negá-lo ou
ignorá-lo inteiramente.
E. G. Robinson: “A primeira afirmação da Bíblia não é que existe um Deus,
mas que ‘no princípio criou Deus os céus e a terra’ (Gn. 1.1). A crença em
Deus nunca foi e nunca pode ser o resultado de argumento lógico; doutra
forma a Bíblia nos apresentaria provas”. Muitos textos em que se confia como
provas da existência de Deus são simplesmente explicações da idéia de Deus;
p.ex., SI. 94.9,10 - “Aquele que fez o ouvido não ouvirá? E o que formou o
olho não verá? Aquele que interroga as nações não as castigará? E o que dá
ao homem o conhecimento não saberá?” Platão diz que Deus sustenta a
alma pelas raízes dela, pelo que não precisa demonstrar à alma o fato da sua
existência. M artineau, Seat of Authority, 308, diz com precisão que a Escritura
e a pregação só interpretam o que já está no coração ao qual se dirige: “Lan
çando um sopro quente ao interior dos oráculos ocultos na invisível tinta, ele
os torna articulados e deslumbrantes como o manuscrito na parede. O divino
Vidente não tem para vós a sua revelação, mas capacita-vos a receber a
vossa própria. Esta relação mútua só é possível através da presença comum
de Deus na consciência da humanidade”. S hedd, Dogmatic Theology, 1.195-
220 - “A terra e o céu causam as mesmas impressões sensíveis nos órgãos
de um bruto que os causam nos deüm homem; mas o bruto nunca discerne
as ‘coisas invisíveis’ de Deus ‘tanto o seu eterno poder como a sua divinda
de”’ (Rm. 1.20).
Nossa atividade subconsciente, até onde é normal, está sob a orientação
da Razão imanente. A sensação, antes de resultar em pensamento, tem em
si elementos locais fornecidos pela mente - não nossa, mas do infinito. Cristo
o Revelador de Deus, revela-o na vida mental de cada homem e o Espírito
1 1 6 Augustus H opkins Strong
Santo pode ser o princípio da consciência própria no homem como também
em Deus. Harris, God the Creator, diz-nos que “o homem encontra a Razão
que é eterna e universal revelando-se no exercício da sua própria razão”.
S avage, Vida após a Morte, 268 - “Como você sabe que a sua consciência
subliminar não fere a Onisciência e apossa-se dos fatos do universo?” Contu
do, S avage nega esta sugestão e, erroneamente, favorece a teoria do espírito.
Ver pp. 295-329 deste livro.
C. M. Barrows, Proceedings ofSoc. for Psychical Research, vol. 12, parte
30, pp. 34-36 - “Existe um agente subliminar. Que pensar se este é somente
um Ator inteligente, enchendo o universo com a sua presença, como o éter
faz com o espaço; o Inspirador comum de toda a humanidade, hábil músico,
presidindo sobre muitas flautas e teclas e tocando através de cada um, que
música se ouvirá? O eu subliminar é uma fonte universal de energia e cada
homem é um canal da correnteza. Cada eu pessoal está contido nela, e
assim cada homem se torna unido a cada ser humano. Nesta Força profunda,
o último fato atrás do qual a análise não pode ir, todos efeitos psíquicos
e físicos encontram sua origem comum”. Esta afirmativa necessita de
ser qualificada pela declaração da natureza ética do homem e personalida
de distinta; ver nesta obra o Monismo Ético, no cap. III. Mas há aqui uma
verda-de como aquela que Coleridge procurava expressar em sua Harpa Eólia:
“E o que acontece se toda a Natureza animada for apenas harpas diversa
mente estruturadas, que tremem no pensamento, quando por elas passa,
Plástica e vasta, uma brisa intelectual, a um só tempo a alma de cada um, e o
Deus de todos?”
Dorner, System of Theology, 1.75 - “O conhecimento de Deus é a verda
deira firmeza da nossa própria consciência. ... Visto que é só na consciência
de Deus que a mais íntima personalidade do homem vem à luz, de igual
modo, por meio do entrelaçamento da consciência de Deuse do mundo, este
mundo é visto em Deus (sub specie eternitatis), e a certeza do mundo obtém
primeiro a segurança absoluta do seu espírito”. Royce, Spirit ofMod. Philosophy,
sinopse na N. Y. Nation: “O único fato indubitável é a existência de um eu
infinito, um Logos, ou uma mente terrena (345). Isto se torna claro, I. Porque
o idealismo mostra que as coisas reais não são nada mais, nem nada menos
que idéias, ou ‘possibilidade de experiência’; mas a mera ‘possibilidade”, como
tal, nada é e o mundo das experiências ‘possíveis’, até onde ela é real, deve
ser o mundo da experiência verdadeira para um certo eu (367). Se, então, há
um mundo real, ele tem tudo enquanto existe como ideal e mental mesmo
antes de tornar-se conhecido pela mente particular com a qual nós concebe
mos entrar em conexão (368). II. Mas há um mundo real; pois, quando eu
penso em um objeto, quando eu me refiro a ele, não só tenho em mente uma
idéia semelhante a ele porque eu o tenho por objeto, seleciono-o, em certa
medida eu já o possuo. Então, o objeto já está presente em essência no meu
eu oculto (370). Como a verdade consiste no conhecimento de conformidade
com uma cognição do seu objeto, que, por si pode conhecer uma verdade
que inclui tanto a idéia como o objeto. Este conhecedor é o Eu Infinito (374).
Em essência sou idêntico a isso (371); é o meu eu maior (372); e só este eu
maior é (379). Inclui toda a realidade, e conhecemos outras mentes finitas,
porque estamos unidos a elas” (409).
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 1 7
É instrutiva a experiência de G eorge J ohn Romanes. Durante anos ele não
pôde reconhecer nenhuma Inteligência pessoal no controle do universo. Come
teu quatro equívocos: 1. Esqueceu-se de que só o amor pode ver, que Deus
não se revela simplesmente ao intelecto, mas apenas ao homem como um
todo; à mente integral, que a Escritura chama “os olhos do coração” (Ef. 1.18).
Finalmente, a experiência da vida ensinou-lhe a fraqueza do mero raciocínio
e levou-o a depender mais dos sentimentos e intuições. Então, como se
poderia dizer, ele deu ao raio X do cristianismo uma oportunidade de fotogra
far Deus na sua alma. 2. Começou pelo fim errôneo, mais com a matéria do
que com a mente, mais com as categorias de causa e efeito do que com o
certo e o errado e, deste modo, envolveu-se na ordem mecânica e tentou
interpretar o reino moral através dela. Resultado: em vez de reconhecer a
liberdade, a responsabilidade, o pecado, a culpa, descartou-os como preten
sos. Porém o estudo da consciência e da vontade o puseram no caminho
certo. Ele aprendeu a levar em conta o que ele encontrava, em vez de voltar-
se para alguma coisa mais e, desta forma, veio a interpretar a natureza pelo
espírito em vez de interpretar o espírito pela natureza. 3. Tomou as partes
pelo cosmos, em vez de considerá-lo como um todo. Seu antigo pensamento
insistia em encontrar uma determinação em cada parte em separado, ou em
nenhuma parte. Porém, ao chegar à maior maturidade reconheceu que seria
sábio e razoável tratá-lo como um todo ordenado. Entendendo que isto é um
universo, não conseguiu desembaraçar-se da idéia de uma Mente organiza
dora. Passou a ver que o Universo, como um pensamento, implica a existên
cia de um Pensador. 4. Fantasiou que a natureza exclui Deus, em vez de
saber que ela é o único método de operação de Deus. Quando aprendeu
como se fez uma determinada coisa, a princípio concluiu que Deus e nature
za não são mutuamente exclusivos. Deste modo, passou a não ver dificulda
de até mesmo na aceitação dos milagres e da inspiração; porque o Deus que
está no homem e de cuja mente e vontade a natureza é apenas a expressão,
pode revelar-se, se necessário, de formas especiais. Portanto, G eorges John
Romanes voltou a orar, voltou a Cristo, e voltou à igreja.
C a p í t u l o II
EVIDÊNCIAS CORROBORATIVAS
DA EXISTÊNCIA DE DEUS
Em bora o conhecim ento da existência de Deus seja intuitivo, pode ser
explicado e confirmado por argumentos tirados do próprio universo e das idéias
abstratas da mente humana.
Nota 1. Tais argumentos são prováveis, mas não demonstrativos. Por esta
razão eles se suplementam um ao outro e constituem -se um a série cumulativa
de evidências em sua natureza. Embora tomados de um a forma isolada, nenhum
deles pode ser considerado absolutam ente decisivo, juntos fornecem um a cor-
roboração de nossa convicção prim itiva da existência de Deus, que é de gran
de valor prático e em si mesmos suficientes para aglutinar a ação moral do
homem.
B u t le r , Analogy, Introd., Bohn’sed., 72 —A evidência provável admite graus
desde a mais elevada certeza moral até a mais baixa presunção. Contudo a
probabilidade é o guia da vida. Em matéria de moral e religião, não vamos
esperar uma evidência matemática ou demonstrativa, mas apenas a provável
e a mais leve preponderância de tal evidência pode ser suficiente para cegar
a nossa ação moral. A verdade da nossa religião como a verdade das maté
rias comuns, deve ser julgada pela total evidência global; porque, ao acres
centarem-se as supostas provas, não só aumentam a evidência, mas multipli-
cam-na. D o v e , Logic of Christian Faith, 24 - O valor dos argumentos, tomados
englobadamente, é muito maior do que o de qualquer um isolado. Ilustração
da água, do ar e do alimento juntos, não separadamente, sustentando a vida;
o valor de 1000 de libras não está no papel, na estampa, na escrita, na assi
natura, tomadas separadamente. Um feixe de varas não pode ser quebrado,
apesar de que cada vara do feixe o pode separadamente. A resistência do
feixe é a força do todo. L o r d B a c o n , Essay on Atheism: “Uma mirrada filosofia
inclina a mente do homem para o ateísmo, mas o seu aprofundamento apro
xima a mente humana da religião. Por algum tempo a mente do homem res
peita algumas causas secundárias separadas, pode às vezes apoiar-se nelas
e não ir mais adiante, porém, quando olha para o encadeamento delas confe
deradas e unidas, sente-se necessidade de voar para a Providência e para
Divindade”. M u r p h y , S cientific Bases of Faith, 221-223 - “A prova de um Deus
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 1 9
e de um mundo espiritual que nos deve satisfazer consiste em numerosas
linhas de prova divergentes e convergentes”.
No caso em que só se alcança a evidência circunstancial, muitas linhas da
prova convergem e embora nenhuma das linhas alcance a marca, a conclusão
para a qual todas apontam torna-se a única racional. Duvidar de que haja uma
Londres, ou de que houve um Napoleão, seria indicar insanidade; contudo, só
a evidência provável demonstra a existência de Londres e de Napoleão. Não
há nenhuma eficácia coativa no argumento da existência de Deus; mas o mes
mo se pode dizer de todo o raciocínio não demonstrativo. É possível outra
interpretação dos fatos, mas nenhuma outra é tão satisfatória como a de que
Deus é; ver F isher, Nature and Method of Revelation, 129. Prof. Rogers:
“Se nos negócios práticos fomos levados a hesitar em agir até que tivésse
mos demonstrada a certeza absoluta, nunca deveríamos começar a nos mover”.
Por esta razão um velho oficial indiano aconselhou um jovem juiz a “dar sem
pre o seu veredicto, mas sempre evitar de apresentar os seus fundamentos.
Bowne, Philos. of Theism, 11-14 - “Ao invés de duvidar de cada coisa que
oferece condições para tal, melhor é não duvidar de nada até que sejamos
compelidos a isso. ... Na sociedade, é melhor admitirmos que os homens são
verdadeiros, e só duvidarmos quando houver razão especial, do que admitir
mos que todos homens são mentirosos e crermos só quando a isso formos
compelidos. Por isso, em todas as nossas investigações progredimos mais
se admitirmos a veracidade do universo e da nossa própria natureza do que
duvidarmos de ambos. ... O primeiro método parece mais rigoroso, mas só
pode ser aplicado à matemática, que é ciência puramente subjetiva. Quan
do tratamos da realidade, o método aproxima o pensamento de umapausa.
... A lei que a lógica estabelece é: Não se pode crer em nada que não seja
provado. A lei que a mente na verdade segue é: O que quer que a mente
demande para a satisfação de seus interesses subjetivos e tendências pode-
se admitir como real na ausência de uma refutação positiva”.
Nota 2. Um a consideração destes argumentos pode tam bém servir para
explicar o conteúdo de um a intuição que reconstituiu o elemento obscuro e
apenas sem iconsciente por falta de reflexão. N a verdade, os argumentos são
esforços da m ente que já tem um a convicção da existência de Deus de dar a si
m esm a um relato final de sua crença. U m a exata apreciação do seu valor lógi
co e de sua relação com a intuição que buscam expressar de forma silogística
é essencial para qualquer adequada refutação ao raciocínio ateísta e panteísta.
D iman, Theistic Argument, 363 - “Não tenho reivindicado que a existência
até mesmo deste Ser se pode demonstrar como podemos fazer com as ver
dades abstratas da ciência. Tenho só reivindicado que o universo, como um
grande fato, demanda uma explicação racional e que a mais racional que se
pode dar é a concepção fornecida de um tal Ser. A razão apoia-se nesta
conclusão e recusa apoiar-se em qualquer outra”. Rückert: “Wer Gott nicht
fühlt in sich und allen Lebens-kreisen, dem werdet ihr nicht ihn beweisen mit
Beweisen”. Harris, Philos. Basis of Theism, 307 - “A teologia depende da
1 2 0 Augustus Hopkins Strong
ciência noética (que se origina no intelecto) e empírica para dar a ocasião a
que surja a idéia do Ser Absoluto e fornecer o conteúdo à idéia”. A ndrew
Fuller, Part ofSyst. of Divin., 4.283, questiona “se a argumentação em favor
da existência de Deus não criou mais céticos do que crentes”. Até onde isto é
verdade, deve-se a um exagero nos argumentos e uma exagerada noção do
que se deve esperar deles.
“Evidências do cristianismo?” diz C oleridge, “estou cansado dessa pala
vra”. Quanto mais o cristianismo foi provado, menos se creu nele. O aviva-
mento religioso sob W hitefield e W esley fizeram o que todos os apologistas
do século dezoito não conseguiram; ele despertou as intuições do homem
para a vida, e praticamente as fez reconhecer Deus. M artineau, Types, 2.231
- O homem pode “dobrar os joelhos diante do Zeitgeist (espírito do tempo),
enquanto dá as costas para o consenso de todas as eras”; Seat of Authority,
312 - “Nosso raciocínio nos leva a explicitar o teísmo porque parte do teísmo
implícito”. Illingworth, Div. And Hum. Personality, 81 - “As provas são tenta
tivas de dar conta e explicar e justificar algo que já existe; decompor um ele
vado complexo através de um juízo imediato em seus elementos constituin
tes, nenhum dos quais, quando isolado, pode ter a plenitude ou ação conjunta
da convicção original como um todo.”
Bowne, Philos. of Theism, 31,32 - A demonstração é o único paliativo para
socorrer na ignorância do insight. ... Quando chegamos ao argumento em
que se destina a natureza toda, o argumento parece ser fraco ou forte confor
me a natureza é débil ou plenamente desenvolvida. O argumento moral em
favor do teísmo não pode parecer forte a alguém que não tem consciência.
O argumento a partir dos interesses cognitivos esvaziará quando não há
nenhum interesse desse tipo. As pequenas almas acharão muito pouco que
exige explicação ou que desperta surpresa e estarão satisfeitos com um pon
to de vista correspondentemente pequeno da vida e da existência. Em tal
caso não podemos esperar um acordo universal. Só podemos proclamar a fé
que está em nós na esperança de que esta proclamação não possa existir
sem alguma resposta em outras mentes e corações. ... Só temos prová
vel evidência da conformidade da natureza ou do sentimento dos amigos.
Também não podemos provar através da lógica. As mais profundas con
vicções não são as certezas da lógica, mas as da vida”.
Nota 3. Os argumentos da existência divina podem ser reduzidos a quatro:
I) Cosmológico; II) Teleológico; III) Antropológico; IV) Ontológico. Exam i
ná-los-emos em sua ordem, procurando determ inar as precisas conclusões a
que respectivam ente conduzem e, então, certificar de que m aneira os quatro
podem ser combinados.
I. ARGUMENTO COSMOLÓGICO
Não se trata de um argumento do efeito para a causa; pois a proposição de
que cada efeito deve ter um a causa é sim plesm ente idêntico e apenas significa
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 2 1
que o evento causado deve ter um a causa. Ao invés disso é um argumento da
existência com eçada para um a causa suficiente de tal começo e pode ser pre-
: s im ente estabelecido da seguinte maneira:
Tudo o que começa, quer substância, quer fenômeno, deve sua existência a
ig u m a causa produtiva. O universo, pelo menos no que se refere à sua forma
presente, é algo começado e deve sua existência a um a causa que corresponde
à sua produção. Tal causa deve ser indefinidam ente grande.
Convém notar que este argumento move-se no reino da natureza. A partir
da constituição do homem e início neste planeta ele é considerado sob um
outro título (ver Argumento Antropológico). Não só a observação pessoal,
mas o testemunho da geologia garante-nos que a presente forma do universo
não é eterna no passado, mas teve um início. Freqüentemente Locke, Clarke
e Robert Hall têm reivindicado que este argumento é suficiente para conduzir
a mente a uma Primeira Causa Eterna e Infinita. Por esta razão prosseguimos
mencionando
1. Defeitos do Argumento Cosmológico
d) É impossível m ostrar que o universo, no que tange à sua substância, teve
um começo. A lei da causalidade declara, não que cada coisa tem um a causa -
pois, então, o próprio Deus teria um a causa - porém, ao invés disto, que cada
coisa iniciada, ou em outras palavras, que cada evento ou mudança tem uma
causa.
Hume, Phil. Works 2.411 sg., declara, com razão, que nós nunca vimos um
mundo feito. Muitos filósofos em terras cristãs, como Martineau, Essays, 1.206
e as opiniões prevalecentes dos tempos pré-cristãos sustentam que a maté
ria é eterna. Bowne, Metaphysics, 107 - “Para o próprio ser, a razão reflexiva
nunca exige uma causa, a menos que o ser mostre sinais de dependência.
A mudança é que primeiro ocasiona a demanda de uma causa”. Martineau,
Types, 1.291 - “Não é a existência como tal que exige uma causa, mas o
surgimento daquilo que não existia anteriormente. A lei intelectual da causa
lidade é a lei dos fenômenos não da entidade”.
b) Aceitando que o universo, no que se refere aos seus fenômenos, teve
uma causa, é impossível m ostrar que se requer qualquer outra além da que
existe em si mesma, como supõem os panteístas.
Flint, Theism, 6 5 - 0 argumento cosmológico por si só prova a força; e
esta sozinha não é Deus. “A inteligência deve caminhar com ela para fazer
com que o Ser possa chamar-se Deus”. D iman, Theistic Argument “O argu
mento cosmológico sozinho não pode decidir se a força que causa a mudança
1 2 2 Augustus Hopkins Strong
é a mente perene auto-existente, ou a perene matéria auto-existente”. Só a
inteligência fornece base para uma resposta. No universo apenas a mente
nos capacita a inferir a mente do criador. Porém o argumento a partir da inte
ligência não é o Cosmológico, mas o Teológico e a este pertencem todas as
provas da divindade a partir da ordem e combinação na natureza.
U pton, Hibbert Lectures, 201-296 - A ciência tem que ver com as mudan
ças que uma porção do universo visível causa em outra porção. A filosofia e a
teologia tratam da Causa Infinita que faz existir e sustenta toda a série de
causas finitas. Acaso perguntamos nós a causa das estrelas? A ciência diz:
A nebulosa ígnea, ou um retrocesso infinito de causas. A teologia diz: Admite-
se; mas este retrocesso infinito demanda, para sua explicação, a crença em
Deus. Devemos tanto crer em Deus como numa infinda série de causas fini
tas. Deus é a causa de todas as causas, a alma de todas as almas: “Centro e
alma de cada esfera, Contudo,quão perto de cada coração que ama”! Não
necessitamos somente da ciência para pensar em qualquer começo.
c) Admitindo que o universo deva ter tido um a causa exterior a si, é impos
sível m ostrar que tal causa não foi causada, i.e. consiste em um a série infinita
de causas dependentes. O princípio da causalidade não requer que todas as
coisas começadas remontem a um a causa não causada; dem anda que atribua
mos um a causa, mas não um a causa primeira.
O m esm o ocorre com toda a série de causas. O m ateria lis ta se sente na
obrigação de encontrar um a causa para esta série, tão logo ela tem início.
Porém a própria h ipótese de um a série in fin ita de causas exclu i a idéia de tal
início. Um a cadeia in fin ita não tem nenhum elo extrem o ( versus Robert Hall);
uma sucessão sem causa e eterna não necessita de causa ( versus C larke e
Locke). J ulius M üller, Doctrin of Sin, 2.128, diz que o retrocesso até chegar
mos a um a causa que não é em si m esm a um efe ito não pode satisfazer o
princípio causai - aquele que é a causa sur, Aids to Study of German Theology,
15-17 - A inda que o universo seja eterno, a sua natureza contingente e re la
tiva requer que postu lem os um C riador eterno. D iman, Theistic Argument, 86 -
“C onquanto a lei de causa não conduz log icam ente à conclusão de um a cau
sa prim eira, com pele-nos a a firm á-la ” . Retrucam os que não é a lei da causa
que nos com pele a afirm á-la, porque esta, certam ente “não nos leva, pela
lógica, à conclusão” . Se in ferim os um a causa não causada, fazem o-lo , não
por processo lógico, m as em v irtude da crença in tu itiva que há em nós. Assim
pensam S ecrétan e W hewell, em Indications of a Creator, e em Hist. ofScien-
tific Ideas, 2.321,322 - “A m ente se refug ia na suposição de um a C ausa Pri
m eira a pa rtir de um em prego inconsis tente com a sua própria natureza” ;
in ferim os necessariam ente um a C ausa P rim eira em bora as ciências paleon-
to lóg icas apenas apontam -na, m as não nos conduzem a e la ” .
d) Admitindo que a causa do universo não foi em si mesma causada, é
im possível m ostrar que esta causa não seja finita, como o próprio universo.
O princípio causai requer um a causa não m aior que a suficiente para o efeito.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 2 3
Por isso, não podem os in fe rir um a causa in fin ita a não ser que o universo
seja in fin ito e isto im p lica em adm itir um in fin ito para provar um infinito. Porém
nenhum núm ero pode ser in fin ito porque qua lque r núm ero, em bora grande,
pode receber o acréscim o de um a unidade, o que m ostra que anteriorm ente
não era infinito. M esm o aqui nós vem os que as form as mais aceitas do A rgu
mento Cosm ológico são obrigadas a ava lia r-se sobre a intu ição do infinito
a fim de sup lem entar o processo lógico. Versus M artineau, Study, 1.418 -
“Em bora não possam os in fe rir d ire tam ente a in fin itude de Deus a partir de
uma criação lim itada, ind ire tam ente podem os exclu ir qua lquer outra posição
recorrendo à ilim itada cena da exis tência (espaço)” . Isto, porém , garantiria
igua lm ente a nossa crença na in fin itude dos nossos sem elhantes. Ou se trata
do argum ento de C larke e G illespie (ver abaixo o A rgum ento O ntológico).
Schiller, Die Gròsse Welt, parece de fender a ex is tência do un iverso ilim itado.
Ele mostra um espírito causado, buscando o limite da criação. Um segundo
peregrino encara-o a partir dos espaços além, com as seguintes palavras:
Steh! du segelst umsohnst, - vor dir Unendichkeit” - “Eia! em vão tu vagueias;
diante de ti, só o infinito”.
2. O valor do Argumento Cosmológico, é, pois, tão somente este; prova a
existência de um a causa do universo indefinidam ente grande. Quando vamos
além disto e inquirimos se esta é um a causa do ser, ou simplesmente uma
causa da m udança do universo; se é um a causa independente do universo ou é
um a com ele; se é um a causa eterna ou um a causa dependente de outra; se é
inteligente ou não, infinita ou finita, una ou múltipla, este argumento não nos
pode garantir.
II. ARGUMENTO TELEOLÓGICO
Este não é um argumento do desígnio para o designador; pois que o desíg
nio im plica um designador é um a proposição idêntica. Pode-se estabelecer
mais corretam ente o seguinte: A ordem e a colocação útil, permeando um
sistema im plicam respectivam ente inteligência e propósito como a causa de
tal ordem e colocação. Porque a ordem e a colocação útil permeiam o universo
deve existir um a inteligência adequada à produção dessa ordem e um a vonta
de adequada a dirigir a colocação para fins úteis.
Etimologicamente, “argumento teleológico” = argumento destinado aos fins,
ou causas finais, isto é, “causas que, começando com um pensamento, ela-
boram-se em um fato como um fim, ou um resultado (Porter, Human Intelect,
592-618); a saúde, p.ex., é a causa fina! do exercício, enquanto este é a
causa daquela. Esta definição do argumento se ampliaria o bastante para
abranger a prova de uma inteligência oriunda da constituição do homem. Este,
contudo, é tratado como parte do Argumento Antropológico, que ihe sucede,
1 2 4 Augustus Hopkins Strong
e o Argumento Teleológico abrange apenas a prova de uma inteligência
determinante provinda da natureza. Por isso, Kant, Crítica da Razão Pura,
chama-o de argumento físico-teológico.
H icks, Critique of Design-Arguments, 347-389, apresenta dois argumen
tos em vez de um: 1) o da ordem para a inteligência ao qual ele chama de
Eutaxiológico; 2) o argumento da adaptação para o propósito a que ele res
tringe o nome Teleológico. Ele sustenta que a verdadeira teleologia não pode
provar a inteligência porque, quando fala nos “fins”, afinal de contas, deve
admitir a própria inteligência que ele procura provar; já se estabeleceu ante
riormente que ela apenas prova o exercício intencional de uma inteligência.
“As circunstâncias, forças, ou agentes que convergem para um resultado
racional definido implicam volição - implicam que se pretende este resultado
- a volição e o fim. Esta é a premissa maior da nova teleologia”. Ele faz obje
ção à expressão “causa final”. Na verdade, o fim não é a causa - é um motivo.
O elemento caraterístico da causa é o poder de produzir um efeito. Os fins
não têm tal poder. A vontade pode escolhê-los, ou rejeitá-los. Admitida a inte
ligência, os fins não podem prová-la.
Concordamos com isto no ponto principal e consideramos um valioso
auxílio para o estabelecimento e compreensão do argumento. Na própria
observação da ordem, contudo, assim como no argumento a partir dela
somos obrigados a admitir a mesma inteligência que estabelece a disposição
total. Em vista disso, não vemos nenhuma objeção em fazer da Eutaxiologia a
primeira parte do Argumento Teleológico como fizemos acima.
1. Mais explicações
a) A premissa m aior expressa um a convicção primitiva. Isto não é invali
dado pelas objeções: a) de que a ordem e a colocação útil podem existir sem
propósito - pois a nossa própria constituição mental nos compele a negar isto
em todos os casos onde a ordem e a colocação perm eiam um sistema; b) de
que a ordem e a colocação útil podem resultar da simples operação de forças e
leis físicas - pois estas mesmas forças e leis implicam, ao invés de excluir,
um a inteligência e vontade originadoras e superintendentes.
J anet, Final Causes, 8, nega que a finalidade seja uma convicção primiti
va como a causalidade e chama-a resultado de uma indução. Por isso ele
prossegue a partir 1) das marcas da ordem e colocação útil 2) para a finalida
de na natureza e, a seguir, 3) para uma causa inteligente da referida finalida
de, ou pré-conformidade com o evento futuro”. Do mesmo modo também,
D iman, Theistic Argument, 105, reivindica simplesmente que, como a mudan
ça requer uma causa, assim a mudança ordenada requer uma causa inteli
gente. Contudo, já mostramos que a indução e o argumento de cada gênero
pressupõem uma crença intuitivana causa final. A natureza não a dá; mas
ela também não nos dá a causa eficiente. A mente nos dá ambas e as dá de
forma tão clara baseada na experiência como depois de um milheiro. Ladd:
“As coisas têm uma mente em si: também nós não podemos lembrá-las”.
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 2 5
O Duque de A rgyll disse a Darwin que lhe parecia totalmente impossível atri
buir os ajustes da natureza a qualquer outro agente que não seja a mente.
“Bem”, disse Darwin, “esta impressão freqüentemente tem-me assediado com
uma força intensa. Mas, então, outras vezes, ela me parece tudo e a seguir
ele passou as mãos sobre os olhos, como que indicando uma visão alheia à
vista. O Darwinismo não é uma refutação dos fins da natureza, mas apenas
uma teoria particular relativa ao meio em que os fins se realizam no mundo
orgânico. Darwin começaria com um germe infinitesimal e faria todo o subse
qüente desenvolvimento não teológico.
a) M omerie, Christianity and Evolution, 72 - “Só dentro dos estreitos limi
tes é que se produzem, casualmente, os arranjos aparentemente propositais.
E, por isso, à medida que os sinais do propósito se desenvolvem, a suposição
da sua origem acidental diminui”. Elder, Ideas from Nature, 81,82 - “A uni
formidade dos mármores de um menino mostra que eles são produ
to do desígnio. Quando se trata de um único pode ser acidental, mas uma
dúzia não. Do mesmo modo a uniformidade atômica indica a manufatura”.
Dr . Carpenter: “O ateísta é como um homem que examina o mecanismo de
um grande moinho e, achando que todo ele é movido por um eixo que se
origina de uma parede de tijolos, infere que o eixo é a explicação suficiente
para o que ele vê e que não há nenhuma força motora atrás de si”. Lord
Kelvin: “A idéia ateísta não é disparatada”. J. G. Paton, Life, 2.191 - “A perfu
ração de um poço na ilha de Aniwa convence o chefe canibal Namakei de que
Yahweh Deus, o Invisível, existe.
b) Bowne, Review of Herbert Spencer, 231-247 - “A lei não é uma causa;
é um método. O homem não pode apresentar o próprio fato a ser explicado
como razão suficiente”. M artineau, Essays, 1 .144 - “Damasco padronizado,
não feito pelo tecelão, mas pelo tear”? Dr. Stevenson: “A casa não requer
nenhum arquiteto porque é construída por especialistas em pedras e por car
pinteiros”? J oseph C ook: “A lei natural sem Deus não é mais do que uma luva
sem mão e tudo que se faz com a mão de Deus calçada na natureza, não é a
luva que faz, mas a mão. A evolução não é uma força; é um processo; não é
uma operatória, mas um método de operação. Um livro não é escrito pelas
leis de soletração e da gramática mas de acordo com tais leis. Do mesmo
modo, as leis do calor, da eletricidade, da gravitação, da evolução não escre
vem o livro do universo, mas este é escrito de conformidade com tais leis”.
G. F. W right, Ant. and Orig. of Hum. Race, lecture IX - “A evolução não pode
fornecer evidência que afaste da natureza o desígnio. Ela pode retrocedê-lo
a um ponto mais remoto da entrada, aumentando a nossa admiração na
força do Criador no cumprimento dos desígnios ulteriores por processos dife
rentes”.
A evolução é o método de Deus. Ela se refere ao como, não ao por quê,
dos fenômenos e, por isso, não é inconsistente com o desígnio, porém é a
sua nova e mais elevada ilustração. Henry W ard B eecher: “N o atacado, o
desígnio é maior do que no varejo”. Francês Power Cobbe: “É singular o fato
de que, sempre que achamos como se faz uma coisa, nossa primeira conclu
são parece indicar que não foi Deus quem a fez”. Porque iríamos dizer: “Quanto
maior é a lei menor é Deus”? O teísta faz referência aos fenômenos como
uma causa que se conhece por si mesma e sabe-se o que ela está fazendo;
1 2 6 Augustus Hopkins Strong
o ateísta faz referência a eles como uma força de que nada se conhece e não
se sabe o que ela está fazendo (B o w n e ). G e o r g e J o hn R o m an es dizia que, se
Deus fosse imanente, todas as causas naturais deveriam parecer mecânicas
e não há argumento nenhum contra a origem divina que prove que se devem
a causa natural: “As causas na natureza não tornam óbvia a necessidade de
uma causa nela”. S h a le r , Interpretation of Nature, 47 - A evolução mostra
que a direção dos negócios está sob o controle de algo como a nossa inte
ligência: “A evolução soletra o propósito”. C l a r k e , Christ. Theology, 105 -
“A moderna doutrina da evolução tem despertado a existência de inúmeros
fins dentro do universo, mas não o grande fim em favor do próprio universo”.
H u x le y , Criquitiques and Addresses, 274,275,307 - “Os pontos de vista teleo-
lógico e mecânico do universo não são mutuamente excludentes”. S ir W illiam
H a m ilto n , Metaphysics: “A inteligência se põe em primeiro lugar na ordem da
existência. As causas finais precedem as causas eficientes”.
b) A prem issa m enor expressa um princípio operante de toda a ciência, a
saber, que todas as coisas têm o seu uso, que a ordem perm eia o universo e que
os métodos da natureza são racionais. Evidências disto aparecem na correla
ção dos elementos químicos uns com os outros; na adequação do mundo ina
nimado que é a base e suporte da vida; nas formas típicas e na unidade do
plano que aparece na criação orgânica; na existência e cooperação das leis
naturais; na ordem cósm ica e compensações.
Esta premissa m enor não é invalidada pelas seguintes objeções: d) Que
freqüentem ente entendemos mal o fim na verdade submetido pelos eventos
naturais e objetos; pois o princípio não é que conhecem os necessariamente o
verdadeiro fim, mas que necessariamente cremos que há um certo fim em
cada caso da ordem e colocação sistemáticas, b) Que a ordem do universo é
m anifestamente imperfeita; pois, se isto fosse aceito, argumentaríamos, não a
ausência da invenção, um certo tipo de razão da imperfeição, ou nas limita
ções da própria inteligência inventora, ou na natureza do fim que se procura
(como, por exemplo, a correspondência com o estado moral e provação dos
pecadores).
As evidências de ordem e colocação útil encontram-se tanto na indefini
damente pequena como na indefinidamente grande. As moléculas são arti
gos manufaturados; e as compensações do sistema solar que guarnecem
aquele achatamento da órbita terrestre resultarão num arredondamento des
sa mesma órbita, como mostra uma inteligência bem mais transcendente que
a nossa; i/e rC o o K E , Religion and Chemistry, and Credentials of Sciense, 23 -
“O belo é a harmonia das relações que a perfeita adequação produz; a lei é o
princípio prevalecente que sustenta essa harmonia. Por isso, tanto o belo
como a lei implicam desígnio. A partir da energia, da adequação do belo, da
ordem, do sacrifício, demonstramos o poder, a habilidade, a perfeição, a lei, e
o amor numa Inteligência Suprema. O cristianismo implica desígnio e é a
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 2 7
complementação do seu argumento”. P fle id er e r , Philos. Religion, 1 .16 8 - “Uma
boa definição do belo é a intencionalidade imanente, o cenário teieoiógico da
realidade ideal, o brilho da Idéia através dos fenômenos”.
B o w n e , Philos. of Theism, 85 - “O desígnio nunca é casual. Ele é apenas
ideal e a sua realização demanda uma causa eficiente. Se o gelo não deve
afundar existe alguma estrutura molecular que faça o seu volume maior que o
de um peso igual ao da água”. J a c k s o n , Theodore Parker, 355 - “Os órgãos
rudimentares são como as letras mudas em muitas palavras: ambos teste
munham uma história passada; e há uma inteligência na sua preservação”.
Diman, Theistic Argument: “Observamos não somente a mudança no mundo,
que é a base do Argumento Cosmológico, mas percebemos que tal mudança
age de acordo com uma regra fixa e invariável; na natureza inorgânica, na
ordem geral, ou na regularidade; na ordem orgânica, especial ou na adapta
ção". B o w n e , Review of H. Spencer, 113-115, 224-230: “A ciência indutiva se
apoia no postulado de que o racional e onatural são um”. K a n t : “O anatomista
deve admitir que nada no homem existe em vão”.
a) É fruto do desígnio que os rios sempre cortam grandes cidades? que as
cidades são sempre fundadas em centros de jogatina? As plantas são fei
tas em benefício do homem e o homem em benefício dos vermes? V o lta ir e :
“Os narizes são feitos para os óculos - vamos usá-los”! Pope: “Enquanto o
homem exclama ‘tudo existe para o meu uso’, retruca o venturoso néscio: ‘em
meu benefício’”. Não se colhem as cerejas no frio do inverno quando não têm
bom sabor e as uvas no calor do verão quando o vinho novo se transforma
em vinagre? A natureza divide os melões em seções por conveniência ao
serem saboreados pela família? A corticeira é feita para arrolhar as garrafas?
A criança a quem se perguntou por que existe sal no oceano, respondeu que
isto se deve à existência do bacalhau, confundindo a causa final com a causa
eficiente. O professor pergunta: “Que são marsupiais”? O aluno responde:
“São animais que têm bolsas”. “Para quê?”, pergunta o professor. Resposta
do aluno: “Para esconder-se dentro dela quando perseguidos”. Por que
os dias são mais longos no verão do que no inverno? Porque esta é a pro
priedade de todos objetos naturais: alongarem-se sob a influência do calor.
Um professor da cidade de Hiena ensinava que os médicos não existem por
causa da doença, mas as doenças é que existem para que possa haver médi
cos. K epler era um quixotesco astrônomo. Discutia as reivindicações de onze
diferentes donzelas de se tornarem a sua segunda esposa e comparava os
planetas a animais correndo pelo céu. Muitas das objeções ao desígnio sur
gem da confusão de uma parte da criação com o todo ou uma estrutura no
processo de desenvolvimento com uma estrutura completa.
b) A lph o n s e de C a s t ile ofendeu-se com o sistema ptolomaico e insinuou
que, se ele tivesse sido consultado na criação, teria sugerido progressos mais
valiosos. L a n g e , em sua History of Materialism, ilustra alguns dos métodos da
natureza com milhões de barris de armas atirando em todas direções para
matar apenas uma lebre; comprando dez mil chaves ao acaso para entrar
num compartimento fechado; edificando uma cidade para obter uma casa.
Não é um exagero o gelo que cobre os pólos? O ataque à natureza de J ohn
S t u a r t M ill em sua obra póstuma, Essays on Religion, 29 - “A natureza fere
o homem, quebra-o como se sobre uma roda o lançasse para ser devorado
1 2 8 Augustus Hopkins Strong
pelos animais selvagens, esmaga-o com pedras como o primeiro mártir cris
tão, mata-o de fome, congela-o com o frio, envenena-o com a rápida ou lenta
peçonha das suas exalações e centenas de outras terríveis mortes, tais como
a engenhosa crueldade jamais ultrapassada por N áb is ou por D o m ic ia n o ” .
A doutrina da evolução responde muitas destas objeções, mostrando que
a ordem e a colocação útil no sistema como um todo é necessária e adquirida
ao baixo preço pela imperfeição e sofrimento nos estágios iniciais de desenvol
vimento. Impõe-se a pergunta: O sistema como um todo implica um desígnio?
Minha opinião é que não há nenhum valor quanto a utilidade de uma compli
cada máquina para cujo propósito eu ignoro. Se eu me posto no começo de
uma estrada e não sei aonde ela me conduz, presumo que ela assinale um
destino mais direto. B o w n e , Philos. of Theism, 20-22 - “Para contrabalançar
as impressões que a aparente desordem e a imoralidade operam em nós,
temos de admitir que o universo, em sua raiz, não é apenas racional e bom.
Isto é fé, mas um ato do qual depende toda a vida moral”. Metaphysics, 165 -
“O mesmo argumento que nega a mente na natureza nega a mente no homem”.
F is h e r , Nat. And Meth. of Re v., 2 6 4 - “Há cinqüenta anos, quando o guindaste
tocou o topo da torre da Catedral de Colônia, ainda por terminar, não havia
evidência nenhuma do desígnio da estrutura toda”? Embora aceitemos que,
enquanto não podemos com J ohn S t u a r t M ill explicar as imperfeições do
universo por quaisquer limitações da Inteligência que a planejou, não nos
dispomos a considerá-las como se pretendessem corresponder ao estado
moral e provação dos pecadores que Deus previu e proveu para a criação.
2. Defeitos do Argumento Teleológico
Estes se ligam não às premissas, mas à conclusão que se busca tirar delas.
d) O argumento não pode provar um Deus pessoal. A ordem e colocações
úteis do universo só podem ser os mutantes fenômenos de um a inteligência e
vontade pessoais, como supõe o panteísmo. A finalidade só pode ser a ima-
nente.
Existe uma coisa que se chama finalidade imanente e inconsciente. O espí
rito nacional, sem o propósito estabelecido, constrói a língua. A abelha traba
lha inconscientemente para os seus fins. Estráton de Lâmpsaco considerava
o mundo como um grande animal. Neander: “A obra divina parte de dentro
para fora”. J ohn F is k e : “O argumento do relógio tem sido superado pelo da
flor”. Iv e r a c h , Theism, 91 - “O efeito da evolução tem sido somente o de trans
ferir a causa da mera influência externa operando de fora para um princípio
racional imanente”. M a r t in e a u , Study, 1.349,350 - “De modo nenhum o teís-
mo comprometeu a doutrina de um Deus exterior ao mundo ... nem a inteli
gência requer, para alcançar seu objetivo, que se exteriorize”.
N ew man S m y t h , Place of Death, 62-80 - “O universo existe em alguma
Inteligência toda permeável. Suponha que você possa ver um pequeno mon
te de tijolos, fragmentos de metal, e pedaços de argamassa, formando-se
gradualmente nas paredes e estrutura interna do edifício, acrescentando-se
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 2 9
o material necessário à medida que a obra avança e, por fim, apresentando
em seu acabamento uma fábrica mobiliada com máquinas variadas e bem
trabalhadas. Ou uma locomotiva contendo um processo de auto-reparo para
compensar o desgaste, aumentando o seu tamanho, soltando de si, com rela
tiva freqüência, pedaços de latão ou de ferro dotados de capacidade de
desenvolver-se passo a passo em outras locomotivas capazes de correr e
reproduzir-se, por sua vez, em novas locomotivas”. Do mesmo modo, a natu
reza, em suas partes separadas, pode parecer mecânica, mas no seu todo
ela é racional. Weismann não “nega a força diretiva”; tal força é “a retaguarda
do mecanismo como sua causa final ... que deve ser teleológica”.
Por serem impressionantes estas evidências da inteligência no universo
como um todo e em número aumentado à luz da evolução, devemos ainda
sustentar que a natureza por si só não pode provar que esta inteligência
é pessoal. Hopkins, Miscellanies, 18-36 - “Até onde existe essa inteligência
impessoal e adaptável na criação irracional, não podemos necessariamente
inferir a partir de leis imutáveis um Deus livre e impessoal”. Ver F is h e r , Super-
natural Origin of Christianity, 576-578. Kant mostra que o argumento não pro
va a inteligência independentemente da palavra (Critique, 370). Devemos tra
zer a mente ao mundo, se quisermos achá-la nele. Deixe o homem ausente e
a natureza não poderá ser apropriadamente interpretada: a inteligência e a
vontade na natureza podem ainda estar inconscientes. Porém, no caso do
homem, somos obrigados a ter a idéia da inteligência e da vontade na nature
za a partir do mais elevado tipo de inteligência que conhecemos, isto é, a
dele. “Nullus in microcosmo spiritus, nullus in macrocosmo Deus” “Recebe
mos apenas o que damos e, na nossa vida, só vive a Natureza”.
Por isso, o Argumento Teleológico necessita de ser suplementado pelo
Antropológico, isto é, da constituição mental e moral do homem. Por si só, ele
não prova a existência de um Criador. Porque a justiça pertence só à pessoa-
lidade, este argumento não pode provar a justiça de Deus. F l in t , Theism, 6 6
- “A força e a inteligência, por si só, não se constituem Deus, embora sejam
infinitas. Um ser pode possuí-las e, se não houver justiça, pode tratar-se de
um diabo”.Vemos aqui novamente a necessidade da sua suplementação pelo
Argumento Antropológico.
b) M esmo que este argumento pudesse provar a pessoalidade na inteligên
cia e na vontade que originou a ordem do universo, não poderia provar ou a
unidade, ou a eternidade, ou a infinitude de Deus; a unidade - pois as coloca
ções úteis do universo poderiam ser o resultado da unicidade do conselho, ao
invés de a unicidade da essência, na inteligência inventiva; a eternidade - pois
um demiurgo criado talvez pudesse ter designado o universo; nem a infinitude
- porque todas as marcas da ordem e colocação dentro da nossa observação
simplesmente são finitas.
D iman, Theistic Argument, 114 afirm a que todos os fenôm enos do universo
se devem à m esm a fon te - v isto que todos, de igual modo, estão suje itos ao
m esm o m étodo de seqüência, p.ex. gravitação - e que a evidência nos aponta
1 3 0 Augustus H opkins Strong
irresistivelmente para alguma causa explicativa. Podemos considerar esta
afirmação somente como um pronunciamento de uma crença primitiva numa
causa primeira, não como a conclusão de uma demonstração lógica por
que conhecemos uma parte infinitesimal do universo. Do ponto de vista de
uma Razão Absoluta, contudo, podemos cordialmente assentir com as pala
vras de F. P. P a t t o n : “Quando consideramos a ‘correnteza da tendência’,
o ‘incognoscível de S p e n c e r ’ , o ‘mundo da vontade’ de S c h o p e n h a u e r e a ela
borada defesa da finalidade como o produto da inteligência inconsciente de
H a r t m a n n , podemos perguntar se os teístas com a sua crença em um Deus
pessoal não estão de posse da única hipótese que pode salvar a linguagem
destes escritores da acusação de ausência de sentido e de delírio idiota”
(Journ. Christ. Philos, abr. 1883,283-307).
O mundo antigo, que tinha apenas a luz da natureza, cria em muitos deu
ses. W illiam J a m e s , Will to Believe, 44 - “Se houver um divino Espírito do
universo, a natureza, tal como a conhecemos, possivelmente não é a última
palavra para o homem. Ou não há um espírito revelado na natureza, ou ele se
revela inadequadamente nela; e (como tem admitido as mais elevadas religi
ões) o que chamamos de natureza visível, ou este mundo, deve ser apenas
um véu e uma aparência superficial cujo significado pleno reside num ele
mento suplementar invisível, um outro mundo”. B o w n e , Theory of Thougth
and Knowledge, 234 - “Mas a inteligência não é em si mesma um mistério
dos mistérios? ... Sem dúvida, o intelecto é um grande mistério. ... Porém há
uma escolha neles. Alguns mistérios deixam outras coisas claras, e alguns
deixam as deixam tão obscuras e impenetráveis como sempre. Naquele caso
encontra-se o mistério da inteligência. Isto torna possível a compreensão de
todas as coisas exceto ela mesma”.
3. O valor do Argumento Teleológico é sim plesmente este: prova a partir
de suas colocações úteis e exemplos de ordem que claramente tivemos um
começo, ou, em outras palavras, a partir da harm onia do universo, que existe
um a inteligência e um a vontade adequadas ao seu plano. Mas este argumento
não pode garantir-nos se esta inteligência e esta vontade são pessoais ou
impessoais, se o criador ou m oldador é um ou são muitos, se é finito ou infini
to, se eterno ou deve seu ser a outro, se necessário ou livre.
Contudo, nisto damos um passo a frente. O poder causativo que provamos
através do Argumento Cosmológico transform ou-se num a força inteligente e
voluntária.
J ohn S t u a r t M il l , Three Essays on Theism, 168-170 - “No presente esta
do do nosso conhecimento, as adaptações da natureza fornecem um grande
balanço da probabilidade em favor da causa através da inteligência”. Ladd
sustenta que, sempre que um ser age sobre o seu semelhante, cada um sofre
mudanças de estado que pertencem à sua própria natureza sob certas cir
cunstâncias. A ação de um corpo sobre o outro nunca consiste em transferir o
estado de um para o outro. Por isso não há mais dificuldade nos seres que
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 131
são díspares agirem sobre um outro do que em seres semelhantes. Não trans
ferimos idéias para outras mentes, - apenas despertamo-las para que desen
volvam as suas próprias. Do mesmo modo a força não é positivamente trans-
ferível. B o w n e , Philos. of Theism, 49, começa com “a concepção das coisas
que interagem segundo a lei e formam um sistema inteligível. Não se pode
construir tal sistema através do pensamento sem que se suponha que um ser
unitário é a realidade fundamental do sistema. 53 - Nenhuma passagem de
influências ou forças terá valor para cobrir a lacuna, quando as coisas são
consideradas independentes. 5 6 - 0 próprio sistema não pode explicar esta
interação porque o sistema é formado apenas dos seus membros. Neles deve
haver algum ser que é a realidade deles e de que em certo sentido são fases
e manifestações. A saber, há um monismo fundamental”. Substancialmente
este é o ponto de vista de L o t z e . F a l c k e n b e r g , Geschichte der neueren Philo-
sophie, 454, mostra como o ponto de vista de L o tze de que a sua suposição
da unidade monística e continuidade não explicam como a mudança de con
dição, como a equiparação e compensação seguem a mudança de estado de
qualquer coisa. L o tz e explica esta realidade através da concepção ética de
uma Pessoa de total extensão.
m . ARGUMENTO ANTROPOLÓGICO
Este é um argumento da condição m oral e m ental do homem para com a
existência de um Autor, Legislador e um Fim. As vezes é chamado de Argu
mento Moral.
O título comum “Argumento Moral” é demasiadamente limitado, porque
parece levar em conta apenas a consciência do homem, enquanto o argu
mento que este título tão imperfeitamente designa, na verdade, procede da
natureza intelectual do homem do mesmo modo que a moral. Ao escolher a
designação que adotamos, desejamos, contudo, resgatar do simples termo
médico “Antropologia” - um termo a que ele atribuiu uma significação muito
limitada e que, ao empregá-lo, implica que o homem é somente um animal,
para o qual a Antropologia é apenas o estudo de Ia bête humaine. A Antropo
logia não é somente a ciência da natureza física do homem, sua origem, e
relacionamentos, mas também a que trata do seu mais elevado ser espiritual.
Por isso, em Teologia, o termo Antropologia designa a divisão da matéria que
trata da natureza espiritual e seus dotes, seu estado original e subseqüente
apostasia. Por isso, como argumento a partir da natureza mental e moral do
homem, podemos, com perfeita propriedade, chamar o presente argumento
de Antropológico.
É um argumento complexo e pode dividir-se em três partes.
1. A natureza intelectual e moral do homem deve ter tido como seu autor um
Ser intelectual e moral. Os elementos da prova são os seguintes: a) O homem,
como ser intelectual e moral, teve um com eço no planeta, b) As forças mate
1 3 2 Augustus Hopkins Strong
riais e inconscientes não fornecem causa suficiente para a consciência, razão
e vontade livre do homem, c) O homem, como um efeito, pode referir-se a
um a causa possuidora de natureza autoconsciente e moral, em outras pala
vras, pessoalidade.
Este argumento é parte de uma aplicação dos princípios tanto do Argu
mento Cosmológico como do Teleológico ao homem. F lin t , Theism, 74 - “Embo
ra a causalidade não envolva o desígnio, nem o desígnio a bondade, contudo
este envolve a causalidade, e a bondade envolve tanto a causalidade como o
desígnio”. J a c o b i: “A natureza oculta Deus; o homem o revela”.
O homem é um efeito. A História das eras geológicas prova que o homem
nem sempre existiu e, mesmo que as criaturas inferiores fossem seus proge-
nitores, seu intelecto e liberdade não são eternos a parte ante. Consideramos
o homem não como um ser físico, mas espiritual. T h o m p s o n , Christian Theism,
75 - “Toda a verdadeira causa deve ser suficiente para explicar o efeito”.
L o c k e , Essays, book 4, cap. 10 - “Ainteligência que cogita não pode ser
produzida a partir da que não o faz”.
Ainda que o homem tivesse sempre existido, não precisaríamos abando
nar o argumento. Deveríamos partir, não do começo da existência, mas do
começo dos fenômenos. Eu poderia ver Deus no mundo, do mesmo modo
que vejo o pensamento, a vontade, no meu companheiro. F u lle r t o n , Plain
Argument for God: Eu não infiro a respeito de você, como a causa da existên
cia do seu corpo: Reconheço que você está presente e operante através do
seu corpo. As mudanças que ele apresenta no gesto e na fala revelam uma
pessoalidade através deles. Deste modo não preciso argumentar sobre um
Ser que outrora causou a natureza e a história; reconheço um Ser presente,
exercendo sabedoria e poder, através de sinais tais que revelam pessoalida
de no homem. A natureza é por si mesma o Relojoeiro manifestando-se no
próprio processo da feitura do relógio. Este é o sentido do nobre Epílogo à
Dramatis Personae de R o b e r t B r o w n in g , 252 - “Aquele rosto, longe de des
vanecer-se, desenvolve-se, Ou decompõe-se, mas recompõe-se, Torna-se o
meu universo que sente e conhece”. “Esse é o Rosto de Cristo; é assim que
eu o sinto”. A natureza é expressão da mente e da vontade de Cristo, do
mesmo modo que o meu rosto o é da minha mente e da minha vonta
de. Porém em ambos os casos, formando a retaguarda e cobrindo o rosto,
acha-se uma pessoalidade da qual este é apenas a expressão parcial e tem
porária.
B o w n e , Philos. Theism, 1 0 4 ,10 7 - “Os meus companheiros agem como se
tivessem pensamento, sentimento e vontade. Assim a natureza olha como
se o pensamento, o sentimento e a vontade servissem de sua retaguarda.
Se negarmos a mente na natureza, devemos negá-la no homem. Contudo, se
não existir uma mente controladora na natureza, também não pode existir no
homem porque, se o poder básico é cego e necessário, então tudo depende
também do que é necessitado”. L e C o n t e , em Royce’s Conception of God, 44
- “Só existe um lugar no mundo onde podemos adquirir os fenômenos físicos,
sob o véu da matéria, a saber, o nosso cérebro e nele encontramos o eu, a
pessoa. Não será razoável que, se pudermos adquiri-lo sob o véu da natureza,
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 3 3
do mesmo modo achemos uma Pessoa? Porém a admitir-se isto, podemos
deduzir uma Pessoa infinita e, portanto, a única Pessoalidade completa que
existe. A pessoalidade perfeita não é apenas a consciência própria, mas a
existência própria. Elas são apenas imagens imperfeitas, como se fossem
fragmentos separados da Pessoalidade infinita de Deus”.
Personalidade = consciência própria + determinação própria com vista a
fins morais. O bruto tem inteligência e vontade, mas nem tem percepção pró
pria, nem consciência, nem vontade livre. D im a n , Theistic Argument, 91,251 -
“Suponha que ‘as intuições da faculdade moral sejam resultados da expe
riência recebida da raça lentamente organizados’; ainda, tendo achado que o
universo oferece evidência de uma causa supremamente inteligente, pode
mos crer que a natureza moral do homem oferece a mais elevada ilustração
do seu modo de operar”; 358 - “Explicaremos as formas inferiores da vontade
pelas mais elevadas, ou as mais elevadas pelas inferiores”?
2. A natureza m oral do hom em prova a existência de um Legislador e juiz
santo. Os elem entos da prova são: d) A consciência reconhece a existência de
um a lei m oral que tem autoridade suprema, b) Os sentimentos de abandono do
mal e temores do julgamento são conseqüências das conhecidas violações desta
lei moral, c) Porque esta lei moral não é auto-im posta e porque as ameaças de
julgam ento não são auto-executadas defendem respectivam ente a existência
de um a vontade santa que impôs a lei e do poder punitivo que executará as
ameaças da natureza moral.
Ver, do B isp o B u t le r , Sermons on Human Nature, in Works, Bohn’s ed,
385-414. A grande descoberta de Butler é a da consciência na constituição
moral do homem: “Se ela tivesse a mesma força que a justiça, se tivesse o
mesmo poder com que manifesta a autoridade, governaria o mundo de um
modo absoluto”. Consciência = justiça moral da alma - sem lei, sem policia
mento, mas com juiz; ver abaixo Antrologia. D im a n , Theistic Argument, 251 -
“A consciência não depõe uma lei; adverte-nos da sua existência; e não só da
lei, mas do propósito - não nosso, mas dos outros, missão a ser realizada”.
Ver M u r p h y , Scientific Bases of Faith, 218, seg. Isto prova a pessoalidade do
Legislador porque os seus pronunciamentos não são abstratos, como os da
razão, mas encontram-se na natureza do mandamento; eles não estão no
modo indicativo, mas no imperativo; o mandamento diz: “farás”, ou “não farás”.
Isto convence a vontade.
H u t t o n , Essays, 1.11 - “A consciência é um Moisés ideal, e os trovões de
um Sinai invisível”; o ateu não considera a consciência como clarabóia, aber
ta para penetrar na natureza humana uma infinita aurora vinda do alto, mas
como um arco polido ou domo, completando e refletindo todo o edifício
embaixo”. Porém a consciência não pode ser um simples reflexo e expressão
da natureza, pois ela reprime e condena-a. T u llo c k , Theism: “Como a agulha
magnética, a consciência indica a existência de uma Força desconhecida que,
de longe, controla suas vibrações e treme diante da sua presença”. Nero passa
noites de terror vagando pelos salões da sua Casa Dourada. K a n t sustenta
1 3 4 Augustus Hopkins Strong
que a fé no dever requer fé num Deus que de fenderá e ga lardoará o dever -
ver Crítica da Razão Pura, 359-387.
Kant, em sua Metafísica da Ética, representa a ação da consciência com o
“conduzindo um processo perante a corte ” e acrescenta : “Agora que ele é
acusado diante da sua consciência seria absurdo im aginar que se ja justo a
própria pessoa exercer a função de ju iz no tribuna l; em tal c ircunstância, o
acusador sem pre perderia a sua causa. Por isso a consciência deve repre
sen tar para si sem pre um a outra pessoa com o Juiz, a não ser que pretenda
en tra r em contrad ição consigo m esm a”. Ver tam bém Crítica da Razão Práti
ca, W erke, 8.214 - “Dever, sub lim e e poderoso nome, que nada tens em ti
que atra ia ou lucre, porém a m ais desafiado ra subm issão; e a inda não am ea
ças d irig ir a vontade através daquilo que pode desperta r o te rror natural ou
aversão, mas som ente d ivagar sobre a Lei; a Lei, que por si m esm a descobre
en trada na m ente e m esm o quando nós desobedecem os, contra a nossa von
tade com pele-nos à reverência, um a Lei em cu ja presença todas inclinações
se tornam m ais surdas, m esm o quando se to rnam ocu ltam ente rebeldes; que
origem existe que se ja d igna de ti? O nde podes encon tra r a raiz da tua nobre
descendência, que orgulhosam ente re je itas todo o re inado com as inc lina
ções? O Arcebispo Temple responde em suas Bampton Lect., 58,59, “ Esta Lei
eterna é o próprio Eterno, o Deus O nipoten te” . R o be rt B r o w n in g : “ Dentro de
mim o senso de que eu tenho um débito G arante-m e - Em algum lugar deve
haver A lguém , pronto a cum prir o seu dever. Tudo se vo lta para o seguinte:
Onde há o dever existe a conseqüente aceitação: procura Aquele que aceita
o dever” .
S alter, Ethicai Religion, citada no artigo de Pfleiderer sobre M oralidade
sem Religião, Am. Jour. Theol., 3.237 - “A te rra e as estre las não criam a lei
da gravidade a que elas obedecem ; nem o hom em , ou os exércitos dos seres
racionais no universo unidos, criam a lei do dever” . A vontade expressa no
im perativo m oral é superiora nossa porque doutra fo rm a não haveria ordens.
Contudo ela é uma com a nossa com o a v ida de um organ ism o está unida à
dos seus m em bros. A teonom ia não é heteronom ia, m as a mais e levada auto
nomia, a garantia da nossa liberdade pessoa l con tra toda a servidão humana.
S êneca: “ Deo parere libertas est” (A liberdade se parece com Deus).K n i g h t ,
Essays in Philosophy, 272 - “Na consciência vem os um ‘a lter ego ’, em nós
em bora não de nós, mas outra Pessoalidade apo iando-nos” . M artineau, Types,
2.105 - “Só um a pessoa pode ter au toridade sobre outra pessoa. ... Um ser
solitário sem natureza sensível no un iverso não sen tiria nenhum dever” ; 1.26
- “Com o a Percepção nos dá a V ontade na fo rm a de Causalidade contra nós
no Non-Ego, do m esm o modo a C onsciência nos dá a Vontade na form a de
Autoridade em oposição com ple ta a nós n e le . ... 2 .7 - “ Não podem os deduzir
os fenôm enos do cará te r a partir de um agente que nada possui” . Hutton,
Essays, 1.41,42 - “Q uando desobedecem os à consciência , a Força interna
deixou de mover-nos; retirou-se apenas para observar- v ig iar com o nos m ol
dam os a nós m esm os” . Cardeal N ewman, Apology, 377 - “Se não fosse pela
voz que tão cla ram ente fa la à m inha consciência e ao m eu coração, eu seria
um ateu ou um panteísta, ou um po lite ís ta ao exam inar cuidadosam ente o
m undo” .
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 135
3. A natureza emotiva e voluntária do homem prova a existência de um ser
: _e pode fornecer em si um objeto satisfatório do sentimento humano e de um
fim que manifestará as mais elevadas atividades do homem e garantirá o seu
~_is elevado progresso.
Só um ser que possui poder, sabedoria, santidade e bondade e tudo isto
infinitamente maior do que conhecemos na terra pode atender a demanda da
alma humana. Não há dúvida de que tal ser existe. Caso contrário, não seria
suprida a maior necessidade do homem e a crença em uma mentira seria mais
produtiva virtude do que a crença na verdade.
Feuerbach cham a Deus “o reflexo do p róprio hom em arru inado” ; “a cons
c iênc ia de Deus = a consc iênc ia de si m esm o” ; “a re lig ião é um sonho da
alm a hum ana” ; “a teo log ia toda é um a an tro po log ia ” ; “o hom em fez Deus à
sua im agem ” . Porém a consc iênc ia m ostra que o hom em não reconhece em
Deus apenas um seu sem elhante , m as tam bém o seu antagôn ico . Não como
G aleno: P iedade = consc iênc ia + in s ta b ilid ad e ” . As m ais re finadas m entes
são as do tipo deb ilitado; ver Agostinho, Confessions, 1.1 - “Tu nos fizeste
para ti, e o meu coração não tem repouso enquanto não descansa em ti” . Sobre
John S tu a r t M il l - “um a m ente que não pôde achar Deus e um a m ente que
não pôde ag ir sem D eus” . Comte, em seus ú ltim os dias, constru iu um ob je
to de adoração na H um an idade U n iversa l e inven tou um ritual que H uxle y
cham a “ C a to lic is m o minus C ris tia n is m o ” . Ver tam bé m T y n d a l l , Belfast
Address: “Se eu não cresse, d iz ia -m e ce rta ocas ião um grande hom em , que
existe um a In te ligênc ia no cerne das co isas, m inha v ida na te rra seria in to
le ráve l” .
A última linha do Peregrino de S c h i l l e r diz: “Und das Dort ist niemals Hier
(“O ali nunca está aqui”). O finito nunca satisfaz. T e n n y s o n , Tw o Voices\ “Eis a
vida de que os nossos nervos são escassos, Oh vida, não morte, por cuja
causa ofegamos; Mais vida, mais completa eu quero”. S e th , Ethical Princi
pies, 419 - “Um universo moral, um Ser moral absoluto, é o ambiente indis
pensável da vida ética, sem o qual não pode atingir o desenvolvimento perfei
to. ... Há um Deus moral, ou isto não é universo". Jam es, Will to Believe, 116 —
“Deus é o mais adequado objeto possível das mentes estruturadas como a
nossa para conceber como enganosa a raiz do universo. Qualquer coisa sem
muito de Deus não é um objeto racional, qualquer coisa mais do que Deus
não é possível, se o homem não necessita de um objeto de conhecimento,
sentimento e vontade”.
Romanes, Thoughts on Religion, 41 - “Falar da Relig ião do incognoscíve l,
Religião do Cosm ism o, a Relig ião da Hum anidade, em que não se reconhece
a pessoa lidade da Prim eira C ausa não tem sentido do m esm o modo que falar
do am or de um triângu lo ou da racionalidade do equador” . D izia-se que, no
sistem a de Comte, “derram ando-se o v inho da presença real, pedia-se que
adorássem os a taça vaz ia” . “Q uerem os um ob je to de devoção e C omte nos
brinda com espelho” (M artineau). Huxley d iz ia que ele adoraria a selvageria
dos macacos logo que a dos positivistas racionalizassem o conceito de hum a
1 3 6 Augustus H opkins Strong
nidade. Trata-se apenas da humanidade ideal, seu elemento divino que pode
ser adorado. Uma vez concebido isto, não podemos nos satisfazer enquanto
isto não se realize em algum lugar ou em alguém, como em Jesus Cristo.
U p t o n , Hibbert Lectures, 265-272 - H u x le y crê que a evolução é “um pro
cesso lógico materializado”; que nada permanece exceto o fluxo de energia e
“a ordem racional o permeia”; Na sua primeira parte deste processo, a nature
za, não existe moralidade nem benevolência. Mas o processo termina com a
produção do homem, que pode ser a causa daquele apenas utilizando a guer
ra moral contra as forças naturais que o impelem. Ele deve ser benévolo e
justo. Não diremos nós, em que pese o ponto de vista do Sr. H u x le y , que isto
deixa claro em que consiste a natureza do sistema e que deve existir um Ser
benévolo e justo que a põe em ordem? M a r t in e a u , Seat of Authority, 63-68 -
“Embora se conheça a autoridade do mais elevado incentivo, ela não pode
ser criada; por enquanto ela está em mim e acima de mim. ... A autoridade a
que a consciência me introduz, embora emergindo na consciência, é objetiva
em todos nós e necessariamente se refere à natureza das coisas indepen
dentemente dos acidentes da nossa constituição. Ela não depende de nós, é
independente. Todas as mentes nascidas no universo são introduzidas à pre
sença de uma justiça real, tão certamente como numa cena de um espaço
real. A percepção revela um outro ser além de nós mesmos; a consciência
revela um mais elevado que nós mesmos”.
Contudo, livremente devemos admitir que este argumento a partir das
aspirações do homem só tem peso se supusermos que existe um Deus sábio,
verdadeiro, santo e benévolo, que constituiu as nossas mentes para que
o seu pensamento e sentimentos correspondam à verdade e a ele mes
mo. Um ímpio poderia ter-nos constituído tal lógica que nos induziria ao erro.
Por isso, o argumento é o desenvolvimento e expressão da nossa idéia de
Deus. L u t h a r d , Fundamental Truths: “A natureza é como um documento
escrito contendo apenas consoantes. Nós é que devemos fornecer as vogais
que o decifrarão. A não ser que portemos conosco a idéia de Deus, a nature
za mostrar-se-nos-á apenas muda”.
d) Defeitos do Argumento Antropológico', a) não pode provar um criador
do universo material, b) Não pode provar a infinitude de Deus. c) Não pode
provar a misericórdia de Deus. Mas
b) O valor do Argumento é que ele nos assegura da existência de um ser
pessoal, que nos dirige em justiça e que é o próprio objeto do sentimento
supremo e serviço. M as se este Ser é o criador original de todas as coisas, ou
simplesmente o autor da nossa existência, quer seja ele infinito ou finito, quer
seja ele um Ser de simples justiça ou tam bém de misericórdia, este argumento
não nos garante.
Entre os argumentos da existência de Deus, contudo, atribuímos a este o
lugar principal, visto que ele acrescenta às idéias de poder causativo (que
derivamos do Argumento Cosmológico) e da inteligência criativa (que deri-
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 3 7
'• amos do Argumento Teleológico), as bem mais amplas idéias de pessoalida
de e justo senhorio.
S ir W illia m H a m ilt o n , Works of Reid, 2 .9 7 4 , n o ta U ; Lectures on Metaph.,
1.33 - “Os únicos argumentos válidos da existência de Deus e da imortalida
de da alma encontram-se na natureza moral do homem”; “a teologia depende
inteiramente da psicologia, pois, com a prova da natureza moral do homem
permanece em pé ou cai a da existência de Deus”. Porém D im a n , Theistic
Argument,244, muito apropriadamente rebate este argumento a partir da
natureza do homem como única prova da divindade: “Seria mais adequado
mostrar os atributos do Ser cuja existência já tem sido provada a partir de
outras fontes”; “por isso o Argumento Antropológico depende tanto do Cos-
mológico e do Teleológico como estes dependem daquele”.
Contudo, o Argumento Antropológico é necessário para suplementar as
conclusões dos dois outros. Aqueles que, como H er b e r t S p e n c e r , reconhe
cem um Ser infinito e absoluto, Poder e Causa, podem ainda deixar de reco
nhecer o referido ser como espiritual e pessoal somente porque não reconhe
cem a si mesmos como tais, isto é, não reconhecem a razão, a consciência e
a livre vontade do homem. O agnosticismo na filosofia envolve-o na religião.
R. K. E c c l e s : “Todas as línguas mais avançadas escrevem as palavras ‘Deus’
e ‘E u ’ com letra maiúscula”. C o o k , Religion and Chemistry. “Deus é amor;
mas a natureza não pode prová-lo e é para atestá-lo que o Cordeiro foi morto
desde a fundação do mundo”.
Na filosofia, tudo depende do nosso ponto de partida, quer da natureza ou
do eu, quer do elemento necessário quer do livre. Por isso, em certo sentido,
na prática devemos começar com o Argumento Antropológico e, a partir daí
empregar o Cosmológico e o Teleológico para garantir a aplicação das con
clusões que temos tirado do homem para natureza. Como Deus está frente a
frente ao homem na Consciência e diz-lhe: “Tu”; semelhantemente o homem
está com relação a Deus na Natureza e pode dizer-lhe “Tu”. M u lfo r d , Republic
of God, 28 - “Como a pessoalidade do homem tem seu fundamento na pes
soalidade de Deus, assim também a realização da sua própria pessoalidade
pelo homem aproxima-o mais de Deus”.
É muito comum em tais circunstâncias tratar o que se chama os Argumen
tos Histórico e Bíblico da existência de Deus - aquele argumentando, a partir
da unidade da história, este a partir da Bíblia; tal unidade deve, em cada
caso, ter a sua causa e explicação na existência de Deus. É uma razão sufi
ciente para não discutir estes argumentos; sem a prévia crença na existência
de Deus, ninguém verá unidade nem na história, nem na Bíblia. O pintor T urner
expôs um quadro que parecia um nevoeiro e uma nuvem até que ele lhe deu
uma pincelada escarlata. Foi o que bastou para dar-lhe o verdadeiro ponto de
vista e o resto tornou-se inteligível. Deste modo, a vinda de Cristo e o seu
sangue tornaram inteligíveis tanto as Escrituras como a história humana. Ele
ostenta em seu cinto a chave de todos mistérios. Schopenhauer, que não
conhecia a Cristo, não admitia a filosofia da história. Considerava a história
um simples jogo fortuito do capricho do indivíduo. P a s c a l : “Jesus Cristo é o
centro e o objeto de todas as coisas; aquele que não o conhece ignora a
natureza e a si mesmo”.
1 3 8 Augustus Hopkins Strong
IV. ARGUMENTO ONTOLÓGICO
Este argumento infere a existência de Deus a partir de idéias abstratas e
necessárias da mente humana. Apresenta-se em três formas:
1. D e S am u el C larke
Espaço e tempo são atributos da substância ou ser. Mas espaço e tempo
são, respectivamente, infinito e eterno. Portanto, deve haver um a substância
infinita e eterna ou Ser a quem pertencem tais atributos.
G illespie apresenta o argumento de um m odo um tanto diferente. Espaço e
tempo são modos de existência. M as eles são respectivam ente infinitos e eter
nos. Por isso, certam ente há um ser infinito e eterno que subsiste em tais
modos. Porém replicamos:
Espaço e tempo nem são atributos de substância, nem modos de existência.
Se válido, o argumento provaria que Deus não é mente, mas matéria, pois não
poderia ser mente, mas só matéria, da qual o espaço e o tempo seriam ou
atributos ou modos.
O Argumento Ontológico é chamado freqüentemente de argumento a priorí,
isto é, daquilo que é logicamente anterior, ou mais antigo que a experiência, a
saber, nossas idéias intuitivas. Todas as formas do Argumento Ontológico,
neste sentido, são a príori. Para o ponto de vista contrário ver C a ld e r w o o d ,
Moral Philos., 226 - “Começar, como C la r k e , com a proposição de que ‘algo
existia desde a eternidade’, é virtualmente propor um argumento depois de
ter admitido o que falta ser provado. A forma do argumento a priorí de G illesp ie ,
partindo da proposição de que ‘a infinitude da extensão existe necessa
riamente’, está sujeita à mesma objeção com a desvantagem de atribuir a
Deus uma propriedade da matéria.”
H. B. Smith diz que B r o u g h am interpretou mal C l a r k e : “O argumento de
C la r k e está na sua sexta proposição e supõe a existência provada daquilo
que vem antes. Seu alvo aqui é estabelecer a infinitude e onipresença deste
Primeiro Ser. Ele não prova a existência a partir da imensidão”. Porém retru
camos que, ele nem pode provar a infinidade de Deus a partir da imensidão
do espaço. Espaço e tempo não são substâncias nem atributos, mas rela
ções. A doutrina de que espaço e tempo são atributos ou modos da existência
de Deus tende ao panteísmo materialista como o de Spinosa, que defende
que a “substância una e simples” (substantia una et unica) nos é conhecida
através dos dois atributos: pensamento e extensão; mente = Deus no modo
do pensamento; matéria = Deus no modo da extensão. D o v e , Logic of the
Christian Faith, 127, diz, com propriedade que um Deus extenso é um Deus
material; “espaço e tempo nem são atributos da matéria, nem da mente”;
“devemos ter a idéia moral no mundo natural não a idéia natural no mundo
moral”. H. M. S t a n le y , on Space and Sciense, in Philos. Rev., Nov. 1898; 615
T e o l o g ia S is t e m á t ic a 1 3 9
- “O espaço não é cheio de coisas, m as as co isas são espaçosas. ... Espaço
é uma form a de aparecim ento d inâm ico” . P r o f . C. A. S t r o n g : “O m undo com
posto de consciência e outras ex is tências não se encon tra no espaço, em bo
ra possa esta r em algo de que o espaço é o s ím bo lo ” .
2. De Descartes
Temos a idéia de um Ser infinito e perfeito. Esta idéia não pode ser deriva
da de coisas imperfeitas e finitas. Portanto, deve haver um Ser infinito e per-
:eito que é a sua causa.
Porém respondemos que este argumento confunde a idéia de infinito com
um a idéia infinita. A idéia que o hom em tem do infinito não é infinita, mas
finita e de um efeito finito não podemos argumentar um a causa infinita.
Esta form a do argum ento O ntológico, conquanto se ja a priorí, baseada na
idéia necessária da m ente hum ana é, d ife ren tem ente das outras form as do
mesm o argum ento, a posteríori, raciocinando a pa rtir desta idéia, com o um
efeito, para a existência de um Ser que é a sua causa. A rgum ento a posteríori
= daquilo que é mais tard io para o que é mais antigo, isto é, do efe ito para a
causa. Os A rgum entos C osm ológico, Teleológico e A ntropológ ico são a pos-
teriori. Deste tipo é o de Descartes; ver Descartes, Meditação, 3: Haec idea
quae in nobis est requirit Deum pro causa; Deusque pro inde existit” . A idéia
na m ente dos hom ens é a im pressão do nom e do traba lhador indelevelm ente
estam pada no seu traba lho - a som bra pro je tada na alm a hum ana pelo Ser
invisível de cu ja ex is tência e presença obscuram ente ela nos informa. Blunt,
Dict. of Theol., 739; Saisset, Pantheism , 1.54 - “ Descartes restringe o fato da
consciência, enquanto Anselmo a concepção abstra ta” ; “O argum ento de Des
ca rtes podia ser considerado um ramo do A rgum ento A ntropológ ico ou Moral,
pelo fato de que este últim o procede da constitu ição hum ana e não das suas
idéias abstra tas” .
3. De A n s e l m o
Temos a idéia de um Ser absolutam ente perfeito. Porém a existência é um
atributo da perfeição. Deve existir um ser absolutam ente perfeito.
Respondemos que este argumento confunde existência ideal com existên
cia real. Nossas idéias não são a m edida da realidade externa.
A nselmo, Poslogion, 2 -