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Natalia Quintino Dias Câncer gástrico O câncer gástrico é uma doença maligna do estômago e uma das maiores causas de morte por câncer no Brasil. Assim como o câncer esofágico, é geralmente assintomático e, quando sintomático, muitas vezes avançado. No Brasil, a tendência parece ser de aumento da incidência (decorrente de maior acesso a métodos diagnóstico. Quadro clínico Muitas vezes é assintomático, ou com sintomas inespecíficos. O principal sintoma é o sangramento digestivo alto crônico a esclarecer, com melena e anemia. O paciente pode apresentar ainda sintomas dispépticos, dor abdominal inespecífica, perda ponderal e náuseas. Também podem ocorrer sintomas obstrutivos pilóricos nos casos mais avançados: distensão epigástrica exclusiva e muitas náuseas e vômitos. Sinais que denotam doença avançada, podem ser observados ao exame físico: Nódulo Periumbilical de Sister Mary Joseph, espessamento do fundo de Saco de Douglas ao toque retal (Prateleira de Blummer) e linfonodomegalia supraclavicular esquerda (de Virchow) e axilar esquerda (de Irish). Diagnóstico O exame de eleição é a endoscopia digestiva alta, que permite visualizar a lesão, observar sua Classificação Endoscópica de Borrmann e realizar biópsia da lesão. O exame encontrará uma lesão de características malignas (ulcerada, vegetativa, infiltrativa etc.). Toda lesão gástrica deve ser biopsiada. O tipo histológico mais comum é o adenocarcinoma gástrico, que pode ser dividido, segundo a classificação de Lauren, em intestinal e difuso. Intestinal O adenocarcinoma gástrico tipo intestinal de Lauren é o típico câncer gástrico esporádico e é o mais comum. Surge em situações de fatores de risco pré-cancerosos (gastrites crônicas, como a atrófica ou polipose gástrica), em pacientes com exposição ambiental a hábitos dietéticos ocidentais (industrializados). É mais comum em homens. A incidência aumenta com a idade. Tem tendência a ser bem diferenciado e a manifestar metástases mais tardiamente (hematogênicas). Tem melhor prognóstico que o difuso Difuso O tipo difuso de Lauren, por sua vez, representa o câncer de tendência genética de manifestação. É mais comum em mulheres mais jovens, de tipo sanguíneo A e com histórico familiar de câncer gástrico. Caracteristicamente, é indiferenciado, com presença de células em anel de sinete. Tem tendência precoce a metástases (linfáticas e peritoneais). Seu prognóstico é pior que o intestinal. Natalia Quintino Dias Fatores de risco Estadiamento Para estadiar corretamente, deve-se realizar, além de um exame físico completo e minucioso, e do estudo endoscópico diagnóstico com biópsia, a TOMOGRAFIA DE TÓRAX, ABDOME E PELVE. O exame é feito à procura de características da lesão local e invasões (T), linfonodos aumentados (N) e metástases hepáticas/pulmonares ou peritoniais (M). A ecoendoscopia também pode ser utilizada e é considerada o exame mais acurado para avaliação do T e do N. Deve ser utilizada em casos selecionados, ou sempre que disponível. Tratamento cirúrgico O tratamento padrão é a ressecção cirúrgica do tumor em uma gastrectomia com linfadenectomia a D2. A gastrectomia, a princípio, é TOTAL. Aplica-se com segurança a todos os casos e é obrigatória nas lesões proximais ou com margem indefinível (como na linite plástica) e tendência no tipo difuso de Lauren. Entretanto, lesões distais, sobretudo se bem diferenciadas, são passíveis de ressecção em uma gastrectomia subtotal. Aspectos técnicos cirúrgicos A linfadenectomia é sempre D2. -- Na linfadenectomia D1, ressecamos todos os linfonodos perigástricos: pericárdicos direitos e esquerdos, pequena curvatura, grande curvatura e supra e infrapilóricos. -- Na linfadenectomia D2, além dos acima, ressecamos os linfonodos das cadeias vasculares próximas: artérias gástrica esquerda, esplênica, hepática comum e própria. A reconstrução após a gastrectomia oncológica é em Y de Roux. Na gastrectomia total, temos uma anastomose esofagojejunal e, na subtotal, uma anastomose gastrojejunal. Isso implica deixar o coto duodenal sepultado, fechado. As reconstruções a Billroth I e II não são utilizadas na gastrectomia oncológica. Das complicações pós-cirúrgicas precoces, a principal é a fístula do coto duodenal. Fístula do coto duodenal Acontece que 4% dos cotos duodenais pós- grastectomia fistulizam e manifestam um quadro clínico peculiar. O paciente manifesta uma piora clínica, dor abdominal e potencial piora infecciosa, associada a um débito bilioso pelo dreno abdominal. O diagnóstico é feito pelo quadro clínico. Caso haja dúvida do aspecto do dreno, pode-se dosar bilirrubina e amilase do líquido do dreno, que estarão francamente elevadas. Uma tomografia ajuda a confirmar o diagnóstico e a avaliar sobre complicações subsequentes. O tratamento é uma adequada drenagem e suporte nutricional enteral prolongado. Usar antibióticos se houver quadro infeccioso associado (frequentemente necessário). A reoperação está indicada se ocorrer complicações subsequentes, como coleções cavitárias ou necessidade de otimizar-se a drenagem da fístula. Natalia Quintino Dias Quimioterapia no CA gástrico Estadiamento patológico e quimioterapia adjuvante A quimioterapia adjuvante está indicada, em geral, aos pacientes com T ≥ 3 e/ou N+. Se a doença for metastática, por sua vez, estará indicada a quimioterapia paliativa e não adjuvante. Prevalece nela aquele que for o maior do T, N ou M do paciente. Quimioterapia neoadjuvante e estadiamento clínico A quimioterapia neoadjuvante é indicada em casos de exceção. Diferentemente da adjuvante, esta é indicada baseada no estadiamento clínico (as imagens feitas ao diagnóstico). A indicação não é tão objetiva. Indica-se quando há impressão de doença de grande volume tumoral (T) ou grande acometimento linfonodal (N). Um pré-requisito para QT adjuvante é a realização de uma videolaparoscopia diagnóstica antes, para garantir que não há carcinomatose peritoneal. São contraindicações à QT adjuvante: tumores obstrutivos e/ou hemorrágicos. Doença incurável Todo sinal de doença metastática ou irressecável! O câncer gástrico se torna irressecável ao promover invasão vascular ou de estruturas adjacentes. Suas metástases são hematogênicas para fígado e pulmões ou peritoneais. Sinais clínicos ● Nódulo de Virchow: nódulo supraclavicular esquerdo de uma metástase à distância, linfonodal. ● Nódulo de Irish: nódulo axilar esquerdo, também de uma metástase à distância, linfonodal. ● Nódulo de Sister Mary Joseph: nódulo periumbilical endurecido, significando implante peritoneal na cicatriz umbilical. ● Prateleira de Blummer: endurecimento do fundo de Saco de Douglas peritoneal ao toque retal, por implantes peritoneais. ● Ascite: em paciente com câncer gástrico recém- diagnosticado e com síndrome consumptiva, a Natalia Quintino Dias presença de ascite é um marcador de estadiamento avançado por carcinomatose peritoneal. Sinais radiológicos A tomografia pode indicar que a doença é irressecável ao indicar invasão vascular, por exemplo, do tronco celíaco ou da artéria mesentérica superior ou da veia porta. Também na tomografia você pode encontrar sinais de doença metastática: nódulos hepáticos, nódulos pulmonares e nódulos peritoneais. Laparoscopia diagnóstica Utilizada quando se suspeita de doença metastática que não foi detectada nos exames de estadiamento, portanto, é o melhor método para o estadiamento peritoneal (M) do paciente. Manejo O paciente é candidato à quimioterapia paliativa, sem intuito curativo. Se houver sintomas decorrentes da presença do tumor e o paciente tiver condições clínicas, ele pode ser candidato a uma abordagem cirúrgica.Pode-se fazer gastrectomia higiênica para reduzir sintomas de dor e sangramento, por exemplo, ou gastroenteroanastomose para se estabelecer trânsito em um tumor obstrutivo. Câncer precoce e ressecção endoscópica O câncer gástrico precoce é aquele cujo crescimento está limitado à mucosa (T1a carcinoma intramucoso) ou submucosa (T1b carcinoma submucoso) do estômago, independentemente do acometimento linfonodal presente ou ausente. Dados que sugerem risco aumentado de acometimento de linfonodo que falam contra a ressecção endoscópica: doença atingindo submucosa (T1b) ou mais profunda, tipo difuso de Lauren (indiferenciado/ anel de sinete), lesão primária ulcerada e tamanho da lesão > 2 cm. Outros cânceres gástricos GIST gástrico GIST significa gastrointestinal stromal tumor ou tumor estromal gastrointestinal. É um tipo peculiar de tumor gástrico, de linhagem não epitelial, mas mesenquimal, originário das Células de Cajal. O GIST pode acontecer em todo o trato gastrointestinal, mas é mais comum no estômago. O quadro é frequentemente assintomático ou pode cursar com sintomas inespecíficos dispépticos. Raramente, apresenta ruptura e sangramento digestivo. Como ele tem origem nas Células de Cajal, que ficam na camada muscular, apresenta-se como um abaulamento extrínseco na endoscopia (a mucosa está preservada). O tratamento do GIST é feito por ressecção completa, com margens livres, sem romper o tumor. Não é necessário linfadenectomia, pois não há comportamento de metástase linfonodal. O uso de inibidores de tirosina-quinase, como o imatinibe (Gleevec®), está indicado como terapia adjuvante nos pacientes com GIST de alto risco de recidiva e/ou comportamento agressivo invasor. GIST de alto risco -> analisar a peça ressecada por estudo anatomopatológico e imuno-histoquímica. Linfoma gástrico Forma atípica. O estômago é o sítio mais frequente de linfoma extranodal. Os linfomas MALT (tecido linfoide associado à mucosa, em inglês) são Linfomas não Hodgkin de células T e acontecem nas Placas Linfáticas de Peyer da mucosa. Esses linfomas têm relação muito bem estabelecida com a infecção pelo H. pylori. O seu tratamento é primordialmente CLÍNICO, com a erradicação do H. pylori. A cirurgia é feita em casos de exceção. Outro tipo de linfoma gástrico, mais agressivo, é o difuso de grandes células B (também não Hodgkin). Pode ser tratado com cirurgia + QT e RT adjuvantes no caso de doença localizada e QT (esquema CHOP) nos casos de doença disseminada.