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89 TÓPICO 2 OS GÊNEROS LITERÁRIOS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO No Tópico 1, você viu uma contextualização da teoria dos gêneros literários, apresentados aqui em uma perspectiva histórica e crítica. A partir deste tópico você irá aprofundar os estudos sobre os gêneros literários analisando, individualmente, cada um deles. Neste tópico, estudaremos o gênero dramático e o gênero lírico, respectivamente, iniciando por uma comparação com o intuito de identificarmos suas particularidades e por uma breve explanação da teoria dos gêneros literários na Antiguidade. A seguir, veremos detidamente o texto dramático e o texto poético. Estudaremos resumidamente a história e os tipos de teatro e, por fim, as características do poema, tais como estrutura, verso, rima, metro, finalizando com um estudo sobre as formas e a interpretação de poemas. Ao final deste tópico você estará ambientado com os gêneros dramático e lírico, os quais incluem os textos dramático e poético. Vamos lá? 2 O GÊNERO DRAMÁTICO E O GÊNERO LÍRICO Agora iremos nos dedicar, finalmente, ao estudo individualizado dos gêneros literários. Para tanto, iniciaremos nossos estudos diferenciando o gênero dramático e o gênero lírico. Comecemos pelo gênero dramático. Observe, a seguir, fragmentos da tragédia “Édipo Rei”, datada de 430 a.C., de Sófocles (496 a.C. – 406 a.C.): UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 90 ARAUTO Vós, que tanto respeito mereceis neste país, ainda mais chorarei pelas coisas que haveis de ver e ouvir, se, como patriotas bem-nascidos, ainda prezais a nossa dinastia! As águas dos rios todos da terra talvez não bastem para lavar a imundície desta casa – tamanhos são os males já mostrados, e os mais que há de mostrar, premeditados, não ocasionais... Quem se fere a si mesmo, sofre mais! CORIFEU O que sabemos já nos dá muito a chorar. Que nova catástrofes anuncias? ARAUTO É breve o que ides ouvir e breve o que eu vou dizer: Nossa rainha Jocasta está morta! CORIFEU Pobre mulher! – Como se deu a morte? ARAUTO Por suas próprias mãos... O horror do quadro, a vós, que o não vistes, será poupado; mas eu, que o vi, dele não posso me esquecer! Como você pode ver, nesse fragmento, o arauto, o mensageiro encarregado das proclamações oficiais, anuncia ao povo de Tebas a morte da rainha, dialogando com o corifeu, o chefe do coro. A seguir, com o intuito de poupar os espectadores do horror da visão do que sucedeu, o arauto narra como a rainha Jocasta se enforcou, enlouquecida pelos acontecimentos que afetam o reino de Tebas, e o ato punitivo do rei, seu filho e seu marido, que fura os olhos: “ele arrancou os alfinetes de ouro da roupa da rainha, levantou-os e os enterrou nos olhos, imprecando: ‘Olhos meus, não verei mais esta culpa e esta vergonha, nunca mais vereis quem não deveríeis ter visto nunca, e para todo o sempre só vereis as trevas’”. Em seguida, o rei volta para a cena lamentando seu destino: ÉDIPO Ai de mim! Ai de mim! Pobre de mim! Onde estou eu? Para que fui nascer? A minha voz espalha-se, por onde? Ah, meu destino, aonde queres chegar? TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 91 CORO A um ponto tão terrível de ver quanto de escutar! A seguir, o rei abandona Tebas, deixando o poder a seu tio e cunhado Creonte, cena que encerra a tragédia com o comentário do coro: CORO Concidadãos de Tebas, pátria nossa, olhai bem: Édipo, decifrador de intrincados enigmas, entre os homens o de maior poder – aí está! Quem, no país, não lhe invejava a sorte? E agora, vede em que mar de tormento ele se afunda! Por essa razão, enquanto uma pessoa não deixar esta vida sem conhecer a dor, não se pode dizer que foi feliz. FIGURA 4 - ÉDIPO REI FONTE: Rudolph Tegner. Oedipe Roi. Disponível em: <http://www. rudolphtegner.dk>. Acesso em: 19 jul. 2017. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 92 Vejamos agora o gênero lírico. Observe abaixo o poema de Safo de Lesbos (620 a.C. – 570 a.C.), reconhecida como a maior poetisa lírica da Antiguidade: A lua já se pôs, as Plêiades também: meia-noite; foge o tempo, e estou deitada sozinha. NOTA Safo de Lesbos (620 a.C. – 570 a.C.) foi uma poetisa grega, membro da aristocracia. Faz parte dos nove poetas líricos do período arcaico. FIGURA 5 - SAFO DE LESBOS FONTE: Disponível em: <https://goo.gl/jNYKKZ>. Acesso em: 4 ago. 2017. Comparando os exemplos de gênero dramático e de gênero lírico acima, como você diferenciaria um do outro? Como vimos, a classificação dos gêneros literários remonta à Antiguidade, mais exatamente à divisão proposta por Platão e Aristóteles a partir de exemplos como esses, que antecedem a República, de Platão, e a Poética, de Aristóteles. Vejamos, então, como eles se diferenciam um do outro. Na República, Platão, por meio do diálogo entre Sócrates e Adimanto, diferencia três gêneros de narrativa. Depois de definir a lírica como “narração pelo próprio poeta” sem imitação, Platão (2001, p. 112) afirma que “existe também uma espécie de narrativa oposta a esta [narrativa sem imitação], quando se retiram as palavras do poeta no meio das falas, e permanece apenas o diálogo”. Com isso, Platão caracteriza a dramática, ou seja, o teatro, que compreende a tragédia e a comédia, propondo a primeira diferenciação entre o gênero dramático e o gênero TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 93 lírico, que estudaremos nesta unidade. E, finalmente, a épica, que estudaremos na próxima unidade, consiste, para Platão (2001, p. 110), em um gênero misto, pois na epopeia “é o próprio poeta que fala”, mas, em determinados momentos, o personagem fala “como se fosse ele mesmo”, momentos estes em que o poeta “faz um discurso como se se tratasse de outra pessoa”. Resumindo o diálogo entre Sócrates e Adimanto, Platão (2001, p. 112) conclui: na poesia e na prosa existem três gêneros de narrativas. Uma, inteiramente imitativa, que, como tu dizes, é adequada à tragédia e à comédia; outra, de narração pelo próprio poeta, encontrada principalmente nos ditirambos; e, finalmente, uma terceira, formada da combinação das duas precedentes, utilizada na epopeia e em muitos outros gêneros. Podemos, portanto, resumir esquematicamente a divisão de gêneros literários proposta por Platão desta forma: QUADRO 1 - GÊNEROS LITERÁRIOS SEGUNDO PLATÃO Gêneros literários segundo Platão Lírica Dramática Épica Não imitativa Imitativa Mista Voz do poeta Voz dos personagens Voz do poeta intercalada com a voz dos personagens FONTE: O autor Ao resumir as ideias de Platão, reconhecendo em sua obra as primeiras considerações do pensamento ocidental sobre os gêneros literários, Angélica Soares (2007, p. 9) escreve: Platão (cerca de 428 a.C. - cerca de 347 a.C.), no livro III da República (394 a.C.), nos deixou a primeira referência, no pensamento ocidental, aos gêneros literários: a comédia e a tragédia se constroem inteiramente por imitação, os ditirambos apenas pela exposição do poeta e a epopeia pela combinação dos dois processos. Para Aristóteles (2008, p. 37), diferentemente de Platão, “são todas, vistas em conjunto, imitações”, diferenciando-se, contudo, quanto aos meios, os objetos e os modos de imitar. Quanto ao modo, Aristóteles (2008, p. 40-41) constata que: “Com os mesmos meios podem imitar-se os mesmos objetos, ora narrando – seja tomando outra personalidade como faz Homero, seja mantendo a sua identidade sem alteração – ora representando todos em movimento e em atuação”. Podemos resumir esquematicamente a divisão de gêneros literários proposta por Aristóteles quanto aos modos, meios e objetos de imitação desta forma: UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 94 QUADRO 2 - GÊNEROS LITERÁRIOS SEGUNDO ARISTÓTELES Gêneros literários segundo Aristóteles Narrativo Dramático Lírica Épica Tragédia e Comédia Imitativa Imitativa Imitativa Modo Voz do poeta Voz do poeta intercalada com a voz dos personagens Voz dos personagens Meio Palavra, harmonia e ritmo Palavra Palavra e encenação Objeto Representao homem pior (?) Representa o homem melhor Representa o homem melhor (tragédia) ou pior (comédia) FONTE: O autor Seguindo Platão e Aristóteles, podemos dizer que a principal diferenciação entre o gênero dramático e o gênero lírico se encontra na forma particular de enunciação de cada gênero. Enquanto o gênero lírico se caracteriza pela voz do eu lírico, como aprofundaremos a seguir, o gênero dramático se caracteriza pelo discurso direto dos personagens, representados por atores. Etimologicamente, drama designa ação, como explica Massaud Moisés (1999, p. 161): A princípio, como sugere a etimologia, o vocábulo designava simplesmente a ação. E como a ação se afigurava exclusiva do teatro, passou a conter um significado específico. Aristóteles, na Poética (tr. de Eudoro de Sousa, s.d., 1448 a 28), distingue a imitação, ou mimese, “na forma narrativa” daquela em que as “pessoas agem e obram diretamente”, ou seja, em que se processa a imitação da ação. Ao segundo tipo confere o apelativo de drama. Portanto, em sentido amplo, a qualquer peça destinada a representar-se caberia análoga denominação. O drama equivale, portanto, ao teatro, fundamentado na transposição de uma ação por meio da atuação de atores, que representam personagens, sem a intermediação de um narrador. Assim, como simplifica Anatol Rosenfeld (2014, p. 28), ao drama pertencem obras que apresentam a “imitação por personagens em ação diante de nós”, os quais “fazem aparecer e agir as próprias personagens”. Unindo palavra e imagem, texto e palco, o teatro conforma a encenação, produzida geralmente a partir do texto dramático, o qual constitui mais especificamente o nosso objeto de interesse, de modo que separaremos, para os nossos fins, o texto e a encenação. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 95 Essa separação é prevista desde Aristóteles (2008, p. 51): “o espetáculo, se é certo que atrai os espíritos, é, contudo, o mais desprovido de arte e o mais alheio à poética. É que o efeito da tragédia subsiste mesmo sem os concursos e os atores”. Da mesma maneira, ao definir o “dramático”, Emil Staiger (1975, p. 61) recorre a uma separação entre “dramático” e “teatral”, relacionada com a encenação: “Teatral" e "dramático" não significam, portanto, o mesmo. Contudo, a negação de interdependência dos dois conceitos viria contrariar toda a terminologia tradicional. Seria, então, aconselhável explicar essa relação dizendo que o dramático não tem que ser compreendido a partir de sua adaptação ao palco, e sim que a instituição histórica do palco decorre da essência do estilo dramático? Um enfoque fenomenológico só permite essa interpretação. O palco foi, realmente, criado segundo o espírito da obra dramática, como único instrumento que se adaptava ao novo gênero poético. Mas uma vez existente, esse mesmo instrumento pode servir a outras formas de criação e tem sido utilizado das maneiras mais diversas através dos tempos. A encenação, o aspecto visual do drama, inaugura, como explica Jean- Pierre Vernant, um novo gênero literário, o gênero dramático: Antes dela, temos a poesia épica (Homero, Hesíodo) e a poesia lírica. Mas essa poesia é uma obra de pura audição: o poema não é feito para ser lido, mas escutado, nas recepções privadas ou nas grandes festas de Delfos ou de Olímpia. Ele canta os grandes feitos dos heróis lendários. Com a tragédia, estamos diante de algo completamente diferente: um espetáculo. São os mesmos personagens, os mesmos relatos, os mesmos mitos; mas enquanto o poeta épico cantava as façanhas do herói, com a tragédia o público vê o herói em cena, realizando suas façanhas. E isso muda tudo. Os heróis estão lá, diante da multidão, em carne e osso, como se estivessem vivos. Quando o ateniense do século V vê Agamenon, Clitemnestra ou Orestes caminharem sobre o palco, ele sabe que se trata do que chamaremos mais tarde de “ilusão teatral”. Ele compreende, evidentemente, que é um espetáculo montado, organizado, com problemas de perspectiva e de cenário que se colocam desde o início. A tragédia pressupõe e ao mesmo tempo fabrica a consciência do fictício (VERNANT, 2005, p. 5). Apesar do impacto da encenação, manteremos nossa atenção no texto dramático, que compreende um texto principal, constituído pelas falas das personagens em discurso direto, e um texto secundário, constituído, por sua vez, pelas orientações para a encenação, as quais são chamadas rubricas ou didascálias. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 96 3 O TEXTO DRAMÁTICO: ORIGEM E EVOLUÇÃO Agora, iremos nos dedicar ao estudo do texto dramático, analisando sua origem e sua evolução. Vimos que o texto e a encenação podem ser separados e que essa separação é prevista desde Aristóteles, que valoriza, como vimos, o texto dramático em relação ao palco, no qual a encenação se produz a partir do texto dramático. Para tanto, estudaremos desde as formas antigas do teatro, como a tragédia e a comédia, ao teatro moderno, privilegiando o teatro de Shakespeare, considerado o maior dramaturgo de todos os tempos. E, finalmente, estudaremos resumidamente alguns tipos de teatro. 3.1 BREVE PANORAMA DO TEATRO AO LONGO DOS TEMPOS O teatro, em sua forma mais primitiva, consiste em ritos coletivos de celebração ou luto, que se transformam tanto em mimetismo quanto em rituais formalizados, baseados em mitos. O teatro surge na Antiguidade grega, com o ditirambo, como relata Roland Barthes, demonstrando, portanto, uma origem comum entre o gênero dramático e o gênero lírico. Cerca de final do século VII a.C., o culto de Dionísio originara, principalmente na região de Coríntia e de Sicion, na região dórica, um gênero muito florescente, semirreligioso, semiliterário, constituído por coros e danças, o ditirambo. Esse teria sido introduzido na Ática, cerca de 550 anos antes de Cristo, por um poeta lírico, Téspis, que organizava representações ditirâmbicas pelas aldeias, transportando seu material numa carroça e recrutando os coros no próprio local. Uns dizem que foi Téspis quem criou a tragédia ao inventar o primeiro ator; outros dizem que foi o seu sucessor, Frínico. O novo drama recebeu rapidamente a consagração da cidade, tendo sido dominado por uma instituição verdadeiramente cívica: a competição. O primeiro concurso ateniense de tragédia teria tido lugar em 538, sob o domínio de Pisístrato, que desejava enfeitar a sua tirania com festas e cultos. A continuação é conhecida: o teatro instala-se num local consagrado a Dionísio, que ficará para sempre como patrono do gênero. Grandes poetas (seria melhor dizer grandes criadores de teatro), quase contemporâneos uns dos outros, dão à representação dramática a sua estrutura adulta, o seu sentido histórico profundo. Este desenvolvimento coincide com o triunfo da democracia, a hegemonia de Atenas, o nascimento da História e a estatuária de Fídias: é o século V, o século de Péricles, o século clássico. Depois, do século IV até o fim da época alexandrina, salvo algumas ressurgências de gênio das quais sabemos pouca coisa (Menandro e comédia nova), é o declínio: mediocridade das obras, desaparecidas por causa disso, abandono progressivo da estrutura coral, que foi a estrutura específica do teatro grego (BARTHES, 1984, p. 61). TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 97 Posteriormente, ao protagonista introduzido por Téspis, como nota Barthes, Ésquilo incluiria um antagonista, e Sófocles, um tritagonista. Aristóteles (2008) confirma que a tragédia e a comédia surgiram da improvisação, procedendo, respectivamente, dos autores de ditirambos e dos cantos fálicos. Sua forma se fixaria com as adaptações de Ésquilo e de Sófocles: O primeiro a mudar o número de atores de um para dois foi Ésquilo, que também diminuiu as partes do coro e fez com que a parte falada tivesse um papel predominante. Sófocles aumentou o número de atores para três e introduziu a cenografia (ARISTÓTELES, 2008, p. 44-45). Assim, a função das personagens se torna gradualmentemais importante na mesma medida em que diminui a do coro, formado por cerca de 10 a 15 cidadãos atenienses, desempenhando um papel de mediação, conforme a função social de debate que o teatro cumpria na Antiguidade. Aristóteles (2008, p. 47-48) define a tragédia como “imitação de uma ação elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem embelezada por formas diferentes em cada uma das partes, que se serve da ação e não da narração e que, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões”. NOTA A purificação das paixões, mencionada por Aristóteles, é denominada catarse (katharsis). FIGURA 6 – MÁSCARAS TEATRAIS FONTE: Disponível em: <http://mosqueteirasliterarias.comunidades.net/o-desenvolvimento- intelectual>. Acesso em: 27 ago. 2017. O trágico, por sua vez, se caracteriza pela unidade entre salvação e aniquilamento que, como sugere Peter Szondi, perpassa a tragédia de Édipo Rei, de que vimos alguns fragmentos. Afinal, Édipo tenta tomar o destino, tarefa dos deuses, em suas mãos, ultrapassando a medida do humano: UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 98 O trágico perpassa a tessitura de Édipo Rei como em nenhuma outra peça. Seja qual for a passagem do destino do herói em que se fixe a atenção, nela se encontra aquela unidade de salvação e aniquilamento que constitui um traço fundamental de todo trágico. Pois não é o aniquilamento que é trágico, mas o fato de a salvação tornar-se aniquilamento; não é no declínio do herói que se cumpre a tragicidade, mas no fato de o homem sucumbir no caminho que tomou justamente para fugir da ruína (SZONDI, 2004, p. 89). Não se trata, no entanto, de condenar Édipo, mas, como constata Jean-Pierre Vernant, de mostrar as dificuldades para compreender o que é o homem em suas relações com o universo ambíguo: “A tragédia é uma forma dessa interrogação sobre o homem e o mundo, sobre o justo e o verdadeiro. Ela exprime uma profunda ambiguidade” (VERNANT, 2005, p. 5). Para Vernant, a validade atual da tragédia grega, em detrimento do mundo da cultura grega que se distanciou de nós, se encontra na invenção do homem angustiado, o homem trágico, que questiona seus atos, compreendendo mais tarde que fez algo diferente do que acreditava fazer, e que se torna novamente legível ao homem moderno. Aristóteles (2008, p. 40), ao identificar os objetos de imitação da arte, estipula o que diferencia a tragédia e a comédia: “a tragédia se distingue da comédia neste aspecto: esta quer representar os homens inferiores, aquela, superiores aos da realidade”. Adiante, Aristóteles (2008, p. 45-46) explica: A comédia é, como dissemos, uma imitação de caracteres inferiores, não contudo em toda a sua vileza, mas apenas na parte do vício que é ridícula. O ridículo é um defeito e uma deformação nem dolorosa nem destruidora, tal como, por exemplo, a máscara cômica é feia e deformada, mas não exprime dor. Portanto, enquanto a tragédia é uma “imitação, com palavras e ajuda de metro, de caracteres virtuosos” (ARISTÓTELES, 2008, p. 46-47), como vimos, a comédia, segundo Aristóteles, imita os maus costumes e trata de “histórias e enredos com um sentido geral”. A comédia surge cerca de cinquenta anos depois da tragédia, em 486 a.C., pois, uma vez que satiriza instituições, políticos, filósofos e poetas, necessita de liberdade de expressão, que seria conquistada com a democracia ateniense, consolidada no século V a.C. Sua linguagem, diferentemente da tragédia, se caracteriza pela coloquialidade e pelo emprego de expressões baixas e populares. Vejamos um exemplo. Abaixo temos um fragmento da comédia Lisístrata (411 a.C.), de Aristófanes (444 a.C. – 385 a.C.), que trata de uma greve de sexo liderada pela ateniense Lisístrata para acabar com a guerra do Peloponeso, que durava anos e anos, convencendo as mulheres de Atenas e Esparta a evitarem seus maridos enquanto não assinassem um tratado de paz. Nesta passagem, um embaixador de Esparta entra seguido por um ministro do governo ateniense: TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 99 Embaixador – Onde é o Senado de Atenas? Ou então onde estão os ministros? Tenho novidades a dizer. Ministro – Quem é você? Um homem ou um saca-rolhas? Embaixador – Sou embaixador, meu caro. Estou chegando de Esparta para tratar de paz. Ministro – Mas você vem tratar de paz com essa lança apontada para nós? Embaixador – Isto não é lança... Ministro – Então por que sua roupa está repuxada na frente, a certa altura? Será um tumor que cresceu durante a viagem? Embaixador – (à parte) Esse homem está maluco! Ministro – (levantando a túnica do embaixador) Não é tumor, não! Não adianta disfarçar! Embaixador – Que negócio é esse? Chega de maluquices! Ministro – (virando de costas para o público e levantando a túnica) Veja! Ministro – (virando também de costas para o público e levantando a túnica) Veja também! Já percebi tudo! Pode dizer a verdade. Como vão as coisas lá em Esparta? Embaixador – Esparta inteira está parada. Nossos aliados também. Precisamos urgentemente de nossas mulheres. Ministro – Qual é causa dessa... doença? Algum castigo divino? Embaixador – Não. Foi Lampito quem começou. Depois todas as mulheres, como se fossem uma só, aderiram a essa greve de sexo. Ministro – E como vocês estão passando? Embaixador – Mal. Andamos até meio caídos para frente, pois não aguentamos o peso da... lança. E as mulheres não se comovem: só acabarão a greve quando for votada a paz em toda a Grécia. Ministro – Então é uma greve geral das mulheres. Agora estou entendendo! Pois vá dizer já a seu governo que nos envie representantes com plenos poderes para negociar a paz! E eu vou já à Assembleia tratar da eleição de nossos delegados à conferência da paz, depois de mostrar aos deputados o... que você já viu. Você percebeu como a comédia satiriza a guerra, os soldados e mesmo os homens? Percebeu que as personagens representam todo tipo de homem? E sem a dignidade e valores heroicos da tragédia? Percebeu a linguagem utilizada? Os jogos de linguagem, o duplo sentido, em passagens como: “Mal! Andamos até meio caídos para a frente, pois não aguentamos mais o peso da... lança”? Observe ainda a inversão dos lugares sociais ocupados por homens e mulheres, o deslocamento do alto e do baixo que, mais do que efeito de comicidade, critica social e politicamente a situação, rebaixando ridiculamente os detentores do poder de uma democracia decadente. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 100 Lisístrata, de Aristófanes, é uma das últimas comédias antigas, do final da democracia ateniense, contexto exposto por Junito Brandão (1984, p. 91): Estamos em 405 a.C. O sonho de um império ateniense começou a desmoronar-se com a aziaga expedição da Sicília em 417 a.C.; a derrota de Egos Pótamos, em outubro de 405 a.C., pôs fim à quimera e colocou as tropas espartanas na Acrópole de Atenas. Estava terminada a fratricida Guerra do Peloponeso. A democracia foi substituída pelo terror dos Trinta Tiranos. Felizmente, estes duraram pouco e a democracia meio cambaleante foi restabelecida. O demônio do Norte, todavia, Filipe da Macedônia, espalhava a cizânia entre as cidades gregas e com a derrota dos atenienses e tebanos em Queroneia, em 338 a.C., começou a hegemonia macedônica. É bem verdade que, com a morte de Alexandre Magno, em 323 a.C., Atenas, apoiada em Demóstenes, ainda tentou uma reação. Era tarde demais. As tropas do general macedônio Antípater esmagaram os gregos em Crânon. Era o fim político da Grécia. O filho de Antípater, Cassandro, impôs a Atenas uma ditadura aristocrática sob a tutela de Demétrio de Falero. A seguir, com Menandro, inicia a comédia nova, que, diferentemente da antiga, privilegia, sem a presença do coro, a comédia de costumes e da vida privada. Com o cristianismo, o teatro foi minorado e, posteriormente, retomado pela Igreja, com o intuito doutrinário de representar a ressurreição de Cristo. Como observaAnatol Rosenfeld (2014, p. 43), “o teatro medieval se origina no rito religioso, mais de perto na missa cristã, embora precedendo-o e subsistindo ao lado dele existissem espetáculos de origens e tendências tanto pagãs como profanas”. Ainda segundo Rosenfeld (2014, p. 45), gradualmente a dramatização se emancipa do rito religioso: “o drama litúrgico já não é apresentado por clérigos e sim por cidadãos da cidade e a ‘peça’ abandona a igreja e deixa de ser um prolongamento do ofício religioso”. Consequentemente, “ao fim da Idade Média surge o Mistério, já totalmente separado da igreja e apresentado em plena cidade”. A dramaturgia medieval se caracteriza pela fusão do elevado e do popular, que, como constata Erich Auerbach (2004), define o cristianismo, contrariando a teoria antiga que prescrevia que “os estilos sublime (elevado) e humilde (baixo) tinham de permanecer rigorosamente separados”. Rosenfeld (2014, p. 46) nota que “essa mistura de estilos, ligada à fusão das camadas sociais nas peças, é impossível na tragédia clássica”. A ampliação do estilo revela, segundo o autor, a ampliação social, com a inclusão de personagens de diversas origens e posições, introduzindo no mistério variadas visões de mundo. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 101 No Renascimento, com a concepção da perspectiva, surge o palco italiano, que propicia aos espectadores a noção de profundidade e perspectiva: “Tudo é projetado a partir dele; o indivíduo, seu caráter e psicologia, tornam- se o eixo do mundo. Para aumentar o efeito perspectívico, acentua-se a tendência de separar palco e plateia – separação indispensável para aumentar a ilusão” (ROSENFELD, 2014, p. 54). O Renascimento redescobre a “Poética”, de Aristóteles, como atesta Rosenfeld (2014, p. 55): “a partir do século XVI a Poética de Aristóteles torna-se uma espécie de fetiche estético e as regras levam, particularmente em França, a uma arte de rara perfeição”. No século seguinte, A arte poética (1674), de Nicolas Boileau-Despréaux (1636-1711), exemplifica o impacto da poética clássica, tanto de Aristóteles, quanto de Pseudo Longino e sua teoria do sublime, e de Horácio (65 a.C. – 8 a.C.), que, com sua regra da unidade de tom proposta em Ars Poetica ou Epistola ad Pisones (19 a.C.), prescreve a separação rígida dos gêneros. Vejamos um fragmento da “A arte poética”: Nós, que a razão engaja às suas regras, queremos que a ação se desenvolva com arte: em um lugar, em um dia, um único fato acabado, mantenha até o fim o teatro repleto. [...] Nunca ofereça algo de inacreditável ao espectador [...]. O senhor inventa uma nova personagem? Que ela, em tudo, se mostre de acordo consigo mesma e que seja até o fim tal qual foi vista no início. [...] O cômico, inimigo dos suspiros e das lágrimas, não admite dores trágicas, em seus versos; mas seu emprego não consiste em ir, numa praça pública, encantar o populacho, com palavras sujas e baixas (BOILEAU- DESPRÉAUX, 1979, p. 41-54). Você percebeu que, em seus conselhos, Boileau retoma princípios como a unidade de ação, a verossimilhança e a unidade de tom? O Renascimento perpetua prescritivamente, portanto, as concepções da poética clássica, especialmente a separação entre os gêneros e estilos. No Barroco, no entanto, os recursos criados no Renascimento para conquistar e dominar a realidade terrena são mobilizados, como nota Richard Alewyn (1959 apud ROSENFELD, 2014, p. 59), para obter o efeito oposto: não para “emprestar realidade à aparência e sim para transformar a própria realidade em aparência”. Com isso, a ilusão de realidade produzida pelo teatro, pela representação teatral, simboliza a ilusão da vida profana: Toda a vida e realidade se tornam sonho e engano. O teatro, na sua íntegra, passa a ser símbolo do mundo. [...] Todo o Barroco ecoa o sermão da fugacidade deste mundo enganador. Tudo é máscara e disfarce. A imensa sensualidade do teatro barroco ensina-nos a lição de que o mundo dos sentidos é irreal como o teatro. Face ao mundo, porém, o teatro tem a honestidade de confessar-se teatro (ROSENFELD, 2014, p. 59). UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 102 Para tanto, o teatro barroco desobedece às regras aristotélicas. Da mesma maneira, o teatro de William Shakespeare (1564-1616), atualmente reconhecido como o maior dramaturgo do mundo, envolve comédias, tragédias e tragicomédias, fusão entre tragédia e comédia, rompendo as regras clássicas. Shakespeare funde o trágico e o cômico, a linguagem refinada e a vulgar, os assuntos elevados e os grotescos, como evidencia Erich Auerbach (2004, p. 280-281): O trágico e o cômico, o sublime e o baixo estão entrelaçados estreitamente na maioria das peças que, pelo seu caráter de conjunto, são trágicas, sendo que para tanto trabalham em conjunto diversos métodos. Enredos trágicos, nos quais ocorrem ações capitais ou públicas ou outros acontecimentos trágicos, alternam com cenas cômicas populares ou gaiatas que estão ligadas ao enredo principal, por vezes estreitamente, por vezes um pouco mais frouxamente; ou, nas próprias cenas trágicas aparecem, ao lado dos heróis, bufões ou outros tipos cômicos, que acompanham, interrompem e comentam à sua maneira as ações, os sofrimentos e as falas das personagens principais; ou, finalmente, muitas personagens trágicas têm em si próprias a tendência para a quebra de estilos cômica, realista ou amargamente grotesca. O teatro de Shakespeare se diferencia do teatro da Antiguidade em muitos outros aspectos, incluindo a estrutura da peça, dividida agora em cenas e atos, a complexificação da ação e das personagens, com a ampliação do ambiente e do tempo representados, da encenação e da produção, paralelamente a um gradual processo de emancipação do teatro promovido pela comercialização de ingressos e profissionalização do teatro. A esse respeito, Emil Staiger (1975, p. 70) constata que “no tempo de Shakespeare desconhecem-se ainda os bastidores. Mesmo assim ele modifica a cena à vontade e estende a ação por semanas ou até meses”, o que seria aprimorado no drama moderno, observa Staiger, com os bastidores, que permitiriam “modificar-se a cena à vontade”, concluindo que “com isso acreditou-se poder destruir a antiga lei das três unidades, segundo o exemplo de Shakespeare”. Escrita em versos, a poesia de Shakespeare permanece intimamente relacionada com a ação, de modo que a linguagem tem um papel fundamental. A ampliação do teatro shakespeariano em relação ao grego, como vimos, deriva, segundo Erich Auerbach, de uma nova concepção de homem, destino e mundo: A Shakespeare e a muitos dos contemporâneos repugna desligar radicalmente do contexto geral dos acontecimentos uma única viragem do destino que atinja somente poucas pessoas, tal como o fizeram os poetas trágicos da Antiguidade, e no que os seus imitadores dos séculos XVI e XVII chegaram, às vezes, a superá-los; este processo isolante, explicável a partir de pressupostos culturais, míticos e técnicos do teatro antigo, contraria um conceito do concerto universal, mágico e polifônico, que surgia no Renascimento. O teatro de Shakespeare não apresenta golpes isolados do destino, que quase sempre caem de cima, e cujas consequências se resolvem entre poucas personagens, enquanto que o mundo circundante fica limitado a outras poucas, absolutamente necessárias para a prossecução do enredo (AUERBACH, 2004, p. 287). TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 103 Em virtude de suas rupturas com as regras clássicas, com classicismo do século XVI e, portanto, com a unidade de tom que proibia hibridismos, o teatro de Shakespeare seria valorizado pelo romantismo. Como demonstra Anatol Rosenfeld (2014, p. 63): “A luta contra os cânones clássicos da dramaturgia rigorosa iniciou-se no século XVIII, na fase do pré-romantismo alemão. Ela travou-se sobretudo contra a tragédia clássica francesa, à qual foi oposta à obra de Shakespeare como modelo supremo”. De fato, no século XVIII, com o movimentopré-romântico alemão Sturm und Drang e com a concepção de historicidade, a hibridização de gêneros se torna relevante, a exemplo de Lessing em “Dramaturgia de Hamburgo”, de 1769. Lessing admite a “mistura dos gêneros” em nome do efeito da obra, como ocorre em Shakespeare: “quando um gênio, em virtude de intuitos mais altos, faz confluir vários gêneros em uma e mesma obra, que então se esqueça o manual e examine apenas se atingiu a esses intuitos mais altos”, escreve Lessing (1769 apud ROSENFELD, 2014, p. 65), referindo-se ao efeito de catarse. Shakespeare é novamente invocado no famoso "Prefácio" de Cromwell, de Victor Hugo, de 1827: “Eis-nos chegando à sumidade poética dos tempos modernos. Shakespeare é o drama, e o drama, que funde sob um mesmo alento o grotesco e o sublime, o terrível e o bufo, a tragédia e a comédia, o drama é o caráter próprio da terceira época da poesia, da literatura atual”, escreve Victor Hugo (2007, p. 40) no prefácio conhecido também como “Do grotesco e do sublime”. Para Hugo (2007, p. 46), o drama deriva da duplicidade do homem, a composição de dois seres conferida pelo cristianismo, ou seja, um perecível e o outro imortal, um carnal e o outro etéreo. O caráter do drama, conclui Hugo, é o real, que resulta da combinação do sublime e do grotesco, de modo que a poesia completa estaria na harmonia dos contrários. Assim, Hugo (2007, p. 64) critica efusivamente as regras do classicismo: Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. Derrubemos este velho gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras regras senão as leis gerais da natureza que planam sobre toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição, resultadas das condições de existência próprias para cada assunto. Com as reações provocadas por Hugo em “Do grotesco e do sublime”, referência da estética romântica, o teatro não poderia continuar sendo o mesmo. Podemos resumir seus princípios fundamentais em: ● mistura de gêneros ● rejeição das regras ● recusa da imitação dos modelos ● liberdade na arte UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 104 A respeito de seu impacto para o drama, Anatol Rosenfeld (2014, p. 70- 71) observa que “o prefácio de Cromwell é de relevância duradoura e continua ainda hoje atual. Ao lado do combate às regras e da exaltação de Shakespeare é de importância o realce dado à categoria do grotesco”. A seguir, Rosenfeld (2014, p. 71) avalia a sua influência para o teatro moderno: Não é preciso salientar o impacto violentamente anticlássico que se anuncia nesta teoria do grotesco, da fusão do trágico e do cômico, verdadeira justificação estética do feio e do disforme. Tais ideias não só iriam ter amplo futuro na vanguarda teatral, de Jarry a Ionesco – toda ela antiaristotélica –, mas manifestam-se também no expressionismo, inspirado nas próprias fontes pré-românticas da literatura alemã. Semelhantes concepções iriam influir ainda no teatro épico de Claudel e de Brecht, particularmente com o fito de suspender a ilusão e apoiar o teor didático. Pois o grotesco tende a criar “efeitos de distanciamento”, tornando estranho o que nos parece familiar. Imbuído da concepção de historicidade, relativamente recente, Hugo reivindica a modernidade da arte, diferenciando a arte moderna e a arte antiga. Ainda que estivesse se referindo ao romantismo, a concepção de moderno, baseado na união do grotesco e do sublime, na complexidade, na variedade de formas, persiste na ideia de modernidade proposta posteriormente por Charles Baudelaire. A modernidade e, por extensão, o teatro moderno se caracteriza pela valorização do presente e da realidade complexa, fragmentada do homem moderno, personagem do drama moderno, que reflete as transformações profundas na sociedade, como as revoluções liberais e a Revolução Industrial, que estimulam profundas transformações no teatro, incluindo o surgimento da figura do diretor. É precisamente este o contexto de dramaturgos como: George Buechner (1813-1837), com sua representação de um mundo vazio e absurdo habitado pela solidão do homem moderno; Henrik Ibsen (1828-1906), com seu teatro social, que, criticando a sociedade burguesa, inaugura o teatro realista moderno; Máximo Gorki (1868-1936) e o teatro realista e naturalista engajado; Anton Tchekhov (1860-1904) que, radicalizando e superando o naturalismo, faz do drama a falta de acontecimentos, da ação a inação de seus protagonistas; Constantin Stanislavski (1863-1938) com suas contribuições para a encenação e atuação moderna; August Strindberg (1849-1912) com a subjetivação radical da dramaturgia que origina o teatro expressionista, consolidado por Reinhold Sorge (1892-1916), Georg Kaiser (1878-1945), Ernst Toller (1893-1939), com o teor confessional de protagonistas sozinhos diante de um mundo adverso; o teatro social de Erwin Piscator (1893- 1966) e de Bertold Brecht (1989-1956), com seu efeito de distanciamento; Antonin Artaud (1896-1948) com seu teatro surrealista e suas contribuições fundamentais para a linguagem do teatro; Samuel Beckett (1906-1989) com seu teatro do absurdo, caracterizado por sua visão pessimista do humano, e assim por diante. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 105 3.2 OS TIPOS DE TEATRO Vimos antes dois tipos de teatro que existem desde a Antiguidade clássica, a tragédia e a comédia, e um tipo que resulta da hibridização de ambas, a tragicomédia. Vejamos agora outros tipos principais de teatro. • Auto: tipo de teatro originado na Era Medieval, na Espanha, composto geralmente de apenas um ato. Predominantemente religiosos, os autos apresentam uma intenção moralizadora, como comprovam os autos de Gil Vicente, um dos principais expoentes de autos em nosso idioma. • Commedia dell’arte: tipo de teatro popular de origem italiana caracterizado pela improvisação, comicidade e emprego de personagens fixos, tais como o Arlequim, a Colombina, o Polichinelo, entre outros. • Ditirambo: tipo de teatro de origem grega, formado por um grande coro e um corifeu (solista), que dialoga com o coro, homenageando o deus Dioniso. • Entremés: tipo de teatro de um ato realizado nos intervalos de uma obra teatral principal. Caracterizada pela comicidade e brevidade, representava classes sociais populares em situações grotescas e absurdas. • Farsa: tipo de teatro burlesco e popular que satirizava, por meio de personagens e situações caricatas, problemas da vida comum sem preocupação com o questionamento de valores. • Pantomima: tipo de teatro gestual de origem grega, muito cultuado pelos romanos. Apenas um ator mascarado representa todos os papéis. • Milagres: tipo de teatro religioso medieval, atualmente extinto, que retratava a vida da Virgem Maria, de Cristo ou de santos do cristianismo. • Mistérios: tipo de teatro religioso medieval que tematizava festividades religiosas descritas nas escrituras, tais como o Natal, a Paixão, a Ressurreição etc. As representações podiam se estender por dias. • Monólogo: tipo de teatro em que um personagem discursa sozinho, expondo, de forma ordenada, pensamentos e emoções, em geral psicologicamente profundos e relacionados a conflitos. • Moralidades: tipo de teatro religioso medieval que debatia o comportamento e o destino humano, utilizando, para tanto, personagens que tipificavam alegoricamente os pecados capitais, as virtudes etc., com a intenção de transmitir lições morais e religiosas. • Ópera: tipo de teatro musicado de origem italiana, cantado e acompanhado por orquestra, empregando recursos teatrais como cenografia e atuação. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 106 • Sottie: tipo de teatro breve de origem francesa que satirizava a vida do tempo, por meio de personagens que simbolizavam alegoricamente tipos como o parvo, o truão e o bobo, em funções invertidas da realidade, com objetivo de entreter, empregando estruturas textuais complexas com metro e rima. • Teatro de fantoches: teatro debonecos ou de marionetes, manipulados pelos atores. • Teatro de revista: tipo de teatro popular caracterizado pela heterogeneidade e apelo, recorrendo, para tanto, a acrobacias e apresentações musicais e sensuais. • Teatro de sombras: tipo de teatro de origem oriental, proveniente da China, o teatro de sombras utiliza a projeção de sombras como personagens. Elencamos acima alguns dos principais tipos de teatro, aos quais podemos acrescentar tipos tradicionais de teatro oriental, como o Noh e o Kabuki, de origem japonesa, bem como tipos de teatro moderno, como o teatro do absurdo, criado por Ionesco, e representado por dramaturgos como Samuel Beckett, Jean Genet, Antonin Artaud, entre outros, ou o teatro do oprimido, criado pelo brasileiro Augusto Boal. Atualmente, as performances representam um tipo de teatro, com suas peculiaridades, assim como diferentes tipos de teatro de rua, apresentados publicamente. DICAS Assista ao filme Poderosa Afrodite (1995), de Woody Allen, para observar a intertextualidade com a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. 4 O TEXTO POÉTICO: CARACTERÍSTICAS Observe o texto que segue: Sobre todos os cumes quietude Em todas as árvores mal percebes um alento. Os pássaros emudecem na floresta Esperas só um pouco, breve Tu também descansarás. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 107 Você certamente não hesitou em reconhecer o texto como um poema, não é? De fato, é um poema do poeta romântico alemão Johann Wolfgang von Goethe, intitulado “Canção noturna do viandante”, escrito em 1780. O que, afinal, caracteriza o texto poético como poético? Talvez sejamos inclinados a responder logo: o verso! A diferença entre a prosa e o verso basta para caracterizar o texto poético? Se assim fosse, o que faríamos com os poemas em prosa inaugurados, na modernidade, pelo poeta Charles Baudelaire, por exemplo? E, bem antes disso, o que seriam dos textos de medicina e física que, na Antiguidade clássica, eram escritos em versos? Seriam eles poéticos? Essa questão foi colocada por Aristóteles (2008, p. 38-39): As pessoas, juntando ao nome do metro a palavra poeta, chamam a uns poetas elegíacos e a outros poetas épicos, não os designando poetas pela imitação, mas pela semelhança do metro. E, se escrevem alguma obra em verso sobre Medicina ou sobre Física, costumam designá-los igualmente por poetas. Ora, nada há de comum entre Homero e Empédocles a não ser o metro; por isso será justo chamar a um poeta e a outro naturalista, em vez de poeta. Podemos dizer que a reflexão de Aristóteles a respeito do poeta e do uso, por sua parte, do verso provoca o surgimento do conceito de poeticidade, ou seja, da qualidade que define o texto poético como poético. Essa questão continua, ainda hoje, sem resolução. Por ora, podemos estender o mesmo questionamento que propusemos ao “poético” ao conceito de “lírico”. É o que faz Emil Staiger (1975, p. 100), como você pode ver: se a essência do lírico determina-se a partir das canções do Romantismo e de Goethe, qual o lugar de Keats, Petrarca, Baudelaire, Gôngora, Hölderlin? Não serão eles poetas, tão líricos como Eichendorff? Não serão talvez maiores líricos que o autor do Romantismo burguês? Essa objeção abriga um emaranhado de mal-entendidos. Quero examiná- los por ordem. A expressão "poeta lírico" que surge aqui é capciosa. Quem é poeta lírico? Um poeta que compôs obras líricas ou um poeta que criou Lírica? Sem dúvida alguma, o que criou Lírica. [...] Lírica, pois, significa aqui novamente aquele ramo genérico dentro do qual podem-se colocar poemas, um compartimento grande e espaçoso, já que todas as poesias, mesmo as que se classificam em sub-ramos, nele são colocadas. A expressão "lírico", ao contrário, justamente não nos serve como conceito coletivo. Como podemos perceber, Emil Staiger repete, de certa forma, a pergunta de Aristóteles. Se o filósofo grego se pergunta “quem é o poeta”, o germanista complementa: “quem é o poeta lírico?”. Como vimos antes, o que Emil Staiger chama de “essência” do lírico pode ser traduzido como a qualidade que caracteriza um determinado texto como “lírico”. O adjetivo “lírico” se aplica aos poemas, de modo que “o crítico literário sempre terá que lançar mão daquela qualidade que desde o UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 108 tempo de Herder é imprescindível em nossa profissão: um sentimento espontâneo para a qualidade histórico-individual da obra” (STAIGER, 1975, p. 103). Pode-se estender a outros substantivos. Tanto que a Emil Staiger (1975, p. 105), ao aproximá-lo da “essência do homem” que se manifesta nos “domínios da criação poética”, afirma que a contribuição dos gêneros literários estaria na “visão de mundo” do poeta e, por extensão, em “parte daquilo que o homem pode ser em absoluto”. Por outro lado, o substantivo “Lírica” serve como “conceito coletivo”, “aquele ramo genérico dentro do qual podem-se colocar poemas”, como afirma Emil Staiger. E o poeta lírico seria, simplesmente, o poeta “que criou Lírica”. Retomando a sua distinção entre adjetivos e substantivos, que vimos antes e que seria apropriada por Anatol Rosenfeld, Emil Staiger (1975, p. 103) simplifica: “Coloquemos para os substantivos as expressões correspondentes que evitarão também aqui uma confusão; portanto, para Epopeia "uma narrativa longa em versos", para Drama "peça teatral", para Lírica ou Poesia "poemas de pequena extensão"”. E como, além da “pequena extensão” dos poemas, a poética antiga define a poesia lírica? Desde a Antiguidade, os cantos líricos, acompanhados então pela lira ou pela flauta, expressam, em geral e convencionalmente, os sentimentos individuais, subjetivos do poeta ou, mais propriamente, do eu lírico. Essa individualidade e subjetividade da poesia lírica, que não deve ser confundida com a individualidade e subjetividade do autor, se apoia no tipo de enunciação descrito, como você viu, desde Platão e Aristóteles, como lírico: Platão o define como “narração pelo próprio poeta”, e Aristóteles afirma que, nele, se preserva “a sua identidade sem alteração”. Na verdade, Aristóteles não trata especificamente da lírica (e sua Poética não chegou até nós completa), mas se refere ao que compreendemos por lírica, como observa Anatol Rosenfeld (2014, p. 16), ao diferenciar duas formas de narrar, uma em que se introduz uma terceira pessoa (a épica), e outra em que se insinua o autor, sem que intervenha outro personagem (a lírica). Reproduzindo essa compreensão de poesia lírica, G. W. F. Hegel, por exemplo, subordina a lírica à subjetividade, afirmando que ela “exprime apenas os sentimentos interiores da alma” (HEGEL, 2010, p. 383). Ao entender que a poesia lírica “tem por conteúdo o subjetivo, o mundo interior, a alma agitada por sentimentos, alma que, em vez de agir, persiste na sua interioridade e não pode por consequência ter por forma e por fim senão a expansão do sujeito, a sua expressão” (HEGEL, 2010, p. 436), o filósofo alemão restringe o lirismo ao homem individual: O lirismo restringe-se ao homem individual e, consequentemente, às situações e aos objetos particulares. O conteúdo da poesia lírica é, pois, a maneira como a qual a alma com seus juízos subjetivos, alegrias e admirações, dores e sensações, toma consciência de si própria no seio deste conteúdo (HEGEL, 2010, p. 512-513). Como caracterizar o gênero lírico, então? Em geral, reproduzindo o consenso, uma voz central exprime um estado de alma e o traduz em versos. Trata-se da expressão de emoções e disposições psíquicas. “A lírica tende a ser”, como resume Rosenfeld (2014, p. 22), “a plasmação imediata das vivências intensas de um Eu no encontro com o mundo, sem que se interponham eventos distendidos no tempo”. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 109 Anatol Rosenfeld (2014, p. 23) constata, evidentemente embasado em Emil Staiger (1975), que “prevalecerá a fusão da alma que canta com o mundo, não havendo distância entre sujeito e objeto”. Aquilo quese inscreve no poema se encontra, como nota Rosenfeld, arrancado da sucessão temporal, permanecendo à margem e acima do fluir do tempo, como um momento inalterável, como presença intemporal. Ao analisar o poema de Goethe que vimos acima, Emil Staiger (1975, p. 21) constata que “no estilo lírico não se dá a ‘re’-produção linguística de um fato. Não se pode aceitar que na ‘Canção noturna de um viandante’ estivesse de um lado o clima do crepúsculo e do outro a língua com todos os seus sons, pronta a ser aplicada. Antes, é a própria noite que soa como língua. O poeta não ‘realiza’ coisa alguma”. “O valor dos versos líricos é justamente essa unidade entre a significação das palavras e sua música”, conclui Staiger (1975, p. 22), que ressalta insistentemente os seguintes aspectos na lírica moderna: ● a unidade entre a música das palavras e de sua significação; ● a atuação imediata do lírico sem necessidade de compreensão; ● renúncia à coerência gramatical, lógica e formal. Emil Staiger (1975, p. 59) observa que na lírica não há oposição entre sujeito e objeto, constatando o “um-no-outro lírico” em que a individualidade se dissolve. “O que se dá é que ‘interno’ e ‘externo’, ‘subjetivo’ e ‘objetivo’ não estão absolutamente diversificados em poesia lírica”, de modo que “não nos sentimos como individualidade, como pessoa ou ser historicamente localizado”, afirma Staiger (1975, p. 63), para quem no poeta lírico “os contornos do eu, da própria existência, não são firmemente delineados” (STAIGER, 1975, p. 66). Ora, mas não vimos que o lírico se caracteriza justamente pela individualidade e subjetividade do eu? Na verdade, Emil Staiger não foi o primeiro a problematizar essa concepção de lirismo. Antes dele, Friedrich Nietzsche (1992, p. 43) retoma a definição de “poeta lírico” enquanto “aquele que sempre diz ‘eu’” e questiona: “não é ele o primeiro artista a ser chamado de subjetivo, o verdadeiro não artista?”. Nietzsche lembra, então, que o poeta lírico se fez primeiro, enquanto artista dionisíaco, totalmente um só com o Uno primordial, com sua dor e contradição, e produz a réplica desse Uno primordial em forma de música [...] agora porém esta música se lhe torna visível, como numa imagem similiforme do sonho, sob a influência apolínea do sonho. [...] O artista já renunciou à sua subjetividade no processo dionisíaco: a imagem, que lhe mostra a sua unidade com o coração do mundo, é uma cena de sonho, que torna sensível aquela contradição e aquela dor primordiais, juntamente com o prazer primigênio da aparência. O “eu” do lírico soa, portanto, a partir do abismo do ser: sua “subjetividade”, no sentido dos estetas modernos, é uma ilusão (NIETZSCHE, 1992, p. 44). UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 110 NOTA Em Nietzsche, o apolíneo, referente ao deus grego Apolo, contrasta com o dionisíaco, referente ao deus grego Dionísio. Enquanto o primeiro se relaciona com as artes figuradas e com a individualidade, o segundo se relaciona com a arte não figurada da música e com a coletividade. Você percebeu que Nietzsche, assim como Emil Staiger, depois dele, questiona a individualidade e a subjetividade do eu lírico? E que o associa à música? Com isso, Nietzsche não busca simplesmente recordar a origem do lirismo, que sabemos estar relacionada com a lira e, portanto, com a música, mas evidenciar que, por força da “música dionisíaca e, portanto, da música em geral”, o eu lírico se caracteriza por um “desprendimento de si próprio” ou, numa palavra, pela “desindividuação”. A poesia moderna, ao acentuar a musicalidade da poesia, acentua, ao mesmo tempo, o processo de “desindividuação” que caracteriza o lirismo. Não devemos, portanto, insistir na busca da individualidade e da subjetividade do eu, quando mais do poeta, na poesia moderna, como sugere, por exemplo, Vitor Manuel de Aguiar e Silva ao concluir que a imitação ou representação entra em colapso quando o artista resolve se retirar do mundo e buscar a si mesmo, por entender que “ao lírico é impossível exilar-se de si mesmo, alhear-se da sua interioridade a fim de se outrar” (SILVA, 1976, p. 230). Devemos lembrar que o contexto do Romantismo e do Simbolismo coincide com a consolidação do capitalismo no mundo ocidental e, consequentemente, com a exacerbação do individualismo, fundamentado na concepção cartesiana de sujeito. Em vez de simplesmente reiterar o individualismo que insistentemente se associa ao lirismo, parece mais certo, portanto, concluir que a acentuação da musicalidade da poesia ressoa a “desindividuação” de que fala Nietzsche ou a “desintegração do eu” de que fala Staiger ao se referir ao sentimento de dissolução da individualidade. E, de fato, a poesia não cessa de dar exemplos de “exilar-se de si mesmo”, contrariando a conclusão de Vitor Manuel de Aguiar e Silva, como comprova a famosa frase do poeta simbolista Arthur Rimbaud: “eu é um outro”. Nesse sentido, Hugo Friedrich, analisando justamente as relações entre o Romantismo e a poesia moderna em “Estrutura da lírica moderna”, define a lírica moderna pela despersonalização, ou seja, a separação de poesia e pessoa. Segundo Friedrich (1978, p. 36-37), “com Baudelaire começa a despersonalização da lírica moderna, pelo menos no sentido de que a palavra lírica já não nasce da unidade de poesia e pessoa empírica, como haviam pretendido os românticos, em contraste com a lírica de muitos séculos anteriores”. Para Hugo Friedrich (1978, p. 35), o problema específico de Baudelaire é “a possibilidade da poesia na civilização comercializada e dominada pela técnica”, problema aprofundado por Theodor W. Adorno, como veremos. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 111 Um ano depois da publicação de “Estrutura da lírica moderna”, de Hugo Friedrich, Theodor W. Adorno (2003, p. 71), partidário do conceito de estranhamento, desfamilizarização ou distanciamento, retoma os mesmos versos de “Canção noturna do viandante”, de Goethe, comentados por Emil Staiger. Este poema certamente deve sua grandeza ao fato de que não fala de nada alienado e perturbador, de que, nele próprio, o desassossego do objeto não é contraposto ao sujeito: pelo contrário, o poema reverbera o desassossego do próprio sujeito. É prometida uma segunda imediaticidade: o que é humano, a própria linguagem, aparece como se fosse ainda uma vez a criação, enquanto tudo o que vem de fora se extingue no eco da alma. NOTA O conceito de estranhamento (ostranenie) é fundamental para o Formalismo Russo, em que se relaciona com a proposta formalista de definir a literariedade (literaturnost). O conceito aparece em “A arte como procedimento”, do formalista russo Victor Chklovski, enquanto um efeito de desautomatização da percepção provocado pela arte. Você percebeu que Adorno reitera a ideia de uma fusão entre sujeito e objeto? A argumentação de Adorno pretende repensar a relação entre a poesia e a sociedade a partir dos pressupostos que acabamos de ver. Para tanto, e a partir do “primado da linguagem” que caracteriza a literatura e o seu efeito de estranhamento, Adorno contraria o consenso que compreende a lírica como incapaz de “reconhecer o poder de socialização” (ADORNO, 2003, p. 65-66). A “palavra lírica representa o ser-em-si da linguagem contra sua servidão no reino dos fins”, afirma Adorno (2003, p. 88-89). A incomunicabilidade da linguagem da poesia estabelece, portanto, a mediação com a sociedade justamente por meio do seu distanciamento, que Adorno compreende como uma reação ao processo de reificação ou coisificação provocado pelos modos de produção capitalista: A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação das mercadorias sobre os homens, que se propagou desde o início da Era Moderna e que, desde a Revolução Industrial, desdobrou-se em força dominante da vida (ADORNO, 2003, p. 69). Você percebeu como Adorno relaciona poesia lírica e sociedade? Como identificana linguagem da poesia lírica uma questão eminentemente social? Podemos dizer que a poesia lírica, por meio da linguagem, que constitui tanto a poesia quanto o homem enquanto ser de linguagem, devolve ao homem sua humanidade ao reagir contra sua reificação. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 112 Vejamos, agora, mais de perto a linguagem da poesia lírica. 4.1 A ESTRUTURA DO POEMA A estrutura do poema, formada de unidades concretas e significativas que estudaremos a seguir, comporta, enquanto produto de linguagem, um aspecto de sentido, seja em sua conotação sensorial, seja em sua conotação intelectual. Veremos como se estabelece a relação entre a significação e a estrutura, que implica, por si mesma, uma relação, neste caso, entre as partes constitutivas do poema. A estrutura do poema, portanto, imprime uma forma a uma significação que depende inteiramente da estrutura do poema. Jean Cohen (1978, p. 34), ao constatar que a relação constitutiva da estrutura ou da forma do poema consiste em uma relação de significados, conclui: “poderemos falar de uma forma do sentido”. O fundamental aqui diz respeito ao fato de que, no poema, a forma e o sentido se interpenetram indistintamente, de modo que a poeticidade, segundo Jean Cohen, numa perspectiva formalista, depende da expressividade da linguagem estruturada como poema. NOTA A poeticidade é a qualidade daquilo que é considerado poético. Observe o famoso soneto de Camões: Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganhe em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 113 Para compreendermos a relação entre a forma e os sentidos e a função fundamental da estrutura na produção de sentidos na leitura do poema, acompanhemos as observações iniciais de Antonio Candido a respeito do poema de Camões: Trata-se de um soneto. Significativo: adoção de um instrumento expressivo italiano (ou fixado e explorado pelos italianos), apto pela sua estrutura a exprimir uma dialética; isto é, no caso, uma forma ordenada e progressiva de argumentação. Há certa analogia entre a marcha do soneto e a de certo tipo de raciocínio lógico em voga ainda ao tempo de Camões: o silogismo. Em geral, contém uma proposição ou uma série de proposições (ou algo que se pode assimilar a ela) e uma conclusão (ou algo que se pode a ela assimilar). Este soneto obedece ao modelo clássico. É composto em decassílabos e obedece ao esquema de rimas ABBA, ABBA, CDC, DCD. Isto permite a divisão do tema e a constituição de uma rica unidade sonora, na qual a familiaridade dos sons e a passagem dum sistema de rimas a outro ajuda ao mesmo tempo o envolvimento da sensibilidade e a clareza da exposição poética (proposição, conclusões). O decassílabo, como aqui aparece, é de invenção italiana, embora exista com outros ritmos na poesia de outras línguas. Verso capaz de conter uma emissão sonora prolongada, e bastante variado para se ajustar ao conteúdo. Este soneto apresenta uma particularidade: a proposição é feita por uma justaposição de conceitos nos dois primeiros quartetos, estendendo-se ao primeiro terceto. Só no último tem lugar a conclusão (que é uma consequência do exposto), que de ordinário principia no anterior. Quanto à estrutura rítmica, notar que na parte propositiva (11 versos), todos os versos têm cesura da 6ª sílaba, permitindo um destaque de 2 membros, o primeiro dos quais exprime a primeira parte de uma antítese, exprimindo o segundo a segunda parte. Vemos aqui a função lógica ou psicológica da métrica, ao ajustar-se à marcha intelectual e afetiva do poema. Note-se ainda que o poeta recorre discretamente à aliteração, isto é, à frequência num ou mais versos das mesmas consoantes, formando uma determinada constante sonora, ou antes, um efeito sonoro particular: r no primeiro verso; t no terceiro e sétimo; d no quarto; v no décimo etc. (CANDIDO, 1994, p. 20-21). Você percebeu como Antonio Candido articula cada parte do poema procurando analisar sua estrutura, passando da parte ao todo e do todo para a parte? E como relaciona a estrutura formada pelas partes com os sentidos do poema, tanto cognitivos quanto afetivos? O efeito do poema, produzido no ato da leitura, depende, portanto, de sua estrutura, como podemos perceber. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 114 Vejamos agora como Antonio Candido, complementando as observações anteriores, interpreta o poema de Camões, primeiramente em seu “aspecto expressivo formal” e, a seguir, em seu “aspecto expressivo existencial”. Na interpretação do que chama “aspecto expressivo formal”, Antonio Candido (1994, p. 21-22) analisa: Evidentemente se trata de um poema construído em torno de antíteses, organizadas longitudinalmente em forma simétrica, por efeito da cesura significativa, dando nítida impressão de estrutura bilateral regular, ordenada em torno de uma tensão dialética. São duas séries de membros que se opõem, prolongando durante 11 versos um movimento de entrechoque. Esta estrutura geral é movimentada por uma progressão constante do argumento poético, manifestada: 1º pelo efeito de acúmulo das imagens, que acabam criando uma atmosfera de antítese; 2º pela abstração progressiva das categorias gramaticais básicas que são no caso vocábulos-chave do ponto de vista poético. Assim é que temos sucessivamente uma área de substantivos, uma área de verbos substantivados e uma área de verbos. Substantivos: 1ª estrofe: fogo, ferida, contentamento, dor. Verbos substantivados: 2ª estrofe: um querer, um andar (solitário pode ser substantivo ou adjetivo, aliás; dupla leitura possível). Transição no terceiro verso que prepara a passagem para a área seguinte verbal (/ um/ nunca contentar-se). Verbos: 3ª estrofe, e já fim da segunda: querer estar, servir, ter. Trata-se de um nítido processo de abstração, que revela a passagem do estado passivo do sujeito poético à sua ação, intensificando a sua força emocional. Ainda sob este aspecto, note-se na área dos substantivos a evolução da causa material – fogo – para a consequência material imediata e apenas metaforicamente material – ferida – e dela para a consequência imaterial mediata – contentamento e dor, que são estados da sensibilidade. Na última estrofe, a cesura não divide o verso, há transposição (enjambement), e todo o terceto se apresenta como unidade expressiva coesa e ininterrupta, pela presença de uma consequência lógico- poética, sob a forma de interrogação. Esta interrogação exprime a perplexidade do poeta e permite transitar à nossa segunda parte (CANDIDO, 1994, p. 21-22). NOTA Enjambement é um termo francês, traduzido como encavalgamento, que denomina o desalinhamento da estrutura métrica e sintática entre um verso e outro. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 115 Você percebeu como Antonio Candido aproveita as observações iniciais sobre o poema, articulando as partes e o todo, numa interpretação formal, ou seja, encerrada na organização interna da linguagem do poema? Vejamos agora como a interpretação do “aspecto expressivo formal” se desdobra numa interpretação do “aspecto expressivo existencial”, a segunda parte a que se refere Antonio Candido: Este soneto exprime, sob aparente rigidez lógica, uma densa e dramática tensão existencial; é o encerramento de uma profunda experiência humana, baseada na perplexidade ante o caráter contraditório (bilateral, para usar a expressão aplicada à forma estrutural do soneto) da vida humana. A vida é contraditória, e como os poetas não cansam de lembrar, amor e ódio, prazer e dor, alegria e tristeza, andam juntos.[...] No soneto de Camões há uma rebeldia apenas retórica, sob a perplexidade do último terceto. Mas no corpo dialético do poema reponta uma aceitação das duas metades da vida, pelo conhecimento do seu caráter inevitável. A profunda experiência de um homem que viveu guerras, prisão, vícios, gozos do espírito, leva-o a esta análise que reconhece a divisão da unidade. E a própria conclusão perplexa do fim é o reconhecimento de que a unidade se sobrepõe afinal à divisão do ser no plano da experiência humana total. O amor é tudo o que vimos, e ele é aspiração de plenitude graças à qual o nosso ser se organiza e se sente existir. Grande mistério – sugere o poeta – que sendo tão aparentemente oposto à unidade do ser, ele seja um unificador dos seres (na medida em que é amizade). A simetria antitética perfeitamente regular exprime a presença de uma ordem no caos. O espírito unifica no plano da arte as contradições da vida, não as destruindo, mas integrando-as (CANDIDO, 1994, p. 22-23). Você percebeu como a interpretação formal do poema concorre para uma interpretação dos sentidos do poema, de modo que a forma e os sentidos se integram na estrutura do poema? Antonio Candido (1994, p. 23) conclui sua interpretação sugerindo a possibilidade de “representar graficamente o soneto de Camões, levando em conta a estrutura antitética das três primeiras estrofes, cortadas verticalmente pela cesura na 6ª sílaba, e o ritmo unificador da estrofe final”: Observe que Candido ilustra a estrutura antitética das três primeiras estrofes, cortadas verticalmente pela cesura na 6ª sílaba, com dois retângulos na vertical, e o ritmo unificador da estrofe final com o retângulo na horizontal. Vejamos agora mais detidamente alguns dos conceitos empregados por Antonio Candido, os quais constituem a metalinguagem que contribui para a explicação de um poema. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 116 4.2 O VERSO O verso ordena em uma unidade um grupo de unidades menores, exigindo uma continuação correspondente, que constitui a estrofe e, finalmente, o poema. Por isso, Antonio Candido (1994, p. 60) considera o verso a “unidade do poema”. E, mais do que uma unidade sonora e musical, uma unidade significativa, razão pela qual Antonio Candido privilegia as palavras como unidades constitutivas do verso: São estas as unidades significativas, que cortamos em partes, desarticulamos, emendamos, apenas para analisar os fenômenos do metro e do ritmo, isto é, os fenômenos que constituem a sua realidade sonora. Se o fizemos, foi porque em poesia o significado se constrói em grande parte por meio dos elementos sonoros, e assim vimos como a lei da sonoridade, o ritmo, é a própria alma do verso (CANDIDO, 1994, p. 59). Conforme Rogério Chociay (1974, p. 1), o termo tem origem no latim versus, que significa voltar, retornar, e, tendo assumido conotações como linha, sulco, fileira, entre outras, a palavra designou a linha do poema: “qual o sulco do arado, ela volta sempre sobre si mesma”. Jean Cohen (1978, p. 47), por sua vez, confirma que “todo verso é ‘versus’, ou seja, retorno. Por oposição à prosa (‘prorsus’) que avança linearmente, o verso volta sempre sobre si mesmo”. Os versos recebem diferentes denominações: a) agudos, graves ou esdrúxulos: versos terminados em palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, respectivamente; b) brancos: versos metrificados sem rima; c) livres: versos livres de regras quanto à metrificação, ritmo e rima. Quanto ao número de sílabas, os versos são classificados em: a) monossílabos: versos de uma sílaba b) dissílabos: versos de duas sílabas c) trissílabos: versos de três sílabas d) tetrassílabos: versos de quatro sílabas e) pentassílabos ou redondilha menor: versos de cinco sílabas f) hexassílabos ou heroico menor: versos de seis sílabas g) heptassílabos ou redondilha maior: versos de sete sílabas h) octassílabos: versos de oito sílabas i) eneassílabos: versos de nove sílabas j) decassílabos: versos de dez sílabas, divididos em: o heroico: com acento basicamente em 6-10 Ex.: Es | can | da | lo | as | men | te | per | fu | ma | do (Olavo Bilac) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 117 o sáfico: com acento basicamente em 4-10 Ex.: So | no | ra | men | te, | lu | mi | no | sa | men | te (Cruz e Sousa) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 k) hendecassílabos ou verso de arte maior: versos de 11 sílabas l) dodecassílabos ou alexandrinos: versos de 12 sílabas Outros conceitos importantes para o estudo do verso são: a) cesura: pausa no interior do verso, separando, por meio dos acentos, o verso em partes: A | mor | é | fo | go | que ar | de | sem | se | ver | 6 b) enjambement ou cavalgamento: quebra da sintaxe e, por conseguinte, do sentido de um verso, continuada no verso seguinte, produzindo um efeito de quebra e continuidade. Jean Cohen (1978, p. 31) o define como “uma discordância entre o metro e a sintaxe” ou ainda “por uma relação interna entre som e sentido”: Quando olho para mim não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir Que me extravio às vezes ao sair Das próprias sensações que eu recebo. (Álvaro de Campos) Os versos, ordenados em uma unidade maior, formam uma estrofe. A estrofe consiste, portanto, no conjunto demarcado de versos, separado de outras estrofes. As estrofes são denominadas conforme a quantidade de versos: a) dístico: estrofe de dois versos b) terceto: estrofe de três versos c) quarteto ou quadra: estrofe de quatro versos d) quinteto ou quintilha: estrofe de cinco versos e) sexteto ou sextilha: estrofe de seis versos f) sétima ou septilha: estrofe de sete versos g) oitava: estrofe de oito versos h) nona ou novena: estrofe de nove versos i) décima: estrofe de dez versos Um grupo de versos que se repete ao longo do poema recebe o nome de refrão. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 118 4.2.1 A rima A rima se define como a homofonia, ou reiteração de fonemas, geralmente ao final dos versos (rima externa ou final), constituindo o principal efeito de sonoridade do verso. A rima pode ocorrer ainda no interior dos versos (rima interna ou interior). Segundo Antonio Candido (1994, p. 39), a decadência da métrica quantitativa contribuiu para o aparecimento da rima nas literaturas latinas: “Toda a história do verso português se fez sob a égide da rima, embora desde o Renascimento haja voltado a prática do verso branco dos clássicos latinos”. Os tipos de rima mais importantes a distinguir são as rimas consoantes (ou soantes) e as rimas toantes. Na explicação de Antonio Candido (1994, p. 40), “na rima consoante, há concordância de todos os fonemas a partir da vogal tônica”. Frescura das sereias e do orvalho, Dos brancos pés dos pequeninos, Voz das manhãs cantando pelos sinos, Rosa mais alta no mais alto galho (Manuel Bandeira) Podemos dizer, grosso modo, que ocorre uma identidade sonora na rima consoante, ao passo que na rima toante, aproximação. Ainda segundo Antonio Candido (1994, p. 40), “na rima toante, há concordância das vogais tônicas, ou das vogais tônicas e outra, ou outras vogais átonas que a seguem”. Em suma, enquanto na rima consoante ocorre a repetição de vogais e consoantes, na rima toante apenas as vogais se repetem: Se vem por círculos na viagem Pernambuco – Todos os Foras. Se vem numa espiral da coisa à sua memória. (João Cabral de Melo Neto) Existem, evidentemente, outros tipos de rima. Sânzio de Azevedo (1997) enumera outros tipos de rima segundo sua natureza: atenuada, ampliada, idêntica, composta, quebrada, rica, pobre, exótica, figurada, imperfeita e aparentemente imperfeita. Entre os tipos enumerados, destacamos as rimas ricas e pobres. A rima rica consiste na combinação de palavras de classes gramaticais diferentes: Esquece o tempo. O tempo não existe. (verbo)Acende a chama às límpidas lanternas. (substantivo) Nossas almas, a ansiar no mundo triste, (adjetivo) São de uma mesma idade: são eternas. (adjetivo) (Tasso da Silveira) TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 119 A rima pobre, por sua vez, compreende palavras da mesma classe gramatical. As rimas são ainda classificadas segundo sua posição ou distribuição nas estrofes do poema. Para representar os esquemas da disposição das rimas, utilizamos as letras do alfabeto. A rima emparelhada, por exemplo: Ouço e fito com um certo assombro o azul, envolto (A) N’uma bruma sutil. Corta a atmosfera solto (A) Um pássaro noturno. O luar, o luar, não vem (B) Às giestas em flor... e ela tarda também!... (B) De novo escuto e fito o azul... somente a treva (C) Mais aumenta no bosque e no céu mais se eleva! (C) (Luís Murat) Como podemos ver, aparece aos pares, representamos com o esquema AABBCC. A rima cruzada ou alternada, por sua vez, segue o esquema ABAB: Minha desgraça, não, não é ser poeta, (A) Nem na terra de amor não ter um eco, (B) É meu anjo de Deus, o meu planeta (A) Tratar-me como trata-se um boneco (B) (Álvares de Azevedo) As rimas opostas ou interpoladas seguem o esquema ABBA, e a rima encadeada, o esquema ABA/BCB/CDC: Sei de uma criatura antiga e formidável, (A) Que a si mesma devora os membros e as entranhas, (B) Com a sofreguidão da fome insaciável. (A) Habita juntamente os vales e as montanhas; (B) E no mar, que se rasga, à maneira de abismo, (C) Espreguiça-se toda em convulsões estranhas. (B) Traz impresso na fronte o obscuro despotismo; (C) Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, (D) Parece uma expansão de amor e de egoísmo. (C) (Machado de Assis) Outros tipos de rima segundo sua posição, conforme Sânzio de Azevedo (1997), são a rima contínua, a leonina, a coroada, a distanciada, a misturada, a repetida e a redobrada. E, finalmente, quando os versos metrificados não rimam, são chamados versos brancos. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 120 4.2.2 Metrificação e escansão A metrificação, ou seja, o conjunto de normas que regem a estrutura dos versos regulares, empregada entre os gregos e romanos, na Antiguidade, obedecia ao sistema quantitativo. O sistema quantitativo se baseia na quantidade de pés, ou seja, a combinação de sílabas breves ( U ) e longas ( - ) ordenadas, no verso, numa sucessão que produz um ritmo. Como observa Sânzio de Azevedo (1997, p. 11-12), “há pés de duas, de três, e mesmo de quatro sílabas. Em Latim, as sílabas são, como foi dito, breves e longas, o que corresponde, não muito rigorosamente, às átonas e tônicas do Português, respectivamente”. Observe este verso de Virgílio, que introduz a Eneida, e que consiste em um hexâmetro, ou seja, um verso de seis pés ou unidades métricas: Arma virumque cano, Troiae qui primus ab oris - UU | - UU | - UU | - UU | - UU | - UU No verso, traduzido por Carlos Alberto Nunes como “As armas canto e o varão que fugindo das plagas de Tróia”, podemos identificar seis dátilos ( - UU ). Geralmente, os versos se compunham de um mesmo pé. Um hexâmetro composto de seis dátilos, por exemplo, seria, assim, denominado hexâmetro datílico. Os principais pés do sistema quantitativo são: a) Troqueu: | - U | b) Jambo: | U - | c) Dátilo: | - UU | d) Anapesto: | UU - | e) Péonio primo: | - UUU | f) Péonio quarto: | UUU - | Os versos neolatinos, como observa Antonio Candido (1994, p. 48), “não correspondem de modo algum ao princípio de regularidade da métrica quantitativa”. Afinal, ainda segundo Antonio Candido (1994, p. 39), “o afrouxamento da métrica quantitativa deu lugar ao aparecimento da métrica rítmica, baseada na sucessão das sílabas, com acentos tônicos distribuídos em algumas delas”: Quando eu te fujo e me desvio cauto 4 8 10 Ne verso de Casimiro de Abreu acima, por exemplo, temos 10 sílabas poéticas, com acentos tônicos na quarta, oitava e décima sílabas. Antonio Candido (1994, p. 51) diferencia o metro, ou seja, o número de sílabas poéticas, do ritmo, o TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 121 número de segmentos rítmicos. A distribuição das sílabas tônicas de modo diverso nos versos resulta, assim, em diversas combinações de ritmo. Antonio Candido (1994) sugere que a um esquema silábico ou métrico – ES ou EM – correspondem diferentes esquemas rítmicos – ER. No exemplo acima, por exemplo, temos: ES – 10 ER – 4, 8, 10. Para analisarmos o metro e o ritmo dos versos de um poema, precisamos realizar a escansão dos versos. A escansão consiste na contagem das sílabas poéticas: Quan | do eu | te | fu | jo e | me | des | vi | o | cau | to 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Como você pode perceber, ao escandirmos um verso, a contagem das sílabas para na última sílaba tônica ( | cau | ), e não corresponde à contagem das sílabas gramaticais, a exemplo da segunda sílaba poética ( | do eu | ) e da quinta ( | jo e | ), em que ocorre o que podemos chamar, segundo Rogério Chociay (1974), de processos de acomodação. No exemplo, ocorre a sinalefa, ou seja, a fusão ou contração de duas ou mais vogais intervocabulares. Os processos de acomodação podem ser divididos em silábicos e acentuais. Os principais processos de acomodação silábicos são: a) Eclipse b) Sinérese c) Sinalefa d) Diérese e) Dialefa f) Aférese g) Síncope E os principais processos de acomodação acentual são: a) Sístole b) Diástole Podemos acrescentar ainda alguns casos especiais de acomodação: a) Anacruse b) Sinafia c) Compensação UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 122 4.2.3 Poemas: formas fixas e visuais A organização das unidades concretas e significativas que estudamos, tais como verso, metro, ritmo, rima, estrofe, na unidade do poema configura a sua forma. A mais importante forma fixa de poema é o soneto, que, como você viu no exemplo de Camões, é formado por dois quartetos e dois tercetos, geralmente seguindo o esquema de rimas ABBA ABBA CDC DCD, sendo composto em versos decassílabos ou alexandrinos. Quanto ao soneto, Sânzio de Azevedo (1997, p. 191) esclarece: Apesar das divergências que sua origem tem suscitado, parece realmente “ter tido ele por berço a Itália ou, com mais precisão, a Sicília”, no dizer de Cruz Filho. Consagrado por Petrarca na Itália, foi introduzido em Portugal por Sá de Miranda. Composto de 14 versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, seu esquema rimático tem variado com o tempo. No soneto de Camões, é invariável o dos quartetos, em ABBA / ABBA; mas os tercetos podem ser em CDC / DCD, CDE / CDE e até CDC / CDC. O soneto inglês apresenta algumas alterações em relação ao italiano, sendo formado por três quadras com rimas próprias e um dístico com rima emparelhada. Ainda segundo Sânzio de Azevedo (1997, p. 207), “o soneto inglês, praticado por Shakespeare, segue a fórmula estabelecida por Wyatt e Howard (Duque de Surrey), introdutores desse tipo de poema na Inglaterra: são três quartetos e um dístico, na disposição ABAB/CDCD/EFEF / GG”. Sânzio de Azevedo exemplifica o soneto inglês com um poema do brasileiro Manuel Bandeira: Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza, mas por altivez, No tormento mais fundo o teu gemido Trocar num grito de ódio a quem o fez. As delícias da carne e pensamento Com o instinto da espécie nos engana Sobpor ao generoso sentimento De uma afeição mais simplesmente humana. Não tremer de esperança nem de espanto. Nada pedir nem desejar, senão A coragem de ser um novo santo Sem fé num mundo além do mundo. E então, Morrer sem uma lágrima, que a vida Não vale a pena e a dor de ser vivida. Os tipos de poema podem se definir pelo tema ou pela forma, como o soneto. Em geral, os tipos caracterizados pelo tema compreendem uma determinada forma. As principais formas fixas são: ode, trioleto, sextina, epigrama, balada, rondó, rondel, madrigal, écloga, idílio, pastoral, elegia, epitalâmio, glosa, haicai,entre outras. Eis um exemplo de haicai: TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 123 HORA DE TER SAUDADE Houve aquele tempo... (E agora, que a chuva chora, Ouve aquele tempo!) (Guilherme de Almeida) Observe agora como a poetisa Ana Cristina Cesar recorre a diferentes tipos de poema em seu poema em versos livres “Primeira lição”, que consiste, como explica Maria Lucia de Barros Camargo (2003, p. 248), em “uma ‘aula básica’ sobre o que é a poesia lírica”, estruturada em “‘versos’ desprovidos de lirismo”: Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro. O gênero lírico compreende o lirismo. Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal. É a linguagem do coração, do amor. O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos sentimentais eram declamados ao som da lira. O lirismo pode ser: a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte. b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres. c) Erótico, quando versa sobre o amor. O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio. Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado. Endecha é uma poesia que revela as dores do coração. Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares. Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta. O poema de Ana Cristina Cesar não obedece evidentemente a uma forma fixa, mas nos oferece não apenas o conhecimento de alguns tipos de poema, como a possibilidade de retomar o assunto sobre o lirismo, especialmente a impessoalidade que caracteriza a enumeração dos tipos de poema que constitui a lição ou “anti-lição”, como prefere Camargo (2003, p. 249), ao constatar que o poema “mostra onde não está o lirismo”. A mesma anulação da subjetividade que se manifesta na “Primeira lição” de Ana Cristina Cesar pode ser identificada nas formas visuais dos poemas modernos. A esse respeito, Heloisa Buarque de Hollanda (2004, p. 44) constata que “para o poema racional da vanguarda a tematização de problemas pessoais está interditada”. Diante do horizonte técnico da sociedade industrial, dos novos padrões da comunicação não verbal, da linguagem publicitária, do outdoor, do cartaz, o poema deve livrar-se da “alienação metafórica”, para ser projetado como um “objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ ou sensações mais ou menos subjetivas”. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 124 A colocação da linguagem em primeiro plano na projeção do poema como “objeto em e por si mesmo”, como assinala o “Plano piloto para poesia concreta”, citado por Heloisa Buarque de Hollanda (2004), remonta, na modernidade, ao poema “Um lance de dados”, do poeta francês Stéphane Mallarmé. FIGURA 7 - UM LANCE DE DADOS, DE STÉPHANE MALLARMÉ FONTE: CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo de. Mallarmé. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1991, p. 117 A disposição das palavras no papel, o interesse pelo branco do papel em contraste com a grafia das palavras, que confere um aspecto visual ao poema, é justificada por Mallarmé por uma aproximação com a música. Em “Um lance de dados”, Mallarmé (1990, p. 152) identifica no concerto, mais precisamente, na forma da sinfonia, meios que julga provirem da literatura, e os retoma. Essa aproximação, aparentemente controversa, entre o aspecto visual e o sonoro ou musical da poesia moderna é confirmada por Vitor Manuel de Aguiar e Silva (1976, p. 61): “Esta participação da fisicidade dos vocábulos aproxima a arte literária da música e adquiriu um relevo particular com o movimento simbolista, quando a poesia, no dizer de Valéry, quis ‘retomar à Música a sua riqueza’”. Compreendida como representação de si mesma e como uma arte de sensação imediata, como observa Clement Greenberg (2001), a música constituiria o modelo para as artes de vanguarda na problematização de seus campos de atividade e no questionamento da racionalidade positivista. Assim, as vanguardas do século XX reduziriam a poesia a propriedades materiais, sonoras ou visuais, da linguagem verbal da poesia. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 125 FIGURA 8 - L’AMIRAL CHERCHE UNE MAISON À LOUER FONTE: Disponível em: <http://a403.idata.over-blog.com/800x513/2/41/57/89/Dada--04/CV007L- amiral.cherche.png>. Acesso em: 30 jun. 2017 O poema simultâneo dos dadaístas Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara e Marcel Janko, por exemplo, dispõe os textos, como você pode ver acima, ao modo de partituras musicais em uma grade. A poesia sonora de Hugo Ball, Raoul Hausmann e Kurt Schwitters, por sua vez, reduz o poema a propriedades sonoras e visuais das palavras, a exemplo do poema sonoro “Ursonate”, de Kurt Schwitters. FIGURA 9 - URSONATE FONTE: Disponível em: <https://tandtprojects.cah.ucf.edu/~amandah/dig6836/ soundpoem/soundindex.php>. Acesso em: 30 jun. 2017. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 126 O fragmento acima é a introdução do poema “Ursonate”, que pode ser traduzido como “Protosonata”, sendo a sonata uma forma musical fixa. Você consegue compreender os versos do poema? Se não consegue, não se trata de uma questão idiomática. Você pode ser alemão, como o poeta, ou dominar a língua alemã, e continuará sem compreender, pois as letras dispostas no poema não formam palavras em idioma algum. São signos sonoros sem sentido lógico- racional. Isso não significa, no entanto, que o poema não produza sentido, sobretudo se considerarmos o contexto de produção, a aproximação entre poesia e música, as experimentações das vanguardas que provocavam o público e o gosto do público por meio do choque, bem como confrontavam o racionalismo que não podia mais se sustentar com os acontecimentos, como as grandes guerras. O impacto do contexto de produção das vanguardas poéticas do início do século XX transparece ainda nos poemas predominantemente visuais, a exemplo deste caligrama de Guillaume Apollinaire. Os caligramas consistem em imagens formadas pela disposição das palavras que, neste caso, criticam a invasão da França pelas tropas alemãs. FIGURA 10 - CALIGRAMA DE APOLLINAIRE FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Guillaume_ Apollinaire_Calligramme.JPG>. Acesso em: 30 jun. 2017 TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 127 No Brasil, o interesse pelo aspecto visual do poema culmina no Concretismo e sua teoria do fim do verso. Formado em 1952, em São Paulo, o Concretismo foi integrado por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari e, posteriormente, por Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald. O Concretismo declara o fim do verso como unidade rítmico-formal do poema, reconhecendo o espaço como agente estrutural. poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas, dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural. Espaço qualificado: estrutura espaciotemporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear (TELES, 1982, p. 403). Com isso, o poema não se desenvolve de maneira apenas temporal e linear, dialogando com a comunicação não verbal. Como explicam os poetas concretistas Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos no “Plano piloto para poesia concreta”, o manifesto do Concretismo publicado em 1958: o poema concreto, usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica, cria uma área linguística específica – “verbivocovisual” – que participa das vantagens da comunicação não verbal, sem abdicar das virtualidades da palavra. Com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomunicação: coincidência e simultaneidade da comunicação verbal e não verbal, com a nota de que se trata de uma comunicação de formas, de uma estrutura-conteúdo, não da usual comunicação de mensagens (TELES, 1982, p. 404). Assim,o concretismo termina por retirar qualquer sinal de subjetividade do “eu” lírico da poesia, como confirma, como vimos antes, a interdição de “problemas pessoais” constatada por Heloisa Buarque de Hollanda (2004). O legado de Mallarmé para as formas visuais da poesia, como sugerimos antes, pode ser confirmado tanto nesta passagem do “Plano piloto para poesia concreta”: “precursores: mallarmé (un coup de dés, 1897): o primeiro salto qualitativo: “subdivisions prismatiques de l’idée”; espaço (“blancs”) e recursos tipográficos como elementos substantivos da composição” (TELES, 1982, p. 403), quanto neste poema do concretista Augusto de Campos. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 128 FIGURA 11 - TVGRAMA 1 (TOMBEAU DE MALLARMÉ), DE AUGUSTO DE CAMPOS FONTE: Disponível em: <http://www.musarara.com.br/wp-content/uploads/2012/03/ TVGRAMA-1-copy.jpg>. Acesso em: 30 jun. 2017. Este outro poema concreto de Augusto de Campos recorda o caligrama, que vimos anteriormente, de Apollinaire, igualmente citado no “Plano piloto para poesia concreta” como precursor de uma compreensão sintético-ideográfica em detrimento de lógica-discursiva. FIGURA 12 - 2ª VIA, DE AUGUSTO DE CAMPOS FONTE: Disponível em: <http://saopaulosao.com.br/nossas-pessoas/1566- augusto-de-campos-ganha-sua-maior-mostra-individual-no-sesc- pomp%C3%A9ia.html>. Acesso em: 30 jun. 2017. TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 129 O poema-processo radicaliza as sugestões visuais e não discursivas do concretismo, explorando principalmente signos visuais ou signos não verbais. Ao dialogar com outras artes, especialmente visuais, o poema-processo resulta num poema para ser visto mais do que para ser lido. Seus principais autores são: Álvaro de Sá, Neide Sá, Moacy Cirne, Wlademir Dias-Pino. FIGURA 13 - POEMA PROCESSO DE FALVES SILVA FONTE: Disponível em: <http://www.poemaprocesso.com.br/poetas. php?poeta=25&i=4&alfaini=c&alfafim=g>. Acesso em: 30 jun. 2017. O Poema-práxis, por sua vez, retoma, embora não reconstitua completamente, a linearidade do verso, mas como uma “intensidade significativa que no contexto do poema limita-se a si mesma”, conforme explica Mário Chamie (1962 apud HOLLANDA, 2004, p. 52). Aqui, como nos poemas concretos, não há lugar para a subjetividade de um eu lírico, como podemos ver nesta estrofe: Cova, e não se espanta. Plantio; fé e safra sofre o homem de morte e morre: rês, rés de fome Cava. Segundo Heloisa Buarque de Hollanda (2004, p. 53), “o poema é como se fosse sua área, que transparece como tal, sem a intervenção da subjetividade do poeta”. O manifesto didático do Poema-práxis, publicado em 1962 por Mário Chamie, ilumina o papel da falta de intervenção da subjetividade constatada por Heloisa Buarque de Hollanda: “a história caminha para um coletivismo total. Nessa coletivização, o indivíduo, como tal, conta cada vez menos e, enquanto integrante de uma sociedade, conta cada vez mais”. Com isso, Mário Chamie (1962 apud HOLLANDA, 2004, p. 49) propõe a literatura práxis como “fazer histórico”. Portanto, a despeito ou justamente em função do desaparecimento da subjetividade do eu lírico no poema, é um aspecto do lirismo propriamente que se manifesta aqui, como vimos antes ao tratarmos da desindividuação e da despersonalização, e que aqui tem sua função social explorada explicitamente. UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 130 4.2.4 Método de análise e interpretação de poemas Vimos antes um excelente exemplo de interpretação de poemas, em que Antonio Candido articula a estrutura e a significação do poema, articulação reiterada pela interpretação do “aspecto expressivo formal” e do “aspecto expressivo existencial”. Analisar um poema requer, como nota Antonio Candido (2002, p. 7), “ler infatigavelmente o texto analisado”, “como sempre preconizou a velha explication de texte dos franceses”. Para tanto, Candido não rejeita a intuição, suscitada pela multiplicação das leituras. Analisar um poema requer ainda um tratamento adequado àsua natureza, ou seja, respeitar a sua especificidade, considerando alguns pressupostos comuns: um destes pressupostos é que os significados são complexos e oscilantes. Outro, que o texto é uma espécie de fórmula, onde o autor combina consciente e inconscientemente elementos de vários tipos. Por isso, na medida em que se estruturam, isto é, são reelaborados numa síntese própria, estes elementos só podem ser considerados externos ou internos por facilidade de expressão (CANDIDO, 2002, p. 6). Como podemos ver, Antonio Candido toma os elementos externos e internos como interdependentes, do mesmo modo que a forma e os sentidos do poema, como vimos antes. Afinal, a interpretação de um poema implica o conceito de estrutura como correlação das partes, a qual atua, por fim, na estratificação dos significados. Ao analisar e interpretar um poema, devemos, portanto, considerar os elementos constitutivos do poema, como a forma, a sonoridade, o ritmo, o metro, o verso, entre outros, e compreender, como sugere Antonio Candido, a estrutura formada pelos elementos do poema de forma articulada com os significados. Vejamos um exemplo a partir do poema “A valsa”, de Casimiro de Abreu: Tu, ontem, Na dança Que cansa, Voavas Co’as faces Em rosas Formosas De vivo, Lascivo Carmim; Na valsa Tão falsa, Corrias, Fugias, Ardente, TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 131 Contente, Tranquila, Serena, Sem pena De mim! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!… — Não negues, Não mintas… — Eu vi!… Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos, Saltavam, Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias, Tremias, Sorrias, P’ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!… UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 132 — Não negues, Não mintas… — Eu vi!… Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem?! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!… — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!… Calado, Sozinho, Mesquinho, Em zelos Ardendo, Eu vi-te Correndo Tão falsa Na valsa Veloz! TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 133 Eu triste Vi tudo! Mas mudo Não tive Nas galas Das salas, Nem falas, Nem cantos, Nem prantos, Nem voz! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!… — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!… Na valsa Cansaste; Ficaste Prostrada, Turbada! Pensavas, Cismavas, E estavas Tão pálida Então; Qual pálida Rosa Mimosa No vale Do vento Cruento Batida, Caída Sem vida. No chão! Quem dera Que sintas As dores UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 134 De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!… — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!… Inicialmente, podemos perceber que o poema, publicado em 1859 por Casimiro de Abreu, poeta da segunda geração do romantismo brasileiro, não obedece a uma forma fixa, conforme uma premissa do Romantismo. Sua estrutura, no entanto, segue um padrão, sendo formada por cinco estrofes de vinte versos intercaladas por refrãos, formados, por sua vez, por onze versos. A sonoridade do poema pode ser identificada em elementos como a rima, a aliteração e a assonância. Observe os primeiros versos: Tu, ontem, (A) Na dança (B) Que cansa, (B) Voavas (C) Note a homogeneidade sonora produzida pela reiteração de sons das consoantes e das vogais. A rima se manifesta predominantemente em pares, com destaque para a rima entre versos 10 e 20 que produz uma simetria, dividindo, de certa forma, a estrofe em duas partes: Tu, ontem, na dança que cansa, voavas co’as faces em rosasformosas de vivo, lascivo carmim; Na valsa tão falsa, corrias, fugias, ardente, contente, tranquila, serena, sem pena de mim! O efeito mais interessante, e importante, para pensarmos a relação entre forma e significação, deriva do ritmo do poema. Como vimos, para analisarmos o metro e o ritmo dos versos de um poema, precisamos realizar a escansão dos versos: Tu, | on | tem, 1 2 Na | dan | ça 1 2 Seguindo as orientações de Antonio Candido, temos EM – 2 e ER – 2, mas o fundamental neste poema é o resultado do ritmo, ou seja, da regularidade produzida pela acentuação dos versos que, neste caso, reproduzem o ritmo de uma valsa. O efeito do ritmo de valsa resulta da leitura sucessiva dos versos, que pode ser melhor representado se recorrermos ao sistema quantitativo: TÓPICO 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS 135 Tu, ontem, U - U Na dança U - U Note que a sucessão de pés anfíbracos ( U – U ), formados por uma longa entre duas breves, reproduz o ritmo ternário da valsa. O ritmo funciona como uma figura de fundo, como a valsa que soa na sala em que ocorre o acontecimento expresso pelo eu lírico. Nesse sentido, podemos identificar processos de acomodação, a exemplo da ectlipse (Co’as | fa | ces), utilizados para manter a unidade de metro e ritmo. Analisemos, agora, o processo de acomodação que ocorre na última estrofe: Qual | pá | li | da 1 2 Ro | sa 1 Mi | mo | sa 1 2 Nessa parte ocorre uma sinafia, ou seja, o deslocamento da última sílaba átona de um verso para o verso seguinte, formado por uma sílaba a menos. A sinafia gera, aqui, um descompasso entre o metro e o ritmo: o metro sofre uma alteração, ao passo que o ritmo (da leitura, ao menos) permanece o mesmo. A sinafia tem, portanto, uma função fundamental no poema: a quebra da regularidade dos pés (representação da ordenação regulada das unidades de tempo) remete aos pés (ou passos) da dançarina, comparada, a seguir, a uma rosa “caída / sem vida / no chão”. Assim, a estrutura e a significação do poema coincidem, na medida em que um elemento formal da poesia – os pés – contribui para a significação produzida pelo poema, de modo que, aqui, de certa forma, o poema remete a si mesmo. O efeito produzido pelo poema condiz com a disposição das palavras no papel, de modo que a forma reflete graficamente o sentido: a quebra do pé. Considerando os elementos articulados na estrutura e na estratificação dos significados do poema, releia agora o poema de Casimiro de Abreu e proponha uma interpretação. Para tanto, considere que, como leitores, temos apenas a perspectiva do eu lírico que, insistimos, não se confunde com o poeta e que, numa primeira leitura, parece reclamar um amor não correspondido. Se lermos “infatigavelmente o texto analisado”, como sugere Antonio Candido, percebemos que a significação do poema ultrapassa a primeira leitura. Para essa tarefa, sugerimos algumas perguntas: estaria o poema circunscrito ao salão? Seria o salão uma representação, temporalmente condensada, da vida? Teria a dançarina morrido? Ou apenas caído com o ritmo vertiginoso da valsa? Para responder a essa pergunta, considere o vocabulário da última estrofe, a exemplo da palavra “cruento”. Teria o eu lírico matado a dançarina? Não é o que parece UNIDADE 2 | OS GÊNEROS LITERÁRIOS: DRAMÁTICO E LÍRICO 136 sugerir a última estrofe, sobretudo se considerarmos o refrão, que repete como uma ideia fixa: “quem dera que sintas as dores...”? Teria ela realmente caído ou morrido ou tudo é uma projeção da imaginação do eu lírico? Não é o próprio refrão, mais uma vez, que nos permite pensar que tudo se trata de imaginação? Para finalizarmos nossa discussão sobre a interpretação de poemas, centrada tanto no “aspecto expressivo formal” quanto no “aspecto expressivo existencial”, como sugere Antonio Candido, vejamos algumas considerações de Emil Staiger que nos permitem retomar o problema dos gêneros literários. “Como concorre a Poética para a interpretação de cada obra?”, pergunta-se Emil Staiger (1975, p. 103), que responde: Basta examinar de que modo cada poema participa de cada um dos três gêneros aqui abordados. Isso seria certo do ponto de vista da Poética que afirma que a divisão tripartida baseia-se na linguagem: assim, a essência da obra de arte literária esgotar-se-ia na divisão tripartida. Entretanto, isto é pura teoria que na vida não tem utilidade. O modo como uma obra poética oscila entre épico, lírico e dramático, o modo como a tensão desenvolve-se, e em seguida equilibra-se, é tão extraordinariamente delicado, que toda mera aplicação de conceitos rígidos tende de antemão a fracassar. O crítico literário sempre terá que lançar mão daquela qualidade que desde o tempo de Herder é imprescindível em nossa profissão: um sentimento espontâneo para a qualidade histórico-individual da obra. Ao constatar a inutilidade da simples aplicação da divisão tripartida da teoria dos gêneros literários aos poemas, Emil Staiger (1975, p. 105) salva a teoria dos gêneros literários deslocando a teoria para uma questão propriamente humana: A “Poética” se anuncia como uma contribuição da Ciência da Literatura para o problema da Antropologia Geral, quer dizer, ela esforça-se para provar como a essência do homem aparece nos domínios da criação poética. Por isso mesmo ela não nega, e sim acentua com grande ênfase que a validade dos conceitos de gênero não se limita à Literatura, que se trata aí de uma nomenclatura provinda da Ciência da Literatura para atualidades generalizadas do Homem. Toda a problematização aparelha-se para a questão: que é o Homem? Ao afirmar que o homem se forma a partir da ideia que faz de si mesmo, Emil Staiger (1975, p. 105) explica: “Ao darmos respostas exatas à pergunta ‘o que é o homem?’, decidimo-nos por determinadas possibilidades. Situamo-nos, percebemo-nos em determinada perspectiva. E, portanto, se pode dizer que em cada sistema, em cada ‘visão do mundo’ de um poeta, realiza-se parte daquilo que o homem pode ser em absoluto”. Afinal, para o germanista, “o homem é algo que o mais cedo possível terá que superar a si mesmo, ou voltando à intimidade muda, ou fracassando tragicamente, num esforço supremo e último do elemento dramático” (STAIGER, 1975, p. 106). 137 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • O gênero dramático se diferencia do gênero lírico pelo modo de enunciação e pelo modo, meio e objeto de imitação. • Os gêneros dramático e lírico surgem na Antiguidade grega a partir do ditirambo. • A tragédia e a comédia se diferenciam pelos objetos de imitação, superior e inferior, respectivamente. • A dramaturgia medieval se caracteriza pela fusão entre o superior e o inferior, contrariando a separação prescrita pela antiga teoria dos gêneros literários. • O teatro de Shakespeare funde o trágico e o cômico, e o teatro moderno, reconhecendo Shakespeare como modelo, critica as regras do classicismo. • O gênero lírico se associa convencionalmente com a subjetividade, e a subjetividade da lírica deve ser relativizada diante da desindividuação que a caracteriza. • A lírica moderna se caracteriza pela unidade entre a música das palavras e de sua significação, pela atuação imediata do lírico sem necessidade de compreensão e pela renúncia à coerência gramatical, lógica e formal. • A forma e os sentidos do poema se interpenetram, e sua análise e interpretação dependem de elementos como estrutura, verso, rima, metrificação e escansão. 138 AUTOATIVIDADE Você leu, no decorrer do tópico, o poema “Primeira lição”, de Ana Cristina Cesar. Considerando que o poema se intitula “Primeira lição”, reflita, com base nas discussões a respeito do lirismo, sobre os sentidos do poema, retomando os assuntos abordados anteriormente, tais como gênero, forma e subjetividade. Em seguida, leia a citação abaixo e disserte suas conclusões. Temos umaimitação de um “mau” texto didático. Mas há um elemento irônico que se instaura a partir da contradição entre o tema tratado (o lirismo associado à morte) e o tratamento dado ao tema. Nada mais anti-lírico e impessoal do que uma série de definições que podem ser traduzidas numa abstrata sentença matemática: x é y. Nada mais anti-lírico que um conjunto de assertivas que se organiza segundo a lógica classificatória que parte do geral para o particular, em subdivisões sucessivas e marcadas rigidamente por itens, a, b, c, apresentados, contudo, como “poesia”. Mas tal efeito irônico introduz um rasgo de verdade: a tensão entre a forma e o sentido acentua a distância entre a matéria lírica que deseja uma forma e a confissão informe próxima do grito. E a forma se faz exatamente no insistente retorno da proposição assertiva, que constrói um ritmo geral monótono, quase uma ladainha. Nela, o tema da morte, insistentemente tratado nas sucessivas escolhas, para concluir com a ambiguidade entre vida e morte nos dois últimos versos, aponta para a morte do próprio lirismo sufocada na “Lição”. Ou seja, a primeira lição de lirismo é uma anti-lição: mostra onde não está o lirismo (CAMARGO, 2003, p. 249).