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CIRURGIA GERAL E POLITRAUMA Equipe SJT Editora Cirurgia geral e politrauma. São Paulo: SJT Editora, 2016. ISBN 978-85-8444-091-7 Copyright © SJT Editora 2016 SJT Editora Todos os direitos reservados. Diretor editorial e de arte: Júlio César Batista Diretor acadêmico: Raimundo Araújo Gama Editor de arte: Áthila Pelá Projeto gráfico: Rafael Costa Capa: Erick Balbino Pasqua Editoração eletrônica: Equipe SJT Editora Contato com o departamento editorial: editora@sjtresidencia.com.br Contato com o departamento acadêmico: aluno@sjtresidencia.com.br Avenida Paulista, 949 – 9º andar Cerqueira César – São Paulo/SP CEP: 01311-917 Fone: (11) 3382-3000 http://www.sjteducacaomedica.com.br Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. É expressamente proibida a reprodução ou transmissão deste conteúdo, total ou parcial, por quaisquer meios empregados (eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), sem autorização, por escrito, da Editora. Este material didático contempla as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que vigora no Brasil desde 2009. Apresentação à 16ª edição Apresentamos, à comunidade médica, a mais nova edição do conteúdo didático SJT Preparatório para Residência Médica. Entendemos que nossa função não consiste apenas em prepará-lo(a) para as provas de Residência Médica, mas possibilitar conhecimento e cultura para o desenvolvimento de sua carreira profissional. O corpo docente do SJT, composto por professores das melhores instituições de São Paulo, tem como meta de trabalho fornecer o melhor preparo a você, fazendo com que seus planos se tor- nem realidade, por meio de muito esforço, determinação e vontade. O material didático SJT 2016 está atualizado com as últimas questões dos concursos de Residên- cia Médica de todo o país. Estude com atenção e entusiasmo. Respeite sua agenda, pois aprendizado requer dedicação. O maior responsável pelo seu sucesso é você. Participe regularmente das atividades do site – o me- lhor programa on-line de atividades acadêmicas. Estamos juntos neste objetivo: Residência Médica 2017! O contato com o departamento acadêmico deverá ser feito pelo email: aluno@sjtresidencia.com.br. Você será Residente em 2017! un i verso sjt online www.sjteducacaomedica.com.br Login CPF sem pontos e traço. 4 primeiros números do CPF. Relação de cursos SJT. Encontre o seu. Meu perfil Calendário com atividades, agenda de aulas, atualizações, eventos, etc. Novidades Notícias atualizadas sobre os temas dos cursos. Meu perfil Perfil do aluno, informações sobre aces- so, atividades, notas, etc. Mensagens: Por aqui o aluno poderá trocar mensagens com professores, tutores e colegas de curso. Curso atual Nesta opção você poderá encontrar to- dos os participantes do curso e navegar pe- los temas que serão abordados no mesmo. Meus cursos Caso você esteja matriculado em mais de um curso, poderá acessá-los por aqui. 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...........................................................................................................................78 6 Resposta inflamatória ao trauma ...................................................................................................... 89 7 Complicações pós-operatórias .......................................................................................................... 96 8 Cicatrização de feridas ............................................................................................................................ 118 9 Abdome agudo ............................................................................................................................................ 130 10 Hérnias .................................................................................................................................................................155 11 Hérnia umbilical ............................................................................................................................................174 12 Hérnias incisionais ...................................................................................................................................... 176 13 Hérnias incomuns ........................................................................................................................................ 181 14 Queimaduras .................................................................................................................................................. 186 15 Hipotermia ........................................................................................................................................................205 16 Hematoma da bainha do músculo reto abdominal........................................................... 211 17 Tumores da parede abdominal .........................................................................................................214 18 Politrauma ........................................................................................................................................................ 218 19 Atendimento inicial do politraumatizado .................................................................................. 222 20 Via aérea e ventilação ............................................................................................................................. 234 21 Trauma cervical ............................................................................................................................................ 242 22 Trauma de tórax ..........................................................................................................................................248 23 Trauma abdominal .....................................................................................................................................268 24 Trauma genitourinário .............................................................................................................................296 25 Trauma pélvico .............................................................................................................................................. 311 26 Trauma cranioencefálico (TCE) .........................................................................................................319 27 Trauma raquimedular (TRM) ...............................................................................................................33128 Trauma musculoesquelético .............................................................................................................340 29 Trauma pediátrico ......................................................................................................................................346 30 Traumas em gestantes ..........................................................................................................................356 CAPÍTULO 1 Introdução Qualquer procedimento cirúrgico básico consta de três etapas: Diérese ou divisão: consiste em toda e qual- quer manobra que se destina a criar descontinuidade de tecidos, ou seja, permitir o acesso do cirurgião ao leito cirúrgico. Hemostasia: toda manobra que objetiva conter uma hemorragia. Síntese: manobra que permite aproximação te- cidual e acelera o processo de cicatrização. Sendo as- sim, a sutura é realizada com fi os cirúrgicos. O conceito de cirurgia é bem amplo: conjunto de gestos manuais e instrumentais que o cirurgião exe- cuta para realização de ato cruento, com fi nalidades diagnóstica, terapêutica e/ou estética. Desta forma, fi ca bem clara a necessária padronização e organiza- ção sequencial que o cirurgião precisa desenvolver para conseguir atingir seus objetivos na evolução de um tratamento. Instrumental cirúrgico A organização do material cirúrgico, bem como a existência de um profi ssional habilitado para executá- -lo, levou ao surgimento de um membro essencial da equipe cirúrgica – o instrumentador. O instrumen- tador é responsável pela organização do material, que deve estar ordenado sequencialmente, seguindo as etapas: diérese, hemostasia e síntese. Ou seja, to- dos os materiais de mesma função devem estar juntos e sequencialmente organizados na mesa de instrumentação. O instrumentador cirúrgico também tem a função de entregar o material solicita- do pelo cirurgião e seus assistentes, e fi car atento à reposição de materiais ditos “móveis” utilizados (fi os cirúrgicos, gases, algodão etc.), além de servir de elo de comunicação com o enfermeiro circulante – que en- trega os materiais a serem utilizados, sempre atentos para evitar a contaminação. Aliás, esta é outra função do instrumentador: fi car atento e evitar a contamina- ção de materiais e da equipe cirúrgica em si. Conceitos básicos em cirurgia 10 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 O instrumentador deve, preferencialmen- te, ficar em posição oposta a do cirurgião, com a mesa de instrumentação posicionada, preferencial- mente, ao seu lado e do paciente. Deve-se evitar a mesa colocada entre o cirurgião e o instrumentador, pois isto pode aumentar o risco de contaminação de materiais, além de criar um obstáculo entre o cirur- gião e o instrumentador, afastando-os, quando na ver- dade devem estar próximos um do outro. Na montagem da mesa de instrumentação, deve- -se procurar aproximar materiais de mesma função e organizá-los de maneira a atender à sequência dié- rese, hemostasia e síntese. Existem também mate- riais de preensão (responsáveis pela tração e manipu- lação de tecidos), bem como afastadores, que mantêm as bordas da incisão afastadas, facilitando a manipu- lação de tecidos e órgãos internos e profundos. Estes materiais devem estar dispostos entre o material de hemostasia e síntese. Veja, a seguir, uma relação de materiais mais ro- tineiramente utilizados para cada uma destas funções, é uma sugestão de organização para uma mesa de ins- trumentação (não há uma regra obrigatória – deve-se atentar à ordem e organização de materiais de mesma função). Descrição de alguns materiais cirúrgicos Materiais de diérese Figura 1.1 Bisturi de lâmina (Cabo 4 para lâminas 11, 15/Cabo 5 para lâminas 21, 23). Figura 1.2 Tesoura Mayo reta/curva. Figura 1.3 Tesoura Metzembaum curva/reta. Figura 1.4 Tesoura angulada. Figura 1.5 Serra manual. Figura 1.6 Cabo-serra de Gigler. 11 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.7 Serra de Gigler. Figura 1.8 Cisalha. Figura 1.9 Costótomo. Figura 1.10 Pinça Goiva. Figura 1.11 Pinça Goiva (Saca-bocado). Figura 1.12 Trocarte. Figura 1.13 Trocarte. Figura 1.14 Rugina. Materiais de hemostasia Figura 1.15 Pinça hemostática curva – Cryle curvo. Figura 1.16 Pinça hemostática reta – Cryle reto. 12 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.17 Pinça hemostática reta – Kelly reto/curvo. Figura 1.18 Pinça hemostática reta – Pean. Figura 1.19 Pinça de Mixter. Figura 1.20 Pinça hemostática curva com dente – Kocher curvo/reto. Figura 1.21 Pinça vascular atraumática – Satinsky. Figura 1.22 Pinça vascular atraumática – de Bakey. 13 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.23 Pinça vascular atraumática – de Bakey. Figura 1.24 Pinça hemostática atraumática – Bulldog. Instrumentos de preensão e afastamento Figura 1.25 Clamp intestinal. Figura 1.26 Clamp intestinal – Copróstase reto. Figura 1.27 Clamp intestinal – Copróstase curvo. Figura 1.28 Clamp gastrointestinal – Abadie. 14 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.29 Pinça de Allis. Figura 1.30 Pinça de Duval. Figura 1.31 Pinça de coração – Colins. Figura 1.32 Pinça de Pozzi. Figura 1.33 Pinça de Desjardins. Afastadores Figura 1.34 Afastador de Farabeuf. 15 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.35 Afastador de Volkmann. Figura 1.36 Afastador de Balfour. Figura 1.37 Afastador de Balfour (2 componentes). Figura 1.38 Afastador de Finochietto. Figura 1.39 Afastador de Gosset. Figura 1.40 Afastador de Deaver. 16 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.41 Afastador de Doyen. Figura 1.42 Afastador de Doyen. Figura 1.43 Pinça de campo ou Backhaus. Materiais de síntese Figura 1.44 Porta-agulha de Hegar. Figura 1.45 Porta-agulha de Hegar. Figura 1.46 Porta-agulha de Mathieu. 17 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.47 Porta-agulha (Congreve) para cirurgia laparoscópica. Figura 1.48 Agulha cilíndrica atraumática. Figura 1.49 Agulha cortante (traumática). Figura 1.50 Empunhando o porta-agulha. Figura 1.51 Pinça anatômica. Figura 1.52 Pinça dente de rato. Instrumentos de diérese Instrumentos de hemostasia Instrumentos de síntese Bisturi de lâmina Pinças hemostáti- cas curvas Porta-agulhas Bisturi elétrico Pinças hemostáti- cas retas Agulhas Tesoura curva Pinça de Mixter Fios Tesoura reta Pinça intestinais Grampos Serras Eletrocautérico Grampeadores mecânicos Cisalhas Pinça de Satinsky Outros Costótomo Pinça de Potts Pinças goivas Pinça de Bakey Trocartes Pinça de Cooley Agulhas de punção Pinça Bulldog Ruginas Outros Outros Instrumentos de preensão Instrumentos auxiliares Instrumentos especiais Pinça de Backaus Válvula vaginal Bisturi de argônio Pinça anatômica Afastador de Farabeuf Raios laser Pinça dente de rato Afastador de Volkmann Outros Pinça de Allis Afastador de Finochietto Pinça de coração Outros Pinça de Duval Outros Tabela 1.1 Na sala cirúrgica Figura 1.53 Composição da equipe e mesa cirúrgica. 18 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.54 Distribuição do auxiliar de enfermagem ou “circulante” de servir ao instrumentador e ao anestesista. Figura 1.55 Mesa de instrumentação disposta obli- quamente em relação à mesa cirúrgica. Figura 1.56 Disposição dos instrumentos na mesa, com o instrumentador de frente para a mesma. O in- strumentador deve sempre ficar do lado oposto ao do cirurgião, de frente para o paciente, com a mesa de in- strumentação ao seu lado. Fios cirúrgicos A síntese cirúrgica é a aproximação das bordas e tecidos seccionados que visa à restauração da contiguida- de tecidual e facilitação da cicatrização. Dependendo do local, podem ser utilizados fios com resistência variável conforme a área traumatizadae a zona de tensão com diâmetro transversal menor em áreas mais delicadas e de menor tensão. É o material usado na síntese cirúrgica. Características do fio ideal: a) manter força tênsil até a cicatriz ficar resistente; b) mínimo de reação tecidual. c) fatores dos fios a serem considerados: ser suficiente para unir as bordas, desaparecer tão logo a cicatrização seja realizada, ser livre de infecção e não ser irritante e com baixo custo, adequada força tênsil, fácil esterilização e mínima reação tecidual e maleabilidade. Os seis atributos fundamentais dos fios são divi- didos em três pares importantes: Monofilamentar (filamento único) e Multifila- mentar múltiplos (filamentos trançados ou torcidos); Biológicos (naturais) e sintéticos; Absorvíveis e não absorvíveis. Divisão dos fios 1) Absorvíveis – O material de síntese é subs- tituído pela cicatriz. Não é necessário retirar o fio do local, porque ele se dissolverá e integrará ao organis- mo através de hidrólise (fios sintéticos) ou digeridos por enzimas lisossômicas (fios naturais). Perdem sua força tênsil antes de 60 dias. 2) Inabsorvíveis – Nem enzimas nem água hi- droliza o material ou dissolve rapidamente o fio. São fios inertes que mantêm força tênsil praticamente inalterada com o decorrer do tempo. Causam menos reação, tipo corpo estranho, do que os absorvíveis. As suturas cirúrgicas inabsorvíveis são divididas em três classes, de acordo com o material que as compõe: Classe I: compreende os fios compostos de seda monofilamentar ou fibras sintéticas monofilamentares. Por exemplo, seda, poliéster, polipropileno e náilon. Classe II: compreende os fios compostos de algo- dão, linho ou fibras sintéticas, que podem ser naturais ou revestidos com produtos à base de estearatos. Por exem- plo, algodão puro, algodão e poliéster trançados e linho. Classe III: compreende os fios metálicos monofi- lamentares ou multifilamentares. No caso de ser mul- tifilamentar, o aço recebe uma cobertura de material sintético à base de polietileno que facilita sua utiliza- ção, além de proporcionar isolamento elétrico ao fio. Por exemplo, aço utilizado para fechamento de ester- no ou fixação de outras estruturas ósseas. 3) Mono e multifilamentares – Os fios mono- filamentares são mais difíceis de manejar. Ocasionam menor trauma, não têm capilaridade. Ainda, na vigên- cia de infecções, os fios monofilamentares devem ser 19 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 preferidos, porque as bactérias que escapam da fagocitose podem crescer entre os filamentos dos fios multifila- mentares. Por outro lado, os fios multifilamentares ocasionam maior trauma tecidual (são mais ásperos), com maior tendência à infecção e permeabilidade, mas os nós são mais seguros e fáceis de ser executados. Tais características poderão ser aplicadas em provas de residência, sobretudo, qual fio é monofilamentar e qual é natural ou sintético. Fios absorvíveis Tipo Força tênsil Absorção Reação Categute simples Feito de colágeno de tripa de carneiro. Utilização em TGI, uro, TCSC. Fio biológico Monofilamentar Origem: animal 0% 7-10 dias 8-14 dias (8)* Alta Categute cromado É o categute tratado com sais de cromo, que retarda a absorção para 20 dias. Fio biológico Monofilamentar 0% 7-10 dias 20-30 dias (21)* Moderada Ácido Poliglicólico (Dexon) Primeiro fio sintético cria- do em 1970. Uso em TCSC, músculos e fáscias. Fio sintético Multifilamentado 50% em 14 dias 60-90 dias (60)* Baixa Poliglactina 910 (Vicryl) Utilização TGI, uro, gineco, oftalmo. Fio sintético Monocryl é monofila- mentar; Vicryl e Polivicryl são multifilamentares 50% em 14 dias 30-60 dias (30)* Baixa Polidioxanona (PDS, Maxon) Reabsorção mais lenta de todos (> 90 dias), e desta forma é utilizado para ten- dões, cápsulas articulares e parede abdominal. Fio sintético Monofilamentado 70% em 14 dias 50% em 30 dias 180 dias (60)* Baixa Tabela 1.2 Fios inabsorvíveis Tipo Força tênsil Absorção Reação Aço Possui maior tensão de estiramento de todos os materiais: ferro, cromo, níquel e molibdênio. Usado em cirur- gia ortopédica, bucomaxilofacial e cirurgia cardíaca. Fio natural Monofilamentar Origem: mineral Alta Não Baixa Seda Feito de proteína orgânica chamada fibroin. Diminui força tênsil em 1-2 anos. Nós firmes. Fio natural Multifilamentar Origem: animal Boa Encapsulação gradual por te- cido fibroso Alta Algodão Causa granuloma de corpo estranho estilo fio de seda, potencializa infec- ção. Muito capilar. Nó firme. Usado para ligadura de vasos. Fio natural Multifilamentar Origem: vegetal 50% 6 meses 70% 2 anos Não Alta Poliéster (Mersilene) Causam pouca reação tecidual, requer grande número de nós (pelo menos 5). São resistentes e duráveis. Utiliza- ção em aponeuroses, tendões e vasos. Fio sintético Multifilamentar Alta Encapsulação gradual por te- cido fibroso Baixa Poliéster Coberto (Ethibond) Fio de poliéster revestido por resina (polibitilato), entre os filamentos, si- mulando comportamento de mono- filamentado (apesar de ser multi). Fio sintético Multifilamentar Alta Encapsulação gradual por teci- do fibroso Baixa Náilon Fio sintético da poliamida. Elastici- dade resistente à água. Não produz nó firme. Utilização: pele. Fio sintético Monofilamentar Multifilamentar Alta Encapsulação gradual por teci- do fibroso apro- ximadamente em 5 anos Baixa Polipropileno (Prolene) Não produz nó firme – requer gran- de número de nós (pelo menos 5). Uso vascular e cirurgia geral, sendo ideal para sutura intradérmica. Fio sintético Monofilamentar Alta Não Baixa Tabela 1.3 20 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Atenção! A escolha do fio ideal para realização de de- terminada sutura deve levar em consideração uma série de características – manter força tênsil pelo tempo suficiente até que o processo de cicatrização permita que a cicatriz obtenha sua própria resistência a estímulos mecânicos habituais, causar mínima rea- ção tecidual, ter um custo aceitável, maleabilidade e facilidade de esterilização. Os fios são divididos em absorvíveis – ou seja, aqueles que ao cabo de determinado período são “di- geridos” pelo organismo –, e inabsorvíveis – aqueles que permanecem no tecido, causando reação tipo corpo estranho e, portanto, não “digeridos” pelo organismo. Outra nomenclatura que deve ser considerada é a do fio monofilamentar – composto de apenas um filamento –, e fio multifilamentar – aquele constitu- ído por múltiplos filamentos trançados, que têm a par- ticularidade de serem menos resistentes à infecção, pois as bactérias conseguem crescer e se desenvolver entre os filamentos. Devemos, portanto, evitar a utilização de fios multifilamentados em tecidos infectados. Tipos de agulhas Traumáticas Secção transversa triangular. São cortantes, utilizadas em tecidos es- pessos e rígidos. Atraumáticas Secção transversa cilíndrica. Utili- zadas em tecidos delicados. Ponta romba Menos traumática. Ponta cortante Mais traumática. Tabela 1.4 Características dos fios de sutura Configuração física Refere-se aos filamentos que compõem o fio: Monofilamentar: apresenta um filamento úni- co. Por exemplo, náilon, aço, polipropileno, poligleca- prone, polidioxanona e poligliconato. Multifilamentar: é um fio formado por vários filamentos unidos por torção ou trançamento. Alguns exemplos, o categute simples e cromado, poliglactina, algodão (torcidos), ácido poliglicólico, po- liéster e seda. Cada grupo tem características comuns. O nó é mais fácil com os fios multifilamentares e mais difícil com os fios monofilamentares. Em contrapartida, os fios multifilamentares podem al- bergar entre seus filamentos micro-organismos causadores de infecção. Capilaridade É a capacidade de um fio captar e absorver líquidos. A capilaridade e a absorção de fluidos es- tão diretamente relacionadas com a capacidade do fio de captar, transportar e reter micro-organismos.Os fios multifilamentares, como algodão ou absorví- vel sintético, como polímeros de poliglactina ou ácido poliglicólico, possuem maior capilaridade quando comparados aos monofilamentares e, portanto, apre- sentam maior aderência microbiana. Diâmetro É a medida do calibre do fio determinada em milímetros e, por convenção, expressa em número de zeros: quanto menor o diâmetro transversal, maior o número de zeros, e quanto menor o diâmetro trans- versal, quanto maior o número de zeros, mais fino será o fio. Nem todos os fios com o mesmo número de ze- ros apresentam o mesmo diâmetro. É proporcional ao diâmetro a resistência à tração observada sobre o nó. Resistência à tração É a quantidade de peso necessária para a ruptura de um fio, dividida pelo seu diâmetro. Cada material de sutura tem uma resistência própria à tração. Por exemplo, o fio de aço é mais resistente do que os fios de origem biológica. Força do nó É a força necessária para provocar o deslizamen- to parcial ou completo do nó. Quanto mais áspero for o fio, maior será seu coeficiente de atrito, facilitando a fixação do nó com menor deslizamento. Os fios mul- tifilamentares apresentam coeficiente de atrito mais elevado do que os monofilamentares, portanto, a fixa- ção do nó é mais segura, embora o deslize seja mais difícil. Os fios monofilamentares têm um bom des- lize do nó, mas a fixação é menos segura, por isso, a necessidade de reforçar o nó com um número maior deles ou intercalar nós duplos e simples. 21 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Elasticidade É a propriedade de o fio recuperar a forma e o comprimento originais depois de um estiramento. O fio mais elástico é o polipropileno. Essa é uma carac- terística importante quando existe presença de edema na região da sutura. A elasticidade do fio contribui para reduzir a possibilidade de ruptura das bordas de uma incisão ou do desencadeamento de uma es- tenose em sutura vascular. Plasticidade É a propriedade do fio de manter uma nova forma, após ter sido submetido à determinada de- formação ou tração. É o contrário da memória. Essa característica está diretamente relacionada à elasti- cidade. Polipropileno e polidioxanona são exemplos de fios que, apesar de monofilamentares, apresentam boa plasticidade. Memória É a propriedade de um fio de retornar à sua forma original, após ser tracionado, por exemplo, ou após um nó cirúrgico. Fios com alta memória têm um manuseio mais difícil durante a execução da su- tura, além de maior dificuldade para fixar o nó dado. Dada a sua alta memória, o náilon tem a tendência de desatar o nó e fazer o fio voltar à forma original, enquanto o algodão mantém firmemente o nó. O poli- propileno e o categute também apresentam alta me- mória, mantendo certa ondulação quando são retira- dos da embalagem, diferentemente dos fios derivados da polidioxanona. Características de manuseio A pliabilidade (grau de facilidade de dobramen- to ou mudança na forma do fio), o coeficiente de fricção (grau de deslize na passagem através dos teci- dos, na corrida e na fixação do nó) e a rigidez de um fio definem suas características de manuseio. Um fio pliável oferece facilidade ao dobramen- to e à confecção do nó. São agradáveis ao toque. Os fios de sutura multifilamentares trançados, como a seda e a poliglactina, são os que apresentam maior pliabilidade. O coeficiente de fricção ou atrito é a capacida- de que o fio tem de deslizar, com suavidade maior ou menor, através do tecido em que está sendo aplicado, assim como também de manter ou desatar o nó. Os fios multifilamentares apresentam alto coeficien- te de atrito, por essa razão, tendem a ser ásperos ao tecido, mas apresentam segurança e fácil fixa- ção do nó. Alguns desses fios, como poliglactina ou poliéster, recebem uma capa de cobertura homogênea para reduzir o atrito tecidual no plano de sutura. Os fios monofilamentares, como náilon, polipropileno e poliglecaprone apresentam baixo coeficiente de atrito, portanto, deslizam suavemente através dos tecidos. O nó corre livremente por eles, que são fáceis de ser re- tirados quando aplicados em suturas cutâneas. Apre- sentam, entretanto, menor segurança na fixação do nó que os fios multifilamentares. Características da reação tissular O fio de sutura é considerado um corpo estranho para o tecido no qual está sendo implantado. A reação tissular induzida pelo material de sutura inicia-se com o trauma da passagem da agulha e do fio através dos tecidos. Progride pela in- dução de processo inflamatório que será determinada pelo calibre desses elementos e pelas características físico-químicas do fio, desde o momento em que é im- plantado até sofrer o processo de encapsulamento ou de absorção, que sempre causa certo grau de reação te- cidual, por mais inerte que seja o material de sua com- posição. Portanto, quanto menor for o diâmetro do fio utilizado, seja absorvível ou inabsorvível, menor será o trauma na passagem do material de sutura através do tecido e menor será a quantidade de material estra- nho a ser implantada no paciente. Como consequên- cia, a reação tissular tenderá a ser mais branda. Uma reação inflamatória intensa, provocada por um fio de sutura, retarda a cicatrização e dá condições para a instalação de um processo infeccioso. Material de prótese Quando a solução de continuidade entre as estru- turas é extensa ou a síntese é realizada sob demasiada tensão, dá-se a interposição de material de prótese ou implante, que pode ser dividido em dois grupos: De origem biológica 1) Fáscia – a autógena tem sido utilizada em hernioplastia e, às vezes, em operações plásticas, gi- necológicas e urológicas. As fitas de fáscia homólogas conservadas não são úteis. 22 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 2) Dura-máter – tem sido amplamente empre- gada a dura-máter homóloga conservada em glicerina, tanto em cirurgia geral como em cirurgia plástica, car- diovascular etc. Observou-se aceitação satisfatória do ponto de vista histológico. 3) Pericárdio bovino – utilizado, com bons re- sultados, para a confecção de válvulas cardíacas. De Origem Sintética 1) Próteses metálicas – muito usadas em orto- pedia, devem ser livres de atividade elétrica como o vi- tálio, tântalo e determinados tipos de aço inoxidável. São utilizadas como placas, parafusos, pinos e telas. 2) Plásticas – de náilon, teflon, polipropileno ou dácron. Constituem materiais de fácil esterilização, resistentes, fáceis de manipular e recortar, permeáveis aos Rx. Não devem ser utilizadas em operações infec- tadas. 3) Membranas plásticas – principalmente os polímeros de metacrilato e de dióxido de silício (SiO4) que, dependendo do índice de polimerização, apresen- tam-se desde o estado líquido até o sólido. Esses polí- meros possuem baixo grau de tenacidade e bom índice de tolerância, motivo pelo qual têm sido largamente empregados como material de síntese (metacrilato) e de prótese (silicônio). Nós e suturas O nó cirúrgico deve ser de fácil execução e tem por finalidade evitar que o fio entrelaçado se solte. O principal é que não se afrouxe, permitindo perfeito ajuste das bordas a serem afrontadas. Para que isto ocorra devem ser levados em consideração: o tipo de nó, o treino do cirurgião, o grau de tensão dos tecidos a serem suturados e a natureza do fio. Os fios sinté- ticos monofilamentares, como o náilon e o poliéster, tendem a se afrouxar. O nó cirúrgico, em geral, consta de uma primeira laçada que aperta e uma segunda fixadora que impe- de o afrouxamento da primeira. Quando há necessi- dade de maior segurança acrescenta-se um terceiro nó, também utilizado quando existe tendência de os anteriores afrouxarem-se. Cada laçada deve ser feita no sentido oposto ao da anterior, caso contrário, o nó tende a se afrouxar. Não existe, contudo, inconvenien- te em se utilizar nós no mesmo sentido quando se tra- ta de ligadura sem tensão. Tipos de sutura Princípiosfundamentais das suturas Não permitir que as bordas da ferida fiquem sob tensão. Não suturar em plano único estrutura com espessura superior a 1 cm. Não deixar espaço morto*. Não apertar excessivamente os nós nem torcê-los. * Espaço morto é termo impróprio; o correto é espaço vazio. Tabela 1.5 Sutura em pontos separados A sutura em pontos separados apresenta uma série de vantagens: a) o afrouxamento de um nó, ou a queda do mes- mo, não interfere no restante da sutura; b) há menor quantidade de corpo estranho no interior do ferimento cirúrgico; c) os pontos são menos isquemiantes do que na sutura contínua. Figura 1.57 Tipos de suturas. A: Algöwer; B: Donati; C: simples; D: intradérmica; E: chuleio; e F: ponto em X. Apresenta como desvantagem relativa o fato de ser mais trabalhosa e mais demorada. Tipos de sutura em pontos separados: 1) Ponto simples; 2) Ponto simples com nó para o interior da ferida; 3) Ponto em “U” horizontal; 4) Ponto em “U” vertical; 5) Ponto em “X” horizontal; 6) Ponto em “X” horizontal com nó para o inte- rior da ferida; 7) Ponto recorrente; 8) Ponto helicoidal duplo. 23 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Sutura contínua Na sutura contínua deve-se considerar o nó ini- cial, a sutura propriamente dita, e o nó terminal. Tipos de sutura contínua: 1) Chuleio simples; 2) Chuleio ancorado; 3) Sutura em barra grega; 4) Sutura intratecidual, em barra grega; 5) Sutura em pontos recorrentes. Suturas da pele As suturas de feridas do tegumento cutâneo e de incisões operatórias devem ser realizadas cuidadosa- mente, pois constituem, por assim dizer, a “apresen- tação do cirurgião”. Devem ser utilizados fios inabsorvíveis do tipo poliéster que, por promoverem menor reação tecidual, propiciam cicatrizes estéticas. Suturas mais indicadas para feri- das de pele: a) pontos separados de fio inabsorvível; b) pontos separados de fios obtidos do ácido po- liglicólico; c) pontos intradérmicos, preferentemente separa- dos, de fio inabsorvível ou absorvível tipo poliglicólico; d) aproximação com tiras de esparadrapo micro- porado. Sutura da tela subcutânea A tela subcutânea deve ser aproximada em uma ferida para evitar a formação de espaço morto e de consequentes coleções serosas e hemáticas, que favo- recem a infecção. Deve ser suturada com pontos sepa- rados com fio absorvível tipo categute ou poliglicólico. Sutura de aponeurose A síntese correta das aponeuroses é fundamental no fechamento das incisões abdominais. Devem-se uti- lizar, preferencialmente, pontos separados de fio inab- sorvível como náilon, poliéster, algodão ou seda. A su- tura contínua das aponeuroses facilita as eventrações. Sutura muscular Em geral, quando a aponeurose que recebe o músculo é delicada, utilizam-se, conjuntamente, as miorrafias, realizadas com maior frequência com fios absorvíveis, evitando pontos isquemiantes. Sutura de vasos e nervos Utilizam-se suturas separadas ou contínuas, mas sempre com fios inabsorvíveis. Na neurorrafia empre- ga-se fio inabsorvível de náilon ou poliéster. Sutura do tubo digestivo Nas suturas gastrointestinais, em que a aproxi- mação da camada seromuscular é importante, os se- guintes pontos podem ser utilizados: Ponto de Lembert: é uma sutura invaginante, na qual o ponto é iniciado a cerca de 2,5 mm da borda da ferida e atravessa a camada seromuscular, aproxi- mando-se da incisão. No lado oposto, a agulha é intro- duzida junto à borda da ferida e exteriorizada lateral- mente a 2,5 mm. Pode ser interrompida ou contínua. Ponto de Cushing: é uma sutura contínua inva- ginante em forma de U, na qual os pontos em U são passados paralelamente à ferida, através da camada seromuscular. Ponto de Connel-Mayo: é uma sutura contínua em forma de U, na qual os pontos em U atravessam todas as camadas da parede intestinal e são posicio- nados paralelamente à ferida e a cerca de 4 mm de sua borda. Ponto de Halsted: é uma sutura seromuscular em U, na qual os pontos são interrompidos e exterio- rizados paralelamente à borda da ferida. Sutura em bolsa de tabaco: é uma sutura contí- nua invaginante posicionada ao redor de uma abertu- ra circular. Schmieden: ponto para anastomose gastroin- testinal, no qual o fio penetra sempre pela mucosa, caracterizando a sequência mucosa-serosa. Permite bom confrontamento das bordas, invaginando-as a cada passada. Barra grega: utilizado no fechamento de coto visceral como o duodenal. 24 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Sutura através de grampeadores A sutura por grampeadores propicia a aproxima- ção dos tecidos através de mecanismos que, pelo uso de grampos metálicos e diferentes formatos de grampea- mento, adaptando-se aos tecidos, promove uma síntese adequada, rápida, segura e com pequena reação tecidual. O tamanho dos grampos varia entre 2,5 e 4,8 mm, correspondendo cada um a três pontos de espes- sura total equidistante. São agrupados em cargas de coloração branca, azul ou verde, de acordo com a es- pessura do tecido a ser grampeado (branca, mais del- gada, verde, mais espesso). Tais grampeadores são particularmente úteis nas anastomoses colorretais baixas, prin- cipalmente, em pacientes obesos com a pelve es- treita e afunilada. Para proceder à anastomose colorretal, após a ressecção da peça, são realizadas suturas em bolsa na extremidade dos segmentos cólico e retal. A seguir o cirurgião introduz a bigorna e a cabeça do aparelho, aproximadas através do ânus do paciente, que deve es- tar em posição ginecológica. Após a inserção, rodando o botão ajustador, afasta-se a bigorna da cabeça em uma distância aproximada de 4-5 cm. Colocam-se os dois segmentos a anastomosar ao redor, respectiva- mente, da bigorna e da cabeça do grampeador e, en- tão, as suturas em bolsa são amarradas em torno do eixo móvel, cortando-se os fios excedentes. Aproxima- -se a bigorna e a cabeça rodando o botão ajustador no sentido horário, cuidando-se de manter os segmentos intestinais segundo uma orientação apropriada. A bi- gorna e a cabeça do grampeador devem estar conve- nientemente ajustadas, de acordo com a espessura das bordas intestinais a serem anastomosadas. O grampe- ador é disparado liberando-se a trave de segurança e pressionando-se a alavanca contra o cabo. Nesse mo- mento, os grampos passam através das bordas aproxi- madas e se dobram de encontro à bigorna, ao mesmo tempo em que a lâmina da guilhotina circular corta o diafragma de tecido circunscrito pela linha mais inter- na de grampos. O instrumento é aberto girando-se o botão ajustador no sentido anti-horário, aproximada- mente, dez rotações completas. Retira-se o aparelho aberto rodando delicadamente o seu corpo para libe- rar as bordas anastomosadas do contorno da bigorna. Os segmentos anastomosados permanecem, as- sim, com suas bordas invaginadas e unidas por duas fileiras circulares concêntricas de grampos metálicos. A perfeição da anastomose é comprovada pela presença de dois anéis íntegros de tecido correspon- dentes às bordas seccionadas das alças suturadas, lo- calizadas ao redor do eixo móvel do aparelho, entre a cabeça e a bigorna. Figura 1.58 O grampeador automático. Síntese de ferimentos sem sutura Atualmente, tem sido muito utilizada a síntese de feridas cutâneas, por meio de aproximação das bor- das com fitas de raion ou de outros materiais dotados de microporos e providos de uma superfície aderente à custa de impregnação de substâncias do tipo acrila- to. A presença de microporos na bandagem permite a passagem de secreções da ferida. Por essa razão, reduz a possibilidade da proliferação de germes, mantendo seco o ferimento, o que favorece a cicatrização. Sinalização manual Figura 1.59 Solicitação de pinça de campo, tipo Backhaus. Figura 1.60 Solicitação de compressa. 25 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.61 Solicitação de bisturi. Figura 1.62 Entregando o bisturi. Figura 1.63 Solicitaçãode tesoura curva. Figura 1.64 Entregando tesoura (som característico na entrega de instrumentos cirúrgicos). Figura 1.65 Solicitando pinça anatômica. Figura 1.66 Entregando pinça anatômica. Figura 1.67 Solicitação de pinça dente de rato. Figura 1.68 Solicitação de pinça hemostática reta e curva. 26 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.69 Solicitação de pinça de Mixter. Figura 1.70 Solicitação de gaze montada. Figura 1.71 Solicitação de gaze solta. Figura 1.72 Solicitação de afastador de Farabeuf. Figura 1.73 Solicitação de porta-agulha de Hegar montada. Figura 1.74 Solicitação de fio cirúrgico. Figura 1.75 Solicitação de seringa. 27 1 Conceitos básicos em cirurgia SJT Residência Médica – 2016 Figura 1.76 Manejo da tesoura. Figura 1.77 Tesoura em posição de repouso. Figura 1.78 Manejo das pinças anatômica e dente de rato. Figura 1.79 Manejo do bisturi. Figura 1.80 Manejo de pinça hemostática, seja curva ou reta. Figura 1.81 Manejo do porta-agulha de Mathieu. CAPÍTULO 2 Pré-operatório I Introdução Uma vez defi nida a indicação e o momento da operação procede-se à cuidadosa avaliação pré-opera- tória, que determinará condutas preparatórias e pos- terior planejamento do ato cirúrgico. Avaliar de forma adequada o paciente é compo- nente fundamental do tratamento cirúrgico, estando intimamente relacionada com o sucesso da operação. A avaliação pré-operatória bem conduzida propicia maior conhecimento do paciente como um todo e fortalece a relação médico-paciente, daí ser de res- ponsabilidade intransferível do cirurgião, mesmo que necessite contar com profi ssionais especializados para avaliações específi cas. Objetivos da avaliação pré-operatória Minimizar riscos e favorecer pronta e rápida recuperação no período perioperatório (que com- preende o período intraoperatório e as primeiras 48 horas de pós-operatório) e pós-operatório (até 30 dias, após o procedimento), além de tentar identifi- car comorbidades que poderão complicar o resulta- do pós-operatório. A avaliação adequada compreende: � Anamnese; � Exame físico; � Exames apropriados; � Preparos e cuidados especiais. Alguns conceitos importantes: cirurgias de pe- queno porte em pacientes jovens, que são assim con- siderados quando no sexo masculino tiverem menos de 40 anos e no sexo feminino menos de 45 anos, nenhum exame pré-operatório é necessário (ênfase na clínica e medicações usuais), desde que não tenham nenhuma queixa clínica, nenhum antecedente de risco ou qualquer alteração no exame físico criterioso. Para pacientes de qualquer faixa etária que se submete- rão a cirurgia nobre (SNC e aparelho cardiovascu- lar), faz-se necessária uma abordagem laborato- rial criteriosa, conforme veremos a seguir. Acima destas faixas etárias citadas ou na vigência de alguma comorbidades ou alteração no exame físico sugestiva 29 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 de alguma doença, INDEPENDENTE DA IDADE, o pa- ciente é colocado dentro do protocolo específico desta situação clínica e, assim, exames específicos precisa- rão ser solicitados. A avaliação clínica não é substituída por exa- me complementar! Não são mais recomendados os exames laboratoriais de rotina. Somente cerca de 0,2% dos doentes mostrarão alguma alteração nes- ses exames. Os riscos envolvidos durante a realização de pro- cedimentos cirúrgicos dependem de fatores próprios do paciente e do tipo de procedimento cirúrgico a que será submetido. Os preditores importantes da morta- lidade e morbidade, pós-operatória, incluem idade do paciente, estado físico, porte e natureza da cirurgia, se eletiva ou emergência. Identificação de tipo de cirurgia Cirurgias de médio e grande porte (maior risco cirúrgico) 1) Intratorácica; 2) Intra-abdominal; 3) Ortopédica; 4) Neurológica; 5) Arterial; 6) Risco hemorrágico elevado. Tabela 2.1 Fatores preditores de risco 1) Idade > 70 anos; 2) Estado clínico; 3) Cirurgia eletiva x cirurgia de emergência; 4) Extensão fisiológica da cirurgia; 5) Número de doenças associadas. Tabela 2.2 Avaliação geral do paciente A avaliação geral do paciente pode ser feita pela escala de Karnofsky, uma escala original- mente preconizada para pacientes com câncer e, posteriormente, estendida aos portadores de doen- ças incapacitantes. Não é parâmetro de indicação de cirurgia, no que diz respeito a reservas meta- bólicas e condições fisiológicas. Avalia o paciente como um todo. Escala de Karnofsky Paciente capaz de levar vida normal sem cuidados es- peciais 100% Paciente normal, sem queixas. 90% Normal. Sinais mínimos da doença. 80% Normal. Sinais evidentes de doença. Permanece em casa; incapaz para o trabalho; requer assistência 70% Consegue cuidar-se sozinho. 60% Auxílio eventual. Cuida das próprias necessidades. 50% Precisa de auxílio para atividade básicas. Incapaz de cuidar de si mesmo 40% Incapacidade importante. Necessita de assistência médica domiciliar 30% Incapacidade severa. Necessita hospitalização. 20% Necessita de cuidados intensivos. Doente terminal 10% Paciênte agônico. 0% Morto. Tabela 2.3 Quando pedir exames e/ou procedimentos Vários estudos concluíram que as condições clínicas prévias estão correlacionadas ao risco de complicações peri e pós-operatórias e que os exa- mes de triagem detectam anormalidades que não são clinicamente importantes. O manejo desses pacientes é usualmente inalterado, pois anormali- dades que são clinicamente importantes, em geral, podem ser detectadas por história e exame físicos completos. Os seguintes exames deverão ser solici- tados, conforme idade, tipo de cirurgia e alterações clínicas do paciente. 30 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Su ge st õe s de E xa m e Pr é- op er at ór io A du lt o Ex am e B ás ic o: O pe - ra çã o de p e- qu en o po rt e em p ac ie nt e sa ud áv el (e m 90 d ia s) Fa to re s cl ín ic os e c ir úr - gi co s ad ic io na is Pr oc ed im en to s ci rú rg i- co s (e m 9 0 di as ) D is tú rb io s cl in ic am en te s ig ni fi ca ti vo s e ev ol uç ão e /o u m ed i- ca m en to s (s om br ea do = e m 9 0 di as ; c la ro = e xa m es e sp ec ífi co s de ve m s er r ea li za do s em 3 0 di as ) Adulto Saudável < 45 anos Adulto Saudável de 45 a 54 anos 55 a 69 anos > 70 anos Cardíaco/Torácico Vascular Intraperitoneal/Abdominal de grande porte PSE antecipada > 2U Intracraniano Prótese Ortopédica RTUP Histerostomia Hipertensão Tabagismo Obesidade Mórbida Acidente vascular cerebral Câncer? (metástase) Anticonvulsivantes Cardiovascular Respiratório Diabetes Hepático Renal Perda de líquidos ou Eletrolíticos Autoimune/Lúpus Álcool/ Abuso de Drogas Esteroides/ Síndrome de Cushing HIV Paratireoide Tireoide Instável Anticoagulante/ Sangramento Suspeita de gravidez EC G M Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y ± Y Y Y Y Y Y H C + pl aq ue ta s Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y El et ro lít ic os Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y EN Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y G lic os e Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y Y EF H ± Y Y Y Y Y Cá lc io Y TA P/ T TP Y Y Y Y Y Y Y Y U /A , c ul - tu ra S R x do tó ra x Y S Y S N ív ei s ho rm on ai s Y Te m po d e sa ng ra m en - to S ± G ra vi de z Y* N ív ei s d e dr og a S S ± M ar ca do re s tu m or ai s S Co ag ul og ra - m a D ep en de , e m p ri nc íp io , d a ex te ns ão d a op er aç ão p ro po st a, c om o po r r ec om en da çõ es d e M SB O S do B an co d e Sa ng ue . Tabela 2.4 Adaptado de Halaszynski MT, Juda R, Silverman DG: Optimizing postoperative outcomes with eficiente preoperativeassessment and management. Crit Care Med 32:S76-S86, 2004. IEN: ureia sanguínea; HC: hemograma completo; Rx do tórax: radio- grafia do tórax; PSE: perda sanguínea estimada; ECG: eletrocardiograma; HIV: vírus da imunodeficiência humana; h. de: história de; EFH: exames da função hepática; H: em geral indicado para homens; ASHC: agenda de solicitação de hemocomponente; TAP/TTP: tempo de protrombina/tempo parcial de tromboplastina; S: pode ser solicitado (e revisto) pelo cirurgião como parte do plano de operação; rtup: ressecção transuretral da próstata; e U/A, urinálise, I: geralmente indicado; ±, em caso de situação aguda/grave. (*) No mínimo, um teste de gravidez de urina deve ser realizado na manhã da cirurgia em qualquer mulher em idade fértil, a menos que o útero ou ovários tenham sido retirados cirurgicamente. Área sombreada: Tempo de teste não é tipicamente crítico, resultados de 90 dias (e possivelmente 180 dias) podem ser aceitáveis; área clara: tipicamente melhor obter dentro de 30 dias da cirurgia. Nota: (1) Ocasião e lista de exames são sugestões; não são absolutas e não devem excluir outros testes em determinados quadros, nem devem impedir um caso de prosseguir se o anestesiologista e o cirurgião considerarem oportuno. (2) O exame para um determinado distúrbio depende de sua gravidade no contexto da operação planejada, ou seja, os exames têm probabilidade de fornecer informação potencialmente significativa do ponto de vista clínico e proporcionar informação que poderá ser um impor- tante componente da história clínica e do exame físico. 31 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Avaliação anestésica A avaliação anestésica serve para vários propósitos: (1) o paciente conhecer o anestesista, o que permite estabelecer relação de confiança e escla- recer dúvidas antes da operação; (2) discutir sobre o impacto da anestesia e seus riscos; e (3) tratamento da dor pós-operatória. A entrevista pré-anestésica deve enfocar o tipo de operação, história de anes- tesias prévias e de doenças preexistentes. Permite determinar quando é necessária a avaliação médica adicional ou o tratamento antes da operação. Requer um exame clínico dirigido e as solicitações de exames complementares, quando necessário. A investigação de condições que estão associadas a aumento da morbidade perioperatória é importante para reduzir os riscos associados à anestesia e à ope- ração. Condições subjacentes que devem ser avaliadas incluem o grau de volume intravascular, anormalida- des das vias aéreas, doenças cardiovascular, pulmonar, renal e hepática e desordens nutricionais, endócrinas ou metabólicas. Aguarde o módulo de anestesiologia que abordará com precisão os temas mais relevantes para as provas de RM. Avaliação de risco pré- operatório Avaliar os riscos e predizer os resultados pós- -operatórios é um importante aspecto da avaliação pré-operatória. Várias metodologias avaliam o status clínico pré-operatório de pacientes cirúrgicos em fun- ção do estado de saúde geral e função específica dos órgãos. O sistema ASA Physical Status (American Society Association – P) divide os pacientes em cinco categorias baseadas na presença ou ausência de doen- ças sistêmicas leves a graves, fornecendo o risco anes- tésico geral (probabilidade estatística de óbito). A classificação é de aplicabilidade simples, com base, principalmente, em história e exame físico do paciente e não depende de investigação laboratorial ou idade. O escore ASA é considerado um ade- quado preditor de mortalidade perioperatória (atenção à legenda da Tabela 2.5). Um alto escore de ASA correlaciona-se a complicações como tempo de internamento prolongado, necessidade de admis- são em UTI no pós-operatório e desenvolvimento de sepse grave no pós-operatória. Apesar de elementos de subjetividade é um sistema de avaliação global de prognóstico efetivo. A simplicidade e versatilidade do escore de ASA o fazem o mais útil e comumen- te utilizado sistema de avaliação de risco clínico pré-operatório. Fatores de risco anestésico classificação ASA Classe Descrição Mortalidade (%) P I Paciente hígido < 70 anos. 0,06-0,08 P II Paciente > 70 anos com doença sistêmica leve (anemia, HAS leve, obesidade); tabagista. 0,27-0,40 P III Paciente com doença sistêmica que limita atividade (angina es- tável, IAM prévio, insuficiência pulmonar moderada, diabete se- vero, obesidade mórbida). 1,8-4,3 P IV Paciente com doença sistêmica que representa ameaça constante de vida (angina estável, estágios avançados de doença hepática, re- nal, pulmonar ou endócrina). 7,8-23 P V Paciente moribundo cuja expecta- tiva de vida é menor que 24 horas sem cirurgia (TCE com rápido au- mento de PIC, rotura de aneurisma de aorta com instabilidade hemodi- nâmica, embolia pulmonar maciça). 9,4-51 P VI Paciente com morte cerebral, ór- gãos sendo removidos para doação. E Sufixo colocado após a classifica- ção para designar emergência. Tabela 2.5 ASA – American Society Association. At- enção! O sistema ASA, atualmente, também conhecido como Physical Status, utilizando o escore P semelhante à classe ASA. Avaliação pré-operatória por sistemas Sistema cardiovascular As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade no período perioperatório, entre estas, as coronariopatias costumam ser a princi- pal causa de descompensação, por conta das oscilações volêmicas no período intra e pós-operatórios, que po- dem deixar o paciente hipotenso, e decompensar uma obstrução coronariana limítrofe. Outro ponto impor- tante é que as doenças cardiovasculares são altamente frequentes, possuem alta morbimortalidade e custo elevado. Existem algumas formas de estratificação de risco cardíaco, que foram descritas por diferentes au- tores, e encontram-se agora consagradas em algumas classificações, que descrevemos a seguir (tomamos o cuidado aqui, de citarmos apenas aquelas que são uti- lizadas, atualmente, na prática clínica). 32 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Índices de risco cardíaco Leva em consideração parâmetros clínicos e laboratoriais que podem ser reproduzidos e definidos com exatidão, além de comparados por metodologia estatística, o que melhora muito a qualidade dessa classifica- ção para estratificar risco de complicação cardiológica no período perioperatório. Pontos são atribuídos a algumas características clínicas e laboratoriais, que, posteriormente, são somados e o resultado obtido distribuído em classes. Cada classe tem um risco distinto de mortalidade decorrente de descompensação no período perioperatório. Índices de risco cardíaco com variáveis Pontos Comentários Índice de Risco Cardíaco de Goldman, 1977 1. Terceira bulha ou distensão venosa jugular. 2. Infarto do miocárdio recente. 3. Ritmo não sinusal ou contração atrial prematura no ECG. 4. > 5 contrações ventriculares prematuras. 5. Idade > 70 anos. 6. Cirurgias de emergência. 7. Estado clínico geral ruim. 8. Cirurgia intratorácica, intraperitoneal ou aórtica. 9. Estenose aórtica significativa. 11 10 7 7 5 4 3 3 3 Taxa de complicação cardíaca 0-5 pontos = 1% 6-12 pontos = 7% 13-25 pontos = 14% > 26 pontos = 78% Índice Multifatorial Modificado de Detsky, 1986 1. Angina classe 4. 2. Suspeita de estenose aórtica crítica. 3. Infarto do miocárdio em 6 meses. 4. Edema pulmonar em 1 semana. 5. Angina instável em 3 meses. 6. Angina classe 3. 7. Cirurgia de emergência. 8. Infarto do miocárdio > 6 meses. 9. Edema pulmonar curado > 1 semana. 10. Ritmo não sinusal ou CAP no ECG. 11. > 5 CVPs em qualquer momento, antes da cirurgia. 12. Estado clínico geral deficiente. 13. Idade > 70 anos. 20 20 10 10 10 10 10 5 5 5 5 5 5 Taxa de complicação cardíaca > 15 = risco alto Critérios de Eagle para Avaliação Cardíaca, 1989 1. Idade > 70 anos. 2. Diabetes. 3. Angina. 4. Ondas Q no ECG. 5. Arritmias ventriculares. 1 1 1 1 1 < 1, nenhum exame 1-2 encaminhar para exame não invasivo ≥ 3, encaminhar para angiografia Tabela 2.6 ECG:eletrocardiograma; CAP: contração atrial prematura; e CVP: contração ventricular prematura. Risco cardíaco revisado O grande avanço deste tipo de classificação se refere, especificamente, à precisão em estabelecer cirurgias de maior e menor risco cardíaco, que está diretamente relacionado ao potencial de oscilação volêmica. Assim, são cirurgias de maior risco cardíaco aquelas que têm potencial de sangramento maior. Além disso, existem critérios MAJOR de descompensação cardíaca, conforme a tabela a seguir: Risco Cardíaco Revisado 1 Operação de alto risco. 1 História de doença isquêmica do coração. 1 História de ICC. 1 História de doença cerebrovascular. 1 Tratamento pré-operatório com insulina. 1 Creatinina sérica pré-operatória > 2 mg/dL. Tabela 2.7 Quanto maior o número de fatores positivos, maior o risco, respectivamente, 0,5%; 1,3%; 4%; 9% com 1, 2, 3 ou 4 fatores positivos. 33 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Avaliação cardíaca – Colégio Americano de Cardiologia e Associação Americana do Coração Atualmente, a avaliação pré-operatória recomendada pela literatura é a proposta em 2002, pelo American College of Cardiology e pela American Heart Association (Tabela 2.8). Classificação do porte da cirurgia e risco cardiológico Porte da cirurgia Tipo da cirurgia (c) Risco cardiológico (%) Grande � Emergências, principalmente em idosos; � Cirurgias arteriais de aorta e ramos e cirurgia vascular periférica; � Cirurgias prolongadas com grande perda de fluído e sangue. Alto > 5 Médio � Cirurgia intraperitoneal e intratorácica; � Endarterectomia de carótida; � Cirurgias de cabeça e pescoço e otorrinolaringológicas; � Cirurgias ortopédicas; � Neurocirurgias; � Cirurgia uroginecológica. Intermediário 1 a 5 Pequeno � Procedimentos endoscópicos; � Cirurgias oftalmológicas; � Cirurgia de mama; � Procedimentos superficiais. Baixo < 1 Tabela 2.8 Preditores Clínicos de Risco Cardiovascular perioperatório Os preditores clínicos são divididos entre maiores, intermediários e menores, conforme tabela a seguir, e mostram condições que necessitam de terapia intensiva, definem adiamento ou cancelamento de cirurgia, exceto em caso de emergência, além de investigar doenças cardiovasculares, comorbidades e situações clínicas específi- cas que merecem atenção especial. Preditores clínicos de aumento do risco cardiovascular perioperatório (IAM, ICC, Morte) Maiores Intermediários Menores *IAM < 7 dias ou recente (7 a 30 dias), com evidências de alto risco; Sintomas a teste não invasivo; Angina grave ou instável. Angina leve classes I e II classificação canadense Idade avançada (> 70 anos). Insuficiência cardíaca descompensada; Valvulopatia grave. Infarto antigo (história ou onda Q patológica). Hipertrofia de VE; Bloqueio de ramo esquerdo; Alterações ST. BAV de alto grau; Arritmias ventriculares, sintomáticas com cardiopatia subjacente; Arritmias supraventriculares, com frequência ventricular não con- trolada. Insuficiência cardíaca prévia ou compensada. Ritmo cardíaco diferente do sinusal, com fibrilação atrial. Diabetes melito (particularmente insulinode- pendente). Baixa capacidade funcional. Insuficiência renal (creatinina > 2 mg/dL). História de acidente vascular cerebral; Doença vascular periférica. Hipertensão arterial sistê- mica não controlada. Tabela 2.9 O tempo ideal de um procedimento cirúrgico, após um infarto agudo do miocárdio (IAM) depende do período de tempo que se passou desde a ocorrência do IAM e da determinação dos riscos de isquemia, tanto por sin- tomas clínicos quanto por estudos não invasivos. Qualquer paciente pode ser avaliado como um candidato a ser op- erado, após um IAM (com sete dias de evolução) ou infarto do miocárdio recente (dentro de sete dias de evolução). A ocorrência de infarto é considerada o principal preditor clínico no contexto de risco de isquemia. As recomendações gerais são para que se espere de quatro a seis semanas, após a ocorrência de um IAM para o paciente ser operado. 34 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Avaliação da Capacidade Funcional Esta capacidade funcional é estimada em equiva- lentes metabólicos (MET), que representa o consumo de oxigênio de 3,5 mL/kg/min., o que corresponde ao consumo de um indivíduo de 70 kg em repouso e em decúbito supino. A tabela a seguir lista atividades do dia a dia e o correspondente consumo de oxigênio em MET. Além da história clínica e do funcional tem o propósito de auxiliar na triagem de pacientes que necessitarão de exames adicionais para o esclarecimento de risco opera- tório, caso apresente baixa capacidade funcional. Um método fácil e de custo menor para deter- minar o estado funcional cardiopulmonar para ope- ração não cardíaca é a capacidade ou incapacidade de o paciente subir dois lances de escada. Dois lances de escada são necessários, pois demanda mais de quatro equivalentes metabólicos (MET). Em uma revisão de todos os estudos sobre subida de escada com avaliação pré-operatória, estudos prospectivos têm demonstra- do que esse é um bom preditor de mortalidade asso- ciada à cirurgia torácica. Em operações não cardíacas de grande porte, a incapacidade de subir dois lances de escada é um preditor independente de morbidade, mas não de mortalidade perioperatória. Estado funcional quanto à atividade física (equivalente metabólico – MET) Equivalente metabó- lico (MET) Tipo de atividade Excelente (> 7 MET) Pratica futebol, natação, tênis, corrida de curtas distâncias. Moderada (4 a 7 MET) Caminhada com velocidade 6,4 km/h. Ruim (< 4 MET) Pouca atividade, caminhadas curtas (2 quadras) com veloci- dade máxima de 4,8 km/h. MET – O consumo de oxigênio (VO2) de um homem de 40 anos, com 70 kg em repouso é de 3,5 mL/kg, ou o correspondente a 1 MET. Tabela 2.10 Classificação da New York Heart Association (NYHA) Classe Descrição I Sem limitação de atividade física. A atividade física normal não causa sintomas como fadiga, palpitação ou dispneia. II Pequena limitação da atividade física em re- pouso. Confortável em repouso, mas a ativi- dade física comum desencadeia sintomas. Classificação da New York Heart Association (NYHA) (Cont.) III Limitação importante da atividade física. Confortável em repouso, mas pequenas ativi- dades físicas desencadeiam sintomas. IV Incapacidade de realizar qualquer atividade física sem desconforto. Os sintomas de insu- ficiência cardíaca ou de angina podem estar presentes até mesmo em repouso. Qualquer atividade física resulta em aumento do des- conforto. Tabela 2.11 Atenção! Estratégias para minimizar o risco cirúrgico O cuidado fundamental é definir antecedentes, patologias cardíacas preexistentes e, acima de tudo, re- serva funcional, para, então, associar o tipo de exame específico cardíaco que deve ser realizado e com qual prioridade no período pré-operatório. Assim, quando nos referimos a qual exame fazer para avaliação cardí- aca, o básico é o ECG. Quando o mesmo mostra altera- ções de sobrecarga, o problema é de função e o exame a ser feito é o ECG. Quando o ECG mostra alterações isquêmicas (áreas inativas, alterações de repolarização suspeitas), o exame que se segue é o teste de esfor- ço. Se este último está alterado, o próximo passo é a cintilografia ou testes farmacológicos e quando confir- mada a isquemia fica patente a necessidade de angio- grafia pré-operatório que esclarecerá em definitivo os casos que requerem revascularização miocárdica antes da cirurgia (seja angioplastia ou cirurgia cardíaca). Os betabloqueadores fazem parte da tera- pêutica profilática comprovadamente eficaz na redução da morbidade e da mortalidade de pacien- tes com insuficiência coronariana, submetidos à cirurgia não cardíaca (classes II e III da Tabela 2.11, uso obrigatório). A ativação do sistema nervoso simpático produz inotropismo e cronotropismo positivos e liberação de norepinefrina. O antagonismo beta-adrenérgico apre- senta um efeito antiarrítmicoassociado à redução de mortalidade e incidência de morte súbita, após infar- to do miocárdio. Concluídos os resultados dos estudos POISE (Perioperative Ischemia Evolution), em 2007, que mostraram o perigo potencial da terapia periope- ratória com betabloqueadores, as recomendações atu- ais são manter a terapia para aqueles que já estão em uso no pré-operatório, considera-los em pacientes de alto risco (mais de um fator de risco), para frequência cardíaca e pressão arterial, e não administrá-los aos pacientes de baixo risco. 35 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Atualizações com foco em recomendações do American Heart Association/American College of Cardiology Recomendação atual Mudança da recomendação anterior Classe I* Betabloqueadores devem ser mantidos em pacien- tes submetidos à cirurgia que já estejam recebendo betabloqueadores para tratamento de condições com indicações da cica- triz classe I ACCF/AHA. Formulação revisada; re- comendação de prescre- ver betabloqueadores para pacientes de alto risco car- diovascular com achados de isquemia em exames pré- -operatórios, movido para baixo na classe de recomen- dação (veja classe IIa). Classe IIa 1. Betabloqueadores ajustados à frequência cardíaca e pressão arte- rial são, provavelmen- te, recomendados para pacientes submetidos à cirurgia vascular que estão em alto risco cardí- aco por causa da doença coronariana ou o achado de isquemia cardíaca em exames pré-operatórios. Recomendação modificada ou combinada, movida para baixo na classificação. 2. Betabloqueadores ajustados à frequência cardíaca e pressão arte- rial são razoáveis para pacientes, nos quais, a avaliação pré-operatória de cirurgia vascular iden- tifica risco cardíaco ele- vado, conforme definido pela presença de mais de um fator de risco. Recomendação modifica- da (adicionado “ajustados à frequência cardíaca e pres- são sanguínea” e modifica- dos de “são possivelmente recomendados” para “são razoáveis”. 3. Betabloqueadores ajustados à frequência cardíaca e pressão arte- rial são razoáveis para pacientes, nos quais, a avaliação pré-operatória identifica doença coro- nariana ou risco cardí- aco elevado, conforme definido pela presença de mais de um fator de risco clínico, que são subme- tidos à cirurgia de risco intermediário. Formulação revisada. Atualizações com foco em recomendações do American Heart Association/American College of Cardiology (Cont.) Classe IIb 1. A utilidade dos beta- bloqueadores é incer- ta para os pacientes que são submetidos a procedimentos de risco intermediário ou cirur- gia vascular, nos quais a avaliação pré-operató- ria identifica um único fator de risco clínico na ausência de doença co- ronariana. Formulação revisada. 2. A utilidade dos beta- bloqueadores é incerta em pacientes submetidos à cirurgia vascular sem fatores de risco clínicos que atualmente não es- tão tomando betabloque- adores. Nenhuma mudança das re- comendações de 2007. Classe III 1. Betabloqueadores não devem ser admi- nistrados em pacientes submetidos à cirurgia que têm contraindica- ções absolutas para blo- queio beta. Sem alterações das reco- mendações de 2007. 2. A administração ro- tineira de altas doses de betabloqueadores na au- sência de ajuste da dose não é útil e pode ser pre- judicial para pacientes submetidos à cirurgia não cardíaca que não estão tomando betablo- queadores. Nova recomendação. Tabela 2.12 (*) A classe de recomendação baseia- se no tamanho do efeito do tratamento combinado com uma estimativa de certeza (precisão) do efeito do tratamento. Fatores de risco clínicos incluem histórico de doença cardíaca isquêmica, história de insuficiência cardíaca prévia ou compensada, história de doença cerebrovascular, diabetes melito e insu- ficiência renal (definida no índice de risco cardíaco revisado como um nível de creatinina sérica pré-op- eratória > 2 mg/dL). 36 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Sistema respiratório A descompensação pulmonar é a principal causa de morbidade no período perioperatório. Requerem avaliação do sistema respiratório as situações que podem comprometer o funcionamento pulmonar: cirurgias torácicas e no andar superior do abdome; idade > 60 anos, tabagismo, doença pulmonar pre- existente, obesidade ou neoplasias prévias. Neste grupo de paciente de risco pulmonar au- mentado medidas expirométricas são fundamentais, pois mais uma vez conseguem predizer melhor a reser- va funcional pulmonar e, assim, dizer se o risco é maior ou menor. O VEF1 é considerado, atualmente, o me- lhor parâmetro para este tipo de avaliação. Quando o mesmo é menor que 0,8 L/seg., ou 30% do previs- to, o paciente passa a ser considerado de alto risco pulmonar. O Rx de tórax também é considerado exame pré-operatório, porém demonstra apenas alterações anatômicas e não funcionais e, por este motivo, não é o exame de escolha para os casos já pré-definidos de risco. Algumas medidas protetoras se fazem fundamen- tais nestes casos, visando minimizar o risco. Entre estas medidas temos: suspensão do cigarro (4 a 8 semanas antes da cirurgia eletiva; o tabagismo aumenta o risco de complicações pulmonares em até 4 vezes em relação aos pacientes não fumantes), terapia bron- codilatadora pré-operatória para paciente com hiper- -reatividade brônquica, antibióticos para infectados, uso de esteroides para asmáticos graves, tentar ao máximo, procedimentos sob anestesia peridural ou raqui (preserva o reflexo de tosse, diminuindo o risco de broncoaspiração, o que reduz a mortalidade de pacientes com doença pul- monar prévia), fisioterapia respiratória e analgesia (para garantir boa expansibilidade torácica indolor). Outra para avaliação de risco de complicações pul- monares pós-operatória (CPP) utilizada na prática clí- nica é a elaborada por Torrington & Henderson (1988) denominada PORT –Terapia Respiratória Perioperatória – programa de avaliação de risco e cuidados individuali- zados pós-operatórios. Dentro do protocolo são ava- liados: local de cirurgia, idade, estado nutricional, histó- ria pulmonar e espirometria. A partir da associação dos resultados os pacientes receberam uma pontuação clas- sificando-os em baixo, moderado ou alto risco para CPP. Classificação da escala de Torrington & Henderson (1988) Fatores clínicos Pontuação 1. Localização cirúrgica: abdominal alta/torácica. 2 2. Idade acima de 65 anos. 1 3. Estado Nutricional – Distrófico. 1 Classificação da escala de Torrington & Henderson (1988) (cont.) 4. Histórico Pulmonar. Tabagismo atual/Doença pulmonar; 1 Tosse + Expectoração/brocoespasmo/ hemoptise. 1 5. Espirometria CVF < 50% do previsto ou VEF1/CVF 65-75%; 1 50-65%; 2 < 50%. 3 Risco baixo de 0 a 3 pontos; risco moderado de 4 a 6 pontos; risco alto de 7 a 12 pontos. Tabela 2.13 Medidas profiláticas para as complicações pulmonares no pós-operatório de cirurgia abdominal alta Reverter fatores de risco respiratório � Cessação do tabagismo; � Tratamento da obstrução ao fluxo aéreo. Modificar fatores de risco não pulmonares � Obesidade; � Duração da cirurgia. Manobras que aumentam o volume pulmonar � Exercícios respiratórios; � Tosse; � CPAP. Tabela 2.14 CPAP: pressão positiva contínua das vias aéreas. Padrão respiratório após cirurgia abdominal alta Diversos estudos têm demonstrado os efeitos da laparotomia sobre os volumes pulmonares, particu- larmente, sobre o volume residual (VR), a capacidade residual funcional (CRF), capacidade pulmonar total (CPT) e a capacidade vital (CV), que diminuem ime- diatamente após a cirurgia, recuperando-se, gradual- mente, em uma semana. Comparando-se os diversos parâmetros (veja gráficos a seguir), percebe-se que a queda da CV é mais acentuada quando o procedi- mento é abdominal alto. 37 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Figura 2.1 Variação dos volumes pulmonares no pós-operatório imediato. RV: volumeresidual; CRF: ca- pacidade residual funcional; CPT: capacidade pulmonar total; e CV: capacidade vital. Figura 2.2 Variação da capacidade vital no pós-oper- atório imediato de cirurgia abdominal alta. Sistema renal O que nos interessa para avaliação pré-operatória são os doente com IRC conhecida, situação em que ris- cos de descompensações múltiplas são patentes – ris- co de doenças isquêmicas do coração, excesso de fluido (congestão pulmonar), disfunções bioquímicas (hiper- calemia; hipocalcemia; acidose metabólica), anemia e distúrbios de coagulação e plaquetas (lembrar que a avaliação da função plaquetária pode ser prevista pelo tempo de sangramento alargado, apesar do número de plaquetas normais). Desta forma, neste grupo de pacientes, alguns exames são fundamentais no pré-operatório – ECG (e, eventualmente, ecocardiograma quando houver si- nais de sobrecarga ou teste de esforço quando houver alteração isquêmica), Rx de tórax (grau de congestão pulmonar), hemograma completo (grau de anemia e necessidade de transfusão ou tratamento com eritro- poetina), coagulograma completo e, quando necessá- rio, avaliação mais específica da função plaquetária, creatinina sérica (e clearance de creatinina para avaliar o grau de disfunção renal). Considerar hemodiálise em casos de hipercale- mia refratária e excesso de fluido de manejo difícil. A Tabela 2.14 resume os cuidados adequados para a pre- venção de IRA e os cuidados necessários ao paciente com IRC. Cuidados para evitar insuficiência renal aguda (IRA) � Manter volume plasmático adequado, fundamental para evitar hipovolemia. � Evitar medicações nefrotóxicas e corrigir as doses dos antibióticos. � Não usar diurético tipo manitol de rotina, que pode induzir ao desbalanço de fluidos e hipotensão. � Evitar hipotensão e redução do débito cardíaco. � Evitar uso de contrastes endovenosos em exames de imagem ou invasivos (endovasculares, arteriogra- fias); se for indispensável, deve-se usar hidratação eficiente e N-acetilcisteína como proteção renal. Cuidados com pacientes com insuficiência renal crônica � Evitar medicações nefrotóxicas e corrigir doses dos antibióticos. � Não usar diurético tipo manitol de rotina, que pode induzir a desbalanço de fluidos e hipotensão. � Realizar, em pacientes dialíticos, diálises 12 a 24 horas antes da cirurgia, a fim de minimizar complicações. � Prevenir sobrecarga hídrica e controlar hipercalemia. Tabela 2.15 Atenção a exames contrastados a base de iodo, realizados em pré-operatórios especí- ficos, uma vez que o risco de nefrotoxicidade 38 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 pode aumentar a morbidade e/ou mortalida- de desse grupo. A lesão renal aguda induzida pelo meio de contraste iodado é definida pela elevação de 25% ou aumento absoluto de 0,5 mg/dL na creatinina basal, após 48 horas da exposição. Nos Estados Unidos e Europa, a ne- frotoxicidade aos contrastes radiográficos (NCR) constitui a terceira causa de insuficiência renal aguda hospitalar, ocorrendo em 10% desses pacien- tes. Os maiores fatores de risco para NCR são a disfunção renal prévia caracterizada por creatinina plasmática maior que 1,5 mg/dL e/ou depuração da creatinina menor que 60 mL/min., e a nefropatia diabética. Os pacientes que desenvolvem estados de hipoperfusão renal – como na insuficiência cardía- ca descompensada, cirrose hepática e uso abusivo de diuréticos – apresentam maior predisposição à NCR. A frequência da nefrotoxicidade é maior nas múltiplas exposições ao contraste, nos exames de urgência e quando há uso concomitante de outras drogas nefrotóxicas. A principal medida para a prevenção da nefropatia por contraste é a ex- pansão do volume extracelular. Esta expansão deve ser realizada com solução salina (SF 0,9% 50 a 100 mL/hora), devendo ser iniciada por volta de 12 horas antes do procedimento e mantida por aproxi- madamente 12 horas, após a infusão do contraste. Outras medidas universalmente preconizadas para pacientes de alto risco são: utilizar a menor quantidade possível de contraste, evitar a exposi- ção repetida em curtos intervalos de tempo e sus- pender a utilização de drogas nefrotóxicas com po- tencial de causar alterações hemodinâmicas renais (anti-inflamatórios não hormonais, ciclosporina etc.). Os novos contrastes não iônicos, de baixa osmolalidade, causam menos reações alérgicas e alterações cardiovasculares. A sua eficácia em re- lação à redução da incidência de nefrotoxicidade foi demonstrada de maneira significativa apenas em pacientes diabéticos com insuficiência renal prévia. A N-acetilcisteína, um captador de radicais li- vres com propriedades vasodilatadoras, parece apresentar efeito protetor contra a nefropatia por contraste radiológico e tem sido utiliza- da em modelos animais e ensaios clínicos. A associação de hidratação com soro fisiológico e N- -acetilcisteína 600 mg, duas vezes/dia por dois dias, iniciando-se no dia anterior ao exame, mostrou-se protetora em ensaios clínicos. Como a N-acetilciste- ína é um medicamento de baixo custo e com poucos efeitos colaterais, o seu uso tem sido crescente pela comunidade médica. Outra medida usada na prevenção da nefro- toxicidade por contraste é a expansão volêmica com solução à base de bicarbonato de sódio. A hi- pótese para o potencial benefício da infusão de bi- carbonato seria que a alcalinização do fluido tubu- lar reduziria a geração dos lesivos radicais hidroxil. Apesar de resultados clínicos iniciais animadores, ainda são necessários estudos com maior número de pacientes para elucidar o papel da alcalinização urinária na prevenção da nefrotoxicidade pelo con- traste radiológico. Sistema hepatobiliar Da mesma forma como dissemos para alteração renal, o que nos interessa na avaliação pré-opera- tória, são os doentes que possuem doença hepática instalada, levando à insuficiência hepática. Assim, sintomas e sinais clínicos de hepatopatia na história e exame físico são fundamentais em uma avaliação pré-operatória (icterícia, eritema palmar, encefalo- patia hepática etc.). Na avaliação laboratorial, o TAP é o melhor pa- râmetro pré-operatório para predizer a reserva funcional hepática. Na doença hepática aguda, com níveis elevados de enzimas hepáticas, o ideal é suspender o procedi- mento cirúrgico eletivo, aguardando algumas sema- nas, após normalização dos níveis de AST e ALT, pelo risco de hepatite fulminante. AST/ALT > 2 é sugestiva de hepatite alcoólica. ALT/AST > 2 é sugestiva de hepatite viral ou medicamentosa. BT elevada à custa de BD, FA elevada e/ou 5-nucleotida- se são compatíveis com colestase. Nos casos de hepatopatia crônica, com sinais de hipertensão portal, a classificação de Child-Pugh (CP) é obrigatória, pois existe relação direta com índices de mortalidade para procedimen- tos abdominais, de acordo com a mesma. Assim, a mortalidade é de 10%, 31% e 76%, respectivamen- te, para CP A, B e C. (Fique atento a Tabela 2.15). Outros fatores que afetam o prognóstico, nes- tes pacientes, são a natureza emergencial de um procedimento, o TP prolongado, maior que três segundos, a falta de correção com vitamina K e a presença de infecção. 39 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Procedimento eletivo Investigação anterior à operação Proceder com extremo cuidado Monitoramento perioperatório detalhado Não-cirrótico Considerar indicação para transplante Considerar alternativas à operação Proceder com cuidado, se necessário Operar Classe C Classe B Procedimento eletivo Protelar, se possível* Histórico, exame e estudos laboratoriais como indicados Doença crônica do fígadoAnormalidades laboratoriais assintomáticas Indicação de ameaça emergencial à vida Hepatite aguda Doença aguda do fígado CirroseInsu�ciência hepática fulminante Classe A Figura 2.3 Abordagem do paciente com doença hepática. *Pelo menos até os testes de função hepática terem normalizado. Sistema de Pontuação Child-Pugh1 2 3 Encefalopatia Nenhum Estádio I ou II Estádio III ou IV Ascite Ausente Leve(controlado com diuréticos) Moderado, apesar do tratamento com diuréticos Bilirrubina (mg/dL) < 2 2-3 > 3 Albumina (g/L) > 3,5 2,8-3,5 < 2,8 TP (segundos prolongados) < 4 4-6 > 6 INR < 1,7 1,7-2,3 > 2,3 Tabela 2.16 Classe A: 5-6 pontos; Classe B: 7-9 pontos; e Classe C: 10-15 pontos. INR, International Normalized Ratio; TP: tempo de protrombina. No módulo de cirurgia do fígado abordaremos o escore MELD. Em pacientes com icterícia obstrutiva algumas recomendações são essenciais: hidratação adequada no perioperatório para evitar disfunção renal. Alterações hemodinâmicas e renais durante a icterícia obstrutiva têm sido descritas há décadas, contudo, só recentemente foram bem compreendidas e receberam a merecida impor- tância clínica. A insuficiência renal surge em 8% a 10% dos pacientes em pós-operatório de icterícia obstrutiva, levando a uma mortalidade de cerca de 70% a 80%. Há crescente número de evidências demonstrando que a injúria renal não ocorre por lesão nefrotóxica direta. O quadro colestático promove efeito deletério sobre a função cardiovascular e volume sanguíneo, havendo assim, maior suscetibilidade à insuficiência renal de ori- gem pré-renal. A hipotensão arterial sistêmica e o comprometimento da reatividade vascular são habituais nessa situação. Sem o controle clínico perioperatório adequado, a progressão pós-operatória da lesão pode culminar com o surgimento de necrose tubular aguda, necessidade de tratamento dialítico e elevada mortalidade. Procedimentos capazes de descomprimir a árvore biliar, preferencialmente, por drenagem endoscópica interna, redu- zindo, já no pré-operatório, a colestase, diminuem o risco dessa complicação. Contudo, é primordial para profilaxia das alterações hemodinâmicas e renais a correção da anemia, a suspensão de drogas nefrotóxicas como os anti-inflamatórios não hormonais e a manutenção do volume vascular por meio da infusão de soluções. Dados da literatura, no passado, sugeriam, em estudos não controlados, efeito benéfico do manitol na icterícia obstrutiva. As evidências atuais não são favoráveis ao seu uso, demonstrando que sua ação como expansor de volume é, nesse caso, comprometida pelo seu potencial diurético osmótico e natriurético. Profilaxia com antibiótico (cefazolina 1 a 2 g IV) e correção da coagulação com vitamina K ou plasma fresco se não houver melhora com a reposição de vitamina K, são passos obrigatórios. Cerca de dois a três dias, após o 40 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 início da colestase, observa-se queda dos níveis de vitamina K e dos fatores de coagulação, vitaminas dependentes II, VII, IX e X, reduzindo a atividade de protrombina (TAP alargado). A vitamina K pode ser administrada por via parenteral e corrige os tempos de coagulação den- tro de 6 a 12 horas. Até 5 mg são administrados por via intravenosa lentamente, como dose inicial. As prepa- rações mais antigas de vitamina K eram menos purifica- das que as usadas atualmente e foi descrita anafilaxia e morte com a administração destes agentes mais antigos. As formas mais purificadas têm menor probabilidade de causar complicações, mas a vitamina K intravenosa deve ser administrada com cuidado. A vitamina K intramus- cular ou subcutânea pode ser aplicada em doses de 10 a 25 mg/dia. Doses repetidas permitem reposição corporal total (10 a 25 mg/dia por três dias). A administração de plasma corrige rapidamente o deficit de coagu- lação e, por isso, se administra plasma com vitamina K nos pacientes que não param de sangrar. Atenção: são fatores vitamina K dependentes: II, VII, IX, X e proteínas S e C. Sistema endócrino Diabetes melito (DM) Cuidados e avaliação pré-operatória rigorosa são fundamentais, pois são pacientes com risco de distúr- bios imunológicos, com consequentes deficits de cica- trização e risco maior de infecções. Assim, dados de história clínica buscando sintomas e sinais de agressão em órgãos alvo são fundamentais, pois se referem à descompensação de longa data, sempre avaliar níveis glicêmicos em jejum, hemograma completo para avaliar leucocitoses, pois são pacientes de risco para infecções silenciosas, ECG pelo risco de doença cardíaca oculta, urina I para avaliar proteinúria, creatinina e ele- trólitos para avaliar grau de disfunção renal, são exames pré-operatórios obrigatórios nestes pacientes. O principal objetivo no tratamento pré-opera- tório do paciente diabético é manter glicemias en- tre 120 e 180 mg/dL, para prevenir a hipoglicemia e a hiperglicemia, fornecer glicose e insulina suficientes para inibir os processos catabólicos e prevenir a mor- bidade e a mortalidade. � Alvo glicêmico transoperatório: 120 a 180 mg/dL (evitar níveis < 100 ou > 200 mg/dL). Os níveis de glicemia ideais no controle tran- soperatório são aqueles que não ultrapassam 180 mg/dL, para que não ocorra perda renal de glicose e diurese osmótica, e que não sejam menores que 120 mg/dL para prevenir hipoglicemia. Em razão da possibilidade de frequentes complicações pós-opera- tórias, os pacientes diabéticos submetidos à cirurgia de médio e grande porte devem ser mantidos, pelo menos, nas primeiras 24 horas na UTI com monito- rização cardíaca. Durante esse período e até o reinício da alimentação, controle efetivo da glicemia e de ele- trólitos deve ser rigoroso. Quando o período de jejum exceder 24 horas, a administração de aminoácidos e li- pídios, em adição à glicose, deve ser considerada, para minimizar o catabolismo e acelerar o processo de cica- trização. Manter o controle da glicemia a cada 2 ou 4 horas e complementar a insulina ou a glicose para manter a glicemia entre 100 e 180 mg/dL. Após o início da alimentação oral, introduz-se o esquema de insulina lenta ou NPH e mantém-se o esquema de insulina regular de acordo com o esquema de glicemia capilar, descrito na tabela a seguir. Se for indicada a nutrição parenteral total, considerar que esses regimes utilizam 40% a 50% de glicose e a quan- tidade de insulina deve ser adequada. Vale ressaltar que, nesses pacientes, elevações glicêmicas sem cau- sa aparente podem sinalizar para algum processo infeccioso ou inflamatório presente. O controle do potássio deve ser feito a cada 6 horas nas primeiras 24 horas e, posteriormente, duas vezes ao dia. Regras básicas no pré-operatório de cirurgias eletivas de médio e grande porte de pacientes com DM Avaliação clínica pré-operatória, antes da internação. Se necessário, internar o paciente com antecedência de 2 a 3 dias do procedimento. Manter em dieta balanceada para diabético. Suspender hipoglicemiantes orais, em especial as bi- guanidas, 2 dias antes da cirurgia. Manter insulina NPH ou lenta que o paciente vinha usando até o dia anterior à cirurgia ou 2/3 da dose pela manhã e 1/3 antes do jantar. Aplicar insulina regular, subcutânea, conforme esquema de glicemias capilares antes do café da manhã, almoço, jan- tar e lanche. Glicemias (mg/dL) Insulina regular (U) < 120 Não aplicar 120 a 180 2 181 a 240 4 241 a 300 6 301 a 360 8 > 301 10 (Sistema Internacional (SI): mg/dL= mmol/L x 18; mmol/L = 0,0555 x mg/dL) 41 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Regras básicas no pré-operatório de cirurgias eletivas de médio e grande porte de pacientes com DM (Cont.) Manter glicemia antes das refeições < 120 mg/dL e pós-prandiais < 180 mg/dL, sem provocar hipogli- cemia. Realizar a cirurgia, preferencialmente, no período da manhã. Manter paciente em jejum, mesmo que a cirurgia seja à tarde. Monitorar glicemia e potássio antes, durante e após cirurgia. Se a glicemia de jejum > 140 mg/dL, adiar grandes ci- rurgias; se > 180 mg/dL, adiar pequenas cirurgias. Tabela 2.17 Atenção! Controle transoperatório do paciente com DM, durante cirurgias eletivas de grande e médio porte Suspender esquema de insulina anterior e iniciar, às 7 horas, o protocolo de Alberti ou o de Ammon, com controlesda glicemia de 1/1 hora. Manter todos os pacientes na terapia intensiva, nas primeiras 24 horas pós-cirurgia. No centro cirúrgico, manter glicemias entre 120 a 180 mg/dL (sangue total) ou 140 a 200 mg/dL (plasma), com controles de 1/1 hora). Protocolo GIK Preparar 3 frascos de 500 mL de soluto glicosado a 10% + 10 mEq de cloreto de potássio* e adicionar in- sulina de ação curta: frasco 1 a 10 U; frasco 2 a 15 U; frasco 3 a 20 U. (*Omitir cloreto de potássio do frasco de infusão se valores > 5,5 mEq/L). Manter sempre velocidade de perfusão de 100 mL/hora Se glicemia capilar < 120 mg/dL Perfundir frasco 1 Se glicemia capilar de 121 a 200 mg/dL Perfundir frasco 2 Se glicemia capilar > 200 mg/dL Perfundir frasco 3 Protocolo Insulina, em veias diferentes A. 500 mL de soluto glicosado 10% e 25 mEq de cloreto de potássio, a uma velocidade de 0,1 g glicose/kg/hora. B. 200 mL de soluto fisiológico 0,9% com 20 U de in- sulina regular (1 U insulina/10 mL soluto), à velocida- de de acordo com o esquema a seguir, em controles de 1/1 hora. Glicemias (mg/dL) Infusão B 100 a 200 1 U/hora = 10 mL/hora = 10 microgo- tas/minuto 201 a 250 2 U/hora = 20 mL/hora = 20 microgo- tas/minuto 251 a 300 3 U/hora = 30 mL/hora = 30 microgo- tas/minuto 301 a 350 4 U/hora = 40 mL/hora = 40 microgo- tas/minuto > 351 5 U/hora = 50 mL/hora = 50 microgo- tas/minuto Controle transoperatório do paciente com DM, durante cirurgias eletivas de grande e médio porte (Cont.) Em caso de uso de bomba insulina Colocar na bomba de insulina a proporção de 1 mL de soro fisiológico para 1 U de insulina de ação rápida. Controle transoperatório do paciente com DM, duran- te cirurgias eletivas de grande e médio porte (cont.) Glicemia capilar (mg/dL) Infusão DM (tipo) DM tipo 1 DM tipo 2 < 80 Suspender perfusão – 81 a 120 0,5 mL/ hora 1,0 mL/hora 121 a 180 1,0 mL/ hora 2,0 mL/hora 181 a 220 1,5 mL/ hora 2,5 mL/hora 221 a 260 2,0 mL/ hora 3,0 mL/hora 261 a 300 2,5 mL/ hora 3,5 mL/hora > 301 3,0 mL/ hora 4,0 mL/hora Tabela 2.18 Tireoidopatia Hipertireoidismo As medicações antitireoideanas (metimazol ou propiltiuracil) devem ser utilizadas ou continuadas, porém, com doses ajustadas. As tionamidas atuam na síntese e na liberação dos hormônios, porém, não atuam nos hormônios circulantes (exceto o PTU que inibe a conversão periférica do T4 para T3; este efeito é também observado com betabloqueado- res e corticoides), o que explica a necessidade de se esperar em torno de seis semanas para se atingir o efeito desejado, ou seja, eutiroidismo. O estado hemodinâmico (frequência cardíaca e pressão arterial), desses pacientes, deve ser cuidado- samente equilibrado, o que pode ser obtido com o uso de betabloqueadores, os quais são utilizados também durante a realização da cirurgia. No pré-operatório, o propanolol se destaca pela eficácia, pelo baixo cus- to e pela larga experiência com seu uso na maioria dos hospitais. A dose é de 40 até 320 mg/dia, con- trolado conforme a frequência cardíaca basal, que não deve ser menor que 60 ou maior que 90 bpm. O beta- bloqueador não deve ser descontinuado na véspera 42 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 da cirurgia. O esmolol é um betabloqueador usado com mais segurança durante a operação, pois tem uma meia-vida curta e uma boa eficácia. O uso de iodo no preparo desses pacientes não tem apoio na literatura, porém, facilita a manipulação cirúrgica da glândula durante a operação, pois pro- porciona uma redução acentuada da vascularização e um aumento da consistência do tecido tireoidea- no. Porém, não há dados concretos que mostrem uma menor perda sanguínea com o uso prévio do iodo, e a utilização do iodo está restrita ao auxílio no controle do hipertireoidismo. Não deve ser administrado como monoterapia, pois pode piorar o hipertiroidismo. O uso concomitante de corticoides está indicado em caso de insuficiência adrenal concomitante. Caso o paciente desenvolva tempestade tireoi- deana (inadequadamente mal conduzido no pré-ope- ratório) fique atento às medidas obrigatórias a se- rem instituídas (Tabela 2.18). Tratamento da crise tirotóxica Intervenção médica Agente/Procedimento A. Medidas gerais de su- porte Redução da febre* Correção dos distúrbios hidroeletrolíticos: trata- mento do fator desenca- deante. B. Controle do hiperti- roidismo 1. Bloquear a síntese hor- monal intratiroidiana 2. Lentificar liberação de T4 e T3 PTU (de escolha): 200 mg 4/4 h VO ou metima- zol: 30 mg 6/6 h Iodeto: solução de lugol, 10 gotas 8/8 h; SSKI, 5 gotas 8/8 h, ácido iopanoico, 0,5 g 12/12 h; ou NaI, 0,5 g EV 12/12 h Propranolol: VO: 40-80 mg de 4/4 ou 6/6 h 3. Bloquear os efeitos adrenérgicos EV: inicial 0,5 a 1 mg – re- petir a cada 10 a 15 min., sob monitorização contí- nua. 4. Inibir conversão perifé- rica de T4 em T3 Glicocorticoides: dexame- tasona, 2 mg IV 6/6 h ou hidrocortisona 100 mg EV 6/6 h. 5. Reduzir a quantidade de hormônios circulantes Ácido iopanoico (Telepa- que®) Propranolol Plasmaférese; exsanguine- otransfusão PTU: Propiltiouracil; SSKI: solução saturada de iodeto de potássio; e NaI: iodeto de sódio. *Obs: para redução da febre (manter temperatura < 39 °C) usar compressas e toalhas úmidas, bolsas de gelo, novalgina, paracetamol e, quando necessário, clorpro- mazina e meperidina. NÃO USAR AAS. Tabela 2.19 Hipotireoidismo O estado de eutireoidismo deve ser alcança- do antes de cirurgias eletivas, com a administração de tiroxina, em doses que podem variar de 50 a 200 µg/dia. Pacientes cardiopatas devem utilizar doses pela metade (para evitar o risco de descompensação cardíaca). Em situações de necessidade de rápido con- trole, podemos utilizar a forma destinada para uso parenteral (intravenoso), uma dose de carga de 300 a 500 µg, por via intravenosa, e 50 a 100 µg por via oral ou por uma sonda nasogástrica, diariamente. A crise mixedematosa (coma mixedematoso), a forma mais grave do hipotireoidismo, pode ser de- sencadeada no pós-operatório, em paciente que não estava em tratamento adequado ou que não sabia ser portador de hipotireoidismo. Os sinais e sintomas de alerta são, dificuldade de acordar da anestesia ge- ral, íleo paralítico prolongado, hipotermia, hiponatre- mia inexplicável e hipoglicemia. Diante deste quadro a lembrança de coma mixedematoso deve ser imediata, e a solicitação de TSH ultrassensível e T4 livre são obrigatórias, da mesma forma que a dosa- gem de cortisol basal, uma vez que não é incomum a associação de hipotireoidismo e insuficiência adrenal. Como já dissemos antes, a reposição hormonal pode demorar até seis semanas para colocar o paciente em um estado ideal de pré-operatório. Tratamento do coma mixedematoso Intervenção Procedimento A. Tratamento das complicações metabólicas Aquecimento do paciente (uso de cobertores e aumento da temperatura ambiente); Correção da hiponatremia, da hi- poglicemia e da hipotensão; Monitorização dos gases san- guíneos arteriais; Manter adequada assistência ventilatória (quando necessário, utilizar ventilação mecânica). B. Reposição hormonal: Hormônios tiroidianos L-Tiroxina; Dose de ataque: 300-600 µg EV; Manutenção: 50-100 µg/dia EV ou (se a tiroxina injetável não estiver disponível); L-Tiroxina (300-600 µg/dia VO ou SNG) + triiodotironina (25 µg 8/8 h VO ou SNG). C. Glicocorticoides Hidrocortisona, 100 mg 8/8 h EV (± 7 dias); depois, retirada gradual. D. Tratamento dos fatores precipitantes Na suspeita de infecção, anti- bioticoterapia empírica (após coleta de urocultura e hemo- cultura). Tabela 2.20 43 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Adrenal Insuficiência adrenal Doença de Addison (insuficiência adrenal primá- ria) ou secundária ao uso crônico de corticoide (uso crônico de corticoides é considerado quando há um uso maior de 5 mg/dia de prednisona por mais de duas semanas a três semanas em um ano), é situ- ação de risco para complicações intra e pós-operató- rias,principalmente hipotensão refratária, caso não se faça a adequada suplementação de corticoide. Na crise addisoniana, frequentemente, os pacientes se apresentam com choque ou hipotensão, associados a outros sintomas inespecíficos, tais como anorexia, náuseas, vômitos, dor abdominal (pode simular um abdome agudo), distensão abdominal, fraqueza, apa- tia, confusão mental (pode progredir para coma), fe- bre (secundária à infecção ou ao hipocortisolismo per se). Quando presente, a hiperpigmentação (sinal clí- nico sensível) pode ser útil para o diagnóstico. Recomenda-se suplementação com esteroi- des pré-operatório em cirurgias de pequeno por- te (hérnia inguinal) – suplementação com 25 mg de glicocorticoides (Sabiston, 19ª ed., não recomenda dose adicional); cirurgias de porte médio (colecis- tectomia aberta) requerem suplementação com 50 a 75 mg de glicocorticoides, e cirurgias de grande porte (colectomia) – 100 a 150 mg de glicocorticoi- des por 2-3 dias (geralmente, 100 mg) e hidratação adequada no pré e intraoperatório para evitar o cho- que da crise addisoniana. E quando o paciente evoluir com crise adrenal aguda no pós-operatório imediato, o que fazer? Tratamento da crise adrenal aguda Medidas gerais 1) Colher amostra de sangue para hemograma, dosa- gens bioquímicas e hormonais (cortisol e ACTH). 2) Corrigir depleção de volume (com solução glicofi- siológica), desidratação, distúrbios eletrolíticos e hipo- glicemia. 3) Tratar a infecção ou outros fatores precipitantes. Reposição de glicocorticoides 1) Administrar hidrocortisona, 100 mg EV inicial- mente, seguidos de 50 mg EV de 4/4 horas, durante 24 horas. Depois, reduzir a dose lentamente nas pró- ximas 72 horas, administrando a droga a cada 4 ou 6 horas EV. 2) Quando o paciente estiver tolerando alimentos por via oral, passar a administrar o glicocorticoide VO e, quando necessário, adicionar fludrocortisona (0,1 mg VO). Tabela 2.21 VO: via oral; e EV: via endovenosa. Feocromocitoma O preparo pré-operatória é essencial e inclui expansão do volume plasmático e bloqueio alfa e beta-adrenérgico, para obter uma hemodinâmica relativamente estável antes da cirurgia. O período de preparo do paciente varia de 1 a 2 semanas. Assim sendo, tão logo o diagnóstico seja feito a introdução de alfabloqueadores é instituída visando à redução dos sintomas, à queda da pressão arterial e à melhora dos paroxismos (tríade do paroxismo: cefa- leia, palpitação e sudorese). Esse tratamento reexpan- dirá o volume plasmático e o leito vascular. Os beta- bloqueadores devem ser administrados em caso de persistência de taquicardia ou taquiarritmia, em vigência de um bloqueio alfa eficazes (quando reali- zados antecipadamente, pioram a vasoconstricção pe- riférica e sintomas correlatos). A seguir, listaremos os principais medicamentos usados nesse controle. Alfabloqueadores Fenoxibenzamina: inespecífico e de ação pro- longada. A dose varia de 20 a 80 mg/dia e é ajustada de acordo com a gravidade dos sintomas posturais; o desaparecimento da hipotensão postural define o cor- reto alfabloqueio. É a droga de escolha. Prazosina: bloqueador alfa1 seletivo, competiti- vo e de curta ação. Ótima opção à fenoxibenzamina, principalmente, por ser menos associado à taquicar- dia reflexa e à hipotensão no pós-operatório imediato. Deve ser suspensa cerca de 8 horas antes do ato ci- rúrgico. Sua dose deve ser 2 a 5 mg, a cada 6 ou 8 ho- ras. Novas opções, nessa classe, incluem a terazosina (1-16 mg/dia) e a doxazosina. Betabloqueadores Propranolol: inicia-se com a dose de 10 mg a cada 6 ou 8 horas até a dose de controle da frequên- cia cardíaca. São particularmente úteis para os tu- mores secretantes de adrenalina. O metaprolol e o labetolol são alternativos. Nos portadores de con- traindicações ao betabloqueio, pode-se tentar o uso da lidocaína ou da amiodarona. Você só está autorizado a prescrever betabloqueadores após alfabloqueio, pois a prescrição inadivertida desta droga ao pa- ciente com feocromocitoma pode desencadear crise de paroxismos (cefaleia, palpitações e sudorese). Na crise hipertensiva a droga recomendada é Nitroprussiato de sódio (0,5-1 g/kg/min., em infu- são contínua EV) que deve ser usada para obtenção de uma redução gradual e controlada da PA. Como al- ternativa, temos a nifedipina (10 mg, sublingual) ou o bloqueio não seletivo alfa1/alfa2 com a fentolamina (1 mg em bolus, depois por infusão contínua). 44 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Em razão da vasoconstrição mantida, os porta- dores de feocromocitoma podem desenvolver contra- ção do volume intravascular, que se manifesta por hi- potensão postural ou elevação do hematócrito. Desse modo, os pacientes correm o risco de apresentar, após a retirada do tumor e, consequente, desapare- cimento da vasoconstrição, hipotensão importante e mesmo choque hipovolêmico. A reposição de glicose é fundamental para combater a hipoglicemia secun- dária à descarga de insulina, após a queda dos níveis de catecolominas. Hipercortisolismo (Síndrome de Cushing) O uso do tratamento medicamentoso tem in- dicação para reduzir a cortisolemia e está indicado nas seguintes situações: a) no pré-operatório de adrenalectomia uni ou bilateral, para reduzir a morbimortalidade decorren- tes do diabetes, da hipertensão, da hipopotassemia e da baixa resistência às infecções, entre outras; b) em pacientes submetidos à radioterapia hipo- fisária, enquanto se aguarda seu pleno efeito; c) casos de síndrome de Cushing ACTH-depen- dente, onde não houve definição etiológica. Drogas inibidoras da esteroidogênese adrenal Cetoconazol: potente inibidor da esteroidogê- nese adrenal (age nas enzimas 17,20 liase, 11β-OH, 17α-hidroxilase e 20, 22 desmolase). Efeitos adicio- nais incluem a diminuição na liberação do ACTH e competição com os glicocorticoides pelo seu receptor. Sua dose efetiva varia de 200 a 1.200 mg/dia, dividi- das em duas tomadas, e com ajustes semanais. Essa droga mostrou-se eficaz em uma dose média de 400 a 800 mg/dia para a redução da hiperglicemia, da hipertensão e da hipopotassemia. A preocupação com a elevação das transaminases deve ser constante (cuidado!), já que independe da dose administrada. No geral, essa alteração assume caráter transitório (inicia- -se por volta do 2o mês de uso e regride após o 3o mês de suspensão). Metirapona: inibe a conversão do 11-desocorti- sol em cortisol. A dose diária varia de 750 a 2.250 mg/ dia (inicia-se com 250 mg e faz-se o ajuste semanal). Bem tolerada no preparo cirúrgico de todas as formas da síndrome de Cushing, causa remissão do hiper- cortisolismo em torno de 80% dos casos. Os efeitos indesejáveis são dose-dependente, sendo a insufici- ência adrenal o mais temido, além de acne e hirsu- tismo em mulheres. Aminoglutetimida: anticonvulsivante com feito em nível da 20,22 desmolase e 11β/18-hidroxilação. Florida em efeitos colaterais, e os mais inconvenien- tes são o surgimento do bócio com hipotireoidismo. Etomidato: anestésico que pode ser usado em caráter emergencial, pois reduz a cortisolemia em até 10 horas, pelo bloqueio de 11β-hidroxilação do deso- xicortisol. As doses são sub-hipnóticas (0,3 mg/kg/ hora) administradas pelas vias endovenosa ou oral. Mitotano: além do bloqueio enzimático (11β- OH e 20,22 desmolase) possui ação adrenolítica. Seu uso é limitado pelas manifestações gastrointestinais e neurológicas (anorexia, náuseas e redução de memó- ria são os principais). As doses diárias variam entre 2 e 12 g/dia. O hipocortisolismo é praticamente regra. No período pré-operatório (24 ou 48 horas), as anormalidades eletrolíticas devem ser corrigi- das e todos os pacientes deverão receber hidrocor- tisona 100 mg, endovenosa a cada 8 horas, que será mantida no trans e pós-operatórios imediatos. Re- alizada a adrenalectomia, deve-se cuidar para que a reposição dos glicocorticoides se faça até a completa recuperação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (pe- ríodo médiode 9 a 10 meses, podendo manter-se por até 2 anos). Caso haja a necessidade de adrenalecto- mia bilateral, essa reposição deverá ser feita pelo resto da vida fisiologicamente com a hidrocortisona 12 mg/ dia (dose única matinal) ou com a prednisona na dose de 5 a 7,5 mg/dia e sempre associada à fludrocortiso- na na dose de 0,1 a 0,2 mg/dia (atividade aldosterona- -símile). Deve ser enfatizado que em situações de estresse agudo (pela intensa demanda metabólica e hemodinâmica) as doses deverão ser dobradas até o restabelecimento do completo bem-estar pelo doente. A alta dependerá do estado geral, do contro- le metabólico e pressórico e da ausência de infecções, bem como com a técnica cirúrgica empregada (aberta ou laparoscópica). Caso tenha havido efetividade na retirada da le- são, o paciente desenvolverá insuficiência adrenal no pós-operatório. Isso poderá ser documentado pela do- sagem do cortisol plasmático basal na primeira ma- nhã, pós-intervenção. Se forem encontrados valores menores que 5 µg/dL, esse diagnóstico se confirmará traduzido por sucesso cirúrgico. Do contrário, valores maiores que 20 µg/dL indicam a retirada incomple- ta do tumor, e novas diretrizes de condução deverão ser propostas. Como acompanhamento, no primeiro ano pós-cirurgia, a cada trimestre o paciente deverá ser submetido a um teste dinâmico para avaliação da reser- va adrenal com o uso de ACTH sintético endovenoso. Valores de resposta do cortisol entre 5 e 20 µg re- ferendam a descontinuidade da reposição, com pos- sibilidade de retorno ao seu uso, caso surjam sinais e sintomas de insuficiência adrenal. Um teste que acuse valores maiores que 20 µg indicará que a re- 45 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 posição deverá ser imediatamente descontinuada e nenhum teste posterior deverá ser realizado. Entre- tanto, valores de cortisol basais menores que 5 µg/dL indicam necessidade imperiosa de reposição, e sua dosagem deverão ser repetidos trimestralmente. Hiperaldosteronismo primário (HP) A principal causa de hiperaldosteronismo pri- mário é adenoma produtor de aldosterona (aldos- teronoma), cujo tratamento é eminentemente ci- rúrgico. Para diminuir o risco cirúrgico, a hipocalemia deve ser corrigida com a espironolactona (Aldacto- ne®), antagonista competitivo específico do receptor da aldosterona. A dose inicial é de 200-300 mg/dia até a normalização da calemia e dos níveis tensionais (ge- ralmente, após 4 a 6 semanas de tratamento), com posterior redução para 100-150 mg/dia, até a época da cirurgia. Quando a espironolactona (SPL) não for bem tolerada, graças aos seus efeitos antiandrogêni- cos e gastrointestinais, podem ser substituídas por outros diuréticos poupadores de potássio: amilorida (20-40 mg/dia) ou triantereno (50-200 mg/dia). Re- centemente, a FDA (Estados Unidos) liberou para uso controlado a eplerenona (Inspra®, Pfizer), um novo antagonista do receptor mineralocorticoide com menor efeito antiandrogênico. Outros agentes anti- -hipertensivos (por exemplo, bloqueadores dos canais de cálcio, inibidores da ECA ou antagonistas do recep- tor da angiotensina II), podem ser necessários para um controle adequado dos níveis tensionais, em espe- cial no HAI (hiperaldosteronismo idiopático), condi- ção esta cujo tratamento é essencialmente clínico. HP: HAS + hipocalemia Sistema imunológico A expansão do conhecimento e da apreciação das defesas imunológicas levou a uma maior consciência das taxas pós-operatórias aumentadas de complica- ções e morte devidas a infecção em pacientes com dis- túrbios de imunodeficiência, seja como consequência de desnutrição ou por outras condições mais especí- ficas, por exemplo, imunodeficiência do HIV. A con- tagem de linfócitos totais (< 800 por mm3 indica depleção grave) e avaliação da imunidade celular são os dois testes mais comumente realizados. Diagnos- tica-se anergia ou imunidade comprometida caso não se observe resposta a qualquer dos testes cutâ- neos, enquanto uma resposta positiva (5 mm ou mais de endurecimento no local do teste) a um ou mais testes cutâneos indica atividade normal dos linfócitos. A anergia está associada a uma maior sus- cetibilidade a complicações infecciosas. Outros testes mais específicos incluem a quimiotaxia dos neutrófi- los e medições de populações de linfócitos específicos. Os pacientes sob alto risco de imunodeficiência, nos quais estas informações são úteis, incluem indivídu- os idosos e os com desnutrição, traumatismo intenso ou queimaduras, ou câncer. Além de um período de hiperalimentação, nenhum estimulante do sistema imunológico é regularmente usado no período pré- -operatório, embora seja extensa a atividade de pes- quisa nesta área. Sistema hematológico Anemia Quando transfundir? Sempre ponderar o risco do paciente para doença isquêmica do coração e o grau de perda sanguínea estimada durante a cirurgia. Levar em consideração história e exame físico, por exemplo, um paciente com anemia normovolêmica, sem risco cardíaco significativo ou risco de sangramento anteci- pado, saudável, pode ser operado seguramente com níveis de hemoglobina acima de 8 g/dL. Diretrizes para a transfusão de hemácias do sangue para perda sanguínea aguda � Avaliar o risco de isquemia. � Estimar/antecipar o grau de perda sanguínea. Me- nos de 30% de perda rápida de volume, provavel- mente, não precisam de transfusão nos indivíduos previamente sadios. � Medir as concentrações de hemoglobina: < 6 g/dL, trans- fusão geralmente necessária; 6-10 g/dL, transfusão di- tada por circunstâncias clínicas; > 10 g/dL, transfusão raramente necessária. � Medir sinais vitais/oxigenação dos tecidos quando a hemoglobina é de 6 a 10 g/dL e a extensão de per- da sanguínea é desconhecida. Taquicardia e hipo- tensão refratária ao volume sugerem a necessidade de transfusão; razão de extração de O2 > 50% e VO2 diminuída sugerem que a transfusão, geralmente, é necessária. � Uma unidade de glóbulos vermelhos eleva a Hb em 1 a 2 g/dL e o Ht em 2 a 4 pontos percentuais. Tabela 2.22 Transfusão de sangue A anemia das doenças crônicas pode cursar com hipovolemia, mas, de modo geral, principalmente em idosos e cardiopatas, a hemoglobina < 10 g/dL é indi- cativa de transfusão, no entanto, uma hemoglobi- na de 8 g/dL é fisiologicamente segura para o trans- porte de oxigênio em indivíduos saudáveis. 46 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 A autotransfusão, com coleta programada, é al- ternativa interessante nas cirurgias eletivas. As indi- cações respeitam os pré-requisitos a seguir: evitar doenças transmitidas por transfusão; armazenar tipos raros de sangue; evitar aloimunização; tratar pacien- tes com antecedentes de reações transfusionais; per- mitir transfusão em pacientes com crenças religiosas que a proíbam; substituir perdas maciças de sangue no intraoperatório. Contraindicações da autotransfusão pré- operatória para pacientes que serão submetidos à cirurgia Peso abaixo de 50 kg; Estado geral ruim; Doenças infecciosas (endocardite, abscessos); História de epilepsia; Anemia: Hb < 12,5 g/dL antes da primeira doação; Angina pectoris instável; Estenose aórtica; Volume de ejeção de ventrículo esquerdo < 45%; Tolerância ao exercício < 50 W; Pressão arterial sistólica acima de 100 mmHg e abai- xo de 180 mmHg; Pressão arterial diastólica abaixo de 50 mmHg e aci- ma de 100 mmHg; Arritmia severa; Distúrbio de condução atrioventricular. Tabela 2.23 Fique atento ao conceito de transfusão maci- ça: A transfusão maciça é definida como a reposição do volume sanguíneo do paciente com concentrado de hemácias em 24 horas ou a transfusão de mais de 10 unidades de sangue em um período de poucas horas. A transfusão maciça pode criar alterações significati- vas no estado metabólico do paciente em virtude da infusão de grandes volumes de sangue frio com citra- to, que sofreu alterações durante o armazenamento. Quando o sangue é armazenado entre 1º e 6° C, ocor- rem alteraçõesao longo do tempo, incluindo liberação do potássio intracelular, diminuição do pH, redução dos níveis de ATP e 2,3-DPG intracelular nas hemá- cias, com aumento da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, degeneração dos leucócitos e das plaquetas funcionais e deterioração dos fatores V e VIII (fatores lábeis). Se for infundido rapidamente um grande volu- me de sangue estocado, podem ser vistos efeitos signi- ficativos no receptor. Muitas das alterações esperadas podem ser revertidas após a transfusão ou podem pro- duzir padrões metabólicos diferentes dos previstos. Consequentemente, o uso de fórmulas-padrão para a infusão de plasma, plaquetas, cálcio, bicarbonato e outras substâncias para um número específico de uni- dades de concentrados de hemácias transfundidas não se justifica e pode trazer mais riscos para o paciente. Plasma Fresco O uso de plasma fresco congelado deve ser re- servado apenas para pacientes com coagulopatia. O concentrado de plasma fresco congelado é obtido por meio de centrifugação a partir de uma bolsa de sangue total, congelada a temperaturas inferiores a -18 ºC, no prazo máximo de 8 horas, após a coleta do sangue total. Poderá também ser coletado por processadores automá- ticos (aférese) e, neste caso, o congelamento da unidade deverá ser necessariamente anterior a 6 horas da coleta. Cada unidade do hemocomponente contém em média 200 a 250 mL de volume e o armazenamento poderá se estender até um ano na temperatura de -18 ºC. O plasma fresco congelado é indicado para pacientes com quadros hemorrágicos por deficiências múltiplas de fatores de coagulação, secundárias a dis- função hepática, anticoagulação oral (medicamentos antagonistas da vitamina K), coagulação intravascular disseminada, coagulopatias dilucionais, pacientes com deficiências de antitrombina, proteína C e S, púrpura trombocitopênica trombótica, síndrome hemolítica urêmica (SHU) e pacientes submetidos à assistência circulatória mecânica (circulação extracorpórea, bom- ba centrífuga, dispositivo de assistência ventricular, balão intra-aórtico e coração artificial). Para sua administração deverá ser descon- gelado em equipamento especial ou banho-maria em temperaturas entre 30 º e 37 ºC e infundido por meio de filtros apropriados. A dose é muito variável, dependendo da situação clínico-cirúrgica do paciente e, normalmente, usa-se o parâmetro de 10 a 20 mL/kg, com infusão realiza- da no máximo em 4 horas. Sugestão de Diretrizes para transfusão de plasma Tratamento da deficiência de fatores de coagulação múlti- plos ou específicos com tempo de protrombina e/ou tem- po de tromboplastina parciais ativadas anormais. Deficiência de fator específico anormal na pre- sença de um dos seguintes: Deficiência congênita de antitrombina, protrombina, fatores V, VII, IX, X e XI; proteína C ou S; plasminogê- nio ou antiplasmina. Deficiência adquirida relacionada à terapia com var- farina, deficiência de vitamina K, doença hepática, transfusão maciça ou coagulação intravascular disse- minada. Também indicada como profilaxia nas situações anterio- res, quando houver programação de procedimento cirúrgi- co/invasivo. Indicações não justificadas: Uso empírico associado à transfusão maciça, quando o paciente não apresentar sinais clínicos de coagulopatia. Reposição de volume. Suplementação nutricional. Hipoalbuminemia. Tabela 2.24 47 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Avaliação laboratorial do risco de hemorragia Doença Plaqueta TS RC TAP TTPa TT Trombocitopenia Baixa Prolongado Pobre/ausente Normal Normal Normal Alteração do fator tissular Normal Prolongado Normal Normal Normal Normal Alteração qualitativa das plaquetas Normal Prolongado Normal Pobre/ausente Normal Normal Normal Deficiência de fator VII Normal Normal Normal Prolongado Normal Normal Deficiência de fator II, V ou X Normal Normal Normal Prolongado Prolongado Normal Deficiência de fator VIII ou IX Normal Normal Normal Normal Prolongado Normal Doença de von Willebrand Normal Prolongado Normal Normal Variável* Normal Afibrinogenemia; desfibrinogenemia Normal Variável Normal Normal Normal Prolongado CIVD/Insuficiência hepática Geral/baixa Variável* Ocasionalmente pobre Prolongado Prolongado Prolongado Tabela 2.25 *Variável (por exemplo: prolongado). TS: tempo de sangramento; RC: retração do coágulo; TAP: tem- po e atividade de protrombina; TTPa: tempo de tromboplastina parcial ativado; e TT: tempo de trombina. Coagulopatia O principal fator preditor de risco para san- gramento perioperatório é a história clínica. De modo geral, pacientes jovens, sem história de discrasia sanguínea que serão submetidos a cirurgias de peque- no ou médio porte não necessitarão de avaliação he- matológica, aliás, de nenhum exame complementar, como já citado anteriormente. Pacientes com mais de 40 anos, e aqueles de qualquer idade que forem candidatos a cirurgias de grande porte, ou em ór- gãos nobres deverão ser avaliados criteriosamente do ponto de vista laboratorial. Em resumo, a avaliação do risco de hemorra- gia pode ter a seguinte orientação: 1) Pacientes que não apresentem evidências clí- nicas de risco de hemorragia, detectáveis pela ana- mnese e pelo exame físico, podem ser dispensados da realização de exames da coagulação no pré-ope- ratório. Os chamados exames de rotina, utilizados para avaliar a coagulação, podem induzir a resultado falso-positivo quando indicam alteração da coagula- ção decorrente de erro laboratorial, bem como serem incapazes de identificar desvios da normalidade em pacientes com doença subjacente. Além disso, a re- lação custo versus benefício da realização de exames para avaliação do risco de hemorragia em pacientes sem evidência clínica que sugira alteração da coagu- lação é extremamente desvantajosa. 2) Pacientes cuja história e/ou exame físico in- diquem a possibilidade de doença que acarrete risco de hemorragia deverão realizar, inicialmente e de for- ma indispensável, os seguintes exames laboratoriais: tempo de sangramento (método de Ivy e método de Duke), retração do coágulo, contagem e morfologia das plaquetas, tempo e atividade de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativado, tempo de trombina e dosagem do fibrinogênio. Aqueles pacien- tes que apresentem aumento do TAP devem ter es- tudado o fator VII, ao passo que aqueles com altera- ção do TTPa devem ter estudado os fatores da via intrínseca (fatores VIII, IX, XI e XII). Caso estejam alterados TAP e TTPa e o fibrinogênio for normal é necessário estudar os fatores da via comum (II, V e X), avaliar a função hepática e a possibilidade de múltiplas deficiências. 3) Avaliação laboratorial do paciente com com- plicação hemorrágica pré-operatória. A hemorragia de vulto no período pré-operató- rio pode ocorrer mesmo em pacientes que nunca te- nham apresentado evento hemorrágico considerado como anormal. Em tal circunstância, faz-se necessá- rio diagnosticar de forma rápida e precisa a possível alteração da crase sanguínea, quer seja herdada, quer seja adquirida. A alteração da coagulação deve ser suspeitada sempre que o sangramento ocorra de modo simultâ- neo em diferentes sítios, apresente-se como sangra- mento de forma lenta e de fonte não identificada ou apareça tardiamente, após hemostasia inicialmente adequada. As hemorragias oriundas de um único lo- cal ou que ocorrem de modo abrupto e intenso, pro- vavelmente, devem-se a condições locais de hemos- tasia inadequada. O estudo do paciente deve incluir: reavaliação de sua história clínica, identificação do possível uso de qualquer droga antes da operação, incluindo entre elas o uso de cristaloides, coloides ou hemoderivados. O exame físico deve buscar o tipo e a localização do sangramento. Testes laboratoriais devem, inicialmen- te, abranger todos os possíveis defeitos da coagulação, incluindo deficiência de fatores, trombocitopenia e trombocitopatia, hiperfibrinólise e coagulação intra- vascular disseminada. 48 Cirurgia geral epolitrauma SJT Residência Médica – 2016 Quando transfundir plaquetas? De modo geral cirurgias de pequeno ou médio porte podem ser realizadas com taxa de plaquetas igual ou maior que 50.000/mm³, enquanto que, cirurgias de grande porte só deverão ser realizadas com plaquetas em número igual ou maior que 100.000/mm³. Para res- ponder esta pergunta fique atento às informações da tabela a seguir. Linhas de conduta sugeridas para transfusão de plaquetas Contagem de plaquetas recente (dentro das 24 horas) < 10.000/mm³ (para profilaxia). Contagem de plaquetas recente (dentro das 34 horas) < 50.000/mm³ com sangramento microvascular evi- dente (exsudação) ou um procedimento invasivo/ci- rúrgico planejado. Sangramento microvascular evidente e uma queda rá- pida na plaquetometria. Pacientes adultos na sala de operações que sofre- ram procedimentos complicados ou necessitaram de mais de 10 unidades de sangue e têm sangramento microvascular. Dar as plaquetas se assumir que foi realizada hemostasia adequada. Disfunção plaquetária documentada (por exemplo, tempo de sangramento maior que 15 min., testes funcionais plaquetários anormais) com petéquias, púrpura, sangramento microvascular (exsudação) ou procedimento invasivo cirúrgico. Indicações proibidas: Uso empírico associado à transfusão maciça, quando o paciente não apresenta evidências clínicas de sangra- mento microvascular (babação). Profilaxia nos pacientes com síndrome de púrpura trombótica trombocitopênica/hemolítica urêmica ou púrpura trombocitopênica idiopática. Disfunção plaquetária extrínseca (por exemplo, insufi- ciência renal, doença de von Willebrand). Tabela 2.26 Atenção! Fenômenos tromboembólicos A prevenção é a chave para a redução da morbi- mortalidade no tromboembolismo venoso e está jus- tificada em virtude da sua eficácia e segurança, com poucos efeitos colaterais. Na profilaxia primária são utilizados métodos físicos e medicamentosos, ou a combinação de am- bos. A profilaxia secundária envolve a detecção pre- coce e o tratamento da trombose, se possível, em seu estágio subclínico. O risco de TVP pode ser classificado em bai- xo, moderado ou alto, dependendo dos fatores de riscos adicionais e do procedimento cirúrgico exe- cutado, com a conduta profilática individualizada a partir desses critérios. Fatores de risco para trombose venosa Fatores de risco clínico Fatores trombofílicos Traumatismo e cirurgia Resistência à proteína C ativada Idade > 40 anos Fator lúpico anticoagulante (SAF*) TVP prévia Síndrome anticardiolipina (SAF*) Imobilização Deficiência de proteínas C e S Doenças malignas Deficiência de antitrombina III Insuficiência cardíaca Deficiência de plasminogênio Fibrilação atrial Hiperfibrinogenemia Paralisia de membros inferiores Trombocitopenia induzida por heparina Varizes de membros inferiores Necrose cutânea por cumarí- nicos Obesidade Hiper-homocisteinemia** Terapia de reposição estrogênica ou uso de contraceptivo oral Síndromes de hiperviscosidade sanguínea Parto e gestação Síndrome nefrótica Doença intestinal inflamatória crônica Hemoglobinúria paroxística no- turna (HPN) Tabela 2.27 * e **: causas de trombose tanto em veias como em artérias. Você pode também utilizar um sistema de escore para estimar o risco de eventos tromboembólicos, se- guindo as orientações da tabela a seguir, e dessa forma estabelecer as medidas terapêuticas adequadas para cada grupo específico. Fatores de risco para trombose venosa profunda Fatores de risco Pontos Idade > 40 anos 1 Idade > 60 anos 2 Obesidade 1 Estrógenos ou anticoncepcionais 1 Neoplasia 2 Gravidez e puerpério 1 Imobilização 2 Trombofilia 2 49 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Fatores de risco para trombose venosa profunda (Cont.) Síndrome nefrótica 1 Policitemia 2 Doença autoimune 1 Leucemias 1 IAM não complicado 1 IAM complicado 2 AVCi 2 Antecedente de TVP/TEP 2 Edema, varizes, úlcera e estase dos MMII 2 ICC 2 História familiar de TVP/TEP 2 Cirurgia de grande porte nos últi- mos seis meses 1 Queimadura extensa 2 Anticorpo antifosfolípide 2 Infecções 1 Cirurgia geral > 60 minutos 2 Cirurgia do quadril, joelho, próte- se, fratura de ossos longos, poli- trauma 4 Total de pontos Indicação para profilaxia conforme o número de pontos Risco baixo (< 2 pontos) Risco moderado (2-4 pontos) Risco alto (> 4 pontos)* Medidas não farmacológicas Dalteparina 2.500 Ul SC 1 x/dia Dalteparina 5.000 Ul SC 1 x/dia Movimentação ativa MMII Enoxparina 20 mg SC 1 x/dia Enoxparina 40 mg SC 1 x/dia Deambulação precoce Nadroparina 2.850 UI SC 1 x/dia Nadroparina 5.700 UI SC 1 x/dia Meias elásti- cas de média compressão até as coxas Heparina 5.000 Ul 2 x/dia Heparina 5.000 UI 3 x/dia Compressão pneumática intermitente Nos pacientes ci- rúrgicos: iniciar 2 horas antes da ci- rurgia, seguida de aplicação diária, enquanto persistir o risco. Sempre associar às medidas não far- macológicas. Nos pacientes ci- rúrgicos: iniciar 2 horas antes da cirurgia, seguida de aplicação diária, enquanto persistir o risco. Sempre associar às medidas não far- macológicas. Tabela 2.28 (*) HNF 12 horas antes; e HBPM 2 horas antes. Após tromboembolia arterial ou venosa, deve- -se adiar a cirurgia eletiva por pelo menos um mês; pacientes com anticoagulação por menos de duas se- manas em razão da embolia pulmonar ou TVP devem ser considerados para colocação de filtro de cava an- tes da cirurgia. Uso de anticoagulantes orais deve ser sus- penso pelo menos 4-5 dias antes da cirurgia. Em pacientes de risco para trombose, manter com he- parina que, por sua vez, deve ser suspensa 6 horas antes da cirurgia e reintroduzida 12 horas após. Por existirem evidências de que doses profilá- ticas de heparina não fracionada (HNF) ou de baixo peso molecular (HBPM) aumentam o risco de he- matoma espinhal depois de técnicas anestésicas por bloqueio regional (1:150.000 para anestesia epidural e 1:200.000 na anestesia espinhal), devemos sempre informar ao anestesiologista quando da utilização de drogas anticoagulantes antes do ato anestésico, mesmo em doses profiláticas. A decisão de quando realizar técnicas anestésicas de bloqueio neuroaxial, nesses pacientes, deve ser tomada em bases individu- ais, pesando-se o risco versus benefício do método, a familiaridade com a farmacologia das drogas antico- agulantes e os estudos clínicos disponíveis envolven- do essas medicações. Algumas recomendações são sugeridas nos pacientes com risco moderado para o desenvolvimento de trombose venosa, iniciar a ad- ministração de doses profiláticas de HNF ou HBPM 2 horas, após a punção anestésica. Nos pacientes com alto risco de TVP, pode-se iniciar a profilaxia 12 ho- ras antes da punção ou 2 horas após. Nos casos de utilização de cateter peridural, iniciar a profilaxia 2 horas após a punção, e este só deve ser retirado 12 horas após a última dose profilática de heparina não fracionada ou 24 horas após a de heparina de baixo peso molecular, postergando-se uma nova dose de heparina profilática, quando necessária, para 2 ho- ras após a retirada do cateter. Se ocorrer acidente de punção com sangramento durante o bloqueio anesté- sico, recomenda-se só administrar heparina após um intervalo de 12 horas. Atenção a um fato relevante: trombocitopenia in- duzida pelo uso de heparina. Como proceder? Pode ocorrer trombocitopenia induzida pela he- parina (TIH) em até 5% dos pacientes, causada pela formação de anticorpos IgG contra os complexos heparina-fator plaquetário 4. Na maioria dos pa- cientes com TIH, o número de plaquetas cai pelo me- nos 50% em relação ao nível pré-heparina. Isso nor- malmente ocorre depois de 4 a 5 dias de tratamento com heparina, mas pode ocorrer nas primeiras 24 ho- ras, quando tiver sido administrada heparina nos 100 dias anteriores. A TIH pode ser induzida por descargas de heparina e até por quantidades mínimas removidas de cateteresmantidos com hepariana. Pode ocorrer 50 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 trombose secundária arterial e venosa, pela pri- meira, vez até 4 a 6 semanas, após a suspensão da terapia com heparina. Em qualquer paciente que apresente redução de 30% a 50% do número de plaquetas, deve-se suspender imediatamente toda a heparina e administrar outro anticoagulan- te, como lepirudina, bivalirudina ou argatroban, quando necessário. O fondaparinux não parece re- agir com o fator 4 das plaquetas e pode vir a ser o tratamento de primeira linha para a TIH. Breves lembranças a respeito das heparinas e do Warfarin Heparina de alto peso molecular: a hepari- na potencializa significativamente a formação de complexos entre antitrombina e os fatores de coagulação serino-proteases ativados, trom- bina (IIa) e fatores IXa, Xa e XIa. Essa formação de complexos inativa irreversivelmente tais fatores. Além disso, a heparina reduz a função das plaquetas. O tratamento é controlado pela manutenção do TTPA entre 1,5 e 2,5 vezes o normal. A heparina intravenosa tem meia-vida inferior à 1 hora e, usualmente, apenas a suspensão da infusão é suficiente. A protamina é capaz de inativar a he- parina imediatamente. A dose de protamina para neutralizar os efeitos anticoagulantes da HEP baseia-se na proporção de 1 mg de protamina para cada 100 UI (ou 1 mg) de HEP. A protamina é administrada por via intravenosa (IV), na dose máxima de 50 mg em 10 minutos, pois há risco de liberação de histamina, com hipotensão e bronco- espasmo. Pacientes que fizeram uso de insulina pro- tamínica, vasectomizados e alérgicos a peixe apresen- tam maior risco de reações alérgicas, podendo receber previamente corticosteroides e anti-histamínicos. A meia-vida do sulfato de protamina é de sete minutos. Além disso, uma dose excessiva pode ter efeito antico- agulante, com manifestações hemorrágicas, em razão de seu efeito de agregação e consumo plaquetário. No cálculo da dose a ser administrada, deve-se considerar a curta meia-vida da HEP não fracionada (60 a 90 mi- nutos). Assim, um paciente recebendo 1.500 UI/h de HEP necessita de cerca de 27 mg de protamina. O tem- po de tromboplastina parcial ativada pode ser empre- gado para controle do efeito do sulfato de protamina. Heparina de baixo peso molecular (PM) As preparações de heparinas de baixo peso molecular (LMWH) são produzidas por despolari- zação enzimática ou química de heparina não fracio- nada. Sua capacidade de inibir o fator Xa é maior do que a capacidade de inibir trombina, interagindo menos com plaquetas em comparação com a hepari- na padrão e, assim, sua tendência é menor para causar sangramento. Também têm biodisponibilidade maior e uma meia-vida mais longa do plasma, tornando pos- sível a administração uma vez por dia na profilaxia e no tratamento. Não há necessidade de controle com TTPA. Algumas situações especiais durante o uso de heparina de baixo peso molecular requerem a monitorização laboratorial do fator anti-Xa. En- tre elas, destacam-se excesso de peso (alguns auto- res consideram “excesso de peso” valores acima de 90 kg, e outros, acima de 130 kg ou IMC > 32), prematuri- dade, gravidez, insuficiência renal com creatinina aci- ma de 2,5 mg/dL ou clearance de creatinina < 30 mL/ min., e, de forma importante, naqueles indivíduos que apresentam hemorragia ou trombose na vigência de uma dose adequada corrigida pelo peso da heparina de baixo peso molecular. Embora o sulfato de protamina seja o inibidor es- pecífico e efetivo da HEP não fracionada, ele promove somente reversão parcial do efeito anticoagulante das HEP e de baixo PM. Isso decorre da sua menor densi- dade de cargas de sulfato. Vários trabalhos em modelo animal e in vitro mostram que o sulfato de protamina neutraliza a atividade antitrombina (antifator IIa) das HEP de baixo PM. Porém, observa-se neutralização variável da atividade antifator Xa. As diferentes HEP de baixo PM apresentam diferentes densidades de car- ga de sulfato e, por isso, o grau de neutralização varia entre elas, havendo forte correlação entre o grau de neutralização do fator Xa e o conteúdo total de sulfa- to. Embora a menor redução de inibição possa resultar em falha no controle de uma manifestação hemorrá- gica, não é claro o significado clínico dessa inativação incompleta do fator Xa, existindo trabalhos com resul- tados contraditórios quanto aos efeitos benéficos do uso do sulfato de protamina para a neutralização das HEP de baixo PM. De qualquer maneira, recomenda- -se que, na necessidade de reverter os efeitos antico- agulantes da HEP de baixo PM administrada dentro de oito horas,seja utilizado sulfato de protamina na dose de 1 mg para cada 100 UI de HEP de baixo PM (1 mg de enoxaparina tem cerca de 100 UI de atividade antifator Xa); caso ocorra persistência do sangramen- to, pode ser administrada uma 2ª dose de 0,5 mg de sulfato de protamina para cada 100 UI de atividade antifator Xa. Quando a HEP foi administrada há mais de oito horas, e há necessidade de se reverter seu efei- to anticoagulante, indica-se dose menor de sulfato de protamina. O emprego do fator VII ativado recombi- nante (rFVIIa) seria uma alternativa para reverter os efeitos das HEP de baixo PM, tendo sido relatada a efi- cácia do emprego de cinco doses repetidas de 100 mg/ kg em um paciente com dose excessiva de enoxaparina e hematoma cerebelar. 51 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Warfarin Anticoagulante oral derivado da cumarina, anta- gonista direto da vitamina K e, assim, o tratamento resulta em diminuição da atividade biológica dos fatores dependentes de vitamina K: II, VII, IX e X, além dos anticoagulantes endógenos proteí- nas S e C. Depois da administração de warfarin (mare- van), os níveis de fator VII caem consideravelmente em 24 horas, mas a protombina tem uma meia-vida plasmática mais longa e cai somente até 50% do nor- mal em 3 dias; o paciente está completamente anti- coagulado somente depois desse período. O contro- le é feito com o INR e o objetivo é mantê-lo em 2,5 a 3. O antídoto específico é a vitamina K, em dose oral ou intravenosa de 2,5 mg é, usualmente, eficaz (doses maiores resultam em resistência a novo tratamento com Marevan durante 2 a 3 semanas. Quando há necessidade de reversão rápida e to- tal dos efeitos anticoagulantes de medicamento com ação antivitamina K, como em sangramentos graves ou cirurgias de urgência, três condutas podem ser tomadas em associação: suspensão da medicação, ad- ministração de vitamina K e reposição dos fatores da coagulação dependentes de vitamina K. A vitamina K deve ser administrada por via EV, na dose de 5 mg, que não acarretaria dificuldades quando da reintro- dução da medicação antivitamina K. A reposição dos fatores da coagulação (fatores II, VII, IX e X) pode ser feita por meio da infusão de PFC ou concentrado de complexo protombínico (CCP). O PFC contém todos os fatores dependentes de vitamina K e, em geral, é administrado na dose de 15 mL/kg, o que dificulta seu emprego nos pacientes idosos ou naqueles que não toleram sobrecarga de volume. Admite-se que quando é preciso reverter a anticoagulação em pa- ciente com RNI dentro dos valores terapêuticos, pode ser empregada uma dose menor (5 a 8 mL/kg) de PFC. Desse modo, nos pacientes com RNI muito elevado não se obtêm níveis hemostáticos dos fato- res vitamina K-dependentes com doses toleráveis de PFC. Além disso, nas doses preconizadas de PFC frequentemente não se consegue a normalização das concentrações de fator IX. Nos CCP, as concentrações dos fatores dependentes de vitamina K são cerca de 25 vezes superiores às do PFC e, portanto, o volume necessário para reverter o RNI seria 25 vezes menor. O CCP reverte rapidamente os marcadores laborato- riais de coagulopatia decorrentes do efeito, ou maior efeito, dos agentes antivitamina K, sendo relatado que 15 minutos após sua administração é obtida a normalização do RNI.Até o momento, não foi esta- belecida a dose ótima de CCP para reverter os efeitos das medicações antivitamina K, havendo ampla va- riação das doses administradas. Os novos anticoagulantes orais A dabigatrana é um inibidor direto, seletivo e re- versível do sítio ativo da trombina, que é administrado por VO na forma de um promedicamento, o etexilato de dabigatrana. Trabalhos in vitro mostram que a trombina ligada à fibrina encontra-se relativamente protegida da ação de anticoagulantes do tipo heparina, o que não ocor- re com a dabigatrana, que, por ter baixo peso molecular, consegue promover sua inibição no meio do coágulo. A dabigatrana é aprovada para uso na prevenção do trom- boembolismo venoso após cirurgias de artroplastia total de joelho ou de quadril, e de embolia sistêmica e AVC, em pacientes com fibrilação atrial não valvar. Por ser um inibidor direto da trombina, a dabigatrana não necessita de cofator para exercer sua função, como as heparinas, o pentassacarídeo e outros glicosaminoglicanos. A rivaroxabana e a apixabana são inibidores di- reitos do fator X ativado, administrados por via oral, que se ligam diretamente ao sítio ativo do fator Xa, livre ou ligado às plaquetas, e, desse modo, impedem sua interação com seus substratos. Esses dois fárma- cos são aprovados para a prevenção do tromboembo- lismo venoso após cirurgias de artroplastia total de joelho ou de quadril, e de embolia sistêmica e AVC em pacientes com fibrilação atrial não valvar. Somente a rivaroxabana foi aprovada para o tratamento da trom- bose venosa profunda e da embolia pulmonar. Medidas sugeridas para a reversão dos novos anticoagulantes orais DABIGA- TRANA RIVARO- XABANA APIXABA- NA Carvão ati- vado oral Sim Sim Sim Hemodiálise Sim Não Não Hemoperfu- são com car- vão ativado Sim Possível Possível Plasma Fresco Con- gelado Não Não Não Fator VII ativado re- combinante Sem resultados claros Sem resultados claros Sem resultados claros Concentra- do de Com- plexo Pro- trombínico (3 fatores)* Sem resultados claros Sem resultados claros Sem resultados claros Concentra- dos de com- plexo Pro- trombínico (4 fatores)** Possível Possível Possível Tabela 2.29 52 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Avaliação nutricional Obrigatória em pacientes com alteração de peso (desnutridos ou emagrecidos), candidatos ao tratamento cirúrgico da obesidade mórbida, doen- ças consumptivas ou que afetem a capacidade de ab- sorção do TGI. Além disso, pacientes com fístulas, vômitos e/ou diarreia profusas e infecções merecem avaliação nutricional. A avaliação inclui parâmetros antropométri- cos e laboratoriais, tendo por objetivo quantificar as reservas corpóreas. A antropometria nutricional mede as variações das dimensões físicas e da composição corporal de in- divíduos nas diferentes idades e graus de nutrição. É um procedimento simples, não invasivo, seguro, po- dendo ser aplicado no leito, não requer equipamento sofisticado e podem ser repetidas várias vezes para acompanhar a evolução nutricional do paciente. En- tretanto, podem ocorrer erros durante a tomada das medidas antropométricas que podem comprometer a precisão da avaliação, causados tanto pela imperícia do avaliador como pela própria doença do paciente, que pode dificultar a tomada das medidas ou alterar o seu significado. A avaliação antropométrica de adultos é realizada, principalmente, por meio da relação entre o peso e a estatura, a circunferência braquial e medidas das pregas cutâneas. Peso e estatura O peso é, sem dúvida, a medida antropométri- ca mais frequentemente obtida. Recomenda-se que o peso seja obtido pela manhã, com o indivíduo em jejum, com o mínimo de roupa, sem sapatos e após o esvaziamento vesical. A calibração frequente da balan- ça é fundamental para que não ocorram erros. A estatura deve ser obtida com o paciente em pé, descalço, encostando a nuca, nádegas e calcanhares em uma barra (ou parede) vertical fixa, inextensível e graduada, com a linha de visão na horizontal. A pre- sença de curvaturas anormais na coluna ou a impos- sibilidade da medida de pé devem ser consideradas, recomendando-se, nesses casos, que a estatura seja referida pelo paciente ou estimada pela medida da al- tura do joelho, que é altamente correlacionada com a estatura. Essa medida particular é realizada com um antropômetro ajustável do calcanhar ao joelho dobra- do em um ângulo de 90°, com o paciente deitado. A essa medida, é aplicada uma dessas fórmulas: Sexo masculino (cm) = (2,02 x altura do joe- lho) – (0,04 x idade) + 64,19 Sexo feminino (cm) = (1,83 x altura do joelho) – (0,24 x idade) + 84,88 Índice de Massa Corporal (IMC) Há três décadas, Keys e cols., (1972) sugeriram chamar a relação peso (kg)/estatura (m²) de Índice de Massa Corporal (IMC). A partir daí, essa relação se tornou popular e alguns passaram a chamá-la “ín- dice de Quetelet”, em homenagem a seu criador, em 1930. É uma medida mais apropriada do que o peso isoladamente, já que a variabilidade do peso em adultos é reconhecidamente dependente da variação em estatura. Vale ressaltar que o uso do IMC como parâmetro isolado para pacientes não informa a verdadeira situ- ação nutricional subestimando o diagnóstico nutri- cional e mascarando a desnutrição. Algumas medidas como pregas cutâneas triciptal e subescapular, circun- ferência braquial e circunferência muscular braquial também podem ser usadas. São considerados valores normais para o IMC entre 18,5 e 24 kg/m², alguns autores recomendando o termo baixo peso para os indivíduos com IMC en- tre 18,5 e 20. Valores acima ou abaixo desses limites são indicativos de risco nutricional. Analisando-se os dados disponíveis na literatura sobre a relação entre o IMC e as condições que levam à morte, foi verificado que o valor de 12 para o IMC é limite mínimo de so- brevivência humana. Índice de massa corpórea (IMC) = P (kg)/A2 (m) Baixo peso: < 18,5 Normal: 18,5-24,9 Pré-obeso: 25-29,9 Obeso classe I: 30-34,9 Obeso classe II: 35-39,9 Obeso classe III: ≥ 40 Superobeso > 50* Supersuperobeso > 60* Megaobeso > 70* Tabela 2.30 Atenção! * Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica. Na prática clínica, o IMC tem sido amplamente uti- lizado para identificar pacientes cirúrgicos de risco, sele- cionar indivíduos para serem submetidos a intervenções nutricionais e para monitorar o progresso do tratamento instituído. Entretanto, o IMC subestima a incidência de desnutrição em pacientes cirúrgicos. Comparati- vamente com a relação peso habitual/peso atual, taxa de albumina sérica ou com a avaliação subjetiva global, o IMC é o índice que mais subestima a desnutrição. Além disso, alguns autores preconizam que o IMC em idosos deve ser mais alto e consideram desnutridos aqueles pacientes com IMC menor que 23 kg/m². É importante que se use o registro do peso habi- tual (aquele que o paciente sempre teve, considerado como normal no período em que estava hígido e exer- cendo suas atividades usuais) no lugar do peso teóri- co ou ideal (aquele calculado de acordo com o sexo, a 53 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 estatura e a estrutura óssea do indivíduo são obtidos por meio de tabelas), pois é este que registra com maior fidedignidade o porcentual de ganho ou perda de peso. Alguns pacientes podem apresentar peso inferior ao te- órico sem que este traduza algum grau de desnutrição, ao passo que, nos pacientes obesos, a desnutrição pode- rá passar despercebida a esta medida. Algumas vezes, os pacientes ao serem internados não são pesados, e esse dado, simples e importante, deixa de ser analisado. O porcentual de perda de peso é muito impor- tante para o diagnóstico da desnutrição. Ele pode ser obtido pela fórmula: perda de peso = ((peso habi- tual – peso atual)/peso habitual) x 100. As alterações no peso corporal podem refletir uma mudança no conteúdo de proteínas, água, mine- rais e/ou gordura. Para avaliara perda de peso, o por- centual de perda de peso pode ser calculado e relacio- nado com o tempo em que ocorreu, sendo utilizada a classificação de Blackburn e cols., (Tabela 2.29). Avaliação da percentagem de perda de peso Tempo Perda de pesosignificativa (%) Perda de peso severa (%) Uma semana Um mês Três meses Seis meses 1 a 2 5 7,5 10 > 2 > 5 > 7,5 > 10 Tabela 2.31 Atenção! Algum grau de perda de peso é, geralmente, es- perado durante a hospitalização ou com a evolução da doença. Essa perda é derivada da doença ou do trata- mento. Deficits de 5% a 10% do peso habitual não têm sido considerados clinicamente significativos, porém, perda rápida de peso acima desse valor pode ser encontrada com frequência e é evidência de desnutrição. A variação ponderal para o peso habitual (peso atual/peso habitual x 100%) pode classificar a des- nutrição de acordo com Grant e cols., (1981) em: � desnutrição leve: 90% a 85% do peso habi- tual; � desnutrição moderada: 85% a 75% do peso habitual; � desnutrição severa: menor que 75% do peso habitual. Impedância bioelétrica Para uma avaliação mais criteriosa do estado nutricional de pacientes internados, técnicas de esti- mação da composição corporal vêm sendo utilizadas na tentativa de analisar, em detalhes, as modifica- ções ocorridas na constituição de cada um dos com- ponentes. Nesse contexto, tem sido muito utilizada na prática clínica a Impedância Bioelétrica, ou Bio- impedância Corporal, método simples, seguro, rápi- do, sensível, não invasivo e fácil de usar, aplicável à beira do leito. Esse método vem sendo amplamente estudado e validado em âmbito hospitalar, e uma de suas vantagens é a eliminação dos erros de medida que, normalmente, ocorrem quando são utilizados os métodos antropométricos. O princípio da bioimpedância baseia-se no fato que a impedância Z (resultante da resistência ofereci- da ao fluxo elétrico) relaciona-se ao volume do corpo como um condutor, tendo sido demonstrada uma cor- relação significativa entre o seu valor e a massa magra. Assim, a impedância tem maior valor na massa lipí- dica comparativamente à massa biologicamente ativa (tecido magro), que contém praticamente toda a água corpórea com eletrólitos, portanto, altamente condu- tora e com resistência baixa. Novos aparelhos que determinam ângulo de fase na impedância bioelétrica mostram que a composição corporal pode predizer complicações e correlaciona-se com a avaliação subjetiva global. Avaliação subjetiva global (ASG) Atualmente, vem ganhando espaço na prática da avaliação do estado nutricional a Avaliação Sub- jetiva Global (ASG). Trata-se de um método clínico, simples, de baixo custo e rápido. Essa técnica de ava- liação alia o exame físico e a história clínica rápida e eficiente. Alterações na ingestão alimentar, no peso, no trato gastrointestinal e na capacidade funcional são avaliadas e pontuadas, de forma que os pacientes sejam divididos em três classes: classe A, bem nutri- dos; classe B, moderadamente desnutrido ou em risco de desnutrição; e classe C, severamente desnutrido. A ASG é um acurado preditor de pacientes que tenham alto risco de complicações ou que necessitem de su- porte nutricional. Pacientes que apresentam uma perda corporal de 10% nos últimos seis meses po- dem ser classificados como C (atenção!). Avaliação bioquímica A avaliação do estado nutricional deve ser com- plementada por meio de exames laboratoriais de rotina em pacientes cirúrgicos. Esse método tem a vantagem de identificar as alterações nutricionais na fase subclínica. Os níveis de proteínas séricas, albumina e a contagem linfocitária no sangue pe- riférico têm-se mostrado específicos e sensíveis para prever complicações pós-operatórias, taxas de permanência hospitalar e mortalidade em pa- cientes cirúrgicos. A avaliação da quantidade de 54 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 água e sódio pode ser um dado indireto complemen- tar importante para a avaliação nutricional em pa- cientes com desnutrição aguda. Proteínas plasmáticas Uma estimativa do fornecimento adequado de aminoácidos ao fígado e de sua capacidade de síntese pode ser obtida por meio de uma série de proteínas plasmáticas, que, geralmente, são reduzidas à medida que o organismo perde reservas de proteínas. Os exa- mes mais comumente utilizados são a dosagem da albumina sérica, da pré-albumina e da transferrina. Albumina sérica A albumina é uma das proteínas mais exten- sivamente estudadas e de uso rotineiro na prática cirúrgica. A taxa de albumina sérica é, geralmente, baixa na presença da desnutrição proteico-energéti- ca (DPE) e também tem sido amplamente indicada para avaliar o estado nutricional, sendo particu- larmente usada para o prognóstico do aumento da mortalidade e da morbidade. O total de albu- mina corporal em um homem de 70 kg é aproxima- damente de 300 g (3,5 a 5,3 g/kg). Concentrações séricas de albumina superiores a 3,5 g/100 mL são consideradas normais. O longo período de meia-vida da albumina (em média 21 dias), assim como a grande reserva corporal (4 a 5 g/kg) têm sido responsabilizados pela sua má cor- relação com processos agudos que levam à desnutrição. Entretanto, a facilidade de seu uso, o baixo custo e a sua correlação com a perda de peso e com a mortalidade fazem da albumina um grande aliado na avaliação e na evolução dos pacientes na prática clínica. Transferrina A transferrina sérica é uma betaglobulina que transporta o ferro no plasma. É sintetizada no fíga- do, com concentrações séricas normais oscilando de 250 a 300 mg/100 mL e uma reserva plasmáti- ca média de 5,29 g. A meia-vida da transferrina varia de 8 a 10 dias, com uma média de 8,8 dias. Por causa da menor reserva corporal e da vida média mais curta, admite-se que a transferrina reflete com maior exatidão as alterações agudas ocorridas no estado da proteína visceral. Entretanto, sua taxa pode ser influenciada pela carência de ferro (pela di- minuição na ingestão e/ou no consumo bacteriano em infecções). Grau de desnutrição de acordo com a albumina e transferrina sérica Estado nutricional Albumina (g/dL) Transferrina (g/dL) Normal 3,5 a 5 200 a 400 DPE leve 2,8 a 3,4 150 a 199 DPE moderada 2,1 a 2,7 100 a 149 DPE grave < 2,1 < 100 Tabela 2.32 Atenção! Pré-albumina A pré-albumina desempenha um grande papel no transporte da tiroxina e é carreadora para a proteína fixadora do retinol. A meia-vida sérica foi calculada como sendo de apenas dois dias e sua reserva cor- poral é pequena. Qualquer demanda brusca de sín- tese proteica, como na infecção aguda ou no trauma- tismo, deprime rapidamente a pré-albumina sérica, devendo-se realizar uma interpretação cuidadosa dos dados obtidos antes de se poder inferir a existência de uma depleção nutricional. As concentrações séricas normais variam entre 15,7 a 29,6 mg/100 mL, com uma média de 22,4 mg/100 mL. Os níveis entre 10 e 15 mg/100 mL foram considerados como uma depleção proteica visceral leve, ao passo que 5 a 10 mg/100 mL denotam uma depleção moderada, e me- nos de 5 mg/100 mL, uma depleção visceral grave. Para efeito das questões de provas, deixamos regis- trado que, além das proteínas anteriormente descritas, vale a pena lembrar-se da proteína carreadora do reti- nol que possui vida-média de 10 horas, descrita como um marcador para avaliação nutricional, porém, é de- pendente dos níveis plasmáticos de vitamina A. Balanço nitrogenado A excreção urinária de nitrogênio sob a forma de nitrogênio ureico é utilizada para avaliar a perda proteica muscular. O balanço nitrogenado consiste no cálculo da diferença entre o nitrogênio ingerido e aque- le excretado. O nitrogênio ingerido é obtido dividindo- -se por 6,25 a grama de proteína ingerida. O nitrogênio excretado é obtido pela somatória das perdas do nitro- gênio urinário, nitrogênio das fezes e de outras perdas como a pele. Na prática, pode-se usar a dosagem de 24 horas da ureia urinária multiplicadapelo fator 0,46 ou a quantidade total de N urinário (esta é mais fidedigna, pois o N existe em outros compostos além da ureia). Es- timam-se em 2 g as perdas na pele e nas fezes e, assim, a fórmula final para o cálculo com a ureia urinária fica: Balanço nitrogenado = N ingerido – (N ureico urinário + 2 g) 55 2 Pré-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Linfócitos A interação entre o estado nutricional e a imu- nocompetência é clara. Eles não são fatores inde- pendentes e a natureza de sua relação é vital para pacientes cirúrgicos. A infecção, com decorrente diminuição da imunocompetência, é a maior causa de mortalidade e morbidade em indivíduos severa- mente desnutridos, formando um ciclo no qual cada fator pode exacerbar o outro. Atualmente, o estudo imunitário faz parte do conjunto de métodos usados para avaliar o estado nutricional. Já que a maioria dos laboratórios não está equipada para realizar ava- liações extensas do sistema imunológico, têm sido principalmente utilizadas a contagem total de linfó- citos e as provas de hipersensibilidade cutânea. Uma contagem total de linfócitos entre 1.200 e 2.000 por mm3 é considerada representativa de deple- ção nutricional leve, entre 800 e 1.199 por mm3 de depleção moderada, e inferior a 800 por mm3 de depleção grave. Outros critérios utilizados na avaliação nutricional pré-operatória Índice de risco nutricional (IRN) Um dos problemas em interpretar os estudos de suporte nutricional é a ambiguidade frequentemente associada com definições de graus de desnutrição. Em relação a isso, o IRN, baseado na albumina sérica e na magnitude da perda de peso, tem sido usado para graduação da desnutrição e como controle em es- tudos de avaliação do suporte nutricional. IRN = [(1,519 x albumina g/L) + 0,417] + [(peso atual/peso usual) x 100] � Desnutrição leve: > 97,5 � Desnutrição moderada: 83,5 a 97,5 � Desnutrição grave: < 83,5 Índice nutricional prognóstico (INP) Índice que deve ser empregado em situações es- peciais. A meta da avaliação nutricional é identificar pacientes em risco de morbidade ou mortalidade por desnutrição. A capacidade de fornecer suporte nutri- cional e potencialmente minimizar ou evitar a morbi- dade por desnutrição calórico-proteica estimulou os esforços para identificar, por uma variedade de méto- dos, os pacientes de risco. Identifica-se a população de pacientes com mor- bidade e mortalidade aumentadas utilizando-se al- bumina, transferrina, prega cutânea do tríceps e hipersensibilidade cutânea tardia. Um modelo matemático foi utilizado para melhorar o valor preditivo: INP (%) = 158 - 16,6 (albumina) - 1,78 (pre- ga cutânea do tríceps) - 0,2 (transferrina) - 5,8 (prova cutânea) – em que 0 = não reativo; 1 = reatividade me- nor que 5 mm; e 2 = reatividade maior que 5 mm). Índice nutricional prognóstico x morbimortalidade Risco (IPN) Taxa de complicação Taxa de mortalidade Baixo (< 40%) 0,8% 0,3% Médio (40%-49%) 30% 4,3% Alto (> 50%) 46% 33% Tabela 2.33 Atenção! Avaliação nutricional simplificada É outra forma de avaliação nutricional e que se mostrou útil no dia a dia do cirurgião. Avaliação simplificada do grau de desnutrição Parâmetro Desnutrição leve Desnutrição moderada Desnutrição grave % emagreci- mento 10 10-20 > 20 Prega cutâ- nea tríceps (mm) 9,0-10,0 7,5-10,0 < 7,5 Albumina sérica (g/dL) 3,1-3,5 2,2-3,1 < 2,2 Total de linfócitos/ mm3 1.000-1.200 800-1.000 < 800 Testes cutâneos* 4,5-5,0 < 5 0 (*) Diâmetro de enduração (em mm). Tabela 2.34 Figura 2.4 Utilização do adipômetro na medida da prega cutânea do tríceps. 56 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 O suporte nutricional A preferência do suporte nutricional nas cirur- gias eletivas em doentes com deficit nutricional é pelo tubo digestivo, por via oral ou enteral. Nas cirurgias eletivas em doentes com deficit nutricional SEM con- dições de usar o tubo digestivo, indica-se a nutrição parenteral prévia por período de 7 a 10 dias. Após o diagnóstico nutricional e a correta in- dicação da terapia nutricional, devem-se calcular as necessidades protéticas e calóricas do paciente. O cál- culo pode ser feito por métodos sofisticados, como a calorimetria indireta ou mediante o uso de equações, das quais a mais utilizada é a de Harris-Benedict. Essa equação fornece o gasto metabólico basal que, se multiplicado pelo fator de atividade, fornece o gasto metabólico em repouso. Para pacientes cirúrgicos com perda reduzida de peso, é possível proceder ao cálculo com o peso usual. Quando a perda for superior a 10%, recomenda-se iniciar com o peso real medi- do e progressivamente ajustar com o peso usual. Para enfermos com índice de massa corpórea superior a 25, recomenda-se usar o peso ideal ajustado. Deve- -se mencionar que os cálculos estimativos de gasto energético, de forma geral, superestimam os valores obtidos por calorimetria indireta. Fórmula de Harris-Benedict para estimar o gasto energético basal H = GEB = 66,42 + (13,75 x P) + (5,0 x A) - (6,76 x I) M = GEB = 65,51 + (9,56 x P) + (1,85 x A) - (4,67 x I) Em que: GEB = gasto energético basal; H = homem; M = mulher; P = peso (kg); A = altura (cm); I = idade (anos). Gasto energético total (GET)* GET = GEB x FE (MPH) FE = de 1 a 1,5 Em que: FE = fator estresse; MPH = média para pacientes hospitalizados. Tabela 2.35 (*) O valor obtido é multiplicado pelo chamado fator de estresse que na inanição vale 1,0, nas cirurgias eletivas 1,3, no trauma e/ou sepse tem o valor de 1,5. Fórmula do peso ajustado Peso ajustado = (peso atual - peso ideal) x 0,25 + peso ideal A oferta de energia pode variar à medida que o paciente oxida as calorias recebidas em ATP e CO2. Por- tanto, depende também do estado metabólico geral do paciente em termos de oxigenação, perfusão, pH, hi- dratação e presença de minerais. De maneira geral, no período pré-operatório a meta é fornecer aos doentes energia na quantidade necessária para restaurar as condições mínimas para garantir os processos de coa- gulação, inflamação, combate à infecção e cicatrização do trauma por vir. Para doentes com doenças benignas e se a intervenção cirúrgica puder esperar, recomenda- -se um período de terapia nutricional de até três se- manas para a recuperação do estado nutricional. Para aqueles com doenças malignas, recomendam-se de 7 a 10 dias de terapia nutricional pré-operatória, sem se pretender que haja mudanças objetivas nos parâmetros rotineiros de avaliação nutricional. No período pós-operatório, a necessidade energética vai se modificar conforme a intensidade da agressão cirúrgica ou traumática e de acordo com o tempo de evolução. Para as cirurgias que decorrem sem maiores intercorrências, o período catabólico dura até 5 dias, diferentemente dos doentes que complicam ou que estão na UTI sob cuidados críticos. Nesses, o período catabólico é prolongado com maior taxa de hipercata- bolismo. Doentes sedados no ventilador têm menor gasto energético que aumenta muito na fase de des- mame. No pós-operatório de cirurgias eletivas, sem complicações, recomenda-se a oferta de 25 kcal/kg/dia para doentes mais graves e 30 kcal para os menos complicados. Com o controle me- tabólico, passa-se, quando necessário para até 35 a 40 kcal/kg/dia. Deve-se evitar a hiperalimen- tação acima desses limites, especialmente em doentes criticamente graves, por riscos de alterações hepáti- cas, imunológicas e dificuldade no desmame de ven- tilação artificial. A energia pode ser ministrada como carboidratos e lípides, e a proporção entre eles é vari- ável de acordo com a via de acesso e o metabolismo do doente. Vale lembrar que a necessidade de oferta de glicose no estresse metabólico varia em torno de 60% a 70% do total de calorias não proteicas. No entanto, a oferta de glicose não deve ultrapassar 5 mg/kg por minuto, que é o limite de sua oxidação. Nos doentes críticos, recomenda-se permanecer abaixo deste limite (de 3 a 4mg/kg/minuto), sob pena de hi- perglicemia e suas funestas repercussões. No período pré-operatório, a oferta de proteína é em torno de 1,0 g/kg/dia e, após trauma ou intervenção ci- rúrgica, aumenta chegando até 2,0 g/kg/dia. Em média se oferece 1,5 g/kg/dia à medida que haja bom funcionamento renal e hepático, o que pode significar uma relação, na dieta ofertada, de calorias por grama de nitrogênio de 150:1. CAPÍTULO 3 Pré-operatório II O preparo do paciente Interrupção de medicamentos Pacientes em uso de aspirina devem suspendê-la por pelo menos 7 dias antes da cirurgia eletiva, aqueles em uso de anticoagulantes orais, devem suspendê-los pelo menos 4 dias antes, enquanto que o uso de AINH (exceto AAS) deve ser suspenso pelo menos 2 dias antes. Fiquem atentos às próximas tabelas e valorize cada uma das informações. Cuidados com uso de medicamentos Antiplaquetários AAS Suspender 7-10 dias antes da cirurgia eletiva. Ticlopidina Suspender 4 a 5 dias antes da cirurgia eletiva. Clopidogrel Suspender 3 a 5 dias antes da cirurgia eletiva. Em caso de síndrome coronariana aguda ou acidente vascular cerebral recente esses medicamentos devem ser mantidos sempre que possível. Anti-hipertensivos Devem ser continuados até a manhã da cirurgia (com gole d’água), com cuidado especial no caso de betabloqueadores e clonidina pela possibilidade de síndrome de retirada. Antiarrítmicos Geralmente devem ser continuados. Terapia de reposição hormonal Hormônios devem ser suspensos um mês antes da cirurgia. Cuidados com uso de medicamentos (Cont.) Hipoglicemiantes Biguanidas ou sulfonilureias(*) Suspender no dia anterior; HGT de 4/4 horas com insulina regular suplemen- tar, quando necessário SG 5% 100 mL/h durante o jejum. Insulina subcutânea Insulina NPH 1/2 ou 2/3 da dose na manhã da cirurgia + SG 5% 100 mL/h desde a manhã da cirurgia até o término do NPO (nada por via oral). Corticoterapia crônica Hidrocortisona 100 mg de 8/8 horas iniciando na manhã da cirurgia e mantendo por 48-72 horas ou por período mais prolongado, caso haja complicação no pós- -operatório. Hormônios tireoidianos Devem ser mantidos antes e após cirurgia. Anticonvulsivantes Devem ser adotados esquemas para a manutenção das concentrações plasmáti- cas para evitar as crises. Benzodizepínicos Podem ser mantidos, sendo úteis no pré e transoperatório. Evitar em caso de história de reação paradoxal a benzodiazepínicos. Antipsicóticos Geralmente devem ser continuados. Lítio e antidepressivos tricíclicos Podem ser continuados. Tabela 3.1 Atenção! (*) Sulfonilureias de longa duração devem ser suspensas 48 horas antes do ato cirúrgico. Al- guns autores recomendam suspender a metformina (biguanida) 48 horas antes da indução anestésica; neste caso, o motivo está relacionado com o potencial desenvolvimento de acidose lática em situações de deficit de oxigenação tecidual. Preocupações perioperatórias e recomendações para oito medicamentos herbáceos Nome comum da erva Preocupação perioperatória Recomendação pré-operatória Echinacea Reações alérgicas; redução da eficiência de imunossupressores; poten- cial para imunossupressão com uso em longo prazo. Sem dados. Ephedra Risco de isquemia do miocárdio por taquicardia e hipertensão: arritmia ventricular com halotano; uso em longo prazo esgota as catecolaminas endógenas e pode causar instabilidade hemodinâmica intraoperatória; ameaça à vida com interação de inibidores da monoamina oxidase. Descontinuar pelo menos 24 horas antes da operação. Alho Potencial ao aumentar o risco de sangramento, especialmente quando com- binado com outros medicamentos que inibem a agregação de plaquetas. Descontinuar, pelo menos, 7 dias antes da operação. Ginko Potencial ao aumentar o risco de sangramento, especialmente quando com- binado com outros medicamentos que inibem a agregação de plaquetas. Descontinuar, pelo menos, 36 horas antes da operação. Ginsen Hipoglicemia; potencial ao aumentar o risco de sangramento; potencial de reduzir os efeitos anticoagulantes da varfarina. Descontinuar, pelo menos, 7 dias antes da operação. Cava Potencial ao aumentar o efeito sedativo dos anestésicos; potencial ao criar dependência, tolerância e retirada, após abstinência não planejada. Descontinuar, pelo menos, 24 horas antes da operação. de São João Inclusão das enzimas P450 citocrômicas, afetando ciclosporina, varfari- na, esteroides, inibidores de protease e, possivelmente, benzodiazepínicos, bloqueadores de canais de cálcio e muitas outras drogas; redução do nível sérico de digoxina. Descontinuar, pelo menos, 5 dias antes da operação. Valerian Potencial ao aumentar os efeitos sedativos dos anestésicos; retirada agu- da semelhante aos benzodiazepínicos; potencial para aumentar as ne- cessidades anestésicas com uso em longo prazo. Sem dados. Tabela 3.2 Banho do paciente na véspera da cirurgia A propagação de germes é maior entre 30 a 90 minutos após o banho (assim, deve-se evitar o banho, ime- diatamente, antes da cirurgia). 58 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Jejum O período mínimo de duas horas, quando o paciente teve como última alimentação dieta de líqui- dos claros (água, líquidos sem gordura e sem proteí- na, suco de frutas sem polpa, chás e café preto), pois esta dieta não aumenta o volume de líquido gástrico ou a acidez. Enquanto que pelo menos 4 horas são necessárias para o esvaziamento, após uma re- feição leve. Para uma grande refeição pode ser necessário mais de 9 horas para o esvaziamento gástrico. Lembrar que em pacientes diabéticos crôni- cos, o esvaziamento de líquidos e sólidos é retardado em 40% a 50%. Limpeza mecânica pré-operatória do intestino Durante várias décadas a preparação mecânica do intestino com a adição de antibióticos orais foi o padrão de tratamento para qualquer cirurgia intesti- nal. Estudos mais recentes têm avaliado a necessidade tanto de antibióticos orais quanto de limpeza mecâ- nica. Os antibióticos orais não conferem benefício ao paciente e podem aumentar o risco de infecção pós- -operatória por Clostridium difficile. Além disso, embo- ra possa parecer que a remoção de material fecal reduz o risco de complicações anastomóticas e infecciosas, o oposto é verdadeiro. Uma metanálise recente mostrou que os dois eventos não diminuem e podem aumentar com a limpeza mecânica. Tricotomia Deve ser realizada imediatamente antes de começar a cirurgia, de preferência na sala cirúrgica, para minimizar o risco de infecção. Devem ser apara- dos os pelos somente na área da incisão. A depilação com lâmina oferece MAIOR risco de infecção na ferida operatória facilitando o ingresso de micro-organis- mos. Quando a tricotomia é feita nas condições cita- das, a taxa de infecções da ferida operatória gira em torno de 5%, chegando até 20%, quando é realizada mais de 24 horas antes do ato operatório. Cateterismo vesical Quando indicado, deve ser feito com o máximo rigor de assepsia, de preferência com o paciente anes- tesiado. Atualmente, há uma discussão a respeito da escolha entre o cateterismo vesical e a colocação de cateter por punção suprapúbica. Os defensores deste último método advogam que, apesar da necessidade de punção, as complicações infecciosas são menos fre- quentes que as observadas no cateterismo vesical. Vale lembrar que a colocação de um cateter na bexiga, seja transuretral ou por punção, deve ser reservada para os casos selecionados em que a medida é indispensável, principalmente, nas operações de maior porte e no ab- dome agudo. Cateterismo nasogástrico Dentro da filosofia de diminuir ao máximo o trauma cirúrgico-anestésico, a utilização de catete- res nasogástricos (sondas) como método auxiliar tem sido cada vez menor. Quando houver indicação para seu uso, o cateter deve ser colocado apenas quan- do o paciente já estiver sob o efeito dos anestésicos, exceto quando ele tiver de ser colocado como medida para o esvaziamento gástrico. Nesta situação particu-lar, pelo risco de refluxo e aspiração do conteúdo gás- trico, o cateter deve ser passado antes da intubação anestésica. Se a necessidade do cateter se restringe ao peroperatório, ele deve ser retirado quando a operação for finalizada, com o paciente ainda inconsciente. Antibioticoprofilaxia As infecções do sítio operatório representam a principal causa de morbimortalidade no período pós- -operatório. O uso profilático dos antibióticos associa- do a medidas gerais de prevenção de infecção cirúrgica têm se mostrado eficazes, em uma série de situações, quando utilizado racionalmente. Está indicado nas cirurgias em que a ocorrên- cia de complicações é elevada ou grave, e a literatura demonstra a eficácia do uso. É fundamental garantir nível sérico adequado do antibiótico no momento da agressão tissular, assim, a aplicação do antibiótico deve se dar cerca de 30 minutos antes do início da cirurgia, geralmente, coincidindo com o momento da indução anestésica. Diversos estudos têm demonstrado que a utili- zação de antimicrobianos em dose única, na maioria dos casos, é suficiente como profilaxia da infecção da ferida cirúrgica. Uma segunda dose é suficiente quan- do o procedimento cirúrgico se estende por mais de 3 horas ou período superior a duas vezes a meia-vida do antimicrobiano utilizado. Alguns autores repetem a dose ocorra hemorragia maciça transoperatória igual ou maior que o volume sanguíneo corporal. A extensão da profilaxia, por períodos superio- res a 24 horas pós-operatório, não reduz a incidên- cia de infecção da ferida operatória e só se justifica a aplicação de antimicrobiano, além desse prazo, em situações especiais. 3 3 Pré-operatório II SJT Residência Médica – 2016 As exceções ao uso de antibióticos em cirur- gias limpas ocorrem nos seguintes casos: quando o doente é portador de febre reumática e/ou usa pró- teses, em operações vasculares ou oftalmológicas em que a infecção poderia implicar amputação ou ceguei- ra, em alguns serviços de neurocirurgia e ortopedia, cuja infecção no sítio cirúrgico é de tratamento difícil e prolongado, ou em pacientes imunodeprimidos e na- queles que vão ser submetidos à colocação de prótese. A antibioticoprofilaxia previne apenas infec- ções do sítio cirúrgico e não infecções pulmonares e/ ou urinárias. Classificação da ferida operatória segundo a NAS e a incidência de infecção Critério Infecção (%) Limpa Ferida limpa, não traumática, sem inflamação e sem quebra da técnica asséptica. < 5 Potencial- mente conta- minada Operação nos tubos digestivo, respiratório ou geniturinário sem contaminação e mínima quebra na técnica asséptica. 10 Contaminada Ferida traumática, contami- nação grosseira, quebra da técnica asséptica, processo in- flamatório não purulento. 18-20 Infectada/ suja Ferida traumática com te- cidos desvitalizados, corpo estranho, contaminação fecal, vísceras perfuradas e inflama- ção com material purulento. 30-40 Tabela 3.3 NAS: National Academy of Sciences. Variáveis que influenciam o desenvolvimento da infecção Fatores relacionados ao paciente Idade Estado nutricional Diabetes Tabagismo Obesidade Infecção coexis- tente Colonização com micro-organismo Imunodeficiência Tempo de internação pré-operatória Fatores relacionados à operação Duração da escovação das mãos Antissepsia da pele Tricotomia Preparo pré-opera- tório da pele Duração da operação Antibiótico profi- lático Ventilação da sala de operação Esterilização dos instrumentos Corpo estranho no local da operação Drenos Técnica cirúrgica: hemostasia Técnica cirúrgica: espaço morto Técnica cirúrgica: trauma tecidual Tabela 3.4 Indicação de antibioticoprofilaxia Tipo de ferida cirúrgica Indicação Limpa Uso seletivo em pacien- tes com: 1) colocação de próteses; 2) operações em que a in- fecção seria grave; e 3) pacientes com risco au- mentado de infecção. Contaminada Sim. Potencialmente contaminada Sim. Infectada Sim (uso terapêutico). Tabela 3.5 Esquemas de antibioticoprofilaxia em cirurgia Tipo de cirurgia Antibióticos/ esquemas recomendados Cabeça e pescoço, sem in- cluir boca e laringe Cefazolina Cabeça e pescoço, in- cluindo boca e laringe Cefazolina + Metronidazol Sulbactam/Ampicilina Cardíaca Cefazolina Cefuroxima Vascular Cefuroxima Cefazolina Neurocirurgia Cefuroxima Cefazolina Ortopédica – prótese total de quadril e outras articu- lações Cefazolina Cefuroxima Procedimentos urológicos Cefazolina Ciprofloxacina Ampicilina Cesariana Cefazolina Histerectomias vaginal e abdominal Cefazolina Sulbactam/Ampicilina Cirurgia plástica estética Cefazolina Apendicectomia Cefoxitina Colecistectomia* Não usar antibiótico Cefazolina* Trato gastrointestinal superior Cefazolina Fígado e vias biliares Cefazolina (+ metronidazol) Colorretal Cefoxitina Gentamicina + metroni- dazol Transplantes Sulbactan/Ampicilina/ Cefotriaxone Cirurgia bariátrica Sulbatan/Ampicilina/ Cefazolina Cirurgias limpas Cefazolina Trauma abdominal Cefoxitina/Sulbactam/ Ampicilina Tabela 3.6 (*) - Antibiótico indicado em idosos, neopla- sias, imunocomprometidos, icterícia. 60 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Profilaxia de endocardite infecciosa O fator mais importante na prevenção da endo- cardite infecciosa é a manutenção de boa saúde bucal. Considerando que, aproximadamente, 50% das endo- cardites infecciosas são estreptocócicas e, a maioria destas, por Streptococcus viridans possam inferir que, aproximadamente, 50% dos episódios de endocardite são desencadeados por alguma doença odontológi- ca. Assim, valvopatas e cardiopatas, em geral, têm de apresentar saúde bucal impecável para prevenir o de- senvolvimento de endocardite infecciosa. Orientações de profilaxia de endocardite infecciosa em diferentes países Associação de Cardiologia Norte-americana, Estados Unidos, 2007 Princípios Bacteriemias cotidianas ao acaso são mais importantes que as intervenções odontológicas. Profilaxia previne número reduzido de casos. Risco da administração de antibióticos excede o benefício potencial. A manutenção da saúde odontoestomatológica é mais im- portante. A profilaxia pode ser considerada razoável para inter- venções odontológicas que incluem manipulação gengi- val, periapical ou com perfuração da mucosa oral. Portadores de prótese valvar cardíaca ou material proteico. Endocardite infecciosa prévia. Cardiopatia congênita cianótica ou tratada com prótese (< 6 meses). Valvopatia de receptores de transplante cardíaco. Instituto Nacional para Excelência Clínica, Inglaterra, 2008 Condições sob maior risco de endocardite infecciosa Valvopatia, prótese valvar cardíaca, cardiopatia congênita. Endocardite infecciosa pregressa, cardiomiopatia hiper- trófica. Profilaxia não recomendada Intervenções dentárias, gastrointestinais, geniturinárias, respiratórias. Sociedade Europeia de Cardiologia, 2009 Recomendação de limitar a profilaxia antibiótica aos pacientes sob maior risco de endocardite infecciosa, submetidos às intervenções odontológicas de maior ris- co de bacteriemia. Manter a boa saúde odontoestomatológica e revisões odontológicas periódicas, tem um papel muito impor- tante em reduzir o risco de endocardite infecciosa. Técnicas de assepsia na manipulação de cateteres ve- nosos e procedimentos invasivos são importantes para prevenir endocardite relacionada a procedimentos in- vasivos. Tabela 3.7 Profilaxia antibiótica de adultos antes de inter- venção odontológica, segundo a recomendação da American Heart Association Via oral Amoxicilina 2g Via parenteral Ampicilina 2 g por via intramuscular ou intravenosa; Cefazolina 1 g ou ceftriaxone 1 g por via intramuscular ou intravenosa. Alergia a penicilina Oral Cefalexina 2g; Clindamicina 600 mg; Azitromicina ou claritromicina 500 mg. Parenteral Cefazolina ou ceftriaxona 1 g por via intramuscular ou intravenosa; Clindamicina 600 mg intramuscular ou intravenosa. Tabela 3.8 Preparo da equipe Trocar roupas e utilizargorros e toucas. Máscara – sempre deve abranger boca e nariz, para evitar a projeção de gotículas de saliva e muco ex- pelidos pela respiração da equipe cirúrgica. Mãos – possui dois tipos de flora: permanente (de remoção difícil, apenas em número e qualidade), tran- sitória (bactérias agregadas a partículas de pó, gordura da pele, sendo mais fácil sua remoção). Técnica de es- covação das mãos – pelo menos 5-7 minutos, com água corrente e substância antisséptica, uso de luvas. Figura 3.1 Técnica para escovação das mãos e ante- braços. 3 3 Pré-operatório II SJT Residência Médica – 2016 Assepsia – manobra realizada com o intuito de man- ter o doente e o ambiente cirúrgico livres de germes. Antissepsia – sinônimo de destruição de germes. Assepsia do campo operatório A aplicação do antisséptico deve ser cuidadosa, sempre do centro para a periferia do campo operató- rio, tomando-se o cuidado de evitar o escorrimento de excessos, já que irão se depositar e concentrar nas áreas de declive, podendo determinar lesões na pele. Após a aplicação do antisséptico são colocados “campos” de tecido ou de material plástico especial, de forma a manter estéreis as vizinhanças da área a ser operada. As bordas da incisão devem ser protegidas por compressas, fixadas no subcutâneo ou, no caso de doenças malignas, no peritônio parietal. É também pela possibilidade de implantação de células tumorais que, nas operações oncológicas, o instrumental a ser utilizado para a síntese da ferida operatória ficará se- parado e reservado para o momento adequado. Nas operações videolaparoscópicas, em que não há possi- bilidade desses cuidados, as implantações de células tumorais na parede parecem ser mais frequentes. Agentes antimicrobianos recomendados para preparo cirúrgico da pele Solução Comentário Isopropanol a 60%-90% Não usar em membranas mucosas. Iodo povidine a 7,5%-10% Pode ser usado em membra- nas mucosas. Clorexidina a 2%-4% Não usar nos olhos, ouvidos, membranas mucosas. Iodo preparo a 3% Não usar em membranas mucosas; pode causar irrita- ção da pele quando deixado por muito tempo. para-Clorometaxilenol (PCMX) Não usar em RN; pois pene- tra na pele. Tabela 3.9 Tipos de antissépticos líquidos Sabões – sais de sódio e sais de potássio de áci- dos graxos de cadeia longa. Têm ação bacteriostática e bactericida para bactérias Gram-positivas e BAAR. Têm pouca ação sob Gram-negativos. Álcool etílico – 70%-90% mais barato, pouco irritante, inócuo ao organismo. Seu mecanismo de ação é a desnaturação de proteínas da superfície das bactérias. Quanto maior sua concentração, pior a ação desinfetante. Efeito colateral: secura da pele. Compostos halogenados – maior uso no processo de escovação das mãos da equipe cirúrgica. Mecanismo de ação: bloqueio de enzimas bacterianas. São exemplos: Tintura de iodo 1%-2% – potente bactericida de amplo espectro (inclusive anaeróbios, esporulados e fungos), porém, muito tóxico, devendo ser utilizado apenas em pele íntegra. Iodo-Povinil-Pirrolidona – possui agente solu- bilizante do iodo, o que permite menos ação alérgica e tóxica (pode ser utilizado em pele lesada). Cloro (adicionado à água se converte em áci- do hipocloroso = Dakin) – é oxidante e bactericida, porém, de ação fugaz – daí sua utilidade em curativos. O hexaclorofeno tem ação bacteriostática mais pro- longada (inclusive por dias, graças ao pH de 5-6 da pele). O gluconato de cloro-hexidina tem ação contra Gram+, Gram – e fungos; sua ação contra esporos so- mente ocorre em altas temperaturas. Agentes oxidantes – bloqueio de enzimas e pro- teínas denominadas bacterianas. Água oxigenada – ação antisséptica ineficaz. Permanganato de potássio – fraco agente bac- tericida, com maior uso em irrigações vesicais e embe- bição de compressas em úlceras crônicas da pele. Íons metálicos – prata (nitrato de prata) e mer- cúrio (cloreto de mercúrio) se ligam às proteínas das bactérias em grande quantidade e competem também com proteínas séricas. Possuem ação tóxica e são mui- to irritantes à pele. Em desuso. Formaldeído – antissepsia do ar ambiental e aparelhos com motor elétrico (serras e trépanos) na forma sólida. Obs: não usar substâncias químicas líquidas para este- rilização de material cirúrgico. Antissépticos voláteis Maior uso para esterilização de material não autoclavável (não suportam altas temperaturas, por exemplo, seringas plásticas, sondas plásticas etc.). Óxido de etileno – altamente explosivo daí, geralmente, é misturado com outras substâncias. Tempo de esterilização de 2,5 horas. É o principal an- tisséptico para esterilização dos fios cirúrgicos. Óxido de propileno – tempo de volatização mais alto (34 ºC) e com menor ação explosiva. 62 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Cuidados fundamentais na operação Na realidade, os cuidados intraoperatórios se ini- ciam antes da cirurgia. As orientações feitas no pré- -operatório são indispensáveis para o restabelecimen- to do paciente. O cirurgião, em todas as operações, deve ado- tar os seguintes princípios básicos: � mutilar o mínimo; � restaurar o máximo; � preservar, tanto quanto possível, a fisiologia do órgão ou sistema; � as incisões devem, sempre que possível, obede- cer às linhas de força da pele e ter extensão sufi- ciente para que o cirurgião tenha boa exposição e trabalhe com segurança. Nas videocirurgias, a preocupação deve ser com a localização das pe- quenas incisões necessárias para a introdução dos trocartes. A colocação em locais incorretos determinará grandes dificuldades na operação. A preocupação deve ser maior nos obesos e nos extremamente longilíneos ou brevilíneos; � os eletrocautérios devem ser utilizados com muito cuidado, limitando-se a pontos bem es- pecíficos. Seu uso em locais de tecido adiposo abundante deve ser evitado, já que desvitaliza extensas áreas de um setor pouco vasculariza- do, o que dificulta o processo de cicatrização; � são importantes os cuidados com uma boa he- mostasia, seja ela feita com ligaduras, cautérios ou clipes. A hemostasia deve se limitar, tanto quanto possível, aos vasos que sangram, evitan- do-se incluir os tecidos e estruturas vizinhas. Os pinçamentos e ligaduras em bloco se soltam com facilidade e devem ser evitados. Também fundamental é o cuidado em não se fazer às ce- gas pinçamentos, ligaduras ou cauterizações de vasos ou áreas sangrantes, pela possibilidade de graves acidentes; � as drenagens cavitárias são procedimentos de- nominados muito discutíveis; � nunca é demais enfatizar a necessidade de con- trolar o número de gazes e compressas utiliza- das na operação, minimizando, assim, a possi- bilidade de serem deixados corpos estranhos na região operada; � é extremamente importante que o cirurgião tenha amplo conhecimento de anatomia e que seja eclético, no sentido de conhecer as várias alternativas para serem utilizadas, tendo, as- sim, a capacidade de mudar a técnica ou a tática em função das necessidades ou condições pero- peratórias; � ter sempre em mente que a prevenção de com- plicações nunca é demais. Mensagem sobera- na de grandes cirurgiões (Ferreira-Santos e Okano): uma complicação, por pouco que represente porcentualmente em sua casuística, para o paciente e família equivalem a 100%. Mas agora tudo o que preciso para ter um futuro é planejar um futuro dentro do qual eu consiga me inserir. – Francine Julia Clark 3 3 Pré-operatório II SJT Residência Médica – 2016 CAPÍTULO 4 Pós-operatório I Introdução O pós-operatório se inicia na própria sala de cirurgia, com a reversão anestésica e a transfe- rência do paciente para o centro de recuperação. Um membro da equipe cirúrgica deve permanecer durante esse período, já que complicações relevantes podem aparecer nesta fase. Nos casos muito graves, o paciente pode ser transferido para uma UTI, caso o hospital disponha deste recurso. No entanto, na maio- ria das situações o paciente é encaminhadoda recupe- ração para o quarto, onde fi cará até a alta hospitalar. É fundamental que no pós-operatório o pa- ciente seja avaliado uma ou mais vezes por dia, na dependência do porte da operação, da doença sub- jacente, das doenças associadas e do potencial de complicações. Essa tarefa é da equipe cirúrgica e é intransferível, mesmo que haja necessidade de cola- boração especializada. A avaliação deve ser completa, do paciente como um todo e não apenas “da cirurgia”. Os dados de anamnese, exame físico, exames comple- mentares, características dos curativos, intercorrên- cias, entre outros, devem ser colocados na fi cha de evolução, fazendo parte do prontuário do paciente, peça indispensável não só para o relacionamento en- tre os membros da equipe para bem conduzir o tra- tamento, mas, também, como valioso documento em casos de problemas éticos ou legais. Uma vez fi nalizado o ato operatório, a reversão da anestesia geral é, como regra, realizada na própria sala operatória, sendo importante que um membro da equipe cirúrgica acompanhe o paciente até o centro de recuperação anestésica e permaneça junto com ele, já que muitas complicações pós-operatórias podem ocorrer nesse período de transporte. Com relação aos distúrbios térmicos, vale ob- servar que a sala de operações já foi descrita como sendo um ambiente ártico. Assim, não é de estranhar que cerca de 60% dos pacientes cheguem ao centro de recuperação com temperatura central abaixo de 36 ºC. Nas operações prolongadas e com hemor- ragias relevantes, a hipotermia é ainda mais pronun- ciada. Já a hipertermia maligna, tão temida pelos anestesistas, pode ocorrer na sala operatória ou no centro de recuperação. Trata-se de problema grave que se manifesta com taquicardia, taquipneia, ciano- se, arritmias cardíacas, febre alta, sudorese, altera- ções eletrolíticas, principalmente, de cálcio e potás- sio, e outras manifestações clínicas. Os anestésicos voláteis são os mais implicados. Dantrole sódi- co é o tratamento mais específico. Na sala operatória, no transporte e no centro de recuperação, o paciente deverá ser cuidadosa- mente observado com relação à ventilação, lem- brando sempre que as drogas utilizadas na aneste- sia inibem os movimentos respiratórios. Este tipo de complicação é mais comum nos pneumopatas crônicos, nos quais, por vezes, há necessidade de assistência ventilatória mecânica. Outro cuidado que se deve ter quando existem indícios de ventilação insuficiente é o de não remover o tubo traqueal antes de determinar a PO2 arterial, com o paciente respirando espontaneamente, somen- te o retirando se os níveis de pressão parcial de oxigê- nio estiverem aceitáveis. Outra complicação que pode ocorrer no pós-operatório imediato é a queda da lín- gua, com obstrução das vias aéreas superiores. Nestes casos, se o paciente estiver sob vigilância, o problema será facilmente resolvido com a colocação de uma son- da de Guedel. Dor pós-operatória A dor é uma resposta do organismo à agressão, tendo função protetora. Impedir seu aparecimento pode reduzir as possibilidades de fazer diagnóstico precoce de intercorrências que podem ser graves, por- tanto, a conduta ante a dor deve sempre ser ditada pelo bom-senso, calcada em conhecimentos de fisio- patologia e analisada caso a caso, após raciocínio clí- nico coerente. Qualquer intervenção cirúrgica é obviamente seguida de dor, em graus variáveis, e a tendência, ao longo dos dias, é de redução gradativa até o desapare- cimento. Nas cirurgias abdominais, por exemplo, a dor abdominal é localizada e constante, mas exa- cerbada aos movimentos e à Valsalva (12-24 horas iniciais); de pouca intensidade; diminui com o passar dos dias. Após 48 horas costuma estar bem contro- lada. Dependendo da cirurgia podemos ter irritação peritoneal no 1o PO (por exemplo, trauma onde houve presença de secreções intestinais na cavidade). Dor persistente nos 3o, 4o e 5o PO deve chamar a atenção para uma possível complicação. Neste caso, a mais comum é o íleo paralítico (“principal causa de dor ab- dominal persistente no pós-operatório das cirurgias abdominais”). A principal causa de íleo paralítico são distúrbios eletrolíticos (hipocalemia), hídricos (desidratação), irritação peritonial (contaminação da cavidade por secreções no intraoperatório são causa de íleo prolongado no pós-operatório) até extremos de fístulas ou deiscências de anastomoses intestinais. Mensuração da dor pós-operatória A dor pós-operatória pode ser medida pelo relato do paciente, pela quantidade de analgésico que o pa- ciente necessita e pelas escalas. Escala verbal A escala verbal comumente usa palavras ou des- critores para expressar a intensidade da dor. O pacien- te relata ou assinala o descritor mais apropriado para a sua dor. A dor é avaliada como ausente, leve, mode- rada e intensa com a seguinte pontuação: ausente = 0; leve =1; moderada = 2; e intensa = 3. O alívio da dor também pode ser avaliado pela escala verbal que usa os descritores nenhum, discreto, moderado, bom e completo, que são pontuados como: alívio ausente = 0; discreto =1; moderado = 2; bom = 3; e completo = 4. Escala numérica verbal Trata-se de escala alternativa às escalas verbal e analógica visual. O paciente sugere um número para representar a intensidade da dor, sendo que 0 significa ausência de dor e 10, a dor mais intensa possível. Tam- bém pode ser usada para avaliar o alívio da dor; alívio 0 representa nenhuma melhora da dor, ao passo que alívio 10 significa alívio completo. Escala analógica visual (EAV) A EAV é um instrumento simples, sensível e re- produtível, pois permite a análise contínua da dor. Ela é mais sensível que a observação ou a escala descritiva. É constituída por uma linha horizontal de 100 mm, cuja extremidade esquerda corresponde à ausência de dor e a direita representa a dor mais intensa possível, na qual o paciente assinala o local que acha ser mais representativo da intensidade de sua dor. O escore é obtido pela distância entre a extremidade esquerda e o local assinalado. Não devem ser colocados pontos ou marcas nas extremidades, porque podem influenciar, fazendo que o paciente não selecione as extremidades. Além de medir a intensidade da dor, a escala pode ser usada para avaliar o alívio da dor, a satisfação com o tratamento e, também, a intensidade de outros sintomas, como náusea. 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Figura 4.1 Escala numérica verbal e expressão visual. Diante de um quadro de dor pós-cirúrgica, a conduta terapêutica pode seguir as medidas descri- tas a seguir: � Analgesia convencional: a modalidade mais utilizada na prática clínica, havendo preferência para os analgésicos não narcóticos. A dipirona sódica é um derivado pirazolôni- co que apresenta propriedade analgésica, antitér- mica, antiespasmódica e anti-inflamatória fraca. Trabalhos recentes têm enfatizado e confirmado os resultados de trabalhos realizados há duas décadas que sugeriam que a analgesia provida pela dipirona teria caráter dose-dependente. Atualmente, utilizam- -se, em período pós-operatório, doses da ordem de 25- 30 mg/kg/dose, de 6/6 horas. A dose máxima diária situa-se em torno de 8 g/dia. O emprego da dipirona em analgesia pós-opera- tória é amplamente referendado por trabalhos cientí- ficos de países europeus, que demonstram a redução do consumo de opioides quando da administração conjunta com a dipirona no período pós-operatório, notadamente, pela menor dose de morfina consumi- da em 24 horas, pelo emprego de bombas de analgesia controlada pelo paciente. A dipirona tem sido compa- rada ao tramadol quanto à sua potência analgésica. O risco de agranulocitose atribuível à dipi- rona foi situado em 1,1/milhão de casos, que é um valor extremamente baixo, inferior ao risco de san- gramento gástrico, após uma única dose de ácido ace- tilsalicílico. O paracetamol é um derivado menos tóxico da fenacetina que apresenta propriedade analgé-sica, antitérmica e é praticamente destituído de atividade anti-inflamatória. O seu mecanismo de ação ainda é pouco conhecido, embora pareça envol- ver inibição seletiva da prostaglandina-sintetase cerebral. A ausência de inibição significativa sobre a ciclo-oxigenase periférica pode explicar a sua ativida- de anti-inflamatória praticamente ausente. Esse fármaco apresenta como vantagens não irritar a mucosa gástrica e não interferir com a função plaquetária. Não obstante, o paracetamol apresenta como principal desvantagem o risco de hepatotoxicidade, classicamente descrito para pa- cientes com hepatopatia alcoólica ou outras hepato- patias, porém, mais recentemente, descrito mesmo quando utilizado em doses terapêuticas. A dose má- xima diária situa-se em 4 g/dia. No Brasil, exis- tem apenas apresentações por via oral, em compri- midos e gotas. � Analgesia por bloqueio epidural: tem como maior vantagem sobre as vias IM ou EV a de agir sobre receptores espirais evitando efeitos sobre o SNC e os nervos periféricos. A morfina epidural tem sido utilizada para anal- gesia pós-operatória em grandes cirurgias abdominais nas doses de 4 a 10 mg para um efeito de 4 a 24 horas. Nas toracotomias e fraturas de costelas, utiliza-se in- fusão contínua por cateter torácico na dose de 30 µg/ kg/h. Vários estudos têm demonstrado a superiorida- de da via epidural de oferta de morfina para analgesia pós-operatória em pacientes submetidos à cirurgia co- lorretal, com excelente controle da dor e complicações pulmonares, significativamente, menores. � Analgesia Paciente Controlada (APC) Trata-se de uma técnica de controle da dor pós- -operatória, na qual o próprio paciente regula a in- fusão intravenosa ou epidural de narcóticos. Isso é realizado por uma bomba de infusão acoplada a um dispositivo automático acionado pelo paciente por meio de um botão disparador e que permite a infu- são de doses pré-determinadas a cada disparo. Os pacientes que mais se beneficiam da utilização da APC são aqueles submetidos a intervenções de grande porte ou os que apresentam dor pós- -operatório de moderada ou grande intensi- dade, pacientes que são submetidos a sessões de fisioterapia, trocas de curativo ou mobilizações fre- quentes. Vantagens como melhor analgesia, período de internação hospitalar menor, menor consumo de analgésico têm sido demonstradas. Sugestões de soluções para APC venosa Solução de morfina Solução fisiológica 0,9% – 90 mL Morfina 1% – 10 mL Total – 100 mL Concentração da morfina 1% Solução de fentanil Solução fisiológica 0,9% – 90 mL Fentamil 0,005% – 10 mL Total – 100 mL Concentração da fentanil 0,0005% Tabela 4.1 66 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Sugestões de soluções para APC peridural Solução de bupivacaína e fentanil Solução fisiológica 0,9% – 180 mL Fentanil 0,005% – 20 mL Bupivacaína 0,5% – 50 mL Total – 250 mL Concentração – bupivacaína 0,1% Concentração – fentanil 0,0004% Solução de ropivacaína e fentanil Solução fisiológica 0,9% – 240 mL Fentanil 0,005% – 20 mL Ropivacaína 0,75% – 40 mL Total – 300 mL Concentração – ropivacaína 0,1% Concentração – fentanil 0,0004% Tabela 4.2 O uso de cateteres peridurais é frequente no pós- -operatório de grandes cirurgias, promovendo a redu- ção de complicações gastrointestinais, cardiovasculares, pulmonares e tromboembólicas na fase pós-operatória. As principais restrições ao uso de cateteres peridurais são: risco infeccioso e formação de hema- toma. Quanto à infecção, deve-se checar diariamente eritema ou deslocamento. A presença de bacteremia con- traindica a inserção de cateteres peridurais. O tempo de permanência do cateter no doente crítico é discu- tível, e o período de 72 horas é, geralmente, aceitá- vel. Em doentes crônicos, os cateteres são deixados por um tempo maior, porém, geralmente são tunelizados e, além disso, os doentes normalmente não se encontram sépticos ou imunocomprometidos. Estudos recomen- dam que os testes de coagulação estejam normais, com plaquetas em número maior que 100.000/mm3. Doentes que estejam recebendo anticoagu- lação também merecem atenção. O bloqueio peri- dural deve ser realizado no mínimo 4 horas, após utilização de heparina não fracionada e 12 horas, após heparina de baixo peso molecular, devendo- -se aguardar no mínimo uma hora para retorno da administração de heparina não fracionada e duas horas de heparina de baixo peso molecular. DOR INTENSA Analgésico comum + adjuvantes + opióide forte* DOR LEVE Analgésico comum + adjuvantes DOR MODERADA Analgésico comum + adjuvantes + opióide fraco Figura 4.2 Escala analgésica. A dor pós-operatória segue habitualmente o sentido da seta esquerda, en- quanto que a dor crônica ou de complicação pós-cirúr- gica obedece a seta à direita. (*) Morfina, Oxicodona, Fentanil, Metadona e Meperidina. Agonistas opioides: doses equianalgésicas Agentes Dose equianalgésica (mg) Meia- -vida (horas) Duração da ação (horas) IM VO Codeína 130 200 2-3 2-4 Meperidina 75 300 2-3 2-4 Oxicodona 15 30 2-3 2-4 Morfina 10 30 2-3 3-4 Metadona 10 20 15-190 4-8 Fentanil TD – – – 48-72 Principais drogas utilizadas para tratamento da dor pós-operatória Droga VA* Posologia Morfina IV 2-4 mg a cada 4 horas Fentanil IV 50-100 mg a cada 3 horas Tramadol IV 50-100 mg a cada 6 horas Buprenorfina IV 0,1-0,3 mg a cada 6 horas Cetoprofeno IV 50-100 mg a cada 12 horas Dipirona IV 30-50 mg/kg a cada 6 horas Cetorolaco IV 30 mg a cada 8 horas Tabela 4.3 Espasmos musculares De ocorrência nas primeiras 48 horas. Ge- ralmente, ocorrem em doentes muito musculosos, que se movimentam ou realizam Valsalva. Às vezes, ocorrem sem fator desencadeante. Duram 30 segun- dos e só aliviam (ou pouco aliviam) com alta dose de narcóticos ou relaxantes musculares. O abdome fica rígido durante os espasmos. Entre as crises, o pacien- te segue em pós-operatório esperado. Desaparecem em 48 horas. Soluços No período pós-operatório, propicia a ocorrên- cia de deiscência de sutura da parede abdominal, e no paciente anestesiado interfere com a cirurgia e com a eficiência da ventilação. Entre os tratamentos propostos, a maior parte é efetiva para casos leves, enquanto que para os casos graves torna-se um desafio médico. 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Medidas não farmacológicas � Estimulação da faringe, realizada com cateter introduzido por via nasal, é um dos métodos mais valiosos, tanto no paciente consciente como no anestesiado. A área que responde à es- timulação é a porção média da faringe, oposta ao corpo da segunda vértebra cervical, área esta inervada pelo plexo faríngeo. Esta estimulação atua bloqueando ou inibindo os impulsos afe- rentes transmitidos através do vago, assim in- terrompendo o reflexo do soluço. � Massagem na carótida e pressão do globo ocu- lar, para estimulação vagal, que devem ser feitas com muito cuidado pelo risco de bradicardia e até parada cardíaca; � Tração forçada da língua, beber água rapidamen- te, chupar gelo, deglutir açúcar puro ou mel e in- duzir vômito, todos agindo sobre o plexo faríngeo. � Prender a respiração, respirar em recipiente fe- chado de papel ou plástico ou ventilar com CO2, visa aumentar a pCO2, o que diminui a frequên- cia, mas não a amplitude do soluço. � Ventilação com O2, que reduz a amplitude, mas não a frequência. Tanto a administração de oxigênio quanto de gás carbônico pode ser útil apenas no tratamento precoce do soluço. Os períodos de inalação não devem exceder 10 minutos, administrados por anestesista com- petente. Não são recomendados em pacientes debilitados ou emaciados. � Anestesia profunda: tentada inúmeras vezes em situações extremas, mostrou-se completa- mente sem utilidade, perigosa em pacientes de- bilitados, e não é recomendada. � Bloqueio vagal ou frênico no pescoço: tem ação temporária, desde que a causa não seja solucionada. O estudo fluoroscópico deve an- teceder o procedimentoe nunca deve ser feito bloqueio bilateral. � Estimulação galvânica do frênico: tem sucesso em número limitado de casos, em geral iniciais, e demanda sessões repetidas de estimulação com 30 V, 0,93 ma por 0,2 ms. Medidas farmacológicas � Sulfato de benzedrina: não tem sido reco- mendada, pois é útil apenas em casos leves, so- lucionáveis com outros procedimentos; � Sulfato de quinidina: inefetivo em casos pro- longados e, por necessitar de dose elevada, é pe- rigoso sob o ponto de vista cardiovascular; � Barbitúricos: úteis em casos iniciais, na dose de 100 mg a cada 6 horas. Não se mostram van- tajosos para casos prolongados, não sendo reco- mendado aumento da dose, pois, ao contrário, doses elevadas, em casos de intoxicação, podem ser causa de soluço; � Clorpromazina: não tem se mostrado útil quando administrada por via venosa ou muscu- lar. Por outro lado, é a droga mais eficaz quando usada por via sublingual, possivelmente, por agir sobre o plexo faríngeo; � Cetamina: pode ser usada em soluços que ocor- rem durante a anestesia, na dose de 0,4 mg/kg por via venosa; � Curarização: para ser eficaz, em geral, requer dose maior que a necessária para produzir simples relaxamento muscular, e só deve ser instituída muito excepcionalmente, em casos extremos, mediante rigoroso controle por anes- tesiologista experimentado. Muitos outros tratamentos já foram menciona- dos e sugeridos para tratamento do soluço, muitos ineficazes ou, no máximo, úteis para casos iniciais. Al- guns para situações específicas como nos soluços que ocorrem durante a anestesia; outros com mais efeitos colaterais do que benefícios como narcóticos, depres- sores do SNC, anticolinesterase e atropina. Medidas cirúrgicas Quando o soluço não cessa com medidas simples, tornando-se grave a ponto de interferir com a fisiologia respiratória, o doente deve merecer cuidados imediatos. A indicação cirúrgica é, então, a opção para es- ses casos graves e, muitas vezes, é a única alternativa quando a causa não é identificada, quando não pode ser solucionada, ou no insucesso de todas as tentati- vas de tratamento conservador. A cirurgia visa inter- rupção da via eferente do reflexo do soluço, ou seja, a interrupção do nervo frênico, do simpático, dos ner- vos torácicos inferiores ou dos lombares superiores. Para tal, se deve levar em consideração as variações anatômicas dos mesmos, principalmente, do nervo frênico cervical. Náuseas/vômitos Geralmente ocorrem nas primeiras 18 horas (efeito anestésico). Parece que os vômitos são mais fre- quentes quando se usam anestésicos voláteis do que com os venosos. Uma das causas, para isso, seria a própria distensão do trato digestivo por gás, parti- cularmente quando se emprega o óxido nitroso. Esse agente, quando em concentração de 75% no ar alveolar, aumenta o volume do gás intestinal em cerca de 500 68 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 mL/h de anestesia. O impacto é maior no intestino do que no estômago, por ser este mais distensível e com maior volume de reservatório. Habitualmente, durante a anestesia, o reflexo do vômito estará abolido, apresen- tando as consequências daquela distensão no período pós-operatório. Durante a raquianestesia a hipotensão é tida como a grande responsável pela ocorrência de náuseas e vômitos, que aparecem em menor frequência quando os níveis pressóricos conseguem ser mantidos acima de 80 mmHg, mesmo à custa de vasopressores. Os anestésicos, além de poderem desencadear vômitos por alteração da motilidade do trato gas- trointestinal, têm um efeito relevante sobre a mo- tilidade gástrica e a função do esfíncter inferior do esôfago. O efeito sobre esse esfíncter é importante não só por induzir o vômito, mas, principalmente, porque facilita o refluxo gastroesofágico, com regurgitação do conteúdo para a boca e risco de aspiração, essencial- mente, com pacientes em decúbito dorsal. Essa ação sobre o esfíncter inferior do esôfago aparece com óxido nitroso e é agravada por halotano e enflura- no. O mecanismo pelo qual esse fato ocorre parece liga- do à ação central, nas vias de regulação vagal. Os efeitos sobre a motilidade gástrica são variáveis, dependendo das drogas e de suas concentrações. O padrão mais comum da maioria dos anestésicos é a redução da motilidade gástrica diretamente por ação vagal. Concomitantemente a esta ação, há relaxamento do esfíncter pilórico, que promove o refluxo de bile para o estômago, servindo como fator adicional para o vômito por irritação mucosa. O tratamento medicamentoso pode ser empre- gado com várias drogas como domperidona, metoclo- pramida, fenotiazínicos, butirofenonas (droperidol), anticolinérgicos (ioscina, escopolamina, atropina), an- ti-histamínicos e até com acupuntura. Mais recente- mente, muita atenção tem sido dada ao ondansetron*, um antagonista seletivo da serotonina que bloqueia os receptores periféricos no trato gastrointestinal e atua, também, diretamente no centro do vômito. * Principais efeitos colateriais: cefaleia e diarreia. Depois de 24 horas, o doente em pós-opera- tório NÃO complicado NÃO costuma vomitar. Se ocorrerem vômitos suspeitar de complicações. Vômitos persistentes em pós-operatório de cirurgia bariátrica pode ser fator desencadeante para encefalopatia de Wernicke, e a prevenção é feita com a prescrição de tiamina. Hábito intestinal No PO inicial é usual que haja constipação com ausência de flatos nos 2-3 dias iniciais ou até por 5 dias em procedimentos de grande porte, o cha- mado íleo adinâmico. Assim, o melhor indicador da resolução do íleo adinâmico é o reinício da peristalse e, posteriormente, eliminação de flatos. Obstipação > 6 dias = pensar obstrução intestinal. Diarreia no 7o PO + distensão = obstrução in- testinal (diarreia paradoxal da suboclusão intestinal). A presença de fezes + flatos NÃO é garantia de que tudo está bem na cavidade peritoneal! Atenção ao exame abdominal no pós-operatório. Na ausculta, RH devem ser considerados com cautela, pois podem ser interpretados erroneamente (“a pre- sença de RH NÃO exclui que uma grave complicação abdominal esteja acontecendo!”). Prescrição médica no pós-operatório Deve conter o tipo de dieta ou jejum, reposição hidroeletrolítica quando houver perdas ou se o pa- ciente estiver incapacitado de receber aporte hídri- co ou energético por via enteral. Os antibióticos são prescritos conforme o caso; se profiláticos devem ser suspensos ao término da cirurgia, aceitando-se no máximo até 24 horas após; se prescritos após este período, pode-se considerar antibioticoterapia. Anal- gesia e antieméticos devem ser prescritas conforme o tempo de pós-operatório, pois são marcadores de complicações. Os analgésicos são de horário até o 2º PO, depois são prescritos quando necessá- rios nas laparotomias. Antieméticos devem ser prescritos de horário nas primeiras 24 horas e, depois, se houver necessidade. A profilaxia de TVP e da gastrite por estresse, bem como medicações usuais, são outros fatores importantes a serem con- siderados e não devem ser esquecidos. Prescrição de débito de sondas e drenos e fisioterapia respiratória também são itens indispensáveis. Reposição hidroeletrolítica Controle intraoperatório de líquidos e eletrólitos Quando o deficit de líquido não for adequada- mente corrigido no pré-operatório, o paciente pode desenvolver hipotensão com a indução anestésica, pela abolição dos mecanismos compensatórios. 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Considerando que a perda do volume extracelu- lar efetivo é o estímulo aferente essencial na resposta orgânica ao trauma, a manutenção da volemia normal, por administração pré-operatória de líquidos e eletró- litos, pode reduzir a magnitude da resposta ao trauma e, consequentemente, a redução do período de ativida- de endócrina máxima, sobretudo, quanto à liberação de aldosterona e do ADH. A reposição de sangue durante o ato operatóriodeve ser realizada, principalmente, com base na inten- sidade da perda sanguínea e nas condições clínicas do paciente. Nos pacientes jovens e sadios, a reposição de perdas de menos de 500 mL de sangue é geral- mente desnecessária. Porém, a transfusão de sangue deve ser prontamente considerada e iniciada nas perdas acima de 500 a 1.000 mL. A reposição sanguí- nea deve ser feita à medida que ocorre a perda inde- pendentemente de qualquer terapia de líquidos e ele- trólitos, porque essa conduta não substitui a reposição de sangue. Se durante todo o procedimento cirúrgico o apropriado é a transfusão de apenas uma unidade de sangue, esta é exatamente a quantidade que dever ser administrada, embora seja uma conduta criticada, sob alegação de que a necessidade de uma única uni- dade de sangue indica que a transfusão é dispensável. Quando são realizadas transfusões sanguíneas rá- pidas, torna-se necessária a reposição de cálcio, na dose de 1 g de gluconato de cálcio para cada quatro a cinco unidades de sangue, para evitar o desenvol- vimento de hipocalcemia agudo, da mesma forma que se torna necessário transfundir concentrado de plaquetas para evitar sangramento secundário a plaquetopenia dilucional. Lembre-se, o concen- trado de hemácias é pobre em plaquetas e sangue estocado não tem plaquetas funcionantes. Nas intervenções cirúrgicas de grande porte, além das perdas de sangue, observa-se a perda de lí- quido extracelular causada pela formação de edema, consequente à dissecção tecidual extensa, pelo acúmu- lo na luz e na parede intestinal, pelo extravasamento na cavidade peritoneal e pela incisão cirúrgica. Além disso, verifica-se, também, a perda de água por eva- poração, em decorrência da exposição das superfícies de órgãos através da ferida operatória. Essa perda é de aproximadamente 250 mL/hora de operação, em dias frios ou em salas refrigeradas, e nos dias quen- tes, 600 mL/hora de operação. As perdas por sequestro no sítio da lesão ou por evaporação são, usualmente, difíceis de serem estima- das. Essas perdas líquidas no intraoperatório podem ser corrigidas com a infusão de 500 a 1.000 mL/hora solução salina balanceada atingindo, geralmente, um total máximo de 2 a 3 L em operações de grande porte. O controle dos parâmetros clínicos, incluindo débi- to urinário horário, pulso, pressão arterial, PVC, é essencial para a reposição eficiente de líquidos. A compensação adequada das perdas de líquidos e ele- trólitos no intraoperatório, por infusão de solução sa- lina balanceada, pode prevenir ou reduzir a liberação adicional de aldosterona, causada pelo deficit de volu- me extracelular. Embora haja muitas controvérsias sobre a sua eficácia, além de dúvidas quanto às vantagens em comparação com as soluções salinas balanceadas, as soluções contendo albumina são também indicadas para a reposição das perdas de líquido extracelular. O uso dessas soluções teria como finalidade a conserva- ção da pressão oncótica e evitar o edema intersticial. Volume e composição dos líquidos digestivos Volume (24 horas) Na+ mEq/L) K+ mEq/L) CL- (mEq/L) Água produzi- da (endógena) 400 mL – – û Urina 1.000- 1.500 mL 60 40 150 Saliva 1.500 mL 10 25 10 Suco gástrico 2.500 mL 70 10 100 Suco pancreático 700 mL 140 5 70 Bile 600 mL 140 5 100 Suco entérico 3.000 mL 120 30 100 Tabela 4.4 Atenção. Controle pós-operatório de líquidos e eletrólitos Quando a função renal está normal, o paciente operado, usualmente, tem capacidade de contornar moderadas depleções e sobrecargas de líquidos e de ele- trólitos, consequentes à reposição inadequada, desde que não seja ultrapassado o limiar crítico de compen- sação renal. A eficiência dos mecanismos compensa- tórios renais está relacionada com o potencial de ex- creção e conservação de sódio. No homem adulto, os rins excretam habitualmente cerca de 10 a 80 mEq de sódio/dia, mas a excreção urinária de sódio pode ser reduzida para menos de 1 mEq/dia, em condições de conservação máxima, ou aumentada acima de 100 mEq/L, em situações de eliminação máxima de sódio. A reposição adequada de líquidos e eletrólitos pode evitar uma sobrecarga desnecessária à função renal. Balanço hídrico A análise comparativa entre as perdas de líquidos, externas e internas, e os ganhos obtidos por ingestão, infusão intravenosa e metabolismo são procedimen- tos importantes para avaliar a eficácia e a suficiência dos líquidos administrados, estimar as sobrecargas e 70 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 as depleções de líquidos. Por conseguinte, torna-se es- sencial o registro preciso dos ganhos e das perdas de líquidos, principalmente, nos pacientes com previsão de receber líquidos intravenosos por mais de 24 horas. No pós-operatório de procedimentos cirúrgicos de grande porte, ainda que a meta principal seja a busca do equilíbrio entre as perdas e os ganhos, faz-se necessário lembrar que o desvio interno de líquidos nas primeiras 48 a 72 horas pode elevar os ganhos e, após esse tempo, no período seguinte, a reabsorção desses líquidos sequestrados pode acentuar as perdas. Nessa primeira fase, o balanço hídrico positivo, con- sequente à sequestração de líquido no local da le- são, não deve ser considerado como sobrecarga de volume. Do mesmo modo, o balanço hídrico negativo na segunda fase não deve ser interpretado como deficit de volume. A determinação do balanço hídrico é obtida por análise comparativa entre o ganho total de líquidos, por ingestão de alimentos sólidos e líquidos, infusão de líquidos por via intravenosa e água endógena, e o total de perdas de líquidos, incluindo diurese, perdas insensíveis e perdas externas anormais, principalmen- te, oriundas do trato digestório, por exemplo, fístulas, cateteres e drenos (Tabela 4.5). Trocas usuais de líquidos em um homem adulto de 60 a 80 kg de peso corporal Ganhos de Água Perdas de Água Sensível Sensível Líquidos orais 800 a 1.500 mL Urina 800 a 1.500 mL Alimentos sólidos 500 a 700 mL Fezes 100 a 250 mL Insensível Insensível Água endógena 200 a 500 mL Pulmões e pele 500 a 1.000 mL Tabela 4.5 A água endógena produzida pela oxidação das proteínas e lipídios, geralmente, é de cerca de 400 mL. A principal fonte de perda de líquidos é a diurese, que varia, normalmente, entre 800 e 1.500 mL/dia. A excreção habitual de água pelas fezes é de cerca de 200 mL. As perdas insensíveis de líquidos no organismo representam as perdas de água que não são normal- mente visíveis ou mensuráveis, incluindo a água elimi- nada pelos pulmões, durante a ventilação, e pela pele, exceto a água perdida no suor. No adulto inativo e sem perspiração, as perdas insensíveis de água va- riam entre 0,5 a 0,6 mL/kg/hora, atingindo cerca de 500 a 1.000 mL/dia (média de 600 a 900 mL). Geralmente, 75% das perdas ocorrem pela pele e 25% pelos pulmões. Os pacientes em hiperventilação, com frequ- ência respiratória igual ou superior a 35 incursões por minuto, podem apresentar perdas de 1.000 mL de líquidos, além das perdas insensíveis normais, em consequência do aumento da evaporação pelo trato respiratório. Nos pacientes com traqueostomia não umidificada, as perdas de água podem atingir 500 a 1.500 mL/dia, além das perdas pulmonares habitu- ais. As perdas hídricas insensíveis estão aumentadas nos pacientes com temperatura corporal elevada. Du- rante o período febril, para cada grau acima de 37,2 ºC, deve ser acrescentada uma perda adicio- nal de 10%, acima das perdas insensíveis horá- rias habituais. O aumento na temperatura ambiente causa também maior perda diária de água. Cada au- mento de 3 ºC da temperatura ambiente, acima de 29 ºC aumenta as necessidades de água de cerca de 500 mL/dia. Outra fonte de perda de líquidos através da pele é o suor. Quando há sudorese excessiva, observa- -se aumento considerável nas perdas hídricas. Pós-operatório imediato Nas primeiras 24 horas, após a operação, a pres- crição de líquidos e eletrólitos deve basear-seno esta- do de hidratação pré-operatória, na estimativa de ga- nhos e perdas durante a operação, e no exame clínico do paciente, sobretudo, pela avaliação da frequência cardíaca, da pressão arterial, da frequência respirató- ria, da pressão venosa central e, principalmente, do débito urinário horário. No paciente com depleção de volume, quando a perda de sangue é excluída como fator causal, o surgi- mento de sinais clínicos compatíveis com hipovolemia indica que a reposição de líquidos e eletrólitos foi insufi- ciente no intraoperatório. Nesse caso, apesar da redução da excreção urinária de sódio em resposta ao trauma, a infusão de soluções contendo sódio pode ser indispensá- vel na reanimação do paciente cirúrgico. Nos pacientes submetidos às cirurgias de grande porte, associadas a grandes perdas de volume, torna-se difícil estimar a quantidade apropriada de líquidos para as 24 horas se- guintes. A conduta mais adequada consiste na infu- são rápida de solução salina balanceada, 1.000 mL de cada vez, sob rigorosa monitorização dos parâmetros clínicos, até a estabilização circulatória. Depois dis- so, procede-se à prescrição de líquidos de manuten- ção para o restante do dia. Entretanto, como a perda de líquidos no local do trauma cirúrgico persiste após o término da operação, com sequestro lento e contínuo de grandes volumes de líquido extracelular, torna-se funda- mental o diagnóstico precoce e o tratamento rápido da deficiência de líquidos e eletrólitos. A sobrecarga de volume, ainda que possa ocorrer em qualquer fase do período pós-operatório, é mais comum no pós-operatório imediato, principalmente, 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 quando se busca de modo obsessivo manter o débito urinário elevado, à custa da administração de grandes volumes de soluções contendo sódio. Não existe evi- dência fisiológica de que um volume urinário horá- rio de 100 mL é melhor que um de 50 mL. A administração de potássio é geralmente desnecessária ou, às vezes, até prejudicial, nas primeiras 24 horas após a operação. A reposição de potássio deve ser reservada para os casos evidentes de hipocalemia, e é iniciada após a confirmação de função renal adequada. No pós-operatório imediato, a administração inadvertida de potássio nos pacien- tes com insuficiência renal de débito elevado pode ser extremamente deletéria. A dificuldade no diag- nóstico da insuficiência renal de débito elevado está relacionada com o débito urinário normal ou acima do normal. Os pacientes, particularmente, suscetí- veis a essa complicação são aqueles que desenvolvem períodos de hipotensão, durante procedimentos ci- rúrgicos prolongados. Pós-operatório tardio A reposição pós-operatória de líquidos e de ele- trólitos não somente deve incluir as necessidades nor- mais de água e eletrólitos do paciente, como também as quantidades referentes ao sequestro de líquidos para o terceiro espaço e perdas eventuais por catete- res, drenos, fístulas ou feridas. O volume de líquidos calculado deve ser modificado de acordo com o estado de hidratação do paciente, para corrigir uma depleção ou sobrecarga de volume porventura existente. A esti- mativa do estado de hidratação do paciente baseia-se no balanço hídrico, mediante análise comparativa de ganhos e perdas de líquidos nas últimas 24 horas, e em avaliações de sinais e sintomas de sobrecarga ou depleção de volume, da pressão arterial, da frequên- cia cardíaca, do débito urinário, do peso corporal e de eletrólitos séricos e urinários. A comparação do peso corporal antes de o paciente entrar para a sala de operação com os pesos observados no pós-operatório constitui parâmetro muito útil para a avaliação das condições volumétricas do paciente. Embora o passado e o presente sejam analisados para ajudar na avaliação do estado de hidratação, a es- timativa das necessidades de líquidos e eletrólitos do paciente cirúrgico deve estar projetada e direcionada para eventos futuros, ou seja, na evolução pós-opera- tória do paciente das próximas 12 ou 24 horas. O volume das perdas de água pela urina não deve ser usualmente corrigido com igual volume de líqui- dos, porque um volume urinário de 2.000 a 3.000 mL nas últimas 24 horas pode representar administração excessiva de líquidos. Nesse caso, a reposição volume por volume resulta em sobrecarga adicional. Em circunstâncias normais, as necessidades diárias de água variam entre 30 a 35 mL/kg de peso corporal. Os valores normais e as necessidades diárias dos principais eletrólitos estão relacionados nas Tabelas 4.5 e 4.6, respectivamente. Nos pacientes sem intercorrências pós-opera- tórias e que requerem períodos curtos de reposição parenteral, a suplementação diária de eletrólitos é ge- ralmente feita de forma adequada, sem a necessidade de dosagem sérica dos eletrólitos. Nos pacientes em pós-operatório de cirurgias de grande porte, ou com perdas anormais excessivas, ou que necessitam de reposição parenteral prolongada, a administra- ção de eletrólitos deve basear-se em determinações plasmáticas apropriadas, principalmente quanto ao sódio, cloro, potássio e bicarbonato. Valores normais e médios dos eletrólitos no plasma Eletrólitos Variação (mEq/L) Valor Médio (mEq/L) Sódio 135 a 145 140 Potássio 3,5 a 5,5 4 Cloro 85 a 115 103 Bicarbonato 22 a 29 27 Cálcio 4,0 a 5,5 5 Magnésio 1,5 a 2,5 2 Tabela 4.6 Necessidades diárias dos principais eletrólitos Eletrólitos mEq/kg/dia mEq/dia Sódio 1 a 1,5 50 a 100 Potássio 1 50 a 80 Cálcio 0,2 a 0,3 8 a 10 Magnésio 0,35 a 0,45 18 a 33 Tabela 4.7 Nas primeiras 72 horas após a operação, ob- serva-se baixa tolerância do paciente à administra- ção intravenosa de água livre, porque o aumento na secreção de ADH limita a maior excreção urinária de água. Consequentemente, a administração de água em excesso para aumentar o volume urinário, que está usualmente baixo pelo aumento da atividade do ADH, pode provocar a hiponatremia iatrogênica. A administração diária de 100 g de glico- se (400 kcal) não somente elimina a cetose, como também reduzirá em 50% o catabolismo das pro- teínas endógenas, presumivelmente por reduzir a demanda por neoglicogênese. Quantidades maio- res parecem não produzir efeito proporcional. A in- fusão de 130 a 150 g/dia de glicose resulta em uma redução de 40% nas perdas de nitrogênio urinário. A dose de glicose não deverá ultrapassar a 0,5 g/kg/ hora. Além desse limite, poderá ocorrer maior perda de água, com agravamento das condições do pacien- 72 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 te. Na nutrição parenteral, as calorias provenientes da glicose são fornecidas a uma velocidade de infusão de aproximadamente 4 mg/kg/minuto. O fornecimento de carboidratos por via intravenosa em quantidades que superem a capacidade máxima de oxidação (5 mg/ kg/minuto em adultos) pode predispor à lipogênese e à infiltração gordurosa do fígado. A administração de 130 a 150 g/dia de glicose, distribuídos nas soluções administradas no pós-operatório, pela supressão en- dógena da produção de glicose, pode causar um efeito modesto de conservação de proteínas. O nitrogênio ureico urinário reduziu em 40% quando foi adminis- trada essa quantidade de glicose. Como exemplo, considera-se, geralmente, adequada a administração diária de 2.000 a 2.500 mL de água (solução de glicose a 5%), 75 mEq/L de sódio e 40 mEq de potássio, para o paciente adulto não demasiadamente obeso ou de baixo peso. Reposição de sódio Nas primeiras 72 horas após a operação, os pacientes geralmente não toleram a administra- ção de grandes quantidades de soluções contendo sódio quando comparados às condições normais, tornando-se edematosos com maior facilidade. A infusão volumosa de soluções salinas, quando há ain- da permeabilidade capilar alterada e intensa atividade dos mecanismos de conservação de sódio, proporcio- na uma diluição adicional das proteínas plasmáticas, favorecendo a forte tendência para o edema tecidual,sobretudo, dos pulmões, do cérebro e das áreas peri- féricas. A administração exagerada de líquidos com o objetivo de anular os mecanismos de conservação de sódio e minimizar os efeitos deletérios decorrentes da resposta orgânica ao trauma, geralmente, não produz o efeito esperado. Quando o volume extracelular efetivo é repos- to de forma adequada, durante o ato operatório e no pós-operatório imediato, com volumes apropriados de soluções salinas balanceadas, os rins conservam a ca- pacidade de excretar os excessos moderados de líqui- dos que eventualmente tenham sido administrados. No pós-operatório, a infusão de soluções salinas deve ser realizada com moderação e em quanti- dades suficientes para repor o deficit de volume extracelular, mantendo a pressão arterial e a frequ- ência cardíaca dentro dos padrões usuais pré-opera- tórios e um débito urinário de 30 a 50 mL/hora. A cautela na administração de soluções salinas deve ser ainda maior nos pacientes com reserva funcional car- díaca ou renal comprometida. A hiponatremia pós-operatória é uma causa muito frequente e potencialmente grave de hipona- tremia em pacientes internados. É causada por altos níveis de ADH circulante, relacionados ao estres- se cirúrgico, associado à infusão iatrogênica de solu- ção hipotônica no perioperatório (por exemplo, soro glicosado a 5%). Irrigação vesical com soluções hipo- tônicas nas ressecções transuretrais de próstata pode contribuir para alguns casos. O tratamento da hiponatremia depende da cau- sa, do tempo de instalação e da presença de sintomas e comorbidades. Hiponatremias de instalação lenta levam a alterações adaptativas nas células nervosas, que perdem substâncias orgânicas osmoticamente ativas na tentativa de equilibrar as osmolalidades in- tra e extracelulares e evitar o edema cerebral. Nesse caso, se a correção da hiponatremia for inade- quadamente rápida, haverá redução abrupta da osmolalidade extracelular com consequente de- sidratação das células nervosas, resultando em desmielinização osmótica. A mielinólise pontina é a sua manifesta- ção mais conhecida e grave, e suas principais características incluem tetraparesia espástica, paralisia pseudobulbar, labilidade emocional, agitação, paranoia, alterações pupilares, ataxia, incontinência urinária e coma. Etilismo, desnutri- ção, hipopotassemia, cirrose, grandes queimaduras e perimenopausa em uso de diuréticos tiazídicos são os principais fatores de risco para o seu desenvolvi- mento. A desmielinização osmótica, particularmente a mielinólise pontina, embora rara, é uma entidade gravíssima e passível de prevenção. Assim, indivíduos com hiponatremias agudas são mais suscetíveis a sequelas neurológicas perma- nentes em decorrência do edema cerebral quando a hiponatremia não for corrigida prontamente, enquan- to indivíduos com hiponatremia crônica são mais sus- cetíveis a desmielinização osmótica se a hiponatremia for corrigida rapidamente. A velocidade de corre- ção do sódio não deve exceder 0,5-1 mEq/L/h (12 mEq/L em 24 horas), salvo em hiponatremias agudas graves com encefalopatia hiponatrêmica importante (convulsões e coma) nas quais se po- dem corrigir o sódio em 5-8 mEq/L nas primei- ras 4-6 horas; entretanto, mesmo nesses casos, a correção máxima nas primeiras 24 horas não deve exceder 12 mEq/L. Nos casos com hipovolemia ou desidratação, o tratamento é realizado com solução salina isotônica (SF 0,9%), até a restauração de volume extracelular adequado. Nos casos associados à hipervolemia e edema, a compensação da doença de base melhoran- do a perfusão sistêmica associada à restrição hídrica é suficiente para o tratamento da hiponatremia. Nes- ses casos, a furosemida pode ser utilizada, e a res- trição de sódio é mandatória, pois o sódio corpóreo total está aumentado. 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 Nos casos euvolêmicos (SIADH), solução sa- lina hipertônica a 3% é indicada quando houver sintomas e se a hiponatremia for grave e aguda. Nos casos crônicos de SIADH assintomáticos, po- de-se utilizar a restrição hídrica isoladamente. Podem-se utilizar também diuréticos de alça associa- dos a maior ingestão de cloreto de sódio. Se houver falha terapêutica com essas medidas, a demeclociclina na dose de 600-1.200 mg/dia pode ajudar mediante indução de diabete insípido nefrogênico. Deve-se atentar para o fato de que a velocidade de correção do sódio deve ser respeitada mesmo nos casos em que não se utiliza a solução salina hipertô- nica, como em casos com hipovolêmia intensa e nos hipervolêmicos edemaciados. Mesmo em indivíduos euvolêmicos com hiponatremia crônica oligo ou assin- tomática causada por algum agente, em que o trata- mento, muitas vezes, é apenas a suspensão do agente, a velocidade de correção deve ser observada e, se ul- trapassada, indicam-se soluções hipotônicas intrave- nosas para retomar um nível seguro de concentração de sódio. A Tabela 4.8 mostra os princípios do trata- mento da hiponatremia. Princípios do tratamento da hiponatremia Não corrigir rapidamente o sódio (máximo 12 mEq/L em 24 horas). Utilizar as fórmulas conhecidas para calcular a variação do sódio com a infusão de 1 litro de qualquer solução. Restrição hídrica não é útil em todos os casos; está in- dicada nos hipervolêmicos e na SIADH. Solução hipertônica não é útil em todos os casos, parti- cularmente nos indivíduos com hipervolemia. Solução salina isotônica não é útil em todos os casos; é in- dicada para indivíduos com hiponatremia e desidratação/ hipovolemia. Tabela 4.8 Na hipernatremia, o tratamento também é orientado pelo estado do volume extracelular. Na vi- gência de depleção de volume, o tratamento consis- te na restauração da volemia com soluções salinas hipotônicas (0,45%) ou isotônicas. Após a estabili- zação das condições hemodinâmicas, indica-se a admi- nistração de água, por via oral, ou solução de glicose a 5%, por via intravenosa. No paciente com hiperna- tremia e normovolemia, o tratamento preferen- cial é a administração de água por via oral ou por infusão intravenosa de solução de glicose a 5%. Se a hipernatremia está associada ao excesso de volume extracelular, o tratamento deve incluir administração simultânea de água livre e de diuréticos para a remo- ção do excesso de solutos. A infusão exclusiva de água pode aumentar a expansão do volume extracelular e agravar a função cardíaca e a pulmonar. Fórmula de Adrogué-Madias para reposição de Sódio: ∆Na+ = (Na+ infusão + K + infusão*) – Na + sérico Água corporal total + 1 ΔNa+: mudança esperada no Na+ a cada litro de solução infundido. (*) caso a solução não possua K+, exclua essa variável da fórmula. Na+ infusão: [Na+] em mEq por litro da solução escolhida. Soluções: NaCL 5% = 855 mEq/L de Na+ NaCL 3% = 513 mEq/L de Na+ NaCL 0,9% = 154 mEq/L de Na+ NaCL 0,45% = 77 mEq/L de Na+ Ringer lactato = 130 mEq/L de Na+ Glicose 5% = 0 mEq/L de Na+ Tabela 4.8 Água corporal total 0,6 x peso (homem jovem) 0,5 x peso (homem idoso) 0,5 x peso (mulher jovem) 0,45 x peso (mulher idosa) Tabela 4.9 A Fórmula de Adrogué-Madias é a maneira mais eficiente e segura de corrigir distúrbios de sódio sérico (disnatremias) em pacientes sinto- máticos, determinando boa reprodutibilidade e capacidade de predizer o sódio sérico dosado ao final da infusão. Foi proposta em 1997 por Adrogué HJ e Madias NE, em publicação no período Intensive Care Medicine. É amplamente aceita e é considerada uma das maneiras mais fáceis de calcular com relati- va precisão a quantidade de fluido a ser infundido, de acordo com a solução salina escolhida. Reposição de Potássio O catabolismo tecidual e o trauma operatório causam um aumento na liberação endógena de po- tássio, o que justifica a restrição desse íon durante o período pós-operatório imediato. Nos pacientes com hipocalemia pré-operatória, a reposição imedia- ta de potássio no pós-operatório pode ser necessária, desde que seja realizada após a confirmação labora- torialda hipocaliemia e sob rigorosa monitorização. Depois do prazo de 24 horas da operação, a admi- nistração de potássio torna-se essencial, em conse- 74 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 quência da grande perda urinária durante o perío- do de atividade endócrina máxima, sobretudo, pelo aumento na secreção de aldosterona. A hipocalemia é um distúrbio comum no pós-operatório, e geralmente é causada por suple- mentação inadequada de potássio, excreção renal excessiva, ou por perdas acentuadas de secreções di- gestivas. As perdas de potássio ocorrem, principal- mente, nos três primeiros dias após a operação, essencialmente, pelas vias urinárias, com excreção de 30 a 60 mEq/ dia de potássio. No pós-operatório, recomenda-se, usualmente, a suplementação de 40 a 80 mEq/dia de potássio. Na maioria dos pacientes cirúrgicos, a infusão de 40 mEq de potássio é ge- ralmente suficiente para evitar a hipocaliemia pós- -operatória. Antes de começar a infusão de potássio é sempre imprescindível verificar se o paciente tem uma diurese adequada, ou seja, de 30 a 50 mL/hora. As perdas volumosas ou persistentes de se- creções digestivas no pós-operatório podem causar depleção substancial de potássio. A administração de 20 a 40 mEq de potássio para cada 1.000 mL de lí- quido gastrointestinal perdido é geralmente suficiente para evitar os efeitos deletérios da hipocaliemia, des- de que o paciente tenha função renal preservada e vo- lume urinário dentro da normalidade. A hipocalemia deve ser apontada como pos- sível fator causal quando se observam arritmias cardíacas, sem uma causa aparente, em pacien- tes operados. Se for o caso, a reposição de potássio é geralmente suficiente para a correção da arritmia. Todavia, como o magnésio é essencial para o contro- le da concentração intracelular de potássio, tem sido sugerido que a arritmia cardíaca pode ser também se- cundária à depleção de magnésio. Alterações eletrocardiográficas nos distúrbios do potássio ECG Hipocalemia Hipercalemia Onda P Pontiaguda: aumento de amplitude. Diminuição progres- siva, podendo estar ausente. Aumento do intervalo PR. Complexo QRS Aumeno de amplitu- de e duração Alargamento. Segmento ST Depressão com in- fradesnivelamento. Supradesnivelamento. Onda T Achatada: redução de amplitude. Outras alterações Aparecimento da onda U. Aparecimento da onda U. Ritmos ectópicos. Distúrbios na condu- ção atrioventricular. Tabela 4.10 [K+] sérico < 3,0 mEq/L = deficit > 300 mEq/L [K+] sérico < 2,0 mEq/L = deficit > 700 mEq/L Reposição de Cálcio Em pacientes cirúrgicos sem complicações, a administração de cálcio de rotina no pós-ope- ratório é geralmente desnecessária, porque as alterações de cálcio são infrequentes. Nos pacien- tes com pancreatite aguda, imobilização prolongada, infecção grave de partes moles, fístulas digestivas e hipomagnesemia, a reposição de cálcio pode ser ne- cessária. Os sintomas da hipocalcemia dependem, além do grau e da velocidade da queda do cálcio sérico, do estado acidobásico, de hipomagnesemia concomitan- te e da hiperatividade simpática. Os sintomas são mais comuns com níveis de cálcio menores que 7,0-7,5 mg/dL (1,8-1,875 mmol/L), ou cálcio iô- nico < 0,7 mmol/L (2,8 mg/dL), e predominam as manifestações de irritabilidade neuromuscular, como parestesias de extremidades e perioral, fraqueza muscular, sinais de Chvostek e Trousseau, cãibras e mialgia, laringoespasmo, disfagia e cólicas abdomi- nais, tetania, hiperreflexia, espasmo carpopedal, dis- túrbios do movimento e convulsões focais e genera- lizadas. As manifestações cardíacas incluem pro- longamento de intervalo QT que pode evoluir para fibrilação ventricular e BAVT e diminuição da contratilidade miocárdica com insuficiência cardíaca (hipocalcemias crônicas). Sintomas neurop- siquiátricos também podem estar presentes, como an- siedade, irritabilidade, psicose, demência e depressão. O tratamento depende da gravidade da hipocal- cemia. Nos casos graves sintomáticos, a reposição de cálcio parenteral é recomendada e deve ser feita preferencialmente com gluconato de cálcio a 10%. Para tetania e convulsões hipocalcêmicas, ad- ministram-se 10-20 mL de gluconato de cálcio em 10 minutos (infusão mais rápida está associada a arrit- mias cardíacas), repetindo-se a dose até controle dos sintomas. Nos casos em que há um processo contínuo levando a hipocalcemia (por exemplo, na síndrome da fome óssea após paratireoidectomia), recomenda- -se infusão contínua de cálcio, com doses de até 10 ampolas de gluconato de cálcio 10% em 8-10 horas e monitorização frequente do cálcio sérico. Além disso, o magnésio deve ser reposto, caso haja hipomagnese- mia, uma vez que a depleção de magnésio inibe a se- creção do PTH. Após o tratamento de emergência, já se inicia a reposição de cálcio por via oral. O tratamento da hipocalcemia crônica (particu- larmente, aquela associada ao hipoparatireoidismo) inclui cálcio por via oral (1-2 g/dia), que pode ser ad- 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 ministrado na forma de carbonato de cálcio ou citrato de cálcio; esse último, embora contenha apenas 21% de cálcio, apresenta melhor absorção com menos in- tolerância gastrointestinal; e vitamina D, que pode ser administrada como vitamina D2 (ergocalciferol) na dose de 25.000-150.000 U/dia ou vitamina D3 (calcitriol), na dose de 0,25-2 µg/dia. A preparação de escolha é o ergocalciferol, que apresenta ação lenta e prolongada, produzindo níveis de cálcio mais estáveis e custo mais baixo. O calcitriol, geralmente, é reserva- do para hipocalcemias agudas, mas tem sido usado em casos crônicos por apresentar menor risco de intoxica- ção, embora tenha custo elevado. Relação Ca++ e albumina A concentração de albumina pode dar uma ideia errada dos níveis séricos de cálcio. O cálcio pode ser dosado em níveis séricos (carreado por albumina) e ionizados 45%-50% e é responsável pela estabilidade neuromuscular. A cada 1 g que cai a albumina, o cálcio cai 0,8. Ca++ corrigido = Ca++ medido + [(4,0 – albumina) x 0,8] Reposição de magnésio Em pacientes cirúrgicos, a hipomagnesemia pode ser observada nos casos de perdas prolongadas ou excessivas de líquidos digestivos, por uso prolonga- do de cateter nasogástrico ou fístulas digestivas, e nas operações de grande porte, em consequência, às per- das exageradas pela urina. A hipomagnesemia pode ocorrer também com o uso prolongado de diuréticos no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva e com as grandes perdas urinárias da fase diurética da necrose tubular aguda. A frequente associação da hipomagnesemia à hi- pocalemia, à hipocalcemia e à alcalose metabólica difi- culta a definição dos sintomas específicos da deficiência de magnésio. Assim, as determinações sérica e urinária do magnésio constituem índices úteis para o diagnóstico. No período pós-operatório, a deficiência de mag- nésio deve ser considerada nos pacientes que apresen- tam atividade neuromuscular ou cerebral alterada. A deficiência de magnésio é frequente no pós-opera- tório de pacientes alcoólatras e de pacientes des- nutridos. Para evitar a depleção, recomenda-se a in- fusão de 10 a 20 mEq/dia de magnésio utilizando-se, geralmente, da solução de sulfato de magnésio, por via intravenosa ou intramuscular. A infusão intraveno- sa de magnésio não deve ser feita nos pacientes com oligúria ou com depleção grave de volume, devendo ser iniciada após confirmação da função re- nal adequada. Soluções para uso intravenoso Nas Tabelas 4.12 e 4.13, estão relacionadas às soluções parenterais mais comumente utilizadas por via intravenosa. A solução de Ringer lactato é a que mais se assemelha ao líquido extracelular, e pode ser con- siderado o preparado mais fisiológico. Entretanto, é uma solução levemente hipotônica, e, quando ad- ministrada, em grande quantidade, pode determinar a liberação de quantidades não desprezíveis de água livre. Cada litro dessa soluçãoproporciona 100 a 150 mL de água livre. O lactato é convertido em bicar- bonato pelo fígado, após a infusão. A utilização do lactato, em vez do bicarbonato, está relacionada com a maior estabilidade do primeiro nas soluções eletrolíticas para uso intravenoso. Quanto ao uso da solução de Ringer lactato nos pacientes com choque, sempre houve a inquietação quanto à possibilidade de agravamento da acidose láctica. Porém, diversos autores têm demonstrado que essa preocupação é improcedente, desde que houve normalização mais rápida do lactato, do pH e do excesso de base nos pa- cientes que receberam Ringer lactato de forma rápida e contínua. A solução de cloreto de sódio a 0,9%, também denominada de solução salina normal, caracteriza-se pela alta concentração de cloro e sódio em relação à concentração plasmática normal. Quando adminis- tradas em grande quantidade, o excesso de cloro pode produzir acidose metabólica moderada. Essa solução é ideal para a correção de uma depleção de volume extracelular associada à hiponatremia, à hipoclo- remia e à alcalose metabólica. Do volume de solução salina administrada, cerca de 25% de cada litro perma- necem no espaço intravascular e 75% são desviados para o espaço intersticial. A solução de cloreto de sódio a 3% ou 5% é in- dicada para o tratamento dos pacientes com hipo- natremia grave, aguda ou crônica, associada a dis- túrbios neurológicos. A solução de albumina a 20%, utilizada como ex- pansor do volume plasmático, tem sido recomendada no tratamento da hipoalbuminemia grave, principal- mente com fator de restauração da atividade osmótica específica do plasma. Todavia, há várias indefinições sobre a eficácia, as indicações e as doses apropriadas de albumina. Provavelmente, há um limite inferior de- finido de concentração plasmática de albumina, além do qual pode aumentar a predisposição ao edema pul- monar e ao íleo paralítico, e interferir na cicatrização das feridas. Quando a albumina é administrada por via intravenosa, o tempo de permanência no espaço vascular é temporário, porque o espaço final de ocu- 76 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 pação da albumina é aproximadamente o dobro do volume plasmático, em consequência da sua redistri- buição no compartimento extravascular. O período de permanência intravascular da albumina varia, prova- velmente, na dependência da intensidade da permea- bilidade capilar. Em circunstâncias normais, a albu- mina administrada tem uma vida média de 11 dias. Quando possível, a normalização dos níveis plasmáti- cos de albumina é conseguida com mais eficiência pelo metabolismo endógeno, mediante oferta de suporte nutricional adequado. Para o cálculo do deficit estimado de albumina, com base na concentração plasmática e no volume de plasma, torna-se necessário que o resultado encon- trado seja multiplicado por dois. A administração da solução contendo albumina é mais efetiva quando adicionada em solução salina normal. Quanto à velocidade de infusão da albumina, reco- menda-se que seja lenta, para minimizar os riscos da expansão súbita do compartimento intravascular, com sobrecarga cardíaca adicional e desenvolvimen- to de edema pulmonar. Indicações indiscutíveis de albumina 1- Priming da bomba de circulação extracorpórea nas cirurgias cardíacas. 2- Tratamento das ascites volumosas por paracenteses re- petidas. 3- Após paracenteses evacuadoras nas ascites volumo- sas (mais de cinco litros retirados). 4- Como líquido de reposição nas plasmaféreses te- rapêuticas de grande monta (retirada de mais de 20 mL/kg de plasma por sessão). 5- Prevenção da síndrome de hiperestimulação ovaria- na no dia da coleta do óvulo para fertilização in vitro. 6- Cirrose hepática e síndrome nefrótica, quando hou- ver edemas refratários aos diuréticos e que coloquem em risco iminente a vida dos pacientes. 7- Grandes queimados, após as primeiras 24 horas pós-queimadura. 8- Pós-operatório de transplante de fígado, quando a albumina sérica for inferior a 2,5 g%. Indicações não fundamentadas de albumina 1- Correção de hipoalbuminemia. 2- Correção de perdas volêmicas agudas, incluindo choque hemorrágico. 3- Tratamento crônico da cirrose hepática ou da sín- drome nefrótica. 4- Perioperatório, exceto nos casos mencionados anterior- mente. Tabela 4.11 Composição das soluções parenterais de uso mais comum por via intravenosa. Composição eletrolítica do líquido extracelular para permitir análise comparativa Soluções* Na+ K+ Ca++ Mg++ CL- HCO3 - Calorias Líquido extracelular 142 4 5 3 103 24† - Ringer lactato 130 4 3 - 109 28† - Ringer simples 147 4 5 - 156 - - Cloreto sódio 0,45% 77 - - - 77 - - Cloreto sódio 0,9% 154 - - - 154 - - Cloreto sódio 3% 513 - - - 513 - - Cloreto sódio 5% 855 - - - 855 - - Glicose 5% - - - - - - 200 Glicose 10% - - - - - - 400 Glicose 5% + cloreto sódio 0,45% 77 - - - 77 - 200 Glicose 5% + cloreto sódio 0,9% 154 - - - 154 - 200 Tabela 4.12 (*) Eletrólitos (mEq/L) e calorias (kcal/L); †Em circunstâncias normais, o lactato é metabolizado com produção de bicarbonato. A composição do RL: cloreto de sódio 0,6 g; cloreto de potássio 0,03 g; cloreto de cálcio di-hidratado 0,02 g; lactato de sódio 0,31g e água para injeção q.s.p. 100 mL. Composição das soluções parenterais suplemen- tares para uso intravenoso (med em 10 mL) Soluções (10 mL) Na + K+ Ca++ Mg++ Cl- HCO3 - H2PO4 - SO4 - Bicarbonato sódio 10% 12 - - - - 12 - - Bicarbonato sódio 8,4% 10 - - - - 10 - - Cloreto sódio 20% 34,2 - - - 34,2 - - - Cloreto po- tássio 10% - 13,4 - - 13,4 - - - Cloreto po- tássio 15% - 20,1 - - 20,1 - - - Cloreto po- tássio 19,1% - 25 - - 25 - - - Sulfato mag- nésio 10% - - - 8 - - - 8 Sulfato mag- nésio 50% - - - 40 - - - 40 Gluconato cálcio 10% - - 4,5 - - - - - Fosfato po- tássio 25% - 14 - - - - 14 - Tabela 4.13 3 4 Pós-operatório I SJT Residência Médica – 2016 CAPÍTULO 5 Pós-operatório II Introdução Durante o jejum, algumas alterações hormonais e metabólicas ocorrem para que o organismo se adap- te à situação presente. Em cirurgia, o jejum é extre- mamente comum e habitual em todas as operações por um período aproximado de 6 horas. Uma carga de carboidratos 2 horas antes da operação é segura e capaz de reduzir a resistência periférica à insulina que acontece após o trauma operatório. Depois de algu- mas horas em jejum, os níveis de insulina caem en- quanto os do glucagon aumentam, determinando uma rápida utilização dos parcos recursos de glico- gênio armazenado pelo organismo, especialmente no fígado. Os níveis séricos do hormônio do cres- cimento também se elevam caso haja hipoglicemia ou diminuição de circulação de ácidos graxos livres. Como a reserva de glicogênio é pequena e se exaure em pouco tempo, a gliconeogênese passa a ser vital, pois o SNC e as células sanguíneas são altamente de- pendentes da glicose para suas atividades metabólicas durante o período inicial do jejum não adaptado. As- sim, o fígado converterá aminoácidos e glicerol (resultante da quebra dos triglicérides armazenados em glicerol e ácidos graxos) em glicose. Esse fenôme- no parece ter regulação central envolvendo uma maior secreção de ACTH pela hipófi se e, consequentemente, aumento da secreção de cortisol pela suprarrenal. O cortisol, associado à queda da insulina e ao au- mento dos hormônios tireoidianos e adrenérgi- cos, determina uma mobilização das proteínas musculares que passam a fornecer, por meio de reações catabólicas, aminoácidos na corrente sanguínea. Entre os aminoácidos, a alanina e a glu- tamina são os mais frequentes na corrente sanguí- nea e também os preferidos para a gliconeogêne- se, contribuindo com 75% dos átomos de carbono proteico da molécula de glicose neoformada. Como se verá adiante, a glutamina é especialmente im- portante no metabolismo da mucosa intestinal, na manutenção da defesa contra a translocação bacte- riana. Com o jejum (absorção zero de proteínas) e o catabolismoproteico acelerado, haverá balanço nitrogenado negativo, caracterizado pela excreção renal de 4 a 5 g por dia de nitrogênio. Isso equivale a uma perda diária de 300 a 400 g de massa magra por dia e, dessa maneira, em um jejum prolongado, 35% do total de massa magra será consumido em um mês. Caso o jejum se prolongue, o organismo tentará 3 5 Pós-operatório II SJT Residência Médica – 2016 adaptar-se diminuindo o gasto energético basal, porém, o óbito ocorrerá em aproximadamente 60 dias caso o indivíduo receba apenas água. A queda dos níveis de insulina, associado ao aumento do glucagon, leva a níveis aumentados de AMP cí- clico no tecido adiposo, resultando em estímulo à lipase hormônio-sensitiva para quebrar a molécula do triglicerídeo em glicerol e ácido graxo. Esses áci- dos graxos serão particularmente importantes no fornecimento de energia ao fígado para as reações da gliconeogênese hepática. Também será a fonte de energia para os órgãos nesse processo de adaptação à escassez de glicose. Os glóbulos vermelhos utilizam a glicose de modo anaeróbico e produzem, portanto, em seu metabolismo, o lactato e o piruvato. Em um mecanismo de adaptação e preservação de ener- gia, o lactato é convertido pela glicogênese em glicose, no chamado ciclo de Cori. Por outro lado, o piruvato é transaminado no musculoesquelético, con- vertido em alanina e glutamina que circulam no san- gue e são convertidas novamente em glicose pela gli- coneogênese hepática. Nesse último ciclo, participam também os aminoácidos de cadeia ramificada que são produzidos também pelo fígado durante o jejum e são importantes para estimular as sínteses proteicas. Com o prolongamento do jejum, progressivamente o cérebro passa a consumir mais corpos cetônicos e menos glicose. Nessa fase, a excreção urinária de amônia formada no rim pela transaminação da glu- tamina aumenta e passa a ser a forma de excreção nitrogenada mais comum. O conhecimento dessas alterações que ocorrem no jejum serve para enfa- tizar a necessidade de tentar, sempre que possível, minimizar as suas repercussões com fornecimento de calorias e, quando viável, de nutrientes, preco- cemente ao paciente cirúrgico. Nutrição no pós-operatório Quando iniciar dieta oral? Lembrar que a peristalse fica diminuída no pós- -operatório pelo manuseio das alças intestinais e pelo aumento da atividade simpática dos nervos esplânc- nicos. Ou seja, aparece um íleo adinâmico que pode ser mais ou menos prolongado em peritonites e res- secções de grandes tumores. Peristaltismo do intestino delgado = começa nas primeiras 6-24 h. Peristalse gástrica = 24-48 h. Peristaltismo colônico = 48-72 h. A presença de RH não quer dizer que todo o TGI retor- nou às suas atividades peristálticas de rotina. É conveniente aguardar o retorno com- pleto da peristalse + eliminação de flatos para iniciar a dieta. A dieta não precisa seguir a clássica evolução: líquida + líquida total + pastosa + sólidos etc., até dieta livre. Indicações para nutrição enteral A terapia nutricional enteral (TNE) é a primeira escolha de alimentação para o paciente que tem o trato gastrointestinal funcionante e não conse- gue ou não pode alimentar-se pela via oral. Após triagem e avaliação do estado nutricio- nal, a equipe multidisciplinar pode diagnosticar os pacientes incapazes de manter a ingestão calórico- -proteica adequada pela via oral. A indicação deve ser criteriosa, pois apresenta alto custo quando compa- rada com a dieta via oral normal. A TNE está indicada quando o paciente não deve ou não pode ser alimen- tado por via oral, ou o faz de maneira insuficiente para atender às suas necessidades, e o trato intesti- nal está funcionante e pode ser utilizado. Tem sua maior indicação quando a quantidade de calo- rias e de nutrientes ofertados pela via oral não é suficiente para a satisfação das necessidades nutricionais. Várias situações requerem a indicação da TNE por um tempo curto ou prolongado. A nutri- ção enteral pode ser indicada como via única de ali- mentação ou estar associada à nutrição parenteral ou a via oral, como frequentemente ocorre nos momen- tos de transição de uma via para outra. As Tabelas 5.1 e 5.2 sintetizam as principais contraindicações e indicações da TNE em cirurgia. Contraindicações radicais e relativas da nutrição enteral � Traumas abdominais. � Íleo paralítico prolongado. � Paciente hemodinamicamente instável. � Pancreatite aguda grave. � Vômitos incoercíveis. � Diarreia intratável. � Pós-operatório imediato em que a TNE está contrain- dicada. � Desnutrição grave com diarreia crônica intratável. � Enterite aguda (processo inflamatório grave, Crohn, colite ulcerativa). � Obstrução intestinal. � Sangramento crônico e maciço do trato intestinal. Tabela 5.1 80 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Indicações da terapia nutricional enteral em cirurgia Trato gastrointestinal íntegro � Lesão do SNC, acidente vascular cerebral. � Trauma muscular, cirurgias ortopédicas. � Grande queimado. � Neoplasias. � Anorexia/perda de peso. � Desnutrição aguda ou crônica. Dificuldade de ingestão via oral e/ou transtornos intestinais � Lesões orais ou esofágicas. � Deglutição comprometida: estenoses, adenocarcino- mas, megaesôfago. � Câncer de boca, faringe e esôfago. � Preparo nutricional pré-operatório para cirurgias do trato gastrointestinal (TGI). � Pós-operatório de pacientes que não vão receber nada via oral por pelo menos cinco dias. � Doença inflamatória do intestino delgado e grosso. � Síndromes de má absorção. � Fístulas digestivas. � Pancreatite aguda. � Enterite actínica ou por quimioterapia. � Estados hipermetabólicos. � Síndrome do intestino curto. � Desnutrição grave, com ou sem doença de base. Tabela 5.2 Sistematização do início da TNE A TNE deve ser iniciada o mais precocemente possível (12 a 48 horas, após a agressão) no paciente hemodinamicamente estável, na presença de ruídos intestinais ou quando este estiver débil. No paciente com sonda gástrica, a diminuição do débito da sonda em sifonagem ou em drenagem (igual ou inferior a 200 mL) e o aspecto da secreção compatível com as características da secreção gástrica também são pa- râmetros para o início da TNE. Deve-se frisar, entre- tanto, que o uso de sonda nasogástrica de rotina em cirurgia não tem suporte de evidência na literatura e está associado a complicações pós-operatórias e pode ainda atrasar o início da alimentação do paciente. A TNE precoce melhora a resposta imunológica lo- cal e sistêmica, evita a translocação bacteriana, melhora o trofismo e a integridade da barreira intestinal, minimiza a resposta metabólica ao trauma e diminui a ocorrência de sepse. A alimentação por sonda deve sempre ser ini- ciada em pequenos volumes (20 a 40 mL/hora), de preferência com bomba de infusão, com densida- de calórica de 1 a 1,5 cal/mL. A fórmula escolhida vai depender do quadro clínico e nutricional (por exemplo, hidrolisada, polimérica, padrão, específica, com imunonutriente ou não). No período de três a cinco dias, dependendo da evolução, o paciente deverá estar recebendo todo o aporte calórico e proteico necessário. Sistematização do término da TNE A TNE deve finalizar quando o paciente apresen- tar condições clínicas favoráveis para receber dieta via oral. É necessário iniciar com uma dieta de consistên- cia que o paciente mais tolerar (geralmente, líquida ou semilíquida) em pequenos volumes. Deve-se observar a ocorrência de engasgo, tosse, disfagia, odinofagia e refluxo gastroesofágico da dieta oferecida. Quando o paciente passa a aceitar 50% a 60% das suas necessidades nutricionais pela via oral por pelo menos três dias consecutivos, pode-se iniciar o desmame gradativo da nutrição enteral. Vias de acesso para a TNE A via de acesso está diretamente ligada ao quadro clínico do paciente, ao tipo de formulação a ser pres- crita e às condições do trato intestinal (mecanismos dedigestão, absorção, excreção e proteção), variando em localização gástrica e pós-pilórica (duodenal e jejunal). Há grande discussão na literatura a respeito do melhor posicionamento da sonda. Uma recente metanálise mostrou que, em pacientes críticos, a melhor posição da sonda é pós-pilórica. Existem quadros particulares bem definidos, como na pancreatite, em que a sonda deve estar posicionada no jejuno para deixar o pâncreas em repouso. O acesso também depende do tempo em que o paciente deverá permanecer com esta terapia. As son- das nasoentéricas estão indicadas para pacientes que permanecerão quatro a seis semanas com este suporte nutricional e as estomias para os que necessitarão de um tempo maior que seis semanas. As principais vias de acesso são a orogástrica, a nasogástrica, a nasoduo- denal, a nasojejunal, a gastrostomia e a jejunostomia. Na Tabela 5.3, estão as principais vantagens e desvan- tagens da localização gástrica e pós-pilórica. Principais vantagens e desvantagens quanto à localização da sonda ou do estorna Localização gástrica Vantagens Maior tolerância a fórmulas hiperosmolares. Mais fisiológica. Progressão mais rápida para se alcançar as necessidades nutricionais do paciente. Permite o uso de formulações mais baratas e caseiras. Introdução de grandes volumes ao mesmo tempo. Fácil posicionamento da sonda. Melhor tolerância à administração sem a bomba de in- fusão. Melhor via para pacientes conscientes não acamados. 3 5 Pós-operatório II SJT Residência Médica – 2016 Principais vantagens e desvantagens quanto à localização da sonda ou do estorna (Cont.) Desvantagens Risco de aspiração em pacientes com dificuldades de deglutição e críticos. Maior facilidade de refluxo e broncoaspiração. Maior facilidade de saída acidental da sonda. Contraindicada para pacientes que terão de permane- cer por mais de três meses com a sonda. Só pode ser utilizada em pacientes com esvaziamento gástrico preservado. Localização pós-pilórica Vantagens Pode ser usada em pacientes com retardo do esvaziamen- to gástrico e gastroparesia. Menor risco de broncoaspiração e refluxo. Melhor via no pós-operatório imediato. Menor probabilidade de saída acidental da sonda. Desvantagens Maior dificuldade de posicionamento da sonda. Não tolera grande volume nem alta osmolaridade e visco- sidade da dieta. Maior custo com as fórmulas. Requer sondas mais flexíveis, que têm custo mais ele- vado. Estomias Vantagens Sondas de maiores calibres que toleram soluções mais viscosas. Maior tempo de permanência com a sonda. Desvantagens Estresse em razão do processo cirúrgico para implantação da sonda. Maiores cuidados com a sonda. Vazamento do conteúdo gastrointestinal para a cavidade ab- dominal. Deiscência da parede abdominal. Deslocamento da sonda com deiscência da sutura. Escoriações e hiperemia da pele. Tabela 5.3 Técnicas de administração Após a escolha da via de acesso, deve-se escolher o método de administração da dieta, que vai depender do local da sonda, da fórmula selecionada, do calibre da sonda e do estado clínico do paciente. As técnicas de administração incluem gotejamento contínuo, go- tejamento intermitente e bolo. Gotejamento contínuo A dieta é administrada através de bomba de infu- são. Indicado para casos críticos, pacientes internados em UTI que comumente estão contidos no leito. Tem a vantagem de poder controlar rigorosamente o volume prescrito e infundido e a velocidade de infusão. Tem a desvantagem do alto custo e manutenção das bombas e equipamentos específicos e, ainda, dificultam a mo- bilização de pacientes não acamados. Gotejamento intermitente A administração da dieta é realizada por perío- dos, com o volume variando entre 50 a 300 mL, 4 a 6 vezes ao dia, durante 30 a 60 minutos. Tem a vanta- gem de facilitar a deambulação do paciente, diminuir o custo comparado ao gotejamento contínuo, pois não necessita de bomba infusora. A grande desvantagem é o não controle da infusão que pode ocorrer mais rá- pido do que o programado, facilitando a ocorrência de náuseas, vômitos, distensão abdominal, refluxo, aspi- ração e diarreia osmótica. Bolo É um método pouco utilizado e, geralmente, con- traindicado. A dieta é administrada lentamente com auxílio de uma seringa, com o volume variando entre 50 a 300 mL, 4 a 6 vezes ao dia, por 10 a 15 minutos. Nutrição enteral cíclica A escolha de um ou mais períodos para a alimen- tação do paciente é chamado nutrição enteral cíclica (NEC). É muito comum, durante alguns procedimen- tos matutinos, como banho de leito, realização de exa- mes ou fisioterapia, ocorrer a saída acidental da sonda ou até mesmo a paralisação da dieta por obstrução da sonda ou vômitos. Para evitar essas intercorrências, indica-se a NEC, passando o paciente a receber a die- ta enteral noturna, por exemplo, das 24 às 6 horas da manhã. Os pacientes domiciliares, em terapia nutri- cional enteral prolongada e que trabalham ou estu- dam, podem escolher o horário mais adequado para a infusão da TNE. Avaliação da TNE A monitorização da TNE permite maior controle e prevenção das intercorrências, proporcionando uma melhora clínica nutricional mais rápida e redução efe- tiva dos custos hospitalares. Para o sucesso da terapia é importante o trabalho da equipe multiprofissional de terapia nutricional e que cada membro conheça e valo- rize o papel de cada profissional. Recomenda-se diaria- mente visitas à beira do leito, inteirar-se das anotações e discussões realizadas pela equipe, avaliar a evolução clínica por meio dos resultados de exames, dos dados nutricionais e antropométricos e avaliar, periodicamen- te, os requerimentos nutricionais. Ajustes nas calorias frente à ocorrência de sepse e aumento das calorias nos períodos de anabolismo devem ser feitos. A checagem do volume de dieta administrada e as intercorrências como vômitos, distensão abdominal, peristalse intesti- nal, diarreia e a constipação intestinal também devem ser preocupações diárias da equipe. 82 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Complicações da TNE A TNE praticamente não é acompanhada de complicações graves. A mais temida e grave é a broncoaspiração, que, felizmente, não é comum. A maioria pode ser prevenida e tratada, desde que a terapia seja bem monitorizada. As complicações são classificadas em: mecânicas relacionadas com a sonda, metabólicas, gastrointestinais, infecciosas, respirató- rias e psicológicas. As principais complicações da TNE podem ser vistas na Tabela 5.4. Complicações da TNE Complicações Diarreia/cólicas intestinais. Flatulência/distensão abdominal. Constipação intestinal. Náuseas/vômitos. Estase gástrica. Gastroenterocolites. Refluxo gastroesofágico. Broncoaspiração. Pneumonias aspirativas/infecciosas. Hiperglicemias/hipoglicemias. Distúrbios hídricos/desidratação e hiperidratação. Carências nutricionais. Saída e migração acidental da sonda. Obstrução da sonda. Fístulas traqueoesofágicas. Contaminação da formulação. Esofagite/faringite/rouquidão/sinusite aguda. Necrose de aba de nariz. Abscesso septo-nasal. Estenose. Diminuição da capacidade gástrica. Ansiedade/depressão. Falta de estímulo ao paladar. Tabela 5.4 Cuidados gerais durante a TNE Durante e após a administração da dieta enteral, o paciente deverá ser mantido em cabeceira elevada em ângulo de 45°. Deve-se anotar no rótulo da dieta o nome do paciente, o volume da dieta, a velocidade de infusão e o horário. Antes da administração, deve-se certificar das características da dieta, observando tipo de fórmula, cor, fluidez, identificação e se confere com a prescrição nutricional. Após a administração de dieta e de medicamentos, deve-se infundir água (10 a 50 mL) para evitar a formação de grumos e obstrução da sonda. O volume infundido e a velocidade de infusão de- vem ser controlados rigorosamente. O equipo do sistema fechado deve ser tro- cado a cada 24 horas, verificando-se sempre se o equipamento está adequado para o sistema. O gotejamentodeve ser mantido uniforme para evi- tar paralisação da dieta e obstrução da sonda. Evitar, sempre que possível, administrar dietas junto com as medicações para evitar interações. Sempre que possí- vel, fazer controle bacteriológico das dietas, dos uten- sílios, dos equipamentos e do local de manipulação das fórmulas. É importante observar, periodicamente, através de radiografia a localização da sonda. A mobi- lização do paciente deve sempre ser estimulada e re- alizada para evitar a formação de úlceras de pressão. Proceder a cuidados higiênicos e de assepsia com a boca, narinas e as estomias. Sempre que possível, pro- porcionar aos pacientes e familiares apoio psicológico. Classificação das fórmulas enterais As formulas na TNE podem ser classificadas em: a) artesanais ou naturais: preparadas a partir de alimentos in natura e ou industrializados liquidifi- cados preparados no lactário ou cozinha dietética; b) industrializadas: preparadas integralmente pela indústria farmacêutica, necessitando de pequena ou nenhuma manipulação prévia para o uso. As industrializadas são classificadas em: a) poliméricas: compostas de proteínas, carboi- dratos e lipídios íntegros de peso molecular elevado que requerem um trabalho digestivo maior e a osmo- laridade da solução é menor que das fórmulas pré- -digeridas; b) pré-digeridas ou oligoméricas ou semiele- mentares: são compostas de nutrientes de baixo peso molecular que requerem capacidade absortiva digesti- va mínima; são produtos hiperosmolares; c) monoméricas ou elementares: são compos- tos com menor peso molecular que requerem mínimo esforço para absorção; d) fórmulas especiais ou específicas: são pro- dutos destinados aos nefropatas, aos hepatopatas, aos pneumopatas, aos diabéticos, aos imunodepri- midos e outros; e) modulares: são compostos concentrados de nutrientes (proteínas, lipídios ou hidratos de carbono, minerais e vitaminas), nutricionalmente incompletos, que podem ser combinados entre si para produzir uma dieta nutricionalmente completa ou serem acrescidos a uma fórmula enteral com composição pré-fixada, atingindo uma fórmula nutricional individualizada; f) fórmulas suplementares: fórmulas utilizadas para nutrição enteral oral ou por sonda destinadas à suplementação a uma dieta oral, enteral ou parenteral; g) fórmulas infantis: destinadas especificamen- te a crianças; 3 5 Pós-operatório II SJT Residência Médica – 2016 h) fórmulas enriquecidas com nutrientes imu- nomoduladores: específicas para pacientes críticos imunodeprimidos, com ou sem sepse. Os principais imunonutrientes são a gluta- mina, a arginina, os nucleotídeos, os ácidos gra- xos ômega-3 e os antioxidantes. Dos imunonu- trientes destacamos a glutamina. Glutamina A glutamina é um aminoácido não essencial que pode ser sintetizado em quase todos os tecidos do organismo. É o aminoácido mais abundante no plasma e é avidamente captado pelo enterócito, tanto pela corrente sanguínea quanto pela luz intes- tinal, que a usa como seu substrato energético de ex- celência. Em pacientes que recebem TNP, a falta desse nutriente na luz intestinal ou na composição da solu- ção nutriente pode determinar uma atrofia das vilosi- dades intestinais e, em decorrência desta, favorecer a translocação bacteriana. A glutamina tem sido considerada como nu- triente indispensável em estados catabólicos. Di- versos estudos têm mostrado que, em situações carac- terizadas por estresse catabólico, ocorre redução da concentração de glutamina no plasma e musculatura, esse efeito é proporcional à severidade do estresse. Isso é resultado de sua maior demanda nesses esta- dos. Quando liberada pela musculatura esquelética, a glutamina circula no plasma e se transforma em uma importante carregadora de nitrogênio entre os órgãos, precursora de diversas proteínas e fonte de energia para a mucosa intestinal, fibroblastos e linfócitos. A maioria das composições de dietas enterais contém glutamina em quantidades insuficientes e, por esse motivo, é recomendada a adição desta a TNE. A dose recomendada é de 0,5 g/kg/dia dividida em três a quatro tomadas. Recomenda-se o prepa- ro logo antes da oferta ao paciente, porque a instabi- lidade em solução é alta. O uso de glutamina por via endovenosa em soluções de TNP é recente. Havia um grande problema com a adição de glutamina à com- posição das soluções em razão da instabilidade desse aminoácido quando em solução que se decompõe em ácido piroglutâmico e amônia. Essa limitação ao uso clínico promoveu intensa pesquisa por alternativas que culminaram com o advento dos dipeptídeos. Os dipeptídeos contendo, geralmente, glicil-L-glutamina (Gly-Gln) ou alanil-L-glutamina (Ala-Gln) apresentam boa estabilidade durante a esterilização e a estocagem e, por isso, parecem ser adequados ao uso clínico. Vários trabalhos têm enfatizado o papel imu- noestimulador da glutamina tanto por via enteral quanto na forma de dipeptídeo por via endovenosa em pacientes em TNE. Aumento do número de linfó- citos totais circulantes e da síntese de linfócitos T é frequentemente um achado comum em pacientes que recebem glutamina. Embora ainda desacreditada por alguns autores, várias metanálises têm demons- trado que o seu uso, principalmente por via parenteral e com altas doses, têm direta repercussão na queda de infecção e dias de internação de pacientes cirúrgicos. Indicações para nutrição parenteral Quando o trato gastrointestinal não pode ser uti- lizado como via de alimentação, os nutrientes devem ser administrados por via parenteral. A administração de todos os nutrientes por via parenteral (nutrição pa- renteral) pode ser feita de duas formas: a) nutrição parenteral central ou total (NPT); b) nutrição parenteral periférica (NPP). A nutrição parenteral (NP) é uma solução ou emulsão, composta basicamente de carboidratos, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais, estéril e apirogênica. É acondicionada em recipiente de vidro ou plástico, destinada à administração intravenosa em pacientes desnutridos ou não, em regime hospita- lar, ambulatorial ou domiciliar, visando à síntese ou à manutenção dos tecidos, órgãos ou sistemas (Portaria 272/MS/SNVS, de 8 de abril de 1998). Indicações Geralmente, indica-se a TNP quando o paciente não pode ser alimentado por via oral ou enteral, ou quando o aporte de nutriente pelo tubo digestório é insuficiente. Alguns autores preconizam a central quando o paciente necessitar de mais de 10 dias de TNP, e a periférica quando a expectativa é de um período inferior a esses 10 dias. Quando indicada no pré-operatório, a TNP deve ser instituída 7 a 10 dias antes da cirurgia. No pós- -operatório, a TNP deve ser indicada quando o paciente não puder receber nada por via oral ou enteral nos próximos 5 a 10 dias. As indicações da NPP têm crescido nos últimos anos. A NPP é reservada para aqueles pacientes com indicação de jejum de curta duração e para melhorar as condições pré-operatórias de pacientes gravemente desnutridos. Alguns autores acreditam que a NP é superior à enteral nesses casos pela maior facilidade de atingir os objetivos nutricionais em tempo mais rápido. Em algumas situações, a NP pode ser utilizada como complemento da nutrição enteral para que as necessidades calóricas do paciente sejam atendi- das. Isso. Geralmente. acontece em pacientes queima- dos e politraumatizados ou cirúrgicos de grande porte 84 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 do aparelho digestório e quando a dieta parenteral está sendo finalizada (período de desmame). Na ocorrência de instabilidade hemodinâmica, a NP deve ser sus- pensa até a estabilização hemodinâmica. A terapia parenteral é contraindicada nos pacientes terminais com mau prognóstico ou com morte encefálica. Nessas con- dições, o parecer da equipe deve ser mais importante do que uma opinião isolada do médico assistente. Principais indicações da nutrição parenteral No pré-operatório de pacientes eutróficosque não po- derão receber nada via oral ou enteral por um período maior que 7 dias. Por exemplo, gastrectomias com deri- vação, fístulas enterocutâneas cuja terapia enteral é con- traindicada, derivação biliodigestiva em Y Roux, ressec- ções extensas do TGI, síndrome do intestino curto etc.). Quando a dieta enteral oferecida não preencher pelo me- nos 50% das necessidades nutricionais do paciente. No pré-operatório de pacientes desnutridos graves, que serão submetidos à cirurgia eletiva, quando a dieta oral e/ou enteral é contraindicada e/ou insuficiente. Complicações cirúrgicas pós-operatórias (abscesso in- tracavitário, íleo prolongado). Trauma abdominal grave. Desnutrição grave. Vômitos incoercíveis. Doença intestinal inflamatória grave. Síndrome do intestino curto. Fístulas digestivas. Pancreatite aguda grave quando não for possível a TNE por via jejunal. Tabela 5.5 Via de acesso A NPT deve ser administrada idealmente através de uma veia central, habitualmente, a veia subclávia ou a jugular interna por meio de um cateter de único lúmen. Deve-se ter rigor com o local de inserção do cateter para evitar infecções. As principais complica- ções da punção da veia subclávia ou jugular podem ser vistas na Tabela 5.6. A necessidade de múltiplas vias de acesso em doentes críticos tornou o uso de cate- teres de dois ou três lúmens muito comum. O uso de cateter totalmente implantável está indicado em TNP prolongada e domiciliar. Sistematização do início da TNP Após triagem e avaliação do estado nutricional, da determinação das necessidades de nutrientes e calo- rias, e da inserção do cateter venoso e, principalmente, após a estabilidade hemodinâmica, inicia-se a terapia nutricional parenteral. A introdução das calorias e nu- trientes deve ser gradual, iniciando-se com 30% a 40% das necessidades, progredindo para 60% no segundo dia, aumentando depois para 100% no terceiro dia. A TNP será administrada em veia central exclusiva para o suporte, através de bomba de infusão, em mL/hora, durante 24 horas, conforme volume pres- crito. O tempo de infusão da solução de nutrição parenteral não deverá ultrapassar 24 horas. O equipamento deve conter filtro apropriado para infusão da NP e ser trocado a cada 24 horas. Para que essa evolução seja realizada com segu- rança, a equipe de terapia deverá realizar uma monito- rização diária, prevenindo e corrigindo possíveis dis- túrbios hidroeletrolíticos. Caso ocorra hiperglicemia ou hipoglicemia no início da terapia, a correção deve ser imediata. A insulinoterapia agressiva para impe- dir a hiperglicemia tem sido muito utilizada nos dias atuais. Preconiza-se que a glicemia deva perma- necer em níveis normais (80 a 110 mg/dL), es- pecialmente em pacientes cirúrgicos críticos. As alterações de eletrólitos, oligoelementos, vitaminas e minerais devem ser corrigidas conforme carências (re- posição) ou excesso (diminuição ou suspensão). A água estéril bidestilada pode ser acrescentada para atingir o volume preconizado (1.200 a 2.000 mL) no primeiro dia de infusão. Essa quantidade varia de acordo com as restrições do paciente. Nutrição parenteral cíclica A infusão contínua de nutrientes impõe mudan- ças hormonais e metabólicas para o paciente. Mais recentemente, tem-se administrado a prática da infu- são intermitente de nutrientes e calorias no período noturno. Essa conduta cíclica, além de permitir uma aproximação com o habitual e normal, propicia perí- odos pós-absortivos, permite um conforto maior aos pacientes que ficam livres das bombas e dos equipa- mentos, possibilitando a deambulação e atividades leves, principalmente para os pacientes em terapia do- miciliar e/ou ambulatorial. Sistematização do término da nutrição parenteral Quando o paciente apresentar condições de rece- ber dieta por via enteral e/ou oral, o desmame da paren- teral deve ser iniciado vagarosamente. No sistema glicí- dico, o desmame deverá ser realizado com um cuidado maior em razão da eventual ocorrência de hipoglicemia. Nessa situação, a prescrição de soro glicosado a 10% por um período de 6 a 12 horas é indicado. No momento de transição, a terapia será mista: TNP associada à TNE ou à via oral, ou ainda a TNP associada à TNE e oral. Da mesma forma que no início da administração da solu- ção, o desmame deve ser gradual. Quando o paciente já estiver recebendo 50% das suas necessidades nutri- cionais pela terapia enteral ou dieta oral, a nutrição pa- renteral poderá começar a ser retirada. Caso haja risco de o paciente precisar retornar à nutrição parenteral, 3 5 Pós-operatório II SJT Residência Médica – 2016 aconselha-se manter a punção venosa para a continui- dade da terapia. A NP deverá ser suspensa também na ocorrência de instabilidade hemodinâmica. Complicações da TNP Complicações da TNP Metabólicas Hiperglicemia. Hipoglicemia (< 75 mg/100 mL)/hipoglicemia insulínica). Coma hiperglicêmico. Retenção de CO2 por sobrecarga de glicose (hipercapnia). Hipertrigliceridemias (> 400 mg/100 mL). Hipofosfatemia (< 2,3 mg/100 mL). Hiperfosfatemia (> 4,3 mg/100 mL). Hipocalemia (< 3,5 mEq/L). Hipercalemia (> 5,6 mEq/L). Hiponatremia (< 135 mEq/L). Hipernatremia (>145 mEq/L). Hipocloremia (>108 mEq/L). Hipomagnesemia (< 1,6 mEq/L). Hipermagnesemia (> 2,2 mEq/L). Hiperamonemia (> 40 mg/100 mL). Deficiência de cobre (< 80 µg/100 mL). Deficiência de zinco (< 75 µg/100 mL). Hiperbilirrubinemia (>1,2 mg/100 mL). Acidose (pH <7,45 ou CO2< 21). Alcalose (pH > 7,45 ou CO2 < 30). Hipocalcemia (< 8,8 mg/100 mL). Hipercalcemia (> 10,3 mg/100 mL). Hipoalbuminemia (< 2,5 g/L). Alterações hepatobiliares: alterações das provas da fun- ção hepática, esteatose hepática, insuficiência hepática, litíase biliar e colecistite alitíasica*. Alterações morfológicas da mucosa intestinal predispondo translocação bacteriana, sepse e síndrome da disfunção de múltiplos órgãos e sistemas (SDMOS). Relacionadas com a punção e com o cateter durante a NPT Pneumotórax. Hemotórax. Lesão do plexo braquial. Hidrotórax e hidromediastino. Trombose venosa. Lesão do ducto torácico e quilotórax. Embolia pulmonar e embolia gasosa. Embolia do cateter. Arritmia cardíaca e lesão do átrio direito ou válvula tri- cúspide. Febre. Sepse. Tabela 5.6 (*) O risco de desenvolver cálculos biliares é maior com o uso de nutrição parenteral prolongada, provavelmente, em razão da falta de estímulo para a liberação de colecistoquinina para a contração vesicu- lar que se segue à alimentação normal. A consequência dessa falta de estimulação é a estase biliar, predispondo à formação de cálculos biliares. Também pode ocorrer colecistite aguda alitiásica em virtude da falta de es- tímulo para contração da vesícula biliar. A complicação metabólica mais frequente é a intolerância à glicose. Alterações nas provas de função hepática podem ocorrer em nutrição parenteral prolon- gada, principalmente em crianças, e podem evo- luir para hepatopatia crônica. Menos comumente observam-se hipertriglice- ridemia, hipoglicemia, deficiência dos ácidos graxos essenciais, hiperinsulinemia, hipercapnia e hiper- volemia. Distúrbios dos eletrólitos podem ocorrer, principalmente, em pacientes em estado crítico ou com insuficiências orgânicas, e devem ser cuidadosa- mente monitorizados. Intolerância à glicose é observada em cer- ca de 25% dos pacientes, manifestando-se por hiperglicemia, glicosúria e, se não manejada ade- quadamente, pode evoluir para coma hiperosmolar não cetótico. O tratamento consiste, basicamente, em redução da infusão de glicose por substituição da infusão de parte das calorias glicídicas por solu- ções lipídicas e administração exógena de insulina. Estudos recentes demonstraram que a hiperglicemia associa-se ao aumento acentuado das complicações infecciosas e, portanto, a glicemia plasmática deve ser cuidadosamente monitorizada. A etiologia das alterações hepáticas decorrentes da nutrição parenteral não é bem conhecida, mas cer- tamente é multifatorial. Um dos fatores mais comu-mente relacionados às alterações hepáticas durante a nutrição parenteral é o excesso de glicose nas formu- lações de nutrição parenteral. O risco de se desenvolver cálculos biliares é maior com o uso de nutrição parenteral prolon- gada, provavelmente, em razão da falta de estí- mulo para a liberação de colecistoquinina para a contração vesicular que se segue à alimentação normal. A consequência dessa falta de estimulação é a estase biliar, predispondo à formação de cálculos bi- liares. Também pode ocorrer colecistite aguda alitiási- ca em decorrência da falta de estímulo para contração de vesícula biliar. Raramente a nutrição parenteral pode oca- sionar doença metabólica óssea. Ela se manifesta por hipercalcemia e perda excessiva de cálcio e fósfo- ro pela urina. Deficiência de ácidos graxos essenciais pode ser observada após poucas semanas do uso de nutrição parenteral sem lipídeos, apesar de as mani- festações clínicas, como lesões de pele, poder levar meses para se manifestar. Complicações infecciosas: a incidência de sep- se relacionada ao cateter no início da experiência com nutrição parenteral era muito elevada, chegando a 30% dos casos. Com o desenvolvimento das equipes e pessoal especializado em terapia nutricional, reduziu- -se para cerca de 5%. 86 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Nutrição hipocalórica permissiva Em pacientes criticamente graves, seja por se- rem vítimas de trauma e/ou portadores de graves complicações cirúrgicas, por vezes, alterações meta- bólicas e hemodinâmicas impedem a oferta ideal de energia e poteínas necessárias. Nestas condições e, particularmente, se o doente for obeso, permite-se a oferta de energia em quantidade inferior a 25 kcal/ kg/dia, mantendo-se a oferta de proteínas em torno de 1,5 g/kg/dia. Síndrome da realimentação A síndrome de realimentação, ou síndrome do roubo celular, caracteriza-se por alterações hidroeletrolíticas graves, como hipofosfatemia, hipo- magnesemia, hipocalemia, deficiência de vitaminas e retenção hídrica. São induzidas pelo rápido influxo intracelular de fosfato em pacientes desnutridos ali- mentados de forma rápida e excessiva. A fisiopatologia da síndrome pode ser explicada pela redução na secreção de insulina induzida pela inanição e baixa ingesta de carboi- dratos, que faz com que gorduras e proteínas sejam catabolizadas para produzir energia. As bombas de membrana celular funcionam, resultando em uma redução dos eletrólitos intracelulares, em particular fosfato e potássio, que podem se apresentar com ní- veis séricos normais. Quando um paciente desnutrido começa a se alimentar, ocorre um aumento súbito na produção de insulina e energia, restabelecendo o bom fun- cionamento das bombas de membrana com conse- quente captação celular de fosfato e potássio, com hipofosfatemia e hipopotassemia. A falta de fosfato plasmático leva a uma alteração na forma bicôncava das hemácias, que passam a ser destruídas na mi- crocirculação, levando a um quadro de insuficiência orgânica e morte em 60% das vezes. Essa síndro- me está mais relacionada à realimentação de pacientes desnutridos com o uso de NP. Sua pre- venção deve-se a um alto nível de suspeita. Muitas vezes é irreversível, mesmo quando se repõem tar- diamente os eletrólitos em questão. Esse fenômeno, geralmente, ocorre 2-4 dias, após a introdução do suporte nutricional. A principal forma de prevenção é ofertar inicial- mente 30% a 50% das calorias calculadas aos pacien- tes durante os primeiros 3 a 5 dias de dieta. Inicia-se com 10 a 15 kcal/kg/dia e a proteína pode atingir até 1,5 g/kg/dia. A cada 24 a 48 horas aumenta-se 200 calorias até atingir as necessidades nutricionais de 30 kcal/kg. A quantidade de fluidos infundidos ou libera- dos pela via oral deve ser controlada com cautela até atingir 30 mL/kg/dia. Deve-se avaliar, diariamente, o balanço hídrico do paciente e pesquisar edema e fun- ção pulmonar. Algumas deficiências de oligoelementos devem ser reconhecidas e valorizadas: Elementos-traço nutricionais e suas implicações clínicas Bioquímica e fisiologia Deficiência [RDA*] Toxicidade [TUL†] Avaliação do Status Cromo O cromo dietético consiste em formas inorgânicas e orgâni- cas. Sua função primária em humanos é potencializar a ação da insulina. Ele realiza esta função como um complexo cir- culante denominado “fator de tolerância à glicose”, afetando o metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas. A deficiência em humanos é des- crita somente em pacientes rece- bendo NPT por longo prazo com quantidade de cromo insuficiente. A hiperglicemia ou tolerância à glicose prejudicada é comumen- te observada. Foram relatadas, também, con- centrações plasmáticas elevadas de ácidos graxos livres, neuropa- tia, encefalopatia e alterações no metabolismo de nitrogênio. A suplementação de cromo pode melhorar a tolerância à glicose em indivíduos com leve intolerância à glicose, mas ainda é controverso se o mesmo acontece em indivíduos saudáveis [M: 25119; H: 35 µg]. A ingestão oral raramente leva à toxicidade. O único sintoma decorrente parece ser a irritação gástrica. A exposição aérea pode causar dermatite de contato, ecze- ma, úlcera de pele e carcino- ma broncogénico [TUL não estabelecido]. A concentração plasmática ou séri- ca de cromo é um indicador preciso do status de cromo, que parece ter sig- nificado somente quando o valor é acentuadamente mais alto ou baixo que a faixa normal. 3 5 Pós-operatório II SJT Residência Médica – 2016 Elementos-traço nutricionais e suas implicações clínicas (cont.) Bioquímica e fisiologia Deficiência [RDA*] Toxicidade [TUL†] Avaliação do Status Cobre O cobre é absorvido por um mecanismo específico de trans- porte intestinal. Ele é transportado ao fígado, onde se liga à ceruloplasmina, que circula sistemicamente e leva o cobre aos tecidos-alvo no organismo. O cobre é excretado pelo trato intestinal e, então, eli- minado nas fezes. Os processos de absorção e excreção variam de acordo com a ingestão die- tética de cobre, possibilitando a manutenção da homeostase do cálcio. O cobre serve como um componente de diversas coenzimas, incluindo amino- -oxidases, ferroxidases, cito- cromo C-oxidases, dopamina β-hidrolase, superóxido dismu- tase e tirosinase. A deficiência dietética é rara e foi somente observada em crianças prematuras e com baixo peso ao nascer, alimentadas exclusivamen- te com leite de vaca, e em indiví- duos recebendo NPT sem cobre por longo prazo. As manifestações clínicas incluem despigmentação da pele e cabelo, distúrbios neu- rológicos, leucopenia, anemia mi- crocítica hipocrômica e alterações esqueléticas. A anemia é decorren- te de má utilização do ferro, por- tanto, uma forma condicionada de anemia por deficiência de ferro. A síndrome da deficiência, exceto anemia e leucopenia, é também observada na doença de Menkes, uma condição inata rara associa- da a um prejuízo na utilização do cobre [900 µg]. A toxicidade aguda ao cobre foi descrita após ingestão oral excessiva e por absorção de sais de cobre aplicados sobre a pele queimada. Na toxicidade moderada, as manifestações incluem náu- sea, vômito, diarreia e dor epigástrica; em casos mais graves, coma e necrose he- pática. A toxicidade pode ser observada com doses tão baixas quanto 70 µg/kg/ dia. Há casos também de toxicidade crônica. A doen- ça de Wilson é uma doença inata rara associada a níveis baixos de ceruloplasmina e acúmulo de cobre no fígado e cérebro, levando, à lesão nesses dois órgãos [10 mg]. Não existem mé- todos práticos para detectar deficiên- cia marginal. A deficiência grave é detectada de forma confiável por níveis séricos reduzidos de cobre e concen- trações de cerulo- plasmina, assim como baixa ativi- dade da superóxi- do dismutase em eritrócitos. Manga- nês Componente de diversas me- taloenzimas. A maior concen- tração do manganês está nas mitocôndrias onde é um com- ponente damanganês-superó- xido dismutase. A deficiência de manganês em humanos não foi demonstrada de forma conclusiva. Parece cau- sar hipocolesterolemia, perda de peso, alterações no cabelo e unhas, dermatite e síntese prejudicada de proteínas dependentes de vitami- na K [M: 1,8 mg; H: 2,3 mg]. A toxicidade por ingestão oral é desconhecida em hu- manos. A inalação tóxica causa alucinação, alterações intelectuais e distúrbios de movimento extrapiramidal [11 mg]. É preciso estabele- cer melhor a sín- drome de deficiên- cia para que uma medida apropriada do status de man- ganês seja desen- volvida Molib- dêmico Cofator de diversas enzimas, principalmente xantina oxidase e sulfito oxidase. Um caso, provável de deficiência em humanos foi descrito como re- sultado de administração parente- ral de sulfito e resultou em hipero- xipurinemia, hipouricemia e baixa excreção de sulfato [45 µg]. A toxicidade não é bem conhecida em humanos, embora o molibdênio em doses elevadas possa interfe- rir no metabolismo do cobre [2 mg]. Métodos laborato- riais de avaliação não estarão dis- poníveis até que a síndrome da defici- ência seja mais bem descrita Selênio A maior parte do selênio die- tético está sob a forma de um complexo de aminoácidos. Há uma absorção quase completa desta forma. A homeostase é controlada, em grande parte, pelos rins, que regulam a ex- creção urinária de acordo com o status de selênio. O selênio é um componente de diversas enzimas, principalmente gluta- tiona peroxidase e superóxido dismutase. Essas enzimas pare- cem prevenir lesões oxidativas e por radicais livres a várias es- truturas celulares. As evidên- cias sugerem que a proteção antioxidante do selênio age em conjunto com a vitamina E, pois a deficiência de um parece aumentar a lesão induzida pela deficiência do outro. O selênio também participa da conversão enzimática de tiroxina ao seu metabólito mais ativo, triiodo- tironina. A deficiência é rara na Améri- ca do Norte, mas foi observada em indivíduos recebendo NPT deficiente em selênio por longo prazo. Tais indivíduos apresen- tam mialgias ou cardiomiopatias. Populações de algumas regiões do mundo, como algumas partes da China, têm ingestão marginal de selênio. Nessas regiões, a doença de Keshan, caracterizada por car- diomiopatia, é endêmica e pode ser prevenida (mas não tratada) com suplementação de selênio [55 µg]. A toxicidade está associada a: náusea, diarreia, altera- ções cognitivas, neuropatia periférica, queda de cabelo e unhas. A toxicidade foi observada em adultos que consumiram inadvertida- mente 27-2400 mg de selê- nio [400 µg] A atividade da glutationa peroxi- dase em eritrócitos e concentrações plasmáticas ou san- guíneas de selênio são os métodos mais comumente utilizados para ava- liação. Eles são in- dicadores de status moderadamente precisos 88 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Elementos-traço nutricionais e suas implicações clínicas (cont.) Bioquímica e fisiologia Deficiência [RDA*] Toxicidade [TUL†] Avaliação do Status Zinco A absorção intestinal ocorre por um processo específico; ela é aumentada pela gestação e corticoesteroides, e diminuída pela coingestão de fitatos, fos- fatos, ferro, cobre, chumbo ou cálcio. Uma ingestão reduzida de zinco leva a um aumento na eficiência de sua absorção e diminuição na excreção fecal, possibilitando a manutenção de sua homeostase. A deficiência de zinco tem seus principais efeitos nos tecidos de proliferação rápida. A deficiên- cia leve causa retardo no cresci- mento em crianças. Casos mais graves de deficiência podem cau- sar interrupção do crescimento, teratogenicidade, hipogonadismo e infertilidade, disgeusia, má ci- catrização, diarreia, dermatite nas extremidades e ao redor de orifí- cios, glossite, alopecia, opacidade da córnea, perda de adaptação ao escuro e alterações comporta- mentais. A toxicidade aguda pode ser induzida pela ingestão > 200 mg de zinco em um único dia (em adultos). E mani- festada por dor epigástrica, náusea, vômito e diarreia. Após a inalação de fuma- ça com zinco pode haver hiperpneia, diaforese e fra- queza. Não existem indi- cadores precisos do status de zinco para uso na rotina clínica. As concen- trações de zinco no plasma, eritrócitos ou cabelo são enga- nadoras Zinco O zinco é um componente presente em mais de 100 enzi- mas, entre as quais estão DNA polimerase, RNA polimerase e RNA sintetase de transferência. Observa-se, também, uma alte- ração na imunidade celular. A diarreia crônica e fístulas podem causar perda excessiva de secre- ções gastrointestinais e precipitar a deficiência. A acrodermatite en- teropática é uma doença genética recessiva rara na qual a absorção intestinal de zinco é prejudicada [M: 8 mg; H: 11 mg]. O cobre e o zinco competem pela absorção intestinal; a ingestão prolongada de zin- co > 25 mg/dia pode levar à deficiência de cobre. Foi relatada que a ingestão pro- longada > 150 mg/dia pode causar erosões gástricas, di- minuição na lipoproteína de alta densidade-colesterol e comprometimento da imu- nidade celular [40 mg]. Em particular, a do- ença aguda diminui os níveis plasmá- ticos de zinco, em parte por provocar um desvio do zinco do compartimento plasmático para o fígado. Testes fun- cionais que deter- minam a adaptação ao escuro, acuidade do paladar e tempo de cicatrização não são específicos para o zinco. * Cota diária recomendada (RDA) estabelecida para mulheres (M) e homens (H) pelo U.S. Food and Nutrition Board, 1999 a 2001. Em algumas situações, não há dados suficientes para estabelecer uma RDA e, neste caso, é utilizado o ní- vel de ingestão adequado (Al, adequate intake) estabelecido pelo Board. Limite máximo tolerável (TUL) estabelecido para adultos pelo U.S. Food and Nutrition Board, 1999 a 2001. NPT = nutrição parenteral total. Tabela 5.7 O melhor médico é aquele que mais esperança infunde. – Samuel Taylor Coleridge CAPÍTULO 6 Resposta infl amatória ao trauma Introdução A resposta infl amatória ao trauma (RIT) se tra- duz como um mecanismo decisivo para a sobrevi- vência em situações de estresse metabólico. En- volve a inter-relação entre o sistema nervoso, sistema imunológico, sistema endócrino e sistema circulató- rio. O objetivo maior é manter a homeostase, no en- tanto, quando exarcebada, pode acarretar disfunção dos sistemas orgânicos e ser fator determinante para a síndrome de falência orgânica múltipla. As duas principais características da RIT são: 1) que a intensidade é proporcional à gravidade do estresse. 2) e a alteração do metabolismo para a respos- ta infl amatória direciona as funções energéticas para manutenção dos processos celulares especializados necessários. Principais objetivos da RIT Preservar órgãos nobres. Corrigir distúrbios hidreletrolíticos. Estabilizar funções hemodinâmicas e pressão arterial. Criar fontes alternativas de energia. Garantir fornecimento de nutrientes ao cérebro e ao coração. Tabela 6.1 Funções básicas da RIT. Os conceitos dos componentes biológicos da agressão são agrupados em três tipos principais: pri- mários, secundários e associados. Os componentes primários são decorrentes e inerentes exclusivamente à ação física sobre o orga- nismo, e nunca podem ser eliminados. Os componen- tes secundários ocorrem em decorrência da ação dos componentes primários ou mesmo da consequência de outros componentes secundários sobre o próprio organismo. Finalmente, a existência de componentes associados depende exclusivamente das condições clínicas e individuais de cada paciente, por ocasião do trauma cirúrgico. É de fundamental importância saber que a con- dição metabólica prévia do paciente modulará a inten- sidade da resposta pós-agressiva. O domínio e o con- trole possível do cirurgião sobre essa conjuntura serão decisivos na melhor ou pior evolução do paciente. Primários Lesão de tecidos. Lesão de órgãos específi cos.Secundários Alterações endócrinas. Alterações hemodinâmicas. Infecções. Falências de múltiplos órgãos e sistemas. Associados Alterações no ritmo alimentar. Imobilização prolongada. Perdas hidroeletrolíticas extrarrenais. Doenças intercorrentes. 90 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Classificação da RIT A resposta normal à inflamação (e principal- mente ao trauma) consiste em uma série de alte- rações metabólicas que facilitam a recuperação do organismo e diminuem a extensão da lesão do hos- pedeiro. Classicamente, essa resposta inclui pelo menos duas fases bem características, sendo que na fase inicial (Fase ebb) há o predomínio da circula- ção inadequada, metabolismo anaeróbico, acidose e hiperlactiacidemia. Na fase seguinte (Fase flow), as alterações do metabolismo decorrem do aumento da secreção e atividade de interleucinas, catecolaminas, corticoste- roides e hormônio do crescimento, com hiperinsuline- mia. Após trauma (ou inflamação) grave, o hipotálamo presumivelmente recebe sinais neuronais aferentes, transmitindo estímulos como dor, hipoxia, hipoten- são, medo, ansiedade etc. Fase de choque (Fase Ebb) Corresponde à primeira fase, na qual se nota di- minuição das funções metabólicas. O objetivo prin- cipal do organismo, nesta fase, é a perfusão de órgãos nobres. Geralmente de curta duração após o trauma agudo, (cirurgia, queimaduras etc.) o orga- nismo desacelera seu metabolismo, priorizando a so- brevivência. Nessa fase, em que o organismo não fica mais do que 18 a 72 horas em instabilidade hemodinâmica, há redução do consumo de O2 e a terapia nutricional é de pequeno valor (exceto, talvez, pela nutrição enteral precoce, que pode preser- var a mucosa intestinal e, talvez, inibir complicações como a translocação intestinal de micro-organismos). O reequilíbrio hemodinâmico, com manutenção da perfusão tecidual adequada, regulação do pH dos lí- quidos corporais etc., são prioritários durante a fase de baixo fluxo. Fase de fluxo (Fase Flow) A segunda fase foi denominada flow fase, des- crevendo situação de avanço metabólico ou hiper- metabolismo. Essa fase inicia-se após a estabilização cardiopulmonar e possui duração variável. Compli- cações surgidas durante a fase flow, por exemplo, infecção, deiscências agudas de anastomoses, com- plicações pulmonares e hemodinâmicas, provoca- rão prolongamento da mesma. As três principais características gerais da fase flow são gasto au- mentado de energia (hipermetabolismo), mudança na utilização de substrato energético caracterizada, principalmente, pela resistência à ação da insulina, e pelo catabolismo muscular proteico (proporcional à gravidade do estresse). Em relação às alterações metabólicas, a fase flow pode ser dividida nas se- guintes subfases: � fase corticoadrenérgica (duração aproxima- da de 2 a 5 dias), que tem como características principais o catabolismo e o hipermetabolismo; � fase de transição (duração aproximada de 1 a 2 dias), que tem como característica princi- pal a redução do catabolismo antes de iniciar a fase de anabolismo. Outras características dessa fase são: diurese aumentada com perda de água livre e sódio, balanço positivo do po- tássio (redução da perda na urina), diminuição da perda urinária de nitrogênio (redução da degradação proteica). Caso a fase de transição não ocorra dentro de 3 a 5 dias, após cirurgias eletivas, o cirurgião deverá suspeitar de algu- ma complicação; � fase de anabolismo precoce (duração apro- ximada de 3 a 12 semanas). Apresenta como características principais balanço nitrogena- do positivo e deposição de gordura nos teci- dos adiposos; � fase de anabolismo tardio (duração aproxi- mada de alguns meses). Caracterizada por ba- lanço nitrogenado neutro, aumento da deposi- ção de gordura em tecidos adiposos e balanço calórico positivo. Outras características da fase flow são: � aumento do débito cardíaco; � elevação da temperatura corporal; � aumento da produção de glicose; � aumento na concentração de insulina, mas com intolerância a glicose, em razão, principalmen- te, da resistência à insulina, que limita a capta- ção de glicose pelos musculoesqueléticos; � ligeiro aumento na concentração de ácidos gra- xos livres; � aumento dos níveis de glucagon; � níveis pouco aumentados de catecolaminas (principalmente adrenalina); � níveis normais de lactato; � aumento do consumo de oxigênio. 3 6 Resposta inflamatória ao trauma SJT Residência Médica – 2016 Fase EBB (baixo fluxo) Fase Flow (alto fluxo) Queda das funções metabólicas Aumento do catabo- lismo ↓ Temperatura ↑ Hormônios do estresse ↑ Glicose ↓ Insulina ↑ Glucagon ↑ Catecolaminas ↑ Lactato ↓ Consumo de oxigênio ↓ Débito cardíaco ↑ Temperatura ↑↑ Hormônios do estresse ↑ Glicose ou normalização ↑ Insulina ou normal ↑ Glucagon ↑ Catecolaminas Normalização do lactato ↑ Consumo de oxigênio ↑ Débito cardíaco Tabela 6.2 Alterações metabólicas e hormonais nas fases de resposta ao trauma. Na fase catabólica, o fator extrínseco prioritário é a ressuscitação de volume para manter pré-carga, contratilidade cardíaca e perfusão periférica. Já na fase anabólica, o fator chave é a reposição de K+, Mg++ e PO4. A não reposição efetiva desses tons pode acarre- tar danos cardíaco, neurológico, renal e hepático. Mediadores celulares Neutrófilos Quando o organismo sofre agressão ou estímulo nocivo, ocorre neutrofilia, como se observa no período pós-operatório. Essa neutrofilia é decorrente da mo- bilização dessas células que ficam agrupadas próximas ou aderidas à parede dos vasos e invadem a circula- ção sanguínea. Essa situação é mediada pela liberação de hormônios produzidos como resposta metabólica aos traumatismos, como o corticoide e a epinefrina. Em sequência, próximo ao terceiro dia de pós- -operatório, observa-se situação de neutropenia transitória em provável decorrência da migra- ção dessas células para os órgãos ou tecidos lesa- dos. Em uma fase mais tardia (entre o 5o e o 10o dia pós-operatório), observa-se nova ocorrência de neutrofilia, só que agora decorrente da mobilização dos neutrófilos da medula óssea, como resposta à pro- dução e liberação exacerbada de G-CSF (granulocyte colony-stimulating factor), que é uma glicoproteína que estimula a produção de granulócitos no nível da medula óssea. Esses são os estímulos sistêmicos que modificam a dinâmica dos neutrófilos, no entanto, vários mecanismos locais participam do controle e da mobilização dessas células ante uma agressão traumá- tica. Algumas substâncias quimiotóxicas positi- vas (atraentes) locais, como a C5a, calicreína e LTB4, promovem a migração de neutrófilos para os tecidos lesados pelo trauma. O processo migratório dos neutrófilos para os locais da inflamação é complexo e didaticamente pode ser dividido em três etapas: rolamento, adesão e extravasamento. Na etapa de rolamento, ocorre in- teração de moléculas de adesão localizadas no endoté- lio (P-selectina e E-selectinas) e a L-selectina presen- te nos leucócitos, em geral. Na fase de adesão, ocorre a ativação nos leucócitos de β2-integrinas (CD11a, CD11b e CD11c/CD18). Após a ativação dessas inte- grinas, ocorre a ligação destas com moléculas funda- mentalmente de adesão, denominadas ICAM-1 (inter- cellular adhesion molecule) e VCAM-1 (vascular cellular adhesion molecule), que ficam expressas na superfície endotelial. A interação dessas moléculas promove a firme ligação entre o leucócito e a parede endo- telial, possibilitando a posterior migração dessa célula para o espaço intersticial. Os neutrófilos promovem lesão tecidual por di- versos mecanismos, destacando-se a liberação de enzi- mas proteolíticas como as elastases. Produzem radicais livres de oxigênio ou por ação mecânica de obstrução do fluxo microcirculatório e, com isso, podem, paradoxal- mente, estender ainda mais a lesão tissular. Macrófagos Essas células têm mobilização mais lenta na direção da área traumatizada quando comparadascom os neutrófilos, em compensação, possuem tempo de vida mais longo e produzem enzimas e media- dores inflamatórios de grande importância nas etapas mais tardias da resposta inflamatória. Os macrófagos, diante de um estímulo lesivo (traumatis- mo), têm a possibilidade de liberar vários produtos importantes, como: citoquinas (TNF, IL-1, IL-6, IL-8, PAF, IFN-α e IFN-γ), proteínas (hidrolases, enzima conversora da angiotensina, antiproteases, elastase, colagenase, lisozima, β-glucuronidade, fibronectina), espécies reativas do oxigênio (peróxido de hidrogênio, radical hidroxila, ânion superóxido), produtos lipí- dicos (como: ácidos graxos, produtos de degradação do ácido aracdônico – TXA2, PGD2, PGE2, 5-HETE, LTB4, LTC4), entre outros. Mastócitos Essas células podem ser consideradas “sentine- las” do processo inflamatório, por causa da peculiar distribuição e localização nos tecidos. Elas têm a preferência de se localizar nas regiões próximas aos vasos e em áreas adjacentes às mucosas e su- perfícies epiteliais. Ocupam posições estratégicas, o que faz delas a primeira barreira contra estímulos nocivos ao organismo. 92 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 O papel desempenhado pelos mastócitos na res- posta sistêmica à agressão cirúrgica é marcante, de acordo com diversas pesquisas clínicas e experimen- tais que avaliam a resposta inflamatória nos casos de queimaduras e anafilaxia. Estudos comprovam a rela- ção direta entre a extensão e a profundidade de quei- maduras em ratos e a concentração sérica de histami- na. A histamina e a bradicinina promovem aumento da permeabilidade capilar e vasodilatação arteriolar. As células inflamatórias presentes na microcircu- lação de diversos órgãos são ativadas, e isso inicia e ou perpetua a resposta inflamatória por meio de produ- ção e liberação de mediadores, sendo algumas dessas substâncias denominadas citoquinas. Citosinas Citosinas são pequenos polipeptídeos produ- zidos por qualquer célula nucleada, principalmente, aquelas envolvidas na inflamação. A ferida operató- ria é local de grande produção dessas pequenas proteínas. Na ferida operatória há células envolvidas no processo de limpeza de tecidos necróticos e bacté- rias, angiogênese, epitelização e remodelação do colá- geno. Tudo isso requer metabolismo intenso. As citosinas são divididas em duas grandes classes, com base nas suas atividades biológicas. Em geral, elas são capazes de estimular o processo inflamatório (pró-inflamatórias) ou inibi-lo (anti-inflamatórias). No entanto, todas as citosinas consideradas anti-inflamatórias, exceto a que inibe o receptor da interleucina-1, desempenham algum grau de atividade pró-inflamatória. Portanto, quando se considera uma citosina pró ou anti-infla- matória, toma-se o resultado final mais importan- te do seu efeito. Para ocorrer RIT adequada, deve haver equilíbrio entre as ações das citosinas pró e anti-inflamatórias. Trabalhos experimentais mostram que o efeito exacerbado de uma citosina anti-inflamatória poderá inibir demasiadamente o sistema imunológico, expon- do a vítima a complicações infecciosas. Por outro lado, concentração excessiva de citosina pró-inflamatória acarreta resposta inflamatória exacerbada, culminan- do na falência de múltiplos órgãos. As principais citosinas pró-inflamatórias são o fator de necrose tumoral (TNF), as interleucinas 1 e 8 (IL-1 e IL-8) e o interferon-gama (IFN-γ). A IL-6, citada como citosina pró-inflamatória, apresenta tam- bém efeito anti-inflamatório importante, pois é capaz de inibir a capacidade dos macrófagos de sintetizar o TNF e a IL-1. O TNF é, provavelmente, a principal citosina iniciadora dos efeitos pró-inflamatórios. Entre os principais efeitos das citosinas pró-inflamatórias estão: � aumento da síntese de moléculas de adesão en- dotelial; � aumento da migração e ativação dos neutrófilos; � inflamação, febre, leucocitose; � destruição tecidual/muscular (proteólise) pro- vocando redução funcional; � IL-6 estimula a produção de cortisol e aldoste- rona; � a concentração de IL-6 tem valor de gra- vidade e prognóstico em pacientes grave- mente enfermos. Principalmente em vítimas de trauma, sepse, pancreatite e infarto agudo do miocárdio. Alguns desses efeitos ocorrem entre 2 a 5 mi- nutos após a ligação da citosina ao receptor da célula- -alvo. As principais citosinas anti-inflamatórias são: antagonista do receptor da IL-1 (IL-1ra), IL-4, IL- 10 (a mais importante), IL-11, IL-13 e fator de cresci- mento transformador-beta (TGF-β). Entre os principais efeitos das citosinas anti-inflamatórias estão: � redução das lesões pulmonares agudas em pa- cientes graves (1L-Ira, IL-13); � efeito inibitório na produção de citosinas pró- -inflamatórias, principalmente IL-1 e TNF; � redução da atividade citotóxica do macrófago, diminuindo a capacidade dessa célula matar pa- rasitas (IL-4, IL-10); � aumento da proliferação de fibroblastos e endo- télio vascular (IL-4); � a IL-10, geralmente, protege o hospedeiro da SRIS exacerbada, mas o coloca em situação sus- cetível para infecção fulminante e morte inibe a secreção de citosinas pró-inflamatórias por cé- lulas da linhagem monócito-macrófagos. � o TGF-β é capaz de transformar o local da infla- mação ativa em processo de resolução e reparo. Além disso, reduz a degradação de matriz extra- celular. É importante notar que alguns patógenos utili- zam a complexa rede de citosinas para burlar o siste- ma imunológico do hospedeiro, estimulando a síntese de citosinas anti-inflamatórias. Além das citosinas, proteínas de fase agu- da, entre elas, a proteína C-reativa (PCR), o fi- brinogênio e α2-macroglobulina são produzidos no fígado e estimulam o processo inflamatório durante a RIT. 3 6 Resposta inflamatória ao trauma SJT Residência Médica – 2016 Alterações endócrinas Hormônio antidiurético (ADH ou vasopressina) Durante a RIT, a vasopressina, ou hormônio an- tidiurético (ADH), é liberada pelo hipotálamo como resposta às alterações volêmicas e da osmolaridade (concentração de sódio). A perda de volume por ede- ma ou hemorragia durante a cirurgia é detectada pelos receptores de pressão, volume e osmorreceptores, lo- calizados, respectivamente, nos átrios, na artéria pul- monar e nos neurônios próximos aos núcleos supra- ópticos. Essas informações aumentam a liberação de ADH, que por sua vez estimula a reabsorção de água, principalmente nos túbulos renais pro- ximais. Esse aumento perdura até o 4o a 5o PO. Sistema renina-angiotensina- aldosterona Outro hormônio importante no equilíbrio hidro- eletrolítico durante a RIT é a renina. Ela é decretada pelas células justaglomerulares estimuladas por im- pulsos simpáticos provenientes do SNC e da própria ferida operatória. A renina estimula a produção de angiotensina I, que nos pulmões se transforma em angiotensina II. Esta, além de apresentar ação vasoconstritora, induz a liberação de aldosterona pelo córtex da suprarrenal. A aldosterona, por sua vez, estimula a reabsorção de água e sal a partir dos tú- bulos distais e a perda de potássio. O efeito da aldos- terona sobre o potássio é importante para manter a concentração desse íon dentro dos limites normais. Pois, com o catabolismo muscular, grandes quanti- dades de potássio são liberadas, caso não houvesse o efeito da aldosterona estimulando a perda renal, poderia ocorrer hiperpotassemia no pós-operatório. Isso pode ser observado no período pós-operatório de pacientes com insuficiência renal prévia submetido a grandes procedimentos cirúrgicos. As consequências finais das alterações hidroeletrolíticas na RIT são: � Aumento da água corporal total, não só pela retenção hídrica descrita anteriormente, mas também pela administração exógena por meio da soroterapia. Nota-se, então, que os pacien- tes se apresentam edemaciados no período pós- -operatório. Esse ganho de peso, pelo acúmulo de água, endógena e exógena, mascara a perda de peso que seriaesperada pela redução da mas- sa muscular na RIT. O ganho extra de água no pós-operatório é importante porque, nesse pe- ríodo, são vários os fatores capazes de aumen- tar a perda de água corporal. Entre eles: febre, evaporação pela ferida, drenagem de secreções. Além disso, o maior aporte de solutos osmóti- cos aos quais os rins ficam expostos, em razão da degradação de proteína muscular, requer maior quantidade de água para serem elimina- dos na urina. � Aumento do sódio sérico e redução da perda de sódio pela urina. � Aumento da perda urinária de potássio. � Aumento da perda renal de fósforo e mag- nésio. Cortisol Rapidamente, após o início do procedimento cirúrgico, o ACTH estimula o córtex da suprarrenal a liberar cortisol. O nível máximo é atingido em apro- ximadamente 4 a 6 horas. A concentração do cor- tisol é diretamente proporcional ao grau da lesão (estresse), embora intervenções anestésicas pos- sam reduzir a liberação do mesmo. Para um mesmo procedimento cirúrgico, a anestesia geral associada a bloqueio epidural acarreta níveis menores de cortisol e menor degradação de proteína muscular do que anes- tesia geral isoladamente. O cortisol apresenta efei- tos importantes no metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas. Esse hormônio provoca quebra de proteína muscular, permitindo a mobilização de aminoácidos com os seguintes objetivos: � síntese de novas proteínas nas áreas lesadas (fe- ridas, incisão cirúrgica), principalmente, a par- tir do aminoácido denominado glutamina; � síntese de novas células de defesa utilizadas para controle de infecção, desbridamento e ci- catrização das feridas; � síntese de mediadores inflamatórios (citosinas etc.); O mais importante de todos os objetivos da quebra de proteínas musculares na RIT é o forne- cimento de energia. Para esse fim, a alanina é o principal aminoácido precursor de glicose no fí- gado. A glicose é utilizada nos locais da lesão e da in- flamação como fonte de energia. Lá, é transformada em lactato que retorna para o fígado para nova produção de glicose. Essa reciclagem de glicose envolve gasto ener- gético importante e produz calor. O aminoácido gluta- mina pode ser utilizado como forma de combustível para órgãos de metabolismo rápido, como células do intestino, fibroblastos e células inflamatórias. Nas células do intestino, a glutamina pode ser convertida em alanina, a qual participa da produção de glicose 94 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 no fígado. Além disso, a glutamina é precursora da pro- dução de amônia nos rins, necessária para neutralizar os ácidos eliminados na urina. O cortisol promove também lipólise, liberan- do glicerol e ácidos graxos livres, os quais são pre- cursores da gliconeogênese hepática. Sobre o sistema imunológico, o cortisol apresen- ta efeito anti-inflamatório. Inibe o acúmulo de marcó- fagos e neutrófilos nos locais de inflamação, além de diminuir a síntese de mediadores inflamatórios. Cortisol Incorpora aminoácidos aromáticos. Influencia na síntese proteica. Estimula enzimas hepáticas a degradar ami- noácidos aromáticos. Catecolaminas As catecolaminas adrenalina e noradrenalina são fundamentais na RIT. Essas substâncias atu- am como mediadores entre o sistema nervoso e o sistema endócrino, apresentando efeitos diretos e indiretos na RIT. Os níveis de catecolaminas são proporcionais à gravidade do paciente; são os principais responsáveis por taquicardia, taquip- neia, vasoconstrição periférica e redução do débito cardíaco observadas na fase ebb. Além disso, con- tribuem também para o hipermetabolismo e catabolismo proteico, observados na fase flow. A ativação do sistema nervoso simpático autônomo, a partir de estímulos do hipotálamo, resulta na li- beração de catecolaminas da medula da suprarrenal e das terminações nervosas pré-sinápticas. Os efei- tos das catecolaminas são diferentes quando recep- tores, alfa ou beta, são estimulados. Na fase flow predomina a estimulação beta-adrenérgica. As catecolaminas afetam também o pâncre- as endócrino. A produção pancreática de insulina em resposta à glicose torna-se prejudicada quando há es- tímulo alfa-adrenérgico e o contrário quando há estí- mulo beta-adrenérgico. O somatório dos efeitos resul- ta no aumento da resistência à insulina. Catecolaminas (adrenalina; anoradrenalina) Glicogenólise. Gliconeogênese. Mobilização de AA muscular. Hidrólise de lipídeos. Insulina Com o aumento de catecolaminas no PO, a pro- dução de insulina fica limitada. A insulina circulan- te é menor do que as necessidades em relação à glicose sanguínea (que está elevada). A insulina é um importante hormônio para o anabolismo, inibindo o catabolismo proteico e a lipó- lise. A liberação de insulina em pacientes críticos na fase ebb, quando expostos à infusão de glicose, é ine- ficaz, permitindo a hiperglicemia. No entanto, após a estabilização, como ocorre na fase flow, a resposta insulínica, após a infusão de glicose, é normal ou até exacerbada. A hiperglicemia na fase flow da RIT ocorre, portanto, em razão da resistência à ação da insulina, principalmente nos tecidos periféri- cos como os musculoesqueléticos. Insulina Armazena glicose na forma de glicogênio. Favorece incorporação aminoácidos aromáti- cos nas proteínas musculares. Glucagon Apesar de os níveis de glicemia estar elevados, observamos o aumento do glucagon plasmático. Esse aumento é diretamente proporcional à intensi- dade do trauma. O glucagon favorece a degradação da glicose e bloqueia a formação do glicogênio, favorecendo a transformação de aminoácidos aromáticos em glicose no fígado. Glucagon Degrada glicose. Degrada lipídeos. Bloqueia formação de glicogênio. Favorece a transformação de aminoácidos aromáticos em glicose no fígado. GH, ACTH, prolactina e hormônios tireoidianos O principal hormônio secretado pela hipófise anterior envolvido na RIT é o ACTH ou corticotrofi- na, um peptídeo composto de 39 aminoácidos. Proce- dimentos cirúrgicos são fortemente capazes de pro- vocar a síntese de ACTH na hipófise anterior a partir de uma molécula maior, a ópio/melanocortina. Pou- cos minutos após o início de um procedimento cirúrgico, pode-se notar elevação do ACTH. O principal efeito do ACTH é estimular a produção de cortisol pela suprarrenal. O hormônio de crescimento (somatotrofina) também é secretado pela hipófise anterior. Peque- nas proteínas denominadas insulin-like growth factors (IGF), produzidas no fígado e nos músculos, desempe- 3 6 Resposta inflamatória ao trauma SJT Residência Médica – 2016 nham os efeitos do hormônio de crescimento quando estimuladas por ele. Na RIT, os principais efeitos do hormônio de crescimento são: � estimula a síntese proteica e inibe a degradação (efeitos mais observados na fase de anabolismo); � estimula a lipólise, aumentando a produção de ácidos graxos livres e glicerol; � antagonista da insulina, reduzindo, assim, a captação de glicose pelas células; � estimula glicogenólise no fígado; � estimula o sistema imunológico. Nota-se, portanto, que o hormônio de cresci- mento contribui para a resistência à insulina, for- necendo, com isso, substrato energético para RIT. A prolactina e a beta/endorfina, também pro- duzidas na hipófise anterior, apresentam efeitos pouco importantes na RIT. Ambas aumentam em resposta ao estresse cirúrgico, assim como no exer- cício físico. Logo após cirurgia ou trauma, níveis séricos de T3 diminuem enquanto níveis T4 e TSH aumen- tam. Enquanto os níveis de T3 permanecem baixos durante a fase aguda da resposta, o TSH inapro- priadamente normaliza, refletindo um controle do feedback central anormal. A magnitude da queda do T3 nas primeiras 24 horas, após a injúria tem sido correlacionada à gravidade da agressão. Assim que a agressão se torne crônica, as concentrações de TSH diminuem e ocorre perda da pulsatilidade normal. O único consenso para reposição de hormônio tireoidia- no durante doençacrítica é em pacientes com diag- nóstico presuntivo de coma mixedematoso. A resposta imune O trauma cirúrgico é um significativo fator de imunossupressão pós-operatória em indivíduos nor- mais. Quanto maior o trauma cirúrgico, mais profunda é a imunossupressão observada. A imunidade celular é particularmente afe- tada. Atividade reduzida das células natural killer (NK) no pós-operatório é observada no sangue peri- férico de pacientes submetidos a estresse cirúrgico. A imunidade celular mediada é deprimida em 3 a 10 dias de pós-operatório em pacientes submetidos a grandes cirurgias, porém não em cirurgias menores. Além disso, é observada uma redução na capaci- dade de apresentação de antígenos pelos monócitos. A capacidade de apresentação de antígeno é reduzida no pós-operatório por 1 a 5 dias e retorna aos níveis pré- -operatórios entre 7 e 10 dias. Modulação da RIT Embora a RIT seja uma resposta fisiológica à agressão cirúrgica, e fundamental para a sobrevivên- cia do paciente ao estresse operatório, torna-se neces- sário que várias condutas sejam tomadas com o obje- tivo de minimizar a agressão evitando, dessa forma, exarcebação da RIT e quebra da homeostase. Entre as medidas atuais capazes de reduzir os efeitos indesejáveis da RIT destacamos: � procedimentos cirúrgicos minimamente inva- sivos, técnica operatória apurada, limitando a destruição tecidual, capazes de reduzir os estí- mulos, a partir da ferida, que podem desenca- dear uma RIT exacerbada; � no campo anestésico, a associação do bloqueio epidural com a anestesia geral e o bloqueio adre- nérgico reduz a intensidade da resposta infla- matória, inclusive com menor perda de prote- ína muscular. Além disso, os efeitos benéficos sobre as funções cardiorrespiratórias são evi- dentes com analgesia adequada; � o controle da temperatura corporal, evitando tanto a hipotermia quanto a hipertermia, têm efeitos benéficos sobre o hipermetabolismo e o consumo do oxigênio; � manutenção do estado nutricional, preferen- cialmente por via enteral, é importante para a síntese proteica durante a RIT e para reduzir o consumo de proteína muscular endógena; � manutenção do estado hemodinâmico e o for- necimento adequado de oxigênio aos tecidos promovem benefícios significativos para a so- brevida de pacientes sépticos; � drenagem precoce de abscessos, desbridamento de tecidos necrosados e cuidados com as feridas abertas contribuem para reduzir a intensidade da RIT. Além disso, a descompressão abdominal precoce, em menos de 8 horas, nos casos de sín- drome de compartimento abdominal, também reduz a mortalidade. Primários Lesão de tecidos Lesão deórgãos especí cos Trauma operatório Alterações do meio interno Secundários Alterações hemodinâmicas Alterações endócrinas Infecções Falências orgânicas MorteSobrevivência Associados Jejum Imobilização Perdas extrarrenais Doenças intercorrentes Recuperável Irreecuperável Figura 6.1 Esquematização da fisiopatologia do trau- ma operatório. CAPÍTULO 7 Complicações pós-operatórias Introdução As complicações pós-operatórias podem ocor- rer em cirurgias de qualquer porte. A ocorrência de complicações depende do tipo de cirurgia, da técnica operatória empregada e do organismo do doente a ser operado. Complicações pós-operatórias mais comuns Febre e complicações da termorregulação. Complicações pulmonares. Complicações da ferida operatória. Complicações urinárias. Complicações digestivas. Complicações metabólicas. Complicações cardíacas. Complicações cerebrais. Complicações anestésicas (veja o Capítulo 4). Tabela 7.1 Febre A temperatura é controlada pelo hipotálamo anterior. A elevação da temperatura de 0,5 º a 1 ºC acima do normal, no pós-operatório imediato, deve ser considerada como resposta endócrina ao trau- ma. Portanto, uma febre pós-operatória é tão comum que, na maioria das vezes, não é considerada um desa- fi o a ser enfrentado. No entanto, febre alta e persis- tente deve merecer investigação adequada. Fatores envolvidos na fi siopatologia da febre a) liberação de substâncias pirogênicas de agen- tes infecciosos; b) complexo antígeno anticorpo; c) liberação de citosinas; d) resposta fisiológica ao estresse (estímulo en- dócrino agudo); e) drogas; f) desidratação; g) tumores no hipotálamo anterior. Febre nas primeiras 6 horas de pós-operatório quase sempre é decorrente do próprio ato cirúrgico, fazendo parte da adaptação ao trauma sem que haja in- fecção; tem curta duração e baixos níveis térmicos. Febre nas primeiras 24-48 horas do pós-ope- ratório é atelectasia até que se prove o contrário. A maioria das infecções ocorre após o quinto dia de PO. Tromboflebite pode levar a febre (conhecida como “febre do terceiro dia”); outra causa de febre no pós-operatório é a infecção de trato urinário (ITU), que pode aparecer a qualquer hora, mas, geralmente, ocorre após o terceiro dia. A avaliação adequada define o diagnóstico e a conduta terapêutica. Cuidado com doentes em uso de corticoides, pois po- dem NÃO apresentar febre na vigência de infecção. O paciente que permanece febril 5 a 8 dias após a cirurgia deve passar por uma investigação criteriosa, que inclui abordagem do aparelho respira- tório à procura de um foco infeccioso, investigação do TGU, bem como avaliação da ferida operatória. Outra possibilidade importante, nesse período, é a presença de trombose venosa profunda como causa de febre. Diante de um paciente com febre e diarreia e que esteja em uso de antibióticos é necessário in- vestigar infecção por Clostridium dificille (agente etiológico da diarreia induzida por antibiótico e que pode culminar em colite pseudomembranosa). Complicações pulmonares Complicações respiratórias são as principais cau- sas de morbidade após um procedimento cirúrgico, e a segunda principal causa de morte em pacientes maio- res de 60 anos submetidos à cirurgia. São mais frequentes em pacientes fumantes (mais de 20 cigarros/dia), portadores de bronquite crônica e enfisema pulmonar. Por outro lado, doentes que farão cirurgia torácica e do abdome superior, bem como aqueles acamados, em imobilização pro- longada no leito, apresentam mais facilmente as complicações pulmonares. Deve ser estimulada a saída precoce do leito e a inspiração profunda. A toalete brônquica é favorecida pela tosse; com a dor do pós-operatório e por medo de evisceração, muitos pacientes não tossem nem respi- ram direito, facilitando, assim, complicações evitáveis. A seguir descreveremos as mais relevantes. Atelectasia É a complicação pulmonar mais frequente; afeta 25% dos pacientes submetidos a uma operação abdominal. Geralmente, surge 24-48 horas após a cirurgia, sendo responsável por mais de 90% dos episódios febris nesse período (patogênese desconhe- cida). Quase sempre sua evolução é autolimitada e sem sequelas. Na atelectasia maciça, entretanto, a febre pode atingir 39 ºC e apresenta-se com taquipneia e taquicardia. A radiografia de tórax pode mostrar a elevação do diafragma, desvio do mediastino para o lado comprometido e estreitamento dos espaços intercostais do mesmo lado. Além disso, aparece imagem hipotransparente (condensação parenqui- matosa), correspondendo ao pulmão ou lobo atelec- tasiado. A cirurgia laparoscópica diminui a incidên- cia desta complicação. Aspiração Geralmente ocorre no pós-anestésico imediato e na extubação do doente que ainda está com seus refle- xos reduzidos (deglutição e tosse). Caso o jejum não tenha sido realizado no pré-operatório, o vômito e a aspiração podem acontecer. O tipo mais grave ocorre após vômitos com as- piração de conteúdo gástrico (causas: alimentação recente ou distensão gástrica por íleo). Infelizmente, é mais frequente em crianças, grávidas e politrauma- tizados. Dois terços dos casos de aspiração ocorrem após cirurgia torácica ou abdominal e, destes, metade evolui para pneumonia. A mortalidade por aspiração maciça é de 50%. Os segmentos basais são afetados maisfre- quentemente. Tratamento: aspiração endotraqueal imediata e/ou broncoscopia + antibioticoterapia. Em pacientes com insuficiência respiratória grave: intuba- ção e ventilação mecânica. A hidrocortisona pode ser útil nos três primeiros dias. Quando o pH do aspirado é de 2,5 ou menos, ocorre pneumonite química, que resulta em edema local e infla- mação, com maior risco de infecção secundária – Sín- drome de Mendelson. 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 Pneumonia A pneumonia no pós-operatório é uma compli- cação potencialmente grave, cuja incidência gira em torno de 4%. Como para a atelectasia, os pacientes com DPOC e os fumantes são os mais propensos a desenvolver infecção pulmonar, após cirurgia do an- dar superior do abdome ou do tórax. Idade superior a 60 anos, alcoolismo, imobi- lização parcial ou total do paciente, uso crônico de corticoide e a perda de 10% ou mais de peso nos 6 meses que antecedem a cirurgia, são os patógenos potenciais Streptococus pneumoniae, Haemophilus in- fluenzae, Staphilococus aureus, meticilino sensível e bacilos Gram-negativos. Embolia e infarto pulmonar Risco maior do 7o ao 10o PO. Inicialmente, se manifestam com taquipneia e taquicardia sem fe- bre. Dez por cento das embolias são assintomá- ticas. Na radiografia de tórax podemos encontrar elevação diafragmática, imagens cuneiformes (si- nal de Hamptom), aumento da área cardíaca e au- mento do tronco da artéria pulmonar e seus ramos (sinais indiretos de hipertensão pulmonar – sinal de Palla). Estes achados se associam a formas mais graves de TEP. O importante é lembrar-se da profilaxia de TVP, que é a melhor maneira de evitarmos TEP (Capítulo 2). Embolia gasosa Condição clínica rara, mas potencialmente fa- tal. A injeção de 20 a 30 mL de ar na circulação pode levar a grave disfunção orgânica. Esta situ- ação pode ocorrer nas insuflações gasosas (pneumo- peritônio, retropneumoperitônio e insuflação tubá- ria), nas infusões venosas e em procedimentos como hepatectomias amplas e cirurgias radicais de esvazia- mento cervical. O quadro clínico é similar ao da em- bolia pulmonar acarretando as mesmas repercussões hemodinâmicas. Na suspeita clínica as medidas mais efetivas consistem em posicionar o paciente em decúbito lateral esquerdo com a cabeça inclinada para bai- xo, quando necessárias manobras de ressuscitação e cateterização de veia central com cateter calibro- so que permita aspiração dos êmbolos espumosos do átrio e ventrículo esquerdo, que respondem pela parada cardíaca e, juntamente com os pulmonares, levam o paciente ao óbito. Embolia gordurosa O termo embolia gordurosa significa presen- ça de glóbulos gordurosos no parênquima pulmonar ou na microcirculação periférica e que geralmente é assintomática. A síndrome de embolia gordurosa é constituída pela presença dos glóbulos de gordura e um cortejo clínico caracterizado por insuficiência respiratória, manifestações neurológicas e peté- quias (mais de 90% dos pacientes que sofrem fratu- ras de ossos longos apresentam embolia gordurosa, mas desses, um número muito pequeno evolui para síndrome de embolia gordurosa). A formação dos glóbulos de gordura é assunto con- troverso, e a fisiopatologia da embolia gordurosa está relacionada com vários fatores. Primeiro, os capilares pulmonares são bloqueados mecanicamente pelos gló- bulos de gordura, resultando em shunting arteriovenoso e hipoperfusão, e consequente hipoxia. Segundo, a re- ação inflamatória surge à medida que a gordura neutra é desmembrada em ácidos gordurosos livres pela lipase contida nos pulmões. Terceiro, as plaquetas aderentes aos glóbulos de gordura também são desmembradas e liberam serotonina, que acarreta mais vasoconstrição e broncoconstrição e, por consequência, mais hipoxia. Em razão de os ácidos gordurosos livres serem muito tóxicos às células pulmonares, sua liberação desagrega a mem- brana alvéolo capilar e a película de fosfolipídeos que revestem os alvéolos, causando colapso alveolar, hemor- ragia e edema. Todas essas condições resultam em deficit de ventilação/perfusão e uma série de dados clínicos con- sistentes com a síndrome de angústia respiratória aguda. O início das manifestações clínicas varia de algumas horas até quatro dias, e cerca de 90% dos pacientes apresentam sinais e sintomas nas pri- meiras 24 horas após o trauma. Os critérios usados para o diagnóstico clínico são os de Gurd e Wilson, de 1974. São divididos em dois grupos, major e minor. Critérios major: � Petéquias axilares ou subconjuntivais. � Hipoxemia (PaO2 < 60 mmHg e FiO2 ≤ a 0,4). � Depressão do SNC. � Edema pulmonar. � Critérios minor: � Taquicardia > 110 bpm. � Febre > 38,3 ºC. � Êmbolos retinianos à fundoscopia. � Gordura na urina. � Gordura no escarro. � Trombocitopenia. � Hematócrito baixo. � Velocidade de hemossedimentação aumentada. 98 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Para a confirmação diagnóstica, é necessário um critério major ou quatro minor. O diagnóstico de embolia gordurosa é essen- cialmente clínico. Os exames de laboratório auxiliam no diagnós- tico da embolia gordurosa, embora não haja nenhum teste definitivo precoce. Os exames de sangue de roti- na revelam anemia, trombocitopenia, elevação da sedi- mentação, hipohemoglobinemia e alterações do tempo de coagulação e sangramento. A lipidúria pode estar presente nos primeiros dias após o trauma. Entre- tanto, os testes diagnósticos recomendados incluem determinação seriada dos valores da lipase sérica e tri- glicerídeos e exame direto de glóbulos de gordura no sangue circulante, porém, o de maior importância para o diagnóstico e a avaliação do tratamento é a dosagem seriada da PO2 arterial. A redução da tensão do oxi- gênio arterial, repetidamente abaixo de 50 a 55 mmHg nas primeiras 72 horas do acidente, em associação com as manifestações clínicas descritas anteriormente, são aceitos como o melhor critério diagnóstico da embolia gordurosa. A radiografia do tórax, obtida também de modo seriado, revela infiltrado flocular disseminado nos campos pulmonares, de grande valor diagnóstico. O eletroencefalograma pode revelar arritmia, mas sem especificidade. Outros exames como pesquisa de glóbu- los de gordura no escarro, biópsia cutânea das áreas de petéquias ou mesmo biópsia renal pouco acrescentam ao diagnóstico. O tratamento da síndrome de embolia gordu- rosa é dirigido, principalmente, à manutenção da respiração, seja nos casos moderados por meio de inalação de oxigênio (máscara ou cateter nasal), seja nos casos graves, por ventilação pulmonar assistida, mediante intubação traqueal e, quando necessário, suplementada por pressão positiva, a fim de manter a tensão do oxigênio arterial acima de 70 mmHg. A administração venosa de altas doses de cor- ticosteroide, 13 mg/kg/dia, associada às medidas descritas e mantidas por quatro a cinco dias, resul- ta em recuperação notável da insuficiência respira- tória. A ação do corticosteroide no parênquima pul- monar é incerta, mas pode ser atribuída à redução dos ácidos gordurosos nas membranas alvéolos capilares, diminuição do edema pulmonar, melhora da relação perfusão/ventilação, aumento da integridade capilar e ação aos efeitos adversos da serotonina. Síndrome da angústia respiratória do adulto (SARA) A SARA é frequente em doentes com choque hi- povolêmico, cardiogênico, séptico, politraumatizados por esmagamento e grandes queimados, e apresenta índice de mortalidade de 30% a 40%. A definição mais precisa da SARA é insufici- ência respiratória aguda caracterizada por edema pulmonar não cardiogênico, hipoxemia e consoli- dações difusas no parênquima pulmonar. Definição de LPA/SDRA pelo American-European Consensus Conference LPA SDRA Início agudo. Início agudo. Infiltrado bilateral na radio- grafia de tórax. Infiltrado bilateral na radio- grafia de tórax. PaO2/FiO2 ≤ 300 mmHg. PaO2/FiO2 ≤ 200 mmHg. Pressão de oclusão da arté-ria pulmonar ≤ 18 mmHg ou ausência de evidên- cia clínica de hipertensão atrial esquerda. Pressão de oclusão da arté- ria pulmonar ≤ 18 mmHg ou ausência de evidên- cia clínica de hipertensão atrial esquerda. Tabela 7.2 FiO2: fração inspirada de O2; PaO2: pressão parcial de oxigênio. Causas de LPA/SDRA Primária Pneumonia.* Aspiração de conteúdo gástrico.* Contusão pulmonar. Embolia gordurosa. Quase afogamento. Edema de reperfusão. Secundária Sepse.* Trauma grave.* Circulação extracorpórea. Overdose de drogas. Pancreatite aguda. Transfusão de hemoderivados. Tabela 7.3 *Causas mais comuns. Predominância de alterações em LPA/SDRA pri- mária (pulmonar) e secundária (extrapulmonar) Primária Secundária Patogênese Lesão do epitélio alveolar. Lesão do endotélio pulmonar. Histopatologia Colapso alveolar. Preenchimento alveolar. Edema intersticial. Congestão micro- vascular. Mecânica ↓ complacência pulmonar ↓ complacência torácica Resposta a recrutamento e posição prona ++ +++ Mortalidade Não há diferença. Tabela 7.4 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 Em linhas gerais, esses pacientes, pela potencial complexidade e frequente concomitância de outras condições clínicas instáveis, necessitam de diversos recursos avançados que vão desde sedação, eventual- mente paralisação, até suporte ventilatório (invasivo ou não) e suporte hemodinâmico. Existe a tendência atual de que as estratégias de ventilação mecânica em LPA/SDRA sejam pautadas em um paradigma de open lung approach, ou seja, a homogeneização do sistema respiratório pela “abertu- ra” e manutenção da patência alveolar, evitando-se a abertura e o fechamento cíclico e a consequente lesão pulmonar induzida pela ventilação mecânica. O volume corrente deve ser baixo (6 mL/ kg de peso ideal) e as pressões de platô do sis- tema respiratório devem estar abaixo de 30-35 cmH2O, ainda que para isso seja necessário “tole- rar” níveis mais elevados de pCO2, conceito este conhecido como hipercapnia permissiva. Elevadas PEEPs podem ser necessárias na ten- tativa de homogeneização e minimização do efeito da abertura e fechamento cíclico dos alvéolos, deletérios para o sistema respiratório. É importante lembrar que a normalidade da oxi- genação não será restaurada se o paciente estiver hi- pertenso. Drogas vasoativas podem ser necessárias e seu uso deve ser pautado nas necessidades hemodinâ- micas e na otimização baseada nas variáveis metabóli- cas (SvO2, lactato, excesso de bases etc.). Derrame pleural e pneumotórax Em operações de abdome superior um pequeno derrame pleural é frequente, sendo geralmente reab- sorvido e não tendo nenhum significado clínico. Na ausência de insuficiência cardíaca ou lesão pulmonar, o aparecimento de derrame pleural tardio no pós-operatório deve alertar para a possibilidade de abscesso intra-abdominal (especialmente após o 10º PO) ou mesmo pancreatite (a cauda do pâncreas irrita o diafragma, aparecendo derrame pleural à es- querda). O pneumotórax no pós-operatório deve ser considerado nas seguintes situações: Vários procedimentos podem ser complicados com pneumotórax e os mais comuns são a biópsia pulmonar transtorácica (35%), a punção venosa supra e infraclavicular (1% a 12%), a toracocentese (10% a 20%), biópsia pleural (10%) e ventilação com pressão positiva (4%). A morbidade e a mortalidade, nesse grupo, são maiores quando há doença pulmonar ad- jacente, principalmente doença pulmonar obstrutiva crônica. O pneumotórax pode ocorrer também du- rante a confecção de traqueostomia e em massagens cardíacas de ressuscitação. A perfuração esofageana, principalmente instrumental, apresenta derrame pleural em 60% e pneumotórax em 25% dos pacientes. O tipo de pneumotórax mais comumente as- sociado a pacientes cirúrgicos é o iatrogênico. O tratamento desse pneumotórax pode ser conserva- dor se estes forem menores que 30% e o paciente estiver assintomático. A observação deve ser rigoro- sa, pois um pneumotórax simples pode evoluir e/ou se tornar hipertensivo. A administração suplementar de oxigênio acelera a absorção do pneumotórax. Nos maiores de 30% e/ou sintomáticos, a drenagem pleural em selo d’água se faz necessária. Pneumotórax, pneumomediastino e enfisema subcutâneo podem ocorrer como complicações de ci- rurgia laparoscópica, principalmente quando há vio- lação do hiato esofageano. O pneumomediastino é um achado comum e considerado normal, mas o pneu- motórax sempre deve ser encarado como patológico e pode ter repercussão clínica. A rotura esofágeca deve ser suspeitada sempre que há pneumomediastino associado à instrumentação endoscópica do esôfa- go ou trauma torácico. O pneumotórax espontâneo, seja primário ou se- cundário, é raro em pacientes cirúrgicos. É importan- te, todavia, lembrar-se da associação de pneumotórax espontâneo e pneumonia por Pneumocystis jiroveci, em pacientes com Aids, que apresentam taxa de recorrên- cia e morbimortalidade associada elevadas. O pneu- momediastino espontâneo é condição rara causada por rotura de alvéolos centrais e dissecção dos tecidos peribrônquicos pelo ar. O tratamento é conservador e a condição está associada a trauma de tórax e o grande esforço com a glote fechada. Complicações da ferida operatória Hematoma O acúmulo de sangue dentro e entre os tecidos da ferida operatória favorece infecção cirúrgica. Ge- ralmente, aparece nas primeiras 24 horas. Caso ocorra em planos profundos, pode não ser reconheci- do até a fase de infecção. Por isso é que, no ato cirúrgi- co, não deve ficar espaço morto. Os tecidos devem ser cuidadosamente aproximados com fio de preferência monofilamentar (menor índice de infecção). Pacientes que recebem aspirina ou heparina, de baixo-peso, possuem considerável aumento na taxa 100 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 de hematomas de ferida cirúrgica. Doentes que usam anticoagulantes orais por muito tempo podem fa- zer hematoma na bainha do reto. Hematomas cervicais, após cirurgias na tireoide, são considerados emergências e devem ser pronta- mente drenados. Seroma Os seromas são coleções fluídas constituídas de serum e/ou lipólise e destituídas de sangue e pus. São extremamente comuns em procedimentos nos quais haja grande dissecção subcutânea com con- sequente ruptura de linfáticos, como mastectomias e reparos de grandes hérnias ventrais. Curativos com- pressivos ou drenos de sucção são indicados em pro- cedimentos de alto risco para desenvolvimento de seroma. Tanto hematoma quanto seroma de ferida cirúrgica são associados a aumento de incidência de infecção. Coleções pequenas são manejadas de modo conservador, sendo reabsorvidas espontaneamente. Coleções maiores são mais bem tratadas com incisão e drenagem associada à revisão de hemostasia e punção por agulha em hematomas e seromas, respectivamen- te. Geralmente ocorre após 48 horas. Infecção A infecção pode ser precoce ou tardia. O agente etiológico mais comum ainda é S. aureus. Distribuição de patógenos isolados de infecções de sítio cirúrgico pelo Sistema Nacional de Vigilância de Infecções Nosocomiais Porcentagem de isolados Patógeno 1986-1989 (n= 16.727) 1990-1996 (n= 17.671) Staphylococcus aureus 17 20 Staphylococcus coagulase- -negativo 12 14 Enterococcus spp. 13 12 Escherichia coli* 10 8 Pseudomonas aeruginosa 8 8 Enterobacter spp. 8 7 Proteus mirabilis 4 3 Klebsiella pneumonia 3 3 Outros Streptococcus spp. 3 3 Candida albicans ↓ 3 Streptococci Grupo D, ou- tros (não enterococci) - 2 Outros aeróbios Gram- -positivos - 2 Bacteroides fragilis - 2 Tabela 7.5 * É o germe mais comum nas feridas lim- pa-contaminadas e nas contaminadas. Definições da infecção de sítio cirúrgico Uma definição precisa de infecção do sítio ci- rúrgico é essencial para as equipes que mensuram as taxas de infecção. Ela deve ser simples e aceita por enfermeiros e cirurgiões. O uso de uma definição pa- dronizada permite comparar as taxas entre cirurgiõese hospitais. Na definição do NNIS, a infecção do sítio cirúrgico está dividida entre dois grupos principais, incisional e de órgãos ou cavidades. As infecções in- cisionais mais comuns são também divididas entre superficiais (pele e tecido subcutâneo) e profundas (tecidos moles profundos como fáscias e camadas musculares). As infecções do sítio cirúrgico de órgãos e cavidades envolvem qualquer parte da anatomia que não seja a incisão que é aberta ou manipulada durante uma cirurgia. Os critérios para os diferentes sítios de infecção são fornecidos a seguir. Infecção do sítio cirúrgico incisional super- ficial: infecção que ocorre no local da incisão dentro de 30 dias, após a cirurgia e que envolve apenas a pele ou o tecido subcutâneo na incisão e com pelo menos um dos seguintes: � drenagem purulenta originada da incisão su- perficial; � um micro-organismo isolado por cultura de flui- do ou de tecido originado da incisão superficial; � abertura deliberada da ferida pelo cirurgião em razão da presença de pelo menos um sinal ou sin- toma de infecção (dor, edema, sensibilidade, au- mento de volume localizado, eritema ou calor), a não ser que a cultura da ferida seja negativa; ou � diagnóstico de infecção do sítio cirúrgico inci- sional superficial pelo cirurgião ou pelo médico assistente. As seguintes condições não são geralmente rela- tadas como infecção do sítio cirúrgico: � ponto de abscesso com mínima inflamação e drenagem confinada aos pontos de penetração das suturas; � infecção em um local de episiotomia; � infecção em um local de circuncisão neonatal; ou � ferido por queimadura infectada. Infecção do sítio cirúrgico incisional pro- funda: infecção que ocorre no local da operação den- tro de 30 dias, após a cirurgia, se nenhuma prótese (corpo estranho não derivado de humano permanen- temente posicionado no paciente durante a cirurgia) for deixada no local e dentro de um ano após a cirur- gia, se uma prótese for deixada no local. Além disso, a infecção parece estar relacionada à cirurgia e envolve tecidos moles profundos (músculo e camadas fásciais) e pelo menos com um dos seguintes: 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 � drenagem purulenta originada de incisão pro- funda, mas não do componente órgão-cavidade do sítio cirúrgico; � deiscência de ferida ou abertura deliberada pelo cirurgião quando o paciente apresenta febre (> 38 °C) ou dor localizada ou sensibilidade, a não ser que a cultura da ferida seja negativa; � um abscesso ou outra evidência de infecção envolvendo a incisão profunda observada por exame direto durante a cirurgia, por exame his- topatológico ou por exame radiológico; ou � diagnóstico de infecção de sítio cirúrgico inci- sional profunda pelo cirurgião ou pelo médico assistente. Infecção do sítio cirúrgico em órgãos ou ca- vidades: infecção que ocorre dentro de 30 dias, após a cirurgia, se nenhum implante (corpo estranho não de- rivado de humanos permanentemente posicionados no paciente durante a cirurgia) for deixado em posição e dentro de um ano após a cirurgia, se um implante for deixado em posição. Além disso, a infecção parece estar relacionada à cirurgia e envolve qualquer parte da anatomia que não seja a incisão aberta ou manipulada durante uma cirurgia e pelo menos com um dos seguintes: � drenagem purulenta originada de um dreno posicionado através de uma ferida perfurante dentro do órgão-cavidade; � um micro-organismo isolado de uma cultura de fluido ou tecido obtida de maneira asséptica no órgão ou cavidade; � um abscesso ou outra evidência de infecção en- volvendo o órgão ou cavidade observada por exame direto durante a cirurgia, por exame his- topatológico ou por exame radiológico; ou � diagnóstico de infecção de sítio cirúrgico de órgão-cavidade pelo cirurgião ou pelo médico assistente. Caso ocorra em menos de 48 horas, com pre- sença de enfisema subcutâneo no local e saída de exsudato marrom-avermelhado, deve ser conside- rada infecção por Clostridium perfringens; por Es- treptococo β hemolítico, quando um eritrema rapi- damente progressivo com sensibilidade nas bordas da ferida for documentado. Habitualmente, a infec- ção de ferida operatória ocorre após o sétimo PO. Índices de infecção da ferida operatória Limpa 1,5%-2,9% Potencialmente contaminada 2,8%-7,7% Contaminada 15,2% Suja 40% Tabela 7.6 Frequência de infecção de ferida segundo o tipo de cirurgia. Fascite necrosante (Gangrena de Meleney) Causada por múltiplos patógenos não clostrí- deos. Geralmente, inclui Estreptococos microaerofíli- cos, Estafilococos, Gram-negativos aeróbios e anaeró- bios. Inicia-se em ferida cirúrgica, úlcera de perna ou ferimento puntiforme. A infecção se espalha pelos pla- nos fásciais levando à trombose dos vasos perfuran- tes. Externamente, bolhas hemorrágicas é o primeiro sinal cutâneo e a pele pode estar com diminuição da sensibilidade, hiperemiada, edemaciada e até mesmo apresentar crepitação. Dor súbita geralmente na ex- tremidade associada à ferida é um sintoma comum. Pode haver saída de secreção fétida e escura pela feri- da e pode-se observar nos tecidos afetados quando se avalia a radiografia. Quanto ao tratamento recomenda-se observação diária da ferida para diferenciar tecidos edemaciados de necróticos e a fim de realizar debridamentos seria- dos, quando necessário e sem atraso. Ampla drenagem é fundamental e pode ser necessária a total desnuda- ção do membro afetado. A amputação pode ser uma medida a ser realizada quando o membro estiver sem função ou quando apresentar miosite difusa. A antibioticoterapia inicial é empírica e de largo espectro, em virtude da elevada frequência de infec- ções polimicrobianas. O exame pelo Gram do exsuda- to purulento pode ajudar na escolha das drogas. O es- quema recomendado é a associação de penicilina G (Streptococo β Hemolítico permanecem altamente sensível às penicilinas) + aminoglicosídeos (para germes Gram-negativos em pacientes com boa fun- ção renal) + clindamicina, que fornece boa cobertura para Streptococo β Hemolítico, estafilococos e ana- eróbios. A clindamicina deve ter preferência sobre o metronidazol, não só por sua ação sobre S. aureus, mas também em decorrência de sua característica de redu- zir a produção de lipopolissacarídeos e a liberação de peptideoglicanos por parte de cepas de germes Gram- -positivos e Gram-negativos produtores de toxinas, assim como a sua capacidade de diminuir a produção de citosinas. Em pacientes com função renal alterada ou limítrofe, o aminoglicosídeo (gentamicina ou ami- cacina) pode ser substituído por uma fluorquinolona, como ciprofloxacino, ou por cefalosporinas de terceira geração, como cefotaxima e ceftriaxona. Outras qui- nolonas, como o levofloxacino e o moxifloxacino, com ação sobre estreptococos, permitem a associação de apenas duas drogas. A cefepima, uma cefalosporina de quarta geração, tem potente ação contra Gram-negativos e Gram-posi- tivos, mas é pouco ativa contra Gram-negativos anae- róbios. Deve ser utilizada em infecções graves, princi- palmente quando há suspeita da presença de bactérias resistentes, e associada à droga antianaeróbica. 102 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Suporte hídrico com cristaloides, plasma e san- gue deve ser realizado e o diabetes, quando presente, controlado. Câmara hiperbárica inibe a invasão bac- teriana, porém, não elimina o foco infeccioso. Infecções intra-abdominais As infecções intra-abdominais difusas são deno- minadas peritonite, enquanto que as que foram iso- ladas e limitadas pelo organismo dentro de um órgão intra-abdominal ou na cavidade peritoneal são chama- das abscesso. Infecção intra-abdominal complicada é definida como a infecção que se estende da víscera oca de origem para a cavidade peritoneal e é associada à formação de abscesso ou peritonite. Os abscessos abdominais continuam a ser um problema difícil, com mortalidade que pode atingir20%. Apresentam-se como coleções puru- lentas, separadas do resto da cavidade peritoneal por aderências inflamatórias da parede e das vísceras ab- dominais, e podem ser únicos ou múltiplos. São resul- tantes da resolução das peritonites generalizadas, ou em consequência de perfuração de vísceras ocas, trato biliar ou pâncreas, onde os mecanismos de defesa do peritônio conseguem bloquear o conteúdo contami- nado. Os abscessos em vísceras maciças são, em geral, oriundos de disseminação hematogênica de um foco séptico à distância. Por razões anatômicas, os acúmulos de secre- ções purulentas tendem a localizar-se em espaços e recessos que se encontram nas vias preferenciais de disseminação da cavidade, quais sejam as goteiras parietocólicas, os espaços subfrênicos, o espaço sub-hepático e a pelve. A retrocavidade, como está praticamente isolada da grande cavidade, apresen- ta coleções purulentas resultantes de processos in- fecciosos de órgãos contíguos, como na pancreatite aguda ou na perfuração gástrica posterior. A maioria dos abscessos intracavitários é causada por bactérias Gram-negativas, anaeróbicas e enterococos. A Esche- richia coli é a principal bactéria Gram-negativa, e o Bacteroides fragilis o principal representante do grupo dos anaeróbicos. A virulência das bacté- rias aumenta na presença da hemoglobina. Diagnóstico A história de condição determinante e a suspeita clínica são o primeiro e importante passo no diagnós- tico do abscesso abdominal, pois os sintomas podem ser pouco definidos. A febre está presente em quase todos os pacientes, iniciando-se em caráter intermi- tente e tendendo, com o evoluir do quadro, tornar-se persistente e alta. A dor e a hipersensibilidade local são achados frequentes, em especial nas coleções anteriores e em contato com o peritônio parietal. Quando presentes, esses sinais guardam estreita relação com o local da infecção. Nas localizações subfrênicas posteriores e na retrocavidade, a dor e a hipersensibilidade podem fal- tar, e nos acúmulos pélvicos o toque retal é a maneira mais precisa para identificar tais coleções. A leucoci- tose está presente na quase totalidade dos casos. Há desvio à esquerda com granulações tóxicas nos po- limorfonucleares. Velocidade de hemossedimentação elevada e hemocultura positiva são outros dados que contribuem para o diagnóstico. A radiografia simples pode contribuir para o diagnóstico na metade dos pacientes, e os achados mais comuns são: gás extraluminal, níveis hidroaé- reos subfrênicos, condensações localizadas, elevação diafragmática e derrame pleural. Os exames radiológi- cos constrastados podem demonstrar deslocamentos de vísceras, trajetos fistulosos ou extravasamentos de contraste para fora do trato digestório. A ultrassono- grafia é de grande sensibilidade na identificação dos abscessos abdominais. Por ser de fácil e rápida reali- zação, incruento e relativamente barato, está sempre indicada. A sua capacidade diagnóstica pode ser su- perior a 90%. Os resultados da ecografia podem estar comprometidos nos pacientes excessivamente obesos, nos colostomizados, nos pacientes com drenos e ban- dagens, ou com feridas abertas. A tomografia compu- tadorizada é um exame cuja precisão aproxima-se de 97% (padrão-ouro). Permite o diagnóstico de pe- quenas coleções e dá uma perfeita localização anatô- mica do problema. Os exames com radionuclídeos, principalmente com gálio e índio, têm sido indicados no diagnóstico dos abscessos abdominais, pois têm capacidade de concentrarem-se nos tecidos ou regiões infectadas. Tratamento A evolução de um abscesso abdominal não tra- tado culmina com o óbito na quase totalidade dos pa- cientes. O diagnóstico precoce e as drenagens com- põem a base do tratamento. O tratamento conservador com antibióticos deve sempre ser desencorajado, pois falha quando a forma- ção do abscesso está consolidada. Alguns esporádicos sucessos com essa forma de tratamento podem ocorrer na fase de inflamação flegmonosa localizada, antes do aparecimento do pus líquido e sua camada envolvente. A drenagem dos abscessos abdominais pode ser operatória ou por punção percutânea, métodos cujos resultados se equivalem quando corretamente indica- dos e perfeitamente executados. 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 A punção percutânea, por evitar um procedimen- to anestésico-cirúrgico, deve ser a escolhida para uma abordagem inicial nos abscessos localizados. Os requi- sitos para indicação de drenagem percutânea estão lis- tados na Tabela 7.7. Requisitos para drenagem de abscesso abdominal por punção percutânea Cavidade unilocular e bem definida. Rota de drenagem segura, sem atravessar intestino ou cavidade contaminada. Ausência de fonte que alimente a contaminação. Infecção não causada por fungos. Suporte cirúrgico para o fracasso ou complicação do proce- dimento. Tabela 7.7 A cavidade do abscesso é puncionada com agu- lha fina (calibre 22) com aspiração do material pu- rulento. Após essa confirmação, a drenagem é exe- cutada com orientação de ecografia ou tomografia computadorizada. É introduzido um cateter tipo “rabo de porco” calibroso (8 a 12 FR). A cavidade é evacuada e lavada com solução salina, podendo-se ou não instilar antibiótico. Após limpeza satisfató- ria, pode ser injetado contraste hidrossolúvel para se avaliar o volume da cavidade. O cateter ou cate- teres são deixados em drenagem fechada e a invo- lução da cavidade é acompanhada por ecografia, TC ou fistulografias. Indicações para drenagem por laparotomia Processo supurativo difuso. Cavidades múltiplas. Ausência de via segura para punção. Fístulas entéricas de alto débito. Componentes sólidos que exigem desbridamento. Tabela 7.8 Os abscessos subfrênicos são preferencial- mente drenados por abordagem subcostal lateral, que se inicia na borda da 11ª costela, prolongando- -se oblíqua e medialmente sob a borda costal. Ao seccionarem-se as camadas musculoaponeuróticas, procede-se ao descolamento de um plano extraperito- neal até a localização do acúmulo de pus. Esse acesso permite ainda a drenagem de coleções sub-hepáticas sem contaminação do resto da cavidade. Abscessos subfrênicos posteriores são mais bem drenados atra- vés de ressecção da 12ª costela. Peritonite Peritonite bacteriana primária ou espontânea é definida como uma infecção bacteriana do líquido as- cítico na ausência de uma fonte infecciosa intra-abdo- minal cirurgicamente tratável. O possível mecanismo patogênico de proliferação bacteriana no líquido ascíti- co é em razão da deficiência no mecanismo imunológi- co de destruição de bactérias que alcançaram a cavidade peritoneal por disseminação hematogênica ou, mais frequentemente, por translocação bacteriana. Este tipo de infecção é mais comum em pacientes cirróticos com ascite, mas pode ocorrer em pacientes com síndrome nefrótica ou, mais raramente, em pa- cientes com insuficiência cardíaca congestiva. As bactérias mais frequentemente responsáveis por peritonite primária são E. coli e Klebsiella pneumo- niae. Em crianças, Estreptococo do grupo A, S. aureus e Streptococcus pneumoniae (este último mais fre- quente em nefróticos) são os mais comuns. O diag- nóstico é realizado pela presença de sinais de sensibili- dade abdominal difusa, ausência de pneumoperitônio em radiografia simples de abdome e presença de mais de 250 neutrófilos/mm³ na análise do líquido ascí- tico. Geralmente, não é necessário aguardar o resul- tado da cultura do líquido ascítico. O tratamento con- siste em antibioticoterapia, preferencialmente uma cefalosporina de terceira geração, como a cefotaxima, por pelo menos cinco dias. Nos pacientes cirróticos, após o primeiro episódio, é obrigatória a profilaxia secundária, e a droga de escolha é norfloxacina 400 mg/dia até a realização do transplante. Etiologia da PBE* Bactérias aeróbicas Gram-negativas (60%) Escherichia coli Klebsiella pneumoniae Cocos Geam-positivos (25%) Streptococcus ssp Tabela7.9 * Enterococos, anaeróbicos e fungos são raros. A presença de flora polimicrobiana sugere peri- tonite secundária. Fatores predisponentes para o desenvolvimento de PBE 1. Doença hepática avançada: Child-Pugh C. 2. Proteínas totais no líquido ascítico < 1 g/dL. 3. Sangramento gastrintestinal agudo. 4. Infecção urinária. 5. Procedimentos invasivos (sondas urinárias ou cate- teres intravasculares). 6. Episódio prévio de PBE. Tabela 7.10 104 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Análise do líquido ascítico e recomendações* Classificação Achados Recomendações PBE clássica PMN ≥ 250/mm³ e cultura do líqui- do ascítico positi- va para um único germe. Tratar com antibió- tico e albumina**. Ascite neutro- cítica cultura- -negativa PMN ≥ 250/mm³ e cultura negativa do líquido ascítico. Tratar com antibió- tico e albumina**. Bacteriascite não neutrocíti- ca monobacte- riana PMN < 250/mm³ e cultura positiva do líquido ascíti- co para um único germe. Repetir a paracen- tese. Tratar com antibiótico se a nova contagem de PMN for ≥ 250/mm³. Sugere perito- nite bacteriana secundária PMN ≥ 250/mm³ e cultura positiva do líquido ascítico para vários germes ou anaeróbico. Tratar como peri- tonite secundária, investigar e tratar a causa básica (perfuração de vís- ceras etc.). Tabela 7.11 * PBE: peritonite bacteriana espontânea; PMN: polimorfonucleares. **Estudos recentes sugerem que apenas um subgrupo dos pacientes com PBE real- mente se beneficia de albumina. Dessa forma, podemos restringir a sua indicação para os pacientes com PBE e: creatinina sérica > 1 mg/dL ou ureia > 60 mg/dL ou bilir- rubina total > 4 mg/dL. Peritonite bacteriana secundária ocorre por contaminação da cavidade abdominal em ra- zão da perfuração de víscera oca ou inflamação grave e infecção de algum órgão intra-abdominal. Os exemplos mais comuns são apendicite, diverti- culite, fístulas pós-operatórias, entre outras infec- ções intra-abdominais. Para o tratamento efetivo são necessários intervenção no órgão acometido, o debridamento do tecido necrótico e infectado e a administração de antibióticos contra germes aeró- bios e anaeróbios. O controle eficiente do local da infecção associado à antibioticoterapia vincula-se a baixos índices de insucesso, sendo a mortalidade inferior a 6%. Peritonite bacteriana terciária ou peritonite persistente ocorre em pacientes imunocomprometi- dos, nos quais as defesas peritoneais do paciente não conseguem eliminar efetivamente a infecção bacteria- na peritoneal secundária. As bactérias mais comumen- te envolvidas incluem Enterococcus faecalis e faecium, Staphylococcus epidermidis, C. albicans e Pseudomonas aeruginosa. O tratamento é o mesmo da peritonite se- cundária, associado à imunomodulação e a manipula- ções medicamentosas. Estas infecções, mesmo com o uso de antibióticos efetivos, estão relacionadas à mortalidade de 50%. Deiscência – evisceração – hérnias Deiscência (incidência de 1% a 3%) de ferida é a ruptura parcial ou total de uma ou mais camadas envolvidas no fechamento da incisão, enquanto que evisceração corresponde à ruptura total de um fecha- mento efetuado após laparotomia. A mortalidade de pacientes com evisceração é em torno de 10%, prin- cipalmente, em virtude da infecção associada. Os fatores predisponentes podem ser divididos: Sistêmicos: DM, uremia, imunossupressão, sepse, hipoalbu- minemia, câncer, obesos e pacientes fazendo uso de esteroides. Locais: � Técnica inadequada de fechamento. � Aumento de pressão intra-abdominal. � Cicatrização deficiente – infecção, hematomas, seromas. A ocorrência de deiscência pode se dar em qualquer momento do pós-operatório precoce, mas é mais obser- vada entre o quinto e o oitavo dia, quando a resistência dos tecidos é mínima. O primeiro sinal de deiscência é a saída de líquido serossanguinolento através da pele, mas evisceração súbita também pode ocorrer. Deis- cências de esterno cursam com instabilidade da caixa to- rácica. Pacientes com laparotomia complicada por deis- cência devem ser mantidos em repouso no leito e a ferida coberta por compressas estéreis embebidas em solução salina ou Ringer. Sob anestesia geral, a cavidade abdo- minal deve ser lavada copiosamente, as suturas antigas devem ser removidas e o novo fechamento realizado me- ticulosamente, utilizando-se pontos totais ou subtotais com material inabsorvível resistente. Evisceração está ligada à mortalidade de 10%, principalmente, em de- corrência da infecção associada. Em esternotomias, se o grau de osteomielite não for grave, a incisão deve ser revisada e fechada no centro cirúrgico. Se a infecção for importante, a ferida deve ser debridada e coberta por um retalho vascularizado de músculo peitoral. Deiscência de ferida sem evisceração em bons candidatos cirúrgicos é mais bem corrigida efetivamente no pós-operatório precoce no centro cirúrgico. Entretanto, se a mesma complicação ocorrer em um paciente com comorbida- des importantes, o manejo conservador com aceitação de uma hérnia ventral a ser corrigida, posteriormente, constitui tática segura e aceitável. A hérnia incisional ocorre por deiscência parcial da aponeurose, despercebida, mas que não rompeu a pele e não apresentou evisceração. O diagnóstico é realizado vários meses mais tarde. O tratamento é eletivo nessas circunstâncias. 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 Síndrome compatimental Resumidamente, consideramos a presença de HIA quando há medidas de PIA > 12 mmHg e de SCA quando há medidas de PIA < 20 mmHg, associadas à disfunção orgânica. Atualmente, levamos em conside- ração a PPA, que é a diferença entre a PAM e a PIA. PPA inferiores a 60 mmHg são geralmente associadas à SCA. Graduação da hipertensão abdominal Grau Pressão (mmHg) Pressão (cm H2O) I 12-15 16-20 II 16-20 21-27 III 21-25 28-34 IV > 25 > 34 Tabela 7.12 A descompressão abdominal por meio de la- parotomia é o método mais rápido e efetivo para o controle das alterações sistêmicas, mas nem sempre isto é necessário. Basicamente, a descom- pressão abdominal está indicada na presença de reper- cussões renais , respiratórias ou hemodinâmicas não reversíveis com o tratamento clínico em doentes com hipertensão abdominal aferida. Este tema será abor- dado plenamente no módulo de Politrauma. Complicações urinárias São extremamente comuns, principalmente após tempo prolongado de internação, sondagem de demora, cirurgias urológicas, proctológicas ou, ainda, em anestesias por bloqueio (raqui e peridural, em ra- zão da retenção urinária). Retenção urinária É frequente após cirurgias proctológicas e em doentes acamados. Doentes com prostatismo, idosos e mulheres que realizaram cesáreas e cirurgias perine- ais são também propensos. O doente relata que está urinando em curtos espaços de tempo, mas em peque- na quantidade (incontinência paradoxal). No exame físico existe a presença do globo vesical (vulgarmente chamado “bexigoma”). O alívio do paciente é obtido através do cateteris- mo vesical. A atonia vesical é tratada com drogas coli- nérgicas como prostigmina (0,5 mg IM, três a quatro vezes ao dia). Infecção urinária Geralmente ocorre após o terceiro PO. Infec- ções do trato urinário são as infecções nosocomiais mais comuns e são responsáveis por cerca de 30% das bacteremias em pacientes internados. Fatores predisponentes incluem uso liberal de cateteres uriná- rios e anormalidades neurológicas ou anatômicas do trato urinário. Insuficiência renal aguda No pós-operatório imediato é esperado que o do- ente ficasse oligúrico em razão da ação de hormônios, fundamentalmente ADH. Entretanto, pode ocorrer insuficiência renal em doentes por muito tempo hipovolêmicos, com dispo- sição prévia, rabdomiólise por esmagamento e uso de drogas (AINES etc.). Nesses casos, o tratamento clínico de suporte deve ser instituído, e caso não seja possível, a solução é a hemodiálise. Causas de insuficiênciarenal aguda pós-operatória Pré-renal Renal Pós-renal Hemorragia Toxinas (contraste, sepse). Ligadura do ureter. Hipovolemia Drogas (aminoglicosídeos, anfotericina). Disfunção da bexiga urinária. Insuficiência cardíaca Nefropatia pigmentar (mioglobina, hemoglobina). Obstrução uretral. Desidratação Tabela 7.13 Avaliação diagnóstica da insuficiência renal aguda Parâmetro Pré-renal Renal Pós-renal Osmolaridade urinária > 500 mOs/L = Plasma Variável Sódio urinário < 20 mOs/L > 50 mOs/L > 50 mOs/L Fração de excre- ção do sódio < 1% > 3% Variável Creatinina uri- nária/plasmática > 40 < 20 < 20 Ureia urinária/ plasmática > 8 < 3 Variável Osmolaridade da urina/os- molaridade do plasma < 1,5 > 1,5 Variável Urina Tipo I Cilindros hialinos* Cilindros granulosos Cilindros hialinos Tabela 7.14 Atenção! *São fisiológicos. 106 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 Indicações para hemodiálise Hipercalemia refratária. Acidose persistente. Sobrecarga aguda de líquidos. Sintomas urêmicos. Tabela 7.15 Complicações digestivas Dilatação gástrica aguda Trata-se de uma complicação que não é comum, podendo se expressar como discreto desconforto ab- dominal local, distensão gástrica, náuseas e vômitos, até quadros mais graves complicados com hemorragia digestiva e até rotura gástrica. Do ponto de vista fisiopatológico, parece que o fator mais relevante é inibição do reflexo motor do estômago pelas vias vagais e esplânc- nicas, e como fator secundário, os distúrbios hi- droeletrolíticos. Os pacientes mais predispostos são aqueles sub- metidos à laparotomias e lobotomias, particularmen- te, idosos e debilitados. Fatores relacionados com atonia e/ou dilatação gástrica aguda Drogas Anticolinérgicos. Agonistas beta-adrenérgicos. Bloqueadores dos canais de cálcio. Opioides. Citostáticos. Agonistas dopamínicos. Distúrbios hidroeletrolíticos Hipocalemia. Hipocalcemia. Hipomagnesemia. Distúrbios metabólicos Diabetes melito. Hipotireoidismo. Hipoparatireoidismo. Gravidez. Vagotomia Gastropatia infiltrativa Amiloidose. Anemia perniciosa. Neoplasia. Doenças sistêmicas Esclerodermia. Dermatomiosite. Fatores relacionados com atonia e/ou dilatação gástrica aguda (cont.) Doença de Crohn Distúrbios psiquiátricos. Distúrbios neuromusculares. Tabela 7.16 Uma vez haja suspeita do diagnóstico, a confir- mação radiológica deve ser estabelecida. O tratamento consiste na colocação de sonda nasogástrica ou reposicionamento naqueles que já estavam sondados. Nos pacientes com diagnóstico correto observa-se saída de ar e de volumes de secre- ção em grande quantidade (> 1 litro e em torno de 4 litros). A sonda deve ser mantida no mínimo por 24 a 48 horas, assim como adequada reposição hidroeletrolítica. Íleo adinâmico Ocorre pela perda da peristalse coordenada e efe- tiva que se dá após laparotomia com manipulação das alças. A peristalse gastrointestinal retorna dentro de 24 horas após a maioria das cirurgias que não envol- vem a cavidade abdominal. Após uma laparotomia, a peristalse gástrica retorna em cerca de 24 a 48 horas. A atividade colônica retorna em 48 horas, começando no seco e progredindo caudalmente, e o delgado nas primeiras 24 horas. O tratamento usual do íleo pós-operatório in- clui a reposição de líquidos e eletrólitos, SNG (não obrigatória para todos os casos), mobilização pre- coce e uso de agentes pró-cinéticos. Obstrução intestinal mecânica É comum após peritonite generalizada. Outra razão seria por bridas (causa mais comum), situação comum em indivíduo que já foi submetido a várias cirurgias. O tratamento deve ser clínico, inicialmente com SNG, analgesia e hidratação e, posteriormente, não havendo melhora (48-72 horas), tratamento ci- rúrgico. Também pode ser causada por hérnias inter- nas (mesentéricas). Pancreatite Não é complicação frequente. Geralmente, ocor- re após cirurgia de via biliar, com descolamen- to do duodeno e/ou pâncreas, podendo atingir 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 1%-3%, sobe para 8% em pacientes submetidos à exploração de via biliar. Sinais e sintomas apa- recem nos primeiros dias de pós-operatório. Nas ci- rurgias realizadas nas regiões vizinhas ao pâncreas, a pancreatite pós-operatória pode ser explicada por agressões mecânicas ao parênquima, canais ou vasos pancreáticos. Nas outras operações citadas, não se conhece o mecanismo que leva ao aparecimento da pancreatite. Tem sido descrita, ainda que raramente, após apendicectomia. A pancreatite aguda pode se apresentar com qua- dros de gravidade variável. Cerca de 5% a 15% são formas graves, com 20% a 60% de mortalidade. O diagnóstico, a definição da gravidade e o tratamento seguem as orientações tradicionais, que serão aborda- das no módulo das doenças pancreáticas. Úlcera de estresse Pode ocorrer, principalmente, em doentes com insuficiência respiratória, infecção grave, politrau- matizados (Úlcera de Cushing), grande queimados (Úlcera de Curling) que são os casos em que se indi- ca a profilaxia. Úlcera de Curling se refere a uma diminuição na produção do muco gástrico, causado por uma vaso- constrição na submucosa do estômago, principalmen- te pela redistribuição do volume sanguíneo. Devemos relembrar que quanto maior o fluxo de sangue na sub- mucosa do estômago, maior a produção de muco. As- sim, no grande queimado ou em situações de hipovo- lemia intensa, a vasoconstrição esplâncnica (incluindo estômago) e cutânea consegue privilegiar o fluxo san- guíneo para órgãos nobres com SNC, coração e rins, e acabam levando à diminuição do muco, com conse- quente gastrite e ulceração. Na úlcera de Cushing existe hipersecreção ácida pelo distúrbio adrenérgico, levando à ulceração. Fatores de risco para o desenvolvimento das úlceras de estresse Trauma múltiplo. Trauma craniano. Grandes queimaduras. Anormalidades da coagulação. Sepse grave. Síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SRIS). Derivação cardíaca. Operação intracraniana. Tabela 7.17 Colite pseudomembranosa Trata-se da forma mais grave de diarreia indu- zida por antibióticos. O agente etiológico é o Clostri- dium dificille. Na colite pseudomembranosa, a diarreia ini- cia-se após a primeira semana de antibioticotera- pia e é geralmente aquosa, de frequência variável e associada a tenesmo, em cerca de 90% a 95% dos casos. Outros sintomas que podem acompanhar o quadro são cólica abdominal (80% a 90%), febre (80%) e, menos comumente, náuseas, vômitos e calafrios. Desidratação com desequilíbrio hidreletrolítico e hi- potensão podem estar presentes, dependendo princi- palmente da intensidade da diarreia. Em casos raros, hipoalbuminemia intensa pode decorrer de entero- patia perdedora de proteína. Em 80% dos pacientes, há leucocitose, que pode atingir níveis elevados como 30.000 cels/mm3. A suspeita diagnóstica de CPM pode ser confir- mada por exame proctossigmoidoscópico, quando revela presença de placas branco-amareladas, me- dindo cerca de 2 a 5 mm de diâmetro, sob a mucosa intestinal. Estas correspondem a pseudomembranas que podem confluir, dando a impressão de uma mem- brana única que recobre toda a superfície infectada. Entretanto, na ausência de pseudomembranas, o diagnóstico de CPM não deve ser excluído, já que em até 30% dos casos elas se localizam na porção mais proximal do cólon, em áreas fora do alcance do retossigmoidoscópio. Na colite fulminante por C. difficile, a exten- são transmural do processo inflamatório pode resultar em microperfurações intestinais com pe- ritonite localizada. Nos casos graves, o cólon perde seu tônus muscular e tende a dilatar-se, resultando em megacólon tóxico (complicação mais temível). Sem o tratamento adequado, o quadro pode evoluir para perfuração intestinal com peritonite generalizada e sepse, que pode resultar no óbito do paciente. Febre, taquicardia, distensão e sensibilidade abdominal localizada, redução da peristalse, além de sinais de sepse podemestar presentes. À medida que a dilatação tóxica aguda se desenvolve, a diarreia pode diminuir em consequência do íleo paralítico, em- bora a condição clínica piore. Deve-se suspeitar de colite fulminante por C. difficile com megacólon tóxico em todo paciente em uso atual ou recente de antibiótico, que desenvolva íleo paralítico ou peritonite localizada. A radiogra- fia simples do abdome mostrará acúmulo de gás in- traluminal e dilatação no segmento do cólon acome- tido. A realização de exame de fezes com pesquisa de toxinas do C. difficile, além da proctossigmoidoscopia, pode permitir o diagnóstico correto, evitando a reali- zação de uma laparotomia desnecessária. 108 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 A pesquisa da toxina B nas fezes é o principal método diagnóstico laboratorial. As vantagens dos ensaios da citotoxina são sua alta sensibilidade (94% a 100%) e especificidade (99%). As maiores desvantagens são seu custo e o tempo para obten- ção do resultado, que oscila entre 24 a 48 horas. Testes imunoenzimáticos (Elisa) detectam to- xina A ou B e são mais rápidos (2 a 6 horas) que os ensaios da citotoxina, entretanto, demonstram exce- lente especificidade (99%), porém, são menos sensiti- vos (70% a 90%), comparados com os ensaios das cito- toxinas. Algumas limitações foram estabelecidas com os testes imunoenzimáticos (Elisa), como: resultados falsos-positivos com a presença de sangue nas fezes; resultados falsos-negativos caso a toxina não tenha sido bem isolada durante a obtenção da amostra; ina- bilidade para conseguir repetitivas análises porque a toxina se degrada com o transcorrer do tempo ou pela pobre correlação com a gravidade da doença. Outros testes diagnósticos incluem o teste de aglutinação do látex e cultura das fezes. O teste de aglutinação do látex é conveniente e de baixo custo, mas não é confiável. A cultura das fezes não é especí- fica para a bactéria produtora de toxina, daí pacien- tes assintomáticos poderem apresentar cultura de fezes positiva decorrente da colonização de outras linhagens não toxigênicas. Além disso, resultados de cultura estão indisponíveis antes de 2 a 5 dias. Alto risco Cefalosporinas (3ª/4ª gerações) Clindamicina* Penicilinas Fluoroquinolonas Tabela 7.18 * O mais tradicional. Agentes quimioterápicos envolvidos na diarreia e/ou colite associada ao Clostridium difficile 5-Fluorouracil Metotrexato Doxorrubicina Ciclofosfamida Tabela 7.19 O tratamento da colite associada ao Clostridium difficile requer, inicialmente, a interrupção do trata- mento com o agente antimicrobiano causal. O quadro diarreico pode regredir sem tera- pia específica em aproximadamente 15% a 25% dos pacientes, entretanto, quando esta é iniciada, contribui para a diminuição, duração e evolução dos sintomas. Os agentes antidiarreicos, incluindo a lopera- mida, o difenoxilato e a codeína, não são recomen- dados porque prolongam o tempo de exposição das toxinas à luz intestinal, podendo precipitar o me- gacólon tóxico. Existem dois potentes e efetivos antibióti- cos para o tratamento da colite pelo C. difficile: o metronidazol e a vancomicina. Os dois antimicrobia- nos são eficientes quando administrados oralmente. O metronidazol é a substância de escolha, sendo utilizada na dosagem de 500 mg, VO, 3 vezes ao dia, durante 10 a 14 dias. Antibióticos para o tratamento de colite pseudomembranosa Nome científico Posologia Duração Metronidazol 400 a 500 mg, VO, de 8/8 h 10 a 14 dias Vancomicina 125 a 500 mg, VO, de 6/6 h 10 a 14 dias Tabela 7.20 Em pacientes não responsivos à introdução de antibioticoterapia específica, alguns autores pre- conizam o uso de imunoglobulina endovenosa com resultados favoráveis. Deve-se atentar para que em presença de deficiência de IgA e alergia a componentes da imunoglobulina, como a maltose, está contraindi- cada essa forma terapêutica. Fecaloma É causa comum no pós-operatório de doentes que usaram morfina, idosos, paraplégicos, caquéticos e que já tinham constipação de longa data. No toque retal existe massa endurecida pseudotumoral. No exa- me físico pode-se ter o Sinal de Gersuny (palpação moldável do cólon com sensação tátil de desprega- mento – separação – quando da retirada da mão). O tratamento consiste na retirada manual do fe- caloma, com ou sem anestesia geral. Parotidite Aparece em pós-operatório tardio. Ocorre pela desidratação que leva ao acúmulo de secreções visco- sas na boca e obstruem o ducto de Stenon. O germe mais implicado é o Staphilococcus aureus. Acomete principalmente indivíduos idosos, debilitados ou desnutridos. O tratamento é iniciado com vanco- micina e, em casos graves, deve ser realizada drena- gem externa da glândula. 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 Icterícia – hepatite Pode acontecer em anestesias repetidas com ha- lotano (fluotanonecrose hepática), hemólise em razão da reação transfusional, choque prolongado (necrose centrolobular hepática), colestase por drogas (eritro- micina) e infecções graves (hepatite transinfecciosa). Na hemólise transfusional, deve-se ter o controle ri- goroso da função renal. Colecistite Pode acontecer em qualquer tipo de operação, mas é mais comum em procedimentos digestivos. É frequentemente acalculosa, mais comum em ho- mens, e tende a evoluir rapidamente para necrose da vesícula. A colecistite aguda alitiásica apresenta caracte- rísticas bem distintas da colecistite aguda calculosa. O comprometimento da parede vesicular é mais intenso, com áreas de comprometimento da mucosa, muscular e serosa, podendo evoluir para necrose e perfuração. Vá- rios fatores de risco têm sido considerados impor- tantes. Os principais entre eles são os seguintes: � trauma; � desidratação – hipovolemia – choque; � jejum prolongado; � íleo prolongado; � suporte nutricional parenteral total (atenção!); � infecção – sepse; � anestésicos – sedativos; � politransfusão; � ventilação mecânica; � queimaduras extensas. Tais fatores de risco então acionam os determi- nantes etiopatogênicos, representados por aumento da viscosidade biliar, constrição esfincteriana com consequente estase, hemólise por politransfusão, re- fluxo da secreção pancreática para o sistema biliar, is- quemia da parede vesicular por aterosclerose ou alte- rações na circulação, estados de baixo fluxo e ativação do fator XII (fator de Hageman). Agindo de diferentes e discutíveis maneiras, os fatores de risco aqui citados podem participar na deter- minação do processo inflamatório. Assim, algumas dro- gas usadas como anestésicos ou sedativos podem levar ao espasmo do esfíncter de Oddi, à febre e à desidrata- ção, e o jejum podem levar ao aumento da viscosidade da bile, o que também ocorreria nos politransfundidos, pela hemólise e consequente formação aumentada de bilirrubina. O suporte nutricional parenteral total alte- ra a composição das secreções biliopancreáticas. A ven- tilação mecânica com emprego de pressão expiratória positiva determina aumento da resistência à passagem da bile, na junção coledocoduodenal, levando a estase biliar. A Tabela 7.21 resume os principais processos de- terminantes da colecistite alitiásica. Processos determinantes da colecistite aguda alitiásica Aumento da viscosidade biliar. Constrição, edema ou estase amputar. Politransfusão-hemólise – NPT. Refluxo da secreção pancreática. Isquemia. Estado de baixo fluxo Ativação do fator XII. Tabela 7.21 Atenção! A colecistite aguda alitiásica tem evolução rápida e, possivelmente, fatal. A mortalidade tem variado, nos diferentes relatos, de 16,6% a 81,8%. Como em mais de 60% dos casos ocorrem colangite, empie- ma, gangrena ou perfuração, a intervenção cirúrgica deve ser realizada o mais precocemente possível. O tipo de intervenção cirúrgica ficará na dependência das condições do paciente e dos achados operatórios. A colecistectomia é a melhor alternativa, mas nem sempre é possível. Em pacientesmuito graves a colecistostomia é opção válida, podendo ser feita até com anestesia local. Nos casos de sofrimen- to vascular da vesícula, a colecistostomia não tem lu- gar, devendo, mesmo com dificuldades, ser realizada a colecistectomia. Complicações cardíacas São infrequentes, mas quando ocorrem são re- sultado de outra complicação. A atenção deve estar voltada para o controle do equilíbrio hidroeletrolítico e hidratação. Arritmias cardíacas Aproximadamente 10% dos pacientes cirúr- gicos apresentam taquicardia supraventricular e quase metade dos pacientes têm, em algum mo- mento, arritmias ventriculares. Diferentemente de arritmias pré-operatórias, que indicam risco au- mentado de morbidade cardíaca perioperatória, ar- ritmias que ocorrem após cirurgia, geralmente, estão associadas a problemas de ordem sistêmica como dor, 110 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 hipoxia, distúrbio hidroeletrolítico, infecção, sangra- mento, hipotensão e isquemia miocárdica, e a corre- ção desses fatores podem ser suficientes para coibi-los. Infarto do miocárdio A incidência de infarto agudo do miocár- dio pós-operatório varia de 0,1% a 0,7% e pode atingir a cifra de 37% em pacientes submetidos à operação, após terem sofrido um infarto recente (menos de 3 meses). A mortalidade associada ao infarto pós-operatório pode chegar 40%. O fator principal na patogenia do infarto é a exis- tência de doença coronariana. Além disso, a vasocons- trição coronariana pode reduzir ainda mais o fluxo sanguíneo e o suplemento de oxigênio. A resposta fi- siológica ao estresse cirúrgico representa um dos fato- res precipitantes na geração de isquemia miocárdica, mas a correlação exata entre os eventos perioperató- rios e o desenvolvimento de infarto ainda é difícil de explicar. Um número significativo de pacientes com infarto do miocárdio pós-operatório não apresenta os sintomas clássicos de dor torácica ou opressão. Isso pode ser explicado pela presença de dor na ferida operatória e pelo uso de analgésicos. O sin- toma mais frequente é a dispneia, mas a instalação aguda de insuficiência cardíaca ou instabilidade hemo- dinâmica deve desencadear investigação laboratorial e eletrocardiográfica imediata. Complicações cerebrais Extremamente raras no pós-operatório em cirur- gia geral, sendo mais comuns após cirurgia cardíaca. AVC Ocorre no paciente idoso, com doença vascular cerebral prévia, que sofreu choque hemorrágico pro- longado ou episódio de hipertensão arterial. As medidas diagnósticas e terapêuticas seguem as mesmas orientações para o paciente da população geral. Psicose pós-operatória Ocorre principalmente em indivíduos idosos ou com doenças crônicas, constantemente com distúrbio psiquiátrico prévio. Vinte por cento dos pacientes têm delirium, e ocorre fundamentalmente após o terceiro PO. O delirium é classificado de acordo com nível de atenção e atividade psicomotora em: � hipoativo; � hiperativo; � misto. Na UTI, dada à magnitude dos tratamentos uti- lizados, principalmente sedativos, e às condições ge- ralmente graves, a forma de delirium mais comum é a hipoativa. Está associada com maior tempo de inter- nação, maior mortalidade e pior prognóstico, pois tem como complicações a aspiração, embolia pulmonar e úlceras de decúbito. É importante ressaltar que pacientes com a for- ma hiperativa oferecem riscos à sua própria seguran- ça, pois pelo grau de agitação removem tubos, pun- ções venosas e arteriais, sendo necessárias altas doses de sedativos, o que consequentemente os expõem a maior tempo de ventilação mecânica, tempo que, por vezes, seria desnecessário. O delirium é um quadro agudo, porém há re- latos de sua permanência após alta hospitalar, em especial naqueles pacientes idosos com quadro de- mencial prévio. Uma característica marcante do delirium é a flu- tuação dos sintomas, com oscilação do nível de cons- ciência e cognição. A atenção está sempre comprome- tida, tornando difícil o contato verbal com o paciente que se apresenta distraído, com dificuldade para res- ponder seletivamente aos estímulos do examinador. Causas de delirium agudo Intoxicação medicamentosa (álcool, anti-histamínicos, se- dativos). Abstinência a drogas (álcool, narcóticos, ansiolíticos). Distúrbios cerebrais agudos (edema, ataque isquêmico transitório, acidente vascular cerebral, neoplasia). Distúrbios metabólicos (desequilíbrio eletrolítico, hipogli- cemia). Distúrbios hemodinâmicos (hipovolemia, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva). Infecções (septicemia, infecção do trato urinário, pneu- monia). Distúrbios respiratórios (insuficiência respiratória, em- bolismo pulmonar). Trauma (lesão craniana, queimaduras). Tabela 7.22 Sempre suspeitar de delirium naquele pacien- te que agudamente apresenta: � confusão mental; � alterações cognitivas: alterações da memória, desorientação, discurso incoerente; 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 � alterações perceptivas: alucinações, principal- mente visuais, não são essenciais para fechar o diagnóstico e ocorrem menos frequentemente; � alterações comportamentais: medo, irritabili- dade, euforia ou apatia; � distúrbios do ciclo sono-vigília; � aumento ou diminuição da atividade psicomo- tora. Os agentes de escolha para o tratamento de pacientes agitados são os neurolépticos, particular- mente o haloperidol, que possui pouco efeito sedativo, hemodinâmico ou depressor respiratório. Possui alto poder antipsicótico, rápido início de ação, meia-vida longa (entre 10 e 18 horas), disponível em várias vias de administração e ampla janela terapêutica. Em pa- cientes críticos, sob ventilação mecânica, tem sido usa- do há muito tempo para manejar a agitação. A infusão contínua de haloperidol tem se mos- trado segura e efetiva. Usa-se um bolus inicial de 2,5 a 10 mg, quando se deseja um efeito mais rápido e se- dativo, seguido por infusão contínua de 0,5 a 5 mg/h. É recomendada a monitorização cuidadosa do inter- valo QT e dos níveis séricos de potássio e magnésio devido ao risco de prolongamento de QT com taqui- cardia ventricular polimórfica e torsade de pointes. O uso de antipsicóticos atípicos, como a rispe- ridona, olanzapina e quetiapina, diminui o risco de desenvolvimento de efeitos colaterais, principalmente extrapiramidais, em comparação ao haloperidol. No entanto, seu uso no delirium é baseado apenas em re- latos de séries de casos ou derivados de estudos para controle de sintomas em demenciados. Os benzodiazepínicos são tratamento de esco- lha apenas nos casos de delirium tremens e nas sín- dromes de abstinência por hipnóticos e sedativos. Em situações de alto risco de acatisia por neurolépti- cos, os benzodiazepínicos podem ter benefício. Alguns relatos de casos e estudos prospectivos pe- quenos concluíram que o uso de inibidores da colines- terase (como galantamina, donepezil e rivastigmina) pode ser benéfico em delirium por droga anticolinérgica. Em pacientes com agitação acentuada que ofe- recem risco à sua própria segurança, algumas vezes, pode ser necessária a sedação mais profunda associada com bloqueio neuromuscular. Neste caso, o midazolan é o agente sedativo de escolha em pacientes graves em geral, pois sua meia-vida curta permite a interrupção da sedação em poucas horas. Depressão pós-operatória grave é mais pre- valente nos pacientes submetidos a cirurgia ba- riátrica qualquer que seja o tipo de operação. Medicamentos usados no tratamento farmacológico de Delirium Antipsicóticos Haloperidol 0,5 a 1 mg VO 2 x/dia, po- dendo oferecer dose adicional a cada 4 horas (pico de ação 4 a 6 horas). 0,5 a 10 mg IM, observar por 10 a 60 minutos, repetir quando necessário (pico de ação 20 a 40 min.). Sintomas extrapiramidais, especialmente se dose maior que 3 mg/dia. Prolongamento de QT no ECG. Evitar em pacientes com sín- drome de abstinência alcoóli- ca, insuficiência hepática. Risco de síndrome neurolép- tica maligna.Medicação de primeira escolha. Efetividade demonstrada em en- saios clínicos randomizados. Evitar uso EV por causa da dimi- nuição da duração de ação. Meia-vida longa de 10 a 18 horas. Antipsicóticos atípicos Risperidona Olanzapina Quetiapina 0,5 mg 2 x/dia 2,5 a 5 mg 1 x/dia 25 mg 2 x/dia Sintomas extrapiramidais equivalentes ou em menor in- tensidade que o haloperidol. Prolongamento do intervalo QT no ECG. Testado em pequenos ensaios clínicos. Associado a um aumento da mortalidade em pacientes com demência. Benzodiazepínicos Lorazepam Diazepam 0,5 a 1 mg VO, com doses adicionais a cada 4 horas, quando necessário. 5 a 10 mg, VO, IM ou EV, com doses adicionais a cada 4 horas, quando necessário. Efeito paradoxal, agitação, de- pressão respiratória, sedação excessiva. Agente de segunda linha. Associado a prolongamento e piora dos sintomas de delirium em alguns ensaios clínicos. Reservado apenas para síndrome de abstinência alcoólica, doença de Parkinson e risco de síndrome neuroléptica maligna. Antidepressivos Trazodona 25 a 150 mg VO à noite Sedação excessiva. Testados apenas em ensaios não controlados. Tabela 7.23 ECG: eletrocardiograma; VO: via oral; IM: intramuscular; EV: endovenoso. 112 Cirurgia geral e politrauma SJT Residência Médica – 2016 As deficiências de volume encontradas no pós- -operatório surgem tanto imediatamente após o traumatismo cirúrgico como em períodos mais tar- dios. Os fatores causais são muito distintos nestas duas circunstâncias. Imediatamente após o trau- matismo surge depleção do volume extracelular em consequência de sequestro de líquidos na área traumatizada. Vários litros de líquido extracelular podem se acumular neste local no intervalo de algu- mas horas. Em algumas circunstâncias, este seques- tro pode ser calculado. Por exemplo, um aumento de 5 a 10 cm na circunferência da coxa de um adulto corresponde a um acúmulo de 1 a 1,5 litro. Infeliz- mente, entretanto, é impossível avaliar a maioria desses sequestros, embora eles possam ser volumo- sos. Em uma laparotomia com manipulação de alças delgadas e na presença de peritonite química, pode- -se ter um acúmulo de 6 a 7 litros no peritônio e alças intestinais. O sequestro de líquidos após os traumatismos manifesta-se pela instabilidade circulatória, que surge depois de algumas horas. O uso exclusivo dos critérios de pressão e pulso pode levar a um diagnós- tico tardio deste tipo de problema. O paciente deve ser acompanhado, sempre que o traumatismo for extenso ou que moléstias associadas exijam grande estabilidade hemodinâmica, por meio de avaliações de: pressão arterial, pulso, pressão venosa central, temperatura e coloração da pele e volume urinário (volume mínimo entre 30 e 50 mL/hora). Deve-se ressaltar que este último dado pode ser falho nos casos com utilização de diurético osmótico ou com insuficiência renal aguda ou crônica. A utilização dos parâmetros de avaliação citados permitirá uma repo- sição volêmica que deve ser feita meticulosamente, com reposições parceladas e acompanhando as per- das na medida em que estas se processam. Os líqui- dos que serão utilizados variarão de acordo com as circunstâncias envolvidas. As alterações de volume mais tardio (terceiro dia em diante) decorrem geralmente de reposição in- suficiente de perdas extrarrenais. Na maioria das ve- zes são perdas gastrointestinais. Esses problemas são mais facilmente prevenidos do que tratados. A prevenção deve ser feita com o acompanha- mento cuidadoso dos doentes, cujo balanço hidro- eletrolítico deve ser calculado ao menos uma vez ao dia, tendo-se em vista a reposição por via parenteral da solução mais adequada para o caso, atingindo-se a concentração adequada dos principais eletrólitos. Excessos O aumento volêmico ocorre quando há, de certa forma, a administração de soluções salinas isotônicas em excesso, em relação às perdas internas ou exter- nas. Pacientes com aparelhos circulatório e respirató- rio normais toleram bem este excesso, havendo logo Complicações metabólicas Complicações do metabolis- mo hidroeletrolítico (HE) Alguns pacientes fogem do padrão esperado de comportamento no PO, apresentando o que podemos chamar de complicações do metabolismo hidroeletro- lítico pós-trauma. Tais complicações são oriundas, na maior parte das vezes, de cuidados médicos inadequados frente às alterações existentes. Em grande parte dos casos, os pacientes se encontram com hidratação parenteral, situação em que o médico deve decidir quais serão as quantidades de água, nutrientes e eletrólitos a serem consumidos. Daí a importância de se fazer um adequado ba- lanço hídrico (o que é que o paciente ingeriu de líqui- dos e o que eliminou). Tipos de complicações HE no pós- -operatório � Distúrbios de volume: são as grandes modifi- cações da quantidade do volume dos comparti- mentos líquidos do organismo, principalmente no compartimento extracelular. � Distúrbios de concentração: referem-se às grandes modificações da osmolaridade do meio interno, que são principalmente determinadas pelas variações da concentração do sódio no lí- quido extracelular. � Distúrbios de composição: referem-se às per- turbações do potássio e magnésio, constituin- tes importantes no equilíbrio hidroeletrolítico celular. Distúrbios de volume Deficiência São os distúrbios mais frequentes. Ocorrem como resultado de perdas de líquidos de composição eletrolítica semelhante ao plasma, de modo que não se refletem sempre por alterações nas concentrações de eletrólitos. Seu diagnóstico deve ser realizado por meio de uma análise exclusivamente clínica, segundo seus sinais e sintomas. Tais sinais dependem não só da quantidade de líquidos perdida, mas também da rapidez com que se produziram tais perdas e das possíveis moléstias as- sociadas. 3 7 Complicações pós-operatórias SJT Residência Médica – 2016 após o equilíbrio entre os compartimentos (intracelu- lar, intravascular e interstício), no intuito de regulari- zar a volemia normal. Chama-nos a atenção, porém, a necessidade de uma correta avaliação do paciente cirúrgico, que requer contínua avaliação dos parâme- tros clínicos extracelulares, como pressão arterial, pul- so, pressão venosa central, diurese, cor e temperatura da pele, além do balanço hidroeletrolítico. A medida de peso também deve ser avaliada. Se o paciente não for corretamente avaliado, vários litros de solução sa- lina poderão ser administrados, sem a apresentação de edemas. O sinal mais precoce de sobrecarga é o au- mento de peso durante o período de catabolis- mo, quando o paciente deverá perder 300 a 500 gramas por dia. Sinais de sobrecarga mais grave são: edema (no dorso e porções posterolaterais do tronco e das coxas em primeiro lugar), disp- neia e estertores pulmonares. Quando o excesso é administrado lentamente, podemos ter grande sobrecarga sem aumento significativo de pressão venosa central, que é um índice muito acurado para avaliação dos excessos feitos em curto in- tervalo de tempo. O tratamento dos excessos de líquidos é feito por indução de um balanço hídrico negativo, funda- mentalmente pela restrição da água administrada. Diuréticos podem ser administrados, com os cuidados necessários para que uma deficiência de potássio não se associe aos distúrbios já existentes. Os excessos de líquidos surgem frequentemente em pacientes com falência renal pós-traumática. Nes- ta condição, enquanto não se chegar à fase de diurese adequada, a água só poderá ser eliminada por meio de diálises. A eliminação de água por diálise peritoneal é mais eficiente que por hemodiálise, apesar de este pro- cesso ser menos adequado para enfermos com compli- cações frequentes. Distúrbios de concentração do sódio Hiponatremia Surge frequentemente quando se usa soluções sem sódio (soro glicosado, por exemplo) para repor perdas de líquidos que contêm este íon, ou quando a administração destas soluções excede a capacidade