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1 ANÁLISE SOBRE A INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 28 DA LEI 11.343/2006 ANALYSIS ON THE UNCONSTITUTIONALITY OF THE ARTICLE 28 OF LAW 11.343/06 Debora Eduarda Santos1 Maria Luana de Almeida e Silva2 Resumo: Em que pese o louvável esforço para reprimir a produção e o tráfico de drogas, tem-se que a Lei 11.343/2006 promove indevida ingerência do Estado na vida privada e na intimidade do usuário. Por meio da presente pesquisa exploratória, promoveu-se o levantamento bibliográfico acerca da (in) constitucionalidade da criminalização veiculada no artigo 28 da aludida lei para a aquisição, guarda, depósito, transporte de drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar para consumo pessoal. Para esta finalidade, utilizou-se método dedutivo e o sistema de fichamento para coleta de dados, através de resumo crítico do dispositivo em comento, e, em seguida, da doutrina, artigos científicos e decisões judiciais sobre a matéria. Observou-se a tipificação das condutas previstas no artigo 28 viola os princípios da alteridade, intimidade, subsidiariedade, bem como a vida privada. Palavras-chave: Inconstitucionalidade. Art. 28 Lei Antitóxicos. Vida Privada. Alteridade. Intimidade. Subsidiariedade. Abstract: Despite the commendable effort to repress the production and trafficking of drugs, Law 11.343/2006 promotes undue interference by the State in the private life and intimacy of the user. Through this exploratory research, a bibliographic survey was carried out on the (un)constitutionality of the criminalization contained in article 28 of the aforementioned law for the acquisition, custody, storage, transportation of drugs without authorization or in disagreement with a legal or regulatory determination for personal consumption. . For this purpose, a deductive method and a filing system were used for data collection, through a critical summary of the device under discussion, and then the doctrine, scientific articles and court decisions on the matter. It was observed that the typification of the conducts provided for in article 28 violates the principles of otherness, intimacy, subsidiarity, as well as private life. Keywords: Unconstitutionality. Article 28 Anti-Toxic Law. Private Life. Otherness. Intimacy. Subsidiarity. 1 Acadêmica do curso de Direito da Instituição de Centro Universitário Una de Bom Despacho. E-mail: deboramorada@hotmail.com. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Direito Centro Universitário Una de Bom Despacho da rede Ânima Educação. 2021. Orientador: Prof. Geraldo Junior dos Santos, Especialista em Direito Processual Civil. 2 Acadêmica do curso de Direito da Instituição de Centro Universitário Una de Bom Despacho. E- mail: mluanalmeida@gmail.com. Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Direito Centro Universitário Una de Bom Despacho da rede Ânima Educação. 2021. Orientador: Prof. Geraldo Junior dos Santos, Especialista em Direito Processual Civil. mailto:deboramorada@hotmail.com mailto:mluanalmeida@gmail.com 2 1. INTRODUÇÃO A análise sobre a (in)constitucionalidade do art. 28 da Lei 11.343/2006 decorre da tipificação da aquisição, guarda, depósito e o transporte para consumo pessoal de drogas para consumo pessoal, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. Questiona-se se tal medida não representaria uma ingerência do Estado na vida privada do indivíduo. A partir do texto constitucional, foi possível verificar que além de ser ilegitimamente invasiva, a tipificação veiculada no dispositivo citado também viola os princípios da subsidiariedade e da alteridade, devendo, portanto, ser observada pelo judiciário com as devidas ressalvas. Pelo presente trabalho, buscou-se avaliar a constitucionalidade da tipificação encartada na lei 11.343/2006, especificamente em seu artigo 28. Comparou-se as teses formuladas no âmbito da doutrina e jurisprudência sobre o tema. Por fim, analisou-se a política antidrogas no direito comparado, sobretudo no que respeita ao porte para consumo pessoal. O tema se mostra de grande relevância, pois está inserido nas constantes discussões acerca da (in)eficácia das medidas adotadas nas políticas antidrogas na América Latina. O flagelo da dependência química é encarado de maneira errônea nas políticas públicas, que oferecem uma saída que passa invariavelmente pelo Direito Penal e não pela saúde pública. A perspectiva empregada na análise do tema é, precipuamente, de ordem constitucional, sobretudo a partir dos princípios que não só possuem papel de integração do ordenamento jurídico, mas também são capazes de oferecer soluções adequadas aos conflitos submetidos ao seu crivo. Na metodologia, empregou-se a pesquisa exploratória, por meio de levantamento bibliográfico. Reconhece-se que a tipificação veiculada no artigo 28 da Lei 11.343/2006 destoa do texto constitucional, e dos princípios aplicados ao Direito Penal, como o da subsidiariedade e da alteridade. As penalidades previstas no preceito secundário do dispositivo são de eficácia questionável, e não se mostram adequadas ao fim perseguido pela lei. 2. CONSIDERAÇÕES ACERCA DO DISPOSTO NO ARTIGO 28, CAPUT, DA LEI 11.343/40 3 A Lei 11.343/2006 está inserida no contexto de políticas públicas voltadas à implementação de medidas empregadas no combate ao flagelo das drogas ilícitas. Entretanto, a partir da leitura de suas finalidades no artigo 1º, é possível deduzir que seu objetivo não se limita apenas ao combate ao tráfego, conforme se observa abaixo: Art. 1º Esta Lei institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas e define crimes (BRASIL, 2006). O SISNAD, instituído pela referida lei, tem suas finalidades balizadas no artigo 3º da referida lei, sendo elas “a prevenção do uso indevido, a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas [...]” (BRASIL, 2006). Destaca-se aqui, o termo “reinserção social”, que deve ser considerado o norte hermenêutico do aplicador da lei. Nessa ordem de ideias, não há a necessidade de repreender, punir ou violar a vida privada do dependente químico, sob a bandeira de sua inclusão na sociedade. E afastando do real sentido da inserção do dependente químico na sociedade, a Lei 11.343/2006 apenou-o, conferindo o mesmo tratamento reservado ao traficante. Apesar das penas brandas dispostas no artigo 28 da referida lei, como a advertência sobre os efeitos das drogas ou prestação de serviços à comunidade, é notória a criminalização do denunciado neste tipo penal. Observando o inteiro teor da Lei Antitóxicos nota-se que de seus artigos vigentes, um terço é voltado para a reinserção do usuário de entorpecentes na sociedade, como princípios e diretrizes que se voltam à autonomia da lei para orientar o usuário e incluí-lo no meio social. Deste modo, o diploma legal em destaque denomina como inimputável aquele que tem a dependência química comprovada através de incidente próprio. Pelo disposto no art. 45, parágrafo único da Lei de Drogas, é possível aferir-se que aquele que for comprovadamente dependente químico deverá ser considerado inimputável e, desta forma, ser absolvido sumariamente da infração que lhe é imputada, cabendo-lhe somente tratamento médico de recuperação em local adequado. 4 Neste sentido, a Lei de Drogas ainda tratou dos semi-imputáveis, ou seja, aqueles que em razão da dependência não estavam no tempo da ação ou omissão, parcialmente privados de sua capacidade de entendimento ou autodeterminação. Desta forma, apesarde criminalizar o uso de entorpecentes, é evidente que a referida lei busca a recondução do usuário, tanto à família como à vida em sociedade, devendo ser este o princípio a prevalecer nas decisões proferidas pelo Judiciário. Isto posto, a criminalização daquele que já se encontra muitas vezes vulnerável socialmente deve ser definida como inconstitucional, já que, além do seu caráter punitivo, viola os direitos constitucionais fundamentais à intimidade, à alteridade, à vida privada e à dignidade humana. 3. DA LESÃO AOS PRINCÍPIOS DA ALTERIDADE, INTIMIDADE, SUBSIDIARIEDADE E VIDA PRIVADA 3.1. DO PRINCÍPIO DA ALTERIDADE O princípio da alteridade, também chamado de princípio da lesividade, garante que para uma infração constituir crime, deve essencialmente ferir bem jurídico de terceiro. Por essa razão, aquele que tenta suicídio não é punido. Logo, não haverá que se punir a autolesão. Nesse sentido, é o ensinamento de Cleber Masson (MASSON, p. 59, 2017): Não há infração penal quando a conduta não tiver oferecido ao menos perigo de lesão ao bem jurídico. Este princípio atende a manifesta exigência de delimitação do Direito Penal, tanto em nível legislativo como no âmbito jurisdicional. De acordo com o clássico ensinamento de Francesco Palazzo: Em nível legislativo, o principio da lesividade (ou ofensividade), enquanto dotado de natureza constitucional, deve impedir o legislador de configurar tipos penais que hajam sido construídos, in abstracto, como fatores indiferentes e preexistentes à norma. Do ponto de vista, pois, do valor e dos interesses sociais, já foram consagrados como inofensivos. Em nível jurisdicional-aplicativo, a integral atuação do princípio da lesividade deve comportar, para o juiz, o dever de excluir a subsistência do crime quando o fato, no mais, em tudo se apresenta em conformidade do tipo, mas ainda assim, concretamente é inofensivo ao bem jurídico específico tutelado pela norma. Destarte, o indivíduo que está em posse de drogas para consumo pessoal, o que por ora tipifica conduta delituosa prevista no art. 28, caput, da Lei de Drogas, 5 não fere bem jurídico de terceiro. Contrario sensu, se alguém há de se sair prejudicado com as consequências dessa conduta é o próprio usuário. 3.2. DOS PRINCÍPIOS DA INTIMIDADE E A VIDA PRIVADA Por sua vez, os princípios da intimidade e a vida privada – estritamente interligados – estão positivados no art. 5º, inciso X, da nossa Carta Magna, assegurando autonomia e liberdade para o indivíduo naquilo que respeita à sua própria vivência. Nessa ordem de ideias, caso deseje fazer uso de substâncias entorpecentes, não há razão para que o Estado interfira, uma vez que qualquer prejuízo será sofrido pelo próprio usuário. Para ilustrar, aproveita-se a explicação da Juíza de Direito aposentada e Diretora da LEAP (Law Enforcement Against Prohibition) Brasil, Doutora Maria Lúcia Karam: A nocividade individual de uma conduta privada poderá ser uma boa razão para ponderações ou persuasões, mas nunca para que o supostamente prejudicado seja obrigado a deixar de praticá-la. Há mais de um século, já assim alertava Stuart Mill, ao discorrer sobre a liberdade, em afirmação que bem traduz o alcance da garantia constitucional que, assegurando os direitos concernentes à intimidade e à vida privada, faz com ela incompatíveis os dispositivos legais criminalizadores da posse de drogas para uso pessoal e de seu consumo em circunstâncias que não afetem terceiros, quaisquer que sejam as modalidades de pena atribuídas a tais condutas (KARAM, pp. 155/164, 2005). Aproveita-se a oportunidade, para destacar a afirmação do Ministro Barroso em suas anotações para o voto oral do RE 635.659 RG/SP – SÃO PAULO: Há coisas que a sociedade pode achar ruins, mas que nem por isso são ilícitas. Se um indivíduo, na solidão das suas noites, bebe até cair desmaiado na cama, isso não parece bom, mas não é ilícito. Se ele fumar meia carteira de cigarros entre o jantar e a hora de ir dormir, tampouco parece bom, mas não é ilícito. Pois digo eu: o mesmo vale se, em lugar de beber ou consumir cigarros, ele fumar um baseado. É ruim, mas não é papel do Estado se imiscuir nessa área (BRASIL, 2015, pp. 7/8) Desse modo, se os princípios supracitados da intimidade e vida privada têm a finalidade de garantir a liberdade do indivíduo, até mesmo frente ao Estado, de modo que ele possa conduzir sua própria vivência, não há motivos para punir o usuário de entorpecentes por sua escolha que impacta, especialmente, em sua esfera privada. 6 3.3. DO PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE Outrossim, não se pode esquecer a importante lição de Nucci quanto ao princípio constitucional implícito da subsidiariedade, também conhecido como intervenção mínima: (...) quer dizer que o direito penal não deve interferir em demasia na vida do indivíduo, retirando-lhe autonomia e liberdade. Afinal, a lei penal não deve ser vista como a primeira opção (prima ratio) do legislador para compor os conflitos existentes em sociedade e que, pelo atual estágio de desenvolvimento moral e ético da humanidade, sempre estarão presentes. Há outros ramos do direito preparados a solucionar as desavenças e lides surgidas na comunidade, compondo-as sem maiores consequências. O direito penal é considerado a ultima ratio, isto é, a última cartada do sistema legislativo, quando se entende que outra solução não pode haver senão a criação de lei penal incriminadora, impondo sanção penal ao infrator (NUCCI, 2017, p. 23) A partir de tal explicação, constata-se o excesso do legislador ao tipificar a conduta prevista no art. 28, caput, da Lei Antitóxicos. Ademais, se o indivíduo fizer uso de substâncias que lhe prejudiquem, não se trata de caso passível de punição, ainda que administrativa, mas sim de tratamento. Logo, é possível inferir que o sistema é falho ao deixar de instituir políticas públicas, quer sejam por meio do Sistema Único de Saúde ou Secretaria Nacional de Assistência Social, ao optar por seguir o caminho que, ao menos em tese, deferia ser a ultima ratio. 3.4. CARBAMAZEPINA (TEGRETOL) A título de ilustração, cumpre destacar que dentre as substâncias dispostas na lista de substâncias entorpecentes, psicotrópicas, precursoras e outras sob controle especial (RESOLUÇÃO-RDC Nº 265, DE 8 DE FEVEREIRO DE 2019), encontramos a Carbamazepina (Tegretol), conhecida por sua eficácia no tratamento de crises convulsivas – epilepsia, presente na lista das outras substâncias sujeitas a controle especial (sujeitas à receita de controle especial em duas vias). Logo, o indivíduo que adquire "carbamazepina" para tratar sua enfermidade, sem autorização, em tese está praticando a conduta tipificada no art. 28, caput, da Lei Antitóxicos. 3.5. DA AGRESSÃO AOS PRINCÍPIOS 7 Portanto, cumpre analisar a tipicidade penal, a qual exige ofensa de alguma gravidade aos bens jurídicos tutelados, pois não é qualquer ofensa a tais bens suficiente para configurar o injusto típico (BITENCOURT, p. 84, 2018). Nessa senda, não há motivos que impeçam ainda a aplicação do princípio da insignificância – fator de descaracterização material da tipicidade penal, destinado a diminuir a intervenção do Direito Penal (MASSON, p. 28 – 29, 2017) – vez que a conduta narrada se amolda aos requisitos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal: EMENTA: PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. 1. O entendimento do STF é firme no sentido de que o princípio da insignificância incide quando presentes, cumulativamente, as seguintes condições objetivas: (i) mínima ofensividade da conduta do agente; (ii) nenhuma periculosidade social da ação; (iii) grau reduzido de reprovabilidade do comportamento; (iv) inexpressividade da lesão jurídica provocada, ressaltando, ainda, que a contumácia na práticadelitiva impede, em regra, a aplicação do princípio. Hipótese de paciente condenado pelo crime de furto qualificado pelo abuso de confiança, não estando configurados, concretamente, os requisitos necessários ao reconhecimento da irrelevância material da conduta. 2. Agravo regimental desprovido. (HC 175.945 Paraná. Rel: Min. Roberto Barroso, Supremo Tribunal Federal, julgado em 27 de abril de 2020, grifos nossos). Nesse ensejo, utilizar-se do Direito Penal, quando este deveria ser a ultima ratio, para punir o usuário é demasiado desproporcional, mesmo que as penalidades aplicáveis tenham viés pedagógico. Afinal de contas, de que vale a advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade ou a medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo, se o indivíduo irá permanecer com sua enfermidade e, em quadro de dependência do entorpecente. Destarte, ante à elucidação dos fatos supra indicados, percebe-se a lesão a princípios constitucionais e do próprio direito penal brasileiro, um indicativo claro que o artigo 28 da Lei 11.343/2006 está em desconformidade com o que se espera de uma norma penal constitucional. 4. A DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO DE ENTORPECENTES NO DIREITO COMPARADO 8 Não pairam dúvidas sobre a inconstitucionalidade do artigo 28 da Lei 11.343/2006, sendo que essa assertiva foi afirmada na admissão do Recurso Extraordinário 635.659/SP em nossa corte suprema, tendo o ministro relator Gilmar Ferreira Mendes considerado: É sabido que as drogas causam prejuízos físicos e sociais ao seu consumidor. Ainda assim, dar tratamento criminal ao uso de drogas é medida que ofende, de forma desproporcional, o direito à vida privada e à autodeterminação. O uso privado de drogas é conduta que coloca em risco a pessoa do usuário. Ainda que o usuário adquira as drogas mediante contato com o traficante, não se pode imputar a ele os malefícios coletivos decorrentes da atividade ilícita (RE 635.659 São Paulo. Relator: Min. Gilmar Mendes, Supremo Tribunal Federal). Ademais frisa o doutor Maurides de Melo Ribeiro que o uso da cannabis ocorre em vários países do globo, não apenas em países desenvolvidos como a Holanda ou Portugal, único país que descriminalizou a conduta do consumo de qualquer psicotrópico, mas também nos países latinos americanos, uma vez que houve a descriminalização do uso privado na Argentina e a Colômbia, por meio de decisões das suas respectivas Cortes Constitucionais, bem como a admissão do porte e uso privado de pequena quantidade de canabis no Uruguai (RIBEIRO, 2013, p. 131/132). 4.1. COLÔMBIA De mais a mais, torna-se essencial destacar que na Colômbia, em que pese ser proibido o uso de narcóticos pela Constituição, a conduta não é tipificada como crime, sendo o indivíduo submetido a medidas pedagógicas, administrativas e terapêuticas. Veja-se: Na Sentença C-574 de 2011, com base na interpretação sistemática dos novos parágrafos introduzidos pelo Ato Legislativo 02 de 2009 no conteúdo do artigo 49, com o restante deste preceito superior, e com outros princípios do texto fundamental que afetem seu alcance, o Tribunal chegou às seguintes conclusões: 1. Levando em consideração a interpretação sistemática do parágrafo sexto com o restante do artigo 49 do CP várias conclusões podem ser tiradas: (i) Que a proibição da posse e consumo de entorpecentes e substâncias psicotrópicas para submissão a medidas administrativas de ordem pedagógica, profilática, terapêutica com consentimento informado do dependente, corresponderia ao dever prestar atenção integral à saúde da pessoa e da comunidade, contida no parágrafo quinto do artigo. (ii) Que não só se estabeleçam as medidas pedagógicas, administrativas e terapêuticas para o adito que consente de forma informada submeter-se a tais medidas e tratamentos, mas que o Estado dedique atenção especial ao paciente dependente ou dependente e sua 9 família, com o desenvolvimento permanente de campanhas de prevenção ao consumo de drogas ou entorpecentes e a favor da recuperação de dependentes químicos. (iii) Por fim, que a submissão às medidas e tratamentos para dependentes químicos e dependentes que transportem e consumam entorpecentes e psicotrópicos, e que consintam de forma informada se submeter a medidas e tratamentos de ordem pedagógica, profilática ou terapêutica, devem ser prestados pelo Estado ou por particulares ou pelo sistema de saúde de acordo com os princípios da eficácia, universalidade e solidariedade. 2. Quanto à interpretação do parágrafo sexto do artigo 49, com o resto da Constituição, deve-se ter em conta que o referido artigo, que se insere no direito à saúde, deve corresponder a um conceito amplo de dignidade que se implique em si. - determinação (artigo 1º), com o direito à vida e com o dever do Estado de protegê-la (artigo 11º e segundo parágrafo do artigo 2º), com prevalência dos direitos da criança sobre os direitos dos outros (terceiro parágrafo do artigo 44º), com a proteção e formação integral dos adolescentes (artigo 45), com a obrigação de avançar uma política de provisão, reabilitação e integração social para os deficientes físicos, sensoriais e mentais a quem os cuidados especializados de que necessitam (art. 47); com o mesmo direito à saúde e ao saneamento ambiental (art. 49) e com o primeiro número dos deveres do art. 95 que estabelece que todos têm o dever de “Respeitar os direitos dos outros e não abusar dos seus”. (COLÔMBIA, 2012, tradução nossa)3 3 En la sentencia C-574 de 2011, a partir de una interpretación sistemática de los nuevos incisos introducidos por el Acto Legislativo 02 de 2009 en el contenido del artículo 49, con el resto de este precepto superior, y con otros principios del texto fundamental que inciden en su alcance, la Corte llegó a las siguientes conclusiones: 1. Teniendo en cuenta la interpretación sistemática del inciso sexto con el resto del artículo 49 de la C.P. se desprenden varias conclusiones: (i) Que la prohibición del porte y consumo de estupefacientes y sustancias sicotrópicas para el sometimiento a medidas administrativas de orden pedagógico, profiláctico, terapéutico con el consentimiento informado del adicto, se correspondería con el deber de procurar el cuidado integral de la salud de la persona y de la comunidad, contenido en el inciso quinto del artículo. (ii) Que no solamente se establecen las medidas pedagógicas, administrativas y terapéuticas para el adicto que consienta de forma informada someterse a dichas medidas y tratamientos, sino que el Estado dedicará especial atención al enfermo dependiente o adicto y a su familia, con el desarrollo permanente de campañas de prevención contra el consumo de drogas o sustancias estupefacientes y a favor de la recuperación de los adictos. (iii) Por último, que el sometimiento a las medidas y tratamientos para los adictos y dependientes que porten y consuman sustancias estupefacientes y sicotrópicas, y que consientan de manera informada someterse a las medidas y tratamientos de orden pedagógico, profiláctico o terapéutico, deberá proveerse por parte del Estado o por los particulares o por parte del sistema de salud de acuerdo a los principios de eficiencia, universalidad y solidaridad. 2. En cuanto a la interpretación del inciso sexto del artículo 49, con el resto de la Constitución, se tiene que tener en cuenta que dicho apartado, que está inserto en el derecho a la salud, se debería corresponder con un concepto amplio de dignidad que implique la autodeterminación (artículo 1), con el derecho a la vida y con el deber del Estado de protegerla (art. 11 e inciso segundo del artículo 2º), con la prevalencia de los derechos de los niños sobre los derechos de los demás (inciso tercero del artículo 44), con la protección y la formación integral del adolescente (artículo 45),con la obligación de adelantar una política de previsión, rehabilitación e integración social para los disminuidos físicos, sensoriales y síquicos a quienes se les prestará la atención especializada que requieran (art. 47); con el mismo derecho a la salud y saneamiento ambiental (art. 49) y con el numeral primero de los deberes del artículo 95 que establece que toda persona tiene el deber de “Respetar los derechos ajenos y no abusar de los propios”. 10 Nessa senda, foi a decisão da Suprema Corte mexicana em 28 de junho do corrente ano, ocasião em que descriminalizou o uso recreativo privado de cannabis por adultos, considerada até então proibição inconstitucional. Desta forma, os adultos podem registrar-se para obter licenças que lhes permitam cultivar e consumir sua própria cannabis, com a ressalva de não fumar em público e na frente das crianças. Nesta oportunidade, frisou o ministro presidente Arturo Zaldívarser em sua rede social – twitter – ser um “Día histórico para las libertades” (2021), isso porque estariam de fato agindo de acordo com a Constituição. 4.2. ARGENTINA Urge trazer à baila o entendimento da Suprema corte argentina no caso Arriola, Causa 9.080, j. 25/08/2009, ocasião em que descriminalizou a posse privada de drogas para uso pessoal, uma vez que não afeta bens jurídicos de terceiros, fundamentando-se então no princípio da ofensividade (GOMES, 2010). Vê-se que a partir do princípio da lesividade, o artigo 28 da lei 11.343/2006 é eivado de patente inconstitucionalidade. Em que pese toda a reação prejudicial à saúde causada pelo uso de substâncias entorpecentes, frisa-se a violação de direitos constitucionais, conforme elucida a decisão da Suprema Corte argentina, bem como a impossibilidade do Direito Penal para cuidar de tal assunto, que, diga-se de passagem, é questão não apenas de saúde pública, mas também social, em alusão ao entendimento colombiano. À vista disso, há de se lembrar da afirmação do jurista Franz von Liszt onde dispõe que “o Código Penal é a Carta Magna do delinquente", o que impede a apenação do indivíduo que antes deveria submeter-se a tratamento. 5. DA (IN)CONSTITUCIONALIDADE DO ARTIGO 28, CAPUT, DA LEI 11.343/06 Pelos motivos indicados, observa-se que o artigo 28 da Lei 11.343/2006 conflita com princípios constitucionais, especialmente o da privacidade e da autonomia individual. Noutro giro, tem-se o entendimento que a penalização da aquisição, guarda, depósito, transporte de entorpecente para uso pessoal tem por fim tutelar a saúde pública “ante o risco e o perigo de difusão da droga que tal conduta é capaz de gerar” (COUTO; SILVA, 2015). 11 Em sentença proferida nos autos de n.º 0602245-17.2018.8.04.0001 que tramitou na 2ª Vara Especializada em Crimes de Uso e Tráfico de Entorpecente, a juíza Rosália Guimarães Sarmentos desclassificou a conduta de três denunciados por tráfico e associação para o tráfico, imputando-lhes somente o artigo 28 contido na Lei 11.343/2006. Em seguida, a magistrada ainda declarou ex officio a inconstitucionalidade do artigo que criminaliza o uso de entorpecentes, tendo como base o posicionamento do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes no RE 635.659/SP. Por fim, absolveu um dos denunciados e aplicou aos demais o disposto no artigo 28, §7º da Lei Antitóxicos, que, no seu entendimento, não possui natureza penal (AMAZONAS, 2019) Em sua fundamentação, ponderou a magistrada que o tratamento dado aos imputados na prática de uso de entorpecentes não deve ser o mesmo àqueles denunciados pelo crime de tráfico de drogas e similares, já que o dispositivo mencionado foi criado visando distinguir a figura dos dois tipos penais, penalizando o primeiro com medidas brandas como a advertência e o tratamento ambulatorial obrigatório (AMAZONAS, 2019). Igualmente, ressaltou a magistrada a importância do direito ao livre desenvolvimento da personalidade, ferido pela criminalização do uso de entorpecentes, bem como a garantia da intimidade, da vida privada e da autodeterminação (AMAZONAS, 2019). Ainda que a matéria não tenha sido decidida definitivamente pelo Supremo Tribunal Federal, promoveu a magistrada o controle difuso de constitucionalidade do artigo 28 da lei 11.343/2006. Nesse espeque, esclarece-se que é função institucional do Poder Judiciário conferir tutela aos direitos e garantias fundamentais, dentre eles a intimidade e a vida privada, se balizando, para tanto, nos princípios constitucionais implícitos e explícitos. Ainda neste sentido o Superior Tribunal de Justiça em suas decisões vem deliberando o entendimento de que, embora denominado como crime, a condenação pelo art. 28 da Lei de Drogas não gera reincidência, uma vez que eventual condenação pela infração penal não é punível com pena privativa de liberdade, assemelhando-se às normas estabelecidas a Lei de Contravenções Penais, no que tange a reincidência. Este vem sendo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça: 12 RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. CONDENAÇÃO ANTERIOR PELO DELITO DO ARTIGO 28 DA LEI DE DROGAS. CARACTERIZAÇÃO DA REINCIDÊNCIA. DESPROPORCIONALIDADE. 1. À luz do posicionamento firmado pelo Supremo Tribunal Federal na questão de ordem no RE nº 430.105/RJ, julgado em 13/02/2007, de que o porte de droga para consumo próprio, previsto no artigo 28 da Lei nº 11.343/2006, foi apenas despenalizado pela nova Lei de Drogas, mas não descriminalizado, esta Corte Superior vem decidindo que a condenação anterior pelo crime de porte de droga para uso próprio configura reincidência, o que impõe a aplicação da agravante genérica do artigo 61, inciso I, do Código Penal e o afastamento da aplicação da causa especial de diminuição de pena do parágrafo 4º do artigo 33 da Lei nº 11.343/06. 2. Todavia, se a contravenção penal, punível com pena de prisão simples, não configura reincidência, resta inequivocamente desproporcional a consideração, para fins de reincidência, da posse de droga para consumo próprio, que conquanto seja crime, é punida apenas com "advertência sobre os efeitos das drogas", "prestação de serviços à comunidade" e "medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo", mormente se se considerar que em casos tais não há qualquer possibilidade de conversão em pena privativa de liberdade pelo descumprimento, como no caso das penas substitutivas. 3. Há de se considerar, ainda, que a própria constitucionalidade do artigo 28 da Lei de Drogas, que está cercado de acirrados debates acerca da legitimidade da tutela do direito penal em contraposição às garantias constitucionais da intimidade e da vida privada, está em discussão perante o Supremo Tribunal Federal, que admitiu Repercussão Geral no Recurso Extraordinário nº 635.659 para decidir sobre a tipicidade do porte de droga para consumo pessoal. 4. E, em face dos questionamentos acerca da proporcionalidade do direito penal para o controle do consumo de drogas em prejuízo de outras medidas de natureza extrapenal relacionadas às políticas de redução de danos, eventualmente até mais severas para a contenção do consumo do que aquelas previstas atualmente, o prévio apenamento por porte de droga para consumo próprio, nos termos do artigo 28 da Lei de Drogas, não deve constituir causa geradora de reincidência. 5. Recurso improvido. (grifo acrescido, REsp 1.672.654/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, 6ª Turma, julgado em 21/08/2018) PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. ARTIGO 273, § 1º E § 1º-B, I e V, DO CÓDIGO PENAL. DOSIMETRIA. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. MAUS ANTECEDENTES. CONDENAÇÃO ANTERIOR PELO ART. 28 DA LEI 11.343/2006. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. DELITO SEM PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. INFRINGÊNCIA LEGAL QUE NÃO CONFIGURA REINCIDÊNCIA OU MAUS ANTECEDENTES. FLAGRANTE ILEGALIDADE EVIDENCIADA. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDADE OFÍCIO. (...) 3. É desproporcional o reconhecimento da agravante da reincidência decorrente de condenação anterior pelo delito do art. 28 da Lei 11.343/2006, uma vez que a infringência da referida norma legal não acarreta a aplicação de pena privativa de liberdade e sua constitucionalidade está sendo debatida no STF. 4. Com maior razão, por ser o antecedente um instituto penal subsidiário ao da agravante da reincidência, é incabível, também, a utilização de condenação anterior pelo delito de posse de drogas a título de maus antecedentes, para aumentar a pena-base. Precedentes. 5. Writ não conhecido. Ordem concedida, de ofício, a fim de reduzir a reprimenda imposta ao paciente para 5 anos e 10 meses de reclusão, mantida, no mais, a sentença condenatória. (grifo acrescido, HC 550.775/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª Turma, julgado em 06/02/2020) 13 Outrossim, em recente decisão, datada de 14 de setembro de 2021, a 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, firmou o entendimento de que plantação de maconha para consumo pessoal não é crime. Segundo a convicção do Superior Tribunal de Justiça: “Não é possível que o agente responda pela prática do crime do art. 34 da Lei n. 11.343/2006 quando a posse dos instrumentos configura ato preparatório destinado ao consumo pessoal de entorpecente” (RFC 135.617/PR) Sob essa mesma perspectiva, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), por meio de sua Sexta Turma, assentou entendimento no julgamento do Recurso em Habeas Corpus (RHC) de n.º 135.617 / PR que não há como tipificar a conduta do agente no artigo 34 da Lei 11.343/06, quando ele possuir artefatos para preparação de substâncias entorpecentes para consumo pessoal, não há que se falar em lesão ao bem jurídico visado pelo legislador, que é a saúde pública (BRASIL, 2021). À vista disso, a Sexta Turma ainda destacou acerca do tratamento penal conferido ao usuário: DEPÓSITO DE ENTORPECENTE PARA USO PESSOAL E POSSE DE OBJETOS DESTINADOS AO PLANTIO DE CANNABIS SATIVA. CRIME DO ART. 34 DA LEI N. 11.343/2006. DELITO AUTÔNOMO. NÃO CONFIGURAÇÃO. (...) Por fim, é consenso jurídico que o legislador, ao despenalizar a conduta de posse de entorpecente para uso pessoal, conferiu tratamento penal mais brando aos usuários de drogas. Nesse contexto, se a própria legislação reconhece o menor potencial ofensivo da conduta do usuário que adquire drogas diretamente no mercado espúrio de entorpecentes, não há como evadir-se à conclusão de que também se encontra em situação de baixa periculosidade o agente que sequer fomentou o tráfico, haja vista ter cultivado pessoalmente a própria planta destinada à extração do óleo, para seu exclusivo consumo. (RHC 135.617-PR, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 14/09/2021.) (grifo acrescido) Desta forma, nos dois julgados reconhece-se que o ius puniendi do Estado não pode sobrepor a garantia e direitos individuais, nem tampouco conferir ao usuário o mesmo tratamento penal cabível ao traficante. Na aplicação do direito penal, o Poder Judiciário não pode deixar à margem a proteção dos bens jurídicos fundamentais, sob pena de ingerência na vida privada, e comprometimento da dignidade humana. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 14 A análise do artigo 28 da Lei 11.343/2006 (Lei de Drogas/Antitóxicos) foi elaborada com o propósito de avaliar se a tipificação empregada viola os princípios da subsidiariedade, da vida privada e da intimidade. A partir das considerações apresentadas, observou-se que o aludido dispositivo derroga os princípios citados, o que por si só, já atesta a sua inconstitucionalidade. Avaliando as finalidades da lei, extrai-se que ela busca a recondução do usuário, tanto à família como à vida em sociedade, devendo ser este o princípio a prevalecer nas decisões proferidas pelo Judiciário. Isto posto, a criminalização daquele que já se encontra em estado de vulnerabilidade social deve ser reconhecida como antijurídica, pois além de punir aquele que não precisa de reprimenda, compromete não só a intimidade, a alteridade, e a vida privada, mas também a dignidade humana. Considerando que o Direito Penal é a ultima ratio, o uso de entorpecentes não é matéria que lhe compete, devendo integrar as pautas de políticas públicas voltadas à educação, prevenção ou medidas terapêuticas dedicadas à reinserção do usuário na comunidade. REFERÊNCIAS AMAZONAS. Comarca de Manaus. Processo 0602245-17.2018.8.04.0001. Sentença. Juíza de Direito: Rosália Guimarães Sarmento, 21 de fevereiro de 2019. Disponível em: < https://www.conjur.com.br/dl/juiza-antecipa-supremo-declara.pdf>. Acesso em 20 ago. 2021. BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2018. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. 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