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@anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 1 TIREOIDOPATIAS TIREOIDE INTRODUÇÃO A tireoide, localizada imediatamente abaixo da laringe e ocupando regiões laterais e anterior da traqueia, é uma das maiores glândulas endócrinas do organismo. Essa glândula secreta dois hormônios principais, a tiroxina e a triiodotironina, usualmente chamados de T3 e T4. Ambos os hormônios vão ter a função de aumentar intensamente o metabolismo do organismo. A ausência completa de secreção tireoidiana, em geral, faz com que o metabolismo basal caia e o excesso pode aumentar o mesmo de forma exagerada. A secreção dos hormônios tireoidianos é controlada pelo hormônio estimulante da tireoide (TSH), secretado pela adeno-hipófise. A tireoide também vai ter a função de secretar calcitonina, hormônio importante para o metabolismo do cálcio. EIXOS DE ATIVAÇÃO Hipotálamo vai liberar o TRH, o hormônio liberador de tireotrofina. Dessa forma esse hormônio vai fazer com que o TSH seja liberado através da adeno-hipófise. Assim, o TSH atua na tireoide e faz com que ocorra a liberação dos hormônios tireoideanos T3 e T4. Com isso, lesão hipotalâmica, hipofisária ou da própria tireoide vai ter consequência direta para a liberação dos hormônios. HORMÔNIO TIREOIDEANO Cerca de 93% dos hormônios metabolicamente ativos, secretados pela tireoide, consistem em tiroxina (T4) e 7% de tri-iodotironina (T3). No entanto, praticamente toda a tiroxina é convertida em tri-iodotironina nos tecidos, de modo que ambas são funcionalmente importantes. As funções desses hormônios são qualitativamente iguais, mas diferem na velocidade e na intensidade da ação. A tri- iodotironina é quatro vezes mais potente que a tiroxina, mas está presente no sangue em menor quantidade e persiste por tempo muito menor. − Afinidade do T4 pelos receptores é muito baixa, logo, não é responsável pelos efeitos dos hormônios. É um pró hormônio, ou seja, será convertido nas células efetoras. Dessa forma, esse fato explica o motivo do T3 ser mais ativo, porém é menos sintetizado. Fração do hormônio que irá chegar na célula efetora e se converter a T3 é a fração livre. IODO Fundamental para a síntese dos hormônios tireoidianos. Fontes: alimentos de origem marinha além de frutas e vegetais provenientes de solos ricos em iodo (presentes no litoral). Programa de erradicação da deficiência de iodo (OMS): adição de iodo no sal de cozinha. No Brasil, a adição de iodo no sal de cozinha é lei desde 1953. No entanto, em algumas regiões mais rurais, essa adição não é regulada e, por isso, ainda se encontra casos de deficiência de iodo no país. CONSEQUÊNCIAS DA DEFICIÊNCIA CRÔNICA DE IODO − Feto: aborto/natimorto (porque o iodo atua na formação do SNC, como na maturação dendrítica e mielinização), anomalias congênitas, aumento da mortalidade perinatal, cretinismo endêmico − Neonato: bócio neonatal, hipotireoidismo neonatal, retardo mental endêmico − Crianças e adolescentes: bócio, hipotireoidismo, diminuição da função mental. HIPERTIREOIDISMO Tireotoxicose é o estado clínico decorrente do excesso de hormônios tireoidianos circulantes sistemicamente, seja qual for a origem desses hormônios (ingestão de hormônio externo, produção de hormônio por algum tumor, produção excessiva de hormônio pela glândula tireoidiana, liberação de hormônio pré-formado pela glândula tireoidiana que tenha sofrido algum dano celular – autoimune, infeccioso, químico ou mecânico – com ruptura dos folículos, com coloide pré-formado etc.). Já o hipertireoidismo é o estado de tireotoxicose quando a origem do excesso de hormônio tireoidiano é a própria glândula tireoide que está sintetizando e liberando sistemicamente quantidades aumentadas de hormônio. ETIOLOGIA Além da ingestão exógena de hormônio tireoidiano, incidental ou proposital, há outras etiologias para a tireotoxicose. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 2 DOENÇA DE GRAVES Doença autoimune, causada pela presença de autoanticorpos estimuladores do receptor de hormônio tireoestimulante (TRAb estimulante), que estimulam a glândula tireoide a aumentar sua produção hormonal. Geralmente ocorre em mulheres jovens, na presença de autoimunidade. É a principal causa de hipertireoidismo. Até 30% dos pacientes podem ter remissão espontânea do quadro, mesmo na ausência de tratamento. BMNT Surgimento de novos nódulos e/ou crescimento de nódulos preexistentes em glândulas tireoides após longos períodos em áreas carentes em iodo. Com o passar do tempo, geralmente esses nódulos progressivamente adquirem certa autonomia e começam a produzir hormônio tireoidiano em excesso. Acontece principalmente em indivíduos mais idosos, sendo a principal causa de hipertireoidismo nessa população de mais idade. TIREOIDITE SUBAGUDA INDOLOR Causada pela inflamação da glândula tireoide com liberação de hormônio pré-formado que estava estocado nos folículos tireoidianos. Corresponde a 10% dos casos de tireotoxicose. A inflamação tireoidiana pode ter origem medicamentosa (uso de lítio, interferon-alfa, amiodarona – em 5 a 10% dos pacientes tratados com esses fármacos), autoimune (autoanticorpos positivos), no período pós- parto ou idiopática. Geralmente causa hipertireoidismo leve e transitório na primeira fase, que, na maioria das vezes, não precisa de tratamento. Se o paciente estiver muito sintomático, pode ser tratado com betabloqueador. Tionamidas não funcionam nas tireotoxicoses por tireoidite, pois a síntese hormonal é baixa; o problema é a liberação de hormônio pré-formado que estava estocado na glândula. TIREOIDITE SUBAGUDA DOLOROSA DE DEQUERVAIN Causada por infecção de via respiratória superior atual ou recente. O antígeno viral ativa um antígeno leucocitário humano (HLA) que ativa linfócitos que passam a atacar o tecido tireoidiano. Cursa com tireoide dolorosa (dor que pode se irradiar para os dentes e ouvidos), endurecida, inflamada, febre, mal-estar e aumento de provas inflamatórias – velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa (PCR). É a principal causa de tireoide dolorosa. Causa danos às células foliculares, com ruptura e liberação de hormônio tireoidiano pré-formado na circulação. O diagnóstico de tireoidite subaguda dolorosa é clínico. A ultrassonografia (USG) mostra aumento difuso da tireoide e glândula hipoecogênica (pela grande quantidade de células inflamatórias), com reduzida vascularização. A cintilografia de tireoide é fria, e a cintilografia com gálio, quente. O tratamento é feito com anti-inflamatórios, prednisona 40 mg/dia durante 4 a 8 semanas, e betabloqueador, se houver sinais e sintomas de tireotoxicose na primeira fase da tireoidite. SECREÇÃO ECTÓPICA DE HORMÔNIO TIREOIDIANO Struma ovarii e os tumores produtores de hormônio tireoidiano. QUADRO CLÍNICO O quadro clínico da tireotoxicose é decorrente da ação do hormônio ativo [tri-iodotironina (T3)] sobre seus receptores nucleares, estimulando a transcrição gênica de alguns genes e inibindo a transcrição gênica de outros. Basicamente, a T3 age em todas as células do organismo, e por isso suas ações são bastante sistêmicas. MANIFESTAÇÕES CLINICAS − Aumento da taxa metabólica basal, podendo causar perda de peso − Aumento da fome, podendo provocar ganho de peso − Redução dos níveis de colesterol − Maior sensibilidade às catecolaminas, causando aumento da frequência cardíaca, taquiarritmias, palpitações, fibrilação atrial e aumento de pressão sistólica, por aumento na força de contração do miocárdio − Aumento de eventos tromboembólicos; − Hiperfagia; − Hiperdefecação; − Dispepsia; − Náusea; − Disfunção hepática; − Aumento da sudorese, pele pegajosa, hiperidrose e intolerância ao calor; − Fraqueza muscular proximal e hiperreflexia; − Dermopatia infiltrativa(mixedema pré-tibial); − Alterações psiquiátricas e neuropsiquiátricas, ansiedade, agitação, irritabilidade e labilidade emocional; − Hipermenorragia ou irregularidade menstrual; − Oftalmopatia de Graves. ANAMNESE Avaliar a presença de sintomatologia relacionada à tireotoxicose e à hiperatividade adrenérgica e de efeitos compressivos causados por bócios muito volumosos. Verificar o tempo de sintomatologia, a história de exposição recente a compostos ricos em iodo e gravidez recente. Avaliar a presença de história familiar de tireoidopatia. EXAME FÍSICO Avaliar emagrecimento, palpação tireoidiana (tamanho, simetria, consistência, dor, mobilidade, nodulações, @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 3 sopro), frequência respiratória, ritmo e frequência cardíaca, pressão arterial, ausculta respiratória, edema de membros inferiores, turgor da pele e tremores de extremidades. Avaliar sinais de oftalmopatia de Graves. DIAGNÓSTICO Hormônios tireoidianos: O diagnóstico de tireotoxicose é estabelecido com a dosagem dos hormônios tireoidianos: TSH, T4 livre e T3 total. No hipertireoidismo, é importante a dosagem do T3 total, já que algumas situações podem mostrar TSH suprimido com T3 elevado e T4 normal (tireotoxicose por T3). O hipertireoidismo geralmente cursa com síntese proporcionalmente maior de T3 que a habitual, enquanto as tireoidites costumam cursar com liberação muito maior de T4 pré-formada. Portanto, se disponível, pode-se dosar T3 e T4 totais para avaliar o valor dessa relação. Autoanticorpos | Antitireoperoxidase (TPO), antitireoglobulina (Tg), TRAb O TRAb, apesar de ajudar muito no diagnóstico de doença de Graves, é um anticorpo muito específico e pouco comum na população geral, não é considerado um exame essencial para o diagnóstico dessa doença. Casos muito típicos de hipertireoidismo com bócio difuso, acometimento ocular e quadro clínico muito típico de doença de Graves não necessitam da dosagem desse autoanticorpo para a sua confirmação. Consideram-se como indicações para solicitação de TRAb: gestantes com antecedente de doença de Graves, diagnóstico diferencial entre hipertireoidismo gestacional do primeiro trimestre ou doença de Graves na gestação, pacientes eutireóideos com acometimento ocular sugestivo de oftalmopatia de Graves. ULTRASSONOGRAFIA DE TIREOIDE Avaliam-se tamanho, simetria, ecogenicidade, nodularidade e vascularização ao doppler. A utilização do doppler pode auxiliar na avaliação etiológica, já que o fluxo sanguíneo na doença de Graves é muito alto, na tireoidite de Hashimoto eleva-se um pouco e na tireoidite subaguda é quase ausente. CINTILOGRAFIA Avaliar se a captação é difusa, sugerindo doença de Graves, se é nodular difusa, sugerindo BMNT, ou se é nodular única com inibição do restante do parênquima, sugerindo adenoma tóxico. Se a glândula for fria, sugere tireotoxicose por outra causa que não o hipertireoidismo, ou pode se apresentar dessa maneira em pacientes que tenham feito exames contrastados nos últimos 30 a 60 dias ou que tenham recebido lugol ou alguma substância ou alimento rico em iodo recentemente. Deve-se aguardar pelo menos 30 dias, idealmente 3 meses, após esse tipo de exposição ao iodo para a realização da cintilografia. TRATAMENTO O tratamento de qualquer sintoma adrenérgico típico da tireotoxicose pode ser feito principalmente com repouso e com o uso de betabloqueador. Classicamente utiliza-se propranolol, em doses de 20 até 80 mg, administradas a cada 8 ou 12 horas. A capacidade do propranolol em diminuir a conversão de T4 em T3 ocorre somente em doses acima de 80 mg/dia. Como alternativa, para maior adesão, pode ser dado atenolol 25 a 100 mg, uma vez ao dia. DROGAS ANTITIREÓIDEAS Tionamidas, metimazol e propiltiouracil são as drogas de escolha para o tratamento da doença de Graves no Brasil. As tionamidas agem inibindo a tireoperoxidase, diminuindo a organificação do iodeto na glândula tireoide e, consequentemente, a produção dos hormônios. O metimazol é usualmente iniciado com 15 a 40 mg, uma única vez ao dia na quase totalidade dos casos, dose de 60 mg em ocasiões de tirotoxicose muito acentuada, diminuindo-se progressivamente até manter-se entre 5 mg a 10 mg/dia. Recomenda-se o uso da droga antitireoidiana por 12 até 18 meses, antes de determinar se houve remissão imunológica. Para o paciente que necessita de doses altas de medicação, com bócio volumoso (>45g), sem diminuição dos valores de TRAb, manutenção da vascularização da tireoide ao longo do tratamento e tabagista, a remissão com tratamento medicamentoso é pouco provável, podendo logo ser indicado o tratamento definitivo (radioiodo ou cirurgia). Propiltiouracil (PTU) tem sido usado cada vez menos na prática clínica, restringindo seu uso apenas no primeiro trimestre da gestação, nos casos de crise tireotóxica (por inibir a 5’-deiodinase em doses altas) e em pacientes com efeitos colaterais relacionados ao metimazol. A dose de PTU varia de 100 a 900 mg/dia, que deve ser dividida em 2 a 3 ingestões ao dia, pois sua meia-vida é curta. Ensaios clínicos mostram superioridade do metimazol em relação ao PTU, tanto a desvantagem de ser administrada várias vezes ao dia como a menor capacidade de inibir a organificação do iodo, em relação ao metimazol. Os efeitos colaterais do PTU também incluem prurido, rash e artralgia. Raramente causa agranulocitose e portanto, neste caso, não deve ser usado como substituto do metimazol. RADIOTERAPIA A RIT é um tratamento no qual o paciente recebe uma dose oral de iodo radioativo (I131), que irá se concentrar nos tecidos mais ávidos por iodo no organismo e causar a @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 4 destruição actínica desses tecidos, ou seja, causa uma tireoidite destrutiva. Dessa maneira, consegue-se reduzir a produção hormonal pela glândula, que se torna hipofuncionante, na maioria das vezes, depois de alguns meses ou anos do tratamento. Tem a vantagem de ser um tratamento definitivo e muito eficaz, com baixas taxas de recidiva (10 a 20%), geralmente muito bem tolerado, capaz de trocar o hipertireoidismo, que é uma doença de morbidade bem maior e de controle mais difícil, pelo eutireoidismo ou hipotireoidismo, que é uma doença de controle muito mais fácil e morbimortalidade muito menor. Pacientes com hipertireoidismo significativamente sintomático, idosos ou com comorbidades com alto risco de se manterem muito tempo em hipertireoidismo (arritmias, fibrilação atrial, ICC etc.) devem ser tratados com betabloqueador associado ou não às tionamidas enquanto aguardam a dose de radioiodo (RAI). Caso estejam estáveis e pouco sintomáticos, podem ser encaminhados diretamente para a RIT sem necessidade de controle prévio do hipertireoidismo. Prefere-se inclusive que o paciente seja encaminhado para a RIT em pleno hipertireoidismo, para que a tireoide esteja ávida pelo iodo radioativo e tenha, portanto, uma alta captação, de modo que a irradiação sobre a glândula seja mais efetiva. Cuidados pós-RIT Nas primeiras 48 h, deve evitar contato a menos de 1 m com crianças ou gestantes, além de evitar frequentar locais com muitas pessoas (como mercados, shoppings, cinemas, metrôs e ônibus), procurar dormir em um quarto sozinho, dar duas a três descargas no vaso sanitário após a utilização, lavar suas roupas separadamente e não compartilhar talheres, pratos, copos ou utensílios de uso pessoal. Após 48 h, pode voltar a trabalhar e levar vida normal, mas deve evitar contato próximo com crianças e gestantes durante 7 dias. Efeitos colaterais O pico da tireoidite actínica ocorre após 15 a 30 dias da dose de RAI. Nesta fase, o paciente pode ter alguma dor e edema cervical e inflamação da glândula, podendo ainda ter um pouco de tireotoxicose pela liberação dehormônios pré-formados (taquicardia, tremores, mal-estar). Raramente podem ocorrer estridor, disfagia e dispneia. Se apresentar sintomas dolorosos, esses podem ser tratados com anti-inflamatórios não esteroides (AINE) ou corticoide. A RIT causa grande liberação de antígenos tireoidianos nos dias subsequentes à dose, podendo, por isso, cursar com aumento dos autoanticorpos e piora do TRAb nos próximos 3 meses, e agravar a oftalmopatia de Graves, se presente, ou até desencadeá-la, se houver fatores de risco adicionais. A RIT traz um pequeno risco de hipogonadismo hipergonadotrófico nos meses seguintes à RIT, que é dose- dependente, e na grande maioria das vezes é reversível após alguns meses. É preciso aguardar idealmente 6 meses (homens) ou 12 meses (mulheres) para ter filhos. Contraindicações − Gestantes e mulheres que queiram engravidar nos próximos 6 a 12 meses − Lactantes − Crianças com < 5 anos − Oftalmoscopia de Graves − Pacientes com nódulo tireoidiano suspeito CIRURGIA O tratamento cirúrgico deve ser indicado para pacientes com hipertireoidismo na presença de câncer de tireoide ou nódulo suspeito ou naqueles que não obtiveram controle com os outros tipos de tratamento ou tenham algum tipo de contraindicação aos tipos menos invasivos de tratamento disponíveis na atualidade. Também deve ser indicado nos casos de hipertireoidismo associado a hiperparatireoidismo primário com indicação cirúrgica, ou nos casos de bócios muito volumosos apresentando sintomas compressivos (principalmente bócios > 80 g), em gestantes que não tenham adquirido controle do hipertireoidismo com o uso das tionamidas ou tenham apresentado algum tipo de reação grave a esses medicamentos, mulheres que pretendam engravidar no ano seguinte que tenham algum tipo de contraindicação ao uso das tionamidas, entre alguns outros casos, como escolha do paciente. Geralmente é realizada tireoidectomia total ou quase total, dependendo da presença ou não de câncer de tireoide ou de nódulo suspeito. Cuidados no pós-operatório As tionamidas devem ser suspensas logo após a cirurgia, quando o tratamento com levotiroxina deve ser prontamente iniciado (1,6 μg/kg/dia aproximadamente). Deve-se fazer o monitoramento pós-operatório do cálcio e paratormônio (PTH), com suplementação com cálcio e calcitriol, conforme os resultados laboratoriais, uma vez que até 30% dos casos podem evoluir com hipoparatireoidismo transitório pós-cirúrgico, e alguns evoluem com hipoparatireoidismo permanente. Deve-se sempre avaliar os sinais e sintomas de hipocalcemia no pós-operatório, como caimbras, parestesias, sinais de Chvostek (espasmos dos músculos faciais em resposta à percussão do nervo facial na região zigomática) e Trousseau (espasmos carpais com a oclusão da artéria braquial – este teste é realizado mantendo-se o manguito de pressão arterial insuflado 20 mmHg acima da pressão arterial sistólica do paciente durante 3 min e observando se ocorre fechamento da mão com adução do polegar). @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 5 Contraindicações Pacientes com comorbidades importantes que tornem seu risco cirúrgico proibitivo. Pacientes que já tenham sido submetidos a cirurgias cervicais prévias ou irradiação cervical prévia sem contraindicação absoluta ao procedimento cirúrgico, mas este será de dificuldade bem maior pela fibrose e distorção da anatomia local, de forma que se possível seria melhor optar por outro tipo de tratamento nesses casos. Deve ser evitado também durante a gestação, por risco de teratogenicidade de agentes anestésicos no primeiro trimestre e risco de parto prematuro no terceiro trimestre. Se necessário e possível, opta-se por operar no segundo trimestre da gestação. HIPOTIREOIDISMO INTRODUÇÃO Hipotireoidismo é a condição patológica causada por deficiência dos hormônios da tireoide ou, muito raramente, por incapacidade dos tecidos de responder aos estímulos hormonais. O hipotireoidismo pode ser congênito ou adquirido. A causa mais comum de hipotireoidismo é a tireoidite de Hashimoto. Diminuição de T3 e T4 diminui a taxa metabólica basal, além de provocar deposição de glicosaminoglicanos. Como esse distúrbio afeta as células em geral, os aspectos clínicos são sistêmicos. O hipotireoidismo é uma doença comum, que afeta mais as mulheres do que os homens e se torna mais frequente com o avanço da idade. Aproximadamente 95% dos casos de hipotireoidismo são primários, ou seja, de origem tireóidea. HIPOTIREOIDISMO CONGÊNITO Hipotireoidismo congênito resulta da deficiência dos hormônios tireoidianos antes do nascimento ou desde o início da vida, o que provoca comprometimento grave do desenvolvimento físico-mental (cretinismo). Cretinismo (deficiência mental) pode ser endêmico ou esporádico. Cretinismo endêmico é a forma mais comum de cretinismo congênito e a manifestação mais grave da deficiência de iodo. Acomete 1 a 5% das crianças de áreas endêmicas de hipotireoidismo que nascem de mães hipotireóideas. Manifesta-se de duas formas, com tipos intermediários ou mistos. O cretinismo nervoso inclui os casos com deficiência mental grave, surdo-mudez, alterações neuromusculares (paresias ou paralisias do tipo piramidal, principalmente dos membros inferiores, hipo ou hipertonia, espasticidade, ataxia etc.), mas sem outros sinais clínicos de insuficiência tireoidiana; coexiste, em geral, bócio atóxico. Essa forma resulta de carência de iodo materno durante os três primeiros meses de gestação, quando a tireoide fetal ainda não se desenvolveu. No cretinismo mixedematoso, o déficit mental é menor, mas o hipotireoidismo é grave, e o desenvolvimento ósseo, deficiente (nanismo, disgenesia epifisária); ocorrem ainda hipodesenvolvimento sexual e mixedema. A tireoide é hipoplásica ou atrófica (a atrofia deriva da insuficiência hipofisária ou de exaustão da glândula), e o T4 é baixo, com TSH elevado. Cretinismo esporádico é menos comum e aparece em qualquer população. Na maioria dos casos, resulta de defeitos congênitos, como desenvolvimento incompleto (disgenesia), agenesia (atireose, cretinismo atireótico), hipoplasia ou ectopia da tireoide, encontrando-se esta na base da língua, na altura do osso hioide ou abaixo deste. Em casos raros, hipotireoidismo congênito é causado por defeitos genéticos da síntese hormonal, apesar de a glândula ter se desenvolvido. HIPOTIREOIDISMO ADQUIRIDO Hipotireoidismo adquirido pode ser primário ou secundário, conforme a causa esteja na tireoide ou em lesão hipofisária/hipotalâmica. Algumas vezes, a causa do hipotireoidismo não é conhecida. Hipotireoidismo primário é mais comum em mulheres, na proporção de 4:1, e manifesta-se geralmente entre 30 e 40 anos. Sua causa principal é a tireoidite de Hashimoto. Sua intensidade varia desde casos oligossintomáticos e de diagnóstico difícil, que apresentam sintomas incaracterísticos como fadiga, fraqueza, nervosismo, pele seca, intolerância ao frio, constipação intestinal e perturbações intestinais, até formas mais acentuadas, acompanhadas de distúrbios psíquicos, caquexia, mixedema, anemia, fenômenos tromboembólicos e insuficiência cardíaca. No hipotireoidismo primário, há redução de T3, T4 e da captação de 131I, com aumento do TSH. No hipotireoidismo secundário (hipoptuitarismo, lesão hipotalâmica), a taxa de TSH e de TRH encontra-se reduzida. ETIOLOGIA (principais) HIPOTIREOIDISMO PRIMÁRIO − Tireoidite de Hashimoto − Tireoidites subagudas (granulomatosa e linfocítica) − Tireoidite pós-parto @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 6 − Doenças infiltrativas (sarcoidose, amiloidose, hemocromatose) − Deficiência de iodo − Hipotireoidismo congênito (agenesia da tireoide, deficiência na síntese hormonal, atireose, ectopia da glândula) − Disfunção tireoidiana(radioterapia ou iodoterapia com iodo radioativo) − Retirada cirúrgica da tireoide (tireoidectomia total) − Medicamentos (substâncias antitireoidianas, amiodarona, lítio) HIPOTIREOIDISMO SECUNDÁRIO (Hipofisário) − Neoplasias da hipófise − Déficit hipofisário (cirurgia, radioterapia) − Doenças infiltrativas (sarcoidose, amiloidose, hemocromatose) − Doenças vasculares (síndrome de Sheehan, apoplexia hipofisária) − Infecções (tuberculose, sífilis, toxoplasmose e, principalmente, AIDS) HIPOTIREOIDISMO TERCIÁRIO (Hipotalâmico) − Neoplasias hipotalâmicas − Déficit hipotalâmico (cirurgia, radioterapia) − Traumatismo cranioencefálico RESISTÊNCIA AOS HORMÔNIOS TIREOIDIANOS (refratariedade de tecidos e órgãos à ação da tiroxina) MANIFESTAÇÕES CLINICAS − Gerais: intolerância ao frio, hipotermia, astenia, edema duro, retenção hídrica, ganho de peso, fácies mixedematosa − Cutâneos e anexiais: pele seca, áspera, amarelada, fria; queda de cabelo; unhas frágeis e quebradiças; diminuição da transpiração − Cardiovasculares: hipertensão arterial convergente, insuficiência cardíaca congestiva, braquicardia, derrame pericárdico, congestão e edema pulmonares, dispneia − Gastrointestinais: constipação, diminuição do peristaltismo intestinal, redução do apetite − Neurológicos: depressão, fadiga, letargia, dificuldade de concentração, lentificação do raciocínio, problemas de memória, demência, hiporreflexia (lentificação do reflexo do Aquileu) − Musculares: fraqueza muscular, parestesia, artralgia − Hematopoéticos: anemia macrocítica − Metabólicos/endócrinos: hipertrigliceridemia, hipercolesterolemia, hiponatremia, bócio, galactorreia, baixa estatura em crianças − Ginecológicos: distúrbios menstruais, anovulação, infertilidade As manifestações mais exuberantes desses transtornos são mixedema, cretinismo, retardamento mental e desarmonia do crescimento esquelético. Mixedema, ou edema mucoide, consiste no acúmulo, na derme e nos demais tecidos conjuntivos, de glicosaminoglicanos hidrofílicos, especialmente ácido hialurônico. Com isso, as fibras e os feixes colágenos ficam afastados uns dos outros e, muitas vezes, intumescidos e fragmentados. Na derme, ocasionalmente a população de mastócitos está aumentada. Os anexos cutâneos tornam-se hipotróficos. O mixedema compromete em especial o coração, intestinos, músculos esqueléticos, vias respiratórias superiores e nervos periféricos. Alterações da ossificação, especialmente da encondral, levam ao nanismo tireoidiano e à disgenesia epifisária, em que os centros epifisários mostram-se fragmentados. Tais alterações no esqueleto surgem quando o hipotireoidismo já existe no período pré-natal ou antes da puberdade. Por esse motivo, acompanha-se de hipodesenvolvimento sexual. No hipotireoidismo alteram-se, também, todas as demais atividades que dependem dos hormônios tireoidianos, sobretudo as funções metabólicas (redução do metabolismo basal e da temperatura etc.), cardiovasculares (bradicardia), gastrointestinais (retardamento do trânsito e constipação intestinal) etc. ANAMNESE Raramente o médico encontrará quadros típicos de “figura-de-livro” (pessoa com fácies infiltrada, rouquidão, letargia, ganho de peso, pele seca ou intolerância ao frio), ensinados nas salas de aula ou nos laboratórios das faculdades de medicina. Pelo contrário, na maioria das vezes, devido à evolução insidiosa da doença, o médico encontrará pessoas com queixas inespecíficas, como ganho de peso (leve a moderado), constipação intestinal ou sensação de parestesia. Além da instalação lenta e progressiva da doença, muito provavelmente contribuem para a dificuldade diagnóstica o amplo leque de condições médicas ou de vida, capazes de simular as manifestações do hipotireoidismo. Sintomas mais comuns − Sudorese diminuída − Rouquidão − Parestesia − Pele seca − Constipação intestinal − Acuidade auditiva diminuída − Ganho de peso @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 7 Portanto, a maneira como o hipotireoidismo se manifesta clinicamente depende tanto da duração e do grau de diminuição do HT circulante quanto da presença de outras condições (menopausa, depressão, fibromialgia, etc.), comuns na faixa etária em que a doença é mais frequente. Ademais, algumas situações requerem maior atenção do médico, e o hipotireoidismo sempre deve fazer parte do diagnóstico diferencial em situações como as que se seguem: − Crianças com atraso no desenvolvimento puberal, retardo no crescimento ósseo e baixo rendimento escolar. − Mulheres em idade fértil com oligomenorreia, amenorreia ou dificuldade de engravidar, aquelas com menorragia ou metrorragia, hiperprolactinemia e síndrome do climatério. − Idosos com ausência de sintomas clássicos (ganho de peso, parestesia, intolerância ao frio) mas que, quando presentes (p. ex., sensação de cansaço ou fraqueza), podem ser confundidos com sinais ou sintomas de outras doenças prevalentes nessa faixa etária. EXAME FÍSICO O exame físico pode revelar outros achados compatíveis com as principais alterações induzidas pela diminuição/ausência dos HTs: interferência no metabolismo geral do organismo, levando à diminuição da fase de relaxamento dos reflexos osteotendíneos, bradicardia, hipertensão e acúmulo de moléculas glicosaminoglicanas no interstício tecidual, responsável pelo aspecto infiltrado e pálido da pele, queda dos pelos/cabelo, edema, etc. Sinais mais comuns − Atraso na fase de relaxamento dos reflexos osteotendíneos − Edema periorbital − Pele infiltrada − Pele fria − Letargia Em relação ao exame da tireoide, o aumento da glândula (bócio) pode ou não estar presente. Na tireoidite de Hashimoto, a tireoide está aumentada difusamente em 90% dos casos, apresentando consistência firme (semelhante à de uma borracha escolar), irregular e indolor à palpação. Na tireoidite pós-parto, a maioria das pessoas apresenta bócio pequeno, firme e indolor. A tireoidite subaguda caracteriza-se por um quadro de dor intensa na tireoide, associado a febre e mal-estar geral. EXAMES COMPLEMENTARES A confirmação laboratorial é feita pela dosagem de TSH e de tiroxina livre (T4L) no plasma. No hipotireoidismo primário declarado, ocorre elevação de TSH com diminuição de T4L, e na forma subclínica, só é detectado um aumento discreto de TSH (geralmente até 20 mUI/L), com T4L ainda dentro da faixa de normalidade. A dosagem de tri-iodotironina (T3) não está indicada no diagnóstico do hipotireoidismo. Pode-se também requisitar a dosagem de anticorpos antitireoidianos: antitireoperoxidase (anti-TPO) e antitireoglobulina (anti-TgAb), pois, quando presentes em altas titulações no plasma, sobretudo anti-TPO (positiva em 80-100% dos casos de tireoidite de Hashimoto), reforçam bastante a possibilidade de tireoidite autoimune. Além de possuírem valor diagnóstico, também apresentam valor prognóstico, como no caso do hipotireoidismo subclínico: quanto maior a titulação plasmática, maior o risco de evoluir para hipotireoidismo declarado. TRATAMENTO O tratamento do hipotireoidismo consiste na reposição com HT sintético, a LEVOTIROXINA SÓDICA. Trata- se de uma medicação efetiva, que requer apenas uma tomada ao dia e apresenta baixa incidência de efeitos colaterais. Não existem evidências que suportem o uso combinado de T3 e T4 no tratamento do hipotireoidismo. A dose de manutenção para tratamento do hipotireoidismo declarado, em adultos, situa-se em torno de 1,6 mcg/kg e deve ser atingida de maneira escalonada, de acordo com a idade e as condições mórbidas associadas: em indivíduos com menos de 60 anos e sem comorbidades – iniciar com 50 mcg/dia (em indivíduos mais jovens, pode-se iniciar com a dose plena); naqueles com mais de 60 anos e/ou doenças associadas – iniciar com 25 mcg/dia (aqui, osincrementos na dose devem ser feitos com parcimônia – 12,5-25 mcg a cada 2 semanas). No cálculo desta dose, também devem ser consideradas outras variáveis, como a causa do hipotireoidismo e o valor de TSH inicial. No hipotireoidismo subclínico, sugere-se uma dose mais baixa (1,1-1,2 mcg/kg). A levotiroxina deve ser tomada com água, em jejum, entre 30 e 60 minutos antes do café da manhã, ou à noite, 4 horas após a última refeição. Não deve ser ingerida junto com substâncias ou medicações que interfiram na sua absorção, como ferro, cálcio, suplementos minerais, hidróxido de alumínio, inibidores da bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol) e sucralfato. É digno de nota considerar que pessoas com síndrome de má absorção ou cirurgia de bypass do intestino podem apresentar prejuízo na absorção da levotiroxina. Há também certos fármacos que aceleram o metabolismo da levotiroxina – rifampicina, fenobarbital, fenitoína, carbamazepina –, podendo ser necessário o ajuste da dose de manutenção. O objetivo do tratamento é normalizar o TSH, o qual deve ser avaliado só 4 a 8 semanas após a dose-alvo de @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 8 levotiroxina ter sido iniciada. Os valores normais de TSH variam de acordo com a idade do paciente. Assim, recomenda-se que o paciente mais jovem (< 60 anos) tenha como alvo terapêutico níveis de TSH de 1 a 2,5 mUI/L; nos pacientes entre 60 e 70 anos, o alvo de TSH deve ser 3 a 4 mUI/L; nos pacientes com mais de 70 anos, a dose deve ser 4 a 6 mUI/L. Cuidados devem ser tomados para evitar-se o tratamento excessivo com a levotiroxina, cujas principais consequências são distúrbios cardiovasculares, alterações ósseas e distúrbios do humor. O idoso é particularmente suscetível à fibrilação atrial, e a mulher menopausada, à acelerada perda óssea. É relatado que o hipertratamento acontece em 20% dos indivíduos que usam levotiroxina. TIREOIDITES São diversas doenças, caracterizadas por um processo inflamatório da tireoide, que podem cursar com alteração transitória ou permanente de sua função. TIREOIDITE AGUDA Também conhecida como tireoidite supurativa ou infecciosa. A tireoide é muito resistente aos processos infecciosos, uma vez que apresenta uma cápsula fibrosa protetora, é altamente vascularizada e contém grande quantidade de iodo no seu interior. Dessa maneira, a tireoidite aguda é uma condição rara, com casos descritos principalmente em pacientes imunodeprimidos e na presença de malformações cervicais (p. ex., cisto tireoglosso e persistência do seio piriforme). A etiologia da infecção é bacteriana na maior parte dos casos (70%), incluindo Staphylococcus aureus, Streptococcus pyogenes, Streptococcus pneumoniae, Salmonella sp. e Mycobacterium tuberculosis. Alguns casos de infecções fúngicas (Coccidioides immitis, Candida albicans, Aspergillus) já foram descritos. Nos adultos, a causa mais comum é a disseminação hematogênica ou linfática de uma infecção de vias respiratórias superiores. As manifestações costumam ter início agudo, com dor cervical (geralmente unilateral), que pode se irradiar para o ouvido ou a mandíbula, com formação de abscesso no local, febre, calafrios, odinofagia e disfagia. Casos mais graves podem evoluir para sepse. Raramente há sintomas de tireotoxicose associados. O tratamento é realizado com antibioticoterapia parenteral, de preferência guiada por resultado da cultura e drenagem cirúrgica do abscesso. Caso não seja possível, pode ser feito tratamento empírico considerando os agentes mais comuns (oxacilina associada à cefalosporina de segunda ou terceira geração ou clindamicina). Até 16% dos pacientes podem apresentar recidiva após o tratamento. Em crianças, tem sido sugerida a realização de exames de imagem para investigação de alterações anatômicas da região cervical. Na maioria dos casos, não há alteração permanente da função tireoidiana. TIREOIDITE SUBAGUDA Também conhecida como tireoidite subaguda dolorosa, tireoidite granulomatosa, tireoidite de células gigantes e tireoidite de DeQuervain. É a causa mais comum de dor na tireoide, sendo diagnosticada em até 5% dos pacientes com doença tireoidiana. Mais comum em mulheres (5 vezes) entre a 3a e a 5a década de vida. Parece haver uma predisposição genética, associada a antígenos de histocompatibilidade HLA-B35. A etiologia ainda não é totalmente definida, mas parece estar relacionada com infecções virais, que antecedem o quadro, e o antígeno viral ativa linfócitos que passam a atacar as células da tireoide. É mais comum no período do verão, pelo pico de incidência de infecções por enterovírus. Pode haver pródromos de infecção viral, incluindo astenia, mal-estar geral, febre baixa e mialgia. Posteriormente, surge dor moderada na região cervical (geralmente difusa), com irradiação para o ouvido e a orofaringe, e aumento de provas inflamatórias. Apesar de ser o sintoma mais característico, a ausência de dor não exclui o diagnóstico. Classicamente, a tireoidite subaguda dolorosa evolui em três fases: − Fase tireotóxica: primeira fase, causada pela destruição das células foliculares com liberação dos hormônios pré-formados, podendo apresentar os sintomas de hipertireoidismo (agitação, palpitação, taquicardia, sudorese excessiva etc.). Nessa fase, observa-se elevação de tiroxina (T4) livre e tri-iodotironina (T3) e redução de hormônio tireoestimulante (TSH). O hipertireoidismo costuma cursar com síntese maior de T3 que o normal, enquanto as tireoidites costumam cursar com liberação muito maior de T4. − Fase de hipotireoidismo: com a metabolização dos hormônios liberados e pela incapacidade de sintetizar novos hormônios devido à inflamação, surge a fase de hipotireoidismo, geralmente transitória, de duração variável. A maioria dos pacientes é assintomática. Nessa fase, observa-se aumento de TSH − Fase de recuperação: após a cicatrização da glândula, a maioria dos pacientes retorna ao eutireoidismo e normaliza as provas de função tireoidiana @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 9 − Nem todos os pacientes, entretanto, vão apresentar as três fases da tireoidite subaguda e, muitas vezes, os sintomas de tireotoxicose ou de hipotireoidismo podem passar despercebidos. O tratamento é feito com anti-inflamatórios não esteroides (AINE) por um período mínimo de 4 a 8 semanas. Caso não haja resposta rápida nos primeiros 2 a 3 dias ou nos casos mais graves, deve-se utilizar corticoides (prednisona 40 mg/dia). Se não houver resposta (alívio da dor) em 24 a 48 h, deve-se pensar em outros diagnósticos. Após a resolução da dor e da hipersensibilidade local, inicia-se o desmame de corticoide por um período de 4 a 6 semanas. TIREOIDITE SUBAGUDA INDOLOR Pode estar associada a diversas condições, incluindo autoimunidade (associação com HLA-DR3), período pós- parto e medicações (amiodarona, lítio, interferon-alfa, interleucina-2, radiação), ou pode ser idiopática. Geralmente, segue as mesmas fases clínicas descritas para a tireoidite de DeQuervain e o tratamento é feito com sintomáticos, se necessário. TIREOIDITE DE RIEDEL Tireoidite crônica, também chamada de fibrosa invasiva ou lenhosa. É muito rara, com prevalência de 0,05%, e acomete mais mulheres entre a terceira e a quinta década de vida. Caracteriza-se por fibrose, que se estende além da cápsula tireoidiana e pode acometer tecidos distantes também. Um terço dos pacientes, quando acompanhados, desenvolve fibrose extracervical (p. ex., fibrose retroperitoneal, colangite esclerosante, pseudotumor de órbita, fibrose de parótidas e glândulas lacrimais). O mecanismo fisiopatológico ainda não foi definido. Pode tratar-se de uma desordem fibrótica idiopática ou fazer parte do novo grupo de doenças caracterizado por excesso de imunoglobulina G4 (IgG4). Os sintomaspredominantes são os compressivos, como disfagia, dispneia, dificuldade na movimentação cervical, disfonia, rouquidão, tosse, além de massa cervical endurecida, indolor e aderente a estruturas vizinhas. A maioria dos pacientes não apresenta alteração na função tireoidiana, embora o hipotireoidismo na tireoidite de Riedel já tenha sido relatado. Os anticorpos antitireoidianos podem ser positivos. O tratamento é feito com glicocorticoides em altas doses no início (prednisona 80 a 100 mg/dia), seguido de doses de manutenção mais baixas, apesar de não haver consenso sobre a forma de tratar. O objetivo do corticoide é reduzir a produção de citocinas fibrosantes, e alguns pacientes apresentam redução do bócio. NÓDULOS TIREOIDIANOS Nódulos tireoidianos palpáveis constituem o achado clínico mais comum, apresentando uma prevalência de 4 a 7% nas mulheres e 1% nos homens em áreas consideradas suficientes em iodo. Entretanto, essa prevalência é bem maior se utilizado o exame ultrassonográfico como método de detecção, podendo chegar a 67%. A frequência dos nódulos tireoidianos é, em geral, mais elevada em mulheres idosas. Os nódulos tireoidianos podem ser constituídos por cistos, bócios, tireoidites, adenomas ou carcinomas. − Bócio significa aumento volumétrico da tireoide (incluindo-se tireoidites e neoplasias); − Tireoidite é um termo geral que se refere à inflamação da glândula tireoide. Podem ser agudas, subagudas ou crônicas; e apresentam origem infecciosa, autoimune ou etiologia incerta; − Adenoma é um tipo de tumor benigno. Mais comuns no gênero feminino (6 a 10:1), a maioria dos adenomas manifesta-se entre 20 e 60 anos, com pico entre a 3a e a 5a décadas de vida; − Carcinoma da tireoide é a neoplasia maligna endócrina mais comum. O principal desafio do médico diante de uma pessoa com suspeita de nódulo tireoidiano é excluir neoplasia maligna, pois, embora a grande maioria dos nódulos seja benigna, cerca de 5 a 10% deles são carcinomas de tireoide. A melhor forma de avaliar o risco de malignidade na doença nodular tireoidiana é aliar uma avaliação clínica criteriosa à realização de dosagem de TSH, ultrassonografia (US) e classificação citológica por meio da punção aspirativa com agulha fina (PAAF). CLASSIFICAÇÃO NÓDULOS BENIGNOS na tireoide geralmente passam por uma sequência capaz de caminhar no sentido de nódulo coloide, cisto coloide, cisto hemático e cisto seroso. Essas lesões correspondem, muitas vezes, a achados incidentais de nódulos únicos encontrados ao exame clínico em adultos, geralmente do gênero feminino. À palpação, é fácil perceber nódulo único, geralmente de 1 a 2 cm de diâmetro, de consistência amolecida e limites definidos. Nesses casos, a punção aspirativa com agulha fina tem grande confiabilidade diagnóstica. Por sua posição geralmente superficial e na região anterior, nódulo tireoidiano é de fácil percepção ao exame físico. Todavia, um terço dos nódulos não são palpáveis por estarem na posição posterior ou serem intraglandulares. O tratamento de nódulo na tireoide é cirúrgico; iodo radiativo pode ser utilizado em nódulos hiperfuncionantes. Outra possibilidade é a injeção percutânea de etanol, com orientação por ultrassom com Doppler colorido, procedimento realizado em ambiente ambulatorial. NÓDULO COLOIDE é constituído por folículos distendidos, com diâmetros variáveis, repletos de substância amorfa e eosinófila, revestidas por células foliculares cúbicas ou achatadas, com núcleos redondos, cromatina uniforme e citoplasma escasso. A lesão pode @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 10 mostrar proliferação das células foliculares, passando a conter áreas de aspecto sólido. Durante sua evolução, podem surgir alterações regressivas, como transformação cística e focos de hemorragia recente, associados a macrófagos com intensa fagocitose de hemossiderina, lesão essa denominada CISTO COLOIDE. Quando desaparecem as estruturas foliculares por vascularização insuficiente e a substância coloide mistura- se a hemácias e a hemossiderina, forma-se o CISTO HEMÁTICO, cuja parede é constituída por tecido fibroso, ao lado de macrófagos, coágulos sanguíneos recentes e intensa fagocitose de pigmento férrico. Fibrose da parede, diminuição progressiva da hemorragia, queda na formação de pigmento, redução da fagocitose pelos macrófagos e falta de revestimento epitelial fazem com que a cavidade passe a conter não o conteúdo hemorrágico ou achocolatado dos cistos hemáticos, mas um líquido límpido e acelular, de tonalidade amarelo-citrina, constituindo o CISTO SEROSO, formado por parede fibrosa, sem componente epitelial. Todas essas lesões podem representar entidades próprias ou fazer parte de bócios nodulares atóxicos. Além dessas lesões, pode-se encontrar CISTO DE PARATIREOIDE intratireoidiano, o qual contém coleção líquida clara e límpida. A dosagem de paratormônio nesse líquido é elevada, apesar da ausência de hiperparatireoidismo (o PTH fica contido no líquido do cisto de parede fibrosa e não ganha a circulação); nos adenomas da paratireoide, com ou sem transformação cística, o PTH atinge a circulação e provoca sintomatologia, por causa da elevação do paratormônio circulante. Durante procedimentos propedêuticos variados (tomografia da coluna cervical, ultrassonografia de carótidas etc.), são encontrados incidentalmente nódulos na tireoide, em geral com até 1 cm de diâmetro. INCIDENTALOMA é o termo aplicado a qualquer nódulo da tireoide (com 1 cm ou menos de diâmetro) descoberto incidentalmente. Por causa da baixa incidência de malignidade nessas pequenas lesões, os clínicos têm certa resistência em indicar punção com agulha fina nesses nódulos, em particular quando são encontrados em glândula multinodular em pacientes sem outras indicações. Ao contrário, torna-se obrigatória a investigação quando existem condições clínicas de risco, que levantam suspeitas de malignidade: pacientes do gênero masculino; idade inferior a 20 anos ou superior a 70 anos; história de radiação no pescoço; história familial de doença da tireoide, em especial carcinoma papilífero ou medular, ou antecedentes de síndrome de neoplasia endócrina múltipla do tipo 2; crescimento rápido de massa cervical; rouquidão, disfonia ou disfagia persistentes; consistência endurecida do nódulo; linfonodomegalia cervical e/ou nódulo em crescimento, geralmente fixo aos tecidos adjacentes. ANAMNESE E EXAME FÍSICO O exame clínico (anamnese e exame físico) deve ser realizado de maneira a buscar os principais fatores de risco para o câncer de tireoide, quais sejam: irradiação de cabeça ou pescoço quando criança, ou irradiação total recebida (p. ex., preparação para transplantes de medula), história familiar de câncer de tireoide (familiares de primeiro grau) ou neoplasia endócrina múltipla, queixas de mudanças na voz ou paralisia ipsilateral de corda vocal, crescimento rápido do nódulo, nódulo endurecido, aderido a planos profundos, pouco móvel, presença de linfadenomegalia cervical, sobretudo ipsilateral ao nódulo, e nódulo incidentalmente detectado no exame fluorodeoxygluco se positron emission tomography-18F (FDG-PET) (captação focal) em pacientes oncológicos. EXAMES COMPLEMENTARES A dosagem de TSH sanguíneo deve ser realizada em todas as pessoas com nódulo > 1 cm. A grande maioria das pessoas com neoplasia maligna da tireoide é eutiróidea. Nas situações em que há diminuição de TSH, o que sugere hipertireoidismo, ainda que seja subclínico, é necessário solicitar cintilografia de tireoide, preferencialmente com iodo radiativo, para determinar se o nódulo é hiperfuncionante. Neste caso, a PAAF não está indicada, pois raramente nódulos hiperfuncionantes são malignos. Apesar de haver associação entre valores elevados de TSH e maior risco de malignidadedo nódulo tireoidiano em estágios mais avançados do câncer de tireoide, a conduta adotada deve ser igual à dos pacientes com TSH normal. O exame ultrassonográfico apresenta sensibilidade de 95% na detecção de nódulos tireoidianos e deve ser realizado em todo paciente com nódulo palpável ou incidentalmente achado em outro exame de imagem (FDG-PET, tomografia computadorizada ou ressonância magnética). Ele permite a avaliação do número, do tamanho, da localização e das características dos nódulos (composição, ecogenicidade, margens, presença e tipo de calcificações, forma e vascularização), a detecção de gânglios suspeitos em região cervical e a PAAF dirigida. Além de sua finalidade diagnóstica, também pode auxiliar na terapia (p. ex., aspiração de cistos, injeção de etanol, terapia com laser) e é útil no monitoramento dos nódulos. Apresenta limitação na diferenciação de nódulos benignos de malignos, mas pode fornecer alguns achados que são sugestivos de malignidade (nódulos sólidos, mais altos do que largos, hipoecogenicidade, presença de microcalcificações, margens irregulares e hipervascularização intranodular). As características ultrassonográficas dos nódulos estão associadas com maior ou menor risco de malignidade e, aliadas ao tamanho dos nódulos, direcionarão a realização ou não da PAAF e de qual nódulo deve ser puncionado. A PAAF é o exame tido como padrão-ouro para se diferenciarem nódulos benignos de malignos (possui @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 11 acurácia ainda maior quando é guiada por US) e, atualmente, sua indicação está baseada na estratificação de risco obtida pelas características ultrassonográficas do nódulo. − Quando o paciente apresenta múltiplos nódulos ≥ 1 cm, a PAAF deve ser realizada naquele nódulo de maior suspeição de malignidade. Se todos os nódulos apresentarem as mesmas características, sem evidências de risco alto ou intermediário de malignidade, deve-se puncionar o maior nódulo. No caso de bócios multinodulares associados à TSH diminuído, a PAAF deve ser dirigida ao nódulo hipoconcentrante. − Nódulos menores do que 1 cm devem ser seguidos clinicamente, sem indicação de PAAF imediata, a não ser que associados a gânglio suspeito para metástase cervical. − Todo gânglio suspeito (arredondado, hiperecogênico, sem hilo, com componente cístico ou com microcalcificações) deve ser puncionado, com dosagem de Tg no lavado de PAAF. Para o laudo citológico, é usado o sistema Bethesda, em que a amostra é classificada em uma de 6 categorias que fornecem um risco estimado de câncer de tireoide. Categoria Comentário Risco de malignidade (%) 1 Não diagnóstica 1-4 2 Benigna 0-3 3 Atípica ou lesão folicular de significado indeterminado 5-15 4 Neoplasia folicular ou suspeita de neoplasia folicular 5-30 5 Suspeita de malignidade 60-75 6 Maligna 97-99 TRATAMENTO Para os casos em que a PAAF indicar malignidade (Bethesda VI) ou suspeita de malignidade (Bethesda V), o tratamento primário é a remoção cirúrgica da glândula tireoide (hemitireoidectomia ou tireoidectomia total, dependendo do tamanho e do tipo histológico do tumor, da presença ou não de extensão tireoidiana e/ou dos gânglios cervicais acometidos pela neoplasia). Para os casos com resultado benigno na citologia obtida pela PAAF (Bethesda II), nenhuma conduta imediata é necessária. Aconselha-se acompanhamento clínico, com realização de novo exame de US e PAAF em 12 meses para nódulos com alta suspeita de malignidade. Para nódulos com suspeita intermediária ou baixa de malignidade, deve-se repetir a US em 12 a 24 meses e realizar nova PAAF apenas se houver crescimento do nódulo (aumento de ≥ 20% em, pelo menos, dois diâmetros do nódulo e de no mínimo 2 mm, ou aumento de 50% no volume do nódulo) ou caso tenha aparecido alguma característica ultrassonográfica de alta suspeição para malignidade. Para casos de muito baixa suspeição de malignidade, não há necessidade de repetir a US, mas, se isso for feito, o intervalo deve ser ≥ 24 meses. Devido à baixa taxa de falso-negativos da citologia tireoidiana, no caso de nódulos com duas citologias benignas, o seguimento ultrassonográfico não se faz mais necessário. QUANDO REFERENCIAR Indivíduos sem fatores de risco clínico ou ultrassonográfico para câncer de tireoide, que apresentam nódulos palpáveis com as mesmas características por anos, ou com nódulos não palpáveis assintomáticos, recém- descobertos por exame de imagem do pescoço, podem ser acompanhados por um médico de família. Contudo, seguem algumas situações que merecem referenciamento a especialista habilitado, segundo o grau de urgência: − Não urgente: quando avaliação inicial demonstrar TSH diminuído ou supresso. − Urgente (espera permitida de 2 semanas): mudanças na voz ou rouquidão sem causa aparente, nódulo tireoidiano em crianças, surgimento de adenopatia cervical (região cervical profunda ou supraclavicular), crescimento rápido e assintomático da tireoide em um período de semanas (apresentação rara de câncer de tireoide). ATIVIDADES PREVENTIVAS E DE EDUCAÇÃO O rastreamento populacional de disfunções tireoidianas em adultos assintomáticos, realizado por meio da mensuração de TSH a cada 5 anos, a partir dos 35 anos, é recomendado pela American Thyroid Association (ATA) e pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Apesar da força de evidência ser fraca para tal recomendação, essas sociedades médicas justificam-na com base nas seguintes premissas: − Prevalência e relevância como problema de saúde; − Dificuldade em realizar o diagnóstico precoce; − Teste de confirmação diagnóstica simples e de elevada acurácia; − Tratamento seguro e custo-efetivo. Por outro lado, a Força-Tarefa Americana de Prevenção (U.S. Preventive Services Task Force) não recomenda o rastreamento de indivíduos assintomáticos, justificando que há necessidade de mais estudos que comprovem os benefícios clínicos associados ao rastreamento das disfunções tireoidianas. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 12 REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA Filho, Geraldo B. Bogliolo - Patologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (9ª edição). Grupo GEN, 2016. Gusso, Gustavo, et al. Tratado de medicina de família e comunidade - 2 volumes: princípios, formação e prática. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Grupo A, 2019. SALES, Patrícia; HALPERN, Alfredo; CERCATO, Cintia. O Essencial em Endocrinologia. MARTINS, Milton A.; et al. Clínica Médica. 2ª ed. Vol. 5. Barueri – SP: Manole, 2016. ROSS, Douglas; et al. 2016 American Thyroid Association Guideline for Diagnosis and Management of hyperthyroidism and Other Causes fo Thyrotoxicosis. Th y r o i d . 2016;10(26):1343-1421. JALEKO. Fisiologia Endócrina – Tireoide. Disponível em: https://jaleko-files.s3-sa-east- 1.amazonaws.com/apostila-web/tiroide.pdf. JALEKO. Fisiologia Endócrina – Hormônios Tireoidianos. Disponível em: https://jaleko-files.s3-sa- east-1.amazonaws.com/apostila-web/hormonios- tiroideanos.pdf.