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Emergência Medicina Anhembi Morumbi 1 Trauma Ambiental : Calor e Frio As QUEIMADURAS são lesões decorrentes de agentes capazes de produzir calor excessivo que danifica os tecidos corporais causando morte celular. Pode ocorrer por diversos agentes, como agentes físicos (térmicos, elétricos, radiantes), agentes químicos ou biológicos. As queimaduras térmicas são as mais frequentes, tanto por exposição ao calor ou frio, que acontecem por líquidos, gordura, ferro quente, vapor etc. • LESÕES POR CALOR As queimaduras geram danos a longo prazo, que são de difícil cuidado e manejo, fazendo com que o paciente geralmente seja encaminhado para centros de referência. Além disso, há a carga emocional nos pacientes, devido as marcas que elas deixam pelo corpo como cicatriz. Ao atender um paciente vítima de queimadura, deve sempre pensar se não houve violência no contexto da cena. As queimaduras geram altos gastos para o sistema de saúde, tendo como medidas protetivos a não evolução para óbito. Lesões por calor e frio são TRAUMAS! 1º passo = AFASTAR A VÍTIMA DAS CHAMAS OU CONDUÇÃO DE CALOR. Deve-se interromper o processo de queimaduras; avaliar vias aéreas; garantir acesso venoso; ventilação; circulação; neurológico; extremidades. Sempre avaliar a necessidade de encaminhar o paciente para centro especializado em trauma de queimados, caso o local não tenha recursos adequados para traumas por calor. Dentro das VIAS AÉREAS, as evidencias que indicam alta probabilidade de comprometimento dessa aérea são: queimaduras cervicais ou faciais; chamuscamento de cílios e vibrissas nasais; depósitos de carbono e alterações inflamatórias agudas na orofaringe; escarro carbonado (fuligem); rouquidão; história de confusão mental e/ou confinamento no local do incêndio; história de explosão com queimaduras de cabeça e tronco; níveis sanguíneos de carboxi- hemoglobina maior que 10% (suspeita de intoxicação de CO em ambientes fechados). Emergência Medicina Anhembi Morumbi 2 • QUANDO INTUBAR O PACIENTE? Quando houver rebaixamento do nível de consciência! Intoxicação pelo CO é a causa mais comum desta complicação. A presença de estridor laríngeo, uso de musculatura acessória e retração esternal são sinais de obstrução de glote, devendo também intubar o paciente. Queimaduras circunferenciais do pescoço têm elevado risco e o edema ao redor da via aérea é muito comum nesta situação, devendo intubar. Presença de rouquidão e queimaduras extensas (maior que 40-50%) também são indicativos para intubação. Queimaduras de face + queimaduras ao redor da boca são outros indicativos de intubação. • INTERROMPER PROCESSO DE QUEIMADURA 1) Remoção de todas as roupas do paciente; 2) Irrigação de toda aérea queimada com água a temperatura ambiente; 3) Envolver o paciente em lençóis secos e limpos; 4) Remoção de joias e anéis imediatamente; • ACESSOS VENOSOS Cateter calibroso em veia periférica, preferência em membros superiores. Em grandes áreas queimadas, a punção é permitida em local de queimadura; Realizar dissecção de safena; garantir acesso venoso central e punção intraóssea se necessário. Exceto em queimaduras de 1º grau, o paciente com mais de 20% da superfície corpórea queimada, deve receber volume o mais rápido possível, sendo utilizado o cristaloide Ringer Lactato. • QUANDO TRANSFERIR PARA UM CENTRO DE QUEIMADOS Deve transferir o paciente para um centro de queimados quando: 1) Queimadura de 2º grau isolada ou 2º e 3º grau – envolvendo mais que 10% da superfície queimada em menores de 10 anos ou maiores de 50 anos. 2) Queimadura de 2º grau isolada ou 2º e 3º grau – envolvendo mais que 2% de superfície queimada em outras faixas etárias; Emergência Medicina Anhembi Morumbi 3 3) Queimaduras em face, ouvidos, olhos, mãos, face, pés, genitália, períneo ou comprometendo pele sobre as articulações; 4) Queimadura de 3º grau isolada envolvendo mais que 5% da superfície total. 5) Queimaduras elétricas graves; 6) Queimaduras químicas; 7) Lesão por inalação da via aérea; 8) Queimaduras em pacientes com doenças concomitantes que podem complicar o atendimento ou elevar a mortalidade; 9) Queimaduras com outros traumas concomitantes; • COMPROMETIMENTO DA VENTILAÇÃO Avalia-se o comprometimento da ventilação em pacientes com grandes queimaduras por: 1) Lesão térmica: normalmente se estende até as cordas vocais. Maior risco quando envolve face e pescoço em ambientes fechados. Mesmo na ausência de lesão direta pulmonar, pode haver comprometimento agudo da ventilação. Quando há também edema de mucosa e submucosa. 2) Lesão pulmonar por inalação: fumaça produzida pela combustão entra pela via aérea infraglótica e gera lesão de brônquios, bronquíolos e alvéolos. Sibilos e ou produção excessiva de muco e escarro carbonáceo são indicativos de lesão pulmonar. Normalmente ocorre após 24 horas da queimadura, pode haver evolução para insuficiência respiratória (não ocorre simultaneamente com o acidente. 3) Intoxicação por CO: suspeita em toda inalação por fumaça; quando houver chama em locais fechados (CO tem afinidade pela hemoglobina maior que o O2). Coloração vermelho cereja no paciente. O tratamento é por oferta de O2 em alto fluxo a 100%, máscara unidirecional, sem recirculação. Medida de PaO2 não é fidedigna. 4) Intoxicação por cianeto: inibe o metabolismo aeróbico, evoluindo para morte de maneira muito rápida. Combustão de elementos em chama por nylon, lã ou algodão são indicativos de intoxicação por cianeto, gerando também confusão mental. O tratamento é por tiossulfato de sódio e oferta de O2. 5) Expansão torácica: queimaduras de espessura total (3º grau) gera diminuição da elasticidade local; acometimento circunferencial do tórax e leva a insuficiência respiratória por restrição. O tratamento é por escarotomia da lesão e incisão até subcutâneo. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 4 • CIRCULAÇÃO O que mais mata na circulação é o choque, principalmente o distributivo. A superfície corporal queimada gera aumento da produção de citocinas e uma resposta inflamatória sistêmica com aumento da permeabilidade capilar, gerando perda generalizada de fluidos e de proteínas, levando a menor débito cardíaco + aumento do tônus adrenérgico e levando a hipoperfusão da área queimada. FÓRMULA DE PARKLAND = 2ml de Ringer Lactato X Peso do paciente X Superfície Corporal Queimada. Na sondagem vesical de demora deve manter débito urinário de 0,5. • COMO CALCULAR A SUPERFÍCE CORPÓREA? Regra dos 9. Determinar a superfície corporal queimada. As áreas nobres são as de maior impacto e inferem necessidade de transferência para centro de referência para queimados. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 5 • PROFUNDIDADE DA QUEIMADURA É importante para definir a gravidade e definição do plano de cuidado, sendo preditor funcional e estético importante. QUEIMADURAS DE 1º GRAU OU SUPERFICIAIS: Limitada a epiderme, gera eritema (vasodilatação) com dor moderada e ausência de bolhas ou comprometimento de anexos subcutâneos. Melhora em 3-4 dias. QUEIMADURA DE 2º GRAU: Comprometimento da derme e epiderme, envolvendo camada reticular. Coloração rosa pálido, podendo ter comprometimento de vascularização, comdor moderada. Risco de cicatrização hipertrófica. QUEIMADURA DE 3º GRAU: Comprometimento da derme, epiderme e parte do tecido subcutâneo. Textura firme, semelhante ao couro e ausência de sensibilidade e dor. A cicatrização é com grande retração e necessidade de enxertos. No tórax, leva a alto risco de insuficiência respiratória e em extremidades leva a baixa perfusão. QUEIMADURA DE 4º GRAU OU TOTAL: Toda pele, tecido subcutâneo e músculos e ossos. Mais comum em queimaduras elétricas. • NEUROLÓGICO Geralmente, o paciente queimado está lúcido e orientado. Avaliação se traumatismo craniano concomitante. A desorientação pode estar relacionada a hipoxia. A analgesia so deve ser aplicada após a avaliação neurológica. Expor o paciente e remoção de roupas e objetos. Mantenha a cabeceira da maca elevada para reduzir o edema nas queimaduras de face e conservar o paciente aquecido. Na analgesia, manejo da dor no queimado é essencial, com uso de AINES. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 6 ➔ LESÕES POR FRIO A gravidade das lesões por frio depende da temperatura, tempo de exposição, condições ambientais e estado do paciente. • TIPOS CRESTADURA OU FROSTNIP: forma mais leve de lesão pelo frio, gerando dor, palidez e diminuição da sensibilidade local. Facilmente revertida e sem perdas teciduais. As lesões por congelamento ocorrem em pacientes com maior tempo em contato com as extremidades frias, com formação de cristais de gelo dentro das células e oclusão da microvascularização, gerando também isquemia tecidual. NÃO CONGELANTES = exposição crônica a um ambiente úmido e a temperatura pouco acima dos pontos de congelamento. Comum em marinheiros e pescadores. A hipotermia sistêmica ocorre quando temperatura central do doente abaixo de 35ºC, com maior risco em idosos, crianças e doentes traumatizados, com risco para PCR. O tratamento se dá por prevenção da perda de calor; oxigênio e monitorização contínua; aquecimento passivo com cobertores; aquecimento ativo com líquidos aquecidos. • QUEIMADURAS ELÉTRICAS Ocorre quando há contato com eletricidade. Curso imprevisível da eletricidade pelo corpo e a variação dos tecidos é o que determina os diferentes resultados da transmissão. Frequentemente enganam o médico e são mais graves do que aparentam ser. Áreas visíveis de lesão tecidual são uma pequena porção da área lesada: corpo é um condutor elétrico; passagem por áreas de menor resistência, como músculos, ossos e vasos. A conduta inicial se da por ABCDE, eletrocardiograma, monitorização contínua, tratamento com antiarrítmico, exames laboratoriais para avaliação cardíaca e lesão muscular – troponina, CPK e CKMB. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 7 Quando há queimadura, devemos ter cuidado quando grande espessura; edema de estruturas e isquemia distal por lesões dos vasos; pode haver necessidade de escarotomia e fasciotomia, as vezes necessário também amputação. • QUEIMADURAS QUÍMICAS Causam dano progressivo até completa remoção do material ou inativação do mesmo. Quanto mais precoce o tratamento, melhor o prognóstico. Normalmente queimaduras de segundo e terceiro grau. A variação da gravidade se dá pelo tipo de substância, concentração e tempo de acidente. É uma conduta diferente dos outros traumas, a remoção da substancia precede o ABCDE. O tratamento é por irrigação precoce da área com agua fresca e monitorização do paciente. • AFOGAMENTO Entrada de líquido nas vias aéreas (traqueia, brônquios ou pulmões), causada por afundamento ou mergulho. É a segunda maior causa de mortes de crianças entre 1 e 9 anos, atrás somente dos acidentes de trânsito. Muitos acontecem nas residências, com balde de água, banheiras e vasos sanitários. A prevenção é a melhor medida para evitar o afogamento. Há comprometimento da ventilação devido a submersão/ imersão num meio líquido, que impede a troca gasosa devido a entrada de liquido nas vias aéreas. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 8 Há alguns anos, pensava-se que os diferentes tipos de água produziam quadros de afogamento diferentes. Hoje, sabemos que os afogamentos de água doce, mar ou salobra não necessitam de qualquer tratamento diferenciado entre si. • RESGATE X AFOGAMENTO Vítima resgatada viva da água que não apresenta tosse ou espuma na boca e/ou nariz; SEM PCR. Pode ser liberada no local do acidente sem necessitar de atendimento médico após avaliação do socorrista, quando consciente; Pode apresentar: hipotermia, náuseas, vômitos, distensão abdominal, tremores, cefaleia e outros sintomas inespecíficos. Grande parte destes sintomas é decorrente do esforço físico realizado dentro da água sob estresse emocional do medo, durante a tentativa de se salvar do afogamento. No afogamento, a vítima resgatada da água que apresenta evidência de aspiração de líquido (tosse, ou espuma na boca ou nariz). Deve ter sua gravidade avaliada no local do incidente, receber tratamento adequado e acionar, se necessário, uma equipe médica (suporte avançado de vida). O quadro clínico mais grave inclui a hipóxia cerebral, apneia, perda da consciência e parada cardiorrespiratória – PCR. Emergência Medicina Anhembi Morumbi 9 O TRATAMENTO se dá por: 1) Prevenção da perda de calor aquecendo o paciente hipotérmico; 2) Se o paciente respira, colocar em posição de segurança e recuperação e monitorar a respiração e o pulso; 3) Inicialmente pode não haver sintomas e evoluir para edema pulmonar; 4) Avaliar a saturação de O2; 5) Avaliar a glicemia; 6) Avaliação do nível de consciência utilizando a escala de Glasgow; 7) Retirar roupas molhadas; 8) Avaliar temperatura retal;