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87 BIOQUÍMICA CLÍNICA Unidade II 5 PERFIS BIOQUÍMICOS HEPÁTICO E PANCREÁTICO 5.1 Perfil hepático O fígado é um dos principais órgãos que compõe o corpo humano. Localizado na cavidade abdominal, o fígado é uma espécie de máquina do metabolismo, participando de processos críticos de biotransformação de diferentes substâncias e na produção de proteínas plasmáticas fundamentais para o controle do fluxo de energia e de nutrientes e para a desintoxicação e excreção de produtos residuais do metabolismo. Constituído pelos hepatócitos, o fígado é estudado desde 3000 a.C. devido à sua importância clínica. A busca por alterações hepáticas relacionadas às doenças humanas é realizada de diferentes maneiras, desde o exame físico dos indivíduos até exames de imagem e de laboratório clínico, especificamente os exames bioquímicos. Aproximadamente 80% do diagnóstico de lesões hepáticas podem ser realizados pelo exame clinico, entretanto, com o auxílio do laboratório bioquímico, o índice de assertividade diagnóstica pode chegar a 95%. Entre as provas bioquímicas mais utilizadas para a avaliação das funções hepatobiliares e as lesões hepáticas, destacam-se a dosagem da aspartato aminotransferase (AST), alanina aminotransferase (ALT), desidrogenase lática (LDH), fosfatase alcalina (FAL), gama glutamil transferase (GGT), albumina, tempo de protrombina (TP) e as bilirrubinas totais e frações. A utilização de testes para a avaliação do perfil hepático é importante para o diagnóstico de doenças, monitoramento de tratamentos medicamentosos, para determinar a gravidade de enfermidades e para, muitas vezes, avaliar o prognóstico do paciente. Alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST) As transaminases hepáticas (ALT e AST), também conhecidas como transaminase glutâmico-pirúvica (TGP) e transaminase glutâmico-oxalacética (TGO), respectivamente, são enzimas hepáticas agregadas ao citosol dos hepatócitos. Normalmente detectadas no soro humano (valores inferiores a 30 UI/L), as transaminases são excelentes marcadores bioquímicos para a investigação de doenças hepáticas e metabólicas, já que qualquer processo que leve à perda da integridade da membrana dos hepatócitos ou necrose hepática acarretará a elevação dos níveis de ALT e AST no sangue. 88 Unidade II A elevação das transaminases é frequentemente detectada em exames de rotina, entretanto, menos de 5% dos pacientes com transaminases elevadas terão doenças hepáticas graves. Devemos destacar que muitos fatores fisiológicos e de risco podem contribuir para a alteração nos níveis séricos dessas enzimas, incluindo idade, sexo, índice de massa corporal, atividade física extenuante, níveis elevados de triglicerídeos, perfil de resistência à insulina e hiperglicemia. A ALT é uma proteína produzida mais especificamente no fígado, podendo ser encontrada na musculatura esquelética, nos rins, no cérebro, no pâncreas, no baço, no pulmão e nos eritrócitos. A elevação nos níveis de ALT sérica é uma medida sensível, mas não 100% específica, para detecção de lesão hepatocelular. Entre as causas mais comuns de sua elevação, destacam-se as lesões hepáticas induzida por álcool, doença hepática gordurosa não alcoólica, hepatites virais, hepatite autoimune e doenças hepáticas medicamentosas. Outras causas incluem hemocromatose, doenças vasculares e doenças genéticas que acometem o fígado. A enzima ALT catalisa a transferência de grupos amino da L-alanina para o alfa-cetoglutarato, e os produtos de conversão são L-glutamato e piruvato. O processo é crítico no fígado no ciclo do ácido tricarboxílico (TCA). O piruvato pode ser usado no ciclo do ácido cítrico para produzir energia celular. A AST é uma enzima produzida também nos hepatócitos, entretanto, também é encontrada em outros tecidos. De importante valor preditivo em doenças cardíacas (infarto agudo do miocárdio), a AST é uma enzima que catalisa a reação entre o aspartato e o alfa-cetoglutarato na formação de oxaloacetato e glutamato. Assim, a elevação de ALT é considerada mais específica em pacientes com lesão hepática do que a elevação pura da AST. Atualmente, considera-se que, nas doenças hepáticas, a razão AST/ALT é menor que 1. Já em pacientes com doença hepática causada por etilismo (alcoolismo), essa razão tende a valores maiores que 2, pois há deficiência de piridoxal-5’-fosfato em indivíduos etilistas crônicos. Os níveis de ALT também podem aumentar devido ao consumo de medicamentos hepatotóxicos, destacando-se os antibióticos amoxicilina e o clavulanato. O Tacrine, um medicamento indicado para a doença de Alzheimer, foi retirado do mercado devido a sua associação à lesão hepática significativa. Esse medicamento causou elevações dos níveis de ALT até 20 vezes maiores que o nível de referência (normal). As estatinas, muito utilizadas para o tratamento de hiperlipidemias, podem alterar os níveis séricos de ALT. A literatura evidenciou que cerca de 5% dos pacientes que tomavam essa classe de medicamentos apresentaram elevações nas dosagens de ALT. Ainda, ceftriaxona, fenitoína, carbamazepina, cotrimoxazol e alopurinol são medicamentos que podem causar lesão hepática, e os antidepressivos tricíclicos, imipramina e amitriptilina podem causar elevações transitórias na ALT. Já a elevação concomitante de ALT e AST é relatada em pacientes que utilizam medicamentos como isoniazida, pirazinamida, rifampicina, ibuprofeno e dapsona. Por fim, a intoxicação por paracetamol altera os níveis séricos de ALT, respondendo por quase metade das lesões hepáticas medicamentosas. 89 BIOQUÍMICA CLÍNICA No caso das suspeitas de hepatites, o histórico do paciente é fundamental para uma correta relação clínico-laboratorial. Ainda, sorologias devem ser realizadas para a constatação ou afastamento da hipótese diagnóstica de hepatites virais. Além dos painéis sorológicos, o médico assistente do paciente deve solicitar exames complementares, como hemograma, proteína C reativa e, em casos específicos, testes de biologia molecular para identificação e quantificação da carga viral. Por fim, quando um médico solicita testes para avaliação do perfil hepático, alguns fatores pré-analíticos são de suma importância para a correta relação clínico-laboratorial, como a verificação do índice de hemólise do sangue. Uma amostra hemolisada é considerada imprópria para a realização do teste. Essa constatação pode ser realizada com auxílio de espectrofotometria ou pela inspeção visual. Um painel de testes laboratoriais para avaliar as funções hepáticas, também conhecido como teste de função hepática, é comumente utilizado na prática clínica. O teste de função hepática compreende as dosagens de bilirrubinas totais e frações, ALT, AST, LDH, FAL, GGT, TP e albumina sérica. Na tabela a seguir estão os valores de referência básicos para as enzimas e proteínas de avaliação de função hepática: Tabela 2 – Valores de referência para as enzimas e proteínas de avaliação de função hepática Marcador hepático Valores de referência ALT 7 a 56 U/L AST 0 a 35 U/L FAL 41 a 133 U/L GGT 9 a 85 U/L BT 0 a 1,2 mg/dL Albumina 40 a 60 g/L É muito importante ressaltar que esses valores de referência são uma base (modelo), uma vez que essas informações podem se alterar diante de diferentes metodologias. Considerando-se que qualquer lesão hepática pode alterar a função do fígado, os níveis séricos das enzimas funcionais podem se encontrar alterados. Assim, rotineiramente observam-se aumentos nos níveis séricos de AST e ALT de forma concomitante. Os níveis de ALT maiores que 1.000 U/L devem considerar lesão isquêmica hepática aguda, lesão hepática grave induzida por drogas ou hepatite viral aguda. Outras causas incluem cálculos do ducto biliar comum e infecção por hepatite E. As hepatites virais são consideradas processos inflamatórios e infecciosos que acometem o fígado. Atualmente, temos como diagnosticar as hepatites A, B, C, D e E. A hepatite A aguda, em comparação com as hepatitesC e B, está associada aos maiores aumentos nos níveis séricos de ALT e AST, chegando aos níveis de 3.000 a 4.000 U/L. Clinicamente, as hepatites são diagnosticadas com icterícia, anorexia, fadiga, vômito, febre, náusea e hepatomegalia. Como via de contaminação, para a hepatite A apresentamos a via oral-fecal. Para as demais hepatites, o contágio se dá por via sanguínea e por fluidos. 90 Unidade II A isquemia hepática ocorre quando há uma redução aguda na perfusão sanguínea para o fígado, levando esse órgão à necrose das células centrolobulares hepáticas. A ocorrência de dano hepático é maior no choque séptico, quando a diminuição da perfusão do sangue para o fígado acontece devido a processos infecciosos, com evolução para choque séptico. Nesses casos, a dosagem de ALT apresenta maior sensibilidade diagnóstica, devendo ser acompanhada pelos marcadores lactato, proteína C reativa, hemograma, dímero D e hemocultura. No cenário das enfermidades hepáticas, a doença hepática gordurosa não alcoólica (esteatose hepática) é uma das principais causas de alteração das enzimas do fígado. Com potencial de progredir para fibrose hepática e cirrose, essa doença está geralmente associada a níveis mais elevados de ALT e GGT. Como fatores de risco, destacam-se a obesidade mórbida, diabetes melito, hipertrigliceridemia, hipertensão e resistência à insulina. Para a avaliação das hepatites alcoólicas, virais e fibrose/cirrose hepática, a razão entre AST e ALT é utilizada como marcador prognóstico, conforme apresentado na tabela a seguir. Tabela 3 – Razão entre AST e ALT nas hepatites alcoólicas Razão AST/ALT Indicação diagnóstica/prognóstica Maior que 2 Hepatite alcoólica 1,5 – 2,0 Hepatite viral Maior que 1,0 Fibrose/cirrose A utilização dessa proporção é muito questionável por laboratórios de rotina. Entre os principais motivos, destaca-se que a dosagem da AST é hemólise-comprometida; a proporção pode alterar-se conforme o número de dias após a exposição e pela gravidade da doença, além disso, há a meia-vida relativamente curta de AST (18 horas) em comparação com ALT (47 horas). O LDH e as doenças hepáticas O LDH é uma enzima presente de maneira disseminada no organismo humano. Com função de catalisar a oxidação reversível do lactato a piruvato, essa enzima se encontra de maneira mais abundante no miocárdio, no fígado, no músculo esquelético, no rim e nos eritrócitos. A desidrogenase lática é habitualmente solicitada pelo corpo clínico devido à sua elevação em lesões isquêmicas hepáticas e para a detecção de tumores hepáticos de elevado grau de comprometimento morfofuncional. A Gama-glutamil-transferase (GGT) A GGT é uma enzima primordialmente, mas não exclusivamente, hepática. Com função no transporte de aminoácidos e peptídios através das membranas celulares, na síntese proteica e na regulação dos níveis de glutationa tecidual, trata-se de uma enzima particularmente importante na avaliação do 91 BIOQUÍMICA CLÍNICA envolvimento hepatobiliar em adolescentes, pois a atividade da fosfatase alcalina está elevada durante o crescimento ósseo. O principal marcador bioquímico empregado rotineiramente para a avaliação diagnóstica e evolução clínica do alcoolismo é a enzima gama-glutamil-transferase. A GGT pode estar aumentada em um único evento nas hepatites alcoólicas devido à degradação do etanol. Ainda, a GGT é suscetível ao consumo de drogas. Sua dosagem também é utilizada para o acompanhamento de pacientes em tratamento e abstinência de álcool, com retorno aos níveis de normalidade (da GGT) em aproximadamente três semanas. Assim, a GGT é um bom marcador para o diagnóstico e acompanhamento do paciente etilista crônico. A fosfatase alcalina (FAL) A FAL é uma enzima associada ao transporte lipídico no intestino e aos com processos de calcificação óssea. Sua forma predominante origina-se nos ossos, entretanto, também tem atividade nos canalículos biliares. Dessa forma, a FAL é uma enzima hepática que apresenta boa sensibilidade para o diagnóstico de doenças do trato biliar. A elevação dos níveis de FAL está intimamente relacionada com: • obstruções das vias biliares (cálculos, tumores); • hepatites e cirrose; • carcinoma hepatocelular primário e metástases tumorais; • mononucleose infecciosa; • colangite; • calculose biliar; • câncer de cabeça de pâncreas; • tumores ósseos osteoclásticos primários ou secundários; • fraturas ósseas. 5.2 Sistema hepatobiliar: as bilirrubinas e as doenças correlatas As bilirrubinas totais são compostas de suas frações direta e indireta. De origem primária da degradação e metabolização da porção heme da molécula de hemoglobina no baço, a bilirrubina indireta (BI) é produzida e se liga a sua proteína transportadora, a albumina (ALB). 92 Unidade II O complexo BI + ALB chegam aos hepatócitos, os quais conjugam essa BI em bilirrubina direta (BD) com o ácido glicurônico no retículo endoplasmático liso. A bilirrubina direta, no intestino, é degradada pelo microbioma intestinal em estercobilinogênio e urobilinogênio. O estercobilinogênio é excretado pelas fezes e parte do urobilinogênio retorna ao sistema hepático para a sua excreção na urina. As bilirrubinas são encontradas na circulação sanguínea de maneira diminuta ou, até mesmo, ausente. Em situações de doença, o acúmulo de frações da bilirrubina, indireta ou direta, causa um sinal no paciente denominado icterícia. A icterícia é evidenciada pela coloração amarelada que esse pigmento, em excesso, manifesta na pele, na esclera dos olhos e na urina, entre outros. As bilirrubinas são dosadas por métodos colorimétricos. Nos laboratórios de bioquímica, dosa-se habitualmente a bilirrubina total (BT) e a bilirrubina direta (BD). Pela diferença entre a BT e a BD, calculamos a BI. O teste é realizado com o ácido sufanílico diazotizado, que forma um conjugado de composto azo com anéis porfirínicos da bilirrubina. Essa bilirrubina é, então, mensurada em espectrofotometria, com a detecção da sua absorbância, sob comprimento de onda de 540 nm. O aumento das frações da bilirrubina indireta e direta e, consequentemente, a presença de icterícia está relacionado com o local e o momento da sua origem. As icterícias podem ser classificadas em três principais grupos: • icterícias pré-hepáticas; • icterícias de causa hepática; • icterícias pós-hepáticas. A seguir, discutiremos cada uma das icterícias em detalhes. Icterícia pré-hepática A icterícia pré-hepática é causada pelo aumento da bilirrubina indireta, por diferentes razões: desde a sua característica fisiológica em recém-nascidos (devido à imaturidade hepática no processo de conjugação) até casos de hemólise intravascular, em pacientes com quadro de anemia hemolítica. Em adultos, o aumento da BI pode acontecer também devido à deficiência de glicuroniltransferase nas hemorragias internas, ou seja, nas elevadas ofertas de degradação da molécula heme da hemoglobina. Devemos destacar que o excesso de BI em recém-nascidos também pode significar doença. Um dos exemplos clássicos é a eritroblastose fetal, quando, em razão de uma incompatibilidade sanguínea entre mãe Rh negativo-sensibilizada e recém-nascido Rh positivo, as hemácias são “atacadas” e sofrem hemólise disseminada. A elevação da BI, a níveis muito altos, pode se acumular no sistema nervos central do recém-nascido, causando o depósito de cristais de bilirrubina no cérebro e comprometendo o desenvolvimento neurológico do bebê. A esse fato, denominamos kernicterus. 93 BIOQUÍMICA CLÍNICA Além da elevação da BI, as icterícias pré-hepáticas são acompanhadas pelo aumento dos níveis de LDH e, consequentemente, dos níveis de BT. Icterícia hepática As icterícias hepáticas são caracterizadas pelo aumento da bilirrubina direta. Como etiologia, destacam-se os processos que levam à lesão dos hepatócitos, como nos processos infecciosos/ medicamentosos (caso das hepatites), por processos inflamatórios e tóxicos e por alterações no parênquima hepático(por exemplo, cirrose). As icterícias hepáticas são geralmente acompanhadas da elevação das enzimas hepáticas AST e ALT e, também devido à disfunção hepática, dos níveis de BI. Nas icterícias hepáticas, a dosagem de urobilinogênio na urina encontra-se elevada. Dessa forma, na urina de pacientes com icterícia hepática poderemos encontrar aumento de BD e de urobilinogênio. Icterícia pós-hepática As icterícias pós-hepáticas são caracterizadas também pelo aumento da bilirrubina direta. De etiologia obstrutiva na árvore biliar, colestases, coledocolitíase e alguns tipos de carcinomas costumam ser os principais responsáveis por esse tipo de icterícia. As icterícias pós-hepáticas são geralmente acompanhadas da elevação de enzimas de atividade nos canalículos biliares (FAL) e pela elevação da GGT. No grupo das icterícias pós-hepáticas, devido à instalação de um processo obstrutivo, os níveis de urobilinogênio encontram-se normais na urina, e os níveis de BD são elevados. 5.3 Marcadores de função hepática Proteínas totais (PT) As proteínas plasmáticas são sintetizadas, em sua maioria, no fígado. Com absorção no intestino delgado, as proteínas totais (PT) são dosadas como marcador para avaliação da função hepática. Entre as proteínas mais importantes do organismo humano, destacamos a albumina e as globulinas, que serão apresentada a seguir. Albumina (ALB) e outras proteínas hepáticas A albumina (ALB) corresponde a aproximadamente 60% das proteínas totais do sangue. Sintetizada no parênquima hepático, apresenta meia-vida de aproximadamente 17 dias. Com função na regulação osmótica celular e tecidual, a ALB atua como proteína transportadora de substâncias. Um exemplo, já citado anteriormente, é o transporte da BI pela ALB até o parênquima 94 Unidade II hepático. Além disso, a ALB atua também no armazenamento e na ligação de compostos pouco solúveis em água, de fármacos e ácidos graxos livres, entre outros. Outra função da ALB é fornecer aminoácidos para a formação de outras proteínas. As alterações nos níveis de albumina sérica podem ser devido à sua elevação (hiperalbumineia) ou sua diminuição (mais frequente, hipoalbuminemia). A hipoalbuminemia é, geralmente, causada pela insuficiência do hepatócito no processo de síntese proteica. As principais causas de ambas são apresentadas no quadro a seguir. Quadro 3 – Globulinas, fatores de coagulação e proteína C reativa Hiperalbuminemia Hipoalbuminemia Meningites bacterianas Perda excessiva de proteínas Desidratação aguda Cirrose Carcinomatose metastática Síndrome nefrótica Diarreia Queimaduras Mieloma múltiplo Desnutrição grave Politraumas Perda gastrointestinal Vômitos Hepatites virais As globulinas, junto com a albumina, são as proteínas de interesse clínico na maioria das disfunções hepáticas e outras doenças. As globulinas são classificadas em Alfa1, Alfa2, Beta e Gamaglobulinas (responsável pela produção dos anticorpos humanos). As proteínas fibrinogênio e protrombina são fatores muito importantes para os processos coagulativos, e a proteína C reativa é um marcador bioquímico muito importante para a investigação de processos infecciosos e para o acompanhamento, diagnóstico e prognóstico de lesões cardiovasculares (como no infarto agudo do miocárdio). Colinesterase A dosagem da colinesterase é de suma importância em pacientes com suspeita ou confirmação de exposição a inseticidas organofosforados e carbamatos. Com duas unidades de ligação, quando as vias da colinesterase são inibidas, a via de degradação da acetilcolina é prejudicada e, com isso, os pacientes apresentam manifestações clínicas como convulsões, alterações musculares etc. A atividade da colinesterase é avaliada por duas principais enzimas: a colinesterase eritrocitária (acetilcolinesterase) – de exposição crônica aos inseticidas e a colinesterase plasmática (butiril- colinesterase) – de ação aguda em casos de exposição inicial. A diminuição da colinesterase plasmática permanece por aproximadamente trinta dias, enquanto a diminuição da colinesterase eritrocitária prevalece por aproximadamente noventa dias. 95 BIOQUÍMICA CLÍNICA Assim, a dosagem da enzima colinesterase sérica é um importante biomarcador para avaliação da intoxicação do paciente e de alterações hepáticas, de maneira inversamente proporcional: quanto menor o nível da atividade da colinesterase, maior o grau de intoxicação. A determinação dos níveis enzimáticos da colinesterase é realizada por métodos enzimáticos colorimétricos. Leucina aminopeptidase As aminopeptidases são enzimas degradadoras de peptídeos e proteínas. Com papel fundamental na maturação de proteínas, as aminopeptidases são especialmente relevantes no controle das funções hepáticas, cardiovasculares e renais, participando ativamente da regulação do sistema renina- angiotensina-aldosterona, de outras vias regulatórias metabólicas e de processos angiogênicos. Na família das aminopeptidases, destaca-se a enzima leucina aminopeptidase, altamente expressa no sistema nervoso central, intestino, fígado, pâncreas e rins. A leucina aminopeptidase tem papel importante na avaliação de doenças hepáticas e obstrutivas e na avaliação de tumores malignos metastásicos em fígado. Para doenças hepáticas, os níveis séricos de leucina aminopeptidase encontram-se elevados. Já para distúrbios regulatórios de controle de pressão arterial (hipertensão) via sistema renina-angiotensina- aldosterona, há a diminuição da sua atividade. A dosagem no soro da leucina aminopeptidase pode ser realizada por espectrofotometria cinética. O pâncreas é uma glândula que possui função mista: endócrina e exócrina. O pâncreas é um órgão impossível de ser apalpado por se localizar atrás do estômago, entre o intestino e o baço (ou seja, na parte posterior do abdômen superior). Dividido em três partes (cabeça, corpo e cauda), tem aproximadamente 15 cm de comprimento, de 3 cm a 5 cm de largura e de 2 cm a 3 cm de espessura. Divide-se assim: a cabeça (larga); o istmo ou colo (uma região estreita do órgão, com apenas 2 cm de comprimento); o corpo (afilado, que é a maior parte); e a cauda (estreita e pontiaguda, que termina próximo ao baço). Figura 45 – Desenho de pâncreas e duodeno seccionados: d = duodeno; dpa = duto pancreático acessório; dpp = duto pancreático principal; cp = cabeça do pâncreas; cop = corpo do pâncreas; cap = cauda do pâncreas Disponível em: https://bit.ly/3769RNL. Acesso em: 28 jul. 2021. 96 Unidade II Como dito anteriormente, o pâncreas é uma glândula que possui função mista: endócrina e exócrina. As células endócrinas são grupos de células ricamente circundadas por capilares sanguíneos e, como essas glândulas são endócrinas, ou seja, não têm ductos, os hormônios respectivos são liberados diretamente no sangue. As células endócrinas são divididas em quatro tipos: as ilhotas de Langerhans alfa, beta, gama e células PP ricamente vascularizadas por capilares (no pâncreas temos cerca de 1 a 2 milhões de ilhotas de Langerhans, sendo 60% dessas ilhotas beta). As ilhotas alfa fabricam e liberam o hormônio glucagon (estimulam o aumento da glicemia, portanto, hormônio hiperglicêmico) na corrente circulatória, as beta fabricam e liberam o hormônio insulina (hormônio hipoglicêmico) no sangue, as delta fabricam e liberam somatostatina (regula a secreção dos dois hormônios anteriores) e as células PP fabricam e liberam peptídeos pancreáticos (tendo função contrária a da colecistoquinina, pois inibem a secreção pancreática e estimulam a secreção gástrica). Figura 46 – Esquema de pâncreas mostrando células exócrinas e endócrinas Disponível em: https://bit.ly/3xMcGPe. Acesso em: 23 jun. 2021. Em 1896 o cientista alemão chamado Paul Langerhans descobriu, usando o microscópio ótico, certos grupamentos de células de pâncreas que eram diferentes do restante das outras células deste órgão: as ilhotas de Langerhans. Essas células se coram menos intensamente pelos corantes hematoxilina-eosina se comparadascom as outras células, ou seja, ficam mais claras, e o restante das células fica mais escuro quando elas são analisadas em microscopia ótica. Por sua semelhança a ilhas no mar, o cientista deu o nome de ilhotas de Langerhans. Com tamanho de 100 µm a 200 µm de diâmetro, podem ser células poligonais ou arredondadas, se dispondo em cordões, circundadas por capilares sanguíneos, com cerca de 1 e 2 milhões de ilhotas de Langerhans, com uma pequena tendência para serem mais abundantes na região da cauda do pâncreas, sendo que 60% destas são de ilhotas beta. 97 BIOQUÍMICA CLÍNICA Saiba mais Aprofunde seus conhecimentos em: JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Histologia básica. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. Como o alimento não “entra”, ou seja, não penetra no pâncreas, as enzimas produzidas para digestão dos alimentos ingeridos são liberadas no intestino através de um ducto. A maioria das células do pâncreas, as células exócrinas, têm a função de produção e liberação das enzimas envolvidas na digestão (“quebra”) de vários alimentos (carboidratos, proteínas, lipídios e ácidos nucleicos) através de ductos que se reúnem em um só, e este ducto chega até o intestino. Essas enzimas facilitam a absorção desses alimentos, pois quebram ou clivam, deixando-os com menor tamanho, facilitando sua passagem pelas células do intestino até o sangue (absorção dos alimentos). Entre as enzimas produzidas no pâncreas exócrino liberadas no intestino podemos citar: endopeptidases (elastase, colagenase, tripsina, quimotripsina, calicreína); exopeptidases (carboxipepetidase A e B, aminopeptidases); nucleases (ribonuclease, desoxirribonuclease); amilase; lipase e fosfolipase A e B, que de forma geral são produzidas na forma de zimogênios (ou seja inativas) sendo ativadas antes de alcançarem o intestino. O suco pancreático, com pH entre 8 e 8,3, neutraliza o quimo (bolo alimentar que vem do estômago e tem pH ácido) com um de seus componentes: o íon bicarbonato, para propiciar um pH conveniente para ação das enzimas. A liberação do suco pancreático no intestino é estimulada pelo sistema nervoso. Quando uma pessoa se alimenta, o cheiro ou a visão pode provocar impulsos nervosos que estimulam a liberação do suco pancreático. Isso se dá em conjunto com os hormônios secretina (estimula a secreção de bicarbonato de sódio) e colecistocinina (também chamado de hormônio da saciedade, pois diminui motilidade estomacal e aumenta a secreção de enteropeptidase ou enteroquinase, que converte o tripsinogênio em tripsina). O suco pancreático se transfere do pâncreas ao duodeno pelo ducto pancreático, que se liga ao ducto colédoco (que transporta a bile da vesícula biliar para o intestino) tornando-se um só a desembocar no intestino pelo esfíncter muscular (chamado de esfíncter de Oddi). 98 Unidade II Glândulas salivares Esôfago Estômago Pâncreas Cólon transverso Jejuno Cólon descendente Íleo Sigmoide Reto Ânus Apêndice Ceco Cólon ascendente Duodeno Vesícula biliar Fígado Figura 47 – Esquema do aparelho digestório humano. Repare que o ducto que vem do pâncreas se comunica com o que vem da vesícula, desembocando ambos no intestino Disponível em: https://bit.ly/3zQuZ80. Acesso em: 23 jun. 2021. 5.4 Avaliação do funcionamento do pâncreas endócrino e exócrino Quando nos alimentamos a glicemia aumenta, e o sangue passa pelo pâncreas estimulando as células das ilhotas beta de Langerhans a produzirem e liberarem no sangue o hormônio hipoglicemiante insulina, ao mesmo tempo também ocorre a inibição da liberação de glucagon. A insulina liga-se aos receptores de membrana das células alvo (aquelas células que têm receptor para insulina), e, mediante esta ligação, várias vias de sinalização são ativadas, sendo que um dos resultados é a passagem da proteína GLUT que está no citoplasma para a membrana plasmática (translocação do aparelho de Golgi para a membrana plasmática). Essa proteína se liga à glicose (molécula polar, insolúvel na membrana plasmática) facilitando seu transporte para o interior da célula pelo processo de difusão facilitada. 99 BIOQUÍMICA CLÍNICA As proteínas transportadoras de glicose GLUT presentes na membrana plasmática formam uma família de proteínas que vão de GLUT1 até GLUT7. Cada GLUT está em um tipo celular: • GLUT1: células sanguíneas de adultos e rim. Transporta glicose na maioria das células. • GLUT2: hepatócitos, células beta pancreática, intestino delgado, hipotálamo. • GLUT3: transportadora de glicose nos neurônios, também presente em placentas e testículos. • GLUT4: músculo esquelético e cardíaco • GLUT5: transporta frutose, principalmente, no intestino delgado e nos testículos. • GLUT6: este gene na verdade não se expressa funcionalmente, sendo considerado um pseudogene. • GLUT7: células hepáticas. Relacionada com a liberação de glicose do reticulo endoplasmático dos hepatócitos. No néfron e no duodeno ainda podemos verificar o cotransporte de glicose acoplado ao transporte de íon Na+ (SGLT1 e 2). Quando o nível da glicose baixa no sangue, as ilhotas alfa de Langerhans são estimuladas a liberar glucagon (hormônio hiperglicemiante), que, por ser antagônico em relação à insulina, irá aumentar a glicemia, principalmente pela “quebra” do glicogênio hepático, e, com isso, a produção de glicose nas células do fígado. Portanto, se quisermos saber sobre o funcionamento do pâncreas endócrino, devemos procurar a insulinemia e a determinação de glucagon no sangue (ou reações que levem aos seus funcionamentos). Já para sabermos como está a função exócrina, é necessário dosar as enzimas pancreáticas no soro; quando, por exemplo, a concentração da lipase ou amilase é superior ao valor de referência, pode haver uma inflamação ou doença no pâncreas, quando a concentração é baixa, pode-se estar diante de uma insuficiência pancreática ou outra doença grave no fígado. 5.5 Importância clínico-laboratorial das determinações enzimáticas da amilase e lipase; fibrose cística, pancreatite, hipo e hiperglicemias Amilase Há dois tipos de amilase no corpo humano: alfa-amilase salivar (amilase S) e amilase pancreática (amilase P). A amilase é uma enzima que cliva o amido e o glicogênio, podendo estar acima do valor de referência no sangue (estado chamado de hiperamilasemia) por causas pancreáticas (como pancreatite aguda, carcinoma de pâncreas, trauma cirúrgico, obstrução dos ductos pancreáticos) e não pancreáticas (insuficiência renal, neoplasia de pulmão, de ovário, de mama, de cólon, lesões das glândulas salivares por infecção, irradiação, obstrução, cirurgia maxilofacial e tumores). 100 Unidade II Como exemplo de patologia relacionada às glândulas salivares, podemos citar a caxumba (ou parotidite), que nada mais é do que o resultado do aumento das glândulas parótidas (responsáveis por sintetizar e liberar a alfa amilase na boca). Febre e dor no momento da mastigação e ingestão de líquidos estão relacionadas geralmente com vírus da família Paramyxoviridae, Parainfluenza do tipo 1 e 3, Epstein-Barr, influenza e até HIV, entre outros. Vale destacar que já forma constatadas parotidites com causas não infecciosas (como drogas, tumores, doenças imunológicas e obstrução do ducto salivar). O período de incubação varia de 12 a 25 dias após a exposição, com média de 16 a 18 dias. Há também o quadro de macroamilasemia resultado da combinação da molécula de amilase (geralmente do tipo S) com imunoglobulinas (IgA e IgG) ou também outras proteínas plasmáticas normais ou anormais para formar um complexo muito grande para ser filtrado pelo glomérulo, permanecendo, assim, no sangue. É importante no diagnóstico diferencial das causas de dor abdominal e abdome agudo, especialmente na pancreatite aguda, bem como nas afecções da glândula salivar. Parótida Sublingual Submaxilar Figura 48 – Desenho da localização das glândulas salivares. As glândulas parótidas inflamadas constituem em parotidite ou caxumba Disponível em: https://bit.ly/2SlV7ql.Acesso em: 23 jun. 2021. Lipase Encontrada em tecidos de vários animais e plantas, a lipase, como a protease, a celulase e a amilase, são classificadas como hidrolases. Podem ser produzidas por fermentação em indústrias farmacêuticas por alguns microrganismos, tais como fungos, leveduras e bactérias; depois de purificadas, podem ser comercializadas em farmácias. No corpo humano ocorre lipase lingual produzida pelas glândulas serosas da língua, sendo liberada com a saliva. Como a permanência do alimento na boca é muito curta, a digestão de lipídios não é produtiva. Também ocorre lipase gástrica nesse processo. Todavia, por conta do pH ácido, que dificulta a ação da enzima, praticamente não há ação dessa enzima, e o local onde realmente ocorre a digestão dos lipídios é no intestino delgado, pois lá haverá condições necessárias para a catálise enzimática. A lipase é uma enzima cuja suplementação pode ser benéfica nos casos de indigestão, doença celíaca, fibrose cística e doença de Crohn. Na doença celíaca ocorre uma disfunção no sistema imune, levando a um ataque autoimune causado pela intolerância ao glúten (proteína encontrada no trigo, na aveia, na cevada, no centeio e seus derivados), que é diferente da intolerância ao glúten per se, 101 BIOQUÍMICA CLÍNICA pois nesta última não ocorre dano no intestino delgado e também não há relação com o sistema imunológico. Com a atrofia da mucosa do intestino, haverá má absorção dos nutrientes, sais minerais e água, refletindo em sintomas como dor abdominal, diarreia e flatulência (gases), anemia e perda de peso. A doença de Crohn tem causa desconhecida, mas pode ter relação com o sistema imunológico e é um fator de risco para o câncer de intestino. É caracterizada por grandes pontos de inflamação no intestino com o aparecimento de pequenas vesículas, as quais podem se abrir e serem pontos maiores de infecção e inflamação, o que pode causar a necrose dessa porção. Os sintomas mais frequentes são dores abdominais e diarreia, febre e perda de peso. A incapacidade do pâncreas exócrino de secretar a quantidade suficiente de enzimas digestivas para digerir os alimentos dentro do intestino é caracterizado como insuficiência pancreática. Ocorre principalmente em crianças com fibrose cística e em adultos na pancreatite aguda ou crônica, diabetes do tipo 1 e câncer de pâncreas. A fim de prevenir-se das complicações das doenças que acabamos de ver, deve-se realizar exames de checkup periodicamente, obtendo-se o diagnóstico correto antes mesmo do aparecimento de sintomas. Infelizmente, não há um teste ideal, mas costuma-se iniciar a pesquisa pelo perfil pancreático básico, nada mais do que a determinação sanguínea de amilase, lipase (pode-se optar também pela dosagem de tripsina). A determinação de amilase no sangue e na urina tem como objetivo distinguir a pancreatite aguda de outras causas de dor abdominal que requeiram cirurgia imediata, além de possibilitar a avaliação do possível comprometimento pancreático causado por trauma ou cirurgia abdominal. A amilasemia e a lipemia aumentam na pancreatite aguda e na crônica os níveis séricos de lipase e/ou amilase reduzidos; isoladamente, a sensibilidade desses testes é baixa para se estabelecer o diagnóstico definitivo. A amilase aumenta no soro de 6 a 12 horas após o início do quadro, mas existem casos de pancreatite em que não se vê um aumento da amilase sérica, em decorrência do fibrosamento de tecido. A especificidade do teste é baixa, mas possui alta sensibilidade. Vale lembrar que pode ocorrer amilasúria (amilase na urina) durante quatro dias após o episódio agudo. Na pancreatite aguda, o sangue contém pelo menos três vezes a quantidade normal de amilase e lipase, enzimas digestivas produzidas no pâncreas. Outras alterações também podem ocorrer no estudo bioquímico (como glicose, cálcio, magnésio, sódio, potássio e bicarbonato). Nesse casos, podem ser necessários os exames de ultrassom abdominal e tomografia computadorizada. Lembrete A enzima amilase possui duas isoenzimas: pancreática e salivar. A separação pode ser feita por eletroforese em bandas P e S, respectivamente. 102 Unidade II As lipases são produzidas exclusivamente pelo pâncreas e seu aumento no sangue ocorre após 24 ou 48 horas em relação ao episódio agudo, com um pico máximo em quatro dias, mas, como o aumento é lento, torna-se desvantajoso. Em pacientes com pancreatite é frequente a hipocalcemia, provavelmente pela ação do glucagon sobre as glândulas paratireoides, levando a um aumento da incorporação do cálcio no tecido ósseo. Deve-se notar que há também um depósito de cálcio na lesão pancreática. Os testes indiretos a seguir, são simples, não invasivos, mais rápidos e menos dispendiosos do que os testes diretos e ajudam muito no diagnóstico, apesar de terem sensibilidade e especificidade limitadas. A avaliação da função digestiva pode ser realizada pelo exame coprológico funcional (importante para pancreatite crônica), por meio do qual se pesquisa a gordura fecal; nesse caso, a análise da excreção fecal deve se dar 24 horas após o indivíduo receber uma dieta com 100 g de gordura diárias durante 3 dias. O resultado será positivo se houver perda de gordura superior a 7 g/dia (na clínica, a ocorrência de esteatorreia é compatível com PC). A enzima elastase fecal pode ser colocada como um padrão ouro, pois se trata de uma enzima proteolítica exclusivamente produzida pelo pâncreas que permanece estável após passagem pelo trato digestivo, sem sofrer interferência durante a digestão, apresentando alta sensibilidade e especificidade em casos de PC. Fibrose cística A fibrose cística (FC), também conhecida como doença do beijo salgado ou mucoviscidose, é uma doença genética crônica. É uma doença genética ligada a mutações no gene CFTR e com padrão de herança autossômico recessivo (para qualquer casal com uma criança afetada, o risco de que uma segunda criança venha a apresentar FC é de 25%). É caracterizada pelo fluxo anormal de cloro nas células epiteliais, causando diversas manifestações clínicas que incluem insuficiência pancreática e doença pulmonar, além de níveis aumentados de cloro no suor. Muitos dos genes podem atuar como modificadores da FC, influenciando na gravidade da doença pulmonar, no controle de infecção, na imunidade e na inflamação. Entre os genes possivelmente envolvidos, podemos citar o gene responsável pela alfa-1-antitripsina (A1AT), enzima sintetizada pelos hepatócitos e macrófagos alveolares cuja proteína pertence a uma família de inibidores de proteases de serina que protege os tecidos do ataque proteolítico pelas proteases leucocitárias (tal como a elastase, catepsina e tripsina), durante as reações inflamatórias. Caso ocorra mutação no gene A1AT, a proteína defeituosa permite que o corpo produza muco de 30 a 60 vezes mais espesso que o usual, obstruindo os ductos pancreáticos; consequentemente, o suco pancreático não chega ao intestino, não se dando a digestão correta dos nutrientes tampouco sua absorção, o que gera sintomas como diarreia (geralmente volumosas, com odor fétido), perda de peso e de estatura. Para esses casos, o tratamento também prevê medicamentos que ajudam na digestão e em uma nutrição balanceada. 103 BIOQUÍMICA CLÍNICA O tratamento baseia-se, então, em ingestão de enzimas digestivas para a alimentação, dieta específica, medicamentos broncodiladores, antibióticos, anti-inflamatórios, fisioterapia respiratória e atividade física, visto que se trata de uma doença genética e podemos nos ocupar das consequências, já que curar a causa ainda não é possível. O transplante pulmonar pode solucionar o problema. Observação A triagem do recém-nascido é feita pelo teste do pezinho e confirmado pelo exame padrão ouro chamado de teste do suor, pois na FC o suor é mais salgado que o normal (quando o nível de cloro é superior a 60 milimoles por litro em duas dosagens) (SERVIDONI et al., 2017). Pancreatite A pancreatiteé uma inflamação do pâncreas. Quando o pâncreas está inflamado, enzimas digestivas secretadas por ele, normalmente não ativas até atingirem o intestino delgado, acabam por serem ativadas, podendo danificar o tecidual pancreático de forma permanente, levando à necrose. As causas mais comuns da pancreatite são ingestão excessiva de álcool e trauma abdominal, mas pessoas que fazem uso do coquetel de HIV ou outras medicações também podem desenvolver esse quadro. Os sintomas mais comuns são enjoo, dor abdominal, abdome distendido e sensível, perda de peso (uma vez que os alimentos não são corretamente digeridos) e diarreia com fezes claras e mau cheiro (devido à gordura não digerida). Em termos bioquímicos, há o aumento de amilase e de lipase sanguíneas. Quando a destruição atinge a parte endócrina, é necessário controlar a produção insulina. Vale ressaltar ainda que a pancreatite pode ser aguda ou crônica. A pancreatite aguda é a inflamação do pâncreas que ocorre de maneira súbita e geralmente se resolve em poucos dias com o tratamento, costumeiramente sendo decorrente de litíase biliar (cálculos biliares que entopem o ducto comum ao pâncreas e ao fígado). Pode levar à desidratação e à pressão baixa, afetando bruscamente coração, pulmões ou rins. Caso aconteça uma hemorragia no pâncreas, a perda de sangue pode ser tão grande (choque) que pode levar à morte. Para tratar a pancreatite aguda, o paciente deve ser internado no hospital para administração de soros intravenosos (IV), antibióticos e medicamentos para aliviar a dor, ficando sem comer ou beber a fim de possibilitar que o pâncreas se restabeleça. Depois da melhora do quadro inicial, pode ser realizada uma cirurgia de retirada dos cálculos (colecistectomia). As enzimas pancreáticas como protease, lipase e amilase, basicamente extraídas de fonte suína, serão administradas ao paciente. 104 Unidade II A pancreatite crônica (PC) é uma inflamação do pâncreas que não apresenta cura e é característica de pessoas que ingerem muito álcool, levando à formação de cicatrizes teciduais que destroem lentamente o órgão, eliminando as células produtoras de insulina, Ilhotas beta de Langerhans, o que pode levar a diabetes. Pode também ser provocada por fibrose cística, hiperlipidemia, medicamentos e certas condições autoimunes, sendo os sintomas os mesmos da pancreatite aguda. A pancreatite pode ser de causa autoimune. A pancreatite tipo 1 causa a síndrome fibroinflamatória, com o paciente apresentando icterícia obstrutiva, simulando câncer de pâncreas. Por sua vez, a pancreatite tipo 2 pode ser diferenciada histologicamente, pois caracteriza-se por infiltração neutrofílica no epitélio pancreático, que pode levar à obliteração ductal. Hipoglicemia Constata-se hipoglicemia quando a quantidade de glicose no sangue está abaixo do valor de referência (69 mg/dL a 99 mg/dL). “Hipo” significa falta, escassez, carência; glicemia representa a quantidade de glicose no sangue. Entre as várias causas da hipoglicemia podemos citar: ingestão de álcool em excesso, jejum ou pouca alimentação, esforço físico, insuficiência hepática, cardíaca ou renal, tumores pancreáticos, produção excessiva de insulina pelo pâncreas, consumo de alguns medicamentos (como insulina, antidiabéticos orais e anti-inflamatórios não esteroidais (AINES). Há ainda as condições de hipoglicemia de jejum e a pós-prandial (após a alimentação). Como principais sintomas estão tremores, nervosismo, palidez, taquicardia, sudorese, náusea, vômito e como sinais de comprometimento cerebral pode-se listar alteração no humor, depressão, choro, medo de morrer, irritabilidade, sono, tontura, delírio, visão dupla, confusão mental, alterações do nível de consciência, perturbações visuais e de comportamento que podem ser confundidas com embriaguez, cansaço, fraqueza, sensação de desmaio e convulsões, estupor, coma e respiração difícil. Por que certas pessoas ingerem álcool e desmaiam por hipoglicemia? Após a ingestão do álcool, ele faz o caminho normal: boca, esôfago, estômago e intestino, é absorvido e, chegando ao sangue, passa rapidamente para o fígado. Por fazer a detoxificação de drogas em nosso corpo, o fígado terá a função de transformar essa droga – álcool – para sua saída pelos rins. O fígado metaboliza um drinque a cada 2 horas em média, isto é, transforma o álcool em acetaldeído e depois em acetato. Se o consumo for maior do que o fígado pode metabolizar, o excesso de álcool permanece no sangue e chega ao cérebro, causando: tontura, desinibição, diminuição da capacidade de raciocínio, euforia, aumento do ritmo dos batimentos cardíacos e da frequência da respiração, provoca problemas de equilíbrio e movimento, podendo levar à perda de consciência e parada respiratória, inclusive levar à morte. Como o fígado tem reservas de glicose e tem a função de liberar ou guardar glicose quando o corpo precisa, não regulariza a quantidade de açúcar no sangue de forma correta. O resultado é que as taxas de açúcar no sangue podem cair, causando hipoglicemia. 105 BIOQUÍMICA CLÍNICA Assim, uma orientação importante é que não se deve beber de estômago vazio ou se as taxas de glicose no sangue estiverem baixas. Indica-se beber lentamente, se possível, junto com água, para manter sua hidratação. A hipoglicemia pós-prandial ou reativa acontece de 3 a 5 horas após a pessoa ter feito uma refeição, geralmente se manifestando em pessoas submetidas a cirurgia do estômago e em indivíduos em fase inicial da resistência à insulina. Nesses casos, o paciente costuma sentir dor de cabeça, tremores e tonturas. O diagnóstico, além dos sintomas, deve incluir concentração de glicose no sangue, medida em laboratório de análises clínicas, inferior a 50 mg/dL em jejum e melhora dos sintomas após consumo de carboidratos no laboratório. Observação Quando um paciente perceber que entrará em uma crise hipoglicêmica, deve consumir de 15 g a 20 g de carboidratos simples, o que equivale a uma colher de sopa de mel (exceto em casos de crianças menores de 1 ano); um copo de 200 mL de suco de laranja ou de refrigerante não dietético; uma colher de sopa de açúcar dissolvido em meio copo de água. O efeito será mais rápido se esses alimentos forem ingeridos junto com carboidratos de longa duração, como pães, pipocas, biscoitos etc. Hiperglicemia A hiperglicemia é uma condição na qual o paciente apresenta um nível de glicose no sangue acima do valor de referência (69 mg/dL a 99 mg/dL). A principal causa deve-se ao diabetes (pré-diabetes, diabetes gestacional, diabetes tipo 1 e tipo 2 – DM1 e DM2, respectivamente), mas também pode ser induzida por estresse elevado, síndrome dos ovários policísticos (SOP), hipercortisolismo (síndrome de Cushing), pancreatite, trauma severo (como queimadura ou lesão), infecções (como pneumonia ou infecção do trato urinário), uso incorreto de medicamentos (como os esteroides e diuréticos) ou uso de drogas ilegais (como cocaína e ecstasy). Observação Após 8 horas de jejum, os valores de glicemia são classificados da seguinte forma: diabetes quando o resultado for maior ou igual a 126 mg/dL, pré-diabetes quando entre 100 mg/dL e 125 mg/dL e sem diabetes quando o valor obtido for menor ou igual a 99 mg/dL. 106 Unidade II 5.6 Metabolismo glicídico: diabetes mellitus, diabetes gestacional, intolerância à glicose e hipoglicemias. Determinações laboratoriais de testes de tolerância e sobrecarga, frutosamina, hemoglobina glicosilada e glicemia Diabetes A diabetes – diabetes gestacional, diabetes tipo 1 (DM1) e tipo 2 (DM2) – é uma condição em que a glicose está acima do valor de referência no sangue, devendo ser controlada com medicamentos, alimentação e exercícios. São consideradas doenças poligênicas, isto é, as alterações que predispõem a essas doenças estão em vários genes. Há predisposição genética associada a fatores ambientais (como obesidade, no caso do DM2), mas existem duas formas de diabetes que são resultado da mutação emum único gene, por isso denominadas monogênicas (testes genéticos podem identificar a maioria das formas de diabetes monogênico): o diabetes neonatal e o tipo MODY (do inglês Maturity-Onset Diabetes of the Young). Como sintomas, podemos citar os principais: polidipsia (muita sede), poliúria (excesso de urina), polifagia (fome excessiva, acompanhada de emagrecimento em DM2), cansaço e sonolência, pele seca, dor de cabeça, podendo evoluir para náuseas e vômitos, além de hálito cetônico (devido à formação de corpos cetônicos pelo organismo). O excesso de glicose no organismo é prejudicial. Quando seus níveis ultrapassam os limites normais, excede-se a capacidade de reabsorção dos túbulos renais (chamado de limiar renal) de 160 mg/dL a 180 mg/dL (alguns autores falam em 180 mg/dL a 200 mg/dL), então, o organismo tenta se proteger criando uma forma de excretá-la, mandando-a para os rins, de onde é eliminada por meio da urina. Como a glicose é um soluto e qualquer soluto arrasta seu solvente, ou seja, ela traz consigo mais água, gerando tanto o excesso de urina quanto outro sintoma da hiperglicemia o excesso de sede (polidipsia). Um fato interessante é que, mesmo havendo no sangue taxas tão elevadas de glicose, como não há insulina no cérebro, a glicose não o penetra, de forma que o cérebro, percebendo erroneamente uma queda desse carboidrato em seu interior, toma como uma falta alimento no organismo, causando muita fome no paciente (polifagia). O fato de não ter glicose em seu interior para síntese de energia (ATP) faz com que as células utilizem lipídios, e depois as proteínas, para cumprir tal função. O uso de lipídios leva ao aparecimento de corpos cetônicos (acetona, ácido ace e ácido β hidroxibutirato), que baixam o pH sanguíneo, levando à acidose metabólica. Então, além de sintomas como urinar muitas vezes (durante o dia e a noite) e em grande quantidade, sede exagerada, obesidade e perda de peso, fome, há outros sintomas diretamente ligados a hiperglicemia, que são: dores, dormência e formigamento nas pernas, cansaço, piora da visão, furúnculos frequentes, cicatrização difícil e infecções de pele, podendo chegar à impotência sexual, glaucoma, amputações de membros, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e abortamentos (em caso de gestação). 107 BIOQUÍMICA CLÍNICA No diabetes insulino-dependente ou diabetes tipo 1, a pessoa não produz insulina, havendo a necessidade de se ministrar insulina injetável. Vale destacar que tal diagnóstico é mais frequente entre crianças e jovens e a crise de hiperglicemia, no DM I, pode levar ao coma e à cetoacidose. Já no diabetes do tipo 2, os sintomas de hiperglicemia podem demorar a aparecer, atrasando o diagnóstico e causando complicações que poderiam ser evitadas, como retinopatia (problema ocular), neuropatia (problema nos nervos) e angiopatia (problema nos vasos sanguíneos). Observação Algumas pessoas acharam curioso o fato de, após micção, ou após jogarem a frauda com urina no lixo, formigas se aproximarem do vaso sanitário ou do lixo. Isso ocorre porque o nível de glicose está muito alto e é eliminado pela urina. Após comentarem com o médico, essas pessoas foram diagnosticadas com diabetes. Complicações do diabetes mellitus (DM) Como vimos anteriormente, a longo prazo, ocorrem alterações irreversíveis nos grandes e pequenos vasos sanguíneos (microangiopatia e macroangiopatia), além de redução na capacidade do corpo para resistir a infecções, podendo levar à amputação de membros (superiores e inferiores), envelhecimento precoce e redução da esperança de vida. A síndrome hiperglicêmica hiperosmolar é uma complicação que geralmente ocorre em idosos com diabetes tipo 2, havendo uma séria desidratação do organismo, pois o paciente não ingere água. Se eliminar muita urina, o indivíduo pode ficar desidratado a ponto de entrar em estado de confusão mental, coma ou mesmo óbito. Alguns fatores podem desencadear a síndrome, como AVC, infarto do miocárdio, infecções, uso de glicocorticoides, diuréticos e cirurgias. A diabetes insípida (DI) não tem relação com o diabetes mellitus. A DI é um tipo de diabetes em que a urina não apresenta glicose, ou seja, não é “melada” como no diabetes mellitus. É causada pela ausência do hormônio vasopressina (hormônio antidiurético), o que causa produção excessiva de urina muito diluída (poliúria) e sede. A vasopressina é o hormônio antidiurético produzido no hipotálamo que tem por função ajudar na regulação da quantidade de água no corpo, induzindo os rins à diminuírem a quantidade de urina produzida. As causas podem ser tumor cerebral, lesão cerebral, cirurgia cerebral, tuberculose e algumas outras doenças. Para o diagnóstico, toma-se como base o resultado dos exames de urina, sangue e do teste de privação hídrica. 108 Unidade II Observação No teste de privação hídrica, o paciente fica por cerca de 12 horas sem ingerir nenhum tipo de bebida. Durante tal período, ocorrerá diminuição na pressão arterial, um aumento na frequência cardíaca ou uma perda superior a 5% no peso do corpo. Ocorrendo dessa forma, o médico injeta vasopressina e os sintomas melhoram. O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é caracterizado pela destruição autoimune das células-beta pancreáticas, responsáveis pela produção da insulina. Para sobreviverem a essa doença crônica, os pacientes devem fazer uso da insulina exógena. Para não terem complicações como cegueira, acidente vascular cerebral, problemas renais e cardiovasculares, devem fazer uso da insulinoterapia. Para não entrar nessa terapia, há duas opções: fazer o transplante de pâncreas (cirurgia que demanda UTI pois tem muitos riscos) ou transplante de ilhotas pancreáticas (técnica não cirúrgica, mais simples). Dirigida por ultrassonografia, o médico infunde as ilhotas acondicionadas em uma bolsa estéril pelo fígado por um cateter na veia porta sem precisar de cirurgia. Em poucos dias o paciente já começa a produzir insulina e esse progresso é acompanhado pela dosagem do peptídeo C, indetectável antes do implante (peptídeo C é a parte da insulina que é retirada para que fique ativa no sangue). Aproximadamente três anos após o transplante, 50% dos pacientes permanecem livres de insulina, e após cinco anos apenas 13% não necessitam de insulina para controlar a sua glicemia. Deverá ocorrer terapia imunossupressora por toda a vida, o que leva a outros efeitos colaterais, como: alterações de provas hepáticas e trombose. Saiba mais Para saber mais sobre o assunto, leia: ELIASCHEWITZ, F. G. et al. Transplante de ilhotas na prática clínica: estado atual e perspectivas. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 53, n. 1, 2009. No diabetes gestacional, a placenta – fonte de hormônios que reduzem a ação da insulina – acaba por estimular o pâncreas a aumentar a produção desse hormônio numa reação compensatória. Se a mulher consegue ultrapassar essas mudanças no equilíbrio hormonal, ótimo, caso contrário, o pâncreas é levado ao estresse metabólico, elevando-se o nível de glicose no sangue. O bebê, quando é exposto a grandes quantidades de glicose ainda no ambiente intrauterino, apresenta risco de crescimento excessivo e, logicamente, partos traumáticos, além de hipoglicemia neonatal e até mesmo obesidade e diabetes na vida adulta. 109 BIOQUÍMICA CLÍNICA Idade materna mais avançada, ganho de peso excessivo durante a gestação, hipertensão arterial na gestação, histórico familiar de diabetes em parentes de 1º grau (pais e irmãos) são fatores de risco que devem ser analisados. Caso necessário, deve-se seguir uma orientação nutricional adequada e adotar a prática de atividade física para redução dos níveis glicêmicos. Em casos graves, associa-se o uso de insulinoterapia. É frequente o desenvolvimento de DM2 após o parto. Nessa situação, ele pode ser prevenido com alimentação balanceada e prática de atividades físicas. Diabetes mellitus tipo LADA Pacientes que começamcom sintomas de diabetes na idade adulta podem ser erroneamente caracterizados como DM2 ou diabetes MODY. Contudo, é um diabetes mellitus tipo 1 tardio, principalmente se houver fatores de risco como histórico familiar ou obesidade. Hiperglicemia com insulina insuficiente, em vez de resistência à insulina, a detecção de um peptídeo C baixo e de anticorpos contra as ilhotas de Langerhans são importantes para o diagnóstico. Seu tratamento é realizado com os antidiabéticos orais, podendo ser usada insulina. Se comparar com o DM1 juvenil, pode-se dizer que os sintomas de LADA se desenvolvem muito mais lentamente durante um período de pelo menos seis meses e se inicia com um episódio brusco de cetoacidose diabética. Enquanto os pacientes com DM2 costumam ter sobrepeso, a maioria dos tipo LADA têm IMC normal ou abaixo do normal. É comum perder muitos quilos um ano antes do diagnóstico, pela redução na produção de insulina, essencial para a captação de açúcar. Saiba mais Para mais explicações, leia as referências indicadas a seguir: GALLAGHER, E. J.; LEROITH, D. Insulin, insulin resistance, obesity, and cancer. Current Diabetes Reports, v. 10, n. 2, p. 93-100, 2010. STENSTROM, G. et al. Latent autoimmune diabetes in adults: definition, prevalence, beta-cell function, and treatment. Diabetes, v. 54, suppl. 2, p. 68-72, 2005. Intolerância à glicose em jejum Em razão das modificações de estilo de vida (que estimulam a obesidade, o sedentarismo e o consumo de alimentos ricos em calorias e gorduras) e do meio ambiente decorrentes da industrialização, verificou-se um aumento na incidência de diabetes no mundo. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a intolerância à glicose de jejum (IGJ) é caracterizada na faixa entre o limite superior de normalidade (> 100 mg/dL) e o limite inferior de glicemia para o diagnóstico do diabetes (< 126 mg/dL). Para essas pessoas com tal quadro, o 110 Unidade II diagnóstico pode evitar que o diabetes tipo 2 se estabeleça, apesar de já estar havendo lesões no sistema circulatório. Essa situação, chamada de pré-diabetes, tem sua importância exacerbada ao permitir que o indivíduo tome medidas preventivas a fim de evitar a evolução da doença (como dieta adequada, exercícios físicos e medicamentos). Resistência à insulina A resistência à insulina seria a base para a pré diabetes e diabetes tipo 2. A resistência à insulina é uma situação em que ocorre diminuição da resposta das células especialmente musculares e adiposas à insulina. Como necessitam de glicose para várias reações inclusive síntese de energia, o organismo faz com que o pâncreas compense este problema e produzindo bem mais hormônio, resultando em excesso de insulina no sangue que por sua vez, estimula as células, provocando desequilíbrio no pâncreas que entra em estresse metabólico. A hiperinsulinemia e a resistência à insulina podem provocar aumento nos níveis de triglicerídeos e de colesterol LDL, além da diminuição dos níveis de colesterol HDL, aumentando também o risco de trombose, alterações inflamatórias, retenção de sódio e hipertensão arterial. A resistência à insulina leva à síndrome metabólica, que tem como algumas características obesidade, sedentarismo e alterações dos níveis de lipídios sanguíneos, levando a aterosclerose, doenças cardiovasculares e acidentes vasculares cerebrais, além de dificuldade no uso da glicose pelas células. Quando uma pessoa apresenta essa condição, torna-se imprescindível uma alteração de estilo de vida, pois, do contrário, há a possibilidade de ter afetado seu tempo de vida em razão de doenças futuras. Entre os exames laboratoriais ligados à hiperglicemia/hipoglicemia na investigação clínica desses quadros, podemos citar: glicemia de jejum; hemoglobina glicada (HbA1c); perfil lipídico e nível de insulina em jejum. Observação Alimentos ricos em carboidratos simples são considerados os alimentos mais doces (açúcar refinado, pão francês, mel, geleia de frutas, melancia, arroz branco, macarrão, pipoca e refrigerante). Sua denominação está relacionada ao fato de não demandarem muito tempo para serem digeridos pelo organismo, sendo rapidamente absorvidos. Por isso, pelo fato de o açúcar cair rapidamente na circulação sanguínea, apresentam alto ou moderado índice glicêmico, devendo ser evitados por diabéticos e deseja emagrecer. Na imagem a seguir, pode-se observar a curva A, de um alimento simples, e a curva B, de um alimento complexo. 111 BIOQUÍMICA CLÍNICA Alimento A Alimento B Gl ic em ia 1 Horas após a ingestão do alimento 2 Figura 49 – Curvas de glicemia dos alimentos A e B após 2 horas da ingestão Disponivel em: https://bit.ly/3wVvueX. Acesso em: 28 jul. 2021. Os exames laboratoriais descritos anteriormente são os mais importantes para a verificação do mau funcionamento do pâncreas endócrino, mas não podemos deixar de comentar a relevância de outros, como insulinemia e peptídeo C. • Glicemia de jejum no plasma A glicemia basal (ou de jejum), quando medida no sangue capilar, poderá ser de 5% a 20% a mais do que no soro ou plasma, portanto, servirá apenas de alerta/controle grosso, podendo não ser real. Antigamente o método clássico de dosagem da glicemia era o que usava ortotoluidina como reativo, mas, pela sua toxicidade, tal teste foi retirado de circulação, usando-se atualmente o método da glicose-oxidase e peroxidade (GOD/POD), de extrema precisão e praticidade, com base em reagentes pouco tóxicos e cujo padrão de referência encontra-se entre os valores de 70 mg/dL a 99 mg/dL. Na dosagem de glicose para diagnóstico de diabetes, seria interessante um jejum mínimo de 8 horas, mas, caso haja empecilhos, pode-se fazer o exame com menos tempo de jejum. Como alguns laboratórios pedem 12 horas para o perfil lipídico, podemos deixar todos os exames para 8 horas. Destaca-se que não é uma situação normal, pois as células já começarão a ser privadas de glicose. Pode-se analisar o estado do paciente podem-se fazer três testes que refletem seu real estado, uma vez que algumas pessoas, dias antes dos exames, modificam seu comportamento e sua dieta. São eles: - glicemia de jejum: avaliação imediata; - frutosamina: controle a médio prazo; - hemoglobina glicada (glicosilada): controle a longo prazo. 112 Unidade II Para fazer qualquer exame de laboratório, nunca deixe de se alimentar por mais de 14 horas. Isso porque, num jejum superior a tal intervalo de tempo, as células irão acionar outras vias a fim de suprir as necessidades energéticas. Além disso, recentemente provou-se que, em jejum ou em estado alimentado, não há, por exemplo, tanta interferência na avaliação do risco cardiovascular (medidas do LDL-C e triglicerídeos). Adicionemos a isso o fato de que, se analisarmos friamente, passamos a maior parte do tempo no estado alimentado, portanto esse estado reflete melhor as condições reais do organismo. • Glicemia pós-prandial de 2h Glicemias entre 100 mg/dL e 126 mg/dL já classificam o paciente com glicemia de jejum alterada, isto é, pré-diabetes. Para analisar melhor a situação, pode-se pedir o exame de glicose pós-prandial de 2 horas, pois, como cada pessoa ingere quantidades diferentes de alimento, o exame pode dar resultado falho; para sanar esse problema, o paciente tem seu sangue colhido a fim de avaliar a glicemia de jejum, ingerindo-se uma quantidade fixa de glicose (75 g) no laboratório. Ao final de 2 horas, outra amostra de sangue é coletada para determinação da glicemia, avaliando-se também a secreção de insulina após uma carga de glicose. A glicemia pós-prandial normal é aquela que, após 2 horas, se encontra abaixo dos 140 mg/dL. Já os valores entre 140 mg/dL e 199 mg/dL indicam intolerância à glicose ou resistência à ação da insulina, mostrando que o organismo não está se adaptando à elevação da glicose após as refeições. É também considerado um estágio de pré-diabetes, mesmo que a glicemia em jejum esteja abaixo de 100 mg/dL. ObservaçãoApós os 40 anos, há um aumento de cerca de 10 mg/dL a cada dez anos vividos. Para detectar a diabetes gestacional (entre as 24 e 37 semanas de gestação), faz-se o teste O’Sullivan, em que a gestante, no laboratório, ingere 50 mg de glicose, analisando-se, após 1 hora, uma amostra de sangue. Caso a dosagem seja igual ou maior que 140 mg/mL, é necessário fazer o teste de tolerância oral à glicose (teste TTG). • Resposta da glicose pós-prandial 2 horas e 4 horas Com as coletas de 2 horas e 4 horas em mãos, compõe-se uma curva, avaliando sua área inferior, chamada de incremento positivo na área sob a curva (iAUC 0 –2 h e iAUC 0 –4 h), no basal e depois de seis e 12 semanas de suplementação – iAUC (incremental area under curve) analisado por estatística ANOVA (analysis of variance). 113 BIOQUÍMICA CLÍNICA • HbA1c (hemoglobina glicada) As hemácias possuem uma estrutura simples: não apresentam núcleo e não são capazes de se dividir. A hemoglobina possui átomos de ferro que têm como função transportar oxigênio dos pulmões para os tecidos e gás carbônico das células para os pulmões. O tempo de vida das hemácias é de 90 a 120 dias e sua quantidade normal, por mm3 de sangue, é de 4.500.000 a 5.500.000 no homem e de 3.500.000 a 5.000.000 na mulher. As células precursoras da hemácia contêm quatro genes alfa (α), dois genes beta (β), dois genes delta (δ), quatro genes gama (γ), dois genes zeta (ς) e dois genes epsilon (ε). Já podemos encontrar hemoglobina Hb A1 (α2 β2) em fetos de nove semanas de gestação. A Hb A2 (α2 δ2) aparece por volta da 30ª semana de gestação e mantém-se até a vida adulta, já a hemoglobina fetal Hb F (α2 γ2) compõe 90 a 95% do total das hemoglobinas do feto entre a 34ª e 36ª semana de gestação. No adulto, essas concentrações são de 95% a 98% de Hb A1, de 2% a 4% de Hb A2 e de 0 a 2% de Hb F. Quando o nível de glicose está muito alto no sangue, ela é adicionada, por meio de uma reação lenta, estável e enzimática, ao aminoácido valina N-terminal da cadeia beta da hemoglobina A (A1c). Como a hemácia tem um ciclo de vida que de cerca de 120 dias, a glicose permanece de tal forma por todo esse tempo. Ao fazer a análise da subfração HbA1c pode-se compreender como estava a glicemia do paciente nas 8 a 10 semanas anteriores ao dia do teste, enquanto a glicose sanguínea (glicemia) reflete apenas as 24 horas prévias. É importante destacar que pode ocorrer também a glicação em outros pontos da cadeia beta e/ou na cadeia alfa, chamada de Hb A0 glicada. Para termos o resultados desse exame, é necessário fazer o seguinte cálculo: % A1c = A1c (g/dL)/ Hb(g/dL) x 100 A quantidade de HbA1c deve ser analisada conforme apontado a seguir: Tabela 4 – HbA1c e variação da glicemia média HbA1c – Glicemia média (variação) 5% – 97 (76-120) 6% – 126 (100-152) 7% – 154 (123-185) 8% – 183 (147-217) 9% – 212 (170-249) 10% – 240 (193-282) 11% – 269 (217-314) 12% – 298 (240-347) Fonte: Minuto Saudável (2021). 114 Unidade II Os valores de referência são de 5% a 8% da HbA total em pacientes normais, variando entre 8% e 30% no caso de pacientes com diabetes (dependendo do grau de controle de glicemia). Por isso, os diabéticos devem manter esses níveis abaixo de 7%. Observação Deve-se ter cuidado com a análise dessa prova laboratorial, pois, se o paciente for portador de hemoglobinopatia ou anemia, os resultados podem ser normais, ainda que haja problemas a serem tratados. A análise da hemoglobina glicada (antigamente chamada de glicosilada) também pode ser realizada por eletroforese, colorimetria ou cromatografia em coluna ou cromatografia líquida de alta pressão (HPLC). • Teste de tolerância oral da glicose (TTGO) Nesse teste, o paciente tem seu sangue colhido em jejum (mínimo de 8 horas) no laboratório, posteriormente recebe uma dose de 75 g de glicose via oral, tendo seu sangue colhido, para glicemia e insulinemia, nos tempos 0, 30, 45, 60, 90, 120 e 180 minutos (os valores considerados normais são cerca de 180 mg/dL para uma hora, 155 mg/dL para 2 horas e 140 mg/dL para 3 horas). Caso seja constatado um pico com valores de 2 horas superiores a 200 mg/dL, deve-se desconfiar de diabetes. Deve-se esclarecer que esse exame não é indicado quando existirem distúrbios da absorção intestinal ou em pacientes gastrectomizados e que fatores como tempo de jejum, idade, peso e estresse devem ser analisados. 200 160 120 80 40 180 140 100 60 0 2 41 N ív ei s d e gl ic os e no sa ng ue (m g % ) 3 5 Horas Hiperinsulinismo Normal Diabetes Figura 50 – Curva de glicemia após a ingestão de glicose. No indivíduo normal, o nível de glicose no sangue sofre um aumento e depois volta ao normal; no diabético, no qual não ocorre aumento da secreção de insulina após ingestão de glicose, a glicemia baixa muito vagarosamente (após 3 ou 4 horas da ingestão de glicose) Disponível em: https://bit.ly/3xPFJBo. Acesso em: 23 jun. 2021. 115 BIOQUÍMICA CLÍNICA • Glicosúria A eliminação de glicose na urina ocorre quando a glicemia está superior a 160 mg/dL-180 mg/dL (alguns autores falam em 180 mg/dL-200 mg/dL), pois, nesse contexto, os rins não conseguem reabsorver a glicose que passou pelo túbulo contorcido proximal, sendo, então, liberada. Devemos prestar atenção quanto à dosagem de glicose na urina, pois a ingestão de fluidos afeta suas concentrações na urina; assim, o resultado não reflete a glicose sanguínea no exato momento do teste, mas durante o tempo em que a urina foi acumulada na bexiga. E, quando os rins não conseguem mais desempenhar sua função, pode-se desenvolver microalbuminúria, que está relacionada com um dano renal leve. • Frutosaminas Nome genérico dado a todas as proteínas sanguíneas glicadas, entre as quais a albumina, a que está presente em maior quantidade no sangue. O mecanismo de formação da ligação da glicose com a proteína, que gera a frutosamina, é semelhante ao da hemoglobina glicada e sua importância diagnóstica consiste em revelar como estava a glicemia cerca de uma a três semanas antes do exame. • Insulina plasmática de jejum Método simples realizado no soro através de métodos radioimunológicos ou imunoenzimáticas. Apesar de ser criticado por não refletir a ação da insulina em tecidos insulino-dependentes, como o músculo, mostra a sensibilidade hepática à insulina e, em diabéticos, se reduzida, pode indicar falência na função da célula beta pancreática. Por tudo isso, é um método considerado padrão ouro para avaliação da resistência à insulina (RI). Fazendo uma análise Homa (homeostasis model assessment), consegue-se predizer a sensibilidade à insulina. Isso com base na medida da glicemia e da insulina de jejum, de acordo com a equação descrita a seguir: Homa-IR = glicemia (mMol) × insulina (μU/mL) ÷ 22,5 O Homa propõe-se a estimar a sensibilidade à insulina para o corpo total, assumindo que a RI seria a mesma no fígado e nos tecidos periféricos. • Dosagem de peptídeo C A dosagem radioimunológica (ou Elisa), com o auxílio de antissoro, não gera reação cruzada com a insulina, podendo-se dosá-la no soro sanguíneo e na urina. Essa dosagem reflete a quantidade de insulina que o pâncreas produz, pois faz parte da molécula produzida pelos ribossomos das ilhotas. Quando a molécula é clivada, libera o peptídeo C no sangue (então, teremos uma molécula de insulina para uma molécula de peptídeo C, ou seja, equimolar, espelhando a insulina que o próprio pâncreas produz). 116 Unidade II Tal determinação é útil para a diferenciação do diabetes, pois na diabetes tipo 1 a reserva de insulina vai acabando, da mesma forma no diabetes tipo LADA (com menor velocidade), enquanto no diabetes tipo 2 a reserva insulínica dura mais tempo e os níveis de peptídeo C estão mais elevados que no diabetes tipo 1. A dosagem de peptídeo C é preconizada para avaliar a reserva insulínica de três a cinco anos após o diagnóstico. Vale acrescentar que pode ser dosado no basal (sem estímulo). No caso de hipoglicemia,esse exame também é muito útil, pois ocorre alta secreção de insulina e peptídeo C, mostrando-se desproporcional em relação à glicemia, além de se poder observar também a hipoglicemia reativa (quando as dosagens de insulina e de peptídeo C estão elevadas no pós-refeição). Observação Síndrome metabólica é um conjunto de fatores que ocorrem em pacientes com resistência à ação da insulina. Caso apresente três ou mais sintomas, tem-se confirmada a síndrome: gordura abdominal (no caso de homens, cintura com mais de 102 cm, no de mulheres, maior que 88 cm), baixo nível de HDL (menor que 40 mg/dL para homens e menor que 50 mg/dL para mulheres), taxa de triglicerídeos elevada (com um valor igual ou superior a 150 mg/dL), pressão sanguínea alta (valor igual ou superior a 135/85 mmHg ou se estiver tomando medicamento para reduzir a pressão), glicose elevada (110 mg/dL ou superior). Por fim, se somarmos ausência de atividade física, aumentamos as chances de desenvolver doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e diabetes. 5.7 Medicamentos que influenciam no funcionamento pancreático Manutenção do peso ideal, diminuição do tabagismo, consumo de açúcar e carboidratos com moderação são passos importantes para a proteção do pâncreas. Medicamentos e alguns alimentos podem influenciar negativamente o pâncreas e devem ser evitados, por exemplo: alimentos gordurosos como manteiga, carnes gordurosas, leite integral, alimentos com farinha branca. Obviamente, a ingestão de bebida alcoólica em excesso deve ser evitada. 117 BIOQUÍMICA CLÍNICA Saiba mais Toxinas, como as encontradas em veneno de escorpião, inseticidas à base de organofosfatos e fármacos como azatioprina, didanosina, sulfonamidas, ácido valproico, diuréticos tiazídicos, aminossalicilatos, além de infecções virais (caxumba, rubéola, vírus Coxsackie B, citomegalovírus, HIV), por bactérias (Klebsiella, Escherichia coli), por fungos (Candida) e por parasitas (Ascaris) podem levar a problemas no pâncreas também. Para saber mais, acesse: CHAUHAN, S.; FORSMARK, C. E. Doenças do pâncreas. MedicinaNET, 2009. 6 PERFIL BIOQUÍMICO LIPÍDICO, CARDÍACO E DE TRANSTORNOS MUSCULARES As doenças cardíacas e coronarianas afetam cerca de 26 milhões de pessoas no mundo inteiro. Considerado um problema de saúde pública pela sua elevada morbidade e mortalidade, o diagnóstico inequívoco das doenças do coração é de suma importância para o planejamento de condutas terapêuticas, preventivas e preditivas na saúde coletiva. No laboratório de análises bioquímicas, a avaliação de marcadores de injúria cardíaca é rotineiramente realizada, principalmente em unidades de pronto atendimento de urgência e em serviços referenciados de atendimento cardiológico. Entre os marcadores examinados em um serviço de laboratório clínico, destacam-se as creatinofosfoquinases (CPK) total e a sua fração cardíaca (MB), as troponinas (I e T), a AST, a desidrogenase lática (LDH), o BNP e o N-proBNP. A investigação das alterações dos níveis desses marcadores cardíacos possibilita a confirmação ou exclusão diagnóstica de doenças como o infarto agudo do miocárdio, as anginas e as coronariopatias. A seguir, apresentaremos os aspectos clínicos dessas enfermidades, os marcadores bioquímicos correlatos e os aspectos técnicos diagnósticos relacionados ao laboratório de análises clínicas. 6.1 O infarto agudo do miocárdio (IAM) É uma das principais causas de mortalidade e morbidade em todo o mundo. Cerca de 10% dos pacientes admitidos em serviços de urgência no mundo todo, com os sinais e sintomas característicos do IAM, são diagnosticados com infarto. O IAM é uma condição que ocorre, primordialmente, por um quadro obstrutivo isquêmico no coração ou por doença vaso-oclusiva das artérias coronárias. De etiologia aterosclerótica ou trombótica, a obstrução vascular acaba por restringir a irrigação sanguínea no coração. 118 Unidade II Considerado uma síndrome coronariana aguda (SCA), o IAM é rotineiramente diagnosticado com o exame clínico, métodos gráficos (como o eletrocardiograma – ECG), exames de imagem e de laboratório clínico, com as dosagens das enzimas cardíacas. Clinicamente, o paciente com IAM apresenta rotineiramente dor torácica pré-cordial, com irradiação para o membro superior esquerdo, rigidez de mandíbula, náusea e vômitos. Devido à sobreposição de fenótipos, testes complementares são solicitados para a conclusão diagnóstica. Um dos primeiros testes realizados é o ECG. Em razão de sua baixa sensibilidade, as Sociedade Europeia de Cardiologia e o American College of Cardiology definiram as seguintes condições, apresentadas na figura a seguir, como critérios diagnósticos. Aumento ou diminuição característica dos marcadores cardíacos CK-MB e, de preferência, Troponinas (cTnl ou cTnT) IAM ECG com ondas que indicam um diagnóstico de IAM Figura 51 – Algoritmo de diagnóstico básico para o diagnóstico do IAM O processo isquêmico provoca a deterioração da função ventricular e a necrose miocárdica. Nesse cenário, outros marcadores laboratoriais bioquímicos (como as enzimas ALT, AST, LDH, CKs e troponinas) são utilizados como indicadores por anos no diagnóstico de IAM. A busca por biomarcadores mais sensíveis, específicos, precoces, diagnósticos, prognósticos e de mensuração de gravidade para as injúrias cardíacas é uma constante pelas sociedades científicas. Antigamente, o IAM era diagnosticado por meio das dosagens de AST e LDH, no entanto, essas enzimas não têm as características de marcadores cardíacos ideais, portanto, hoje são utilizadas como coadjuvantes diagnósticos, fornecendo parâmetros para o IAM quando somadas ao quadro clínico do paciente. Já as dosagens das cretinofosfoquinases (total e fração MB) são valiosos marcadores para o IAM. 119 BIOQUÍMICA CLÍNICA Aspartato aminotransferase (AST) Foi o primeiro biomarcador utilizado para o diagnóstico do IAM, fato ocorrido em 1954 por John Ladue e seus colaboradores. Essa enzima é liberada para a circulação sanguínea quando os cardiomiócitos sofrem necrose. Entretanto, devido à sua inespecificidade, a AST é atualmente mensurada em conjunto com outras enzimas cardíacas. Desidrogenase lática (LDH) Trata-se de uma enzima inespecífica, expressa e produzida em muitos órgãos, incluindo músculo esquelético, rim, fígado, coração, pulmão e eritrócitos. Apresenta cinco isoenzimas, destacando-se a presença da LDH1 (também inespecífica) no coração. A LDH1 se eleva entre seis e 12 horas após o início dos sintomas clínicos do paciente com IAM, com pico elevatório entre um e três dias, com retorno aos valores normais dentro de oito a14 dias. Uma proporção de LDH1: LDH2 > 1, relatada como índice específico para IAM, atualmente não é mais usada na rotina diagnóstica. Hoje o único uso de LDH é para distinguir as fases aguda de IAM da fase subaguda em pacientes que chegam ao hospital no estágio avançado da doença, com dosagem de troponinas positivas e valores de CK e CK-MB normais. Creatinofosfoquinase (CK) e fração MB (CK-MB) A CK é uma enzima que catalisa a transformação reversível de creatina e ATP em fosfato de creatina e ADP. A atividade de CK foi considerada o melhor preditor de lesão do músculo cardíaco por vinte anos. A CK é produzida nas mitocôndrias e no citoplasma celular. A enzima dimérica, que consiste em duas subunidades, M e B, constituirá três isoenzimas: CK-BB, CK-MB e CK-MM. A fração CK-MM é a sua forma prevalente, estando presente em todos os tecidos, a CK-BB está presente no cérebro, nos rins e no trato gastrointestinal, já a fração MB pode ser encontrada no coração, no músculo esquelético, no intestino delgado, no diafragma, no útero, na língua e na próstata. Vale ressaltar que cerca de 20% da CK, no miocárdio, está na forma MB, o que fornece a sensibilidade e especificidade no diagnóstico de IAM. Em pacientes infartados, a CK-MB atinge o pico elevatório em 24 horas, começando a aumentar de 4 a 9 horas após a lesão miocárdicae posteriormente diminuindo para a faixa normal entre 48 e 72 horas depois. Os níveis totais de CK e CK-MB estão relacionados com a extensão da lesão e são importantes preditores do prognóstico. A dosagem da CK-MB tem 91% de sensibilidade e especificidade no diagnóstico de IAM durante as primeiras 6 horas do infarto e o valor preditivo negativo durante as primeiras 6 horas é de 97%. Para auxiliar no diagnóstico mais preciso do IAM, a relação entre CK-MB e CK total também pode ser avaliado. A determinação deste índice ((CK-MB/CK) x 100), com resultado igual ou superior a 2,5%, sugere-se que a elevação da CK-MB tenha origem miocárdica. 120 Unidade II Para obter um diagnóstico mais preciso do IAM, a relação entre CK-MB e CK total também pode ser avaliada. Se a determinação desse índice, ou seja (CK-MB/CK) x 100, resultar em um valor igual ou superior a 2,5%, sugere-se que a elevação da CK-MB tenha origem miocárdica. Outras condições a serem levadas em consideração ao usar CK-MB para o diagnóstico de IAM são as relações entre CK e CK-MB, a presença de macromoléculas CK e alterações decorrentes de hipotireoidismo. Assim, a relação clínico-laboratorial é ditatória para a conclusão diagnóstica. Somada às enzimas cardíacas, atualmente utilizamos principalmente as proteínas denominadas troponinas (TnC, TnI e TnT) no diagnóstico de IAM. Existem muitas proteínas liberadas na circulação pelo sistema cardíaco durante o IAM, como a mioglobina, o BNP, a TnC (ligação a cálcio), TnI (bloqueando a interação actina-miosina) e TnT (ligado à tropomiosina), no entanto, a maioria é inadequada para o diagnóstico de IAM. Mioglobina A mioglobina é uma proteína ligadora de ferro e oxigênio abundantemente presente no coração e no músculo esquelético. Consistindo em uma proteína exclusivamente muscular, pode ser encontrada em valores elevados em qualquer injúria na musculatura. Com extrema sensibilidade, a mioglobina é um dos primeiros marcadores a se elevar no IAM (em cerca de 30 minutos a uma hora do IAM). A mioglobina é rapidamente liberada pelo miocárdio durante a lesão e a necrose, sendo também rapidamente metabolizada e excretada pelos rins (em cerca de 24 horas). Assim, a mioglobina é considerada um excelente biomarcador para a detecção precoce do IAM. Troponinas As troponinas são proteínas do sistema esquelético cardíaco subdivididas em três unidades: a troponina I, a troponina T e a troponina C. Com função na atividade muscular relacionada à concentração de cálcio intracelular (processo de contração e relaxamento muscular cardíaco), as troponinas são frequentemente quantificadas na medicina diagnóstica para a investigação de infarto agudo do miocárdio e de necrose celular (cardiomiócitos), principalmente as isoformas I e T. Atualmente, as quantificações e a dosagem das troponinas I e T são consideradas padrão ouro para o diagnóstico do IAM em razão de sua elevada especificidade e sensibilidade. Essas proteínas cardíacas são sintetizadas e liberadas do músculo cardíaco quando lesionado ou necrosado, interagindo com a tropomiosina para formar a estrutura principal do estriado músculo cardíaco. As troponinas cardíacas atuam no miocárdio, na contração via regulação cálcio-dependente de actina e miosina. A TnC não tem especificidade cardíaca, porque é o mesmo que a isoforma da troponina encontrada no músculo liso. Já a TnT e a TnI são completamente diferentes das troponinas do músculo esquelético, sendo inclusive codificadas por genes diferentes. 121 BIOQUÍMICA CLÍNICA Uma pessoa saudável tem baixos níveis de TnC no soro. Quando um indivíduo sofre uma injúria cardíaca, seus níveis se elevam em um período muito curto de tempo (cerca de 2 a 4 horas após o dano miocárdico), atingindo-se o pico elevatório em 24 horas. Os níveis das troponinas cardíacas permanecem elevados por aproximadamente duas a três semanas. Com o desenvolvimento metodológico, hoje dispomos de equipamentos automatizados e modernos que quantificam níveis muito baixos de troponina, destacando-se o Singulex Clarity (hs-TnI: 0,08 ng/L), o Architec da Abbott (hs-TnI: 2 ng/L) e o Elecsys da Roche (hs-TnT: 5 ng/L). Esses valores indicam a alta sensibilidade desses equipamentos, sobretudo o primeiro, para a detecção dos menores valores dessa proteína na circulação sanguínea. BNP e NT-proBNP O BNP (brain natriuretic peptide) e o NT-proBNP (N-terminal proBNP) são marcadores bioquímicos com importância diagnóstica para IAM e disfunções cardíacas. A família de marcadores NP inclui o ANP (atrial natriuretic peptide), mais sintetizado e secretado nos miócitos dos átrios, o BNP e o CNO (C-type natriuretic peptide). O marcador BNP, curiosamente, foi denominado nos primeiros estudos como uma proteína do sistema nervoso central, isso porque, em 1988, esse marcador foi detectado em cérebro de porcos. Com o avanço científico, a literatura mostrou que o BNP tem sua produção e secreção centralizadas principalmente em cardiomiócitos do ventrículo esquerdo, como uma resposta a lesões nas fibras cardíacas e ao aumento da pressão e do volume no ventrículo. O BNP humano é fabricado a partir do gene BNP, localizado no cromossomo 1. Composta de 32 aminoácidos, essa proteína está localizada no tecido miocárdico normal. Em resposta a condições de doença, o gene BNP sintetiza um RNA mensageiro instável que produz um precursor BNP denominado pré-proBNP, o qual é biotransformado em outro marcador, o proBNP, que, em seguida, é dividido pelas convertases proNP (corina ou furina) em um NT-proBNP de 76 aminoácidos inativo e um BNP de 32 aminoácidos ativo. Tanto o BNP biologicamente ativo quanto o NT-proBNP podem ser encontrados no plasma. O BNP é uma proteína com atividade antagonista ao sistema renina-angiotensina-aldosterona e ao sistema nervoso simpático, melhorando a taxa de filtração glomerular, com efeitos diuréticos, natriuréticos e vasodilatadores. Esse marcador é muito utilizado para o diagnóstico e prognóstico das insuficiências cardíacas (ICs). As ICs acometem cerca de 1,5% da população adulta mundial. A testagem dos marcadores BNP e NT-proBNP é recomendada por diversas sociedades de cardiologia internacionais. Vale pontuar que, em pacientes com IC aguda, os níveis séricos de BNP e NT-proBNP se mostrarão acima de 100 pg/mL e 300 pg/mL, respectivamente. Clinicamente relevantes, esses marcadores acabam ditando a conduta e a terapêutica. Os níveis de BNP auxiliam o corpo clínico a distinguir a causa de dispneia em razão de IC ou por outras causas. Se o nível de BNP for inferior a 100 pg/mL, as ICs são relativamente descartadas. Entretanto, se o BNP estiver superior a 500 pg/mL, as ICs ou disfunções cardíacas são fortemente consideradas. 122 Unidade II Com base no International Collaborative of NT-proBNP (ICON), o diagnóstico das ICs baseado na dosagem de NT-proBNP segue um escalonamento de cut-offs dependente da idade do paciente. Dividido em três faixas etárias, os valores superiores ao cut-off são fortes indicativos de ICs. A seguir temos uma tabela com os valores de NT-proBNP para o diagnóstico das ICs. Tabela 5 – Relação entre a dosagem dos marcadores NT-proBNP e a faixa etária do paciente Faixa etária Valores da dosagem de NT-proBNP em insuficiências cardíacas < 50 anos > 450 pg/mL 50 - 75 anos > 900 pg/mL > 75 anos > 1800 pg/mL Assim, a doença cardíaca isquêmica aguda está associada a uma elevação dos níveis de BNP, o que pode refletir a gravidade da disfunção do ventrículo esquerdo. Em pacientes com doença cardíaca coronária estável, tanto o BNP quanto o NT-proBNP são fortes preditores de eventos cardiovasculares adversos. BNP e NT-proBNP devem ser avaliados juntamente com marcadores de lesão miocárdica, troponina T, mioglobina e creatinofosfoquinase-fração MB (CK-MB) em pacientes com infarto agudo do miocárdio. O NT-proBNP pode permanecer elevado por cerca de 12 semanas, sendo um bom marcador diagnóstico e indicador da extensão do IAM. Além disso, esses dois marcadorestambém são relacionados com as arritmias e cardiomiopatias. Lembrete O diagnóstico do IAM é realizado com base em exame físico do paciente, anamnese, exames de imagem, métodos gráficos e testes laboratoriais. As dosagens bioquímicas são essenciais para, muitas vezes, elucidar algumas hipóteses diagnósticas elaboradas pelo clínico, servindo como base para diferenciar a angina instável do infarto agudo do miocárdio. hFABP Uma das proteínas biomarcadoras que surge após o dano ao tecido cardíaco é a hFABP. O hFABP é lançado das células danificadas para o sangue muito rapidamente, e sua meia-vida é de 20 minutos após a liberação dos rins para a circulação. A hFABP tem como uma de suas funções atuar no metabolismo de ácidos graxos de cadeia longa e, assim, proteger os cardiomiócitos contra a ação desses lípidios. Os ácidos graxos de cadeia longa são encontrados em altas concentrações no sangue, especialmente durante processos isquêmicos. 123 BIOQUÍMICA CLÍNICA O aumento do hFABP tem início após 3 horas de a dor pré-cordial ter se apresentado, retornando aos níveis de normalidade de 12 a 24 horas. Portanto, um aumento nos níveis de hFABP no sangue deve ser avaliado em conjunto com outros marcadores clínicos, bioquímicos e de imagem. Isoenzima BB da glicogênio fosforilase (GPBB) A GPBB é uma enzima relacionada ao metabolismo de carboidratos (α-1,4-d-glucano: ortofosfato d-glucosiltransferase). Presente em altas concentrações no coração e no cérebro humanos, tem como principal função fornecer energia em situações de crise (hipóxia e hipoglicemia). No IAM, a GPBB é liberada no período inicial do dano cardíaco, com elevação nas primeiras 4 horas, alcançando seu pico em até 10 horas e retornando aos níveis basais em até dois dias. Irisina Em estudos recentes, a molécula de irisina mostrou desempenhar um papel precoce no diagnóstico do IAM, no entanto, a molécula de irisina é sintetizada em muitos outros tecidos do sistema, incluindo coração e tecido muscular esquelético. Por isso, não se pode dizer que a irisina é um marcador cardíaco padrão ouro para o diagnóstico do IAM. Interessantemente, em pacientes que sofreram o IAM a irisina apresenta valores baixos, ao contrário de outros marcadores apresentados anteriormente. Em um futuro, talvez possamos pensar neste algoritmo para o diagnóstico do IAM: ECG + CK e CK-MB + TnI + irisina PAPP-A A PAPP-A é um marcador muito promissor para o diagnóstico do IAM. A partir de 2 horas do início da dor pré-cordial, seus níveis já se encontram elevados. Aldolase É uma enzima que está envolvida no metabolismo e na glicólise, relacionando-se à produção de energia. Principalmente localizada nos músculos e no tecido hepático, a aldolase possui três isoformas: ALDOA, ALDOB e ALDOC. As aldolases são expressas diferencialmente em tecidos humanos, e variações em seus níveis séricos estão relacionadas com muitas doenças e quadros clínicos. Por esse motivo, é uma enzima inespecífica para injúrias cardíacas, sendo necessária a relação clínico-laboratorial. Os níveis séricos de aldolase são avaliados por métodos enzimáticos, com elevação nas fases iniciais de distúrbios musculares (sobretudo nas dermatopolimiosites e distrofias musculares), infarto agudo do miocárdio, cânceres de pâncreas, fígado e próstata, infecções virais e os distúrbios hepáticos. Já nas fases crônicas das miopatias, os níveis de aldolase podem se encontrar diminuídos. 124 Unidade II 6.2 Vantagens e desvantagens dos testes bioquímicos Os marcadores bioquímicos são ferramentas de extrema utilidade no diagnóstico do IAM. A AST, que antigamente era utilizada como enzima diagnóstica, hoje tem aplicabilidade para diagnóstico diferencial entre a angina pectoris e o IAM, uma vez que pacientes com angina não apresentam elevação da AST, enquanto no IAM a AST encontra-se elevada. A CK-MB, quando utilizada no diagnóstico de IAM, deve ser monitorada em intervalos de 4 horas. A CK-MB deve se apresentar aumentada em 50% do seu limite de referência. Para sua dosagem única, os níveis de CK-MB devem estar duas vezes acima do nível normal. Quando avaliado após 72 horas, é importante que CK-MB esteja com valores superiores aos níveis de troponina e LDH. Em se tratando de diagnóstico precoce, as dosagens de mioglobina, FABP e GPBB são as principais ferramentas diagnósticas, já as TnT e TnI são marcadores tardios do IAM e o CK-MB é um biomarcador de IAM nas primeiras 10-12 horas. A análise das troponinas é muito utilizada para diagnosticar IAM. A TnI é a enzima mais específica na família das troponinas cardíacas. Eleva-se no sangue até o intervalo de sete a 14 dias após o evento, com pico aproximadamente entre nove e 12 horas. Essa enzima apresenta 100% de sensibilidade. Já a TnT não é específica para o coração, elevando-se 24 horas após o início dos sintomas, com segundo pico no quarto dia. Ressaltamos que em pacientes com insuficiência renal crônica a TnT pode estar elevada, sem nenhum dano ao miocárdio. Assim, enfatiza-se ainda mais que a TnI é o melhor biomarcador no diagnóstico do IAM. A figura a seguir ilustra um gráfico de elevação e o retorno aos índices basais dos principais marcadores cardíacos relacionados ao IAM. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 4 12 20 28 36 448 16 Tempo após o início do IAM (horas) Globina Troponina I Troponina TCK-MBG ra u de e le va çã o 24 32 40 48 Figura 52 – Gráfico com perfil da elevação e diminuição dos níveis das principais enzimas cardíacas utilizadas no diagnóstico do IAM Fonte: Harahap e Margata (2018, p. 15). 125 BIOQUÍMICA CLÍNICA Concluindo, a utilização de múltiplos biomarcadores cardíacos é recomendada para o diagnóstico do IAM, pois aumenta a especificidade e sensibilidade no seu diagnóstico. 6.3 Dislipidemias, aterosclerose e o IAM As dislipidemias são atualmente um problema de saúde pública mundial. Caracterizadas pela elevação nos níveis de colesterol total, suas frações e os níveis de triglicerídeos, as dislipidemias são fatores de risco para a aterosclerose e, consequentemente, para as doenças cardiovasculares, IAM e acidentes vasculares cerebrais isquêmicos. Por isso, de acordo com a literatura médica atual, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em adultos até os 50 anos de idade. As dislipidemias estão intimamente relacionadas com o estilo de vida das pessoas. Uma dieta equilibrada e saudável é uma das principais ferramentas para o controle das taxas de colesterol e triglicerídeos, o que, sem dúvida, auxilia na prevenção das doenças cardiovasculares, entretanto, nem sempre alterações na rotina de alimentação e atividade física são suficientes para o controle das dislipidemias. Atualmente, são conhecidos marcadores genéticos (single nucleotide polymorphisms – SNP), que são responsáveis pela elevação de níveis lipídicos séricos e das lipoproteínas. O colesterol é o esterol componente das membranas celulares. Importante para a síntese de hormônios esteroides, ácidos biliares e da vitamina D, ele é produzido pelo fígado e pelo intestino. O colesterol pode ser obtido via exógena (alimentar) ou endógena (metabolismo). A elevação nos níveis de colesterol são clinicamente relevantes no acompanhamento das doenças coronarianas. Dividido em três subunidades de interesse clínico, o colesterol total (CT) é composto pela somatória das frações de HDL-colesterol (high density lipoproteins ou lipoproteínas de alta densidade), LDL-colesterol (low density lipoproteins ou lipoproteínas de baixa densidade) e VLDL-colesterol (very low density lipoproteins ou lipoproteínas de baixa densidade). A IDL-c (lipoportepina de densidade intermediária) não é utilizada de rotina nas investigações de dislipidemias em laboratórios bioquímicos. As frações do colesterol são constituídos por fosfolípides e apolipoproteínas (apo). Atualmente, reconhecem-se cinco tipos de apolipoproteínas, entretanto, apenas duas possuem interesse clínico: a apo-A1, principal constituinte da fraçãoHDL-colesterol e a apo-B, que é a formadora das frações de LDL-colesterol e VLDL-colesterol. O HDL colesterol é formado, na sua maior parte, pela Apo-A1, entretanto, na sua estrutura bioquímica ele contém fosfolípides, colesterol e triglicerídeos. Com função de remover da circulação sanguínea as frações de colesterol não esterificado, o HDL-colesterol desempenha função protetora contra doenças cardiovasculares. O LDL-colesterol é basicamente formado por colesterol, proteínas (Apo-B), fosfolípides e triglicerídeos. Devido à elevada proporção de colesterol na sua constituição (~50%), o LDL-colesterol é a fração dos colesteróis com maior importância clínica para riscos cardiovasculares. 126 Unidade II Os processos de peroxidação lipídica, envolvendo o LDL-colesterol, é um dos principais fatores de risco para aterosclerose. A LDL oxidada é fagocitada pelos macrófagos, os quais formam as foam cells. Essas foam cells têm capacidade aterogênica, formando as placas de ateroma que, com seu aumento de tamanho e consequente diminuição do fluxo sanguíneo, acabam por obstruir a passagem de sangue pelo vaso. A VLDL-colesterol é a fração do colesterol com maior teor de triglicerídeos. No seu processo funcional, a VLDL acaba por contribuir para a deposição da sua fração triglicerídica como gordura da composição corporal. Os triglicerídeos são ésteres de glicerol e ácidos graxos, que constituem cerca de 95% dos lipídios do tecido adiposo. Considerado a principal reserva energética do organismo, sua síntese é realizada pelo fígado e pelo intestino e são essenciais para a formação dos quilomícrons e da VLDL. Também apresenta importância clínica nas coronariopatias. Por fim, o conjunto da avaliação dos níveis de HDL, LDL e VLDL-colesterol + triglicerídeos constituem o que denominamos perfil lipídico. O perfil lipídico é dosado por métodos colorimétricos, com avaliação dos níveis de absorbância e cálculo de concentração baseados em padrões e curvas de calibração dos equipamentos automatizados. Entre as moléculas dosadas nos laboratórios bioquímicos, destacamos o CT, HDL-c e TG. A partir delas, os valores de LDL-c e VLDL-c são calculados de acordo com a equação de Friedewald. Entretanto, a equação de Friedewald apresenta algumas limitações operacionais, destacando-se a perda da linearidade para cálculo de VLDL-c em pacientes com dosagem de TG superior a 400 mg/dL, da mesma forma que valores acima de 100 mg/dL para TG podem subestimar a concentração de LDL-c na amostra. A seguir, temos a equação de Fredewald: LDL-c = CT – HDL-c – VLDL-colesterol sendo: VLDL-c = TG / 5 Devido às limitações da equação de Friedewald, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou as diretrizes brasileiras de dislipidemias em 2007 (SPOSITO et al., 2007). Nessa edição, foi divulgado um novo conceito e um novo formato para se estimarem os valores de LDL-c em rotinas laboratoriais. Esse novo formato leva em consideração os valores de triglicerídeos dosados e os valores de colesterol não HDL (não HDL-c) na amostra para o cálculo da fração de VLDL-c. Assim, o índice para o cálculo da fração de VLDL-c nos exames de rotina do perfil lipídico não será sempre 5. 127 BIOQUÍMICA CLÍNICA Tabela 6 – Cálculo do fator de divisão para obtenção dos níveis de VLDL-c Não HDL-c (mg/dL) Triglicérides (mg/d) < 100 100-129 130-159 160-189 190-219 > 220 7-49 3,5 3,4 3,3 3,3 3,2 3,1 50-56 4,0 3,9 3,7 3,6 3,6 3,4 57-61 4,3 4,1 4,0 3,9 3,8 3,6 62-66 4,5 4,3 4,1 4,0 3,9 3,9 67-71 4,7 4,4 4,3 4,2 4,1 3,9 72-75 4,8 4,6 4,4 4,2 4,2 4,1 76-79 4,9 4,6 4,5 4,3 4,3 4,2 80-83 5,0 4,8 4,6 4,4 4,3 4,2 84-87 5,1 4,8 4,6 4,5 4,3 4,3 88-92 5,2 4,9 4,7 4,6 4,4 4,3 93-96 5,3 5,0 4,8 4,7 4,5 4,4 97-100 5,4 5,1 4,8 4,7 4,5 4,3 101-105 5,5 5,2 5,0 4,7 4,6 4,5 106-110 5,6 5,3 5,0 4,8 4,6 4,5 111-115 5,7 5,4 5,1 4,9 4,7 4,5 116-120 5,8 5,5 5,2 5,0 4,8 4,6 121-126 6,0 5,5 5,3 5,0 4,8 4,6 127-132 6,1 5,7 5,3 5,1 4,9 4,7 133-138 6,2 5,8 5,4 5,2 5,0 4,7 139-146 6,3 5,9 5,6 5,3 5,0 4,8 147-154 6,5 6,0 5,7 5,4 5,1 4,8 155-163 6,7 6,2 5,8 5,4 5,2 4,9 164-173 6,8 6,3 5,9 5,5 5,3 5,0 174-185 7,0 6,5 6,0 5,7 5,4 5,1 186-201 7,3 6,7 6,2 5,8 5,5 5,2 202-220 7,6 6,9 6,4 6,0 5,6 5,3 221-24 8,0 7,2 6,6 6,2 5,9 5,4 248-292 8,5 7,6 7,0 6,5 6,1 5,6 293-399 9,5 8,3 7,5 7,0 6,5 5,9 400-13.975 11,9 10,0 8,8 8,1 7,5 6,7 HDL-c: colesterol da lipoproteína de alta densidade Fonte: Faludi et al. (2017, p. 6). 128 Unidade II Exemplo de aplicação Um paciente apresenta os seguintes índices: nível de TG = 98 g/dL, nível de CT = 200 e nível de HDL-c = 60 mg/dL. Qual o valor do VLDL-c e do LDL-c? Para obter a resposta, devemos primeiramente calcular o valor do não HDL-c. O não HDL-c é obtido pela subtração entre o valor de CT e o nível de HDL-c dosado, ou seja: não HDL-c = 200 – 60 não HDL-c = 140 mg/dL Acompanhando a tabela anterior, a região de conjunção entre o valor de TG (98 mg/dL) e o de não HDL-c (140 mg/dL) revela um índice de divisão para o cálculo do VLDL-c de 4,8. Dessa forma: VLDL-c = TG/4,8 VLDL-c = 98/4,8 VLDL-c = 20,41 mg/dL Assim, retomando o cálculo do LDL-c: LDL-c = CT – HDL-c – VLDL-c LDL-c = 200 – 60 – 20,41 LDL-c = 119,59 mg/dL Uma vez obtidos os valores das frações do colesterol e dos triglicerídeos, a comparação com índices de normalidade é essencial. A tabela a seguir traz os valores de referência para adultos jovens, com mais de 20 anos de idade. 129 BIOQUÍMICA CLÍNICA Tabela 7 – Valores de referência para níveis plasmáticos de colesteróis e triglicerídeos para adultos jovens, com mais de 20 anos de idade Lípídios Com jejum (mg/dL) Sem jejum (mg/dL) Categoria referencial Colesterol total ↑ < 190 < 190 Desejável HDL-c > 40 > 40 Desejável Triglicérides <150 < 175 ↔ Desejável Categoria de risco LDL-c < 130 < 130 Baixo < 100 < 100 Intermediário < 70 < 70 Alto < 50 < 50 Muito alto Não HDL-c < 160 < 160 Baixo < 130 <130 Intermediário < 100 <100 Alto < 80 < 80 Muito alto * Conforme avaliação de risco cardiovascular estimado pelo médico solicitante; ↑ colesterol total > 310 mg/mL há probabilidade de hipercolesterolemia familiar; ↔ quando os níveis de triglicérides estiverem acima de 440 mg/dL (sem jejum), o médico solicitante faz outra prescrição para a avaliação de triglicérides com jejum de 12 horas e deve ser considerado um novo exame de triglicérides pelo laboratório clínico. Fonte: Faludi et al. (2017, p. 8). Estratégias terapêuticas e de monitoramento de doenças cardiovasculares foram desenvolvidas ao longo dos anos. Entre essas, destacam-se os índices de Castelli I e II (IC-I e IC-II). O IC é um escore calculado a partir da razão entre o CT e o HDL-c (IC-I) e a razão entre LDL-c e HDL-c (IC-II). Tais índices são preditivos para um risco aumentado de problemas coronarianos e vasculares. A proteína C reativa ultrassensível e o risco cardiovascular A busca por marcadores bioquímicos para predição do risco cardiovascular revelou muitas ferramentas diagnósticas confiáveis e de impacto na terapêutica clínica. Entre muitos, destaca-se a proteína C reativa ultrassensível (PCR-US). Mensurada por imunoquímica, a presença da PCR-US em níveis superiores a 2 mg/dL em pacientes cardiológicos indica ao clínico (endocrinologista ou cardiologista) que esse paciente necessita de atenção para o tratamento das dislipidemias. Como valores de referência, excluindo-se a hipótese diagnóstica de doenças infecciosas, inflamatórias e imunológicas, diz-se que os pacientes com PCR-US menor que 1 mg/L apresentam baixo risco, já pacientes com índices de 1 mg/L a 2 mg/L teriam um risco médio, pacientes com determinações acima de 2 mg/L estariam em risco alto e, por fim, apresentariam um risco altíssimo aqueles cujo valor de PCR-US fosse maior ou igual a 10 mg/L. 130 Unidade II Conforme citado anteriormente, não apenas o estilo de vida está relacionado às dislipidemias: temos também as hipercolesterolemias familiares. Vejamos, então, essas questões de cunho genético e, pormuitas vezes, hereditário. Homocisteína e homocisteína após sobrecarga de metionina A homocisteína é um aminoácido sulfurado sintetizado a partir do metabolismo da metionina, participando em diversas vias metabólicas. Níveis elevados de homocisteína no sangue, denominado hiper-homocisteinemia, podem ter etiologia genética (relacionada com variantes em genes importantes nas suas vias de metabolização) ou ambiental (de caráter nutricional – destacando-se as deficiências de vitaminas B12, B6 e, principalmente, folato, que são cofatores no metabolismo da homocisteína). As deficiências nutricionais são altamente prevalentes na população, sendo que os níveis plasmáticos de homocisteína são inversamente proporcionais aos níveis séricos de folato e vitaminas B6 e B12. Atualmente, sabemos que o aumento sérico da homocisteína é um fator de risco para o desenvolvimento de placas de ateroma nos vasos sanguíneos (aterosclerose), resultando em doença vascular coronariana com enfoque no IAM, acidente vascular cerebral e para trombose venosa. Os níveis séricos de homocisteína são avaliados por determinação cromatografia líquida de alta performance (HPLC), sendo possível realizar a sua avaliação após sobrecarga de metionina. A dosagem da homocisteína após estímulo com sobrecarga de metionina é realizado em dois momentos: basal – antes da administração da metionina e após 6 horas de sua administração (em geral, 100 mg/Kg peso). O teste tem a finalidade de verificar casos de homocistinúria, avaliar aspectos nutricionais relacionados às vitaminas B6, B12, riboflavina e folato e, consequentemente, definir riscos cardiovasculares. Hipercolesterolemia familiar (HF) É uma doença autossômica dominante (DAD) caracterizada pela elevação do CT e do LDL-c. O defeito mais frequente na HF é uma mutação no gene específico do receptor para LDL plasmático (LDLR), a qual impacta diretamente em sua estrutura e funcionalidade. Nesse contexto, pacientes com variantes patogênicas no gene LDLR apresentam elevação nos níveis plasmáticos de LDL-c devido à diminuição de receptores de membrana para tal lipoproteína. Assim, a internalização da LDL-c torna-se prejudicada. Apesar de grande parte dos pacientes com HF apresentarem mutações no gene LDLR, outras regiões codificadoras do genoma humano também podem conter variantes de impacto para a HF, como os genes ApoB e PCSK9. Por se tratar de uma DAD, o paciente com HF necessita apenas de um alelo alterado para desenvolver a doença. De acordo com a literatura, pacientes heterozigotos apresentam uma elevação de cerca de duas vezes os valores de referência, mesmo em idade jovem. Já para os homozigotos mutantes, esses níveis chegam a atingir a casa dos 1.000 mg/dL. 131 BIOQUÍMICA CLÍNICA As alterações de funcionalidade do receptor da LDL-c são subdivididas em cinco categorias, conforme mostra o quadro a seguir. Quadro 4 – Classificação das hipercolesterolemias familiares Classificação da HF Impacto Classe I Ausência de receptor ou falha no funcionamento do receptor de LDL-c Classe II Menor expressão do receptor na membrana celular Classe III Defeito no sítio de ligação do receptor da LDL-c Classe IV Falha na internalização celular da LDL-c Classe V Falha no retorno do receptor da LDL-c para a superfície celular Os defeitos na ApoB e outras hipercolesterolemias hereditárias A ApoB, conforme citado anteriormente, é uma proteína importante na produção da LDL-c e da VLDL-c. Formada pelo gene ApoB, as variantes de impacto nesse gene desencadeiam a hipercolesterolemia familiar. De maneira menos frequente, as variantes no gene ApoB são mais raras na população global, com maior predominância no norte da Europa. A hipercolesterolemia pode se apresentar também de outras formas: disbetalipoproteinemia, hiperlipidemia familiar combinada, hipercolesterolemia por polimorfismos no gene APOE, hipercolesterolemia poligênica e outras ainda não identificadas. Hipercolesterolemia isolada *Aumento de LDL-c maior ou igual a 160 mg/dL Diminuição nos índices de HDL *Homens: menor que 40 mg/dL; mulheres: menor que 50 mg/dL Hiperlipidemia mista *Aumento de LDL-c maior ou igual a 160 mg/dL; TG maior ou igual a 150 mg/dL Hipertrigliceridemia isolada *TG maior ou igual a 150 mg/dL Dislipidemia Figura 53 – Classificação das hiperlipidemias quanto ao produto elevado na circulação sanguínea 132 Unidade II Classificação das dislipidemias As dislipidemias podem ser classificadas em dois grandes grupos: as hiperlipidemias e as hipolipidemias. Vale ressaltar que compreender a categoria de cada uma delas é crucial para a terapêutica adequada dos pacientes, ou seja, se esta variação dislipidêmica tem fundamentação genética (primária) ou está relacionada ao estilo de vida (secundária). Nesse contexto, as dislipidemias/hiperlipidemias foram extratificadas em classes, de acordo com o marcador que se encontra elevado na amostra do paciente. Assim, temos a sua categorização conforme ilustrado na próxima tabela (coletas em jejum). Classificação das dislipidemias de Fredrickson Atualmente, a classificação de Fredrickson está em desuso devido a sua baixa aplicabilidade clínica e terapêutica. Entretanto, é interessante conhecê-la, pois tem como pilar de sustentação os níveis sanguíneos de colesterol e/ou TG, sem pautar sua fundamentação nos níveis de HDL-c. Baseada na separação eletroforética das frações lipoproteicas, a classificação de Fredrickson é apresentada na tabela a seguir. Tabela 8 – Classificação das dislipidemias de acordo com a categorização de Fredrickson Fenótipo Aparência do soro após 24 horas em geladeira Lipoproteína elevada Colesterol Triglicérides Aterogenicidade Tipo I Camada superior cremosa Quilomícron Normal a ↑ ↑↑↑↑ Não Tipo IIA Transparente LDL ↑↑ Normal +++ Tipo IIB Turvo LDL e VLDL ↑↑ ↑↑ +++ Tipo III Turvo IDL ↑↑ ↑↑↑ +++ Tipo IV Turvo VLDL Normal a ↑ ↑↑ + Tipo V Camada superior cremosa e inferior turva VLDL e quilomícron Normal a ↑ ↑↑↑↑ + VLDL: lipoproteínas de densidade muito baixa; IDL: lipoproteínas de densidade intermediária. Fonte: Faludi et al. (2017, p. 15). Saiba mais Leia mais sobre a hipercolesterolemia familiar de causas genética acessando o artigo indicado a seguir FALUDI, A. A. et al. Atualização da diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 109, n. 2, p. 1-76, 2017. 133 BIOQUÍMICA CLÍNICA 6.4 Gasometria A gasometria é o exame bioquímico utilizado para avaliar principalmente o pH sanguíneo, verificando a quantidade de fatores ácidos e básicos na sua constituição e consequente equilíbrio do organismo humano. O pH é a unidade de medida para a determinação da concentração de íons H+ nos líquidos do organismo, determinando, assim o seu nível de acidificação e alcalinidade. Os agentes ácidos e básicos do nosso organismo têm origem no metabolismo celular, com a dissociação de ácidos orgânicos, do metabolismo da glicose, lípideos e proteínas. Já a sua eliminação acontece principalmente por duas vias: as vias renais e pulmonares. Os ácidos são eliminados tanto pela via pulmonar (ácido carbônico H2CO3) como pela via renal (ácido lático, cetoácidos, ácidos alimentares). Por outro lado, as bases têm sua eliminação exclusivamente por via renal, com a liberação de bicarbonato pela urina. O controle do pH sanguíneo e dos demais líquidos corporais é fundamental para que o paciente não evolua com quadros de acidificação (acidose) ou alcalinização (alcalose) desses meios. Como o controle do equilíbrio ácido-básico do organismo é realizado pelos sistemas pulmonares e renais, com o distúrbio desse equilíbrio, os pacientes podem evoluir com acidoses ou alcaloses de origem respiratória e/ou renal. O termo acidose é utilizado quando o nosso paciente apresenta concentração de H+ elevada, com consequente redução do pH sanguíneo. Os pacientes com acidose respiratória apresentam esse quadro devido a distúrbios ventilatórios(pulmonares), que diminuem a eliminação do CO2 pelos pulmões e, consequentemente, elevam a concentração do ácido carbônico (H2CO3). Já os casos de acidose metabólica apresentam esse quadro devido a distúrbios metabólicos (renais), que aumentam a concentração de ácidos fixos, elevando a concentração dos íons H+. Em contrapartida, a alcalose é definida pela redução da concentração de íons H+, que, consequentemente, eleva o pH do sangue. Nos casos de alcalose respiratória, os distúrbios pulmonares promovem a diminuição da concentração de CO2 e, consequentemente, a diminuição da concentração do H2CO3, alcalinizando o meio em que se encontra. Por fim, a alcalose metabólica ocorre devido ao aumento da quantidade de bases circulantes pela diminuição da eliminação renal. O exame de gasometria avalia primordialmente o pH sanguíneo, mas fornece parâmetros gasosos e metabólicos importantes para a conduta clínica (tabela a seguir). O teste pode ser realizado tanto em sangue arterial como venoso, e o anticoagulante de escolha para a coleta é a heparina lítica. Para essas análises, utilizamos seringas de plástico, com heparina liofilizada (minimiza a diluição e quelação de íons), com proporcionalidade entre o volume de sangue/anticoagulante, para evitar a formação de microcoágulos. De acordo com o International Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (IFCC), essa proporção deve ser de 50 UI de heparina lítica balanceada com cálcio por mL de sangue total colhido. A amostra coletada deve estar isenta de ar, e na seringa não pode ter espaço entre o êmbolo e a amostra sanguínea. A figura a seguir mostra uma não conformidade na coleta de amostra de sangue para gasometria, a qual evidencia a presença de espaço com no espaço ocupado pela amostra (ANDRIOLO et al., 2010). 134 Unidade II O transporte da amostra de sangue para o teste de gasometria deve ser realizado em temperatura ambiente. Figura 54 – Não conformidade na coleta de amostra de sangue para gasometria, a qual evidencia a presença de espaço no interior do tubo Tabela 9 – Componentes avaliados no sangue no exame de gasometria, sua finalidade e os valores de referências em amostras colhidas de acesso arterial e acesso venoso Componente do exame de gasometria Descrição Valor de referência (sangue arterial)* Valor de referência (sangue venoso)* pH Unidade de medida que define o padrão de acidose/alcalose sanguíneo 7.35 a 7.45 7.32 a 7.43 pCO2 Marcador respiratório importante que define o estado de acidose/alcalose respiratória. Apresenta a pressão de CO2 presente no sangue 35 a 45 mmHg 38 a 50 mmHg pO2 Marcador respiratório que contribui para verificar a pressão de O2 presente no sangue 83 a 108 mmHg 35 a 40 mmHg SatO2 Marcador respiratório que contribui para avaliar a porcentagem de saturação de oxigênio no sangue 95 a 99% 60 a 75% HCO3 Marcador metabólico vital para definir o estado de acidose/alcalose metabólica 21 a 28 mmol/L 22 a 29 mEq/L BE Marcador metabólico que contribui para determinar os níveis de componentes básicos no sangue +3 a -3 mmol/L +2 a -2 mmol/L Os valores de referência podem variar, minimamente, dependendo do equipamento e das metodologias utilizadas para sua determinação. A regulação ácido-básica no sangue dos indivíduos é fundamental para a manutenção da vida. Com isso, é necessário a composição de um sistema de tamponamento do pH sanguíneo, composto primordialmente de um ácido fraco (H2CO3) e sua base conjugada. 135 BIOQUÍMICA CLÍNICA 6.4.1 Distúrbios do equilíbrio ácido-básico Acidose respiratória A acidose respiratória é caracterizada pela diminuição do pH sanguíneo devido à elevação da concentração de CO2 e, consequentemente, devido ao aumento da produção de ácido carbônico. Essa elevação do CO2 é verificada na gasometria pela pCO2, marcador respiratório importante para constatação da etiologia da acidificação do sangue. Como principal causa, a acidose respiratória se instala devido a traumas relacionados ao sistema nervoso central (SNC), por intoxicações exógenas, lesão medular, obstruções das vias aéreas altas, pneumonias, derrame pleural, pneumotórax, afogamento, trauma torácico etc. Sempre que há um distúrbio do equilíbrio ácido-básico do sangue, o organismo tenta de alguma maneira compensar esse prejuízo, que pode ser fatal. Assim, nas acidoses respiratórias, a via pulmonar está comprometida e, portanto, a compensação via sistema renal é acionada, com aumento na retenção de HCO3 -. As manifestações clínicas da acidose respiratória são: cefaleia, alterações visuais, taquicardia e, em casos mais graves, coma. O tratamento utilizado para os pacientes com acidose respiratória é a promoção da ventilação pulmonar adequada. Acidose metabólica É caracterizada pela diminuição do pH sanguíneo devido ao aumento da produção de ácidos não voláteis, ingestão de substâncias ácidas, perdas excessivas de bases do organismo, dificuldade de eliminação de ácidos fixos pelos rins (diabético), entre outras. Nesse contexto, há diminuição dos níveis de HCO3 - e, consequentemente, elevação de íons H+. Essa diminuição do tampão bicarbonato é verificada na gasometria pelo HCO3 -, marcador metabólico importante para constatação da etiologia da acidificação do sangue. Como principal causa, a acidose metabólica se instala devido a choque e hipotensão arterial, cetoacidose diabética (com elevação de corpos cetônicos – inclusive visualizável no exame de urina tipo I), intoxicação por ácido acetilssalicílico, na insuficiência renal (com perda de HCO3 -), em casos graves de diarreia, entre outros. Sempre que há um distúrbio do equilíbrio ácido-básico do sangue, o organismo tenta de alguma maneira compensar esse prejuízo, que pode ser fatal. Assim, nas acidoses metabólicas, quando a via renal está comprometida, a compensação via sistema pulmonar é acionada, com eliminação de CO2. Ainda, temos mecanismos de neutralização dos ácidos pelas bases do sistema tampão e pela via renal, com retenção de HCO3 -. 136 Unidade II As manifestações clínicas da acidose metabólica são: confusão mental, arritmias, depressão respiratória e coma. O tratamento utilizado para os pacientes com acidose metabólica é a administração de bicarbonato de sódio. Alcalose respiratória É caracterizada pelo aumento do pH sanguíneo devido ao aumento da eliminação de CO2 pelos pulmões e, consequentemente, devido à diminuição da produção de ácido carbônico. Essa diminuição do CO2 é verificada na gasometria pela pCO2, marcador respiratório importante para constatação da etiologia da alcalinização do sangue. Como principal etiologia, a alcalose respiratória se instala devido à hiperventilação pulmonar. Como agente, destacam-se a hiperventilação mecânica em pacientes submetidos à entubação, disfunções do sistema nervoso central, as meningoencefalites, quadros de sepse, asma etc. Sempre que há um distúrbio do equilíbrio ácido-básico do sangue, o organismo tenta de alguma maneira compensar esse prejuízo, que pode ser fatal. Assim, nas alcaloses respiratórias, a via pulmonar está comprometida e, portanto, a compensação via sistema renal é acionada, com aumento na eliminação de HCO3 -. As manifestações clínicas da alcalose respiratória são: excitabilidade, tremores, arritmias, coma, entre outros. O tratamento utilizado para os pacientes com alcalose respiratória é a promoção da ventilação pulmonar adequada. Alcalose metabólica É caracterizada pelo aumento do pH sanguíneo devido à diminuição da produção de ácidos, ganho excessivo de bases (inclusive via renal) e perda de ácidos ou íons H+. Nesse contexto, há aumento dos níveis de HCO3 - e, consequentemente, diminuição de íons H+. Esse aumento do tampão bicarbonato é verificado na gasometria pelo HCO3 -, marcador metabólico importante para constatação da etiologia da alcalinização do sangue. Como principal causa, a alcalose metabólica se instala devido a episódios prolongados de vômito, devido ao usoincontrolado de diuréticos e em casos de pacientes com sonda nasogástrica aberta. Assim, há perda de agentes acidificantes, o que é essencial para o quadro de alcalose. Sempre que há um distúrbio do equilíbrio ácido-básico do sangue, o organismo tenta de alguma maneira compensar esse prejuízo, que pode ser fatal. Assim, nas alcaloses metabólicas, quando a via renal está comprometida, a compensação via sistema pulmonar é acionada, com retenção de CO2. 137 BIOQUÍMICA CLÍNICA Ainda, temos mecanismos de neutralização das bases pelos ácidos do sistema tampão e pela via renal, com eliminação de HCO3 -. As manifestações clínicas da alcalose metabólica são: confusão mental, náuseas, respiração superficial e coma. O tratamento utilizado para os pacientes com alcalose metabólica é a reposição hídrica, moderação do uso de diuréticos e administração de compostos acidificados. Observação Pacientes com alteração do equilíbrio ácido-básico, quando monitorados diariamente como exame de gasometria, o farmacêutico consegue verificar a evolução do quadro do paciente, verificar se as condutas farmacológicas de correção do distúrbio tomadas foram efetivas e, assim, traçar o perfil de compensação do equilíbrio ácido-básico. 7 PERFIL BIOQUÍMICO DAS ENFERMIDADES ÓSSEAS 7.1 Metabolismo dos íons (cálcio, fósforo e magnésio) O cálcio e o fósforo são os principais minerais responsáveis pela saúde óssea. A matriz óssea é formada de uma parte flexível e orgânica, com cerca de 35% da composição do osso apresentando colágeno tipo 1, e uma parte rígida e inorgânica, cerca de 65%, impregnada por cristais de hidroxiapatita – Ca10(PO4)6(OH)2 – e substância fundamental amorfa (SFA), nada mais que um gel incolor, hidratado, composto de proteoglicanas, glicosaminoglicanas (condroitin e queratan sulfato), proteínas envolvidas na mineralização (osteocalcina), proteínas ligantes de cálcio (osteoconectina, sialoproteína), proteínas de adesão celular (osteopontina, fibronectina), citocinas, fatores de crescimento, enzimas e água. Observação O colágeno contém muitos aminoácidos prolina e lisina que serão hidroxilados (ou seja, sofrerão a adição de hidroxila) pela ação da vitamina C. Esses íons -OH irão colaborar para o aumento do número de pontes de hidrogênio entre as três cadeias polipeptídicas do colágeno. As células chamadas osteoblastos promovem a síntese das fibras de colágeno e a concentração do cálcio e do fósforo provenientes do sangue (precipitando-se na forma de cristais de hidroxiapatita). Os osteoblastos transformam-se em osteócitos que não produzem mais a matriz óssea, mas atuam na sua manutenção, havendo, após a morte dessas células, a reabsorção da matriz. As células responsáveis por tal reabsorção, retirando a hidroxiapatita, degradando o colágeno e liberando esses 138 Unidade II produtos no sangue, são os osteoclastos. Logo após esse processo de absorção, ocorre a remodelação do tecido ósseo. Os cristais de hidroxiapatita são compostos de cálcio e fósforo, os chamados minerais principais ou elementos essenciais (pois, caso haja uma ingestão insuficiente de qualquer um deles, por meio da dieta, doenças carenciais poderão se desenvolver). Outros exemplos de elementos principais ou essenciais são magnésio, sódio, potássio, ferro, enxofre e cloro. Já os elementos traço são aqueles que o corpo humano necessita em quantidades muito pequenas (por isso, às vezes são chamados de oligoelementos), como é o caso de iodo, cobre, zinco, manganês, cobalto, molibdênio, cromo, flúor, níquel, vanádio, silício, boro e alumínio. 7.1.1 Metabolismo do cálcio Podemos dizer que o elemento cálcio é o mineral mais importante para o funcionamento do corpo humano. Cerca de 1% a 2% do peso corpóreo de um adulto está relacionado a esse íon, presente, majoritariamente, na forma de ossos e dentes. Mas o cálcio não participa apenas da rigidez dos ossos e dentes, desempenhando também outras funções como excitabilidade neuromuscular, permeabilidade da membrana, coagulação sanguínea, sinalizador celular e cofator enzimático. As necessidades diárias de ingestão de cálcio variam conforme a faixa etária, sendo maior na infância e adolescência (por causa do crescimento ósseo), na gravidez e na lactação (situações em que há uma deficiência de cálcio), e na atividade física (quando há absorção de cálcio). A recomendação para adultos (homens e mulheres) é de 1.000 mg/dia de cálcio, enquanto os adolescentes devem consumir 1.300 mg/dia. Alguns estudos sugerem que tanto o excesso quanto a falta não fazem bem à saúde, havendo risco de fraturas com uma ingestão diária abaixo de 800 mg e risco de problemas digestivos, cálculos renais, arritmias cardíacas e infarto do miocárdio, por deposição de cálcio na parede das artérias, quando tal ingestão excede os limites adequados. Leite e derivados são importantes fontes de cálcio, mas a cada dia vemos mais pessoas com intolerância à lactose, dificultando a ingestão de cálcio por essa via. Nesse caso, outras fontes possíveis são folhas escuras (como espinafre e acelga), soja, feijão-branco, gergelim, grão-de-bico, brócolis, linhaça e aveia, entre outros. A absorção do cálcio se dá no intestino delgado, sendo realizada de forma ativa pela mediação da vitamina D (chamada de 1,25-dihidroxivitamina D ou 1,25(OH)2D) e a ligação a uma proteína ligadora de Ca (Ca-Bp), e de forma passiva pela difusão simples ou facilitada com a ajuda do paratormônio (PTH) e do hormônio do crescimento (GH). Hormônios como glicocorticoides, excesso de hormônios tireoidianos e possivelmente calcitonina diminuem a absorção desse íon. A sua biodisponibilidade (que é a digestibilidade ou solubilidade para sua absorção) pode ser influenciada negativamente caso ocorra formação de sais insolúveis do cálcio com ácido fítico ou oxálico (que podem ser encontrados em fibras, importantes para o funcionamento do intestino) e formação de sabões (sabão de cálcio) pelo excesso de gordura, além de presença de cafeína e ferro. 139 BIOQUÍMICA CLÍNICA Saiba mais Nem todo cálcio ingerido é absorvido pelo corpo. Com o aumento da idade, podem ocorrer deficiência dietética de cálcio e diminuição na produção de vitamina D (provavelmente pela menor exposição aos raios solares). Completando o quadro, comumente há uma piora da função renal (e consequentemente da produção renal de vitamina D). No caso das mulheres, deve-se contar ainda com um agravante: em razão da menopausa, há uma diminuição do estrógeno, hormônio relacionado à retenção do cálcio no osso, processo esse que acaba estimulando a osteoporose. Você pode conhecer mais detalhes sobre o assunto por meio do artigo indicado a seguir. BUZINARO, E. F.; ALMEIDA, R. N. A.; MAZETO, G. M. F. S. Biodisponibilidade do cálcio dietético. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 50, n. 5, out. 2006. Disponível em: https://bit.ly/3gDUvWi. Acesso em: 18 jun. 2021. O cálcio do sangue encontra-se na forma ionizada (Ca2+) e ligado à albumina. Ele vai para o líquido extracelular (LEC) e entra nas células. (LIC ou líquido intracelular). Esse mineral pode: • ir para os dentes e ossos com a ajuda da vitamina D; • pode ir para o fígado (bile) e daí para o intestino, sendo liberado nas fezes; • pode ser filtrado nos rins e reabsorvido graças ao PTH e à vitamina D. Rins Paratireoide Tireoide Intestino Cálcio Ca2+ Sangue Osso Dente Fígado PTH Urina Calcitonina Boca Ânus Vit D Bile LEC LIC Figura 55 – Esquema do metabolismo do cálcio com a entrada e saída do osso (LEC=líquido extracelular, LIC = líquido intracelular, PTH = paratormônio) 140 Unidade II Quando baixa a calcemia, a glândula paratireoide libera o PTH e as células produtoras de calcitonina da tireoide são inibidas. Quando a calcemia está elevada, ocorre o contrário: a calcitonina é secretada e a paratireoide é inibida. O hormônio PTH aumenta o nível de cálcio no sangue atuando no osso, no rim (visa à reabsorção) e no intestino (PTH e vitaminaD aumentam a absorção intestinal), enquanto a calcitonina diminui o cálcio no sangue (hormônio hipocalcemiante). Observação Sustentação de peso e estiramento muscular, repouso, falta de gravidade e imobilização causam rarefação do osso, enfraquecendo-o. Hipercalcemia A reabsorção óssea é a principal característica no hiperparatiroidismo primário. O excesso de cálcio no sangue pode ocorrer nas seguintes situações: • saída pela urina seja deficiente; • insuficiência renal crônica; • maior entrada de cálcio no sangue e sua deposição no osso, excesso de vitamina D, principalmente, por doenças como sarcoidose, tuberculose, coccidioidomicose ou pelo seu consumo em excesso; • efeito colateral ao uso de certos medicamentos como lítio, por exemplo; • tumor nos ossos, rins ou intestino em fase avançada; • tumor em ilhotas pancreáticas; • mieloma múltiplo. Normalmente, a reabsorção óssea ligada ao câncer é o maior fator de hipercalcemia, mas essa condição também pode estar relacionada ao hiperparatireoidismo, à imobilização prolongada ou mesmo à ingestão exagerada de cálcio (na forma de antiácidos). Os sintomas iniciais incluem fadiga, náuseas, vômitos, poliúria, polidipsia, desidratação, cefaleia, perda de memória, torpor, problemas cardíacos e coma. Para diagnóstico laboratorial, pode-se pedir dosagem de cálcio total e ionizado no soro, além de se analisarem a filtração glomerular (depuração de creatinina), a dosagem do PTH e a dosagem de vitamina D. Os achados de ultrassom de pescoço com cintilografia, ultrassonografia de rins e vias urinárias podem ajudar na avaliação do quadro clínico. A hipercalcemia pode ser tratada com hidratação e diuréticos de alça, como a furosemida, para aumentar a excreção urinária desse mineral. Hipocalcemia Trata-se de um quadro clínico que ocorre associado à alteração do fósforo (hipocalcemia com elevação ou com redução do fósforo no sangue). 141 BIOQUÍMICA CLÍNICA O quadro de hipocalcemia e hiperfosfatemia pode estar associado a hipoparatireoidismo, situações de pós-operatório e pós-radioterapia etc. Já o quadro de hipocalcemia e hipofosfatemia está associado com carência de vitamina D (ou pouca exposição aos raios solares), problemas de má absorção intestinal e doenças hepáticas. Os sintomas vão de fraqueza muscular até a perda de memória, confusão mental, alucinação, tremores, convulsões e depressão. No laboratório clínico, pode-se pedir dosagem de cálcio total e iônico, albumina sérica, fósforo e PTH, além da dosagem de magnésio, creatinina e vitamina D. Nos achados radiológicos, podemos citar calcificações intracranianas e alterações no eletrocardiograma. Por fim, o tratamento é realizado com a infusão de sais de cálcio no sangue ou vitamina D. 7.1.2 Metabolismo do fósforo O fósforo não está em sua forma livre no sangue, mas, sim, na forma de fosfato, mais precisamente em compostos relacionados à energia do corpo (como ATP e fosfocreatina), à ativação de substâncias (como aminoácidos, glicose, nucleotídeos e fosfolipídios), além de fazer parte da constituição de ossos e dentes. Os alimentos que apresentam cálcio são os mesmos que apresentam fósforo: cereais, nozes, amendoim, amêndoas, leite e seus derivados (incluindo sorvetes e iogurtes), vísceras (miolos, fígado, coração, língua, rins etc.), ervilha, feijão, chocolate, farinha de trigo integral, refrigerantes à base de cola, cerveja e alguns legumes, todos eles apresentam níveis elevados de fósforo. Atualmente, também é usado como aditivo alimentar por retardar a rancidez e remover os íons ferro e cobre, que são responsáveis pela auto-oxidação de lipídios na carne (como em presuntos e frangos congelados pré-embalados). Os sintomas da deficiência de fósforo são diminuição de apetite, anemia, fraqueza muscular, dor nos ossos e maior suscetibilidade a infecções. Quanto ao seu metabolismo, trata-se de um processo relacionado diretamente ao PTH, como representado na figura a seguir. Rins Paratireoide Intestino Fosfato PO4 2- Sangue Osso Dente Fígado PTH Urina Boca Ânus Vit D Bile LEC LIC Figura 56 – Visão geral do metabolismo do fósforo. A deficiência de vitamina D provoca uma diminuição na eficiência da absorção intestinal de cálcio e fósforo, resultando em um aumento nos níveis de PTH 142 Unidade II Hiperfosfatemia O aumento de fosfato no sangue pode ser decorrente dos seguintes fatores: • não ser excretado na quantidade correta, tendo sua concentração no sangue aumentada (caso da doença renal crônica, do hipoparatireoidismo, da hemólise, da rabdomiólise, da hipertermia maligna, da leucemia e do linfoma); • haver aumento na ingesta; • haver tratamento com vitamina D; • haver redistribuição do fósforo intracelular (acidose respiratória). A hiperfosfatemia grave pode induzir a hipocalcemia (lembre-se da função do PTH no metabolismo desses dois íons), causando tetania e calcificações ectópicas (articulações e tecidos moles, assim como pulmão, rim e conjuntiva), com a possibilidade de calcificações pseudotumorais. No laboratório clínico, podemos diagnosticar esse quadro pelas dosagens de fósforo, cálcio total e iônico, albumina, magnésio e PTH analisadas em conjunto com achados radiográficos evidenciando calcificações de tecidos moles, articulações e depósitos pseudotumorais. Quanto ao tratamento, agentes quelantes de fósforo orais, como sais de alumínio, sais de cálcio e sais de magnésio, são comumente usados. Hipofosfatemia O decréscimo de fosfato no sangue pode ser decorrente dos seguintes fatores: • ingestão de fósforo insuficiente; • deficiência de vitamina D; • aumento da excreção renal (por hiperparatireoidismo ou insuficiência renal aguda), redução da absorção intestinal, diabetes mellitus, sepse, leucemias, problemas hepáticos e casos de alcoolismo. Os sintomas da hipofosfatemia podem chegar a encefalopatia metabólica, hemólise, trombocitopenia e alterações da contratilidade muscular (podendo influenciar na contratilidade do miocárdio). Para diagnóstico laboratorial, podemos citar dosagens de fósforo, cálcio total e iônico, albumina, magnésio, PTH, baixo número de glóbulos vermelhos e de plaquetas, além de achados radiográficos. A reposição oral de sais de fósforo é o método mais usado para tratamento. 143 BIOQUÍMICA CLÍNICA 7.1.3 Metabolismo do magnésio Participante de várias reações metabólicas, o magnésio está relacionado com a síntese de ATP, metabolismo da glicose, proteínas e ácidos nucleicos. Age na estabilidade da membrana neuromuscular e cardiovascular, na manutenção do tônus vasomotor e como regulador fisiológico da função hormonal e imunológica. Entre as fontes alimentares de magnésio, podemos citar: cereais integrais, vegetais folhosos verdes, espinafre, nozes, frutas, legumes e tubérculos, como a batata. Grande parte desse íon é absorvida no intestino. Destaca-se que fibras alimentares, oxalatos, fosfatos, entre outros, atrapalham sua absorção. Armazenado nos ossos (67%) e nas próprias células (31%), o magnésio inibe o afluxo de cálcio através da membrana celular e compete por seus sítios de ligação, reduzindo a liberação do cálcio no retículo sarcoplasmático. A hipomagnesemia tem como causas comuns a estadia de pacientes em UTI e cirurgias ósseas extensas. Os sintomas são similares aos da hipocalcemia (convulsões e distúrbios de ritmo cardíaco), além de piorar a função do PTH, alterando diretamente a quantidade de íons cálcio, fósforo e indiretamente a função renal. Para corrigir o problema, deve-se ministrar sulfato de magnésio. A hipermagnesemia tem como causas falência renal, uso abusivo de antiácidos e laxantes. Os sintomas são náuseas e vômitos, fraqueza muscular, paralisia, ataxia, sonolência e confusão mental. Como tratamento, podemos citar uso de diuréticos como furosemida, hidratação adequada e gluconato de cálcio. Osteocalcina, piridinolina e fosfatase alcalina Quando observamos os ossos, percebemos que há uma proteína mais abundante: osteocalcina. Esta é responsávelpor estimular a atividade dos osteoblastos, promovendo a mineralização óssea, ou seja, é capaz de fixar o cálcio ao osso na hidroxiapatita na matriz extracelular. A vitamina K auxilia na ocorrência de reações de carboxilação nela, permitindo a sua função de mineralização da matriz. Essa proteína não pode ser usada como marcador bioquímico de reabsorção óssea, pois sua vida plasmática é bastante curta. A osteocalcina pode agir como se fosse um hormônio nas ilhotas beta de Langerhans (quando está descarboxilada), ativando e estimulando a secreção e sensibilidade à insulina no tecido adiposo e muscular. Por outro lado, a insulina e a leptina podem atuar no tecido ósseo modulando a secreção da osteocalcina, e sua liberação e reabsorção são maiores durante a noite (ligada ao ciclo circadiano). Valores acima do valor de referência são encontrados na doença de Paget e no hiperparatireoidismo primário. 144 Unidade II Piridinolina e deoxipiridinolina (PYR e DPYR) Ambas são verificadas nas ligações cruzadas da estrutura da hélice do colágeno tipo I. Como são liberadas quando há destruição óssea, sua dosagem na urina de 24 horas está ligada com a reabsorção óssea (atividade osteoclástica), sendo que são excretadas na razão 3:1 (deoxpiridinolina/piridinolina). A deoxpiridinolina é mais sensível que a piridinolina, não sendo influenciada pela dieta. Níveis elevados são encontrados em osteoporose, doença de Paget, metástases ósseas, hiperparatireoidismo e hipertireoidismo. O hipotireoidismo pode diminuir níveis excretados. Fosfatase alcalina É uma enzima encontrada em diversos tecidos do corpo, incluindo fígado, ossos, rins, intestino e placenta. As maiores concentrações de fosfatase alcalina estão no fígado e nos ossos. Em cada local tem um papel biológico e tem pequenas diferenças entre elas, sendo chamadas de isoenzimas: nos ossos, é produzida pelos osteoblastos (células que formam o tecido ósseo); no fígado, é encontrada nas bordas das células que se unem para formar canais biliares, que drenam a bile do fígado para o intestino. Observação Quando se pede análise sanguínea de fosfatase alcalina com outros exames que avaliam a função hepática, como enzimas, principalmente aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT), gama glutamil transferase (GGT) e bilirrubinas, o objetivo é verificar a obstrução do fluxo biliar, que tem sintomas de doenças hepáticas: aumento do abdômen, dor no quadrante superior direito do abdome, icterícia, urina escura e fezes claras. Quando se pede análise sanguínea de fosfatase alcalina com outros exames que avaliam distúrbios ósseos é porque há sintomas como dor óssea difusa, deformações ósseas, fraturas com traumatismos pequenos. A fosfatase alcalina se eleva quando aumenta a formação de tecido ósseo novo, como a doença de Paget e alguns tipos de câncer ósseo. Aumentos pequenos ocorrem durante a cicatrização de fraturas. 7.2 Patologias mais comuns ligadas ao metabolismo de cálcio, fósforo e magnésio 7.2.1 Osteoporose Situação em que há redução da densidade dos ossos, enfraquecendo-os e possibilitando fraturas. Vale destacar que os sintomas não se apresentam até ocorrer a fratura e que, embora a maior parte das fraturas seja dolorosa, algumas não causam dor, mas podem gerar deformidades. 145 BIOQUÍMICA CLÍNICA O envelhecimento, a deficiência de estrogênio, o baixo nível de vitamina D ou de ingestão de cálcio, além de alguns distúrbios, podem diminuir os valores dos componentes que mantêm a densidade óssea e a força. A osteoporose pode, geralmente, ser prevenida e tratada gerenciando-se os fatores de risco e garantindo a adequada ingestão de cálcio e de vitamina D, bem como através da prática de exercícios de suporte de peso e da ingestão de bifosfonatos ou outros medicamentos. Sabe-se que na infância e na juventude, a formação de ossos sobrepõe-se ao seu processo de degradação, aumentando em densidade progressivamente até cerca de 30 anos (período que estão mais fortes). No entanto, depois desse período, a degradação excede a formação, de forma que os ossos passam a ter sua densidade diminuída. Se o corpo for incapaz de manter uma quantidade adequada de formação óssea, os ossos continuam perdendo densidade e podem se tornar cada vez mais frágeis, levando à osteoporose. Na juventude, os ossos crescem (em largura e comprimento) à medida que o corpo cresce, já em idosos os ossos podem, algumas vezes, aumentar em largura, mas não em termos de comprimento. Observação Você já reparou que seus dentes se “movem”, podendo ficar “encavalados”? A explicação para isso é a remodelação óssea. Para que os ossos possam se ajustar às novas exigências, eles são degradados e remodelados, continuamente. Nesse processo, pequenas áreas do tecido ósseo são removidas continuamente e um novo tecido ósseo é depositado, afetando não apenas a forma como também a densidade dos ossos. Antes de prosseguirmos, é preciso assinalar que há dois tipos de osteoporose: a primária (espontânea) e a secundária (causada por outra doença ou medicamento) Baixos níveis de estrogênio estão associados à osteoporose em mulheres e homens, no entanto, no caso dos homens, se tal fato somar-se à baixa de hormônios sexuais masculinos, o quadro será pior. Como dito anteriormente, o risco de desenvolver osteoporose está relacionado com o uso de alguns medicamentos, mas também com o uso de tabaco, o consumo excessivo de álcool, o histórico familiar de osteoporose, alguns tipos de doença (como doença renal crônica e distúrbios hormonais – especialmente doença de Cushing, hiperparatireoidismo, hipertireoidismo, hipogonadismo, níveis elevados de prolactina e diabetes mellitus) e certos tipos de câncer (como mieloma múltiplo). Nos ossos longos, como os dos braços e das pernas, a fratura ocorre normalmente nas extremidades dos ossos, não em sua região central, e nas vértebras, ocorrem geralmente no meio ou na parte inferior das costas. Se várias vértebras quebrarem, uma curvatura anormal da coluna vertebral pode se desenvolver (corcunda de viúva), causando tensão muscular e dor, bem como deformidade. 146 Unidade II Quanto aos exames, podem ser feitas dosagens sanguíneas de cálcio, vitamina D e hormônios, além de perfil hepático e renal (no caso de osteoporose secundária). Cabe ressaltar que todas as mulheres com 65 anos ou mais devem fazer o exame de densidade óssea (teste indolor, com pouca radiação), exame de grande importância por poder diagnosticar a osteopenia (quando a densidade óssea está diminuída, mas não como na osteoporose). 7.2.2 Osteomalácia Osteo significa osso e malácia, amolecimento. Tal quadro pode ser descrito como o enfraquecimento e a desmineralização dos ossos no adulto, circunstância que os deixa fracos e sujeitos a fraturas. Na prática, pode se apresentar como uma osteopenia e o paciente pode ter dor óssea. As principais causas da osteomalácia são deficiência de vitamina D, falta de exposição ao sol (a vitamina D é ativada pelos raios ultravioletas) ou falta de cálcio na dieta. Entre outras possíveis causas temos hepatopatias crônicas, insuficiência renal, câncer, acidose, uso prolongado de anticonvulsivantes etc. Como o osso contém fósforo, a deficiência desse mineral na dieta está relacionada com a saúde óssea também Sensação de dormência ao redor dos lábios, nos braços ou nas pernas e espasmos musculares nas mãos, pés e garganta, além de dores ósseas e fraqueza muscular são os principais sintomas da osteomalácia. Para fazer o diagnóstico, além da análise dos sintomas, os índices plasmáticos de cálcio, fósforo e da fosfatase alcalina, considerados em conjunto com os exames de imagem, fecham o quadro clínico. O tratamento dessa patologia geralmente está ligado ao aumento de fosfatos e de vitamina D na dieta, por meio de alimentos como manteiga, ovos, óleo de fígado de peixe, derivados de leite, sucos de frutas e peixes como atum e salmão. Por fim, a prevenção da osteomalácia baseia-seem dietas com cálcio, fósforo e vitamina D, além de exercícios ao sol. 7.2.3 Raquitismo O raquitismo consiste em uma patologia relacionada a defeitos na mineralização óssea, defeitos esses iniciados na infância. Como causas, podemos citar deficiências nutricionais (de vitamina D, cálcio e fósforo), doenças gastrointestinais crônicas (particularmente a cirrose biliar primária), nutrição parenteral prolongada, lesões tubulares renais e insuficiência renal crônica. O raquitismo em adultos é conhecido como osteomalácia ou ossos moles. Os sintomas mais comuns são deformidades ósseas, como maior espessura, maior extensão e menor grau de mineralização. O diagnóstico físico é feito com base em fraqueza muscular, dor óssea generalizada, deformidades de ossos longos e fraturas patológicas, levando a déficit de crescimento e anormalidades cranianas. Nesse quadro, os achados radiológicos mostram alterações mais frequentes em ossos longos. No laboratório clínico verificamos valores baixos ou normais de cálcio e fósforo e níveis elevados da fosfatase alcalina no sangue, refletindo o aumento da remodelação óssea, além de PTH elevado no 147 BIOQUÍMICA CLÍNICA sangue e níveis baixos de vitamina D. O exame de densitometria óssea não irá apresentar osteopenia nem osteomalácia no caso do raquitismo hipofosfatêmico, embora as manifestações clínicas e radiológicas sejam parecidas com o raquitismo por falta de cálcio, mas, como a calcemia é normal, não há estímulo na paratireoide (hiperparatiroidismo secundário), não havendo reabsorção óssea. Vários tipos de câncer podem levar ao raquitismo hipofosfatêmico oncogênico, pois essas células transformadas produzem proteínas (fatores) que agem nos túbulos renais, inibindo a reabsorção proximal de fósforo. A vitamina D pode ser obtida por duas vias: síntese a partir do acetil Co-A e ativada pela exposição solar (durante 20 minutos, sem protetor solar) ou através da alimentação (sendo necessária sua ativação também). Como a síntese pode ser realizada também nos rins, pacientes com insuficiência renal crônica não são capazes de produzir vitamina D ativa suficiente. A vitamina D inibe a produção do PTH e mantém as concentrações de cálcio e fósforo normais no osso. Saiba mais A vitamina D é muito mais que uma vitamina; certos pesquisadores veem-na, inclusive, como se fosse um hormônio. Sua carência está relacionada não só com a saúde óssea, mas também com o risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer, com o aparecimento de diabetes, hipertensão e abortos no início da gestação, pode ainda estar relacionada com doenças neurodegenerativas e autoimunes, como esclerose múltipla, Alzheimer e Parkinson. Você pode obter mais detalhes sobre esse assunto por meio do artigo indicado a seguir: COIMBRA, C. G. Vitamina D e Alzheimer – Vitamin D may reduce the risk of dominantly inherited Alzheimer’s disease. The New England Journal of Medicine, Boston, 2012. Disponível em: https://bit.ly/3xw0Hp4. Acesso em: 18 jun. 2021. 7.3 Marcadores bioquímicos de metabolismo ósseo atualmente em uso Os principais marcadores bioquímicos do metabolismo ósseo atualmente em uso são divididos entre os que refletem formação e os que refletem reabsorção do osso. A remodelação óssea apresenta um ritmo circadiano, com maiores níveis durante a noite, motivo pelo qual a primeira urina da manhã (ou a amostra de soro coletada nesse horário) reflete o pico de reabsorção óssea, apresentando valores seguramente mais altos que uma amostra colhida em outro horário. 148 Unidade II Os melhores marcadores séricos de formação (fosfatase alcalina óssea e osteocalcina) devem ser considerados mediante a interpretação dos valores de meia-vida biológica, pois a fosfatase alcalina óssea tem em torno de 1,6 dia, e a osteocalcina menos de uma hora de existência. Dessa forma, crises agudas estão relacionadas com os níveis de osteocalcina. Deve-se ressaltar que o ciclo menstrual pode influenciar nos níveis de marcadores bioquímicos, estando esses mais elevados durante a fase lútea (em comparação com a fase folicular). 7.3.1 Marcadores de reabsorção óssea A seguir temos os principais marcadores de reabsorção óssea. Vejamos cada um deles. • Fosfatase alcalina óssea: apresenta sequência igual à da isoenzima hepática (fosfatase alcalina hepática), estando em quantidades equivalentes no soro, mas podendo ser separadas por meio das diferenças na glicosilação após sua síntese. • Osteocalcina: é uma proteína de matriz óssea marcadora da atividade do osteoblasto, ou seja, está envolvida na formação do osso, não sendo um marcador de reabsorção óssea. É destruída quando há reabsorção pelos osteoclastos. • Hidroxiprolina urinária: com o desenvolvimento dos métodos mais específicos para avaliação da reabsorção óssea, essa técnica tem sido abandonada. • Interligadores do colágeno (cross-links): estruturas interligadoras composta de três radicais hidroxilisina (chamada de piridinolina) ou uma lisina e duas hidroxilisinas (deoxipiridinolina). As piridinolinas atuam como interligadores nos colágenos tipo I, II e III, sendo encontrada na maioria dos tecidos. Quando acontece a reabsorção óssea, os osteoclastos secretam uma mistura de proteases ácidas e neutras que degradam as fibrilas colágenas em fragmentos de diferentes tamanhos, os quais são lançados no sangue, chegam ao fígado e são metabolizados; então, os metabólitos produzidos vão para o sangue e para os rins, onde serão excretados. Os exames de checkup com marcadores bioquímicos e uso de imagem têm a função de diagnóstico e seguimento/tratamento da osteoporose. 7.4 Perfil funcional tireodiano: triiodotironina total e livre, tetraiodotironina, TSH e calcitonina A glândula tireoide localiza-se sobre a traqueia e apresenta dois lobos (um de cada lado da laringe) pesando aproximadamente 20 gramas, com formato de borboleta. 149 BIOQUÍMICA CLÍNICA Vaso sanguíneo Tireoide Traqueia Paratireoide Faringe Epiglote Figura 57 – Glândula tireoide Os hormônios da tireoide (T3 e T4) atuam em várias reações químicas do organismo: regulando o metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas; influenciando desde o crescimento e desenvolvimento do organismo até questões como ciclo menstrual, fertilidade, perda de cabelos, emagrecimento etc. Podem ocorrer sintomas psicológicos tanto no hipotireoidismo como no hipertireoidismo, entre os quais dificuldade de raciocínio, insônia, ansiedade até depressão grave. A tireoide é formada por células chamadas de parafoliculares (que produzem calcitonina) e células foliculares, que contêm substância amorfa de nome coloide, composto de glicoproteína chamada tireoglobulina (Tg) na qual o íon iodeto, que veio do plasma, se liga em suas tirosinas na forma de iodo por intermédio da enzima peroxidase que oxida iodeto em iodo. Essa enzima é estimulada pelo hormônio da hipófise TSH - hormônio estimulante da tireoide, que por sua vez é estimulada por fator de liberação de tireotropina (TRF) produzido no hipotálamo. A Tg é uma forma de armazenamento de precursores de T3 e T4, pois dispõe de monoiodotirosina (MIT) e diiodotirosina (DIT), que se combinam da seguinte forma: MIT + DIT = T3 e DIT + DIT = T4 Lembrete O T3 (hormônio triiodotironina) possui três átomos de iodo em sua molécula, enquanto o T4 (tetraiodotironina ou tiroxina) possui quatro iodos. Quando os níveis de T3 e T4 no sangue aumentam, o hipotálamo para de secretar TRF, que não estimula mais o TSH. O T4 é metabolizado no fígado em sua forma mais ativa: o T3. Apesar de a maior parte do T3 ser derivada do T4, a tireoide também produz esse hormônio, ainda que em menores quantidades. 150 Unidade II 7.4.1 Patologias relacionadas com o funcionamento da tireoide Hipotireoidismo Os sintomas variam conforme a idade em que se inicia a insuficiência da glândula tiroide. O hipotireoidismo congênito (ou cretinismo) afeta o crescimento (levando à pequena estatura do indivíduo, uma vez que o esqueleto apresentaum crescimento deficiente), causando ainda debilidade mental, cabeça com um tamanho maior que o comum, assim como pernas curtas e falhas na dentição. No hipotireoidismo adulto os efeitos fisiológicos são outros, como queda da frequência cardíaca, apatia, aumento de peso e tumefação da pele (mixedema). Observação O teste do pezinho é um exame laboratorial simples, mas com um importante objetivo: detectar doenças congênitas, doenças relacionadas a distúrbios do metabolismo e infecções. Tal exame se dá pela análise de gotas de sangue do recém-nascido. Hipertireoidismo Os sintomas mais frequentes são: intolerância ao calor, metabolismo basal alto, aumento da frequência cardíaca, perda de peso, tremor nas mãos, nervosismo e outras perturbações psíquicas. Também podem estar presentes protusão dos globos oculares (exoftalmia) e bócio (papo). Observação O bócio pode ser endêmico, como resultado da falta de iodo em determinadas áreas geográficas. A falta de iodo no organismo impede a transformação da tiroglobulina em tiroxina, e o baixo teor de tiroxina no sangue, por sua vez, provoca a liberação constante de tirotrofina pela hipófise (feedback). Essa estimulação prolongada da glândula tireóidea, por fim, leva à hiperplasia (bócio). O bócio é o aumento de volume na tireoide por causa do hipotireoidismo ou hipertireoidismo. Os pacientes costumam sentir dificuldade para engolir alimentos e respirar, tosse e rouquidão, entre outros sintomas (figura a seguir). 151 BIOQUÍMICA CLÍNICA Figura 58 – Bócio indicando hipofunção Fonte: Kumar, Abbas e Aster (2016, p. 758). Doença de Graves É a principal causa de hipertireoidismo. É uma doença autoimune de etiologia não esclarecida, com predisposição genética e influenciada por muitos fatores, podendo, inclusive, afetar a visão do indivíduo (nesse caso, temos a chamada oftalmopatia de Graves, que é alteração na órbita do olho). Para fazer o diagnóstico de doença de Graves, deve-se analisar sintomas e fazer o levantamento de hormônios da tireoide no sangue (como TSH, T4 e anticorpos contra a tireoide). Como a tireoidite de Hashimoto, outro exemplo de doença autoimune que atinge a tireoide, a doença de Graves é uma condição autoimune na qual o sistema imunológico estimula excessivamente a tireoide, fazendo com que ela produza grandes quantidades de hormônio tireoidianos, consequentemente aumentando o volume da tireoide. Para diagnóstico de doença de Graves, costuma-se medir dois anticorpos: • anticorpo antirreceptor de TSH (denominado de TRAB) no soro, indicando doença autoimune em atividade; esse anticorpo ataca os receptores de TSH na tireoide e pode estimulá-los ou bloqueá-los (quando estimula os receptores causa hipertireoidismo e quando os bloqueia causa hipotireoidismo); • anticorpos antitireoglobulina (TgAb), que se mostram elevados em outra patologia autoimune que afeta a tireoide, a tireoidite de Hashimoto. 152 Unidade II O resultado de TSH reduzido com nível elevado de tiroxina livre (T4 livre) confirma o diagnóstico clínico de hipertireoidismo. No início da doença, a triiodotironina (T3 livre) eleva-se e o nível de T4 livre fica normal. No doente com hipertireoidismo e bócio difuso, os sinais de oftalmopatia e dermopatia são suficientes para confirmar o diagnóstico. Concentrações elevadas de anticorpos anti-TPO e cintilografia detectam bócio difuso (mostrando captação de iodo difusa). Tireodite de Hashimoto A tireoidite de Hashimoto (ou tireoidite linfocítica crônica) consiste na inflamação da tireoide causada por um erro do sistema imunológico (doença autoimune), com o organismo fabricando anticorpos contra a tireoide. Essa doença está relacionada com áreas onde há deficiência de iodo, levando as pessoas a apresentarem bócio e hipotireoidismo. Essa doença está relacionada com áreas onde há falta de iodo, levando as pessoas a apresentarem bócio e hipotireoidismo adquirido, principalmente, no Brasil. Observação Em 1953 foi promulgada no Brasil uma lei que obriga a iodação do sal; logo após, vários países resolveram adotar o mesmo procedimento. O sal de cozinha brasileiro apresenta uma quantidade de iodo que varia entre 15 mg/kg e 45 mg/kg. Com essa medida, os casos de bócio por falta de iodo diminuíram, no entanto, os casos de bócio persistem, ainda que por outras causas (como hipertireoidismo, tireoidite de Hashimoto, tumores, infecções e o uso de alguns medicamentos). A dieta com pouco iodo pode levar a natimortos, no caso de gestantes, além do nascimento de crianças com baixo peso, aumento da probabilidade de abortos e também de mortalidade materna. Entre os distúrbios por deficiência de iodo (DDI), podemos citar também: cretinismo em crianças (retardo mental grave e irreversível), surdez neurossensorial e anomalias congênitas, bem como a manifestação clínica mais visível, o bócio (crescimento da glândula tireoide). A antiperoxidase tireoidiana (anti-TPO) é um anticorpo que ataca a glândula tireoide e, se estiver alto em relação ao nível de referência, indica lesão autoimune da glândula, que pode se dar, como visto anteriormente, em decorrência da tireoidite de Hashimoto ou da doença de Graves. Cansaço e intolerância ao frio são sintomas iniciais e os pacientes deverão tomar hormônio tireoidiano pelo resto da vida. Níveis sanguíneos dos hormônios tireoidianos tiroxina (T4) e triiodotironina (T3) e do hormônio estimulante da tireoide (TSH), além dos anticorpos antitireoidianos, conduzem ao diagnóstico final. 153 BIOQUÍMICA CLÍNICA Algumas pessoas apresentam uma função normal da tireoide, mas, em razão do desenvolvimento de doenças preexistentes como diabetes ou outras doenças autoimunes (caso de anemia perniciosa, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren ou lúpus eritematoso sistêmico) a glândula se torna hipoativa. A esse rol podemos adicionar ainda casos de anomalias cromossômicas como síndrome de Down, síndrome de Turner e síndrome de Klinefelter. De forma geral, os exames de laboratório que refletem o perfil da tireoide são TSH, T3 Total, T3 Livre, T4 Total e T4 Livre, além da determinação de anticorpos contra a tireoide. Para saber a causa da disfunção, deve-se pedir exames complementares (hemograma, exames imunológicos e de imagem). É importante ressaltar que o TSH é o teste mais confiável para detectar hipo e hipertireoidismo. Quando uma pessoa apresenta sintomas ligados ao hipertireoidismo, como nervosismo, perda de peso, irritabilidade e náuseas, pede-se TSH ou T4, e T3, que pode estar aumentado, diminuído ou normal (não esqueça que o T4 se transforma em T3 quando necessário). Vejamos algumas possibilidades. • T3 total: T3 livre (hormônio que está ativo) + T3 ligado a proteínas. • T3L ou simplesmente T3 alto: confirma o diagnóstico de hipertireoidismo (doença de Graves). • T3L ou simplesmente T3 baixo: pode indicar tireoidite de Hashimoto, hipotireoidismo neonatal ou hipotireoidismo secundário. • T3 reverso: é a forma inativa do hormônio derivada da conversão do T4; nos pacientes com hipotireoidismo tem índices baixos e nos pacientes com hipertireoidismo está elevado. • T4 total (T4 livre + T4 ligado a proteínas): o T4 é transportado pelo sangue até os órgãos ligado a proteínas, mas está inativo, tornando-se ativo ao chegar nos tecidos, sendo, então, liberado. • T4 livre: hormônio ativo (menos de 1% do T4 total). • Anticorpo antiperoxidase (anti-TPO): detecta tireoidite de Hashimoto. • Anticorpo antitireoglobulina (anti-Tg): qualquer alteração da tireoide, possivelmente tireoidite de Hashimoto. • Anticorpo antirreceptor de TSH (anti-TRAB): relacionado com casos de hipertireoidismo (doença de Graves). Ultrassonografia da tireoide (para avaliar o tamanho da glândula e a presença de alterações como cistos, tumores, bócio ou nódulos), bem como cintilografia da tireoide (investigação de nódulos suspeitos de câncer) e punção da tireoide (identificação citológica do nódulo ou cisto confirmando se é benigno ou maligno) ajudam a fechar o diagnóstico.154 Unidade II Medicamentos como a levotiroxina (Puran T4, Eutirox, Tetroid ou Synthroid) substituem o hormônio que é normalmente fabricado pela glândula da tireoide, permitindo a sua reposição. Da mesma forma que se faz o autoexame das mamas, pode-se fazer o autoexame da tireoide a fim de verificar a existência de cistos ou nódulos na glândula (principalmente, por mulheres com mais de 35 anos ou com histórico familiar de problemas na tireoide). Os passo a passo desse exame está descrito a seguir: • localizar a tireoide (na frente do espelho, colocar a mão no pescoço, perto do pomo-de-adão (homens), conhecido como “gogó”); • colocar o pescoço para trás; • beber um gole de água e observar a movimentação da tireoide; • colocar a mão em cima e verificar se há assimetria ou nódulos. 7.4.2 Perfil funcional das paratireoides e situações patológicas: hipoparatireodismo e hiperparatireodismo As paratireoides são quatro pequenas glândulas localizadas sobre a tireoide e pesam cerca de 140 mg. Apesar de compartilharem o mesmo sítio anatômico, têm funções diferentes. O único hormônio produzido, o paratormônio (PTH), está relacionado com o metabolismo do cálcio e do fósforo, aumentando a eliminação de cálcio e fósforo pela urina e retirando o cálcio dos ossos, além de favorecer a absorção de cálcio pelo intestino, junto com a vitamina D ativada. 0,8 4,4 0 8 16 244 12 20 Tempo Fosfato Cálcio In je çã o de h or m ôn io pa ra tir eo id eo Cá lc io 5,2 6,0 4,8 5,6 6,4 1,2 1,0 1,4 Figura 59 – Gráfico mostrando o efeito da administração de paratormônio sobre as concentrações de cálcio e fosfato no plasma sanguíneo Disponível em: https://bit.ly/3gRFfUM. Acesso em: 21 jun. 2021. 155 BIOQUÍMICA CLÍNICA Como o PTH age nos rins, se a pessoa tiver problemas renais, esse hormônio não induzirá a produção de vitamina D nem a excreção de fósforo sérico na urina. Sendo assim, a única função desse hormônio será tirar o cálcio dos ossos, deixando o fósforo ainda alto no sangue. Dessa forma, a paratireoide fica sempre estimulada a produzir mais e mais hormônio na tentativa de retirar o fósforo do sangue, desencadeando o hiperparatireoidismo. Lembrete O paciente com insuficiência renal não produz vitamina D em quantidade suficiente para manter seus ossos saudáveis. Pelo contrário, ele produz um excesso de PTH, que leva à desmineralização dos ossos. Hipoparatireoidismo O trauma cirúrgico em cirurgias de tireoide/paratireoide e neoplasias de cabeça e pescoço são as causas mais frequentes de hipoparatireoidismo, já as doenças autoimunes das paratireoides são a segunda causa mais frequente. Quando há deficiência de paratormônio, ocorre a redução do cálcio sanguíneo, aumentando o nível do fósforo sérico e diminuindo a excreção renal do cálcio e do fósforo. Tal quadro, por sua vez, leva à tetania muscular por hiperexcitabilidade dos tecidos nervoso e muscular, causada, basicamente, pela insuficiência dos íons de cálcio no sangue. Níveis baixos de PTH, a dosagem de albumina (para cálculos de correção do cálcio), fósforo, magnésio, vitamina D e dosagem de cálcio em urina de 24 horas são importantes fatores para o diagnóstico de hipoparatireodismo. Os sintomas mais frequentes são espasmos musculares, tetania e convulsões, além de alterações no eletrocardiograma. Hiperparatireoidismo Quando as glândulas paratireoides funcionam em excesso, produzindo muito PTH, a pessoa se sente fraca, sem apetite, apresentando emagrecimento, coceira, náuseas, vômitos, aumento do volume urinário, sonolência, confusão mental, depressão, delírios e dores ósseas, podendo chegar a insuficiência renal, atrofia muscular, alterações visuais, hipertensão arterial e alterações do eletrocardiograma. Observação No hiperparatireoidismo ocorre a liberação aumentada de hormônio PTH, que se divide em três fases: primário (geralmente causado por um adenoma ou hiperplasia dessas glândulas); secundário (ligado principalmente à insuficiência renal, que causa a redução dos níveis de cálcio e fósforo na circulação); e terciário (após período de hiperparatireoidismo secundário, quando as paratireoides começam a secretar mais PTH). 156 Unidade II No hiperparatiroidismo primário, há o aumento de cálcio no sangue (hipercalcemia) e na urina (hipercalciúria), perda óssea de cálcio e pedras nos rins (cálculo renal). Esse quadro clínico pode ser provocado por tumores benignos (adenomas). Geralmente é assintomático e são encontradas pedras nos rins constantemente, além de problemas ósseos que podem vir acompanhados de depressão e confusão mental, evoluindo para doenças cardiovasculares e alterações ósseas. No hiperparatiroidismo secundário, relacionado à perda da função renal, pode ocorrer hipocalcemia e hiperfosfatemia. Ultrassonografia, cintilografia, tomografia e ressonância magnética podem mostrar alterações na região do pescoço. 7.4.3 Medicamentos e alimentos que afetam o funcionamento da tireoide Aumento de peso, queda de cabelo, mais depressão e bolsas inchadas abaixo dos olhos podem ser sintomas de que algo possa estar acontecendo com a tireoide. Medicamentos podem prejudicar o funcionamento da tireoide, como os antidepressivos, ansiolíticos e alguns antiarrítmicos. Os alimentos goitrogênicos podem prejudicar o funcionamento da tireoide e a redução no metabolismo, aumentando o risco para o desenvolvimento de doenças crônicas: soja (interfere na absorção da tiroxina); açúcar e farináceos (diminuem a ingestão de vitaminas e minerais, que são necessários para o funcionamento adequado da glândula tireoide); óleos vegetais comuns e gordura trans (os hormônios T3 e T4 tireoidianos são importantes para síntese de colesterol); alguns hormônios esteroidais, como progesterona, pregnenolona e o DHEA (hormônio antienvelhecimento); alimentos industrializados (excesso no consumo de corantes e conservantes presentes em alimentos processados como bolachas e salgadinhos substituem os alimentos corretos); e hortaliças como repolhos, brócolis, couves em geral (couve-flor, couve-manteiga, couve-chinesa, couve-de-bruxelas), nabos, rabanetes e mostardas, quando ingeridos em grandes quantidades diariamente. 8 MARCADORES TUMORAIS E A AVALIAÇÃO BIOQUÍMICA DE TUMORES As células lábeis e estáveis podem se dividir por mitose, com a função de se renovar, já as células permanentes não possuem tal habilidade, pois seus núcleos não são providos dos meios necessários para dar início a essa divisão, caso dos neurônios e das fibras musculares estriadas. Quando ocorre a divisão descontrolada de um grupo celular falamos que essa proliferação leva a um tumor, que pode ser benigno ou maligno. 157 BIOQUÍMICA CLÍNICA Figura 60 – Esquema do ciclo celular com as fases Disponível em: https://bit.ly/3vMi6IP. Acesso em: 21 jun. 2021. No caso de um tumor benigno (neoplasia benigna), as células dividem-se normalmente, havendo o crescimento de um grupo de células semelhantes àquelas das quais se originaram. Nesse quadro, temos um prognóstico bom, e as células em excesso podem ser retiradas por meio de cirurgia, como no caso de lipomas (que ocorrem no tecido gorduroso), miomas (no tecido muscular liso) e adenomas (nas glândulas). No caso de um tumor maligno (câncer ou neoplasia maligna), a velocidade de proliferação do grupo celular é muito alta e incontrolável, com as células novas apresentando características próprias (ou seja, diferentes da célula que as originou); com a proliferação dessas células, enzimas e outras proteínas são produzidas de modo a influenciar vias metabólicas. Devemos salientar ainda a influência de fatores que propiciam essas mudanças, como hábitos pessoais não saudáveis, estresse e doenças crônicas, fatores os quais estimulam o crescimento do tumor. Pelo fato de estarem fracamente ligadas à matriz celular, tais células podem se desprender e invadir órgãos vizinhos ou até chegar ao sangue e invadir órgãos mais distantes (metástase). O tumor primário, quando tem aproximadamente2 milímetros, já fabrica proteínas e enzimas anormais influenciando vias de sinalização que geram mais tumores. Ao atingir 4 milímetros, já é possível detectar essas substâncias por meio de análises laboratoriais e de imagens. A grande questão é que o tempo para o tumor passar de 2 para 4 milímetros pode ser de meses a anos. 158 Unidade II O câncer (ou tumor maligno) pode ser não invasivo (ou in situ), caso em que essas células estão circunscritas a um único local, ou seja, não se espalharam, o que torna mais simples sua retirada por meio de um procedimento cirúrgico. Já o câncer invasivo pode iniciar metástase ou disseminação (como explicado anteriormente). Observação Existem várias teorias para o início da carcinogênese, entre as quais as modificações, por diferentes causas, em genes: modificações que inibem a proliferação celular (supressores de tumor), modificações que ativam a proliferação celular (chamados de proto-oncogenes e, quando ativados, oncogenes) e modificações de reparo do DNA. As causas de câncer são classificadas em externas e internas. No caso das externas, temos riscos ambientais como radiação, substâncias químicas, tabaco e até contaminação por alguns vírus. É necessário lembrar, ainda, que o próprio envelhecimento afeta o processo de divisão celular, aumentando as chances de erros nessas divisões e causando, consequentemente, genes mutados que irão progredir para um câncer. Quanto às causas internas, temos mutações genéticas (pois erros não serão corrigidos) e fatores hereditários. Alguns dos sintomas mais comuns que podem levar ao médico são: dor, fadiga, falta de apetite, constipação intestinal, vesículas na mucosa oral, diarreia e sangramento. Carcinomas são tipos de cânceres que estão em tecidos epiteliais (como pele ou mucosas), já os sarcomas estão nos tecidos conjuntivos (por exemplo, osso, músculo ou cartilagem). Ainda temos outros tipos de câncer, como leucemias (na medula óssea), linfomas e mielomas (no sistema imunológico). Quando se trata de um tumor benigno, usa-se o sufixo oma com a designação referente ao tipo de tecido acometido. Por exemplo, tecido cartilaginoso (condroma), tecido gorduroso (lipoma), tecido glandular (adenoma) – podendo-se, ainda, explicitar o local do câncer, como em “adenocarcinoma de pulmão”. No caso de tumores malignos, se o local acometido forem epitélios de revestimento, teremos carcinomas; no caso de epitélio glandular, teremos adenocarcinomas e, por fim, caso se trate de tecido conjuntivo, será adicionado o sufixo sarcoma (por exemplo, osteossarcoma – tecido ósseo). E, da mesma forma que em tumores benignos, pode-se explicitar o local do câncer, como osteossarcoma de fêmur. Para que o tratamento seja mais eficaz, o câncer deve ser detectado o quanto antes. Daí a importância da regularidade dos exames de checkup, uma vez que possibilitam o diagnóstico precoce. Recentemente, tornou-se mais comum o chamado rastreamento (ou screening), que examina proteínas ou genes alterados que, já se sabe, estão ligados ao câncer e, assim, analisar a chance de a doença se desenvolver. Para se confirmar que o tratamento, seja radioterapia ou quimioterapia, é adequado e está surtindo efeito (ou seja, para ter certeza de que a doença está controlada), os exames devem ser realizados de forma rotineira. 159 BIOQUÍMICA CLÍNICA 8.1 Vias de sinalização Todas as reações no organismo são desencadeadas por um estímulo. Havendo um fator de crescimento em quantidades e locais não usuais de um hormônio ou se agentes carcinogênicos ligarem-se a um receptor (como a tirosina quinase), proteínas serão estimuladas (fosforiladas ou nitradas), ativando outras e mais outras, até que um dos produtos chegue ao núcleo, ativando (ou inibindo) alguns genes relacionados com o ciclo celular. Esse processo, chamado de via de sinalização, caso desequilibrado, pode levar a célula a se transformar em câncer. SOS RAS RAF MEK ERK GRB2 DNA RNA Oncoproteínas Receptor Sinal Figura 61 – Esquema simplificado de uma via de sinalização que pode levar à formação de câncer 8.2 Diagnóstico Temos vários exames que podem identificar o câncer, como diagnóstico de imagem (ressonância, radiografia e tomografia), exame histopatológico e exames bioquímicos. Observação A União Internacional Contra o Câncer (UICC) preconizou um sistema de estadiamento chamado de Sistema TNM de Classificação dos Tumores Malignos. Para fazer a análise, deve-se examinar a sua extensão (T), a contaminação dos linfonodos perto de onde ele está (N) e a presença ou ausência de metástase a distância (M). Mediante o agravamento, há graduações: T0 a T4, N0 a N3 e de M0 a M1, respectivamente. 160 Unidade II 8.2.1 Marcadores tumorais (MT) As células normais ou neoplásicas produzem certas proteínas continuamente, sendo que, quando são produzidas em grande quantidade aumentada no sangue (periférico e medula) ou em outros fluidos corporais (como urina, liquor, líquido ascítico), passam a se relacionar com a malignidade (como enzimas, hormônios, por exemplo), e podem ser dosadas por vários métodos (bioquímicos, imunológicos, citológicos ou moleculares). A detecção por marcadores tumorais é muito mais precoce, pois, com poucas células, já se pode ter a confirmação (por imagem, a verificação só pode ser realizada quando o tumor já está com muitas células, ou seja, num estágio mais adiantado). A detecção precoce e o seu monitoramento após a cirurgia e o tratamento medicamentoso são fundamentais para eliminar o tumor, e os marcadores tumorais (MT) sensíveis e específicos podem ajudar nesse processo, junto com os exames de imagem. Em sua grande maioria, são detectados por quimiluminescência, mas também podem ser analisados por radioimunoensaio. Um bom marcador tumoral deve ter sensibilidade e especificidade superiores a 90%, ou seja, boa sensibilidade (capacidade em detectar precocemente a existência de um tumor) e boa especificidade (capacidade de mostrar-se negativo na ausência do tumor). Esses marcadores auxiliam no diagnóstico, não estando relacionados a um exame de prevenção de câncer. Vários marcadores tumorais podem estar aumentados em um único tipo de câncer, por conta das várias alterações moleculares que produzem várias proteínas. Nesse caso, aquelas liberadas em maior intensidade devem ser o melhor marcador para aquele tipo específico de tumor maligno. De maneira geral, podem ser separados mediante alguns pontos como os indicados a seguir. • Pelo produto das células tumorais (enzimas, hormônios, antígenos oncofetais, marcadores de superfície celular e produtos de oncogenes). DNA RNA Proteína TraduçãoTranscrição Replicação Transcrição reversa DNA Figura 62 – Esquema dos processos que envolvem os genes (DNA). Imaginando-se que ocorra uma mutação no DNA, tal mutação irá se propagar para o RNAm, modificando a proteína Adaptada de: https://bit.ly/3vELvEI. Acesso em: 21 jun. 2021. • Pela resposta da célula quando ela se transforma. Marcador tumoral celular: antígenos localizados na membrana celular, como o que ocorre na leucemia, como hormônios e receptores de fatores de crescimento; marcadores humorais: substâncias que são sintetizadas pelo tecido tumoral ou substâncias formadas pelo organismo em reação ao tumor; marcadores genéticos: que são superexpressos e codificam para proteínas do desenvolvimento tumoral. 161 BIOQUÍMICA CLÍNICA Observação A evidência de que uma substância poderia estar relacionada com o aparecimento de câncer ocorre desde 1847, quando Bence Jones verificou que pacientes com mieloma múltiplo sempre apresentavam uma determinada proteína na urina, detecção de sangue oculto nas fezes e hipercalcemia. Mais recentemente, em 1979, isso é detectado pelo aumento de antígeno prostático específico (PSA) no sangue de pacientes com câncer na próstata. Atualmente há estratégias relacionadas com as técnicas de genômica, proteômica e metabolômica para diagnóstico do câncer. Na genômica, estudam-se alteraçõesem genes modificados em diversos tumores, por exemplo, BRCA1/2, HER-2, HE-4, BCR/ABL, BRAF V600 (restritos a um tipo/localização de tumor) e p53, MYC, RAS (associados para mais de um tipo de tumor). Na proteômica, estudam-se quais proteínas estariam afetadas antes de o tumor se desenvolver e quando ele está ativo, fato que levaria a um checkup de prevenção e ao acompanhamento da evolução do tumor. Na metabolômica, é estudado o metabolismo da célula do câncer, enfatizando a análise de vias de sinalização (genômica) e produção de proteína ou enzimas (proteômica). Marcadores tumorais: enzimas Vejamos a seguir algumas das principais enzimas que são marcadores tumorais. • LDH (ou lactato desidrogenase): é uma enzima do metabolismo dos carboidratos (fermentação lática), liberada quando ocorre lesão ou destruição celular. Sua concentração no sangue é alta em quase todos tipos de câncer (como também em muitas outras doenças), portanto não pode ser usada para diagnosticar um tipo particular de câncer. Níveis séricos elevados: vários tipos de câncer (como leucemias, linfomas não Hodgkin, câncer de fígado, testículo, mama, estômago, cólon, pulmão e neuroblastoma). Algumas situações podem interferir em uma análise correta como hepatite, infarto agudo do miocárdio, anemias hemolíticas, lesões musculares, drogas ou medicamentos como aspirina, narcóticos, álcool e anestésicos. • Catepsina D-enzima: é produzida por certas células de câncer de mama que indicam prognóstico ruim, pois sugere-se que a catepsina D degrada os proteoglicanos da matriz da membrana basal estimulando a angiogênese e a metástase, consequentemente, o espalhamento do câncer. Níveis séricos aumentados: câncer de mama. • Enolase neuroespecífica (NSE): enzima glicolítica encontrada em tecido neuronal e nas células do sistema neuroendócrino. Sua determinação pode ajudar no diagnóstico e na avaliação da resposta ao tratamento. Níveis séricos elevados: neuroblastoma, câncer de pulmão de pequenas células, câncer medular de tireoide, tumores carcinoides, tumores endócrinos pancreáticos e melanoma. 162 Unidade II • Fosfatase ácida postática (PAP): inicialmente descoberta na próstata, mas pode ser encontrada em eritrócitos, plaquetas, leucócitos, medula óssea, osso, fígado, baço, rim e intestino. Níveis séricos elevados: câncer de próstata, osteossarcoma, hiperparatireoidismo, mieloma múltiplo e metástases ósseas de outros tumores, mas também pode estar elevada em hipertrofia prostática benigna (HPB), osteoporose (espalhado pelo osso), por essa razão, foi substituída por PSA. • Fosfatase alcalina placentária (PLAP): produzida a partir da 12ª semana de gestação pela placenta, mas indivíduos fumantes também podem apresentar elevação no sangue. Níveis séricos elevados: seminomas (surgem dentro das gônadas, testículos ou ovários), câncer de ovário, testículo, pulmão e trato gastrointestinal. • Fosfatase alcalina (ALP): encontrada em fígado, ossos, rins, intestino e placenta, mas as maiores concentrações de fosfatase alcalina estão no fígado e nos ossos. Níveis séricos elevados: câncer hepático primário ou metastático, câncer ósseo, leucemias, sarcomas e linfomas com infiltração hepática. • Creatina quinase (CK-BB) ou creatina fosfoquinase (CPK): possui três isoenzimas (CK-MM, CK-MB e CK-BB, relacionadas com músculo esquelético, cardíaco e cerebral, respectivamente). A CK-BB pode ser encontrada principalmente no cérebro, mas também nos pulmões. Níveis séricos elevados: câncer de cérebro, de pulmão de pequenas células, de seio, de ovário e de rim. Marcadores tumorais: hormônios Vejamos a seguir alguns dos principais hormônios que são marcadores tumorais. • Calcitonina: produzida pela glândula tireoide quando a calcemia está elevada, inibindo a liberação de cálcio pelo osso e diminuindo o nível do cálcio sérico. Níveis séricos elevados: câncer de mama, carcinoide, hepatoma, hipernefroma, câncer de pulmão, gastrinoma, tumores gastrointestinais e o carcinoma medular da tireoide, mas pode se apresentar elevada em outras situações, como doença não malígna do pulmão, pancreatite, doença de Paget óssea, hiperparatireoidismo e mesmo durante a gravidez. • Tireoglobulina: glicoproteína produzida pelas células foliculares da tireoide. Níveis séricos aumentados: pode ser doença maligna ou benigna na tireoide. Geralmente é feita também a varredura com iodo marcado (I131) para confirmar alguma suspeita. • Catecolaminas: sintetizadas na medula da suprarrenal ou no cérebro, a epinefrina (adrenalina), norepinefrina (noradrenalina) e a dopamina. Podem ter efeitos excitatórios ou inibitórios do sistema nervoso periférico e do sistema nervoso central. Dosam-se os metabólitos desses compostos como ácido vanilmandélico-VMA e ácido homovanílico-HVA. Geralmente excretados na urina. Níveis séricos aumentados: pacientes com neuroblastoma. 163 BIOQUÍMICA CLÍNICA • ACTH (adrenocorticotrófico): hormônio produzido pela hipófise que estimula a produção de cortisol. Níveis séricos aumentados: câncer de pâncreas, mama, estômago, cólon carcinoma de pequenas células do pulmão, mas pode estar aumentado em condições benignas como DPOC, depressão mental, obesidade, hipertensão, diabetes mellitus e estresse. • Serotonina (5-HIAA): a partir do aminoácido triptofano é produzida a serotonina, neurotransmissor que regula vários processos bioquímicos como sono e humor. Níveis séricos aumentados: síndrome carcinoide (conjunto de sintomas provenientes de tumores neuroendócrinos, especialmente aqueles do intestino delgado). O aumento de 5-HIAA, excretado pelo rim, pode ocorrer por pessoas que ingeriram alimentos ricos em serotonina como banana, quiuí, abacate e nozes. Marcadores tumorais: glicoproteínas Vejamos a seguir algumas das principais glicoproteínas que são marcadores tumorais. • Antígeno carcinoembrionário (CEA ou ACE): encontrado na superfície da membrana celular, mas pode ser encontrada também no sangue de pessoas saudáveis. Níveis séricos aumentados: câncer de cólon, pâncreas (pancreatite), estômago (úlcera péptica), pulmão (bronquite), mama, mas também em fumantes, pessoas com colite ulcerativa, diverticulite, doença inflamatória intestinal e doenças do fígado (alcoolismo, hepatite crônica ativa, doença biliar primária e infecção do pulmão). • Alfafetoproteína (AFP): proteína fetal com pico na 14ª semana de gestação, diminuindo perto do nascimento e com meia-vida sérica de aproximadamente cinco dias; fica baixa em crianças e adultos saudáveis. Níveis séricos aumentados: adultos com carcinoma hepatocelular ou câncer de célula germe de ovário ou testículo (câncer que começa nas células que dão crescimento aos óvulos e aos espermas), mas apresenta-se alto também em gestação, hepatite e cirrose. Pode avaliar também o estágio, o prognóstico e a resposta à terapêutica. • Gonadotrofina coriônica (ß-hCG): hormônio normalmente produzido pela placenta, com meia vida de 12 a 20 horas. Níveis séricos aumentados: tumores de pulmão, mama, trato gastrointestinal, ovário, testículo, pâncreas, melanoma e doenças linfoproliferativas, mas pode estar elevado em doenças benignas como doença inflamatória do intestino, úlceras duodenais e cirrose, além de ser usado para confirmar gestação. Pode ser usado para avaliar o estágio, o prognóstico e a resposta à terapêutica. • Antígeno prostático específico (PSA): glicoproteína produzida pela próstata com alterações benignas ou malignas com meia-vida sérica entre dois e três dias. Níveis séricos aumentados: câncer de próstata, inclusive usado para monitorar o tratamento câncer de próstata, mas também em hipertrofia prostática benigna, prostatite, trauma, manipulação da próstata e ejaculação. 164 Unidade II • Antígeno do carcinoma de células escamosas (SCC-A ou SCC-Ag): glicoproteína encontrada na superfície celular. Níveis séricos aumentados: câncer de cabeça e pescoço (células escamosas), carcinomas de células escamosas do colo uterino, pulmão, cabeça epescoço, apesar de ter baixa especificidade e sensibilidade em estágios precoces. Marcadores tumorais: mucinas São antígenos com alto peso molecular e conteúdo em carboidratos que varia de 60 a 80%. Células presentes na superfície epitelial expressam essas glicoproteínas. • Antígeno carboidrato (CA 15-3): encontrado na superfície celular. Níveis séricos aumentados: câncer de mama (mais sensível e específico, sendo superior ao CEA (antígeno carcinoembrionário), pâncreas, pulmão, fígado, ovário e colo uterino ou em doenças benignas de mama, hepatopatias e pulmão. • Antígeno mucoide (MCA): encontrado também na superfície celular. Níveis séricos aumentados: carcinoma mamário, câncer de ovário, colo uterino, endométrio e próstata. Contudo, pode aumentar durante a gravidez e em doenças benignas de mama. Ocorre a correlação entre esse marcador e níveis de CA 15-3. • Antígeno carboidrato 19-9 (CA 19-9): encontrado na superfície celular do trato gastrointestinal. Níveis séricos aumentados: câncer gastrointestinal, pulmão, pâncreas, ovários, colorretal, vesícula e duto biliar, mama, pulmão e cabeça e pescoço, mas também em endometriose, cirrose hepática, pancreatite, doença inflamatória intestinal e doenças autoimunes. Pode ser usado no prognóstico e monitoração da terapia. • Antígeno associado ao tumor da bexiga (bladder tumor antigen – BTA): usando urina, dosa-se essa proteína superficial da mucosa de células cancerosas da bexiga, mas não por normais. Níveis séricos aumentados: tumores de bexiga, mas pode ter valor elevado em litíase urinária, irritação da bexiga e sonda vesical por período longo. • Dupan-2: antígeno glicoproteico que, em combinação com CA 19-9, pode constatar o câncer de pâncreas. Níveis séricos aumentados: câncer de pâncreas e do trato gastrointestinal, mas também em situações benignas do sistema hepatobiliar. • CA-125: antígeno glicoproteico de alto peso molecular presente na superfície celular do carcinoma ovariano e que tem meia-vida sérica de cerca de quatro dias. Níveis séricos aumentados: principalmente para câncer de ovário, mas pode ser útil em câncer de endométrio, pâncreas, estômago, fígado, cólon, reto, mama e pulmão. Pode também dar positivo em situações de ovulação, gravidez, endometriose, cistos de ovário, cirrose hepática. É usado tanto em análise do prognóstico, terapêutica, como em avaliação do sucesso cirúrgico. • Antígeno carcinoembriogênico (CEA): quando elevado no sangue denota câncer colorretal e vários tipos de câncer, mas outras situação não patológicas podem elevar essa proteína no sangue, como tabagismo, doença de Crohn, hepatopatias e insuficiência renal. Usado para avaliar o tratamento e no monitoramento do tumor. 165 BIOQUÍMICA CLÍNICA • CA-50: glicoproteína expressa na maioria dos carcinomas epiteliais como câncer gastrointestinal e de pâncreas. Sua sensibilidade e especificidade são muito semelhantes à do CA 19-9 no que se refere ao câncer de pâncreas e gastrointestinal. Níveis séricos aumentados: tumores gastrointestinais, câncer de mama, ovário, mas pode estar elevado em outras doenças como pancreatite e doenças hepáticas. • CA 72-4 (ou TAG 72): antígeno relacionado com o aparecimento de câncer de cólon, estômago, pâncreas e trato digestivo e câncer de ovário. A pesquisa dessa proteína auxilia na percepção de recidiva do câncer, mas outras situações também podem alterar seus níveis, como hepatopatias, pancreatite e inflamações gastrointestinais. Marcadores tumorais: moléculas do sistema imunológico Vejamos a seguir algumas das principais moléculas do sistema imunológico que são marcadores tumorais. • B2 microglobulina (B2-MG): proteína que se relaciona com prognóstico ruim de pacientes com linfoma. Níveis séricos aumentados: mieloma múltiplo, linfoma e tumores sólidos, bem como doenças não malignas. Níveis séricos elevados: mieloma múltiplo, leucemia linfocítica crônica e alguns linfomas. Essa determinação leva ao prognóstico e contribui para o monitoramento do tratamento. • Imunoglobulinas: em determinados tumores pode ocorrer o aparecimento de imunoglobulinas anormais (gamopatias). Níveis séricos aumentados: mieloma múltiplo. Pode auxiliar no diagnóstico e na avaliação da terapia. Entre os marcadores mais recentes usados na prática do laboratório de análises clínicas, podemos citar: • Anaplastic lymphoma kinase (ALK): oncogene encontrado direto no tumor onde é pesquisada a alteração tipo rearranjo (mais comum: inversão e translocação do braço curto do cromossomo 2) e hiperexpressão do gene ALK. Essa alteração ocorre em linfoma anaplástico de células grandes, câncer de pulmão de células não pequenas. Com esse resultado, o médico pode determinar o tipo de tratamento e o prognóstico. • Human epidermal growth fator receptor 2 (HER-2): oncogene analisado direto do tumor onde é pesquisada a hiperexpressão (ou amplificação) do gene HER-2. Essa alteração ocorre em câncer de mama e gástrico. Com esse resultado, o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. • Epidermal growth factor receptor (EGFR): oncogene pesquisado direto no tumor onde se pesquisa hiperexpressão (ou amplificação) do gene EGFR. Essa alteração ocorre em câncer de pulmão de células não pequenas, principalmente. Com esse resultado, o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. 166 Unidade II • B protein of rapidly accelerated fibrosarcoma valine (BRAF V600): oncogene pesquisado direto no tumor que foi ativado por uma mutação (do tipo substituição) do aminoácido valina por ácido glutâmico na posição 600 da proteína Raf. Essa alteração ocorre em câncer do tipo melanoma cutâneo e câncer colorretal. Com esse resultado, o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. • K-Ras: oncogene pesquisado direto no tumor que, quando é ativado, leva à hiperexpressão de várias vias de sinalização. Essa alteração ocorre em câncer do tipo colorretal e câncer de pulmão de células não pequenas. Com esse resultado, o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. • Breast cancer do tipo 1/tipo 2 (BRCA1/BRAC2): proteínas supressoras de tumor, mas, caso ocorra alteração no gene do tipo hipoexpressão, não há proteção contra o desenvolvimento de alguns tumores (ou seja, não ocorre reparo do DNA defeituoso e a célula não vai para apoptose). Quando essa alteração no sangue é constatada, trata-se de um sinal de que há câncer de ovário. Com esse resultado o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. • p53: proteína supressora de tumor que leva a célula à apoptose caso ocorra alguma modificação no ciclo celular que leve ao aparecimento de uma célula cancerosa. Se ocorrer mutações nesse gene, a proteína não consegue mais salvaguardar o conteúdo do genoma. Caso ocorra aumento de p53 no sangue, sugerem-se câncer esofágico, colorretal, pâncreas, mama e carcinoma hepatocelular, principalmente. Tal exame não só pode confirmar diagnóstico, mas monitorar esses tipos de câncer. • Fusão de gene BCR e ABL (BCR/ABL): quando não há separação correta das cromátides (ocorre translocação) e os dois genes ficam unidos, surge o cromossomo anormal (Ph). Sua pesquisa é realizada no sangue e/ou medula óssea e detecta leucemia mieloide crônica, leucemia linfoblástica aguda e leucemia mieloide aguda. Com esse resultado o médico pode determinar o diagnóstico, tratamento específico e o prognóstico. • Cromossomos 3, 7, 17 e 9p21: aberrações cromossômicas do tipo aneuploidia nesses cromossomos podem significar presença de câncer de bexiga. A pesquisa pode ser feita usando urina e com a ajuda da citogenética usando a técnica de Fish (hibridização in situ). Com esse resultado o médico pode determinar o diagnóstico, o tratamento específico e o prognóstico. • Telomerase: enzima que coloca sequências específicas e repetitivas de DNA no telômero (extremidade 3’ dos cromossomos), aumentando a concentração de ribonucleina. Usando-se biologia molecular (PCRem tempo real) em urina ou sangue, pesquisa-se transcriptase reversa de telômero humano (hTERT mRNA), que é marcadora da atividade de telomerase. Esse exame não só pode confirmar diagnóstico, mas monitorar o câncer de bexiga e colorretal. • Proteínas solúveis 100 (S100): proteínas sanguíneas que se ligam ao cálcio e são classificadas em S100A1, S100A4 até S100A12. Alteração pesquisada: concentração de S100. Sua elevação 167 BIOQUÍMICA CLÍNICA pode ser verificada em melanoma cutâneo, câncer colorretal, sarcomas, astrocitomas, e câncer gastrointestinal. Esse exame não só pode confirmar diagnóstico, mas também está associado com a verificação de metástases nos linfonodos. • Cytokeratin fragments 19 (Cyfra 21.1): proteínas presentes no citoesqueleto do tecido epitelial. Proteínas dosadas no sangue do paciente cujo aumento está relacionado com câncer de pulmão e de mama, principalmente, mas pode se elevar em patologias não malignas do pulmão e da mama. Tal exame está relacionado com a monitoração desses tipos de câncer. • Proteína da matriz nuclear 22 (NMP22): fibras que formam um envelope nuclear. Caso ocorra aumento na concentração de NMP22 na urina, principalmente, sugere-se câncer de bexiga. Com esse resultado, o médico pode determinar o tratamento específico e o prognóstico. • M2-piruvato quinase (M2-PK): enzima da glicólise que catalisa a formação de piruvato, mas a fosforilação de M2-PK a transloca para o núcleo e influencia a expressão gênica. Na pesquisa de fezes, se positivado, é sinal de câncer colorretal. Com esse resultado, o médico pode monitorar o tumor. • Cromogranina A: proteína analisada no sangue que se relaciona a tumores neuroendócrinos que auxilia no diagnóstico e no tratamento. Níveis elevados: feocromocitoma, síndrome carcinoide, carcinoma medular da tireoide, adenoma hipofisário, carcinoma das ilhotas do pâncreas e neoplasias endócrinas múltiplas e tumores neuroendócrinos. • Terminal deoxynucleotidyl transferase (TdT): enzima cuja expressão elevada pode ser dosada no sangue e caracteriza leucemias e linfomas. • Fibrina/Fibrinogênio (FDP): produtos de degradação de fibrina e fibrinogênio. O nível elevado na urina é diagnóstico de câncer de bexiga. O monitoramento leva à análise da resposta ao tratamento e progressão do tumor. • Proteína histônica de número 67 (KI 67): proteína nuclear relacionada com câncer de mama e próstata diretamente ligada ao grau de proliferação celular. • Programed death ligand 1 (PD-L1): proteína do sistema imunológico que ocorre nos linfócitos T que induzem as células à morte quando ativada. Certas linhagens tumorais produzem proteínas estimuladoras de PD-L1 que causam a morte de linfócitos citotóxicos, tornando os tumores mais agressivos devido à diminuição da imunidade celular do paciente. Níveis séricos elevados: câncer de pulmão de células não pequenas, melanoma, câncer de rim e câncer de bexiga, entre outros. Com esse resultado o médico pode analisar se a terapia está correta. 168 Unidade II Resumo Nesta unidade, vimos que o pâncreas é uma glândula com funções endócrina e exócrina. A parte exócrina está relacionada com as enzimas do suco gástrico, e a endócrina, principalmente, com insulina e glucagon. Entendemos também que a insulina é um hormônio hipoglicêmico e o glucagon, hiperglicêmico. Compreendemos que quando o pâncreas não funciona corretamente, doenças são desencadeadas, como hiperglicemias (diabetes mellitus 1 e 2 e diabetes gestacional), intolerância à glicose, resistência à insulina, hipoglicemia e pancreatite. Para diagnosticar a patologia e seguir com o tratamento, devem-se fazer exames do pâncreas exócrino, como determinações enzimáticas da amilase. Nesta unidade também pudemos estudar a importância do fígado e compreender de forma clara os principais testes e exames laboratoriais empregados na avaliação das patologias hepáticas e do sistema hepatobiliar. Discutiu-se o metabolismo dos principais compostos nitrogenados não proteicos e o metabolismo das bilirrubinas e a associação com as icterícias Compreendemos a importância dos lipídios, foram abordadas as principais alterações do metabolismo lipídico, a inter-relação metabólica das lipoproteínas plasmáticas e os mecanismos bioquímicos de relevância da aterogênese e nas dislipidemias. Foram estudados os fatores associados com o surgimento e o agravamento das doenças cardíacas. Compreendemos os princípios gerais e reconhecemos as principais enzimas relevantes no diagnóstico de infarto agudo do miocárdio, tais como creatina quinase, troponina, mioglobina, entre outras; bem como os parâmetros para uma melhor avaliação de transtornos musculares. Os íons cálcio e fósforo são muito importantes, pois não estão apenas relacionados com a saúde dos dentes e dos ossos, mas tem outras funções. Devem ser ingeridos com os alimentos e, caso a ingestão seja insuficiente, deve-se complementar com complexos vitamínicos e de sais minerais. A vitamina D é a mais importante neste capítulo, sendo sintetizada na pele e ativada por raios solares UVB, produzindo vitamina D3 e em menores 169 BIOQUÍMICA CLÍNICA quantidades pela dieta (vitamina D2). O fígado e os rins processam esta vitamina, colocando o radical hidroxila na posição 1 e 25 (chamada de 1,25 dihidroxivitamina D) ficando ativa. Entre os hormônios mais importantes neste capítulo podemos citar calcitonina (hormônio hipocalcemiante) e paratormônio (hormônio hipocalcemiante e hipofosfatemiante). Ligadas ao metabolismo do cálcio e fosforo estão as glândulas tireoide e paratireoide, que quando estão em hiperfuncionamento ou hipofuncionamento causam várias doenças. O ferro é um elemento químico extremamente importante para o metabolismo celular. Uma das principais causas da deficiência de ferro se dá através da carência nutricional. No entanto, níveis ainda abaixo do valor de referência podem levar a estados graves da anemia; e em contrapartida, alterações genéticas podem levar à sobrecarga de ferro, como a hemocromatose. Em termos clínicos do ponto de vista fisiopatológico, há parâmetros importantes que podem ser determinados para fins de prognóstico e, dessa forma, esses resultados laboratoriais podem contribuir para o sucesso do tratamento. Entre estes parâmetros podemos citar a dosagem de ferro sérico, transferrina, ferritina, TIBC e saturação de transferrina, cujas respectivas correlações são determinantes para o diagnóstico diferencial. Este capítulo apresenta informações sobre marcadores tumorais e cada vez que uma nova pesquisa ocorre, mais marcadores e mais entendimento sobre essa complexa doença ocorre. A especificidade e sensibilidade de alguns MT levaram os médicos a desconfiar da reprodutibilidade de alguns resultados, principalmente com o advento de exames de imagem cada vez mais evoluídos, mas devemos lembrar que quando se percebe em imagem este tumor já está grande demais e, dessa forma, o tratamento pode ser mais demorado ou ineficiente. Quanto mais se pesquisa o câncer, mais proteínas e vias de sinalização são alvo de futuros marcadores tumorais. 170 Unidade II Exercícios Questão 1. Leia o infográfico e o texto a seguir. Figura 63 Diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica crônica não transmissível, de origem multifatorial, caracterizada pela elevação permanente dos níveis glicêmicos decorrente da ausência e/ou incapacidade da insulina de exercer sua função fisiológica, gerando uma série de complicações e disfunções de órgãos essenciais. É considerada como uma epidemia mundial e um problema de saúde pública, com crescente prevalência e considerada em todo o mundo. As estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre DM sugerem que a doença foi responsável por 1,4 milhão de óbitos em 2011. Apontam ainda que, entre 2010 e 2030, haverá um aumento de 69% no número de adultos com DM nos países em desenvolvimento e de 20% nos países desenvolvidos. Até 2025, a expectativa é de 350 milhões de pessoasacometidas pela doença em 2025 e no Brasil serão 18,5 milhões. Em idosos, o DM tem sido encontrado em incidências que variam de 18,6% a 23,5% em pesquisas realizadas no Brasil. O aumento da expectativa de vida em idosos, quando associados a hábitos de vida inadequados, consequentemente reflete uma maior incidência de doenças crônicas nessa população, especialmente, o DM. LIMA, L. R. D. et al. Qualidade de vida e o tempo do diagnóstico do diabetes mellitus em idosos. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 21, n. 2, p. 176-185, 2018. 171 BIOQUÍMICA CLÍNICA As informações dadas fazem referência ao avanço do diabetes em nossa sociedade e desperta nossa atenção para a seriedade com a qual essa doença deve ser tratada. Avalie as afirmativas a seguir elaboradas sobre esse tema. I – Quando o nível da glicose abaixa no sangue é porque as ilhotas alfa de Langerhans bloqueiam a produção de glucagon, hormônio que é antagônico à insulina; isso causa diminuição da glicemia, quebra do glicogênio hepático e acúmulo de glicose pelas células do fígado. II – Para sabermos sobre o funcionamento do pâncreas exócrino, devemos entender os hormônios produzidos, a insulinemia e a determinação de glucagon no sangue ou as reações que levem aos seus funcionamentos. III – Para sabermos como está a função endócrina do pâncreas, devemos dosar as enzimas pancreáticas no soro, como a lipase e a amilase. Sobre as afirmativas apresentadas, assinale a alternativa correta. A) Apenas a I é correta. B) Apenas a II é correta. C) Apenas a I e a II são corretas. D) Todas são corretas. E) Todas são incorretas. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: algumas etapas mencionadas na afirmativa estão erradas. Se o nível de glicose abaixa no sangue é porque as ilhotas alfa de Langerhans são estimuladas a liberar (e não a bloquear a produção) glucagon, hormônio que é antagônico à insulina; isso causa aumento da glicemia pela quebra do glicogênio hepático e pela liberação de glicose pelas células do fígado. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: para sabermos como está a função exócrina do pâncreas, devemos dosar as enzimas pancreáticas no soro, como a lipase e a amilase. 172 Unidade II III – Afirmativa incorreta. Justificativa: para sabermos sobre o funcionamento do pâncreas endócrino, devemos entender os hormônios produzidos, a insulinemia e a determinação de glucagon no sangue ou as reações que levem aos seus funcionamentos. Questão 2. Leia o texto a seguir. Um dos grandes desafios a ser considerado no país é o envelhecimento de sua população. A osteoporose e as fraturas por fragilidade destacam-se pelos altos custos à saúde pública, impactando negativamente na qualidade de vida dos idosos. Nos estudos nacionais, a prevalência relatada de osteoporose entre mulheres pós-menopáusicas varia de 15,0% a 33,0%. Em geral, essas pesquisas também mostram elevada prevalência de todos os tipos de fratura por fragilidade óssea, variando de 11,0% a 23,8%; e moderada incidência de fratura de quadril em indivíduos acima de 50 anos de idade. Objetivando evitar essas complicações, diversos estudos europeus, norte-americanos e asiáticos têm mostrado a relevância clínica de ferramentas de avaliação que possam ser usadas para discriminar indivíduos com maior risco de desenvolver osteoporose. Algumas dessas ferramentas, por exemplo, a estimativa calculada simples de osteoporose (Score) e o índice belga de risco de osteoporose (Osiris), indicam que a identificação precoce dos fatores de risco seria a principal meta na introdução de estratégias efetivas de prevenção da osteoporose, os quais foram considerados na elaboração desse aplicativo denominado OSTEOGUIA. BERNARDI, H. L. F.; MOTTA, L. B. D. Desenvolvimento de aplicativo como ferramenta de apoio à investigação e prevenção de osteoporose. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 21, n. 4, p. 408-418. 2018 (com adaptações). Com base na leitura e nos seus conhecimentos, avalie as asserções e a relação entre elas. A osteoporose não apresenta manifestações clínicas específicas. Assim, o histórico clínico e o exame físico detalhados são fundamentais para que sejam identificados os fatores que contribuem para a perda de massa óssea e para que sejam excluídas as causas secundárias de osteoporose. Alguns fatores de risco são passíveis de reversão. porque A osteoporose pode, geralmente, ser prevenida e tratada gerenciando os fatores de risco, garantindo a adequada ingestão de cálcio e de vitamina D e realizando a prática de exercícios de suporte de peso e a ingestão de bifosfonatos ou outros medicamentos. 173 BIOQUÍMICA CLÍNICA Assinale a alternativa correta. A) A primeira asserção é falsa, e a segunda asserção é verdadeira. B) A primeira asserção é verdadeira, e a segunda asserção é falsa. C) As duas asserções são verdadeiras, e a segunda asserção justifica a primeira. D) As duas asserções são verdadeiras, e a segunda asserção não justifica a primeira. E) As duas asserções são falsas. Resposta correta: alternativa C. Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: de fato, a osteoporose corresponde a uma condição do ser humano em que ocorre redução da densidade dos ossos, enfraquecendo-os a tal ponto que se torna uma pré-condição importante para fraturas. Essa alteração nos ossos não causa sintomas e avança silenciosamente até que ocorre o infortúnio de uma fratura decorrente de traumas como quedas e batidas. Os fatores de risco mais importantes relacionados à osteoporose e às fraturas na pós-menopausa são: idade, sexo feminino, etnia (branca ou oriental), história prévia pessoal e familiar de fratura, baixa densitometria óssea (DMO) do colo de fêmur, baixo índice de massa corporal, uso de glicocorticoide oral, fatores ambientais (inclusive o tabagismo), ingestão abusiva de bebidas alcoólicas, inatividade física e baixa ingestão dietética de cálcio. Todos os pacientes com diagnóstico de osteoporose devem ser avaliados para fatores de risco (já mencionados) antes do início do tratamento para a osteoporose e para as fraturas, por meio de histórico, de exames físicos minuciosos e de exames laboratoriais mínimos. Em casos de suspeita clínica, testes laboratoriais específicos devem ser solicitados para o diagnóstico de causas de osteoporose secundária. Para tal diagnóstico, é preciso que, a partir de determinada idade, as pessoas busquem orientação médica com a intenção de avaliar seu histórico clínico e realizar exame físico detalhado. Recomenda-se, para todos os pacientes, antes do início de qualquer tratamento, uma avaliação laboratorial mínima, que inclua hemograma completo, cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, função tireoidiana e dosagem de 25(OH), vitamina D sérica e calciúria de 24 horas, além de radiografia simples lateral da coluna torácica e lombar e medidas da DMO na coluna lombar e no fêmur proximal. II – Asserção verdadeira. Justificativa: avaliando-se os fatores de risco mencionados na justificativa anterior, percebe-se que é possível intervirmos neles e modificá-los com o estímulo da prática de atividade física, o abandono do tabagismo e a restrição de medicações sedativas e hipnóticas e de outros motivos que possam reduzir a massa óssea. Além disso, pode-se atuar no sentido de corrigir déficits visuais e de implantar medidas para minimizar o risco de quedas. 174 REFERÊNCIAS Textuais ALBERT, C. L.; TANG, W. H. W. Metabolic biomarkers in heart failure. Heart Failure Clinics, n. 14, v. 1, p. 109-118, 2018. ALMEIDA, J. R. C. et al. Marcadores tumorais: revisão de literatura. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 53, n. 3, p. 305-316, 2007. AMERICAN GASTROENTEROLOGICAL ASSOCIATION (AGA). American Gastroenterological Association medical position statement: evaluation of liver chemistry tests. Gastroenterology, v. 123, n. 4, p. 1364-1366, 2002. ANDERSON, T. J. et al. 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