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AGRONEGÓCIO: Conceito e Evolução JANEIRO DE 2022 AG RO : C O N CE IT O E E VO LU ÇÃ O AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP Agronegócio é a expressão que resulta da fusão de agricultura e negócio. Este termo – negócio – vem originalmente do latim “negotium” (negação do ócio) e tem o significado de ocupação ou trabalho visando a atingir determinados fins para satisfação de desejos ou necessidades de quem os executa ou de outrem; neste último caso, mediante al- guma recompensa aos executores. Agricultura ou agropecuária (usados aqui como sinônimos), por sua vez, relaciona-se ao cultivo da terra e recursos naturais em geral, seja para produ- ção vegetal – grãos, frutas, legumes e verdu- ras, fibras, madeira – ou animal – produtos da bovinocultura, suinocultura, avicultura, pesca. As produções vegetal e animal resul- tantes do emprego direto de recursos naturais são classificados como matérias primas – assim como os minérios - e visam ao atendimento - como tal ou transformadas - das necessida- des e desejos da população. Como exemplo, o leite é a matéria prima à que vão se com- binar outros insumos para que se transforme em queijo. De fato, a matéria prima é um tipo especial de insumos – todos desaparecerão no processo produtivo – com a particularida- de de provir diretamente do uso de recursos naturais. Estes, recursos naturais, podem ser agrupados em biológicos (animais e vegetais), minerais (inclusive petróleo), hídricos e outros energéticos (provenientes do sol e do vento). Considerando a origem do termo, agronegócio envolve necessariamente ativi- dades econômicas relacionadas à agricultura. O termo negócio pode ser tomado num senti- do amplo de geração de valor através do uso do trabalho e do capital; no caso do agrone- gócio, englobam-se a agropecuária e demais segmentos produtivos a ela relacionados. Ao longo dos séculos, a urbanização afastava a produção agropecuária do seu consumo. Mui- tas atividades, antes realizadas no campo ou no meio rural (visando ao consumo local), fo- ram se afastando espacial e temporalmente e ganharam expressão econômica própria, com expansão de atividades de transporte, proces- samento, armazenamento, comerciais e finan- ceiras, sem perder os vínculos técnicos e eco- nômicos de origem. O conceito de agronegócio presta-se para resgatar essa interdependência aparentemente perdida, quando, na verdade, negócios agrícolas existem há milênios. Pode-se dizer que agronegócio inclui todas as ativida- des econômicas (industriais e de serviços) que não existiriam se a agropecuária não existisse. As origens da agricultura e do agrone- gócio situam-se ainda no período neolítico, há até cerca de dez mil anos, quando sementes e mudas naturais passaram a ser cultivadas e ani- mais, domesticados. As primeiras atividades de reflorestamento e cultivo de árvores se deram há cerca de cinco mil anos. Alimentos, fibras e peles obtidos por populações nômades, pro- vinham até então da caça e coleta a partir da AGRONEGÓCIO: Conceito e Evolução Por Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros Coordenador Científico do Cepea-Esalq/USP 1 Este texto trata-se de uma versão estendida de: BARROS, G. S.A. C. Agronegócio. In: Di Giovanni, G. & M.A. Nogueira. (Org.). DICIONÁRIO DE POLÍTI- CAS PÚBLICAS. 1ª. Ed. São Paulo: FUNDAP - Imprensa Oficial de São Paulo, 2013, v. 1, p. 76-79. 1 1. Etimologia e evolução histórica do conceito de agronegócio AG RO : CO N CEITO E EVO LUÇÃO AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP fauna e da flora disponibilizados pela natureza. Mesmo nessa fase essencialmente extrativista, a obtenção daqueles produtos se dava através de negócios rudimentares, no sentido de que envolvem formas elementares de organização para uso de recursos produtivos ou fatores de produção (trabalho, capital primitivo e recur- sos naturais) visando à obtenção de produtos úteis (alimentos, vestimentas, habitação, etc.) para o ser humano e, portanto, providos de va- lor de uso, na linguagem marxista. Essa forma de negócio extrativista subsistia na medida em que agregava valor aos bens disponíveis na na- tureza pela aplicação dos fatores de produção. O surgimento da agricultura significou maior segurança ou previsibilidade de abas- tecimento, que passava a depender menos do acaso e mais da atuação preventiva e prepara- tória em antecipação ao consumo dos produtos desejados. A organização da produção conti- nha mais planejamento e a atividade, embora mantivesse padrão itinerante, tendeu a se dar em locais específicos, favorecendo a formação de núcleos habitacionais e populacionais e de estruturas sociais bastante influenciadas pela posse da terra, base da atividade econômica. Na Idade Média, o comando, ou ad- ministração, da atividade produtiva ficou nas mãos dos detentores dos fatores de produ- ção, notadamente a terra, caracterizando-se o sistema feudal. Com a Idade Moderna, século XVI, o protagonismo do Estado, sob o mer- cantilismo, se acentuou. O avanço do pro- cesso de colonização nas Américas, na Ásia e na África, foi possível graças ao desenvolvi- mento dos meios de transportes terrestres e marítimos. O forte apoio do Estado ao comér- cio, nos séculos XVI e XVII, propiciou lucros e acumulação de capital - pela burguesia, que incluía comerciantes, banqueiros e cambis- tas - para investimento em fábricas urbanas. Na Inglaterra, berço do capitalismo, a agricultura se desenvolveu com demarcação (cercamento legal) de terras – até então comuni- tárias e dispersas – e emprego de técnicas e ins- trumentos de cultivo. Trabalhadores deslocados do campo eram submetidos a extenuante labuta nas fábricas que foram se formando. A energia a vapor alavancou a mineração e a metalurgia e, assim, também as atividades de agregação de valor às matérias primas agrícolas (baseadas no uso de máquinas e equipamentos) através de te- celagem, a produção de bebidas e a moagem de grãos. A especialização e a divisão do trabalho reduziram os preços dos produtos; locomotivas a vapor os transportavam para locais distantes a custo mais baixo. O capitalismo se consolidou. No campo, com a progressiva conso- lidação do capitalismo, foram diminuindo a prática do abandono de terras exauridas para descanso prolongado (ou pousio) e o arrote- amento de novas áreas, desde o século XVIII, sendo trocados pela aração profunda com as primeiras máquinas. Passou-se, então, a empre- gar a rotação de culturas, intensificou-se o culti- vo, corrigindo e fertilizando o solo. Na pecuária, ganhos foram obtidos pela melhoria de reba- nhos ovinos e bovinos através de cruzamentos controlados mais a produção da forragem que sustentava a criação no inverno evitando o aba- te prematuro. O Estado, atendendo a demandas de fazendeiros de poder econômico, providen- ciou estradas, canais e drenagem de pântanos. No Brasil do século XIX, o capitalismo chegou ao campo principalmente com a expan- são da economia cafeeira baseada no empre- go do trabalho de imigrantes em paralelo ao excessivamente prolongado e malconduzido processo de extinção da escravidão, processo esse cujas consequências econômicas e so- ciais ainda hoje são gravemente sentidas no país. Como a abolição e a imigração fizeram- -se acompanhar, já em 1850, de legislação que dificultava o acesso à terra, a concentração da AG RO : C O N CE IT O E E VO LU ÇÃ O AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP propriedade desse recurso tem sido uma marca estrutural indelével da agropecuária brasileira. Mundo afora, até meados do século XIX, a atividade econômica do agronegócio organizava-se em estrutura essencialmente fa- miliar. Grandes empresas começaram a surgir a partir de então, mormente nos Estados Unidos, para processamento de carnes e cereais, como Swifte Armour, no segmento de carnes; mais tarde a Kellogg’s no de milho. Dessa época são também o processo de pasteurização e o engar- rafamento e enlatamento a vácuo. As primeiras fábricas de fertilizantes a partir de esterco sur- giram também no início do século XIX. Fábri- cas de superfosfato começaram a se multiplicar a partir de 1850 na Inglaterra. Na Alemanha, começou a produção de fertilizante potássico a partir da cinza e do salitre. Sulfato e fosfato de amônio apareceram após a Primeira Guerra Mundial. O uso de inseticida originário do taba- co data do século XVII e do piretro a partir do crisântemo no século XIX. Somente a partir dos anos 1940 passaram a ser produzidos pesticidas sintéticos em larga escala. Dos arados de ferro no século XVIII aos tratores a vapor no século XIX, a mecanização da agropecuária e o uso de agroquímicos avançaram inexoravelmente, pou- pando a força de trabalho humana e permitin- do a exploração de áreas cada vez mais exten- sas de terra sob uma atividade administrativa. Bolsas rudimentares para comércio de produtos agropecuários existem desde os sécu- los XVII e XVIII na Europa. Entretanto, à medida que – graças aos avanços no armazenamento e transporte - se expandiu o comércio de pro- dutos padronizados – conhecidos como “com- modities” (agrícolas, minerais, etc.) - sua organ- ização, na forma das atuais bolsas, começou a se desenvolver ao longo do século XVIII e XIX em Nova Iorque e Chicago. Os contratos de futuros são uma extensão natural dos contra- tos a termo (ou seja, para entrega futura) no mercado físico, que então passavam a ser pa- dronizados de sorte a poderem ser negociados publicamente em larga escala e à distância, com procedimentos seguros de garantia de pagamentos. Produtores, especialmente aque- les com maiores recursos e conhecimentos de mercado, passaram a operar com maior pro- teção contra oscilações desfavoráveis de preço, o que era proporcionado pelas operações de “hedge”, mecanismos que visam a proteger as operações financeiras em situações desse tipo. Os segmentos tanto a montante quanto a jusante da agropecuária se robusteceram, man- tendo evidentemente grande interdependência com esse segmento. Essa interdependência lev- ou J.H. Davis e R. Goldberg, em 1957, a empre- garem o conceito de “agribusiness sector” (setor de agronegócio). Baseado nos fundamentos de análises de insumo-produto de Wassily Leon- tief, analisavam-se as inter-relações entre esses segmentos de forma a avaliar-se o desempenho integrado dos mesmos e a propor-se soluções sistêmicas para o setor como um todo. Nos elos entre os segmentos produtivos atuavam os mercados físicos e futuros de produtos e o mer- cado financeiro. Assim, estabeleciam-se preços correntes e, mediante contratos, preços futuros para os produtos referentes a determinados lo- cais, momentos e estágios de processamento. O agronegócio atualmente é tido como um feixe de cadeias produtivas, definidas como uma sequência coordenada que, a partir de in- sumos, chega à produção de matérias primas agropecuárias, ao seu processamento e à dis- tribuição, no tempo e no espaço, aos consu- midores de seus derivados. Pode ser referido também como conjunto de “filiéres”, como definem os franceses, enfatizando o sequenci- amento de operações dos insumos ao produ- to para consumo final. O agronegócio remete ainda ao conceito de complexo agroindustrial, com o que se enfatiza o caráter evolutivo da AG RO : CO N CEITO E EVO LUÇÃO AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP produção primária simples para o intrinca- do conjunto de segmentos interdependentes. Ao longo do século XX, grandes trans- formações ocorreram no cenário mundial, com larga aplicação de tecnologias na agro- pecuária, baseadas nos avanços da mecan- ização e do emprego de inovações químicas e da biológicas, características da conhecida revolução verde. A indústria e serviços a mont- ante, que fornecem insumos como sementes, maquinários e agroquímicos, estruturaram-se em grandes empresas. De outro lado, o cresci- mento da renda e as mudanças demográficas geravam demanda por produtos processados e de disponibilidade contínua em regiões cada vez mais amplas, dando também oportunidade de surgimento de empresas de grande porte. Com o desenvolvimento de tecnolo- gias de informação, comunicação e transporte, o comércio passava a se dar em escala mun- dial, com trocas se dando entre um grande mosaico de países. Com isso, cresceu o papel da agroindústria processadora e dos segmen- tos de serviços encarregados de formas mais complexas de comércio, logística (armazen- agem e transporte), de financiamento, etc.. Nas cidades, o varejo se adaptou às mudanças, adotando o autosserviço assim como procedi- mentos necessários para comércio de perecíveis. As economias de escala e pecuniárias, que todas essas atividades proporcionam, fa- voreciam o aparecimento de grandes empresas e concentração nos mercados. Nos Estados Uni- dos já na passagem do século XIX para o XX, essa questão passou a ser crescentemente debatida, processo que culminou, em 1914, com a criação da Federal Trade Comission (FTC) para proteção do consumidor e fomento da concorrência. Fo- ram sendo, então, ao longo do século XX, na Europa e outras regiões, estabelecidos órgãos encarregados – mas nem sempre bem-suce- didos - de manter condições de concorrência, combatendo abusos de poder de mercado, as- segurando a contestabilidade aos incumbentes, derrubando barreiras de entrada de qualquer natureza. No Brasil, a defesa da concorrência passou a ser discutida no pós-2ª guerra, sendo que em 1962, criou-se o Conselho Administra- tivo de Defesa Econômica – CADE, que, desde então, vem passando por periódicos ajustes le- gais. A eficácia desses órgãos é fundamental para o comércio equilibrado entre agentes de poder econômico extremamente diferenciado. No agronegócio brasileiro, especialmente o médio e o pequeno produtor rural, de um lado, e o consumidor, de outro – ainda carecem de per- manente atenção e ação efetiva para prevenir e reparar danos financeiros ou de outra natureza. Do ponto de vista da sociedade em geral, um dos objetivos da ciência econômi- ca é avaliar em que medida o uso de recursos produtivos está viabilizando o atendimento das necessidades e desejos da população. Estabe- lece-se, em cada sociedade, uma organização das atividades produtivas para atender à de- manda final por bens e serviços. Esta é composta pela demanda doméstica e a demanda externa. Evidentemente o bem-estar da socie- dade nacional vem em primeiro lugar. No entan- to, o atendimento da demanda externa também é fundamental pois gera divisas que podem ser usadas para que a população possa ter acesso a bens de consumo e de capital importados (caso a produção interna de tais bens não ocorra ou não seja suficiente). O agronegócio brasileiro, que exporta o equivalente a 25% do seu PIB (contra 15% do PIB exportado pela economia 2. O conceito de agronegócio no quadro analítico da agricultura AG RO : C O N CE IT O E E VO LU ÇÃ O AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP brasileira como um todo) tem gerado superávits na balança comercial, cobrindo com sobra os déficits crônicos dos demais setores econômicos. Foi, a propósito, o motor do período áureo de crescimento do Brasil (de 4,5% ao ano – o boom de commodities, referido como uma bonança externa) entre 2004 e 2011 ao viabilizar mont- antes robustos de importações industriais, com destaque para bens de investimento. Permitiu também, face à substancial sobrevalorização cambial havida na época (que impediu a inter- nalização dos aumentos de preços internacion- ais), que a crescente oferta de alimentos a preços relativamente baixos e estáveis tornassem reali- dade os objetivos dos programas de combate à desigualdadee à pobreza no Brasil. A análise econômica na forma de ca- deias produtivas (cujo conjunto constitui o agronegócio) permite explicitar a interdepend- ência entre os seus segmentos no que tange a levar aos consumidores produtos na forma (“in natura” ou com diferentes graus de pro- cessamento industrial), no local (por meio do transporte) e no momento (por meio do arma- zenamento) desejados. A população não con- some trigo, mas pão; não consome boi, mas sua carne. Ao analisar a evolução do custo de vida (ou da inflação em geral), não se pode atribuir seu aumento (ou redução) à agropecuária so- mente (como usualmente se faz), mas a toda ação da cadeia produtiva do trigo, do boi, etc.. Dadas essas considerações, há que se calcular o PIB do agronegócio (soma dos PIBs de cada segmento: insumos, agropecuária, agroindústria e agrosserviços) para medir o impacto da agropecuária no bem-estar da sociedade. Quando se pretende entender a evolução da inflação (IPCA) é necessário ana- lisar para cada produto final consumido o im- pacto de cada segmento da respectiva cadeia produtiva sobre seu preço ao consumidor. O mesmo raciocínio se aplica ao com- portamento das exportações: não existem ven- das externas somente de matérias primas agro- pecuárias, mas, sim, de produtos do agronegócio, posto que as mesmas envolvem processamento e serviços de transporte, armazenamento e comerciais. Da mesma forma, não se exporta somente grãos, por exemplo, mas também seus derivados (farinhas, óleos, carnes). Assim ao se verificar a proporção da produção que é expor- tada, essa produção deve ser a do agronegócio e não a da agropecuária (segmento primário). Um aumento no custo da alimentação pode-se dever a problemas climáticos ou incidên- cia de pragas e doenças na agropecuária; mas frequentemente esse aumento está associado a fatores exógenos como, por exemplo, uma alta do câmbio, que aumenta tanto os preços dos insumos agrícolas – a maior parte importada - como dos combustíveis usados no transporte e também torna as exportações mais atraentes. As políticas visando ao aumento efi- ciente da produção agropecuária e do consumo ou exportação de seus derivados têm que partir do conhecimento de cada segmento de cada ca- deia produtiva que compõe o agronegócio – onde estão os pontos fracos e fortes na cadeia? -, bem como do equilíbrio das relações entre esses elos. No âmbito das atividades econômicas, a agropecuária se encadeia a outros setores – formando, portanto, cadeias produtivas agro- pecuárias, que funcionam articuladamente com objetivos comuns: a produção de determinados produtos finais a partir de matérias primas agro- pecuárias. O agronegócio é uma fusão da agro- pecuária e de outros setores (ou, na maioria dos casos de partes deles) envolvidos, direta ou in- diretamente, na movimentação e transformação 3. Agronegócio e outros setores da economia AG RO : CO N CEITO E EVO LUÇÃO AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP de matérias primas agropecuárias. Quanto do PIB de outros setores (indústria e serviços) deve ser alocado ao agronegócio? Depende das suas relações com o cerne do agronegócio: a agro- pecuária (que produz matéria prima agrícola). Então, no processo de alocação de porções do PIB de outros setores ao agronegócio, de um lado, quantifica-se os valores dos produtos que cada um desses outros setores fornece à agropecuária e, de outro, mede-se os valores dos produtos que a agropecuária fornece aos demais setores. Os produtos vendidos à agropecuária podem enquadrar-se como (a) insumos - por que desaparecem no processo produtivo ao serem transformados no novo produto que essa ativi- dade produz ou (b) bens de capital (maquinário, basicamente) - que são adicionados ao estoque de capital existente. Os bens de capital perdur- am por uma sequência de processos produtivos. O PIB é o valor adicionado ao valor dos insumos (e não ao de bens de capital). A aquisição de bens de capital se dá com os recursos do PIB, especificamente a parte dele que vier a ser pou- pada. A indústria desses bens capital faz par- te, portanto, do agronegócio. Mais especifica- mente, a parte do PIB da indústria de máquinas e equipamentos que fornece tais bens à agro- pecuária é contabilizada como agronegócio. No caso da agroindústria de proces- samento, entre os insumos está obrigatoria- mente a matéria prima agropecuária. Assim na produção da carne bovina (um segmento da cadeia do boi), a agroindústria aplica sua força de trabalho e estoque de capital (ambos fatores de produção) sobre o boi (matéria pri- ma), utilizando também insumos provenientes de outros setores econômicos (química, de energia – eletricidade, combustíveis -, etc.). À matéria prima e demais insumos, a indústria da carne agrega valor, o que é medido pelo PIB, que é a diferença entre o faturamento da indústria (Valor Bruto da Produção, VBP) e o custos os insumos intermediários (CI) – em que se inclui o boi - que foram transformados em carne. O PIB, então, vai remunerar os fa- tores de produção trabalho e capital. Parte da remuneração do capital que é poupada viabi- liza o investimento em novos bens de capital. É importante salientar que a metodologia de cálculo do PIB do agron- egócio usada pelo Cepea considera: (a) suas atividades típicas, que pro- duzem exclusivamente produtos agropecuári- os (agropecuária) ou utilizam exclusivamente esses produtos como matérias primas para produzirem seus derivados (agroindústria). No caso da cadeia do leite, os PIBs da agro- pecuária e da agroindústria de lácteos entram em suas totalidades no PIB do agronegócio. É, a propósito, sempre a matéria prima que dá o nome da cadeia – cadeia do leite, cadeia da soja, cadeia da cana, e assim por diante. (b) aquelas atividades industriais que usam como matérias primas tanto produtos agropecuários como não agropecuários. Por exemplo, a atividade agropecuária de produção de madeira tem seu PIB totalmente incluído no PIB do agronegócio; já a atividade produtora de móveis terá apenas a parte do PIB correspond- ente à produção de móveis de madeira incluída no PIB do agronegócio. Tanto a indústria de lác- teos como de móveis compõem o agronegócio, mas esta última o faz apenas parcialmente. (c) do lado dos insumos agropecuári- os, faz-se o mesmo: fazem parte do agron- egócio apenas as parcelas dos PIBs dos setores que produzem combustíveis, pro- dutos químicos e veterinários, máquinas e equipamentos, etc., correspondentes à pro- porção das vendas feitas à agropecuária. AG RO : C O N CE IT O E E VO LU ÇÃ O AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP (d) quanto aos serviços (transporte, armazenamento, comércio, assistência técni- ca, consultorias, e assim por diante) as partes de seus PIBs contabilizados para o agroneg- ócio são estimadas em função das produções das atividades agropecuária e agroindustri- ais (inclusive de insumos) que os utilizam. A regra para determinar quanto do PIB de uma agroindústria é contabilizado no agronegócio é, então, a seguinte: (a) a indústria que visa a transformar somente matéria prima da agropecuária (grãos, frutas, legumes e ver- duras, fibras, madeira – ou animal – produtos da bovinocultura, suinocultura, avicultura, pes- ca) tem o PIB totalmente atribuído ao agron- egócio; (b) a indústria que processa apenas em parte matéria prima da agropecuária (calçados, vestuários, móveis) tem o seu PIB alocado ao agronegócio proporcionalmente ao valor da matéria prima da agropecuária no total de suas compras de matérias primas. Uma terceira par- te da indústria de transformação não utiliza matéria prima da agropecuária, mas somente de origem mineral e não faz parte do agronegócio. Outro aspecto que deve ficar claro é que o PIB da agropecuária pode ser comparado dire- tamente ao PIB do país e, também, aosdos de- mais setores econômicos (indústria e serviços). O PIB do agronegócio, por sua vez, somente pode ser comparado diretamente ao PIB total do país. Assim, para obter o PIB da economia toda, não se pode somar o PIB do agronegócio aos demais setores (indústria e serviços em ger- al) porque em agronegócio estão incluídas (par- cial ou totalmente) diferentes atividades da in- dústria e serviços. Especificamente na indústria de transformação estão incluídos, (a) a jusante, seus ramos de alimentos, fibras e vestuários, madeira, celulose e papel, bioenergia e (b) a montante, a indústria química provedora de in- sumos e a mecânica, que produz bens de capital para a agropecuária ou agroindústria. Eviden- temente, podem ser feitas comparações entre o PIB da agroindústria ao PIB da indústria de transformação (ou do total da indústria – que inclui a indústria extrativa, de transformação, utilidades públicas e construção civil), tendo em devida conta que a primeira é parte da segunda. Análises detalhadas, realizadas pelo Cepea, de dados do Brasil apontam que, ao longo do século 21, até agora o agronegócio representa cerca de 25% do PIB nacional. Den- tro do agronegócio, em números redondos, a agropecuária fica com 25% (ou em torno de 6% do PIB total do Brasil), a agroindústria pro- cessadora com outros 25% (em torno de 50% do PIB da indústria de transformação brasilei- ra), e agrosserviços com 45% e os insumos para agropecuária com 5%. O agronegócio emprega cerca de 20% da população ocupada no Brasil, sendo que a agropecuária responde por 47% dos ocupados do agronegócio, a agroindústria, 21% e os agrosserviços, 32%. Deve ficar bem claro que o crescimento do agronegócio – alavancado pela oferta (pre- dominantemente, produtividade) agropecuária condicionado, evidentemente, pela demanda in- terna ou externa - implica crescimento da econo- mia como um todo devido a sua integração com os demais setores econômicos. O agronegócio inclui, além da agropecuária, todas as ativi- dades industriais que usam a sua matéria prima (isoladamente ou em conjunto com matérias primas minerais) ou que lhe fornecem insumos e bens de capital (usando matérias primas min- erais). Fora do agronegócio, as atividades tendo na mineração sua base e desvinculada a mont- ante e a jusante da agropecuária também são alavancadas pela sua produtividade e condicio- nadas sua demanda. De qualquer forma, na in- terdependência entre agronegócio e não-agron- egócio prevalece a complementariedade. AG RO : CO N CEITO E EVO LUÇÃO AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP O crescimento econômico tanto no Brasil como dentro do agronegócio tem sido desequilibrado. De 2000 a 2019, o PIB do agronegócio avançou a modesto 1,8% ao ano, contra 2,3% para a economia como um todo. Em termos de segmentos do agronegócio tem- se que a agropecuária cresceu, em média, a 3,7% ao ano; a agroindústria assim como o to- tal da indústria de transformação brasileira, a entre 0,6 a 0,8%. A atividade industrial – do agronegócio ou de fora dele - vem, portan- to, perdendo importância relativa no Brasil há décadas. A exceção tem sido a indústria extra- tiva, que vem crescendo em torno a 3,5% ao ano, comparável à agropecuária. Esses dados evidenciam a fragilidade do Brasil no tocante à agregação de valor às suas matérias primas. Câmbio valorizado, carga tributária alta, juros altos, infraestrutura deficiente – o Custo Brasil, enfim - e, principalmente, baixa produ- tividade, têm sido apontados como possíveis explicações para esse fraco crescimento obser- vado na indústria de transformação. No caso da agroindústria, um grande entrave tem sido o protecionismo por parte dos principais países importadores, que se empenham em assegurar que a agregação de valor se dê em seus territóri- os, razão pela qual nas exportações do agron- egócio predominam as matérias primas. No caso do complexo da soja, 83% do faturamento com exportações correspondem às vendas de grãos, ficando o farelo com 15% e o óleo com 2%. O Brasil poderia tranquilamente oferecer competitivamente esses derivados em volumes muito maiores, mas os países importadores não abrem seus mercados para que isso se aconteça. Nesse contexto, na relação do agron- egócio e o restante da economia há o debate sobre o fato de que a exportação predominante de commodities baseadas em recursos natu- rais (ligadas à agropecuária ou à mineração) resultaria em excessiva valorização cambial em prejuízo da competitividade da indústria de base mineral. A chamada doença holande- sa é evocada. O fato, entretanto, é que expor- tações expressivas de qualquer setor acabam por baratear o dólar (em reais) – se flutuante. Cabe, em caso de perda de competitividade, reavê-la pelo aumento de produtividade e pela adequada ação dos responsáveis pela política comercial do país nos aspectos ligados ao pro- tecionismo de nações estrangeiras. Dados des- de 2000 até 2019, apontam que enquanto o câmbio se valorizou 44% em termos reais, os PIBs da agropecuária e da indústria extrativa cresceram, ambos, 85%. Já o PIB da indústria de transformação cresceu apenas 15%. A valor- ização cambial não é, portanto, obstáculo para o crescimento da agropecuária e da indústria extrativa. Ademais, dados da FGV mostram que a produtividade do trabalho cresceu, nesse mes- mo período, 250% na agropecuária e 70% na indústria extrativa. Porém, na indústria de trans- formação a produtividade caiu 7%. Por suas raízes históricas, agronegócio não implica distinção entre categorias – por tamanho, tecnologia, por exemplo – dos par- ticipantes das cadeias produtivas. No Brasil, tem sido largamente utilizado, de maneira im- própria, o conceito de agronegócio para refer- ir-se à categoria de grandes produtores agro- pecuários, cuja produção é predominantemente comercializada nos mercados interno e externo. Com isso desloca-se analiticamente os peque- nos produtores – inclusive os de subsistência - das cadeias produtivas às quais devem se integrar por meio de programas de apoio ao desenvolvimento rural. Tais cadeias podem ser mais curtas (local, regional) ou mais longas 4. Agronegócio: uso recomendado do termo AG RO : C O N CE IT O E E VO LU ÇÃ O AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP (nacionais ou globais), mas são sempre formas organizacionais de agregar valor às matérias primas, gerando adicionais de renda. Evidente- mente, dentro do agronegócio, especificamente de seu segmento agropecuário, persiste uma variedade de categorias socioeconômicas, que demandam atenção e apoio do Estado especi- ficamente direcionados. Situam-se aí programas de cooperativismo, crédito, comercialização, ex- tensão rural, assentamentos e reforma agrária, cujo objetivo é ter o progresso socioeconômico alcançando a totalidade dos produtores rurais. Para adequação de políticas agrícolas, estabeleceu-se, por exemplo, em 1995, o concei- to legal de agricultura familiar, em geral identifi- cada como pequena produção, que contaria com até dois empregados assalariados permanentes e eventualmente com temporários. Uma vez que esse produtor configura-se como um alvo mais difícil de ser alcançado pelos instrumentos gerais de política (como crédito rural, preços mínimos, seguros), o conceito de agricultura familiar é op- eracionalmente útil. Entretanto, os agricultores familiares fazem logicamente parte do agron- egócio, na medida em que integram – ou dever- iam integrar - cadeias produtivas para que seus produtos atinjam mercados mais amplos, em diferentes formas, locais e momentos no tempo. Uma característica do agronegócio tem sido a concentração dos mercados - tanto no que se refere a produção e venda de insumos como a processamento de matéria-prima e à distribuição - mediante fusões e aquisições. A predominância de oligopólios e oligopsôniosa jusante e a montante da agropecuária leva à necessidade/premência do associativismo/coop- erativismo dos produtores agropecuários como forma reduzir o desequilíbrio na capacidade de negociação dos pontos de vista econômico-fi- nanceiro e informacional. Os órgãos de defe- sa da concorrência têm um papel fundamen- tal nessa questão, como mencionado acima. Entretanto, mesmo no segmento agro- pecuário há grande concentração da produção (e da renda). Dados do Censo Agropecuário de 2017 apontam que 85% do Valor Bruto da Pro- dução (VBP) são gerados em apenas 9% dos estabelecimentos. Mesmo na categoria familiar a concentração de renda é relativamente ele- vada: 86% do VBP provêm de 29% dos esta- belecimentos. Estima-se, como consequência, que a pobreza no meio rural brasileiro é o dobro daquela observada no país como um todo. O grande desafio no meio rural brasileiro é pro- mover a inclusão produtiva dos trabalhadores em 90% dos mais de cinco milhões de estabe- lecimentos. É fundamental que seja reduzida a lacuna tecnológica que separa, de um lado, uma minoria numérica (mas que gera a maior parte da produção) de produtores atuando jun- to à fronteira tecnológica e, de outro, a imensa maioria de produtores distantes dessa fronteira, vivendo, grande parte, sob condições socioeco- nômicas muito aquém do desejado e do possív- el num país de classe média emergente como o Brasil. Programas de educação, extensão, crédi- to, seguro podem a médio e longo prazo levar ao progresso socioeconômico desses produtores. No curto prazo, entretanto, programas de trans- ferência condicionada de renda são essenciais/ obrigatórios para permitir a permanência de parte da população brasileira no meio rural sob condições de vida adequadas. Aliás, o problema de pobreza e desigualdade no Brasil é tão am- plo e severo, que tal programa de transferência condicionada de renda deveria ser incluído de forma bem dimensionada e previsível no orça- mento de longo prazo da economia brasileira.