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AGRONEGÓCIO: 
Conceito e Evolução
JANEIRO DE 2022
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AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO
CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP
Agronegócio é a expressão que resulta da fusão de agricultura e negócio. Este termo – negócio – vem originalmente 
do latim “negotium” (negação do ócio) e tem 
o significado de ocupação ou trabalho visando 
a atingir determinados fins para satisfação de 
desejos ou necessidades de quem os executa 
ou de outrem; neste último caso, mediante al-
guma recompensa aos executores. Agricultura 
ou agropecuária (usados aqui como sinônimos), 
por sua vez, relaciona-se ao cultivo da terra e 
recursos naturais em geral, seja para produ-
ção vegetal – grãos, frutas, legumes e verdu-
ras, fibras, madeira – ou animal – produtos da 
bovinocultura, suinocultura, avicultura, pesca. 
 As produções vegetal e animal resul-
tantes do emprego direto de recursos naturais 
são classificados como matérias primas – assim 
como os minérios - e visam ao atendimento 
- como tal ou transformadas - das necessida-
des e desejos da população. Como exemplo, 
o leite é a matéria prima à que vão se com-
binar outros insumos para que se transforme 
em queijo. De fato, a matéria prima é um tipo 
especial de insumos – todos desaparecerão 
no processo produtivo – com a particularida-
de de provir diretamente do uso de recursos 
naturais. Estes, recursos naturais, podem ser 
agrupados em biológicos (animais e vegetais), 
minerais (inclusive petróleo), hídricos e outros 
energéticos (provenientes do sol e do vento). 
 Considerando a origem do termo, 
agronegócio envolve necessariamente ativi-
dades econômicas relacionadas à agricultura. 
O termo negócio pode ser tomado num senti-
do amplo de geração de valor através do uso 
do trabalho e do capital; no caso do agrone-
gócio, englobam-se a agropecuária e demais 
segmentos produtivos a ela relacionados. Ao 
longo dos séculos, a urbanização afastava a 
produção agropecuária do seu consumo. Mui-
tas atividades, antes realizadas no campo ou 
no meio rural (visando ao consumo local), fo-
ram se afastando espacial e temporalmente e 
ganharam expressão econômica própria, com 
expansão de atividades de transporte, proces-
samento, armazenamento, comerciais e finan-
ceiras, sem perder os vínculos técnicos e eco-
nômicos de origem. O conceito de agronegócio 
presta-se para resgatar essa interdependência 
aparentemente perdida, quando, na verdade, 
negócios agrícolas existem há milênios. Pode-se 
dizer que agronegócio inclui todas as ativida-
des econômicas (industriais e de serviços) que 
não existiriam se a agropecuária não existisse. 
 As origens da agricultura e do agrone-
gócio situam-se ainda no período neolítico, há 
até cerca de dez mil anos, quando sementes e 
mudas naturais passaram a ser cultivadas e ani-
mais, domesticados. As primeiras atividades de 
reflorestamento e cultivo de árvores se deram 
há cerca de cinco mil anos. Alimentos, fibras e 
peles obtidos por populações nômades, pro-
vinham até então da caça e coleta a partir da 
AGRONEGÓCIO: Conceito e Evolução 
Por Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros
Coordenador Científico do Cepea-Esalq/USP
1 
Este texto trata-se de uma versão estendida de: BARROS, G. S.A. C. Agronegócio. In: Di Giovanni, G. & M.A. Nogueira. (Org.). DICIONÁRIO DE POLÍTI-
CAS PÚBLICAS. 1ª. Ed. São Paulo: FUNDAP - Imprensa Oficial de São Paulo, 2013, v. 1, p. 76-79.
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1. Etimologia e evolução histórica do conceito de agronegócio
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CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP
fauna e da flora disponibilizados pela natureza. 
Mesmo nessa fase essencialmente extrativista, 
a obtenção daqueles produtos se dava através 
de negócios rudimentares, no sentido de que 
envolvem formas elementares de organização 
para uso de recursos produtivos ou fatores de 
produção (trabalho, capital primitivo e recur-
sos naturais) visando à obtenção de produtos 
úteis (alimentos, vestimentas, habitação, etc.) 
para o ser humano e, portanto, providos de va-
lor de uso, na linguagem marxista. Essa forma 
de negócio extrativista subsistia na medida em 
que agregava valor aos bens disponíveis na na-
tureza pela aplicação dos fatores de produção. 
 O surgimento da agricultura significou 
maior segurança ou previsibilidade de abas-
tecimento, que passava a depender menos do 
acaso e mais da atuação preventiva e prepara-
tória em antecipação ao consumo dos produtos 
desejados. A organização da produção conti-
nha mais planejamento e a atividade, embora 
mantivesse padrão itinerante, tendeu a se dar 
em locais específicos, favorecendo a formação 
de núcleos habitacionais e populacionais e de 
estruturas sociais bastante influenciadas pela 
posse da terra, base da atividade econômica. 
 Na Idade Média, o comando, ou ad-
ministração, da atividade produtiva ficou nas 
mãos dos detentores dos fatores de produ-
ção, notadamente a terra, caracterizando-se o 
sistema feudal. Com a Idade Moderna, século 
XVI, o protagonismo do Estado, sob o mer-
cantilismo, se acentuou. O avanço do pro-
cesso de colonização nas Américas, na Ásia e 
na África, foi possível graças ao desenvolvi-
mento dos meios de transportes terrestres e 
marítimos. O forte apoio do Estado ao comér-
cio, nos séculos XVI e XVII, propiciou lucros e 
acumulação de capital - pela burguesia, que 
incluía comerciantes, banqueiros e cambis-
tas - para investimento em fábricas urbanas. 
 Na Inglaterra, berço do capitalismo, a 
agricultura se desenvolveu com demarcação 
(cercamento legal) de terras – até então comuni-
tárias e dispersas – e emprego de técnicas e ins-
trumentos de cultivo. Trabalhadores deslocados 
do campo eram submetidos a extenuante labuta 
nas fábricas que foram se formando. A energia a 
vapor alavancou a mineração e a metalurgia e, 
assim, também as atividades de agregação de 
valor às matérias primas agrícolas (baseadas no 
uso de máquinas e equipamentos) através de te-
celagem, a produção de bebidas e a moagem de 
grãos. A especialização e a divisão do trabalho 
reduziram os preços dos produtos; locomotivas 
a vapor os transportavam para locais distantes 
a custo mais baixo. O capitalismo se consolidou. 
 No campo, com a progressiva conso-
lidação do capitalismo, foram diminuindo a 
prática do abandono de terras exauridas para 
descanso prolongado (ou pousio) e o arrote-
amento de novas áreas, desde o século XVIII, 
sendo trocados pela aração profunda com as 
primeiras máquinas. Passou-se, então, a empre-
gar a rotação de culturas, intensificou-se o culti-
vo, corrigindo e fertilizando o solo. Na pecuária, 
ganhos foram obtidos pela melhoria de reba-
nhos ovinos e bovinos através de cruzamentos 
controlados mais a produção da forragem que 
sustentava a criação no inverno evitando o aba-
te prematuro. O Estado, atendendo a demandas 
de fazendeiros de poder econômico, providen-
ciou estradas, canais e drenagem de pântanos. 
 No Brasil do século XIX, o capitalismo 
chegou ao campo principalmente com a expan-
são da economia cafeeira baseada no empre-
go do trabalho de imigrantes em paralelo ao 
excessivamente prolongado e malconduzido 
processo de extinção da escravidão, processo 
esse cujas consequências econômicas e so-
ciais ainda hoje são gravemente sentidas no 
país. Como a abolição e a imigração fizeram-
-se acompanhar, já em 1850, de legislação que 
dificultava o acesso à terra, a concentração da 
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propriedade desse recurso tem sido uma marca 
estrutural indelével da agropecuária brasileira. 
 Mundo afora, até meados do século 
XIX, a atividade econômica do agronegócio 
organizava-se em estrutura essencialmente fa-
miliar. Grandes empresas começaram a surgir a 
partir de então, mormente nos Estados Unidos, 
para processamento de carnes e cereais, como 
Swifte Armour, no segmento de carnes; mais 
tarde a Kellogg’s no de milho. Dessa época são 
também o processo de pasteurização e o engar-
rafamento e enlatamento a vácuo. As primeiras 
fábricas de fertilizantes a partir de esterco sur-
giram também no início do século XIX. Fábri-
cas de superfosfato começaram a se multiplicar 
a partir de 1850 na Inglaterra. Na Alemanha, 
começou a produção de fertilizante potássico 
a partir da cinza e do salitre. Sulfato e fosfato 
de amônio apareceram após a Primeira Guerra 
Mundial. O uso de inseticida originário do taba-
co data do século XVII e do piretro a partir do 
crisântemo no século XIX. Somente a partir dos 
anos 1940 passaram a ser produzidos pesticidas 
sintéticos em larga escala. Dos arados de ferro 
no século XVIII aos tratores a vapor no século 
XIX, a mecanização da agropecuária e o uso de 
agroquímicos avançaram inexoravelmente, pou-
pando a força de trabalho humana e permitin-
do a exploração de áreas cada vez mais exten-
sas de terra sob uma atividade administrativa. 
 Bolsas rudimentares para comércio de 
produtos agropecuários existem desde os sécu-
los XVII e XVIII na Europa. Entretanto, à medida 
que – graças aos avanços no armazenamento 
e transporte - se expandiu o comércio de pro-
dutos padronizados – conhecidos como “com-
modities” (agrícolas, minerais, etc.) - sua organ-
ização, na forma das atuais bolsas, começou a 
se desenvolver ao longo do século XVIII e XIX 
em Nova Iorque e Chicago. Os contratos de 
futuros são uma extensão natural dos contra-
tos a termo (ou seja, para entrega futura) no 
mercado físico, que então passavam a ser pa-
dronizados de sorte a poderem ser negociados 
publicamente em larga escala e à distância, 
com procedimentos seguros de garantia de 
pagamentos. Produtores, especialmente aque-
les com maiores recursos e conhecimentos de 
mercado, passaram a operar com maior pro-
teção contra oscilações desfavoráveis de preço, 
o que era proporcionado pelas operações de 
“hedge”, mecanismos que visam a proteger as 
operações financeiras em situações desse tipo. 
 Os segmentos tanto a montante quanto 
a jusante da agropecuária se robusteceram, man-
tendo evidentemente grande interdependência 
com esse segmento. Essa interdependência lev-
ou J.H. Davis e R. Goldberg, em 1957, a empre-
garem o conceito de “agribusiness sector” (setor 
de agronegócio). Baseado nos fundamentos de 
análises de insumo-produto de Wassily Leon-
tief, analisavam-se as inter-relações entre esses 
segmentos de forma a avaliar-se o desempenho 
integrado dos mesmos e a propor-se soluções 
sistêmicas para o setor como um todo. Nos 
elos entre os segmentos produtivos atuavam os 
mercados físicos e futuros de produtos e o mer-
cado financeiro. Assim, estabeleciam-se preços 
correntes e, mediante contratos, preços futuros 
para os produtos referentes a determinados lo-
cais, momentos e estágios de processamento. 
 O agronegócio atualmente é tido como 
um feixe de cadeias produtivas, definidas como 
uma sequência coordenada que, a partir de in-
sumos, chega à produção de matérias primas 
agropecuárias, ao seu processamento e à dis-
tribuição, no tempo e no espaço, aos consu-
midores de seus derivados. Pode ser referido 
também como conjunto de “filiéres”, como 
definem os franceses, enfatizando o sequenci-
amento de operações dos insumos ao produ-
to para consumo final. O agronegócio remete 
ainda ao conceito de complexo agroindustrial, 
com o que se enfatiza o caráter evolutivo da 
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produção primária simples para o intrinca-
do conjunto de segmentos interdependentes. 
 Ao longo do século XX, grandes trans-
formações ocorreram no cenário mundial, 
com larga aplicação de tecnologias na agro-
pecuária, baseadas nos avanços da mecan-
ização e do emprego de inovações químicas 
e da biológicas, características da conhecida 
revolução verde. A indústria e serviços a mont-
ante, que fornecem insumos como sementes, 
maquinários e agroquímicos, estruturaram-se 
em grandes empresas. De outro lado, o cresci-
mento da renda e as mudanças demográficas 
geravam demanda por produtos processados 
e de disponibilidade contínua em regiões cada 
vez mais amplas, dando também oportunidade 
de surgimento de empresas de grande porte. 
 Com o desenvolvimento de tecnolo-
gias de informação, comunicação e transporte, 
o comércio passava a se dar em escala mun-
dial, com trocas se dando entre um grande 
mosaico de países. Com isso, cresceu o papel 
da agroindústria processadora e dos segmen-
tos de serviços encarregados de formas mais 
complexas de comércio, logística (armazen-
agem e transporte), de financiamento, etc.. 
Nas cidades, o varejo se adaptou às mudanças, 
adotando o autosserviço assim como procedi-
mentos necessários para comércio de perecíveis. 
 As economias de escala e pecuniárias, 
que todas essas atividades proporcionam, fa-
voreciam o aparecimento de grandes empresas 
e concentração nos mercados. Nos Estados Uni-
dos já na passagem do século XIX para o XX, essa 
questão passou a ser crescentemente debatida, 
processo que culminou, em 1914, com a criação 
da Federal Trade Comission (FTC) para proteção 
do consumidor e fomento da concorrência. Fo-
ram sendo, então, ao longo do século XX, na 
Europa e outras regiões, estabelecidos órgãos 
encarregados – mas nem sempre bem-suce-
didos - de manter condições de concorrência, 
combatendo abusos de poder de mercado, as-
segurando a contestabilidade aos incumbentes, 
derrubando barreiras de entrada de qualquer 
natureza. No Brasil, a defesa da concorrência 
passou a ser discutida no pós-2ª guerra, sendo 
que em 1962, criou-se o Conselho Administra-
tivo de Defesa Econômica – CADE, que, desde 
então, vem passando por periódicos ajustes le-
gais. A eficácia desses órgãos é fundamental 
para o comércio equilibrado entre agentes de 
poder econômico extremamente diferenciado. 
No agronegócio brasileiro, especialmente o 
médio e o pequeno produtor rural, de um lado, e 
o consumidor, de outro – ainda carecem de per-
manente atenção e ação efetiva para prevenir e 
reparar danos financeiros ou de outra natureza. 
 
 Do ponto de vista da sociedade em 
geral, um dos objetivos da ciência econômi-
ca é avaliar em que medida o uso de recursos 
produtivos está viabilizando o atendimento das 
necessidades e desejos da população. Estabe-
lece-se, em cada sociedade, uma organização 
das atividades produtivas para atender à de-
manda final por bens e serviços. Esta é composta 
pela demanda doméstica e a demanda externa. 
 Evidentemente o bem-estar da socie-
dade nacional vem em primeiro lugar. No entan-
to, o atendimento da demanda externa também 
é fundamental pois gera divisas que podem ser 
usadas para que a população possa ter acesso a 
bens de consumo e de capital importados (caso 
a produção interna de tais bens não ocorra ou 
não seja suficiente). O agronegócio brasileiro, 
que exporta o equivalente a 25% do seu PIB 
(contra 15% do PIB exportado pela economia 
2. O conceito de agronegócio 
no quadro analítico da 
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brasileira como um todo) tem gerado superávits 
na balança comercial, cobrindo com sobra os 
déficits crônicos dos demais setores econômicos. 
Foi, a propósito, o motor do período áureo de 
crescimento do Brasil (de 4,5% ao ano – o boom 
de commodities, referido como uma bonança 
externa) entre 2004 e 2011 ao viabilizar mont-
antes robustos de importações industriais, com 
destaque para bens de investimento. Permitiu 
também, face à substancial sobrevalorização 
cambial havida na época (que impediu a inter-
nalização dos aumentos de preços internacion-
ais), que a crescente oferta de alimentos a preços 
relativamente baixos e estáveis tornassem reali-
dade os objetivos dos programas de combate à 
desigualdadee à pobreza no Brasil. 
 A análise econômica na forma de ca-
deias produtivas (cujo conjunto constitui o 
agronegócio) permite explicitar a interdepend-
ência entre os seus segmentos no que tange 
a levar aos consumidores produtos na forma 
(“in natura” ou com diferentes graus de pro-
cessamento industrial), no local (por meio do 
transporte) e no momento (por meio do arma-
zenamento) desejados. A população não con-
some trigo, mas pão; não consome boi, mas sua 
carne. Ao analisar a evolução do custo de vida 
(ou da inflação em geral), não se pode atribuir 
seu aumento (ou redução) à agropecuária so-
mente (como usualmente se faz), mas a toda 
ação da cadeia produtiva do trigo, do boi, etc.. 
 Dadas essas considerações, há que se 
calcular o PIB do agronegócio (soma dos PIBs 
de cada segmento: insumos, agropecuária, 
agroindústria e agrosserviços) para medir o 
impacto da agropecuária no bem-estar da 
sociedade. Quando se pretende entender a 
evolução da inflação (IPCA) é necessário ana-
lisar para cada produto final consumido o im-
pacto de cada segmento da respectiva cadeia 
produtiva sobre seu preço ao consumidor. 
 O mesmo raciocínio se aplica ao com-
portamento das exportações: não existem ven-
das externas somente de matérias primas agro-
pecuárias, mas, sim, de produtos do agronegócio, 
posto que as mesmas envolvem processamento 
e serviços de transporte, armazenamento e 
comerciais. Da mesma forma, não se exporta 
somente grãos, por exemplo, mas também seus 
derivados (farinhas, óleos, carnes). Assim ao se 
verificar a proporção da produção que é expor-
tada, essa produção deve ser a do agronegócio 
e não a da agropecuária (segmento primário). 
 Um aumento no custo da alimentação 
pode-se dever a problemas climáticos ou incidên-
cia de pragas e doenças na agropecuária; mas 
frequentemente esse aumento está associado a 
fatores exógenos como, por exemplo, uma alta 
do câmbio, que aumenta tanto os preços dos 
insumos agrícolas – a maior parte importada - 
como dos combustíveis usados no transporte e 
também torna as exportações mais atraentes. 
 As políticas visando ao aumento efi-
ciente da produção agropecuária e do consumo 
ou exportação de seus derivados têm que partir 
do conhecimento de cada segmento de cada ca-
deia produtiva que compõe o agronegócio – onde 
estão os pontos fracos e fortes na cadeia? -, bem 
como do equilíbrio das relações entre esses elos. 
 
 No âmbito das atividades econômicas, 
a agropecuária se encadeia a outros setores – 
formando, portanto, cadeias produtivas agro-
pecuárias, que funcionam articuladamente com 
objetivos comuns: a produção de determinados 
produtos finais a partir de matérias primas agro-
pecuárias. O agronegócio é uma fusão da agro-
pecuária e de outros setores (ou, na maioria dos 
casos de partes deles) envolvidos, direta ou in-
diretamente, na movimentação e transformação 
3. Agronegócio e outros 
setores da economia
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de matérias primas agropecuárias. Quanto do 
PIB de outros setores (indústria e serviços) deve 
ser alocado ao agronegócio? Depende das suas 
relações com o cerne do agronegócio: a agro-
pecuária (que produz matéria prima agrícola). 
Então, no processo de alocação de porções do PIB 
de outros setores ao agronegócio, de um lado, 
quantifica-se os valores dos produtos que cada 
um desses outros setores fornece à agropecuária 
e, de outro, mede-se os valores dos produtos 
que a agropecuária fornece aos demais setores. 
 Os produtos vendidos à agropecuária 
podem enquadrar-se como (a) insumos - por que 
desaparecem no processo produtivo ao serem 
transformados no novo produto que essa ativi-
dade produz ou (b) bens de capital (maquinário, 
basicamente) - que são adicionados ao estoque 
de capital existente. Os bens de capital perdur-
am por uma sequência de processos produtivos. 
O PIB é o valor adicionado ao valor dos insumos 
(e não ao de bens de capital). A aquisição de 
bens de capital se dá com os recursos do PIB, 
especificamente a parte dele que vier a ser pou-
pada. A indústria desses bens capital faz par-
te, portanto, do agronegócio. Mais especifica-
mente, a parte do PIB da indústria de máquinas 
e equipamentos que fornece tais bens à agro-
pecuária é contabilizada como agronegócio. 
 No caso da agroindústria de proces-
samento, entre os insumos está obrigatoria-
mente a matéria prima agropecuária. Assim 
na produção da carne bovina (um segmento 
da cadeia do boi), a agroindústria aplica sua 
força de trabalho e estoque de capital (ambos 
fatores de produção) sobre o boi (matéria pri-
ma), utilizando também insumos provenientes 
de outros setores econômicos (química, de 
energia – eletricidade, combustíveis -, etc.). À 
matéria prima e demais insumos, a indústria 
da carne agrega valor, o que é medido pelo 
PIB, que é a diferença entre o faturamento 
da indústria (Valor Bruto da Produção, VBP) e 
o custos os insumos intermediários (CI) – em 
que se inclui o boi - que foram transformados 
em carne. O PIB, então, vai remunerar os fa-
tores de produção trabalho e capital. Parte da 
remuneração do capital que é poupada viabi-
liza o investimento em novos bens de capital. 
 É importante salientar que a 
metodologia de cálculo do PIB do agron-
egócio usada pelo Cepea considera: 
 (a) suas atividades típicas, que pro-
duzem exclusivamente produtos agropecuári-
os (agropecuária) ou utilizam exclusivamente 
esses produtos como matérias primas para 
produzirem seus derivados (agroindústria). 
No caso da cadeia do leite, os PIBs da agro-
pecuária e da agroindústria de lácteos entram 
em suas totalidades no PIB do agronegócio. 
É, a propósito, sempre a matéria prima que 
dá o nome da cadeia – cadeia do leite, cadeia 
da soja, cadeia da cana, e assim por diante. 
 (b) aquelas atividades industriais que 
usam como matérias primas tanto produtos 
agropecuários como não agropecuários. Por 
exemplo, a atividade agropecuária de produção 
de madeira tem seu PIB totalmente incluído no 
PIB do agronegócio; já a atividade produtora de 
móveis terá apenas a parte do PIB correspond-
ente à produção de móveis de madeira incluída 
no PIB do agronegócio. Tanto a indústria de lác-
teos como de móveis compõem o agronegócio, 
mas esta última o faz apenas parcialmente. 
 (c) do lado dos insumos agropecuári-
os, faz-se o mesmo: fazem parte do agron-
egócio apenas as parcelas dos PIBs dos 
setores que produzem combustíveis, pro-
dutos químicos e veterinários, máquinas e 
equipamentos, etc., correspondentes à pro-
porção das vendas feitas à agropecuária.
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 (d) quanto aos serviços (transporte, 
armazenamento, comércio, assistência técni-
ca, consultorias, e assim por diante) as partes 
de seus PIBs contabilizados para o agroneg-
ócio são estimadas em função das produções 
das atividades agropecuária e agroindustri-
ais (inclusive de insumos) que os utilizam. 
 A regra para determinar quanto do 
PIB de uma agroindústria é contabilizado no 
agronegócio é, então, a seguinte: (a) a indústria 
que visa a transformar somente matéria prima 
da agropecuária (grãos, frutas, legumes e ver-
duras, fibras, madeira – ou animal – produtos 
da bovinocultura, suinocultura, avicultura, pes-
ca) tem o PIB totalmente atribuído ao agron-
egócio; (b) a indústria que processa apenas em 
parte matéria prima da agropecuária (calçados, 
vestuários, móveis) tem o seu PIB alocado ao 
agronegócio proporcionalmente ao valor da 
matéria prima da agropecuária no total de suas 
compras de matérias primas. Uma terceira par-
te da indústria de transformação não utiliza 
matéria prima da agropecuária, mas somente de 
origem mineral e não faz parte do agronegócio. 
 Outro aspecto que deve ficar claro é que 
o PIB da agropecuária pode ser comparado dire-
tamente ao PIB do país e, também, aosdos de-
mais setores econômicos (indústria e serviços). 
O PIB do agronegócio, por sua vez, somente 
pode ser comparado diretamente ao PIB total 
do país. Assim, para obter o PIB da economia 
toda, não se pode somar o PIB do agronegócio 
aos demais setores (indústria e serviços em ger-
al) porque em agronegócio estão incluídas (par-
cial ou totalmente) diferentes atividades da in-
dústria e serviços. Especificamente na indústria 
de transformação estão incluídos, (a) a jusante, 
seus ramos de alimentos, fibras e vestuários, 
madeira, celulose e papel, bioenergia e (b) a 
montante, a indústria química provedora de in-
sumos e a mecânica, que produz bens de capital 
para a agropecuária ou agroindústria. Eviden-
temente, podem ser feitas comparações entre 
o PIB da agroindústria ao PIB da indústria de 
transformação (ou do total da indústria – que 
inclui a indústria extrativa, de transformação, 
utilidades públicas e construção civil), tendo em 
devida conta que a primeira é parte da segunda. 
 Análises detalhadas, realizadas pelo 
Cepea, de dados do Brasil apontam que, ao 
longo do século 21, até agora o agronegócio 
representa cerca de 25% do PIB nacional. Den-
tro do agronegócio, em números redondos, a 
agropecuária fica com 25% (ou em torno de 
6% do PIB total do Brasil), a agroindústria pro-
cessadora com outros 25% (em torno de 50% 
do PIB da indústria de transformação brasilei-
ra), e agrosserviços com 45% e os insumos 
para agropecuária com 5%. O agronegócio 
emprega cerca de 20% da população ocupada 
no Brasil, sendo que a agropecuária responde 
por 47% dos ocupados do agronegócio, a 
agroindústria, 21% e os agrosserviços, 32%. 
 Deve ficar bem claro que o crescimento 
do agronegócio – alavancado pela oferta (pre-
dominantemente, produtividade) agropecuária 
condicionado, evidentemente, pela demanda in-
terna ou externa - implica crescimento da econo-
mia como um todo devido a sua integração com 
os demais setores econômicos. O agronegócio 
inclui, além da agropecuária, todas as ativi-
dades industriais que usam a sua matéria prima 
(isoladamente ou em conjunto com matérias 
primas minerais) ou que lhe fornecem insumos 
e bens de capital (usando matérias primas min-
erais). Fora do agronegócio, as atividades tendo 
na mineração sua base e desvinculada a mont-
ante e a jusante da agropecuária também são 
alavancadas pela sua produtividade e condicio-
nadas sua demanda. De qualquer forma, na in-
terdependência entre agronegócio e não-agron-
egócio prevalece a complementariedade.
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AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO
CEPEA - CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA - ESALQ/USP
 O crescimento econômico tanto no 
Brasil como dentro do agronegócio tem sido 
desequilibrado. De 2000 a 2019, o PIB do 
agronegócio avançou a modesto 1,8% ao ano, 
contra 2,3% para a economia como um todo. 
Em termos de segmentos do agronegócio tem-
se que a agropecuária cresceu, em média, a 
3,7% ao ano; a agroindústria assim como o to-
tal da indústria de transformação brasileira, a 
entre 0,6 a 0,8%. A atividade industrial – do 
agronegócio ou de fora dele - vem, portan-
to, perdendo importância relativa no Brasil há 
décadas. A exceção tem sido a indústria extra-
tiva, que vem crescendo em torno a 3,5% ao 
ano, comparável à agropecuária. Esses dados 
evidenciam a fragilidade do Brasil no tocante 
à agregação de valor às suas matérias primas. 
 Câmbio valorizado, carga tributária alta, 
juros altos, infraestrutura deficiente – o Custo 
Brasil, enfim - e, principalmente, baixa produ-
tividade, têm sido apontados como possíveis 
explicações para esse fraco crescimento obser-
vado na indústria de transformação. No caso 
da agroindústria, um grande entrave tem sido 
o protecionismo por parte dos principais países 
importadores, que se empenham em assegurar 
que a agregação de valor se dê em seus territóri-
os, razão pela qual nas exportações do agron-
egócio predominam as matérias primas. No 
caso do complexo da soja, 83% do faturamento 
com exportações correspondem às vendas de 
grãos, ficando o farelo com 15% e o óleo com 
2%. O Brasil poderia tranquilamente oferecer 
competitivamente esses derivados em volumes 
muito maiores, mas os países importadores não 
abrem seus mercados para que isso se aconteça. 
 Nesse contexto, na relação do agron-
egócio e o restante da economia há o debate 
sobre o fato de que a exportação predominante 
de commodities baseadas em recursos natu-
rais (ligadas à agropecuária ou à mineração) 
resultaria em excessiva valorização cambial 
em prejuízo da competitividade da indústria 
de base mineral. A chamada doença holande-
sa é evocada. O fato, entretanto, é que expor-
tações expressivas de qualquer setor acabam 
por baratear o dólar (em reais) – se flutuante. 
Cabe, em caso de perda de competitividade, 
reavê-la pelo aumento de produtividade e pela 
adequada ação dos responsáveis pela política 
comercial do país nos aspectos ligados ao pro-
tecionismo de nações estrangeiras. Dados des-
de 2000 até 2019, apontam que enquanto o 
câmbio se valorizou 44% em termos reais, os 
PIBs da agropecuária e da indústria extrativa 
cresceram, ambos, 85%. Já o PIB da indústria 
de transformação cresceu apenas 15%. A valor-
ização cambial não é, portanto, obstáculo para 
o crescimento da agropecuária e da indústria 
extrativa. Ademais, dados da FGV mostram que 
a produtividade do trabalho cresceu, nesse mes-
mo período, 250% na agropecuária e 70% na 
indústria extrativa. Porém, na indústria de trans-
formação a produtividade caiu 7%. 
 
 Por suas raízes históricas, agronegócio 
não implica distinção entre categorias – por 
tamanho, tecnologia, por exemplo – dos par-
ticipantes das cadeias produtivas. No Brasil, 
tem sido largamente utilizado, de maneira im-
própria, o conceito de agronegócio para refer-
ir-se à categoria de grandes produtores agro-
pecuários, cuja produção é predominantemente 
comercializada nos mercados interno e externo. 
Com isso desloca-se analiticamente os peque-
nos produtores – inclusive os de subsistência 
- das cadeias produtivas às quais devem se 
integrar por meio de programas de apoio ao 
desenvolvimento rural. Tais cadeias podem ser 
mais curtas (local, regional) ou mais longas 
4. Agronegócio: uso 
recomendado do termo
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AGRONEGÓCIO: CONCEITO E EVOLUÇÃO
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(nacionais ou globais), mas são sempre formas 
organizacionais de agregar valor às matérias 
primas, gerando adicionais de renda. Evidente-
mente, dentro do agronegócio, especificamente 
de seu segmento agropecuário, persiste uma 
variedade de categorias socioeconômicas, que 
demandam atenção e apoio do Estado especi-
ficamente direcionados. Situam-se aí programas 
de cooperativismo, crédito, comercialização, ex-
tensão rural, assentamentos e reforma agrária, 
cujo objetivo é ter o progresso socioeconômico 
alcançando a totalidade dos produtores rurais. 
 Para adequação de políticas agrícolas, 
estabeleceu-se, por exemplo, em 1995, o concei-
to legal de agricultura familiar, em geral identifi-
cada como pequena produção, que contaria com 
até dois empregados assalariados permanentes 
e eventualmente com temporários. Uma vez que 
esse produtor configura-se como um alvo mais 
difícil de ser alcançado pelos instrumentos gerais 
de política (como crédito rural, preços mínimos, 
seguros), o conceito de agricultura familiar é op-
eracionalmente útil. Entretanto, os agricultores 
familiares fazem logicamente parte do agron-
egócio, na medida em que integram – ou dever-
iam integrar - cadeias produtivas para que seus 
produtos atinjam mercados mais amplos, em 
diferentes formas, locais e momentos no tempo. 
 Uma característica do agronegócio tem 
sido a concentração dos mercados - tanto no 
que se refere a produção e venda de insumos 
como a processamento de matéria-prima e à 
distribuição - mediante fusões e aquisições. A 
predominância de oligopólios e oligopsôniosa 
jusante e a montante da agropecuária leva à 
necessidade/premência do associativismo/coop-
erativismo dos produtores agropecuários como 
forma reduzir o desequilíbrio na capacidade de 
negociação dos pontos de vista econômico-fi-
nanceiro e informacional. Os órgãos de defe-
sa da concorrência têm um papel fundamen-
tal nessa questão, como mencionado acima. 
 Entretanto, mesmo no segmento agro-
pecuário há grande concentração da produção 
(e da renda). Dados do Censo Agropecuário de 
2017 apontam que 85% do Valor Bruto da Pro-
dução (VBP) são gerados em apenas 9% dos 
estabelecimentos. Mesmo na categoria familiar 
a concentração de renda é relativamente ele-
vada: 86% do VBP provêm de 29% dos esta-
belecimentos. Estima-se, como consequência, 
que a pobreza no meio rural brasileiro é o dobro 
daquela observada no país como um todo. O 
grande desafio no meio rural brasileiro é pro-
mover a inclusão produtiva dos trabalhadores 
em 90% dos mais de cinco milhões de estabe-
lecimentos. É fundamental que seja reduzida 
a lacuna tecnológica que separa, de um lado, 
uma minoria numérica (mas que gera a maior 
parte da produção) de produtores atuando jun-
to à fronteira tecnológica e, de outro, a imensa 
maioria de produtores distantes dessa fronteira, 
vivendo, grande parte, sob condições socioeco-
nômicas muito aquém do desejado e do possív-
el num país de classe média emergente como o 
Brasil. Programas de educação, extensão, crédi-
to, seguro podem a médio e longo prazo levar ao 
progresso socioeconômico desses produtores. 
No curto prazo, entretanto, programas de trans-
ferência condicionada de renda são essenciais/
obrigatórios para permitir a permanência de 
parte da população brasileira no meio rural sob 
condições de vida adequadas. Aliás, o problema 
de pobreza e desigualdade no Brasil é tão am-
plo e severo, que tal programa de transferência 
condicionada de renda deveria ser incluído de 
forma bem dimensionada e previsível no orça-
mento de longo prazo da economia brasileira.

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