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Conceito de habilidades

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HABILIDADES VISUOESPACIAIS, PRAXIAS 
E GNOSIAS: ASPECTOS TEÓRICOS E 
INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO
2
Aline Monique Carniel 
São Paulo 
Platos Soluções Educacionais S.A 
2021
HABILIDADES VISUOESPACIAIS, PRAXIAS 
E GNOSIAS: ASPECTOS TEÓRICOS E 
INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO
1ª edição
3
2021
Platos Soluções Educacionais S.A
Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César
CEP: 01418-002— São Paulo — SP
Homepage: https://www.platosedu.com.br/
Head de Platos Soluções Educacionais S.A 
Silvia Rodrigues Cima Bizatto
Conselho Acadêmico
Carlos Roberto Pagani Junior
Camila Turchetti Bacan Gabiatti
Camila Braga de Oliveira Higa
Giani Vendramel de Oliveira
Gislaine Denisale Ferreira
Henrique Salustiano Silva
Mariana Gerardi Mello
Nirse Ruscheinsky Breternitz
Priscila Pereira Silva
Tayra Carolina Nascimento Aleixo
Coordenador
Camila Turchetti Bacan Gabiatti
Revisor
Elisangela Toth
Editorial
Alessandra Cristina Fahl
Beatriz Meloni Montefusco
Carolina Yaly
Mariana de Campos Barroso
Paola Andressa Machado Leal
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________________ 
Carniel, Aline Monique
C289h Habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias: aspectos 
 teóricos e instrumentos de avaliação / Aline Monique 
 Carniel. – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A., 
 2021.
 45 p.
 
 ISBN 978-65-5356-045-1
 1. Neuropsicologia. 2. Habilidades visuespaciais.
 3. Praxias. I. Título. 
CDD 150
____________________________________________________________________________________________
Evelyn Moraes – CRB-8 SP-010289/O
© 2021 por Platos Soluções Educacionais S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser 
reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, 
eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de 
sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, 
por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A.
4
SUMÁRIO
Conceito de habilidades visuoespaciais e alterações 
relacionadas _________________________________________________ 05
Conceitos e tipos de praxias _________________________________ 19
Conceitos e tipos de gnosias _________________________________ 33
Avaliação das habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias__ 46
HABILIDADES VISUOESPACIAIS, PRAXIAS E GNOSIAS: 
ASPECTOS TEÓRICOS E INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO 
5
Conceito de habilidades 
visuoespaciais e alterações 
relacionadas
Autoria: Aline Monique Carniel
Leitura crítica: Elisangela Toth
Objetivos
• Conhecer como as informações sensoriais são 
captadas pelos órgãos dos sentidos e interpretadas 
pela percepção.
• Apresentar o conceito de habilidades visuoespaciais 
e sua relação com as atividades cotidianas. 
• Compreender como as alterações visuoespaciais 
podem causar prejuízos na execução de tarefas 
básicas.
6
1. Percepção: a relação do homem 
com o mundo
A sobrevivência do ser humano em um ambiente está estreitamente 
relacionada à sua percepção. É por meio da percepção que o homem 
pode conhecer o meio e compreender sua relação com ele. Os órgãos 
responsáveis por receber as informações do ambiente são chamados 
de órgãos dos sentidos, e eles permitem a percepção de temperatura, 
textura, cores, formas, cheiro, gosto e sons presentes em um local. 
De acordo com a literatura, o sistema sensorial humano é constituído 
por 11 sentidos diferentes. Os sentidos químicos favorecem a percepção 
de substâncias químicas que trazem riscos à saúde, e englobam o olfato 
e o paladar. Os sentidos de posição, cinestésico e vestibular, permitem 
identificar o posicionamento do corpo e mantê-lo equilibrado. Os 
sentidos cutâneos são aqueles que captam as sensações de frio, calor, 
pressão, dor e contato físico. A audição detecta ondas sonoras a partir 
da vibração do ar e localiza a fonte dos sons. Por fim, a visão capta 
ondas luminosas e produz imagens nítidas (DAVIDOFF, 2001).
Como observado, os órgãos dos sentidos facilitam o conhecimento e 
a interação com o mundo, e oportunizam uma experiência infinita de 
cheiros, sabores, imagens e sons, através do olfato, do paladar, da visão 
e da audição. Além disso, permitem que os estímulos do ambiente 
sejam percebidos e desencadeiem respostas autônomas ou voluntárias. 
Também podem funcionar como órgãos efetores, por exemplo, na 
comunicação verbal e no olhar.
O sistema sensorial é composto por diversas células que possibilitam 
a recepção das informações. Essas células podem ser subdivididas 
em: 1) exteroceptores: presentes em todo o sistema sensorial, são 
responsáveis pela captação dos estímulos externos; 2) quimioceptores: 
contidos no nariz e na boca, dependem da ligação específica de uma 
proteína ao receptor; 3) propioceptores: responsáveis pela identificação 
7
dos estímulos internos e pela percepção dos membros do corpo 
(postura e posição); 4) interoceptores: possibilitam a percepção das 
necessidades básicas do organismo, como fome, náusea, sede, prazer 
sexual e pressão arterial(STRAUSS et al., 2006). 
Para captar os estímulos, o sistema sensorial é composto por 
terminações nervosas que levam a informação, através de impulsos 
elétricos, para serem interpretadas no sistema nervoso central (SNC). 
Essa interpretação ou percepção ocorre através da discriminação dos 
estímulos, realizada quando os impulsos nervosos chegam a áreas 
cerebrais específicas para a codificação.
A percepção é um processo cognitivo, uma forma de conhecer o mundo. 
Embora todos os processos cognitivos estejam interconectados, estamos 
iniciando nosso exame da cognição pela percepção porque a percepção 
é o ponto em que a cognição e a realidade encontram-se e, talvez, a 
atividade cognitiva mais básica da qual surgem todas as outras. (DAVIDOFF, 
2001, p.141)
A percepção possibilita que os indivíduos construam seu conceito 
sobre o mundo e, a partir desse conceito, registrem suas experiências. 
Ao mesmo tempo, à medida que novos estímulos são captados, são 
significados de acordo com as experiências prévias do sujeito. Nessa 
dinâmica, as habilidades construtivas criam uma hipótese a respeito de 
dados relevantes que podem ser encontrados, estando em prontidão 
para receber determinada informação com base no armazenamento e 
na integração de experiências.
2. Funcionamento da visão e percepção visual
A visão é classificada como um sentido predominante no ser humano. 
Através dela, os indivíduos podem observar o ambiente em que estão 
inseridos, além de manter contato, ler e evitar obstáculos e acidentes. 
8
As estruturas que integram o sistema visual incluem componentes 
anatômicos dos olhos, o colículo superior e o córtex occipital.
O processo visual inicia-se pelas ondas luminosas, resultado da vibração 
do campo eletromagnético. A primeira estrutura dos olhos que entra 
em contato com a luz é a pupila, que aumenta para possibilitar maior 
entrada de luz em locais escuros e diminui para regular a entrada de luz 
quando há excesso de luminosidade. A íris é a estrutura que controla a 
dilatação da pupila e é conhecida por “dar cor aos olhos”. Já o cristalino, 
situado atrás da pupila, permite a focalização das imagens na retina 
(DAVIDOFF, 2001).
Os receptores das ondas luminosas são encontrados na retina e 
chamados de fotoceptores. Eles se subdividem em duas classes: 
bastonetes (visão em ambientes com baixa luminosidade) e cones (visão 
em ambientes com boa luminosidade, em que se pode distinguir as 
cores e os detalhes). Após a captação dessas ondas, as informações da 
retina são levadas pelos nervos ópticos, que se encontram no chamado 
quiasma óptico, dividindo as imagens entre os hemisférios direito e 
esquerdo. No cérebro, essas informações são processadas no colículo 
superior (análise da localização) eno lobo occipital (consciência do 
ambiente) (DAVIDOFF, 2001).
Todas as estruturas envolvidas no processamento visual são 
fundamentais para que seu funcionamento ocorra sem falhas. Quando 
alguma delas é alterada, por lesões ou pelo próprio envelhecimento, 
ocorre a diminuição da acuidade visual ou a perda da visão.
Entre as principais doenças que podem acometer os olhos está a miopia, 
que ocorre devido a prejuízos na refração da luz. Consequentemente, a 
formação da imagem acontece antes da retina, resultando em imagens 
desfocadas ou embaçadas quando estão distantes. O contrário acontece 
na hipermetropia, doença em que a imagem é focalizada após a retina, 
trazendo alterações para a visualização do que está próximo aos olhos.
9
Já o astigmatismo é causado pela curvatura desproporcional da córnea, 
o que impossibilita a formação linear de toda a imagem na retina. 
Assim, partes da imagem são constituídas antes ou após essa estrutura, 
desencadeando uma visão turva dos objetos. A presbiopia está entre os 
déficits visuais provocados pelo envelhecimento, causando a perda da 
acuidade visual devido à perda progressiva de elasticidade do cristalino. 
As lesões na via óptica causam inúmeras disfunções no campo visual, e o 
tipo de impacto observado pode ajudar a localizar a lesão.
Para converter as imagens capturadas pela retina em representações 
que possuem lógica para o homem, os sentidos perceptivos entram 
em ação. Eles permitem que um objeto seja eleito como foco do 
processamento, em detrimento de outros, e por meio de mecanismos 
inatos realizam a interpretação dos objetos. 
O princípio da constância garante que objetos já conhecidos pelas 
pessoas sejam vistos de diferentes distâncias, ângulos e iluminações, 
mantendo as características da imagem registrada previamente. Um 
exemplo desse princípio é a visão de uma xícara em um ambiente 
escuro. O sujeito a reconhecerá como uma xícara, mesmo não a vendo 
com a mesma nitidez que em situações anteriores.
Outro padrão relevante é o do agrupamento, que envolve a capacidade 
de agrupar imagens com as mesmas propriedades e tratá-las como uma 
unidade. Uma revoada de pássaros é vista como um único elemento, em 
vez de diversos pássaros isolados voando no mesmo local. Esse exemplo 
contém ainda outro princípio, a similaridade, que prevê que elementos 
com a mesma forma, cor e textura, ou que se movem na mesma direção, 
são vistos como agrupamentos.
Propriedades como simetria, proximidade, continuidade e fechamento 
também geram a percepção de diversos itens como um todo. Na 
simetria, formas equilibradas e regulares se unem e são vistas como o 
mesmo objeto. Na proximidade, elementos próximos formam um único 
10
elemento. Na continuidade, traçados próximos ou na mesma direção 
são conectados. No fechamento, estímulos incompletos são preenchidos 
e vistos como inteiros.
A percepção das cores também é um elemento muito importante 
para a compreensão das imagens. A sensação de cor é obtida pelo 
comprimento e pela frequência das ondas luminosas. Todas as cores 
vistas pelo homem podem ser classificadas quanto a três propriedades: 
1) tonalidade (refere-se ao resultado do comprimento da onda luminosa, 
ou seja, a cor. Azul, verde, amarelo e vermelho são consideradas 
tonalidades básicas); 2) saturação (produto da junção entre a tonalidade 
e a luz, responsáveis pela percepção de cores pálidas ou vibrantes); 3) 
brilho (intensidade das ondas luminosas. Um alto nível de luz refletida 
está associado a um alto brilho).
Além dos princípios discutidos até o momento, para que os sujeitos 
possam localizar-se adequadamente, também precisam compreender 
as imagens em um plano tridimensional. Para isso, necessitam 
de indicadores que tornem possível a noção de profundidade. Os 
indicadores de profundidade binoculares são caracterizados pela união 
das imagens ligeiramente diferentes, captadas pelos olhos esquerdo e 
direito, para que se tornem uma única representação tridimensional. 
Por outro lado, também, podem facilitar a percepção da profundidade 
através da convergência, em que ambos os olhos fixam o mesmo 
ponto, voltando-se um em direção ao outro e causando um feedback 
cinestésico, que estima a distância do objeto. O movimento também é 
um indicador importante de profundidade monocular.
Sempre que nos movimentamos, os objetos mais próximos parecem 
passar com mais velocidade que os distantes. Tanto os objetos mais 
próximos com os distantes parecem mover-se na direção oposta àquela 
para qual estamos nos dirigindo. A paralaxe do movimento torna-se mais 
vívida quando andamos de carro em uma rodovia. As cercas e postes 
11
que ladeiam a rodovia parecem passar voando, enquanto aqueles mais 
distantes passam lentamente. (DAVIDOFF, 2001, p. 176)
Os indicadores de profundidade monoculares fazem a acomodação 
dos músculos dos olhos para focalizar objetos próximos e distantes, 
produzindo a noção de percepção em imagens bidimensionais. Para 
que isso aconteça, são utilizados alguns fatores, como tamanho familiar 
do objeto, perspectiva linear, caracterização da luz, sombra e textura, 
perspectivas aéreas e interposição de imagens. Os indicadores pictóricos 
são aprendidos, pois os indivíduos comparam as imagens da retina às 
memórias de outras experiências, que permitem extrair relações dos 
objetos no espaço.
Assim, as percepções do ser humano são influenciadas pelas emoções 
e expectativas. Alguns interesses e motivações podem se sobrepor 
à percepção fornecida pelos órgãos dos sentidos, quando estão 
profundamente arraigados em experiências anteriores. 
3. Funções visuoespaciais
As funções visuoespaciais estão envolvidas na maioria das atividades 
cotidianas. Elas mantêm o ser humano em contato com o ambiente ao 
seu redor, permitem a compreensão e a manipulação dos estímulos 
visuais, bem como possibilitam escolher e avaliar os comportamentos a 
serem emitidos diante de determinada situação. 
Além disso, são responsáveis pela identificação do estímulo e de sua 
localização. Um exemplo é a utilização da capacidade visuoespacialpara 
imaginar um lugar ou um endereço sobre qual se ouviu falar. Também,é 
acionada quando há a necessidade de girar objetos mentalmente, para 
saber, antes de uma ação ser praticada, de que maneira ficariam.
12
Salimi e colaboradores (2018, p. 67) descrevem: “A função visuoespacial 
é a habilidade de especificar as partes e a configuração geral de uma 
percepção, apreciar sua posição no espaço, integrar uma estrutura 
espacial coerente e realizar operações mentais em conceitos espaciais”.
Para que esse processamento de estímulos aconteça, é necessário 
que haja a seleção das informações que serão processadas, visto 
que os indivíduos estão expostos a diversas informações no campo 
visuoespacial. Essa escolha é realizada através dos processos 
atencionais: bottom-up ou ascendente e top-down ou descendente.
O bottom-up é o mecanismo automático responsável pela atenção 
aos estímulos instintivos e involuntários. São partes integrantes 
desse processamento estruturas como o tronco cerebral, a junção 
temporoparietal e o córtex frontal. Considerada uma rede que atua “de 
baixo para cima”, depende do estado de alerta ou vigília (PETERSEN; 
POSNER, 2012).
O processamento top-down permite direcionar a atenção de acordo 
com as escolhas do indivíduo e suprimir alguns estímulos para manter 
a concentração em outros que são relevantes para determinada 
situação. Um exemplo desse processamento é a capacidade de ler um 
livro enquanto, no mesmo ambiente, uma música é reproduzida. Esse 
processamento utiliza estruturas frontais, o sulco intraparietal e o lobo 
parietal superior. A atenção top-down requer amadurecimento cerebral e 
pode ser estimulada e treinada durante a vida (GILBERT; LI, 2013). 
Além da identificação e interpretação dos estímulos, as habilidades 
visuoespaciais estão relacionadas à retenção e à manipulação de 
representações mentais. Assim, são partes integrantes do sistema de 
memória operacional,que consiste na capacidade de apreender as 
informações por um breve período, para posterior processamento da 
memória e formulação de resposta. 
13
O modelo de Baddeley (2012) propôs que esse tipo de memória abarca 
o componente executivo central (diretor dos recursos atencionais), a alça 
fonológica (responsável por reter o conteúdo verbal e importante para a 
aquisição de palavras, coerência e compreensão de discursos), o esboço 
visuoespacial (encarregado da manipulação e do armazenamento de 
estímulos visuais e espaciais, imprescindível para a orientação espacial, 
localização geográfica, movimentação dos olhos e representação da 
página durante a leitura) e, por fim, o buffer episódico (integrador das 
funções verbal e espacial, e de ambas com a memória de longo prazo). 
Figura 2–Modelo de Baddeley
Fonte: elaborada pela autora.
O esboço visuoespacial também foi subdividido em dois armazenadores, 
o visual cache e o innerscribe. O primeiro, visual cache, guarda os 
conteúdos visuais estáticos, como formas, texturas e cores de uma cena. 
O segundo, innerscribe, retém as relações espaciais da cena, fazendo 
o armazenamento da sequência dos eventos no campo visual e a 
associação com as informações mantidas no visual cache.
O desenvolvimento das habilidades visuoespaciais é conceituado em 
três componentes: percepção visual, visuoconstrução e memória visual. 
14
A percepção visual é a encarregada por identificar luz, cor, contraste, 
sensibilidade, orientação do estímulo e movimento. 
O processamento das informações visuais no sistema visual primário 
contém dois principais caminhos. A via ventral é direcionada para o 
córtex temporal inferior e é responsável pelo reconhecimento visual 
de objetos. Por sua vez, a via dorsal se projeta para o córtex parietal 
posterior e atua no reconhecimento de espaço.
A integração progressiva dessa percepção visual envolve a entrada 
dos córtices parietal, temporal e frontal. A integração progressiva 
da informação visual ocorre por meio de dois fluxos principais de 
processamento visual: o fluxo ventral “o quê” e o fluxo dorsal “onde”. 
O fluxo ventral é responsável por (1) resolver a interferência visual; (2) 
a capacidade de identificar um objeto mascarado por uma imagem 
sobreposta; e (3) a capacidade de dar sentido a objetos fragmentados ou 
apresentados de forma ambígua. O fluxo dorsal “onde” é responsável pela 
orientação espacial e depende das regiões parietais posteriores e inferior. 
(SALIMI et al., 2018, p. 67)
Estudos indicam que tarefas de identificação e de localização de objetos 
ativam áreas corticais distintas, como as áreas de Brodmann, o lóbulo 
parietal superior, a junção parieto-occipital e as áreas pré-motoras. 
Outros levantamentos evidenciam que as duas funções (identificação 
e localização de objetos) acionam circuitos neuronais diferentes, que 
partem do córtex estriado e seguem para os córtices occipitotemporal e 
occipitoparietal, respectivamente (STRAUSS et al., 2006). 
A visuoconstrução envolve a coordenação de habilidades motoras 
finas e habilidades espaciais, para criar um design ou reproduzir um 
modelo. Geralmente, implica a reprodução de figuras geométricas e 
analisa não apenas a aptidão do indivíduo para copiar uma figura, mas 
também seu planejamento e organização. Já a memória visual consiste 
em dois fatores: o reconhecimento de informações visuais e a memória 
topográfica. A memória topográfica envolve a percepção e a codificação 
da orientação espacial. A orientação topográfica é caracterizada 
15
como egocêntrica (orientação em relação a si mesmo) ou alocêntrica 
(orientação em relação a outros objetos).
Mediante essa perspectiva de noções cerebrais anatômicas e de 
organização e processamento das funções visuoespaciais, é possível 
compreender que a composição desses sistemas é fundamental para a 
realização da maioria das atvidades humanas. Quando alguma dessas 
estruturas é alterada, prejuízos importantes ocorrem na percepção 
visual, visuoconstrução e memória visual.
4. Alterações nas funções visuoespaciais
Os distúrbios visuoespaciais são um conjunto de alterações associadas 
às lesões cerebrais, tendo sido identificados pela primeira vez por 
Quaglino e Borelli no século XIX, em um paciente que apresentava, 
após um acidente cerebrovascular, hemianopsia homônima esquerda, 
incapacidade de reconhecer familiares, perda da visão para cores e 
dificuldade na orientação espacial.
Algumas áreas do cérebro são responsáveis pelo funcionamento 
visuoespacial. No entanto, quando lesionadas, podem causar danos 
significativos nessas habilidades. Lesões no córtex primário podem 
provocar a chamada cegueira cortical, ou seja, incapacidade de receber 
informações dos estímulos visuais. Lesões no córtex secundário podem 
produzir agnosia visual, que consiste em não reconhecer objetos do 
cotidiano ao vê-los, somente ao tocá-los; cegueira verbal, que diz 
respeito à dificuldade de reconhecer as palavras; e alexia, que é a perda 
da capacidade de compreender a linguagem escrita ou impressa.
Outras alterações podem ser encontradas no sistema visuoespacial, tais 
como: 
16
• Prosopagnosia: condição pouco conhecida que se trata de uma 
falha ou alteração do processo neural que reconhece a face ou o 
rosto, mesmo de pessoas conhecidas e até mesmo de familiares. 
As lesões cerebrais são as causas mais comuns para o surgimento 
da prosopagnosia, que pode ser decorrente de um AVC ou trauma 
no lobo occipital e temporal do hemisfério cerebral direito, local 
relacionado à área da visão.
• Desorientação geográfica: déficits no senso de localização, 
apesar de identificar o ambiente. Condição típica em quadros 
demenciais, dificultando que o sujeito tenha uma compreensão 
da sua geolocalização, mas não impedindo que aquele lugar seja 
identificado e assimilado.
• Desorientação topográfica: dificuldade de se relacionar com 
o espaço externo. Indivíduos com essa alteração demonstram 
problemas para se locomover e saber o caminho correto, mesmo 
que em ambientes familiares. Tal dificuldade pode iniciar-se em 
decorrência de falhas de memória ou de agnosia topográfica. 
• Apraxia construtiva: déficits na capacidade de reproduzir 
imagens através de desenhos, representações gráficas ou 
construções. Tais atividades requerem preservação da capacidade 
visuoespacial e da motricidade. A apraxia construtiva ocorre 
principalmente devido a problemas perceptuais, que podem ser 
provocados em caso de lesões no hemisfério direito, no lobo 
parietal, e devido a erros de execução, que podem aparecer como 
consequência de alterações no hemisfério esquerdo. 
• Ataxia óptica: prejuízos na integração visual e motora, 
acarretando a perda do controle muscular durante os movimentos 
voluntários. É um distúrbio de coordenação entre a visão e os 
movimentos, em que ocorrem alterações na identificação dos 
estímulos, mesmo que o indivíduo não apresente desorientação 
visual, proprioceptiva, cinestésica ou deficiência motora. O 
17
problema está na fixação do estímulo, apesar de a orientação ser 
preservada. Envolve o córtex parietal posterior em sua parte mais 
próxima ao sulco intraparietal.
• Heminegligência: ausência da capacidade de reagir a estímulos 
destinados a um dos lados do corpo. Além disso, também ocorre 
dificuldade para a orientação e o direcionamento do lado em 
que o déficit se manifesta (direito ou esquerdo). Essa condição 
acontece após uma lesão cerebral que atinge áreas responsáveis 
pelos sentidos e pelos movimentos. No entanto, as alterações que 
ocorrem nesses quadros podem ser diferentes, dependendo da 
área lesionada, como problemas na atenção a estímulos sensoriais, 
discrepância entre o planejamento das ações e a execução dos 
movimentos, e prejuízos na representação mental. 
• Discalculia: apresenta-se como um quadro secundário às 
disfunções visuais, por meio de problemas no raciocínio lógico-
matemático e no desenvolvimento de cálculo e operações 
numéricas. Definida como um transtorno deaprendizagem, pode 
ser subdividida em diferentes tipos de manifestação: 1) dificuldade 
na nomeação e compreensão de números, quantidades e 
símbolos matemáticos que são apresentados verbalmente 
(discalculia verbal);2)problemas na leitura e compreensão de 
algarismos, operações e expressões matemáticas quando são 
escritas (discalculia léxica);3) prejuízos para escrever números e 
sinais matemáticos (discalculia gráfica);4) dificuldade para realizar 
contas mentais e entender os conceitos da matemática (discalculia 
ideognóstica);5) dificuldade de usar números e realizar cálculos 
(discalculia operacional); 6) disfunções na associação de princípios 
matemáticos abstratos a informações concretas (discalculia 
practognóstica). 
Mediante o exposto, verifica-se que as funções visuoespaciais são 
habilidades necessárias para a realização da maioria das atividades 
humanas. Conhecer os componentes da capacidade visuoespacial e suas 
18
possíveis alterações permite a elaboração de programas de intervenção 
e reabilitação que aumentem a capacidade visuoespacial ou minimizem 
os déficits já existentes.
Referências
BADDELEY, A. D. Working Memory: theories, models and controversies.
Annual Review of Psychology, v. 63, p. 1-29, 2012. Disponível em:
https://doi.org/10.1146/annurev-psych-120710-100422. Acesso em: 10 dez. 2021.
DAVIDOFF, L. L.Introdução à Psicologia. 3.ed. São Paulo: Pearson Makron Books, 
2001.
GILBERT, C. D.; LI, W. Top-downinfluenceson visual processing. NatureReviews. 
Neuroscience, v. 14, n. 5, p. 350-363, 2013.Disponível em:http://doi.org/10.1038/
nrn3476.Acessoem: 10 dez. 2021.
PETERSEN, S. E.; POSNER, M. I. The attention system of the humanbrain: 20 
yearsafter. AnnualReviewofNeuroscience, v. 35, p. 73-89, 2012.
SALIMI, S. et al. Can visuospatial measures improve the diagnosis of Alzheimer’s 
disease? Alzheimers Dement (Amst), v.10, p. 66–74, 2018.
STRAUSS, E.; SHERMAN, E. M. S.; SPREEN, O. 
ACompendiumofNeuropsychologicalTests: administration, 
normsandcommentary. 3. ed. New York: Oxford University Press, 2006. 
19
Conceitos e tipos de praxias
Autoria: Aline Monique Carniel
Leitura crítica: Elisangela Toth
Objetivos
• Conhecer os diferentes tipos de movimento 
necessários para o desenvolvimento e a 
sobrevivência humana.
• Identificar as áreas cerebrais envolvidas no 
gerenciamento dos movimentos e compreender o 
funcionamento do córtex motor.
• Reconhecer possíveis alterações na execução dos 
movimentos e distinguir os diferentes tipos de 
apraxias que podem acometer indivíduos com tais 
alterações.
20
1. Vida e movimento
Os movimentos fazem parte da vida humana desde seus estágios iniciais 
e caracterizamos marcos do neurodesenvolvimento. Para compreender 
se um bebê está adquirindo as habilidades esperadas para a sua idade, 
avalia-se com quanto tempo ele se sentou, engatinhou, andou, falou, 
atingiu o controle dos esfíncteres, aprendeu a escrever e a amarrar os 
cadarços, entre outros.
Durante toda a vida, o homem está em constante movimento. Ele 
desloca-se de um lugar para o outro, muda sua postura, veste-
se, alimenta-se e realiza diversas atividades necessárias para sua 
sobrevivência. Uma pessoa que perde a capacidade de movimentação 
requer cuidados específicos, como o uso de dispositivos, recursos e 
cuidadores que possibilitem a realização dessas atividades.
A prontidão para efetuar um movimento é chamada de praxia, que 
abrange tanto a capacidade para a execução dos movimentos quanto 
o conhecimento das ações a serem realizadas e da aplicabilidade 
dos objetos. Um exemplo de praxia é a capacidade de alimentar-se 
utilizando talheres, pois é necessário que haja a capacidade motora 
preservada e o entendimento da utilidade dos talheres e dos atos 
necessários para manuseá-los. Assim, a praxia define todos os gestos 
realizados que encerram uma finalidade (FLUENTES et al., 2014).
Existem diversas classificações para os movimentos humanos, de 
modo que eles podem ser subdivididos em: repostas reflexas, padrões 
motores rítmicos e movimentos voluntários. As repostas reflexas são 
movimentos involuntários diante de um estímulo, como a diminuição 
da pupila de frente para aluz, o reflexo da patela após a estimulação do 
joelho ou a retirada imediata da mão de um objeto que está quente. 
Já os padrões motores rítmicos determinam o começo e o fim de uma 
21
sucessão de movimentos, que depois de estabelecidos continuarão a ser 
realizados de forma automática, como comer e andar.
Os movimentos voluntários são distintos por serem executados 
mediante um objetivo. Eles podem ser eliciados por estímulos externos 
ou pela motivação do indivíduo, têm um propósito estabelecido e são 
aprendidos durante a vida. Por exemplo: ler, tocar um instrumento 
musical ou digitar no computador.
2. O córtex motor
O córtex motor gerencia todos os padrões de movimentos. Como é 
possível observar na Figura 1, ele está situado principalmente no lobo 
frontal, na frente do sulco central, e integra diversas áreas cerebrais 
para possibilitar a realização dos movimentos.
Figura 1 – Córtex motor
Fonte: medicalstocks/iStock.com.
22
O córtex motor é subdividido em diversas áreas: córtex motor primário, 
área motora suplementar, áreas pré-motoras, área de Broca e córtex 
parietal posterior.
Nos últimos estágios de desenvolvimento, nos primatas e, em particular, 
no homem, ocorreu uma diferenciação, e as duas partes do sistema 
funcionalmente único, uma para a preparação de movimentos e outra para 
levá-los a cabo, tornaram-se claramente separadas. As zonas posteriores 
do córtex sensitivo-motor, que fornecem a base cinestésica do movimento, 
se viram segregadas na região pós-central, mantendo as suas funções 
aferentes e formando uma parte da segunda unidade cerebral, enquanto 
as zonas anteriores, que incluem as áreas motoras e pré-motoras, 
assumiram uma responsabilidade especial na organização eferente do 
movimento, e constituem uma parte da terceira unidade cerebral. (LURIA, 
1981, p.144)
O córtex motor primário pode ser considerado como o comandante dos 
movimentos, isso porque origina os impulsos elétricos que atuam como 
mensageiros elevam para os músculos as ordens para a produção das 
ações voluntárias. A área motora suplementar funciona como o maestro 
dos movimentos, pois cria e organiza as sequências das ações a serem 
executadas.
Enquanto isso, as áreas pré-motoras são as guardiãs das memórias 
dos movimentos já executados durante a vida. Auxiliam o córtex motor 
primário na coordenação das ações e estão relacionadas como alguns 
movimentos necessários para a fala. Considerando a linguagem oral, 
ressalta-se a área de Broca como a principal encarregada da geração dos 
movimentos necessários para a fala.
Outra área muito importante para a execução dos movimentos é o 
córtex parietal posterior. No entanto, ele nem sempre é considerado 
como uma área motora, devido ao fato de funcionar como um 
intermediário entre os estímulos visuais e os estímulos motores. Por 
23
isso, também pode ser considerado como parte integrante do sistema 
sensorial.
No que diz respeito à estruturação dessas regiões, as áreas corticais pós-
centrais são responsáveis pela coordenação aferente dos movimentos. 
Na porção primária dessa região, estão os acessos que geram os 
impulsos elétricos para os membros superiores e inferiores e para o 
rosto (incluindo os lábios e a língua). Lesões nesse local podem provocar 
diminuição ou perda da sensibilidade dos membros coordenados por 
essa porção do cérebro.
Tais alterações podem ocasionar um quadro nomeado de paresia 
aferente, no qual os impulsos motores não chegam aos músculos 
adequados, por isso o controle dos membros é atingido e o indivíduo 
perde a capacidade de realizar as ações voluntárias, mesmo não 
sofrendo declínio da força muscular.
Na porção secundária da região pós-central, estão os neurônios que 
processam informações especializadas e generalizadas a todo o corpo. 
Lesões nesse local podem ocasionar problemas na percepçãodos 
movimentos corporais e déficits na sensibilidade do tato.
Outra circunstância provocada por lesões nessa área é a apraxia 
aferente, em que perturbações nos estímulos aferentes interferem 
diretamente na organização do movimento. Por esse motivo, as mãos 
não recebem os impulsos para executar movimentos especializados. 
Pessoas com esse comprometimento fazem gestos similares para 
segurar uma caneta ou para transportar uma mesa, por exemplo.
Ainda, lesões nas áreas inferiores dessa região podem atingir o domínio 
dos movimentos necessários para a fala, causando a afasia motora 
aferente. Sujeitos com esse tipo de afasia não conseguem posicionar 
corretamente a língua e os lábios, a fim de obterem os sons necessários 
24
para a comunicação. Comprometimentos na escrita, como trocas de 
palavras por outras com sons semelhantes, também são notados nesse 
tipo de afasia.
Enquanto as áreas pós-centrais gerenciam os impulsos aferentes, as 
regiões pré-motoras ocupam-se da união dos estímulos eferentes. Dessa 
forma, cuidam da ordenação das informações motoras individuais, para 
que sejam integradas em uma sequência.
Lesões nesse local não acarretam danos no desejo de executar as 
ações, prejuízo no plano de realização dos movimentos ou paralisia 
dos membros, mas sim a desregulação dos gestos realizados com uma 
finalidade específica, como a perda da precisão para escrever, digitar ou 
tocar um instrumento musical.
Se a lesão na área pré-motora estiver localizada em estruturas 
profundas do córtex motor, o sinal observado será a dificuldade de 
finalização dos movimentos. Pessoas com esse tipo de disfunção podem 
iniciar facilmente um movimento; no entanto, têm dificuldade para 
discernir o momento certo de interromper a ação.
Lesões inferiores da área pré-motora geram a chamada afasia motora 
eferente, marcada pelos déficits na articulação de palavras compostas 
ou de uma sequência de palavras. Nesse tipo de afasia, o paciente é 
capaz de pronunciar sons isolados, mas quando é solicitada a junção 
de tais sons, ele manifesta dificuldades. A Tabela 1 apresenta de forma 
sucinta os possíveis transtornos relacionados às áreas pós-centrais e 
pré-motoras.
25
Tabela 1 – Lesões no córtex motor
Localização Região Alteração Características 
Áreas pós-
centrais
Zonas 
primárias
Paresia aferente
Os impulsos motores não 
chegam aos músculos 
adequados, por isso o 
controle dos membros é 
atingido e o indivíduo perde 
a capacidade de realizar as 
ações voluntárias, mesmo 
sem declínio da força 
muscular. 
Zonas 
secundárias
Amorfossíntese
Déficits na habilidade de 
integrar percepções táteis 
e cinestésicas, gerando 
inaptidão para identificar 
objetos pelo tato.
Apraxia aferente
As mãos não recebem os 
impulsos para executar 
movimentos especializados. 
Nesse quadro, as pessoas 
fazem gestos similares para 
segurar uma caneta ou para 
transportar uma mesa.
Zonas 
inferiores
Afasia motora 
aferente
Inabilidade para posicionar 
corretamente a língua e 
os lábios, a fim de obter 
os sons necessários 
para a comunicação. 
Comprometimentos na 
escrita, como trocas de 
palavras por outras com 
sons semelhantes.
26
Áreas pré-
motoras
Estruturas 
subcorticais
Perseverança 
motora elementar Dificuldade para a 
finalização dos movimentos. 
Pessoas com esse tipo de 
disfunção podem iniciar um 
movimento, mas possuem 
dificuldade para discernir 
quando interromper a ação.
Zonas 
inferiores
Afasia motora 
eferente
Déficits na articulação de 
palavras compostas ou de 
uma sequência de palavras. 
O paciente é capaz de 
pronunciar sons isolados, 
mas quando é solicitada 
a junção de tais sons 
ele tem dificuldades. Há 
prejuízos na escrita quanto 
à transição de uma palavra 
para a outra.
Fonte: elaborada pela autora.
3. Apraxia: conceitos e classificações
A apraxia pode ser definida como um distúrbio que gera prejuízos 
na realização de atividades motoras orientadas para uma finalidade, 
limitando a prontidão para a execução das ações mesmo que o indivíduo 
mantenha as áreas sensoriais, a aptidão física, a compreensão das ações 
e a motivação para realizá-las preservadas (PARK, 2017). 
Ela pode causar déficits na efetivação dos movimentos com uso 
de objetos (por exemplo, escovar os dentes e utilizar talheres) e na 
realização de atividades motoras familiares (por exemplo, fazer sinal de 
positivo).
27
Para que o homem execute um movimento, é necessário que ele possua 
primeiramente a imagem desse ato em sua mente, para que depois 
consiga projetar uma sequência de ações a serem realizadas para tal 
objetivo. Esse processo é chamado de estratégia ideatória.
Após conceber em sua mente esse planejamento, é necessário que o 
cérebro propague para as áreas motoras as informações programadas, 
a fim de que a estratégia ideatória seja realizada através da execução 
dos movimentos.
Gil (2002) descreveu que as alterações no processo ideatório são a 
causa da apraxia ideatória, enquanto distúrbios na transferência do 
planejamento ideatório para as estruturas motoras explicam a apraxia 
motora, como apresentado na Figura 2.
Figura 2 – Principais formas de apraxia
Fonte: adaptada de Gil (2002).
28
Heilman (1976) e colaboradores postularam que as representações 
motoras podem ser chamadas de praxicons. Para ele, essas 
representações ficam guardadas no lobo parietal e são processadas 
pela área motora suplementar e pelo córtex motor. Assim, as 
áreas responsáveis pelo reconhecimento dos movimentos seriam 
consideradas como os praxicons de entrada, e as responsáveis pela 
realização dos movimentos, como os praxicons de saída.
A Figura 3 demonstra como ocorre a entrada das informações e as 
associações necessárias para a produção dos movimentos.
Figura 3 – Produção dos movimentos, de acordo com 
Heilman e colaboradores (1976)
Fonte: adaptada de Gil (2002).
Existem diversas classificações para as apraxias, e essas divisões são 
estabelecidas de acordo com as capacidades afetadas.
A apraxia ideatória é definida pela inabilidade na execução das tarefas 
complexas, como o manuseio de objetos. Está ligada a perturbações 
29
temporoparietais e pode ser vista através da sequência de atos 
desorganizados diante de um objeto. Deve-se atentar para a diferença 
entre a dificuldade de reconhecimento visual e tátil e os prejuízos na 
manipulação dos itens.
Nesse tipo de apraxia, apesar de o objeto ser conhecido, o indivíduo não 
consegue manipulá-lo, e por isso tenta manuseá-lo de todas as formas 
possíveis. Essas tentativas envolvem alguns erros, como: 1) incapacidade 
de reconhecimento da função do utensílio, como segurar um pente e 
fazer o movimento utilizado para escovar os dentes; 2) dificuldade de 
integração das ferramentas com os objetos, como tentar utilizar uma pá 
para cortar um bloco; 3) desconhecimento mecânico dos objetos, como 
problemas para escolher, entre vários tipos de escova, a mais adequada 
para escovar os dentes; 4) déficits no conhecimento sobre a produção 
de ferramentas.
Por outro lado, a apraxia reflexiva diz respeito aos prejuízos na 
efetivação de ações desconhecidas, acarretando dificuldades para 
aprender e repetir novos gestos abstratos.
A apraxia do vestir é um tipo especial de apraxia reflexiva, em que “o 
corpo é o objeto”. Nessa forma de apraxia, acontecem erros na atividade 
de colocar roupas de forma adequada. Pessoas com essa alteração 
confundem a utilidade das peças, podendo vestir uma meia nos braços, 
ou trocam a sequência correta das peças, vestindo roupas íntimas sobre 
as calças, por exemplo.
Problemas para efetuar gestos direcionados por um pedido ou uma 
orientação são classificados como apraxia ideomotora. Pessoas que 
possuem esse acometimento conhecem a ação solicitada, entretanto 
não conseguem fazê-la de forma motora. Essas perturbações estão 
relacionadas especialmente a danos no córtex parietal.
30
A inabilidade nesse tipo de apraxia encontra-se na realização de ações 
que não estão automatizadas. Por isso, ela dificilmenteé observada 
no cotidiano, evidenciando a importância da avaliação clínica para a 
detecção desse comprometimento.
A apraxia ideomotora pode ser unilateral ou acometer mais de um 
local. Nas manifestações unilaterais, evidencia-se o distanciamento ou a 
intensificação da atração do membro em direção ao objeto. Nos casos 
bilaterais, se sobressai a dificuldade para copiar os movimentos e sua 
sequência.
As apraxias motoras podem ser diferenciadas em melocinética e 
cinestésica. Essa distinção ocorre devido ao fato de que na apraxia 
ideomotora os movimentos automáticos são mantidos, na apraxia 
melocinética ocorre a preservação somente de gestos isolados e na 
apraxia cinestésica há a perda de controle durante a realização da ação.
Os impactos observados como consequência da apraxia melocinética 
atingem principalmente a coordenação motora fina, seja para 
movimentos voluntários ou involuntários. Indivíduos com tal 
comprometimento encontram problemas para a realização de 
sequências de gestos finos, como abrir e fechar as mãos diversas vezes, 
unir dedos da mesma mão ou dedilhar.
Nesses quadros, quando ocorrem tentativas para a execução 
dos movimentos, notam-se reproduções sem ritmo ou destreza, 
rapidamente interrompidas. Assim, é comum que a sucessão de gestos 
seja substituída por repetições do mesmo gesto por um único membro 
(por exemplo, uma pessoa com dificuldade para abrir e fechar todos os 
dedos de uma mão pode fazer o movimento de abrir e fechar somente 
um único dedo). Essa apraxia pode ser caracterizada por alterações nos 
padrões dinâmicos das ações e lesões na área pré-motora, impedindo a 
efetivação dos atos motores finos.
31
Por sua vez, a apraxia cinestésica está associada a lesões na área 
sensório-motora do córtex pós-central, gerando déficits na captação de 
impulsos aferentes (recepção de informações das áreas sensoriais) e na 
efetivação dos movimentos (quando os impulsos eferentes não possuem 
as informações do ambiente, reproduzem movimentos descontrolados).
Dessa forma, a apraxia cinestésica ocasiona alterações na habilidade de 
reproduzir gestos necessários para o uso de um objeto ou para colocar 
as mãos em determinada posição. As imitações também podem ser 
realizadas de forma incorreta quando as lesões alcançam o controle 
visual, diminuindo a sensibilidade cinético-postural.
As alterações na organização dos estímulos, para reproduzir uma 
imagem e fazer desenhos em mais de uma dimensão, são chamadas de 
apraxia visuoconstrutiva, e estão associadas a lesões no córtex parietal. 
Essa competência implica unir informações e planos no espaço, através 
de habilidades perceptivas, visuais e espaciais, para organizar um 
projeto e reproduzi-lo de forma motora (GAINOTTI; TROJANO, 2018).
Já a apraxia facial consiste em uma disfunção na movimentação de 
órgãos e músculos do rosto de maneira voluntária, sendo preservados 
os movimentos automáticos. Outro tipo de apraxia observada no 
cotidiano é a apraxia de marcha, em que ocorre a incapacidade de 
efetuação dos passos, mesmo que o indivíduo não apresente nenhum 
tipo de paralisia do membro.
Alguns tipos de apraxia podem interferir diretamente na realização 
de atividades de vida diária, causando transtornos e impactando a 
funcionalidade e a qualidade de vida dos sujeitos. Por isso, é de suma 
importância que essas alterações sejam conhecidas pelos profissionais 
da neuropsicologia, para que a partir da avaliação da extensão dessas 
dificuldades sejam implementadas intervenções que minimizem os 
impactos provocados por elas.
32
Referências
ANDRADE, T. S. S. Análise de execução de movimentos em indivíduos
diagnosticados com doença Alzheimer nafaseinicial. 2020. 63 f.
Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde)–Instituto
Universitário da Maia, Portugal, 2020.
FLUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 
2014.
GAINOTTI, G.; TROJANO, L. Chapter 16–Constructional apraxia. Handbook of 
Clinical Neurology, v. 151, p.331-348, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1016/
B978-0-444-63622-5.00016-4. Acesso em: 14 dez. 2021.
GIL, R. Neuropsicologia. 2.ed. São Paulo: Livraria Santos Editora, 2002.
HEILMAN, K. M.; VOELLER, K.; ALEXANDER, A. W. Developmental dyslexia: a motor-
articulatory feedback hypothesis. Ann Neurol., v. 39, n. 3, p. 407-412, 1996.
LURIA, A. R. Fundamentos de Neuropsicologia. Rio de Janeiro: Editora da 
Universidade de São Paulo, 1981. 346 p.
PARK, J. E. Apraxia: Review and Update. Journal of Clinical Neurology, v. 13, n. 4, p. 
317-324, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.3988/jcn.2017.13.4.317. Acesso em: 
14 dez. 2021.
33
Conceitos e tipos de gnosias
Autoria: Aline Monique Carniel
Leitura crítica: Elisangela Toth
Objetivos
• Conhecer as gnosias e as vias cerebrais responsáveis 
pelo processo de reconhecimento dos estímulos.
• Identificar os tipos de agnosias e os 
comprometimentos cerebrais envolvidos na gênese 
de cada uma das alterações.
• Compreender alguns dos recursos utilizados para a 
reabilitação das gnosias.
34
1. Gnosias e estruturas cerebrais
A gnosia é a habilidade humana responsável pelo reconhecimento 
dos estímulos contidos no ambiente. Assim como outras capacidades 
humanas, depende do funcionamento adequado das estruturas 
cerebrais para que ocorra sem alterações. 
Os locais do cérebro responsáveis pela gnosia são chamados de 
áreas de associação, que podem ser divididas em áreas de associação 
unimodais e áreas de associação supramodais. As regiões unimodais 
estão relacionadas à captação sensorial e transmitem as informações 
para as áreas supramodais, a fim de que seja realizada a integração dos 
estímulos. 
Nas regiões responsáveis pela apreensão das informações sensoriais 
encontram-se as áreas unimodais, como a área de associação visual, a 
qual é dividida em duas vias: a dorsal, que analisa onde a informação 
visual se encontra, e a ventral, que decifra as características da 
informação, como cores, formas e tamanhos. Lesões nessa região 
podem causar vários tipos de agnosias visuais, em que os itens são 
visualizados, mas não identificados pelo indivíduo (FLUENTES et al., 
2014).
A área de associação auditiva também é classificada em duas vias: a via 
ventral, responsável pela distinção dos sons e das vozes, e a via dorsal, 
encarregada da localização e interpretação do conteúdo dos sons. 
Alterações na área auditiva secundária podem levar à agnosia auditiva, 
marcada pela dificuldade em reconhecer os sons, sua sequência ou 
timbre.
Já a área de associação somatossensorial tem a função de localizar, 
explorar e manipular os estímulos de forma tátil, além de guardar as 
memórias táteis. Lesões nesse local podem resultar em agnosias táteis, 
em que os estímulos não são diferenciados a partir do toque. 
35
Após passarem pelas regiões unimodais, as informações sensoriais são 
direcionadas para as áreas de associação supramodais, participantes 
da integração dos estímulos que possibilitam o reconhecimento do 
ambiente. 
A área de associação supramodal temporoparietal está envolvida com 
habilidades como a praxia, o planejamento e a atenção espacial. A 
região temporoparietal direita é encarregada do processo atencional, 
enquanto a região temporoparietal esquerda é responsável pelas 
gnosias. Alterações nessa região podem gerar agnosia digital, bem como 
confusão no esquema corporal e espacial direito-esquerdo (LURIA, 
1981).
Conforme observado na descrição das estruturas cerebrais, lesões 
em qualquer uma dessas regiões, como traumas no crânio, tumores, 
doenças neurodegenerativas ou acidentes vasculares cerebrais, podem 
levar a quadros de agnosia. 
As gnosias referem-se à capacidade de integração das impressões 
sensoriais em informações com significado. As modalidades sensoriais 
que possibilitam a percepção dos estímulos são: auditiva, visual, tátil e 
sinestésica. Suas alterações são conhecidas como agnosias, caracterizadas 
como falha no reconhecimento de estímulos. (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014,p.102)
As agnosias ainda são pouco conhecidas pela população geral. Apesar 
de provocar alterações na funcionalidade dos indivíduos, assim como 
doenças que comprometem a visão, a audição, o tato e o paladar, esse 
transtorno diferencia-se dos demais, pois não impacta diretamente 
as estruturas sensoriais, mas sim áreas do cérebro responsáveis por 
conservar as características dos objetos (forma, cor, tamanho, superfície, 
textura, gosto e cheiro, por exemplo). 
Identificar os locais em que se encontram tais alterações é 
imprescindível para determinar quais sentidos serão influenciados. Na 
36
maioria dos quadros de agnosia, nota-se prejuízo em um dos sentidos, 
seja em todo o seu processamento ou em particularidades dessa 
elaboração.
2. Agnosias: conceitos e classificações
No diagnóstico de quadros de agnosia, é imprescindível que ocorra 
uma avaliação das estruturas sensoriais para que sejam identificadas 
possíveis alterações. Quando não são encontradas disfunções nos 
órgãos dos sentidos que expliquem a dificuldade de reconhecimento 
dos objetos, as habilidades de gnosia devem ser avaliadas. Antes 
do diagnóstico de uma agnosia visual, por exemplo, é necessária a 
realização de exames da acuidade visual do paciente, para eliminar 
outras etiologias relacionadas às atividades apresentadas.
As agnosias visuais dizem respeito a problemas para identificar figuras, 
objetos, cores e faces somente com o auxílio da visão. Pessoas com esse 
comprometimento necessitam do auxílio de outros caminhos sensoriais 
para efetuar o reconhecimento dos estímulos (FLUENTES et al., 2014).
Um sujeito que possui uma agnosia visual, ao ver um prato, 
provavelmente não o identificará como um objeto em que é possível 
colocar alimentos, mas ao tocá-lo conseguirá identificar e atribuir função 
a esse objeto. Essa alteração pode afetar os dois hemisférios ou estar 
presente em apenas um hemisfério cerebral, e nesse caso recebe o 
nome de hemiagnosia.
As agnosias visuais ainda podem ser divididas em agnosias aperceptivas 
e associativas. Nas agnosias visuais aperceptivas, o indivíduo não tem 
37
uma estruturação da percepção visual. Assim, ele sabe que está diante 
de um objeto, tem consciência de sua dificuldade em nomeá-lo, porém 
não consegue classificar, reproduzir ou manusear o estímulo que está 
diante dele.
Um tipo de agnosia aperceptiva é a simultagnosia. Caracterizada 
pela dificuldade de reconhecer as figuras como um todo, permite 
compreender somente partes isoladas ou um objeto por vez. A Figura 1 
demonstra como ocorre a representação visual dos objetos e como esse 
processo está relacionado às agnosias visuais.
Figura 1 – Representação visual e tipos de agnosias visuais
Fonte: adaptada de Gil (2002).
Nas agnosias visuais associativas, os sujeitos não podem diferenciar os 
objetos; no entanto, conseguem reproduzi-los e utilizá-los. Podem ser 
atingidas todas as modalidades visuais ou somente algumas classes 
38
de estímulos (preservação do reconhecimento de seres humanos, 
comprometimento do reconhecimento de objetos).
Essa classe de agnosias também está dividida em outros dois 
subtipos: agnosia visual stricto sensu e agnosia visual multimodal. A 
agnosia associativa stricto sensu diz respeito aos erros morfológicos 
na classificação das imagens. Nela, a identificação tátil dos objetos 
permanece, mas a distinção das imagens é prejudicada.
Na agnosia associativa multimodal predominam os erros de nomeação 
semânticos e perseverativos. Mesmo os instrumentos comumente 
utilizados pelas pessoas não são reconhecidos, porém mantém-se a 
capacidade de acesso a sua forma. Os comprometimentos nesses casos 
podem não estar somente no âmbito visual; assim, o tato, a audição e o 
sistema semântico também podem ser impactados.
Na afasia óptica, os indivíduos reconhecem os objetos e as imagens, 
porém não conseguem nomeá-los. Em suas tentativas, utilizam 
definições próximas ao nome correto dos itens, demonstrando prejuízos 
semânticos, e não visuais.
Não se trata de uma anomia afásica porque o objeto é bem denominado 
se ele puder ser apresentado por outro canal sensorial, por exemplo táctil 
ou auditivo, e não se trata de uma agnosia, pois o objeto é reconhecido. 
[...] A afasia óptica foi considerada como uma agnosia visual associativa 
tosca: a mímica do uso de um objeto não prova que o objeto tenha 
sido corretamente identificado ou que o sujeito tenha tido acesso à 
identificação de todos os seus atributos semânticos. A mímica do uso de 
um objeto poderia ser diretamente ativada pela identificação da forma do 
objeto. (GIL, 2002, p. 108)
Por isso, o conhecimento dos transtornos nas etapas associativas visuais 
e verbais e a qualidade da identificação visual, verificada durante testes 
cognitivos, possibilitam classificar a afasia óptica independentemente 
39
das agnosias associativas. A afasia óptica está relacionada a alterações 
na integração semântica dos estímulos visuais, verbais e táteis.
A Tabela 1 apresenta a diferenciação entre os possíveis tipos de agnosia 
visual e a afasia óptica. A descrição de cada um dos casos contém os 
principais erros observados, as habilidades alteradas e a localização das 
lesões cerebrais.
Outras agnosias que afetam um aspecto da visão são a acromatopsia e 
a prosopagnosia. A acromatopsia refere-se a déficits da percepção das 
cores e impacta tarefas diárias que requerem a evocação dos estímulos 
relacionados a cores (por exemplo, lembrar-se de frutas que sejam da 
cor amarela) (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014).
Tabela 1 – Características distintivas das agnosias 
visuais e da afasia óptica
Agnosia 
aperceptiva
Agnosia 
associativa 
stricto sensu
Agnosia 
associativa 
multimodal
Afasia óptica
Denominação -
Erros 
morfológicos
Erros 
semânticos e 
perseverativos
Erros 
semânticos e 
perseverativos
Definição pelo uso 
(mímica)
- - - +
Emparelhamento 
(objetos de forma 
igual, objeto e 
figura)
- -/+ + +
Classificação 
categorial e 
funcional
- - - +
40
Desenho 
(solicitado)
- + -/+ +
Desenho (cópia) - -/+ + +
Sinais associados
Prosopagnosia
Alexia
Prosopagnosia
Agnosia das 
cores
Alexia
Agnosia tátil 
Agnosia 
auditiva 
Anomia 
das cores 
Anomia das 
fisionomias 
Dano da 
memória 
verbal 
semântica
Alexia Anomia 
das cores 
Anomia das 
fisionomias
Locais lesionados
Difuso
Dano bilateral 
do lobo lingual 
fusiforme
Dano bilateral 
do lobo lingual 
fusiforme
Infarto 
cerebral 
posterior 
esquerdo, 
lesões do 
lobo lingual 
e fusiforme 
esquerdo
Infarto cerebral 
posterior 
esquerdo ou do 
lobo occipital 
esquerdo
Fonte: adaptada de Gil (2002).
A prosopagnosia refere-se à inabilidade de distinguir fisionomias 
familiares, seja de parentes, amigos, conhecidos ou personalidades 
famosas. Nesses casos, o paciente faz a distinção por meio de outras 
características pessoais, como roupas, timbre da voz ou forma de andar.
Essa disfunção frequentemente é consequência de lesões nas regiões 
occipitais e temporais inferiores. Indivíduos com prosopagnosia podem 
41
descrever traços faciais de forma correta, todavia não conseguem dizer 
a qual pessoa esses traços pertencem.
Figura 3 – Modelo cognitivo de reconhecimento de rostos, segundo 
Bruce, Hodges e Ypung (GIL, 2002)
Fonte: adaptada de Gil (2002).
Além das capacidades visuais, as agnosias podem afetar a percepção 
espacial. A agnosia topográfica é marcada pela desorientação 
do indivíduo no espaço, mesmo que ele esteja em um ambiente 
previamente conhecido. A agnosia espacial unilateral também está 
relacionada à localização espacial, mas nesse caso acomete a capacidade 
de identificar os dois hemisférios (direito e esquerdo), seja no corpo ou 
no espaço.
Considerando os impactos no esquema corporal, a autotopoagnosia 
configura-se pela dificuldade de especificar as partes do próprio 
corpo, mesmo em frente deum espelho. Em contrapartida, a 
heterotopoagnosia é marcada pela inabilidade de relatar as partes 
do corpo de outra pessoa. A anosognosia diz respeitoà habilidade de 
42
reconhecer as próprias limitações. Assim, em quadros de anosognosia, 
o paciente não admite os déficits proeminentes, mesmo que lhe sejam 
evidenciados (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014).
Na agnosia somatossensorial, é o reconhecimento dos utensílios através 
do tato que é afetado. Pessoas que possuem esse tipo de agnosia 
não conseguem saber o que estão tocando até poderem avaliar o 
objeto por meio de outros sentidos. Quando seguram um talher, por 
exemplo, não conseguem identificar que se trata de um objeto para 
realizar as refeições, mas ao ver o que estão segurando, compreendem 
corretamente qual utensílio têm em mãos.
A aptidão para distinguir o paladar também pode ser alterada na 
agnosia gustativa. Nesses quadros, os sabores são sentidos, contudo 
não são diferenciados. Um indivíduo com essa alteração pode provar um 
abacaxi que esteja ácido, porém tal característica não é atribuída a essa 
sensação.
Na agnosia olfativa, os cheiros que são captados pelo olfato não são 
diferenciados. Por isso, o paciente pode sentir o cheiro de uma pizza, 
mas não conseguirá atribuir esse aroma a um item.
Por sua vez, as agnosias auditivas refletem a perda da capacidade 
de distinção dos sons. Podem ser especificadas em agnosia auditiva 
aperceptiva e associativa. Na agnosia auditiva aperceptiva encontram-
se problemas no sequenciamento de sons semelhantes, como notas 
musicais e barulhos da sirene de uma ambulância, por exemplo. Na 
agnosia auditiva associativa notam-se déficits para associar os sons que 
são produzidos. Os ruídos podem ser ouvidos, entretanto não é possível 
identificar que se trata do toque de um celular, por exemplo.
As agnosias musicais contemplam a inaptidão para o reconhecimento 
de melodias. Assim, todas as características que compõem uma música, 
43
como tom, ritmo, timbre, tempo e intensidade, não são diferenciadas. Já 
as agnosias paralinguísticas afetam a capacidade de identificar o autor 
de uma fala e sua entonação emocional durante a comunicação (GIL, 
2002).
3. Estratégias para a reabilitação das gnosias
As alterações na capacidade de gnosia causam prejuízos diretos na 
realização das atividades diárias. Atualmente, sabe-se que não existem 
medicações, procedimentos ou intervenções que possam “curar” a 
doença. No entanto, a reabilitação cognitiva representa uma estratégia 
importante para o desenvolvimento de habilidades que auxiliem o 
indivíduo a compensar tais déficits.
Ao estarmos seguros de que o paciente não possui dificuldades para 
localizar objetos ou imagens no espaço, que justificariam a falta de 
resposta diante das solicitações de reconhecimento, algumas atividades 
deverão ser propostas. (CAIXETA; TEIXEIRA, 2014, p.328)
Para favorecer o reconhecimento dos estímulos visuais, alguns recursos 
podem ser utilizados, como exercícios que incentivem e auxiliem na 
descrição do objeto e na contextualização do item. Além disso, técnicas 
podem ser empregadas, como a troca de posição do utensílio, a 
ampliação do tamanho da imagem e a utilização de cores e sons.
O treinamento para beneficiar a velocidade de identificação dos 
instrumentos emprega tarefas que progridem com a elevação do 
nível de dificuldade. Nas etapas iniciais, o sujeito utiliza o tempo que 
precisar para efetuar a descrição. Nas tentativas seguintes, o tempo é 
diminuído de forma progressiva, conforme as possibilidades de cada 
paciente. Assim, ele poderá desenvolver a velocidade adequada para o 
reconhecimento visual.
44
Nos últimos estágios da reabilitação da identificação visual podem ser 
inseridos artigos ou detalhes incomuns no exercício, como uma xícara 
com pernas. Essa variação possibilita corroborar a capacidade de 
diferenciação das imagens.
O reconhecimento facial pode ser favorecido por atividades que permitam 
ao sujeito avaliar as características que facilitam a identificação e os traços 
das fisionomias, bem como compreender o significado da mímica facial e 
analisar fotos e caricaturas.
Já o reconhecimento das cores pode ser desenvolvido através de técnicas 
que incentivem a identificação da cor conforme imagens, priorizando 
aquela sem que as cores não sofrem variação. Em situações de desordens 
nas tonalidades, podem ser utilizados exercícios para classificar os tons e 
colorir desenhos.
Em quadros moderados de agnosia visual, o déficit mais acentuado pode 
estar na capacidade de identificação das imagens. A distinção dos objetos 
geralmente é preservada, por isso o indivíduo pode se beneficiar de 
atividades que estimulem a relação entre a imagem e o objeto.
Nos estágios mais leves da doença, o sujeito pode manter a habilidade 
de reconhecimento da imagem dos objetos. Dessa forma, a técnica de 
degradação da informação visual pode ser empregada, a fim de que essa 
aptidão se fortaleça e se mantenha ao longo do tempo. Nessa técnica, 
são apresentadas somente partes da imagem dos utensílios, para que 
o paciente complete as porções faltantes com seu reconhecimento. O 
protocolo também pode ser adaptado de acordo com as necessidades 
individuais do paciente.
Após realizado o reestabelecimento das imagens mentais dos 
instrumentos, as pessoas com agnosia podem ser submetidas a um 
exercício que solicite a descrição das particularidades dos itens, sem a 
45
presença destes. Essa definição permite a fixação das especificidades de 
cada componente dos objetos.
Quando a dificuldade dos sujeitos está na representação mental das 
peças, são sugeridas estratégias que permitem contemplar, utilizar e 
detalhar verbalmente os estímulos. Em seguida, o item é ocultado para 
que o paciente possa fazer seu esboço oral ou desenho.
Além disso, o profissional pode incentivar a diferenciação de ferramentas 
familiares em posições diversas. A técnica de constância perceptiva é 
utilizada para que o indivíduo consolide sua competência de distinguir os 
artigos em diferentes formas e posições espaciais.
A aptidão para associar os objetos devido as suas características comuns, 
pode ser desenvolvida através de treinamentos para a avaliação dos 
atributos de cada utensílio e para o aprimoramento do pensamento 
lógico, o que permite agrupar tais itens através de suas semelhanças.
Oferecer às pessoas com agnosia exercícios planejados que propõem a 
diminuição dos déficits apresentados e minimizam os impactos causados 
pela agnosia pode melhorar a qualidade de vida, a funcionalidade, a 
autonomia e a autoestima desses pacientes, mostrando que é possível 
conviver e superaras dificuldades impostas pela doença.
Referências
CAIXETA, L.; TEIXEIRA, A. L. Neuropsicologia Geriátrica: neuropsiquiatria cognitiva 
em idosos. Porto Alegre: Artmed, 2014.
FLUENTES, D.et al. Neuropsicologia: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 
2014.
GIL, R. Neuropsicologia. 2. ed. São Paulo: Livraria Santos, 2002.
LURIA, A. R. Fundamentos de Neuropsicologia. Rio de Janeiro: Editora da 
Universidade de São Paulo, 1981.
46
Avaliação das habilidades 
visuoespaciais, praxias e gnosias
Autoria: Aline Monique Carniel
Leitura crítica: Elisangela Toth
Objetivos
• Observar os parâmetros necessários para 
a escolha de testes durante uma avaliação 
neuropsicológica.
• Conhecer os principais testes neuropsicológicos 
para avaliação das habilidades visuoespaciais, 
praxias e gnosias. 
• Realizar diagnósticos neuropsicológicos por meio 
da integração dos resultados dos testes e do 
raciocínio clínico.
47
1. Parâmetros da avaliação neuropsicológica
A avaliação neuropsicológica surgiu da necessidade de compreender as 
relações entre as estruturas cerebrais e os comportamentos humanos. 
Os avanços da tecnologia e dos exames de neuroimagem ampliaram as 
aplicações dessa ciência que, atualmente, concentra-se na repercussão 
das alterações cerebrais sobre a cognição, o comportamento e as 
emoções.
O processo de investigação dessas funções cerebrais considera, além 
dos achados psicométricos, a etiologia dos quadros neurológicos, o 
histórico de saúde e as características individuaisde cada pessoa. 
As incapacidades causadas por essas alterações, também, são 
cuidadosamente examinadas, a fim de contemplar todos os danos 
sofridos na execução das atividades de vida diária, funcionalidade, 
autonomia e participação social do sujeito.
Dessa forma, a neuropsicologia possibilita um aprimoramento da 
qualidade de vida dos indivíduos, à medida que reconhece os déficits 
instaurados e orienta as intervenções primordiais para melhorar o 
futuro dos pacientes, estimulando sua adaptação diante das novas 
demandas impostas pela doença.
Contemplando os objetivos citados, uma avaliação neuropsicológica 
pode ser solicitada para diversos fins, como auxiliar no diagnóstico, 
prognóstico ou tratamento de um transtorno. Em situações diagnósticas, 
permite compreender a apresentação dos déficits do indivíduo e se 
estão relacionados a determinada origem neurológica. Nos casos de 
análise do prognóstico, possibilita entender a evolução e o curso da 
doença, considerando o tipo e as características dos transtornos.
O diagnóstico está feito, mas se deseja estabelecer o curso da evolução 
e o impacto que a patologia em questão terá a longo prazo. Certamente, 
esse tipo de previsão tem a ver com a própria doença ou condição de base 
48
da doença ou transtorno; e, quando há lesão, com o lugar, o tamanho e 
lado no qual se encontra, devendo, nesse caso, ser considerados os efeitos 
a distância que ela provoca. A idade e a educação do sujeito, o suporte e 
a compreensão familiar, os recursos pessoais e físicos para reabilitação 
influem muito na evolução de um caso. (FLUENTES et al., 2014, p. 83)
A partir da identificação das áreas afetadas, da hierarquia das 
alterações e de suas relações com os comportamentos, a avaliação 
neuropsicológica orienta o tratamento, seja ele farmacológico ou 
intervenções com exercícios para reabilitação. Por exemplo, ao se 
entender que uma criança tem dificuldades escolares devido a um 
quadro de déficit de atenção, e não por um transtorno de aprendizagem, 
em vez de ser tratada para os problemas de aprendizagem, ela poderá 
ser medicada com recursos específicos, para favorecer os processos 
atencionais, e receber intervenções focadas em estratégias, para facilitar 
sua concentração.
Para a realização de uma avaliação neuropsicológica, o profissional 
precisa utilizar diversos recursos e instrumentos. A avaliação se inicia 
pela entrevista clínica, em que acontece o levantamento do histórico 
da queixa e sintomatologia, percorrendo estratégias como avaliação 
neurológica e psiquiátrica (para análise de alterações químicas e 
estruturais relacionadas às dificuldades), avaliação funcional (para 
mensuração das habilidades dos sujeitos) e testes psicológicos (para 
mensuração das habilidades cognitivas).
Ressalta-se que, apesar de os testes serem de suma importância para 
a identificação das potencialidades e fraquezas dos pacientes, eles são 
apenas uma das técnicas usadas para a avaliação neuropsicológica. 
Portanto, deve-se utilizar da integração entre os diversos instrumentos 
disponíveis na elaboração de um diagnóstico, além da escolha cuidadosa 
dos testes a serem aplicados.
49
Alguns parâmetros a serem observados durante a escolha dos 
instrumentos da avaliação contemplam a padronização, a validade e a 
fidedignidade dos testes:
• Padronização: uniformidade dos procedimentos de aplicação e 
interpretação dos resultados, a fim de que os desempenhos sejam 
comparáveis. Depende de procedimentos uniformes durante a 
aplicação dos instrumentos, como o uso correto de instruções, 
materiais e tempo e ambiente sem distrações.
• Validade: análise que comprova se o teste mede o que se 
propõe a avaliar, baseada nos constructos estabelecidos e na 
consistência interna dos itens. Deve ser apresentada no manual 
dos instrumentos.
• Fidedignidade: consistência dos resultados obtidos. Também deve 
ser especificada no manual dos testes, nos campos destinados 
ao método e ao coeficiente de precisão, obtidos nos estudos 
amostrais.
Além desses parâmetros, o neuropsicólogo precisa estar atento 
ao cuidado com o uso indiscriminado dos testes, para que sejam 
administrados de forma a contemplar os fins pretendidos, evitando 
aplicações inadequadas ou interpretações errôneas. O treinamento e 
a habilidade do aplicador durante a administração dos instrumentos 
são fundamentais para evitar erros que comprometam a validade dos 
resultados.
2. Avaliação das habilidades visuoespaciais, 
praxias e gnosias
Durante a avaliação neuropsicológica são investigados diversos 
constructos, necessários para o desenvolvimento normal do indivíduo. 
50
Variáveis como inteligência, atenção, funções executivas, memória, 
aprendizagem, linguagem, raciocínio lógico-matemático, habilidades 
visuoespaciais, praxias e gnosias são identificadas para que seja possível 
obter um rastreio das capacidades cognitivas do paciente.
A avaliação das habilidades visuoespaciais permite identificar como o 
sujeito realiza: 1) a busca visual, identificando informações no campo 
visual e analisando-as de forma rápida e eficiente; 2) a organização 
visual, ordenando imagens e figuras completas ou incompletas; 3) a 
orientação espacial, efetuando a localização no espaço, com base nas 
informações visuais; 4) a visuoconstrução, manipulando informações 
espaciais e identificando elementos para criar um design ou reproduzir 
um modelo.
Na vida cotidiana, essas habilidades são responsáveis pela percepção e 
orientação espacial, permitindo a identificação de tamanho, dimensão, 
forma e distância dos lugares e dos objetos. Por meio do domínio 
visuoespacial, é possível posicionar o corpo com relação ao ambiente, 
desviar de obstáculos, praticar esportes, estimar a distância entre dois 
objetos, estacionar o carro, imaginar um lugar e traçar e memorizar 
rotas.
Por sua vez, a testagem das praxias tem por objetivo mensurar a 
capacidade do sujeito de realizar movimentos orientados para uma 
finalidade. Atenta-se para o reconhecimento de problemas na prontidão 
para a execução de ações, mesmo que a pessoa mantenha as áreas 
sensoriais, a aptidão física, a compreensão da ação e a motivação para 
realizá-la preservadas.
Essas dificuldades podem atingir a execução dos gestos direcionados 
por um pedido ou uma orientação (apraxia ideomotora); a organização 
dos estímulos para reproduzir imagens em mais de uma dimensão 
(apraxia visuoconstrutiva); a execução das tarefas complexas, como o 
51
manuseio dos objetos (apraxia ideatória); e o aprendizado e repetição de 
gestos abstratos (apraxia reflexiva).
Alguns tipos de apraxia podem interferir diretamente na realização de 
atividades de vida diária. A apraxia facial (disfunção na movimentação 
de órgãos e músculos do rosto), a apraxia de marcha (incapacidade de 
efetuação dos passos) e a apraxia do vestir (erros na atividade de colocar 
roupas de forma adequada) são alguns exemplos dos transtornos 
causados por tal alteração, além dos impactos na funcionalidade e 
qualidade de vida dos indivíduos.
A praxia é imprescindível para o cotidiano, pois está envolvida 
na execução de atividades simples e complexas, direcionadas a 
determinado fim, como sorrir, escrever ou dançar. As praxias abarcam 
a compreensão da funcionalidade dos objetos, para que possam ser 
manipulados para a realização de uma ação.
Já a investigação das gnosias busca compreender se os mecanismos 
que realizam a identificação dos estímulos, por meio dos sentidos e das 
estruturas cerebrais relacionadas à percepção, estão funcionando de 
forma adequada.
Na avaliação das gnosias podem ser encontradas diversas alterações, 
como problemas para identificar figuras, objetos, cores e faces somente 
com o auxílio da visão (agnosia visual), dificuldade de identificar imagens 
em um dos hemisférios visuais (hemiagnosia), déficits para reconhecer 
as figuras como um todo, com compreensão somente de partes isoladas 
ou de um objeto por vez (simultagnosia), alteração na percepção das 
cores (acromatopsia)e inabilidade de distinguir fisionomias familiares 
(prosopagnosia).
Além das capacidades visuais, as agnosias podem afetar a percepção 
espacial. A agnosia topográfica é marcada pela desorientação 
do indivíduo no espaço, mesmo que ele esteja em um ambiente 
52
previamente conhecido. A autotopoagnosia configura-se pela dificuldade 
de especificar as partes do próprio corpo, e a heterotopoagnosia é 
marcada pela inabilidade de relatar as partes do corpo de outra pessoa. 
A anosognosia diz respeito à dificuldade de reconhecer as próprias 
limitações.
Na agnosia somatossensorial, é o reconhecimento dos utensílios 
através do tato que é afetado. O mesmo fenômeno acontece na 
agnosia gustativa, com os sabores que são sentidos, porém não são 
diferenciados; na agnosia olfativa, com os cheiros que são captados 
pelo olfato, mas não são identificados; e nas agnosias auditivas, em que 
ocorre a perda da capacidade de distinção dos sons.
É possível observar que a presença de déficits em qualquer uma das 
habilidades mencionadas pode causar danos diretos na realização das 
atividades diárias. Por isso, a mensuração dessas variáveis é de suma 
importância para o reconhecimento das potencialidades e fragilidades 
de cada um dos pacientes e para a elaboração de propostas de 
intervenções voltadas às necessidades particulares deles.
3. Testes neuropsicológicos: habilidades 
visuoespaciais, praxias e gnosias
Existem diversos testes neuropsicológicos voltados para a avaliação 
das habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias. A seguir, serão 
apresentados alguns desses instrumentos, a fim de oferecer subsídios 
para que o profissional possa avaliar esses construtos. Ressalta-se 
que todos os testes utilizados durante uma avaliação neuropsicológica 
devem ser válidos para a população brasileira e que todos os 
procedimentos realizados na avaliação precisam respeitar as diretrizes 
do Conselho Federal de Psicologia.
53
O teste da Figura Complexa de Rey é amplamente utilizado para 
avaliação da percepção visual, visuoconstrução e memória visual. É 
dividido em dois formatos, de acordo com a faixa etária de interesse. A 
Figura A pode ser aplicada a partir dos 5 anos de idade e estende-se até 
a população idosa, enquanto a Figura B é específica para crianças de 4 a 
7 anos de idade. Em ambos os formatos, o tempo médio de duração do 
teste está entre 5 e 25 minutos (REY, 2010).
Para a aplicação da Figura de Rey, são necessários materiais como o 
manual de instruções, as lâminas de estímulos (que contêm as figuras a 
serem reproduzidas), papel branco, lápis pretos e coloridos, cronômetro 
e folha de anotação dos resultados (REY, 2010).
O início do teste ocorre após a leitura das instruções padronizadas. 
Apresenta-se ao avaliando a lâmina de estímulo adequada para sua 
idade e a folha branca onde ele fará o registro da figura. O cronômetro 
é acionado no início do teste, e o profissional acompanha a execução 
da figura, solicitando a troca dos lápis coloridos, conforme a cópia da 
figura evolui. Ao final, retira-se a lâmina de estímulo, e após o intervalo 
máximo de três minutos, solicita-se a reprodução da memória da figura 
copiada anteriormente (REY, 2010).
Para a interpretação da Figura de Rey, são utilizados a folha de registro 
dos resultados e o manual de instruções do teste, sendo possível 
pontuar cada traço realizado pelo paciente, tanto na etapa de cópia 
como na de memória. Essas pontuações são convertidas em percentis, 
através das tabelas padronizadas para as idades. Posteriormente, são 
classificadas de acordo com a média, identificando quais percentis 
representam prejuízo na percepção e memória visual ou até mesmo 
desempenho superior à média no que diz respeito à precisão da figura 
(REY, 2010).
Os tipos de cópia também podem ser avaliados de forma qualitativa 
através do manual de instruções. De acordo com a idade, os sujeitos 
54
tendem a adotar determinado planejamento para reproduzir a figura. 
Esse planejamento se especializa com o passar dos anos, por isso o 
desenho tende a ser feito de forma elementar por crianças pequenas ou 
por pessoas que apresentam déficits clínicos (REY, 2010).
O teste de Retenção Visual de Benton (BVRT) também avalia a percepção 
visual, a praxia visuoconstrutiva e a memória visual. Foi elaborado para 
participantes de 7 a 30 anos e idosos de 60 a 75 anos. Sua execução é 
realizada de forma individual, com duração de aproximadamente 20 
minutos. Para a aplicação do teste, são necessários materiais como livro 
de instruções, livro de estímulos, livro de aplicação, crivo de avaliação, 
lápis e cronômetro (SALLES et al., 2016).
As tarefas executadas durante o BVRT baseiam-se em duas formas 
de administração. Na forma A, a memória visual é avaliada através 
da exposição do testando, por 10 segundos, a figuras que devem ser 
reproduzidas imediatamente após a visualização. Na forma C, o paciente 
realiza a cópia dos estímulos observados (SALLES et al., 2016).
Esse teste possui duas possibilidades de interpretação, uma quantitativa 
e outra qualitativa. Na avaliação quantitativa, os acertos são somados 
e transformados em percentis, segundo as tabelas normativas. Na 
avaliação qualitativa, os erros podem ser analisados quanto a sua 
localização (se ocorrem na parte central, esquerda, direita ou periférica 
dos desenhos) e suas características (omissão, distorção, perseveração, 
rotação, troca de posição e de tamanho) (SALLES et al., 2016).
O teste Gestáltico Visomotor de Bender foi formulado para a 
investigação da maturação percepto-motora de crianças de 6 a 10 
anos. Sua aplicação conta com manual de instruções, folhas dos 
estímulos, folha de resposta e lápis preto. Os exercícios consistem na 
apresentação de nove figuras, que devem ser copiadas da maneira mais 
precisa possível. Os modelos desenhados recebem de 0 a 3 pontos, 
55
considerando a qualidade da reprodução gráfica ou a presença de 
distorções nas formas (SISTO; NORONHA; SANTOS, 2006).
O Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve NEUPSLIN foi 
desenvolvido para o rastreamento das funções neuropsicológicas em 
variados públicos. Conta com uma versão infantil e outra para adultos e 
idosos. Entre os seus subtestes estão atividades que avaliam orientação, 
percepção visual e habilidades construtivas (FONSECA; SALLES; PARENTE, 
2009).
A versão infantil NEUPSLIN-Inf foi delineada para crianças de 6 a 12 anos, 
com escolaridade entre o primeiro e o sexto ano do ensino fundamental. 
O tempo de aplicação estimado é de 50 minutos, em que são utilizados: 
cronômetro, folhas brancas, prancheta, lápis preto, caneta vermelha, 
gravador, caixas de som e três moedas do mesmo valor/tamanho. 
Durante a execução do instrumento, são aplicados 26 subtestes, que 
avaliam oito funções neuropsicológicas (SALLES et al., 2016). Entre os 
subtestes, estão:
1. Orientação: é composto por perguntas relativas a dados de 
identificação (nome, idade e data de aniversário), dia da semana 
e localização. Permite a compreensão da orientação espacial, 
temporal e autopsíquica.
2. Atenção: com atividades de busca visual, cancelamento de figuras 
e atenção a comandos, possibilita obter medidas de atenção visual 
e auditiva.
3. Percepção: é formado por exercícios de percepção da emoção 
em faces e de associação de figuras. Oferece parâmetros sobre 
percepção visual e identificação das emoções.
4. Memória: com tarefas de memória operacional, episódico-
semântica e verbal, transmite indícios sobre os processos de 
retenção dos conteúdos.
5. Linguagem: possui atividades de linguagem oral e escrita, 
demonstrando as habilidades verbais da criança.
56
6. Habilidades visuoconstrutivas: solicita a cópia de formas 
geométricas e figuras em intersecção, para avaliar a 
visuoconstrução.
7. Habilidades aritméticas: através de exercícios matemáticos, 
permite a identificação da capacidade numérica e de raciocínio 
lógico.
8. Funções executivas: com tarefas que requerem planejamento e 
organização, permite identificara capacidade executiva da criança.
As pontuações de todos os subtestes são realizadas considerando as 
instruções contidas no manual. A pontuação bruta é comparada nas 
tabelas de normatização, de acordo com a idade e a escolaridade das 
crianças (SALLES et al., 2016).
A escala NEUPSLIN destinada a adolescentes, adultos e idosos abrange 
a faixa etária dos 12 aos 90 anos. Com duração estimada de 50 minutos, 
é formada por 32 subtestes que avaliam oito funções neuropsicológicas, 
assim como no NEUPSLIN-Inf (FONSECA; SALLES; PARENTE, 2009). Os 
subtestes que compõem esse instrumento são:
1. Orientação têmporo-espacial: através de perguntas relacionadas 
a datas, horários e localizações, permite a compreensão da 
orientação espacial, temporal e autopsíquica.
2. Atenção concentrada: com atividades de contagem de dígitos em 
ordem inversa e repetição de uma sequência de dígitos, possibilita 
obter medidas de atenção concentrada.
3. Percepção visual: formado por exercícios de igualdades e 
diferenças, heminegligência visual, percepção e reconhecimento 
de faces, oferece parâmetros sobre a percepção visual.
4. Habilidades aritméticas: com operações matemáticas básicas, 
permite a identificação da capacidade numérica e de raciocínio 
lógico.
57
5. Linguagem oral e escrita: possui atividades de nomeação, 
repetição, linguagem automática, compreensão, linguagem escrita, 
processamento de metáforas e provérbios.
6. Memória: inclui tarefas de memória operacional, span auditivo, 
memória verbal episódico-semântica, memória semântica 
de longo prazo, memória visual de curto prazo e memória 
prospectiva.
7. Praxias: através de exercícios de praxia ideomotora, construtiva e 
reflexiva, oferece indícios sobre alterações nas praxias.
8. Funções executivas: com tarefas de resolução de problemas e 
fluência verbal, permite identificar a capacidade executiva.
A correção é realizada através do total de acertos em cada subteste, 
e as pontuações são comparadas às tabelas normativas, que contêm 
os percentis para cada idade e sexo. Os percentis são classificados em 
estágios de alerta para déficit, sugestivo para déficit, déficit moderado e 
severo, e déficit grave (FONSECA; SALLES; PARENTE, 2009).
A Escala de Inteligência Wechsler para Adultos (WAIS-III) apresenta uma 
medida da capacidade cognitiva do paciente, o chamado quoeficiente de 
inteligência (QI). É composta de diversos subtestes que são organizados 
para compor o QI verbal e o QI de execução. Os subtestes contidos no 
QI execução auxiliam na avaliação das habilidades visuoespaciais, pois 
mensuram raciocínio fluido, processamento espacial, atenção a detalhes 
e integração visuomotora (WECHSLER, 2016).
O QI de execução é composto pelos subtestes: completar figuras, 
códigos, cubos, raciocínio matricial, arranjo de figuras, procurar símbolos 
(subteste suplementar que pode substituir o subteste códigos, caso 
seja anulado) e armar objetos (subteste opcional que pode substituir 
qualquer subteste de execução, para pessoas entre 16 e 74 anos). 
Por sua vez, o QI verbal é formado pelos subtestes: vocabulário, 
semelhanças, aritmética, dígitos, informação, compreensão e sequências 
58
de números e letras (subteste suplementar que pode substituir o 
subteste dígitos, caso seja anulado) (WECHSLER, 2016).
O WAIS-III é uma medida de inteligência estruturada para a população 
entre 16 e 89 anos. O tempo médio utilizado para sua aplicação é de 
75 minutos, variando entre 60 e 90 minutos. Já a duração da aplicação 
incluindo o subteste opcional está entre 65 e 90 minutos, com média de 
80 minutos (WECHSLER, 2016).
A administração do teste é realizada de forma individual e requer 
materiais como: manual de aplicação e avaliação, protocolo de registro, 
protocolo de resposta, livro de estímulo, cartões do subteste arranjo de 
figuras, caixa de cubos, peças e anteparo do subteste armar objetos, 
crivo de avaliação dos códigos e procurar símbolos, cronômetro 
e lápis grafite. A organização dos materiais não pode estar à vista 
do examinando, mas eles precisam estar ao alcance do aplicador 
(WECHSLER, 2016).
Para interpretação da escala, deve-se atentar para o cálculo da idade do 
avaliando, que será fundamental para definir o início e a interrupção dos 
testes, bem como as tabelas a serem consultadas. A correção inicia-se 
com a atribuição dos pontos a todas as respostas, segundo o manual 
de aplicação e avaliação. Em seguida, os escores brutos são convertidos 
em pontos ponderados, através das tabelas normativas, e assim são 
definidos os índices fatoriais, o QI verbal, o QI de execução e o QI total 
(WECHSLER, 2016).
Os índices fatoriais se dividem em: compreensão verbal (vocabulário, 
semelhança, informação); organização perceptual (completar figuras, 
cubos e raciocínio matricial); memória operacional (aritmética, dígitos, 
sequências de números e letras); velocidade de processamento (códigos 
e procurar símbolos) (WECHSLER, 2016).
59
As tabelas normativas também são utilizadas para a definição dos 
percentis, intervalos de confiança e classificação. Podem ainda oferecer 
medidas sobre as possíveis discrepâncias, facilidades e dificuldades 
encontradas pelo examinando (WECHSLER, 2016).
A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC-IV) propõe-se a 
mensurar o QI de crianças de 6 a 16 anos, através de índices fatoriais 
que representam a performance do indivíduo em determinado domínio 
ou área de conteúdo. Os índices fatoriais que compõem o WISC-IV são: 
compreensão verbal, organização perceptual, memória operacional e 
velocidade de processamento (WECHSLER, 2013).
O índice de compreensão verbal corresponde aos subtestes de 
semelhanças, vocabulário, compreensão, informação (suplementar) e 
raciocínio com palavras (suplementar). Avalia raciocínio verbal, formação 
de conceitos e compreensão da linguagem (WECHSLER, 2013).
O índice de organização perceptual abrange os subtestes cubos, 
conceitos figurativos, raciocínio matricial e completar figuras 
(suplementar). Analisa a formação de conceitos não verbais, percepção 
visual, atenção aos detalhes e integração visuomotora (WECHSLER, 
2013).
O índice de memória operacional é composto pelos subtestes dígitos, 
sequência de números e letras e aritmética (suplementar). Abrange a 
capacidade de reter informações por um breve período, para posterior 
processamento da memória e formulação da resposta (WECHSLER, 
2013).
O índice velocidade de processamento é formado pelos subtestes 
códigos, procurar símbolos e cancelamento (suplementar). Analisa a 
habilidade de processar as informações visuais, coordenação visual, 
flexibilidade cognitiva e memória visual de curto prazo (WECHSLER, 
2013).
60
A administração do teste ocorre de forma individual e requer materiais 
como manual técnico, manual de instruções, protocolo de registro, 
protocolo de resposta (código, procurar símbolos e cancelamento), 
livro de estímulo, cubos, crivos dos códigos, procurar símbolo e 
cancelamento, lápis grafite e cronômetro. Para a aplicação dos dez 
principais subtestes, o tempo estimado é de 67 minutos (WECHSLER, 
2013).
A correção dos subtestes deve ser realizada com base nas instruções 
contidas no manual do teste. Após a soma, os escores brutos devem 
ser transformados em pontos ponderados, utilizando-se as tabelas 
normativas. As somas dos pontos ponderados correspondem aos 
índices fatoriais e ao QI total (WECHSLER, 2013).
Em seguida, é necessário encontrar os pontos compostos de cada 
índice, assim como o rank percentil e o intervalo de confiança, também 
fornecidos pelas tabelas normativas. Os resultados são interpretados de 
acordo com a curva normal e podem ser classificados em extremamente 
baixo, limítrofe, média inferior, média, média superior, superior e muito 
superior (WECHSLER, 2013).
Além dessas medidas, a escala fornece outros escores, como a 
discrepância entre os subtestes, a determinação das facilidades e 
dificuldades do sujeito e a análise dos escores de processo (WECHSLER, 
2013).Devido às diversas opções de instrumentos à disposição para a avaliação 
dessas funções, é preciso que o neuropsicólogo esteja atento à escolha 
dos testes adequados ao seu avaliando. Orienta-se que ele considere 
em sua seleção de recursos a fidedignidade do método, a faixa etária 
a que se destina, o tempo de duração das atividades, as características 
individuais do paciente e as variáveis elegidas durante o raciocínio 
clínico.
61
Referências
FLUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 
2014. 432 p.
FONSECA, R. P.; SALLES, J. F.; PARENTE, M. A. M. P. Instrumento de Avaliação 
Neuropsicológica Breve Neupsilin. São Paulo: Vetor, 2009.
REY, A. Figuras Complexas de Rey. São Paulo: Editora Casa do Psicológo, 2010. 
SALLES, J. F. et al. Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve Infantil: 
NEUPSILIN-Inf – Manual. São Paulo: Editora Vetor, 2016.
SALLES, J. F. et al. Manual do Teste de Retenção Visual de Benton. São Paulo: 
Casa do Psicólogo, 2016.
SISTO, F. F.; NORONHA, A. P.; SANTOS, A. A. A. (2005). Manual Bender–Sistema de 
Pontuação Gradual (B-SPG). São Paulo: Vetor, 2006.
WECHSLER, D. Escala Wechsler de Inteligência (WAIS). São Paulo: Pearson 
Clinical Brasil, 2016.
WECHSLER, D. Escala Wechsler de Inteligência para Crianças – Quarta Edição 
(WISC IV). São Paulo: Editora Casa do Psicológo, 2013.
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BONS ESTUDOS!
	Sumário
	Conceito de habilidades visuoespaciais e alterações relacionadas
	Objetivos
	1. Percepção: a relação do homem com o mundo
	2. Funcionamento da visão e percepção visual 
	3. Funções visuoespaciais 
	4. Alterações nas funções visuoespaciais 
	Referências 
	Conceitos e tipos de praxias
	Objetivos
	1. Vida e movimento 
	2. O córtex motor 
	3. Apraxia: conceitos e classificações 
	Referências 
	Conceitos e tipos de gnosias
	Objetivos
	1. Gnosias e estruturas cerebrais 
	2. Agnosias: conceitos e classificações 
	3. Estratégias para a reabilitação das gnosias 
	Referências 
	Avaliação das habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias
	Objetivos
	1. Parâmetros da avaliação neuropsicológica 
	2. Avaliação das habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias
	3. Testes neuropsicológicos: habilidades visuoespaciais, praxias e gnosias
	Referências

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