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APG 15 POLLIANY FOLLMANN PELE E ANEXOS Þ A pele recobre a superfície do corpo e é constituída por um tecido epitelial de origem ectodérmica, a epiderme, e um tecido conjuntivo de origem mesodérmica, a derme. Þ Dependendo da espessura da epiderme, distinguem-se a pele espessa e a fina. Þ A pele espessa é encontrada na palma das mãos, na planta dos pés e recobrindo algumas articulações. Þ O restante do corpo é protegido por pele fina. Þ Abaixo e em continuidade com a derme, encontra-se a hipoderme ou tecido celular subcutâneo, que não faz parte da pele, apenas lhe serve de união com os órgãos subjacentes. Þ A hipoderme é um tecido conjuntivo frouxo que pode conter muitas células adiposas, constituindo o panículo adiposo. Þ A pele é o maior órgão do corpo humano, compondo 16% do peso corporal, e desempenha múltiplas funções. Þ Graças à estrutura da epiderme, com suas múltiplas camadas celulares e camada córnea, ela protege o organismo contra desidratação, atrito, agentes químicos e patógenos. Þ Por meio de suas terminações nervosas sensoriais, a pele recebe constantemente informações sobre o ambiente e as envia para o sistema nervoso central. Þ Em virtude de seus vasos sanguíneos e glândulas, colabora com a termorregulação do organismo. Þ Suas glândulas sudoríparas participam da termorregulação e da excreção de várias substâncias. Þ Um pigmento que é produzido e acumulado na epiderme, a melanina, tem função protetora contra os raios ultravioleta. Þ Ela apresenta ainda células do sistema imunitário, que atuam contra a invasão de microrganismos. Þ A junção entre a epiderme e a derme é irregular. Þ A derme tem projeções, as papilas dérmicas, que se encaixam em reentrâncias da epiderme, as cristas epidérmicas, aumentando a coesão entre essas duas camadas. Essa coesão é muito importante, porque a pele está constantemente sujeita a agressões mecânicas provenientes de múltiplas direções. Pelos, unhas e glândulas sudoríparas, sebáceas e mamárias são estruturas anexas da pele. EPIDERME Þ É constituída por epitélio estratificado pavimentoso queratinizado (com camada córnea), cujas células mais abundantes são os queratinócitos. Þ A epiderme apresenta ainda outros três tipos de células: os melanócitos, as células de Langerhans e as de Merkel. Þ A espessura e a estrutura da epiderme variam com o local estudado, sendo mais espessa e complexa na palma das mãos, na planta dos pés e em algumas articulações. Nessas regiões, a espessura chega até a 1,5 mm e, vista da derme para a superfície, apresenta cinco camadas – basal, espinhosa, granulosa, lúcida e córnea. Þ A camada basal é constituída por células prismáticas ou cuboides, ligeiramente basófilas, que repousam sobre a membrana basal que separa a epiderme da derme. A camada basal, rica em células- tronco (stem cells) da epiderme, é também chamada de germinativa. Apresenta atividade mitótica, sendo responsável, junto com a camada seguinte (espinhosa), pela constante renovação da epiderme. Þ Os queratinócitos proliferam na camada basal e migram em direção à superfície da epiderme, diferenciando-se progressivamente até contribuir para a formação da camada córnea. Fatores mitogênicos produzidos pelos fibroblastos presentes na derme subjacente, como o fator de crescimento semelhante à insulina (IGF), o fator de crescimento de fibroblastos 7 e 10 (FGF-7 e FGF-10) e diversos ligantes para o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), são muito importantes para a proliferação celular na camada basal. Calcula-se que a epiderme humana se renove a cada 15 a 30 dias, dependendo principalmente do local e da idade da pessoa. Os queratinócitos contêm filamentos intermediários de queratina, que se tornam mais abundantes à medida que a célula avança para a superfície. Þ A camada espinhosa é formada por células cuboides ou ligeiramente achatadas, com volume maior que o das células da camada basal, de núcleo central e citoplasma com feixes de filamentos de queratina (tonofilamentos). Nessa camada os queratinócitos estão unidos entre si por inúmeras junções intercelulares do tipo desmossomo. Em preparações histológicas, essas junções aparecem como pequenas projeções celulares, o que confere a cada célula um aspecto espinhoso. Ao microscópio eletrônico, verifica-se que os tonofilamentos terminam inserindo-se nos espessamentos citoplasmáticos dos desmossomos. Os filamentos de queratina e os desmossomos têm importante papel na manutenção da coesão entre as células da epiderme e na resistência ao atrito. Corte de pele espessa, na qual podem ser observadas a epiderme com suas várias camadas: basal (junto à membrana basal e à derme), espinhosa, granulosa, lúcida e córnea. Þ A camada granulosa tem apenas três a cinco fileiras de células poligonais achatadas, núcleo central e citoplasma carregado de grânulos basófilos, chamados de grânulos de querato-hialina, que não são envolvidos por membrana. Esses grânulos contêm uma proteína rica em histidina fosforilada e também proteínas com cisteína. Os grânulos de querato-hialina são importantes para a condensação dos tonofilamentos, previamente à formação da camada córnea. Outra característica das células da camada granulosa, que somente pode ser visualizada ao microscópio eletrônico, são os grânulos lamelares, com 0,1 a 0,3 mm, que contêm discos lamelares formados por bicamadas lipídicas e são envoltos por membrana. Esses grânulos se fundem com a membrana plasmática e expulsam seu conteúdo para o espaço intercelular da camada granulosa, onde o material lipídico se deposita, contribuindo para a formação de uma barreira contra a penetração de substâncias e para tornar a pele impermeável à água, impedindo a desidratação do organismo. Células da camada espinhosa da epiderme Þ A camada lúcida, mais evidente na pele espessa, é constituída por uma delgada camada de células achatadas, eosinófilas e translúcidas, cujos núcleos e organelas citoplasmáticas foram digeridos por enzimas dos lisossomos e desapareceram. O citoplasma apresenta numerosos filamentos de queratina, compactados e envolvidos por material elétron-denso. Ainda se podem ver desmossomos entre as células ao microscópio eletrônico, mas as células são indistinguíveis ao microscópio óptico. A. Célula da camada espinhosa, mostrando seu núcleo e o citoplasma com feixes de filamentos intermediários e grânulos de melanina. De cada lado da célula, são bem visíveis as pequenas expansões citoplasmáticas que se tocam com as células adjacentes (setas). B. Observam-se as pequenas expansões citoplasmáticas (setas superiores) de duas células adjacentes, com os desmossomos e espaços intercelulares (setas inferiores). C. Observam-se vários desmossomos, nos quais podem ser vistas claramente duas linhas escuras, paralelas e grossas. Entre elas aparecem três linhas finas, também paralelas (mais visíveis no desmossomo indicado pela seta). Na porção superior, feixes de filamentos intermediários inserindo-se nos desmossomos. Þ A camada córnea tem espessura muito variável e é constituída por células achatadas, mortas e sem núcleo, cujo citoplasma se apresenta repleto de queratina. A composição dos tonofilamentos se modifica à medida que os queratinócitos se diferenciam. Na camada córnea os tonofilamentos se aglutinam junto com uma matriz formada pelos grânulos de querato-hialina. Nessa etapa da diferenciação, os queratinócitos estão transformados em placas sem vida e descamam continuamente. Þ Essa descrição da epiderme corresponde à epiderme na sua maior complexidade, que é encontrada na pele espessa. Na pele fina, a epiderme é mais simples, faltando frequentemente as camadas granulosa e lúcida, e apresenta uma camada córnea muito reduzida. DERME Þ É o tecido conjuntivo em que se apoia a epiderme e que une a pele ao tecido subcutâneo, ou hipoderme. A derme apresentaespessura variável de acordo com a região observada, alcançando um máximo de 3 mm na planta do pé. Sua superfície externa é irregular, observando-se saliências, as papilas dérmicas, que acompanham as reentrâncias correspondentes da epiderme. As papilas são mais frequentes nas zonas sujeitas a pressões e atritos. Þ A derme oferece suporte à epiderme e é essencial para a sua nutrição, já que a epiderme não é vascularizada. Além disso, os vasos sanguíneos da derme são importantes para a função de termorregulação da pele. Þ A derme é também importante para a percepção sensorial (tato, temperatura, dor) e para a defesa imunológica da pele. Þ A derme é constituída por duas camadas de limites pouco distintos: a papilar, superficial, e a reticular, mais profunda. Þ A camada papilar é delgada, constituída por tecido conjuntivo frouxo que forma as papilas dérmicas. Nessa camada foram descritas fibrilas especiais de colágeno, que, por um lado, se inserem na membrana basal e, por outro, penetram profundamente a derme. Essas fibrilas contribuem para prender a derme à epiderme. Os pequenos vasos sanguíneos observados nessa camada são responsáveis pela nutrição e oxigenação da epiderme. Melanócitos Þ A cor da pele se deve a vários fatores, e os de maior importância são: seu conteúdo em melanina e caroteno, a quantidade de capilares na derme e a cor do sangue nesses capilares. A pigmentação da pele é regulada por fatores genéticos, ambientais e endócrinos, que modulam a quantidade, o tipo e a distribuição de melaninas na pele, nos pelos e nos olhos. Þ A melanina é um pigmento de cor marrom- escura, produzido pelos melanócitos, que se encontram na junção da derme com a epiderme ou entre os queratinócitos da camada basal da epiderme. Os melanócitos são células que se originam das cristas neurais do embrião e invadem a pele entre a 12a e a 14a semana da vida intrauterina. Apresentam citoplasma globoso, de onde partem prolongamentos que penetram as reentrâncias das células das camadas basal e espinhosa e transferem os grânulos de melanina para as células dessas camadas. Os melanócitos se prendem à membrana basal por meio de hemidesmossomos. Þ A melanina é sintetizada nos melanócitos com a participação da enzima tirosinase. Nas vesículas (melanossomos) que se inicia a síntese da melanina. Inicialmente coexistem melanina e tirosinase nos melanossomos. Quando cessa a síntese de melanina, o melanossomo está repleto de melanina e perde sua atividade tirosinásica, recebendo, então, o nome de grânulo de melanina. Þ Uma vez formados, os grânulos de melanina migram pelos prolongamentos dos melanócitos e são injetados, por mecanismo pouco conhecido, no citoplasma dos queratinócitos, que funcionam como depósitos de melanina e contêm maior quantidade desse pigmento do que os melanócitos. Os grânulos de melanina se fundem com os lisossomos dos queratinócitos; por isso, as células mais superficiais da epiderme não têm melanina. Nas células epiteliais os grânulos de melanina localizam-se em posição supranuclear, oferecendo proteção máxima ao ácido desoxirribonucleico (DNA) contra os efeitos prejudiciais da radiação solar. Þ O bronzeamento da pele por exposição à luz do sol ocorre inicialmente em razão do escurecimento da melanina preexistente e da aceleração da transferência de melanina para os queratinócitos. Em uma segunda etapa, a síntese da melanina é aumentada. Þ A camada reticular é mais espessa, constituída por tecido conjuntivo denso. Ambas as camadas contêm muitas fibras do sistema elástico, responsáveis, em parte, pela elasticidade da pele. Além dos vasos sanguíneos e linfáticos, e dos nervos, também são encontradas na derme as seguintes estruturas, derivadas da epiderme: folículos pilosos, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas. HIPODERME Þ É formada por tecido conjuntivo frouxo, que une de maneira pouco firme a derme aos órgãos subjacentes. É a camada responsável pelo deslizamento da pele sobre as estruturas nas quais se apoia. Þ Desenho de um melanócito. Seus prolongamentos citoplasmáticos se insinuam entre as células da camada basal da epiderme. Esses prolongamentos estão cheios de grânulos de melanina, que são transferidos para o citoplasma dos queratinócitos. Þ Melanócito mostrando o processo de melanogênese. A tirosinase é sintetizada no retículo endoplasmático granuloso e daí passa ao complexo de Golgi, onde é acumulada em vesículas. Estas, uma vez livres no citoplasma e cheias de tirosinase, são os melanossomos I. É nelas que se inicia a síntese da melanina, graças à ação da tirosinase sobre a tirosina. As vesículas com tirosinase e melanina são os melanossomos II e III. A etapa seguinte do processo é o desaparecimento da tirosinase, constituindo-se os grânulos de melanina, os quais são transferidos para os queratinócitos por meio dos prolongamentos dos melanócitos. Þ Epiderme mostrando acúmulos de melanina em queratinócitos. A melanina protege o DNA da radiação ultravioleta do sol, que provoca mutações genéticas, acumulando-se principalmente sobre os núcleos das células. A melanina é produzida pelos melanócitos na camada basal e transferida aos queratinócitos vizinhos. Células de Langerhans Þ As células de Langerhans localizam-se em toda a epiderme entre os queratinócitos; porém, são mais frequentes na camada espinhosa. Possuem muitos prolongamentos; contudo, em preparações histológicas comuns, aparecem arredondadas, com um halo claro ao seu redor, separando-as dos queratinócitos. Essas células se originam de células precursoras da medula óssea que são transportadas pelo sangue circulante. As células de Langerhans são móveis, capazes de captar antígenos, processá-los e apresentá-los aos linfócitos T, participando da defesa imunológica na pele e exercendo um papel importante nas reações imunitárias cutâneas. Células de Merkel Essas células existem em maior quantidade na pele espessa da palma das mãos e da planta dos pés, especialmente nas pontas dos dedos, onde a sensibilidade tátil é maior. Apresentam pequenos grânulos citoplasmáticos elétron-densos, de composição desconhecida. As células de Merkel, que se originam de precursores epidérmicos, localizam-se na parte profunda da epiderme, apoiadas na membrana basal e unidas aos queratinócitos por meio de desmossomos. Em contato com a base das células de Merkel existe uma estrutura em forma de disco, onde se inserem fibras nervosas aferentes (conduzem impulsos para o sistema nervoso central). As células de Merkel são mecanorreceptores (sensibilidade tátil), embora existam algumas evidências de que elas também participem do sistema neuroendócrino difuso, secretando neuropeptídios que podem potencialmente regular a função de queratinócitos, fibroblastos, células imunitárias, vasos próximos e neurônios. Þ Camadas papilar e reticular da derme. A camada papilar é constituída por tecido conjuntivo frouxo e contém as papilas dérmicas. A camada reticular é constituída por tecido conjuntivo denso, com feixes grossos de fibras de colágeno tipo I. Þ A espessura das fibras se reduz gradualmente à medida que elas se aproximam da epiderme. As mais grossas são as fibras elásticas, as de diâmetro intermediário são as elaunínicas, e as mais finas, próximas à epiderme, são as fibras oxitalânicas, que se prendem à membrana basal localizada entre a derme e a epiderme. Þ Fibras do sistema elástico Þ Dependendo da região e do grau de nutrição do organismo, a hipoderme pode ter uma camada variável de tecido adiposo, que, quando desenvolvida, constitui o panículo adiposo. Este modela o corpo, é uma reserva de energia e proporciona proteção contra o frio (a gordura é um bom isolante térmico). VASOS E RECEPTORES SENSORIAIS DA PELE Þ Os vasos arteriais que suprem a pele formam dois plexos: um que se situa no limite entre a derme e a hipoderme e outroentre as camadas reticular e papilar. Deste último plexo partem finos ramos para as papilas dérmicas; cada papila tem uma única alça vascular, com um ramo arterial ascendente e um venoso descendente. Þ Existem três plexos venosos na pele: dois nas posições descritas para as artérias e mais um na região média da derme. Frequentemente, encontram-se na pele anastomoses arteriovenosas com glomus, que têm papel importante nos mecanismos de termorregulação. Þ O sistema de vasos linfáticos inicia-se nas papilas dérmicas como capilares em fundo cego, que convergem para um plexo entre as camadas papilar e reticular. Desse plexo partem ramos para outro plexo localizado no limite da derme com a hipoderme; portanto, na mesma localização dos vasos sanguíneos arteriais. Þ Uma das funções mais importantes da pele, graças à sua grande extensão e à sua abundante inervação sensorial, é receber estímulos do meio ambiente, já que ela é o receptor sensorial mais extenso do organismo. Þ Além das numerosas terminações nervosas livres localizadas na epiderme, nos folículos pilosos e nas glândulas, existem receptores encapsulados e não encapsulados na derme e na hipoderme, sendo mais frequentes nas papilas dérmicas. As terminações nervosas livres são sensíveis ao toque e à pressão (receptores táteis), bem como a variações de temperatura, e estão associadas a dor, coceira e outras sensações. Os receptores encapsulados são os corpúsculos de Ruffini, Vater-Pacini, Meissner e Krause. Há evidências que mostram que os corpúsculos mencionados não são necessários para a sensibilidade cutânea. Muitas áreas da pele são desprovidas desses corpúsculos, porém têm sensibilidade. No entanto, quando são encontrados, eles funcionam como mecanorreceptores. Os corpúsculos de Vater-Pacini e os de Ruffini são encontrados também no tecido conjuntivo de órgãos situados nas partes profundas do corpo, em que provavelmente são sensíveis aos movimentos dos órgãos e às pressões de uns órgãos sobre os outros. PELOS Þ Os pelos são estruturas delgadas e queratinizadas que se desenvolvem a partir de uma invaginação da epiderme. A cor, o tamanho e a disposição deles variam de acordo com a cor da pele e a região do corpo. São observados em quase toda a superfície corporal, com exceção de algumas regiões bem delimitadas. Os pelos são estruturas que crescem descontinuamente, intercalando fases de repouso com fases de crescimento, cuja duração é variável de uma região para outra. No couro cabeludo, por exemplo, a fase de crescimento é muito longa, durando vários anos, enquanto a fase de repouso é da ordem de 3 meses. As características dos pelos de determinadas regiões do corpo (face e região pubiana) são influenciadas por hormônios, principalmente os hormônios sexuais. Þ Tipos de receptores sensoriais encontrados na pele. Þ Papila dérmica contendo um corpúsculo de Meissner. Þ Cada pelo se origina de uma invaginação da epiderme, o folículo piloso que, no pelo em fase de crescimento, apresenta-se com uma dilatação terminal, o bulbo piloso, em cujo centro se observa uma papila dérmica. As células que recobrem a papila dérmica formam a raiz do pelo, de onde emerge o eixo do pelo. Þ Na fase de crescimento, as células da raiz multiplicam-se e diferenciam-se em vários tipos celulares. Em certos tipos de pelos grossos, as células centrais da raiz produzem células grandes, vacuolizadas e fracamente queratinizadas, que formam a medula do pelo. Ao redor da medula diferenciam-se células mais queratinizadas e dispostas compactamente, formando o córtex do pelo. Células mais periféricas formam a cutícula do pelo, constituída por células fortemente queratinizadas que se dispõem envolvendo o córtex como escamas. Finalmente, das células epiteliais mais periféricas de todas, originam-se duas bainhas epiteliais (uma interna e outra externa), que envolvem o eixo do pelo na sua porção inicial. A bainha externa se continua com o epitélio da epiderme, enquanto a interna desaparece na altura da região onde desembocam as glândulas sebáceas no folículo. Þ Separando o folículo piloso do tecido conjuntivo que o envolve, encontra-se uma membrana basal muito desenvolvida, que recebe o nome de membrana vítrea. O conjuntivo que envolve o folículo apresenta-se mais espesso, formando a bainha conjuntiva do folículo piloso. Dispostos obliquamente e inseridos de um lado nessa bainha e do outro na camada papilar da derme, encontram-se os músculos eretores dos pelos, cuja contração puxa o pelo para uma posição mais vertical, tornando-o eriçado. Corpúsculo de Vater-Pacini, receptor sensorial da pele, frequentemente localizado na derme profunda e na hipoderme. Þ Folículo piloso. O folículo piloso apresenta uma dilatação terminal, o bulbo piloso, que contém a papila dérmica. Recobrindo a papila dérmica estão as células que formam a raiz do pelo. As células centrais da raiz do pelo (A) produzem células grandes, vacuolizadas e fracamente queratinizadas, que formam a medula do pelo. Em seguida, lateralmente, aparecem células que dão origem ao córtex (B) do pelo. Células epiteliais mais periféricas dão origem às bainhas interna (C) e externa. A bainha externa continua-se com o epitélio da epiderme, e a bainha interna desaparece na altura da região onde desembocam as glândulas sebáceas no folículo. Entre o folículo piloso e o conjuntivo que fica em volta, situa-se a membrana vítrea. Þ Pele com folículo piloso, glândula sebácea, músculo eretor do pelo e uma glândula sudorípara, cujo ducto tem um trajeto helicoidal ao atravessar a epiderme. O curto ducto da glândula sebácea abre-se no folículo piloso, na região entre a inserção do músculo eretor e a epiderme. O músculo eretor do pelo se insere, de um lado, na camada papilar da derme, e do outro, na bainha de conjuntivo do folículo piloso; é um músculo liso e, portanto, involuntário. Sua contração eriça o pelo. Þ Embora os processos de queratinização pareçam semelhantes na epiderme e no pelo, eles diferem em alguns aspectos: ■ Enquanto a epiderme produz uma camada superficial de células mortas contendo queratina relativamente mole, com pouca adesividade e que se descama continuamente, no pelo acontece o oposto. Os pelos têm uma estrutura compacta constituída de queratina mais dura. ■ Na epiderme, o processo de diferenciação e queratinização é contínuo e tem lugar sobre toda a superfície. No pelo, ele é intermitente e localizado no bulbo piloso. A papila do pelo tem ação indutiva sobre o epitélio que o recobre, o que explica a ausência de pelos quando ocorre a destruição da papila ■ Enquanto na epiderme as células se diferenciam de modo uniforme, resultando na camada córnea, as células epiteliais da raiz do pelo diferenciam-se em múltiplos tipos celulares, cada qual com sua ultraestrutura, histoquímica e funções características. A atividade mitótica das células dos folículos dos pelos é influenciada pelos hormônios androgênicos (hormônios masculinos). UNHAS Þ As unhas são placas de células queratinizadas localizadas na superfície dorsal das falanges terminais dos dedos. Sua porção proximal é chamada de raiz da unha. O epitélio da dobra de pele que cobre a raiz da unha consiste nas camadas usuais da epiderme, e a camada córnea desse epitélio forma a cutícula da unha. É na raiz da unha que se observa sua formação, graças a um processo de proliferação e diferenciação das células epiteliais aí colocadas, que gradualmente se queratinizam, formando uma placa córnea. Þ A unha é constituída essencialmente por escamas córneas compactas, fortemente aderidas umas às outras. Elas crescem deslizando sobre o leito ungueal, que tem estrutura típica de pele e não participa na firmação da unha. A transparência da unha e a pequena espessura do epitélio do leito ungueal possibilitam observar a cor do sangue dos vasos da derme, constituindo uma maneira de se avaliar aoxigenação sanguínea. GLÂNDULAS DA PELE ► Glândulas sebáceas Þ As glândulas sebáceas situam-se na derme, e os seus ductos, revestidos por epitélio estratificado, geralmente desembocam nos folículos pilosos. Þ Em algumas regiões (lábio, mamilos, glande e pequenos lábios da vagina), porém, os ductos abrem- se diretamente na superfície da pele. Þ A pele da palma das mãos e a da planta dos pés não têm glândulas sebáceas. As glândulas sebáceas são acinosas, e geralmente vários ácinos desembocam em um ducto curto. Os ácinos são formados por uma camada externa de células epiteliais achatadas que repousam sobre uma membrana basal. Essas células proliferam e se diferenciam em células arredondadas, que acumulam no citoplasma o produto de secreção, de natureza lipídica. Os núcleos tornam-se gradualmente condensados e desaparecem. As células mais centrais do ácino morrem e se rompem, formando a secreção sebácea. A atividade secretora dessas glândulas é muito pequena até a puberdade, quando é estimulada pelos hormônios sexuais. As glândulas sebáceas são um exemplo de glândula holócrina, pois a formação da secreção resulta na morte das células. A secreção sebácea é uma mistura complexa de lipídios, que contém triglicerídios, ácidos graxos livres, colesterol e ésteres de colesterol. Þ Glândulas sebáceas associadas a um folículo piloso. B. Ácinos de glândula sebácea, apresentando uma camada externa de células achatadas e células centrais mais arredondadas com aspecto claro. Esse aspecto claro deve-se ao conteúdo lipídico da secreção sebácea. Þ A secreção sebácea é contínua e muito aumentada na puberdade, em consequência da produção acelerada de hormônios sexuais. Qualquer distúrbio no fluxo da secreção sebácea para a superfície da epiderme pode provocar uma inflamação crônica nos ductos obstruídos, o que se denomina acne. Embora possa ocorrer em qualquer idade, exceto na infância, a acne é muito mais frequente na puberdade. ► Glândulas sudoríparas Þ As glândulas sudoríparas merócrinas são muito numerosas e encontradas em toda a pele, excetuando- se certas regiões, como a glande. Þ Essas glândulas são tubulosas simples enoveladas, cujos ductos se abrem na superfície da pele. Os ductos não se ramificam e têm menor diâmetro do que a porção secretora, que se encontra na derme. Þ As células secretoras são piramidais, e entre elas e a membrana basal estão localizadas as células mioepiteliais, que ajudam a expulsar o produto de secreção. Nessas glândulas existem dois tipos de células secretoras, as células escuras e as células claras. Þ As escuras são adjacentes ao lúmen, e as claras localizam-se entre as células escuras e as mioepiteliais. Þ O ápice das células escuras apresenta muitos grânulos de secreção que contêm glicoproteínas, e o citoplasma é rico em retículo endoplasmático granuloso. As células claras não contêm grânulos de secreção e são pobres em retículo endoplasmático granuloso, mas contêm muitas mitocôndrias. Entre elas existem delgados espaços intercelulares (canalículos). As células claras apresentam muitas dobras da membrana plasmática, uma característica das células que participam do transporte transepitelial de fluido e sais. Essas características estruturais sugerem que a função das células claras seja produzir a parte aquosa do suor. Þ O ducto da glândula abre-se na superfície da pele e segue um curso em hélice ao atravessar a epiderme. Apresenta-se constituído por epitélio cúbico estratificado (duas camadas de células), que repousa sobre a membrana basal. As células da camada mais externa do revestimento dos ductos, em contato com a membrana basal, apresentam invaginações da membrana plasmática e citoplasma rico em mitocôndrias, que são aspectos característicos de células que transportam íons e água. Þ O suor secretado por essas glândulas é uma solução extremamente diluída, que contém pouquíssima proteína, além de sódio, potássio, cloreto, ureia, amônia e ácido úrico. Þ Além das glândulas sudoríparas merócrinas, nas axilas, nas regiões perianal e pubiana, bem como na aréola mamária, existem glândulas de maior tamanho (3 a 5 mm), com partes secretoras muito dilatadas, as glândulas sudoríparas apócrinas, localizadas na derme e na hipoderme. Há fortes indicações de que essas glândulas secretem pelo processo merócrino, mas o nome de glândulas sudoríparas apócrinas tornou-se consagrado pelo uso. Þ Os ductos dessas glândulas desembocam em um folículo piloso, e o lúmen de suas partes secretoras é dilatado. A secreção é ligeiramente viscosa e inodora, mas adquire um odor desagradável e característico pela ação das bactérias da pele. Na mulher, as glândulas apócrinas axilares passam por alterações durante o ciclo menstrual. As glândulas apócrinas são inervadas por fibras adrenérgicas, enquanto as merócrinas o são por fibras colinérgicas. As glândulas de Moll da margem das pálpebras e as de cerume do ouvido são glândulas sudoríparas modificadas. Estratos da epiderme de uma pele espessa Estratos da epiderme de uma pele fina Visão Geral do Reparo Tecidual Þ A resposta inflamatória a microrganismos e tecidos lesados não serve apenas para eliminar esses perigos, mas também inicia o processo de reparo. Þ O reparo ocorre por meio de dois tipos de reações: regeneração por proliferação das células residuais (não lesadas) e maturação de células-tronco teciduais e deposição de tecido conjuntivo para formar uma cicatriz. Regeneração Þ Alguns tecidos são capazes de substituir os componentes lesados e retornar ao estado normal; esse processo é chamado regeneração. Þ A regeneração ocorre por meio da proliferação das células que sobrevivem à lesão e que mantêm a capacidade proliferativa como, por exemplo, o epitélio que se divide rapidamente, na pele e nos intestinos, e em alguns órgãos parenquimais, principalmente o fígado. Em outros casos, as células-tronco teciduais podem contribuir para a restauração dos tecidos lesados. Deposição de tecido conjuntivo (formação de cicatriz). Þ Se os tecidos lesados são incapazes de regeneração completa ou se as estruturas de suporte do tecido são gravemente lesadas, o reparo ocorre por deposição de tecido conjuntivo (fibrose), um processo que resulta na formação de cicatriz. Þ Embora a cicatriz fibrosa não possa realizar a função das células perdidas do parênquima, ela proporciona estabilidade estrutural suficiente para tornar o tecido lesado capaz de funcionar. O termo fibrose é mais frequentemente usado para descrever a extensa deposição de colágeno que ocorre nos pulmões, fígado, rins e outros órgãos, como consequência da inflamação crônica, ou no miocárdio após extensa necrose isquêmica (infarto). Regeneração das Células e Tecidos Þ A regeneração das células e tecidos lesados envolve proliferação celular, que é dirigida pelos fatores de crescimento e é criticamente dependente da integridade da matriz extracelular e do desenvolvimento de células maduras a partir de células- tronco. Proliferação Celular: Sinais e Mecanismos de Controle Þ Vários tipos celulares proliferam durante o reparo do tecido. Entre eles estão as células remanescentes do tecido lesado (que tentam restaurar a estrutura normal), as células endoteliais vasculares (criam novos vasos que fornecem os nutrientes necessários para o processo de reparo) e os fibroblastos (fonte de tecido fibroso que forma a cicatriz que preenche os defeitos que não são corrigidos por regeneração). Þ A capacidade de reparo dos tecidos é determinada, em parte, pela sua capacidade intrínseca de proliferação. Þ Em alguns tecidos (às vezes chamados tecidos lábeis), as células são constantemente perdidas e continuamente substituídas por novas células derivadas de células-tronco teciduais e progenitores imaturos que proliferam rapidamente. Esses tipos de tecidos incluem células hematopoéticas damedula óssea e muitos epitélios superficiais, como as camadas basais do epitélio escamoso da pele, cavidade bucal, vagina e colo do útero; o epitélio cuboide dos ductos de drenagem de órgãos exócrinos (p. ex., glândulas salivares, pâncreas, trato biliar); o epitélio colunar do trato gastrointestinal, útero e tubas uterinas; e o epitélio de transição do trato urinário. Þ Esses tecidos podem regenerar imediatamente após uma lesão, desde que o pool (grupo) de células- tronco esteja preservado. Þ Outros tecidos (chamados tecidos estáveis) são constituídos por células que normalmente estão no estágio G0 do ciclo celular e, portanto, não proliferam, mas são capazes de se dividir em resposta à lesão ou à perda de massa tecidual. Entre esses tecidos está o parênquima da maioria dos órgãos sólidos, como fígado, rim e pâncreas. Þ As células endoteliais, os fibroblastos e as células musculares lisas geralmente também são quiescentes, mas podem proliferar em resposta aos fatores de crescimento, uma reação que é particularmente importante para a cicatrização das feridas. Þ Alguns tecidos (chamados tecidos permanentes) consistem em células não proliferativas terminalmente diferenciadas, como a maioria dos neurônios e células musculares cardíacas. A lesão desses tecidos é irreversível e resulta em cicatriz, porque as células não podem se regenerar. As células do músculo esquelético geralmente são consideradas não proliferativas, mas as células-satélites ligadas à bainha endomisial proporcionam alguma capacidade regenerativa ao músculo. Þ A proliferação celular é impulsionada por sinais fornecidos por fatores de crescimento e a partir da matriz extracelular. Muitos fatores de crescimento diferentes foram descritos e alguns deles atuam em vários tipos de células, enquanto outros são específicos para um tipo celular. Os fatores de crescimento geralmente são produzidos por células próximas ao local lesado. As fontes mais importantes desses fatores de crescimento são os macrófagos ativados pela lesão tecidual, mas as células epiteliais e estromais também produzem alguns desses fatores. Vários fatores de crescimento se ligam às proteínas da MEC e são exibidos no local da lesão tecidual em altas concentrações. Todos os fatores de crescimento ativam as vias de sinalização que, em última instância, induzem alterações na expressão gênica que impulsionam as células através do ciclo celular e suportam a biossíntese de moléculas e organelas que são necessárias para a divisão celular. Além de responder aos fatores de crescimento, as células usam as integrinas para se ligar às proteínas da MEC e os sinais das integrinas também podem estimular a proliferação celular. Þ No processo de regeneração, a proliferação das células residuais é complementada pelo desenvolvimento de células maduras a partir das células-tronco. Em adultos, as células-tronco mais importantes para regeneração após uma lesão são as células-tronco do tecido. Estas vivem em nichos especializados e acredita-se que a lesão desencadeia sinais nesses nichos que ativam as células-tronco quiescentes para proliferar e se diferenciar em células maduras que repovoam o tecido lesado. Mecanismos de Regeneração Tecidual Þ Varia nos diferentes tipos de tecidos e de acordo com a gravidade da lesão. • No epitélio do trato intestinal e pele, as células lesadas são rapidamente substituídas por proliferação das células residuais e diferenciação das células derivadas das células-tronco teciduais, permanecendo a membrana basal subjacente intacta. As células epiteliais residuais produzem fatores de crescimento envolvidos nestes processos. As células recém-geradas migram para preencher o defeito criado pela lesão, e a integridade dos tecidos é restaurada. • A regeneração tecidual pode ocorrer em órgãos parenquimatosos cujas células são capazes de proliferar e, com exceção do fígado, este é um processo geralmente limitado. Pâncreas, adrenal, tireoide e pulmão apresentam alguma capacidade regenerativa. A remoção cirúrgica de um rim desencadeia no rim remanescente uma resposta compensatória que consiste tanto em hipertrofia quanto em hiperplasia das células ductais proximais. Þ A restauração da arquitetura do tecido normal pode ocorrer apenas se o tecido residual estiver estruturalmente intacto, por exemplo, após a ressecção cirúrgica parcial do fígado. Por outro lado, se o tecido estiver inteiramente lesado pela infecção ou inflamação, a regeneração é incompleta e acompanhada pela formação de cicatrizes. Por exemplo, a extensa destruição do fígado com o colapso da estrutura de reticulina, como ocorre em um abscesso hepático, desencadeia formação de cicatriz, embora as células hepáticas remanescentes apresentem a capacidade regenerativa. Regeneração do Fígado O fígado humano apresenta uma notável capacidade para regenerar, como demonstrado pelo seu crescimento após hepatectomia parcial, que pode ser realizada para a ressecção de um tumor ou para transplante hepático de doador vivo. Þ A regeneração hepática ocorre por meio de dois mecanismos principais: proliferação dos hepatócitos restantes e repovoamento a partir de células progenitoras. O mecanismo que desempenha o papel predominante dependerá da natureza da lesão. Þ Proliferação dos hepatócitos após hepatectomia parcial. Nos seres humanos, a ressecção de até 90% do fígado pode ser corrigida pela proliferação dos hepatócitos residuais. Este processo é conduzido por citocinas, como a IL-6 produzida pelas células de Kupffer; e por fatores de crescimento como o fator de crescimento de hepatócitos. Þ Regeneração hepática a partir de células progenitoras. Em situações nas quais a capacidade proliferativa dos hepatócitos é prejudicada, como após a injúria hepática crônica ou inflamação, as células progenitoras do fígado contribuem para o repovoamento. Reparo por Cicatrizes Þ Se o reparo não puder ser realizado somente por regeneração, ele ocorre pela substituição das células lesadas por tecido conjuntivo, levando à formação de uma cicatriz, ou por uma combinação de regeneração de algumas células residuais e formação de cicatriz. Þ As cicatrizes teciduais podem acontecer se a lesão for grave ou crônica e resultar em danos às células parenquimais e epiteliais, bem como a estrutura do tecido conjuntivo, ou se as células sem capacidade proliferativa forem lesadas. Þ Em contraste com a regeneração, que envolve a substituição dos componentes do tecido, a formação de cicatriz é uma resposta que “remenda” em vez de restaurar o tecido. Þ O termo cicatriz é mais frequentemente usado em associação à cicatrização de feridas na pele, mas também pode ser utilizado para descrever a substituição de células parenquimais de qualquer tecido por colágeno, como no coração após o infarto do miocárdio. Etapas na Formação de Cicatrizes Þ O reparo por deposição de tecido conjuntivo consiste em uma série de etapas sequenciais que ocorrem a pós a lesão do tecido. Þ Alguns minutos após uma lesão, um tampão hemostático composto por plaquetas é formado, o que interrompe o sangramento e proporciona uma estrutura para as células inflamatórias infiltrativas. Þ Inflamação. Esta etapa é composta pelas típicas respostas inflamatórias aguda e crônica. Os produtos da degradação da ativação do complemento, quimiocinas liberadas a partir das plaquetas ativadas e outros mediadores produzidos no local da lesão agem como agentes quimiotáticos para recrutar neutrófilos e monócitos durante as 6 a 48 horas seguintes. Essas células inflamatórias eliminam os agentes agressores, tais como microrganismos que possam ter entrado através da ferida, e limpam os debris. Þ Os macrófagos são os principais agentes no processo de reparo celular – macrófagos M1 removem microrganismos e tecido necrótico e promovem a inflamação em uma retroalimentação positiva, e os macrófagos M2 produzem fatoresde crescimento que estimulam a proliferação de muitos tipos celulares na próxima etapa do reparo. À medida que os agentes causadores da injúria e as células necróticas são eliminados, a inflamação se resolve. Þ Proliferação celular. Na etapa seguinte, o que leva até 10 dias, vários tipos de células, incluindo células epiteliais, endoteliais e outras células vasculares e fibroblastos, proliferam e migram para fechar a ferida, agora limpa. Cada tipo de célula apresenta funções únicas. Þ As células epiteliais respondem a fatores de crescimento produzidos localmente e migram sobre a ferida para cobri-la. Þ As células endoteliais e outras células vasculares proliferam para formar novos vasos sanguíneos, um processo conhecido como angiogênese. Devido à importância desse processo fisiológico nas respostas do hospedeiro e em muitas condições patológicas. Þ Os fibroblastos proliferam e migram para o local da lesão e repousam sobre as fibras colágenas que formam a cicatriz. Þ A combinação de fibroblastos em proliferação, tecido conjuntivo frouxo, novos vasos sanguíneos e células inflamatórias crônicas espalhadas forma um tipo de tecido ímpar para cicatrização das feridas, chamado tecido de granulação. Este termo deriva da sua coloração rosada, aparência macroscópica granular e macia, tal como se pode observar abaixo da crosta da pele de uma ferida. Þ Remodelação. O tecido conjuntivo que foi reorganizado é depositado pelos fibroblastos para produzir uma cicatriz fibrosa estável. Este processo se inicia 2 a 3 semanas após a injúria e pode continuar por meses ou anos. Þ A cicatrização das feridas da pele pode ser classificada como cicatrização por primeira intenção (união primária), que se refere à regeneração epitelial com formação mínima de cicatrizes, como a que ocorre nas incisões cirúrgicas com bordas bem aproximadas, e cicatrização por segunda intenção (união secundária), que se refere às feridas maiores que cicatrizam por meio da combinação de regeneração e cicatrização. Angiogênese Þ A angiogênese é o processo de desenvolvimento de novos vasos sanguíneos a partir de vasos existentes. Þ É essencial para a cicatrização dos locais de lesão, para o desenvolvimento de circulação colateral em locais de isquemia e para permitir o aumento do tamanho dos tumores para além do seu tamanho original sem restrição de suprimento sanguíneo. Þ A angiogênese envolve o brotamento de novos vasos a partir dos vasos preexistentes e é composta pelas seguintes etapas: Þ Vasodilatação em resposta ao NO e aumento da permeabilidade induzida pelo VEGF. Þ Separação dos pericitos da superfície abluminal e degeneração da membrana basal para permitir a formação de um broto de vaso. Þ Migração das células endoteliais em direção à área da lesão. Þ Proliferação de células endoteliais logo atrás das células migratórias que lideram à frente (“ponta”). Þ Remodelação de tubos capilares. Þ Recrutamento de células periendoteliais (pericitos para pequenos capilares e células musculares lisas para vasos maiores) para formar o vaso maduro. Þ Supressão da proliferação e migração endotelial e deposição de membrana basal. Þ Postula-se que as células progenitoras endoteliais estão presentes na medula óssea e podem ser recrutadas para promover formação de novos vasos. No entanto, essas células provavelmente desempenham papel menos importante, ou nenhum, na angiogênese associada à cicatrização da maioria das feridas. Þ O processo da angiogênese envolve uma série de vias de sinalização, interações célula-célula, proteínas da MEC e enzimas teciduais. Þ Fatores de crescimento. VEGF, principalmente VEGF-A, estimula a proliferação e a migração das células endoteliais, iniciando assim o processo de brotamento capilar na angiogênese. Promove a vasodilatação, estimulando a produção de NO e contribui para a formação do lúmen vascular. Os fatores de crescimento de fibroblastos (FGFs), sobretudo o FGF-2, estimulam a proliferação de células endoteliais. Eles também promovem a migração de macrófagos e fibroblastos para a área danificada e estimulam a migração de células epiteliais para cobrir as feridas epidérmicas. Os vasos recém-formados são estabilizados a partir do recrutamento de pericitos e células musculares lisas, e pela deposição de tecido conjuntivo. Þ Sinalização Notch. Por meio da “conversa” com o VEGF, a via de sinalização Notch regula o brotamento e a ramificação de novos vasos e, assim, garante que os novos vasos formados mantenham o espaçamento adequado para suprir de sangue, eficientemente, o tecido em cicatrização. Þ Proteínas da MEC participam do processo de brotamento dos vasos na angiogênese, em grande parte por meio de interações com receptores de integrina das células endoteliais e fornecendo o arcabouço para o crescimento dos vasos. Þ As enzimas da MEC, denominadas metaloproteinases de matriz (MMPs), degradam a MEC para permitir a remodelação e a extensão do tubo vascular. Þ Vasos recém-formados são permeáveis porque as junções entre as células endoteliais são incompletas e porque o VEGF, o fator de crescimento vascular que dirige a angiogênese, aumenta a permeabilidade vascular. Essa permeabilidade é responsável, em parte, pela persistência do edema na cicatrização de feridas por muito tempo após a resposta inflamatória aguda ter sido resolvida. Ativação de Fibroblastos e Deposição de Tecido Conjuntivo Þ A deposição de tecido conjuntivo ocorre em duas etapas: (1) migração e proliferação de fibroblastos no local da injúria e (2) deposição de proteínas da MEC produzidas por essas células. Þ Esses processos são regulados por fatores de crescimento, incluindo PDGF, FGF-2 e TGF-β e citocinas produzidos localmente. As principais fontes destes fatores são as células inflamatórias, particularmente macrófagos (M2) ativados pela via alternativa que infiltram os locais de lesão. Þ Em resposta às citocinas e aos fatores de crescimento, os fibroblastos penetram a ferida a partir das bordas e migram em direção ao centro. Algumas dessas células se diferenciam em células chamadas miofibroblastos, que contêm actina do músculo liso e apresentam atividade contrátil aumentada, e servem para fechar a ferida, “puxando” as margens em direção ao centro. Fibroblastos ativados e miofibroblastos também aumentam sua atividade sintética e produzem proteínas do tecido conjuntivo, principalmente colágeno, o principal componente da cicatriz completamente desenvolvida. Þ O TGF-β é a citocina mais importante para a síntese e a deposição de proteínas do tecido conjuntivo. É produzido pela maioria das células do tecido de granulação, incluindo macrófagos alternativamente ativados. O TGF-β não está envolvido somente na formação de cicatrizes após uma lesão, mas também no desenvolvimento da fibrose presente no pulmão, fígado e rins que surge após a inflamação crônica. O TGF-β também apresenta efeitos anti- inflamatórios que servem para limitar e finalizar as respostas inflamatórias. O TGF-β atua inibindo a proliferação dos linfócitos e atividade de outros leucócitos. Þ À medida que a cicatrização progride, o número de fibroblastos em proliferação e vasos novos diminui, mas os fibroblastos assumem um fenótipo progressivamente mais sintetizador, e há, portanto, aumento na deposição de MEC. A síntese de colágeno, em particular, é necessária para a cicatrização das feridas para que elas se tornem fortes e estáveis mecanicamente. A síntese de colágeno pelos fibroblastos inicia-se cedo no processo de cicatrização de feridas (3 a 5 dias) e continua por várias semanas, dependendo do tamanho da ferida. O acúmulo de colágeno total depende não apenas de síntese aumentada, mas também da redução da degradação do colágeno. À medida que a cicatriz amadurece, há regressão vascular progressiva, que transforma o tecido de granulação altamente vascularizado, eventualmente, emuma cicatriz pálida e avascular. Remodelação do Tecido Conjuntivo Þ Após a cicatriz ser formada, ela é remodelada para aumentar a sua força e contratilidade. A resistência da ferida aumenta por causa das ligações cruzadas do colágeno e aumento do tamanho das fibras de colágeno. Além disso, existe uma alteração do tipo de colágeno depositado, de colágeno do tipo III no processo inicial de reparo para o colágeno tipo I mais resistente. Nas feridas cutâneas bem suturadas, entre 70% e 80% da força da pele normal pode ser recuperada em 3 meses. A contração da ferida é desencadeada inicialmente pelos miofibroblastos e, mais tarde, pelas ligações cruzadas das fibras de colágeno. Þ Com o passar do tempo, o tecido conjuntivo é degradado e a cicatriz encolhe. A degradação do colágeno e de outros componentes da MEC é realizada por uma família de metaloproteinases da matriz (MMPs), assim denominadas porque são dependentes de íons metálicos (p. ex., zinco) para exercer a sua atividade enzimática. Þ As MMPs são produzidas por vários tipos de células (fibroblastos, macrófagos, neutrófilos, células sinoviais e algumas células epiteliais) e sua síntese e secreção são reguladas por fatores de crescimento, citocinas e outros agentes. Entre elas estão as colagenases intersticiais, que clivam o colágeno fibrilar (MMP-1, -2, e -3); gelatinases (MMP-2 e 9), que degradam o colágeno amorfo e a fibronectina; e estromelisinas (MMP-3, -10 e -11) que degradam vários constituintes da MEC, incluindo proteoglicanos, laminina, fibronectina e colágeno amorfo. A elastase neutrofílica, catepsina G, plasmina e outras serinoproteinases podem degradar a MEC, mas são menos importantes no processo de remodelação da ferida do que as MMPs. Além disso, as colagenases podem ser rapidamente inibidas por inibidores teciduais específicos das metaloproteinases (TIMPs), produzidos pela maioria das células mesenquimais. Assim, o equilíbrio entre as MMPs e os TIMPs regula o tamanho e a natureza da cicatriz. Fatores que Impedem o Reparo do Tecido Þ O reparo tecidual pode ser influenciado por vários fatores que reduzem a qualidade ou adequação do processo de reparação. Þ Os fatores que interferem na cicatrização podem ser extrínsecos (p. ex., infecção) ou intrínsecos ao tecido lesado, sistêmicos ou locais: Þ A infecção é uma das causas mais importantes de retardo da cicatrização; ela prolonga a inflamação e aumenta potencialmente a lesão tecidual local. Þ O diabetes é uma doença metabólica que compromete o reparo dos tecidos por muitas razões, e é uma causa sistêmica importante da cicatrização anormal das feridas. Þ O estado nutricional exerce profundos efeitos sobre o reparo; desnutrição proteica e deficiência vitamina C, por exemplo, inibem a síntese de colágeno e retardam a cura. Þ Os glicocorticoides (esteroides) apresentam efeitos anti-inflamatórios já bem documentados, e a sua administração pode resultar em cicatrização deficiente porque inibem a produção de TGF-β e diminuem a fibrose. Em alguns casos, no entanto, os efeitos anti-inflamatórios dos glicocorticoides são desejáveis. Por exemplo, nas infecções da córnea, os glicocorticoides podem ser prescritos (juntamente com antibióticos) para reduzir a probabilidade de opacidade devido à deposição de colágeno. Þ Fatores mecânicos: aumento da pressão local ou torção podem causar separação ou deiscência da ferida. Þ Má perfusão, devido à aterosclerose e ao diabetes, ou obstrução da drenagem venosa (p. ex., em veias varicosas), também prejudicam a cicatrização. Þ Corpos estranhos, como fragmentos de aço, vidro, ou mesmo osso, impedem a cicatrização. Þ O tipo e a extensão da lesão tecidual influenciam no reparo subsequente. A restauração completa pode ocorrer apenas em tecidos compostos por células capazes de proliferação. Mesmo assim, uma lesão extensa provavelmente resultará em regeneração incompleta e, ao menos, perda parcial da função. Inevitavelmente, a lesão de tecidos compostos por células que não possuem capacidade proliferativa resulta na formação de cicatrizes, como no infarto do miocárdio. Þ A localização da lesão e a natureza do tecido lesado também são importantes. Por exemplo, na inflamação que surge nos espaços teciduais (p. ex., nas cavidades pleural, peritoneal e sinovial), pequenos exsudatos podem ser reabsorvidos e digeridos pelas enzimas proteolíticas dos leucócitos, resultando em resolução da inflamação e restabelecimento da arquitetura tecidual normal. Contudo, quando o exsudato é muito grande para ser totalmente reabsorvido, ele sofre organização, um processo no qual o tecido de granulação cresce dentro do exsudato, e, por fim, há a formação da cicatriz fibrosa. Exemplos Clínicos da Cicatrização Anormal de Feridas e Cicatrizes Þ Complicações no reparo tecidual podem surgir devido a anomalias em qualquer um dos componentes básicos do processo, incluindo formação de cicatriz deficiente, formação excessiva dos componentes do reparo e formação de contrações. Þ Defeitos da Cicatrização: Feridas Crônicas Þ Os defeitos são observados em inúmeras situações clínicas, como resultado da influência de fatores locais e sistêmicos. Alguns exemplos são comuns. Þ Úlceras venosas das pernas se desenvolvem mais frequentemente em pessoas idosas, como resultado de hipertensão venosa crônica, que pode ser causada por varizes graves ou insuficiência cardíaca congestiva. Depósitos de pigmento de ferro (hemossiderina) são comuns, resultantes da degradação de eritrócitos, e podem estar acompanhados por inflamação crônica. Essas úlceras não cicatrizam devido ao mau fornecimento de oxigênio para o local da úlcera. Þ Úlceras arteriais se desenvolvem em indivíduos com aterosclerose das artérias periféricas, especialmente associadas ao diabetes. A isquemia resulta em atrofia e então necrose da pele e dos tecidos subjacentes. Essas lesões podem ser muito dolorosas. Þ Úlceras de pressão são áreas de ulceração da pele e necrose dos tecidos causada por compressão prolongada dos tecidos contra um osso subjacente, por exemplo, em pessoas acamadas, idosos imobilizados por várias morbidades. As lesões são causadas por pressão mecânica e isquemia local. Þ Úlceras diabéticas afetam as extremidades inferiores, particularmente o pé. A necrose tecidual e a cicatrização deficiente são o resultado de doença dos pequenos vasos, que causam isquemia, neuropatia, anormalidades metabólicas sistêmicas e infecções secundárias. Histologicamente, essas lesões são caracterizadas por ulceração epitelial e extenso tecido de granulação na derme subjacente. (A-D) Aparência externa de úlceras de pele (De Eming SA, Margin P, Tomic-Canic M: Wound repair and regeneration: mechanisms, signaling, and translation, Sci Transl Med 6:265, 2014.) (A) Úlcera venosa na perna. (B) Úlcera arterial, com necrose tecidual extensa. (C) Úlcera diabética. (D) Úlcera de pressão. (E- F) Aparência histopatológica de uma úlcera diabética. (E) Cratera da úlcera. (F) Inflamação crônica e tecido de granulação. Þ Em alguns casos, a falha na cicatrização pode levar a deiscência (ruptura da ferida). Embora não seja comum, a deiscência ocorre mais frequentemente após cirurgia abdominal e é resultante do aumento da pressão abdominal, o que pode ocorrer em episódios de vômito, tosse ou íleo adinâmico. Cicatrização Excessiva Þ A formação excessiva dos componentes do processo de reparo pode originar cicatrizes hipertróficas e queloides. Þ O acúmulo de quantidades excessivas de colágeno pode resultar em uma cicatriz elevada conhecida como cicatriz hipertrófica. Muitas vezes, crescem rapidamente e contêm miofibroblastos em abundância, mas tendem a regredir no decorrer de vários meses. As cicatrizes hipertróficas geralmente se desenvolvem após uma lesão térmica ou traumática que envolve as camadas profundas da derme. Þ Se o tecido cicatricial crescealém dos limites da ferida original e não regride, é chamado queloide. Certos indivíduos parecem estar predispostos à formação de queloide, particularmente aqueles de ascendência africana. (A) Cicatriz hipertrófica. (B) Queloide. (C) Aparência microscópica de um queloide. Þ A granulação exuberante é outro desvio na cicatrização de feridas caracterizado pela formação de quantidades excessivas de tecido de granulação, que se projeta acima do nível da pele circundante e bloqueia a reepitelização (esse processo é chamado popularmente carne esponjosa). Þ A granulação excessiva deve ser removida por cauterização ou excisão cirúrgica a fim de permitir a restauração da continuidade epitelial. Þ A contração da ferida é uma parte importante do processo da cicatrização normal. O exagero nesse processo origina a contração e resulta em deformidades da ferida e dos tecidos circundantes. As contrações são propensas a se desenvolver particularmente nas palmas das mãos, nas solas dos pés e na parte anterior do tórax. As contrações são comumente observadas após queimaduras graves e podem comprometer o movimento das articulações. Fibrose em Órgãos Parenquimatosos Þ O termo fibrose é utilizado para designar a deposição excessiva de colágeno e outros componentes da MEC em um tecido. Os termos cicatriz e fibrose podem ser utilizados de forma semelhante, mas fibrose refere-se, na maioria das vezes, à deposição anormal de colágeno que ocorre em órgãos internos nas doenças crônicas. Þ A fibrose é um processo patológico induzido por estímulos prejudiciais persistentes, como infecções crônicas e reações imunológicas, e geralmente está associada à perda de tecido. Pode ser responsável por disfunção substancial e até insuficiência de órgãos. Þ A injúria tecidual persistente leva a inflamação crônica e perda da arquitetura tecidual. As citocinas produzidas por macrófagos e outros leucócitos estimulam a migração e a proliferação de fibroblastos e miofibroblastos e a deposição de colágeno e outras proteínas da matriz extracelular. O resultado final é a substituição de tecido normal por fibrose. Þ Na maioria dos órgãos, como no pulmão e rim, os miofibroblastos constituem a principal fonte de colágeno, mas as células estreladas são as principais produtoras de colágeno na cirrose hepática.