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www.ceej.com.br ----------------------------------- Editor André Saddy Conselho Editorial André Saddy – Universidade Federal Fluminense (Brasil) Carlos Emmanuel Joppert Ragazzo - Escola de Direito do RJ da Fundação Getulio Vargas (Brasil) Christian Alberto Cao – Universidad de Buenos Aires (Argentina) Claudia Ribeiro Pereira Nunes – Yale University (Estados Unidos da América) Cristiana Maria Fortini Pinto e Silva – Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) Daniel Wunder Hachem – Universidade Federal do Paraná (Brasil) Emerson Affonso da Costa Moura – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Brasil) Irene Patrícia Nohara – Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasil) José Eugenio Soriano García – Universidad Complutense de Madrid (Espanha) José Sérgio da Silva Cristóvam – Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil) Julián Pimiento Echeverri – Universidad Externado de Colombia (Colombia) Orlando Vignolo Cueva – Universidad de Piura (Perú) Pablo Schiavi – Universidad de la República / Universidad de Montevideo (Uruguai) Reinaldo Funes Monzote – Universidad de Havana (Cuba) Rodrigo Ferrés Rubio – Universidad Católica del Uruguay (Uruguai) Sede: Rua Alcindo Guanabara n.º 24, sala 1405, Rio de Janeiro, RJ, Centro da Cidade, CEP 20.031-915, Brasil Daniel Araújo Valença Gustavo Freire Barbosa Ilana Lemos de Paiva Thiago Matias de Sousa Araújo POR QUE LER MARX HOJE? REFLEXÕES SOBRE TRABALHO E REVOLUÇÃO O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) Rio de Janeiro 2021 Copyright © 2021 by Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo Categoria: Sociologia Jurídica Produção Editorial Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) Diagramação: Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) Capa: os autores O Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta obra pelo seu Autor. É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de direitos autorais constitui crime (Código Penal, art. 184 e §§, e Lei nº 6.895, de 17/12/1980), sujeitando-se a busca e apreensão e indenizações diversas (Lei nº 9.610/98). Todos os direitos desta edição reservados ao Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) Impresso pela Bok2 Catalogação: Daniele Alvarenga CRB7: 6873/RJ ________________________________________________________ Valença, Daniel Araújo Por que ler Marx Hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução / Daniel Araújo Valença, Gustavo Freire Barbosa, Ilana Lemos de Paiva, Thiago Martins de Sousa Araújo. – Rio de Janeiro: CEEJ, 2021. 135 p.: il. (color.) Inclui notas explicaticas e referências. ISBN: 978-65-992170-9-8 1. Karl Marx. 2. Luta política. 3.Luta de classes. 4. Revolução industrial. I. Título. II.série. CDD – 330.903 SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) DANIEL ARAÚJO VALENÇA valencadaniel@gmail.com Professor da graduação e mestrado em Direito da Universidade Federal Rural do Semiárido - UFERSA. Graduado em direito, com mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN e doutorado em Ciências Jurídicas pela UFPB, coordena o Grupo de Extensão e Pesquisa em Direito, Marxismo e América Latina - Gedic. É autor de "De Costas para o Império: o Estado Plurinacional da Bolivia e a luta pelo Socialismo Comunitário" e organizador, dentre outras, das obras "Marxismo e América Latina: Lutas Políticas e Novos Processos Constituintes" e "Direito e Marxismo: Tempos de regresso e a contribuição Marxiana para a Teoria Constitucional e Política". GUSTAVO FREIRE BARBOSA gustavofreirebarbosa@gmail.com Advogado, mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Professor de Teoria Geral do Estado e Ciência Política da Uninassau/RN. Advoga para movimentos sociais e organizações populares voltadas à luta pelo direito à moradia e reforma agrária. Escreve sobre política, filosofia e direito para a CartaCapital. ILANA LEMOS DE PAIVA ilanapaiva@hotmail.com Possui graduação e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande e doutorado pelo programa integrado de pós-graduação em Psicologia Social da UFRN/UFPB, com período de estágio na Universidad Autônoma de Madrid (UAM). Atualmente é professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Pesquisadora associada do Grupo de Pesquisa Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 6 Marxismo & Educação (GPME/UFRN). Também coordena o Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (OBIJUV/UFRN). Bolsista de Produtividade do CNPq (nível 2). THIAGO MATIAS DE SOUSA ARAÚJO thiagomatias.sa@gmail.com Pedagogo na Assessoria Acadêmica do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É graduado em pedagogia pela UFRN e doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos, UFSCar. Atua na temática dos Fundamentos da Educação, Educação e Marxismo e Educação na América Latina. SUMÁRIO SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) ...................................................... 5 APRESENTAÇÃO ............................................................................. 9 CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE MARX . 13 A atualidade e o sentido da obra marxiana ....................................... 13 Introdução ao pensamento marxiano: pontuações biobibliográficas 19 Referências ........................................................................................ 44 CAPÍTULO 2: MARX, ENGELS E AS LUTAS POLÍTICAS ....... 47 Marx e a luta política ........................................................................ 49 Como, então, transformar radicalmente a sociedade? ...................... 53 A descoberta do proletariado e da luta de classes ............................. 60 Marx, lutas de classes e lutas políticas .............................................. 62 Quais seriam essas classes? E por quê? ............................................ 63 Concluindo... ..................................................................................... 76 Referências ........................................................................................ 77 CAPÍTULO 3: O TRABALHO EM MARX .................................... 79 O Trabalho assalariado, a mais-valia, o desemprego e o estranhamento ................................................................................... 93 Referências ...................................................................................... 102 CAPÍTULO 4: REFORMAS NEOLIBERAIS E LUTAS DE CLASSES NO SÉCULO XXI ........................................................ 105 Neoliberalismo: invisível, mas nem tanto ....................................... 106 Empresários de si mesmos .............................................................. 115 Luta de classes no século XXI ........................................................ 118 Neoliberalismo e dependência ........................................................ 120 Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 8 A democracia que não se leva a sério ............................................. 124 A constituição que não se leva a sério ............................................ 127 Referências ...................................................................................... 132 APRESENTAÇÃO Este livro que você tem em mãos é parte integrante do curso “Marx e o Mundo do Trabalho”. Estranho título para os dias de hoje,alguém poderia pensar. De fato, vale a pena continuar a ler e estudar Marx, um pensador que viveu no século XIX e morreu há quase 150 anos, considerado ultrapassado por muitos? E faz sentido falar de trabalho se hoje grassam teorias sobre o “fim do trabalho”? As reflexões que este livro propõe caminham exatamente na impugnação dessas teses equivocadas. Não será, aqui, o caso de antecipar os argumentos muito bem construídos que vocês irão acompanhar neste livro. Sem essa pretensão, gostaria de propor algumas reflexões sobre eles, para iniciar o debate. A afirmação de que Marx é um pensador ultrapassado não resiste a um simples olhar para o mundo em que vivemos. Não são poucos os analistas que afirmam que estamos imersos em uma crise sistêmica do capitalismo. Estas, diferentemente de outras crises, cíclicas ou conjunturais, envolvem toda a estrutura da ordem do Capital. Indicadores não faltam, desde a crise mundial das bolsas do final dos anos 1980, com a emblemática “segunda-feira negra”, até o colapso da bolha imobiliária dos Estados Unidos de 2008, o “estouro” da bolha de ativos financeiros da China, a brutal diminuição dos preços mundiais das commodities no mundo inteiro, dentre outros. Como consequência, aumento das dívidas públicas e dos níveis de desemprego não somente na periferia, mas no núcleo do capitalismo, os blocos de maior expressão no cenário econômico internacional, nomeadamente, Estados Unidos e países da Europa Ocidental. A concentração de riqueza de um lado e o aumento da desigualdade do mundo são componentes desse processo. O relatório anual da organização filantrópica britânica Oxfam constata que 8 pessoas detêm a riqueza equivalente à da metade mais pobre do planeta, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas! A desigualdade social, por Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 10 outro lado, aumentou nos últimos anos em 24 dos 26 países em que há seguimento. E no Brasil, a estimativa é que 2,5 milhões de pessoas cruzem a linha da pobreza até o final do ano (ou seja, 20,9 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza)... Esse quadro de crise do capitalismo que impacta o mundo inteiro tem deixado a “intelectualidade” perplexa. Desde aqueles que festejaram o “enterro de Marx”, proclamando o “fim da história” e a “vitória” definitiva do capitalismo, ou os que, fazendo a crítica ao capitalismo, se apressaram a decretar a derrocada do projeto revolucionário socialista propondo a substituição da luta de classes pelo que José Paulo Netto (2004)1 denomina “as ‘novas’ lutas moleculares”... Qual o pensador a quem recorrer para compreender esse cenário? Nenhum outro a não ser Karl Marx. A obra de Marx, conforme se verá no restante deste livro, teve como centro um grande projeto: compreender a gênese, o desenvolvimento e a superação do modo de produção capitalista. E engana-se quem coloca Marx como um acadêmico ao lado de outros “pensadores” do social: a história de sua vida é marcada pela luta política, pelo seu incessante engajamento no projeto revolucionário socialista. O caráter revolucionário do pensamento de Marx é indiscutível. Quem não se lembra da undécima tese sobre Feuerbach em que Marx e Engels (2007)2 afirmavam que “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”? No passado, como hoje, ser marxista significa uma ameaça à classe dominante, exatamente pelo seu caráter revolucionário. Por acaso, algum de vocês já viu alguém ser perseguido, preso, torturado 1 NETTO, José P. Marxismo impenitente: contribuição à história das ideias marxistas. São Paulo: Cortez, 2004. 2 MARX, KARL. 1. Ad Feuerbach (1945). In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (pp. 533-535). São Paulo: Boitempo, 2007. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 11 ou assassinado por seguir o pensamento de Durkheim? De Max Weber? De Foucault? O Capítulo 1 apresenta ao leitor(a) uma introdução à vida e obra de Marx, de maneira sucinta, mas abordando os seus aspectos essenciais. Já o Capítulo 2 trata, didaticamente, das lutas políticas não somente desde os tempos de Marx, mas instigando o leitor(a) ao propor reflexões sobre a nossa realidade. A segunda parte do título deste livro diz respeito ao trabalho. Diversos autores, filiados a diferentes vertentes teóricas têm defendido a tese da “crise do mundo do trabalho”. O Capítulo 3 permitirá ao leitor(a) situar-se nesse debate. Trata-se da crítica à centralidade da categoria trabalho na formação societal contemporânea. Relembremos: para Marx, trabalho é a protoforma da atividade humana e, em condições específicas do modo de produção capitalista, torna-se alienado. As teses André Gorz, Claus Offe e Jürgen Habermas propõem que o trabalho no atual estágio do capitalismo, como lembra Ricardo Antunes e Ruy Braga (2009)3, teria se tornado residual como fonte de sociabilidade e criação de valor. Novamente, é necessário o apelo a Marx para lançar luzes sobre essa questão. O que estamos observando, ainda retomando Ricardo Antunes (1999, p. 16)4, é que a “lógica do sistema produtor de mercadorias vem convertendo a concorrência e a busca da produtividade num processo destrutivo que tem gerado uma imensa precarização do trabalho e aumento monumental do exército industrial de reserva”. Trata-se de um processo em curso que atinge não somente as nações periféricas, mas de forma implacável os chamados “países centrais”. Duas observações sobre esta questão: a liberação de mão- de-obra pela modificação da composição orgânica do Capital significa 3 ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy (orgs.). Infoproletários: Degradação real do trabalho virtual. São Paulo, Boitempo, 2009. 4 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo, Boitempo, 1999. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 12 um impacto direto no sistema produtor de mercadorias que, é preciso reiterar, é o único produtor de valor. Supor a eliminação do trabalho significaria a implosão do modo de produção capitalista. A segunda observação diz respeito à confusão entre trabalho e emprego (ou do trabalho abstrato e concreto). Sem ir mais adiante, o objetivo destas observações é apenas evidenciar a importância e a atualidade da discussão acerca do trabalho em Marx, como chave para a compreensão da atual “crise do trabalho” – que está longe de significar a extinção ou secundarização da importância do trabalho no modo de produção capitalista. Finalmente, o Capítulo 4 retoma e atualiza as questões para os nossos tempos, propondo reflexões sobre o momento atual e os desafios que temos pela frente. É muito oportuna a lembrança que o texto traz de um afirmação de Marx (1970 p. 56)5 em uma carta a Arnold Ruge em maio de 1843: “a situação desesperadora da época em que vivo me enche de esperanças”. Penso que esse é o intento deste livro, parafraseando José Paulo Netto (2004, p. 10-11): facilitar o encontro do leitor com reflexões que “não se escusam por se inscreverem impenitentemente na cultura revolucionária”. Se os clássicos da tradição marxista não são suficientes para a tarefa de nos fazer compreender e lutar pela transformação da sociedade, sem eles a tarefa é absolutamente impensável. Que você, caríssimo(a) leitor(a), faça um excelente proveito deste que é um texto indispensável. Natal, novembro de 2017. Oswaldo H. Yamamoto 5 MARX, Karl. M a R – Colonia, mayo de 1943. In: MARX, Karl; RUGE, Arnold. Los Anales Franco-Alemanes (pp. 50-56). Barcelona: Martínez Roca, 1970. CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE MARX Nesse primeiro capítulo, vamos discutir qual o sentido e atualidade da obra marxiana e sua imprescindibilidadepara a transformação social. Além disso, vamos nos debruçar um pouco sobre a vida e a obra de Karl Marx, assinalando a evolução do seu pensamento e suas principais categorias teóricas. Antes de iniciarmos, é importante dizer que resumir Marx não é uma tarefa fácil, tendo em vista que não é simples traduzir, em uma linguagem didática, conceitos econômicos e filosóficos muito complexos. Além disso, não é fácil selecionar algumas categorias que serão abordadas neste livro, diante da sua vasta obra. Dentre as diversas correntes da tradição marxista, aqui tratamos de uma leitura particular, que é de nossa total responsabilidade, a partir das nossas convicções teóricas e práticas. No entanto, acreditamos que nosso texto poderá despertar o interesse em logo recorrer às obras originais do nosso velho barbudo, que anda mais atual do que nunca! A atualidade e o sentido da obra marxiana Karl Marx viveu há mais de cem anos (1818–1883), mas certamente sua obra continua viva e jovem, pela sua capacidade de continuar estimulando ideias novas. Mesmo que o interesse por Marx tenha flutuado ao longo do tempo – com períodos de declínio e crise – há sempre um retorno a Marx, pela sua capacidade persistente em explicar o presente (MUSTO, 2016). E nessa trajetória inconclusa e sempre (re)atualizada, o chamado marxismo tem dividido o mundo entre os que o detestam – e podemos pensar aqui como sempre retornam as ideias sobre uma suposta “doutrinação marxista” – e aqueles que colocam nele todas as esperanças de um outro mundo possível. O que se observa é que muitos o citam, mas poucos o conhecem profundamente, ou o Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 14 compreendem de forma correta. Nessa esteira, são muitas as tentativas de defesa e refutação das ideias marxianas, de forma que se acaba recaindo na repetição e falta de originalidade (HOBSBAWN, 2011). E é curioso notar que, mesmo depois de um século, ainda escutamos as mesmas críticas sobre suas ideias. Podemos afirmar que, em virtude da crise estrutural do capitalismo6, é inegável a importância de voltar a Marx e perceber a incrível atualidade do autor d’O Capital. Não há nenhuma evidência de que as metamorfoses pelas quais o capitalismo vem passando tenham alterado as relações sociais e as leis básicas postuladas por Marx. Ou seja, como bem disse José Paulo Netto, sem Marx não se pode compreender a ordem burguesa de modo a superá-la. Mas, é importante frisar que não estamos discutindo Marx em um tempo sem data, mas em um período histórico ainda marcado pela queda do muro de Berlim, quando vivenciamos a derrota do socialismo soviético e a crise do marxismo, o qual todos trataram de relegar imediatamente ao esquecimento total. Até hoje, a tese de fim da História, postulada por Francis Fukuyama (1992), na década de 1990, ainda persiste fortemente, e as relações de exploração às quais os trabalhadores estão submetidos são mais do que nunca naturalizadas. Ora, para este autor, o liberalismo econômico seria o ápice da evolução da sociedade contemporânea, que viria acompanhado da liberdade e igualdade de oportunidade para todas as pessoas. Como bem sabemos, não foi isso que ocorreu. Hoje, cerca de um bilhão de pessoas estão desempregadas e o que as evidências mostram é que essa parcela de desempregados está ligada aos mesmos “paradigmas do trabalho” (FIORI, 2001), com trabalho precarizado, perda de direitos e uma inserção cada vez mais profunda num processo 6 Para István Mészáros, importante marxista húngaro, a crise do capital é endêmica, cumulativa, crônica e permanente; e suas manifestações são o desemprego estrutural, a destruição ambiental e as guerras permanentes. Leia mais no seu livro “A crise estrutural do capital” (2009). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 15 de alienação. A situação é ainda mais complexa que à época de Marx, pois o capital se articula como um poderoso sistema global (MÉSZÁROS, 2002). Além disso, em um mundo em crise, muitas ideias conservadoras têm voltado à tona, com novas roupagens. Ou seja, são tempos pouco favoráveis, do ponto de vista histórico e cultural, para tratar de um pensador revolucionário, como foi Marx. Mas, como o próprio Marx anunciou há mais de 150 anos: "a situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças." Neste trecho, Marx nos lembrava de que é justamente nos períodos mais difíceis que podemos, enfim, nos livrar de um passado que já não nos serve mais. E é pelo próprio Marx que buscamos as ferramentas para enfrentar os desafios e fardos do tempo presente. Segundo Marcello Musto (2016), desde 2008, Marx tem sido resgatado das prateleiras empoeiradas com uma velocidade impressionante; vários de seus livros estão sendo reeditados e tornando-se best-sellers em todo o mundo. A vida do próprio Marx nos dá pistas de que caminhos trilhar, já que ele foi um dirigente revolucionário, profundamente vinculado ao movimento operário e às lutas do seu tempo, como veremos adiante neste capítulo. Afinal, de modo geral, como tomamos contato com a obra marxiana? O que você já leu ou ouviu falar sobre Marx? Um bom material para aprofundar o tema da pertinência do marxismo nos dias atuais é o livro “Em defesa da História”, de Ellen Meiksins Wood e John Bellamy Foster (1999). Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 16 Devemos lembrar que a publicação e a edição de vários livros de Marx só ocorreram anos após sua morte. Inclusive, anos depois da morte de muitos autores fundamentais para a tradição marxista, como Lênin, Rosa Luxemburgo e Gramsci. Depois da morte de Marx, Engels, como era de se esperar, foi o primeiro a se dedicar a editar o legado deixado pelo seu parceiro intelectual. Engels se focou quase que exclusivamente no trabalho editorial das sequências de O Capital, já que Marx só havia deixado publicado o primeiro volume, como veremos a seguir. Após a morte de Engels, os herdeiros diretos da tarefa de continuidade da linha editorial de Marx foram os líderes do Partido Social-democrata, Karl Kautsky e Eduard Bernstein. No entanto, os vários conflitos políticos envolvendo o Partido impediram que sua obra fosse publicada de maneira sistemática. A primeira tentativa de publicar as obras completas de Marx e Engels, a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), deu-se apenas nos anos de 1920, na União Soviética, mas foi interrompida ainda no começo dos anos 1930, com o advento do Stalinismo e também do Nazismo na Alemanha. Segundo Musto (2016), a MEGA, planejada para ser uma reprodução fiel de todos os escritos de Marx e Engels, iniciada em 1975, também foi interrompida após a queda do Muro de Berlim, quando se instala a chamada crise do marxismo, que comentamos anteriormente. Apenas em 1990, o Internationaal Instituut voor Sociale Geschiedenis (Instituto Internacional de História Social), de Amsterdam, e o museu Karl Marx Haus, em Trier, formaram o Internationale Marx-Engels-Stiftung que retomou a Recentemente, nos cinemas foi lançado o filme O Jovem Karl Marx. É um filme de 2017, dirigido pelo haitiano Raoul Peck, coescrito por Raoul Peck e Pascal Bonitzer, e estrelado por August Diehl. Foi exibido no Festival de Cinema de Berlim, de 9 a 19 de fevereiro de 2017. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 17 publicação das obras de modo sistemático, em 1998, após um período de difícil reorganização, com novos princípios editoriais aprovados (MUSTO, 2016). Já notamos que a história da divulgação da integralidade das obras de Marx e Engels é muito recente e, hoje, para entender o sentido da obra marxiana e a sua unidade, é preciso considerar os novos achados a partir da MEGA. A obra marxiana coloca a possibilidade de uma novainteligibilidade da sociedade burguesa, ao mesmo tempo compreendendo-a e negando-a. O conhecimento e a prática das suas ideias possibilitaram o que parecia impossível durante 20 séculos: emancipar todos os homens e mulheres, libertando-os da exploração a qual estão subjugados. E quando falamos em obra marxiana, referimo-nos àquilo que é “da estrita lavra de Marx –, distinguindo-a do que se convencionou denominar de “marxismo” ou, talvez numa nomenclatura mais precisa, da “tradição marxista” – um bloco complexo e diferenciado, comportando vertentes convergentes e conflitantes” (YAMAMOTO, 2016, p. 26). Segundo Oswaldo Yamamoto (2016), é possível pensar em uma interpretação – a que nos afeiçoamos neste livro - que parte das próprias formulações marxianas, buscando apanhar a sua estrutura interna e pensá-la como unidade: Partimos, pois, da afirmação contida n’A Ideologia Alemã de que ele (e Engels) (MARX; ENGELS, 1845-1846/2007) reconhecem uma ciência, a ciência da história, que, por sua vez, seria subdividida na história da natureza e na história dos homens (reciprocamente condicionados). Marx (e Engels) afirmam seu foco de interesse, naquela obra, na história dos Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 18 homens. E o fazem a partir da compreensão do social como uma unidade teórica articulada – a partir da perspectiva da totalidade. Articulado com essa obra de 1845-46, encontramos as Teses sobre Feuerbach, com a conhecida undécima tese na qual Marx propõe que a filosofia não deve se restringir a interpretar o mundo, mas também transformá-lo (YAMAMOTO, 2016, p. 27). Marx tem sido apresentado para nós a partir de várias caixinhas, ditas especialidades das ciências modernas: o Marx filosófico, o econômico, o político, etc. Essa fragmentação retira da sua obra o seu sentido mais importante, que está, de acordo com José Paulo Netto (2011), ancorada em três pilares fundamentais: (1) o Método dialético; (2) a perspectiva da Revolução; e a (3) Teoria do valor-trabalho. Esses pilares precisam ser entendidos no seu conjunto, pois a obra marxiana comporta uma unidade, com relação interna de continuidade e mudanças, mas, a nosso ver, sem rupturas ideológicas. Esses três elementos são indissociáveis da obra marxiana; retirar algum deles significa negar o cerne da sua teoria social, cujas formulações são rigorosamente históricas, e consiste em um tratamento concreto a um objeto concreto, que é a sociedade burguesa (YAMAMOTO, 2016). Ao longo deste livro, você vai poder compreender cada um desses pilares fundamentais, que dão sentido, em conjunto, ao pensamento de Marx. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 19 Introdução ao pensamento marxiano: pontuações biobibliográficas Você já deve estar curioso(a) para saber um pouco mais sobre quem foi esse famoso filósofo revolucionário. Certamente, já ouviu falar algo sobre a vida de Marx e de seu parceiro intelectual, Friedrich Engels. Mas, vamos contar sobre esse encontro imprescindível mais adiante. É importante dizer que muito do que foi escrito sobre a história de Marx apresentou muitos vieses políticos, de acordo com a finalidade de cada contexto, e o que vamos contar aqui parte de um pequeno recorte da sua vida que consideramos relevante para quem está se iniciando na discussão. Primeiramente, vamos fazer uma pequena viagem, para acompanhar a trajetória do nosso protagonista. Nossa primeira parada é a Renânia, onde vivia a família Marx, considerada de camada média urbana. De fato, Karl Marx nasceu em Trier – a mais antiga cidade da Alemanha –, no dia 5 de maio de 1818. Viveu 65 anos – o que, para os padrões da época da Inglaterra, significou uma vida longa, apesar de todas as adversidades e da precariedade material em que viveu. Além do sotaque renano, em Trier, Marx adquiriu sua paixão pela História (MAcLELLAN, 1990). Você pode ler mais no livro de David MacLellan (1990), “Karl Marx: Vida e Pensamento”; e também na biografia escrita por Franz Mehring (2013), “Karl Marx, a história da sua vida”. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 20 Figura 1 - Local de nascimento de Karl Marx em Trier, Alemanha. Hoje, Museu Karl Marx, Brückenstraße 10. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Trier_BW_2014-06- 21_11-11-49.jpg A mãe de Marx, Henrietta, de quem se sabe pouco, era uma senhora de ascendência holandesa, retratada como uma mulher simples, voltada para a casa e sua família. Seu pai, o advogado Heschel Marx, era judeu, mas precisou abrir mão da sua condição, já que judeus não dispunham de direitos jurídicos na época. Então, para poder continuar a exercer a advocacia, o pai de Marx foi obrigado a se converter ao protestantismo e mudar o seu nome para Heinrich Marx. Ao que tudo indica a tradição judia não influenciou muito suas convicções, mesmo antes da conversão. Segundo Eleanor, filha de Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 21 Marx, seu avô estava imbuído de ideias livres francesas do século XVIII sobre política, religião, vida e arte (MAcLELLAN, 1990) e uma simpatia pelos direitos dos oprimidos, o que certamente influenciou a formação de Marx. Além disso, a herança judaica da sua família será tema que irá acompanhar muitos debates que Marx travou ao longo da sua vida. A condição econômica da família Marx era relativamente confortável, e seu pai trabalhava duro para sustentar seus nove filhos. Tal condição permitiu que o jovem Karl fosse estudar a profissão que mais estava em alta na época, a faculdade de Direito (provavelmente, também, para seguir os trilhos do pai). Então, em outubro de 1835, aos 17 anos de idade, Marx sai de casa para estudar na Universidade de Bonn, cidade pouco maior que Trier, e que era o centro intelectual da Renânia. Marx vivenciou a universidade de Bonn intensamente, como todo jovem de hoje em dia: estudava, bebia com os amigos, envolvia- se em conflitos (chegou a se machucar em um duelo!), escrevia poesias (apesar de não ser seu forte) e participava de clubes estudantis. Após um ano, o pai de Marx resolve transferi-lo para a Universidade de Berlim para que terminasse seus estudos em Direito. Há ainda um fato importante na vida de Marx antes de seguir para Berlim: no verão de 1836, quando tinha apenas 18 anos, ele formaliza o noivado com Jenny von Whestphalen, que era quatro anos mais velha que ele e tinha diferente status social, o que trouxe alguns conflitos entre as famílias. Mesmo assim, Jenny foi sua companheira por toda a vida. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 22 Figura 2 - Jenny von Westphalen, esposa de Karl Marx. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Karl_Marx_Frau.jpg Marx segue para Berlim, nesse mesmo ano, e resolve fazer Filosofia, doutorando-se em 1841. Anos antes, o pai de Marx havia Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 23 falecido (em 1838), de forma que a situação financeira da sua família estava pior e os interesses de Marx acabam mudando do Direito para a Filosofia. A pretensão do jovem Marx era ser professor universitário e acreditava que, graduado em Filosofia, poderia alcançar seu desejo. O mundo acadêmico poderia oferecer uma oportunidade mais imediata, diante da situação financeira da sua família. Ademais, Marx começava a enxergar os limites do Direito para a compreensão da sociedade e dos meios de transformá-la. Nesse período, Marx fazia parte do Clube dos Doutores, junto com os irmãos Bauer (com quem travaria enormes debates posteriormente) e começou a elaborar seus pontos de vista sobre filosofia e sociedade. O próprio Bruno Bauer o incentivou nessa empreitada. Assim, Marx escreve uma dissertação bastante elogiada,em que discute as diferenças entre Demócrito e Epicuro, tema influenciado pelo interesse dos Jovens Hegelianos. Na tese, Marx critica o determinismo mecanicista de Demócrito e contrasta com a ética de liberdade de Epicuro, que ele admirava (MAcLELLAN, 1990). Pronto para disputar um lugar na universidade, o jovem Karl encontra uma série de obstáculos e esse projeto naufraga. Em 1841, sobe ao trono da Prússia Frederico Guilherme IV e todos tinham a expectativa de que, com ele, se desse uma abertura democrática na Alemanha. Ocorre que havia a expectativa de modernização do país, já que a Alemanha vivia um tempo histórico atrasado, na medida em que não havia se unificado sincronicamente aos outros países europeus. Para se ter uma ideia, à época de Marx, o Estado ainda não era laico, o fenômeno industrial e urbano ainda não havia se dado na Alemanha, e as burguesias das províncias eram débeis (PAULO NETTO, 2011). No entanto, Frederico Guilherme IV não compôs com os fracos setores burgueses e instalou, ao contrário, uma política conservadora. Uma medida paradigmática do seu projeto político é a nomeação de um novo reitor da Universidade de Berlim, o filósofo Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 24 Shelling, que vinha apresentando posições reacionárias desde que rompeu com Hegel – o mais importante e proeminente filósofo alemão, que influenciou fortemente todo o pensamento de Marx. Na verdade, a intenção era justamente apagar os resquícios da influência de Hegel – considerada progressista, ao menos no que tange a uma parte dos seguidores da chamada esquerda hegeliana –, que havia sido reitor nesta Universidade. O que Frederico fez foi substituir Hegel e suas ideias pelo seu grande antagonista. Nesse contexto reacionário, jovens professores ligados a Marx são excluídos e expulsos da Universidade de Berlim, e logo Marx não tem mais lugar ali. Na necessidade de ganhar a vida, o caminho encontrado por Marx é o jornalismo. Ele se transfere de Berlim para Colônia, a capital da Renânia, onde havia uma atmosfera bem mais progressista e começa a trabalhar em um jornal que estava nascendo, a Gazeta Renana. O jornal tinha em seu programa uma plataforma liberal e era financiado pela incipiente burguesia renana para se contrapor à política de Frederico Guilherme IV. Em pouco tempo na Gazeta Renana, Marx se impõe como redator chefe, o que foi uma experiência importante para sua trajetória, pois descobre que, no mundo jornalístico, diferente da academia, as respostas deviam ser formuladas rapidamente, e percebe que a sua formação em Filosofia era insuficiente para entender a polêmica conjuntura político- econômica. Ou seja, compreende que as ideias abstratas não resolviam o confronto com a história quente (PAULO NETTO, 2011). Marx era, até aí, um democrata radical – defendia direitos do povo – e vai para o jornal para confrontar o absolutismo da época. Nesse período, escreve uma série de artigos sobre a liberdade de imprensa e o papel da censura, além de se deparar com leis mais rigorosas que estavam sendo impostas como, por exemplo, leis sobre divórcio e sobre a tradicional coleta de lenha, que passa a ser considerada roubo. Marx passa a escrever apaixonadamente sobre essas questões, refletindo que a ausência de uma imprensa Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 25 verdadeiramente livre exercia uma ação desmoralizadora, desviando o povo da vida política (LOWY, 2012). Com o tema do roubo da lenha, seu primeiro importante artigo como editor, cresce o interesse de Marx pelas realidades socioeconômicas. Vale salientar que a coleta de lenha seca sempre havia sido irrestrita, de modo que os camponeses podiam retirar livremente a lenha dos bosques, já que o papel da madeira era importante nas regiões frias, por proporcionar aquecimento. Em 1842, devido à escassez causada pelas crises agrárias e à necessidade crescente das indústrias, surge uma lei que caracteriza o recolhimento de madeira como furto. O problema tomava enormes proporções na justiça. Como era uma tradição legitimada, Marx enfrentou o problema no jornal, tomou posição em favor dos camponeses, por razões políticas e éticas, ou seja, pela defesa do mais fraco, mas não entrou em argumentos sociais ou históricos. Marx afirmava: “se qualquer violação da propriedade privada, sem distinção ou determinação mais precisa, é roubo, não seria toda propriedade privada um roubo? Através da minha propriedade privada eu não estaria privando outra pessoa dessa propriedade? Não violo assim o direito à propriedade? ” (MARX, publicado em 1842). Marx enfatiza nesse artigo que o interesse privado tem uma alma “mesquinha e egoísta”. O período da Gazeta Renana foi decisivo para a evolução do jovem Marx, por marcar sua entrada na vida política e seu confronto com as “questões materiais”. Na maioria de seus artigos para a Gazeta Renana, Marx escreveu fórmulas que opõem as ‘lutas espirituais’ às ‘lutas materiais’ (LOWY, 2012). Marx sente a necessidade de se debruçar mais profundamente sobre as questões econômicas; sua formação em Filosofia e Direito já não era mais suficiente para responder às questões sobre as quais se debruçava. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 26 A situação dos camponeses levou Marx a passar da política para as questões econômicas e, consequentemente, para sua futura adesão ao comunismo. Em suma, mesmo permanecendo ligado à concepção hegeliana do Estado racional, Marx já envereda, por meio da crítica ao Estado prussiano burocrático e feudal, para o caminho que o levará à ruptura total com Hegel em 1843 e, pela crítica ao “egoísmo privado”, para o caminho que o conduzirá ao comunismo (LOWY, 2012, s/p.). Ou seja, Marx enfrentou problemas para os quais Hegel não havia previsto solução. Enquanto isso, a Gazeta Renana vivia uma série de crises, com muitas diferenças de opiniões com jovens hegelianos e polêmicas com seu concorrente – um jornal conservador que o acusava de tendências comunistas, o que só serviu para atiçar Marx a estudar o tema. Marx passou cinco meses na direção do jornal, que foi fechado em atendimento a um pedido do embaixador da Prússia, por ter criticado o czar em um de seus artigos (WILSON, 1986). Havia a necessidade de deixar a Alemanha, que já não lhe proporcionava a possibilidade de começar nada novo. Até agora, os filósofos haviam apenas interpretado o mundo... Era preciso transformá-lo! Marx compreendeu que era chegada a hora de mudar o mundo! Marx toma a decisão de impor-se um autoexílio e resolve estabelecer-se em Paris, que considerava a fronteira de um novo mundo. A ida para Paris apresentava algumas razões essenciais: a necessidade de formar-se e o fato de que Paris, pós 1830, era considerada um microcosmo do mundo (vários refugiados estavam por lá), sendo também um lugar onde certas liberdades políticas Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 27 estavam garantidas. Em segundo lugar, Marx tinha um projeto para construir uma revista franco-germânica: uma nova filosofia teria que combinar uma cabeça alemã com um coração francês (MAcLELLAN, 1990). Além disso, essa era uma forma de garantir seu sustento e Marx, enfim, poderia se casar. Marx, com promessa de trabalho e apaixonado, e Jenny, que era mais velha do que ele e da nobreza, casam-se em junho de 1843. Passam um tempo na estância termal de Kreuznach, quando Marx se retira do cenário público e dedica-se a escrever o seu novo projeto da revista franco-germânica. Ele aproveita para estudar a história da Revolução Francesa, lendo de Maquiavel a Rousseau, e redigir um texto que é fundamental para compreender o itinerário de seu pensamento. Marx tentava fazer as pazes com a filosofia política de Hegel e se confronta com um texto da maiorimportância do pensamento alemão: A filosofia do Direito. Nesta obra, Hegel tece as relações entre o Estado e a sociedade civil, problema que nutre a teoria política desde que ela nasce. Marx queria entender o Estado alemão, e sua relação com a sociedade alemã. A solução de Hegel, nesse texto de 1821, era afirmar que o que sustenta a sociedade civil é o reino da miséria física e moral, o caos. Para Hegel, o Estado funda e organiza a sociedade civil. É desta obra a célebre determinação hegeliana: “o que é real é racional”. Hegel divide a intelectualidade alemã, permitindo a identificação de dois blocos: a direita hegeliana, considerada conservadora, que entendia que, se o real é racional, aquilo que existe está conforme os imperativos da razão – logo é intocável –, ou seja, o Estado dá sentido à sociedade. Outro polo era formado por jovens contestadores, a esquerda hegeliana, que interpretavam a afirmação como: o real pode ser submetido à crítica racional, permeável à crítica da razão. Nesse contexto, Marx estava lendo a Filosofia do Direito sob forte influência de Feuerbach, outro filósofo alemão – que tinha feito uma crítica radical do pensamento hegeliano –, como também estava Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 28 imbuído pela sua experiência na Gazeta Renana, que permitiu a incorporação de elementos socioeconômicos na sua crítica. A tese de Feuerbach, que tinha sido lida entusiasticamente por Marx, promoveu a inversão dos termos postos por Hegel. Dizia que a Filosofia não deveria partir de Deus, o infinito, mas tinha que começar com o homem, o finito, o particular, o real: o ser é o sujeito, o pensamento é o predicado. O pensamento surge do ser, e não o contrário (MAcLELLAN, 1990). Marx, sob esta influência, identifica a mesma inversão na Filosofia do Direito de Hegel, pois não é o Estado que funda a sociedade civil, mas a sociedade que permite a compreensão do Estado. Por outro lado, quanto a Feuerbach, não estava de acordo com a ausência da política em seus escritos. Para Marx, a política “era o único meio para a Filosofia contemporânea se tornar verdade” (MAcLELLAN, 1990, p. 82). A política deveria guiar a ação. Assim, Marx dá um sentido social e histórico à sua crítica. Escreve, então, um texto fazendo uma Crítica (que era o termo preferido utilizado pelos Jovens Hegelianos), com um estilo de trabalho que o acompanha por toda a sua vida: tratava os autores, transcrevia trechos de suas obras e dialogava com eles. Este Manuscrito de Kreuznach, de 1843, torna-se a primeira crítica de Marx a Hegel; uma recusa à solução hegeliana, considerada especulativa, baseada em concepções subjetivas, em desacordo com a realidade. Como entender a sociedade civil? Com que instrumentos? Com que conjunto de conhecimentos? É importante destacar que nem todos os elementos para tratar a sociedade civil estavam dados naquele momento. É com esse texto sobre a política de Hegel que Marx abandona Kreuznach e se estabelece em Paris com Jenny, em outubro de 1843. Seria o clima intelectual de Paris que levaria Marx a fazer a transição definitiva do mundo das ideias para o mundo da política imediata (MAcLELLAN, 1990). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 29 Figura 3 - Vaneau, onde Marx e Jenny moraram em Paris. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rue-de- Vaneau.jpg Em Paris, assumiu a direção da publicação dos Anais Franco- Alemães, tendo como colaboradores nomes como Hess, Engels, Bakunin e Herwegh. Lá foi apresentado a diversas sociedades secretas Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 30 de socialistas, pois Paris, nessa época, era considerada o centro do pensamento socialista, mesmo com toda a censura imposta pela monarquia burguesa de Luís Filipe. É a partir de 1843 que Marx constata que tem um objeto determinado que atrai sua atenção, mas reconhece que não tem armas para decifrar; é aqui que começa o Marx que conhecemos (PAULO NETTO, 2011). Marx também se vê às voltas com um debate com Bruno Bauer sobre a questão judaica, pois os judeus tinham um conjunto de restrições às liberdades democráticas, como, por exemplo, não poder ir a parques púbicos. Marx afirma em Sobre a questão judaica que a emancipação política – dos judeus e de qualquer pessoa – se constituía em uma conquista, contudo, insuficiente; era necessário dar um passo além e lutar pela emancipação humana real. A emancipação política era o direito ao reino da miséria. A perspectiva de emancipação humana traz em seu bojo a ideia de revolução, apontando que era preciso ultrapassar esse limite colocado pela sociedade civil burguesa. O texto é escrito no final do segundo semestre de 1843, e ainda não estava nítido para Marx quem faria isso; ele não tem ainda a noção de classe definida, pois ainda fala de povo, de modo genérico. Essa é uma importante discussão travada por Marx sobre emancipação política e emancipação humana, que será discutida de modo mais aprofundado no próximo capítulo deste livro. Nesse mesmo período, Marx conhece Friedrich Engels (1820- 1895), nascido em Barmen (Prússia), membro de uma rica família industrial do ramo têxtil. Engels era o contrário de Marx em vários aspectos, pois não teve influências pessoais na sua formação – seu pai Na peça O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, podemos perceber esse debate que estava colocado para a época, pois a obra retrata o poder que o judeu tinha e a discriminação social que sofria. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 31 era um industrial bastante conservador e seu caminho revolucionário foi construído, segundo Mehring (2013), pela sua excepcional inteligência. Havia ido a Berlim aos 20 anos de idade para prestar serviço militar e frequentou, como ouvinte, a Universidade de Berlim. No entanto, Engels não concluiu um curso formal acadêmico, pois abandonou os estudos um ano antes de se formar bacharel. Era um excelente comerciante, embora não se identificasse com o mundo dos negócios. O seu pai o mandou para a Inglaterra e, entre 1842-1844, Engels trabalhou na fábrica de tecidos Ermen & Engels, da qual seu pai era sócio (MEHRING, 2013), em Manchester. Logo se liga ao movimento operário inglês, que estava num processo de ascensão devido ao movimento cartista, e participa ativamente do movimento. Vincula-se a uma mulher irlandesa (que eram os mais explorados na Inglaterra), que vem a se tornar a sua primeira companheira. Engels havia mandado um artigo para o jornal de Marx, Esboço de uma crítica de economia política, que o impactou profundamente. O texto é curto, escrito com a avidez da juventude, e completamente revolucionário. Nele, Engels faz uma leitura das contradições da economia política inglesa, a partir da sua origem, a propriedade privada. Seu texto continha sementes do comunismo científico, o que coloca Engels como pioneiro nesse campo (MEHRING, 2013). Apesar de bastante modesto ao falar de si mesmo (dizia ele ser Marx um gênio e todos os outros, no máximo, talentosos), a importância de Engels na formação de Marx é fundamental. Marx considerou esse esboço de Engels genial, sendo por meio dele que Marx toma conhecimento e interesse profundo pela economia política. Para se ter uma ideia, Marx o citou diversas vezes em O Capital. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 32 Figura 4 - Friedrich Engels. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Engels.jpg No final de 1844, Engels, retornando dos seus trabalhos na Inglaterra, passa por Paris, visita Marx (já o havia conhecido em uma breve passagem por Colônia, mas os dois não se deram bem a princípio) e os dois mantêm longas conversas; descobrem que dividiam as mesmas inquietações políticas e que, por caminhos diferentes, estavamchegando a conclusões semelhantes. Marx concluindo sobre as lutas da época por meio da Revolução Francesa, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 33 e Engels com base na indústria britânica (MEHRING, 2013). Estava nascendo a colaboração intelectual mais importante do mundo moderno: a parceria Marx /Engels, e uma amizade tão intensa que só terminaria com a morte de Marx. Desse primeiro profícuo encontro, Marx e Engels resolvem tornar pública sua crítica aos irmãos Bauer no livro “A Sagrada Família: crítica de um criticismo crítico” (irônico título referindo-se aos Bauer e suas ideias críticas). Apareceu ali, pela primeira vez, a concepção materialista de história (MAcLELLAN, 1990), que iremos retomar adiante. Engels foi um interlocutor fundamental de Marx; não foi apenas segundo violino, como ele próprio se definiu, mas um pensador original, que realizou elaborações teóricas independentes de Marx. Tinha já uma vivência com o movimento operário e uma visão de mundo mais ampla do que a de Marx. Além disso, Engels teve um papel imprescindível na vida pessoal de seu amigo: foi responsável pela sobrevivência material da família Marx nos anos do exílio, o que permitiu que Marx conseguisse escrever sua obra, mesmo sob duríssimas condições materiais. O primeiro evento na vida de Marx em Paris foi justamente o contato com Engels, simultaneamente à descoberta por Marx do pensamento socialista, pois começou a ler toda a tradição de autores socialistas, como Babeuf e Blanqui. Em Paris, Marx descobre um novo mundo, um novo modo de relação entre homens e mulheres. A experiência em Paris foi fundamental para que o democrata radical – pois, como dissemos, fazia a defesa dos direitos do povo, de maneira genérica – se transformasse num pensador comunista, vinculado ao movimento operário. E aqui está o grande legado deixado por Marx, a confluência entre esses dois aspectos, ou seja, Marx escolhe uma perspectiva política e a vincula a um problema teórico, e para entendê- la depara-se com uma chave heurística, que é a economia política (PAULO NETTO, 2011). A adesão de Marx à causa proletária – e o seu entendimento do proletariado como sujeito histórico da revolução Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 34 – foi fortemente influenciada por esse conjunto de vivências que Marx estava tendo em Paris, pois Marx estava “no coração do pensamento e ação socialistas” (MAcLELLAN, 1990, p. 112). Em 1844, enquanto Jenny estava em Trier, cuidando da saúde de uma de suas filhas, Marx utiliza seu tempo para escrever notas, bastante densas, sobre comunismo, economia clássica e sobre Hegel, que foram publicadas integralmente tempos depois, com o nome de Manuscritos Econômico-filosóficos, ou Manuscritos de Paris. A compilação do texto é complicada, pois eram notas que foram agrupadas em três grandes manuscritos, e uma parte separada em que se debruça sobre o texto Fenomenologia do espírito, de Hegel. Esse texto é considerado por alguns marxistas como um dos mais polêmicos, porque, para alguns teóricos – dos quais discordamos –, que defendem a ruptura entre um jovem Marx e um Marx maduro, este seria o momento da ruptura. É nele que Marx expressa de maneira mais nítida o contato com o movimento operário. Marx, nesse momento, está diretamente ligado ao movimento, imerso no caldo cultural e político que era Paris. E, já sob influência de Engels, afirma que, para entender a sociedade civil, é preciso entender a economia, encontrando o eixo central da sua crítica – que, como dissemos, está na economia. Nesse texto, então, fica evidente a leitura que Marx faz da realidade: o mundo é produtor de riquezas, mas povoado por pessoas que vivem na miséria – este é o tema colocado para Marx nesse momento, uma crítica teórica contundente à economia burguesa. Marx também introduz uma discussão que traz um dos seus conceitos fundamentais: a alienação. O conceito de alienação estava presente em Hegel, e Marx faz um retorno ao filósofo alemão, mas compreende a questão de outra maneira. Em Hegel, alienação e exteriorização são sinônimos, o espírito absoluto se coisifica – logo, exteriorização é imanação do espírito, que é imperfeito. Para Marx, a objetivação é característica essencial do homem, pois o homem se exterioriza, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 35 produz objetivações, é um ser ativo. A essência do homem é a característica de se exteriorizar, de produzir objetivações. Para Marx, então, objetivação e alienação não são a mesma coisa. Percebamos que, na antropologia de Marx, a protoforma da atividade humana é o trabalho (como veremos no terceiro capítulo). Diferentemente da exteriorização, que é característica humana, o trabalho é alienado apenas em determinadas condições econômicas. Na economia burguesa, como dissemos, há produção de riquezas e as pessoas estão imersas na pobreza, porque o homem é alienado do produto do trabalho, alienado no processo do trabalho (a própria atividade do homem é estranhada, alienada), e não se reconhece na relação com os outros homens – logo, o homem se aliena do gênero humano. Há uma tríplice alienação e o fundamento do problema é a propriedade privada. O homem rico é o que se apropria do fruto das objetivações humanas. Para Marx, o homem se objetiva, cria, por meio do trabalho, mas esse processo deixa de ser de autoconstituição para a condição de trabalho alienado no modo de produção capitalista. Esse é o centro da discussão desse momento, que irá se aperfeiçoar na medida em que Marx avança na compreensão do seu objeto. Ainda não está nítido, para Marx, o processo de apropriação de riquezas, que vai tornando o homem mais pobre. Ele começa a discutir preço e salário, mas a essência da exploração do homem (teoria do valor do trabalho, que também veremos no terceiro capítulo) ele ainda não enxerga. Outra característica importante a destacar é que, pela primeira vez, Marx se afirma comunista. Essa opção teórico-política aparece, nesse texto, como resultado da supressão da propriedade privada e da compra e venda da força de trabalho. O comunismo é o movimento que leva à supressão da propriedade privada; supressão que será revolucionária, com o protagonismo do proletariado. Logo, comunismo não é meta, é movimento. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 36 Na época, a propagação de ideias comunistas estava proibida na Prússia, e as autoridades alemãs proibiram a distribuição dos Anais franco-alemães e emitiram ordens de prisão a Marx, tornando-o um refugiado político. Em 1845, Marx é expulso de Paris, juntamente com outros revolucionários – como Ruge e Bakunin –, e se dirige para Bruxelas, em um processo real de exilio, onde vive pelos próximos três anos da sua vida. Seu exílio em Paris tinha durado pouco mais de um ano, mas talvez o ano mais importante em suas divagações e aprendizado. Foi rico em experiências e estímulos, e ainda mais rico por que ganhou um companheiro em armas, aquele de que tanto necessitava – e cada vez mais ao longo do tempo – para completar a grande obra da sua vida. (MEHRING, 2013, p. 99). Em Bruxelas, Marx vive dias de intensa atividade intelectual, em um período mais tranquilo junto com sua família. Nesse período, Marx amadurece sua concepção materialista da história, esboçada nas onze Teses sobre Feurbach. Esse é o único escrito que ele consegue concluir nesse período, e apresenta uma nova visão de mundo, expressa na sua célebre décima primeira tese: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de modos diferentes; o importante agora é transformá-lo”. A concepção materialista de história é posteriormente aprofundada e melhor elaborada em A Ideologia Alemã, quando faz um acerto de contas definitivo com a consciência filosófica anterior. Trata-sede uma obra prima, que ficou desconhecida por quase um século, que Marx e Engels dividiram em três partes: “uma exposição geral da abordagem histórica e materialista em contraste com os jovens hegelianos, uma análise histórica empregando este método, e uma Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 37 descrição do atual estado da sociedade e seu futuro imediato – uma revolução comunista” (MAcLELLAN, 1990, p. 159). Para Marx e Engels, era preciso se comprometer com o movimento prático, político. Já haviam apontado, em A Sagrada Família, que Bauer e seus companheiros privilegiavam uma visão de história aristocrática, em que uma elite privilegiada fazia a história, e estaria pondo em prática um plano racional divino. Marx chama a atenção para o fato de que “as ideias nunca podem, por si mesmas, superar um determinado estado de coisas. Ideias superam ideias e não, automaticamente, situações materiais” (KONDER, 1999, p. 47); é preciso que os homens ajam. O pensamento está ligado à prática e é “no uso social que ele prova a sua eficácia, a sua qualidade” (KONDER, 1999, p. 47). Logo, a história pode promover mudanças quanto maior for a força da ação popular para mudá-la. Os materialistas haviam apenas aberto o caminho para o socialismo, mas faltava-lhes compreender que as circunstâncias fazem os homens, na mesma medida em que os homens fazem as circunstâncias; ou seja, o sujeito existe de modo ativo no mundo, não contemplativo. Feuerbach havia renunciado ao idealismo de Hegel para passar ao materialismo. Porém, era considerado um metafísico e, na sua visão, a sociedade era carente de movimento e possibilidade de transformação. Já Marx tratou de elaborar para os comunistas modernos uma nova concepção, um materialismo prático (KONDER, 1999). Enquanto escrevia A Ideologia Alemã, destrinchando como os homens adotam e utilizam determinadas formas de apreender a realidade, Marx continua sua vinculação com o movimento operário, assim como suas interlocuções com a Liga dos Justos (antiga Liga dos Proscritos, que havia nascido em Paris e mudou-se posteriormente para Londres). Ele estabelece, com Engels, o Comitê de Correspondência Comunista – embrião de todas as Internacionais Comunistas (MAcLELLAN, 1990). Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 38 Entre 1846 e 47, a associação vive uma crise grave e seus dirigentes procuram Marx, que já estava se notabilizando nos círculos operários, para ingressar na Liga. A ideia era reformular a Liga e convocar um congresso em Londres. Marx, juntamente com Engels, aceita a proposta, associa-se e a Liga ganha uma profunda mudança política, transformando-se em Liga dos Comunistas, tendo seu slogan modificado para “Proletários de todos os países, uni-vos”! No final do segundo Congresso da Liga, Marx e Engels, após intensos debates e discursos inspirados, recebem a incumbência de escrever um manifesto para publicizar as ideias da Liga. Marx tinha apenas 28 anos de idade e havia impressionado a todos, pela sua inteligência, eloquência e pela virilidade do pensamento socialista que defendia. Em fevereiro de 1848, ele e Engels apresentam o Manifesto Comunista, que tinha quatro partes, no qual se apresenta a história da sociedade como sociedade de classes e se afirma a possibilidade de vitória histórica do proletariado: A história de todas as sociedades existentes até hoje tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, [...] numa palavra, opressores e oprimidos têm permanecido em constante oposição uns aos outros, envolvidos numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta (MARX; ENGELS, 2010, p. 40). Quando o manuscrito está saindo da gráfica, explode a Revolução de Paris de 1848 – que está pouco presente nos livros de Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 39 história –, e a enorme força do Manifesto – o qual se tornaria um livro imprescindível anos mais tarde – não ganha a visibilidade necessária. As revoluções na época eram recebidas com muita repressão e marcam uma profunda crise na Europa burguesa. Ao lutar pelo trabalho, as vanguardas operárias percebem que seus interesses históricos de emancipação eram incompatíveis com a ordem burguesa. Nesse momento, começam a se impor como sujeitos revolucionários. O Manifesto expressa, do ponto de vista da consciência social, a irrupção de um novo sujeito histórico; o Manifesto sinaliza, no plano ideal, o que estava sendo gestado no plano sociomaterial (PAULO NETTO, 2011). Com as notícias sobre a Revolução de Paris chegando, Marx recebe uma ordem para deixar a Bélgica em 24 horas, e chegou a ser preso antes mesmo de deixar o país. Nesse ínterim, o governo provisório revê a expulsão de Marx de Paris e ele segue mais uma vez para lá; mas essa decisão logo é revogada, a expulsão de Paris é novamente estabelecida e Marx tem que voltar para a Renânia, passando a viver em Colônia. Em Colônia, Marx concentra suas forças na edição da Nova Gazeta Renana, com a intenção de direcionar a revolução alemã, parcial e limitada, e que não havia alcançado a mesma atmosfera revolucionária de Paris. Além de escrever para o jornal, Marx participa ativamente da política local. Contudo, não demoraria para que as dificuldades financeiras e as perseguições políticas começassem a atingir o jornal, até este ser fechado, algum tempo depois. Também estes foram anos muito violentos, de repressão, para os revolucionários. Na década de 1850, indo de Paris a Londres, Marx vive um processo brutal de pauperização, chegando a perder seu único filho homem, Edgar, em 1855, quando vivia dias difíceis na Dean Street londrina. Mas, mesmo a perda tendo abalado Marx profundamente, ele se mantém firme nos seus propósitos revolucionários. Nesse período, na ocasião em que Luís Napoleão Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 40 tomou o poder na França como Imperador, Marx compõe uma série de artigos, que dão forma ao brilhante O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. É daí a sua afirmação que diz que a história se repete, “a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, referindo-se aos dois Bonapartes. Figura 5 - Quo Vadis Restaurant, Dean Street, London; anteriormente, o lar da família Marx. Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Restaurant_Quo _Vadis_at_Dean_Street_28,_London,_where_Karl_Marx_lived_ between_1851-56.jpg Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 41 Após anos de intensa participação política, Marx retorna aos seus exaustivos estudos sobre economia, que haviam sido interrompidos devido à conjuntura do final dos anos 1840, e encontra o patamar teórico metodológico que lhe permite decifrar a sociedade civil burguesa. No final de 1850, Marx havia se convencido de que uma crise comercial e financeira seria uma condição inevitável de qualquer revolução e estava em busca de sinais dessa crise, que, de fato, vem a ocorrer em 1857 (MAcLELLAN, 1990). O segundo grande marco da evolução do pensamento marxiano – depois de Kreuznach – é a produção dos manuscritos de 57/58, que ficaram conhecidos como Grundrisse (Esboço de uma Crítica da Economia Política) e são considerados como o esboço preliminar d’O Capital, sua obra mais importante. Nos Grundrisse, Marx apura sua ótica teórico-metodológica, apresentando discussões sobre dinheiro e capital, além de importantes digressões sobre indivíduos, natureza do trabalho, natureza da alienação, etc. Do ponto de vista da economia, o Grundrisse contém a primeira elaboração da teoria madura de Marx. Há duas mudanças decisivasde ênfase. Em primeiro lugar, em vez de analisar o mecanismo de mercado de troca (como ele fizera em 1844), ele agora dizia que o que o operário vendia não era seu trabalho e sim sua capacidade de trabalho. Foi a combinação desses dois pontos de vista que deram origem à doutrina da mais- valia (MAcLELLAN, 1990, p. 317). Em meio a uma doença do fígado e precárias condições financeiras, que já tinham se tornado crônicas, além da saúde Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 42 debilitada de Jenny, Marx trabalha intensamente no projeto d’O Capital, em seus quatro volumes, pesquisando e produzindo até 1865. Em 1867, Marx finalmente consegue editar o volume 1 d’O Capital, o único que ele publica em vida, considerado até hoje uma obra prima, em que: Depois de tratar das mercadorias, ele então parte para mostrar como o dinheiro é transformado em capital. Se no processo de circulação de mercadorias se trocam valores iguais, como pode o possuidor de dinheiro comprar mercadorias por seu valor, vendê- las por seu valor e ainda assim um valor maior do que deu? Ele pode fazer isso porque nas relações sociais existentes ele encontra no mercado uma mercadoria de tal natureza peculiar que seu consumo é a fonte de um novo valor. Esta mercadoria é a força de trabalho (MEHRING, 2013, p. 353). Konder (1999, p. 107) escreveu: “Foi no ano de 1867 que Nobel inventou a dinamite. Por coincidência, foi também o ano da publicação do primeiro volume do Capital”. As afirmações deste livro realmente caem como uma bomba sobre uma ideia de um capitalismo próspero, e as contradições deste são dissecadas e escancaradas por Marx. Ora, parece que o trabalhador vende seu trabalho em troca de dinheiro, mas isso é só aparência. O que o trabalhador vende é a sua força de trabalho – que se transforma em mercadoria. Marx demonstra com grande precisão que o trabalhador está condenado a não desfrutar jamais das vantagens que o sistema reserva aos proprietários dos meios Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 43 de produção, e que a base para o sistema capitalista é o ganho excedente, o lucro adicional, a mais-valia. Enquanto redigia O Capital, Marx retorna às atividades políticas – de que havia se afastado desde a dissolução da Liga Comunista. Na década de 1860, a conjuntura política e econômica favorece novamente a organização da classe operária na Europa, coincidindo com um período crescente de internacionalismo (MAcLELLAN, 1990). Nesse clima, a Internacional é fundada, em um encontro na Inglaterra, em 1864, e Marx se torna sua principal figura. Certamente, esse foi o período mais importante na construção do pensamento marxiano. Já na década de 1870, sua capacidade de trabalho vai entrando em lentidão e, aos poucos, Marx vai se afastando da vida pública, levando uma rotina mais pacata em Londres. Em 1873, Marx está física e mentalmente exausto e sofre um colapso em sua saúde, o que o impede de terminar sua obra em vida. Jenny Marx falece de câncer do fígado em dezembro de 1881, deixando um Marx inconsolável, que nunca conseguiu se recuperar da perda da mulher. Dois anos depois, Marx perde também a sua primogênita, também chamada Jenny, deixando-o despedaçado. Marx falece no dia 14 de março de 1883, em seu escritório, calmamente e sem sofrimento, “resumindo seu desdém pela sociedade burguesa e seu internacionalismo, sem testamento e sem pátria” (MAcLELLAN, 1990, p. 478). Em 1885, Engels publicou o segundo volume de O Capital e, em 1894, o terceiro. Engels, seu parceiro e amigo fiel, morre em 1895, O livro Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I Internacional, de 2014, traz textos inéditos, selecionados e traduzidos, configurando um arquivo importantíssimo para a história e a teoria do movimento dos trabalhadores. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 44 deixando também diversas obras relevantes para o pensamento socialista. Nesse breve resgate sobre vida e pensamento de Marx, pudemos observar que ele teve um objeto durante toda a sua vida, a ordem burguesa, e foi a expressão do movimento operário do seu tempo. Esse tema o acompanhou durante toda a sua trajetória, de 1843 até a sua morte, 40 anos depois. Como todo grande pensador, Marx vocalizou um sujeito social: o proletariado, que se impôs como sujeito político autônomo em 1848. Não é o mesmo Marx durante toda a trajetória; o seu pensamento está em processo, mas não há corte no seu pensamento. Retornamos à defesa de que o pensamento de Marx contém uma unidade, que não significa uma identidade homogênea, pois é crescente o enriquecimento de temáticas, o abandono de várias pistas e a adesão a outras. O que dá a unidade, segundo José Paulo Netto (2011), é a centralidade do seu objeto e a implicação da forma de análise quanto ao problema de pesquisa. De qualquer modo, a força e a atualidade do pensamento de Marx são evidentes. Todos os movimentos sociais nos últimos cem anos foram influenciados por ele. Marx deixou uma semente revolucionária que nos mostrou que outro mundo é possível, com todas as pessoas livres de qualquer forma de opressão. Marx vive. Referências FIORI, José Luis. 60 lições dos 90: uma década de neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2001. FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. A série de TV argentina “Marx ha vuelto” baseia-se no Manifesto comunista e nela podemos compreender várias das ideias revolucionárias sobre classes sociais, crise, Estado e comunismo. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 45 HOBSBAWN, Erik. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. KONDER, Leandro. Marx – vida e obra. São Paulo: Paz e Terra, 1999. LOWY, Michel. A teoria da revolução no jovem Marx. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. MACLELLAN, David. Karl Marx: vida e pensamento. Rio de Janeiro: Vozes, 1990. MARX, Karl. Os despossuídos: debates sobre a lei referente ao furto de madeira. São Paulo: Boitempo, 2017. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010. MEHRING, Franz. Karl Marx. A história da sua vida. São Paulo: José Luís e Rosa Sundermann, 2013. MÉZSAROS, István. Para além do Capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002. MÉZSAROS, István. A crise estrutural do Capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009. MUSTO, Marcello. Prefácio. In: OLIVEIRA, Isabel Fernandes de et al. (org.). Marx hoje: pesquisa e transformação social. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões, 2016. PAULO NETTO, José. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011. WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. YAMAMOTO, Oswaldo. A atualidade do método de Marx. In: OLIVEIRA, Isabel Fernandes de et al. (org.). Marx hoje: pesquisa e transformação social. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões, 2016. CAPÍTULO 2: MARX, ENGELS E AS LUTAS POLÍTICAS Após conhecer um pouco sobre a trajetória do pensamento e ação política marxianos, neste capítulo, vamos nos debruçar sobre a importância de Marx e Engels para a luta política da classe trabalhadora. Não apenas porque várias de suas mais importantes obras se voltam a analisar os conflitos sociais de sua época, mas também porque o marxismo influenciou sobremaneira as lutas políticas que ocorreriam do século XIX em diante. Mais ainda: como vimos, o método marxiano oferece subsídios para orientar as lutas políticas e, quem sabe, dele nos municiarmos para transformar a sociedade que aí está. Marx e Engels analisaram a luta de classes em diversos países: na França, na Alemanha, na Rússia, na Espanha, etc. Seria impossível, então, revisar toda essa produção. Mas eles também ofereceram trilhas que podem facilitarnosso decurso. O precursor da filosofia da práxis sustentava que a análise da gênese do capitalismo tinha como objeto a Inglaterra, pois ali a revolução econômica do capitalismo ocorreu em toda a sua plenitude. Assim, em O Capital – Livro I, Marx afirmava: Na base do sistema capitalista reside, portanto, a separação radical entre o produtor e seus meios de produção [...] a base de toda essa evolução é a expropriação dos agricultores [cultivateurs]. Ela só se realizou de um modo radical na Inglaterra [...]. Mas todos os outros países da Europa ocidental percorrem o mesmo processo [mouvement] (MARX, 2013b, p. 788). Em outro momento, em correspondência com a revolucionária russa Vera Ivanovna Zasulitch, Marx concluiria que “a ‘fatalidade Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 48 histórica’ desse processo está expressamente restrita aos países da Europa ocidental” (MARX, ENGELS, 2013, p. 114). Mas, como nos recorda um dos maiores historiadores que já tivemos, Eric Hobsbawm (2011), a sociedade burguesa é fruto de uma “revolução dual”, ou seja, da revolução industrial e da revolução política. E, como lócus da revolução política, foi na França onde a luta de classes de maneira mais nítida se desenvolveu. Neste capítulo, portanto, iremos nos voltar especialmente para o estudo de algumas das obras em que Marx e Engels se dedicam a estudar a luta de classes na França. Engels, no Prefácio à 3° Edição de O 18 de Brumário de Marx, afirmava que: “Mais do que qualquer outro, a França é o país em que cada uma das lutas de classe históricas foi travada até a decisão final e em que, em consequência disso, também as formas políticas alternantes, no âmbito das quais essas lutas se deram e os seus resultados se sintetizaram, assumiram contornos bem mais nítidos. Sendo o centro do feudalismo na Idade Média, país-modelo da monarquia estamental unificada desde a Renascença, a França destroçou o feudalismo na grande Revolução e fundou o domínio puro da burguesia de uma maneira tão clássica como não se viu em nenhum outro país europeu. Mas também a luta do proletariado ascendente contra a burguesia dominante se expressa aqui de uma forma aguda, desconhecida em outras passagens. Essa foi a razão pela qual Marx estudou com predileção, em todos os seus detalhes, não só a história francesa passada, mas também a que estava em curso, reuniu material para uso futuro e, por isso, em nenhum momento foi surpreendido pelos acontecimentos (ENGELS, 2011, p. 22). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 49 Marx e a luta política A luta contra a exploração de um ser humano por seu semelhante não é algo específico da época moderna. Escravos na Idade Antiga, servos durante o feudalismo, nações e povos indígenas durante a conquista colonial levantaram-se, em incontáveis episódios, por sua libertação. Podemos dizer que a história da humanidade – ao menos após o surgimento das sociedades cindidas em classes – revela um repertório de sublevações contra a exploração. Porém, é na Idade Moderna que, pela primeira vez, as condições históricas permitiram o desenvolvimento de um conhecimento filosófico e científico comprometido com a emancipação, com a transformação radical da sociedade. As transformações advindas do capitalismo possibilitaram uma realidade completamente nova para aquela Europa de feudalismo sonolento. Grandes cidades, cortiços superlotados, fome, doenças. Imagine que aquele mundo novo, transformado, transformava as pessoas, seus valores, sua cultura. Se antes o camponês sabia que seu dia de trabalho se iniciava com o nascer do sol, bem como terminava com o entardecer, a partir de agora, relógios, máquinas, dínamos, toda uma parafernália o obrigava a jornadas de trabalho sem fim, sob um implacável controle do burguês ou seu capataz. Marx e Engels perceberam que eles próprios e sua teoria social eram produto da modernidade, pois esta criou as condições – econômicas, científicas, culturais, etc. – para que exploradas e explorados desenvolvessem sua própria “concepção de mundo”, como diria Gramsci (2006). A tradição que movia o feudalismo foi, então, superada. Devido a todo esse caos, desenvolveu-se uma diversidade de estudos voltados a compreender a sociedade. No campo que poderíamos denominar de conservador, Durkheim, por exemplo, afirmaria que uma maior divisão do trabalho levaria a maior solidariedade e, Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 50 consequentemente, maior coesão no interior da sociedade. Um pouco de moral, bons costumes e hierarquia resolveriam aquela bagunça; “ordem e progresso”! É desta época, incusive, que nasce a ciência voltada a compreender a sociedade, a Sociologia. Existiram também aqueles e aquelas que queriam transformar o estado de coisas. Fourier, Owen e tantos outros, a partir de ideias generosas, de valores solidários, às vezes fundamentados na crença da evolução moral da sociedade ou por acreditarem em formas de divisão igualitária da riqueza, buscaram dar respostas àquela realidade. Eles, para a história, ficaram conhecidos como “socialistas utópicos”. No entanto, tentativas como as de criar pequenas comunidades igualitárias fracassaram e as contradições e conflitos decorrentes daquele incipiente capitalismo industrial se avolumaram. Mas, é com Marx e Engels que se inaugura um novo momento na história das lutas de explorados e exploradas. Isto porque, a partir do que eles próprios denominaram de “socialismo científico”, desenvolveu-se uma teoria científico-filosófica sobre qual a gênese da sociedade capitalista e os caminhos possíveis para superá-la. Se as ciências da natureza teriam leis gerais verificáveis a partir do conhecimento científico, as sociedades – a capitalista em especial – também teriam leis gerais que poderiam ser apreendidas pela ciência para a transformação da própria sociedade. E, para eles, como se daria essa transformação? Seria, por exemplo, através da educação, como comumente escutamos? Ambos diriam que a educação é importantíssima para o desenvolvimento das potencialidades dos sujeitos, mas, sem dúvidas, não a apontariam como o caminho para solucionar problemas que se erguem no campo da economia e das relações sociais de produção. E, realmente, se olhamos para o que ocorreu no Brasil, perceberemos que, em13 anos, diversas iniciativas nesta área foram concretizadas, como a criação do FUNDEB, de centenas de Institutos Federais e dezenas de novas Universidades Federais, mas, o que houve depois? Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 51 Sem dúvidas, os problemas e contradições do nosso país não foram superados; ao contrário, aprofundaram-se. Você com certeza já percebeu que, em nosso cotidiano, pedimos aos nossos deuses – independente de seguirmos religiões de matriz cristã, indígena ou africanas – que interfiram para que as coisas mudem. Possivelmente daí advém o ditado popular “se Deus quiser!”. Note que, nesse caso, estamos não apenas transferindo para o transcendental o dever de mudar as coisas, como também a ele atribuindo o “direito” de escolha sobre quando e como as coisas devem ser transformadas. Marx e Engels também negaram esse caminho. Como bons materialistas, para eles, o transcendental não cria a realidade, mas da realidade criamos a transcendência. Há, ademais, um frequente engajamento em ações sociais, fundado em valores como a solidariedade e a caridade: o trabalho voluntário em uma Organização Não Governamental (ONG), a participação em mutirões, pastorais, etc. Marx e Engels apontaram, contudo, que a “evolução moral” ou a redistribuição voluntária das riquezas não constituem caminhos aptos a alcançar a transformação radical da sociedade. A tentativa de superar o caos da sociedade capitalista apartir de uma “evolução na consciência”, como, por exemplo, convencer os burgueses a garantir salários aptos a possibilitar condições de vida digna aos seus trabalhadores e trabalhadoras, não seria uma resposta possível. Por fim, também por vezes atribuímos os graves problemas socioeconômicos que vivenciamos à corrupção, à má gestão dos governos – sempre há quem diga: “se fosse na Noruega não seria assim”! – ou à esfera jurídica: “se a lei fosse cumprida, não seria essa balbúrdia!”. Marx e Engels também não aceitariam essa resposta. Por mais que tais soluções possam, em maior ou menor grau, de alguma maneira, contribuir para melhorias na nossa sociabilidade, Marx e Engels demonstraram que elas não respondiam à necessidade de uma transformação radical da sociedade. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 52 Marx afastou todas essas possibilidades ao descobrir que o fundamento, a gênese do capitalismo, é a exploração do ser humano pelo ser humano, por meio da propriedade privada dos meios de produção e transformação do trabalho em mercadoria, em força de trabalho a ser explorada. Por mais que o Estado execute políticas públicas – atue na esfera da circulação do capital, da redistribuição de excedentes –, de educação e direitos em geral, elas não atacam a gênese da desigualdade, que se constitui na esfera da produção, na propriedade privada dos meios de produção e nas relações sociais de produção. Mais à frente debateremos como Marx e Engels enxergavam o Estado; mas, aqui, o importante é a compreensão de que, para eles, a única forma de pôr fim à exploração seria por meio da substituição do trabalho como mercadoria à venda (força de trabalho) pelo trabalho associado. Marx apontava que a essência do capitalismo se encontra na separação forçada dos trabalhadores em relação a seus meios de produção, mediante um processo que ele denominou de “acumulação primitiva do capital”. Acontece que, a partir do momento em que se cria uma massa de proletários – a partir da revolução dual – Quem será expropriado, agora, não é mais o trabalhador que trabalha para si próprio, mas o capitalista que explora muitos trabalhadores. Essa expropriação se consuma por meio do jogo das leis imanentes da própria produção capitalista, por meio da centralização dos capitais (MARX, 2013b, p. 1012). Marx descobre que o modo de produção capitalista detém leis imanentes que tendem a se realizar, e, para isto, não concorrem uma “intervenção divina”, “avanços morais”, ou políticas de educação. Não Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 53 se trata de o proletário em si ser uma pessoa “boa” ou o burguês em si ser uma pessoa “má”, como ele elucida no prefácio de O Capital (MARX, 2013b). Portanto, todas aquelas alternativas citadas detêm maior ou menor grau de resultados, mas elas são ineptas para uma transformação radical da sociedade, pois esta só será possível quando a sua raiz, a propriedade privada dos meios de produção e a venda da força de trabalho, for atacada. Como, então, transformar radicalmente a sociedade? Você pode estar se perguntando: se o capital detém leis próprias, é possível transformá-lo? Pois bem, Marx não diz que a economia por si só levará à bancarrota do capitalismo ou que uma grande crise catastrófica possibilitaria a superação deste sistema – como querem fazer crer alguns ecologistas ao alardear que a crise ambiental por si só levará à sua inviabilidade. Marx chega, em verdade, à outra lei universal: a luta de classes – obviamente, a partir do momento em que há sociedades cindidas em classes – é o motor da história da humanidade. Mas, para apreendermos como ele chegou e desenvolveu esta conclusão, tentemos situar os passos para o amadurecimento de seu pensamento. Ainda com 25 anos de idade, Marx escreveu um texto denominado Sobre a Questão Judaica. À época, na Prússia (Estado que viria a formar a Alemanha), os judeus não detinham direitos políticos, de cidadania, pois o Estado era cristão. Bruno Bauer, importante intelectual daquele período, argumentava que as pessoas deveriam abdicar de sua religião para alcançar a emancipação política (direitos iguais perante o Estado). Mais ainda: sob inspiração hegeliana, ele enxergava um caráter universal no cristianismo, enquanto o judaísmo apresentaria um caráter nitidamente particular. Perceba o leitor que se o judeu se Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 54 reivindicava povo eleito frente aos demais, o cristão reivindicava o seu Deus como o único e buscava a expansão e assimilação de sua crença para todo o mundo (lembre-se das Cruzadas e do papel que a Igreja Católica cumpriu na Conquista das Américas). Pois bem, se o cristianismo possui em sua essência o caráter universal e o judaísmo o particular, Bauer chegaria à conclusão de que “o judeu está menos habilitado à emancipação que o cristão” (PAULO NETTO, 2009, p. 23). Como consequência, ele argumentava que era o judeu, então, que deveria abdicar de sua religião para emancipar-se! Marx, à época assentado em uma posição democrata radical, desloca a análise da questão judaica da esfera religiosa para a política, e demonstra que a sociedade burguesa cindiu o ser humano no homem e no cidadão. Aquele, como o ser humano concreto, em relação de oposição ao seu semelhante: o burguês, o homem do dinheiro, o homem real, o homem da sociedade civil. O último como o ser genérico, abstratamente transformado em igual em relação aos demais seres humanos, ao menos perante as leis estatais. Ou seja, a existência concomitante de uma desigualdade no mundo real, material, com uma igualdade formal no mundo político. Para facilitar a sua compreensão, imaginemos o feudalismo. No decorrer daqueles séculos, o servo estava desprovido do poder econômico e, também, do poder político. A sua “despossessão” na esfera econômica implicava constituir-se em um “estamento” inferior e submisso ao dos senhores feudais. À época, a sociedade feudal estava dividida em estamentos, ou seja, era impossível a mudança de “nível” em seu interior. Perceba que o servo não poderia, por exemplo, comprar uma charrete. Primeiro, por não ter condições econômicas para tanto. Mas, também, porque não detinha o que hoje chamamos de status de “sujeito de direito”, qual seja, a liberdade para desenvolver relações sociais – como a compra de uma charrete – sem necessitar da autorização de seu senhor. Marx apontaria que, com as revoluções burguesas, a desigualdade econômica passou a coexistir com a Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 55 igualdade política. Veremos logo mais a importância desta reflexão; é esta abstrata igualdade que viria a permitir a compra e venda da força de trabalho e todas as mercadorias como temos hoje – por mais que pareça algo que sempre foi e será assim. Seguindo esse raciocínio, ele defenderia que os judeus não precisariam abdicar de sua religião, pois essa era uma particularidade da sua vida em âmbito de sociedade civil, esfera distinta da política. Ou seja, para ele, como desdobramento fático da ordem burguesa, o Estado aparece como “expressão alienada dos interesses gerais (expressão da vida genérica dos homens), e a sociedade civil, espaço real dos particularismos (reino da vida empírica e privada)” (PAULO NETTO, 2009, p. 24). Estas questões remetem-nos a como estamos dando passos largos ao passado em debates sobre direitos sexuais e reprodutivos, diversidade, laicidade do Estado! Ou não seria este o caso quando uma peça de teatro, um quadro ou exposição são censurados por não serem convergentes com determinadas interpretações religiosas? Mas, retornemos a Marx, para chegarmos às lutas políticas. Ainda em Sobre a Questão Judaica, Marx tece uma crítica retumbante aos “direitos humanos”,posição que ele carregaria consigo ao longo de suas obras. Conforme vimos, ele apontou que, na modernidade, o ser humano dividiu-se em um ser da sociedade civil e um ser da sociedade política. Ao referir-se à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aquela famosa declaração de direitos humanos voltada à superação da sociedade feudal e sua divisão em estamentos, Marx dizia que Os droits de l’homme, os direitos humanos, são, como tais, diferentes dos droits du citoyen, dos direitos do cidadão. Quem é o homme diferente do citoyen? Ninguém Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 56 senão o membro da sociedade civil. Por que é que o membro da sociedade civil é chamado ‘homem’ (pura e simplesmente ‘homem’), por que é que os seus direitos são chamados direitos do homem? A partir de quê nós explicamos esse fato? A partir da relação do Estado político com a sociedade civil, a partir da essência da emancipação política” (MARX, 2009, p. 63). Anote essa observação marxiana: a essência da emancipação política está na relação entre o Estado e a sociedade civil. Logo após, ele disseca essa relação: Antes de tudo, constatemos o fato de que os chamados direitos do homem, os droits de l’homme, diferentemente dos droits du citoyen, não são outra coisa senão os direitos do membro da sociedade civil [...], do homem egoísta, do homem separado do homem e da comunidade” (MARX, 2009, p. 63). Talvez ainda não com tanta nitidez, ali Marx começava a apontar que a igualdade de direitos e o ser social “sujeito de direitos” figuram como condição que possibilita a exploração do homem sobre o homem. Mas com que base ele afirma isto? Problematizando – nas palavras de Marx – a “constituição mais radical” da França revolucionária (MARX, 2009), a Constituição de 1793, ele comenta que, na verdade, a liberdade, a igualdade e a segurança seriam... Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 57 a) A Liberdade: Direito de fazer tudo o que não prejudique o outro, de acordo com os limites da lei. Ou seja, “o direito humano à liberdade não se baseia na vinculação do homem com o homem, mas, antes, no isolamento do homem relativamente ao homem. É o direito desse isolamento, o direito do indivíduo limitado, limitado a si” (MARX, 2009, p. 64). A sua aplicação prática, portanto, leva ao direito humano à propriedade privada, ao: [...] direito de – arbitrariamente [...], sem referência aos outros homens, independentemente da sociedade – gozar a sua fortuna e dispor dela; [é] o direito do interesse próprio. Aquela liberdade individual, assim como esta aplicação dela, formam a base da sociedade civil. Ela faz com que cada homem encontre no outro homem, não a realização, mas antes a barreira da sua liberdade (MARX, 2009, p. 64). Perceba essa conclusão genial de Marx e como ela encontra- se válida em pleno século XXI! É a oposição entre o fazendeiro e o sem-terra; o com teto e o sem teto, enfim, uma infinidade de situações que perfazem um contexto em que, ao final e a cabo, até quem explora não está realmente livre. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 58 b) A Igualdade: Marx então colocará que a igualdade na esfera não-política, no mundo real, será a igualdade para exercer esta liberdade restrita, anteriormente descrita. Ou seja, que “cada homem seja, de igual modo, considerado como essa mônada que repousa sobre si [própria]” (MARX, 2009, p. 65). Marx chega a essa conclusão a partir do Art. 3° da Constituição Francesa de 1795: “A igualdade consiste em que a lei – quer proteja, quer castigue – é a mesma para todos” (MARX, 2009, p. 65). Perceba que o direito cria uma igualdade abstrata, de âmbito meramente formal, e que só tem razão de existir para permitir uma desigualdade real na sociedade civil. c) Segurança: Para Marx, “é o supremo conceito social da sociedade civil, o conceito da polícia, porque a sociedade toda apenas existe para garantir a cada um dos seus membros a conservação da sua pessoa, dos seus direitos e da sua propriedade” (MARX, 2009, p. 65). Marx, então, conclui que a “cidadania de Estado” existe como meio para a preservação dos privilégios, das propriedades dos que detém posses. Ou seja, era a proclamação da liberdade, igualdade, fraternidade, propriedade e segurança do.... burguês proprietário! Mas, você pode estar intrigado sobre o que seria essa “mônada isolada”. Se com o amadurecimento teórico e político Marx verá o ser humano como ser social – ou seja, um ser que realiza trabalho e desenvolve suas capacidades e potencialidades a partir das suas vivências como gênero humano, e não como indivíduos apartados uns dos outros – aqui ele já compreende que a sociedade burguesa leva o ser humano ao conflito e concorrência com seu próprio semelhante. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 59 Se partimos dessa reflexão, o que é a reação das pessoas à pandemia na maioria absoluta dos países capitalistas, senão mônadas em conflito permanente? Lembremos do dono de uma rede de restaurantes que, para manter a sua acumulação privada de capital, diria que o Brasil não pode parar por causa de 5 ou 7 mil mortes de Covid-19; ou dos vários grupos de empresários que convocariam protestos para a abertura dos seus ramos de produção; ou ainda, os que buscaram vacinação clandestina ou a aprovação de projeto de lei instituindo o fura-fila. Os trabalhadores, entre morrer de Covid ou de fome, pouca margem para escolha tiveram. Vejam a impossibilidade de uma ação coletiva, como ser social. Presenciamos uma verdadeira guerra, com perdas insubstituíveis, e que poderia ter sido diferente. Note: nos países socialistas, a ação do povo como um só corpo e a ação planificada do Estado permitiram a preservação da necessidade humana mais básica; a vida. Não à toa, em abril de 2021, a China, com mais de 1.4 bilhão de habitantes tinha menos de cinco mil vítimas de Covid-19. O Vietnã, com uma população de 100 milhões de pessoas, apenas 35 vítimas. Cuba, sob forte embargo econômico, com 11 milhões, registrava 448 mortes, e desenvolvia cinco vacinas com tecnologia totalmente nacional. Ou seja, caso comparemos países de patamar semelhante quanto ao desenvolvimento de suas forças produtivas, perceberemos que, nos socialistas, a chance de a classe trabalhadora sobreviver ao vírus é muito superior que nos capitalistas. Voltando ao texto de Marx para terminarmos a nossa análise dessa obra, há outra passagem também muito importante: ele salienta que a emancipação política, as liberdades civis e políticas, apesar de insuficientes, constituem uma conquista; representam um progresso frente ao momento feudal anterior: Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 60 A emancipação política é, sem dúvida, um grande progresso; ela não é, decerto, a última forma da emancipação humana em geral, mas é a última forma da emancipação política no interior da ordem mundial até aqui. Entende-se: nós falamos aqui de emancipação real, de [emancipação] prática (MARX, 2009, p. 52). A descoberta do proletariado e da luta de classes Você deve estar lembrando que no início desta seção falamos que existiu um grupo de pensadores que foram apelidados de “socialistas utópicos” em virtude de proporem saídas idealistas ao sistema capitalista. Mas, se virmos como Marx termina sua crítica à emancipação política em Sobre a Questão Judaica, percebemos que ele também não tinha tanta clareza sobre o que fazer: Toda a emancipação política é a redução do homem, por um lado, a membro da sociedade civil, a indivíduo egoísta independente; por outro, a cidadão, a pessoa moral. Só quando o homem individual retoma em si o cidadão abstrato e, como homem individual –na sua vida empírica, no seu trabalho individual, nas suas relações individuais –, se tornou ser genérico; só quando o homem reconheceu e organizou as suas forces propres [forças próprias] como forças sociais e, portanto, não separa mais de si a força social na figura da força política – [é] só então [que] está consumada a Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 61 emancipação humana (MARX, 2009, p. 71- 72). Perceba que Marx ainda não encontrou a solução sobre como alcançar a emancipação humana, tampouco sobre o que seria o seu conteúdo. Mas o processo de amadurecimento de suas ideias estava bastante intenso e, nesse mesmo período, Marx escreveria a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Nesta obra, podemos dizer, pecando pela síntese, que ele acerta as contas com o idealismo hegeliano: se para Hegel a razão dos homens se expressava no Estado, espaço do universal, Marx dirá que o universal do Estado é o ocultamento da defesa de interesses particulares corporativos. Hegel afirma, em seu § 309 da Crítica da Filosofia do Direito, que os deputados devem fazer valer não o interesse particular de uma comunidade, de uma corporação, contra o interesse universal, mas que este deve prevalecer sobre aquele. Marx inverte a lógica hegeliana e diz que, em realidade, os deputados [...] partem das corporações, representam esses interesses e necessidades particulares e não se deixam perturbar por ‘abstrações’, como se o ‘interesse universal’ não fosse também uma tal abstração, uma abstração precisamente de seus interesses corporativos etc. (MARX, 2013a, p. 140). Apesar de Marx aproximar-se do que viria a ser o cerne do pensamento marxiano, até agora a palavra “classe” continuava alheia às suas reflexões. Como vimos, é logo após a escrita de Crítica da Filosofia de Hegel que Marx irá finalmente assentar todas as bases de seu pensamento. Nesta obra, Marx contestaria o método hegeliano Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 62 pelo qual a ideia (o processo de pensamento) revela-se como a criadora do real. Por esta perspectiva, o mundo material é a mera manifestação externa da ideia. Marx, ao contrário, apontaria o caráter apriorístico da matéria em relação à ideia, que é apenas a tradução do real por homens e mulheres em suas mentes. Ocorre que, logo após, Marx escreve uma Introdução para seu texto Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, sem dúvida um dos mais belos e densos textos de nosso autor. Nela, Marx apontará a dialética na história, sendo que o seu motor não seria a ideia de Hegel, nem a crítica filosófica de Bauer, nem a evolução moral de Kant, mas as classes sociais em luta pela sua sobrevivência e reprodução social. Mais: neste texto, influenciado pela greve dos tecelões da Silésia, ele descobrirá uma classe fundamental em suas análises: o proletariado, que substituirá o seu sujeito anterior, o “povo”. Marx, lutas de classes e lutas políticas Você deve ter percebido que toda essa seção anterior buscou demonstrar como Marx superou os socialistas anteriores7 e seus contemporâneos (poderíamos até dizer, inúmeros outros que, após sua morte, voltariam a defender saídas semelhantes às dos utópicos) ao apontar que é a luta de classes que move a história. Somando esta reflexão com as anteriores, de que o Estado e o Direito são condições para a desigualdade, miséria e exploração na sociedade civil, a única maneira possível para superar uma sociedade exploratória, portanto, é por meio da tomada do poder político do Estado pelas classes exploradas! 7 Em O Manifesto Comunista, ele aponta os diversos tipos de socialismo para demonstrar a originalidade do socialismo científico. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 63 Quais seriam essas classes? E por quê? Primeiramente, imagine que Marx era um jovem querendo mudar o mundo. Percebeu que o Direito não poderia mudar as coisas radicalmente, então buscou a Filosofia, como vimos no capítulo anterior. Logo após, notou que o movimento da história não decorre da crítica filosófica; não é um punhado de intelectuais que descobrem as respostas dos problemas que movimentam a história. Assim, se a responsável por este movimento é a luta de classes, ou seja, como as diversas combinações entre meios de produção e relações sociais de produção possibilitam contradições e choques inúmeros, então Marx dedica-se profundamente ao estudo da economia política e da gênese do capitalismo. Imagine que, na década seguinte à da escrita das obras que citamos, ele destinaria mais de uma dezena de horas por dia ao estudo da economia e outras temáticas para a escrita de O Capital. Liberais, conservadores, idealistas, materialistas, socialistas; o idioma russo, a matemática; até a Bíblia Marx iria devorar nas últimas décadas de sua vida, enquanto escrevia O Capital. Neste interregno, por vezes ele escreveu “a quente” sobre conflitos reais que se levantavam perante seus olhos. Como já apontamos, foge ao nosso objetivo esgotar essa rica produção. Mas o certo é que, nessas suas análises, as lutas políticas aparecem, com um impressionante rigor científico, dialeticamente articuladas com as condições econômicas. Pedimos a atenção quanto a este ponto, pois se tornou cada vez mais recorrente a proliferação de análises que se pretendem marxistas, mas que desconsideram por completo os elementos econômicos, o trabalho e as classes sociais em luta. Dentre seus textos “políticos”, podemos incluir o já referido O Manifesto Comunista. Este livro é um manifesto mobilizador, um panfleto político – no melhor sentido da palavra – estremecedor em Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 64 que Marx prenuncia as revoluções de 1848: “um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha” (MARX, 2010, p. 39). Não que graças ao Manifesto teriam ocorrido os intentos revolucionários. A teoria marxiana já apontava que não era a crítica filosófica que moveria o mundo, mas os conflitos reais, mundanos que provocavam o movimento. Sem dúvida, contudo, o Manifesto não apenas contribuiu para mobilizar, mas, principalmente, para compreender a conjuntura revolucionária e expor o que seria um programa político comunista. Mas, como indicamos no início do capítulo, é na França em que as revoluções políticas ocorreram de maneira mais intensa, mais visível aos olhos. E sobre ela passamos a uma breve análise. Em três obras, Lutas de Classes na França, O 18 de Brumário e Guerra Civil na França, Marx analisou a intensa luta de classes ocorrida naquele país, no interregno entre 1789 a 1871. Isso com destaque para o período que compreende desde uma revolução popular, em fevereiro de 1848, a um golpe de Estado impetrado por Luis Bonaparte (o sobrinho!) em dois de dezembro de 1851. Para Engels (2012), é em Lutas de Classes na França que o socialismo científico “se realiza” pela primeira vez, pois se distingue dos demais ao se centrar no trabalho associado e no fim do trabalho assalariado, tema que veremos no próximo capítulo. Ou seja, enquanto socialistas buscavam alternativas na esfera da circulação – aumentos salariais, distribuição de renda, construção de comunidades alternativas – Marx apontava que a gênese estava na produção, na coisificação e transformação do ser humano em mercadoria pela força de trabalho. Estas obras, por outro lado, são primorosas quanto à teoria do Estado, da política e da democracia na obra marxiana, e demonstram Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 65 comoseu método possibilita uma análise de conjuntura profunda e fecunda, apta a orientar a luta política. Nesse sentido, Engels afirma que Marx foi o primeiro a descobrir a grande lei do movimento da história, a lei segundo a qual todas as lutas históricas travadas no âmbito político são de fato apenas a expressão mais ou menos nítida de lutas entre classes sociais, a lei segundo a qual a existência e, portanto, também as colisões entre essas classes são condicionadas, por sua vez, pelo grau de desenvolvimento da sua condição econômica, pelo modo da sua produção e pelo modo do seu intercâmbio condicionado pelo modo de produção (ENGELS, 2011, p. 22). Note que, se até este momento histórico, os intelectuais consideravam que era o desenvolvimento do espírito, da razão ou mesmo da crítica filosófica que transformava o mundo, a partir de Marx, a luta de classes, a disputa pela riqueza socialmente construída, será apontada como responsável pelo movimento da história. Como bem alerta Engels, ela, contudo, não se dá de maneira isolada das condições materiais de reprodução social (das condições econômicas), e essa relação dialética entre economia e política, esse processo de contradições específicas de cada conjuntura redunda em novo estágio, com novas contradições e patamares de lutas, abrindo novas possibilidades e dificuldades ao movimento proletário. Como diz a pesquisadora Mirla Cisne, ortodoxia no método para desenvolver uma teoria em movimento. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 66 Se as pessoas se prendiam – em suas análises – a determinados valores abstratos previstos na Constituição ou à importância dos personagens na história, como Luís Bonaparte para a França em meados do século XIX, Marx enxergava os grandes movimentos das classes sociais em luta por detrás das formas políticas, jurídicas, e no próprio papel que o indivíduo cumpre na história. Como exemplo, para ficar mais nítido ao leitor: Marx dizia que só dois escritos simultâneos ao golpe de Estado de Bonaparte seriam dignos de nota, os de Proudhon e Victor Hugo. Veja o que Marx argui: Victor Hugo se limita a invectivas amargas e espirituosas contra o responsável pela deflagração do golpe de Estado. O acontecimento propriamente dito parece ser, para ele, como um raio vindo do céu sem nuvens. Ele vê no golpe apenas um ato de poder de um indivíduo isolado. Não se dá conta de que engrandece esse indivíduo, em vez de diminuí-lo, atribuindo-lhe uma capacidade de iniciativa pessoal que seria ímpar na história mundial. Proudhon, por sua vez, procura apresentar o golpe de Estado como resultado de uma evolução histórica precedente. Sorrateiramente, no entanto, a sua construção histórica do golpe de Estado se transforma numa apologia do herói do golpe de Estado [...]. Em contrapartida, eu demonstro como a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que permitiram a um personagem Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 67 medíocre e grotesco desempenhar o papel de herói (MARX, 2011b, p. 18). Realmente, em O 18 de Brumário, Marx delimita as classes sociais da França, aponta suas características, projeta quais são os partidos que as representam, bem como os movimentos das classes e das representações – nem sempre combinados entre si –, e a relação disso tudo com a economia e as condições de vida de franceses e francesas à época. E não se tratava de pouca coisa! Revolução, constituição de novas formas políticas, repressão, golpe de Estado! É o famoso ditado de que “são anos que valem séculos!”. Voltando à França da primeira metade do século XIX, entre 1830 e 1848, o governo estava nas mãos da Dinastia de Orleans, conhecida como “Monarquia de Julho”, sob reinado de Luís Filipe. Mas todo governo tem de ter uma base social que o mantenha, que lhe dê guarida. Marx afasta aquela reflexão liberal – amplamente aceita no senso comum – de que há uma oposição entre sociedade e Estado. Já escutaram aquelas expressões: “político é tudo igual”; “político é tudo ladrão”, pois bem, refletem essa falsa oposição! Para Marx, classes e, especificamente, frações de classes do interior da sociedade civil ocupam e dirigem o Estado, com fins de atender a seus interesses de classe como se de toda coletividade fossem. Marx, então, enxergaria, por trás daquele rei francês, banqueiros, donos de terras, minas e ferrovias, uma aristocracia financeira e proprietária de terras. Ocorre que, em 1847, houve uma grande crise comercial na Inglaterra. Desde essa época, Marx já faria a articulação entre crise econômica e revolução. Ele apontaria esta crise como responsável pelo descontentamento popular e como locomotora das revoluções de fevereiro e março de 1848. Com a instabilidade criada pela crise, a burguesia industrial, afastada do poder, encontra as condições materiais para a revolução. Para tanto, atrai a pequena burguesia – comerciantes, pequenos empresários, setores da burocracia estatal – e, Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 68 também, o nascente proletariado, sobre quem recaem drasticamente as consequências de quaisquer crises econômicas. Este, à época, não dispunha de um projeto político autônomo, um programa de sociabilidade, o que o levou a ser uma classe auxiliar da burguesia, ao passo que esta não conseguiria fazer uma revolução sem o apoio da massa dos trabalhadores. Marx descreverá nestes dois livros – Lutas de Classes na França e O 18 de Brumário – como os interesses conflitantes entre as classes (e suas frações de classe) levarão a ações políticas diversas e a alterações na correlação de forças entre elas – em determinado momento, ascenso do proletariado, em outro, da burguesia industrial, etc. – e como essa flutuação das posições econômicas e políticas das classes levam a mudanças bruscas nas formas político-jurídicas – monarquia, república, império, liberdades democráticas, sufrágio universal, etc. Atente para o fato de que a forma político-jurídica é secundarizada; para Marx, ela advém do contexto econômico do período histórico e de mudanças no interior das lutas entre as classes e que levam à sua alteração/adequação. Por outro lado, as formas político-jurídicas se revelam, por vezes, instrumentos importantes para a própria luta. Para exemplificar: com a liberdade de organização e comunicação, trabalhadores têm maior facilidade de defender seus interesses – a partir de seu partido, sindicato, jornal ou revista – do que em um momento de ditadura e cassação das liberdades civis. Por outro lado, como já vimos, esta liberdade não representa a emancipação humana ou um padrão de sociabilidade realmente livre. Perceba a importância desta reflexão. Se setores da burguesia diziam à época “Viva a república!”, “Viva o sufrágio universal!”, como se fossem “intocáveis”, pois previstas na nova ordem jurídica, Marx apontaria que o desenrolar dos fatos demonstrava que, apesar de a república e o sufrágio universal constituírem-se em avanço frente ao momento monárquico anterior, ambos não detinham existência Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 69 “autônoma”, nem seriam um fim em si mesmos. Em outras palavras: a partir do momento em que se constituíssem em entrave para os interesses do capital e da classe para a qual pendesse a correlação de forças, a república, o sufrágio universal e as garantias liberais mínimas conquistadas poderiam vir a ser descartados, e sem o menor pudor! Ou, para tratar em outros termos: em verdade, essas formas político-jurídicas, que hoje conhecemos e assimilamos como algo posto – “tripartição dos poderes”, “sufrágio universal”, “Estado de sítio”, “salvaguardas do Estado” –, seriam analisadas por Marx não como formas “boas” ou “más”, mas como instrumentos que a burguesia,enquanto classe que cria um novo poder político, testa, adequa, para consolidar e perpetuar seu domínio econômico. Mas, retornemos à conjuntura das classes sociais francesas em 1848. Para Marx, as classes sociais nesta nascente República, naquele lugar e momento histórico, estavam assim estruturadas: Alta burguesia – em seu interior, existiam os orleanistas – aristocracia financeira e grandes industriais, partidários da dinastia de Orléans – e os legitimistas – aristocracia proprietária de terras e defensores da dinastia de Bourbon; ou seja, essa massa da burguesia era monarquista. Pequena burguesia – pequenos proprietários, comerciantes, determinados elementos da burocracia estatal, incapazes de propor um projeto político autônomo. Estavam sempre acompanhando outra classe: ora a burguesia, ora o proletariado, ou seja, compunham uma classe de transição. Proletariado – Composto pelo incipiente operariado parisiense, foi conformando-se como classe com projeto político autônomo durante as lutas políticas. Lumpemproletariado – pessoas recrutadas no interior da própria classe despossuída dos meios de produção e que, por completo alheamento do processo produtivo e organizativo, constituíam-se em uma grande massa apta a ser mobilizada contra a própria classe trabalhadora. Campesinato – trabalhadores rurais que detinham Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 70 pequenas propriedades, isoladas entre si, o que favorecia uma posição conservadora e de reverência da monarquia. Perceba que aqueles que apontam que Marx errou ao dizer que existem, no capitalismo, duas classes fundamentais e antagônicas, a burguesia e o proletariado, o fazem por completo desconhecimento da obra marxiana – possivelmente a partir de uma má leitura de O Manifesto Comunista. Em verdade, Marx e Engels apontavam as diversas frações no interior das classes, e que estavam em movimento, com suas particularidades, as várias lutas de classes, e que, se a burguesia alçou seus interesses particulares à condição de universais, seria a sua negação, o seu oposto, o operariado, a classe capaz de propor um projeto realmente universal e emancipatório. De acordo com Marx e Engels, torna-se impossível, após as revoluções burguesas, a classe universal ser camponesa. A expansão das cidades é um feito irreversível. Do mesmo modo, é impossível a classe universal ser a burguesia, pois proprietários de meios de produção só existem pela existência dos não proprietários. Impossível, também, ser a pequena burguesia; ela é, por sua natureza, uma classe de transição em uma sociedade de classes. Dela você pode ascender à burguesia, ou “cair” ao proletariado. Portanto, a única classe com potentia de universal, capaz de abrigar todo o desenvolvimento tecnológico e científico constituído na modernidade, mas de torná-lo um bem comum, é o proletariado. Agora, se o proletariado é a classe apta a liderar uma revolução em determinado país sob específicas condições econômico-sociais, isto quem dirá são as condições particulares deste país e sua própria classe trabalhadora. Sujeito revolucionário é quem faz revolução. Mas retornemos às classes sociais da França em 1848 e sua revolução de fevereiro. Se a revolução foi liderada pela burguesia industrial e contou com uma participação indispensável do proletariado, ambas as classes, além da pequena burguesia, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 71 compuseram o governo provisório. Percebam como Marx analisou este governo cuja essência era ser provisório: O objetivo original das jornadas de fevereiro foi uma reforma eleitoral que ampliasse o círculo dos privilegiados políticos dentro da própria classe possuidora e derrubasse o domínio exclusivo da aristocracia financeira. Quando, porém, o conflito irrompeu de fato – quando o povo foi às barricadas, a Guarda Nacional ficou passiva, o exército não ofereceu nenhuma resistência séria e a realeza fugiu –, a República pareceu algo óbvio. Cada partido a interpretou ao seu modo. Por tê-la conquistado de armas na mão, o proletariado lhe imprimiu o seu selo e a proclamou como República Social. Desse modo, indicou-se o conteúdo geral da revolução moderna, que se encontrava na mais curiosa contradição com tudo o que, nas circunstâncias dadas, podia ser posto diretamente em prática num primeiro momento com base no material disponível e no nível de formação atingido pela massa. Por outro lado, a reivindicação de todos os demais elementos que haviam cooperado com a Revolução de Fevereiro foi contemplada com a parte do leão que receberam no governo (MARX, 2011b, p. 32-33). Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 72 Enquanto os representantes do proletariado debatiam “princípios sociais”, “direitos humanos”, o repertório que deveria fundar uma “República Social”, a burguesia ficou com o controle da política econômica e das forças de repressão, com a “parte do leão”. Ou seja, no interior do governo provisório havia uma contradição – sua composição abrigava classes que, de interesses comuns no momento imediatamente anterior (o momento monárquico), agora cerravam fileiras sob programas e interesses opostos. A burguesia queria o fim do momento revolucionário, a estabilidade para aumentar os negócios e a acumulação de capital; o proletariado queria um Estado social, o desmonte dos privilégios monárquicos! Mas não seriam valores, princípios e regras jurídicas os caminhos a solucionar este tipo de contradição. Já vimos isso! A queda da forma política monárquica resultou na constituição da República, do governo provisório e da formação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a burguesia era maioria também na Assembleia. Por meio dela e do governo provisório, a burguesia desacelerou o ímpeto revolucionário. Assim, a direção do proletariado, descontente com os rumos desde fevereiro, resolveu, em maio, tentar dispersar à força a Assembleia, pois não estaria cumprindo com os princípios que motivaram a revolução. Acontece que uma ação política depende necessariamente das condições impostas pela conjuntura – lembre-se daquela frase de Marx segundo a qual os homens fazem a história a partir das condições que esta permite e não apenas de seus desejos – e, ao tentar este ato de força sem as devidas pré-condições para tanto, o proletariado possibilitou a motivação para a prisão de seus líderes e terminou por acelerar a decisão da burguesia de derrotá-lo (MARX, 2011b). A prisão de líderes da esquerda, a promulgação de leis que atentavam contra as liberdades democráticas e o completo desprezo pelas reivindicações de fevereiro levaram a nova sublevação popular em fins de junho de 1848. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 73 Marx afirmaria que a alta burguesia, a pequena burguesia, os monarquistas, todas as classes proprietárias uniram-se contra o proletariado. Assim, realizaram um massacre, contando com o Exército e a Guarda Nacional, uma espécie de força repressiva à época dominada pelos setores pequeno-burgueses. Para Marx, “foi no combate a uma contrarrevolução coesa e poderosa que o partido transformou-se para realmente revolucionário” (MARX, 2012, p. 35). Atente para a dialética nessa análise. O proletariado parisiense houvera materializado uma revolução – a de fevereiro. Ao perceber que os interesses defendidos pelo Estado não eram universais – de todos, inclusive da classe proletária – viu-se obrigado a desenvolver seu próprio programa político, seu projeto de sociabilidade. Foi no decorrer deste enfrentamento com as classes proprietárias que ele se deu conta desta necessidade e ascendeu a um patamar político mais evoluído que o estágio anterior. Ao mesmo tempo, a ação à frente da correlação de forças da época levou ao assassinato e deportação demilhares de operários, retirando a capacidade desta classe de protagonizar a luta política no período subsequente. Após a vitória de junho, a grande burguesia redirecionou as verbas do Estado aos seus empreendimentos, ao passo que a pequena burguesia entrou em fase de pauperização. Estes pequenos proprietários não tinham dinheiro para o aluguel do empreendimento, para pagar aos fornecedores, e a crise foi se avolumando como uma bola de neve... E então a pequena burguesia voltou a aproximar-se do proletariado. Marx deduziria, então, que à medida que ficava mais nítido o controle da grande burguesia sobre a Assembleia Nacional Constituinte, mais ruía sua influência fora da Assembleia. A nova Constituição, ao fim e a cabo, apenas formalizou a República e a vitória momentânea da velha sobre a nova sociedade. Nas palavras de Marx, ao instituir o sufrágio universal, a burguesia dotou de poder político as classes que à escravidão social visava eternizar! Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 74 Como consequência, na eleição de 10 de dezembro, o representante da grande burguesia teve um milhão de votos, frente a seis milhões de Luís Napoleão, o sobrinho de Napoleão Bonaparte. Este a ninguém representava, mas contou com o voto de um campesinato altamente descontente com o governo burguês que lhe impôs uma tributação abusiva. Para nós, é impossível retratar e analisar aqui o rico momento político que se estenderia até dezembro de 1852, momento em que Luís Napoleão se atribui o título de Imperador da França e acaba com a Segunda República francesa. Regulamentações da Constituição, trocas no ministério de governo, eleições; uma infinidade complexa de ações políticas se desenvolveu, a partir de interesses materiais concretos – econômicos, vale dizer –, e com fins de alteração da correlação de forças no interior da sociedade francesa. A pauperização crescente, a adoção de medidas em prol da grande burguesia e contra os interesses da pequena burguesia e do campesinato levaram estas classes a reaproximar-se do proletariado. Em 28 de abril de 1850, a oposição vence as eleições parlamentares. A pequena burguesia crê que poderia avançar pelas vias puramente legais e sem o proletariado. Ao perceber que, de um lado, a manutenção do sufrágio levaria a uma derrota futura, bem como, de outro, que a pequena burguesia não esboçaria reação, o partido representante da alta burguesia – o Partido da Ordem, dos orleanistas e legitimistas – revoga o sufrágio universal e as “liberdades burguesas” – liberdade de organização, de comunicação, etc. Ocorre que, como alertamos anteriormente, quanto maior o domínio exercido no parlamento por esta burguesia, menor era seu domínio na sociedade civil, ou, nas palavras de Marx: “Na sua luta contra o povo, o Partido da Ordem é forçado a aumentar de forma contínua o poder do Executivo. Todo aumento de poder do Executivo constitui um aumento de poder do seu detentor, Bonaparte” (MARX, 2011b, p. 157). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 75 Neste cenário de instabilidade, em que a pequena burguesia havia rifado o proletariado e em que os grandes grupos burgueses lutam incessantemente contra as demais classes, mas também entre si, o processo de acumulação de capital se vê abalado ou, ao menos, sob riscos concretos. É neste contexto que uma possível revolução social leva a um golpe de Estado restaurador: Em suma, a solução constitucional põe em xeque todo o status quo político, e, por trás da ameaça ao status quo, o cidadão vislumbra o caos, a anarquia, a guerra civil [...] A única solução possível nos termos da burguesia é o adiamento da solução. Ela só será capaz de salvar a república constitucional por meio da violação da Constituição, por meio da prorrogação do mandato do presidente [...] Por isso mesmo, a maioria do Partido da Ordem será obrigada a prolongar o mandato do presidente [...] Desse modo, a solução é adiada, o status quo continua a ser preservado, as facções do Partido da Ordem se comprometem, enfraquecem e inviabilizam mutuamente (MARX, 2011b, p. 161). Marx não foge, portanto, a seu método: as relações jurídicas e as formas de Estado são compreendidas a partir das condições materiais de vida da sociedade civil, conforme ele apontaria no Prefácio à Crítica da Economia Política, e da luta de classes em seu interior. Assim, concluiria em O 18 de Brumário que a repressão contra o inimigo comum, a massa da nação, as classes trabalhadoras em geral, seria ampliada e esgotada até que “as próprias relações Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 76 econômicas novamente atinjam o ponto do seu desenvolvimento, em que uma nova explosão mande pelos ares todos esses partidos rixentos com sua república constitucional” (MARX, 2011b, p. 161). E, realmente, o medíocre Luís Bonaparte, perante essa conjuntura, ficaria à frente do Império Francês até 1869, quando o país seria derrotado pela Prússia. Seria a crise atinente a esta conjuntura que possibilitaria que, em 1871, o operariado tomasse de assalto o céu e instituísse o primeiro governo operário da história, a Comuna de Paris, com duração de ao redor de 70 dias. Nele, o proletariado desenvolveu sua própria forma política: extinguiu o Exército e o Estado burguês, armou a população parisiense, criou mecanismos assembleístas e mandatos rotativos de representantes, os quais estavam vinculados às decisões coletivamente deliberadas. Por outro lado, em Guerra Civil na França, Marx apontaria que a classe operária parisiense cometera um erro fatal: ao não tomar para si o Banco Central da França, o operariado perdeu o controle da economia. Além disto, não se preparou para a possível aliança militar entre o Exército francês derrotado e as forças armadas prussianas. Dessa maneira, a experiência popular foi derrubada pelas classes proprietárias francesas – apoiadas pelo exército prussiano – a partir do genocídio de trinta mil parisienses, protagonistas da Comuna de Paris. Mas, ali, pela primeira vez, os que vivem de sua força de trabalho ousaram criar seus próprios programas e formas políticas de sociabilidade. Concluindo... Vimos ao longo deste capítulo que Marx foi quem primeiro atribuiu à luta de classes o movimento da história. Se Hegel o entendia a partir das ideias, do espírito, Marx “vira” Hegel de “cabeça para cima” e coloca as condições concretas sobre as quais as pessoas vivem na centralidade que lhe é devida, como já vimos no primeiro capítulo. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 77 Marx levanta, então, leis, tendências, às quais se opõem contra- tendências, que conformam a sociedade capitalista. Para a sua superação, só há uma saída: a luta política, na qual as classes trabalhadoras devem conformar um programa político próprio, que supere, em longo prazo, a compra e venda da força de trabalho e institua uma nova ordem de sociabilidade fundada na emancipação humana. Marx dizia que a transição ao socialismo seria um lento processo; imaginem a emancipação humana! Mas esta luta política não é feita em condições ideais. Ela se dá em condições concretas, em geral desfavoráveis aos trabalhadores e trabalhadoras e, apenas em seu curso, no processo de luta, na história, a classe desenvolve sua capacidade de compreender a conjuntura e tecer seu próprio caminho. Por outro lado, esta luta não se dá afastada das condições concretas de reprodução social de cada classe. Ao contrário, há uma relação dialética em que mudanças nas condições de vida implicam mudanças na percepção do mundo. Consequentemente, alianças de classes, conformação de blocos de classes, tudo isto está atrelado às condições concretas materiais. As formas políticas e jurídicas, por outro lado, respondem a essas condições. Umgolpe de Estado, por exemplo, não é nem nunca será um evento meramente político. A crise pode ser um momento que anuncia uma restauração conservadora, uma saída aventureira como a de um Luis Bonaparte, mas também pode ser um momento de novas esperanças transformadoras, de novas tentativas da humanidade de construir seu porvir histórico e sua emancipação. Referências ENGELS, Friedrich. Prefácio. In: MARX, Karl. As lutas de classes na França de 1848 a 1850. São Paulo: Boitempo, 2012. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 78 ENGELS, Friedrich. Prefácio. In: MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lutas de Classes na Rússia. São Paulo: Boitempo, 2013. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. v. I. HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções, 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2011. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013a. MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013b. MARX, Karl. As lutas de classes na França de 1848 a 1850. São Paulo: Boitempo, 2012. MARX, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo: Boitempo, 2011a. MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011b. MARX, Karl. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010. MARX, Karl. Para a questão judaica. São Paulo: Expressão Popular, 2009. MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008. PAULO NETTO, José. Prefácio. In: Marx, Karl. Para a questão judaica. São Paulo: Expressão Popular, 2009. CAPÍTULO 3: O TRABALHO EM MARX Após conhecer um pouco mais da vida e obra de Marx nos capítulos anteriores, bem como a importância da luta política, acreditamos que você já deve ter folheado, em maior ou menor proporção, algum de seus trabalhos. O esforço intelectual empreendido por Marx e Engels, consubstanciado no conjunto de suas obras, ajuda-nos a compreender a realidade na qual vivemos, seja na questão do método de análise por eles utilizado, seja nas categorias apresentadas ao longo dos textos. Neste capítulo, vamos enveredar por uma das categorias de maior relevância na análise Marxista: o Trabalho. Certamente você já ouviu que “o trabalho dignifica o homem”, ou ainda o ditado popular que nos diz que “Deus ajuda a quem cedo madruga”, deixando o trabalho como um motivo subentendido para esse acordar cedo e pré-requisito necessário para a ajuda da divindade. Outra referência sobre o trabalho pode ser encontrada no livro do Gênesis, o qual contém a narrativa da origem do mundo na cosmovisão judaico-cristã. Em seu terceiro capítulo, após o homem e a mulher comerem do fruto da árvore proibida, a divindade se dirige aos dois e em razão do “grave delito” os pune. Você consegue imaginar qual a pena aplicada a eles? Então, observe o trecho que segue: 17. E disse em seguida ao homem: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. 18.Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 80 19.Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar. Como visto, na tradição judaico-cristã a divindade os condenou – e a todo o resto da humanidade – a viver do próprio trabalho, penoso e perene. Observando o texto de “cabeça para cima”, a considerar a existência da propriedade privada, da separação da humanidade em classes, da teocracia vigente e da objetificação da mulher, o que encontramos é um recurso narrativo engenhoso, empenhado na atribuição dos dissabores do trabalho da classe dominada a um desígnio divino, provocado por culpa do próprio ser humano e em especial da mulher. Essa concepção do Trabalho como elemento de punição e sofrimento está plenamente ajustada àquela fomentada pelas classes dominantes em cada período da história, restando coroada com a própria forja do vocábulo. Perceba que, não obstante o sentido do que hoje conhecemos como trabalho já estar presente no cotidiano dos seres humanos desde longa data, a palavra possui origem um pouco mais recente na história da humanidade. Sobre a questão, Ivan Illich (1976, p. 45) afirma que: No fim da Idade Média, o antigo sonho do alquimista de fabricar um homúnculo em laboratório tomou pouco a pouco a forma da criação de robots para trabalharem em vez do homem e da educação do homem para trabalhar ao seu lado. Esta nova atitude perante a atividade produtiva reflete-se na introdução de uma nova palavra. Tripaliare significava “torturar sobre o trepalium”, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 81 mencionado no século VI como uma armação construída por três troncos, suplício que substituiu o da cruz no mundo cristão. No século XII, a palavra trabalho significava uma experiência dolorosa. Foi preciso esperar até o século XVI para se poder utilizar a palavra trabalho em vez de obra ou de labor. À obra (poiesis) do homem artista e livre, ao labor (poneros) do homem pressionado por outro ou pela natureza, acrescentou-se então o trabalho ao ritmo da máquina. Seguidamente, a palavra trabalhador deslocou o seu sentido para agricultor e operário. No fim do século XIX, os três últimos termos mal se distinguiam entre si. As referências ao Trabalho, portanto, aparecem em textos tão antigos que em um olhar aligeirado poderíamos muito bem deduzir que sua origem decorre da origem do ser humano. Contudo, cientes do processo evolutivo percorrido até o aparecimento de nossa espécie e do conjunto dos vestígios deixados pelos hominídeos que nos precederam, podemos dizer que, na realidade, o Trabalho é o próprio salto qualitativo que a nós nos apartou da condição puramente animal anterior, humanizando-nos. Mas como aconteceu isso? A resposta segura é: muitíssimo lentamente, ao longo de centenas de milhares de anos de evolução e em fatos aparentemente desconexos, tais como a descida das árvores de um antepassado distante, a adoção de uma posição ereta ao caminhar e a liberação das mãos para realização de atividades mais finas. Em uma relação dialética, ao mesmo tempo em que o conjunto dessas características permitiram os rudimentos do trabalho, a prática Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 82 do trabalho refinou o corpo humano para a realização de novas funções. Na concepção de Engels (2004, p. 13-14): a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini. Como visto, o debate está para além de um dilema de causalidade, tal como a investigação da precedência do ovo ou da galinha. O processo evolutivo humano se constituiu dialeticamente, do tensionamento entre seus caracteres naturais e sociais, entre uma base biológica e uma base natural, em que aquele primeiro elemento é o seu próprio corpo e o último é constituído a partir do Trabalho e suas implicações. Diante dessas considerações, podemos nos lançar rumo ao entendimento da questão geradora deste capítulo: o que é o Trabalho? Este éo tema que abordaremos em seguida. Para compreendermos o significado do trabalho convido você a lançar um olhar para o passado. Conforme já apontamos anteriormente, foram milhares de anos até que os primeiros Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 83 hominídeos fossem se humanizando, apartando-se de sua condição estrita de natureza. Imagine que um desses primeiros humanos, em algum momento impossível de precisar, deparou-se com a necessidade de caçar para prover sua sobrevivência. Ciente da necessidade e atento para os elementos que dispunha à sua volta, transformou alguns pedaços de madeira em uma rudimentar e pontiaguda lança. Certo dia, ao sair para caçar um encorpado javali, suponhamos dois possíveis cenários: - Cenário 01: no momento de utilização daquele instrumento, ao realizar sua investida com a lança, aquele sujeito contemplou, bastante preocupado, a sua quebra, e voltando seu pensamento sobre o fato, aprendeu que talvez aquele tipo de madeira não fosse o mais indicado para aquela finalidade. - Cenário 02: ao desferir o golpe de lança contra o animal, conseguiu exitosamente transpassá-lo, garantindo sua alimentação por dado período. Procedendo com a análise desse fato, independentemente do seu desfecho, alguns elementos se destacam. Algo que pode ser percebido é que a sobrevivência daquele sujeito não estava dada, não era garantida. Havia a necessidade de que ele se produzisse materialmente, neste caso por meio da caça, para que não perecesse diante das adversidades da natureza. Contudo, seu processo de produção material não ocorreu de modo mecânico, isto é, não foi causalidade espontânea imediata à sua necessidade. De outro modo, ciente de sua necessidade, aquele ser humano traçou um objetivo, uma finalidade, organizando mentalmente os caminhos para chegar lá, estabelecendo de maneira ideada o seu fazer. Esse movimento de antever mentalmente uma dada finalidade e traçar os caminhos à sua concretização é denominado de ato teleológico. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 84 Ciente de sua finalidade última, caçar para alimentar-se, o ser humano em questão estabelece mentalmente a necessidade de um objeto pontiagudo e forte o suficiente para abater a caça. Observando os elementos naturais de seu entorno, ocorre-lhe aquilo que podemos expressar como uma lança. Estabelecidos teleologicamente tanto a finalidade quanto seus caminhos, têm início o processo de concretização. O ser humano recolhe, portanto, a madeira e passa a modificá-la de modo a torná-la adequada àquilo que anteriormente construiu mentalmente. A esta relação com os elementos da natureza em que o ser humano, dotado de uma intencionalidade, modifica-a ao mesmo tempo em que é por ela modificado, denomina-se Trabalho. Esse processo de modificação pode inclusive ser visível apenas no campo qualitativo, na transformação em valor de uso daquilo que antes não era além de um objeto da natureza, sem correspondência na alteração dos atributos originários deste objeto. Um exemplo elucidativo é a utilização de um dado cipó, disponível livremente na natureza, com a finalidade de atar determinado objeto. Destituindo-nos de qualquer pensamento egocêntrico, não é difícil compreender que objetivamente o cipó não existe para nenhum tipo de satisfação das vontades ou necessidades humanas. Ele existe independentemente de nossa existência, inclusive. É, portanto, um objeto da natureza. Contudo, a partir do momento em que o ser humano o toma e dá a ele determinada função ou uso, o cipó, mesmo sem nenhuma alteração de seus atributos materiais, é deslocado pelo ser humano à condição de um valor de uso. No caso de nossa lança, o ser humano toma a madeira, objeto da natureza, e, afiando-a, torna-a lança, um valor de uso. Vale notar que os demais seres da natureza, num processo de causalidade direta, carregam instintivamente as informações necessárias para sua sobrevivência. Sabem, instintivamente qual tipo de alimento preferem como espécie e, sentindo fome, buscam-no. Já o Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 85 ser humano não nasce sabendo ser humano, precisa aprender a se produzir materialmente, e o faz utilizando-se de sua capacidade teleológica e mediante o Trabalho, ou seja, rompe a condição de simples adaptação à natureza e passa a adaptar a natureza a si (SAVIANI, 2007). Se é o Trabalho uma relação dialética na qual o ser humano transforma a natureza e ao fazê-lo é por ela transformado, resta-nos, para dar conta de compreender a categoria Trabalho, conhecer como a transformação da natureza a nós nos transforma, tema que abordaremos a seguir. Ao tomarmos em conta os resultados possíveis da empreitada de nosso ser humano na confecção e uso de uma lança para caçar javalis, foi possível observar que no cenário 01, caso aquela pessoa sobreviva ao ataque frustrado ao animal, terá aprendido por um duro caminho que talvez aquele tipo de madeira não seja o mais adequado para a produção de lanças; ou que a área atingida da anatomia do javali é mais robusta do que o seu instrumento de ataque; ou, ainda, que uma boa solução seria acoplar um pedaço de pedra ou metal afiado na ponta da lança; ou um sem número de outras constatações. Do fracasso da experiência, o ser humano não validaria os procedimentos realizados, incorporando na cultura a necessidade de outro caminho para materializar o seu pôr teleológico. Da situação descrita no cenário 02 também são possíveis diferentes constatações, inclusive aquela que remete ao ser humano ter feito tudo certo, o que culminou no êxito da caçada, consignando aquela experiência como validada e habilitando sua consolidação na cultura, de modo a atestar sua repetição e desdobrar-se em incalculáveis ações humanas. Por exemplo, esse ato de fazer a lança e partir para caçar o javali pode muito bem, ao longo da história, transformar-se em uma tradição com caracteres simbólicos e religiosos, assim como pode não passar do simples e originário ato da caça para suprir necessidades alimentares. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 86 Independentemente de para qual cenário a realidade concreta caminhe, e o mais provável é que caminhe para os dois, o que há é a garantia da aprendizagem por esse ser humano do conjunto de erros e acertos, atos e resultados de sua ação. Essa aprendizagem que decorre diretamente do fazer não é, senão, movimento de transformação do ser humano em razão de sua vivência do Trabalho e com a natureza. Sobre essa questão, Saviani (2007, p. 154) aponta que: Se a existência humana não é garantida pela natureza, não é uma dádiva natural, mas tem de ser produzida pelos próprios homens, sendo, pois, um produto do trabalho, isso significa que o homem não nasce homem. Ele forma-se homem. Ele não nasce sabendo produzir-se como homem. Ele necessita aprender a ser homem, precisa aprender a produzir sua própria existência. Portanto, a produção do homem é, ao mesmo tempo, a formação do homem, isto é, um processo educativo. O trabalho configura-se então como atividade criadora concreta do ser humano, salto qualitativo que a nós nos aparta de nossa condição natural, animalesca. Por seu intermédio, no movimento de produção das coisas do mundo e nas relações que estabelecemos nesse processo, geramos cultura e nos humanizamos. Certamente, você já ouviu falar em histórias de crianças que por algum motivo acabaram sendo criadas por outra espécie animal e em maior ou menor grau passaram a viver e agir não como humanos, mas como a espécie que as adotou. Em razão do distanciamento de nossa espécie de seu estado de natureza, o processo de desenvolvimento do ser humano passou a vincular-se a fontes que Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemosde Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 87 transcendem este estado. Nesse sentido, os processos de desenvolvimento humano passaram a vincular-se dialeticamente com as relações que estabelecemos com o entorno, mediatizados pelo trabalho, cultura e linguagem. Possivelmente, você já ouviu falar que o ser humano é um ser social. Assim, o que aconteceu com as referidas crianças é que a sociedade ao seu entorno correspondia a própria natureza, de tal modo que mesmo com todas as capacidades humanas presentes naqueles sujeitos em desenvolvimento, a ausência da vivência dialética com outros seres humanos não lhes permitiu a humanização. Observe: um boi, um coelho ou um gato não necessitam de processos educativos ou o contato com outros de sua espécie para agirem e viverem como o boi, coelho e gato que são. Tampouco a abelha demanda que algum de seus pares a ensine a construir sua colmeia, produzir o seu mel e polinizar as flores do entorno. Estes seres, evolutivamente ainda conectados à sua condição natural, trazem naquilo que usualmente se convém chamar de instinto o arcabouço sobre o qual experienciam suas vidas. Para Marx (2013, p. 327), [...] o que desde o início distingue o pior arquiteto da melhor abelha é o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de construí-la com a cera. No final do processo de trabalho, chega-se a um resultado que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente. Essa representação prévia é viabilizada exclusivamente em razão das vivências daquele ser humano. Ao contrário das concepções idealistas platônicas que apontavam para um mundo das ideias, Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 88 estranho à nossa própria matéria, enquanto origem das coisas do mundo, o que se observa é que as ideias têm nos seres humanos sua base material, urdidas a partir das vivências concretas, dadas em um lapso temporal delimitado, correspondente em cada um à duração de sua vida. Em razão do Trabalho e da Cultura, contudo, é possível para os seres humanos expandir, rumo ao passado, os elementos que compõem seu arcabouço de conhecimentos, na apropriação das experiências daqueles que nos precederam, tal e qual estamos fazendo agora. Acontece que o passado, como você há de convir, já passou, e o fez independentemente de nossa vontade ou expectativa. O arquiteto idealiza em sua mente a colmeia, posto que de algum modo já se relacionou no passado com aquilo que conhecemos como colmeia. Da mesma forma, as crianças que apenas estabeleceram experiências com animais dispõem desses elementos para se constituírem materialmente no mundo. Marx e Engels, em A Ideologia Alemã (2007, p. 87), apontam que “o modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da própria constituição dos meios de vida já encontrados e que eles têm de reproduzir“; assim como Marx em O 18 Brumário de Luís Bonaparte (2011, p. 25), afirma que: Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 89 Até aqui você viu que o homem e a mulher, tais e quais os conhecemos, não são naturalmente dados, mas que, de outro modo, aprendem a sê-los, humanizando-se. Viu ainda que a humanização é construída a partir do salto qualitativo e evolutivo constituído pelo trabalho e do processo social de geração de cultura que do trabalho decorre. Compreendeu que se acaso um ser humano não experiencie a cultura e sociedade humana em seu processo de desenvolvimento, não obstante possuir em si todas as capacidades e faculdades humanas, não se humanizará. E finalmente observou que o movimento de humanização do homem e da mulher, mesmo dado na história e por meio de seu trabalho, não ocorre exatamente da maneira que eles querem. De outra forma, ocorre a partir das condições materiais dadas em cada tempo. Seria então possível dizer que a própria concepção de Trabalho se modificou ao longo do tempo? Sobre esse tema discorreremos a seguir. Abordamos um dado período histórico em que o Trabalho e os processos formativos guardavam identidade entre si. O trabalho educava e humanizava no cotidiano do aprender a fazer, fazendo, e nas relações com os outros homens e mulheres, gerando cultura. A produção da vida era dada coletivamente no processo do trabalho e a apropriação dos seus frutos era dada socialmente, garantindo a sobrevida dos agrupamentos humanos. Contudo, a invenção da propriedade privada reorganiza todo esse processo. Não é raro pensarmos sua criação como um movimento pacífico, quiçá até curso natural da história. O fato é que, bastante diferente disso, a história da propriedade privada é marcada até os dias de hoje pelo conflito violento. Tomemos novamente o nosso amigo caçador de javalis. A forma rudimentar com que se dava a produção, ainda bastante submetida às condições da natureza, não permitia que o nosso Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 90 personagem guardasse para si apenas a função de caçador. Certamente ele acumulava, por exemplo, as funções de coleta e a de guerreiro. Imagine então que, em certo dia, uma tribo nômade descobriu a localização da pequena comunidade do jovem caçador: um local organizado, com uma fonte de água em local próximo. Imaginemos ainda que, em razão de sua superioridade numérica, a referida tribo nômade decidiu tomar para si aquele local. O que vem em seguida é a guerra pelos meios de produção da vida daquele tempo. Aos vitoriosos: a propriedade; aos derrotados restaria a morte ou escravidão. Diferente da escravidão engendrada no Brasil, já sob o marco de um capitalismo mercantil no qual pessoas escravizadas eram um negócio hediondamente rentável, a escravidão da antiguidade tinha outra configuração. Em vez de liquidar fisicamente os vencidos da guerra, aqueles que tomavam para si os meios de produção da vida e sagravam-se vencedores da batalha poderiam relegar aqueles outros ao trabalho forçado. Um conjunto de elementos surge com essa movimentação da história: é criada a propriedade privada, os perdedores da guerra são escravizados, o trabalho torna-se atribuição destes escravos e, por último, mas não menos importante, são instituídos os rudimentos da divisão humana em classes. A divisão histórica da humanidade entre aqueles que possuem os meios de produção de vida e aqueles que não os possuem instaura a sociedade de classes, ainda não superada no modo produtivo hegemônico vigente. Um bom exemplo para a nossa compreensão é a Grécia da antiguidade, em condição significativamente mais avançada que a conjuntura em que vivia aquele caçador de javalis. De um lado, para os nascidos na própria Grécia, homens e saudáveis, havia todo o tempo livre para o corpo e o pensamento, tempo indispensável para a construção de ideias refinadas como a Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 91 democracia grega, a filosofia ou a sistematização de processos educativos, de modo que o vocábulo Escola deriva da palavra grega referente ao ócio. Para a outra classe restava o trabalho. Dos serviços domésticos aos trabalhos braçais dos campos, o modo produtivo se baseava na atividade dos escravos. Não é à toa que esse modo produtivo da antiguidade é denominado de escravismo. Dependente da força de trabalho escrava derivada essencialmente dos vencidos em batalha, o Império Romano padeceu de sua própria grandeza. Era tão grande que, aparentemente, não havia maisquem conquistar e ao mesmo tempo estava grávido de toda uma diversidade de povos, não necessariamente satisfeitos com aquela condição. Quando, em 476 d.C., Odoacro conquistou Roma, ele selou o fim do período histórico anterior com o seu modo de produção. A configuração da época reorganizou as relações produtivas de modo que os antigos senhores passaram a organizar mecanismos de arrendamento de suas terras, também chamadas de feudos. A Idade Média, ao longo de seus dez séculos, organizou-se produtivamente de maneira diversa ao modelo anterior, com dispersão dos centros urbanos rumo aos campos e substituindo a figura do escravo pelo servo. Mudaram-se os nomes sem, contudo, alterar em absolutamente nada a distância entre aqueles que produzem e aqueles que se deleitam com os frutos dessa produção. Se antes os escravos pertenciam a esse ou aquele senhor, no novo modelo produtivo o servo e seus descendentes vinculavam-se obrigatoriamente a essa ou aquela terra, o que, se compararmos com o hoje, trazia alguma segurança à subsistência daquele trabalhador, demandando, em contrapartida, um alto grau de sujeição do servo ao dono da terra. Não obstante a centralidade da produção agrícola no modelo feudal, ao passar do tempo, os burgos, embrionários centros urbanos, passaram a contar com trabalhadores e trabalhadoras de outra ordem, Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 92 diversa aos servos, mas que como classe partilhavam da mesma condição. Esse fenômeno foi possível uma vez que “as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido encubadas no próprio seio da velha sociedade” (MARX, 2008a, p. 48). Nesses burgos, as chamadas corporações de ofício apresentavam outra via da organização social do trabalho e da educação para a classe trabalhadora, sem nenhuma espécie de alteração estrutural. Perceba que, se lá na Antiguidade os processos educativos sistematizados eram privilégio de uma das classes, isso não implicou inexistência de processos educativos da outra classe. Estes, obviamente, continuaram existindo, contudo, substancialmente identificados com o “aprender a fazer, fazendo”, sem espaços e tempos privilegiados para o aprendizado além da exclusiva preparação para o trabalho. É nessa configuração que se encontram as corporações de ofício. Não obstante despontarem como possibilidades de espaços e tempos para processos educativos, sua função era centrada no trabalho e na formação para o trabalho, ou, nos próprios termos, para o ofício. A acumulação por parte dos arrendatários de terra, derivada da reforma agrícola do século XV, a Reforma Protestante, o arrefecimento do poderio da Igreja Católica, a influência dos ideais iluministas e, sobretudo, o poderio político e econômico conquistado pelos burgos e pela nova classe lá constituída foram o fogo e a pólvora necessários para irromper as chamadas revoluções burguesas, tal e qual a francesa, que, uma vez vitoriosas, permitiram a ascensão de uma nova classe à categoria de dominante. A instauração do paradigma urbano fabril, o deslocamento dos servos do campo para a cidade, a sua proletarização e o desenvolvimento das manufaturas e do maquinário para a produção em massa instauram o novo modelo produtivo, até agora vigente: o capitalismo. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 93 O Trabalho assalariado, a mais-valia, o desemprego e o estranhamento Como você pode perceber, em cada tempo se construiu uma combinação distinta do ser humano com o trabalho. Contudo, a instauração da sociedade de classes a partir da invenção da propriedade privada estabeleceu um marco na linha do tempo humana, particionando a história em antes e depois da propriedade privada. Se antes o trabalho e a apropriação dos seus frutos era coletivizada, com o desenvolvimento das técnicas e a geração de excedentes, associados ao advento da propriedade privada, o trabalho social passou a ser igualmente apropriado de maneira privada. Se antes os sujeitos indistintamente necessitavam trabalhar para prover a si e a sua família, com a instauração da sociedade de classes apartou-se a classe que trabalha da classe que apenas usufrui desse trabalho. Se antes encontrávamos o trabalho humano criador, focado na produção de valores de uso, a violência estatal organizou um novo trabalho, estranho ao próprio ser humano, estrito produtor de valores de troca. Se antes o processo de produção rudimentar se voltava para o consumo imediato, com o avanço das técnicas e modificação das relações de trabalho passou-se ao movimento de geração de um excedente de produção, possibilitando a troca. Se antes podíamos encontrar um comunismo primitivo, depois encontramos a escravidão, o servilismo e o trabalho assalariado como formas de manutenção e reprodução da sociedade de classes. No escravismo, a rusticidade tecnológica dos meios de produção de vida e o desgaste físico da força de trabalho demandavam uma permanente renovação dos ocupantes dos postos de trabalho. Filmes clássicos como Spartacus, em sua versão de 1960, nos ajudam a compreender essa questão, quando observamos a força motriz das galés ou o trabalho extenuante nas pedreiras. De modo muito semelhante se apresentou a configuração do trabalho no medievo. A Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 94 reduzida tecnologia da produção agrícola demandava o trabalho braçal de uma força de trabalho que estava vinculada à terra. No capitalismo as forças produtivas tomam novas dimensões. O advento da maquinaria desenvolveu os processos produtivos em razão do tempo e do quantitativo de produção. A nova classe que ascendeu e se instalou com as revoluções burguesas tinha no lucro e seus usos a sua forma de manter seu poder e hegemonia. Instaurou-se uma contradição essencial ao modelo produtivo emergente: de um lado, a imperativa necessidade de expandir seu lucro, necessariamente decorrente da circulação de suas mercadorias; do outro, a compreensão de que pessoas escravizadas e servos não se constituíam enquanto um mercado consumidor promissor, posto possuírem limitada possibilidade de aquisição das mercadorias. Os escravizados, por sua condição de destituídos de tudo, inclusive de si mesmos; e os servos, porque sua atividade produtiva não lhe gerava excedente que possibilitasse a constituição de expressivo movimento de troca. Era necessário inaugurar uma nova relação produtiva, ainda que com estreita similitude às anteriores. Agora, não obstante não serem mais propriedades de um senhor, nem se encontrarem na condição de servos, os trabalhadores e trabalhadoras, na forma proletários, livres e urbanizados, eram possuidores apenas de sua força de trabalho, consolidando uma necessária relação de dependência com a nova classe em situação de hegemonia, para a sua sobrevivência. Observe você: recordando as concepções iniciais de trabalho, anteriormente apresentadas, o trabalhador necessitando se produzir materialmente e sobreviver, estabelecia com a natureza uma relação metabólica por meio da qual transformava a natureza e se transformava, de forma que sobrevivia e se humanizava na obtenção dos frutos desse trabalho. Na dependência gerada para rodar a engrenagem do novo modelo produtivo, o ser humano, destituído de qualquer meio de produção da vida, e precisando sobreviver, necessita dos produtos Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 95 mercantilizados pelos detentores dos meios de produção. Para tanto, tem de trocá-los por alguma outra coisa, atualmente pelo equivalente universal de trocas: o dinheiro. Para conseguir dinheiro, necessita então vender sua força de trabalho aos próprios donos dos meios de produção, em troca de um salário, muitas vezesproduzindo o mesmo produto o qual comprará depois. Como visto, quando uma pequena parcela da humanidade concentra a totalidade dos meios de produção, passa a obrigar a imensa massa de despossuídos a produzir para eles e ao, mesmo tempo, comprar deles as mercadorias necessárias para sobreviver. O fruto do trabalho não pertence mais a quem o produz e nem à totalidade da sociedade, mas ao dono do meio de produção. Este, por sua vez, não paga ao trabalhador o valor da mercadoria produzida, mas sim uma quantia pelo dispêndio de sua força de trabalho. Despossuído de tudo – exceto de sua força de trabalho - o trabalhador só tem como opção trabalhar, sob as condições que o dono do meio de produção lhe impõe, para conseguir o dinheiro necessário para trocar por mercadorias para o seu sustento. No que diz respeito a essas condições, vale recordar que não é raro o resgate de trabalhadoras e trabalhadores em condição análoga à escravidão. Na conta do possuidor do meio de produção o trabalhador se coisifica, entra no processo produtivo como uma mercadoria que gera outras mercadorias. Contudo, o dono do meio de produção não compra o trabalhador, tampouco o escraviza ou o vincula perenemente ao meio de produção, como em modos produtivos anteriores. Tal e qual adquire matérias primas e máquinas, assim também o faz com aquilo que o trabalhador possui: compra a sua força de trabalho. Assim, o trabalhador é obrigado a vender ao detentor do meio de produção a sua força de trabalho por um valor X, sempre inferior ao valor gerado pelo total do seu trabalho, de modo que, ao final do processo, o próprio trabalhador gera toda a riqueza que o paga e ainda Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 96 a riqueza que, em proporções imensamente maiores, se converte em lucro do possuidor do meio de produção. A narrativa hegemônica insiste na liberdade do trabalhador de contratar com o dono do meio de produção, aceitar ou não o trabalho nas condições que esse último lhe apresenta, entretanto tal assertiva não passa de um engodo, uma afirmação vazia, de falsa liberdade, para esconder sua verdadeira natureza autoritária. Dois são os elementos que atestam o ardil capitalista: um diz respeito à sobrevivência do trabalhador e o outro está relacionado ao desemprego estrutural. O primeiro elemento está relacionado à condição do trabalhador de não possuidor dos meios de produção de sua subsistência, do que decorre, em geral, que escolher não vender sua força de trabalho implica optar pelo próprio perecimento físico e, em última instância, optar por sua própria morte. O segundo elemento diz respeito à facilidade com que o possuidor do meio de produção consegue repor a força de trabalho e utiliza isso para pressionar os trabalhadores a se sujeitarem a condições cada vez mais degradantes e precarizadas. Não é preciso ser nenhum economista para saber do temor de estar desempregado ou das dificuldades de conseguir um bom emprego. Tampouco é necessário ir muito além daquele grupo de whatsapp da família para se ouvir sobre a necessidade de agradecer aos céus e trabalhar sem reclamar, afinal, “se não quer tem quem queira”, e há um verdadeiro exército “lá fora” querendo o seu lugar. Certamente você já ouviu algumas dessas coisas. Acontece que, de fato, há essa espécie de exército, ao qual Marx (2013) denomina de exército industrial de reserva. Como apontamos ao longo desse texto, o modo produtivo emergente demandava trabalhadores desvinculados da terra, urbanizados, impossibilitados de prover sua própria existência autonomamente. Agora observe você: imagine que até o final do século XIX, para a produção de um dado produto X era necessário o esforço Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 97 conjunto de dez trabalhadores, por dez horas de trabalho – não é demais recordar que a jornada de 8 horas foi uma conquista da Revolução Soviética de 1917. Imagine então que com o avanço tecnológico, engendrou-se uma máquina que realiza as tarefas de oito desses dez trabalhadores, permitindo chegar ao produto pronto em apenas duas horas de trabalho, oito horas a menos que no processo anterior. A realidade mostra que o procedimento padrão tomado tem sido a exclusão dos trabalhadores excedentes, neste caso diminuindo os custos com a força de trabalho, neste caso, em 80%, ao mesmo tempo em que a jornada de trabalho restava mantida, elevando a produção nos mesmos 80% e com ela a Mais Valia. Vale lembrar que o avanço tecnológico também é fruto do conjunto do trabalho humano e, portanto, pertencente ao conjunto da humanidade e não somente a uns poucos. Percebam que se o possuidor do meio de produção de vida enxergasse nos trabalhadores algo além de uma mercadoria, o incremento do maquinário já expandiria sua produção e lucro em 80%, sem necessidade de fechamento de postos de trabalho. Acontece que esse movimento não deriva de uma razão moral, ou seja, não é uma questão de o patrão ser “bonzinho” ou “malvadão”; não é nada disso. A tendência crescente de extração de mais valia é inata ao modelo produtivo; é regra do jogo do capital: ou o capitalista segue esse caminho ou sucumbirá frente a quem o fizer. A grande massa de desempregados não é, portanto, efeito colateral do modelo desigual vigente. De outro modo, configura-se como um dos elementos centrais para a manutenção deste modelo. Sem o desemprego estrutural os trabalhadores poderiam gerar fraturas no processo de extração de mais valia, fomentando as condições necessárias para a superação do capitalismo. Não é à toa que Marx, em seus Manuscritos Econômico- Filosóficos (2008b, p. 80) afirma que Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 98 o trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tão mais barata, quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. Podemos compreender esse trecho a partir de duas perspectivas. A primeira, relativa à “desefetivação” do trabalhador em razão do desenvolvimento das forças produtivas, encaixa-se bem no exemplo trabalhado anteriormente, dos dez trabalhadores dentre os quais oito perderam seus postos de trabalho. O que se observa é que o aumento da produção com o incremento tecnológico desempregou 4/5 dos trabalhadores. Não é possível, contudo, deixar de perceber que o próprio maquinário é fruto do trabalho humano, materializado sob a forma de máquina, idealizado para reduzir o tempo, aumentar a produção e, por conseguinte, gerar mais riqueza para o detentor do meio de produção. Outra compreensão desse trecho, e que complementa tudo aquilo que acabamos de descrever, diz respeito à questão do estranhamento, também apontado como alienação. Recordemos agora do primeiro personagem deste nosso capítulo: o caçador de javalis. Não conhecedor da sociedade de classes, ele estabelecia com a natureza uma relação muito mais próxima, autêntica simbiose mediante a qual ele modificava a natureza e esta o modificava. Neste processo simbiótico, todos os dias o caçador de javalis gastava a sua própria vida, mediante o emprego de seu tempo, sua força e seu raciocínio. Não obstante, uma vez finalizado aquele trabalho, estava materializado fora do caçador, algo para além da Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 99 simples justaposição do dispêndio de sua vida com os objetos da natureza utilizados. Esse fruto do trabalho do caçador lhe pertencia. Na sociedade de classes, dentro do modo capitalista de produção de vida, o trabalhador experimenta outra relação com o seu trabalho. Conforme já vimos anteriormente, o trabalhador, destituído dos meios de produçãode sua própria vida, obrigatoriamente se sujeita a vender a sua força de trabalho para o detentor do meio de produção, sob as condições deste. Na fábrica, tal e qual o caçador fazia, o trabalhador gasta a sua vida, mediante o emprego do seu tempo, sua força e seu raciocínio, entretanto, a partir do momento que ele adentra pelos portões da indústria, isso tudo já não lhe pertence mais. Em razão de sua condição de não possuidor dos meios de produção, o trabalhador recebe pelo dispêndio de sua vida um salário, indispensável apenas para a reprodução da força de trabalho, ou, como aponta Althusser (1980, p. 18), indispensável para “poder apresentar-se amanhã – cada amanhã que Deus dá – ao portão da fábrica”. Como já apontamos anteriormente, o fruto do trabalho não lhe pertence mais e o salário, por vezes, servirá para comprar aquilo que ele mesmo produziu. Quanto mais trabalha e mais rico torna o dono do meio de produção, mais se desgasta e mais pobre fica. Se a essência do trabalho coincidia com a humanização do ser humano, as novas relações de produção agem no sentido contrário. Contabilizado como mercadoria que gera mercadorias – força de trabalho –, alienado do objeto no qual objetivou frações de sua própria vida, impossibilitado, não raramente, de acessar e usufruir daquilo que ele próprio gerou e finalmente forçado a desgastar toda a sua vida para, contraditoriamente, manter-se vivo, o ser humano se embrutece. Observe atentamente o que Marx (2008b, p. 82 e 83) discorre sobre o tema: Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 100 A economia nacional oculta o estranhamento na essência do trabalho porque não considera a relação imediata entre o trabalhador (o trabalho) e a produção. Sem dúvida. O trabalho produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Produz palácios, mas cavernas para o trabalhador. Produz beleza, mas deformação para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas lança uma parte dos trabalhadores de volta a um trabalho bárbaro e faz da outra parte máquinas. Produz espírito, mas produz imbecilidade, cretinismo para o trabalhador. [...] Primeiro, que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si [quando] fora do trabalho e fora de si [quando] no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa. O seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 101 meio para satisfazer necessidades fora dele. Sua estranheza evidencia-se aqui [de forma] tão pura que, tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como de uma peste. O trabalho externo, o trabalho no qual o homem se exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício, de mortificação. Finalmente, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se [o trabalho] não fosse seu próprio, mas de um outro, como se [o trabalho] não lhe pertencesse, como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro. [...] Chega-se, por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador) só se sente como [ser] livre e ativo em suas funções animais, comer, beber e procriar, [...] , e em suas funções humanas só [se sente] como animal. Neste capítulo nos debruçamos sobre a questão do trabalho, num esforço para trazer um panorama geral desde uma concepção histórica e ontológica, passando pelo seu desenrolar ao longo dos modos produtivos e apresentando alguns dos elementos que vivenciamos em nossa relação com o trabalho nos dias de hoje. A desigualdade, a desumanização e a morte do trabalhador em razão do luxo sem limites de uma ínfima parcela do conjunto dos seres humanos demonstram nossa condição civilizatória ainda na pré- história da humanidade (MARX, 2008a). A simples existência daquilo que Gramsci denominou de “mamíferos de luxo” (2001, p. 270), contraposta a uma massa desprovida de recursos para sua própria Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 102 existência é algo que nos enche de justa raiva (FREIRE, 1996) e reafirma nosso papel naquilo que Marx e Engels (2007, p. 539) apontaram na Tese 11: “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo”. Fica o convite. Referências ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980. ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. In: ANTUNES, Ricardo (org.). A Dialética do Trabalho. São Paulo: Expressão popular, 2004. p. 11-28. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v. 4. ILLICH, Ivan. A convivencialidade. Lisboa, Europa-America, 1976. MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1. São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008a. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2008b. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845- 1846). São Paulo: Boitempo, 2007. Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 103 SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 34, jan./abr. 2007. CAPÍTULO 4: REFORMAS NEOLIBERAIS E LUTAS DE CLASSES NO SÉCULO XXI Em primeiro plano, é importante categorizar o neoliberalismo como formação histórica das formas de expropriação capitalista, conforme propõe Mascaro (2013). Assim, deixa-se de analisar suas mais recentes expressões com as lupas do período fordista, conformando uma perspectiva que abre margens para uma luta política que se volta não para a superação do capitalismo, mas para o retorno aos tempos idílicos do capital produtivo, mantendo-se, portanto, dentro de quadrantes reformistas. Ainda no Manifesto, Marx e Engels apontaram a sensacional capacidade de transformação do modo de produção capitalista. “Em apenas um século de sua dominação de classe, a burguesia criou forças de produção mais imponentes e mais colossais que todas as gerações precedentes reunidas” (2001, pp. 31-32). Em Anti-Dühring (2015), Engels reafirma a derivação das formas políticas e institucionais das relações produtivas: Em primeiro lugar, todo poder político está baseado originalmente numa função social, econômica e se intensifica à media que, pela dissolução dos sistemas comunitários originais, os membros da sociedade são convertidos em produtores privados, ou seja, tornam-se ainda mais estranhos aos administradores das funções sociais comuns. (p. 211) Deve-se compreender, portanto, as reformas ou mudanças no âmbito legislativo e político como expressão das novas formas de expressão da exploração capitalista, onde a dinâmica da exploração é Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 106 impulsionada pelo avanço do capital sobre o trabalho. Ou, como expõe Mascaro: As instituições jurídicas, assim, não derivam de um mero conjuntode decisões ou voluntarismos políticos nem de razões de justiça ou metafísica. O direito se assenta numa materialidade de sujeitos que transacionam (2018, p.109). Nessa perspectiva, é fundamental compreender o neoliberalismo não como um fenômeno à parte das relações produtivas, mas como uma formação histórica do capitalismo em que suas formas de acumulação e exploração são arrojadas sem se despojarem, contudo, dos pressupostos fundamentais da dinâmica do capital. “O neoliberalismo contraiu rendimentos da população, afetou a capacidade de consumo, aumentou a superprodução de mercadorias e agravou várias modalidades de hiperacumulação do capital”, observa Katz (2016, p.81). Enfrentá-lo como abstração pós-fordista significa, no fim das contas, um louvor às formas do capital, uma metafísica a- histórica que teria sido desaprumada pelos efeitos descritos por Katz. Depois de conhecer a vida e o desenvolvimento do pensamento de Marx, bem como a importância da luta política para a emancipação humana, debatendo sobre a categoria trabalho como fundamental, convém tratar da organização do capitalismo em sua etapa atual, colocando em relevo o avanço contra os direitos da classe trabalhadora. Neoliberalismo: invisível, mas nem tanto O neoliberalismo, representado por características como a hegemonia do capital financeiro frente ao capital produtivo, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 107 desregulamentações, privatizações e flexibilização das condições de trabalho, expressões mais recentes das clássicas superstições da mão invisível complementadas com propostas de darwinismo social, nasceu do esgotamento do modelo keynesiano após a Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1980, o neoliberalismo foi definido como uma ofensiva do capital sobre o trabalho para recompor a taxa de lucro, adotando novos meios de expropriação a exemplo do mecanismo da dívida pública. A consolidação do neoliberalismo converge com a crescente internacionalização da economia. Com ele, as avaliações dos processos produtivos foram afastadas de seus fundamentos sociais e o ensino da economia ficou reduzido a uma indagação de relações funcionais entre variáveis inexplicadas. Saem, assim, os políticos coloridos e entram os especialistas cinzas, reflete Zizek (2012), responsáveis pelo aprofundamento de uma tendência que vai na direção de um estado emergencial permanente e de suspensão efetiva da democracia política. Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, George Monbiot (2016) escreve que o neoliberalismo se tornou tão penetrante que raramente o reconhecemos sequer como ideologia. A análise de Monbiot estaria completa se trocasse “neoliberalismo” por “capitalismo”, considerando que, antes daquele, as formas e formações de cada tempo – em particular as burguesas - se pretendem a-históricas, universais e plenamente acabadas, algo identificado por Marx e Engels ainda em A Ideologia Alemã e A Sagrada Família. István Meszáros é bastante didático nesse ponto: Como sabemos muito bem pela lamentável história da estratégia reformista, que já tem mais de cem anos, desde Edward Bernstein e seus colaboradores – que outrora prometeram a transformação gradual da Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 108 ordem capitalista numa ordem qualitativamente diferente, socialista -, o capital é irreformável porque, pela sua própria natureza, como totalidade reguladora sistêmica, é totalmente incorrigível. Ou bem tem êxito em impor aos membros da sociedade, incluindo-se as personificações “carinhosas” do capital, os imperativos estruturais do seu sistema como um todo, ou perde a sua viabilidade como regulador historicamente dominante do modo bem-estabelecido de reprodução metabólica universal e social. Consequentemente, em seus parâmetros estruturais fundamentais, o capital deve permanecer sempre incontestável, mesmo que todos os tipos de corretivo estritamente marginais sejam não só compatíveis com seus preceitos, mas também benéficos, e realmente necessários a ele no interesse da sobrevivência continuada (2008, p.27). Com um enfoque na educação, expressão do que Althusser (2006) denomina Aparelhos Ideológicos de Estados, Meszáros reflete linhas antes como seria absurdo esperar uma “formulação de um ideal educacional, do ponto de vista da ordem feudal em vigor, que considerasse a hipótese da dominação dos servos, como classe, sobre os senhores da bem-estabelecida classe dominante” (Idem, p.26). Da mesma forma, há a dificuldade de imaginar o desaparecimento do capitalismo e de qualquer forma de opressão e exploração de uns seres humanos sobre outros. Mesmo em ficções distópicas, o modo de produção capitalista segue vivo (Pomar, 2016). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 109 Parecemos, assim, aceitar fatalmente a proposição de que essa fé utópica e milenar corresponde a uma força neutra, nascida da tecnocracia cinzenta de seus apologistas aparentemente apolíticos; uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. Contudo, essa filosofia surgiu como a tentativa consciente de remodelar a vida humana e desequilibrar as forças políticas em favor daqueles que concentram poder econômico. Escreve Althusser: Para colocar em termos mais científicos, eu diria que a reprodução da força de trabalho requer não apenas uma reprodução de sua qualificação, mas também, ao mesmo tempo, uma reprodução de sua submissão às regras da ordem estabelecida, isto é, uma reprodução de sua submissão à ideologia vigente, para os trabalhadores, e uma reprodução da capacidade de manipular corretamente a ideologia dominante, para os agentes da exploração e da repressão, a fim de que também eles assegurem “com palavras” a dominação da classe dominante. (2006, p.108). Dada a decadência do fordismo, o período pós-fordista, também chamado de neoliberal, corresponde a uma nova matriz produtiva do modo de produção capitalista. Enfrentá-lo sem que a superação do capitalismo esteja no horizonte é acreditar que há um “capitalismo bom” que pode vir a substituir o “capitalismo ruim”. Com efeito, deve-se ter cuidado para não cair no debate insuficiente que resume à questão na maior ou menor intervenção do Estado na economia, naturalizando, assim, a exploração capitalista. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 110 Nesse sentido, Camilo Onoda Caldas (2019, p.83) ensina que é um equívoco imaginar que o Estado (neo)liberal não regula ou intervém na economia, pois, pelo contrário, sua função é garantir a reprodução das relações sociais próprias do capitalismo, algo que só é possível mediante um severo controle social, principalmente por meio das forças de segurança. No Estado de bem-estar social, por sua vez, a atuação no campo econômico é maior em termos quantitativos e qualitativos. Tanto um como no outro o capitalismo persiste. Obviamente, o enfrentamento às formações neoliberais, recompondo direitos conquistados à época do fordismo – direitos trabalhistas, seguridade social, saúde pública, etc - e ceifados por essa nova dinâmica, é essencial para o avanço da classe trabalhadora em suas lutas. É um erro, porém, colocar tais objetivos como o teto da emancipação política, uma emancipação dentro dos quadrantes do capitalismo e suas formas históricas, como reflete Marx em Sobre a Questão Judaica (2015). No prefácio à edição de 1890 do Manifesto do Partido Comunista, Engels realça a luta pela jornada de trabalho de oito horas uma estratégia central para mobilizar a classe trabalhadora para fins que situam além do reconhecimento formal de direito. Seu horizonte, portanto, não é o de uma exploração menor, ou de um capitalismo humanizado, mas um onde não haja capitalismo e, consequentemente, exploração. Voltando ao artigode Monbiot, ele vê a competição como característica definidora das relações humanas, redefinindo os cidadãos como consumidores – ou empresários de si mesmos – cujas escolhas democráticas são melhor exercidas no ato de compra e venda de mercadorias –, conformando um processo que supostamente recompensa o mérito e pune a ineficiência –, como bem explica von Mises, obscura referência intelectual do neoliberalismo. Segundo Von Mises (1968), cada centavo representa um voto e qualquer mandato pode ser revogado a qualquer momento pelo consumidor, verdadeiro “dono da produção”, sustentando que o “mercado” assegura benefícios Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 111 que jamais poderiam ser conseguidos pelo planejamento. Tentativas de limitar a competição, assim, são tratadas como hostis à liberdade. “O reino da liberdade só começa, de fato, quando termina o trabalho determinado pela necessidade e pela conveniência externa”, observa Marx em um emblemático trecho d’O Capital (2017), no qual chega à conclusão de que a liberdade só é capaz de florescer quando o uso das forças humanas ocorre como um fim em si mesmo, voltado ao desenvolvimento das potencialidades individuais ao invés de obrigações externas em razão das quais, em nome da sobrevivência, somos obrigados a vender nossa força trabalho. A liberdade, assim, começa quando acaba o tempo que vendemos e se inicia o tempo que efetivamente nos pertence. Trata-se de uma discussão pertinente em tempos de reformas neoliberais como a administrativa, a previdenciária e a trabalhista, todas com o objetivo de desequilibrar as relações entre trabalho e capital em favor deste último, arrojando os meios de acumulação e expropriação dos frutos do trabalho. Não é nova a agenda pela maior disponibilidade de tempo não- vendido e de uma maior liberdade, portanto. Na Grã-Bretanha do século XIX, por exemplo, foi editada uma série de leis fabris que tinham como objetivo regulamentar as relações de trabalho. Fruto de intensas mobilizações da classe trabalhadora, a edição destas leis contou com o pouco ortodoxo apoio da aristocracia rural. Na década de 1820, os tories, como eram chamados os membros da nobreza fundiária, detinham a hegemonia do poder político, controlando o Parlamento, a Câmara dos Lordes, a monarquia, as forças armadas e o Judiciário. A burguesia comercial ascendente, ávida por apear os aristocratas do poder, buscou o apoio das massas, em particular das classes médias profissionais e da classe trabalhadora organizada. Promulgou-se, assim, o Reform Act de 1832, mudando o sistema de representação parlamentar e minando parte considerável da hegemonia aristocrática. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 112 Durante as articulações e apoios firmados durante a década de 1820, foram prometidos mundos e fundos à classe trabalhadora, a exemplo da extensão de voto aos artesãos e da própria regulamentação da jornada de trabalho. Ao notar a natureza meramente retórica dessas promessas, o operariado se organizou no movimento cartista com o propósito de articular a luta pelo reconhecimento de direitos, incluindo aqueles lhes foram prometidos e sonegados. Em retaliação à burguesia, os tories passaram a cerrar fileiras com a classe trabalhadora, de modo que, quando os burgueses derrubaram as chamadas Corn Laws, normas que tributavam a importação de cereais e protegiam os ganhos da aristocracia rural, a aprovação de leis trabalhistas como as de 1848 contaram com o fervoroso apoio dos setores fundiários, limitando a jornada de trabalho em dez horas para o descontentamento da classe industrial. As leis fabris entraram em vigor com a manifesta intenção de limitar a exploração do trabalho e prevenir a degradação excessiva dos trabalhadores e trabalhadoras. O capital desregulamentado, como é da sua própria natureza, não tem limites para sugar o sono e as energias necessárias para a restauração da força vital. A compreensão dos detentores dos meios de produção que a exploração impiedosa da força de trabalho compromete seus próprios ganhos fez com que um número significativo passasse a concordar com o reconhecimento de direitos trabalhistas. Enquanto ser humano, o capitalista – aqui entendido como quem possui capital, ou bem econômico capaz de produzir outros bens, e não como quem adquiriu um smartphone – pode até se importar com condições mais dignas e salubres de trabalho, mas o impulso, a racionalidade da acumulação e a narrativa predatória, vulcânica e expansionista do capital os impele a maximizar o lucro em condições de desleal concorrência, de modo que passam a não ter escolha a não ser explorar de forma voraz a força de trabalho sob seu controle. A coerção legal no sentido de prever, de forma geral, limites a esta Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 113 expansão passou a ser enxergada como um ponto essencial para equilibrar o modo de produção capitalista e assim garantir que as forças de trabalho pudessem ser exploradas com maior custo- benefício, tempo vital e efetividade. Este caráter sistêmico e, consequentemente, impessoal do capital é exposto também por Marx no capítulo A Jornada de Trabalho, também d’O Capital (2013), ocasião em que simula o ultimato de um trabalhador que exige um pagamento justo pela sua força de trabalho, além de uma jornada correspondente com a dignidade humana, queixa que faz ao burguês “sem nenhum apelo a teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a benevolência” (MARX, 2013, p. 308). Denunciando a separação da narrativa do capital com as idiossincrasias de quem o maneja, prossegue: “podes muito bem ser um cidadão exemplar, até mesmo membro da Sociedade para a Abolição dos Maus-Tratos dos Animais, e viver em odor de santidade, mas o que representas diante de mim é algo em cujo peito não bate um coração”. Ladislau Dowbor, em Democracia Econômica: alternativas de gestão social, representa essa perspectiva na tradicional imagem do “senta!” que gritam os torcedores no estádio, pois ninguém pode sentar sozinho sob pena de ninguém ver o jogo. Situação parecida é apresentada em uma emblemática cena do filme O Jovem Marx, de Raoul Peck, em que um industrial, amigo do pai de Engels, justifica o emprego de crianças em suas fábricas em função de seus concorrentes também o fazerem. Voltando à Grã-Bretanha do século XIX, mesmo um Estado regulado pelo Capital e por proprietários fundiários sob os quais ainda remanesciam certas tradições aristocráticas e feudais foi capaz de dispor, na esteira do acúmulo de lutas reivindicatórias, de inspetores de fábrica oriundos da burguesia profissional para fiscalizar a observância das leis trabalhistas, sintoma do reformismo burguês que Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 114 via nas condições precárias das indústrias, no trabalho infantil e nas longas jornadas de trabalho sintomas de algo incivilizado. Uma conhecida passagem de A Ideologia Alemã (2010), também de autoria de Marx e Engels, observa que aqueles que detêm o controle da produção material detêm também o controle da produção espiritual, de maneira que a ideologia que prevalece na sociedade é a ideologia de sua classe dominante. Sendo as formas políticas e jurídicas da democracia liberal derivadas das relações produtivas, conforme Pachukanis (2017), pode-se concluir que a crise brasileira é determinada economicamente e sobredeterminada juridicamente (Mascaro, 2018, p.23). A constitucionalização de rigorosos ajustes fiscais, onde, em franca inversão da pirâmide normativa, normas financeiras, infraconstitucionais, passam a incidir sobre a ordem social e econômica constitucional, sufocando esta última (Bercovici e Massoneto, 2006), reflete a mudança da matriz produtiva do capital, que, em sua formação neoliberal, avançanos fundos públicos e nos direitos da classe trabalhadora. Friedrich Engels, na obra conhecida como Anti-Dühring (2015), explica como a política é condicionada pela economia, e não o contrário. Se, na derrocada do feudalismo e dos regimes absolutistas, a burguesia se viu espremida pelas respectivas formas políticas, vindo a derrubá-las, hoje se encontra no gargalo de uma institucionalidade que ainda remonta ao fordismo e à subjugação por meio da forma assalariada. É por essa razão que a humanização do capital é uma contradição em termos, agrilhoada pelo próprio metabolismo deste. Some-se isso, ademais, ao fato de inexistir hoje uma ameaça socialista que faça as democracias burguesas darem um passo em direção à emancipação política e entregarem os anéis (institucionalização de direitos trabalhistas e da seguridade social) para salvar os dedos (manutenção dos mecanismos de reprodução do capitalismo). Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 115 O marxismo, segundo Lênin (2019, p.21), ensinou a classe trabalhadora a enxergar a democracia burguesa como um progresso enorme em relação ao feudalismo, mas, nem por um instante, esquecer do caráter burguês dessa democracia, e sobretudo que o Estado, mesmo na mais democrática república burguesa, não é mais do que uma máquina de opressão de classe. Empresários de si mesmos Uma das mais simbólicas expressões do êxito do pacote ideológico do neoliberalismo é a transformação das pessoas em empresárias de si mesmas. A reprodução dos valores do capitalismo na vida, monetarizando a própria existência, corresponde a uma das mais sutis e corriqueiras formas de colonização dos espíritos. No Manifesto (2006, p.27), Marx e Engels já haviam diagnosticado que a burguesia, onde quer que tenha chegado ao poder, “reduziu a dignidade pessoal a simples valor de troca”, colocando a liberdade de comércio como única e implacável e não deixando “subsistir entre os homens outro laço senão o interesse nu e cru, se não o frio ‘dinheiro vivo’”. Salário mínimo, jornada de trabalho, FGTS e demais garantias presentes na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), concessões da democracia burguesa em face de circunstâncias objetivas que julga ameaçadoras à reprodução da ordem, são mostradas pela régua contábil dos tecnocratas neoliberais como um engodo para a classe trabalhadora, que estaria impossibilitada de negociar o valor de sua força de trabalho e de ocupar novos empregos. Tal narrativa, repleta de sofismas insustentáveis, é parte do sustentáculo ideológico que esconde o fato de que tais reformas, enquanto expressão da reformulação das matrizes produtivas da exploração capitalista, apontam para uma ainda maior precarização das condições de Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 116 trabalho. Basta ver o teor das reformas trabalhista e da previdência e seus efeitos no engatinhante Estado de bem-estar brasileiro. Não é novidade o contorcionismo argumentativo que procura traçar uma relação de causa e efeito entre direitos guilhotinados e o aumento da liberdade. É nesse sentido que atua a lógica dos empresários de si mesmos, assalariados colonizados pela narrativa “empreendedora” que expande as lentes do mercado para espaços que antes se situavam à margem das relações mercantis tradicionais. Como ensina Althusser (2010), não é a qualidade do argumento que o faz prevalecer, e sim a de aparelhos ideológicos que o difundem, a exemplo dos meios de comunicação de massa. Caio Prado Junior, em O que é Liberdade (1999), escreve que a aparente liberdade das democracias capitalistas não é senão a expressão das concessões que minorias privilegiadas são obrigadas a fazer à maioria, material e moralmente inferiorizada. Com o desmonte da rede de proteção social na esteira do fenômeno que se convencionou chamar de “uberização”, o cinismo que descola a noção de liberdade das condições materiais de vida parece ter ganhado ainda mais espaço. Tom Slee, no livro Uberização: a nova onda do trabalho precarizado (2015), desnuda os mecanismos ideológicos por trás de startups como a Uber, a AirBnB e aplicativos de entrega de alimentos (ainda não tão populares na época em que o livro foi lançado). Ao transformar direitos sociais, considerados fundamentais, em mercadorias, a relação das pessoas com serviços como educação, saúde e previdência passa a ser a de investidores, e não de sujeitos titulares de tais direitos: qual a melhor escola particular, com o melhor custo-benefício, para investir e matricular meu filho? Qual plano de saúde possui o catálogo de serviços mais amplo e com menor mensalidade, de modo que eu possa exponenciar meus ganhos? Qual o melhor fundo de previdência complementar para se investir? Assim, problemas de ordem pública, a exemplo do sucateamento de serviços dessa natureza, passam a ter como desfecho “soluções” particulares, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 117 focadas na realidade contábil e patrimonial dos usuários. O mais interessante é que o que é visto como consectário de maiores liberdades diz respeito, na verdade, à obrigação imposta aos cidadãos e cidadãs caso queiram permanecer tendo acessos a estes serviços de forma minimamente correspondente às suas necessidades. Todavia, longe de representar uma maior liberdade, a canibalização do público pelo privado atua exatamente no sentido contrário, ceifando as condições materiais mínimas de existência, sem as quais, naturalmente, não é possível ser livre. Desmontar o SUS em um país em que metade da população ganha R$ 413,00 mensais, segundo levantamento do IBGE/PNAD ainda em 2019 (antes, portanto, da pandemia) é, na prática, tirar este direito de seu alcance, dada a impossibilidade de contratar um plano de saúde privado. Sem direitos básicos, não há plataforma para o exercício da liberdade em sua perspectiva material, contrária à concepção clássica e formal segundo a qual basta o Estado se abster para que seja alcançada. Como bem disse Anatole France, a lei que se pretende igualitária proíbe tanto os ricos quanto os pobres de dormir debaixo da ponte. O mesmo acontece em relação à flexibilização das leis trabalhistas. Acreditar que retirar direitos é conceber maior poder de negociação para a classe trabalhadora é uma perspectiva que ignora as condições concretas em que as negociações serão realizadas. Com um baixo índice de sindicalização e uma frágil organização política, fica o trabalhador em desvantagem em relação ao patronato, este sim, livre para propor condições de trabalho que podem remontar aos anos mais cruéis da revolução industrial. Sem a legislação trabalhista e seu viés protetivo, a “liberdade de negociar” representará, na verdade, uma franca disparidade de armas em favor dos empregadores, que no lastro dos exércitos de reserva e da massa de desempregados, possuem maior poder para barganhar e impor o valor da força de trabalho que reputam conveniente aos níveis de acumulação que julgam pertinentes. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 118 Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão, afirmou que apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá- la. O primeiro passo para manter tudo como está é mascarar esta realidade e apresentá-la como o melhor dos mundos possíveis. Porém, como bem escreveu Marx em 1843 (2013), um verdadeiro projeto emancipatório de sociedade requer que desnudemos este discurso e arranquemos as flores imaginárias dos nossos grilhões, mas não para que os suportemos sem fantasias ou consolo, mas para que deles nos desvencilhemos e a flor viva da liberdade possa enfim desabrochar. Luta de classes no século XXI “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, aparece uma grande variedadede sintomas mórbidos”, escreveu Antonio Gramsci durante o longo período em que ficou encarcerado na prisão de Tudi di Bari, na Itália. Estaríamos em um novo interregno? O velho estaria morrendo, de maneira que se encontraria moribunda a antiga ordem baseada no entrelaçamento entre o território, o Estado e a nação enquanto referências de organismos operacionais soberanos? Neste contexto, a prevalência do capital financeiro e a transnacionalização das relações econômicas, características fundamentais da globalização, vêm sucessivamente transferindo os núcleos de decisão política dos Estados nação para entidades internacionais como o FMI e a Comissão Europeia. Tais entidades, no afã de atingir seus objetivos de acumulação, adotam como modus operandi a sistemática subjugação de soberanias nacionais e a incontida subversão de ordenamentos jurídicos, conseguindo escapar do princípio de que aquele que governa tem o poder e faz as leis. Eis onde se encontra, conforme refletiu Gramsci, o nascituro impossibilitado de sair do ventre: os organismos políticos Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 119 consolidados em tempos anteriores aos da globalização vêm se mostrando insuficientes para lidar com uma realidade na qual os novos parâmetros de acumulação escapam ao controle por meio das leis e demais formas de expressão dos estados nacionais. Veja-se o recrudescimento das medidas de austeridade aplicadas no Brasil pela Emenda Constitucional nº 95, conhecida como Emenda do Teto de Gastos, aprovada para atender aos reclamos do rentismo internacional em se apropriar dos fundos públicos brasileiros. Por meio dela, suspendeu-se a ordem social prevista na Constituição Federal de 1988, restringindo, assim, o aporte de recursos imprescindíveis para a concretização de direitos como a saúde e a educação. Se a democracia burguesa, para além da concepção vulgar que a situa apenas no campo eleitoral, corresponde, em tese, à previsibilidade da vida política e institucional, pode-se dizer que há democracia? Ou, nas palavras de Pachukanis (2017), um edifício que não sai da fase de projeto pode ser considerado existente? O debate é importante. Em resposta às formulações de Karl Kautsky, teórico da Segunda Internacional, Lênin (2019, p. 69) escreve que “um liberal fala naturalmente de ‘democracia’ em geral. Um marxista nunca se esquecerá de colocar a questão: ‘para qual classe?’. Deixar de fazer a ressalva trazida por Lênin tem profundos significados políticos, sendo ela o rubicão entre quem considera a democracia burguesa como uma forma histórica e, portanto, passageira, e quem a considera como algo eterno e universal. A abertura de canais para interferências externas na autodeterminação dos Estados nacionais, cuja desregulamentação é vista com satisfação pelos ideólogos do neoliberalismo, é tida por estes como uma expressão da “liberdade econômica” ainda que se trate de um descarado atentado ao poder e à liberdade das nações decidirem seus rumos conforme os interesses do que Rousseau definiu como “vontade geral”. Não assusta que o economista Friedrich Hayek, referência intelectual do neoliberalismo, tenha afirmado em uma Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 120 reveladora visita ao Chile de Pinochet que sua “preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”. No artigo O mundo da ordem, publicado em setembro de 1984 na Folha de S. Paulo, Marilena Chauí afirmava que a perenidade do pensamento conservador autoritário no Brasil apoia-se não apenas no conjunto das instituições e práticas sociopolíticas, mas também na interiorização de certas imagens. Uma destas imagens é a peculiar visão que se tem da luta de classes, que aparece simplesmente como um confronto armado provocado pelo andar de baixo contra o andar de cima da sociedade. Esta perspectiva reducionista da insolubilidade de interesses entre classes sociais não consegue observar que o conflito gira, sobretudo, em torno da conservação das formas de dominação por meio das instituições, leis e costumes. Os embates por maiores fatias do orçamento e contra a drenagem de recursos públicos em favor do mercado financeiro, por exemplo, correspondem a claras manifestações das lutas de classes, pois englobam postulações inconciliáveis que se concretizam na disputa pelas atribuições do Estado, malgrado se estruture para garantir a reprodução da forma- valor, a apropriação da riqueza excedente e a circulação de mercadorias. Ademais, se problemas globais requerem soluções globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está vencendo”. Neoliberalismo e dependência “Estragamos tudo no que diz respeito à alimentação global”, declarou o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, em outubro de 2008, ao discursar em um evento da ONU realizado em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação. Segundo o ex- Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 121 presidente norte-americano, a crise econômica que demonstrava sinais de força naquele momento mostrou que “todos nós estragamos tudo, inclusive eu, quando fui presidente”, referindo-se à manifesta opção pelo tratamento do plantio de alimentos unicamente como mercadoria ao invés de recurso vital para a vida, sobretudo a dos mais carentes de condições materiais de sobrevivência. Clinton foi enfático: a responsabilidade por essa situação estaria na política ocidental de longo prazo imposta pelos Estados Unidos e pela União Europeia, aplicada durante décadas pelo Banco Mundial, pelo FMI e por outras instituições internacionais. Tais imposições obrigaram países africanos e asiáticos a abandonarem políticas de substituição de exportações e políticas de subsídios governamentais a fertilizantes, sementes, implementos agrícolas e insumos de maneira geral, de modo que as terras mais férteis passaram a ser utilizadas para o cultivo de produtos voltados prioritariamente à exportação, comprometendo, assim, a autossuficiência alimentar desses países. Os ajustes econômicos mencionados por Clinton resultaram na incorporação das agriculturas locais à narrativa da globalização, considerando que quanto mais exportavam produtos nacionais e atendiam à lógica da economia global, mais passavam a depender de alimentos importados. Concomitantemente, pequenos agricultores eram expulsos de suas terras e obrigados a viver em cortiços e favelas, vendendo sua força de trabalho para a única opção que lhes restava: o trabalho semiescravo em fábricas terceirizadas, muitas das quais de vestimentas e eletrônicos consumidos no Ocidente. Qualquer relação com a expropriação forçada das terras comunais e a alienação fraudulenta de terras e bens do Estado e da Igreja e demais formas de acumulação primitiva de capital na transição do feudalismo para o capitalismo não é mera coincidência. O aprofundamento dos laços de dependência pós-colonial gerado pela política de alimentação global descrita por Clinton gerou Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 122 não apenas uma maior vulnerabilidade às flutuações do mercado – cuja maior característica em tempos de hegemonia neoliberal é o caráter ainda mais constante das suas crises cíclicas –, causada também pelo uso das safras para a produção de biocombustíveis ao invés de alimentos, como também ocasionou fortes crises nutricionais em países como o Haiti e a Etiópia. A Daewoo Logistics, por exemplo, multinacional do ramo, anunciou o arrendamento de cerca de 1,3 milhão de hectares das terras agrícolas de Madagascar durante 99 anos, o que representa metade da terra agricultável da ilha. Situação semelhante ocorre com a transnacionalSun Biofuels, que possui plantações na Etiópia, Tanzânia e Moçambique. Ambas se dedicam a produzir biocombustíveis e são a mais obscena expressão da falha política alimentar falha reconhecida por Clinton. O ex-presidente norte-americano está certo ao afirmar que os alimentos, assim como a água, não são uma mercadoria como qualquer outra. Ambas as situações evidenciam a flagrante desarmonia existente entre as forças e as relações de produção, ou a inadequação dos processos produtivos às condições materiais em que estes processos se dão, segundo a lógica da propriedade privada dos meios de produção e da concentração de riqueza nas mãos de seus proprietários. Isso demonstra que as relações de produção de alimentos na sociedade contemporânea – baseadas no latifúndio e na acumulação de riqueza nas mãos de poucos – não são as mais adequadas para a produção de bens no sentido de atender às necessidades da coletividade, seja em sua dimensão local ou global. O resultado é, tão somente, o desperdício de metade das quatro bilhões de toneladas de alimentos produzidas anualmente no mundo e uma produção que, embora supere com folga a população planetária, ainda deixa centenas de milhões de pessoas em situação de subnutrição, conforme dados das Nações Unidas. Isso demonstra que a fome no mundo não decorre da escassez de alimentos, mas sim da forma com a qual sua produção é distribuída, fundada em relações de Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 123 produção que se alicerçam na acumulação de riquezas, no lucro desmensurado e na grande concentração de terras. A má distribuição de alimentos lança luzes para o fato de que o desenvolvimento tecnológico e o progresso de novas condições técnicas de produção, uma vez idealizados nas condições produtivas acima descritas, são ausentes de quaisquer propósitos emancipatórios e de promoção da dignidade, uma vez que têm como principal finalidade o franco atendimento à acumulação ao invés da criação de melhores condições de vida para o maior número possível de pessoas. Não há desenvolvimento equilibrado possível se os processos econômicos, que hoje dominam amplamente a política, são controlados por uns poucos, excluindo a imensa maioria da participação dos seus resultados. Nesse sentido, quais as conclusões que podemos tirar da fusão da Bayer, uma das maiores multinacionais oligopolistas da indústria farmacêutica, com a Monsanto, líder mundial na produção de agrotóxicos, herbicidas e sementes transgênicas? A primeira: a reafirmação histórica de que mercados desregulamentados descambam inevitavelmente para a formação de monopólios e oligopólios. A segunda - e mais óbvia - conclusão, a de que o conglomerado responsável por gerar doenças por meio da utilização de venenos e modificações genéticas na produção de alimentos passa a ser também o que venderá as medicações para o tratamento destas mesmas enfermidades. Se a monocultura agroextrativista em larga escala preza pela utilização de substâncias venenosas, expressão das relações de produção já aqui explanadas, da mesma forma a indústria farmacêutica, cuja dinâmica de processos produtivos não é diferente, produz medicamentos não para curar as pessoas, mas para, por meio de uma contínua patologização da vida, torná-las cada vez mais dependentes. Eduardo Galeano (2011) questiona se estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 124 quantas empresas pois, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo. Para quem acredita na pantomina de que nos situamos no derradeiro estágio da civilização humana, o consórcio de quem produz remédios com quem gera doenças é apenas mais um dos dadivosos desígnios da globalização, sem os quais nem remédios e tampouco alimentos nos chegariam às mesas. Será? A democracia que não se leva a sério Apologistas do neoliberalismo costumam achar absurda a ideia que alguns têm de querer dividir e distribuir a riqueza já existente em vez de procurar criar mais riqueza. É possível permanecer chancelando essa tese diante da inequívoca, inédita e obscena desigualdade social e concentração de renda em que hoje se encontra o planeta? Uma das razões que explicam a atual estagnação da economia mundial decorre exatamente dessa abjeta concentração de renda e dos altíssimos níveis de desigualdade social por ela implicados, entraves reconhecidos, inclusive, pela ortodoxia do FMI. Por mais que um exército de tecnocratas, pregadores do Consenso de Washington , se esforce para dar um viés neutro, unidimensional e apolítico às medidas que prestigiam o mercado financeiro em detrimento das necessidades fundamentais das pessoas, a própria natureza das medidas de austeridade tomadas em desfavor destas denuncia o seu inquestionável teor político: o de, claramente, procurar privilegiar o 1% dos mais ricos em detrimento dos demais 99% mais pobres. Não por menos, foi considerável o impacto ocasionado pela inusitada insurgência de um dos mais entusiásticos e tradicionais defensores do sistema: Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard, ex- secretário de Finanças de Clinton, nomeado por Obama para o cargo de diretor do Conselho Econômico Nacional (National Economic Council – NEC) e velho conhecido por suas inflamadas posições em Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 125 favor da desregulamentação bancária. Ele vaticinou em 9 de novembro de 2013 na conferência anual do Fundo Monetário Internacional: “e se o capitalismo não puder ser reformado e estiver preso na armadilha de uma estagnação secular? Tentamos de tudo para reiniciar o crescimento, mas o sistema hesita em reiniciar como antes”. Para Wolfang Streeck (2014), a passagem, na economia política capitalista, do keynesianismo do pós-guerra, marcado pela intervenção do Estado na economia e pela consolidação do modelo de bem-estar social, transcorreu para o neoliberalismo sem maiores dificuldades. Com efeito, a democracia igualitária, considerada economicamente produtiva, passou a ser tratada como um obstáculo à eficiência. Para os seguidores de gurus do neoliberalismo como Ayn Rand, Friedrich Hayek e Milton Friedman, que defendem a desigualdade como incontornável condição para a recuperação e a prosperidade, mercados protegidos das distorções das políticas redistributivas trariam mais crescimento. Entretanto, está mais do que nítido que, quando sob o deus-dará do mercado, o patrimônio dos mais ricos cresce não por meio da produção, mas mediante a drenagem sobre o valor agregado. O crescimento, então, desacelera, gerando desigualdade e concentração de renda. É exatamente nesse ponto que é possível trazer o debate sobre os rumos da democracia burguesia em tempos de neoliberalismo, ou de uma matriz produtiva pós-fordista: o rentismo parasitário, o crescimento das dívidas públicas, a crescente financeirização da economia, a gradual diminuição do Estado e a instauração de políticas de austeridade decorrem, em boa parte, da pressão de entidades transnacionais prepostas dessa nova matriz – vide FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – nos rumos das políticas nacionais, entidades que não foram eleitas pelo povo e não têm qualquer obrigação de prestar contas à população. Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 126 Assim, a imposição dessa política a economias nacionais, afetando sua soberania, não passou por processos eleitorais, que se referem não apenas a candidatos enquanto indivíduos, mas ao programa político e econômico que representam. Não está, portanto, mesmo nos termos da democracia liberal, legitimada para ditar políticas de austeridade cada vez mais perversas que contribuem substancialmente para o aprofundamento do fosso social entre ricos e pobres.Nessa esteira, a política econômica, que abrange a fixação dos salários e a elaboração do orçamento, passa a ser cada vez mais governada por organismos supranacionais, a exemplo dos mencionados Banco Central Europeu e Comissão Europeia, ambos fora do alcance da democracia popular. Isso, segundo Streeck, desdemocratiza o capitalismo, sem, contudo, despolitizá-lo. A Emenda Constitucional nº 95, por exemplo, ao congelar os investimentos em áreas sociais até 2036, atua não apenas como uma medida fiscalista, mas como um limitador do debate público. Isso por que a política econômica já se encontra predeterminada por, ao menos, quatro mandatos presidenciais, retirando da sociedade o poder de escolha do programa econômico que julgue mais apropriado aos seus interesses e necessidades. Tem-se aí uma violação não apenas da ordem social e econômica estabelecida pelo texto constitucional, mas também do direito ao voto, pois subtrai da população uma alternativa diversa das estabelecidas pelos austericidas dogmas neoliberais. Convém aqui rememorar os dizeres de Lênin: “democracia para quem?”. Uma vez que a democracia liberal, burguesa, deriva em última instância das relações produtivas do modo de produção capitalista, é o cachorro que abana o rabo, e não o contrário. Dessa forma, as formas políticas e institucionais contemporâneas são recebidas e bem aceitas na medida em que não impõem perdas à acumulação capitalista. Bercovici e Massoneto (2006) identificam como a legislação infraconstitucional que regula ajustes fiscais, Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 127 embora hierarquicamente inferior, consegue prevalecer diante da ordem social e econômica prevista na constituição. Tal inversão só é surpresa para quem se propõe a estudar fenômenos normativos a partir de um limitado referencial normativista-positivista, não enquanto relações sociais históricas inseridas em uma dinâmica específica de acumulação. Mesmo estudiosos social-democratas, como Thomas Piketty (2014), identificam que a desigualdade social é intrínseca ao capitalismo. Piketty, contudo, preso às amarras ideológicas de seu tempo, propõe não a superação desse modo de produção, mas mitigações de suas inevitáveis consequências metabólicas, sugerindo paliativos como a taxação de grandes fortunas. O marxismo, explica Lênin (2019, p.21), ensinou que a democracia burguesa representa um incontestável progresso em comparação ao feudalismo, mas nem por isso se deve esquecer de seu caráter burguês e muito menos que o Estado, mesmo sob a mais democrática república burguesa, não passa de uma máquina de opressão de classe. Com ou sem taxação de grandes fortunas. Com ou sem constituições prevendo direitos sociais. Assim, em sua essência, nem a democracia burguesa se leva a sério. A constituição que não se leva a sério Em palestra sobre os 100 anos da Revolução Russa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Valter Pomar, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, narrou a reação de um colega estrangeiro diante das afirmações de que o governo Temer estaria destruindo o Estado de bem-estar brasileiro. Para ele, não há sentido nas declarações de que o Estado Social brasileiro está sendo desconstruído. Isso por que, se Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 128 compararmos a rede de proteção social dos países do centro do capitalismo com a nossa, as conclusões serão de que jamais chegamos a ter uma. Matheus Felipe de Castro e Orides Mezzaroba, no livro História Ideológica e Econômica das Constituições Brasileiras (2014), observam como a Constituição Federal de 1988 surgiu com o objetivo de promover o acerto de contas do país com seu passado e, assim, dar novos rumos ao desenvolvimento e à reprodução da forma valor características do modo de produção capitalista. Esses rumos passariam a ser racionalizados segundo os imperativos escolhidos pela comunidade política, ao invés das forças predatórias do mercado, azeitadas com a rapina colonial do lucro a curto prazo e alheias a qualquer projeto de desenvolvimento nacional em escala macro. De uma maneira geral, as cartas constitucionais costumam ser qualificadas como o marco inicial de um novo Estado. Segundo os autores, esta perspectiva é parcialmente verdadeira na medida em que as constituições redefinem um Estado por meio da criação de parâmetros teóricos e práticos para a sua transformação. Assim, o Estado definido em uma Constituição é sempre uma meta ou um fim, não uma análise, sem perder de vista que o processo de valorização mercantil capitalista necessita de uma instância que lhe seja exterior para garantir as condições gerais de produção que o próprio capital não pode criar, conforme assinala Hirsch (2010, p.54): Aquilo que constitui como atividade concreta do Estado é principalmente resultado de sua determinação formal, exatamente por ele ser a institucionalização da força física, formalmente separada das classes sociais e dos processos de reprodução econômica. Nessa posição, o Estado – melhor dito, o pessoal de gestão e de controle – é levado a tomar medidas que mantenham em movimento o processo de produção e de reprodução, e estabilizem as relações sociais”, O Estado, escreve Engels (2019), não existe desde a eternidade, surgindo como necessidade oriunda de determinado Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 129 estágio de desenvolvimento econômico ligado à cisão da sociedade em classes sociais. Se a constituição é o documento de organização formal do Estado, deve ser analisada não sob uma perspectiva unicamente normativa, insuficiente para compreendê-la, e sim sob a lupa indicada por Engels. A Constituição de 1988, nascida após vinte anos de ditadura militar e num momento histórico de refluxo do nacional- desenvolvimentismo, sofreu forte influência da narrativa das democracias liberais e social-democratas, instituindo entre seus objetivos o incentivo à participação popular na formulação das políticas econômicas ao delinear a construção de uma nação política e economicamente soberana, tecnologicamente desenvolvida e socialmente justa por meio de um mercado interno capaz de ser propulsor do desenvolvimento nacional e da coesão do povo e das regiões brasileiras enquanto nação. A Carta de 1988, assim, “não é uma carta liberal clássica, a despeito de ser burguesa” (CASTRO e MEZZAROBA, 2015), tendo em vista que “constitui um Estado democrático de Direito, fundado na legalidade e detendo instrumentos de intervenção no domínio econômico que possibilitariam ao Estado continuar exercendo as tarefas de Capitalista Coletivo Ideal, para o qual foi idealizado desde 1930” (Idem, p. 137). A chamada Constituição Cidadã veio, portanto, para fazer frente aos automatismos econômicos sob os quais se amparou historicamente a economia brasileira, alinhada com a dinâmica da relação centro/periferia do capitalismo e caudatária do subdesenvolvimento no qual nações de industrialização tardia como a nossa têm o papel de exportadoras de commodities, matérias-primas e bens de baixo valor agregado. Tanto é que seu artigo 219 declara que o mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 130 o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar da população e a soberania tecnológica do país. Tal enunciado demonstra a percepção do legislador constituinte acerca da necessidade de desenvolver o mercado interno, estruturá-lo e amoldá-lo à concretização destes valores éticos. Se a racionalidade do mercado se conjuga na lógica da maximização dos lucros/minimização dos custos, dando terreno à rapina que ignora o papel fundamental dos mercados internos no desenvolvimento da naçãoe a empurra para a especialização produtiva primário- exportadora, a subordinação da economia a tais interesses políticos objetiva primordialmente confrontar o aprofundamento dos laços pós- coloniais de dominação, hoje sob a roupagem da globalização, dando ênfase à economia voltada ao atendimento dos interesses internos ao invés dos mercados externos caracterizados por uma dinâmica própria das relações entre colônia e metrópole. Foi nessa esteira que a Constituição instituiu os potenciais de realização de um regime externo de afirmação da soberania política e econômica do Brasil perante a comunidade internacional, em especial dos países do centro do capitalismo (art. 1º, I), com independência nacional (art. 4º, I), autodeterminação dos povos (art. 4º, III), igualdade entre os Estados (art. 4º, V) e cooperação entre os povos para o progresso (art. 4º, IX), pressupondo a diminuição das assimetrias internacionais que ensejam a incompatibilidade de interesses entre as nações, as industrializadas e as da periferia (Idem, 142). A Constituição trouxe ainda a previsão da realização de uma ordem política, social e econômica interna com efetiva participação popular e representatividade de interesses perante o poder do Estado (art. 1º, V e parágrafo único, além dos artigos 10, 14, 17 e 45). Tudo isto com desenvolvimento nacional (art. 3º, II) e proteção e incentivo dos mercados internos (art. 219), fundamentos para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I) que tem como norte a Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 131 erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais e regionais (art. 3º, III e art. 170, VII) via incentivo do desenvolvimento científico e tecnológico nacional (art. 218) (Idem, p. 142). Com efeito, para que o Estado possa atingir esses objetivos e dar guarida a direitos tais quais os previstos no art. 6º, no Título VIII (“Da Ordem Social”) e no Capítulo III (“De educação, da cultura e do desporto”), é necessário que a alocação da riqueza produzida se dê em conformidade com os mencionados princípios, mecanismos e valores, o que é possível somente por intermédio da intervenção nos termos fixados pela própria Constituição. E esta intervenção significa exatamente preencher um espaço que, se deixado vazio, será inevitavelmente ocupado pela “razão econômica” das forças do mercado oligopolista global, as mesmas que sufocam indústrias nacionais e minam sua autossuficiência e soberania econômica. De 1988 até os dias atuais, o grande desafio vem sendo o de conferir normatividade e eficácia social a disposições como as acima enumeradas, principalmente no que se refere à estruturação da rede de proteção social inspirada nas experiências da social-democracia europeia. Importante realçar, todavia, que a defesa tática do estado de bem-estar é central diante do objetivo não de construir um “capitalismo humanizado”, mas de criar condições para o caminhar em direção à sua superação e às formulações das bases de uma socialidade socialista (Idem, 143). Ainda que bastante aquém das aspirações constitucionais, muito conseguiu ser feito, como a aprovação de marcos normativos como os do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Código de Defesa do Consumidor, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), os estatutos da Cidade, do Idoso e da Igualdade Racial, etc. Tais marcos são importantes enquanto instrumentos que subsidiam e conferem, na via institucional, legitimidade à luta pela implementação e concretização dos serviços e Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 132 direitos neles previstos. Mesmo diante do fato de virem sendo realizados de forma insuficiente, sua concretização, ainda que parcial, é fruto da constante vigilância e pressão da sociedade, sem a qual dificilmente sairiam do papel. Seguindo declaradamente a agenda do mercado, as profundas modificações que vêm sendo feitas na Constituição 1988, a exemplo da própria EC 95, mostram como eram legítimas as expectativas do legislador constituinte do que poderia acontecer caso os rumos da economia nacional fossem pautados pela selva onde os credores internacionais estão no topo da cadeia alimentar. Castro e Mezzaroba (2015) concluem que a realização histórica do avançado programa representado pela Constituição de 1988 coloca um desafio para a sociedade brasileira: realizar os direitos nela previstos para que se torne obsoleta e, assim, coloque a necessidade mesma de sua superação, ou não realizá-los, dela se desviando para caminhos diversos dos que foram democraticamente escolhidos pela comunidade política, amargando a derrota e o retrocesso nas conquistas obtidas de forma democrática. É certo que a sociedade não escolheu a segunda alternativa. Remetamo-nos, pela terceira vez, a Lênin: “democracia para quem?”. 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