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www.ceej.com.br 
----------------------------------- 
 
Editor 
André Saddy 
 
 
Conselho Editorial 
 
André Saddy – Universidade Federal Fluminense (Brasil) 
Carlos Emmanuel Joppert Ragazzo - Escola de Direito do RJ da Fundação Getulio Vargas (Brasil) 
Christian Alberto Cao – Universidad de Buenos Aires (Argentina) 
Claudia Ribeiro Pereira Nunes – Yale University (Estados Unidos da América) 
Cristiana Maria Fortini Pinto e Silva – Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) 
Daniel Wunder Hachem – Universidade Federal do Paraná (Brasil) 
Emerson Affonso da Costa Moura – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Brasil) 
Irene Patrícia Nohara – Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasil) 
José Eugenio Soriano García – Universidad Complutense de Madrid (Espanha) 
José Sérgio da Silva Cristóvam – Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil) 
Julián Pimiento Echeverri – Universidad Externado de Colombia (Colombia) 
Orlando Vignolo Cueva – Universidad de Piura (Perú) 
Pablo Schiavi – Universidad de la República / Universidad de Montevideo (Uruguai) 
Reinaldo Funes Monzote – Universidad de Havana (Cuba) 
Rodrigo Ferrés Rubio – Universidad Católica del Uruguay (Uruguai) 
 
 
 
 
Sede: Rua Alcindo Guanabara n.º 24, sala 1405, Rio 
de Janeiro, RJ, Centro da Cidade, CEP 20.031-915, 
Brasil 
 
Daniel Araújo Valença 
Gustavo Freire Barbosa 
Ilana Lemos de Paiva 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
POR QUE LER MARX HOJE? REFLEXÕES SOBRE 
TRABALHO E REVOLUÇÃO 
 
 
 
 
 
 
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de 
Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) 
This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal 
de Nível Superior - Brasil (CAPES) 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
2021
 
Copyright © 2021 by Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos 
de Paiva; Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
Categoria: Sociologia Jurídica 
 
Produção Editorial 
Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) 
 
Diagramação: Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) 
 
Capa: os autores 
 
O Centro de Estudos Empírico-Jurídicos (CEEJ) não se responsabiliza 
pelas opiniões emitidas nesta obra pelo seu Autor. 
 
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, 
inclusive quanto às características gráficas e/ou editoriais. A violação de 
direitos autorais constitui crime (Código Penal, art. 184 e §§, e Lei nº 
6.895, de 17/12/1980), sujeitando-se a busca e apreensão e indenizações 
diversas (Lei nº 9.610/98). 
 
Todos os direitos desta edição 
reservados ao Centro de Estudos 
Empírico-Jurídicos (CEEJ) 
 
Impresso pela Bok2 
 
Catalogação: Daniele Alvarenga CRB7: 6873/RJ 
________________________________________________________ 
Valença, Daniel Araújo 
 
Por que ler Marx Hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução / Daniel 
Araújo Valença, Gustavo Freire Barbosa, Ilana Lemos de Paiva, Thiago 
Martins de Sousa Araújo. – Rio de Janeiro: CEEJ, 2021. 
 
135 p.: il. (color.) 
 Inclui notas explicaticas e referências. 
 ISBN: 978-65-992170-9-8 
 
1. Karl Marx. 2. Luta política. 3.Luta de classes. 4. Revolução industrial. I. 
Título. II.série. 
 
CDD – 330.903 
 
 
 
SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) 
 
DANIEL ARAÚJO VALENÇA 
valencadaniel@gmail.com 
Professor da graduação e mestrado em Direito da Universidade 
Federal Rural do Semiárido - UFERSA. Graduado em direito, com 
mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN e doutorado em 
Ciências Jurídicas pela UFPB, coordena o Grupo de Extensão e 
Pesquisa em Direito, Marxismo e América Latina - Gedic. É autor de 
"De Costas para o Império: o Estado Plurinacional da Bolivia e a luta 
pelo Socialismo Comunitário" e organizador, dentre outras, das obras 
"Marxismo e América Latina: Lutas Políticas e Novos Processos 
Constituintes" e "Direito e Marxismo: Tempos de regresso e a 
contribuição Marxiana para a Teoria Constitucional e Política". 
 
GUSTAVO FREIRE BARBOSA 
gustavofreirebarbosa@gmail.com 
Advogado, mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio 
Grande do Norte (UFRN). Professor de Teoria Geral do Estado e 
Ciência Política da Uninassau/RN. Advoga para movimentos sociais 
e organizações populares voltadas à luta pelo direito à moradia e 
reforma agrária. Escreve sobre política, filosofia e direito para a 
CartaCapital. 
 
ILANA LEMOS DE PAIVA 
ilanapaiva@hotmail.com 
Possui graduação e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal 
do Rio Grande e doutorado pelo programa integrado de pós-graduação 
em Psicologia Social da UFRN/UFPB, com período de estágio na 
Universidad Autônoma de Madrid (UAM). Atualmente é professora 
do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio 
Grande do Norte e Pesquisadora associada do Grupo de Pesquisa 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
6 
Marxismo & Educação (GPME/UFRN). Também coordena o 
Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência 
(OBIJUV/UFRN). Bolsista de Produtividade do CNPq (nível 2). 
 
THIAGO MATIAS DE SOUSA ARAÚJO 
thiagomatias.sa@gmail.com 
Pedagogo na Assessoria Acadêmica do Centro de Tecnologia da 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É graduado 
em pedagogia pela UFRN e doutor em educação pela Universidade 
Federal de São Carlos, UFSCar. Atua na temática dos Fundamentos 
da Educação, Educação e Marxismo e Educação na América Latina. 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
SOBRE OS(AS) AUTORES(AS) ...................................................... 5 
 
APRESENTAÇÃO ............................................................................. 9 
 
CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE MARX . 13 
A atualidade e o sentido da obra marxiana ....................................... 13 
Introdução ao pensamento marxiano: pontuações biobibliográficas 19 
Referências ........................................................................................ 44 
 
CAPÍTULO 2: MARX, ENGELS E AS LUTAS POLÍTICAS ....... 47 
Marx e a luta política ........................................................................ 49 
Como, então, transformar radicalmente a sociedade? ...................... 53 
A descoberta do proletariado e da luta de classes ............................. 60 
Marx, lutas de classes e lutas políticas .............................................. 62 
Quais seriam essas classes? E por quê? ............................................ 63 
Concluindo... ..................................................................................... 76 
Referências ........................................................................................ 77 
 
CAPÍTULO 3: O TRABALHO EM MARX .................................... 79 
O Trabalho assalariado, a mais-valia, o desemprego e o 
estranhamento ................................................................................... 93 
Referências ...................................................................................... 102 
 
CAPÍTULO 4: REFORMAS NEOLIBERAIS E LUTAS DE 
CLASSES NO SÉCULO XXI ........................................................ 105 
Neoliberalismo: invisível, mas nem tanto ....................................... 106 
Empresários de si mesmos .............................................................. 115 
Luta de classes no século XXI ........................................................ 118 
Neoliberalismo e dependência ........................................................ 120 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
8 
A democracia que não se leva a sério ............................................. 124 
A constituição que não se leva a sério ............................................ 127 
Referências ...................................................................................... 132 
 
	
 
 
APRESENTAÇÃO 
 
Este livro que você tem em mãos é parte integrante do curso 
“Marx e o Mundo do Trabalho”. Estranho título para os dias de hoje,alguém poderia pensar. De fato, vale a pena continuar a ler e estudar 
Marx, um pensador que viveu no século XIX e morreu há quase 150 
anos, considerado ultrapassado por muitos? E faz sentido falar de 
trabalho se hoje grassam teorias sobre o “fim do trabalho”? 
As reflexões que este livro propõe caminham exatamente na 
impugnação dessas teses equivocadas. Não será, aqui, o caso de 
antecipar os argumentos muito bem construídos que vocês irão 
acompanhar neste livro. Sem essa pretensão, gostaria de propor 
algumas reflexões sobre eles, para iniciar o debate. 
A afirmação de que Marx é um pensador ultrapassado não 
resiste a um simples olhar para o mundo em que vivemos. Não são 
poucos os analistas que afirmam que estamos imersos em uma crise 
sistêmica do capitalismo. Estas, diferentemente de outras crises, 
cíclicas ou conjunturais, envolvem toda a estrutura da ordem do 
Capital. Indicadores não faltam, desde a crise mundial das bolsas do 
final dos anos 1980, com a emblemática “segunda-feira negra”, até o 
colapso da bolha imobiliária dos Estados Unidos de 2008, o “estouro” 
da bolha de ativos financeiros da China, a brutal diminuição dos preços 
mundiais das commodities no mundo inteiro, dentre outros. Como 
consequência, aumento das dívidas públicas e dos níveis de 
desemprego não somente na periferia, mas no núcleo do capitalismo, 
os blocos de maior expressão no cenário econômico internacional, 
nomeadamente, Estados Unidos e países da Europa Ocidental. 
A concentração de riqueza de um lado e o aumento da 
desigualdade do mundo são componentes desse processo. O relatório 
anual da organização filantrópica britânica Oxfam constata que 8 
pessoas detêm a riqueza equivalente à da metade mais pobre do 
planeta, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas! A desigualdade social, por 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
10 
outro lado, aumentou nos últimos anos em 24 dos 26 países em que há 
seguimento. E no Brasil, a estimativa é que 2,5 milhões de pessoas 
cruzem a linha da pobreza até o final do ano (ou seja, 20,9 milhões de 
pessoas abaixo da linha da pobreza)... 
Esse quadro de crise do capitalismo que impacta o mundo 
inteiro tem deixado a “intelectualidade” perplexa. Desde aqueles que 
festejaram o “enterro de Marx”, proclamando o “fim da história” e a 
“vitória” definitiva do capitalismo, ou os que, fazendo a crítica ao 
capitalismo, se apressaram a decretar a derrocada do projeto 
revolucionário socialista propondo a substituição da luta de classes 
pelo que José Paulo Netto (2004)1 denomina “as ‘novas’ lutas 
moleculares”... 
Qual o pensador a quem recorrer para compreender esse 
cenário? Nenhum outro a não ser Karl Marx. A obra de Marx, 
conforme se verá no restante deste livro, teve como centro um grande 
projeto: compreender a gênese, o desenvolvimento e a superação do 
modo de produção capitalista. E engana-se quem coloca Marx como 
um acadêmico ao lado de outros “pensadores” do social: a história de 
sua vida é marcada pela luta política, pelo seu incessante engajamento 
no projeto revolucionário socialista. 
O caráter revolucionário do pensamento de Marx é 
indiscutível. Quem não se lembra da undécima tese sobre Feuerbach 
em que Marx e Engels (2007)2 afirmavam que “Os filósofos apenas 
interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é 
transformá-lo”? 
No passado, como hoje, ser marxista significa uma ameaça à 
classe dominante, exatamente pelo seu caráter revolucionário. Por 
acaso, algum de vocês já viu alguém ser perseguido, preso, torturado 
 
1 NETTO, José P. Marxismo impenitente: contribuição à história das ideias 
marxistas. São Paulo: Cortez, 2004. 
2 MARX, KARL. 1. Ad Feuerbach (1945). In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A 
Ideologia Alemã (pp. 533-535). São Paulo: Boitempo, 2007. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
11 
ou assassinado por seguir o pensamento de Durkheim? De Max 
Weber? De Foucault? 
O Capítulo 1 apresenta ao leitor(a) uma introdução à vida e 
obra de Marx, de maneira sucinta, mas abordando os seus aspectos 
essenciais. Já o Capítulo 2 trata, didaticamente, das lutas políticas não 
somente desde os tempos de Marx, mas instigando o leitor(a) ao 
propor reflexões sobre a nossa realidade. 
A segunda parte do título deste livro diz respeito ao trabalho. 
Diversos autores, filiados a diferentes vertentes teóricas têm defendido 
a tese da “crise do mundo do trabalho”. O Capítulo 3 permitirá ao 
leitor(a) situar-se nesse debate. Trata-se da crítica à centralidade da 
categoria trabalho na formação societal contemporânea. 
Relembremos: para Marx, trabalho é a protoforma da atividade 
humana e, em condições específicas do modo de produção capitalista, 
torna-se alienado. As teses André Gorz, Claus Offe e Jürgen Habermas 
propõem que o trabalho no atual estágio do capitalismo, como lembra 
Ricardo Antunes e Ruy Braga (2009)3, teria se tornado residual como 
fonte de sociabilidade e criação de valor. 
Novamente, é necessário o apelo a Marx para lançar luzes 
sobre essa questão. O que estamos observando, ainda retomando 
Ricardo Antunes (1999, p. 16)4, é que a “lógica do sistema produtor 
de mercadorias vem convertendo a concorrência e a busca da 
produtividade num processo destrutivo que tem gerado uma imensa 
precarização do trabalho e aumento monumental do exército industrial 
de reserva”. Trata-se de um processo em curso que atinge não somente 
as nações periféricas, mas de forma implacável os chamados “países 
centrais”. Duas observações sobre esta questão: a liberação de mão-
de-obra pela modificação da composição orgânica do Capital significa 
 
3 ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy (orgs.). Infoproletários: Degradação real do 
trabalho virtual. São Paulo, Boitempo, 2009. 
4 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a 
negação do trabalho. São Paulo, Boitempo, 1999. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
12 
um impacto direto no sistema produtor de mercadorias que, é preciso 
reiterar, é o único produtor de valor. Supor a eliminação do trabalho 
significaria a implosão do modo de produção capitalista. A segunda 
observação diz respeito à confusão entre trabalho e emprego (ou do 
trabalho abstrato e concreto). Sem ir mais adiante, o objetivo destas 
observações é apenas evidenciar a importância e a atualidade da 
discussão acerca do trabalho em Marx, como chave para a 
compreensão da atual “crise do trabalho” – que está longe de significar 
a extinção ou secundarização da importância do trabalho no modo de 
produção capitalista. 
Finalmente, o Capítulo 4 retoma e atualiza as questões para os 
nossos tempos, propondo reflexões sobre o momento atual e os 
desafios que temos pela frente. 
É muito oportuna a lembrança que o texto traz de um 
afirmação de Marx (1970 p. 56)5 em uma carta a Arnold Ruge em maio 
de 1843: “a situação desesperadora da época em que vivo me enche de 
esperanças”. Penso que esse é o intento deste livro, parafraseando José 
Paulo Netto (2004, p. 10-11): facilitar o encontro do leitor com 
reflexões que “não se escusam por se inscreverem impenitentemente 
na cultura revolucionária”. Se os clássicos da tradição marxista não 
são suficientes para a tarefa de nos fazer compreender e lutar pela 
transformação da sociedade, sem eles a tarefa é absolutamente 
impensável. 
Que você, caríssimo(a) leitor(a), faça um excelente proveito 
deste que é um texto indispensável. 
 
Natal, novembro de 2017. 
Oswaldo H. Yamamoto 
 
 
5 MARX, Karl. M a R – Colonia, mayo de 1943. In: MARX, Karl; RUGE, Arnold. 
Los Anales Franco-Alemanes (pp. 50-56). Barcelona: Martínez Roca, 1970. 
 
 
CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE MARX 
 
Nesse primeiro capítulo, vamos discutir qual o sentido e 
atualidade da obra marxiana e sua imprescindibilidadepara a 
transformação social. Além disso, vamos nos debruçar um pouco 
sobre a vida e a obra de Karl Marx, assinalando a evolução do seu 
pensamento e suas principais categorias teóricas. 
Antes de iniciarmos, é importante dizer que resumir Marx não 
é uma tarefa fácil, tendo em vista que não é simples traduzir, em uma 
linguagem didática, conceitos econômicos e filosóficos muito 
complexos. Além disso, não é fácil selecionar algumas categorias que 
serão abordadas neste livro, diante da sua vasta obra. Dentre as 
diversas correntes da tradição marxista, aqui tratamos de uma leitura 
particular, que é de nossa total responsabilidade, a partir das nossas 
convicções teóricas e práticas. No entanto, acreditamos que nosso 
texto poderá despertar o interesse em logo recorrer às obras originais 
do nosso velho barbudo, que anda mais atual do que nunca! 
 
A atualidade e o sentido da obra marxiana 
 
Karl Marx viveu há mais de cem anos (1818–1883), mas 
certamente sua obra continua viva e jovem, pela sua capacidade de 
continuar estimulando ideias novas. Mesmo que o interesse por Marx 
tenha flutuado ao longo do tempo – com períodos de declínio e crise – 
há sempre um retorno a Marx, pela sua capacidade persistente em 
explicar o presente (MUSTO, 2016). 
E nessa trajetória inconclusa e sempre (re)atualizada, o 
chamado marxismo tem dividido o mundo entre os que o detestam – e 
podemos pensar aqui como sempre retornam as ideias sobre uma 
suposta “doutrinação marxista” – e aqueles que colocam nele todas as 
esperanças de um outro mundo possível. O que se observa é que 
muitos o citam, mas poucos o conhecem profundamente, ou o 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
14 
compreendem de forma correta. Nessa esteira, são muitas as tentativas 
de defesa e refutação das ideias marxianas, de forma que se acaba 
recaindo na repetição e falta de originalidade (HOBSBAWN, 2011). 
E é curioso notar que, mesmo depois de um século, ainda escutamos 
as mesmas críticas sobre suas ideias. 
Podemos afirmar que, em virtude da crise estrutural do 
capitalismo6, é inegável a importância de voltar a Marx e perceber a 
incrível atualidade do autor d’O Capital. Não há nenhuma evidência 
de que as metamorfoses pelas quais o capitalismo vem passando 
tenham alterado as relações sociais e as leis básicas postuladas por 
Marx. Ou seja, como bem disse José Paulo Netto, sem Marx não se 
pode compreender a ordem burguesa de modo a superá-la. 
Mas, é importante frisar que não estamos discutindo Marx em 
um tempo sem data, mas em um período histórico ainda marcado pela 
queda do muro de Berlim, quando vivenciamos a derrota do 
socialismo soviético e a crise do marxismo, o qual todos trataram de 
relegar imediatamente ao esquecimento total. Até hoje, a tese de fim 
da História, postulada por Francis Fukuyama (1992), na década de 
1990, ainda persiste fortemente, e as relações de exploração às quais 
os trabalhadores estão submetidos são mais do que nunca 
naturalizadas. Ora, para este autor, o liberalismo econômico seria o 
ápice da evolução da sociedade contemporânea, que viria 
acompanhado da liberdade e igualdade de oportunidade para todas as 
pessoas. Como bem sabemos, não foi isso que ocorreu. Hoje, cerca de 
um bilhão de pessoas estão desempregadas e o que as evidências 
mostram é que essa parcela de desempregados está ligada aos mesmos 
“paradigmas do trabalho” (FIORI, 2001), com trabalho precarizado, 
perda de direitos e uma inserção cada vez mais profunda num processo 
 
6 Para István Mészáros, importante marxista húngaro, a crise do capital é endêmica, 
cumulativa, crônica e permanente; e suas manifestações são o desemprego estrutural, 
a destruição ambiental e as guerras permanentes. Leia mais no seu livro “A crise 
estrutural do capital” (2009). 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
15 
de alienação. A situação é ainda mais complexa que à época de Marx, 
pois o capital se articula como um poderoso sistema global 
(MÉSZÁROS, 2002). 
Além disso, em um mundo em crise, muitas ideias 
conservadoras têm voltado à tona, com novas roupagens. Ou seja, são 
tempos pouco favoráveis, do ponto de vista histórico e cultural, para 
tratar de um pensador revolucionário, como foi Marx. 
 
 
Mas, como o próprio Marx anunciou há mais de 150 anos: "a 
situação desesperadora da época na qual vivo me enche de 
esperanças." Neste trecho, Marx nos lembrava de que é justamente nos 
períodos mais difíceis que podemos, enfim, nos livrar de um passado 
que já não nos serve mais. E é pelo próprio Marx que buscamos as 
ferramentas para enfrentar os desafios e fardos do tempo presente. 
Segundo Marcello Musto (2016), desde 2008, Marx tem sido 
resgatado das prateleiras empoeiradas com uma velocidade 
impressionante; vários de seus livros estão sendo reeditados e 
tornando-se best-sellers em todo o mundo. 
A vida do próprio Marx nos dá pistas de que caminhos trilhar, 
já que ele foi um dirigente revolucionário, profundamente vinculado 
ao movimento operário e às lutas do seu tempo, como veremos adiante 
neste capítulo. 
Afinal, de modo geral, como tomamos contato com a obra 
marxiana? O que você já leu ou ouviu falar sobre Marx? 
Um bom material para aprofundar o tema da pertinência do 
marxismo nos dias atuais é o livro “Em defesa da História”, de Ellen 
Meiksins Wood e John Bellamy Foster (1999). 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
16 
 
 
Devemos lembrar que a publicação e a edição de vários livros 
de Marx só ocorreram anos após sua morte. Inclusive, anos depois da 
morte de muitos autores fundamentais para a tradição marxista, como 
Lênin, Rosa Luxemburgo e Gramsci. Depois da morte de Marx, 
Engels, como era de se esperar, foi o primeiro a se dedicar a editar o 
legado deixado pelo seu parceiro intelectual. Engels se focou quase 
que exclusivamente no trabalho editorial das sequências de O Capital, 
já que Marx só havia deixado publicado o primeiro volume, como 
veremos a seguir. Após a morte de Engels, os herdeiros diretos da 
tarefa de continuidade da linha editorial de Marx foram os líderes do 
Partido Social-democrata, Karl Kautsky e Eduard Bernstein. No 
entanto, os vários conflitos políticos envolvendo o Partido impediram 
que sua obra fosse publicada de maneira sistemática. 
A primeira tentativa de publicar as obras completas de Marx e 
Engels, a Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA), deu-se apenas nos 
anos de 1920, na União Soviética, mas foi interrompida ainda no 
começo dos anos 1930, com o advento do Stalinismo e também do 
Nazismo na Alemanha. Segundo Musto (2016), a MEGA, planejada 
para ser uma reprodução fiel de todos os escritos de Marx e Engels, 
iniciada em 1975, também foi interrompida após a queda do Muro de 
Berlim, quando se instala a chamada crise do marxismo, que 
comentamos anteriormente. Apenas em 1990, o Internationaal 
Instituut voor Sociale Geschiedenis (Instituto Internacional de História 
Social), de Amsterdam, e o museu Karl Marx Haus, em Trier, 
formaram o Internationale Marx-Engels-Stiftung que retomou a 
Recentemente, nos cinemas foi lançado o filme O Jovem Karl 
Marx. É um filme de 2017, dirigido pelo haitiano Raoul Peck, 
coescrito por Raoul Peck e Pascal Bonitzer, e estrelado por August 
Diehl. Foi exibido no Festival de Cinema de Berlim, de 9 a 19 de 
fevereiro de 2017. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
17 
publicação das obras de modo sistemático, em 1998, após um período 
de difícil reorganização, com novos princípios editoriais aprovados 
(MUSTO, 2016). 
Já notamos que a história da divulgação da integralidade das 
obras de Marx e Engels é muito recente e, hoje, para entender o sentido 
da obra marxiana e a sua unidade, é preciso considerar os novos 
achados a partir da MEGA. 
A obra marxiana coloca a possibilidade de uma novainteligibilidade da sociedade burguesa, ao mesmo tempo 
compreendendo-a e negando-a. O conhecimento e a prática das suas 
ideias possibilitaram o que parecia impossível durante 20 séculos: 
emancipar todos os homens e mulheres, libertando-os da exploração a 
qual estão subjugados. 
E quando falamos em obra marxiana, referimo-nos àquilo que 
é “da estrita lavra de Marx –, distinguindo-a do que se convencionou 
denominar de “marxismo” ou, talvez numa nomenclatura mais 
precisa, da “tradição marxista” – um bloco complexo e diferenciado, 
comportando vertentes convergentes e conflitantes” (YAMAMOTO, 
2016, p. 26). Segundo Oswaldo Yamamoto (2016), é possível pensar 
em uma interpretação – a que nos afeiçoamos neste livro - que parte 
das próprias formulações marxianas, buscando apanhar a sua estrutura 
interna e pensá-la como unidade: 
 
Partimos, pois, da afirmação contida n’A 
Ideologia Alemã de que ele (e Engels) 
(MARX; ENGELS, 1845-1846/2007) 
reconhecem uma ciência, a ciência da 
história, que, por sua vez, seria subdividida 
na história da natureza e na história dos 
homens (reciprocamente condicionados). 
Marx (e Engels) afirmam seu foco de 
interesse, naquela obra, na história dos 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
18 
homens. E o fazem a partir da compreensão 
do social como uma unidade teórica 
articulada – a partir da perspectiva da 
totalidade. Articulado com essa obra de 
1845-46, encontramos as Teses sobre 
Feuerbach, com a conhecida undécima tese 
na qual Marx propõe que a filosofia não 
deve se restringir a interpretar o mundo, mas 
também transformá-lo (YAMAMOTO, 
2016, p. 27). 
 
Marx tem sido apresentado para nós a partir de várias 
caixinhas, ditas especialidades das ciências modernas: o Marx 
filosófico, o econômico, o político, etc. Essa fragmentação retira da 
sua obra o seu sentido mais importante, que está, de acordo com José 
Paulo Netto (2011), ancorada em três pilares fundamentais: (1) o 
Método dialético; (2) a perspectiva da Revolução; e a (3) Teoria do 
valor-trabalho. Esses pilares precisam ser entendidos no seu conjunto, 
pois a obra marxiana comporta uma unidade, com relação interna de 
continuidade e mudanças, mas, a nosso ver, sem rupturas ideológicas. 
Esses três elementos são indissociáveis da obra marxiana; retirar 
algum deles significa negar o cerne da sua teoria social, cujas 
formulações são rigorosamente históricas, e consiste em um 
tratamento concreto a um objeto concreto, que é a sociedade burguesa 
(YAMAMOTO, 2016). 
Ao longo deste livro, você vai poder compreender cada um 
desses pilares fundamentais, que dão sentido, em conjunto, ao 
pensamento de Marx. 
 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
19 
Introdução ao pensamento marxiano: pontuações 
biobibliográficas 
 
Você já deve estar curioso(a) para saber um pouco mais sobre 
quem foi esse famoso filósofo revolucionário. Certamente, já ouviu 
falar algo sobre a vida de Marx e de seu parceiro intelectual, Friedrich 
Engels. Mas, vamos contar sobre esse encontro imprescindível mais 
adiante. É importante dizer que muito do que foi escrito sobre a 
história de Marx apresentou muitos vieses políticos, de acordo com a 
finalidade de cada contexto, e o que vamos contar aqui parte de um 
pequeno recorte da sua vida que consideramos relevante para quem 
está se iniciando na discussão. 
 
 
Primeiramente, vamos fazer uma pequena viagem, para 
acompanhar a trajetória do nosso protagonista. Nossa primeira parada 
é a Renânia, onde vivia a família Marx, considerada de camada média 
urbana. De fato, Karl Marx nasceu em Trier – a mais antiga cidade da 
Alemanha –, no dia 5 de maio de 1818. Viveu 65 anos – o que, para 
os padrões da época da Inglaterra, significou uma vida longa, apesar 
de todas as adversidades e da precariedade material em que viveu. 
Além do sotaque renano, em Trier, Marx adquiriu sua paixão pela 
História (MAcLELLAN, 1990). 
 
Você pode ler mais no livro de David MacLellan (1990), “Karl 
Marx: Vida e Pensamento”; e também na biografia escrita por Franz 
Mehring (2013), “Karl Marx, a história da sua vida”. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
20 
 
Figura 1 - Local de nascimento de Karl Marx em Trier, 
Alemanha. Hoje, Museu Karl Marx, Brückenstraße 10. Fonte: 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Trier_BW_2014-06-
21_11-11-49.jpg 
 
A mãe de Marx, Henrietta, de quem se sabe pouco, era uma 
senhora de ascendência holandesa, retratada como uma mulher 
simples, voltada para a casa e sua família. Seu pai, o advogado Heschel 
Marx, era judeu, mas precisou abrir mão da sua condição, já que 
judeus não dispunham de direitos jurídicos na época. Então, para poder 
continuar a exercer a advocacia, o pai de Marx foi obrigado a se 
converter ao protestantismo e mudar o seu nome para Heinrich Marx. 
Ao que tudo indica a tradição judia não influenciou muito suas 
convicções, mesmo antes da conversão. Segundo Eleanor, filha de 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
21 
Marx, seu avô estava imbuído de ideias livres francesas do século 
XVIII sobre política, religião, vida e arte (MAcLELLAN, 1990) e uma 
simpatia pelos direitos dos oprimidos, o que certamente influenciou a 
formação de Marx. Além disso, a herança judaica da sua família será 
tema que irá acompanhar muitos debates que Marx travou ao longo da 
sua vida. 
A condição econômica da família Marx era relativamente 
confortável, e seu pai trabalhava duro para sustentar seus nove filhos. 
Tal condição permitiu que o jovem Karl fosse estudar a profissão que 
mais estava em alta na época, a faculdade de Direito (provavelmente, 
também, para seguir os trilhos do pai). Então, em outubro de 1835, aos 
17 anos de idade, Marx sai de casa para estudar na Universidade de 
Bonn, cidade pouco maior que Trier, e que era o centro intelectual da 
Renânia. Marx vivenciou a universidade de Bonn intensamente, como 
todo jovem de hoje em dia: estudava, bebia com os amigos, envolvia-
se em conflitos (chegou a se machucar em um duelo!), escrevia poesias 
(apesar de não ser seu forte) e participava de clubes estudantis. Após 
um ano, o pai de Marx resolve transferi-lo para a Universidade de 
Berlim para que terminasse seus estudos em Direito. 
Há ainda um fato importante na vida de Marx antes de seguir 
para Berlim: no verão de 1836, quando tinha apenas 18 anos, ele 
formaliza o noivado com Jenny von Whestphalen, que era quatro anos 
mais velha que ele e tinha diferente status social, o que trouxe alguns 
conflitos entre as famílias. Mesmo assim, Jenny foi sua companheira 
por toda a vida. 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
22 
 
Figura 2 - Jenny von Westphalen, esposa de Karl Marx. Fonte: 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Karl_Marx_Frau.jpg 
 
Marx segue para Berlim, nesse mesmo ano, e resolve fazer 
Filosofia, doutorando-se em 1841. Anos antes, o pai de Marx havia 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
23 
falecido (em 1838), de forma que a situação financeira da sua família 
estava pior e os interesses de Marx acabam mudando do Direito para 
a Filosofia. A pretensão do jovem Marx era ser professor universitário 
e acreditava que, graduado em Filosofia, poderia alcançar seu desejo. 
O mundo acadêmico poderia oferecer uma oportunidade mais 
imediata, diante da situação financeira da sua família. Ademais, Marx 
começava a enxergar os limites do Direito para a compreensão da 
sociedade e dos meios de transformá-la. Nesse período, Marx fazia 
parte do Clube dos Doutores, junto com os irmãos Bauer (com quem 
travaria enormes debates posteriormente) e começou a elaborar seus 
pontos de vista sobre filosofia e sociedade. O próprio Bruno Bauer o 
incentivou nessa empreitada. Assim, Marx escreve uma dissertação 
bastante elogiada,em que discute as diferenças entre Demócrito e 
Epicuro, tema influenciado pelo interesse dos Jovens Hegelianos. Na 
tese, Marx critica o determinismo mecanicista de Demócrito e 
contrasta com a ética de liberdade de Epicuro, que ele admirava 
(MAcLELLAN, 1990). 
Pronto para disputar um lugar na universidade, o jovem Karl 
encontra uma série de obstáculos e esse projeto naufraga. Em 1841, 
sobe ao trono da Prússia Frederico Guilherme IV e todos tinham a 
expectativa de que, com ele, se desse uma abertura democrática na 
Alemanha. Ocorre que havia a expectativa de modernização do país, 
já que a Alemanha vivia um tempo histórico atrasado, na medida em 
que não havia se unificado sincronicamente aos outros países 
europeus. Para se ter uma ideia, à época de Marx, o Estado ainda não 
era laico, o fenômeno industrial e urbano ainda não havia se dado na 
Alemanha, e as burguesias das províncias eram débeis (PAULO 
NETTO, 2011). 
No entanto, Frederico Guilherme IV não compôs com os 
fracos setores burgueses e instalou, ao contrário, uma política 
conservadora. Uma medida paradigmática do seu projeto político é a 
nomeação de um novo reitor da Universidade de Berlim, o filósofo 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
24 
Shelling, que vinha apresentando posições reacionárias desde que 
rompeu com Hegel – o mais importante e proeminente filósofo 
alemão, que influenciou fortemente todo o pensamento de Marx. Na 
verdade, a intenção era justamente apagar os resquícios da influência 
de Hegel – considerada progressista, ao menos no que tange a uma 
parte dos seguidores da chamada esquerda hegeliana –, que havia sido 
reitor nesta Universidade. O que Frederico fez foi substituir Hegel e 
suas ideias pelo seu grande antagonista. 
Nesse contexto reacionário, jovens professores ligados a Marx 
são excluídos e expulsos da Universidade de Berlim, e logo Marx não 
tem mais lugar ali. Na necessidade de ganhar a vida, o caminho 
encontrado por Marx é o jornalismo. Ele se transfere de Berlim para 
Colônia, a capital da Renânia, onde havia uma atmosfera bem mais 
progressista e começa a trabalhar em um jornal que estava nascendo, 
a Gazeta Renana. O jornal tinha em seu programa uma plataforma 
liberal e era financiado pela incipiente burguesia renana para se 
contrapor à política de Frederico Guilherme IV. Em pouco tempo na 
Gazeta Renana, Marx se impõe como redator chefe, o que foi uma 
experiência importante para sua trajetória, pois descobre que, no 
mundo jornalístico, diferente da academia, as respostas deviam ser 
formuladas rapidamente, e percebe que a sua formação em Filosofia 
era insuficiente para entender a polêmica conjuntura político-
econômica. Ou seja, compreende que as ideias abstratas não resolviam 
o confronto com a história quente (PAULO NETTO, 2011). 
Marx era, até aí, um democrata radical – defendia direitos do 
povo – e vai para o jornal para confrontar o absolutismo da época. 
Nesse período, escreve uma série de artigos sobre a liberdade de 
imprensa e o papel da censura, além de se deparar com leis mais 
rigorosas que estavam sendo impostas como, por exemplo, leis sobre 
divórcio e sobre a tradicional coleta de lenha, que passa a ser 
considerada roubo. Marx passa a escrever apaixonadamente sobre 
essas questões, refletindo que a ausência de uma imprensa 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
25 
verdadeiramente livre exercia uma ação desmoralizadora, desviando o 
povo da vida política (LOWY, 2012). 
Com o tema do roubo da lenha, seu primeiro importante artigo 
como editor, cresce o interesse de Marx pelas realidades 
socioeconômicas. Vale salientar que a coleta de lenha seca sempre 
havia sido irrestrita, de modo que os camponeses podiam retirar 
livremente a lenha dos bosques, já que o papel da madeira era 
importante nas regiões frias, por proporcionar aquecimento. Em 1842, 
devido à escassez causada pelas crises agrárias e à necessidade 
crescente das indústrias, surge uma lei que caracteriza o recolhimento 
de madeira como furto. 
O problema tomava enormes proporções na justiça. Como era 
uma tradição legitimada, Marx enfrentou o problema no jornal, tomou 
posição em favor dos camponeses, por razões políticas e éticas, ou 
seja, pela defesa do mais fraco, mas não entrou em argumentos sociais 
ou históricos. Marx afirmava: “se qualquer violação da propriedade 
privada, sem distinção ou determinação mais precisa, é roubo, não 
seria toda propriedade privada um roubo? Através da minha 
propriedade privada eu não estaria privando outra pessoa dessa 
propriedade? Não violo assim o direito à propriedade? ” (MARX, 
publicado em 1842). Marx enfatiza nesse artigo que o interesse 
privado tem uma alma “mesquinha e egoísta”. 
O período da Gazeta Renana foi decisivo para a evolução do 
jovem Marx, por marcar sua entrada na vida política e seu confronto 
com as “questões materiais”. Na maioria de seus artigos para a Gazeta 
Renana, Marx escreveu fórmulas que opõem as ‘lutas espirituais’ às 
‘lutas materiais’ (LOWY, 2012). 
Marx sente a necessidade de se debruçar mais profundamente 
sobre as questões econômicas; sua formação em Filosofia e Direito já 
não era mais suficiente para responder às questões sobre as quais se 
debruçava. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
26 
A situação dos camponeses levou Marx a passar da política 
para as questões econômicas e, consequentemente, para sua futura 
adesão ao comunismo. 
 
Em suma, mesmo permanecendo ligado à 
concepção hegeliana do Estado racional, 
Marx já envereda, por meio da crítica ao 
Estado prussiano burocrático e feudal, para 
o caminho que o levará à ruptura total com 
Hegel em 1843 e, pela crítica ao “egoísmo 
privado”, para o caminho que o conduzirá ao 
comunismo (LOWY, 2012, s/p.). 
 
Ou seja, Marx enfrentou problemas para os quais Hegel não 
havia previsto solução. Enquanto isso, a Gazeta Renana vivia uma 
série de crises, com muitas diferenças de opiniões com jovens 
hegelianos e polêmicas com seu concorrente – um jornal conservador 
que o acusava de tendências comunistas, o que só serviu para atiçar 
Marx a estudar o tema. Marx passou cinco meses na direção do jornal, 
que foi fechado em atendimento a um pedido do embaixador da 
Prússia, por ter criticado o czar em um de seus artigos (WILSON, 
1986). Havia a necessidade de deixar a Alemanha, que já não lhe 
proporcionava a possibilidade de começar nada novo. Até agora, os 
filósofos haviam apenas interpretado o mundo... Era preciso 
transformá-lo! Marx compreendeu que era chegada a hora de mudar o 
mundo! 
Marx toma a decisão de impor-se um autoexílio e resolve 
estabelecer-se em Paris, que considerava a fronteira de um novo 
mundo. A ida para Paris apresentava algumas razões essenciais: a 
necessidade de formar-se e o fato de que Paris, pós 1830, era 
considerada um microcosmo do mundo (vários refugiados estavam 
por lá), sendo também um lugar onde certas liberdades políticas 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
27 
estavam garantidas. Em segundo lugar, Marx tinha um projeto para 
construir uma revista franco-germânica: uma nova filosofia teria que 
combinar uma cabeça alemã com um coração francês (MAcLELLAN, 
1990). Além disso, essa era uma forma de garantir seu sustento e 
Marx, enfim, poderia se casar. 
Marx, com promessa de trabalho e apaixonado, e Jenny, que 
era mais velha do que ele e da nobreza, casam-se em junho de 1843. 
Passam um tempo na estância termal de Kreuznach, quando Marx se 
retira do cenário público e dedica-se a escrever o seu novo projeto da 
revista franco-germânica. Ele aproveita para estudar a história da 
Revolução Francesa, lendo de Maquiavel a Rousseau, e redigir um 
texto que é fundamental para compreender o itinerário de seu 
pensamento. Marx tentava fazer as pazes com a filosofia política de 
Hegel e se confronta com um texto da maiorimportância do 
pensamento alemão: A filosofia do Direito. 
Nesta obra, Hegel tece as relações entre o Estado e a sociedade 
civil, problema que nutre a teoria política desde que ela nasce. Marx 
queria entender o Estado alemão, e sua relação com a sociedade alemã. 
A solução de Hegel, nesse texto de 1821, era afirmar que o que 
sustenta a sociedade civil é o reino da miséria física e moral, o caos. 
Para Hegel, o Estado funda e organiza a sociedade civil. É desta obra 
a célebre determinação hegeliana: “o que é real é racional”. Hegel 
divide a intelectualidade alemã, permitindo a identificação de dois 
blocos: a direita hegeliana, considerada conservadora, que entendia 
que, se o real é racional, aquilo que existe está conforme os 
imperativos da razão – logo é intocável –, ou seja, o Estado dá sentido 
à sociedade. Outro polo era formado por jovens contestadores, a 
esquerda hegeliana, que interpretavam a afirmação como: o real pode 
ser submetido à crítica racional, permeável à crítica da razão. 
Nesse contexto, Marx estava lendo a Filosofia do Direito sob 
forte influência de Feuerbach, outro filósofo alemão – que tinha feito 
uma crítica radical do pensamento hegeliano –, como também estava 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
28 
imbuído pela sua experiência na Gazeta Renana, que permitiu a 
incorporação de elementos socioeconômicos na sua crítica. A tese de 
Feuerbach, que tinha sido lida entusiasticamente por Marx, promoveu 
a inversão dos termos postos por Hegel. Dizia que a Filosofia não 
deveria partir de Deus, o infinito, mas tinha que começar com o 
homem, o finito, o particular, o real: o ser é o sujeito, o pensamento é 
o predicado. O pensamento surge do ser, e não o contrário 
(MAcLELLAN, 1990). 
Marx, sob esta influência, identifica a mesma inversão na 
Filosofia do Direito de Hegel, pois não é o Estado que funda a 
sociedade civil, mas a sociedade que permite a compreensão do 
Estado. Por outro lado, quanto a Feuerbach, não estava de acordo com 
a ausência da política em seus escritos. Para Marx, a política “era o 
único meio para a Filosofia contemporânea se tornar verdade” 
(MAcLELLAN, 1990, p. 82). A política deveria guiar a ação. Assim, 
Marx dá um sentido social e histórico à sua crítica. Escreve, então, um 
texto fazendo uma Crítica (que era o termo preferido utilizado pelos 
Jovens Hegelianos), com um estilo de trabalho que o acompanha por 
toda a sua vida: tratava os autores, transcrevia trechos de suas obras e 
dialogava com eles. Este Manuscrito de Kreuznach, de 1843, torna-se 
a primeira crítica de Marx a Hegel; uma recusa à solução hegeliana, 
considerada especulativa, baseada em concepções subjetivas, em 
desacordo com a realidade. Como entender a sociedade civil? Com 
que instrumentos? Com que conjunto de conhecimentos? É importante 
destacar que nem todos os elementos para tratar a sociedade civil 
estavam dados naquele momento. 
É com esse texto sobre a política de Hegel que Marx abandona 
Kreuznach e se estabelece em Paris com Jenny, em outubro de 1843. 
Seria o clima intelectual de Paris que levaria Marx a fazer a transição 
definitiva do mundo das ideias para o mundo da política imediata 
(MAcLELLAN, 1990). 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
29 
 
Figura 3 - Vaneau, onde Marx e Jenny moraram em Paris. 
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rue-de-
Vaneau.jpg 
 
Em Paris, assumiu a direção da publicação dos Anais Franco-
Alemães, tendo como colaboradores nomes como Hess, Engels, 
Bakunin e Herwegh. Lá foi apresentado a diversas sociedades secretas 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
30 
de socialistas, pois Paris, nessa época, era considerada o centro do 
pensamento socialista, mesmo com toda a censura imposta pela 
monarquia burguesa de Luís Filipe. É a partir de 1843 que Marx 
constata que tem um objeto determinado que atrai sua atenção, mas 
reconhece que não tem armas para decifrar; é aqui que começa o Marx 
que conhecemos (PAULO NETTO, 2011). 
Marx também se vê às voltas com um debate com Bruno 
Bauer sobre a questão judaica, pois os judeus tinham um conjunto de 
restrições às liberdades democráticas, como, por exemplo, não poder 
ir a parques púbicos. Marx afirma em Sobre a questão judaica que a 
emancipação política – dos judeus e de qualquer pessoa – se constituía 
em uma conquista, contudo, insuficiente; era necessário dar um passo 
além e lutar pela emancipação humana real. A emancipação política 
era o direito ao reino da miséria. A perspectiva de emancipação 
humana traz em seu bojo a ideia de revolução, apontando que era 
preciso ultrapassar esse limite colocado pela sociedade civil burguesa. 
O texto é escrito no final do segundo semestre de 1843, e ainda não 
estava nítido para Marx quem faria isso; ele não tem ainda a noção de 
classe definida, pois ainda fala de povo, de modo genérico. Essa é uma 
importante discussão travada por Marx sobre emancipação política e 
emancipação humana, que será discutida de modo mais aprofundado 
no próximo capítulo deste livro. 
 
 
Nesse mesmo período, Marx conhece Friedrich Engels (1820-
1895), nascido em Barmen (Prússia), membro de uma rica família 
industrial do ramo têxtil. Engels era o contrário de Marx em vários 
aspectos, pois não teve influências pessoais na sua formação – seu pai 
Na peça O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, 
podemos perceber esse debate que estava colocado para a época, 
pois a obra retrata o poder que o judeu tinha e a discriminação 
social que sofria. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
31 
era um industrial bastante conservador e seu caminho revolucionário 
foi construído, segundo Mehring (2013), pela sua excepcional 
inteligência. Havia ido a Berlim aos 20 anos de idade para prestar 
serviço militar e frequentou, como ouvinte, a Universidade de Berlim. 
No entanto, Engels não concluiu um curso formal acadêmico, pois 
abandonou os estudos um ano antes de se formar bacharel. Era um 
excelente comerciante, embora não se identificasse com o mundo dos 
negócios. O seu pai o mandou para a Inglaterra e, entre 1842-1844, 
Engels trabalhou na fábrica de tecidos Ermen & Engels, da qual seu 
pai era sócio (MEHRING, 2013), em Manchester. Logo se liga ao 
movimento operário inglês, que estava num processo de ascensão 
devido ao movimento cartista, e participa ativamente do movimento. 
Vincula-se a uma mulher irlandesa (que eram os mais explorados na 
Inglaterra), que vem a se tornar a sua primeira companheira. 
Engels havia mandado um artigo para o jornal de Marx, 
Esboço de uma crítica de economia política, que o impactou 
profundamente. O texto é curto, escrito com a avidez da juventude, e 
completamente revolucionário. Nele, Engels faz uma leitura das 
contradições da economia política inglesa, a partir da sua origem, a 
propriedade privada. Seu texto continha sementes do comunismo 
científico, o que coloca Engels como pioneiro nesse campo 
(MEHRING, 2013). Apesar de bastante modesto ao falar de si mesmo 
(dizia ele ser Marx um gênio e todos os outros, no máximo, 
talentosos), a importância de Engels na formação de Marx é 
fundamental. Marx considerou esse esboço de Engels genial, sendo 
por meio dele que Marx toma conhecimento e interesse profundo pela 
economia política. Para se ter uma ideia, Marx o citou diversas vezes 
em O Capital. 
 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
32 
 
Figura 4 - Friedrich Engels. Fonte: 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Engels.jpg 
 
No final de 1844, Engels, retornando dos seus trabalhos na 
Inglaterra, passa por Paris, visita Marx (já o havia conhecido em uma 
breve passagem por Colônia, mas os dois não se deram bem a 
princípio) e os dois mantêm longas conversas; descobrem que 
dividiam as mesmas inquietações políticas e que, por caminhos 
diferentes, estavamchegando a conclusões semelhantes. Marx 
concluindo sobre as lutas da época por meio da Revolução Francesa, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
33 
e Engels com base na indústria britânica (MEHRING, 2013). Estava 
nascendo a colaboração intelectual mais importante do mundo 
moderno: a parceria Marx /Engels, e uma amizade tão intensa que só 
terminaria com a morte de Marx. Desse primeiro profícuo encontro, 
Marx e Engels resolvem tornar pública sua crítica aos irmãos Bauer 
no livro “A Sagrada Família: crítica de um criticismo crítico” (irônico 
título referindo-se aos Bauer e suas ideias críticas). Apareceu ali, pela 
primeira vez, a concepção materialista de história (MAcLELLAN, 
1990), que iremos retomar adiante. 
Engels foi um interlocutor fundamental de Marx; não foi 
apenas segundo violino, como ele próprio se definiu, mas um pensador 
original, que realizou elaborações teóricas independentes de Marx. 
Tinha já uma vivência com o movimento operário e uma visão de 
mundo mais ampla do que a de Marx. Além disso, Engels teve um 
papel imprescindível na vida pessoal de seu amigo: foi responsável 
pela sobrevivência material da família Marx nos anos do exílio, o que 
permitiu que Marx conseguisse escrever sua obra, mesmo sob 
duríssimas condições materiais. 
O primeiro evento na vida de Marx em Paris foi justamente o 
contato com Engels, simultaneamente à descoberta por Marx do 
pensamento socialista, pois começou a ler toda a tradição de autores 
socialistas, como Babeuf e Blanqui. Em Paris, Marx descobre um novo 
mundo, um novo modo de relação entre homens e mulheres. A 
experiência em Paris foi fundamental para que o democrata radical – 
pois, como dissemos, fazia a defesa dos direitos do povo, de maneira 
genérica – se transformasse num pensador comunista, vinculado ao 
movimento operário. E aqui está o grande legado deixado por Marx, a 
confluência entre esses dois aspectos, ou seja, Marx escolhe uma 
perspectiva política e a vincula a um problema teórico, e para entendê-
la depara-se com uma chave heurística, que é a economia política 
(PAULO NETTO, 2011). A adesão de Marx à causa proletária – e o 
seu entendimento do proletariado como sujeito histórico da revolução 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
34 
– foi fortemente influenciada por esse conjunto de vivências que Marx 
estava tendo em Paris, pois Marx estava “no coração do pensamento e 
ação socialistas” (MAcLELLAN, 1990, p. 112). 
Em 1844, enquanto Jenny estava em Trier, cuidando da saúde 
de uma de suas filhas, Marx utiliza seu tempo para escrever notas, 
bastante densas, sobre comunismo, economia clássica e sobre Hegel, 
que foram publicadas integralmente tempos depois, com o nome de 
Manuscritos Econômico-filosóficos, ou Manuscritos de Paris. A 
compilação do texto é complicada, pois eram notas que foram 
agrupadas em três grandes manuscritos, e uma parte separada em que 
se debruça sobre o texto Fenomenologia do espírito, de Hegel. Esse 
texto é considerado por alguns marxistas como um dos mais 
polêmicos, porque, para alguns teóricos – dos quais discordamos –, 
que defendem a ruptura entre um jovem Marx e um Marx maduro, este 
seria o momento da ruptura. É nele que Marx expressa de maneira 
mais nítida o contato com o movimento operário. Marx, nesse 
momento, está diretamente ligado ao movimento, imerso no caldo 
cultural e político que era Paris. E, já sob influência de Engels, afirma 
que, para entender a sociedade civil, é preciso entender a economia, 
encontrando o eixo central da sua crítica – que, como dissemos, está 
na economia. 
Nesse texto, então, fica evidente a leitura que Marx faz da 
realidade: o mundo é produtor de riquezas, mas povoado por pessoas 
que vivem na miséria – este é o tema colocado para Marx nesse 
momento, uma crítica teórica contundente à economia burguesa. Marx 
também introduz uma discussão que traz um dos seus conceitos 
fundamentais: a alienação. O conceito de alienação estava presente 
em Hegel, e Marx faz um retorno ao filósofo alemão, mas compreende 
a questão de outra maneira. Em Hegel, alienação e exteriorização são 
sinônimos, o espírito absoluto se coisifica – logo, exteriorização é 
imanação do espírito, que é imperfeito. Para Marx, a objetivação é 
característica essencial do homem, pois o homem se exterioriza, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
35 
produz objetivações, é um ser ativo. A essência do homem é a 
característica de se exteriorizar, de produzir objetivações. Para Marx, 
então, objetivação e alienação não são a mesma coisa. 
Percebamos que, na antropologia de Marx, a protoforma da 
atividade humana é o trabalho (como veremos no terceiro capítulo). 
Diferentemente da exteriorização, que é característica humana, o 
trabalho é alienado apenas em determinadas condições econômicas. 
Na economia burguesa, como dissemos, há produção de riquezas e as 
pessoas estão imersas na pobreza, porque o homem é alienado do 
produto do trabalho, alienado no processo do trabalho (a própria 
atividade do homem é estranhada, alienada), e não se reconhece na 
relação com os outros homens – logo, o homem se aliena do gênero 
humano. Há uma tríplice alienação e o fundamento do problema é a 
propriedade privada. O homem rico é o que se apropria do fruto das 
objetivações humanas. Para Marx, o homem se objetiva, cria, por meio 
do trabalho, mas esse processo deixa de ser de autoconstituição para a 
condição de trabalho alienado no modo de produção capitalista. Esse 
é o centro da discussão desse momento, que irá se aperfeiçoar na 
medida em que Marx avança na compreensão do seu objeto. Ainda 
não está nítido, para Marx, o processo de apropriação de riquezas, que 
vai tornando o homem mais pobre. Ele começa a discutir preço e 
salário, mas a essência da exploração do homem (teoria do valor do 
trabalho, que também veremos no terceiro capítulo) ele ainda não 
enxerga. 
Outra característica importante a destacar é que, pela primeira 
vez, Marx se afirma comunista. Essa opção teórico-política aparece, 
nesse texto, como resultado da supressão da propriedade privada e da 
compra e venda da força de trabalho. O comunismo é o movimento 
que leva à supressão da propriedade privada; supressão que será 
revolucionária, com o protagonismo do proletariado. Logo, 
comunismo não é meta, é movimento. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
36 
Na época, a propagação de ideias comunistas estava proibida 
na Prússia, e as autoridades alemãs proibiram a distribuição dos Anais 
franco-alemães e emitiram ordens de prisão a Marx, tornando-o um 
refugiado político. Em 1845, Marx é expulso de Paris, juntamente com 
outros revolucionários – como Ruge e Bakunin –, e se dirige para 
Bruxelas, em um processo real de exilio, onde vive pelos próximos 
três anos da sua vida. 
 
Seu exílio em Paris tinha durado pouco mais 
de um ano, mas talvez o ano mais 
importante em suas divagações e 
aprendizado. Foi rico em experiências e 
estímulos, e ainda mais rico por que ganhou 
um companheiro em armas, aquele de que 
tanto necessitava – e cada vez mais ao longo 
do tempo – para completar a grande obra da 
sua vida. (MEHRING, 2013, p. 99). 
 
Em Bruxelas, Marx vive dias de intensa atividade intelectual, 
em um período mais tranquilo junto com sua família. Nesse período, 
Marx amadurece sua concepção materialista da história, esboçada nas 
onze Teses sobre Feurbach. Esse é o único escrito que ele consegue 
concluir nesse período, e apresenta uma nova visão de mundo, 
expressa na sua célebre décima primeira tese: “Os filósofos apenas 
interpretaram o mundo de modos diferentes; o importante agora é 
transformá-lo”. A concepção materialista de história é posteriormente 
aprofundada e melhor elaborada em A Ideologia Alemã, quando faz 
um acerto de contas definitivo com a consciência filosófica anterior. 
Trata-sede uma obra prima, que ficou desconhecida por quase um 
século, que Marx e Engels dividiram em três partes: “uma exposição 
geral da abordagem histórica e materialista em contraste com os jovens 
hegelianos, uma análise histórica empregando este método, e uma 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
37 
descrição do atual estado da sociedade e seu futuro imediato – uma 
revolução comunista” (MAcLELLAN, 1990, p. 159). 
Para Marx e Engels, era preciso se comprometer com o 
movimento prático, político. Já haviam apontado, em A Sagrada 
Família, que Bauer e seus companheiros privilegiavam uma visão de 
história aristocrática, em que uma elite privilegiada fazia a história, e 
estaria pondo em prática um plano racional divino. Marx chama a 
atenção para o fato de que “as ideias nunca podem, por si mesmas, 
superar um determinado estado de coisas. Ideias superam ideias e não, 
automaticamente, situações materiais” (KONDER, 1999, p. 47); é 
preciso que os homens ajam. O pensamento está ligado à prática e é 
“no uso social que ele prova a sua eficácia, a sua qualidade” 
(KONDER, 1999, p. 47). Logo, a história pode promover mudanças 
quanto maior for a força da ação popular para mudá-la. 
Os materialistas haviam apenas aberto o caminho para o 
socialismo, mas faltava-lhes compreender que as circunstâncias fazem 
os homens, na mesma medida em que os homens fazem as 
circunstâncias; ou seja, o sujeito existe de modo ativo no mundo, não 
contemplativo. Feuerbach havia renunciado ao idealismo de Hegel 
para passar ao materialismo. Porém, era considerado um metafísico e, 
na sua visão, a sociedade era carente de movimento e possibilidade de 
transformação. Já Marx tratou de elaborar para os comunistas 
modernos uma nova concepção, um materialismo prático (KONDER, 
1999). 
Enquanto escrevia A Ideologia Alemã, destrinchando como os 
homens adotam e utilizam determinadas formas de apreender a 
realidade, Marx continua sua vinculação com o movimento operário, 
assim como suas interlocuções com a Liga dos Justos (antiga Liga dos 
Proscritos, que havia nascido em Paris e mudou-se posteriormente 
para Londres). Ele estabelece, com Engels, o Comitê de 
Correspondência Comunista – embrião de todas as Internacionais 
Comunistas (MAcLELLAN, 1990). 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
38 
Entre 1846 e 47, a associação vive uma crise grave e seus 
dirigentes procuram Marx, que já estava se notabilizando nos círculos 
operários, para ingressar na Liga. A ideia era reformular a Liga e 
convocar um congresso em Londres. Marx, juntamente com Engels, 
aceita a proposta, associa-se e a Liga ganha uma profunda mudança 
política, transformando-se em Liga dos Comunistas, tendo seu slogan 
modificado para “Proletários de todos os países, uni-vos”! No final do 
segundo Congresso da Liga, Marx e Engels, após intensos debates e 
discursos inspirados, recebem a incumbência de escrever um 
manifesto para publicizar as ideias da Liga. Marx tinha apenas 28 anos 
de idade e havia impressionado a todos, pela sua inteligência, 
eloquência e pela virilidade do pensamento socialista que defendia. 
Em fevereiro de 1848, ele e Engels apresentam o Manifesto 
Comunista, que tinha quatro partes, no qual se apresenta a história da 
sociedade como sociedade de classes e se afirma a possibilidade de 
vitória histórica do proletariado: 
 
A história de todas as sociedades existentes 
até hoje tem sido a história das lutas de 
classes. Homem livre e escravo, patrício e 
plebeu, barão e servo, [...] numa palavra, 
opressores e oprimidos têm permanecido em 
constante oposição uns aos outros, 
envolvidos numa guerra ininterrupta, ora 
disfarçada, ora aberta, que terminou sempre, 
ou por uma transformação revolucionária de 
toda a sociedade, ou pela destruição das 
duas classes em luta (MARX; ENGELS, 
2010, p. 40). 
 
Quando o manuscrito está saindo da gráfica, explode a 
Revolução de Paris de 1848 – que está pouco presente nos livros de 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
39 
história –, e a enorme força do Manifesto – o qual se tornaria um livro 
imprescindível anos mais tarde – não ganha a visibilidade necessária. 
As revoluções na época eram recebidas com muita repressão e marcam 
uma profunda crise na Europa burguesa. Ao lutar pelo trabalho, as 
vanguardas operárias percebem que seus interesses históricos de 
emancipação eram incompatíveis com a ordem burguesa. Nesse 
momento, começam a se impor como sujeitos revolucionários. O 
Manifesto expressa, do ponto de vista da consciência social, a irrupção 
de um novo sujeito histórico; o Manifesto sinaliza, no plano ideal, o 
que estava sendo gestado no plano sociomaterial (PAULO NETTO, 
2011). 
Com as notícias sobre a Revolução de Paris chegando, Marx 
recebe uma ordem para deixar a Bélgica em 24 horas, e chegou a ser 
preso antes mesmo de deixar o país. Nesse ínterim, o governo 
provisório revê a expulsão de Marx de Paris e ele segue mais uma vez 
para lá; mas essa decisão logo é revogada, a expulsão de Paris é 
novamente estabelecida e Marx tem que voltar para a Renânia, 
passando a viver em Colônia. 
Em Colônia, Marx concentra suas forças na edição da Nova 
Gazeta Renana, com a intenção de direcionar a revolução alemã, 
parcial e limitada, e que não havia alcançado a mesma atmosfera 
revolucionária de Paris. Além de escrever para o jornal, Marx participa 
ativamente da política local. Contudo, não demoraria para que as 
dificuldades financeiras e as perseguições políticas começassem a 
atingir o jornal, até este ser fechado, algum tempo depois. 
Também estes foram anos muito violentos, de repressão, para 
os revolucionários. Na década de 1850, indo de Paris a Londres, Marx 
vive um processo brutal de pauperização, chegando a perder seu único 
filho homem, Edgar, em 1855, quando vivia dias difíceis na Dean 
Street londrina. Mas, mesmo a perda tendo abalado Marx 
profundamente, ele se mantém firme nos seus propósitos 
revolucionários. Nesse período, na ocasião em que Luís Napoleão 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
40 
tomou o poder na França como Imperador, Marx compõe uma série de 
artigos, que dão forma ao brilhante O Dezoito de Brumário de Luís 
Bonaparte. É daí a sua afirmação que diz que a história se repete, “a 
primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, referindo-se aos 
dois Bonapartes. 
 
 
Figura 5 - Quo Vadis Restaurant, Dean Street, London; 
anteriormente, o lar da família Marx. 
Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Restaurant_Quo
_Vadis_at_Dean_Street_28,_London,_where_Karl_Marx_lived_
between_1851-56.jpg 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
41 
 
Após anos de intensa participação política, Marx retorna aos 
seus exaustivos estudos sobre economia, que haviam sido 
interrompidos devido à conjuntura do final dos anos 1840, e encontra 
o patamar teórico metodológico que lhe permite decifrar a sociedade 
civil burguesa. No final de 1850, Marx havia se convencido de que 
uma crise comercial e financeira seria uma condição inevitável de 
qualquer revolução e estava em busca de sinais dessa crise, que, de 
fato, vem a ocorrer em 1857 (MAcLELLAN, 1990). 
O segundo grande marco da evolução do pensamento 
marxiano – depois de Kreuznach – é a produção dos manuscritos de 
57/58, que ficaram conhecidos como Grundrisse (Esboço de uma 
Crítica da Economia Política) e são considerados como o esboço 
preliminar d’O Capital, sua obra mais importante. Nos Grundrisse, 
Marx apura sua ótica teórico-metodológica, apresentando discussões 
sobre dinheiro e capital, além de importantes digressões sobre 
indivíduos, natureza do trabalho, natureza da alienação, etc. 
 
Do ponto de vista da economia, o 
Grundrisse contém a primeira elaboração da 
teoria madura de Marx. Há duas mudanças 
decisivasde ênfase. Em primeiro lugar, em 
vez de analisar o mecanismo de mercado de 
troca (como ele fizera em 1844), ele agora 
dizia que o que o operário vendia não era seu 
trabalho e sim sua capacidade de trabalho. 
Foi a combinação desses dois pontos de 
vista que deram origem à doutrina da mais-
valia (MAcLELLAN, 1990, p. 317). 
 
Em meio a uma doença do fígado e precárias condições 
financeiras, que já tinham se tornado crônicas, além da saúde 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
42 
debilitada de Jenny, Marx trabalha intensamente no projeto d’O 
Capital, em seus quatro volumes, pesquisando e produzindo até 1865. 
Em 1867, Marx finalmente consegue editar o volume 1 d’O Capital, o 
único que ele publica em vida, considerado até hoje uma obra prima, 
em que: 
 
Depois de tratar das mercadorias, ele então 
parte para mostrar como o dinheiro é 
transformado em capital. Se no processo de 
circulação de mercadorias se trocam valores 
iguais, como pode o possuidor de dinheiro 
comprar mercadorias por seu valor, vendê-
las por seu valor e ainda assim um valor 
maior do que deu? Ele pode fazer isso 
porque nas relações sociais existentes ele 
encontra no mercado uma mercadoria de tal 
natureza peculiar que seu consumo é a fonte 
de um novo valor. Esta mercadoria é a força 
de trabalho (MEHRING, 2013, p. 353). 
 
Konder (1999, p. 107) escreveu: “Foi no ano de 1867 que 
Nobel inventou a dinamite. Por coincidência, foi também o ano da 
publicação do primeiro volume do Capital”. As afirmações deste livro 
realmente caem como uma bomba sobre uma ideia de um capitalismo 
próspero, e as contradições deste são dissecadas e escancaradas por 
Marx. 
Ora, parece que o trabalhador vende seu trabalho em troca de 
dinheiro, mas isso é só aparência. O que o trabalhador vende é a sua 
força de trabalho – que se transforma em mercadoria. Marx demonstra 
com grande precisão que o trabalhador está condenado a não desfrutar 
jamais das vantagens que o sistema reserva aos proprietários dos meios 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
43 
de produção, e que a base para o sistema capitalista é o ganho 
excedente, o lucro adicional, a mais-valia. 
Enquanto redigia O Capital, Marx retorna às atividades 
políticas – de que havia se afastado desde a dissolução da Liga 
Comunista. Na década de 1860, a conjuntura política e econômica 
favorece novamente a organização da classe operária na Europa, 
coincidindo com um período crescente de internacionalismo 
(MAcLELLAN, 1990). Nesse clima, a Internacional é fundada, em um 
encontro na Inglaterra, em 1864, e Marx se torna sua principal figura. 
 
 
Certamente, esse foi o período mais importante na construção 
do pensamento marxiano. Já na década de 1870, sua capacidade de 
trabalho vai entrando em lentidão e, aos poucos, Marx vai se afastando 
da vida pública, levando uma rotina mais pacata em Londres. Em 
1873, Marx está física e mentalmente exausto e sofre um colapso em 
sua saúde, o que o impede de terminar sua obra em vida. Jenny Marx 
falece de câncer do fígado em dezembro de 1881, deixando um Marx 
inconsolável, que nunca conseguiu se recuperar da perda da mulher. 
Dois anos depois, Marx perde também a sua primogênita, também 
chamada Jenny, deixando-o despedaçado. Marx falece no dia 14 de 
março de 1883, em seu escritório, calmamente e sem sofrimento, 
“resumindo seu desdém pela sociedade burguesa e seu 
internacionalismo, sem testamento e sem pátria” (MAcLELLAN, 
1990, p. 478). 
Em 1885, Engels publicou o segundo volume de O Capital e, 
em 1894, o terceiro. Engels, seu parceiro e amigo fiel, morre em 1895, 
O livro Trabalhadores, uni-vos! Antologia política da I 
Internacional, de 2014, traz textos inéditos, selecionados e 
traduzidos, configurando um arquivo importantíssimo para a 
história e a teoria do movimento dos trabalhadores. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
44 
deixando também diversas obras relevantes para o pensamento 
socialista. 
Nesse breve resgate sobre vida e pensamento de Marx, 
pudemos observar que ele teve um objeto durante toda a sua vida, a 
ordem burguesa, e foi a expressão do movimento operário do seu 
tempo. Esse tema o acompanhou durante toda a sua trajetória, de 1843 
até a sua morte, 40 anos depois. Como todo grande pensador, Marx 
vocalizou um sujeito social: o proletariado, que se impôs como sujeito 
político autônomo em 1848. Não é o mesmo Marx durante toda a 
trajetória; o seu pensamento está em processo, mas não há corte no seu 
pensamento. Retornamos à defesa de que o pensamento de Marx 
contém uma unidade, que não significa uma identidade homogênea, 
pois é crescente o enriquecimento de temáticas, o abandono de várias 
pistas e a adesão a outras. O que dá a unidade, segundo José Paulo 
Netto (2011), é a centralidade do seu objeto e a implicação da forma 
de análise quanto ao problema de pesquisa. De qualquer modo, a força 
e a atualidade do pensamento de Marx são evidentes. Todos os 
movimentos sociais nos últimos cem anos foram influenciados por ele. 
Marx deixou uma semente revolucionária que nos mostrou que outro 
mundo é possível, com todas as pessoas livres de qualquer forma de 
opressão. Marx vive. 
 
 
Referências 
 
FIORI, José Luis. 60 lições dos 90: uma década de neoliberalismo. 
Rio de Janeiro: Record, 2001. 
FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de 
Janeiro: Rocco, 1992. 
A série de TV argentina “Marx ha vuelto” baseia-se no Manifesto 
comunista e nela podemos compreender várias das ideias 
revolucionárias sobre classes sociais, crise, Estado e comunismo. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
45 
HOBSBAWN, Erik. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo. 
São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 
KONDER, Leandro. Marx – vida e obra. São Paulo: Paz e Terra, 
1999. 
LOWY, Michel. A teoria da revolução no jovem Marx. Rio de 
Janeiro: Vozes, 2012. 
MACLELLAN, David. Karl Marx: vida e pensamento. Rio de 
Janeiro: Vozes, 1990. 
MARX, Karl. Os despossuídos: debates sobre a lei referente ao furto 
de madeira. São Paulo: Boitempo, 2017. 
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. São 
Paulo: Boitempo Editorial, 2010. 
MEHRING, Franz. Karl Marx. A história da sua vida. São Paulo: 
José Luís e Rosa Sundermann, 2013. 
MÉZSAROS, István. Para além do Capital. São Paulo: Boitempo 
Editorial, 2002. 
MÉZSAROS, István. A crise estrutural do Capital. São Paulo: 
Boitempo Editorial, 2009. 
MUSTO, Marcello. Prefácio. In: OLIVEIRA, Isabel Fernandes de et 
al. (org.). Marx hoje: pesquisa e transformação social. 1. ed. São 
Paulo: Outras Expressões, 2016. 
PAULO NETTO, José. Introdução ao estudo do método de Marx. 
São Paulo: Expressão Popular, 2011. 
WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1986. 
YAMAMOTO, Oswaldo. A atualidade do método de Marx. In: 
OLIVEIRA, Isabel Fernandes de et al. (org.). Marx hoje: pesquisa e 
transformação social. 1. ed. São Paulo: Outras Expressões, 2016. 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 2: MARX, ENGELS E AS LUTAS POLÍTICAS 
 
Após conhecer um pouco sobre a trajetória do pensamento e 
ação política marxianos, neste capítulo, vamos nos debruçar sobre a 
importância de Marx e Engels para a luta política da classe 
trabalhadora. Não apenas porque várias de suas mais importantes 
obras se voltam a analisar os conflitos sociais de sua época, mas 
também porque o marxismo influenciou sobremaneira as lutas 
políticas que ocorreriam do século XIX em diante. Mais ainda: como 
vimos, o método marxiano oferece subsídios para orientar as lutas 
políticas e, quem sabe, dele nos municiarmos para transformar a 
sociedade que aí está. 
Marx e Engels analisaram a luta de classes em diversos países: 
na França, na Alemanha, na Rússia, na Espanha, etc. Seria impossível, 
então, revisar toda essa produção. Mas eles também ofereceram trilhas 
que podem facilitarnosso decurso. O precursor da filosofia da práxis 
sustentava que a análise da gênese do capitalismo tinha como objeto a 
Inglaterra, pois ali a revolução econômica do capitalismo ocorreu em 
toda a sua plenitude. Assim, em O Capital – Livro I, Marx afirmava: 
 
Na base do sistema capitalista reside, 
portanto, a separação radical entre o 
produtor e seus meios de produção [...] a 
base de toda essa evolução é a expropriação 
dos agricultores [cultivateurs]. Ela só se 
realizou de um modo radical na Inglaterra 
[...]. Mas todos os outros países da Europa 
ocidental percorrem o mesmo processo 
[mouvement] (MARX, 2013b, p. 788). 
 
Em outro momento, em correspondência com a revolucionária 
russa Vera Ivanovna Zasulitch, Marx concluiria que “a ‘fatalidade 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
48 
histórica’ desse processo está expressamente restrita aos países da 
Europa ocidental” (MARX, ENGELS, 2013, p. 114). 
Mas, como nos recorda um dos maiores historiadores que já 
tivemos, Eric Hobsbawm (2011), a sociedade burguesa é fruto de uma 
“revolução dual”, ou seja, da revolução industrial e da revolução 
política. E, como lócus da revolução política, foi na França onde a luta 
de classes de maneira mais nítida se desenvolveu. 
 
 
Neste capítulo, portanto, iremos nos voltar especialmente para 
o estudo de algumas das obras em que Marx e Engels se dedicam a 
estudar a luta de classes na França. 
 
Engels, no Prefácio à 3° Edição de O 18 de Brumário de Marx, 
afirmava que: “Mais do que qualquer outro, a França é o país em 
que cada uma das lutas de classe históricas foi travada até a decisão 
final e em que, em consequência disso, também as formas políticas 
alternantes, no âmbito das quais essas lutas se deram e os seus 
resultados se sintetizaram, assumiram contornos bem mais nítidos. 
Sendo o centro do feudalismo na Idade Média, país-modelo da 
monarquia estamental unificada desde a Renascença, a França 
destroçou o feudalismo na grande Revolução e fundou o domínio 
puro da burguesia de uma maneira tão clássica como não se viu em 
nenhum outro país europeu. Mas também a luta do proletariado 
ascendente contra a burguesia dominante se expressa aqui de uma 
forma aguda, desconhecida em outras passagens. Essa foi a razão 
pela qual Marx estudou com predileção, em todos os seus detalhes, 
não só a história francesa passada, mas também a que estava em 
curso, reuniu material para uso futuro e, por isso, em nenhum 
momento foi surpreendido pelos acontecimentos (ENGELS, 2011, 
p. 22). 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
49 
Marx e a luta política 
 
A luta contra a exploração de um ser humano por seu 
semelhante não é algo específico da época moderna. Escravos na Idade 
Antiga, servos durante o feudalismo, nações e povos indígenas durante 
a conquista colonial levantaram-se, em incontáveis episódios, por sua 
libertação. Podemos dizer que a história da humanidade – ao menos 
após o surgimento das sociedades cindidas em classes – revela um 
repertório de sublevações contra a exploração. 
Porém, é na Idade Moderna que, pela primeira vez, as 
condições históricas permitiram o desenvolvimento de um 
conhecimento filosófico e científico comprometido com a 
emancipação, com a transformação radical da sociedade. 
As transformações advindas do capitalismo possibilitaram 
uma realidade completamente nova para aquela Europa de feudalismo 
sonolento. Grandes cidades, cortiços superlotados, fome, doenças. 
Imagine que aquele mundo novo, transformado, transformava as 
pessoas, seus valores, sua cultura. Se antes o camponês sabia que seu 
dia de trabalho se iniciava com o nascer do sol, bem como terminava 
com o entardecer, a partir de agora, relógios, máquinas, dínamos, toda 
uma parafernália o obrigava a jornadas de trabalho sem fim, sob um 
implacável controle do burguês ou seu capataz. 
Marx e Engels perceberam que eles próprios e sua teoria social 
eram produto da modernidade, pois esta criou as condições – 
econômicas, científicas, culturais, etc. – para que exploradas e 
explorados desenvolvessem sua própria “concepção de mundo”, como 
diria Gramsci (2006). 
A tradição que movia o feudalismo foi, então, superada. 
Devido a todo esse caos, desenvolveu-se uma diversidade de estudos 
voltados a compreender a sociedade. No campo que poderíamos 
denominar de conservador, Durkheim, por exemplo, afirmaria que 
uma maior divisão do trabalho levaria a maior solidariedade e, 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
50 
consequentemente, maior coesão no interior da sociedade. Um pouco 
de moral, bons costumes e hierarquia resolveriam aquela bagunça; 
“ordem e progresso”! É desta época, incusive, que nasce a ciência 
voltada a compreender a sociedade, a Sociologia. 
Existiram também aqueles e aquelas que queriam transformar 
o estado de coisas. Fourier, Owen e tantos outros, a partir de ideias 
generosas, de valores solidários, às vezes fundamentados na crença da 
evolução moral da sociedade ou por acreditarem em formas de divisão 
igualitária da riqueza, buscaram dar respostas àquela realidade. Eles, 
para a história, ficaram conhecidos como “socialistas utópicos”. No 
entanto, tentativas como as de criar pequenas comunidades igualitárias 
fracassaram e as contradições e conflitos decorrentes daquele 
incipiente capitalismo industrial se avolumaram. 
Mas, é com Marx e Engels que se inaugura um novo momento 
na história das lutas de explorados e exploradas. Isto porque, a partir 
do que eles próprios denominaram de “socialismo científico”, 
desenvolveu-se uma teoria científico-filosófica sobre qual a gênese da 
sociedade capitalista e os caminhos possíveis para superá-la. Se as 
ciências da natureza teriam leis gerais verificáveis a partir do 
conhecimento científico, as sociedades – a capitalista em especial – 
também teriam leis gerais que poderiam ser apreendidas pela ciência 
para a transformação da própria sociedade. 
E, para eles, como se daria essa transformação? Seria, por 
exemplo, através da educação, como comumente escutamos? 
Ambos diriam que a educação é importantíssima para o 
desenvolvimento das potencialidades dos sujeitos, mas, sem dúvidas, 
não a apontariam como o caminho para solucionar problemas que se 
erguem no campo da economia e das relações sociais de produção. E, 
realmente, se olhamos para o que ocorreu no Brasil, perceberemos 
que, em13 anos, diversas iniciativas nesta área foram concretizadas, 
como a criação do FUNDEB, de centenas de Institutos Federais e 
dezenas de novas Universidades Federais, mas, o que houve depois? 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
51 
Sem dúvidas, os problemas e contradições do nosso país não 
foram superados; ao contrário, aprofundaram-se. 
Você com certeza já percebeu que, em nosso cotidiano, 
pedimos aos nossos deuses – independente de seguirmos religiões de 
matriz cristã, indígena ou africanas – que interfiram para que as coisas 
mudem. Possivelmente daí advém o ditado popular “se Deus quiser!”. 
Note que, nesse caso, estamos não apenas transferindo para o 
transcendental o dever de mudar as coisas, como também a ele 
atribuindo o “direito” de escolha sobre quando e como as coisas devem 
ser transformadas. Marx e Engels também negaram esse caminho. 
Como bons materialistas, para eles, o transcendental não cria a 
realidade, mas da realidade criamos a transcendência. 
Há, ademais, um frequente engajamento em ações sociais, 
fundado em valores como a solidariedade e a caridade: o trabalho 
voluntário em uma Organização Não Governamental (ONG), a 
participação em mutirões, pastorais, etc. Marx e Engels apontaram, 
contudo, que a “evolução moral” ou a redistribuição voluntária das 
riquezas não constituem caminhos aptos a alcançar a transformação 
radical da sociedade. A tentativa de superar o caos da sociedade 
capitalista apartir de uma “evolução na consciência”, como, por 
exemplo, convencer os burgueses a garantir salários aptos a 
possibilitar condições de vida digna aos seus trabalhadores e 
trabalhadoras, não seria uma resposta possível. 
Por fim, também por vezes atribuímos os graves problemas 
socioeconômicos que vivenciamos à corrupção, à má gestão dos 
governos – sempre há quem diga: “se fosse na Noruega não seria 
assim”! – ou à esfera jurídica: “se a lei fosse cumprida, não seria essa 
balbúrdia!”. Marx e Engels também não aceitariam essa resposta. 
Por mais que tais soluções possam, em maior ou menor grau, 
de alguma maneira, contribuir para melhorias na nossa sociabilidade, 
Marx e Engels demonstraram que elas não respondiam à necessidade 
de uma transformação radical da sociedade. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
52 
Marx afastou todas essas possibilidades ao descobrir que o 
fundamento, a gênese do capitalismo, é a exploração do ser humano 
pelo ser humano, por meio da propriedade privada dos meios de 
produção e transformação do trabalho em mercadoria, em força de 
trabalho a ser explorada. Por mais que o Estado execute políticas 
públicas – atue na esfera da circulação do capital, da redistribuição de 
excedentes –, de educação e direitos em geral, elas não atacam a 
gênese da desigualdade, que se constitui na esfera da produção, na 
propriedade privada dos meios de produção e nas relações sociais de 
produção. Mais à frente debateremos como Marx e Engels 
enxergavam o Estado; mas, aqui, o importante é a compreensão de 
que, para eles, a única forma de pôr fim à exploração seria por meio 
da substituição do trabalho como mercadoria à venda (força de 
trabalho) pelo trabalho associado. 
Marx apontava que a essência do capitalismo se encontra na 
separação forçada dos trabalhadores em relação a seus meios de 
produção, mediante um processo que ele denominou de “acumulação 
primitiva do capital”. Acontece que, a partir do momento em que se 
cria uma massa de proletários – a partir da revolução dual – 
 
Quem será expropriado, agora, não é mais o 
trabalhador que trabalha para si próprio, mas 
o capitalista que explora muitos 
trabalhadores. Essa expropriação se 
consuma por meio do jogo das leis 
imanentes da própria produção capitalista, 
por meio da centralização dos capitais 
(MARX, 2013b, p. 1012). 
 
Marx descobre que o modo de produção capitalista detém leis 
imanentes que tendem a se realizar, e, para isto, não concorrem uma 
“intervenção divina”, “avanços morais”, ou políticas de educação. Não 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
53 
se trata de o proletário em si ser uma pessoa “boa” ou o burguês em si 
ser uma pessoa “má”, como ele elucida no prefácio de O Capital 
(MARX, 2013b). 
Portanto, todas aquelas alternativas citadas detêm maior ou 
menor grau de resultados, mas elas são ineptas para uma 
transformação radical da sociedade, pois esta só será possível quando 
a sua raiz, a propriedade privada dos meios de produção e a venda da 
força de trabalho, for atacada. 
 
Como, então, transformar radicalmente a sociedade? 
 
Você pode estar se perguntando: se o capital detém leis 
próprias, é possível transformá-lo? 
Pois bem, Marx não diz que a economia por si só levará à 
bancarrota do capitalismo ou que uma grande crise catastrófica 
possibilitaria a superação deste sistema – como querem fazer crer 
alguns ecologistas ao alardear que a crise ambiental por si só levará à 
sua inviabilidade. Marx chega, em verdade, à outra lei universal: a luta 
de classes – obviamente, a partir do momento em que há sociedades 
cindidas em classes – é o motor da história da humanidade. 
Mas, para apreendermos como ele chegou e desenvolveu esta 
conclusão, tentemos situar os passos para o amadurecimento de seu 
pensamento. Ainda com 25 anos de idade, Marx escreveu um texto 
denominado Sobre a Questão Judaica. À época, na Prússia (Estado 
que viria a formar a Alemanha), os judeus não detinham direitos 
políticos, de cidadania, pois o Estado era cristão. 
Bruno Bauer, importante intelectual daquele período, 
argumentava que as pessoas deveriam abdicar de sua religião para 
alcançar a emancipação política (direitos iguais perante o Estado). 
Mais ainda: sob inspiração hegeliana, ele enxergava um caráter 
universal no cristianismo, enquanto o judaísmo apresentaria um 
caráter nitidamente particular. Perceba o leitor que se o judeu se 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
54 
reivindicava povo eleito frente aos demais, o cristão reivindicava o seu 
Deus como o único e buscava a expansão e assimilação de sua crença 
para todo o mundo (lembre-se das Cruzadas e do papel que a Igreja 
Católica cumpriu na Conquista das Américas). 
Pois bem, se o cristianismo possui em sua essência o caráter 
universal e o judaísmo o particular, Bauer chegaria à conclusão de que 
“o judeu está menos habilitado à emancipação que o cristão” (PAULO 
NETTO, 2009, p. 23). Como consequência, ele argumentava que era 
o judeu, então, que deveria abdicar de sua religião para emancipar-se! 
Marx, à época assentado em uma posição democrata radical, 
desloca a análise da questão judaica da esfera religiosa para a política, 
e demonstra que a sociedade burguesa cindiu o ser humano no homem 
e no cidadão. Aquele, como o ser humano concreto, em relação de 
oposição ao seu semelhante: o burguês, o homem do dinheiro, o 
homem real, o homem da sociedade civil. O último como o ser 
genérico, abstratamente transformado em igual em relação aos demais 
seres humanos, ao menos perante as leis estatais. Ou seja, a existência 
concomitante de uma desigualdade no mundo real, material, com uma 
igualdade formal no mundo político. 
Para facilitar a sua compreensão, imaginemos o feudalismo. 
No decorrer daqueles séculos, o servo estava desprovido do poder 
econômico e, também, do poder político. A sua “despossessão” na 
esfera econômica implicava constituir-se em um “estamento” inferior 
e submisso ao dos senhores feudais. À época, a sociedade feudal 
estava dividida em estamentos, ou seja, era impossível a mudança de 
“nível” em seu interior. Perceba que o servo não poderia, por exemplo, 
comprar uma charrete. Primeiro, por não ter condições econômicas 
para tanto. Mas, também, porque não detinha o que hoje chamamos de 
status de “sujeito de direito”, qual seja, a liberdade para desenvolver 
relações sociais – como a compra de uma charrete – sem necessitar da 
autorização de seu senhor. Marx apontaria que, com as revoluções 
burguesas, a desigualdade econômica passou a coexistir com a 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
55 
igualdade política. Veremos logo mais a importância desta reflexão; é 
esta abstrata igualdade que viria a permitir a compra e venda da força 
de trabalho e todas as mercadorias como temos hoje – por mais que 
pareça algo que sempre foi e será assim. 
Seguindo esse raciocínio, ele defenderia que os judeus não 
precisariam abdicar de sua religião, pois essa era uma particularidade 
da sua vida em âmbito de sociedade civil, esfera distinta da política. 
Ou seja, para ele, como desdobramento fático da ordem burguesa, o 
Estado aparece como “expressão alienada dos interesses gerais 
(expressão da vida genérica dos homens), e a sociedade civil, espaço 
real dos particularismos (reino da vida empírica e privada)” (PAULO 
NETTO, 2009, p. 24). 
Estas questões remetem-nos a como estamos dando passos 
largos ao passado em debates sobre direitos sexuais e reprodutivos, 
diversidade, laicidade do Estado! Ou não seria este o caso quando uma 
peça de teatro, um quadro ou exposição são censurados por não serem 
convergentes com determinadas interpretações religiosas? 
Mas, retornemos a Marx, para chegarmos às lutas políticas. 
Ainda em Sobre a Questão Judaica, Marx tece uma crítica retumbante 
aos “direitos humanos”,posição que ele carregaria consigo ao longo 
de suas obras. Conforme vimos, ele apontou que, na modernidade, o 
ser humano dividiu-se em um ser da sociedade civil e um ser da 
sociedade política. 
Ao referir-se à Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão, aquela famosa declaração de direitos humanos voltada à 
superação da sociedade feudal e sua divisão em estamentos, Marx 
dizia que 
 
Os droits de l’homme, os direitos humanos, 
são, como tais, diferentes dos droits du 
citoyen, dos direitos do cidadão. Quem é o 
homme diferente do citoyen? Ninguém 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
56 
senão o membro da sociedade civil. Por que 
é que o membro da sociedade civil é 
chamado ‘homem’ (pura e simplesmente 
‘homem’), por que é que os seus direitos são 
chamados direitos do homem? A partir de 
quê nós explicamos esse fato? A partir da 
relação do Estado político com a sociedade 
civil, a partir da essência da emancipação 
política” (MARX, 2009, p. 63). 
 
Anote essa observação marxiana: a essência da emancipação 
política está na relação entre o Estado e a sociedade civil. 
Logo após, ele disseca essa relação: 
 
Antes de tudo, constatemos o fato de que os 
chamados direitos do homem, os droits de 
l’homme, diferentemente dos droits du 
citoyen, não são outra coisa senão os direitos 
do membro da sociedade civil [...], do 
homem egoísta, do homem separado do 
homem e da comunidade” (MARX, 2009, p. 
63). 
 
Talvez ainda não com tanta nitidez, ali Marx começava a 
apontar que a igualdade de direitos e o ser social “sujeito de direitos” 
figuram como condição que possibilita a exploração do homem sobre 
o homem. Mas com que base ele afirma isto? Problematizando – nas 
palavras de Marx – a “constituição mais radical” da França 
revolucionária (MARX, 2009), a Constituição de 1793, ele comenta 
que, na verdade, a liberdade, a igualdade e a segurança seriam... 
 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
57 
a) A Liberdade: 
 
Direito de fazer tudo o que não prejudique o outro, de acordo 
com os limites da lei. Ou seja, “o direito humano à liberdade não se 
baseia na vinculação do homem com o homem, mas, antes, no 
isolamento do homem relativamente ao homem. É o direito desse 
isolamento, o direito do indivíduo limitado, limitado a si” (MARX, 
2009, p. 64). 
A sua aplicação prática, portanto, leva ao direito humano à 
propriedade privada, ao: 
 
[...] direito de – arbitrariamente [...], sem 
referência aos outros homens, 
independentemente da sociedade – gozar a 
sua fortuna e dispor dela; [é] o direito do 
interesse próprio. Aquela liberdade 
individual, assim como esta aplicação dela, 
formam a base da sociedade civil. Ela faz 
com que cada homem encontre no outro 
homem, não a realização, mas antes a 
barreira da sua liberdade (MARX, 2009, p. 
64). 
 
Perceba essa conclusão genial de Marx e como ela encontra-
se válida em pleno século XXI! É a oposição entre o fazendeiro e o 
sem-terra; o com teto e o sem teto, enfim, uma infinidade de situações 
que perfazem um contexto em que, ao final e a cabo, até quem explora 
não está realmente livre. 
 
 
 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
58 
b) A Igualdade: 
 
Marx então colocará que a igualdade na esfera não-política, no 
mundo real, será a igualdade para exercer esta liberdade restrita, 
anteriormente descrita. Ou seja, que “cada homem seja, de igual modo, 
considerado como essa mônada que repousa sobre si [própria]” 
(MARX, 2009, p. 65). Marx chega a essa conclusão a partir do Art. 3° 
da Constituição Francesa de 1795: “A igualdade consiste em que a lei 
– quer proteja, quer castigue – é a mesma para todos” (MARX, 2009, 
p. 65). 
Perceba que o direito cria uma igualdade abstrata, de âmbito 
meramente formal, e que só tem razão de existir para permitir uma 
desigualdade real na sociedade civil. 
 
c) Segurança: 
 
Para Marx, “é o supremo conceito social da sociedade civil, o 
conceito da polícia, porque a sociedade toda apenas existe para 
garantir a cada um dos seus membros a conservação da sua pessoa, 
dos seus direitos e da sua propriedade” (MARX, 2009, p. 65). 
Marx, então, conclui que a “cidadania de Estado” existe como 
meio para a preservação dos privilégios, das propriedades dos que 
detém posses. Ou seja, era a proclamação da liberdade, igualdade, 
fraternidade, propriedade e segurança do.... burguês proprietário! 
Mas, você pode estar intrigado sobre o que seria essa “mônada 
isolada”. Se com o amadurecimento teórico e político Marx verá o ser 
humano como ser social – ou seja, um ser que realiza trabalho e 
desenvolve suas capacidades e potencialidades a partir das suas 
vivências como gênero humano, e não como indivíduos apartados uns 
dos outros – aqui ele já compreende que a sociedade burguesa leva o 
ser humano ao conflito e concorrência com seu próprio semelhante. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
59 
Se partimos dessa reflexão, o que é a reação das pessoas à 
pandemia na maioria absoluta dos países capitalistas, senão mônadas 
em conflito permanente? Lembremos do dono de uma rede de 
restaurantes que, para manter a sua acumulação privada de capital, 
diria que o Brasil não pode parar por causa de 5 ou 7 mil mortes de 
Covid-19; ou dos vários grupos de empresários que convocariam 
protestos para a abertura dos seus ramos de produção; ou ainda, os que 
buscaram vacinação clandestina ou a aprovação de projeto de lei 
instituindo o fura-fila. Os trabalhadores, entre morrer de Covid ou de 
fome, pouca margem para escolha tiveram. Vejam a impossibilidade 
de uma ação coletiva, como ser social. 
Presenciamos uma verdadeira guerra, com perdas 
insubstituíveis, e que poderia ter sido diferente. 
Note: nos países socialistas, a ação do povo como um só corpo 
e a ação planificada do Estado permitiram a preservação da 
necessidade humana mais básica; a vida. Não à toa, em abril de 2021, 
a China, com mais de 1.4 bilhão de habitantes tinha menos de cinco 
mil vítimas de Covid-19. O Vietnã, com uma população de 100 
milhões de pessoas, apenas 35 vítimas. Cuba, sob forte embargo 
econômico, com 11 milhões, registrava 448 mortes, e desenvolvia 
cinco vacinas com tecnologia totalmente nacional. 
Ou seja, caso comparemos países de patamar semelhante 
quanto ao desenvolvimento de suas forças produtivas, perceberemos 
que, nos socialistas, a chance de a classe trabalhadora sobreviver ao 
vírus é muito superior que nos capitalistas. 
Voltando ao texto de Marx para terminarmos a nossa análise 
dessa obra, há outra passagem também muito importante: ele salienta 
que a emancipação política, as liberdades civis e políticas, apesar de 
insuficientes, constituem uma conquista; representam um progresso 
frente ao momento feudal anterior: 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
60 
A emancipação política é, sem dúvida, um 
grande progresso; ela não é, decerto, a 
última forma da emancipação humana em 
geral, mas é a última forma da emancipação 
política no interior da ordem mundial até 
aqui. Entende-se: nós falamos aqui de 
emancipação real, de [emancipação] prática 
(MARX, 2009, p. 52). 
 
A descoberta do proletariado e da luta de classes 
 
Você deve estar lembrando que no início desta seção falamos 
que existiu um grupo de pensadores que foram apelidados de 
“socialistas utópicos” em virtude de proporem saídas idealistas ao 
sistema capitalista. Mas, se virmos como Marx termina sua crítica à 
emancipação política em Sobre a Questão Judaica, percebemos que ele 
também não tinha tanta clareza sobre o que fazer: 
 
Toda a emancipação política é a redução do 
homem, por um lado, a membro da 
sociedade civil, a indivíduo egoísta 
independente; por outro, a cidadão, a pessoa 
moral. Só quando o homem individual 
retoma em si o cidadão abstrato e, como 
homem individual –na sua vida empírica, 
no seu trabalho individual, nas suas relações 
individuais –, se tornou ser genérico; só 
quando o homem reconheceu e organizou as 
suas forces propres [forças próprias] como 
forças sociais e, portanto, não separa mais 
de si a força social na figura da força política 
– [é] só então [que] está consumada a 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
61 
emancipação humana (MARX, 2009, p. 71-
72). 
 
Perceba que Marx ainda não encontrou a solução sobre como 
alcançar a emancipação humana, tampouco sobre o que seria o seu 
conteúdo. 
Mas o processo de amadurecimento de suas ideias estava 
bastante intenso e, nesse mesmo período, Marx escreveria a Crítica da 
Filosofia do Direito de Hegel. Nesta obra, podemos dizer, pecando 
pela síntese, que ele acerta as contas com o idealismo hegeliano: se 
para Hegel a razão dos homens se expressava no Estado, espaço do 
universal, Marx dirá que o universal do Estado é o ocultamento da 
defesa de interesses particulares corporativos. 
Hegel afirma, em seu § 309 da Crítica da Filosofia do Direito, 
que os deputados devem fazer valer não o interesse particular de uma 
comunidade, de uma corporação, contra o interesse universal, mas que 
este deve prevalecer sobre aquele. Marx inverte a lógica hegeliana e 
diz que, em realidade, os deputados 
 
[...] partem das corporações, representam 
esses interesses e necessidades particulares 
e não se deixam perturbar por ‘abstrações’, 
como se o ‘interesse universal’ não fosse 
também uma tal abstração, uma abstração 
precisamente de seus interesses 
corporativos etc. (MARX, 2013a, p. 140). 
 
Apesar de Marx aproximar-se do que viria a ser o cerne do 
pensamento marxiano, até agora a palavra “classe” continuava alheia 
às suas reflexões. Como vimos, é logo após a escrita de Crítica da 
Filosofia de Hegel que Marx irá finalmente assentar todas as bases de 
seu pensamento. Nesta obra, Marx contestaria o método hegeliano 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
62 
pelo qual a ideia (o processo de pensamento) revela-se como a criadora 
do real. Por esta perspectiva, o mundo material é a mera manifestação 
externa da ideia. Marx, ao contrário, apontaria o caráter apriorístico da 
matéria em relação à ideia, que é apenas a tradução do real por homens 
e mulheres em suas mentes. Ocorre que, logo após, Marx escreve uma 
Introdução para seu texto Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 
sem dúvida um dos mais belos e densos textos de nosso autor. Nela, 
Marx apontará a dialética na história, sendo que o seu motor não seria 
a ideia de Hegel, nem a crítica filosófica de Bauer, nem a evolução 
moral de Kant, mas as classes sociais em luta pela sua sobrevivência 
e reprodução social. Mais: neste texto, influenciado pela greve dos 
tecelões da Silésia, ele descobrirá uma classe fundamental em suas 
análises: o proletariado, que substituirá o seu sujeito anterior, o 
“povo”. 
 
Marx, lutas de classes e lutas políticas 
 
Você deve ter percebido que toda essa seção anterior buscou 
demonstrar como Marx superou os socialistas anteriores7 e seus 
contemporâneos (poderíamos até dizer, inúmeros outros que, após sua 
morte, voltariam a defender saídas semelhantes às dos utópicos) ao 
apontar que é a luta de classes que move a história. Somando esta 
reflexão com as anteriores, de que o Estado e o Direito são condições 
para a desigualdade, miséria e exploração na sociedade civil, a única 
maneira possível para superar uma sociedade exploratória, portanto, é 
por meio da tomada do poder político do Estado pelas classes 
exploradas! 
 
 
7 Em O Manifesto Comunista, ele aponta os diversos tipos de socialismo para 
demonstrar a originalidade do socialismo científico. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
63 
Quais seriam essas classes? E por quê? 
 
Primeiramente, imagine que Marx era um jovem querendo 
mudar o mundo. Percebeu que o Direito não poderia mudar as coisas 
radicalmente, então buscou a Filosofia, como vimos no capítulo 
anterior. Logo após, notou que o movimento da história não decorre 
da crítica filosófica; não é um punhado de intelectuais que descobrem 
as respostas dos problemas que movimentam a história. Assim, se a 
responsável por este movimento é a luta de classes, ou seja, como as 
diversas combinações entre meios de produção e relações sociais de 
produção possibilitam contradições e choques inúmeros, então Marx 
dedica-se profundamente ao estudo da economia política e da gênese 
do capitalismo. 
Imagine que, na década seguinte à da escrita das obras que 
citamos, ele destinaria mais de uma dezena de horas por dia ao estudo 
da economia e outras temáticas para a escrita de O Capital. Liberais, 
conservadores, idealistas, materialistas, socialistas; o idioma russo, a 
matemática; até a Bíblia Marx iria devorar nas últimas décadas de sua 
vida, enquanto escrevia O Capital. 
Neste interregno, por vezes ele escreveu “a quente” sobre 
conflitos reais que se levantavam perante seus olhos. Como já 
apontamos, foge ao nosso objetivo esgotar essa rica produção. Mas o 
certo é que, nessas suas análises, as lutas políticas aparecem, com um 
impressionante rigor científico, dialeticamente articuladas com as 
condições econômicas. 
Pedimos a atenção quanto a este ponto, pois se tornou cada 
vez mais recorrente a proliferação de análises que se pretendem 
marxistas, mas que desconsideram por completo os elementos 
econômicos, o trabalho e as classes sociais em luta. 
Dentre seus textos “políticos”, podemos incluir o já referido 
O Manifesto Comunista. Este livro é um manifesto mobilizador, um 
panfleto político – no melhor sentido da palavra – estremecedor em 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
64 
que Marx prenuncia as revoluções de 1848: “um espectro ronda a 
Europa - o espectro do comunismo. Todas as potências da velha 
Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, 
Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha” 
(MARX, 2010, p. 39). 
Não que graças ao Manifesto teriam ocorrido os intentos 
revolucionários. A teoria marxiana já apontava que não era a crítica 
filosófica que moveria o mundo, mas os conflitos reais, mundanos que 
provocavam o movimento. Sem dúvida, contudo, o Manifesto não 
apenas contribuiu para mobilizar, mas, principalmente, para 
compreender a conjuntura revolucionária e expor o que seria um 
programa político comunista. 
Mas, como indicamos no início do capítulo, é na França em 
que as revoluções políticas ocorreram de maneira mais intensa, mais 
visível aos olhos. E sobre ela passamos a uma breve análise. 
Em três obras, Lutas de Classes na França, O 18 de Brumário 
e Guerra Civil na França, Marx analisou a intensa luta de classes 
ocorrida naquele país, no interregno entre 1789 a 1871. Isso com 
destaque para o período que compreende desde uma revolução 
popular, em fevereiro de 1848, a um golpe de Estado impetrado por 
Luis Bonaparte (o sobrinho!) em dois de dezembro de 1851. 
Para Engels (2012), é em Lutas de Classes na França que o 
socialismo científico “se realiza” pela primeira vez, pois se distingue 
dos demais ao se centrar no trabalho associado e no fim do trabalho 
assalariado, tema que veremos no próximo capítulo. Ou seja, 
enquanto socialistas buscavam alternativas na esfera da circulação – 
aumentos salariais, distribuição de renda, construção de comunidades 
alternativas – Marx apontava que a gênese estava na produção, na 
coisificação e transformação do ser humano em mercadoria pela força 
de trabalho. 
Estas obras, por outro lado, são primorosas quanto à teoria do 
Estado, da política e da democracia na obra marxiana, e demonstram 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
65 
comoseu método possibilita uma análise de conjuntura profunda e 
fecunda, apta a orientar a luta política. 
Nesse sentido, Engels afirma que 
 
Marx foi o primeiro a descobrir a grande lei 
do movimento da história, a lei segundo a 
qual todas as lutas históricas travadas no 
âmbito político são de fato apenas a 
expressão mais ou menos nítida de lutas 
entre classes sociais, a lei segundo a qual a 
existência e, portanto, também as colisões 
entre essas classes são condicionadas, por 
sua vez, pelo grau de desenvolvimento da 
sua condição econômica, pelo modo da sua 
produção e pelo modo do seu intercâmbio 
condicionado pelo modo de produção 
(ENGELS, 2011, p. 22). 
 
Note que, se até este momento histórico, os intelectuais 
consideravam que era o desenvolvimento do espírito, da razão ou 
mesmo da crítica filosófica que transformava o mundo, a partir de 
Marx, a luta de classes, a disputa pela riqueza socialmente construída, 
será apontada como responsável pelo movimento da história. Como 
bem alerta Engels, ela, contudo, não se dá de maneira isolada das 
condições materiais de reprodução social (das condições econômicas), 
e essa relação dialética entre economia e política, esse processo de 
contradições específicas de cada conjuntura redunda em novo estágio, 
com novas contradições e patamares de lutas, abrindo novas 
possibilidades e dificuldades ao movimento proletário. Como diz a 
pesquisadora Mirla Cisne, ortodoxia no método para desenvolver uma 
teoria em movimento. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
66 
Se as pessoas se prendiam – em suas análises – a determinados 
valores abstratos previstos na Constituição ou à importância dos 
personagens na história, como Luís Bonaparte para a França em 
meados do século XIX, Marx enxergava os grandes movimentos das 
classes sociais em luta por detrás das formas políticas, jurídicas, e no 
próprio papel que o indivíduo cumpre na história. 
Como exemplo, para ficar mais nítido ao leitor: Marx dizia 
que só dois escritos simultâneos ao golpe de Estado de Bonaparte 
seriam dignos de nota, os de Proudhon e Victor Hugo. Veja o que 
Marx argui: 
 
Victor Hugo se limita a invectivas amargas 
e espirituosas contra o responsável pela 
deflagração do golpe de Estado. O 
acontecimento propriamente dito parece ser, 
para ele, como um raio vindo do céu sem 
nuvens. Ele vê no golpe apenas um ato de 
poder de um indivíduo isolado. Não se dá 
conta de que engrandece esse indivíduo, em 
vez de diminuí-lo, atribuindo-lhe uma 
capacidade de iniciativa pessoal que seria 
ímpar na história mundial. Proudhon, por 
sua vez, procura apresentar o golpe de 
Estado como resultado de uma evolução 
histórica precedente. Sorrateiramente, no 
entanto, a sua construção histórica do golpe 
de Estado se transforma numa apologia do 
herói do golpe de Estado [...]. Em 
contrapartida, eu demonstro como a luta de 
classes na França criou circunstâncias e 
condições que permitiram a um personagem 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
67 
medíocre e grotesco desempenhar o papel de 
herói (MARX, 2011b, p. 18). 
 
Realmente, em O 18 de Brumário, Marx delimita as classes 
sociais da França, aponta suas características, projeta quais são os 
partidos que as representam, bem como os movimentos das classes e 
das representações – nem sempre combinados entre si –, e a relação 
disso tudo com a economia e as condições de vida de franceses e 
francesas à época. E não se tratava de pouca coisa! Revolução, 
constituição de novas formas políticas, repressão, golpe de Estado! É 
o famoso ditado de que “são anos que valem séculos!”. 
Voltando à França da primeira metade do século XIX, entre 
1830 e 1848, o governo estava nas mãos da Dinastia de Orleans, 
conhecida como “Monarquia de Julho”, sob reinado de Luís Filipe. 
Mas todo governo tem de ter uma base social que o mantenha, 
que lhe dê guarida. Marx afasta aquela reflexão liberal – amplamente 
aceita no senso comum – de que há uma oposição entre sociedade e 
Estado. Já escutaram aquelas expressões: “político é tudo igual”; 
“político é tudo ladrão”, pois bem, refletem essa falsa oposição! Para 
Marx, classes e, especificamente, frações de classes do interior da 
sociedade civil ocupam e dirigem o Estado, com fins de atender a seus 
interesses de classe como se de toda coletividade fossem. Marx, então, 
enxergaria, por trás daquele rei francês, banqueiros, donos de terras, 
minas e ferrovias, uma aristocracia financeira e proprietária de terras. 
Ocorre que, em 1847, houve uma grande crise comercial na 
Inglaterra. Desde essa época, Marx já faria a articulação entre crise 
econômica e revolução. Ele apontaria esta crise como responsável pelo 
descontentamento popular e como locomotora das revoluções de 
fevereiro e março de 1848. Com a instabilidade criada pela crise, a 
burguesia industrial, afastada do poder, encontra as condições 
materiais para a revolução. Para tanto, atrai a pequena burguesia – 
comerciantes, pequenos empresários, setores da burocracia estatal – e, 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
68 
também, o nascente proletariado, sobre quem recaem drasticamente as 
consequências de quaisquer crises econômicas. Este, à época, não 
dispunha de um projeto político autônomo, um programa de 
sociabilidade, o que o levou a ser uma classe auxiliar da burguesia, ao 
passo que esta não conseguiria fazer uma revolução sem o apoio da 
massa dos trabalhadores. 
Marx descreverá nestes dois livros – Lutas de Classes na 
França e O 18 de Brumário – como os interesses conflitantes entre as 
classes (e suas frações de classe) levarão a ações políticas diversas e a 
alterações na correlação de forças entre elas – em determinado 
momento, ascenso do proletariado, em outro, da burguesia industrial, 
etc. – e como essa flutuação das posições econômicas e políticas das 
classes levam a mudanças bruscas nas formas político-jurídicas – 
monarquia, república, império, liberdades democráticas, sufrágio 
universal, etc. 
Atente para o fato de que a forma político-jurídica é 
secundarizada; para Marx, ela advém do contexto econômico do 
período histórico e de mudanças no interior das lutas entre as classes 
e que levam à sua alteração/adequação. Por outro lado, as formas 
político-jurídicas se revelam, por vezes, instrumentos importantes para 
a própria luta. Para exemplificar: com a liberdade de organização e 
comunicação, trabalhadores têm maior facilidade de defender seus 
interesses – a partir de seu partido, sindicato, jornal ou revista – do que 
em um momento de ditadura e cassação das liberdades civis. Por outro 
lado, como já vimos, esta liberdade não representa a emancipação 
humana ou um padrão de sociabilidade realmente livre. 
 Perceba a importância desta reflexão. Se setores da burguesia 
diziam à época “Viva a república!”, “Viva o sufrágio universal!”, 
como se fossem “intocáveis”, pois previstas na nova ordem jurídica, 
Marx apontaria que o desenrolar dos fatos demonstrava que, apesar de 
a república e o sufrágio universal constituírem-se em avanço frente ao 
momento monárquico anterior, ambos não detinham existência 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
69 
“autônoma”, nem seriam um fim em si mesmos. Em outras palavras: 
a partir do momento em que se constituíssem em entrave para os 
interesses do capital e da classe para a qual pendesse a correlação de 
forças, a república, o sufrágio universal e as garantias liberais mínimas 
conquistadas poderiam vir a ser descartados, e sem o menor pudor! 
 Ou, para tratar em outros termos: em verdade, essas formas 
político-jurídicas, que hoje conhecemos e assimilamos como algo 
posto – “tripartição dos poderes”, “sufrágio universal”, “Estado de 
sítio”, “salvaguardas do Estado” –, seriam analisadas por Marx não 
como formas “boas” ou “más”, mas como instrumentos que a 
burguesia,enquanto classe que cria um novo poder político, testa, 
adequa, para consolidar e perpetuar seu domínio econômico. 
Mas, retornemos à conjuntura das classes sociais francesas em 
1848. Para Marx, as classes sociais nesta nascente República, naquele 
lugar e momento histórico, estavam assim estruturadas: 
Alta burguesia – em seu interior, existiam os orleanistas – 
aristocracia financeira e grandes industriais, partidários da dinastia de 
Orléans – e os legitimistas – aristocracia proprietária de terras e 
defensores da dinastia de Bourbon; ou seja, essa massa da burguesia 
era monarquista. Pequena burguesia – pequenos proprietários, 
comerciantes, determinados elementos da burocracia estatal, 
incapazes de propor um projeto político autônomo. Estavam sempre 
acompanhando outra classe: ora a burguesia, ora o proletariado, ou 
seja, compunham uma classe de transição. Proletariado – Composto 
pelo incipiente operariado parisiense, foi conformando-se como classe 
com projeto político autônomo durante as lutas políticas. 
Lumpemproletariado – pessoas recrutadas no interior da própria 
classe despossuída dos meios de produção e que, por completo 
alheamento do processo produtivo e organizativo, constituíam-se em 
uma grande massa apta a ser mobilizada contra a própria classe 
trabalhadora. Campesinato – trabalhadores rurais que detinham 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
70 
pequenas propriedades, isoladas entre si, o que favorecia uma posição 
conservadora e de reverência da monarquia. 
Perceba que aqueles que apontam que Marx errou ao dizer que 
existem, no capitalismo, duas classes fundamentais e antagônicas, a 
burguesia e o proletariado, o fazem por completo desconhecimento da 
obra marxiana – possivelmente a partir de uma má leitura de O 
Manifesto Comunista. Em verdade, Marx e Engels apontavam as 
diversas frações no interior das classes, e que estavam em movimento, 
com suas particularidades, as várias lutas de classes, e que, se a 
burguesia alçou seus interesses particulares à condição de universais, 
seria a sua negação, o seu oposto, o operariado, a classe capaz de 
propor um projeto realmente universal e emancipatório. 
De acordo com Marx e Engels, torna-se impossível, após as 
revoluções burguesas, a classe universal ser camponesa. A expansão 
das cidades é um feito irreversível. Do mesmo modo, é impossível a 
classe universal ser a burguesia, pois proprietários de meios de 
produção só existem pela existência dos não proprietários. Impossível, 
também, ser a pequena burguesia; ela é, por sua natureza, uma classe 
de transição em uma sociedade de classes. Dela você pode ascender à 
burguesia, ou “cair” ao proletariado. Portanto, a única classe com 
potentia de universal, capaz de abrigar todo o desenvolvimento 
tecnológico e científico constituído na modernidade, mas de torná-lo 
um bem comum, é o proletariado. Agora, se o proletariado é a classe 
apta a liderar uma revolução em determinado país sob específicas 
condições econômico-sociais, isto quem dirá são as condições 
particulares deste país e sua própria classe trabalhadora. Sujeito 
revolucionário é quem faz revolução. 
Mas retornemos às classes sociais da França em 1848 e sua 
revolução de fevereiro. Se a revolução foi liderada pela burguesia 
industrial e contou com uma participação indispensável do 
proletariado, ambas as classes, além da pequena burguesia, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
71 
compuseram o governo provisório. Percebam como Marx analisou 
este governo cuja essência era ser provisório: 
 
O objetivo original das jornadas de fevereiro 
foi uma reforma eleitoral que ampliasse o 
círculo dos privilegiados políticos dentro da 
própria classe possuidora e derrubasse o 
domínio exclusivo da aristocracia 
financeira. Quando, porém, o conflito 
irrompeu de fato – quando o povo foi às 
barricadas, a Guarda Nacional ficou passiva, 
o exército não ofereceu nenhuma resistência 
séria e a realeza fugiu –, a República 
pareceu algo óbvio. Cada partido a 
interpretou ao seu modo. Por tê-la 
conquistado de armas na mão, o proletariado 
lhe imprimiu o seu selo e a proclamou como 
República Social. Desse modo, indicou-se o 
conteúdo geral da revolução moderna, que 
se encontrava na mais curiosa contradição 
com tudo o que, nas circunstâncias dadas, 
podia ser posto diretamente em prática num 
primeiro momento com base no material 
disponível e no nível de formação atingido 
pela massa. Por outro lado, a reivindicação 
de todos os demais elementos que haviam 
cooperado com a Revolução de Fevereiro 
foi contemplada com a parte do leão que 
receberam no governo (MARX, 2011b, p. 
32-33). 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
72 
Enquanto os representantes do proletariado debatiam 
“princípios sociais”, “direitos humanos”, o repertório que deveria 
fundar uma “República Social”, a burguesia ficou com o controle da 
política econômica e das forças de repressão, com a “parte do leão”. 
Ou seja, no interior do governo provisório havia uma contradição – 
sua composição abrigava classes que, de interesses comuns no 
momento imediatamente anterior (o momento monárquico), agora 
cerravam fileiras sob programas e interesses opostos. A burguesia 
queria o fim do momento revolucionário, a estabilidade para aumentar 
os negócios e a acumulação de capital; o proletariado queria um 
Estado social, o desmonte dos privilégios monárquicos! Mas não 
seriam valores, princípios e regras jurídicas os caminhos a solucionar 
este tipo de contradição. Já vimos isso! 
A queda da forma política monárquica resultou na 
constituição da República, do governo provisório e da formação de 
uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a burguesia era maioria 
também na Assembleia. Por meio dela e do governo provisório, a 
burguesia desacelerou o ímpeto revolucionário. Assim, a direção do 
proletariado, descontente com os rumos desde fevereiro, resolveu, em 
maio, tentar dispersar à força a Assembleia, pois não estaria 
cumprindo com os princípios que motivaram a revolução. Acontece 
que uma ação política depende necessariamente das condições 
impostas pela conjuntura – lembre-se daquela frase de Marx segundo 
a qual os homens fazem a história a partir das condições que esta 
permite e não apenas de seus desejos – e, ao tentar este ato de força 
sem as devidas pré-condições para tanto, o proletariado possibilitou a 
motivação para a prisão de seus líderes e terminou por acelerar a 
decisão da burguesia de derrotá-lo (MARX, 2011b). 
 A prisão de líderes da esquerda, a promulgação de leis que 
atentavam contra as liberdades democráticas e o completo desprezo 
pelas reivindicações de fevereiro levaram a nova sublevação popular 
em fins de junho de 1848. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
73 
Marx afirmaria que a alta burguesia, a pequena burguesia, os 
monarquistas, todas as classes proprietárias uniram-se contra o 
proletariado. Assim, realizaram um massacre, contando com o 
Exército e a Guarda Nacional, uma espécie de força repressiva à época 
dominada pelos setores pequeno-burgueses. Para Marx, “foi no 
combate a uma contrarrevolução coesa e poderosa que o partido 
transformou-se para realmente revolucionário” (MARX, 2012, p. 35). 
Atente para a dialética nessa análise. O proletariado parisiense 
houvera materializado uma revolução – a de fevereiro. Ao perceber 
que os interesses defendidos pelo Estado não eram universais – de 
todos, inclusive da classe proletária – viu-se obrigado a desenvolver 
seu próprio programa político, seu projeto de sociabilidade. Foi no 
decorrer deste enfrentamento com as classes proprietárias que ele se 
deu conta desta necessidade e ascendeu a um patamar político mais 
evoluído que o estágio anterior. Ao mesmo tempo, a ação à frente da 
correlação de forças da época levou ao assassinato e deportação demilhares de operários, retirando a capacidade desta classe de 
protagonizar a luta política no período subsequente. 
Após a vitória de junho, a grande burguesia redirecionou as 
verbas do Estado aos seus empreendimentos, ao passo que a pequena 
burguesia entrou em fase de pauperização. Estes pequenos 
proprietários não tinham dinheiro para o aluguel do empreendimento, 
para pagar aos fornecedores, e a crise foi se avolumando como uma 
bola de neve... E então a pequena burguesia voltou a aproximar-se do 
proletariado. 
Marx deduziria, então, que à medida que ficava mais nítido o 
controle da grande burguesia sobre a Assembleia Nacional 
Constituinte, mais ruía sua influência fora da Assembleia. A nova 
Constituição, ao fim e a cabo, apenas formalizou a República e a 
vitória momentânea da velha sobre a nova sociedade. Nas palavras de 
Marx, ao instituir o sufrágio universal, a burguesia dotou de poder 
político as classes que à escravidão social visava eternizar! 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
74 
Como consequência, na eleição de 10 de dezembro, o 
representante da grande burguesia teve um milhão de votos, frente a 
seis milhões de Luís Napoleão, o sobrinho de Napoleão Bonaparte. 
Este a ninguém representava, mas contou com o voto de um 
campesinato altamente descontente com o governo burguês que lhe 
impôs uma tributação abusiva. 
 Para nós, é impossível retratar e analisar aqui o rico momento 
político que se estenderia até dezembro de 1852, momento em que 
Luís Napoleão se atribui o título de Imperador da França e acaba com 
a Segunda República francesa. Regulamentações da Constituição, 
trocas no ministério de governo, eleições; uma infinidade complexa de 
ações políticas se desenvolveu, a partir de interesses materiais 
concretos – econômicos, vale dizer –, e com fins de alteração da 
correlação de forças no interior da sociedade francesa. 
 A pauperização crescente, a adoção de medidas em prol da 
grande burguesia e contra os interesses da pequena burguesia e do 
campesinato levaram estas classes a reaproximar-se do proletariado. 
 Em 28 de abril de 1850, a oposição vence as eleições 
parlamentares. A pequena burguesia crê que poderia avançar pelas 
vias puramente legais e sem o proletariado. Ao perceber que, de um 
lado, a manutenção do sufrágio levaria a uma derrota futura, bem 
como, de outro, que a pequena burguesia não esboçaria reação, o 
partido representante da alta burguesia – o Partido da Ordem, dos 
orleanistas e legitimistas – revoga o sufrágio universal e as “liberdades 
burguesas” – liberdade de organização, de comunicação, etc. 
Ocorre que, como alertamos anteriormente, quanto maior o 
domínio exercido no parlamento por esta burguesia, menor era seu 
domínio na sociedade civil, ou, nas palavras de Marx: “Na sua luta 
contra o povo, o Partido da Ordem é forçado a aumentar de forma 
contínua o poder do Executivo. Todo aumento de poder do Executivo 
constitui um aumento de poder do seu detentor, Bonaparte” (MARX, 
2011b, p. 157). 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
75 
 Neste cenário de instabilidade, em que a pequena burguesia 
havia rifado o proletariado e em que os grandes grupos burgueses 
lutam incessantemente contra as demais classes, mas também entre si, 
o processo de acumulação de capital se vê abalado ou, ao menos, sob 
riscos concretos. É neste contexto que uma possível revolução social 
leva a um golpe de Estado restaurador: 
 
Em suma, a solução constitucional põe em 
xeque todo o status quo político, e, por trás 
da ameaça ao status quo, o cidadão 
vislumbra o caos, a anarquia, a guerra civil 
[...] A única solução possível nos termos da 
burguesia é o adiamento da solução. Ela só 
será capaz de salvar a república 
constitucional por meio da violação da 
Constituição, por meio da prorrogação do 
mandato do presidente [...] Por isso mesmo, 
a maioria do Partido da Ordem será obrigada 
a prolongar o mandato do presidente [...] 
Desse modo, a solução é adiada, o status quo 
continua a ser preservado, as facções do 
Partido da Ordem se comprometem, 
enfraquecem e inviabilizam mutuamente 
(MARX, 2011b, p. 161). 
 
 Marx não foge, portanto, a seu método: as relações jurídicas e 
as formas de Estado são compreendidas a partir das condições 
materiais de vida da sociedade civil, conforme ele apontaria no 
Prefácio à Crítica da Economia Política, e da luta de classes em seu 
interior. Assim, concluiria em O 18 de Brumário que a repressão 
contra o inimigo comum, a massa da nação, as classes trabalhadoras 
em geral, seria ampliada e esgotada até que “as próprias relações 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
76 
econômicas novamente atinjam o ponto do seu desenvolvimento, em 
que uma nova explosão mande pelos ares todos esses partidos rixentos 
com sua república constitucional” (MARX, 2011b, p. 161). 
E, realmente, o medíocre Luís Bonaparte, perante essa 
conjuntura, ficaria à frente do Império Francês até 1869, quando o país 
seria derrotado pela Prússia. Seria a crise atinente a esta conjuntura 
que possibilitaria que, em 1871, o operariado tomasse de assalto o céu 
e instituísse o primeiro governo operário da história, a Comuna de 
Paris, com duração de ao redor de 70 dias. Nele, o proletariado 
desenvolveu sua própria forma política: extinguiu o Exército e o 
Estado burguês, armou a população parisiense, criou mecanismos 
assembleístas e mandatos rotativos de representantes, os quais 
estavam vinculados às decisões coletivamente deliberadas. Por outro 
lado, em Guerra Civil na França, Marx apontaria que a classe operária 
parisiense cometera um erro fatal: ao não tomar para si o Banco 
Central da França, o operariado perdeu o controle da economia. Além 
disto, não se preparou para a possível aliança militar entre o Exército 
francês derrotado e as forças armadas prussianas. 
Dessa maneira, a experiência popular foi derrubada pelas 
classes proprietárias francesas – apoiadas pelo exército prussiano – a 
partir do genocídio de trinta mil parisienses, protagonistas da Comuna 
de Paris. Mas, ali, pela primeira vez, os que vivem de sua força de 
trabalho ousaram criar seus próprios programas e formas políticas de 
sociabilidade. 
 
Concluindo... 
 
Vimos ao longo deste capítulo que Marx foi quem primeiro 
atribuiu à luta de classes o movimento da história. Se Hegel o entendia 
a partir das ideias, do espírito, Marx “vira” Hegel de “cabeça para 
cima” e coloca as condições concretas sobre as quais as pessoas vivem 
na centralidade que lhe é devida, como já vimos no primeiro capítulo. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
77 
Marx levanta, então, leis, tendências, às quais se opõem contra-
tendências, que conformam a sociedade capitalista. 
Para a sua superação, só há uma saída: a luta política, na qual 
as classes trabalhadoras devem conformar um programa político 
próprio, que supere, em longo prazo, a compra e venda da força de 
trabalho e institua uma nova ordem de sociabilidade fundada na 
emancipação humana. Marx dizia que a transição ao socialismo seria 
um lento processo; imaginem a emancipação humana! 
Mas esta luta política não é feita em condições ideais. Ela se 
dá em condições concretas, em geral desfavoráveis aos trabalhadores 
e trabalhadoras e, apenas em seu curso, no processo de luta, na história, 
a classe desenvolve sua capacidade de compreender a conjuntura e 
tecer seu próprio caminho. Por outro lado, esta luta não se dá afastada 
das condições concretas de reprodução social de cada classe. Ao 
contrário, há uma relação dialética em que mudanças nas condições de 
vida implicam mudanças na percepção do mundo. Consequentemente, 
alianças de classes, conformação de blocos de classes, tudo isto está 
atrelado às condições concretas materiais. As formas políticas e 
jurídicas, por outro lado, respondem a essas condições. Umgolpe de 
Estado, por exemplo, não é nem nunca será um evento meramente 
político. 
A crise pode ser um momento que anuncia uma restauração 
conservadora, uma saída aventureira como a de um Luis Bonaparte, 
mas também pode ser um momento de novas esperanças 
transformadoras, de novas tentativas da humanidade de construir seu 
porvir histórico e sua emancipação. 
 
Referências 
 
ENGELS, Friedrich. Prefácio. In: MARX, Karl. As lutas de classes 
na França de 1848 a 1850. São Paulo: Boitempo, 2012. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
78 
ENGELS, Friedrich. Prefácio. In: MARX, Karl. O 18 de Brumário 
de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. 
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lutas de Classes na Rússia. São 
Paulo: Boitempo, 2013. 
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2006. v. I. 
HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções, 1789-1848. São Paulo: 
Paz e Terra, 2011. 
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: 
Boitempo, 2013a. 
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o 
processo de produção do Capital. São Paulo: Boitempo, 2013b. 
MARX, Karl. As lutas de classes na França de 1848 a 1850. São 
Paulo: Boitempo, 2012. 
MARX, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo: Boitempo, 
2011a. 
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: 
Boitempo, 2011b. 
MARX, Karl. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010. 
MARX, Karl. Para a questão judaica. São Paulo: Expressão Popular, 
2009. 
MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São 
Paulo: Expressão Popular, 2008. 
PAULO NETTO, José. Prefácio. In: Marx, Karl. Para a questão 
judaica. São Paulo: Expressão Popular, 2009. 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 3: O TRABALHO EM MARX 
 
Após conhecer um pouco mais da vida e obra de Marx nos 
capítulos anteriores, bem como a importância da luta política, 
acreditamos que você já deve ter folheado, em maior ou menor 
proporção, algum de seus trabalhos. O esforço intelectual 
empreendido por Marx e Engels, consubstanciado no conjunto de suas 
obras, ajuda-nos a compreender a realidade na qual vivemos, seja na 
questão do método de análise por eles utilizado, seja nas categorias 
apresentadas ao longo dos textos. 
Neste capítulo, vamos enveredar por uma das categorias de 
maior relevância na análise Marxista: o Trabalho. 
Certamente você já ouviu que “o trabalho dignifica o homem”, 
ou ainda o ditado popular que nos diz que “Deus ajuda a quem cedo 
madruga”, deixando o trabalho como um motivo subentendido para 
esse acordar cedo e pré-requisito necessário para a ajuda da divindade. 
Outra referência sobre o trabalho pode ser encontrada no livro 
do Gênesis, o qual contém a narrativa da origem do mundo na 
cosmovisão judaico-cristã. Em seu terceiro capítulo, após o homem e 
a mulher comerem do fruto da árvore proibida, a divindade se dirige 
aos dois e em razão do “grave delito” os pune. Você consegue 
imaginar qual a pena aplicada a eles? Então, observe o trecho que 
segue: 
 
17. E disse em seguida ao homem: “Porque 
ouviste a voz de tua mulher e comeste do 
fruto da árvore que eu te havia proibido 
comer, maldita seja a terra por tua causa. 
Tirarás dela com trabalhos penosos o teu 
sustento todos os dias de tua vida. 18.Ela te 
produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás 
a erva da terra. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
80 
19.Comerás o teu pão com o suor do teu 
rosto, até que voltes à terra de que foste 
tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar. 
 
Como visto, na tradição judaico-cristã a divindade os 
condenou – e a todo o resto da humanidade – a viver do próprio 
trabalho, penoso e perene. 
Observando o texto de “cabeça para cima”, a considerar a 
existência da propriedade privada, da separação da humanidade em 
classes, da teocracia vigente e da objetificação da mulher, o que 
encontramos é um recurso narrativo engenhoso, empenhado na 
atribuição dos dissabores do trabalho da classe dominada a um 
desígnio divino, provocado por culpa do próprio ser humano e em 
especial da mulher. 
Essa concepção do Trabalho como elemento de punição e 
sofrimento está plenamente ajustada àquela fomentada pelas classes 
dominantes em cada período da história, restando coroada com a 
própria forja do vocábulo. Perceba que, não obstante o sentido do que 
hoje conhecemos como trabalho já estar presente no cotidiano dos 
seres humanos desde longa data, a palavra possui origem um pouco 
mais recente na história da humanidade. Sobre a questão, Ivan Illich 
(1976, p. 45) afirma que: 
 
No fim da Idade Média, o antigo sonho do 
alquimista de fabricar um homúnculo em 
laboratório tomou pouco a pouco a forma da 
criação de robots para trabalharem em vez 
do homem e da educação do homem para 
trabalhar ao seu lado. Esta nova atitude 
perante a atividade produtiva reflete-se na 
introdução de uma nova palavra. Tripaliare 
significava “torturar sobre o trepalium”, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
81 
mencionado no século VI como uma 
armação construída por três troncos, 
suplício que substituiu o da cruz no mundo 
cristão. No século XII, a palavra trabalho 
significava uma experiência dolorosa. Foi 
preciso esperar até o século XVI para se 
poder utilizar a palavra trabalho em vez de 
obra ou de labor. À obra (poiesis) do homem 
artista e livre, ao labor (poneros) do homem 
pressionado por outro ou pela natureza, 
acrescentou-se então o trabalho ao ritmo da 
máquina. Seguidamente, a palavra 
trabalhador deslocou o seu sentido para 
agricultor e operário. No fim do século XIX, 
os três últimos termos mal se distinguiam 
entre si. 
 
As referências ao Trabalho, portanto, aparecem em textos tão 
antigos que em um olhar aligeirado poderíamos muito bem deduzir 
que sua origem decorre da origem do ser humano. Contudo, cientes do 
processo evolutivo percorrido até o aparecimento de nossa espécie e 
do conjunto dos vestígios deixados pelos hominídeos que nos 
precederam, podemos dizer que, na realidade, o Trabalho é o próprio 
salto qualitativo que a nós nos apartou da condição puramente animal 
anterior, humanizando-nos. 
Mas como aconteceu isso? A resposta segura é: muitíssimo 
lentamente, ao longo de centenas de milhares de anos de evolução e 
em fatos aparentemente desconexos, tais como a descida das árvores 
de um antepassado distante, a adoção de uma posição ereta ao 
caminhar e a liberação das mãos para realização de atividades mais 
finas. Em uma relação dialética, ao mesmo tempo em que o conjunto 
dessas características permitiram os rudimentos do trabalho, a prática 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
82 
do trabalho refinou o corpo humano para a realização de novas 
funções. Na concepção de Engels (2004, p. 13-14): 
 
a mão não é apenas o órgão do trabalho; é 
também produto dele. Unicamente pelo 
trabalho, pela adaptação a novas e novas 
funções, pela transmissão hereditária do 
aperfeiçoamento especial assim adquirido 
pelos músculos e ligamentos e, num período 
mais amplo, também pelos ossos; 
unicamente pela aplicação sempre renovada 
dessas habilidades transmitidas a funções 
novas e cada vez mais complexas foi que a 
mão do homem atingiu esse grau de 
perfeição que pôde dar vida, como por artes 
de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas 
de Thorwaldsen e à música de Paganini. 
 
Como visto, o debate está para além de um dilema de 
causalidade, tal como a investigação da precedência do ovo ou da 
galinha. O processo evolutivo humano se constituiu dialeticamente, do 
tensionamento entre seus caracteres naturais e sociais, entre uma base 
biológica e uma base natural, em que aquele primeiro elemento é o seu 
próprio corpo e o último é constituído a partir do Trabalho e suas 
implicações. 
Diante dessas considerações, podemos nos lançar rumo ao 
entendimento da questão geradora deste capítulo: o que é o Trabalho? 
Este éo tema que abordaremos em seguida. 
Para compreendermos o significado do trabalho convido você 
a lançar um olhar para o passado. Conforme já apontamos 
anteriormente, foram milhares de anos até que os primeiros 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
83 
hominídeos fossem se humanizando, apartando-se de sua condição 
estrita de natureza. 
Imagine que um desses primeiros humanos, em algum 
momento impossível de precisar, deparou-se com a necessidade de 
caçar para prover sua sobrevivência. Ciente da necessidade e atento 
para os elementos que dispunha à sua volta, transformou alguns 
pedaços de madeira em uma rudimentar e pontiaguda lança. 
Certo dia, ao sair para caçar um encorpado javali, suponhamos 
dois possíveis cenários: 
- Cenário 01: no momento de utilização daquele instrumento, ao 
realizar sua investida com a lança, aquele sujeito contemplou, bastante 
preocupado, a sua quebra, e voltando seu pensamento sobre o fato, 
aprendeu que talvez aquele tipo de madeira não fosse o mais indicado 
para aquela finalidade. 
- Cenário 02: ao desferir o golpe de lança contra o animal, conseguiu 
exitosamente transpassá-lo, garantindo sua alimentação por dado 
período. 
Procedendo com a análise desse fato, independentemente do 
seu desfecho, alguns elementos se destacam. Algo que pode ser 
percebido é que a sobrevivência daquele sujeito não estava dada, não 
era garantida. Havia a necessidade de que ele se produzisse 
materialmente, neste caso por meio da caça, para que não perecesse 
diante das adversidades da natureza. 
Contudo, seu processo de produção material não ocorreu de 
modo mecânico, isto é, não foi causalidade espontânea imediata à sua 
necessidade. De outro modo, ciente de sua necessidade, aquele ser 
humano traçou um objetivo, uma finalidade, organizando 
mentalmente os caminhos para chegar lá, estabelecendo de maneira 
ideada o seu fazer. Esse movimento de antever mentalmente uma dada 
finalidade e traçar os caminhos à sua concretização é denominado de 
ato teleológico. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
84 
Ciente de sua finalidade última, caçar para alimentar-se, o ser 
humano em questão estabelece mentalmente a necessidade de um 
objeto pontiagudo e forte o suficiente para abater a caça. Observando 
os elementos naturais de seu entorno, ocorre-lhe aquilo que podemos 
expressar como uma lança. 
Estabelecidos teleologicamente tanto a finalidade quanto seus 
caminhos, têm início o processo de concretização. O ser humano 
recolhe, portanto, a madeira e passa a modificá-la de modo a torná-la 
adequada àquilo que anteriormente construiu mentalmente. A esta 
relação com os elementos da natureza em que o ser humano, dotado 
de uma intencionalidade, modifica-a ao mesmo tempo em que é por 
ela modificado, denomina-se Trabalho. 
Esse processo de modificação pode inclusive ser visível 
apenas no campo qualitativo, na transformação em valor de uso 
daquilo que antes não era além de um objeto da natureza, sem 
correspondência na alteração dos atributos originários deste objeto. 
Um exemplo elucidativo é a utilização de um dado cipó, disponível 
livremente na natureza, com a finalidade de atar determinado objeto. 
Destituindo-nos de qualquer pensamento egocêntrico, não é difícil 
compreender que objetivamente o cipó não existe para nenhum tipo de 
satisfação das vontades ou necessidades humanas. Ele existe 
independentemente de nossa existência, inclusive. É, portanto, um 
objeto da natureza. Contudo, a partir do momento em que o ser 
humano o toma e dá a ele determinada função ou uso, o cipó, mesmo 
sem nenhuma alteração de seus atributos materiais, é deslocado pelo 
ser humano à condição de um valor de uso. No caso de nossa lança, o 
ser humano toma a madeira, objeto da natureza, e, afiando-a, torna-a 
lança, um valor de uso. 
Vale notar que os demais seres da natureza, num processo de 
causalidade direta, carregam instintivamente as informações 
necessárias para sua sobrevivência. Sabem, instintivamente qual tipo 
de alimento preferem como espécie e, sentindo fome, buscam-no. Já o 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
85 
ser humano não nasce sabendo ser humano, precisa aprender a se 
produzir materialmente, e o faz utilizando-se de sua capacidade 
teleológica e mediante o Trabalho, ou seja, rompe a condição de 
simples adaptação à natureza e passa a adaptar a natureza a si 
(SAVIANI, 2007). 
Se é o Trabalho uma relação dialética na qual o ser humano 
transforma a natureza e ao fazê-lo é por ela transformado, resta-nos, 
para dar conta de compreender a categoria Trabalho, conhecer como a 
transformação da natureza a nós nos transforma, tema que 
abordaremos a seguir. 
Ao tomarmos em conta os resultados possíveis da empreitada 
de nosso ser humano na confecção e uso de uma lança para caçar 
javalis, foi possível observar que no cenário 01, caso aquela pessoa 
sobreviva ao ataque frustrado ao animal, terá aprendido por um duro 
caminho que talvez aquele tipo de madeira não seja o mais adequado 
para a produção de lanças; ou que a área atingida da anatomia do javali 
é mais robusta do que o seu instrumento de ataque; ou, ainda, que uma 
boa solução seria acoplar um pedaço de pedra ou metal afiado na ponta 
da lança; ou um sem número de outras constatações. Do fracasso da 
experiência, o ser humano não validaria os procedimentos realizados, 
incorporando na cultura a necessidade de outro caminho para 
materializar o seu pôr teleológico. 
Da situação descrita no cenário 02 também são possíveis 
diferentes constatações, inclusive aquela que remete ao ser humano ter 
feito tudo certo, o que culminou no êxito da caçada, consignando 
aquela experiência como validada e habilitando sua consolidação na 
cultura, de modo a atestar sua repetição e desdobrar-se em 
incalculáveis ações humanas. Por exemplo, esse ato de fazer a lança e 
partir para caçar o javali pode muito bem, ao longo da história, 
transformar-se em uma tradição com caracteres simbólicos e 
religiosos, assim como pode não passar do simples e originário ato da 
caça para suprir necessidades alimentares. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
86 
Independentemente de para qual cenário a realidade concreta 
caminhe, e o mais provável é que caminhe para os dois, o que há é a 
garantia da aprendizagem por esse ser humano do conjunto de erros e 
acertos, atos e resultados de sua ação. Essa aprendizagem que decorre 
diretamente do fazer não é, senão, movimento de transformação do ser 
humano em razão de sua vivência do Trabalho e com a natureza. Sobre 
essa questão, Saviani (2007, p. 154) aponta que: 
 
Se a existência humana não é garantida pela 
natureza, não é uma dádiva natural, mas tem 
de ser produzida pelos próprios homens, 
sendo, pois, um produto do trabalho, isso 
significa que o homem não nasce homem. 
Ele forma-se homem. Ele não nasce sabendo 
produzir-se como homem. Ele necessita 
aprender a ser homem, precisa aprender a 
produzir sua própria existência. Portanto, a 
produção do homem é, ao mesmo tempo, a 
formação do homem, isto é, um processo 
educativo. 
 
O trabalho configura-se então como atividade criadora 
concreta do ser humano, salto qualitativo que a nós nos aparta de nossa 
condição natural, animalesca. Por seu intermédio, no movimento de 
produção das coisas do mundo e nas relações que estabelecemos nesse 
processo, geramos cultura e nos humanizamos. 
Certamente, você já ouviu falar em histórias de crianças que 
por algum motivo acabaram sendo criadas por outra espécie animal e 
em maior ou menor grau passaram a viver e agir não como humanos, 
mas como a espécie que as adotou. Em razão do distanciamento de 
nossa espécie de seu estado de natureza, o processo de 
desenvolvimento do ser humano passou a vincular-se a fontes que 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemosde Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
87 
transcendem este estado. Nesse sentido, os processos de 
desenvolvimento humano passaram a vincular-se dialeticamente com 
as relações que estabelecemos com o entorno, mediatizados pelo 
trabalho, cultura e linguagem. Possivelmente, você já ouviu falar que 
o ser humano é um ser social. 
Assim, o que aconteceu com as referidas crianças é que a 
sociedade ao seu entorno correspondia a própria natureza, de tal modo 
que mesmo com todas as capacidades humanas presentes naqueles 
sujeitos em desenvolvimento, a ausência da vivência dialética com 
outros seres humanos não lhes permitiu a humanização. 
Observe: um boi, um coelho ou um gato não necessitam de 
processos educativos ou o contato com outros de sua espécie para 
agirem e viverem como o boi, coelho e gato que são. Tampouco a 
abelha demanda que algum de seus pares a ensine a construir sua 
colmeia, produzir o seu mel e polinizar as flores do entorno. Estes 
seres, evolutivamente ainda conectados à sua condição natural, trazem 
naquilo que usualmente se convém chamar de instinto o arcabouço 
sobre o qual experienciam suas vidas. Para Marx (2013, p. 327), 
 
[...] o que desde o início distingue o pior 
arquiteto da melhor abelha é o fato de que o 
primeiro tem a colmeia em sua mente antes 
de construí-la com a cera. No final do 
processo de trabalho, chega-se a um 
resultado que já estava presente na 
representação do trabalhador no início do 
processo, portanto, um resultado que já 
existia idealmente. 
 
Essa representação prévia é viabilizada exclusivamente em 
razão das vivências daquele ser humano. Ao contrário das concepções 
idealistas platônicas que apontavam para um mundo das ideias, 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
88 
estranho à nossa própria matéria, enquanto origem das coisas do 
mundo, o que se observa é que as ideias têm nos seres humanos sua 
base material, urdidas a partir das vivências concretas, dadas em um 
lapso temporal delimitado, correspondente em cada um à duração de 
sua vida. Em razão do Trabalho e da Cultura, contudo, é possível para 
os seres humanos expandir, rumo ao passado, os elementos que 
compõem seu arcabouço de conhecimentos, na apropriação das 
experiências daqueles que nos precederam, tal e qual estamos fazendo 
agora. 
Acontece que o passado, como você há de convir, já passou, e 
o fez independentemente de nossa vontade ou expectativa. O arquiteto 
idealiza em sua mente a colmeia, posto que de algum modo já se 
relacionou no passado com aquilo que conhecemos como colmeia. Da 
mesma forma, as crianças que apenas estabeleceram experiências com 
animais dispõem desses elementos para se constituírem materialmente 
no mundo. 
Marx e Engels, em A Ideologia Alemã (2007, p. 87), apontam 
que “o modo pelo qual os homens produzem seus meios de vida 
depende, antes de tudo, da própria constituição dos meios de vida já 
encontrados e que eles têm de reproduzir“; assim como Marx em O 18 
Brumário de Luís Bonaparte (2011, p. 25), afirma que: 
 
Os homens fazem a sua própria história; 
contudo, não a fazem de livre e espontânea 
vontade, pois não são eles quem escolhem 
as circunstâncias sob as quais ela é feita, 
mas estas lhes foram transmitidas assim 
como se encontram. A tradição de todas as 
gerações passadas é como um pesadelo que 
comprime o cérebro dos vivos. 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
89 
Até aqui você viu que o homem e a mulher, tais e quais os 
conhecemos, não são naturalmente dados, mas que, de outro modo, 
aprendem a sê-los, humanizando-se. Viu ainda que a humanização é 
construída a partir do salto qualitativo e evolutivo constituído pelo 
trabalho e do processo social de geração de cultura que do trabalho 
decorre. Compreendeu que se acaso um ser humano não experiencie a 
cultura e sociedade humana em seu processo de desenvolvimento, não 
obstante possuir em si todas as capacidades e faculdades humanas, não 
se humanizará. E finalmente observou que o movimento de 
humanização do homem e da mulher, mesmo dado na história e por 
meio de seu trabalho, não ocorre exatamente da maneira que eles 
querem. De outra forma, ocorre a partir das condições materiais dadas 
em cada tempo. 
Seria então possível dizer que a própria concepção de 
Trabalho se modificou ao longo do tempo? Sobre esse tema 
discorreremos a seguir. 
Abordamos um dado período histórico em que o Trabalho e 
os processos formativos guardavam identidade entre si. O trabalho 
educava e humanizava no cotidiano do aprender a fazer, fazendo, e nas 
relações com os outros homens e mulheres, gerando cultura. A 
produção da vida era dada coletivamente no processo do trabalho e a 
apropriação dos seus frutos era dada socialmente, garantindo a 
sobrevida dos agrupamentos humanos. 
Contudo, a invenção da propriedade privada reorganiza todo 
esse processo. Não é raro pensarmos sua criação como um movimento 
pacífico, quiçá até curso natural da história. O fato é que, bastante 
diferente disso, a história da propriedade privada é marcada até os dias 
de hoje pelo conflito violento. 
Tomemos novamente o nosso amigo caçador de javalis. A 
forma rudimentar com que se dava a produção, ainda bastante 
submetida às condições da natureza, não permitia que o nosso 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
90 
personagem guardasse para si apenas a função de caçador. Certamente 
ele acumulava, por exemplo, as funções de coleta e a de guerreiro. 
Imagine então que, em certo dia, uma tribo nômade descobriu 
a localização da pequena comunidade do jovem caçador: um local 
organizado, com uma fonte de água em local próximo. Imaginemos 
ainda que, em razão de sua superioridade numérica, a referida tribo 
nômade decidiu tomar para si aquele local. O que vem em seguida é a 
guerra pelos meios de produção da vida daquele tempo. Aos 
vitoriosos: a propriedade; aos derrotados restaria a morte ou 
escravidão. 
Diferente da escravidão engendrada no Brasil, já sob o marco 
de um capitalismo mercantil no qual pessoas escravizadas eram um 
negócio hediondamente rentável, a escravidão da antiguidade tinha 
outra configuração. Em vez de liquidar fisicamente os vencidos da 
guerra, aqueles que tomavam para si os meios de produção da vida e 
sagravam-se vencedores da batalha poderiam relegar aqueles outros 
ao trabalho forçado. 
Um conjunto de elementos surge com essa movimentação da 
história: é criada a propriedade privada, os perdedores da guerra são 
escravizados, o trabalho torna-se atribuição destes escravos e, por 
último, mas não menos importante, são instituídos os rudimentos da 
divisão humana em classes. 
A divisão histórica da humanidade entre aqueles que possuem 
os meios de produção de vida e aqueles que não os possuem instaura 
a sociedade de classes, ainda não superada no modo produtivo 
hegemônico vigente. 
Um bom exemplo para a nossa compreensão é a Grécia da 
antiguidade, em condição significativamente mais avançada que a 
conjuntura em que vivia aquele caçador de javalis. 
De um lado, para os nascidos na própria Grécia, homens e 
saudáveis, havia todo o tempo livre para o corpo e o pensamento, 
tempo indispensável para a construção de ideias refinadas como a 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
91 
democracia grega, a filosofia ou a sistematização de processos 
educativos, de modo que o vocábulo Escola deriva da palavra grega 
referente ao ócio. 
Para a outra classe restava o trabalho. Dos serviços domésticos 
aos trabalhos braçais dos campos, o modo produtivo se baseava na 
atividade dos escravos. Não é à toa que esse modo produtivo da 
antiguidade é denominado de escravismo. 
Dependente da força de trabalho escrava derivada 
essencialmente dos vencidos em batalha, o Império Romano padeceu 
de sua própria grandeza. Era tão grande que, aparentemente, não havia 
maisquem conquistar e ao mesmo tempo estava grávido de toda uma 
diversidade de povos, não necessariamente satisfeitos com aquela 
condição. 
Quando, em 476 d.C., Odoacro conquistou Roma, ele selou o 
fim do período histórico anterior com o seu modo de produção. A 
configuração da época reorganizou as relações produtivas de modo 
que os antigos senhores passaram a organizar mecanismos de 
arrendamento de suas terras, também chamadas de feudos. 
A Idade Média, ao longo de seus dez séculos, organizou-se 
produtivamente de maneira diversa ao modelo anterior, com dispersão 
dos centros urbanos rumo aos campos e substituindo a figura do 
escravo pelo servo. Mudaram-se os nomes sem, contudo, alterar em 
absolutamente nada a distância entre aqueles que produzem e aqueles 
que se deleitam com os frutos dessa produção. Se antes os escravos 
pertenciam a esse ou aquele senhor, no novo modelo produtivo o servo 
e seus descendentes vinculavam-se obrigatoriamente a essa ou aquela 
terra, o que, se compararmos com o hoje, trazia alguma segurança à 
subsistência daquele trabalhador, demandando, em contrapartida, um 
alto grau de sujeição do servo ao dono da terra. 
Não obstante a centralidade da produção agrícola no modelo 
feudal, ao passar do tempo, os burgos, embrionários centros urbanos, 
passaram a contar com trabalhadores e trabalhadoras de outra ordem, 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
92 
diversa aos servos, mas que como classe partilhavam da mesma 
condição. Esse fenômeno foi possível uma vez que “as relações de 
produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as 
condições materiais de existência dessas relações tenham sido 
encubadas no próprio seio da velha sociedade” (MARX, 2008a, p. 48). 
Nesses burgos, as chamadas corporações de ofício 
apresentavam outra via da organização social do trabalho e da 
educação para a classe trabalhadora, sem nenhuma espécie de 
alteração estrutural. Perceba que, se lá na Antiguidade os processos 
educativos sistematizados eram privilégio de uma das classes, isso não 
implicou inexistência de processos educativos da outra classe. Estes, 
obviamente, continuaram existindo, contudo, substancialmente 
identificados com o “aprender a fazer, fazendo”, sem espaços e tempos 
privilegiados para o aprendizado além da exclusiva preparação para o 
trabalho. É nessa configuração que se encontram as corporações de 
ofício. Não obstante despontarem como possibilidades de espaços e 
tempos para processos educativos, sua função era centrada no trabalho 
e na formação para o trabalho, ou, nos próprios termos, para o ofício. 
A acumulação por parte dos arrendatários de terra, derivada 
da reforma agrícola do século XV, a Reforma Protestante, o 
arrefecimento do poderio da Igreja Católica, a influência dos ideais 
iluministas e, sobretudo, o poderio político e econômico conquistado 
pelos burgos e pela nova classe lá constituída foram o fogo e a pólvora 
necessários para irromper as chamadas revoluções burguesas, tal e 
qual a francesa, que, uma vez vitoriosas, permitiram a ascensão de uma 
nova classe à categoria de dominante. A instauração do paradigma 
urbano fabril, o deslocamento dos servos do campo para a cidade, a 
sua proletarização e o desenvolvimento das manufaturas e do 
maquinário para a produção em massa instauram o novo modelo 
produtivo, até agora vigente: o capitalismo. 
 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
93 
O Trabalho assalariado, a mais-valia, o desemprego e o 
estranhamento 
 
Como você pode perceber, em cada tempo se construiu uma 
combinação distinta do ser humano com o trabalho. Contudo, a 
instauração da sociedade de classes a partir da invenção da 
propriedade privada estabeleceu um marco na linha do tempo humana, 
particionando a história em antes e depois da propriedade privada. 
Se antes o trabalho e a apropriação dos seus frutos era 
coletivizada, com o desenvolvimento das técnicas e a geração de 
excedentes, associados ao advento da propriedade privada, o trabalho 
social passou a ser igualmente apropriado de maneira privada. Se antes 
os sujeitos indistintamente necessitavam trabalhar para prover a si e a 
sua família, com a instauração da sociedade de classes apartou-se a 
classe que trabalha da classe que apenas usufrui desse trabalho. Se 
antes encontrávamos o trabalho humano criador, focado na produção 
de valores de uso, a violência estatal organizou um novo trabalho, 
estranho ao próprio ser humano, estrito produtor de valores de troca. 
Se antes o processo de produção rudimentar se voltava para o consumo 
imediato, com o avanço das técnicas e modificação das relações de 
trabalho passou-se ao movimento de geração de um excedente de 
produção, possibilitando a troca. Se antes podíamos encontrar um 
comunismo primitivo, depois encontramos a escravidão, o servilismo 
e o trabalho assalariado como formas de manutenção e reprodução da 
sociedade de classes. 
No escravismo, a rusticidade tecnológica dos meios de 
produção de vida e o desgaste físico da força de trabalho demandavam 
uma permanente renovação dos ocupantes dos postos de trabalho. 
Filmes clássicos como Spartacus, em sua versão de 1960, nos ajudam 
a compreender essa questão, quando observamos a força motriz das 
galés ou o trabalho extenuante nas pedreiras. De modo muito 
semelhante se apresentou a configuração do trabalho no medievo. A 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
94 
reduzida tecnologia da produção agrícola demandava o trabalho braçal 
de uma força de trabalho que estava vinculada à terra. 
No capitalismo as forças produtivas tomam novas dimensões. 
O advento da maquinaria desenvolveu os processos produtivos em 
razão do tempo e do quantitativo de produção. A nova classe que 
ascendeu e se instalou com as revoluções burguesas tinha no lucro e 
seus usos a sua forma de manter seu poder e hegemonia. Instaurou-se 
uma contradição essencial ao modelo produtivo emergente: de um 
lado, a imperativa necessidade de expandir seu lucro, necessariamente 
decorrente da circulação de suas mercadorias; do outro, a compreensão 
de que pessoas escravizadas e servos não se constituíam enquanto um 
mercado consumidor promissor, posto possuírem limitada 
possibilidade de aquisição das mercadorias. Os escravizados, por sua 
condição de destituídos de tudo, inclusive de si mesmos; e os servos, 
porque sua atividade produtiva não lhe gerava excedente que 
possibilitasse a constituição de expressivo movimento de troca. 
Era necessário inaugurar uma nova relação produtiva, ainda 
que com estreita similitude às anteriores. Agora, não obstante não 
serem mais propriedades de um senhor, nem se encontrarem na 
condição de servos, os trabalhadores e trabalhadoras, na forma 
proletários, livres e urbanizados, eram possuidores apenas de sua força 
de trabalho, consolidando uma necessária relação de dependência com 
a nova classe em situação de hegemonia, para a sua sobrevivência. 
Observe você: recordando as concepções iniciais de trabalho, 
anteriormente apresentadas, o trabalhador necessitando se produzir 
materialmente e sobreviver, estabelecia com a natureza uma relação 
metabólica por meio da qual transformava a natureza e se 
transformava, de forma que sobrevivia e se humanizava na obtenção 
dos frutos desse trabalho. 
Na dependência gerada para rodar a engrenagem do novo 
modelo produtivo, o ser humano, destituído de qualquer meio de 
produção da vida, e precisando sobreviver, necessita dos produtos 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
95 
mercantilizados pelos detentores dos meios de produção. Para tanto, 
tem de trocá-los por alguma outra coisa, atualmente pelo equivalente 
universal de trocas: o dinheiro. Para conseguir dinheiro, necessita 
então vender sua força de trabalho aos próprios donos dos meios de 
produção, em troca de um salário, muitas vezesproduzindo o mesmo 
produto o qual comprará depois. 
Como visto, quando uma pequena parcela da humanidade 
concentra a totalidade dos meios de produção, passa a obrigar a imensa 
massa de despossuídos a produzir para eles e ao, mesmo tempo, 
comprar deles as mercadorias necessárias para sobreviver. O fruto do 
trabalho não pertence mais a quem o produz e nem à totalidade da 
sociedade, mas ao dono do meio de produção. Este, por sua vez, não 
paga ao trabalhador o valor da mercadoria produzida, mas sim uma 
quantia pelo dispêndio de sua força de trabalho. 
Despossuído de tudo – exceto de sua força de trabalho - o 
trabalhador só tem como opção trabalhar, sob as condições que o dono 
do meio de produção lhe impõe, para conseguir o dinheiro necessário 
para trocar por mercadorias para o seu sustento. 
No que diz respeito a essas condições, vale recordar que não 
é raro o resgate de trabalhadoras e trabalhadores em condição análoga 
à escravidão. 
Na conta do possuidor do meio de produção o trabalhador se 
coisifica, entra no processo produtivo como uma mercadoria que gera 
outras mercadorias. Contudo, o dono do meio de produção não compra 
o trabalhador, tampouco o escraviza ou o vincula perenemente ao meio 
de produção, como em modos produtivos anteriores. Tal e qual adquire 
matérias primas e máquinas, assim também o faz com aquilo que o 
trabalhador possui: compra a sua força de trabalho. 
Assim, o trabalhador é obrigado a vender ao detentor do meio 
de produção a sua força de trabalho por um valor X, sempre inferior 
ao valor gerado pelo total do seu trabalho, de modo que, ao final do 
processo, o próprio trabalhador gera toda a riqueza que o paga e ainda 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
96 
a riqueza que, em proporções imensamente maiores, se converte em 
lucro do possuidor do meio de produção. 
A narrativa hegemônica insiste na liberdade do trabalhador de 
contratar com o dono do meio de produção, aceitar ou não o trabalho 
nas condições que esse último lhe apresenta, entretanto tal assertiva 
não passa de um engodo, uma afirmação vazia, de falsa liberdade, para 
esconder sua verdadeira natureza autoritária. Dois são os elementos 
que atestam o ardil capitalista: um diz respeito à sobrevivência do 
trabalhador e o outro está relacionado ao desemprego estrutural. 
O primeiro elemento está relacionado à condição do 
trabalhador de não possuidor dos meios de produção de sua 
subsistência, do que decorre, em geral, que escolher não vender sua 
força de trabalho implica optar pelo próprio perecimento físico e, em 
última instância, optar por sua própria morte. 
O segundo elemento diz respeito à facilidade com que o 
possuidor do meio de produção consegue repor a força de trabalho e 
utiliza isso para pressionar os trabalhadores a se sujeitarem a 
condições cada vez mais degradantes e precarizadas. 
Não é preciso ser nenhum economista para saber do temor de 
estar desempregado ou das dificuldades de conseguir um bom 
emprego. Tampouco é necessário ir muito além daquele grupo de 
whatsapp da família para se ouvir sobre a necessidade de agradecer 
aos céus e trabalhar sem reclamar, afinal, “se não quer tem quem 
queira”, e há um verdadeiro exército “lá fora” querendo o seu lugar. 
Certamente você já ouviu algumas dessas coisas. 
Acontece que, de fato, há essa espécie de exército, ao qual 
Marx (2013) denomina de exército industrial de reserva. Como 
apontamos ao longo desse texto, o modo produtivo emergente 
demandava trabalhadores desvinculados da terra, urbanizados, 
impossibilitados de prover sua própria existência autonomamente. 
Agora observe você: imagine que até o final do século XIX, 
para a produção de um dado produto X era necessário o esforço 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
97 
conjunto de dez trabalhadores, por dez horas de trabalho – não é 
demais recordar que a jornada de 8 horas foi uma conquista da 
Revolução Soviética de 1917. Imagine então que com o avanço 
tecnológico, engendrou-se uma máquina que realiza as tarefas de oito 
desses dez trabalhadores, permitindo chegar ao produto pronto em 
apenas duas horas de trabalho, oito horas a menos que no processo 
anterior. 
A realidade mostra que o procedimento padrão tomado tem 
sido a exclusão dos trabalhadores excedentes, neste caso diminuindo 
os custos com a força de trabalho, neste caso, em 80%, ao mesmo 
tempo em que a jornada de trabalho restava mantida, elevando a 
produção nos mesmos 80% e com ela a Mais Valia. Vale lembrar que 
o avanço tecnológico também é fruto do conjunto do trabalho humano 
e, portanto, pertencente ao conjunto da humanidade e não somente a 
uns poucos. 
Percebam que se o possuidor do meio de produção de vida 
enxergasse nos trabalhadores algo além de uma mercadoria, o 
incremento do maquinário já expandiria sua produção e lucro em 80%, 
sem necessidade de fechamento de postos de trabalho. Acontece que 
esse movimento não deriva de uma razão moral, ou seja, não é uma 
questão de o patrão ser “bonzinho” ou “malvadão”; não é nada disso. 
A tendência crescente de extração de mais valia é inata ao modelo 
produtivo; é regra do jogo do capital: ou o capitalista segue esse 
caminho ou sucumbirá frente a quem o fizer. 
A grande massa de desempregados não é, portanto, efeito 
colateral do modelo desigual vigente. De outro modo, configura-se 
como um dos elementos centrais para a manutenção deste modelo. 
Sem o desemprego estrutural os trabalhadores poderiam gerar fraturas 
no processo de extração de mais valia, fomentando as condições 
necessárias para a superação do capitalismo. 
Não é à toa que Marx, em seus Manuscritos Econômico-
Filosóficos (2008b, p. 80) afirma que 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
98 
 
o trabalhador torna-se tanto mais pobre 
quanto mais riqueza produz, quanto mais a 
sua produção aumenta em poder e extensão. 
O trabalhador torna-se uma mercadoria tão 
mais barata, quanto mais mercadorias cria. 
Com a valorização do mundo das coisas 
aumenta em proporção direta a 
desvalorização do mundo dos homens. 
 
Podemos compreender esse trecho a partir de duas 
perspectivas. A primeira, relativa à “desefetivação” do trabalhador em 
razão do desenvolvimento das forças produtivas, encaixa-se bem no 
exemplo trabalhado anteriormente, dos dez trabalhadores dentre os 
quais oito perderam seus postos de trabalho. O que se observa é que o 
aumento da produção com o incremento tecnológico desempregou 4/5 
dos trabalhadores. Não é possível, contudo, deixar de perceber que o 
próprio maquinário é fruto do trabalho humano, materializado sob a 
forma de máquina, idealizado para reduzir o tempo, aumentar a 
produção e, por conseguinte, gerar mais riqueza para o detentor do 
meio de produção. 
Outra compreensão desse trecho, e que complementa tudo 
aquilo que acabamos de descrever, diz respeito à questão do 
estranhamento, também apontado como alienação. Recordemos agora 
do primeiro personagem deste nosso capítulo: o caçador de javalis. 
Não conhecedor da sociedade de classes, ele estabelecia com a 
natureza uma relação muito mais próxima, autêntica simbiose 
mediante a qual ele modificava a natureza e esta o modificava. 
Neste processo simbiótico, todos os dias o caçador de javalis 
gastava a sua própria vida, mediante o emprego de seu tempo, sua 
força e seu raciocínio. Não obstante, uma vez finalizado aquele 
trabalho, estava materializado fora do caçador, algo para além da 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
99 
simples justaposição do dispêndio de sua vida com os objetos da 
natureza utilizados. Esse fruto do trabalho do caçador lhe pertencia. 
Na sociedade de classes, dentro do modo capitalista de 
produção de vida, o trabalhador experimenta outra relação com o seu 
trabalho. Conforme já vimos anteriormente, o trabalhador, destituído 
dos meios de produçãode sua própria vida, obrigatoriamente se sujeita 
a vender a sua força de trabalho para o detentor do meio de produção, 
sob as condições deste. 
Na fábrica, tal e qual o caçador fazia, o trabalhador gasta a sua 
vida, mediante o emprego do seu tempo, sua força e seu raciocínio, 
entretanto, a partir do momento que ele adentra pelos portões da 
indústria, isso tudo já não lhe pertence mais. Em razão de sua condição 
de não possuidor dos meios de produção, o trabalhador recebe pelo 
dispêndio de sua vida um salário, indispensável apenas para a 
reprodução da força de trabalho, ou, como aponta Althusser (1980, p. 
18), indispensável para “poder apresentar-se amanhã – cada amanhã 
que Deus dá – ao portão da fábrica”. Como já apontamos 
anteriormente, o fruto do trabalho não lhe pertence mais e o salário, 
por vezes, servirá para comprar aquilo que ele mesmo produziu. 
Quanto mais trabalha e mais rico torna o dono do meio de produção, 
mais se desgasta e mais pobre fica. 
Se a essência do trabalho coincidia com a humanização do ser 
humano, as novas relações de produção agem no sentido contrário. 
Contabilizado como mercadoria que gera mercadorias – força de 
trabalho –, alienado do objeto no qual objetivou frações de sua própria 
vida, impossibilitado, não raramente, de acessar e usufruir daquilo que 
ele próprio gerou e finalmente forçado a desgastar toda a sua vida para, 
contraditoriamente, manter-se vivo, o ser humano se embrutece. 
Observe atentamente o que Marx (2008b, p. 82 e 83) discorre sobre o 
tema: 
 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
100 
A economia nacional oculta o 
estranhamento na essência do trabalho 
porque não considera a relação imediata 
entre o trabalhador (o trabalho) e a 
produção. Sem dúvida. O trabalho produz 
maravilhas para os ricos, mas produz 
privação para o trabalhador. Produz 
palácios, mas cavernas para o trabalhador. 
Produz beleza, mas deformação para o 
trabalhador. Substitui o trabalho por 
máquinas, mas lança uma parte dos 
trabalhadores de volta a um trabalho bárbaro 
e faz da outra parte máquinas. Produz 
espírito, mas produz imbecilidade, 
cretinismo para o trabalhador. 
[...] 
Primeiro, que o trabalho é externo ao 
trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, 
que ele não se afirma, portanto, em seu 
trabalho, mas nega-se nele, que não se sente 
bem, mas infeliz, que não desenvolve 
nenhuma energia física e espiritual livre, 
mas mortifica sua physis e arruína o seu 
espírito. O trabalhador só se sente, por 
conseguinte e em primeiro lugar, junto a si 
[quando] fora do trabalho e fora de si 
[quando] no trabalho. Está em casa quando 
não trabalha e, quando trabalha, não está em 
casa. O seu trabalho não é, portanto, 
voluntário, mas forçado, trabalho 
obrigatório. O trabalho não é, por isso, a 
satisfação de uma carência, mas somente um 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
101 
meio para satisfazer necessidades fora dele. 
Sua estranheza evidencia-se aqui [de forma] 
tão pura que, tão logo inexista coerção física 
ou outra qualquer, foge-se do trabalho como 
de uma peste. O trabalho externo, o trabalho 
no qual o homem se exterioriza, é um 
trabalho de auto-sacrifício, de mortificação. 
Finalmente, a externalidade do trabalho 
aparece para o trabalhador como se [o 
trabalho] não fosse seu próprio, mas de um 
outro, como se [o trabalho] não lhe 
pertencesse, como se ele no trabalho não 
pertencesse a si mesmo, mas a um outro. 
[...] 
Chega-se, por conseguinte, ao resultado de 
que o homem (o trabalhador) só se sente 
como [ser] livre e ativo em suas funções 
animais, comer, beber e procriar, [...] , e em 
suas funções humanas só [se sente] como 
animal. 
 
Neste capítulo nos debruçamos sobre a questão do trabalho, 
num esforço para trazer um panorama geral desde uma concepção 
histórica e ontológica, passando pelo seu desenrolar ao longo dos 
modos produtivos e apresentando alguns dos elementos que 
vivenciamos em nossa relação com o trabalho nos dias de hoje. 
A desigualdade, a desumanização e a morte do trabalhador em 
razão do luxo sem limites de uma ínfima parcela do conjunto dos seres 
humanos demonstram nossa condição civilizatória ainda na pré-
história da humanidade (MARX, 2008a). A simples existência daquilo 
que Gramsci denominou de “mamíferos de luxo” (2001, p. 270), 
contraposta a uma massa desprovida de recursos para sua própria 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
102 
existência é algo que nos enche de justa raiva (FREIRE, 1996) e 
reafirma nosso papel naquilo que Marx e Engels (2007, p. 539) 
apontaram na Tese 11: “os filósofos apenas interpretaram o mundo de 
diferentes maneiras; porém, o que importa é transformá-lo”. Fica o 
convite. 
 
Referências 
 
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 
Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980. 
ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do 
macaco em homem. In: ANTUNES, Ricardo (org.). A Dialética do 
Trabalho. São Paulo: Expressão popular, 2004. p. 11-28. 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à 
prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2001. v. 4. 
ILLICH, Ivan. A convivencialidade. Lisboa, Europa-America, 1976. 
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1. São 
Paulo: Boitempo, 2013. 
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: 
Boitempo, 2011. 
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São 
Paulo: Expressão Popular, 2008a. 
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: 
Boitempo, 2008b. 
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais 
recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e 
Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-
1846). São Paulo: Boitempo, 2007. 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
103 
SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos 
e históricos. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 34, jan./abr. 
2007. 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 4: REFORMAS NEOLIBERAIS E LUTAS DE 
CLASSES NO SÉCULO XXI 
 
Em primeiro plano, é importante categorizar o neoliberalismo 
como formação histórica das formas de expropriação capitalista, 
conforme propõe Mascaro (2013). Assim, deixa-se de analisar suas 
mais recentes expressões com as lupas do período fordista, 
conformando uma perspectiva que abre margens para uma luta política 
que se volta não para a superação do capitalismo, mas para o retorno 
aos tempos idílicos do capital produtivo, mantendo-se, portanto, 
dentro de quadrantes reformistas. 
 Ainda no Manifesto, Marx e Engels apontaram a sensacional 
capacidade de transformação do modo de produção capitalista. “Em 
apenas um século de sua dominação de classe, a burguesia criou forças 
de produção mais imponentes e mais colossais que todas as gerações 
precedentes reunidas” (2001, pp. 31-32). Em Anti-Dühring (2015), 
Engels reafirma a derivação das formas políticas e institucionais das 
relações produtivas: 
 
Em primeiro lugar, todo poder político está 
baseado originalmente numa função social, 
econômica e se intensifica à media que, pela 
dissolução dos sistemas comunitários 
originais, os membros da sociedade são 
convertidos em produtores privados, ou 
seja, tornam-se ainda mais estranhos aos 
administradores das funções sociais 
comuns. (p. 211) 
 
Deve-se compreender, portanto, as reformas ou mudanças no 
âmbito legislativo e político como expressão das novas formas de 
expressão da exploração capitalista, onde a dinâmica da exploração é 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
106 
impulsionada pelo avanço do capital sobre o trabalho. Ou, como expõe 
Mascaro: 
 
As instituições jurídicas, assim, não derivam 
de um mero conjuntode decisões ou 
voluntarismos políticos nem de razões de 
justiça ou metafísica. O direito se assenta 
numa materialidade de sujeitos que 
transacionam (2018, p.109). 
 
Nessa perspectiva, é fundamental compreender o 
neoliberalismo não como um fenômeno à parte das relações 
produtivas, mas como uma formação histórica do capitalismo em que 
suas formas de acumulação e exploração são arrojadas sem se 
despojarem, contudo, dos pressupostos fundamentais da dinâmica do 
capital. “O neoliberalismo contraiu rendimentos da população, afetou 
a capacidade de consumo, aumentou a superprodução de mercadorias 
e agravou várias modalidades de hiperacumulação do capital”, observa 
Katz (2016, p.81). Enfrentá-lo como abstração pós-fordista significa, 
no fim das contas, um louvor às formas do capital, uma metafísica a-
histórica que teria sido desaprumada pelos efeitos descritos por Katz. 
Depois de conhecer a vida e o desenvolvimento do 
pensamento de Marx, bem como a importância da luta política para a 
emancipação humana, debatendo sobre a categoria trabalho como 
fundamental, convém tratar da organização do capitalismo em sua 
etapa atual, colocando em relevo o avanço contra os direitos da classe 
trabalhadora. 
 
Neoliberalismo: invisível, mas nem tanto 
 
 O neoliberalismo, representado por características como a 
hegemonia do capital financeiro frente ao capital produtivo, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
107 
desregulamentações, privatizações e flexibilização das condições de 
trabalho, expressões mais recentes das clássicas superstições da mão 
invisível complementadas com propostas de darwinismo social, 
nasceu do esgotamento do modelo keynesiano após a Segunda Guerra 
Mundial. Nos anos 1980, o neoliberalismo foi definido como uma 
ofensiva do capital sobre o trabalho para recompor a taxa de lucro, 
adotando novos meios de expropriação a exemplo do mecanismo da 
dívida pública. 
 A consolidação do neoliberalismo converge com a crescente 
internacionalização da economia. Com ele, as avaliações dos 
processos produtivos foram afastadas de seus fundamentos sociais e o 
ensino da economia ficou reduzido a uma indagação de relações 
funcionais entre variáveis inexplicadas. Saem, assim, os políticos 
coloridos e entram os especialistas cinzas, reflete Zizek (2012), 
responsáveis pelo aprofundamento de uma tendência que vai na 
direção de um estado emergencial permanente e de suspensão efetiva 
da democracia política. 
Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, George 
Monbiot (2016) escreve que o neoliberalismo se tornou tão penetrante 
que raramente o reconhecemos sequer como ideologia. A análise de 
Monbiot estaria completa se trocasse “neoliberalismo” por 
“capitalismo”, considerando que, antes daquele, as formas e 
formações de cada tempo – em particular as burguesas - se pretendem 
a-históricas, universais e plenamente acabadas, algo identificado por 
Marx e Engels ainda em A Ideologia Alemã e A Sagrada Família. 
István Meszáros é bastante didático nesse ponto: 
 
Como sabemos muito bem pela lamentável 
história da estratégia reformista, que já tem 
mais de cem anos, desde Edward Bernstein 
e seus colaboradores – que outrora 
prometeram a transformação gradual da 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
108 
ordem capitalista numa ordem 
qualitativamente diferente, socialista -, o 
capital é irreformável porque, pela sua 
própria natureza, como totalidade 
reguladora sistêmica, é totalmente 
incorrigível. Ou bem tem êxito em impor 
aos membros da sociedade, incluindo-se as 
personificações “carinhosas” do capital, os 
imperativos estruturais do seu sistema como 
um todo, ou perde a sua viabilidade como 
regulador historicamente dominante do 
modo bem-estabelecido de reprodução 
metabólica universal e social. 
Consequentemente, em seus parâmetros 
estruturais fundamentais, o capital deve 
permanecer sempre incontestável, mesmo 
que todos os tipos de corretivo estritamente 
marginais sejam não só compatíveis com 
seus preceitos, mas também benéficos, e 
realmente necessários a ele no interesse da 
sobrevivência continuada (2008, p.27). 
 
Com um enfoque na educação, expressão do que Althusser 
(2006) denomina Aparelhos Ideológicos de Estados, Meszáros reflete 
linhas antes como seria absurdo esperar uma “formulação de um ideal 
educacional, do ponto de vista da ordem feudal em vigor, que 
considerasse a hipótese da dominação dos servos, como classe, sobre 
os senhores da bem-estabelecida classe dominante” (Idem, p.26). Da 
mesma forma, há a dificuldade de imaginar o desaparecimento do 
capitalismo e de qualquer forma de opressão e exploração de uns seres 
humanos sobre outros. Mesmo em ficções distópicas, o modo de 
produção capitalista segue vivo (Pomar, 2016). 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
109 
Parecemos, assim, aceitar fatalmente a proposição de que essa 
fé utópica e milenar corresponde a uma força neutra, nascida da 
tecnocracia cinzenta de seus apologistas aparentemente apolíticos; 
uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. 
Contudo, essa filosofia surgiu como a tentativa consciente de 
remodelar a vida humana e desequilibrar as forças políticas em favor 
daqueles que concentram poder econômico. Escreve Althusser: 
 
Para colocar em termos mais científicos, eu 
diria que a reprodução da força de trabalho 
requer não apenas uma reprodução de sua 
qualificação, mas também, ao mesmo 
tempo, uma reprodução de sua submissão às 
regras da ordem estabelecida, isto é, uma 
reprodução de sua submissão à ideologia 
vigente, para os trabalhadores, e uma 
reprodução da capacidade de manipular 
corretamente a ideologia dominante, para os 
agentes da exploração e da repressão, a fim 
de que também eles assegurem “com 
palavras” a dominação da classe dominante. 
(2006, p.108). 
 
Dada a decadência do fordismo, o período pós-fordista, 
também chamado de neoliberal, corresponde a uma nova matriz 
produtiva do modo de produção capitalista. Enfrentá-lo sem que a 
superação do capitalismo esteja no horizonte é acreditar que há um 
“capitalismo bom” que pode vir a substituir o “capitalismo ruim”. 
Com efeito, deve-se ter cuidado para não cair no debate insuficiente 
que resume à questão na maior ou menor intervenção do Estado na 
economia, naturalizando, assim, a exploração capitalista. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
110 
Nesse sentido, Camilo Onoda Caldas (2019, p.83) ensina que 
é um equívoco imaginar que o Estado (neo)liberal não regula ou 
intervém na economia, pois, pelo contrário, sua função é garantir a 
reprodução das relações sociais próprias do capitalismo, algo que só é 
possível mediante um severo controle social, principalmente por meio 
das forças de segurança. No Estado de bem-estar social, por sua vez, 
a atuação no campo econômico é maior em termos quantitativos e 
qualitativos. Tanto um como no outro o capitalismo persiste. 
Obviamente, o enfrentamento às formações neoliberais, 
recompondo direitos conquistados à época do fordismo – direitos 
trabalhistas, seguridade social, saúde pública, etc - e ceifados por essa 
nova dinâmica, é essencial para o avanço da classe trabalhadora em 
suas lutas. É um erro, porém, colocar tais objetivos como o teto da 
emancipação política, uma emancipação dentro dos quadrantes do 
capitalismo e suas formas históricas, como reflete Marx em Sobre a 
Questão Judaica (2015). No prefácio à edição de 1890 do Manifesto 
do Partido Comunista, Engels realça a luta pela jornada de trabalho de 
oito horas uma estratégia central para mobilizar a classe trabalhadora 
para fins que situam além do reconhecimento formal de direito. Seu 
horizonte, portanto, não é o de uma exploração menor, ou de um 
capitalismo humanizado, mas um onde não haja capitalismo e, 
consequentemente, exploração. 
 Voltando ao artigode Monbiot, ele vê a competição como 
característica definidora das relações humanas, redefinindo os 
cidadãos como consumidores – ou empresários de si mesmos – cujas 
escolhas democráticas são melhor exercidas no ato de compra e venda 
de mercadorias –, conformando um processo que supostamente 
recompensa o mérito e pune a ineficiência –, como bem explica von 
Mises, obscura referência intelectual do neoliberalismo. Segundo Von 
Mises (1968), cada centavo representa um voto e qualquer mandato 
pode ser revogado a qualquer momento pelo consumidor, verdadeiro 
“dono da produção”, sustentando que o “mercado” assegura benefícios 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
111 
que jamais poderiam ser conseguidos pelo planejamento. Tentativas 
de limitar a competição, assim, são tratadas como hostis à liberdade. 
“O reino da liberdade só começa, de fato, quando termina o 
trabalho determinado pela necessidade e pela conveniência externa”, 
observa Marx em um emblemático trecho d’O Capital (2017), no qual 
chega à conclusão de que a liberdade só é capaz de florescer quando o 
uso das forças humanas ocorre como um fim em si mesmo, voltado ao 
desenvolvimento das potencialidades individuais ao invés de 
obrigações externas em razão das quais, em nome da sobrevivência, 
somos obrigados a vender nossa força trabalho. A liberdade, assim, 
começa quando acaba o tempo que vendemos e se inicia o tempo que 
efetivamente nos pertence. Trata-se de uma discussão pertinente em 
tempos de reformas neoliberais como a administrativa, a 
previdenciária e a trabalhista, todas com o objetivo de desequilibrar as 
relações entre trabalho e capital em favor deste último, arrojando os 
meios de acumulação e expropriação dos frutos do trabalho. 
Não é nova a agenda pela maior disponibilidade de tempo não-
vendido e de uma maior liberdade, portanto. Na Grã-Bretanha do 
século XIX, por exemplo, foi editada uma série de leis fabris que 
tinham como objetivo regulamentar as relações de trabalho. Fruto de 
intensas mobilizações da classe trabalhadora, a edição destas leis 
contou com o pouco ortodoxo apoio da aristocracia rural. Na década 
de 1820, os tories, como eram chamados os membros da nobreza 
fundiária, detinham a hegemonia do poder político, controlando o 
Parlamento, a Câmara dos Lordes, a monarquia, as forças armadas e o 
Judiciário. A burguesia comercial ascendente, ávida por apear os 
aristocratas do poder, buscou o apoio das massas, em particular das 
classes médias profissionais e da classe trabalhadora organizada. 
Promulgou-se, assim, o Reform Act de 1832, mudando o sistema de 
representação parlamentar e minando parte considerável da 
hegemonia aristocrática. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
112 
Durante as articulações e apoios firmados durante a década de 
1820, foram prometidos mundos e fundos à classe trabalhadora, a 
exemplo da extensão de voto aos artesãos e da própria regulamentação 
da jornada de trabalho. Ao notar a natureza meramente retórica dessas 
promessas, o operariado se organizou no movimento cartista com o 
propósito de articular a luta pelo reconhecimento de direitos, incluindo 
aqueles lhes foram prometidos e sonegados. Em retaliação à 
burguesia, os tories passaram a cerrar fileiras com a classe 
trabalhadora, de modo que, quando os burgueses derrubaram as 
chamadas Corn Laws, normas que tributavam a importação de cereais 
e protegiam os ganhos da aristocracia rural, a aprovação de leis 
trabalhistas como as de 1848 contaram com o fervoroso apoio dos 
setores fundiários, limitando a jornada de trabalho em dez horas para 
o descontentamento da classe industrial. 
As leis fabris entraram em vigor com a manifesta intenção de 
limitar a exploração do trabalho e prevenir a degradação excessiva dos 
trabalhadores e trabalhadoras. O capital desregulamentado, como é da 
sua própria natureza, não tem limites para sugar o sono e as energias 
necessárias para a restauração da força vital. A compreensão dos 
detentores dos meios de produção que a exploração impiedosa da força 
de trabalho compromete seus próprios ganhos fez com que um número 
significativo passasse a concordar com o reconhecimento de direitos 
trabalhistas. 
Enquanto ser humano, o capitalista – aqui entendido como 
quem possui capital, ou bem econômico capaz de produzir outros bens, 
e não como quem adquiriu um smartphone – pode até se importar com 
condições mais dignas e salubres de trabalho, mas o impulso, a 
racionalidade da acumulação e a narrativa predatória, vulcânica e 
expansionista do capital os impele a maximizar o lucro em condições 
de desleal concorrência, de modo que passam a não ter escolha a não 
ser explorar de forma voraz a força de trabalho sob seu controle. A 
coerção legal no sentido de prever, de forma geral, limites a esta 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
113 
expansão passou a ser enxergada como um ponto essencial para 
equilibrar o modo de produção capitalista e assim garantir que as 
forças de trabalho pudessem ser exploradas com maior custo-
benefício, tempo vital e efetividade. 
Este caráter sistêmico e, consequentemente, impessoal do 
capital é exposto também por Marx no capítulo A Jornada de 
Trabalho, também d’O Capital (2013), ocasião em que simula o 
ultimato de um trabalhador que exige um pagamento justo pela sua 
força de trabalho, além de uma jornada correspondente com a 
dignidade humana, queixa que faz ao burguês “sem nenhum apelo a 
teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a benevolência” 
(MARX, 2013, p. 308). 
Denunciando a separação da narrativa do capital com as 
idiossincrasias de quem o maneja, prossegue: “podes muito bem ser 
um cidadão exemplar, até mesmo membro da Sociedade para a 
Abolição dos Maus-Tratos dos Animais, e viver em odor de santidade, 
mas o que representas diante de mim é algo em cujo peito não bate um 
coração”. Ladislau Dowbor, em Democracia Econômica: alternativas 
de gestão social, representa essa perspectiva na tradicional imagem do 
“senta!” que gritam os torcedores no estádio, pois ninguém pode sentar 
sozinho sob pena de ninguém ver o jogo. Situação parecida é 
apresentada em uma emblemática cena do filme O Jovem Marx, de 
Raoul Peck, em que um industrial, amigo do pai de Engels, justifica o 
emprego de crianças em suas fábricas em função de seus concorrentes 
também o fazerem. 
Voltando à Grã-Bretanha do século XIX, mesmo um Estado 
regulado pelo Capital e por proprietários fundiários sob os quais ainda 
remanesciam certas tradições aristocráticas e feudais foi capaz de 
dispor, na esteira do acúmulo de lutas reivindicatórias, de inspetores 
de fábrica oriundos da burguesia profissional para fiscalizar a 
observância das leis trabalhistas, sintoma do reformismo burguês que 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
114 
via nas condições precárias das indústrias, no trabalho infantil e nas 
longas jornadas de trabalho sintomas de algo incivilizado. 
Uma conhecida passagem de A Ideologia Alemã (2010), 
também de autoria de Marx e Engels, observa que aqueles que detêm 
o controle da produção material detêm também o controle da produção 
espiritual, de maneira que a ideologia que prevalece na sociedade é a 
ideologia de sua classe dominante. Sendo as formas políticas e 
jurídicas da democracia liberal derivadas das relações produtivas, 
conforme Pachukanis (2017), pode-se concluir que a crise brasileira é 
determinada economicamente e sobredeterminada juridicamente 
(Mascaro, 2018, p.23). A constitucionalização de rigorosos ajustes 
fiscais, onde, em franca inversão da pirâmide normativa, normas 
financeiras, infraconstitucionais, passam a incidir sobre a ordem social 
e econômica constitucional, sufocando esta última (Bercovici e 
Massoneto, 2006), reflete a mudança da matriz produtiva do capital, 
que, em sua formação neoliberal, avançanos fundos públicos e nos 
direitos da classe trabalhadora. 
Friedrich Engels, na obra conhecida como Anti-Dühring 
(2015), explica como a política é condicionada pela economia, e não 
o contrário. Se, na derrocada do feudalismo e dos regimes absolutistas, 
a burguesia se viu espremida pelas respectivas formas políticas, vindo 
a derrubá-las, hoje se encontra no gargalo de uma institucionalidade 
que ainda remonta ao fordismo e à subjugação por meio da forma 
assalariada. 
É por essa razão que a humanização do capital é uma 
contradição em termos, agrilhoada pelo próprio metabolismo deste. 
Some-se isso, ademais, ao fato de inexistir hoje uma ameaça socialista 
que faça as democracias burguesas darem um passo em direção à 
emancipação política e entregarem os anéis (institucionalização de 
direitos trabalhistas e da seguridade social) para salvar os dedos 
(manutenção dos mecanismos de reprodução do capitalismo). 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
115 
O marxismo, segundo Lênin (2019, p.21), ensinou a classe 
trabalhadora a enxergar a democracia burguesa como um progresso 
enorme em relação ao feudalismo, mas, nem por um instante, esquecer 
do caráter burguês dessa democracia, e sobretudo que o Estado, 
mesmo na mais democrática república burguesa, não é mais do que 
uma máquina de opressão de classe. 
 
Empresários de si mesmos 
 
Uma das mais simbólicas expressões do êxito do pacote 
ideológico do neoliberalismo é a transformação das pessoas em 
empresárias de si mesmas. A reprodução dos valores do capitalismo 
na vida, monetarizando a própria existência, corresponde a uma das 
mais sutis e corriqueiras formas de colonização dos espíritos. No 
Manifesto (2006, p.27), Marx e Engels já haviam diagnosticado que a 
burguesia, onde quer que tenha chegado ao poder, “reduziu a 
dignidade pessoal a simples valor de troca”, colocando a liberdade de 
comércio como única e implacável e não deixando “subsistir entre os 
homens outro laço senão o interesse nu e cru, se não o frio ‘dinheiro 
vivo’”. 
Salário mínimo, jornada de trabalho, FGTS e demais garantias 
presentes na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), concessões da 
democracia burguesa em face de circunstâncias objetivas que julga 
ameaçadoras à reprodução da ordem, são mostradas pela régua 
contábil dos tecnocratas neoliberais como um engodo para a classe 
trabalhadora, que estaria impossibilitada de negociar o valor de sua 
força de trabalho e de ocupar novos empregos. Tal narrativa, repleta 
de sofismas insustentáveis, é parte do sustentáculo ideológico que 
esconde o fato de que tais reformas, enquanto expressão da 
reformulação das matrizes produtivas da exploração capitalista, 
apontam para uma ainda maior precarização das condições de 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
116 
trabalho. Basta ver o teor das reformas trabalhista e da previdência e 
seus efeitos no engatinhante Estado de bem-estar brasileiro. 
Não é novidade o contorcionismo argumentativo que procura 
traçar uma relação de causa e efeito entre direitos guilhotinados e o 
aumento da liberdade. É nesse sentido que atua a lógica dos 
empresários de si mesmos, assalariados colonizados pela narrativa 
“empreendedora” que expande as lentes do mercado para espaços que 
antes se situavam à margem das relações mercantis tradicionais. Como 
ensina Althusser (2010), não é a qualidade do argumento que o faz 
prevalecer, e sim a de aparelhos ideológicos que o difundem, a 
exemplo dos meios de comunicação de massa. 
Caio Prado Junior, em O que é Liberdade (1999), escreve que 
a aparente liberdade das democracias capitalistas não é senão a 
expressão das concessões que minorias privilegiadas são obrigadas a 
fazer à maioria, material e moralmente inferiorizada. Com o desmonte 
da rede de proteção social na esteira do fenômeno que se 
convencionou chamar de “uberização”, o cinismo que descola a noção 
de liberdade das condições materiais de vida parece ter ganhado ainda 
mais espaço. Tom Slee, no livro Uberização: a nova onda do trabalho 
precarizado (2015), desnuda os mecanismos ideológicos por trás de 
startups como a Uber, a AirBnB e aplicativos de entrega de alimentos 
(ainda não tão populares na época em que o livro foi lançado). 
Ao transformar direitos sociais, considerados fundamentais, 
em mercadorias, a relação das pessoas com serviços como educação, 
saúde e previdência passa a ser a de investidores, e não de sujeitos 
titulares de tais direitos: qual a melhor escola particular, com o melhor 
custo-benefício, para investir e matricular meu filho? Qual plano de 
saúde possui o catálogo de serviços mais amplo e com menor 
mensalidade, de modo que eu possa exponenciar meus ganhos? Qual 
o melhor fundo de previdência complementar para se investir? Assim, 
problemas de ordem pública, a exemplo do sucateamento de serviços 
dessa natureza, passam a ter como desfecho “soluções” particulares, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
117 
focadas na realidade contábil e patrimonial dos usuários. O mais 
interessante é que o que é visto como consectário de maiores 
liberdades diz respeito, na verdade, à obrigação imposta aos cidadãos 
e cidadãs caso queiram permanecer tendo acessos a estes serviços de 
forma minimamente correspondente às suas necessidades. 
Todavia, longe de representar uma maior liberdade, a 
canibalização do público pelo privado atua exatamente no sentido 
contrário, ceifando as condições materiais mínimas de existência, sem 
as quais, naturalmente, não é possível ser livre. Desmontar o SUS em 
um país em que metade da população ganha R$ 413,00 mensais, 
segundo levantamento do IBGE/PNAD ainda em 2019 (antes, 
portanto, da pandemia) é, na prática, tirar este direito de seu alcance, 
dada a impossibilidade de contratar um plano de saúde privado. Sem 
direitos básicos, não há plataforma para o exercício da liberdade em 
sua perspectiva material, contrária à concepção clássica e formal 
segundo a qual basta o Estado se abster para que seja alcançada. Como 
bem disse Anatole France, a lei que se pretende igualitária proíbe tanto 
os ricos quanto os pobres de dormir debaixo da ponte. 
O mesmo acontece em relação à flexibilização das leis 
trabalhistas. Acreditar que retirar direitos é conceber maior poder de 
negociação para a classe trabalhadora é uma perspectiva que ignora as 
condições concretas em que as negociações serão realizadas. Com um 
baixo índice de sindicalização e uma frágil organização política, fica 
o trabalhador em desvantagem em relação ao patronato, este sim, livre 
para propor condições de trabalho que podem remontar aos anos mais 
cruéis da revolução industrial. Sem a legislação trabalhista e seu viés 
protetivo, a “liberdade de negociar” representará, na verdade, uma 
franca disparidade de armas em favor dos empregadores, que no lastro 
dos exércitos de reserva e da massa de desempregados, possuem maior 
poder para barganhar e impor o valor da força de trabalho que reputam 
conveniente aos níveis de acumulação que julgam pertinentes. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
118 
Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão, afirmou que 
apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-
la. O primeiro passo para manter tudo como está é mascarar esta 
realidade e apresentá-la como o melhor dos mundos possíveis. Porém, 
como bem escreveu Marx em 1843 (2013), um verdadeiro projeto 
emancipatório de sociedade requer que desnudemos este discurso e 
arranquemos as flores imaginárias dos nossos grilhões, mas não para 
que os suportemos sem fantasias ou consolo, mas para que deles nos 
desvencilhemos e a flor viva da liberdade possa enfim desabrochar. 
 
Luta de classes no século XXI 
 
“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está 
morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, aparece uma 
grande variedadede sintomas mórbidos”, escreveu Antonio Gramsci 
durante o longo período em que ficou encarcerado na prisão de Tudi 
di Bari, na Itália. 
Estaríamos em um novo interregno? O velho estaria 
morrendo, de maneira que se encontraria moribunda a antiga ordem 
baseada no entrelaçamento entre o território, o Estado e a nação 
enquanto referências de organismos operacionais soberanos? Neste 
contexto, a prevalência do capital financeiro e a transnacionalização 
das relações econômicas, características fundamentais da 
globalização, vêm sucessivamente transferindo os núcleos de decisão 
política dos Estados nação para entidades internacionais como o FMI 
e a Comissão Europeia. Tais entidades, no afã de atingir seus objetivos 
de acumulação, adotam como modus operandi a sistemática 
subjugação de soberanias nacionais e a incontida subversão de 
ordenamentos jurídicos, conseguindo escapar do princípio de que 
aquele que governa tem o poder e faz as leis. 
Eis onde se encontra, conforme refletiu Gramsci, o nascituro 
impossibilitado de sair do ventre: os organismos políticos 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
119 
consolidados em tempos anteriores aos da globalização vêm se 
mostrando insuficientes para lidar com uma realidade na qual os novos 
parâmetros de acumulação escapam ao controle por meio das leis e 
demais formas de expressão dos estados nacionais. Veja-se o 
recrudescimento das medidas de austeridade aplicadas no Brasil pela 
Emenda Constitucional nº 95, conhecida como Emenda do Teto de 
Gastos, aprovada para atender aos reclamos do rentismo internacional 
em se apropriar dos fundos públicos brasileiros. Por meio dela, 
suspendeu-se a ordem social prevista na Constituição Federal de 1988, 
restringindo, assim, o aporte de recursos imprescindíveis para a 
concretização de direitos como a saúde e a educação. Se a democracia 
burguesa, para além da concepção vulgar que a situa apenas no campo 
eleitoral, corresponde, em tese, à previsibilidade da vida política e 
institucional, pode-se dizer que há democracia? Ou, nas palavras de 
Pachukanis (2017), um edifício que não sai da fase de projeto pode ser 
considerado existente? 
O debate é importante. Em resposta às formulações de Karl 
Kautsky, teórico da Segunda Internacional, Lênin (2019, p. 69) 
escreve que “um liberal fala naturalmente de ‘democracia’ em geral. 
Um marxista nunca se esquecerá de colocar a questão: ‘para qual 
classe?’. Deixar de fazer a ressalva trazida por Lênin tem profundos 
significados políticos, sendo ela o rubicão entre quem considera a 
democracia burguesa como uma forma histórica e, portanto, 
passageira, e quem a considera como algo eterno e universal. 
A abertura de canais para interferências externas na 
autodeterminação dos Estados nacionais, cuja desregulamentação é 
vista com satisfação pelos ideólogos do neoliberalismo, é tida por estes 
como uma expressão da “liberdade econômica” ainda que se trate de 
um descarado atentado ao poder e à liberdade das nações decidirem 
seus rumos conforme os interesses do que Rousseau definiu como 
“vontade geral”. Não assusta que o economista Friedrich Hayek, 
referência intelectual do neoliberalismo, tenha afirmado em uma 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
120 
reveladora visita ao Chile de Pinochet que sua “preferência se inclina 
na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo 
democrático que não pratique o liberalismo”. 
No artigo O mundo da ordem, publicado em setembro de 1984 
na Folha de S. Paulo, Marilena Chauí afirmava que a perenidade do 
pensamento conservador autoritário no Brasil apoia-se não apenas no 
conjunto das instituições e práticas sociopolíticas, mas também na 
interiorização de certas imagens. Uma destas imagens é a peculiar 
visão que se tem da luta de classes, que aparece simplesmente como 
um confronto armado provocado pelo andar de baixo contra o andar 
de cima da sociedade. 
Esta perspectiva reducionista da insolubilidade de interesses 
entre classes sociais não consegue observar que o conflito gira, 
sobretudo, em torno da conservação das formas de dominação por 
meio das instituições, leis e costumes. Os embates por maiores fatias 
do orçamento e contra a drenagem de recursos públicos em favor do 
mercado financeiro, por exemplo, correspondem a claras 
manifestações das lutas de classes, pois englobam postulações 
inconciliáveis que se concretizam na disputa pelas atribuições do 
Estado, malgrado se estruture para garantir a reprodução da forma-
valor, a apropriação da riqueza excedente e a circulação de 
mercadorias. Ademais, se problemas globais requerem soluções 
globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet 
quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, 
a dos ricos, que está vencendo”. 
 
Neoliberalismo e dependência 
 
“Estragamos tudo no que diz respeito à alimentação global”, 
declarou o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, em outubro 
de 2008, ao discursar em um evento da ONU realizado em 
comemoração ao Dia Mundial da Alimentação. Segundo o ex-
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
121 
presidente norte-americano, a crise econômica que demonstrava sinais 
de força naquele momento mostrou que “todos nós estragamos tudo, 
inclusive eu, quando fui presidente”, referindo-se à manifesta opção 
pelo tratamento do plantio de alimentos unicamente como mercadoria 
ao invés de recurso vital para a vida, sobretudo a dos mais carentes de 
condições materiais de sobrevivência. 
Clinton foi enfático: a responsabilidade por essa situação 
estaria na política ocidental de longo prazo imposta pelos Estados 
Unidos e pela União Europeia, aplicada durante décadas pelo Banco 
Mundial, pelo FMI e por outras instituições internacionais. Tais 
imposições obrigaram países africanos e asiáticos a abandonarem 
políticas de substituição de exportações e políticas de subsídios 
governamentais a fertilizantes, sementes, implementos agrícolas e 
insumos de maneira geral, de modo que as terras mais férteis passaram 
a ser utilizadas para o cultivo de produtos voltados prioritariamente à 
exportação, comprometendo, assim, a autossuficiência alimentar 
desses países. 
Os ajustes econômicos mencionados por Clinton resultaram 
na incorporação das agriculturas locais à narrativa da globalização, 
considerando que quanto mais exportavam produtos nacionais e 
atendiam à lógica da economia global, mais passavam a depender de 
alimentos importados. Concomitantemente, pequenos agricultores 
eram expulsos de suas terras e obrigados a viver em cortiços e favelas, 
vendendo sua força de trabalho para a única opção que lhes restava: o 
trabalho semiescravo em fábricas terceirizadas, muitas das quais de 
vestimentas e eletrônicos consumidos no Ocidente. Qualquer relação 
com a expropriação forçada das terras comunais e a alienação 
fraudulenta de terras e bens do Estado e da Igreja e demais formas de 
acumulação primitiva de capital na transição do feudalismo para o 
capitalismo não é mera coincidência. 
O aprofundamento dos laços de dependência pós-colonial 
gerado pela política de alimentação global descrita por Clinton gerou 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
122 
não apenas uma maior vulnerabilidade às flutuações do mercado – cuja 
maior característica em tempos de hegemonia neoliberal é o caráter 
ainda mais constante das suas crises cíclicas –, causada também pelo 
uso das safras para a produção de biocombustíveis ao invés de 
alimentos, como também ocasionou fortes crises nutricionais em 
países como o Haiti e a Etiópia. A Daewoo Logistics, por exemplo, 
multinacional do ramo, anunciou o arrendamento de cerca de 1,3 
milhão de hectares das terras agrícolas de Madagascar durante 99 
anos, o que representa metade da terra agricultável da ilha. Situação 
semelhante ocorre com a transnacionalSun Biofuels, que possui 
plantações na Etiópia, Tanzânia e Moçambique. Ambas se dedicam a 
produzir biocombustíveis e são a mais obscena expressão da falha 
política alimentar falha reconhecida por Clinton. 
O ex-presidente norte-americano está certo ao afirmar que os 
alimentos, assim como a água, não são uma mercadoria como qualquer 
outra. Ambas as situações evidenciam a flagrante desarmonia 
existente entre as forças e as relações de produção, ou a inadequação 
dos processos produtivos às condições materiais em que estes 
processos se dão, segundo a lógica da propriedade privada dos meios 
de produção e da concentração de riqueza nas mãos de seus 
proprietários. Isso demonstra que as relações de produção de alimentos 
na sociedade contemporânea – baseadas no latifúndio e na acumulação 
de riqueza nas mãos de poucos – não são as mais adequadas para a 
produção de bens no sentido de atender às necessidades da 
coletividade, seja em sua dimensão local ou global. 
O resultado é, tão somente, o desperdício de metade das quatro 
bilhões de toneladas de alimentos produzidas anualmente no mundo e 
uma produção que, embora supere com folga a população planetária, 
ainda deixa centenas de milhões de pessoas em situação de 
subnutrição, conforme dados das Nações Unidas. Isso demonstra que 
a fome no mundo não decorre da escassez de alimentos, mas sim da 
forma com a qual sua produção é distribuída, fundada em relações de 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
123 
produção que se alicerçam na acumulação de riquezas, no lucro 
desmensurado e na grande concentração de terras. 
A má distribuição de alimentos lança luzes para o fato de que 
o desenvolvimento tecnológico e o progresso de novas condições 
técnicas de produção, uma vez idealizados nas condições produtivas 
acima descritas, são ausentes de quaisquer propósitos emancipatórios 
e de promoção da dignidade, uma vez que têm como principal 
finalidade o franco atendimento à acumulação ao invés da criação de 
melhores condições de vida para o maior número possível de pessoas. 
Não há desenvolvimento equilibrado possível se os processos 
econômicos, que hoje dominam amplamente a política, são 
controlados por uns poucos, excluindo a imensa maioria da 
participação dos seus resultados. 
Nesse sentido, quais as conclusões que podemos tirar da fusão 
da Bayer, uma das maiores multinacionais oligopolistas da indústria 
farmacêutica, com a Monsanto, líder mundial na produção de 
agrotóxicos, herbicidas e sementes transgênicas? 
A primeira: a reafirmação histórica de que mercados 
desregulamentados descambam inevitavelmente para a formação de 
monopólios e oligopólios. A segunda - e mais óbvia - conclusão, a de 
que o conglomerado responsável por gerar doenças por meio da 
utilização de venenos e modificações genéticas na produção de 
alimentos passa a ser também o que venderá as medicações para o 
tratamento destas mesmas enfermidades. Se a monocultura 
agroextrativista em larga escala preza pela utilização de substâncias 
venenosas, expressão das relações de produção já aqui explanadas, da 
mesma forma a indústria farmacêutica, cuja dinâmica de processos 
produtivos não é diferente, produz medicamentos não para curar as 
pessoas, mas para, por meio de uma contínua patologização da vida, 
torná-las cada vez mais dependentes. 
Eduardo Galeano (2011) questiona se estamos todos 
obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
124 
quantas empresas pois, estando de mau humor, decidiu privatizar o 
universo. Para quem acredita na pantomina de que nos situamos no 
derradeiro estágio da civilização humana, o consórcio de quem produz 
remédios com quem gera doenças é apenas mais um dos dadivosos 
desígnios da globalização, sem os quais nem remédios e tampouco 
alimentos nos chegariam às mesas. Será? 
 
A democracia que não se leva a sério 
 
Apologistas do neoliberalismo costumam achar absurda a 
ideia que alguns têm de querer dividir e distribuir a riqueza já existente 
em vez de procurar criar mais riqueza. É possível permanecer 
chancelando essa tese diante da inequívoca, inédita e obscena 
desigualdade social e concentração de renda em que hoje se encontra 
o planeta? 
Uma das razões que explicam a atual estagnação da economia 
mundial decorre exatamente dessa abjeta concentração de renda e dos 
altíssimos níveis de desigualdade social por ela implicados, entraves 
reconhecidos, inclusive, pela ortodoxia do FMI. Por mais que um 
exército de tecnocratas, pregadores do Consenso de Washington , se 
esforce para dar um viés neutro, unidimensional e apolítico às medidas 
que prestigiam o mercado financeiro em detrimento das necessidades 
fundamentais das pessoas, a própria natureza das medidas de 
austeridade tomadas em desfavor destas denuncia o seu inquestionável 
teor político: o de, claramente, procurar privilegiar o 1% dos mais 
ricos em detrimento dos demais 99% mais pobres. 
Não por menos, foi considerável o impacto ocasionado pela 
inusitada insurgência de um dos mais entusiásticos e tradicionais 
defensores do sistema: Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard, ex-
secretário de Finanças de Clinton, nomeado por Obama para o cargo 
de diretor do Conselho Econômico Nacional (National Economic 
Council – NEC) e velho conhecido por suas inflamadas posições em 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
125 
favor da desregulamentação bancária. Ele vaticinou em 9 de novembro 
de 2013 na conferência anual do Fundo Monetário Internacional: “e se 
o capitalismo não puder ser reformado e estiver preso na armadilha de 
uma estagnação secular? Tentamos de tudo para reiniciar o 
crescimento, mas o sistema hesita em reiniciar como antes”. 
Para Wolfang Streeck (2014), a passagem, na economia 
política capitalista, do keynesianismo do pós-guerra, marcado pela 
intervenção do Estado na economia e pela consolidação do modelo de 
bem-estar social, transcorreu para o neoliberalismo sem maiores 
dificuldades. Com efeito, a democracia igualitária, considerada 
economicamente produtiva, passou a ser tratada como um obstáculo à 
eficiência. 
Para os seguidores de gurus do neoliberalismo como Ayn 
Rand, Friedrich Hayek e Milton Friedman, que defendem a 
desigualdade como incontornável condição para a recuperação e a 
prosperidade, mercados protegidos das distorções das políticas 
redistributivas trariam mais crescimento. Entretanto, está mais do que 
nítido que, quando sob o deus-dará do mercado, o patrimônio dos mais 
ricos cresce não por meio da produção, mas mediante a drenagem 
sobre o valor agregado. O crescimento, então, desacelera, gerando 
desigualdade e concentração de renda. 
É exatamente nesse ponto que é possível trazer o debate sobre 
os rumos da democracia burguesia em tempos de neoliberalismo, ou 
de uma matriz produtiva pós-fordista: o rentismo parasitário, o 
crescimento das dívidas públicas, a crescente financeirização da 
economia, a gradual diminuição do Estado e a instauração de políticas 
de austeridade decorrem, em boa parte, da pressão de entidades 
transnacionais prepostas dessa nova matriz – vide FMI, Banco Central 
Europeu e Comissão Europeia – nos rumos das políticas nacionais, 
entidades que não foram eleitas pelo povo e não têm qualquer 
obrigação de prestar contas à população. 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
126 
Assim, a imposição dessa política a economias nacionais, 
afetando sua soberania, não passou por processos eleitorais, que se 
referem não apenas a candidatos enquanto indivíduos, mas ao 
programa político e econômico que representam. Não está, portanto, 
mesmo nos termos da democracia liberal, legitimada para ditar 
políticas de austeridade cada vez mais perversas que contribuem 
substancialmente para o aprofundamento do fosso social entre ricos e 
pobres.Nessa esteira, a política econômica, que abrange a fixação dos 
salários e a elaboração do orçamento, passa a ser cada vez mais 
governada por organismos supranacionais, a exemplo dos 
mencionados Banco Central Europeu e Comissão Europeia, ambos 
fora do alcance da democracia popular. Isso, segundo Streeck, 
desdemocratiza o capitalismo, sem, contudo, despolitizá-lo. 
A Emenda Constitucional nº 95, por exemplo, ao congelar os 
investimentos em áreas sociais até 2036, atua não apenas como uma 
medida fiscalista, mas como um limitador do debate público. Isso por 
que a política econômica já se encontra predeterminada por, ao menos, 
quatro mandatos presidenciais, retirando da sociedade o poder de 
escolha do programa econômico que julgue mais apropriado aos seus 
interesses e necessidades. Tem-se aí uma violação não apenas da 
ordem social e econômica estabelecida pelo texto constitucional, mas 
também do direito ao voto, pois subtrai da população uma alternativa 
diversa das estabelecidas pelos austericidas dogmas neoliberais. 
Convém aqui rememorar os dizeres de Lênin: “democracia 
para quem?”. Uma vez que a democracia liberal, burguesa, deriva em 
última instância das relações produtivas do modo de produção 
capitalista, é o cachorro que abana o rabo, e não o contrário. Dessa 
forma, as formas políticas e institucionais contemporâneas são 
recebidas e bem aceitas na medida em que não impõem perdas à 
acumulação capitalista. Bercovici e Massoneto (2006) identificam 
como a legislação infraconstitucional que regula ajustes fiscais, 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
127 
embora hierarquicamente inferior, consegue prevalecer diante da 
ordem social e econômica prevista na constituição. 
Tal inversão só é surpresa para quem se propõe a estudar 
fenômenos normativos a partir de um limitado referencial 
normativista-positivista, não enquanto relações sociais históricas 
inseridas em uma dinâmica específica de acumulação. Mesmo 
estudiosos social-democratas, como Thomas Piketty (2014), 
identificam que a desigualdade social é intrínseca ao capitalismo. 
Piketty, contudo, preso às amarras ideológicas de seu tempo, propõe 
não a superação desse modo de produção, mas mitigações de suas 
inevitáveis consequências metabólicas, sugerindo paliativos como a 
taxação de grandes fortunas. 
O marxismo, explica Lênin (2019, p.21), ensinou que a 
democracia burguesa representa um incontestável progresso em 
comparação ao feudalismo, mas nem por isso se deve esquecer de seu 
caráter burguês e muito menos que o Estado, mesmo sob a mais 
democrática república burguesa, não passa de uma máquina de 
opressão de classe. Com ou sem taxação de grandes fortunas. Com ou 
sem constituições prevendo direitos sociais. 
Assim, em sua essência, nem a democracia burguesa se leva a 
sério. 
 
A constituição que não se leva a sério 
 
Em palestra sobre os 100 anos da Revolução Russa na 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Valter Pomar, 
professor do curso de Relações Internacionais da Universidade 
Federal do ABC, narrou a reação de um colega estrangeiro diante das 
afirmações de que o governo Temer estaria destruindo o Estado de 
bem-estar brasileiro. 
Para ele, não há sentido nas declarações de que o Estado 
Social brasileiro está sendo desconstruído. Isso por que, se 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
128 
compararmos a rede de proteção social dos países do centro do 
capitalismo com a nossa, as conclusões serão de que jamais chegamos 
a ter uma. 
Matheus Felipe de Castro e Orides Mezzaroba, no livro 
História Ideológica e Econômica das Constituições Brasileiras 
(2014), observam como a Constituição Federal de 1988 surgiu com o 
objetivo de promover o acerto de contas do país com seu passado e, 
assim, dar novos rumos ao desenvolvimento e à reprodução da forma 
valor características do modo de produção capitalista. Esses rumos 
passariam a ser racionalizados segundo os imperativos escolhidos pela 
comunidade política, ao invés das forças predatórias do mercado, 
azeitadas com a rapina colonial do lucro a curto prazo e alheias a 
qualquer projeto de desenvolvimento nacional em escala macro. 
De uma maneira geral, as cartas constitucionais costumam ser 
qualificadas como o marco inicial de um novo Estado. Segundo os 
autores, esta perspectiva é parcialmente verdadeira na medida em que 
as constituições redefinem um Estado por meio da criação de 
parâmetros teóricos e práticos para a sua transformação. Assim, o 
Estado definido em uma Constituição é sempre uma meta ou um fim, 
não uma análise, sem perder de vista que o processo de valorização 
mercantil capitalista necessita de uma instância que lhe seja exterior 
para garantir as condições gerais de produção que o próprio capital não 
pode criar, conforme assinala Hirsch (2010, p.54): 
Aquilo que constitui como atividade concreta do Estado é 
principalmente resultado de sua determinação formal, exatamente por 
ele ser a institucionalização da força física, formalmente separada das 
classes sociais e dos processos de reprodução econômica. Nessa 
posição, o Estado – melhor dito, o pessoal de gestão e de controle – é 
levado a tomar medidas que mantenham em movimento o processo de 
produção e de reprodução, e estabilizem as relações sociais”, 
O Estado, escreve Engels (2019), não existe desde a 
eternidade, surgindo como necessidade oriunda de determinado 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
129 
estágio de desenvolvimento econômico ligado à cisão da sociedade em 
classes sociais. Se a constituição é o documento de organização formal 
do Estado, deve ser analisada não sob uma perspectiva unicamente 
normativa, insuficiente para compreendê-la, e sim sob a lupa indicada 
por Engels. 
A Constituição de 1988, nascida após vinte anos de ditadura 
militar e num momento histórico de refluxo do nacional-
desenvolvimentismo, sofreu forte influência da narrativa das 
democracias liberais e social-democratas, instituindo entre seus 
objetivos o incentivo à participação popular na formulação das 
políticas econômicas ao delinear a construção de uma nação política e 
economicamente soberana, tecnologicamente desenvolvida e 
socialmente justa por meio de um mercado interno capaz de ser 
propulsor do desenvolvimento nacional e da coesão do povo e das 
regiões brasileiras enquanto nação. 
A Carta de 1988, assim, “não é uma carta liberal clássica, a 
despeito de ser burguesa” (CASTRO e MEZZAROBA, 2015), tendo 
em vista que “constitui um Estado democrático de Direito, fundado na 
legalidade e detendo instrumentos de intervenção no domínio 
econômico que possibilitariam ao Estado continuar exercendo as 
tarefas de Capitalista Coletivo Ideal, para o qual foi idealizado desde 
1930” (Idem, p. 137). 
A chamada Constituição Cidadã veio, portanto, para fazer 
frente aos automatismos econômicos sob os quais se amparou 
historicamente a economia brasileira, alinhada com a dinâmica da 
relação centro/periferia do capitalismo e caudatária do 
subdesenvolvimento no qual nações de industrialização tardia como a 
nossa têm o papel de exportadoras de commodities, matérias-primas e 
bens de baixo valor agregado. 
Tanto é que seu artigo 219 declara que o mercado interno 
integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
130 
o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar da 
população e a soberania tecnológica do país. 
Tal enunciado demonstra a percepção do legislador 
constituinte acerca da necessidade de desenvolver o mercado interno, 
estruturá-lo e amoldá-lo à concretização destes valores éticos. Se a 
racionalidade do mercado se conjuga na lógica da maximização dos 
lucros/minimização dos custos, dando terreno à rapina que ignora o 
papel fundamental dos mercados internos no desenvolvimento da 
naçãoe a empurra para a especialização produtiva primário-
exportadora, a subordinação da economia a tais interesses políticos 
objetiva primordialmente confrontar o aprofundamento dos laços pós-
coloniais de dominação, hoje sob a roupagem da globalização, dando 
ênfase à economia voltada ao atendimento dos interesses internos ao 
invés dos mercados externos caracterizados por uma dinâmica própria 
das relações entre colônia e metrópole. 
Foi nessa esteira que a Constituição instituiu os potenciais de 
realização de um regime externo de afirmação da soberania política e 
econômica do Brasil perante a comunidade internacional, em especial 
dos países do centro do capitalismo (art. 1º, I), com independência 
nacional (art. 4º, I), autodeterminação dos povos (art. 4º, III), 
igualdade entre os Estados (art. 4º, V) e cooperação entre os povos 
para o progresso (art. 4º, IX), pressupondo a diminuição das 
assimetrias internacionais que ensejam a incompatibilidade de 
interesses entre as nações, as industrializadas e as da periferia (Idem, 
142). 
A Constituição trouxe ainda a previsão da realização de uma 
ordem política, social e econômica interna com efetiva participação 
popular e representatividade de interesses perante o poder do Estado 
(art. 1º, V e parágrafo único, além dos artigos 10, 14, 17 e 45). Tudo 
isto com desenvolvimento nacional (art. 3º, II) e proteção e incentivo 
dos mercados internos (art. 219), fundamentos para a construção de 
uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I) que tem como norte a 
Daniel Araújo Valença; Gustavo Freire Barbosa; Ilana Lemos de Paiva; 
Thiago Matias de Sousa Araújo 
 
131 
erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais e 
regionais (art. 3º, III e art. 170, VII) via incentivo do desenvolvimento 
científico e tecnológico nacional (art. 218) (Idem, p. 142). 
Com efeito, para que o Estado possa atingir esses objetivos e 
dar guarida a direitos tais quais os previstos no art. 6º, no Título VIII 
(“Da Ordem Social”) e no Capítulo III (“De educação, da cultura e do 
desporto”), é necessário que a alocação da riqueza produzida se dê em 
conformidade com os mencionados princípios, mecanismos e valores, 
o que é possível somente por intermédio da intervenção nos termos 
fixados pela própria Constituição. E esta intervenção significa 
exatamente preencher um espaço que, se deixado vazio, será 
inevitavelmente ocupado pela “razão econômica” das forças do 
mercado oligopolista global, as mesmas que sufocam indústrias 
nacionais e minam sua autossuficiência e soberania econômica. 
De 1988 até os dias atuais, o grande desafio vem sendo o de 
conferir normatividade e eficácia social a disposições como as acima 
enumeradas, principalmente no que se refere à estruturação da rede de 
proteção social inspirada nas experiências da social-democracia 
europeia. Importante realçar, todavia, que a defesa tática do estado de 
bem-estar é central diante do objetivo não de construir um 
“capitalismo humanizado”, mas de criar condições para o caminhar 
em direção à sua superação e às formulações das bases de uma 
socialidade socialista (Idem, 143). 
Ainda que bastante aquém das aspirações constitucionais, 
muito conseguiu ser feito, como a aprovação de marcos normativos 
como os do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de 
Assistência Social (SUAS), o Estatuto da Criança e do Adolescente 
(ECA), o Código de Defesa do Consumidor, a Lei Orgânica de 
Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), os estatutos da Cidade, 
do Idoso e da Igualdade Racial, etc. Tais marcos são importantes 
enquanto instrumentos que subsidiam e conferem, na via institucional, 
legitimidade à luta pela implementação e concretização dos serviços e 
Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução 
 
 
132 
direitos neles previstos. Mesmo diante do fato de virem sendo 
realizados de forma insuficiente, sua concretização, ainda que parcial, 
é fruto da constante vigilância e pressão da sociedade, sem a qual 
dificilmente sairiam do papel. 
Seguindo declaradamente a agenda do mercado, as profundas 
modificações que vêm sendo feitas na Constituição 1988, a exemplo 
da própria EC 95, mostram como eram legítimas as expectativas do 
legislador constituinte do que poderia acontecer caso os rumos da 
economia nacional fossem pautados pela selva onde os credores 
internacionais estão no topo da cadeia alimentar. 
Castro e Mezzaroba (2015) concluem que a realização 
histórica do avançado programa representado pela Constituição de 
1988 coloca um desafio para a sociedade brasileira: realizar os direitos 
nela previstos para que se torne obsoleta e, assim, coloque a 
necessidade mesma de sua superação, ou não realizá-los, dela se 
desviando para caminhos diversos dos que foram democraticamente 
escolhidos pela comunidade política, amargando a derrota e o 
retrocesso nas conquistas obtidas de forma democrática. 
É certo que a sociedade não escolheu a segunda alternativa. 
Remetamo-nos, pela terceira vez, a Lênin: “democracia para quem?”. 
 
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