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Os saberes-poderes que atravessam o parto as narrativas de doulas que atuam no hospital-escola de FlorianópolisSC

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Carla Klitzke Espíndola 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
OS SABERES-PODERES QUE ATRAVESSAM O PARTO: AS 
NARRATIVAS DE DOULAS QUE ATUAM NO 
HOSPITAL-ESCOLA DE FLORIANÓPOLIS/SC 
 
 
 
Dissertação submetida ao 
Programa de Pós-Graduação em 
Serviço Social da Universidade 
Federal de Santa Catarina para a 
obtenção do Grau de Mestre em 
Serviço Social. 
Orientadora: Profa. Dra. Luciana 
Patrícia Zucco. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Florianópolis 
2018 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Carla Klitzke Espíndola 
 
 
 
 
OS SABERES-PODERES QUE ATRAVESSAM O PARTO: AS 
NARRATIVAS DE DOULAS QUE ATUAM NO 
HOSPITAL-ESCOLA DE FLORIANÓPOLIS/SC 
 
 
 
Esta Dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título de 
Mestre, e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-Graduação 
em Serviço Social. 
 
Florianópolis, 27 de novembro de 2018. 
 
________________________ 
Profa, Dra. Beatriz Augusto de Paiva 
Coordenadora do Curso 
 
Banca Examinadora: 
 
 
________________________ 
Prof.ª Dr.ª Luciana Patrícia Zucco 
Orientadora 
Universidade Federal de Santa Catarina 
 
________________________ 
Prof.ª Dr.ª Rosamaria Giatti Carneiro 
Universidade de Brasília (videoconferência) 
 
________________________ 
Dr.ª Daniele Beatriz Manfrini 
Ministério Público de Santa Catarina 
 
________________________ 
Dr.ª Silvana Maria Pereira 
Hospital Universitário Prof. Polydoro Ernani de São Thiago
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Este trabalho é dedicado a todas as 
mulheres que lutam contra as 
violências de gênero e aquelas que 
ainda não chegaram a luta. 
 
AGRADECIMENTOS 
 
Primeiramente, desejo agradecer a minha orientadora, professora 
Luciana Patrícia Zucco, por sua disposição, seriedade, empolgação e 
competência. Atributos que me contagiaram, ensinaram e impulsionaram 
a fazer escolhas durante a jornada acadêmica e profissional. Sou grata por 
me cobrar quanto devia, por investir no meu potencial, compreender as 
minhas limitações e pela relação de respeito e confiança que criamos. Sou 
grata pela jornada que tivemos juntas desde a graduação, à época quando 
eu era bolsista do PET-Saúde, depois na Monografia, seguido pela tutoria 
e orientação durante a Residência Integrada Multiprofissional em Saúde 
e, por último, no Mestrado em Serviço Social. Grata por ter feito parte da 
minha história. 
Às professoras e profissionais Silvana Maria Pereira, Daniele 
Beatriz Manfrini e Rosamaria Giatti Carneiro pelas contribuições ao 
nosso trabalho, que muito nos ajudaram a desenvolver esta pesquisa. 
Às colegas e professoras do Núcleo de Estudos em Serviço 
Social e Relações de Gênero (NUSSERGE/UFSC) pelas ricas trocas e 
incentivos durante o processo da pesquisa. Em especial, destaco duas 
colegas de profissão e amigas: Catarina Nascimento de Oliveira e 
Mayara Zimmermann Gelsleichter. Catarina, sou grata pela sua 
cumplicidade na partilha de ideais, sensibilidade e exemplo de força. 
Mayara, sou grata pela tua amizade, alegria e companheirismo 
compartilhados nessa jornada. 
Às Doulas que participaram desta pesquisa. Agradeço pela 
disposição de vocês e por lutarem por mudanças. 
Ao Guilherme, pelo afeto, cuidado e por e incentivar o meu 
crescimento com muito amor. 
Aos meus pais, que investiram, acreditaram e lapidaram 
habilidades no meu caráter que me ajudaram a chegar até aqui.
 
RESUMO 
 
Este trabalho teve como objetivo analisar os saberes que atravessam o 
parto a partir das narrativas de doulas que atuam no sistema público de 
Florianópolis/SC. O estudo foi motivado pela atuação da autora, como 
assistente social, e inquietações vivenciadas durante a Residência 
Integrada Multiprofissional em Saúde (RIMS/UFSC) na maternidade de 
um Hospital-Escola de Florianópolis/SC. Ali, os conflitos e sobreposição 
entre os saberes eram recorrentes, sendo a mediação entre eles delicada. 
Entendemos, a partir de Michel Foucault (1987) que os saberes são 
construções sociais, não são neutros, são políticos e possuem sua gênese 
em relações de poder. Esta é uma pesquisa empírica, qualitativa e 
sustentada pela epistemiologia feminista e estudos de Michel Foucault. 
Os resultados apontaram a invisibilidade dos saberes das mulheres no 
contexto dos modelos obstétricos, sendo esse quadro ainda mais agravado 
quando associado à intersecção de gênero, raça/etnia, classe, 
incapacitismo e geração. Identificamos um gradiente de saberes presentes 
nas narrativas das doulas estabelecidos nessa ordem: científico, feminino, 
natureza e espiritual, com primazia ao primeiro. Esses saberes, com 
destaque para o científico, remetem a uma hierarquia entre doulas e 
mulheres-gestantes/puérperas, dando espaço para relações de assimetria. 
Ademais, identificamos um conjunto de conflitos entre as doulas 
entrevistadas, sendo a “gourmetização” do parto humanizado, associado 
à lógica comercial e seletiva, um destaque. As tensões entre as doulas nos 
levou a denominar ‘Movimentos’ de Doulas no plural, para sublinhar a 
diversidade de mulheres, posições e orientações no Grupo, com a 
projeção de seus conflitos. 
 
Palavras-chave: Doulas. Parto. Saberes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
This work had as objective to analyze the knowledge that cross the 
delivery from the narratives of doulas that act in the public system of 
Florianópolis / SC. The study was motivated by the author's role as a 
social worker and concerns during the Multiprofessional Integrated 
Residency in Health (RIMS / UFSC) in the maternity ward of a Hospital-
School in Florianópolis / SC. There, the conflicts and overlap between the 
knowledges were recurrent, mediation between them being delicate. We 
understand, from Michel Foucault (1987) that knowledge is social 
constructs, are not neutral, are political and have their genesis in relations 
of power. This is an empirical research, qualitative and sustained by 
feminist epistemology and studies by Michel Foucault. The results 
pointed to the invisibility of women's knowledge in the context of 
obstetrical models, which is even more aggravated when associated with 
the intersection of gender, race / ethnicity, class, disability and generation. 
We identified a gradient of knowledge present in the narratives of doulas 
established in this order: scientific, feminine, nature and spiritual, with 
primacy to the first. These knowledges, with emphasis on the scientific, 
refer to a hierarchy between doulas and women-pregnant / puerperal 
women, giving space for asymmetric relationships. In addition, we 
identified a set of conflicts between the doulas interviewed, being the 
"gourmetization" of humanized childbirth, associated with commercial 
and selective logic, a highlight. The tensions between the doulas led us to 
denominate Doulas 'Movements' in the plural, to underline the diversity 
of women, positions and orientations in the Group, with the projection of 
their conflicts. 
 
Keywords: Doulas. Parturition. Knowledges. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE QUADROS 
 
Quadro 1 – Características gerais das doulas entrevistadas ................... 83 
Quadro 2 – Características gerais da formação doulas entrevistadas .... 87 
Quadro 3 – Tempo de experiência e local onde assiste partos .............. 97 
Quadro 4 – Histórico reprodutivo das doulas entrevistadas ................ 100 
Quadro 5 – Saberes utilizados por doulas em sua atuação .................. 130 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 
 
AC – Alojamento Conjunto 
ADI - Ação Direta de Inconstitucionalidade 
ADOSC – Associação de Doulas de Santa Catarina 
ANDO – Associação Nacional de Doulas 
BVS – Biblioteca Virtual em Saúde 
CBO – Classificação Brasileira de Ocupações 
CEPSH – Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC 
CNS – Conselho Nacional de Saúde 
CO – Centro Obstétrico 
COMATER – Comissão Interdisciplinar de Assessoria à Maternidade 
COREN – Conselho Regional de Enfermagem 
CREMERJ – Conselho Regionalde Medicina do Estado do Rio de 
Janeiro 
DeCS – Descritores em Ciências da Saúde 
FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e 
Obstetrícia 
GAMA – Apoio a Maternidade Ativa 
HSF – Hospital Sofia Feldman 
HU/UFSC – Hospital Universitário Prof. Polydoro Ernani de São Thiago 
ICEA – International Childbirth Education Association 
INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência 
Social 
MBE – Medicina Baseada em Evidências 
MEC – Ministério da Educação 
NACA - National Association of Childbirth Assistants 
NUSSERGE – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Serviço Social e 
Relações de Gênero 
OMS – Organização Mundial da Saúde 
ONG – Organizações Não Governamentais 
PIC – Práticas Integrativas Complementares 
PL - Projeto de Lei 
PNAISM – Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher 
PNH – Política Nacional de Humanização 
PT – Partido dos Trabalhadores 
 
 
ReHuNA – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento 
RELACAHUPAN – Rede Latino-americana e Caribenha pela 
Humanização do Parto e do Nascimento 
RFS – Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos 
Reprodutivos 
RIMS – Residência Integrada Multiprofissional em Saúde 
SBRA – Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida 
SBRH – Sociedade Brasileira de Reprodução Humana 
SIMESC – Sindicato dos Médicos do Estado 
SOGIA-BR – Associação Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia da 
Infância e Adolescência 
SUS – Sistema Único de Saúde 
TCLE – Termo de Consentimento Livre Esclarecido 
TCR - Trabalho de Conclusão de Residência 
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
1 INTRODUÇÃO ................................................................... 19 
1.1. Aproximação da pesquisadora ao objeto ........................................ 19 
1.2 Situando o objeto ............................................................................. 22 
1.3 Considerações metodológicas .......................................................... 34 
2 Parto, biopoderes, disputas e os Movimentos de Doulas no Brasil
 42 
2.1 O parto e seu processo histórico ...................................................... 42 
2.2 Saberes, biopoder, feminismos e os modelos obstétricos no Brasil 47 
2.3 A ciência como saber-poder dos modelos obstétricos em disputa ... 58 
2.4 Movimentos de Doulas no Brasil ..................................................... 67 
3 Particularidades das doulas latinas que atuam na Maternidade-
Escola da UFSC .................................................................................... 81 
3.1 Caracterização das entrevistadas ..................................................... 81 
3.2 Histórico reprodutivo das doulas entrevistadas ............................... 99 
4. Saberes que atravessam o parto: as narrativas de doulas latinas 
que atuam no Hospital-Escola de Florianópolis/SC ....................... 112 
4.1 Posições políticas sobre os feminismos e ADOSC - “ser doula é uma 
assinatura feminista” ............................................................................ 112 
4.2 O lugar da religião na doulagem e a presença da espiritualidade no 
cenário do parto ................................................................................... 119 
4.3 Doulas e seus saberes ..................................................................... 128 
4.4 O saber e o protagonismo das mulheres-parturientes segundo as 
narrativas das doulas ............................................................................ 143 
4.5 Conflitos externos e internos aos Movimentos de Doulas ............. 151 
CONCLUSÃO .................................................................................... 169 
REFERÊNCIAS ................................................................................. 173 
APÊNDICE A – TCLE ...................................................................... 189 
APÊNDICE B – Roteiro da entrevista ............................................. 195 
APÊNDICE C – Roteiro de análise das entrevistas ........................ 197 
 
 
 
 
 
 
APRESENTAÇÃO 
 
Esta é uma pesquisa empírica de abordagem qualitativa, que teve 
como objetivo inicial analisar os saberes que atravessam o fenômeno do 
parto em uma Maternidade-Escola de Florianópolis/SC, a partir das 
narrativas de enfermeiras obstétricas e doulas. No caminhar do estudo, o 
objetivo foi reconstruído em função das dificuldades encontradas no 
campo de pesquisa. O contato com as enfermeiras obstétricas foi 
atravessado por resistências e negativas em relação à participação no 
estudo. A maioria não respondeu aos contatos feitos por e-mail, um 
conjunto de enfermeiras declarou não ter interesse em se integrar à 
pesquisa, outras preferiram não participar, justificando dificuldades no 
ambiente de trabalho, e algumas optaram por não se pronunciar sobre o 
tema. A única enfermeira que respondeu afirmativamente ao contato e 
que entrevistamos, não cumpria aos critérios de inclusão, visto que ainda 
não havia concluído a especialização em enfermagem obstétrica, sendo 
tal fato identificado ao longo da realização da entrevista. 
Diferentemente das enfermeiras obstétricas, as doulas 
apresentaram receptividade e fácil acesso, desvendando um campo 
complexo de discussão e saberes. Em função desse cenário, 
redimensionamos o foco da pesquisa para os saberes que atravessam o 
parto segundo a narrativa de doulas atuantes numa Maternidade-Escola 
de Santa Catarina, projetando seus saberes, o lugar que ocupam no 
cenário do parto, bem como as relações, resistências e conflitos instituídos 
com sua presença. Os objetivos específicos são: a) identificar os saberes 
que atravessam o parto a partir das ‘sujeitas cognoscentes/doulas’; b) 
mapear as estratégias de resistência das ‘sujeitas cognoscentes/doulas’ no 
processo de assistir ao parir numa maternidade-escola pública; c) levantar 
a narrativas das doulas sobre o protagonismo da mulher-parturiente e seu 
lugar no parir; d) reconhecer como se apresenta a espiritualidade nos 
saberes identificados; e) apontar as resistências das sujeitas envolvidas 
(mulher-parturiente, doulas e equipe profissional) frente aos diferentes 
saberes que atravessam o cenário da parturição. 
Para responder as questões propostas, organizamos o trabalho em 
quatro seções. A primeira tem o objetivo de apresentar o tema e objeto 
em estudo, explicar a aproximação da pesquisadora ao objeto, bem como 
situar o debate em torno dele e as considerações metodológicas que 
nortearam a pesquisa. Na segunda seção, desenvolvemos o referencial 
teórico adotado que informa a análise e a interpretação dos dados, a partir 
da literatura sobre o processo de institucionalização do parto e os modelos 
de assistência obstétrica, com destaque aos saberes e biopoderes 
 
transversais ao cenário do parto, e à abordagem dos estudos feministas. 
Para finalizar essa parte, discorremos acerca do desenvolvimento do 
‘Movimento de Doulas’ e as particularidades construídas no Brasil. No 
terceiro capítulo, tomamos como centralidade a apresentação e discussão 
da caracterização das sujeitas entrevistas, destacando seus dados pessoais, 
breve contexto de sua história reprodutiva e motivações para buscarem a 
formação de Doulas. Na última seção, projetamos a discussão dos 
resultados, embora a análise dos dados tenha atravessado todo o trabalho. 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Este item tem como propósito contextualizar as/os leitoras/es sobre 
o objeto de estudo em tela e a aproximação da pesquisadora aos conteúdos 
por ele mobilizado, bem como situar o debate em torno do tema e as 
considerações metodológicas que nortearam a pesquisa. 
 
1.1. Aproximação da pesquisadora ao objeto 
 
Esta pesquisa tem como objeto de estudo os saberes que 
atravessam o parto a partir das narrativas de doulas atuantes numa 
Maternidade-Escola de Florianópolis/SC. Os saberes são construções 
sociais e, de acordo com Michel Foucault (1987),não há saberes neutros, 
todos são políticos e possuem sua gênese em relações de poder. 
 As motivações que desencadearam o estudo estão vinculadas, 
principalmente, a alguns processos pessoais. O primeiro, refere-se a 
minha vivência como assistente social residente no Programa de 
Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (RIMS)1, no Hospital 
Universitário Polydoro Ernani de São Thiago (HU) da Universidade 
Federal de Santa Catarina (UFSC), entre 2014 e 2016. A imersão na área 
de Saúde da Mulher e da Criança, especificamente no Alojamento 
Conjunto (AC)2, proporcionou experiências multiprofissionais 
relacionadas ao atendimento de mulheres (gestantes, parturientes, 
puérperas) e seus familiares/acompanhantes. 
Ali, os conflitos e sobreposição entre os saberes eram recorrentes, 
sendo a mediação delicada. Nas discussões de caso com a equipe 
multiprofissional, projetava-se o saber da equipe médica em detrimento 
de outros saberes. Ainda que um grupo de técnicas/os tivesse consenso 
sobre alguma questão, bastava um/a médico/a discordar para ‘impor’ seu 
encaminhamento. Alguns/mas obstetras eram mais abertos e estabeleciam 
canais de comunicação com os/as profissionais, embora os demais saberes 
 
1 A Residência Multiprofissional é uma pós-graduação lato sensu, voltada para a 
educação em serviço e trabalho multiprofissional, sendo instituída pela Lei nº 
11.129 de 30 de junho de 2005. 
2 Alojamento Conjunto é uma unidade de cuidados hospitalares em que o recém-
nascido sadio, logo após o nascimento, permanece ao lado da mulher-puérpera 
em horário integral até a alta hospitalar. Durante a internação nesta enfermaria, é 
garantida a presença de um/a acompanhante de escolha da mulher, conforme Lei 
nº 11.108/2005. 
 
 
 
20 
fossem considerados complementares ao seu trabalho. Em tal dinâmica, 
revisitava-se à lógica de equipe médica e de paramédicos, vigente anterior 
à institucionalização do Sistema Único de Saúde (SUS). Com efeito, 
espera-se dos/as profissionais da saúde3 práticas mais horizontais ao 
considerar os princípios e diretrizes do SUS regulamentados desde 1990 
pela Lei Orgânica da Saúde. Esta referência à assistência à saúde é 
pautada na universalidade, integralidade, equidade e descentralização das 
relações para a participação comunitária, preservação da autonomia das 
pessoas, direito à informação, entre outros, validados como fundamentais 
ao acesso ao conceito ampliado de saúde (BRASIL, 1990). 
Dependendo da postura política e teórica de cada profissional, 
algumas/ns podiam interagir com os saberes das mulheres e de seus 
familiares/acompanhantes. Usualmente, a mulher-puérpera prevalecia 
como ‘objeto’ de coleta de dados para preencher formulários, prontuários 
e triagens, bem como receptora de informações e orientações sobre o 
cuidado com o recém-nascido, puerpério, amamentação e ‘planejamento 
familiar/reprodutivo’, entre outros. Frequentemente, a equipe se 
apresentava em superioridade à mulher-puérpera, silenciando e 
desconsiderando seu protagonismo e falas. Entendo que as equipes de 
psicologia, serviço social e enfermagem obstétrica eram mais sensíveis às 
necessidades dessas/es sujeitas/os e mediavam as relações entre a mulher-
puérpera, seus familiares e a equipe médica. Destaco que não pude 
perceber a interação das Doulas na Maternidade-Escola, pois a aprovação 
da Lei Nº 16.869, de 15 de janeiro de 2016, que valida a atuação delas nas 
maternidades públicas de Santa Catarina, ocorreu no período de 
encerramento da minha jornada no HU/UFSC. 
Percebi que entre as mulheres usuárias do serviço e seus 
familiares/acompanhantes, a posição, saberes e pareceres médicos/as 
costumavam ser mais respeitados e considerados, ainda que as/os 
sujeitas/os ora discordassem, questionassem e/ou não entendessem as 
posturas, abordagens, comunicação adotada pela equipe médica. 
Implicitamente, ocorria entre elas/es a máxima: ‘o que o/a médico/a falou 
está falado’, pois ele/a é ‘doutor/a’. Quando realizava o atendimento às 
mulheres, depois de pelo menos 24 horas do parto, era árduo descontruir 
alguns discursos violentos e machistas que ouviram de profissionais de 
 
3 Segundo a Resolução nº 287, de 08 de Outubro de 1998, do Conselho Nacional 
da Saúde, são profissionais da saúde: Assistentes Sociais; Biólogos; Biomédicos; 
Profissionais de Educação Física; Enfermeiros; Farmacêuticos; Fisioterapeutas; 
Fonoaudiólogos; Médicos; Médicos Veterinários; Nutricionistas; Odontólogos; 
Psicólogos; e Terapeutas Ocupacionais (BRASIL, 1988). 
 
saúde da maternidade e/ou daqueles/as que a acompanharam no pré-natal. 
Era problemático trabalhar as ideias que reforçavam as atribuições 
socialmente construídas para as/os sujeitas/os e àquelas referentes ao mito 
do amor materno (BANDITER, 1985; FREIRE, 2011, 2008). 
A comunicação pode reforçar violências de gênero reproduzidas 
no exercício de poder e de relações marcadas pela assimetria, ao impor 
condutas de gênero, classe e raça/etnia às mulheres (GOMES, et al, 2005). 
Mobilizava-me as narrativas das mulheres-puérperas que se 
consideravam violadas nesse jogo discursivo, assim como aquelas que 
naturalizavam tal dinâmica, dada as construções históricas do 
silenciamento das mulheres em espaços, principalmente, públicos. 
Griboski e Guilhem (2006, p. 108) contribuem para a compreensão dessa 
realidade ao afirmarem que “O profissional de saúde detém o saber 
científico e a técnica para manter sob controle o processo. Isso contribui 
para a despersonalização da mulher nesse momento”. 
O segundo processo que me levou a este tema recupera a 
construção e os resultados do Trabalho de Conclusão de Residência 
(TCR)4, apresentado em março de 2016. Neste abordei as violências de 
gênero contra mulheres identificadas pelas/os profissionais de saúde que 
atuavam no Centro Obstétrico (CO) e no Alojamento Conjunto (AC) do 
HU/UFSC. Os resultados apontaram que a violência psicológica foi a 
mais identificada pelas/os profissionais entrevistadas/os (enfermeiras 
obstétricas, nutricionistas, assistentes sociais, psicólogas, médicas-
obstétras e neonatologista). Elas/es sinalizaram esta violência como 
frequente no ambiente hospitalar e doméstico. A violência institucional e 
obstétrica também foi denunciada com indignação, neste caso, pelas 
profissionais, o que pode estar associada ao fato de serem mulheres. 
O terceiro deve-se à aproximação aos trabalhos sobre 
epistemologia feminista, em especial às obras que problematizam a 
relação entre gênero e ciência (CAMARGO et al, 2011; MARTINS, 
2004; ROHDEN, 2012, 2011, 2002, 2001). Estas leituras nos 
proporcionaram a maturação das experiências profissionais citadas e a 
desconstrução dos discursos profissionais ancorados nas ‘evidências 
científicas’, tão reforçadas no cotidiano da intervenção hospitalar e pelo 
Movimento de Humanização do Parto e Nascimento (MENDONÇA, 
2015). 
A ‘Medicina Baseada em Evidências’ (MBE) diz respeito a um 
movimento social e à construção de um conjunto de saberes que se 
 
4 O TCR deu origem este artigo apresentado no Seminário Internacional Fazendo 
Gênero 11, em agosto de 2017. 
 
 
22 
contrapõe à medicina biomédica ocidental tradicional. Seus agentes 
consideram cada vez mais a possibilidade de atingir “verdades soberanas” 
para a prestação da assistência à saúde e bem-estar às pessoas. Utilizam 
metodologias de produção de conhecimento auto-apreciadas como 
melhores, que afastariam profissionais e usuárias/os da ignorância, 
alienação e erros (CASTIEL & POVOA, 2001). 
O quarto e último processo se reportam às impressões advindas da 
participação em ‘congressos científicos’5 que trataram sobre parto, 
nascimento e violências obstétricas. Nestes, as ‘evidências científicas’ 
receberam tamanho destaque que nos sugeriram a secundarização dos 
demais saberes presentes nos cenáriosdo parto. Ademais, foi possível 
perceber uma fragmentação disciplinar e profissional, materializada na 
organização e direção dos eventos por categorias profissionais 
específicas, aparentemente distante da abordagem interdisciplinar. A 
configuração de tais eventos é um dado a ser considerado e pode estar 
relacionada ao campo de disputa do poder-saber disciplinar, além de 
responder a uma racionalidade representada pelo conhecimento científico 
(FOUCAULT, 2012, 1982). 
Destaco que este trabalho não seria possível sem a colaboração das 
colegas do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Serviço Social e Relações 
de Gênero (NUSSERGE-UFSC); da equipe de assistentes sociais da 
maternidade do HU/UFSC; da enfermeira Silvana Maria Pereira, que 
atuou no ambulatório de Tocoginecologia do HU/UFSC; sobretudo, sem 
a orientação dedicada da Professora Dra. Luciana Patrícia Zucco. Ele é 
fruto de um trabalho conjunto e será apresentado e discutido, a partir de 
agora, na primeira pessoa do plural. 
1.2 Situando o objeto 
 
 
 
5 Para citar alguns: IIº Congresso Nacional do Parto Humanizado (junho, 2016) 
- organização não identificada; 1º Encontro Estadual de Doulas (junho, 2016) - 
organização não identificada; 1º Encontro Estadual de Enfermeiros Obstetras e 
Obstetrizes (junho, 2016) - organização não identificada; VIII Congresso 
Catarinense de Obstetrícia e Ginecologia e III Congresso Catarinense de 
Perinatologia (maio de 2017) - organizado pela Sociedade Catarinense de 
Ginecologia e Obstetrícia em parceria com a Sociedade Catarinense de Pediatria; 
I Encontro sobre o Papel da Enfermagem Obstétrica Neonatal e Obstetriz na 
Saúde Catarinense (junho/2017) – organizado pelo Conselho Regional de 
Enfermagem (COREN/SC). 
 
 
Historicamente, o saber e o domínio sobre corpo, sexo e parto 
foram restritos ao campo das ciências biomédicas6 (FOUCAULT, 2017). 
Tal perspectiva utilizou-se desta concessão para compreender a 
reprodução (MARTINS, 2005, 2004; ROHDEN, 2012, 2001; 
HEILBORN, 2002; TORNQUIST, 2004), justificar as atribuições do 
feminino e do masculino nas relações sociais, disciplinar os corpos 
(FOUCAULT, 2007, 1997), entre outros. 
Os estudos interdisciplinares7 entram nessa seara no final do 
século XX (MÜLLER, et al, 2015) e inauguraram um campo de análises 
a partir de determinantes socioculturais, envolvendo a dimensão social, 
histórica e política (ALZUGUIR e NUCCI, 2015; ROHDEN, 2012, 2011, 
2001). Associada às abordagens interdisciplinares, os estudos feministas 
e de gênero apontam para as leituras construtivistas, indicando as 
limitações das explicações ancoradas no biológico, uma vez que 
essencializam a natureza do feminino e masculino. Maria Luiza Heilborn 
(2002, p. 7) discorre sobre o tema e afirma: 
 
6 O modelo biomédico desenvolveu-se por meio da construção de campos de 
saberes, baseado no discurso da racionalidade impulsionada pela Revolução 
Francesa e pela ciência moderna, proporcionando um conjunto de dispositivos de 
poder que transformaram sistematicamente o modo de parir das mulheres. Até 
então, o parto era domiciliar e conduzido exclusivamente pelos saberes das 
parteiras ‘tradicionais’ e de outras mulheres da família, mas, sobretudo, era 
considerado um ‘assunto feminino’. Todavia, através de diversas estratégias, a 
partir do século XIX, esse modelo foi perdendo sua hegemonia para o campo do 
conhecimento médico-científico, e o parto foi se institucionalizando, não sem 
resistências. Esse processo de transição contribuiu para que os corpos das 
mulheres fossem demarcados pela ‘razão masculina’, por um sistema obstétrico 
da desinformação (MÜLLER et al, 2015), e para a destituição do partejar no 
‘conforto’ doméstico e com participação da mulher parturiente (DINIZ, 1997, 
2001; SENA, 2016; MANFRINI, 2017; MARTINS, 2005; 2004; MÜLLER et al, 
2015; ROHDEN, 2017, 2001; SANTOS, NUNES, 2009; TORNQUIST, 2004; 
VARGENS et al, 2017). 
7 No Brasil, “Uma das pioneiras foi Daphne Rattner que, em 1991, defendeu a 
dissertação intitulada Subsídios para a avaliação da qualidade do processo de 
assistência ao parto [...]. Em 1997, destaca-se a de Simone Diniz como importante 
marco para a reflexão de questões que problematizam a atenção corriqueira dada 
ao parto em nossa sociedade, desestabilizando os lugares de médicos e 
parturientes a partir de um enfoque de gênero. Esta dissertação, bem como a tese 
da mesma autora, defendida em 2001, são importantes referências para o campo, 
na medida em que põem em xeque o modelo lido como tecnocrático e 
medicalizado de assistência ao parto no Brasil” (MÜLLER, et al, 2015, p. 277). 
 
 
 
24 
Considera-se como construtivismo a postura de 
enfatizar a preeminência da socialização, da 
aprendizagem de regras, roteiros e cenários 
culturais para o exercício da experiência sexual. O 
essencialismo, por sua vez, seria a crítica que os 
construtivistas fazem à idéia de existência de um 
instinto sexual na natureza humana, que 
funcionaria a despeito do tipo de organização 
cultural. Ele é geralmente equacionado à vertente 
biomédica ou psicanalítica, referindo-se a algo 
constitutivo da natureza humana. 
 
 Muitos estudos referenciados pelas teorias feministas e de gênero 
elaboram pesquisas a partir da categoria analítica de gênero (SCOTT, 
1990; HEILBORN, 2002, 1994, 1991; PEDRO, 2005), e visam articular 
uma outra forma de produzir conhecimento e transformações sociais 
(SALGADO, 2008). Nesse sentido, as epistemologias feministas somam 
à categoria gênero8 outras estruturas de análise de igual importância, 
como classe, raça, etnia, geração, religião, deficiência, entre outras 
(CREENSHAW, 2002). A esse grupo de marcadores sociais, incluímos 
as categorias poder-saber e ciência (FOUCAULT, 1992). Ademais, os 
estudos feministas e de gênero, impulsionados pelos Movimentos 
Feministas, buscam contribuir para a construção de uma realidade 
pautada na equidade de gênero e dos direitos sexuais e reprodutivos, daí 
a relevância de tal área de conhecimento para esta pesquisa. 
O parto, como qualquer fenômeno social e histórico, é produto de 
sua época (TORNQUIST, 2004, CARNEIRO, 2015). Na conjuntura 
brasileira, a maioria deles ocorrem em instituições hospitalares (TESSER, 
2017), nas chamadas maternidades9. Nestes espaços, há um conjunto de 
pessoas mobilizadas para assistir à parturição e ao parir. Há as/os 
profissionais de saúde da instituição, há aquelas/es que se aproximam do 
campo profissional da saúde e adentram neste espaço, há as parturientes 
e seus/suas acompanhantes10, entre outras/os. Isto é, o processo de 
 
8 É importante lembrar que não há um conceito normativo sobre gênero, mas pode 
ser entendido como um filtro cultural e epistemológico (SALGADO, 2008). 
9 Há outros serviços que prestam assistência ao parto e puerpério, como casas de parto 
públicas e equipes que atendem partos domiciliares, esta última de âmbito do setor 
privado. 
10 A presença do/a acompanhante de escolha da parturiente é assegurada pela Lei nº 
11.108, de 7 de abril de 2005. Porém, esse direito encontra obstáculos nas instituições 
de saúde: ora sua viabilização depende da interpretação dos gestores e 
 
 
partejar promove o encontro de uma diversidade de saberes, 
corporificados e protagonizados, por exemplo, pelas/os: gestantes, 
enfermeiras/os, médicos/as, técnicos/as de enfermagem, obstetrizes11, 
doulas, parteiras, acompanhantes e familiares da mulher-parturiente, 
estudantes de graduação, residentes, curiosos/as. 
Os partos que ocorrem fora das maternidades podem ser 
acompanhados de outras/os sujeitas/os, além das pessoas citadas, tais 
como: acupunturistas; fisioterapeutas; benzedeiras; crianças; terapeutas; 
pessoas do convívio familiar da gestante; fotógrafos/as, animais de 
estimação; entre outros/as (PIMENTEL, 2012). 
Essas/es sujeitas/os são portadorasde conhecimentos empíricos 
e/ou sistematizados teoricamente, oriundos de compreensões: 
biomédicas; sobre humanização do parto12, políticas públicas e 
organismos internacionais; filosóficas, acadêmicas e/ou científicas; 
críticas à medicina ocidental tradicional; das parteiras tradicionais; dos 
movimentos de mulheres e/ou feministas; das histórias e experiências 
partilhadas por gerações e mulheres; das crenças religiosas e/ou 
espiritualistas; entre outras. Em suas complexidades, cada uma dessas 
leituras possui ramificações, posições, orientações, tensões, contradições, 
e contribuem para a fluidez, construção e desconstrução de saberes 
oriundos desses encontros. Com efeito, esses mobilizam poderes na ação 
e comunicação cotidiana, constituindo experiências às/aos envolvidas/os. 
 
profissionais da instituição; ora justifica-se que a infra-estrutura hospitalar não 
está apta para receber o/a acompanhante; ora é mais conveniente para a equipe de 
saúde ignorar esse direito; ou, ainda, seu descumprimento serve de punição às 
mulheres ‘queixosas’ e ‘insubmissas’. Por vezes, há mulheres que 
desconhecessem esse direito (SANTOS e NUNES, 2009). 
11 Segundo a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, Obstetriz é a titular do diploma 
de Obstetriz, com competência legal para prestar serviços de assistência 
obstétrica, e cuja graduação em Obstetrícia tem ênfase na promoção da saúde da 
mulher e na assistência da mulher durante a gravidez, o parto e o pós-parto. No 
Brasil, esta graduação é oferecida somente pela Universidade de São Paulo 
(BRASIL, 1986). 
12 O movimento pela ‘humanização do parto e do nascimento’ desenvolveu-se no 
Brasil na década de 1980 (TORNQUIST, 2002). É considerado um movimento 
de profissionais e de mulheres de classe média que têm questionado o nascimento 
tecnocrático no Brasil (MÜLLER, et al, 2015). O movimento defende a atenção 
ao parto à luz da ‘medicina baseada em evidências’, questionam o ordenamento 
jurídico vigente e discutem questões como cidadania, dignidade e integridade 
corporal (CARNEIRO, 2012, 2015). 
 
 
 
26 
Entre as práticas e recursos disponíveis e utilizados para o 
acompanhar a gestação e o parto, há os exercícios de pilates, yoga, dança, 
apometria quântica, macrobiótica, estudos especializados sobre o 
calendário Maia, alimentação vegetariana/saudável (FEYER, 2013), 
aromaterapia, reiki, massagens, fitoterapia (PIMENTEL, 2012). Essas 
práticas são as mais comuns entre mulheres que optam pela assistência 
‘menos intervencionista’ e/ou partos domiciliares (FEYER, 2013). Nas 
maternidades públicas de Florianópolis/SC, os recursos não 
farmacológicos mais comuns, quando existem e em funcionamento, são 
a bola suíça, cavalinho, o chuveiro para banho terapêutico e cadeiras 
especiais para o parto vaginal de cócoras. 
 No ambiente hospitalar13, esse conjunto de saberes e práticas são 
classificados, principalmente, em duas grandes categorias: ‘científicos’14 
 
13 Foucault (1982, p. 99) informa que o hospital como instrumento terapêutico é 
uma invenção relativamente nova, que data do final do século XVIII. “A 
consciência de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar 
aparece claramente em torno de 1780 e é assinalada por uma nova prática: a visita 
e a observação sistemática e comparada dos hospitais”. Ademais, segundo o 
autor, “Antes do século XVIII, o hospital era essencialmente uma instituição de 
assistência aos pobres. Instituições de assistência, como também de separação e 
exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência, e como doente, 
portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital 
deve estar presente tanto para recolhê-lo, quanto para proteger os outros do perigo 
que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o 
doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve 
ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos 
cuidados e o último sacramento. Esta é a função essencial do hospital. E o pessoal 
hospitalar não era fundamentalmente destinado a realizar a cura do doente, mas a 
conseguir a sua própria salvação” (p. 101-102). “O hospital permanece com essas 
características até o começo do século XVIII e o Hospital Geral, lugar de 
internamento, onde se justapõem e se misturam doentes, loucos, devassos, misto 
de exclusão, assistência e transformação espiritual, em que a função médica não 
aparece” (p. 102). 
14 Saberes científicos são aqui denominados como aqueles saberes portadores de 
uma ‘razão’, conforme os moldes iluministas do século XVII e XVIII, 
desconsiderando o que escapa dos critérios do cálculo e da utilidade. Pretendem 
libertar, portanto, os indivíduos de qualquer interpretação ‘mágica’, consideradas 
irracionais. Nesse projeto, a ‘ciência’ adquire um lugar central, uma vez que 
propõe verdades indiscutíveis ou generalizações legítimas, que tenham um 
fundamento metodológico (GUILHERMO, 1998). Soma-se a essa interpretação, 
segundo Fabíola Rohden (2001, p. 25), o entendimento de que “a ciência é 
 
 
e ‘não-científicos’. Essa categorização é influenciada pela perspectiva da 
racionalização do conhecimento moderno, que acaba por hierarquizar os 
saberes, instituindo poderes diferenciados entre eles. Tal agrupamento é 
comum em instituições que são marcadas pela construção iluminista, 
como os hospitais, universidades, entre outros. 
A ciência é uma construção social e transforma em ‘fato científico’ 
determinado evento social (ROHDEN, 2011, 2001). A instituição de um 
‘fato científico’ denota o interesse do fenômeno para algum grupo e 
explicita aspectos ideológicos em tais denominações, contribuindo para a 
invisibilidade de alguns assuntos e saberes em detrimento de outros. Os 
saberes ‘científicos’ estão historicamente institucionalizados nas 
maternidades e dão o tom às políticas de saúde e às intervenções 
profissionais, enquanto os outros saberes, por se distanciarem do 
designado ‘conhecimento científico’, ocupam um lugar secundarizado 
nas relações ali instituídas (FOUCAULT, 2007, 1986). 
 Nesse sentido, o campo teórico, discursivo e assistencial sobre o 
parto é marcado por disputas (MENDONÇA, 2015, TORNQUIST, 
2004). A partir delas, há tendências que acabam por dicotomizar os 
modelos obstétricos entre: ‘modernos’ e ‘tradicionais’ (TORNQUIST, 
2004; HOTIMSKY e ALVARENGA, 2002); ‘biomédico’ e 
‘alternativa/naturalista’ (TORNQUIST, 2004); ‘perigosos’ e ‘não 
perigosos’ (MÜLLER et al, 2015); ‘tecnocrático’ e 
‘humanístico/humanizado’ (MENDONÇA, 2015); ‘americanos’ e 
‘européios’ (CARNEIRO, 2015). Por vezes, essas designações dizem 
respeito a um grupo qualificando outro, o que significa que o grupo 
‘rotulado’ pode não se identificar e concordar com a denominação 
atribuída. A despeito, há claras rupturas entre as leituras sobre o parto e 
nascimento, sendo a mediação entre eles incerta. Ademais, os modelos de 
assistência obstétrica não são fixos, a cada momento há novas propostas, 
práticas, nomes, sujeitas/os e conceitos que se apresentam, reinventam e 
disputam espaços (MENDONÇA, 2015). 
Embora cientes dessas denominações, paradigmas e seus 
dualismos, por vezes, utilizaremos a terminologia ‘mais 
intervencionistas’ e ‘menos intervencionistas’ ao nos referirmos aos 
 
produto de seres humanos particulares que vivem em tempos e lugares específicos 
e são afetados pelas circunstancias de suas vidas. Ela estaria, assim, muito 
próxima da ideologia, definida como visão de mundo expressa por um grupo que 
informa sua percepção e conceituação”. Tais questões não invalidam o 
conhecimento produzidos por esses grupos, todavia, é importante contextualizá-
los, bem como problematizar seus limites e possibilidades. 
 
 
28 
modelos de assistência e cuidado obstétrico. O primeiro estárelacionado 
à supremacia dos discursos e práticas da técnica biomédica (modelo 
biomédico), que entende o parto como um ato psico-fisiológico e médico. 
O segundo, às perspectivas que comungam com a defesa do protagonismo 
da mulher-puérpera e entendem o parto como um evento 
‘biopsicossocial’, sem desconsiderar a pluralidade de abordagens que 
atravessam todos os grupos. 
Rosamaria G. Carneiro (2015), baseada em estudos de Daphne 
Rattner (1998), informa que nesse cenário existem dois grandes 
paradigmas de parto e de nascimento: o americano e o europeu. O 
primeiro, ‘mais intervencionista’, registra a cesárea como a melhor e mais 
frequente forma de nascimento, iniciado nos Estados Unidos, na década 
de 1940, e se estende por todo continente americano, exceto Cuba. O 
segundo, ‘menos intervencionista’, consiste em práticas de pré-natal e de 
parto assistidas por parteiras e enfermeiras obstetrizes, razão pela qual os 
médicos espanhóis, holandeses e franceses somente participam de partos 
considerados difíceis ou cirúrgicos. 
Como informa Carmem S. Tornquist (2004), desde os anos de 
1930, na Europa, existiam no campo da obstetrícia correntes médicas que 
questionavam as leituras ‘mais intervencionista’ da assistência ao parto, 
a exemplo do francês Fredérick Leboyer. No Brasil também se 
destacaram, na década de 1970, alguns médicos que tencionaram esse 
modelo, entre eles José Galba de Araújo, no Ceará/CE, Cláudio 
Paciornick, em Curitiba/PR, e Hugo Sabatino, em Campinas/SP. 
Cabe destacar que os saberes dos modelos obstétricos ‘mais 
intervencionistas’ e ‘menos intervencionistas’ problematizam entre si 
suas abordagens teóricas, discursivas e práticas, promovendo tensões 
(MENDONÇA, 2015). Parece que o principal ponto de divergência entre 
eles é o agendamento de cesáreas (MENDONÇA, 2015), a quantidade de 
intervenções e de tecnologias (medicamentos, instrumentos, entre outros) 
utilizadas na assistência ao parto. De modo geral, o primeiro modelo 
recorre ao uso do poder tecnológico e farmacológico como imperioso para 
o domínio do corpo e uma ‘boa’ assistência ao parto, enquanto o segundo 
opõe-se ao uso abusivo destes recursos, acusando tal prática de 
tecnocrática e medicalizante. Estudos (AGUIAR, 2010; DINIZ, et al, 
2016; GRIBOSKI E GUILHEM, 2006; MENDONÇA, 2015; RIESCO e 
TSUNECHIRO, 2002; TESSER, et al, 2011; TORNQUIST, 2004) 
apontam que o tensionamento entre essas linhas repercutem 
negativamente nas parturientes e reproduzem relações de poder presentes 
no ambiente hospitalar. 
 
Considerando os conflitos entre os saberes na assistência ao parto, 
propomos dialogar com Doulas corresponsáveis em assistir partos no 
âmbito de uma Maternidade-Escola de Florianópolis/SC, vinculada ao 
SUS e ao Ministério da Educação (MEC). Destacamos que os conflitos e 
contradições, personificados na ação das/os profissionais no momento da 
parturição, estão registrados pelos estudos das ciências sociais, humanas 
e da saúde coletiva (AGUIAR, 2010; CARNEIRO, 2015; DINIZ, et al, 
2016; DINIZ, 2009, 2001, 1997; GRIBOSKI e GUILHEM, 2006; 
MARTINS, 2005, 2004; MANFRINI, 2017; ROHDEN, 2012; SENA, 
2016; TORNQUIST, 2004, 2002). Todavia, a pertinência desse tema 
persiste ao reconfigurar-se na dinamicidade da realidade social e das 
relações de poder. 
As Doulas são representadas por mulheres que atendem às 
necessidades essenciais de outras sujeitas, numa perspectiva de direitos 
humanos, bem como possuem uma articulação direta com o ‘cuidado’ 
(FALEIROS, 2013). Na área da saúde, o ‘cuidado’ pode ser entendido 
como uma relação que propicia um melhor restabelecimento e nível de 
autonomia para cuidador/a e pessoa cuidada. Considera-se que o cuidado 
abrange duas áreas, uma formal e outra informal. A primeira representa 
os serviços institucionais e, a segunda, as ações desenvolvidas pela 
família e pela comunidade (GUTIERREZ; MINAYO, 2010). Nessa 
interpretação, entendemos que as nossas ‘sujeitas cognoscentes’ se 
enquadram na área do cuidado formal, pois figuram dentro de um vínculo 
de contrato remunerado e apoiadas em recursos teóricos, técnicos e 
éticos. 
Paralelamente, as Doulas carregam simbolicamente uma 
identidade de gênero marcada pelo feminino, pois a ‘natureza’ do 
‘cuidado’ informal está estreitamente relacionada às atribuições sociais 
construídas às mulheres. Isto é, há uma relação entre a construção social 
feminina do cuidado no campo doméstico e comunitário e o exercício de 
profissões que remetem a esta ‘dimensão’, que, consequentemente, são 
desempenhadas por uma maioria de mulheres. 
As Doulas são consideradas “novas profissionais” no campo 
obstétrico (MENDONÇA, 2015; FLEISCHER, 2005). Elas são 
acompanhantes de parto contratadas e escolhidas livremente pelas 
mulheres-gestantes para prestar suporte físico e emocional no transcorrer 
da gravidez, parto e puerpério, buscando a promoção do bem-estar para a 
gestante, sua família ou pessoas de convívio próximo (LEÃO e 
OLIVEIRA, 2006). Possuem como característica o atendimento 
individualizado contínuo às necessidades da mulher-parturiente 
 
 
30 
acompanhada, e são avaliadas como centrais no paradigma da 
humanização do parto (PORTELLA, 2017). 
A doulagem, a priori, é exercida exclusivamente por mulheres que 
possuem certificação ocupacional em curso para essa finalidade, com 
carga horária em torno de 32 horas (Lei Estadual nº 16.869 de 15 de 
janeiro de 2016). No Brasil, há várias organizações que oferecem a 
formação de Doulas na modalidade de curso livre. Todavia, as três 
principais organizações formadoras são: “Doulas do Brasil”; “Associação 
Nacional de Doulas (ANDO)”; Grupo de Apoio a Maternidade Ativa 
(GAMA). Paulatinamente, tal formação alcança mais adeptas, porém sem 
convergência de conteúdos, cargas horárias e vivências práticas 
(FERREIRA JR, 2015), o que gera debates dentro e fora do movimento 
de doulas. 
As doulas apoiam a mulher-parturiente e seu/sua(s) 
acompanhante(s) aplicando medidas de assistência física, conforto e 
proteção, promovendo amparo emocional e disponibilizando informações 
sobre o tema do parto. As medidas de amparo físico e emocional dizem 
respeito a técnicas de relaxamento, respiração, massagens, uso de bolsa 
térmica, orientação acerca das posições mais confortáveis durante as 
contrações, além de prover encorajamento e tranquilidade durante todo o 
período do parto (BALLEN e FULCHER, 2006; KAYNE, GREULICH, 
ALBERS 2001). A prática da doulagem demanda pouca tecnologia, o que 
facilita a realização de sua atuação em qualquer espaço, institucional ou 
não (PORTELLA, 2017). 
Somam-se às características do trabalho e ‘Movimento de Doulas’ 
a incorporação de pautas feministas, como o protagonismo da mulher 
durante todo processo gravídico-puerperal, a enfrentar as violências 
obstétricas, entre outras. Além dessas, um forte eixo são as orientações da 
Organização Mundial da Saúde (OMS) (OMS, 2018, 1985), que 
recomendam reduzir as intervenções obstétricas apenas àquelas que 
possuem ‘evidências científicas’. Tais orientações problematizam as 
interferências desnecessárias e a superação de práticas históricas que 
compreende as seguintes rotinas hospitalares: episiotomia (corte 
realizado no períneo da mulher para “facilitar” a saída do bebê); 
amniotomia (ruptura provocada da bolsa que contém o líquido 
amniótico); enema (lavagem intestinal); tricotomia (raspagem dos pelos 
pubianos); partos cirúrgicos. Novos estudos apontam os danos que estes 
procedimentos de ‘regra’ trazem à saúde da mulher e do bebê, sendo, 
portanto, considerados superados por ‘modelos não intervencionistas’. 
Nesse sentindo, algumas dessas práticas devem ser totalmente abolidas e 
outras utilizadas somente quando comprovadamente necessárias. Para 
 
Simone G. Diniz (2016, 2009, 2005), estas são baseadas numa tradição e 
na crença de que o corpo feminino é naturalmente imperfeito, incapaz e 
perigoso. 
Ademais, ressaltamos que há mais de 30 anos a OMS (1985) tem 
incentivado o parto vaginal,o aleitamento materno no pós-parto imediato, 
o alojamento conjunto (mulher-puérpera e recém-nascido), a presença do 
pai ou outra/o acompanhante no processo do parto e a atuação de 
enfermeiras obstétricas na atenção aos partos normais. Soma-se, ainda, às 
orientações a inclusão de parteiras leigas no sistema de saúde, nas regiões 
nas quais a rede hospitalar não se faz presente (TORNQUIST, 2002), e 
das doulas (DINIZ, et al, 2016; OMS, 1996). Isto é, essas recomendações 
não são novidades para os/as profissionais de saúde, exceto a mais 
recente, como a participação das doulas, que também é incentivada pelo 
Ministério da Saúde (MS) (BRASIL, 2001). 
No âmbito legal, em 2013, o Ministério do Trabalho incluiu a 
atuação das doulas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) 
(FONSECA, et al, 2017). Todavia, elas encontram dilemas no campo 
hospitalar por não serem profissionais de saúde (SANTOS e NUNES, 
2009). Por esse motivo, algumas(ns) trabalhadores da saúde possuem uma 
postura de resistência com relação à presença e atuação das doulas no 
cenário do parto (FERREIRA JR, 2015; SANTOS e NUNES, 2009), 
inclusive por desconhecimento do seu papel (SANTOS e NUNES, 2009). 
Por esses motivos, segundo Sara S. Mendonça (2015), são constantes os 
embates entre elas e médicos/as e/ou hospitais que representam os 
modelos ‘mais intervencionistas’ de assistência obstétrica. 
Nos últimos anos, estados e cidades15 autorizaram legalmente as 
Doulas a adentrar nas maternidades públicas. Santa Catarina se destaca 
por ser a primeira região a sancionar tal Lei, começando por Blumenau, 
em 2014, em seguida, ampliada a todo estado com a Lei nº 16.869, de 15 
de janeiro de 2016. Os espaços conquistados somente foram possíveis por 
força dos movimentos sociais e posteriormente do Estado, após a adoção 
da Rede Cegonha (FERREIRA JR, 2015; FONSECA, et al, 2017). Santa 
Catarina também foi pioneira ao sancionar a Lei no 17097, de 17 janeiro 
de 2017, que tipifica violência obstétrica (FONSECA, et al, 2017). 
Todavia, o acesso ao acompanhamento das Doulas não é um direito 
universal e depende, via de regra, da contratação da gestante interessada 
no serviço. 
 
15 Além de Santa Catarina, foram aprovadas também nos estados de Brasília, São 
Paulo, Rondônia, Pernambuco e nas cidades de Blumenau/SC, Rondópolis/MT, 
Uberlândia/MG, Jundiaí/SP (PORTELLA, 2017). 
 
 
32 
As Doulas brasileiras se fazem presentes, primeiramente, em 
cenários ‘menos intervencionistas’, como nos espaços domiciliares, 
assistindo aos partos. Nas maternidades públicas de Santa Catarina, a 
atuação das doulas pode ocorrer voluntariamente ou através da prestação 
de serviço pago pela mulher-gestante. Em maternidades de outros 
estados, a exemplo do Hospital Sofia Feldman e Hospital das Clínicas, 
ambos de Belo Horizonte/MG, bem como de Hospitais na Bahia, o 
trabalho das Doulas é oferecido na modalidade de voluntariado, sendo a 
formação delas oferecida pela própria instituição (LEÃO e BASTOS, 
2001; SANTOS e NUNES, 2009). No caso de Florianópolis/SC, até o 
momento, as maternidades não fornecem apoio para a formação de 
Doulas e projetos nesse sentido16. 
Cabe destacar, de acordo com Mariana O. Portella (2017), que 
mesmo nos lugares onde há Lei para a entrada das Doulas, é corrente seu 
impedimento em hospitais públicos de todo o Brasil, por restrição médica 
ou por decisão institucional. Com efeito, a autora assegura que a figura 
da Doula somente faz sentido em uma perspectiva ‘humanizada’ de 
assistência, uma vez que a proposta de oferecer apoio, e amparo físico e 
emocional à mulher-parturiente se apresenta como próprio deste modelo. 
Outrossim, a entrada delas nos hospitais não substitui e não pode ser 
confundida com o/a a presença do/a acompanhante de escolha da mulher, 
assegurada pela Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005. 
Estudos indicam (SILVA, et al., 2012; LUMLEY, 2004) que a 
presença de Doulas junto às parturientes diminui significativamente os 
procedimentos rotineiros, intervenções medicamentosas desnecessárias, 
reduz o tempo de trabalho de parto e minimiza as possíveis dores sentidas 
pela parturiente, tornando o momento do parto mais prazeroso para a 
mulher. Por essa razão, o trabalho dessas sujeitas passa a ser requerido 
por aquelas mulheres que buscam um parto respeitoso, segundo os 
princípios do movimento de humanização (FERREIRA JR, 2015). 
As Doulas são pró-movimento de humanização do parto e também 
possuem organizações políticas próprias, através de suas associações e 
movimentos estaduais e nacionais. Em Santa Catarina, um grupo delas se 
organizam através da Associação de Doulas de Santa Catarina (ADOSC). 
Segundo contatos com a atual presidenta da ADOSC, Gabriela Zanela, a 
 
16 Em 2013, o Ministério do Trabalho, através da Classificação Brasileira de 
Ocupações (CBO), enquadra as doulas como uma ocupação. Todavia, a categoria 
se autodenomina com status de profissional e, por isso, iremos assim denominá-
las. 
 
 
instituição possuía em abril de 2018 aproximadamente 90 associadas, 
todavia ela estima que Santa Catarina têm cerca de 300 doulas. 
As Doulas formam um conjunto plural de mulheres, guiadas por 
saberes teóricos e políticos diversos. Entre eles estão os denominados 
saberes: ‘holísticos’17 e ecologistas; da Medicina Baseada em Evidências 
(MBE); das Práticas Integrativas Complementares (PIC); do sagrado 
feminino; entre outros. É corrente que a formação das Doulas 
problematiza, cada qual a sua maneira, a racionalidade médica e seus 
padrões interventivos advindos da modernidade (RIESCO e 
TSUNECHIRO, 2017; VARGENS et al, 2017; SANTOS e NUNES, 
2009; LEAO e BASTOS, 2001), por secundarizarem a mulher-
parturiente. 
Contudo, estudos como de Raimunda M. Silva e colaboradoras 
(2012) apontam uma carência de pesquisas qualitativas sobre Doulas e 
seu reconhecimento na atuação junto às parturientes no Brasil. Destacam 
a importância de pesquisas desta natureza para suprir lacunas de 
conhecimento e identificar a relevância dos saberes e atuação delas nas 
equipes obstétricas, no sentido de projetar outros modelos de assistência 
à gestação, parto e puerpério. 
Diante de tal contexto, partimos do pressuposto de que as Doulas 
promovem deslocamentos de saberes coloniais que orientam o parto e que 
são referendados pela racionalidade médica, assim como os reproduz. 
Seus discursos são de promoção do protagonismo das mulheres-
parturientes e de construção de um movimento contra hegemônico ao 
saber biomédico-machista18-conservador, que sustenta a manutenção de 
uma assistência obstétrica violenta no Brasil. Geram, com isso, 
descontinuidades na formação e no modo de assistir, mas, igualmente, 
reafirmam continuidades ao buscarem institucionalizar suas práticas no 
campo da saúde. 
Disso decorre nosso interesse pelas narrativas das Doulas e nos 
leva a questionamentos, a saber: no ambiente hospitalar público, até que 
 
17 Segundo Tornquist (2001), as ideias ‘holísticos’ trazem consigo práticas e 
valores normalmente não privilegiados nos espaços institucionais de saúde, pois 
atuam a partir de concepções do modo de vida, saúde, corpo e espiritualidade que 
fogem dos padrões biomédicos ocidentais, ao usarem técnicas como massagens, 
manobras de parteiras tradicionais, chás, rezas, aromaterapia, cromoterapia, entre 
outros. 
18 De acordo com Fabíola Rohden (2001), o discurso iluminista propagou a 
imagem da racionalidade masculina em contraste com a natureza irracional das 
mulheres. 
 
 
34 
ponto há uma reprodução e incorporação do saber biomédico por estas 
profissionais? Quais saberes utilizam na prática do assistir? Quais as 
resistências presentes no cenário do parto em uma maternidade-escola 
pública e quem as manifesta? Quais as narrativas das doulas sobre o 
protagonismo da mulher-parturiente e seu lugar noparir? Seus saberes e 
atuação têm contribuído para o protagonismo das mulheres e uma 
mudança na assistência obstétrica? Como se apresenta a questão da 
espiritualidade nos saberes no cenário da parturição? 
Finalmente, consideramos que as reflexões e proposições 
apresentadas são contribuições ao debate e atuação do Serviço Social, 
bem como aos estudos produzidos no âmbito da pós-graduação. As/os 
Assistentes Sociais trabalham diretamente no atendimento às mulheres e 
suas famílias nas maternidades, bem como na atenção à Política Nacional 
de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), ao compor as equipes 
de saúde e são responsáveis por realizar práticas sócio-educativas 
individuais e coletivas com essas/es sujeitas/os, entre outros 
(MANFRINI, 2017). Desse modo, o olhar atento aos saberes que 
atravessam o parto e puerpério pode contribuir para intervenções críticas 
que privilegiam a autonomia das parturientes, e ações que desconstruam 
a percepção naturalizada da submissão e silenciamento das mulheres 
(GRIBOSKI e GUILHEM, 2006). 
 
1.3 Considerações metodológicas 
 
Esta é uma pesquisa empírica, de abordagem qualitativa 
(MINAYO, 2001), orientada pela Resolução no 196/1996 do Conselho 
Nacional de Saúde (CNS), que define as recomendações e procedimentos-
padrão para pesquisas em seres humanos. Foi protocolada no Comitê de 
Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC (CEPSH/UFSC) e 
aprovada em março de 2018, sob Número do Parecer: 2.562.762. Todas 
as doulas participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e 
Esclarecido (TCLE) (Apêndice I). 
Para o nosso referencial teórico, incorporamos leituras do campo 
interdisciplinar feminista decolonial. Estas possibilitaram discutir as 
realidades locais das doulas, bem como problematizar a importação de 
modelos obstétricos europeus e sua formação, marcada pela influencia 
norte americana (LUGONES, 2014; OLIVEIRA, 2016). A perspectiva 
decolonial nos oferece, igualmente, o suporte para recuperar os saberes e 
práticas locais, bem como a produção de conhecimento de mulheres e 
Doulas da América Latina, muito diferente da realidade dos Estado 
Unidos, Europa e outros continentes. 
 
No entanto, ao trabalhar com a categoria saber-poder, ainda, 
estamos investidas de influências coloniais, que constituíram o tema e o 
objeto de estudo. Tal categoria tem como referência um teórico homem, 
branco e europeu: Michel Foucault. Sabemos que a ciência é um sistema 
de crenças, construções sociais, e que as/os pesquisadoras/es estão 
imbuídos/as de categorias de pensamento e interpretações limitadas e 
circunscritas geracional, cultural e historicamente, de modo que as 
questões metodológicas são sempre delicadas (TORNQUIST, 2004). 
Contudo, os estudos de Michel Foucault (2017, 2006, 2005, 1997, 
1996, 1992, 1980) são importantes para a apreensão da relação de saber-
poder que atravessam as narrativas e o cotidiano das mulheres, bem como 
para compreender a reprodução da dominação de gênero nos corpos, 
relações sociais e instituições. O diálogo entre leituras tão particulares 
podem sugerir as limitações desse trabalho, que de certo modo são 
acolhidas e refletidas. Ao mesmo tempo, a investigação feminista tem 
uma maneira particular de pesquisar e produzir conhecimento de, com e 
para as mulheres, ‘livres’ de valores androcêntricos e sexistas, sem 
desconsiderar a necessidade de problematizar as escolhas teórico 
metodológicas. 
Buscamos em todo processo relativizar certezas, estranhar o 
familiar, deslocar olhares, e contextualizar o particular. Esse movimento 
apresenta desafios e somam-se a eles, conforme Cláudia Fonseca (1997), 
a questão da subjetividade e das emoções que estão envolvidas no 
encontro da/o pesquisadora/r ou da/o ‘sujeita/o cognoscente’. Ou seja, a 
construção do estudo e, particularmente, o encontro com as mulheres 
entrevistadas não é interpessoal. Pesquisadora e Doulas são sujeitas/os 
sociais, estando, portanto, verdadeiramente informadas pela forma como 
foram socializada/os. 
Durante a elaboração, maturação e execução desta pesquisa, 
utilizamos o diário de campo como ferramenta para registrar ideias, 
observações e novas descobertas, que se somaram ao corpus de análise. 
A observação se fez presente em vários espaços, como: em eventos onde 
o tema foi discutido; rodas de conversa; reuniões com Doulas; 
apresentação de trabalhos acadêmicos; durante as entrevistas realizadas. 
Tivemos como “sujeitas cognoscentes” Doulas que atuam/atuaram 
no Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago da 
Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC). Nossos critérios de 
inclusão para composição do corpus foram: Doulas que estiveram na cena 
do parto e assistiram mulheres na Instituição cenário de coleta de dados; 
possuírem maioridade; terem mais de seis meses de atuação; contarem 
com cadastro de atuação no HU-UFSC. 
 
 
36 
As doulas, por não fazerem parte do corpo técnico de profissionais 
do HU-UFSC, adentram na maternidade após um processo de cadastro, 
identificação e avaliação realizada pela equipe Comissão Interdisciplinar 
de Assessoria à Maternidade (COMATER)19 da Instituição. Segundo a 
enfermeira do Ambulatório de Tocoginelogia, responsável por receber os 
cadastros das doulas, em outubro de 2017 o HU/UFSC possuía o cadastro 
de 56 doulas aptas a atuar na maternidade. Lembramos que essa atuação 
está condicionada à contratação de livre escolha das mulheres-gestantes 
interessadas nesse serviço. 
O interesse de interlocução com elas está relacionado a seis 
motivos, a saber: estarem diretamente ligadas à assistência ao parto e à 
mulher-parturiente; no âmbito hospitalar, o ‘cuidado’ à parturição é 
historicamente atribuído às mulheres, antes às parteiras, agora às 
enfermeiras e, recentemente, em Santa Catarina e em outros estados, 
compartilhado com as Doulas (Lei Estadual nº 16.869 de 15 de janeiro de 
2016); representarem profissões eminentemente femininas e associadas 
ao ‘cuidado’ da mulher-parturiente; estarem habilitadas e serem 
reconhecidas legalmente para assistirem à mulher no momento do parto 
em Santa Catarina (Lei Estadual nº 16.869 de 15 de janeiro de 2016); 
terem uma formação que problematiza o modelo biomédico; 
corroborarem com a viabilização de políticas públicas (REDE 
CEGONHA, 2011; BRASIL, 2001) e recomendações internacionais 
(OMS, 2018, 1996, 1985). Estas contemplam a superação dos modelos 
‘mais intervencionistas’/modelo biomédico. 
Inicialmente, tivemos como interesse de pesquisa Enfermeiras 
Obstétricas e Doulas, pelos mesmos motivos citamos acima. Após a 
aprovação do projeto no CEPSH/UFSC, fizemos contato telefônico com 
a chefia da maternidade do HU, afim de apresentar a pesquisa e solicitar 
os contatos das Enfermeiras Obstétricas atuantes no Centro Obstétrico-
HU (CO) e a lista de Doulas autorizadas a acompanhar partos na 
Instituição. Em resposta, a chefia solicitou que enviássemos o projeto de 
pesquisa, parecer do CEPSH/UFSC e documentos assinados pela direção 
do hospital com autorização da pesquisa. Enviamos os arquivos 
solicitados para a chefia da maternidade e do CO. A primeira ficou de 
disponibilizar a lista dos contados das Doulas e a segunda das 
enfermeiras. 
 
19 Mais detalhes sobre os critérios e normas de trabalho das doulas no HU/UFSC 
podem ser conferidas em: 
< http://www.hu.ufsc.br/?p=3502>. 
 
A demora no envio da lista de Doulas nos levou a outros quatro 
contatos telefônicos com a chefia da maternidade, porém sem sucesso. 
Diferentemente dessa situação, o contato das Enfermeiras Obstétricas foi 
disponibilizado pela chefia do CO em uma semana, figurando na lista 
todas as profissionais do setor (oito enfermeiras). Enviamos um convite 
formal de participação, via e-mail, para as oito Enfermeiras Obstétricas. 
Destas, duas aceitaram o convite, todavia declinaram depois de alguns 
dias. Outra Enfermeira justificou que não achava coerente fazer uma 
pesquisa onde houvesse‘comparação’ entre Doulas e Enfermeiras 
Obstétricas, e explicamos, por telefone, que essa não era a intenção, 
porém ela estava convencida a não participar. As demais não 
responderam ao primeiro contato. 
Nesse cenário, insistimos em uma segunda tentativa via e-mail 
com as profissionais que não haviam respondido. Novamente, tivemos 
apenas duas respostas: uma referiu que preferia não participar, devido à 
frágil situação profissional no setor, estando em vias de ser removida; 
outra se posicionou afirmativamente, sendo, posteriormente, entrevistada. 
No entanto, não incorporamos os dados coletados na análise, por não 
contemplar os critérios de inclusão, uma vez que esta enfermeira não 
havia concluída a especialização em Enfermagem Obstétrica e trabalhava 
no setor há apenas três meses. 
Em função da não disponibilização da lista de Doulas pelo Setor 
da Maternidade, recorremos à rede de contatos pessoais para acessá-las 
de outras formas. Acionamos uma colega de Núcleo de Pesquisa, membra 
da diretoria da Associação de Doulas do estado, que se dispôs a divulgar 
a pesquisa em um grupo de WhatsApp das associadas da ADOSC. 
Criamos um pequeno texto apresentando as pesquisadoras, a pesquisa e 
os critérios de inclusão, que foi enviado por essa colega ao referido 
Grupo. Das 90 doulas cadastradas, nove (09) manifestaram interesse em 
participar. Aquelas que se disponibilizaram, informaram seus respectivos 
e-mails para agendarmos a entrevista. Dessas, cinco declinaram: uma 
alegou não ter mais disponibilidade de tempo; outra não respondeu mais 
aos contatos, sem justificar o motivo; duas desmarcaram diversas vezes, 
o que contribuiu para inviabilizar a realização das entrevistas; outra pediu 
o TCLE da pesquisa e não retornou às tentativas de contato. 
Portanto, das nove (09) Doulas que se colocaram, quatro (04) 
foram entrevistadas e indicaram outras cinco (05), conforme a técnica 
Bola de Neve (VINUTO, 2014). Todas as Doulas indicadas responderam 
ao nosso contato, entretanto, duas sinalizaram que não poderiam 
participar, uma por estar afastada da atividade e outra por questões de 
agenda, e três (03) foram entrevistadas, sendo todas associadas à ADOSC. 
 
 
38 
Durante o contato com as Doulas, fomos convidadas a participar de uma 
reunião para debater atividades de doulagem na atenção básica no SUS, 
que resultou na incorporação de mais três doulas ao corpus - duas não 
eram associadas à ADOSC. Desse modo, o corpus foi composto pela 
narrativa de dez (10) Doulas que acompanharam partos na maternidade 
do HU/UFSC. As entrevistas foram realizadas no primeiro semestre de 
2018. 
A técnica de Bola de Neve (VINUTO, 2014) é uma forma de 
amostra não probabilística, que utiliza cadeias de referência. Tem por 
dinâmica incorporar ao estudo pessoas indicadas, com as características 
desejadas, a partir da própria rede pessoal dos/as entrevistados/as. O 
quadro de amostragem pode crescer a cada entrevista, caso seja do 
interesse da/o pesquisadora/r. 
Um dos limites dessa técnica, como assinala Juliana Vinuto 
(2014), é o possível inconveniente de acessar apenas argumentações 
semelhantes, uma vez que os/as indivíduos/as necessariamente indicarão 
pessoas de sua rede pessoal, o que pode limitar a diversidade de narrativas 
possíveis e desejáveis. Nesse sentido, percebemos a limitação dessa 
ferramenta ao longo das entrevistas, pois notamos que as doulas 
associadas à ADOSC nos indicavam somente colegas da diretoria, como 
uma possível estratégia de assegurar seu posicionamento ideo-político. 
Todavia, acessamos outros grupos de doulas que não estavam filiadas, 
igualmente identificados na reunião mencionada. Estes apresentaram 
outras narrativas, trabalhadas adiante. Apesar das limitações da técnica 
Bola de Neve (VINUTO, 2014), ela é útil quando se caractertiza como a 
forma disponível para se estudar o grupo em questão. 
Destacamos que, apesar da aparente receptividade das Doulas, um 
conjunto delas desistiu, outras não responderam mais aos contatos ou 
desmarcaram sucessivamente os encontros, embora tenhamos colocado 
nossa agenda à total disposição, oferecendo flexibilidade de local, horário 
e data. Os motivos para o adiamento das entrevistas, inclusive daquelas 
que integraram o corpus, foram diversos, como: compromissos no mesmo 
horário; adoecimento; incompatibilidade de agenda; indisposições. O 
universo de participantes foi delimitado pelo critério de saturação teórica 
e empírica, isto é, “interrompe-se a coleta de dados quando se constata 
que elementos novos para subsidiar a teorização almejada (ou possível 
naquelas circunstâncias) não são mais depreendidos a partir do campo de 
observação” (FONTANELA, et al, 2011, p. 389). 
Para a coleta de dados utilizamos a entrevista semiestruturada 
(Anexo I), elaborada a partir da revisão bibliográfica. Os registrados 
contaram com o auxílio de um gravador de voz e de anotações em diário 
 
de campo. Antes do início da entrevista, apresentamos o TCLE (Apêndice 
I) para todas as sujeitas que aceitaram participar da entrevista, assim, 
solicitamos suas respectivas assinaturas no referido documento. 
Os TCLE’s e transcrições das entrevistas de posse das 
pesquisadoras estão arquivados em local seguro e serão destruídos após 
cinco anos. Afim de garantir o sigilo da identidade das participantes, terão 
acesso a esses documentos somente as pesquisadoras do estudo. 
Conforme os compromissos éticos, seus nomes, imagem e voz serão 
mantidos em sigilo durante todo processo da pesquisa e elaboração da 
dissertação. Para tal, receberão codinomes fictícios representados pela 
letra D, seguido de um número. 
Desde o primeiro contato com as participantes, buscamos abordá-
las com respeito, considerando os direitos humanos e sociais, buscando, 
ainda, criar uma atmosfera de cordialidade e simpatia, que é de extrema 
importância para o sucesso da entrevista. Com isso, foi possível 
estabelecer o rapport (quebra de gelo) entre entrevistadora e entrevistada 
(FLEISCHER, 2006; GIL, 2004). Nesse ambiente, a participante pode 
sentir-se livre para interromper, pedir esclarecimentos e/ou criticar o tipo 
de perguntas. 
As entrevistas foram realizadas em ambiente, horário e data 
indicadas pelas Doulas. Desse modo, supomos que as sujeitas da pesquisa 
estivessem em condições que lhes era mais agradável e confortável. Tal 
escolha pode contribuir para a construção de uma relação de confiança e 
respeito entre pesquisadora e participante, o que somou para a qualidade 
da coleta de dados. Realizamos um encontro individual com as 
participantes da pesquisa, exceto em um caso, onde foi necessário 
interromper a entrevista devido ao inicio de uma reunião, sendo finalizada 
em outro dia. Posteriormente, ao término das entrevistas, fizemos a 
transcrição das mesmas e registramos as primeiras impressões em diário 
de campo. 
Os dados coletados buscaram responder aos objetivos dessa 
pesquisa a partir de narrativas que estão situadas em um contexto pessoal 
e coletivo. Com efeito, entendemos, segundo Corinne Squire (2014), que 
as narrativas são compreendidas como práticas de processamento 
retrospectivo das próprias experiências de ação narradas oralmente e 
espontaneamente por uma/m entrevistada/o (SCHÜTZE, 2014; SQUIRE, 
2014). A fundação básica das narrativas é “fazer com que pessoas não 
envolvidas participem, de maneira mediada, de constelações de 
acontecimentos relativamente coesos em si, isto é, de história” 
(SCHÜTZE, 2014, p. 13). As narrativas são, portanto, “uma cadeia de 
signos com sentidos sociais, culturais e/ou históricos particulares, e não 
 
 
40 
gerais” (SQUIRE, 2014, p. 273). Neste tocante, as narrativas ocorrem 
num tempo e espaço determinado e apresentam características peculiares 
e específicas. O fato de as narrativas estarem arraigadas no particular, nos 
permite trazer à pesquisa fenômenos que são novos, ignorados ou 
vedados, devido à sua complexidade. Corinne Squire (2014) discorre que 
a particularidade das históriasverbais é o que distingue a narrativa da 
teoria, visto que explicam através da especificidade. Ademais, informa 
que as narrativas podem permitir transferibilidade e heurística, mais que 
generalização e preditibilidade. 
A análise temática (BARDIN, 2010, 1977) das narrativas ocorreu 
após todas as entrevistas estarem transcritas e impressas. Esta 
metodologia consiste em um conjunto de técnicas de análise de 
comunicações de textos e documentos, realizada através de 
procedimentos sistemáticos que codificam e categorizam o material, 
visando a interpretação do mesmo a partir do referencial teórico adotado. 
A metodologia é elaborada em três etapas principais: 1) pré-análise: é o 
primeiro contato com os dados e compreende leitura flutuante, 
organização do material, bem como o destaque das palavras que 
chamarem atenção; 2) exploração do material: consiste na codificação e 
categorização dos dados; 3) tratamento dos resultados: etapa final que 
permite a interferência e interpretação dos resultados. 
A discussão dos resultados foi eminentemente privilegiada nas 
seções 3 e 4, com destaque para este último. No capítulo 2, evidenciamos 
o processo histórico da institucionalização do parto, os biopoderes e 
disputas imbricadas nesse processo. Do mesmo modo, discorremos sobre 
o ‘Movimento de Doulas’ no Brasil, frisando acerca do desenvolvimento 
dessa “nova” personagem na cena obstétrica. No capítulo 3, trazemos a 
caracterização das “sujeitas cognoscentes” da pesquisa, contextualizando 
as narrativas das participantes do estudo. Na sequência, abordamos os 
saberes que atravessam o parto através do olhar das entrevistadas, 
destacando a interpretação dos sentidos temáticos encontrados para as 
categorias saberes, espiritualidade e protagonismo da mulher-parturiente. 
A seguir, fazemos o exercício de mergulhar nas reflexões sobre o 
campo do parto e nascimento a partir dos estudos feminista e de gênero, 
assumindo que os aspectos subjetivos das pesquisadoras devem ser 
revelados, sem o temor de perda da validade da pesquisa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42 
2 Parto, biopoderes, disputas e os Movimentos de Doulas no Brasil 
 
Nesta seção, desenvolvemos o referencial teórico adotado que 
informa a análise e a interpretação dos dados, a partir da literatura sobre 
o processo de institucionalização do parto e os modelos de assistência 
obstétrica, com destaque aos saberes e biopoderes transversais ao cenário 
do parto, e à abordagem dos estudos feministas e de gênero. Para finalizar 
essa parte, tomamos como centralidade o ‘Movimento de Doulas’ no 
Brasil e seus desafios endógenos e exógenos. 
 
2.1 O parto e seu processo histórico 
 
O parto é atravessado por saberes, mitos, explicações científicas, e 
dimensões políticas, econômicas, culturais, éticas e religiosas. Em torno 
dele, ocorre uma miríade de discursos, compreensões e argumentos, que 
informam ações e práticas sociais, mas, sobretudo, explicitam sentidos e 
lugares de fala. Desse modo, abordaremos alguns sentidos presentes na 
literatura, que orientarão o debate dos dados da pesquisa. Destacamos que 
a maior parte da produção e argumentação aqui apresentadas são 
produzidas por mulheres feministas das áreas de antropologia, sociologia, 
história e saúde coletiva. 
Para a antropóloga Carmem S. Tornquist (2004), o parto e 
nascimento são eventos a um só tempo biológico, cultural e individual. 
Isto é, as mulheres parem de formas diferenciadas, conforme o contexto 
histórico em que vivem, sua cultura particular e experiências pessoais. 
Acrescenta, ainda, que ele é vivenciado como um ritual de passagem, 
demarcando mudanças tanto corporais, quanto familiares e sociais. 
Segundo a historiadora Ana Paula V. Martins (2004), o parto é um 
evento social e histórico e, por isso, possui dispositivos morais, rituais, 
códigos e tradições. Elaine Müller e colaboradoras (2015) afirmam que o 
parto é envolto por tabus, sendo simultaneamente considerado “sagrado” 
e “impuro”. Para a pesquisadora Rosamaria G. Carneiro (2015), o parto, 
antes de ser fisiológico, é um acontecimento psíquico, emocional, 
pessoal, familiar, social e cultural, atravessado pela sexualidade e 
espiritualidade. E, tal acontecimento está interseccionado aos debates e 
concepções sobre maternidade, corpo, feminilidade, saúde-doença, 
pessoa, direitos sexuais e reprodutivos e movimentos feministas. 
 
Nos parâmetros dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) 
(2017)20 da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), o parto é definido como 
a “Expulsão do feto e placenta sob os cuidados de um obstetra ou 
profissional da saúde. Os partos obstétricos podem envolver intervenções 
físicas, psicológicas, clínicas ou cirúrgicas”. A concepção desse Banco, 
por ser referência profissional e acadêmica à área da saúde, evidencia qual 
é a ideia norteadora do fenômeno para o campo obstétrico. Observa-se 
que o principal destaque repousa na ideia parto como algo psico-
fisiológico e receptor de intervenções. 
Dentre as possíveis leituras acerca do parto, compartilhamos da 
abordagem proposta pela epistemologia feminista, presente na obra das 
autoras: Carmem S. Tornquist, (2004); Ana Paula V. Martins, (2004); 
Elaine Müller e colaboradoras (2015); Romaria G. Carneiro (2015); 
Camila Pimentel (2017). Tais abordagens compreendem a mulher como 
agente do seu próprio parto, além de considerá-lo em sua complexidade 
pessoal, social, familiar, comunitária, cultural, histórica, afetiva, cidadã, 
biológica, e contextualizar seus marcadores sociais da diferença (gênero, 
classe, orientação sexual, geração, religião, raça/etnia, deficiência). Por 
isso, entendemos o parto para além da concepção ‘psico-fisiológico’ 
corrente no modelo biomédico. Ademais, adotamos a epistemologia 
feminista decolonial como leitura analítica, pois possibilita investigações 
críticas, desconstrutivista e propositivas, que consideram os núcleos de 
dominação implícitas e explicitas da ciência e do sexismo (SALGADO, 
2008), projetando a realidade das mulheres latinas e suas experiências. 
A concepção, a gravidez e o parto são fenômenos que sofreram 
profundas modificações nos últimos séculos com o desenvolvimento 
científico e econômico-mercantil (MÜLLER, et al, 2017). 
Historicamente, a assistência ao parto e às mulheres-puérperas foram 
realizadas por outras mulheres, chamadas de parteiras ou assistentes de 
parto. Estas podiam ser amigas, familiares, vizinhas ou da comunidade, 
desde que consideradas experientes para colaborar com este momento. 
Até o século XVII, quando surgiram os primeiros e escassos parteiros, 
esta era uma tarefa exclusiva de mulheres (ACKER, et al, 2006). 
Nota-se, no entanto, que a profissão de parteira é considerada umas 
das mais antigas do mundo, citada em escritos bíblicos de 
aproximadamente 1.445 ‘a.C.’. Segundo Justina Inês B. V. Acker e 
colaboradas (2006), as parteiras trabalharam desde os primórdios, porém 
 
20 Ver Descritores em Ciências da Saúde: Rede internet. ed. rev. e ampl. São 
Paulo: BIREME / OPAS / OMS, 2017. Disponível em: < http://decs.bvsalud.org 
>. Acesso em 22 de junho. 2017 
 
 
44 
sem remuneração e horário estabelecidos, sendo seus conhecimentos 
transmitidos oralmente de geração em geração. Além de ajudar no parto, 
as parteiras prestavam cuidados após o nascimento do recém-nascido/a, 
cumprindo rituais e realizando aconselhamentos de acordo com a cultura 
local (ACKER, et al, 2006). Carmem S. Tornquist (2004) argumenta que 
no século XIX o ofício de partejar era uma das poucas carreiras femininas 
de prestígio. 
Na Europa do século XVIII, houve a disseminação das escolas de 
parteiras, respondendo ao higienismo em curso e normatizando as ações 
das parteiras (MARTINS, 2004). No Brasil, foi na década de 1830 que 
esses cursos chegaram, com vistas a ‘qualificar’ as parteiras, 
referenciando a atuação em pesquisas científicas

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