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Jose Matias-Pereira
Manual de
Gestao PUblica
Contemporanea
4~ edi.;ao
Revista e atualizada
Inclui analise dos efeitos das mudan<;as de paradigmas na
administra<;ao publica brasileira
9
Planejamento e gestao estrategica:
conceitos e ferramentas
A maio ria das pessoas nao planeja fracassar; fracassa por nao planejar.
(Most people don't plan to fail; they fail to plan.)
JOHN L. BECKLEY 0913-1998)
INTRODUGAO
o planejamento e uma prcitica essencial na administrac;ao - publica ou
privada -, devido aos beneficios que a utilizac;ao desta ferramenta traz as or-
ganizac;6es. Entre eles, podemos destacar a elevac;ao da eficiencia, eficacia e
efetividade da organizac;ao, pois contribui para evitar a desorganizac;ao nas
operac;6es, bern como para 0 aumento da racionalidade das decis6es, redu-
zindo os riscos e aumentando as possibilidades de alcanc;ar os objetivos da
organizac;ao. 0 planejamento possibilita a coordenac;ao de diferentes pessoas,
projetos e ac;6es em curso; a aplicac;ao racional (otimizada) dos recursos dispo-
nlveis ou escassos; e 0 aumento da responsividade ao lidar com mudanc;as, na
medida em que faz parte do processo de planejar e especular sobre fatores do
ambiente que afetam a organizac;ao (MATIAS-PEREIRA,2012).1
o planejamento pode ser entendido como urn processo interativo que se
desdobra em etapas diferenciadas e, sendo 0 planejamento a racionalizac;ao do
I MATIAS-PEREIR, Jose. Curso de planejamento governamental. Sao Paulo: Atlas, 2012.
124 Manual de Gestao Publica Contemporiinea • Matias-Pereira
processo decisorio, essas etapas tern, necessariamente, 0 mesmo sentido da-
quelas identificadas no processo da decisao.
As fases do planejamento (veja a Figura 1) sao as seguintes:
• Diagnostico: mostra 0 conhecimento da realidade.
• Polltica: a sua func;ao e definir os objetivos.
• Estrategia: deve indicar as opc;6es dos rumos a seguir para alcanc;ar os
objetivos.
• PIanos: tern como proposito viabilizar os objetivos e estrategias.
• Execuc;ao: esforc;o orientado para a implementac;ao das ac;6es progra-
madas.
• Controle: visa permitir acompanhar a execuc;ao e avaliar os resultados
alcanc;ados, para que possam ser comparados com os objetivos ante-
riormente definidos.
Analise da situa<;:ao
Levantamento do poder
Decisao
Inteligencia
Obices .
~ , '~Ob)eti,O.
Logistica
Fonte: Matias-Pereira (201 Oc, 2012), com adapta<;:6es.
Figura 9.1 Fasesdo planejamento.
AS DIFERENTES DEFINI<;OES DE PLANEJAMENTO
Na teoria da administrac;ao, existem diferentes definic;6es de planejamen-
to. Para diversos autores, como, por exemplo, Baptista (1981, p. 13),0 termo
Planejamento e gestiio estrategica: conceitos e ferramentas 125
planejamento se refere ao processo permanente e metodico de abordagem ra-
cional e cientifica de problemas. Para Ackoff (1967, p. 3), e urn processo que
se destina a produzir urn ou rnais estados futuros desejados e que nao deverao
oeorrer a menos que alguma coisa seja feita. Observa-se que essas definic;:6es
estao relacionadas, em gera1, com conceitos de: 10gica, racionalidade, expecta-
tivas sobre cenarios futuros, mensurac;ao dos niveis de risco e incertezas, siste-
matizac;ao de informac;6es e procedimentos sequenciais, entre outros.
o processo de concepc;ao de urn plano de ac;ao e realizado por meio do pla-
nejamento. Nesse sentido, 0 propos ito do plano e atingir urn conjunto de obje-
tivos, 0 que implica dizer que 0 ato de planejar requer a existencia de objetivos.
Por sua vez, 0 planejamento estrategico e 0 mesmo que planejamento, mas
com enfase no aspecto de longo prazo dos objetivos, e na analise global do ce-
nario. Assim, 0 planejamento e estrategico quando se da enfase ao aspecto de
longo prazo dos objetivos e a ancilise global do cenario (big picture).
o PLANEJAMENTO COMO PROCESSO
Sabe-se que, para a produc;ao de qualquer tipo de bern ou servic;o, quan-
to menos recursos forem alocados, maior sera a capacidade de investimento
do Estado, regra tambem valida para qualquer empresa. Quando se estuda a
questao do processo de produc;ao de bens e servic;os publicos demandados pela
sociedade, necessita 0 Estado, antecipadamente, decidir os tipos, a quantidade
e a qualidade dos bens ou servic;os que ira produzir. Assim, tern os responsa-
veis pelo processo de planejamento, como referencial basico, 0 fato de que a
utilizac;ao desses recursos escassos devera ser feita da maneira mais racional
e eficiente posslve!. E para que isso ocorra adequadamente e que se utiliza 0
planejamento.
o planejamento pode ser visto como urn conjunto de ac;6es interligadas e
complementares, realizadas nas diferentes instancias da organizac;ao governa-
mental, com vista no atingirnento de determinado objetivo. Envolve urna serie
de atividades que vaG manter e alimentar esse cicIo, que e continuo, entre as
quais figuram estudos, decis6es estrategicas e taticas sobre prioridade, a for-
mulac;ao de pIanos e programas, 0 acompanhamento e 0 controle de sua exe-
cuc;ao. Pressup6e, ainda, a possibilidade de novos fatos e situac;6es que podem
influir no desenvolvimento desse processo, revertendo e alterando os rumos e
os conteudos dos trabalhos que realiza. Apresenta-se como uma forma de ac;ao
continua, permanente e sistematica, que, ao longo de seu desenvolvimento,
incorpora a ideia de atuac;ao conjunta dos diversos setores da organizac;ao, de
Planejamento e gestao estrategica: conceitos e ferramentas 127
o plano, programa ou projeto e, portanto, a expressao fisica, ou 0 docu-
mento, resultante do processo de planejamento. 0 orc;amento, por sua vez,
apresenta-se como urn instrumento do planejamento.
FUNGOES DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO
o processo de plancjamento cornpreende as seguintes func;6es: planeja-
mento, execuc;ao, controle e avaliac;ao. 0 planejamento, conforme ja ressal-
tado, e urn processo dinamico de racionalizac;ao coordenada das opc;6es, per-
mitindo preYer e avaliar cursos de ac;ao alternativos e futuros, com vista na
tomada de decis6es mais adequadas e racionais. A execuc;ao consiste em fazer
com que as tarefas sejam realizadas de acordo com 0 plano, isto e, organizar e
distribuir tarefas e delegar autoridade para a execuc;ao. 0 controle e 0 conjunto
de ac;6espara que as pessoas se comportem da forma determinada pelo plano,
para isso comparando-se 0 previsto com 0 realizado, verificando-se os desvios
e tomando-se as providencias corretivas. E constituindo-se de certa forma urn
controle, podemos considerar, finalmente, a avaliac;ao de resultados, apos 0
que se inicia novo cicIo.
Em relac;ao as fases do planejamento, podem ser cIassificadas na seguinte
ordem: definic;ao e equacionamento preliminar do problema; elaborac;ao das
diretrizes basicas do planejamento; fixac;ao dos objetivos; coleta preliminar de
dados; levantamentos e pesquisas complementares; estabelecimento de proje-
<;5ese previs6es; analise e discus sao dos dados; apresentac;ao de alternativas
au opc;6es; formulac;ao de decis6es ou propostas; integrac;ao de pIanos parciais,
desdobramento em pianos derivados ou replanejamento; redac;ao e apresen-
ta<;aodo plano. E importante considerar que 0 planejamento exige informa-
<;5esestatisticas adequadas, contribuic;ao interprofissional e institucionalizac;ao
para a execuc;ao do plano.
Vislumbra-se 0 planejamento como urn processo dinamico, que se concre-
tiza por meio de aproximac;6es sucessivas, compreendendo a formulac;ao sis-
tematica de urn conjunto de decis6es, devidamente integradas. Essas decis6es
traduzem os propositos da instituic;ao e definem os meios de atingi-Ias, visando
maximizar 0 uso dos fatores de produc;ao (terra, capital, trabalho etc.).
o planejamento pode ser implementado de modo: democratico, quando
tern como func;ao induzir as ac;6es do setor privado; totalitario, quando deter-
mina e controla as ac;6es dos setores economicos; e misto, quando promove a
intervenc;ao e ac;ao direta em alguns setores da economia. Em relac;ao ao tem-
po de durac;ao, pode-se ter 0 planejamento: conjuntural (menos de urn ano);
128 Manual deGestao Publica Contemporiinea • Matias-Pereira
de curto prazo (urn a tres anos); de medio prazo (tres a seis anos); e de longo
prazo (acima de seis anos).
Tratando-se de areas de interesse, 0 planejamento pode ter enfoque global,
au seja, incIuir todos os setores da economia, ou setorial: agricultura, indus-
tria e servic;os. Pode-se ter 0 planejarnento macroeconomico, orientado para a
atividade total dos participantes do processo economico, como e 0 caso do pla-
nejamento naciona1 ou planejamento regional; e 0 microeconomico, quando
enfoca os agentes individuais do processo.
PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO ECONOMICO
A atividade economica e implementada por meio de diversas formas de
organizac;ao, considerando que bens e servic;os sao produzidos pelas unidades
farniliares, por empresas e pelo Estado. Para 0 exerdcio da atividade economi-
ca, as formas de organizac;ao se interagem, 0 que nao permite ter referencias
definidas entre as atividades das unidades familiares e a comercial e entre a
atividade governamental e a privada.
Pode-se cons tatar, a partir da elaborac;ao do planejamento do desenvolvi-
mento economico, que nao se deve deixa-Io ao sabor das forc;as do mercado.
Nesse sentido, e fundamental dedicar-Ihe esforc;o deliberado, orientado de for-
ma espedfica, com vista em tornar 0 ritmo de crescimento da economia mais
dinamico.
A programac;ao do desenvo1vimento visa permitir uma visao completa do
desenvolvimento economico do pals ou da regiao com a finalidade de estabe-
1ecer urn sistema de metas coerentes de produc;ao, compativeis com a estabili-
dade do sistema. Nesse sentido, 0 desenvolvimento economico e urn processo
a longo prazo, do qual fazem parte muitas atividades. 0 projeto, por sua vez,
constitui a menor atividade que se pode planejar, analisar e executar adminis-
trativarnente. A selec;ao de urn projeto e estrategica, pois, se nao for acertada,
os esforc;os posteriores ficarao seriamente comprometidos.
Sabendo-se que 0 planejamento e a implementac;ao do desenvolvimento
economico comp6em-se de etapas interdependentes, pode-se considerar que
o processo e mais bern descrito como urn cicIo que se repete. Com 0 passar do
tempo, os cicIos mais recentes levam em conta os novos dados e os fatos mais
recentes.
o planejamento do desenvolvimento economico tern como objetivos: au-
mentar a renda nacional; aumentar 0 emprego; melhorar a posic;ao do balanc;o
Planejamento e gestao estrategica: conceitos e ferramentas 129
de pagamentos; diminuir os desniveis regionais; melhorar a distribui<;ao de
renda; aumentar a produtividade do setor agricola; manter uma taxa adequa-
da de crescimento real da renda nacional; promover a ocupac;ao territorial, a
integra<;ao nacional e a exp10rac;ao dos recursos naturais; atingir niveis ade-
quados de seguranc;a e bem-estar social.
Em relac;ao a questao do subdesenvolvimento, verificam-se entre suas ca-
racteristicas urn baixo nivel de desenvolvimento tecno16gico e industrial, baixa
renda per capita, analfabetismo etc. Constatam-se, no tocante aos indicadores
basicos do nlvel de vida dos paises em desenvolvirnento, problemas na renda
per capita, deficiencias no nlvel de instruc;ao e de alimentac;ao, reduzida des-
tinac;ao de recursos publicos para aplicac;ao em educac;ao, saude e habitac;ao,
entre outros.
Nas atividades relacionadas as etapas do planejamento global, deve-se de-
terminar 0 volume da demanda final de bens e servic;os, que atendam as metas
previstas para 0 desenvolvimento economico. 0 planejamento setorial, por sua
vez, visa detalhar, em cada setor, as metas estabelecidas no planejamento glo-
bal, sendo que suas etapas sao as mesmas do planejamento global. Nesse caso,
a nivel de detalhamento e mais elevado.
PLANEJAMENTO GOVERNAMENTAL
o Estado tern func;ao expHcita de planejamento. 0 planejamento gover-
namental, portanto, alem de urn instrumento da ac;ao publica, deve ser visto
como uma imposic;ao constitucional. Isso esta expHcito na Constituic;ao Federal
de 1988, por meio de varios dispositivos, que the conferem carMer imperativo,
ao estabelecer a obrigatoriedade de formulac;ao de pIanos, de forma ordenada
e sequencial, para viabilizar 0 alcance dos objetivos previamente estabelecidos,
que bus cam 0 atingimento do progresso economico e social (MATIAS-PEREI-
RA, 2010a, 2012).
Assim, a func;ao de planejamento torna-se essencial, como proposta tecni-
ca consistente para a execuc;ao de poHticas, contribuindo para uma organiza-
<;aodos servic;os publicos em termos quantitativos e qualitativos, cuidando de
sua instrumentac;ao economico-financeira, avaliando os processos de reduc;ao
ou elevac;ao das desigualdades sociais, intermediando e zelando pelo compro-
misso de equidade de oportunidades, entre outros.
Dessa forma, passa 0 planejamento governamental a constituir uma func;ao
do governo, de cunho permanente. 0 planejamento, com base nas novas atri-
buic;6es constitucionais, deixou de ser urn instrumento de carater tecnico - que
130 Manual de Gestiio Publica Contemporiinea • Matias-Pereira
poderia ou nao ser implementado, de acordo com a vontade dos dirigentes.
Tornou-se urn mecanismo jurldico por meio do qual 0 dirigente passou a ter a
obrigac;ao de executar sua atividade governamental na busca da realizac;ao das
mudanc;as necessarias para alcanc;ar 0 desenvolvimento economico e social. Os
pianos, depois de sua aprovac;ao, adquirem caracteristicas jurldicas, com natu-
reza e efeitos de lei, podendo instituir direitos e obrigac;6es, alem de autorizar
a realizac;ao de despesas.
o planejamento, ao assumir a condic;ao de atividade permanente e con-
tInua de gerac;ao de servic;os, de bens e de mudanc;as economicas e sociais,
incorporou algumas caracteristicas e formas, como func;ao gerencial e como
processo. Registre-se que, na condic;ao de func;ao gerencial, 0 planejamento e
desenvolvido em todos os nlveis da organizac;ao, nas dimens6es estrategica,
tatica e operacional, com a representac;ao de todas as instancias e de todos os
membros da organizac;ao. Como processo - que busca transformar a realida-
de -, 0 planejarnento constitui uma atividade integrativa, viabilizando urn sis-
tema de tomada de decis6es, que atua como marco de referencia para as outras
atividades da organizac;ao governamental.
Cabendo ao Estado, conforme observado na fase introdutoria deste liVIO, a
responsabilidade de viabilizar 0 funcionamento dos servic;os publicos essenciais
demandados pela coletividade, 0 custeio desses servic;os publicos realiza-se por
meio da transferencia de parcelas dos recursos dos individuos e das empresas
para 0 governo, completando, assim, 0 drculo financeiro entre sociedade e Esta-
do. Dessa forma, a poHtica fiscal se orienta para: a pol(tica tributaria, em sentido
lato, que se materializa na captac;ao de recursos, para atendimento das func;6es
da adrninistrac;ao publica, por meio de suas distintas esferas (Uniao, Estados,
Distrito Federal e Munidpios); e para a poi(tica orr;amentaria, no que se refere
especificamente aos gastos, ou seja, a forma de aplicac;ao dos recursos, levando
em considerac;ao a dimensao e a natureza das atribuic;6es do poder publico, bern
como a capacidade e a disposic;ao para seu financiamento pela populac;ao.
Verifica-se, nesse ambito, que a poHtica orC;amentaria, desdobrada pela
func;ao orC;amentaria da administrac;ao, apresenta-se como materia relevante
em todas as atividades governamentais, desde 0 planejamento, elaborac;ao,
discussao e aprovac;ao do orc;amento, e se completa com 0 controle.
PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO ECONOMICO
A ampliac;ao das func;6es do Estado, como estimulador do desenvolvimento
economico, tendo como preocupac;ao a promoc;ao do bern comum, determina 0
Planejamento e gestao estrategica: conceitos e ferramentas 131
emprego do planejamento de forma a possibilitar a formulac;ao de programas
para preyer e, em consequencia, aparelhar-se para atender as futuras neces-
sidades do pais. 0 planejamento apresenta-se, assim, como um processo con-
tinuo que fundamenta, antecede eacompanha a elabora~ao orc;amentaria. 0
planejamento e baseado nos seguintes elementos: recursos disponfveis; natu-
reza e importancia das opera<;6es em curso; e possibilidades futuras.
Assim, planejar significa dar transparencia e consistencia a propria ac;ao,
fixando metas e prazos para orientac;ao e prevendo os meios necessarios para
alcanC;a-las.Nesse sentido, visa 0 planejamento criar as condic;6es necessarias
para 0 atingimento das metas indispensaveis a consecuc;ao dos objetivos. Cons-
tata-se, dessa forma, que 0 planejamento e sempre anterior a ac;ao, buscando
torna-Ia mais racional e efetiva, e seu resultado busca responder as indagac;6es
do que fazer, onde fazer e quando fazer. Tem-se, do ponto de vista logico,
como prindpios do planejamento: a racionalidade, a previsibilidade, a conti-
nuidade e a exequibilidade.
Deve-se ressaltar que 0 planejamento varia de acordo com as caractedsti-
cas de cada pals - estrutura institucional, estagio de desenvolvimento, situac;ao
historic a -, e pode assumir diversas formas: pode simplesmente introduzir 0
eontrole de prec;os e de poHticas setoriais ou, em carater mais amplo, orientar
investimentos de infra-estrutura - industria de base, transportes, cornunica-
<;6esetc. Nesse sentido, Keynes demonstrou que a ac;ao govemamental e ne-
cessaria para evitar ou, pelo menos, reduzir os efeitos das crises dcIicas carac-
tedsticas do capitalismo e tambem para manter 0 pleno emprego e promover
o crescimento economico.
A partir do entendimento de que 0 planejamento se apresenta como ins-
trumento basico para a consecuc;ao do bem-estar da coletividade, papel sob a
responsabilidade do Estado, e considerando que nem sempre se pode dispor de
bens e servic;os no nlvel ideal para todos, torna-se necessario, nesse ambiente
de escassez, elaborar e implementar pianos, programas, projetos e atividades.
Verifica-se, assim, que 0 Estado e 0 principal agente para a consecuc;ao
desses objetivos e tern no planejamento urn dos instrumentos de ac;ao, com vis-
tas a corrigir desequiHbrios e a promover 0 ajustamento do desenvolvimento
nacional.
Por sua vez, os elementos constitutivos da poHtica economica planejada
sao: previsao, coordenac;ao e consecuc;ao de objetivos determinados, 0 que tor-
nou 0 planejamento uma atividade normal no ambito estatal, ao lado de outras
func;6es governamentais.
132 Manual de Gestao Publica Contemporiinea • Matias·Pereira
Assim, planejamento e plano visam alcanc;ar eficiencia, isto e, a execuc;ao
perfeita de uma tarefa que se realiza, bern como a eficacia, ou seja, que se fa-
c;arnas coisas que realmente importa fazer porque sao socialmente desejaveis.
o planejamento tern, ainda, a func;ao de tornar transparente e precisa a ac;ao,
de organizar 0 que sera executado, de sistematizar as ideias e os recursos para
tornar mais eficientes as ac;6es governamentais.
CARACTERiSTICAS DO PLANEJAMENTO NO BRASIL
A principal caracteristica do sistema de planejamento no Brasil refere-se a
seu carMer intergovernamental, transitivo, coerente com a organizac;ao fede-
rativa do Estado brasileiro, em que coexistem tres esferas de governo (Uniao,
Estados e Munidpios) com autonornia poHtica, administrativa e financeira
(MATIAS-PEREIRA,2010b, 2012).
o modelo atual do sistema de planejamento governamental brasileiro, no
ambito federal, comec;a a ser estruturado em 1967, com a promulgac;ao do De-
creto-lei no 200, que criou 0 Ministerio do Planejamento e Coordenac;ao Geral,
conferindo carater permanente ao orgao central de planejamento. Esse siste-
ma, em 1972, foi regulamentado, passando a compreender as atividades de
planejamento, orc;amentac;ao e modernizac;ao administrativa.
E importante ressaltar que 0 planejado necessita ser exequivel, assim como
deve ter continuidade, considerando que 0 planejamento nao deve ser enten-
dido apenas como 0 processo de elaborar urn documento denominado plano
ou programa. Essa e uma parte do processo, visto que a selec;ao racional de ob-
jetivos e instrumentos e atividade ininterrupta. 0 processo de selec;ao racional
continuo envolve, alem do emprego de urn metodo, uma forma de pensar ba-
seada na racionalidade. Por sua vez, 0 estabelecimento de uma conduta racio-
nal depende de que se disponha de urn metodo e da existencia de urn sistema
apropriado de normas e ajustes que visem corrigir os desvios e de urn sistema
de organizac;ao social que seja compativel com a conduta racional.
o planejamento no Brasil, em sentido amplo, pode ser entendido como
urn processo de racionalizac;ao de decis6es, que se des dobra em planejamen-
to indicativo, destinado a orientar a atividade privada para a consecuc;ao dos
objetivos de desenvolvimento e planejamento governamental, voltado para a
atuac;ao dos orgaos e entidades que constituem 0 sistema de planejamento do
governo.
Na orientac;ao da atividade privada, feita pelo planejamento indicativo, sao
utilizados instrumentos de poHtica monetaria, cambial, creditkia, tributaria e
Planejamento e gestao estrategica: conceitos e ferramentas 133
de incentivos fiscais, promovendo-se, ainda, 0 financiamento de programas
prioritarios de desenvolvimento por meio dos bancos oficiais, notadamente 0
BancoNacional de Desenvolvimento Economico e Social (BNDES). Com a crise
fiseal do Estado e 0 processo de privatizac;6es em andamento e cada vez mais
raro 0 poder publico no Brasil, atualmente, associar-se a grupos empresariais
privados na realizac;ao de empreendimentos de grande porte.
Pode-se constatar que 0 planejamento governamental e exercido por uma
complexa estrutura tecnico-burocratica, envolvendo distintos nlveis de articu-
la~ao, descentralizac;ao e desconcentrac;ao das ac;6es do governo. A existencia
de esferas de poder autonomas, caracteristicas do federalismo, determina uma
multiplicidade de pIanos de decisao, com patamares de autonomia e compe-
tencia. Foi essa complexidade do planejamento governamental que determi-
nou "a concepc;ao de urn sistema" de planejamento que apresenta carater nor-
mativo, quando se trata de programar as ac;6es do governo que cabem a Uniao,
e carater intergovernamental, transitivo, quando busca integrar, com vistas a
unidade de objetivos que deve presidir a atuac;ao dos poderes publicos, no seu
todo, as ac;6es de governo dos Estados e dos Munidpios com as da Uniao, ou
quando procura a cooperac;ao internacional mutua, de outros governos ou de
organismos transgovernarnentais.
o PLANEJAMENTO NO BRASIL
o planejamento no Brasil, sustenta Matias-Pereira (2010b, p. 258),2 tern
seu marco em 1948, no governo Eurico Gaspar Dutra, com a elaborac;ao do
denominado Plano Salte (no qual foram priorizados os setores de saude, ali-
mentac;ao, transporte e energia). Na fase seguinte, fundamentado na teoria de
eapital humano, foi aprovado, em 1956, 0 Plano de Metas, que privilegiava
os setores de energia; 0 desenvolvimento de rodovias e ferrovias; os servic;os
portuarios e aeroviarios; 0 fortalecimento da industria de base; a mecanizac;ao
agricola e maior utilizac;ao de fertilizantes, silos e armazenagens.
Em 1963, surge 0 Plano Trienal, que se propunha a corrigir os desniveis
regionais existentes, mediante criac;ao de incentivos fiscais; assimilar novas
tecnicas dos setores de desenvolvimento; melhorar as condic;6es de saude pu-
blica; intensificar as ac;6es no campo educativo e da pesquisa tecnologica; alte-
rar determinados aspectos da legislac;ao com 0 intuito de promover as reformas
2 MATIAS-PEREIRA,J. Finan~as publicas: a polftica on;amentaria no Brasil. 5. ed. Sao Paulo:
Atlas, 2010 (veja, em relac;ao ao tema, 0 Capitulo 16, que trata da funC;aodo planejamento para
execuC;aode polfticas).
134 Manual de Gestao Publica Contemporiinea • Matias-Pereira
de base, notadamente a reforma agraria; reduzir a dlvida externa; combater a
inflac;aosem reduzir a taxa de crescimento.
Posteriormente, vieram: 0 Programa de Ac;ao Economica de Governo
(PAEG), 1964/67; 0 plano decenal, 1967/76; reforma administrativa e sistema
de planejamento; I Orc;amento Plurianual de Investimentos (OPO,1968/70;
programa de Metas e Bases para a ac;aode governo, 1970/73; II OPI e 0 I Pla-
no Nacional de Desenvolvimento (I PND), 1972/74; programa de acompanha-
mento; programa geral de aplicac;6es; II Plano Nacional de Desenvolvimento
(II PND), 1975/79; III Plano Nacional de Desenvolvimento (III PND), 1980/85;
I Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova Republica (IPND-NR), 1986/89.
Na fase mais recente, apos a Constituic;ao Federal de 1988, foi elabora-
do 0 plano plurianual para 0 quinquenio 1991195, tendo sido revisado para 0
periodo de 1993/95.0 governo Itamar, que assumiu em decorrencia do impe-
achment do Presidente Collor, em 1992, produziu nova revisao para 0 periodo
de 1993/95. Os pianos plurianuais do governo Fernando Henrique cobriram
os periodos de 1996/99 e 2000/2003. 0 plano plurianual, elaborado e aprova-
do em 2003, no primeiro governo Luiz Inacio Lula da Silva, vigorou de 2004 a
2007.0 PPAelaborado e aprovado no segundo governo Lula cobriu 0 periodo
de 2008 a 2011. 0 PPAdo governo Dilma Rousseff vigorara de 2012 a 2015. 0
PPAseguinte ira alcanc;ar 0 periodo de 2016 a 2019.

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