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AULA 1 PRINCÍPIOS DE LIDERANÇA CRISTÃ Prof. Denilson Aparecido Rossi 2 CONVERSA INICIAL Na atual conjuntura do século XXI, trabalhar os princípios inerentes à liderança cristã é um grande desafio, dado a complexidade das relações e contextos que envolvem as pessoas e as instituições. Feita essa consideração, assumimos o compromisso de apresentar, nesta primeira aula sobre princípios de liderança cristã, alguns temas em torno do eixo do conhecimento. Entendemos que o atual contexto em que vivemos exige que um bom líder cristão tenha um profundo conhecimento de si mesmo, conheça com clareza os principais conceitos que envolvem a liderança cristã propriamente dita, tenha Jesus como modelo de liderança, seja grande conhecedor da Palavra de Deus, e conheça muito bem as pessoas a quem foi designado liderar, e o contexto que as permeiam. TEMA 1 – AUTOCONHECIMENTO A vigente literatura, que trata acerca de lideranças, tem insistido na importância do autoconhecimento para todos os que exercem o papel de líderes ou que almejam ocupar esse posto. Considera-se que, para o desenvolvimento de um bom líder, é fundamental que a pessoa conheça a si mesma com profundidade. Em sua obra A sabedoria dos monges na arte de liderar pessoas, ao apresentar algumas características do líder, Anselm Grün (2006, p. 15) ressalta que ele deve frequentar constantemente “a escola do autoconhecimento”. O autor comenta que “aquele que quiser liderar deve primeiro poder liderar a si mesmo. Ele tem de saber lidar com seus pensamentos e sentimentos, com suas necessidades e paixões”. Citando as orientações de Evagrius Ponticus, o psicólogo e escritor alemão salienta a importância de “observar-se a si próprio, para reconhecer quais as emoções que o impelem, quais as necessidades que lhe afloram e quais as paixões que o determinam” (Grün, 2006, p. 15-16). Aqui vale lembrar a relevância da máxima socrática: “conhece-te a ti mesmo”. Para ser líder, é preciso se conhecer profundamente, é preciso saber o que os próprios pensamentos e sentimentos estão comunicando. É muito importante perguntar-se: por que estou pensando isso? Por que estou tendo esse 3 sentimento? O que meu pensamento ou sentimento está querendo me dizer? Neste sentido, segundo Grün (2006, p.16): Aquele que quiser assumir uma tarefa de liderança tem de passar primeiro por este treinamento de si mesmo. Pois senão ele misturará constantemente sua tarefa de liderança com suas necessidades não admitidas. [...] As necessidades e emoções que não forem conscientizadas serão projetadas nos colaboradores. [...] Aquilo que não for examinado de forma consciente atua como uma sombra destrutiva sobre o ambiente. Nessa mesma perspectiva de importância do autoconhecimento para se exercer bem o papel de liderança, o especialista em organizações, Mark Gerzon, explicita o seguinte: “hoje, tantos especialistas em liderança concordam que, ‘se nos conhecermos melhor, seremos melhores líderes’, que tal premissa já se tornou convenção” (Gerzon, 2006, p. 110). E, no que tange à relevância de se conhecer as emoções e sentimentos, afirma ele: não conseguiremos ‘refrear’ os sentimentos se antes não soubermos que sentimentos são esses. Para administrar as emoções, precisamos antes conhecê-las e [...] líderes de todos os tipos estão procurando maneiras confiáveis e eficazes de catalisar essa dimensão emocional do autoconhecimento. Para Gerzon (2006, p. 103), é evidente a necessidade do autoconhecimento para alguém que exerce uma determinada liderança. Inclusive, o autor reforça esta ideia de forma bem enfática ao afirmar que “antes de gerenciar um conflito, você tem que gerenciar a si mesmo”. É notório que, à medida que uma pessoa vai se conhecendo mais profundamente, passa a ter a possibilidade de perceber melhor quais são suas fraquezas e suas fortalezas. Quais são os valores que orientam sua vida e suas escolhas. Adentrando o universo cristão, entendemos que esse é um princípio indispensável, especialmente para quem está no exercício de liderança de uma comunidade cristã. O apóstolo Paulo é um exemplo claro de líder cristão, que buscava constantemente considerar aquilo que ele era em sua prática de liderança. Dirigindo-se à comunidade dos romanos, confessa: “eu, porém, sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Efetivamente, eu não compreendo nada do que faço: o que eu quero, não faço, mas o que odeio, faço-o.” (Romanos 7,14- 15). Noutra passagem, desta vez, dirigida à comunidade de Corinto, Paulo demonstra um nível elevado de autoconhecimento ao admitir o que segue: 4 Eu me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nos constrangimentos, nas perseguições e nas angústias por Cristo! Pois quando sou fraco, então é que sou forte. Comportei-me como um louco! Vós me constrangestes a isso. Sois vós que deveríeis ter me recomendado. Pois em nada fui inferior a esses superapóstolos, embora não seja nada. (2 Coríntios 12,10-11). Também Jesus, o modelo de líder para todos os cristãos, certa feita admitiu e expressou publicamente seus sentimentos de tristeza. Nas palavras do evangelista Mateus, Jesus levou os discípulos ao Getsêmani e lhes disse: “Minha alma está triste a ponto de morrer. Permanecei aqui e vigiai comigo” (Mateus 26,38). No versículo trinta e nove do mesmo capítulo, Jesus expressa de forma mais aguda ainda sua humanidade, ao dizer: “Meu Pai, se é possível, esta taça passe longe de mim! Todavia, não como eu quero, mas como tu queres!”. Se de um lado Jesus, admitindo angústia e fraqueza humana, pede que o peso de sua liderança seja afastado, do outro, Ele se entrega à vontade do Pai. A exemplo de Jesus, muitas vezes o líder cristão sentirá tristeza e falta de condições de assumir sua cruz, mas deve confiar e entregar-se nas mãos de Deus para que seja feita a vontade divina. Eis o grande desafio para as lideranças que estão à frente das diferentes comunidades e igrejas cristãs. TEMA 2 – CONCEITO DE LIDERANÇA CRISTÃ Nas últimas duas décadas, especialmente, muito se tem falado e escrito sobre lideranças. Talvez pela necessidade que a própria humanidade tem de líderes que possam contribuir, de fato, com um mundo melhor, mais justo, solidário e digno de vida em abundância para todos os seres humanos, e não apenas para uma ínfima parte de privilegiados do planeta. No entanto, há que se perguntar: o que entendemos por liderança? Como é, sobretudo, ser um líder cristão? É importante considerar o que os especialistas na área dizem a respeito deste tema e como conceituam-no. Na obra O monge e o executivo, de uma maneira agradável, James Hunter (2004) apresenta alguns conceitos interessantes para o terceiro milênio acerca do que vem a ser liderança. As ideias trabalhadas e apresentados por Hunter podem ser facilmente aproximadas do contexto cristão. Considerando que é muito exigente a tarefa de liderar, Hunter (2004, p. 25- 25) salienta que o verdadeiro líder é aquele que tem a capacidade de “exercer influência sobre os outros” e que “está disponível para todos”, o que, consequentemente, “requer uma enorme doação pessoal”. 5 De modo mais explícito e objetivo, o autor afirma que liderança “é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum” (Hunter, 2004, p. 25). A definição acima traz alguns elementos que merecem nossa atenção: habilidade, influência, objetivos e bem comum. O primeiro elemento do conceito apresentado é a habilidade. Vejam que habilidade é algo que pode ser aprendido e desenvolvido, desde que se tenha o desejo para tanto. Neste sentido, André Marmilicz (2008, p. 3), afirma que “todos nós podemos desenvolver a arte da liderança. Não é privilégio de alguns, mas possibilidade para todos”. Influência é o segundo elemento que merece destaque.O líder é alguém que influencia e mobiliza outras pessoas. No entanto, segundo Hunter (2004, p. 26), para se entender melhor como se dá o processo de influência do líder em relação às outras pessoas “é fundamental compreender a diferença entre poder e autoridade”. Veja-se a distinção feita pelo autor: Poder: É a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer. [...] Autoridade: A habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal (Hunter, 2004, p. 26). Visando esclarecer ainda mais esta distinção necessária, James Hunter continua: o poder pode ser vendido e comprado, dado e tomado. As pessoas podem ser colocadas em cargos de poder porque são parentes ou amigas de alguém, porque herdaram dinheiro ou poder. Isto nunca acontece com a autoridade. A autoridade não pode ser comprada nem vendida, nem dada ou tomada. A autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, a seu caráter e à influência que estabelece sobre as pessoas (Hunter, 2004, p. 27). Como terceiro e quarto elementos temos os objetivos e o bem comum. De fato, os grandes líderes, com muita habilidade e mediante sua autoridade, conseguem influenciar as pessoas para alcançar determinados objetivos modo direcionados, sobretudo, ao bem comum. De maneira especial, no contexto cristão, entendemos que o principal foco da liderança é levar as pessoas a atingir os objetivos que visam o bem comum. No caso específico das comunidades cristãs, os líderes devem ser influenciadores de pessoas que buscam construir o Reino de Deus, que é para todos. 6 Outro aspecto a que o líder contemporâneo necessita estar atento é quanto à missão de construir pontes entre as pessoas, em vez de muros. Em 2016, a Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD, 2016) promoveu um fórum de líderes e, logo no início do referido evento, um dos conferencistas, Eugênio Mussak, “falou sobre o papel do líder de construir a partir da humildade ‘pontes’ e não ‘muros’ entre as pessoas, áreas e organizações”. Acreditamos que esta metáfora da ponte faz todo sentido para um líder cristão. Quantas vezes, numa igreja ou comunidade, aquele que lidera terá como desafio promover ligação entre as pessoas e grupos. Portanto, será necessário construir pontes que leve uma pessoa ou grupo ao outro. Em sua obra Liderança corajosa, Bill Hybels (2002, p. 25) traz mais uma contribuição muito significativa para um líder cristão. Ele afirma que os “líderes possuem uma visão global e compreendem como ajudar os outros a encontrar sua utilidade nesse contexto”. Desse modo, podemos apontar que uma liderança cristã profícua possui a habilidade de influenciar os outros, sabe construir pontes, e tem uma visão integral da comunidade e das pessoas lideradas, buscando alcançar objetivos que visam o bem comum, o Reino de Deus, que é de paz, amor e justiça. TEMA 3 – JESUS COMO MODELO DE LIDERANÇA Ao longo da história, foram surgindo muitas pessoas que, mediante sua autoridade, tornaram-se grandes líderes. Entretanto, o grande modelo de liderança para quem foi chamado a conduzir uma igreja, uma comunidade ou um grupo de cristãos, continua sendo Jesus Cristo. Jesus tinha uma visão global das pessoas e das coisas, soube como ninguém construir pontes para ligar as pessoas entre si e, com muita habilidade e autoridade, conseguiu influenciar muita gente para trabalhar com ardor em prol de objetivos que favoreceram o bem comum. Segundo os evangelistas, depois de ter superado as provações no deserto, isto é, após ampliar o nível de consciência de sua identidade, dos seus valores e do seu propósito, Jesus voltou para a Galileia, onde fez pregações sobre o Reino de Deus e chamou alguns homens para seguir seu projeto de vida. Dado sua habilidade em influenciar pessoas, eles deixaram tudo e o seguiram: Passando ao longo do mar da Galiléia, viu Simão e André, irmão de Simão, lançando a rede ao mar: eram pescadores. Jesus lhes disse: 7 ‘Vinde em meu seguimento, e farei de vós pescadores de homens’. Eles, deixando logo as redes, seguiram-no. Indo um pouco adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no seu barco, consertando as redes. Logo os chamou. E, deixando no barco seu pai Zebedeu com os empregados, partiram em seu seguimento. (Marcos 1, 16-20). Numa perspectiva de liderança, é importante destacar que Jesus compartilhou seu projeto, sua visão, face a face. O convite foi feito pessoalmente, de tal modo que os pescadores não resistiram e deixaram tudo para seguir o novo líder e mestre. A respeito da prática, da importância e do poder de uma visão compartilhada pessoalmente, vejamos o que nos ensina Bill Hybels (2002, p. 39- 40): A segunda forma de transmitir uma visão (por ordem de importância) é a individual. Jesus frequentemente usava essa abordagem. Ele convidava seus discípulos a se unir a ele na visão do Reino, falava com eles individualmente, então olhava-os diretamente nos olhos e perguntava: "Você deixará tudo para trás e se juntará a mim?". [...] Os mais eficientes líderes que já conheci são fixados nisso. Verifique suas agendas, e verá registros de reuniões particulares no horário do café da manhã, almoço e jantar. Em tais encontros, líderes maduros explicam pessoalmente suas visões, de forma cuidadosa e apaixonada; e então, corajosamente, convidam as pessoas a se juntar a eles. Voltando à referência bíblica, ressaltamos a manifestação da autoridade de Jesus, na sinagoga de Cafarnaum. Segundo narra Marcos: “Eles entraram em Cafarnaum. E logo no dia de sábado, tendo entrado na sinagoga Jesus ensinava. Eles ficavam impressionados com o seu ensinamento; pois ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Marcos 1, 21-22). Especialistas nas Escrituras, os escribas eram os intérpretes oficiais da lei. Eles tinham o poder de ensinar nas sinagogas. No entanto, quem impressiona a todos com seu ensinamento é Jesus. É claro que Jesus chama a atenção, não pelo poder, mas pela autoridade. O povo sentia, percebia e constatava que, entre as palavras de Jesus e sua prática de vida, havia coerência. Jesus pregava o que ele mesmo praticava. Indiscutivelmente, acreditamos que este é o verdadeiro modelo de liderança para todos que estão à frente das comunidades e igrejas cristãs. É notório constatar que o modelo de liderança de Jesus é apreciado muito além do âmbito religioso. Para dar um exemplo, próprio do mundo corporativo, lembramos, que na introdução do seu livro Jesus, o maior líder que já existiu, a autora americana Laurie Beth Jones (2006, p. 14) assim escreve: “acredito que necessitamos de líderes cujos objetivos sejam construir, e não destruir; educar, e 8 não explorar; dar apoio e fortalecer, e não dominar. Jesus me tocou como o líder mais nobre de todos os tempos”. De fato, o exemplo de liderança de Jesus impressiona Laurie. Em suas palavras: Um homem treinou 12 pessoas que influenciaram o mundo de tal maneira que o tempo passou a ser dividido em antes (a.C.) e depois (d.C.) de sua existência. Ele trabalhou com uma equipe que estava longe de ser perfeita. Mas, independentemente da falta e instrução, do passado questionável, dos sentimentos [...], todos se esforçaram para realizar as tarefas em que tinham sido treinados. [...] Seu estilo de liderança pode ser usado por qualquer um de nós. (Jones, 2006, p. 13). Para Laurie, depois de estudar e pesquisar sobre a liderança de Jesus, ficou evidente que ele tinha “três categorias de forças: a força do autodomínio, a força da ação e a força das relações” (Jones, 2006, p. 14). Essas forças contribuíram para o êxito de sua liderança, e podem fazer toda a diferença na vida de qualquer líder, ainda hoje. Portanto, você que já é líder ou que está se preparandopara assumir uma tarefa de liderança cristã, saibas que tens um modelo a seguir: a liderança de Jesus. TEMA 4 – CONHECIMENTO DA PALAVRA DE DEUS Em nosso entendimento, é indispensável um profundo conhecimento acerca da Palavra de Deus para quem lidera um grupo, uma comunidade ou uma igreja cristã. O líder cristão precisa conhecer a Escritura Sagrada para dar sustentação ao seu trabalho. A Escritura Sagrada é o que fundamenta a doutrina, as celebrações e toda prática de vida cristã. É pela Bíblia que se conhece com profundidade o exemplo de Jesus Cristo, de outros líderes que atenderam ao chamado divino, e todos os desígnios de Deus para com a humanidade. Para bem iniciar o século XXI, um respeitado líder cristão, Papa João Paulo II, escreveu uma carta apostólica: Novo Millennio Ineunte (No Início do Novo Milênio). Com o objetivo de estimular compreensão quanto à importância da Palavra de Deus, no referido documento, João Paulo II (2001) afirma: “a contemplação do rosto de Cristo não pode inspirar-se senão naquilo que se diz dele na Sagrada Escritura, que está, do princípio ao fim, permeada pelo seu mistério”. Para dar consistência à sua afirmação o Papa cita a frase de S. Jerônimo: “A ignorância das Escrituras é ignorância do próprio Cristo” (NMI, n. 17). 9 No entendimento de João Paulo II, para bem anunciar a Palavra de Deus, é preciso conhecê-la, escutá-la e ter intimidade com a mesma. Ele afirma que “é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital” (NMI, n. 39). E insiste: “alimentar-nos da Palavra para sermos ‘servos da Palavra’ no trabalho de evangelização: tal é, sem dúvida, uma prioridade da Igreja no início do novo milênio” (NMI, n. 40). O conhecimento da Palavra de Deus é muito importante também porque, além de conhecer o grande modelo de liderança que é Jesus, podemos aprender com outros líderes chamados por Deus, cujas experiências e práticas de liderança encontramos nas Escrituras Sagradas. Um excelente exemplo bíblico a ser aprendido é a liderança de Moisés. Conforme nos narra o livro do Êxodo, chamado por Deus para tal missão, Moisés liderou o povo durante anos e anos, em busca da terra prometida. Muito interessante é o episódio em que, ao ver Moisés cansado, seu sogro passou a dar-lhe uma brilhante instrução sobre a relevância da descentralização na vida de um bom líder: Ora, no dia seguinte, Moisés sentou-se para julgar o povo, e o povo ficou diante de Moisés, desde a manhã até o anoitecer. O sogro de Moisés viu tudo o que ele fazia pelo povo. “Que estás fazendo pelo povo?”, disse ele. “Por que atendes tu sozinho, [...] ?”. Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar Deus. [...]” O sogro de Moisés lhe disse: “Tua maneira de agir não é boa. Vais te esgotar, e o mesmo acontecerá com esse povo que está contigo. A tarefa é muito pesada [...]. Dou-te um conselho, e que Deus esteja contigo! Sê, pois, o representante do povo diante de Deus: apresentarás os problemas a Deus [...]. E mais: escolherás, dentre todo o povo homens de valor tementes a Deus, dignos de confiança, incorruptíveis, e os estabelecerás como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. [...] Alivia a tua carga. Que eles te ajudem a carregá-la [...]”. Moisés escutou a voz de seu sogro e fez tudo o que ele lhe dissera. (Êxodo 18, 13-24). Dentre tantos outros exemplos bíblicos de líderes, Neemias também tem muito a nos ensinar a respeito de estratégias e habilidades de liderança. Em seu livro Liderança em tempos de crise, Charles Swindoll (2004, p. 11) aponta que, com o livro de Neemias, aprendemos a nos relacionar com um chefe difícil; a equilibrar fé em Deus e planejamento pessoal; a lidar com o desânimo do executivo; a lidar com a crítica injusta. [...]Nesse manual bíblico para líderes em potencial, encontramos diretrizes eternas e confiáveis, que funcionam. Elas nos capacitam a saber como desenvolver características de qualidade em nós mesmos e em outros. 10 Poderíamos citar outros tantos casos bíblicos de liderança, mas não havendo espaço aqui, acreditamos que o exposto já é suficiente para evidenciar a importância do conhecimento da Palavra de Deus na vida de um líder cristão ou de quem almeja assumir tal tarefa. TEMA 5 – CONHECER OS LIDERADOS E SEU CONTEXTO Na dinâmica de desenvolvimento de uma liderança cristã, devemos considerar, também, a importância de se conhecer muito bem as pessoas a quem foi designado liderar, e o contexto que permeia suas vidas. É fundamental ressaltar que, quando se fala em liderança se trata de pessoas. Afinal, lidera-se pessoas e não coisas. Desse modo, o relacionamento com as pessoas é de extrema relevância para o processo de liderança. Como sinaliza claramente James Hunter (2004, p. 33-34): liderar é conseguir que as coisas sejam feitas através de pessoas. Ao trabalhar com pessoas e conseguir que as coisas se façam através delas, sempre haverá duas dinâmicas em jogo – a tarefa e o relacionamento. [...] a chave para a liderança é executar as tarefas enquanto se constroem os relacionamentos. No cotidiano de uma igreja, de um grupo ou de uma comunidade, são muitas as pessoas envolvidas em trabalhos e tarefas que envolvem o processo de evangelização. Para que esse trabalho tenha êxito, o líder precisa manter os liderados motivados e comprometidos com a causa do Reino. Para que isso aconteça, é preciso conhecer bem essas pessoas, mantendo um relacionamento saudável, de proximidade, liberdade e confiança. Só podemos confiar em alguém que conhecemos muito bem, e que nos conhece e nos é próximo. Jesus, como modelo de líder para nós, cristãos, nos ensinou muito bem como estar próximo das pessoas e conquistar a sua confiança. Inclusive, ele as chamava pelo nome. No capítulo 10 do Evangelho de João, em diálogo com um grupo de fariseus, Jesus exorta-os e explica-lhes como deve ser um pastor, um líder autêntico: Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. Aquele que guarda a porta lhe abre, e as ovelhas escutam a sua voz; as ovelhas que lhe pertencem, ele as chama, cada uma por seu nome, e as leva para fora. Quando ele as fez sair todas, caminha à frente delas e elas o seguem, porque conhecem a sua voz. Elas nunca seguirão um estranho; não só, mas fugiram dele, porque não conhecem a voz dos estranhos (João 10,2-5). 11 Na sequência, Jesus esclarece aos fariseus que ele é o verdadeiro e autêntico pastor, justamente porque conta do recíproco conhecimento entre ele e as ovelhas. O texto bíblico, assim narra: “Eu sou o bom pastor, eu conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem” (João 10,14). Vejamos que, conhecer bastante um liderado, aumenta as possibilidades de poder influenciá-lo a trabalhar com motivação para atingir os objetivos voltados ao bem comum. No caso de um líder cristão, trata-se de influenciar todas as pessoas a trabalharem pela implantação do Reino de Deus. Dado a complexidade da própria natureza do ser humano e dos elementos que compõem e envolvem a vida humana na contemporaneidade, entendemos que, para se conquistar a confiança dos liderados, além de estar próximo e conhecer bem as pessoas, é importante também conhecer com profundidade o contexto social, econômico e cultural que permeia o seu cotidiano. Nesta direção, Paulo Neves (2017, p. 16), sinaliza que temos, hoje, “a necessidade de um líder pastoral que conheça o seu tempo e que esteja em sintonia com a sua época para promover mudanças importantes na igreja e no mundo”. Sem dúvida, quanto mais conhecemos as pessoas e o seu contexto, tanto mais poderemos respeitá-las e compreendê-las, e consequentemente ganhar a sua confiança, podendo influenciá-las, e aumentando as possibilidades de êxito no ministério da liderança cristã. 12 REFERÊNCIAS ABTD - Associação Brasileira de Treinamentoe Desenvolvimento. O sucesso do Fórum de Líderes 2016! 4 jul. 2016. Disponível em: <http://portal.abtd.com.br/728/noticia/O-Sucesso-do-ForumdeLideres2016.html>. Acesso em: 8 maio 2019. BÍBLIA. TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia [em português]. 5. ed. São Paulo: Loyola, 1997. GERZON, M. Liderando pelo conflito: como líderes de sucesso transformam diferenças em oportunidades. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. GRÜN, A. A sabedoria dos monges na arte de liderar pessoas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. HUNTER, J. C. O monge e o executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. HYBELS, B. Liderança corajosa. Tradução de James Monteiro dos Reis. São Paulo: Editora Vida, 2002. JOÃO PAULO II, Papa. Carta apostólica Novo Millennio Ineunte. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2001. JONES, L. B. Jesus, o maior líder que já existiu. Tradução de Luiz Orlando Lemos. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. MARMILICZ, A. Ele falava com autoridade: autoestima e liderança. Curitiba: Edição do Autor, 2008. NEVES, P. V. F. das. 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