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Apostila Tópicos em Filosofia da Educação Capítulo 1: Filosofia e Sociologia em Sala de Aula Sumário: Introdução 1. A Filosofia da Educação 2. A Filosofia em Sala de Aula 3. Os Sociólogos da Educação Bibliografia – Literatura Complementar Introdução Filosofia é a ciência que se dedica à essência, às causas, aos efeitos e às propriedades dos seres naturais. A palavra filosofia se origina da união de dois vocábulos gregos: philos = amor e sophia = pensamento, conhecimento e sabedoria. Portanto, podemos traduzir filosofia como o amor pelo conhecimento ou pela sabedoria. A filosofia é a análise racional do sentido de existência do ser humano, tanto no estado individual como no estado coletivo. Os focos principais de estudo da filosofia da educação são as teorias pedagógicas e a prática educacional. Esta vertente da filosofia busca aprimorar as metas sobre aprendizagem e, também, debater e questionar como o potencial dos estudantes pode ser expandido e impulsionado. É papel da Filosofia da educação, também, discutir o papel dos educadores em suas aulas, na escola, assim como, na sociedade. A prática educacional é o processo pelo qual o educador transmite para seus alunos o conhecimento e as habilidades necessárias para a autonomia na vida adulta. É natural aos seres humanos aprender. Trata-se de um ato social e participativo. As teorias pedagógicas, por sua vez, são princípios e métodos direcionados para a educação e o ensino. São ferramentas que auxiliam os educadores no processo de ensino e aprendizagem. Alguns filósofos defendem que a educação deve estar embasada na liberdade e na espontaneidade do aluno. Já outras versões, defendem que é necessário guiar o processo educacional dos alunos para que estes possam assimilar a tradição cultural de sua comunidade. Encontrar soluções para o desafio de construir uma educação de qualidade, que forme cidadãos íntegros, críticos e hábeis, tem sido o objeto de estudo de muitas pesquisas. As experiências vivenciadas dentro das escolas brasileiras apontam que muitas das propostas educacionais atuais desviam daquilo que se acredita ser uma educação completa e eficiente. Para que se alcance uma mudança efetiva do sistema tradicional de ensino será necessário ampliar os debates e questionamentos sobre as propostas pedagógicas adotadas nas instituições de ensino do país. Construir uma educação de qualidade, que forme cidadãos íntegros, críticos e hábeis, tem sido uma grande preocupação dos educadores. Neste sentido, a discussão sociológica deve unir-se à discussão filosófica na sala de aula, permitindo uma visão mais abrangente e crítica. Sociologia é a ciência que tem como foco de estudo a sociedade. Esta área da ciência estuda e analisa o comportamento humano e suas diversas maneiras de organização. A sociologia, enquanto disciplina científica, se baseia principalmente em duas revoluções importantes que influenciaram de maneira significativa o modo de vida das pessoas de todo o mundo. A Revolução Industrial e a Revolução Francesa. O resultado destes dois acontecimentos foi definido por transformações, dentre outras, culturais, sociais, políticas e econômicas. A sociologia surge então, como um esforço para a compreensão de situações novas, geradas pela então recente sociedade industrial e capitalista. Esta nova situação instaura novas maneiras de organizar a vida em sociedade. As cidades modernas e o ambiente urbano, oriundos da revolução industrial, permitiram o desenvolvimento da sociologia e suas características enquanto área de conhecimento e da ciência. As transformações consecutivas após a revolução industrial, como a migração populacional do campo para a cidade, deflagraram novas relações de trabalho. Consolidaram assim a sociologia enquanto ciência, pois, a própria sociedade passou a se apresentar como um importante objeto de estudo. Como resultado da industrialização, o trabalho manual deixou de ser tão necessário quanto antes. Devido ao desemprego, gerado pela industrialização nas cidades, as pessoas passaram a viver em condições precárias, submetendo- se a salários irrisórios em troca de longas jornadas de trabalhos e ainda sem nenhum amparo de leis trabalhistas. Sendo assim a educação passou a ser um fator importante, já que gera mão de obra especializada, o que dá a oportunidade ao trabalhador de ser melhor remunerado, assim como uma maior autonomia e criticidade aos cidadãos, para poderem lutar pelos seus direitos. Na educação, a filosofia e a sociologia têm como principal objetivo buscar produzir uma sociedade mais participativa, assim como mais crítica, responsável e com pessoas conscientes de seus direitos como cidadãos, podendo assim, garantir maior igualdade e justiça social. 1. A Filosofia da Educação De suas memórias, os povos primitivos e civilizados puderam criar suas mitologias e crenças, resultante das histórias elaboradas, contadas, lembradas e relembradas de geração em geração. Tais mitos e crenças eram sobretudo o que cada povo acreditava e afirmava como verdade. Conforme o ser humano buscava suas verdades, conforme estas eram transmitidas e discutidas, a civilização foi se desenvolvendo. As instruções, os valores, as tradições e as crenças surgiram através da conquista social. Os valores e conhecimentos existentes na história da humanidade são respostas de uma busca constante pela verdade, fundamentados na revelação de ideologias existentes por meio de fundamentos racionais ou irracionais. Com o passar da história, a filosofia foi reformulada em paralelo ao pensamento científico. Conforme o ser humano realizava suas pesquisas, reformulações, alterações e reconstruções, a ciência transformava o mundo. Assim eram alcançadas as virtudes mais frágeis da existência humana. A experiência de cada indivíduo se transformava na sua filosofia. Conforme apareciam os problemas comuns, havia maior demanda de uma filosofia que direcionasse, de maneira harmônica, as perplexidades do cotidiano. A educação é o processo em que se formam as disposições essenciais do ser humano. Disposições emocionais e intelectuais, ligadas com a natureza e para com as demais pessoas. Considerando que filosofia pode ser definida como uma teoria geral da educação, é possível assim estabelecer uma ligação entre filosofia e educação. Apenas nas definições mais recentes, filosofia e educação são consideradas processos separados. Em sua origem, a filosofia foi propriamente um projeto educativo. Em um segundo estágio, a filosofia forneceu os fundamentos do projeto pedagógico, permitindo que a pedagogia se tornasse uma consequência do projeto filosófico. Já em um outro momento, a filosofia assumiu o papel crítico relativo às teorias educacionais. A filosofia, na visão analítica, é o estudo crítico, assim como a exploração dos conceitos e princípios das tradições religiosas, das certezas e argumentações, dos princípios e angústias existentes na humanidade. A filosofia é a reflexão a respeito da reflexão, portanto, é uma atividade reflexiva de segunda ordem. A filosofia se assegura sobre outras atividades reflexivas, outros modos de pensar. É uma atividade sustentada na análise crítica de seus próprios conceitos e pressuposições, com a intenção de entender suas maneiras de discussão e dedução, em cada área da ciência. O conhecimento procura explorar e explicar a ciência e sua razão, que compõem os fundamentos do conhecimento científico. A epistemologia, por sua vez, que é a teoria do conhecimento, apura a amplitude da natureza e os limites do conhecimento humano como área da filosofia. Contudo, a filosofia da educação analisa o que já foi explorado a respeito da educação, além da análisedo seu conceito. O conceito de “educação” é muito estudado por especialistas das diversas áreas das ciências, conforme a sua própria maneira de analisar. Diante disso, aparece uma grande dificuldade em definir conceitos concretos a respeito da educação. Sendo assim, a filosofia da educação surge para explorar, definir, exemplificar, elucidar e criticar esses conceitos. A Filosofia da Educação pode realizar uma reflexão sobre as relações existentes entre a educação e conceitos como conhecimento, socialização, democracia, doutrinação, profissionalização, treinamento, ensino e aprendizagem, com a intenção de esclarecer tais noções, seus critérios de aplicabilidade, assim como, suas implicações. A Filosofia da Educação no Brasil é baseada nas ideologias de escritores clássicos tradicionais e contemporâneos que abordam em suas discussões as concepções dos tradicionalistas e a interferência internacional. Mostra também as dimensões do cenário nacional, dialogando a respeito dos conceitos tradicionalistas e progressistas, em períodos históricos distintos. Reflete também sobre as características e utilidades práticas de um conceito ou outro, mesmo quando contrários, fundamentando seus sentidos e orientações filosóficas. 2. A Filosofia em Sala de Aula A filosofia da educação, diversamente da sociologia, da história e da psicologia, não é uma ciência no sentido moderno do termo. A filosofia fundamentou um vínculo inicial com a educação já no séc. IV a. C., aproximadamente. Foi o período em que a sofística deu abertura à problematização da prática e da teoria educacional, continuada por Sócrates e Platão, através de uma consciência maior sobre a complexidade das questões humanas e sociais. Tal movimento demarcou uma tendência de proximidade da filosofia com a educação. Inicialmente é preciso distinguir a trajetória da ciência e da filosofia dentro da educação. A ciência, na modernidade, traz a característica de descrição da realidade através de método próprio, salientando a função da experiência e da observação na geração do conhecimento, e propondo a abordagem do procedimento racional, que assegura validade ao conhecimento. Em consequência destes pressupostos, o seguimento positivista da teoria do conhecimento acredita na objetividade do conhecimento, apresentando a separação rígida entre sujeito e objeto, confirmando a autoridade dos procedimentos empíricos. Somente mais recentemente, através da discussão contemporânea da teoria do conhecimento e da teoria dos sistemas, ficou evidente que não há separação absoluta entre a realidade e o observador. De qualquer maneira, a ciência, por meio do seu procedimento metodológico, gerou conhecimentos verdadeiros, fundidos em explicar e prever, produzindo uma cultura técnico-científica adversa ao sentido originário de cultura, que incluía o conhecimento filosófico. Se a filosofia significava, até o momento contemporâneo, o anseio de saber e uma espécie de síntese conceitual dos saberes, provavelmente ela deixa de ter o monopólio interpretativo da cultura e a especialização passa a prevalecer. Ademais, para as ciências humanas, qualquer tipo de previsão, procedimento corriqueiro às ciências, torna-se um problema, considerando que o ser humano se defronta com a questão da liberdade, que sempre apresenta novas possibilidades inesperadas. Nada pode assegurar os resultados de um processo educativo, considerando que este sempre estará sujeito aos riscos de não se obter a aprendizagem esperada. A ciência, tal como foi projetada na Europa, veio a ser a verdadeira estrutura da cultura ocidental da época moderna, já que a revolução técnica e industrial, já abrange com crescimento crescente o mundo contemporâneo. As ciências e as investigações atuais, o sistema educativo e o sistema universitário se atêm em todas as partes ao modelo europeu. É importante também registrar que foi apenas no século XVIII que surgiu a discussão da pedagogia como disciplina científica, seu status como ciência e seu relacionamento com a filosofia. A aplicação da pedagogia como uma nova ciência da educação surgiu na Alemanha, por volta dos anos de 1770. O estabelecimento da disciplina pedagogia, na Universidade alemã Halle/Saale, em 1779, é anunciada como o início da divisão institucional entre a pedagogia e a filosofia. Tal separação não só demarca o começo de um processo de emancipação, mas também, nas décadas subsequentes, destaca o crescente afastamento da filosofia da tematização das questões educacionais. Este afastamento, fez com que a educação obtivesse cada vez mais seu campo delineado pelas ciências e pela crescente introdução dos procedimentos considerados específicos da ciência. O que provocou o predomínio do cientificismo dentro da pedagogia, causando estranheza a respeito do fato de uma investigação que não fosse empírica. Mesmo diante da cientificização da pedagogia, o campo da educação abrangeu as ciências humanas, como a história, a sociologia, a psicologia e a filosofia, na extensa designação de fundamentos da educação. Mesmo estando mantidas sob uma denominação comum, elas conservaram distâncias demarcadas através da característica do objeto e através da abordagem metodológica. Foi esta configuração que veio a prevalecer na inserção institucional das disciplinas da área de fundamentos. Neste contexto, ficou a cargo da filosofia a intervenção teórica dos problemas pedagógicos e a interpretação das distintas contribuições filosóficas para a educação. O que incluiu o amadurecimento da consciência pedagógica pelos gregos da antiguidade, passando pela visão pedagógica do cristianismo, através das revoluções culturais do humanismo renascentista, até o iluminismo e as articulações da educação com os conceitos de natureza, sujeito e sociedade. Das diversas obras de filósofos que demarcaram direções interpretativas à educação, surgiram investigações teóricas exemplares acerca do que significa educar. Através das discussões desses pensadores, vieram os fundamentos filosóficos da educação moderna. Alguns se fundamentaram, inclusive, em ligações importantes da fundamentação antropológica da educação, que havia começado com Platão, na Grécia antiga, na perspectiva de que a imperfeição humana seria compensada por meio da educação. Mesmo através do avanço das ciências e a especialização das disciplinas, foi sob os presságios da tradição dos sistemas constituídos que a filosofia se articulou como fundamento da educação, com o intuito de oferecer-lhes as bases teóricas e indicar-lhe os fins. O pensamento pedagógico surge, então, decorrente do sistema filosófico, subordinado a alguns modelos epistemológicos, ontológicos, éticos e antropológicos. Contudo o modelo antropológico do século XVIII normatiza uma concepção de natureza humana crucial para o pensamento pedagógico moderno, em que o sujeito é compreendido como uma singularidade do universal, beneficiado de uma essência, em que o destino é o aperfeiçoamento moral de si e da espécie humana. Tal modelo se encontra nas filosofias em que o ser humano, o mundo e a sociedade são constituídos por estruturas racionais passíveis de serem explicitadas. Os fundamentos asseguram à educação um aporte seguro, sob o qual seria possível garantir a vida humana plena, integrada na totalidade cósmica e social. Filosofia pode ser então, um fundamento que orienta os fins da educação, o que é a natureza humana e o que é o sujeito, por exemplo. Por meio do avanço dos processos de modernização, a área dos fundamentos sofreu os embates da racionalidade científica, o que gerou resultados que foram sendo gradativamente mais incontestáveis, os quais vieram por fim acuar o conhecimento metafísico ou induziram a filosofia a uma autocrítica. Desta maneira, entra em crise o conceito de um indivíduo soberano e autônomo,que se apresentaria transparente a si mesmo, considerando que os dados empíricos mostram motivos inconscientes para a ação, que enfraquecem a ideia de autodeterminação e controle da própria ação por meio do ímpeto racional. A razão autônoma e a auto certeza, que fundamentam a tradição cartesiana, resultam na disposição de objetificação consequente da separação entre sujeito e objeto. Como resultado, a razão deixa de ter a sua função reguladora. Nem o idealismo alemão pode escapar da postura dominadora da razão e sobrepujar os impasses resultantes da separação drástica entre sujeito e objeto, que proporcionou a racionalidade instrumental e a divisão cada vez maior das ciências. Estas avançam em uma diversidade de especializações, gerando perda de compreensão do próprio objeto de investigação. Assim, estabelece-se um deslocamento na relação entre filosofia e educação, que deixa de ser próxima e familiar para se tornar estranha e distante. Sobretudo, pela queda de um fundamento do qual todas as ações pedagógicas poderiam ser deduzidas. Novas interpretações indicam que não se tem mais a necessidade de articular todas as cosmovisões numa unidade, como foi o caso do humanismo cristão. A isso se associa também a disciplinarização da filosofia, que passa a ser cada vez mais submetida à especialização, abandonando a ideia de totalidade. Mesmo que a filosofia tenha tido um papel de fundamentos, paradoxalmente, conforme ela também cedia à disciplinarização, perdia sua força para atuar em seu próprio papel de fundamentos, pois este está consorciado a um conceito de totalidade, de caráter metafísico, não mais de acordo com a maneira de desenvolvimento do conhecimento. No campo da educação, de um modo, é possível se ver a ampliação de uma gama de diferenciação de disciplinas, conjuntamente com uma mútua proteção fechada, expressada no falar próprio de cada área e acompanhada de um desdém mútuo, ou mesmo, de uma indiferença, com poucas situações de diálogos entre si, prevalecendo em um hermetismo de linguagem e jargões próprios de cada área do saber. No currículo dos cursos de formação docente, difundem-se as mais variadas disciplinas, em uma crescente fragmentação do propósito pedagógico, a ponto de, em muitas situações, serem confundidas educação com qualificação profissional, determinada através de um racionalismo utilitário. E, de outra forma, desde o início do século XX, através da intensificação da pesquisa empírica no meio pedagógico, ocorre um retrocesso do emprego da filosofia pela pedagogia. Quando a pedagogia ganha autonomia, ela pode mimetizar seu comportamento em comparação às ciências naturais, orientando as decisões pedagógicas no âmbito da especialização, rompendo a ligação com a tradição e distanciando-se de pensar a educação, o que, no entanto, não anula a pergunta pelo significado da filosofia para a educação em geral, assim como para a pedagogia principalmente. A relação entre estas é intensa tanto sob o olhar histórico quanto sob o olhar sistemático. A pergunta filosoficamente decisória passa a ser a respeito das conclusões que se pode chegar perante a queda dos fundamentos e da crise do sujeito. Fundamentalmente, cabe à filosofia questionar o sentido da educação, o que significa a subjetividade e a construção de um mundo comum a ser repassado às gerações futuras. A filosofia é capaz de construir para pensar a educação, já que a necessidade de justificação filosófica é um processo que não acaba. Diante deste contexto, fundamenta-se um processo cada vez mais extenso de diferenciação das disciplinas e não há mais uma maneira de reuni- las em um conjunto de conhecimentos. Além do que, cresce cada vez mais a consciência da complexidade dos problemas que não há como serem assimilados através de apenas uma abordagem. No entanto, ocorrem relações entre as disciplinas que fogem de um racionalismo restritivo, considerando que ocorre a necessidade do benefício da conversação entre elas. Uma destas relações é a interdisciplinaridade, uma outra refere-se à relevância das humanidades dentro do ambiente escolar. O diálogo, que necessariamente deve acontecer entre as disciplinas, apresenta denominações distintas, como transdisciplinaridade, interdisciplinaridade ou multidisciplinaridade. O uso sobrecarregado destas expressões não só mostra a consciência dos limites de legitimidade dos saberes disciplinares, como também sugestiona um certo desamparo no manejo do conflito entre ser autônomo na sua área disciplinar e, conjuntamente, depender de uma colaboração com outras áreas para a resolução do próprio problema. Sendo um procedimento característico das ciências humanas, diverso do método causal-explicativo, a hermenêutica introduz as questões na perspectiva da linguagem e da historicidade, que não podem ser subordinados pelo sujeito, como pretendia a tradição cartesiana, que ofereceu estrutura à disciplinarização. Dentro deste panorama, o conhecimento é uma procura de sentido que demanda esclarecimentos dos preconceitos do conhecimento contemporâneo perante o conhecimento infindável da tradição, o que depende das perguntas e do diálogo que induz o interlocutor a apresentar suas próprias convicções. A questionabilidade do que se indaga, também, deve se manter em aberto, sendo a abertura da possibilidade de expor em suspensão as ideias. Diante deste processo, o sujeito experimenta a si próprio, procurando encontrar sentido em suas experiências. Portanto, a hermenêutica conjectura a separação entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido e conjectura, sendo assim, a pretensa objetividade científica. Cada disciplina científica se apresenta incorporada em uma história específica de interesses, de indagações e de uma conceitualização, com fundamento no qual ela desenvolve os critérios e os propósitos de sua pesquisa. Desta maneira, nenhuma disciplina pode fugir da perspectiva na qual se insere. Há exigências necessárias para produzir uma ligação entre as disciplinas e formular qualquer cooperação interdisciplinar. Nenhuma disciplina deve coagir a outra, de maneira unilateral, à sua própria perspectiva. Primeiramente, ao contrário de desafiar as outras disciplinas, cada disciplina se vê subordinada a apresentar a sua própria perspectiva com a possibilidade de ser contestada, através de argumentos bem fundamentados. Ocorrendo tal diálogo, surge algo novo, até então não visto por nenhum dos parceiros, de maneira a salientar aspectos desconsiderados até aquele momento. Uma resistência ocorrida perante esta abertura é conhecida, pois, em geral, o cientista, atento às suas convicções teórico-metodológicas, não está disposto a revisar suas certezas. Tal proposta depende de cada participante estar aberto ao diálogo e a troca de informações e ouvir os questionamentos para compreender e analisar, quanto à autenticidade, o que está em pauta. Cada vez que o sujeito se empenha em buscar uma legitimidade através da visão de outra disciplina, é forçado a revisar os pressupostos delimitantes da própria disciplina. Tal concepção de que, através do diálogo com outras disciplinas, o sujeito torna-se cada vez mais especialista, surge também naqueles que optam pela transdisciplinaridade. Para alguns autores apenas a transdisciplinaridade possibilita o educador explorar legitimamente uma disciplina. As mudanças de paradigmas acontecidas no campo das ciências humanas, permitem uma racionalidade em que a delimitação dos campos científicos não está mais rígida, sendo assim, os objetos de conhecimento e os métodos de trabalho se mesclam. A separação entre ciências da natureza e ciências humanas desta forma não é inflexível. Atualmente, ocorre uma pluralidade de paradigmas e transformações dos objetos de pesquisa. A natureza não é só um objeto das ciências naturais. Também é tematizadapela filosofia e pela história da cultura, como acontece na história cultural, por exemplo, onde é possível demonstrar as consequências verdadeiras da imagem que se tem a respeito da natureza, como ocorre com o turismo ecológico. Não há uma delimitação definida do método. O pesquisador de história não lança mão apenas de métodos sistemáticos, mas se atém também na hermenêutica, da desconstrução, por exemplo. Na educação, é evidente tal dificuldade em demarcar o campo das ciências, já que muitos de seus objetos se mesclam, como é possível notar em temas como corporeidade, por exemplo, que só pode ser adequadamente entendida através da contribuição das ciências cognitivas, da psicologia, da neurociência, entre outras. A filosofia e a história cultural são capazes de mostrar, através de uma análise histórico-conceitual, como são formuladas determinadas interpretações a respeito de temas significativos para a pesquisa em educação. Portanto, são influenciadas pelos efeitos que causam no indivíduo certas interpretações tanto das ciências da natureza como da filosofia e das ciências humanas. Basta analisar o reducionismo a que o sujeito recorre, quando é submetido a questões constitutivas do processo pedagógico, como aprender, por exemplo, uma interpretação meramente biológica, sem considerar o caráter histórico-cultural da questão. Esta interdependência dos objetos de estudo não se refere a um elemento aparentemente unificador, mas a várias sobreposições e afinidades entre as disciplinas. As ciências são articuladas, o que permite pensar na ideia de transdisciplinaridade, em contraposição à usual separação em disciplinas. Assim, deve haver a possibilidade de uma atitude aberta ao diálogo como uma forma de superar os limites da especialização. O diálogo entre as disciplinas depende, sobretudo, de uma postura ética. Aceitar as peculiaridades das disciplinas sem querer assemelhá-las uma à outra, pressupõe uma postura ética. Portanto deve haver um reconhecimento e responsabilidade mútuos. Considerando tudo o que já foi abordado, a filosofia da educação pode contribuir para formular o pensamento arriscado, quando se propõe a ouvir a questão e apontar como um conceito pode esclarecer o problema em questão. Mas não para detê-lo ou eternizá-lo, mas para reformulá-lo, transmutá-lo sob a orientação de novos contextos, especialmente contrapondo-se com a singularidade existente na pergunta. A abordagem destes conceitos não deve ser obsoleta, erudita, laboriosa, ideológica, considerando que ela não é uma militância, nem tão pouco distante da vida. O que mantém a disposição investigativa e a atualidade de uma teoria filosófica ou de uma categoria conceitual é sua habilidade explicativa, reinterpretada sob a orientação das novas condições da cultura. Esta maturidade teórica evitaria os exageros de modismos, o imperativo e o reducionismo de delegar só para a ciência tal interpretação. Nenhum conceito está livre de um questionamento drástico. Desta maneira, a desconstrução é, em muitos casos, um procedimento necessário. Problematizar a educação, seus conceitos e sua atuação é um trabalho que se atualiza em cada momento histórico. É tarefa dos profissionais envolvidos com o ensino das humanidades, na área da educação, interpretar seu tempo e suas configurações simbólicas e expor a relevância desse tipo de pensar. Os filósofos da educação devem introduzir o conhecimento da filosofia e aqueles discutidos com a ciência na discussão cotidiana para expandir as discussões públicas sobre temas que interessam a toda a sociedade, como a violência, o conhecimento, a formação, a ética, entre outros. 3. Sociólogos da Educação A Sociologia, do século XIX em diante, constitui uma grande fonte de influência nos rumos da educação, fazendo proposições que partem sempre, necessariamente, de fundamentos filosóficos determinados, porém se dispondo a uma maior aproximação com a Ciência, compromisso este que não faz parte da abordagem propriamente filosófica. Em função deste viés de racionalidade e aplicabilidade prática da investigação sociológica, esta passa a exercer imensa influência na formulação de diretrizes educacionais e experimentos diversos em educação. É no sentido de fornecer subsídios para uma aproximação entre filosofia, sociologia e educação, que apresentamos a seguir os resumos das visões de sociólogos que se ocuparam da questão da educação. Émile Durkheim (1858-1917) Émile Durkheim nasceu no dia 15 de agosto do ano de 1858, na cidade de Epinal na França, próximo à fronteira com a Alemanha. Ele expandiu o foco da educação que ocorria até então, considerando e estimulando também o que ele denominou como o outro lado dos estudantes, algo constituído através de um sistema de ideias que explicitam, dentro dos indivíduos, a sociedade em que estão integrados. Desta maneira, Durkheim concebia que a sociedade seria mais amparada pelo processo educacional. Para este sociólogo, a educação é uma socialização da geração mais jovem pela geração adulta. Nesta concepção de Durkheim, também denominada de funcionalista, as consciências individuais são constituídas pela sociedade. Esta concepção é oposta ao idealismo, conforme a qual a sociedade é formada pelo "espírito" ou pela consciência humana. A construção do sujeito social, elaborada em grande parte por meio da educação, é a assimilação pelo sujeito de um conjunto de normas e princípios morais, éticos, religiosos ou de comportamento que delimitam a conduta do sujeito em um grupo social. O ser humano, mais do que autor da sociedade, é um efeito dela. Esta teoria, além de indicar a educação como um bem social, a relacionou pela primeira vez com as normas sociais e com a cultura local, minimizando o valor que as capacidades do indivíduo apresentam na construção de um desenvolvimento coletivo. Max Weber (1864 -1920) A sociedade para Max Weber não é apenas algo exterior e coercitivo, que direciona o comportamento dos indivíduos, mas sim a consequência de diversas interações interindividuais. Para Weber a educação sistemática, passou a ser um pacote de conteúdo e de disposições direcionados para o treinamento de pessoas que apresentassem realmente condições de executar essas novas funções, de dirigir o Estado, as empresas e a própria política, de uma maneira racional. Um dos subsídios essenciais na constituição do Estado moderno é a construção de uma administração burocrática em normas racionais. Tal processo só aconteceu de maneira completa no Ocidente, através da substituição gradualmente de um funcionalismo não especializado, para um mais especificamente treinado e politicamente orientado, baseado em regulamentos racionais. Antonio Gramsci (1891-1937) Nascido em Ales, na ilha da Sardenha, no ano de 1891 e cofundador do Partido Comunista Italiano, Antonio Gramsci foi uma das referências principais do pensamento de esquerda no século 20. Gramsci se diferenciava dos outros socialistas por não acreditar em uma tomada do poder que não fosse precedida de mudanças de concepções. Para este sociólogo, os atores principais destas mudanças seriam os intelectuais, e um dos seus instrumentos mais fundamentais, a educação. Alguns dos conceitos elaborados ou estimados por Gramsci atualmente são de uso corrente em diversas regiões do mundo. Um destes conceitos é o de cidadania. Foi Gramsci quem colocou em discussão pedagógica a conquista da cidadania como um propósito da escola. A escola deveria ser orientada para o que ele chamou de elevação cultural das massas. Ao contrário da maior parte dos teóricos que trabalharam na interpretação e no prosseguimento do trabalho intelectual do filósofo alemão Karl Marx (1818- 1883), que focaram seus estudos nas relações entre política e economia, Gramsci atentou-se principalmente na função da culturae dos intelectuais nos processos de transformação histórica. Suas ideias sobre educação nasceram deste contexto. Karl Mannheim (1893 - 1947) Mannheim, filósofo e sociólogo húngaro/germânico/britânico, prossegue com a formulação de Weber a respeito dos tipos de educação: pedagogias do cultivo e do treinamento. Integra a esta formulação a possibilidade de um programa direcionado para a mudança educacional. Saindo do ceticismo weberiano, Mannheim sugere que a sociologia se mostre como um embasamento teórico para docentes e alunos no intuito de compreenderem a situação educacional moderna. Mannheim admite que a racionalização da vida, resultou em um declínio da educação direcionada para a formação do indivíduo integral. Este sociólogo percebeu a necessidade da sociologia na contemporaneidade, para o estudo dos fenômenos educacionais, certamente porque a vida fundamentada na tradição estava se findando. Para Mannheim quanto mais a tradição vai sendo substituída pela racionalização da vida, resultante da consolidação da sociedade industrial, mais o conteúdo educacional deve ser transmitido em um processo “consciente”, em que o professor se aperceba do meio social em que está presente e das mudanças pelas quais experencia. Nem as metas do processo educacional nem os objetivos podem ser concebidos sem que se leve em conta o contexto social, pois eles são socialmente orientados. Pierre Félix Bourdieu (1930-2002) Bourdieu nasceu em Denguin, Paris em 1 de agosto de 1930. Foi um importante sociólogo francês. A discussão sociológica de Bourdieu se manteve centralizada, ao longo de sua obra, na função de desvendar os meios da reprodução social que legitimam as muitas maneiras de dominação. Para interprender tal trabalho, Bourdieu desenvolveu conceitos específicos. Removeu as características econômicas centrais das análises da sociedade, por meio de um conceito formulado por ele como violência simbólica, no qual o sociólogo intercede sobre a não arbitrariedade da produção simbólica no cotidiano social. Chamou a atenção para seu aspecto efetivamente legitimador das forças dominantes, que expressam através delas suas preferências de classe e estilos de vida, resultando o que ele pretende ser uma distinção social. Bourdieu acredita que a transmissão da cultura através da escola, por meio do conteúdo, dos programas, dos métodos de trabalho e de avaliação, das relações pedagógicas, das práticas linguísticas própria à classe dominante, reflete uma violência simbólica executada sobre os estudantes das classes populares. Bibliografia – Literatura Complementar BOURDIEU, Pierre. (2004), Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. Trad. Denice Barbara Catani. São Paulo, Editora da Unesp. BOTTER, Barbara; OLIVEIRA, Paulo Eduardo de (Org.). Filosofia e Educação: Aproximações e Convergências. Curitiba: Círculo de Estudos Bandeirantes, 2012. CHAVES, Eduardo. O.C. A Filosofia da Educação e a Análise de Conceitos Educacionais. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/chaves.htm>. TEIXEIRA, Anísio Spínola. Pequena introdução à Filosofia da Educação. 5.ed. São Paulo: Editora Nacional, 1968. Capítulo 2: Filosofia da Educação Sumário Introdução 1. Henri Bergson e sua Relevância para a Educação 2. Bergson e a Superação das Vertentes Filosóficas Dicotômicas 3. O Método Atuacional e sua Aplicação 4. Questões e Desafios na Filosofia da Educação 5. O Papel Social da Universidade Frente à Obrigatoriedade Legal do Oferecimento de Ensino Religioso nas Escolas Públicas Brasileiras Bibliografia e Literatura Complementar Introdução Enxergar o ensino como um processo imparcial é inocência, pois tal concepção apenas nos afasta de problematizar nossa parcialidade como professores perante os processos educadores. Tendo consciência disso, é imprescindível que o docente, consciente de sua parcialidade inevitável, se esforce ao máximo para incentivar a autonomia e o senso de pertencimento do aluno à sua comunidade cultural, evitando impingir a este seus próprios conceitos de ordem filosófica ou política, mas apresentando as posições diversas sem prejuízo da explicitação de sua ´posição pessoal, a qual obviamente deve ser relativizada como tal. Diante essa posição de sujeito ativo na vida dos alunos, devemos nos perguntar como escolheremos os melhores caminhos e técnicas didáticas para estimularmos a autonomia e capacidade de reflexão, que pode fornecer ferramentas conceituais operacionais adequadas para a implementação das escolhas de cada sujeito. Ou seja: é necessário ao pedagogo uma continua reavaliação sobre seus métodos, procurando fomentar no aluno a autonomia e a capacidade crítica pelo exemplo de vida e coerência de pensamento, e não pela imposição de ideologias próprias. Para isso, é necessário se obter o domínio das ferramentas metodológicas, pois a problematização filosófica nos fornece uma base para observarmos o que realmente pode funcionar para elaborarmos as decisões sobre como interagir com nossa metodologia Educacional no sentido de aumentar a vitalidade e riqueza do sistema humano com o qual interagimos. De uma certa maneira, a concepção filosófica que aqui apresentamos, não reforça a posição do professor como moldador da mente do estudante, procurando fornecer as ferramentas metodológicas necessárias para a elaboração de metodologias próprias, adequadas a campos de estudo do interesse do aluno, visando a construção de um indivíduo consciente, que procure entender as falácias das engrenagens que movimentam os conflitos dos seres humanos, inclusive os próprios. 1. Henri Bergson e sua Relevância para a Educação Apresentamos aqui uma abordagem da filosofia da educação que busca amplitude de análise e criatividade na elaboração de metodologias educacionais. Para isso, avaliamos que o resgate e a explicitação de um filósofo que foi praticamente esquecido pelas correntes filosóficas atuais, pode ser de grande valia para a ampliação dos horizontes e a capacidade de autonomia dos estudantes. Trata-se de Henri Bergson, nascido em paris em 1859, tendo ganhado o Prêmio Nobel de Literatura de 1927 por sua obra filosófica escrita. Atualmente, quando Bergson não é virtualmente excluído do debate filosófico, ele é totalmente deformado, a ponto de sua filosofia se tornar irreconhecível e caricata, como na obra de Gilles Deleuze. Em função disso, procuramos trazer aqui uma discussão filosófica baseada na obra de Bergson, que tem por intuito situar o aluno quanto ao que se está querendo dizer com as nomenclaturas utilizadas para denominar as principais correntes filosóficas, demonstrando como o intuicionismo bergsoniano pode conceder amplitude e precisão de análise no que concerne os conhecimentos úteis e aplicáveis na prática. Também é importante salientar aqui que as posições de Bergson derivam basicamente da constatação de que nossa memória cronológica de imagens, a qual constitui nossa própria identidade, não pode estar armazenada no cérebro, visto ser este formado pelo entrelaçamento de neurônios e células da bainha de mielina e da glia, os quais tem por ÚNICA função a transmissão de potenciais elétricos utilizados na movimentação do sistema sensório-motor. Não existem estruturas de armazenamento de imagens no cérebro. Este é um fato corroborado por todo o aparato de imageamento e análise molecular das estruturas e componentes moleculares do sistema nervoso central e periférico e, no entanto, simplesmente não é assimilado pela ciência dominante, de forte influência materialista, a qual acredita, sem o menor embasamento científico, em um armazenamento cerebral da memória de imagens. Esta constatação de Bergson foi desenvolvida por ele em argumentação baseada na fisiologia cerebral e na análisede casos patológicos de perda de memória, e pode ser encontrada em seu livro Matéria e Memória, o qual desenvolve extensamente esse tema. Em função desse rompimento de Bergson com o materialismo que se arroga como fundamento da ciência, sua abordagem foi assimilada ao espiritualismo, o que também não é verdade, como o leitor poderá constatar nos textos a seguir sobre as diversas escolas filosóficas. Estamos cientes de que não é fácil assimilar os conceitos de Bergson, mas esperamos desenvolver suas ideias de forma resumida e prática, para que o aluno tenha um primeiro contato com um saber filosófico profundo e estimulador da autonomia de pensamento, podendo avaliar por si mesmo quais as posições filosóficas mais válidas para o seu próprio trabalho. Henri Bergson 2. Bergson e a Superação das Vertentes Filosóficas Dicotômicas O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) em seu trabalho “Matéria e Memória”, chama a atenção para um debate antigo entre as duas principais correntes filosóficas: Idealismo e Realismo. Enquanto os idealistas tomam a perspectiva da percepção individual, a qual determina a mudança da realidade ao nosso redor conforme nos movemos e sentimos, os realistas partem do mundo externo à mente; aquele que permanece constante apesar de nossas percepções subjetivas. Uns tomam a ciência como uma expressão provisória da percepção e da representação mental, enquanto os outros tomam a percepção e a representação como uma ciência difusa e temporária, enquanto a própria ciência é somente uma expressão simbólica da realidade. Esta dicotomia deveria ser natural e integrada em nós, seres humanos, visto que esses são os dois sistemas de imagens nos quais vivemos como seres conscientes individualizados: um que muda com cada uma de nossas ações e afetos e outro que nós percebemos como constante e referencial, permitindo ações planejadas e previsíveis no espaço e no tempo. Entretanto, a filosofia geralmente tem tomado um partido ou outro, deixando muito que não é visto e não é explicado. Visto que consistimos de ambos os sistemas de imagens, sempre deverá haver deformações e pontos cegos em nossa expressão metafísica da realidade se polarizarmos nossa escolha em um deles. Seria nos condenarmos a uma “discussão estéril”. Questão de crença. Idealismo/construtivismo A abordagem idealista psicológica é representada por aqueles pesquisadores que aplicam aos seus estudos o conceito de “arquétipo” de Carl Gustav Jung: figuras psicológicas ideais lentamente sedimentadas pela experiência coletiva humana e que se tornam símbolos universais, interpretados de maneira diferente por diferentes ambientes culturais. Estes símbolos são concebidos como estando armazenados nos processos biológicos hereditários de nossa espécie, de maneira mais ou menos obscura, através de nosso inconsciente coletivo. São, portanto, determinantes de tudo que concebemos como realidade. Os idealistas construtivistas, como Jean Piaget e Noah Chomsky, também postulam a existência de “construções” ou esquemas mentais endógenos ao sujeito, os quais determinam seu desenvolvimento segundo uma cronologia e sequência detectável, visto serem fruto do desenvolvimento fisiológico intrínseco do indivíduo. A abordagem idealista psicológica de C.J. Jung tem sido algumas vezes confundida na mente do público com a abordagem espiritualista, visto que ambas percebem profundos significados espirituais em símbolos arquetípicos e ideais. Realismo/espiritualismo Os espiritualistas concebem uma “realidade espiritual” independente de nossas mentes individuais e de nossa percepção. Esta realidade espiritual manifesta-se em nosso mundo material através de mestres iniciados; pessoas que foram capazes de sobrepujar a ilusão da matéria para estar em contato direto com o mundo espiritual eterno e imutável. Para atingir esta visão espiritual deve-se purificar a percepção da influência da matéria através de um caminho definido de iniciação que figure cada passo a ser seguido pela alma que deseja abandonar a materialidade, comunicado a nós mortais por aqueles mestres iniciados em sua visão espiritual. Esta abordagem tem relação com o platonismo e seu eterno e imutável mundo de ideias, visto que nossa percepção material e imperfeita fornece, para ambas as linhas de pensamento, apenas uma sombra indefinida de uma realidade imaterial perfeita. Neste sentido, os espiritualistas preenchem os requisitos de uma abordagem realista. Esta realidade determinada obviamente pressupõe um futuro determinado, o qual poderia ser predito pela adequada análise dos fatores que compõem a realidade. Realismo/materialismo Pode surpreender o leitor que o materialismo esteja na mesma categoria de filosofia realista que o espiritualismo. No entanto, ambas as linhas de pensamento partem do pressuposto de que é uma realidade externa que determina o sujeito. A realidade espiritual, no caso do espiritualismo. A realidade material, no caso do materialismo. O realismo materialista considera que o sujeito nada mais é que a resultante casual do conjunto de variáveis do mundo físico e social no qual está incluído, sendo que sua psique será totalmente formada por conteúdos sociais aprendidos, dissolvendo-se assim a noção de “indivíduo” e mesmo a de “sujeito”. Intuicionismo O intuicionismo, como abordagem filosófica, escapa da definição de filosofia parcial, por assumir os dois sistemas de imagens, objetivo e subjetivo, como componentes da experiência de percepção e reflexão humana. Uma escola intuicionista bastante influente no meio acadêmico, tem como seu principal defensor o filósofo britânico Sir Michael Anthony Eardley Dummett, que propõe um tipo de intuicionismo filosófico pode ser facilmente inserido em uma abordagem materialista/realista, verdadeiramente oposta à visão espiritualista e idealista: a realidade material e social é determinante de nossa visão de mundo. Esta abordagem é coerente com a visão intuicionista específica de Dummet, fortemente influenciada pelo realismo de Frege e baseada nas noções de “prova” e condições concretas para realizarem-se afirmações verificáveis possíveis de serem comunicadas: Henri Bergson é considerado um intuicionista e compartilha a rejeição dos intuicionistas ao “princípio de ambivalência”, ainda assim seu entendimento do intuicionismo tem consequências metodológicas muito diferentes das de Dummet, visto que o “Método da Multiplicidade” de Bergson, não parte da comunicação e da “prova” como referenciais mas antes toma o objeto em si mesmo como o foco principal da atenção consciente, gerando um circuito entre objeto e percepção, o qual desvela camadas virtuais da realidade do objeto em conexão com camadas cada vez mais profundas da memória do observador. Mais que uma tentativa de subir acima da percepção, como os filósofos desde Platão sempre desejaram, a intuição sensorial deve ser promovida. Ele nos encoraja a mergulhar e inserir nossa vontade na percepção, aprofundando- a, alargando-a e expandindo-a enquanto o fazemos. Por estes meios totalmente naturais deveremos ser capazes de distinguir os graus de espacialidade necessários para nos livrar de qualquer necessidade de entidades de outro mundo de quaisquer tipos. Poderíamos dizer que, enquanto a metodologia de Dummet parte de um ponto de vista inter-subjetivo, o “Método da Multiplicidade” de Bergson adota uma perspectiva intra-subjetiva, e as duas abordagens podem ser complementares. A efetividade da ferramenta metodológica proposta por Bergson pode ser avaliada em seu esquema sobre a percepção atenta e consciente, que delineamos abaixo. O Acordeom de Bergson Em seu livro “Matéria e Memória” Bergson propõe um diagrama como uma analogia para o que ele chama “percepção reflexiva”:Fig.1 (BERGSON, 1991, p.104) Nós apelidamos esta figura como “Acordeom de Bergson” porque um acordeom (o instrumento musical) descreve remotamente o formato da figura e suas qualidades de contração e expansão ressonantes da memória e das camadas virtuais da realidade no objeto, além de nos fornecer um nome sintético para mencioná-la. Este é o tipo de percepção que temos quando estamos atentos a um objeto, desejando revelar nele, através de um circuito expansivo com nossa memória (A,B,C,D), as camadas virtuais de realidade já presentes, as quais nos permitirão uma crescente percepção dos detalhes, direcionada para nossas ações sobre o próprio objeto (O, B’,C’,D’). A profundidade de visão assim atingida nos permitirá, a cada camada expansiva, uma maior versatilidade em nossas ações, ou esboços de ações, que poderiam ser efetuadas com o objeto percebido. Começamos com a memória mais contraída e próxima à percepção; aquela que reconhece um objeto como constante no tempo; para gradualmente expandir os níveis de memória no “Acordeom de Bergson” para diferenciações e correlações mais complexas. Na medida em que os níveis de memória se expandem, através de ações ressonantes convenientes nós atualizamos todas as camadas visíveis de realidade dadas virtualmente, no objeto, de tal maneira que possamos analisá-las e discuti-las. 3. O Método Atuacional e sua Aplicação Não é a fantasmagórica “máquina abstrata” do poder agindo sobre os corpos preexistentes o que constitui indivíduos. Não é, por outro lado, a alma, um modelo etéreo e eterno, que determina o corpo, como querem os espiritualistas. É a Memória/imagem, supra-corporal. O que há é uma pulsação de fluxos, um Acordeom que vai e volta, uma alma/memória que faz memória e alma – corpo de tempo e duração – agindo a partir de um corpo de matéria, de espaço homogêneo que só se diferencia com a vida da alma. Uma expansão viva da complexidade orgânica, da liberdade de ação. Uma memória sensório-motora do corpo que incorpora e coordena os vetores de repetição da memória de imagens, facilitando seu influxo nas ações habituais. Mas uma memória sensório-motora do corpo que está também aberta ao movimento criativo e volitivo da memória de imagens, que cria eternamente em sua Imaginação – Imagem/Ação – sem a qual não há Tempo. É por isso que aqui falamos de um determinado conceito de educação: a educação que emerge ao longo de nossa metodologia é essencialmente sensório-motora e, assim sendo, subordinada à uma memória de imagens que se deflagra em ações no Tempo. Ações humanas ou inumanas, não as diferenciamos aqui. Nas ações todas, vislumbramos a mesma Humanidade, caminhando expansivamente para uma liberdade de ação cada vez maior, de um influxo do Espírito/Memória na Matéria/Corpo, de um refluxo da Matéria/Corpo sobre o Espírito/Memória, gerando ações, imagens, memórias, multiplicando ao infinito a ação criativa e livre. Este artesanato de deuses começa humildemente nas ações corporais ensaiadas, não por uma coerção imposta, mas por um desejo de eternidade e superação. Um desejo de que a máquina sensório-motora do corpo molde sua rede neuronal de formas cada vez mais harmônicas, ricas e inusitadas para corresponder aos anseios de ação livre e criativa da Memória: a Imaginação. Também nesta concepção nos alinhamos com Bergson, que propõe esta visão despretensiosa de educação, como adequação do aparelho sensório-motor através da análise virtual de ações possíveis e da coordenação dos órgãos sensoriais entre si, pela conexão em circuito com a apresentação das imagens: Mas quem não percebe, na própria hipótese em que nos colocamos, que nossos sentidos terão igualmente necessidade de educação - não, certamente, para se conciliarem com as coisas, mas para se porem de acordo entre si? Eis, no meio de todas as imagens, uma certa imagem que chamo meu corpo e cuja ação virtual se traduz por uma aparente reflexão, sobre si mesmas, das imagens circundantes. Assim como há para meu corpo tipos de ação possível, também haverá, para os outros corpos, sistemas de reflexão diferentes, e cada um desses sistemas corresponderá a um de meus sentidos. Meu corpo se conduz, portanto como uma imagem que refletiria outras imagens, analisando-as do ponto de vista das diversas ações a exercer sobre elas. E, por consequência, cada uma das qualidades percebidas por meus diferentes sentidos no mesmo objeto simboliza uma certa direção de minha atividade, uma certa necessidade... As percepções diversas do mesmo objeto que oferecem meus diversos sentidos não reconstituirão, portanto, ao se reunirem, a imagem completa do objeto; permanecerão separadas uma das outras por intervalos que medem, de certo modo, muitos vazios em minhas necessidades: é para preencher tais intervalos que uma educação dos sentidos é necessária. Essa educação tem por finalidade harmonizar meus sentidos entre si, restabelecer entre seus dados uma continuidade que foi rompida pela própria descontinuidade das necessidades de meu corpo, enfim reconstruir aproximadamente a totalidade do objeto material. (Bergson, H.) É nas lacunas de coordenação entre nossos sentidos e as necessidades de nosso corpo em relação aos objetos materiais ou mentais com os quais ele faz circuito, que se insere, portanto, a educação que nos interessa. A tradição cultural adquire, assim, total relevância para nosso trabalho, visto que constitui o legado de imagens e objetos sobre os quais agem os seres humanos, além dos repertórios de formas de agir da maneira mais eficiente sobre estes objetos e imagens. Eficiência para a consecução de desejos, dos anseios por permanência e mudança de nosso Espírito. É esta a educação que empreendemos em nós mesmos. É esta a educação que detectamos quando conectamos nossos órgãos sensoriais atentos à máquina de educação sensorial dos objetos de nosso interesse. Seguimos então um fluxo de ações humanas conectadas com nosso objeto de estudo, verificando as sedimentações sensório-motoras que advém de sua utilização ferramental. Agimos sobre a ferramenta para conhecer, educar nossos sentidos, para que não passe desapercebida nenhuma nuance de seus usos desejados. Ampliamos então o escopo das ações para termos sob as vistas as maneiras históricas e tradicionais de agir em circuito com o objeto. Encetamos então novas ações próprias que reconfiguram o objeto. Seguimos novamente o fluxo da memória coletiva atualizado pelo imenso repertório de imagens visuais e textuais que temos ao nosso dispor devido às máquinas de pesquisa contemporâneas. Concluímos, então, delineando na Imaginação e inscrevendo em um Fluxograma Atuacional as ações futuras desejáveis, examinando com esta ferramenta conceitual as repercussões e ressonâncias destas ações, ampliando na esfera social humana a aplicação de nossa pesquisa. Pode-se argumentar que o que fazemos aqui poderia se inserir no conceito de “cartografia” proposto por Deleuze e cuja exegese e aplicação prática no Brasil, encontra entre seus expoentes Virgínia Kastrup e Eduardo Passos. Ainda que possamos identificar pontos de convergência, não poderíamos encaixar nosso trabalho nos pressupostos dessa metodologia: A cartografia constrói e acessa o plano comum porque se orienta por uma tríplice inclusão. A primeira inclusão é a que coloca lado a lado os diferentes sujeitos e objetos implicados na produção do conhecimento. Nesse primeiro nível, a lateralização opera a transversalidade, sendo o modo de fazer ou procedimento metodológico. Há, no entanto, consequências do primeiro procedimento, pois a transversalidade faz aparecer as tensões geradas pela não hierarquização da diferença. O engajamento dos diferentes sujeitos implicados no processo de pesquisa não só gera interesse e cuidado, mas também põe em análise, frequentemente, as crenças e pressupostosdo pesquisador. O interesse recíproco que vincula pesquisador e pesquisado não pode neutralizar o poder de recalcitrância do objeto. Nesse sentido, afirmar o protagonismo do objeto nos força a incluir os efeitos críticos ou os analisadores da pesquisa que emergem da colocação lado a lado dos diferentes sujeitos. Isso caracteriza o segundo nível da inclusão. Por fim, somos conduzidos ao terceiro nível: a pesquisa se efetiva como participativa na medida em que contrai uma experiência coletiva. A tríplice inclusão se efetiva com a inclusão dos movimentos do coletivo. Temos, então, três níveis de inclusão – a dos diferentes sujeitos e objetos; a dos analisadores da pesquisa; e a dos movimentos do coletivo – a que correspondem três procedimentos ou modos de fazer que realizam o princípio da transversalidade: lateralização; análise dos pressupostos e crenças da pesquisa; contração do coletivo (Kastrup, V.; Passos). Aqui não colocamos lado a lado, em um mesmo “mapa”, elementos críticos e analisadores da pesquisa, seus sujeitos e objetos e os movimentos do coletivo, diferenciados em níveis de inclusão. Temos uma dissimetria assumida e um compromisso com a ação produtiva, entendendo-se por “produtividade” o aumento de vitalidade do sistema. Consideramos que a memória atenta é aquela do observador humano com um sentido de observação educado pelo exercício proficiente constante, em conexão sensorial com seu objeto (ou sujeito) de análise. As diferenças são hierarquizadas, ainda que exista trânsito entre o analisador atento e o objeto observado, entre o operador e a ferramenta aplicada. Esta dissimetria parte do “desejo” ou “vontade” dos analisadores, estabelecendo uma “diferença de potencial” de ordem elétrica, ou sensório-motora, o que dá no mesmo. As crenças e pressupostos do observador não estão em questão nesta análise. Eles fluem naturalmente no trabalho. São os “estilos” pessoais das linhas de memória que desejam este estudo, inevitáveis em qualquer caso. Constrói-se uma ferramenta, testa-se esta ferramenta, adquire-se habilidade em seu uso pela educação sensório-motora constante, colhem-se frutos muito vivos de árvores milenares. Aqui, ao contrário de “contrair” o coletivo, procurando sua ontogenia “comum”, tratamos é de expandi-lo, demonstrando que não há ontogenia, mas sim fluxo de ações rastreáveis no tempo e no espaço. Temos a preocupação com a criação e aplicação experimental de um método. Fluxograma mais que mapa, é o que traçamos em nossa análise. Fluxograma que se utiliza de mapas e datas, que se utiliza de intervenções pessoais sobre o objeto e que percorre o movimento das atuações tradicionais sem medo, sem perguntar se são ou não “clichês”. Fluxograma que acompanha e interliga movimentos para a identificação e otimização das ações sobre o processo que se está a analisar. Fluxograma que, ao invés de se utilizar de símbolos geométricos, utiliza-se de imagens, visuais ou escritas, elaboradas, mas sem perder a característica de esquema descritivo, ferramental. Fluxograma “cartográfico” de Aby Warburg. O esquema acima é um esboço feito por Aby Warburg, pesquisador seminal da história da Arte. Vejam que Warburg já se utilizava de fluxogramas para descrever seus próprios movimentos, demarcados por lugares físicos esquemáticos e sobrepostos a movimentações mais amplas dos povos judeus. Aqui vemos sua metodologia de inserir os movimentos – o estrato sensório-motor da Arte – em uma moldura geo-biográfica de motivações psicológicas, formando um Atlas Mnemosyne que segue os caminhos do “pathos” psicológico que se deseja acompanhar. Foi esta a tradição que gerou a proposta contemporânea “pós-estruturalista” de cartografia, muito válida, da qual delineamos anteriormente a metodologia, na referência de Virgínia Kastrup e Eduardo Campos. Nós, no entanto, nos apropriamos da técnica de fluxograma, porém saindo do estrato biográfico ou psicológico e tornando o estrato geográfico apenas ferramental e, portanto, prescindível na composição final de nosso Fluxograma Atuacional, o qual não inscreve lugares cartográficos, mesmo que esquemáticos, adentrando um estrato que poderíamos chamar propriamente de “biológico”. Seguimos aqui as proposições de Harold Morowitz, que delineia a formação dos seres vivos como canais de ordem elétrica que tem por propriedade dissipar de maneira criativa e controlada a energia de grandes diferenças de potencial. Visto que a geração de energia livre é constante no Cosmos, essa diferença de potencial sempre estará definida. A vida é necessária. Fluxograma do Fluxo de Energia. Notem que a energia flui de uma fonte, para um repositório, ou “cisterna”, de menor energia potencial, devido a diferença de potencial entre os dois polos. O fluxo gerado, o sistema intermediário, flui em ações vitais criativas dos seres que surgem dele, ou que SÃO o próprio fluxo e seus polos, se assim quiserem. Podemos então, baseados na visualização do Fluxograma, traçar estratégias de ações conectoras, que aumentem a vitalidade atuacional do sistema observado. Percebe-se que Morowitz atribui o estado de “vivo” somente aos Sistemas Intermediários – os fluxos entre os polos – enquanto que nós amplificamos este estado incluindo nele a totalidade do organismo tríptico formado pelos polos e o fluxo de ações entre eles. A utilização do método filosófico atuacional na pesquisa prática pode ser observada nos seguintes links: http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/a-biologia-na-alquimia-correlacoes-para- uma-educacao-alquimica/ http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/332117 4. Questões e Desafios na Filosofia da Educação O que conhecemos usualmente como filosofia da educação identifica-se, conforme a terminologia proposta, ora com a "filosofia de vida", ora com a "ideologia". Porém, a filosofia da educação só será mesmo indispensável à formação do educador, se ela for considerada como uma reflexão rigorosa e ampla sobre os problemas que a realidade educacional apresenta, fugindo dos cânones doutrinários parciais que costumam estar a favor de forças políticas determinadas, nem sempre interessadas na felicidade e evolução humana. A filosofia como educação pessoal é fundamental ao próprio educador. Mas o que pode levar o educador a filosofar? O que pode instigar a filosofia no educador são principalmente os problemas com os quais ele se depara ao realizar a tarefa educativa. E como a educação tem por objetivo o ser humano, é conveniente iniciar refletindo sobre a realidade humana, procurando investigar quais aspectos ela comporta. Assim, a tarefa da Filosofia da Educação deve ser a de oferecer aos educadores um método de reflexão que lhes permita formular metodologias próprias no sentido de elucidar os problemas educacionais, adentrando sua complexidade e formulando a solução de questões, tais como a influência da "filosofia de vida" e da "ideologia" na atividade do próprio educador, que deve demonstrar aos alunos mais os métodos de elaboração de ferramentas metodológicas abrangentes, que o próprio conteúdo no qual é utilizada esta ferramenta metodológica. Podemos delimitar uma gama de questões que podem ser investigadas com o auxílio de uma ferramenta metodológica adequada, a qual pode nos fornecer caminhos de ação real na resolução de problemas concretos: o caráter parcial, fragmentário e superável das ideologias e o conflito entre diferentes ideologias. A potencialidade, legitimidade, valor e delimitações da educação. A relação entre como usar meios tradicionais em função de objetivos renovados. A conexão entre teoria e prática, com a explicitação sobre de que modo a teoria pode dinamizar ou enrijecer a prática educacional. As questões acima mencionadas são apenas exemplosda essência problemática da ação educacional, o que ressalta a necessidade da reflexão filosófica para o educador. Além dessas questões, casualmente enumeradas, o educador terá que enfrentar problemas os mais diversos. Alguns desses problemas são totalmente previsíveis, enquanto que outros serão decorrência da própria dinâmica da ação educativa. Se o educador não tiver desenvolvido uma capacidade de reflexão profunda, rigorosa e abrangente, suas possibilidades de sucesso serão reduzidas. Encarada desse modo, a filosofia da educação não terá como objetivo a fixação prévia de princípios e objetivos para a educação, sendo que também não se limitará a ser uma teoria geral da educação, somente com a sistematização dos seus resultados. Sua função deverá ser a de acompanhar reflexiva e criticamente a ação educacional, de modo a deixar claros os seus fundamentos, explicitando a contribuição das diversas disciplinas pedagógicas e avaliando a eficácia das soluções escolhidas no que se refere à infusão de maior vitalidade e criatividade no sistema de ensino. Assim, a ação pedagógica resultará mais coerente, mais lúcida, mais justa e mais humana. Com estes objetivos em mente, gostaríamos de finalizar nosso curso de Filosofia da Educação com um apelo no sentido da atenção ao ensino religioso, previsto por lei, em nossas escolas. O ensino filosófico sempre acompanhou o ensino religioso, muitas vezes confundindo-se com este. É fundamental que o educador se liberte dos paradigmas únicos no que se refere à filosofia e à religião, permanecendo aberto ao contato enriquecedor com as diversas vertentes de ambos os campos de atividade humana 5. O Papel Social da Universidade Frente à Obrigatoriedade Legal do Oferecimento de Ensino Religioso nas Escolas Públicas Brasileiras A questão do ensino religioso no Brasil, ainda que claramente delineada pela legislação desde os tempos da República, tem sido consistentemente negligenciada pelas Universidades e centros de pesquisa em Sociologia e Filosofia, sendo que o ensino religioso nas escolas tem sido deixado por conta de instituições religiosas específicas, que acabam por gerar um certo “monopólio” de acesso das religiões ao sistema educacional. Nem a discussão sociológica e nem a filosófica podem se furtar a debater esse tema tão prático e recorrente em nossas escolas, sob pena de perder todo uma campo de atuação social altamente relevante, acabando por filiar as perspectivas acadêmicas da Sociologia e da Filosofia a linhas pré formuladas e hegemônicas de um materialismo pessimamente formulado, o qual é tomado como único representante da filosofia digno de ser incorporado ao discurso “científico”. Conforme demonstramos no artigo acima, existem diversas opções de posicionamento metafísico, sendo que o materialismo e a sociologia estruturalista não são nem de longe os mais “científicos” dentre eles. É neste sentido que gostaríamos de apresentar a legislação sobre ensino religioso no Brasil, encetando a seguir discussões e reflexões sobre esse tema tão importante e pertinente para todos os campos de investigação humana. A Legislação sobre Ensino Religioso no Brasil Parecer CNE/CEB Nº: 26/2007 - Aprovado em: 5/12/2007 “Lei n° 9.475, de 22 de julho de 1997, que deu nova redação ao art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDB). Na nova redação, a Lei estabelece que: O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. O novo conteúdo do art. 33 é complementado pelos dois parágrafos seguintes: § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso. Fica naturalmente evidente que a regulamentação e os procedimentos para a definição dos conteúdos do Ensino Religioso ficam a cargo do Sistema Municipal de Ensino, que compreende um órgão normativo, representado pelo Conselho Municipal de Educação, e um órgão executivo, no caso, a Secretaria Municipal de Educação.” Parecer N.º: CES 1.105/99 - Aprovado em: 23/11/99 Conclusões: Cursos de Licenciatura em Ensino Religioso “- não cabendo a União, determinar, direta ou indiretamente, conteúdos curriculares que orientam a formação religiosa dos professores, o que interferiria tanto na liberdade de crença como nas decisões de Estados e municípios referentes à organização dos cursos em seus sistemas de ensino, não lhe compete autorizar, nem reconhecer, nem avaliar cursos de licenciatura em ensino religioso, cujos diplomas tenham validade nacional; - devendo ser assegurada a pluralidade de orientações, os estabelecimentos de ensino podem organizar cursos livres ou de extensão orientados para o ensino religioso, cujo currículo e orientação religiosa serão estabelecidos pelas próprias instituições, fornecendo aos alunos um certificado que comprove os estudos realizados e a formação recebida; - competindo aos Estados e municípios organizarem e definirem os conteúdos do ensino religioso nos seus sistemas de ensino e as normas para a habilitação e admissão dos professores, deverão ser respeitadas as determinações legais para o exercício do magistério, a saber: - diploma de habilitação para o magistério em nível médio, como condição mínima para a docência nas séries iniciais do ensino fundamental; - preparação pedagógica nos termos da Resolução 02/97 do plenário Conselho Nacional de Educação, para os portadores de diploma de ensino superior que pretendam ministrar ensino religioso em qualquer das séries do ensino fundamental; - diploma de licenciatura em qualquer área do conhecimento.” Nos textos acima, obtidos no site do Ministério da Educação, temos a delimitação legal genérica sobre a questão do ensino religioso no Brasil. Já em uma primeira leitura percebemos contradições e lacunas quanto à implementação prática da disciplina de ensino religioso nas escolas. A primeira delas refere-se à representatividade das diversas religiões no conteúdo curricular da disciplina. Segundo a legislação: “Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso (par.2º, art.33, Lei 9.475/1997).” Frente ao que estabelece a lei, ao invés de esclarecer-se a questão da representatividade, surgem diversas outras questões: de quem seria a responsabilidade para o estabelecimento das entidades civis multi-religiosas? Seriam tais entidades realmente representativas da pluralidade de manifestações religiosas em nosso país? Não haveria aí uma brecha para que as entidades religiosas mais poderosas e organizadas imponham majoritariamente suas doutrinas? Pois fica sempre bem claro que não se trata de discutir se deve haver ensino religioso ou não. Trata-se de discutir pluralidade, da mesma maneira que isto tem sido feito em relação aos temas de etnia e gênero. A posição que desqualifica e repudia o ensino religioso como um todo é, paradoxalmente, fruto de crenças de cunho metafísico elucidadas em discussões filosóficas inúmeras, as quais não nos cabe resenhar neste texto. De qualquer maneira, a postura realista/materialista frente à realidade, que resulta na postura ateísta que hoje predomina nas ciências, também só pode se sustentar baseada em crenças não totalmente explicadas por seus corpos doutrinários, tais como o armazenamento da memória pelo cérebro e a co- evolução de estruturas parciaisoriginadas de diferentes tecidos embrionários e de uma multiplicidade incomensurável de genes, porém formando uma mesma macro-estrutura complexa. É preciso realmente tanta fé quanto em qualquer outra religião para que alguém sustente a posição materialista/ateísta! Visto que o ateísmo também é uma posição metafísica, nada mais evidente que a necessidade de incluí-lo como parte integrante de um currículo voltado ao ensino religioso. As doutrinas sustentadoras do ateísmo, tais como o “gene egoísta” de Richard Dawkins e o Neodarwinismo, tem uma inegável contribuição a fazer no tocante à explicação racional sobre a natureza da realidade, porém possuem também lacunas gritantes, aliás, como todos os sistemas metafísicos que se encarnam sob a forma de religião, incluindo setores da Ciência. De que maneira os sistemas metafísicos materialistas/ateístas poderiam estar integrados à discussão do ensino religioso? Sem dúvida entrando em pé de igualdade na composição curricular, com uma ressalva: seria também necessário discutir-se a apresentação mistificada que se faz das doutrinas materialistas no ensino de Ciências. Não leitor, não se trata de defender o Criacionismo ou o Lamarckismo frente ao Darwinismo. Trata-se de não obscurecer as lacunas e pontos cegos existentes nas formulações fisiológicas e genéticas as quais são hoje ensinadas como verdades absolutas. Há uma plenitude de pontos duvidosos no Neo-Darwinismo e na fisiologia da memória para justificar uma discussão crítica desses pontos doutrinários, muito relevantes inclusive no tocante às discussões sobre religião. A inclusão do ateísmo científico no currículo de ensino religioso deveria necessariamente vir acompanhada de uma revisão crítica das doutrinas ensinadas como “A Verdade” nas disciplinas escolares de Ciências. Não seria necessário afastar-se do paradigma científico para tal, posto que filósofos eminentes como Henri Bergson, premiado com o Nobel, já colocaram em evidência há muito tempo as lacunas imensas do conhecimento científico no que concerne a memória e a evolução dos seres vivos, sem uma réplica consistente por parte das teorias que se impuseram como doutrinas inquestionáveis em nossas escolas. Questão de destruir hegemonias esterilizantes permitindo o desabrochar da diversidade no campo religioso e, quiçá, no científico. A relevância do ensino religioso como matéria escolar fica patente na discussão aqui exposta, pois atinge as próprias bases das questões culturais humanas. Muito nos espanta que, por vezes, as mesmas pessoas que são atuantes na defesa da diversidade étnica e de gênero, condenam as manifestações religiosas como um todo, sem perceberem que participam também de uma manifestação religiosa: o materialismo ateísta. A diversidade é condição de respeito à vida e sinergizadora de processos evolutivos. As ideologias hegemônicas que não aceitam outras maneiras de enxergar a realidade devem ser sempre colocadas em cheque pela livre difusão de conhecimentos os mais variados, sendo o campo religioso um campo cultural privilegiado, na medida em que todo ser humano reflete sobre sua condição de existência. O veículo, por excelência, de produção e difusão de conhecimentos é a Universidade. A Universidade, e mais especificamente as Faculdades de Educação, as Faculdades de Filosofia e de Sociologia, não podem se omitir na discussão de tópico tão relevante a ponto de ser transformado em legislação. Cabe ao mundo acadêmico responder à demanda pública, começando por discutir as questões polêmicas inerentes ao debate sobre ensino religioso, e propondo metodologias a abordagens que não desrespeitem a exigência de ensino laico e de ausência de proselitismo. Este debate deve resultar em propostas concretas e em formação de pesquisadores que possam apoiar o processo de inserção do ensino religioso no currículo escolar. A orientação legal para a composição de cursos de formação para docentes na área deve ser levada a sério pelas Faculdades de Educação como importante foco de atuação e oportunidade de formação de profissionais que ofereçam uma formação libertária e esclarecida, preservando e fomentando a diversidade humana em todos os seus aspectos socialmente relevantes. Omitir-se nesse processo, será deixar o campo aberto para que entidades religiosas que já gozam de poderio econômico e pretensão hegemônica, controlem o ensino religioso fazendo proselitismo de suas doutrinas, como vem acontecendo há séculos no Brasil, malgrado a legislação libertária que vem desde os tempos do Marechal Deodoro da Fonseca! Uma legislação pluralista e que preserva o estado leigo será letra morta frente à omissão daqueles que deveriam zelar pela implementação do respeito à diversidade e pelo aprofundamento do conhecimento relevante para a cultura humana em todas as suas vertentes: os acadêmicos da Educação. Bibliografia e Literatura Complementar Bergson, H. (1932), As Duas Fontes da Moral e da Religião. Editora Almedina. Coimbra. Bergson, H. (1991), Matter and Memory. Zone Books. Nova Iorque. Chomsky, N. (1997), Language and Problems of Knowledge. Teorema, vol 16/2, pp. 5-33 Didi-Huberman. G. (2013), A Imagem Sobrevivente: História da Arte e Tempo dos Fantasmas Segundo Aby Warburg. Ed. Contraponto. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro. Dummet, M. E. (1984), The Philosophical Basis of Intuitionist Logic. Cambridge University Press. Cambridge. pp.97-129. Kastrup, V.; Passos, E. (2013), Cartografar é Traçar um Plano Comum. Fractal, Rev. Psicol.; v. 25; n. 2; p. 263-280. Morowitz, H. Smith,E. 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