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TÓPICOS ESPECIAIS EM EMERGÊNCIAS E INTENSIVISMO Elaboração Erothildes Silva Rohrer Martins Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ................................................................................................. 5 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................................. 7 UNIDADE I TÓPICOS ESPECIAIS 1 ........................................................................................................................................................................................................ 9 CAPÍTULO 1 MANEJO DE FERIDAS .......................................................................................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 INFECÇÕES E SEPSEMIAS NA EMERGÊNCIA E NO INTENSIVISMO E SÍNDROME DA DISFUNÇÃO DE MÚLTIPLOS ÓRGÃOS (SDMO) ........................................................................................................................................................................ 23 CAPÍTULO 3 CHOQUE, SÍNDROME COMPARTIMENTAL E FALÊNCIA MÚLTIPLA DE ÓRGÃOS NA EMERGÊNCIA E NO INTENSIVISMO ..................................................................................................................................................................................................... 55 UNIDADE II TÓPICOS ESPECIAIS 2 ...................................................................................................................................................................................................... 68 CAPÍTULO 1 FLUIDOTERAPIA .................................................................................................................................................................................................. 68 CAPÍTULO 2 DESEQUILÍBRIO ÁCIDO-BASE ....................................................................................................................................................................... 77 UNIDADE III TÓPICOS ESPECIAIS 3 ..................................................................................................................................................................................................... 86 CAPÍTULO 1 HEMORRAGIAS .................................................................................................................................................................................................... 86 CAPÍTULO 2 TRANSFUSÃO SANGUÍNEA ............................................................................................................................................................................ 92 UNIDADE IV INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO ....................................................................................................................................................................... 108 CAPÍTULO 1 INTOXICAÇÕES .................................................................................................................................................................................................. 108 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................................................................... 131 4 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico- tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 ORGANIzAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/ conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 INTRODUÇÃO Neste módulo, vamos discutir os tópicos especiais emergência e intensivismo. Para iniciar esse tema, discutiremos sobre o manejo de feridas na emergência e no intensivismo, as infecções sépticas e como agir nessas situações. Na unidade II, falaremos sobre fluidoterapia e desequilíbrio ácido-base, sintomas observados e condutas de acordo com cada desequilíbrio. Seguindo nosso módulo, temos as alergias, hemorragias e transfusões sanguíneas, situações muito encontradas em grandes traumas. E, para terminar esse módulo, discutiremos sobre as intoxicações, que são muito variadas, desde as mais convencionais por ingestão até aquelas que acontecem de forma tópica. Objetivos » Conhecer os tipos de feridas, bem como as condutas a serem seguidas no recebimento do paciente. » Conhecer as infecções e septicemias, conhecendo como elas se manifestam durante a emergência. » Entender quais os tipos de fluidoterapia e os desequilíbrios encontrados em um paciente descompensado. » Identificar o que fazer com pacientes com hemorragias, bem como o tratamento indicado, muitas vezes sendo necessária a realização de transfusão. » Conhecer como a transfusão deve ser feita, assim como seu acompanhamento e riscos. » Explicitar intoxicações e envenenamentos, sinais observados e tratamentoemergencial que deve ser instituído. 9 UNIDADE ITÓPICOS ESPECIAIS 1 Diversos motivos levam o tutor a procurar o atendimento para o seu animal na emergência, e, entre eles, os traumas costumam estar presentes em muitas dessas ocasiões, sejam eles por quedas, atropelamentos ou brigas. Nesta unidade, abordaremos vários tópicos importantes, tanto em trauma e feridas agudas como em situações nas quais já há infecções e septicemias e até choque e falência múltipla dos órgãos. CAPÍTULO 1 Manejo de feridas É muito comum, na clínica de pequenos animais, o atendimento devido a feridas, mas determinar a gravidade dessas feridas determinará se aquele paciente necessita de tratamento intensivo ou ambulatorial. Segundo Simas (2010), a pele tem grande importância na defesa do organismo, e sua perda ou lesão pode provocar danos severos, como incapacidade, desequilíbrio fisiológico, ou até o óbito desse animal. A terapêutica que será adotada e os possíveis gargalos que poderão acontecer precisam ser avaliados no momento da chegada do paciente nas dependências hospitalares. O tamanho da lesão nem sempre é o parâmetro para determinar a gravidade da situação, mas a profundidade dela é que se deve observar, ou seja, se foram atingidos fáscias, músculos, aponeuroses, articulações, cartilagens, órgãos cavitários, ossos, ligamentos, vasos etc. Um cão pode chegar na clínica com histórico de atropelamento e estar apenas com escoriações externas, ou seja, sua ferida estar limitada à epiderme, derme ou hipoderme, mas, se ele estiver totalmente descompensado, significa que existem lesões mais profundas, enquanto que outro paciente pode ter uma ferida aberta de grande extensão, mas apenas de camadas externas e sem alterações orgânicas visíveis. Sendo assim, o tratamento de ambos acontecerá por caminhos diferentes. A figura 1 mostra um fluxograma para ajudar na tomada de decisão, agilizando o atendimento. 10 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 1. Fluxograma para a tomada de decisão do início do manejo das feridas. AVALIAÇÃO DO PACIENTE E DE SUA FERIDA Paciente estável? Paciente estável. Estabilizar o paciente e proteger a ferida para que não lesione mais Sim - Ferida está limpa? - Os tecidos viáveis? - Lavar a ferida - Fazer o desbridamento inicial Sim - Possível fazer o fechamento primário? (até 24 horas) - Possível fazer o fechamento primário retardado (antes da formação do tecido de granulação) Sim Cirurgia? - Retalho ou enxerto - Técnica de alivio - Técnica de tensão - Incisões de relaxamento? Tecido de granulação está saudável? Considerar cicatrização secundária Cicatrização por secunda intenção Não Não Não Fonte: Critérios Fonte: Critérios Fonte: Lopes, 2016. Ferida, segundo Geovanini (2014) e Perry (2010), conceitua-se como uma ruptura estrutural (solução de continuidade) e fisiológica do tegumento cutâneo, da membrana mucosa ou de qualquer parte do corpo, que tem por etiologias agentes físicos, químicos ou biológicos. A classificação das feridas pode ser: aberta – quando não tem continuidade de pele, como, por exemplo, lacerações, úlceras e queimaduras (POPE, 2009) – e fechada – quando a pele permanece intacta, promovendo proteção da ferida, evitando riscos de contaminação, como, por exemplo, as contusões, hematomas e lesões de esmagamento. Para iniciar o atendimento do paciente com ferida, primeiro é necessário verificar se ele está estável. Pacientes gravemente traumatizados normalmente precisam ter prioridade no atendimento, e é necessário instituir o protocolo de estabilização e, junto a ele, ter o cuidado em proteger a lesão para evitar maiores danos e contaminações. Ela pode ser coberta por uma camada de 11 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I pomada ou gel ou coberta por gazes e uma faixa. Se houver sangramentos, fazer a compressão ou sutura do vaso lesionado evitando perda grandes de sangue que podem causar hipovolemia. Em feridas que envolvem fraturas ósseas, deve ser feita imobilização com talas restringindo os movimentos desse local de forma a evitar maior fragmentação ou mais lesões desses fragmentos. Depois de estabilizado esse paciente, retomar a preocupação de qual será o caminho a seguir para o tratamento daquela ferida. Pacientes com dor não costumam ser colaborativos, então um controle de dor eficiente irá ajudar no manuseio desses pacientes. Contudo, em algumas situações, dependendo da gravidade do ferimento, é indicada a sedação para conseguir avaliar ou mesmo fazer o primeiro atendimento ou estabilização da região lesionada. Segundo Williams (2009), algumas feridas são tão sérias que causam a perda da função dos tecidos, e não é possível a recuperação. Quando isso acontece, se a localização for mais externa, podemos pensar em amputação, mas, se os danos forem ainda maiores, a eutanásia seria uma opção mais assertiva. Se o paciente estiver estável, avalie como está a ferida, determinando o grau de contaminação, conforme as divisões a seguir. Tipos de feridas » Feridas limpas: exemplos de feridas limpas são as feridas cirúrgicas que são realizadas em condições de assepsia e não têm envolvimento dos tratos respiratório, digestivo ou urogenital. Figura 2. Incisão cutânea mostrando uma ferida limpa. Fonte: elaborada pela autora. 12 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » Feridas limpas-contaminadas: são aquelas feridas que são limpas, mas têm envolvimento dos tratos respiratório, digestivo ou urogenital. Exemplo: exérese tumoral oral, que, por mais que a assepsia seja realizada, é um local que tem contaminação. Figura 3. Ferida limpa-contaminada para extração de um dente que havia causado uma fistula. Fonte: elaborada pela autora. » Feridas contaminadas: essas feridas são aquelas traumáticas abertas, incisões em regiões contaminadas ou inflamadas. A seguir, vemos um exemplo de ferida contaminada, uma lesão traumática com bastante edema ao redor. Figura 4. Ferida contaminada – paciente foi mordida por outro cão. Fonte: elaborada pela autora. 13 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I » Feridas sujas/infectadas: feridas traumáticas não recentes ou que envolvam ruptura de vísceras, geralmente já têm uma grade quantidade de bactérias instaladas. A seguir, um exemplo de ferida infectada – gato brigou na rua, foi atendido e fugiu novamente, voltando cinco dias depois Figura 5. Ferida contaminada em gato. Fonte: elaborada pela autora. A duração da contaminação é outra coisa que precisa ser determinada, ou seja, quanto tempo se passou depois do ocorrido da lesão. Dessa forma, classificamos as feridas abertas como 1, 2 e 3. A classe 1 são as feridas com menos de 6 horas; a classe 2 são as feridas entre 6 e 12 horas; e a classe 3 são aquelas expostas por 12 horas ou mais (PAVLETIC, 2010). Essa classificação tem um intuito de prever um pouco do grau de contaminação bacteriana; podemos entender melhor no quadro a seguir. Quadro 1. Classificação de feridas abertas de acordo com o grau e duração de contaminação. Grau de contaminação Duração de contaminação Limpa – classe 1 Mínimo 0-6 horas Limpa-contaminada – Classe 1 Mínimo 0-6 horas Contaminada – Classe 2 Significante 6-12 horas Contaminada – Classe 3 Elevado 12 horas ou mais Suja/infectada – Classe 3 Elevado 12 horas ou mais Fonte: Adaptado de Pavletic, 2010. 14 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Observando o quadro, podemos concluir que, quanto antes o atendimento e a avaliação forem realizados, menor será o risco de infecção, evitando, dessa maneira, futuros problemas circulatório ou mesmo necróticos do tecido e uma recuperação mais rápida do paciente. O manuseio da ferida sempre deve ser interligado com uma avaliação geral do paciente (DERNELL, 2006), pois a cicatrização e a estabilização devem ser pensadas antes de intervir, buscando sempre bons resultados, sejam eles por meio cirúrgico ou conservador. Após o paciente ser estabilizado, a ferida deve ser avaliada para serdefinido qual caminho tomar, ou seja, qual será o plano de tratamento a ser seguido para aquela situação. Sendo assim, um exame detalhado determinará o grau das lesões e se há mais tecidos envolvidos; junto com isso, a tricotomia pode ser realizada, uma vez que ela ajudará a visualizar melhor o local, principalmente se o paciente tiver muito pelo. Além disso, esse procedimento simples de tricotomia fará com que não haja acúmulo de exsudado e consequentemente também não tenha propagação bacteriana e ajudará nos curativos de enfermagem, quando a opção for o tratamento conservador, ou servirá de preparo, se a opção for cirúrgica. Depois da tricotomia realizada (importante fazer sempre a tricotomia de uma região bem maior que a da localização da lesão), o local precisa ser lavado, o que ajudará na visualização melhor da lesão, principalmente dos tecidos mais internos (DERNELL, 2006). O papel da lavagem, além de ajudar na visualização, é diminuir a carga bacteriana e/ou material estranho presente na lesão (exemplo: terra, pedras), reidratação do tecido necrótico, e remover também toxinas, citocinas e bactérias quando as feridas já estão infectadas (ANDERSON, 2009). O mesmo autor ainda recomenda que, para uma remoção completa das bactérias, é precisa a utilização de uma seringa de 20-30ml acoplada em uma agulha de 18 g para empregar uma pressão de 6-8 psi. Podem ser usados soro fisiológico, ringer com lactato, soluções antissépticas (Iodopovidona, clorexidina) ou mesmo água de torneira, mas essa última deve-se utilizar apenas em situações nas quais a ferida está extremamente contaminada, mas nunca em feridas limpas (HENGEL et al., 2013). Fossum (2013) defende ainda que, nessas situações, os antissépticos são contraindicados por provocarem inflamações consideráveis em feridas abertas. 15 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 6. Poodle com uma ferida cheia de terra, iniciando o processo de lavagem para depois ser encaminhada para cirurgia de amputação. Fonte: elaborada pela autora. Em feridas abertas por mais tempo ou que já possuem necrose no tecido e/ou resíduos ainda em seu interior, é recomendada a utilização da técnica de desbridamento, na qual será realizada a remoção de todo esse tecido contaminado e transformar-se-á a ferida em limpa, com bordas íntegras aptas para um fechamento limpo e livre de contaminação, tornando, dessa maneira, a cicatrização mais rápida e eficiente, mesmo em feridas cujo tratamento deverá ser realizado como ferida aberta Segundo Williams (2009), essa técnica é a chave do sucesso. Para Fossum (2013), quando o paciente que possui trauma por mais de 48 horas, é perceptível a necessidade de realizar a técnica do desbridamento, já que é facilmente notada a presença de tecido necrótico na ferida. Tipos de desbridamento Existem várias técnicas de desbridamento que podem ser aplicadas; a escolha delas vai depender do paciente e das características da ferida, ou seja, quanto de tecido necrótico está instalado, a qualidade e elasticidade do tecido ao redor da lesão, se o paciente está estável para ser anestesiado ou sedado – tudo deve ser avaliado para a escolha de qual técnica de desbridamento será utilizada (HENGEL et al., 2013). O desbridamento pode ser dos tipos: » cirúrgico; 16 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » mecânico; » químico; » autolítico; » enzimático; » biocirúrgico. Estes tipos podem ser classificados como seletivos ou não seletivos. O não seletivo é uma forma rápida e agressiva de remover tecido necrótico; ele pode remover junto tecido viável, mas, em um primeiro momento, facilita o início da formação de tecido de granulação e, consequentemente, uma cicatrização precoce. São técnicas não seletivas são os desbridamentos: cirúrgico, mecânico e químico. Já o desbridamento seletivo é uma técnica mais lenta, menos agressiva. Dessa maneira, ela vai reavendo aos poucos o tecido necrótico, diminuindo o trauma dos tecidos viáveis ao redor. São os tipos: autolítico, enzimático e biocirúrgico. Vale lembrar ainda que, em casos de feridas muito contaminadas, às vezes é preciso fazer o desbridamento e a lavagem vários dias seguidos até conseguir uma ferida limpa e saudável. Desbridamento cirúrgico A técnica consiste na remoção cuidadosa do tecido necrosado ou contaminado. A opção mais usada é iniciar a remoção por camadas, começando pelo tecido superficial, que está desvitalizado, e progredindo para os mais profundos, de acordo com a avaliação e necessidade. Pode ainda ser realizada em blocos, mas apenas para aquelas feridas que estão visivelmente infectadas. O desbridamento em bloco pode também ser usado quando existe superfície suficiente para utilizar a técnica de reconstrução. É importante lembrar que, quando a lesão está muito inflamada, é difícil determinar onde termina o tecido necrosado e começa o saudável. Nesses casos, devemos optar por um desbridamento periódico, de forma a remover os tecidos necróticos mais visíveis até conseguir ter a visualização do tecido rosado ou vermelho indicando o tecido saudável. 17 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 7. Ferida não cicatrizante, ulcerada e com células de granulação ao redor. Fonte: Lopes, 2016. Figura 8. Desbridamento cirúrgico ao redor da ferida. Fonte: Lopes, 2016. Figura 9. Retirada de toda a parte ulcerada. Fonte: Lopes, 2016. Figura 10. Ferida após o desbridamento, mostrando tecido saudável e boa irrigação. Fonte: Lopes, 2016. 18 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Desbridamento mecânico O desbridamento mecânico é realizado usando força física, ou seja, será esfregado o local da ferida, podendo ser com uma gaze umedecida ou com jatos de solução fisiológica, sempre com o intuito de remover o tecido necrosado. Depois de limpo, pode ser colocada gaze limpa umedecida com soro e, na próxima troca de curativo, ela pode ser removida de uma vez, depois de seca. Apesar de ser uma boa forma de desbridamento, é muito doloroso e é um método não seletivo, removendo também tecidos de cicatrização bons. Desbridamento químico Nessa técnica, são utilizadas soluções para fazer a lavagem da ferida; essas soluções ajudam na remoção do tecido necrótico ou outros artefatos e da carga bacteriana instalada que possa estar atrapalhando sua cicatrização. Exemplo de soluções que podem ser usadas: » clorexidina (0,05%); » iodopovidona (1%); » peróxido de hidrogênio. Figura 11. Ferida com tecido necrosado, coloração com aspecto ruim. Fonte: Lopes, 2016. 19 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 12. Após a lavagem, a coloração mais avermelhada e sem a presença de tecido necrótico; já pode ser observado tecido de granulação ao redor. Fonte: Lopes, 2016. Desbridamento autolítico É um tipo de desbridamento menos invasivo, indolor e seletivo, no qual o próprio organismo ou substâncias naturais fazem a limpeza, ou seja, as enzimas e os leucócitos que agirão. Ele também provoca reidratação dos tecidos, mantendo, dessa maneira, o ambiente úmido. Alguns produtos podem ser usados nesse processo, como: » hidrogel; » hidrocoloides; » alginato de cálcio; » mel; » açúcar. Todos esses produtos ajudam a manter o ambiente úmido, pois favorecem o acúmulo de fluido (HENGEL et al., 2013). Desbridamento enzimático Semelhante ao desbridamento autolítico, é um método também seletivo e que utiliza enzimas para degradar o tecido necrótico e liquefaz também coágulos, mas essas enzimas não são do próprio corpo, são exógenas, como, por exemplo: 20 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » colagenase; » papaina. Fechamento Para finalizar, é preciso observar a possibilidade de fechar a ferida. Para determinar isso, é preciso saber há quanto tempo aconteceu a lesão, se há muito tecido lesionado, se tem circulação sanguínea que dará o suporte, como está o grau de tensão nos tecidos, se tem presença de espaço morto etc. (FOSSUM, 2013). É preciso verificar se é possível fechar, se tem resíduos, se o tecidoestá viável e com circulação e se não tem presença de infecção. Todas essas respostas ajudam a determinar o tratamento escolhido para aquela lesão. O fechamento primário é indicado apenas em ferimentos limpos, cujas bordas foram mantidas fechadas. Fechamento primário » imediato ou quando tem menos de 24 horas (preferencialmente 6-8 horas); » bordas limpas e próximas; » pouco ou nenhum exsudato; » ausência de infecção; » pouco edema. Fechamento primário atrasado » É possível fazer o fechamento antes da formação de tecido de granulação. » Deve estar com mais de oito horas, mas máximo entre três e cinco dias (HENGEL et al., 2013). » É usado quando se precisa diminuir a inflamação. » É preciso fazer tratamento com bandagens antes do fechamento, possibilitando drenagem e desbridamento em fases e, só se o ferimento estiver com características limpas ou seja tecido viável e sem sinais de contaminação, é que poderá ser feito o procedimento para o fechamento. 21 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I » Permite o desenvolvimento de uma linha que separa o tecido viável do necrosado, facilitando o procedimento cirúrgico para realizar o desbridamento. A cicatrização primária tem o seu início das bordas para o centro, enquanto que a cicatrização por segunda intenção tem o seu início do centro para as bordas. Quadro 2. Tipos de cicatrização e o tempo para se fazer o fechamento da lesão. Tipos de Fechamento Caracteristica e Tempo Primário Fechamento primário imediato. 6-8 horas “período ouro”. Fechamento primário retardado. Antes da formação de tecido de granulação. Secundário Fechamento secundário. Após a formação de tecido de granulação 3-5 dias. Por segunda intensão Fechamento por segunda intensão. Quando já passou um tempo e o organismo deu início à formação de tecido de granulação. Fonte: elaborada pela própria autora. Figura 13. Ferimento por ataque de capivara, 14 horas depois de acontecido. Fonte: elaborada pela autora. Figura 14. Mesma ferida da figura 13, depois de lavada. Fonte: elaborada pela autora. 22 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 15. Ferimento após dez dias. Fonte: elaborada pela autora. Figura 16. Ferimento após 14 dias, depois de tratamento por segunda intenção. Fonte: elaborada pela autora. Figura 17. Ferimento após 21 dias, depois de tratamento por segunda intenção. Fonte: elaborada pela autora. 23 CAPÍTULO 2 Infecções e sepsemias na emergência e no intensivismo e Síndrome da Disfunção de Múltiplos Órgãos (SDMO) Segundo dados do Instituto Latino-americano de sepse, ela é a principal causa de óbitos nas unidades de terapia intensiva (UTI), chegando a 65% no Brasil tendo a média mundial variando de 30-40% das mortes. Na medicina veterinária, ela é responsável por um alto índice de mortalidade dentro das UTIs veterinárias, o que torna necessária a intervenção imediata e início do tratamento o quanto antes. Com o intuito de salvar vidas e reduzir a mortalidade na medicina humana, em 2003, começou uma campanha chamada Surviving Sepsis Campaign (SSC) “Campanha Sobrevivendo à Sepse” que teve sua última versão em 2013 (DELLINGER et al., 2013). Na veterinária, muitas coisas são adaptadas da medicina humana, então, usando Sepse 1 e SSC, foi adaptada uma tabela para a veterinária com recomendações para o tratamento de sepse, como podemos ver no quadro 3. O principal objetivo da SSC foi diminuir a taxa de mortalidade em 25% depois do início da aplicação dos guias de conduta em um total de 5 anos. Em 2003, um grupo de especialistas se reuniu para desenvolver um pacote com diretrizes para o tratamento em sepse grave que posteriormente foi publicado em uma revista bastante conceituada na área de medicina intensiva. Chegando em 2006, aconteceu nova reunião com o objetivo de revisar as recomendações propostas em 2004 e, novamente, em 2012. Apenas em 2017, porém, foram geradas as atuais diretrizes da Campanha Sobrevivendo à Sepse, que foram aplicadas no mundo todo. Quadro 3. Recomendações para o tratamento de sepse da Campanha Sobrevivendo à Sepse de 2012. Manutenção de pressão arterial média (PAM) 65 mmHg Débito urinário. Maior 0,5 ml/kg/h. Pressão venosa central. Entre 8-12 cmH2O. Saturação venosa veia cava superior. Maior que 70%. Normalização do lactato sérico. Queda maior ou igual a 20% nas primeiras 2 horas do valor inicial medido. Fonte: Surviving Sepsis Campaign (2012). 24 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 A classificação do doente séptico é uma coisa muito complexa para ser definida, mas o consenso que foi preconizado é que esse doente precisa ser identificado precocemente, além do que é preciso ter uma noção clara da situação dele. Dessa maneira, podemos observar uma resposta inflamatória sistêmica sem infecção, e infecção sem ter uma resposta inflamatória. De acordo com Sociedades de Urgências e Cuidados Intensivos Veterinários, para que o paciente seja classificado como um doente com resposta inflamatória sistêmica, ele deve ter pelo menos três dos quatro critérios propostos na avaliação que podemos ver na tabela 1: Tabela 1. Critérios de SIRS em cães e gatos. Cães Gatos Tempo (TR ºC) <38,1 ou >39,2 <37,8 ou >40 Frequência cardíaca (bpm) >120 <140 ou >225 Frequência respiratória (mrm) >20 >40 Leucócitos (x10³); Bastonetes % <6 ou >16; >3% <5 ou >19,5; >5% Fonte: Curso oficial de ABC cuidados intensivos (2019). Para Rabelo (2013), algumas características podem estar associadas a disfunção orgânica, como: a hipotensão (com a PAM menor que 80 mmHg ou PAS menor que 90 mmHg), oliguria (com débito urinário inferior a 0,5 mL/Kg/h) ou níveis de creatinina sérica superiores a 2 mg/dL, hiperbilirrubinemia sérica (maior que 0,5 mg/dL), consciência alterada (Glasgow com pontuação inferior a 17 pontos ou AVDN menor que A – Alerta), disfunção respiratória, alterações de coagulação, íleo paralitico, hipoalbuminemia (menor que 2,5 g/dL) e hiperlactatemia (maior que 3,2 mmol/L). Para saber como diagnosticar, existem alguns marcadores que devem ser utilizados. Eles estão presentes nos seguintes sistemas: respiratório, circulatório, gastrointestinal, geniturinário e sistema nervoso central. Observe no quadro abaixo: Quadro 4. Marcadores que devem ser observados em cada sistema. Sistemas Marcadores Sistema nervoso central AVDN + sono Digestório Presença de burburinhos Geniturinário Débito urinário Respiratório FR + padrão Circulatório Hemodinâmica Fonte: elaborada pela própria autora. 25 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I No sistema nervoso central, a escala de Glasgow é utilizada com frequência na neurologia da medicina humana, e a de coma de Glasgow pediátrica humana pode ser perfeitamente adaptada para utilização na medicina veterinária, pois, segundo Simpson e Reilly (1982), as crianças até dois anos possuem uma resposta verbal limitada, podendo, dessa maneira, a mesma escala se encaixar bem com nossos cães e gatos, como pode ser observado no artigo de Andrade e colaboradores (2010), no qual eles transformaram a escala de Glasgow pediátrica em uma veterinária (quadro 5). Quadro 5. Escala de coma de Glasgow pediátrica modificada para cães. Indicador Critérios/respostas Escore Abertura ocular Espontânea 4 Estímulo verbal/comando 3 Estímulo verbal/comando/ao grito 3 Estímulo doloroso 2 Sem abertura 1 Melhor resposta à vocalização Latido/rosnado 5 Choramingo irritado 4 Choramingo à dor 3 Ganido a dor 2 Sem resposta 1 Melhor resposta motora Movimento espontâneo 6 Reação ao toque 5 Reação a dor 4 Flexão anormal – descorticação 3 Extensão anormal – descerebração 2 Nenhuma 1 Total 15 Fonte: Andrade et al, 2010. Podemos usar também o AVDN visualizado da seguinte forma: A para pacientes que se encontram em alerta; V para aqueles que respondem verbalmente (latem, miam etc.); D quando o paciente responde apenas com estimulo de dor; e N quando paciente não responde a nada. 26 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Quadro 6. Significado do AVDN. Sigla SignificadoA Paciente encontra-se Alerta. V Paciente responde Verbalmente. D Paciente responde apenas com estimulo de Dor. N Paciente Não responde a nada. Fonte: elaborada pela autora. O sistema digestivo precisa ser avaliado durante a palpação abdominal, para verificar se não se encontra distendido visualmente ou se o paciente sente dor à palpação. Auscultação de burburinhos pode ser pesquisada no primeiro momento do exame, acompanhando se tem obstrução e ausência de peristaltismo. Em caso de dor observar se é focal podendo está relacionado a intuscepção ou corpo estranho, pancreatite, ulceras gastrointestinais. Caso a dor seja regional, pode estar relacionada a uma pancreatite moderada a grave ou colicistite e, se a dor for difusa, pode ser uma gastroenterite difusa, peritonite ou mesmo dor vertebral. A presença do burburinho será usada como um marcador importante, principalmente com a evolução do quadro do paciente na internação. É importante lembrar também que a idade pode trazer informações importantes – por exemplo, em pacientes jovens, é mais comum ter alteração relacionadas a corpo estranho, infecções virais e parasitárias. Com gatos jovens, é muito comum a ocorrência com corpo estranho linear (exemplo: uma agulha com linha). No sistema urinário, o marcador observado é o débito urinário, mas, durante a triagem, algumas perguntas devem ser feitas aos tutores para direcionar quanto ao possível problema instalado com a disfunção orgânica em questão. Por exemplo: » Qual a quantidade de urina que ele faz? Como está a coloração? Sente algum cheiro diferente? » Qual é a frequência que ele urina? Como é o seu comportamento antes, durante ou depois (se ele força pra urinar, fica ensaiando antes de fazer etc.)? » Bebe muita água? 27 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I » Come bem? Como é o apetite dele? (avaliar o escore corporal junto – em pacientes com injúria renal instalada, ocorre o consumo da musculatura) » Quando ele tem alguma coisa costuma dar algum medicamento? Qual costuma dar? » Quando o tutor viaja, costuma levar o paciente? (alguns cães ficam segurando para não urinar e, se a viagem for muito longa, com o tempo, pode causar problemas). Após essas perguntas, para direcionar qual a possível causa renal (pré-renal ou pós-renal), a avaliação clínica vai ajudar a diferenciar o restante. No exame físico, devem ser observados: » hidratação; » TPC (tempo de preenchimento capilar), bem como a sua coloração; » FC e FR; » pulso; » observar a distensão da veia jugular; » temperatura corporal; » edema nos membros posteriores; » presença de efusão pleural e/ou abdominal. Quadro 7. Exemplos de problemas que causam alterações pré-renal e pós-renal. Pré-renal Pós-renal Função cardíaca com problema (insuficiência cardíaca congestiva, arritmias, ventilação por pressão positiva após parada cardíaca, tamponamento cardíaco). Ruptura da bexiga. Alterações hormonais podem causar a diminuição da urina (secreção de ADH – hormônio antidiurético). Herniação da bexiga. Opioides (função semelhante ao ADH). Ruptura, obstrução ou estreitamento da uretral. Doenças pulmonares. Ligadura iatrogênica de ureteres ou uretra. Pacientes ventilados. Urólitos. Policitemia. Uretrite granulomatosa. 28 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Pré-renal Pós-renal Hiperproteinemia/hiperglobulinemia. Doenças prostáticas. Sepse. Terapia com vasodilatador. Fonte: elaborada pela própria autora. O acompanhamento da produção urinária é uma ferramenta de avaliação e acompanhamento para monitorar o sistema urinário. Com ele, conseguimos monitorar a função renal nesses pacientes críticos. O normal é que essa produção fique entre 1-2 ml/kg/h; quando o paciente está desidratado, porém, esse débito estará diminuído e o contrário também pode acontecer – naquele paciente que está recebendo fluido acima do necessário, o débito urinário irá aumentar. Para o exame de urina, deve ser feita a coleta antes do início da medicação e devem ser realizados cultura e antibiograma da urina. Como marcador do sistema respiratório, precisam ser observados a frequência respiratória e o padrão dessa respiração, olhar o paciente e verificar se respira ou não, respira mal ou respira bem. O normal é 18 a 36 rpm em cães e 20 a 40 rpm em gatos (FEITOSA, 2004) A dispneia, quando presente, precisa ser analisada para definir o quanto a respiração está comprometida. É muito importante uma boa avaliação do paciente com angústia respiratória para início do tratamento e definição do possível diagnóstico. Saber se o problema está no pulmão ou no espaço pleural irá facilitar a estabilização desse paciente. Na respiração normal, o tórax e o abdômen se movimentam em conjunto durante a inspiração, mas uma desarmonia entre eles significa que alguma coisa está errada. Outra forma de observar a dificuldade respiratória é avaliar a postura do paciente: cães com dificuldade em respirar costuma abrir a boca na intensão de buscar um conforto, além de esticar o pescoço e elevar um pouco a cabeça, pois faz com que a traqueia se estenda, facilitando a entrada do ar. Podemos ainda observar alguns cães preferem ficarem em estação ou em decúbito esternal, buscando uma menor compressão do tórax. Em gatos, porém, não é observada a posição de decúbito esternal nessas situações. 29 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 18. Filhote com dificuldade respiratória evitando compressão do tórax. Fonte: elaborada pela autora. Figura 19. Filhote, após receber a suplementação de oxigênio e iniciado o tratamento, voltou a respirar sozinho sem dificuldades nem necessidade de oxigenar. Fonte: elaborada pela autora. A avaliação da coloração da mucosa pode nos passar informações importantes sobre o início da causa dessa dificuldade respiratória, algumas delas listadas no quadro a seguir. Quadro 8. O que observar na coloração da mucosa durante o exame físico do paciente dispneico. Coloração de mucosa Possíveis significados Mucosa marrom Presença de toxinas. Ex.: cianeto e paracetamol. Mucosa pálidas Anemia ou vasoconstrição periférica. Mucosa cianótica Hipoxemia severa. Vermelho vivo Monóxido de carbono (causa muito desconforto respiratório). Fonte: elaborada pela própria autora. 30 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Junto com a coloração da mucosa, a auscultação do tórax precisa ser realizada, e podem ser ouvidos sons como crepitação, sibilos e estridores e cada um deles irá nos direcionar para os prováveis problemas, como podemos ver no quadro a seguir. Quadro 9. O que observar na coloração da mucosa durante o exame físico do paciente dispneico. Sons Possíveis significados Observações Sibilos Estreitamento das vias respiratórias pode ser por várias causar. Ex.: massa, edema, muco, inflamação. Sibilos na inspiração – afecções no trato respiratório superior. Sibilos na expiração – afecções no trato respiratório inferior. Crepitação Presença de fluidos nas vias aéreas ou nos alvéolos. Crepitações suaves no fim da inspiração – edema pulmonar, hemorragia, exsudato purulento no alvéolo. Altos estridores Fibrose pulmonar ou bronquite. Sons fracos, abafados ou difíceis de ouvir Afecções no espaço pleural devem ser pesquisadas. Pneumotórax, efusão pleural, hernia diafragmática, neoplasias. Fonte: elaborada pela própria autora. É importante lembrar que, durante a auscultação cardíaca, a palpação do pulso ao mesmo tempo ajuda a decidir quanto o problema cardíaco é responsável pela dificuldade respiratória. Entretanto, em gatos, isso é mais difícil de ser determinado. Para estabilizar o paciente com angústia respiratória, é preciso melhorar a qualidade da respiração dele. Sendo assim, é necessário aumentar a quantidade de oxigênio que esse paciente inspira. A oxigenioterapia pode ser feita de várias formas, como máscara (que nem todos os pacientes gostam), com o tubo próximo a boca ou narinas, colar elizabetano com o papel filme na frente (tampa-se a frente do colar deixandoapenas um espaço de mais ou menos dois dedos para sair o vapor de água e o dióxido de carbono, e o tubo de oxigênio é colocado preso no colar elizabetano), uma boa opção para cães braquicefálicos e alguns gatos. Essa técnica costuma diminuir um pouco o estresse desses animais, que pode piorar o quadro respiratório. A gaiola de oxigênio também pode ser é uma maneira fácil de administrar o oxigênio, mas é importante que a porcentagem de oxigênio seja de 100%. Um dos problemas dessas gaiolas é que nem sempre o percentual esperado é alcançado e, se o cachorro for muito grande, pode não caber dentro da gaiola. E, quanto à cânula nasal, pode ser usado o cateter em óculos, mas deve ser compatível com o tamanho das narinas do paciente; cateteres urinários ou sondas gástricas podem ser usados para essa finalidade. Em cães agitados ou muito ativos, é só colocar cerca de 1 cm dentro da narina e 31 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I prender na parte de fora com esparadrapo ou suturado. Cães braquicefálicos e gatos não reagem muito bem com essa técnica de oxigenação. Observe a melhora do paciente ao início da oxigenioterapia. Caso ele ainda permaneça dispneico mesmo com a suplementação de oxigênio, é possível que seja preciso realizar uma toracocentese para retirada de ar ou líquido. Figura 20. Paciente recebendo oxigenioterapia com o colar elizabetano com papel filme na frente, deixando um espaço em cima. Fonte: cedida por Christine S. Martins, UnB. Figura 21. Paciente recebendo oxigenioterapia usando o tudo na frente da narina. Fonte: Rabelo, 2020. Figura 22. Paciente recebendo oxigenioterapia por meio de máscara. Fonte: Rabelo, 2020. 32 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 23. Paciente recebendo oxigenioterapia com a sonda nasal. Fonte: Rabelo, 2020. Figura 24. Oxigênio via transtraqueal. Fonte: Rabelo, 2020. A toracocentese pode ser realizada tanto para diagnóstico como para tratamento do paciente. Figura 25. Paciente fazendo a toracocentese. Fonte: elaborada pela autora. 33 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Sinais clínicos em vias aéreas superiores costumam afetar a laringe e causam estridor bem alto que, mesmo sem o estetoscópio, pode ser ouvido. O estertor ou estridor pode ser ouvido inicialmente durante a inspiração. Nos quadros a seguir, podemos ver os sinais clínicos e diagnóstico diferencial que podemos pesquisar. Quadro 10. Sinais clínicos associados a obstrução de vias aéreas superior e o diagnóstico diferencial em cães e gatos. Sinais clínicos e histórico associado com obstrução da via aérea superior Dispneia: » estertor ou estridor audível; » aumento do esforço respiratório com inspiração prolongada (respiração laboriosa); » mudança na vocalização; » intolerância ao exercício – piora com exercício ou quando estressado; » ofegar excessivo; » hipertermia. Fonte: adaptada de Waddell e King (1999) . Quadro 11. Diagnóstico diferencial em cães e gatos. Diagnóstico diferencial » síndrome braquicefálica » paralisia laríngea » colapso de traqueia » pólipo nasofaríngeo (gatos) » aspiração de corpo estranho » neoplasia de via aérea superior » massa retrofaríngeas, abcesso ou hematomas Fonte: adaptada de Waddell e King (1999). O manejo do paciente com obstrução da via aérea superior começa fazendo com que ele descanse na presença da oxigenioterapia e mais algumas coisas, como as descritas abaixo: » suplementação de oxigênio; » descanso e sedação caso necessário (a acepromazina pode ser utilizada e associada com algum opioide); » se tiver sedado ou em colapso, colocar o paciente com o pescoço e cabeça esticados, a boca aberta e a língua puxada para fora da boca; 34 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » fazer o acesso, caso ainda não tenha sido realizado; » evitar ao máximo o estresse; » anti-inflamatório do tipo esteroide em dose imunossupressiva; » monitorar temperatura e, em caso de hipertermia, resfriá-lo; » fluidoterapia (avaliar se é para desidratação ou hipovolemia); » traqueostomia emergencial ou entubação, se não responder ao manejo medicamentoso. Dizer que o paciente está com boa respiração significa que o oxigênio entra e sai CO2, tudo isso de forma sincrônica e sem dificuldades; mas o paciente que respira mal, em algumas situações, precisa de uma intervenção mais invasiva, situação na qual a intubação é preconizada. Ela pode ser fácil, ou seja, o traqueotubo é colocado sem problemas na traqueia, ou pode ter algumas resistências, de modo que será necessário realizar uma crico ou traqueostomia. O índice de Cormack-Lehane é muito usado na medicina humana para definir o grau de dificuldade de intubação, sendo que grau I significa que existe uma boa visualização, ou seja, consegue-se ver toda a anatomia da glote, sendo assim provável que seja fácil a intubação. A de grau II tem a visualização parcial, consegue-se ver apenas a região posterior da glote, mas a entubação pode ser realizada. Já nos graus III (visualiza somente epiglote) ou IV (nenhuma visualização), se tem pouca ou nenhuma visualização e é preciso fazer crico ou traqueostomia, pois a intubação possui um alto grau de dificuldade. Esse índice é facilmente adaptado para a medicina veterinária. O quadro a seguir mostra o passo a passo para a traqueostomia de emergência. Quadro 12. Passo a passo para uma traqueostomia de emergência. Passo a passo para traqueostomia 1 Confirmar se não tem como fazer a intubação. 2 Com o paciente em decúbito lateral direito, estique o pescoço para melhor visualização da região. 3 Faça a tricotomia e assepsia na região cervical ventral. 4 A incisão deve ser feita desde a cartilagem cricoide até o sexto espaço da traqueia. 5 Os músculos esternais sevem ser separados lateralmente. 6 A traqueia é separada e a incisão é feita entre o terceiro e quarto anel traqueal. 35 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Passo a passo para traqueostomia 7 A incisão deve ser de cerca de 50% da circunferência da traqueia. 8 O tubo de traqueostomia deve ser compatível com a incisão realizada. 9 É feita uma sutura no anel superior e no inferior da incisão para facilitar a colocação do tubo de traqueostomia. 10 O tecido subcutâneo e pele são posicionados cranial e caudalmente, de modo que a abertura fique grande se for precisa nova reintubação. 11 O tubo é fixado com esparadrapo e faixa ao redor do pescoço para dar mais segurança. Fonte: elaborada pela própria autora. Algumas síndromes da obstrução aérea superior: » síndrome da obstrução braquicefálico; » paralisia de laringe; » colapso de traqueia; » pólipos inflamatórios nasofaríngeos; » aspiração de corpo estranho; » massas em vias aéreas superiores. Os problemas relacionados as vias aéreas inferiores que acometem os pacientes normalmente estão relacionados a questões nos brônquios e de origem inflamatória, e a tosse é muito observada como sinal clínico desses pacientes. A broncopneumonia é uma complicação que pode acontecer nesses pacientes, que acabam tendo a diminuição do sistema imunológico. Quadro 13. Sinais clínicos observados em pacientes com enfermidades nas vias aéreas inferiores. Sinais clínicos em pacientes com enfermidades nas vias aéreas inferiores Tosse Intolerância ao exercício Dispneia Aumento dos sons broncovesiculares Sibilos Fonte: King, 2013. Os pacientes nesse quadro, quando chegam à emergência, costumam já estar com a doença no último estágio ou em crise e, na maioria dos casos, apresentam um quadro bem ruim e precisam ter prioridade no atendimento, tendo a 36 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 oxigenioterapia instalada imediatamente. Se o paciente estiver muito angustiado, a sedação pode ser recomendada, mas precisa se confirmar antes se não existe um problema cardíaco associado que impeça esse procedimento. Após colocar o paciente em oxigenação, deixá-lo em repouso e evitar ao máximo qualquer esforço, fazer o acesso vascular e iniciar com anti-inflamatórios esteroidais em dose imunossupressiva– pode ser a dexametasona ou prednisolona –, visto que a maioria das situações tem sua origem inflamatória. Na sequência, iniciar com broncodilatadores – podem ser usadas a terbutalina ou hidrocodona –, antitussígenos também são importantes nessa fase, seguidos de antibióticos. Não esquecer de fazer a coleta de sangue para cultura antes de iniciar com essa medicação. A radiografia torácica pode ser realizada para descartar doença alveolar pulmonar, mas deve ser feita desde que o paciente aceite a manipulação e o lavado transtraqueal para cães de grande porte ou lavado endotraqueal, que é mais recomendado para cães de pequeno porte – ele é usado para cultivo bacteriano e fúngico bem como o exame citológico. A seguir, apresentamos o passo a passo dos lavados transtraqueal e endotraqueal. O lavado transtraqueal pode ser feito com o paciente acordado, a menos que ele esteja indócil. É mais usado para cães grandes usando cateter interno com agulha 18 para coletar a amostra, sendo 30 cm de comprimento para esses cães, e, se for realizado em cães de pequeno porte, deve ser usado com 20 cm de comprimento. Quadro 14. Passo a passo do lavado transtraqueal (LTT). 1. Realizar a tricotomia e assepsia da região ventral do pescoço, importante ser próximo da laringe. 2. Aplicar um anestésico local, pode ser a lidocaína, ele dever ser aplicado na região onde será colocado o cateter, esse local costuma ser entre o 2ª e o 5ª anel traqueal. 3. Segure a traqueia com os dedos indicador e polegar, passe o cateter através da pele, e coloque a ponta do cateter entre os dois anéis, a ponta do cateter é mantida perpendicular a traqueia e o bisel da agulha par baixo e é empurrada para o lúmen da traqueia. 4. A agulha é inclinada parabaixo e o cateter é empurrado para o comprimento da traqueia. 5. Se o cateter não entrar com facilidade retirar a agulha e coloca-la novamente 0,25cm da ponta de onde a agulha estava, em seguida coloque novamente dentro da traqueia para posicionar o cateter. 6. Depois que todo o cateter for posicionado dentro da traqueia a agulha então é removida do cateter. 7. Injetar de 5 a 10 ml de solução salina estéril dentro do cateter. 8. O cão é estimulado a tossir e produzir a amostra, por isso a importância do paciente está alerta. 9. Esse procedimento pode ser feito mais de 3 vezes até conseguir produzir uma amostra adequada. 10. A amostra é colocada e um recipiente estéril para a cultura e citologia. 37 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I 11. O cateter então é removido do pescoço e deve ser colocado uma gaze para evitar sangramento. Problemas que podem acontecer: » Enfisema subcutânea » Pneumomediastino » Pneumotórax » Sangramento » Quebra de cateter e aspiração do cateter na via aérea » Piora do quadro respiratório do paciente devido ao estresse do mesmo durante o procedimento. Fonte: King, 2013. O lavado endotraqueal é mais indicado para cães de pequeno porte e gatos ou para cães grandes que estão anestesiados; porém, a anestesia é leve e o paciente precisa estar estabilizado o suficiente para evitar movimentação. Quadro 15. Passo a passo do lavado endotraqueal (LET). 1. Um tubo endotraqueal estéril deve ser introduzido na traqueia de modo a evitar a contaminação oral. 2. Uma sonda uretral de cão ou um cateter padrão de borracha vermelha é usado para injetar a solução salina estéril através do tubo endotraqueal. 3. A aspiração pelo cateter é feita enquanto animal é estimulado a tossir. IMPORTANTE: Pacientes devem ser monitorados durante toda a recuperação para ter certeza que não tem nenhum problema com a oxigenação ou ventilação. Fonte: King, 2013. Quadro 16. Fármacos utilizados para tratamento de emergência dos pacientes com enfermidades na via área inferior. Fármacos Dose e via de administração Dexametasona 0,25 – 0,5mg/kg IV ou IM Prednisolona 0,5 – 1mg/kg IV, IM ou via oral Terbutalina 0,01 mg/kg IV ou IM ou 0,5 – 1 mg/kg via oral Aminofilina 5,5 mg/kg IV Butorfanol 0,2 – 0,4 mg/kg IV ou IM 0,5 – 1 mg/kg via oral HIdrocodona 1,25 – 5 mg/kg via oral Fonte: King, 2013. A hemodinâmica é o marcador utilizado para o acompanhamento do sistema circulatório. Essa monitorização é realizada buscando informações da macrocirculação – que são as artérias e veias – e da microcirculação – que são as arteríolas, capilares e vênulas pós-capilares. Para a realização desse 38 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 acompanhamento, existem técnicas invasivas, como a pressão venosa central (PVC), e não invasivas, como o eletrocardiograma. Além disso, os sinais clínicos verificados durante o exame físico ajudam a direcionar para a busca de possíveis cardiopatias. Pacientes com problemas cardíacos costumam ter as mesmas reclamações, como: » dispneia; » colapso; » sincope; » tosse; » cianose; » sinais de tromboembolismo periférico (principalmente em gatos). Outros sinais podem estar presentes e devem ser pesquisados para ver se a possível causa é cardíaca ou não, como pode ser melhor observado no quadro a seguir. Quadro 17. Causas cardíacas e não cardíacas de achados clínicos cardiovasculares anormais mais comuns encontrados. Achados clínicos Possíveis causas cardíacas Causas não cardíacas Dispneia » Edema pulmonar » Efusão pleural » Efusão pericárdica » Doenças respiratórias » Obstrução de vias aéreas » Tromboembolismo pulmonar » Distúrbios ácido-básicos » Dor/ansiedade » Hipertensão pulmonar Tosse em cães » Sobrecarga atrial esquerda » Edema pulmonar severo » Doenças respiratórias primarias » Piotórax Tosse em gatos » Raramente está associada a insuficiência cardíaca congestiva » Doenças respiratória primaria » Asma felina » Doença bronquial Cianose » Edema pulmonar severo » Persistência do forame intraventricular » Cardiopatia congênita » Obstrução de vias aéreas » Doença respiratória severa » Meta-hemoglobinemia 39 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Achados clínicos Possíveis causas cardíacas Causas não cardíacas Ascite » ICC direta » Obstrução de veia cava » Hipoproteinemia » Hipertensão portal » Distensão abdominal secundária à dilatação vólvulo-gástrica » Peritonite » Hemorragia abdominal Sopro cardíaco » Doença valvar » Doença miocárdica » Cardiopatias congênitas » Anemia (VG < 25%) » Sopro “inocente” (cães com menos de 16 semanas de idade » Pirexia Sincope ou colapso » Arritmias » Terapia inapropriada » Efusão pericárdica » Hipoglicemia » Distúrbios eletrolíticos » Anemia » Distúrbio neurológicos » Anormalidade musculo esqueléticas Taquicardia sinusal » Hipotensão devido a diminuição do débito cardíaco » Ativação simpática associada à ICC » Choque/hemorragia » Desidratação severa » Pirexia ou hipertermia » Anemia » Dor/ ansiedade Taquicardia ectópicas » Distúrbios miocárdico primário/trauma » Hipoxia miocárdica » Hipóxia sistêmica » Distúrbios ácido-básicos » Distúrbios eletrolíticos » Sepse » Intoxicação por drogas » Anormalidades do sistema nervoso autônomo Bradicardia » Síndrome do nó doente » Bloqueio átrio ventricular » Tônus vagal aumentado » Hipercalemia ou outros distúrbios eletrolíticos Paresia periférica » Tromboembolismo sistêmico » Anormalidades musculoesqueléticas » Distúrbios neurológicos Edema periférica » ICC direta ou bilateral severa » Hipoproteinemia » Vasculite » Distúrbios linfáticos » Obstrução vascular Fonte: King, 2013. 40 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Alguns equipamentos nos auxiliam no controle e avaliação desses parâmetros, como o monitor de multiparamétrico, no qual conseguimos ter eletrocardiograma, frequência respiratória, temperatura e pressão arterial. O eletrocardiograma deve ser feito em todos os pacientes que chegam na emergência. Estando eles instáveis ou não, ajudará na triagem e dará informações da real situação, bem como auxiliará no diagnóstico e tratamento, além de fazer parte do acompanhamento durantea internação. A frequência das aferições depende da gravidade e da evolução do quadro de cada animal. É importante ressaltar que o paciente crítico não deve estar em uma situação de estresse. Figura 26. Paciente em decúbito lateral direito fazendo o eletrocardiograma. Fonte: http://veterinariaigarape.com.br/wp-content/uploads/2020/05/eletro-eco.jpg. A aferição da pressão sanguínea arterial (PSA) é outro exame muito útil na avaliação do paciente, principalmente daqueles com a suspeitas cardíacas. Essa mensuração pode se dar de forma direta ou indireta, sendo essa última a mais comumente utilizada no manejo dos pacientes em estado crítico, por ser facilmente aplicada – basta a utilização de doppler, manômetro e manguito de tamanho apropriado, que deve ser de 40% da circunferência (em centímetros) do local onde será colocado. No método direto, é precisa a colocação de um cateter em uma artéria. 41 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 27. Doppler para aferição da pressão. Fonte: elaborada pela própria autora. As braçadeiras devem ser escolhidas de acordo com o diâmetro de cada braço, sendo a correta de 40% do tamanho dela. A utilização de uma braçadeira errada pode interferir consideravelmente no resultado da aferição; por isso, saber escolher a melhor é importante. Figura 28. Vários tamanhos de braçadeiras. Fonte: elaborada pela própria autora. A hemogasometria arterial é importante no manejo dos pacientes com dispneia devido a ICC. O animal apresentar hipercapnia, ou seja, PaCO2 > 45mmHg, significa um sinal crítico, causando muita disfunção respiratória. Os músculos respiratórios ficam fadigados e corre um grande risco de óbito. Quando for identificada essa situação, é recomendado encaminhar esse paciente para ventilação assistida. 42 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 29. Analisador portátil de lactato (A) e hemogasometria (B). Fonte: https://vet.ufmg.br/casos_clínicos/arquivo/7. A avaliação de todos esses parâmetros é importante para definir se as disfunções encontradas estão relacionadas a uma infecção ou a sepse. Para entender melhor sobre a sepse, é importante entender que nem todo paciente com infecção a tem. Se ele tem um foco de infecção – seja ele bacteriano, fúngico ou viral –, mas não tem disfunção orgânica, significa que ele tem apenas uma infecção. Mas, se o paciente tiver alguma disfunção que ameace a vida dele, é possível que esteja com sepse, e é necessário que essa suspeita seja pesquisada para iniciar tratamento imediatamente após essa identificação. No choque séptico, o paciente continua hipovolêmico mesmo após iniciado o tratamento com fluidos. Daí a importância de fazer o monitoramento depois de o paciente ser internado. Quadro 18. Conceitos utilizados pelo Instituto Latino-americano de Sepse na implementação de protocolos gerenciados de sepse. Classificação Antiga Classificação atual Características Sepse Infecção sem disfunção Infecção suspeita ou confirmada, sem disfunção orgânica, de forma independente da presença de sinais de SRIS. Sepse grave Sepse Infecção suspeita ou confirmada associada a disfunção orgânica, de forma independente da presença de sinais de SRIS. Choque séptico Choque séptico Sepse que evoluiu com hipotensão não corrigida com reposição volêmica (PAM ≤65 mmHg), de forma independente de alterações de lactato. Fonte: Instituto Latino-americano de Sepse, 2018. 43 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I De acordo com o documento mais atual do sobre as definições e critérios clínicos para o diagnóstico de sepse, Sepsis-3, de 2016: » Sepse: é definida como disfunção orgânica causada por uma resposta desregulada do hospedeiro frente a uma infecção. » Choque séptico: é definido pela necessidade do uso de vasopressores para manter a pressão arterial média acima de 65mmHg e hiperlactatemia persistente após ressuscitação adequada de fluidos. » Sepse grave: tal termo foi excluído. » SDMO (síndrome da disfunção de múltiplos órgãos): falha orgânica em mais de um sistema, na qual há necessidade de intervenção para manutenção da homeostasia. » SRIS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica): critérios de SRIS são preditivos de inflamação exagerada e que não necessariamente indicariam a presença de infecção ou de uma resposta desregulada (até mesmo com um quadro grave de anti-inflamação e imunossupressão) (KAUKONEN et al., 2015; SINGER et al., 2016). A SRIS pode ser usada como um mecanismo de triagem para a identificação de possíveis pacientes com sepse ou choque séptico. Para avaliação dessa síndrome, é preciso ter a presença de pelo menos dois dos sinais da tabela 2. Costello (2010) e Silverstein e Sanotoro-Beer (2012) definiram alguns critérios para o diagnóstico de SIRIS em cães e gatos, conforme podemos observar na tabela a seguir. Tabela 2. Critério para diagnóstico de SIRIS em cães e gatos. Parâmetros a serem avaliados Cães Gatos Temperatura (TR ºC) < 38,1 ou 39,2 < 37,8 ou > 40 Frequência Cardíaca (bpm) > 120 < 140 ou > 225 Frequência Respiratória (rpm) > 20 > 40 Leucócitos (x103); % Bastonetes < 6 ou > 16; > 3% < 5 ou > 19; 5% Fonte: Costello, 2010; Silverstein; Sanotoro-Beer, 2012. Seguindo os conceitos já descritos, na rotina de atendimento e triagem, qualquer paciente que possua a suspeita de sepse ou choque séptico deve ser tratado usando o protocolo de sepse. Dessa maneira, é esperado que o tratamento precoce previna a disfunção orgânica. Quando a disfunção já está presente, existirá uma priorização no atendimento desses pacientes. 44 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Quadro 19. Critérios para o diagnóstico de disfunções orgânicas associadas a sepse. Alteração da consciência Escala de coma de Glasgow < 17 ou AVDN menor que A. Hipotensão ameaçadora Queda abrupta maior que 40 mmHg na PAS, ou ainda uma PAM < 65 mmHg ou PAS < 90 mmHg em cães ou < 100 mmHg em gatos. Oligúria Débito urinário < 0,5 mL/kg/h ou creatinina >2,0 mg/dL. Hiperbilirrubinemia > 0,5 mg/dL. Disfunção respiratória PaO2/FiO2< 300 ou sinais graves mais bilaterais. Coagulação Trombocitopenia (<100.000/mm³ ou queda de 50% em 12h), aumento do TP/TTPA/D-dímero ou queda no fibrinogênio. Íleo paralítico Ausência de ruídos à ausculta. Hiperlactatemia > 3,2 mmol/L em cães ou >2,5 mmol/L em gatos. Fonte: adaptada de Bone (1992), Levy (2003) e Rabelo (2012). Ainda existem muitos questionamentos sobre a utilização do Sepsis-3 e há poucos estudos realizados nessa área na medicina veterinária, mas Rabelo (2017) adaptou um organograma para identificação da sepse e do choque séptico. Figura 30. Organograma com sistema operacional de identificação de critérios clínicos em pacientes com sepse e choque séptico para uso veterinário. Fonte: Rabelo (2017) adaptado de Singer et al. (2016). 45 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Após essa atualização do Sepsis-3, foi feito um sistema de pontuação de gravidade para definir se o paciente está séptico ou não, e o Sequential Sepsis-related Organ Failure Assessment (SOFA) foi um desses sistemas de pontuação, que avalia alteração do estado de consciência, hipotensão e taquipneia e serve para ajudar na triagem de um possível paciente séptico (SEYMOUR et al., 2016), mas a avaliação da disfunção é feita por meio de exames laboratoriais. Castro (2017) lembra que não houve validação desse escore na medicina veterinária e que foi adaptado da medicina humana. Uma variação do SOFA surgiu, que é conhecida como quickSOFA (qSOFA); esse indicador busca a avaliação do paciente na beira do leito como triagem em casos suspeita de infecção. A verificação é feita por meio do estado mental, usando a escala de Glasgow, hipotensão sistólica e taquipneia do paciente. Cada um desses sistemas tem uma pontuação e, caso seja maior ou igual a 2, significa um maior risco de mortalidade. Quadro 20. Escore de pontuação dos critério do qSOFA, com os parâmetros a serem avaliados. Sistema O que observar Escore 0 1 2 3 4 Respiratório PaO2/FiO2 mmHg (kpa) > 400(53.3) < 400 (53.3) < 300 (40) < 200 (26.7) com suporte respiratório < 100 (13.3) com suporte respiratório Coagulação Plaquetas, X103/ML > 150 < 150 < 100 < 50 < 20 Hepático Bilirrubina mg/dl (Mmol/L) <1.2 (20) 1.2 – 1.9 (20-32) 2.0-5.9 (33-101) 6.0-11.9 (102 – 204) > 12.0 (204) Cardiovascular PAM > 70mmHg PAM < 70mmHg Dopamina < 5 ou dobutamina (qualquer dose) Dopamina 5.1-15 ou epinefrina < 0,1 ou norepinefrina < 0,1 Dopamina > 15 ou epinefrina > 0,1 ou norepinefrina > 0,1 Sistema Nervoso Central Escala de Glasgow 15 13 a 14 10 a 12 6 a 9 < 6 Renal Creatinina mg/dl (Nmol/L) < 1,2 (110) 1,2 – 1,9 (110 – 170 ) 2,0-3,4 (171 – 299) 3,5 – 4,9 (300-440) > 5,0 (440) Débito urinário (ml/dl) < 500 < 200 Fonte: SINGER et al., 2016. Quanto mais rápido você descobre a sepse, mais chance o paciente tem de sobreviver. A precocidade é a chave – o que pode ser e se existe a suspeita de alguma disfunção orgânica deve ser investigado o máximo possível até achar onde está o foco da infecção. O diagnóstico não é uma tarefa fácil, mas, analisando os parâmetros clínicos, laboratoriais e hemodinâmicos do paciente, o clínico conseguirá identificar se o paciente está em sepse ou mesmo em choque, e a conduta terapêutica assertiva diminui as taxas de mortalidade dos pacientes sépticos (RABELO, 2012). 46 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Identificado a suspeita da sepse, pesquise e controle cada disfunção orgânica presente – e classifique! Para isso, a triagem é a melhor forma para que, assim que classificado, se inicie o protocolo de emergência de acordo com a necessidade individual de cada um, com o pacote das primeiras três horas, durante as quais será realizado simultaneamente um conjunto de procedimentos no paciente com a suspeita de sepse, guiado pelo lactato, e depois o pacote das seis horas, buscando sempre o tratamento precoce da sepse, como podemos observar no quadro a seguir. Quadro 21. Pacote das primeiras três horas no tratamento da sepse e choque séptico buscando reanimação, baseado em lactato. Reanimar baseada no lactato » 3,2 mmoL/L (cães) e 2,5 mmoL/L (gatos), e ponto de corte nos primeiros 30 min. » Clarear 20 % em 2 horas e manter por pelo menos 8 horas sem o aumento. » Atingir 2,3 mmoL/L e 2,5 mmoL/L em gatos. » Medir a temp. no T0, após o ABC, T2, T10 e T24. » Cultura imediata quando possível + antibioticoterapia precoce combinada. Fonte: Rabelo, 2012. O pacote inicial de reanimação deve ser iniciado assim que a suspeita de sepse é observada. Esse pacote se inicia com a pesquisa das disfunções orgânicas, que é feita usando os seguintes parâmetros: » lactato sérico; » pressão arterial (média e sistólica); » níveis de consciência; » análises laboratoriais; » análises clínicas. Avaliando esses parâmetros nas primeiras três horas de tratamento do doente séptico, será possível reclassificar o doente em choque séptico caso seja necessário. O lactato, segundo as novas diretrizes de 2017, foi confirmado como um indicador, sendo usado como um parâmetro-guia para a reanimação do doente em sepse, lembrando que, mesmo não tendo hipotensão, a mensuração do lactato é importante. 47 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Pacientes que têm baixa de oxigenação tecidual precisam entrar no processo de reanimação, que é guiado por metas, ou seja, a meta é reduzir o lactato até níveis normais, nas primeiras horas, tanto no tratamento da sepse como do choque séptico. A hemocultura precisa ser feita com a primeira amostra coletada sem o uso dos antibióticos. Tanto o sangue como outros materiais, caso seja necessário, devem ser encaminhados para exame microbiológico e cultura. As diretrizes de 2017 acrescentam, além da pesquisa bacteriana, também a fúngica. A antibioticoterapia precoce é obrigatória e deve ser administrada via endovenosa logo que o paciente é internado. O recomendado é que isso aconteça até uma hora após internação, ou no máximo três horas em pacientes na UTI que vieram de pronto-socorro. É importante que o antibiótico de escolha seja, de modo geral, de fácil compra, custo reduzido e mínimo de risco de uso para o animal. A ceftriaxona é um exemplo disso. A reanimação hipovolêmica deve ser o início do resgate, com a presença do lactato aumentado. Deve ser iniciada com carga de cristaloides na dose de 10 ml/kg em 30-60 minutos. Devem ser feitas no máximo três tentativas; depois disso, é necessária a decisão do uso de vasopressores. Mas tome muito cuidado com a capacidade de acomodação desse fluido. Se, mesmo assim, não for suficiente, as pressões não se mantiverem estáveis e o lactato não baixar, a correção precisa ser direcionada ao transporte do oxigênio e à contratilidade. Dessa maneira, precisa-se verificar a estabilização da hemodinâmica e a manutenção do déficit microcirculatório periférico através da hiperlactatemia e do delta de temperatura. Se precisar, usar dobutamina 5 mcg/kg/min ou mesmo a transfusão, caso o hematócrito e a hemoglobina estejam baixos. Lembramos que a avaliação ecocardiológica precisa ser realizada para determinar a disfunção do miocárdio da sepse e fazer o protocolo específico. Se a pressão estiver estável e o lactato ainda permanecer alto, pesquisar outras causas para a hiperlactatemia. Os vasopressores são recomendados quando a hipotensão é uma ameaça ao paciente, ou seja, PS menor que 90 mmHg e PAM menor que 65 mmHg. Quando a reposição for feita e a hipotensão permanecer, o uso de vasopressores deve 48 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 ser instituído. Assim que hipotensão for corrigida, começamos a diminuir a medicação. Segundo as recomendações de 2017, a noradrenalina é a primeira opção e a adrenalina ou a vasopressina em infusão contínua (0,03 U/min) entram como segunda opção. Se o paciente não responder a vasopressores e tiver uma refratariedade, temos a indicação de protocolos a base de hidrocortisona. No quadro a seguir, temos o pacote das primeiras 6 horas e, dano continuidade, o das primeiras 24 horas. O das seis horas são as medidas obrigatórias que devem ser feitas durante o tratamento emergencial do doente com sepse ou choque séptico. Quadro 22. Pacote das primeiras seis horas no tratamento da sepse e choque séptico. Triagem bem feita Diagnóstico do foco Reanimação volêmica Antibiótico IV imediato Reanimação baseada em lactato (observar o ponto de corte) » CÃES: 3,2 mmoL/L (corte: 2,3 mmoL/L nas 1as 24 horas) » GATOS: 2,5 mmoL/L (corte: abaixo de 2,5 mmoL/L nas 1as 24 horas) A diluição deve acontecer nos primeiro 30 minutos, diminuição de 20% em 2 horas e manter sem aumento nas próximas 8 horas. Temperatura (deve ser aferida na chegada T0) Após o ABC Cultura imediata, deve ser feito antes da administração do antibiótico. Antibioticoterapia deve ser iniciada no máximo 1 hora após a admissão do paciente Fonte: Rabelo, 2012. A sequência deve sempre estar bem clara para não se esquecer de nada e resultar em uma triagem bem realizada, buscando o foco do problema (infecção, trauma etc.). Se não responder bem apenas com essa reposição e for preciso o uso de vasopressor, será classificado como choque. No resgate volêmico, até pouco tempo atrás, preconizávamos uma carga de 10ml/Kg em 6 minutos ou 10ml/Kg em 15 a 20 minutos, mas os novos estudos recomendam fazer essa reposição de uma maneira mais lenta, aplicando esse bolus em 40 a 60 min, mesmo em casos de desidratação. Uma reposição muita rápida pode gerar outros problemas no paciente enfermo. E os parâmetros devem ser vigilados todo o tempo, bem como 49 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I o acompanhamento dos valores da pressão. Caso se tenha uma PAM menor que 65mmHg ou sistólica menor que 90 mmHg em cães ou 100 mmHg em gatos, esse paciente deverá ser classificado como em choque séptico. Abaixo, vejamos um quadro mostrando as alterações que devem ser observadas para correção e resgate dos valores hemodinâmicos. Quadro 23. Alterações que devem ser observadas para resgate dahemodinâmica do paciente. O que observar Alterações Correção PAM < 65mmHg Correção do Transporte de oxigênio e Contratilidade Sistólica < 90mmHg cães ou 100mmHg em gatos Lactato > 3,2 mmol/L (Cães) > 2,5 mmol/L (Gatos) hematócrito 24% a 30% Transfusão Hemoglobina 7% a 10% Fonte: adaptada de Rabelo (2012). O resgate da pressão arterial média e a normalização do lactato devem acontecer juntamente com a reanimação volêmica, e isso precisa se dar nas primeiras seis horas. Além disso, precisam ser observados: » pressão venosa central entre 8 e 12 mmHg; » saturação venosa de oxigênio > 70%; » débito urinário maior que 0,5 mL/kg/h. Apesar do Sepsis-3 não ter incluído o lactato no processo, ele representa um importante parâmetro para avaliação da evolução do paciente grave, e ter sua redução nas primeiras 24 a 48 horas como meta terapêutica melhora o prognóstico do paciente. Para hemocultura, na primeira hora, deve ser colhido sangue para exames usados no auxílio do diagnóstico e uma amostra deve ser encaminhada para cultura e, se for positiva, servirá como referência para mudança do antibiótico caso necessário. Após essa coleta, a medicação deve ser feita endovenosa. O ideal é a escolha de um antibiótico de amplo espectro, então a Cefalotina (30 mg/kg) acaba sendo uma ótima opção nesse primeiro momento, por ser de 50 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 baixo risco para o animal, ter um custo baixo e facilidade de compra. Nos guias humanos, a recomendação é de aplicar antibiótico endovenoso em no máximo uma hora para os pacientes já internados na UTI. Para evitar resistência ao antibiótico, é definido que todos os pacientes com sepse utilizem a mesma medicação e ela não seja usada em outros lugares da clínica (por exemplo, no tratamento de rotina de outras patologias), tentando evitar, dessa maneira, a resistência. Seguindo a sequência, a reanimação volêmica é um tratamento imediato da hipotensão e da elevação do lactato, visto que, em muitos casos, a desidratação costuma estar instalada em resposta às perdas hidroeletrolíticas. Essa reanimação deve ser guiada por metas, e a prova de cargas é muito utilizada na dose de 10 ml/kg em 6 minutos e pode ser repetida até 3 vezes. Novos estudos recomendam que essa reposição seja mais lenta, mas essa referência ainda pode ser usada como um norte inicial. A variedade de fluidos, hoje em dia, é grande, mas todos buscam o mesmo objetivo, que é repor o volume e fazer a manutenção dos líquidos presentes no corpo dos pacientes. Os tipos de fluido serão descritos melhor na Unidade II desta apostila. Naqueles pacientes que não obtiverem uma resposta a reposição volêmica e permanecem com hipotensão arterial, devem ser utilizados vasopressores. A pressão arterial média (PAM) precisa estar menor que 65 mmHg ou pressão sistólica (PS) menor que 90 mmHg em cães e menor que 100 mmHg em gatos. Após essa meta ser alcançada, o uso dos vasopressores deve ser desmamado. A noradrenalina é a medicação de primeira escolha e a adrenalina como segunda escolha. A dopamina apenas pode ser usada em pacientes com baixo risco de arritmias. Após a estabilização nas primeiras 6 horas, tem-se a manutenção das 24 horas, mas, nas recomendações de 2012, não foi dada tanta importância a esse pacote, e algumas medidas não são mais recomendadas, visto que nem todos os pacientes precisam de todas as intervenções. Cada paciente, então, tem a sua demanda, avaliando o caso individualmente, mas, no quadro a seguir, podemos ver o tratamento da sepse e do choque que, de acordo com a necessidade, deve ser aplicado. 51 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Quadro 24. Tratamento com o pacote de 24 horas. Tratamento Recomendação As diretrizes de 2012 Proteína C ativada - » não deve mais ser usado Controle glicêmico » Paciente na UTI com sepse ou choque deve ser acompanhado. » Recomendado ter um protocolo de insulina endovenosa, devido a suplementação. » Cuidado com os níveis de glicemia a abaixo de 80mg/dl, recomendado mandar para laboratório central para confirmar os dados do glicosímetro portátil. » Manter a glicemia em cães acima de 160mg/dl e gatos acima de 250mg/dl. Pacientes com ventilação mecânica » Volumes correntes baixos (6mL/kg). » Limitação da pressão de platô (menor 30cmH2O). » Recomendado um protocolo de desmame. Esteroides » CHOQUE SEPTICO: » Se não tiver resposta após a infusão de vasopressores (noradrenalina) pode iniciar o protocolo esteroidal. » Fazer o desmame do corticoide. Controle glicêmico » Cães: 110 – 160 mg/dl. » Gatos: nunca acima de 250 mg/dl. » Hipoglicemia: glicose junto com a manutenção. » Hiperglicemia: cães acima de 180mg/dl e gatos acima de 250mg/dl iniciar com insulina (0,05UI/ Kg/h), checar a glicemia e o Potássio a cada hora até estabilizar. Estratégia protetora » 6mL/kg máximo no caso de ventilação mecânica, com limitação de platô (menor 30cm H2O. Fonte: adaptada de Rabelo (2012). Quadro 25. fármacos utilizados no protocolo para sepse. Fármaco Dose Manutenção Hidrocortisona Cães e gatos: 0,5 mg/kg/IV » Cada 6 horas por 4 dias. » Depois a cada 8 horas por 3 dias. » Cada 12 horas por 3 dias. Dexametasona Gatos: 0,08 mg/kg/IV Diariamente com desmame gradual. Fonte: Rabelo, 2012. O pacote de 6 horas juntamente com o de 24 horas são ferramentas utilizadas para diminuir a mortalidade dos pacientes, mas, além deles, existem algumas intervenções complementares que, somadas às dos pacotes, têm uns bons resultados. Mas essas orientações devem ser praticadas em pacientes únicos, cada caso precisa ser avaliado de forma individual. São elas: » hemoderivados; 52 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » ventilação mecânica; » sedação, analgesia e bloqueio neuromuscular; » diálise; » prevenção de trombose venosa profunda; » controle das ulceras de estresse; » nutrição. Hemoderivados » Concentrado de hemácias: a recomendação é de se optar pela transfusão de concentrado de hemácias e/ou uso de dobutamina se SvcO2 > 70% não for atingida, após reposição volêmica suficiente para atingir PVC > 8 mmHg. Após ressuscitação, transfusões de hemácias apenas são recomendadas em pacientes com nível de hemoglobina < 7 g/dL (RABELO, 2012). » Plasma fresco congelado (não fazer): recomendado não fazer. » Plaquetas (não fazer): recomendado não fazer, mas, se for preciso, na ausência de sangramentos, só se recomenda transfusão de plaquetas para valores abaixo de 5.000/mm³. › Em casos de aplasia medular aguda pós-QT, algumas referências são mais liberais e concordam com valores < 10.000/mm³ (apenas para esse caso específico). › Em pré-cirurgias, transfundir se menor que 50.000/mm³ em pequenos procedimentos. › Em cirurgias nas quais sangramentos pequenos podem ser graves (neurológicas e oftalmológicas), sugerem-se metas de 100.000/mm³. › Em caso de sangramento, valores entre 5.000 e 50.000/mm³. Quando não transfundir plaqueta: › púrpura; 53 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I › trombocitopênica trombótica e idiopática; › síndrome HELLP; › síndrome hemolítico-urêmica; › plaquetopenia secundária à heparina; › púrpura pós-transfusão. » Antitrombina: não é recomendada para tratamento de sepse; estudos mostram riscos de sangramento na utilização junto com heparina. » Eritropoetina: muito usado no tratamento da anemia de doentes renais crônicos; os estudo não mostraram impacto no índice de mortalidade dos pacientes com sepse. Ventilação mecânica Hipercapnia permissiva não causa prejuízos aos pacientes e não vem sendo mais uma limitação como era no passado. Cabeceira 45º é recomendada para todos os pacientes em ventilação mecânica, salvo casos específicos que podem ser contraindicados, mas, via de regra, todos devem utilizar. Quando for necessário o desmame, um protocolo deve ser instituído. É importante a clínica ter esses protocolos bem definidos e testes diários devem ser feitos para ver se o pacientese defende sozinho, ou seja, se ele consegue respirar sem o auxílio do aparelho, para que, dessa maneira, a extubação seja realizada de forma segura e sem que ele precise voltar a utilizá-la. Em paciente com edema agudo de pulmão, a utilização de ventilação mecânica não invasiva costuma trazer felizes resultados no controle de hipoxia respiratória e da hipercapnia. Síndrome da disfunção de múltiplos órgãos (SDMO) A SDMO ocorro quando o paciente tem uma descompensação multissistêmica decorrente de uma SRIS ou sepse de forma a afetar organicamente mais de um sistema de maneira que a homeostasia só consegue ser mantida por meio de 54 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 tratamento. Essa disfunção pode ser leve, mas pode também chegar a falência total dos órgãos. Essa falência acontece dinamicamente, significando que uma acaba levando à outra e assim por diante. Para avaliar, são utilizados os parâmetros de oito sistemas chaves: » respiratório; » cardiovascular; » nervoso central; » renal; » digestivo; » metabólico; » neurológico; » coagulação. Todos esses sistemas já foram explicados anteriormente, mas a coagulopatia é uma alteração comum entre todos os sistemas por fazer parte da microvascularização, que é o embasamento fisiopatológico para a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos. A terapêutica para ambos os problemas abordados nessa unidade depende muito do tempo. Dessa maneira, o tratamento sempre deve ser guiado com um sequência clara, de fácil entendimento e padronizada, para que assim todos os profissionais consigam executar da mesma maneira. Entendida a gravidade clínica do doente, o protocolo deve ser acionado com as medidas iniciais de urgência das primeiras horas de atendimento, como já foi descrito nessa unidade, que é o instituído pelo Instituto Latino-americano de Sepse. 55 CAPÍTULO 3 Choque, síndrome compartimental e falência múltipla de órgãos na emergência e no intensivismo O que é o choque? Essa é uma pergunta que muitas pessoas se fazem e que ainda causa muita discussão, mas, segundo Akamine (2002, p.11), em condutas no paciente grave, define-se o choque como “síndrome conhecida pela incapacidade do sistema circulatório de fornecer O2 e nutrientes aos tecidos de maneira que possam alcançar suas necessidades”. Dessa maneira, podemos entender que, se não chegar oxigênio suficiente nas células, consequentemente os tecidos terão uma perfusão tecidual insuficiente, o que irá gerar alterações metabólicas tão sérias que serão responsáveis pela morte celular. Da mesma forma que acontece a diminuição da oferta de oxigênio, porém, o organismo tenta compensar essa diminuição e, nesse processo, acaba mostrando sinais clínicos que vão aumentando de acordo com a gravidade do problema. E são esses sinais que o organismo manifesta que nos mostram onde deve ser restabelecido para uma correção efetiva, sempre com o objetivo de levar oxigênio suficiente aos tecidos. Vamos relembrar um pouco de fisiologia para entender melhor como o choque acontece. Quando sistema circulatório não consegue manter um fluxo adequado para manter os tecidos, pode reduzir a quantidade de volume circulante, diminuindo assim a pressão circulatória e levando ao choque. O débito cardíaco (DC) é entendido como o volume sistólico multiplicado pela frequência cardíaca. Hemodinamicamente, ele é muito importante por ser o responsável pela entrega do oxigênio. DC = VS x FC Quanto maior for a pré-carga, mais força de contração e DC. Na figura a seguir, está exemplificado como funciona a lei de Frank-Starling. 56 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 31. Curva de Frank-Starling. Fonte: Curso oficial de ABC cuidados intensivos (2019). Quando o coração não consegue manter ou elevar a contratilidade, o débito cardíaco tende a diminuir. Dessa maneira, ele sofrerá maior elevação da pós-carga sobre o DC. Nessas situações, podemos observar clinicamente: » viscosidade sanguínea; » complacência ventricular; » distensibilidade dos grandes vasos; » tônus arteriolar. Para representar a quantidade de oxigênio que chega nas células (DO2), observe a figura a seguir mostrando a representação da entrada do oxigênio desde a inspiração até chegada na microcirculação. 57 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 32. Esquema representativo. Hb = hemoglobina DC = débito cardíaco Fonte: elaborada pela autora. Quando o oxigênio chega nas mitocôndrias, ele será usado no ciclo de Krebs na cadeia respiratória e fosforilação oxidativa, que é como a energia é gerada. Quando o oxigênio não é suficiente, o metabolismo anaeróbico é iniciado, e o resultado dele é o lactato, como podemos ver na figura abaixo: Figura 33. Esquema. Pacientes críticos Pessoas sadias 4000 100 200 300 800 1200 Oferta de O 2 (DO 2 ml/min) C o n su m o d e O 2 (D O 2 m l/ m in ) Lactato DO 2 crítico TeO 2 DO 2 crítico Fonte: Curso oficial de ABC cuidados intensivos (2019). 58 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Da energia produzida pelas mitocôndrias na cadeia respiratória, cerca de 60% é utilizada para a manutenção de sódio (Na) e potássio (K) das células. No choque, com a diminuição do oxigênio, gera-se uma queda na bomba de sódio/potássio, provocando uma hipercalemia. Quando se tem algum problema da chegada do O2 na microcirculação, geram-se problemas no transporte de nutrientes e de oxigênio nos tecidos e falha na remoção dos produtos da excreção celular, comprometendo os mecanismos regulatórios do fluxo sanguíneo tecidual quando o paciente está em choque. O organismo sempre tenta compensar as alterações que são manifestadas; dessa maneira, a resposta fisiológica já começa logo no início, mas nem sempre os sintomas são manifestados de forma clinicamente visível. Entretanto, quando o dano permanece, ele gera um processo inflamatório persistente, podendo levar, dessa maneira, à síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SRIS), e, se essa cascata que foi ativada permanece, pode-se gerar um quadro chamado de síndrome da disfunção múltipla de órgãos (SDMO), e, nesse caso, é muito comum o paciente vir a óbito. Fisiologicamente, o organismo tenta compensar o choque pelos seguintes mecanismos: » taquicardia da contratilidade do miocárdio – tentativa de aumentar DC; » vasoconstrição periférica – direciona o volume sanguíneo para a “linha central” (coração, pulmão e SNC); » ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona; » liberação de hormônio antidiurético (ADH). Nessa fase, o paciente não costuma apresentar alteração na pressão arterial; os sinais manifestados são hipoperfusão e acidose. Apenas quando essas alterações não são suficientes para compensar é que o paciente irá manifestar o “choque clássico”, no qual a hipotensão está presente. Mas, além do choque clássico, há aquele paciente que possui uma hipoxia oculta macroscopicamente, ou seja, que só é descoberta com exames laboratoriais (lactato, saturação venosa central), e podemos classificá-lo como “choque oculto”. 59 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Figura 34. Esquema representativo de vários fatores e causas que contribuem para o choque. Fonte: Dukes (1988). Podemos classificar o choque em quatro tipos: » hipovolêmico; » cardiogênico; » distributivo; » obstrução circulatória. O choque hipovolêmico é redução do conteúdo que está presente dentro do lúmen do vaso, causando diminuição das pressões e volumes de enchimento diastólico. Ele pode acontecer de duas maneiras: » Hemorragias: é o choque provocado por meio de perda de sangue e tem uma mortalidade alta quando perde 50% do volume circulante. Vamos conversar melhor sobre isso na Unidade III, mas o objetivo para resolver esse choque é identificar onde a hemorragia está para fazer o controle completo ou diminuir para que a correção seja logo realizada. 60 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » Hemoconcentração: nesse caso, o choque acontece pela diminuição do plasma circulante quepodemos observar em: › desidratações severas (vômito e diarreia); › obstruções intestinais; › queimaduras profundas; › peritonite; › pleurites; › sequestro de líquidos. Figura 35. Pastor alemão com quadro de hematoquezia. Fonte: elaborada pela própria autora. Figura 36. Pastor alemão com quadro de hematêmese. Fonte: elaborada pela própria autora. 61 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I O choque cardiogênico acontece devido a alteração na bomba, ou seja, no coração. Observamos queda no DC e na pressão arterial, causando hipoxia tecidual. O que pode causar esse problema: » endocardiose; » cardiomiopatia dilatada; » ruptura de corda tendínea; » arritmias: › taquicardias; › fibrilação; › bloqueios cardíacos totais ou parciais; » depressão do miocárdio devida a: › acidose; › distúrbios eletrolíticos; › intoxicação por fármacos; › intoxicação por produtos químicos; › sepse; › trauma. O choque distributivo acontece devido à dificuldade de o vaso manter a resistência vascular periférica, e os fatores que podem provocá-lo são: » Choque séptico: severa anormalidade circulatória e do metabolismo celular; clinicamente, observamos hipotensão mesmo depois de prova de carga e hiperlactatemia, e, nesse caso, é preciso usar vasopressores. » Choque anafilático: acontece liberação aguda de histaminas provocando falha circulatória periférica. Pode ser causado por picadas de abelhas ou vespas, neurotoxinas, transfusão de sangue, fármacos e animais peçonhentos. 62 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » Choque neurogênico: acontece de três formas: › componente distributivo; › componente cardiogênico; › componente neuroendócrino. O choque obstrutivo acontece quando se tem uma alteração na hemodinâmica por conta de um impedimento completo ou parcial do retorno venoso na circulação geral, fazendo com que ocorra a diminuição do débito cardíaco. Os principais fatores que podemos observar nesses casos são: » síndrome da dilatação vólvulo-gástrica; » efusão pleural; » pneumotórax; » hernia diafragmática; » tamponamento cardíaco; » compressão da via cava; » embolia pulmonar. Quadro 26. Classificação dos tipos de choque. Choque hipovolêmico Choque Traumático Choque obstrutivo Choque cardiogênico Choque Distributivo Causas Perdas de sais e água Perdas sanguínea Trauma Obstrução do retorno venoso ao coração Falência do coração como bomba cardíaca Sepse Anafilaxia Tônus vasomotor constrição constrição constrição Constrição constrição Dilatação Dilatação Débito cardíaco Diminuição Diminuição Diminuição Diminuição Diminuição Aumento Aumento Resistencia vascular sistêmica Aumento Aumento Aumento Aumento Aumento Diminuição Diminuição Mecanismo inicial de injuria celular Isquemia Isquemia Isquemia Isquemia Isquemia Mediadores Inflamatórios Mediadores Inflamatórios Fonte: Aldrich, 2013. 63 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Síndrome compartimental A síndrome compartimental (SC) é entendida como o aumento crítico da pressão em uma determinada região (compartimento), causando a diminuição da sua pressão de perfusão. É considerada uma emergência cirúrgica. Quando se tem aumento da pressão interna recorrente ou contínuo e ela interfere na capacidade perfusão do local e na viabilidade dos tecidos ao redor, acontecerá a síndrome compartimental. A pressão de perfusão de qualquer compartimento deve estar acima de 60 mmHg. As principais causas de síndrome compartimental são: » fraturas; » queimaduras; » lesão por esmagamento; » infecção/inflamação; » hemorragias; » extravasamento de drogas; » traumas; » curativos (cuidado com as ataduras compressivas); » massas neoplásicas; » efusão/ascite; » prenhez; » edema de terceiro espaço; » cirurgias nas quais houve a remoção de uma grande quantidade de pele. A síndrome compartimental no abdômen é muito conhecida e é medida através da pressão intra-abdominal (PIA), ou seja, de dentro da cavidade abdominal. A PIA é afetada diretamente pelo volume dos órgãos sólidos ou das vísceras ocas. A medida da PIA em pequenos animais pode ser feita como relatado abaixo: » Colocar o paciente em decúbito lateral direito. 64 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 » Sondar a uretra do paciente de forma asséptica. » Acoplar uma torneira de três vias na ponta da sonda uretral. » Conectar a coluna de água na torneira de três vias. » A bexiga é então esvaziada e, na sequência, é preenchida com 0,5 a 1 ml/kg de soro fisiológico ou Ringer morno. » O sistema deve ser posicionado de forma que o ponto zero esteja alinhado com a síntese púbica do paciente. » A torneira de três vias é fechada para a fonte de fluido e estabelece-se o fluxo da bexiga e coluna de água. Depois de equilibrar a PIA com a pressão atmosférica, a PIA é medida usando uma régua em cm de H2O. Abaixo, podemos ver o material utilizado, o esquema de como é feito e a imagem de um felino fazendo a medição. A PIA também pode ser medida por meio de pressão invasiva. Utilizamos a torneira de três vias conectada no canal de pressão invasiva. Nesse caso, mediremos em mmHg, considerando que 1 cm de H2O equivale a 0,736 mmHg. A PIA normal precisa estar em: » Cães: 0 a 5cm de H2O. » Gatos: 7 cm de H2O. Como, na veterinária, muitos conceitos são adaptados da medicina humana, a Sociedade Mundial de Síndrome Compartimentalização Abdominal sugeriu um conceito para padronizar a hipertensão intra-abdominal (HIA) dividindo-a em quatro classes, conforme a tabela a seguir. Tabela 3. Classificação da hipertensão intra-abdominal. Classificação da HIA (Grau) PIA (mmHg) PIA (cmH2O) I 12 a15 16 a 20 II 16 a 30 21 a 27 III 21 a 25 34 IV >25 >34 Fonte: Lopes, 2016. 65 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I A síndrome compartimental abdominal acontece com a PIA acima de 20 mmHg junto com falhas ou disfunções orgânicas, e a HIA, quando a PIA permanece maior que 12 mmHg. É importante fazer essa avaliação para saber as consequências que essa HIA pode causar, dentre as quais podemos citar: » redução do retorno venoso das extremidades; » obstrução no fluxo da veia cava caudal; » aumento da pressão hidrostática venosa, provocando edema periférico; » risco de desenvolvimento de trombose venosa. Figura 37. Material utilizado para aferição da PIA (torneira de três vias, régua, extensor de equipo e sonda uretral). Fonte: Lopes, 2010. Figura 38. Imagem ilustrativa do método transvesical em humanos. Solução Salina Manometro de água em centímetros Zero da coluna de água nivelado com a sínfise púbica Cateter de Foley na bexiga 50 mililitros de solução fisiológica inseridos no sistema Fonte: Lopes (2010) adaptado de Asencio, Ceballos, Forno e Sava (2002). 66 UNIDADE I | TÓPICOS ESPECIAIS 1 Figura 39. Medição da PIA em felino. Fonte: Lopes, 2010. A aferição da pressão intratorácica (PIT) precisa da utilização de mecanismo invasivo e acaba não sendo uma rotina na terapia intensiva, mas é importante saber o que acontece quando ela aumenta, pois ela provoca: » redução do retorno venoso e consequentemente do débito cardíaco; » compressão cardíaca, que irá diminuir a complacência e a contratilidade ventricular; » resistência vascular sistêmica (pós carga) aumentada devido à compressão da aorta e da vasculatura sistêmica e pulmonar; » compressão pulmonar que irá resultar em uma disfunção orgânica; » atelectasia alveolar e diminuição do transporte de oxigênio entre a membrana capilar pulmonar, provocadas pela compressão. Quando temos a PIC (pressão intracraniana), normalmente temos a PIA aumentada. Dessa maneira, antes de tratar o paciente com craniotomia, é recomendado diminuir a pressão da PIA clinicamente ou cirurgicamente, se for o caso, e, somente depois disso, pensa em tratar com craniotomia. Na síndrome compartimental em membros, qualquer inflamação pode ocasionar o aumento dessa pressão e levar ao bloqueio do fluxo sanguíneo e consequentemente à isquemia da região,levando o local a necrose em pouco tempo. 67 TÓPICOS ESPECIAIS 1 | UNIDADE I Para aferição da pressão intramembro, utilizamos o sistema de coluna de água e torneira de três vias semelhante ao usado na PIA, mas em vez de sonda uretral, é inserida uma agulha de 40x1,2 mm no membro afetado do paciente conectada a torneira de três vias. 68 UNIDADE IITÓPICOS ESPECIAIS 2 CAPÍTULO 1 Fluidoterapia A fluidoterapia é um dos primeiros procedimentos iniciados no paciente de urgência por se tratar de um tratamento de suporte, tendo como objetivo fazer as correções, sejam de desidratação, para restaurar volume ou correção hidroeletrolítica, entre outras. Primeiramente, é preciso saber aonde você pretende chegar com essa reposição. sempre na busca do equilíbrio do paciente: precisa planejar qual a fluido escolhido, a quantidade que será introduzida e por quanto tempo será realizada; calcular a velocidade; prever se será preciso acrescentar algum componente junto à bolsa escolhida; avaliar as possíveis mudanças nesse paciente. Saber qual a melhor ferramenta para colocar o paciente na fluido é importante – como, por exemplo, cateteres (calibre, vazão, cor, diâmetro e comprimento), equipo (macrogotas e microgotas), extensor de equipo, equipamentos para controlar a quantidade de soluto a ser introduzido (bomba de infusão, bomba de seringa), qual fluido será utilizado (NaCl 0,9%, Ringer com lactato, Voluven, bolsa de sangue total ou seus componentes). Além disso, é claro, devemos monitorar esse o paciente para saber se o tratamento escolhido está tendo o papel desejado, desde o monitoramento simples (TPC, FC, FR, burburinhos, pulso, nível de consciência) até o uso de equipamentos (como capnografia, lactato, Ht, PA, oximetria, entre outros). O acesso precisa ter três características: » rápido; » seguro – para evitar complicações e perdas no futuro; » bem-sucedido na primeira tentativa. 69 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II Conseguindo o venopunção com essas três características, o fluido juntamente com as medicações que serão administradas levam apenas três segundos para chegar no coração. Além disso, é preciso: » cuidado para não ter a subida rápida do PH para não deslocar coágulos; » cuidado com a hipotermia e hemodiluição; » reanimação baseada em metas: › PAM de 60 a 65 mmHG (exceto TECs); › OS de 90-100 mmHg (cães e gatos). O material do cateter é importante, juntamente com a avaliação do tempo que o paciente vai precisar permanecer com o acesso. Os cateteres de cloreto de polivinil são mais baratos, mas não podem ultrapassar 96 horas de uso, pois possuem memória e podem se deformar; já os de poliuretano podem ficar até 10 dias. E temos o de silicone, que é feito do mesmo material do cateter venoso central e pode ficar no paciente por tempo indeterminado, desde que a colocação seja realizada de forma adequada e mais asséptica possível para evitar riscos de flebites, por exemplo. Outro fator importante é o tipo de fluido. Temos os cristaloides e os coloides. » Cristaloides: são compostos pelos principais eletrólitos e podem ser classificados como: › hipotônicos; › hipertônicos; › isotônicos. » Coloides: possuem moléculas maiores em sua composição e são utilizados para expansão plasmática. Estudos mostram que é preferível fazer o uso de cristaloides em vez de coloides em pacientes sépticos, por ter um menor número de complicações e de mortalidade. Os coloides são classificados em dois tipos: 70 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 › Naturais (albumina e seus derivados): • Só devem ser usados em pacientes hidratados e hemodinamicamente estáveis (age movimentando o líquido que está na região do glicocálix). • Melhoram a expansão intravascular. • Não devem ser usados em pacientes com trauma cranioencefálico. • São benéficos em pacientes com peritonite bacteriana e síndrome hepatorrenal. › Sintéticos (hidroxietilamido): as gelatinas e dextrano são pouco usados atualmente. Saber qual é o tipo de perda líquida ajuda na escolha do fluido, por exemplo: » Paciente com perda de água livre (febre, desidratação, hiperventilação) – hipernatremia. » Diarreia – perde muito bicarbonato, podendo causar acidose. » Poliúria – alteração em sódio e potássio. Conversaremos melhor sobre todas essas alterações no próximo capitulo. Quanto aos cristaloides, a utilização do Ringer é mais recomendada. Estudos mostram menos problemas com o uso do Ringer comparado à solução salina 0,9%, sendo essa última indicada apenas em duas situações: » presença de êmese profunda sem diarreia; » edema cerebral. O volume ainda é muito discutido, mas usamos muito a curva de Frank-Starlin, que fala o seguinte: aumento da pré carga aumenta o estiramento da parede do ventrículo esquerdo, sendo que, quanto maior o estiramento ventricular, maior será o volume sistólico. As discussões sobre o volume ainda são muitas, mas uma nova abordagem na medicina intensiva fala que o “menos é mais” (less is more); portanto, a quantidade 71 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II de fluido necessária vai de acordo com o equilíbrio hemodinâmico do paciente, e esse restabelecimento por meio de fluidos precisa ser realizado com base na avaliação da perfusão, ou seja, precisa ser acompanhado por parâmetros, que se seguem: » taquicardia; » alteração na coloração de mucosa; » aumento do TPC (tempo de preenchimento capilar); » aumento no gradiente de temperatura do centro periférico (delta de temperatura); » nível de consciência alterado; » queda de pressão sistêmica e/ou pressão arterial média; » lactato aumentado. A fluidoterapia pode seguir o método dos 5 Rs que foi desenvolvido pelo NICE (Nacional Institute of Health and Care Excelence) no Reino Unido: » reanimação; » rotina de manutenção; » reposição; » redistribuição; » reavaliação (a cada 24 horas em paciente de gravidade pequena, e com intervalo menor em casos mais graves). A utilização desses 5 Rs visa minimizar as chances de erros, lembrando ainda que qualquer informação deve ser anotada no prontuário do paciente para reavaliação. A reanimação precisa restabelecer tanto a microcirculação como a macrocirculação. O hematócrito e a albumina são parâmetros utilizados como monitoramento da hemodiluição. A reanimação é feita de modo que a quantidade que sai (urina, fezes etc.) deve ser a mesma quantidade que entra. Assim, diminuímos a possibilidade de HIA. A redistribuição precisa avaliar com cautela, para evitar complicações como edema. 72 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Figura 40. Acesso intraósseo. Fonte: Rodrigo rabelo (2020). Controle de danos A identificação rápida de quais pacientes precisam de atendimento abreviado e imediato para prevenir a falha metabólica e ter maiores perdas é essencial e, quanto antes, melhor. Aqueles que precisam de cirurgia longa e minuciosa são pacientes cujo prognóstico pode piorar, pois perdas ainda maiores pode acontecer. Conversaremos melhor sobre isso no capítulo sobre hemorragias. Objetivo da cirurgia Segundo Rodrigo Rabelo (2020), a cirurgia, na emergência, deve ter esses três pontos para estabilizar o doente: » foco; » checar a irrigação; » ser rápido e controlar contaminação. Depois de o paciente estar estável, outras cirurgias mais elaboradas podem ser realizadas. Um exemplo disso é um trauma no qual houve fratura e rompimento de grande vaso. Se a hemorragia não for contida, o paciente vai morrer de hemorragia, então o controle deve ser realizado imediatamente, seguindo os três pontos citados a cima. Dessa maneira, o foco no problema e agilidade são importantes para fazer a correção, evitando perda grandes e diminuindo pontos de contaminação. Após esse controle, pode-se planejar como será resolvida a fratura depois que o paciente estiver mais estável para um novo procedimento. 73 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II É importante conhecer o calibre dos cateteres, pois, em uma situação que precisede transfusão, por exemplo, não conseguimos fazer se o cateter escolhido tiver um calibre pequeno. No quadro a seguir, podemos ver o calibre dos cateteres e sua vazão. Quadro 27. Calibres de cateter, cores e vazão. Calibre do cateter Cor Vazão (ml/min) Vazão (ml/hora) Diâmetro x comprimento do cateter N. 18G verde 105 6300 1,3x45mm N. 20G rosa 60 3600 1,1x65mm N. 22G azul 35 2100 0,9x25mm N. 24G amarelo 22 1320 0,7x19mm Fonte: adaptada de Portal Braun. Figura 41. Um tipo de bomba de infusão. Fonte: elaborada pela autora. Figura 42. Um tipo de bomba de infusão de seringa. Fonte: elaborada pela autora. 74 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Para uma terapêutica bem feita, entender o funcionamento é o início de tudo. Já é de conhecimento que o corpo é constituído em sua maior parte de água, podendo chegar a até 80% do peso corpóreo. Essa água é dividida em líquido extracelular (LEC) – que, por sua vez, é dividido em espaço plasmático e espaço intersticial, que são controlados pelas forças de Starlin – e líquido intracelular (LIC), que são os líquidos presentes no interior das células. Saber de onde está vindo o líquido é a base de tudo. Quando um paciente está desidratado significa que ele perdeu líquido intersticial, ou seja, aquele líquido que deveria estar dentro da células. Por outro lado, se observamos hipovolemia, a perda se refere ao volume intravascular. Fazer essa avaliação ajudará na determinação de qual fluido será escolhida, e pode ser também que o paciente esteja desidratado e hipovolêmico, sendo necessária a utilização de ambos, cristaloides e coloides, para o resgate volêmico. Quando se tem um aumento de volume do líquido intersticial significa que existe um edema. Por fim, a fluidoterapia deve ser usada com base em metas, sempre na busca do equilíbrio circulatório através da quantidade de fluido que aquele paciente necessita. Além da fluidoterapia convencional, temos também a fluidoterapia microenteral, que foi desenvolvida em 1989 pelo Dr. Dennis Crower e posteriormente melhorada por Devey e Rabelo. Ela consiste em administrar, por via digestivas, através de bolus ou infusão contínua, uma quantidade pequena de uma solução formada por aminoácidos, peptídeos pequenos e glicose, que tem como função estimular o trato gastrointestinal para prevenir futuros problemas, caso o paciente não possa ainda receber alimentação enteral. O seu objetivo é manter os níveis proteicos ou calóricos no sistema gastrointestinal do paciente de forma a manter a funcionalidade e o fluxo sanguíneo, buscando manter a integridade da mucosa e protegendo ela de um mau funcionamento enzimático digestório. Dessa maneira, o organismo terá condições melhores de responder à patologia instalada, sem precisar se preocupar com a digestão de alimentos pesados e com demora na digestão. A microenteral é uma terapia nutricional auxiliar para ser usada em pacientes que não podem se alimentar ou não aceitam a alimentação. Ela deve ser iniciada 75 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II a partir de 2 até 12 horas de internação. Em casos mais graves, ela chega a ser mantida por até 36 horas, mas precisa ser sempre avaliada a necessidade de mantê-la sozinha realmente. Como ela pode ser oferecida? » com seringa direto na boca; ou » por meio de sondas, que podem ser: › nasogástricas; › nasoesofágicas; › sonda gástricas; › esofagostomias; › jejunostomias. Ela é composta por pela junção do suplemento comercial Glicopan Gold® + Ringer lactato, sendo que devem ser retiradaos 10 ml de Ringer, e, no lugar, colocados 10 ml de Glicopan, como pode ser visto da figura abaixo. Figura 43. Composição da fluido microenteral. Fonte: elaborada pela autora. O volume inicial é de 0,5ml/kg/h, e ele não pode provocar a estimulação dos receptores do vômito presentes na região pilórica e antral. Esse volume inicial pode ser aumentado para até 1 a 2 ml/kg/h durante 24 a 48 horas. Se o paciente responder bem, pode ser iniciada a nutrição enteral. 76 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Conforme descrito no manual do curso de ABC Cuidados Intensivos, essa técnica tem várias vantagens, conforme podemos ver descritas abaixo. » estímulo mecânico; » fornecimento de fluido, eletrólitos e aminoácidos; » apoio nutricional parenteral; » baixo custo; » estimulação imunológica: IGA, previne atrofia do TGI; » mantém a funcionalidade e integridade do trato digestivo; » previne translocação bacteriana e suas consequências. Quanto às indicações, podemos citar: » níveis de consciência alterados; » recuperação de doenças gastrointestinais; » complementar a nutrição parenteral; » pós-trauma para transição para nutrição enteral; » úlcera gástrica; » pacientes com pancreatite; » início das pontes nutricionais. Após 12 horas de internação, se o paciente tiver condições e aceitar, pode ser iniciada a transição para alimentação enteral ou alimentação normal, a depender da gravidade da patologia instalada. Lembramos que a fluidomicroenteral é mais uma ferramenta para auxiliar o manejo do paciente crítico e deve-se, assim que possível, iniciar a transição da alimentação. 77 CAPÍTULO 2 Desequilíbrio ácido-base Uma outra ferramenta muito importante é a avaliação dos eletrólitos e o equilíbrio ácido-básico. Sua utilização ajuda no diagnóstico mais rápido e consequentemente em um melhor manejo para o paciente crítico. Esses parâmetros mudam em tempo muito curto, o que os diferencia como um ótimo marcador da piora da doença ou da melhora do tratamento escolhido. A hemogasometria vem, cada vez mais, sendo o queridinho entre os intensivistas, pois é uma ferramenta ótima para o manejo daqueles pacientes agudos. Dessa maneira, a decisão do tratamento de hora em hora é realizada de forma consciente, de acordo com a resposta que o paciente está tendo, que conseguimos mensurar através das mudanças dos eletrólitos e no status ácido-básico. Vamos iniciar com avaliação dos eletrólitos, que são: » sódio; » potássio; » cloreto; » cálcio; » magnésio. O sódio dentro do fluido extracelular (FEC) é a partícula osmótica ativa mais importante, pois ela participa ativamente no balanço hídrico. Dessa maneira, temos os rins como o principal local de homeostasia de sódio e água. Diversas são as causas que podem provocar o desequilíbrio do volume intravascular do paciente, podendo causar hipernatremia (alta do sódio) ou hiponatremia (baixa do sódio). No quadro a seguir, podemos observar as possíveis causas de cada uma. O vômito e a diarreia podem causar qualquer umas dessas possiblidades, bem como a resposta do paciente em recuperar a água perdida por meio da ingestão de água, por exemplo. Na hipernatremia, a hipervolemia acontece devido ao ganho de solutos impermeáveis, e a hipovolemia, por perda de água em excesso de sódio. Já na hiponatremia, a hipervolemia acontece por excreção inadequada de água. 78 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Quadro 28. Possíveis diagnósticos do paciente em hipernatremia ou hiponatremia. Sintomia clínico Possíveis causas Hi pe rn at re m ia Hipervolemia » Intoxicação por sal » Iatrogênica (administração de salina hipertônica) Normovolemia » Hipertermia » diabetes insipidus » acesso inadequado de água » hipodipsia primária Hipovolemia » Falência renal (aguda ou crônica) » vômito e diarreia » queimaduras » medicamentos (furosemida, manitol) Hi po na tre m ia Hipervolemia » Falência cardíaca congestiva » doença hepática » doença renal (síndrome nefrótica) Normovolemia » síndrome da secreção inadequada de ADH » Administração de fluido hipotônico » polidipsia psicogênica Hipovolemia » Hipoadrenocorticismo » vômito e diarreia » medicamentos (diuréticos) » perda para o terceiro espaço Fonte: Boag; King (2013). Não é muito comum a apresentação de sinais clínicos nas alterações séricas de sódio, a não ser quando esses distúrbios acontecem rapidamente: » Hipernatremia:desidratação cerebral causando sinais neurológicos (água sai das células cerebrais). » Hiponatremia: edema cerebral (movimentação da água para dentro). Se a mudança do sódio demora dias ou semanas, o organismo vai compensando e os sinais clínicos não aparecem da mesma maneira, então a correção precisa ser feita lentamente também, para não ter problemas sérios. O tratamento, tanto da diminuição como do excesso, é colocar o paciente em fluidoterapia endovenosa e, fazendo as correções da causa primária, a correção acaba acontecendo de forma natural. Entretanto, se o paciente estiver apresentando sinais clínicos, a correção precisa ser realizada lentamente, com 0,5 mmol/L de sódio por hora em ambas as direções (BOAG; KING, 2013). 79 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II Tabela 4. Concentração de sódio em cada fluido. Fluido Quantidade de Sódio Quantidade de Potassio Solução salina 0,9% 150 mmol/L - Ringer 147 mmol/L 4 mmol/L Ringer – lactato 130 mmol/L 4 mmol/L Ringer acetato 131 mmol/L 4 mmol/L Solução de Hartmann 131 mmol/L 5 mmol/L Fonte: Boag; King (2013). O déficit de água aproximado do paciente é calculado usando a equação da figura 44: Figura 44. Equação para calcular o déficit de água livre e um exemplo para entender melhor a fórmula. Fonte: elaborada pela autora. No meio intracelular, o potássio é o cátion mais abundante – 95% dele está presente dentro das células, tendo a sua concentração em aproximadamente 140 mmol/L. Na emergência, nos deparamos com frequência com a hipocalemia (baixa de potássio), que pode levar risco de morte em pacientes críticos. Os sinais clínicos são: » fraqueza; » letargia; » íleo paralítico; » anorexia; » ventroflexão do pescoço (visto em gatos). 80 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Mesmo sendo leve, a hipocalemia precisa ser corrigida para não provocar fraqueza muscular respiratória, que pode levar a hipoventilação e evoluir para paralisia respiratória e morte. Quadro 29. Diagnósticos diferenciais de hipocalemia. Diagnóstico diferencial Possíveis causas Aumento das perdas Trato gastrointestinal » Vômito » Diarreia Trato urinário » Falência renal crônica * » Diurese pós-obstrutiva Medicamentosa » Diuréticos » Penicilinas Excesso de mineralocorticoides Translocação do compartimento extracelular para o intracelular Fluidos contendo insulina/glicose Alcalose Liberação de catecolaminas Consumo diminuído Inapetência/anorexia Administração de fluido intravenoso em longo prazo com baixa concentração de potássio. *Em gatos, muito comum Fonte: King, 2013. O tratamento da hipocalemia é feito de forma oral ou intravenosa – o que vai determinar a conduta a ser seguida é a avaliação clínica do paciente. Para pacientes críticos , com uma severa hipocalemia, possuem o potássio sérico < 2,8mmol/L, é recomendada a reposição intravenosa. A tabela a seguir tem algumas orientações para facilitar na hora da suplementação de cloreto de potássio. Todos os pacientes que receberem cloreto de potássio em seu fluido precisam ser identificados; não deve ser infundido mais que 0,5 mmol/Kg/h; e o paciente precisa ser monitorado constantemente com o ECG. Aqueles pacientes que estiverem comendo voluntariamente ou sondados podem ser suplementados por via oral/sonda – é sugerido 0,5-1,0 mmol/kg por via oral duas vezes ao dia. 81 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II Tabela 5. Suplementação de fluido intravenoso com o cloreto de potássio (KCl) para pacientes com hipocalemia. Potássio sérico (mmol/L) KCl (mmol) para adicionar em 1 L de fluido Taxa de infusão máxima recomendada para a suplementação de fluido (mL/kg/h) 3,5 – 5,0 20 25 3,0 – 3,5 30 18 2,5 – 3,0 40 23 2,0 – 2,5 60 8 < 2,0 80 6 Fonte: King, 2013. A hipercalemia raramente está relacionada a uma alta ingestão de potássio. Geralmente, está relacionada à redução na excreção renal do potássio ou na saída do potássio do meio intracelular para o extracelular. No quadro a seguir, podemos ver as possíveis causas em cada uma delas. Quadro 30. Diagnósticos diferenciais de hipercalemia. Diagnóstico diferencial Possíveis causas Excreção urinária diminuída Uroabdome Obstrução uretral Hipoadrenocorticismo Falência renal anúrica/oligúrica Distúrbios efusivos » Pleural » Peritoneal » Pericárdico Doenças gastrointestinais » Ex.: tricuríase Medicamentosas: » Inibidores da enzima conversora de angiotensina » Diuréticos poupadores de potássio Translocação do compartimento intracelular para o extracelular Morte celular massiva: » Injuria de reperfusão seguida de tromboembolismo » Trauma severo » Síndrome da lise tumoral » Insolação Acidose mineral aguda Deficiência de insulina Medicamentosa » Betabloqueadores Ingestão aumentada Iatrogênica Fonte: King, 2013. 82 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 Os sinais clínicos mais preocupantes do excesso de potássio são os que indicam efeito na condução do miocárdio: » bradicardia inadequada; » mudanças características no eletrocardiograma (ECG). A hipercalemia faz com que haja um intervalo prolongado de PR, diminuição da amplitude da onda R e aumento da amplitude da onda T, evoluindo posteriormente para uma paralisação atrial, com a ausência da onda P, fazendo com que se tenha um alargamento do complexo QRS e bradicardia. Na figura 45, observamos como exemplo o traçado eletrocardiográfico de dois pacientes com hipercalemia. Ambos estão com 10 mml/L, mas apresentando ECG diferentes. O animal A é um cão com hipoadrenocorticismo, e B, um gato com tromboembolismo aórtico. Nas duas situações, está presente a bradicardia e as ondas P não são identificadas. Figura 45. Traçado eletrocardiográfico de dois pacientes com hipercalemia. Fonte: King, 2013. O tratamento é baseado na gravidade das mudanças no ECG juntamente com os sinais clínicos do paciente ou a mensuração do nível de potássio sérico. No quadro a seguir, temos o tratamento específico para hipercalemia: 83 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II Quadro 31. Medicações e doses para controle da hipercalemia. Medicação Dose Modo de atuação * Gluconato de cálcio 0,5-1,5mL/Kg em 10% de solução. IV » Age rápido e os efeitos duram cerce de 20 minutos. » Neutraliza os efeitos do alto nível de potássio na condução miocárdica. » Pode ser repetido se precisar. ** Insulina regular (solúvel) 0,25-0,5 UI/Kg, IV. Administrar com 2 g de dextrose por unidade de insulina e seguido de adição de dextrose 2,5% em fluido intravenoso » A insulina age não diminui do potássio sérico, pois provoca a absorção do potássio das células junto com a glicose. » Leva cerca de 20 minutos. *** Bicarbonato de sódio 1-2 mEq/kg. IV » Age direcionando o potássio intracelular pela mudança de pH. * Ela não reduz o potássio sérico mas pela rapidez de sua ação é a primeira opção para o tratamento em casos severos de hipercalemia. ** É importante a administração da glicose via fluido de 12 a 24 horas para prevenir hipoglicemia. *** É deve ser usado somente quando o status ácido básico pode ser monitorado. Fonte: King, 2013. É importante lembrar que a causa primária precisa ser sempre pesquisada, encontrada e corrigida. O cloreto é o ânion extracelular principal e costuma mudar de forma, parecido com o sódio sérico (KING, 2013). Ele é muito importante no equilíbrio ácido-básico, nas interações com o sódio renal e a reabsorção do bicarbonato. Casos de alta de cloreto (hipercloremia) são comuns de acontecer quando se tem hipernatremia, e, quando ela é corrigida, o cloreto acaba sendo também. É preciso ter cuidado com os pacientes epiléticos ou que estão em tratamento para convulsão fazendo o uso do brometo de potássio, pois costumam ter hipercloremia e sódio normal. A hipocloremia pode ser vista em paciente desidratados, principalmente naqueles com vômitos severos. Quando o paciente está com hipocloremia, possui uma tendência grande a desenvolver alcalose metabólica, principalmente se a desidrataçãotambém estiver presente. Segundo King (2013), o cálcio é o principal componente do esqueleto, e ele pode estar disponível de três formas: » Cálcio ionizado (iCa2+) – é responsável por cerca de 55% do cálcio total. 84 UNIDADE II | TÓPICOS ESPECIAIS 2 » Cálcio complexado – 10% do cálcio e está na forma de lactato, ânions de citrato e bicarbonato. » Cálcio ligado as proteínas – 35% do cálcio total. Na hemogasometria, é mais comum ser feita a mensuração do cálcio ionizado. A ingestão de cálcio basicamente acontece através da alimentação, pela absorção no trato gastrointestinal e eliminação renal. Quadro 32. Diagnósticos diferenciais de hipercalcemia. Diagnóstico diferencial Possiveis causas Neoplasias » Linfoma » Adenocarcinoma de saco anal » Mieloma múltiplo » Adenocarcinoma de glândula mamária Hipoadrenocorticismo Doença renal aguda Hipoadrenocorticismo Distúrbios granulomatosos » Infecção por Angiostrongylus vasorum » Doença fúngica Toxicose por vitamina D » Alguns venenos de rato » Cremes contra psoríase Doenças ósseas não neoplásicas Idiopáticas (gatos) Fonte: King, 2013. O tratamento emergencial apenas é indicado se o cálcio ionizado estiver aumentado. Sinais clínicos da hipercalcemia podem ser não específicos, mas alguns sinais mais comuns de serem observados: » inapetência ou anorexia; » letargia; » poliúria/polidipsia; » vômito; » constipação; 85 TÓPICOS ESPECIAIS 2 | UNIDADE II » arritmia cardíaca; » contração muscular. Se o paciente estiver com cálcio ionizado alto, o tratamento precisa ser iniciado (quadro 33) para diminuir as chances de falência renal. Quadro 33. Tratamento para pacientes com hipercalcemia. Fármaco Dose Observações Diuréticos com NaCl a 0,9% 4-6 mL/Kg/h Carga de sódio alta promove a calciurese. Furosemida 1-2 mg/Kg A cada 6 a 8 horas 1ª fazer a correção da hidratação e só depois iniciar com o diurético. Calcitonina do salmão 4-7 UI/Kg/SC A cada 6 a 8 horas Cuidado com anafilaxia. Bifosfonato (Clodronato) 10 mg/kg diluído em NaCl a 0,9%, infusão lenta durante 4 -6 horas Reduz a absorção óssea. Dialise peritoneal ou hemodiálise Caso de risco de morte por hipercalcemia. Glicocorticoides Doses anti-inflamatórias Usar apenas após o diagnóstico ter sido concluído. Fonte: King, 2013. A hipocalcemia provoca aumento da excitabilidade do tecido neuromuscular. Os tutores chegam desesperados na clínica, pois o paciente manifesta tremores musculares, prurido facial, postura rígida, palpitação e hipertermia. Em casos mais sérios, tetania, alteração no ECG (intervalo prolongado de QT) e hipotensão não sendo corrigida podem levar o animal a óbito. Quadro 34. Tratamento para pacientes com hipocalcemia. Conduta e fármacos Dose Observações Gluconato de cálcio 10% 0,5 – 1,5 mL/Kg Durante 10 a 20 minutos e depois manter por via IV lentamente. Acompanhamento ECG Se possível durante a infusão. Pulso e Frequência cardíaca Monitorar quando não se tem ECG disponível. Gluconato de cálcio 5-15 mg de cálcio elementar/kg/h O gluconato de cálcio pode ser diluído em NaCl a 0,9% (1:1) e administrado em dose SC **. * Usado pelo KING ** Cuidado com risco de necrose/ mineralização tissular localizada. Fonte: King, 2013. 86 UNIDADE IIITÓPICOS ESPECIAIS 3 CAPÍTULO 1 Hemorragias A hemorragia significa uma perda de sangue causada por um trauma que lesionou um vaso sanguíneo e provocou esse sangramento. Pode ser chama de hemorragia interna quando está dentro do corpo, ou seja, dentro da cavidade, tecidos ou órgãos, ou de hemorragia externa, quando essa hemorragia extravasa para fora do corpo. Normalmente, o corpo tenta combater essa perda por meio da coagulação sanguínea, que bloqueia a perda do sangue, obstruindo o local onde aconteceu a lesão até que aconteça a recuperação do tecido lesionado. Entretanto, se a ruptura foi muito grande, a perda sanguínea pode ser muito rápida e considerável, representando alta gravidade. A quantidade perdida e a velocidade de perda podem ser tamanhas, resultando em uma hemorragia aguda grave e levando a vários sintomas, como: » choque hipovolêmico; » quebra de tensão arterial; » hipoxia; » anoxia. Dependendo do local, podem ser observados: » aumento da pressão intracraniana; » tamponamento cardíaco; » asfixia. 87 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Se a perda for lenta e prolongada, podem acontecer: » anemia; » fraqueza intermitente; » úlceras gástricas; » úlceras duodenais. Todos esses sintomas são mais comumente observados em hemorragia internas. Já nas hemorragias externas, observamos ferimentos cortantes e, quanto mais funda a laceração, maior a gravidade, visto que, anatomicamente, os vasos mais calibrosos costumam ser mais profundos. O tipo de vaso também influencia na gravidade da hemorragia – as artérias têm uma pressão bem maior que as veias, o que faz com que o sangramento saia jorrando de acordo com os batimento cardíacos e dificulta a formação de coágulos para fechar o local lesionado, tendo, portanto um controle mais complicado. Dessa maneira, o controle precisa ser feito de forma clínica e/ou cirúrgica. Já nas lesões em veias, como a pressão é bem mais baixa, torna-se mais fácil o controle do sangramento. As hemorragias internas, quando acontecem em locais que se comunicam com o meio exterior, são mais fáceis de serem descobertas. Como exemplo disso, podemos citar: » pulmão; » sistema urinário; » sistema digestório. Agora, quando acontecem em locais que não têm comunicação com meio externo, tornam-se mais difíceis de serem detectáveis, e, muitas vezes, são observados apenas quando já temos a presença de sintomas como: » diminuição da tensão arterial; » pulso fraco; » cianose; 88 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 » tonturas; » sede; » extremidades frias. As causas das hemorragias são diversas, vão desde uma pancada violenta, como atropelamentos, quedas, tumores hemorrágicos até doenças que provocam alterações da parede vascular ou dos processos de coagulação do sangue. O fato é que, visível ou não, a hemorragia irá provocar uma ou mais falhas no mecanismo hemostasia. Esse sangramento pode provocar deficiência nas plaquetas, sendo de quantidade ou função, ou pode interferir na cascata de coagulação, intrínseca ou extrínseca (que iremos discutir mais à frente), ou ainda na integridade vascular. Vamos entender um pouco mais sobre hemostasia. Segundo o dicionário Dicio, “hemostasia na Medicina significa: Estancamento do sangue” (DICIO, s/d). Entretanto, ela vai muito além disso. A hemostasia é a suspensão do sangramento. É uma resposta fisiológica a um dano vascular e fornece um mecanismo para selar um vaso danificado para prevenir a perda de sangue (hemo = sangue, estase = parada, lento). A hemostasia é um processo finamente regulado que envolve predominantemente interações entre endotélio, plaquetas e fatores de coagulação. Isso normalmente ocorre somente em locais de dano vascular, sem afetar a fluidez e o fluxo de sangue na vasculatura não danificada normal. A interrupção no delicado equilíbrio da hemostasia pode resultar em estados patológicos de perda de sangue (hemorragia) ou formação inapropriada de trombo (trombose). RAISER, 2013, p.65. Após o início do sangramento, o organismo tenta interrompê-lo por meio da hemostasia. Acontece, então, uma sequência de eventos de que iremos falar agora. Com a lesão no vaso, ocorre a perda de sangue para fora do lúmen do vaso, dando início ao processo da hemostasia. Na fase primária, acontece a constrição vascular e a presença das plaquetas formando a agregação plaquetária, fazendo um tampão, que, entretanto, é relativamente instável. Temos, então, a segunda 89 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III fase, na qual as fibrinas formam uma rede e dão suporte à agregação plaquetária para completar a hemostasia. A essa formação, damos o nome de coágulo. Mas, para que a hemostasia secundária aconteça, é necessáriauma concentração plasmática adequada de proteínas pró-coagulantes e da interação correta entre elas. Figura 46. Processo de hemostasia, com a representação das fases primária e secundária. Fonte: https://kasvi.com.br/wp-content/uploads/2019/03/hemostasia-1-768x1024.jpg. A coagulação pode ser iniciada por uma via intrínseca, que envolve componentes normalmente encontrados dentro da rede vascular e que são ativados por contato com uma superfície estranha. A via extrínseca é um mecanismo alternativo pelo qual a coagulação é iniciada. Ela envolve elementos comuns no sangue e alguns não tão comuns no espaço intracelular. 90 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Figura 47. Explicando as vias intrínseca e extrínseca da coagulação. Fonte: elaborada pela própria autora. Agora que foi entendido o processo de coagulação, como isso será aplicado na emergência? O clínico precisa pesquisar junto ao tutor se o paciente tem alguma alteração clínica como: » epistaxe; » hematomas espontâneos, quando é possível ver; » sangramento gengival frequente; » hematúria; » sangramentos anormais. Tratamento Em todo início de tratamento de hemorragias, é preciso saber de onde a hemorragia está vindo, para que a contenção seja realizada. Quando a hemorragia é muito intensa, a ventilação e as vias aéreas precisam ser inspecionadas, bem como o débito cardíaco deve ser controlado em segundos ou minutos, dependendo da gravidade. Em filhotes de cães e gatos, diferente dos suínos, que devem receber suplementação de ferro, não é recomendado receber o ferro via oral, pois pode acontecer intoxicação. 91 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III O ABC deve ser utilizado como ferramenta de avaliação do animal, sendo sempre a abordagem primária que deve ser feita: o A significa “ar” – “está entrando oxigênio?” –; o B se refere a “boa respiração” – “como esse animal está respirando? Está com angústia? Em qual a posição ele se encontra?” –; e o C representa “circulação” – “como como está a parte cardíaca desse paciente?”. 92 CAPÍTULO 2 Transfusão sanguínea A primeira transfusão sanguínea foi realizada no século XVII, pelo médico britânico Richard Lower, em Oxford, no ano de 1665, com base em experimentos realizados em animais. Naquela época, as transfusões eram heterólogas, ou seja, com sangue de animais de espécies diferentes, pois acreditava-se que o sangue dos animais era sangue mais puro, mas essa ação foi considerada criminosa e foi então proibida na faculdade de Paris e posteriormente em Roma e na Royal Society, na Inglaterra (INSTITUTO HOC, s/d). Em 1665, o médico britânico Richard Lower sangrou um cão quase à morte e então o reviveu, fazendo transfusão do sangue de um outro cão através de uma artéria. Esse é o primeiro relato bem-sucedido (INSTITUTO HOC, s/d). Mesmo sendo proibidas, as tentativas de transfusão não acabaram e, em 1788, Pontick e Landois obtiveram resultados positivos realizando transfusões homólogas (entre animais da mesma espécie), concluindo que elas poderiam ser benéficas e inclusive salvar vidas. Entretanto, apenas em 1818, James Blundell transfundiu sangue humano em mulheres com hemorragia pós-parto (INSTITUTO HOC, s/d). E, em 1901, o médico austríaco Karl Landsteiner observou que o soro do sangue de uma pessoa muitas vezes coagula ao ser misturado com o de outra, o que culminaria em uma das mais importantes descobertas, o sistema de grupos sanguíneos ABO (INSTITUTO HOC, s/d). Na veterinária, a medicina transfusional teve seu início na década de 1950, com a disponibilidade de equipamentos apropriados e pesquisas sobre o assunto, e foi fundada a Associação para a Medicina Transfusional Veterinária (KRISTENSEN; FELDMAN, 1995). Agora que já conhecemos a história do início da transfusão sanguínea, quando iremos fazer uso dessa ferramenta dentro da emergência? Começamos pela indicação da diminuição na oferta de oxigênio. » VG 21%; » pós trauma; » mucosas pálidas, “brancas”; 93 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III » correção de volemia; » fatores de coagulação (plaqueta e PTNd da coagulação); » doenças imunomediadas; » entender a imuno-hematologia: › presença de anticorpos; › DEA 3 (20%); › DEA 5 (23%). Para a correção da volemia, podemos usar os componentes plasmáticos, albumina e plasma. O teste de compatibilidade é feito com o sangue do doador e o do receptor. Com ele, conseguimos dizer que não foi detectado no soro do receptor anticorpos contra as hemácias do doador. Mesmo tendo sido feita a tipagem sanguínea, o teste de compatibilidade deve ser realizado antes da transfusão (GOMES, 2008). Figura 48. Reação principal. Fonte: Costa Jr., 2015. Figura 49. Reação secundária. Fonte: Costa Jr., 2015. 94 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Quadro 35. Teste de compatibilidade. Quantificar e qualificar a reação Graduação Característica 0 Sem aglutinação micro ou macroscópica H Hemólise +/- Micro Nenhum aglutinado visto macroscopicamente. Poucos aglutinados visto microscopicamente +/- Macro Aglutinados fracos visto macroscopicamente. Muitos aglutinados visto microscopicamente 1+ Muitos aglutinados pequenos e um fundo de hemácias 2+ Aglutinados grandes e grumos menores 3+ Vários agregados grandes 4+ Um sólido agregado de hemácias Fonte: Feldman; Sink, 2007. Figura 50. Teste de compatibilidade macroscopicamente. Fonte: Feldman; Sink, 2007. Figura 51. Teste de compatibilidade microscopicamente. Fonte: Feldman; Sink, 2007. 95 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Figura 52. Teste de compatibilidade. Fonte: Feldman; Sink, 2007. Um doador canino pode doar 450 mL de sangue a cada 21 ou 28 dias sem suplementação de ferro. Na maioria dos casos, não se precisa anestesiar o doador para fazer a coleta, mas, se houver a necessidade para ajudar na contenção, pode ser feita uma tranquilização (BROWN; VAP, 2006). Segundo Thrall (2006), a acepromazina não pode ser usada, pois interfere na função plaquetária. Abaixo, estão listadas algumas características necessárias para o doador: » idade entre 1 e 8 anos; » peso preferencialmente > 30 kg; » Ht > 40%; » nunca ter recebido transfusão (ou terapia com hemocomponentes); » comportamento dócil; » protocolo vacinal e vermifugação em dia; » negativo para as principais enfermidades (observar as endemias de cada região); » não estar no proestro ou estro (ação hormonal; estrógeno); » gestações anteriores (gestante X anticorpos). Características um gato doador: » tipagem e reação cruzada; » Ht > 35% (40%); 96 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 » peso > 4,5 kg (doação de 12 a 16 ml/kg e repor volume); » necessidade de sedação; » pesquisa de enfermidades: › negativo para FeLV, Mycoplasma spp. etc.; › observar as endemias de cada região. Os cães possuem oito grupos sanguíneos, identificados como antígenos eritrocitários caninos (DEA). Segundo Kristensen e Feldman (1995), são raros os anticorpos pré-formados, mas a transfusão dos tipos sanguíneos incompatíveis DEA 1.1 e 1.2 pode resultar em hemólise. A seguir, apresentamos um quadro com os tipos sanguíneos caninos. Quadro 36. Tipos sanguíneos caninos. Nome atual Nome comum Incidência na população DEA 1.1 A1 40% DEA 1.2 A2 20% DEA 3 B 5% DEA 4 C 98% DEA 5 D 25% DEA 6 F 98% DEA 7 Tr 45% DEA 8 He 4% Fonte: Kristensen; Feldman, 2008. Figura 53. Quem pode doar para quem em cães. Fonte: Costa Jr., 2015. 97 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Figura 54. Quem pode doar para quem em gatos. Fonte: Costa Jr., 2015. Após o doador selecionado e todos os testes realizados, é preciso fazer a coleta e seu processamento. Para a coleta, utilizamos bolsas de sangue que são vendidas comercialmente para a linha humana. Dentro delas, tem 63 ml de CPDA-1 (citrato-fosfato-dextrose-adenina, o anticoagulante usado) para 450 ml de sangue. Se for preciso fazer uma coleta menor, deve ser retirada a quantidade de coagulante antes de realizar a punção venosa, bastando fazer uma regra de três simplespara saber a quantidade a ser retirada da bolsa, como podemos ver na figura 55. Por serem um sistema fechado, isso reduz consideravelmente o risco de contaminação bacteriana (GOMES, 2008). Figura 55. Cálculo mostrando como identificar a quantidade a ser retirada de anticoagulante para uma coleta de 200 ml de sangue. Fonte: elaborada pela autora. 98 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Durante a coleta, alguns cuidados devem ser seguidos, como: » jejum de 12 horas (reduz possibilidade de formação de rouleaux para não interferir no teste de compatibilidade); » assepsia no local onde será realizada a punção venosa; » após a coleta do sangue, fazer pressão no local durante 2 a 5 minutos para acelerar o processo de coagulação; » observar o animal doador pelo menos até 30 minutos depois do término da coleta quanto a: › fraqueza; › mucosas pálidas; › pulso fraco; › sinais de hipotensão. » caso sintomas acima sejam observados, realizar soroterapia para repor o volume coletado, mas com cuidado para não causar hemodiluição imediata; » oferecer alimento e água logo após a doação; » orientar o tutor para que o paciente não faça exercícios físicos por alguns dias. Figura 56. Coleta de sangue de cão doador. Fonte: Costa Jr., 2015. 99 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Figura 57. Coleta de sangue de gato doador. Fonte: Costa Jr., 2015. Além da bolsa simples, existem outras bolsas de coleta, como pode ser observado abaixo: » Bolsa simples: é a mais conhecida para coleta de sangue. » Bolsas múltiplas: é um sistema fechado conectado a várias outras bolsas, de forma que uma coleta pode ser dividida e apenas uma bolsa ser utilizada para um cachorro pequeno, por exemplo, diminuindo assim o risco de contaminação. » Bolsa pediátrica: é uma bolsa de coleta menor, pode ser usada para felinos. Figura 58. Bolsas de coleta para transfusão – bolsa simples, bolsas múltiplas, bolsa pediátrica e de transferência. Fonte: Costa Jr., 2015. 100 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Após a escolha da bolsa e a coleta do sangue, começamos o processamento e, para isso, precisamos conhecer os seus componentes: » papa de hemácias; » plasma fresco congelado; » plasma congelado; » crioprecipitado; » crioplasma pobre; » plasma rico em plaquetas. Cada componente tem uma dose e uma indicação. Para visualizá-las mais rapidamente, podemos ver tais informações no quadro a seguir. Quadro 37. Produtos sanguíneos, indicações e doses. Produto Indicações Dose Observações Sangue total fresco Anemia. 20ml/Kg para elevar 10% o hematócrito (Ht). Rosco de sobrecarga de volume em animais normovolêmicos. Hipovolemia. anemia com alterações hemostáticas (trombocitopenia e coagulopatia). Sangue total estocado Anemia hipovolêmica. 20ml/Kg para elevar 10% o hematócrito (Ht). Não preserva plaquetas e nem fatores de coagulação. Concentrado de hemácias Anemia. 10ml/Kg para elevar 10% o hematócrito (Ht). Ideal para pacientes normovolêmicos. Concentrado de plaquetas Trombocitopenia. 1UI/10Kg, repetir se necessário (dose geralmente recomendada:10ml/Kg). Indicação terapêutica e profilática. Plasma rico em plaquetas Trombocitopenia. 1UI/10Kg. Risco de sobrecarga de volume. Plasma fresco congelado Coagulopatias hereditárias e adquirida (CID, Sepse, hepatopatias, neoplasias, coagulopatia dilucional, dicumarínicos). 10 a 30 ml/kg, repetir, se necessário (dose recomendada: 10ml/kg). Múltiplas transfusões podem ser necessárias em razão da meia-vida reduzida dos fatores de coagulação. Pancreatite aguda. Expansor de volume (segunda opção). Hipoproteinemia. Hipoglobulinemia. 101 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Produto Indicações Dose Observações Plasma congelado Hipoproteinemia. 10 a 30 ml/kg, repetir, se necessário (dose geralmente recomendada: 10ml/kg). Indicado no tratamento das hipoproteinemias a curto prazo. Hipoglobulinemia. Crioprecipitado Hemofilia. 1UI/10Kg (repetir se necessário). Administrar 30 min. Antes da cirurgia.Doença de Von Willebrand. Fonte: Gomes, 2008. Figura 59. Hemocomponentes. Fonte: Costa Jr., 2015. Além dos hemocomponentes, o sangue total é um meio extremamente rico. Nele, temos hemácias, plaquetas, fatores de coagulação e proteínas. Temos a opção de sangue total fresco e sangue total estocando. O fresco é assim considerado até 8 horas após a coleta em temperatura ambiente de 20 a 24 ºC. Depois desse tempo, passa a ser chamado de “sangue estocado” e precisa ser mantido refrigerado em temperatura de 2 a 6 ºC, permanecendo viável por até 35 dias, quando mantido em CPDA-1 (ABRAMS-OGG, 2001). Uma de suas principais indicações é restabelecer volemia nas hemorragias agudas, mas pode ser usado também em animais anêmicos e trombocitopênicos. A administração do sangue total deve ser feita em até 4 horas, sendo recomendado administrar 0,25 ml/kg na primeira hora e, não tendo reação, passar para 10 a 20 ml/kg/h em pacientes normovolêmicos. Segundo Gomes (2008), em pacientes cardiopatas ou nefropatas, a dose deve ser reduzida para 2 a 4 ml/kg/h. Se a quantidade total a ser tomada ultrapassar as quatro horas, deve ser dividida para usar uma parte nesse período, e o restante refrigerado, para usar nas próximas quatro horas. Dessa maneira, o risco de contaminação será reduzido. 102 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Figura 60. Sangue total fresco. Fonte: Costa Jr., 2015. A papa de hemácias deve ser mantida refrigerada entre 2 e 6 ºC, tendo sua viabilidade por 20 dias, quando mantida em CPDA-1. Ela é obtida na primeira centrifugação do sangue total, e é recomendada para os pacientes: » com hemorragia crônica; » com eritropoiese ineficiente; » anêmicos normovolêmicos. A indicação é para aqueles pacientes que estão com a hemoglobinas abaixo de 7 g/dL. A tabela abaixo exemplifica melhor, para ajudar na escolha da utilização da papa de hemácias ou não. Tabela 6. Reposição de hemácias em paciente crítico. Transfusão de hemácias Nível de hemoglobina Normalmente indicada < 7 g/dL Discussão 7 a 10 g/dL Raramente indicada > 10 g/dL Fonte: Gomes, 2008. O concentrado de plaqueta é obtido através da centrifugação do plasma rico em plaquetas (KRISTENSEN; FELDMAN, 1995). Tem a sua viabilidade por cinco dias e deve ser mantido em temperatura ambiente e em permanente agitação (ABRAMS-OGG, 2000). 103 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III A concentração de plaqueta é especialmente para pacientes trombocitopênicos, e, com ela, se consegue uma quantidade grande de plaquetas sem os eritrócitos, diminuindo os riscos de reações transfusionais (GOMES, 2008). Ela pode ser usada preventivamente para sangramento, quando paciente for passar por uma cirurgia grande. Quando o sangramento já existe, usa-se quanto a contagem de plaqueta for inferior a 50.000 μL. Quadro 38. Quando fazer a transfusão de concentrado de plaquetas. Trombocitopenia, tem sangramento? Sim não Plaquetas <50.000 Transfusão profilática Transfusão terapêutica Paciente crítico Paciente cirúrgico <10,000/ μL <100.000/ μL Fonte: Gomes, 2008. Figura 61. Homogeneizador de plaquetas. Fonte: Costa Jr., 2015. Figura 62. Concentrado de plaquetas. Fonte: Costa Jr., 2015. 104 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Plasma fresco congelado é obtido através da centrifugação do sangue total e precisa ficar armazenado a -20 ºC por, no máximo, oito horas após a coleta, ou perde as suas propriedades. Depois de centrifugado, para separar, ele é transferido para uma bolsa satélite por meio de um extrator de plasma e fica viável por até um ano. Depois disso, ele é denominado “plasma congelado” e preserva albumina e imunoglobulinas. O plasma fresco descongelado lentamente em temperatura 1 a 6ºC com posterior centrifugação tem o nome de crioprecipitado (GOMES, 2008). Figura 63. Plasma fresco congelado. Fonte: Costa Jr., 2015. Figura 64. Aparelho extrator de plasma. Fonte: Costa Jr., 2015. 105 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Quadro39. Tabela de conservação de hemocomponentes. Hemocomponentes Temp. Tempo Componente preservativo Sangue total fresco Ambiente < 8 horas Qualquer Sangue total 4º C 30 dias CPDA -I 41 dias CPD/SAG – M Concentrado de eritrócitos 4º C 20 dias CPDA -I 37 dias CPD/SAG – M Plasma fresco congelado – 30º C 1 ano Plasma congelado – 30º C 4 anos Criopreciptados – 30º C 1 ano Criopobre – 30º C 4 anos Concentrado Plaquetas 22º C 5 dias (movimentação) Fonte: Costa Jr., 2015. Reações transfusionais A reação transfusional pode acontecer com qualquer paciente, mas existem algumas maneiras de minimizar essas reações, e uma delas é utilização de hemocomponentes. Novos estudos na medicina e na veterinária mostram que o uso de hemocomponentes vem aumentando, da mesma que o sangue total vem tendo seu uso diminuído (HOHENHAUS, 1992). Podemos observar diversas reações transfusionais, que podemos classificar em imunológicas ou não imunológicas e ainda dizer se foi de ocorrência aguda ou tardia. A aguda acontece durante a transfusão ou em poucas horas, podendo se manifestar até 48 horas depois. No quadro a seguir, temos as manifestações clínicas e o tratamento das principais reações transfusionais. Quadro 40. Manifestações clínicas e tratamento das principais reações transfusionais. Reação Transfusional Manifestações Clinicas Tratamento Hemolítica Aguda » Hipertermia » Interromper a transfusão. » Taquipneia » Fluidoterapia. » Taquicardia » Dexametasona (4 a 6mg/kg, IV). » Hemoglobinúria » Agente vasopressor: Dopamina e a 5 μg/kg/min. em infusão contínua. » Choque » Furosemida: 2 a 4mg/kg/IV. 106 UNIDADE III | TÓPICOS ESPECIAIS 3 Reação Transfusional Manifestações Clinicas Tratamento Hipersensibilidade aguda » Taquipneia » Interromper a transfusão. » Dispneia » Fluidoterapia. » êmese » Dexametasona: 0,5 a 1mg/kg, IM ou IV. » Diarreia » Difenidramina: 1mg/kg, IM. » Salivação » Urticária » Prurido » Angioedema » Eritema Reações transfusionais não hemolíticas febris (RTNF) » Hipertermia » Interromper a transfusão. » Êmese » Dexametasona: 0,5 a 1mg, IM ou IV. » Tremores Contaminação Bacteriana » Hipertermia » Interromper a transfusão. » Taquipneia » Remover todos os materiais e produtos contaminados. » Taquicardia » Realizar cultura de amostras. » Êmese » produto sanguíneo e do sangue do paciente. » Choque » Antibióticos de amplo espectro. Sobrecarga circulatória » Taquipneia » Interromper a transfusão. » Taquicardia » Diuréticos com ou sem vasodilatador. » Ascite » Reiniciar a transfusão sanguínea lentamente (preferência: concentrado de hemácias). » Edema pulmonar » Efusão pleural Intoxicação ao citrato » Hipocalcemia: tremores » Administrar gluconato de cálcio a 10% na dose de 0,5 a 1,5 ml/kg, IV, durante 5 a 10min. » Hipertermia » Êmese » Monitorar com ECG. » Arritmias cardíacas ECG= Eletrocardiograma, IM= Intramuscular, IN= Intravenosa Fonte: Gomes, 2008. 107 TÓPICOS ESPECIAIS 3 | UNIDADE III Quadro 41. Ficha de transfusão sanguínea. FICHA DE TRANSFUSÃO SANGUINEA Paciente: _______________________ sexo: _______________ Data: ____________ Proprietário: _________________________________________ Idade: ____________ Calculo de Transfusão: Peso: ___________ ______________________________________________________________________ Início da Transfusão: _____________ Termino da Transfusão: ___________________ Hora FC FR P. sistólica P. Diastólica P. A. M. SPO2 Temp. Retal (Tº C) Observações durante o procedimento: _____________________________________ ____________________________________________________________________ Assinatura Veterinário: ___________________________________________________ Fonte: elaborada pela autora. 108 UNIDADE IVINTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO CAPÍTULO 1 Intoxicações Os animais estão cada vez mais presentes dentro das casas das pessoas e não mais em quintais como antigamente, e essa proximidade muitas vezes pode causar ingestão de medicamentos, por exemplo, que caem no chão ou pegam na bolsa ou mesmo venenos utilizados para controle de roedores ou outros vetores. Dessa maneira, a ingestão pode acontecer na frente do tutor ou ele saber que o seu animalzinho mexeu ali. Na maioria dos casos, o quadro é agudo, ou seja, a intoxicação aconteceu pouco tempo antes, mas é grave, principalmente dependendo do produto e da quantidade ingerida. É importante saber qual o tipo de veneno ou medicação ingerida, e, nessas situações, o desespero do tutor é tanto que ele acaba ligando na clínica a procura de orientações. Quando isso acontecer, é importante filtrar algumas informações, como: » Qual o tipo de agente que foi ingerido ou com o qual teve contato? » Levar a caixa do produto (podem ser plantas, medicamentos, produtos de pintura, construção) ou tirar foto (isso ajuda para poder pesquisar o antídoto, protocolo para descontaminação, qual o mecanismo de ação etc.) » O tutor viu quando aconteceu o contato? (assim tem-se a certeza da ingestão e sua quantidade) » Há quanto tempo aconteceu? » O tutor sabe a quantidade ingerida? » O animal está com algum sinal clínico? 109 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » Qual é a espécie e idade do paciente? » É possível orientar o início de alguma terapia (Ex.: dar banho, induzir vômito)? Com essas informações, é possível pensar na estratégia que será utilizada para o tratamento, bem como a conduta emergencial que se aplica àquele paciente. Plantas Geradoras de oxalato Sinais clínicos: » irritação na cavidade oral e esôfago; » sialorreia; » êmese; » diarreia; » coma; » morte. Tratamento: » É sintomático. » Pode ser feita lavagem, dependendo de há quanto tempo houve a ingestão. » Usar leite ajuda a precipitação do oxalato e, dessa maneira, diminui a absorção. Neurotóxicas Sinais clínicos: » taquicardia; » êmese; 110 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO » midríase; » paralisia; » taquipneia; » convulsão; » coma. Tratamento: » É sintomático. » Pode ser feita lavagem dependendo de há quanto tempo houve a ingestão, » Usar fisiostigmina na dose de 0,02 mg/kg, IV lento (três a cinco minutos). Nefrotóxicas Sinais clínicos: » vômito; » apatia; » anorexia; » oliguria e anuria quando evolui para insuficiência renal aguda. Tratamento: » É sintomático. Cardiotóxicas Sinais clínicos: » depressão; » letargia; » sialorreia; 111 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » êmese; » midríase; » dor abdominal; » distrição respiratória; » hipotensão; » arritmias cardíacas (taquiarritmias). Tratamento: » É importante fazer monitoramento com o eletro. » Busca-se a correção das possíveis arritmias. Quadro 42. Características das diferentes plantas cardiotóxicas. Nome popular Forma de intoxicação Mecanismo de ação Comigo-ninguém-pode Ingestão » Grande quantidade de oxalato. » Na corrente sanguínea, se liga ao cálcio e forma oxalato de cálcio, causando uma hipocalcemia. » Pode causar lesão vascular e renal. Dama da noite Ingestão » A toxina tem ação inibidora de colinesterase e ação inibidora anticolinérgica (semelhante a intoxicação por atropina). *Lírio Ingestão » Associada a insuficiente renal, causa necrose tubular aguda entre 48 e 92 horas após exposição. » Não se sabe qual é a toxina. Dedaleira Boca-de-leão Ingestão » O agente toxico é semelhante a glicosídeos cardíacos como digoxina. » Atua no aumento de cálcio para dentro da célula cardíaca, causando efeito inotrópico e aumentando a possibilidade de arritmias. *Problema muito grave principalmente para gatos. Fonte: elaborada pela própria autora. Monóxido de carbono A intoxicação por monóxido de carbono acontece quando o animal fica em locais com pouca ventilação ou em casos de incêndio. Dessa maneira, ele fica inalando altas concentrações de CO2. 112 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Sinais clínicos:» hipoxia; » apatia; » ataxia; » dificuldade respiratória; » coma; » morte. Tratamento: » suporte ventilatório; » terapia hiperbárica, quando possível. Analgésicos e anestésicos Muitos tutores, na intenção de resolver a dor do animal, administram medicação para dor, que, na maioria dos casos, também tem ação anti-inflamatória além da analgesia e, como é para humanos, tem a dose maior e forma de administrar diferente para os pacientes veterinários; dessa maneira, causam-se quadros sérios de intoxicação. Os fármacos mais comuns de serem encontrado nas emergências veterinárias são: acetaminofeno, diclofenaco e ácido acetilsalicílico e a fenazopiridina. Acetaminofeno (Tylenol®, paracetamol) Sinais clínicos: » Cães: › apatia; › anorexia; › êmese; › hipotermia. 113 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » Gatos: › mucosas pálida; › dificuldade respiratória; › edema de face (comum); › hipotermia; › cianose; › coma; › morte. Tratamento: » Como antídoto, N-acetilcisteína na dose inicial de 150 a 200 mg/kg IV, seguidos de 70 a 100 mg/kg IV, VO a cada 8 horas durante 3 a 5 dias de tratamento. » S-adenosilmetionina (SAMe) na dose de 20 mg/kg (cão) e 90 mg (gato) durante 10 a 20 dias também é efetiva. » Fornecer suporte ventilatório de acordo com o paciente. » Realizar correção hidroeletrolítica. Fenazopiridina (Pyridium®) É analgésico e antisséptico de vias urinárias usado na medicina humana. Usado por clientes que usam nos pacientes com quadros de problemas urinários. Os gatos são os mais envolvidos nessas intoxicações. Sinais clínicos: » Cães: › apatia; › anorexia; › êmese; › hipotermia. 114 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO » Gatos: › mucosas pálidas; › dificuldade respiratória; › edema de face (comum); › hipotermia; › cianose; › coma ; › morte. Tratamento: » Semelhante ao tratamento por acetaminofeno. Diclofenaco e ácido acetilsalicílico (AAS) Sinais clínicos: » gastrite; » úlcera ; » demais efeitos sérios na mucosa gástrica; » insuficiência renal aguda. Tratamento: » Antagonistas de receptores H2: › famotidina 0,5 mg/kg, VO, IV, BID; › ranitidina 2,2 a 4 mg/kg, VO, SC, BID, TID. » Inibidores da bomba de prótons: › omeprazol 1,0 a 2,0 mg/kg, VO, IV, SID; › protetores gástricos: sucralfato 0,5 a 1,0 g/animal, VO, TID. 115 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » Antieméticos: › maropitant (Cerenia®) 1 mg/kg, SC, SID em cães; › ondansetrona 0,1 a0,2 mg/kg, VO, IV, BID, TID; › metoclopramida 0,5 mg/kg, VO, SC, IV, BID, TID ou 2,0 mg/kg/24 horas em infusão contínua. » Passar a sondagem nasogástrica e fazer aspiração gástrica e administração de carvão ativado (Captor®-Inovet/Enterex® Vetnil) auxilia no controle da inflamação e sangramento gástrico. » Para a parte renal, fluidoterapia, a fim de corrigir o desequilíbrio hidroeletrolítico Psicofármacos Os mais comuns de serem encontrados nas clínica em pacientes intoxicados são: » antidepressivos tricíclicos (nortriptilina; amitriptilina); » inibidores da monoamina oxidase (fenelzina; tranilcipromina); » inibidores da recaptação de serotonina (fluoxetina). Tratamento: » É sintomático. » Realizar correção hidroeletrolítica. » Fornecer suporte ventilatório. » Controlar as convulsões. Drogas ilícitas Esse tipo de intoxicação nem sempre é reconhecido no início. Ao contrário das outras, nas quais o tutor já vem falando que o paciente pode ter ingerido o fármaco que caiu ou que mexeu na planta, com as drogas ilícitas isso não acontece muitas vezes por medo de serem denunciados, o que atrapalha no andamento do tratamento inicial. 116 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO As drogas mais comuns de termos intoxicações são: » maconha » cocaína. Maconha Sinais clínicos: » euforia; » excitação na fase inicial; » depressão na fase seguinte; » apatia; » ataxia; » incoordenação; » coma (em casos graves). Tratamento: » É sintomático. » Não existe antídoto. » A terapêutica vai de acordo com a correção dos sinais clínicos apresentados. Cocaína Sinais clínicos: » excitação; » sialorreia; » hipertermia (causado por tremores musculares); » midríase; » taquicardia (pode ter arritmias); 117 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » hipertensão; » taquipneia; » parada cardiorrespiratória em casos graves. Tratamento: » Não existe antídoto. » Realizar correção eletrolítica. » Estabilizar a pressão arterial. » Estabilizar as arritmias. » Dar suporte ventilatório quando preciso. Organofosforados São muito usados em herbicidas, carrapaticidas e inseticidas. Além disso, podem ser encontrados em várias formas de apresentação, desde pós, shampoos, sprays e até coleiras; existem vários nomes comerciais, como, por exemplo: » azinfós etílico (Gusathion A®); » clorpirifós (Dursban®, Lorsban®); » diclorvos (DDVP®; Nuvan®; Vapona®); » dimetoato (Dimexion®; Perfektion®); » diazinon (Basudin®, Diazitol®); » fenitrotion (Sumigran®; Sumithion®); » fention (Baytrex®, Lebaycid®); » fosfamidon (Dimecron®); » malation (Carbofós®, Malatol, Malaton®); » metamidofós (Tamaron®); » monocrotofós (Azodrin®, Nuvacron®); » paration metílico (Folidol®). 118 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Sinais clínicos: » miose; » sialorreia; » incontinência urinária; » êmese; » defecação e/ou diarreia; » fasciculações musculares; » tremores; » bradicardia; » convulsão; » morte (casos graves). Mesmo depois de tratada a infecção, algumas neuropatias periféricas podem aparecer até duas semanas depois da estabilização inicial. Tratamento: » sulfato de atropina (antídoto) em dose inicial de 0,05 mg/kg IV associado a 0,05 mg/kg IM; » se não houver melhorar clínica, repetição das doses IV e IM; » cloreto de pralidoxima (2-PAM) na dose de 20 mg/kg IV na velocidade de 1mL por minuto; » correção hidroeletrolítica; » suporte ventilatório; » controle de convulsões. 119 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV Organoclorados, carbamatos e herbicidas Organoclorados São substâncias usadas como inseticidas, mas vêm tendo sua utilização diminuída e sendo substituídos pelos organofosforados e carbamatos. Os nomes comerciais são: » Aldrin® (aldrina); » Endrin®; » DDT® (diclorodifeniltricloroetano); » Endossulfan®; » Heptacloro®; » Lindane®; » Mirex® (DDT). Sinais clínicos: » êmese; » sialorreia; » ataxia; » hipersensibilidade; » tremores; » hiperestesia; » depressão; » alterações respiratórias; » coma; » morte. 120 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Tratamento: » Não existe antídoto. » Realizar correção hidroeletrolítica. » Dar suporte ventilatório. Carbamatos São muito usados como inseticidas na agricultura, mas podem ser usados de forma errônea como rodenticidas, o que pode provocar intoxicações nos animais, em muitas situações de forma criminosa. Possuem o formato em grânulos também conhecidos como chumbinho, que é o carbamato de aldicarb. A ação é mais rápida que a dos organofosforados. Seus nomes comerciais são: » Temik® (aldicarb); » Metacil® (aminocarb); » Sevin® (carbaril); » Carboran®, Furadan® (carbofuran); » Landrin® (landrin); » Bux® (metacalmato); » Mesurol® (metiocarb); » Lannate®, Nudrin® (metomil); » Zectran® (mexacarbato); » Baygon®, Unden® (propoxur). Sinais clínicos: » Os mesmos apresentados em situação de intoxicação por organofosforado. Tratamento: » Antídoto: sulfato de atropina na dose de 0,05 mg/kg IV associado a 0,05 mg/kg IM, caso não melhore após a administração inicial (doses de 0,5 mg/kg IM). 121 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV » Não usar de cloreto de pralidoxima na terapia de intoxicação por carbamatos, pois pode aumentar os efeitos tóxicos. » Realizar correção hidroeletrolítica. » Oferecer suporte ventilatório intensivo. Herbicidas Os herbicidas maisencontrados nessas intoxicações são glifosato e paraquat. Quanto ao glifosato, cujo nome comercial é o Randup®, os sinais clínicos dependem da área de contato e não tem muita significância. O tratamento é sintomático. Quanto ao paraquat, cujo nome comercial é Gramoxone 200®: Sinais clínicos: » dificuldade respiratória; » cianose; » insuficiência respiratória. Tratamento: » Não existe antídoto específico. » A terapêutica é baseada nos sinais clínicos. » Evitar o uso de oxigênio a 100%, durante o suporte ventilatório. Rodenticida São produtos usados para controle de roedores de um modo geral. A maioria provoca intoxicações sérias, que são fatais se não diagnosticadas no início. Os mais comuns são divididos em anticoagulantes, fluoracetato de sódio, estricnina e brometalina. Anticoagulantes Os nomes comerciais são: » Klerat®, Ratak® (brodifacum); 122 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO » Bromoline®, Maki® (bromadiolona); » Warfarin® (cumafeno); » Racumin®, Fulmirat pó® (cumatretalil); » Ratomet® (clorfacinona); » Ramik® (difacinona). Sinais clínicos: » Hemorragias em qualquer parte do corpo. Tratamento: » Uso de vitamina K1 (fitomenadiona) na dose inicial de 5,0 mg/kg, SC, distribuída em vários locais de aplicações. No segundo dia, reduz-se para 1,0 a 2,0 mg/kg, SC, durante 10 a 15 dias. » Sugere-se o monitoramento da terapêutica com testes de coagulação (TP e TTPA). Fluoracetato de sódio Seu nome comerciais é Composto 1080 (tem o comércio proibido no Brasil). Os sintomas já aparecem poucos minutos após a ingestão. Sinais clínicos: » êmese; » inquietação; » defecação; » convulsão; » dificuldade respiratória; » cianose; » coma; » parada cardiorrespiratória; » morte. 123 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV Tratamento: » monoacetato de glicerol na dose preconizada de 0,55 g/kg, IM; » gluconato de cálcio (50 a 100 mg/kg IV, infusão contínua lenta), a fim de controlar a hipocalcemia; » correção hidroeletrolítica; » suporte ventilatório; » controle de convulsões. Estricnina Os produtos com estricnina são proibidos no Brasil. Sinais clínicos: » contrações musculares involuntárias; » rigidez da musculatura cervical, facial e abdominal; » convulsão; » insuficiência respiratória; » dificuldade respiratória; » cianose; » coma; » morte. Tratamento: » Não tem antídoto. » Oferecer suporte ventilatório. » Controlar as convulsões. » Fazer correção hidroeletrolítica. 124 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Brometalina Sinais clínicos: » edema em várias partes, principalmente no cérebro; » tremores musculares; » êmese; » excitação; » convulsão; » midríase; » anisocoria; » alterações ventilatórias; » paralisia; » coma; » morte. Tratamento: » Não tem antídoto. » Fazer correção eletrolítica. » Controle as convulsões. » Tratar edema cerebral. » Oferecer suporte ventilatório. Rodenticida São comuns intoxicações por esses produtos, mas elas tendem a ser menos agressivas que os outros produtos citados anteriormente. A maioria dos problemas está relacionada a reações locais na pele, mucosa oral e olho. 125 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV Desinfetantes Os nomes comerciais são: » Zephiran® (amônia quaternária); » Lysoform® (formol); » Pinho Sol® (óleos de pinho). Sinais clínicos: » De acordo com a região onde teve contato: › irritação; › prurido; › dor no local. » Se for inalado: › irritação das vias aéreas; › tosse; › dispneia; › colapso respiratório (em casos graves). » Se for ingerido: › vômito; › fasciculações musculares; › incoordenação; › convulsão; › coma; › morte. 126 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Tratamento: » É deito de acordo com os sinais clínicos. » Lavar bastante o local com água. » Em caso de ingestão, não é recomendado induzir o vômito. Alvejantes Os nomes comerciais são Q boa® e água sanitária (ambos hipoclorito de sódio). Sinais clínicos: » irritação; » prurido cutâneo. Tratamento: » É feito de acordo com os sinais clínicos. » Em caso de ingestão, não é recomendado induzir o vômito. Detergentes Os nomes comerciais são: » Solupan®; » Ativado®. Sinais clínicos: » irritação; » prurido cutâneo e de mucosas. » Em caso de ingestão: › náuseas; › vômito; › fraqueza muscular; 127 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV › diarreia; › dor abdominal. Como exemplo de intoxicação: paciente com lesão na pele estava usando óxido de zinco (usado para lesões externas) por conta própria da tutora e sem colar. A cadela lambia todas as vezes que a medicação era usada. Após a intoxicação medicamentosa, a paciente chegou na clínica com hemorragia severa, perdeu muito sangue. Figura 65. Óxido de zinco. Fonte: elaborada pela própria autora. Figura 66. Paciente vítima de intoxicação medicamentosa. Fonte: elaborada pela própria autora. 128 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Chocolate As intoxicações por chocolate é outra realidade na clínica médica atualmente; ele possui muita metilxantina, que é um derivado da xantina, teobromina e cafeína. Os sinais clínicos acontecem de quatro a seis horas após a ingestão, mas, para pacientes mais sensíveis, esse tempo pode ser bem menor. Atua nos sistemas nervoso e cardiovascular, mas os tutores devem ser informados sobre o risco de pancreatite devido ao excesso de gordura. São os sinais: » euforia; » êmese; » diarreia; » ataxia; » tremores; » hipertermia; » taquipneia; » taquicardia (arritmias); » hipertensão; » morte. Tratamento para: » sinais clínicos manifestados; » suporte eletrolítico; » correção das arritmias; » hipertensão. 129 INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO | UNIDADE IV Quadro 43. Forma da intoxicação e mecanismo de ação para cada causa de contaminação. Produto Forma de intoxicação Mecanismo de ação Monóxido de carbono Inalação » O CO se a hemoglobina (devido sua alta afinidade, até 250 vezes). » Impede a ligação do oxigênio, causando hipoxia. Tylenol ®, Paracetamol ®, Ingestão acidental Administração do tutor » Depleção das reservas de glutationa (antioxidante). » Susceptibilidade a lesões oxidativas. » CAES: Lesões mais em fígado, levando a uma hepatite aguda. » GATO: hemácias são mais acometidas, levando hipóxia (meta- hemoglobinemia). Pyridium@ Administração do tutor » Semelhante a intoxicação por Acetaminofeno. » Provoca quadros de hipoxia. » Meta-hemoglobinemia. » Hemólise. Cataflan®, voltarem®, AAS: Aspirina®, Administração do tutor Ingestão acidental » São anti-inflamatórios não esteroidais e inibem as enzimas ciclo-oxigenase 1 e 2 de forma não seletiva. » A inibição da COX 1 diminui a produção de prostaglandina benéfica, que diminui a produção de muco gástrico, aumento das concentrações de íons de hidrogênio, além de reduzir o fluxo sanguíneo renal. Nortriptilina amitriptilina fenelzina; tranilcipromina fluoxetina Ingestão acidental » Inibição da recaptação de serotonina. maconha Ingestão acidental » Tetra-hidrocanabinol (THC) atua em vários receptores incluindo os dopaminérgicos, noradrenérgicos, colinérgicos, serotoninérgicos e GABA. Cocaína Ingestão acidental » Inibição da recaptação das catecolaminas endógenas, levando a estimulo do SNC. » Estimulo de neurotransmissores dopaminérgicos devido ao bloqueio na recaptação da dopamina. Organofosforados Exposição cutânea Ingestão através de lambidas » Inibição da enzima acetilcolinesterase (AChE), que tem a função de degradar a acetilcolina (ACh). » ACh é um neurotransmissor do SN simpático e parassimpático e se liga a receptores colinérgicos (muscarínicos e nicotínicos). Organoclorados Contato com a pele Ingestão acidental ou proposital » O mecanismo de ação ainda não foi totalmente elucidado. » É sabido que ele aumenta a entrada de sódio e potássio para dentro das células neurais. »Diminui o potencial excitatório. 130 UNIDADE IV | INTOXICAÇÃO E ENVENENAMENTO Produto Forma de intoxicação Mecanismo de ação Carbamatos Ingestão proposital Ingestão acidental » Semelhante aos organofosforados. » Ação na AChE é menos intensa e costuma ter uma reversão rápida quando tratada. glifosato (Randup®) contato com a pele ingestão » Ainda não se sabe exatamente o mecanismo de ação, mas possui uma ação irritativa. Paraquat (Gramoxone 200®) Exposição cutânea Inalação ingestão » Formação de radicais livres que fazem a degradação da membrana fosfolipídica das células. » Essa formação acontece nos pulmões. Rodenticida Anticoagulantes Ingestão » Inibição do sistema de ativação da vitamina K1. » Interfere nos fatores de coagulação que depende da vitamina k1 (II, VII, IX e X). Rodenticida Fluorascetato de sódio Ingestão acidental Ingestão proposital Inalação Contato com a pele lesionada » Inibição do ciclo de Krebs em todas as células. » Ocorre diminuição significativa do metabolismo, com reduções da respiração celular e níveis de ATPs disponíveis. » Hipocalcemia grave devido à ligação do citrato em excesso com íons de cálcio, Rodenticida estricnina Ingestão acidental Ingestão proposital » Atua na membrana pós sináptica das células de Renshaw. » Inibe a ação do neurotransmissor inibitório, glicina. Rodenticida Brometalina Ingestão acidental Ingestão proposital » Interfere na fosforização oxidativa causando. » Inibição da formação de ATP’s. » A diminuição e ATP’s ocasionam a diminuição da atividade da bomba de sódio e potássio. Desinfetantes Ingestão Inalação Contato com a pele » Desnaturação das proteínas. Alvejantes Ingestão Inalação Contato com a pele » Desnaturação das proteínas. Detergentes Ingestão Inalação Contato com a pele » Ação corrosiva. Chocolate Ingestão » Estimulação do sistema nervoso simpático. » Aumento da liberação das catecolaminas. » Agem como inibidores de receptores de adenosina (responsáveis por regular o ritmo cardíaco). Fonte: Rabelo, 2012. 131 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual de condutas para úlceras neurotróficas e traumáticas. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. CARDOSO, N. A.; SOBRINHO, C. B. Fluidoterapia nos pacientes em choque séptico: revisão de literatura. 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