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1 PERSPECTIVAS ATUAIS DA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA ................................................. Erro! Indicador não definido. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 3 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA NO BRASIL: FUNDAMENTOS E SITUAÇÃO ATUAL ............................................................................................................... 6 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO .............. 11 O INÍCIO DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO PEDAGÓGICA..................................................................................................17 ESTRATÉGIAS DE DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA.................................................................................................23 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICAS: SITUAÇÃO, DESAFIOS E DIRETRIZES.....................................................................................................29 REFERÊNCIAS.................................................................................................32 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO A avaliação psicológica é um processo de construção de conhecimentos acerca de aspectos psicológicos, com a finalidade de produzir, orientar, monitorar e encaminhar ações e intervenções sobre a pessoa avaliada, e, portanto, requer cuidados no planejamento, na análise e na síntese dos resultados obtidos. Nesse sentido, sobre as dimensões éticas da avaliação psicológica relaciona diferentes infrações que motivaram processos éticos envolvendo a avaliação psicológica, os quais foram julgados pelo Conselho Federal de Psicologia à luz dos princípios éticos preconizados pela Associação Americana de Psicologia (APA) em 1992 e revisado em 2002, a saber: competência, integridade, responsabilidade científica e profissional, respeito pela dignidade e pelos direitos das pessoas, preocupação com o bem-estar do outro e responsabilidade social. A responsabilidade social da Psicologia expressa-se por meio de seus métodos e suas técnicas, os quais devem ser confiáveis, válidos e fidedignos para a população na qual eles serão empregados. Sobre isso, o capítulo Avaliação psicológica, testes e possibilidades de uso, reafirma que o teste é um instrumento especializado que requer estudos psicométricos de alta precisão e compõe a avaliação psicológica, a qual não se restringe exclusivamente a ele. A qualificação dos testes psicológicos, com observância dos critérios mínimos estabelecidos para considerá-los indicados para a população brasileira, foi abordada no capítulo O Satepsi: desafios e propostas de aprimoramento, no qual se discutem os avanços e os limites desse sistema. Os avanços podem ser observados na qualificação dos manuais dos instrumentos e no aumento do número de testes psicológicos aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia. Os limites podem ser identificados nas indagações geradas no processo de avaliação dos testes psicológicos, entre elas sobre o aumento dos critérios mínimos e das especificidades dos testes como instrumentos privativos da área de Psicologia. Essas dúvidas, quando respondidas, poderão subsidiar as práticas da avaliação psicológica tanto nas áreas tradicionais da Psicologia como nas áreas emergentes. 4 Dentre as áreas tradicionais da Psicologia, a avaliação psicológica foi e é utilizada no contexto organizacional e do trabalho, tal como é mostrado no histórico e no desenvolvimento do capítulo A avaliação psicológica no contexto organizacional e do trabalho. A avaliação psicológica nesse contexto tornou-se, ao longo do tempo, uma ferramenta poderosa de tomada de decisão que, quando implementada de modo apropriado, pode trazer benefícios importantes para os trabalhadores, para as organizações e para a sociedade em geral. Assim é que a escolha de pessoas com perfis mais adequados a determinada função aumenta a probabilidade de que elas obtenham maior satisfação no trabalho e, consequentemente, tenham melhor qualidade de vida. Assim, a avaliação psicológica é compreendida como um processo científico no qual o psicólogo busca informações que o auxilie no diagnóstico e na escolha da intervenção mais adequada frente a cada indivíduo. A prática avaliativa inclui técnicas e instrumentos testados empiricamente e validados de acordo com os critérios estabelecidos pela comunidade científica. No Brasil, a regulamentação dos testes psicológicos é feita pelo Conselho Federal de Psicologia (Resolução nº2/2003) que, inclusive, dispõe de um código de ética que orienta a atuação do profissional na aplicação desses instrumentos. Conhecer é um processo de ambientação, gradual e permanente, dado que as circunstâncias em que ocorre o processo de conhecimento são dinâmicas, complexas e diversificadas. O processo de querer conhecer é, portanto, concomitante a o processo de intervir (Severino, 1994; Alves, 1999). O processo de conhecer implica em mobilizar-se frente às circunstâncias, intervindo nelas exatamente para poder conhecer. E, apesar de se ter consciência de que nunca se conhece suficientemente, o ser humano busca permanentemente esclarecer aquilo que lhe é desconhecido, o que lhe impressiona, o que lhe incomoda (Botomé, 1993; Cruz, 2002/2004). Um processo de avaliação psicológica depende, particularmente, da atitude orientada para a compreensão do que se quer avaliar, da habilidade do avaliador em escolher estratégias e procedimentos (recursos metodológicos e técnicos) específicos às necessidades oriundas das demandas por avaliação (objetivo visado). Adotar recursos metodológicos significa escolher caminhos que, muitas vezes, precisam ser reorientados sistematicamente. O mais 5 importante é criar as condições para conhecer e permitir que o conhecimento gerado seja útil e traga benefícios sociais e sirva para o aperfeiçoamento da ciência psicológica como uma possibilidade efetiva de compreender os problemas humanos. Fonte:https://www.echospsicologia.com.br/post/avalia%C3%A7%C3%A3o-psicol%C3%B3gica- enfim-uma-especialidade 6 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA NO BRASIL: FUNDAMENTOS E SITUAÇÃO ATUAL A avaliação psicológica é, talvez, uma das áreas mais antigas da psicologia. Ao nascer, teve uma de suas aplicações práticas – o desenvolvimento dos testes psicológicos e da psicometria – voltada para seleção de soldados nas grandes guerras (Anastasi & Urbina, 2000). Dessa forma, a avaliação é muitas vezes identificada com um segmento particular da psicologia dedicado à criação de instrumentos e técnicas. No entanto, a avaliação, em geral, e, em particular, o desenvolvimento de instrumentos,representa uma área central da ciência psicológica porque permite a objetivação e operacionalização de teorias psicológicas. Em outro momento ressaltou-se esse aspecto: A avaliação psicológica é geralmente entendida como uma área aplicada, técnica, de produção de instrumentos para o psicólogo, visão certamente simplista da área. A avaliação psicológica não é simplesmente uma área técnica produtora de ferramentas profissionais, mas sim a área da psicologia responsável pela operacionalização das teorias psicológicas em eventos observáveis. Com isso, ela fomenta a observação R. Primi sistemática de eventos psicológicos, abrindo os caminhos para a integração teoria e prática. Ela permite que as teorias possam ser testadas, eventualmente aprimoradas, contribuindo para a evolução do conhecimento na psicologia. Portanto, a avaliação na psicologia é uma área fundamental de integração entre a ciência e a profissão. Disso decorre que o avanço da avaliação psicológica não é um avanço simplesmente da instrumentação, mas sobretudo das teorias explicativas do funcionamento psicológico. (Primi, 2003, p. 68) Segundo Muniz (2004), o processo de validação de instrumentos psicológicos se constitui em um caso particular de um processo mais geral, de validação de hipóteses científicas. Em ambos os casos, tenta-se validar explicações por meio de um processo hipotético-dedutivo, no qual se levantam hipóteses teóricas, planejam-se estudos empíricos, coletam-se e analisam-se dados, buscando-se testar as hipóteses explicativas, falseando-as ou corroborando-as. Esse processo interativo teoria-hipótese-falseamento encontra-se na base do desenvolvimento do conhecimento e da maturidade da psicologia como ciência. A diferença entre validar uma teoria ou um teste situa- 7 se nos seguintes fatos: no primeiro caso, há um processo mais amplo, visto que tenta-se validar a existência de construtos e as relações causais entre eles; e no segundo caso, tenta-se validar as interpretações sobre o construto psicológico que são feitas a partir do instrumento. O que se pode notar é que há uma relação estreita entre os instrumentos e a pesquisa científica uma vez que os estudos empíricos fazem uso dos instrumentos para observar determinados construtos no percurso de validar determinadas explicações sobre o comportamento humano. Wright (1999), um dos pioneiros no desenvolvimento do modelo de Rasch nos Estados Unidos, propôs um modelo de filosofia da ciência envolvendo cinco estágios: exposição, observação, medida, análise e teoria. A produção do conhecimento científico se inicia com a exposição ou consciência dos fenômenos. Em seguida, são organizados meios mais sistemáticos de observação, como itens e testes. A essas observações são aplicados modelos matemáticos, como a Teoria de Resposta ao Item, transformando as observações em medidas. Só então é que essas medidas são transformadas em teorias entendidas como abstrações que servem para predizer eventos da realidade de maneira mais generalizada. Assim, a avaliação psicológica, especialmente aquela parte que se dedica ao desenvolvimento de instrumentos, é uma área nuclear da psicologia e de sua edificação enquanto ciência. Em primeiro lugar porque envolve a objetivação dos conceitos teóricos em elementos observáveis. Em segundo lugar porque requer aplicação de método científico baseado no conhecimento sobre quais delineamentos (levantamento, correlacional, quase-experimental e experimental) são mais adequados ao conhecimento que se deseja ter. Em terceiro lugar porque envolve também o uso de modelagem matemática na representação dos processos psicológicos, abordagem que vem gradativamente substituindo o modelo clássico de análise de dados baseado somente no teste de significância da hipótese nula (Rodgers, 2010). E, por último, porque seus produtos (instrumentos de medida) são peças necessárias ao desenvolvimento do conhecimento científico dentro da psicologia. Por esses motivos, ao se tratar do tema avaliação, sua história e seu desenvolvimento, não se está falando de um assunto restrito a uma determinada área, mas sim dos fundamentos mais gerais da psicologia. 8 A avaliação psicológica, deve-se, em primeiro lugar, se distinguir dos instrumentos de avaliação. A avaliação psicológica é uma atividade mais complexa e constitui-se na busca sistemática de conhecimento a respeito do funcionamento psicológico das pessoas, de tal forma a poder orientar ações e decisões futuras. Esse conhecimento é sempre gerado em situações que envolvem questões e problemas específicos. Já os instrumentos de avaliação constituem-se em procedimentos sistemáticos de coleta de informações úteis e confiáveis que possam servir de base ao processo mais amplo e complexo da avaliação psicológica. Portanto, os instrumentos estão contidos no processo mais amplo da avaliação psicológica (Primi, Nascimento & Souza, 2004). Em geral, os instrumentos são meios padronizados de se obter amostras/indicadores comportamentais que irão revelar diferenças individuais nos construtos, traços latentes ou processos mentais subjacentes. Presume-se, então, que os traços latentes são as variáveis causais dos comportamentos que se manifestam na situação de testagem. Dessa forma, o processo amplo de medida consiste em uma via indireta que, por meio da observação dos indicadores, torna possível se inferir algo sobre o construto que se deseja avaliar (Gottfredson & Saklofske, 2009). Assim, de acordo com Borsboom, Mellenbergh e Heerden (2004), os estudos de validade tentam provar a relação causal entre as variações no construto subjacente e as variações nos indicadores comportamentais avaliados pelo instrumento, justificando, dessa maneira, os sentidos atribuídos aos escores em relação ao construto. Essa conceituação deixa mais claro que, no âmago dos estudos de validade, há uma questão de relação de causalidade entre o construto e os indicadores. Consequentemente, o processo de validação dos testes envolve todos os desafios metodológicos ao se deparar com a necessidade de estabelecer relações funcionais entre duas variáveis, nesse caso, entre uma variável latente, o construto, e outra observada, os indicadores. Ao se tratar dos fundamentos da avaliação psicológica, é preciso entender a diversidade de estilos de pensamento que são subjacentes às práticas de diferentes grupos dentro da área. Essa diversidade de métodos e estilos revelam aspectos fundamentais da avaliação que precisam ser compreendidos e integrados em um modelo mais amplo com vários níveis que se tentará esboçar 9 mais adiante. Cronbach (1996) define essas diferenças ao descrever as características dos estilos psicométrico (nomotético) e impressionista (idiográfico). Ao se tratar dos fundamentos da avaliação psicológica, é preciso entender a diversidade de estilos de pensamento que são subjacentes às práticas de diferentes grupos dentro da área. Essa diversidade de métodos e estilos revelam aspectos fundamentais da avaliação que precisam ser compreendidos e integrados em um modelo mais amplo com vários níveis que se tentará esboçar mais adiante. Cronbach (1996) define essas diferenças ao descrever as características dos estilos psicométrico (nomotético) e impressionista (idiográfico), A primeira delas, a tradição psicométrica, pode ser exemplificada ao olharmos, por exemplo, para o início das teorias fatoriais de personalidade nos trabalhos de Cattell (1957, 1973). O autor afirma que: A mensuração é o fundamento da ciência. Mas, em personalidade, deve-se começar com a descoberta das formas naturais de padrões de comportamentos humanos. Devemos definir os traços unitários naturais, por exemplo, ansiedade, conscienciosidade, força do ego, dominância, que constituem a topografia (ou taxonomia) da personalidade. Somente depois estaremosprontos para construir escalas e baterias para medir tais traços. Chamo o primeiro passo de pesquisa da estrutura (ou taxonômica) e o segundo, desenvolvimento estrutural de escalas. (Cattell, 1973, p. 2) Seguindo esse objetivo, Cattell passou a analisar estruturas manifestas em diferentes dados observacionais oriundos de três fontes: (a) respostas a questionários em que as pessoas são as próprias observadoras e relatoras de seu comportamento (dados Q), (b) dados de pessoas por meio de observações de terceiros que relatam o que vêm nelas em sua vida diária (dados L); e (c) medidas relativamente diretas de comportamentos em situação de testagem em laboratório (dados T). Usando a análise fatorial com o objetivo de sistematizar as correlações entre indicadores, de forma a inferir os traços unitários, Cattell (1957) encontrou mais de 23 traços básicos que supostamente seriam as forças 10 causais dos comportamentos observados. Há uma analogia de Cattell que é muito interessante para esclarecer aspectos dessa metodologia: O problema que por muitos anos desconcertou os psicólogos era encontrar um método que deslindasse essas influências funcionalmente unitárias na floresta caótica do comportamento humano. Mas como é que numa floresta tropical de fato decide o caçador se as manchas escuras que vê são dois ou três troncos apodrecidos ou um só jacaré? Ele fica à espera de movimento. Se eles se movem juntos - aparecem e desaparecem juntos - ele conclui por uma única estrutura. Da mesma forma, como John Stuart Mill observou em sua filosofia da ciência, o cientista deveria ter em mira a "variação concomitante" na busca de conceitos unitários. (Cattell,1965, p. 55) 11 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO Falar sobre avaliação psicológica é refletir sobre a importância de uma das principais funções do profissional de Psicologia. Historicamente, a imagem que se tem do psicólogo é a do profissional que se utiliza de testes, que avalia "se uma pessoa é normal ou não", se está apta a executar determinada função, já que a testagem foi uma das atividades mais comuns no século XX no campo da Psicologia (Cunha, 2000), como discutiremos mais adiante. Porém, a prática psicológica tem se expandido cada vez mais, e neste movimento, a avaliação psicológica passou a ser bem mais abrangente, considerando diversos fatores em seu processo de estudo e análise dos sujeitos. De acordo com a Resolução do Conselho Federal de Psicologia no. 007 (2003), pode-se definir a avaliação psicológica como sendo o processo técnico- científico de coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos da relação do indivíduo com a sociedade. Utiliza- se, para isto, de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos. Os resultados das avaliações devem considerar e analisar os condicionantes históricos e sociais e seus efeitos no psiquismo, com a finalidade de servirem como instrumentos para atuar não somente sobre o indivíduo, mas em todo o contexto social e histórico no qual ele se insere. Na prática, agregar todas estas informações em uma análise que seja capaz de utilizá-las de forma integradora e dialética ainda é um desafio. O debate e a reflexão sobre o papel do psicólogo nesta questão são extremamente importantes, uma vez que é necessário manter uma visão crítica que vai além da concepção de investigar o que é patológico ou não, e passa a ter como enfoque a compreensão acerca da subjetividade de determinado indivíduo, visando seu benefício. O psicólogo deve buscar, da melhor maneira possível, apreender a relação entre saúde mental e subjetividade, considerando sua dimensão social. Porém, estamos tão acostumados a pensar em utilizar a avaliação psicológica com o objetivo de chegar a um diagnóstico, que às vezes fica difícil conseguirmos separar o que é individual e o que é social. 12 A Psicologia enquanto ciência foi caracterizada principalmente por sua capacidade de avaliar os sujeitos. O rompimento com esta dicotomia, de acordo com Bock (2001), surge com a Psicologia Sócio Histórica, que, baseada na teoria de Vygotsky, traz uma concepção de homem como ser ativo, social e histórico, que não pode ser separado da realidade social e cultural na qual está inserido. Para que se possa compreender o fenômeno psicológico, é necessário entender que "o homem constrói e modifica o mundo e este, por sua vez, propicia os elementos para a constituição psicológica do homem". (Bock, 2001, p. 22). Considerando esta concepção psicossocial de homem e de mundo, investigar e analisar as características individuais de determinado sujeito sem levar em conta o contexto social e histórico no qual está inserido, é deixar de lado dados fundamentais para que se compreenda a subjetividade do mesmo. É ignorar que seu comportamento, seu pensamento, sua visão de mundo, foram construídos ao longo de sua história, não são inatos, tampouco são estáticos. Lane (1987) alerta sobre o perigo de pensarmos em uma avaliação que tem como enfoque apenas investigar se determinado sujeito se encaixa dentro de uma classificação nosológica: "Se assumirmos que somos essencialmente a nossa identidade social, que ela é a consequência de opções que fazemos devido a nossa constituição bioenergética, ou temperamento, ou mesmo atrações de personalidade, como aspectos herdados geneticamente, sem examinarmos as condições sociais que, através da nossa história pessoal, foram determinando a aquisição dessas características que nos definem, só poderemos estar reproduzindo o esperado pelos grupos que nos cercam e julgados 'bem ajustados'" (Lane, 1987, p. 22- 23). Concordamos com Vygotsky (1998), em sua afirmativa que o funcionamento psicológico é fundamentado nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, desenvolvidos em um processo que é social e histórico. Vygotsky defendia a ideia de que ao longo do desenvolvimento de suas funções psicológicas superiores, o homem passa a ter a capacidade de expressar e compartilhar seu entendimento individual em relação à experiência comum ao grupo, distinguindo dois componentes do significado da palavra. Um componente seria o significado coletivo, base da compreensão da palavra, 13 compartilhada socialmente. Outro componente seria o sentido da palavra, um significado pessoal, referente ao contexto de uso da palavra e às experiências e vivências afetivas do sujeito em relação a ela (Oliveira, 1997). É este sentido individual que o psicólogo deve tentar captar, utilizando em sua atuação um enfoque que busca apreender o que está implícito na fala dos sujeitos, contextualizando sua realidade. No entanto, sabemos que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que esta concepção se torne uma realidade na práxis psicológica, ou seja, que possamos nos aproximar mais desta construção de sentidos, partilhado pelo sujeito. O desafio é pensar em formas de avaliação psicológica que consigam abranger a individualidade sem descaracterizar o contexto social e histórico em sua totalidade. Compreender a subjetividade considerando toda a sua dimensão social e histórica demanda de uma constante reflexão e aperfeiçoamento de técnicas e saberes, pois a realidade é dinâmica, e não podemos esquecer que o próprio observador tem suas próprias concepções, que podem acabar interferindo no fenômeno que é observado. Dentro da Psicologia existem duas posições em relação à avaliação psicológica: uma crítica fortemente os testes psicológicos, concebendo-os como produto de uma visão de homem, sociedade e conhecimento tecnicista, onde os testes psicológicos seriam instrumentos que justificariam os processos de exclusão social: "Assim, a Psicologia tem contribuído para responsabilizar os sujeitos porseus sucessos e fracassos; [...] temos acreditado que pessoas podem ser classificadas e diferenciadas por suas características e dinâmicas psicológicas; temos criado (ou contribuído para reforçar) padrões de conduta que interessa a sociedade manter, como necessários ao 'bom desenvolvimento das pessoas'. [...] Tem transformado em anormal o diferente, o 'fora do padrão dominante'" (Bock, 2001, p. 25). O grupo divergente entende que a avaliação psicológica baseada em testes representa um conhecimento legítimo, constituindo um critério de avanço do saber embasado cientificamente. (Noronha et al, 2002). Enquadrar os testes psicológicos em uma ótica exclusivamente negativa é ignorar sua importância 14 enquanto instrumento diagnóstico, os estudos realizados e validados no processo de investigação do funcionamento psicológico dos sujeitos. Sabemos que o comprometimento da atuação do psicólogo deve caminhar na direção da emancipação humana, no respeito à liberdade, à dignidade e na integridade do ser humano. Não é por acaso que um dos princípios fundamentais do atual Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) seja basear sua atuação nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Portanto, podemos pensar que o ideal seria buscar um meio termo entre estes dois posicionamentos, utilizando-se dos instrumentos de avaliação com uma visão que abrange outros elementos constituintes da subjetividade, como os fatores sociais, culturais e ideológicos, possibilitando uma visão global de cada indivíduo. A Psicologia Social tem contribuído muito para a transformação da realidade social de nosso país. Nos últimos anos, o profissional de Psicologia tem tido uma participação cada vez maior dentro das políticas públicas, especialmente naquelas voltadas para que a população com menos recursos econômicos tenha acesso a esse cuidado psicossocial, fundamental para o bem- estar. A inclusão do psicólogo nas equipes dos CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial), do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), do SUS (Sistema Único de Saúde) e nos programas do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) mostram que sua participação é fundamental no processo de inclusão social e de transformação da realidade. Os grupos terapêuticos são um dos fatores fundamentais quando se fala em Saúde Mental e Assistência Social na atualidade. O Ministério do Desenvolvimento Social (2006), em seu guia de orientações técnicas para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), afirma que o grupo socioeducativo para as famílias é um excelente espaço para trocas, contribuindo para o exercício da escuta e da fala, da elaboração de dificuldades e de reconhecimento de potencialidades. Contribui para oferecer aos cidadãos a oportunidade de melhor viver os seus direitos dentro de um contexto de proteção mútua, afeto, desenvolvimento pessoal e solidariedade. (Ministério do Desenvolvimento Social, 2006). No entanto, é preciso pensar também neste enfoque dentro da avaliação psicológica, no atendimento individual. 15 A Psicologia tem avançado de forma significativa na busca por instrumentos e técnicas que consigam compreender os fenômenos psicológicos como sendo resultado de múltiplos fatores. Para chegar a uma conclusão do caso, ou seja, o diagnóstico, o psicólogo analisa e interpreta os dados que obteve ao longo do processo de avaliação psicológica (informações sobre a queixa inicial, os sintomas apresentados, dados da história clínica, observações do comportamento do paciente durante o processo psicodiagnóstico e os resultados de testes psicométricos e projetivos), de acordo com determinados critérios científicos e diagnósticos. Se certos critérios específicos são atendidos, pode classificar o caso numa categoria nosológica. Para isso, pode-se utilizar de uma das classificações oficiais, como o DSM-IV ou o CID-10. Com base em tal classificação e em aspectos específicos da história clínica, poderá fazer predições sobre o curso provável do transtorno (prognóstico) e planejar a intervenção terapêutica adequada. (Cunha, 2000). A relevância dos aspectos sociais e históricos na construção da história de vida dos sujeitos é tão importante em uma avaliação psicológica que o Conselho Federal de Psicologia criou, em 2003, o Sistema de Avaliação Psicológica (SATEPSI). Este tem como objetivo de qualificar os instrumentos de avaliação, uma vez que muitos deles eram apenas traduções de testes construídos em outros países, que não necessariamente seriam válidos para nossa população (CFP, 2011). Dentro deste processo de avaliação psicológica ampliada que se propõe, apontamos o uso da entrevista como uma das alternativas eficientes para que se possa ter um acesso diferenciado à realidade do sujeito. É através da fala do indivíduo que poderemos ter acesso à sua subjetividade, ao significado que ele atribui à sua existência, às suas construções subjetivas, experiências e vivências. Com um diálogo onde psicólogo e sujeito tenham a mesma importância, dividindo igualitariamente a responsabilidade na construção de uma compreensão acerca da sua realidade, é que poderemos abrir espaço para um saber compartilhado. É necessário que se tenha o cuidado de conhecer a realidade da população atendida, de procurar entender a sua linguagem e sua cultura e respeitá-las, sem um julgamento prévio do que é certo ou errado ou ainda do que seria melhor para os sujeitos. 16 É importante lembrar que a avaliação psicológica pode ser um importante momento de escuta, uma chance para que o próprio sujeito possa compreender a sua realidade, adquirindo assim uma visão crítica de si mesmo e do mundo, portanto uma ação que pode ser transformadora em si mesma. Talvez uma das possibilidades para uma avaliação psicológica mais próxima da realidade do indivíduo atendido seja que os instrumentos de avaliação sejam utilizados pelos psicólogos como um meio de facilitar o diálogo com o paciente. 17 O INÍCIO DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO PEDAGÓGICA A importância do ensino em avaliação psicológica se constata em critérios e diretrizes de nossos conselhos psicológicos e educacionais, os quais indicam a obrigatoriedade desta temática na matriz curricular de cursos de psicologia de nosso país (NUNES et al. 2012). Essa formalidade se explica dentro da argumentação de que a avaliação psicológica, procedimento único ao psicólogo, está inserida em diversas oportunidades de atuação, áreas e temáticas (ALCHIERI; CRUZ, 2004). O profissional que se propõe ao ensino destas práticas sabe da importância do conhecimento em psicopatologia, psicometria, saúde mental, processos psicossociais, desenvolvimento humano e a atuação psicoterápica, entre outros importantes aspectos (ANASTASI; URBINA, 2000). O aluno é preparado para o processo de avaliação psicológica e deverá saber sobre importantes aspectos referentes ao início deste processo. Principalmente dentro do contexto ético. A ética é base fundamental do início do processo de avaliação psicológica. Parte-se do contexto de que este processo deve respeitar direitos e necessidades básicas humanas, cabidas as vertentes neurovegetativas, fisiológicas, comportamentais, emocionais e espirituais. Em outras palavras, o início do processo de avaliação psicológica consiste em perceber o contexto desta avaliação: a área (se clínica, hospitalar, comunitária, jurídica, educacional), a idade e gênero, o propósito, o histórico e a demanda, o local de atuação (PASQUALI, 2001). Deste modo, a avaliação, entendida como um todo que abrange procedimentos de observação e interpretação de pessoas e grupos, deve inicialmente respeitar preceitos éticos estabelecidos por regulamentações de nossa profissão, bem como o bom senso. Aos preceitos éticosregulamentados envolvem a preocupação em não submeter uma pessoa, ou grupo de pessoas, aos procedimentos de avaliação, caso as mesmas estejam sem condições emocionais, físicas e espirituais para este processo (CUNHA, 2000). Alguns casos podem ser exemplificados. Uma criança em situação de abuso sexual, com evidentes sintomas de transtornos mentais como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, 18 deve ser respeitada em sua menor habilidade para lidar com situações de testagem ou examinação psicológica que possam lhe ocasionar maior sofrimento psíquico. Neste caso, os testes projetivos e expressivos poderão auxiliar, desde que se considere o ritmo e os sinais de cansaço e sofrimento evidentes na criança, evitando haver maior estresse. Pacientes em situação de torpor devido a maiores doses de medicação não devem ser submetidos a testagens, considerando não estarem em estado natural para responder às demandas de testes. Deficiências e dificuldades físicas e mentais devem ser consideradas para a escolha de procedimentos de avaliação psicológica, assim como pessoas debilitadas por diferentes motivos. O cuidado com o tempo de avaliação muito extenso em pessoas com sofrimento psíquico deve sempre ser considerado. As crianças possuem peculiaridades que estão relacionadas ao seu desenvolvimento e que devem ser respeitadas. A menor capacidade de concentração e maior dispersão são alguns exemplos de aspectos comuns à faixa de desenvolvimento infantil. Bem como, nessa mesma linha, a dificuldade de explanar, de modo mais consciente e verbalmente coerente, uma série de sintomas que estão sendo vivenciados pela mesma. Ou seja, a criança indicará muito mais pelo seu comportamento sobre seus temores, anseios e fantasias. Comportamentos mais agressivos ou mais emotivos (choro) que destoem de outras crianças da mesma faixa etária, muitas vezes são importantes indicativos de sintomas psicopatológicos ou sofrimento psíquico não verbalizado. Os adolescentes podem verbalizar de modo mais coerente e consciente os seus sintomas. Entretanto, a fase adolescente também irá envolver muitas peculiaridades que devem ser consideradas. A maior angústia em relação aos aspectos interpessoais e à sexualidade são alguns dos importantes aspectos desta fase. A ambivalência e a pouca percepção de limites em relação à própria vida e a morte também são características a serem consideradas. As implicações de sentimentos de exclusão e rejeição, a procura por ídolos e as preocupações com o próprio corpo e imagem são outros exemplos desta fase. Em muitos casos, o adolescente em situação de avaliação psicológica não apresenta interesse em estar neste processo, principalmente em situações clínicas – havendo uma demanda familiar ou da escola que não condiz com suas vontades, 19 desejos e fantasias. Nestes casos, o início do processo de avaliação deverá consistir em uma abordagem direcionada ao jovem respeitando seus valores e vontades, impedindo-o de expor-se a riscos de vida, mas com a ciência de que haverá maiores tentativas de relutar ao processo avaliativo. As situações jurídicas são pertinentes a uma procura por casualidade e julgamento envolvendo culpabilidade e busca por tendências de comportamentos ou incidências de determinadas atuações consideradas inadequadas. Estes aspectos são muitas vezes o reflexo da demanda de profissionais da área jurídica, mais voltados aos trâmites de julgamento e culpabilidade. Neste contexto, exigem do psicólogo que lhes diga se aquela pessoa avaliada é culpada, vítima, se haverá reincidência... Estes aspectos não cabem ao profissional psicólogo responder. Entender as limitações do processo de avaliação psicológica também consiste em um bom início. Saber que se poderá indicar algumas tendências de comportamento, sintomas psicopatológicos (como indícios de psicopatia, por exemplo), existência de aspectos relativos ao quadro de estresse pós-traumático, verificação de possíveis vivências de abusos sexuais, morais e físicos ocasionando importante sofrimento psíquico. Mas, afirmar que uma pessoa foi realmente o assassino de alguém, que irá realmente matar outra pessoa, que deverá ficar reclusa um número específico de horas, não cabe ao psicólogo nem tampouco deve ser parte do laudo de avaliação psicológica. As pessoas em situação de estresse pós-traumático e/ou luto também necessitam de cuidados e atenção voltados ao processo de perda, sintomas depressivos e ansiogênicos. Para estas pessoas, um bom início será ater-se aos principais fatos históricos em suas vivências envolvendo o contexto de sofrimento acentuado. Não se pode começar um processo de avaliação psicológica que seja extremamente exaustivo, com perguntas excessivas, baterias de testes psicológicos e métodos de avaliação que se sabe propiciariam angústia durante a sua aplicação. Estes são apenas alguns exemplos de cuidados com o contexto e com as pessoas dentro deste contexto para o início do processo de avaliação psicológica. Deste modo, um bom início é considerar o quanto de sofrimento está presente na pessoa ou grupo. Isso virá como uma das primeiras informações 20 visíveis, geralmente, pelo psicólogo logo de imediato. Muitas vezes, como parte do contexto de avaliação, outras como primeiras impressões a respeito da pessoa, ou grupo, a ser avaliada. Evitar promessas perante o início deste processo também é pertinente. Ao ainda não saber sobre o desfecho da avaliação, o profissional não possui a menor condição de responder ou corresponder às muitas questões e pedidos que lhe são feitos por parte de familiares, colegas, amigos ou demais pessoas, todos relacionados com o grupo ou pessoa avaliada. Os pais de crianças e adolescentes em situação de avaliação pedem prazos para o resultado sobre o que está ocorrendo com seus familiares. Muitas vezes, perguntam se será possível haver cura, se eles se sentirão mais confortáveis perante o desfecho da avaliação. Nenhum destes aspectos é possível de ser previsto no início da avaliação. Alguns profissionais com longa experiência indicam datas fixas para o contato com o avaliando, mas mesmo nestas situações saber sobre o desfecho da avaliação é impossível. Afinal, este não é um campo de previsões mágicas sobre o futuro. Entender que alguns contextos serão mais hostis ao avaliador também é um bom começo. Principalmente em situações jurídicas de avaliação de pessoas em processo de julgamento por crimes graves ou em estado de doenças mentais agravadas pela perversão, sadismo e agressividade. Haverá uma tentativa maior de manipulação e simulação nestes casos, quase que premissa básica para este processo. Felizmente, podem-se perceber nítidas tentativas de simulação e manipulação de dados por meio da observação atenta do avaliador, indicando importantes sintomas psicopatológicos ou comportamentos mais inadequados. Respeitar a espiritualidade e religiosidade da pessoa ou grupo em avaliação também é um bom começo. Muitas pessoas possuem comportamentos comuns às suas comunidades espirituais que não necessariamente estão consideradas adequadas do ponto de vista psiquiátrico, psicológico ou mesmo social. Em outros casos, existem restrições quanto ao modo de relacionamento interpessoal entre avaliador e avaliando, como maneiras de cumprimentar, contato, verbalização. Considerar a abrangência e limitação da avaliação dentro deste contexto também é fundamental. 21 Deste modo, a avaliação psicológica consiste em usar de importantes instrumentos de análise da pessoa ou grupo, considerando a possibilidade de haver aspectos que irão alterar as limitações e abrangências deste procedimento. O bom início deste processo está relacionado com o respeito à pessoa e ao seu grupo, o contexto, a área, a demanda, conforme exemplificado. Os aspectos subjetivosda pessoa serão expostos neste processo, bem como a sua capacidade de perceber a realidade, a coerência do pensamento, o sofrimento emocional, os desejos, sonhos, expectativas e o comportamento interpessoal, além da autoestima e autoimagem (EXNER, 2004). O processo de avaliação requer um bom começo, assim como necessitará de um importante conhecimento e experiência para manter-se coerente com a abordagem necessária (CUNHA, 2000), finalizando em um importante resultado a ser apresentado para o(s) avaliando(s). O processo de avaliação, o feedback e o desfecho deste procedimento requerem um capítulo à parte. Talvez um tema para uma próxima comunicação breve. Saber começar não é suficiente, caso não se tenha consciência de todo o processo todo e das implicações do feedback e do desfecho deste processo. O acompanhamento de um supervisor para os casos onde o psicólogo ainda não possui experiência é fundamental. Deste modo, a coerência em todo o processo é extremamente relevante. Necessitando haver um começo, meio e fim adequados. Fonte: Avaliação Psicológica 22 ESTRATÉGIAS DE DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA O conceito de diagnóstico tem origem na palavra grega diagnõstikós, que significa discernimento, faculdade de conhecer, de ver através de. Na forma como vem sendo utilizado, na atualidade, significa estudo aprofundado realizado com o objetivo de conhecer determinado fenômeno ou realidade, por meio de um conjunto de procedimentos teóricos, técnicos e metodológicos. Tradicionalmente usado na Medicina, o termo foi incorporado aos discursos e às práticas profissionais de diferentes áreas de conhecimento. No âmbito da Psicologia, as práticas de diagnóstico e avaliação psicológica tiveram, e têm ainda hoje, um papel fundamental na formação e constituição da identidade profissional do psicólogo. A avaliação psicológica é um procedimento clínico que envolve um corpo organizado de princípios teóricos, métodos e técnicas de investigação tanto da personalidade como de outras funções cognitivas, tais como: entrevista e observações clínicas, testes psicológicos, técnicas projetivas e outros procedimentos de investigação clínica, como jogos, desenhos, o contar estórias, o brincar etc. A escolha das estratégias e dos instrumentos empregados é feita sempre de acordo com o referencial teórico, o objetivo (clínico, profissional, educacional, forense etc.) e a finalidade (diagnóstico, indicação de tratamento e/ou prevenção), conforme Ocampo et al. (2005), Arzeno (2003) e Trinca (1984a). Nos últimos anos, o ensino e a prática da avaliação psicológica têm sido objetos de inúmeros estudos (JACQUEMIN, 1995; CUSTÓDIO, 1995; ANDRIOLA, 1996; GOMES, 2000; ALVES; ALCHIERE; MARQUES, 2001, e 2002; ALCHIERE; BANDEIRA, 2002; NORONHA et al. 2003; AFFONSO, 2005). Embora desenvolvidos sob diferentes enfoques, todos eles têm preocupações comuns como a qualidade da formação em avaliação psicológica, o conteúdo das disciplinas, o uso e a validação dos testes psicológicos, e a integração ensino-aprendizagem e aplicação destes à prática profissional. Tais preocupações ganharam maior relevância com as crescentes críticas dirigidas aos testes psicológicos, entre elas, a falta de respaldo científico e o mau 23 uso e elaboração de laudos psicológicos, que em geral “rotulam” e repetem jargões psicológicos sem fundamentação teórica (PATTO, 1998). Tudo isso levou o Conselho Federal de Psicologia (CFP) a criar, em 1997, a Câmara Interinstitucional de Avaliação Psicológica, com o objetivo de fazer um diagnóstico das condições de ensino na área, e, posteriormente, implantar um Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos usados no Brasil. Com a implantação desse sistema e entrada em vigor da Resolução no 02/2003, o CFP passou a recomendar somente o uso dos testes avaliados com parecer favorável da Comissão Consultiva. Os demais, com parecer desfavorável ou ainda não avaliados, continuam sendo usados apenas em pesquisa. Embora essas medidas tenham sido cuidadas para dar maior cientificidade aos instrumentos, na opinião de alguns autores ocorre um fenômeno contraditório que diz respeito à desvalorização dos testes psicológicos nas práticas de avaliação. Por exemplo, Affonso (2005) comenta que, após a Resolução CRP no 02/2003 e divulgação da lista dos testes com condições de uso, docentes e profissionais tiveram que rever suas estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica. Muitos cursos de Psicologia reduziram a oferta de disciplinas de testes psicológicos e técnicas projetivas e, também, alteraram o seu conteúdo para dar maior ênfase às técnicas de entrevistas e a outras áreas como a Psicologia Hospitalar, a Psicologia Jurídica etc. É possível que essa medida tenha acentuado um processo que já vinha em curso, conforme aponta pesquisa realizada por Alves, Alchieri e Marques (2001) sobre o panorama geral do ensino das técnicas de exame psicológico no Brasil. Segundo essa pesquisa, a média geral dos cursos avaliados (64) é de 3,98 disciplinas, mas alguns têm apenas uma disciplina de testes e técnicas de avaliação psicológica. Sabe-se que essa desvalorização dos testes psicológicos e, por extensão, da área de avaliação psicológica é consequência também das mudanças ocorridas nas demandas de intervenção e atuação da Psicologia, na atualidade, em razão de novos processos de subjetivação e de questões sociais e políticas que interferem diretamente na qualidade de vida e saúde da população e exigem de nossas teorias e práticas constantes revisões e atualizações. Como apontam Féres-Carneiro e Lo Bianco (2005), no âmbito da Psicologia Clínica isso resultou 24 numa enorme expansão de abordagens teóricas – psicanalíticas, fenomenológico-existenciais, cognitivas, comportamentais, sistêmicas, corporais etc.; no desenvolvimento de novas modalidades de intervenção – grupal, familiar, comunitária; e na atuação em outros settings – instituições públicas e privadas, hospitais, unidades de saúde etc. Neste cenário, cresceram entre os alunos de Psicologia o ceticismo em relação aos testes psicológicos e o desinteresse pela área de avaliação psicológica. As críticas mais freqüentes dos alunos é que os testes “rotulam” e não são confiáveis como instrumentos de diagnóstico e avaliação da personalidade, segundo apontam pesquisas (PEREIRA; CARELLOS, 1995; GOMES, 2000). Daí a importância de envolver docentes e pesquisadores nessa discussão não só para resgatar o valor da área na formação profissional, mas, especialmente, para incorporar as recentes mudanças e oferecer aos alunos uma fundamentação teórica e técnica mais ampla que lhes permita trabalhar com criatividade e flexibilidade, com as inúmeras possibilidades de diagnóstico e avaliação, tendo em vista os diferentes contextos e necessidades. Sabe-se que, além das questões apontadas, a forma como essas técnicas são ensinadas interfere no interesse dos alunos, na apreensão e aplicação prática destas. Infelizmente, há professores que continuam reproduzindo mecanicamente o ensino de testes e técnicas sem nenhum questionamento ou articulação com as novas práticas e demandas da Psicologia. A Psicologia, assim como o desenvolvimento de suas práticas de avaliação psicológica, foi, ao longo da história, influenciada por duas principais tradições filosóficas: o positivismo e o humanismo. O positivismo, corrente filosófica que tem Augusto Comte (1973) como principal representante, defende o conhecimento objetivo, por meio da neutralidade científica e da experimentação. Essa corrente de pensamento fundamenta o método científico adotado pelas ciências naturais que foi, durante muito tempo, considerado “o modelo de ciência”. Na ótica positivista, o homem pode ser estudado como qualquer outro fenômeno da natureza, ou seja, pode ser tomado como um objeto de estudo observávele mensurável. 25 Apoiam-se nessa tradição as práticas de avaliação psicológica, identificadas com os modelos médico e psicométrico, que caracterizam a primeira fase de atuação profissional do psicólogo – práticas que valorizam o uso dos testes psicológicos, a eficiência e a objetividade do diagnóstico como forma de garantir a cientificidade da psicologia (TRINCA, 1984a; ANCONA-LOPEZ, 1984). O modelo médico influenciou enormemente as práticas de avaliação psicológica, principalmente no início da expansão da Psicologia, quando os psicólogos atuavam, basicamente, como auxiliares do médico no diagnóstico diferencial de psicopatologias. Preocupados em avaliar com objetividade, para indicar o tratamento mais eficaz, os psicólogos incorporaram às suas práticas de avaliação características do modelo de diagnóstico médico, tais como: a ênfase nos sintomas, o uso da classificação nosológica e o emprego de testes (exames), para identificar determinadas características patológicas da personalidade do indivíduo. O modelo psicométrico manteve a preocupação de avaliar com objetividade e neutralidade e inaugurou uma fase de maior prestígio da Psicologia, em que os testes psicológicos passaram a ser usados na classificação e medida da capacidade intelectual e aptidões individuais. A Psicometria ampliou a área de atuação da Psicologia – da clínica para as áreas escolar (diagnóstico de dificuldades de aprendizagem das crianças) e profissional (seleção de indivíduos para funções específicas). Com essa expansão, o psicólogo ganhou maior autonomia: os resultados dos testes deixaram de ser obrigatoriamente entregues ao médico ou a outros profissionais; os próprios psicólogos começaram a prestar orientação aos pais e professores e até mesmo aos médicos. No modelo psicométrico, tornou-se menos importante detectar e classificar os distúrbios psicopatológicos; a ênfase passou a ser dada à identificação das diferenças individuais e orientações específicas. Esse modelo foi muito valorizado nos Estados Unidos, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando se atribuiu à Psicologia a função de selecionar indivíduos aptos e não-aptos para o exército, bem como avaliar os efeitos da guerra sobre os que retornavam (ANCONALOPEZ, 1984). 26 O humanismo apoia-se em correntes filosóficas que se contrapõem à visão positivista e questionam a aplicação do método das ciências naturais às ciências humanas. Defende que não é possível uma total separação entre o sujeito e o objeto de estudo, pois a subjetividade tem uma importância essencial: o sujeito está implicado com o seu objeto de estudo, ele constitui o objeto e é constituído por ele. Se todo o conhecimento é estabelecido pelo homem, não se pode negar a participação da sua subjetividade, portanto não é possível estudar o homem como um mero objeto fazendo parte do mundo, pois o mundo não passa de um objeto intencional para o sujeito que o pensa (ANCONA-LOPEZ, 1984). Essa forma de pensar teve um papel marcante no desenvolvimento de uma Psicologia humanista, influenciada por vertentes teóricas ligadas principalmente à Fenomenologia e à Psicanálise que enfatizam a subjetividade, a intencionalidade, o sentido e o significado das experiências (e dos sintomas), o inconsciente e a relação entre sujeito e objeto de estudo. Entre suas principais influências, estão Heidegger e Freud (FIGUEIREDO, 2004). Contrapondo-se à visão reducionista da vertente positivista, a Psicologia humanista buscava uma compreensão global do homem, na apreensão do mundo e do seu significado. Sob esse influxo, passou-se a questionar os modelos de avaliação classificatória, baseados apenas nos testes psicológicos (estruturados e padronizados). Outras práticas de diagnóstico, mais identificadas com a Psicanálise e a Fenomenologia, foram surgindo dentro do chamado modelo psicológico, que deu origem ao psicodiagnóstico e a outros procedimentos de avaliação, como as entrevistas diagnósticas, com ou sem o uso de testes ou técnicas (estruturadas ou não) de investigação da personalidade. O psicodiagnóstico inaugurou uma nova visão da avaliação psicológica, diferente da realizada pelos “testólogos” da Psicometria. Ao adotar uma perspectiva clínica, mais identificada com a teoria psicanalítica ou fenomenológica, distanciou-se da preocupação com a neutralidade e a objetividade, passando a enfatizar a importância da subjetividade e dos aspectos transferenciais e contratransferenciais presentes na relação. E o uso dos testes passou a ser complementado com outros procedimentos clínicos, com o objetivo 27 de integrar os dados levantados nos testes e na história clínica, para obter uma compreensão global da personalidade. No Brasil, o modelo de psicodiagnóstico, desenvolvido por Ocampo et al. (2005) e Arzeno (2003), tem norteado o trabalho de grande parte dos profissionais da área. Além dele, os modelos compreensivo (TRINCA, 1984a, 1984b) e fenomenológico (ANCONA-LOPEZ, 1995; CUPERTINO, 1995; YEHIA, 1995) também são bastante utilizados. O psicodiagnóstico proposto por Cunha (2000) é outra referência, não incluída no recorte aqui feito, mas igualmente importante no contexto brasileiro. AVALIAÇÃO PSICOLÓGICAS: SITUAÇÃO, DESAFIOS E DIRETRIZES A Psicologia enquanto instituição deu passos gigantescos na regulamentação da testagem psicológica, disciplinando a construção, adaptação, comercialização e uso de testes, escalas e questionários, por exemplo, por outro não tem se definido quanto às competências requeridas para os psicólogos que atuam nesta área. Este quadro não parece ser recente (Pasquali, 2001), embora existam propostas de diretrizes a respeito (Nunes et al., 2012). Sem ser ou ter a pretensão de um tratado, este artigo se configura como um esforço em contribuir com esta área tão fundamental da Psicologia, permitindo pensar nos desafios enfrentados e avanços esperados. Para começar, é importante ter em conta o que diz a Lei n° 4.119, de 27 de agosto 1962, que regulamenta o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e a profissão de Psicólogo, em seu Art. 13, quando trata da competência privativa deste profissional: § 1° Constitui função privativa do Psicólogo a utilização de métodos e técnicas psicológicas com os seguintes objetivos: a) Diagnóstico psicológico; b) Orientação e seleção profissional; c) Orientação psicopedagógica; 28 d) Solução de problemas de ajustamento. Dessas atribuições legais decorrem dois entendimentos: (1) a prática da Avaliação Psicológica é prerrogativa do psicólogo, constituindo conduta legalmente punível a sua realização por outro profissional; e (2) o psicólogo está habilitado a fazer uso de métodos e técnicas de avaliação psicológica, visando diagnosticar, orientar (profissional e pedagogicamente) e solucionar problemas de ajustamento. Quanto à primeira parte deste diploma legal, trata-se de norma cogente, que impõe a restrição da prática profissional da Avaliação Psicológica ao psicólogo; porém, a segunda parte é mais uma norma dispositiva, facultando ao psicólogo a realização das atividades indicadas. Portanto, o psicólogo pode realizá-las, mas não está obrigado a fazê-lo. Embora a preocupação com a formação em Avaliação Psicológica não seja recente (Hutz, & Bandeira, 2003; Pasquali, 2001), a maioria dos estudos a respeito começou há pouco mais de uma década. Por exemplo, Noronha (2006) analisou 41 ementas de disciplinas desta área de 38 cursos de Universidades brasileiras, segundo estavam disponíveis em seus sites. Ela observou que a carga horária média dos cursos de Psicologia foi de 4.320 horas, variando de 3.240 a 5.724, sendo ofertadas de uma a sete disciplinas de Avaliação Psicológica (média de 3,29 disciplinas por curso). Os nomes das disciplinas variaram, porém se concentravam do primeiro ao quarto período (78%), abordandoprincipalmente aspectos instrumentais: técnicas de avaliação e aplicação, mensuração psicológica, técnicas projetivas e psicodiagnóstico. Um novo estudo foi realizado por Noronha e seus colaboradores (Noronha et al., 2008). Na ocasião, tiveram em conta 39 ementas de disciplinas relacionadas com Avaliação Psicológica em 14 Universidades distribuídas em oito Estados, cobrindo todas as regiões do Brasil. Estes autores criaram 16 categorias de análise, tentando enquadrar os conteúdos das ementas; entre as mais citadas categorias de análise, encontraram-se técnicas projetivas, testes de personalidade, testes psicológicos e testes de inteligência. Provavelmente, este cenário reflete a abordagem mais tradicional da área, focada, sobretudo, em testes de inteligência e questionários de personalidade. 29 Em estudo mais recente, Finelli, Freitas e Cavalcanti (2015) analisaram as matrizes curriculares de 767 cursos de Psicologia distribuídos entre os 26 Estados e o Distrito Federal, considerando disciplinas obrigatórias e optativas. Quanto às matrizes gerais, observaram variação de 974 a 9.700 horas (média de 4.257 horas por curso em todo o território nacional). Constataram, ainda, que a carga horária dedicada à Avaliação Psicológica variava de 36 a 640 horas, tendo média de 257 horas por curso. Sua conclusão foi de que tem sido dedicado pouco tempo ao ensino de Avaliação Psicológica, sobretudo em razão de esta ser uma atribuição exclusiva do psicólogo. Como fizeram Noronha (2006), Noronha et al. (2008), Freires, Silva Filho, Pereira, Loureto e Gouveia (2017) também consideraram como unidade de análise as ementas das disciplinas. Entretanto, estes autores se concentraram na região Norte, escassamente considerada em estudos prévios, e inovaram o tipo de análise: realizaram análise automatizada de conteúdo (programa Iramuteq). Eles consideraram as ementas de disciplinas de Avaliação Psicológica de 28 dos 36 cursos de Psicologia da Região, observando que, entre disciplinas obrigatórias, optativas e estágios, houve mais de 50 denominações, embora prevalecessem as de Psicodiagnóstico, Técnicas de Avaliação Psicológica, Técnicas de Exame Psicológico, Psicometria e Avaliação Psicológica. A análise de conteúdo dessas ementas permitiu identificar sete classes: construção de medidas, aplicação e interpretação, construtos, entrevista, psicodiagnóstico, planejamento da sessão e ênfase em Avaliação Psicológica. A análise da “nuvem de palavras” teve como centro da distribuição espacial o vocábulo avaliação psicológica, que se atrelou às palavras processo, instrumento, teste, técnica, psicodiagnóstico e aplicação. Assim, mostrando a pluralidade de terminologias e ênfases da Avaliação Psicológica. Não há um padrão, mesmo dentro da mesma Região (Freires et al., 2017), variando as nomenclaturas e o número de disciplinas e horas dedicadas à formação, coerente com estudos prévios (Alchieri, & Bandeira, 2002; Finelli et al., 2015; Noronha, 2006). Talvez o ponto mais converge diga respeito à ênfase em construtos recorrentes na Avaliação Psicológica, como inteligência e personalidade, quer avaliados por técnicas projetivas ou psicométricas (Alves, Alchieri, & Marques, 2002; Noronha et al., 2008). 30 REFERÊNCIAS Avaliação psicológica no Brasil: fundamentos, situação atual e direções para o futuro. Scielo, Psic.: Teor. e Pesq. vol.26 no.spe Brasília, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 37722010000500003&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 05. Out. GOUVEIA, Valdiney V. Formação em Avaliação Psicológica: Situação, Desafios e Diretrizes. Psicol. cienc. prof. vol.38 no.spe Brasília, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S141498932018000400074&script=sci_art text. Acesso em: 05. Out. ARAÚJO, Maria de Fátima. Estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica. Psicologia: Teoria e Prática – 2007, 9(2):126-141. 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