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181De colônia a sede do Império Português Capítulo 21 Parte da esquadra portou em Salvador. A deci- são de parar na cidade partiu do próprio dom João. Segundo alguns historiadores o príncipe buscava, as- sim, assegurar a fidelidade da população da cidade, onde, uma década antes, ocorrera um levante contra o domínio português (releia o capítulo anterior). Se- manas depois a comitiva seguiu para o Rio de Janeiro, onde já se encontrava o restante da frota. A abertura dos portos Agora que boa parte da elite lusa encontrava- -se em terras brasileiras, o desenvolvimento da colô- nia não poderia continuar cerceado. Como afirma a historiadora Maria Odila Silva Dias, pela primeira vez iria se configurar “nos trópicos portugueses preocu- pações de uma colônia de povoamento e não ape- nas de exploração ou de feitoria comercial”. Assim, em 28 de janeiro de 1808, seis dias de- pois de desembarcar em Salvador, o príncipe regen- te dom João decretou a abertura dos portos brasi- leiros às nações amigas. O decreto estabelecia uma taxa de 16% sobre os artigos importados de Por- tugal e de 24% sobre os provenientes dos demais países. A exceção entre estes últimos viria a ser a Inglaterra, cujos produtos foram taxados em 15%. O Rio de Janeiro se urbaniza À época da chegada da família real*, o Rio de Janei- ro era uma cidade acanhada, com uma população de apro- ximadamente 50 mil habitan- 3 tes e sem infraestrutura capaz de receber, de uma só vez, um número tão grande de pessoas. Por isso, dom João requisitou as melhores casas da cidade para abrigar temporariamente os fidalgos vindos de Portugal. Além disso, as ruas foram pavimentadas e equi- padas com iluminação pública, novos chafarizes e prédios públicos e residenciais foram construídos. A abertura dos portos ao comércio internacio- nal fez com que uma grande quantidade de artigos de luxo começasse a chegar ao Rio de Janeiro. Lo- jas de roupas finas, joalherias, salões de cabeleirei- ros passaram a funcionar tendo como clientela pes- soas da Corte e da elite local. Embarque para o Brasil do Príncipe Regente de Portugal, D. João VI, e de toda a família real portuguesa, no Porto de Belém, às 11 horas da manhã de 27 de novembro de 1807. Gravura feita por Francisco Bartolozzi (1725-1815) a partir de óleo de Nicolas Delariva. G ra v u ra a b u ri l, 4 0 X 5 4 c m . M u s e u H is tó ri c o N a c io n a l, R io d e J a n e ir o O governo de dom João Dom João – cuja gestão é conhecida como governo joanino – tomou medidas que afeta- ram diretamente a vida econômica, política, ad- ministrativa e cultural do Brasil. Em política ex- terna, por exemplo, adotou uma linha de ação francamente expansionista, ocupando a Guiana Francesa, em 1809, e anexando a Banda Orien- tal (atual Uruguai), em 1816. Já no plano admi- nistrativo, uma de suas primeiras preocupações foi a de reproduzir na colônia a estrutura buro- crática do reino. Ilustração de autor desconhecido que representa uma recepção realizada na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em 1817. Na cena, o príncipe dom Pedro dança com a princesa dona Leopoldina sob as vistas de dom João VI, ao fundo, à direita. A u to ri a d e s c o n h e c id a /C o le ç ã o S ta n is la w H e rs ta l/ A rq u iv o d a e d it o ra * Veja o filme Carlota Joaquina, princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1994. HMOV_v2_PNLD2015_176a185_U04_C21.indd 181 3/20/13 4:40 PM 182 Unidade 4 Política e participação Para montar a nova máquina do Estado foram criados diversos órgãos, como o Conselho de Estado e o Erário Real, além de outras repartições. Os novos órgãos públicos proporcionavam emprego para mui- tos dos integrantes da comitiva do príncipe regente – coroado rei com o título de dom João VI em 1818, dois anos após a morte de sua mãe –, que se encon- travam sem fonte de renda. Ainda em 1808, foram criados o Banco do Bra- sil, o Real Hospital Militar e o Jardim Botânico. Dom João autorizou também o funcionamento de tipogra- fias e a publicação de jornais. Com os livros da Biblio- teca Real trazidos de Lisboa foi organizada a Bibliote- ca Nacional do Rio de Janeiro. O governo procurou interligar a capital com as demais regiões da colônia e povoar o interior. Para isso, doou sesmarias e autorizou o Banco do Brasil a oferecer créditos a essas pessoas para que pudessem plantar e criar gado. Essa política de povoamento estimulou a imigra- ção. Em 1815, um grupo de 45 colonos oriundo de Macau e Cantão, na China, se estabeleceu na cidade do Rio de Janeiro. Eles vieram com a finalidade de in- troduzir em terras brasileiras o chá da China, muito apreciado pela família real portuguesa. O empreendi- mento, contudo, não prosperou. Já em 1818, cerca de 2 mil suíços fundaram Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro (as capitanias passaram a se chamar províncias a partir de 1815). Ao mesmo tempo, alguns artistas e cientistas es- trangeiros interessados em estudar a fauna e a flora do Brasil também vieram para cá, organizando ex- pedições por diversas províncias, como as do Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina (veja a seção Patrimônio e diversidade, na página seguinte). Missões artísticas e científicas Uma das primeiras expedições (chamadas quase sempre, quando em grupos, de missões) foi lidera- da pelo príncipe alemão Maximilian von Wied, entre 1815 e 1817. Além de importante legado botânico e linguístico, essa expedição nos deixou um grande acervo etnográfico, tendo registrado diversos aspec- tos da vida de povos indígenas, como os Puri, os Bo- tocudo e os Pataxó. A vida dos escravizados e o cotidiano da sociedade foram representados pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret*, que chegou ao Rio de Janeiro em 1816. Outra missão importante, de origem austríaca, chegou em 1817. Entre seus integrantes da expedi- ção estavam o zoólogo Johann von Spix e o botânico Karl von Martius. Durante três anos eles percorreram mais de 20 mil quilômetros, registrando informações sobre a fauna e a flora do Brasil. Fac-símile do primeiro número do jornal Correio Braziliense, publicado em junho de 1808. Impresso na Inglaterra, foi um dos primeiros periódicos a circular no Brasil. C o rr e io B ra zi li e n s e , 1 8 0 8 /B ib li o te c a N a c io n a l, R io d e J a n e ir o /A rq u iv o d a e d it o ra Chineses da real plantação de chá em Santa Cruz, desenho a lápis aquarelado de Thomas Ender (c. 1818). Essa plantação era parte de uma tentativa do governo de dom João VI de difundir no Brasil o chá da China. A experiência, contudo, não deu certo. T h o m a s E n d e r, c .1 8 1 8 /G a b in e te d e G ra v u ra s d a A c a d e m ia d e B e la s A rt e s , V ie n a /A rq u iv o d a e d it o ra * Leia a história em quadrinhos Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil, de Spacca. Companhia das Letras, 2006. HMOV_v2_PNLD2015_176a185_U04_C21.indd 182 3/20/13 4:40 PM 183De colônia a sede do Império Português Capítulo 21 Muitos viajantes que visitaram santa Catarina deixaram relatos a respeito da região. Um deles foi o naturalista alemão Georg Heinrich von langsdorff, que esteve em santa Catarina entre dezembro de 1803 e fevereiro de 1804. Em seus diários, langsdorff descreveu os costumes do povo local, destacando a presença dos africanos escravizados e dos imigran- tes açorianos. Depois dele, o botânico Adalbert von Chamisso passou pela região em 1815 e se encantou com a variedade da fauna e da fl ora locais. Os africanos escravizados começaram a che- gar à região em meados do século XVII, quando os bandeirantes fundaram os primeiros povoados na região. Um século depois, chegavam os açorianos, atraídos pelo governo português, interessado em po- voar a região. A primeira leva data de 1748, quando desembarcaramno litoral catarinense 461 pessoas, vindas, em sua maioria, da ilha dos Açores. A vinda dos açorianos introduziu novos hábitos e costumes no modo de vida dos catarinenses, que podem ser observados até hoje. Na capital Floria- nópolis, essas marcas estão espalhadas pela cida- de, principalmente em bairros como santo Antô- nio de lisboa, lagoa da Conceição e Ribeirão da Ilha. Além das casas construídas pelos imigrantes e seus descendentes, nesses locais é possível en- contrar artesãs que fazem a renda de bilro, uma técnica trazida pelas açorianas. Além do legado açoriano, santa Catarina guar- da ainda hoje vestígios das antigas populações que viveram na região há cerca de 5 mil anos. Essa presença pode ser observada tanto nas gra- vuras rupestres – com destaque para os grafismos da ilha do Campeche, próximo de Florianópolis – como nos sambaquis do litoral. santa Catarina está entre os estados brasileiros que reúnem a maior quantidade de sambaquis. A partir do século XIX, santa Catarina recebeu grandes levas de imigrantes europeus, sobretudo alemães, italianos, poloneses e austríacos. Patrimônio e diversidade Santa Catarina Um estado multiétnico Artesanato catarinense representando elementos tradicionais da festa popular do Boi de Mamão. Foto de 2008. F lá v io V e lo s o /O p ç ã o B ra s il I m a g e n s HMOV_v2_PNLD2015_176a185_U04_C21.indd 183 3/20/13 4:40 PM 184 Unidade 4 Política e participação Franceses em Portugal Um dia depois da fuga da família real portuguesa, as tro- pas de Napoleão Bonaparte entraram em lisboa. Passados três meses, todo o reino de Por- tugal já se encontrava sob do- mínio estrangeiro. A grande resistência lusa iniciou-se em maio de 1808, quando revoltas esporádicas contra as tropas napoleônicas começaram a eclodir em diversos pontos do território português. Isso desencadeou uma guerra que durou até 1814, na qual os portugueses contaram com a ajuda do exército bri- tânico. Os conflitos arrasaram ainda mais o reino luso, que perdeu 100 mil pessoas e ainda viu a fome se alastrar pelo país. ¡sso...Enquanto De autor desconhecido, este óleo sobre tela representa a batalha de Vimeiro, travada em 21 de agosto de 1808, em Portugal. Nesse confronto, as tropas anglo-portuguesas venceram as forças francesas comandadas pelo general Junot. Stapleton Historical Collection/Hip/Topfoto/Grupo Keystone Em 1824, saiu do Rio de Janeiro com destino ao inte- rior a Expedição Langsdorff, or- ganizada pelo cônsul da Rús- sia no Brasil, o barão alemão Georg Heinrich von Langsdorff. O trabalho desse grupo é con- siderado um dos maiores te- souros científicos do Brasil. Fez parte da expedição o pin- tor Johann Moritz Rugendas, que em 1827 publicou o li- vro Viagem pitoresca através do Brasil, com ilustrações que mostram a opressão sofrida pelos escravos. Maloca dos Apiaká no rio Arinos, aquarela sobre papel de Hercule Florence (1828). Florence participou da Expedição Langsdorff pelo Brasil, entre 1821 e 1829. Hercule Florence, 1828/Academia de Ciências da Rússia, Moscou/Arquivo da editora HMOV_v2_PNLD2015_176a185_U04_C21.indd 184 3/20/13 4:40 PM 185De colônia a sede do Império Português Capítulo 21 Hora DE REFLETIR Sob o governo absolutista de dom João VI o poder do Estado se confundia com a própria von- tade do monarca. Hoje, entretanto, o Estado bra- sileiro se baseia numa estrutura de poder distinta do Estado absolutista, organizada em três Pode- res: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O Poder Executivo é representado pelo presiden- te da República. O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional (senadores e deputa- dos federais). O Poder Judiciário é divido por tri- bunais, sendo o Supremo Tribunal o principal de- les. Em sua opinião, os poderes e vontades do presidente da República são efetivamente con- trolados pela sociedade? Reúna-se com seu gru- po de colegas para discutir o assunto e escrever numa cartolina uma forma de controle social ou político exercido pela sociedade sobre os pode- res do presidente. Mundo virtual n Biblioteca Nacional – O projeto “Rede da memória virtual brasileira” oferece um acervo de imagens e textos sobre a história e a cultura brasileira. Para este capítulo, sugerimos uma consulta ao item “As viagens científicas”, um histórico sobre as publicações dessas expedições no Brasil. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/redememoria/viacientifica.html>. Acesso em: 26 nov. 2012. n Dom João e a Biblioteca Nacional – Site com diversas informações sobre o período joanino. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/djoaovi/index.htm>. Acesso em: 26 nov. 2012. n Arquivo Nacional – A exposição virtual o “Império nos trópicos” apresenta documentos variados sobre o Brasil no século XIX. Disponível em: <http://www.exposicoesvirtuais.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/ sys/start.htm?sid=212>. Acesso em: 26 nov. 2012. 1. No final do século XVIII, a América portuguesa havia passado por diversas transformações eco- nômicas, políticas e culturais, em curso desde o início da colonização. Faça uma síntese dessas transformações. 2. Observe os mapas Povoamento da colônia no século XVIII e A economia colonial em fins do século XVIII, nas páginas 179 e 180, e responda: em que regiões houve uma concentração de vi- las e cidades articulada a atividades econômicas lucrativas (voltadas para a exportação)? 3. A vinda da família real ao Brasil, em 1808, foi motivada por um impasse político que colocou em xeque a Coroa portuguesa. Descreva esse impasse e explique a decisão tomada pelo prín- cipe regente, dom João. 4. Por que a transferência da família real para o Rio de Janeiro significou o fim do monopólio do co- mércio entre a metrópole e a colônia? 5. A transferência da Corte para o Rio de Janeiro transformou profundamente a cidade. Descreva essas mudanças. 6. Por que podemos afirmar que a decisão de dom João de transferir a Corte para a América conduziu à assinatura de tratados comerciais com a Inglater- ra que prejudicavam os interesses portugueses? 7. Cite duas medidas administrativas de dom João e explique com que finalidade foram adotadas. 8. Faça uma pequena cronologia das principais missões artísticas e científicas que vieram ao Brasil na primeira metade do século XIX. Indi- que quem integrava cada missão, as regiões vi- sitadas e suas finalidades. Organizando as IDEIas Atenção: não escreva no livro. Responda sempre no caderno. HMOV_v2_PNLD2015_176a185_U04_C21.indd 185 3/20/13 4:40 PM 186 Na rodovia que liga Teresina a Parnaíba, no Piauí, uma obra erguida nas proximidades da cidade de Campo Maior chama a atenção do viajante: o Monumento Nacional do Jenipapo. Inaugurada em 1975, a obra presta uma homenagem aos piauienses, maranhenses e cearenses que, em 1823, nesse mesmo lugar, travaram uma sangrenta batalha contra soldados fi éis a Portugal. Usando armas rudimentares, como facões, foices, espadas e velhas espingardas, esses combatentes – em sua maioria vaqueiros e agricultores – enfrentaram a morte para assegurar a independência do Brasil, proclamada no ano anterior. O combate, conhecido como batalha do Jenipapo por ter sido travado às margens do rio de mesmo nome, foi vencido pelos portugueses. Apesar disso, contribuiu de forma decisiva para enfraquecer as tropas lusas e impedir que essa Monumento Nacional do Jenipapo em foto de junho de 2008. Erguida na estrada que liga Teresina a Parnaíba, no Piauí, a obra homenageia os combatentes brasileiros que lutaram contra tropas portuguesas na batalha do Jenipapo, em 1823. P a lê Z u p p a n i/ P u ls a r Im a g e n s Marcelo Oliveira/Latinstock O Brasil torna-se independente Capítulo 22 Objetivos do capítulo Identificar os grupos sociais envolvidos no processo histórico que resultou na independênciado Brasil, assim como os interesses que motivaram tal envolvimento. Identificar as lutas pela consolidação da independência como um fator determinante para o desenvolvimento inicial de uma identidade nacional. Compreender o conceito central da unidade, Política e participação, por meio dos assuntos relacionados à independência do Brasil. região do Nordeste permanecesse sob o domínio de Portugal. Neste capítulo estudaremos o processo de emancipação política da colônia portuguesa na América (que passara à condição de Reino Unido, ao lado de Portugal e Algarves, em 1815). Veremos também como as lutas ocorridas em diversos pontos do território foram decisivas para assegurar a independência brasileira em relação a Portugal. HMOV_v2_PNLD2015_186a193_U04_C22.indd 186 3/20/13 4:40 PM 187O Brasil torna-se independente Capítulo 22 Bênção da bandeira de Pernambuco na Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras (1860-1937). Símbolo da rebeldia dos pernambucanos, o pavilhão azul e branco, com o sol, a cruz e o arco-íris, tornou-se bandeira oficial do estado de Pernambuco em 1917. A n tô n io P a rr e ir a s /A rq u iv o p ú b li c o d o R e c if e /A rq u iv o d a e d it o ra Revolução pernambucana Na província de Pernambuco, ideias emancipa- cionistas e republicanas circulavam havia certo tem- po. No início de 1817, o debate dessas ideias deu ori- gem a um movimento conspiratório. Inspirados na Revolução Francesa, os líderes da Insurreição Pernambucana – como ficou conhecido o movimento – redigiram o esboço de uma Cons- tituição que garantia a igualdade de direitos, a li- berdade de imprensa e a tolerância religiosa. De- cididos a boicotar os produtos vindos de Portugal, substituíram o trigo e o vinho nas missas pela ca- chaça e pela mandioca. O movimento, contudo, enfraqueceu-se com as dissensões entre os proprietários de escravos e os re- beldes que queriam pôr fim à escravidão. Em maio, tropas enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro cerca- ram o Recife. Alguns líderes da Revolução de 1817, como também ficou conhecida a revolta, foram exe- cutados e muitos outros, presos e enviados ao cárce- re em Salvador. 3 Impostos altos e gastos da Corte elevados Em 1808, ao chegar ao Brasil, dom João foi recebido com festa pela população. A “lua de mel”, entretanto, não durou muito tempo. Uma das razões de queixa da população era a pesada carga tributária. O dinheiro era utilizado para cobrir os gas- tos da Corte, custear as obras de embelezamento do Rio de Janeiro e financiar as intervenções mi- litares do governo joanino. A população também questionava os privilégios concedidos aos portu- gueses, que preenchiam os principais cargos bu- rocráticos e ocupavam os mais altos postos da Academia Real Militar. Em contrapartida, a população livre e pobre so- fria com a carestia e o aumento dos preços. Nas zo- nas urbanas, essas pessoas tinham dificuldade para encontrar emprego, por causa da concorrência da mão de obra escrava e dos imigrantes portugueses. Nas zonas rurais, a essa dificuldade se somava a de conseguir acesso à terra. Todos esses fatores fizeram com que no Rio de Janeiro, principalmente, mas também em outras ci- dades, ocorressem agitações de rua que, não raro, culminavam em choques com a polícia, quebra-que- bras e pancadarias. Elevação a Reino Unido Em Portugal, o descontentamento também não era pequeno. Com a queda de Napoleão em 1815, os portugueses não viam mais razão para dom João continuar em terras brasileiras. Passaram assim a exi- gir seu retorno imediato a Portugal. Entretanto, dom João parecia mais interessado em continuar na colô- nia do que em retornar à capital portuguesa. Em dezembro de 1815, dom João assinou um decreto criando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Com isso, o Brasil deixava de ser colônia e ganhava o mesmo status político de Portugal. E o Reino passava a ter dois centros políticos: Lisboa, em Portugal, e o Rio de Janeiro, no Brasil, onde dom João exercia o governo. Para muitos historiadores, a elevação do Brasil a Reino Unido foi o marco inicial do processo de emancipação política e administrati- va do Brasil. 1 2 HMOV_v2_PNLD2015_186a193_U04_C22.indd 187 3/20/13 4:40 PM