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JUL.-AGO. 2001 407
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Médicos e
mezinheiros na
Corte Imperial: uma
herança colonial
Physicians and potion
makers at the Imperial
Court: a colonial
l e gac y
Márcio de Sousa Soares
Mestre em história
Rua Dr. Alvaro Grain, 233
28053-130 Campos dos Goitacases — RJ Brasil
marciosoares@trendmail.com.br
SOARES, M. de S.: ‘Médicos e mezinheiros
na Corte Imperial: uma herança colonial’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos ,
vol. VIII(2): 407-38, jul.-ago. 2001.
Este artigo tem por objetivo analisar as
representações e práticas populares em
relação à doença e à cura na cidade do Rio
de Janeiro no século XIX. A partir dos relatos
de viajantes, procura-se enfatizar que tanto a
doença quanto a cura possuíam significados
específicos que conduziam os segmentos
populares a buscar seus próprios caminhos
para a preservação ou restabelecimento da
saúde, independentemente da ausência ou
presença de médicos. Dessa forma, a partir
da constatação da enorme popularidade das
mezinhas domésticas e da fé no adjutório
espiritual, em contraposição aos esforços da
medicina acadêmica para reservar para si o
‘monopólio da competência’ da arte de curar,
procura-se reavaliar o pressuposto
consagrado pela historiografia de que o
pequeno número de médicos que atuava
no Brasil oitocentista configurava-se em um
problema vivenciado indistintamente por
todos os segmentos sociais.
PALAVRAS-CHAVE: médicos, mezinheiros,
história da medicina, cultura popular,
Rio de Janeiro.
SOARES, M. de S.: ‘Physicians and potion
makers at the Imperial Court: a colonial
legacy’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos ,
vol. VIII(2): 407-38, July-Aug. 2001.
This article aims at analyzing popular
practices and representations related to
diseases and healing in the city of Rio de
Janeiro in the nineteenth century. Based on
European travelers’ reports, the author
emphasizes the fact that both illness and
healing used to bear specific implications,
which led the low-income population to search
for their own means to keep or recover good
health regardless the presence or the absence of
physicians. After showing evidence of the
enormous popularity of homemade medicines
and the belief in spiritual healing as opposed
to the efforts of academically-formed doctors to
keep the “monopoly of competence” in healing,
the author attempts to reassess the historical
belief that the small number of physicians in
Brazil in the 1800’s troubled indistinctly all
social strata.
KEYWORDS: physicians, potion makers,
history of medicine, folklore, Rio de Janeiro.
Os argumentos deste artigo são parte do primeiro
capítulo da dissertação de mestrado,
A doença e a cura: saberes médicos e
cultura popular na Corte Imperial.
408 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
O reduzido número de médicos foi uma característica de todas asáreas da América Portuguesa, que se acentuava nas regiões
interioranas mais afastadas das áreas portuárias, onde a concentração
de médicos e boticas era maior e mais fácil a importação de remédios
do reino. No entanto, isso não significa dizer que a situação dos moradores
das cidades litorâneas fosse muito melhor do que a daqueles que
viviam nos sertões. No que diz respeito ao acesso a médicos e remédios,
as vantagens de se viver nas cidades portuárias eram, muitas vezes,
mais aparentes do que reais. Os moradores de cidades como Rio de
Janeiro e Salvador, por exemplo, às vezes nem ao menos podiam
contar com o auxílio dos cirurgiões embarcadiços que acompanhavam
os navios que freqüentemente atracavam em seus portos (Santos Filho,
1991, vol. 1, pp. 59-64).
A julgar pelas freqüentes internações de marinheiros e soldados em
trânsito nos hospitais militares e nas Misericórdias, é fácil concluir que
os práticos de navio mal davam conta de cuidar dos doentes a bordo
que, não raro, ao serem acometidos por uma doença mais grave durante
a travessia oceânica, consumiam todos os seus esforços e os
medicamentos guardados nas caixas de botica existentes nas
embarcações. E mesmo nos hospitais, os próprios cirurgiões reconhe-
ciam, de acordo com os parâmetros da época, que muitas vezes os
recursos colocados a sua disposição eram considerados reduzidos e
precários (Carvalho, 1914, p. 510).
Os poucos físicos existentes na vastidão do território colonial
geralmente ‘fixavam’ residência naqueles núcleos mais populosos, ou
seja, nas principais vilas e sedes das capitanias. Menos comum era
encontrá-los em vilarejos do interior e de população mais rala. Nos
primeiros tempos da colonização, poucos médicos e licenciados reinóis
habilitaram-se a vir espontaneamente para o Brasil; raríssimos eram
aqueles que procediam de outras regiões européias. Os ganhos pelo
exercício da profissão eram extremamente modestos. Ademais, não
raro, as pessoas migravam de um povoado para outro, sempre em
busca de melhores condições de vida; por conseguinte, se num dia
determinada vila podia contar com a assistência de um facultativo,
noutro poderia ver-se repentinamente subtraída de tal concurso (Santos
Filho, 1991, vol. 1, pp. 63-4).
Até o final do século XVIII, pelas determinações legais de Lisboa, o
cuidado com as questões relativas à saúde pública na Colônia ficava a
cargo dos comissários enviados pela Coroa e do Senado das Câmaras
Municipais. Cabiam, então, a essas instâncias de poder a fiscalização e
a aprovação de provisões e licenças a médicos, cirurgiões, boticários,
parteiras e barbeiros. Essas concessões eram expedidas após a verificação
oficial das habilitações ou da experiência apresentadas por aqueles
que se propunham ao exercício da arte de curar:
JUL.-AGO. 2001 409
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
A princípio, os cirurgiões, barbeiros, boticários e parteiras aprovados
pelas autoridades competentes possuíam atribuições bastante
limitadas. Aquele que conseguisse comprovar no mínimo quatro
anos de prática em um hospital ou botica recebia autorização para
o exercício de sua arte. Pelas leis do reino, somente os físicos ou
licenciados estavam autorizados para o exercício da medicina. Os
boticários, por exemplo, recebiam autorização apenas para o comércio
de drogas, preparo de medicamentos e aviamento de receitas. Aos
cirurgiões era permitido tão-somente tratar de lesões externas, ficando-
lhes proibida a administração de medicamentos e o cuidado de
moléstias internas (idem, ibidem, pp. 304, 327-9, 340-1).
Os barbeiros, por sua vez, concorriam na prática com os cirurgiões,
pois também eles recebiam autorização para realizar pequenas
intervenções cirúrgicas, tais como: sangrar, sarjar, aplicar ventosas, pensar
ferimentos e extrair balas e dentes. Segundo Debret (1989, t. II, pp. 73-
4), os oficiais de barbeiro que atuavam na cidade do Rio de Janeiro, em
princípios do século XIX, eram quase sempre negros ou mulatos. Além
de prestarem serviços de barbearia e de pequena cirurgia propriamente
ditos, ocupavam-se também com outras atividades dos mais variados
tipos, tais como o conserto de roupas e o arranjo de pequenas bandas
musicais, então muito comuns na Corte; quando não atendiam os
fregueses nas calçadas das ruas, geralmente suas lojas funcionavam em
suas próprias moradias.
Naturalmente que a ineficácia e a impossibilidade de uma fiscalização
mais acurada faziam com que as restrições impostas à atuação dessas
pessoas não passassem de letra morta. O que contava mesmo era que,
para enfrentar as adversidades causadas pelas doenças no transcurso
do cotidiano, os habitantes das cidades, vilas e sertões recorriam a
quem estivesse ao seu alcance: cirurgiões, barbeiros, boticários, parteiras
e seus respectivos aprendizes; muito eventualmente aos médicos e, no
mais das vezes, àqueles que, sob a ótica do poder eclesiástico, médico
ou estatal, eram desprezados como ‘curandeiros’ por conjugarem seus
conhecimentos empíricos a rezas e práticas mágicas (Pimenta, 1997, p.
44 e passim).
Nos primórdios da colonização, as boticas da Companhia de Jesus
foram praticamente os únicos estabelecimentos existentespara o
fornecimento de medicamentos à população. Era nessas boticas e nas
enfermarias improvisadas em nome da caridade que muitos padres
acabavam por exercer a função de físicos, boticários, barbeiros e
cirurgiões. A botica do Colégio do Rio de Janeiro, por exemplo, em
princípios do século XVIII, além de atender diretamente a população,
fornecia medicamentos aos demais estabelecimentos da cidade e das
regiões circunvizinhas, chegando mesmo a exportá-los para Lisboa
(Santos Filho, 1991, vol. 1, pp. 127-8).
Mezinheiros habilidosos, os missionários cuidavam de toda sorte de
doenças que atormentavam a vida dos colonos. Enquanto alguns padres
410 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
já vinham da Europa especializados como boticários, outros aprendiam
o ofício no decorrer da experiência do viver na Colônia. Até a sua
expulsão em 1759, os membros da Companhia conseguiram, a partir
do aprendizado com os nativos, elaborar diversos medicamentos à
base da flora local que se tornaram famosos em todo o império
colonial português e na Europa (Ribeiro, 1995, pp. 33-5). Todavia, é
preciso sublinhar que, para aqueles religiosos, a doença era conseqüência
do pecado ou das artimanhas do demônio. Mais importante do que os
remédios ordinários eram os sacramentos, considerados verdadeiras
mezinhas espirituais. Para os inacianos, a cura era decorrência da
vontade divina. O socorro prestado pelos padres exortava, acima de
tudo, o sentimento cristão do enfermo; o alvo maior da atenção dos
jesuítas era a alma pecadora, e não o corpo doente propriamente dito.
Conforme sublinhou Ribeiro (op. cit., pp. 11-20), além de reclamarem
do reduzido número de médicos, as autoridades coloniais aludiam
constantemente às grandes dificuldades de aquisição de remédios
procedentes de Lisboa. Com efeito, segundo testemunho das autoridades
coloniais, a importação de medicamentos era precária e morosa. A
situação era agravada ainda mais, diziam os queixosos, pelo fato de
que, durante as viagens marítimas, muitos desses fármacos deterioravam-
se com grande facilidade. Amiúde as prateleiras das poucas boticas
existentes na Colônia apresentavam-se ‘desfalcadas’, ressentindo-se da
ausência de diversos medicamentos prescritos pelas farmacopéias
adotadas em Portugal. E, como se isso não bastasse, denunciavam as
autoridades, muitas vezes, além de chegarem ‘estragadas’, as drogas
importadas eram comercializadas a preços ‘exorbitantes’.
Diante de constantes denúncias que partiam do Brasil para Lisboa,
uma ordem régia determinou, no ano de 1744, que os regulamentos de
inspeção das boticas portuguesas também fossem observados no Brasil.
Era uma entre outras tantas tentativas de a Coroa realizar, por intermédio
dos comissários nomeados pela Fisicatura-Mor do reino, uma inspeção
mais acurada, a ser realizada a cada três anos, sobre o estado dos
medicamentos importados do reino, a qualidade dos remédios vendidos
nas boticas e a regulamentação dos preços na tentativa de coibir aqueles
considerados ‘abusivos’ (Santos Filho, 1991, vol. 1, p. 339).
Por intermédio da correspondência oficial dos vice-reis com Lisboa
percebe-se que, aos olhos do poder, a situação das boticas do Rio de
Janeiro no final do século XVIII não era diferente. O que mais exasperava
as autoridades coloniais era a ‘desqualificação’ dos boticários, quase
sempre acusados de colocar seus interesses mercantis acima do cuidado
que deveriam ter com a integridade das drogas; integridade necessária
à preservação da saúde daqueles que recorriam às suas prateleiras,
argumentavam os representantes do poder público.1
A denúncia da malícia comercial efetuada pelas autoridades vinha
acompanhada por uma série de preconceitos quanto à ‘falta de luzes’,
de instrução que acentuavam a ignorância dos boticários. Não muito
1 IHGB — Lata 53, maço
6 (correspondência do
conde de Resende com a
Corte de Portugal, 1796).
JUL.-AGO. 2001 411
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
diferentes foram as impressões de vários viajantes europeus que
percorreram o Brasil ao longo do século XIX. Luccock (1975, p. 71),
por exemplo, ao se referir ao fato de os boticários, além de vender
remédios, prescreverem medicamentos à população, opinava que
A habilidade dos boticários em diagnosticar e curar doenças era
pouquíssimo superior ao conhecimento que tinham do corpo
humano. O detalhe dos seus processos absurdos de tratamento
provocaria incredulidade, tanto maravilha pelo fato de os pacientes
escaparem vivos e inteiros ... pois que aquilo que aos respectivos
proprietários faltava em habilidade pareciam eles se esforçar por
suprir com a exibição.
A utilização de fontes desse tipo exige a máxima cautela pelos
juízos de valor negativos de que estão impregnadas. Primeiramente, é
preciso considerar que Luccock era um estrangeiro cujo referencial de
‘civilização’ era a Europa Ocidental. Seu ofício era o de comerciante;
confessa, noutra passagem de seu relato, que de medicina nada sabia;
portanto, nada mais prudente do que não aceitar pacificamente sua
avaliação sobre o fato de que os procedimentos terapêuticos dos boticários
eram ou não eficazes. Ainda que fosse um especialista no assunto, seus
juízos não prescindiriam de cuidado, devido aos enormes preconceitos
do saber médico acadêmico em relação às práticas populares. Cumpre
assinalar que a maior parte dos boticários que atuavam no Brasil — até
pelo menos meados do Oitocentos — assentava seus conhecimentos
na experiência empírica, e não na formação acadêmica, salvo
pouquíssimos graduados nas universidades européias.2
No entanto, a constatação de tamanho preconceito não significa
que as observações do viajante devam ser desprezadas; elas trazem,
mesmo que indiretamente, informações valiosas que permitem uma
leve aproximação das relações estabelecidas entre os droguistas e seus
clientes. Malgrado suas opiniões adversas sobre “os processos absurdos
de tratamento” empregados pelos boticários, Luccock não consegue
deixar de assinalar, estupefato, que os pacientes escapavam “vivos e
inteiros”, ou seja, alcançavam a cura ou, pelo menos, concluíam que a
tinham alcançado. Involuntariamente esse comentário indica, portanto,
que aquelas pessoas reconheciam nos boticários a capacidade de curar.
É preciso salientar que as descrições sobre as boticas e o
comportamento de seus proprietários contidas nessas fontes, produzidas
por estrangeiros — muitos deles versados em medicina e botânica —
e pelas autoridades administrativas locais, são resultado das observações
de pessoas pertencentes aos estratos culturais das elites, quase sempre
avessas ao ‘outro’ representado pelo universo da cultura popular. Esse
estranhamento conduzia-os invariavelmente a enfatizar a malícia, os
erros e as confusões decorrentes de uma pressuposta ignorância dos
boticários e de seus aprendizes e caixeiros. É possível que, em alguns
2 De acordo com Santos
Filho (1991, vol. 1,
pp. 331-2) a instituição
formal do ensino da
prática farmacêutica em
Portugal ocorreu somente
em 1772, por ocasião
das reformas pombalinas
aplicadas à Universidade
de Coimbra. No Brasil, a
formação acadêmica na
prática de farmácia só
se tornou possível após
a chegada de d. João VI
e a instituição do ensino
médico-cirúrgico.
412 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
casos, a má fé, o não saber ler e escrever e o erro fizessem mesmo parte
do cotidiano de muitos droguistas; quanto a isso, os testemunhos são
recorrentes, ou seja, não se trata de invenção premeditada dos
observadores. Mas a aceitação desse tipo de juízo de valor é uma
verdadeira armadilha para o historiador que busca a compreensão do
universo da cultura popular.
Um dos aspectos mais interessantes desse tipo de documentação
para a pesquisa histórica é a observação das entrelinhas, ou seja, as
informações involuntárias deixadas por esses letrados. Lidas dessa forma,
é possível perceber que, não obstante o que era considerado condenável,
como os equívocos no aviamento de receitas, a venda de “produtos
estragados”e a substituição de determinados componentes por outros,
ou mesmo que, no mais das vezes, os conhecimentos dos boticários
estivessem assentados única e exclusivamente sobre as bases da
experiência cotidiana — o que, do ponto de vista das autoridades
públicas e dos médicos, era suficiente para os recriminar —, não raro
esses droguistas, assim como os demais curandeiros, conseguiam
alcançar a cura para diversos males daqueles que lhes consultavam aos
balcões. Em outras palavras, havia um amplo reconhecimento popular
quanto à capacidade dos boticários de sanar doenças, posto que,
malgrado as restrições dos cronistas da época, suas lojas estavam sempre
cheias de gente em busca de remédios e de opinião quanto ao tratamento
de suas enfermidades.
Os arautos da civilizaçãoOs arautos da civilizaçãoOs arautos da civilizaçãoOs arautos da civilizaçãoOs arautos da civilização
Até meados do século XIX, ainda eram pouquíssimos os médicos
com formação acadêmica atuando no Brasil, conforme pode ser
observado pelos dados referentes aos moradores da Colônia que se
dirigiram para a Universidade de Montpellier apresentados na Tabela 1.
Tabela 1Tabela 1Tabela 1Tabela 1Tabela 1
Estudantes de medicina da Universidade de Montpellier nascidos no Brasil
(séculos XVIII e XIX)
Fonte: Herson (1996, pp. 305-51) e Pedrosa (1959, vol. 243, pp. 35-71).
Naturalidade Século X VIII (1767-93) Século X IX (1806-63)
N N
RJ 6 5
MG 5 4
BA 1 3
PE 2 1
RS – 1
Ignorada – 1
T otal 14 15
JUL.-AGO. 2001 413
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Ao longo do século XVIII, em um intervalo de 26 anos, apenas 14
estudantes nascidos na Colônia haviam cursado medicina em Montpellier.
Em relação ao século XIX, foram apenas 15 os médicos naturais do
Brasil que se formaram naquela mesma escola, em um intervalo de
tempo de 57 anos, ou seja, duas vezes superior em relação ao século
antecedente. Certamente que, em se tratando do período colonial, a
política metropolitana que impediu a criação de universidades na
América Portuguesa concorria para a existência de um pequeno número
de médicos nas terras brasílicas.
Devido à proibição imposta pela metrópole ao estabelecimento do
ensino universitário em seus domínios ultramarinos, somente a nata
dos segmentos letrados das elites coloniais tinha recursos suficientes
para custear a formação de alguns de seus filhos nas universidades
européias. Além de possuir as condições financeiras necessárias, quem
se candidatasse à formação médica em Coimbra ou em Montpellier
deveria apresentar como condição sine qua non, além do conhecimento
obrigatório do latim, o satisfatório em grego e, de preferência, também
algo do francês e do inglês, embora essas duas últimas línguas não
fossem obrigatórias. Tais exigências não eram obstáculo ao restrito
número de letrados na Colônia, considerando-se que a maior parte
deles era egressa das escolas jesuíticas, nas quais apenas se falava, lia
e estudava em latim; outros recebiam instrução particular ou aprendiam
por conta própria, como autodidatas. As demais línguas estrangeiras
também não eram empecilho, posto que, no final do século XVIII, o
francês também passou a concorrer com o latim como língua culta na
Colônia, seguido pelo inglês (Herson, 1996, p. 223). Todavia, em termos
absolutos, pouquíssimos eram aqueles que reuniam os cabedais
necessários — entendidos aqui como riqueza e instrução — para cruzar
o oceano em direção às universidades do Velho Mundo.
Ao investigar a trajetória dos médicos formados em Montpellier, Bella
Herson (op. cit., p. 227) constatou que nem sempre eles regressavam ao
Brasil imediatamente após a conclusão de seus estudos em medicina.
Alguns deles prosseguiram sua formação acadêmica na Europa em outras
áreas do conhecimento, enquanto outros permaneceram na França ou
em Portugal exercendo atividades médicas e ocupando cargos importantes
na Corte. De qualquer forma, aqueles que retornavam ao Brasil munidos
com seus diplomas de doutor geralmente atuavam junto às elites das
quais faziam parte, fosse no exercício da medicina, na formação de
academias literário-científicas ou mesmo no campo da política.
A Tabela 2 agrega os dados relativos ao efetivo numérico de
estudantes de medicina nascidos no Brasil e formados pela Universidade
de Coimbra nos séculos XVII, XVIII e XIX.
Decerto que, em termos comparativos, no século XIX o número
absoluto dos médicos formados em Coimbra foi bem menor do que no
século XVIII, o que se explica pela criação das escolas e posteriormente
faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. Contudo, os
414 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
índices percentuais permaneceram muito próximos, salvo em relação
ao século XVII, que apresentou o índice mais elevado, de 10,1%.
Entretanto, se comparado ao conjunto de brasileiros que se dedicaram
a outras áreas do conhecimento nesta mesma universidade, o total de
médicos sempre foi muito pequeno.
Tabela 2Tabela 2Tabela 2Tabela 2Tabela 2
Estudantes de medicina da Universidade de Coimbra nascidos no Brasil
(séculos XVII, XVIII e XIX)
Área do
conhecimento
Século X VII
(1615 a 1700)
Século X VIII
(1701 a 1798)
Século X IX
(1801 a 1861)
N % N % N %
Medicina 37 10,1 107 6,1 32 5,1
Outras 330 89,9 1.646 93,9 594 94,9
T otal 367 100 1.753 100 626 100
Fonte: Morais (s. d.).
O percentual de estudantes nascidos no Brasil que freqüentaram o
curso de medicina oferecido pela Universidade de Coimbra corresponde
a apenas 6,1% do total para o século XVIII, e a 5,1% em relação ao
XIX. A maioria esmagadora dos universitários seiscentistas e setecentistas
buscou formação acadêmica em direito, enquanto no Oitocentos a
preferência pela magistratura permaneceu na liderança, sendo
acompanhada pelo curso de matemática.
A transferência da Corte portuguesa para o Brasil em 1808 fez com
que as elites estabelecidas no Rio de Janeiro elaborassem paulatinamente
um projeto de ‘civilização’ para os trópicos. Para os novos nobres
moradores da cidade, era preciso que ela sofresse transformações para
torná-la digna de ter sido elevada à categoria de sede da Coroa
portuguesa. Herdeiros da tradição iluminista que preconizava o
‘progresso e a civilização’, os intelectuais e o Estado, num primeiro
momento, submeteram a cidade a uma ‘civilização improvisada’. Novas
instituições foram criadas, artistas e homens de ciência procedentes da
Europa foram convidados a participar da elaboração desse ambicioso
projeto ou a fornecer-lhe subsídios.
Do contingente composto pelos artífices desse empreendimento
civilizatório, destacou-se, sobretudo a partir da década de 1830, o
grupo formado por médicos e higienistas. Pondo fim ao monopólio do
ensino médico exercido pela metrópole, o príncipe regente sancionou,
em 1809, a lei que criava, no Hospital Militar do Morro do Castelo, a
Escola Anatômico-Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro, posteriormente
transferida, em 1813, para a Santa Casa da Misericórdia com o nome de
Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro. A partir de então, a
Corte passou a contar com um núcleo institucional próprio, que, ao
JUL.-AGO. 2001 415
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
longo do Oitocentos, tornou-se responsável pela produção de um saber
médico voltado para as questões específicas relacionadas ao espaço
urbano carioca.
Dispostos a transformar o que se lhes afigurava como um verdadeiro
‘caos urbano’ — uma cidade ‘suja’ e ‘doente’, ‘corrompida’ pelos miasmas
e pelos comportamentos ‘pouco recomendáveis’ da população — em
um espaço ‘civilizado’, um pequeno grupo de médicos radicados na
cidade fundou, em maio de 1829, a Sociedade de Medicina do Rio de
Janeiro. O objetivo principal dessa agremiação era fornecer pareceres
às autoridades governamentais em matérias relativas à higiene e saúde
pública. Esse vínculo existente entre a Sociedade de Medicina e o
Estado revela o caráter eminentemente político dessa entidade que
pretendia organizar o espaço urbano exclusivamente à luz da ciência
(Machado et alii, 1978). Atendendo a uma solicitaçãodo governo
regencial, em 1830, a Sociedade de Medicina nomeou, entre seus pares,
uma comissão para cuidar da transformação das academias Médico-
Cirúrgicas do Rio de Janeiro e de Salvador em faculdades de medicina,
o que se concretizou em outubro de 1832.
Paris será o grande emblema de civilização em que se espelharão as
elites cariocas. A França tornou-se a principal matriz das concepções
artísticas, literárias e científicas que informavam os trabalhos dos mais
afamados artistas e intelectuais residentes na Corte. O modelo adotado
pelos fundadores da Associação Médica carioca, por exemplo, inspirou-
se diretamente na Academia de Medicina de Paris, uma vez que dois
dos seus idealizadores, o dr. Sigaud e Jean Maurice Faivre, eram franceses
de nascimento e de formação intelectual.
Em 1835, a Sociedade de Medicina foi agraciada pelo Estado com o
título de Academia Imperial de Medicina, tornando-se, a partir de
então, juntamente com a recém-criada faculdade, o principal locus da
produção de um discurso que se arrogava sapiente e competente —
porque fundamentado no conhecimento científico — a ditar os
procedimentos terapêuticos que desejava ver norteando os
comportamentos sociais e a sugerir normas sanitárias para serem postas
em prática pelo Estado em nome da preservação da saúde pública. A
Tabela 3 refere-se aos estudantes de medicina formados pela Faculdade
do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX.
Os dados apresentados indicam que, mesmo após a fundação da
Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, o número de médicos formados
na cidade era muito pequeno. Além do mais, a graduação na faculdade
carioca não significava que todos os recém-formados exercessem a
medicina na Corte, pois certamente alguns daqueles doutores, naturais
de outras províncias ou mesmo do interior do Rio de Janeiro, voltaram
para suas regiões de origem. Pressuponho que a maior parte daqueles
24 doutorandos cuja naturalidade é ignorada tenha nascido no Brasil,
mas não é possível precisar quantos, pois alguns estrangeiros,
naturalizados ou não, tinham o hábito de aportuguesar o nome.
416 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
Não tenho como mapear a totalidade dos médicos estrangeiros que
se estabeleceram na cidade após a vinda da família real para o Brasil.
Os 39 que aparecem computados na Tabela 3 foram médicos nascidos
e formados no exterior que, tendo ou não obtido o grau de doutor em
suas instituições de origem, defenderam tese no Brasil como pré-requisito
necessário exigido pelo governo imperial para a revalidação de seus
diplomas, que lhes facultava o direito ao exercício legal da medicina
no país. Todavia, nem todos os médicos estrangeiros que atuavam na
cidade aparecem com teses catalogadas pela faculdade do Rio de Janeiro,
pois, de acordo com o Regulamento da Junta Central de Higiene —
órgão consultivo sobre a matéria de saúde pública criado pelo governo
imperial em 1850 —, aqueles que tivessem alguma obra científica
publicada ou que comprovassem ter lecionado em universidades
estrangeiras estavam dispensados do exame.3
Assim como os dados anteriores ao censo de 1872 referentes à
população do Rio de Janeiro são inexatos, as fontes disponíveis não
permitem precisar a quantidade de médicos diplomados que exerciam
sua profissão na Corte. As estimativas apresentadas pelos viajantes e
pelas autoridades públicas são extremamente desencontradas. No período
em que esteve no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1815, Luccock (1975, p.
29) refere-se a um total de duzentos médicos atuando na cidade. Já o
francês Louis de Freycinet (apud Freyre, 1990, p. 121) alude à existência
de mais de seiscentos profissionais, entre 1817 e 1820, incluindo médicos
e cirurgiões. Os números apresentados pela Secretaria de Polícia da
Províncias N %
RJ 188 47,4
MG 68 17,1
RS 22 5,6
BA 17 4,3
SP 8 2,0
AL 7 1,7
PE 6 1,6
MA 5 1,2
CE 3 0,8
GO 3 0,8
SE 2 0,5
PA 2 0,5
PI 1 0,3
MT 1 0,3
Ignorada 24 6,1
Estrangeiros 39 9,8
T otal 396 100
Tabela 3Tabela 3Tabela 3Tabela 3Tabela 3
Estudantes de medicina da Faculdade do Rio de Janeiro (1831-50)
Fonte: Academia Nacional de Medicina. Teses do Rio de Janeiro.
3 Não obstante as
determinações do
Regulamento da Junta
Central de Higiene, entre
1850 e o final da década
de 1870, alguns médicos
estrangeiros que não se
enquadravam na exceção
prevista pelo mesmo
regulamento conseguiram
licenças e autorizações
de autoridades
ministeriais do Império
e de presidentes de
província para clinicarem
no Brasil à revelia dos
pareceres em contrário
ou dos protestos daquela
instituição (Sampaio,
1995, pp. 114-21).
JUL.-AGO. 2001 417
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Corte no mapeamento populacional empreendido em 1834 apontam
para a existência de apenas 181 médicos brasileiros e 33 estrangeiros
exercendo legalmente sua profissão.
Sem dúvida, esse número restrito de intelectuais da medicina foi
um dos limites para a implementação, já na primeira metade do
Oitocentos, de seu sonho de transformar a Corte num espaço civilizado,
como deixam entrever as publicações médicas da época. No entanto,
é preciso considerar que as dificuldades encontradas pelos médicos
para colocar seus planos em prática não se explicam apenas pela
questão do efetivo numérico reduzido, mas também pelos enormes
obstáculos enfrentados, pelo menos até a década de 1870, em torno da
instituição da medicina no Rio de Janeiro, tudo isso somado às acirradas
disputas de poder e, sobretudo, ao fato de a sociedade não atribuir aos
saberes médicos legitimidade suficiente para lhes garantir o monopólio
da competência em matéria de curar doenças (Schwarcz, 1993, pp.
192-8 e passim).
Não me foi possível apresentar dados relativos à quantidade de
esculápios que atuavam na cidade do Rio de Janeiro na segunda metade
do século XIX porque o acervo de teses da Academia Nacional de
Medicina está bastante desfalcado, fazendo com que a ausência de
diversos livros comprometa a série. Todavia, os estudiosos da história
da medicina no Brasil são unânimes em assegurar o crescimento do
número de médicos formados no Rio de Janeiro, além do crescimento
da entrada de esculápios estrangeiros na cidade. Serão eles que, na
segunda metade do século XIX, dando continuidade ao sonho e à luta
de seus antecessores que idealizaram a Sociedade de Medicina,
enfrentarão as batalhas contra os mezinheiros — desqualificando-os
como curandeiros e charlatães —, na tentativa de desacreditá-los junto
à opinião pública e conseguir do Estado a repressão das atividades
terapêuticas consideradas ilegais em favor de sua ciência.
A doença e a cura no imaginário popularA doença e a cura no imaginário popularA doença e a cura no imaginário popularA doença e a cura no imaginário popularA doença e a cura no imaginário popular
Apesar do pequeno efetivo de médicos radicados na Corte Imperial,
sobretudo na primeira metade do Oitocentos, das queixas constantes
das autoridades públicas e das observações dos viajantes, estou
convencido de que este quadro não se constituía em um problema
para os segmentos populares da sociedade carioca. Não creio que esse
acanhado número de profissionais da medicina fizesse realmente falta
para a maior parte dos habitantes da muito leal e heróica cidade do Rio
de Janeiro.
A argumentação que sustentarei, ao longo deste artigo, é a de que
a doença e a cura possuíam significados específicos que conduziam os
enfermos a buscar outros caminhos para a preservação e o
restabelecimento da saúde, independentemente da ausência ou presença
de médicos. Em primeiro lugar, importa sublinhar que no Ocidente
418 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
cristão, pelo menos até meados do século XIX, o acompanhamento da
doença e da agonia que precedem a morte não estava sob poder da
ciência médica. A medicalização da morte, no sentido da concentração
de todos os esforços para combatê-la e, por conseguinte, prolongar a
vida do doente ao máximo, é um fenômeno extremamente recente na
história ocidental. Mesmo se porventura um médicoacompanhasse
uma pessoa da doença até a morte, seu papel era o de ajudar o
enfermo a se curar ou a morrer. Esse cuidado não assumia caráter de
luta contra a natureza, pois combater a morte era, para muitos, uma
verdadeira blasfêmia contra os desígnios de Deus (Rodrigues, 1983, p.
157; Ariès, 1981, vol. 2, pp. 613-37).
O tratamento das enfermidades geralmente era conduzido pelos
próprios familiares do doente. Entre os devotos da fé católica, quem
estava quase sempre à cabeceira do moribundo nos momentos
derradeiros era a figura de um padre, e não a de um médico. Ao
confessor reservava-se o direito de ser a única pessoa presente junto ao
leito do doente quando este exalasse o seu último suspiro.
Monsenhor Pizarro de Araújo (1945-51, vol. 5, p. 13) sustenta que a
pastoral, datada de 6 de março de 1775, obrigava os médicos e cirurgiões
a “precaver os enfermos nos princípios das curas e perigos delas com
os santos sacramentos, para que, fortalecidos em tempo, resistissem às
sagacidades do inimigo”. Como herança do período medieval, até o
século XVIII, a medicina manteve-se subordinada aos ditames da fé
católica na Europa Ocidental, e os próprios médicos setecentistas
reconheciam que a harmonia do enfermo para com Deus era necessária
para o restabelecimento da saúde.
No Rio de Janeiro oitocentista, a crença na origem sobre-humana
das enfermidades e no poder da fé para afastá-las era tão abrangente
que, por exemplo, a primeira recomendação expressa da Fisicatura-
Mor ao cirurgião Fideles José Alves, aprovado para o exercício da
medicina prática no Rio de Janeiro em 1818, era não deixar falecer
enfermo algum sem sacramentos (Pimenta, 1997, p. 70). Para as
enfermidades julgadas mais graves, o viático eucarístico era
popularmente considerado um remédio mais poderoso, capaz de
restabelecer a saúde, do que qualquer droga de botica. Em última
instância, assim como a doença era considerada fruto do pecado ou
das artimanhas do demônio, a cura dependia da vontade divina, não
dos remédios (ver Figura 1).
Os negros, por sua vez, em sua maioria centro-africanos, cuidavam-
se segundo as tradições de seus antepassados, evocando o auxílio de
forças espirituais. Para eles, o poder de curar era atributo daqueles que
possuíam o dom de comunicação com os espíritos ancestrais (ver figuras
2 e 3). É preciso, portanto, deixar claro que a ausência de um médico
ao lado dos enfermos não decorria de sua escassez, mas, antes, do fato
de que, no imaginário popular, as explicações para as origens das
doenças, as possibilidades de cura e as imagens do corpo passavam
JUL.-AGO. 2001 419
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
longe daquelas apresentadas pela medicina acadêmica no Brasil a
partir da institucionalização do ensino médico no país.
Até o final do Oitocentos, os saberes médicos não haviam
conquistado um amplo reconhecimento social que lhes assegurasse
base sólida para sustentar um monopólio da competência sobre a
doença e a cura. A observação das cifras apresentadas nas tabelas 2
e 3 permite concluir que, pelo menos até meados do século XIX, a
medicina não gozava de muito prestígio nem mesmo entre as elites
letradas, uma vez que a maioria esmagadora dos que se dirigiam à
Universidade de Coimbra, por exemplo, preferia outras áreas do
conhecimento. Isso significa dizer que o trabalho de convencimento
conduzido pelos médicos quanto à sua competência exclusiva da arte
de curar também teve de ser direcionado para as elites das quais
faziam parte. Tanto que era fato corriqueiro que pessoas dos mais
altos estratos da sociedade recorressem aos chamados mezinheiros
e/ou curandeiros, uma vez que muitas delas partilhavam da crença
da origem sobre-humana das enfermidades, reconhecendo-lhes a
capacidade de curar doenças e de neutralizar feitiços.
A luta dos médicos pela extensão do reconhecimento social de sua
ciência será travada com afinco justamente no decorrer da segunda
metade do Oitocentos, quando, após a superação das grandes
dificuldades em torno da instituição do ensino médico no Rio de Janeiro,
os profissionais da medicina empenharam-se na tarefa de se tornar um
grupo cada vez mais importante na mobilização da opinião das elites,
ampliando sua influência nas esferas de poder municipal e imperial
das quais alguns deles eram parte integrante.
Mesmo assim, apesar de todo poder e influência que aos poucos
iam sendo conquistados ao longo desse período, a resistência dos
segmentos populares às novas concepções e práticas ditadas pelos
médicos no que se refere à doença e à cura, assim como às imposições
das novas regras que a medicina acadêmica pretendia imprimir na
sociedade, será muito grande. Não aquela resistência popular
compreendida como uma reação cega e automática de quem está
sendo pressionado, mas, sobretudo, uma resistência informada por
uma cultura relativamente autônoma, capaz de nortear seus
procedimentos terapêuticos e fundar valores e tradições dos quais não
estavam nem um pouco dispostos a abandonar somente porque alguns
homens de ciência assim o desejavam.
No imaginário popular oitocentista, era bastante arraigada a crença
de que as doenças possuíam natureza sobre-humana, ao serem
provocadas, por exemplo, pela feitiçaria ou pela ação de um mau-
olhado (ver figuras 4 e 5). Moléstias e sortilégios estavam diretamente
relacionados e, muitas vezes, confundiam-se, posto que o próprio feitiço
era considerado uma doença capaz de ser combatida com a ingestão
de mezinhas apropriadas. O mau-olhado era considerado extremamente
nocivo, sobretudo às crianças, e resultava no terrível quebranto: uma
420 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
doença que despertava profundas angústias, uma vez que era considerada
capaz de provocar a morte dos inocentes. O remédio contra os males
advindos do mau-olhado era assegurado pelo uso de amuletos e pelas
benzeduras; portanto, a cura e a profilaxia contra semelhantes
enfermidades não estavam nas mãos dos médicos (ver Figura 6).
Até meados do século XIX, os testamentos apresentavam repetidas
vezes — e naturalmente com diversas variações —, entre muitos outros,
o seguinte motivo alegado para sua redação: “estando doente de cama
com doença que Deus foi servido dar-me temendo-me da morte...”. A
recorrência desta formulação indica que, no imaginário popular
oitocentista, as enfermidades mantinham-se situadas na ordem do
destino, conforme antiqüíssima tradição cristã que as concebia
fundamentalmente como artimanhas do demônio, fruto do pecado,
conseqüência do castigo, advertência ou provação imposta por Deus
(ver figuras 7 e 8).
No contexto desse imaginário religioso, geralmente o doente católico
procurava o remédio nos sacramentos da Igreja, sobretudo no Santíssimo,
conjugados ao arrependimento, à contrição e à prece. Por conseguinte,
quase sempre, nesses casos, a cura era atribuída aos talismãs, às relíquias,
aos objetos sagrados ou à intercessão da Virgem e dos santos — principais
intermediários entre Deus e os homens —, conforme pode ser observado
pelas referências dos viajantes aos inúmeros ex-votos depositados junto
às igrejas como testemunho da graça recebida, sob a forma de
representação da intervenção do santo evocado operando o milagre da
cura (ver figuras 9 e 10). O viajante norte-americano Thomas Ewbank
(1976, pp. 119-20 e passim) ficou extremamente impressionado com a
quantidade de objetos de cera e de tábuas votivas existentes nas diversas
igrejas espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro.
Todavia, a concepção que atribuía origem sobre-humana à doença
e que conduzia os enfermos católicos a manifestar sua devoção religiosa
não excluía a realização de práticas mágicas na tentativa de restabe-
lecimento da saúde, além da busca do auxílio das ervas — não raro
como parte integrante de rituais mágico-religiosos — e dos saberes
práticos daqueles que se devotavam à arte de curar. Era comum à
maior parte das pessoas a busca pelo auxílio de barbeiros, parteiras,
cirurgiões, boticários e, sobretudo, de mezinheiros — qualidade que
alguns barbeirose parteiras também possuíam —, mas isto se dava
muito mais em função de uma escolha do que em decorrência do
pequeno número de médicos.
Luccock (1975, pp. 120-1), ao se referir a um doutor germânico do
Rio Grande do Sul, observou que ele não tinha concorrentes em um
raio de trinta milhas. Todavia, os doentes que venciam essa distância
em busca de auxílio eram pessoas reputadas “ricas e com aparência
respeitável”. Do ponto de vista do referido viajante, bem grandes
deveriam ser os padecimentos dos doentes das camadas populares
daquelas paragens:
JUL.-AGO. 2001 421
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
...pois que raro é que pensem em recorrer a conselho médico,
enquanto a natureza se acha quase por completo exausta, para,
então, serem muitos deles arrastados em toscos carros, através do
ínvio sertão, por muitas léguas cansativas, expostos à chuva, ao
vento, ao sol e talvez a todos estes alternativamente.
Esta passagem é bastante reveladora. Independentemente da opinião
pessoal do autor quanto aos dissabores conseqüentes da relutância
demonstrada pela gente comum em procurar o auxílio daquele médico,
sua observação indica que esse recurso era acionado por membros das
elites locais, enquanto as camadas populares raramente chegavam a
fazê-lo e, mesmo assim, só em último caso. A compreensão dessa recusa
se explica porque as representações populares sobre as doenças e os
meios para alcançar a cura eram outros. Relatos como esses sugerem que
a desconfiança e o medo em relação aos médicos eram muito grandes.
Sobre essa resistência popular aos médicos, o dr. Imbert (1839, vol. 1, p.
8) — médico francês radicado na Corte — faz uma observação muito
semelhante àquela realizada por Luccock, segundo a qual a presença
médica em algumas localidades não era suficiente para estimular a
procura por parte dos populares pelos seus socorros: “Raras vezes acontece
que o médico seja mandado para junto do doente imediatamente após
o ataque de sua moléstia; uma vez que ela não se apresente com um
aparato de sintomas medonhos, é uso deixar passar dois, ou três dias
para ver, dizem, a marcha que há de seguir a enfermidade...”
Ao contrário do que insistia boa parte da documentação da época,
o recurso aos mezinheiros, em detrimento dos poucos médicos existentes
na cidade, resultava de uma preferência — portanto, de uma escolha
deliberada —, e não da falta de esculápios. Ora, se os médicos eram
deliberadamente preteridos pelos chamados curandeiros e charlatães,
por mais reduzida que fosse sua quantidade, isso não significa a
existência de uma lacuna preenchida por aqueles que, distantes de
uma formação acadêmica, se entregavam ao exercício da arte de curar
junto às camadas populares. Não é a ausência de médicos que explica
a ampla aceitação dos curandeiros, mas antes a concepção de que a
origem das doenças tinha uma natureza sobre-humana sobre a qual
essas pessoas possuíam a faculdade de intervir. Tanto era assim que, ao
longo da segunda metade do século XIX, quando o número de médicos
atuando na cidade do Rio de Janeiro crescia a cada ano, colocando
seus serviços à disposição dos habitantes, a preferência popular pelos
chamados curandeiros era enorme, como freqüentemente era
denunciado pela Academia de Medicina. Mesmo nos países da Europa
Ocidental — onde, de longa data, havia faculdades de medicina e um
número um pouco maior de médicos em comparação com o ultramar
—, a popularidade daqueles a quem chamavam de charlatães e
curandeiros era enorme, e o recurso às mezinhas domésticas bastante
acentuado (Thomas, 1991; Lebrun, 1983).
422 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
Não obstante apareçam na documentação como um dissabor para
a gente pobre da Colônia, no meu entender, as enormes dificuldades
de importação dos medicamentos europeus que marcaram o período
colonial, às quais se refere Márcia Ribeiro (op. cit.), eram na verdade
um grave problema para as autoridades aqui estabelecidas, talvez menos
afeitas aos recursos terapêuticos forjados pelos saberes populares locais.
Ora, índios, africanos e portugueses das camadas populares, assim
como alguns membros das elites, sempre haviam, em suas regiões de
origem, recorrido às mezinhas e ao mundo dos mortos para curar suas
enfermidades muito antes de se cogitar a colonização do Brasil.
A documentação consultada permite aferir que, não raro, mesmo
recorrendo ao auxílio dos médicos, pessoas das elites apropriavam-se
das mezinhas populares para o tratamento de suas moléstias. Thomas
Ewbank (1976, p. 189) testemunhou, em meados do século XIX, alguns
episódios que representam muito bem esse processo de apropriação
por parte das elites de métodos terapêuticos populares na cidade do
Rio de Janeiro:
Minhocas fritas vivas em óleo de oliva, e aplicadas quentes com
emplastro, removem o panarício que é muito comum entre negros
e brancos. A senhora Peres disse-me que assim curou uma das
suas escravas. O mesmo aconteceu na família de J.
Um remédio popular para dor de dentes é preparado assim: um
camaleão vivo é posto numa vasilha de barro com uma tampa
hermeticamente fechada e reduzido a cinza. Uma porção desta
cinza é esfregada entre um dedo e o polegar e aplicada sobre as
gengivas e posta na cavidade cariada. O senhor H. L., senador de
Santa Catarina, achou eficiente este processo. Sua senhora guardou
a cinza restante para algum eventual uso futuro.
Vale lembrar que senhores e escravos, por exemplo, conviviam
muito próximos uns dos outros no cotidiano da cidade, o que certamente
poderia facilitar o intercâmbio cultural entre eles; e, além do mais,
importa repeti-lo, mesmo entre as elites, os médicos não eram, como
pretendiam ser, os senhores absolutos da arte de curar.
Em uma carta datada de 24 de outubro de 1811, o português Luís
Joaquim dos Santos Marrocos, funcionário das Reais Bibliotecas de S.
A. R. D. João VI, relata ao seu pai que, na esperança de atalhar seus
achaques do peito, combinava a ingestão de vinho quinado em jejum
— receitada pelos médicos aos quais recorria — com certas “mezinhices”.
Dois anos depois, ao redigir outra carta, em 28 de setembro de 1813,
descreve uma dessas mezinhas que lhe fora recomendada por um certo
padre Teixeira, visando remediar suas dores de cabeça, supostamente
provocadas pelos ataques de hemorróidas que lhe importunavam:
JUL.-AGO. 2001 423
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Um frango inteiro sufocado, com sangue, penas e tudo, posto ao
lume em uma panela a cozer com meia camada de água; depois
de cozido e bem delido, coar a dita água, quando estiver em porção
de um quartilho; espremer o mesmo frango num pano forte e,
dividindo a dita água ou caldo em duas porções iguais para dois
dias, se tomará uma ajuda com uma porção morna, juntando-se-
lhe uma colher de sopa de açúcar refinado e outra de banha de
flor de laranja (Marrocos, 1934, p. 5).
Creio, portanto, que dificilmente os populares da Colônia sentissem
falta dos remédios prescritos pelas farmacopéias correntes na Europa,
embora, em alguns casos, a sua utilização não fosse totalmente
desprezada quando surgia alguma oportunidade de se ter acesso a
eles, enquanto que, como se verá pouco mais adiante, em outros
casos, o desprezo era total em favor das mezinhas domésticas.
Aqui chegando, os adventícios passavam a procurar virtudes
terapêuticas no reino mineral, na flora e na fauna locais para a
composição de suas mezinhas. Adaptando-se às novas condições
encontradas, experimentavam, por iniciativa própria, novos ingredientes
e, sobretudo, apropriavam-se diretamente, ou por intermédio dos
mamelucos, dos saberes indígenas. Assim, a experiência acumulada
pelo cotidiano produzia novas mezinhas, resultado do amálgama de
tradições indígenas, ibéricas e africanas, às quais todos tinham acesso
ilimitado. Geralmente usadas por conta própria, de acordo com os
saberes domésticos enraizados pela tradição ou atendendo às
recomendações específicas dos curandeiros, as mezinhas domésticas
constituíam prática bastante comum no Brasil. O recurso que se faziaa elas surgiu no período colonial e permanecia bastante disseminado
no século XIX, tanto nas áreas rurais quanto nos centros urbanos. Os
moradores da Corte Imperial do Rio de Janeiro, por exemplo, eram
constantemente abastecidos de ervas pelas negras de tabuleiro, ou
então as cultivavam nos próprios quintais.
O reverendo Robert Walsh (1985, vol. 1, pp. 177-8), de passagem
pelo Rio de Janeiro entre 1828 e 1829, narra dois episódios, dos quais
foi testemunha, que confirmam essa preferência popular pelas mezinhas
domésticas. Relata o viajante que,
certa vez, um brasileiro em cuja casa fiquei hospedado falou-me
sobre uma sacola que era o dispensário que supria todo o seu
estabelecimento com os únicos remédios usados por eles. Chamou
seu escravo e mandou que trouxesse a bolsa das cobras. O negro
trouxe imediatamente uma sacola de lona de onde tirou algumas
cobras secas, dizendo que eram poderosos remédios para doenças
do peito. Sempre que ele ou qualquer pessoa de sua família contraíam
essas doenças, pegavam um pedaço do animal, trituravam num pilão,
recolhiam algumas ervas e ferviam tudo junto. Ele dizia que algumas
colheradas dessa infusão acabavam com o ataque mais renitente.
424 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
Mais eloqüente ainda é o segundo episódio narrado sobre uma forma
de tratamento da erisipela. Consta nos apontamentos do reverendo que
um dia, passeando com um amigo meu, encontramos um homem
que sofria dessa doença (erisipela). Perguntamos a ele se havia
experimentado alguns remédios específicos que citamos;
respondeu que não, porque havia tentado o melhor tratamento
do mundo e, como não fizera efeito, tinha desistido de experimentar
o resto. Curioso para saber a respeito desse tratamento, perguntei-
lhe como era e respondeu-me que tinha tomado sangue de galo
preto e untado com ele as partes afetadas. Esse homem morreu
pouco tempo depois, recusando-se obstinadamente a tomar outro
remédio.
Para aquelas pessoas, apesar de toda a ironia destilada pelo viajante,
um punhado de cobras secas fervidas com ervas e alguns goles do
sangue de um galo preto ou o ungüento dele derivado eram realmente
tudo de que precisavam para alívio de suas doenças. Em momento
algum encontrei, na documentação consultada, qualquer evidência de
que os próprios segmentos populares se ressentissem da ausência de
médicos e de suas drogas. Ao contrário, esse tipo de protesto partia
sempre de viajantes estrangeiros, autoridades administrativas e de
médicos que, para legitimar suas argumentações, estendiam suas próprias
representações como um problema pertinente a todo o conjunto da
sociedade. O próprio vice-rei, conde de Resende, em 1796, numa carta
endereçada a dona Maria I, na qual lamenta a falta de médicos e suas
funestas conseqüências, sobretudo para os escravos e gente pobre da
cidade do Rio de Janeiro, involuntariamente permite entrever que,
para os segmentos populares, não havia qualquer espécie de problema
nessa ausência, uma vez que “...os ignorantes e curadores (eram)
escolhidos muitas vezes com preferência por espalharem que possuem
certos remédios e segredos para todo o gênero de moléstias...”4
Do alto de seus preconceitos culturais quanto aos saberes e práticas
populares, o vice-rei do Brasil era incapaz de perceber que a preferência
popular pelos ignorantes e curadores na verdade decorria de uma
concepção distinta sobre a origem das doenças e os métodos de cura;
enxergava apenas ignorância e impostura diante dos saberes apresentados
pelo ‘outro’; generalizava, como pertencendo a todos, um problema
que se desenhava aos seus próprios olhos e ao pensamento ilustrado
do segmento social ao qual pertencia e representava como autoridade
pública. Nesse sentido, uma boa parcela da produção historiográfica
mais recente — assim como praticamente a totalidade dos estudos
mais clássicos sobre o tema — me parece excessivamente prisioneira
das representações construídas pelas fontes documentais utilizadas.5
De fato, havia poucos médicos na Colônia e no Império; no entanto,
creio ser preciso repensar e frisar que o significado que essa tímida
4 IHGB — Lata 53, maço
6 (correspondência do
conde de Resende com a
Corte de Portugal, 1796).
Este mesmo documento
foi interpretado por
Márcia Moisés Ribeiro de
maneira diferente.
5 Ver Anais do IV
Congresso de História
Nacional (Rio de Janeiro,
Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro,
1949); Santos Filho
(op. cit.). Sobre as
pesquisas mais recentes,
ver Herson (1996);
Ribeiro (1995); Del Priore
(1997, pp. 81-8).
JUL.-AGO. 2001 425
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
expressão numérica possuía para alguns segmentos das elites não era
o mesmo para as classes populares. Além do mais, é preciso toda
atenção contra o risco representado pelo anacronismo. A presença do
médico ao lado do doente, acompanhando-o até a sua morte, e o
amplo reconhecimento social da legitimidade/competência do seu saber
são, na verdade, conquistas que a medicina logrou consolidar, a duras
penas, somente no século XX. Definitivamente, uma possível sensação
de falta da figura de um doutor à cabeceira de um doente, como se sua
presença fosse necessária ou até mesmo desejável, é uma impressão
equivocada que o presente projeta sobre o passado, revelando certa
dificuldade em reconhecer-lhe a alteridade.
A preferência popular pelos curandeiros e pelas mezinhas domésticas
no século XIX, motivada pela concepção sobre-humana das doenças,
certamente também era estimulada pela percepção generalizada entre
os próprios agentes sociais da época de que a nascente medicina
acadêmica era impotente diante de um grande número de moléstias
que atormentavam a saúde das pessoas.
Um dia, quando examinava a flora local nos arredores do Rio de
Janeiro, o reverendo Walsh (op. cit., p. 177) foi abordado por dois
homens brancos que, segundo o viajante, supondo tratar-se de um
médico selecionando ervas medicinais, pediram-lhe que os curasse:
Eles suspenderam suas calças e mostraram-me as pernas
deformadas, quase da espessura de seus corpos emaciados,
comprimidas por faixas em certas partes, formando dobras, e
cobertas por feridas purulentas, repugnantes até mesmo de se
olhar. Senti muito por não conhecer nada que pudesse aliviá-los,
principalmente porque disseram que tinham sido dispensados pelos
hospitais e considerados incuráveis por todos os médicos. Era
abordado com freqüência por essas pessoas.
Conforme pode ser observado por este depoimento, muitas vezes
eram os próprios médicos que admitiam essa impotência da medicina.
A tísica pulmonar e o mal-de-lázaro, que grassavam largamente entre
os mais pobres, ceifando-lhes a vida com rapidez, eram doenças
endêmicas incuráveis, reconheciam, entre outros, os doutores Imbert,
Sigaud e Chernoviz. Frente às epidemias, os melhores esforços envidados
pelos médicos revelavam-se, quase sempre, inócuos. Em 1838, o doutor
Francisco Gomes Alves de Matos Prego, ao responder a uma solicitação
da Corte sobre as moléstias mais freqüentes nos Campos dos Goitacases,
dizia que as febres quartãs “quando aparecem são sempre tenazes e
zombam freqüentes vezes dos tratamentos ordinários.” 6
Ao traçar, em 1872, um esboço histórico das epidemias ocorridas no
Rio de Janeiro ao longo do século XIX, o dr. Pereira Rego (1872, p. 6)
admitia, algo consternado, mas acima de tudo sem perder as esperanças
na ciência, que
6 BNRJ — Seção
Manuscritos, II-34-16-32.
Observações sucintas e
breves acerca de cinco
quesitos relativos às
moléstias mais freqüentes
do município de Campos
dos Goitacases.
426 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
As epidemias, dependendo muitas vezes de condições apreciáveis,
são na pluralidade dos fatos o resultado de causas desconhecidas,
incógnitas, misteriosas mesmo, as quais só se revelam por seus
efeitos mais ou menos desastrosos ...
A ignorância das causas ordinárias das grandes epidemias que na
sucessão dos séculos têm devastado o mundo, a dificuldade e
mesmo a impossibilidade que daí resulta às vezes paraestabelecer
medidas profiláticas gerais tendentes a prevenir ou atenuar suas
devastações, assim como uma terapêutica adequada para combatê-
las, pela obscuridade que reina em nosso espírito acerca da sua
índole especial, não devem embaraçar os esforços da ciência na
pesquisa dos meios de descortinar o véu misterioso que até hoje
tem escondido às suas investigações estes arcanos da natureza...
Por fim, é preciso salientar que as relações entre as camadas populares
e os médicos não eram as mais amenas. Novos procedimentos
terapêuticos, como a vacinação, por exemplo, introduzidos pela medicina
acadêmica, alimentavam o medo, despertavam desconfianças e rejeições
(Chalhoub, 1996). Uma forte razão que provocava resistência popular
aos médicos dizia respeito ao local onde o encontro entre ambos era
mais comum. O contato mais próximo entre as pessoas mais pobres e
os profissionais da medicina dava-se nos hospitais da cidade, instituições
que eram extremamente malvistas por aqueles segmentos sociais.
Voltado para os pobres, o socorro hospitalar destinava-se a acolher
os deserdados de toda sorte. Quase sempre, somente aqueles a quem
faltava um teto e/ou o concurso de parentes dirigiam-se espontaneamente
ou eram remetidos para os hospitais, quando não tinham condição ou
escolha para conduzir o tratamento de suas enfermidades em casa.
Locais de isolamento e reclusão, os hospitais — todos notavam — não
passavam de depósitos de infelizes em sua última escala para a morte.
Fazia parte do imaginário coletivo da época o desejo de que a
doença e a hora mortis fossem vivenciadas preferencialmente no interior
do espaço doméstico (ver Figura 11). Temia-se, acima de tudo, a morte
súbita, posto que era corriqueira a crença na necessidade da preparação
para o bem morrer, o que significava deixar o mundo com a consciência
tranqüila diante de Deus e dos homens. Causava repugnância a qualquer
pessoa pensar em adoecer ou morrer longe da assistência dos parentes
(Reis, 1991).
Essa preferência, comum a todos os segmentos sociais, é bastante
compreensível, considerando-se que, quando um indivíduo adoecia
de uma moléstia mais grave, a probabilidade de ele vir a falecer era
muito grande. As pessoas de posses, quando recorriam à assistência
dos médicos, faziam-no em seus domicílios ou nas residências dos
próprios facultativos. Como os pobres não simpatizavam com os
médicos e muito menos possuíam os recursos, salvo uma ou outra
exceção, necessários para pagar uma visita médica domiciliar, fatalmente
JUL.-AGO. 2001 427
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
o encontro entre ambos quase sempre ocorria, muito a contragosto do
enfermo, no hospital, e este era o último lugar para onde desejavam ir
(Soares, 1999, p. 91 e passim).
Outro aspecto não menos importante, que contribuía para provocar
um distanciamento ainda maior entre as camadas populares e o hospital,
decorria do processo de transformações que se operavam no campo
das concepções e práticas da ciência médica européia a partir do final
do século XVIII e que se fizeram sentir no Brasil à medida que a
organização do ensino médico avançava ao longo da segunda metade
do século XIX. Conforme sublinharam Jacques Revel e Jean Pierre
Peter (1988, pp. 141-59) — inspirados nos trabalhos de Michel Foucault
—, no crepúsculo do Setecentos, surge uma discussão no interior das
academias de Medicina européias em torno do princípio de que não
existiriam senão corpos e doenças. Para a medicina acadêmica, o
corpo torna-se um objeto, espaço neutro aberto à observação e ao
saber. De acordo com estes novos postulados médicos, o doente
transformava-se no suporte abstrato da doença, exorcizado de sua
história particular e, no limite, um obstáculo que se interpunha entre o
sábio e o objeto do seu saber: a enfermidade.
Em outras palavras, para a ciência médica, não importava aquilo
que o enfermo pensava ou sabia sobre seu mal, e sim, única e
exclusivamente, a objetividade dos sintomas que ele apresentava. Na
esteira das transformações propostas por esses novos saberes médicos,
o hospital deveria ser o local de observação direta do médico sobre a
doença. Nas reformulações pelas quais passava a medicina acadêmica,
a enfermidade transformava-se em uma entidade abstrata exterior ao
homem; um inimigo a ser combatido e capaz de ser derrotado por um
tratamento específico. O interesse médico deslocava-se do doente para
a doença; o indivíduo enfermo tornava-se um ‘caso’, o portador de um
distúrbio patológico.
Na medida em que essas novas propostas eram discutidas e que se
tentava colocá-las em prática, o isolamento hospitalar do doente vinha
acompanhado por um profundo processo de exclusão dos saberes e
representações populares sobre suas enfermidades e seus procedimentos
para a obtenção da cura. Inevitavelmente tais investidas granjearam
enorme desconfiança e medo por parte das classes populares em relação
às formas de tratamento reconhecidas pela medicina acadêmica, além
de provocarem uma colisão frontal entre o desejo popular de tratar das
doenças e morrer em casa e a proposta médica de transferir e circuns-
crever a doença e a morte ao interior dos hospitais.
Embora na maior parte das vezes estivessem ausentes do cotidiano
das práticas populares de tratamento de doenças, é necessário frisar
que, grosso modo, até meados do Oitocentos, os médicos da Corte não
estavam tão distantes das representações do corpo e das práticas de
cura adotadas pelas classes populares. As pesquisas de Ribeiro (op. cit.)
comprovam que, no período colonial, não havia fronteiras rígidas que
428 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
separassem os domínios da ‘ciência médica’ e do ‘maravilhoso’. Assim,
muitos médicos compartilhavam, por exemplo, da crença na
subordinação do corpo às influências cósmicas dos astros, na eficácia
do valor terapêutico dos excrementos ou na intervenção de Deus ou do
demônio como causa da cura ou da doença.
Ao que tudo indica, os médicos radicados na cidade do Rio de
Janeiro passaram a adotar uma postura mais científica e a condenar as
práticas populares de cura, a partir de então cada vez mais julgadas
ilegítimas, após a fundação da Sociedade de Medicina em 1829. Até
aquela data, quando o órgão máximo em matéria médica no Brasil
havia sido a Fisicatura-Mor, extinta em 1828, os médicos da Corte, meio
que a contragosto, reconheciam e aceitavam, como uma espécie de
mal necessário, que populares e, portanto, pessoas leigas em medicina,
mas experientes na arte de curar, pusessem em prática seus
conhecimentos, desde que se submetessem a um exame de um físico
ou cirurgião nomeado pela entidade. Tratava-se, com certeza, de uma
tentativa de controle sobre essas práticas. Mas, conforme demonstrou
Pimenta (1997, p. 116 e passim), havia algo mais do que isso. Ao
passarem cartas de aprovação, os professores de medicina da Fisicatura
acabavam por reconhecer que muitos populares detinham a capacidade
de curar. Não me refiro apenas a sangradores e parteiras, mas também
aos chamados curandeiros, uma vez que a autora citada comprovou
que aquela instituição expedia licenças que legalizavam os ofícios de
curandeiro ou curador.
Será a partir da fundação da Sociedade de Medicina e da institucio-
nalização do ensino médico que os esculápios da Corte que a ela se
filiaram passarão a tomar, sobretudo ao longo da segunda metade do
século XIX, certa distância das concepções e práticas populares em
matéria de curar doença. Boticários, sangradores, parteiras e curandeiros,
que até então eram tolerados e relativamente aceitos pelas autoridades
médicas da extinta Fisicatura, tornar-se-ão alvo de severas críticas da
medicina acadêmica, que, no processo de luta pela conquista de
legitimidade social para sua ciência, fez tudo que esteve ao seu alcance
para suprimir tais práticas ao colocá-las sob a chancela da impostura.
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Figura 1 Figura 1 Figura 1 Figura 1 Figura 1 __________
A primeirasaída de
um velho
convalescente,
aquarelada por
Debret, representa o
cumprimento de uma
promessa de um
homem rico,
conduzindo uma
enorme quantidade
de velas à porta de
uma igreja, em
contraste com as
ofertas de duas
mulheres negras,
representadas no
segundo plano. Na
opinião do artista
francês, os pobres
pensavam ser mais
agradável a Deus
receber seu módico
presente das mãos de
uma criança (Jean
Baptiste Debret).
430 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
Figura 2Figura 2Figura 2Figura 2Figura 2 __________ Aquarela representando um cirurgião negro praticando a sangria (Jean Baptiste Debret).
Nas tradições religiosas centro-africanas, correntes na região do Congo-Angola, o ser humano era um todo
composto de quatro elementos que asseguravam a vida em virtude de sua harmonia: o corpo (nitu), o sangue
(menga), considerado uma espécie de fluido vital, posto que carregava a alma (mo-oyo), e o duplo, que vinha a
ser tanto a sombra do corpo quanto o espírito. Ora, se o sangue era considerado o condutor do espírito e
levando-se em conta que, para os centro-africanos, as enfermidades eram provocadas por forças espirituais
malévolas que atuavam sobre o espírito/corpo do vivente, fica então explicada a enorme popularidade da
sangria como forma de tratamento para a expulsão das doenças entre os africanos na cidade do Rio de Janeiro.
Ao sangrarem seus corpos, os negros da Corte estavam buscando restabelecer a saúde, atuando diretamente
sobre o veículo que conduzia seus próprios espíritos.
JUL.-AGO. 2001 431
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Figura 3 Figura 3 Figura 3 Figura 3 Figura 3 __________ Os negros de origem centro-africana consideravam que os amuletos (designados
minkisi pelos bakongo) — como este em forma de uma pequena bolsa — eram capazes de proteger e
curar doenças porque aprisionavam um espírito benfazejo (Jean Baptiste Debret).
Figura 4 Figura 4 Figura 4 Figura 4 Figura 4 __________ Penca de
balangandãs — misto de
adorno e de forma de
proteção talismânica
empregado pelas
negras. Geralmente
presos à cintura ou aos
pulsos, os balangandãs
eram, de acordo com os
observadores
estrangeiros, adereços
muito comuns entre
escravas e libertas da
cidade do Rio de
Janeiro e de Salvador.
(Funarte/Instituto
Nacional do Folclore.
Balangandãs feitos com
prata, marfim, osso e
pedra, século XIX).
432 HISTÓRIA, CIÊNCIAS, SAÚDE Vol. VIII(2)
MÁRCIO DE SOUSA SOARES
Figura 5 Figura 5 Figura 5 Figura 5 Figura 5 __________ Segundo o
testemunho do
viajante Thomas
Ewbank, a cruz era
considerada um dos
símbolos religiosos
mais poderosos entre
a população da Corte.
Esta aquarela
representa um grupo
de tropeiros que
transitava entre o Rio
de Janeiro e a região
das Minas. Observe-se
que os três homens
colocados no primeiro
plano possuem
crucifixos em torno do
pescoço, certamente
visando à proteção
contra os perigos mais
comuns durante as
viagens: ataques de
salteadores e de
quilombolas, acidentes,
picadas de cobra e
doenças (Jean Baptiste
Debr e t ) .
Figura 6 Figura 6 Figura 6 Figura 6 Figura 6 __________
Conforme antigas
crenças populares,
havia partes do corpo
consideradas mais
vulneráveis à
penetração dos
malefícios e das
doenças, tais como a
boca, o nariz, os
olhos e os ouvidos.
Nesta gravura é
possível observar três
negras buscando
proteger-se com a
estimadíssima erva
arruda (Jean Baptiste
Debr e t ) .
JUL.-AGO. 2001 433
MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Figura 7 Figura 7 Figura 7 Figura 7 Figura 7 __ O
demônio era uma
criatura considerada
capaz de provocar
enfermidades nas
mulheres através do
humor melancólico.
“Milagre que fez o
Senhor (ilegível) a
Anna das Chagas que
estando perceguida
com num malino que
aparecia-lhe velo e
apegando-ce ao dito
sr. loguo se achou
com muitas milhoras
no anno de C 1763”
(Coleção Márcia de
Moura Castro, Belo
Horizonte, MG).
Figura 8 Figura 8 Figura 8 Figura 8 Figura 8 __________ Como herança da religiosidade popular colonial, era bastante comum no século XIX a crença
de que a cor vermelha era capaz de afugentar os demônios e curar doenças. Daí a freqüência de sua
presença nos dosséis e lençóis representados nos ex-votos. Note-se também que a saia da ofertante
representada na Figura 7 também é vermelha.
“Milagre q fes A Snrª Sta Anna a Franca inocente q estando perigosamente inferma sem esperanças de vida;
apegouce com a Dta Snrª logo diclinou saude ficando livre e enteramte sam. 1798” (Coleção Márcia de
Moura Castro, Belo Horizonte, MG).
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Figura 9 Figura 9 Figura 9 Figura 9 Figura 9 __ “Mcê q fez N. S. do Carmo a Filisberto d’ Mça q tendo huma criança a morte, e já sem sintidos Amay da dª apegou-ce com a dª S. e logo teve milhoras no anno
de 1822” (Coleção Márcia de Moura Castro, Belo Horizonte, MG). Além do incentivo às orações, a Igreja endossava a idéia de que as promessas eram uma outra maneira de
o sofredor alcançar a misericórdia divina. Os ex-votos testemunham a fé no adjutório dos santos para curar enfermidades. A figuração do milagre representado nas tábuas
votivas é uma espécie de conto resumido por imagens que expressam os temores e as alegrias daqueles que tiveram o curso de suas vidas alterado pela intervenção de
um santo. Por meio desses ex-votos, homens e mulheres, senhores e escravos, ricos e pobres confessavam publicamente suas esperanças, alegrias e uma profunda confiança
naquelas entidades celestiais. A representação desses milagres fez de seus ofertantes as testemunhas, por vezes silenciosas, de que aqueles eram tempos de graça e
de bem-aventurança, em que o contato entre os vivos e os santos fazia parte da vida cotidiana dos homens, renovando-lhes as esperanças de conforto e proteção contra as
agruras da vida.
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MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
Figura 10Figura 10Figura 10Figura 10Figura 10 __ De acordo com os relatos de Thomas Ewbank, são Roque era bastante popular na cidade do Rio
de Janeiro no século XIX. Além de ser freqüentemente evocada em tempos de epidemia, a imagem deste santo
também materializava a crença popular de que a saliva dos cães era benéfica para o curativo das chagas da pele
(autor desconhecido).
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Figura 11Figura 11Figura 11Figura 11Figura 11 __ O tratamento das enfermidades e os preparativos para a morte eram geralmente conduzidos pelos familiares dos doentes em suas próprias casas
(Coleção José Mindlin, SP).
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MÉDICOS E MEZINHEIROS NA CORTE IMPERIAL
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