Prévia do material em texto
Não só os poetas: C. Wright Mills, um sociólogo sábio, comparou a nossa civilização a uma galera que navega pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem remos novos, mais perfeitos. O ritmo das re- madas acelera. Sabem tudo sobre a ciência do remar. A galera navega cada vez mais rápido. Mas, perguntados sobre o porto do destino, respondem os remadores: O porto não nos importa. O que importa é a velocidade com que navegamos. C. Wright Mills usou esta metáfora para descrever a nossa civilização por meio duma imagem plástica: multi- plicam-se os meios técnicos e científicos ao nosso dispor, que fazem com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas; mas não temos ideia alguma de para onde navega- mos. Para onde? Somente um navegador louco ou perdido navegaria sem ter ideia do para onde. Em relação à vida da sociedade, ela contém a busca de uma utopia. Utopia, na linguagem comum, é usada como sonho impossível de ser realizado. Mas não é isso. Utopia é um ponto inatingível que indica uma direção. Mário Quintana explicou a utopia com um verso: Se as coisas são inatingíveis... ora!/Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas! Karl Mannheim, outro sociólogo sá- bio que poucos leem, já na década de 1920 diagnosticava a doença da nossa civilização: Não temos consciência de direções, não escolhemos direções. Faltam-nos estrelas que nos indiquem o destino. Hoje, ele dizia, as únicas perguntas que são feitas, determinadas pelo pragmatismo da tecnologia (o impor- tante é produzir o objeto) e pelo objetivismo da ciência (o importante é saber como funciona), são: Como posso fazer tal coisa? Como posso resolver este problema concreto particular? E conclui: E em todas essas perguntas sentimos o eco otimista: não preciso de me preocupar com o todo, ele tomará conta de si mesmo. Em nossas escolas é isso que se ensina: a precisa ciên- cia da navegação, sem que os estudantes sejam levados a sonhar com as estrelas. A nau navega veloz e sem rumo. Nas universidades, essa doença assume a forma de pes- te epidêmica: cada especialista se dedica, com paixão e competência, a fazer pesquisas sobre o seu parafuso, sua polia, sua vela, seu mastro. Dizem que seu dever é produzir conhecimento. Se forem bem-sucedidas, suas pesquisas serão publicadas em revistas internacionais. Quando se lhes pergunta: Para onde seu barco está navegando?, eles respondem: Isso não é científico. Os sonhos não são objetos de conhecimento científico... E assim ficam os homens comuns abandonados por aqueles que, por conhecerem mares e estrelas, lhes po- deriam mostrar o rumo. Não posso pensar a missão das escolas, começando com as crianças e continuando com os cientistas, como outra que não a da realização do dito do poeta: Navegar é preciso. Viver não é preciso. É necessário ensinar os precisos saberes da navegação enquanto ciência. Mas é necessário apontar com impre- cisos sinais para os destinos da navegação: A terra dos filhos dos meus filhos, no mar distante... Na verdade, a ordem verdadeira é a inversa. Primeiro, os homens sonham com navegar. Depois aprendem a ciência da navegação. E inútil ensinar a ciência da navegação a quem mora nas montanhas... O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard: O universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso. O paraíso é jardim, lugar de felici- dade, prazeres e alegrias para os homens e mulheres. Mas há um pesadelo que me atormenta: o deserto. Houve um momento em que se viu, por entre as estrelas, um brilho chamado progresso. Está na bandeira nacional... E, quilha contra as vagas, a galera navega em direção ao progresso, a uma velocidade cada vez maior, e ninguém questiona a direção. E é assim que as florestas são destruídas, os rios se transformam em esgotos de fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se cobrem de lixo – e tudo ficou feio e triste. Sugiro aos educadores que pensem menos nas tecnologias do ensino – psicologias e quinquilharias e tratem de sonhar, com os seus alunos, sonhos de um Paraíso. OBS.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo Ortográfico. Assinale a alternativa em que o termo sublinhado NÃO cumpre a função de sujeito. A Mas para navegar não basta sonhar. E preciso saber. B Disse certo o poeta: ‘Navegar é preciso’, a ciência da navegação é saber preciso (...) C E preciso sonhar para se decidir sobre o destino da navegação. Naus e navegação têm sido uma das mais podero- sas imagens na mente dos poetas. E O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard (...) 18 Unifesp 2018 Para responder à questão, leia o trecho do livro Abolição, da historiadora brasileira Emília Viotti da Costa. Durante três séculos (do século XVI ao XVIII) a escravidão foi praticada e aceita sem que as classes domi- nantes questionassem a legitimidade do cativeiro. Muitos chegavam a justificar a escravidão, argumentando que graças a ela os negros eram retirados da ignorância em que viviam e convertidos ao cristianismo. A conversão libertava os negros do pecado e lhes abria a porta da salvação eterna. Dessa forma, a escravidão podia até ser considerada um benefício para o negro! Para nós, esses argumentos podem parecer cínicos, mas, naquela época, tinham poder de persuasão. A ordem social era conside- rada expressão dos desígnios da Providência Divina e, portanto, não era questionada. Acreditava-se que era a vontade de Deus que alguns nascessem nobres, outros, vilões, uns, ricos, outros, pobres, uns, livres, outros, es- cravos. De acordo com essa teoria, não cabia aos homens modificar a ordem social. Assim, justificada pela religião e sancionada pela Igreja e pelo Estado – representantes de Deus na Terra –, a escravidão não era questionada. A Igreja limitava-se a recomendar paciência aos escravos e benevolência aos senhores. F R E N T E 1 127 Não é difícil imaginar os efeitos dessas ideias. Elas permitiam às classes dominantes escravizar os negros sem problemas de consciência. Os poucos indivíduos que no Período Colonial, fugindo à regra, questionaram o tráfico de escravos e lançaram dúvidas sobre a legitimidade da escravidão, foram expulsos da Colônia e o tráfico de es- cravos continuou sem impedimentos. Apenas os próprios escravos questionavam a legitimidade da instituição, ma- nifestando seu protesto por meio de fugas e insurreições. Encontravam, no entanto, pouca simpatia por parte dos homens livres e enfrentavam violenta repressão. (A abolição, 2010.) “De acordo com essa teoria, não cabia aos homens modificar a ordem social.” (1o parágrafo) O trecho des- tacado exerce a função sintática de A objeto indireto. B objeto direto. C adjunto adnominal. sujeito. E adjunto adverbial. 19 EEAR 2017 Sim, é possível sofrer uma ‘overdose’ de água É importante sempre estar hidratado, principalmente nos dias mais quentes – o calor, a umidade e o suor muitas vezes sugam fluidos essenciais de nosso corpo mais rápido do que imaginamos. Quando administrada de forma ade- quada, a hidratação traz grandes benefícios, auxiliando a digestão, eliminando toxinas, lubrificando as articulações e mantendo a memória afiada. Mas corre-se o risco de exagerar, especialmente durante os exercícios, caso ignoremos os sinais de nosso corpo. Podemos sofrer de hiponatremia, uma situação na qual a quantidade de sódio no corpo alcança níveis muito baixos devido ao excesso de hidratação. Também conhecida como “intoxicação por água”, a queda de sódio durante ou até 24 horas depois da atividade física pode elevar os níveis de água do corpo e causar o inchaço das células. A hiponatremia pode ser difícil de ser detectada no início devido à falta de sintomas leves, o que torna ainda mais importante entender como hidratar-se corretamente. Quando os sintomas finalmente aparecem, podem incluir dor de cabeça, vômito, confusão ou convulsões devido ao inchaço do cérebro. Em casos raros, pode até ser fatal. Disponível em http://super.abril.com.br/ciencia/sim e possivel-sofreruma-overdose-de-agua. Acesso em 04 AGO 2015, às 14h26. Marque a alternativa que apresenta classicação cor- reta em relação ao tipo de sujeito. A Na Estância Climática de Cunha, interior de São Paulo, ventou forte durante a noite. (Sujeito inde- terminado) B Chovia hambúrgueres na festinha do nosso colega mais endinheirado. (Oração sem sujeito) C Saltava com mau pressentimento sobre os ventos e as pedras. (Sujeito indeterminado) Deve haver grandes mistérios sobre nossa existên- cia. (Oração sem sujeito) 20 EEAR 2017 Leia: Autopsicografia (Fernando Pessoa) O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. Em relação ao texto, marque a alternativa correta quanto ao tipo de sujeito. A O verbo “têm” (8o verso) possui como sujeito sim- ples um termo plural com o qual concorda. B “O poeta” é sujeito gramatical, simples, singular, do verbo “Finge”, presente no 2o verso. C “as duas” é sujeito simples, no plural, do verbo “teve”, presente no 7o verso. “nas calhas de roda” é sujeito simples do verbo “Gira”, presente no 10o verso. 21 EEAR 2017 Marque a alternativa que apresenta correta classicação do sujeito: A Atropelaram as ideias na apresentação do traba- lho. (Sujeito Oculto) B O arrependido é movido pela fé de salvação. (Sujeito Paciente) C Viveria tudo outra vez, na esperança do acerto. (Sujeito expresso) Choveu elogio pelas iniciativas altruístas dos mes- tres. (Sujeito Inexistente) 22 Leia o texto a seguir. As pombas Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sanguínea e fresca, a madrugada. E à tarde quando a rígida nortada Sopra, aos pombais de novo, elas, serena, Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada... Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um, céleres voam, Como voam as pombas dos pombais; No azul da adolescência as asas soltam, Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, E eles aos corações não voltam mais... Raimundo Correia. “As pombas”. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Sujeito e predicado128 Todos os verbos aparecem com o respectivo sujeito em negrito, exceto um deles em que a palavra em negrito é objeto direto. Identique: A Vai-se a primeira pomba despertada. B Apenas raia sanguínea e fresca a madrugada. C Ruflando as asas. Como voam as pombas dos pombais. E E eles aos corações não voltam mais. 23 Leia o texto a seguir. O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha [aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que veem em tudo o que lá não está, A memória das naus. O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia. Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia. O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele. Alberto Caeiro. Massaud Moisés. (Ed.). O guardador de rebanhos e outros poemas. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 104. “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.” Rigorosamente o sujeito do verbo correr é: A Tejo. B rio. C que (no lugar de rio). aldeia. E indeterminado. 24 Leia o texto a seguir. Hão de chorar por ela os cinamomos, Murchando as flores ao tombar do dia. Dos laranjais hão de cair os pomos, Lembrando-se daquela que os colhia. As estrelas dirão: – “Ai! nada somos, Pois ela se morreu silente e fria...” E pondo os olhos nela como pomos, Hão de chorar a irmã que lhes sorria. A lua, que lhe foi mãe carinhosa, Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la Entre lírios e pétalas de rosa. Os meus sonhos de amor serão defuntos... E os arcanjos dirão no azul ao vê-la, Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?” Alphonsus de Guimaraens. “Hão de chorar por ela os cinamomos”. Em “Lembrando-se daquela que os colhia”, o sujeito do verbo colher é: A ela. B os (4a linha). C que (no lugar de aquela). indeterminado. E inexistente. 25 O núcleo do sujeito está corretamente destacado em: A “... ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete.” B “Até que viesse o outro ano.” C “Mas houve um carnaval diferente dos outros.” “... a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha...” E “Embora de pétalas, o papel crepom nem de longe lembrasse...” “Quando horas depois a atmosfera em casa acal- mou-se...” G “Só horas depois é que veio a salvação.” 26 Leia o texto a seguir. Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, ven- do a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro, – questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens. M. Cavalcanti Proença; Ivan Cavalcanti Proença (Org.). Machado de Assis: Quincas Borba. São Paulo: Ediouro, 2003. p. 390. Em [...] é provável que me perguntes [...], o sujeito do verbo ser é: A ele. B provável. C que. que me perguntes. E indeterminado. 27 Em De repente da calma fez-se o vento. Que dos olhos desfez a última chama [Vinicius de Moraes], o sujeito do verbo desfazer (desfez) é: A calma. B vento. C que (no lugar de vento). olhos. E chama. F R E N T E 1 129