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Unidade I A FENOMENOLOGIA DA MORTE NÓS TODOS NOS CONFRONTAMOS COM A REALIDADE DA MORTE 1 A ATITUDE DO INDIVÍDUO DIANTE DA MORTE 1.1. As pessoas estão fugindo da morte Das colunas da revista Manchete e dos outdoors que vemos nas ruas, rostos jovens riem e sorriem para nós. O programa de televisão “Fantástico” quase não apresenta reportagens sobre asilos de velhos. O Brasil é nação jovem. O que os nossos contemporâneos sabem sobre a morte reduz-se a um conhecimento geral que, aliás, é muitas vezes reprimido. Não se fala da morte. Não existe morte O que lemos sobre pessoas acidentadas e vítimas fatais só se refere aos outros, nunca a nós mesmos. A morte está confinada ao outro lado dos muros dos hospitais e das UTIs, ou, então, presta-se ao sensacionalismo para os que assistem às notícias de telejornais ou para os que leem os jornais. Esta situação básica não foi alterada sequer em decorrência do interesse despertado pelas chamadas “reportagens sobre a vida após a morte”. O famoso livro Vida depois da vida¹, de Raymund A. Moody, alcançou recorde de vendas no mundo inteiro, vindo a ser o precursor de uma infinidade de reportagens e publicações recentes sobre o assunto. Mas, apesar de tudo isso, no dia a dia do homem comum, o tabu da morte ainda não foi quebrado. De nada adiantou à Igreja pôr os seus fiéis, todos os anos, em confronto com as questões sobre a morte e a ressurreição, de acordo com o seu ciclo litúrgico. As pessoas não gostam de falar da morte, mesmo em caso de falecimento de familiares mais ou menos chegados. E, apesar disso, encontramos na morte o grande mistério do ser humano, talvez até um dos maiores. Se questionarmos o que vem a ser o homem, então a resposta a essa pergunta dependerá sempre, de algum modo, da maneira como nos posicionamos ante a morte de determinado homem. Não ante a morte do homem como indivíduo, mas, sim, ante a própria morte como fato. FUGIR DA REFLEXÃO SOBRE A MORTE SIGNIFICA FUGIR DA REFLEXÃO SOBRE O HOMEM. Assim, pois, a rejeição da reflexão sobre a morte se revela como sendo a rejeição da reflexão sobre o ser humano. O ser humano com toda a sua grandeza e a sua fraqueza, com a sua procura do infinito e a lembrança constante das limitações que lhe são impostas pela sua “condição humana”. Talvez seja isso que nos impede de tratarmos, frente a frente, da questão da morte. É que a indagação sobre a morte está forçosamente associada à questão do fim e também à questão se após o fim haverá ainda alguma outra coisa, ou não. Se a morte significa o fim propriamente dito, então é certo dedicar-se à vida e esquecer a morte: assim, não há morte porque eu a reprimo, e com razão. Assim, a morte não existe porque é apagada do meu consciente para que eu possa viver. O que conta, então, é a vida e nada mais. E à medida que a vida se mostra sem sentido, apesar de toda insinuação da propaganda, a morte também se torna fato absurdo que, de repente, surpreende o ser humano. Ou, como formulou Fritz Leist: “A falta de sentido da vida e o absurdo da morte fazem um pacto”.² A REFLEXÃO SOBRE A MORTE ESTÁ LIGADA À REFLEXÃO SOBRE O SENTIDO DA VIDA. Dessa forma, o ser humano se defronta com o paradoxo do significado da morte ou, por outras palavras, o paradoxo consiste em não se poder pensar na morte nem vivenciá-la, independentemente da maneira como se vive. E mais, a interpretação da morte não atingirá o seu pleno significado nem terá a seriedade devida, se a morte for dissociada da vida. Toda interpretação desta questão deve ser feita em estrito relacionamento com a vida passada e futura. OCUPAR-SE DA MORTE TORNA-SE UM OCUPAR-SE COM A VIDA. Quem se esquivar da discussão sobre a morte se esquivará da discussão sobre o que chamamos vida. Elisabeth Kübler-Ross, famosa pesquisadora da questão da morte, afirma o mesmo, do ponto de vista médico: “Morrer é parte integrante da vida, tão natural e previsível quanto nascer”.³ E continua: “Mas, enquanto o nascimento é motivo de comemoração, a morte transforma-se em terrível e inexprimível assunto, a ser evitado de todas as maneiras na sociedade moderna. Talvez porque nos relembra a nossa vulnerabilidade humana, apesar de todos os avanços tecnológicos”.⁴ Nesta argumentação, o ser humano é reduzido à forma genérica da existência de todos os seres vivos. Sendo assim, também a sua morte, na sua essência, não ultrapassa o significado da morte desses seres vivos. Contudo, parece-me que esta visão não toma suficientemente em consideração a seriedade existencial da morte humana. É verdade que também para o homem a morte é inevitável. É verdade que o ser humano se revela impotente perante esse fato. Trata-se de fatos que reforçam no homem a tendência à fuga, à repressão, acentuando a contradição existencial da vida humana em face da morte. Revela-se, portanto, verdadeiro o que Bernard Duburque afirma em seu artigo “La Disparition de la Camarde et l’avenir de l’homme”: “A morte, ou mais exatamente, o pensamento da morte, aniquilará aquilo que constitui a minha mais profunda realidade”.⁵ PROLONGAR A VIDA PARA FUGIR DA MORTE. Portanto, para esquivar-se dessa aniquilação, é simplesmente lógico aspirar ao prolongamento da vida. Eis por que o autor citado chega, com toda a razão, à afirmação de que “o prolongamento da esperança de vida, e, num futuro muito próximo, o prolongamento da certeza de viver é uma das condições essenciais para que o homem (…) possa assumir-se a si mesmo. Assumir-se total e livremente perante o universo, o absoluto, o seu Deus, seja qual for o significado que se atribua a esta palavra, contanto que seja suficiente para dar sentido à sua vida”. Apresenta-se aqui outra vez a questão do sentido. O sentido da vida humana não pode ser deduzido a partir da própria duração da vida. Muito pelo contrário, o prolongamento da vida, por sua vez, nos leva de volta à pergunta sobre o sentido deste prolongamento. A problemática inicial permanece inalterada: QUAL É O SIGNIFICADO DA VIDA HUMANA? Toda tentativa de responder a essa pergunta no plano de um humanismo voltado exclusivamente para este mundo torna-se círculo vicioso. Para podermos escapar à malha desse mecanismo, devemos tratar da questão da vida e da morte do homem a partir de um horizonte mais aberto, a partir de uma visão libertadora que inclui também as dimensões religiosas.⁷ 1.2. Até os cristãos estão reprimindo a reflexão sobre o fim da vida No plano fenomenológico, constatamos uma tendência nítida do ser humano a fugir da morte. Poder-se-ia indagar se atrás dessa tendência não se esconde algo mais do que a simples recusa de se ocupar das formas aparentes do fim e da decomposição. Podemos perguntar se o temor arcaico do ser humano perante a morte não tem causas mais profundas. ATÉ HOJE, A MORTE É ENCARADA FUNDAMENTALMENTE COMO UM FIM, COMO O FIM DA VIDA. Será que o homem, inconsciente e instintivamente, estaria recusando aceitar tal fim? Na evidência da morte e na falta de solução mais conveniente, ele reprime o pensamento da morte como tal. E isso, apesar de a religião cristã apresentar, há 2.000 anos, uma alternativa melhor. Acontece, porém, que muitos de nossos contemporâneos não veem aí alternativa nenhuma. Ou, então, veem aí uma alternativa demasiadamente presa aos conceitos amedrontadores do juízo e do fogo do inferno. Inferno ou condenação nada mais são do que um fim radical, um não-ser ou um não-ser-mais. Se, no entanto, até na esfera das mensagens cristãs se impôs a ameaça de um fim absoluto, o dilema que se nos apresenta é profundo: ou encaramos a situação heroicamente, ou sucumbimos de novo à fuga e à repressão. Hoje em dia, parece que muitos cristãos escolheram o segundo caminho… Por outra parte, nos últimos anos verificamos um interesse crescente pelas questões relacionadas com a morte. Ainda que para muitos não passe de interesse superficial, isto é, apesar de tudo, um sinal. No interesse pelas questões da morte manifesta-se a tentativa do homem de descobrir algo mais sobre um fenômeno de sua existência que conservou o seucaráter de mistério. E atrás de todo o interesse despertado esconde-se talvez uma esperança muito profunda, a esperança de que este mistério não se revele como “mysterium tremendum”, a esperança de que a morte não existe como fim e perecimento da vida. 1.3. A esperança na vida após a morte elimina o medo ou não? De todas as pesquisas sobre o assunto, deduzimos, de forma bastante clara, um fato básico: a contradição fundamental, diante da qual o homem se encontra. De um lado, ele deve aceitar a própria morte; de outro, tem uma vontade imanente de viver. Percebe-se, claramente, que esta contradição só pode ser eliminada mediante uma atitude que proporcione a esperança num “depois da vida”. Contudo, nem mesmo aceitando uma vida após a morte desaparece a indagação. Bem pelo contrário, ela se estende também ao campo religioso e teológico, tendo-se tornado, antes, um problema da Teodiceia: “Que divindade é esta, que, tendo criado o ser humano, deixa-o, depois, tornar-se comida para os vermes?” Assim formulou o problema o famoso filósofo Kierkegaard. Entretanto, um refletir sincero sobre a morte é um desafio não só para a filosofia, mas também, e com mais razão, para a teologia e a fé. A fé transmite uma imagem de Deus aos fiéis, e estes serão sustentados por ela no momento do morrer. Esta mesma imagem, contudo, poderá tornar-se mais um motivo de medo e angústia.⁸ Com relação a esse problema, descobrimos já nos estudos feitos por Solange Rodrigues, em São Paulo , um quadro bastante sério: “Embora os religiosos que responderam ao questionário da psicóloga tenham dito que as pessoas que têm fé enfrentam melhor a situação, Solange não chegou a constatar esta verdade”.¹ Pelo contrário, ela caracteriza como marcado pelo medo o estado psíquico das pessoas entrevistadas. Em nossa própria pesquisa, sobre a atitude das pessoas diante da morte, realizada em 1991/93, chegamos a esse mesmo resultado. Uma pesquisa psicológica sobre a atitude de crianças, diante de Deus, publicada em 1997, revela o seguinte fato: “Medo de Deus é o que mais estressa crianças”.¹¹ Não dá para negar que, em geral, as pessoas têm medo da morte, e, em muitos casos, este medo não está sendo diminuído pela sua crença religiosa em Deus, mas aumentado.¹² Nós deparamos assim com o grave fato de que a fé, em muitos casos, não tira a angústia das pessoas diante da morte nem diante do que vem depois. A problemática desta constatação deve preocupar-nos ainda nos capítulos a seguir. A partir dos resultados das pesquisas respectivas, verificamos que, ainda hoje, estamos colhendo os frutos de uma catequese que, durante séculos, trabalhou demais com uma pedagogia centrada na ameaça religiosa, ao invés de acentuar o amor. A consequência deste fato é um medo, muitas vezes reprimido e inconsciente, diante de tudo aquilo que vem depois da morte. Esse medo encontra as suas razões basicamente nos seguintes conteúdos religiosos: — Uma falsa imagem de Deus (Deus vingador). — Ameaças metafísicas indiretas. — Ameaças apocalípticas de um Deus punidor. — Ameaças de ser seduzido pelo diabo. — Ameaças de acabar no inferno.¹³ 1 R. A. Moody, Vida depois da vida. 2 Fritz Leist, Gesundheit und Krankheit der Seele, p. 34. 3 E. Kübler-Ross, Morte, estágio final da evolução, p. 30. 4 Op. cit., p. 30. 5 Ibid., in Etudes, Paris, août-septembre, 1982, p. 188. 6 Op. cit., p. 189. 7 Cf. John Bowkler, Os sentidos da morte. 8 Cf. sobre este assunto o livro específico do autor, sobre o medo religioso dos cristãos e sua superação: Renold J. Blank, Esperança que vence o temor, 1995. 9 Cf. Folha de São Paulo, 1º de julho de 1983, p. 14. 10 Cf. Folha de São Paulo, ibid. 11 Folha de São Paulo, 27 de abril de 1997, cad. 3, p. 1; também: O Estado de São Paulo, 28 de fevereiro de 1997, cad. A, p. 19. 12 Cf. Renold J. Blank, op. cit., pp. 15-32; 49-82; 145-161. 13 Cf. Idem, op. cit. 2 A ATITUDE PSICOSSOCIAL DIANTE DA MORTE 2.1. O século XX, marcado pela privatização progressiva do morrer Uma pessoa que morre quebra a rotina daqueles que a rodeiam. Pelo menos isso acontecia até o começo deste século, quando o morrer se dava junto à família. Como se dizia antigamente, depois de ter posto em ordem seus assuntos terrenos, o moribundo se deitava para morrer, rodeado de amigos, familiares e empregados da casa. O falecimento era ato público que, com toda a sua dignidade e solenidade, expressava a seriedade do que acontecia ali. Philippe Ariès, em seu livro O homem diante da morte, relata que “os médicos higienistas do fim do século XVIII começaram a se queixar da multidão que invadia o quarto dos moribundos. Sem grande êxito, já que no início do século XX, quando se levava o viático a um doente, qualquer pessoa, até os desconhecidos da família, podiam entrar na casa e no quarto do moribundo”.¹ Em seu livro Os cadernos de Malte Laurids Brigge, o poeta Rainer Maria Rilke descreve, através de imagens bastante expressivas, a consternação causada pela morte de uma pessoa naqueles que a rodeiam: “A morte do camareiro Christoph Detlev Brigge, em Ulsgaard. Ele jazia no meio do piso, transbordando imenso do uniforme azul-marinho, e não se movia. Em seu grande e estranho rosto, já desconhecido por todos, os olhos estavam cerrados: não viam mais o que acontecia. (…) Mas havia algo mais. Era uma voz, a voz que há sete semanas ninguém conhecia, pois não era a voz do camareiro. Essa voz não pertencia a Christoph Detlev, mas à morte de Christoph Detlev. Há muitos, muitos dias, a morte de Christoph Detlev habitava Ulsgaard e falava com todos, e exigia coisas. (…) Exigia e gritava. Depois, quando a noite baixava, e aqueles entre os criados exaustos que não precisavam vigiar tentavam dormir, a morte de Christoph Detlev berrava, e gemia, e urrava tanto, sem parar, que os cães, uivando juntos no início, agora emudeciam, não ousando deitar-se, e tinham medo, sobre as longas pernas esguias e trêmulas. Quando as pessoas da aldeia ouviam aqueles urros perpassando a ampla e prateada noite de verão dinamarquesa, erguiam-se como nas noites de tempestade, vestiam-se, ficavam sentadas ao redor do lampião, silenciosas, até tudo acabar. As mulheres prestes a dar à luz eram postas nos aposentos mais afastados, nas alcovas mais espessas; ainda assim ouviam tudo como se estivesse acontecendo dentro de seus próprios ventres. E suplicavam que as deixassem levantar; e vinham, brancas e volumosas, sentar-se junto aos demais com seus rostos diluídos. (…) A morte de Christoph Detlev, morando agora em Ulsgaard, não se deixava pressionar. Chegara para ficar dez semanas, e foi o que fez. (…) Aquela não era a morte de hidrópico qualquer, era a morte perversa e principesca que o camareiro carregara em si a vida toda, e alimentara consigo mesmo. Todo o excesso de soberba, poder e autoridade que não conseguira gastar nos dias calmos, entrara na sua morte, e era essa morte que agora se alojava em Ulsgaard, e se esbanjava”.² O que é descrito aqui, de forma poética única, é a inevitabilidade do morrer, que não leva em conta nenhuma convenção humana. Com ênfase rara, o texto de Rilke faz observar a relação indissolúvel existente entre o morrer e a vida anteriormente vivida. “…a morte perversa e principesca que o camareiro carregara em si a vida toda, e alimentara consigo mesmo.” Esta morte é vivida e vivenciada como acontecimento de caráter totalmente público e, justamente por não ser ocultada, torna-se ainda mais comovente. O autor citado anteriormente, Philippe Ariès, chama nossa atenção repetidas vezes para o fato de não se ocultar a morte, que caracterizava a vivência do morrer até o início do século XX. No segundo volume de sua obra O homem diante da morte, encontramos o seguinte comentário sobre o assunto: “Ainda no início do século XX, digamos até a guerra de 1914, em todo o Ocidente de cultura católica ou protestante, a morte de um homem modificava solenemente o espaço e o tempo de um grupo social, podendo estender-se a uma comunidade inteira, como, por exemplo, a aldeia.Fechavam-se as venezianas do quarto do agonizante, acendiam-se as velas, punha-se água benta: a casa enchia- se de vizinhos, de parentes, de amigos murmurantes e sérios. O sino dobrava a finados na igreja de onde saía a pequena procissão que levava o Corpus Christi…”³ A cerimônia religiosa tinha seu lugar incontestável em todo o decurso dos acontecimentos, e todos sabiam que ali alguém se preparava para encontrar-se com seu Criador e Senhor. 2.2. A privatização do morrer significa alienação do morrer Com a instituição da assistência médico-hospitalar, com a transformação das condições habitacionais, do ambiente social e das convenções da sociedade, sobretudo no contexto das cidades grandes e das aglomerações industriais, tudo mudou. A morte perdeu o seu caráter de cerimônia pública e tornou-se ato de caráter cada vez mais privado. E à medida que o internamento de doentes incuráveis acompanhou o aperfeiçoamento da assistência médica, assim o hospital também se tornou o lugar normal para se morrer. Isso não significa só a privatização do morrer, mas, na maioria dos casos, a alienação do morrer. Alienação esta que pode alcançar até a exclusão dos próprios familiares. Desta maneira, o morrer fica desprovido de seu sentido e assim não estamos mais conscientes do fato de a morte ser parte integrante da vida. O falecimento de um ser humano se transforma, deste modo, em caso clínico, e a morte em falência da arte da medicina. O morrer perdeu sua dimensão humana, ou esta dimensão foi reprimida. E, justamente com esta repressão, extinguiu-se também do consciente de muitas pessoas a dimensão religiosa do falecimento. O MORRER PERDEU SUA DIMENSÃO HUMANA E RELIGIOSA. Mais e mais vozes têm-se manifestado, nos últimos anos, contra a coisificação do ser humano nas UTIs de clínicas especializadas em atendimento de casos fatais. As pesquisas de Elisabeth Kübler-Ross e de muitos outros contribuíram para que hoje se pense e estude seriamente uma reumanização do morrer. 2.3. Onde, nesta situação, há lugar para a religião? Devemos perguntar-nos, porém, onde há lugar para a religião em tudo isso. Onde estão as respostas que uma teologia moderna, libertadora e orientada pela boa nova do evangelho pode dar à questão dos moribundos? Que resposta dar às perguntas sobre o sentido da morte? Para número cada vez maior, ela parece absurda, indigna da pessoa humana, ou, simplesmente, fato amedrontador e horrível, acontecimento que deve ser reprimido na consciência, na medida do possível. “A maneira pela qual a nossa sociedade nega a morte”, diz Elisabeth Kübler- Ross, “não traz nem esperança nem empresta nenhum sentido a este fato, somente aumenta nosso medo e nossa vontade de destruir.”⁴ O problema básico da negação ou da repressão da morte, aqui formulado, em sua essência também vale para a realidade latino-americana. Temos a impressão de que o interesse despertado ultimamente pela questão da morte ainda é muito limitado. A fuga domina abertamente. Não gostamos de falar da morte. Em consequência desta atitude fundamental, frequentemente falta em nossos hospitais a preparação do moribundo para a morte. É assim que muitas vezes se esconde, pelo mais longo tempo possível, o estado do moribundo, não só dele mesmo, mas também de seus familiares. Neste contexto, parece-nos apropriado chamar a atenção para uma pesquisa realizada em São Paulo. A psicóloga Solange Rodrigues tenta esclarecer o significado dos valores que a morte tem no processo de morrer. Em artigo do jornal Folha de São Paulo, de 1º de julho de 1983, ela sintetiza os seus resultados da seguinte maneira: “Cria-se uma espécie de redoma junto dos pacientes, onde as palavras doença, câncer e morte são cuidadosamente evitadas. A família recusa-se a tocar no assunto, temendo que o estado clínico da pessoa venha a piorar e com receio de magoá-la. Os médicos preferem não dizer exatamente aos doentes o que eles têm, transmitindo a notícia aos parentes próximos”. Esse texto reflete uma vez mais a convicção, não externada, de que o morrer e a morte são interpretados como falência da arte da medicina. Parece que, para muitos, a morte alcança o significado de humilhação para todos aqueles que se esforçam por salvar vidas. A este fato acrescenta-se, de um lado, a angústia latente que largas camadas de nossa população sentem em relação à morte e, de outro lado, observamos, ao mesmo tempo, uma apatia pronunciada sobretudo nas áreas dos grandes centros urbanos. 2.4. Morrer e as situações da morte como vivência cotidiana dos povos do Terceiro Mundo A banalização e anonimidade do morrer adquirem maior gravidade ainda quando, além de constatadas na vivência de indivíduos isolados, tornam-se a experiência cotidiana de grande parte de uma população. Isso é o que acontece de maneira generalizada entre os povos do Terceiro Mundo. A privatização da morte no século XX:⁵ A morte deles já começa como a “morte social” muito antes do próprio fato de a vida acabar. E, ao acontecer finalmente a morte física, o indivíduo submerge na imensa massa daqueles que não têm voz nem nome. A morte do filho de lavrador analfabeto e a do marginal ou do mendigo nos subúrbios dos grandes centros urbanos não é interpretada como sendo falência da medicina, porque aí não entram em jogo os cuidados médicos. Mortes como essas só podem ser interpretadas muitas vezes como sendo o resultado de estruturas marcadas pelo desprezo da vida em si, ou especialmente da vida do pobre. CONTRADIÇÃO ENTRE AS SITUAÇÕES DE MORTE SOCIAL E A MENSAGEM DO DEUS QUE QUER A VIDA. O desprezo da vida, porém, nos põe em oposição àquele que se definiu como não sendo “Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mc 12,27). Este Deus que quer a vida revelou-se nas ações de Jesus de Nazaré. Ele lutou para que os homens “tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Esta vida, porém, começa aqui e agora, na história concreta, desde que Jesus debelou as forças de desumanização do homem. Nas palavras dele, os cristãos vêm-se apoiando há dois milênios, mas, apesar de tudo, a experiência da morte social não acabou — muito pelo contrário: “Nas nações pobres do mundo — o Sul — a expectativa média de vida é… inferior a 50 anos. Nos países mais pobres do Sul, uma criança entre quatro morre antes dos 5 anos de idade e mais de 50% estão condenadas ao analfabetismo vitalício. No Sul vivem hoje 800 milhões de pessoas em condição de pobreza ou miséria absoluta com cerca de 500 milhões sofrendo de subnutrição de proteínas em alto grau”.⁷ No quadro mundial, são cerca de 110.000 pessoas que morrem de fome por dia. “Segundo a FAO, 50 milhões de pessoas morrem de fome no mundo anualmente, dezessete milhões das quais são crianças menores de 5 anos.”⁸ “Hoje ninguém pode ignorar que, em continentes inteiros, são inumeráveis os homens e as mulheres torturados pela fome, inumeráveis as crianças subalimentadas, a ponto de morrer grande parte delas em tenra idade e o crescimento físico e o desenvolvimento mental de muitas outras correrem perigo”. Na sua encíclica Populorum progressio, o papa Paulo VI denuncia esta situação com palavras muito claras: Devido ao agravamento da crise econômica, este quadro de mortandade se agrava cada vez mais. É esta dança macabra que se apresenta com as mesmas características na esmagadora maioria dos países do hemisfério sul. A isto se acrescenta a ameaça da morte causada pelas guerras ou perseguições ideológicas.¹ Por trás dos números de milhares e dezenas de milhares de mortos, escondem-se as tragédias mortais de povos inteiros. Esconde-se também a dura realidade, e a experiência de muitos desses nossos povos marcados por perseguições de cristãos, só comparáveis às que foram desencadeadas no Império Romano pagão. Juan Hernández Pico resume esse fato com as seguintes palavras muito claras: “Na AL hoje são assassinados cristãos inocentes, crianças ainda dependentes do seio materno e adultos pertencentes ao laicato, à vida religiosa e à hierarquia”.¹¹ Os mártires reaparecem. É, pois, absolutamenteverdadeiro o que Florisvaldo Saurin Orlando escreve: “A experiência da morte é uma das mais generalizadas e múltiplas em nosso continente: morte física e moral, individual e coletiva, como acontecimento inevitável e fruto da limitação humana…”¹² Encarando todos esses fatos, é tarefa urgente de uma teologia libertadora despertar a consciência para o significado humano e sacramental daquele acontecimento que chamamos “o fim da vida”. Através de uma teologia da morte, devemos redescobrir a força que se esconde atrás da mensagem cristã sobre a morte; mas devemos conscientizar-nos também de que essa força, na consciência de nosso povo, foi enterrada por muito tempo, devido a uma visão exageradamente ameaçadora. DEVEMOS REDESCOBRIR O DEUS DA VIDA. Devemos redescobrir o Deus da vida, para que assim a morte se transforme em vida; em vida real que se realiza na história concreta, transformando esta história naquele reino da vida que Jesus Cristo denominou o Reino de Deus. 1 Philippe Ariès, O homem diante da morte, p. 21. 2 Rainer Maria Rilke, Os cadernos de Malte Laurids Brigge, pp. 10-12. 3 Op. cit., vol. II, p. 612. 4 Elisabeth Kübler-Ross, Interviews mit Sterbenden, p. 21. 5 Cf. Robert Kastenbaum e Ruth Aisenberg, Psicologia da morte, pp. 149-214. 6 Idem, op. cit., p. 185. 7 Roger Riddell, in Concilium, 160 — 1980/10, p. 42 8 Felix Moracho, Na escola da fé, p. 77. 9 Paulo VI, O desenvolvimento dos povos, n. 45. 10 Orientierung 14/15 (46), aug, 1982, p. 154. 11 Concilium, 183 — 1983/3, p. 57. 12 F. S. Orlando, “As oportunidades da espiritualidade da cruz na América latina”, em VV. AA., A cruz, teologia e espiritualidade, p. 83. 3 A COMPREENSÃO CLÍNICO-TANATOLÓGICA DO MORRER Mediante pesquisas atuais sobre a morte, ficou claro mais uma vez que o fenômeno do morrer está estreitamente relacionado com todos os planos da existência humana. Às questões médicas e psicológicas devem ser acrescentados os aspectos de caráter jurídico e sociológico, além das contribuições da filosofia e da teologia. Mencionaremos a seguir, de forma sucinta, alguns dos aspectos mais importantes deste extenso problema. Para estudo mais aprofundado sobre o tema, recomendamos a literatura específica.¹ 3.1. O termo “morrer”, encarado do ponto de vista médico O fim do morrer, considerado aqui como fenômeno existencial, é alcançado na morte. As opiniões sobre o momento preciso, em que a morte se consuma, têm divergido muito nos últimos anos, principalmente por causa da influência do aprimoramento cada vez maior da técnica no campo da medicina. Foi constatado que era pouco preciso o que até há pouco tempo era visto como a situação final, isto é, a parada cardíaca e respiratória. Hoje em dia, diferencia-se a morte de cada órgão em separado — a chamada morte orgânica. A morte de uma pessoa estará consumada quando não forem mais registradas ondas elétricas cerebrais. Klaus Thomas diz, porém, que a “morte do homem”, no sentido de morte integral do organismo humano, “não deve ser equiparada ao conceito médico de morte cerebral”.² Isto porque as experiências clínicas dos anos passados demonstram claramente que quase cada órgão humano tem a sua própria morte por si mesmo. Apesar de ser o cérebro uma parte essencial do ser humano, nem a sua morte pode ser interpretada como a morte de tudo o que chamamos de “corpo”. Hans Küng aponta o fato de que, apesar de uma pessoa já ter sido considerada morta por diagnóstico feito com base em eletroencefalograma, “ela pode ser reanimada, por exemplo, em casos de resfriamento passivo ou de envenenamento por doses excessivas de sedativos”.³ A partir destes dados, concluímos ser necessário distinguir claramente entre o momento da morte clínica e o da morte vital propriamente dita. Esta última é caracterizada “pela perda irreversível das funções vitais”,⁴ ou, ainda, como “o estado do corpo, do qual é impossível voltar à vida”.⁵ Entre o momento da morte clínica e o da morte vital há, via de regra, um espaço de tempo de aproximadamente cinco minutos, e em casos extremos este período pode ser de até trinta minutos. Do ponto de vista da medicina, o morrer acontece da seguinte forma: 3.2. Quadro psicossocial do morrer Partindo-se de uma perspectiva orientada antes pelo ponto de vista psicossocial, deveríamos diferenciar esse esquema ainda mais, fazendo a distribuição entre viver conscientemente o morrer e o que vem depois, isto é, o que a seguir chamaremos de morrer clínico. Na qualidade de fenômeno existencial e psicossomático, o morrer inicia-se muito antes da morte clínica. Para Martin Heidegger, a totalidade da existência humana é um ser-para-a-morte. E ele entende, com isso, “um ser que não caminha simplesmente para o acontecimento futuro, isto é, para a morte; ao contrário, o homem é um ser que, mal nasceu, já começa a morrer. O morrer está intimamente ligado à existência humana… Morrer é uma forma de ser que o homem assume com sua existência”.⁷ Assim, então, o morrer inicia-se de fato com o nascimento da pessoa. Curiosamente, este ponto de vista que era ainda aceito incondicionalmente no período barroco, traz sérios problemas à maioria dos contemporâneos do grande filósofo existencial. A interligação entre os problemas citados acima e a problemática da repressão do pensamento da morte já foi comentada anteriormente. Do ponto de vista vigente hoje em dia, o morrer é tido por aquele período de vida, mais ou menos longo, com o qual o ser humano tem de se conformar, uma vez por todas e muitas vezes a contragosto, de que sua vida findará em breve. Desse modo, podemos ampliar da seguinte maneira o esquema apresentado anteriormente: 3.3. Experiências e relatos de pessoas clinicamente mortas, mas reanimadas pela medicina Nos últimos anos, grande número de pesquisas, sérias em sua maioria, tem-se ocupado de vivências relatadas por pacientes mortos do ponto de vista clínico que, mediante esforços médicos, foram trazidos de volta à vida. Os depoimentos mais conhecidos sobre o assunto, ao lado dos estudos de Elisabeth Kübler-Ross, são os relatos de 150 pessoas que estiveram por algum tempo clinicamente mortas, e que R. A. Moody reuniu no seu livro Vida depois da vida. No prefácio, E. Kübler-Ross explica o seguinte: “A pesquisa, como a que o Dr. Moody nos apresenta no seu livro, é que nos esclarecerá muitas questões e confirmará o que tem sido ensinado há 2.000 anos: que há vida depois da morte”.⁸ Esta proposição admite, de antemão, que, a partir dos estudos mencionados, é possível deduzir-se indícios claros do que acontece com o ser humano depois da morte e que realmente acontece algo. Partindo do ponto de vista imparcial e científico, devemos manter em mente o fato de que todos esses relatos de pessoas clinicamente mortas, que são conhecidos até hoje, tratam do que se passa aquém daquela fronteira que foi denominada aqui de morte vital. Eles todos provêm daquela zona limítrofe da vida humana existente entre a morte clínica e a morte vital. Alfred Läpple a denomina “terra de ninguém entre este e o outro mundo”. Por conseguinte, todas estas experiências também não podem esclarecer o que ocorre com o ser humano depois da morte vital. Mas, por outro lado, deve-se aceitar que, com base na semelhança da maioria dos relatos conhecidos até o presente momento, esses relatos podem, pelo menos, nos dar indicações sobre determinadas experiências vividas durante a morte clínica, indícios estes que, dentro do contexto de nossa indagação, talvez possam ser reunidos sob a palavra-chave “vivência na morte”, mas não após a morte. Se examinarmos os principais elementos dos relatos sobre o morrer, reunidos por diversos pesquisadores,¹ notaremos sobretudo quatro experiências básicas que se repetem frequentemente: — “O homem encontra-se fora de seu corpo”. — “Aparece diante dele um caloroso espírito de uma espécie que nunca encontrou antes — um espírito de luz”. — “Este ser pede-lhe, sem usar palavras, que reexamine sua vida, e o ajuda, mostrando uma recapitulação panorâmicae instantânea dos principais acontecimentos de sua vida”.¹¹ — “Uma ampliação do horizonte do eu humano, geralmente, ligado a um estado de felicidade”.¹² Sem nos aprofundarmos muito na questão quase insolúvel sobre até que ponto é que se trata aqui de vivências e que já se encontram além da nossa experiência humana de vida, podemos constatar que as revelações dos relatos sobre o morrer não contradizem absolutamente o que pode ser afirmado sobre a morte com base na revelação cristã. Pelo contrário, é extremamente interessante observar que os relatos sobre o panorama da vida ressaltam que não se trata de ser julgado ou não. O panorama da vida está antes ligado à visão de um ser de luz. R. A. Moody afirma a esse respeito: “O que é, talvez, o mais incrível elemento comum dos relatos que estudei, certamente o elemento que exerce o mais profundo efeito sobre o indivíduo, é o encontro com uma luz muito brilhante… Apesar da manifestação inusitada da luz, ninguém expressou qualquer dúvida de que se tratasse de um ser, um ser de luz… um ser pessoal… O ser quase imediatamente dirige certo pensamento à pessoa… como se fosse uma pergunta. Entre as traduções que ouvi, estão as seguintes: ‘Você está pronto para morrer?’. ‘O que é que você fez de sua vida que possa mostrar?’, e ‘O que você fez com sua vida já é suficiente?’… Inicialmente, devo insistir que a questão, profunda e final como parece ser no seu impacto emocional, não é feita como uma condenação. Todos parecem concordar que o ser de luz não faz a pergunta para acusar ou para ameaçar, pois sentem todos o total amor e aceitação vindos da luz, qualquer que seja a resposta”.¹³ Diante de tais pesquisas sobre a experiência de moribundos reanimados, podemos nos perguntar se estas experiências confirmam de certa maneira, no plano científico, aquilo que a teologia sempre dizia. É grande a tentação de buscar nestes resultados de pesquisas apoio ao discurso teológico. Devemos, porém, ter consciência de que, do ponto de vista científico, uma equação “ser de luz = Cristo” não pode ser aceita. O que se pode dizer é apenas isto: os resultados das pesquisas mencionadas não contradizem aquilo que a teologia e a fé cristã sempre formulavam. E se as experiências recentes da ciência revelaram que o moribundo vivencia depois da morte clínica um “panorama de vida”, então também este resultado não é contraditório a uma visão teológica. Na morte, diz a teologia, será impossível para o ser humano ignorar a sua própria vida. 1 Cf., por exemplo, Klaus Thomas, Warum Angst vor dem Sterben, pp. 11-26. 2 Klaus Thomas, op. cit., p. 27. 3 Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 34. 4 R. A. Moody, Vida depois da vida, p. 142. 5 Ibid. 6 Hans Küng, op. cit., p. 35. 7 Joseph Moeller, Zum Thema Menschsein, p. 36. 8 R. A. Moody, op. cit., p. 9. 9 Alfred Läpple, Der Glaube an das Jenseits, p. 89. 10 Além dos relatos de Moody, são também de grande interesse as fontes e relatos sobre estudos que Hans Küng e Klaus Thomas citam. Sobre os resultados mais recentes das pesquisas tanatológicas respectivas, vide também: Renold J. Blank, A morte em questão. 11 Cf. R. A. Moody, op. cit., pp. 27-28. 12 Veja Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 26, e também Klaus Thomas, Warum Angst vor dem Sterben, pp. 47-73. 13 R. A. Moody, op. cit., pp. 62-65. 4 CONSIDERAÇÕES PSICOLÓGICAS: AS PESSOAS NO CONFRONTO DIRETO COM A MORTE 4.1. Comportamento do moribundo em face do morrer Em tempos normais, agimos “sem realmente jamais acreditar em nossa própria morte; como se acreditássemos piamente em nossa (…) imortalidade física. Tencionamos dominar a morte”.¹ Na época em que estamos para morrer, isto não é mais possível. E assim o ser humano se encontra perante o conflito fundamental entre aceitar este fato e a sua vontade imanente de autoconservação. Para Kierkegaard esta é a problemática existencial por excelência: “Saber que o homem é comida para os vermes. Este é o terror: ter emergido do nada, ter um nome, consciência do próprio eu, sentimentos íntimos profundos, um cruciante anelo interior pela vida e pela autoexpressão e, apesar de tudo isso, morrer. Parece uma burla, pela qual um tipo de homem cultural se rebela ostensivamente contra a ideia de Deus. Que espécie de divindade criaria tão complexa e extravagante comida para vermes?”² O protesto de Bernard Duburque, de que “la mort est injustifiable”,³ visto a partir da perspectiva de Kierkegaard, apresenta-se com toda a sua grandeza. Ocupar-se dela é a exigência inevitável, que se apresenta ao moribundo. E daí surgirá forçosamente também a pergunta sobre seu relacionamento com Deus. Contudo, este é problema relacionado, por um lado, com a vida anteriormente vivida e, por outro lado, com o fato de se aceitar ou não uma vida depois da morte. No que se refere à influência das convicções religiosas sobre o comportamento dos moribundos, Elisabeth Kübler-Ross se manifesta antes com reservas. Ela observou, no decorrer de suas pesquisas, que o morrer do homem normalmente se dá em cinco fases, de duração bastante variada.⁴ 1. Choque e incredibilidade. Não querer aceitar o fato como verdadeiro e isolamento. 2. Ira, rancor, raiva, inveja. (Por que logo eu?) Brigas com Deus e com o mundo. 3. Negociação (tentativa de prorrogar o inevitável). 4. Depressão (sentimento de perda irreparável). 5. Aprovação (o ser humano consente a morte). Segundo estudos da pesquisadora Kübler-Ross, em tais situações o comportamento de doentes devotos “quase não difere do dos pacientes sem fé”.⁵ Ela admite ter “deparado somente com poucos fiéis realmente crentes”, durante suas investigações, e continua: “A fé, porém, ajudou estes poucos. Eles se comportavam de forma semelhante aos ateístas convictos. A grande maioria dos pacientes encontravam-se, por sua vez, em algum ponto entre estes dois grupos e manifestavam uma fé que, por causa de suas angústias e seus conflitos, não era suficiente para libertá-los, de fato, interiormente”. A correlação aqui esboçada apenas por alto, entre a fé pessoal e a angústia em face da morte, pode ser vista mais claramente no estudo feito por J. Wittowsky. Em suas pesquisas, ele entrevistou, segundo a escala americana “Death Anxiety Scale”, pessoas de idade entre 67 e 91 anos, que vivem em asilos de velhos. Deste estudo resultou uma relação significativa entre o grau de angústia perante a morte e as atitudes religiosas fundamentais dos entrevistados. “Quanto mais firme a convicção religiosa, tanto menor era a angústia em face da morte.”⁷ Chegou-se a esses resultados após ter-se aplicado, em um hospital norte- americano, um programa de pesquisas, no qual foram observados durante oito meses oitenta e quatro moribundos, seguindo-se acurados métodos psicológicos. No resumo dos resultados lá obtidos, Raymond C. Carey escreve o seguinte: “O aspecto mais importante da variável religiosa era a qualidade da orientação religiosa — mais do que mera filiação ou aceitação verbal de crenças religiosas. Pessoas intrinsecamente religiosas (aquelas que tentavam integrar suas crenças em seu estilo de vida) tinham maior ajustamento emocional que os não cristãos”.⁸ (Ver quadro das pp. 35-36). 4.2. Comportamento do ministro religioso em face do morrer O morrer do homem tem ou não tem um sentido? A morte humana nada mais é que o inexplicável escândalo de uma vida que termina? Ou será que esta morte deve ser encarada como novo começo? “Os homens morrem e não são felizes”, grita Calígula, na obra de Camus, e o grito dele se junta ao brado de Jesus crucificado que também morreu gritando. No seu clamor, diz Jürgen Moltmann, não era apenas “a divindade de seu Deus e Pai que estava em jogo”,¹ mas também o sentido de tudo aquilo que é vida humana. No morrer de Jesus, assim como no de qualquer outro ser humano, surge o paradoxo insolúvel de que ali se finda algo que nunca mais e de modo nenhum podemos reencontrar nesta nossa vida aqui. Diante deste fato inegável, chega ao fim tudo aquilo que as pesquisas da Psicologia e da Tanatologia ou da Medicinatêm para oferecer. O único discurso que ainda pode agir, agora, é o da fé. É o representante desse discurso que está sendo desafiado. Como é que ele reage? Qual a sua atitude? Qual a sua resposta? O já citado livro de R. Kastenbaum e R. Aisenberg, Psicologia da morte,¹¹ apresenta vasto material a respeito do papel e do comportamento do ministro religioso diante do moribundo. O quadro seguinte mostra as conclusões mais importantes dos dois autores. (Ver quadro das pp. 38-39) 4.3. O discurso religioso corre o perigo de não corresponder aos anseios das pessoas O morrer coisificado em hospital já representa luxo inacessível para milhões de pessoas neste continente. A experiência dessas pessoas é marcada por outra forma de coisificação que vivem dia após dia: a fome, a doença, a miséria social e a marginalização em situação de pobreza desumana “e que se exprime, por exemplo, em mortalidade infantil, em falta de moradia adequada, em problemas de saúde, salários de fome, desemprego e subemprego, desnutrição, instabilidade no trabalho, migrações maciças forçadas e sem proteção”.¹² Além dessas experiências, escrevem os bispos em Puebla, existem ainda os outros sofrimentos causados por guerras; existem “angústias provocadas pela violência da guerrilha, do terrorismo e dos sequestros, efetuados por extremistas de sinais diversos”.¹³ Assim, a vivência do morrer inicia-se muitas vezes como a vivência de “morte social”, muito antes da constatação da morte clínica. Na experiência cotidiana de milhões de pessoas, a vida toma significado negativo, transformando-se em verdadeiro “viver-para-a-morte”. Em uma realidade destas, uma teologia da morte vê-se várias vezes ameaçada. a) Tentação de formular mensagem de consolo Por um lado, essa teologia é exposta ao perigo de tornar-se apenas simples consolo pelo anseio de vida melhor depois da morte, contribuindo assim de maneira culposa para o estabelecimento e a fixação das estruturas injustas. b) Perigo de se perder a dimensão transcendente da mensagem Por outro lado, a teologia, confrontada com as angústias e os anseios concretos dos homens, é exposta também a outro perigo. É o perigo de perder de vista sua relação transcendente. Isto poderia ir até o ponto em que essa teologia ficaria voltada apenas para a existência terrena, tornando-se assim uma espécie de sociologia religiosa ou de sociopsicologia. c) Perigo de se habituar à morte E, por último, temos um terceiro perigo que, contudo, não deve ser negligenciado: o elemento do hábito. Estamos na situação em que o morrer degenera em acontecimento cotidiano, banal e sem sentido: uma situação, em compensação, em que esse mesmo morrer atingiu importância cada vez mais comercial como estímulo para a tensão de telespectadores. Numa situação dessas, a teologia corre o extremo perigo de também se habituar à morte. d) Perigo de se contentar com as respostas e fórmulas habituais O hábito, porém, impede a elaboração de nova linguagem sobre o morrer. Contenta-se com as respostas tradicionais estabelecidas no decorrer de uma história milenar. No entanto, as perguntas de hoje não podem mais ser aclaradas com fórmulas do passado. Isso é válido, principalmente, para a matéria tratada neste livro. Sob a pressão desse múltiplo dilema, não é fácil reformular e proclamar o caráter sacramental, isto é, significativo, do morrer do ser humano. Mas é justamente aí que se situa a tarefa e o dever de uma teologia que se considera libertadora. De um lado, esta teologia deve, de maneira muito sincera, tomar a sério o fato indiscutível de que com a morte desaparece um ser humano. Do outro lado, esta mesma teologia é chamada a despertar aquela esperança que forma o núcleo da boa nova sobre Jesus Cristo. 1 G. Zilboorg, Fear of Death, cit. em Ernst Becker, A negação da morte, p. 35. 2 Ernst Becker, op. cit., p. 111. 3 B. Duburque, “La disparition de la camarde et l’avenir de l’homme”, em Etudes, août-set., p. 188. 4 E. Kübler-Ross, Interviews mit Sterbenden, pp. 41-119. 5 Op. cit., p. 220. 6 Ibid. 7 Vide J. Wittowsky, Tod und Sterben, Ergebnisse der Thanatopsychologie, Heidelberg, 1978. 8 Carey, R. C., cit. em Elisabeth Kübler-Ross, Morte, estágio final da evolução, p. 115. 9 Albert Camus, Caligula, p. 27. 10 Jürgen Moltmann, Der gekreuzigte Gott, p. 144. 11 R. Kastenbaum e R. Aisenberg, op. cit., pp. 96-98; 189-198. 12 Conclusões da Conferência de Puebla, n. 29. 13 Ibid., n. 43. Unidade II PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS DE UMA NOVA TEOLOGIA DA MORTE PARA O HOMEM DE HOJE 1 A TEOLOGIA DEVE SER CAPAZ DE DESPERTAR A ESPERANÇA DA VIDA Hoje em dia, acumulam-se as situações e as experiências da morte. Não se trata apenas da morte individual, mas, sim, de muitas outras situações da morte. A morte pela condição de miséria, a morte pelo desespero, a ameaça da morte pelas estruturas injustas, pela destruição do meio ambiente, pela droga. Mas todas estas situações culminam sempre na destruição do ser humano, na sua morte individual. O DEUS DA VIDA ESTÁ CONTRA AS SITUAÇÕES DE MORTE. Numa situação destas, uma teologia baseada na boa nova de Jesus Cristo é chamada a dar novo testemunho. Deve essa teologia testemunhar que o nosso Deus é o Deus da vida, denunciando as situações de morte. E, ao mesmo tempo, deve dar testemunho de que o sentido do morrer se relaciona inevitavelmente com o sentido da vida. Baseada nesta convicção, a fé em Jesus Cristo pode libertar do terror, em face da morte. O DEUS DA VIDA LIBERTA DO TERROR EM FACE da MORTE. A mensagem do Deus da vida pode libertar também da banalidade que hoje reduz a morte e a vida de tantas pessoas a existência insignificante, escondida em algum lugar no meio da massa, seja atrás das máquinas, seja de escrivaninhas de uma sociedade industrializada, que visa exclusivamente ao lucro; seja ainda na marginalização devida a uma pobreza encarada como vergonha. “A existência da maioria”, escreve Max Frisch em seu romance Die Schwierigen, “é existência de escravos que se alegram por já haver transcorrido mais um mês de sua vida”.¹ De fato, parece ser cada vez mais verdadeiro o que Fritz Leist já tinha afirmado em 1968: “Vivemos um esvaziar de sentido nunca antes observado”.² Esta perda de significado não poupa sequer a questão da morte do ser humano; pelo contrário, a consequência de vida sem sentido é morte também sem sentido. O DEUS DA VIDA DÁ SENTIDO ATÉ À MORTE. Em tal situação, as mensagens cristãs são exortadas mais do que nunca a ser uma boa nova para o homem de hoje, boa nova que lhe proporcione novo sentido de viver. O DEUS DA VIDA DÁ SENTIDO TAMBÉM À VIDA VIVIDA. A MENSAGEM DO DEUS DA VIDA DEVE SER TRANSMITIDA EM LINGUAGEM DE HOJE. O homem de hoje não fala mais a mesma linguagem como se falou no início do século. Sua compreensão do mundo difere totalmente da das pessoas da época do Concílio de Trento. Os símbolos que os nossos pais ainda compreendiam se tornaram enigmas para os filhos. Eles estão acostumados com a linguagem dos meios de comunicação e o pensamento de uma época marcada pela tecnologia e pelo consumo. Perante tal situação, uma das tarefas mais importantes da teologia atual da morte é encorajar e formar uma linguagem que o homem de hoje compreenda. Esta linguagem não se pode omitir de entrar no pensamento científico- tecnológico do homem contemporâneo. Mas também não pode distanciar-se dos fatos socioeconômicos, pelos quais é marcada a realidade latino-americana. Além do problema da banalização da vida, deve-se tomar em consideração o pressentimento muito difundido da insignificância desta vida. Pressentimento este que tem suas raízes na crescente marginalização de grandes camadas da população. São elas, em primeiro lugar, que esperam do teólogo um discurso que responda às suas experiências concretas e existenciais. 1.1. Apoiar-se nas experiências existenciais Os modelos teóricos de interpretação filosófica mostraram-se inadequados para responder aos anseios dos homens confrontados com a morte. O resultado dos estudos médico-psicológicossobre a questão do morrer também não são suficientes para nos proporcionar um ponto de partida satisfatório. Em tais circunstâncias, é oportuno buscarmos outros caminhos, apoiando-nos nas experiências existenciais do ser humano. Estas experiências existenciais, porém, devem ser integradas naquilo que a teologia tem a dizer sobre o morrer e a morte. E, ao mesmo tempo, temos de comparar o discurso teológico com os resultados mais atuais das pesquisas científicas. A partir desse ponto poderemos tentar transpor o abismo que detém e separa o homem do século XX (orientado pelas ciências exatas) das verdades da teologia, que se apresentam de forma simbólica e mitológica. Distinguem-se três grupos de perguntas, cujos objetivos podem ser formulados da seguinte maneira: 1. O que revelam as atuais pesquisas sobre o morrer e a morte do homem? 2. Que afirmações sobre o morrer e a morte podem ser obtidas a partir de uma reconsideração da essência das mensagens cristãs? 3. Podemos encontrar razões para que o homem possa superar o terror da morte, não como fuga, e sim como atitude de vida responsabilizada e responsável? Os resultados dessa série de pesquisas devem ser formulados pela teologia em linguagem que o homem de hoje reconheça e compreenda como “a sua”. Isso não significa, de modo algum, vulgarização ou até falsificação das verdades teológicas fundamentais. É antes a consequência de uma exigência que deve ser feita a toda teologia considerada séria. Ela deve ser servidora da palavra de Deus e, em consequência, servidora dos homens, cuja linguagem deve falar, a fim de ser entendida. 1 Cit. em Fritz Leist, op. cit., p. 27. 2 Id., ibid 2 A BÍBLIA FUNDAMENTA UM DISCURSO DE ESPERANÇA 2.1. Deus é um Deus que optou pela vida A tradição bíblica nos apresenta o Deus que é todo amor, e essa tradição nos mostra como ele provou ser o Deus vivo, desde sua entrada na história. O Deus que dá vida ao ser humano e, para o qual, aliar-se a ele sempre tem este significado: optar pela vida, e não pela morte. Não obstante a evolução da compreensão da morte, esta convicção se estende por todas as camadas da história da revelação. Esta convicção se evidencia, com clareza plástica, nos relatos do Gênesis¹ e apresenta-se com brevidade programática na literatura sapiencial dos Provérbios. E podemos ver nitidamente aqui que os conceitos de vida e morte não se esgotam no domínio da biologia, mas, pelo contrário, lemos em Pr 8,35-36 o seguinte: “Pois, quem me acha, encontra a vida e alcança o favor de Javé. Mas quem me ofende, prejudica-se a si mesmo; os que me odeiam amam a morte”. O que aqui está fundamentado torna-se, por fim, realidade na imagem de Deus, revelada em Jesus. Deus “não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mc 12,27). Este é, pois, o ponto de partida para se superar a morte, sem, contudo, desesperar: à antinomia entre o ser humano e a morte corresponde ainda outra antinomia entre Deus e a morte. Mas esse Deus não aboliu a antinomia em Jesus Cristo. Ele padeceu-a, suprimindo-a, desta maneira, em favor da vida. A morte continua sendo o termo, mas, depois do fim, surge novo começo. Esta é a esperança daqueles que creem. A partir dela é que a pessoa terá condições para enfrentar a morte e seu odioso evento. Só a esperança é que vence, por fim, o absurdo da morte. 2.2. Jesus Cristo, base e fundamento de nossa esperança A nossa esperança não está perdida no espaço. Mas baseia-se na confiança depositada na lealdade de um Deus, “o qual faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). Deus deu provas de sua lealdade na ressurreição daquele que não abandonou a confiança nele depositada, nem mesmo quando estava preso na cruz, naquela forca abominável da Antiguidade. Em Jesus Cristo, o próprio Deus morreu “a morte violenta dos criminosos na cruz, a morte do abandono total por Deus”.² “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Mas ao grito horrível e absolutamente incompreensível de tal abandono total por Deus não seguem o nada e o silêncio, mas, sim, a ressurreição, três dias depois. E “o Deus humano de todos os homens ímpios e abandonados por Deus”³ reaparece. Um sinal de esperança para todos aqueles que, do contrário, não poderiam mais ter nenhuma esperança. A consequência disto é evidente e foi formulada com precisão: “Irmãos, não queremos que ignoreis o que se refere aos mortos, para não ficardes tristes como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também os que morreram em Jesus Deus há de levá- los em sua companhia”. (1Ts 4,13-14). O que se diz aqui sobre os cristãos estende-se em 1Cor 15,12-18.20-22 a toda a humanidade. As frases do apóstolo a este respeito foram formuladas de maneira tão expressiva como nenhuma publicação posterior jamais o fez. Elas contêm todo o mistério da esperança humana e da lealdade de Deus. “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação e também é vã a vossa fé. Além disso, seríamos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não o ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, e, portanto, continuais nos vossos pecados, estando perdidos, também, aqueles que adormeceram em Cristo… Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida.” (1Cor 15,12-18.20-22) Nestas frases está fundamentado o que, como novo constitutivo, deve determinar a vida e a morte das pessoas: a fé em que aquele Deus da vida também é leal e conserva esta lealdade para com o homem para além da morte. O DEUS DA VIDA É FIEL AOS HOMENS. Esta fé, porém, não está perdida no espaço; ela é sustentada e assegurada pelo testemunho da ressurreição de Jesus. O que antecipou em Jesus Deus fará também conosco; esta é a convicção de fé em que São Paulo se baseia. Com isso, a ressurreição de Jesus torna-se sinal de esperança para todos os homens que, marcados pelas disputas e lutas desta vida, desesperadamente indagam, em face da morte, qual o sentido de todos os seus esforços. “Pela ressurreição”, afirma Benedito Ferraro, “Deus aceita a luta de Jesus e ao mesmo tempo abre aos homens uma perspectiva de futuro, onde as barreiras que impedem a integral libertação do homem já não terão a última palavra”.⁴ A mensagem de esperança, formulada pela Revelação: Na ressurreição de Jesus, Deus revela-se de maneira que vai muito além de todas as afirmações anteriormente feitas sobre ele. Deus define a si próprio como o Deus QUE RESSUSCITA OS MORTOS. 2.3. Deus é o Deus que ressuscita os mortos O que Deus manifestou em Jesus como sacramento e sinal de sua presença que dá vida e liberta da morte prova ser, de fato, nova definição de si mesmo. Aquele que afirmou ser ele próprio a vida; aquele que, no decurso da história do homem, demonstrou ser ativo e redentor, esse mesmo Deus prova agora ser também aquele que ressuscita dos mortos e que não admite a morte. Ele se mostra como aquele que, fiel à sua natureza, opta pela vida e contra a morte, sempre e em todos os lugares. E esta atividade de Deus que proporciona vida é, aqui e agora como sempre, ação histórica e concreta que conduz à liberdade. Por ocasião do êxodo do Egito, Deus libertou “o povo de um tirano histórico (…) e aqui Jesus é libertado da tirania da morte para a liberdade”.⁵ O que aconteceu com Jesus, porém, é a essência e o âmago da boa nova da páscoa e ao mesmo tempo antecipação daquilo que sucederá a cada pessoa: Deus ressuscita dos mortos! Se ele assim procede, podemos então deduzir que isso não acontece apenas paratornar a impelir o homem ressuscitado para o nada, condenando-o. Para tanto, não seria preciso que Deus primeiro o salvasse da morte. Assim sendo, conclui-se ser possível vencer a angústia ante a condenação e o julgamento com ousada confiança básica naquele que faz reviver para a vida, e não para a morte; com ousada atitude de fé naquele Deus que só tem boas intenções para com o homem. O Deus anunciado por Jesus é o Deus amoroso, “o qual faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). Na dialética deste amor divino “a morte de Jesus Cristo revela, assim, a verdade do ato de salvação de Deus”. 2.4. O homem é salvo, porque Deus o adotou como filho em Jesus Cristo A partir desta perspectiva, desenvolveu-se, nas primeiras gerações cristãs, aquela certeza de salvação esperada e esperançosa, que fazia da mensagem sobre a morte e a ressurreição de Jesus uma feliz, venturosa e boa notícia, um “eu- angelion”. Aquele que tem fé sabe estar seguro na certeza de nova vida, transmitida por Jesus ressuscitado, vida que já se inicia muito antes da morte, vida na qual a morte já perdeu o seu aspecto assustador, porque não vai dar no nada, mas, sim, em nova existência em Deus… Consequentemente, à luz da ressurreição, o fim da vida transforma-se em algo completamente novo para o pensamento secularizado e revela-se como segundo nascimento: renascimento. E assim como todo nascimento abre para o homem caminhos que o conduzem a novos e alargados horizontes de vida, assim também a morte arranca o ser humano do isolamento e do enclausuramento, a fim de lhe proporcionar formas de ser totalmente novas e imprevisíveis. A partir desta perspectiva, parece decorrência natural chamar Jesus Cristo de “primogênito de toda criatura” (Cl 1,15). “Ele é o primeiro de uma multidão de irmãos, da multidão dos filhos adotivos de Deus (Hb 2,12), mas nascido de Deus de maneira única como o próprio Filho único de Deus, pois é em Jesus Cristo que Deus nos reconhece como seus filhos.”⁷ Na epístola aos Romanos, São Paulo reforça ainda mais este pensamento, fazendo referência ao envio do Espírito: “Não recebestes o espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,15-17). Joseph Moingt frisa este novo e imponente aspecto da autorrevelação de Deus; revelação que serve para eliminar o último vestígio de angústia ante o Deus terrível e condenador. “Assim a morte de Cristo nos ensina que… a nossa salvação consiste em tornar- nos filhos de Deus a título de herdeiros de Cristo… Deus nos salva, revelando ser Pai cheio de amor, revelando o seu amor a nós, seu amor ferido; isto é revelação que possibilita a nossa fé, pois ela provoca o nosso amor.”⁸ 1 Gn 2,7: “Então Javé, Deus, modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida, e o homem se tornou um ser vivente”. 2 Jürgen Moltmann, Der gekreuzigte Gott, p. 265. 3 Id., ibid., p. 181. 4 Benedito Ferraro, A significação política e teológica da morte de Jesus, p. 230. 5 Jürgen Moltmann, Der gekreuzigte Gott, p. 176. 6 Joseph Moingt, “La révélation du salut dans la mort du Christ”, em Mort pour nos péchés, p. 158. 7 Cit. em J. Moingt, op. cit., p. 160. 8 Ibid. 3 O PROBLEMA: A CONFIANÇA NA SALVAÇÃO ENFRAQUECEU NO DECORRER DA HISTÓRIA Para a fé baseada na esperança, é extremamente trágico o deslocamento da ênfase, ocasionado pelas perseguições sofridas pelos cristãos nos séculos II e III. Nestes séculos desviou-se cada vez mais a atenção daquela certeza de salvação que proporciona felicidade. O que então se transformava no centro das atenções era a indagação sobre o que sucederia, na morte, àqueles que não creem, aos perseguidores, aos ímpios. Dentro deste contexto, quanto mais o interesse se voltava para a literatura apocalíptica, originalmente gentio-judaica, e para suas terríveis e horripilantes imagens do juízo e do castigo, tanto mais o otimismo da certeza fundamental de salvação era encoberto outra vez pelo medo. O que a princípio fora escrito com intenções pedagógicas, visando à intimidação e à conversão dos perseguidores de cristãos, não alcançou seu objetivo de modo algum. Os perseguidores não se converteram. Entretanto, diante das visões ameaçadoras, os cristãos, por sua vez, perderam de vista o aspecto mais importante de sua boa nova. Pois, com o passar dos séculos, as perseguições acabaram, mas as terríveis imagens apocalípticas ficaram. Segundo Herbert Vorgrimler, elas são “o motivo principal que faz com que, sob o efeito do pensamento moderno, emancipatório, a morte se torne tabu também para os cristãos”.¹ Para fazer frente a esta evolução negativa é que hoje somos exortados a aclamar a mensagem original de Jesus Cristo, a mensagem do Deus fiel, que ama os pecadores e os segue até na experiência terrível e assustadora de sua própria desunião, onde Deus é abandonado por Deus, a fim de que nenhum homem jamais seja abandonado novamente por ele. E por isso é verdadeira a afirmação teológica de que o Deus estrangulado em Jesus foi o último ser que teve de morrer gritando de dor e de desespero. Pois ele, em seu grito de abandonado total de Deus, extrapolou e venceu todo e qualquer abandono deste Deus. DEUS NOS AMA À MANEIRA DE DEUS: SEM LIMITES. E tudo isto porque Deus amou o ser humano como somente ele poderia amar, ou seja, infinitamente. E quem ama quer a comunhão com o ser amado. Que outro argumento mais convincente do que este poderíamos encontrar para a certeza de salvação do ser humano, para a salvação do homem perdido, errante e carregado de culpa, que no fim da sua vida se encontra diante dos escombros de tantas e tantas ocasiões perdidas? A única coisa que lhe resta é a convicção da fé de ser aceito e amado, apesar de sua culpa. O HOMEM É ACEITO E AMADO, APESAR DE SUA CULPA. Essa convicção requer coragem, exige a coragem de se confiar totalmente em Deus, de deixar “Deus estar aí para mim”. Isto foi o que Jesus fez, e sem se decepcionar. Quando o homem também permitir que Deus esteja aí para ele, uma vez que é nisto que consiste o otimismo daquele que crê, ele não sofrerá decepção, tampouco como o primeiro homem não a sofreu, com cuja morte Deus se identificou por completo. DEIXAR DEUS ESTAR AÍ PARA MIM. Com Jesus Cristo, o Deus da vida se identificou não somente na morte, mas também na ressurreição. E esta identificação ocorreu como sinal e antecipação do que acontecerá com todas as pessoas: Não há nem haverá fim com a morte! Tampouco haverá na morte tirano vingativo, e sim o Deus que ama e perdoa. Não haverá choro apocalíptico nem ranger de dentes, e sim a feliz união com aquele que desde o início me amou. Nesta verdade consiste a verdadeira boa nova que Jesus nos trouxe. 1 Herbert Vorgrimler, Der Tod im Denken und Leben des Christen, p. 68. 4 O DESAFIO PARA A TEOLOGIA DO SÉCULO XXI: SUPERAR O MEDO, APESAR DE NOSSA CULPABILIDADE Com base na confiança fundamentada nos capítulos anteriores, o homem se torna capaz de enfrentar com esperança aquele momento em que sua vida se torna definitiva. Em que nada mais pode ser alterado ou modificado. Este momento, como vimos, em nada é fim. A vida continua depois da morte. E, sendo assim, não é possível fechar os olhos perante a vida vivida até agora, nem fugir para outras atividades. Uma vida que continua depois da morte me confronta, indispensavelmente e sem a mínima possibilidade de poder fugir, com tudo o que fiz na minha vida e da minha vida. A CRENÇA NA VIDA PÓS-MORTAL ME CONFRONTA TAMBÉM COM AS MINHAS CULPAS. É justamente uma teologia bem-intencionada que até hoje, talvez, não chegou a considerar suficientemente o fato de que a crença na vida após a morte pode aumentar o temor perante a morte. Efetivamente, para a grande massa dos que creem na vida eterna sem, contudo, tirar dessa crença a força para uma vida cristã, a hipótese de uma vida eterna equivale a uma terrívelconsequência: “A morte é a visualização da culpa”,¹ afirma Karl Rahner, e Eberhard Jüngel leva adiante este pensamento ao afirmar que “a morte cobre com sua sombra não só a vida humana. Essa sombra é, antes, o aumento assustador de uma sombra mais original que brota da nossa vida e recai sobre o nosso fim. As sombras da morte recaem unicamente sobre a nossa vida sempre cheia de culpas”.² No entanto, a culpa inextinguível significa inferno e, ante tal alternativa, a reação do homem só pode ser de desespero ou, então, de fé. Esta fé, desde o princípio, deve enfrentar uma pergunta crítica, ou seja, deve indagar se está em condições de guiar o ser humano rumo à verdadeira libertação da angústia da morte, libertação que, na dialética da morte e da vida, se manifeste na existência do ser humano, vivida concretamente aqui e agora. 1 Cit. em Paul Ansgar (org.): Grenzerfahrung Tod, p. 25. 2 Eberhard Jüngel, “Der Tod als Geheimnis des Lebens”, em Grenzerfahrung Tod, p. 25. 5 UMA FÉ CONFIANTE NA SALVAÇÃO DEVE SE TRANSFORMAR EM PRÁTICA DE VIDA Desde o momento em que os fiéis podem sentir-se amparados, apesar de suas culpas, pelo Deus que os ama e que os quer salvar a todo o preço, a fé destes cristãos pode voltar àquela certeza feliz de ser salvos, que marcou o pensamento dos primeiros cristãos. Não há mais lugar para o medo, e em vez de cada um cuidar de maneira até egoísta de salvar a sua própria alma, sobrará energia para se preocupar com o mundo e com o que é a própria tarefa do cristão. A PRIMEIRA TAREFA DO CRISTÃO NÃO É CUIDAR DE SUA PRÓPRIA SALVAÇÃO. A PRIMEIRA TAREFA DO CRISTÃO É TRABALHAR PARA QUE O REINO DE DEUS SE REALIZE. Libertado do medo e das preocupações angustiadas com a “salvação de sua alma”, a fé pode tornar-se prática de vida transformadora. Práxis que se atualizará no contexto da realidade social, cultural e econômica de cada indivíduo. Quando isto não acontece, há fundamento para suspeitar de que a fé, como base ideológica de fuga, assume a função única de suprimir a ameaça da eternidade amedrontadora. Essa tentativa, porém, está desde já fadada ao insucesso, devido à contradição que lhe é inerente. 5.1. Problemática da mensagem religiosa opressiva O medo da morte e do inferno, ainda hoje tão frequente entre os cristãos, manifesta que, neste contexto, o discurso teológico não atingiu mudança significativa de consciência em vastas camadas da população. Mas convém notar que já passou o tempo em que “as supostas mensagens cristãs puderam usar a morte como instrumento para a manipulação do ser humano, pintando a morte dos ateus com cores horripilantes”.¹ As consequências daquela época ainda não foram, de modo algum, superadas. Contudo, não são mais os ateus que têm medo. Este medo encontra-se no coração daqueles muitos cristãos que não praticam sua fé como convicção vivida na prática. Conforme afirma Elisabeth Kübler-Ross, o medo se encontra no coração daqueles que, estando em algum ponto entre os dois polos, professam uma fé “que, em conflitos e angústias, não foi suficiente para alcançar a verdadeira salvação interior”.² Não podemos nos esquivar da afirmação de que para muitos cristãos ainda hoje a mensagem cristã parece ser basicamente uma coerção, no sentido de se ter uma práxis de vida sob a constante pressão da imagem de inferno e julgamento nada libertadora. Esta visão poderia ser também um dos motivos pelos quais grande número de fiéis, sobretudo de jovens, se distancia sempre mais da Igreja. UMA MENSAGEM RELIGIOSA OPRESSIVA PODE, PELA VIA DA PROJEÇÃO, CRIAR SITUAÇÕES OPRESSIVAS. Além disso, poderia ser tarefa bastante compensadora para uma futura pesquisa religioso-psicológica definir até que ponto determinadas situações de opressão social e espiritual encontram sua causa última também na chamada “opressão metafísica”; numa opressão que sob a forma de projeção coletiva tem-se manifestado, por sua vez, em situações opressivas da práxis social. A relação existente entre agressão e repressão da angústia da morte, apontada por Sigmund Freud, deveria ser incluída nesta reflexão. Em face desta problemática, a teologia que se diz libertadora é exortada a examinar de forma crítica suas mensagens. Não pode ser suficiente trazer de volta à consciência o fato de que a libertação do homem por Deus sempre contém uma dimensão sociopolítica. Não basta mostrar que muitas vezes esta dimensão foi completamente esquecida. Tudo isso será um tanto teórico, enquanto permanecerem, tanto no consciente como no subconsciente dos destinatários desta mensagem, as imagens opressivas e atemorizadoras do Deus que exige satisfação. É verdade que, na maioria dos casos, essas imagens são reprimidas, mas nem por isso deixam de ser atuais. Basta um rápido lance de olhos para as experiências da práxis pastoral para confirmar esta constatação. Se é que no decorrer da proclamação libertadora do evangelho, a morte do ateu, descrita com cores assustadoras, apenas é substituída pela morte de representantes de determinadas classes, pintadas também com cores assustadoras, então, na verdade, a antiga ameaça do julgamento, longe de ser vencida, simplesmente mudou de destinatário. Quem pode garantir, indaga o nosso povo com razão, que o destinatário não mudará outra vez? De fato, o inferno e o julgamento continuarão sendo ameaça, ainda que digam respeito somente aos outros. É de suma importância que o leitor entenda corretamente esta exposição. Não se trata de negar a seriedade do que a Bíblia, pelas imagens de julgamento e inferno, mostra ser a possibilidade de perda completa do sentido existencial da vida. Trata-se, antes de mais nada, da exigência de refletir novamente sobre o que constitui a verdadeira esperança da fé cristã. Trata-se da conscientização de que o “morrer entregando-se a Deus… é ato de aperfeiçoamento purificador, iluminador e salvador”,³ marcado por julgamento misericordioso. Não é o momento da condenação ameaçadora. A meu ver, essa esperança representa começo convincente para a proclamação da práxis libertadora, baseada no evangelho. 5.2. A supressão da força opressiva do inferno liberta para a superação dos infernos do mundo Se a partir da visão do Cristo ressuscitado, o inferno e sua força opressiva perdem seu significado, é este fato então que libertará o homem, que poderá assim dedicar-se à superação dos infernos deste mundo. Jürgen Moltmann formulou de modo extraordinariamente claro este significativo marco inicial da proclamação libertadora. Chamando nossa atenção para 1Cor 15,55, mostra a correlação existente entre superar o inferno por intermédio de Cristo e uma práxis de vida daí decorrente, que busca a libertação a partir do evangelho.⁴ “O inferno está aberto; podemos caminhar livremente por ele, o que não é válido somente para o inferno de Cristo, mas para todos os infernos deste mundo. Deus deixou despontar o seu futuro no crucificado. Desta maneira, surge um vislumbre de aurora também sobre os cemitérios da história e sobre os locais de execução, bem como sobre os pequenos infernos do nosso dia a dia… Caso Cristo tenha realmente ressuscitado, isto levaria então à rebelião da consciência contra os infernos na terra e contra todos aqueles que os aquecem. Pois a res- surreição deste condenado é atestada pelo homem, na rebelião contra a con- denação do ser humano, e assim também posto em prática. Quanto mais a esperança acreditar realmente no inferno sucumbido, tanto mais ela será militante e política no sucumbir dos infernos brancos, pretos e verdes dos barulhentos e silenciosos.”⁵ Com base nesta perspectiva, a reconsideração do que constitui a verdadeira esperança da fé cristã prova ser exigência primordial. Por fim, a esperança também constitui o fundamento que rege todos os compromissos ligados à exigência de melhorar todas as situações de pecado social e injustiça. “Ajudar o homem a passar de situações menos humanas a situações mais humanas”⁷ faz supor que “se destina” a estas pessoas “algo mais do que aquilo que a vida pode lhe dar, isto é, vida depoisda morte.”⁸ Mas a experiência existencial dessa esperança origina-se, como Herbert Vorgrimler escreve com bastante propriedade, “das experiências positivas e das experiências de que existe sentido, vivenciadas durante esta vida”, ou seja, “na práxis concreta da liberdade, da justiça, da reconciliação… Por isso é que a esperança cristã, que extrapola a morte, não pode desviar sua atenção dos problemas deste mundo e tampouco pode levar à atitude de passividade e indiferença em relação aos movimentos de libertação. Se os cristãos não erradicarem a servidão e as injustiças, eles impedirão assim que as promessas de Deus sejam ouvidas e não darão lugar às experiências de que há sentido na vida. Estas experiências levam à esperança, que extrapola a morte. Deste modo, torna- se claro quão despojado de esperança é o egoísmo de salvação, voltado somente para a sua salvação individual numa vida após a morte”. A ESPERANÇA CRISTà QUE EXTRAPOLA A MORTE NÃO PODE DESVIAR SUA ATENÇÃO DOS PROBLEMAS DESTE MUNDO. 1 Herbert Vorgrimler, Der Tod im Denken und Leben des Christen, p. 37. 2 Elisabeth Kübler-Ross, Interview mit Sterbenden, p. 220. 3 Hans Küng, op. cit., p. 79. 4 “A morte foi absorvida na vitória. Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” 5 Jürgen Moltmann, Unkehr zur Zukunft, p. 84 6 .Conclusões da Conferência de Puebla, n. 28. 7 Ibid., n. 90. 8 Herbert Vorgrimler, Der Tod im Denken und Leben des Christen, p. 44. 9 Id., ibid. p. 45. 6 Resumo: A FORMAÇÃO DE CONCEITOS POSITIVOS SOBRE A VIDA APÓS A MORTE 6.1. Situação na época de Israel 6.2. Evolução da concepção de vida para uma vida pós-morte 6.3. Influência do pensamento grego 6.4. Surgimento da ideia sobre a ressurreição dos mortos 6.5. Tarefa para a pastoral de hoje Unidade III A EXPERIÊNCIA DO SER HUMANO NA MORTE I O QUE SIGNIFICA “ESTAR NA MORTE”? Quando a vida do ser humano termina, ele entra numa situação, chamada de “na morte”. É essencial termos consciência daquilo que esta expressão significa: Não implica, de maneira nenhuma, o processo de morrer. Ninguém pode acreditar que, naquele processo muitas vezes penoso e doloroso, o homem seja capaz de experimentar mais do que o fenômeno do morrer em si. A expressão “na morte” quer, pelo contrário, acentuar a distinção entre o processo do termo da vida que normalmente chamamos de “morrer” e aquilo que acontecerá quando aquele processo, no plano fenomenológico, chegou ao seu fim. Na primeira parte deste livro, foi usada para este fim a noção de “a morte vital”. Uma vez consumada esta “morte vital”, então estamos naquela situação que podemos chamar “na morte”. “Na morte” significa então a situação do ser humano exatamente naquele momento, onde, no plano fenomenológico, situamos a morte vital. O sofrimento do morrer passou, a possibilidade de ser reanimado depois da morte clínica passou; agora, o homem se encontra “na morte”. Naquela situação consciente de incapacidade total, da qual se falou na primeira parte deste livro. A noção de tempo não existe mais, a noção de espaço não existe mais, uma nova dimensão se abre, à qual damos o nome de “eternidade”. É neste limite, “na morte”, que o homem se encontra pela primeira vez com Deus. O HOMEM NA MORTE II NA MORTE, A ALMA NÃO SE SEPARA DO CORPO 1 O modelo tradicional daquilo que acontece na morte Nós todos interiorizamos desde criança o modelo resumido em seguida. Em todos os livros de catequese é essa a informação, e ela está sendo transmitida assim pela maioria das catequistas às crianças de uma nova geração cristã: Na morte, a alma se separa do corpo e entra numa nova dimensão, chamada ETERNIDADE. Nesta nova dimensão, a alma da pessoa está sendo julgada por Deus no assim chamado JUÍZO PARTICULAR. Conforme o resultado deste Juízo, a alma ou entra diretamente no inferno, ou, depois de ter passado talvez certo tempo no PURGATÓRIO, entra no céu. Ela aguarda, numa situação de felicidade ou de tormento, a chegada do JUÍZO FINAL. Quando o momento deste segundo juízo chegar, acontecerá também a RESSURREIÇÃO DO CORPO e, de novo conforme o resultado dos dois julgamentos, a alma humana, agora reunida com o seu corpo, passará para toda a eternidade numa situação de felicidade total, chamada CÉU, ou de tormento inimaginável, chamado INFERNO. São estas, em poucas palavras, as expectativas religiosas ensinadas por séculos e interiorizadas por gerações de cristãos até os dias de hoje. Podemos resumir esta perspectiva tradicional, fazendo uso de um esquema gráfico, onde o destino da pessoa humana, na morte, aparece da seguinte maneira: O que acontece com a pessoa humana na morte? O desenho mostra, de maneira bastante clara, aquilo que no fundo é, até hoje, a crença da maioria dos cristãos sobre os acontecimentos na morte. Esta morte só atinge o corpo. O corpo morre, nós assistimos à sua morte; depois da morte consumada, falamos deste corpo em termos de cadáver. Este cadáver podemos tocar e ver e é ele que enterramos. Desta forma, acaba aquilo que podemos testemunhar com os nossos sentidos. Mas será que isso é tudo? A nossa religião diz que não! Ela diz que a vida, depois da morte, continua. No entanto, como é possível compreender esta verdade com a nossa razão, quando estamos diante da verdade inegável do cadáver? Eis a grande pergunta a que a religião tinha de responder. No passado, ela o tentou, recorrendo ao modelo dualista de uma alma que, na morte, se separa do corpo. 2 O MODELO ANTROPOLÓGICO DUALISTA DE UMA ALMA QUE, NA MORTE, SE SEPARA DO CORPO PARECE EXPLICAR, DE MANEIRA FÁCIL, A FÉ NUMA VIDA APÓS A MORTE Para manter viva a fé numa vida depois da morte, apesar da evidência de um cadáver sem vida, o modelo tradicionalmente usado na religião cristã recorre à ideia de que o homem seria composto de corpo e alma. O corpo, nesta união, é a parte mortal, enquanto a alma é a parte imortal. Na morte, diz o modelo, a alma se separa do corpo, e entra em nova dimensão, chamada Eternidade. Nessa eternidade, ela vive como ser espiritual, até que, num futuro muito distante, chegue o FINAL DOS TEMPOS. Neste Final dos Tempos acontecerá a Ressurreição do corpo e o Juízo Final. Este modelo foi capaz de explicar de maneira satisfatória o fato inegável da existência de um cadáver, de um corpo sem vida e, apesar disso, permitir manter a fé de que a vida depois da morte continua. A base que possibilita manter esta fé é formada por um modelo antropológico antigamente chamado dualista; hoje se fala mais do modelo binário. Conforme tal modelo, a essência do homem é a alma espiritual. Esta alma é imortal e, na morte, se separa do corpo para continuar sua existência sem vínculo material. 2.1. Origem e história do modelo antropológico binário (dualista) A origem deste modelo nada tem que ver com a revelação bíblica, mas, sim, com uma religião pagã do século VII a.C., a assim chamada “Religião Órfica da Trácia”, na Grécia antiga. A partir desta origem, a concepção binária ou dualista do homem passou por toda uma história de evolução e adaptação, até finalmente se fixar também no cristianismo. Desde os primeiros séculos da era cristã, essa concepção se tornou o modelo dominante no cristianismo, sustentado pela filosofia do neoplatonismo e pela ideologia religiosa da gnose e de seu dualismo cosmológico. As várias etapas desta história de absorção de concepções dualistas estão representadas no esquema da página seguinte. É importante frisar que, a partir do século IV d.C., sobretudo depois de Agostinho, a compreensão cristã do destino humano após a morte baseia-se, cada vez mais, no modelo dualista helênico.¹ Este modelo antropológico já era o dominante dentro do império greco-romano antes da era cristã e, depois do desaparecimento deste império, continuou dentro do pensamento cristão e permanece até os dias de hoje. Ele se fixou de tal maneira, que muitos cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato de revelação divina. Pensam que a base do modeloantropológico dualista seria a própria Bíblia. Contra tal ideia é importante lembrar que o modelo antropológico dualista tem as suas raízes numa cultura alheia à da Bíblia. Ele entrou no cristianismo não por ser revelação divina, mas por razões culturais e ideológicas, ligadas a todo um processo de aculturação do cristianismo dos primeiros séculos. O modelo dualista-binário do homem, conforme o qual este homem é composto de corpo e alma, não tem a sua raiz na Bíblia, mas na cultura pagã do helenismo. História da inculturação do dualismo na religião cristã 1 Cf., p. ex.: Brian E. Daley, Origens da escatologia cristã. 3 A PARTIR DOS ANOS 70 DO SÉCULO XX, O MODELO ANTROPOLÓGICO BINÁRIO ESTÁ SENDO CADA VEZ MAIS CRITICADO E REJEITADO¹ 3.1. A Bíblia apresenta um modelo não dualista do homem O esquema anterior já mostrou que, ao lado do modelo helênico-dualista do homem, sempre existiu um outro modelo, cuja raiz não se encontrava na filosofia grega, mas nos textos bíblicos. Independentemente da cultura helênica, mantinha-se sempre dentro do pensamento bíblico a convicção de que o ser humano é uma unidade que jamais poderia ser dividida em dois princípios, chamados corpo e alma. A partir do momento em que esta antropologia bíblica entra em contato com a cultura grega, constatamos um esforço específico dos autores bíblicos para defender a sua concepção global do homem, contra o modelo dualista do helenismo. Vê-se, em certos textos da “Sabedoria”, um dos exemplos típicos deste esforço: “De fato, o destino do homem e o do animal são idênticos: do modo que morrem estes, morrem também aqueles. Uns e outros têm o mesmo sopro vital, sem que o homem tenha vantagem nenhuma sobre o animal, porque tudo é fugaz. Uns e outros vão para o mesmo lugar: vêm do pó e voltam para o pó” (Ecl 3,19-20).² A intenção do autor bíblico não é de negar uma vida depois da morte. O que ele quer é rejeitar de maneira clara a ideia da filosofia grega, conforme a qual a sobrevivência do ser humano, depois da morte, seria garantida pela própria natureza humana e sua alma imortal. Em vez disso, o Coélet insiste no fato de que o homem, por sua própria natureza, não pode contar com imortalidade. A vida dele após a morte só pode ser garantida porque Deus, que é um Deus da vida, não quer que este homem fique na morte. Este exemplo, formulado numa época (séc. I a.C.) em que a teologia de Israel estava sob forte pressão de uma helenização forçada, mostra a distância fundamental entre a concepção antropológica da Bíblia e o modelo dualista da filosofia grega. Uma distância que continua no Novo Testamento. A antropologia que nele encontramos, das origens até o modelo mais elaborado em Paulo, mostra sempre o mesmo fato: Para a Bíblia, o ser humano é uma unidade que não pode ser dividida em dois princípios, chamados corpo e alma. Consequentemente também não é possível que, na morte, uma alma se separe do corpo. Só mais ou menos a partir dos anos 70 do século XX foi que, dentro da teologia católica, aconteceu uma conscientização e também uma discussão cada vez mais acentuada sobre este fato.³ Mencionamos, em termos de exemplos, dois textos recentes, nos quais se resume de maneira clara a posição de hoje: “Uma concepção antropológica habitual no Ocidente reduz o ser humano a um compósito binário de dois elementos: o corpo e a alma. Esta antropologia cartesiana, que está muito longe da concepção bíblica do homem…, é muito insuficiente para explicar certos fenômenos, situados na fronteira da alma e do corpo.”⁴ “Este dualismo... se opõe à concepção bíblica do homem, que acentua sobretudo a unidade.”⁵ Ernst Haag formula a mesma ideia, no seu artigo “Alma e imortalidade, a partir do enfoque bíblico”: “O Antigo e o Novo Testamento concordam totalmente na concepção de que Deus criou o homem como uma unidade psicofísica. Nesta unidade, que é a sua essência, Deus o destinou para uma existência incorruptível... Em nenhum caso, no testemunho dos textos bíblicos, a noção ‘alma’ significa um ser puramente espiritual que, em si mesmo, independentemente do corpo, já possui a imortalidade ou a incorruptibilidade. A noção ‘alma’ é, para o Antigo e para o Novo Testamento, a designação para o ser humano, que é marcado de maneira global pela sua natureza espiritual e que, por causa disso, é aberto para Deus…” A partir de tal posição e no decorrer de muitas discussões, chegou-se, na Teologia, a nova compreensão daquilo que acontece com o ser humano na morte. A base desta nova concepção foi a conscientização crescente de que a alma, de fato, não pode ser compreendida em termos de uma substância separada do corpo. Ela, pelo contrário, deve ser compreendida como princípio integrativo do ser humano, de tal maneira que nunca ela pode ser separada do corpo, em oposição ao que o dualismo grego ou cartesiano formularam. Este fato fica evidente definitivamente, quando lembramos o significado das noções usadas no contexto bíblico, para designar o homem: 3.2. O homem dentro da antropologia bíblica 3.3. O corpo, na tradição bíblica (Moltmann: Gott in der Schoepfung) 3.4. Quando a Bíblia usa o termo “alma”, ela o faz dentro de uma perspectiva integradora, e não a partir de um modelo dualista grego O termo “alma” aparece centenas de vezes nas traduções do Antigo e do Novo Testamento. Entretanto, com exceção dos poucos textos no Judaísmo tardio, claramente influenciados pelo helenismo,⁷ quando a Bíblia fala da alma, nunca quer designar com esta palavra um princípio espiritual autônomo que poderia ser separado do corpo. Dentro de uma visão integrativa, os textos bíblicos apresentam o homem sempre como unidade indivisível, para quem a alma garante a potência de ser para o absoluto. A noção de “alma” deve ser compreendida dentro desta perspectiva. J. P. Weisengoff, na sua profunda análise da concepção de vida e morte, nos livros da Sabedoria, afirma que, nos textos respectivos, “a imortalidade... nunca é uma imortalidade que a alma possui por sua própria natureza”.⁸ Hans Walter Wolff, no seu famoso livro A antropologia do Antigo Testamento, mostra, a partir de uma análise detalhada das noções antropológicas usadas pela Bíblia, que a palavra “nefesh”, traduzida em geral como “alma”, “nunca tem o significado de um cerne indestrutível da pessoa... que poderia existir também separado da vida corporal”. Para a antropologia do Novo Testamento, que alcança o seu cume em Paulo, vale aquilo que o muito prestigiado compêndio dogmático Mysterium Salutis afirma de maneira taxativa: “Paulo não ensina uma imortalidade e eternidade da alma, que, com a morte, se separaria do corpo e continuaria sobrevivendo sem ele...”¹ Os textos bíblicos em que se faz uma justaposição entre corpo e alma foram, no passado, muitas vezes interpretados de maneira dualista e a partir de um enfoque da filosofia helênica. Isso, no entanto, é errado. Mostramos, como exemplo típico, um trecho do Evangelho de Mateus, onde uma interpretação dualista falsificaria totalmente aquilo que a Bíblia quer dizer. Neste e em todos os outros textos nos quais aparecem as noções corpo e alma, a Bíblia não usa essas noções dentro de uma concepção binária do homem. Ela não separa corpo e alma como dois princípios opostos: ela, pelo contrário, já se baseia numa visão muito “moderna” da pessoa humana, compreendendo esta pessoa como um ser único, cuja integridade, exatamente por causa de sua alma, nunca pode ser destruída e dividida. Exemplo: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena” (Mt 10,28). A exegese atual rejeita claramente uma interpretação deste e de outros textos, em termos de um dualismo helênico: O muito prestigiado manual de exegese Regensburger Neues Testament deixa transparecer isto de maneira bem clara: “O texto não pressupõe uma alma sem corpo que sobrevive na morte, mas esclarece que Deus pode manter a vida inteira do homem também além da morte. (Psique não significa ‘alma’no sentido greco-helênico, mas a energia vital no homem.)” (Cf.: Regensburger Neues Testament: Das Evangelium nach Mattäus, 1986, p. 228.) 3.5. A antropologia de Tomás de Aquino confirma a concepção bíblica Todos os estudos da antropologia do grande filósofo Tomás de Aquino mostram uma concepção do homem que, por sua vez, também não sustenta a ideia de um dualismo conforme a filosofia do helenismo.¹¹ Em vez de separar o homem em corpo e alma, Tomás de Aquino, já no século XIII, descreveu o ser humano como uma dualidade, uma única substância, onde a alma é a forma do corpo.¹² O ser humano é uma dualidade, uma única substância indivisível. Como uma substância não pode ser dividida e separada sem que deixe de ser aquela substância, esta concepção do filósofo contribuiu, por sua vez, para a superação de um modelo helênico e para a redescoberta da concepção bíblica do ser humano. 3.6. Síntese histórica do problema corpo-alma 3.7. Dentro da antropologia contemporânea elaborou-se um modelo do homem que acentua a sua unidade substancial Por fim, a ideia de que a alma não poderia se separar do corpo encontrou o seu último reforço nas pesquisas psiquiátricas e antropológicas de hoje. Após um breve momento, quando sobretudo a psiquiatria americana sustentava a ideia de um monismo total,¹³ a antropologia contemporânea superou esse monismo e chegou a uma concepção que é similar em muito àquilo que Paulo já tinha afirmado na sua antropologia: O ser humano é um ser multidimensional, e tudo o que acontece a este ser acontece a ele em todas as suas dimensões. Jean Vernette, resumindo a opinião científica atual sobre a questão de uma antropologia binária (dualista), rejeita esta mesma concepção no seu recente livro sobre a reencarnação, com os seguintes termos muito claros: “Uma concepção antropológica habitual no Ocidente reduz o ser humano a um compósito binário de dois elementos: o corpo e a alma. Esta antropologia cartesiana, que está muito longe da concepção bíblica do homem..., é muito insuficiente para explicar certos fenômenos situados na fronteira de alma e corpo”.¹⁴ A CONCEPÇÃO DUALISTA DO HOMEM É IRREVERSIVELMENTE SUPERADA NA ANTROPOLOGIA ATUAL. Não se pode esquecer que o dualismo era um modelo para, através dele, explicarmos melhor certos fenômenos. Um modelo tem o seu valor. A partir do momento, porém, que se revela a falsidade do modelo, deve ser substituído por concepção melhor. Neste sentido, o discurso teológico-pastoral de hoje deve, da maneira mais rápida possível, superar sua ligação à concepção dualista do homem e do mundo e tentar adotar a visão antropológica global de hoje. 3.8. No Concílio Vaticano II, o Magistério da Igreja superou o esquema corpo-alma Karl Rahner mostra no seu grande artigo sobre a alma, escrito na enciclopédia Sacramentum Mundi, que também o Magistério da Igreja, no Concílio Vaticano II, superou o esquema antropológico de corpo e alma.¹⁵ A constituição Pastoral Gaudium et Spes não fala mais do homem como um ser dualista, mas o define de maneira bem clara como “corpo e alma, mas realmente uno...”¹ A consequência de tal superação pode ser constatada, de maneira clara, também nas reflexões teológicas sobre o assunto. O hoje Cardeal Joseph Ratzinger, no seu artigo sobre a Ressurreição do corpo, escreve de maneira explícita que este termo deve ser compreendido como “ressurreição da pessoa, não no sentido de uma corporeidade, isolada da alma”.¹⁷ A alma está, assim, sendo compreendida como uma “noção que exprime a unidade pessoal do homem como um ser supramaterial”.¹⁸ Sobre a questão de um estado intermediário e puramente espiritual desta alma entre a morte e a ressurreição do corpo, podemos ler no mesmo autor o seguinte: “...toda declaração sobre corpo e alma... visa sempre ao homem uno, mas dentro de seu estado interiormente diferenciado de um princípio de ser espiritual e material, isto quer dizer de um ser que participa igualmente da dimensão espiritual e da dimensão de espaço e tempo. — As duas afirmações não podem se referir a dois seres distintos, mas também não podem ser simplesmente identificadas. Isso vale também no que diz respeito à declaração sobre a plenificação de alma e corpo. A expressão que fala de um estado intermediário da alma sem corpo, ‘antes’ da ressurreição do corpo, não quer (lido teologicamente) fixar nada, além da diferenciação necessária das duas afirmações. Só em conjunto elas realmente definem o ser do homem e sua plenificação”.¹ O que se diz aqui numa linguagem muito sintética, marca, no fundo, o início daquilo que Rahner chama de “superação do modelo dualista de corpo e alma”. A partir destas ideias iniciais abriram-se caminhos para a elaboração de novo modelo, conforme nós apresentaremos em seguida. 3.9. As últimas declarações do Magistério da Igreja confirmam a rejeição do dualismo É nos últimos anos que a nova concepção não dualista do homem vem sendo adotada e usada também em declarações oficiais do Magistério da Igreja. Mencionamos, como exemplo, a publicação da Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha em novembro de 1994. Nela podemos ler sobre a questão da concepção dualista do homem: “Aquilo que foi dito sobre a separação da alma e do corpo, na morte, foi muitas vezes compreendido de maneira dualista, como se se tratasse de duas partes do homem que poderiam existir independentemente uma da outra. Mas nem é o corpo simplesmente o envelope da alma, nem a alma é jamais absolutamente incorporal… Sendo que a alma não é uma parte do homem ao lado do corpo, mas o centro de sua pessoa, é a pessoa humana inteira que entra na vida junto com Deus. Mas também o corpo não é simplesmente uma parte do homem. Ele é a pessoa na sua relação concreta com o mundo... A fórmula da separação de alma e corpo significa que as nossas relações com o ambiente e com o mundo em torno de nós (...) terminaram, foram interrompidas...” (Cit. cf.: Questions actuelles, “Le point de vue de l’Église” (O ponto de vista da Igreja), n. 2, maio, 1998, pp. 11-12.) 3.10. A consequência das reflexões críticas sobre o modelo antropológico dualista Podemos, assim, nos últimos anos, constatar uma crescente conscientização sobre a importância de superar o modelo tradicional. De um lado, a teologia redescobriu a antiga antropologia bíblica e, a partir dela, começou a afastar-se das influências helênicas. A teologia voltou a conscientizar-se de que, para o pensamento bíblico, a fé na ressurreição do homem inteiro e integral era expressa, sem recorrer ao modelo antropológico dualista. Ela não tinha necessidade de um modelo extrabíblico para se sustentar. De outro lado ficou mais evidente, também, que o afastamento das bases antropológicas bíblicas e a sua substituição pelo modelo dualista helênico tinham produzido, no decorrer da história, efeitos nefastos e desastrosos em termos de uma espiritualização crescente do mundo, e, consequentemente, um desprezo cada vez maior pelo homem material e concreto e por suas condições de vida histórica. E por fim veio à tona a consciência de que a adoção do modelo antropológico dualista tinha aberto também o caminho para uma influência cada vez maior de pensamentos e doutrinas reencarnacionistas. Porque, a partir do momento em que fica claro que o modelo dualista é falso, também a doutrina da reencarnação perde toda a sua base. O resultado de tal tomada de consciência é uma crescente rejeição do modelo dualista nas reflexões da escatologia contemporânea. Em substituição a tal modelo, iniciou-se a elaboração de novos modelos antropológicos, a partir dos quais se pode explicar a ressurreição, sem entrar em contradições lógicas, exegéticas e científicas. Isto ocorreu sobretudo pelo fato de que, além dos problemas criados pelo modelo tradicional de concepção antropológica dualista, surgiram também outros problemas que tornaram cada vez mais difícil manter tal modelo. 1 Uma apresentação mais científica e fundamentada de toda a questão da superação do dualismo helênicose encontra num outro livro do autor: Renold J. Blank, A morte em questão. Cf. também: Juan L. Ruiz de la Peña, La Pascua de la creación, pp. 150-171. 2 Sobre a interpretação do texto mencionado, recomenda-se o estudo de referente literatura exegética. Cf. também: VV. AA., Seele problembegriff christlicher Eschatologie, pp. 50-56. 3 Diante do mesmo desafio se encontra hoje também a liturgia, que, por sua vez, deve superar uma antropologia dualista: cf. Valeriano dos Santos Costa, “A corporeidade na liturgia”, em Revista de Cultura Teológica, 25 (IV) 1998, pp. 19s: “…temos que enfrentar duas realidades que não respondem mais à busca atual da compreensão do corpo: o dualismo axiológico grego… e o dualismo metodológico moderno (que separa corpo e espírito como duas realidades subsistentes em si mesmas)”. 4 Jean Vernette, La réincarnation, p. 80. 5 Id., ibid., p. 116. 6 Ernst Haag, “Seele und Unsterblichkeit in biblischer Sicht”, in VV. AA., Seele, problembegriff christlicher Eschatologie, pp. 92-93. 7 Cf. Sb 3,1; 2Mc. 8 Cf.: J. P. Weisengoff, Death and immortality in the Book of Wisdom, em Catholic Biblical Quartely, n. 3, pp. 104-133. 9 Hans Walter Wolff, Anthropologie des Alten Testament, p. 40. 10 Mysterium salutis, vol. 3, p. 193. 11 Cf. Neste contexto confira também as considerações em: Renold J. Blank, A morte em questão, pp. 28-30. 12 O Concílio de Viena adotou esta concepção, falando claramente da alma como “a forma do corpo humano” (DS 902). (Karl Rahner, no seu artigo respectivo no compêndio “Sacramentum mundi”, enfatiza muito este fato, exigindo que se tome a sério a declaração do Concílio de Viena, de que a alma é a forma do corpo. Ele escreve que “seria perigoso restringir de antemão a declaração (do Concílio) sobre a alma, assim como ela seria um ser em si- mesmo, em vez de um princípio metaempírico de ser do homem inteiro. A morte é o fim da história do homem inteiro…” — op. cit., vol. 4, p. 417.) 13 Cf., p. ex.: Gardner Murphy, Challenge of Psychical Research. “A unidade íntima dos processos psicológicos e fisiológicos que nós conhecemos pela anatomia, fisiologia, psicopatologia, até pela bioquímica e pela histologia, deixa cair a concepção de uma alma independente, mais e mais na região do total inacreditável e inimaginável” (op. cit., pp. 271-272). 14 Jean Vernette, op. cit., p. 80. 15 Op. cit., vol. 4. 16 Gaudium et Spes, n. 14. 17 Sacramentum Mundi, vol. 4, p. 399. 18 Ibid. 19 Joseph Ratzinger, em Sacramentum Mundi, vol. 4, p. 399. 4 ALÉM DA PROBLEMÁTICA DO DUALISMO ANTROPOLÓGICO, O MODELO TRADICIONAL APRESENTA OUTROS PROBLEMAS QUE DEVEM SER SUPERADOS 4.1. A ideia de que a alma, separada do corpo, poderia aguardar na eternidade a ressurreição do corpo leva-nos a questionar se uma alma sem corpo poderia ser feliz Como consequência da reconsideração do modelo dualista, que pressupõe o modelo tradicional da morte (cf. os caps. respectivos), surgiram ainda, inevitavelmente, outras indagações: afirma-se, no modelo tradicional, que a alma do homem, separada de seu corpo na morte, aguarda na Eternidade o Final dos Tempos para que, de novo, possa unir-se com o seu corpo ressuscitado. Levando em consideração tudo aquilo que sabemos hoje sobre a união substancial entre alma e corpo, levanta-se imediatamente uma indagação muito séria: Será que uma alma em estado de salvação poderia ser feliz sem o seu corpo? Caso esta alma tenha uma ligação tão estreita e substancial com sua dimensão corporal — como sugere Tomás de Aquino, como sustenta a Antropologia contemporânea e como nós vemos na concepção bíblica —, será que esta alma sozinha, tendo sido salva, poderia, depois da morte, entrar num estado de felicidade plena? Salvação significa exatamente isso, como sempre afirmou a teologia. Mas será que a felicidade plena é possível quando falta a esta alma a sua ligação e correlação substancial com aquela dimensão — o corpo —, sem a qual não pode existir o ser humano? Esta é uma indagação que deve ser levada muito a sério. Aliás, Tomás de Aquino já o fizera, dizendo que a situação de uma alma separada do corpo seria comparável àquela de “uma mão cortada do braço”.¹ Uma mão, cortada do braço, pode ser feliz? A pergunta é séria! Dentro do enfoque do modelo tradicional e dualista, dá-se uma resposta a ela, afirmando-se que a alma, em todo o caso, fica mais feliz sem o corpo, porque o seu verdadeiro ser é o ser espiritual e este corpo é apenas uma prisão para ela. Assim o concebeu o dualismo platônico e gnóstico. Mas, como vimos, não é mais possível manter tal dualismo. Além disso, essa resposta também produz uma contradição que toca em uma das verdades fundamentais de nossa fé: a crença na ressurreição do corpo. Se a alma em estado de salvação já encontrou a sua felicidade plena, por que se deve, ainda, insistir numa ressurreição do corpo no final dos tempos? O que esta ressurreição poderia acrescentar à felicidade desta alma já completamente feliz? A ressurreição do corpo tornar-se-ia, nesse caso, mero apêndice para a alma, numa situação em que esta, no fundo, não precisaria mais dela. Tal concepção, porém, contradiz totalmente a convicção profunda de nossa fé, conforme a qual a ressurreição do corpo, baseada na ressurreição de Jesus, é elemento essencial daquilo que acontece ao homem na morte. Descobrimos, assim, mais um problema aberto que o modelo tradicional não consegue resolver. 4.2. A ideia de que a alma, sozinha, poderia aguardar na eternidade a ressurreição do corpo entra em contradição lógica com aquilo que significa “Eternidade”² Karl Rahner já tinha exigido a maior prudência ao se falar do intervalo entre o Juízo particular e o Juízo Final. Escreve ele: “É certo que este intervalo não pode ser compreendido como uma continuação do tempo, como nós o conhecemos”.³ O grande teólogo do Concílio chama a atenção, aqui, para uma outra problemática não resolvida dentro do esquema do modelo tradicional da morte, no qual se diz que a alma “espera”, na Eternidade, o final dos tempos. Incentivada pelas novas pesquisas da física e da cosmologia sobre a natureza do tempo, surgiu, neste contexto, a pergunta bastante lógica: Será que, na eternidade, ainda existe o tempo? O Sl 90,4 declara que mil anos, para Deus, “são como o dia de ontem, que já passou”. Para Deus, o tempo não existe. Já no judaísmo tardio há reflexões “sobre a absoluta diversidade desta eternidade com relação ao tempo”.⁴ No Novo Testamento, eternidade “é concebida como termo oposto ao tempo do mundo”.⁵ Na teologia, ela está sendo ligada com a qualidade de “simultaneidade total”. Sendo assim, não podemos falar da eternidade como um passar de tempo. Menos ainda quando tomamos em consideração as modernas reflexões sobre o tempo que têm sido feitas dentro da física atual.⁷ Na dimensão que, teologicamente, chamamos “eternidade”, não existe tempo no sentido como nós o conhecemos. Mas, quando não há tempo, não se podem passar anos e séculos, no decorrer dos quais a alma possa aguardar a futura chegada do Juízo Final, para de novo se reunir com o corpo. Onde não há tempo não pode haver passagem do tempo, rumo ao futuro. Consequentemente, também não é possível que uma alma, sozinha, aguarde na eternidade a ressurreição do corpo. Sem tempo, não há nada que se possa aguardar num futuro qualquer, pelo simples fato de não existir mais um futuro temporal. Mas é exatamente isso que o modelo tradicional pressupõe. A contradição lógica inerente a esse modelo vem sendo hoje, porém, cada vez mais criticada. Caso queiramos manter a verdade — tão declarada nos textos bíblicos — de que não existe tempo na eternidade, então devemos mudar a nossa concepção temporal sobre aquilo que acontece “depois” da morte. Como a ressurreição do corpo, depois da morte, não pode acontecer num futuro temporal, porque, na eternidade, tal futuro temporal não existe, a única solução é voltarmos à ideia profundamente bíblica da eternidade como “simultaneidade total”. Eternidade significa um “agora simultâneo”. E neste“agora” de Deus, não há nada que se deva “esperar” no futuro. Tudo é agora. Isso significa que, no momento em que o ser humano entra na dimensão da eternidade, ele entra numa dimensão de simultaneidade, na qual tudo aquilo que nós só podemos imaginar em termos de sucessão no tempo acontece num mesmo momento simultâneo e atemporal. Com base nestes pressupostos, formulou-se, a partir dos anos 70 do século XX, nova concepção daquilo que acontece à pessoa humana na morte. Ela acentua, com argumentos lógicos, a necessidade de superar o modelo temporal e de substituí-lo por novo modelo antropológico. 1 Summa Teologica I, 75.4 ad 2. 2 Cf. sobre esta questão também: Renold J. Blank, A morte em questão, op. cit. (Sobretudo o capítulo 3.7 da primeira parte.) 3 Karl Rahner, Sacramentum Mundi, vol. 3, p. 275. 4 Dicionário Enciclopédico das Religiões, vol. 1, Ed. Vozes, Petrópolis, 1995, p. 999. 5 Ibid. 6 Ibid., p. 1.000. 7 Cf.: Stephen W. Hawking, Uma breve história do tempo; Frank J. Tippler, Die Physik der Unsterblichkeit. 5 ELABORAÇÃO DE NOVO MODELO SOBRE AQUILO QUE ACONTECE AO HOMEM NA MORTE As exigências a que um novo modelo da morte tem de responder são basicamente as seguintes: 1. Manter-se totalmente fiel aos dogmas formulados pelo Magistério infalível da Igreja. 2. Explicar a ressurreição na morte, sem cair nas contradições lógicas e científicas do modelo tradicional. A partir dessas exigências, a superação do modelo antropológico binário-dualista poderia ser formulada com base nos seguintes pressupostos: → A alma nunca se separa do corpo. → A ressurreição da pessoa inteira acontece na morte. Na Eternidade não há tempo! Ora: Não pode transcorrer tempo entre a morte e o juízo final, quando acontece a ressurreição do corpo. Em nenhum momento, a alma fica sem corpo! Baseada nestes pressupostos, porém, a teologia teve de responder primeiro às duas exigências básicas já formuladas, que, no antigo modelo dualista, pareciam resolvidas de maneira inquestionável: • 1. O novo modelo não pode ferir nenhum dogma. • 2. O novo modelo deve explicar a sobrevivência da pessoa humana, na morte, diante da realidade inegável de um cadáver. Eis o desafio com o qual a escatologia se viu confrontada: Como explicar de maneira fiel ao dogma aquilo que acontece ao homem na morte, sem cair numa contradição lógica, e sem usar o modelo superado do dualismo helênico? 5.1. A nova concepção não pode ferir nenhum dogma! Mostramos já, em outro ponto deste livro, como a elaboração de novas respostas a respeito daquilo que acontece ao homem na morte cuidava de maneira explícita da questão dogmática.¹ E é claro que não se pode ferir nenhum dogma. Havia, nos anos 80, além de reflexões profundas de Karl Rahner, grande discussão sobre este assunto, travada sobretudo pelo teólogo alemão Gisbert Greshake. Seguindo a argumentação dele, podemos sintetizar o resultado daquela discussão, realizada com muita acribologia e grande conhecimento,² da seguinte maneira: 1. O modelo dualista é uma chave hermenêutica para explicar e exprimir os conteúdos escatológicos respectivos de nossa fé. 2. Para exprimir estes conteúdos, é possível usar outras chaves hermenêuticas que não são necessariamente aquelas tradicionalmente usadas. 3. Um dos grandes erros na discussão é o de confundir a chave hermenêutica com o conteúdo por ela expresso. 4. O conteúdo não depende da chave! Caso a ciência um dia mostre que a chave é falsa, o conteúdo fica o mesmo. No que diz respeito à questão dos dogmas, chegou-se, assim, ao seguinte resultado: 1) O ensinamento da Igreja sobre o homem na morte “foi exprimido dentro das categorias corpo-alma. Contanto que estas categorias só são meios para exprimir o cerne da questão, elas mesmas não estão incluídas na definição, assim o ensina toda hermenêutica responsável”. (Gisbert Greshake, op. cit., p. 184.) 2) “Não vejo lugar nenhum onde uma interpretação dualista (do esquema corpo- alma) seria exigida pelo magistério infalível da Igreja.” (Id., ibid., p. 184.) 5.2. A partir desse resultado foi possível formular novo modelo sobre aquilo que acontece com a pessoa humana na morte Uma vez confirmado por estudos sérios que o modelo aqui chamado tradicional é, de fato, um modelo, e não uma definição dogmática infalível do magistério de nossa Igreja, torna-se possível formular de novo a nossa indagação inicial: O que acontece com a pessoa humana, na morte? Só que, agora, a questão não mais está sendo tratada a partir daquele modelo tradicional. Em vez disso, seguem-se os novos pressupostos filosóficos e científicos elaborados nas últimas décadas do século XX. Seguindo esses novos pressupostos, a teologia elaborou nova resposta à questão da morte, conhecida como: 1 Cf. cap. 3,8-3.9, nas págs. 98-99 do presente livro. 2 Cf. Gisbert Greshake e Gerhard Lohfink, “Naherwartung-Auferstehung- Unsterblichkeit”, em Quaestiones disputatae, n. 71., VV.AA., “Seele, Problembegriff christlicher Eschatologie”, Quaestiones disputatae, n. 106. 6 A RESSURREIÇÃO ACONTECE “NA MORTE” A alma do ser humano nunca se separa do corpo, porque ela forma com ele uma unidade indivisível da pessoa humana única e substancial. Esta pessoa, na morte, entra em nova dimensão sem tempo, chamada eternidade. Naquele momento, o tempo para de existir como dimensão existencial desta pessoa. Para ela, a morte significa “o fim dos tempos”. Como não há o tempo, não pode haver passagem de nenhum tempo entre um acontecimento e o outro. Por causa disso, é impossível uma alma ficar separada do corpo na eternidade, aguardando ali a ressurreição do corpo. Numa dimensão sem tempo não se pode aguardar nada, pois essa dimensão é o agora atemporal. A alma de uma pessoa que morre não tem mais tempo de se separar do corpo, pelo simples fato de o tempo não mais existir. O momento da morte e o momento do Final dos Tempos coincidem na eternidade. No Final dos Tempos, porém, acontece a ressurreição do corpo, como a Igreja sempre e, com todo o direito, declarou. Como, porém, este Final dos Tempos acontece no momento da morte, é também neste mesmo momento que deve necessariamente acontecer a ressurreição do corpo. Nunca, em nenhum momento, a alma humana se separa do corpo e fica sozinha, isto pelo simples fato de que esta alma, entre a morte e o Final dos Tempos, nem teria tempo de se separar do corpo, porque, na eternidade, o tempo não existe mais. Baseada nestas reflexões lógicas e, tomando em consideração o modelo bíblico não dualista do homem, é que a escatologia contemporânea chegou a formular novo modelo, onde se tenta superar as contradições do modelo anterior:¹ A ressurreiçÃo da pessoa humana em corpo e alma acontece no momento de sua morte, quando esta pessoa inteira e integral sai de sua ligação ao tempo e entra em nova dimensão, chamada eternidade. A morte dessa pessoa humana não significa uma aniquilação, mas uma profunda transformação de todo o seu ser (cf. Paulo: 1Cor 15). O agente desta transformação é Deus. Este Deus não transforma só uma parte do homem, mas a pessoa inteira. Ele mantém e preserva a identidade total e global daquilo que esta pessoa é, em todas as suas dimensões, de tal maneira que, nesta transformação, “o homem alcança a sua plena identidade pessoal”.² É aquilo que os textos bíblicos exprimem pela fórmula da ressurreição dos mortos. Em todas as épocas e contra todas as tentações gnósticas e dualistas, a Igreja sempre se manteve firme nesta fé. 1 Cf. Juan L. Ruiz de la Peña, La pascua de la creación, pp. 149-174. 2 Id., ibid., op. cit., p. 174. 7 RESUMO SINTÉTICO DA III UNIDADE a. Síntese das indagações sobre o modelo tradicional: A partir dos anos 70, a escatologia se vê confrontada com indagações sérias: 1) Como superar as contradições lógicas do modelo tradicional? 2) Como responder aos novos modelos antropológicos, elaborados a partir das ciências da natureza? 3) Como explicar de maneira fiel ao dogma as verdades escatológicas e, ao mesmo tempo, superar as dificuldades nos 1e 2? a. Conscientização sobre as raízes pagãs do modelo antropológico binário. b. Conscientização sobre a oposição entre o modelo binário helênico-cartesiano e a antropologia bíblica. c. Conscientização sobre as consequências do modelo antropológico de Tomás de Aquino. (Homem = Dualidade, uma única substância, não pode ser dividido!) d. Conscientização sobre a ligação entre modelo antropológico bíblico e modelo antropológico contemporâneo. e. Elaboração de novo modelo da morte. b. O surgimento do modelo de uma RESSURREIÇÃO NA MORTE dentro da teologia católica: • Ideia muito conhecida no judaísmo da época de Jesus. • Formulada na Teologia católica no contexto do dogma da Assunção de Maria em Corpo e Alma. → (Cf.: Karl Rahner “Immanente und transzendente Vollendung der Welt”, em Schriften zur Theologie, VIII, 1967; também em: O. Karrer; H. Zeller; L. Boros; J. B. Metz.) → Gisbert Greshake desenvolve e fundamenta o modelo. (Cf.: op. cit., pp. 113-192.) IDEIAS BÁSICAS: → Cf. 1Cor 15,42-49: O NOVO CORPO RESSUSCITADO (glorioso) é idêntico, mas não é muito similar ao corpo atual. → Tomás de Aquino: A IDENTIDADE ENTRE CORPO RESSUSCITADO E CORPO MATERIAL É GARANTIDA PELA IDENTIDADE DE UM PRINCÍPIO ESPIRITUAL (= A ALMA). → K. Rahner: “É aceitável a ideia de que a única e total plenificação do homem em corpo e alma se realize imediatamente na morte…” Cf. K. Rahner, “Ueber den Zwischenzustand”, em Schriften zur Theologie, XII, (1975), pp. 455-469. → Medard Kehl (jesuíta): Na questão de uma ressurreição na morte, “se chegou na teologia católica dos últimos 40 anos por grande parte a um consenso”. (Cf.: M. Kehl, Eschathologie, Wurzburg, Ed. Echter, 1986, p. 275.) Neste consenso se mantém: — a identidade do corpo ressuscitado com o corpo mortal (alma = princípio formal desta identidade); — o Juízo particular e o Juízo Final; — a ideia de uma plenificação da história no Final dos tempos e da Parusia; — a ideia de Purgatório como última possibilidade de conversão e evolução. Mas: Estes conteúdos fundamentais da fé estão sendo expressos com base em novos pressupostos filosóficos, antropológicos e científicos. III MORTE E RESSURREIÇÃO SÃO EXPERIÊNCIAS FEITAS PELO HOMEM EM SUA TOTALIDADE 1 A MORTE E A VIDA APÓS A MORTE EMPENHAM A PESSOA HUMANA EM SUA TOTALIDADE A partir das exposições apresentadas nos capítulos anteriores, fica evidente que não podemos mais restringir o nosso discurso à alma da pessoa que morreu. Aquilo que a nossa fé nos transmite como mensagem de esperança refere-se sempre à TOTALIDADE DA PESSOA. Ela vive como ser global e total, ela morre como ser total e global, e ressuscita também como pessoa total. A morte sempre empenha a pessoa humana inteira de tal modo que, até em nossas orações, nunca deveríamos rezar só pela alma de nosso irmão falecido. O que se deve é rezar pelo nosso irmão falecido e pela nossa irmã falecida, inteiros, globais, em todas as suas dimensões. O ser humano é sempre um ser inteiro, global e indivisível. Este fato fundamental já foi formulado, 20 anos atrás, pelo teólogo W. Pannenberg. Ele escreve: “O ser humano não possui uma alma como realidade independente em oposição ao seu corpo; tampouco possui um corpo que se movimenta de maneira totalmente mecânica ou inconsciente. Ambas as ideias são abstrações. O que realmente existe é a unidade do ser vivo, do homem, que se movimenta e reage ao mundo”.¹ Mostrávamos, nos capítulos anteriores, como esta nova concepção antropológica, no Concílio Vaticano II, entrou também em documentos do Magistério da Igreja. Estabelecido, pois, que a morte humana deve ser compreendida como um processo que empenha a pessoa humana em sua totalidade e não só uma parte dela, devemos agora também responder sobre “como”, a partir do novo modelo global do homem, devemos imaginar aquilo que acontece a este homem na sua morte. (Ver quadro da p. 116.) 1 W. Pannenberg, Was ist der Mensch, p. 36. 2 A MORTE NÃO É UMA ANIQUILAÇÃO DO SER HUMANO, MAS UMA TRANSFORMAÇÃO DE TODO O SEU SER Conforme o novo modelo, apresentado nos capítulos anteriores, fica evidente que tudo aquilo que acontece com o ser humano na sua morte e “depois” desta morte nunca acontece só com a alma, mas sempre com a pessoa humana em sua totalidade. Na morte, tudo aquilo que é ser humano passa pela experiência de morrer, e passa também pela experiência de ser ressuscitado. Recorrendo aos textos bíblicos, podemos compreender esta experiência em termos de uma total e profunda transformação pela qual o ser humano inteiro passa na morte. Na morte, o homem inteiro está sendo transformado. O nome para esta transformação é “RESSURREIÇÃO”. Contra todas as tentativas de encarar a morte unicamente a partir do ponto de vista fenomenológico, como sendo o fim e nada mais, a fé cristã insiste na sua mensagem cheia de esperança de que a morte, apesar de todas as aparências opostas, não é um fim. Para fazer compreender a aparente contradição entre o que se experimenta no plano dos fenômenos e o que proclamamos pela nossa fé, faz-se necessário distinguir o que poderia ser chamado “o lado exterior da morte”, em oposição ao “lado interior desta morte”. 2.1. O lado exterior da morte: O HOMEM MORRE E ESTÁ SENDO SEPULTADO Do lado exterior, no nível dos fenômenos, o homem morre mesmo. Esta morte nos confronta com a realidade de um cadáver sem vida, e este cadáver nós o enterramos. Com os nossos sentidos, não enxergamos mais do que esta realidade. Morrer é experiência inegável, e esta experiência, assim o diz a antropologia, é vivida pelo homem em sua totalidade. Não é só o corpo que morre. NA MORTE MORRE TUDO AQUILO QUE CONSTITUI O SER HUMANO! Este fato já foi formulado por Ladislaus Boros no seu livro clássico Mysterium mortis. Ele escreve o seguinte: “A morte não é só a aniquilação do corpo, ela é, ao mesmo tempo, também, uma aniquilação da alma espiritual...”¹ O que foi dito aqui, ainda ligado ao esquema de um pensamento antropológico- dualista de corpo e alma, deve ser encarado hoje de maneira mais profunda, desde que se tente argumentar a partir dos enfoques de uma antropologia contemporânea não dualista. A partir desse novo enfoque, fica mais evidente a necessidade de voltarmos, com insistência, à profunda convicção de nossa fé de que, por trás do lado exterior da morte, por trás do fenômeno que captamos com os nossos sentidos, há outra dimensão. A esta outra dimensão, podemos chamar “o lado interior da morte”. 2.2. O lado interior da morte: O HOMEM VIVE PARA ALÉM DA MORTE Este lado interior do fenômeno escapa aos nossos sentidos, da mesma maneira como escapam a eles a existência de raios X, por exemplo, ou a realidade das ondas de rádio. Quem sustenta este lado interior do fenômeno da morte é a teologia. No passado, ela tentava explicar esta outra dimensão, usando o modelo dualista do corpo que morre, enquanto a alma permanecia inalterada por causa de sua natureza imortal. No entanto, a partir do momento em que esta concepção é abandonada, a morte se revela um fenômeno muito mais complexo do que parecia no modelo anterior. E de novo se formula a pergunta: como podemos sustentar a afirmação de que a vida não termina com a morte? a) Um argumento científico para a vida depois da morte Para justificar a nossa convicção de que o fenômeno da morte, além de seu aspecto exterior, apresenta também um lado interior inacessível aos nossos sentidos, podemos primeiro recorrer a um argumento científico que não pode ser chamado de uma prova, mas que nos dá um interessante enfoque em favor da crença de que, depois da morte, a vida continua. Estou me referindo a uma das leis fundamentais das ciências da natureza, conhecida como “o segundo axioma da termodinâmica”. Nele se diz que no cosmo não é possível a destruição de energia. O que acontece é transformação da energia, nunca a sua destruição. Esta lei da natureza é válida também para o homem, pois também o homem, afinal, é potencial energético. Conforme o segundo axioma da termodinâmica,este potencial energético não pode desaparecer. Só pode ser transformado. Sua energia permanece. Olhando, então, para o homem, descobrimos que, além do potencial energético material, há também energia emocional, energia de vontade, energia psíquica daquela pessoa que diz EU. Também esta energia não pode ser destruída. Ela deve continuar de uma ou de outra forma. Chegamos assim à prova quase científica de que, na morte, o ser humano não pode ser aniquilado. Sobre aquilo que acontecerá com o potencial energético material, a física, a química e a biologia nos podem informar. No homem, porém, há outras dimensões energéticas, que também não podem desaparecer. Devem continuar de uma ou de outra maneira. Nem a física, nem a biologia, nem a química nos podem explicar como continuarão estes potenciais, mas devem continuar, não podem desaparecer, porque seria contra uma das leis mais fundamentais conhecidas pela ciência. Aquele potencial energético que diz EU não pode desaparecer. Sobre o que aconteceu com ele, devemos perguntar a outras disciplinas da ciência: à psicologia, à filosofia e não, por último, à teologia. O homem, aglomerado de potenciais energéticos que não podem desaparecer b) O argumento teológico para a vida depois da morte Uma reflexão com base nas leis da natureza pode trazer certo apoio à crença numa vida após a morte; provar esta vida, porém, ela não pode. A última certeza de que a nossa vida se estende para além da morte só é encontrada por nós na fé. É nela que achamos a base para a esperança de que a nossa vida não se perde no nada. Esta nossa convicção se baseia em Deus. Neste Deus que se revelou no decorrer da história como um Deus da vida. Neste Deus que se manifestou em Jesus como um Deus que não quer a morte. Neste Deus que se revelou na ressurreição de Jesus como sendo mais forte que a morte.² Ressuscitando Jesus, ele se manifestou como um Deus que dá nova vida aos mortos. Neste Deus é que nós baseamos a nossa confiança. A confiança no fato de que ele, “que ressuscitou Jesus, ressuscitará também a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14; também Rm 8,11). Nosso Deus não quer a morte. ele dá nova vida àquele que está morto. Ele é um Deus da vida que ressuscita os mortos, e isso ele provou ressuscitando Jesus! Além de todas as argumentações filosóficas e científicas, o discurso teológico se baseia nesta profunda verdade de nossa fé. Fundamentados nela e a partir dela, podemos formular nossa mensagem de esperança, mostrando que a morte não é um fim, mas uma profunda transformação do ser humano. A morte não é um fim, mas uma profunda e completa transformação do ser humano em todas as suas dimensões. Essa transformação não se deve a um esforço humano nem a uma necessidade inerente de sua natureza. Quem a possibilitará e a realizará não será o ser humano. Quem a realizará será Deus. “Deus faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). Nenhum ser humano é capaz de superar a morte pelo seu próprio esforço. Isso só Deus pode. Aquele Deus, do qual declaramos que é um Deus da vida. Um Deus que não quer a morte, mas a vida (cf. Lc 20,38; Mt 22,32; Mc 12,27). Este Deus age também na morte do ser humano como um Deus da vida, transformando a pessoa, dando nova vida àquele que já estava morto. Deus age, dando nova vida àquele que já estava morto. Sendo assim, esta mesma pessoa que morreu em sua totalidade, com todas as suas dimensões, viverá também, em sua totalidade, tudo aquilo que se passará após sua morte. Também a vida após a morte, desde o primeiro momento, é a vida da pessoa humana inteira, concreta e total. Esta nova vida, porém, não se deve a um esforço humano, mas é inteiramente fundamentada no agir de um Deus que ressuscita 1 Ladislaus Boros, Mysterium mortis, p. 93. 2 Cf. neste contexto: Renold J. Blank, Reencarnação ou Ressurreição, pp. 89- 105. Sobre o significado escatológico da Ressurreição, vide: Renold J. Blank, “O significado escatológico da Ressurreição de Jesus”, em Revista de Cultura Teológica (IV) n. 20, jul./set., 1997, pp. 81-88. 3 QUEM RESSUSCITA A PESSOA HUMANA INTEIRA, NA MORTE, É DEUS Quem ressuscita a pessoa humana na morte não é esta pessoa, ela mesma, mas Deus. Deus ressuscita o ser humano para nova vida, e, no decorrer de toda a sua história com os homens, nunca ele se preocupou somente com a alma das pessoas, mas sempre com homens e mulheres inteiros e globais, então ele fará o mesmo também na morte destes homens e mulheres. Ele ressuscitará as pessoas inteiras. Estas pessoas que, como seres corporais, interiorizaram o mundo na sua dimensão corporal. Estas pessoas que, como seres corporais, criaram uma história que agora é e sempre será, por toda a eternidade, a sua história, vivida como pessoas inteiras, numa indivisível união de um ser material-espiritual. São estas pessoas que Deus ressuscita. Na sua morte, Deus ressuscitará as pessoas inteiras, com toda a sua história, com o seu envolvimento histórico, social, estrutural e cósmico. Tudo isso faz parte do grande processo que chamamos “A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS”. A nova concepção de uma res surreição na morte, todavia, choca-se de vez com uma realidade empírica que não podemos negar. Esta realidade é o cadáver, que se encontra diante de nossos olhos, e que nós enterramos. Como podemos falar de uma ressurreição da pessoa humana inteira na morte, quando estamos diante da realidade inegável deste cadáver? Para responder a tal indagação, devemos distinguir, de maneira bem clara, os dois lados daquela transformação integral e total por que o homem passa na morte. Deus ressuscita a pessoa inteira e global. Esta pessoa, no entanto, tem uma dimensão material a que chamamos corpo. Para compreendermos a complexa realidade da Ressurreição, devemos, em nossas reflexões, distinguir em partes aquilo que é, de fato, um acontecimento global. Podemos primeiro refletir sobre como imaginar a transformação da dimensão material, para depois responder sobre o modo da transformação pela qual passará a pessoa inteira e global, cuja identidade se mantém para além da morte. IV A TRANSFORMAÇÃO DA DIMENSÃO MATERIAL DO HOMEM na MORTE 1 COMO PODEMOS COMPREENDER A RESSURREIÇÃO DA PESSOA INTEIRA NA MORTE, QUANDO FICAMOS DIANTE DA REALIDADE INEGÁVEL DE UM CADÁVER? O novo modelo de uma ressurreição na morte resolve os problemas lógicos e antropológicos do modelo tradicional, mas, ao mesmo tempo, ele nos confronta com novo problema. Um problema que a concepção dualista do homem parecia ter resolvido de maneira elegante e indiscutível: a presença de um cadáver. Como podemos afirmar que o homem, na morte, será transformado na sua totalidade, em corpo e alma, se, ao mesmo tempo, estamos diante da realidade inegável de um corpo morto, de um cadáver? Como explicar a ressurreição imediata, na morte, diante de tal evidência? O modelo dualista deu, para este problema, uma explicação simples e inteligível: só a alma continua sobrevivendo, o corpo morre; ele só vai ressuscitar no final dos tempos. Como na maioria dos casos, as explicações simplistas se revelam erradas. As nossas reflexões nos capítulos anteriores mostraram que a ressurreição não se deixa explicar de maneira tão simples. Ela, pelo contrário, é um acontecimento muito complexo, um fenômeno para cuja explicação modelos de dois mil e quinhentos anos atrás não mais são adequados. A ressurreição é um fato tão abrangente que, nem tomando em consideração os mais modernos conhecimentos sobre física, antropologia, lógica e teoria do conhecimento, nós somos capazes de explicá-lo até o fundo. Mas, pelo menos, podemos compreendê-lo melhor. Podemos mostrar que não há contradição lógica entre o conteúdo de nossa fé e o conhecimento científico sobre o cosmo. Convicção, aliás, que já o grande filósofo Tomás de Aquino sempre defendera. Para a explicação daquilo que chamamos ressurreição, nós não precisamos de modelos helênicos pagãos. Podemos recorrer às mais novas concepções da cosmologia, pois a partir delas a nossafé na ressurreição pode ser explicada. Por outro lado, podemos voltar às nossas próprias bases bíblicas, onde encontraremos imagens e modelos que nos explicam aquilo que acontece com a pessoa humana na morte, de uma maneira surpreendentemente moderna, convincente e clara. O dualismo grego está superado e não é necessário para a nossa fé! A Bíblia explica a ressurreição na morte de maneira bem mais clara. Quando recorremos às concepções bíblicas, podemos superar de vez mais uma das consequências de um raciocínio com base helênico-dualista: a ideia de que a ressurreição seria a revivificação do cadáver. Exatamente isso é que ela não é! Ela é muito mais. Para compreender a sua profundidade chocante e escandalosa, devemos, no entanto, ter a coragem de dar um passo a mais em nossas reflexões. Devemos entrar em nova dimensão que é a dimensão teológica, a dimensão da fé, em que se fala de Deus. Frisamos, já no capítulo anterior, a verdade essencial: a ressurreição não é o resultado de um agir humano. A ressurreição é inteiramente obra de Deus Como tal, ela nunca pode ser compreendida como sendo a revivificação de um cadáver. Deus não se interessa por cadáveres, mas por pessoas. Para o modelo bíblico da ressurreição, tal fato fica evidente. As imagens medievais da ressurreição, em que se apresenta o cadáver dos mortos, saindo de seu túmulo e reunindo-se para a ressurreição, são imagens. Mas, como todas as imagens, elas passaram, no decorrer dos séculos, por um processo de coisificação, de tal maneira que até hoje muitos cristãos de fato só podem imaginar a ressurreição dos mortos assim: como revivificação de seu cadáver. Esta concepção foi reforçada ainda pelo modelo dualista-binário do homem. Superado este modelo, podemos voltar também àquilo que diz respeito à questão da ressurreição, às nossas verdadeiras bases, que — como sempre de novo devemos lembrar — não se encontram na filosofia helênica, mas nos textos e na cultura bíblica.¹ A Bíblia, quando fala da ressurreição, geralmente prefere não falar de uma ressurreição dos corpos, mas da ressurreição dos mortos. É exatamente nesta distinção que se manifesta toda a imensa distância entre a antropologia grega e a compreensão bíblica do homem. O homem é pessoa integral e indivisível e, na morte, Deus ressuscita este homem morto. Faz parte do homem também a sua dimensão material, aquilo que chamamos o seu corpo. É a partir deste modelo bíblico que devemos compreender a ressurreição. Ela acontece no momento de nossa morte e abrange o ser humano inteiro e integral. Isso quer dizer que ela é a ressurreição da pessoa humana inteira, com corpo e alma e com todas as suas dimensões. O problema que se põe neste momento para o cristão é: como se pode imaginar tal ressurreição global na morte quando, de outro lado, nos confrontamos com a realidade inegável de um cadáver? A resposta a tal indagação é importante, porque o nosso povo a formula com todo o direito. E, à medida que formos capazes de responder a ela, será possível superar o modelo antropológico dualista e recuperar uma verdadeira antropologia bíblica. Em primeiro lugar, cabe frisar que já existem declarações oficiais dentro de nossa Igreja, nas quais se responde à questão. Vejamos: A já citada “Comissão Teológica Internacional”, no seu documento de dezembro de 1990, declara o seguinte: “A Igreja jamais ensinou que a mesma matéria seja necessária, para que se possa dizer que o corpo é o mesmo”. (Em Questions Actuelles , n. 2, 1998, p. 19.) A Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha, na sua Carta Pastoral de Páscoa, de 1994, toma posição sobre o mesmo assunto, dizendo: “…o ‘eu’ humano encontra sua plenificação através de uma transformação em uma nova forma”. (Em Questions Actuelles, n. 2, 1998, p. 12.) Encontramos nestes textos, de maneira clara, a concepção a partir da qual se deve compreender a ressurreição na morte. Ela não é a revivificação do cadáver. Ela também não é um acontecimento que só diz respeito à dimensão corporal do homem. Ela é bem mais. É a transformação completa e integral da pessoa humana, que, apesar desta transformação, mantém sua identidade. A ressurreição do homem na morte significa a transformação completa e integral da pessoa humana inteira, que, apesar desta transformação, mantém a sua identidade. O modelo, a partir do qual podemos compreender este processo, nós o encontramos de maneira muito clara naqueles textos que são a nossa verdadeira base: os textos bíblicos. Eles talvez tenham ficado, por muito tempo, ofuscados pelo modelo dominante da antropologia helênica; hoje, contudo, estão sendo redescobertos como testemunhas fundamentais para responder à indagação sobre a ressurreição na morte. 1 A Comissão Teológica Internacional, no seu estudo sobre a escatologia, em dezembro de 1990 (publicado em 1992), acentua a necessidade de voltarmos às bases antropológicas bíblicas: “Devemos ter uma concepção do homem e do mundo que é baseada na Escritura e na razão” (em Questions Actuelles, “Le point de vue de l’église”, n. 2, de maio, p. 18). 2 A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM NA MORTE, CONFORME O MODELO DE PAULO Mencionamos aqui, como exemplo, o maravilhoso texto de Paulo, em 1Cor 15,35ss. Neste texto, Paulo responde, ponto por ponto, à questão: Como ressuscitam os mortos? A sua resposta se baseia no pressuposto bíblico central da unidade indivisível do ser humano. A ressurreição, assim, é necessariamente a ressurreição da pessoa humana inteira e integral. Para explicar a maneira como isso pode ocorrer, Paulo recorre à imagem da semente. Imagem profundamente bíblica e muito rica, através da qual é possível compreender a ressurreição de uma maneira clara e inteligível. Diz Paulo: 36 – “Aquilo que você semeia não germina se, antes, não morrer”. 37 – “Não é o futuro corpo da planta que você semeia, mas um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie”. 38 – “Depois Deus lhe dá um corpo conforme queira…” Encontramos, aqui, a resposta clara à indagação sobre como imaginar uma ressurreição na morte. Ela não é a revivificação do cadáver, mas, bem pelo contrário, é uma transformação completa e total do ser humano. Um salto qualitativo, a partir do qual o homem mantém sua dimensão corporal; aquilo, entretanto, que chamamos “o corpo ressuscitado” significa uma corporeidade diferente daquela que nós conhecemos. Giuseppe Barbáglio, no seu comentário exegético de 1Cor 15, formula este fato com as seguintes palavras: “Ambos são corpos; esse é o único aspecto da continuidade. Mas o segundo é um corpo diferente do primeiro; ou melhor, suas características são opostas”.¹ Essas características opostas Paulo tenta descrever, recorrendo a dicotomias como: • corpo corruptível, que se torna: corpo incorruptível; • corpo psíquico, que se torna: corpo espiritual; • corpo desprezível, que se torna: corpo glorioso. Em todas estas dicotomias fica bem claro que a palavra “corpo” deve ser entendida sempre como a totalidade psicofísica do homem, e nunca — nos termos de uma filosofia helênica — como somente uma parte material. Corpo, diz Giuseppe Barbáglio, significa para Paulo sempre “O SER HUMANO VIVO”.² Apesar das características opostas entre este ser humano corruptível e o ser humano ressuscitado, a identidade da pessoa permanece, porém. É ela que morreu e é ela que está sendo ressuscitada. Com outra forma, mas com a mesma identidade. O modelo de Paulo deixa este fato bem claro. Aquilo que ele apresenta como imagem da ressurreição fica hoje até mais inteligível do que na sua época, porque podemos recorrer aos conhecimentos da ciência para compreender melhor aquilo que Paulo quis exprimir. O seu modelo se deixa representar pelo seguinte desenho: Ressurreição = Um salto qualitativo Corpo ressuscitado = um corpo real que, na sua forma, é diferente do corpo corruptível, mas: A identidade da pessoa fica a mesma. Quando indagamos da microbiologia em que consiste a diferença entre a planta desenhada acima e a sua semente, ela diz basicamente o seguinte:A diferença consiste na forma exterior.³ A semente tem outra forma, diferente da planta. No nível genético, porém, semente e planta são idênticas. Toda célula da semente contém exatamente o mesmo código genético de toda célula da planta. Por causa disso, apesar de sua forma diferente, há uma total identidade entre semente e planta. Exatamente assim é que devemos compreender a ressurreição: conforme o modelo de Paulo. É fascinante ver como, assim, um texto bíblico encontra sua confirmação e até sua melhor explicação através dos conhecimentos científicos mais recentes. Na época de Paulo não se sabia nada sobre microbiologia. Paulo desenvolveu o seu modelo sob inspiração do Espírito Santo, como nós acreditamos. Só hoje, à luz da ciência, percebemos como este modelo é perfeito. O homem, na morte, passa por uma transformação profunda de todo o seu ser. Esta transformação muda o seu aspecto corporal. O corpo ressuscitado, na forma exterior, não é o mesmo corpo que nós temos agora. Mas, da mesma maneira como a planta muda de forma exterior, permanecendo exatamente a mesma em termos genéticos, também o ser humano ressuscitado muda de forma, permanecendo, porém, a mesma pessoa, com todas as suas dimensões e toda a sua identidade mantidas. Poderíamos perguntar ainda: “Mas por que nós não percebemos essa transformação, já que ela acontece no momento da morte? Por que não enxergamos este corpo glorioso com os nossos olhos?” Para a resposta a esta indagação, de novo pode-se recorrer ao modelo de Paulo: imaginemos um verme que não é capaz de sair da terra; tal verme ficaria sempre diante de uma semente que se decompõe devagar, mesmo que, muito acima dele, numa dimensão inacessível a ele, a nova planta já exista. O verme nunca seria capaz de enxergar esta planta. Assim também é com a nossa maneira de perceber a realidade. Nossos sentidos nos informam somente sobre 4 dimensões dela. O corpo glorioso, no entanto, permanece em dimensões superiores, inacessíveis aos nossos sentidos. Por isso não o enxergamos; o cadáver, porém, enxergamos. E, com ele, fazemos a mesma experiência que o nosso verme faria com a semente. Ela se decompõe lentamente e finalmente desaparece. Isso, no entanto, não impede que a planta, que brotou da semente, exista e floresça. Mas esta sua existência se realiza numa dimensão inacessível ao verme. Assim, também a existência da pessoa ressuscitada é uma realidade, independentemente do fato de os nossos olhos, nas dimensões acessíveis a eles, não enxergarem esta realidade. A pessoa ressuscitada vive uma existência ressuscitada, independentemente do cadáver que nós ainda enxergamos. É esta a imagem, usada por Paulo, para responder à nossa indagação sobre a ressurreição. A sua imagem responde de maneira perfeita a qualquer dúvida. O desafio agora é transmitir esta imagem aos fiéis, para que, a partir dela, eles possam compreender melhor a grande realidade de nossa fé, que se chama “ressurreição dos mortos”. Os nossos sentidos nos informam somente sobre 4 dimensões da realidade. O corpo glorioso, no entanto, pertence a dimensões superiores, inacessíveis aos sentidos. Por isso não o enxergamos; o cadáver, porém, enxergamos. 1 Guiseppe Barbáglio, As cartas de Paulo (I), p. 369. 2 Id., ibid., pp. 369-370. 3 A palavra “forma” não pode ser interpretada aqui a partir do seu significado filosófico tomista, mas a partir de seu uso fenomenológico-científico. 3 O MODELO DESENVOLVIDO POR PAULO ESTÁ SENDO CONFIRMADO PELOS RELATOS SOBRE A RESSURREIÇÃO DE JESUS O corpo ressuscitado é idêntico, mas não igual ao corpo que nós conhecemos. É esta a profunda verdade que pode ser deduzida da imagem com a qual o apóstolo Paulo responde à indagação sobre como os mortos ressuscitam. Mas tal informação não aparece só no texto analisado de Paulo. Ela transparece também, de maneira nítida, nos relatos a respeito de Jesus ressuscitado. Mais uma vez, a ressurreição dele se revela como sendo modelo e primícias de nossa própria ressurreição na morte. Sem entrar na discussão, se nos textos sobre as aparições de Jesus ressuscitado devemos ver relatos históricos de aparições, ou descrições de visões vividas pelos discípulos, queremos mostrar como, em todos os textos respectivos ao assunto, encontramos sempre o mesmo elemento frisado por Paulo: o corpo ressuscitado não tem necessariamente a mesma forma que a do corpo antes da ressurreição. Nos textos sobre Jesus ressuscitado, este fato vem sempre expressado pelo mesmo esquema: a pessoa à qual Jesus se mostra não o reconhece à primeira vista. Parece que ele não tinha mais a mesma forma exterior. Quando se apresenta pela primeira vez aos doze apóstolos, ele entra no local, apesar de portas e janelas estarem fechadas. Tal característica o corpo dele não tinha, antes da ressurreição. Quando ele se encontra com Maria Madalena, ela o confunde com um jardineiro. Os discípulos de Emaús pensam que é um transeunte, e os discípulos, no lago de Tiberíades, simplesmente não o reconhecem. Tudo isso, apesar de estes discípulos, da mesma maneira que Maria, terem convivido com ele durante anos. Obviamente, a forma ou as características dele mudaram de tal maneira, que ele não mais é “igual” ao que era antes. Mas, apesar disso, ele é Jesus; idêntico àquele Jesus que conheciam antes de sua morte. Os textos exprimem este fato sempre pelo mesmo tópico. Jesus se manifesta de certa maneira específica, e esta manifestação se torna sinal e prova de sua identidade. Para Maria Madalena é uma única palavra: “Maria!”, e ela o reconhece: “É o Senhor!” Para os discípulos, as suas chagas, ou a repetição do gesto eucarístico, ou a repetição da pesca milagrosa. Um gesto típico e, nele, os discípulos percebem a sua identidade: “É o Senhor! É ele!” Não é um outro ser. É o mesmo Jesus que eles conheciam, mas na sua nova forma de ressuscitado. É desta maneira que os textos, apresentados no seu núcleo, além de todo o profundo conteúdo teológico geralmente mencionado, tornam-se também modelos para a questão da ressurreição, confirmando Paulo e confirmando também aquilo que se diz, na escatologia atual, sobre a ressurreição do corpo. Os textos sobre Jesus ressuscitado se tornam paradigma bíblico para a ressurreição do corpo! Relatos bíblicos sobre Jesus ressuscitado¹ 1 A presente argumentação se limita àquilo que os textos apresentam. Não entra na discussão teológica sobre a questão, se as aparições de Jesus, em termos históricos, devem ser compreendidas como fatos empíricos ou como visões subjetivas. 4 ALÉM DA IMAGEM USADA POR PAULO,HÁ OUTRAS IMAGENS PARA COMPREENDER A TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM NA MORTE 4.1. Morrer é nascer: a morte é um nascimento Só conseguimos imaginar a profunda transformação do homem, na morte, através de imagens, de metáforas. Quanto mais o homem de hoje se acostuma a pensar unicamente em termos científicos, exigindo provas empíricas das ciências da natureza, tanto mais dificuldade encontra ele em compreender verdades da fé, para as quais não podemos recorrer a provas desse tipo. Todavia, também para este homem de hoje existe a possibilidade de encontrar, através da observação da natureza, inúmeros indícios para explicar aquilo de que falamos em nosso discurso religioso. O mundo, que acreditamos ser obra de Deus, está de fato cheio de sinais, de metáforas para aquilo que acontece conosco na morte. Já vimos como o apóstolo Paulo recorreu à imagem da semente que se transforma em planta. Da mesma maneira, podemos também usar a experiência do nascer, como imagem para a nossa transformação na morte. No ato do nascimento, o feto, de certa maneira, “morre” juntamente com tudo aquilo que até então formava seu mundo. Só esta “morte”, porém, e a dissolução de seu primeiro contexto de vida lhe propiciam a condição para entrar num mundo mais amplo, com outras e maiores dimensões de vida, com novos horizontes, dos quais nunca teria a mínima experiência, caso tivesse permanecido feto. A morte é um nascimento para novas dimensões de vida. Enquanto essefeto, logo depois de nascer, já vive dentro das dimensões de um mundo absolutamente novo para ele, no útero da mãe permanece ainda, por um pequeno tempo, uma placenta. E, caso aquele feto tivesse sido um de dois gêmeos, o irmão dele, ainda no útero materno, teria experimentado o desaparecimento de seu irmão, sem saber se este irmão, depois do parto, ainda viveria. O único sinal dele que ainda permanece é aquela placenta; podemos ver nela a metáfora do corpo humano: nós também o enxergamos ainda, mas a pessoa que passou pelo parto da morte já vive em outras e novas dimensões pós- mortais. 4.2. Morrer é como uma metamorfose Há um outro fenômeno na natureza que reflete, de maneira metafórica e muito fiel, a transformação pela qual o homem passa na morte. Trata-se da metamorfose da lagarta em borboleta. O que a lagarta nela experimenta é uma morte. Entretanto, sua morte não significa fim, mas sim transformação, através da qual aparece um ser qualitativamente novo, a borboleta. Tudo o que era lagarta está sendo transformado para se tornar borboleta. Não há imagem melhor para o que acontecerá com o homem na morte: metamorfose. A transformação da lagarta numa borboleta. Em termos metafóricos, podemos imaginar aquilo que acontece ao ser humano na morte, recorrendo ao exemplo da transformação de uma lagarta em borboleta. A forma exterior da lagarta em nada deixa transparecer aquilo em que ela será transformada depois da metamorfose. A borboleta tem forma totalmente outra e conhece dimensões e experiências com que a lagarta nem poderia sonhar. Mas, apesar de todas estas diferenças, a microbiologia nos mostra que o código genético de cada uma das células da lagarta é absolutamente idêntico ao código genético das células da borboleta. Na sua forma exterior, elas diferem; naquilo, porém, que é a essência de seu ser, no código genético, mantêm uma identidade total. E, além disso, até é possível — apesar de sua forma diferente — identificar, elemento por elemento, a relação entre os membros do corpo da borboleta e os da lagarta. Desta maneira, a metamorfose da lagarta se apresenta como uma imagem maravilhosa para exprimir, de maneira metafórica, a transformação pela qual o ser humano passa na morte. E, da mesma maneira que a lagarta deixa ainda atrás de si um casulo que permanece por certo tempo — mesmo quando a borboleta já vive dentro das novas dimensões de seu mundo de flores —, também o ser humano deixa atrás de si, na sua morte, um cadáver que, só após certo tempo, devagar, decompõe-se, enquanto a pessoa já vive dentro das novas dimensões daquilo que chamamos eternidade. A morte se torna compreensível através da analogia da metamorfose de uma lagarta que se transforma em borboleta. Usando assim as profundas analogias existentes na própria natureza, a teologia se torna capaz de transmitir também ao homem de hoje a profunda verdade fundamental sobre o ser humano e sua vida eterna: MORTE É TRANSFORMAÇÃO! 5 A RESSURREIÇÃO DO CORPO ALCANÇA UM SIGNIFICADO MAIS AMPLO, PORQUE ABRANGE A PESSOA HUMANA NA SUA TOTALIDADE O que na morte se transforma é a pessoa inteira, total. Essa pessoa, porém, tem uma história vivida dentro das dimensões corporais. Quando Deus age, ele nunca age só com a alma, mas com a pessoa inteira, com toda a sua história e toda a sua corporeidade. Contra todas as tentativas de hostilidade a esta dimensão corporal, contra todas as tentativas platônicas, neoplatônicas e gnósticas de menosprezar o corpo, a tradição cristã sempre se manteve categórica na sua afirmação sobre a ressurreição dos corpos: Deus ressuscitará o ser humano inteiro, com todas as suas dimensões. A dimensão corporal é uma destas dimensões essenciais. Na morte, “o corpo” e, com ele, toda a história vivida dentro de um mundo não serão simplesmente deixados para trás. Tornar-se-ão definitivos no sujeito pessoal. Este sujeito é — na morte e no primeiro encontro com Deus que se realiza então — exatamente o resultado desta sua história e desta sua corporeidade. Era através do corpo que ele ficava ligado e entrelaçado com o mundo e a história.¹ Mostrávamos, nos capítulos anteriores, que todas estas dimensões estão sendo recuperadas por Deus, e que isso deve se situar necessariamente no momento de nossa morte. Num discurso tradicional sempre se falou de uma situação intermediária entre a morte individual e a assim chamada ressurreição da carne no final dos tempos. As reflexões anteriores mostraram que essa concepção provoca contradições insuperáveis, de modo que não mais pode ser mantida. O que pode e deve ser mantida é a fé na ressurreição do corpo. Uma ressurreição que abrange toda e qualquer dimensão da pessoa humana e que se realiza em termos de uma transformação radical no momento de nossa morte. 1 Cf. Gisbert Greshake, “Seele in der Geschichte der christlichen Eschatologie”, em VV. AA., Seele, Problembegriff christlicher Eschatologie, p. 151. 6 A AFIRMAÇÃO DE QUE A RESSURREIÇÃO DO CORPO ACONTECE NO MOMENTO DA MORTE TEM LONGA TRADIÇÃO DENTRO DA FÉ CRISTà Cabe lembrar — além de tudo aquilo que foi mostrado nos capítulos anteriores — que a fé na ressurreição dos corpos, na morte, tem longa tradição dentro da história da religião cristã. Ela é parte integrante da escatologia da Igreja primitiva dos mártires. Mas não só isso. “A concepção de ressurreição na morte”, diz Gisbert Greshake, “não é neologismo. Ela trava com muitas tradições que, por várias causas, foram esquecidas ou negligenciadas dentro da história da teologia.”¹ O citado autor menciona depois as seguintes dessas tradições:² 1. A concepção judaico-cristã, conforme a qual uma alma corporal aguarda numa situação corporal a sua entrada no céu. 2. A já mencionada escatologia dos mártires na Igreja primitiva. 3. A consequência radical da doutrina escolástica conforme a qual a alma é a única forma do corpo. Baseando-se nesta doutrina, o grande teólogo Karl Rahner já postulou uma ressurreição do corpo na morte.³ 4. A escatologia patrística de Clemente de Alexandria. A estes argumentos teóricos deve-se acrescentar o testemunho da fé de nosso povo. Uma fé que em muito retoma a atitude da Igreja dos mártires dos primeiros séculos. Uma fé marcada pela convicção de que aqueles que morreram por causa de sua fé já estão ressuscitados por Deus. Assim podemos ler debaixo dos retratos de pessoas assassinadas e veneradas como mártires em El Salvador as palavras: “Assassinado e ressuscitado no dia x”. O dia da morte é também o dia da ressurreição. O nosso povo dá testemunho disso na sua fé.⁴ 1 Seele, Problembegriff christlicher. Eschatologie, p. 155. 2 Op. cit., pp. 155-157. 3 Karl Rahner, “Ueber den Zwischenzustand”, em Schriften zur Theologie XII, pp. 461ss. 4 Cf. Orientierung, n. 5 (53), 15 de março de 1989. 7 A RESSURREIÇÃO DO CORPO NA MORTE É CONSEQUÊNCIA LÓGICA DA DIMENSÃO CÓSMICA DO JUÍZO FINAL A vontade salvífica de Deus não para no indivíduo. Deus quer salvar o mundo inteiro e a sua salvação inclui a totalidade do ser, isto quer dizer: o cosmo inteiro. Em todas as nossas reflexões sobre a ressurreição da pessoa, não podemos esquecer nunca esse fato e suas consequências. Não só a pessoa humana, mas o cosmo na sua totalidade serão plenificados por Deus e integrados na salvação. Para esta plenificação, a linguagem tradicional usou a noção do JUÍZO FINAL, e foi dito que, por ocasião deste Juízo Final sobre o cosmo, acontecerá também a ressurreição dos mortos. A partir das consequências que as reflexões sobre “eternidade” trouxeram para a compreensão da ressurreição dos mortos, fica claro que devemos também repensar a compreensão temporal do Juízo Final. Mostraremos, nos capítulos sobre o tema, que também aquilo que chamamos Juízo Final deve ser vivido pela pessoa que morreu, necessariamente, no momento de sua morte. A pessoa que morreu vive o Juízo final no momento de sua morte. É neste Juízo Final, porém, que acontece a ressurreição do corpo. Para o ser humano que morreu, o tempo não existe mais. Aquilo que acontecepara a pessoa ligada ao espaço-tempo cósmico, num futuro distante ainda, para a que morreu se realiza no “agora” atemporal do fim dos tempos, isto quer dizer, na morte. “Num único instante atemporal, essa pessoa passa a vivenciar aquele evento que para o cosmo — por ser ligado ao tempo — só acontecerá durante o transcorrer de, talvez, milhões e milhões de anos: o fim do mundo e, consequentemente, “o juízo final”.¹ Neste Juízo Final, o cosmo inteiro chega ao seu fim último. Também a dimensão material deste cosmo alcança o seu fim último. E a pessoa humana, através de sua dimensão corporal, faz parte desta dimensão material. Ela faz parte do destino do cosmo. Ela faz parte de toda a história do universo. A ressurreição do corpo, na morte, não é um acontecimento isolado e individual, mas um evento dentro de uma dinâmica cósmica de plenificação do universo, do qual o ser humano participa. A muito prestigiada enciclopédia teológica Mysterium salutis sintetiza esta dimensão da ressurreição dos mortos de maneira muito clara. Diz ela: “Deus ama mais do que as moléculas que no momento da morte se encontram no corpo. Ele ama um corpo marcado por toda a fadiga, mas também pelo anseio sem descanso de peregrinação; um corpo que, no decorrer desta peregrinação, deixou traços no mundo. Por estes traços, o mundo foi humanizado... Ressurreição do corpo significa que Deus não perdeu nada de tudo isso, porque ama o homem. Ele recolheu todas as lágrimas e não perdeu nenhum sorriso. Ressurreição do corpo significa que o homem reencontra junto a Deus não somente o seu último momento, mas toda a sua história”.² 1 Renold J. Blank, A morte em questão, p. 35; cf. também o modelo sobre o destino do homem além da morte, em ibid., p. 37. 2 Wilhelm Breuning, “Systematische Entfaltung der eschatologischen Aussagen”, em: J. Feiner e M. Loehrer, Mysterium salutis, vol. 5, p. 882. V NA MORTE, A IDENTIDADE DA PESSOA FICA PRESERVADA E, PELA PRIMEIRA VEZ, ESTA PESSOA SE CONHECE EM TODAS AS SUAS DIMENSÕES Todas as imagens usadas para explicar a transformação pela qual o ser humano passa na morte deixam bem claro um fato fundamental: o que está sendo transformado é a forma exterior, aquilo que nós chamamos de corpo. O que, porém, se mantém em toda essa transformação é a identidade da pessoa como ser psicomaterial. A pessoa fica a mesma. Ela é idêntica àquela pessoa que morreu. Com o mesmo caráter, com as mesmas características, com todas as suas dimensões, incluindo as dimensões materiais. A pessoa ressuscitada é um eu formado e definido. A estrutura deste “eu”, porém, formou-se na vida vivida de tal maneira que podemos dizer que, na morte, o homem é exatamente aquela pessoa, aquela personalidade que ele mesmo construiu durante sua vida. Diante deste fato — e depois de termos refletido sobre a transformação da dimensão corporal na ressurreição —, devemos agora perguntar o que acontece com esta pessoa formada, quando ela morreu. Nesta reflexão, devemos sempre manter em mente que aquilo sobre o que refletimos aqui, em passos sucessivos, na realidade é um único processo, um único acontecimento global e integral, por que o ser humano passa na morte e que chamamos ressurreição. 1 NA MORTE, A PESSOA HUMANA É EXATAMENTE AQUELA PERSONALIDADE QUE CONSTRUIU DURANTE SUA VIDA No final do processo do morrer, isto é, na morte, a vida vivida até então torna-se propriedade definitiva e inalterável daquele que a viveu. Durante a vida, nunca era assim. Sempre era possível recomeçar. Sempre era possível corrigir e refazer. Nada, de certa maneira, era definitivo, porque a vida sempre oferecia nova oportunidade, novo começo. Com o fim da vida, esta possibilidade de recomeçar terminou. NO MOMENTO DA MORTE, O HOMEM SE TORNA DEFINITIVO. Com a morte, a vida humana se torna definitiva. Nada mais pode ser alterado. Nada mais pode ser mudado. A dinâmica cíclica daquilo que chamamos “vida” chegou a um fim. É fim duplo no seguinte sentido: a. Não posso mais mudar nenhum dos meus atos nem nenhuma das consequências de meus atos realizados durante a vida. b. Não posso mais mudar nada na minha própria personalidade. Compreendendo o termo de “PESSOA HUMANA” não somente em sentido psicológico, mas também em sentido existencial-estrutural, a minha pessoa não é só o que sou, mas também o que fiz. Neste sentido, podemos compreender o momento da morte como sendo o PONTO FINAL DE UM PROCESSO DINÂMICO, no decorrer do qual, o homem se tornou esta única e inconfundível pessoa. Sendo agora esta pessoa, com estas características e com este caráter, o homem individual chega ao seu fim. Este fim significa assim o termo de movimento duplo e antagônico ao mesmo tempo. De um lado, o homem gastou a sua energia física até ela se apagar com a morte. De outro lado, porém, O HOMEM CONSTRUIU A SUA PERSONALIDADE. Todos os atos que o homem realizou, todas as decisões que ele tomou, tudo o que ele viveu, padeceu e experimentou, os menores fatos e os mais significativos momentos, TUDO CONTRIBUIU PARA A FORMAÇÃO DE SUA PESSOA.¹ No momento do fim definitivo da vida, porém, toda esta dinâmica evolutiva termina. Não há mais acontecimentos ou decisões que possam marcar e estruturar a personalidade. Ela é agora assim, formada, inalterável, DEFINITIVA. Nada mais, nunca mais pode ser anulado. ASSIM, EU SOU! ESTA PESSOA, EU SOU! NO MOMENTO DA MINHA MORTE, EU SOU EXATAMENTE AQUILO QUE FIZ DE MIM NO DECORRER DA VIDA! Neste sentido, podemos dizer que a morte põe o ser humano face a face com o que fez de si durante a vida. 1 O primeiro a apresentar este modelo é Ladislaus Boros, no seu livro clássico Mysterium mortis, pp. 59-65. 2 A CRENÇA NA VIDA PÓS-MORTE AUMENTA A RESPONSABILIDADE DIANTE DA VIDA VIVIDA Caso tudo termine com o fim da vida, não havendo mais vida depois, então a responsabilidade do ser humano termina aqui. Ele desaparece no nada, e o único medo que pode incomodá-lo é o medo natural diante deste fim de vida. Se, porém, não houver fim definitivo, se a morte vital não trouxer consigo o fim absoluto da existência, mas o começo de nova vida, então a responsabilidade permanece. Além dos motivos de angústia natural surgirão outros, diferentes e mais aflitivos ainda. Neste caso, o ser humano está diante de uma vida vivida, da qual, como foi mostrado no capítulo anterior, não pode mais mudar nada. Esta vida vivida até então torna-se propriedade definitiva e inalterável daquele que a viveu. E aí se manifesta uma seriedade que excede em muito a implacabilidade de uma aniquilação total. Pois, agora, a morte confronta o ser humano consigo mesmo, fatalmente e sem nenhuma possibilidade de fuga. NA MORTE, NÃO HÁ MAIS POSSIBILIDADE DE FUGIR DE SI MESMO. Na morte, não há, sobretudo, mais nenhuma possibilidade de fugir da minha culpa. A vida humana inteira já se encontra, com maior ou menor intensidade, sob o peso da falha, de possibilidades não realizadas ou ainda de decisões falsas. Com isso, a convicção de que a vida continua de fato depois da morte representa para a maioria das pessoas uma carga a mais. Pois o fim da vida as põe face a face com a sua culpa. A MORTE PÕE O SER HUMANO FACE A FACE COM A SUA CULPA, SEM NENHUMA POSSIBILIDADE DE PODER FUGIR. Se, na morte, minha vida tornou-se definitiva, então também minhas culpas tornaram-se definitivas. Não podendo mais fugir, o ser humano se encontra na necessidade de aceitar esta vida como a sua, e aceitar com isso também as falhas e as culpas desta vida como suas. Esta necessidade, porém, é mais uma razão para tornar a morte abominável. A crença em uma vida depois da morte, em face de nossa culpa, não significa nada mais que aumento assustador da responsabilidade, e, com isto, um terror de proporções desumanas ante a morte. Esta é a conclusão lógica de raciocínio natural. 3 NA MORTE TERMINA, PARA A PESSOA HUMANA, O TEMPO E SUA DIMENSÃO CÍCLICA Estamos acostumados a ligar a dimensão temporal com as noções de transformação, de envelhecimento, de começo e fim, de passado imutável.Tudo isso é verdade, e à medida que a vida passa, há mesmo tantas e tantas situações que se fixaram, que não mais podem ser mudadas e nas quais, como Jean Paul Sartre o formulou, o homem fica preso mesmo. Apesar de tudo isso, porém, não podemos esquecer a outra dimensão do tempo que passa. É a dimensão cíclica, pela qual, sempre há novo começo. A noite não fica definitiva e toda meia-noite é também o começo de novo dia. Por causa dessa dimensão cíclica do tempo permanece acesa a nossa esperança, pois, enquanto a vida dura, haverá sempre novo amanhã. Isso significa que os nossos atos podem ser corrigidos. Significa que em muitos e muitos casos, podemos re-começar, podemos re-fazer amanhã aquilo que hoje fizemos mal, e por minha falha de ontem, posso desculpar-me no futuro. NA VIDA HÁ POSSIBILIDADE DE RE-COMEÇAR. NA VIDA HÁ SEMPRE NOVA ESPERANÇA. Com a morte, porém, o homem sai da dimensão temporal, e com isso também de seus ciclos de fazer e re-fazer. Na morte, não há mais a possibilidade de re-fazer e também acabou a certeza de que haverá repetição. NA MORTE, O HOMEM É AQUILO QUE FEZ DE SI MESMO, E NÃO HÁ MAIS NENHUMA POSSIBILIDADE DE RE-FAZER ALGO. Na morte acabou também a possibilidade de corrigir ainda alguma de nossas obras. Elas ficam assim, como são; nada mais pode ser mudado, tudo se tornou definitivo. NA MORTE, O HOMEM SE TORNA DEFINITIVO E TAMBÉM TUDO AQUILO QUE ELE FEZ SE TORNA DEFINITIVO. Sendo este ser, com estas obras, acabadas e inacabadas, com estas qualidades e estes defeitos, o homem se encontra com Deus, não podendo mais mudar nada daquilo que fez nem corrigir nenhuma das consequências daquilo que fez ou não fez. Na sua morte, o homem se tornou definitivo. Não mais haverá a possibilidade de atenuar as circunstâncias, nem de fugir. Não mais haverá o fluxo do tempo, rumo a um futuro ainda aberto. O que haverá é presença total. Presença da própria pessoa, e presença também de tudo aquilo que esta pessoa fez ou omitiu durante toda a vida. Pela primeira vez, o homem conhecerá não só a si mesmo de maneira total, mas também todas as dimensões históricas, sociais e estruturais de sua vida. E todas essas dimensões também se tornarão definitivas. NA MORTE SE TORNAM DEFINITIVOS: — O HOMEM NA SUA DIMENSÃO PESSOAL. — O HOMEM NA SUA DIMENSÃO SOCIOESTRUTURAL. — O HOMEM NA SUA DIMENSÃO HISTÓRICA. 4 NA MORTE, O HOMEM CONHECE A SI MESMO Durante toda a sua vida, o homem podia fechar os olhos perante si mesmo. Podia fechar os olhos também perante as consequências de seus atos e de suas omissões. No momento da morte, isso não mais é possível. A morte se torna o primeiro momento de cognição total, na qual o ser humano será confrontado, queira ou não, com todas as dimensões de si mesmo. NA MORTE, O HOMEM VIVE A EXPERIÊNCIA DE COGNIÇÃO TOTAL. Essa cognição total abrangerá todas as dimensões daquilo que era a existência concreta daquele ser humano. 4.1. Dimensão pessoal Sabemos pela psicanálise que a pessoa humana em si já abrange mais níveis do que o nosso eu consciente. Há no homem toda uma imensa dimensão de desejos refutados, de emoções e de instintos, dos quais normalmente não temos nenhum ou pouco conhecimento. Este inconsciente, porém, integra o ser humano, da mesma maneira como o EU, do qual estou consciente durante a minha vida. Mas não há só isso. Carl Gustav Jung, o fundador da psicologia analítica, mostrou que, além da dimensão do inconsciente, há também, na pessoa humana, um nível de inconsciente coletivo, no qual encontramos os conteúdos arquetípicos que nos ligam com o passado evolutivo da espécie humana. Tudo isso, do qual normalmente não temos consciência na vida, faz parte de nossa pessoa. Na morte, conheceremos pela primeira vez a nossa pessoa em sua totalidade. A PESSOA HUMANA ABRANGE MUITOS NÍVEIS. TODOS ESTES NÍVEIS SE TORNARÃO CONSCIENTES NA MORTE. 4.2. Dimensão socioestrutural O ser humano nunca pode ser visto unicamente como ser individual. Toda vida humana está ligada à vida de outras pessoas por milhares de relacionamentos. Toda decisão humana cria situações que por sua vez terão consequências para outras pessoas e para as estruturas existentes. Toda decisão humana reforça, modifica ou transforma em maior ou menor escala alguns elementos destas estruturas. Assim, todo indivíduo realiza a sua própria existência dentro de uma rede complexa de inter-relações, pelas quais interfere na vida de outros e está influenciado por sua vez também. TODO SER HUMANO É UM ELEMENTO DENTRO DE UM SISTEMA ENTRELAÇADO. A sociologia fala neste contexto de um sistema entrelaçado, do qual cada indivíduo faz parte. Os seus atos e também as suas omissões têm consequências não só para outros indivíduos, mas para o sistema como um todo. Todo e qualquer movimento de qualquer um dos elementos desta rede de inter- relações se transmite em maior ou menor escala a todos os elementos da rede. Durante a nossa vida, nunca seremos capazes de perceber e compreender as influências e as interferências de nossos atos no todo do sistema. A pessoa humana: UM ELEMENTO DENTRO DE UM SISTEMA ENTRELAÇADO → A DIMENSão socioestrutural da vida humana Estas interferências, porém, existem! Toda vida humana tem importância imensa e específica para o sistema em sua totalidade. Na morte, pela primeira vez, o indivíduo perceberá esta sua influência. Perceberá que, por causa daquele seu ato, aconteceu tal fato que, por sua vez, provocou outra consequência e esta consequência se tornou a causa de tal e tal acontecimento, que por sua vez… não há fim nesta linha de causas. TODA VIDA HUMANA TEM IMPORTÂNCIA INCRÍVEL PELO TODO DO SISTEMA. NÃO HÁ VIDA INSIGNIFICANTE! Na morte, todo ser humano, com espanto e com estupefação, descobrirá as dimensões cósmicas de seus atos. 4.3. Dimensão histórica Os atos e omissões de uma pessoa não ficam relacionados só com esta pessoa, enquanto ela vive; também não desaparecem com sua morte. Todo e qualquer ato, toda e qualquer omissão têm, em maior ou menor escala, consequências para o futuro. Consequências que nunca mais terminarão, de tal maneira que, a partir de uma decisão minha, começa toda uma nova linha histórica que não mais acaba, em toda a eternidade. Esta dimensão histórica dos meus atos se mostra, da melhor maneira, pela linha genealógica. Com todo ato de procriação começa nova história. História de cujas consequências nenhum criador pode ter a mínima ideia. Porque seu filho terá novos filhos e seus netos por sua vez terão filhos, e assim por diante. Ninguém sabe o que será realizado por membros desta linha genealógica na décima geração ou na centésima. Na origem de tudo, porém, encontramos sempre o ato de procriação de um ser humano, que neste ato, com a maior probabilidade, nem de longe pensou em consequências históricas. Consequências históricas Estas consequências, porém, existem. E, sendo assim, todo ato humano tem a sua profunda dignidade. Não só o ato de pessoas importantes, poderosas, de dirigentes e regentes, cujas decisões movem o mundo. O ato do lavrador simples e o da mulher marginalizada em qualquer lugar do mundo contêm a mesma dimensão. Pois o que vale para o exemplo da procriação vale para muitos e muitos outros atos humanos. Ninguém sabe quais as consequências deles nas próximas gerações. Consequências, porém, terão. No decorrer de nossa vida, nunca teremos sequer ideia de tudo isso. Na morte, porém, a pessoa humana verá, com espanto e com estupefação talvez, as consequências históricas de seus atos. Unidade IV NOSSA VIDA DEPOIS DA VIDA: A GRANDE MENSAGEM TEOLÓGICA DA ESPERANÇA I JUÍZO PARTICULAR OU O PRIMEIRO ENCONTRO DO HOMEM COM DEUS 1 O JUÍZO PARTICULAR, NA MORTE, É UM JUÍZO DA PESSOA HUMANA SOBRE SI MESMA, diante de DEUS 1.1. Na sua morte, a pessoa humana não se encontra com um soberano aterrador Na sua morte, o homem reconhece pela primeira vez todo o seu ser, conforme tentamos demonstrar no capítulo anterior. Este conhecimento de si mesmo em todas as suas dimensões, no entanto,não é um conhecer isolado, individual e dirigido unicamente para a pessoa em si mesma. Ele, bem pelo contrário, é uma tomada de consciência dinâmica não só perante a pessoa em si mesma, mas também, e muito mais, perante Deus. Na sua morte, o homem se encontra com Deus. Com tudo o que fez de si no decorrer de sua vida, o homem se defronta com Deus. Ele se encontra com o amor de Deus como pessoa feita e definitivamente formada. Defrontando-se com este amor, o homem reconhece tudo aquilo que fez de sua vida, e também tudo o que está devendo ainda. Tudo o que agora nunca mais poderá realizar, porque está morto. Falhou e não haverá mais nova oportunidade, porque a vida acabou. Em tal situação volta, de maneira urgente, a questão já tantas vezes formulada na vida: Quem é esse Deus, perante o qual o homem se torna consciente de sua vida? “Deus não é mesquinho”, afirma Ladislaus Boros. “Ele é o senhor generoso.”¹ Nesta opinião Boros não está sozinho, J. Ratzinger vê no conceito de julgamento simplesmente a manifestação da evidência da verdade do ser humano perante Deus.² Leonardo Boff, à medida que adota as ideias e os argumentos de Ladislaus Boros,³ situa o acontecimento, denominado tradicionalmente juízo, dentro do contexto da hipótese de uma última decisão na morte, hipótese esta formulada pela primeira vez por Boros. Baseando-se nisto, afirma “que o juízo na morte não é um balanço matemático sobre a vida passada, onde aparecem diante de Deus o saldo e o débito, o passivo e o ativo. Mas possui dimensão própria de derradeira e plena determinação do homem diante de Deus, com a possibilidade de conversão para o pecador”.⁴ Mais adiante teremos de aprofundar mais especificamente estas questões, bem como o problema da identificação do julgamento pessoal e do juízo final. Por enquanto, parece-me essencial ter sempre em mente, com a maior nitidez possível e com o resultado das considerações anteriores, um primeiro fato: o ser humano, em seu primeiro encontro com Deus, no assim chamado juízo, não depara com o soberano aterrador, que soma mesquinhamente os nossos pecados e, quem sabe, até condena arbitrariamente. Esta convicção, porém, não pode, de maneira alguma, deixar-nos cair em um otimismo superficial e transformar o encontro do homem com Deus em doce “final feliz”. “Encontrar Deus na chama ardente dos olhos de Cristo é, por um lado, a realização máxima de nossa capacidade de amar”, como escreve Ladislaus Boros, “mas, por outro lado, também o sofrimento mais terrível que o ser humano pode experimentar”. Não somente seria errado equivocar-se a este respeito, como também significaria recair naquela mentalidade pequeno-burguesa que sempre viu, e continua vendo, o encontro com Deus na morte do ponto de vista de um bem individual, ou então de uma salvação pessoal. 1.2. Na sua morte, a pessoa humana se encontra com Jesus Cristo É convicção geral da teologia atual que, na morte, o homem se encontrará com Deus na pessoa do próprio JESUS CRISTO. O amor de Deus apresenta-se-lhe na forma que este próprio Deus tomou na vida humana. Sendo assim, porém, o ser humano encontra na morte aquele que durante sua vida na terra nunca condenou ninguém; pelo contrário, chamava a si próprio de bom pastor. Aquele que segue suas ovelhas quando elas se desgarram. Mais ainda, este Jesus Cristo chamou a si justamente aqueles que não tinham mais esperança, os resignados e os fracos; em resumo, os pecadores, com suas opções fundamentais malogradas, os seus atos falhos, as omissões, amor e ódio, verdade e falsidade. Ele os chamou, sem levar em conta a crítica, feita a ele por círculos teológicos de então, que o acusavam de querer igualar a todos, citando a “justiça de Deus”. Opõe-se a eles e a todos os seus discípulos até os dias de hoje a palavra deste Deus humano, proferida para todos os tempos e que abrange cada falha humana: “VINDE A MIM TODOS OS QUE ESTAIS CANSADOS SOB O PESO DE VOSSO FARDO, E EU VOS DAREI DESCANSO” (Mt 11,28). 1.3. Na sua morte, a pessoa humana conhece a si mesma na presença de Deus e em confronto com os parâmetros desse Deus Todas as imensas e profundas cognições sobre si mesmo, de que falou o capítulo anterior, serão realizadas pelo ser humano na morte. Mas não numa situação de abandono ou solidão. Não numa situação de isolamento ou de fechamento. A pessoa que morreu conhecerá a si mesma na presença de Deus, ajudada por Deus e guiada por Deus. Eis a afirmação básica de nossa fé. Verifica-se na teologia contemporânea um esforço contínuo no sentido de reformular a ideia de um primeiro encontro do homem com Deus, ideia expressa por meio de velhas imagens cheias de misticismo. Hoje, estas velhas imagens muitas vezes não são mais compreendidas, ou então, o que é ainda pior, são tidas por afirmações reais, ao invés de serem interpretadas como linguagem metafórica. As consequências negativas de compreensão errônea como esta já foram suficientemente demonstradas. Impõe-se cada vez mais a tendência de se considerar o encontro do ser humano com Deus do ponto de vista de um ato de conhecimento de si mesmo. Por ocasião deste acontecimento, o homem talvez reconheça pela primeira vez, com toda a clareza e perante o amor de Deus, o que “ele fez de si na sua própria liberdade; e o que, possivelmente, está muito distante do Deus criador e afirmativo”.⁵ Para compreendermos melhor esta situação, podemos recorrer a um gráfico pelo qual a situação do homem perante Deus na morte poderia ser expressada da seguinte maneira: O homem se reconhece na sua morte, em sua totalidade e em todas as suas dimensões. Isto, porém, implica também a conscientização sobre a imensa distância que existe entre o que fez de si mesmo, e o que na verdade se encontrava alicerçado nele como plano e possibilidade. O reconhecimento de tudo o que falhou, o tornar-se consciente sobre os milhares de possibilidades perdidas, de ocasiões desperdiçadas e sem sucesso, em uma palavra, sobre quanto o homem fica devendo ao projeto que Deus tinha imaginado para esta sua vida, eis aquilo que na linguagem tradicional sempre chamamos de “julgamento de Deus sobre o homem”. NÃO É DEUS QUE JULGA O HOMEM NA MORTE. NA MORTE, O PRÓPRIO HOMEM SE JULGA DIANTE DE DEUS. O próprio homem, percebendo a imensa distância entre sua vida e o projeto de Deus, se julgará, sentindo neste julgamento toda a amargura contida no reconhecimento do malogro do ser humano. Neste sentido, os momentos de falência, por que passamos durante a vida, deveriam ser vistos como instantes em que já vivenciamos um pouco a morte. O que foi ou é sentido nesses momentos talvez nos dê uma amostra da experiência do ser humano que reconhece a si mesmo na morte. O ATO DE COGNIÇÃO PERANTE DEUS NA MORTE JÁ É O JUÍZO. 1 Ladislaus Boros, Der Menschen Welt und Gott, p. 270. 2 Cf. Herbert Vorgrimler, Der Tod im Denken und Leben des Christen, p. 90. 3 Veja Ladislaus Boros, Mysterium mortis, Olten, 1962. 4 Leonardo Boff, Vida para além da morte, p. 52. 5 Herbert Vorgrimler, Der Tod im Denken und Leben des Christen, p. 91. 2 NO DECORRER DA HISTÓRIA, O PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS SE TRANSFORMOU EM LASTIMÁVEL TRIBUNAL DE JUSTIÇA Numa época marcada por uma psicologia fundamentada em Freud e C.G. Jung, tem-se conhecimento das sutis relações existentes entre a projeção, a repressão e a culpa. Não se pode negar que muitas ideias verdadeiramente anticristãs de um Deus vingativo e que julga com justiça objetiva também podem ser explicadas à luz desses conceitos. Todas essas imagens têm um ponto em comum: perderam de vista o que a mensagem cristã tem de realmente essencial, como São Paulo formula em 1Ts 5,9: “Não nos destinou Deus à ira, mas sim a alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo”. A mesma convicção é expressa ainda mais claramente no final do capítulo 8 da epístola aos Romanos: “Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem a altura, nem a profundeza, nem nenhuma outra criaturapoderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). As comunidades da Igreja primitiva viveram de acordo com esta convicção. O encontro com Deus era, realmente, a “celebração do feliz reencontro” para aquelas pessoas, e não “lastimável tribunal de justiça” como é, por exemplo, o que nos apresenta de modo plástico e expressivo a sequência fúnebre: “Dies irae, dies illa”.¹ PARA OS PRIMEIROS CRISTÃOS, O PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS NA MORTE ERA A CELEBRAÇÃO DE REENCONTRO FESTIVO. A própria noção de “julgamento” contribuiu para a mudança desta atitude, mergulhando “de antemão o encontro do homem com Deus em atmosfera sombria”.² Nas paredes de igrejas e catedrais, os fiéis observavam pinturas e esculturas representando com o mais drástico realismo o julgamento do pecador e seu sofrimento nas chamas do inferno. A partir da Idade Média, esta dimensão negativa foi reforçada mais ainda não só pelo discurso pastoral, mas também através das múltiplas manifestações da religiosidade popular. Ela, por sua parte, foi decisivamente influenciada pelas representações teatrais dos mistérios da páscoa, postos em cena do século IX até o século XIV na Europa inteira. As cenas mais desenvolvidas destes teatros, porém, eram sempre aquelas da garganta infernal, com os seus diabos, o seu fogo e os homens condenados. Todas estas imagens, nos seus efeitos duradouros por muitos séculos, não são inocentes no que se refere ao surgimento de atitude negativa, ante a questão do primeiro encontro com Deus. Elas contribuíram também para o surgimento daquele acentuado “egoísmo de salvação” em que todo o interesse veio a se concentrar na salvação da própria pessoa tão ameaçada. Uma atitude que marca ainda hoje a religiosidade de muitos cristãos. Contra este egoísmo e sua falsa exigência de justiça devemos retomar hoje o que a Bíblia de fato entende por justiça divina. 2.1. O que a Bíblia entende por justiça divina Alfred Läpple observa insistentemente que, no anúncio bíblico do juízo final, são mostradas imagens inspiradas na literatura apocalíptica com a finalidade de explicar uma realidade que jaz por trás dessas representações. O que realmente aconteceu foi o seguinte: “No tempo em que estas representações (e a realidade a que fazem alusão) deixaram de ser familiares ou quando se tornaram incapazes de captar a realidade com imagens, parábolas e símbolos, as representações acabaram sendo coisificadas e tomadas por realidade, ou foram menosprezadas por serem consideradas ilusões fantásticas, visões irreais de sonho ou até alucinações. Em processos de atrofia intelectual como estes, foi-se gradualmente perdendo ou restringindo consideravelmente a capacidade de compreender as mensagens de esperança da Bíblia, transmitidas por meio de imagens, bem como pô-las em prática, como desafio lançado pela fé, na decisão da vida”.³ Em oposição às ideias apocalípticas do Antigo Testamento, a novidade básica da mensagem cristã é constituída pela convicção de que ninguém, a não ser Jesus Cristo, é o juiz estabelecido por Deus. Comparemos o que está escrito em At 10,42: “Deus ordenou-nos que anunciássemos ao povo e testemunhássemos que ele é o juiz dos vivos e dos mortos, estabelecido por Deus”. O mesmo pensamento encontra-se em Jo 5,27. Com isto, nosso juiz é aquele que interveio em nome de todos os que fracassaram, aquele que veio para salvar, e não para condenar. Nosso juiz é aquele que exige que os seus discípulos perdoem não somente sete vezes, mas sim setenta vezes sete (Mt 18,21). Se assim é, como se poderia explicar que logo ele não perdoasse? Considerando esta esperança no contexto das comunidades primitivas, Herbert Vorgrimler conclui da seguinte maneira: “Confessando que ele (Jesus Cristo) seria o juiz, a comunidade primitiva dava testemunho da dignidade divina dele. Com isso, foi arrancado o aguilhão de qualquer ideia de juízo que servia somente para intimidar e assustar os homens: Jesus, em quem o amor de Deus aos homens se tornou pessoa, não realizará juízo de castigo, mas juízo de misericórdia, pois o evangelho de João disse que ele não julgaria ninguém (Jo 8,15)”.⁴ Na primeira epístola de São João podemos ler: “Nisto consiste a perfeição do amor em nós, que tenhamos plena confiança no dia do julgamento, porque tal como ele é, também somos nós neste mundo. Não há temor no amor; mas o perfeito amor repele o temor, porque o temor implica um castigo, e o que teme não é perfeito no amor”. (1Jo 4,17-18) Estas palavras são palavras de consolo, mas, apesar disso, não nos seduzirão para uma atitude leviana. Pois este mesmo juiz tinha optado sempre pelos fracos, pelos infelizes e pelos pobres desta terra. Ele tinha anunciado a opção preferencial de Deus pelos pobres, e em Mt 25 a atuação dos homens perante estes pobres se torna o critério último e decisivo para a salvação ou a perdição do homem. Com isso se revela a gravidade e a seriedade do destino eterno do homem. E ao mesmo tempo se evidencia mais uma vez a ligação íntima e fundamental entre a vida vivida e a eternidade. 1 Veja: Alfred Läpple, op. cit., p. 77. 2 Id., ibid., p. 77. 3 Id., ibid., p. 87. 4 Herbert Vorgrimler, Wir werden auferstehen, p. 96. 3 OPINIÕES ATUAIS SOBRE O “JUÍZO PARTICULAR” NA MORTE 4 NA SUA MORTE, A PESSOA SE JULGA DIANTE DE UM DEUS QUE AMA “APESAR DE TUDO” No primeiro e ilimitado encontro com Deus na morte acontece o seguinte: o ser humano, com suas centenas de possibilidades desperdiçadas durante a vida, com seus atos sempre limitados por seu egoísmo, com suas culpas e seus pecados, em poucas palavras, com as ruínas de seu plano de vida, malogrado em tantos pontos cruciais, justamente este homem se encontra diante de Deus. E reconhece o que, na realidade, Deus pretendia com ele e com sua vida e vê quão pouco realizou como ser humano. Contudo, não há mais possibilidades de se alterar ou melhorar coisa nenhuma. Numa situação destas, resta somente uma coisa: entregar-se sem reservas a este Deus, admitindo que somente ele tem a última palavra. Ele pode repudiar ou não, condenar ou não, como lhe aprouver. O encontro com Deus revela-se então como aquele momento no qual o ser humano descobre, de modo radical, a sua dependência inevitável de Deus. Mais ainda, o ser humano está entregue a Deus. Ele está totalmente entregue a Deus no sentido integral e existencial, “de vida e morte”, a qualquer preço. Se procurarmos, na experiência humana, uma situação em que possamos encontrar pelo menos indícios de um abandono semelhante, que absorva toda a existência do homem, então encontraremos somente uma: o amor! O PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS É ENCONTRO DE AMOR! No amor, uma pessoa se entrega à outra integralmente, confiando que a outra a aceite, apesar de seus defeitos, apesar de suas falhas, confiante ainda de que tudo isto não tem importância perante aquela palavra que dois amantes, balbuciando, sussurram um ao outro, no êxtase de um abraço: “Eu te amo”. Seria muita ousadia ver o encontro do ser humano com Deus através da linguagem do êxtase de tais amantes? Seria muita ousadia levar a sério as palavras do Deus que usa as palavras de noivo apaixonado, quando fala de seu relacionamento com o ser humano?¹ Seria muita ousadia tomar por sérias as palavras de Deus e confiar que o seu amor venha a ser também maior que a desvalorização de qualquer falha humana? São palavras de Deus: “Não temas, porque não tornarás a ficar envergonhada; não te sintas humilhada, porque não ficarás confundida. Com efeito, hás de esquecer a condição vergonhosa da tua mocidade, não tornarás a lembrar o opróbrio da tua viuvez, porque o teu esposo será o teu Criador, Javé dos exércitos é o seu nome. O Santo de Israel é o teu redentor. Ele se chama o Deus de toda a terra. Como a esposa abandonada e acabrunhada, Javé te chamou; como a mulher da tua mocidade poderia ser repudiada?, diz o teu Deus” (Is 54,4-6). “Poderemos discutir, diz Javé: Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos comoa neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como lã” (Is 1,18). Aquilo que é anunciado no discurso dos profetas, continua na pregação e na atuação de Jesus: ele nunca condenou os que se voltaram para ele, mas sempre os amou. Podemos ler também em Jo 8,15: “Vós julgais segundo a carne, mas eu não julgo ninguém”. Neste contexto, porém, diz a Bíblia de Jerusalém que a palavra “julgo” significa “condeno”. O significado daquilo que Jesus diz é então expressamente este: “Não condeno ninguém”. Se até o amante humano esquece, incondicionalmente e sem longas discussões, as falhas do ser amado, por que Deus não estaria em condições de fazer o mesmo, se também ele ama?² “Deus apaixonado” é a afirmação básica de toda a história da revelação. Ele está apaixonado pelo seu povo, e o que diz pelo profeta vale também para qualquer um dos seres humanos: “Nada temas, porque eu te resgatei, eu te chamei pelo teu nome; tu és meu. Se tiveres de atravessar as águas, estarei contigo, e os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás, e as chamas não te consumirão. PORQUE EU, O SENHOR, SOU O TEU DEUS, o Santo de Israel é o teu Salvador. Dou o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sabá como compensação. Visto que és precioso aos meus olhos, visto que te estimo e te amo, entrego reinos por ti, entrego nações em troca da tua vida” (Is 43,1-4). “De longe se me deixou ver o Senhor: Amei-te com amor eterno. Por isso me és tão desejada” (Jr 31,3). Na sua forma suprema, o amor não pergunta se o outro também ama. O verdadeiro amor envolve o outro, mesmo se este não corresponde. O verdadeiro amor busca caminhos para despertar o amor no amado, e nisto é criativo. Com que direito limitamos as possibilidades do amor engenhoso de Deus? Por que este Deus que ama deve tornar-se prisioneiro de princípios que, no fundo, não passam de conceitos humanos? Pois o que significa “justiça” ou “perfeição absoluta perante a qual não deve haver sequer sombra de imperfeição” para aquele que ama, e também para o Deus que ama? Nossas próprias experiências cotidianas nos mostram que o amante não permite que nada, absolutamente nada, o impeça de procurar a pessoa amada e de amá- la. Até que ponto o Deus que ama terá sua justiça e princípios formulados pelos seres humanos? É com base nesta segurança de amor que o apóstolo Paulo pode exclamar o seu grito de alegria e de confiança: “QUEM NOS SEPARARÁ DO AMOR DE CRISTO?” (Rm 8,35) Depois continua: Herbert Vorgrimler formula a mesma convicção à maneira mais fria do teólogo: “Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem a altura, nem a profundeza nem nenhuma outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). “O objetivo de Deus não pode ser nem a vingança nem o estabelecimento de compensação justa, pois Deus manifestou-se como aquele que, com seu amor, pode mudar todo culpado de tal modo que ele será então apropriado para a justiça divina, e ainda como aquele que usa da clemência em profusão e conforme a parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16), ao invés de compensar justamente, presenteia excessiva e injustamente”.³ Também a poesia sempre soube que o verdadeiro amor é ilimitado. Talvez a teologia devesse inspirar-se mais nas poesias da história universal, que falam dos “grandes” amantes, ao fazer referência ao amor de Deus, ao invés de ir buscar inspiração nos conceitos racionais de seus eruditos. Quando Deus ama, ama de maneira absoluta e total. 1 Cf. Jr 2,2: “Assim disse Javé: ‘Eu me lembro, em teu favor, do amor de tua juventude, do carinho de teu tempo de noivado, quando me seguias pelo deserto…’ ” Is 62,5: “Como a alegria que o noivo sente pela noiva, tal será a alegria que o teu Deus sentirá contigo”. 2 Veja também: Cântico dos cânticos e Is 54,7-8. 3 Herbert Vorgrimler, Wir werden auferstehen, p. 97. 5 MAS ONDE FICA, ENTÃO, A JUSTIÇA? Poder-se-á objetar que a visão aqui desenvolvida se opõe às ideias de julgamento claramente formuladas também no Novo Testamento; não somente à ideia de juízo final e universal, mas também à de julgamento individual, de cada pessoa em particular. De fato, encontramos realmente essas imagens e, às vezes, os seus autores não são nada modestos ao pintarem o que espera pelo pecador. Contudo, devemos lembrar que essas ideias surgiram do contexto da teologia judaico- apocalíptica mencionada anteriormente. O problema fundamental tratado naquela teologia era o seguinte: como é que podemos imaginar uma vida depois da morte, se tanto os criminosos, os culpados, como os que não querem saber de Deus, se todas essas pessoas seguem vivendo após a morte? O que acontecerá com elas? A justiça de Deus não deveria intervir pelo menos após a morte, já que não o fez no decorrer desta vida? Onde estaria essa justiça se os criminosos não recebessem os seus merecidos castigos e os outros as recompensas que lhes cabem? A própria justiça de Deus exige… Assim, e de maneira semelhante, era o argumento usado no passado e ainda hoje por alguns. Contra todas essas argumentações e contra toda a assustadora frieza de suas argumentações legalistas, existe um único argumento, argumento que resume toda a nossa miséria e toda a nossa esperança, argumento que é mais grito do que argumentação: O que seríamos se Deus quisesse ser “justo”? ONDE ESTARIA O HOMEM, SE DEUS QUISESSE SER JUSTO À MANEIRA DOS HOMENS? Não é sorte de todos nós que a justiça de Deus não seja análoga ao nosso conceito de justo? Ou como seria então possível compreendermos a parábola do trabalhador, que trabalhou somente uma hora para receber o mesmo pagamento que aqueles que suportaram o peso do dia e o calor do sol? (Mt 20,9-12). A todos eles, que murmuravam, é dada a mesma resposta, através de todos os séculos da história e contra toda codificação e catalogação de pecados veniais e mortais, de criminosos, de santos e de simples pais de família que, estando preocupados com a sorte de suas famílias, se esqueceram de ir à igreja. A todos eles e contra os fariseus de todos os tempos e de qualquer instituição dirige-se a palavra aliviadora do Senhor: “Amigo, não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu? Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?” (Mt 20,15). 5.1. O grito pela justiça é motivado pela atitude farisaica É muito interessante constatar que o grito pela justiça divina se ouve sempre na boca dos piedosos, nunca dos pecadores. São sempre os “bons cristãos”, os que frequentam as missas dominicais, os fiéis aos mandamentos e às leis que exigem justiça. A justiça, porém, pela qual eles gritam, é justiça muito humana, justiça de equilíbrio. A JUSTIÇA DIVINA, PELA QUAL SE GRITA, É JUSTIÇA ORIENTADA NO MODELO DE RETRIBUIÇÃO. Tal justiça, porém, não corresponde em nada ao comportamento do fazendeiro em Mt 20,1-16. E em nada ela corresponde à maneira como agiu o pai na parábola conhecida do filho pródigo. A JUSTIÇA ORIENTADA PARA O PRINCÍPIO DA RESTITUIÇÃO NÃO CORRESPONDE À JUSTIÇA DE DEUS. A parábola em Mt 20,11-16 escarnece de qualquer justiça orientada pelo princípio do equilíbrio. A JUSTIÇA DE DEUS É OUTRA! “Ai de vocês, especialistas em leis! Porque vocês impõem sobre os homens cargas insuportáveis…” (Lc 11,46). “… se a justiça de vocês não superar a dos doutores da lei e dos fariseus…” (Mt 5,20). Eles pensaram conhecer a Deus e poder calcular a sua justiça — e se enganaram! A justiça que Deus pratica não é assim como eles gostariam que fosse. Mas por que, assim devemos perguntar, por que tantos homens, e sobretudo tantos piedosos e pessoas religiosas, têm tanta dificuldade em aceitar que os seus critérios de justiça não são os de Deus? Não é que, atrás desta não-aceitação, se esconde um medo? O medo de que este Deus poderia agir de maneira bem diferente do que eu espero? O medo de que todas as minhas previsões, no que diz respeito a ele, poderiam ser falsas? Porque o Deusque não se comportaria conforme o esquema estabelecido de nossas noções de justiça, esse Deus se torna incalculável, esse Deus escapa a todas as minhas previsões. O DEUS QUE NÃO AGE CONFORME O ESQUEMA ESTABELECIDO DE UMA JUSTIÇA RETRIBUTIVA TORNA-SE INCALCULÁVEL. Perante tal Deus, também a minha “justa” exigência de retribuição para as boas obras realizadas na vida perde sua razão de ser. Ela se revela como sendo orientada na linha de pensamento dos fariseus: “Eu fiz tantas boas obras; ora, Deus, por ser justo, tem a obrigação de me salvar”. É a justiça dos fariseus! Caso, porém, a justiça de Deus seja outra, então até as minhas boas obras não são mais uma garantia para a salvação. Caso a justiça de Deus seja outra, então também o justo perde toda a sua segurança perante este Deus, porque os parâmetros dele não correspondem aos nossos. UMA RAZÃO PARA TERMOS MEDO! Se a justiça de Deus é diferente, então eu estou entregue a um Deus cujo agir não pode ser definido e estabelecido conforme as nossas razões. Eu estou entregue a um Deus que não se atém às leis dos cálculos humanos. Aceitar esse fato em todas as suas consequências não era fácil na época dos fariseus; e também não é fácil hoje. Quanto mais, nas Igrejas cristãs, se estabeleceu uma piedade legalista, quanto mais se fixou nos séculos passados uma fé institucionalizada, uma fé fixada, definida e regulamentada, tanto mais difícil era aceitar semelhante justiça. Um pensamento religioso estabelecido e institucionalizado tem muita dificuldade em aceitar a soberania do Deus que nunca se deixou fixar e domesticar nem em templos, nem em mandamentos e leis. “Não tenho o direito de fazer o que eu quero com o que é meu?” O homem que, na sua morte, julga a sua vida vivida, perante Deus e conforme os critérios dele, percebe, nesse julgamento, quão pouco a sua vida e a sua personalidade correspondem àqueles critérios. II PURGATÓRIO: PROCESSO DE UMA POSSÍVEL CONVERSÃO E EVOLUÇÃO, OFERECIDAs AO HOMEM NA MORTE 1 NO SEU AUTOJULGAMENTO PERANTE DEUS, O HOMEM PERCEBE QUÃO POUCO A SUA VIDA CORRESPONDEU AOS CRITÉRIOS DE DEUS O homem, assim foi dito nos capítulos anteriores, encontra na morte um Deus de amor, e não um juiz aterrador. Fica, porém, muito mais clara para este homem, na morte, a distância que separa a sua vida vivida daquilo que tinha sido o projeto de Deus para essa vida. Torna-se mais óbvia a discrepância entre a personalidade que a pessoa construiu durante sua vida e a personalidade que ela teria sido capaz de desenvolver. Mais nítida aparece para a pessoa humana a discordância entre os parâmetros pelos quais conduziu sua vida, e os parâmetros de Deus. Parâmetros estes que foram formulados de maneira tão clara em Mt 25. É por estes parâmetros de Deus que a pessoa se autojulga na morte. Este juízo particular na morte permanece um juízo, ainda que não seja uma submissão sob a sentença de um Deus julgador. Os critérios de Deus permanecem inalterados e a vida do homem permanece vivida de maneira definitiva. A grande pergunta, porém, que agora se põe é: “Como é que se pode ainda mudar algo?” A vida foi vivida. A oportunidade passou. E agora? O que fazer quando esta vida vivida, em tantos e tantos aspectos, não corresponde àquilo que agora se reconhece como os verdadeiros valores, os verdadeiros parâmetros de Deus? 2 COMO, NA SITUAÇÃO DE MORTE, AINDA SE PODE MUDAR ALGO? A indagação que agora se levanta com toda a seriedade é a seguinte: Como a existência deste homem poderia continuar? Deus o ama, mas, apesar disso, a vida dele não corresponde aos critérios de Deus. Será que, com esta constatação, tudo se iguala e termina? Isto seria uma solução muito conveniente para muitos. Mas não é assim. O amor de Deus para com os homens é mais radical. A sua relação de amor para conosco não visa a um nivelamento indistinto na morte. A sua paixão pelos homens quer aquilo a que todo verdadeiro amor sempre aspira: o crescimento daquele que se ama. A evolução do amado até que este amado alcance os seus últimos limites, para que, nestes limites, os dois amantes se encontrem num amor sempre novo e ilimitado. Assim é a dinâmica do amor e é ela que encontramos também na relação amorosa entre Deus e as suas criaturas. Deus quer a evolução do homem até a sua plenitude. Plenitude da vida e plenitude da pessoa. No fim de sua vida, nenhuma pessoa humana chegou ao nível pleno de sua possível evolução. Esta plenitude, no entanto, ninguém de nós alcançou na morte. Cada um fica devendo uma parte maior ou menor e, no seu autojulgamento, percebe aquilo que falta. Mas percebe também que tudo aquilo que falta pode ser recuperado. Por causa da graça de Deus e por causa de seu amor, na morte se abrem novos caminhos e novos horizontes. É esta a Boa Nova de nossa fé e é aqui que encontramos a diferença fundamental entre a fé cristã e a fé reencarnacionista do Espiritismo. O termo usado para definir estes novos horizontes é “purgatório”, mas aquilo que esta noção exprime é uma experiência muito mais profunda e muito mais rica do que o seu significado medieval deixa transparecer. É também uma experiência muito mais rica e mais profunda do que qualquer modelo reencarnacionista poderia trazer. Para que tal fato fique bem evidente, vale a pena realizar uma rápida comparação entre o conteúdo cristão daquilo que se chama “purgatório” e a resposta dada pela doutrina reencarnacionista sobre o assunto. 3 COMO ALCANÇAR UMA EVOLUÇÃO PLENA? 3.1. A proposta da doutrina da reencarnação¹ Sobre a situação do homem na morte, a doutrina cristã e a doutrina da reencarnação não diferem em termos essenciais. As duas concepções mantêm, como ponto de partida, a convicção de que a pessoa humana, na morte, não alcançou sua plena evolução. Está ainda marcada por muitas falhas, fracassos, projetos inacabados e características negativas. Para as duas doutrinas se põe a grande questão sobre como, em tal situação, o destino do homem pode continuar para que ele se torne adequado aos parâmetros formulados por Deus. Até aqui, a preocupação é a mesma. Na resposta, porém, que as duas doutrinas formulam, constatamos um abismo insuperável. A doutrina da reencarnação propõe, como caminho de evolução, a repetição de vidas humanas aqui na terra. A pessoa humana, diz ela, deve reencarnar e viver mais uma vida, e mais uma, e mais uma… No decorrer destas vidas, ela deve “limpar o seu carma”, até que, depois de ter vivido um número indefinido de vidas sucessivas, esta pessoa tenha alcançado o nível de uma evolução plena. A partir deste momento, ela pode sair dos ciclos reencarnacionistas, porque alcançou a plenitude da vida. Quando, ou a partir de quantas reencarnações isso pode acontecer, ninguém sabe; depende da própria pessoa e da maneira como conduziu estas suas vidas. Podem ser algumas, podem ser centenas, podem ser milhares de reencarnações. O processo de evolução, rumo ao absoluto, no fundo não tem fim. É um processo contínuo e, consequentemente, também as repetições de vidas, no fundo, são ilimitadas. Nesse processo de uma progressiva purificação, o homem não recebe nada de graça. Ele pode ser ajudado por outros espíritos, mas, em última análise, todo ser humano deve alcançar o nível de uma evolução plena pelo próprio esforço. Esta é, em poucas palavras, a proposta da reencarnação, diante da questão do destino humano na morte. (Ver quadro da p. 197) 3.2. A proposta da doutrina cristã Em oposição total àquilo que se declara na doutrina reencarnacionista, a doutrina cristã oferece uma resposta bem diferente sobre a questão de como o ser humano, na morte, pode alcançar sua evolução plena, apesar dos fracassos e das falhas de sua vida vivida. A pessoa humana, diz a doutrina cristã, não fica sozinha na morte. Ela se encontra com Deus, e este Deus — como nós vimos no capítulo anterior — não é um Deus que condena, mas um Deus que quer a salvação de todos os seres humanos. Significa que Deus deseja para o homem a vida plena, a evolução plena, a vida em plenitude.²Eis o projeto que Deus tem para todos nós. E este projeto, na morte da pessoa humana, se choca com a realidade vivida por esta pessoa. Uma realidade marcada por fracassos, por pecados e omissões. Em suma: uma vida que não correspondeu em muito aos parâmetros de Deus; uma personalidade mais ou menos distante daquilo que teria sido possível ser e longe também de estar plenamente evoluída — promessas não cumpridas, possibilidades não realizadas. Em síntese: falhas, erros e culpas. Sobre toda vida humana pesa o débito de uma nota promissória não paga que ela, agora, fica devendo, assim como o esquema seguinte tenta representar. É com esta vida inacabada que o homem se encontra diante de Deus. A perspectiva do homem, na morte, vista a partir da doutrina da reencarnação É nesta situação, em que o homem não pode acrescentar mais nada à sua vida, porque já está morto, que entra de novo a Boa Nova de um Deus de amor. É também nesta situação que vem à tona aquilo que na doutrina cristã se conhece pelo nome de “purgatório”. A convicção básica que se encontra nesta noção tantas vezes mal compreendida ou rejeitada é esta: Deus quer a salvação do homem, e não sua perdição! 1 Uma reflexão mais aprofundada sobre a questão pode ser encontrada em: Renold J. Blank, Reencarnação ou Ressurreição, uma decisão de fé. 2 Cf. Jo 10,10: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância”. 4 BASES BÍBLICAS E DOUTRINÁRIAS DO PURGATÓRIO (Cf. Jacques Le Goff, O nascimento do Purgatório, Ed. Estampa, Lisboa, 1993.) 1. Bases bíblicas: 2. Práticas de rezar pelos mortos antes da era cristã:¹ • Era costume rezar pelos mortos nas celebrações fúnebres da religião do Egito a.C. • Existem práticas similares na religião órfica da Grécia. • 2Mc 12,38ss relata tais costumes em Israel no século II a.C. 3. A prática da Igreja de rezar pelos mortos: A prática de rezar pelos mortos se estabelece no contexto cristão pelo menos a partir do século II d.C. Ela se mantém até hoje: “Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (cf. Jó 1,5), porque duvidar de que as nossas oferendas em favor dos mortos lhes leve alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer as nossas orações por eles”.² 4. Primeiras reflexões sobre um “purgatório”: • Tertuliano (sécs. II-III) (De anima; Adversus Marcionem, IV, 34; De corona militis, III, 2-3)³ • Texto do início do séc. III: Paixão de Perpétua e de Felicidade⁴ • Clemente de Alexandria e Orígenes⁵ 5. Agostinho: As bases para a doutrina de um purgatório: • 395-398 d.C.: Confissões IX, XIII, pp. 34-37 (texto sobre a morte de sua mãe); • 426-427 d.C.: Cidade de Deus XXI, XXIV (sobre as orações pelos mortos) Cidade de Deus XXI, cap. 26 (Exegese de 1Cor 3,13-15; há um fogo expurgatório entre a morte e a ressurreição). 6. Primeira “definição” do purgatório: 1254 d.C. • Dentro da controvérsia entre a Igreja grega e a latina, o papa Inocêncio IV, numa carta oficial de 6 de março de 1254, formula uma definição do purgatório a ser aceita pela Igreja grega.⁷ 7. Segundo Concílio de Lião, 1274 d.C. (Dentro do contexto da união exigida entre a Igreja grega e a latina.) Num anexo da constituição Cum Sacrosancta, o Concílio menciona as “penas do purgatório”, compreendidas em termos de um “processo purgatório”.⁸ (Não se fala nem de “lugar”, nem de “fogo”.) 8. A partir do século XIII, o purgatório é considerado “uma verdade da fé”. Grande êxito na catequese. Responde às “aspirações das massas dos fiéis” e “às prescrições da Igreja”. 9. Instauração definitiva como dogma • Concílio de Ferrara-Florença (1438-1439) (Decretum pro Graecis: D 693 (1304) • Concílio de Trento (1563) Sess. 25, de invocatione, veneratione et reliquiis Sanctorum et sacris imaginibus: D 948-988 (1821-1824) Sess. 25, Decretum de Purgatorio: D 983 (1820) Sess. 6: Decretum de iustificatione, cân. 30, D 830 (1580) Também estes Concílios não definem o purgatório nem como “lugar” nem como “fogo”.¹ 10. Concílio Vaticano II Confirma as definições dos Concílios anteriores. cf.: Lumen Gentium 51 1 Cf. Le Goff, ob. cit., p. 64 (cf. também a literatura secundária respectiva). 2 Catecismo da Igreja Católica, São Paulo, Paulus, 1993, n. 1.032 (cf.: S. João Crisóstomo, Hom. in 1Cor 41,5: PG 61, 594-595). 3 Le Golf, ob. cit., pp. 65-66.Id., ibid., pp. 67ss. 4 Id., ibid., pp. 67ss. 5 Id., ibid., pp. 75-80. 6 Id., ibid., pp. 84-106. 7 Id., ibid., p. 329. 8 Id., ibid., p. 332. 9 Id., ibid., p. 343. 10 Id., ibid., p. 332. 5 PURGATÓRIO: OFERTA DE UM DEUS QUE QUER NOSSA SALVAÇÃO, E NÃO A PERDIÇÃO Salvação — esta noção-chave de nossa fé — significa exatamente o fato de que a nota promissória, da qual falávamos no capítulo anterior, será rasgada.¹ Ser salvo significa a remissão de nossa culpa pela graça de Deus. Eis a convicção mais profunda de toda a nossa fé: O NOSSO DEUS, RICO EM MISERICÓRDIA, ESTÁ DISPOSTO A “ME DAR DE GRAÇA” TUDO O QUE EU DEVIA. A “graça divina”, esta noção tão pouco compreendida por tantos cristãos, se revela assim no seu significado mais claro. Para exprimir tudo o que o homem viverá no momento de sua morte, devemos também acrescentar ao nosso modelo a dimensão da “graça divina”. Deus não é o Senhor duro que cobra as notas promissórias até o último centavo. Deus é cheio de misericórdia, disposto a me dar “de graça”. Que mais me poderia dar no momento de minha morte, do que tudo o que eu devia a ele, na realização de minha vida vivida? Na minha morte, Deus quer me dar “de graça” tudo o que eu devia na minha vida. 5.1. Esta oferta de Deus não significa nem nivelamento, nem abertura para a leviandade na vida Fica evidente que esta oferta de Deus, disposto a me dar de graça² aquilo que falta para uma personalidade plena e uma realização plena de minha existência, nunca pode ser compreendida num sentido leviano e superficial. Seria totalmente errado interpretar as afirmações sobre o purgatório no sentido de dizer: “Então, não precisamos nos esforçar na vida, pois Deus nos dará, na morte, tudo de graça”. 5.2. Deus, na morte, não “impõe” sua graça; ele a oferece Nunca, nas exposições deste livro, foi feita a afirmação de que Deus impõe sua graça. Insistimos sempre em dizer que, na morte, Deus oferece à pessoa humana aquilo que lhe falta. Deus quer acrescentar, “de graça”, aquilo que me falta. Esta é a vontade de Deus, e quanto a esta vontade não há nenhuma dúvida. O prestigiado compêndio de Dogmática Mysterium Salutis formula este fato em termos bem claros, lembrando que o discurso sobre o juízo deve ser compreendido e integrado no quadro mais amplo da revelação bíblica e neotestamentária: “Não há culpa e condenação que não estejam acompanhadas de uma oferta de graça e perdão. O Deus de Jesus Cristo é sempre e principalmente o Pai que vai procurar o que se perdera, não o juiz implacável que acharia alegria em condenar alguém”.³ Este Deus está disposto a oferecer ao homem “de graça”, também na morte, tudo aquilo que este lhe ficou devendo. Este oferecer, no entanto, não significa que Deus impõe algo de maneira determinista. Deus nunca se impõe! Deus sempre faz propostas. Fica dentro da liberdade humana aceitar, ou não, estas propostas. 5.3. O homem deve aceitar a proposta de Deus, a partir daquela personalidade que ele construiu no decorrer de sua vida O homem, na morte, não é um ser qualquer, mas uma personalidade formada no decorrer da vida. Assim, aceitar aquilo que Deus propõe talvez não seja tão fácil como se poderia imaginar. Aceitar a proposta e os parâmetros de Deus, na morte, pode exigir uma profunda conversão. Tal conversão pode doer “como fogo”. O homem, no decorrer de sua vida, fez de si determinada personalidade com determinadas características. É com essa personalidade já construída que ele se encontra, na morte, diante da oferta de Deus. É com esta personalidade que ele, na morte, deve dizer “sim” àquilo que Deus lhe oferece. E, conforme o tipo de personalidade que este homem construiu na vida, este “sim”pode ser mais fácil ou mais difícil, porque implica a superação de tudo o que ainda existe de orgulho e de egoísmo em sua personalidade. Exige a transformação desta personalidade no sentido de tornar-se pobre em todas as dimensões de seu ser. Exige entrega incondicional a Deus, aceitando a própria nulidade e jogando toda a esperança nele. Conforme a personalidade que esta determinada pessoa formou de si na vida, realizar todos estes atos e muito mais ainda pode ser mais fácil ou mais difícil. Sua realização talvez exija uma conversão profunda de tudo aquilo que esta pessoa é na morte. E é exatamente neste ponto que encontramos um dos elementos básicos daquilo que chamamos PURGATÓRIO. 1 Cf. Paulo: Cl 2,14: “Ele... apagou, em detrimento das ordens legais, o título de dívida que existia contra nós…” 2 Id., Ibid. 3 Johannes Feiner e Magnus Loehrer, Mysterium salutis, vol. 3, p. 184. 6 PURGATÓRIO: OFERTA DE DEUS PARA UMA ÚLTIMA CONVERSÃO NA MORTE 6.1. Há íntima ligação entre perdão e conversão Deus está disposto a oferecer ao homem “de graça” tudo aquilo que este lhe ficou devendo. Aceitar, porém, esta graça, não é tão fácil como se poderia imaginar, porque implica a superação de tudo o que existe de orgulhoso e de egoísta na personalidade deste homem. Exige a transformação desta personalidade no sentido de tornar-se pobre em todas as dimensões de seu ser. Exige entrega incondicional a Deus, aceitando a sua própria nulidade e jogando toda a esperança nele. Diante de DEUS NA MORTE, O HOMEM DEVE ABDICAR DE MANEIRA RADICAL: — DE TODO O ORGULHO; — DE TODO O PODER; — DE TODO O PRIVILÉGIO; — DE TODO O EGOÍSMO. Pode-se supor que, para muitas pessoas, será muito difícil assumir semelhante atitude. Até na morte, elas precisam ainda de transformação profunda de sua personalidade. ELAS PRECISARÃO DE CONVERSÃO. Assim, se cruzarão no momento da morte, mais uma vez, a exigência de conversão e todo o processo de conversão já vivido e vivenciado na vida antes da morte. Nos textos dos evangelistas, sobretudo de Lucas, o perdão sempre fica ligado à conversão. É de perdão, porém, que o indivíduo precisa. E a conversão, à qual este perdão está ligado, ultrapassa em muito o nível individual, refletindo-se na conversão das estruturas, dentro das quais o indivíduo vive. CONVERTENDO AS ESTRUTURAS INJUSTAS, ESTABELECIDAS PELO SEU EGOÍSMO FORA E DENTRO DE SI, O HOMEM TORNA-SE FILHO DE DEUS. No seu encontro com Deus na morte, o homem carrega tudo isso de maneira consciente. Ele sabe tudo sobre si mesmo, sobre suas tentativas de conversão e também sobre seus insucessos. Ele percebe suas ligações íntimas com as estruturas dentro das quais viveu e percebe também como estas ligações, pela sua ação, foram mudadas no sentido de refletir mais ou refletir menos o amor de Deus para com os homens. E, reconhecendo a distância incrível que o afasta de Deus, ele será posto perante a necessidade de última e definitiva conversão para Deus. 6.2. Na morte, o homem será posto perante a necessidade de última conversão Dentro do contexto da hipótese aqui levantada, deveríamos então compreender, pelo que foi dito anteriormente, a possibilidade de conversão do homem na morte, conversão que decorre, em sua essência, da atração e da experiência de que Deus me ama; conversão em que o ser humano abandona tudo o que o impossibilita de amar a Deus e se entregar completamente a ele. Sendo assim, esta conversão estaria intimamente ligada ao ato de fé, com o qual o homem se entrega a Deus na morte. E esta conversão estaria, por fim, mergulhada no ato de clemência de Deus. A Igreja teve sempre a convicção de que o destino do ser humano na morte não alcança um ponto final estático da evolução. A suposição de que na morte (ou “depois” dela) ainda se processe evolução, foi descrita com a imagem de “purgatório”, que hoje causa inúmeros equívocos. O que sempre se entendeu por purgatório contém claramente o elemento da alteração dinâmica. E é justamente este aspecto que Karl Rahner formulou de maneira clara em seu estudo O sentido teológico da morte: “Com a morte, o homem, ainda mesmo como pessoa espiritual e moral, adquire caráter e consumação definitivos. A decisão tomada e atuada em sua vida corporal para Deus ou contra Deus passa a ser totalmente definitiva… Mas esta afirmação da fé não exclui todo aperfeiçoamento do homem depois de sua morte, nem supõe uma concepção rígida, meramente estática da vida ultraterrena do homem diante de Deus. Já a doutrina do purgatório, da ressurreição futura do corpo e da futura consumação do cosmo inteiro, supõe ‘evolução ulterior’ do homem em vista de sua perfeição em todos os aspectos”.¹ 6.3. Esta conversão pode ser um processo doloroso Viver esta última conversão, porém, superar radicalmente tudo aquilo que tem ainda de orgulho e de egoísmo na personalidade do homem, abdicar de todos os seus poderes e aceitar sua própria nulidade, gritando a Deus para que ele o salve, todo este processo de conversão pode se tornar experiência muito dolorosa. Conforme a estrutura da personalidade que se construiu no decorrer da vida, a intensidade de dor, sentida na realização da última conversão, será maior ou menor. A pessoa cuja vida era marcada pelo orgulho e pela luta pelo poder sentirá com certeza mais dificuldades em se tornar pobre na morte do que outra pessoa que já na vida tentava realizar a opção pela pobreza e pelos pobres. O mesmo se pode dizer sobre o egoísmo, os privilégios e tantos outros aspectos da vida que contrariam os valores do Reino de Deus. A ÚLTIMA CONVERSÃO NA MORTE É um ATO DOLOROSO DE MAIOR OU MENOR INTENSIDADE. NA LINGUAGEM TRADICIONAL, ELA FOI DENOMINADA “O PURGATÓRIO”. É exatamente na morte e por ocasião do encontro com Deus que cada pessoa experimentará, com intensidade nunca antes conhecida, o significado de sua vida vivida. E dependendo do que ela tiver feito de si durante esta vida, dependendo também do que ela tiver feito a outras pessoas e com as situações históricas e estruturais naquela vida, sua união com Deus também será ligada a uma purificação experimentada de maneira mais ou menos dolorosa. Esta purificação, contudo, não tem nada que ver com uma câmara de tortura cósmica, onde os pecadores são “purificados” pelo fogo ou por outros meios. Semelhante ideia é incompatível com a imagem de Deus que Jesus Cristo proclamou. Além disso, essa ideia também contradiz todos os modelos científicos de pensamento, como se pode afirmar, sem necessidade, contudo, de entrar em pormenores. Em compensação, parece oportuno denominarmos a conversão fundamental que exige do ser humano o encontro com Deus, lançando mão da expressão bíblica “destruição do homem velho”, ou seja, a destruição de todo o orgulho e de todo o egoísmo, que tornam o homem incapaz de amar durante toda a vida. A ÚLTIMA CONVERSÃO DO HOMEM NA MORTE SIGNIFICA A “DESTRUIÇÃO DEFINITIVA DO HOMEM VELHO”. O ponto até onde na morte o ser humano desempenha papel ativo nesse empreendimento e o ponto até onde Deus age constituem o mistério daquilo que chamamos graça. Como, porém, o plano de Deus é que todos sejamos “conformes à imagem do seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,29), nenhum dos homens poderá escapar a este processo de purificação fundamental e existencial que, longe de ser meramente passivo, exige a participação ativa do ser humano, que assim crescerá e amadurecerá até tornar-se apto a estar em Deus e com Deus. Se é que isso realmente acontece, conviria recordar aqui aquela passagem de São Paulo, onde são formulados, por um lado, a certeza de salvação e, por outro lado, os diferentes graus de dificuldade para se alcançar esta salvação: “Se a obra construída sobre o fundamento subsistir, o operário receberá uma recompensa. Aquele, porém, cuja obra for queimada perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo” (1Cor 3,14-15). Assim como uma pessoa ainda no último instante pode ser salva das chamas de uma casa em fogo, do mesmomodo o ser humano também pode ser salvo por Deus “no último momento”. Mas esta salvação que ocorre no último instante, esta possibilidade de ainda ser purificado na morte é o verdadeiro significado daquilo que deveria ser compreendido pela imagem equívoca de purgatório: um novo e reiterado ato de salvação de Deus, a fim de que o homem possa ser salvo. Apesar desta profunda esperança, porém, o encontro do ser humano com Deus não deve absolutamente ser entendido como momento de igualação geral. Pelo contrário, parece ser oportuno ver-se aqui também uma analogia entre a experiência de pessoas que se amam e a experiência do encontro de amor do ser humano com Deus. A pessoa que sabe ser amada e que ao mesmo tempo tem de enfrentar o seu amado e confessar as suas falhas, ela, ante a presença de seu parceiro apaixonado, sentirá de maneira bem mais dolorosa a própria fraqueza, a própria impotência, bem como a indignidade de seu comportamento diante daquele que a ama. Mas, ao mesmo tempo, é aquele amor que, apesar da dor sentida, lhe possibilita a conversão. Podemos imaginar que a experiência do ser humano na morte seja análoga à experiência do reconhecimento profundamente doloroso da própria indignidade. Daí é que seguramente brotará também o grito para que Deus me salve. Pois a salvação do homem permanece, em última análise, a obra de Deus que ama. Devemos confessá-lo com toda humildade e devemos acrescentar a nossa convicção de que nem a última conversão do homem na morte será só realização do ser humano. Também aí Deus vai agir. Mas se assim for, então os caminhos pelos quais Deus pode provocar e alcançar a conversão no homem estão também fundamentados em sua sabedoria e em seu amor. Mas por que Deus, o infinitamente sábio e, ao mesmo tempo, infinitamente apaixonado, não deveria ter o mesmo êxito que os seres humanos apaixonados têm, em casos que já pareciam perdidos, isto é, despertar o amor onde toda esperança já estiver extinta? Em casos como este, o que se processa no ser humano é, talvez, a forma derradeira e extrema daquilo que a proclamação tradicional sempre chamou de “purgatório”. PURGATÓRIO: Possibilidade de uma última conversão na morte 1 Karl Rahner, Sentido teológico de la muerte, p. 29. 7 PURGATÓRIO: OFERTA DE DEUS PARA UMA ÚLTIMA EVOLUÇÃO NA MORTE Caso a pessoa aceite a oferta que Deus lhe faz, na morte, caso queira realizar aquela última conversão — da qual falamos nos capítulos anteriores — abrem-se para esta pessoa novos caminhos de evolução. Caminhos que não consistem na repetição de mais vidas terrenas conforme aqueles parâmetros já citados. Deus é mais criativo que a doutrina da reencarnação nos quer fazer acreditar. Sua proposta de evolução não significa uma volta para trás, para viver mais uma vida dentro de outros contextos históricos. A evolução que Deus propõe é um passo para a frente. Um passo para dentro de dimensões nunca antes vividas, dimensões novas, dentro das quais — ao lado de Deus, junto com Deus e com a ajuda de Deus — a pessoa humana pode tornar-se uma pessoa plena, uma personalidade evoluída até as últimas potencialidades daquilo que é. Pessoa sem imperfeições e sem falhas. Pessoa em que todas as capacidades chegaram à plena realização. É este o projeto de Deus. É esta evolução por que a pessoa humana pode passar na morte. Tal processo pode doer, tal evolução pode exigir o abandono de tantas características tão opostas aos parâmetros de Deus, que a pessoa passa “como que através do fogo”.¹ Este “fogo”, porém, é o fogo do amor de Deus. É no contato com este amor que a pessoa evolui e se torna uma pessoa plena. Junto a Deus não haverá nem coxos, nem cegos, nem doentes mentais. Não haverá pessoas infantis, ou doentes, ou frustradas, ou inacabadas. Junto a Deus só haverá seres humanos plenamente evoluídos até as últimas possibilidades de seu ser. O PROJETO DE DEUS É UM PROJETO DE VIDA PLENA E, NA MORTE, A TODA PESSOA É OFERECIDA A POSSIBILIDADE DE EVOLUIR A ESSE NÍVEL. Descobrimos, assim, mais uma das muitas e profundas dimensões daquilo que na teologia tradicional se chama “o purgatório”, uma última possibilidade de evoluir. Essa evolução para algumas pessoas — conforme a personalidade que elas construíram de si no decorrer de sua vida vivida — pode ser difícil, pode doer “como” fogo. De outro lado, no entanto, essa evolução também pode ser uma experiência feliz e maravilhosa, um processo dinâmico e bem-aventurado, no decorrer do qual a pessoa, enfim, alcança aquilo a que sempre aspirou. Está aqui a resposta que se pode dar às perguntas de tantas mães, cujos filhos morreram com poucos anos ou poucos meses de vida. Está aqui também resposta às indagações, cada vez mais urgentes, sobre o que acontecerá com todas aquelas crianças que nem tiveram a oportunidade de viver, porque morreram antes do nascimento ou foram abortadas. E está aqui, enfim, resposta às perguntas de tantos pais que tiveram filhos com deficiências mentais. Na morte, Deus oferece a todos eles a possibilidade de também se tornarem pessoas plenamente evoluídas. E se a personalidade deles nem teve tempo de se formar numa vida vivida, a evolução na morte, para eles, com certeza não terá nada de doloroso ou de terrificante; será muito mais um processo feliz de plenificação. Aquilo que tradicionalmente foi chamado de “purgatório” revela também aspectos que no passado foram muito pouco refletidos. Purgatório pode significar também a experiência de uma evolução feliz e bem- aventurada. Purgatório: Possibilidade de uma última evolução na morte 1 Cf. Paulo: 1Cor 3,15: “Aquele, porém, cuja obra for queimada, perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através de fogo”. 8 PURGATÓRIO NÃO TEM DURAÇÃO TEMPORAL NEM É “LUGAR” Parece-nos quase supérfluo observar, hoje, que com a imagem do purgatório não se supõe lugar, que pode ser definido no espaço, nem duração de tempo, que pode ser determinada.¹ Na morte o ser humano sai do contínuo espaço-tempo. O eu humano não se atém mais às delimitações de espaço-tempo do nosso modo de existir, que é fixado nas quatro dimensões (três relativas ao espaço e uma ao tempo). Pelo contrário, caso este modo de existir fosse representado por um modelo de vetor, usando-se a linguagem científico-matemática, então poderíamos descrever a situação do ser humano na morte referindo-nos ao atual modelo do cosmo, elaborado pela cosmologia, com referências à teoria da relatividade. Extrapolando esta base científica, à qual o homem fica sujeito como qualquer outro elemento do cosmo, podemos construir um modelo para compreender a situação pós-mortal. Fica patente então que, após a morte, não tem sentido nenhum pensar ou argumentar com base em noções de tempo ou de espaço, porque nem uma nem outra destas dimensões existem mais. Com isto, a pergunta sobre a duração do purgatório se torna irrelevante e provoca tantos equívocos, como supor que ele seja estado temporal e intermediário entre a morte e o juízo final. NA MORTE SÓ EXISTE O “AGORA” ETERNO PARA O SER HUMANO. Neste agora coincidem a autoconsciência, a ressurreição da carne e a conversão evolutiva do ser humano. Todas essas realidades estão ligadas e relacionadas com o encontro com o Deus eterno que ama. 1 Sobre a origem de tais imagens e sua recepção no decorrer da história da religião cristã, vide: Jacques Le Goff, op. cit. 9 RESUMO 10 A BASE PARA A COMPREENSÃO DO “PURGATÓRIO”, COMO PROCESSO DE EVOLUÇÃO, JÁ SE ENCONTRA EM TOMÁS DE AQUINO A compreensão da situação do “purgatório” em termos de uma última evolução do ser humano, na morte, parece muito nova à primeira vista. “Na realidade, porém, as bases para tal concepção já se encontram em Tomás de Aquino e na sua compreensão do Aevo.”¹ Recorrendo a esta noção conhecida já na filosofia platônica e neoplatônica, Tomás de Aquino conseguiu dar a ela um conteúdo mais profundo.²Com o instrumental de sua época, ele elaborou um modelo para compreender melhor a distinção entre “Tempo”,de um lado, e “Eternidade”, de outro lado. No intervalo entre Tempo e Eternidade, Tomás vê um estado intermediário, o “Aevo” (Aevum em latim), no qual não existe mais o tempo que passa, mas em que, apesar disso, existe ainda a possibilidade de que haja uma evolução.³ Tomás usa para esta possibilidade o termo mutabilitas. AEVUM na concepção de Tomás de Aquino Quando comparamos este modelo com a concepção de uma ressurreição na morte e a consequente possibilidade de uma última evolução fora do tempo, realizada na situação chamada “purgatório”, percebemos que, no fundo, trata-se do mesmo. Tomás de Aquino trabalhava com os termos usados em sua época. A concepção escatológica de hoje está sendo expressa por noções orientadas mais para a linguagem científica. Recorrendo, por exemplo, ao pensamento abstrato da matemática, conseguimos explicar a evolução sem tempo — que se faz na morte — com um instrumento da matemática. Pensando o tempo como um vetor que tem uma direção específica, podemos imaginar, sem problema, a evolução na morte como um outro vetor que tem outra direção, ou seja, cujo tempo é zero. O modelo respectivo se apresenta da seguinte maneira: Comparando este modelo com o do Aevo, usado por Tomás de Aquino, percebemos que o conteúdo expresso é igual. O que difere é o modelo. Na teologia atual não é mais adequado argumentar com o modelo do Aevo. Permanece, no entanto, sempre válida a convicção formulada por Tomás no Aquino no século XIII: entre as verdades da fé e as verdades da ciência não pode haver contradição. A verdade rica e profunda daquilo que é purgatório pode até ser compreendida a partir do instrumental da ciência matemática de hoje. E, ao mesmo tempo, este novo modelo em nada contradiz aquilo que, em sua época, o grande teólogo e filósofo da Escolástica exprimiu com a linguagem filosófica de seu tempo. 1 Cf. sobre o tema as explanações muito profundas em: Gisbert Greshake e Gerhard Lohfink, “Naherwartung-Auferstehung-Unsterblichkeit”, em Quaestiones Disputatae, Ed. n. 71, pp. 64-75 e 145-147 (com respectiva bibliografia sobre o tema). 2 Suma Teológica, pars 1, quaestio 10; Sentenças I d. 37 q. 4a. 3; II d. 2q. 1a. 1f. 3 Cf. Greshake e Lohfing, op. cit., p. 66. 11 EXPERIÊNCIAS ESPECÍFICAS FEITAS NO PROCESSO DE CONVERSÃO-EVOLUÇÃO CHAMADO DE “PURGATÓRIO” O processo de conversão-evolução na morte, tradicionalmente chamado de “purgatório”, com certeza é um processo complexo, cujos elementos e dificuldades específicas dependerão, em grande parte, das características da personalidade construída na vida vivida. Neste sentido, o purgatório de fato é individual e particular, dependendo da vida que cada pessoa viveu antes de sua morte. Todavia, podemos imaginar que certos elementos do primeiro encontro da pessoa com Deus têm validade geral para todos os seres humanos. Neste sentido, eles também se tornam características gerais do processo de conversão-evolução chamado “purgatório”. E, conforme a personalidade que cada um formou de si no decorrer da vida, passar estas experiências implicará dificuldade maior ou menor em termos muito individuais. Para certas pessoas, que no decorrer de sua vida já tentaram realizar experiências semelhantes, pode ser uma alegria e a maior felicidade realizar a mesma experiência em sentido definitivo, na morte, diante de Deus. No entanto, para outras pessoas — que talvez na vida nunca tenham se preocupado com tais práticas, que talvez até tenham agido de maneira oposta, rejeitando tudo aquilo que vem de Deus —, as experiências descritas em seguida podem significar imensa necessidade de conversão, imensa dificuldade, uma transformação e uma mudança radical nos parâmetros de sua personalidade. Tal conversão, assim, pode doer. E é exatamente aqui que descobrimos os elementos daquilo que chamamos “purgatório”. Além de todas aquelas experiências que terão a sua origem na estrutura específica de cada personalidade — e além de todas aquelas que só Deus conhece —, podemos mencionar pelo menos alguns elementos que, no sentido já descrito, farão, com certeza, parte do “purgatório” de cada pessoa na morte. 11.1. Na morte, o homem deve tornar-se pobre perante Deus O ser humano que na morte se vê diante do amor de Deus tem somente uma coisa a fazer: aceitar este amor como presente. Isto pode parecer muito fácil, mas, em casos concretos, esta é talvez a única dificuldade enfrentada por ocasião do encontro com Deus. Todo o pensamento e toda a ambição do ser humano moderno estão voltados para a autonomia, para uma autossuficiência. Não precisamos aceitar nada de ninguém, pois nós mesmos já possuímos tudo. E se não temos tudo, então adquirimos o que nos falta. Nossa mentalidade é a do “homo faber”, isto é, desenvolvemos um tipo de homem que baseia a sua confiança nos recursos onipotentes de sua tecnologia. Esta lhe dá sentimento de poder e de autossuficiência total. Mas amar é o contrário da autossuficiência. Amar significa permitir que o outro nos presenteie. E assim também o amor a Deus implica permitir que Deus me presenteie; significa: deixar Deus estar aí para mim. Contudo, esta experiência se opõe ao estilo de vida do “homo faber”. O ideal dele, determinado pela sociedade de consumo, divulga exatamente o oposto. O objetivo do “homo faber” é a riqueza, porque riqueza significa independência. Amar, no entanto, implica dependência de outro em sentido profundo e existencial. E, neste sentido, o amor nos aproxima ao mesmo tempo de um aspecto que marca a vida do pobre. Pois ser dependente é a experiência cotidiana dele: não somente aquele que ama, mas também o pobre é marcado por dependência profunda e muitas vezes existencial. Ele experimenta sua própria impotência em face de situações impostas de fora. Ser impotente diante de tais situações e de outras pessoas é o horizonte de vida, o dia a dia do pobre. E ser impotente, dependendo de outro, é precisamente também o que o ser humano vivencia na sua própria morte. Na sua morte, todo homem se encontra em situação análoga à situação do pobre. Ele depende de outro. Este outro é Deus. Amar a Deus quer dizer reconhecer a total dependência dele à maneira do pobre. Daí surge um ponto de vista totalmente novo quanto ao primeiro encontro com Deus na morte. Este ponto de vista deixa transparecer sob nova luz a “opção preferencial de Deus pelos pobres”. Trata-se de opção que se torna cada vez mais clara no decorrer da história da revelação e que culmina na pessoa de Jesus Cristo. Ele, porém, se apresenta como o mensageiro de boas notícias para os pobres (cf. Lc 6,20-23). O pobre é o preferido do Reino de Deus, não somente porque Deus o ama de modo especial, mas também porque, devido à sua situação singular de vida, ele é mais disponível e aberto para Deus. Ele já vivencia no dia a dia a sua dependência. Para ele é normal deixar Deus estar aí, depender totalmente de Deus. O “homo faber”, em compensação, tem inteira confiança no próprio poder; ele se encontra seguro por detrás de suas proteções, de sua riqueza e de seu poder adquirido. Ele é rico e tem a atitude do rico. Nenhum rico, porém, entrará no Reino de Deus. “É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10,25). Francisco G. Dezen e Rafaela P. Duarte formulam este problema com palavras muito radicais: “Só entre os pobres podem-se encontrar pessoas em condições existenciais de dizer: ‘Minha segurança é Deus’, sem comprometimento, consciente ou inconsciente, com a mentira; tal afirmação não pode estar na boca do rico. Como seria Deus sua segurança, em meio ao cerco de garantias, constituídas por polpudas reservas bancárias, bens móveis e imóveis?”¹ A experiência básica, feita pelo homem na ocasião de seu primeiro encontro com Deus, é exatamente esta: depender totalmente de outro. Essa experiência, porém, é feita pelo pobre em escala menor durante toda a sua vida. Na morte, todo ser humano se encontrará nesta mesma situação: na situação do pobre. Não pode fazer mais nada; não tem mais nenhumacapacidade de mudar alguma coisa, não existe mais nem reserva bancária, nem influência política ou financeira. NA MORTE, O HOMEM NÃO PODE FAZER MAIS NADA. NA MORTE, O HOMEM DEPENDE TOTALMENTE DE OUTRO. NA MORTE, O HOMEM É REDUZIDO À SITUAÇÃO DE POBRE. O único que agora pode agir é Deus. Ele tem de fazer tudo. NA MORTE, O HOMEM DEPENDE TOTALMENTE DE DEUS. Assim, até as bem-aventuranças em Lc 6,20ss terão significado específico e muito concreto também para esta situação. “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.” Na morte, todo ser humano deve assumir na sua atitude existencial mais profunda o ser pobre. NA MORTE, O SER HUMANO SÓ PODE FAZER UMA COISA: DEIXAR QUE DEUS ESTEJA AÍ PARA ELE. CONFIAR QUE O “ESTAR-AÍ” DE DEUS SEJA UM ESTAR AÍ QUE AMA. CONCORDAR COM O FATO DE DEUS AGIR. 11.2. Entregar-se a Deus, aceitando seu amor Deixar Deus estar aí para mim significa ser aberto, ter disponibilidade. Esta é a ideia-chave com a qual Gabriel Marcel tenta descrever o que vem a ser o amor. Amar quer dizer estar disponível para o outro. Amar significa ser-com-o-outro. Este outro para quem eu devo abrir-me na morte é Deus. A disponibilidade do ser humano deveria ser aceitar o amor de Deus, antes de mais nada e em primeiro lugar. Aceitá-lo como presente dado gratuitamente para mim. Aceitar este presente seria, então, o passo que se dá para estar em comunhão com Deus. Estar em comunhão com Deus, porém, significa amar e ser amado, quer dizer, ser presenteado pelo êxtase daquilo que é chamado de amor divino. Se eu quiser amar, tenho, então, de me entregar àquele que me ama. Devo, então, entregar-me “a um grande movimento que se esvazia a si mesmo (…) e, quando estiver consumado, esse não será mais o ‘nosso’ próprio amor, mas, sim, virá dos outros; será mero presente”.² Este entregar-se a Deus, sustentado apenas pela confiança de que ele não me abandonará, é, pois, a decisão a ser tomada pelo ser humano por ocasião de seu primeiro encontro com Deus. Com esta decisão, porém, ele se encontrará perante alguém que já o ama. E se nem mesmo convenções impostas pelo seu status nem as normas ditadas pela sociedade impedem um ser humano que ama de correr ao encontro do ser amado, vencendo todos os obstáculos, como é que o Deus que ama não agiria também assim, não obstante todas as objeções teológicas ou jurídicas? Esta é a certeza otimista que proporciona felicidade e que estremece ante o próprio atrevimento. Essa é aquela certeza de que fazia dos relatos sobre a revelação uma boa nova, tanto naquela época como hoje. É essa boa nova, cuja certeza de salvação inspira absoluta confiança e que foi formulada por São Paulo de forma inequívoca: “Depois disso, que nos resta a dizer? Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos haverá de dar com ele também todas as coisas? Quem acusará os eleitos de Deus?³ É DEUS QUEM OS JUSTIFICA. QUEM OS CONDENARÁ? Cristo Jesus, aquele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, aquele que está à direita de Deus é quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Como está escrito: Por tua causa somos entregues à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isto, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem a altura, nem a profundeza, nem nenhuma outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,31-39). Nota exegética É interessante notar sobretudo a interpretação do versículo 33: “Quem acusará os eleitos de Deus?” Heinrich Schlier afirma em sua interpretação da epístola aos Romanos: “O kathemon do v. 31 torna-se mais claro na sua qualidade de processo da situação escatológica do julgamento: Quem acusará os eleitos de Deus?” Egkalein é termo jurídico para a acusação feita ante um tribunal, conforme Eclo 46,19; Sb 12,12… e no NT, At 19,38; 23,28 o provam. As ekletoi são as kletoi do v. 28. (Veja Rm 16,13 e Cl 3,12.) É título de honra para os filhos de Israel (cf. 1Cor 16,13; Sl 104,6-43), agora o novo Israel, o Israel de Deus (Gl 6,16). No v. 33b, São Paulo dá prosseguimento à sua indagação, em que esclarece o “tis egkalései” e salienta, ao mesmo tempo, a impossibilidade de tal explicação: “Theos o dikaiôn”. Deus seguramente não fará a acusação, pois Deus é o “O dikaiôn” — o que justifica. Isto é, na situação supostamente forense, “o que proporciona justiça” (cf. Is 50,8: O dikaiôsasme). Com isso, ele faz, na interpretação de São Paulo, ao mesmo tempo um justo, determinado anteriormente, chamado e depois glorificado. Isso é que foi formulado nesta pergunta, feita com concisão insuperável, e que é ao mesmo tempo resposta. O v. 34 leva a questão adiante, inspirando-se em Is 50,8, sendo que agora, ao invés de “tis egkalései katá… tís o katacrinôn” e ao invés de “Theós: Christós”. A resposta negativa é dada agora, tendo-se em vista Cristo e, com grande minúcia, tendo-se em vista seu acontecimento de salvação. Cristo não nos condena. Como Cristo morreu e ressuscitou, participa da autoridade de Deus e intervém como tal em nosso favor. (Heinrich Schlier, Der Roemerbrief, p. 227.) 11.3. Na morte, o ser humano deve realizar seu mais profundo ato de fé 11.3.1. Aceitar sua própria nulidade Em face da realidade de Deus, perante a qual o homem se encontra na morte, todas as obras deste ser humano são completamente relativas. Se até o santo não é mais nada perante Deus, quem dirá nós, os demais seres humanos que, sendo medianos nas falhas e nas virtudes de nossa vida, tentamos trilhar os caminhos habituais, divididos entre a culpa, a falha e a tentativa de nos convertermos, seduzidos pelas paixões, pela indolência e pelo orgulho. Até em nossos melhores atos podemos descobrir os motivos de interesse pessoal, e o nosso altruísmo foi, muitas vezes, tentativa de nos satisfazermos no próprio altruísmo. Assim, nós somos sempre mistura de bons e de menos bons motivos que não podem ser desemaranhados; mistura que, até para nós mesmos, só se tornará evidente perante Deus. Ele é a verdade ante a qual eu próprio me reconheço. Pois o ser humano que se encontra perante este Deus é aquele que está confrontado com o seu próprio passado problemático e calamitoso, ao qual São Paulo se refere no capítulo 7 da epístola aos Romanos. Na sua situação de pecador, não se trata somente de questão individual. O que está sendo questionado aqui é a contradição antropológica propriamente dita da existência humana, visto que tornar-se culpado é somente manifestação e sintoma desta contradição. Mas não é possível ao ser humano solucionar sozinho este conflito de reivindicação ética e de culpa humana. A solução, como afirma Josef Blank, se encontra unicamente na boa nova “de que o conflito está solucionado em Cristo, e de que sem reserva alguma podemos confiar nesta solução”.⁴ Esta boa nova é também o núcleo do modelo paulino para justificar o homem através da fé. “Já não se trata, em primeira linha, dos feitos do ser humano, e sim do simples e fundamental fato de ser aceito perante Deus, na comunidade.”⁵ Consequentemente, o ser humano não pode mais valer-se de suas obras, a fim de ser salvo. A base para a nova existência escatológica do ser humano é antes somente o amor totalmente gratuito, completamente livre e imensurável de Deus. A ÚLTIMA RAZÃO PARA A SALVAÇÃO DO HOMEM NÃO SÃO SUAS OBRAS, MAS O AMOR INFINITO DE DEUS. Este amor revelou-se no fato de Cristo ter morrido por nós, não por termos sido justos, mas sim “quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8). Mas se isto aconteceu, “então a salvação definitiva, legitimada na fé dos que têm esperança, não faltará. Então seremos salvos. Este é o conteúdo dos versículos 9 e 10 em Rm 5”: “Quanto mais, então, agora, justificados porseu sangue, seremos por ele salvos da ira. Pois, se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais agora, uma vez reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5,9-10). O ser humano, porém, não tem nada que opor a este amor de Deus que salva, a não ser a sua fé repleta de esperanças. Até o que ele crê possuir, em sentido escatológico, como seus bens, isto é, suas boas ações, é posto em dúvida com a morte. O ato de salvação de Deus não pode ser nem forçado nem tomado à força. E após termos feito estas considerações, encontramo-nos, mais do que nunca, ante a necessidade de reconhecermos que, na morte e perante Deus, uma só coisa resta ao ser humano: compreender sua própria nulidade, aceitar sua própria pobreza e mais ainda: experimentar, em sentido radicalmente existencial, o que quer dizer ser pobre. NA MORTE, O HOMEM DEVE ACEITAR SUA NULIDADE TOTAL. Neste aceitar a própria impotência, no admitir a incapacidade de fazer qualquer coisa, é que se encontra talvez a dificuldade propriamente dita do encontro com Deus. Trata-se de encontro em que o ser humano também faz uso de toda a sua personalidade e também de todo o orgulho e arrogância que alimentou nesta personalidade. Aquele que se acostumou a ser rico, ser poderoso e orgulhoso, encontra grandes dificuldades ao ser obrigado a admitir sua impotência. E depara com maiores dificuldades ainda quando permite que outra pessoa aja por ele, quando aceita ser salvo por outrem. Mas essa é precisamente a única coisa que nos resta na morte. 11.3.2. Na morte, o homem só pode entregar-se a Deus, deixando que ele o salve Considerando-se aquilo que o ser humano vivencia na morte, salta-nos à vista a absoluta entrega do homem, sua impossibilidade de ainda fazer qualquer coisa. Se, na morte, o ser humano perece na verdadeira acepção da palavra, então devemos nos perguntar quão grande, enfim, é ainda a capacidade de decisão. As afirmações a este respeito permanecerão sempre no domínio da especulação teológico-filosófica. Surge daí a pergunta: se não é possível encontrar, através de caminho mais seguro, uma resposta à pergunta de que o ser humano ainda é capaz por ocasião de seu primeiro encontro com Deus, de que ele ainda deveria ser capaz, a fim de subsistir este encontro? Impõe-se a ideia de se partir da vivência na realidade indiscutível do assim chamado panorama da vida. Caso o ser humano, na morte, reconheça a si próprio com clareza nunca antes experimentada (e até os resultados das pesquisas sobre o morrer parecem nos dar indícios neste sentido), então ele deve estar necessariamente apto para, no mínimo, tomar posição a respeito de si mesmo e reconhecer a si próprio como o que ele fez de si. Em capítulo anterior, referimo- nos a esta tomada de posição quanto a si mesmo e afirmamos ser ela necessidade inevitável para o conhecimento integral de si mesmo. Mas, no relacionamento de nós mesmos em face de Deus e da conscientização do fato de que não é mais possível, de forma alguma, alterarmos nossos atos, nasce a necessidade de entregarmo-nos incondicionalmente a este Deus. Em face da minha própria insignificância perante Deus, não posso impor mais condição alguma. E, na verdade, eu já não tenho o direito de exigir decisões nem liberdade de tomá-las. O QUE O HOMEM AINDA PODE FAZER É ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE: — DEIXAR-SE ENVOLVER COM DEUS; — DEIXAR QUE DEUS O SALVE. O que eu posso fazer é única e exclusivamente isto: Deixar-me envolver por Deus. Deixar que Deus me salve. Esta é a única liberdade de escolha que ainda resta para o homem: permitir que Deus o salve ou, então, discordar disto. A situação que o ser humano teria de contornar na morte seria, portanto, muito menos do que uma decisão ativa a favor de/ou contra Deus e consistiria antes em um ato de confiança, em confiança cega de que este Deus, que é amor, não me trairia, abandonando-me; em ato de confiança cega de que este Deus, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, tampouco me esquecerá no nada da morte. A esse aceitar Deus com tanta confiança chamamos “fé”. 11.3.3. No seu primeiro encontro com Deus, o homem deve realizar um ato de fé Ter fé, em sentido bíblico, é decisão existencial e fundamental do indivíduo; atitude de confiança, na qual o homem se entrega a Deus, confiando nele e respondendo ao seu chamado. Ter fé significa abrir-se a Deus numa opção que abrange todas as dimensões de minha vida. É exatamente esta a experiência que o homem fará também na sua morte. O ato a ser realizado naquele momento poderia ser interpretado como sendo último e definitivo ato de fé, repleto de confiança. O ser humano deverá abrir-se a Deus, aceitando deste Deus a sua própria salvação, orientando, ou melhor, reorientando toda a sua existência conforme os parâmetros dele. OPÇÃO FUNDAMENTAL DE FÉ. Este último ato de fé, porém, será mais fácil ou mais difícil de realizar, dependendo de até onde o ser humano tenha vivido a sua vida anterior segundo esta fé. Na mesma proporção em que o ser humano ousou aventurar-se com Deus durante a vida, assim também sua última aventura de confiança em Deus na morte será mais ou menos fácil para ele. Quem realmente crê já optou por confiar em Deus durante a vida; quem não crê ou quem tinha fé mais fraca tem de optar agora na morte. Enfatizar tanto a fé faz com que o ser humano se recorde, com urgência inevitável, da relação existente entre a vida e a morte. Pois, conforme afirma São Paulo, a minha salvação decorre unicamente da minha fé. “A fé sem obras é vã”, assim está escrito na epístola de São Tiago (2,20). E, logo adiante, expõe-se mais uma vez, no exemplo de Abraão, a interdependência entre fé e obras: “…a fé concorreu para as suas obras e (…) pelas obras é que a fé se realizou plenamente” (Tg 2,22). Estas obras, no entanto, são realizadas no período anterior à morte. E assim fica mais uma vez provado que é impossível falar, em sentido teológico, da morte, se não consideramos e contemplamos simultaneamente a vida. Apesar de todas estas obras, permanece, contudo, o fato sobre o que sucede ao ser humano na morte e que continua sendo ato de clemência de Deus, que ama, e a quem o homem só pode subjugar-se com confiança e fé e com aquela esperança de quem ama; esperança que, por sua vez, encontra sua certeza em São Paulo e na sua visão daquilo que vem a ser justiça de Deus: esta justiça se manifestou, como justiça “que opera pela fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que creem, pois não há diferença, visto que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus, e são justificados gratuitamente por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo” (Rm 3,22-24). 11.4. Deixar-se remir por Deus na morte O abrir-se do homem para Deus, que se opera pela fé, ou a aceitação de ser salvo por Deus, é posto em prática, em última instância, pelo acontecimento que chamamos de redenção. A ninguém foi perguntado se está de acordo com o fato de Deus salvar o mundo por intermédio de Jesus Cristo. A encarnação de Deus em Jesus deu-se como decisão soberana de Deus. Mas, sendo assim, o ser humano tem de tomar posição perante essa decisão. Chamamos de fé esta tomada de posição e, na morte, todo ser humano se encontrará muito particularmente ante a questão de se deixar salvar por Deus ou não. Esta é a única coisa que resta ao ser humano na morte: deixar que Deus o salve. Aceitar que Deus aja com ele. Não se opor à ação salvífica do Deus que quer a vida, e não a morte. NA MORTE, O HOMEM DEVE DEIXAR QUE DEUS O SALVE. Se, por acaso, o homem atingir o cume de sua impotência na morte, como foi formulado nas reflexões anteriores, então a única coisa que resta a fazer é admitir a minha impotência e que agora outro aja por mim. Este outro é Jesus Cristo. 11.4.1. A cruz de Jesus como espelho da situação do homem na morte O que acontece na morte com o ser humano é, até certo ponto, o mesmo acontecimento a que Jesus se entregou ao ser crucificado. Deste modo, a cruz não se torna apenas sinal de nossa salvação, mastambém manifestação plástica e espelho daquilo que espera pelo ser humano na morte: a impotência total. O Crucificado nada mais pode fazer. Os membros de seu corpo que lhe permitiam locomover-se estão agora pregados e lhe são inúteis. Ele está pregado na cruz e totalmente entregue àquilo a que os outros o reduziram. A situação de Jesus crucificado é a situação do ser humano na morte. A SITUAÇÃO DE JESUS CRUCIFICADO É A SITUAÇÃO DO HOMEM NA MORTE. Assim como Jesus, na morte, já totalmente impotente, depende da ação de Deus, da mesma maneira o homem, igualmente desamparado, dependerá de Deus na sua morte. 11.4.2. O Deus abandonado por Deus, paradoxo que fundamenta nossa esperança Mas existe uma diferença fundamental entre a morte de Jesus e nossa própria morte, diferença que, em seu paradoxo incompreensível, constitui a base propriamente dita de nossa fé. Este Jesus, que durante toda a vida sempre se baseou no Pai, seu Deus, que é amigo dos homens e que conhece todas as necessidades do ser humano, que está presente para ajudar, este mesmo Jesus morreu proferindo um grito horrível e inarticulado de abandono total por Deus (Mc 15,34-37; Mt 27,46). Transcrições posteriores atenuaram este grito e substituíram-no por palavras tiradas dos Salmos.⁷ Os acontecimentos relatados por Marcos são os que mais deveriam corresponder à realidade. Jesus morreu proferindo um grito, não grito de desespero, mas, sim, gritando por Deus, com quem ele se havia identificado durante toda a vida. Mas este Deus “não se identificou com ele no fim. (…) Ele, que havia anunciado publicamente a proximidade e a chegada de seu Pai, morreu neste abandono total por Deus e apontado por todos como ímpio: um ser condenado pelo próprio Deus e que foi arrasado uma vez por todas”.⁸ JESUS MORREU TOTALMENTE ABANDONADO POR DEUS. É talvez aqui, neste paradoxo incompreensível do Deus abandonado, que se revela o verdadeiro segredo do que chamamos salvação. O PRÓPRIO DEUS, MORRENDO EM JESUS CRISTO E ABANDONADO POR DEUS, NOS LIVROU POR CAUSA DISSO DA TERRÍVEL EXPERIÊNCIA DE SERMOS NÓS MESMOS ABANDONADOS POR DEUS EM NOSSA MORTE. Tomando a seu encargo o incrível sofrimento do abandono de Deus, destruindo- se a si mesmo, ele, o ente, assumiu o não-ser da morte no sentido absoluto e inacessível para nós. Mas, assim, ele nos poupou de passarmos pelo mesmo na nossa própria morte. Mostra-se nitidamente aqui o tema do substituto, no qual a tradição sempre insiste. Deus sofreu em Jesus aquilo que, na verdade, cada pecador deveria padecer: ser abandonado por Deus. No grito de Jesus abandonado na cruz revela-se este fato incrível em toda a sua incompreensível profundidade. Pois o grito do crucificado é “o grito a Deus mesmo”. Jesus busca o seu Deus… O significado característico do abandono de Jesus é o padecer da perda de Deus, a ausência ou a distância dele. “No seu abandono, Jesus apropria-se da dor e da morte do homem, da existência humana em si. Ele a vivencia na sua mais profunda e dolorosa realidade, na perda de Deus.” Tudo isso Jesus suportou por todos nós. No seu abandono, ele experimenta até o ponto mais extremo o paradoxo dialético da última solidariedade com os homens. Ele é abandonado por Deus para que nunca mais um homem seja abandonado por ele. Eis a ideia central da salvação formulada de maneira maravilhosa na epístola aos Filipenses: “Sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tomando a semelhança humana. Sendo externamente reconhecido como homem, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todo o nome” (Fl 2,6-9). Assim, de fato, “Cristo morreu e reviveu para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Rm 14,9). E é por isso que a morte perdeu o seu aspecto assustador, de modo que Paulo pode menosprezá-la e exclamar: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15,55) Desde a morte de Jesus Cristo, o homem não tem mais de temer a morte. Ele não precisa mais temer, justamente porque pode estar certo de que aquele mesmo Deus que sofreu a morte não o abandonará jamais no seu próprio morrer. Muito pelo contrário, diz Paulo: por causa da morte de Jesus, a própria morte mudou de sentido. Ela tornou-se sinal de vida e esperança, pois: “assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,22). 11.4.3. Na ressurreição de Jesus, Deus se revela o Deus fiel, contra todas as aparências Portanto, a morte de Jesus tem sentido fundamental, pois no seu abandono na cruz revelou-se o que aconteceria na morte do homem pecador, se Deus não interviesse. MAS DEUS NÃO DEIXA O HOMEM NA SITUAÇÃO DE ABANDONO. DEUS INTERVÉM! Deus intervém! Esta é, pois, a certeza fundamental na ressurreição daquele que foi abandonado por Deus. Esta é a certeza que se reflete nos escritos de Paulo. Durante toda a vida, Jesus havia proclamado a convicção de que Deus “não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mt 22,32). Agora o próprio Deus confirma esta declaração, manifestando-se em Jesus Cristo, o ressuscitado, como aquele que tem a última palavra até depois da morte, como aquele que, partindo da morte, transforma a vida em algo novo. Não somente a vida de um só, mas, por meio deste, a vida de cada um de nós. Nesse sentido a morte e a ressurreição de Jesus tornam-se, na acepção da palavra, “ato pelo qual Deus se revela para o mundo”.¹ NA PESSOA DE JESUS RESSUSCITADO, DEUS SE REVELA COMO AQUELE QUE NOS DÁ VIDA NOVAMENTE DEPOIS DA MORTE. E ele se revela no abandono de Jesus por Deus, como aquele que nos quer poupar do abandono de Deus na morte. Eis a nossa salvação! O que o ser humano então deveria fazer por ocasião de sua morte é: deveria aprovar o fato de que esta salvação realiza-se também com ele. Ele deveria dizer “sim”, em ato de fé amplo que reunisse e superasse todos os atos de fé de sua vida anterior. E estes atos, como já foi acentuado várias vezes, para serem atos de verdadeira fé, deverão estar ligados sempre à vida concreta (veja Tt 3,4-7). A tarefa do homem na morte é então esta: Dizer sim ao fato de que Deus age segundo o seu próprio critério. Dizer sim ao fato de que Deus o salva. Contudo, o autor da epístola aos Colossenses explica, de forma altamente expressiva, o significado profundo do que chamamos de salvação: “…ele nos vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as nossas faltas: apagou em detrimento das ordens legais o título de dívida que existia contra nós e o suprimiu, pregando-o na cruz” (Cl 2,13-14). Deus, de fato, está disposto a nos salvar. Ele quer que nossa vida seja plena e oferece a todos e a qualquer um o seu perdão. O mesmo Paulo, cuja afirmação consoladora sobre o perdão de Deus já citamos, também descreve, de maneira bem clara, esta vontade salvífica de Deus que abrange a todos os seres humanos:¹¹ “…Deus, nosso Salvador. Ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3-4). A vontade de Deus de salvar, de dar “vida em plenitude”, vale para todos. Sobre este fato não pode haver a mínima dúvida. Mas, ao mesmo tempo, existe a liberdade humana, e Deus sempre respeita essa liberdade. Ele a respeita na vida e a respeita também na morte. E é diante deste fato que se deve formular agora a pergunta inquietante e importantíssima: O que acontecerá, no caso de o homem não querer aceitar a graça e o perdão que Deus lhe oferece? Dizer “não” faz parte da liberdade humana. A pessoa humana até na morte pode dizer “não” a tudo aquilo que Deus lhe quer dar. Qual seria a consequência de um tal “não”? É sobre esta pergunta perturbadora que devemos refletir em seguida: No primeiro encontro com Deus, chamado “purgatório”, o homem encontra a possibilidade de mudar as características de sua personalidade que não correspondam aos critérios de Deus. Mas, em vez disso, ele pode também cimentar-se para sempre dentro de sua personalidadenão evoluída. 1 Francisco G. Dezen e Rafaela P. Duarte, As pedras clamarão, p. 75. 2 Ladislaus Boros, Mysterium mortis, p. 54. 3 Cf. a nota exegética no final da citação, a seguir. 4 Josef Blank, Paulus, von Jesus zum Christentum, p. 84. 5 Id., ibid. 6 Heinrich Schlier, Der Roemerbrief, p. 154. 7 Cf. Hans Küng, Christ sein, pp. 329-330. 8 Id., ibid., p. 331. 9 Gérard Rossé, Jesus in seiner Verlassenheit, p. 69. 10 Vv. Aa., Mort pour nos péchés, p. 156. 11 Cf. também: Lc 19,10; Rm 5,18; 11,32; 1Tm 4,10; 2Cor 5,14-15. III INFERNO ou O TERRÍVEL RISCO DA LIBERDADE HUMANA 1 Mas o que acontecerá se o homem não quiser transformar-se? Nas exposições anteriores, tentamos mostrar que o primeiro encontro do homem com Deus é caracterizado por amplo “conhecer-a-si-mesmo” do eu humano diante de Deus. A este ato de autoconhecimento se junta a necessidade de conversão profunda e total, conversão que implica todos os elementos mencionados nas reflexões anteriores. Esta conversão, por sua vez, deveria orientar-se necessariamente para amplo ato de fé, no qual o ser humano se entrega de maneira total e absoluta ao amor misericordioso de Deus. É diante deste quadro, porém, que cumpre indagar com toda a sinceridade também acerca de outra possibilidade: — O que acontecerá se o ser humano não desejar ou não puder realizar esse ato de conversão e de fé? — O que acontecerá se ele não estiver disposto ou, então, não for capaz de renunciar a si mesmo, de se converter e deixar tudo nas mãos de Deus? — O que acontecerá se ele não quiser crer ou não puder mais crer que Deus o salvará? O que se entrevê nesta questão faz parte das possibilidades mais inquietantes e também mais assustadoras do ser humano. Sendo assim, não podemos simplesmente deixar de lado este fato, se não nos quisermos recriminar por não havermos dado o devido valor às várias possibilidades da liberdade humana. Entre essas possibilidades está também a de o ser humano recusar o amor de Deus. TAMBÉM NA MORTE, O HOMEM TEM A POSSIBILIDADE DE RECUSAR O AMOR DE DEUS. Isso significaria, porém, que ele falha quanto ao destino específico e verdadeiro de toda a sua existência. Significaria ainda a perda integral daquele sentido de vida que o homem sempre procurou, inconscientemente, em todas as suas ambições e aspirações. Ele, cujo coração, conforme Santo Agostinho afirma, estará inquieto enquanto não encontrar sua paz em Deus, jamais a encontrará, porque se afasta de Deus numa trágica dinâmica do insucesso. Entre as possibilidades de liberdade do ser humano está também a de dizer não ao fato de Deus querer salvá-lo. As assustadoras atitudes de protesto expressas por um não, proferido muitas vezes por orgulho, são experiência bastante conhecida no decorrer da história da vida humana. E o que aconteceria se, até na morte, o ser humano não permitisse que Deus agisse nele? Ou o que aconteceria se ele duvidasse que Deus deseja salvá-lo? Ou, então, o que aconteceria se esse ser humano, por causa do que ele fez de sua vida, já não estiver em condições de entregar-se a Deus com fé, da maneira aqui postulada? A consequência seria sempre uma só: O ser humano permaneceria fixado na sua situação de morte por causa da sua própria recusa de crer em Deus, ou então por ser incapaz de crer nele. 2 SITUAÇÃO TOTALMENTE CONTRADITÓRIA DE MORTE VIVA, SEM POSSIBILIDADE DE SAIR DAÍ No decorrer de nossas reflexões, interpretamos o ato de clemência de Deus no sentido de que ele ressuscita o ser humano da morte para uma espécie de “criação nova da vida”,¹ para uma vida nova, de tal maneira que a morte pode ser compreendida como ato de nascimento propriamente dito para nova dimensão do ser. Será esse nascimento que não mais dependerá da força e da vontade do homem, e sim de Deus. É Deus quem dá a nova vida, de tal maneira que a vida vivida até agora é comparável a um grão de trigo, a semente que na morte se transforma pela graça de Deus em outro nível de ser. Esta analogia é usada por Paulo na primeira carta aos Coríntios (1Cor 15,35ss). E, na carta aos Romanos, de novo Paulo acentua de maneira bem clara que a nova vida do homem após a morte é obra e dom de Deus: Daquele Deus “…que faz viver os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4,17). O DEUS QUE FAZ VIVER OS MORTOS. Deparamos aqui com a mesma ideia já formulada em Jo 5,21: “ASSIM COMO O PAI RESSUSCITA OS MORTOS E LHES DÁ A VIDA, ASSIM TAMBÉM O FILHO DÁ VIDA A QUEM QUER”. Diante dessa imagem consoladora do Deus que dá a vida, volta outra vez a pergunta assustadora do início deste capítulo: Que acontecerá com o homem, se Deus não lhe puder dar esta nova vida, por que o homem não a quer? Pode ser que nesse caso o âmago da pessoa humana permaneça naquela situação de estar morto, condenado para sempre a uma situação limiar e estática em que a sua vida temporal venha a cessar sem que a vida nova possa iniciar-se. Essa situação será uma situação-limite sem a condição de poder ser superada. Imobilizada fora do tempo. É com estas imagens que se pode tentar descrever a situação de morte sem ressurreição em Deus. Situação impossível e contraditória em sua essência. Uma morte viva, consciente, sem a mínima possibilidade de poder providenciar uma saída pelos próprios recursos, entorpecido e fixado em si mesmo. São imagens paradoxais que contêm exatamente os elementos daquilo que as transcrições tradicionais chamam de “INFERNO”. 1 Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 139. Cf., ainda, Jürgens Moltmann, Teologia da esperança: “A esperança cristã no Deus que ressuscita os mortos e que do nada cria o ser, admite radicalmente a morte, com tudo o que ela tem de mortífero, isto é, na sua raiz que afunda no nihil”. “…a identidade prometida na ressurreição… não se encontra no homem, como se em seu âmago a morte não o atingisse, mas para lá da morte e da vida, no evento da promessa de Deus, na qual o homem pode abandonar-se à fidelidade de Deus” (pp. 429-430). 3 NENHUM SER HUMANO PODERÁ SAIR DA SITUAÇÃO DE MORTE POR SEUS PRÓPRIOS RECURSOS Com base em nossas reflexões anteriores, seria possível chegar, talvez, à conclusão de que todo ser humano pode vivenciar tal situação na morte, pois que, como ser espiritual, o âmago da pessoa humana não pode morrer. Sem a ajuda de Deus, porém, esse ser interior também não pode sair de sua situação estática de morte, onde nada mais poderá ser mudado. Essa situação é definitiva e vivida com plena consciência, em virtude da qual esse ser sabe que ele mesmo nada mais poderá mudar ou acrescentar. 4 JESUS TAMBÉM PASSOU POR ESTA SITUAÇÃO DE MORTE Tomando em consideração a possibilidade assustadora de que todo ser humano, caso pudesse contar apenas com os seus próprios recursos, deveria ficar preso para sempre numa situação de morte consciente, a antiga convicção da fé segundo a qual Jesus DESCEU AO LUGAR DOS MORTOS ganha imprevisivelmente conteúdo muito mais amplo. Significaria, com toda a razão, que Jesus vivenciou na morte também aquela condição atemporal que só pode caracterizar-se pela noção em si contraditória do nada experimentado conscientemente. No modo de existir de Jesus, essa vivência significa experiência inconcebivelmente mais profunda e contraditória do que para qualquer outro ser humano. Pois, no seu caso, tratar-se-ia de vivência do nada, vivenciada pela sua existência humana e divina e, portanto, de contradição intensificada ao máximo. Mas a convicção da fé é, sem exceção, a de que Jesus “passou” por essa condição, a fim de que nenhum homem tivesse de experimentá-la, porque dessa condição a morte de Jesus o salvou. Esta salvação foi prometida a todos os que têm fé. Gérard Rossé, baseado nas reflexões de Hans Urs von Balthasar, amplia ainda essa ideia dizendo: “Visto que a salvação é oferecida a todos, Jesus, com sua descida até os mortos, na sua vivência da morte, alcança não somente os justos, aqueles que aceitarão o oferecimento da salvação, mas suporta também a pena dos ímpios na perda de qualquer luz da fé, da esperança e do amor.Isso para que ele possa atingir também aqueles mesmos que o rejeitarão. Ele percorre, portanto, todas as dimensões do inferno para que todo homem, no seu distanciamento de Deus, tenha a possibilidade de se reencontrar com Cristo”.¹ Mas, e aqui retornamos uma vez mais à nossa pergunta inicial, o que acontecerá com os que não creem? 1 Gérard Rossé, op. cit., p. 60. 5 O QUE ACONTECERÁ COM OS QUE NÃO QUEREM ACEITAR QUE DEUS LHES DÊ NOVA VIDA? Não se trata dos que, sem serem culpados, não tiveram durante toda a vida acesso à fé, seja por jamais terem ouvido falar dela, seja porque essa fé lhes fora exposta e exemplificada de tal maneira que, em vez de convencê-los, desalentou- os. Não nos referimos a essas pessoas. Deus na sua graça encontrará meios de guiá- las, ainda na morte, para a fé. Referimo-nos, sim, à recusa consciente e proposital do ato de fé que deverá ser realizado na morte, como já foi exposto. Referimo-nos à rejeição ao ato de fé do qual nenhum ser humano escapará, pois ninguém poderá escapar da morte. O que acontecerá se agora é o eu que não pode ou não deseja realizar este ato de fé? O eu aferrar-se-á então àquela contradição ontologicamente impossível que já explicamos anteriormente. O eu tem conhecimento disto e também saberia como se libertar. Ele tem consciência de que este seria o único caminho para escapar de uma condição absolutamente impensável e impossível por causa da sua própria contradição. Mas não quer crer, ou então, o que seria ainda mais trágico, já não pode crer, porque a sua estrutura de pessoa está tão fixada na vida precedente que simplesmente já não lhe é possível realizar aquele derradeiro ato de fé e confiança que se exige. Esta situação, contudo, corresponde exatamente àquilo que na linguagem tradicional da teologia foi representado pela imagem do inferno e da condenação.¹ E assim, a partir da perspectiva aqui proposta, demonstramos o que Boros e outros também já haviam formulado: Não é Deus quem condena, mas o ser humano é quem se condena, rejeitando Deus. O ser humano que não quer, ou então, que já não pode realizar o ato de fé exigido, dada a sua estrutura de personalidade demasiadamente fixada em si mesma, é a própria causa da sua condenação. Fica mais uma vez patenteada a interdependência essencial existente entre a vida e a morte. Pois a impossibilidade, ou ainda, o não querer a fé na morte, tem suas causas fundadas naquilo que o ser humano fez de si no decorrer de sua vida. A personalidade que se formou no decorrer de anos ou de decênios por meio de centenas e até de milhares de decisões isoladas, essa personalidade é que, na morte, se encontra ante uma necessidade de crer. Esse entregar-se a Deus com fé, esse tornar-se pobre diante de Deus será, contudo, mais difícil de ser realizado por um eu acostumado ao poder e às riquezas do que por quem, durante a vida, já tentara na fé viver a experiência de sua própria impotência e de sua confiança em Deus. Entregar-se a Deus será bem mais fácil para aquele que na própria vida, em virtude de sua condição socioeconômica, não teve jamais conhecimento de uma autodeterminação. Agora, porém, quando o ser humano se encontra diante de Deus, o que acontecerá se ele não puder realizar esse ato ou se não o quiser, ou ainda, se não puder mais querer realizar esse ato de entrega total? São três situações essencialmente diversas e, no entanto, o resultado será sempre um só: a ruína do sentido essencial e existencial da vida. Deveremos então contentar-nos com essa afirmação? Não nos resta mais nada, a não ser, alegando a justiça de Deus, partir do pressuposto de que este ser humano está apenas recebendo a retribuição que lhe cabe? 1 Cf. Alfred Läpple, Der Glaude an das Jenseits, pp. 170-173. Ladislaus Boros, Des Menschen Welt und Gott, pp. 183, 185. 6 CONFRONTADOS DE NOVO COM A JUSTIÇA DE DEUS, SÓ NOS RESTA A ESPERANÇA DE QUE A JUSTIÇA DE DEUS SEJA DIFERENTE DAQUELA DOS HOMENS Voltando às considerações já formuladas no capítulo 5 desta terceira parte, devemo-nos lembrar outra vez de que nossa noção de “justiça retributiva” está muito distante da justiça de Deus, como ela aparece na revelação. NA REVELAÇÃO APARECE UMA JUSTIÇA DIVINA BEM DISTANTE DE NOSSA NOÇÃO DE JUSTIÇA RETRIBUTIVA. Não é só na parábola da vinha em Mt 20,1-16 e no pagamento “injusto” daqueles trabalhadores que se revela outra concepção de justiça divina. Ela aparece sobretudo também na imagem bem fundamentada do SERVO DE JAVÉ, em cuja figura se manifesta uma concepção totalmente distinta, longe de toda noção de retribuição. O servo de Javé não reage, apesar de ser maltratado sem ter dado motivo. Ele não se revolta, apesar de ser injustiçado. Lemos em Is 50,6: “Ofereci as costas aos que me feriam e a face aos que me arrancavam os fios da barba; não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros”. Mais adiante, lemos (Is 53,7): “Foi maltratado, mas livremente não abriu a boca; como cordeiro que é conduzido ao matadouro, como a ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores, ele não abriu a boca”. A figura misteriosa deste servo de Javé encarnou historicamente os sofrimentos do povo no exílio da Babilônia. Mas o sentido profundo dessa imagem cumpre-se plenamente na pessoa daquele que cremos ser a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Ele mesmo, Jesus Cristo, é o servo de Javé, e com ele a imagem refere-se ao próprio Deus. O servo de Javé é a imagem do próprio Deus e o que se diz do servo de Javé, se diz de Deus, daquele Deus que na pessoa de Jesus assumiu plenamente a condição humana. Podemos ler em Mt 12,17ss: “Assim, cumprir-se-á ali o que tinha sido anunciado pelo profeta Isaías: Eis o meu servo que escolhi, o meu predileto, em quem pus toda a minha complacência. Derramarei sobre ele o meu espírito e ele anunciará a verdadeira fé às nações. Não disputará nem bradará e ninguém ouvirá nas praças a sua voz. Não quebrará a cana fendida, nem apagará a mecha que arde, enquanto não der vitória à justiça”. Comentando, nesse contexto, a imagem do servo de Javé, Ambroos R. van de Walle escreve as seguintes reflexões muito convincentes: “Dando-nos conta do enraizamento profundo da noção de retribuição no pensamento religioso, também do Antigo Testamento, percebe-se imediatamente que, nessa figura indefesa e não violenta, aparece algo totalmente novo. Aqui se revela algo de sobre-humano. Aqui se rompe de maneira radical o círculo fechado do raciocínio humano sobre justiça; aquele círculo em que o direito violado deve ser restabelecido pela punição e pela penitência, aquele círculo em que vale o princípio do olho por olho e dente por dente. Aqui está alguém que é espancado e que não reage, alguém que não paga com a mesma moeda, alguém que perdoa sem condições, alguém que não exige satisfação pelo prejuízo sofrido nem pelo direito violado. Uma pessoa assim não é homem. Um comportamento desses já não é humano. É simplesmente incompreensível. Além do mais, semelhante pessoa é extremamente perigosa, porque inverte de maneira criminosa o nosso sistema jurídico”.¹ Nossa noção de justiça realmente difere da noção de justiça de Deus. Com base nas reflexões feitas acima, devemos nos conscientizar de que seria demasiadamente fácil deixar de lado a questão do inferno, com a simples ressalva de que é o próprio condenado que, na sua liberdade, se recusa conscientemente a ser amado por Deus. O fato de alguém livre e conscientemente não querer ser salvo, não diminui absolutamente a discrepância existente entre um Deus que ama e o fato de este Deus que ama deixar que sua criatura permaneça em tormento extremo como o do inferno. E justamente diante do amor de Deus parece-nos legítima a indagação se realmente não existe mais nenhum caminho que nos conduza para fora do inferno, ou melhor ainda, que, de antemão, já não passe por aí. 1 Ambroos R. van de Walle, Bis zum Anbruch der Morgenroete, p. 259. 7 HAVERÁ ALGUÉM NA SITUAÇÃO DE INFERNO? Ladislaus Boros parte do princípio de que, no seu ato de decisão na morte,o ser humano revela totalmente “o seu ser por intermédio de um ato integral”. Baseando-se nessa afirmação, o autor citado chega à seguinte conclusão: “Se no momento mais nítido de liberdade ele (o ser humano) pronunciar o seu não, ele o expressará de fato com todo o seu ser; ele teima na sua negação e até ele mesmo acaba por tornar-se um não radical. Opta por si mesmo por todo o sempre e tem de aturar a si próprio toda a eternidade; tem de errar no tenebroso vazio da própria existência para todo o sempre”.¹ Encontramos esta afirmação básica formulada aqui na grande maioria das exposições sobre o tema em questão.² Todas essas exposições têm uma convicção em comum, isto é, de que, na morte, um não proferido a Deus é, na verdade, definitivo. Isto, por um lado, porque eternidade é sinônimo de definitivo e, por outro lado, porque a Deus nada mais resta senão respeitar a livre decisão do ser humano. Nesse contexto, Alfred Läpple cita frases de um sermão de John Henry Newman: “Ele (Deus) é o Todo-poderoso que, não obstante toda a sua onipotência, pode envolver-se na fraqueza e tornar-se prisioneiro de suas próprias criaturas”.³ Herbert Vorgrimler também sintetiza do seguinte modo este mesmo pensamento: “Quando o ser humano, com todas as suas decisões fundamentais, se torna definitivo, então podemos supor (pelo menos esta é a conclusão a que a maioria dos teólogos chegaram) que a recusa diante de Deus tornar-se-á também definitiva. Assim é óbvio que, através da ação do homem e não pela condenação de Deus, é que se dá o distanciamento eterno de Deus”.⁴ Este distanciamento é exatamente a experiência essencial daquilo a que se dá o nome de inferno. Nessa palavra, diz Herbert Vorgrimler, “encontram-se imagens arcaicas da tradição humana e do inconsciente com desejos manifestados ou reprimidos de vingança: que Deus pelo menos puna os outros para estabelecer certo equilíbrio! Na palavra “inferno”, também estão concentradas as angústias de inúmeros cristãos intimidados.”⁵ Essa intimidação é tanto maior quanto mais se acentua a eternidade daquela situação de distanciamento de Deus; distanciamento que tanto a pregação cristã como a imaginação popular descreveram com as mais cruéis e repugnantes imagens. Essas imagens encontram-se até nas declarações oficiais da Igreja e, talvez só hoje, despertados pela psicologia e pela crítica das ideologias, podemos avaliar, com olho crítico, os efeitos de tais palavras. Antes de refletir sobre essas imagens, devemos mencionar as mais significativas, mostrando, ao mesmo tempo, a evolução das manifestações eclesiásticas sobre a questão. As explicações que damos dessas imagens seguem substancialmente as exposições de Van de Walle e de Alfred Läpple. 1 Ladislaus Boros, Erloestes Dasein, p. 101. 2 Cf., a título de ilustração, as citações acima e as referências de Läpple, Alfred, Der Glaube an das Jenseits, p. 172. 3 Id., ibid., p. 171. 4 Herbert Vorgrimler, Der Tod in Denken und Leben des Christen, p. 96. 5 Id., ibid., p. 94. 6 Alfred Läpple, op. cit., pp. 160-165. Ambroos R. van de Walle, op. cit., pp. 265ss. 8 O QUE SE DECLAROU SOBRE O INFERNO As raízes da noção de inferno encontram-se, sem dúvida, na ideia judaica de morada dos mortos, o xeol. Os Padres da Igreja descreveram o fogo do inferno de maneira bem naturalística. Santo Agostinho e São Gregório seguiram o mesmo caminho: o fogo seria fogo real com que Deus puniria os pecadores. Evidentemente esse fogo foi declarado como de natureza eterna. Em oposição a essas concepções, Clemente de Alexandria duvida da eternidade do inferno. Orígenes define as torturas aí sofridas como sendo provocadas pela própria consciência do pecador. Com base em 1Cor 15,25-26, ele chegou a postular de maneira hipotética a salvação final de todos, a assim chamada apokatástasis. Nessa hipótese seguem-no São Gregório de Nissa, Teodoro de Mopsuéstia e, durante certo tempo, Jerônimo. Os assim chamados misericordes declaram que Cristo salvará também os que morreram em estado de pecado mortal, visto que eles também foram batizados. A influência dos misericordes permaneceu até a Idade Média. No ano 543, encontramos a reação contra essas concepções, formulada por ocasião da reunião da província eclesiástica de Constantinopla e ratificada pelo papa Virgílio. Aí lemos: “Se alguém afirmar ou crer que o sofrimento e o castigo dos demônios e dos ímpios estão limitados no tempo e que algum dia terão fim e que haverá também reconciliação universal com os demônios e com os ímpios, que este seja condenado”. No assim chamado Credo de Atanásio formula-se que os maus serão julgados para toda a eternidade. (Formulado entre o fim do séc. IV e fim do séc. VI.) Todos aqueles que praticaram o mal cairão no fogo eterno. No IV Concílio de Latrão, em 1215, fala-se também de punição eterna, e o I Concílio de Lião, em 1245, sem formular dogma, diz: “Quem morre sem penitência em estado de pecado mortal sem dúvida será torturado eternamente nas brasas do inferno eterno”. O sofrimento e as torturas dos condenados são mencionados ainda no II Concílio de Lião e no Concílio de Florença. Na carta do papa Inocêncio IV ao bispo de Túsculum, escrita em 6 de março de 1254, podemos ler o seguinte: “Quem morrer em estado de pecado mortal sem se arrepender certamente será torturado pelas brasas do inferno perpétuo”. Semelhantes declarações encontramos também no Credo do imperador bizantino Miguel VIII e na Constituição “Benedictus Deus” do papa Bento XII (1334- 1342). O “Catecismo Romano” editado depois do Concílio de Trento e divulgado no ano de 1566 menciona diferentes tipos de torturas infernais e acentua principalmente a tortura do fogo. E ainda no “Catecismo Católico”, editado em Roma no ano de 1930, podemos ler: “É teologicamente certo, apesar de não ser ‘de fide’, isto é, apesar de não ser dogma, que o fogo com que os condenados do inferno são torturados seja fogo real ou corporal, não apenas fogo no sentido figurado”. Somente nestes últimos tempos é que o tom das declarações a respeito do inferno começou a modificar-se, acentuando mais a seriedade da decisão de vida pela qual o homem é julgado. Assim é que podemos ler no Sínodo das Dioceses da Alemanha Federal, formulado na 8ª Reunião-Geral de 22 de novembro de 1975: “Não ocultamos que a mensagem do juízo de Deus também fale do risco de perdição eterna. Essa mensagem proíbe que de antemão contemos com uma reconciliação e expiação para todos e para tudo o que fazemos ou omitimos. Assim, essa mensagem intervém sempre de novo e de maneira transformadora em nossa vida, trazendo a seriedade dramática em nossa responsabilidade histórica”. 9 SÍNTESE 10 OS EFEITOS PSICORRELIGIOSOS DAS DECLARAÇÕES ANTERIORMENTE EXPOSTAS As declarações feitas, como a maioria das que aqui são expostas, contribuíram sensivelmente para incutir no povo cristão um medo do inferno que até hoje surte efeito. A boa nova cristã tornou-se nova de ameaça. Isso deve ser dito sem que, em contrapartida, se deixe lugar a dúvidas sobre a seriedade da responsabilidade humana perante Deus. Podemos verificar, contudo, que na proclamação cristã foram usadas ameaças maciças. Todavia, ameaça e amor excluem-se, assim como se excluem coação e amor. O que J. Chorón afirma sobre a atitude fundamental que imperava no século XIV é, pelo menos em sua essência, válido ainda hoje para várias camadas do nosso povo: “O além, graças aos esforços da Igreja, tornou-se fonte de terror em vez de consolação. Em vez de recompensa, muita gente só podia esperar castigo. A fim de garantir uma existência beatífica no outro mundo e não ser condenado eternamente a torturas inconcebíveis… era necessário levar uma vida que a maioria das pessoas não podia suportar, exceto alguns ascetas ultradevotos”.¹ Na verdade, a citação mencionada contém amarga verdade. Assim, pois, nos admiramos outra vez da facilidade com que muitas vezes, ainda hoje, se parte do princípio de que a situação do inferno, que é terrivelmente absurda, desumanamente sem sentidoe indigna da pessoa humana, não possa ter outra formulação. 1 J. Chorón, Suicide, p. 91; cit. Cf. R. Kastenbaum e R. Aisenberg, Psicologia da morte, p. 157. 11 DESMASCARAR OS MECANISMOS INCONSCIENTES DE AGRESSIVIDADE E DE VINGANÇA Em muitos casos, a acentuação demasiada da necessidade do inferno parece ter suas raízes num sutil e inconsciente desejo de vingança. Este desejo se oculta por trás de uma concepção de justiça retributiva, exigindo que Deus tenha de seguir os princípios formulados por ela.¹ Em época como a nossa, marcada pela psicologia profunda bem desenvolvida, é imprescindível nos darmos conta desse aspecto do discurso teológico sobre o inferno. O estudo pormenorizado dessas relações extrapolaria os parâmetros das reflexões presentes. Não obstante, citaremos um pensamento básico de Margarete Mitscherlich para servir de estímulo a reflexões ulteriores. Em seu livro Muessen wir hassen, ela afirma o seguinte sobre a questão da angústia e da agressão: “Quem se encontra sob a pressão consciente ou inconsciente da angústia, da culpa ou do castigo, tende muitas vezes a incutir complexos de culpa em outras pessoas, usando de agressiva atitude de censura”.² Se a este aspecto acrescentarmos ainda os mecanismos existentes de transferência e de projeção, compreenderemos que as afirmações sobre as situações eternas de culpa e de castigo do ser humano devem ser analisadas com a máxima cautela possível. Não é verdade que, em todas as alterações feitas sobre a eternidade necessária do inferno, empregam-se argumentos muito racionais? Noções, como, por exemplo, de justiça, de liberdade e de respeito à vontade do ser humano são usadas nessas argumentações, sem, no entanto, ponderar a fundo que em tudo isso participa o Deus que ama. 1 Cf. também: René Girard, A violência e o sagrado; Franz J. Hinkelammert, Sacrifícios humanos e sociedade ocidental... 2 Margarete Mitscherlich, Muessen wir hassen, p. 167. 12 ARGUMENTAÇÕES RACIONAIS NÃO ESGOTAM AS POSSIBILIDADES DO AMOR Tantas e tantas vezes argumenta-se de modo racional sobre o amor de Deus, para que este amor seja “entendido”, e precisamente por isso se perdem dimensões fundamentais do amor. Pois quem crê que o amor, o verdadeiro amor, se deixa deter por qualquer motivo, não entende nada do amor. O VERDADEIRO AMOR NÃO SE DEIXA DETER POR MOTIVO NENHUM! Quem já viveu a profunda experiência de louco e ardente amor sabe que, também no plano humano, nenhuma objeção racional, por mais compreensível que seja, terá valor para quem ama. “Le coeur a des raisons que la raison ne connait point” (“o coração tem razões que a própria razão desconhece”), afirma Pascal. Por que o que é válido para o plano humano também não pode ter validade, em sentido amplo e figurado, para o amor de Deus? Como podemos pretender limitar o amor divino? Cada uma dessas tentativas, consciente ou inconscientemente, deve ser denunciada com os mesmos argumentos com que Ambroos R. van de Walle denuncia as tentativas de definir a justiça de Deus. “A acentuação da justiça divina de certa maneira entrega-nos o próprio Deus.”¹ Pois agora podemos compreendê-lo e, compreendendo-o, podemos tomar as nossas providências. Quando a sua justiça é ofendida, ele exigirá satisfação; podemos responder a essa exigência pelas nossas obras de expiação, conquistando, assim, de novo, o amor de Deus ofendido. Assim, o equilíbrio é restabelecido, e o homem, de certa maneira, pode prevenir-se, compreendendo os mecanismos de relacionamento entre ele e Deus. NA BÍBLIA APARECE O DEUS DE GRAÇA E DE MISERICÓRDIA GRATUITA, TOTALMENTE DIFERENTE DAS ARGUMENTAÇÕES RACIONAIS LEGALISTAS. A. R. van de Walle mostra como, na Bíblia, esta imagem de Deus é contradita por imagem distinta, por imagem oposta a todas as imaginações do homem. “Aparece o Deus totalmente diferente daquele que os homens possam imaginar, o Deus de graça indevida que precede cada um e qualquer mérito ou êxito humano. E ele acentua a misericórdia como dom incondicional.”² Esse Deus revela-se na imagem do servo de Javé (Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13; 53,12). Ele aparece na plenitude da pessoa de Jesus de Nazaré. E da mesma maneira como o comportamento do servo de Javé já não foi compreensível dentro da ordem de justiça estabelecida pelos homens, da mesma maneira também, “o Deus misericordioso, Jesus de Nazaré, não correspondia ao raciocínio humano sobre esta misericórdia. Falar dessa maneira e comportar-se como Jesus se comportou, contradizia totalmente o bom senso, estava em oposição a tudo o que os homens precisavam para estar seguros diante de Deus mesmo. Era contra a lei. Se Deus fosse realmente assim, como Jesus o revelou, este Deus estaria longe de todo controle humano”.³ Exatamente esta incalculabilidade de Deus é que se revela em seu amor. 1 Ambroos R. van de Walle, op. cit., p. 257. 2 Id., ibid., p. 258. 3 Id., ibid., p. 260. 13 DECLARAÇÕES DE JESUS SOBRE O INFERNO Embora seja verdade que o próprio Jesus falava do juízo de Deus e do inferno, sabemos que ele não empregava estas noções para nos dar “informações”, e sim para acentuar a iminência e a urgência da sua mensagem do Reino de Deus. É sob esse aspecto que a teologia moderna interpreta essas palavras de Jesus na maioria dos casos. Assim, Herbert Vorgrimler escreve sobre o assunto: “Ele (Jesus) usava palavras conhecidas, como ‘inferno’, ‘perdição eterna’, não para formular uma doutrina sobre esses temas, e sim para acentuar, através dessas realidades, o caráter definitivo do seu aparecimento, para definir a sua época como a última oportunidade para nova opção de vida”.¹ Van de Walle também observa que Jesus não pretendia nos informar; o que ele queria era provocar a conversão de vida. E prossegue: “Toda a Bíblia é escrita em uma linguagem apelativa e executiva. Isso significa linguagem que recorre a nós, linguagem que pretende mudar algo dentro de nós e que nos exorta à conversão. A Bíblia ainda é consultada muitas vezes para buscar informações. A Escritura não foi redigida em linguagem informativa para aumentar o sabor e satisfazer a curiosidade. Também em suas palavras, Jesus não dá informações sobre o inferno. Mas é verdade que ele diz várias vezes que existe para o homem a possibilidade de falhar no seu destino (veja Mt 5,22-29; 10,28; 13,42-50; Mc 9,42ss; Lc 12,5; 13,28). Por isso, é importante para cada um de nós permanecer vigilante e esforçar-se ao máximo para não sucumbir no caminho e assim falir no próprio destino”.² Restam-nos, então, nosso medo e nossas dúvidas. Nenhum homem poderá dizer se o inferno existe realmente ou não. Homem algum poderá dizer se alguém realmente ficará naquela situação absurda a que chamamos inferno. A única saída que resta é confiar em Deus. Confiar no Deus que, pela pessoa e pela vida de Jesus, se revelou como o Deus misericordioso, o Deus que deseja a vida, e não a morte do pecador. E assim, mais uma vez, somos remetidos à fé. Somos remetidos à fé naquele Deus “que se revelou capaz de mudar no seu amor todo culpado, de tal maneira que possa satisfazer a justiça divina”.³ E nessa fé mais uma vez só nos resta uma única coisa: deixar-nos salvar por ele. 1 Herbert Vorgrimler, Wir Werden auferstehen, p. 69. 2 A. R. van de Walle, op. cit., p. 273. 3 Herbert Vorgrimler, Wir werden auferstehen, p. 97. 14 O INFERNO… E O DEUS QUE AMA? Nos séculos passados não houve, talvez, muita preocupação com este problema. O homem de hoje, porém, foi sensibilizado por pensamento “humanista” voltado para os valores de tolerância e de humanismo. Além disso, as experiências dos últimos quarenta anos mostraram bem o absurdo de tantos infernos humanos. Assim, pois, são sobretudo pessoas de fé profunda que se questionam sobre o problema do inferno, referindo-se com todo o direito a um humanismo cristão.¹ E, de fato, devemos imaginar com clareza o que significa o inferno: o ser humano estar exposto para todo o sempre a sofrimento inconcebível. E Deus, que acreditamos ser o próprio amor infinito, poderia permitir queisso acontecesse? Se esse Deus não se enternecer e não fizer algo para salvar esse ser humano, não teriam todos, realmente todos os homens que se encontram ao seu lado e que foram salvos por ele, não teriam esses homens de implorar a Deus, em nome da humanidade, que busque meios de livrar o condenado do seu sofrimento? Como posso eu, como ser humano, proclamar, durante toda a minha vida, o princípio de que devo amar o meu inimigo e pretender que isso seja aceito como mandamento de Deus, que prega o amor ao próximo (Mt 5,44) e depois viver em felicidade insensível ao tormento dos outros seres humanos que, ao meu redor, se dilaceram em sofrimentos? Se algo semelhante acontecesse durante a vida neste mundo, nós, com toda a razão, denunciaríamos a crueldade de semelhante atitude. Só a pessoa sem coração pode não se impressionar ao ver outros seres humanos à sua volta sendo torturados, ainda que essas pessoas sejam culpadas. Segundo a concepção tradicional que se tem do inferno, crê-se, porém, que o ser humano é capaz de ser feliz ao lado de Deus, até sabendo que talvez sua mãe ou seu pai padecem eternamente os sofrimentos do inferno. Tal fato não pode ser imaginado. E a impossibilidade de imaginá-lo não pode ser descoberta nem fazendo-se alusões ao mistério do mal, nem às tradições da Bíblia. Quem sabe, devêssemos indagar antes seriamente se, no decorrer da exegese correspondente, talvez não se tenham interpretado de maneira unilateral certos textos bíblicos, como sabemos que aconteceu a respeito de outras questões. Lembremo-nos do problema da noção geocêntrica do mundo, da origem do universo e do problema da evolução da vida. A boa nova sobre o amor de Deus tem de ser coerente! Como afirma Van de Walle: “É terrível quando a religião é abusivamente interpretada para provocar medo. E, sobretudo, a religião do amor como essa que Jesus revelou, a religião cujo lema foi desde o início: ‘Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus’ (Lc 1,30)”.² Ou ainda: “Não tenhais medo. Eis que eu vos anuncio uma grande alegria que alegrará todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador que é o Cristo Senhor…” (Lc 2,11). E este Cristo Redentor, no evangelho de João, caracteriza sua vinda com as seguintes palavras: “Se alguém ouvir as minhas palavras e não as observar, não o julgarei, porque não vim para julgar o mundo, senão para salvar o mundo” (Jo 12,47). Por trás de todos esses textos e de muitos outros descobre-se a confiança fundamental em que Cristo quer salvar os homens e que o seu amor finalmente superará todas as resistências. É somente dessa forma que poderão ser entendidos os textos em que São Paulo declara exatamente a verdade que ensina que Jesus Cristo reina “até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. E o último inimigo a ser destruído será a morte” (1Cor 15,25-26). Há outra declaração na carta de São Paulo aos Colossenses: “Ele (Jesus Cristo) é o princípio, o primogênito dos mortos, pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1,18- 28). (Veja também: Cl 2,14-15; 1Cor 15,24-25; 2Ts 1,8-9; 1Cor 6,9-10; Gl 5,21; Rm 2,5-8; Ef 5,5.) A partir dessas reflexões podemos compreender melhor as perguntas, talvez até ásperas, de Hans Küng, no seu livro sobre a vida eterna, onde formula da seguinte maneira as dúvidas aqui mencionadas: “Será que o Deus de amor, quiçá juntamente com os bem-aventurados no céu (assim nos indagamos sempre mais claramente), será que suportariam eles ver pela eternidade inteira as suas criaturas ou os seus irmãos padecerem essa tortura físico-psíquica sem fim? Será que, como opinam os defensores de Deus, só por causa de uma suposta ofensa infinita (o pecado por ser ato humano é finito), o Deus infinito necessitará disso para restabelecer a sua honra? Será ele credor de coração tão duro assim? O Deus de misericórdia, de cuja bem-aventurança estariam excluídos os mortos? O Deus da paz que perpetua a discórdia e a intransigência? O Deus de clemência e de amor ao inimigo que se vinga de seus inimigos, sem perdão, por toda a eternidade?”³ Só nos damos conta do Deus terrível e assustador que postulamos na imagem do inferno quando nos conscientizamos do conteúdo dessa imagem. Muitos cristãos hoje acham que Deus não pode ser assim; aquele Deus foi sempre proclamado por Jesus como o Pai dos homens perdidos, Pai que ama. Mas, se ele ama, e isso é o que se tentou mostrar no início deste capítulo, então este amor não permitirá que nem o “não” proferido pelo ser humano nem as tentativas de explicação racional elaboradas por intérpretes humanos o impedirão de procurar o ser amado. E Deus o encontrará, assim como, não obstante todos os obstáculos, dois seres humanos apaixonados sempre se encontram outra vez. Já em 1977, Ladislaus Boros se referiu, com extrema cautela, a esta ideia que vem, cada vez mais, conquistando terreno no campo do pensamento orientado pelo ponto de vista humanitário atual. Boros demonstra que ninguém pode limitar a onipotência de Deus e afirma o seguinte: Se o próprio Deus se deixou asfixiar em Jesus Cristo na cruz, se isso realmente aconteceu, então o que é ainda impossível? “Talvez Deus, cuja primeira humilhação pessoal constatamos na sua encarnação, pudesse realizar outra humilhação que por certo não podemos imaginar, mas que possibilitasse, também ao que condena a si próprio, encontrar, por fim, o caminho de volta a ele”.⁴ 1 Cf. Norbert Bischofberger, Werden wir wiederkommen? 2 A. R. van de Walle, op. cit., p. 269. Neste contexto, cf. também: Renold J. Blank, Esperança que vence o temor; Benhard Dieckmann, Judas als Sundenbock; Helmut Jaschke, Dunkle Gottesbildder; Andres T. Queiruga, Inferno... 3 Hans Küng, Ewiges Leben?, pp. 175-176. 4 Ladislaus Boros, Befreiung zum Leben [s/d; s/ed.], p. 51. 15 O DEUS QUE SOFRE ATRAVÉS DE TODOS OS TEMPOS POR CAUSA DE SEU AMOR Diante deste amor, só nos resta repetir a conhecida frase de Wittgenstein: “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”. Mas este não é o calar-se por medo diante do tirano ameaçador; não é; é o calar-se por causa de imensa admiração pelo Deus que ama. A partir desta admiração pode nascer o amor correspondido. Do medo e da ameaça, porém, só surge distanciamento. Mas este amor correspondido estremece ante as palavras de Friedrich Nietzsche, aquele ateu que talvez tenha compreendido mais profundamente o que o amor de Deus significa, do que muitos dos que, na sua época, o condenaram: “E assim o diabo me disse certa vez: Até Deus tem o seu inferno: o seu amor pelo homem”.¹ Em seu livro Der gekreuzigte Gott, Jürgen Moltmann fez declarações fundamentais sobre este amor e o sofrimento ligado a ele. Não estão as suas afirmações tão distantes dos protestos de Friedrich Nietzsche. Em certo sentido, são, na verdade, uma réplica a estes protestos. Pois Moltmann demonstra que Deus e o sofrimento não são uma contradição: “O ser está no sofrimento e o sofrimento está no próprio ser de Deus, porque Deus é amor. Este amor absorve a revolta metafísica, pois ele reconhece na cruz de Cristo a revolta na metafísica, ou melhor, a revolta em Deus mesmo: o próprio Deus ama, e sofre no seu amor a morte de Cristo”.² Mas o que acontece se este Deus, que é amigo dos homens, ajuda o ser humano a alcançar a bem-aventurança, embora este, na realidade, não o queira? Não seria isto para este ser humano, idêntico ao que Jesus deseja explicar quando formula a pergunta encontrada em Lc 7,40-43? O texto a que aludimos é o seguinte: “Jesus, porém, tomando a palavra, disse-lhe: ‘Simão, tenho uma coisa a dizer- te’. ‘Fala, Mestre’. E ele disse: ‘Um credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. Como não tivessem com que pagar, perdoou a ambos. Qual dos dois o amará mais?’ Simão respondeu: ‘Suponho que aquele ao qual mais perdoou’. Jesus lhe disse: ‘Julgaste bem’ ”. Isto é o que Deus quer: que o ser humanoo ame. Temos a impressão de que sobretudo a teologia defendida pelo evangelista Lucas nos guia nesta direção. Seus relatos insistem repetidas vezes na imensa vontade de Deus de perdoar. No episódio da cura do paralítico (Lc 5,17-26), no perdão concebido pela mulher pecadora (Lc 7,36-50), nas três parábolas do capítulo 15 sobre o perdão, no seu encontro com Zaqueu (Lc 19,1-10) da mesma maneira como no episódio do bom ladrão (Lc 23,39-43), deparamos repetidas vezes com a mesma imagem: Deus perdoa. O evangelista Lucas apresenta-nos o perdão como “uma das formas por excelência da salvação”.³ Assim o formulou Augustin George, que emprega então esta experiência básica também na questão do inferno e indaga: “Será que Jesus pode permanecer na sua glória enquanto há homens no inferno? É por eles que ele veio, que ele foi morto. Poderá então ser salvo sem eles?”⁴ 1 Friedrich Nietzsche, Also sprach Zarathustra, p. 80. 2 Op. cit., p. 214. 3 Augustin George, Pour lire l’Evangile selon Saint Luc, p. 66. 4 Id., ibid. 16 A REDENÇÃO COMO ATO DE ABSOLUTA HUMILHAÇÃO DE DEUS Este pensamento nos traz de volta ao âmago propriamente dito da boa nova de Jesus Cristo. Ele, uma vez mais, nos mostra o que na verdade significa redenção. Joseph Moinght frisa ser ela “uma criação nova… uma realidade escatológica”.¹ No entanto, isto significa bem mais do que um simples meio de perdoar os pecados por nós cometidos. Redenção é “o ato criador e libertador pelo qual Deus abre à humanidade o caminho do futuro; pela fé de Cristo, ele nos possibilita viver…”² Mas ele não o faz por causa de nossos méritos. Qual ser humano poderia apresentar a Deus méritos dos quais se pudessem arrogar direitos? Não, redenção é ato gratuito do amor de Deus. A REDENÇÃO É ATO TOTALMENTE GRATUITO DE DEUS. E a redenção de todos os pecadores está fundamentada neste ato gratuito. São João formula-o claramente na sua primeira epístola: “…se alguém pecar, temos como advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é vítima de expiação pelos nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2,1-2). Mas, e assim devemos nos indagar, o que seria então o condenar-a-si-mesmo do ser humano, senão ato de pecado, do pecado mais radical que se pode imaginar? Por este ato o ser humano obstruiu, de modo absoluto, qualquer futuro possível. Joseph Moinght afirma, porém, que redenção é “o ato criador e libertador pelo qual Deus abre à humanidade o caminho do futuro”. Redenção é aquele ato no qual Deus, por inimaginável ato gratuito de amor, transforma o ser humano em justo. E Deus não procede deste modo por causa da justiça deste homem, tampouco por causa da sua fé. Deus o faz por causa daquele que é o nosso único advogado e redentor: Jesus, que é ao mesmo tempo o Cristo. Ele confiou incondicionalmente em Deus e acreditou nele também. Até quando se encontrava abandonado por Deus na cruz, Jesus acreditou nele. Contudo, ser abandonado por Deus significa inferno. Jürgen Moltmann é quem uma vez mais exprime este fato claramente. O que Jesus vivenciou na cruz “é a experiência de ser abandonado totalmente por Deus, sabendo-se que Deus não está longe, e sim perto; que ele não julga, mas sim é misericordioso. E mais: estar consciente da proximidade e clemência de Deus; ser abandonado por ele e entregue à morte de réprobo; isto sim é o sofrimento do inferno”.³ Jesus, porém, acreditou e confiou em Deus até no seu abandono por ele; isso significa, então, até no inferno. Desde Jesus, existe uma pessoa que, até no inferno, ainda continuou crendo que Deus a salvaria. No ato de fé de Jesus, porém, e essa é a convicção dominante na tradição cristã, no ato de fé professado por Jesus, estão incluídos os atos de fé de todos os seres humanos, por mais incompletos ou imperfeitos que sejam.⁴ Seria igualmente errado também esperar que, no ato de fé de Jesus, esse abandonado por Deus, esse condenado, seja incluída também a impossibilidade dos atos de fé e de confiança dos que até na morte não estão mais em condições de realizar aquele ato confiante de aventurar-se com Deus? Será que as negações dos que se condenam a si mesmos também não poderiam ser incluídas na fé confiante do Deus Jesus e, deste modo, igualmente abolidas? Será realmente necessário Deus realizar um ato de humilhação própria ainda maior e menos imaginável, conforme Ladislaus Boros sugeriu, para que os que se condenam-a-si-mesmos também encontrem o caminho que os conduzirá de volta a Deus? Será que Deus já não realizou o ato supremo de humilhação própria no fato de ter sido abandonado por si mesmo no inferno de Jesus? Será que ele não realizou um ato de excesso tal que, diante dele, todos os atos de desavença com Deus desvanecem até a insignificância? “A inimizade entre Deus e Deus.”⁵ E nesta inimizade estão, por sua vez, contidas a confiança absoluta e a fé daquele que chamamos nosso Redentor. No inferno, uma pessoa confiou em Deus! No inferno, alguém acreditou que Deus o salvaria, e ele se entregou, sem reservas, a este Deus. Mas, se realmente assim for, então o inferno não está mais fechado. Se assim for, então é talvez por aqui que se encontra um caminho e uma possibilidade de salvação também daqueles que se condenam a si mesmos. O ATO INIMAGINÁVEL DA PRÓPRIA HUMILHAÇÃO DIVINA, DE QUE BOROS FALA, JÁ FOI REALIZADO! É o ato impensável da confiança divina em Deus, mesmo encontrando-se na situação do inferno. E neste ato, como já foi dito anteriormente, estão incluídos todos os atos de confiança de todos os seres humanos. Desta maneira, eles foram abolidos e sobrepujados, até aqueles atos ainda não realizados e também os que não puderam ser, e até os que só foram possíveis na forma de negação e de recusa. Resumindo: também o inferno. Na epístola aos Romanos, São Paulo também se refere a algo semelhante, quando afirma: “Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia” (Rm 11,32). Não podemos pensar de modo diferente se quisermos pensar radicalmente na redenção. E aqui estaria então o primeiro passo de um discurso teológico que nos possibilitaria superar o medo de que são tomados tantos e tantos cristãos. Isso, sem diminuir, de um lado, a seriedade assustadora e a advertência da Bíblia sobre as possíveis liberdades humanas, e, de outro lado, sem fazer também do ato de liberdade do ser humano finito um ato infinito e absoluto. Só Deus é absoluto. Qualquer outra interpretação significaria limitar a redenção de Deus em Jesus Cristo. 1 Mort pour nos péchés, p. 148. 2 Ibid., p. 149. 3 Jürgen Moltmann, Der gekreuzigte Gott, p. 141. 4 Cf. Mort pour nos péchés, p. 149. 5 Jürgen Moltmann, Der gekreuzigte Gott, p. 144. 17 NÃO SE TRATA DE FALAR DE “APOKATÁSTASIS” A doutrina aqui defendida está muito longe da doutrina da “apokatástasis”, rejeitada pelo Sínodo de Constantinopla em 543. O mal, de fato, não pode ser integrado em Deus mediante o restabelecimento (apokatástasis). O mal só pode ser superado pelo perdão. Assim também nunca poderíamos atrever-nos a negar a possibilidade real do inferno. Mas, como diz Medard Kehl no seu livro Eschatologie, “podemos esperar que ele não se torne realidade para ninguém”.¹ O grande teólogo Hans Urs von Balthasar conseguiu formular esta esperança de maneira convincente e teologicamente correta na sua teologia da Descida à mansão dos mortos. A solidariedade do Deus crucificado abrange todos os homens, estabelecendo para todos comunhão definitiva além da morte. Esta comunhão, porém, se realiza de maneira totalmente diferente para os que aceitam o amor de Deus e para os outros, os mortos em sentido total e absoluto, para os que se negam a aceitar Deus. Também para eles e com eles, Cristo permanece solidário, ficando com eles sem os forçar. O amor de Deus nunca subjuga, ele acompanha. DEUS ESTÁ PRESENTE TAMBÉM NO INFERNO. Ele está presente também com os que se autocondenam, solidário com eles até na sua última solidão (cf. Sl 139,8). Ninguém de nós pode dizer como o ser humano, em situação deautocondenação, responderá a tal solidariedade muda do Deus de amor. Mas é exatamente aqui que se abre o espaço para a esperança. Hans Urs von Balthasar formula esta esperança pelas seguintes palavras: “É só na fraqueza absoluta que Deus quer transmitir à liberdade que ele mesmo criou o presente do amor que derruba toda prisão e solta todo bloqueamento. É na solidariedade por dentro com os que se negam a qualquer solidariedade”.² Em outro lugar, o mesmo autor é mais claro ainda na sua descrição de solidariedade divina que quebra todas as regras e todos os limites da argumentação humana. O amor de Deus é realmente absoluto, e diante de tal amor só nos resta calar e admirar. De fato, Deus é maior do que nosso coração: “Na situação definitiva da morte, o filho de Deus morto desce, de modo nenhum agindo, mas sim despojado pela cruz de todo poder e de toda iniciativa própria. Aquele, sob o qual se dispõe totalmente, abaixado até a matéria pura; aquele que obedece de maneira indiferente e sem restrições, incapaz de qualquer solidarização ativa, muito menos ainda de um sermão aos mortos. Ele é (motivado por um último amor) morto junto com eles. Com isso, porém, ele perturba aquela solidão absoluta, desejada pelo pecador: o pecador que quer ficar ‘condenado’ longe de Deus acaba de encontrar Deus outra vez em sua solidão. Mas ele encontra Deus na impotência absoluta do amor; o Deus que, de maneira incalculável, se solidariza fora do tempo com aquele que se autocondenou. A palavra do salmo 139,8 alcança assim sentido totalmente novo: ‘Se me oculto no reino dos mortos, estás presente’. E também a declaração arbitrária segundo a qual ‘Deus está morto’, formulada pelo pecador que não mais quer se importar com Deus, alcança sentido totalmente novo, objetivo, fixado pelo próprio Deus”.³ 1 Medard Kehl, Eschatologie, p. 297. 2 Hans Urs von Balthasar, cit. conf. Medard Kehl, Eschatologie, p. 298. 3 Id., Pneuma und Institution, p. 408. IV CÉU: O DESTINO FINAL DO SER HUMANO 1 Deus quer a salvação de todos! A vontade salvífica de Deus não se restringe nem a um grupo de eleitos, nem a alguns poucos: esta é a verdade fundamental de nossa fé. Deus também não predeterminou alguns para a salvação e outros para a perdição! Deus não é assim. Deus quer a salvação de todos. Contra uma tradição de séculos, quando muitas vezes este fato foi obscurecido por uma pastoral de ameaças e de medo,¹ devemos lembrá-lo insistentemente em todas as suas consequências. Nos textos de Paulo esta verdade está sempre sendo formulada: “Portanto, assim como pela transgressão de um só, a condenação se estendeu a todos, assim também pela justiça de um só recebem todos a justificação da vida” (Rm 5,18); “Deus encerrou a todos na desobediência, para usar com todos de misericórdia” (Rm 11,32); “…Deus nosso Salvador. Ele deseja que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,3-4); “…pomos nossa salvação no Deus vivo, que é Salvador de todos os homens, sobretudo dos fiéis” (1Tm 4,10). O Concílio Vaticano II, em muitas ocasiões, afirmou o mesmo: “O Salvador quer que todos os homens se salvem” (cf. 1Tm 2,4) (Lumen Gentium n. 42); “…todos os homens têm a mesma natureza e a mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vocação e destinação divina” (Gaudium et Spes n. 288); “Pois o que uma vez foi realizado pela salvação de todos deve, pelo tempo afora, alcançar seu efeito em todos” (Ad Gentes n. 869); “O motivo dessa atividade missionária está na vontade de Deus, que ‘quer que todos os homens sejam salvos…’ ” (Ad Gentes n. 879); “Todos os povos… têm igualmente um único fim comum, Deus, cuja Providência, testemunhos de bondade e planos de salvação abarcam a todos…” (Nostra Aetate n. 1.579); “…a Igreja sempre teve e tem por bem ensinar que Cristo… se sujeitou à morte, para que todos conseguissem a salvação” (Nostra Aetate n. 1.593). Diante de uma verdade tão claramente revelada, é assustador o fato de que muitos cristãos mal conseguem imaginar a forma desta salvação. Estes mesmos cristãos, quando indagados sobre o inferno, mostram uma fantasia muito rica e muito criativa ao descrever situações de desgraça e de tormento. Inspirados por uma tradição em que se descreviam imagens às vezes até patológicas, os cristãos, em geral, conseguem imaginar muito bem um estado de perdição. Quando, no entanto, se pede uma descrição daquilo que chamamos “CÉU”, muitos se calam ou se perdem em descrições abstratas ou aborrecidas. O Céu, para muitos, tornou-se uma esperança sem atrativo.² Contra tal fato, somos desafiados a transmitir, de novo, a Boa Nova da nossa esperança, de tal modo que ela recupere sua atratividade, seu fascínio e seu conteúdo entusiasmador. O nosso último destino, conforme a vontade de Deus, é a salvação para uma vida plenamente evoluída em todos os sentidos. Uma vida em plenitude! A esta vida, tradicionalmente, dá-se o nome de “CÉU”. O que é então este Céu, do qual tantos sabem tão pouco e que Paulo descreve com palavras entusiasmadas e enigmáticas, ao mesmo tempo, como “coisas que nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem” (1Cor 2,9)? 1 Cf. os capítulos respectivos em: Renold J. Blank, Esperança que vence o temor. 2 Cf. Werner Thiede, Auferstehung der Toten, Hoffnung ohne Attraktivitaet. 2 CÉU SIGNIFICA “SER SALVO”; MAS O QUE É “SER SALVO”? Céu significa “ser salvo”. Mas como imaginar este estado de “ser salvo”? Para podermos superar imaginações e fantasias muitas vezes até ridículas e para evitar também descrições abstratas e teologizantes, vale a pena voltar outra vez às nossas bases bíblicas. O que podemos deduzir dos textos bíblicos sobre aquele estado final que chamamos de “Salvação”? 2.1. Salvação significa Céu, isto é, TER vida em plenitude Encontramos uma primeira resposta na própria natureza de Deus, do qual dizemos que é um Deus da vida, isto quer dizer, um Deus que tem a vida e que quer a vida. Não só a vida dele mesmo, mas também a nossa, conforme o próprio Jesus formulou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância!” (Jo 10,10). O projeto final de Deus para os seres humanos é este: “Que eles tenham a vida e que tenham esta vida em plenitude”. Eis a mais curta e mais expressiva definição daquilo que é a salvação. Salvação = Vida em plenitude Compreendendo salvação assim, a partir dos parâmetros da vida, descobrimos outra vez como a vida vivida do ser humano não é algo à parte de seu destino de ser salvo. A vida humana, bem pelo contrário, é a própria base dessa salvação. Essa vida, porém, é um processo que começa no momento de nossa concepção. E sendo a salvação ligada a este processo, também o processo de nossa salvação pessoal inicia-se naquele exato momento. Salvação não é um ato mágico que acontece no fim de nossa vida. Salvação é um processo dinâmico que marca toda a existência humana. É no decorrer desta existência que Deus, junto com a pessoa humana e com o consentimento dela, realiza a salvação dessa pessoa. A sua meta final nessa dinâmica é esta: dar a vida em plenitude, assim como o Concílio Vaticano II formulou em Gaudium et Spes: “Deus chamou e chama o homem para que ele, com a sua natureza inteira, dê sua adesão a Deus na comunhão perpétua da incorruptível vida divina”.¹ A vida divina é vida em plenitude. E essa vida é também o último destino da pessoa humana. Conforme a vontade do Deus da vida, é rumo a esse fim que o processo da salvação do ser humano está andando. Processo dinâmico e conflitivo cujo lema fundamental permanece sempre o mesmo: MAIS VIDA! Mais vida, porque Deus é um Deus da vida! Mais vida, porque Deus quer que o ser humano participe de sua própria vida divina. A consequência dessa vida, porém, também significa “menos morte”! O processo de nossa salvação é um processo contínuo, no decorrer do qual se supera a morte. Ela está sendo substituída progressivamente por situações de mais vida. No decorrer da sua vida terrena, a pessoa está sendo chamada a participar desse processo. A pessoa estásendo chamada a superar, ela mesma, todas as situações de morte, substituindo-as por situações de mais vida. Mais vida na sua própria estrutura pessoal, mais vida no contexto social, mais vida no mundo. Conforme uma das suas características mais acentuadas, Deus não realiza os seus planos sozinho. Ele chama o homem a colaborar, chama a pessoa humana a agir. Isso vale também no que diz respeito ao processo de nossa salvação rumo à vida em plenitude. Enquanto o ser humano puder agir, Deus não age sozinho. Enquanto o ser humano puder agir, Deus o chama para ele se tornar ativo, para superar as situações de morte, transformando-as em situações e estruturas de vida. O processo de nossa salvação se apresenta, assim, da seguinte maneira: Na tarefa de ampliar sempre mais as dimensões de vida na sua vida, a pessoa se confronta continuamente com estruturas de morte. Superando-as e transformando-as em situações de vida, a pessoa participa do processo de sua salvação. Em certo momento, porém, o homem se encontra numa situação de morte que é mais forte que qualquer esforço humano: a morte biológica. Nenhum ser humano é capaz de superar esta morte pelo seu próprio esforço. A morte é mais forte que o homem. Exatamente nessa situação, em que o homem não mais pode agir, é que Deus começa a tornar-se ativo de uma maneira bem especial. Deus age, quando o homem não consegue mais nada, e, quando Deus atua, a sua ação segue os parâmetros de sempre: mais vida! Sendo um Deus da vida, Deus não deixa a pessoa humana na morte. Ele é mais forte que a morte, e, por causa disso, ressuscita a pessoa que morreu, querendo dar a ela, caso ela concorde, uma vida em plenitude. Diante da morte biológica, o próprio Deus toma a iniciativa, ressuscitando os mortos. Ele provou este fato historicamente, ressuscitando o seu filho Jesus. É esta a Boa Nova de nossa fé, transmitida pelos textos bíblicos, defendida pela nossa Igreja e confirmada pelo próprio Deus na ressurreição de seu filho Jesus.² Deus ressuscita o ser humano na morte, assim como ele ressuscitou Jesus.³ Isso significa que o próprio Deus abre para a pessoa novas dimensões de vida, dimensões que chamamos salvação, dimensões que chamamos CÉU. Céu, porém, é vida, é plenitude da vida, é plenificação e intensificação máxima da vida de uma pessoa. Céu = Vida Céu = Plenitude da vida Céu = Plenificação e intensificação máxima da vida da pessoa Céu = Realização de todas as potencialidades da pessoa Céu = Ser pessoa plena Céu = Viver pleno 2.2. A vida só é vida plena quando vivida em comunhão com outras pessoas A vida nunca fica estática. A vida sempre acontece dentro de uma dinâmica profunda que envolve necessariamente não só um indivíduo isolado, mas pessoas que se comunicam, num estado de comunhão e de participação daquilo que é a vida. “A nossa comunicação com outras pessoas e as nossas relações com elas não serão destruídas pela morte”,⁴ pelo contrário, serão intensificadas e plenificadas até o último limite de nossas potencialidades de vida. A máxima intensificação da vida das pessoas só pode ser o compartilhar desta vida com outros. Assim devemos ver o Céu. Juan L. Ruiz de la Peña o chama “a utopia realizada da fraternidade universal”.⁵ Céu não pode significar um ser feliz numa paz isolada e tranquila. Céu deve ser uma dinâmica profunda, dentro da qual o indivíduo se encontra com outras pessoas. Uma festa de amor, onde nós nos reencontramos com todas as pessoas que já conhecíamos na vida, com aquelas que amamos e também com aquelas que ainda não amamos. No céu, vamos aprender a amá-las também. Junto com todos os seus irmãos e todas as suas irmãs, em plena comunhão com eles, a pessoa vive a sua vida em plenitude. Totalmente evoluída, plenamente desenvolvida, até as últimas potencialidades de sua natureza, numa fraternidade total de vida, eis mais um aspecto daquilo que chamamos céu: uma dinâmica de vida plena em solidariedade com os outros seres humanos. No céu, Romeu encontrará a sua Julieta; e a esposa, o seu marido. No céu encontraremos os nossos filhos e os nossos amigos. Até aqueles que, na vida terrena, eram inimigos amar-se-ão. Assim é o céu. Sem exclusão, sem estratificação, será a felicidade de todos, pois os últimos, agora, serão os primeiros. 2.3. Céu é vida e, onde há vida, há a dinâmica da vida Para muitos cristãos, o céu fica associado a uma imagem que, em última análise, só aborrece. Uma situação sem dinâmica nenhuma, onde as pessoas gozam de uma paz eterna, tranquila e abstrata. Mas o céu não é assim. Céu é vida em plenitude e, onde há vida, ali há dinâmica, a dinâmica da vida, que é vitalidade, felicidade e amor. Não é por acaso que as imagens usadas por Jesus para descrever o céu são imagens de festas, imagens de banquetes, imagens de casamentos.⁷ Quando Jesus fala de banquetes, ele tem em mente a experiência oriental de um banquete esplendoroso, onde se bebe, se come e se dança, durante dias e noites. Quando ele fala de casamentos, ele nem pensa em casamento cerimonioso e fechado, mas nas festas de seu povo, que duravam pelo menos uma semana; nelas, aldeias inteiras festejavam com alegria e barulho e ninguém era excluído. Festas barulhentas e alegres, com música e dança e brincadeiras de todo o tipo, no decorrer das quais também se formavam novos casais, onde se cantava, beijava- se e namorava-se, e onde, com certeza, também havia muitos bêbados. Estas são as imagens, usadas pelo próprio Jesus, para descrever o céu. Elas em nada estão sugerindo “um lugar etéreo com a alma dos homens flutuando entre as nuvens”.⁸ Elas, pelo contrário, incluem na dinâmica de uma vida plena, não só a comunhão com Deus e com os irmãos humanos; incluem também a convivência íntima e feliz com um mundo concreto, ele mesmo transformado em “novo céu e nova terra” (Is 65,17; Ap 21,1). 2.4. Céu significa novo relacionamento com o cosmo e sua história O projeto salvífico de Deus não abrange só os indivíduos. Deus quer a salvação do cosmo inteiro. Por causa disso, também a vida plena da pessoa, numa situação que chamamos “Céu”, não pode ser uma vida fora de toda relação com o cosmo. A pessoa humana é pessoa na sua relação com o mundo. A relação entre ela e o mundo, que já marcou a vida terrena da pessoa, também faz parte da plenificação. Por causa disso, podemos compreender a situação de “Céu” não só como “utopia realizada da fraternidade universal”;¹ céu também é a utopia realizada de um relacionamento plenificado entre o homem e seu mundo. O céu não separa a pessoa humana do mundo, mas a aproxima daquilo que é o mundo em plenitude conforme o projeto de Deus. Aproxima-a de um mundo plenificado, cujo último sentido se dá a conhecer, porque o mundo inteiro se abre para Deus. Neste novo mundo — aberto para Deus e para a pessoa humana — esta pessoa também será capaz de participar da vida de Jesus Cristo. A vida dele é uma vida de solidariedade com este mundo, com a sua história e a sua dor. A participação plena na vida de Deus em Jesus Cristo possibilita assim, também, a participação “na solidariedade dele com os sofrimentos da história”.¹¹ Tal participação não significa que, no céu, a pessoa vai sofrer. Significa, bem pelo contrário, a experiência enfim confirmada de que a história do mundo, apesar de seus absurdos e de suas contradições, tem um último sentido que está baseado no amor de Deus. 2.5. Céu significa uma dinâmica de amor, marcada pela união íntima com Deus A comunhão universal de todos os seres humanos entre si, a realização plena de todas as relações humanas numa terra renovada e transformada, tudo isso é Céu. Mas, tudo isso não basta, para que a nova maneira de existir das pessoas humanas possa alcançar sua plenitude. A máxima intensificação de todas as nossas relações com os irmãos e com o mundo ficaria incompleta, se a tudo isso não se acrescentasse, ainda, um elemento a mais: uma experiência nova, plena, na qual, enfim, todos os anseios e os desejos humanos alcançarão seu fim. Este fim — por que nosso coração anseia durante todaa nossa vida — é Deus. O Deus do amor e da infinita ternura, que já tocou nosso coração desde o início de nossa existência. Ele também é o último fim e a plenificação desta existência. Céu é isso: união íntima, infinita e eterna com aquele que nosso coração já buscava, muitas vezes sem o saber. Encontro feliz, extático e cheio de ternura, com o noivo divino, com o amado que, já antes de minha concepção, me amou. União com aquele que eu tantas vezes traí e que, apesar disso, me ama. União com Deus, balbuciando, jubilando, num êxtase de amor. Encontro de dois apaixonados, dos quais um fora tantas vezes infiel, mas que, apesar disso, continuou sendo amado. Nada mais conta, nada mais vale, nada mais impede a união dos dois, que, enfim, se acharam, que se amarão para sempre, para toda a eternidade. O sonho de todos os apaixonados é realizado. Nunca mais nos vamos separar. Deus, apaixonado por mim. E eu, enfim, apaixonado por ele. Um êxtase de amor! Deus, meu amor! Sou chamado pelo nome, reconhecido por Deus e conheço Deus apaixonado por mim. É assim aquilo que chamamos céu: último destino e plenificação total de toda vida humana. Planejado, preparado, projeta- do por um Deus de amor, por um Deus que conhece nosso coração, porque ele mesmo se tinha tornado homem em Jesus Cristo. É nosso irmão, que nos espera, para que — junto com ele e junto com todos os outros seres humanos — sejamos felizes para sempre. Não há texto melhor para descrever esta nova vida do que aquilo que o autor do Apocalipse de João formulou, inspirado pelo Espírito Santo, balbuciando, buscando palavras para aquilo que não se pode expressar com palavras, a infinita ternura de um Deus que nos espera e nos ama: “Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele levantará sua morada entre eles, e eles serão seu povo, e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus. Enxugará as lágrimas de seus olhos, e a morte já não existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Ap 21,3-5). Céu, de fato, não é uma paz isolada e tranquila, fora de todo contato com outros seres. Céu deve ser uma dinâmica profunda, dentro da qual o indivíduo se envolve com outras pessoas e, junto com elas, vive uma comunhão íntima de amor com Deus. Essa comunhão é a intensificação máxima de tudo aquilo que é vida, à maneira como o formula G. Lohfink: “O encontro com Deus não significa uma paz eterna, mas uma vida grandiosa e empolgante, uma tempestade de felicidade que nos arrebata... de maneira cada vez mais profunda por dentro do amor e da felicidade de Deus”.¹² 1 Gaudium et Spes, n. 18, em Compêndio do Vaticano II, n. 251. 2 Sobre a historicidade da ressurreição de Jesus, cf.: Renold J. Blank, Reencarnação ou Ressurreição, pp. 89ss: Prova sociológica da Ressurreição. Sobre o significado da ressurreição de Jesus, cf. também: Renold J. Blank, “O significado escatológico da ressurreição”, em Revista de Cultura Teológica n. 20 (4), pp. 81-88. 3 Cf. Paulo: “Deus, que ressuscitou o Senhor, ressuscitará também a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14); também: 1Cor 15,14-18; Rm 8,11. 4 Ambroos R. van de Walle, Bis zum Anbruch der Morgenroete, p. 243. 5 Juan L. Ruiz de la Peña, op. cit., p. 218. 6 Cf. id., ibid., p. 215: “Uma compreensão estática da perfeição do ser é mais própria do pensamento helênico do que das concepções bíblicas”. 7 Cf. em termos de exemplos: Mc 14,25: “Nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo do Reino de Deus”. Mt 8,11: “Muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa no Reino do Céu...”. Lc 14,7-14: Uma festa de casamento. Lc 14,16-17: “Um homem deu um grande banquete e convidou muita gente...”. Ap 19,9: “Felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro...”. 8 Claudio Bollini, Céu e Inferno, o que significam hoje?, p. 78. 9 Cf. também: Lumen Gentium 48; Gaudium et Spes 39. 10 Juan L. Ruiz de la Peña, op. cit., p. 218. 11 Medard Kehl, Eschatologie, p. 291. 12 G. Lohfink, Was kommt nach dem Tod?, cit. Cf. também Medard Kehl, Eschatologie, p. 290. Unidade V SALVAÇÃO IMPLICA TAMBÉM O MUNDO E TODA A SUA HISTÓRIA: A GRANDE VERDADE DO JUÍZO FINAL I JUÍZO FINAL OU A DIMENSÃO SOCIAL DO PRIMEIRO ENCONTRO DO HOMEM COM DEUS 1 A CONVERSÃO NA MORTE IMPLICA TAMBÉM OS PRIVILÉGIOS E O PODER Contra uma atitude muito difundida no povo cristão, devemos acentuar com todo o vigor que a salvação individual não é a meta final da mensagem cristã. A PRIMEIRA TAREFA DO CRISTÃO NÃO É “SALVAR A SUA ALMA”! Contra um “egoísmo de salvação” meramente individualista, devemo-nos conscientizar de que a boa nova da salvação, proclamada por Jesus Cristo, não consiste numa mensagem sobre a salvação do próprio “eu”; muito embora tenha sido esta a interpretação admitida durante séculos. Essa preocupação com o termo do homem corre sempre o risco de se fixar no individualismo pequeno-burguês. Contra tal parcialidade, convém observar que a salvação do homem jamais poderá ser unicamente salvação individual. No decorrer deste estudo, ressaltamos repetidas vezes a ligação estreita existente entre a experiência do ser humano na morte e sua vida precedente. Mas esta vida precedente enquadra-se sempre em contexto social. O encontro com Deus na morte consistirá essencialmente também em se questionar e abalar os relacionamentos sociais do homem. Essa realidade opõe-se totalmente à visão demasiado parcial e burguês-individual, como descreve o famoso poeta suíço Kurt Marti, nos seguintes versos: “Seria conveniente para muitos senhores se com a morte tudo fosse pago; se a dominação dos senhores, se a servidão dos servos fossem ratificadas para sempre. Seria conveniente para muitos senhores se eles eternamente continuassem senhores em túmulos particulares e caros e os seus servos, servos em valas comuns. Mas uma ressurreição virá, bem diferente, totalmente diferente do que pensávamos; virá uma ressurreição que será levante de Deus contra os senhores e contra o senhor de todos os senhores: a morte”.¹ É interessante observar como aqui a linguagem poética rompe com a ideia de salvação individual infalível, a fim de assinalar a relação existente entre a salvação e as estruturas sociais. Esta relação é frequentemente desprezada pela teologia europeia. A conversão do homem na morte será também determinada, em sua essência, pela sua posição e atuação nas malhas das estruturas sociais nas quais este homem viveu e agiu durante sua vida. A MORTE DESTRUIRÁ CERTAMENTE TODAS AS RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO! A morte certamente destruirá todas as relações de dominação. Não haverá mais privilégios e injustiças; e a revelação nos ensina que a simpatia de Deus volta-se para os injustiçados, e não para os outros. Desse modo, a reflexão sobre a morte e o purgatório torna-se advertência severa: O Deus, com o qual o ser humano se defrontará na morte, é Deus “que depõe os poderosos… e exalta os humildes” (Lc 1,52). O DEUS QUE DEPÕE OS PODEROSOS E EXALTA OS HUMILDES. Com isto, porém, a pergunta sobre a situação do homem na morte volta-se para a indagação crítica a respeito de todas as situações de injustiça, de privilégios e de poder. É interessante verificar que a consciência deste aspecto social de responsabilidade humana na morte também esteve sempre presente na proclamação tradicional. Só que permanecia encoberta pela imagem de juízo final que deveria ocorrer algum dia no fim dos tempos. Não obstante, no contexto da hipótese exposta aqui, o assim chamado juízo final não seria senão o aspecto social daquilo que, no momento da morte, acontece como autoconhecimento e autojulgamento do ser humano diante de Deus. 1 Kurt Marti, Schon wieder heute, p. 55. 2 O JUÍZO FINAL ACONTECE, PARA A PESSOA QUE MORRE, NO MOMENTO DA MORTE A afirmação de que o juízo final acontece no momento de nossa morte torna-se evidente quando tomamos em consideração aquilo que a tradição sempre afirmava sobre o destino daqueles que morreram: eles saíram da dimensão temporal, para entrar na eternidade. Eternidade, porém, significa por definiçãoque não há mais tempo. Não há então nem antes, nem depois para aquele que morreu. Na eternidade só há eterno agora. Não havendo mais a dimensão do tempo para quem morreu, não pode passar tempo do momento de sua morte até um “juízo final”. A única solução lógica consiste então em afirmar que aquilo que denominamos com o nome de “juízo final” acontece no momento da morte. Não havendo mais antes ou depois, também não tem sentido dizer que, na eternidade, alguém morreu antes ou depois de mim. Vistos do lado de fora do tempo, aqueles que no mundo morreram faz muito tempo, e também aqueles que morrerão no futuro, todos se encontrarão no mesmo momento atemporal, de tal maneira que o momento de minha entrada na eternidade será também o momento no qual todos os outros seres humanos entrarão nesta dimensão atemporal, não obstante na dimensão histórica temporal eles tenham morrido antes ou morram depois de mim. Na eternidade não há nem antes, nem depois. Vista do lado desta dimensão, minha morte coincidirá com a morte de todos os outros homens e mulheres que viveram e viverão neste mundo. Vista do lado da eternidade, a humanidade inteira se encontrará com Deus no mesmo e eterno e único momento, no qual também eu estarei nesta dimensão sem tempo. Essa é a única solução quando tomamos a sério as afirmações sobre a eternidade. Épocas passadas, não acostumadas com a linguagem da física moderna em pensar o tempo e o espaço em termos da teoria da relatividade, aplicaram o pensamento temporal também às dimensões da eternidade, tentando imaginar o tempo que passaria entre a morte individual e o assim chamado final dos tempos. Tal maneira de pensar era um modelo que hoje podemos declarar superado. Em vez dele, pode-se usar o modelo já apresentado, para exprimir a distinção entre a dimensão temporal e a situação atemporal dos que já morreram. Com base neste modelo, podemos perceber, de maneira muito clara que a questão “ ‘quando’ acontecerá o Juízo Final” deve ser enxergada a partir de dois enfoques distintos: — visto a partir do enfoque daquele que, na sua morte, deixou sua ligação com o espaço-tempo cósmico, o Juízo Final acontece no momento atemporal de sua morte, porque, a partir daquela morte, para o indivíduo, o tempo não existe mais. Quando, porém, não há mais o tempo, também não pode haver mais passagem do tempo entre o momento da morte e um futuro Juízo Final. Na eternidade não há mais “futuro”. Aquilo que para nós — que vivemos dentro do espaço-tempo cósmico — acontece no futuro, para um ser fora desta dimensão, na eternidade, acontece num único “agora” atemporal; — visto, porém, a partir do enfoque do cosmo, que permanece ligado à dimensão do espaço-tempo, o Juízo Final se realiza de fato no final daquele tempo, no momento da plenificação do cosmo. Um dos problemas, na discussão sobre o “quando” do Juízo Final, é até hoje a não-compreensão desta distinção entre espaço-tempo do cosmo e “situação de eternidade” da pessoa que, na sua morte, saiu daquele espaço-tempo. Para a vivência dela vale, de fato, aquilo que Herbert Vorgrimler, já em 1980, formulara: “A ideia de que ali onde o homem ou a humanidade encontra Deus na pessoa de Jesus Cristo de maneira definitiva… esta ideia pode ajudar a superar a concepção de que Deus encenaria dois dias distintos de juízo com dramaturgia jurídica”.¹ O jesuíta Medard Kehl, em 1986, exprime esta mesma ideia em sua Eschatologie pelas seguintes palavras: “Com esta concepção do Juízo, se mantém plenamente a distinção tradicional entre o Juízo particular depois da morte do indivíduo… e o Juízo sobre a história como um todo no ‘último dia’. O que se faz é renunciar à imagem apocalíptica de um cenário de juízo duplo, distanciado um do outro pelo tempo. Em vez disso, compreendemos o Juízo de Deus como momento integral de um único acontecimento de Plenificação, que reúne dentro de si as três dimensões da história individual, social e universal…”² É dentro deste mesmo enfoque, finalmente, que se pronuncia em 1991 o Cardeal Godfried Danneels, Arcebispo de Malines-Bruxelles. Na sua Carta Pastoral “Au- delà de la mort”, publicada na Páscoa de 1991, podemos ler as seguintes recomendações sobre como imaginar o “quando” do Juízo Final: “O assim dito intervalo de tempo entre a nossa morte e a ressurreição geral coletiva é uma maneira defeituosa de pensar: ela existe somente a partir de nosso ponto de vista terreno. Na perspectiva divina, o tempo não existe. Mas nós, nós só podemos pensar em termos temporais. Mesmo que nós devamos tomar como ‘momentos’ distintos o nosso comparecer individual perante Deus, e o Juízo Final, tal distinção não consiste numa diferença de tempo”.³ Apesar desta distinção, porém, fica totalmente válido tudo aquilo que a Igreja declarou sobre este Juízo Final. A história como tal e tudo aquilo que nela se realizou, de fato, serão submetidos a um confronto com os parâmetros de Deus. Parâmetros, aliás, que foram revelados tão claramente em Mt 25. Esta história, no entanto, nada mais é do que a soma e as consequências históricas e socioestruturais das vidas humanas. A pessoa humana, na morte, não encontrará somente sua vida vivida e a julgará conforme os critérios de Deus. Todo ser humano, na sua morte, encontra também a soma e as consequências históricas desta sua vida. E estas consequências vão muito além daquilo que a pessoa pode perceber no decorrer da vida. As consequências dos meus atos marcam a história inteira, no bem ou no mal, assim como demonstramos nos capítulos sobre as dimensões socioestruturais e históricas da vida humana. Toda esta dimensão também faz parte de um “Juízo”, de tal maneira que podemos falar deste Juízo Final também em termos de um julgamento sobre as dimensões sociais e históricas da vida humana. 1 Herbert Vorgrimler, Hoffnung auf Vollendung, p. 158. Vide também: Renold J. Blank, A morte em questão, pp. 34-37, 131-133. 2 Medard Kehl, Eschatologie, p. 285. 3 Cit. cf.: Questiones Actuelles, “Le point de vue de l’église”, n. 2, maio 1998, p. 30. 3 O JUÍZO FINAL É A DIMENSÃO SOCIAL DO PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS O autoconhecimento do homem na morte não abrange apenas o estreito campo da falha individual. Pelo contrário, somente através de visão mais ampla da sua existência pós-morte é que o ser humano reconhece as relações interligadas que existem entre a própria maneira de ser e as estruturas do mundo e da sociedade. Pois, como diz Ronaldo Muñoz, “é fato serem hoje os homens, de certo modo, o produto da sociedade estabelecida, com seus valores dominantes, mas esta sociedade é por sua vez o produto do pensamento e da ação comprometida dos homens que em seu tempo assim a estabeleceram e configuraram”.¹ Portanto, o ser humano não se apresenta perante Deus como pessoa isolada, mas, isto sim, juntamente com todas as estruturas do mundo sobre as quais ele mesmo exerce influência e que por sua vez o influenciaram e o determinaram. Todas elas são parte do “julgamento”. E é justamente este o significado da imagem do juízo final. Antes (unidades III, V), já foi considerado o fato sociológico de o ser humano ser parte de um sistema entrelaçado, no qual cada indivíduo realiza sua existência, influenciando outros indivíduos e sendo por sua vez influenciado por indivíduos e por estruturas. Todo ser humano é um elemento dentro deste sistema, e o é de tal maneira que nenhuma vida humana pode ser considerada por si mesma. Todos os nossos atos e também cada uma de nossas omissões trazem consequências inestimáveis para a totalidade do sistema do qual somos parte. O INDIVÍDUO, UM ELEMENTO DENTRO DE SISTEMA ENTRELAÇADO. Assim, a pergunta sobre o que o homem fez de sua existência individual é sempre e inevitavelmente pergunta pelas suas relações sociais e consequentemente também pelas suas responsabilidades sociais. Como consequência deste fato sociológico, é evidente que o encontro com Deus na morte contém também significado fundamentalmente social. E, mais do que isso: se desejarmos encarar com seriedade a parábolado juízo final, que se encontra em Mt 25, 31-46, esta dimensão será a questão verdadeiramente essencial para o êxito ou o malogro do sentido de vida do homem. A DIMENSÃO SOCIAL É DIMENSÃO ESSENCIAL PARA O ÊXITO OU O MALOGRO ABSOLUTO DO SER HUMANO PERANTE DEUS. Isto é válido independentemente de se interpretar a parábola citada no sentido tradicional de julgamento de “todas as nações” (Mt 25,32), ou ainda se a devemos compreender de acordo com o conceito grego “pánta tá éthne”, isto é, somente os pagãos, como Jean Claude Ingelaere o expõe na sua exegese do texto correspondente.² Nenhuma vida se realiza jamais em isolamento individual, mas sim no contexto dos relacionamentos sociais. J. B. Libânio, dando continuidade a este fato, realça a responsabilidade social do ser humano: “…Sua decisão acontece dentro de um mundo de relações com outras decisões. São profundamente condicionadas pelas decisões já tomadas antes dele. Toda reflexão verdadeira sobre o homem não pode esquecer a dialética fundamental: homem e sociedade, sociedade e homem… O homem constrói a história, e a história constrói o homem. Decide criando e é criado por outras decisões”.³ A responsabilidade aqui citada não diz respeito somente aos relacionamentos sociais dos indivíduos entre si, mas também às estruturas sociais decorrentes ou às que já decorreram daí. É mérito da teologia latino-americana haver, de maneira muito especial, chamado este fato de volta ao nosso consciente. “Os nossos pecados acontecem dentro de uma história”,⁴ afirma J. B. Libânio. E a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano não vacila em falar de “situação de pecado social”⁵ e de “sistemas claramente marcados pelo pecado”. Considerando-se a situação da miséria e da morte, afirma R. Muñoz, “se percebe que de algum modo o próprio Deus é que está hoje comprometido nessa miséria e injustiça que nos envolvem; Deus é pessoalmente provocado pela violência de nossa sociedade sobre os pobres”.⁷ Em muitos documentos do episcopado, esta violência e injustiça social são caracterizadas como “violência ins- titucionalizada” e são interpretadas também como pecado social. O que é assim denominado, porém, não é produto que resultou automaticamente. “Seria até tranquilizante afirmar que as estruturas de injustiça independem de nossas decisões. São fatalidade imutável ou pelo menos tão complexa, que nenhum de nós, comum mortal, deveria preocupar-se com elas.”⁸ Em algum lugar por trás destas estruturas encontram-se pessoas, cujos atos ou cujas omissões possibilitaram o processo que, por fim, levou à consolidação das estruturas vigentes. Do mesmo modo, serão também as omissões e os atos das pessoas de hoje que, no decorrer da história, conduzirão ao desaparecimento ou à consolidação de novas estruturas. Neste sentido, cada pessoa individualmente está comprometida com a história. E o que é revelado na morte é exatamente o quinhão de responsabilidade de cada um na história como um todo. José Comblin, no seu livro O tempo da ação, é muito claro na formulação das responsabilidades de cada um de nós, quando escreve: “Ninguém pode se justificar por exercer simplesmente uma profissão segundo as regras estabelecidas por ela. Ninguém pode fugir à responsabilidade… Ninguém pode se entregar à evolução cega da sociedade como se uma mão invisível guiasse seu destino através de dominações cruéis, em direção a um fim radioso e justo”. Mas, ao mesmo tempo, o mencionado autor mostra com clareza que a responsabilidade histórica não é questão de revelação passiva, e, sim, de sério apelo para a conversão, que se inicia aqui e agora na vida: “…todos os que ocupam uma parcela de poder devem praticar o discernimento, a fim de se submeterem deste modo ao julgamento de Deus, não no fim de sua vida, mas a cada momento em que tiver de exercer sua parcela de poder”.¹ No tocante à imagem de juízo final, faz-se alusão ao pensamento expresso na tradição de São João: o julgamento é acontecimento que se realiza na história em curso. “É aqui e agora, na decisão favorável ou contrária à palavra de Cristo, que o juízo ocorre.”¹¹ João formula essa ideia de maneira muito clara no seu evangelho: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas ações eram más” (Jo 3,19). Ou mais claramente ainda em Jo 12,31: “É agora o julgamento deste mundo”. Este julgamento, porém, ocupa-se da questão sobre até que ponto os homens, nos seus atos pessoais e nas estruturas por eles estabelecidas, levaram em conta que a história do homem é concomitante à história de Deus com o homem, que nessa história o próprio Deus se comprometeu como aquele que é contra a pobreza e a opressão, e como aquele que ama a justiça (Sl 11,7) e a deseja e, ainda, como aquele que entrou pessoalmente, por intermédio de seu Filho, para a história e para as estruturas deste mundo, para, através do Espírito Santo, “interrogar o mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento” (Jo 16,8). O ENVOLVIMENTO DE DEUS COM A HISTÓRIA NÃO É ESPIRITUAL, MAS MUITO CONCRETO E REAL. Esse envolvimento de Deus com a história não é meramente espiritual; é empenho real, cujas consequências implicam ligação íntima entre aquilo que podemos denominar o pecado histórico e social e a morte. Sobre este assunto, Jon Sobrino mostra claramente que, “ao afirmar que Jesus morre em favor dos homens para libertá-los de seus pecados”, implica que “Jesus morre como consequência dos pecados históricos”. E prossegue: “Pecado é aquilo que dá a morte ao Filho de Deus e pecado é hoje também, portanto, aquilo que dá a morte aos filhos de Deus, aos homens, seja de modo violento, seja lentamente através de estruturas injustas”.¹² A consequência de todas estas reflexões impõe-se de maneira inevitável. Não podemos mais negar a existência de “relação ou unidade interna da realidade socioeconômica e da realidade religiosa”.¹³ O nosso Deus solidarizou-se, em Jesus Cristo, com o ser humano, principalmente com os fracos e com todos os que sofrem. E é esta solidariedade que ele exige finalmente de nós. Conforme o caso, derivará daí para o homem ou uma identificação assustadora ou, então, uma identificação que proporcione felicidade e da qual diz a parábola do juízo final: “Em verdade, o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). “O que deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,45). Assim, o que se apresenta sob a imagem de juízo final e o que todo ser humano experimentará na morte é o fato de que Deus se solidariza com os pequenos e os marginalizados. Ele se preocupa intimamente com a situação deles de tal maneira que se identifica com eles. E este fato se dá publicamente, podendo assim ser visto por todos. Perante todo o mundo ficará provado que o nosso Deus está do lado dos fracos e dos injustiçados. E ficará provado que os que tiveram fé neste Deus tinham razão. E, igualmente, ficará também provado que toda opressão é errada, seja ela religiosa, seja econômica, seja social; e errados estarão também todos os que a praticaram durante a vida. A verdade de Deus opõe-se à mentira dos que “fizeram do dinheiro o seu deus” e do consumo a sua ideologia de salvação.¹⁴ Essa verdade é a verdade do Deus que fez da história do homem a sua própria história, em que ele, dia após dia, está presente; a verdade do Deus, que, no cântico de uma jovem de Nazaré, é exaltado como aquele que “dispersou os homens de coração orgulhoso, depôs poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,51-52). Fora dos limites de tempo e de espaço, na morte, o ser humano experimentará a verdade abrangente destas frases. E já que não existe mais tempo, todos os outros homens, todos os que morreram antes dele e todos os que viveram e morreram em algum tempo depois dele experimentarão esta verdade juntamente. O julgamento do mundo é feito no momento da minha morte, em um AGORA amplo, que encerra em si todos os entes. Todos os seres humanos, no mesmo “momentoatemporal” “após” a minha morte, estarão perante Deus. Na luz dele, eles reconhecerão as estruturas deste mundo e a trama de conexões e interligações pelas quais estão vinculados a elas. Agora, na luz de Deus e juntamente com todos os homens e mulheres da história, realizar-se-á aquela conversão que denominamos caminho para a salvação: Tornar-se pobre perante Deus e deixar-se salvar por ele. Conversão difícil para uns, muito fácil para outros; conversão em que a única esperança de todos nós é a graça misericordiosa de Deus. 1 Ronaldo Muñoz, Nova consciência da Igreja na América Latina, p. 68. 2 Veja: Revue d’histoire et de philosophie religieuse, (5) 1970, n. 1, p. 23. 3 J. B. Libânio, Pecado e opção fundamental, p. 100. 4 Id., ibid., p. 101. 5 Conclusões da Conferência de Puebla, n. 28. 6 Ibid., n. 92. 7 Ronaldo Muñoz, op. cit., p. 63. 8 Libânio, J. B., op. cit., p. 102. 9 José Comblin, O tempo da ação, p. 376. 10 Id., ibid., p. 377. 11 Ch. Duquoc, Cristologia, vol. II, p. 280. 12 Jon Sobrino, Cristologia a partir da América Latina, p. 15. 13 Ronaldo Muñoz, op. cit., p. 64. 14 Cf. Dorothee Soelle, Discurso feito na 6ª Assembleia Geral do Conselho Ecumênico das Igrejas, em Vancouver; citado conforme “Die Zeit”, n. 34, de 19 de agosto de 1983, p. 14. SÍNTESE 5 DIMENSÃO CÓSMICA DA IMAGEM DO JUÍZO FINAL O que é expresso na imagem do juízo final e o que o homem, que agora se tornou atemporal, experimentará na morte, extrapola não só o plano individual, mas também o plano histórico do ser humano. Pois, o mais tardar na morte, ficará claro que este Deus não é somente Senhor dos homens e de sua história, mas também Senhor do universo. Como afirma Hans Küng: “A imagem bíblica da reunião de toda a humanidade continua sendo imagem”.¹ Mas nós devemos reaprender a descobrir a imensa dinâmica que se encontra por trás do que esta imagem realmente exprime. Refere-se à imagem da perfeição em Deus. Não se refere só à perfeição do ser humano e de sua história, mas também à perfeição de todo ser. Com isto, ela extrapola as estruturas da história da humanidade e, em movimento abrangente, inclui a totalidade do universo por nós conhecido e desconhecido. A SALVAÇÃO INCLUI O UNIVERSO EM SUA TOTALIDADE. As coisas inanimadas também serão incluídas nesta imagem e desse modo, na morte, o ser humano é atemporalmente lançado naquela ampla e derradeira situação de ser que Teilhard de Chardin, em uma intuição visionária, denominou “ponto ômega”, meta e ponto final da evolução, onde “a involução divina descendente vem combinar-se com a evolução cósmica ascendente. O ponto ômega do acabamento humano ativado pela graça e pelo Cristo cósmico… coincide com o momento da total epifania, parusia e apocalipse (manifestação) de Deus”.² O engajamento de Cristo no cosmo não terminou com sua morte, com sua ressurreição ou com a assim chamada ascensão. Pelo contrário, através dessas realidades ele está presente de maneira muito mais íntima no centro desta história e deste cosmo. Esta presença, que se tornará visível no fim de um processo evolutivo-histórico, é a certeza que constitui o núcleo de todas as declarações sobre o juízo final e a parusia. Aí se conclui e se completa a criação e a redenção de tal maneira que se cria nova dimensão do ser do cosmo, cosmo integrado por Jesus Cristo em Deus, e com o cosmo serão integrados também os homens. OS HOMENS, JUNTO COM O COSMO INTEIRO, SERÃO INTEGRADOS POR JESUS CRISTO EM DEUS. “Nesta concepção escatológica global”, diz Alfred Läpple, “conclui-se e se aperfeiçoa a solidariedade insolúvel entre o homem e o cosmo, aquela solidariedade que conclui no SIM e AMÉM do Deus criador toda a realidade criada; aquela solidariedade que, no SIM e AMÉM salvífico de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, envolve a humanidade e o cosmo”.³ Não sabemos, pela contagem de tempo do homem, quando isso acontecerá. Mas, para o indivíduo, que na morte perde a sua ligação com o vetor tempo, tudo acontecerá no “momento após” a sua morte. Esta é a conclusão lógica que decorre da suposição de que “após” a morte não existe mais tempo. Quanto ao destino de cada indivíduo neste amplo acontecimento, foi talvez Hans Küng quem melhor formulou o que em termos teológicos é possível. Em seu livro Ewiges Leben? escreve: “No Novo Testamento, as parábolas do juízo final proclamam a separação nítida da humanidade. Contudo, outras afirmações, sobretudo as paulinas, sugerem, conforme vimos anteriormente, uma piedade universal. Essas afirmações não são compensadas com as do Novo Testamento em momento algum. E assim, conforme afirmam hoje muitos teólogos, a questão deve ficar aberta. E é justamente isso que nos ensina a levar a sério tanto a responsabilidade pessoal quanto a clemência de Deus. — Quem corre o perigo de passar despreocupadamente por cima de sua responsabilidade pessoal é alertado para a possibilidade de duplo desfecho: sua salvação não está garantida de antemão. — Mas quem corre o perigo de desesperar por causa da infinita seriedade de sua própria responsabilidade pessoal é encorajado pela possível salvação de cada indivíduo: à misericórdia de Deus não são postas quaisquer barreiras, nem mesmo no inferno”.⁴ 1 Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 267. 2 Leonardo Boff, Vida para além da morte, p. 125. 3 Alfred Läpple, op. cit., p. 139. 4 Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 269. II CONSEQUÊNCIAS DA VERDADE SOBRE O JUÍZO FINAL: SUPERAR OS INFERNOS HUMANOS PARA VIVER 1 O AMOR POSTO EM PRÁTICA, EM VEZ DE IDEOLOGIA DE AMEAÇA A tendência básica do pensamento exposto neste livro é no sentido de se ter esperança de que, por analogia com o amor humano, o Deus que ama também encontrará meios de persuadir o ser humano a se salvar, conservando, porém, a sua liberdade. Qualquer outra suposição seria zombar do amor. Qualquer outra suposição seria também pura ideologia de ameaça que, através da formação de potencial de medo, tenta impelir o ser humano para os braços de Deus. Um lance de olhos nos 2.000 anos de história do cristianismo bastará para nos fornecer os resultados alcançados pelo emprego de tais meios. E a visão não é nada animadora. Os resultados refutam os meios. Um Deus carrasco, que deixa suas criaturas se revolverem para todo o sempre na sua própria desgraça sob pretexto de que lamentavelmente tem de respeitar a liberdade dessas criaturas, sem poder, portanto, fazer nada, semelhante Deus não é apto a exigir a difusão do amor no mundo. E é exatamente esta a imagem de Deus que frequentemente foi proclamada. Seria muito proveitoso valer-se dos meios da psicologia profunda atual para pesquisar até que ponto realmente existe relação entre a pregação do inferno e a criação de infernos humanos aqui na terra. No seu livro As armas ideológicas da morte, Franz Hinkelammert formula um pensamento bastante reconfortante a este respeito. Ele afirma: “Os mistérios cristãos ocuparão um espaço místico que continua sendo ocupado, apesar de tal secularização. Os mistérios cristãos prefiguraram esse espaço místico de modo tal que a sociedade moderna (…) reproduz tais mistérios em suas estruturas”.¹ Formulando assim um ponto de partida, ele pode revelar as sutis relações existentes entre a escravização dos povos latino-americanos pelos conquistadores e a concepção do pecado como sendo escravidão. “Os conquistadores declararam afetivamente a escravidão palpável como simples derivação da escravidão do pecado. E os povos conquistados da América eram, na visão dos conquistadores, puros pecadores apenas batizados. Estavam na escravidão do pecado, e os conquistadores fizeram o que esta escravidão interior representava no exterior: a escravidão palpável, real.”² Se, porventura, estendêssemos os efeitos deste pensamento a outros campos, surgiriam então consequências assustadoras para o papel da imagem do inferno na formação de infernos humanos, seja considerados como câmaras de tortura da Inquisição, seja como campos de concentração e seus mecanismos de repressão em países europeus, asiáticose sul-americanos. Uma coisa, porém, é certa: ameaçar com o inferno não levou à erradicação dos infernos na terra. Esta ameaça surtiu até hoje tão poucos efeitos quanto, a seu tempo, a ameaça apocalíptica do extermínio de um terço da humanidade e não deteve esse terço de continuar a perseguir os cristãos. Ao invés de ameaçar, muitos destes cristãos deveriam recordar-se de que Deus viu a transformação deste mundo em Reino de Deus sob o prisma do amor. O REINO DE DEUS SE REALIZARÁ SOB O PRISMA DO AMOR, E NÃO DA AMEAÇA. O amor não faz ameaças. O amor evita o poder, assim como Jesus Cristo o evitou. Mas, apesar disso, é o amor o único que tem poder de tornar o Reino de Deus realidade. Esta é a paradoxal verdade da fé; uma verdade tão absurda e ilógica quanto a mensagem da cruz, que, como sabemos e podemos verificar em São Paulo, “para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura” (1Cor 1,23). E logo a seguir, continua São Paulo: “Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens” (1Cor 1,25). É assim que a resistência aos infernos humanos não logrará reunir forças a partir da ameaça de inferno do além, mas sim e somente através da esperança e da fé em que Deus vencerá todos os infernos. A superação da opressão humana tem o seu início na fé de que Deus não é opressor; mas não termina aí. Partindo do conhecimento de que Deus deseja, em sentido amplo e absoluto, a realização do homem em todos os seus relacionamentos do dia a dia, até na situação da morte, pode-se tomar esta convicção como base, tornando-se possível agir. Nessa convicção concretiza-se a esperança escatológica de que o seu Reino virá e de que este Reino já está se formando aqui entre nós. O REINO DE DEUS ESTÁ EM PROCESSO DE DEVIR. É o Reino daquele que ressuscitou da morte, tornando-se assim o grande sinal da esperança de que toda morte e todo inferno já foram vencidos. Desta maneira, todas as reflexões findam lá onde, na realidade, elas haviam iniciado: EM JESUS CRISTO, O RESSUSCITADO. Nele, Deus se manifestou como aquele que liberta para a vida. E é por isso que toda reflexão sobre a morte se volta para a vida. Se na morte Deus transforma esta morte outra vez em vida, então resulta daí o dever de todos os fiéis contribuírem, por sua vez, para a superação das situações da morte. Isso acontece nos atos concretos voltados contra todas as estruturas de morte no mundo. De modo mais concreto: “Protestar contra a morte, a partir da esperança da ressurreição, significa protestar concomitantemente contra uma sociedade em que a morte, sem esta esperança, é usada indevidamente para se manterem estruturas injustas… …A fé na ressurreição, na ressurreição dos mortos, é transformada aqui em crítica a uma sociedade marcada pela morte, onde os ‘senhores’ — grandes e pequenos, espirituais e temporais — podem, impunemente, explorar os seus servos; impunemente, porque eles próprios se transformam em autoridade, norma e verdade nesta terra, de modo que efetivamente já não existe instâncias de justiça superiores a eles. …Esta justiça reclama a esperança de ser ressuscitado, a esperança de ressurreição, que introduz deste modo uma agitação crítica e libertadora entre os homens, pois desestabiliza as relações de dominação que se julgam perenes aqui e agora. Trata-se de uma esperança que só dá sentido àqueles relacionamentos em que é ‘elevado’ aquele que se ‘rebaixa’ e em que não só o mais baixo tem de servir o mais elevado, mas também o mais elevado tem de servir o mais baixo”.³ Nestas palavras de Hans Küng reflete-se a mudança de consciência que também se deu na teologia europeia sob a influência da nova visão que se desenvolveu na América Latina. Resulta daí a exigência de uma profunda conversão de todos os que têm fé. Deve ser esta uma conversão em que a responsabilidade histórica desta fé deve articular-se como questionamento profundo de todas as estruturas injustas, que foram denominadas “pecado social” em Puebla e nos discursos do papa João Paulo II. Mas pecado pede conversão. 1 Franz Hinkelammert, As armas ideológicas da morte, p. 279; Sacrifícios humanos…, pp. 62ss. 2 Franz Hinkelammert, As armas ideológicas…, p. 308. 3 Hans Küng, Ewiges Leben?, p. 154. 2 EXIGE-SE CONVERSÃO PROFUNDA PARA PODER ENFRENTAR AS SITUAÇÕES CONCRETAS DA MORTE Professar a fé no ressuscitado significa também declarar-se contrário à morte e a todas as situações de morte. No contexto da realidade do Terceiro Mundo, estas situações de morte manifestam-se, sobretudo, como situações concretas de pobreza, de miséria e de injustiça. O papa Paulo VI menciona neste contexto explicitamente “as excessivas disparidades econômicas, sociais e culturais (que) provocam entre os povos tensões e discórdias”. E ele formula também a tarefa do cristão: “Combater a miséria e lutar contra a injustiça é promover não só o bem-estar, mas também o progresso humano… na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens”.¹ Da mesma maneira, a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Puebla denuncia as situações de morte, dizendo que a situação “de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, feições concretíssimas em que deveríamos reconhecer as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela: — Feições de crianças, golpeadas pela pobreza ainda antes de nascer… — Feições de jovens, desorientados… e frustrados… marginalizados por falta de oportunidades de capacitação e de ocupação. — Feições de indígenas e, com frequência, também de afro-americanos que, vivendo degredados e em situações desumanas, podem ser considerados como os mais pobres entre os pobres. — Feições de camponeses que, como grupo social, vivem relegados em quase todo o nosso continente, sem terra, em situação de dependência interna e externa, submetidos a sistemas de comércio que os enganam e os exploram. — Feições de subempregados e desempregados, despedidos pelas duras exigências das crises econômicas e, muitas vezes, de modelos desenvolvimentistas que submetem os trabalhadores e suas famílias a frios cálculos econômicos. — Feições de marginalizados amontoados nas nossas cidades, sofrendo o duplo impacto da carência dos bens materiais e da ostentação da riqueza de outros setores sociais. — Feições de anciãos cada vez mais numerosos, frequentemente postos à margem da sociedade do progresso, que prescinde das pessoas que não produzem”.² A estas situações, bastante concretas de morte social, a conferência dos bispos ainda enumera as seguintes: — “A falta de respeito à dignidade do ser humano e do povo” (n. 40). — A “permanente violação da dignidade da pessoa humana” por causa do desrespeito dos direitos humanos fundamentais (n. 41). — “As angústias produzidas pelo abuso do poder…” “Angústias causadas pela repressão sistemática ou seletiva, acompanhada de delação, de violação da privacidade, de pressões exageradas, de torturas, de exílios. Angústias em numerosas famílias pelo desaparecimento de seus entes queridos, dos quais não conseguem ter a menor notícia. Insegurança total por detenções sem ordem judicial. Angústias ante uma justiça submissa ou manie- tada” (n. 42). Nesta situação, acreditar na boa nova do ressuscitado significa tomar, simultaneamente, partido contra a morte. Contra a morte patente e a oculta, contra a morte social dos marginalizados e a dos analfabetos, bem como contra a morte física em todos os seus aspectos. A fé na ressurreição transforma-se assim em testemunho contra a morte. Nessa fé está contido também o testemunho contra todas aquelas tendências da sociedade que provocam esta morte ou que, sob qualquer “bom” pretexto, a proclamam como inevitável. A dignidade do ser humano perante Deus e os homens é o direito humano que definitivamente não pode ser perdido. Deus tornou-se humano justamente “para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Mas, se o próprio Deus deseja a vida dos seres humanos, então nãose subentende aí apenas a vida depois da morte. A vida do ser humano começa aqui e agora nas situações histórica e social concretas. Superar a morte aí significa testemunhar o Deus da vida. Mas tal testemunho exige conversão fundamental do homem, conversão que denuncie as estruturas injustas e que oponha à opressão a práxis de amor. E com isso retornamos ao início. E a conversão que deverá ser realizada pelo indivíduo na morte vem a ser apenas a confirmação daquela conversão fundamental que o cristão deveria ter realizado há muito durante a vida: professar sua fé em uma práxis de vida que não se baseie em princípios de dominação e de privilégios. Professar sua fé em uma práxis de vida que testemunhe o Deus da vida e a sua atuação no mundo. “Esse é o sentido do Reino de Deus que nos é revelado pela prática de Jesus, que é a prática messiânica que não inverte apenas valores, mas também realidades históricas e funções sociais (1Sm 2,4-8; Lc 1,51-53). A atuação de Jesus visava a dar testemunho do amor do Pai por todo ser humano através do histórico, conflitivo e preferencial amor pelos pobres (Lc 4,16-20). Essa prática levou-o a morte violenta, expressão da solidariedade com a morte sofrida pelos oprimidos deste mundo.”³ O primeiro encontro com Deus na morte de cada um de nós provará a verdade deste fato. Na parusia, vivida pelo homem no momento de seu morrer, cada ser humano vivenciará o absurdo de todas aquelas estruturas que não correspondiam à práxis de Jesus e, simultaneamente também, o absurdo da escolha de todos os que optaram por estas estruturas. Como diz Christian Duquoc: “O futuro só pertence a quem ama a luz. A parusia verifica a validade dessa opção. A parusia é a evidência do julgamento já inscrito nas ações dos homens. Não há julgamento para os justos”.⁴ 1 Paulo VI, Populorum Progressio, n. 76. 2 Conclusões da Conferência de Puebla, nn. 31-39. 3 Gustavo Gutiérrez, A força histórica dos pobres, p. 135. 4 Ch. Duquoc, Christologia, vol. II, p. 281. BIBLIOGRAFIA ABIVIEN, Morice, Deuil et Rites Funeraires, Rev. ETUDES, nov., Paris, 1993. ADLER G., Seelenwanderung und Wiedergeburt, Freiburg, 1977. AGOSTINHO, O cuidado devido aos mortos, Paulus, São Paulo, 1990. ARIÈS, Philippe, O homem diante da morte, vols. 1 e 2, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1981. AUGUSTINUS, Aurelius, Bekenntnisse, Fischer, Frankfurt, 1964. BADINTER, Elisabeth, Ich Bin Du, Die neue Beziehg, zw. Mann und Frau, Piper, Munchen, 1987. Balthasar, Hans Urs von, Pneuma und Institution, Benziger, Einsiedeln, 1974. BARBÁGLIO, Guiseppe, As cartas de Paulo, (i), Loyola, São Paulo, 1989. 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P. Galvin (orgs.) • Teologia Sistemática — perspectivas católico-romanas (Vol. 2),F. S. Fiorenza e J. P. Galvin (orgs.) • A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré, J. Luis Segundo • Mistério e promessa — teologia da revelação, J. F. Haught • Nossa vida tem futuro, John F. Haught • História da Penitência — das origens aos nossos dias, P. Rouillard • Maria na tradição cristã — a partir de uma perspectiva contemporânea, K. Coyle • Introdução à Cristologia, W. P. Loewe • Escatologia da pessoa — vida, morte e ressurreição (Escatologia I), R. J. Blank • Escatologia do mundo — o projeto cósmico de Deus (Escatologia II), R. J. Blank • Quando Cristo vem... — a parusia na escatologia cristâ, Leomar Brustolin • Teologia da ternura: Um ÒevangelhoÓ a descobrir, Carlo Rocchetta • Mariologia social: O significado da Virgem para a Sociedade, Clodovis M. Boff, OSM • Missão para todos: introdução à Missiologia, João Panazzolo • Jesus: A história de um vivente, Edward Schillebeeckx • Maria corredentora?, Hendro Munsterman • De esperança em esperança – Escatologia, Antonio Manzatto, João Décio Passos, Sylvia Villac Direção editorial Claudiano Avelino dos Santos Coordenação e desenvolvimento digital Erivaldo Dantas Editoração PAULUS Impressão e acabamento PAULUS Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Blank, Renold J., 1941– Escatologia da pessoa — Vida, morte e ressurreição (Escatologia I) / Renold J. Blank. — São Paulo : Paulus, 2000. — (Coleção Teologia Sistemática) Bibliografia. eISBN 9788534939461 1. Escatologiat2. Morte 3. Morte — Aspectos psicológicos 4. Morte — Aspectos religiosos 5. Ressurreição 6. Vida futura I. Título. II. Série. 99–1852 CDD–236 Índices para catálogo sistemático: 1. Morte e ressurreição : Escatologia : Teologia cristã 236 2. Vida, morte e ressurreição : Escatologia : Teologia cristã 236 © Paulus — 2014 Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 São Paulo (Brasil) Fax (11) 5579-3627 Tel. (11) 5087-3700 www.paulus.com.br editorial@paulus.com.br eISBN 9788534939461 Cover Page Escatologia da pessoa — Vida, morte e ressurreição Unidade I - A FENOMENOLOGIA DA MORTE: NÓS TODOS NOS CONFRONTAMOS COM A REALIDADE DA MORTE 1. A ATITUDE DO INDIVÍDUO DIANTE DA MORTE 1.1. As pessoas estão fugindo da morte 1.2. Até os cristãos estão reprimindo a reflexão sobre o fim da vida 1.3. A esperança na vida após a morte elimina o medo ou não? 2. A ATITUDE PSICOSSOCIAL DIANTE DA MORTE 2.1. O século XX, marcado pela privatização progressiva do morrer 2.2. A privatização do morrer significa alienação do morrer 2.3. Onde, nesta situação, há lugar para a religião? 2.4. Morrer e as situações da morte como vivência cotidiana dos povos do Terceiro Mundo 3. A COMPREENSÃO CLÍNICO-TANATOLÓGICA DO MORRER 3.1. O termo “morrer”, encarado do ponto de vista médico 3.2. Quadro psicossocial do morrer 3.3. Experiências e relatos de pessoas clinicamente mortas, mas reanimadas pela medicina 4. CONSIDERAÇÕES PSICOLÓGICAS: AS PESSOAS NO CONFRONTO DIRETO COM A MORTE 4.1. Comportamento do moribundo em face do morrer 4.2. Comportamento do ministro religioso em face do morrer 4.3. O discurso religioso corre o perigo de não corresponder aos anseios das pessoas Unidade II - PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS DE UMA NOVA TEOLOGIA DA MORTE PARA O HOMEM DE HOJE 1. A TEOLOGIA DEVE SER CAPAZ DE DESPERTAR A ESPERANÇA DA VIDA 1.1. Apoiar-se nas experiências existenciais 2. A BÍBLIA FUNDAMENTA UM DISCURSO DE ESPERANÇA 2.1. Deus é um Deus que optou pela vida 2.2. Jesus Cristo, base e fundamento de nossa esperança 2.3. Deus é o Deus que ressuscita os mortos 2.4. O homem é salvo, porque Deus o adotou como filho em Jesus Cristo 3. O PROBLEMA: A CONFIANÇA NA SALVAÇÃO ENFRAQUECEU NO DECORRER DA HISTÓRIA 4. O DESAFIO PARA A TEOLOGIA DO SÉCULO XXI: SUPERAR O MEDO, APESAR DE NOSSA CULPABILIDADE 5. UMA FÉ CONFIANTE NA SALVAÇÃO DEVE SE TRANSFORMAR EM PRÁTICA DE VIDA 5.1. Problemática da mensagem religiosa opressiva 5.2. A supressão da força opressiva do inferno liberta para a superação dos infernos do mundo 6. RESUMO: A FORMAÇÃO DE CONCEITOS POSITIVOS SOBRE A VIDA APÓS A MORTE 6.1. Situação na época de Israel 6.2. Evolução da concepção de vida para uma vida pós-morte 6.3. Influência do pensamento grego 6.4. Surgimento da ideia sobre a ressurreição dos mortos 6.5. Tarefa para a pastoral de hoje Unidade III - A EXPERIÊNCIA DO SER HUMANO NA MORTE I. O QUE SIGNIFICA “ESTAR NA MORTE”? II. NA MORTE, A ALMA NÃO SE SEPARA DO CORPO 1. O MODELO TRADICIONAL DAQUILO QUE ACONTECE NA MORTE 2. O MODELO ANTROPOLÓGICO DUALISTA DE UMA ALMA QUE, NA MORTE, SE SEPARA DO CORPO PARECE EXPLICAR, DE MANEIRA FÁCIL, A FÉ NUMA VIDA APÓS A MORTE 2.1. Origem e história do modelo antropológico binário (dualista) 3. A PARTIR DOS ANOS 70 DO SÉCULO XX, O MODELO ANTROPOLÓGICO BINÁRIO ESTÁ SENDO CADA VEZ MAIS CRITICADO E REJEITADO 3.1. A Bíblia apresenta um modelo não dualista do homem 3.2. O homem dentro da antropologia bíblica 3.3. O corpo, na tradição bíblica 3.4. Quando a Bíblia usa o termo “alma”, ela o faz dentro de uma perspectiva integradora, e não a partir de um modelo dualista grego 3.5. A antropologia de Tomás de Aquino confirma a concepção bíblica 3.6. Síntese histórica do problema corpo-alma 3.7. Dentro da antropologia contemporânea elaborou-se um modelo do homem que acentua a sua unidade substancial 3.8. No Concílio Vaticano II, o Magistério da Igreja superou o esquema corpo-alma 3.9. As últimas declarações do Magistério da Igreja confirmam a rejeição do dualismo 3.10. A consequência das reflexões críticas sobre o modelo antropológico dualista 4. ALÉM DA PROBLEMÁTICA DO DUALISMO ANTROPOLÓGICO, O MODELO TRADICIONAL APRESENTA OUTROS PROBLEMAS QUE DEVEM SER SUPERADOS 4.1. A ideia de que a alma, separada docorpo, poderia aguardar na eternidade a ressurreição do corpo leva-nos a questionar se uma alma sem corpo poderia ser feliz 4.2. A ideia de que a alma, sozinha, poderia aguardar na eternidade a ressurreição do corpo entra em contradição lógica com aquilo que significa “Eternidade” 5. ELABORAÇÃO DE NOVO MODELO SOBRE AQUILO QUE ACONTECE AO HOMEM NA MORTE 5.1. A nova concepção não pode ferir nenhum dogma! 5.2. A partir desse resultado foi possível formular novo modelo sobre aquilo que acontece com a pessoa humana na morte 6. A RESSURREIÇÃO ACONTECE “NA MORTE” 7. RESUMO SINTÉTICO DA III UNIDADE III. MORTE E RESSURREIÇÃO SÃO EXPERIÊNCIAS FEITAS PELO HOMEM EM SUA TOTALIDADE 1. A MORTE E A VIDA APÓS A MORTE EMPENHAM A PESSOA HUMANA EM SUA TOTALIDADE 2. A MORTE NÃO É UMA ANIQUILAÇÃO DO SER HUMANO, MAS UMA TRANSFORMAÇÃO DE TODO O SEU SER 2.1. O lado exterior da morte: O HOMEM MORRE E ESTÁ SENDO SEPULTADO 2.2. O lado interior da morte: O HOMEM VIVE PARA ALÉM DA MORTE 3. QUEM RESSUSCITA A PESSOA HUMANA INTEIRA, NA MORTE, É DEUS IV. A TRANSFORMAÇÃO DA DIMENSÃO MATERIAL DO HOMEM na MORTE 1. COMO PODEMOS COMPREENDER A RESSURREIÇÃO DA PESSOA INTEIRA NA MORTE, QUANDO FICAMOS DIANTE DA REALIDADE INEGÁVEL DE UM CADÁVER? 2. A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM NA MORTE, CONFORME O MODELO DE PAULO 3. O MODELO DESENVOLVIDO POR PAULO ESTÁ SENDO CONFIRMADO PELOS RELATOS SOBRE A RESSURREIÇÃO DE JESUS 4. ALÉM DA IMAGEM USADA POR PAULO, HÁ OUTRAS IMAGENS PARA COMPREENDER A TRANSFORMAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM NA MORTE 4.1. Morrer é nascer: a morte é um nascimento 4.2. Morrer é como uma metamorfose 5. A RESSURREIÇÃO DO CORPO ALCANÇA UM SIGNIFICADO MAIS AMPLO, PORQUE ABRANGE A PESSOA HUMANA NA SUA TOTALIDADE 6. A AFIRMAÇÃO DE QUE A RESSURREIÇÃO DO CORPO ACONTECE NO MOMENTO DA MORTE TEM LONGA TRADIÇÃO DENTRO DA FÉ CRISTà 7. A RESSURREIÇÃO DO CORPO NA MORTE É CONSEQUÊNCIA LÓGICA DA DIMENSÃO CÓSMICA DO JUÍZO FINAL V. NA MORTE, A IDENTIDADE DA PESSOA FICA PRESERVADA e, pela primeira vez, ESTA PESSOA SE CONHECE EM TODAS AS SUAS DIMENSÕES 1. NA MORTE, A PESSOA HUMANA É EXATAMENTE AQUELA PERSONALIDADE QUE CONSTRUIU DURANTE SUA VIDA 2. A CRENÇA NA VIDA PÓS-MORTE AUMENTA A RESPONSABILIDADE DIANTE DA VIDA VIVIDA 3. NA MORTE TERMINA, PARA A PESSOA HUMANA, O TEMPO E SUA DIMENSÃO CÍCLICA 4. NA MORTE, O HOMEM CONHECE A SI MESMO 4.1. Dimensão pessoal 4.2. Dimensão socioestrutural 4.3. Dimensão histórica Unidade IV - NOSSA VIDA DEPOIS DA VIDA: A GRANDE MENSAGEM TEOLÓGICA DA ESPERANÇA I. JUÍZO PARTICULAR OU O PRIMEIRO ENCONTRO DO HOMEM COM DEUS 1. O JUÍZO PARTICULAR, NA MORTE, É UM JUÍZO DA PESSOA HUMANA SOBRE SI MESMA, diante de DEUS 1.1. Na sua morte, a pessoa humana não se encontra com um soberano aterrador 1.2. Na sua morte, a pessoa humana se encontra com Jesus Cristo 1.3. Na sua morte, a pessoa humana conhece a si mesma na presença de Deus e em confronto com os parâmetros desse Deus 2. NO DECORRER DA HISTÓRIA, O PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS SE TRANSFORMOU EM LASTIMÁVEL TRIBUNAL DE JUSTIÇA 2.1. O que a Bíblia entende por justiça divina 3. OPINIÕES ATUAIS SOBRE O “JUÍZO PARTICULAR” NA MORTE 4. NA SUA MORTE, A PESSOA SE JULGA DIANTE DE UM DEUS QUE AMA “APESAR DE TUDO” 5. MAS ONDE FICA, ENTÃO, A JUSTIÇA? 5.1. O grito pela justiça é motivado pela atitude farisaica II. PURGATÓRIO: PROCESSO DE UMA POSSÍVEL CONVERSÃO E EVOLUÇÃO, OFERECIDAs AO HOMEM NA MORTE 1. NO SEU AUTOJULGAMENTO PERANTE DEUS, O HOMEM PERCEBE QUÃO POUCO A SUA VIDA CORRESPONDEU AOS CRITÉRIOS DE DEUS 2. COMO, NA SITUAÇÃO DE MORTE, AINDA SE PODE MUDAR ALGO? 3. COMO ALCANÇAR UMA EVOLUÇÃO PLENA? 3.1. A proposta da doutrina da reencarnação 3.2. A proposta da doutrina cristã 4. BASES BÍBLICAS E DOUTRINÁRIAS DO PURGATÓRIO 5. PURGATÓRIO: OFERTA DE UM DEUS QUE QUER NOSSA SALVAÇÃO, E NÃO A PERDIÇÃO 5.1. Esta oferta de Deus não significa nem nivelamento, nem abertura para a leviandade na vida 5.2. Deus, na morte, não “impõe” sua graça; ele a oferece 5.3. O homem deve aceitar a proposta de Deus, a partir daquela personalidade que ele construiu no decorrer de sua vida 6. PURGATÓRIO: OFERTA DE DEUS PARA UMA ÚLTIMA CONVERSÃO NA MORTE 6.1. Há íntima ligação entre perdão e conversão 6.2. Na morte, o homem será posto perante a necessidade de última conversão 6.3. Esta conversão pode ser um processo doloroso 7. PURGATÓRIO: OFERTA DE DEUS PARA UMA ÚLTIMA EVOLUÇÃO NA MORTE 8. Purgatório não tem duração temporal nem é “lugar” 9. RESUMO 10. A BASE PARA A COMPREENSÃO DO “PURGATÓRIO”, COMO PROCESSO DE EVOLUÇÃO, JÁ SE ENCONTRA EM TOMÁS DE AQUINO 11. EXPERIÊNCIAS ESPECÍFICAS FEITAS NO PROCESSO DE CONVERSÃO-EVOLUÇÃO CHAMADO DE “PURGATÓRIO” 11.1. Na morte, o homem deve tornar-se pobre perante Deus 11.2. Entregar-se a Deus, aceitando seu amor 11.3. Na morte, o ser humano deve realizar seu mais profundo ato de fé 11.3.1. Aceitar sua própria nulidade 11.3.2. Na morte, o homem só pode entregar-se a Deus, deixando que ele o salve 11.3.3. No seu primeiro encontro com Deus, o homem deve realizar um ato de fé 11.4. Deixar-se remir por Deus na morte 11.4.1. A cruz de Jesus como espelho da situação do homem na morte 11.4.2. O Deus abandonado por Deus, paradoxo que fundamenta nossa esperança 11.4.3. Na ressurreição de Jesus, Deus se revela o Deus fiel, contra todas as aparências III. INFERNO ou O TERRÍVEL RISCO DA LIBERDADE HUMANA 1. MAS O QUE ACONTECERÁ SE O HOMEM NÃO QUISER TRANSFORMAR-SE? 2. SITUAÇÃO TOTALMENTE CONTRADITÓRIA DE MORTE VIVA, SEM POSSIBILIDADE DE SAIR DAÍ 3. NENHUM SER HUMANO PODERÁ SAIR DA SITUAÇÃO DE MORTE POR SEUS PRÓPRIOS RECURSOS 4. JESUS TAMBÉM PASSOU POR ESTA SITUAÇÃO DE MORTE 5. O QUE ACONTECERÁ COM OS QUE NÃO QUEREM ACEITAR QUE DEUS LHES DÊ NOVA VIDA? 6. CONFRONTADOS DE NOVO COM A JUSTIÇA DE DEUS, SÓ NOS RESTA A ESPERANÇA DE QUE A JUSTIÇA DE DEUS SEJA DIFERENTE DAQUELA DOS HOMENS 7. HAVERÁ ALGUÉM NA SITUAÇÃO DE INFERNO? 8. O QUE SE DECLAROU SOBRE O INFERNO 9. SÍNTESE 10. OS EFEITOS PSICORRELIGIOSOS DAS DECLARAÇÕES ANTERIORMENTE EXPOSTAS 11. DESMASCARAR OS MECANISMOS INCONSCIENTES DE AGRESSIVIDADE E DE VINGANÇA 12. ARGUMENTAÇÕES RACIONAIS NÃO ESGOTAM AS POSSIBILIDADES DO AMOR 13. DECLARAÇÕES DE JESUS SOBRE O INFERNO 14. O INFERNO… E O DEUS QUE AMA? 15. O DEUS QUE SOFRE ATRAVÉS DE TODOS OS TEMPOS POR CAUSA DE SEU AMOR 16. A REDENÇÃO COMO ATO DE ABSOLUTA HUMILHAÇÃO DE DEUS 17. NÃO SE TRATA DE FALAR DE “APOKATÁSTASIS” IV. CÉU: O DESTINO FINAL DO SER HUMANO 1. DEUS QUER A SALVAÇÃO DE TODOS! 2. CÉU SIGNIFICA “SER SALVO”; MAS O QUE É “SER SALVO”? 2.1. Salvação significa Céu, isto é, TER vida em plenitude 2.2. A vida só é vida plena quando vivida em comunhão com outras pessoas 2.3. Céu é vida e, onde há vida, há a dinâmica da vida 2.4. Céu significa novo relacionamento com o cosmo e sua história 2.5. Céu significa uma dinâmica de amor, marcada pela união íntima com Deus Unidade V - NOSSA VIDA DEPOIS DA VIDA: A GRANDE MENSAGEM TEOLÓGICA DA ESPERANÇA I. JUÍZO FINAL OU A DIMENSÃO SOCIAL DO PRIMEIRO ENCONTRO DO HOMEM COM DEUS 1. A CONVERSÃO NA MORTE IMPLICA TAMBÉM OS PRIVILÉGIOS E O PODER 2. O JUÍZO FINAL ACONTECE, PARA A PESSOA QUE MORRE, NO MOMENTO DA MORTE 3. O JUÍZO FINAL É A DIMENSÃO SOCIAL DO PRIMEIRO ENCONTRO COM DEUS 4. SÍNTESE 5. DIMENSÃO CÓSMICA DA IMAGEM DO JUÍZO FINAL II. CONSEQUÊNCIAS DA VERDADE SOBRE O JUÍZO FINAL: SUPERAR OS INFERNOS HUMANOS PARA VIVER 1. O AMOR POSTO EM PRÁTICA, EM VEZ DE IDEOLOGIA DE AMEAÇA 2. EXIGE-SE CONVERSÃO PROFUNDA PARA PODER ENFRENTAR AS SITUAÇÕES CONCRETAS DA MORTE BIBLIOGRAFIA