Prévia do material em texto
Capítulo anatomia e f siologia do intestino grosso i 1 Introdução O intestino grosso abrange o cólon que vai des- de a válvula ileocecal, do apêndice até o reto, final- mente acabando no canal anal e ânus, dividindo-se em cinco segmentos: � cólon direito (cólon ascendente); � cólon esquerdo (cólon descendente); � cólon transverso; � cólon sigmoide; � reto. A extensão do cólon é de 1,5 metro e compreen- de as seguintes camadas: serosa – muscular circular – muscular longitudinal (tênias) – submucosa – mucosa. Flexura hepática: separa o cólon direito do transverso. Flexura esplênica: separa o transverso do cólon esquerdo. O cólon aparece no quadrante inferior direito e faz a forma de uma ferradura, terminando na pelve. Não existem vilos na mucosa colônica como no intes- tino delgado; o que é característico histologicamente são as criptas de Lieberkun. Embora o cólon seja considerado intraperitonial, é importante lembrar que o cólon ascendente e descenden- te são retroperitoniais. Assim, um divertículo que rompe, por exemplo, no cólon descendente pode dar pneumore- troperitônio, e não necessariamente pneumoperitônio. Durante a embriologia, o cólon roda em sen- tido horário ao longo do eixo da artéria mesentérica superior (AMS). O ceco migra do quadrante superior esquerdo do abdome até sua posição anatômica no quadrante inferior direito fixado pelo peritônio. Anor- malidades do ceco podem ocorrer com rotações in- completas do intestino ou mesmo na má rotação onde o ceco pode se localizar solto na cavidade peritonial, o que pode levar à torção do intestino (volvo). Existem três diferenças fundamentais do cólon para o intestino delgado: 1. tênias; 2. haustrações; 3. apêndices epiploicos. A camada muscular longitudinal do cólon consti- tui, na tênia, característica do intestino grosso. A união das três tênias é no apêndice vermiforme. No retossig- moide, as tênias geralmente coalescem e formam uma camada muscular única ao reto. Quando as tênias se contraem, fica aquela forma característica do cólon com as haustrações (saculações que se projetam para o inte- rior do cólon e dão o aspecto característico no raio X). As haustrações são semicirculares e diferentes das válvulas coniventes do intestino delgado (válvulas de Ker- ckring), que são circulares na totalidade da luz intestinal. Os apêndices epiploicos são extensões da gordu- ra peritonial na borda antimesentérica do cólon. Ceco e apêndice A válvula ileocecal é um esfíncter localizado na junção do ileoterminal e o ceco. O esfíncter é o resul- tado da fusão das fibras musculares circulares superio- res e inferiores do íleo e ceco, que previnem o refluxo das fezes do ceco de volta ao ileoterminal. Embora não bem desenvolvido anatomicamente como a válvula ileocecal, existe um outro esfíncter na junção do ceco com o cólon ascendente. Essa válvula ce- cocolônica foi estudada in vivo através da colonoscopia e ex vivo em espécimes cirúrgicos após estimulação far- macológica (é equivalente ao rúmen nos ruminantes). O ceco mede de 7-9 cm, é intraperitonial e é fixa- do no peritônio no quadrante inferior direito. Como o ceco é grande em diâmetro, dificilmente existe obstru- ção; na maioria das patologias que acomete essa área existe anemia e sintomas mais arrastados. Lei de la Place = Tensão na parede + pressão x raio Espessura Assim, segundo a lei de La Place, o ceco é geral- mente o sítio de rotura quando existe uma obstrução distal no cólon (obstrução em alça fechada). O apêndice vermiforme geralmente se projeta inferomedialmente no ceco. O comprimento e curso do apêndice são amplamente variáveis, sendo que a ponta do apêndice pode estar apontando para o baço (mais comum), mas também pode estar na pelve ou mesmo retrocecal (na apendicite retrocecal pode ocor- rer diarreia e leucocitúria). Similarmente ao ceco, o apêndice pode ser intrape- ritonial ou parcialmente retroperitonial. Quando o apên- dice é retroperitonial é chamado apêndice retrocecal. Cólon ascendente e flexura hepática do cólon Localiza-se no quadrante direito do abdome, indo até próximo ao fígado (ângulo ou flexura hepáti- ca, medindo 15 cm) onde dobra-se transversalmente para formar o cólon transverso. A flexura hepática do Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 20152 cólon é envolvida por dobra de peritônio que se fi xa ao retroperitônio, fígado e vesícula em local muito próxi- mo ao duodeno. Assim, ocasionalmente, os tumores envolvendo a fl exura hepática do cólon podem fazer erosão para o duodeno. Cólon transverso e fl exura esplênica É totalmente intraperitonial e mede cerca de 50 cm e é a porção mais móvel do cólon, podendo ser acha- do no abdome superior, mas pode chegar até a pelve. O cólon transverso é suspenso pelo mesocólon transverso e coberto pelo omento maior. O omento maior pode ser separado do cólon transverso sem sa- crifício vascular algum. Esse é o plano para a entrada da retrocavidade dos omentons (plano da gastrecto- mia) onde temos a exposição da parede posterior do estômago e pâncreas. A fl exura esplênica é o ângulo entre o cólon transverso e o cólon descendente localizado mais ce- falicamente que a fl exura hepática. Junto com o reto infraperitonial, a fl exura esplênica é uma das mais di- fíceis de se abordar e expor. Os ligamentos espleno- cólico e frenocólico devem ser cuidadosamente dis- secados durante a mobilização do cólon para evitar posterior esplenectomia. Cólon descendente e sigmoide O cólon descendente está no quadrante esquerdo do abdome e vai até o sigmoide. É parcialmente peritonizado, pois está retroperitonial. O sigmoide está na pelve e tem a forma de “S” com 10-30 cm e acaba no reto. O sigmoide tem mesentério livre, e muitas vezes existe propensão ao volvo. Alguns já descreveram também zona de esfíncter na junção retossigmoide (18 cm da margem anal). É essa área que é propensa a AGANGLIONOSE, criando a acalásia do sigmoide que ocorre não somente por megacólon chagási- co, mas também na constipação crônica. Reto Tamanho = 15 cm A junção retossigmoidiana é delimitada por ou- tra fl exura em nível de promontório sacral. A junção do sigmoide móvel com o reto, que é mais fi xo, forma o ângulo sigmoidorretal. A origem do reto é no pro- montório sacral, fazendo curvas junto ao sacro (vál- vulas de Houston – geralmente três – que aparecem como projeções intraluminais) e fi nalmente se aca- ba no canal anal e ânus. Entretanto, antes do canal anal existe uma anteriorização do reto pelo músculo puborretal (ângulo anorretal). Esses ângulos têm a forma de um número 7 e exercem papel fundamental na manobra de Valsalva com o aumento da pressão intra-abdominal. A ampola retal é a parte mais distal do reto que é fusiforme e vai aumentando progressivamente de tamanho. No reto inferiormente já não existe peritô- nio; assim, podemos dizer que a maior parte do reto é EXTRAPERITONIAL. Sangue e linfáticos chegam ao reto através do mesorreto, que cobre a parede latero- posterior do reto. Ânus É a porção terminal do trato intestinal. É envol- vido por dois tubos musculares que estão envolvidos no mecanismo da continência. Desprovido de glândulas sebáceas, sudoríparas ou mesmo folículos pilosos. O anoderma acaba na margem anal. A área de mucosa colônica que se une ao anoderma cria a linha denteada, que está localizada a 1,5 cm da margem anal. Acima da linha denteada existe zona de transição de 6-12 mm, onde o epitélio escamoso gradualmente muda para cilíndrico simples. Acima da linha dentea- da (ou pectínea), o intestino tem inervação simpática e parassimpática; a irrigação, a drenagem venosa e a linfática estão relacionadas aos vasos hipogástricos. Abaixo, a inervação é somática, e o suprimento san- guíneo e a drenagem venosa derivam do sistema he- morroidário inferior. Colunas de Morgani (8 a 14) são pregas na mu- cosa, localizadas acima da linha denteada, onde come-çam a coalescer para formar as criptas anais. O canal anal é envolvido por dois músculos tipo esfíncter que são responsáveis pela continência: Esfíncter interno: continuação da camada mus- cular interna do reto; é musculatura lisa com controle involuntário e inervação autônoma. Este músculo liso tem espessura média 0,5 cm e comprimento de 2,5 cm a 4 cm. Esfíncter externo: músculo estriado com controle voluntário e inervação somática. A parte mais profun- da do esfi ncter está intimamente relacionada ao mús- culo puborretal, por qual é considerado atualmente um componente de ambos os grupos musculares, ele- vador do ânus e esfíncter externo do ânus. 1 Anatomia e fi siologia do intestino grosso 3 Vascularização Arterial do cólon Do ceco até a metade proximal do transverso = artéria mesentérica superior (MAS) ½ distal do transverso, cólon descendente e sigmoide = artéria mesentérica inferior (AM) Na maioria das pessoas a artéria ileocólica e a artéria cólica média são ramos separados da MAS. A artéria cólica direita nasce da ileocólica ou mesmo da cólica média. A vascularização do cólon esquerdo e sigmoide vem da AMI através da cólica esquerda e ramos de vasos sigmoidianos e hemorroidários superiores. Arterial do reto É segmentar: 1. artéria retal superior (ramo terminal da AMS) vasculariza o reto superior e médio; 2. artéria retal média e inferior (ramos da artéria ilíaca interna). Artéria marginal de Drummond: bifurcação de vasos formando arcadas de 1-2 cm da borda mesentérica. Arcada de Riolan: anastomose entre as arcadas de vasos mesentéricos superior e inferior. Anomalias vasculares são relativamente comuns no cólon. Assim, a cólica direita pode nascer da AMS em 10%; a artéria hepática direita acessória pode nascer da AMS e mesmo a artéria cólica média pode nascer da ar- téria esplênica. Omento maior (removido) Tênia omental do colo (exposta pelo gancho) Tênia omental do colo Tênia livre do colo Apêndices omentais (adiposos) Pregas semilunares do colo Junção retossigmoidea Reto Mesocolo sigmoide Tênia livre do colo Tênia mesocólica do colo (exposta pelo gancho) Mesocolo transverso Flexura direita do colo Flexura esquerda do colo Figura 1.1 Topografia e estrutura do cólon. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 20154 Artéria cólica média Mesocolo transverso Artéria mesentérica superior 1ª artéria jejunal Artérias jejunais e ileais Arco justacólico (artéria marginal do colo) Artéria mesentérica inferior Artéria cólica esquerda Ramo ascendente Ramo descendente Arco justacólico (artéria marginal do colo) Artérias sigmóideas Mesocolo sigmoide Artéria retal superior Artéria retossigmóideas Bifurcação da artéria retal superior Artéria pudenda interna no canal pudendo (de Alcock) Artérias retas Artéria retal infeiorRamo da artéria retal superior Artéria retal média Artéria vesical inferior Artéria vesical superior (da parte aberta da artéria umbilical) Artéria sacral mediana (da parte abdominal da aorta) Artéria obturatória Artéria ilíaca interna Artéria apendicular Artéria cecal posterior Artéria cecal anterior Arco justacólico (artéria marginal do colo) Artéria ileocólica Artéria cólica direita Arco justacólico (artéria marginal do colo) Artéria pancreatico- duodenal inferior Parte comum Artérias retas Ramo posterior Ramo anterior Ramo cólico Ramo ileal Arco justacólico (artéria marginal do colo) Figura 1.2 Suprimento vascular, linfático e nervoso do intestino grosso. Atenção: ponto crítico de Griffi ths localizado no ângulo esplênico e que corresponde ao limite de separação entre os territórios da artéria mesentérica superior e inferior. Ponto crítico de SUDECK: é uma região do cólon em que recebe, escassamente, uma mistura de dois suprimentos sanguíneos, das artérias sigmoideanas e retal superior (junção retossigmoide). As artérias intermediárias Situam-se entre os três maiores ramos aórticos (AMS, TC e AMI) e os plexos microscópicos. São constitu- ídas por uma rede de vasos anatomicamente visíveis, que incluem os vasos intestinais, as arcadas do intestino delgado e a circulação marginal e os vasos retos do cólon. Os ramos iniciais da AMS para o intestino delgado são estreitos, espaçados a intervalos de 1-2 cm e não formam um sistema de arcada. Porém, à medida que se avança distalmente, o sistema torna-se mais complexo e desenvolve-se em uma série de três a quatro arcadas paralelas. A artéria marginal do cólon (formada pela união dos três principais ramos colônicos que têm origem no lado direito da AMS) continua em direção à fl exura esplênica, para se juntar à artéria cólica esquerda (ramo da AMI). A disposição dos vasos ao longo do cólon direito é constante e inclui uma artéria marginal fornecendo va- sos retos e breves, os quais ocasionalmente se comunicam. Estes vasos retos dividem-se em ramos anterior e posterior, os quais caminham em direção à tênia antimesentérica, onde se dividem novamente e atravessam a musculatura circular. Os vasos breves, por sua vez, dirigem-se para a margem mesentérica onde se anastomosam e, fi nalmente, atravessam o músculo de cada lado da tênia mesentérica. 1 Anatomia e fi siologia do intestino grosso 5 Tênia antimesentérica Tênia mesentérica Vaso breve Vaso reto Artéria marginal Apêndice epiploico Circulação completa Figura 1.3 Vasos retos e breves. Microcirculação Compreende os vasos intramurais e a circulação para as vilosidades. Os primeiros são constituídos por pequenos ramos que partem dos vasos retos e breves e que se dirigem ao peritônio visceral e apêndices epiploi- cos (no caso do cólon). Abaixo da serosa, eles formam um plexo muscular externo e, após perfurarem o mús- culo, as artérias se unem em um rico plexo submucoso, o qual se estende como uma camada contínua ao longo do intestino. Nesta rede e entre os vasos existe uma ma- lha mais fina, da qual se originam arteríolas que cursam em direção às vilosidades ou entre as criptas para suprir a mucosa. O plexo submucoso é mais desenvolvido no intestino delgado do que no cólon, o que torna aquele mais resistente à isquemia do que este. A densidade vascular é mais pronunciada nas ca- madas mucosa e submucosa. Parecem existir conexões arteriovenosas no plexo submucoso, embora alguns autores considerem que elas sejam pouco numerosas e de pequena importância funcional. Essas comunica- ções são mais facilmente demonstradas no estômago. Os vasos do plexo submucoso fornecem uma única arteríola para cada vilosidade, a qual caminha através do estroma central e se torna capilarizada (isto é, perde a camada muscular lisa) logo após ter deixa- do a base. À medida que se aproxima da ponta da vi- losidade, a arteríola começa a se arborizar, podendo se dividir em um sistema muito complicado de finos canais subepiteliais, os quais eventualmente drenam para uma veia central. Esta relação artéria/veia na cir- culação das vilosidades é extremamente íntima e de crucial importância na manutenção da circulação da mucosa em estados de hipotensão e na produção de pseudomembranas (trocas contracorrentes de oxigê- nio e nutrientes). Como resultado, a extremidade das vilosidades é relativamente hipóxica, o que explica a vulnerabilidade dessas células durante a isquemia. Drenagem venosa Veia mesentérica inferior = carreia sangue do có- lon esquerdo para a veia esplênica. Veia mesentérica superior = carreia sangue do cólon direito e se junta com a veia esplênica para for- mar a veia porta. A veia retal superior carreia sangue do reto supe- rior e médio para a veia porta e mesentérica inferior. As veias retais médias drenam o reto inferior e o canal anal, esvaziando na veia cava via veias ilíacas internas. O importante é notar que tumores do reto po- dem dar metástase para canais venosos que entram no sistema portal (veia porta) ou, ainda, sistêmico (veia cava) e daí disseminação generalizada. Drenagem linfática Os linfáticos intramurais da mucosa e submuco-sa perfuram a camada muscular junto com os vasos e formam a rede linfática subserosa que se dirige à in- serção do mesocólon para formar as cadeias linfáticas extramurais que acompanham os vasos sanguíneos. De acordo com sua localização, formam quatro grupos: epicólicos, paracólicos, intermediários e principais. A drenagem linfática do reto e canal anal se faz através de três pedículos; pedículo superior formado pe- los gânglios que acompanham as artérias retal superior e mesentérica inferior drenando para os gânglios peria- órticos; pedículo médio, drenando para gânglios ao nível da origem da artéria retal média, sacrais laterais e sacral média; pedículo inferior, que drena a porção inferior do reto e o canal anal para os gânglios inguinais, ilíacos ex- ternos e na origem da artéria pudenta interna. Nodos mesentéricos superiores Nodos ileocólicos Ceco Nodos retais médios Com vasos retais inferiores para os nodos ilíacos internos Nodos ilíacos Para os nodos inguinais Ânus Reto Colo sigmoide Nodos mesentéricos inferiores Nodos cólicos esquerdos Nodos paracólicos AMI AMS Colo Colo Co lo transverso as ce nd en te descendente Figura 1.4 Diagrama dos vasos linfáticos do intestino grosso. Os linfonodos do cólon dispõem-se em quatro grupos – 1: nodos cólicos, sobre a parede do intestino; 2: nodos paracólicos, ao longo das margens mediais dos colos ascendente e descendente; 3: nodos cólicos direitos, médios e esquerdos, ao longo das respectivas artérias cólicas; 4: nodos mesentéricos superiores e inferiores, próximos aos troncos principais das artérias mesentérica superior (AMS) e inferior (AMI). Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 20156 Inervação do cólon O intestino grosso é inervado por fi bras simpáti- cas e parassimpáticas. Simpático: Cólon direito: gânglios celíacos e mesentérico superior; cólon esquerdo: plexo mesentérico inferior. Parassimpático: Cólon direito: nervo vago (X); cólon esquerdo: plexo hipogástrico (pélvico). O parassimpático estimula a motilidade e o sim- pático inibe. Inervação autônoma intrínseca do intesti- no grosso: Plexo de Meissner (submucoso) e Auerbach (mio- entérico), que são mais numerosos na porção distal do intestino. A ausência ou diminuição desses plexos de- termina distúrbios na motilidade de grande repercus- são clínica (megacólon adquirido ou congênito). Fisiologia A reciclagem dos nutrientes depende da ativida- de metabólica da fl ora intestinal, da motilidade colô- nica e da absorção e secreção da mucosa. Função do cólon: reciclagem de nutrientes. Função do reto: eliminação das fezes. 1. Absorção de água e eletrólitos O cólon, com sua extensão aproximada de 1,5 m, é o segmento do canal alimentar responsável pela esto- cagem, por longos períodos, dos materiais a serem eli- minados pela evacuação. Essa função ocorre em razão de sua grande complacência, capacidade de adaptação e dos seus movimentos de propulsão, peristálticos, pouco frequentes. A ele cabe, também, concluir as últimas eta- pas da absorção de água que recebe do intestino delgado, o que faz com efi ciência até maior, considerando-se que recupera 90% do seu volume, em particular na sua me- tade direita, à custa da passagem de sódio para o meio interno, na troca com potássio, e de cloro por bicarbo- nato, comandadas pela aldosterona. Por intermédio de contrações segmentares, as de maior número, o cólon fi ca dividido em compartimentos funcionais, retardando o deslocamento caudal do seu conteúdo, o que favorece o contato da água com a mucosa, chegando até a produ- zir movimentos anterógrados com o mesmo objetivo. Não há mais nutrientes a serem absorvidos, à exceção de alguns ácidos graxos, remanescendo apenas a ação dos componentes da fl ora bacteriana sobre resíduos não di- geridos, a auxiliar a formação fi nal do bolo fecal. O tempo de trânsito fi siológico pelo cólon pode atingir cerca de 48 horas, portanto, muito acima do observado no intestino delgado. 2. Fermentação bacteriana Os glicídios que não foram digeridos sofrem ação bacteriana e ocorre produção de ácidos graxos de ca- deia curta que fornecem energia para o transporte ati- vo de Na+ na mucosa colônica. 3. Armazenamento de fezes Aquilo que não é absorvido fi ca armazenado no cólon até ser eliminado voluntariamente nas fezes. Aproximadamente 1/3 do peso seco das fezes é BACTÉRIA. Cada grama de fezes contém 1011-1012 bactérias com prevalência de anaeróbios. O intervalo entre as evacuações é infl uenciado por hábitos alimentares e sociais, sendo mais frequen- temente de 24 horas, mas podendo ser considerados normais intervalos de 8 a 12 horas ou de dois a três dias. O importante, do ponto de vista clínico, são as alterações do hábito intestinal que são muitas vezes um sinal precoce de doenças do cólon e do reto. Bacteroides é anaeróbio e é o germe mais comum no cólon. Escherichia coli é o mais comum aeróbio. 4- Gás colônico Resulta de três fatores: (1) ar digerido; (2) produção intraluminal e (3) difusão sanguínea. São eles: nitrogê- nio, oxigênio, CO2 e metano. Repare agora nas bactérias que compõem a microbiota indígena (fl ora normal). Anaeróbicos Coliformes Flora Gram + 101 103 105 107 109 1011 Estômago Duodeno Jejuno Íleo Cólon N úm er o de O rg an is m os / m L Figura 1.5 Composição da fl ora bacteriana de acordo com a topogra- fi a do trato gastrointestinal. 1 Anatomia e fi siologia do intestino grosso 7 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo megacólon 6 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA 6 Megacólon 9 Introdução Megacólon refere-se ao aumento do diâmetro dos diversos segmentos do cólon, verifi cado ao exame ra- diológico, sem levar em consideração a etiologia. Assim, quando o diâmetro do ceco ultrapassa 12 cm, o do có- lon ascendente 8 cm, ou o diâmetro do cólon descen- dente e do retossigmoide é superior a 7 cm, diagnosti- ca-se um megacólon ou um megarreto. Neste capítulo, estaremos considerando ligeiramente o megacólon con- gênito (doença de Hirschsprung), uma vez que este será abordado no módulo de cirurgia pediátrica e, mais extensamente, o megacólon chagásico. Megacólon que acompanha a constipação crônica ou a pseudo-obstrução intestinal, em doenças neurológicas (distrofi a miotônica, Parkinson, neuropatia diabética etc.), doenças da muscu- latura lisa intestinal (escleroderma, por exemplo), ou do- enças metabólicas (porfi ria, hipotireoidismo, por exem- plo), o causado por drogas ou, ainda, o megacólon tóxico, são causas incomuns de megacólon. A doença de Hirschsprung (megacólon congêni- to) foi abordada na apostila de cirurgia pediátrica. O objetivo deste capítulo é abordar o megacólon adquiri- do de etiologia chagásica. Megacólon chagásico (MCH) A doença de Chagas, ou tripanossomíase ame- ricana, é uma zoonose causada por um protozoário fl agelado, denominado Trypanosoma cruzi (Carlos Chagas, 1909). É transmitido ao homem por um in- seto hematófago da família Triatominae, conhecido popularmente no Brasil como barbeiro ou chupança. A doença é uma endemia exclusiva do continente ame- ricano, estendendo-se desde o Sul dos Estados Unidos ao Sul da Argentina. A Organização Mundial da Saúde estima em 16-18 milhões as pessoas parasitadas e em 90 milhões aqueles que vivem em condições de adqui- rir a doença. No Brasil, estima-se uma prevalência em 4,2% da população rural, o que permite estimar em 6 a 8 milhões os chagásicos só no Brasil. Uma vez infectado, o indivíduo poderá apresen- tar a forma clínica aguda ou a crônica, bastante dis- tintas entre si. A forma aguda pode ser aparente ou inaparente e, em geral, tem duração limitada. A forma crônica persiste indefi nidamente, e, como se trata de infecção sistêmica, os mais diversos órgãos podem ser atingidos. Entretanto, os mais afetados são o cora- ção e o trato digestório, caracterizando as formas cardíaca e digestiva da doença.O acometimento do trato gastrointestinal cons- titui a segunda manifestação mais frequente. Do pon- to de vista patológico, caracteriza-se por uma dener- vação autonômica intramural, que pode atingir todo o tubo digestivo. Neste capítulo trataremos apenas do comprometimento do cólon. Figura 6.1 Raio X de cólon (enema opaco). Grande dilatação do reto e do cólon sigmoide, caracterizando o megacólon. O megacólon chagásico (MCH), no Brasil, acome- te 2 a 5% dos indivíduos infectados pelo tripanosoma, atingindo geralmente pessoas de meia-idade. Constitui a forma mais grave da doença, depois da cardiopa- tia, produzindo muito desconforto e levando à mor- te um grande número de pacientes. Incidência O MCH pode ocorrer isoladamente ou associado ao megaesôfago, o que é mais comum. Nesse caso, em geral, o paciente procura o médico com sintomas in- testinais. A incidência global de MCH não é conhecida. Admite-se que seja ligeiramente menor do que o me- gaesôfago. É mais comum entre os 30-60 anos, seja porque a doença se manifesta mais tardiamente, seja porque o doente demora para procurar o mé- dico. Atinge ambos os sexos na mesma proporção. Patogenia A destruição das células ganglionares acar- reta perturbações da motricidade intestinal, mais evidentes no segmento distal e, sobretudo, no reto. A sincronia dos movimentos peristálticos dos indivíduos não acometidos pela doença é substituída por incoorde- nação da atividade motora entre o cólon sigmoide e o reto, interferindo no trânsito fecal. Em consequência, o intes- tino grosso distal responde com hipertrofi a das camadas musculares, que se segue por estase e dilatação cólica. Dessa forma, aceita-se que o megacólon chagásico seja de- corrente de uma discinesia do intestino distal, que atuaria como fator de obstáculo à progressão do bolo fecal. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201510 Patologia Na grande maioria dos casos, os principais aspec- tos histopatológicos são o espessamento e dilatação da parede colônica, notadamente do reto e do sigmoide. Microscopicamente, a doença caracteriza-se por uma neuropatia inflamatória do plexo mioentérico, com hiperplasia das células musculares lisas, infiltração do plexo mioentérico por linfócitos e células plasmáticas, degeneração e destruição neuronal. Quadro clínico O principal sintoma do MCH é a constipação in- testinal. Geralmente instala-se lenta e progressivamen- te, obrigando os pacientes a utilizarem laxativos cada vez mais potentes. Em 70% dos casos, o intervalo entre as evacuações é superior a dez dias. Outro sintoma muito frequente é a distensão abdominal, devido à grande reten- ção de fezes e gases ocasionada pela não propulsão e pela acalasia do esfíncter anal interno. A disfagia é frequente e traduz comprometimento esofágico concomitante. Tontura, palpitação e perda transitória da consciência in- dicam cardiopatia chagásica. As principais complicações do MCH são o fecaloma, a impactação fecal, o volvo, as úlceras por estase fecal e as perfurações. O fecaloma ocorre em 59% dos pacientes. For- ma-se quase sempre por descuido do paciente em pro- mover o esvaziamento intestinal. As fezes acumula- das no segmento dilatado se desidratam, aumentando cada vez mais a sua consistência. Localizam-se, quase sempre, no retossigmoide e, portanto, ao alcance do dedo no toque retal. O diagnóstico de fecaloma é fá- cil. O paciente apresenta história de vários dias sem evacuar, e palpa-se massa moldada, geralmente no sigmoide. As radiografias simples de abdome confir- mam o diagnóstico. Na palpação abdominal, o sinal de Gersuny é patognomônico da presença de feca- loma. A presença de gases insinuando-se entre a mão que palpa e a massa fecal produz típica crepitação que representa aquele sinal. A característica de moldável que tem os fecalomas é um achado comum. A impactação fecal consiste na obstrução aguda por fecaloma. Nesse caso, além da história de obstipa- ção de longa duração, o paciente refere piora súbita, com distensão abdominal e dor no baixo ventre. Quanto ao volvo do sigmoide, deve-se distinguir duas situações: torção com alça viável e torção com necrose de alça. Diagnóstico O diagnóstico de MCH é, em geral, simples devi- do à sintomatologia típica e à procedência do paciente. O exame físico poderá evidenciar diferentes graus de distensão abdominal, geralmente assimétri- ca. O estado nutricional dependerá do comprometi- mento ou não do esôfago. Frequentemente detecta-se também arritmia cardíaca. Quando há grande reten- ção de fezes, pode-se provocar o sinal do cacifo com- primindo-se o sigmoide cheio de fezes e passando-se, em seguida, a mão sobre esse local da parede abdomi- nal. O toque retal deve ser sempre realizado. O exame radiológico consiste na radiografia sim- ples do abdome e no enema opaco. Os raios X simples permitem, muitas vezes, comprovar a existência de ectasia do cólon sigmoide, distensão gasosa e, eventu- almente, fecaloma. O enema opaco é essencial para confirmação do diagnóstico, para determinar o grau de dila- tação e os segmentos que estão comprometidos. O exame proctológico evidencia dilatação lumi- nal e fezes no reto. Eventualmente, podem-se observar ulcerações da mucosa. Do ponto de vista laboratorial, os exames mais importantes são a reação de fixação do complemento para doença de Chagas, a reação de Ma- chado-Guerreiro, e o eletrocardiograma. A reação de Machado-Guerreiro deve ser reali- zada de rotina e é positiva em mais de 80% dos casos. Figura 6.2 Raio X simples de abdome em volvo do sigmoide. Observa- -se a grande distensão gasosa dos cólons descendente e transverso, por torção do sigmoide. Figura 6.3 Raio X de abdome após administração de contraste. Volvo de sigmoide. Observa-se distensão do cólon descendente (contrastado) e gasosa no transverso. 6 Megacólon 11 A complicação mais grave é a perfuração do me- gacólon em peritônio livre, ocasionada por rupturas de úlceras por estase fecal. O quadro clínico é de perito- nite generalizada com toxemia grave. No primeiro caso, o quadro clínico é o de obstru- ção intestinal baixa, com dores em cólica de forte in- tensidade, além de distensão abdominal assimétrica. Geralmente não há sinais de peritonismo, nem grande comprometimento do estado geral. O diagnóstico é fei- to com base no quadro clínico e no estudo radiológico simples do abdome, que evidenciam o sigmoide muito dilatado, contrastando com o reto, que se acha vazio. O enema opaco deve ser evitado. Está indicado apenas nos casos de dúvida quanto ao diagnóstico. Nesse caso, deve-se tomar muito cuidado na realização do exame devido ao risco de perfuração intestinal. A retossigmoi- doscopia permite confi rmar o diagnóstico e avaliar o estado da alça no ponto de torção. Devemos suspeitar de torção com necrose de alça se o paciente referir história de cólicas que passam a ter caráter contínuo, com grande comprometimento do es- tado geral e sinais evidentes de toxemia. A distensão é generalizada e há sinais de peritonismo. Tratamento Megacólon não complicado Os casos de MCH com ritmo intestinal normal não requerem tratamento. Já os casos oligossintomá- ticos devem ser tratados clinicamente com dieta e laxativos, de preferência emolientes e enteroci- néticos. Evitar fi bras, pois aumentam o bolo fecal e pioram ainda mais o quadro obstipante. O tratamento cirúrgico será estudado mais adiante. Fecaloma Na maioria dos casos pode ser esvaziado manu- almente, quando estiver ao alcance do dedo ao toque retal, ou, então, através de gotejamento retal de soro fi siológico ou solução de bicarbonato a 10%. Com es- sas medidas, promove-se o amolecimento progressivo e a eliminação do fecaloma através de dejeções suces- sivas. Em algumas situações, para remover a porção distal do fecaloma impactado na ampola retal, é ne- cessária a complementação com raquianestesia, para produzir relaxamento dos esfíncteres com maior faci- lidade visando a remoção das fezes.Volvo O volvo é formado pela rotação de um segmen- to do cólon em eixo formado pelo seu próprio me- sentério, e poderá resultar em obstrução parcial ou total do lúmen. No MCH, o alongamento e o aumento do calibre da alça intestinal, principalmente na região do sigmoi- de, juntamente com o volume fecal retido, represen- tam as condições predisponentes para a ocorrência do volvo. A obstrução do lúmen ocorre quando a rotação é de 180º e, quando chega a 360º, promove também a obstrução da circulação local, com gangrena e perfu- ração decorrentes de isquemia, caso não ocorra uma pronta intervenção. A manifestação clínica do volvo é a parada de eli- minação de gases e fezes, com dor súbita e intensa ma- nifestada no quadrante inferior esquerdo do abdome, juntamente com distensão, podendo-se, em algumas situações, palpar a alça colônica distendida. O diagnóstico é realizado através de radiografi as simples do abdome, que demonstram distensão do sigmoide, com afi lamento do local da rotação e ausên- cia de ar na ampola retal. O enema opaco só é realiza- do em caso de dúvida, cuidadosamente, visando evitar perfuração intestinal. A imagem clássica é compara- da ao “ás de espadas”, ou a um “bico de pássaro”. O tratamento inicial do volvo do sigmoide é a descompressão da alça pela inserção de colonoscópio, ou de sonda passada pelo reto sigmoidoscópio, desfa- zendo a torção e promovendo o esvaziamento da alça. Devemos sempre preferir a utilização do colonos- cópio para esse procedimento, pois permite a sua execução sob visão direta, além de detectar possí- veis alterações isquêmicas locais. O tratamento ci- rúrgico fi ca reservado para os casos de torção comple- ta (acima de 180º) e na suspeita de sofrimento de alça. É importante o diagnóstico e o tratamento precoce do volvo para evitar perfuração, gerada pela alteração da circulação local, levando a situações de extrema gravidade e morbidade. Retardos podem ocorrer por diagnósticos incorretos ou, então, em ten- tativas infrutíferas de descompressão por procedimen- tos endoscópicos. Ocorrendo sucesso nos procedimen- tos endoscópicos, o paciente poderá ser preparado para posterior procedimento cirúrgico eletivo. Tratamento cirúrgico O tratamento cirúrgico do MCH está indicado, de forma eletiva, nos pacientes com evolução prolongada, para os quais medidas de ordem dietética e medicamen- tosa não conseguiram promover uma satisfatória eva- cuação intestinal, com consequente desconforto. Historicamente, o tratamento cirúrgico eletivo do MCH não chegou a um consenso com relação ao melhor procedimento, e persiste a utilização de numerosas téc- nicas, sem haver nenhuma padronização. Essa situação decorre não somente de falta de um completo conheci- mento da fi siopatologia do MCH, mas também do va- riado índice de morbidade apresentado pelas diferentes técnicas. Além disso, a patologia é endêmica, de ocor- rência em regiões mais pobres, e os pacientes operados Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201512 nos grandes centros retornam às suas origens, impossi- bilitando a correta avaliação dos resultados cirúrgicos a longo prazo, considerando as diferentes técnicas. Dessa forma, é importante também o estabelecimento de técnicas cirúrgicas mais simples, de execução possí- vel em centros com menos recursos, e que apresen- tem baixo índice de morbidade, uma vez que a cirur- gia não visa curar a doença, mas unicamente a sua intercorrência no intestino grosso. Inicialmente, o procedimento cirúrgico consistia na realização, por via endorretal, de esfincterotomias in- ternas (anorretomiectomias) que, apesar de sua simpli- cidade, se mostraram pouco eficientes, e seus resultados deixaram muito a desejar. Posteriormente, a remoção do cólon sigmoide dilatado, juntamente com a porção alta do reto, procedimento denominado de “retossigmoidec- tomia”, foi instituída, pois, dessa forma, removia-se tam- bém a porção mais denervada, com melhores resultados funcionais. A retossigmoidectomia poderá ser realizada por via abdominal, com anastomose colorretal termi- noterminal, podendo, quando houver desproporção de calibres entre o cólon e o reto, ser terminolateral. Essas anastomoses poderão ser executadas de forma manual, ou então facilitadas pela utilização de suturas mecânicas. A colectomia esquerda, associada ou não à anor- retomiectomia, constitui técnica de simples execução e baixa morbidade, porém de resultados pouco efeti- vos a longo prazo, com taxas elevadas de recidivas. Outra técnica indicada é a colectomia total, com ceco ou ileorretoanastomose, que tem sido pouco utilizada devido a sua morbidade e resultados fun- cionais precários. Procedimentos de abaixamento consistem na ressecção do cólon esquerdo dilatado, juntamente com remoção de grande parte do reto; são acompanhados de elevados índices de complicações, além de difícil execução técnica. As anastomoses colorretais ou colo- anais são efetuadas em dois tempos, sendo atualmen- te facilitadas pela utilização das suturas mecânicas. A técnica de abaixamento mais utilizada em nosso meio é a de Duhamel, modificada por Haddad, e, como não libera a face anterior do reto, proporcio- na melhores resultados funcionais e menor morbi- dade. No volvo do sigmoide, a abordagem cirúrgica de emergência é indicada na falha da descompressão en- doscópica, ou, então, em situações de estrangulamen- to ou perfuração do segmento rodado. Nessas condi- ções, o procedimento consiste na ressecção da porção do cólon comprometida, sem anastomose e com colos- tomia terminal temporária (operação de Hartmann). Se houver comprometimento generalizado do cólon pelo MCH, este poderá ser totalmente removido para posterior íleo ou cecorretoanastomose. Esses mesmos procedimentos são indicados em situações de perfura- ção provocada pelas úlceras isquêmicas consequentes à estase fecal prolongada em alça dilatada. Megacólon chagásico – Cirurgias por via abdominal • Sigmoidectomia • Hemicolectomia esquerda • Retossigmoidectomia com anastomose manual • Colectomia total Cirurgias por via abdominoperineal: operações de abaixamento • Retossigmoidectomia abdominoperineal com anastomose colorretal retardada (operação de Cutait) • Retossigmoidectomia abdominoperineal com anastomose coloanal retardada (operação de Simonsen) • Retossigmoidectomia abdominoperineal com anastomose colorretal posterior baixa retardada (operação de Duha- mel-Haddad) Operações por via abdominoperineal: operações com anasto- moses mecânicas • Retossigmoidectomia com anastomose mecânica termino- terminal • Retossigmoidectomia com anastomose colorretal mecâni- ca terminolateral Tabela 6.1 Retossigmoidectomia abdominoperitoneal com anastomose colorretal retardada (operação de Cutait): Em 1960, Cutait propôs a cirurgia que leva seu nome, realizada em dois tempos, com o intuito de evitar a complicação da deiscência da anastomose co- lorretal baixa. Essa técnica consiste na ressecção do sigmoide e do reto até cerca de 3 cm da linha pectínea, promovendo-se o abaixamento do cólon através do reto evertido. Após uma semana, ocorre o acolamento tardio entre a camada muscular dos 3 cm distais do reto evertido e a serosa do cólon abaixado e resseca-se o excedente do cólon abaixado. Retossigmoidectomia abdominoperitoneal com anastomose coloanal retardada (operação de Simonsen): Essa técnica, descrita por Simonsen, em 1960, é semelhante à anterior, diferenciando-se pela secção do reto logo acima da linha pectínea. O cólon abaixa- do é ressecado após duas semanas, sendo esse tempo considerado suficiente para se processar a coalescên- cia do cólon abaixado ao canal anal. Retossigmoidectomia abdominoperitoneal com anastomose colorretal posterior baixa re- tardada (operação de Duhamel-Haddad): Nessa técnica, descrita originalmente por Duha- mel em 1956 e modificada por Haddad em 1965, o cólon é abaixado através de abertura posterior no reto, logo acima da linha pectínea, efixado nessa po- sição. O reto é comumente seccionado na altura da reflexão peritoneal. O segundo tempo é executado 10 a 15 dias após, sendo realizada a ressecção do cólon excedente e de parte do septo retocólico (veja a des- crição mais detalhada desta técnica no tópico Mega- cólon Congênito). ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo Hemorragia Digestiva Baixa (HDB) 8 Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201514 Introdução A hemorragia digestiva baixa (HDB) é descrita como qualquer sangramento digestivo com localiza- ção abaixo do ângulo Treitz. É uma causa importan- te de admissão hospitalar e um importante fator de morbimortalidade hospitalar. Suas taxas de mortali- dade podem chegar a 20%, na dependência de fatores associados como: idade (> 60 anos), doenças sistêmi- cas, necessidade de transfusão de mais de 5 unidades, necessidade de cirurgia e estresse recente (cirurgia, trauma, sepse). Considerações gerais A HDB é menos frequente que a HDA, com prevalência em indivíduos idosos, cessando es- pontaneamente em cerca de 90% dos casos. De- vemos lembrar que nos idosos e nos pacientes de alto risco, esse tipo de hemorragia pode ser fator precipi- tador para infarto do miocárdio. A incidência de hos- pitalização por HDB aguda é estimada em 22 por 100 mil adultos na população. A HDB pode ser classificada também em aguda e crônica. A aguda tem, com frequência, início abrupto e apresenta hematoquezia mais intensa e mais rápi- da. A crônica é de aparecimento lento, progressivo e, em geral, manifesta-se com anemia. A HDB aguda é considerada grave quando os enfermos apresentam sangramento intenso com hipotensão inicial, queda do hematócrito de no mínimo 10% e necessitam com frequência de transfusão sanguínea. O sangramento vermelho rutilante (vivo) pelo reto é, em sua maioria, de origem cólica. Etiologia No Congresso Norteamericano de Doenças Diges- tivas de 2004 (DDW), Savides apresentou uma revisão de sete publicações sobre HDB, envolvendo 1.333 pacientes, que revelou as porcentagens das seguintes causas: � doença diverticular cólica (30%); � câncer e pólipos (18%); � doenças inflamatórias intestinais (17%); � desconhecida (16%); � angiodisplasia (7%); � pós-polipectomia (6%); � doença hemorroidária (4%); � e outras (8%). Na maioria dos serviços as duas causas mais co- muns de HDB são: doença diverticular e angiodisplasia. Fisiopatologia O sangramento diverticular origina-se do vasa rectae localizado na submucosa, que se rompe na área do colo do divertículo. Mais de 20% dos pacientes com doença diverticular apresentam sangramento. Em 5% dos pacientes, o sangramento da doença diverticular pode ser maciço. A hemorragia da doença diverticu- lar para espontaneamente em 80% dos pacientes. Embora a diverticulose seja uma condição colônica predominante à esquerda, aproximadamente 50% do sangramento diverticular origina-se de um divertículo proximal à flexura esplênica. Os divertículos encontra- dos no lado direito podem expor maiores partes do vasa recta às lesões porque têm seus colos mais largos e as abóbadas maiores comparadas aos divertículos colônicos esquerdos. As angiodisplasias colônicas são malformações arteriovenosas situadas no ceco e no cólon ascendente. As angiodisplasias colônicas são lesões adquiridas que afetam pessoas com mais de 60 anos. Essas lesões são compostas dos conjuntos de vasos dilatados, na maior parte veias, na mucosa e na submucosa colônica. Acre- dita-se que as angiodisplasias colônicas ocorram em consequência de uma obstrução crônica intermitente e de baixa intensidade das veias submucosas quando estas penetram a camada muscular dos cólons. Os achados angiográficos característicos são coleções de pequenas artérias durante a fase arterial do estudo, acúmulo de contraste em “tufos” vasculares, opacificação precoce e persistente devido ao esvaziamento lentificado das veias. Se uma angiografia mesentérica é executada no momento do sangramento ativo, o extravasamento dos meios de contraste é visualizado. Ao contrário do sangramento diverticular, a angiodisplasia tende a causar episódios lentos, mas repetidos, do sangramento. Consequentemente, os pacientes com angiodisplasia apresentam-se com anemia e episódios de síncope. Infrequentemente, as angiodisplasias podem causar uma perda abrup- ta de grandes quantidades de sangue, com as taxas de sangramento maciço girando em torno de 15% dos casos. As angiodisplasias podem facilmente ser reconhecidas por colonoscopias como pontos verme- lhos de 1,5 a 2 mm na mucosa. As lesões ativamente sangrantes podem ser tratadas com eletrocoagulação colonoscópica. As lesões incidentalmente descobertas não devem ser manipuladas. A hemorragia maciça devida à doença intestinal inflamatória (DII) é rara. A colite ulcerativa causa diarreia sanguinolenta na maioria dos casos. Em até 50% dos pacientes com colite ulcerativa, o sangra- mento baixo é leve a moderado, e aproximadamente 4% dos pacientes com colite ulcerativa apresentam he- morragia maciça. Um sangramento baixo em pacien- tes com doença de Crohn não é tão comum quanto nos pacientes com colite ulcerativa; 1 a 2% dos pa- cientes com doença de Crohn podem apresentar um sangramento maciço. A frequência de sangramento 8 Hemorragia digestiva baixa (HDB) 15 nos pacientes com doença de Crohn é signifi cativa- mente mais comum com a participação colônica do que com o delgado sozinho. A colite isquêmica é a forma mais comum de lesão isquêmica do sistema digestivo, envolve frequentemen- te áreas como a fl exura esplênica e a junção retossig- moidiana. Na maioria dos casos, o evento precipitante não pode ser identifi cado. A isquemia colônica é uma doença da população idosa e é observada geralmente após a sexta década de vida. A isquemia leva a sofri- mento, edema e sangramento da mucosa e parte da parede colônica. A colite isquêmica não é associada com a perda de sangue ou hematoquezia signifi cativa, embora dor abdominal e diarreia sanguinolenta sejam as manifestações clínicas principais. O carcinoma colorretal causa sangramento ocul- to e os pacientes apresentam-se geralmente com ane- mia e episódios de síncope. A incidência de hemorra- gia maciça por causa do carcinoma colorretal varia de 5 a 20% nas diferentes séries. A hemorragia pós-poli- pectomia tem ocorrência relatada até um mês após a ressecção colonoscópica. A incidência relatada está en- tre 0,2 a 3%. A hemorragia pós-polipectomia pode ser controlada por coagulação do local da polipectomia com sangramento, através de pinça de eletrocoagula- ção ou com injeção de adrenalina. A doença anorretal benigna (exemplo: hemorroi- das, fi ssuras anais, fístula anorretal) pode causar san- gramento retal intermitente. Clínica O sangramento maciço é uma condição ameaça- dora. Embora uma HDB maciça se manifeste como fe- zes vinhosas ou sangue vermelho-vivo do reto, os pa- cientes com hemorragia digestiva alta podem também apresentar achados similares. Não obstante o nível do sangramento, um dos elementos mais importan- tes da manipulação dos pacientes com HDA ou HDB é a ressuscitação inicial. Estes pacientes devem rece- ber dois acessos intravenosos calibrosos e infusão de cristaloides. Entrementes, avaliação rápida de sinais vitais, incluindo frequência cardíaca, pressão arterial e débito urinário devem ser executados. A hipotensão ortostática (ou seja, uma queda da pressão arterial > 10 mmHg) é geralmente indicativa de perda de sangue maior que 1.000 mL. HDB maciça Uma hemorragia maciça é uma condição grave, com risco de vida, e requer, via de regra, várias uni- dades de concentrados de hemácias. Pacientes com hemorragia maciça apresentam-se com pressão sistó- lica < 90 mmHg e a Hb ≤ 6 g/dL. Estes pacientes têm normalmente mais de 65 anos, possuem doenças múl- tiplas e estão em risco de morrer da hemorragia aguda ou de suas complicações. A mortalidade geral por HDBvaria de 0 a 21%. Por defi nição a HDB maciça é assim descrita: • Passagem de grande volume de sangue vermelho ou mar- rom pelo reto • Instabilidade hemodinâmica • Queda inicial do Hb de 6 g/dL ou mais • Transfusão de mais de 2 unidades de sangue • Sangramento que persiste por 3 dias • Ressangramento signifi cante em 1 semana Tabela 8.1 Parâmetros clínicos e laboratoriais para a classifi cação do grau do volume de sangue perdido Pontuação (1) (2) (3) Hemoglobina (g/dL) > 10 < 10 – > 8 < 8 Eritrócitos (milhão) > 3,5 < 3.5 – > 2.5 < 2.5 Pressão arterial (mmHg) > 100 < 100 – > 80 < 80 Freq. cardíaca (bpm) < 80 > 80 – < 120 > 120 Consciência presente torpor ausente Tabela 8.2 Classifi cação em: LEVE < 8 (somatório de pontos menor que oito); MODERADA de 8 a 12 pontos; GRAVE > 12 (somatório de pontos maior que doze). Diagnóstico Avaliação laboratorial O exame hematológico visa dois aspectos: veri- fi car o volume de sangue perdido pelo paciente ou in- tensidade da hemorragia e avaliar a coagulação básica. No exame hematológico, a contagem de hemácias, a dosagem de hemoglobina e o hematócrito traduzem a intensidade da HDB, conforme foi caracterizado ante- riormente: HDB inaparente (valores hematimétricos normais ou discretamente baixos), HDB leve ou de pequeno porte (contagem baixa de hemácias superior a 3.500.000/mm3, dosagem de hemoglobina baixa aci- ma de 10 g% e hematócrito baixo acima de 30%), HDB de médio porte ou moderada (contagem de hemácias entre 2.500.000/mm3 e 3.000.000/mm3, dosagem de hemoglobina entre 7 e 10 g% e hematócrito entre 25 e 30%) e HDB grave ou maciça ou de grande porte (con- tagem de hemácias abaixo de 2.500.000/mm3, dosagem de hemoglobina abaixo de 7 g% e hematócrito abaixo de 25%). Um coagulograma básico e simples, constituído pela contagem de plaquetas, determinações do tempo Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201516 de sangria, tempo de protrombina e tempo parcial de tromboplastina (PTT) deve compor a rotina da abor- dagem clínica e hematológica do paciente com HDB. Colonoscopia A colonoscopia é um exame de indubitável va- lor na propedêutica das HDB, embora durante algum tempo tivesse sido relegada a segundo plano, em de- corrência da exigência de um bom preparo intestinal para sua execução. Atualmente é vista como a melhor arma propedêutica na abordagem de tais hemorragias. A colonoscopia pode encontrar a causa e o local da hemorragia, efetuando os diagnósticos causal e topo- gráfico (exemplo: câncer no sigmoide, pólipo colôni- co, doença de Crohn ileocecal). Pode, também, fazer o diagnóstico causal, falhando no diagnóstico topográfi- co da hemorragia (exemplo: polipose intestinal, RCUI, doença diverticular colônica difusa), e, mesmo, não fazer o diagnóstico (patologias vasculares), demons- trando que também tem suas limitações. A colonos- copia assume papel importantíssimo nas HDB ocasio- nadas por pólipos intestinais e mesmo outros tumores intestinais (exemplo: lipomas, câncer), extirpando-os, constituindo-se em arma propedêutica e terapêutica ao mesmo tempo. Pode, também, em casos de hemor- ragias em cânceres, traumatismos, arrancamento de pólipos, pós-operatório de polipectomias, servir como arma terapêutica, cauterizando ou coagulando o pon- to hemorrágico. Não sendo o diagnóstico da HDB feito pelo exa- me proctológico, persistindo a hemorragia, o próxi- mo passo propedêutico, havendo tal exame disponí- vel, é a colonoscopia. Enteroscopia Em geral, a enteroscopia é o último exame a ser indicado para o diagnóstico da HDB. A enteroscopia com duplo-balão é uma técnica relativamente nova e que vem se expandindo rapida- mente e se transformando no principal método en- doscópico terapêutico para o intestino delgado. Veja o capítulo sobre o tema para mais informações. Cápsula endoscópica Trata-se de uma nova técnica endoscópica que utiliza uma cápsula de 11 x 26 mm de tamanho que, após deglutida por via oral, transmite duas fotos por segundo para um receptor fixado no abdome do pa- ciente, durante oito horas ininterruptas, ou seja, du- rante seu percurso pelo intestino delgado. Trata-se de exame de imagem, não invasivo, para avaliação da mu- cosa intestinal. Sua taxa de diagnóstico é de aproxima- damente 70% e apresenta maior sensibilidade quando há sangramento ativo. No entanto, a identificação do local sangrante no delgado também não é precisa com esse exame. A cápsula endoscópica tem se mostrado superior à sonda enteroscópica para o diagnóstico da HDB. No entanto, a enteroscopia e a radiologia con- trastada do trânsito intestinal poderão preceder esse exame nos enfermos com anemia ferropriva ou san- gramento oculto. Cintilografia O elemento radionuclear que melhor se presta para este exame é o tecnécio-99m (99mTc), pois tem as características exigidas: alta concentração e rápido de- saparecimento do sangue circulante (meia-vida de 2,5 a 3,5 min.). O radionuclídeo que melhor se adapta a marcar os elementos sanguíneos figurados é, também, o tecnécio-99m, em decorrência de sua capacidade de marcar as hemácias circulantes do receptor. Saindo hemácias marcadas do espaço vascular para o interior dos cólons, está automaticamente demonstrado o lo- cal da hemorragia. Os sangramentos gastrointestinais são avaliados com hemácias marcadas com o mesmo agente da cintilografia hepática e do baço e da medu- la óssea, o coloide de enxofre – 99mTc, podendo avaliar sangramentos de vazão entre 0,05 e 0,1 mL/minuto. A hemorragia ativa é demonstrada pelo acúmulo do radioisótopo no local do sangramento, devendo ser diferenciada do acúmulo no fígado e no baço e na me- dula óssea, que também captam este radioelemento, na proporção de fígado 85%, medula óssea 10% e baço 5%. A sensibilidade relatada da varredura do 99mTc é de 20 a 95%. Outro elemento que pode ser utilizado é o Ín- dio111, que, quando usado, permite obtenção de ima- gens por até 5 dias; entretanto, este método não é empregado porque os pacientes são expostos a ele- vada radiação. Recentemente, tem se estudado a realização de cintilografia cinemática com 99mTc, em tempo real, como uma alternativa não invasiva à angiografia me- sentérica. A imagem latente dinâmica dos baixos con- tínuos que usa a aquisição sequencial do computador fornece localização mais exata do ponto do sangra- mento porque permite a avaliação cinemática. Mais estudos são necessários para identificar o sucesso de avaliações cintilográficas em tempo real. Angiografia seletiva Este recurso é o que deve seguir a colonoscopia, caso tenha havido insucesso deste método propedêutico. A angiografia mesentérica pode detectar sangra- mentos com taxas maiores que 0,5 mL/min. Em deter- minados casos, pode-se tentar, algumas vezes com 8 Hemorragia digestiva baixa (HDB) 17 sucesso, a embolização do ponto de sangramento atra- vés de instilação, pelo próprio cateter, de substâncias coagulantes tópicas (pó de Gelfoam®) ou de vasocons- tritores tópicos (vasopressina). Frente ao insucesso da arteriografi a, persistindo a hemorragia, surge a cintilo- grafi a como o passo propedêutico seguinte. Cirúrgico A laparotomia exploradora raramente é realizada com o propósito diagnóstico, com exceção do enfermo com enterorragia maciça ou associada à enteroscopia intraoperatória na HDB de origem obscura. Outros exames Enema opaco Recurso propedêutico inestimável, durante anos foi, juntamente com o exame proctológico, a principal arma no diagnóstico da HDB. O enema opaco exige, da mesma forma que a colonoscopia, um razoável pre- paro intestinal para sua viabilização. Pode apresentar três resultados: visualizar o local e a causa da hemor- ragia (exemplo: pólipos, câncer, estenoses), visualizar a causa e não detectar o local da hemorragia (exemplo: doença diverticular dos cólons, RCUI, poliposes intes- tinais) e não visualizar causas ou locais da hemorragia (exemplo: angiodisplasias, traumatismos). O advento da colonoscopia e das arteriografias digitais seletivas deslocou este exame para casos especiais. Trânsito intestinal Nunca constitui um exame complementar con- vencional na abordagem propedêutica das HDB, uma vez que visa, basicamente, ao estudo do intestino del- gado, sede excepcional de causas de hemorragias diag- nosticáveis por esta técnica (exemplo: lipomas, divertí- culos). Destarte, pode o trânsito digestivo inserir-se na propedêutica de doenças hemorrágicas do tubo digesti- vo que não põem em risco iminente a vida do paciente. Terapêutica Ressuscitação volêmica e medidas de suporte Nos doentes com HDB moderada ou grave, a hospitalização é imperativa e o atendimento deve ser feito em caráter de urgência. As medidas de intensivismo devem ser ajustadas para os pacientes instáveis hemodinamicamente. Terapêutica endoscópica A colonoscopia tem papel fundamental na tera- pêutica da HDB. É realizada inclusive nas situações de urgência, possibilitando melhorar o prognóstico des- ses doentes. As potenciais lesões cólicas com condições de he- mostasia endoscópica incluem, em especial, o diver- tículo sangrante, a lesão pós-polipectomia, as angio- displasias, os tumores, as úlceras, a retite actínica etc. Os procedimentos de hemostasia endoscópica de- penderão da natureza da lesão encontrada, do grau do sangramento, da disponibilidade do material necessá- rio e, sobretudo, da competência do endoscopista. A introdução do aparelho deverá ser cuidadosa, evitando-se manobras bruscas ou forçadas. Terapêutica por angiografi a seletiva A angiografi a seletiva na vigência de sangramento ativo, com débito acima de 0,5 mL por minuto, poderá ser, além de diagnóstica, terapêutica. Ela possibilita a administração de drogas vasopressoras no território sangrante, controlando a hemorragia e permitindo que o paciente seja submetido ao tratamento de sua doença de forma eletiva. A infusão seletiva de vasopressina tem chance de sucesso, que varia entre 35 a 90% dos casos, porém com 50% deles ressangrando após o efeito do vasoconstritor. A embolização arterial do território sangrante já foi muito utilizada, mas, como está sujeita a muitas complicações, seu uso é pouco indicado atualmente. Ela apresenta alta incidência de necrose do segmento cólico embolizado, com isquemia intestinal irreversí- vel. Sua técnica consiste na embolização, dita superse- letiva, com o posicionamento do cateter intra-arterial o mais próximo possível do sítio de sangramento e in- jeção de partículas de gelatina cirúrgica (Gelfoam®) ou de polivinil (Yvalon®). Terapêutica cirúrgica Se a causa e a sede do sangramento não foram determinadas pelos métodos propedêuticos menos in- vasivos (fato que pode ocorrer em aproximadamente 10% dos enfermos) e o sangramento é de intensidade moderada a grave e não cessou espontaneamente ou com quaisquer dos procedimentos terapêuticos ante- riores, há indicação de laparotomia exploradora. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201518 A padronização para a indicação da terapêutica cirúrgica na HDB consiste em: � pacientes que necessitarem de reposição sanguí- nea no volume de 2.000 mL em 24 horas, sem cessar o sangramento (HDB grave); � enfermos que apresentarem sangramento contí- nuo, considerado moderado, durante 72 horas; � quando há recidiva do sangramento, de intensi- dade moderada ou grave, em um período menor que sete dias, após a primeira HDB; � pacientes com tipo sanguíneo raro; � enfermos idosos com HDB grave e/ ou recidivante. Um aspecto fundamental para a escolha da con- duta cirúrgica a ser realizada no doente com HDB está relacionado à identificação do local do sangramento. Se foi possível a localização do local do sangra- mento na propedêutica pré-operatória e se ela for restrita a um segmento do cólon, pode-se optar por uma ressecção cólica segmentar. Nesses casos, tais como o câncer, o pólipo cólico ou a ectasia vascular, responsáveis pela HDB limitada a um segmento in- testinal, nossa tática operatória de escolha é a co- lectomia parcial com anastomose primária sempre que possível. Contribuem para viabilizar a anastomose primá- ria após a colectomia segmentar na HDB: � presença de sangue, em grande quantidade, na luz intestinal, que, atuando como agente catárti- co, livra o cólon do conteúdo fecal; � realização do preparo intestinal com o manitol expresso para efetuar a colonoscopia, possível na maioria dos enfermos; � uso endovenoso de antimicrobianos de amplo espectro. Somente realizamos a colectomia segmentar com colostomia terminal temporária, dita de proteção, em situações de risco para efetuar-se esta anastomose pri- mária, tais como a possibilidade de contaminação da cavidade abdominal ou a presença de fezes em grande quantidade no cólon. Quando não houve identificação do local do san- gramento no pré-operatório, é importante fazer a ex- ploração peroperatória pela inspeção e palpação das al- ças, embora seja rara sua contribuição para a localização do sangramento. O melhor método é a colonoscopia transoperatória, com porcentagem de sucesso relatada na literatura de 83% ou mais; porém, ela necessita de equipe treinada, com o cirurgião auxiliando o endosco- pista na introdução do aparelho endoscópico. Não se dispondo da colonoscopia em centro cirúrgico, pode-se tentar as clampagens intestinais segmentares. Havendo localização da sede ou da causa do sangramento no peroperatório, a opção será, também, a ressecção cólica segmentar sempre que possível. Não havendo possibilidade de identificação do local preciso do sangramento no peroperatório, porém havendo certeza de ser a HDB de origem cólica, deve- -se realizar a colectomia total com anastomose ileorre- tal primária. Essa tática operatória está indicada para pacientes em que se identificam ectasias vasculares com distribuição difusa no cólon e nos portadores da doença diverticular cólica difusa. Embora se reconhe- ça que os divertículos de cólon direito sejam os que mais sangram, a colectomia direita pode ser acompa- nhada, no pós-operatório, de recidivas frequentes de sangramento à esquerda. A colectomia total associada a uma ileostomia terminal temporária é conduta de exceção, como nos doentes portadores de RCU com hemorragia maciça. Nestes, o estudo anatomopatológico da peça cirúr- gica ressecada orientará o procedimento operatório definitivo, com opções para anastomose ileorretal, ileoanal com bolsa ileal ou ressecção do reto e manu- tenção da ileostomia. Os resultados do tratamento, conservador ou cirúrgico, da HDB quanto aos índices de mortalidade dependem das condições e da idade do doente e da causa e do grau do volume de sangue perdidos. Na urgência, esses índices podem alcançar até 30%. Seguimento As complicações pós-operatórias precoces mais co- muns são sangramento intra-abdominal, íleo adinâmico, obstrução intestinal mecânica, sepse intra-abdominal, pe- ritonite localizada ou generalizada, infecção de ferida e/ou deiscência, colite pseudomembranosa, pneumonia, reten- ção urinária, infecção do trato urinário, trombose venosa profunda e embolia pulmonar. As complicações tardias ocorrem geralmente mais que uma semana após a cirurgia. As complicações tar- dias mais comuns são: estenose anastomótica, hérnia incisional e incontinência. Prognóstico A HDB cessa espontaneamente, nas primei- ras 48 horas, em até 90% dos enfermos, sendo que há recidiva em 15% nas 48 a 72 horas seguin- tes. O sangramento permanece contínuo em apenas 10% dos pacientes. 8 Hemorragia digestiva baixa (HDB) 19 Tratamento Medidas de ressuscitação • História • Exame físico • Exames laboratoriais • Aspiração nasogástrica • EDA Anorretossigmoidoscopia Colonoscopia Sangramento ativo Arteriogra�a Positivo Tratamento Positivo Positivo Cintilogra�a Sangramento persistente Laparotomia exploradora Medidas adicionais • Trânsito do delgado • TC • EDA com colonoscópio Positivo Tratamento Tratamento Tratamento Positivo Figura 8.1Organograma de atendimento a HDB. Guarde-o! ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo Doença Diverticular 9 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA 9 Doença diverticular 21 Defi nição Divertículos são herniações da mucosa e da submu- cosa através da camada muscular da parede intestinal. Os divertículos do cólon podem ser divididos em falsos e verdadeiros. Os falsos constituem a quase tota- lidade dos divertículos do intestino grosso e consistem de herniação da mucosa e submucosa através da cama- da muscular do intestino e são revestidos pela serosa. Os divertículos verdadeiros são raros e consistem na herniação de todas as camadas do intestino. Diverticulose indica somente a presença de di- vertículo, e doença diverticular indica a presença de divertículo, sintomático ou não. Os divertículos sinto- máticos podem apresentar sangramento, infl amação (diverticulite) ou outros sintomas abdominais. Epidemiologia A predominância da doença diverticular do intes- tino grosso aumentou acentuadamente no último sé- culo, em razão do aumento da longevidade da popula- ção e da redução das fi bras alimentares na nossa dieta. A prevalência estimada de doença diverticular do intestino grosso por estudos radiológicos e de ne- cropsia é de aproximadamente 10% da população de países desenvolvidos. É menor nos países em de- senvolvimento, sendo rara em alguns países cujo con- sumo de fi bras é elevado, como por exemplo, África e Ásia onde a prevalência é inferior a 0,2%. A doença diverticular é incomum antes dos 40 anos de idade e aumenta de uma frequência de 5% na 5ª década de vida para mais de 50% na 9ª déca- da. Com o envelhecimento, ocorre uma diminuição da força tênsil das fi bras colágenas e musculares do cólon. Na diverticulose ocorrem alterações semelhan- tes, porém mais acentuadas do que as observadas com o envelhecimento isoladamente. Estudos preliminares sugeriam uma maior inci- dência de doença diverticular no sexo masculino, mas estudos mais recentes mostram uma distribuição se- melhante em ambos os sexos. Em pacientes abaixo de 40 anos, entretanto, os casos de diverticulite sintomática chegam a ser até três vezes mais comuns em homens. Algumas doenças hereditárias como doença policística renal, síndrome de Marfan e Ehlers- -Danlos estão associadas a um aumento da inci- dência de doença diverticular, uma vez que causam alterações na força da camada submucosa do cólon; nesses pacientes, a doença diverticular pode se de- senvolver em idade mais precoce. Patogenia A anormalidade muscular é a característica mais marcante e consistente. O mecanismo patogê- nico primário não é apenas uma protrusão da muco- sa, mas sim uma anormalidade da camada muscular própria, levando a um espessamento característico dessa camada. Uma teoria sugere que o espasmo muscu- lar prolongado, como resultado da baixa quantidade de resíduos e volume fecal, com consequente hipersegmen- tação, leva ao aumento da pressão intraluminar do cólon. Essa pressão intraluminar aumentada causa a herniação da mucosa e da submucosa através das áreas de fraqueza inerentes do cólon. Evidência contra essa teoria é o fato de que a pressão intraluminar pode ser normal no cólon de pacientes com doença diverticular comprovada, o que faz com que a presença de um espasmo prolongado como único fator etiológico seja pouco provável. Uma segunda teoria propõe o encurtamento da parede colônica como evento inicial na patogenia da doença diverticular. No cólon normal, as tênias agem como suportes externos para a contração dos múscu- los lisos da camada muscular circular. A presença da elastina explica porque a doença diverticular não pode ser completamente revertida pela dieta rica em fi bras, uma vez que a elastina em si é irreversível. Entretanto, não se sabe se a elastina é um evento primário ou uma consequência da doença diverticular. Sugere-se que a distensão intermitente da camada muscular lisa do cólon pode estimular a captação de substâncias presentes na parede colônica, como a prolina, que poderia levar à elastina. A herniação da mucosa e da submucosa através da camada muscular que ocorre em pontos de fra- queza na parede colônica é dependente do aumento do gradiente de pressão entre a luz do cólon e a ca- vidade peritoneal. Os principais pontos de fraque- za na parede colônica são os locais de penetração das artérias na camada muscular circular para se- rem distribuídas na submucosa, que fi cam entre as tênias lateral e mesentérica. Os divertículos não se desenvolvem no reto, provavelmente porque nessa região ocorrem a coalescência das tênias e a forma- ção de uma camada muscular longitudinal única. Paralelamente ao aumento na frequência de di- verticulose com a idade, existe um acúmulo de colá- geno, elastina e tecido reticular na camada muscular colônica. Essas alterações estruturais resultam em redução na força da camada muscular. Essa hipótese é apoiada pelo desenvolvimento precoce de doença di- verticular do intestino grosso em pessoas jovens com doenças do tecido conjuntivo, como nas síndromes de Marfan e Ehlers-Danlos. O gradiente de pressão entre a luz do intestino e a cavidade peritoneal pode ser em virtude de contra- ções da musculatura colônica e/ou distensão do cólon Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201522 por gases. Essas alterações ocorrem principalmente no cólon sigmoide, a porção mais estreita do cólon, o que pode ser explicado pela lei de Laplace. Esta lei é representada pela fórmula P=KT/R e explica que a pressão intraluminar (P) é proporcional à tensão da parede (T) e inversamente proporcional ao raio (diâ- metro) do cólon (R). K é um fator de conversão. Dessa forma, o segmento colônico com menor diâmetro (có- lon sigmoide) apresenta a maior pressão intraluminar. A maioria dos pacientes com doença diverti- cular apresenta espessamento da camada muscular do cólon, conhecida como miocose (myochosis), que não é nem hipertrofia nem hiperplasia. Sua etio- logia não é conhecida, e sua aparência espessada deve-se possivelmente a encurtamento das tênias, causado por aumento de elastina na superfície des- sas, ao espessamento da camada muscular circular e ao estreitamento da luz intestinal. A elastina é depositada entre as células musculares, e o padrão fas- cicular normal das tênias torna-se distorcido. Essa al- teração é, provavelmente, uma das causas do aumento da pressão intraluminar. Outras mudanças estruturais vistas na diverticulose são o espessamento das cama- das musculares longitudinal e circular do cólon e um aumento progressivo de componentes do tecido con- juntivo da parede colônica, como colágeno tipo III e a própria elastina, já mencionada. Em alguns pacientes pode-se encontrar a associação de doença diverticular, hérnia hiatal e colelitíase. Esta tríade ficou conhecida como síndrome de Saint. Fragilidade da parede intestinal (entrada de vasos nutrientes) e/ou doenças do tecido conjuntivo (Marfan, Ehlers-Danlos etc.) �bras na dieta resíduos fecais constipação crônica da força propulsiva intestinal pressão intraluminal hipertro�a muscular Herniação da mucosa através da parede muscular (divertículos) Doença Diverticular do Cólon - Fisiopatologia Figura 9.1 Fisiopatologia da doença diverticular. Peritônio Mucosa Divertículo Concentração no divertículo Vaso sanguíneo perfurando a musculatura Relação entre divertículos, vasos sanguíneos e tênias (esquemática) 3 2 Músculo circular Tênia cólica Apêndice omental Figura 9.2 Figura 1: visualização colonoscópica dos divertí- culos. Figura 2: distribuição anatômica dos divertículos; Figura 3: patogenia da doença diverticular. Os divertículos são herniações da mucosa através dos pontos de entrada dos vasos sanguíneos pela pa- rede muscular. Pelo fato de estes divertículos serem formados apenas por mucosa em vez de o serem por toda a parede do instestino, eles são chamados falsos divertículos.Note que os divertículos formam- -se apenas entre as tênias mesentéricas e cada uma das duas tênias laterais. Pelo fato de não haver vasos perfurantes, os divertículos não se formam no lado antimesentérico do cólon. Figura 4: clister opaco evidenciando os divertículos. Patologia O cólon é o local mais comum de formação diver- ticular do trato digestivo. A quase totalidade dos diver- tículos é falsa (pseudodivertículos) e se forma no local em que as artérias perfuram a camada muscular circu- lar para alcançarem a submucosa. Os divertículos qua- se sempre se localizam entre as tênias lateral e mesen- térica. Variam em número de um a centenas, e o seu tamanho varia de 1 mm a mais de 1 cm de diâmetro. O maior divertículo descrito tinha 27 cm. O número e o tamanho dos divertículos frequentemente aumentam com o tempo. 9 Doença diverticular 23 A distribuição dos divertículos no intestino gros- so difere conforme o segmento. O local mais comum dos divertículos é o cólon sigmoide, o qual está envolvi- do em 95% dos casos. Os divertículos podem ser classi- fi cados conforme a sua localização em quatro catego- rias: divertículos limitados ao cólon sigmoide (65%), divertículos envolvendo o cólon sigmoide e outros segmentos colônicos (24%), divertículos dispersos em todos os segmentos colônicos (7%) e divertículos limi- tados a segmentos proximais ao cólon sigmoide (4%). Doença diverticular: localização Cólon sigmoide exclusivo: 65% Cólon sigmoide e outro segmento: 24% Todo o cólon: 7% Obs.: 90% ou mais ocorrem na topografi a do sigmoide e có- lon descendente Tabela 9.1 A doença diverticular do cólon pode ser associada a cólon espástico (hipertônica) ou não (não hipertônica). Na doença diverticular hipertônica, os divertícu- los são geralmente limitados ao cólon sigmoide ou ao cólon sigmoide e cólon descendente. Essa é a forma me- nos comum de doença diverticular. Os pacientes apre- sentam espessamento da camada muscular circular, encurtamento da tênia e estreitamento da luz. Essas alterações são denominadas miocose (myochosis). As contrações musculares podem dividir o cólon em câ- maras fechadas com hipertensão no seu interior. A di- verticulite aguda está frequentemente associada a essa forma de doença diverticular. A doença diverticular não hipertônica (forma hi- potônica) é mais comum (70% dos casos) e se caracteri- za pela presença de inúmeros divertículos no cólon sig- moide e em outros segmentos mais proximais do cólon. Ocasionalmente todo o cólon é acometido. Não ocorre espessamento da camada muscular ou hipertensão na luz colônica. A hemorragia está mais frequentemente associada a esse tipo de divertículo do que a doença di- verticular hipertônica. É importante o diagnóstico diferencial de diver- ticulite e adenocarcinomas de cólon. Com a infl ama- ção aguda da diverticulite, a formação de abscessos e a consequente infl amação crônica, a parede colônica torna-se espessada, endurecida, sendo difícil a sua di- ferenciação macroscópica de carcinoma. Moléstia diverticular dos cólons: complicações Forma hipertônica • Perissigmoidite • Abscesso intramural ou pericólico • Fístulas internas - Colovesical* - Coloentérica Moléstia diverticular dos cólons: complicações (cont.) - Colovaginal • Fístulas externas - Colocutânea - Coloperineal • Obstrução intestinal • Perfuração em peritônio livre Forma hipotônica • Hemorragia diverticular • Perfuração em peritônio livre Figura 9.2 *A mais comum. Quadro clínico A maioria dos pacientes com doença diverticular (70%) é assintomática. Uma pequena porcentagem dos pacientes (10%) com diverticulose não complicada apresenta sintomas inespecífi cos como dor abdominal intermitente, com frequência associada à distensão abdominal, excesso de gás, fl atulência, timpanismo e defecação irregular. A causa desses sintomas não está determinada, mas é possivelmente devida à presença simultânea da síndrome do cólon irritável. De 15 a 30% dos pacientes com divertículos no cólon apresentam doença diverticular complicada: di- verticulite (10 a 25%) e hemorragia diverticular (5%). Doença diverticular (DD): quadro clínico Sintomas inespecífi cos: dor abdominal, fl atulência, alteração do hábito intestinal DD complicada (15 – 30%) • Diverticulite (10 – 25%) • Hemorragia (5%) DD assintomática 70% dos casos Tabela 9.3 Abordagem diagnóstica A maioria dos pacientes com doença diverticu- lar é assintomática e o diagnóstico é estabelecido com clister opaco ou exame endoscópico do cólon de rotina ou realizado para avaliar manifestações clínicas suges- tivas de doenças do intestino grosso. O diagnóstico de diverticulite e hemorragia diverticular é geralmente suspeitado pelas manifestações clínicas, que são geral- mente sugestivas e confi rmadas por exames comple- mentares, discutidos adiante. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201524 Tratamento clínico para doença diverticular A base do tratamento clínico da doença diver- ticular não complicada é o aumento de fibras na die- ta. As fibras aumentam o peso das fezes, diminuem o tempo de trânsito intestinal e diminuem a pressão intracolônica, principalmente pelo desvio de água que proporcionam para dentro da luz intestinal. Os cereais são a melhor fonte de fibras naturais, seguidos de fru- tas e verduras, especialmente as leguminosas. Carne, galinha, peixe, leite e derivados, ovos, gordura e refri- gerantes não contêm fibras. A falta de fibra luminal re- duz o volume das fezes e necessita de mais segmenta- ção colônica para propelir o conteúdo intestinal. Para aquelas pessoas que não toleram aumentar a ingestão de fibras existe a possibilidade do uso crônico de la- xantes formadores do bolo fecal, como aqueles à base de psyllium (por exemplo, metamucil). Entre as novas perpectivas de tratamento clínico destacamos a rifaximina, um antibiótico semissintéti- co, derivado da rifamicina, com ação bacteriostática, inibindo a síntese do ácido ribonucleico bacteriano. Nos estudos avaliando seu uso no tratamento da diverticulose, a rifaximina tem sido administrada em doses de 400 mg, 2 vezes ao dia, por 7 dias, frequente- mente em cursos mensais, por até 12 meses. Os resul- tados evidenciam superioridade da associação da rifa- ximina à dieta rica em fibras, em relação à dieta rica em fibras de forma isolada, em prevenir a recorrência e diminuir os sintomas. A utilização de mesalazina dá-se pelo achado, não raro, de um estado de inflamação crônica localiza- do nas porções colônicas gravemente acometidas pela diverticulose: a colite segmentar. As alterações colo- noscópicas da colite segmentar associada à doença diverticular são inespecíficas, podendo ser similares àquelas da doença de Crohn, o que requer criterioso estudo do caso e acompanhamento em longo prazo, para se estabelecer o diagnóstico preciso. Recentes trabalhos têm relacionado esse estado inflamatório crônico às alterações da microflora bacteriana intes- tinal, consequente à dieta pobre em fibras. A porção mais acometida é o cólon sigmoide, exatamente pela maior ocorrência de divertículos nesse segmento. Diverticulite Diverticulite é a complicação mais frequente da doença diverticular. Estima-se que 10-25% das pesso- as com doença diverticular desenvolvem diverticulite durante a vida. A probabilidade de desenvolver diver- ticulite é maior nas pessoas com divertículos em maior número, com distribuição mais ampla no cólon e apa- recimento com menor idade. Pode variar de uma leve inflamação peridiverticular até uma peritonite fecal secundária à perfuração do divertículo. Quando tratada clinicamente, a diverticulite re- cidiva em um terço dos casos, sendo que 90% das re- cidivas ocorrem em cinco anos. Diverticulite simples, ou não complicada, ocorre em 75% dos casos; os outros 25% são casos de diverticulite complicada, incluindo perfuração, abscesso, fístula ou estenose. Apenas 22% dos pacientes com diverticulite perfurada apresentam históriaprévia de doença diverticular. O início da inflamação é quase sempre na ponta do divertículo e se deve a obstrução por material fecal no seu interior. Posteriormente ocorrem acúmulo de secreção mucosa e o crescimento de bactérias colôni- cas dentro do divertículo. O suprimento sanguíneo fica comprometido, e o divertículo, que possui pare- des delgadas, sofre necrose e perfuração, com ocor- rência de peridiverticulite. Nesse ponto, o processo inflamatório pode regredir espontaneamente ou com tratamento clínico, ou então evoluir para uma com- plicação: abscesso ou fístula. As manifestações clíni- cas são frequentemente similares a uma apendicite, e por isso a diverticulite é referida como apendicite do lado esquerdo. O sintoma mais frequente é dor abdominal, que é geralmente contínua e de intensidade moderada ou intensa. Em razão de a diverticulite apresentar-se qua- se sempre no cólon sigmoide ou descendente, a dor é em geral localizada no quadrante inferior esquerdo. Entretanto, pode apresentar-se na região suprapúbica ou no quadrante inferior direito se o cólon sigmoide for redundante ou se o paciente tiver divertículos do cólon direito. A febre é o segundo sintoma mais frequente e ge- ralmente é moderada (menor que 38,5ºC), mas pode ser elevada, principalmente na presença de complica- ção. Outras manifestações clínicas, frequentemente presentes, são náuseas e vômitos, anorexia e alteração no hábito intestinal, constipação intestinal, e mais ra- ramente diarreia. Disúria pode também ocorrer, indi- cando envolvimento da bexiga. No exame físico, é frequentemente observada dor à palpação na fossa ilíaca esquerda, que pode es- tar associada à contratura muscular e massa palpável. O abdome apresenta-se distendido e timpânico. Os ruídos hidroaéreos são normais na diverticulite não complicada, diminuídos quando a inflamação é mais intensa ou na presença de complicação, e aumentados na presença de oclusão intestinal. O toque retal pode revelar a presença de uma massa dolorosa. Raramente o paciente pode apresentar evidên- cias de complicações como disúria, piúria, pneumatú- ria, eliminação de gases e fezes pela vagina (fístulas colovesical ou colovaginal) ou peritonite difusa (per- furação para abdome livre). 9 Doença diverticular 25 Complicações da diverticulite A evolução da diverticulite depende do processo infl amatório local e das condições gerais do paciente, da sua idade e da presença de doenças sistêmicas asso- ciadas. Apesar de a maioria dos pacientes evoluir para cura, muitos apresentam complicações. a) Abscesso: ocorre em aproximadamente 8 a 14% das diverticulites agudas e em 30 a 55% dos pa- cientes com diverticulite submetidos à cirurgia. Os abscessos geralmente se localizam próximos ao cólon, mas podem ser pélvicos ou em qualquer lugar na cavi- dade abdominal. O diagnóstico é suspeitado pela per- sistência de febre elevada, leucocitose e presença de massa no exame físico ou no toque retal ou vaginal. O diagnóstico é confi rmado pela ultrassonografi a ou pela tomografi a computadorizada. b) Fístula: a mais comum é entre o cólon e a be- xiga, mas pode ser com a vagina, pele, intestino del- gado, ureter, sistema venoso porta e vias biliares. A suspeita diagnóstica se faz pela presença de infecções de repetição do trato urinário, pneumatúria, fecalúria, eliminação de fezes pela vagina ou pele. O diagnóstico é confi rmado por edema opaco, fi stulografi a, retossig- moidoscopia, cistografi a ou pielografi a endovenosa. Mais recentemente, a tomografi a computadorizada com triplo contraste vem se mostrando menos inva- siva e mais efetiva, com diagnóstico em mais de 90% dos casos. c) Obstrução intestinal: pode ser tanto do in- testino delgado, por envolvimento infl amatório e aderências do intestino subjacente, como do intesti- no grosso, por compressão e envolvimento do cólon pela massa infl amatória. As manifestações clínicas e o diagnóstico são semelhantes às outras causas de obs- trução intestinal. d) Peritonite difusa: é uma complicação infre- quente. Pode ser causada pela perfuração direta de um divertículo ou em consequência da ruptura de um abs- cesso peridiverticular. DD: diverticulite “Apendicite do lado esquerdo” • Dor em FIE • Febre moderada • Anorexia • Constipação • Raramente diarreia Raramente: • Fístula colovesical ou colovaginal • Peritonite difusa Tabela 9.4 Hinchey e colaboradores classifi caram as perfurações em quatro graus: I. Abscesso pericólico localizado II. Abscesso distante (retroperitoneal ou pélvico) III. Peritonite generalizada causada por ruptura de abscesso pericólico ou pélvico (não comunicante com a luz do cólon) IV. Peritonite fecal (perfuração comunicante com a luz do cólon) Tabela 9.5 Classifi cação de Hinchey modifi cada por Wasvary Estágio 0 Diverticulite leve – perfuração Estágio Ia Infl amação ou fl eimão pericólicos confi nados Estágio Ib Abscesso pericólico confi nado Estágio II Abscesso pélvico, retroperitoneal ou intra-abdo- minal distante Estágio III Peritonite purulenta generalizada Estágio IV Peritonite fecal Fístula Colovesical, Coloentérica, colovaginal, entero- cutânea Obstrução De delgado e/ou colônica Tabela 9.6 De acordo com a classifi cação de Ambrosetti e colaboradores (baseada nos achados tumográfi cos). podemos identifi car dois grupos de pacientes: doença moderada ou grave. Classifi cação de Ambrosetti Diverticulite moderada Espessamento localizado da parede do sig- moide maior do que 5 mm e infl amação da gordura pericólica. Diverticulite grave Presença de abscesso, ar fora de alça intestinal ou extravazamento de contraste intraluminal. Tabela 9.7 Figura 9.3 Classifi cação de Hinchey para a diverticulite. Está- gio I: diverticulite perfurada com abscesso paracólico confi nado. Está- gio II: diverticulite perfurada que fechou espontaneamente com a for- mação de um abscesso distante. Estágio III: diverticulite perfurada não comunicante com peritonite fecal (o colo do divertículo está fechado e, portanto, o contraste não será expelido livremente nas imagens radio- gráfi cas). Estágio IV: perfuração e comunicação livre com o peritônio, resultando em peritonite fecal. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201526 A hemorragia diverticular é responsável por 40% de todos os casos de hemorragia digestiva baixa. Dos pacientes com hemorragia, apenas 1/3 apresenta san- gramento maciço. Pacientes admitidos com hemor- ragia diverticular tendem a ser mais idosos do que aqueles admitidos por outras complicações de doen- ça diverticular. A hemorragia diverticular ocorre mais comumente de divertículos do lado direito, apesar da maior incidência de divertículos no cólon sigmoide nos países ocidentais; estima-se que cerca de 80% dos di- vertículos que sangram são do lado direito. A intensidade do sangramento é variável, mas na maioria das vezes é moderada ou intensa e é acompa- nhada de taquicardia, sudorese, hipotensão e mesmo choque hipovolêmico. A maioria dos casos de sangra- mento diverticular é autolimitada; entretanto, a recidi- va do sangramento pode variar de cerca de 25 a 40% e geralmente ocorre no primeiro ano após o episódio inicial de hemorragia. Um terceiro episódio de sangra- mento ocorre em 50% dos pacientes que apresenta- ram dois episódios. É muito rara a concomitância de sangramento por divertículos e diverticulite. DD: hemorragia Principal causa de HDB em idosos Divertículos do cólon direito HDB autolimitada Recidiva (25 a 40%) Associação rara com diverticulite Tabela 9.8 Abordagem diagnóstica Exames laboratoriais O hemograma geralmente revela leucocitose com desvio nuclear à esquerda. Muitos pacientes com diverticulite aguda apresentam hemograma normal ou com alterações mínimas. A urina tipo I frequente- mente mostra aumento do número de leucócitos e he- mácias em virtude de irritação ou comprometimento do ureter ou da bexiga pelo processo inflamatório. Radiografia simples do abdomePacientes com diverticulite frequentemente apresentam íleo localizado na região do processo in- flamatório e evidência de graus variados de obstrução colônica. Sinais de peritonite e pneumoperitônio são observados nos casos de perfuração. O pneumoperi- tônio é mais bem observado na radiografia anteropos- terior do tórax. Coleção líquida no quadrante inferior esquerdo e presença de ar fora de alça intestinal são sugestivas de abscesso. Clister opaco O clister opaco é o melhor método para demonstrar a presença e a extensão dos divertículos, mas é de valor li- mitado para determinar a extensão e a gravidade do pro- cesso inflamatório. Os melhores resultados são obtidos com o uso de duplo contraste e com o cólon preparado, o que não pode ser realizado no caso de inflamação aguda. A indicação de clister opaco no paciente com diverticulite aguda é controvertida. Aqueles que não são favoráveis ar- gumentam que existe a possibilidade de perfuração colô- nica com extravasamento de contraste e que atualmente existem métodos mais precisos e seguros para o diagnós- tico de diverticulite aguda. Entretanto, outros autores argumentam que o risco de perfuração é pequeno se o exame for realizado cuidadosamente. Os sinais radiológicos de diverticulite no clister opaco incluem estreitamento do cólon, geralmente do sigmoide, massa na região inflamatória e extravasa- mento de contraste. Esses sinais podem estar ausen- tes no paciente com diverticulite aguda, mesmo nos complicados. Somente a presença de divertículos indica diverticulose e não diverticulite. Uma vez que diverti- culite é essencialmente uma doença extramural, o clis- ter opaco pode subestimar a extensão da doença. Estudos com contraste hidrossolúvel são mais úteis para o diagnóstico nos casos de diverticulite. São tecnicamente mais fáceis, uma vez que não é necessá- rio preparo do cólon e o contraste usado é muito me- nos viscoso do que o bário. É claro que os detalhes da mucosa são muito inferiores aos do estudo com bário. Diverticulite aguda - Achados ao clister opaco Fístulas (intramural, externa ou trajeto para estruturas adjacentes) Abscesso comunicante com ou sem efeito de massa Extravasamento do contraste Estreitamento segmentar com limite afunilado do cólon Distorção do pregueado mucoso Tabela 9.9 Ultrassonografia Em razão de sua ampla disponibilidade, a ultras- sonografia é frequentemente o primeiro exame de ima- gem empregado para a avaliação de uma suspeita de diverticulite. Os sinais ultrassonográficos sugestivos de diverticulite incluem dor abdominal à compres- são durante a visualização de um segmento colôni- co, o qual apresenta espessamento hipoecogênico da parede, estreitamento ou obstrução completa da luz, região de hiperecogenicidade envolvendo o processo inflamatório (gordura pericólica e omento-inflamação pericólica), diminuição da motilidade intestinal, hi- pertrofia da musculatura lisa, aparência de “alvo” no corte transverso (devido a alterações inflamatórias e espessamento muscular), abscesso e sinais de com- pressão do ureter (hidronefrose unilateral, quase sem- 9 Doença diverticular 27 pre à esquerda). O abscesso é limitado por um halo hi- perecogênico e frequentemente por parede espessada de alças intestinais. A associação da ultrassonografi a transabdominal à ultrassonografi a transretal aumenta a sensibilidade desse método para o diagnóstico espe- cialmente de diverticulite de sigmoide. Diverticulite aguda - Achados à ultrassonografi a Espessamento da parede do cólon > 5 mm numa extensão > 5 cm Abscesso intramural Abscesso pericólico Fístulas intramurais Coleção ecogênica de gás na parede (divertículo) Infi ltração da gordura pericólica Tabela 9.10 Tomografi a computadorizada A tomografi a computadorizada é o método mais valioso para a avaliação da diverticulite aguda. Apre- senta sensibilidade e especifi cidade superiores a 90%, variando de 85 a 97%, no entanto não existe necessida- de de realizar tomografi a computadorizada na maioria dos pacientes com diverticulite não complicada. Suas principais indicações são: 1. dúvida diagnóstica; 2. suspeita de complicação, como abscesso e fístula; 3. não melhora do paciente com o tratamento clínico; 4. paciente imunodeprimido, como o que apresen- ta AIDS ou que toma corticoide, porque a avaliação clíni- ca pode não indicar com precisão o estado do paciente. Entretanto, a tomografi a computadorizada vem sendo utilizada cada vez mais para determinar fatores prognós- ticos, pois estudos prospectivos recentes demonstraram que a tomografi a computadorizada tem a especifi cidade de 98 a 100% no diagnóstico de diverticulite aguda. Além de permitir estabelecer o diagnóstico e a gravida- de da diverticulite aguda com elevada precisão, a tomografi a computadorizada pode ser útil para guiar a colocação de ca- teteres para a drenagem percutânea dos abscessos. A drena- gem percutânea é geralmente um procedimento simples, que pode ser realizada com anestesia local, com sedação leve. Diverticulite aguda Achados à tomografi a computadorizada Divertículos colônicos Infi ltração ou abcessos na gordura pericólica Espessamento circunferencial da parede colônica Fístulas Abcesso pélvico e/ou peritonite Abcesso fístula intramural Abcesso ou infi ltração do mesocólon Diverticulite aguda Achados à tomografi a computadorizada (cont.) Obstrução colônica Compressão do ureter Trombose séptica de veia porta Tabela 9.11 Figura 9.4 Tomografi a computadorizada mostrando drena- gem percutânea de abscesso como complicação de uma diverticulite aguda. A: seta apontando para topografi a do abscesso no cólon sig- moide; B: drenagem guiada por cateter inserido na loja do abscesso; C: resolução do abscesso e retirada do cateter. Endoscopia A endoscopia do intestino grosso (retossigmoi- doscopia e colonoscopia) é raramente indicada na pre- sença de diverticulite em virtude da possibilidade de perfurar o cólon, da difi culdade ou impossibilidade de ultrapassar a região do retossigmoide pela presença da infl amação e por ser de pouca utilidade para es- tabelecer o diagnóstico e a avaliação da gravidade da diverticulite. Entretanto, a retossigmoidoscopia com insufl ação mínima de ar está indicada quando houver dúvida diagnóstica e necessidade de excluir neoplasias ou doenças infl amatórias do intestino. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201528 Tratamento Em pacientes sem outros comprometimentos orgânicos, o tratamento pode se limitar a uma dieta lí- quida e antibióticos orais (cefalosporina, sulfa ou me- tronidazol), mesmo em ambulatório (ciprofloxacina ou amoxacilina/clavulanato são possíveis opções de antibioticoterapia via oral). Por outro lado, na presen- ça de distensão abdominal importante, vômitos ou fe- bre, o paciente deve ser internado, permanecer em je- jum e com hidratação e antibióticos endovenosos. Em geral sonda nasogástrica não é necessária, a menos que o paciente apresente oclusão intestinal eviden- te ou esteja vomitando. Anticolinérgicos podem ser eventualmente empregados em pacientes muito sin- tomáticos por causa da hipermotilidade do cólon. Os antibióticos mais empregados são as cefalosporinas ou a combinação de aminoglicosídeos com anaerobicidas. Tratamento cirúrgico Poucos pacientes são submetidos à cirurgia por ocasião do primeiro episódio de diverticulite não com- plicada. A indicação fica reservada para os mais jovens e imunossuprimidos. O procedimento de escolha é res- secção primária sem ostomia de proteção. A indicação de ressecção após episódios recor- rentes de diverticulite mudou nos últimos anos. O tratamento cirúrgico após o quarto episódio de diverticulite, em vez do segundo, resultou em menor incidência de óbitos por colostomia. É fundamental levar em consideração caso a caso, a faixa etária, frequência, gravidade e intervalo dos epi- sódios. Decidido a cirurgia, o procedimento de escolha é a ressecção com anastomose primária. Diverticulite:Estágios I e II Abscesso < 5cm Abscesso > 5cm • Dieta zero • HV e reposição eletrolítica • Analgesia • ATB • Dieta zero • HV e reposição eletrolítica • Analgesia • Drenagem percutânea Piora clínica apesar da drenagem, ou impossibilidade de drenagem Discutir cirurgia • Observação clínica • Piora clínica após 48h Reavaliar com TC Progressão do abscesso, avaliar drenagem percutânea Figura 9.5 Algoritmo de tratamento da diverticulite. Aqueles pacientes em quem não foi possível a drenagem efetiva ou com persistência dos sintomas devem ser submetidos à colectomia parcial com colos- tomia proximal (cirurgia de Hartmann). A drenagem do abscesso e a colostomia em alça têm piores resulta- dos do que a proposta anterior. Na presença de condições clínicas favoráveis, pouco conteúdo fecal ou possibilidade de preparo transoperatório, reduzida contaminação peritoneal e equipe cirúrgica habilitada, a anastomose primária pode ser realizada, com ou sem ostomia de proteção, com morbimortalidade semelhante ou menor do que os procedimentos em dois ou três tempos. Diverticulite: Estágios III e IV Unidade de tratamento intensivo Medidas de suporte ATB • Cirurgia de urgência • Cirurgia de Hartmann (preferível) • Ressecção com anastomose primária com ou sem ileostomia (estágio III) Figura 9.6 Algoritmo de tratamento da diverticulite. A diverticulite com perfuração livre é uma com- plicação incomum da diverticulite aguda, porém apre- senta mortalidade elevada, da ordem de 6 a 35%. O quadro exige medidas imediatas de ressuscitação, an- tibióticos de amplo espectro e tratamento cirúrgico de urgência. O procedimento indicado é a ressecção do segmento comprometido com colostomia (mortalida- de em torno de 12%). Um procedimento de drenagem, com ou sem sutura de perfuração, resulta em mortali- dade elevada, em torno de 28%. Na presença de importante contaminação fecal ou infecciosa, indica-se a ressecção do segmento do- ente e colostomia terminal do segmento proximal. A cirurgia mais utilizada é a cirurgia de Hartmann, com mortalidade relatada entre 2 e 36%. A reversão do trânsito intestinal poderá ser realizada em torno de três meses (variações relatadas entre seis semanas e seis meses). Perfuração É uma emergência cirúrgica e requer ressuscita- ção imediata e tratamento cirúrgico. As opções cirúr- gicas já foram descritas previamente, sendo o procedi- mento de Hartmann ainda um dos mais empregados nos casos de perfuração. 9 Doença diverticular 29 Fístula A incidência relatada de fístulas é de apenas 2% em pacientes com diverticulite e é indicação de cirur- gia em 17 a 27%. As fístulas colovesicais são as mais comuns, e vem ocorrendo um aumento da incidên- cia de fístulas colovaginais, possivelmente devido ao maior índice de histerectomias nos últimos anos. A cistoscopia foi o método diagnóstico de escolha; en- tretanto, a tomografa computadorizada com triplo contraste parece ser superior porque é menos invasi- va e faz o diagnóstico de fístula colovesical em mais de 90% dos pacientes. As opções cirúrgicas incluem: 1. fechamento primário da fístula, colostomia protetora isolada ou como parte de um procedimento em dois ou três estágios; 2. fechamento da fístula com ressecção e anastomose primária; e 3. fechamento da fístula e procedimento de Hartmann. Geralmente as cirurgias para correção de fístulas são eletivas, e o procedimen- to em estágio único com ressecção e anastomose pri- mária pode ser realizado com segurança em mais de 75% dos casos. A sondagem vesical no pós-operatório é mantida por pelo menos sete dias. A endoscopia pode ser indicada em alguns casos, colocando-se co- las biológicas e clipes e eventualmente próteses por via endoscópica ou radiológica. Obstrução A obstrução aguda durante um episódio de di- verticulite usualmente é autolimitada e responde bem ao tratamento clínico. Em alguns casos, podem ser re- alizadas drenagens endoscópicas com drenos ou com próteses. As estenoses crônicas requerem colonosco- pias para excluir neoplasias. Se estas não podem ser excluídas, mesmo após as avaliações colonoscópicas, tomográfi cas, ultrassonográfi cas e radiológicas, o paciente deve ser submetido à ressecção colônica da área afetada. O procedimento proposto na vigência de obstrução por doença diverticular é a cirurgia de Hartmann. Em casos selecionados o preparo transo- peratório pode ser realizado, com colectomia parcial e anastomose primá ria. Nas situações críticas, a trans- versostomia em alça é aceitável. Hemorragia Embora o sangramento por DDC seja a principal causa de HDB, raramente ele é associado com diver- ticulite. Quando ocorre, também pode ser avaliado e tratado endoscopicamente com injeções de vasocons- tritores (adrenalina), esclerosantes (etanolamina), cli- pagens etc. Se o sangramento recorrer ou persistir, pode-se realizar o tratamento por arteriografi a ou cirurgia, de- pendendo das condições clínicas do paciente. Cirurgia laparoscópica A colectomia laparoscópica (sigmoidectomia) para diverticulite envolve uma dissecção mesocóli- ca e pericólica extensa, com ligação de vários vasos calibrosos e remoção do cólon comprometido com a realização de anastomose, a qual na maioria das vezes é realizada por meio de grampeadores (anas- tomose mecânica). A ressecção da peça pode ser realizada pela via totalmente laparoscópica, com remoção através do reto, da vagina, ou por minila- parotomia. O método totalmente laparoscópico tem a vantagem de não realizar nenhuma incisão além de 1,5 cm de extensão; entretanto pode ocasionar traumatismos de reto ou vagina. Além disso, o custo é mais elevado. A incisão da minilaparotomia é um procedimento mais seguro e pode ser realizado na fossa ilíaca esquerda, de forma que a peça pode ser retirada e proceder à anastomose manual ou mecâ- nica. A anastomose mecânica é a mais preconizada, com a colocação de um grampeador endoluminal pela via transanal. Não existem contraindicações absolutas para a cirurgia laparoscópica de lesões benignas do cólon, a não ser as relativas à anestesia geral. A presença de ci- rurgia colônica prévia é uma contraindicação relativa. Figura 9.7 Clister opaco: doença diverticular. Figura 9.8 Clister opaco: estenose colônica e abscesso pericóli- co. Contraste fora do lúmen intestinal. poliposes Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201530 Figura 9.9 Clister opaco: divertículos e estreitamento da luz do cólon, sendo necessário excluir a presença de adenocarcinoma. Figura 9.10 Enema opaco. Doença diverticular do colo e perfu- ração de um divertículo (seta). Figura 9.11 Clister opaco: doença diverticular. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo poliposes 14 Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201532 Introdução Pólipo é qualquer lesão que surja na superfície interna do trato gastrointestinal, projetando-se para a luz do mesmo. A classificação do pólipo é realizada conforme a tabela abaixo: Classificação geral dos pólipos Pólipos Neoplásicos • Malignos (adenocarcinoma) • Benignos (adenoma) Não neoplásicos • Hiperplásicos (metaplásicos) • Inflamatórios (presentes nas doenças inflamatórias intestinais) • Hamartomatosos (pólipos juvenis) Tabela 14.1 Os pólipos podem ser pedunculados ou sésseis, solitários ou múltiplos, achados isolados ou parte de síndro- mes hereditárias. Podem assumir duas complicações básicas: possibilidade de sangramento (todos) e de malignização (pra- ticamente exclusiva dos adenomas). Os pólipos pedunculados possuem um pedículo (região estreitada por onde penetram nos vasos sanguíneos que nutre o pólipo) e uma cabeça (porção dilatada em cuja extremidade costuma haver necrose por déficit de irrigação e sangramento). Pólipos adenomatosos (adenomas) São os tumores mais frequentes do intestino grosso, correspondendo a 70% de todos os pólipos. Sua incidência aumenta com a idade, chegando a acometer um terço dos indivíduos com maisde 50 anos. Segundo a histopatologia, podem ser: tubulares (de melhor prognóstico), vilosos (pior prognóstico) ou tubulovilosos. Há superposição entre essas categorias. Por convenção, os adenomas tubulares exibem uma arquitetura mais de 75% tubular (menos de 25% vilosa); os vilosos, mais de 50% vilosa; e os tubulovi- losos, 25 a 50% vilosa. Os adenomas tubulares (87% dos casos) são pequenos, esféricos, pedunculados e de superfície lobulada. No início de seu desenvolvimento são lisos e sésseis – a tração da massa em crescimento leva à formação do pedículo. Além da mucosa, esse pedículo é composto por tecido fibromuscular e vasos sanguíneos proeminentes derivados da submucosa. Os adenomas vilosos (5% dos casos) tendem a ser grandes e sésseis, com superfície aveludada semelhante à couve-flor. Eles se projetam 1 a 3 cm acima da mucosa normal circundante. Sua histologia é composta de extensões viliformes semelhantes a folhas da mucosa (projeções vilosas), cobertas por epi- télio colunar displásico. Os adenomas tubulovilosos (8% dos casos) são uma mistura dos dois padrões apontados acima. Os pólipos adenomatosos são conhecidamente lesões pré-malignas, que antecedem de 10 a 15 anos o adenocarcinoma colorretal. Por conta disso, todo pólipo detectado no intestino grosso deve ser ressecado e sub- metido a minuciosa análise histopatológica. Estima-se que 8% dessas lesões sofram transformação maligna em dez anos. Todos os adenomas são displásicos, com modificação do padrão nuclear e aumento das figuras de mi- tose. Essa displasia pode ser de diferentes graus – leve, moderada ou grave. Quando presente, a displasia intensa é en- contrada tipicamente nas áreas vilosas – mesmo nos adenomas tubulares. A displasia de alto grau (grave) também é chamada de carcinoma in situ. Os fatores de risco para a malignização da neoplasia são: o tamanho do tumor (principalmente aqueles com mais de 2 cm), o tipo histológico da lesão (adenomas vilosos) e o seu grau de displasia (elevado). 14 Poliposes 33 Frequência relativa dos adenomas: relação da histologia com o tipo, tamanho e o grau de displasia Tipo do adeno- ma Tamanho do adenoma% Grau da displasia% < 1 cm 1-2 cm > 2 cm Leve Moderada Severa Tubular 77 20 4 88 8 4 Tubuloviloso 25 47 29 58 26 16 Viloso 14 26 60 41 38 21 Tabela 14.2 Relação do tamanho do adenoma, tipo histológico e grau da displasia para carcinoma invasivo Paciente com carcinoma Tamanho do adenoma, cm Tipo histológico Grau da displasia Tubular Tubuloviloso Viloso Leve Moderada Severa < 1 1 4 10 0.3 2 27 1-2 10 7 10 3 14 24 > 2 35 46 53 42 50 48 Tabela 14.3 Manifestações clínicas, diagnóstico e conduta A maioria dos pacientes é assintomática. Porém, quando ocorrem sintomas, a hematoquezia é a queixa mais comum. Um pólipo viloso grande pode se associar à diarreia mucoide profusa e um pólipo retal de pedículo grande pode prolapsar através do ânus. Ao exame físico, a inspeção das mu- cosas pode evidenciar anemia. Outro dado relevante é que os pólipos retais podem ser palpáveis pelo toque. Os adenomas podem ser detectados no intestino grosso por enema (clister) opaco, retossigmoidoscopia e colonoscopia. Como frequentemente são múltiplos e coexistem com câncer, a colonoscopia é obrigatória. Por meio da colonoscopia, todos os pólipos color- retais devem ser removidos para estudo histopatológico. A excisão é ao mesmo tempo diagnóstica e terapêutica. Pelo risco de perfuração ou sangramento em mãos me- nos experientes, um pólipo séssil maior que 3 cm ou que esteja localizado numa área de difícil acesso pode indicar remoção por laparotomia ou laparoscopia. O aspecto ma- croscópico não diferencia os diversos tipos de pólipo. É importante frisar que a retirada dos adenomas reduz comprovadamente a incidência de câncer color- retal no futuro. A ressecção endoscópica é sufi ciente quando o pólipo retirado tiver margens macro e microscópi- cas livres, histologia bem diferenciada, ausência de invasão linfática ou venosa e ausência de invasão do pedículo (no caso de um pólipo pedunculado). É importante o acompanhamento pós-polipecto- mia, pois a chance de novos pólipos é de 30 a 40% após três anos. Nova colonoscopia deve ser realizada após três anos e, na ausência dos mesmos, a cada cinco anos. Nos casos em que a polipectomia foi considerada sufi ciente para o tratamento de pólipos adenomatos com foco de degeneração maligna, a revisão do local da polipectomia deve ser realizada após três meses. A indicação de ressecção cirúrgica segmentar nos pacientes com malignidade associada a pólipos endos- copicamente ressecados baseia-se no risco de metásta- ses para os linfonodos regionais. De acordo com a classificação de Haggitt e co- laboradores, os níveis 1 a 3 apresentam um risco muito baixo de metástases. O nível 0 corresponde ao estágio pré-maligno e portanto, sem risco de metástases. Devido à ausência de pedículo, um pólipo ssésil com carcinoma invasivo é classificado como nível 4 de invasão e o potencial de metastati- zação é de 5 a 10%. Classifi cação de Haggitt Nível Descrição do nível de invasão 0 Carcinoma in situ 1 Carcinoma limitado à cabeça do pólipo 2 Carcinoma limitado ao cólon do pólipo 3 Carcinoma estendendo-se ao pedículo 4 Carcinoma invadindo a submucosa da parede ins- testinal Tabela 14.4 A presença de lesões polipoides com nível de invasão 4 e as incompletamente removidos são indicações de ressecção cirúrgica segmentar. De acordo com a classifi cação de Kikuchi e cola- boradores as lesões são classifi cadas de acordo com os níveis de invasão de submucosa (sm) de 1 a 3. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201534 sm1: invasão no terço superior da submucosa. sm2: invasão no terço médio da submucosa. sm3: invasão no terço inferior da submucosa. Nas lesões sm1 e sm2: polipectomia completa. Nas lesões sm3: ressecção colorretal seg- mentar. Outros fatores de risco incluem a pouco dife- renciação presença de metástases linfáticas ou invasão venosa. Nestes casos a indicação é também ressecção colorretal segmentar. Pólipos não neoplásicos São pólipos que não sofrem alterações malig- nas. Podem ser formados em decorrência de matu- ração anormal, inflamação ou arquitetura anormal da mucosa. Pólipos hiperplásicos Respondem por 20% dos pólipos de cólon e pela maioria dos pólipos do reto e sigmoide distal. Tendem a ser sésseis, pequenos e assintomáticos. São protru- sões hemisféricas lisas e úmidas da mucosa. Nessas lesões, ocorre descamação tardia de células epiteliais superficiais, produzindo um perfil serreado no epitélio das criptas glandulares do órgão. Pólipos juvenis São lesões relativamente raras, a maioria esporádica, predominando em pessoas com menos de 20 anos. Mais frequentes no reto, são malformações hamartomatosas focais dos elementos da mucosa (a lâmina própria consti- tui a maior parte do pólipo). Hamartomas são estruturas que resultam de crescimento celular focal excessivo, com- posto por células maduras normais, que, apesar de serem idênticas às do tecido sadio, não reproduzem a arquitetura normal dos tecidos vizinhos. Geralmente, são peduncula- dos e grandes (1 a 3 cm de diâmetro). São constituídos por múltiplos cistos repletos de muco (glândulas abundantes cisticamente dilatas), com edema e inflamação do estro- ma. Sua superfície pode ser congesta ou erodida. Pólipos inflamatórios Típicos das doenças inflamatórias intestinais pro- longadas (doença de Crohn e retocolite ulcerativa), essas lesões são, na verdade, pseudopólipos, pois representam ilhas de mucosa inflamada em regeneração, circundadas por áreas ulceradas. Síndromes hereditárias de polipose As síndromes poliposas familiares estão na tabela a seguir, com seus respectivos potenciais de malignização colorretal. Vide tabela abaixo: Síndromes poliposas familiares e seus potenciais de malignização colorretal Malignização colorretal Poliposes familiares Poliposes Adenomatosas Familiares (PAF)PAF clássica Sim Variantes da PAF Síndrome de Gardner Síndrome de Turcot Sim Sim Poliposes Hamartomatosas Familiares (PHF) Síndrome de Peutz-Jeghers Polipose Juvenil Síndrome de Cowden Possível Possível Rara Tabela 14.5 Polipose Adenomatosa Familiar Descrita por MENZELIO em 1721, a polipose adenomatosa familiar (PAF) é doença hereditária de caráter autossômico dominante, sendo responsável por apenas 1% dos casos de câncer colorretal (CCR) na po- pulação. O defeito genético localiza-se no gene APC (Adenomatous Polyposis Coli) situado no braço lon- go do cromossomo 5q21. Em aproximadamente 20% dos casos, a doença pode ser decorrente de mutações genéticas. Do ponto de vista clínico, a doença geral- mente se manifesta na puberdade, com o aparecimento de pólipos adenomatosos na mucosa colorretal. Sinto- matologia associada em geral sucede o aparecimento dos adenomas na segunda década de vida. A natureza adenomatosa e a enorme quantidade de pólipos tor- nam a possibilidade de degeneração maligna preocu- pação importante em pacientes não tratados, em que o desenvolvimento de CCR é regra, surgindo em média dez anos após o desenvolvimento dos pólipos. Filhos de indivíduo afetado têm risco de 50% de herdar o gene. Após a identificação do paciente chamado “índice”, a realização de teste genético facilita a identificação mais acurada dos familiares eventualmente acometidos, per- mitindo focar o rastreamento e o tratamento profilático somente naqueles com risco. Desta forma, assume fun- damental importância a detecção precoce de pacientes com esta afecção, seu adequado tratamento pela co- 14 Poliposes 35 lectomia profi lática e rastreamento de familiares para identifi car eventuais portadores do defeito genético. Desde a descrição original de polipose associada a cistos epidermoides e osteoma, a combinação de PAF e manifestações extracolônicas (MEC) é comumen- te referida como síndrome de Gardner. Subsequen- temente, reconheceu-se que a PAF é uma pan-polipose gastrointestinal, que pode estar associada a numerosas MEC, benignas e malignas. Além do cólon e reto, póli- pos podem ser encontrados também no trato digesti- vo superior (estômago e duodeno), intestino delgado, tireoide, adrenais, pâncreas e hipófi se. Outras MEC benignas incluem cistos sebáceos, lipomas, osteomas, dedos hipocráticos, anormalidades dentárias (dentes supranumerários), lesões da retina e tumores desmoi- des. Entre as manifestações malignas, foram reporta- dos tumores na região periampular, de ductos biliares, gástricos, no íleo (carcinoma e carcinoide), tireoide, suprarrenal e sistema nervoso central. Como a doen- ça não é confi nada ao cólon e as MEC podem ser causa importante de morbimortalidade, torna-se importante diagnosticar, prevenir e tratar essas manifestações. Manifestações Incidência (%) Cistos epidermoides 50 Osteomas 14-93 Tumor desmoide 4–29 Tumor de intestino delgado raro CHRPE 58-92 Tumor hepatobiliar < 1 Tumor do SNC raro Tumor de tireoide Risco em mulheres 20-160 vezes > população geral Polipose de glândulas fún- dicas 23-56 Pólipos hiperplásicos 8-44 Adenoma gástrico 2-13 Carcinoma gástrico < 1 Adenoma duodenal 24-100 Carcinoma duodenal Desconhecido 50-300 ve- zes > população geral Tabela 14.6 Incidência das manifestações extracolônicas da polipose adenomatosa familiar reportadas na literatura. Manifestações extracolônicas (MEC) A PAF constitui síndrome genética de caráter dominante, caracterizada por maior predisposição em desenvolver CCR e outras lesões extracolônicas. Está associada a mutações germinativas no gene APC que codifi ca uma proteína com 2.843 aminoácidos, com funções na regulação do crescimento e prolifera- ção celular, gerando assim o desenvolvimento de le- sões benignas e malignas em diferentes órgãos. A PAF e a síndrome de Gardner se originam de mutações no mesmo gene, sem alteração na locali- zação ou natureza das mutações, mas com expres- sões fenotípicas variáveis. A associação de polipose com tumores do sistema nervoso central é conhecida como síndrome de Turcot. Nesta síndrome, descre- veram-se mutações no gene APC (dando origem a tu- mores do tipo meduloblastoma e astrocitoma) e nos genes de reparo associados ao HNPCC (dando origem a glioblastomas). Aproximadamente 96% das muta- ções na PAF determinam a formação de uma proteína truncada, que é determinada pela realização do teste de proteína truncada ou IVSP (In Vitro Synthesized- protein Assay). As MEC mais comumente diagnosticadas são as lesões da retina, originalmente interpretadas como congênitas (hipertrofi a congênita do epitélio pigmentar da retina, cuja sigla em inglês é CHRPE), que podem aparecer em até 90% dos parentes de um portador de PAF. Embora achados histopatológicos in- diquem que o termo “hamartomas do epitélio pigmen- tar da retina” seja mais apropriado para designar essas lesões, o termo CHRPE é o mais aceito e continua a ser usado. Alguns autores sugeriram que a existência de quatro ou mais lesões CHRPE distribuídas em am- bos os olhos seria um marcador fenotípico da polipose que, quando diagnosticado em determinada família, também seria encontrado em todos os pacientes do mesmo grupo familiar. Desta forma, a CHRPE pode- ria facilitar a detecção de mutações constitucionais do APC em parentes. A sensibilidade do CHRPE em pa- cientes com PAF é de cerca de 70%, com valor prediti- vo positivo de cerca de 92%. Ressaltaram, porém, que a ausência de lesões na retina não elimina a necessida- de de seguimento adequado de indivíduos com risco. Síndromes relacionadas à polipose adenomatosa familiar Síndrome Gene e mecanismo Tumores associados PAF e Gardner • APC • Autossômico dominante Desmoides, periampu- lar, duodenal, gástrico, intestino delgado PAF atenuada • APC • Autossômico dominante Mesmo da PAF Turcot • APC e genes de reparo do DNA • Autossômico recessivo Cérebro Tabela 14.7 PAF: polipose adenomatosa familiar; APC: adenomatous polyposis coli. Tumores desmoides (TD) e lesões da retina (CHRPE) segregam-se independentemente de ou- tras MEC. Em pacientes com PAF, as principais causas de mortalidade são os TD, as neoplasias colorretais e periampulares. Apesar de histologicamente benignos Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201536 (lesões fibromatosas), os TD podem exibir compor- tamento biológico agressivo, com invasão local, mas não metastatizam. Formam tumores encapsulados, de crescimento lento, podendo surgir no mesentério, parede abdominal, incisões, retroperitônio, virilha e nádegas; eventualmente regridem espontaneamente e podem ser multifocais. Quando pequenos, os TD podem ser assintomáti- cos. À medida que crescem, podem determinar sintomas relacionados a complicações como compressão ureteral, obstrução intestinal, infiltração de outros órgãos, fístulas e oclusão vascular. Morte sobrevém em média seis anos após o diagnóstico, principalmente se estiver localizado no mesentério e retroperitônio. Embora a manipulação cirúrgica mínima possa determinar menos complicações e menor risco de desmoides, a prevalência desses tumo- res não é maior em pacientes submetidos a bolsa ileal, em comparação a outros procedimentos. As opções para tratamento incluem cirurgia, ra- dioterapia (questionada) e quimioterapia com drogas citotóxicas e não citotóxicas. A ressecção cirúrgica completa é raramente possível em TD mesentéricos devido à extensão da ressecção e ao alto risco de re- cidiva. Dessa maneira, a cirurgia deve ser reservada para alívio da obstrução, preferindo-se procedimentos de bypass aos de ressecção. O carcinoma periampular é a forma mais co- mum de câncer extracolônico, com risco em vida estimado em 10 a 12% e é responsável por grande número de mortes por câncer pós-colectomia total. Estima-se que o risco de carcinoma da tireoide associado à PAF seja 100 a 160 vezes superior ao da população geral. Os osteomas foram primeiramente descritos porGardner e Richards, em 1953. Podem ocorrer em qualquer osso, embora sejam mais comuns na face (particularmente no ângulo da mandíbula) e me- nos frequentes em ossos frontais e occipitais. São tumores benignos, embora possam causar sintomas por crescimento local. Já foram descritos dois casos de sarcoma osteogênico. Ocasionalmente aparecem antes do diagnóstico da polipose, podendo sugerir a herança do gene em descendentes de indivíduos afeta- dos. A incidência relatada (14 a 93%) é bastante vari- ável, refletindo diferenças na assiduidade com que se procura tais lesões, na interpretação das radiografias e na idade em que são pesquisadas. Poliposes Hamartomatosas Familiares (PHF) Encerram um grupo de doenças autossômicas dominantes caracterizadas pelo desenvolvimento de pólipos hamartomatosos ao longo do trato gastroin- testinal. A hematoquezia e a anemia ferropriva são complicações típicas. Polipose juvenil familiar caracteriza-se pelo aparecimento de dez ou mais pólipos hamartomato- sos (juvenis), predominando no cólon. Costuma se manifestar entre 4 e 14 anos de idade. Alguns pólipos adquirem focos adenomatosos, apesar da natureza hamartomatosa das lesões. A síndrome de Cowden é uma polipose juvenil familiar associada a pólipos hamartomatosos em pele e mucosas, além de outros tumores faciais, orais e hiperqueratose palmoplantar. Na síndrome de Peutz-Jeghers, numerosos pólipos dispõem-se ao longo de todo o trato gastroin- testinal associados a machas melanóticas na pele e mucosas. Os hamartomas dessa síndrome diferem dos pólipos juvenis por possuírem tecido muscular liso, em continuidade com a muscular da mucosa, envolvendo o tecido glandular – são os pólipos de Peutz-Jeghers (raramente, esses pólipos podem ser encontrados de forma isolada e sem os demais componentes da sín- drome). Os pólipos costumam predominar no intesti- no delgado, podendo levar a uma intussuscepção. Há também um aumento no risco de cânceres extrain- testinais – essas neoplasias (como os carcinomas de pâncreas, mama, ovário e útero) chegam a acometer até 50% dos indivíduos portadores dessa síndrome. Um aumento no risco de adenocarcinoma de del- gado e de câncer colorretal também é evidenciado nesses pacientes (podem surgir focos adenomato- sos nos hamartomas da síndrome). A Cronkhite-Canadá é uma polipose hamarto- matosa gastrointestinal difusa, associada a hiperpig- mentação cutânea, alopécia, distrofia do leito ungueal. A doença de Cowden (DC) caracteriza-se por múl- tiplos hamartomas de origem endo, ecto e mesodérmica; descrita primeiramente por Lloyd e Dennis em 1963 tem até hoje cerca de 150 casos relatados. Sua tríade der- matológica clássica compõe-se de tricolemomas faciais múltiplos, fibromas orais e queratoses acrais benignas. Afeta múltiplos órgãos e é associada a vários graus de de- generação maligna das mamas, tireoide e cólon, entre ou- tros. É de transmissão autossômica dominante. O gene de suscetibilidade para a DC foi designado PTEN (Phospha- tase and Tensin Homologue Deleted on Chromosome 10) por Li e colegas em 1997, sendo esse um gene de supressão tumoral. Mutações nesse gene localizado no cromossoma 10 estão associadas tanto à DC como à síndrome Ban- nayan-Riley-Ruvalcaba. As lesões mucocutâneas são as mais representativas da doença e consistem de: � pápulas liquenoides achatadas da cor da pele normal de distribuição centrofacial com tendên- cia ao agrupamento ao redor dos olhos, do nariz e da boca. Podem ser encontradas no pescoço. Não são encontradas no restante do corpo; � lesões verrucosas papilomatosas filiformes que tendem a se agrupar ao redor de ouvidos, olhos, nariz e boca; � pápulas achatadas hiperqueratósicas semelhan- tes a verrugas planas no dorso das mãos e pu- nhos, que não aparecem no dorso dos pés; 14 Poliposes 37 � queratoses translucentes nas palmas, plantas e face lateral de mãos e pés, que lembram as que- ratoses arsenicais; � lipomas múltiplos; � angiomas cutâneos; � lesões papulosas no palato e nas gengivas, de di- âmetro variando de 1 a 3 mm, com tendência a coalescer, e aspecto de paralelepípedo; � lesões papilomatosas e verrucoides na mucosa bucal, orofaringe e laringe; � língua escrotal. Quanto ao acometimento extracutâneo, a ti- reoide é o órgão mais afetado (60%), sendo o adeno- ma de tireoide o tumor mais comum encontrado na síndrome. As alterações extracutâneas envolvem, além da tireoide (adenoma, carcinoma), mamas (doença fi - brocística, carcinoma), trato gastrointestinal (polipose, diverticulose), ovários (cistos e tumores). Podem ser encontrados hidrocele, cisto tireoglosso, dedos supra- numerários, ganglioneuroma da mão, meningioma do canal auditivo, pólipos de bexiga, craniomegalia, retar- do mental, lesões oculares múltiplas, pectus excavatum, lesões prostáticas. Anormalidades do trato respiratório associadas à doença são raramente relatadas na litera- tura e incluem pólipos de laringe, cistos pulmonares, malformações arteriovenosas e hamartomas. Já foram descritas lesões pulmonares e colônicas de aspecto li- pomatoso. No caso original, descrito em 1963, foram relatados fáscies adenoide com hipoplasia de maxila e mandíbula, palato em ogiva, pectus excavatum. Os tumores mais comuns relacionados à DC são de mama e tireoide, mas há também ou- tras neoplasias relatadas, como linfoma não Hodgkin, melanoma, carcinomas espinocelular e basocelular da pele, leucemia mielocítica aguda, carcinoma transicional da bexiga, lipossarcoma, tumor ovariano, carcinoma de colo uterino, car- cinoma de endométrio, carcinoma das células de Merkel, carcinoma renal, osteossarcoma, me- ningioma e glioma. O carcinoma de mama acomete proporção que varia de 30 a 50% das mulheres afetadas pela DC, sendo bilateral em um terço delas. Alguns autores re- comendam mastectomia bilateral profi lática para as mulheres afetadas que apresentam doença fi brocísti- ca avançada da mama. Homens afetados geralmente não apresentam manifestações mamárias, embora já tenha sido descrita ginecomastia nesses pacientes. Participam do diagnóstico diferencial da DC a doença de Darier, a esclerose tuberosa, a neurofi bromatose I e II, a doença de von Hippel-Lindau, a síndrome da po- lipose juvenil e a síndrome de Bannayan-Riley-Ru- valcaba, (polipose hamartomatosa associada a lesões dermatológicas típicas – aspecto lentiginoso do pênis e vulva, verrugas, acantose nigricans e hiperpigmen- tação da pele peniana –, e hamartomas na língua). Figura 14.1 Pólipo pediculado. A radiografia do cólon ascenden- te mostra um adenoma tubular com um carcinoma in situ. A cabeça do pólipo (seta larga) mostra-se como uma falha de enchimento lobulada radiotransparente, com o bário preenchendo os interstí- cios. O pedículo do pólipo (seta fina) aparece como uma falha de enchimento tubular radiotransparente. (De Rubesin SE, Stuzin N, Laufer I: Tumors of the colon. Semin Col Rect Surg 4:94, 1993; com permissão). Figura 14.2 Pólipo em sombreiro (sinal do sombreiro). O fl agran- te do cólon transverso mostra este adenoma tubular pediculado de frente como dois anéis concêntricos margeados por bário, lembrando um chapéu de aba larga. O anel externo mostra a cabeça do pólipo (seta pequena); o anel interno é o pedículo (seta longa). (De Rubesin SE, Stuzin N, Laufer I: Tumors of the colon. Semin Col Rect Surg 4:94, 1993; com permissão.) Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201538 Figura 14.3 Clister opaco evidenciando pólipos intestinais (setas). Figura 14.4 Clister opaco evidenciando polipose universal em um pa- ciente com polipose adenomatosa familiar. Figura 14.5 Cólon com inúmeros pólipos em um paciente com poli- pose adenomatosa familiar. Figura 14.6 A e B: síndrome de Peutz-Jeghers: polipose hamartoma- tosa e manchas melânicas na cavidade oral, palma das mãos e planta dos pés. 14 Poliposes 39 Figura 14.7 Síndrome de Cronkhite – Canadá. A: onicólise. B: alopecia. C: pólipos hamartomatosos.D: hiperpigmentação cutânea. Características clínicas de síndromes de câncer gastrointestinal hereditárias Síndrome Característicasclínicas Gene(s) Teste genético disponível Síndrome de Lynch (CCNPH) Alto risco de cânceres colorretal e extracolônico (do endométrio, do ovário, do trato urinárioumores de pele sebáceos); Idades jovens no diagnóstico de câncer; Sequência adenocarcinoma acele- rada; Tumores de CRC demonstram insta- bilidade de microssatélites Genes de reparo por incompatibilisade de DNA (MMR) (MLH1, MSH2, MSH6, PMS2, TACS- TD1/EPCAM) Sim Polipose adenomatosa fami- liar (PAF) 100S-1.000S adenomas colorretais que aparecem na segunda ou terceira décadas; Risco de CRC de 100%, se cólon não for removido; Risco aumentado de adenocarcino- ma duodenal e ampular; Risco de tumores desmoides. Gene supressor de tumor APC ou mu- tações bialélicas de gene de reparo por excisão de base MYH (autossômico recessivo) Sim Polipose adenomatosa ate- nuada/adenomas múltiplos 10-100 adenomas colorretais; Alto risco para CRC; ± adenomas gastrointestinais supe- riores Gene supressor de tumor APC; Gene de reparo por excisão de base MYH (autossômico recessivo). Sima Síndrome de Peutz-Jeghers (SPJ) Pólipos hamartomatosos no trato gastrointestinal (sintomas de he- morragia, invaginação intestinal); Lesões pigmentadas nos lábios; Aumento do risco de câncer de mama, câncer de pâncreas, tumores do cordão sexual Gene supressor de tumor STK-11 Sima Polipose juvenil 5 + pólipos juvenis no trato GI; História familiar de câncer de GI; Aumento do risco de CRC e outros cânceres gastrointestinais; Associada a anomalias cardíacas congênitas. Genes supressores de tumores SMAD- 4, BMPR1A Sima Síndrome de Cowden Pólipos hamartomatosos; Aumento do risco para câncer de mama e câncer de tireoide; Macrocefalia. PTEN Sima Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201540 Características clínicas de síndromes de câncer gastrointestinal hereditárias (cont.) Câncer gástrico hereditário difuso Adenocarcinoma difuso infiltrativo do estômago (linite plástica); Aumento do risco de câncer de mama. Gene supressor de tumor e-caderina/ CDH1 Sima Câncer de pâncreas familiar 3 ou mais membros da família com câncer de pâncreas; Pode estar presente como parte de outras síndromes de câncer heredi- tárias, p. ex., câncer de mama/ová- rio (CMOH), melanoma (MMMAF) ou cânceres colorretal/ginecológico (síndrome de Lynch). BRCA1/2 (CMOH) P16 (MMMAF) Genes MMR (síndrome de Lynch) PRSS1, SPINK1 (pancreatite heredi- tária) Sima Tabela 14.8 CRC, câncer colorretal; MMMAF, melanoma de mola múltipla atípica familiar; GI, gastrointestinal; CMOH, câncer de mama/ovário hereditário; CCNPH, câncer colorretal hereditário não polipose. aTeste genético tem sensibilidade limitada, com mutações detectadas em 50-70% dos indivíduos afetados. Recomendações para triagem de câncer para síndromes hereditárias de câncer gastrointestinal Síndrome Teste de triagem Frequência Síndrome de Lynch (CCNPH) 1. Colonoscopia 2. Citologia de urina 3. Ultrassom transvaginal ± biópsia do endométrio 1. A cada 1-2 anos com início aos 20-25 anos 2. Anualmente 3. Anualmente, com início entre 30-35 anos Polipose adenomatosa familiar (PAF) 1. Sigmoidoscopia ou colonoscopia até os pó- lipos serem muitos numerosos para remoção, então colectomia cirúrgica 2. Endoscopia alta 3. Ultrassom da tireoide 1. Anualmente, com início aos 10-12 anos 2. A cada 1-3 anos, dependendo da carga de pólipos, com início quando desenvolver pólipos no cólon 3. A cada 1-3 anos Polipose adenomatosa atenu- ada/ adenomas múltiplos 1. Colonoscopia 2. Endoscopia alta 1. Frequência varia, dependendo do número de pólipos 2. No diagnóstico de pólipos do cólon Síndrome de Peutz-Jeghers (SPJ) 1. Endoscopia alta 2. Imagem do intestino delgado (endoscopia por cápsula, TC ou enterografia por RM ou estudo de bário) 3. Colonoscopia 4. Imagem do pâncreas (ultrassom endoscópi- co vs. RM/ CPRM com contraste de secretina) 5. Mamografia ou ressonância magnética de mamas 6. Ultrassom transvaginal e CA-125 7. Ultrassom testicular 1. A cada 2-3 anos, com início aos 8 anos 2. A cada 2-3 anos, com início aos 8 anos 3. A cada 2-3 anos, com início aos 18 anos 4. A cada 1-2 anos, com início aos 30-35 anos 5. Anualmente, com início aos 25 anos (mulheres) 6. Anualmente, com início aos 25 anos (mulheres) 7. A cada 2 anos até os 12 anos de idade (homens) Polipose juvenil 1. Colonoscopia 2. Endoscopia alta 1. A cada 3 anos com início na puberdade, então anualmente após o desenvolvimento dos pólipos 2. A cada 1-3 anos após o desenvolvimento dos pólipos Síndrome de Cowden 1. Colonoscopia 2. Ultrassom da tireoide 3. Mamografia ± ressonância magnética das mamas 4. Ultrassom transvaginal 5. Exame de urina 1. Considerar exame de base entre 35 e 50 anos, com intervalos dependendo da carga do pólipo 2. Anualmente a partir de 18 anos de idade 3. Anualmente para as mulheres começando na idade de 30-35 anos 4. Anualmente nas mulheres pós-menopausa 5. Considerar anualmente 14 Poliposes 41 Recomendações para triagem de câncer para síndromes hereditárias de câncer gastrointestinal (cont.) Câncer gástrico hereditário difuso 1. A endoscopia digestiva alta, a partir de adolescentes, até gastrectomia profi lática 2. Mamografi a ± ressonância magnética de mama 1. Evidências sugerem que a endoscopia tem pou- ca sensibilidade, gastrectomia favorecida após os 30 anos 2. Anualmente a partir de 25 anos de idade Câncer de pâncreas familiar 1. Diversos: ultrassonografi a endoscópica, tomografi a computadorizada ou ressonância magnética podem ser consideradas 1. A determinar Tabela 14.9 TC, tomografi a computadorizada; CCNPH, câncer colorretal não polipose hereditário; CPRM, colangiopancreatografi a por ressonân- cia magnética; RM, ressonância magnética. Figura 14.9 A: língua plicata e lesões papulosas na gengiva. B: hiper- ceratose puntata plantar. Figura 14.10 A: colonoscopia na polipose familiar adenomatosa. Figura 14.8 Na região centrofacial, discretas lesões papulosas cor da pele. ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA Capítulo 2 Capítulo câncer colorretal (CCR) 15 ROTEIRO PROPEDÊUTICO BÁSICO eM GINECOLOGIA 15 Câncer colorretal (CCR) 43 Incidência e epidemiologia No Brasil, o CCR é a quarta causa de morte por câncer nos homens e a terceira nas mulheres. O câncer colorretal (CCR) é o terceiro câncer mais comum em homens (663.000 casos, 10,0% do total) e o segundo em mulheres (571.000 casos, 9,4% do total) em todo o mundo. Cerca de 60% dos casos ocorrem em regiões desenvolvidas. É mais frequente nos homens que nas mulheres (razão de sexo global da ASRs 1,4:1). Cerca de 608.000 mortes por câncer colorretal são estimadas em todo o mundo, respondendo por 8% das mortes por câncer, tor- nando-o a quarta causa mais comum de morte por câncer. Na estatística mundial a mortalidade é menor no grupo feminino. Taxa de mortalidade específi ca por sexo (por 100.000 habitantes) Homem Mulher Pulmão 14,1 Pulmão 8 Próstata 13,1 Mama 12,3 Estômago 9 Estômago 4,4 Cólon 6,2 Cólon 4,4 Tabela 15.1 Fonte: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise da Situação de Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Etiologia A etiologia do câncer colorretal é desconheci da. Mais de 70% desses carcinomas desenvol vem-se a partir de pólipos adenomatosos. Na maioria das vezes esses pólipos são assintomáticos. Os adenomas não polipoi- des do tipo plano e deprimido (correspondendo a aproxima damente 10% das lesões adenomatosas) apresen- tam uma taxa maior de malignização e são mais difíceis de serem detectados pelos exames endoscó- picos. Pólipos com mais de 1,5 cm de diâmetro e com arquitetura vilosa possuem maior probabilidade de malignização. Aproxi madamente 10% dos adenomas com 1 cm tor nam-se malignos após dez anos. As síndromes familiares, representadas pela poliposeadenomatosa familiar e pelo câncer colorretal he- reditário não polipoide, são responsáveis por aproximadamente 5% das malignidades do intestino grosso. Pacientes com retocolite ulcerativa extensa e de longa duração (mais de 10 anos), doença de Crohn, história pessoal ou familiar de câncer intestinal e as mulheres com tumor de mama, útero ou ovário também repre- sentam grupos de risco aumentado para câncer colorretal. Pacientes submetidos a ureterossigmoidostomia apresentam risco de 2 a 15% de desenvolver câncer no local da anastomose ureterossigmoide, 20 a 26 anos em média após a cirurgia. O reconhecimento dos componentes genéticos envolvidos no desenvolvimento do cân cer colorretal vem cres- cendo nos últimos anos. Mutações estão presentes como defeitos here ditários ou defeitos adquiridos por agressões ambientais. Os genes mais comumente envolvidos são o oncogene k-ras (Kirsten rat sarcoma), presente no cromos- somo 12, os genes supressores de tumor, representados pelo APC (adenomatous polyposis coli), e o MCC (Mutated in colorectal cancer) no cromossomo 5, o DCC (Deleted colon cancer) no cromossomo 18 e o p53 no cromossomo 17. � dieta: altamente gordurosa, hipercalórica e pobre em fi bras. � tabagismo: até recentemente havia evidência insufi ciente para a relação entre fumo e câncer colorretal. No entanto, o maior aparecimento de carcinomas após um período de exposição ao fumo de no mínimo 35 anos foi recentemente demonstrado. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201544 � fatores ocupacionais: inalação de pó, exposi- ção a fumaça e ocupação industrial podem ele- var o risco de câncer colorretal. � radioterapia: a irradiação da pelve está asso- ciada a maior risco de câncer do reto. � câncer de novo: ainda que a prevalência e portanto sua importância no universo de do- entes com câncer colorretal ainda esteja por ser determinada, restam poucas dúvidas de que cânceres de novo se originam a partir da mucosa colorretal sem lesão adenomatosa pre- gressa ou associada. O achado de um caso de câncer precoce na forma de lesão plana depri- mida foi inicialmente descrito por Kariya em 1977 e tem sido reportado principalmente por endoscopistas e patologistas japoneses nos úl- timos anos. É do entendimento desses pesqui- sadores que os cânceres precoces identificados em lesões planas deprimidas representam a via da carcinogênese de novo. � Bacteremia por Streptococcus bovis: por mo- tivos desconhecidos, os indivíduos com endo- cardite ou sepse causada por essa bactéria fecal têm alta incidência de tumores colorretais ocul- tos e talvez também de cânceres gastrointesti- nais altos. A triagem endoscópica ou radiológica parece aconselhável. Fatores de risco do câncer de cólon Variáveis Permanentes • Idade* • Vida sedentária • Hábitos alimentares • Peso corporal** • Tabagismo • Alcoolismo • Sexo • Síndrome do câncer colorretal hereditário (polipose familiar) • Síndrome do câncer familiar não associado à polipose (HNPCC) – Síndrome de Lynch I • Síndrome do câncer familiar (HFCC) – câncer do cólon não associado à polipose, mas relacionado com outros tipos de cânceres - (síndrome de Lynch II) • Doenças intestinais inflama- tórias (doença de Crohn e retocolite ulcerativa) Tabela 15.2 (*)A partir dos 50 anos com pico na 7ª década. (**) Obesidade. Outros fatores de risco devem ser lembrados como a ureterossigmoidoscopia, obesidade e resistên- cia insulínica. Por outro lado são fatores de proteção: dieta rica em fibras vegetais, selênio, vitaminas C e E, betacaroteno e AINH e terapia de reposição hormonal. Alterações genéticas relacionadas com hereditariedade Polipose adenomatosa familiar Decorrente de mutação no gene APC (situado no braço longo do cromossomo 5q21) e, em 5 a 10% dos casos, no gene MYH, a polipose adenomatosa familiar é caracterizada pela presença de pelo menos 100 póli- pos no intestino, podendo o paciente apresentar póli- pos gástricos e duodenais, tumores desmoides e osteo- mas, entre outras manifestações clínicas. Essa doença é transmitida por gene autossômico dominante com 100% de penetrância e, quando não tratada, resulta inva riavelmente no desenvolvimento de câncer co- lorretal a partir da quarta década de vida. Câncer colorretal hereditário não polipose Essa síndrome, também conhecida como HNPCC (Hereditary non polyposis colorectal cancer) ou síndrome de Lynch, é transmitida por gene autossô- mico dominante, com aproxi madamente 80% de pe- netrância, sendo responsável por cerca de 5 a 6% dos tumores colorretais. Algumas famílias apre sentam apenas câncer colorretal (síndrome de Lynch I), ao passo que em outras instalam-se tumores primários em ou tros órgãos, em especial no útero (em 20% das mulheres) e, também, em mama, vias urinárias, in- testino delgado, ovários, cérebro e estômago (sín- drome de Lynch II). É definida epidemiologicamente pelos critérios de Amsterdã II e ge neticamente pela identificação de mutações em genes de reparo, ocor- rendo as mutações, em torno de 90% dos casos, nos genes MSH2b (localizado no cromossomo 2p21) e o MLH1b (3p21). Agregação familiar em câncer colorretal Existem famílias em que se identificam o câncer colorretal e outros, mas sem que se possa, no presente, reconhecer a al teração genética correspondente. Aceita- -se que entre 15% e 20% dos casos de câncer afetando o cólon e o reto pertençam a esse grupo. Parentes de primeiro grau de portadores de câncer colorretal Esses indivíduos apresentam de 1,5 a 5 vezes mais risco de desenvolver esse tipo de câncer do que a popu- lação em geral, por mecanismo genético não esclarecido. 15 Câncer colorretal (CCR) 45 Cólon normal Hiperproliferação epitelial APC hMSH2 hMLH1 anormalidades (síndromes hereditárias) Anormalidades de metilação APC hMSH2 hMSH1 inativação K-ras mutação 18q deleção p53 deleção Acúmulo adicional de anormalidades genéticas Adenoma Carcinoma A B C D E F Figura 15.1 Sequência adenoma-carcinoma. A e D: focos de displasia; B e E: pólipo adenomatoso; F e C: carcinoma invasivo. Critérios clínicos para o câncer colorretal hereditário não polipoide (CCNPH) Critérios de Amsterdã (1991) Pelo menos três parentes com câncer de cólon e todos os seguintes: • Uma das pessoas afetadas é um parente em primeiro grau das outras duas pessoas afetadas • Duas gerações sucessivas afetadas • Pelo menos um caso de câncer de cólon diagnosticado antes dos 50 anos • Exclusão de polipose adenomatosa familial Critérios de Amsterdã modifi cados (1998) Mesmos critérios de Amsterdã, exceto que o câncer deve ser as- sociado com CCNPH (cólon, endométrio, intestino delgado, ure- ter e pelve renal) em vez de especifi camente câncer de cólon Critérios de Bethesda (2003) Um dos seguintes critérios deve ser encontrado: • Câncer colorretal diagnosticado antes dos 50 anos de idade • Tumores colorretais sincrônicos ou metacrônicos e outros relacionados com o CCNPH (inclui estômago, bexiga, ureter, pelve renal, trato biliar, cerébro [glioblastomal], adenomas de glândulas sebáceas, ceratoacantomas e carcinomas de intesti- no delgado), sem considerar a idade • Câncer colorretal com elevada instabilidade de microssatélites diagnosticado antes dos 60 anos • História familiar de um ou mais parentes de primeiro grau com câncer colorretal ou outros tumores relacionados com CCNPH. Um dos diagnósticos sendo feito antes dos 50 anos (inclui adenomas que podem ter sido diagnosticados antes dos 40 anos de idade) • Câncer colorretal com dois ou mais parentes com câncer co- lorretal ou outros tumores relacionados com CCNPH, sem considerar a idade Tabela 15.3 Anatomia patológica A maioria dos carcinomas do cólon e do reto sur- ge a partir de um pólipo adenomatoso inicialmente benigno. No entanto, o achado histológico de focos de criptas aberrantes (FCA), descrito pioneiramente por Bird e cols. em 1987 no cólon de ratos submetidos a in- dução de CCR por carcinógenos tem sidoconsiderado um evento precoce se não o inicial na carcinogênese colorre- tal, não somente pela sua detecção em roedores subme- tidos a indução por carcinógenos, mas também pela sua frequência aumentada no cólon e reto de pacientes com diagnóstico de síndromes de câncer colorretal hereditá- rio (PAF) ou esporádico se comparados a pacientes com doenças benignas do intestino grosso. Esses focos consis- tem de criptas de Lieberkuhn discretamente alargadas e hipercrômicas que lembram os adenomas diminutos ex- tensivamente estudados em doentes com PAF mas que, analogamente aos FCA, raramente foram observados em outros indivíduos. A hipótese de que FCAs representa o evento histológico mais precoce da carcinogênese color- retal vem sendo reforçada pelos achados de aumento da atividade proliferativa celular, displasia, detecção do antígeno carcinoembrionário por imuno-histoquímica e mutação do gene K-ras em algumas dessas lesões. As poucas evidências disponíveis até o momento indicam que FCA representam se não a lesão precursora do CCR, a mais precoce detectada. O adenocarcinomas mais frequentes são únicos; os múltiplos ou sincrônios ocorrem em 3 a 10% dos casos. Podem estar próximos um do outro Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201546 ou distantes; podem ter o mesmo tamanho, parecen- do ter crescimento simultâneo, enquanto, em outros, apresentam tamanhos diferentes, sendo um de cresci- mento mais recente do que o outro. Figura 15.2 Peça de adenocarcinoma do cólon sincrônico no mesmo segmento. Carcinoma in situ refere-se a qualquer lesão com células malignas contidas exclusivamente acima da muscular da mucosa. Nomenclaturas utilizadas para essa lesão incluem “displasia mu- cosa grave”, “displasia grave” e “carcinoma superfi- cial”. Carcinoma intraepitelial refere-se a uma lesão na qual as células apresentam evidência citológica de malignidade e estão restritas às criptas de Lie- berkuhn e, portanto, não ultrapassaram a membra- na basal epitelial. Qualquer invasão adicional para fora da glândula ou para dentro da lâmina própria, porém acima da muscular da mucosa, representa carcinoma intramucoso. O carcinoma invasivo é definido quando as células malignas se esten- dem através da muscular da mucosa do pólipo, ou lesão pediculada ou séssil. Com relação às características microscópicas, o padrão habitual é o de adenocarcinoma tubular ou com áreas papilíferas, bem ou moderadamente diferenciado. Em aproximadamente 20% dos casos, os túbulos das glândulas são muito irregulares ou não formados, ocasião em que esses tumores são classifi- cados como pouco diferenciados. A maioria dos car- cinomas do cólon e do reto tem margem de invasão bem definida, do tipo expansivo. Em cerca de 25% dos casos, um padrão de invasão ou crescimento mais infiltrativo pode ser definido. O carcinoma mucino- so pode ser detectado em até 15% dos casos e re- presenta aquele em que 50% ou mais do volume do tumor é constituído por muco, na forma de lagos mucosos extracelulares ou composto por células “em anel de sinete”, nas quais o muco se acumula no citoplasma (prognóstico desfavorável). É verifi- cado mais comumente em adultos jovens do sexo masculino, associado a adenoma viloso, doenças inflamatórias ou irradiação. Adenocarcinoma Epitélio adenomatoso Adenocarcinoma Mucosa colônica normal Muscular da mucosa Submucosa Muscular própria Tecido conjuntivo subseroso Adenoma séssilAdenoma pediculado Tecido conjuntivo subseroso própria Muscular Submucosa Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Nível 0 Figura 15.3 Pontos de referência anatômicos de adenomas pedicu- lados e sésseis. Em 1985, Haggit e colaboradores propuse- ram uma classificação para pólipos contendo câncer de acordo com a profundidade da invasão conforme segue: Nível 0: carcinoma não invade a muscular da mucosa (o carcinoma in situ ou carcinoma intramural). Nível 1: carcinoma invade através da muscular da mucosa para dentro da submucosa, mas é limitada à ca- beça do pólipo. Nível 2: carcinoma invade o nível do colo do pó- lipo (junção entre a cabeça e a haste). Nível 3: carcinoma invade qualquer parte da haste. Nível 4: carcinoma invade para dentro da sub- mucosa da parede do intestino abaixo da haste do pó- lipo, mas acima da muscular própria. Por definição, todos os pólipos sésseis com carcinoma invasivo são nível 4 pelos critérios de Haggit. A fim de avaliar o grau de malignidade do tumor e obter dados para estabelecer o prognóstico, procurou- -se classificar os tumores quanto ao grau de diferen- ciação de suas células. A classificação histopatoló- gica foi idealizada por Broders et al., que classifica os tumores malignos do cólon e do reto, baseando-se no grau de diferenciação de suas células e no co- nhecimento de que o tumor é tanto mais maligno quanto maior sua indiferenciação celular. Quatro são os grupos propostos por esses autores: – Grupo I: tumores constituídos de 75% de cé- lulas diferenciadas e somente 25% de indiferenciadas. – Grupo II: tumores constituídos de 50% de cé- lulas diferenciadas e 50% de indiferenciadas. – Grupo III: tumores que apresentam até 75% de suas células indiferenciadas e 25% de diferenciadas. – Grupo IV: tumores que apresentam mais de 75% de células indiferenciadas. Neoplasia maligna primária Cólon Linfáticos vênulas Capilares Estabelecimento do microambiente Fígado Colônias tumorais secundárias (metástases) Extravasamento Aderência de células tumorais Parada nos órgãos Transporte Veia porta Fígado Coração Interação com: Plaquetas, linfócitos e outros componentes do sangue Vascularização Invasão Embolismo Figura 15.4 Cascata das metástases. A metástase é um processo de múltiplas etapas. Para as células tumorais poderem formar focos metastáticos em locais distantes, deverão ser capazes de completar todos os estágios desse processo complexo. 15 Câncer colorretal (CCR) 47 Patogenia O crescimento dos CCR é de forma circunferen- cial, podendo envolver completamente a luz intesti- nal e originar, como consequência, quadros oclusivos. Essa situação é mais evidente no cólon esquerdo (lesão em anel de guardanapo), que apresenta menor calibre que o direito e, habitualmente, é necessário cerca de um ano para a lesão ocupar três quartos da circunfe- rência intestinal. Ocorre também uma infi ltração da submucosa com invasão da cadeia linfática intramu- ral. A extensão radial da lesão também infi ltra outras camadas da parede intestinal, podendo, por contigui- dade, atingir outras estruturas vizinhas. O tumor poderá infi ltrar também os vasos colô- nicos e, pela veia porta, conduzir células neoplásicas que desenvolverão metástases hepáticas. Através das veias lombares e vertebrais, levam a focos metastáti- cos nos pulmões e no cérebro. O câncer retal é dis- seminado pelas veias hipogástricas. A invasão ve- nosa está presente em até 50% dos casos, mesmo não produzindo metástases a distância. A manipulação cirúrgica do tumor deve ser extre- mamente cuidadosa, no sentido de evitar a liberação de metástases hematogênicas. A disseminação mais frequente dos CCR é por meio do comprometimento linfonodal, (disseminação linfática), sendo a dissemi- nação longitudinal pela cadeia linfática extramural um importante mecanismo desse processo. Assim, nos procedimentos cirúrgicos, é necessária a complemen- tação com remoção dos linfonodos comprometidos, o que é encontrado em cerca de 50% dos casos. Em algumas situações, células neoplásicas ex- travasam da luz intestinal para a cavidade peritoneal, produzindo implantes locais ou, então, carcinomatose abdominal generalizada. Células tumorais poderão ser liberadas e leva- das pela corrente fecal para serem implantadas, a distância, em mucosa normal. Esse tipo de situação é de ocorrência rara, e grande parte das recidivas nas anastomoses é causada por células provenientes de fora da parede intestinal, principalmente de linfáti- cos do mesocólon. Com base na fi siopatologiado processo tumoral, procurou-se estabelecer o estadiamento da doença para que fosse possível não só avaliar a perspectiva de sobrevida do paciente, mas também a necessidade de uma terapia adjuvante. A classifi cação de Dukes, proposta em 1932 e posteriormente modifi cada por Astler-Coller com a inclusão de subgrupos, é utilizada de forma universal (veja página 113). Porém, atualmente, a classifi cação TNM passou a ser mais utilizada, pois permite melhor estadiamento do processo. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201548 Quadro clínico É importante a tomada da história clínica, com judiciosa avaliação de todos os sintomas, tais como: alteração do hábito intestinal com mudança das carac- terísticas do bolo fecal, presença de sangue e/ou muco nas fezes, dor abdominal precedendo evacuação e sin- tomas gerais, como astenia, anemia e emagrecimento. Os sintomas dos CCR estão na dependência da localização anatômica da lesão, seu tipo e extensão e eventual presença de complicações, como perfuração, obstrução e hemorragias. O tempo médio para o diagnóstico dos CCR, a partir dos sintomas relatados, é de sete a nove me- ses. A responsabilidade desse tempo prolongado é dos pacientes, que minimizam os sintomas e protelam a procura ao médico, ou, então, do próprio médico que não valoriza as queixas relatadas. No cólon direito, que apresenta maior calibre, paredes finas e distensíveis, com conteúdo fecal líqui- do, a presença de neoplasia se manifesta mais tar- diamente, e as lesões atingem grandes volumes antes de serem diagnosticadas. Os pacientes apresentam queixas vagas de astenia, debilidade física e anemia, com sensação de desconforto no abdome direito. A presença de anemia hipocrômica microcítica é si- nal importante na pesquisa da neoplasia de cólon direito. Geralmente, não ocorre alteração do hábito intestinal e, em cerca de 10% dos casos, a primeira evi- dência é de massa palpável na região, observada pelo paciente ou pelo médico. Quando o ritmo intestinal se modifica, a diarreia é a queixa mais comum. No cólon esquerdo, o calibre da luz intestinal é menor e o conteúdo fecal é formado por material semissólido. Assim, o crescimento das neoplasias nessa região, com oclusão progressiva do lúmen, leva a alterações mais precoces da evacuação. Essa situação poderá evoluir para uma obstrução parcial ou completa do local. A presença de sangue nas fezes é frequente, porém não sob a forma de perdas maio- res, geralmente de coloração escurecida e associada com muco. No câncer retal, o sintoma mais frequente é a perda de sangue claro, juntamente com as fezes, associada ou não à presença de muco. Outra mani- festação relatada com frequência é a sensação de eva- cuação incompleta e “puxos” no canal retal, indepen- dentemente da movimentação intestinal. Distribuição do câncer colorretal Retossigmoide 30% Sigmoide 25% Descendente 5% Transverso 15% Ceco-ascendente 25% Tabela 15.4 Ceco- ascendente 25% Transverso 15% Descendente 5% Sigmoide 25% Reto 20% Retossigmoide distal 10% Figura 15.5 Localização do câncer colorretal. Exame físico O exame físico é importante para avaliar o local e a extensão da doença, ou então detectar metástases a dis- tância e/ou comprometimento de outros órgãos ou siste- mas que, inclusive, poderão influenciar no tratamento. A palpação da região inguinal e supraclavicular é importante para a verificação de nódulos metastá- ticos. O exame do abdome poderá revelar presença de massa, hepatomegalia ou circulação colateral em pare- de, indicando obstrução portal. O câncer retal poderá ser identificado através do toque digital, não somente pela percepção da massa tumoral, mas também pela presença de sangue na luva do exame. A avaliação ginecológica poderá detectar comprometimento regional e, também, permitir pal- par gânglios retrorretais. O toque digital do reto permite não apenas a identificação da lesão, determinação de sua distância da borda anal bem como da superfície retal mais aco- metida, mas também possibilita avaliar a mobilidade da lesão e dessa forma o grau de penetração do tumor na parede intestinal com acurácia que pode atingir mais de 80%. Através do toque também deve-se pro- ceder à avaliação da invasão do aparelho esfinctérico (anel anorretal) o que fornece a mais importante im- pressão no pré-operatório acerca da possibilidade de preservação esfinctérica bem como avaliar o grau de infiltração do septo retovaginal em mulheres. Outra finalidade crucial do toque digital do reto é inferir sobre a função esfinctérica. Associado à ana- mnese e à eletromanometria anorretal, o toque digital do reto permite avaliar o tônus de repouso do canal anal e a resposta à solicitação de contração esfinctérica. Pacientes com grau importante de comprometimento da função esfinctérica são maus candidatos às operações de preser- vação esfinctérica (retossigmoidectomias). Após a realização do toque digital, com o auxí- lio de um retoscópio rígido, é possível determinar com bastante acurácia a distância da borda anal bem como determinar o aspecto endoscópico da lesão 15 Câncer colorretal (CCR) 49 (se ulcerada, polipoide ou infiltrativa) e se permite a passagem do aparelho ou não (tumor obstrutivo). A retossigmoidoscopia flexível tem as vantagens de ser mais confortável ao paciente e ao examinador bem como permite documentar o aspecto endoscó- pico da lesão. Formas clínicas de apresentação dos tumores de cólon e reto Sintomas gerais Manifestam-se igualmente em todas as localizações Forma anêmica Mais frequente nos tumores do cólon direito Forma hemorrágica Mais frequente do lado esquerdo e manifesta-se de forma aguda com enterorragia Forma oclusiva Mais frequente nos tumores do lado esquerdo Forma tumoral* Mais frequente nos tumores do lado direito Forma dispéptica Característica dos tumores do lado direito Tabela 15.5* Possibilidade de palpar massa tumoral ao exame físico. Diagnóstico complementar Hemograma completo Frequentemente mostra anemia com o padrão microcítico e hipocrômico compatível com anemia fer- ripriva. A ferritina sérica e os demais parâmetros para anemia carencial por defi ciência de ferro confi rmam este diagnóstico. Pesquisa de sangue oculto nas fezes Esse exame tem baixa sensibilidade e pequeno valor preditivo e, por isso, é empregado como mé- todo de rastreamento populacional e não como recurso diagnóstico. Vários estudos convergem para mostrar que a sensibilidade do guaiaco e imunoquímica foi de 75%. A especificidade do teste feito com o guaiaco foi de 34%, e a com imunoquímica foi de 94%. O va- lor preditivo positivo do guaiaco foi de 12% contra 60% para imunoquímica. Isso mostra a importância do exame fecal específico, para hemoglobina huma- na, na detecção precoce de adenomas e neoplasias do cólon. Teste DNA fecal O exame de DNA nas fezes é baseado no conceito da progressão adenoma para carcinoma e de que o de- senvolvimento do CCR é o resultado do acúmulo de al- terações genéticas envolvendo os genes supressores tu- morais (por exemplo, APC e p53), os oncogenes (p. ex., K-ras) e os genes de reparação do DNA (por exemplo, hMLH1, hMSH2). A pesquisa dessas alterações é realiza- da nas células tumorais que descamam para a luz intes- tinal e são obtidas nas fezes. Estudos iniciais procuram determinar um painel de avaliação dessas mutações (por exemplo, K-ras, APC, p53) que apresente boa acurácia no diagnóstico dos CCR. Marcadores tumorais Os marcadores tumorais mais utilizados são: CEA (proteína oncofetal) e o CA 19.9. A principal utilidade do CEA tem sido no segmento de pacientes após res- secções de câncer colorretal. A maioria dos carcinomas precoces está associada a níveis normais de CEA. Condições que elevam o CEA • Câncer colorretal • Cirrose hepática • Enfi sema pulmonar • DII • Diverticulite • Diabetes melito • Doenças benignas de mama • Polipose intestinal • Câncer de pulmão • Qualquer estadoinfl amatório crônico • Câncer de ovário, mama, útero Valores normais de referência: até 3 µg/L e até 5 µg/L para fumantes. Níveis > 10 µg/mL raramente estão presentes em condições benignas. Valores acima de 25 µg/L levam à sus- peita de doença metastática, e valores acima de 50 µg/L po- dem ser considerados como prova de doença metastática. Tabela 15.6 Exames radiológicos A radiografi a de tórax deve ser considerada como procedimento de rotina em pacientes com CCR, para avaliação de metástases pulmonares. Clister opaco Exame radiológico realizado com duplo contras- te (bário e ar), amplamente utilizado no passado, atu- almente em desuso como método de diagnóstico pois apesar de avaliar todo o colo, pequenos pólipos e neo- plasias podem não ser detectados. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201550 Colonoscopia É o único procedimento diagnóstico e te- rapêutico, pois é capaz de detectar e remover lesões pré-malignas. Por se tratar de um proce- dimento examinador dependente, sua sensibilida- de para diagnóstico na prática é de difícil mensu- ração, visto que o resultado encontrado na maioria das pesquisas é influenciado pelo nível de experise do examinador. Tomografia computadorizada e ressonância magnética Esses dois procedimentos não são importantes para o diagnóstico dos CCR, porém servem para ava- liar o comprometimento extramural no câncer do reto e para a detecção de metástases. O mesmo ocorre com a ultrassonografia abdominal, que, pela sua facilidade e baixo custo, poderá ser utilizada com mais frequên- cia na avaliação desses pacientes. Colonografia por tomografia Também conhecida como colonoscopia virtu- al, é o estudo dos cólons por meio de tomografia com- putadorizada que permite identificar as diversas alte- rações da parede intestinal. Sua acurácia é de quase 100% para tumores vegetantes e de cerca de 90% para pólipos com mais de 0,8 cm de diâmetro. Apesar da vantagem de ser um método não invasivo, necessita de preparo intestinal e manuseio para sua realização semelhante à do enema opaco. Além disso, não permite a realização de procedimentos terapêu- ticos. No presente, tem sido indicada principal- mente para pacientes de maior risco para câncer colorretal como uma opção à colonoscopia. Ultrassonografia endorretal Com o advento da ultrassonografia endorretal (USER), a definição detalhada das camadas da parede retal assim como dos tecidos circunjacentes (ressal- tem-se aqui os linfonodos) foi possibilitada de forma que a USER tornou-se a ferramenta ideal para o estadiamento do grau de infiltração do tumor na parede do reto (definição T do sistema TNM de estadiamento) bem como avaliar ainda que menos precisamente a intensidade e localização do acometimento linfonodal (definição N). A fim de entender adequadamente o valor de USER no es- tadiamento local do CCR, é necessário interpretar as imagens que são geradas e classificadas conforme descritas por Beynon. É possível identificar cinco camadas ecográficas que correspondem à muco- sa, muscular da mucosa, submucosa, muscular própria e a serosa ou gordura perirretal. Para os pacientes não submetidos a tratamen- to inicial por radioterapia para o CCR, a acurácia do USER no diagnóstico do grau de invasão na parede do reto é superior à do toque digital e situada en- tre 76% e 95%. Da mesma forma, à tomografia com- putadorizada (TC) não é possível diferenciar entre as camadas da parede retal e nem distinguir entre lesões T1 e T2 à TC. A acurácia da USER para o diagnóstico do aco- metimento linfonodal está estimada entre 62% e 85%. Essa eficácia no diagnóstico da definição N do estadiamento pode ser aumentada com a possibilida- de de a USER guiar a obtenção de biópsias transretais com agulha. Infelizmente, a USER não está ainda disponível na maioria dos centros médicos. No entanto, deve ser realizada sempre quando houver evidência de confinamento do tumor na parede do reto e, conse- quentemente, quando a possibilidade de ressecção local curativa está aventada a fim de comprovar a infiltração superficial da parede do reto e a ausên- cia de metástases linfonodais. Ultrassonografia intraoperatória A ultrassonografia intraoperatória é supe- rior à TC e à inspeção e palpação intraoperatórias no diagnóstico de metástases hepáticas de câncer colorretal. Aproximadamente 10% de lesões adicionais serão encontradas. A ultrassonografia hepática intraope- ratória permite o diagnóstico diferencial mais fidedigno entre tumor secundário no fígado e cistos ou hemangio- mas. Também é capaz de fornecer informações valiosas acerca da localização de ramos venosos hepáticos e por- tais que serão úteis ao cirurgião no momento de planejar a ressecção cirúrgica. Papel da videolaparoscopia diagnóstica no estadiamento A vídeolaparoscopia diagnóstica não representa um procedimento de rotina a ser realizado em pacien- tes com CCR. No entanto, trata-se de método diagnós- tico extremamente útil na confirmação da suspeita de metástases hepáticas, mas sobretudo de metástases peritoneais conforme identificadas pela TC. A possi- bilidade de confirmar o diagnóstico de neoplasia incu- rável pela laparoscopia com ou sem biópsia, prescin- dindo de incisão abdominal é uma alternativa atraente nessa situação. Para os pacientes muito sintomáticos ou com sinais de suboclusão intestinal, a paliação atra- vés de colostomia por acesso videolaparoscópico pode ser realizada. 15 Câncer colorretal (CCR) 51 Figura 15.6 Ultrassonografi a endorretal de um paciente com câncer retal T3N1. O câncer penetrou através de todas as camadas da parede retal e um linfonodo aumentado é nitidamente visível. Figura 15.7 Clister opaco – Defeito no contorno. O fl agrante do cólon transverso mostra um adenocarcinoma originário de um adenoma tu- buloviloso como uma perda do contorno luminal normal – um defeito do contorno (setas brancas) e uma fi la de enchimento radiotransparen- te lobulada no bário (setas pretas) com uma superfície nodular quando vista de frente (seta aberta). Figura 15.8 Lesão anelar maligna. O fl agrante do cólon transverso mostra este carcinoma colônico como uma lesão anelar focal com mar- gens abruptas em prateleira (setas curtas) e mucosa nodular (seta aber- ta). O acentuado grau de estreitamento luminal (seta dupla) signifi ca que a lesão atingiu pelo menos a muscular própria. Figura 15.9 A: lesão em sela. O carcinoma colônico polipoide (seta grande) está se propagando circunferencialmente pela pare- de intestinal (pontas de seta) fazendo com que a lesão tenha o as- pecto de uma sela. B: colonoscopia. Lesão tumoral subestenosante em cólon sigmoide. Figura 15.10 Peça do cólon sigmoide mostrando carcinoma infi ltra- tivo e obstrutivo. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201552 Figura 15.11 Colonoscopia evidenciando carcinoma de ceco com as- pecto polipoide. Figura 15.12 A: colonoscopia de carcinoma do sigmoide com sangra- mento ativo. B: carcinoma do cólon com sangramento intermitente. Figura 15.13 A: carcinoma infi ltrativo de ceco. B: clister opaco com lesão infi ltrativa de ceco. 15 Câncer colorretal (CCR) 53 Estadiamento O câncer pode ser classifi cado segundo a International Union Against Cancer (UICC) – tumor-node-metasta- sis, TNM – ou pela classifi cação de Dukes ou Astler Coller. Os procedimentos para avaliação das categorias T, N e M são os seguintes: � Categorias T – Exame físico, diagnóstico por imagem, endoscopia e/ou exploração cirúrgica. � Categorias N – Exame físico, diagnóstico por imagem e/ou exploração cirúrgica. � Categorias M – Exame físico, diagnóstico por imagem e/ou exploração cirúrgica. Para cada localização específi ca, um diferente grupamento linfonodal terá sua própria expressão prognóstica, conforme a seguir: � Apêdice: ileocólico � Ceco: ileocólico, cólico direito. � Cólon ascendente: ileocólico, cólico direito, cólico médio. � Ângulo hepático: cólicos médios, cólicosdireitos. � Cólon transverso: cólico direito, cólico médio, cólico esquerdo, mesentérico inferior. � Ângulo esplênico: cólico médio, cólico esquerdo, mesentérico inferior. � Cólon descendente: cólico esquerdo, mesentérico inferior. � Cólon sigmoide: cólico esquerdo, retal superior (hemorroidal), mesentérico inferior e retossigmoide. Estadiamento do câncer colorretal conforme AJCC 7ª edição Estádio T N M 0 Tis N0 M0 I T1 N0 M0 T2 N0 M0 IIA T3 N0 M0 IIB T4a N0 M0 IIC T4b N0 M0 IIIA T1-T2 N1/N1c M0 T1 N2a M0 IIB T3-T4a N1/N1c M0 T2-T3 N2a M0 T1-T2 N2b M0 IIIC T4a N2a M0 T3-T4a N2b M0 T4b N1-N2 M0 IVA qqT qqN M1a IVB qqT qqN M1a TX: tumor primário não pode ser avaliado; T0: sem evidência de tumor primário; Tis: carcinoma in situ: intraepitelial ou invasão da lâmi- na própria; T1: tumor invade a submucosa; T2: tumor invade a muscular própria; T3: tumor atravessa a muscular própria, atingindo te- cidos tecidos pericólicos; T4a: tumor penetra a superfície do peritônio visceral; T4b: tumor invade diretamente órgãos adjacentes ou está aderido a eles. NX: linfonodos regionais não podem ser avaliados; N0: ausência de metástases em linfonodos regionais; N1: metástase em 1 a 3 linfonodos regionais; N1a: metástase em 1 linfonodo regional; N1b: metástase em 2 a 3 linfonodos regionais; N1c: depósito(s) tumoral(is) na subserosa mesentérica em 4 ou mais linfonodos regionais; N2a: metástase em 4 a 6 linfonodos regionais; N2b: metástase em 7 ou mais linfonodos regionais. M0: ausência de metástases à distância; M1: presença de metástases à distância; M1a: metástases confi nadas a um órgão ou sítio de metástase (ex: fígado, pulmão, ovário, linfonodo não regional); M1b: metástases em mais de um órgão/sítio de metástase ou peritônio. Tabela 15.7 Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201554 Sistema de Dukes O sistema de Dukes é baseado na observação de que a profundidade de invasão do carcinoma relaciona-se com a sobrevida. Foi Dukes, juntamen- te com Lockhart-Mummery, quem propôs pela primei- ra vez a sequência adenoma-carcinoma. Dukes relatou que todos os carcinomas se originavam e progrediam de um modo ordenado desde a malignidade in situ em adenomas, até lesões metastáticas. Existe uma grande confusão a respeito do uso preciso do sistema de Dukes, devido, em grande parte, a muitas modificações que recebeu este sistema de classificação três vezes em 10 anos; desde então, têm sido publicadas grandes modifi- cações por Simpson, Kirklin, Astler e Coller, Turnbull e cols., Gunderson e Sosin; além disso, grandes esforços nacionais foram feitos, particularmente na Austrália e nos Estados Unidos, para reorganizar os sistemas de classificação. A modificação mais utilizada do sistema de Dukes é a descrita por Gunderson e Sosin. Estadiamento patológico de Dukes do câncer colorretal A: lesões limitadas à mucosa, linfonodos negativos B1: extensão através da mucosa, mas dentro da parede in- testinal, linfonodos negativos B2: extensão através da parede instestinal, linfonodos ne- gativos B2m: extensão somente microscópica através da parede in- testinal B3: tumores que estão aderidos e/ou invadem estruturas ad- jacentes, submetidos ao espécime patológico; linfonodos ne- gativos C1: B1 com linfonodos positivos C2: B2 com linfonodos positivos C2m: B2m com linfonodos positivos C3: B3 com linfonodos positivos Adendo: 1. estádio D de Turnbull: tumores com metástases hepáticas, pulmonares, ósseas, implantes peritoneais ou tu- mor irressecável devido à invasão parietal; invasão de órgãos adjacentes. 2. Características clínicas preditoras de recorrên- cia local do Projeto Britânico do Câncer do Intestino Grosso: fixação do tumor, obstrução do intestino grosso e perfuração do tumor. Tabela 15.8 Modificação de Gunderson e Sosin/Astler Coller. Tratamento cirúrgico Preparo pré-operatório O preparo do cólon é controverso, porém a des- peito de um enorme número de estudo mostrar que não tem impacto na segurança da cirurgia ou nas taxas de fístula anastomótica, a maioria dos serviços conti- nua realizando este procedimento. Os produtos mais utilizados são manitol 10%, fosfato de sódio e o polie- tilenoglicol. É preciso ter cuidado com os riscos do uso de fosfato de sódio nos pacientes com disfunção renal e idosos: hipocalemia, hiperfosfatemia e hipocalemia. Antibioticoprofilaxia Antibiótico com cobertura para germes Gram- -negativos e anaeróbios. Uso intravenoso e deve ser feito em no máximo 1 hora antes da cirurgia, ou na indução anestésica. Profilaxia de tromboembolismo A recomendação é formal. O uso de heparina não fracionada, heparina de baixo peso molecular e com- pressão intermitente da panturilha são eficazes em reduzir a incidência dos fenômenos tromboembólicos. A cirurgia A exploração abdominal global é sempre o primei- ro passo cirúrgico e se presta a avaliar a presença de do- ença metastática e de lesões incidentais. A área onde se localiza o tumor deve ser examinada por último, quanto à ressecabilidade, invasão de órgãos adjacentes, implan- te peritoneal, perfuração e presença de infecção. Na atualidade a ressecção laparoscópica é o melhor método para o tratamento do câncer de có- lon. Quanto à margem de segurança acredita-se que 5 cm de margem proximal e distal são suficientes para ressecar a disseminação intramural tumoral. Mais recentemente diversos estudos mostraram que ra- ramente ocorre migração mural maior que 2 cm proximal ou distal à lesão macroscópica. Para ser considerada uma cirurgia oncologicamente adequada, recomen- da-se que pelo menos 12 linfonodos estejam contidos no segmento ressecado. Tumores sincrônicos devem ser submetidos à colectomia total com anastomose ileor- retal. O estudo do linfonodo sentinela mapeado por injeção de tinta ou por radioisótopo durante o ato operatório não demonstrou melhora na acurácia do estadiamento desses pacientes. O tratamento do adenocarcinoma em pólipo deve seguir as orientações abaixo. Lesões restritas à mucosa e ressecadas integralmente pelo método co- lonoscópico podem ser tratadas unicamente pela en- doscopia. As características histopatológicas favo- ráveis incluem margens livres de ressecção, tumores bem diferenciados, sem invasão linfática ou vascular; e o endoscopista tem que estar certo de que ressecou integralmente a lesão. Com essas características, e com invasão no máximo à primeira camada da sub- mucosa, a chance do paciente apresentar metástases linfonodais é menor do que 5%. 15 Câncer colorretal (CCR) 55 O segmento colonoscópico deve ser realiza- do três meses após a polipectomia. Se a colonos- copia for normal solicitar um novo exame após um ano. Tratamento adjuvante Pacientes com tumor estágio III, correspondem ao grupo para o qual há claro benefício do tratamento quimioterápico. Quimioterapia adjuvante: esquemas sugeridos FOLFOX6 Ox 85 mg/m2 EV em 2 h no D1; AF 400 mg/m2 EV em 2 h no D1; 5 FU 400 mg/ m2 EV bolus no D1; seguido de 5 FU 2.400 mg/m2 IC por 46 h, a cada 2 se- manas, por 12 ciclos XELOX Ox 130 mg/m2 EV em 2 h no D1; Cape- citabina 2.000 mg/m2/dia VO D1-D14 a cada 3 semanas por 8 ciclos FLOX3 Semanas 1, 3 e 5: Ox 85 mg/m2 EV em 2 h; Semanas 1-6: 5 FU 500 mg/m2 EV bolus com AF 500 mg/m2; repetir a cada 8 semanas, por 3 ciclos Roswell Park3 5 FU 500 mg/m2 EV bolus; AF 500 mg/m2, repetir a cada 8 semanas, por 3 ciclos LV5FU2 AF 400 mg/m2 EV em 2 h no D1; 5 FU 400 mg/m2 EV bolus no D1; seguido de 5 FU 2.400 mg/m2 IC por 46 h, a cada 2 sema- nas, por 12 ciclos QUASAR 5 FU 370 mg/m2 EV; AF 50 mg (dose fi ca) IV; semana por 30 semanas Capecitabina Capecitabina 200 mg VO/dia D1-14, a cada 3 semanas, por 8 ciclos 1 Esquemas com oxaliplatina: preferencialmente pacientes estágio III e até 75 anos. 2 Doses de AF para forma d-leucovorin. 3 Opcionalmente, reduzir dose de AF para 20 mg/m2. Ox: oxaliplatina; AF: ácido folínico; 5 FU: fl urouracil. Tabela 15.9 Ao contrário do benefício estabelecido em pacien-tes com estágio III, o tratamento de pacientes em está- gio II é controverso. Um grupo de alto risco foi reconhe- cido para o qual a quimioterapia adjuvante é benéfi ca. Estágio II: fatores de alto risco na quimioterapia adjuvante • T4 • Grau histológico alto (G3 ou G4) • Obstrução intestinal • Perfuração intestinal • Invasão angiolinfática ou perineural • Amostra de linfonodos insufi ciente (menor que 12) Tabela 15.10 Figura 15.14 Anatomia do cólon e reto e irrigação do cólon. MAS: arté- ria mesentérica superior; AMI: artéria mesentérica inferior; AIC: artéria ileocólica; ACD: artéria cólica direita; ACM: artéria cólica média; ACE: ar- téria cólica esquerda; AS: artéria sigmoidea; ARS: artéria retal superior. Figura 15.15 Ressecções para câncer de cólon e reto. A: colecto- mia direita; B: colectomia direita ampliada; C: transversectomia; D: colectomia esquerda; E: sigmoidectomia; F: retossigmoidectomia; G: anastomose coloanal (direta, com reservatório em J); H: amputação de reto. Um mínimo de doze (12) amostras de linfonodos é considerado necessário para defi nir com precisão o estágio do tumor. tumor de ceco Figura 15.16 Esquema mostrando a extensão da ressecção para tumor de ceco. Colectomia direita convencional com ligadura alta das artérias ileocólica e cólica direita e ramo direito da artéria cólica média. A fi xação do tumor pode ocorrer no duodeno ou pâncreas, incluindo a avaliação de ressecção em bloco nesses casos. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201556 tumor do ângulo hepático Figura 15.17 Esquema mostrando a colectomia direita amplia- da, ressecção de tumor, ângulo hepático e porção direita do có- lon transverso. Ligadura do ramo esquerdo da artéria cólica média. tumor do cólon transverso Figura 15.18 Esquema mostrando os limites da ressecção para tumor do cólon transverso. O suprimento sanguíneo dessa região deriva da artéria cólica média e dos vasos cólicos direito e esquerdo. A flexura esplênica tem maior risco de comprometimento da vasculari- zação, em decorrência de seu arco vascular ser mais tênue e com maior comprimento, dificultando a irrigação (ver o artigo). A localização da lesão indica disseminação para os linfáticos regionais da cólica média, cólica direita e ramos da cólica esquerda. Em geral, na lesão proximal indica-se a hemicolectomia direita estendida e no transverso distal a hemicolectomia esquerda estendida. Na lesão da porção média do cólon transverso, realiza-se a colectomia do transverso limitada. tumor do ângulo esplênico Figura 15.19 Esquema mostrando a extensão da ressecção con- vencional para tumor da flexura esplênica e a porção esquerda do cólon transverso. Ligadura da artéria cólica média (ramo esquer- do) e da artéria cólica esquerda preservando-se as artérias sigmoidianas e retal superior. Reconstrução do cólon direito ao sigmoide proximal. tumor do cólon descendente Figura 15.20 Amplitude de ressecção para tumor do cólon des- cendente. Colectomia esquerda convencional com ligadura de artéria mesentérica inferior. Anastomose colorretal alta. tumor do sigmoide Figura 15.21 Amplitude de ressecção para tumores de sigmoide. A mobilização do ângulo esplênico facilita a realização da anastomose do cólon descendente do reto. A ligadura da artéria mesentérica inferior na origem em relação à ligadura de ramos sigmoideanos é o princípio a ser seguido para as lesões no cólon sigmoide. Atenção deve ser dada ao detalhe de se deixar remanescente cerca de 1 cm de coto de artéria me- sentérica inferior, a fim de não comprometer a preservação simpática dos nervos esplâncnicos pélvicos. tumor da junção retossigmoidiana Figura 15.22 Esquema mostrando a amplitude de ressecção para tu- mor da junção retossigmoidiana ou reto alto. 15 Câncer colorretal (CCR) 57 tumores sincrônicos tumores sincrônicos Figura 15.23 Esquema mostrando a amplitude de ressecção para tumores sincrônicos e para pólipos múltiplos e polipose adenomatosa familiar do cólon – colectomia total ileorretoanastomose. Lembrar que na PAF a cirurgia ideal é proctocolectomia com bolsa ileal. Seguimento Embora cerca de 80% dos pacientes com câncer colorretal apresentem margens cirúrgicas manoscopicamente livres da doença, 50% destes apresentarão doença recorrente. A maioria des- sas recorrências ocorrerá dentro dos 24 meses subsequentes à cirurgia. História e exame físico associado com dosagem de CEA em intervalos regulares podem detectar re- corrência. A sensibilidade de se detectar recorrências precoces é ao redor de 60% quando se utiliza a TC e o CEA, principalmente para recorrência pélvica. O CEA deve ser medido a cada 3 meses por 2 anos após a ressecção, e a cada 6 meses por mais 3 anos. As tomografi as devem ser, no mínimo, anuais nos 3 primeiros anos. Em relação à colonoscopia, caso o paciente não a tenha realizado antes da cirurgia (ou não tenha sido possível a visualização de todo o cólon), deve ser feita em 3 a 6 meses após o tratamento cirúrgico. A colonoscopia deve ser realizada no primeiro ano para detectar lesões metacrônicas. Se nor- mal, repetir em 3 anos e, após, em 5 anos. Em caso do achado de adenoma, o intervalo da colonos- copia deve ser menor, principalmente se os achados incluirem pólipo viloso, ou pólipo > 1 cm ou presença de displasia de alto grau (recomendando repetição do exame em 1 ano). Os intervalos devem ser menores também para pacientes com história familiar, idade ou teste que indique a presença de síndrome de cân- cer colorretal hereditário. Após os 5 primeiros anos, a taxa de recor- rência é extremamente baixa (inferior a 1,5% ao ano e após 8 anos inferior a 0,5% ao ano). Cirurgia do câncer colorretal complicado Obstrução Em até 10% dos casos, os portadores de câncer colorretal apresentam quadro oclusivo, necessitando de abordagem cirúrgica de urgência, a qual vai variar de acordo com a localização do tumor: 1) cólon direito: a conduta habitual é realizar-se a colectomia direita, com anastomose ileotransversa imediata; 2) cólon esquerdo e reto: as opções variam em função das condições do paciente e da experiência e preferência do cirurgião. A ressecção primária com anastomose imediata tem sido cada vez mais indicada e, como rotina, é a nossa preferida. Caso o cólon contenha muita matéria fecal, pode-se proce- der à lavagem intraoperatória, que não é associada a um maior índice de infecção. Alguns cirurgiões preferem proteger essa anastomose com uma trans- versostomia temporária. Outra opção a ser consi- derada é a ressecção primária, sem a reconstrução do trânsito, configurando a cirurgia de Hartman. A colectomia subtotal com anastomose ileorretal é sugerida por alguns, mas nos parece ser uma ci- rurgia mais extensa do que o necessário, a não ser naqueles casos onde ocorre a obstrução com alça fe- chada e o ceco apresentar algum sofrimento de sua parede. Nas mãos de cirurgiões menos experientes ou, então, em pacientes com más condições gerais, pode-se proceder apenas à transversostomia ou ile- ostomia em alça. Uma alternativa que vem sendo empregada em casos selecionados é a desobstrução parcial do cólon ou do reto por meio de laser ou, então, a colocação de stent para permear o tumor via colonoscopia, com o intuito de se preparar melhor o paciente para a cirurgia. Perfuração Ao constatar perfuração do tumor, o cirurgião deve promover ampla limpeza da cavidade abdo- minal e, obrigatoriamente, realizar a ressecção in- testinal. Nos casos de peritonite importante, com muitas horas de evolução, deve-se optar pela não reconstrução do trânsito, exteriorizando-se ambas as bocas na colectomia direita, ou executando-se a cirurgia de Hartman para as lesões de cólon es- querdo. Naqueles pacientes onde a contaminação da cavidade é limitada ou por poucas horas, pode-se realizar a anastomose primária. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201558 Tratamento da doença avançada Metástases hepáticas O fígadoé o órgão mais comum de acome- timento de metástases colorretais, sendo que aproximadamente 50% dos pacientes com câncer colorretal desenvolverão metástases hepáticas em algum período de sua doença. Em 15-25% dos pacientes com doença colorretal, a doença metastática hepática é descoberta na mesma época do tratamento da doença primária (lesão sin- crônica). Em 25-50% dos casos, a doença metastática irá desenvolver-se durante o acompanhamento do pa- ciente, após o tratamento da doença primária (lesão metacrônica). As lesões metacrônicas estão associadas ao estágio III (TNM) da doença primária em 60% dos casos, e o intervalo livre de doença geralmente é me- nor do que dois anos. Atualmente a ressecção hepática é conside- rada o padrão-ouro no tratamento das metástases hepáticas do câncer colorretal. Em centros de refe- rência, a mortalidade cirúrgica deve ser menor que 5%, incluindo-se grandes ressecções hepáticas, com índices de sobrevida em 5 anos de 25-58%, sobrevida média de 30-40 meses e provável cura em alguns pacientes, resul- tados de sobrevida superiores aos obtidos com o trata- mento cirúrgico de outros tumores não metastáticos do trato gastrointestinal , tais como de estômago 36% em 5 anos de pâncreas 24%. Apesar dos bons resultados, até recentemente só era oferecido cirurgia a 15% dos pa- cientes com CCR metastático. A utilização de regimes de quimioterapia com altas taxas de resposta, um melhor conhecimento da regeneração hepática e, principalmen- te, a formulação de estratégias, combinando diferentes modalidades de tratamento em uma cronologia precisa, expandiram as indicações de ressecção. Tradicionalmente, a presença de doen- ça extra-hepática, quatro ou mais metástases hepáticas, margens exíguas e incapacidade de ressecar a doença por completo no fígado têm sido consideradas contraindicações à hepatec- tomia. A única destas contraindicações histó- ricas que permanece atualmente é a incapa- cidade de ressecar toda a doença, publicações recentes mostraram que a hepatectomia de quatro ou mais metástases está associada a uma taxa apro- ximada de sobrevida em 5 anos de 33%, apesar de uma taxa de recidiva de pelo menos 80%. Embora a margem cirúrgica exígua tenha se mostrado asso- ciada ao resultado, ela é frequentemente confundi- da por sua relação com o mau prognóstico geral do tumor (i. e.: tumores sincrônicos múltiplos). Entre- tanto, margens exíguas ou comprometidas não pa- recem excluir a possibilidade de sobrevida a longo prazo. Todavia as tentativas de margens superiores a 1 cm são apropriadas quando possíveis Ressecção de metástases extra-hepáticas que se apresente si- multaneamente com metástases hepáticas têm re- centemente se mostrado associadas à sobrevida a longo prazo em casos altamente selecionados. Os locais que parecem estar associados a melhores re- sultados nesta situação são metásatases pulmona- res limitadas, recorrências locorregionais do tumor primário e linfonodos portais. A seleção do doente é importante e geralmente requer quimioterapia pré- -operatória para excluir progressão e estabelecer o quadro sistêmico da doença. Metástases pulmonares A ressecção de metástases pulmonares está indicada desde que não se reconheçam lesões em outros locais. O limite do número de metástases a se tratar cirurgicamente é variável, e depende da localização dos nódulos. Os resultados para esse procedimento mostram índices de sobrevida de cin- co anos de 20 a 25% para pacientes com metásta- se única ressecada e de 10 a 15% para aqueles com múltiplos tumores extirpados. Mesmo quando do diagnóstico de metástases sincrônicas, deve-se postergar seu tratamento cirúr- gico para cerca de um mês após a cirurgia do tumor primário. A abordagem pulmonar é feita por toracoto- mia, mais ou menos ampliada, ou, então, por toracos- copia. A extensão das ressecções depende do tamanho e da localização das lesões. Contudo, sempre que pos- sível, realizam-se ressecções em cunha. Metástases cerebrais As metástases cerebrais associam-se a um prog- nóstico extremamente reservado, mesmo quando úni- cas e o tratamento cirúrgico não se mostra superior à radioterapia. Assim, alguns preferem não indicar a cirurgia nesta eventualidade. Recidiva locorregional A recidiva locorregional é muito mais comum após cirurgia do câncer retal. Nestes casos, sua ca- racterística é infiltrativa, comprometendo órgãos e estruturas parietais, o que habitualmente impede sua abordagem cirúrgica com intenção curativa. Contudo, em alguns casos, a recidiva ocorre a partir da anasto- mose, o que permite uma eventual abordagem do tu- mor, cuja resseção é facilitada pelo uso da radioterapia pré-operatória, habitualmente na dosagem de 45 a 50 cGy, potencializada pela utilização concomitante de quimioterapia com 5-fluorouracil. Nesta situação, a cirurgia realizada é, comumente, a amputação abdo- minoperineal do reto. 15 Câncer colorretal (CCR) 59 Doença metastática não ressecável Até alguns anos atrás, o 5-fl uorouracil (5-FU), administrado de forma infusional ou em bolo e associado ou não à leucovorina (LV) era a única droga quimioterápica com algum grau de efetividade no tratamento sistêmico da doença disseminada. Entretanto, nos últimos anos, novas drogas contra o câncer colorretal possibilitaram um grande evolução no tratamentos da doença avançada e a combinação de drogas como irinotecano ou oxaliplatina com 5-FU demonstrou importante aumento na resposta objetiva, com aumento de sobrevida livre de progressão e sobrevida global. Assim, os regimes FOLFOX (contendo oxaliplatina) e FOLFIRI (contendo irinotecano) são considerados opções iniciais de tratamento para doença metastática não ressecável, com resposta de 40 a 50%. Já a combi- nação de três drogas como oxaliplatina, irinotecano e 5-FU (FOLFOXIRI) tem demonstrado respostas objetivas superiores a regimes contendo apenas duas drogas, mas, devido a sua maior toxicidade, reserva-se este regime quimioterápico para pacientes onde se planeja resseção de metástases após redução do volume das lesões. Em 2004, o bevacizumabe, anticorpo monoclonal com ação antiangiogênica, demonstrou au- mentar a sobrevida de pacientes com tumor de cólon quando combinado à quimioterapia de pri- meira linha. Mais recentemente, o cetuximabe anticorpo monoclonal contra EGFR, também se demonstrou efetivo no aumento de resposta e aumento de sobrevida em tratamento de primeira linha. Por esta razão, a introdução de agentes biológicos tornou-se essencial no manejo de portadores de câncer colorretal avançado. Prognóstico O principal fator prognóstico do câncer colorretal é o seu estágio TNM. Os tumores de cólon possuem um melhor prognóstico do que os tumores de reto. A extensão local do tumor, a presença de metástases distantes, o número de linfonodos comprometidos, a invasão vascular, a presença de tumor residual, o tipo histológico e os níveis séricos do antígeno carcinoembriônico são sempre considerados. Fatores prognósticos do câncer colorretal Fator Associação Histopatológicos Grau de diferenciação tumoral Tumores indiferenciados têm pior prognóstico Produção de mucina Tumores produtores de mucina tendem a recorrer localmente Invasão de vasos sanguíneos, linfáticos e perineural Prognóstico desfavorável Infi ltração linfocítica do tumor e de histiócitos nos gânglios linfáticos regionais Prognóstico menos desfavorável Formato do tumor Tumores ulcerados têm um prognóstico pior que os tumores com crescimento exofítico Biomoleculares Conteúdo de DNA celular Presença de aneuploida é fator de mau prognóstico Antígeno carcinoembrionário Cifras elevadas são índice de mau prognóstico Clínicos Idade Nos pacientes < 40 anos, o câncer se apresenta de uma forma mais avançada e a evolução é mais rápida Forma de aparecimento dos sintomas Pacientes com sintomas precoces têm pior prognóstico Localização do tumor Os tumores de reto e retossigmoide têm menor índice de so- brevida Obstrução e perfuração Prognóstico desfavorávelNecessidade de transfusão durante a operação Prognóstico desfavorável Tabela 15.11 Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201560 Detecção precoce do câncer colorretal As formas de prevenção do câncer colorretal recomendadas pela Sociedade Americana de Câncer de acordo com a população de risco (ver abaixo), ficam definidas nas tabelas a seguir: - baixo risco: indivíduos com idade superior a 50 anos e sem outros fatores de risco; - risco moderado: pacientes com história familiar de câncer do intestino em um ou mais parentes de pri- meiro grau, história pessoal de pólipo maior que 1 cm ou múltiplos pólipos de qualquer tamanho e indivíduos com antecedente pessoal de câncer do intestino tratado com intenção curativa; portador de doença inflamatória; - alto risco: indivíduos com história familiar de polipose adenomatosa familiar (FAP) ou CCR hereditário sem polipose (HNPCC), ou com diagnóstico de doença intestinal inflamatória. Avaliação dos membros de famílias com HNPCC Órgão Exame Início (idade) Periodicidade Cólon e reto Colonoscopia 20-25 anos Cada 2 anos Útero Exame ginecológico 30-35 anos Cada 1 a 2 anos US abdominal US endovaginal Estômago Gastroscopia 30-35 anos Cada 2 a 3 anos Vias urinárias Urina I 30-35 anos Cada 1 a 2 anos US Cada 2 a 3 anos Tabela 15.12 Sem estudo genético ou portadores de mutações em genes de reparo. Avaliação de membros de famílias com poliposes Síndrome Exame Início (idade) Periodicidade PAR APC+ Colonoscopia 12 anos Anual PAF, APC Colonoscopia 18 anos 25 e 35 anos Turcot Colonoscopia 12 a 15 anos Anual Exame neurológico quando necessário – Peutz-Jeghers TGI > 20 anos – Polipose juvenil Colonoscopia > 12 anos Cada 3 a 5 anos Tabela 15.13 Avaliação de outras populações de alto risco Condição clínica Exame Periodicidade Retocolite ulcerativa Colonoscopia Anual, com biópsias seriadas, após 8-10 anos de história clínica Ureterossigmoidostomia Colonoscopia Anual, após 7 anos de cirurgia Polipectomizado Colonoscopia Bienal Colectomizado Colonoscopia Bienal Filhos de portadores de câncer colorretal Colonoscopia Trienal, após 40 anos de idade Tabela 15.14 15 Câncer colorretal (CCR) 61 Prevenção primária Vários fármacos de uso oral já tiveram seu uso proposto para inibir o câncer de cólon. Os mais efi ca- zes na quimioprevenção são o ácido acetilsalicílico e outros AINE: Acredita-se que inibam a proliferação celular ao bloquear a síntese de prostaglandinas. O uso regular de ácido acetilsalicílico reduz o risco de ade- nomas e carcinomas de cólon, bem como o de morte por câncer do intestino grosso. Esses fármacos parecem diminuir também a possibilidade do surgimento de ou- tros adenomas pré-malignos após o tratamento de um carcinoma de cólon. Esse efeito do ácido acetilsalicílico na carcinogênese colônica aumenta de acordo com a du- ração e dosagem do uso do fármaco. Suplementos orais de ácido fólico e/ou de cálcio diminuíram o risco de póli- pos adenomatosos e de cânceres colorretais em estudos caso-controle. As vitaminas antioxidantes, como o ácido ascórbico, os tocoferóis e o betacaroteno, são inefi cazes em reduzir a incidência de adenomas subsequentes em pacientes nos quais se removeu um adenoma colônico. A terapia de reposição de estrogênio está associada a uma redução do risco de câncer colorretal em mulheres, o que talvez se deva a um efeito sobre a síntese e composição de ácidos biliares, ou à diminuição da síntese de IGF-1. A redução inexplicada da mortalidade por câncer color- retal em mulheres pode advir do uso disseminado da re- posição de estrogênio após a menopausa. A cirurgia do câncer de reto O reto pode ser dividido em três partes. Reto superior ou proximal estende-se da sua junção com o cólon sigmoide na refl exão peritoneal posterior (15 a 16 cm da linha pectínea) até 11 cm da linha pectínea. O reto médio estende-se de 11 cm da linha pectínea até a porção mais inferior da refl exão peritoneal an- terior, também denominada de fundo-de-saco de Douglas (6 a 7 cm da linha pectínea na mulher, e 7 a 8 cm no homem). O reto distal inferior estende-se da relexão peritoneal anterior à linha pectínea e é total- mente extraperitoneal. A cirurgia do câncer do reto pode ser realizada tanto por laparotomia, quanto por via laparoscópica. É interessante ressaltar que, independente da via de acesso empregada, as etapas e preocupações do cirur- gião serão sempre as mesmas: execução da excisão to- tal do mesorreto, obtenção de margem radial e preser- vação esfi ncteriana. O conceito de excisão mesorretal total (EMT) se baseia no padrão de recidiva locoregional do carci- noma retal. Essa técnica consiste na retirada de todo o tecido gorduroso perirretal através de dissecção precisa do reto no plano situado entre sua fáscia própria e sua fáscia parietal, junto às paredes pélvicas, até o plano dos músculos elevadores para tumores de reto médio e distal ou, então, até 4 a 5 cm abaixo da margem distal de tumo- res de reto alto. Estudos que analisaram o espécime ci- rúrgico de adenocarcinomas de reto alto demonstraram que raramente existem linfonodos comprometidos no mesorreto numa extensão 5 cm distais à borda inferior do tumor. Dessa forma, tumores do reto alto podem ser tratados com uma ressecção parcial do mesorreto (de 5 cm além do limite inferior da lesão). No que diz respeito às margens cirúrgicas de segurança nos tumores de reto alto, conforme men- cionado, busca-se uma margem distal de 5 cm. Para tumores do reto extraperitoneal, estima-se que 2 cm de margem distal seja adequada para evitar a dissemi- nação intramural. Não obstante, em tumores de reto distal se acredita que margem distal de 1 cm seja su- fi ciente, em especial quando se emprega o uso de qui- miorradioterapia pré-operatória. No câncer retal, a ressecção linfática e vas- cular deve seguir até a resseção na origem da artéria retal superior. Não existem evidências que recomendam a dissecação dos gânglios linfáticos das cadeias ilíacas, exceto se estes apresentarem sinais de comprometimento neoplásico. As neoplasias do reto superior são tratadas por ressecção anterior (proctossigmoidectomia anterior com anastomose colorretal; este procedimento indica a res- secção do reto proximal ou do reto sigmoide acima da refl exão peritoneal)e a maioria dos tumores malignos do terço médio também podem ser tratados com ressecção anterior com uso de grampeadores mecânicos (stapler). As neoplasias malignas do terço distal do reto po- dem ser tratadas pela: 1. ressecção abdominoperineal (operação de Miles) com colostomia defi nitiva, 2. res- secção abdominoperineal com anastomose coloanal e preservação do ânus, e 3. excisão local transanal. Em pa- cientes selecionados, a excisão local do câncer retal é uma alternativa à ressecção abdominoperineal do reto (pode ser realizada por via transanal ou com TEM). Apresenta menor morbidade e mortalidade, além de não causar os distúrbios de imagem corporal da cirurgia radical. Critérios de indicação para excisão local transanal Tamanho da lesão Menor que 4 cm Extensão da lesão Envolve menos de um terço da circunfe- rência Localização A menos de 8 cm da margem anal Morfologia Tumor móvel, não ulcerado Histologia Bem ou moderadamente diferenciado Idealmente T1 Estádio N Sem qualquer suspeita de linfonodos Tabela 15.15 A microcirurgia endoscópica transanal (TEM) utili- za um proctoscópio de 40 mm que permite realizar insu- fl ação de CO2, irrigação de água, sucção e monitoramento tunidade de melhor definição do alvo do tratamento radioterápico e menor irradiação de tecidos normais em relação ao tratamento pós-operatório; chance de se testar a interação de novas drogas pela avaliação da resposta patológica após cirurgia; informação prog- nóstica relacionada com a intensidade de resposta. A despeito da clara vantagem do tratamento neo- adjuvante na era da TME, ainda não existe consenso sobre a real necessidade de RTQT pré-operatória para os tumoresT3N0 mais distantes da borda anal. Os estudos randomizados incluiram pacientes com mar- gem distal do tumor até 12 a 15 cm da borda anal, e não há dados prospectivos randomizados na literatura médica quanto à recorrência pélvica baseada na altura do tumor no reto. Algumas análises de subgrupo de pacientes (não estratificados pela distância do tumor do ânus) em estudos randomizados sugerem que tu- mores do reto alto (> 10 cm da borda anal) têm menor incidência de recorrência local quando comparados aos tumores do reto médio ou baixo. Na falta de da- dos mais robustos que respaldem a não utilização de RTQT neoadjuvante nessa situação, e diante da elava- da chance de linfonodos positivos, decisões de trata- mento não devem ser tomadas com base na distância do tumor no reto se for < 12 cm do ânus. O esquema de quimiorradiação pré-operatória mais utilizado consistem em 4.500 a 5.040 cGY de radiação junto com quimioterapia infusional baseada em 5-FU. Tratamento adjuvante Para os pacientes que foram submetidos a uma ressecção potencialmente curativa, a recidiva da doença poderá ser decorrente de micrometástases clinicamen- te ocultas que estavam presentes no momento da ci- rurgia. O objetivo do tratamento adjuvante é erradicar estas micrometástases, aumentando, assim, os índices de cura. Quando o paciente é diagnosticado como portador de um tumor T3, T4 ou N+ e não foi submetido à terapia prévia com RQT como atual- mente preconizado, este se faz necessária neste momento para um melhor controle local, pois, diferente do câncer de cólon, onde o padrão de recidiva é predominante a distância, os locais de recidiva nos pacientes com câncer retal são igual- mente distribuídos entre recidiva local (pelve) e a distância (fígado e pulmões). Sempre que possível é preferível esquema de 5-FU infusional ao esquema embolos associado à radioterapia. Clínica cirúrgica | Coloproctologia SJT Residência Médica - 201562 da pressão intrarretal. Um cabo de fibra óptica é acopla- do ao sistema, permitindo a visualização das imagens em um monitor convencional. O proctoscópio apresen- ta portais onde são inseridas as pinças de trabalho que farão a ressecção da lesão, similarmente à laparoscopia. As vantagens desta técnica incluem excelente acesso ao reto médio e proximal e a possibilidade de ser realizada em pacientes com alto risco cirúrgico. Como desvantagens podemos citar o custo elevado do equipamento e a longa curva de aprendizagem. As complicações relacionadas ao procedimento são pequenas e incluem: sangramento, perfuração retal e incontinência fecal. Quando indicada para tumores especificados anteriormente, os resultados são exce- lentes, com baixa taxa de recidiva. A amputação de reto está indicada para tumores que, mesmo com neoadjuvância, en- comtram-se até 2 a 3 cm da linha pectínea; me- canismo esfincteriano prejudicado pela idade ou lesão prévia; maior facilidade de se cuidar de um ostoma do que das alterações funcionais decor- rentes de anastomoses baixas. A ressecção em bloco está indicada para aqueles casos em que o tumor invade as estru- turas adjacentes. Se as margens da ressecção em bloco estiverem livres do tumor, a sobrevida desses pacientes que apresentam tumor sem invasão de ór- gãos adjacentes. A perfuração involuntária do reto durante a dissecção cirúrgica aumenta o risco de reci- diva local e atua como um fator independente para o prognóstico de tais pacientes. A ooforectomia profi- lática não aumenta a sobrevida das pacientes, porém pode ser considerada nas pacientes que já se encon- tram na menopausa. Tratamento neoadjuvante A neoadjuvância tem sido indicada como ro- tina para tumores T3-4 localizados em reto baixo e médio, sendo discutível seu benefício em lesões na altura da reflexão peritoneal. Para lesões T1-2 pode ser indicada quando existe comprovadamente en- volvimento linfonodal peritumoral ou, então, quando se pretende realizar cirurgia de ressecção local. O racional para o tratamento neoadjuvan- te do câncer de reto com radioterapia associada à quimioterapia, ou de forma exclusiva, funda- menta-se nos seguintes aspectos: possibilidade de redução tumoral favorecendo a completa ressecção do tumor (principalmente em lesões T3-4); aumento da possibilidade de se realizar cirurgia com preservação esfincteriana (em especial para lesões distais); opor- referências Ashley S, Zinner M. Maingot’s abdominal operations. New York: McGraw-Hill Medical; 2007. Carvalho M, Santana E. Técnica cirúrgica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2006. Coelho U. Aparelho digestivo: clínica e cirurgia. Rio de Janeiro: Editora Atheneu; 2005. Coelho U. Manual de clínica cirúrgica: cirurgia geral e especialidades. Rio de Janeiro: Atheneu; 2009. Cury DB, Moss AC. Doenças intestinais: retocolite ulcerativa e doença de Crohn. Rio de Janeiro: Rubio; 2011. Feldman M, Friedman L, Sleisenger M. Sleisenger & Fordtran´s gastrintestinal and liver disease: pathophysiology; diagnosis; management. V. 1. 7th ed. Philadelphia: Saunders; 2002. Figueiredo EMA. Tratado de oncologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2013. Gama Rodrigues JJ, Machado MCC, Rasslan S. Clínica cirúrgica – FMUSP. São Paulo: Manole; 2008. Gehm PM. Tratado de oncologia. São Paulo: Editora Atheneu; 2013. Goffi F. Técnica cirúrgica: bases anatômicas, fisiopatológicas e técnicas da cirurgia. Rio de Janeiro: Atheneu; 2006. Goldman L, Schafer AI. Goldman’s Cecil Medicine. 24th ed.; 2012. Longo DL, Fauci AS, Kasper DL, Hauser SL, Jameson JL, Loscalzo J. Harrisons’s principles of internal medicine. 18th ed. New York: McGraw-Hill; 2012. Lopes A (org.). Tratado de clínica médica. V. 1. São Paulo: Roca; 2006. Martins HS, Damasceno MCT, Awada SB. Pronto-socorro: condutas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Barueri: Manole; 2008. Referências SJT Residência Médica - 201564 Mendelssonh P, Liu T. Controle clínico do paciente cirúrgico. 7ª ed. São Paulo: Atheneu; 2009. Mincis M. Gastroenterologia & hepatologia: diagnóstico e tratamento. São Paulo: Casa Leitura Médica; 2008. Miszputen S (org.). Guia de gastroenterologia. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar/UNIFESP. 2ª ed. Barueri: Manole; 2007. Rasslan S. Clínica cirúrgica. Barueri: Manole; 2008. Rohde L, et. al. Rotinas em cirurgia digestiva. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2011. Schettino G, et al. Paciente crítico: diagnóstico e tratamento: Hospital Sírio-Libanês. 2a ed. Barueri: Manole; 2012. Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva – SOBED. Endoscopia gastrointestinal terapêutica. São Paulo: Tecmedd; 2006. Townsend Jr. CM, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston: tratado de cirurgia. 19ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2015. Vieira O (org). Clínica cirúrgica: fundamentos teóricos e práticos. São Paulo: Atheneu; 2000. Way LW (org.). Cirurgia: diagnóstico e tratamento. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004. Zucker K. Videocirurgia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2006.