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Coleção de Artes Liberais Vol 1 Trivium e Quadrivium-124-126

Texto sobre a relação entre gramática, música e as Musas na tradição grega, abordando etimologias, cosmologia dos quatro elementos, símbolos (cisne e pega), a divisão do homem em corpo e almas (vegetativa, sensitiva, intelectual) e o papel da música e da poesia na educação.

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Gramática
Poderá soar extremamente estranho para muitos que Platão, na 
República, insira o estudo da gramática e da literatura no estudo da 
Música. Mas, pensando bem, não é tão estranho: a palavra ‘música’vem 
das Musas, e quer dizer originalmente algo como “aquilo que pertence 
às musas”. Para os gregos, as Musas presidem não apenas àquilo que 
conhecemos hoje como música, isto é, a ordenação de sons melodiosos 
entre si; também há musas que presidem a poesia, tanto lírica como 
épica: de fato, a ‘líder’das musas era a que presidia a poesia épica, Calíope.
Complementarmente, a gramática lida em primeiro lugar com 
os sons da língua, sons esses que estão subordinados ao tempo e ao 
ritmo, assim como a música. Não admirará a ninguém, portanto, que 
o vocabulário técnico da gramática e da literatura se aproxime deveras 
do vocabulário da música. Há frase, período, ritmo, estilo, tom, etc., em 
ambas as artes. Há quem diga que a função de significar e referenciar 
conceitos e objetos, que pertence à gramática, corresponda à de significar 
e referenciar a harmonia da alma humana e do universo na música. A 
música e a língua seriam, nessa visão, duas formas de linguagem.
A música, por sua vez, para Hugo de São Vítor, tinha esse nome 
porque sua raiz vinha da palavra que significaria água, ou umidade. 
Se essa etimologia é certa ou não, não vamos discutir aqui. Porém, 
simbolicamente, ela se encaixa.
As Musas, na mitologia, estão ligadas tanto à água, quanto às 
montanhas (que, no fim, significam as alturas e o elemento do ar). Esses 
dois elementos (água e ar), na cosmovisão antiga, são os elementos 
úmidos, que pairam no meio termo, entre a terra e o fogo. Na Cosmologia 
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Trivium
antiga, portanto, existe uma escala, visível a olho nu: a terra é o primeiro 
elemento, o mais resistente, maciço e pesado, que serve de apoio; depois, 
a água, que está contida na terra, e é o elemento adaptável, fluído, mas, 
também, pesado; após, o ar paira acima desses dois elementos, e também 
é fluido e adaptável (pois é úmido), porém este elemento é leve e não 
depende dos outros para sua estabilidade (que ele não tem muita); por 
fim, o fogo paira ainda acima do ar, como o mais elevado, e ele pode ser 
percebido no calor e na luz emanada do Sol, sendo em tese o mais sutil 
de todos.
Entendida ao menos por alto essa cosmovisão, podemos perceber 
como as musas, claramente, estão ligadas ao elemento úmido. Os dois 
animais que as simbolizam são o cisne e a pega — dois pássaros —, um 
mais relacionado com a água, e o outro puramente com o ar.
Assim, podemos entrever o que Hugo de São Vítor queria dizer 
ao fazer a conexão das Musas com a água e, em última análise, com 
o elemento úmido. E, disso, podemos começar a perceber qual o elo 
entre a música e a gramática, ou, até mesmo, a linguagem como um 
todo. Na estrutura do homem, admite-se, existem a princípio dois 
componentes: corpo e alma. O corpo pertence ao elemento seco e de 
terra, por ser em princípio mais estável e sensível, e a alma ao elemento 
úmido, por ser mais mutável e sutil. Existem, porém, outras divisões, 
como a divisão em 3 partes: o homem então é composto de corpo, alma 
e espírito. Entretanto, a que nos interessa, aqui, é a divisão em 4 partes: 
o homem, então, é composto de corpo, alma vegetativa, alma sensitiva e 
alma intelectual ou espiritual.
A alma vegetativa e a animal se endereçam à atividade das musas. 
A alma vegetativa, que temos em comum com as plantas, refere-se às 
atividades de nutrição, crescimento e reprodução; às necessidades de 
comer, beber e se reproduzir. A alma animal engloba a sensibilidade, 
os desejos e a imaginação, os quais têm suas próprias necessidades, 
que geralmente se encontram reunidas em torno do apetite por coisas 
prazerosas e belas — e por fugir das coisas dolorosas e feias. Ainda, diz 
respeito a função conhecida como alma irascível, que é potência para 
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As três artes da linguagem e pensamento
efetuar atividades que requerem esforço e não dão, de imediato, uma 
recompensa agradável.
As artes presididas pelas musas — resumidas em dança, poesia e 
música —, influenciam, inspiram e apaziguam de maneira mais direta 
as almas vegetal e animal; inclusive, isso fica claro quando lembramos 
que Orfeu, o filho da musa Calíope, influenciava com sua música as 
plantas e as bestas, principalmente. Podemos até especificar, dizendo 
que música se dirige mais para a alma vegetativa (diz-se que a música 
é o “alimento” da alma), e a poesia mais para alma sensitiva (mormente 
para a imaginação).
Seja como for, parece que com o exposto fica mais claro por que 
a educação grega resumia-se em ginástica e música. Essa educação é 
eminentemente uma educação que ordena o corpo pela ginástica, e a 
alma pela música. Essa ordenação se torna, então, a precondição para que 
o homem possa adentrar o vestíbulo dos estudos superiores. Podemos, 
seguindo o símbolo da música, entender que a ordenação é a eufonia 
de que fala Hugo de São Vítor, isto é, a alma que soa bem como uma 
sinfonia, na execução de seus diversos órgãos: uma alma bem afinada. 
Tal eufonia é a finalidade do estudo das Artes Liberais e começa com o 
estudo da Gramática.
Agora, precisamos investigar em que sentido a gramática produz 
uma ordenação interna e contribui para a eufonia da alma.
Correntemente no Brasil, a gramática é percebida como uma 
imposição externa sobre a linguagem natural. Parece algo forçado e 
artificioso: coisa de eruditos esnobes. Existem inclusive escolas de 
gramática que propõem que se ponha fim a essa imposição artificial, 
por paradoxal que isso aparente ser. Em suma, a gramática é vista como 
algo externo, cuja existência mesma já é quase tida como um luxo 
desnecessário.
Muito ao contrário, se ficarmos apenas no aspecto externo dela, 
sua função de dar coesão à língua falada por um povo, isto já por si 
justifica plenamente a existência de regras gramaticais fixas a serem 
ensinadas a todos os falantes. A dissolução dessa coesão é, na verdade, 
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