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Gramática Poderá soar extremamente estranho para muitos que Platão, na República, insira o estudo da gramática e da literatura no estudo da Música. Mas, pensando bem, não é tão estranho: a palavra ‘música’vem das Musas, e quer dizer originalmente algo como “aquilo que pertence às musas”. Para os gregos, as Musas presidem não apenas àquilo que conhecemos hoje como música, isto é, a ordenação de sons melodiosos entre si; também há musas que presidem a poesia, tanto lírica como épica: de fato, a ‘líder’das musas era a que presidia a poesia épica, Calíope. Complementarmente, a gramática lida em primeiro lugar com os sons da língua, sons esses que estão subordinados ao tempo e ao ritmo, assim como a música. Não admirará a ninguém, portanto, que o vocabulário técnico da gramática e da literatura se aproxime deveras do vocabulário da música. Há frase, período, ritmo, estilo, tom, etc., em ambas as artes. Há quem diga que a função de significar e referenciar conceitos e objetos, que pertence à gramática, corresponda à de significar e referenciar a harmonia da alma humana e do universo na música. A música e a língua seriam, nessa visão, duas formas de linguagem. A música, por sua vez, para Hugo de São Vítor, tinha esse nome porque sua raiz vinha da palavra que significaria água, ou umidade. Se essa etimologia é certa ou não, não vamos discutir aqui. Porém, simbolicamente, ela se encaixa. As Musas, na mitologia, estão ligadas tanto à água, quanto às montanhas (que, no fim, significam as alturas e o elemento do ar). Esses dois elementos (água e ar), na cosmovisão antiga, são os elementos úmidos, que pairam no meio termo, entre a terra e o fogo. Na Cosmologia 123 Trivium antiga, portanto, existe uma escala, visível a olho nu: a terra é o primeiro elemento, o mais resistente, maciço e pesado, que serve de apoio; depois, a água, que está contida na terra, e é o elemento adaptável, fluído, mas, também, pesado; após, o ar paira acima desses dois elementos, e também é fluido e adaptável (pois é úmido), porém este elemento é leve e não depende dos outros para sua estabilidade (que ele não tem muita); por fim, o fogo paira ainda acima do ar, como o mais elevado, e ele pode ser percebido no calor e na luz emanada do Sol, sendo em tese o mais sutil de todos. Entendida ao menos por alto essa cosmovisão, podemos perceber como as musas, claramente, estão ligadas ao elemento úmido. Os dois animais que as simbolizam são o cisne e a pega — dois pássaros —, um mais relacionado com a água, e o outro puramente com o ar. Assim, podemos entrever o que Hugo de São Vítor queria dizer ao fazer a conexão das Musas com a água e, em última análise, com o elemento úmido. E, disso, podemos começar a perceber qual o elo entre a música e a gramática, ou, até mesmo, a linguagem como um todo. Na estrutura do homem, admite-se, existem a princípio dois componentes: corpo e alma. O corpo pertence ao elemento seco e de terra, por ser em princípio mais estável e sensível, e a alma ao elemento úmido, por ser mais mutável e sutil. Existem, porém, outras divisões, como a divisão em 3 partes: o homem então é composto de corpo, alma e espírito. Entretanto, a que nos interessa, aqui, é a divisão em 4 partes: o homem, então, é composto de corpo, alma vegetativa, alma sensitiva e alma intelectual ou espiritual. A alma vegetativa e a animal se endereçam à atividade das musas. A alma vegetativa, que temos em comum com as plantas, refere-se às atividades de nutrição, crescimento e reprodução; às necessidades de comer, beber e se reproduzir. A alma animal engloba a sensibilidade, os desejos e a imaginação, os quais têm suas próprias necessidades, que geralmente se encontram reunidas em torno do apetite por coisas prazerosas e belas — e por fugir das coisas dolorosas e feias. Ainda, diz respeito a função conhecida como alma irascível, que é potência para 124 As três artes da linguagem e pensamento efetuar atividades que requerem esforço e não dão, de imediato, uma recompensa agradável. As artes presididas pelas musas — resumidas em dança, poesia e música —, influenciam, inspiram e apaziguam de maneira mais direta as almas vegetal e animal; inclusive, isso fica claro quando lembramos que Orfeu, o filho da musa Calíope, influenciava com sua música as plantas e as bestas, principalmente. Podemos até especificar, dizendo que música se dirige mais para a alma vegetativa (diz-se que a música é o “alimento” da alma), e a poesia mais para alma sensitiva (mormente para a imaginação). Seja como for, parece que com o exposto fica mais claro por que a educação grega resumia-se em ginástica e música. Essa educação é eminentemente uma educação que ordena o corpo pela ginástica, e a alma pela música. Essa ordenação se torna, então, a precondição para que o homem possa adentrar o vestíbulo dos estudos superiores. Podemos, seguindo o símbolo da música, entender que a ordenação é a eufonia de que fala Hugo de São Vítor, isto é, a alma que soa bem como uma sinfonia, na execução de seus diversos órgãos: uma alma bem afinada. Tal eufonia é a finalidade do estudo das Artes Liberais e começa com o estudo da Gramática. Agora, precisamos investigar em que sentido a gramática produz uma ordenação interna e contribui para a eufonia da alma. Correntemente no Brasil, a gramática é percebida como uma imposição externa sobre a linguagem natural. Parece algo forçado e artificioso: coisa de eruditos esnobes. Existem inclusive escolas de gramática que propõem que se ponha fim a essa imposição artificial, por paradoxal que isso aparente ser. Em suma, a gramática é vista como algo externo, cuja existência mesma já é quase tida como um luxo desnecessário. Muito ao contrário, se ficarmos apenas no aspecto externo dela, sua função de dar coesão à língua falada por um povo, isto já por si justifica plenamente a existência de regras gramaticais fixas a serem ensinadas a todos os falantes. A dissolução dessa coesão é, na verdade, 125