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Fiel a sua missão de interiorizar o ensino superior no estado Ceará, a UECE, como uma instituição que participa do Sistema Universidade Aberta do Brasil, vem ampliando a oferta de cursos de graduação e pós-graduação na modalidade de educação a distância, e gerando experiências e possibili- dades inovadoras com uso das novas plataformas tecnológicas decorren- tes da popularização da internet, funcionamento do cinturão digital e massificação dos computadores pessoais. Comprometida com a formação de professores em todos os níveis e a qualificação dos servidores públicos para bem servir ao Estado, os cursos da UAB/UECE atendem aos padrões de qualidade estabelecidos pelos normativos legais do Governo Fede- ral e se articulam com as demandas de desenvolvi- mento das regiões do Ceará. Fi si ol og ia A ni m al C om pa ra da Ciências Biológicas Ciências Biológicas Carminda Sandra Brito Salmito-Vanderley Fisiologia Animal Comparada U ni ve rs id ad e Es ta du al d o Ce ar á - U ni ve rs id ad e Ab er ta d o Br as il ComputaçãoQuímica Física Matemática PedagogiaArtes Plásticas Ciências Biológicas Geografia Educação Física História 9 12 3 Carminda Sandra Brito Salmito-Vanderley Fisiologia Animal Comparada Ciências Biológicas 2ª edição Fortaleza - Ceará 2015 ComputaçãoQuímica Física Matemática PedagogiaArtes Plásticas Ciências Biológicas Geografia Educação Física História 9 12 3 Editora da Universidade Estadual do Ceará – EdUECE Av. Dr. Silas Munguba, 1700 – Campus do Itaperi – Reitoria – Fortaleza – Ceará CEP: 60714-903 – Fone: (85) 3101-9893 Internet: www.uece.br – E-mail: eduece@uece.br Secretaria de Apoio às Tecnologias Educacionais Fone: (85) 3101-9962 Copyright © 2015. Todos os direitos reservados desta edição à UAB/UECE. 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Zamith Brito (FGV) Homero Santiago (USP) Ieda Maria Alves (USP) Manuel Domingos Neto (UFF) Maria do Socorro Silva Aragão (UFC) Maria Lírida Callou de Araújo e Mendonça (UNIFOR) Pierre Salama (Universidade de Paris VIII) Romeu Gomes (FIOCRUZ) Túlio Batista Franco (UFF) Editora Filiada à S171f Salmito-Vanderley, Carminda Sandra Brito. Fisiologia animal comparada / Carminda Sandra Brito Salmito-Vanderley . – 2. ed. – Fortaleza : EdUECE, 2015. 132 p. : il. ; 20,0cm x 25,5cm. (Ciências Biológicas) Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7826-349-2 1. Fisiologia animal. 2. Fisiologia animal – Sistema circulatório. 3. Fisiologia animal – Sistema respiratório. 4. Fisiologia animal – Sistema digestivo. 5. Atividades operacionais. I. Título. CDD 591.1 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Sistema de Bibliotecas Biblioteca Central Prof. Antônio Martins Filho Francisco Welton Silva Rios – CRB-3 / 919 Bibliotecário Sumário Apresentação ............................................................................................................ 5 Capítulo 1 - Noções básicas de fisiologia e sistemas circulatório e respiratório .................................................................................... 7 1.1. Introdução à fisiologia ....................................................................... 9 1.1.1. Entendendo o que é fisiologia .................................................... 9 1.1.2. Breve histórico ........................................................................ 10 1.2. Sistema circulatório ......................................................................... 11 1.2.1. Introdução ................................................................................ 11 1.2.2. Sistema circulatório dos vertebrados ....................................... 11 1.2.3. Circulação nos vertebrados ..................................................... 18 1.3. Sistema respiratório ........................................................................ 27 1.3.1. Introdução ............................................................................... 27 1.3.2. Aspectos gerais sobre os gases respiratórios no ar, na água e no sangue .............................................................................. 27 1.3.3. Órgãos respiratórios: fisiologia ................................................. 32 Capítulo 2 - Sistemas digestório e excretor .............................................53 2.1. Sistema digestório ........................................................................... 55 2.1.1. Introdução ................................................................................ 55 2.2. Excreção ......................................................................................... 70 2.2.1. Introdução ............................................................................... 70 2.2.2. Sistema renal .......................................................................... 71 Capítulo 3 - Sistemas de atividades operacionais ...............................83 3.1. Sistemas coordenadores ................................................................ 85 3.1.1. Introdução ................................................................................ 85 3.2. Sistema nervoso .............................................................................. 86 3.2.1. Sistema nervoso dos vertebrados: organização geral ............. 89 3.2.2. Funcionamento geral do sistema nervoso ............................... 92 3.3. Sistema endócrino .......................................................................... 98 3.3.1. Considerações sobre hormônios ............................................. 99 3.3.2. Órgãos endócrinos, hormônio e sua ação. ............................ 100 3.3.3. Controle da liberação hormonal ............................................. 104 3.3.4. Endocrinologia do sistema reprodutor ................................... 105 Capítulo 4 - Sistemas aferente e efetuador ............................................ 113 4.1. Sistema aferente ou sensorial ....................................................... 115 4.1.1. Paladar e olfato ...................................................................... 116 4.1.2. Luz e visão ............................................................................. 119 4.1.3. Audição e equilíbrio ................................................................ 119 4.2. Sistema efetuador:muscular ......................................................... 122 4.2.1. Contração do músculo esquelético ....................................... 124 4.2.2. Contração do músculo liso .................................................... 126 4.2.3. Contração do músculo cardíaco ............................................ 127 Sobre a autora .......................................................................................................132 Apresentação O presente livro foi desenvolvido no intuito de ajudar o aluno, o professor ou o curioso, no aprendizado da fisiologia comparada dos animais vertebrados, contribuindo com o desenvolvimento de seu pensamento e da sua capacida- de de visualizar o funcionamento das partes e do todo do organismo. Deixan- do margem também para o pensamento completo, ou seja, para se aceitar ou refutar o que foi dito. Nos dois primeiros capítulos, os temas abordados referem-se aos siste- mas e aparelhos que desempenham atividades de manutenção. Nestes, além de noções importantes do que vem a ser a fisiologia, observamos também os aspectos morfológicos e funcionais de cada um dos órgãos circulatórios, respiratórios, digestivos e excretores. Nos dois últimos capítulos, abordaremos os aspectos morfológicos e funcionais dos aparelhos e dos sistemas que desempenham atividades ope- racionais: nervoso, endócrino, dos sentidos e muscular. Em cada capítulo, há sugestão de leituras e destacam-se textos com- plementares e exercícios. Portanto, tudo aqui proposto destina-se à melhor apreensão do conteúdo pelo estudioso das áreas biológicas e ao estímulo à busca do conhecimento. A autora Capítulo 1 Noções básicas de fisiologia e sistemas circulatório e respiratório Fisiologia Animal Comparada 9 Objetivos • Obter noções básicas sobre o que é fisiologia; • Conhecer como ocorre a circulação do sangue em vários animais de gru- pos diferentes, bem como os fênomenos regulatórios da pressão sanguí- nea e do funcionamento do coração; • Conhecer como se dá o funcionamento dos órgãos respiratórios e os pro- cessos envolvidos na hematose. 1.1. Introdução à fisiologia 1.1.1. Entendendo o que é fisiologia Você sabe como funcionam os animais, suas estruturas, suas células? Este, desde sempre, foi e é um questionamento que povoa a mente hu- mana. E existe uma ciência que procura a resposta a esta questão: é a fisiologia. A fisiologia é a parte da biologia que estuda o funcionamento dos orga- nismos vivos. Ela estuda as funções integradas do corpo e de todas as suas partes (aparelhos, sistemas, órgãos, tecidos, células e componentes celula- res), incluindo processos biofísicos e bioquímicos. Portanto, o objetivo da fi- siologia é explicar os fatores físicos e químicos responsáveis pela origem, pelo desenvolvimento e pela continuação da vida. Sendo que cada organismo, do mais simples (vírus), passando pelos vegetais ou até pelos animais mais com- plexos (como os mamíferos), apresenta suas próprias características funcio- nais. Conclui-se, então, que a fisiologia é um campo vasto que pode ter várias vertentes, como a fisiologia virótica, bacteriana, vegetal, animal e humana. A célula é a unidade básica da vida. Todos os seres viventes são cons- tituídos por, pelo menos, uma célula. Nos organismos, tais como bactérias e protozoários, o organismo é a própria célula, e ela é capaz de exercer todas as funções vitais. É a unidade que compõe todos os tecidos, órgãos e sistemas, os quais compõem todo o animal. Nos organismos multicelulares, especialmente nos mais complexos, mui- tos milhões de células estão associadas formando os tecidos, estes se asso- ciam formando órgãos, cujos conjuntos formam os sistemas e os aparelhos. Os sistemas ou aparelhos dos animais desempenham funções específi- cas ou principais, e estas atividades podem ser classificadas em duas catego- rias: 1) atividades de manutenção, que ocorrem durante todo o tempo, mesmo Aparelho ou sistema é um conjunto de órgãos e estruturas responsáveis pela realização de determinada função no organismo. No entanto, se estes órgãos possuem origem embriológica diferente, fala-se aparelho; se não, diz-se sistema. A fisiologia animal tornou- se muito extensa. Hoje, são reconhecidas várias especializações, podendo ser baseadas nos sistemas do corpo (neurofisiologia, fisiologia gastrintestinal etc.) ou na organização biológica (fisiologia celular, e do organismo). Todas estas subdivisões tornam- se parte de todas as áreas de estudo, como fisiologia aplicada, comparada, fisiopatologia, médica e dos mamíferos. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 10 quando o animal está em repouso ou dormindo, e que incluem digestão, excre- ção, respiração e circulação; 2) atividades operacionais, que são todas aque- las atividades que são dirigidas para a obtenção de alimento, para escapar de seus inimigos e para encontrar seu companheiro, e que incluem contração muscular, órgãos dos sentidos, sistema endócrino e nervoso (esses dois sis- temas são responsáveis pela coordenação de todas as atividades corpóreas). Neste estudo, estaremos preocupados com esses sistemas e com o modo como se relacionam especificamente aos animais vertebrados, e de modo menos aprofundado, aos invertebrados. Aqui, abordaremos os aspec- tos funcionais da respiração, circulação, digestão, excreção, integração ner- vosa, endócrina, dos sentidos e muscular. 1.1.2. Breve histórico A fisiologia moderna nasceu no século XVI, e sua primeira contribuição se deve a Miguel Servet (1511 – 1553), que estudou a circulação pulmonar. Até esse mo- mento, a ciência fisiológica estava apoiada nas concepções puramente teóricas do médico grego Galeno: admitia-se, por exemplo, uma comunicação entre os dois ventrículos do coração por meio de invisíveis canais. Mas foi o anatomista William Harvey (1578 – 1657) que descreveu, pela primeira vez, corretamente, os detalhes do sistema circulatório do sangue ao ser bombeado, pelo coração, por todo o corpo, no século XVII, iniciando assim a fisiologia experimental. A partir do século IX é que o conhecimento da fisiologia começa a ser gerada rapidamente. No entanto, estando as células no centro da vida, vale salientar a importância da invenção do microscópio composto em 1590, por Zacharias Jansen, e, por consequência, as descobertas de Robert Hooke, em 1665, e a Teoria celular de Mathias Schleiden e Theodor Schwann. Alguns dos importantes cientistas que contribuíram para a fisiologia no sé- culo IX foram Claude Bernard (1813 – 1878), que descobriu a hemoglobina como carreadora de oxigênio, e a produção por glândulas sem ducto de substâncias in- ternas, carreadas pelo sangue (hormônios), que influenciavam tecidos distantes; e Walter Cannon (1871-1945), que descutiu o conceito da homeostase. A partir do século XX, o objetivo maior da fisiologia tem sido aplicar o conhe- cimento fisiológico, em plena expansão aos animais que vivem nos diferentes am- bientes, e tentar compreender a natureza da diversidade fisiológica. Destacam-se: Per Scholander (1905-1980), um dos primeiros e mais influentes fisiologistas com- parativos; C. Ladd Prosser (1907-2002), que apresentou sua teoria sobre adapta- ção evolutiva, baseada em seus estudos sobre os vários níveis de complexidade orgânica; Knut Schmidt-Nielsen (1915-2002) e George A. Bartholomew (1919- 2006), que, juntamente com Per Scholander, foi o fundador da fisioecologia, uma importante área da fisiologia animal comparada, Bartholomeu e Scholander estu- Princípio de Krogh (August Krogh, 1929): "para cada problema fisiológico, existe um animal-modelo adequado ao seu estudo". Por exemplo: axônio gigante da lula e o rim de roedores de desertos. Homeostase é a capacidade que apresenta o organismo de manter o meio interno constante, tanto em ritmo como em composição química. Segundo Walter Cannon: “o equilíbrio pode ser atingido tanto com a constância como com a inconstância do meio interno”. Fisiologia AnimalComparada 11 daram as adaptações funcionais dos organismos em seus ambientes naturais; e Peter W. Hochachka (1937-2002), que fundou o campo da Bioquímica Adaptativa. Esse pesquisador estendeu para o nível subcelular, nossa compreensão sobre como os animais se adaptam aos ambientes hostis, mostrando os mecanismos bioquímicos adaptativos que permitem que os animais vivam em ambientes tão di- versos, como o mar profundo, os oceanos antárticos, os picos de altas montanhas e as florestas tropicais. 1.2. Sistema circulatório 1.2.1. Introdução As células de todos os seres vivos precisam respirar e receber nutrientes, bem como eliminar os resíduos de seu metabolismo. A menos que seu tamanho e sua estrutura coloquem todas as suas células em estreita proximidade com um ambiente aquoso (trocas diretas com o meio), os animais devem ter um sistema de transporte interno, composto de um líquido circulante especializa- do (o sangue ou a hemolinfa) e um mecanismo capaz de bombear (coração) este líquido a certa frequência que possibilite a máxima eficiência do sistema. Nos animais, há dois tipos de sistema circulatório: a) Sistema circulatório aberto ou lacunar: no qual o líquido bombeado pelo coração abandona periodicamente os vasos e cai em lacunas cor- porais, chegando aos tecidos e, destes, volta lentamente ao coração. As trocas de substâncias entre o líquido e as células também são lentas (limi- tante para animais maiores). Esse sistema é encontrado nos artrópodes e na maioria dos moluscos. b) Sistema circulatório fechado: em que há uma grande rede de vasos (o sangue nunca abandona esses vasos), e as trocas entre sangue e teci- dos ocorrem nos vasos de paredes mais delgadas (capilares). O líquido circula rápida e constantemente a uma pressão elevada devido à bomba cardíaca, e o sangue pode alcançar grandes distâncias. Esse tipo de sis- tema circulatório é encontrado em anelídeos, lulas e polvos, assim como em todos os vertebrados. 1.2.2. Sistema circulatório dos vertebrados Os vertebrados, sendo grandes e maciços, têm o sistema circulatório mais desenvolvido do reino animal, que funciona transportando gases respiratórios, nutrientes, resíduos metabólicos, hormônios e anticorpos. Esse sistema age conjuntamente com os rins e alguns outros órgãos na manutenção do meio interno. Além disso, remove do corpo materiais tóxicos e patogênicos e pode A circulação pode ser ainda classificada em simples (quando o sangue passa uma única vez pelo coração, ex: peixes) e dupla (o sangue passa duas vezes pelo coração, quando chega do corpo e quando vem do pulmão, ex: peixes pulmonados, anfíbios, répteis e mamíferos); ou ainda em incompleta (o sangue venoso mistura-se com o arterial, por ex.: répteis e anfíbios) e completa (não há mistura do sangue venoso com o arterial, por ex.: aves e mamíferos). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 12 funcionar associado aos músculos e ao tegumento, na regulação da tempe- ratura. Outra característica desse sistema é que ele tem a capacidade de reparar ferimentos, compensar danos e responder, com surpreendente versa- tilidade, aos diferentes requisitos do momento. Para que as trocas entre o sangue e os tecidos ocorram, nos vertebra- dos, faz-se necessário que o sangue circule, nos capilares, com velocidade baixa, e que as membranas que separam o sangue das células, na zona tis- sular, sejam finas e permeáveis, além de uma elevada diferença de concen- tração das substâncias a serem trocadas. Para tanto, esses animais precisam ter bombas sanguíneas potentes (corações) e sistemas circulatórios fechados nos quais se desenvolvem pressões sanguíneas consideráveis, favorecendo a eficaz troca entre os meios (sanguíneo e tissular, e vice versa). Nos vertebrados de sangue frio (peixes, anfíbios e répteis), alguns pa- râmetros cardíacos, assim como a pressão sanguínea arterial, são, em geral, mais baixos que nos vertebrados de sangue quente (aves e mamíferos) de tamanho corporal semelhante. Sabe-se que a manutenção da temperatura corporal mais elevada permite uma atividade mais contínua e, por sua vez, re- quer um suporte de O2 e de alimento mais contínuo nos tecidos. Pressupõe-se, então, que a pressão sanguínea nos vertebrados superiores deva ser elevada e estar sujeita a um melhor controle. É sabido ainda que a mudança da respi- ração aquática para a aérea necessitou de alterações na estrutura e na função cardiovascular, no entanto, via de regra, o sistema circulatório possui os mes- mos componentes, independente do grupo de vertebrados a que pertença. O sistema circulatório (cardiovascular) dos vertebrados tem dois compo- nentes: o sistema vascular sanguíneo e o sistema linfático. O primeiro consiste em coração, vasos sanguíneos (artérias, veias e capilares) e sangue. As artérias distribuem o sangue do coração para os tecidos, e as veias retornam o sangue dos tecidos para o coração. O sistema vascular sanguíneo dos vertebrados (dife- rente do dos invertebrados, exceto anelídeos) é um sistema contínuo de ductos, e, por essa razão, é denominado sistema fechado. Entretanto, os fluidos consti- tuintes do sangue escoam para fora dos capilares, por meio de difusão, osmose e pressão hidrostática (pressão média do sangue) produzida pelo coração. Os fluídos devem se acumular dentro dos tecidos e causar inchaços caso não sejam drenados pelo segundo componente do sistema circulatório, o sistema linfático, composto por capilares, vasos, linfonodos e órgãos linfoides. Os fluidos tissulares entram nos capilares linfáticos, de fundo cego, onde constituem a linfa. 1.2.2.1. Coração O coração é o órgão central do sistema circulatório, funcionando como uma bomba aspirante e premente, destinada a manter constante o fluxo sanguíneo Fisiologia Animal Comparada 13 nos vasos. O tamanho e a anatomia do coração variam entre os grupos e entre as diferentes espécies de um mesmo grupo. Como consideração geral (usando-se o mamífero como referência), o coração é uma poderosa bomba situada dentro do saco pericárdico. A pare- de do coração é composta de três camadas de fora para dentro: epicárdio, miocárdio e endocárdio. O termo epicárdio é aplicado à camada visceral do pericárdio seroso, que está firmemente ligado ao músculo cardíaco; o miocár- dio representa o músculo cardíaco; e o endocárdio é o revestimento endotelial liso das cavidades do coração. O coração e o seu saco pericárdico estão situados, nos mamíferos, no centro do tórax, na região do mediastino médio, entre os dois pulmões, com a maior parte (60%) ficando à esquerda do plano mediano, cranial ao diafragma, caudal à entrada do tórax e ao timo (animais jovens), dorsalmente ao esterno e ventralmente às costelas. Ele encontra-se sustentado pelos vasos e demais estruturas que a ele chegam e fica inteira- mente livre no pericárdio. 1.2.2.1.1. Peixes No longo processo de evolução das espécies, o coração foi sendo aperfei- çoado. Nos peixes, ele possui apenas dois compartimentos (um átrio e um ventrículo). O átrio é precedido por uma pequena dilatação, chamada de seio venoso. O ventrículo faz continuação com outra pequena dilatação, o cone ou bulbo arterioso. O sangue que circula pelo coração dos peixes é estrita- mente venoso. a) O seio venoso é um saco de paredes finas com pouco tecido muscular, essencialmente um local para coleta de sangue venoso, situado atrás, na região do septo, entre a cavidade pericárdica e o celoma geral. Ele recebe a veia ou as veias hepáticas em sua parte posterior e as cardinais comuns pares lateralmente. b) O átrio (ou aurícula) é a câmara anterior seguinte, ainda com paredes relativamente finas e distensíveis. c) O ventrículo tem paredes grossas, sendo a principal parte contrátil do coração. d) O cone arterioso tem paredes espessas, mas é pequeno em diâmetro e apresenta frequentemente diversos conjuntos de válvulas. Esse tipo primitivo de coração descrito desenvolveu-se tipicamente nos pei- xes cartilaginosos. Na maioria dos outros peixes,o coração é uma estrutura seme- lhante, podendo existir, no entanto, modificações sem muita importância (Figura 1.1). O coração é parcialmente envolvido pelo pericárdio. É composto de duas camadas: o epicárdio (mais interno) e o pericárdio parietal. Entre eles, há um estreito espaço preenchido pelo líquido pericardíaco. Este líquido diminui o atrito gerado pela movimentação do coração. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 14 Figura 1.1. Esquema do coração de peixes. Fonte: Adaptado de SCHMIDT-NIELSEN (1999). 1.2.2.1.2. Peixes pulmonados e anfíbios Os peixes pulmonados e os anfíbios já trazem uma inovação no coração: a presença de três cavidades cardíacas – dois átrios e um ventrículo (Figura 1.2). O átrio direito do coração desses animais corresponde perfeitamente ao átrio único dos peixes, pois recebe sangue venoso e é também antecedido pelo seio venoso. O átrio “novo” se situa à esquerda e recebe sangue arterial. Entre os átrios e o ventrículo único, existe um só orifício de passagem para o ventrículo. Nos anfíbios, esse orifício é guarnecido por quatro válvulas que auxiliam no fechamento dessa abertura. Nos peixes pulmonados, existe uma almofada especial de tecido da parede posterior fazendo esse papel. Nesses animais há mistura de sangue arterial e venoso no ventrículo, por isso, diz-se que neles a circulação é incompleta. Figura 1.2. Esquema do coração tricavitário de peixes pulmonados e de anfíbios. Fonte: HILDEBRAND; GOSLOW (2006). Fisiologia Animal Comparada 15 1.2.2.1.3. Nos répteis Nos répteis, observa-se um septo no interior do ventrículo (um tabique ou uma parede), dividindo-o em dois compartimentos. Na maioria dos répteis, esse septo não separa totalmente os dois compartimentos ventriculares. Então, o sangue arterial ainda se mistura com o venoso (circulação incompleta). O septo que divide parcialmente o ventrículo é chamado de septo interventricu- lar (septo de Sabatier). Já nos crocodilianos (jacarés e crocodilos), o septo interventricular é completo e divide o ventrículo em dois (ventrículos direito e esquerdo). Mas ainda neles ocorre mistura de sangue arterial com venoso, porque, entre os dois troncos, sistêmicos e pulmonares, que saem do ventrí- culo, existe uma ponte, que é chamada de forame de Panizza, através da qual passa um pouco de sangue arterial de um tronco para outro. 1.2.2.1.4. Aves e mamíferos Nas aves e nos mamíferos, a evolução atingiu um alto grau no aprimoramento do coração. Nestes animais, o coração consiste em uma bomba de quatro câ- maras distintas (dois átrios e dois ventrículos), correndo sangue arterial pelas câmaras esquerdas, e sangue venoso pelas câmaras direitas. Não há mistura de sangue arterial e venoso (circulação completa). O sistema circulatório das aves é semelhante ao dos mamíferos, com poucos detalhes que não possuem significado fisiológico. O coração das aves é proporcionalmente maior que o dos mamíferos, devido à sua necessidade metabólica para o voo. O arco aórtico persistente fica do lado direito, enquanto o dos mamíferos está localizado à esquerda. O coração tem a forma de um cone irregular e um tanto achatado. Inter- namente, possui as seguintes câmaras (Figura 1.3): a) Átrio direito (AD): É formado por uma cavidade central (seio das veias cava), a qual se prolonga em um divertículo em fundo cego (a aurícula do AD). Esta aurícula se relaciona com a origem do tronco pulmonar. No AD, encontramos as desembocaduras de vários vasos, em especial daque- les que trazem o sangue venoso do corpo, que são os óstios (forames) da veia cava cranial (par na ave) e caudal. Além destas aberturas, ainda temos outra, que é o óstio atrioventricular direito (abertura circular que comunica o átrio direito ao ventrículo direito). b) Ventrículo direito (VD): tem formato um tanto triangular. Sua parede é mais delgada e sua cavidade mais ampla que a do ventrículo esquerdo (VE). Ele se prolonga dorsocaudalmente na face esquerda do coração e forma o cone arterial (expansão alongada), que se continua com o tron- O átrio direto está separado do esquerdo pelo septo interatrial. Neste septo, no feto, há o forame oval, que, no adulto, está ocluído e chama-se fossa oval, estando situado na desembocadura da veia cava caudal. O óstio atrioventricular direito é circundado por um anel fibroso (esqueleto cardíaco), que mantém sua circunferência aproximadamente constante durante as contrações cardíacas. Sua margem é provida pela valva atrioventricular direita ou tricúspide, constituída por três pregas aproximadamente triangulares, as válvulas ou os cúspides. O óstio atrioventricular esquerdo também é circundado por um anel fibroso, no qual se prende a valva atrioventricular esquerda (bicúspide ou mitral), constituída por duas válvulas ou cúspides. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 16 co pulmonar (artérias pulmonares direita e esquerda). O óstio do tronco pulmonar é provido pela valva do tronco pulmonar, constituída por três válvulas semilunares. c) Átrio esquerdo (AE): Apresenta, como o direito, uma cavidade central e uma expansão em fundo cego, a aurícula do AE. No AE, abrem-se os óstios das veias pulmonares, que são em número de duas a quatro, dependendo da espécie. Ventralmente, o AE comunica-se com o ven- trículo esquerdo, através do óstio atrioventricular esquerdo ou mitral. d) Ventrículo esquerdo (VE): Tem paredes mais espessas que o VD. Nele, abrem-se o óstio atrioventricular esquerdo e o óstio da aorta. O óstio da aorta é provido pela valva da aorta, composta de três válvulas semilunares. No coração, encontramos células (fibras) musculares modificadas que possuem a capacidade de gerar e/ou de transmitir impulsos para contração, é o sistema de condução do coração. Este sistema é formado pelo nó sinuatrial (marcapasso), o nó atrioventricular e o fascículo atrioventricular. Mais à frente, neste capítulo, falaremos da sua importância. Figura 1.3. Anatomia interna do coração de mamífero. Fonte: http://www.sobiologia.com.br/ conteudos/FisiologiaAnimal/circulacao.php. 1.2.2.2. Tipos de vasos sanguíneos Os vasos condutores do sangue são as artérias, as veias e os capilares sanguíneos. As artérias são tubos cilindroides, elásticos, nos quais o sangue circula centrifugamente em relação ao coração, e seus batimentos, às vezes, são notados apenas pela palpação. Tendo em vista seu diâmetro, as artérias po- dem, de um modo simplificado, ser classificadas em artérias de grande (> No coração, existem estruturas denominadas de esqueleto cardíaco, que circundam vários óstios. Nos ruminantes adultos, podem-se encontrar um ou dois ossos do coração, no anel de tecido fibroso que circunda o óstio da aorta. Encontram-se, nos cães, nas tartarugas, nos equinos e nos suínos, peças de cartilagem hialina que podem ossificar-se em animais idosos. No coelho, encontram-se até 5 nódulos de cartilagem hialina, formando-se no anel fibroso da aorta. Na girafa, está presente um tecido elástico compondo o anel fibroso da aorta, que também podem ser encontrados nos anéis fibrosos que compõem os óstios atriventricular esquerdo e direito e do tronco pulmonar. Fisiologia Animal Comparada 17 de 7 mm), médio (2,5 a 7 mm) e pequeno (2,5 a 0,5 mm) calibre e arteríolas (<0,5 mm). As arteríolas são os menores ramos das artérias e oferecem maior resistência ao fluxo sanguíneo, contribuindo assim para reduzir a tensão do sangue antes de sua passagem pelos capilares. As veias são tubos nos quais o sangue circula centripetamente em re- lação ao coração. As veias fazem sequência aos capilares e transportam o sangue que já sofreu trocas com os tecidos, da periferia para o centro do sistema circulatório, que é o coração. Suas finas paredes deixam transpare- cer o sangue que nelas circula. Sua forma varia de acordo com a quantidade de sangue em seu interior. Quando fortemente distendidas, apresentam-se nodosas devido à presença das válvulas. Como ocorre com as artérias, asveias podem ser classificadas em veias de grande, médio e pequeno calibre e vênulas, estas últimas, seguindo-se aos capilares. Os capilares sanguíneos são vasos microscópicos (0,01 mm de diâme- tro), interpostos entre artérias e veias. Neles se processam as trocas entre o sangue e os tecidos. Sua distribuição é quase universal no corpo, sendo rara a sua ausência em tecidos ou órgãos (a epiderme, a cartilagem hialina, a cór- nea e a lente do olho são avasculares). No sistema de vasos linfáticos, circula a linfa, sendo basicamente um sistema auxiliar de drenagem, ou seja, auxiliar do sistema venoso. Nem todas as moléculas do líquido tecidual passam para os capilares sanguíneos. É o caso de moléculas de grande tamanho, que são recolhidas em capilares es- peciais – os capilares linfáticos, de onde a linfa segue para vasos linfáticos, e destes para troncos linfáticos, os mais volumosos, que, por sua vez, lançam a linfa em veias de médio ou de grande diâmetro. Os capilares linfáticos são mais calibrosos e mais irregulares que os sanguíneos, e terminam em fundo cego, sendo geralmente encontrados na maioria das áreas onde estão situ- ados os capilares sanguíneos. São extremamente abundantes na pele e nas mucosas. Os vasos linfáticos possuem válvulas em forma de bolso, como as das veias, e elas asseguram o fluxo da linfa numa só direção, ou seja, para o coração. Os vasos linfáticos estão ausentes no sistema nervoso central, na medula óssea, nos músculos esqueléticos (mas não no tecido conjuntivo que os reveste) e nas estruturas vasculares. Nos anfíbios, répteis e em algumas aves, o sistema linfático apresen- ta corações linfáticos, pequenas estruturas musculares com duas câmaras, situadas em locais onde os vasos linfáticos se abrem nas veias, e que bom- beiam a linfa para o interior da circulação geral. Geralmente estes corações são pouco numerosos. Na maioria das aves e nos mamíferos, não há cora- ções linfáticos. Nestes últimos, o fluxo da linfa é relativamente lento durante os períodos de inatividade de uma área ou órgão. A atividade muscular provoca Numerosa é a quantidade de capilares num tecido, porém nem todos esses vasos permanecem abertos ao mesmo tempo, pois a abertura depende da necessidade do órgão em determinado momento. Para se ter um ideia, de acordo com Schimidt-Nielsen (1999), em uma área de 1 mm2 de músculo de cobaia em repouso, existem cerca de 100 capilares abertos, e, quando em atividade, esse número pode chegar a 3.000 capilares abertos em 1 mm2. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 18 o aparecimento de fluxo mais rápido e regular. A circulação da linfa aumenta durante o peristaltismo (movimento das vísceras do tubo digestivo) e também com o aumento dos movimentos respiratórios, mas é pouco influenciada por elevação da tensão arterial. 1.2.3. Circulação nos vertebrados Neste item, discutiremos, primeiramente, a circulação de forma geral, e inicia- remos apresentando as características dos animais de sangue quente (mamí- feros e aves) para depois observarmos as particularidades da circulação nos demais grupos de animais. O miocárdio (parede muscular do coração) tem a propriedade de con- trair-se com força considerável, empurrando fortemente o sangue para as ar- térias. A circulação do sangue ocorre por meio de duas correntes sanguíneas (a circulação sistêmica e a pulmonar), as quais partem, ao mesmo tempo, para o coração (Figura 1.4). Figura 1.4. Esquema geral das redes vasculares principais do animal. O pontilhado in- dica sangue oxigenado. AE- átrio esquerdo; AD- átrio direito; VE- ventrículo esquerdo; e VD- ventrículo direito. Fonte: FRANDSON et al. (2005). Na circulação pulmonar, ou pequena circulação, o sangue venoso (po- bre em O2) é enviado pelo VD, através da artéria pulmonar (passando pelas válvulas semilunares), para os capilares pulmonares, onde se processa a he- matose, ou seja, a troca de CO2 por O2. O sangue oxigenado retorna ao co- ração pelas veias pulmonares, que o leva ao AE, de onde passará para o VE, passando pela valva bicúspide (ou mitral). O coração comporta- se como duas bombas que atuam interligadas, o lado direito e o lado esquerdo. Observa-se que as metades, direita e esquerda, do coração agem sincronicamente, uma vez que, para certo volume de sangue bombeado do lado esquerdo do coração, entrará o mesmo volume do lado direito. Porém, sabe-se que a cavidade ventricular do lado direito é mais ampla e possui paredes mais finas, isto ocorre porque, do lado direito, é necessário uma força (pressão) menor para esguichar o sangue para os pulmões, em contradição àquela que bombeia para todo o corpo. Fisiologia Animal Comparada 19 O sangue arterial, ao ser esguichado pelo VE para fora do coração, pela artéria aorta (através da valva semilunar), para irrigar os órgãos, inicia a grande circulação (sistêmica). Ao passar pelos órgãos (onde, através dos capilares, processam-se as trocas entre o sangue e os tecidos − Figura 1.5), o sangue, agora carregado de resíduos e CO2, volta ao coração através das veias cavas cranial (ou superior) e caudal (ou inferior), as quais desembocam no AD, de onde o sangue passará para o ventrículo direito (através da valva tricúspide). Este, ao contrair-se, promove o reinício da pequena circulação. Percebe-se, portanto, que a circulação sanguínea como um todo é um ato que deve ocorrer com todas as estruturas do sistema circulatório, funcionando coordenada e integralmente. Como já mencionada, a força motora que gera o fluxo de sangue pela extensa rede de vasos é a contração do coração. Os vasos fornecem uma via para o movimento e permitem a troca entre o sangue e os líquidos intersti- ciais na altura dos capilares. A velocidade de transporte e de troca geralmente é determinada pela velocidade de fluxo sanguíneo através dos capilares. A contração cardíaca gera a pressão, e esta favorece que o sangue percorrer os vasos (a medida desta força é a pressão hidrostática ou pressão média do sangue nos vasos). Esta força geradora de pressão arterial faz-se importante, pois existe uma resistência vascular fornecida pelos vasos que deve ser ven- cida para o sangue fluir. Figura 1.5. Representação esquemática do capilar e das forças que determinam as trocas entre sangue capilar e tecido. Fonte: Adaptado de McCAULEY (1976). A resistência (R) para o fluxo através de um único tubo depende do comprimento (C) do tubo (quanto maior o comprimento, maior a resistência); do raio (r) do tubo (quanto menor o raio, maior a resistência); e da viscosidade do líquido (η) que flui no tubo (quanto maior viscosidade, maior a resistência). Pode-se calcular a resistência de um fluido em um tubo pela fórmula matemática a seguir: 48 LR r η π = Muito embora o raio do vaso tenha papel preponderante sobre a resistência que será imposta à passagem do sangue, o cálculo desta resistência não é tão simples, pois se deve levar em consideração que a ramificação dos vasos diminui a resistência. De fato, nos capilares, a resistência é relativamente baixa, apesar do seu pequeno diâmetro. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 20 As paredes das artérias são elásticas e esticam e relaxam para manter o sangue circulando por todas as partes do corpo. O coração, ao contrair-se, propulsiona um determinado volume de sangue através da artéria aorta. À medida que o sangue passa pelas artérias, elas se contraem pressionando o sangue para frente. Essa pressão é necessária para que o sangue consiga chegar aos locais mais longínquos do organismo (ex.: dedos dos pés). A passagem de sangue pelos vasos não pode cessar e, de fato, o co- ração é uma bomba que contrai dia e noite, numa frequência, no caso do humano adulto em repouso, de cerca de 70 vezes por minuto. Poder-se-ia pensar que, nem um animal de maior porte, como o sangue precisa percorrer um espaço corporal maior, a frequência de batimentos cardíacos seria tam- bém mais elevada, porém este pensamento é errado,pois, por exemplo, no elefante, a frequência é de 25 batimentos por minuto. Isto tem resposta na atividade metabólica, que nos animais de grande porte é menor. Na realidade, é num camundongo de apenas 4g que encontramos a maior frequência cardí- aca, de 800 batimentos por minuto (SCHMIDT-NIELSEN, 1999). A frequência cardíaca, assim com a pressão arterial, nas aves, é mais elevada que nos mamíferos de tamanho semelhante. 1.2.3.1. Ciclo cardíaco A contração do coração é denominada de sístole, e o relaxamento de diás- tole. Ciclo cardíaco é o nome dado a um ciclo completo de contração e de relaxamento cardíaco (FRANDSON et al, 2005). Os eventos do ciclo cardíaco ocorrem em sequência específica, como veremos posteriormente. A sístole refere-se à contração de uma câmara do coração que dirige sangue para fora da câmara, enquanto diástole refere-se ao relaxamento de uma câmara do coração antes do enchimento e durante o enchimento des- sa câmara. Muito embora existam as sístoles e diástoles atrial e ventricular, descrevendo a atividade das câmaras cardíacas específicas, usa-se o termo diástole e sístole, costumeiramente, para descrever as duas principais fases do ciclo cardíaco, que têm, como base, a atividade dos ventrículos (FRAND- SON et al, 2006). No início da sístole, observa-se que os ventrículos começam a se con- trair devido à pressão nestes compartimentos ser singular maior que a de seus respectivos átrios (vazios ou em enchimento). As valvas atrioventricu- lares (tricúspide ou mitral) estão fechadas. Neste momento, as valvas semi- lunares, que ligam os compartimentos ventriculares às suas artérias corres- pondentes (do tronco pulmonar ou aorta), também se encontram fechadas, e, como a contração continua, isto faz com que a pressão interna dos ven- trículos aumente ainda mais, ficando mais elevada que a das artérias. Esta A frequência cardíaca se mantém devido a um grupo de fibras musculares cardíacas modificadas especializadas, o nodo sinoatrial e nodo átrioventricular. Essas células são capazes de gerar sinais elétricos que estimulam a contração do miocárdio, sendo que as do nó sinoatrial são chamadas de marca- passo cardíaco, pois são capazes de gerar impulsos mais rapidamente. Existe também o feixe interventricular especializado em condução do impulso para a contração muscular. O único momento de descanso do coração diz-se respeito à pequena fração de segundo entre as contrações (SCHMIDT- NIELSEN, 1999). Débito cardíaco é a quantidade de sangue bombeado pelo coração por minuto. Fisiologia Animal Comparada 21 diferença de pressão promove a abertura das valvas semilunares, e o sangue é esguichado para os vasos. Ao final da ejeção do sangue pelos ventrículos, a pressão neles cai, ficando menor que a das artérias, e as valvas semilunares fecham. A pressão sanguínea na artéria aorta e no tronco pulmonar se mantém, mesmo quando os ventrículos começam a relaxar, devido à elasticidade da parede desses vasos. Se não fosse essa propriedade elástica dos vasos arteriais, a pressão subiria muito durante a sístole, o que acontece em quem tem arteriosclerose (devido ao endurecimento das paredes). No início da diástole, as valvas semilunares e atriventriculares estão fechadas, e os ventrículos estão relaxando. Enquanto isso, sua pressão inter- na vai caindo. Enquanto as valvas atrioventriculares estão fechadas durante a sístole e o início da diástole, o sangue continua a fluir para os átrios direito e esquerdo, a partir das circulações sistêmica e pulmonar, respectivamente. O sangue vai se acumulando nos átrios e, por consequência, à pressão san- guínea atrial vai se elevando. Em certo, momento a pressão sanguínea atrial excede a pressão sanguínea ventricular, as diferenças de pressão abrem as valvas atrioventriculares, e o grande quantidade de sangue acumulado flui rapidamente para dentro dos ventrículos. A maior parte do enchimento ven- tricular ocorre durante este período. Apenas 15% de sangue adicional são impulsionados para os ventrículos, ao final da diástole, pela contração atrial. O sangue continua a fluir no átrio durante toda a diástole e, como as valvas atrioventriculares estão abertas, flui diretamente, através dos átrios, para dentro dos ventrículos. Como mencionado antes, a diástole é a fase do ciclo cardíaco que aumenta mais com frequências cardíacas baixas, de modo que as frequências cardíacas fornecem um longo período para enchi- mento ventricular. 1.2.3.1.1. Sistema de condução do coração Como citado anteriormente, o ritmo de contração do músculo cardíaco é dado por um conjunto de fibras musculares cardíacas modificadas, denomi- nado sistema de condução do coração, que é constituído pelo nó sinu-atrial, nó atrioventricular e fascículo atrioventricular (Figura 1.6). De fato, o coração, independente de ser de animais homeotérmicos ou pecilotérmicos, mesmo quando retirado do corpo do animal, continua a contrair-se ritmicamente durante algum tempo. A esta propriedade deu-se o nome de automatismo cardíaco. No caso do coração isolado de animal de sangue quente, este automatismo se apresenta desde que colocado em uma solução líquida especial substitutiva do sangue. Dois sons cardíacos distintos podem ser ouvidos durante cada ciclo cardíaco em todas as espécies mamíferas domésticas, os quais são tipicamente descritos como lub (primeiro som, ou S1) e dub (segundo som, ou S2). Esses sons são separados por um curto intervalo e seguidos por uma pausa maior. O primeiro som marca o início da sístole e o segundo som marca o início da diástole. O volume de sangue ejetado do ventrículo a cada contração denomina-se volume de ejeção. Normalmente, os volumes de ejeção para os ventrículos direito e esquerdo são os mesmos. Se não forem iguais, o sangue tende a acumular- se ou na circulação sistêmica ou na pulmonar. O volume de sangue em cada ventrículo, no final da diástole, é o volume diastólico final. Durante a sístole, cada ventrículo ejeta apenas uma porcentagem (40 – 60%) de seu volume diastólico final. Esta porcentagem de sangue ejetado denomina- se fração de ejeção (FRANDSON et al., 2006). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 22 Muito embora o coração possa contrair sem auxílio de estimulação ner- vosa, isso não significa que os nervos não tenham importância para o funcio- namento deste órgão. Na realidade, o controle da atividade cardíaca é feito através do nervo vago (atua inibindo) e do nervo simpático (atua estimulando). Esses nervos agem sobre o nó sinuatrial (situado na parede do átrio direito), considerado como o “marcapasso” do coração. Daí, ritmicamente, o impulso propaga-se ao miocárdio, resultando na contração primeiramente dos átrios. Este impulso chega ao nó atrioventricular (localizado na porção inferior do septo interatrial). No nó atrioventricular, o impulso é retardado por poucos centésimos de segundo, antes de permitir a sua propagação para o ventrículo. Este retardo permite que os átrios esguichem o sangue para os ventrículos, antes de estes iniciarem sua contração. O impulso chega aos ventrículos atra- vés do feixe atrioventricular (situado inicialmente ao nível da porção superior do septo interventricular, depois emite os ramos direito e esquerdo). Este es- tímulo é propagado rapidamente na parede do ventrículo (pelo sistema de Purkinge), levando a uma forte contração do ventrículo dentro de poucos cen- tésimos de segundos. Figura 1.6. Sistema de condução elétrica do coração. Fonte: Adaptado de http://patofisio. files.wordpress.com/2010/04/em_0018.jpg. 1.2.3.1.2. Nos peixes No típico sistema circulatório dos peixes, o sangue circula em uma série de vasos fechados, similar aos de vertebrados superiores. Vimos que estes ani- mais possuem um coração que funciona como uma bomba de circuito único, ou seja, ele bombeia um único fluxo de sangue, venoso, para a região anterior Fisiologia Animal Comparada 23 do corpo. Este tipo de circulação é denominadosimples. Saindo do coração, o sangue chega aos capilares das brânquias, onde absorve oxigênio e se dirige para os tecidos. Dos tecidos, retorna ao coração (Figura 1.7). O sangue venoso chega ao coração pela veia cardinal comum. Essa veia desemboca seu conteúdo no seio venoso, daí o sangue passa para o único átrio, através de um óstio que contém a válvula sinuatrial (com tecido de marcapasso). O átrio expele o sangue através de uma ou de mais fileiras de válvulas atrioventriculares para o ventrículo, e deste para a câmara cha- mada cone arterial (ou bulbo), que se continua com a artéria ventral. Essa câmara provavelmente corresponde à primeira porção da aorta de mamíferos. A parede deste cone encontra-se revestida internamente por várias fileiras de válvulas semilunares que impedem o refluxo do sangue para o interior do ventrículo e que, aparentemente, servem para igualar as ondas de pressão arterial, produzindo assim um fluxo de sangue mais uniforme e contínuo atra- vés das brânquias. Um fator limitante da circulação sanguínea em peixes é o fato de o san- gue que sai do coração chegar às brânquias com uma alta pressão, e, ao sair desta, ao passar pelos capilares branquiais, a pressão é cerca de 20 a 40 mmHg menor que a pré-branquial. Desta forma, o sangue chega aos tecidos com baixa pressão. Diante do exposto, pergunta-se: como então o sangue, estando à baixa pressão, consegue voltar eficientemente ao coração? Isto se dá devido à ajuda que o coração recebe da contração muscular que ocorre durante a movimen- tação do peixe e dos seus órgãos. Outro fator que determina o retorno venoso e o consequente enchimento do átrio é o fato de o seio venoso possuir paredes muito finas, o que, desta maneira, eleva a pressão sanguínea o suficiente para distender o átrio de paredes grossas. Da mesma forma, o átrio distende as pare- des mais grossas do ventrículo. Cada uma das câmaras pode atuar elevando a pressão sanguínea gradualmente desde os níveis venosos ao arterial. O coração dos peixes recebe inervação do sistema parassimpático, porém não há evidência da inervação simpática correspondente às dos ver- tebrados superiores. Nos humanos adultos, a pressão sanguínea arterial normal é de 120 mmHg para a pressão sistólica e de 80 mmHg para a diastólica. A contração de cada célula muscular cardíaca requer um potencial de ação na membrana celular e o potencial de ação resulta na liberação de cálcio pelos estoques intracelulares. Apesar de nem todas as células musculares cardíacas serem inervadas por um neurônio motor, o potencial de ação é propagado célula a célula, devido aos discos intercalares presentes fornecerem uma conexão elétrica entre as células miocárdicas. Rever histologia do músculo cardíaco e contração muscular (SALMITO-VANDERLEY; SANTANA, 2010). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 24 Figura 1.7. Esquema da circulação de peixes teleósteos. V- ventrículo, A- átrio. Fonte: Adaptado de MCCAULEY (1976). 1.2.3.1.3. Nos peixes pulmonados Nos peixes pulmonados, observa-se que algumas brânquias sofreram dege- nerações e os que pulmões começaram a assumir a função respiratória. Ao estudarmos o pulmão de um Dipnoi claramente percebemos que ele repre- senta uma modificação evolutiva. O átrio do coração destes peixes pulmona- dos encontra-se totalmente dividido em duas câmaras, direita e esquerda, já o ventrículo se divide apenas parcialmente. Mesmo com uma divisão apenas parcial, cada lado do ventrículo tende a manter separado o sangue provenien- te do seu átrio correspondente. De fato, o sangue que chega da circulação pulmonar pelo átrio es- querdo passa à metade esquerda do ventrículo, para, posteriormente, ser expulso pela artéria aorta. A partir da aorta este sangue segue para os pulmões e para os primeiros arcos branquiais. Destes arcos, o sangue, ri- camente oxigenado, segue principalmente para a oxigenação dos tecidos da cabeça (Figura 1.8). O átrio direito recebe sangue da circulação geral e esse sangue menos oxigenado flui pelos arcos branquiais posteriores, passando para a aorta dor- sal e, em parte para os pulmões. Vale salientar que a anatomia do coração de peixes pulmonados não explica como o sangue realmente flui. Alguns trabalhos têm demonstrado um alto grau de separação entre sangue venoso e arterial. Há uma nítida “prefe- rência” pelo sangue pobre em oxigênio ser levado aos pulmões, enquanto o oxigenado ser elevado para a circulação sistêmica, mas o mecanismo exato que determina essa separação ainda não está totalmente elucidado, sendo um campo aberto a estudos. Nos peixes, um aumento na atividade física não altera o volume de ejeção do sangue pelo coração, no entanto, proporciona um aumento no retorno venoso, devido à contração muscular do corpo, o que leva a um maior gasto cardíaco. A elevação da temperatura ambiente nos animais de sangue frio levam a um aumento nas necessidades metabólicas de O2 e de alimentos, aumentando, por conseguinte, a frequência cardíaca (McCAULEY, 1976). Fisiologia Animal Comparada 25 Figura 1.8. Esquema da circulação de peixes pulmonados V- ventrículo; RA- átrio direito; LA- átrio esquerdo; SV- seio venoso. Fonte: Adaptado de McCAULEY (1976). 1.2.3.1.4. Nos anfíbios O sistema circulatório dos anfíbios adultos varia muito, pois existem espécies que são totalmente aquáticas e que possuem brânquias, enquanto outras, terrestres dependem de pulmões. Aqui descreveremos o sistema circulatório dos anuros (rãs e sapos). O coração dos anuros tem uma divisão estrutural menor que a dos pei- xes pulmonados, pois está constituído por dois átrios completamente separa- dos (direito e esquerdo) e um por ventrículo não dividido. Ele possui um seio venoso (antes do átrio direito, que serve para elevar a pressão sanguínea) e um cone arterial no início da aorta, que possui um desvio na forma de sulco e que serve para manter separadas as correntes sanguíneas (pulmonar e sistê- mica) - Figura 1.9. Não nos esqueçamos de que, nos anfíbios, a pele é um órgão respira- tório importante, e, por esta razão, a artéria que sai do ventrículo em direção ao pulmão (pulmocutânea) ramifica-se, de modo que um ramo direciona-se para o pulmão e o outro para a pele (úmida), para captar oxigênio. O sangue proveniente dos pulmões adentra o coração pelo átrio esquerdo, e o sangue venoso da grande circulação, pelo átrio direito. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 26 Figura 1.9. Esquema de circulação da rã e grau de saturação (S). Observar que, ape- sar de ter só um ventrículo, o sangue que vem do pulmão e o sangue do corpo quase não se misturam. Fonte: SCHMIDT-NIELSEN (1999). O sangue que sai do lado direito do coração é direcionado para os ór- gãos respiratórios quando se observa uma queda de pressão. A pressão se eleva novamente quando da saída para a circulação sistêmica, e os tecidos recebem sangue a uma pressão adequada, o que lhes proporciona levar uma vida mais ativa. Nestes animais, o sangue oxigenado mistura-se com o sangue venoso, mas a quantidade que se mistura é tão pouca que não é significativa. 1.2.3.1.5 Nos répteis Entre os répteis, também encontramos variações do sistema circulatório. Nos répteis inferiores, os ventrículos ainda não são totalmente separados, porém há pouca mistura de sangue, e sua separação das correntes sanguíneas é bem maior do que supõe a anatomia do coração destes animais. O ventrículo aparece pela primeira vez completamente dividido no co- ração dos répteis crocodilianos (crocodilos e jacarés) - Figura 1.10. O san- gue oxigenado não se mistura mais com o venoso no ventrículo. No entanto, nestes animais, ainda existem dois arcos aórticos, o direito e o esquerdo (que tem origem no ventrículo ipsilateral), e, entre os dois arcos, existe uma comu- nicação, o forame interaórtico (de Panizza), que permite a mistura do sangue oxigenado ao não oxigenado. O grau de mesclagem de sangue depende da atividade do indivíduo, por exemplo, quando um crocodilianomergulha, have- rá toda uma modificação do sistema circulatório de modo que o débito do lado direito irá diminuir e praticamente todo o sangue que sai do ventrículo direito é direcionado para a circulação sistêmica. O coração é inervado pelos nervos do sistema simpático e parassimpático. Eles controlam a pressão arterial da mesma forma que nos mamíferos. Fisiologia Animal Comparada 27 Figura 1.10. Esquema da circulação de réptil crocodiliano. RV- ventrículo direito; LV- ventrículo esquerdo; RA- átrio direito; LA- átrio esquerdo; SV- seio venoso. Fonte: Adaptado de McCAULEY (1976). 1.3. Sistema respiratório 1.3.1. Introdução Os animais, para sobreviverem, devem retirar oxigênio (O2) do meio ambiente e, posteriormente, devolver dióxido de carbono (CO2). Portanto, o oxigênio é uma ne- cessidade vital. A maioria dos animais pode sobreviver, por dias, sem água ou, por semanas, sem comida, mas, sem oxigênio, a sobrevivência é medida em minutos. Então, surge a pergunta: por que o oxigênio é tão importante para a manutenção da vida animal? Porque a satisfação da necessidade energética (ATP - trifosfato de adenosina) se dá pela oxidação de alimentos (principal- mente da glicose), tendo como subprodutos do processo a formação de CO2 e a água (C6H12O6 + 6O2 → 6CO2 + 6H2O + 36 ATP). Entende-se, então, que, em qualquer forma que se apresente, a respiração é uma das características básicas dos seres vivos. Essencialmente, consiste na absorção pelo organis- mo de oxigênio e sua eliminação do dióxido de carbono, resultante de oxige- nações celulares. Vale salientar que a troca gasosa, com geração de energia, ocorre a nível celular. 1.3.2. Aspectos gerais sobre os gases respiratórios no ar e, na água e no sangue 1.3.2.1. Ar atmosférico e água O ar atmosférico é composto por vários gases e por vapor de água, este últi- mo, especificamente, em quantidades variáveis. Do ponto de vista fisiológico, os gases mais importantes são o oxigênio, o dióxido de carbono e o nitrogênio. A água gerada nos processos de oxidação faz parte do reservatório geral de água no corpo e não representa qualquer problema especial. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 28 Ainda temos o argônio, que passa a ser interessante fisiologicamente apenas nos peixes que secretam gases dentro de uma estrutura, que pode ou não ter função respiratória, a bexiga natatória. A proporção dos gases no ar atmosférico (Quadro 1.1) permanece cons- tante desde o nível do mar até o pico da montanha mais alta. O aumento da alti- tude diminui a pressão dos gases, diminuindo também a quantidade de ar, mas não a proporção dos gases. A quantidade, ou melhor, a concentração de um determinado gás, seja no ar ou na água, é expressa em termos de sua pressão parcial. As pressões parciais do gás oxigênio (PO2) e do gás carbônico (PCO2) no ar atmosférico são cerca de 159 mmHg e de 0,23 mmHg, respectivamente. Quadro 1.1. Composição do ar atmosférico seco Gases % Oxigênio 20,95 Dióxido de carbono 0,03 Nitrogênio 78,088 Argônio 0,93 Hélio+neônio+criptônio+xenônio 0,002 Total 100,00 Os gases atmosféricos são solúveis em água. A quantidade de gás dis- solvida assume uma particular importância para os animais aquáticos e de- pende dos seguintes fatores: a) Concentração do gás no ar. b) Solubilidade do gás em questão. Na água, o CO2 é cerca de 30 vezes mais solúvel que o oxigênio, e o nitrogênio, um pouco menos que este último. O CO2, ao se dissolver na água, forma o ácido carbônico (H2CO3), muito instável, esse ácido, por sua vez imediatamente libera o íon H+ e o ânion bicarbonato (HCO3 -). Além disso, a maioria das águas naturais con- tém cátions (principalmente Na+ e Ca+), o que leva a maioria dos ânions bicarbonatos a se associarem a estes cátions Na(HCO3)2; Ca(HCO3)2. Todos estes elementos somam-se à quantidade total de CO2. Portanto, em comparação ao ar, a água é o meio externo melhor para o organismo se desfazer do CO2. b1) A presença de sais na água também interfere na solubilidade do gás. Por exemplo, a solubilidade do O2 na água do mar é cerca de 20% menor que na água doce. A pressão dos gases é expressa em milímetros de mercúrio (mmHg), o que indica a altura da coluna de mercúrio que pode ser suportada pela pressão do gás em questão. Portanto, a pressão atmosférica corresponde à altura da coluna de mercúrio num barômetro de mercúrio. Visto que a pressão atmosférica normal é de 760 mmHg e que 21% desse total corresponde ao oxigênio, a pressão parcial de O2 é de 159 mmHg. A 6.000 m de altitude, a pressão atmosférica é a metade daquela ao nível do mar. Sendo assim, se fôssemos medir a quantidade de O2 dissolvido na água a esta altitude, ela seria também a metade da encontrada ao nível do mar. Fisiologia Animal Comparada 29 b2) A pressão parcial do gás também influencia na sua solubilidade. Quando a pressão parcial de um gás se reduz, diminui também a quan- tidade do gás dissolvido na água. Uma vez que a pressão atmosférica diminui com a altitude, a quantidade do gás também diminui. c) Temperatura. Com a elevação da temperatura, diminui a solubilidade do gás. Todos esses gases que têm importância fisiológica respiratória são mo- léculas simples, capazes de se moverem livremente umas por entre as outras; essa movimentação é que recebe o nome de difusão, processo no qual uma substância passa de uma concentração maior para uma menor. Essas afir- mativas também são verdadeiras para os gases dissolvidos nos líquidos e nos tecidos do corpo. Sendo a difusão o mais importante e, não raro, o único pro- cesso físico responsável pelo movimento de oxigênio do meio externo para as células. O movimento do CO2 na direção oposta também segue ao gradiente de concentração. O oxigênio se difunde no ar 3 milhões de vezes mais rápido que na água. Além disso, a solubilidade do oxigênio na água é tão baixa que ela ob- tém somente cerca de 5% do oxigênio que contém o ar. Isto significa que os organismos aquáticos têm menos oxigênio disponível que os que respiram ar. Sendo assim, o peixe, para obter a mesma quantidade de oxigênio que um animal de respiração aérea, necessita fazer ventilar suas superfícies res- piratórias com 20 litros de água para obter a mesma quantidade de O2 que o indivíduo que respira 1 litro de ar. Porém, viver ao ar não é só vantagem, tan- to que, nestes animais, fez-se necessário o aparecimento de aparatos mais complexos para propiciar a respiração. 1.3.2.2. No sangue O sangue é um tecido que é formado por vários componentes, sendo obser- vada uma matriz extracelular líquida, o plasma e os elementos figurados. Os componentes do sangue podem ser vistos na Figura 1.11. Em condições normais, o ar que respiramos possui 21% de O2. Cerca de 1 cm 3 de O2 dissolve-se em 100 cm3 de água a 0º C. Com a elevação da temperatura para 15º C, a solubilidade deste gás cai para 0,7 cm3 O2/100 cm 3 de água. A 37º C passa a 0,5 cm3 O2/100 cm 3 de água. A difusão pode ser auxiliada por movimentos de massa, tal como o movimento do ar entrando e saindo dos pulmões, mas os gradientes de concentração continuam como a força principal, motriz, sendo fundamental para a movimentação dos gases respiratórios (SCHMIDT-NIELSEN, 1999). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 30 Figura 1.11. Representação esquemática e percentagem dos componentes do sangue. Fonte: Adaptado de AMABIS; MARTHO (2004). As funções mais importantes do sangue são: transporte de gases, de nutrientes, de produtos de excreção, de produtos metabólicos, de calor e de hormônios. E nos animais, como minhocas e alguns insetos, auxilia na movi- mentação do indivíduo ou de parte dele. Deterem-nos a falar da sua função no transporte de gases, uma vez que o sangue, especialmente para os animais de maior porte, é um meio impres- cindível para transporte de gases para todos os tecidos. Tendo o sangue cerca de 50% de água em sua composição, pode-se inferir que muitos dos problemas tratadosanteriormente da solubilidade e da difusão de gases em água são válidos para qualquer meio aquoso. Porém, apareceram, no sangue, adaptações especiais para contorná-los, as substân- cias transportadoras. O pigmento hemoglobina é a proteína que encontramos em todos os vertebrados (com exceção dos peixes da Antártida), ligada à cé- lula sanguínea vermelha (hemácia ou eritrócito), nunca solta no plasma, que Como aqui abordaremos este assunto de forma resumida, pois o assunto é mais detalhado na histologia, sugere-se uma leitura de revisão do capítulo 13 do livro de Histologia e embriologia animal comparada (SALMITO-VANDERLEY; SANTANA, 2010) e uma visita ao site: http://www. portalsaofrancisco.com. br/alfa/corpo-humano- sistema-cardiovascular/ sangue.php). Fisiologia Animal Comparada 31 transporta oxigênio. Este pigmento carreador de gases também é encontrado em alguns invertebrados, porém, na maioria deles, ele encontra-se dissolvido nos fluidos corporais. Em outros invertebrados, encontramos outros pigmen- tos transportadores de oxigênio (Quadro 1.2). Todos esses pigmentos carre- adores têm uma característica comum: a presença de um metal combinado a uma proteína, de maneira que possam ligar-se ao O2 de forma reversível. Quadro 1.2. Pigmentos respiratórios comuns e exemplos de sua ocorrência nos animais. Fonte: Santo (2007). A presença de hemoglobina no sangue é muito importante, porque, de acordo com Schimidt-Nielsen (1999), o plasma contém apenas 0,3 cm3 de O2 dissolvido em 100 cm 3, e a presença desse pigmento eleva para 20 cm3 de O2 em 100 cm 3 de sangue. Percebe-se, portanto, que essa ligação (O2 + hemoglobina − oxi-hemoglobina) é responsável pela quase totalidade do O2 transportado no corpo. Quando a hemoglobina sanguínea é exposta a uma pressão alta de O2, num órgão respiratório, o oxigênio é absorvido, e quando exposta, nos tecidos, a uma baixa pressão de O2, ela desprende o oxigênio. Porém, vale salientar que a absorção/liberação de O2 em relação à pressão de oxigênio (curva de dissocia- ção de oxigênio) não obedece a uma linha reta, pois existem outros fatores que influenciam essa relação, como o CO2, a temperatura e o pH. Assim como na água, o CO2 do sangue encontra- se quase todo em forma de íon bicarbonato ou de bicarbonato de sódio. Estes dois juntos constituem um sistema- tampão que mantém o pH do sangue constante (7,3-7,5). A hemoglobina é vermelho-brilhante quando está oxigenada e vermelho-púrpura quando desoxigenada. A ligação de oxigênio à hemoglobina estimula a ligação de mais oxigênio à mesma molécula, em outras palavras, o O2 liga- se cooperativamente à hemoglobina. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 32 Uma alta concentração de CO2 proporciona a liberação de mais O2, independente de sua pressão. Isto é o que acontece nos tecidos – quando a concentração de CO2 do tecido é alta, aumenta também a quantidade de O2 liberada pela hemoglobina, levando à liberação extra de O2 no tecido (efeito Bohr). Quando todos os lugares de ligação da hemoglobina com o oxigênio estiverem ocupados, ela não poderá mais ligar-se a nenhum oxigênio, então, diz-se que está saturada. As propriedades dos pigmentos sanguíneos variam muito de espécie para espécie, assim como a sensibilidade ao CO2, que é muito menor nos animais de respiração aquática. Assim, observa-se que a mudança da respi- ração aquática para a aérea levou não só à reestruturação de órgãos respira- tórios como também alterou as propriedades do pigmento sanguíneo. 1.3.3. Órgãos respiratórios: fisiologia Nos animais unicelulares, o oxigênio é retirado diretamente do meio onde eles vivem, sendo também direta a eliminação do CO2. Nos animais superiores colocados na escala zoológica, embora o princípio seja o mesmo, a troca de gases é indireta. Nestes casos, o sangue é um elemento intermediário entre as células do organismo e o meio ambiente (água ou ar), servindo como con- dutor de gases entre eles. As brânquias formam o órgão respiratório principal de vertebrados inferiores; nos anfíbios, a respiração cutânea é de suma impor- tância. Nos répteis, aves e mamíferos, o órgão respiratório, por excelência, é o pulmão, pois, nesses animais, desenvolveram-se órgãos especiais, que pos- sibilitam promover o rápido intercâmbio entre o ar e o sangue. Juntos, esses órgãos constituem o sistema respiratório. Neste sistema, existem estruturas onde se efetua o movimento de gases respiratórios entre os meios externo e interno, e designam-se superfícies respiratórias. Nessas superfícies, assim como nas células, a difusão se dá em meio aquoso, portanto, os gases ape- nas atravessam as membranas respiratórias dissolvidos em água, por isso, elas devem ser mantidas úmidas, para que as trocas ocorram. Num sistema respiratório, nem todos os órgãos possuem membranas res- piratórias, e, muito embora a troca gasosa O2-CO2 seja a função principal deste sistema, ela não é a única. Há outras funções secundárias do sistema respiratório que incluem a regulação do pH dos líquidos corporais, a assistência no controle da temperatura, a eliminação de água e a fonação (especialmente em mamíferos). O sistema respiratório de mamíferos (Figura 1.12), o mais complexo, constitui-se: 1) pelas vias respiratórias – narinas (nariz externo, cavidade nasal e seios paranasais), faringe, laringe, traqueia e brônquios – que além de ser- A hemoglobina tem afinidade muito alta pelo monóxido de carbono (CO), sendo 300 vezes maior que pelo O2. Por isso, é considerado um gás venenoso, bastando uma pequena quantidade, como 0,1% de CO no ar, para, em média de 45 minutos, determinar sintomas de asfixia. Todas as superfícies respiratórias, apesar da grande variedade, apresentam características comuns: a) Umidade - as superfícies são úmidas para facilitar a difusão dos gases dissolvidos; b) Paredes finas - o que facilita a difusão, sendo geralmente formadas por uma única camada de tecido epitelial pavimentoso; c) Ventilação - a água ou ar devem ser renovados frequentemente para que novas moléculas de O2 estejam constantemente sendo trazidas para entrar em contato com a superfície respiratória; d) Vascularização - presente na difusão indireta, deve ser feita por vasos de parede fina, os capilares, reduzindo a espessura a ser atravessada pelos gases; e) Grande área de troca para que o contato com o ar ou com a água seja máximo, e a velocidade de difusão seja elevada. Fisiologia Animal Comparada 33 virem de trajeto para o que entra e sai dos pulmões, também tem função de aquecer progressivamente o ar inspirado e de reter partículas em suspensão contidas no ar; 2) pelos pulmões, onde ocorrem as trocas gasosas entre o ar pulmonar e o sangue (hematose). Nos animais que respiram ar, as brânquias, a traqueia e os pulmões são os órgãos respiratórios. As brânquias, típicas de animais aquáticos, são pouco adequadas à respiração aérea, e somente poucos animais a utilizam para este fim (por ex.: caranguejos terrestres e alguns peixes que respiram ar). As traqueias são órgãos respiratórios dos insetos. As trocas gasosas se dão por difusão ou por bombeamento ativo e unidirecional de ar. Elas consistem em um sistema de tubos que oferece o O2 diretamente aos tecidos, sem a necessidade de uma circulação sanguínea para o transporte de gases. Os pulmões podem ser de dois tipos: de difusão (encontrados nos animais peque- nos, por ex.: caracóis) e de ventilação (que são típicos dos vertebrados); sua complexidade aumenta de acordo com a massa corpórea e a taxa metabólica do animal. Para os anfíbios, que têm pele úmida e vascularizada, as trocas de gases através da pele são muito importantes. Figura 1.12. Sistema respiratório de humano. Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br /alfa/respiracao-cutanea/funcao-do-sistema-respiratorio.php. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 34 1.3.3.1. Respiração aquática branquial dos peixes As brânquias são os órgãos respiratórios típicosdo meio aquático, formadas por evaginações da parede do corpo, apresentando grande área de trocas. Elas podem ser externas ou internas (estas últimas preferidas evolutivamen- te). São órgãos adaptados à retirada do oxigênio dissolvido na água, para fornecê-lo ao organismo do animal através do sistema circulatório e remover o CO2 do sangue do animal, liberando-o na água. As brânquias internas (também conhecidas como guelras) dos peixes ósseos aparecem como projeções laterais da faringe, localizadas em uma câ- mara branquial. Para encontrá-las, é preciso levantar o opérculo (tampa óssea protetora situada lateralmente, próxima à cabeça). Nos peixes cartilaginosos, as brânquias internas estão alojadas em cavidades branquiais individuais que se abrem para o exterior pelas fendas branquiais. As brânquias dos peixes consistem de diversos arcos branquiais principais (cartilaginoso ou ósseo) de cada lado. Em cada arco branquial, inserem-se diagonalmente vários pares de fileiras de filamentos branquiais. Cada uma destas fileiras possui diversos e delicados filamentos branquiais. Por sua vez, esses filamentos contêm várias lamelas (achatadas, densa- mente enfileiradas e ricamente vascularizadas). Cada um desses filamentos contém duas arteríolas (aferente com sangue venoso e eferente com san- gue arterial), separadas por uma fina rede de capilares (Figura 1.13). Através dessa rede capilar, de paredes extremamente finas, dá-se a troca de gases do sangue. Nos vasos, escorrem sangue que contém o pigmento respirató- rio que é a hemoglobina. A área de superfície de uma brânquia deve ser grande suficiente para prover troca de gases adequadamente. De fato, as brânquias dos peixes altamente ativos apresentam as maiores áreas relativas. Conforme Sch- midt-Nielsen (1999), a área de superfície da brânquia da cavala, que nada rápido, é aproximadamente 50 vezes maior que o do lento peixe-ganso, que vive no fundo do mar. Alguns animais podem viver na ausência de O2 (anaerobiose), e, pelo processo de metabolismo anaeróbico, são capazes de usar energia a partir de reações químicas que não requerem oxidação, como através da formação do ácido lático a partir da glicose. No entanto, a eficiência de geração de energia é mais de 90% menor quando comparada a da oxidação. Os processos envolvidos na função relacionada aos gases incluem ventilação (entrada e saída de ar dos pulmões), trocas entre o ar e o sangue nos pulmões, transporte gasoso no sangue e troca gasosa entre o sangue e as células nos tecidos. Os processos respiratórios ocorrem nas brânquias em alguns insetos na fase larval, nas larvas de anfíbios, nos moluscos, nos crustáceos e nos peixes. Nos moluscos cefalópodes, bivalves e gastrópodes marinhos, o processo respiratório branquial é especializado; nos gastrópodes pulmonados, existe um tipo de pulmão que é um órgão estático, no qual a troca dos gases ocorre por difusão. Nos crustáceos, as trocas de gases ocorrem nas brânquias, que são estruturas de aspecto plumoso e ricamente vascularizadas. Nesses animais, as brânquias são protegidas pelo cefalotórax. Fisiologia Animal Comparada 35 Figura 1.13. Estrutura das brânquias e mecanismo contracorrente. Fonte: http://sites. google.com/site/geologiaebiologia/geologia-e-biologia-10o/conteudos-de-biologia/trans- formao-e-utilizao-de-energia/tocas-gasosas-em-seres-multicelulares---animais 1.3.3.1.1. Ventilação das brânquias Como se sabe, os peixes utilizam o oxigênio dissolvido na água para respirar. O fluxo de água que entra pela boca passa para a região faríngea (onde, nos vertebrados, encontramos as brânquias) e banha as brânquias, sendo filtrado; quando a água está nas brânquias, o opérculo é fechado para ela não sair, e realizam-se as trocas gasosas; depois, é expulsa pelo movimento do opércu- lo que se abre. Quando a água passa de uma parte para outra, da delicada película branquial, o oxigênio é absorvido no sangue, e o dióxido de carbono é eliminado. Nas brânquias, cria-se um fluxo contracorrente de sangue e de água (doce ou marinha), que permite manter constantes os gradientes dos gases respiratórios. Se uma brânquia ficar em contato com um corpo de água completamen- te estagnado, ela removerá O2 da água estacionada imediatamente adjacente a ela, e logo o conteúdo de oxigênio desta camada de água estará esgotado. As brânquias dos peixes encontram-se muito próximas, podendo ser encontradas de 30 a 40 lamelas por milímetro, com espaço menor que 0,02mm entre elas. Alguns peixes usam-nas também para a excreção de resíduos, funcionando como um rim, da mesma maneira como os mamíferos podem eliminar excreções através da pele. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 36 Diante disto, entende-se que a renovação desta água é imprescindível para o suprimento de O2. Não sendo por acaso que vários dispositivos mecânicos sur- giram para promover o fluxo de água sobre a superfície branquial. Portanto, para que as trocas gasosas ocorram de forma eficiente, são necessários uma alta velocidade de fluxo de água e um estreito contato entre a água e a brânquia. É o arranjo da estrutura anatômica do aparelho branquial que propicia um tipo de fluxo essencial para tal contracorrente, no qual se observa que a corrente de água sobre a brânquia e o sangue no interior da brânquia fluem em direções opostas. A movimentação da água sobre a superfície respiratória pode se dar de duas formas: a) A movimentação da água devido a um dispositivo semelhante a uma bom- ba mecânica – mais comum. Para mover a água sobre as brânquias, os peixes teleósteos fazem bombeamento combinado da boca e dos opér- culos, com o auxílio de válvulas (membranáceas) adequadas para o con- trole do fluxo. Observa-se uma sincronia entre os momentos de abertura da boca e dos opérculos (movimentos respiratórios); b) A própria locomoção contribui para o movimento da água sobre as brânquias. Os que utilizam esse sistema costumam nadar com a boca entreaberta. Nes- ses peixes, os movimentos respiratórios não são visíveis e a água flui cons- tantemente sobre as brânquias. Desses peixes, diz-se que fazem ventilação forçada (por ex.: atuns). Neste tipo de ventilação, o trabalho de respiração é transferido dos músculos das bombas operculares para os músculos natató- rios do corpo e da cauda, portanto também há gasto energético. 1.3.3.1.2. Fluxo contracorrente O fluxo contracorrente (Figuras 1.13 e 1.14) leva o sangue que está saindo da lamela a encontrar a água cujo O2 ainda não foi removido. Desta forma, esse sangue retira o O2 da água recém-inspirada (rica em O2) e passa a apresentar concentração alta de O2. À medida que a água corre entre as lamelas, ela en- contra o sangue com um conteúdo cada vez mais baixo de O2, e, portanto, por diferença de concentração, continua a liberar mais O2 para o sangue. Assim, a lamela, ao longo de toda sua extensão, serve para captar o O2 da água, pois o sangue circula sempre em direção à água fresca e plenamente oxigenada (pela mesma razão, simultaneamente, o CO2 é expulso para a água). A água, por sua vez, ao deixar a brânquia, perde de 80 a 90% de seu conteúdo inicial de O2. Este mecanismo é extremamente eficiente, pois, ao compararmos aos mamíferos, o ar expirado perde apenas um quarto do O2 do ar inspirado, se- gundo Schimit-Nielsen (1999). O fluxo aumentado pode ser conseguido de duas maneiras: pela movimentação da brânquia através da água (viável apenas para pequenos organismos, como larvas de insetos aquáticos) ou da água sobre a brânquia (solução mais fácil e utilizada pelos peixes). Alguns peixes podem fazer uso dos dois tipos de ventilação (por ex.: Morone saxatilis), dependendo da velocidade de natação − baixa (bombeamento) ou alta (forçada). Depois de passar pelas brânquias, o sangue ricamente oxigenado é conduzido diretamente para todo o corpo. Fisiologia Animal Comparada 37 Figura 1.14. Mecanismo contracorrente nas brânquias de peixes teleósteos.Fonte: http://respiracaoanimalbiounp.blogspot.com/ 1.3.3.2. Respiração pulmonar dos tetrápodes Pulmões são como bolsas de ar localizadas no interior do corpo. Eles são órgãos esponjosos especialmente adaptados para retirar oxigênio do ar e de- volver a ele gás carbônico. Para funcionar, os pulmões devem fazer a renovação do ar a uma velo- cidade tal que se ajuste à velocidade do consumo de oxigênio e à consequen- te produção de CO2. Diante disto, a renovação constante de ar nos pulmões dos vertebrados necessita de um mecanismo de ventilação pulmonar. Os pulmões dos vertebrados são ventilados pelo bombeamento do ar. Esse bombeamento pode ser conseguido de duas formas: nos anfíbios, o en- chimento dos pulmões se dá por uma bomba de pressão, e, na maioria dos demais tetrápodes, por meio de uma bomba de sucção. 1.3.3.2.1. Aspectos gerais da anatomia fisiologia dos pulmões de vertebrados Embora os pulmões estejam desenvolvidos de um modo mais característico em tetrápodos, filogeneticamente, são estruturas mais antigas. À medida que se progride na classe dos vertebrados, o pulmão deles tornam-se cada vez mais complexos (Figura 1.15). a) Em peixes Os pulmões de peixes são estruturalmente simples, estão presentes nos dipnóis e em Polypterus (peixe ósseo primitivo). Leia sobre a bexiga natatória enquanto órgão auxiliar na respiração de peixes. Sugerimos o livro “Análise da estrutura dos vertebrados” (HILDEBRAND; GOSLOW, 2006). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 38 Em Polypterus, uma abertura (com um esfíncter), no assoalho da farin- ge, leva a um saco bilobado; os lobos dirigem-se para trás, dos dois lados do esôfago, e o lobo direito, muito mais longo, continua-se para trás e para cima, no mesentério, acima do tubo digestivo. Os pulmões são estruturalmente sim- ples, com apenas algumas dobras internas. Exceto pelo alongamento do lobo direito, parece ser um tipo primitivo de pulmão, assemelhando-se ao pulmão simples de anfíbios. Nos peixes dipnoicos, o pulmão é mais eficiente do que o de Polypterus, pois existe certa subdivisão interna em bolsas e alvéolos. No peixe pulmonado australiano, o pulmão é impar, porém, nos gêneros africano e sul-americano, os pulmões são, definitivamente, pares. Nestes peixes de respiração aérea, o ar é engolfado para dentro da cavidade oral, usando a faringe como uma bomba de sucção. As narinas in- ternas, quando presentes, não são usadas (elas podem funcionar na olfação). b) Em anfíbios Em anfíbios, os pulmões mostram pouca evolução em relação aos pei- xes e são relativamente ineficientes, apresentando uma formação de septos – cristas contendo tecido conjuntivo que aumentam um pouco a superfície respiratória e dão à superfície interna do pulmão um aspecto alveolado (Figu- ras 1.15 e 1.16). Nestes animais, a respiração cutânea é mais importante que a pulmonar. Figura 1.15. Estrutrura esquemática do pulmão em corte de tetrápodes, mostrando o aumento da complexidade deste órgão com o progredir da classificação dos grupos animais na escala zoológica. A, B e C - anfíbios; D- réptil; E-mamífero. Fonte: McCAULEY (1976). A respiração dos anfíbios adultos ocorre através dos pulmões, da pele da cavidade da boca e da faringe. Fisiologia Animal Comparada 39 As narinas internas são funcionais, pela primeira vez nos vertebrados, nos anfíbios anuros (rã, bufos), muito embora o ar ainda seja levado aos pul- mões através, principalmente, da deglutição (Figura 1.16). Uma rã infla seus pulmões pela tomada de ar no interior da cavidade bucal, fechando a boca e as narinas, e pressionando o ar para dentro dos pulmões ao elevar o assoalho da boca. Com a presença da glote, que se fecha após a entrada do ar nos pulmões, a rã pode continuar a tomar repetidos volumes de ar sem deixá-lo sair e, com isso, inflar-se, atingindo um tamanho considerável. Figura 1.16. Método de deglutição do ar para envio aos pulmões nos anuros. A) As narinas abrem-se na parte superior da cavidade bucal e abaixam o assoalho dessa cavidade, fazendo o ar penetrar na boca pelas coanas. B) Fecham-se as narinas, e contraem-se os músculos do tórax, fazendo com que parte do ar contido nos pulmões volte para a boca, misturando-se ao ar recém-inalado. C) Relaxam-se os músculos torácicos, e eleva-se o assoalho da boca, com as narinas ainda fechadas, forçando o ar da boca a alojar-se nos pulmões. D) As narinas se abrem para eliminar o ar da boca e para inspirar ar novo. Fonte: http://farm5.static.flickr.com/4071/ 4592770337_df2a867bfb.jpg c) Nos répteis Nos répteis, os pulmões são ainda saculiformes, com uma modes- ta subdivisão interna das paredes em sacos alveolares. Em crocodilos, os pulmões são estruturalmente mais complexos. Os septos, originalmente limi- tados à parede externa do saco, cresceram para dentro e se subdividiram de um modo complexo, dando, ao pulmão, em geral, um aspecto um pou- co esponjoso (Figura 1.15). À traquéia, segue-se um tubo central principal, o brônquio, que percorre o comprimento do pulmão. Deste brônquio, partem ramificações, que penetram entre os principais septos e que se subdividem, alcançando finalmente os alvéolos. Nos répteis, a respiração é pulmonar em todas as fases da vida. Neles, observamos, pela primeira vez, a presença de uma caixa, composta de costelas, ao redor dos pulmões. A expansão e a contração da caixa torácica permitem a entrada e a saída de ar por diferença de pressão. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 40 O insuflar dos pulmões dos répteis obedece ao mecanismo de sucção visto nas aves e nos mamíferos, porém há alguns répteis que também fazem o bombe- amento positivo (típico de anfíbios) do ar para os pulmões (por ex.: Sauromalus). No caso dos répteis, a expiração, após uma inspiração, dá-se passivamente (devi- do recolhimento elástico), pois esses animais não possuem o músculo diafragma (presente nos mamíferos) ou a membrana com função de diafragma (das aves). Porém, como bomba de sucção, ela requer uma cavidade torácica fechada, na qual a pressão durante a inspiração seja menor que a pressão atmosférica. d) Em aves Em aves, com sua elevada taxa metabólica e consequente demanda de grandes quantidades de oxigênio, o pulmão desenvolveu-se em uma complexa série de estruturas. Os pulmões localizam-se na extremidade cranial do teto da cavidade celomática, têm formato quase retangular, são achatados lateralmente, relativamente pequenos e compactos. Entretanto, além deles, estão presentes numerosas estruturas que invadem, como sacos aéreos pares, todas as partes principais do corpo (Figura 1.17). Um par de sacos cervicais cresce para cima, ao longo do pescoço; sob a fúrcula, “osso da sorte”, encontram-se os sacos cla- viculares (geralmente fundidos); na região torácica, existem dois pares de sacos laterais; um par de sacos abdominais estende-se bastante para trás, entre as vísceras. As funções dos sacos aéreos são: ventilar, auxiliar o voo, reservar ar, facilitar a passagem de ar e equilibrar a temperatura do corpo do animal. No pulmão das aves, os brônquios continuam-se por uma série de tubos, os parabrônquios, que, após descreverem voltas pelo tecido pulmonar, retor- nam aos brônquios; a troca respiratória se efetua no tecido esponjoso que cir- cunda os parabrônquios. Figura 1.17. Esquema do sistema respiratório de aves. A) vista lateral do sistema intei- ro; B) corte transversal do pulmão esquerdo; C) esquema do fluxo de ar. Fonte: Adaptado de HILDEBRAND; GOSLOW (2006). Os sacos aéreos, devido à natureza da sua parede (pouco vascularizada), não têm valor como superfície respiratória. Como o pulmão tem o movimento pequeno na expansão e na contração e é também pequeno, os sacos aéreos tornam-se importantes no mecanismo de sucção. Fisiologia Animal Comparada 41 A ventilação pulmonar de aves ocorre de maneira diferente da de outras espécies; ela se utiliza de um mecanismo parecido com o de contracorrente usado pelos peixes: o fluxo de corrente cruzada. A ventilação ocorrena se- guinte sequência: 1) a ave inspira, e o ar atravessa os brônquios até alcançar os sacos aéreos posteriores; 2) a ave expira, e o ar passa dos sacos aéreos posteriores para os pulmões (ocorre hematose); 3) a ave inspira ar novo, e, durante esta 2ª inspiração, o ar dos pulmões passa para os sacos anteriores, e novo ar entra para os sacos posteriores; 4) a ave expira, e o ar é expelido dos sacos anteriores em direção ao exterior, e aquele ar que entrou na 2ª ins- piração, que está nos sacos posteriores, passa para os pulmões, saindo deles o ar dos sacos anteriores para o exterior (Figura 1.18). Figura 1.18. Ventilação do pulmão de aves. Fonte: http://api.photoshop.com/home_6c1d5c16f7654670964e974cb579e0db/adobe-px-assets/42c50338 4d424a86b04fce4c59603481 e) Em mamíferos Em mamíferos, os pulmões são órgãos pares e ocupam quase totalmente a cavidade torácica. Cada pulmão está livre para se movimentar, pois está invagi- nado num saco pleural e inserido apenas por sua raiz e pelo ligamento pulmonar. Os pulmões são mantidos na cavidade torácica por meio dos brônquios e dos vasos que nele penetram ou dele saem, e por uma prega da pleura denominada ligamento pulmonar. Os brônquios e os vasos que vão a cada pulmão constituem o conjunto denominado raiz do pulmão. O hilo pulmonar é a área do pulmão por onde essas estruturas penetram. No indivíduo normal, os pulmões são órgãos elásticos que sempre con- têm ar. São macios e esponjosos ao tato e crepitam quando comprimidos. Os pulmões sadios de animais vivos em áreas rurais são de cor rósea clara, enquanto os de zona urbana são acinzentados, devido à impregnação do tecido pulmonar pela poeira atmosférica. Os pulmões são revestidos por uma membrana serosa, a pleura. Ela forma dois compartimentos fechados - as cavidades pleurais direita e esquerda. Embora a pleura forme um revestimento contínuo da parede e dos órgãos torácicos, ela é dividida em pleura parietal e pleura pulmonar. O espaço entre elas é preenchido por um fluido seroso - o líquido pleural, que funciona como um lubrificante que reduz o atrito durante os movimentos respiratórios. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 42 São constituídos por milhões de alvéolos, que garantem uma área de hemato- se dezenas de vezes maior à da superfície de revestimento externo do corpo. Quando colocados na água, eles flutuam. Em alguns processos patológicos, os pulmões podem ficar mais firmes e não flutuar em água, assim como em feto ou em recém-nascido que ainda não respirou. O tamanho dos pulmões varia de acordo com a espécie e de acordo com seu estado funcional, dilatando-se na inspiração e retraindo-se na expi- ração. o pulmão esquerdo é sempre menor que o direito, e o peso dos dois juntos não ultrapassam 1,5% do peso corporal. No pulmão, observamos uma grande rede de canais de distribuição de ar (Figura 1.12), chamada de árvore brônquica, e distribui-se da seguinte for- ma: O ar chega aos pulmões por estruturas cujo lúmen é mantido aberto por anéis cartilaginosos, os brônquios principais (direito ou esquerdo). De cada brônquio principal (no respectivo pulmão), originam-se os brônquios lobares, um para cada lobo do pulmão. De cada brônquio lobar, originam-se os brôn- quios segmentares, cada um deles ventilando um segmento broncopulmonar. Os segmentos broncopulmonares dividem-se em brônquios subsegmentares. As divisões bronquiais se seguem até atingirem diâmetros entre 0,5 e 1,0 mm e sem cartilagem, passando a chamar-se bronquíolos. Os tipos de bronquí- olos são: bronquíolos intralobulares, terminais e respiratórios. Cada bronquí- olo respiratório se ramifica em vários ductos alveolares, que são as menores subdivisões para a passagem do ar. Um bronquíolo respiratório é caracteriza- do pela presença de alvéolos simples, que são semelhantes a sacos que se abrem de suas paredes, e por um epitélio de revestimento que é formado por células cúbicas e células achatadas. Os alvéolos são espaços aéreos muito pequenos com paredes finas. A difusão do oxigênio e do dióxido de carbono ocorre através do epitélio alveolar, da membrana basal do epitélio alveolar, da membrana basal do endotélio capilar e do endotélio capilar. Essas quatro camadas formam a barreira hematoalveolar. e.1) Movimentos de ventilação pulmonar e trocas gasosas Como já visto anteriormente, os pulmões de vertebrados devem fazer a renovação constante de ar para funcionar. Essa renovação de ar nos pulmões se dá por um mecanismo de ventilação pulmonar de sucção. A ventilação pulmonar é feita através dos movimentos da caixa torácica. Durante a inspiração, os músculos respiratórios (intercostais e diafragma) con- traem-se. Com a contração, elevam-se os músculos intercostais (provocando uma elevação das costelas), e o diafragma abaixa-se. Isso faz aumentar o vo- lume do tórax. Esse aumento conduz a uma diminuição da pressão alveolar em Existem espécies animais em que os bronquíolos respiratórios podem estar ausentes (equino, bovino, ovino, caprino e suíno), e os ductos alveolares surgem da divisão dos bronquíolos terminais. Os ramos da artéria pulmonar conduzem o sangue venoso para os pulmões. Eles acompanham os brônquios e formam ricos plexos capilares nas paredes dos alvéolos. Aqui o sangue é oxigenado e conduzido de volta ao coração pelas veias pulmonares. Fisiologia Animal Comparada 43 relação à pressão do ar no exterior. Essa pressão negativa provoca a entrada de ar nos pulmões. A expiração ocorre passivamente e tão logo haja o relaxamento dos músculos respiratórios. A diminuição do volume da caixa torácica conduz ao aumento da pressão intrapulmonar (fica maior que a atmosférica) e, conse- quentemente, provoca a saída do ar para o exterior (Figura 1.19). Ao expirar o ar (advindo da inspiração anterior) que estava nos pulmões, ele nunca é expelido totalmente, pois sempre fica um ar residual nas vias res- piratórias. Portanto, a cada nova inspiração, o ar novo se mistura ao resto do ar “usado”. Sendo assim, o volume de ar residual nas vias respiratórias reduz a quantidade de ar novo que entra no pulmão e é chamado espaço morto. O volume de ar inalado em uma única respiração é chamado de volume corren- te. O espaço morto constitui cerca de um terço do volume corrente, num indi- víduo em repouso. Durante o exercício físico, o espaço morto tem um papel relativo menor, tornando-se insignificante. Os alvéolos possuem um formato de bolha, com uma grande curvatura, característica que indica que a superfície interna úmida possui uma tensão superficial capaz de fazê-lo contrair e desaparecer (SCHIMIDT-NIELSEN, 1999). E por que esta tensão não causa o colapso do pulmão? A resposta é que, na superfície interna dos alvéolos, encontram-se presentes substâncias fosfolipídicas, surfactantes, que têm a propriedade de diminuir essa tensão. Essa redução promove uma estabilidade alveolar e torna mais fácil a expan- são alveolar durante a inspiração (FRANDSON et al, 2005). Figura 1.19. Fases da ventilação. (A) nenhum movimento de ar (em repouso); (B) o ar move-se da atmosfera para o espaço intrapulmonar (inspiração); (C) o ar move-se a partir do espaço intrapulmonar para a atmosfera (expiração). Fonte: Adaptado de FRANDSON et al. (2005). Todos os vertebrados, inclusive os peixes pulmonados, possuem surfactantes nos pulmões. No caso dos mamíferos, sabe-se que a produção de surfactante pulmonar não começa até o final da gestação. Animais prematuros costumam ter quantidades insuficientes desta substância no pulmão, resultando, portanto, numa dificuldade maior de respiração. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 44 Já sabemos que as trocas gasosas entre o meio e as superfícies respira- tórias ocorrem por meio da difusão. E este intercâmbio de gases ocorre devido a diferenças de concentração. O gás passa de uma área de maior concentração para outra em que está em menor concentração (Figuras 1.20 e 1.21). As trocas gasosas entre o sangue e o ar alveolar ocorrematravés da delgada parede alveolar. Esta parede é tão delgada que não ultrapassa 0,2 µm de espessura (1 µm = 0,001 mm). A troca gasosa se dá no alvéolo tão logo o sangue das artérias pulmo- nares entre nos capilares pulmonares e continua até que o conteúdo gasoso do sangue entre em equilíbrio com o ar alveolar. Podemos visualizar, na Figura 2.21, que, no alvéolo, a concentração de O2 é mais alta, e a de CO2 é mais baixa que o dos capilares pulmonares que chegam ao alvéolo, o que leva à hematose. Podemos observar também que, devido à mistura do ar inalado com o ar residual, a pressão intralveolar do O2 e CO2 fica mais baixa que a do ar atmosférico inspirado. Figura 1.20 Direção da difusão de oxigênio e do dióxido de carbono, demonstrado pelas setas. Notar as alterações nos valores (em mm Hg) à medida que o sangue flui da terminação arterial para a venosa. Fonte: FRANDSON et al. (2005). Fisiologia Animal Comparada 45 Figura 1.21 Trocas gasosas entre sangue e ar alveolar. Fonte: http://www.sobiologia.com.br/ conteudos/FisiologiaAnimal/ O sangue que sai dos pulmões possui uma pressão parcial de oxigênio (PO2) de 100 a 110 mmHg e uma PCO2 de 40 mHg. Ao chegar aos tecidos, os capilares sanguíneos encontram uma PCO2 de 50 mmHg e uma PO2 igual ou menor que 30 mmHg, promovendo a difusão do O2 do sangue para o líquido tecidual e do CO2 no sentido oposto. Como o organismo detecta a necessidade de oxigênio? Mas o que con- trola a respiração? Estas são perguntas que vêm à nossa mente quando se começa a estudar o assunto deste capítulo. Na realidade, hoje se sabe que, nos tetrápodes terrestres, especialmen- te aqueles que demandam muito oxigênio – aves e mamíferos, o principal agente da regulação é a concentração de CO2 no ar do pulmão. O acúmulo de CO2 no pulmão pode ser por adição de CO2 no ar inspirado. Isto leva a um rápido aumento na ventilação pulmonar. O déficit de oxigênio no ar inspirado tem um efeito menor sobre o controle da ventilação. A regulação devido à concentração de CO2 se dá pelo estímulo do cen- tro respiratório reflexo (localizado no tronco encefálico). Este centro respirató- rio possui grupos separados de neurônios, aqueles para inspiração e aqueles para expiração (este não age espontaneamente, mas somente durante a ex- piração forçada). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 46 A atividade tônica do centro inspiratório é regulada por impulsos neurais que vêm de vários locais. Na medula do tronco encefálico, existem quimior- receptores, os quais são muito sensíveis ao aumento do CO2 e do íon hidro- gênio no líquido intersticial do cérebro e estimulam esse centro inspiratório a aumentar imediatamente a ventilação pulmonar. Esse efeito é tão intenso que o CO2 é considerado o regulador mais importante da ventilação. Porém, existem outros quimiorreceptores, periféricos, localizados nos corpos carotídeos e aórticos (próximos ao coração), que fornecem impulsos neurais ao centro inspiratório. Eles são sensíveis aos íons hidrogênio e ao oxi- gênio do sangue arterial. A diminuição do O2 causa um aumento da amplitude e da frequência respiratória. 1.3.3.3. Respiração cutânea Para os anfíbios, as trocas de gases através da pele (Figura 1.22) é normal e muito importante. Para algumas salamandras (Plethodontidae) que não têm pulmões nem brânquias, ela é essencial, e a troca de gases respiratórios ocor- re por difusão entre a superfície do corpo e o sangue que passa através de vasos superficiais. Nas rãs e nos sapos (Bufo americanus), o oxigênio é capturado através da pele e dos pulmões, no entanto, a temperatura é decisiva na determina- ção da proporção do papel na oxigenação geral. No inverno, a tomada de oxigênio é mais baixa; nesta época, a pele desses animais transfere mais oxigênio que os pulmões. No verão, quando o consumo de oxigênio é alto, a tomada através dos pulmões excede a tomada cutânea. Vale salientar que, independente da temperatura ou da época do ano, a pele desses animais é a principal responsável pela troca de CO2. A respiração cutânea, nos anfíbios, é possível graças ao extrato de muco que deixa constantemente úmida a pele desses animais. Outros animais possuem respiração cutânea, como anelídeos, poliquetas, peixes (enguia- Anguilla vulgaris) e répteis (serpente marinha verdadeira – Pela- mis platurus); nos mamíferos, é insignificante, à exceção dos morcegos, que per- dem 0,4% a 11,5% de CO2 pelas membranas das asas (depende da temperatura) Fisiologia Animal Comparada 47 Figura 1.22 Esquema das trocas gasosas na respiração cutânea. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_cnU3Gnsa34M/R7wjEO0NsjI/AAAAAAAAAD4/ShtpMwgECwE/s320/ sem%2Bt%C3%ADtulo1.bmp. Síntese do Capítulo Os vertebrados têm o sistema circulatório bem desenvolvido. Nos de sangue frio, vários parâmetros cardíacos são, em geral, mais baixos que entre os ver- tebrados de sangue quente de tamanho corporal semelhante. O sistema cir- culatório dos vertebrados tem dois componentes, o sistema vascular sanguí- neo e o linfático. O primeiro consiste em coração, vasos sanguíneos (artérias, veias e capilares) e sangue. O segundo é formado pelos vasos linfáticos. O co- ração é o órgão central do sistema circulatório, funcionando como uma bom- ba destinada a manter constante o fluxo sanguíneo nos vasos. O tamanho e a anatomia do coração variam entre os grupos e entre as diferentes espécies de um mesmo grupo. Nos peixes, o coração possui apenas dois compartimentos (um átrio e um ventrículo). O sangue que circula pelo coração dos peixes é es- tritamente venoso. No coração dos peixes pulmonados e dos anfíbios, estão presentes três cavidades cardíacas (dois átrios e um ventrículo). Nos répteis crocodilianos, observa-se um septo no interior do ventrículo, dividindo-o em dois compartimentos. Porém, ainda há mistura de sangue venoso e arterial através do forame de Panizza (circulação incompleta). Nos mamíferos e nas aves, o coração consiste em uma bomba de quatro câmaras distintas (dois átrios e dois ventrículos), correndo sangue arterial pelas câmaras esquerdas e sangue venoso, pelas câmaras direitas. Não há mistura de sangue arterial e venoso (circulação completa). No coração, encontramos células musculares modificadas que possuem a capacidade de gerar e/ou de transmitir impulsos para contração, é o sistema de condução do coração, formado pelo nó sinua- SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 48 trial, o nó atrioventricular e o fascículo atrioventricular. A força motora que gera o fluxo de sangue pela extensa rede de vasos é a contração do miocárdio. A contração do coração é denominada de sístole, e o relaxamento de diástole. Os vasos fornecem uma via para o movimento do sangue, sendo, nos capi- lares, o local que permite a troca entre o plasma e os líquidos intersticiais. O oxigênio é uma necessidade vital dos animais devido ao seu papel na satis- fação da necessidade de ATP. Os gases respiratórios mais importantes são o oxigênio, o dióxido de carbono e o nitrogênio. A concentração de um gás é expressa em termos de sua pressão parcial. Os gases atmosféricos são solúveis em água e, portanto, no sangue e nos líquidos intersticiais, possibili- tando a difusão de oxigênio do meio externo para as células. A quantidade de gás dissolvida depende de fatores, como a concentração, a solubilidade e a temperatura desse gás. Nos animais superiores, a troca de gases é indireta, sendo o sangue um mediador que conduz gases entre as células do organis- mo e o meio. Como suporte a essa função, surgiram pigmentos de transporte (por ex.: hemoglobina). As brânquias formam o órgão respiratório principal de vertebrados inferiores; nos anfíbios, a respiração cutânea é de suma impor- tância. Nos répteis, nas aves e nos mamíferos, o órgão respiratório é o pul- mão. O sistema respiratório mais complexo (de mamífero) é constituído pelas vias respiratórias e pelos pulmões. As brânquias são os órgãos respiratórios de excelência dos animais aquáticos, onde ocorre a hematose e onde se cria um fluxocontracorrente de sangue e de água que permite manter constantes os gradientes dos gases respiratórios. Pulmões são como bolsas de ar loca- lizadas no interior do corpo e fazem a renovação do ar constantemente, por isso necessitam de um mecanismo de ventilação pulmonar que é regulado pelo centro respiratório reflexo, por estímulo da concentração de CO2 no san- gue. Os pulmões de peixes são estruturalmente simples, estão presentes nos dipnoicos e em Polypterus (peixe ósseo primitivo). Em anfíbios, os pulmões mostram pouca evolução em relação aos pei- xes e são relativamente ineficientes, a respiração cutânea é mais importante. Nos répteis, os pulmões são ainda saculiformes, com uma modesta subdi- visão interna das paredes em sacos alveolares. O insuflar dos pulmões dos répteis obedece ao mecanismo de sucção visto nas aves e nos mamíferos. Associados ao pulmão das aves, encontramos os sacos aéreos. Outra estru- tura típica de aves é o parabrônquio. A ventilação pulmonar de aves ocorre pelo mecanismo de fluxo de corrente cruzada. Nos pulmões de mamíferos, observamos a árvore brônquica (canais de distribuição de ar) cuja menor di- visão são os alvéolos (espaços aéreos muito pequenos com paredes finas), onde ocorre a hematose. Fisiologia Animal Comparada 49 Atividades de avaliação 1. Faça um quadro mostrando que grupo animal possui circulação comple- ta, incompleta, simples, dupla, aberta e fechada. 2. Nos mamíferos, qual das câmaras cardíacas possui a parede mais es- pessa? Explique o porquê desta diferença. 3. O que são capilares? Qual a sua função? 4. Defina sístole e diástole. 5. Faça um esquema demonstrando a pequena circulação e a grande cir- culação em anfíbios. 6. Explique porque escalar montanhas ou subir a grandes altitudes em aero- naves não pressurizadas causam sérios danos aos humanos, inclusive podendo levar à sua morte. 7. Faça um esquema demonstrando o mecanismo de controle da ventilação pulmonar. Textos complementares Infarto do miocárdio “É a morte de uma área do músculo cardíaco, cujas células ficaram sem receber san- gue com oxigênio e nutrientes. A interrupção do fluxo de sangue para o coração pode acontecer de várias maneiras. A gordura vai se acumulando nas paredes das coronárias (artérias que irrigam o pró- prio coração). Com o tempo, formam-se placas, impedindo que o sangue flua livre- mente. Então, basta um espasmo — provocado pelo estresse — para que a passagem da circulação se feche. Também pode ocorrer de a placa crescer tanto que obstrui o caminho sanguíneo completamente, ou seja, pode acontecer por entupimento - quando as placas de gordura entopem completamente a artéria e o sangue não pas- sa. Dessa forma, as células, no trecho que deixou de ser banhado pela circulação, acabam morrendo. A interrupção da passagem do sangue, nas artérias coronárias, também pode ocorrer devido à contração de uma artéria parcialmente obstruída ou à formação de coágulos (trombose).” Fonte: http://www.afh.bio.br/cardio/cardio4.asp Acessado 8mar2011. O efeito Bohr A afinidade da hemoglobina pelo oxigênio depende do pH. A acidez estimula a libe- ração de oxigênio, diminuindo, assim, a afinidade. O aumento da concentração de SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 50 dióxido de carbono (CO2) também baixa a afinidade por oxigênio. A presença de níveis mais altos de CO2 e de prótons (H+), nos capilares de tecidos em metabolismo ativo, promove a liberação de O2 da hemoglobina. O efeito recíproco ocorre nos capilares dos alvéolos do pulmão. Alta concentração de O2 libera CO2 e H+ da hemoglobina (Figura A). Essas relações são conhecidas como efeito Bohr. Figura A. Efeito da afinidade da hemoglobina por oxigênio. O conjunto de fenômenos relacionados com o aumento do caráter ácido da Hb quan- do ela se liga ao oxigênio, e o aumento do caráter básico causado pela desoxigenação, constitui o que se conhece como efeito Bohr alcalino ou normal: Hb(O2)4 ↔ Hb + 4O2 Quando esta equação se desloca para a direita, a reação está ocorrendo nos capi- lares, e os íons H+ promovem a liberação do oxigênio. Já quando a reação é deslocada para a esquerda, nos pulmões ou nas brânquias, a oxigenação leva à liberação do H+. A hemoglobina desempenha importante papel na manutenção do pH plasmático: à medida que a pO2 cai e a concentração de H+ aumenta, a hemoglobina libera O2 e capta H+. Quando a pO2 aumenta e a concentração de H+ diminui, a hemoglobina se liga ao O2, liberando o H+. O aumento da concentração ácida do plasma provoca uma queda na afinidade da Hb por oxigênio. Este efeito é normalmente encontrado nos vasos sanguíneos dos tecidos, onde há uma maior concentração de prótons e de dióxido de carbono, decorrente da atividade celular. O mecanismo de transporte de CO2 no sangue é fundamentalmente diferente do utilizado para o O2, pois o primeiro é muito mais solúvel que o segundo e possui maior coeficiente de difusão. Desta forma, uma quantidade considerável de CO2 está pre- sente no sangue a uma baixa pO2. A maior parte do CO2 não está dissolvida no sangue, mas se apresenta combinada com água, formando bicarbonato: CO2 + H2O ↔ H2CO3 ↔ H+ + HCO3- O CO2 restante é transportado pela Hb sob a forma de carbamato ligado reversi- velmente aos grupos aminas terminais; por tal motivo, o CO2 diminui a afinidade da Hb mesmo em pH constante. Fonte: PATRÍCIA PERES, Hemoglobina - proteína transportadora de oxigênio. Disponível em: http://www. biocristalografia.df.ibilce.unesp.br/xtal /texto_hb.php. Acesso em:17 mar. 2011. Fisiologia Animal Comparada 51 @ Leituras FRANDSON, R. D. et al. Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. 454 p. GUYTON, M. D.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia médica. 9ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997. 1014 p. HILDEBRAND, M.; GOSLOW, G.. Análise da estrutura dos vertebrados. 2ª ed., São Paulo: Atheneu, 2006. 637p. McCAULEY, W. J. Fisiologia de los vertebrados. 1ª ed., Zaragoza (Espa- nha): Acribia, 1976. 446p. SANTO, M. E. Fisiologia animal comparada, 1ª ed., EaD: FTC, 2007. 102p. SHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia animal – adaptação e meio ambiente. 5ª ed., São Paulo: Livraria e editora Santos, 1999. 594 p. Sites www.sobiologia.com.br/conteudos/FisiologiaAnimal/respiracao2.php Circulatório http://www.youtube.com/watch?v=1-8jtu0kcdg http://www.youtube.com/watch?v=0QOcd420bww&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=AoCDO-kgtJE&feature=related http://www.portalsaofrancisco.com.br/videos-de-biologia/fisiologia-do-cora- cao.php Respiratório http://www.youtube.com/watch?v=sQU4LVJr7TI&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=wNAiyhcDWBI&feature=related SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 52 Referências FRANDSON, R. D. et al. Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. 454 p. HILDEBRAND, M.; GOSLOW, G.. Análise da estrutura dos vertebrados. 2 ed., São Paulo: Atheneu, 2006. 637p. McCAULEY, W. J. Fisiologia de los vertebrados. 1 ed., Zaragoza (Espa- nha): Acribia, 1976. 446p. PERES P. Hemoglobina – proteína transportadora de oxigênio. Disponível em: http://www.biocristalografia.df.ibilce.unesp.br/xtal/texto_hb.php. Acesso em 17mar2011. SALMITO- VANDERLEI, C. S.; SANTANA, I. C. H. Histologia e embriologia animal comparada, 1 ed., Fortaleza: RDS editora, 2010. 158 p. SANTO, M. E. Fisiologia animal comparada, 1 ed., EaD: FTC, 2007. 102p. SHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia animal – adaptação e meio ambiente. 5 ed., São Paulo: Livraria e Editora Santos, 1999. 594 p. Capítulo 2 Sistemas digestório e excretor Fisiologia Animal Comparada 55 Objetivos • Compreender os fenômenos envolvidos na digestão e na nutrição, o pa- pel das enzimas e dos sucos gastrointestinais; • Compreender a importância e o processo de excreção, em especial de produtos nitrogenados. 2.1. Sistema digestório 2.1.1. Introdução Para que o organismo se mantenha vivo e funcionante, é necessário que ele receba um suprimento constante de materialnutritivo. Muitos dos alimentos ingeridos pelo animal precisam ser tornados solúveis e sofrer modificações químicas para que sejam absorvidos e assimilados, o que consiste a digestão. Os órgãos que, no conjunto, compreendem o sistema digestivo são especial- mente adaptados para que essas exigências sejam cumpridas. Assim, suas funções são: preensão; mastigação; deglutição; digestão e absorção dos ali- mentos; e expulsão dos resíduos, eliminados sob a forma de fezes. 2.1.2. Nutrição: generalidades Todos os animais necessitam, além da água e do oxigênio, de certas subs- tâncias orgânicas adicionais para sua nutrição. Ao contrário das plantas e de alguns microrganismos, que são autotróficos, os animais são heterotróficos, ou seja, precisam de alimento orgânico pré-existente, além de água e sais minerais. As principais substâncias orgânicas utilizadas como alimento pelos animais são as proteínas, os lipídios e os carboidratos; também as vitaminas, assim como os minerais, são indispensáveis, devendo fazer parte da dieta do animal mesmo em quantidades mínimas. Os animais, para sobreviverem, necessitam de combustível (energia), e, para crescerem, se desenvolverem e se manterem, precisam de substân- cias específicas. Ou seja, os animais requerem alimento por dois motivos principais: necessidade de síntese e necessidade energética. É do alimento que os animais retiram a energia e as diversas substâncias para execução de suas atividades externas, bem como para a sua manutenção interna, para o seu crescimento e sua conservação. Entre as substâncias específicas, estão incluídos os aminoácidos, as vitaminas e outros nutrientes e elementos essen- As plantas necessitam de apenas compostos inorgânicos simples (água, dióxido de carbono e nitrato) e de uma fonte de suprimento de energia (luz solar), para sintetizar todos os compostos orgânicos usados na construção de seus tecidos. Por este motivo, são denominadas autotróficas fotossintéticas. Algumas bactérias são autotróficas quimiossintéticas, elas obtêm energia por meio de reações químicas, por exemplo, as bactérias nitrificadoras obtêm energia pela oxidação de amônia em nitrito. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 56 ciais, alguns deles em quantidades tão diminutas que tem sido difícil estabele- cer se realmente são necessários (como determinados minerais). Determinar os requerimentos nutricionais específicos de certo tipo ani- mal não é tarefa fácil, pois existem diversos fatores que interferem, um deles é o próprio desenvolvimento do animal. Indivíduos em crescimento necessi- tam de substâncias que, na fase adulta, não mais necessitarão, por exemplo. Também a relação simbiótica entre os animais é bastante frequente, sendo extremamente difícil separá-los. Colocando este fato como limitante, Mc- Cauley (1976) descreve a relação de simbiose entre o homem e as bactérias presentes em seu colo intestinal. Elas vivem à custa dos nutrientes presen- tes no intestino, porém também produzem substâncias requeridas pelo seu hospedeiro, como, a vitamina K (essencial para produção de protrombina, que é indispensável à coagulação sanguínea), a qual é insuficientemente adquirida pela dieta e é quase totalmente proveniente da sua síntese pelas bactérias intestinais. Os requerimentos nutricionais são um reflexo da incapacidade do ani- mal de sintetizar as substâncias que têm fundamental participação no seu metabolismo, e essa incapacidade é determinada geneticamente. Como já foi mencionado, os três tipos de compostos orgânicos mais importantes, que dominam completamente a composição de quase todos as plantas e animais e que são utilizadas como alimento, consistem em proteí- nas, carboidratos e gorduras. Estes são compostos complexos que, no trato digestivo deverão ser decompostos em outros de menor complexidade, para que o organismo os absorva. A saber: as proteínas originarão os aminoácidos; os carboidratos serão degradados em monossacarídeos, como a glicose; e a gordura, em glicerol e em ácidos graxos. 2.1.2.1. Fontes de energia Carboidratos e lipídios são nutrientes orgânicos cuja função principal é forne- cer energia às células. Mas as proteínas podem ser também fonte energética, a partir da oxidação dos aminoácidos. Ainda que não seja vantajoso para o animal produzir energia a partir de degradação de aminoácidos, pois são com- postos estruturais importantes. 2.1.2.1.1. Carboidratos Os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na natureza e apre- sentam, como fórmula geral; [C(H2O)]n, conhecida também como “hidratos de carbono”. Estas moléculas desempenham várias funções. Além de fonte (primeira e principal) e de reserva energética (na forma de glicogênio), elas A energia obtida dos diferentes tipos de alimentos por oxidação de 1g de hidratos de carbono é de 4,2 kcal; de 1g de proteína, 4,3 kcal; e de 1g de gordura, 9,5 kcal. Portanto, o valor energético da gordura é mais que o dobro do valor dos outros dois maiores componentes da dieta animal. Observação: Uma quilocaloria (Kcal) equivale a mil vezes uma caloria (cal). Esta, por sua vez, é a quantidade de calor necessário para aquecer 1 g de água de 14,5º C a 15,5º C. Para alguns órgãos, o carboidrato se constitui na única fonte energética. De fato, a glicose é a única fonte de energia aceita pelo cérebro. O carboidrato encontra-se armazenado no corpo em três lugares: no fígado e no músculo, na forma de glicogênio; e no sangue, como glicose. Os carboidratos evitam que nossos músculos sejam digeridos para produção de energia, mas, se a dieta for baixa em carboidratos e em lipídios, o corpo fará a degradação muscular para obtenção de energia. O excesso é convertido em gordura a ser armazenada no corpo, para posteriormente produzir energia caso haja necessidade. Fisiologia Animal Comparada 57 contribuem na estruturação dos tecidos conjuntivos e do envoltório celular de animais. Atuam também como lubrificantes das articulações esqueléticas e fornecem coesão entre as células, além de constituir-se em matéria-prima para a biossíntese de outras biomoléculas (fazem parte da estrutura de nu- cleotídeos e dos ácidos nucléicos). O carboidrato é a matéria-prima mais abundante da biosfera, graças à grande quantidade de amido e de celulose produzida pelos vegetais. Con- forme o tamanho, os carboidratos podem ser classificados em monossacarí- deos, oligossacarídeos e polissacarídeos. Embora não exista nenhum açúcar que seja essencial para a dieta ani- mal, a maior parte das fontes de carboidratos são as hexoses comuns (glico- se, frutose, galactose e manose têm maior importância biológica). Estas são usadas, sobretudo, como produtoras de energia. A partir delas, os humanos obtêm cerca de 65% de seu requerimento energético total. 2.1.2.1.2. Lipídios Vulgarmente conhecidos como gorduras, suas propriedades físicas estão re- lacionadas com a natureza hidrófoba (insolúvel em água) das suas estruturas, sendo todos sintetizados a partir da acetil-CoA. Todos os seres vivos, animais ou vegetais, possuem a capacidade de sintetizar lipídios. No entanto, alguns destes lipídios são sintetizados unicamente pelos vegetais, como é o caso das vitaminas lipossolúveis (pró-vitamina A e vitamina E), e dos ácidos graxos essenciais (ácido linoléico e aracdônio). Os lipídios podem ser agrupados em dois grupos: aqueles que possuem ácidos graxos em sua composição e aqueles que não possuem. Os que pos- suem ácidos graxos (p.ex.: glicerídeos, fosfolipídios e glicolipídios) são biomo- léculas mais energéticas, fornecendo acetil-coA para o ciclo de Krebs. Aque- les que não contêm ácidos graxos (leucotrienos, carotenoides e esteroides - o colesterol), embora não energéticos, desempenham funções fundamentais no metabolismo geral. A gordura (especialmente os triglicerídeos) é a forma ideal para o ar- mazenamento de energia devido ao seu alto potencial energético por grama, como vimos anteriormente. As gorduras também têm propriedadesisolantes, sendo encontradas especialmente debaixo da pele (especialmente importan- te para os animais polares). Além disso integram os componentes das mem- branas celulares (quando na forma de fosfolipídios e de colesterol); originam moléculas mensageiras (por ex.: hormônios e prostaglandinas); são um com- ponente da umbiquinona, desempenhando um papel no sistema de transporte de elétrons no interior da membrana mitocondrial. Por serem insolúveis em água, os lipídios são fundamentais para estabelecer uma interface entre o meio intracelular e o extracelular (hidrófilos). Eles não contribuem para a pressão osmótica dentro da célula. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 58 A reserva sob a forma de gordura é muito favorável à célula por dois mo- tivos: em primeiro lugar, as gorduras são insolúveis na água e, e em segundo lugar, as gorduras são ricas em energia; na sua oxidação total, são liberados 38,13 kJ/g de gordura. 2.1.2.2. Construção e manutenção 2.1.2.2.1. Proteínas Muito embora as proteínas possam ser usadas para produzir energia, elas são mais importantes como substâncias estruturais. Excetuando-se a água, o principal constituinte da maioria das células é proteína. Elas são nutrientes orgânicos constituídos de grandes moléculas, os peptídeos, cujas unidades fundamentais são os aminoácidos. Sua função principal é fornecer aminoáci- dos às células. Os aminoácidos podem ser obtidos, tanto por dieta quanto por forma- ção no próprio corpo, a partir de outros aminoácidos. Os que não podem ser sintetizados pelo corpo, mas que devem fazer parte da dieta, são chamados aminoácidos essenciais. Os aminoácidos absorvidos através do intestino são empregados na produção das proteínas específicas do animal. Existem 20 tipos de aminoácidos, dos quais apenas 12 são produzidos pelo organismo humano (aminoácidos naturais). Os outros oito devem ser ad- quiridos através da dieta. Mas todas as moléculas de aminoácidos contêm um grupo carboxílico (COOH), um grupo amina (NH2) e uma molécula de hidro- gênio (H) ligados ao átomo de carbono alfa. A esse mesmo carbono também é ligado um radical (R), este varia de acordo com o aminoácido (cada um dos aminoácidos existentes contém seu próprio radical). As proteínas são partes constituintes dos tecidos biológicos e muitas delas funcionam como enzimas. Na realidade, elas exercem uma grande variedade de funções, sendo classificadas em: proteínas dinâmicas, respon- sáveis por transporte, defesa, catálise de reações, controle do metabolismo e contração; e proteínas estruturais, que participam dos tecidos, dando-lhes rigidez, consistência e elasticidade. 2.1.2.3. Alimentos e elementos acessórios 2.1.2.3.1. Vitaminas Além dos três grandes grupos de substâncias alimentares, os animais ne- cessitam de diminutas quantidades de certo número de outras substâncias. As vitaminas são substâncias orgânicas essenciais, necessárias em quantidades muito pequenas. A sua obtenção vem da dieta, portanto, não é Os aminoácidos se unem através de ligações peptídicas para formar as proteínas. Ligação peptídica é a união do grupo amino (-NH2) de um aminoácido com o grupo carboxila (-COOH) de outro aminoácido, através da formação de uma amida. Fisiologia Animal Comparada 59 sintetizada pelo organismo. A necessidade de uma vitamina indica a incapa- cidade de síntese do animal em relação a ela. As necessidades vitamínicas variam com a espécie animal, muito embora sejam sempre requeridas em mi- núsculas quantidades, da ordem de miligramas ou de frações de miligramas por dia. Como exemplo, temos que a vitamina C (ácido ascórbico) é uma ne- cessidade nutricional do homem, dos macacos e das cobaias, mas todos os outros mamíferos parecem capazes de sintetizá-la. Os seres humanos neces- sitam não só do acido ascórbico, mas de mais outras 12 vitaminas diferentes, sendo que o seu organismo só consegue produzir a vitamina D. As vitaminas têm papel importante na manutenção da atividade normal dos tecidos. Agem como coenzimas ou enzimas em processos metabólicos distintos que são fundamentais para o funcionamento normal do organismo. O papel metabólico de algumas vitaminas é bem conhecido, porém o de outras não. Por exemplo, sabe-se que os humanos precisam da vita- mina C, mas sua exata função metabólica é desconhecida. Na sua ausên- cia, desenvolve-se a doença denominada escorbuto. No caso da tiamina (vitamina B1), sua ação é conhecida, ela é um dos constituintes de um im- portante sistema enzimático necessário ao metabolismo do açúcar, o qual participa de todas as descarboxilações oxidativas que levam à formação de CO2. A vitamina K, como mencionada em ocasião anterior, é necessária à coagulação sanguínea, e sua obtenção, nos mamíferos, vem da síntese por bactérias intestinais. 2.1.2.3.2. Minerais Assim como as vitaminas, os sais minerais (substancias inorgânicas) fun- cionam como “co-fatores” do metabolismo no organismo. Os sais minerais desempenham funções vitais em nosso corpo, como manter o equilíbrio de fluidos; controlar a contração muscular; carregar oxigênio para a musculatura; e regular o metabolismo energético. Os minerais são originários do solo e absorvidos pelas plantas. Através da ingestão de vegetais direta ou indiretamente (ingestão de outros animais), é que os minerais são passados para o homem e para os animais. Esses minerais são requeridos em ínfimas quantidades, mas, mesmo assim, sua deficiência faz com que as reações metabólicas fiquem tão lentas ao ponto de não serem efetivas. Alguns destes elementos são requeridos como materiais estruturais (por ex.: cálcio e fósforo nos ossos), como parte de diversas moléculas orgâ- nicas sintetizadas pelo organismo (por ex.: ferro na hemoglobina e na mioglo- bina), ou como catalisadoras em reações metabólicas (por ex.: cálcio para a coagulação sanguínea). As vitaminas podem ser classificadas em dois grupos de acordo com sua solubilidade. As vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K ), que têm sua absorção feita junto à da gordura e que podem se acumular no organismo, alcançando níveis tóxicos; e as vitaminas hidrossolúveis (vitaminas do complexo B e C). Essas não se acumulam em altas doses no organismo, o excesso é eliminado pela urina, por isso sua ingestão deve ser quase diária. Acesse o site http:// www.abcdasaude.com. br/artigo.php?508 para conhecer mais sobre as vitaminas e em que alimento encontrá-las. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 60 Os minerais de maior importância na dieta são: cálcio, fósforo, sódio, potássio, cloro, magnésio, iodo, ferro, cobre, enxofre, zinco, cobalto, bromo e flúor. Outros elementos, como o alumínio e o níquel, dentre outros, estão pre- sentes nos tecidos animais, porém sua função ainda não foi elucidada. Existem recomendações específicas para estes nutrientes, as quais se baseiam na ingestão mínima para prevenir deficiências que possam impedir o funcionamento do organismo e o limite máximo para evitar toxicidade. No entanto, não se pode deixar de falar que, muitas vezes, mais importante que a quantidade absoluta destes elementos é a proporção que guardam entre si de dois ou mais desses minerais. Não nos esqueçamos de que os animais possuem necessidades dife- rentes de tipos e de quantidades de minerais. 2.1.3. Digestão: generalidades Seja o alimento utilizado para combustível ou para desenvolvimento e ma- nutenção, as grandes moléculas do alimento devem ser degradadas em uni- dades mais simples, as quais são absorvidas e podem ser incorporadas ou metabolizadas para fornecer energia. A principal função da digestão é decompor as moléculas grandes e com- plexas presentes no alimento, de modo a torná-las absorvíveis e disponíveis para utilização no corpo. Dessa forma, proteínas, gorduras e carboidratos, por exemplo, são desdobrados em aminoácidos, ácidos graxos e glicerol, glicose e outros monossacarídeos, respectivamente. Essa degradação é executada no trato digestório com o auxílio de enzimas. Os animaisadquirem suas necessidades se alimentando de plantas ou de outros animais. De fato, existe uma classificação dos animais de acordo com sua dieta em: carnívoros (se alimentam de carne); herbívoros (de vegetais) e onívoros (carne e vegetais). Existe ainda uma subclassificação dos dois primei- ros. Os carnívoros podem ser insetívoros, piscívoros, sanguívoros e outros; os herbívoros subclassificam-se em frugívoros, granívoros, nectarívoros e outros. Existem dois tipos de digestão, a intra e a extracelular. Se a digestão do alimento for efetuada no interior da célula, o processo é chamado de digestão intracelular. Nos protozoários, são formados vacúolos digestivos no interior dos quais a digestão é processada. Nos animais pluricelulares mais simples, como as esponjas, a digestão é também exclusivamente intracelular e ocorre no in- terior de células especiais, os coanócitos e os amebócitos. Nos celenterados e nos platelmintos, apesar de já existir uma cavidade digestiva (incompleta), o término da digestão ainda é intracelular. Na hidra, por exemplo, a presa é apre- endida por tentáculos, digerida parcialmente no celêntero, e os diminutos frag- A água não é propriamente um nutriente, embora seja essencial à vida. Ela é o solvente geral, e todas as reações vitais ocorrem no meio aquoso presente no interior das células. A água é adquirida pela ingestão direta na forma líquida, ou indireta, pois, geralmente, faz parte da composição de todos os alimentos. Digestão é o conjunto de transformações físicas e químicas que os alimentos orgânicos sofrem para se transformarem em moléculas menores, hidrossolúveis, absorvíveis e utilizáveis pelas células. Fisiologia Animal Comparada 61 mentos são, em seguida, englobados pelas células, onde são completamente digeridos. Se houver qualquer material não digerido, este é devolvido ao meio através do mesmo orifício que serviu para a entrada do alimento. Com o aumento da complexidade dos animais, a digestão passa a ser totalmente extracelular, ocorrendo exclusivamente na cavidade digestória. Em todos os vertebrados, a digestão é extracelular, porém os primeiros animais com trato digestório completo pertencem ao grupo dos nematelmintos. A partir destes animais, o complexo aparelho digestório possui duas aberturas, boca e ânus. Isto permite a digestão tipo “linear-compartimentado”, ou seja, o alimento é ingerido através da boca e se paulatinamente modificado por uma série de sucos digestivos; ao se formarem produtos solúveis os nutrientes são absorvi- dos num segmento especializado deste canal alimentar (SCHMIDT-NIELSEN, 1999). Os resíduos alimentares não digeridos são expelidos através do ânus (ou cloaca), sem interferir com a tomada de alimento. 2.1.3.1. Desdobramento dos componentes alimentares O desdobramento dos alimentos em compostos mais simples – amidos e açúcares complexos em açúcares simples, gorduras em ácidos graxos e glicerol, e proteínas em aminoácidos simples – é chamado hidrólise. Em geral, os processos químicos podem ser acelerados por catalisadores; es- tes, quando produzidos por organismos vivos, denominam-se enzimas, os quais são proteínas produzidas pelas células, e cada célula contém vá- rias enzimas diferentes. Esta variedade de enzimas, em uma única célula, deve-se ao fato de haver certa especificidade enzimática, ou seja, cada enzima age, preferencialmente, sobre uma única substância, o substrato, ou sobre um grupo de substâncias intimamente relacionadas. Nas células, ocorrem inúmeras reações. Uma hidrólise enzimática consiste em uma reação química catalisada por uma enzima, hidrolase, que utiliza água (H2O) para quebrar uma molécula, formando dois outros produtos. Nesta reação, um dos produtos produzidos incorporará à sua estrutura química um grupo OH- enquanto o outro incorpora um próton de hidrogênio. A hidrólise pode ser dividida em: hidrólise ácida, hi- drólise básica e hidrólise neutra. A hidrólise é uma reação espontânea que, enquanto está ocorrendo, gera pequena quantidade de energia (calor). Esta reação geralmente se pro- cessa tão rápido que se fala em “velocidade zero”. Muitos fatores interferem na atividade (velocidade de reação) da enzima, ou mesmo destroem sua atividade ao alterar a proteína. Dois fatores importan- tes são a temperatura e o pH da solução na qual está ocorrendo a reação. Alguns animais, como as aranhas, digerem seu alimento antes mesmo de ingeri-lo. Estas perfuram suas vítimas e injetam- lhes fluidos digestivos da glândula de veneno. Este fluido liquefaz as partes moles, semidigeridas. A aranha as suga para terminar a digestão extracelularmente no estômago e no intestino (SCHMIDT-NIELSEN, 1999). Todos os processos metabólicos (degradações, sínteses e algumas modalidades de transportes químicos) são catalisados por enzimas, portanto, essas proteínas são essenciais ao organismo vivo. Hidrolases são enzimas que promovem a cisão de um material orgânico, utilizando molécula de água. Estas enzimas catalisam a hidrólise de ligações éster, éter, peptídico, glicosila, anidrido-ácido, C-C, C-haleto ou P-N. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 62 Uma leve ou moderada elevação de temperatura acelera reações quími- cas, produzindo um aumento da atividade de ação enzimática. À medida que a temperatura se eleva, ainda mais aumenta a velocidade de reação, até que, a certa temperatura, observaremos uma taxa máxima de reação, ou ótimo térmico. Segundo Schmidt-Nielsen (1999), com a elevação da temperatura, o ponto de destruição térmica da enzima coincidirá com o de aumento da velo- cidade de reação. Como o grau de destruição térmica aumenta com o tempo, encontraremos, para a mesma enzima, um ótimo de temperatura baixa em ex- perimentos de longa duração e um ótimo de temperatura alta em experimentos de curta duração. Portanto, uma vez que o ótimo térmico varia com a duração do experimento, não constitui uma característica específica de uma dada enzi- ma. A maioria das enzimas é rapidamente inativada por temperaturas superio- res a 45°C ou 50°C, havendo algumas mais resistentes (a enzima proteolítica papaína do mamão suporta até 75°C, tornando-se inativa por fervura). Assim como as altas temperaturas, a acidez ou a alcalinidade excessi- va causa a destruição ou a desnaturação das enzimas. O ótimo de pH varia para cada enzima, sendo que muitas têm pHs ótimos em soluções neutras ou levemente alcalinas, enquanto outras, como a enzima pepsina do estômago de vertebrado, têm sua ação ótima sob pH ácido. No caso da pepsina, a ação máxima se processa com o pH ao redor de 2 (pH ótimo). 2.1.3.2. Digestão nos vertebrados É função do sistema digestório reduzir os alimentos consumidos em molécu- las mais simples e transferi-las para o sangue de forma que possam ser dispo- nibilizadas às células para metabolismo. Os processos de degradação física e química dos gêneros alimentícios são denominados digestão mecânica e química, respectivamente. Além dos monossacarídeos, aminoácidos e ácidos graxos, o trato digestório deve absorver outros nutrientes essenciais (por ex.: vitaminas e minerais), de forma que estejam disponíveis para as células do corpo (FRANDSON et al., 2005). 2.1.3.2.1. Características do sistema digestório O sistema digestório consiste no trato digestivo, que se estende da boca ao ânus (ou cloaca em peixes, anfíbios, répteis e aves), e em determinadas glân- dulas (glândulas salivares, pâncreas e fígado), as quais drenam seu conteúdo por ductos que se abrem no trato. As partes do trato digestivo, em seqüência, são: a boca, a faringe, o esôfago, o estômago, o intestino delgado e o intestino grosso (o ânus é a porção final deste) - Figura 2.1. Leia o artigo científico sobre condições ótimas para hidrólise enzimática disponível em: http://www. feq.unicamp.br/~cobeqic/ tBT16.pdf Fisiologia Animal Comparada 63 Chama-se de canal alimentar o tubo que se estende da faringe até o ânus, sendo constituído por: esôfago, estômago,intestino delgado e intestino grosso. Esses órgãos são formados, primeiramente, por endoderme, a camada primitiva que reste o saco vitelínico. Os tecidos, muscular e conjuntivo, que sustentam o epitélio sejam de origem mesodérmica, como em qualquer outra parte. A parede do tubo digestivo tem a mesma estrutura da boca ao ânus, sendo formada por quatro camadas: mucosa, submucosa, muscular e adventícia. Este tubo possui um revestimento completo de túnica mucosa (epitélio+submucosa). As características anatômicas e funcionais da muco- sa e seu epitélio variam muito entre os segmentos do intestino. O epitélio de revestimento do intestino funciona como barreira seletiva entre o lúmen e os líquidos do corpo. Externamente à submucosa há a camada muscular lisa contínua (formada por dois estratos, camadas circular e longitudinal). A parte abdominal do tubo é, em grande, parte coberta por uma túnica serosa – o peritônio visceral (FRANDSON et al., 2005). Independentemente se animais vertebrados se alimentam de carne e/ ou vegetais, as principais fases do processo digestivo ocorrem de forma se- melhante, porém, com ocorrência de variações importantes. Figura 2.1 Tipos de sistema digestivo de aves, ruminantes e humanos. Fontes: http://goretysilva.blogspot.com/2011/01/sistema-digestivo-de-alguns-animais.html (aves) http://www.lookfordiagnosis.com/images.php?term=Omaso&lang=3 (ruminantes) http://doencas.net/tag/doencas-do-aparelho-digestivo (humano) 2.1.3.2.2. Fisiologia da digestão A digestão é dividida em três fases: a fase cefálica, que envolve todos os pro- cessos digestivos que ocorrem na boca, na faringe e no esôfago; a fase gástri- ca, que ocorre no estômago; e a fase intestinal, que engloba o processamento da ingestão no intestino delgado e grosso. a) Fase cefálica: Mastigação, insalivação e deglutição Após a preensão do alimento, a digestão tem início na boca, primeira- mente, pela digestão mecânica, ou em outras palavras, os dentes e a língua Os ácidos dissociam-se na água, liberando íons de hidrogênio, H+, e a concentração do H+ indica o grau de acidez do ácido. Fala-se em força de ácido. A notação pH é usada para indicar a acidez, ou seja, a concentração de íons hidrogênio de uma solução. Um pH igual a 7 indica uma solução neutra; um pH abaixo de 7, uma solução ácida; e as soluções alcalinas têm um pH acima de 7. A quebra de moléculas pode se dar também pela ação das oxirredutases. Estas enzimas catalisam as reações de oxidação- redução. Os nomes comuns para muitas dessas enzimas são: desidrogenases, oxidases, peroxidases, hidrolases, oxigenases etc. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 64 preparam o alimento para a digestão química. Por meio da mastigação, os dentes reduzem os alimentos em pequenos pedaços (de peixes a aves não ocorre mastigação; na boca, o alimento é apenas prensado), misturando-os à saliva, o que irá facilitar a futura ação das enzimas. A língua exerce papel importante no processo de digestão, pois direciona o alimento na mastigação; revira-o para que entre em contato com a saliva; e o empurra em direção à gar- ganta, para que seja engolido (em tubarões e em alguns répteis, os dentes “ar- ticulados” têm função preponderante no processo de deglutição do alimento). Em algumas espécies, a digestão química de alguns polissacarídeos se inicia na boca. De fato, na saliva, já podemos encontrar enzimas (além de água, eletrólitos e muco). A enzima que digere o amido e outros polissacarí- deos é a amilase, que os reduz em moléculas de maltose (dissacarídeo). O ótimo de pH da amilase é neutro ou levemente alcalino. Ela está presente em maior quantidade na saliva de suínos, macacos, humanos e elefantes e, em grau limitado, nos equinos, na maioria dos roedores, nos peixes e em alguns anfíbios, estando ausente em ruminantes e em carnívoros (cão). Outra enzi- ma salivar é a lisozima, que tem ação antibacteriana. Ainda sobre enzimas sa- livares, alguns répteis produzem enzimas proteolíticas e lipolíticas (proteases e lipases, respectivamente). Na saliva da lampreia, existe uma enzima que impede a coagulação sanguínea de sua presa. Os ramos dos nervos parassimpáticos regulam a secreção salivar. Esta secreção é estimulada pela visão, pelo cheiro do alimento, pela presença de alimento na cavidade bucal, pelos pensamentos e pelos reflexos condiciona- dos, em que algum evento está associado ao alimento e à alimentação. Ao ato de engolir, denominamos deglutição, e acontece na seguinte se- quência: após o alimento ter sido mastigado e insalivado, o bolo alimentar ou o líquido passam pela boca (ato voluntário) e ao, serem levados para a super- fície superior da língua, esta se eleva contra o palato duro e empurra o bolo para a faringe. Neste momento, o palato mole se eleva, fechando a cavidade nasal. Com o bolo na faringe, os receptores de suas paredes são estimulados, iniciando uma ação reflexa que acarreta o fechamento da epiglote (para que o alimento não entre no trato respiratório); a indução ao início das contrações da parede faríngea em direção crânio-caudal; e a dilatação da entrada do esô- fago. A última etapa da deglutição consiste na passagem do bolo pelo esôfago até adentrar no estômago. Os músculos esofágicos, devido à peristalse (ação nervosa reflexa, involuntária), forçam o bolo para dentro do estômago. A peris- talse está representada na Figura 2.2C. Preensão é o ato de trazer o alimento à boca. Esta função pode ser exercida pelos dentes, pelos lábios e pela língua. Na superfície da língua de humanos, existem dezenas de papilas gustativas, cujas células sensoriais percebem os cinco sabores primários: doce, azedo (ácido), salgado, amargo e o umami. Segundo Frandson et al. (2005), a peristalse (ou movimento peristáltico) consiste no relaxamento e na contração alternados de anéis musculares na parede juntamente com contração regional de músculos longitudinais na área do bolo. Fisiologia Animal Comparada 65 Figura 2.2 Movimentos do trato gastrointestinal Fonte: McCAULEY, 1976. b) Fase gástrica: motilidade e secreções gástricas O estômago funciona como reservatório de alimento e como local para a digestão. Tão logo o bolo alimentar entre no estômago, dizemos que a diges- tão encontra-se na fase gástrica. O alimento, ao chegar neste compartimento, aumenta a estimulação neural parassimpática, que já vinha ocorrendo desde a visualização, olfação ou gustação do alimento. Isto estimula a motilidade gástrica e a secreção do sulco gástrico (ácido clorídrico, muco, enzima pep- sina e renina) e de hormônios (gastrina e histamina) relacionados à digestão. Suco gástrico refere-se ao conjunto de substâncias secretadas para o in- terior do estômago. Ele contém água, ácido clorídrico, muco, a forma inativa da pepsina (pepsinogênio, que só é ativado em pH baixo) e a enzima renina. A regu- lação da secreção do suco gástrico possui três fases: cefálica, gástrica e intestinal. As glândulas gástricas secretam a enzima que degrada as proteínas (proteolítica), a pepsina e o ácido clorídrico. Como já vimos, essa enzima tra- balha melhor em suco gástrico acidificado (pH ao redor de 2). O ácido clo- rídrico é que causa a intensa acidez, o que inibe a proliferação bacteriana. Também a ação da amilase salivar é inativada quando o alimento entra em Em muitos vertebrados, o esófago não passa de um tudo condutor do alimento até o estômago, mas, em outros, ele possui outras funções. Alguns répteis possuem glândulas no esôfago muito parecidas com as encontradas no estômago. Nas aves, na maior parte inferior do esôfago, forma-se um saco elástico, chamado papo, cuja função é armazenar o alimento temporariamente. Os alimentos do papo passam ao estômago a uma velocidade conveniente à digestão da ave. Em pombos de ambos os sexos, o revestimento do papo secreta uma substância leitosa que, regurgitada, serve de alimentação para os filhotes. Em alguns vertebrados inferiores (por ex.: anuros),toda a superfície interna da faringe e do esôfago encontra-se recoberta por cílios, e as partículas alimentares são impulsionadas até o estômago, devido ao seu batimento coordenado. Estes cílios se desenvolvem no esôfago do embrião mamífero, porém desaparecem antes do nascimento (McCAULEY, 1976). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 66 contato com o ácido, interrompendo a digestão do amido. Portanto, a principal digestão gástrica é proteolítica. O pH baixo, além de ativar pepsinogênio, também promove a ativida- de da pepsina, que, por ser uma enzima proteolítica, age sobre o pepsino- gênio, ativando-o também. A pepsina inicia digestão química das proteínas no estômago, porém ela só é completada no intestino delgado por outras enzimas digestivas. Para proteger a mucosa do estômago da acidez do suco gástrico, as células da sua parede produzem uma espessa camada de muco, recobrindo-a. Apesar de estarem protegidas por uma densa camada de muco, as células da parede estomacal são continuamente lesadas e mortas pela ação do suco gás- trico, sendo sempre regeneradas. Estima-se que, a cada três dias, a superfície do estômago, em humanos, seja totalmente reconstituída. A renina, produzida em grande quantidade no estômago de recém- nascidos, separa o leite em frações líquidas e sólidas, além de reduzir a velo- cidade de passagem deste alimento pelo trato gastrointestinal. A presença de alimento, especialmente de proteínas, estimula a secre- ção dos hormônios gastrina e histamina pelas células no epitélio gástrico. A gastrina e a histamina estimulam as células das glândulas gástricas a secretar ácido clorídrico. O sistema parassimpático, através da acetilcolina, também estimula essas células da parede do estômago a secretar ácido clorídrico. A secreção de muco é estimulada por prostaglandinas, que também são produ- zidas localmente na parede do estômago. Os hormônios colecistocinina, peptídeo inibidor gástrico, e secretina inibem a secreção de ácido clorídrico. Esses hormônios são liberados pelo epitélio duodenal em resposta à presença de alimento no duodeno. Estes hor- mônios inibidores são parte da fase intestinal da regulação gástrica. O alimento pode permanecer no estômago por várias horas. Neste tem- po, devido aos movimentos peristálticos, o bolo se mistura ao suco gástrico, e continua a digestão mecânica, transformando o bolo alimentar numa massa acidificada e semilíquida (quimo), que passa para o duodeno em velocidade controlada, através do esfícter pilórico (local com parede muscular desenvol- vida que separa o estômago do intestino delgado). Semelhante à regulação das secreções gástricas, a regulação da mo- tilidade gástrica pode se dar pelos nervos parassimpáticos e pelo hormônio gastrina (estimulam), bem como pelos hormônios colecistocinina, pela secre- tina e pelos peptídeos inibidores gástricos, liberados em resposta à presença do quimo (ácido) que entra no duodeno, os quais promovem a contração do esfíncter pilórico, reduzindo a velocidade de esvaziamento gástrico. A passagem do alimento do estômago para o intestino é controlada por um esfíncter entre o estômago e a porção superior do intestino (o piloro). Quimo é o nome dado ao produto da digestão no estômago. Ele contém material protéico parcialmente digerido, carboidrato, em parte, e lipídio, praticamente sem modificações da digestão gástrica. O estômago da maioria dos vertebrados é formado por um único compartimento que se presta a armazenar e a iniciar a digestão química dos alimentos. Porém, em alguns animais, o estômago encontra-se modificado e contém câmaras adicionais que possuem funções específicas. O estômago das aves e dos crocodilianos é bigástrico, pois possui dois compartimentos, o primeiro é responsável pela digestão química (pró- ventrículo) e o segundo, pela digestão mecânica (moela). Nos ruminantes, encontramos o estômago dividido em quatro câmaras: rúmen, retículo, omaso e abomaso. Nos três primeiros, ocorre a digestão fermentativa da celulose (por ação simbiótica de microrganismos) e, no último, a digestão química (Figuras 2.1 e 2.3). As várias formas de estômago de vertebrados e a distribuição dos diferentes tipos de revestimento podem ser vistos na Figura 2.3. Fisiologia Animal Comparada 67 contato com o ácido, interrompendo a digestão do amido. Portanto, a principal digestão gástrica é proteolítica. O pH baixo, além de ativar pepsinogênio, também promove a ativida- de da pepsina, que, por ser uma enzima proteolítica, age sobre o pepsino- gênio, ativando-o também. A pepsina inicia digestão química das proteínas no estômago, porém ela só é completada no intestino delgado por outras enzimas digestivas. Para proteger a mucosa do estômago da acidez do suco gástrico, as células da sua parede produzem uma espessa camada de muco, recobrindo-a. Apesar de estarem protegidas por uma densa camada de muco, as células da parede estomacal são continuamente lesadas e mortas pela ação do suco gás- trico, sendo sempre regeneradas. Estima-se que, a cada três dias, a superfície do estômago, em humanos, seja totalmente reconstituída. A renina, produzida em grande quantidade no estômago de recém- nascidos, separa o leite em frações líquidas e sólidas, além de reduzir a velo- cidade de passagem deste alimento pelo trato gastrointestinal. A presença de alimento, especialmente de proteínas, estimula a secre- ção dos hormônios gastrina e histamina pelas células no epitélio gástrico. A gastrina e a histamina estimulam as células das glândulas gástricas a secretar ácido clorídrico. O sistema parassimpático, através da acetilcolina, também estimula essas células da parede do estômago a secretar ácido clorídrico. A secreção de muco é estimulada por prostaglandinas, que também são produ- zidas localmente na parede do estômago. Os hormônios colecistocinina, peptídeo inibidor gástrico, e secretina inibem a secreção de ácido clorídrico. Esses hormônios são liberados pelo epitélio duodenal em resposta à presença de alimento no duodeno. Estes hor- mônios inibidores são parte da fase intestinal da regulação gástrica. O alimento pode permanecer no estômago por várias horas. Neste tem- po, devido aos movimentos peristálticos, o bolo se mistura ao suco gástrico, e continua a digestão mecânica, transformando o bolo alimentar numa massa acidificada e semilíquida (quimo), que passa para o duodeno em velocidade controlada, através do esfícter pilórico (local com parede muscular desenvol- vida que separa o estômago do intestino delgado). Semelhante à regulação das secreções gástricas, a regulação da mo- tilidade gástrica pode se dar pelos nervos parassimpáticos e pelo hormônio gastrina (estimulam), bem como pelos hormônios colecistocinina, pela secre- tina e pelos peptídeos inibidores gástricos, liberados em resposta à presença do quimo (ácido) que entra no duodeno, os quais promovem a contração do esfíncter pilórico, reduzindo a velocidade de esvaziamento gástrico. A passagem do alimento do estômago para o intestino é controlada por um esfíncter entre o estômago e a porção superior do intestino (o piloro). Quimo é o nome dado ao produto da digestão no estômago. Ele contém material protéico parcialmente digerido, carboidrato, em parte, e lipídio, praticamente sem modificações da digestão gástrica. O estômago da maioria dos vertebrados é formado por um único compartimento que se presta a armazenar e a iniciar a digestão química dos alimentos. Porém, em alguns animais, o estômago encontra-se modificado e contém câmaras adicionais que possuem funções específicas. O estômago das aves e dos crocodilianos é bigástrico, pois possui dois compartimentos, o primeiro é responsável pela digestão química (pró- ventrículo) e o segundo, pela digestão mecânica (moela). Nos ruminantes, encontramos o estômago dividido em quatro câmaras: rúmen, retículo, omaso e abomaso. Nos três primeiros, ocorre a digestão fermentativada celulose (por ação simbiótica de microrganismos) e, no último, a digestão química (Figuras 2.1 e 2.3). As várias formas de estômago de vertebrados e a distribuição dos diferentes tipos de revestimento podem ser vistos na Figura 2.3. Figura 2.3. Figura esquemática de estômagos de vertebrados, mostrando a diversida- de de formas e de distribuição de tipos de revestimento. Fonte: HILDEBRAND; GOSLOW, 2006. c) Fase intestinal: ação das secreções, absorção, movimentos e excreção. Devido às ondas peristálticas, o quimo atravessa a região pilórica e atin- ge o intestino delgado, o duodeno. Esta passagem é controlada pelo piloro. Quando esse esfíncter relaxa, uma pequena quantidade do quimo passa para o duodeno. Tão logo o quimo, altamente acidificado, entra em contato com as paredes intestinais, ocorrem duas reações simultâneas: o piloro se fecha vigo- rosamente, impedindo que mais alimento saia do estômago; se as células da parede duodenal secretam o hormônio secretina, este, por sua vez, estimula o pâncreas a liberar grande quantidade de bicarbonato de sódio (NaHCO3), neutralizando o ácido. Quando o quimo torna-se básico, o esfíncter pilórico relaxa novamente, permitindo que outra porção de alimento acidificado no es- tômago passe para o intestino. As secreções exócrinas pancreáticas (suco pancreático) são compos- tas por bicarbonato de sódio e por enzimas digestivas proteolíticas (tripsina e quimiotripsina), lipolíticas (lipase pancreática) e pelas que quebram carboidra- tos (amilase pancreática). A tripsina, cujo ótimo de pH situa-se ao redor de 8, na realidade, é se- cretada sob a forma de um composto inativo denominado tripsinogênio. A sua Além do intestino delgado não ter uma camada de muco para protegê-lo de uma solução ácida, como ocorre no estômago, é em pH mais alcalino que as enzimas digestivas pancreáticas desempenham melhor sua ação. O intestino delgado é o principal local de digestão química e de absorção de nutrientes. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 68 ativação se dá por outra enzima, a enterocinase, secretada pelas células lu- minais (enterócitos) da parede duodenal. Além da ação proteolítica direta, a tripsina tem a função também de ativar o quimiotripsinogênio (precursor da quimiotripsina) e mais tripsinogênio. Os produtos finais da digestão protéica são aminoácidos. As outras importantes enzimas pancreáticas, lipase e amilase, já são li- beradas em sua forma ativa. Ambas agem em pH alcalino. A lipase pancreática decompõe as gorduras, com a ajuda dos sais biliares, em ácidos graxos e gli- cerol. A amilase pancreática quebra o amido em oligossacarídeos. As enzimas maltase e sacarase da membrana plasmática dos enterócitos digerem mais oligossacarídios em monossacarídios. Nestas células. também encontramos a lactase que digere a lactose (açúcar do leite). Em enzima é encontrada em enterócitos de mamíferos jovens, sendo mais rara ou ausente nos adultos. O fígado não é uma fonte de enzimas digestivas, porém ele secreta a bile, composta de colesterol, fosfolipídios, pigmentos biliares (bilirrubina) e os sais biliares. Estes sais facilitam a digestão enzimática dos lipídios, pois agem quimicamente, emulsificando as gorduras, e as auxiliam na absorção de lipídios e, indiretamente, de substâncias lipossolúveis (por ex.: vitamina K). Sem a bile, as gorduras permaneceriam como gotículas insolúveis, pratica- mente imunes à ação da lipase. O efeito emulsificador dos sais biliares reduz as grandes gotas de gorduras, tornando-as acessíveis às lipases. Micela é o termo para as pequenas gotículas formadas no quimo intestinal que contêm lipídios, sais biliares e produtos da digestão lipídica. A liberação dos sais biliares é regulada pela ação do hormônio cole- cistocinina, produzido pelas células da mucosa duodenal. Este hormônio é liberado quando, no lúmen do intestino delgado, há gorduras, peptídeos ou aminoácidos. A colecistocinina estimula a contração da vesícula biliar e, con- sequentemente, a liberação da bile aí armazenada. O intestino delgado também secreta sucos digestivos. O suco intestinal, constituído de sais, água e enzimas, é produzido pelas glândulas intestinais da sua parede. Este suco dilui o quimo, que geralmente é hipertônico em relação ao plasma sanguíneo. As enzimas polipeptidases completam a hidrólise dos produtos que foram previamente degradados pelas ações da pepsina e trip- sina sobre as proteínas; a maltase completa a digestão da maltose; e outras enzimas digerem sacarose, lactose, nucleotidases (digerem ácidos nucléicos) etc. A função dos sais secretados não é clara (FRANDSON et al., 2005). O intestino delgado é o local principal de absorção de nutrientes (mo- nossacarídeos, ácidos graxos, glicerol, aminoácidos, minerais, vitaminas e água). Os compostos relativamente simples, resultantes da digestão, são absorvidos através da parede intestinal e entram na circulação. A tendência O controle da secreção exócrina pancreática depende de estimulação pelos nervos autônomos que inervam o pâncreas e de três hormônios intestinais, a colecistocinina, a secretina e a gastrina. As lipases podem funcionar sem os sais biliares, mas a digestão lipídica é ineficaz sem eles. Fisiologia Animal Comparada 69 natural das substâncias dissolvidas é difundir, de um local de alta concentra- ção para um de baixa concentração. Mas a absorção pode se dar também quando a concentração de determinado nutriente, no intestino, é menor que a do sangue. Tal movimento de substâncias contra a direção na qual elas ten- dem a difundir passivamente (movimento contra o gradiente de concentração) requer energia e é chamado de transporte ativo (SCHMIDT- NIELSEN,1999). A superfície interna do epitélio intestinal de aves e de mamíferos é re- coberta por numerosas pregas digitiformes, chamadas vilosidades, que visa aumentar a superfície de absorção do intestino. Outros vertebrados possuem diferentes dispositivos anatômicos para aumentar a área de superfície de ab- sorção intestinal. Nos peixes cartilaginosos e teleósteos, encontramos as vál- vulas espirais; neste últimos, encontramos ainda projeções em fundo cego, com epitélio glandular e absortivo. Alguns teleósteos, anfíbios e répteis têm uma complexa rede de bordas e de pregas que rodeiam criptas glandulares profundas no epitélio intestinal. Os três principais movimentos do intestino delgado são a segmentação, o pendular e o peristaltismo (Figuras 2.2A, B e C, respectivamente). Os mo- vimentos segmentais são movimentos de mistura do alimento com as secre- ções pancreáticas, biliares e intestinais. Não são apenas propulsivos, mas são caracterizados por áreas locais alternadas de contração e relaxamento. Esse movimento aumenta também o contato do quimo com a superfície absortiva epitelial do intestino delgado. Assim como o anterior, o movimento pendular tem, por ação primeira, misturar o quimo. Esse movimento consiste na contra- ção da musculatura longitudinal, primeiro de um lado do intestino e depois do outro, de forma que a alça intestinal se dobra de um lado para o outro numa espécie de serpenteio. Depois da absorção, no intestino delgado, a massa alimentar é denominada quilo. O quilo segue para o intestino grosso, através dos movimentos peristálticos do intestino delgado. No ceco e no colo, regiões do intestino grosso, acontecem a absorção, sobretudo, de água e de alguns eletrólitos, para reduzir o volume e a fluidez da digestão na formação de fezes. De fato, apesar de ocorrer absorção de água no intestino delgado, se o restante fosse totalmente perdido, isso significaria um prejuízo grande para o vertebrado terrestre e marinho, que geralmente estão sob limitação de água doce para beber. Portanto, uma função importante, mas não única, do colo é a reabsor- ção de água a partir do material fecal. Em onívoros e em alguns herbívoros, o ceco e o colo também são locais de alguma fermentação limitada e de diges- tão microbiana. O colo intestinalda maioria dos vertebrados possui grande população de microrganismos simbióticos. Estes desempenham diversas ações. Nos SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 70 humanos, há os que sintetizam a vitamina K. Nos equinos, o ceco, extrema- mente grande e complexo, e o colo são os principais locais de fermentação e digestão microbiana da celulose, com a consequente absorção de ácidos graxos voláteis. Ao passar pelo intestino grosso, o que resta do quilo vai transformando-se, gradualmente, em fezes, que, recolhidas na ampola retal, são eliminadas com a defecação, a qual ocorre devido a um reflexo nervoso, devido, principalmente, ao enchimento do reto. 2.2. Excreção 2.2.1. Introdução Uma das necessidades de fundamental importância para os animais é a de se livrar dos resíduos metabólicos que as células produzem continuamente. E a excreção corresponde ao mecanismo fisiológico pelo qual as estruturas ou órgão excretores removem substâncias inúteis e resíduos provenientes do metabolismo celular, prejudiciais ao organismo (como amônia e ureia). A ex- creção é, também, responsável pela regulação da concentração dos íons e pelo controle do volume de água no organismo. Por esse mecanismo, o orga- nismo mantém o equilíbrio do meio interno, isto é, a homeostase. As substâncias nitrogenadas, advindas principalmente da digestão de proteína animal, requerem um tratamento e um sistema excretor especiali- zado, que varia de organismo para organismo. Este tipo de excreta pode ser eliminado pelo sistema urinário e/ou pela pele. Como não poderia deixar de ser, o sistema excretor vai ganhando ele- mentos mais especializados para a excreção à medida que os organismos tornam-se mais complexos e que deixam de ter acesso ilimitado à água, meio principal de difusão de substâncias. Nos protozoários, esponjas e cnidários, animais pouco complexos que vivem no ambiente aquático, a excreção de sais, amônia e CO2, se dá por difu- são, pela parede corporal. Já nos platelmintos, surgem protonefrídios, que são formados por células (célula-flama) ligadas a túbulos e por poros excretores que se distribuem longitudinalmente em ambos os lados do corpo. Nos anelídeos, aparecem estruturas associadas a capilares sanguíne- os, os nefrídios segmentares, para a expulsão dos resíduos nitrogenados. Nos artrópodes, várias estruturas estão relacionadas à excreção nitrogenada, as glândulas verdes (crustáceos), as glândulas coxais (aracnídeos) e os túbulos de Malpighi (insetos). Nos vertebrados, os principais órgãos excretores são os rins, que tam- bém possuem complexidades diferentes nos vários grupos animais (Figura Simbiose é a relação existente entre dois organismos, da qual ambos tiram proveito. Na digestão simbiótica, os micróbios (bactérias e protozoários) que vivem no tubo digestivo atacam materiais que não podem ser hidrolisados pelas enzimas dos animais, de modo que transformam essas substâncias em outras capazes de sofrer digestão. Algumas substâncias provenientes do catabolismo celular, como o dióxido de carbono, estão em estado gasoso e podem ser eliminados através da respiração. Fisiologia Animal Comparada 71 2.4). A principal função do sistema renal (ou urinário), nestes animais, é auxi- liar na homeostase, controlando a composição e o volume do sangue. Este controle é realizado pelos rins que, ao receberem o sangue contendo diferen- tes tipos de substâncias, fazem um processo de filtragem. Eles selecionam o que será eliminado e devolvem ao sangue o que poderá ser reaproveitado. Independente da morfologia ou da complexidade destes órgãos, os princípios básicos dos processos de excreção são a ultrafiltração e o transporte ativo. A substância final formada é eliminada durante a micção. Figura 2.4. Estrutura e função da unidade funcional do rim, o néfron, em relação à excreção e à osmorregulação – esquema. Fonte: HILDEBRAND; GOSLOW (2006). 2.2. Sistema renal O sistema urinário é responsável por manter relativamente constante o am- biente interno dos líquidos do corpo. A formação de urina ocorre em respos- ta a alterações na ingestão dietética ou no metabolismo. Os rins regulam o SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 72 equilíbrio corpóreo de água, vários eletrólitos, ácidos e bases. Estes órgãos também excretam produtos residuais metabólicos na urina, incluindo resíduos nitrogenados e um subproduto do metabolismo muscular esquelético, a crea- tinina (FRANDSON et al., 2005). 2.2.2.1. Tipos de excretas As proteínas são a principal fonte de substâncias nitrogenadas dos animais. Na metabolização dos aminoácidos, inicialmente, ocorre a desaminação, isto é, a perda do radical, a amina. Depois, o restante da molécula pode, pelo pro- cesso da respiração celular, gerar CO2 e H2O, com liberação de grande quan- tidade de ATP. A desaminação do aminoácido ocorre no fígado. Os produtos mais comuns desse metabolismo são amônia, ureia e ácido úrico. Invertebrados excretam amônia (amoniotélicos). Esta substância é alta- mente tóxica, porém, é bastante solúvel em água. Quanto aos animais sendo aquáticos, a demanda de grande quantidade de água para ser usada na sua eliminação não é um problema (Quadro 2.1). Nos vertebrados aquáticos, o ultrafiltrado já é formado no corpúsculo renal devido à pressão sanguínea que impulsiona o fluido das finas paredes dos capilares. Os peixes de água doce são hipertônicos em relação ao meio, e o ex- cesso de água que penetra no organismo é eliminado como urina hipotônica. Eles perdem minimamente os sais através dos rins; mesmo assim, este pouco sal perdido dever ser reposto através da alimentação e da absorção ativa a partir da água. Os íons são absorvidos pelas brânquias. A amônia é a excre- ção nitrogenada destes animais (McCAULEY, 1976). A excreção nos anfíbios comporta-se semelhantemente a de peixes de água doce; no entanto, a absorção de sais da água nos animais adultos se dá pela pele, uma vez que não possuem mais as brânquias. Nas rãs, a ureia é eliminada por um rim, através de filtração glomerular e de secreção tubular. Em peixes teleósteos de água salgada, a urina é produzida em peque- na quantidade e pouco concentrada em relação ao meio, ambiente. Estes animais são hipotônicos em relação ao meio e o excesso de sal é excretado pelas brânquias. Nestes peixes, uma das principais funções dos rins é ex- cretar os íons divalentes (Ca++, Mg++, SO4=, PO4+), que são encontrados na água do mar que eles bebem para compensar a perda osmótica de água (SCHMIDT-NIELSEN, 1999). Assim como os vertebrados marinhos, os da classe vertebrata que vivem em meio terrestre tendem a perder água. Porém, nestes últimos, o precesso se dá por desidratação e não osmoticamente. Como estes animais têm uma limitação de água, eles têm que liberar seu resido nitrogenado não como amônia (que re- Nos processos metabólicos, observa-se o desmembramento de substâncias complexas em substâncias mais simples para obtenção de energia. A este processo denomina-se catabolismo. Para o funcionamento do organismo, é necessária a ocorrência de outra reação bioquímica importante a nível celular, o anabolismo. Este é o oposto do catabolismo, pois as moléculas mais complexas são sintetizadas a partir de moléculas menos complexas e acarretam o armazenamento de energia e construção de tecidos. Micção é o termo referente à expulsão de urina da bexiga. Normalmente, é uma atividade reflexa estimulada por distensão da bexiga a partir do influxo constante de urina por meio dos ureteres (FRANDSON et al., 2005). Nos mamíferos, o sistema urinário é composto por dois rins, dois ureteres, a bexiga urinária e a uretra. Este sistema elabora e remove o principal fluido excretório, a urina. Fisiologia Animal Comparada 73 quer muita água para sua diluição e eliminação), mas como ureia ou ácido úrico. Menos tóxicas que a amônia, essas substâncias podem ser acumuladas tempo- rariamente no corpo e excretadas em soluções concentradas, sem grandes per-das de água pelo organismo, como nos anfíbios, através de filtração glomerular e de secreção tubular. Vários répteis e aves eliminam o ácido úrico (uricotélicos) juntamente com as fezes, na forma de uma pasta de cor esbranquiçada, altamente con- centrada; enquanto os mamíferos liberam urina rica em ureia (ureotélicos). No Quadro 2.1, podemos ver um resumo mostrando as principais excretas nitrogenadas em vários grupos de animais. Quadro 2.1 Excretas nitrogenados em animais invertebrados e vertebrados, de acordo com o habitat e a disponibilidade de água; concentrações sanguíneas em relação ao meio, concentração das excreções em relação ao sangue, órgãos excretores e osmorregulação. ANIMAL Habitat Produto de excreção Concentração sanguínea em relação ao meio Concentração das excreções em relação ao sangue Órgãos excretores Osmorregulação Platelmintos Água doce Amônia - Hipotônica Protonefrídeos com células-flama Protonefrídeos com células-flama Anelídeos Água doce ou terrestre Amônia Hipertônica Hipotônica Metanefrídeos Não bebem água Insetos Terrestre Ácido Úrico - Hipertônica Túbulos de Malpighi Bebem água Peixes Cartilaginosos Água Salgada Ureia Isotônica Isotônica Rins Não bebem água, ureia ajuda a reter água Peixes Ósseos Água Salgada Amônia Hipotônica Isotônica Rins e brânquias Bebem água e excretam sal Água doce Amônia Hipertônica Hipotônica Rins Não bebem água e absorvem sal Anfíbios Água doce/ terrestre Amônia (larva), Ureia (adulto) Hipertônica Hipotônica Rins e pele Não bebem água e absorvem sal Répteis Água salgada Ureia e Ácido Úrico Hipotônica/ Isotônica Hipertônica Rins Bebem água e excretam sal Terrestre Ácido Úrico - Hipertônica Rins Bebem água Aves Terrestre Ácido Úrico - Hipertônica Rins Bebem água Mamíferos Água Salgada Ureia Hipotônica Hipertônica Rins Não bebem água/água do alimento Terrestre Ureia - Hipertônica Rins Bebem água Fonte: Adaptado de SANTO (2007). Para conhecer a anatomia do rim, acesse http://www. portalsaofrancisco. com. br/videos-corpo-humano/ anatomia-do-rim.php. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 74 2.2.2.2. Função renal: formação da urina Os rins dos mamíferos e das aves têm uma estrutura semelhante. São órgãos complexos que consistem em milhares e milhões de unidades funcionais mi- croscópicas semelhantes, os néfrons. Cada néfron consiste em uma estrutu- ra esférica (cápsula glomerular ou de Bowman) que está preenchida por um emaranhado de capilares (glomérulo) e por um único canal transportador de urina (túbulo renal), conectado à capsula glomerular (Figura 2.2). Uma capsula glomerular com seu glomérulo contido é um corpúsculo renal (ou de Malpighi). O túbulo renal único é constituído por três segmentos: túbulo contor- cido proximal, alça de Henle e túbulo contorcido distal. O túbulo contorcido proximal encontra-se ligado à cápsula glomerular. Logo após, adelgaça-se e passa a chamar-se de alça de Henle, a qual faz uma trajetória em “U”, que se continua com o túbulo distal. Os vários túbulos distais unem-se para formar o ducto coletor, que desemboca na pelve renal. Da pelve, sai o ureter que se dirige a bexiga (local de armazenamento temporário de urina). Da bexiga, a urina é eliminada para fora do corpo através da uretra. A filtração glomerular, a reabsorção tubular seletiva e a secreção tubular seletiva são os processos envolvidos na formação de urina (Figura 2.5). Figura 2.5 Representação do néfron e dos fenômenos de filtração glomerular, de se- creção, de reabsorção tubular e de excreção de urina. Fonte: Adaptado de http://www.ibb.unesp.br/nadi/ Museu2_qualidade/Museu2_corpo_humano/Museu2_ como_funciona/Museu2_homem_rim/Imagens/nefron3.jpg Os vertebrados de sangue frio (peixes, anfíbios e reptéis) não possuem néfrons com estrutura de túbulos em alça e, portanto, são incapazes de formar uma urina com concentração mais elevada que a de seu sangue. Em toda extensão do túbulo renal, encontram-se os capilares sanguíneos. Na altura da alça de Henle, os capilares peritubulares dispõem-se paralelamente. Fisiologia Animal Comparada 75 À medida que o sangue flui através dos glomérulos, a pressão sanguí- nea força a água e algumas substâncias dissolvidas a passar pela parede capilar, de maneira que uma grande quantidade de filtrado é formada e entra no espaço urinário da cápsula glomerular. Entretanto, nem todas as moléculas conseguem ultrapassar a parede capilar, há, então, uma seleção, denomina- da ultrafiltração, onde as grandes moléculas (por ex.: proteinas, hemácias e leucócitos) ficam retidas e as pequenas (por ex.: aminoácidos, sais, ureia etc) passam através de uma membrana semipermeável. O filtrado sai da cápsula e flui através dos túbulos e dos ductos coletores, onde a reabsorção tubular e a secreção tubular alteram seu volume e sua com- posição. A reabsorção de substâncias do líquido tubular é realizada pelas célu- las tubulares. A reabsorção de água é favorecida pelo fato de as proteínas não atravessarem a parede capilar, e de sua retenção causar um efeito osmótico que favorece o retorno da água para os vasos sanguíneos (capilares peritubulares). No filtrado glomerular, existem substâncias que o corpo não pode se dar ao luxo de eliminá-las em grande quantidade (glicose, sais, água e aminoáci- dos), portanto devem ser reabsorvidas. No entanto muitas vezes, no sangue, elas estão em uma concentração maior do que no filtrado, e o organismo terá, mesmo assim, que removê-las de volta para o sangue contra um gradiente de concentração, é a reabsorção ativa. Este é um movimento contra gradiente de solutos que requer gasto de energia. Se esse transporte for direcionado para organelas excretoras é chamada de secreção ativa. A reabsorção de solutos leva a uma consequente diminuição da sua concentração no fluido, e a água voltará ao sangue por osmose devido à diferença de concentração osmótica (reabsorção passiva). Secreção tubular é a adição de substâncias ao líquido tubular por célu- las tubulares. As substâncias secretadas são produzidas nas células tubulares (p.ex.: íon hidrogênio e amônia) ou absorvidas do sangue pelas células tubu- lares nos capilares peritubulares (por ex.: penicilina e outros medicamentos). 2.2.2.2.1. Papel do túbulo contorcido proximal na formação da urina O túbulo contorcido proximal possui células típicas com uma borda luminal com microvilosidades (borda em escova). O comprimento e a borda em es- cova formam uma grande área de superfície da membrana celular, tornando essa porção do néfron a que realiza mais transporte de água e de solutos. As junções celulares dos túbulos proximais também são permeáveis a algumas substâncias, como glicose, aminoácidos e íons cloreto, bicarbonato. Normalmente, 100% da glicose e dos aminoácidos no filtrado inicial são reabsorvidos pelo túbulo proximal. Essa reabsorção envolve transporte ativo SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 76 secundário, utilizando um cotransportador ligado ao sódio. Já os íons bicar- bonato são absorvidos (85-90%) no túbulo proximal, no filtrado inicial, através da sua conversão em dióxido de carbono e em água sob influência da enzima anidrase carbônica. Esta reação requer um íon hidrogênio suplementado por transporte de dentro da célula tubular. Uma vez dentro da célula tubular, o di- óxido de carbono e a água são convertidos novamente em íons bicarbonato e hidrogênio, também sob influência da anidrase carbônica. O íon bicarbonato pode, então, sair da célula, utilizando um transportador de membrana para ser adicionado ao sangue novamente. O sódio acompanha os íons bicarbonato, de forma que a neutralidade elétrica dos líquidos corpóreos é mantida (FRAN- DSON et al., 2005). Sódio e cloreto são os dois osmólitos predominantes no filtrado inicial, e células do túbulo proximal reabsorvem 70-75% do sódio e do cloreto do filtrado inicial para o sangue. A reabsorção destes pode ser aumentada por ações da angiotensina II e de nervos simpáticos sobre célulastubulares e por vasoconstrição dos vasos sanguíneos renais, o que acontece durante desi- dratação ou perda sanguínea. As células do túbulo proximal também secretam ativamente ânions or- gânicos e cátions orgânicos para o liquido tubular, que passam a fazer parte da urina. 2.2.2.2.2. Papel da alça de Henle e do ducto coletor na formação da urina Somente aves e mamíferos são capazes de produzir uma urina com concen- tração osmótica maior que a do plasma sanguíneo. A capacidade dos rins de gerar urina hipertônica ou hipotônica depende das características funcionais e anatômicas tanto da alça de Henle quanto do ducto coletor destes animais. Em animais que possuem néfrons com alças curtas, a exemplo dos porcos e dos castores, a urina têm uma concentração máxima de apenas duas vezes a do plasma. Os que produzem uma urina altamente concentrada têm néfrons com alças longas. A excreção de urina hipertônica também requer hormônio antidiurético (ADH ou arginina-vasopressina), para alterar as características de transporte pelo ducto coletor. As alças de Henle são os segmentos do néfron em forma de U, e os termos descendente e ascendente são aplicados às partes correspondentes das alças. A alça de Henle ascendente é relativamente impermeável à água, porém reabsorve grande quantidade de sódio e cloreto. Este transporte é li- gado ao sódio (co-transporte) porque a bomba Na-K-ATPase, no lado oposto da célula mantém a concentração intracelular de sódio, baixa que permite o funcionamento do cotransportador. O efeito final deste transporte celular é a adição contínua de sódio e de cloreto ao líquido intersticial da medula sem ne- O filtrado glomerular, para chegar ao espaço urinário da cápsula glomerular, atravessa as seguintes barreiras: (1) o endotélio capilar do glomérulo; (2) a camada interna da capsula glomerular; e (3) a membrana basal (lâmina) entre essas duas camadas celulares. O endotélio glomerular possui aberturas ou poros nas células (fenestrado), de forma que esta parte da barreira é altamente permeável, agindo como uma peneira, em que todas as substâncias com peso molécular de até cerca de 65.000 passam através da barreira. Anote: A presença de proteínas ou moléculas maiores na urina é indicativa de danos nas estruturas glomerulares. No homem, 99% da água do filtrado glomerular é reabsorvido à medida que este líquido percorre o túbulo e os ductos coletores. Próximos aos glomérulos, as paredes das arteríolas aferentes contêm células especializadas, denominadas células justaglomerulares ou células granulares. Grânulos secretores, nessas células, contêm a enzima renina. A renina é um componente do sistema renina-angiotensina- aldosterona, que está envolvido na regulação do volume sanguíneo da pressão arterial. Fisiologia Animal Comparada 77 nhuma água associada. Já a porção descendente da alça é permeável à água (que passa para os capilares peritubulares), mas pouco permeável aos sais e à ureia, promovendo a concentração da urina. À medida que o líquido flui para dentro, através da alça descendente, a água é removida devido ao gradiente osmótico entre o lúmen tubular e os líquidos intersticiais da medula renal. As alças de Henle ascendente e descendente formam um mecanismo de contracorrente (no fluxo, movem-se em direções opostas) que amplifica as propriedades de transporte de osmólitos (cloreto de sódio) da alça ascendente de Henle. Este mecanismo de contracorrente gera o gradiente osmótico nos lí- quidos intersticiais da medula renal. Neste mecanismo contracorrente, também estão envolvidos os vasos retos ascendente e descendente, que permitem a livre troca de solutos e de água entre eles, pois são permeáveis à água e aos solutos, porém não são permeáveis às protéinas, e a pressão coloidosmódica das protéinas plasmáticas causa a retirada de água para a corrente sanguínea. O fluido que passa do segmento ascendente da alça de Henle para o túbulo distal tem o conteúdo de sódio removido, e sua concentração é menor que no plasma. E, no ducto coletor, a concentração salina é baixa porque o fluido tubular que entra é diluído, mas contém ureia. No interstício medular, a concentração osmótica é alta, e a água vai para fora do ducto coletor, aumen- tando a concentração da ureia. A permeabilidade do ducto coletor é determinada pelo hormônio an- tidiurético (ADH, produzido pela hipófise posterior). Na ausência do ADH, a membrana celular luminal dessas células fica quase impermeável à água, e o liquido hipotônico que entra nos ductos coletores passa por eles e é excreta- do como urina hipotônica. Neste caso, o volume de urina formado é grande. Na presença do ADH, a permeabilidade do ducto coletor à água encontra-se aumentada. A água é reabsorvida, e a osmolalidade do liquido tubular vai au- mentando paulatinamente. O volume de urina diminui, e a sua osmolalidade torna-se alta. Especialmente sob o efeito da aldosterona (hormônio esteroide do cór- tex adrenal), o ducto coletor é também capaz de transportar sódio e potássio, fazendo o ajuste final do equilíbrio entre estes íons. A aldosterona, por sua vez, é regulada pela renina e pela angiotensina. Quando a pressão sanguínea diminui, ou a concentração sanguínea de sódio aumenta, os rins liberam, no sangue, a renina, enzima que catalisa a formação de angiotensina, cuja ação é a diminuição do calibre dos vasos sanguíneos. Essa vasoconstrição aumen- ta a pressão arterial, e, consequentemente, estimula a secreção de aldostero- na. Esta última, por sua vez, aumenta a reabsorção de sódio pelos rins. Ingerir bebida alcoólica inibe a produção de ADH, aumentando a produção de urina. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 78 Síntese do Capítulo Digestório: Para que o organismo se mantenha vivo e funcionante, é neces- sário que ele receba um suprimento constante de material nutritivo, principal- mente proteínas, lipídios e carboidratos. Vitaminas e minerais também são es- senciais. Os alimentos ingeridos pelo animal precisam ser tornados solúveis e sofrer modificações químicas, para que sejam absorvidos e assimilados, nisto constituindo a digestão. Existem dois tipos de digestão: a intra e extracelular. Nos animais mais complexos, a digestão é executada no trato digestório com o auxílio de enzimas. Assim, suas funções são: preensão; mastigação; deglu- tição; digestão e absorção dos alimentos; e expulsão dos resíduos, eliminados sob a forma de fezes. O desdobramento dos alimentos em compostos mais simples – carboidratos, lipídios e proteínas, em seus respectivos monômeros – é chamado hidrólise. Os processos químicos podem ser acelerados por en- zimas, que são reguladas pela temperatura e pelo pH da solução. A digestão é dividida em três fases: a fase cefálica, que envolve todos os processos digesti- vos que ocorrem na boca, na faringe e no esôfago; a fase gástrica, que ocorre no estômago; e a fase intestinal, que engloba o processamento da ingestão no intestino delgado e grosso. O estômago funciona como reservatório de ali- mento e como local para a digestão. Ele também produz o hormônio gastrina e o suco gástrico, que possui pH ótimo aproximado de 2 e que contém água, ácido clorídrico, muco, pepsina e a enzima renina. Quimo é o nome dado ao produto da digestão no estômago. Ele é acidificado e, ao entrar em contato com as paredes intestinais, provoca o fechamento do piloro, impedindo a saí- da de mais alimento do estômago e estimulando a secreção do suco pancreá- tico, que contém enzimas digestivas (tripsina, quimiotripsina, lipase e amilase), e bicarbonato de sódio. As enzimas pancreáticas e duodenais agem melhor sob pH aproximado de 8. O fígado tem papel importante na digestão devido à bile possuir, entre outras substâncias, sais que ajudam na emulsificação de gordura. O intestino delgado é o principal local de absorção de nutrientes (passiva e ativamente) e de água, além de liberar enzimas digestivas (polipep- tidase, maltase, sacarose, lactose, nucleotidases)e hormônios que regulam a função digestiva (colescitocinina, secretina). Depois da absorção no intestino delgado, a massa alimentar é denominada quilo. Ao passar pelo intestino gros- so, o que resta do quilo vai transformando-se em fezes, que são eliminadas com a defecação. Os três principais movimentos do sistema gastrointestinal são: a segmentação; o pendular; e o peristaltismo. Na digestão simbiótica, as bactérias e os protozoários que vivem no tubo digestivo atacam materiais que não podem ser hidrolisados pelas enzimas dos animais, transformando-nas O ducto coletor também tem importante papel no equilíbrio ácido básico do organismo, pois as suas células intercaladas possuem capacidade de transporte ativo de íons hidrogênio para o lúmen tubular. Os íons hidrogênio secretados para dentro do ducto por estas células são formados pela hidratação do dióxido de carbono sob influência da anidrase carbônica. Neste processo, gera também um íon bicarbonato, que é secretado para os líquidos extracelulares, de onde difunde-se para o plasma. Desta maneira, há a formação de uma líquido urinário ácido, com diferença de pH entre ele e o sangue de aproximadamente 3, de forma que, se o pH sanguíneo for 7,35, pode ser formada urina com pH de 4,35. O pH do plasma sanguíneo e de outros líquidos extracelulares é mantido relativamente constante dentro de uma variação estreita (cerca de 7,35 a 7,45). É importante manter essa constância, pois, como vimos no capítulo anterior, a atividade enzimática e os processos metabólicos exigem controle rigoroso do pH para função ideal. A constância de pH corpóreo não é função apenas do ducto coletor. A ação dos tampões químicos extracelulares e intracelulares e o controle ventilatório de dióxido de carbono plasmático também são necessários para tal. Fisiologia Animal Comparada 79 em outras capazes de sofrer digestão. Nos ruminantes, a digestão simbiótica ocorre nos três primeiros compartimentos estomacais, enquanto em outros herbívoros e em onívoros se dá no ceco e no colo. Excretor: Excreção é o mecanismo pelo qual as estruturas ou os ór- gãos excretores removem excretas do corpo, como amônia (NH3), uréia, CO2, sais e H2O. A principal função do sistema renal é auxiliar na homeostase, controlando a composição e o volume do sangue. Este controle é realizado removendo ou restaurando quantidades selecionadas de água e de solutos. As principais excretas nitrogenadas são a amônia, a ureia e o ácido úrico. O Nefron é a unidade funcional do rim, ele está dividido em porções: glomérulo, cápsula renal, túbulo contornado proximal, alça de Helen descedente e as- cedente, túbulo distal e ducto coletor. Ao longo dos túbulos renais, glicose, aminoácidos, sais e também uma pequena fração de uréia são ativamente reabsorvidos, retornando ao sangue dos capilares peritubulares juntamente com a água. Após a reabsorção, o que resta é a urina, que contém, entre ou- tras substâncias, água, sais, uréia e ácido úrico, e que será encaminhada para o ducto coletor. A regulação da formação da urina é feita pela ação do ADH, aldosterona, renina e angiotensina II. Atividades de avaliação 1. Defina nutrição e digestão. 2. Qual a importância das proteínas, dos carboidratos e das gorduras para os animais? 3. Diferencie digestão extra e intracelular. 4. Faça um esquema demonstrando como se dá a regulação da digestão. 5. Faça um quadro com as enzimas digestivas, com o local de sua produção e sua ação. 6. Desenvolva um esquema de aula, em power point, sobre digestão da celulose (sugestão: leia o texto complementar). 7. Como se classificam os animais quanto ao tipo de composto nitrogenado excretado? 8. Qual a importância da urina concentrada nas aves? 9. Faça um desenho esquemático demostrando a regulação da filtração, da absorção e da secreção no nefron, com a consequente formação da urina. 10. Faça uma pesquisa sobre dois tipos de doenças renais. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 80 Texto complementar “Digestão de celulose nos mamíferos” Não existe celulase produzida por mamífero algum, e os herbívoros dependem de micróbios para a digestão da celulose. No cavalo, a fermentação ocorre num enorme divertículo do intestino, o ceco. Na vaca e em outros ruminantes, o verdadeiro es- tômago é precedido por um grande saco, pró-ventrículo. (...) O alimento, misturado com a saliva, entra no rúmen e sofre violenta fermentação. Os produtos de decom- posição (principalmente ácidos acético, propiônico e butírico) são absorvidos e utili- zados, enquanto que o alimento remanescente é regurgitado, remastigado e nova- mente engolido (‘ruminado’). Esse bolo entra outra vez no rúmen e continua a sofrer fermentação. Gradualmente, o alimento passa para as outras regiões do estômago. (...) Os ruminantes secretam copiosa saliva que, no rúmen, atua como “tampão”. Seu alto teor em bicarbonato de sódio neutraliza grande parte dos produtos da fermen- tação ácida, ajudando a manutenção de um pH adequado para a continuada ação microbiana. A quantidade de saliva que passa diariamente pelo rúmen de uma ovelha pode ser equivalente a um terço do seu peso corpóreo. (...) A concentração de micróbios no rúmen é muito alta e semelhante à das cultu- ras em laboratório em condições ótimas. Sua participação na digestão da celulose é apenas uma fase de sua importante função: se adicionamos sais de amônio à dieta, as bactérias utilizam a amônia para a síntese de proteínas. Essas bactérias são subse- quentemente digeridas. Em geral, os animais não podem sintetizar proteína a partir de nitrogênio inorgânico. As bactérias simbióticas capacitam a vaca a utilizar a amônia para a formação de proteína. De maneira semelhante, os sulfatos inorgânicos são usados pelos micróbios para a síntese de aminoácidos portadores de enxofre, os quais são essenciais para a vida. Como as vacas podem utilizar a proteína bacteriana, elas parecem ser independentes no que se refere a aminoácidos essenciais, que são indispensáveis para outros ani- mais. Além disso, certas vitaminas também são sintetizadas por bactérias e podem ser obtidas pelo ruminante nos segmentos mais distais do tubo digestivo. Por exem- plo, o suprimento natural de vitamina B12 dos ruminantes é feito inteiramente por microrganismos. O cavalo não consegue tirar todas as vantagens de uma fermentação bacteriana porque o ceco está localizado na porção posterior do tudo digestivo. Assim, os cor- pos mortos das bactérias não sofrem uma digestão completa e, uma vez que inexiste remastigação de material vegetal não-fermentado, a fermentação das fibras vegetais é menos completa. Isso pode ser observado através da textura mais grosseira dos remanescentes vegetais das fezes de cavalo. Os coelhos e as lebres, que também possuem um grande ceco para fermentação de celulose, resolveram esse problema de maneira estranha: eles reingerem as fezes; dessa maneira, o alimento viaja uma segunda vez através de todo o tubo digestivo. Na verdade, eles excretam dois tipos de fezes; uma, sob forma de bem conhecidas boli- nhas pequenas, escuras e duras, e outra, bem maior, mais clara e mole, que não cai, mas é comido pelo animal diretamente do ânus. Esse último tipo é formado no ceco, e a reingestão (coprofagia) permite uma digestão e uma utilização mais completas do alimento. Se a coprofagia (do grego: kopros = excremento; phagein = comer), que é co- Fisiologia Animal Comparada 81 mum entre roedores, for coibida, os animais crescerão defeituosos não apenas porque o material alimentar sofre digestão incompleta, mas principalmente porque importan- tes vitaminas, sintetizadas por bactérias intestinais, deixam de ser aproveitadas. Fonte: Schmidt-Nielsen, 1988. @ Sites Digestório http://www.youtube.com/watch?v=Ii1BqYbtqpU&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=aJx1DdTMe24 http://www.youtube.com/watch?v=yVPsGNxa6z4 Excretor http://www.portalsaofrancisco.com.br/videos-de-biologia/fisiologia-dos-rins.php http://www.youtube.com/watch?v=eMbH_gHxv2Qhttp://www.youtube.com/watch?v=ilos8CeDrYs&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=AR5Rf_wYR7U&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=3AXtn7nxh2o&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=zXfeJfLnUzs&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=ON4iWRnNim4&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=6Xw4Osi9_sE&feature=related Referências FRANDSON, R. D. et al. Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. 454 p. GUYTON, M. D.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia médica. 9 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997. 1014 p. HILDEBRAND, M.; GOSLOW, G. Análise da estrutura dos vertebrados. 2 ed. São Paulo: Atheneu, 2006. 637p. As lipases podem funcionar sem os sais biliares, mas a digestão lipídica é ineficaz sem eles. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 82 McCAULEY, W.J. Fisiologia de los vertebrados. 1 ed. Zaragoza (Espanha): Acribia, 1976. 446 p. SCHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia animal. 1 ed. São Paulo: Editora Edgard Blücher LTDA, 1988. 139 p. SCHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia animal – adaptação e meio ambiente. 5 ed. São Paulo: Livraria e editora Santos, 1999. 594 p. SALMITO-VANDERLEY, C.S.B.; SANTANA, I.C.H. Histologia e embriologia animal comparada, 1 ed. Fortaleza: RDS editora, 2010. 158p. SANTO, M.E. Fisiologia animal comparada. 1 ed. FTC EaD, 2007. 102p. http://www.ibb.unesp.br/nadi/Museu2_qualidade/Museu2_corpo_humano/ Museu2_como_funciona/Museu2_homem_rim/Imagens/nefron3.jpg- Acesso 11abril2011. Capítulo 3 Sistemas de atividades operacionais Fisiologia Animal Comparada 85 Objetivos • Compreender como se dá a integração funcional dos órgãos do organis- mo animal; • Compreender o mecanismo de comando do sistema nervoso; • Compreender o mecanismo de comando do sistema endócrino. 3.1. Sistemas coordenadores 3.1.1. Introdução A relação do animal, como um todo, com o meio ambiente, e a coordenação das atividades dos diversos órgãos internos são funções de dois importantes sistemas: o nervoso e o endócrino (hormonal). A coordenação nervosa envol- ve a participação das células nervosas, os chamados neurônios. A coordena- ção endócrina (química) conta com a participação de hormônios. Estes dois sistemas são responsáveis pela ação integrada e precisa- mente regulada dos órgãos, ajustando sua atividade à necessidade do corpo em resposta às pressões do meio. Um exemplo disto, como vimos no digestó- rio, é a ação do sistema nervoso sobre a contração da parede gastrointestinal (peristalse, segmentação, pendular) e a ação dos hormônios na digestão do alimento (gastrina, secretina, pancreazina), sem um ou sem o outro, este pro- cesso ficaria seriamente comprometido. Existem vários processos controladores das atividades do corpo, mas, de uma maneira geral, segundo Schmidt-Nielsen (1999), acontece da seguin- te forma: quando é exigida uma resposta rápida, o controle é feito pelos ner- vos, pois possui rápida velocidade de condução (ex.: estimulação de muscu- latura esquelética), ou seja, a resposta acontece em milésimos de segundos; por outro lado, quando um processo é regulado por hormônio, a resposta não se inicia antes do hormônio atingir o(s) órgão(s) alvo, via corrente sanguínea, o que demanda, pelo menos, frações de minutos (ex.: ejeção do leite em res- posta à liberação de ocitocina). De acordo com Schmidt-Nielsen (1999), outra diferença importante entre o controle desses dois sistemas é o tamanho do alvo. Um neurônio inerva apenas um ou poucos neurônios ou células efetuadoras, proporcio- nando um alto grau de especificidade espacial. Já os hormônios afetam SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 86 todas as células sensitivas que estão na área de atuação da corrente san- guínea, ou seja, órgãos ou sistemas inteiros são afetados. Na realidade, o organismo todo pode sofrer a ação de determinado hormônio, o exemplo clássico disso é a ação geral do hormônio do crescimento (GH) sob o de- senvolvimento do indivíduo. Vale salientar, no entanto, que, muitas vezes, não é possível fazer a divisão nítida entre controle nervoso e endócrino, uma vez que agem conjunta e sinergicamente. 3.2. Sistema nervoso O sistema nervoso é um tecido originário do folheto embrionário denominado ectoderme, mais precisamente de uma área diferenciada deste folheto em- brionário, a placa neural. Quando a placa neural se fecha, forma-se o tubo neural. Nos pontos de fechamento deste tubo, forma-se a crista neural, que dá origem aos elementos periféricos do sistema nervoso e às células da glia. O sistema nervoso compreende um conjunto interligado de estruturas cuja base morfofuncional é o neurônio (Figura 3.1), célula altamente especia- lizada na função de receber, gerar e transmitir estímulos, convertendo-os em impulsos que são levados a todas as partes do organismo. Por meio de suas ações, o sistema nervoso permite ao organismo não só adaptar-se ao meio externo, como também regular o seu próprio meio interno. Figura 3.1 Neurônio e seus constituintes - Esquema. Fonte: Adaptado de www.campus. fortunecity.com/yale/757/Image74.jpg. Todos os animais possuem sistema de transmissão nervosa. Alguns são rudimentares, mas não existem diferenças significativas no neurônio ou nos mecanismos de comunicação nervosa. É tanto que, estudando-se filoge- neticamente o sistema nervoso, observa-se que, à medida que sua complexi- Rever a histologia do tecido nervoso em Salmito- Vanderley e Santana (2010). Fisiologia Animal Comparada 87 dade aumenta na escala zoológica, permanecem padrões já encontrados nos níveis inferiores da evolução. Um sistema nervoso bastante rudimentar é observado pela primeira vez na filogênese em invertebrados aquáticos, os celenterados, como a Hi- dra. Nestes animais, encontram-se, entre as camadas epiteliais que revestem externamente o corpo e internamente o tubo digestivo, células nervosas pri- mitivas, as quais constituem redes por todo o corpo. Por meio de seus pro- longamentos, essas células estabelecem conexões com células sensoriais, localizadas na camada externa do corpo, e com células musculares, situadas na camada interna. O estímulo proveniente do exterior distribui-se assim de maneira difusa por todo o corpo, com os impulsos correndo nas células nervo- sas em qualquer direção (ROMER; PARSONS, 1985). Nos platelmintos e anelídeos, inicia-se a tendência à centralização do sistema nervoso. Nesses animais, já aparece um sistema nervoso central, formado por dois gânglios cerebroides, situados na extremidade rostral, dos quais partem dois cordões de fibras nervosas que se estendem ao longo do corpo do animal. Nos anelídeos, que possuem o corpo segmentado, os cor- dões apresentam, em cada segmento, dilatações ganglionares. Cada gânglio segmentar atua como um centro coordenador, recebendo os impulsos prove- nientes do próprio segmento. Os neurônios que conduzem os impulsos nervo- sos da periferia do segmento para o gânglio são denominados neurônios afe- rentes ou sensitivos. No gânglio, situam-se os neurônios eferentes ou motores, de onde partem impulsos para os chamados órgãos efetuadores (músculos e glândulas). Para uma resposta mais ampla, que resulte efetivamente na lo- comoção do animal, há necessidade, no entanto, de uma integração entre os diversos segmentos corporais. Esta integração é feita por um terceiro tipo de neurônio, o neurônio de associação, o qual interliga os diversos segmentos, possibilitando a coordenação da atividade motora do animal em resposta aos estímulos recebidos. O neurônio de associação situa-se também no gânglio (HILDEBRAND; GOSLOW, 2006). Ao se estimular adequadamente a superfície corporal de um anelídeo, ocorre imediatamente uma resposta à contração do segmento estimulado. Estabelece-se, assim, o arco reflexo simples, o qual consiste em se responder, involuntariamente, a um estímulo no próprio segmento. Os elementos compo- nentes deste arco reflexo são, em sequência, o receptor, o neurônio sensitivo, o neurônio motor (situado no gânglio, que funcionacomo o centro integrador onde ocorre a sinapse) e o órgão efetuador (músculo). Como a contração se efetua em um único segmento e envolve apenas dois neurônios (sensitivo e motor), esse reflexo é denominado intrassegmentar e monossinático. Quando a resposta motora é mais ampla, envolvendo a contração de mais de um seg- SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 88 mento corporal, o arco reflexo é determinado intersegmentar e polissinático, pois, neste caso, há a interveniência de um terceiro neurônio, o neurônio de as- sociação, sendo o responsável pela difusão do impulso para os diversos seg- mentos envolvidos (ROMER; PARSONS, 1985; SCHMIDT-NIELSEN, 1999). Esses dois tipos básicos de arcos reflexos estão presentes nos vertebra- dos, mas nesses o centro integrador de reflexos não se situa mais em gânglios e sim em um sistema nervoso central (SNC) contínuo, constituído pela medula espinhal e pelo encéfalo. Nesse SNC, agora consideravelmente mais elabora- do, situam-se os corpos dos neurônios motores e dos neurônios de associação (Figura 3.2). Já os neurônios sensitivos continuam mantendo seus corpos fora do SNC, localizando-se em gânglios denominados gânglios sensitivos. Figura 3.2 Esquema da recepção e de passagem de estímulos pelas fibras do neurô- nio sensitivo, de associação e motor - arco reflexo. Fonte: http://www.sobiologia.com.br/conteudos/ FisiologiaAnimal/nervoso.php. Outro fato importante ocorrido na evolução do sistema nervoso dos ver- tebrados foi o aumento do número e a progressiva concentração de neurônios, especialmente os de associação, na extremidade cefálica (cranial) do SNC. Este processo, denominado encefalização, possibilitou ao SNC o exercício de funções cada vez mais complexas e elaboradas, atingindo o máximo de sua capacidade nos primatas da espécie humana (DANGELO; FATTINI, 1985). Fisiologia Animal Comparada 89 3.2.1. Sistema nervoso dos vertebrados: organização geral No sistema nervoso centralizado, os estímulos do ambiente, tanto externo como interno, são levados da periferia para o centro coordenador, e dele par- tem os impulsos para os órgãos efetuadores. Por isto, divide-se o sistema nervoso (SN) em central (SNC) e periférico (SNP). O SNC compreende as partes do SN que estão alojadas na cavidade cra- niana e no canal vertebral. Já o SNP constitui-se daquelas partes do SN locali- zados fora do esqueleto axial. Vale salientar que esta divisão é apenas didática, pois os dois sistemas estão interligados, tanto anatômica quanto funcionalmente. O SNC é composto pelo encéfalo (alojado na cavidade craniana) e pela medula espinhal (no interior do canal vertebral). O encéfalo compreende o cé- rebro, o cerebelo e o tronco encefálico. Este último, por sua vez, subdivide-se em mesencéfalo, ponte e bulbo (medula oblonga). Os nervos, os gânglios e as terminações nervosas compõem o SNP. Os nervos são cordões esbranquiçados, formados por feixes de fibras nervosas. Eles unem o SNC aos órgãos periféricos. Distinguem-se nervos espinhais (ori- ginam-se da medula espinhal) e cranianos (originam-se do encéfalo). O nú- mero de nervos espinhais é variável entre as espécies de mamíferos, havendo uma relação direta com o número de vértebras que o animal possui (Figura 3.3 mostra nervos espinhais humanos). Os nervos cranianos têm um número constante em todos os mamíferos: 12 (Quadro 3.1). Este número também é o encontrado no SN de répteis e aves; já na maioria dos peixes (há grande variação) e nos anfíbios, os nervos cranianos são 10. Os gânglios são massas de corpos neurais situados fora do SNC, po- dendo ser de dois tipos: sensitivos e motores viscerais. Nos primeiros, situam- -se os corpos de neurônios sensitivos ou aferentes; os segundos contêm os corpos de neurônios motores que inervam as vísceras. As terminações nervosas são estruturas microscópicas encontradas nas extremidades distais das fibras nervosas, e, por meio das quais, estas últimas entram em contato com os órgãos efetuadores. Elas podem também ser sensitivas (terminações livres e corpúsculos sensoriais de vários tipos) e motoras (terminações livres e placas motoras). No SNC, observamos dois tipos de substâncias: a cinzenta, formada pelos corpos dos neurônios; e a branca, que é formada por fibras (axônio e neurônio). O encéfalo e a medula são protegidos por estruturas esqueléticas e por um revestimento conjuntivo formado por três membranas (meninges), dura-máter, aracnoide e pia-máter (de fora para dentro). Entre a pia-mater e a aracnoide, existe o espaço subaracnoide, onde se encontra o líquido cefaloraquidiano, que tem a função protetora. Fibra nervosa é sinônimo de axônio do neurônio. Nervos são conjuntos de fibras nervosas organizadas em feixes, unidos por tecidos conjuntivos densos. Nos nervos encontram-se centenas ou milhares de axônios, cada um originário de um neurônio diferente. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 90 Figura 3.3 Nervos espinhais e o efeito de lesões nos mesmos. Fonte: Adaptado de http://mmspf.msdonline.com.br/pacientes/manual_merck/secao_06/cap_069.html. Funcionalmente, o sistema nervoso pode ser dividido em sistema nervo- so somático e sistema nervoso visceral. O sistema nervoso somático, também chamado de sistema nervoso de relação da vida, tem a função de integrar o animal ao meio ambiente que o cerca. Ele compreende uma parte sensitiva (aferente), cuja função é conduzir ao SNC estímulos do ambiente. Estes são captados na superfície corporal ou em músculos e tendões; e uma parte motora (eferente), que conduz impulsos do SNC para os músculos estriados esqueléti- cos, provocando a sua contração em resposta aos referidos estímulos. Fisiologia Animal Comparada 91 Quadro 3.1. Relação dos nervos cranianos de humano e sua função Número Nervo Função 1 Olfativo Olfato 2 Óptico Visão 3 Oculomotor Realiza a movimentação ocular extrínseca 4 Troclear Motricidade do músculo oblíquo superior do bulbo do olho 5 Trigêmeo Controla os movimentos da mastigação 6 Motor ocular abducente Motricidade do músculo reto lateral do bulbo do olho 7 Facial Controla os músculos faciais 8 Vestibulococlear Vestigular: orientação e movimento. Conclear: audição 9 Glossofaríngeo Percepção gustativa no terço posterior da língua, percepções sensoriais da faringe, laringe e palato 10 Pneumogástrico Percepções sensoriais da orelha, faringe, laringe, tórax e vísceras 11 Espinhal Controle motor da faringe, laringe, palato, dos músculos esternocleidomastóideo e trapézio 12 Grande hipoglosso Motricidade dos músculos da língua (exceto o músculo palatoglosso) O sistema nervoso visceral (ou vegetativo) inerva as vísceras. O con- trole por ele exercido sobre as vísceras é essencial para a manutenção das funções básicas do organismo e da constância do meio interno. A sua parte aferente conduz impulsos originados nas vísceras para o SNC; a eferente conduz impulsos do SNC até as vísceras (terminam em músculo liso, múscu- lo cardíaco e glândulas). A parte eferente do SN visceral constitui o chamado sistema nervoso autônomo (SNA), de ações sobre as vísceras sempre invo- luntárias. Por sua vez, o SNA pode ser dividido em sistema nervoso simpático e parassimpático, que se distinguem tanto pela estrutura quanto pela função. Os gânglios das vias simpáticas localizam-se ao lado da coluna vertebral, dis- tantes do órgão efetuador, enquanto os gânglios das vias parassimpáticas es- tão longe do sistema nervoso central e próximos ou mesmo dentro do órgão efetuador (DANGELO; FATTINI, 1985). O SNA simpático, em geral, estimula ações que mobilizam energia, per- mitindo ao organismo responder a situações de estresse (por ex.: aumento do batimento cardíaco e da pressão arterial). Enquanto isso, parassimpático esti- mula principalmente atividades relaxantes (por ex.: diminuição do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea). A ação do SNA encontra-se resumida na Figura 3.4. As fibras nervosas simpáticas e parassimpáticas inervam os mesmos órgãos, mas trabalham emoposição. Enquanto um estimula determinado órgão, o outro inibe. Essa situação antagônica mantém o funcionamento equilibrado dos órgãos internos. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 92 Figura 3.4 Inervação e ação do SNA simpático e parassimpático. Fonte: http://www.sobiologia. com.br/conteudos/FisiologiaAnimal/nervoso.php. 3.2.2. Funcionamento geral do sistema nervoso Os nervos transmitem rapidamente informação de um ponto do corpo a outro, via impulso nervoso. Os impulsos nervosos originados de estímulos prove- nientes tanto do exterior (pele) como do interior do corpo (músculos, tendões, articulações e vísceras) percorrem fibras nervosas de neurônios sensitivos ou aferentes, cujos corpos estão situados em gânglios sensitivos. Desses neurô- nios, partem fibras que penetram no SNC (na medula espinhal ou no tronco encefálico), onde fazem conexão direta ou indireta (através de neurônios de associação) com neurônios motores (corpos dentro do SNC). Dos neurônios motores, partem fibras (axônios) eferentes, que vão estimular músculos ou glândulas, desencadeando contração muscular ou secreção, respectivamen- te. Está formado assim um arco reflexo, que pode ser intra ou intersegmentar, mono ou polissináptico, como visto anteriormente. Um exemplo do mecanismo acima descrito ocorre quando um indiví- duo recebe uma picada de agulha no braço direito e imediatamente afasta o membro estimulado. Este impulso torna-se “consciente do ocorrido só quando os neurônios sensitivos já levaram o impulso até o SNC e se ligaram a neurô- Fisiologia Animal Comparada 93 nios de associação, cujas fibras ascendem no SNC e levam o impulso até o cérebro (córtex cerebral), e o animal interpreta-o como sensibilidade dolorosa. Como resposta, o animal pode não só afastar o membro afetado como tam- bém se afastar da fonte de estímulo doloroso. Para que isto ocorra, neurônios motores do córtex cerebral geram impulsos que descem no SNC, percorren- do as fibras desses neurônios até atingir a medula espinhal. Aí, essas fibras descendentes fazem sinapse com outros neurônios motores, dos quais par- tem fibras eferentes que levam o estímulo até os órgãos efetuadores (múscu- los estriados esqueléticos). O cerebelo também participa desse mecanismo, coordenando as ações motoras sobre a musculatura estriada esquelética. 3.2.2.1. Propagação do impulso nervoso Os neurônios (assim como os outros tipos celulares) apresentam diferença na concentração de íons dentro e fora da célula, isto gera o que chamamos de diferença de potencial elétrico (DDP) entre as faces interna e externa de sua membrana celular. De fato, o citoplasma contém menor quantidade de íons positivos que o líquido externo; portanto, diz-se que a superfície interna da membrana é negativa em relação à externa. Quando o neurônio não está transmitindo impulsos, está em repouso. Ele possui uma DDP de aproximadamente -70 mV (miliVolts). A isto denomi- namos de potencial de repouso. O potencial de membrana em repouso dos neurônios depende princi- palmente dos canais de potássio não ligados na membrana celular e da Na-K- -ATPase eletrogênica, ou bomba Na-K. Esse sistema promove um bombea- mento ativo (com gasto de ATP) de íons pelas membranas celulares, em que o sódio é forçado a sair da célula, e o potássio, a entrar, mantendo a diferença de concentração de íons de sódio (Na+) e de potássio (K+) dentro e fora da célula (Figura 3.5). Isto deixa a superfície interna da membrana citoplasmática do neurônio negativa em relação ao meio externo. Quando em repouso, os canais de sódio ligados por voltagem, presen- tes nas membranas celulares axonais dos neurônios, permanecem fechados, mas abrem-se rapidamente quando essas células são estimuladas. Isto re- sulta num potencial de ação pela entrada do sódio dentro da célula, a DDP passa de -70 a +35 mV. A esta mudança de potencial da membrana axonal denominamos despolarização, a qual ocorre de forma rápida. Na área afetada pelo estímulo, a membrana permanece despolarizada apenas 1,5 ms (milési- mos de segundo). Logo após a despolarização, neste local afetado pelo estímulo, há o fechamento dos canais de sódio e a abertura de alguns canais de potássio Potencial de ação é a transição abrupta de potencial elétrico que ocorre durante a despolarização, e cuja amplitude é da ordem de 105 mV (de -70 mV passa a +35 mV). A estimulação de um neurônio segue a lei do tudo ou nada. Assim sendo, para desencadear um potencial de ação, o estímulo deve ser intenso o suficiente para estimular (excitar) o neurônio, caso contrário, nada acontece. Não se faz referência ao potencial de ação forte ou fraco, pois é sempre igual, independente da intensidade do estímulo. O menor estímulo capaz de gerar potencial de ação é denominado estímulo limiar. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 94 ligados por voltagem. O fechamento dos canais de sódio e a saída do potássio adicional, repolariza a membrana (Figura 3.5). A saída do potássio adicional produz uma pequena pós-hiperpolarização até que as condições de repouso possam ser restabelecidas (FRANDSON et al., 2005). O potencial de ação que se estabelece em determinada área da mem- brana estimulada, devido ao movimento local da carga, altera a área adjacen- te, levando à sua despolarização. Dessa forma, o estímulo é propagado ao longo dos axônios, pois ocorre uma onda de despolarizações e repolarizações ao longo da membrana plasmática do neurônio. Essa onda de propagação é o impulso nervoso. Figura 3.5 Representação esquemática da despolarização e da repolarização do axô- nio após sua estimulação. Setas cheias representam a direção da passagem do estí- mulo e as finas, das trocas de íons. Fonte: Adaptado de http://www.sobiologia.com.br/conteudos/FisiologiaAnimal/ nervoso.php. De acordo com Frandson et al. (2005), a propagação, normalmente, ocorre apenas em uma única direção, pois os canais de sódio onde já ocor- reu o potencial de ação tornam-se refratários a outro estímulo. Esse período refratário é bastante curto, bem como é característico dos canais de sódio normais, de forma que não estão mais refratários quando chega outro poten- cial de ação. O impulso nervoso se propaga em um único sentido na fibra nervosa (Dendritos → corpo celular → axônio → extremidades axonais terminais→ outro neurônio ou órgão efetor). Fisiologia Animal Comparada 95 Através de suas terminações, os neurônios entram em contrato e trans- mitem impulsos a outros neurônios (sinapses interneuronais) e às células efetuadoras (sinapses neuroefetuadoras). No caso exclusivo de sinapses interneurais, a união de neurônios pode ser tão estreita que ocorre sinapse elétrica, ou seja, a onda de despolarização passa diretamente do axônio de um neurônio a um dendrito do neurônio seguinte. Esse tipo de sinapse é rara em mamíferos. A forma “padrão” de transmissão de impulsos é através das sinapses quí- micas. Quando o potencial de ação chega às terminações axonais, provoca a liberação de mensageiros químicos, neurotransmissores. Inicialmente os ca- nais de cálcio nas terminações axonais se abrem, há influxo de cálcio para o interior do axônio pré-sináptico, causando a fusão das vesículas (que contêm o neurotransmissor) com a membrana da terminação e a liberação do seu con- teúdo no pequeno espaço de 20 nm entre o neurônio e a célula efetora (fenda sináptica). Ao serem liberados na fenda sináptica, os neurotransmissores ins- tantaneamente se ligam a receptores específicos presentes na membrana da célula pós-sináptica (outro neurônio ou célula efetora) - Figura 3.6. A ligação do neurotransmissor com o seu receptor específico desencadeia uma alteração no comportamento do segundo neurônio ou célula efetora, transmitindo o impulso nervoso e gerando uma resposta (por ex: liberação de secreção glandular). Os neurotransmissores mais conhecidos no sistema nervoso dos vertebra- dos são a acetilcolina (colinérgicos) e a noradrenalina (ou epinefrina; adrenérgi- cos). Entre os váriosoutros mensageiros químicos temos, o ácido γ-aminobutírico (especialmente encontrado no SNC), o glutamato e a dopamina. Os neurotransmissores liberados e que não se ligaram aos receptores do neurônio pós-sináptico não podem permanecer ali, pois ficaria excitando continuamente o neurônio. Portanto, deve ser removido para evitar estimula- ção contínua do neurônio pós-sináptico. Segundo Frandson et al. (2005), os mecanismos específicos pelos quais os neurotransmissores são removidos das sinapses neuronais variam entre os neurotransmissores. Todavia, em ge- ral, esses podem ser qualquer um ou a combinação dos seguintes eventos: (1) enzimas na área da sinapse degradam o neurotransmissor; (2) sistemas de transporte da membrana celular absorvem o neurotransmissor; e/ou (3) o neurotransmissor difunde-se fora da área da sinapse. Nas sinapses químicas, a comunicação entre dois neurônios se dá através de canais iônicos presentes em cada uma das membranas em contato, o que permite a passagem direta de íons de uma das células para outra. Neste caso, não há polarização do impulso, e a comunicação se faz nos dois sentidos. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 96 Figura 3.6 Principais aspectos funcionais das duas partes da sinapse: o terminal axô- nico, pré-sináptico, e a membrana do neurônio pós-sináptico do circuito. Os números indicam a sequência dos eventos durante a atividade da sinapse. REL: retículo endo- plasmático liso. Fonte: Adaptado de JUNQUEIRA; CARNEIRO (2004). No sistema nervoso autônomo, observa-se diferença no tipo de neuro- transmissor liberado pela fibra pós-sináptica, a qual, juntamente com outras particularidades, encontra-se disposta no Quadro 3.2. Fisiologia Animal Comparada 97 Quadro 3.2 Características gerais do sistema nervoso autônomo (SNA) Subdivisão do SNA Simpático Parassimpático Tamanho Fibras pré- ganglionares Fibras pós- ganglionares Fibras pré- ganglionares Fibras pós- ganglionares Curta Longa Longa Curta Origem Região toráxica e lombar da medula espinhal gânglios laterais e colaterais da medula Mesencéfalo, bulbo e região sacral da medula espinhal gânglios próximos ao ou mesmo presentes nos órgãos que inervam Neurotransmissor acetilcolina Adrenalina ou Noradrenalina acetilcolina acetilcolina 3.2.2.2. Velocidade de propagação do impulso nervoso A velocidade na qual o impulso nervoso se propaga é alta, podendo ultrapassar 100 m/s. Alguns fatores que influenciam essa velocidade são: a) a presença ou ausência de mielina (nestas é mais rápida); b) se o animal é de sangue frio ou quente (neste é mais rápido); c) se a espécie animal é mais ativa ou letárgica (nesta é mais lenta); d) diâmetro da fibra (nas maiores, a passagem é mais veloz, pois os grandes axônios possuem menos resistência interna ao fluxo da corrente). O caso extremo de diâmetro axonal é visto no axônio gigante da lula, cujo diâmetro é de 1 mm. Nos mamíferos, o diâmetro é cerca de 0,01 mm. No Quadro 3.3, pode-se observar a velocidade de condução em nervos motores de vários animais. Observa-se que, mesmo as fibras dos nervos de mamíferos sendo finas, elas conduzem o impulso a velocidades que podem ultrapassar 100m/s. Isto ocorre devido a cobertura do axônio por uma estrutu- ra rica em lipídio esfingomielina (que é bom isolante contra fluxos iônicos), a bainha de mielina. Essa bainha não é contínua, na realidade, ela é interrompi- da em intervalos de frações de milímetros. Ao local amielínico, denominamos de nódulo de Ranvier. Axônios desmielinizados possuem canais de sódio ligados por voltagem por toda sua membrana celular, e assim a propagação dos potenciais de ação ocorre ao longo dos axônios desmielinizados. No caso dos axônios mieliniza- dos que contêm a esfingomielina (isolante), o impulso é conduzido em saltos (condução saltatória), de nódulo em nódulo. Tendo em vista que, no nódulo de Ranvier, não tem mielina, os canais de sódio ligados por voltagem são especial- mente prevalentes; portanto, os potenciais de ação ocorrem apenas nos nódu- los (Figura 3.7). A bainha de mielina é constituída por camadas concêntricas de membranas plasmáticas de células da glia, de oligodentrócitos no SNC e de células de Shwann no SNP. Nos mamíferos, nas fibras mielinizadas com 20 µm de diâmetro (considerada grande), a velocidade de condução atinge até 130 m/s. Nas menores fibras amielínicas, com 0,5 µm de diâmetro, a velocidade é de aproximadamente 0,5 m/s. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 98 Quadro 3.3 Velocidades de condução em nervos motores de diversas espécies. Fonte: Adaptado de Schmidt- Nielsen, 1999. Velocidade (m/s) Animal Axônio comum Axônio gigante Mamífero 30-120 -- Réptil 10-35 -- Anfíbio 7-30 -- Peixe 50-60 -- Lula 4,3 18-35 Minhoca 0,6 10-30 Figura 3.7 Esquema da propagação do potencial de ação no axônio sem mielina (A) e no mielinizado (B). Fonte: Adaptado de GARTNER; HIATT (2002). 3.3. Sistema endócrino O sistema endócrino, assim como o nervoso, tem, como função principal, a comunicação e a regulação do funcionamento geral do organismo. Porém, ao contrário do sistema nervoso, que tem seus componentes interligados como uma rede neuronal contínua, o sistema endócrino possui seus com- ponentes amplamente distribuídos em todo o corpo, sem continuidade ana- tômica (só fisiológica). Sua interligação se dá de forma indireta, através da utilização do sangue como meio carreador de seus “mensageiros químicos”, os hormônios. O sistema endócrino é constituído por vários órgãos. Se, naquele de- terminado órgão, o tecido produtor de hormônio constitui uma estrutura bem definida que não apresenta outra função detectável, ele recebe o nome de glândula endócrina (hipotálamo, adrenal, dentre outras). Já outros tecidos que possuem outras funções, além da produção de hormônio, como, o da parede intestinal (como vimos anteriormente, produz secretina e colecistocinina), são considerados órgãos endócrinos, mas normalmente não são colocados como glândulas endócrinas. Os principais órgãos do sistema endócrino de mamíferos são o hipo- tálamo, a hipófise, a tireoide, as paratireoides, os testículos e os ovários. Nas Hormônio é uma substância química que é secretada diretamente (sem ductos) para os líquidos corporais (especialmente para o sangue) por uma célula (ou por um grupo de células) que exerce efeito de controle fisiológico sobre outras células do organismo. Os hormônios atuam como mensageiros para coordenar atividades de várias partes do corpo. Os órgãos que têm sua função controlada e/ou regulada pelos hormônios são denominados órgãos- alvo. Fisiologia Animal Comparada 99 Quadro 3.3 Velocidades de condução em nervos motores de diversas espécies. Fonte: Adaptado de Schmidt- Nielsen, 1999. Velocidade (m/s) Animal Axônio comum Axônio gigante Mamífero 30-120 -- Réptil 10-35 -- Anfíbio 7-30 -- Peixe 50-60 -- Lula 4,3 18-35 Minhoca 0,6 10-30 Figura 3.7 Esquema da propagação do potencial de ação no axônio sem mielina (A) e no mielinizado (B). Fonte: Adaptado de GARTNER; HIATT (2002). 3.3. Sistema endócrino O sistema endócrino, assim como o nervoso, tem, como função principal, a comunicação e a regulação do funcionamento geral do organismo. Porém, ao contrário do sistema nervoso, que tem seus componentes interligados como uma rede neuronal contínua, o sistema endócrino possui seus com- ponentes amplamente distribuídos em todo o corpo, sem continuidade ana- tômica (só fisiológica). Sua interligação se dá de forma indireta, através da utilização do sangue como meio carreador de seus “mensageiros químicos”, os hormônios. O sistema endócrino é constituído por vários órgãos. Se, naquele de- terminado órgão, o tecido produtor de hormônio constitui uma estrutura bem definida que não apresenta outra função detectável, ele recebe o nome de glândula endócrina (hipotálamo, adrenal, dentre outras). Já outros tecidos que possuem outras funções, além da produção de hormônio, como, o da paredeintestinal (como vimos anteriormente, produz secretina e colecistocinina), são considerados órgãos endócrinos, mas normalmente não são colocados como glândulas endócrinas. Os principais órgãos do sistema endócrino de mamíferos são o hipo- tálamo, a hipófise, a tireoide, as paratireoides, os testículos e os ovários. Nas Hormônio é uma substância química que é secretada diretamente (sem ductos) para os líquidos corporais (especialmente para o sangue) por uma célula (ou por um grupo de células) que exerce efeito de controle fisiológico sobre outras células do organismo. Os hormônios atuam como mensageiros para coordenar atividades de várias partes do corpo. Os órgãos que têm sua função controlada e/ou regulada pelos hormônios são denominados órgãos- alvo. fêmeas, encontramos ainda órgãos endócrinos transitórios, a placenta (na gravidez) e o corpo lúteo (durante fases do ciclo estral, menstrual e na gravi- dez). A localização das glândulas endócrinas está disposta na Figura 3.8. Figura 3.8 Localização de glândulas endócrinas de humanos. 3.3.1. Considerações sobre hormônios Os hormônios são agrupados de acordo com a sua estrutura química: a) pro- teínas ou peptídeos (importantes hormônios são proteínas, peptídeos ou deri- vados imediatos deles: hormônio antidiurético, ocitocina, insulina, glucagon e paratormônio são alguns dos exemplos); b) aminas (todos derivados do ami- noácido tirosina) - dividem-se em dois grupos: os hormônios tireoideos tiroxina e triiodotironina, que são formas iodetadas de derivados da tiroxina; e os hor- mônios da medula suprarrenal epinefrina e norepinefrina, que são catecola- minas, também derivadas da tirosina; c) esteroides - hormônios que possuem estrutura química semelhante a do colesterol ou derivados do próprio coles- terol (cortisol, a aldosterona, o estrogênio, a progesterona, e a testosterona exemplificam este grupo); d) eicosanoides, termo utilizado para os mensagei- ros químicos derivados dos ácidos graxos de cadeia longa (são exemplos, desse grupo, as prostaglandinas, os tromboxanos e os leucotrienos). Apesar de hormônios geralmente possuírem especificidade de ação em alguns tecidos (órgão-alvo), não podemos nos esquecer de que alguns desses agentes têm ação em múltiplos órgãos-alvo, de que agem em célu- las de vários locais. Para os diferentes tipos de hormônios, existe também receptores celulares específicos capazes de fazer ligação com o hormônio. Esses receptores podem estar localizados na membrana celular ou em sua Os eicosanoides não são hormônios clássicos, pois normalmente atuam como agentes parácrinos (ação local, sem efeito sistêmico), por ter função próxima ao seu local de liberação, sendo rapidamente metabolizados após adentrarem na corrente sanguínea. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 100 superfície, em sua maioria, específicos para hormônios proteicos, peptídeos e catecolaminas; no citoplasma, os hormônios esteroides encontram-se quase exclusivamente no citoplasma; no núcleo, estão os receptores para hormô- nios tiroxina e triiodotironina (acredita-se que estejam em associação direta com um ou mais cromossomos). O hormônio, ao se ligar às suas respectivas células-alvo, age sobre elas, fazendo-as executar determinada função. Entre os diversos mecanis- mos para tal, destacam-se dois: a) ativação da adenilciclase e consequente formação de AMP-cíclico (se- gundo mensageiro, o hormônio não entra na célula, apenas fica ligado na superfície externa). Por esse mecanismo, o hormônio, ao ligar-se ao receptor na membrana celular, provoca a ativação de enzima intracelular adenilciclase. Essa ensima parte do ATP intracelular em AMP-cíclico. O AMP-cíclico executa, então, uma série de alterações fisiológicas, como ativação de enzimas, alterações da permeabilidade da membrana celular, modificações do grau de contração de músculo liso, ativação de síntese protéica e aumento na secreção celular. Esse mecanismo é utilizado pela grande maioria dos hormônios proteicos. b) Outro mecanismo é o que utiliza a ativação de genes. Esse mecanismo ocorre quando o hormônio penetra o interior celular, ligando-se ao seu re- ceptor. Desta forma atinge, o núcleo da célula, ativa determinados genes, possibilitando que as moléculas de RNA mensageiro se desloquem para o citoplasma da célula e determinem a síntese de certas proteínas. Com isso, aumentam as atividades específicas da célula. Esse é o mecanismo usado por hormônios esteroides e tireoidianos. 3.3.2. Órgãos endócrinos, hormônio e sua ação. Muitos são os órgãos endócrinos de vertebrados, e alguns deles parecem ter precursores nos invertebrados. Entre os vertebrados, todos os grupos apre- sentam glândulas endócrinas de tipo, estrutura e localização similar. As mais estudadas são as de mamíferos. Na verdade, não se conhece a função exata de todos os hormônios que atuam nos vertebrados inferiores. No Quadro 3.4, encontraremos as principais glândulas endócrinas, os hormônios que secre- tam e a ação primária do tecido alvo do hormônio. Detalharemos mais sobre duas glândulas da região encefálica, hipotála- mo e hipófise, devido a sua interrelação (tecidual, vascular e funcional) e espe- cialmente devido à ação geral da maioria dos hormônios liberados pela hipófise. O sistema endócrino, juntamente com o sistema nervoso, atua na co- ordenação e na regulação das funções corporais, sendo o hipotálamo uma Em todos os vertebrados, os hormônios são estruturalmente idênticos; no entanto, podem desempenhar funções específicas que diferem de um grupo para outro. Um exemplo é a prolactina, que, nos mamíferos, age nas glândulas mamárias, estimulando a secreção de leite; enquanto, nos pombos, estimula a porção final do esôfago a formar o “leite” do papo: e, em peixes, exerce ação sobre a função renal e na permeabilidade das brânquias. Em geral, a presença e o número de receptores numa célula-alvo não permanecem constantes, uma vez que as próprias proteínas receptoras são geralmente destruídas e substituídas por novas, pelo mecanismo de síntese protéica da célula. O aumento no número de receptores das células-alvo é chamado de suprarregulação, e a redução de infrarregulação. Fisiologia Animal Comparada 101 interface importante entre os sistemas nervoso e endócrino, onde a informa- ção sensorial é integrada e utilizada para regular a saída endócrina da hipófise (FRANDSON et al., 2005). Localizado na base do cérebro e logo acima da hipófise, o hipotálamo desempenha várias funções de controle nervoso, sen- do fundamental no controle da hipófise, a qual é chamada de glândula-mestre do sistema endócrino, devido ao grande número de hormônios que secreta e aos seus efeitos sistêmicos, amplos. Secreções da adeno-hipófise também regulam o próprio hipotálamo e a secreção de outras glândulas endócrinas (não todas) mais distantes. Os hormônios estimuladores produzidos pela ade- no-hipófise são chamados de hormônios tróficos, são eles: ACTH, GH, PRL, FSH, LH e TSH (vide sua ação no Quadro 3.4). Já a neuro-hipófise não produz hormônios, mas armazena dois hor- mônios produzidos pelo hipotálamo (o hormônio antidiurético e a ocitocina) e libera-os na corrente sanguínea. O hormônio antidiurético, também conheci- do como vasopressina, eleva a pressão sanguínea, devido à constrição das arteríolas, e tem como ação principal promover a retenção de água no rim. A ocitocina estimula as contrações uterinas durante o parto e estimula a libera- ção de leite da glândula mamária. Como vimos, as regiões do sistema nervoso, com seus papeis de pro- dução de hormônios, ajuda-nos a intuir sobre a íntima ligação que existe nes- tes dois modos de regular a atividade do organismo. Quadro 3.4 Algumas glândulas endócrinas de vertebrados, seus hormônios principais, órgão-alvo e ação hormonal no órgão-alvo Órgão endócrino Hormônio Órgão-alvo Função Hipotálamo CHR (horm. liberador de corticotrofina) Adeno-hipófise Estimula a liberação do ACTH GnRH(horm. liberador de gonadotrofina) Adeno-hipófise Estimula liberação de FSH e LH GHRH (horm. liberador de GH) Adeno-hipófise Estimula a liberação de GH GHIH (horm. inibidor da liberação de GH) Adeno-hipófise Inibe a liberação de GH TRH (horm. liberador de TSH) Adeno-hipófise Inibe a liberação da prolactina Dopamina (horm. inibidor da prolactina) Ocitocina e ADH1 Adeno-hipófise 1 Produção apenas Neuro-hipófise Ocitocina (armazena e libera) Útero e gl. mamária Contrair o útero e descida do leite ADH (horm. antidiurético) Rim Reabsorção de água Arteríolas Aumenta pressão arterial por vasoconstrição SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 102 Órgão endócrino Hormônio Órgão-alvo Função Adeno-hipófise ACTH (horm. adrenocorticotrófico) Cortex adrenal Estimula desenvolvimento cortical, liberação de glicocorticoides FSH (horm. folículo estimulante) Gônadas Estimula desenvolvimento folicular (♀) e do esperma (♂) LH (horm. luteinizante) Gônadas Estimula a ovulação, a formação do corpo lúteo (♀) e secreção de andrógenos (♂) GH (horm. do crescimento) Organismo todo Promove crescimento em imaturos, age sobre metabolismo de carboidrato, lipídios e proteínas no adulto TSH (tirotrofina) Tireoide Estimula as células foliculares da tireoide a liberar T 3 e T 4 . PRL (prolactina) Glândulas mamárias e SNC (mamíferos) Promove a lactação e o comportamento materno Papo (ave-pombo e pinguim) Produção do leite do papo Rim e brânquias (peixes) Osmorregulação Tireoide T 3 e T 4 (triiodotironina e tiroxina; cels. foliculares) Quase todas as células Aumento do consumo de oxigênio e da geração de ATP Influencia metamorfose (anfíbios), muda (répteis) e forma das penas (aves) Calcitonina (cels parafoliculares) Ossos Promove a retenção do cálcio Corpos ultimobranquiais2 Calcitonina Ossos Promove a retenção do cálcio 2mamíferos não possuem Paratireoide PTH (paratormônio) Ossos e rim Aumento do cálcio plasmático e redução do fosfato no plasma Córtex adrenal Aldosterona (zona glomerular) Rim Retenção de Na e eliminação de K Cortisol (zona fasciculada) Fígado e outros órgãos Essencial para resposta normal a estresse e no metabolismo de carboidratos e de proteínas Andrógenos (zona reticulada) Órgãos reprodutores Atua na função reprodutiva Fisiologia Animal Comparada 103 Órgão endócrino Hormônio Órgão-alvo Função Medula adrenal Adrenalina e noradrenalina Vários órgãos Aumenta a resposta simpática em vários órgãos Órgão inter- renal3, 4 3corresponde ao tecido cortex adrenal Vários órgãos Idem cortex adrenal 4presente em anaminiotas Corpos cromafins5, 6 5corresponde ao tecido medular Vários órgãos 6presente em alguns vertebrados inferiores. Idem medula adrenal Ilhotas pancreáticas Insulina (células beta) Organismo em geral Captação de glicose, síntese proteica e lipídica Glucagon (células alfa) Glicogenólise e gliconeogênese (fígado) Somatostatina (células- delta) Ajuda a regular a glicemia e inibe liberação de insulina e de glucagon; diminui a motilidade gastrointestinal; e secreção e absorção intestinal. Polipepitídeo pancreático (células F) Inibe secreção exócrina do pâncreas e relaxa vesícula biliar. Pineal Melatonina SNC Regulador da temperatura, reprodução e sono. Pele Anfíbios ag sobre melanócitos. Células gastrointestinais Gastrina Estômago e intestino Estimula a liberação do suco gástrico e a proliferação da mucosa do estômago e do intestino Secretina Pâncreas, estômago e fígado Estimula a liberação do suco pancreático, a produção da pepsina e da bile. Colecistocinina Pâncreas e fígado Estimula a produção de suco pancreático e liberação da bile Pancreozina Pâncreas Estimula a liberação do suco pancreático Células cardíacas Horm. natriurético atrial Vasos sanguíneos Distende musculo liso capilar, aumentando permeabilidade (água e Na); Rim Aumento da excreção de sódio Células justaglomerulares Renina Vasos sanguíneos Vasoconstrição, aumento da pressão arterial (através da formação da angiotensina) Rim Aumento da excreção de água SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 104 Órgão endócrino Hormônio Órgão-alvo Função Células endoteliais Endotelina Vasos sanguíneos Age na pressão arterial através da promoção de vasoconstrição Óxido nítrico Vasos sanguíneos Regula pressão arterial por vasodilatação Timo Timosina Linfonodos Baço Maturação de linfócitos e dos órgãos linfoide Ovário E 2 (Estrógeno) Sistema genital ♀ Desenvolvimento os órgãos reprodutores ♀, prepara cópula SNC (hipotálamo) Manifestação de comportamento sexual Corpo lúteo (órgão transitório) P 4 (Progesterona) Útero Preparação para gestação, manter gestação em algumas espécies, p.ex.: caprinos Útero Prostaglandina F2alfa Corpo lúteo Lise do corpo lúteo Placenta E 2 e P 4 , Gonadotrofina corônica (hCG, eCG) Lactogênio placentário Útero mama Manutenção da gestação, atividade ovariana; preparar lactação Testículo Testosterona Sistema genital ♂ Desenvolvimento dos órgãos reprodutores ♂, espermatogênese Corpúsculo de Stannius ??? fator desconhecido Sangue, rim Regulação do Ca, Na e K sanguíneo; osmorregulação Urófise ??? fator desconhecido Sangue, rim e brânquias Regulação hidromineral; osmorregulação * Células neurosecretoras na porção caudal da medula espinhal de peixes. 3.3.3. Controle da liberação hormonal Após alguns hormônios serem secretados, em poucos segundos, podem exercer sua função total ou, após ações de outros hormônios, podem necessi- tar de meses para exercer todo seu efeito. Cada um dos diferentes hormônios possui seu próprio início e duração de ação característica - cada um adaptado para desempenhar sua função específica de controle. As quantidades de hormônios necessárias para controlar a maioria das funções metabólicas e endócrinas são baixíssimas, variando de picogramas (10-12 gramo; pg) a microgramas (10-6 gramo; µg) por milímetro de sangue. Também a velocidade de secreção dos vários hormônios é extremamente pequena, sendo, em geral, medida em microgramas ou miligramas por dia. Alguns hormônios hipofisários produzem efeitos diretos, enquanto outros simplesmente controlam a velocidade com que outros órgãos endócrinos secretam seus hormônios. A hipófise controla a velocidade de secreção de seus próprios hormônios através de um circuito de retroalimentação (feedback), no qual as concentrações séricas (sanguíneas) de outros hormônios endócrinos a estimulam a acelerar ou a reduzir sua função. Fisiologia Animal Comparada 105 O fator mais importante a ser controlado é o grau de atividade do ór- gão-alvo. Somente quando a atividade do órgão-alvo aumenta até um nível apropriado é que um feedback sobre a glândula torna-se potente o suficiente para reduzir a secreção de hormônio. Para controlar as funções endócrinas, a secreção de cada hormônio deve ser regulada dentro de limites precisos. Quando as glândulas endócrinas funcionam mal, as concentrações séricas dos hormônios podem tornar-se anormalmente altas ou baixas, alterando as funções orgânicas. O hipotálamo e a hipófise secretam seus hormônios quando detectam que a concentração sérica de outro hormônio por eles controlado encontra-se muito alta ou muito baixa e deixam de produzir hormônios quando eles detec- tam que não há mais necessidade de estimulação. Os hormônios hipofisários então circulam na corrente sanguínea para estimular a atividade de suas glân- dulas-alvo. Este sistema de retroalimentação (feedback) regula todas aquelas glândulas que se encontram sob controle hipofisário. As glândulas que não são controladas pela hipófise (por ex.: ilhotas pan- creáticas e paratireoides) possuem seus próprios sistemas para determinar quando é necessária uma maior ou uma menor secreção. Algumas respon- dem de modo direto ou indireto às concentrações de substâncias presentes no sangue: as células beta do pâncreas, secretoras de insulina, respondem à glicose e aos ácidosgraxos; as células paratireoideas respondem ao cálcio e ao fosfato; a medula adrenal responde à estimulação direta do sistema nervo- so parassimpático. Portanto, a secreção de hormônios pode ser controlada pelo próprio hormônio (direta ou indiretamente), por hormônios de outras glândulas, por elementos sanguíneos e pelo sistema nervoso. Vale salientar que existem fa- tores que agem localmente no tecido glandular, so quais não são considera- dos hormônios, mas que controlam a secreção hormonal da glândula. 3.3.4. Endocrinologia do sistema reprodutor 3.3.4.1. Do macho: testículos O sistema reprodutor do macho mamífero é constituído pelas gônadas (dois testículos), que, na maioria dos mamíferos, encontram-se contidos no saco testicular; por órgãos acessórios: dutos (epidídimos, dutos deferentes e uretra), glândulas (ampolas, vesículas seminais, próstata e bulbouretrais) e pelo órgão copulador (pênis). Os testículos são os órgãos essenciais da reprodução, pois são responsáveis pela produção de gametas (espermatozoides) e pela produ- ção de andrógenos (em especial, a testosterona). As demais estruturas ajudam o espermatozoide a exercer sua função: alcançar o ovócito e fecundá-lo. Testosterona, hormônio esteroide, penetra em suas células-alvo, onde é convertida em diidrotestosterona, que se liga a receptores intracelulares. Além de sustentar o amadurecimento dos espermatozoides dentro dos testículos, a testosterona promove o desenvolvimento de características sexuais secundárias e promove o comportamento sexual masculino. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 106 Cada testículo consta de um emaranhado de túbulo seminíferos, os quais são formados pelas células de Sertoli (ou sustentaculares) e pelo epité- lio germinativo (onde ocorrerá a formação dos espermatozoides). Os túbulos são circundados por um estroma (tecido conjuntivo), onde se encontram as células mioides (que contribuem na liberação dos espermatozoides e na bar- reira hematotesticular) e as células intersticiais (ou de Leydig), produtoras de testosterona. Esse hormônio é responsável pelo desenvolvimento dos órgãos genitais masculinos e dos caracteres sexuais secundários (p.ex.: desenvol- vimento muscular, distribuição de pelos, modificação da voz e do comporta- mento masculino). Os testículos do indivíduo infante permanecem inativos até a puberda- de, quando são estimulados pelos hormônios gonadotróficos da glândula hi- pófise. Neste período, há a liberação, pelo hipotálamo, dos fatores liberadores dos hormônios gonadotróficos (GnRH), que fazem a adeno-hipófise liberar FSH e LH. O FSH estimula a espermatogênese através da sua ação sobre as células germinativas e de Sertoli. O LH estimula a produção de andrógenos, sobretudo de testosterona, pelas células intersticiais dos testículos. A testos- terona produzida pelas células intersticiais é necessária para a conclusão da espermatogênese, de modo que tanto o FSH como o LH são imprescindíveis para espermatogênese normal. Parece que a testosterona existe em todos os vertebrados e exerce, em todos, a mesma função. A testosterona, caindo na corrente sanguínea, agirá sobre o hipotála- mo, promovendo um feedback (retroalimentação) negativo, com o objetivo de regular o GnRH. A testosterona também age sobre a adeno-hipófise, para suprimir diretamente a liberação de LH. Quando estimuladas pelo FSH, as células de Sertoli produzem o hormônio inibina, que também tem efeito de retroalimentação negativa sobre a adeno-hipófise, para suprimir liberações adicionais de FSH. Com essa regulação por retroalimentação da secreção de GnRH, de FSH e de LH, a espermatogênese é mantida em taxas adequadas para a procriação durante todo o ano. Entretanto, nos animais com reprodu- ção estacional, observa-se que os concentrações plasmáticas de FSH, LH e testosterona variam de acordo com a época do ano, estando aumentadas durante a estação reprodutiva (FRANDSON et al., 2005). 3.3.4.2. Da fêmea: ovários e útero O sistema reprodutor das fêmeas mamíferas é produzido por duas gônadas (ovários), duas tubas uterinas, útero, canal vaginal, vulva e clitóris, além das glândulas mamárias. Os ovários são os órgãos essenciais da reprodução. De acordo com FRANDSON et al. (2005), a ereção peniana é um reflexo neurológico iniciado por estimulação tátil adequada do pênis, por estímulos visual ou ambiental (como uma fêmea no estro) ou como resultado de comportamento aprendido (p.ex.: uma ereção pode iniciar-se quando um reprodutor está sendo levado a uma área de a reprodução, mesmo antes da fêmea estar presente). A ereção peniana requer vasodilatação dentro do pênis, promovida pela ação da acetilcolina liberada pelos nervos parassimpáticos, que inervam vasos sanguíneos dentro do pênis. A acetilcolina estimula células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos a liberar óxido nítrico. O óxido nítrico age diretamente sobre o músculo liso vascular para promover vasodilatação. A ejaculação é um ato reflexo (SNA simpático e parassimpático) de esvaziamento parcial dos epidídimos, vasos deferentes, uretra e glândulas sexuais acessórias. O reflexo é mais comumente causado pela estimulação peniana. Esse movimento é resultado de contrações do músculo liso na parede dessas estruturas tubulares, associadas a contrações adicionais pelos músculos do pênis que circundam a uretra peniana. Dentro da uretra pélvica, secreções das glândulas sexuais acessórias misturam- se com os espermatozoides (formando o sêmen). Fisiologia Animal Comparada 107 Eles produzem ovócitos e hormônios sexuais (em especial, o estrógeno e a progesterona). As demais estruturas transportam os ovócitos, recebem os espermatozoides, adequam um local à fertilização e ao posterior desenvolvi- mento do embrião e, finalmente, dão passagem ao novo ser para o exterior. As glândulas mamárias são muito influenciadas pelo sistema reprodutor, portanto serão tecidos comentários sobre elas neste capítulo. No final do desenvolvimento embrionário da fêmea, ela tem todas as células da linhagem gamética (ovócitos I), que poderão ser ovulados. Cada ovócito primário encontra-se circundado pelas células foliculares, forman- do um folículo ovariano. Na puberdade, o GnRH produzido pelo hipotálamo leva a adeno-hipófise a liberar o FSH e o LH; com isso, os folículos ovarianos começam a crescer e a se desenvolver (folículos primordiais→ primários→ secundários→ terciários→ pré-ovulatórios ou D´Graff). Por ação do FSH, os folículos em desenvolvimento secretam o hormônio estrógeno, favorecem o crescimento do ovócito, terminam seu desenvolvimento, para, em seguida, por ação do LH e do estrógeno, esses folículos maturarem e romperem-se, liberando o ovócito secundário (ovulação). O ovócito liberado, na superfície do ovário, é recolhido por finas terminações das tubas uterinas - as fímbrias. À medida que o folículo se desenvolve, aumenta a produção de estróge- no pela corrente sanguínea. Esse hormônio chega a adeno-hipófise e promove a inibição da liberação de FSH e a estimulação à liberação de LH. Quando a relação FSH/LH chega a um ponto crítico, com predominância de LH, há a ovulação. Após o rompimento do folículo, a massa celular resultante no ovário transforma-se em corpo lúteo (ou amarelo), o qual passa a secretar os hormô- nios progesterona (e estrógeno, no caso de primatas superiores). A proges- terona (P4) também inibe a liberação do FSH, impedindo novo crescimento folicular. Caso não haja fecundação, o corpo lúteo regride e converte-se em corpo albicans (pequena cicatriz fibrosa), caindo a concentração plasmática de P4 e reiniciando uma nova onda de crescimento folicular. Se há a fecunda- ção e a implantação do embrião, o corpo lúteo continua sua secreção, e sua ação inibitória continua durante a gestação e por algum tempo após o parto. O processo de maturação ovocitária e ovulação são fenômenos cícli- cos que podem ocorrer várias vezes no ano (espécies poliéstricas contínuas e estacionais),ou, como ocorre em alguns vertebrados, não se dá mais que uma vez por ano (monoéstricas). No caso dos mamíferos, observa-se que a duração do ciclo difere de espécie para espécie, porém as interações hor- monais são muito semelhantes. Nas primatas superiores, devido ao período de descamação uterina evidente, o ciclo é denominado de ciclo menstrual. Na maioria dos mamíferos, temos o ciclo estral (no qual o que é evidente é o período de aceitação da cópula, o estro). Sugiro a leitura do Capítulo 2 do SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 108 livro de Histologia e embriologia animal comparada (SALMITO-VANDERLEY; SANTANA, 2010) e do capítulo 27 do livro Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda (FRANDSON et al, 2005), que tratam de ciclos reprodutivos das fêmeas, para relembrar e aprofundar o assunto. 3.3.4.3. Gestação, parto e lactação Quando o zigoto é formado e implantando no útero, os tecidos extraembrioná- rios se desenvolvem e unem-se com os tecidos maternos, formando a placenta. A placenta tem por função servir como meio de intercambio de nutrien- tes, gases e dejetos entre as circulações sanguíneas materna e fetal, além de produzir hormônios. As células placentárias produzem e liberam gonadotrofi- nas coriônicas (é bastante conhecida a de égua, eCG, e a de humano, o hGC) e, em fêmeas primatas superiores, a progesterona e os estrógenos. As gonadotrofinas coriônicas são responsáveis pela manutenção do corpo lúteo durante a gestação, inibem novos ciclos e consequentemente le- vam à ovulação, além de estimularem o desenvolvimento uterino para supor- tar a gestação. A presença, no sangue ou na urina, de gonadotrofina coriônica humana (beta hCG) é indicativo de gestação. Durante a gestação, a progesterona, em altas concentrações, tem a função de fazer uma retroalimentação negativa com o eixo hipotálo-hipofisá- rio, inibindo novas ovulações; de inibir a contração da musculatura lisa da pa- rede do útero, deixando-o quiescente, o que permite a implantação adequada do embrião; e de ajudar na manutenção da contração do colo do útero (a cér- vix), deixando-o fechado, portanto, protegendo o ambiente uterino. Ao final da gestação, observa-se um aumento da produção de estrógeno, e isto anula a ação da P4. Assim, o útero torna-se sensível ao hormônio ocitocina (produzido pelo hipotálamo e armazenado e liberado pela neuro-hipófise). A ocitocina age provocando grandes e rítmicas contrações uterinas, com consequente expulsão do feto e da placenta (parto). Mas esse hormônio não age sozinho. Um sinal endócrino do feto, que é a liberação de glicocorti- coides (p.ex.: cortisol) pela sua adrenal, é importante na sinalização do início do feto, pois ele provoca modificações na placenta e no útero (leva a um au- mento da concentração de estrógeno e a uma diminuição de P4). O estrógeno e os glicocorticoides agem em conjunto para a secreção de um outro hormô- nio, a prostaglandina F2alfa (PGF2), que age direta e indiretamente (já que promove queda da P4 pela lise do corpo lúteo) na contração muscular uterina e na dilatação da cérvix. Ao final da gestação, a abertura da cérvix é determinada também pela ação do hormônio relaxina, produzido pelo corpo lúteo (nas porcas e nas va- Em espécies como a humana, a equina e a bovina, um folículo se desenvolve mais rapidamente e, quando se rompe, liberta um ovócito: os demais folículos, então, regridem. Esse fenômeno ocorre nos animais monótocos. Nos animais polítocos, como na porca e nos carnívoros, vários folículos rompem-se quase ao mesmo tempo, podendo os ovócitos provirem todos de um mesmo ovário ou dos dois. O período de gestação se estende da fecundação ao nascimento. O período médio normal de gestação varia de espécie para espécie, podendo ter considerável variação individual dentro de cada espécie. Em geral, a gestação dura cerca de 336 dias na égua, 282 na vaca, 150 na cabra e, na ovelha e nas porcas, é de três meses, e três semanas e três dias. Fisiologia Animal Comparada 109 cas) ou pela placenta (nas cadelas e nas éguas). Este hormônio age também nos ligamentos do útero e da pelve (relaxamento) e nas glândulas mamárias, preparando-as para a lactação. Nas glândulas mamárias, também se observa a ação do estrógeno, da progesterona, da prolactina (PRL), do hormônio do crescimento (GH) e da ocitocina. De fato, o desenvolvimento das glândulas mamárias na puberdade está associado ao estrógeno e a progesterona. Já durante a gestação, é o equilíbrio entre esses dois hormônios que proporciona o seu desenvolvimento completo, mas inibe a lactogênese. A PRL e o GH parecem determinar, nas proximidades do parto, o funcionamento da glândula que, inicialmente, produz colostro, depois o leite. A ocitocina liberada devido ao reflexo de sucção do teto age, após o parto, na ejeção do leite. Síntese do Capítulo A coordenação das atividades dos diversos órgãos internos é desempenhada pelos sistemas nervoso e endócrino. A coordenação nervosa envolve a parti- cipação das células nervosas, os chamados neurônios. A coordenação endó- crina (química) conta com a participação de hormônios. O sistema nervoso é formado por uma complexa rede de ligação entre neurônios e órgãos efetores. A condução do impulso nervoso se dá através da despolarização de membra- na, e a transmissão de um neurônio a outro se dá principalmente pela ação de neurotransmissores (acetilcolina e noradrenalina), que, ao serem liberados na fenda sináptica, ligam-se à membrana pós-sináptica, desencadeando uma resposta (no neurônio ou na célula efetora). O sistema nervoso é dividido em SNCentral e SNPeriférico, sendo que este último possui uma porção motora e outra denominada de SNAutônomo, simpático e parassimpático (de ações normalmente antagônicas). O controle pelo sistema endócrino é mais lento e prolongado que o do nervo e se dá pela ação de mensageiros químicos (os hormônios), que geralmente utilizam-se da circulação sanguínea para alcan- çar seu alvo. No órgão-alvo, é imprescindível a presença de receptores (exter- no ou interno), para que o hormônio exerça sua função. Existem vários tipos de hormônios, os proteicos, os derivados da tirosina (amina), os esteroides, os eicosanoides e até gases (óxido nítrico). A hipófise é a glândula mestre do organismo, pois seus diversos hormônios têm ampla ação no corpo. O hipo- tálamo é outra glândula do SNC de grande importância na coordenação geral do indivíduo, pois coordena a hipófise endócrina e neuralmente. Também tem papel neural importante no comportamento animal e sobre os sistemas re- produtores masculino e feminino, fazendo com que produzam e liberem seus Se a função de alguns hormônios ainda suscita dúvidas em mamíferos: nos vertebrados inferiores, a carência de informações é ainda maior, fazendo- se necessário, ainda que muitos trabalhos se desenvolvam para elucidar sobre sua presença, produção e ação, inclusive sobre aqueles envolvidos na reprodução animal. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 110 gametas e hormônios sexuais. A secreção hormonal é controlada endócrina, parácrina, autócrina e neuralmente. Atividades de avaliação 1. O que você entende por potencial de ação tudo-ou-nada? 2. Descreva como ocorre uma sinapse química. 3. Pesquise e relate resumidamente sobre uma doença degenerativa do SN. 4. Defina hormônio e feedback. 5. Classifique os hormônios pela sua estrutura química e dê exemplos. 6. Por que a hipófise é considerada glândula mestra? 7. Pesquise e faça um resumo sobre a hiper função da tireoide. 8. Faça um esquema com o mecanismo endócrino do ciclo estral. @ Leituras SALMITO-VANDERLEY, C. S. B; SANTANA, I.C. H. Histologia e embriolo- gia animal comparada. 1 ed. Fortaleza: RDS editora, 2010. 159p. Sites Nervoso: http://www.youtube.com/watch?v=0OpLBFiThu4 Endócrino: http://www.youtube.com/watch?v=7nVbme9FAgY Fisiologia Animal Comparada 111 Referências DANGELO, J. G.; FATTINI, C. A. Anatomia humana básica. São Paulo: Atheneu, 1985.189p. FRANDSON, R.D. et al. Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. 454 p. GARTNER, L. P.; HIATT, J. L. Tratado de histologia em cores. 2. ed. Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan, 2002. HILDEBRAND, M; GOSLOW. G. Análise da estrutura dos vertebrados. São Paulo: Atheneu, 2006. 637p. JUNQUEIRA, L. C. V.; CARNEIRO, J. Histologia básica. 10 ed. Rio de Ja- neiro: Guanabara Koogan, 2004. ROMER, A. S.; PARSONS, T. S. Anatomia comparada dos vertebrados. São Paulo: Atheneu, 1985. 559p. SCHMIDT- NIELSEN, K. Fisiologia animal – adaptação e meio ambiente. 5 ed. São Paulo: Livraria e editora Santos, 1999. 594 p. Capítulo 4 Sistemas aferente e efetuador Fisiologia Animal Comparada 115 Objetivos: • Conhecer os modos pelos quais os animais recebem os estímulos vindos do meio ambiente interno e externo; • Conhecer como agem os músculos para efetuar suas atividades motoras; • Conhecer a relação entre os sistemas nervoso, endócrino, sensorial e muscular no desempenho das funções do organismo animal. 4.1. Sistema aferente ou sensorial Para que um animal tenha seu funcionamento normal, ele depende de sua adaptação ao ambiente externo e da regulação do ambiente interno. Isto só é possível se o animal tiver mecanismos de reconhecimento da constância ou das alterações desses mecanismos, e sobre posição e movimento do corpo. É através da estimulação dos órgãos dos sentidos (ou receptores) do sistema aferente (sensorial) que o sistema nervoso recebe informação sobre os meios externo e interno do corpo. O organismo usa essa informação sensorial para gerar respostas de forma consciente ou não (reflexos, como fechar o esfícter pilórico quando o alimento ácido encosta na parede do duodeno). As experiências sensoriais começam em receptores, células ou termi- nações nervosas especializadas que detectam particularidades do ambiente interno ou externo. São mecanismos pelos quais o sistema nervoso modifica algum tipo de energia ambiental (por ex.: calor, pressão, luz) em atividade elé- trica dos neurônios, um processo denominado transdução (FRANDSON ET AL., 2005). Os órgãos dos sentidos são sensíveis a muitos tipos de influências ex- ternas e, por conta disso, do ponto de vista didático, eles podem ser classifi- cados de várias maneiras. Destacamos duas: numa, é considerado o tipo de estímulo: e, na outra classificação, é considerada a localização do estímulo a que respondem. 1. Classificação de acordo com o tipo de estímulo a que são sensíveis: a) Quimiorreceptor. Os órgãos olfatórios e do paladar (odor e gosto) reagem a certas substâncias químicas dissolvidas em solução aquosa. Vale sa- lientar que, também no organismo como um todo, existem outras estrutu- ras receptoras desse tipo de estímulo, sendo sensíveis ao pH sanguíneo e ao dióxido de carbono. No caso de ações conscientes, a informação sensorial se dirige normalmente para uma região do encéfalo, denominada de córtex. Sendo a sensação a percepção consciente de estímulos sensoriais. Mesmo para sentirmos o cheiro, o gás inalado deverá ser primeiro dissolvido na mucosa olfatória para ser percebida. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 116 b) Mecanorreceptor. São aqueles que respondem à deformação física (tato, pressão, tensão audição e equilíbrio). c) Fotorreceptor. Respondem à luminosidade (visão). d) Termorreceptor. São sensibilizados pela temperatura (calor e frio). e) Terminações nervosas indiferenciadas. Responsáveis, em grande par- te, pela sensação de dor. Nelas, as terminações nervosas são não encap- suladas (ou seja, há pouca mielina) e geralmente respondem a estímulos que são potencialmente prejudiciais a tecidos, sendo, por isso, muitas ve- zes, denominados de nociceptores. 2. Classificação de acordo com a localização do estímulo a que respondem.: a) Exteroceptores. Estes fornecem informações sobre acontecimentos na superfície do corpo (por ex.: tato, pressão, calor ou frio, paladar). b) Proprioceptores. Fornecem informações sobre a posição e a atitude do corpo (por ex.: os receptores de tensão nos músculos ou a orientação no campo gravitacional). c) Receptores de sensações à distância. Muito embora os órgãos dos sentidos (por ex.: visão, olfato e audição) realmente possam ser estimu- lados por fatos que ocorrem na superfície do corpo, por exemplo, pelo impacto de ondas sonoras no tímpano, sabemos subjetivamente que a mente associa o som, não ao o lugar onde é percebido, mas ao lugar onde ele se origina. d) Interoceptores. Neles, a percepção normalmente é inconsciente e, por isso, muitas vezes, os autores o colocam como uma categoria de órgãos dos sentidos relativamente sem importância, que transmitem sensações das vísceras (somatossensação), principalmente de dor. Aqui, deteremo-nos apenas a alguns dos órgãos dos sentidos. 4.1.1. Paladar e olfato Como mencionado antes, os sentidos químicos são aqueles que detectam de- terminadas substâncias no meio (externo ou interno). Os sentidos químicos de gustação e de olfação detectam moléculas do lado externo do corpo. Após se- rem captados, ocorre a emissão da informação ao córtex cerebral (tornando a sensação consciente). Dentro do corpo, segundo Frandson et al. (2005), os sentidos químicos incluem a detecção do pH sanguíneo e a concentração de dióxido de carbono. Esses últimos estão associados ao SNA e não se projetam ao córtex cerebral para percepção (permanecem inconscientes). Alguns autores preferem agrupar os órgãos do sentido quanto à localização do estímulo de uma forma mais simplificada. Daí, temos a classificação dos órgãos em: receptores de contato, que informam sobre eventos na superfície do animal (temperatura, pressão, tato e paladar); receptores de distância, que informam sobre o ambiente à distância (visão, audição); e proprioceptores, que captam informação do próprio corpo (mais inconsciente). Fisiologia Animal Comparada 117 Nos mamíferos, poderíamos dizer que os órgãos do paladar (gustativos) encontram-se na boca e na garganta, enquanto os de olfação encontram-se no nariz; no entanto, nos invertebrados inferiores, isso deixa de ser verdade. Em especial, nos peixes, os sentidos do olfato e do paladar não estão sequer confinados apenas na região da cabeça. Nos locais responsáveis por perceber o “gosto” das substâncias dissol- vidas em solução aquosa, vamos encontrar células receptoras especializadas chamadas células gustativas, as quais se encontram organizadas em grupos, em que cada grupo constitui um botão gustativo (Figura 4.1). No caso dos mamíferos (em especial, no homem), observamos que os botões gustativos encontram-se confinados em projeções minúsculas, as papilas gustativas (cir- cunvaladas, folhadas e fungiformes). Essas regiões são ricamente inervadas por fibras nervosas sensoriais. Até o final dos anos 90, acreditava-se que a língua estava dividida em regiões específicas para cada gosto – o doce era detectado por células re- ceptoras situadas na região anterior (ponta) da língua, o salgado nas laterais anteriores, o ácido nas laterais posteriores, o amargo no fundo e o umami no centro da língua . No entanto, hoje, estudos têm comprovado que qualquer das células das papilas gustativas, individualmente, possuem receptores fi- siológicos na membrana com função de detectar as substâncias químicas associadas a todos os cinco sabores básicos (doce, salgado, amargo, azedo e umami - figuras 4.1 e 4.2). Portanto, pode-se sentir os cinco gostos em qual- quer parte da língua que tenha papilas gustativas (LAMBERT, 2003). A olfação, ou o ato de sentir o odor, não é um sentido muito importante para os humanos, mas, para outros animais, ela é fundamental. Para outros animais, ele é importantíssimo na determinação comportamental e para a es- timulação da reprodução. De fato, observa-se que as conexões neurais dentro das partes olfatórias do cérebro são complexas e possui conexões profundas no lobo límbico, a parte do cérebro quegera comportamentos emocional e autônomo. Os odores, portanto, são capazes de eliciar emoções e comporta- mentos. Vale salientar que existem neurônios sensoriais olfatórios com recep- tores de feromonas, substâncias químicas que influenciam no comportamen- to de outros indivíduos, sobretudo, no comportamento reprodutivo. De fato, em muitos destes animais, podemos encontrar botões gustativos espalhados pela cabeça e por todo corpo. Umami é o "quinto" gosto básico e é detectado na língua por receptores específicos (TmGluR4). O glutamato monossódico é o principal aminoácido que provoca, no paladar, o gosto umami. Nos alimentos em que ele está presente, naturalmente, o paladar reconhece o umami. O umami está presente principalmente, em tomates, queijos fortes, carnes e sardinhas, além do leite humano e bovino. Além de humanos, outros mamíferos, tais como cães e ratos, também têm receptores capazes de percebê-lo. A quantidade de substâncias que podem ser conhecidas é muito grande. No homem, é calculada entre um e quatro mil. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 118 Figura 4.1 Esquema da língua de humanos identificando as regiões de detecção do sabor e de distribuição e caracterização dos botões gustativos com seus receptores gustativos. Fonte: Adaptado de: Basic Neurochemistry. http://www.ciadaescola.com.br/zoom/materia.asp? materia=291&pagina=4. Figura 4.2 Mecanismos para as sensações dos sabores (esq. para a dir.): umami, doce e amargo. Fonte: Adaptado de Basic Neurochemistry. http://www.ciadaescola.com.br/ zoom/materia.asp? materia=291&pagina=4. Os condrictes possuem receptores olfatórios bem desenvolvidos, sendo capazes de detectar moléculas dissolvidas na água mesmo em concentrações mínimas. Nos répteis, o paladar não é tão importante, mas o olfato é muito desenvolvido, e as informações químicas são dirigidas a um órgão especial, o órgão de Jacobson, localizado na zona anterior do palato e em comunicação com a cavidade bucal por dutos. Fisiologia Animal Comparada 119 4.1.2. Luz e visão Poucos são os grupos animais que possuem olhos. Mesmo assim, pratica- mente todos os animais possuem mecanismos para reconhecer luz, podendo reagir a ela afastando-se ou aproximando-se dela. A base de qualquer estrutu- ra receptora de estímulos luminosos são os pigmentos fotossensíveis que, ao serem atingidos por radiações de determinados comprimentos de onda, so- frem modificações energéticas, transmitindo-as a células sensitivas. No caso dos indivíduos que possuem olhos, eles fornecem muito mais informações a respeito do meio ambiente, pois as suas células possibilitam a formação de uma imagem na retina. Porém, imagens definidas só são possíveis de serem formadas por olhos de poucos animais. O olho funciona como uma máquina fotográfica. Ele tem um formato de cálice. Na superfície interna deste cálice, na retina, existem células pigmen- tadas (especialmente cones e bastonetes) ligadas a células sensitivas. Estas últimas continuam-se, com o nervo óptico, o qual nervo conduz os impulsos para determinada área do lobo occipital, onde as informações são decodifica- das, e as imagens são reconhecidas. 4.1.3. Audição e equilíbrio Os órgãos relacionados com a audição e com o equilíbrio são os mais de- senvolvidos entre aqueles dependentes de mecanorreceptores, sendo o ouvido dos mamíferos o órgão que atingiu maior complexidade. A orelha pode ser dividida em três partes principais: ouvido externo, ouvido médio (preenchido com ar) e ouvido interno (formando um sistema elaborado de câmaras e de canais preenchidos com líquido). Mais informa- ções anatômicas estão dispostas na Figura 4.3. A energia ambiental detectada na audição são as ondas de compressão e descompressão do ar, líquidos e sólidos produzidos por vibração. Segundo Frandson et al. (2005), os sons se formam da seguinte forma: “(...) a transdu- ção da energia mecânica de ondas de pressão de ar para dentro dos impulsos elétricos dos neurônios no sistema auditivo realiza-se da seguinte maneira: as ondas de pressão de ar capturadas pelo pavilhão (pina) da orelha são afunila- das para baixo em direção à membrana timpânica e colocam a membrana em movimento vibratório. Esse movimento é conduzido obliquamente para a ca- vidade da orelha média, preenchida com ar por movimentos dos ossículos da audição. Esses ossículos transferem as vibrações para a janela do vestíbulo pela base do estribo. A perilinfa no labirinto ósseo recebe as ondas de pressão transmitidas a ela por vibrações da janela vestibular. Estas são conduzidas para dentro da cóclea pela rampa do vestíbulo. A membrana vestibular entre a Os bastonetes encontram- se mais na periferia da retina e são estimulados com luz de baixa intensidade (são usados para a visão no escuro e não registram cores). Os cones situam-se principalmente na região central da retina e seu estímulo depende de altas intensidades luminosas. Eles reconhecem as cores (são células utilizadas quando há claridade). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 120 rampa do vestíbulo e o ducto coclear vibra em resposta às ondas de pressão e transfere as vibrações sobre o ducto coclear para a membrana basilar e para a perilinfa subjacente da rampa do tímpano. Movimento da membrana basilar resulta em movimento das células pilosas no órgão espiral que está sobre ela, e isto produz inclinação das células pilosas dos cílios que resulta em despolarização dentro das células pilosas. Quando essa despolarização atinge intensidade suficiente, ela inicia um potencial de ação nos aferentes primários do gânglio espiral.” Nos vertebrados, o equilíbrio e a sensação de movimento resultam da ação de mecanorreceptores localizados em três tipos de estruturas presentes no ouvido interno: o sáculo, o utrículo e os canais semicirculares. O sáculo e o utrículo informam ao encéfalo a posição da cabeça em relação à força da gravidade. Eles detectam movimentação, assim como os canais semicirculares estão relacionados com a percepção dos movimentos que o corpo executa. Neste último, quando da movimentação da cabeça, o líquido no interior dos canais semicirculares, por inércia, exerce pressão sobre a massa gelatinosa que envolve os cílios das células sensoriais, fazendo com que os cílios se curvem e estimulem as células sensoriais a gerar impulsos nervosos e a transmiti-los ao encéfalo. As células sensoriais do sáculo e do utrículo agrupam-se em estruturas denominadas máculas. Estas são recobertas por uma camada de gelatina, sobre a qual ficam aderidas pedrinhas de carbonato de cálcio, os otólitos. Através da atração dos otólitos, por ocasião de reposicionamento da cabeça, há estimulação dos cílios das células sensoriais presentes na mácula. Os im- pulsos nervosos produzidos nas máculas permitem ao sistema nervoso cen- tral calcular a orientação da força gravitacional. Certos animais têm sistemas sensoriais que não possuem homologia nos seres humanos. Por exemplo, aves migratórias e alguns insetos são ca- pazes de sentir o geomagnetismo da Terra, a informação que usam para na- vegação. Diversas espécies de peixes podem detectar e gerar campos elétri- cos. Cetáceos e morcegos utilizam circuitos auditivos altamente modificados para navegação por sonar. Existem outros órgãos também que contribuem para o equilíbrio do corpo, através de suas células propriorreceptoras (músculos, tendões e órgãos internos). Fisiologia Animal Comparada 121 Figura 4.3 Anatomia do aparelho auditivo e vestibular. A) Orelhas externa, média e interna, com osso temporal circundante. B) Labirinto membranoso. As regiões trace- jadas indicam os locais de neuroepitélio, incluindo o órgão espiral do ducto coclear, a mácula do utrículo e do sáculo e as cristas ampulares dos ductos semicirculares. Fonte: Adaptado de FRANDSON et al. (2005). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 122 4.2. Sistema efetuador: muscular Como vimos anteriormente, seja no sistema circulatório, respiratório, digestivoou no excretor, as atividades desenvolvidas por eles, direta ou indiretamente, ocorrem devido a contrações de células musculares, estriada cardíaca, es- quelética ou lisa. Essa contração é regulada pela ação neural (placa motora) e hormonal (por ex.: contração de músculo liso da parede de vasos na regula- ção da pressão arterial). Estas atividades são realizadas pela movimentação celular. O animal pos- sui diversas estruturas efetoras que, mesmo não sendo musculares (por ex.: cé- lulas ciliadas), possuem a propriedade de converter energia química em energia mecânica de tensão e movimento. Porém, na quase totalidade, os movimentos e as atividades dos animais são efetuados por músculos. A base da movimenta- ção nas células vivas (musculares ou não) são as proteínas contráteis. As células musculares são aquelas altamente especializadas em con- tração, sendo essa a sua função principal. Existem três tecidos musculares, o estriado esquelético, o estriado cardíaco e o liso. Os músculos estriados, quando examinados ao microscópio, exibem estriações transversais, que não são vistas nos músculos lisos (ou viscerais). Nos músculos lisos, cada fibra muscular é uma única célula contendo um único núcleo, e seu comprimento, distendido, é dado em milímetros. O estriado possui fibras musculares maio- res, da ordem de centímetros. Nelas, podemos observar fibras com um ou dois núcleos, como no cardíaco, ou até vários núcleos, como no esquelético. Essas diferenças entre o músculo estriado e o músculo liso não são absolutas. O músculo estriado é constituído por várias fibras (células; miócitos) dispostas paralelamente. Cada uma dessas fibras é formada por um gran- de número de fibrilas (miofibrilas). As miofibrilas são estriadas, e o aspecto estriado da fibra depende do alinhamento dessas fibrilas, com suas estrias perfeitamente umas sobre as outras. Cada miofibrila é dividida pela região de união das extremidades terminais de actina (linha Z que está associada às membranas transversais – túbulos T, os quais são projeções internas da mem- brana sarcoplasmática), em segmentos curtos, denominados sarcômeros. O sarcômero é a unidade fundamental de contração do músculo estriado. Os espaços entre as miofibrilas são ocupados por fileiras de mitocôndrias. As fi- brilas podem ser decompostas em filamentos que estão arranjados da seguin- te forma: os filamentos finos (de uma proteína chamada actina, associada a outras duas, troponina e tropomiosina), prendem-se às linhas Z em cada lado, porém não alcançam mais do que a metade do sarcômero; e os filamentos grossos (da proteína miosina), que ocupam o meio do sarcômero, porém não se estendem até as linhas Z. Proteínas contráteis foram extraídas de vários tipos celulares. Como exemplo, temos alguns leucócitos que possuem filamentos de actina e de miosina, estes deslizam entre si formando pseudópodes e, por conseguinte, migram dos capilares para os tecidos por movimentos ameboides. Outro exemplo é a célula espermática, cujos microtúbulos presentes possuem a proteína tubulina, que se associa à dineína. A dineína se associa à tubulina de dois microtúbulos vizinhos, provocando o deslizamento de um sobre o outro (para tal, utiliza energia do ATP). No reino animal, encontramos variações na estrutura histológica do tecido muscular liso e estriado, podendo ser encontrados quase todos os graus intermediários concebíveis entre os dois tipos, porém as diferenças não são fundamentais, apenas de grau. Na região da linha Z, os túbulos T (TT) encontram- se associados ao retículo sarcoplasmático liso (RS), formando o sistema de tríade (um TT cercado por duas vesículas de RS), no músculo estriado esquelético, e de díade (um TT + uma vesícula RS), no músculo cardíaco. Fisiologia Animal Comparada 123 Os filamentos se sobrepõem ao longo de parte do sarcômero e, num corte transversal dessa região, vê-se que há um arranjo hexagonal regular, sendo cada filo de miosina circundado por seis filamentos de actina (Figura 4.4). Quando o músculo se contrai, os filamentos deslizam uns sobre os ou- tros e o sarcômero encurta, não por qualquer encurtamento dos filamentos, mas pela maior extensão de sua superposição. Figura 4.4 Diagrama ilustrando a estrutura e a posição dos filamentos finos e grossos do sarcômero. A estrutura molecular desses elementos é mostrada à direita. Fonte: Adaptado de JUNQUEIRA; CARNEIRO (2004). Os músculos lisos também são constituídos de filamentos de actina e de miosina, porém o arranjo dos filamentos é irregular, não sendo possível a visualização de estrias transversais, e as membranas transversais estão au- sentes. Também no filamento fino não é observado o complexo actina-tropo- nina-tropomiosina. A distribuição dos tipos de músculos no corpo está correlacionada com uma diferença das suas propriedades mecânicas. Os músculos de ação rá- pida, como aqueles dos quais dependemos para o movimento, são estriados; os músculos de ação lenta, como os que movem o alimento ao longo do canal alimentar, são lisos (Quadro 4.1). Mesmo dentro dos estriados, especialmente Rever histologia do tecido muscular (SALMITO- VANDERLEY; SANTANA, 2010). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 124 no esquelético, encontramos fibras que se contraem lentamente (fibras tipo I, vermelha) e fibras que se contraem rapidamente (fibras tipo II, branca), pois possuem maior quantidade da enzima ATPase (que quebra ATP, gerando ra- pidamente energia para contração). Já a fibra do tipo I pode manter-se con- traída por mais tempo que a do tipo II (mais sujeita à fadiga), pois tem maior quantidade de mioglobina (maior reserva de O2). Quadro 4.1 Velocidade de contração de alguns músculos de diversos animais Músculo Tipos de células Tempo de contração ms Gatrocnêmio do gato Estriado 39 Útero do gato Liso 180 Músculo da perna de um inseto Estriado 35 Retrator do caracol Liso 300 4.2.1. Contração do músculo esquelético Para que haja contração muscular, faz-se necessário um estímulo, nervo- so, hormonal ou elétrico, dependendo do tipo de tecido muscular. Descrevere- mos inicialmente o processo de contração da musculatura estriada esquelética. A contração muscular esquelética é desencadeada pela geração de um potencial de ação na membrana sarcoplasmática (sarcolema). O estímulo vem via axônio. Suas terminações nervosas se ligam às fibras musculares numa região (porção média da fibra muscular) denominada de placa motora (ou junção neuromuscular). Nessa região, temos uma sinapse química. Por- tanto, o potencial de ação inicia-se após a liberação, pelo neurônio motor, do neurotransmissor acetilcolina (ACh) na fenda sináptica. A ACh difunde-se pela fenda e se liga a receptores específicos da mem- brana celular na membrana pós-sináptica da fibra muscular. A ligação da ACh a seus receptores provoca a abertura dos canais de sódio e de potássio da membrana. A entrada de sódio proporciona a despolarização do sarcolema. A despolarização local do sarcolema, nas junções neuromusculares, é denominada potencial da placa terminal. Essa alteração no potencial produz fluxo local de corrente, que despolariza áreas adjacentes do sarcolema. Por- tanto, o processo se repete e o efeito é a propagação dos potenciais de ação por todo o sarcolema da fibra muscular, semelhante ao da propagação de potenciais de ação ao longo de um axônio. O potencial de ação é levado ao interior da fibra muscular através dos TT, e, à medida que chega às tríades, o RS se torna permeável ao Ca++, libe- rando-o passivamente para o sarcoplasma e para as miofibrilas. Nas miofibri- las, o Ca++ se liga a uma subunidade da troponina (TN-C), fazendo com que O efeito da ACh persiste apenas momentaneamente, já que, na fenda sináptica, tem-se outra enzima, a acetilcolinesterase, que degrada rapidamente ACh em colina e acetato. Para cada fibra muscular, há apenas uma junção neuromuscular situada próximo ao seu centro. Portanto, o potencial de ação se propagaem direção às extremidades. Desta forma, é possível que ocorra a contração simultânea de todos os sarcômeros. Fisiologia Animal Comparada 125 a conformação do complexo troponina-tropomiosina mude sua conformação e libere o sítio de ligação para a miosina que se encontra na actina. Quando a cabeça da miosina se liga à actina, uma molécula de ATP, presa à miosina, é quebrada em ADP e fosfato. A cabeça da miosina, além de liberar esses elementos, também faz rotação de sua posição de repouso em direção ao centro do sarcômero, puxando a cadeia da actina à qual está ligada. Há então uma maior sobreposição da actina, sobre a miosina (desliza- mento) e consequentemente maior encurtamento do sarcômero (Figura 4.5). Até que uma molécula intacta de ATP se ligue a outro ponto na cabeça da miosina (ATPase), ela permanece em seu ângulo final e ligada à actina do filamento fino. Com a ligação de um novo ATP, a cabeça da miosina destaca- -se da cadeia da actina e retoma seu ângulo de repouso, pronta para repetir o processo de ligação à actina, movendo-se do ângulo de repouso para o final e puxando mais ainda o filamento fino, ligado em direção ao centro do sarcô- mero e destacando-se com a ligação de outra molécula do ATP. Figura 4.5 Esquema de um sarcômero relaxado (A) e contraído (B). Fonte: http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/12/contracao-muscular.jpg. Enquanto tiver excesso de Ca++ no sarcoplasma, haverá contração muscular. Porém, ao terminar a onda de despolarização, o Ca++ é ativamente sequestrado para dentro do RS (com uso de energia de ATP) e o músculo re- Cada molécula de troponina contém 3 subunidades, uma que mantém a ligação com a tropomiosina (TN-T), outra que inibe as reações da ATPase (TN-I) e outra responsável pela ligação com o cálcio (TN-C). SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 126 laxa, ou seja, há dissociação da actino-miosina, e as linhas Z e os filamentos finos voltam a suas posições originais. Tanto para a contração quanto para o relaxamento muscular há gasto de energia. No músculo, a concentração de ATP é baixa, e, para manter-se contraindo por mais tempo, o ADP precisa ser refosforilado. De fato, o ATP se mantém constante devido à regeneração a partir da ADP e da fosfocreatina (reação catalisada pela creatinoquinase), porém a concentração de fosfocrea- tina também é limitada. Assim, se a contração muscular continuar por mais de alguns segundos, tanto a fosfocreatina quanto o ATP precisarão ser reconsti- tuídos nas mitocôndrias das fibras musculares. Quando a atividade muscular ultrapassar a capacidade das mitocôndrias de produzir ATP de forma aeróbica (ciclo de Krebs), inicia-se o metabolismo anaeróbico do combustível carboidra- to (glicogenólise e glicólise), e o ácido láctico acumula-se na célula muscular (FRANDSON et al. 2005). 4.2.2. Contração do músculo liso Há dois tipos principais de músculo liso, o multiunitário (íris e cor- po ciliar do olho e músculos eretores dos pelos), e o unitário (ou sinci- cial, ou visceral). 99% da musculatura lisa é do tipo músculo visceral. O músculo liso multiunitário é formado por fibras musculares lisas individuali- zadas. Cada fibra atua independentemente das demais (separadas por subs- tância glicoproteica isolante) e é inervada por uma só terminação nervosa, sendo controlada por sinais nervosos. Isso contrasta com o fato de a maior parte do controle do músculo liso unitário ser por estímulos não neurais. No músculo liso unitário, as fibras estão agregadas em lâminas ou fei- xes, e suas membranas celulares encontram-se aderidas entre si em vários pontos, inclusive por muitas junções abertas (há formação de conexões me- cânicas e elétricas entre células), pelas quais os íons podem fluir livremente de uma célula para outra, de modo que um potencial de ação pode passar de uma fibra para outra, fazendo com que todas as fibras se contraiam em conjunto. O músculo liso contém filamentos de actina e de miosina dotados com ca- racterísticas químicas semelhantes às dos filamentos de actina e de miosina do músculo esquelético. O processo contrátil é ativado por íons cálcio (este cálcio provém tanto do RS como dos canais de cálcio do sarcolema), e a adenosina-trifosfato (ATP) é degradada em adenosina-difosfato (ADP), para fornecer energia para a contração. A contração do músculo liso é ativada por mecanismo inteiramente dife- rente. Em vez da troponina, as células musculares lisas contêm grande quan- tidade de outra proteína reguladora, chamada calmodulina (associada à ca- beça da miosina). É ela que se combina ao Ca++ e desencadeia a contração Magnésio é o único cátion com efeito acelerador da atividade ATPásica da miosina. O substrato realmente hidrolisado pela miosina parece ser Mg-ATP. A interação actino-miosina parece ser o fenômeno responsável pela hidrólise do ATP durante uma contração. Os tipos de contração muscular são: a) Contração isotônica concêntrica – É a contração que tenciona e traciona as estruturas, causando uma diminuição no ângulo da articulação, p.ex.: dobrar o cotovelo; b) Contração isotônica excêntrica – É quando há tensão muscular, mas ela gera um aumento do ângulo da articulação, p.ex.: super estender o braço; c) Contração isométrica – É aquela que gera um aumento da tensão muscular sem gerar movimento, por ex.: segurar um peso sem dobrar o braço. O músculo liso pode ser estimulado a se contrair por múltiplos tipos de sinais: por sinais neurais (SNA), por estimulação hormonal, pelo estiramento do músculo e por diversos outros meios. Fisiologia Animal Comparada 127 ao ativar as pontes cruzadas de miosina. Na cabeça da miosina, há a ativação da miosinaquinase (ATP em ADP+P), e a contração é também dependente da fosforilação da cabeça da miosina. Quando a concentração dos íons cálcio cai abaixo de um valor crítico, todos esses processos se invertem automati- camente, exceto a fosforilação da cabeça de miosina, que depende de outra enzima, a miosina fosfatase, localizada nos lipídios da célula muscular lisa. Essa enzima cliva o fosfato na miosina, finalizando a contração. 4.2.3. Contração do músculo cardíaco O músculo estriado cardíaco, como o músculo esquelético, contém filamen- tos de actina e de miosina e estrias transversais (porém, mais fracas) seme- lhantes às do esquelético, porém apresenta uma maior abundância de mi- tocôndrias. A diferença mais marcante é a tendência das fibras musculares cardíacas em ramificar-se e juntar-se, formando uma rede sincicial. As células cardíacas são entidades separadas, porém agrupam terminação-a-termina- ção, formando os discos intercalados (como sinapses). Através desses dis- cos, os potenciais de ação podem disseminar-se rapidamente de uma célula a outra, fazendo o músculo cardíaco atuar elétrica e mecanicamente como um sincício funcional, como se fosse massa celular única. Nos vertebrados, a contração do coração é originada nas células do nodo sinuatrial (vide capítulo do circulatório) e propagadas pelo sistema de condução especializado do coração (feixe interventricular, nodo atrioventri- cular e discos intercalares). O tecido muscular cardíaco gera o impulso, ele é considerado miogênico, mesmo assim, o coração desses animais sofre influ- ência do sistema nervoso (especialmente o SNA). O potencial de ação cardíaco é muito mais lento do que o do músculo esquelético. O tempo de contração no músculo cardíaco dura tanto quanto o potencial de ação. Em vez do potencial em pico agudo, o potencial de ação cardíaco possui um longo platô, que se estende pelo tempo do potencial de ação e da contração muscular. O músculo estriado cardíaco possui algumas semelhanças tanto com o músculo liso como com o músculo esquelético. Em todos, o aumento no Ca2+ intracelular deve ocorrer para produzir contração celular cardíaca. Mas, assim como no esquelético, no cardíaco, o Ca++ entra na célula por canais de membrana celular eletricamente ligados e também é liberado por umaex- tensa rede do retículo sarcoplasmático, ligando-se à TN-C nos filamentos de actina, ocorrendo contração de maneira similar à do músculo esquelético. Po- rém, igualmente ao liso unitário, as células do cardíaco transmitem o potencial célula a célula (como massa celular única). A velocidade de contração do músculo liso é geralmente muito mais lenta que no músculo estriado. Os discos representam membranas celulares apostas e sinapses. As sinapses conferem ligação mecânica entre as células e permitem transmissão elétrica de uma célula muscular cardíaca para a célula seguinte. O coração de alguns invertebrados é chamado de neurogênicos pois as contrações iniciam-se por impulsos nervosos. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 128 Síntese do Capítulo Sensitivo: O organismo usa a informação sensorial para gerar respos- tas (conscientes ou não), com o intuito de manter-se em equilíbrio com o meio. Para tal, desenvolveram-se diversos órgãos cujas células recepto- ras são capazes de responder a diversos estímulos: luz, ondas sonoras, temperatura, mudança de posição e gravidade, dolorosas e químicas. A classificação destes órgãos normalmente se dá de acordo com o tipo de estímulo a que são sensíveis (quimiorreceptores, termorreceptores, fotor- receptores, mecanorreceptores e por teminações nervosas livres); ou de acordo com a localização do estímulo a que respondem (exterosseptores, propriosseptores, internoceptores, receptores de distância). As células do paladar e do olfato, para serem sensibilizadas, precisam entrar em contato com substâncias dissolvidas em meio aquoso. As da audição precisam da vibração do ar e do equilíbrio da propagação de ondas em líquido. No caso da visão, a luz sensibiliza células pigmentadas encontradas na retina. Mus- cular: O sistema muscular é considerado um sistema efetor, pois a maioria das atividades, no organismo, ocorre devido à contração das suas células. Neste sistema, encontramos três subtipos de tecidos contráteis: o estriado esquelético, o estriado cardíaco e o liso. Nos dois, primeiros encontramos um sistema de organização de proteínas contráteis, formando a unidade fundamental de contração, o sarcômero, que forma as estrias transver- sais. Nos três tecidos, encontramos as proteínas actina e miosina, que se associam, promovendo a contração por ação do Ca++. Nos estriados, o Ca++ liga-se à proteína reguladora troponina, e, no liso, à calmodulina. O músculo estriado esquelético contrai-se por ação exclusivamente neural; o cardíaco e o liso contraem-se por outros meios de estimulação. O ATP é a fonte energética principal para a contração muscular. Atividades de avaliação 1. Pesquise e descreva, sucintamente, como se dá a formação da imagem no olho de um mamífero. 2. Como são estimulados os órgãos sensibilizados por mecanorreceptores e quimiorreceptores? 3. Faça um plano de aula sobre o sistema aferente ou sensitivo. Os vasos sanguíneos e os vasos linfáticos são abundantes no músculo cardíaco, pois, como o coração trabalha intermitentemente, um suprimento sanguíneo generoso é essencial, em especial, porque a maior parte do ATP produzido depende do metabolismo aeróbico. Fisiologia Animal Comparada 129 4. Faça um quadro mostrando as diferenças anátomo-funcionais dos três tipos de músculo. 5. Descreva a contração do músculo estriado esquelético. 6. Pesquise e descreva sobre as características das fibras musculares quando ocorre hipertrofia cardíaca, assim como suas causas e consequ- ências para a saúde do animal acometido. Texto complementar Termorregulação Como vimos no capítulo 2 deste livro, para o seu funcionamento metabólico ótimo um or- ganismo necessita de uma temperatura adequada. Portanto, é fundamental que os seres vivos disponham de estratégias para regular a temperatura do corpo, pois esta é a variável fisiológica mais importante, já que determina diretamente o resto das variáveis que afetam o indivíduo como um todo. A termorregulação constitui-se num aspecto vital para a homeostase desde o nível mole- cular até o organismo. Para tal, no organismo dos vertebrados, existem os termorreceptores, que são receptores celulares que mediam a sensibilidade à temperatura. Eles encontram dis- tribuídos por toda a pele, nas mucosas e nas paredes das vísceras digestivas e respiratórias. Nos mamíferos, existem termorreceptores específicos para frio e para o aquecimento, além dos nociceptores que são sensibilizados tanto pelo frio quanto pelo calor quando estes cau- sam dor. Estes termorreceptores cujos corpos neurais encontram-se nos gânglios medulares e trigêmio fazem sinapses nervosas e a informação é especialmente processada numa região do sistema nervoso central, o tálamo. Acredita-se que no organismo, praticamente, todas as modificações, de comportamento ou fisiológicas, que visam a manutenção e controle interno da temperatura sejam controladas pelo tálamo. A temperatura ótima para que o metabolismo ocorra de forma ótima fica, na maioria dos animais vertebrados, abaixo de 40º C. Isso se deve ao fato dos processos metabólicos envolverem proteínas, enzimas, reações bioquímicas e físicas, e esses ocorrerem direta- mente influenciados pela temperatura. Na maioria das reações químicas a velocidade de ocorrência dobra com o aumento da temperatura em 10º C, ou caem pela metade da taxa original quando a temperatura diminui 10º C. No entanto acima de 40-41º C, a maioria das proteínas se altera quimicamente, comprometendo a integridade do organismo. Por outro lado em temperaturas baixas muitas reações ficam lentas ou mesmo podem cessar, paran- do a função corporal. Além disto, a formação de cristais de gelo no interior dos tecidos pode levar ao rompimento de membranas celulares, e a morte das mesmas. Um animal pode ganhar calor através: a) da sua atividade metabólica. De fato, o calor é um subproduto de todos os processos metabólicos, do metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas; b) ou por absorção a partir do exterior, através de radiação, condução e convecção. Inversamente um animal pode perder calor por condução - mais importante no meio aquáti- co, pois o ar é um péssimo condutor de calor e ótimo isolante térmico. Pelo ar a perda é mais importante por convecção, radiação e evaporação. Existem várias formas de classificar os vertebrados quanto à forma como mantém a sua temperatura corpórea, a mais geral é aquela que descreve os animais como de sangue frio (peixes, anfíbios e répteis) ou quente (aves e mamíferos). Mais espe- SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 130 cificamente temos a classificação em ectotérmicos (que dependem da temperatura ambiente para manter sua temperatura orgânica) e em endotérmicos (mantém sua temperatura por meios fisiológicos ou comportamentais). Existe ainda a classificação em poiquilotérmicos, homeotérmicos e heterotérmicos. A termorregulação fisiológica é vista pela primeira vez nos vertebrados em alguns rép- teis. Mesmo com capacidade regulativa baixa, neles observa-se um centro termorregulador no SNC que produz ação reflexa. Esta ação leva a modificação de pressão sanguínea ou o aparecimento de contração muscular rápida. Também esses tremores são utilizados para aumentar a temperatura nos mamíferos. Músculos antagônicos se contraem sem produzir trabalho útil, elevando a temperatura do corpo pela transformação de energia química de carboidratos, gorduras e proteínas em calor. Para reagir a situações de frio, as aves e mamíferos, também elevam sua produção meta- bólica de calor. Este último é o método mais eficiente, uma vez que a energia metabolizada é mais concentrada para produção de energia térmica e não para trabalho (tremores muscu- lares). Já para perder calor o corpo o faz, como vimos anteriormente, por meio de radiação, condução e evaporação (da água das vias aéreas e pele), além da excreção de fezes e urina. Ajustes circulatórios promovem a vasodilatação cutânea elevando a temperatura da pele, favorecendo a troca de calorcom o ambiente. Essa resposta é mediada principalmente por nervos vasoconstritores simpáticos. No frio ocorre o contrário, a vasodilatação periférica é, portanto resultado da inibição do tônus simpático. O calor pode diminuir esse tônus por meio de um aumento da temperatura do SNC ou de forma reflexa, pela mediação de ter- morreceptores na pele. Independente se para ganhar ou perder calor, as respostas fisiológicas do organismo ocorrem sempre procurando manter a temperatura dentro de uma faixa desejada, poden- do recorrer a mecanismos como a hibernação e a estivação. @ Leitura SALMITO-VANDERLEY, C. S. B; SANTANA, I. C. H. Histologia e embriolo- gia animal comparada. 1 ed. Fortaleza: RDS editora, 2010. 159p. Sites Sensitivo http://www.youtube.com/watch?v=QaJvaCAa1rI 20abril2011 http://www.youtube.com/watch?v=CR0_ZldQjKQ&feature=related 20abril2011 http://www.youtube.com/watch?v=w0YzqYInMjk&feature=related 20abril2011 http://www.youtube.com/watch?v=kC2IoapWEJM&feature=related 20abr2011 Fisiologia Animal Comparada 131 Muscular http://www.infoescola.com/fisiologia/contracao-muscular/ 19 abril 2011 http://www.colegioweb.com.br/biologia/a-fisiologia-muscular.html19abr2011 http://www.fm.usp.br/fofito/fisio/pessoal/isabel/biomecanicaonline/elementar/ img/actin.gif 19abril2011(vídeo). Referências FRANDSON, R.D. et al. Anatomia e fisiologia dos animais de fazenda. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005, 454 p. JUNQUEIRA, L. C. V.; CARNEIRO, J. Histologia básica. 10 ed. Rio de Ja- neiro: Guanabara Koogan, 2004. LAMBERT, P. Em todos os sentidos. Superinteressante Especial - A Fantás- tica Ciência da Comida. São Paulo: Editora Abril, junho/2003. SALMITO-VANDERLEY, C. S. B 132 Sobre a autora Carminda Sandra Brito Salmito-Vanderley: É bacharel em Medicina Vete- rinária, possui Mestrado em Reprodução de Pequenos Ruminantes pela Uni- versidade Estadual do Ceará – UECE e Doutorado em Ciência Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. É professora adjunta no cur- so de Ciências Biológicas da UECE, onde ministra a disciplina de Histologia e Embriologia Animal Comparada. Na mesma instituição, ministra aulas de Anatomia Animal no curso de Medicina Veterinária. Além disso, é assessora de assuntos estudantis do Centro de Ciências da Saúde; e membro efetivo do Comitê de Ética em Experimento Animal- CEUA; coordena e desenvolve pro- jetos de pesquisa na área de biotecnologia da reprodução, criopreservação de gametas e morfofisiologia da reprodução, abordando as áreas de fisiologia e endocrinologia. É autora de livros, capítulos de livros e artigos, inclusive publi- cados internacionalmente, na área de fisiologia da reprodução animal e afins. A não ser que indicado ao contrário a obra Fisiologia Animal Comparada, disponível em: http://educapes.capes. gov.br, está licenciada com uma licença Creative Commons Atribuição-Compartilha Igual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0). Mais informações em: <http://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt_BR. Qualquer parte ou a totalidade do conteúdo desta publicação pode ser reproduzida ou compartilhada. Obra sem fins lucrativos e com distribuição gratuita. O conteúdo do livro publicado é de inteira responsabilidade de seus autores, não representando a posição oficial da EdUECE. Fiel a sua missão de interiorizar o ensino superior no estado Ceará, a UECE, como uma instituição que participa do Sistema Universidade Aberta do Brasil, vem ampliando a oferta de cursos de graduação e pós-graduação na modalidade de educação a distância, e gerando experiências e possibili- dades inovadoras com uso das novas plataformas tecnológicas decorren- tes da popularização da internet, funcionamento do cinturão digital e massificação dos computadores pessoais. Comprometida com a formação de professores em todos os níveis e a qualificação dos servidores públicos para bem servir ao Estado, os cursos da UAB/UECE atendem aos padrões de qualidade estabelecidos pelos normativos legais do Governo Fede- ral e se articulam com as demandas de desenvolvi- mento das regiões do Ceará. Fi si ol og ia A ni m al C om pa ra da Ciências Biológicas Ciências Biológicas Carminda Sandra Brito Salmito-Vanderley Fisiologia Animal Comparada U ni ve rs id ad e Es ta du al d o Ce ar á - U ni ve rs id ad e Ab er ta d o Br as il ComputaçãoCiências BiológicasQuímica Física Matemática Pedagogia Artes Plásticas