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I N T R O D U Z I N D O H I D R O L O G I A Estimativa de vazões máximas com base na chuva acias hidrográficas pequenas, como as existentes em áreas urbanas, raramente têm dados observados de vazão e nível de água. Assim, a estimativa de vazões extremas nestas bacias não pode ser feita usando os métodos estatísticos tradicionais, como os apresentados no capítulo 14. Para contornar este problema, costuma-se utilizar métodos de estimativa de vazões máximas a partir das características locais das chuvas intensas. Os métodos para estimativa das vazões máximas a partir da chuva dependem do tamanho da bacia. Em bacias muito pequenas pode ser utilizado um método conhecido como método racional. O método racional permite estimar a vazão de pico, mas não gera informações completas sobre o hidrograma. Em bacias maiores normalmente são utilizados modelos de transformação chuva-vazão, que estão baseados em métodos de cálculo de chuva efetiva semelhantes aos apresentados no capítulo 10 e no hidrograma unitário, apresentado no capítulo 11. Os métodos de estimativa de vazões máximas a partir da chuva são especialmente importantes em bacias urbanas e em processo de urbanização. É possível utilizar estes métodos para fazer previsões sobre as vazões máximas em cenários alternativos de desenvolvimento, com diferentes graus de urbanização. Chuvas de projeto Os métodos de estimativa de vazões máximas a partir das chuvas podem ser aplicados com eventos de chuva observados, mas é mais freqüente a sua aplicação com eventos idealizados, denominados chuvas de projeto. Capítulo 18 B 231 Uma chuva de projeto é um evento chuvoso idealizado, ao qual está associado um tempo de retorno. Ao utilizar uma chuva de projeto com 10 anos de tempo der retorno como base para a estimativa da vazão máxima usando um modelo de transformação de chuva em vazão, supõe-se que a vazão máxima gerada por esta chuva também tenha um tempo de retorno de 10 anos. Chuvas de projeto são normalmente obtidas a partir das curvas IDF de pluviógrafos ou a partir de dados de pluviômetros desagregados para durações menores do que um dia. As características principais das chuvas de projeto são: 1) duração; 2) intensidade média; 3) distribuição temporal. Duração das chuvas de projeto Dado o fato que as intensidades das chuvas tendem a diminuir com a duração, considera-se que as chuvas que potencialmente podem causar as maiores vazões no exutório de uma bacia hidrográfica sejam as chuvas cuja duração é igual ao tempo de concentração da bacia. Isto faz com que exista pelo menos um momento em que toda a bacia esteja contribuindo para aumentar a vazão que está saindo no exutório. Assim, normalmente se admite que as chuvas de projeto tenham duração igual, ou muito semelhante, ao tempo de concentração da bacia. Intensidade média das chuvas de projeto A intensidade média de uma chuva de projeto pode ser obtida a partir de uma curva IDF definida a partir de dados de um pluviógrafo instalado na região da bacia. No Brasil existem curvas IDF definidas para as maiores cidades, que podem servir como ponto de partida. Definida a duração da chuva, com base no tempo de concentração da bacia, conforme explicado no sub-item anterior, a intensidade da chuva é obtida a partir da curva IDF para um dado tempo de retorno. O tempo de retorno depende das características do projeto e dos potenciais prejuízos que traria uma eventual falha, em que a vazão superasse a vazão utilizada no dimensionamento. Caso os prejuízos potenciais sejam elevados, deve-se adotar um tempo de retorno alto, em caso contrário deve-se adotar um tempo de retorno baixo. A Tabela 18. 1 apresenta uma relação do tipo de estrutura com o TR normalmente adotado. 232 Tabela 18. 1: Tempos de retorno adotados para projeto de estruturas. Estrutura TR (anos) Bueiros de estradas pouco movimentadas 5 a 10 Bueiros de estradas muito movimentadas 50 a 100 Pontes 50 a 100 Diques de proteção de cidades 50 a 200 Drenagem pluvial 2 a 10 Grandes barragens (vertedor) 10000 Pequenas barragens 100 Micro-drenagem de área residencial 2 Micro-drenagem de área comercial 5 Na ausência de curvas IDF para locais próximos à bacia em análise, pode-se recorrer à análise estatística de dados de chuva de pluviômetros, coletados em intervalo de tempo diário. A partir destes dados é possível obter estimativas de chuvas intensas de 1 dia de duração com tempos de retorno de 2, 5, 10, 50, ... anos usando técnicas semelhantes às aplicadas para estimativa de vazões máximas apresentadas no capítulo 14. As chuvas intensas de 1 dia de duração são, posteriormente, desagregadas para durações inferiores a 1 dia usando relações de altura pluviométrica entre durações consideradas típicas para uma região. Estas relações são obtidas a partir de dados de pluviógrafos. A tabela a seguir apresenta valores de relações entre durações que podem ser utilizados caso não existam dados de curva IDF. Tabela 18. 2: Relações de altura de chuva entre durações sugeridas pela CETESB para o Brasil, segundo Tucci (1993). Duração original Duração final Relações entre alturas pluviométricas 30 minutos 5 minutos 0,34 30 minutos 10 minutos 0,54 30 minutos 15 minutos 0,70 30 minutos 20 minutos 0,81 30 minutos 25 minutos 0,91 1 hora 30 minutos 0,74 24 horas 1 hora 0,42 24 horas 6 horas 0,72 24 horas 8 horas 0,78 24 horas 10 horas 0,82 24 horas 12 horas 0,85 1 dia 24 horas 1,14 233 A chuva máxima para um dado tempo de retorno e tempo de duração pode ser estimada usando dados de chuva máxima de 1 dia de duração e a tabela anterior. Por exemplo, supondo que a chuva máxima anual com tempo de retorno de 10 anos e 1 dia de duração em um determinado local, obtida a partir dos dados de um pluviômetro, seja 120 mm. Para estimar a chuva máxima com 30 minutos de duração neste local podemos usar as relações da seguinte forma: Chuva máxima de 1 dia: 120 mm Chuva máxima de 24 horas: P24h=120 x 1,14=136,8 Chuva máxima de 1 hora: P1h=136,8 x 0,42 = 57,5 Chuva máxima de 30 minutos: P30min=57,5 x 0,74 = 42,5. Assim, a chuva máxima de 30 minutos de duração e 10 anos de tempo de retorno seria estimada em 42,5 mm. A intensidade média desta chuva é 85 mm/hora. Distribuição temporal das chuvas de projeto Uma vez definida a intensidade e a duração de uma chuva de projeto é necessário definir sua distribuição temporal. A hipótese mais simples, utilizada no método racional para o cálculo das vazões máximas, é que a intensidade não varia durante todo o evento. Assim, a chuva tem uma distribuição temporal uniforme durante toda a sua duração. Por outro lado, na geração de chuvas de projeto mais longas, tipicamente utilizadas em cálculos de vazões baseadas no método do hidrograma unitário, normalmente considera-se que a intensidade da chuva varia ao longo do evento de projeto. Existem vários métodos para criar uma distribuição temporal para chuvas de projeto, e nenhum deles tem uma fundamentação mais profunda. Um método freqüentemente utilizado é conhecido como método dos blocos alternados (Chow et al., 1988). O método dos blocos alternados para definir a distribuição temporal das chuvas de projeto está baseado no uso de uma curva IDF para diferentes durações de chuva, menores do que a duração total da chuva de projeto. Por exemplo, considere que a chuva de projeto deve ter uma duração total de 120 minutos, e que será dividida em 6 intervalos de 20 minutos. Se considerarmos o tempo de retorno de 10 anos e a curva IDF do 8º. Distrito de Meteorologia, em Porto Alegre, cuja equação é dada no capítulo 3, temos a seguinte relação entre duração e intensidade: 20 minutos – 102,2 mm.hora- 1; 40 minutos – 67,4 mm.hora-1; 60 minutos – 51 mm.hora-1; 80 minutos – 41,4 mm.hora-1; 100 minutos – 35,0 mm.hora-1; 120 minutos – 30,4 mm.hora-1. A altura total de chuva para cada duração é obtida multiplicando a intensidadepela duração, e a altura incremental para cada intervalo de 20 minutos é dada pela subtração 234 entre a altura total para uma dada duração total menos o total da duração anterior, como pode ser observado na tabela que segue. Tabela 18. 3: Exemplo de elaboração de chuva de projeto a partir da curva IDF (primeira parte). Duração (minutos) Intensidade (mm.hora-1) Altura total (mm) Incremento (mm) 20 102.2 34.1 34.1 40 67.4 44.9 10.8 60 51.0 51.0 6.1 80 41.4 55.1 4.2 100 35.0 58.3 3.1 120 30.4 60.8 2.5 Observa-se na tabela anterior que os primeiros 20 minutos apresentam o maior incremento de chuva. Os 20 minutos seguintes apresentam o segundo maior incremento de chuva, e assim por diante (Tabela 18. 4). No método dos blocos alternados, os valores incrementais são reorganizados de forma que o máximo incremento ocorra, aproximadamente, no meio da duração da chuva total. Os incrementos (ou blocos de chuva) seguintes são organizados a direita e a esquerda alternadamente, até preencher toda a duração (Tabela 18. 5). A Figura 18. 1 apresenta o hietograma original, com os blocos de chuva organizados em ordem decrescente, como na Tabela 18. 4. A Figura 18. 2 apresenta o hietograma reorganizado pelo método dos blocos alternados, e corresponde aos valores apresentados na Tabela 18. 5. Figura 18. 1: Chuva de projeto com blocos em ordem decrescente. Figura 18. 2: Chuva de projeto com blocos reordenados pelo método dos blocos alternados. 235 Tabela 18. 4: Blocos de chuva de 20 minutos de duração organizados em ordem decrescente. Ordem decrescente Incremento (mm) 1 34.1 2 10.8 3 6.1 4 4.2 5 3.1 6 2.5 Tabela 18. 5: Blocos de chuva de 20 minutos de duração reorganizados pelo método dos blocos alternados. Ordem nova Posição original em ordem decrescente Incremento (mm) 1 5 3.1 2 3 6.1 3 1 34.1 4 2 10.8 5 4 4.2 6 6 2.5 Atenuação das chuvas com a área Bacias hidrográficas grandes têm menor probabilidade de serem atingidas por chuvas intensas simultaneamente em toda a sua área do que bacias pequenas. Chuvas de projeto são definidas a partir de dados coletados em pluviógrafos. Para utilizar as chuvas de projeto em bacias relativamente grandes é necessário compensar o fato que a intensidade média das chuvas em grandes áreas é menor. Normalmente é utilizado para isto um fator de redução pela área, como o desenvolvido em 1958, para algumas regiões dos EUA, ilustrado na Figura 18. 3. O fator de redução depende da área da bacia e da duração da chuva. O fator representa a relação entre chuva de pluviógrafo e chuva média na bacia. Chuvas de curta duração, que normalmente são mais localizadas, devem ser reduzidas por um fator mais intenso e chuvas de longa duração tem menos redução. O fator de redução apresentado na Figura 18. 3 foi desenvolvido originalmente com base em dados de redes de pluviógrafos. Atualmente estas curvas de fator de redução estão sendo revisadas com base em dados de radar. Na Figura 18. 3 estão sobrepostas duas curvas de fator de redução para a duração de 1 hora e 2 horas geradas a partir de dados de radar por Durrans et al. (2003) sobre as curvas originais, mostrando que existem grandes diferenças no fator, de acordo com os dados utilizados para seu cálculo. 236 Figura 18. 3: Fator de redução da chuva de projeto de acordo com a área da bacia e a duração da chuva – as linhas pretas foram obtidas em 1958 para algumas regiões dos EUA com base em dados de pluviógrafos e as linhas cinza foram obtidas a partir de dados de radar. Vazões máximas com base em transformação chuva-vazão Os métodos mais comuns para calcular as vazões máximas a partir da transformação de chuva em vazão são o método racional e os modelos baseados no hidrograma unitário. Em bacias pequenas, com chuvas de curta duração, pode ser adotado o hidrograma unitário. Já em bacias maiores, com chuvas mais demoradas, ou em casos em que se deseja, além da vazão máxima, o volume das cheias, é necessário utilizar modelos baseados no hidrograma unitário. O Departamento de Esgotos Pluviais (PORTO ALEGRE, 2005) sugere que, de acordo com a área da bacia usam-se métodos diferentes para cálculo da vazão, como apresenta o quadro 1. 237 Tabela 18. 6: Métodos de cálculo de vazão máxima, pelo Departamento de Esgotos Pluviais de PORTO ALEGRE. A (ha) MÉTODO A ≤ 200 Racional A > 200 Hidrograma Unitário – SCS Os limites de área que definem qual método utilizar não são gerais, de modo que cada órgão governamental define seus limites de acordo com a aplicação. As duas metodologias (Racional e do Hidrograma Unitário) estão em detalhes a seguir. O método racional para estimativa de vazões máximas O método mais simples é conhecido como método racional, e é aplicável para bacias de até, aproximadamente, 2 km2, embora alguns autores citem seu uso para bacias com área inferior a 15 km2 (Brutsaert, 2005). O método racional se baseia na seguinte expressão: 6,3 AiC Q ⋅⋅ = (18.1) onde Q é a vazão de cheia (m3.s-1); C é um coeficiente de escoamento superficial; i é a intensidade da chuva (mm.hora-1); e A é área da bacia hidrográfica (km2). A área de drenagem pode ser obtida a partir de mapas e de levantamentos topográficos. O coeficiente de escoamento pode ser avaliado a partir de condições do solo, vegetação e ocupação da bacia (veja tabelas seguintes). 238 Tabela 18. 7: Valores de C (coeficiente de escoamento do método racional) para diferentes superfícies. Superfície intervalo valor esperado Asfalto 0,70 a 0,95 0,83 Concreto 0,80 a 0,95 0,88 Calçadas 0,75 a 0,85 0,80 Telhado 0,75 a 0,95 0,85 grama solo arenoso plano 0,05 a 0,10 0,08 grama solo arenoso inclinado 0,15 a 0,20 0,18 grama solo argiloso plano 0,13 a 0,17 0,15 grama solo argiloso inclinado 0,25 a 0,35 0,30 áreas rurais 0,0 a 0,30 Tabela 18. 8: Valores de C (coeficiente de escoamento do método racional) de acordo com a ocupação da bacia. Zonas C Centro da cidade densamente construído 0,70 a 0,95 Partes adjacentes ao centro com menor densidade 0,60 a 0,70 Áreas residenciais com poucas superfícies livres 0,50 a 0,60 Áreas residenciais com muitas superfícies livres 0,25 a 0,50 Subúrbios com alguma edificação 0,10 a 0,25 Matas parques e campos de esportes 0,05 a 0,20 A intensidade da chuva é obtida a partir da curva IDF (veja capítulo 3) mais adequada ao local da bacia. Para obter a intensidade i é preciso definir a duração da chuva e o tempo de retorno. A duração da chuva é considerada igual ao tempo de concentração (veja capítulo 2). Esta hipótese é adotada para que o cálculo represente uma situação em que a vazão máxima ocorre quando toda a bacia está contribuindo para o exutório. 239 Vazões máximas usando o hidrograma unitário Modelos baseados no hidrograma unitário são utilizados para calcular vazões máximas e hidrogramas de projeto com base nas chuvas de projeto. Neste caso, uma metodologia de separação de escoamento, como a do SCS descrita no capítulo 10, e o método do hidrograma unitário, descrito no capítulo 11, são utilizados considerando eventos de chuva de projeto. Admite-se, implicitamente, que uma chuva de T anos de tempo de retorno provoque uma vazão máxima de T anos de tempo de retorno. Os passos para obter a vazão máxima com base no hidrograma unitário são detalhados a seguir: 1. Calcular área da bacia 2. Calcular tempo de concentração da bacia 3. Identificar posto pluviográfico com dados ou curva IDF válida em região próxima. 4. Com base nas caracaterísticas da bacia (área e tempo de concentração) define- se o hidrograma unitário sintético. 5. Com base em na curva IDF define-se a chuva de projeto, com duração igual ao tempo de concentração da bacia, e organizada em blocos alternados, ou metodologia semelhante. 6. A chuva de projeto deve ser multiplicada pelo fator de reduçãode área, de acordo com a área da bacia e com a duração total da chuva. 7. Com base na chuva de projeto corrigida do passo anterior e usando uma metodologia de separação de escoamento como o método do coeficiente CN, calcula-se a chuva efetiva. 8. Com base na chuva efetiva e no hidrograma unitário é feita a convolução para gerar o hidrograma de projeto. 9. A maior vazão do hidrograma de projeto é a vazão máxima estimada a partir da chuva. Estes passos podem ser repetidos para outros tempos de retorno e para outras condições de ocupação da bacia. A utilização deste método é comum quando se deseja saber quais serão as vazões máximas em uma bacia num cenário futuro, em que aumentou a área urbanizada da bacia. 240 Os cálculos de vazão máxima a partir da chuva e do hidrograma unitário raramente são realizados de forma manual, ou com base em planilhas e calculadora. A situação mais normal atualmente é a utilização de modelos hidrológicos para a realização destes cálculos. Os modelos hidrológicos utilizam técnicas como as descritas nos capítulos anteriores para calcular as vazões a partir da chuva. Além de separação de escoamento e hidrograma unitário, os modelos hidrológicos ainda permitem fazer os cálculos de propagação de escoamento em rios e reservatórios, como os descritos nos capítulos anteriores. Um modelo hidrológico deste tipo é o modelo IPH-S1, desenvolvido no Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, que é disponibilizado em uma versão com interface amigável, desenvolvida em cooperação com a UFPEL. Exercícios 1) Defina a chuva de projeto de 3 horas de duração e tempo de retorno 5 anos com base na curva IDF do Aeroporto de Porto Alegre (capítulo 3). Use o método dos blocos alternados. 2) Estime a vazão máxima de projeto para um galeria de drenagem sob uma rua numa área comercial de Porto Alegre, densamente construída, cuja bacia tem área de 35 hectares, comprimento de talvegue de 2 km e diferença de altitude ao longo do talvegue de 17 m. 3) Calcule o hidrograma de projeto e a vazão máxima de uma bacia próxima de Porto Alegre, com área de 10 Km2, comprimento do talvegue de 5 Km, ao longo do qual existe uma diferença de altitude de 300 m. A bacia tem solos argilosos e vegetação de campos e florestas. Considere o tempo de retorno de 10 anos. 4) Qual é o aumento da vazão máxima da bacia anterior caso a bacia seja urbanizada com áreas residenciais? 5) Qual é o aumento do volume do hidrograma resultante caso a bacia seja urbanizada com áreas residenciais?