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envolvidos no arbítrio e na violência. Pelo menos, suprimiria esse grave fator
de suspeição, criado pela dependência e pela subordinação funcional.
CLASSIFICAÇÃO
Levando-se em consideração o enfoque ou a sua destinação, a Medicina
Legal pode ser classificada sob os ângulos histórico, profissional, doutrinário
e didático.
A classificação sob o prisma histórico diz respeito às várias fases
evolutivas desta ciência, que a divide em Medicina Legal Pericial, Medicina
Legal Legislativa, Medicina Legal Doutrinária e Medicina Legal Filosófica.
A Medicina Legal Pericial, também chamada de Medicina Forense ou
Medicina Legal Judiciária, é a sua forma mais anterior e está voltada aos
interesses legispericiais da administração da Justiça. A Medicina Legal
Legislativa contribui na elaboração e revisão das leis em que se disciplinam
fatos ligados às ciências biológicas ou afins. A Medicina Legal Doutrinária –
de caráter mais refinado e compromisso com a ordem do pensar – teve início
entre nós com Afrânio Peixoto no segundo quartel do século passado. Trata
de temas subsidiários que sustentam e explicam certos institutos jurídicos
onde o conhecimento médico e biológico faz-se necessário e, por isso, ela é,
na verdade, bem mais uma ordem do pensar do que do agir. E a Medicina
Legal Filosófica, mais recente, discute os assuntos ligados à Ética, à Moral e
a Bioética Médica no exercício ou em face do exercício da Medicina ou tenta
explicar, por meio de ensaios epistemológicos, o agir e o pensar médico-
legal.
A classificação sob a visão profissional da Medicina Legal está inclinada
à forma como se exerce na prática essa atividade. Assim, divide-se em
Medicina Legal Pericial, Criminalística e Antropologia Médico-Legal, que
são exercidas respectivamente pelos Institutos de Medicina Legal, de
Criminalística e de Identificação.
Levando-se em conta o interesse doutrinário do Direito, naquilo que lhe é
mais específico, pode-se dividir a Medicina Legal em Medicina Legal Penal,
Medicina Legal Civil, Medicina Legal Canônica, Medicina Legal Trabalhista
e Medicina Legal Administrativa. Cada uma dessas partes trata dos diversos
ramos do Direito positivo mais estruturados.
Sob o ponto de vista didático, a Medicina Legal está dividida em
Medicina Legal Geral (Deontologia e Diceologia) e Medicina Legal Especial.
Na primeira parte, também chamada de Jurisprudência Médica, estudam-
se as obrigações e os deveres (deontologia) e os direitos dos médicos
(diceologia), particularizando-se nos capítulos sobre Exercício Legal e
Exercício Ilegal da Medicina, Segredo Médico, Honorários Médicos,
Responsabilidade Médica e Ética Médica, assuntos que orientam o médico no
exercício regular da sua profissão.
A Medicina Legal Especial disciplina-se nos seguintes capítulos:
A) Antropologia médico-legal. Estuda a identidade e a identificação
médico-legal e judiciária.
B) Traumatologia médico-legal. Trata das lesões corporais sob o ponto
de vista jurídico e das energias causadoras do dano.
C) Sexologia médico-legal. Vê a sexualidade do ponto de vista normal,
anormal e criminoso.
D) Tanatologia médico-legal. Cuida da morte e do morto. Analisa os
mais diferentes conceitos de morte, os direitos sobre o cadáver, o destino dos
mortos, o diagnóstico de morte, o tempo aproximado da morte, a morte
súbita, a morte agônica e a sobrevivência; a necropsia médico-legal, a
exumação e o embalsamamento. E, entre outros assuntos, ainda analisa a
causa jurídica de morte e as lesões in vita e post-mortem.
E) Toxicologia médico-legal. Estuda os cáusticos e os venenos, e os
procedimentos periciais nos casos de envenenamento.
F) Asfixiologia médico-legal. Detalha os aspectos das asfixias de origem
violenta, como esganadura, enforcamento, afogamento, estrangulamento,
soterramento, sufocação direta e indireta, e as asfixias produzidas por gases
irrespiráveis.
G) Psicologia médico-legal. Analisa o psiquismo normal e as causas que
podem deformar a capacidade de entendimento da testemunha, da confissão,
do delinquente e da própria vítima.
H) Psiquiatria médico-legal. Estuda os transtornos mentais e da conduta,
os problemas da capacidade civil e da responsabilidade penal sob o ponto de
vista médico-forense.
I) Medicina Legal Desportiva. Justificada, não só pela importância
econômica, social e cultural, mas também pelo que os esportes de competição
apresentam nos dias atuais, com ênfase para o sigilo profissional, prontuários,
dopings consentidos ou tolerados, quantificação e qualificação do dano com
repercussão no rendimento esportivo.
J) Criminalística. Investiga tecnicamente os indícios materiais do crime,
seu valor e sua interpretação nos elementos constitutivos do corpo de delito.
Estuda a criminodinâmica.
L) Criminologia. Preocupa-se com os mais diversos aspectos da natureza
do crime, do criminoso, da vítima e do ambiente. Estuda a criminogênese.
M) Infortunística. Estuda os acidentes e as doenças do trabalho e as
doenças profissionais, não apenas no que se refere à perícia, mas também à
higiene e à insalubridade laborativas.
N) Genética médico-legal. Especifica as questões voltadas ao vínculo
genético da paternidade e maternidade, assim como outros assuntos ligados à
herança.
O) Vitimologia. Trata da vítima como elemento inseparável na eclosão e
justificação dos delitos.
IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA
MEDICINA LEGAL
A Medicina Legal é a contribuição médica, técnica e biológica às questões
complementares dos institutos jurídicos e às questões de ordem pública ou
privada quando do interesse da administração judiciária. É, portanto, a mais
importante e significativa das ciências subsidiárias do Direito.
Hoje, muito mais ainda, grande é o proveito dos juristas na intimidade
com as questões médico-legais, seja na sua utilização quando do trato das
questões periciais nos seus pleitos judiciais, seja na análise dos diversos
ramos do Direito que necessitam de interpretação médico-jurídica que
encerra a nova doutrina.
Tão grande tem sido a contribuição desta notável disciplina jurídica que é
a Medicina Legal, com o alargar dos horizontes que permitem a ciência e a
tecnologia hodiernas que, sem exageros, poder-se-ia dizer que a
administração judiciária fracassaria despencando no fosso do erro judiciário e
a doutrina emperraria sem poder explicar certos fenômenos ali expostos e
discutidos.
O registro criminográfico da violência e seu conteúdo perverso projetam-
se além da expectativa mais alarmista. Verifica-se nos dias que correm uma
prevalência delinquencial que extrapola os índices tolerados e suas feições
convencionais. Uma criminalidade diferente, anômala e muito estranha na
sua maneira de agir e na insensata motivação.
O Direito moderno não pode deixar de aceitar a contribuição cada vez
mais íntima da ciência, e o operador jurídico não deve desprezar o
conhecimento dos técnicos, pois só assim é possível a aproximação da
verdade que se quer apurar. Não é nenhum exagero afirmar que é
inconcebível uma boa justiça sem a contribuição da Medicina Legal,
cristalizando-se a ideia de que a Justiça não se limita ao conhecimento da lei,
da doutrina e da jurisprudência.
Por outro lado, muitos têm pensado que basta ser um bom médico para
desempenhar bem e fielmente as funções periciais. É puro engano. A
Medicina Legal requer conhecimentos especiais e trata de assuntos
exclusivamente seus, como, por exemplo, o infanticídio, a asfixia mecânica e
a identificação médico-legal. Exige de quem a exerce conhecimentos
jurídicos que só podem ser assimilados com a atividade pericial ante os
tribunais no trato das questões médicas de interesse da Lei.
É mero engano também acreditar que a Medicina Legal seja apenas
aplicada aos casos particulares dos conhecimentos gerais que constituem os
diversos capítulos da Medicina. É necessário saber distinguir o certo do
duvidoso, explicar clara e precisamente os fatos para uma conclusão acertada,
não omitindo detalhes que, para o médico geral, não têm nenhum valor, mas
que, na Medicina Legal, assumem importância muitas vezes transcendente.Para o juiz, é indispensável o seu estudo, a fim de que possa apreciar
melhor a verdade em um critério exato, analisando os informes periciais e
adquirindo uma consciência dos fatos que constituem o problema jurídico.
Talvez seja essa a mais fundamental missão da perícia médico-legal: orientar
e iluminar a consciência do magistrado.
Muitas vezes, a liberdade, a honra e a vida de um indivíduo estão
subordinadas ao esclarecimento de um fato médico-legal que se oferece sob
os mais diversos aspectos.
Se o juiz não possui uma cultura médico-legal razoável, poderá apreciar
esses efeitos erroneamente, conduzindo a um erro judicial, um dos mais
graves problemas da administração da justiça, transformando a sentença em
uma tragédia.
Argumenta-se que a falta de conhecimentos médico-legais do juiz nos
fatos de implicação médica será suprida pelo perito. Mas nem sempre os
informes periciais correspondem à verdade dos fatos ou procedem de pessoas
capacitadas, traduzindo, portanto, graves contradições ou pontos de vista
menos aceitáveis. Exige, desse modo, do aplicador da Lei, o conhecimento da
Medicina Legal para emitir sempre pareceres concisos e racionais.
Sobre o assunto, assim se reportou Virgílio Donnice: “A grande
novidade, porém, é a dos criminosos habituais ou por tendência, com a
aplicação da pena indeterminada, e a reincidência, que não ocorrerá se,
depois de uma sentença condenatória, cumprida ou extinta, decorrer período
de tempo superior a 5 anos, sendo excluídos, para efeito da reincidência, os
crimes puramente militares e políticos. Para a ampliação da pena, o juiz terá,
obrigatoriamente, de possuir uma especialização penal e criminológica. pois
ele, na sentença, deve expressamente referir os fundamentos da medida da
pena, apreciando a gravidade do crime praticado, a maior ou menor extensão
do dano ou perigo do dano, os meios empregados, o modo de execução, os
motivos determinantes, as circunstâncias de tempo e lugar, os antecedentes
do réu e sua atitude de insensibilidade, indiferença ou arrependimento após o
crime, levando-se em consideração, também, na fixação da pena de multa, a
situação econômica do condenado. Isto obrigará o juiz a ter, além da
competência jurídico-penal e criminológica, uma sensibilidade apurada,
fazendo-o participar de todo o processo e, muito especialmente, do
interrogatório do acusado, fase processual que terá grande importância.”
Assim, mais do que nunca, necessitará a autoridade judiciária de
elementos de convicção quando apreciar a prova atendendo à culpabilidade,
aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às
circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da
vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e
prevenção do crime: I – as penas aplicáveis dentre as cominadas; II – a
quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III – o regime
inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV – a substituição da
pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível,
como recomenda o artigo 59 do Código Penal. Em suma, não só a análise da
gravidade do crime praticado, nos motivos, nas circunstâncias e na
intensidade do dolo ou da culpa, mas a sua forma de indiferença e
insensibilidade, a existência, a qualidade e a quantidade do dano, os meios
empregados, o modo de execução e, até se possível, a ideia bem aproximada
da complexidade do estado emotivo, do transtorno mental e do
comportamento do autor. Esse é o grande desafio aos novos magistrados:
além do conhecimento humanístico e jurídico, uma sensibilidade cúmplice na
apreciação quantitativa e qualitativa da prova. Diga-se mais: não deve o juiz
ficar sozinho no cumprimento e nas exigências dessa nova ordem.
O advogado, na sua atividade liberal, também necessita muito destes
conhecimentos no curso das soluções dos casos de interesse dos seus
representados. Deve, na melhor intenção, ser um crítico da prova, no sentido
de não aceitar a “absolutização” ou a “divinização” de certos resultados,
apenas pelo fato de constituírem avanços recentes da ciência ou da tecnologia
moderna.
O promotor público, como responsável pelo ônus da produção da prova,
tem que justificá-la e explicá-la em seus resultados e suas razões. Exige-se
dele, hoje, uma contribuição mais efetiva e mais imediata.
Os médicos também carecem de conhecimentos do Direito Médico, no
estudo da Jurisprudência Médica, tão imprescindíveis à sua vida profissional,
e, ainda, de uma consciência pericial nos casos em que haja um interesse da
Justiça na apreciação de um fato inerente à vida e à saúde do homem.
Levando em conta as sutilezas das questões médico-legais em que o
perito é chamado a intervir, dizia Alcântara Machado: “Tão frequentes e
difíceis e relevantes são elas, que fizeram surgir a Medicina Legal como ramo
distinto dos outros ramos de conhecimentos, e a prática médico-legal como
arte distinta da clínica.”
Isto não quer dizer que esta Ciência tenha apenas o caráter prático,
informativo, pericial. Hoje, a Medicina Legal moderna, além de contribuir
nesse sentido, ainda ajusta o pensamento do doutrinador e complementa as
razões do legislador nos fatos de interpretação médica e biológica.
Simplesmente “relatar em juízo”, conforme definiu Ambroise Paré, é muito
pouco, porque isso qualquer um faz, bastando ter experiência e bom senso. A
Medicina Legal também contribui com precisão e eficiência às necessidades
gerais do Direito, transcendendo assim ao simples caráter informativo.
Onde não há uma verdadeira contribuição da Medicina Legal, fica a
Polícia Judiciária à mercê da boa vontade de um ou de outro médico, nos
hospitais, maternidades ou clínicas privadas, para a aquisição de um relatório
médico-pericial a fim de esclarecer um fato médico de interesse da Lei. Será
uma Polícia Judiciária desaparelhada, incapaz de atender a um mínimo
necessário para o cumprimento de sua alta e nobre missão: a de ajudar a
Justiça quando da apuração dos mais complexos problemas que interessam ao
administrador dos tribunais. Cada vez que crescem as necessidades da
Justiça, maiores são as possibilidades da ciência médico-legal, pois dia a dia
ganha mais impulso e mais perfeição, sendo hoje um instrumento
indispensável em toda investigação que exija o esclarecimento de um fato
médico.
METODOLOGIA DE ENSINO
Mesmo que a Medicina Legal seja uma só, no seu conceito e na sua
concepção prática, entendemos existirem metodologias de ensino diferentes
quanto a sua abordagem nos cursos de Medicina ou de Direito.
No curso médico, deve-se enfatizar a Medicina Legal Pericial, tendo em
vista um projeto de formação de um profissional capaz de atender à Justiça
como perito oficial ou nomeado, levando-se em conta as diversas formas de
contribuição técnica no dia a dia da administração dos tribunais. Ao mesmo
tempo, quando vinculado à Deontologia Médica, a análise e a discussão de
temas que interessem na formação ética de cada médico.
A distribuição programática da matéria nos cursos de Medicina deve ser
feita de acordo com a sequência dos capítulos ou unidades encontrados nos
diversos tratados da especialidade, os quais têm uma progressão de assuntos
ditada pela evolução do seu aprendizado.
No curso jurídico, recomenda-se a ênfase à Medicina Legal Doutrinária,
como forma de subsidiar e complementar as diversas formas de direito
positivo ou de propiciar meios para se assimilarem as informações técnicas e
científicas constantes dos relatórios legispericiais. Não quer dizer que se
deixe de ensinar a Medicina Legal Pericial, pois ela é também necessária na
prática diuturna dos operadores jurídicos.
A seleção do conteúdo programático nos cursos de Direito pode ser
distribuída especificamente de acordo com os interesses de cada ramo do
direito positivo, em Medicina Legal Penal (conceito; importância e
contribuição da Medicina Legal nas questões criminais; peritos e perícias e de
natureza penal; identidade e identificação criminal; energias causadoras do
dano;lesões corporais sob o ponto de vista jurídico-penal; periclitação da
vida e da saúde; transtornos da identidade sexual e aborto legal e aborto
criminoso; posse sexual mediante fraude, estupro e atentado violento ao
pudor; infanticídio; toxicofilias, embriaguez alcoólica; tanatologia médico-
legal; imputabilidade penal: limites e modificadores), Medicina Legal Civil
(conceito; importância e contribuição da Medicina Legal às questões de
direito privado; identidade e identificação civil; peritos e perícias de interesse
civil; perícia do nascituro e provas do início da personalidade civil; avaliação
do dano corpóreo de natureza jurídico-civil; casamento, separação e divórcio;
política demográfica; capacidade civil: limites e modificadores; psicologia
judiciária civil: estudo do testemunho e da confissão; morte real e morte
presumida), Medicina Legal Trabalhista (conceito; relação e contribuição às
questões trabalhistas; peritos e perícias das doenças do trabalho, das doenças
profissionais e acidentes do trabalho; avaliação do dano corpóreo de natureza
trabalhista; deficiência e incapacidade; acidente do trabalho; simulação,
dissimulação e metassimulação em infortunística do trabalho; psicologia do
trabalho; fisiologia do trabalho; noções de rendimento muscular; poluição
ambiental: contaminação, ruídos e irradiações; necropsias de interesse
trabalhista) e Medicina Legal Administrativa (conceito; importância e
contribuição da Medicina Legal às questões da administração pública; peritos
e perícias em servidores públicos; perícia previdenciária; juntas médicas
oficiais; avaliação da capacidade laborativa do servidor público; formalidades
do exame biométrico; auditorias: tipos, fundamentos e normas; critérios para
readaptação de função pública; avaliação do dano corpóreo de natureza
administrativa; atividades penosas e periculosidade na função pública;
necropsias de interesse administrativo).
SITUAÇÃO ATUAL E PROSPECTIVA
Mesmo cientes da incorporação de novas técnicas, do avanço da ciência e da
contribuição multiprofissional, a Medicina Legal em nosso país dispõe no
campo pericial de um pequeno progresso, mediante a atuação de alguns
setores públicos na criação, recuperação e aparelhamento dos laboratórios,
nas instituições especializadas, e na reciclagem do pessoal técnico.
Acreditamos que só com a total incorporação de tais recursos a sociedade
resistirá ao resultado anômalo e perverso de uma violência medonha que
cresce e atormenta.
O correto seria investir mais e mais na contribuição técnica e científica,
dotando a administração judiciária de elementos probantes de transcendente
valor no curso da apreciação processual, porque uma das funções do
magistrado, entre tantas, é buscar a verdade dos fatos.
Poderiam ser usados todos esses formidáveis recursos científicos e
tecnológicos disponíveis em favor da prova; como, por exemplo, a análise
biomolecular, a bioquímica da detecção de drogas e até mesmo a energia
nuclear, além dos modernos computadores, cintilógrafos e tomógrafos de
ressonância magnética, como contribuição indispensável aos interesses de
ordem pública e social.
A Medicina Legal no campo experimental no Brasil ainda se mostra
incipiente e tímida. Apenas em alguns centros acadêmicos de pós-graduação,
ainda verificam-se alguns focos esparsos de pesquisa. As publicações de
trabalhos em periódicos desta área, seja em quantidade ou qualidade, são
desanimadoras.
No terreno doutrinário, em que a Medicina Legal contribui de forma mais
eloquente no ajuste dos institutos do direito positivo, tudo ocorrerá a partir
das solicitações mais concretas que essas formas de direito venham a fazer e
da evolução do próprio pensamento médico-legal; assim, cada vez mais serão
enfatizadas as questões ligadas à engenharia genética, como as dos animais
transgênicos, clones humanos e terapia gênica ou, nos casos mais delicados
da reprodução humana, em que se focalizam principalmente algumas
indagações sobre a natureza jurídica e o destino dos embriões congelados.
No aspecto pedagógico, a Medicina Legal brasileira já viveu dias mais
iluminados, quando as cátedras eram regidas pelos grandes mestres, os quais
criaram em torno de si eminentes discípulos e respeitáveis escolas. Hoje, com
honrosas exceções, diante da desordenada e irresponsável criação de cursos
médicos e jurídicos, recrutam-se profissionais sem nenhuma qualificação e
intimidade com a matéria. Assim, essas cátedras estão muito a dever à nossa
tradição e, certamente, se não houver um trabalho bem articulado na tentativa
de recuperar tal prestígio, no futuro teremos a Medicina Legal ensinada em
um padrão muito distante de suas insupríveis necessidades. O exemplo disso
é que muitas das Faculdades de Direito já têm esta disciplina como matéria
optativa e, noutras, ainda pior: a disciplina não existe. Vai sendo ocupada por
outras disciplinas de existência e utilidade duvidosas. Resta, disso tudo, a
dúvida sobre a qualidade desses futuros profissionais que estão sendo
formados.
Mesmo assim, acreditamos no futuro da Medicina Legal com muito
otimismo, porque essa área de atividade profissional torna-se cada vez mais
necessária às aspirações das pessoas que querem viver bem em uma
sociedade organizada, onde tenham as condições de realizar seus destinos e
seus sonhares. Para tanto, há de se exigir mais do poder público.
No que se refere ao ensino, é preciso valorizar a atividade docente e dotar
o aparelho formador de condições para o ensino da Medicina Legal em
caráter obrigatório, tanto em Direito como em Medicina, tendo sempre à
frente dessas disciplinas profissionais qualificados e compromissados com
esse projeto. Fazem-se também necessárias a criação e a ampliação dos
cursos de especialização, de mestrado e de doutorado em Medicina Legal,
não só como forma de qualificar o pessoal docente, mas também de recrutar
outras vocações.
O problema da pesquisa e da investigação de interesse médico-legal é
ainda mais complexo, no qual devem ser focalizadas as disponibilidades para
o setor. O interessante nesse aspecto é sensibilizar as Universidades públicas
ou privadas em relação à contratação de pesquisadores, cuja tarefa seria a de
possibilitar a produção científica de qualidade nesta área de concentração.
MEDICINA LEGAL BASEADA EM
EVIDÊNCIAS
A exemplo do que ocorre hoje com a medicina em geral, já se fala na
existência de uma Medicina Legal fundada em resultados estatisticamente
significantes, padronizada, cética, metanalítica, síntese do resultado
matemático de vários estudos dirigidos a uma mesma hipótese. E a esta ideia
se chamará de Medicina Legal Baseada em Evidências.
Significaria, portanto, que o “mais certo” adviria dos resultados
científicos disponíveis e procedentes da pesquisa e da investigação, e não do
que possam dispor as teorias fisiopatológicas consagradas ou a experiência
individual. Em suma, uma medicina legal de resultados.
Da avaliação solitária e subjetiva do perito legista passa-se a reconhecer
apenas, como de relevante valor científico, as informações oriundas da
pesquisa de cientistas de peso em estudos demorados e em expressivo
número de casos observados em institutos e laboratórios de excelência.
Todavia, a facilidade de analisar e utilizar a perícia priorizada em
evidências não está ainda na disponibilidade e no domínio de todos os que
exercem a Medicina Legal. As chamadas publicações de elite, com raras
exceções, são de utilidade discutível na prática pericial cotidiana. O que se
viu nestes últimos anos foi uma verdadeira enxurrada de publicações médico-
legais, algumas em notória contradição, o que torna mais complicada ainda a
decisão dos peritos, principalmente dos que estão na ponta do sistema. As
experiências trocadas entre peritos de mesma área de concentração e que
atuam em uma mesma realidade têm se mostrado com mais proveito.
O conhecimento médico-legal que se aplica diariamente na prática
profissional nem sempre é aquele que existe na literatura mais sofisticada das
revistas especializadas. Certamente não.É do aprendizado pessoal, até porque
todo conhecimento começa da experiência de cada um no dia a dia. Isso não
quer dizer que esta cultura deixe de vir também da experiência de tantos
outros que publicam ou divulgam seus conhecimentos. Outra coisa: nem
sempre as decisões mais acertadas são as dos que possuem maior saber
científico.
Toda ciência experimental é um saber dedutivo e não indutivo. Tem uma
dedução empírica, nunca é completa e suas conclusões são sempre prováveis.
O princípio aristotélico de que as verdades científicas são sempre certas e
verdadeiras tende a se modificar quando o assunto em discussão é uma
ciência indutiva e experimental.
Um dos óbices à incorporação da Medicina Legal Baseada em Evidências
é a falta de condições de acesso às publicações que se multiplicam no mundo
inteiro e de análise crítica aos artigos e matérias de periódicos, quando o
profissional não estaria em condições de elaborar suas próprias conclusões,
ficando sempre prisioneiro dos autores dos textos, só pelo fato de estar
publicado em revista de qualidade e de conceito garantidos. O risco desta
nova ordem é fazer acreditar existir mais evidências do que a Medicina Legal
realmente pode ter e apresentar.
Nenhum expert pode presumir-se de autoridade incapaz de erro, mesmo
não intencional, porque não existe verdade soberana. Por isso, é sempre
aconselhável não se procurar certeza absoluta quando tudo isso se mostra
impossível diante de decisões instáveis, pois os caminhos da Medicina Legal
são contingentes e sujeitos a falhas e não há na sua prática “verdades
derradeiras” ou “verdades soberanas”.
Mesmo os defensores mais exaltados desta nova ideologia não escondem
algumas desvantagens neste método: utilização de muito tempo em pesquisa;
elaboração de um trabalho intelectual complexo; dificuldade de se fazer uma
revisão sistemática sozinho; falta de subsídios facilmente disponíveis para
resolver a maioria das questões periciais; existência de estudos não
consensuais ou contraditórios e de estudos quase sempre projetados em um
contexto diferente em que se encontra o caso-questão.
A própria expressão “evidência”, tal qual vem sendo colocada aqui, já se
mostra inconsistente, pois se diz que algo é evidente quando prescinde de
prova ou quando dispensa uma justificação. A evidência é inimiga da prova.
Ela é a consagração da verdade. Assim, evidente é o que se mostra notório.
Mais: o importante é saber o que se pode considerar como evidência e quem
a determina como “fato concreto”.
Por outro lado, definir evidência em Medicina Legal como “dados e
informações que comprovam achados e suportam opiniões”, isto não é o
bastante para oferecer a segurança que se espera. Como qualificar uma
Medicina Legal que se diz evidente, racional e científica, quando ela depende
tão só de percentuais levantados em dados estatísticos? E o que fazer, por
exemplo, quando se sabe que há casos na Medicina Legal Pericial para os
quais não se conta com nenhuma evidência convincente?
O risco das ideologias no campo da Medicina Legal Baseada em
Evidências está no seu caráter reacionário e centralizador por não admitir o
pensar ou o agir individual. Sua inclinação é pelas ideias abstratas. E o mais
desanimador neste paradigma é que, quanto mais complexo é o caso, menos
evidências científicas ela dispõe para uma convincente tomada de decisão.
Assim, fica bem evidente que ninguém de bom senso poderia voltar-se
contra todo este acervo cultural e toda contribuição tecnológica que vem se
incorporando às ciências médico-legais nestes últimos tempos, ou pelo menos
ficar indiferente a ambos. Nem tampouco o que tudo isto pode resultar de
contribuição cada vez mais eficaz em favor dos melhores resultados periciais
e do que isto pode representar à ordem pública e social.
No entanto, não se pode admitir serenamente que a perícia médico-legal
venha abrir mão da intuição, das teorias fisiopatológicas consagradas e da
experiência pessoal, pois não existe nenhuma análise metodológica nem
nenhuma prova científica aprimorada nesta atividade que não tenham como
partida a vivência e a observação individual na prática pericial.
O ideal será sempre a associação da investigação científica, do ensino
médico-legal continuado, das teorias fisiopatológicas consagradas e da
contribuição qualificada de cada experiência pessoal. E que a aplicação
racional da informação científica e a experiência da prática pericial estejam
voltadas para um objetivo que sempre destacou esta atividade como um
instrumento de indiscutível valor.
MEDICINA LEGAL E DIREITOS
HUMANOS
Toda e qualquer ação que tenha como destino as pessoas e o seu modo de
viver implica necessariamente o reconhecimento de certos valores. Qualquer
que seja a maneira de abordar esta questão se chegará ao entendimento de
que o mais significativo desses valores é sempre o próprio ser humano, no
conjunto de seus atributos materiais, físicos e morais. A prática da Medicina
Legal constitui-se em um instrumento de grande valia em favor dos direitos
humanos. Ao assumir a profissão como um ato político e uma maneira de
comprometimento social, o perito faz com que a atividade pericial não seja
apenas o uso de um amontoado de regras técnicas mas um ato da maior
significação na permanente busca da cidadania.
 A vida humana como valor ético. O valor da vida é de tal magnitude
que, até mesmo nos momentos mais graves, quando tudo parece perdido,
dadas as condições mais excepcionais e precárias – como nos conflitos
internacionais, na hora em que o direito da força se instala negando o próprio
Direito, e quando tudo é paradoxal e inconcebível –, ainda assim a intuição
humana tenta protegê-la contra a insânia coletiva, criando regras que
impeçam a prática de crueldades inúteis.
Quando a paz passa a ser apenas um instante entre dois tumultos, o
homem tenta encontrar nos céus do amanhã uma aurora de salvação. A
ciência, de maneira desesperada, convoca os cientistas a se debruçarem sobre
as bancadas de seus laboratórios, na procura de meios salvadores da vida.
Nas mesas das conversações internacionais, mesmo entre intrigas e astúcias,
os líderes do mundo inteiro tentam se reencontrar com a mais irrecusável de
suas normas: o respeito pela vida humana.
Assim, no âmago de todos os valores está o mais indeclinável de todos
eles: a vida do homem. Sem ela, não existe a pessoa humana. Não existe a
base de sua identidade. Mesmo diante da proletária tragédia de cada homem e
de cada mulher, quase naufragados na luta desesperada pela sobrevivência do
dia a dia, ninguém abre mão dos seus direitos de sobrevivência. Essa
consciência é que faz a vida mais que um bem: um valor.
Hoje, a partir dessa concepção, a vida passa a ser respeitada e protegida
não só como um bem afetivo ou patrimonial, mas pelo que ela se reveste de
valor ético. Não se constitui apenas de um meio de continuidade biológica,
mas de uma qualidade e de uma dignidade que faz com que cada um realize
seu destino de criatura humana.
Sendo os direitos humanos uma proposta em favor do bem comum, não
pode a Medicina Legal ser desvinculada do conjunto das ferramentas em
favor das necessidades individuais e coletivas. Faz parte de um sistema de
forças que conduz o homem na luta pela liberdade e pela justiça social.
 A vida humana como valor jurídico. Vivemos sob a égide de uma
Constituição que orienta o Estado no sentido do respeito à “dignidade da
pessoa humana”, tendo como normas a promoção do bem comum, a garantia
da integridade física e moral do cidadão e a proteção incondicional da vida e
da liberdade. Tal proteção é de tal forma solene que o atentado a essa
integridade eleva-se à condição de ato de lesa-humanidade: um atentado
contra todos os homens.
Cada dia que passa, a consciência atual, despertada e aturdida pela
insensibilidade e pela indiferença do mundo tecnicista, começa a se
reencontrar com a mais lógica de suas normas: a defesa incondicional dos
direitos humanos.
Essa consciência de que tais direitos necessitam de uma imperiosa
proteção cria uma sériede regras que vai se ajustando mais e mais com cada
agressão sofrida, não apenas no sentido de se criarem dispositivos legais, mas
como maneira de estabelecer formas mais fraternas de convivência. Este, sim,
seria o melhor caminho.
Tudo isso sedimenta a ideia de que o ser humano é ornado de especial
dignidade e que isto deve ser aplicado com clareza em defesa da proteção das
necessidades e da sobrevivência de cada um. Os direitos fundamentais e
irrecusáveis da pessoa humana devem ser definidos por um conjunto de
normas, possibilitando que cada um tenha condições de desenvolver suas
aptidões.
 A defesa da pessoa e da vida e os direitos humanos. O mais efetivo
marco em favor da defesa da pessoa humana e, consequentemente, da sua
vida vem da vitória da Revolução Francesa, com a edição da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, na qual já no seu artigo 1o se lê:
“Todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.” E, no
artigo 5o, enfatiza-se ainda mais quando diz: “Ninguém será submetido à
tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.”
Mesmo que o mundo tenha assistido a dois grandes conflitos
internacionais no século 20 e que algumas pessoas continuem cada vez mais
em busca de privilégios e vantagens individuais, não se pode negar que algo
vem sendo feito em favor dos valores humanos. O que nos faz pensar assim é
o crescimento de uma parcela significativa da sociedade que já se
conscientizou, de maneira isolada ou em grupos, que a defesa dos direitos
humanos não é apenas algo emblemático, mas um argumento muito forte em
favor da sobrevivência do homem. Isso não quer dizer que não haja, por parte
de alguns, a alegação de que a defesa dos direitos humanos seja um risco para
a sociedade, uma subversão da ordem pública, um jogo de interesses
ideológicos ou uma ameaça aos direitos patrimoniais. E, até mesmo, por parte
de outros, seja por ingenuidade ou má fé, os quais admitem que a luta em
favor dos direitos humanos é uma apologia ao crime e um endosso ao
criminoso.
A partir da edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela
Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 1948, embora sem
eficácia jurídica, pode-se dizer que ela representa um momento importante na
história das liberdades humanas, não apenas pelo que ali se lê em termos do
ideal de uma convivência humana, mas pelas declaradas adesões dos países-
membros desta Organização.
Espera-se que a humanidade vá construindo um ideário em que fiquem
evidentes a importância da valorização da pessoa e o reconhecimento
irrecusável dos direitos humanos. Não adianta todo encantamento com o
progresso da técnica e da ciência se isso não for a favor do homem, assim,
este progresso será algo pobre e mesquinho.
A verdade é que o fato de o ser humano sofrer dano aos seus direitos
deliberadamente é tão antigo quanto a história da própria Humanidade.
Atualmente, malgrado um ou outro esforço, muitos são os países que ainda
praticam, ou toleram, formas de castigos físicos e privação injustificada da
liberdade de pessoas indefesas, sem nenhum motivo ou qualquer fundamento
de ordem normativa. Muitas dessas práticas têm por finalidade punir
tendências ideológicas ou reprovar e inibir os movimentos libertários ou as
manifestações políticas de protesto. Muitas dessas práticas cruéis e
degradantes não têm apenas a intenção da chamada “obtenção da verdade”,
mas uma tática própria dos sistemas repressivos de que dispõe o Estado,
contra os direitos e as liberdades dos seus opositores, como estratégia de
manutenção no poder. Não é por outra razão que sua metodologia e seus
princípios estão nos currículos, como matérias teórica e prática das
corporações militares e policiais. Não quer dizer que não exista também a
banalização do instinto malvado como maneira torpe de dobrar o espírito das
pessoas para satisfação do próprio torturador. Na realidade, o que se procura
com o desrespeito aos direitos humanos é a fragmentação do corpo e da
mente e a desmoralização do homem.
A Medicina Legal é um instrumento capaz de contribuir de maneira
significativa, a partir do momento em que ela possa denunciar, por meio de
suas práticas periciais, todas as modalidades de agressões que se verificam
neste universo delinquencial que se observa, cada vez mais frequente, nos
dias de hoje.

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