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METODOLOGIA DA DANÇA Oséias Guimarães de Castro Danças urbanas, jazz e sapateado Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Analisar os principais conceitos e fundamentos das danças urbanas. � Identificar o conceito de jazz e seus fundamentos. � Descrever o conceito de sapateado, seus fundamentos e movimentos. Introdução Neste capítulo, você vai aprender sobre o desenvolvimento da dança urbana no contexto contemporâneo. Certos aspectos de sua estrutura- ção têm suas raízes na herança histórica do encontro entre as culturas europeia, africana e latina. Diferentes movimentos e conceitos foram inspirados em estilos pautados na livre expressão e na manifestação do pensamento pela arte. Dentre os estilos atuais, com enfoque pautado nos elementos técnicos mais elaborados, destacam-se a dança jazz e o sapateado. A cultura e a coreografia da dança urbana possuem identidade própria e formam, por meio da livre interpretação, um estilo de dança influen- ciado por outros estilos diversos. Danças urbanas: a efervescência cultural do século XX Entende-se por danças urbanas os movimentos culturais e as manifestações populares que surgiram independentes um das outras, mas que fazem parte do mesmo contextos e que encontraram expressão na dança. Portanto, repre- sentam estilos diversos, com identidade, história e filosofias diferentes, mas que têm a característica da expressão e da representação social em comum. As danças urbanas se vinculam aos pressupostos teóricos que fundamentam a dança contemporânea e reportam à definição etimológica do próprio termo contemporâneo, isto é, referente ao nosso tempo, atual. A força da expressão do movimento se encontra alicerçada na liberdade e nas experiências sociais, o que implica, no contexto da dança, um amplo campo de abertura para a manifestação cultural pelo movimento. A partir disso, podemos compreender a força da diversidade de representação da dança enquanto fenômeno dos grandes centros urbanos. Outro conceito relevante para compreensão dos fenômenos sociais e cultu- rais, nos quais as danças urbanas se inserem é o pós-moderno, termo também relacionado a outras artes e ao movimento hippie, caracterizado, na dança, por inúmeras apresentações e improvisos em lugares incomuns e em festivais (ALVES, 2004). A partir da exploração dos recursos da manifestação cultural, da música e da dança, emerge o contato improvisação que é, além de um ato artístico, um impactante ato político podendo vir a redimensionar os conceitos sociais vigentes. O contato improvisação é uma técnica de movimento criada na década de 1970 por um grupo de coreógrafos e bailarinos norte-americanos associados à dança moderna. Os artistas desse grupo, intrigados com as formas maçantes e com os formatos corporais pré-estabelecidos das escolas e companhias de dança tradicionais, vivendo sob um forte contexto histórico de contracultura, fundaram a companhia da dança Grand Union, que tinha por base metodológica o improviso grupal. A importância da improvisação é fundamental para a criação e a dissemi- nação das danças urbanas, que a partir desses aportes teóricos, especialmente o elaborado por Rudolph Laban (1879–1958), relaciona os princípios funda- mentais da dança (espaço, tempo, energia, peso, ritmo) ao corpo, assim como ao seu ambiente, por meio das ferramentas necessárias para a composição de ritmos livres e improvisados de expressão social (TORRES, 2015). Sendo assim, o fenômeno da dança urbana pode ser considerado uma manifestação social dado pelo movimento de expressão corporal, que assim serve como instrumento de expressão social. Estes pressupostos históricos mostram que as danças urbanas passam por uma constante evolução até o mundo atual, questionando as relações humanas e o meio em que se vive. Trata-se de proporcionar um ambiente favorável Danças urbanas, jazz e sapateado2 à liberdade, à novidade, à criação e à pesquisa de novas possibilidades de manifestação pela dança. Seu espaço de representação acontece em diferentes lugares públicos e contextos socioambientais e está, por vezes, conectada a outras artes, como a música, o teatro, a arquitetura, a mídia em vídeo, a literatura, a pintura, as artes plásticas ou o circo. Apesar de o termo “danças urbanas” parecer genérico, cada uma dessas danças se origina de lugares e localidades diferentes. O house, por exemplo, tem sua origem nos clubes de Chicago e de Nova Iorque; já o locking surgiu na Califórnia (COLOMBERO, 2011). Destacamos, a seguir, alguns destes estilos diversificados de danças urbanas. Hip-hop Mais que um estilo musical, o hip-hop é um movimento cultural que se originou nas comunidades afro-americanas e hispânicas de Nova Iorque, durante as décadas de 1960 e 1970, como consequência do contexto econômico e da exclu- são social desses grupos. Com a segregação racial historicamente acentuada, as condições de vida se tornaram dificultosas para essas comunidades, o que fez (e faz) com que esses grupos permaneçam restritos aos guetos. Diante da instabilidade social, da violência urbana e do tráfico de drogas controlados por gangues, os guetos se tornaram áreas de ilegalidade. Nesse contexto, grupos identitários passaram a se formaram gradualmente, reivin- dicando direitos iguais e o reconhecimento da luta contra o racismo. À margem das reivindicações políticas das comunidades dos guetos, a música negra norte-americana se impôs pela soul music e pelo funk, pelo trabalho de artistas como James Brown e Stevie Wonder. Estes usaram o suporte musical, a aceitação do grande público e a visibilidade em programas e festivais de TV para expressar seus protestos sociais. É neste cenário que a cultura hip-hop tem sua origem como gênero musical. O hip-hop pode ser considerado uma junção entre artes visuais e performáti- cas, focado principalmente em áreas elementares, como a música (representada pelo DJ), a poesia (representada pelo MC), a arte visual (representada pelo grafite) e a dança (representada pelo break). A dança hip-hop evoluiu a partir 3Danças urbanas, jazz e sapateado da evolução do rythym and blues (R&B) e da própria música hip-hop, a qual se baseia na combinação de movimento, atitude e expressão. A dança do hip-hop, conhecida como break dance, surgiu enquanto o público dançava nos intervalos das apresentações, de maneira atípica, ao contrário da difusão de danças convencionais. Os B-boys (dançarinos de break) desenvolveram performances acrobáticas em pé ou no solo, o que configura os elementos básicos para a dança. Os movimentos envolvem alto nível de coordenação motora e são essencialmente realizados no chão, sendo desenvolvidos a partir da musicalidade e da exploração o estilo livre. O disc-jockey (DJ) utiliza dois toca-discos, um mixer e um amplificador para tocar discos de vinil. Em certas ocasiões, o DJ costumava fazer intervalos entre duas peças, isto é, pegava um pequeno trecho de um trabalho musical, de alguns segundos e criava um loop rítmico para manter o público atento enquanto se iniciava o próximo número musical. Isso deu origem a uma sonoridade até então desconhecida, um novo estilo musical baseado nas sonoridades do soul, do funk, do reggae e da disco. Dado o sucesso desses eventos públicos, os DJs rapidamente se cercaram de mestres de cerimônia (MCs) para manter o público entretido durante os intervalos. Essa modalidade, também chamada de MCing, permitiu que o MC se expressasse com liberdade em forma de ritmo e rima, geralmente impro- visando ( freestyle). Assim, a apresentação do MC passou a ser incorporada à discotecagem do DJ. Enquanto os conflitos de gangues aconteciam nos guetos de Nova Iorque, as pessoas se mobilizavam e viam o hip-hop como uma forma construtiva para combater a violência das brigas de gangues entre bairros e oferecer um instrumento de expressão acessível a todos. Em 1973, Kevin Donovan, ex-líder da gangue Bronx RiverProjects, criou um movimento que buscava reunir diferentes pessoas da mesma área do bairro, expressando-se por meio da música, da dança ou da pintura. Em 1975, o movimento passou a se chamar Nação Zulu, após o assassinato de Soulski, um de seus membros fundadores. A Nação Zulu se estruturou a partir de valores como a não violência e slogans como “Paz, amor, unidade e se divertir!” (THE PRINCIPLES..., 2013, documento on-line). As brigas com armas de fogo entre pessoas de diferentes bairros foram substituídas por eventos gratuitos organizados na rua. Surgiram as batalhas (competições) de dança, DJ, grafite e MCing, nas quais o público avaliava as performances das diferentes equipes com aplausos. Danças urbanas, jazz e sapateado4 Stomp (stepping) O stomp/stepping tem sua origem na África do Sul, em torno do ano de 1870, a partir da dança gumboots. É semelhante ao estilo do step, no qual os dança- rinos usam as mãos e os pés como percussão para criar ritmos. Os mineiros não podiam conversar durante a mineração e, portanto, usavam essa dança para dar ritmo ao trabalho. Posteriormente, ela passou a ser um meio de comunicação e de expressão para os negros, enquanto enfrentavam a vida árdua de trabalho e segregação. O stomp/stepping surgiu como uma continuação da cultura milenar africana de se comunicar por meio de sons e movimentos, adicionando o uso das botas que, originalmente, consistiam em uma espécie de galocha e, hoje, parecem com um coturno que acentua o som dos movimentos realizados com os pés, se tornando um dos ícones do step. Trata-se, portanto, de um estilo de dança no qual o corpo, com passos marcados e coreografados, palavras gritadas e percussões corporais, produz o estilo da dança. Nos anos 1970, o step se baseava nos passos de grupos norte-americanos de R&B, como Temptations e The Four Tops. Nas comunidades negras, o step se consolida como cultura a partir de sua utilização em fraternidades universi- tárias e repúblicas estudantis, cujos nomes tradicionalmente são formados por letras gregas, como a Phi Beta Sigma, fraternidade atuante na Universidade Howard, de Washington. Por esse motivo, os greek signs(símbolos gregos) foram fundamentais para a consolidação do step nas comunidades negras universitárias, pois eram utilizados como forma de identificação entre as fraternidades, por meio de gritos de guerra ou palavras de ordens somados a gestos ritmados pelo corpo. A adição de músicas a esses sinais e, consequen- temente, aos movimentos realizados, fez com que os greek signs se tornassem os greek shows, que consistem em competições estaduais e nacionais. O stomp/stepping é mundialmente reconhecido por suas competições internacionais, além de ser amplamente divulgado em diversos eventos, como a abertura das Olimpíadas de Atlanta em 1996, além de ser recorrentemente utilizado nas coreografias de shows de artistas internacionais, como os da cantora Beyoncé (STEP, STEP-DANCE..., 2018). 5Danças urbanas, jazz e sapateado Outros estilos de danças urbanas também surgiram nesse ambiente de expansão cultural e de apropriação dos espaços nas cidades. No entanto, nem todos surgiram como forma de representação social, como o locking (travar), uma dança que tem, como padrão, movimentos rápidos dos membros superiores e mais suaves dos membros inferiores. Acredita-se que o locking seja derivado de uma dança conhecida como campbellocking. A dança recebeu este nome pois o dançarino americano Don Campbell esqueceu sua coreografia na metade de uma apresentação de dança e parou enquanto executava o movimento, como se tivesse travado o corpo. Assista ao vídeo disponível no link a seguir para assistir à apresentação da final de um festival holandês de locking. https://qrgo.page.link/Ccb7 Funk O funk é um gênero musical e de dança originário dos Estados Unidos, du- rante a segunda metade da década de 1960, quando músicos afro-americanos fundiram soul, jazz e rhythm and blues para criar um novo estilo musical. A música evoluiu para ritmos mais complexos, acompanhados por uma melodia executada no baixo elétrico, que evocava explicitamente o público para dançar de forma frenética, com repetidas contorções rítmicas do movimento. A música funk não é um gênero isolado. No final do século XIX, músicos afro-americanos começaram a desenvolver um estilo inovador que mesclava as tradições rítmicas africanas com o gospel americano. No início do século XX, esse som foi nomeado jazz. O jazz versava sobre improvisação e liberdade de expressão com ritmos animados e inovadores. No início dos anos 1970, as bandas Funkadelic e Parliament adotaram uma forte sonoridade rítmica como a de James Brown, mas com um groove ainda mais marcante, revisando a sensação de pulsação rítmica que fazia parte das tradições musicais afro-americanas desde os primeiros dias do jazz. A música do cantor George Clinton combinava elementos de rock, jazz, blues, soul e gospel ao que se tornaria o som definitivo do funk (A ORIGEM..., 2014). Ao final do século XX, o funk se desenvolveu como elemento musical e estilístico originário da música soul, uma expressão que, no contexto brasi- leiro, pode incluir também o funk norte-americano, de modo a diferenciá-lo da variedade carioca que, em certa medida, sempre envolveu uma discussão Danças urbanas, jazz e sapateado6 sobre racismo e políticas de ações afirmativas. Nesse contexto de manifesta- ção cultural, DJs produtores de house, drum’n’bass e hip-hop têm remixado seleções do repertório brasileiro de soul e funk dos anos 1970, dando origem aos estilos bossa’n’bass e drum’n’bossa, por exemplo (PALOMBINI, 2016). No Brasil, funk carioca não possui ligação com o funk americano. O funk carioca surgiu pela primeira vez em bailes organizados nas favelas do Rio de Janeiro, na década de 1970. Os DJs tocavam diferentes ritmos relacionados à música negra, como o soul, o shaft, o funk americano, o baixo de Miami e o freestyle. Funk foi o nome que prevaleceu para descrever o resultado dessa mistura de estilos no Brasil. O que começou como apenas música se tornou um movi- mento em busca da consciência social dos negros, a fim de alcançar respeito e igualdade. Esse ideal está presente nas letras das músicas, que frequentemente descrevem situações do cotidiano das favelas cariocas. A história do funk no Brasil envolve a percepção de que esse estilo de música negra norte-americana foi incorporado aos ritmos que já pulsavam na formação cultural do país. Os bailes dos anos 1970, que foram comandados por pioneiros como Ademir Lemos, Big Boy, Dom Filó, Mister Funky Santos e outros, misturavam o entretenimento com a conscientização política dos negros (FACINA, 2009). Atualmente, não é raro vermos o funk vinculado às mídias sociais e a campanhas publicitárias, além de festas e festivais realizados em grandes centros urbanos. Assim, é comum o surgimento de fenômenos e eventos culturais a partir desse estilo, sempre acompanhado de novas criações na dança que o caracterizem. Esse fenômeno desperta o interesse de produtoras musicais, que buscam trazer potenciais celebridades para o meio artístico. Contudo, para ter uma aderência maior, o produto formado pela combinação entre música, cantor e dança passa por algumas alterações: desde a letra e a batida da música, até a própria figura do cantor (por meio de tratamentos estéticos e troca de vestuário), além da criação de novos passos e elementos de dança. O funk, assim como outros gêneros musicais, busca sempre apresentar novidades e se manter atrativo ao público (CHAGAS, 2018). Ao ocupar novos espaços, as danças urbanas foram se transformando e convergindo outros públicos. Essa interação permitiu que praticantes da dança buscassem novas informações e passassem a elaborar novos movimentos que buscavam prover a identificação, a incorporação e a apropriação da manifes- tação da expressão pela dança. 7Danças urbanas, jazz e sapateado As referências de estilos contemporâneosconversam com elementos mo- dernos e culminam na elaboração de estilos mais estruturados, em termos da técnica utilizada no movimento, como é o caso do jazz e do sapateado, apresentadas nas seções a seguir. Jazz O jazz é uma dança desenvolvida a partir de múltiplas perspectivas. A definição desse movimento não é tão simples, pois não se trata apenas de um estilo de dança, mas do legado de uma fusão de várias culturas muito contrastantes. No século XVII, negros africanos foram escravizados e deportados em grande número por comerciantes brancos para a Costa Atlântica das Américas e foramposteriormente vendidos para proprietários de plantações. Diante das condições trágicas a eles infligidas, escravos negros se consolavam com a dança e o canto, com ritmos provenientes diretamente da cultura africana. Em particular, cantavam e tocavam melodias lentas e tristes que consistiam nas primeiras formas de blues e gospel, que podem ser consideradas funda- doras da música jazz. São todas essas misturas étnicas e culturais que deram origem à cultura negra norte-americana e ao movimento jazz no século XX. O jazz moderno tem origem na dança jazz norte-americana dos anos 1930 e 1940, que se costuma associar ao swing e ao lindy hop, também chamados de" raízes do jazz ou jazz autêntico. No final dos anos 1940, a dança jazz incorpora a produção de grandes musicais e, a partir desta influência, surge o jazz moderno, uma dança técnica, rítmica e dinâmica que tenta mesclar técnicas do balé e elementos culturais afro-americanos, além de ter como influência acrobacias e gestos livres da dança contemporânea. No entanto, não se pode desvinculá-lo da dança moderna e contemporâ- nea ou dos bailarinos e coreógrafos que traduziram os mecanismos para a elaboração dos movimentos que caracterizam o jazz atualmente. Destaca-se o legado de Katherine Dunham (1909–2006), que nos permite aprofundar o entendimento sobre o estilo, definido como estilo livre. Essa concepção de liberdade de estilo, no contexto da década de 1950, surgiu porque muitos professores e coreógrafos permitiram extrapolar estereótipos de movimentos, inclusive na elaboração de ações e sentimentos mais próximos da realidade cultural cotidiana. Propunha-se desenhar esses movimentos de forma indiferente e desvinculada das técnicas clássicas. Danças urbanas, jazz e sapateado8 O jazz é uma forma de expressão pautada no improviso. No início deste século, as danças afro-americanas começaram a fazer parte dos salões e a receber novas influências, principalmente do cancã e do Charleston O mo- dern jazz dance, o soul jazz, o rock jazz, o disco jazz, o free style e o jazz são algumas designações utilizadas atualmente para denominar os numerosos aspectos dessa forma de expressão artística. O jazz moderno é caracterizado pela coordenação de movimentos, pelo controle da gravidade e pelo isolamento das partes do corpo, de acordo com uma técnica básica estabelecida. O modern jazz é amplamente utilizado em manifestações de dança contemporânea e cada vez mais incorpora movimentos que caracterizam o hip-hop. No Brasil, além dessas designações, a generalização do jazz chega a consi- derar determinadas formas de ginástica ou de atividade física, englobadas no mesmo termo. O jazz possui certas características marcantes, como a isolação, uma explosão de energia que se irradia dos quadris e um ritmo pulsante que propicia o balanço certo e a qualidade do movimento (SOUZA, 2011). Deve-se perceber o jazz como um todo, compreendê-lo em sua totalidade cultural, musical e corpórea. Se considerarmos as formas que originaram o desenvolvimento da dança jazz, descobrimos uma variedade de danças étnicas, como as africanas, rituais, indianas, espanholas e russas, por exemplo. Em uma aula de jazz, os dançarinos são encorajados a adicionar sua per- sonalidade ao desenvolvimento do estilo. Os movimentos de jazz incluem elementos básicos, caracterizados por movimentos sincopados e pela polir- ritmia, que corresponde à combinação dos movimentos do corpo em vários ritmos, simultaneamente. Sendo assim, o jazz desenvolve a coordenação, a musicalidade e, ainda, a agilidade e o alongamento (SOUZA, 2011). As diferentes técnicas do jazz situam a estruturação desse estilo em ele- mentos originados no balé clássico e na dança moderna. Os diversos estilos de jazz compreendem o modern jazz e outros gêneros de jazz contemporâneo. Estas abordagens contribuem para a formação de bailarinos cada vez mais ecléticos. Outro movimento popular de jazz é a contração. Uma contração no jazz é realizada pela contração do tronco, com as costas curvadas para fora e com a pelve para frente (STRAZZACAPPA; MORANDI, 2014). Retomando as origens do jazz na cultura africana, quase tudo nessa cultura é celebrado por festivais ritualísticosacompanhados por música, canções e ritmos específicos de cada evento (casamentos, nascimentos, morte). Assim, a música e a dança ocupam lugar de destaque nesses eventos. 9Danças urbanas, jazz e sapateado A dança é caracterizada pela energia física transbordante, pela grande liberdade corporal, pela improvisação, por movimentos repetidos, pela ace- leração ao transe e o isolamento, mas também por uma forte relação com a Terra e com o espírito de comunidade. As danças geralmente acontecem em círculos, com um ou mais dançarinos no centro, como a configuração de uma roda de capoeira ou de uma batalha de hip-hop. O modern jazz está em constante evolução graças a sua mistura perpétua. Em seu começo foi uma dança social, não sendo imediatamente considerada uma dança de palco. O modern jazz passa por uma expansão real graças a dois fatores: o sócio-político, por ser um meio de expressão da comunidade afro-americana, e o artístico, por ser uma via musical e, portanto, entreteni- mento. Foi na década de 1950 que se iniciaram as aulas de modern jazz como as conhecemos hoje. Naquela época, o objetivo era treinar dançarinos para audições de shows da Broadway (STRAZZACAPPA; MORANDI, 2014). No modern jazz há maior liberdade no movimento do corpo. Assim, dan- çamos com as pernas mais flexionadas e próximas do chão. Isso permite a mobilidade dos ombros, da pelve, da coluna e de deslocamentos maiores. O modern jazz pode proporcionar verdadeiro bem estar. É uma dança voltada para todos que querem libertar suas mentes, suas tensões e sentir a música enquanto fazem o seu melhor. O professor precisa se adaptar ao nível e à capacidade de seus alunos, mas todos podem fazê-lo. O modern jazz também é ideal para crianças, pois elas aprendem a trabalhar em seus suportes e a conhecer seu corpo. Uma atividade lúdica, imediata e espontânea, adaptável a todos. Sapateado Diante das origens do jazz e concomitante ao processo de evolução da dança moderna e contemporânea, tanto o jazz quanto o sapateado se apresentam como estilos importantes no ensino da dança em escolas, estúdios de dança, clubes e academias. O sapateado tem sua origem no irish jig (dança com passos marcados com os pés), que surgiu na Irlanda e se difundiu posteriormente, junto ao clog da Inglaterra. As danças africanas, que uniam o trabalho dos pés a sofisticados movimentos de corpo, também contribuíram para o nascimento do sapateado (LEWIS, 2016). Danças urbanas, jazz e sapateado10 As danças céilí são danças tradicionais irlandesas praticadas em grupo, caracterizada por movimentos marcados com os pés. O aperfeiçoamento dos passos deu origem a um tipo de sapateado de dança solo que, ainda hoje, pode ser visto em grandes shows de tradição irlandesa, como o Riverdance e o Lord of the Dance. É uma dança muito técnica, com movimentos elegantes, utilizando saltos e passos típicos. A prática dessa dança e seu contato com o jazz nos Estados Unidos influenciaram no estilo de sapateado de Gene Kelly (1912–1996) e Fred Astaire (1899–1987), assim como em vários shows e competições de sapateado no país. A mistura de estilos contribuiu para o enriquecimento e o aprofundamentotécnico dos números de sapateado, proporcionando novos movimentos cada vez mais espetaculares e inovadores, a partir da improvisação. O sapateado é um estilo de dança que não precisa necessariamente de música para se executar os movimentos, já que o dançarino pode criar di- ferentes ritmos e sons com o simples uso dos sapatos, que assim se tornam um instrumento musical. O sapateado também pode ser considerado um instrumento de percussão, pois com as batidas dos pés se executam sons e melodias rítmicas bastante variadas e ricas. Na ponta e no calcanhar dos sapatos são aplicadas placas de metal (claquetes) para amplificar o som. O sapateado se tornou popular entre os musicais de Hollywood a partir dos anos 1930. Por volta de 1950, quando surgiram grandes nomes da dança, como Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rogers (1911–1995) e Eleonor Parker (1922–2003), o estilo adotado nos musicais passou a figurar mais movimentos de dança com o corpo, utilizando técnicas de balé, os braços e combinações tradicionais, que se somaram aos já utilizados sapateados. Como demais danças, o sapateado também evoluiu e passou a ter outras formas. Savion Glover, um dos maiores sapateadores do mundo, criou uma nova forma de sapatear, mais forte e mais ousada, com seu swing e musicalidade. No sapateado adotado pela cultura negra americana, observava-se que as batidas são mais rápidas, o corpo fica mais à vontade, de acordo com o estilo próprio de cada um. Fred Astaire dançava de forma a misturar os dois estilos, de uma maneira surpreendente e perfeita. 11Danças urbanas, jazz e sapateado A arte de sapatear exige ritmo, coordenação e concentração nos movimentos dos pés e, por isso, é preciso haver uma integração de todo o corpo e saber sentir a música para sapatear de forma realmente expressiva e intensa. O sapateado é uma dança relaxante, sem restrições e que não exige grande esforço para principiantes. No entanto, os passos de sapateado possuem va- riações para tornar os movimentos mais complexos, como agregando saltos e giros à dança. No Brasil, algumas danças regionais ou folclóricas que utilizam o sapateado são bastante difundidas, como a catira, uma dança de origem híbrida, com influências indígenas, africanas e europeias, originária do Goiás, do norte de Minas e do interior de São Paulo. A catira é uma dança em que o ritmo musical é marcado pela batida dos pés e das mãos dos dançarinos. A coreografia é executada, na maioria das vezes, por homens (boiadeiros e lavradores) e pode ser formada por seis a dez componentes, além de uma dupla de violeiros, que tocam e cantam a moda respondida com o sapateado (LIMA, 2009). Na tradição gaúcha, outras danças típicas envolvem o canto e o sapateado. Essas danças tradicionais do Rio Grande do Sul possuem nítida influência das danças platinas e se amoldaram às características de novas coreografias. Essas danças expressam o sentimento regional, com passos alegres de sapateado em formações rítmicas de movimentos que parecem simples. No entanto, a realização dos passos requer muita preparação e conhecimento de técnicas específicas, incluindo um bom repertório de gestos motores coordenados, expressão corporal e ritmo. Outro elemento importante para a execução de estilos de dança como o jazz e o sapateado é a música. Pode-se inferir que o movimento na dança é a tradução do som, conduzindo sua vibração por todo o corpo e expressando a vivência do movimento com concentração, arte e criatividade. No link a seguir, você pode ver a história, os conceitos e as abordagens a diversos estilos de danças urbanas, com artigos especializados para a compreensão destes. https://qrgo.page.link/hjr1 Danças urbanas, jazz e sapateado12 Os movimentos básicos do sapateado incluem diversos passos, cada um realizado a partir de uma técnica específica. Abaixo, descreveremos alguns desses passos. � No tap simples (ou touch), o objetivo é atingir o meio ponto sem fazer uso do peso corporal. É um golpe simples e curto, combinando a ação do tornozelo e do joelho, abaixando a ponta do pé para entrar em contato com o solo e, após o movimento, a ponta do pé fica imediatamente relaxada. Se for realizado inicialmente um contato com o pé direito, o peso do corpo permanecerá na perna esquerda durante todo o tempo da execução do movimento. � No step, pretende-se atingir o meio ponto com o peso do corpo. O movimento é realizado como um passo (step), por isso recebe este nome. O princípio é o mesmo que o touch, mas ao invés de levantar a ponta do pé, deve-se deixá-la em contato com o chão e passar, ao mesmo tempo, o peso do corpo para a perna correspon- dente. Se você começar o passo com o peso do corpo na perna esquerda, você terminará com o peso na perna direita. � O passo brush tem como objetivo tocar a ponta do pé para frente. Quando se equi- libra na perna oposta ao pé, deve-se raspar brevemente o solo em um movimento arqueado para frente. O contato com o solo está no nível da meia ponta do pé. Esse movimento é atingido principalmente pela ação do joelho. O tornozelo só entra em ação brevemente, durante o contato com o solo. No final do movimento, o pé que fez a escova está no ar, para frente. Além destes, outros diversos passos compõem a estrutura básica do sapateado, como o shuffle, o hop, o heel, o stemp, o stomp, o toe, o ball tap, o scuff ou heelscuff, o dig ou heeldig, o flap, o slap e o backflap (LEWIS, 2016). As danças urbanas são manifestações culturais, que em muitos de seus contextos, dão vazão à manifestação de pensamentos relacionados a desigual- dades sociais e à violência. Outro elemento importante de sua concepção é a inserção da cultura musical de origens africana e latina em danças, ritmos e expressões culturais europeias. As modalidades de dança urbana surgem como segmentos da dança contem- porânea, por não possuirem uma técnica única pré-estabelecida. Assim, todos os estilos podem ser inseridos, a partir do movimento e do gesto espontâneo. Quanto aos elementos técnicos, por serem abrangentes, não se limitam a espaços ou a instrumentos acadêmicos. Não há elementos estruturantes definidos, mas maneiras e processos de criação. As danças urbanas emergem da noção de corporeidade, a partir da vivência e do momento histórico, agregando elementos da arte a um contexto amplificado de um estilo de vida. O que se considera é que não exista uma 13Danças urbanas, jazz e sapateado única expressão e definição de corpo, mas instrumentos e códigos de linguagem sob uma perspectiva multicultural. Apesar de sua origem estar atrelada aos guetos e aos espaços periféri- cos, atualmente as danças urbanas não estão restritas a estes espaços, sendo apreciadas por vários segmentos e classes sociais, além de estudadas como elementos da estruturação social e cultural nos meios acadêmicos, marcando o estilo de vida e a forma de expressão dos centros urbanos. A ORIGEM do funk e sua evolução. Complexo do Funk, [S. l.], 29 mar. 2014. Disponível em: https://complexodofunk.com.br/origem-funk-e-sua-evolucao/. Acesso em: 19 abr. 2019. ALVES, C. 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