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BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 01.m4a Fujita - 01 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 5.m4a Fujita - 5 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 3.m4a Fujita - 3 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 02 começar por essa.m4a Fujita - 02 começar por essa BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 6.m4a Fujita - 6 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 4.m4a Fujita - 4 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/GRAVAÇÕES DAS AULAS/Fujita - 02.m4a Fujita - 02 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/03-Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro-2ª Parte-2024.pdf 12/03/2024 1 LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO – 2ª PARTE BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita 2024 EFICÁCIA DA NORMA JURÍDICA NO ESPAÇO 2 2ª PARTE 1 2 12/03/2024 2 1. INTRÓITO: TERRITORIALIDADE E EXTRATERRITORIALIDADE A questão relativa à eficácia da norma jurídica no espaço envolve a discussão da territorialidade e da extraterritorialidade. Territorialidade significa o caráter de obrigatoriedade da norma jurídica dentro do limite territorial do país que a instituiu. A territorialidade é a expressão da soberania nacional. Extraterritorialidade traduz a eficácia da norma jurídica fora das fronteiras territoriais do país que a editou. Tratando-se de negócio jurídico praticado no Brasil, haverá a aplicação da norma jurídica nacional, devendo ser atendido o pressuposto do lugar de sua constituição ou de seu desenvolvimento. 3 Porém, em que pese a aparente tranquilidade com que se mostre a questão da aplicabilidade de uma norma jurídica, poderão sempre surgir indagações pertinentes à eficácia da norma jurídica local ou daquela oriunda de outro país. De conformidade com a nossa Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, adotou-se a TEORIA DA TERRITORIALIDADE MITIGADA OU MODERADA, em que se admite a extraterritorialidade segundo os princípios, convenções e tratados internacionais, sendo, deste modo, aceita a influência de normas estrangeiras sobre certas relações jurídicas. 4 3 4 12/03/2024 3 2. HISTÓRICO ROMA Roma estabelecia um tratamento legal diferenciado: 1) um direito para os cidadãos romanos (cives): o ius civile.; 2) outro direito, para os estrangeiros (peregrini): o ius gentium.. Os peregrini não podiam invocar o seu próprio direito, em conformidade com o que dispunha a Lei das XII Tábuas. A pretura peregrina era incumbida de promover a aplicação do ius gentium aos estrangeiros e de solucionar as dúvidas e questões envolvendo os estrangeiros e os cidadãos romanos. O ius civile e o ius gentium foram unificados no ano de 212 d.C., por intermédio de um edito de Caracalla: todos os peregrini receberam a cidadania romana. 5 3. TEORIA DO DOMICÍLIO No século XIX, SAVIGNY estabeleceu a sua teoria do domicílio, afirmando que cada Estado era formado a partir de uma comunhão de direito, e não de uma cortesia internacional ou exigência de justiça. E por fazer parte o Estado de uma comunhão de direito, a adoção de uma norma de direito estrangeiro era a consequência ordinária das relações comunitárias, pelo que a lei de domicílio era o elemento básico de determinação da norma jurídica aplicável. Antes de aplicar o direito alienígena, deveria o juiz examinar a sede da relação jurídica submetida à sua apreciação, visando a determinar o estatuto jurídico correspondente. Entretanto, a extraterritorialidade, para Savigny, tinha 2 (DUAS) OBJEÇÕES: uma, consistente na hipótese de a lei estrangeira se confrontar com a norma cogente do Estado onde o problema fosse objeto de exame; outra, baseada na hipótese de a lei estrangeira dispor sobre um instituto jurídico não reconhecido ou regulado por esse mesmo Estado . 6 5 6 12/03/2024 4 4. TEORIA DA NACIONALIDADE A teoria da nacionalidade, de autoria do jurista italiano MANCINI, defendeu a aplicação da lei da pessoa e o ius sanguinis, pelo que os vínculos com o país de origem da pessoa eram mais fortes que aqueles com o país de domicílio. Mancini se opunha à ideia da territorialidade absoluta, a qual, para ele, se traduzia uma violação ao poder soberano dos demais Estados, os quais ficariam impedidos de acompanhar, com as suas normas jurídicas, os seus nacionais . Sua teoria da nacionalidade tinha como exceções as leis de ordem pública, o princípio da autonomia da vontade e a regra locus regit actum . 7 5. DIREITO BRASILEIRO O direito brasileiro adota a teoria da territorialidade mitigada ou moderada, a qual admite a territorialidade e a extraterritorialidade, esta segundo os princípios, convenções e tratados internacionais. Admite, deste modo, a influência de normas estrangeiras sobre certas relações jurídicas. De acordo com o princípio da territorialidade, a norma jurídica brasileira tem o caráter de obrigatoriedade em todos os atos e negócios jurídicos levados a efeito por pessoas brasileiras dentro do seu âmbito territorial, submetendo-se, desta forma, ao local em que foram constituídos (locus regit actum). Além de incidir sobre o seu território, a norma jurídica nacional aplica- se nas extensões do seu território, como as embaixadas, consulados, navios de guerra brasileiros onde quer que se encontrem, navios mercantes em águas territoriais ou em alto-mar, navios estrangeiros, com exceção os de guerra, nas águas territoriais brasileiras, aeronaves militares brasileiras em qualquer lugar, aeronaves particulares nacionais no espaço aéreo brasileiro ou em região não pertencente a qualquer Estado, aeronaves particulares estrangeiras, e não a serviço oficial de seu país de origem, no espaço aéreo nacional . 8 7 8 12/03/2024 5 Quanto ao princípio da extraterritorialidade, é de se assinalar que a antiga Lei de Introdução ao Código Civil adotava o critério da nacionalidade. Entretanto, a atual Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942) passou a estabelecer o critério do domicílio, sob o fundamento de que não era mais possível continuar com o princípio da nacionalidade, porquanto o Brasil se tornara um país de muitos imigrantes provenientes de vários países do mundo, criando a necessidade de aplicação das normas estrangeiras correspondentes para os mais variados casos que se apresentassem no dia a dia. Desta maneira, para os estrangeiros domiciliados no Brasil, passou a se aplicar a norma jurídica brasileira. E para os estrangeiros domiciliados no exterior, a legislação brasileira reconheceu e reconhece os seus respectivos estatutos pessoais. 9 5.1. HIPÓTESES DE APLICAÇÃO DA LEI DO DOMICÍLIO DO ESTRANGEIRO A lei do domicílio do estrangeiro é aplicada nas seguintes hipóteses: 1) em direitos de personalidade (direito ao nome, direito à honra, direito à integridade psíquica, direito à imagem, etc.), prevalecendo a norma jurídica do domicílio de seu respectivo titular (LINDB, art. 7º, caput); 2) na capacidade e no estado da pessoa, aplicando-se a lei do domicílio de seu respectivo titular (LINDB, art. 7º, caput); 3) no direito de família (casamento, seus regimes de bens; união estável, relação monoparental, filiação, adoção, relações de parentesco, efeitos pessoais e patrimoniais oriundos dos vários institutos jurídicos, como tutela, curatela, etc.) – LINDB, art. 7º, caput e §§ 2º, 3º e 4º. Observe-se, no entanto, que, realizando-se o casamento no Brasil, será aplicada a lei brasileira quanto aos impedimentos e às formalidades da celebração (LINDB, art. 7º, § 1º; CC, art. 1.511 e seguintes); 10 9 10 12/03/2024 6 4) no direito das sucessões, por morte ou por ausência, prevalecendo o domicílio do de cujus ou do ausente (LINDB, art. 10, caput). Tratando-se de capacidade de herdeiro ou legatário, será aplicada a lei do domicílio destes (LINDB, art. 10, § 2º); 5) na posse e propriedade de bens móveis, valendo o domicílio de seu titular (LINDB, art. 8º, § 1º); 6) no penhor, incidindo a lei do domicílio da pessoa, em cuja posse se encontre o bem apenhado (LINDB, art. 8º, § 2º). 11 5.2. Hipóteses de aplicação da lei do local da coisa (lex rei sitae) A lei do local da coisa se aplica em hipóteses relativas à posse e à propriedade de bem imóvel. Deste modo, tratando-se de ação possessória ou ação referente à defesa da propriedade, a norma jurídica competente será aquela vigente no território do país em que se localize o bem imóvel (LINDB, art. 8º, caput). 12 11 12 12/03/2024 7 5.3. Hipóteses da aplicação da regra locus regit actum A regra locus regit actum se destina a: 1) qualificar e reger as obrigações, as quais, deste modo, serão disciplinadas pela lei do país em que se constituírem (LINDB, art. 9º, caput). Se a obrigação tiver que ser executada no Brasil e dependendo de forma essencial, esta será observada, admitidas as peculiaridades da lei estrangeira quanto aos requisitos extrínsecos do ato (LINDB, art. 9º, § 1º). 2) reputar constituída, nos contratos, a obrigação no local em que residir o proponente (LINDB, art. 9º, § 2º). 3) considerar que a prova dos fatos ocorridos em país estrangeiro rege-se pela lei que nele vigorar, quanto ao ônus e aos meios de produzir-se, não admitindo os tribunais brasileiros provas que a lei brasileira desconheça (LINDB, art. 13). 13 5.4. Leis, atos e sentenças estrangeiras Assinale-se que as leis, atos e sentenças estrangeiras, bem como quaisquer declarações de vontade, somente serão eficazes quando não ofenderem a soberania nacional, a ordem pública ou os bons costumes (LINDB, art. 17). A sentença judicial estrangeira será objeto de execução no Brasil, desde que preenchidos os seguintes requisitos: a) que tenha sido proferida por um juiz competente; b) que as partes foram devidamente citadas ou que houve a revelia; c) que a sentença tenha transitado em julgado, estando revestida das formalidades imprescindíveis à execução no lugar onde foi proferida; d) que a sentença se encontre traduzida por intérprete juramentado; e) que a sentença tenha sido devidamente homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (LINDB, art. 15, caput, com a alteração promovida pela Emenda Constitucional nº 45/2004). 14 13 14 12/03/2024 8 5.5. ATOS DE AUTORIDADES CONSULARES BRASILEIRAS São competentes as autoridades consulares brasileiras para celebrar o casamento e os atos de Registro Civil e de Tabelionato, inclusive o registro de nascimento e de óbito dos filhos de brasileiro ou brasileira nascidos no país da sede do Consulado. Também as autoridades consulares brasileiras poderão celebrar a separação consensual e o divórcio consensual de brasileiros, não havendo filhos menores ou incapazes ou nascituros, desde que observados os requisitos legais, devendo constar da respectiva escritura pública as disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns e à pensão alimentícia e, ainda, ao acordo quanto à retomada pelo cônjuge de seu nome de solteiro ou à manutenção do nome adotado quando se deu o casamento, sendo indispensável a assistência de um advogado (devidamente constituído) representando cada parte, ou de um advogado comum a ambas as partes. (LINDB, art. 18, §§ 1º e 2º). 15 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita FIM 16 15 16 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/04-Pessoa Natural-2024.pdf 12/03/2024 PESSOA NATURAL BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita 2024 2 PESSOA NATURAL 1 2 12/03/2024 1. INTRODUÇÃO Pessoa vem do latim persona-ae, que, por sua vez, tem a origem no verbo personare (per + sonare), que significa dizer “soar com intensidade”. Origem: prende-se ao teatro romano, onde o ator utilizava uma máscara, a qual dispunha de um dispositivo que lhe possibilitava ressoar melhor a sua voz, que se tornava mais possante e audível ao público espectador. Essa máscara se denominava persona. Com o tempo, o termo persona passou a ser entendido como o papel representado pelo ator. Posteriormente, tomou o sentido da atuação de cada indivíduo sob a ótica jurídica. Em um último estágio evolutivo, o vocábulo passou a indicar o próprio indivíduo que representava o papel . Nas Institutas, de Justiniano, assinala-se: “é para as pessoas que o Direito foi feito” (Inst., 2, 12). 3 2. DIREITO ROMANO No Direito Romano, considerava-se persona o sujeito de direitos e obrigações, o indivíduo que fosse livre e cidadão romano e que detivesse o poder familiar. Os romanos distinguiam 3 (três) espécies de status dentro de sua sociedade. a) Status libertatis. Entendia-se como livre o indivíduo que não pertencia a outrem. Deste modo, a noção de status libertatis não se referia à liberdade civil ou à liberdade física. b) Status civitatis. Este status dizia respeito aos indivíduos que detivessem a condição de cidadãos romanos (cives), para quem se aplicava o ius civile. Aos estrangeiros (peregrini), mesmo livres, incidia o ius gentium. c) Status familiae. Com referência a esse estado, os homens se distinguiam em persona sui iuris (aquele que não tinha ascendente vivo masculino), de direito próprio, e persona alieni iuris (aquele que pertencia a uma família com o seu paterfamilias), de direito alheio. 4 3 4 12/03/2024 3. CONCEITO DE PESSOA PESSOA NATURAL é o ser humano considerado como sujeito de direitos e deveres na órbita civil. Assim, pessoa natural é todo e qualquer ser humano sem discriminação da idade, sexo, etnia, estado de saúde e nacionalidade. O Código Civil de 2002, repetindo o código anterior, de 1916, adotou a expressão "pessoa natural", apesar de discordância pretérita de doutrinadores que não a aceitavam, entre eles Teixeira de Freitas, que afirmava que a denominação dava a entender a existência de "pessoas não naturais". Esse grande jurista propôs o uso da expressão “pessoa de existência visível”. Países como a França e a Itália utilizam a expressão "pessoa física". No Brasil, essa denominação é usada pela legislação tributária, sobretudo pelo Regulamento do Imposto sobre a Renda. 5 4. PERSONALIDADE Personalidade jurídica é, segundo Limongi França , a “qualidade do ente que se considera pessoa”, que “a possui desde o início até o fim da sua existência”. Tratando-se de pessoa natural, a personalidade se inicia com o nascimento com vida e termina com a morte. Já a personalidade da pessoa jurídica se origina com o registro de seus atos constitutivos no órgão competente e se extingue com a sua respectiva baixa. A personalidade da pessoa natural não se encontra vinculada a fatores de idade, de saúde psíquica ou aculturação. Nesse sentido, mesmo um recém-nascido, um deficiente mental ou um viciado em tóxicos, os quais não possuem discernimento, total ou parcialmente, detêm personalidade jurídica. À ideia de personalidade encontra-se ínsita a de capacidade. 6 5 6 12/03/2024 5. CAPACIDADE CAPACIDADE é a aptidão da pessoa para adquirir direitos e contrair deveres, exercendo, por si ou por outrem, atos ou negócios jurídicos dentro da órbita civil . A capacidade, que é um dos atributos da personalidade , se classifica em capacidade de direito ou de gozo e capacidade de fato ou de exercício. a) Capacidade de direito ou de gozo é a aptidão para adquirir direitos na esfera civil, estando presente em toda pessoa natural, a partir do seu nascimento com vida, pouco importando a sua idade, o seu estado de saúde e sua aculturação. Exemplo: uma criança pode ser proprietária de um imóvel. 7 b) Capacidade de fato ou de exercício é a aptidão para a pessoa, por si própria, adquirir direitos e assumir deveres na seara civil, dependendo de sua idade, de seu estado de saúde ou de sua aculturação. Daí o porquê de se falar em pessoas plenamente capazes, relativamente incapazes e absolutamente incapazes. Exemplo: uma criança, embora seja a proprietária de um imóvel, não poderá por si, sozinha, promover a sua locação, a menos que esteja devidamente representada por seus pais, ou pelo tutor, na hipótese de estarem os pais mortos, ausentes, destituídos ou suspensos do poder familiar. Deste modo, embora toda pessoa com capacidade de fato ou de exercício possua, necessariamente, a capacidade de direito ou de gozo, a recíproca não é verdadeira. Com efeito, nem todo aquele que tem capacidade de direito ou de gozo é detentor da capacidade de fato ou de exercício. 8 7 8 12/03/2024 6. PESSOAS PLENAMENTE CAPAZES, ABSOLUTAMENTE INCAPAZES E RELATIVAMENTE INCAPAZES Dissemos no item anterior que a capacidade de direito ou de gozo é inerente a toda pessoa natural, desde o instante de seu nascimento com vida. Porém, o fato de deter a capacidade de direito não significa que a pessoa tenha a capacidade de fato ou de exercício. Isso vai depender de sua idade, de seu estado de saúde ou de aculturação. Daí termos: a) pessoas plenamente capazes; b) pessoas absolutamente incapazes; e c) pessoas relativamente incapazes. 9 6.1. PESSOAS PLENAMENTE CAPAZES (1) São plenamente capazes as pessoas que, por haverem atingido a maioridade civil (CC, art. 5º, caput) , ou em virtude de se enquadrarem nas hipóteses de emancipação preconizadas pelo parágrafo único, do art. 5º, do Código Civil, possuem capacidade de fato ou de exercício, desde que tenham discernimento. a) Maioridade civil. Esta é alcançada aos 18 anos de idade (CC, art. 5º, caput), diversamente do ocorria com o Código Civil de 1916, que fixava a idade de 21 anos. b) Emancipação pelos pais ou por decisão judicial. Esta se realiza pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, por meio de um instrumento público devidamente registrado no Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais competente (Lei n. 6.015, de 31.12.1973, art. 29, IV), desde que o menor esteja na faixa etária entre 16 anos completos e 18 anos incompletos. Se o menor se encontrar sob tutela, sua emancipação se dará mediante sentença judicial, após ouvido o tutor. 10 9 10 12/03/2024 PESSOAS PLENAMENTE CAPAZES (2) c) Emancipação pelo casamento. Por meio do matrimônio, a pessoa menor de idade atinge a plenitude da capacidade civil antes dos 18 anos de idade, independentemente de vir, a posteriori, tornar-se viúva, separada judicialmente ou divorciada. Já nas hipóteses de anulação ou decretação de nulidade do casamento, a capacidade plena será conservada pelo cônjuge que agiu de boa-fé (casamento putativo), o mesmo não ocorrendo, entretanto, com o que atuou de má-fé. d) Emancipação pelo exercício de emprego público efetivo. Essa emancipação somente poderá ser atingida por funcionários nomeados de maneira efetiva, ficando, assim, afastados da previsão legal os diaristas e contratados. 11 PESSOAS PLENAMENTE CAPAZES (3) e) Emancipação pela colação de grau em curso de ensino superior. Essa hipótese é de difícil implemento, haja vista o tempo necessário para a conclusão dos 1º e 2º graus, após o que a pessoa estaria apta a ingressar no curso superior, cuja duração oscila em média entre 4 (quatro) e 5 (cinco) anos, embora tenhamos ciência de alguns cursos que são ministrados em apenas 2 (dois) anos. Não tem o condão de emancipar a colação de grau em curso técnico ou profissionalizante em grau médio. f) Emancipação pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com 16 (dezesseis) anos completos tenha economia própria. Atingirá a plenitude da capacidade civil o menor com 16 (dezesseis) anos completos que conseguir deter uma economia própria decorrente de atividade civil ou comercial, seja em caráter autônomo, seja em razão de vínculo empregatício. 12 11 12 12/03/2024 6.2. PESSOAS ABSOLUTAMENTE INCAPAZES Pessoas absolutamente incapazes são aquelas que não possuem aptidão para o exercício das atividades civis. São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 anos de idade. Os absolutamente incapazes não podem, por si mesmos, praticar atos ou negócios jurídicos, sob pena de nulidade (CC, art. 166, I). Entretanto, poderão exercer esses atos ou negócios jurídicos por meio de seus representantes legais, tais como os seus pais (que exercem o poder familiar), ou tutor (na falta dos pais, em virtude de morte, ausência ou perda do poder familiar). 13 6.3. PESSOAS RELATIVAMENTE INCAPAZES (1) Pessoas relativamente incapazes são aquelas que possuem aptidão para o exercício das atividades civis, desde que assistidos por seu representante legal. Os relativamente incapazes podem praticar atos ou negócios jurídicos, com a assistência de seus representantes legais, tais como os seus pais (que exercem o poder familiar), ou tutor (na falta dos pais, em virtude de morte, ausência ou perda do poder familiar), ou curador (CC, art. 3º, II e III), sob pena de anulabilidade (CC, art. 171, I). As pessoas relativamente incapazes, nos termos do art. 4º do Código Civil, são as seguintes: a) Os maiores de 16 (dezesseis) anos e menores de 18 (dezoito) anos. Advirta-se que, mesmo sendo menor, entre 16 (dezesseis) anos completos e 18 (dezoito) anos incompletos, não pode, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade, se dolosamente a ocultou quando inquirido pela outra parte, ou, se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior (CC, art. 180). 14 13 14 12/03/2024 PESSOAS RELATIVAMENTE INCAPAZES (2) b) Os ébrios habituais e os viciados em tóxicos. São relativamente incapazes os alcoólatras (aqueles que possuem uma dependência a bebidas alcoólicas) e os toxicômanos (os dependentes de drogas químicas ou naturais, consistentes em maconha, cocaína, morfina, LSD, heroína, etc.). Essas pessoas, alcoólatras e toxicômanos, na hipótese de já serem maiores de idade, serão consideradas relativamente incapazes, após sentença proferida nos autos de processo de interdição , pela qual será nomeado um curador, que irá cuidar do interdito e de seus bens, c) Os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir a sua vontade. Essa incapacidade absoluta atinge pessoas que não tiverem a possibilidade de manifestar a sua vontade, mesmo por um lapso temporal passageiro, resultante, por exemplo, de doenças consistentes em arteriosclerose, excessiva pressão arterial, embriaguez não habitual, uso eventual e excessivo de drogas químicas ou de substâncias alucinógenas, hipnose ou técnicas semelhantes . 15 PESSOAS RELATIVAMENTE INCAPAZES (3) d) Os pródigos. Estes são aqueles que, desmesuradamente, dilapidam o seu patrimônio. Para que sejam considerados relativamente incapazes, haverá necessidade de sentença proferida em processo de interdição. Uma vez interdito, não poderá o pródigo, sem o seu curador, emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar, demandar ou ser demandado, e praticar, em geral, os atos que não sejam de mera administração (CC, art. 1.782). Suas restrições dizem respeito tão-somente a atos de disposição, alienação e constituição de ônus. Isso significa que os demais atos e negócios jurídicos poderão ser realizados, como anuir no matrimônio dos filhos menores, votar, testemunhar, obter carteira de habilitação de veículo e, até mesmo, casar, embora precise, na feitura do pacto antenupcial, ser assistido por seu curador . 16 15 16 12/03/2024 PESSOAS RELATIVAMENTE INCAPAZES (4) Índios. Dispõe o parágrafo único, do art. 4º, do Código Civil, que a capacidade dos índios será regulada por legislação especial. Nesse sentido, encontra-se em plena vigência a Lei n. 6.001, de 19 de dezembro de 1973, conhecida como Estatuto do Índio, pelo qual os indígenas ficam sob a tutela da União, sendo incapazes, até o instante em que atinjam a idade mínima de 21 anos, conheçam a língua portuguesa, tenham habilitação para o exercício de atividade útil à comunidade nacional e razoável compreensão dos usos e costumes da comunhão nacional, e sejam liberados, diretamente, por decisão judicial, ou por ato da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) homologado judicialmente. Após a sua liberação, o índio terá a plenitude da capacidade civil, podendo praticar, por si próprio, todos os atos e negócios jurídicos. 17 7. INÍCIO DA PERSONALIDADE JURÍDICA (1) A personalidade da pessoa natural começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro (CC, art. 2º). Isso significa que a personalidade e a pessoa natural somente serão assim consideradas a partir do nascimento com vida. Se a criança nasceu morta, não adquire a personalidade civil, nem tampouco será considerada pessoa natural. Nascituro é o ente humano concebido que se encontra com uma expectativa de aquisição da personalidade condicionada ao nascimento com vida. Não é, pois, considerado pessoa. Exemplo: com a morte do pai, resguardam-se os direitos hereditários do nascituro. Porém, estes somente poderão ser adquiridos, de maneira efetiva, se ocorrer o nascimento com vida. 18 17 18 12/03/2024 7.1. REGISTRO DE NASCIMENTO Uma vez ocorrido o nascimento da criança com vida, deverá ser feito o seu REGISTRO no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do local em que tiver ocorrido o parto ou do domicílio de seus pais, dentro do prazo de 15 (quinze) dias, que será dilatado em até 3 (três) meses para as localidades com distância superior a 30 (trinta) quilômetros da sede do cartório. Na hipótese de os pais possuírem domicílios diversos, será feito o registro no Cartório de Registro do domicílio do pai ou, na falta ou impedimento do pai, no cartório registral do domicílio da mãe. O assento (registro) do nascimento deverá conter: a) o dia, mês, ano e lugar do nascimento e a hora certa, sendo possível determiná-la, ou aproximada; b) o sexo da criança; c) o fato de ser gêmeo, quando assim tiver acontecido; d) o nome e o prenome; e) a declaração de que nasceu morta, ou morreu no ato ou logo depois do parto, se a hipótese for essa; f) a ordem de filiação de outros irmãos do mesmo prenome que existirem ou tiverem existido; 19 g) os nomes e prenomes, a naturalidade, a profissão dos pais, o lugar e cartório onde se casaram, a idade da mãe, do registrando em anos completos, na ocasião do parto, e o domicílio ou a residência do casal; h) os nomes e prenomes dos avós paternos e maternos; i) os nomes e prenomes, a profissão e a residência das duas testemunhas do assento, quando se tratar de parto ocorrido sem assistência médica em residência ou fora de unidade hospitalar ou casa de saúde. 7.1.1. REGISTRO DE CRIANÇA NASCIDA MORTA Se a criança nasceu morta ou se morreu na ocasião do parto, deverá ser feito o registro no livro “C” do Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais, com os elementos que couberem e com remissão ao óbito. Não se dá o nome à criança natimorta. Na hipótese de a criança ter morrido na ocasião do parto após haver respirado, deverão ser providenciados dois assentos: o de nascimento e o de óbito, com os elementos cabíveis e com as remissões recíprocas aos eventos. 20 19 20 12/03/2024 MORTE NATURAL OU REAL. A personalidade jurídica da pessoa natural tem o seu término com a morte natural ou real (CC, art. 6º, 1ª parte), traduzida pela paralisação da atividade cerebral (morte cerebral ou morte encefálica). Assim, não mais se consideram, para a caracterização da morte real, a parada do batimento cardíaco, a inexistência de respiração ou ausência de contração das pupilas. MORTE PRESUMIDA. Verifica-se nas seguintes hipóteses: a) Ausência (desaparecimento de uma pessoa de seu domicílio, sem deixar notícias de seu paradeiro e sem deixar procurador ou representante legal); b) Se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida (CC, art. 7º, I); c) Se alguém desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra (CC, art. 7º, II). MORTE JUSTIFICADA. Os juízes togados podem reconhecer a justificação para o assento de óbito de pessoas desaparecidas em naufrágio, inundação, incêndio, terremoto ou qualquer outra catástrofe, quando estiver demonstrada a sua presença no lugar do desastre e não for possível a localização do cadáver para exame. 21 8. TÉRMINO DA PERSONALIDADE JURÍDICA COMORIÊNCIA é a presunção legal de mortes simultâneas, se, em caso de dois ou mais pessoas falecerem na mesma ocasião, não se puder averiguar quem precedeu ao outro na morte . Essa presunção vem preconizada no art. 8º do Código Civil. Exemplo: marido e mulher morrem em um acidente de automóvel, sem deixar descendentes e ascendentes, sendo impossível determinar quem faleceu por último, para efeitos de direito sucessório. Considerando-se ambos comorientes, os bens pertencentes ao marido serão dirigidos aos seus herdeiros, ao passo que o acervo patrimonial da mulher será destinado aos seus respectivos herdeiros. Deste modo, não haverá transmissão de direitos hereditários entre comorientes, mas somente para os seus herdeiros . 22 8.1. COMORIÊNCIA 21 22 12/03/2024 Com a morte natural ou real da pessoa, deverá ser feito o registro de óbito, por parte do Cartório de Registro Civil do lugar do falecimento, em vista do atestado médico, ou, na falta de médico no lugar, de duas testemunhas que presenciaram ou verificaram a morte . Sem a certidão de registro de óbito, nenhum sepultamento será feito. Tratando-se de cremação do falecido, esta somente será levada a efeito, se, em vida, aquele manifestou a vontade de ser incinerado. Fora essa hipótese, também poderá haver cremação no interesse da saúde pública. Em ambos os casos, o atestado de óbito deverá ser firmado por dois médicos ou por um médico legista e, sendo morte violenta, depois de autorizada pelo juiz. 23 8.2. REGISTRO DE ÓBITO 8.2.1. DECLARANTES DO ÓBITO DE PESSOA CONHECIDA São obrigados a fazer a declaração de óbito de pessoa conhecida: a) um dos cônjuges ou companheiros, a respeito da morte do outro; b) o filho, a respeito do pai ou da mãe; c) o irmão, a respeito dos irmãos; d) o parente mais próximo maior e presente; e) o administrador, diretor ou gerente de qualquer estabelecimento público ou particular, a respeito dos que faleceram em seu interior, salvo se estiver presente algum parente em grau já mencionado; f) a pessoa que assistiu aos últimos momentos do finado; g) o médico, o sacerdote ou vizinho que do falecimento teve notícia; h) a autoridade policial, a respeito de pessoas encontradas mortas. 8.2.2. ELEMENTOS DO REGISTRO DE ÓBITO DE PESSOA DESCONHECIDA Se o falecido era pessoa desconhecida, o registro deverá conter uma descrição física, constando sua estatura ou medida, se for possível, cor, sinais aparentes, idade presumida, vestuário e qualquer outra indicação que possa auxiliar, futuramente, o seu reconhecimento. No caso de ter sido encontrado morto, serão citados esta circunstância e o lugar em que se encontrava e o da necropsia, se tiver havido. Deverá ser também providenciada a individual dactiloscópica (impressões digitais), se existir esse serviço no local. O registro de óbito de pessoa desconhecida deverá ser assinado pela pessoa que fizer a comunicação ou por alguém a seu rogo, se não souber ou não puder assinar. 24 23 24 12/03/2024 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita FIM 25 25 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/05-Direitos da Personalidade-2024.pdf 12/03/2024 1 DIREITOS DA PERSONALIDADE BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita 2024 INTRODUÇÃO LEGISLAÇÃO CF, arts. 1º. , III, 3º., IV, e 5º., V e X. CC, arts. 11 a 21 e 52. CONCEITO Direitos da Personalidade são os “direitos considerados essenciais à pessoa humana, que a doutrina” e a lei preconizam e disciplinam, a fim de resguardar a sua dignidade. (Orlando Gomes). 2 1 2 12/03/2024 2 NASCITURO O nascituro possui direito da personalidade? Embora autores (Bittar, Senise, Silmara Chinellato) afirmem que o nascituro possui direitos da personalidade, estes, na verdade, de acordo com o art. 2º. do Código Civil, se encontram resguardados desde a sua concepção, sendo certo que o seu reconhecimento se aperfeiçoa somente com o nascimento com vida. 3 4 TRAÇOS DE CARACTERIZAÇÃO ORIGINÁRIOS IMPRESCRITÍVEIS ABSOLUTOS IMPENHORÁVEIS INTRANSMISSÍVEIS INEXPROPRIÁVEIS IRRENUNCIÁVEIS INCOMUNICÁVEIS INDISPONÍVEIS EXTRAPATRIMONIAIS ILIMITADOS 3 4 12/03/2024 3 5 ORIGINÁRIOS. Os direitos da personalidade são inerentes à pessoa desde o nascimento com vida. ABSOLUTOS. São oponíveis contra terceiros. INTRANSMISSÍVEIS. Não são passíveis de transferência a outra pessoa, quer a título gratuito, quer a título oneroso. O que se admite apenas é o seu uso. IRRENUNCIÁVEIS. Não podem ser objeto de renúncia por parte de seu titular, o qual os deterá a partir do nascimento com vida até a sua morte. INDISPONÍVEIS. Dada a sua irrenunciabilidade, não podem ser dispostos por seu titular. Observe-se que essa indisponibilidade é relativa, uma vez que poderão esses direitos ser objeto de contrato de concessão ou licença para uso de imagem. 6 ILIMITADOS. Os direitos da personalidade não possuem um número pré-estabelecido quanto à quantidade, porquanto meramente exemplificativo o disposto na Constituição Federal. IMPRESCRITÍVEIS. Podem ser suscitados e argüidos judicial ou extrajudicialmente a qualquer tempo, cabendo ao seu titular o direito de protegê-los. IMPENHORÁVEIS. Não cabe a constrição judicial sobre eles. INEXPROPRIÁVEIS. Não podem ser retirados pelo Poder Público, porque se referem à qualidade humana . INCOMUNICÁVEIS. Em virtude de serem inatos a cada pessoa, não podem ser objeto de comunhão ou condomínio . EXTRAPATRIMONIAIS. São insuscetíveis de aferição patrimonial. Isso não significa que seu titular não possa licenciar o seu uso, visando a obter algum proveito patrimonial. Exemplos: licença de uso de imagem em outdoors em campanha publicitária; veiculação da imagem na televisão, etc. 5 6 12/03/2024 4 7 1. DIREITOS FÍSICOS DA PERSONALIDADE CONCEITO São os direitos que remanescem desde o nascimento com vida do ser humano. 1.1. Direito à integridade física É aquele que visa a manter a saúde ou a segurança física da pessoa. - Hipótese de autolesão - não sujeição, com risco de vida, a tratamento médico ou à intervenção cirúrgica. 8 DIREITOS FÍSICOS DA PERSONALIDADE (cont.) 1.2. Direito ao corpo, às partes separadas e aos órgãos dúplices, aos órgãos regeneráveis. Esse direito significa a possibilidade de utilização do corpo, sem risco à saúde e ao bem maior, que é a vida. - Prática de relações sexuais - “Barriga de Aluguel” (cessão temporária de útero) - Transexualismo - Inseminação artificial - Uso de material orgânico, próprio para fins de perícia 1.3. Direito à imagem Refere-se à proteção da expressão visual. 7 8 12/03/2024 5 9 1.4. Direito aos alimentos Os alimentos abrangem a alimentação, a habitação, o vestuário e medicação, a instrução, a educação, a recreação e a assistência. 1.5. Direitos da personalidade post mortem? Como a morte faz cessar tudo (mors omnia solvit), os direitos da personalidade deixam de existir com a morte. O que pode ocorrer é a projeção desses direitos (Rui Geraldo Camargo Viana), que poderão ser protegidos por seu cônjuge ou companheiro sobrevivente ou por seus parentes consanguíneos (parentes em linha reta ascendente e descendente, assim como os colaterais até o 4º grau inclusive). DIREITOS FÍSICOS DA PERSONALIDADE (cont.) 10 2. DIREITOS PSÍQUICOS DA PERSONALIDADE Conceito. São aqueles inerentes ao desenvolvimento mental da pessoa natural. São: 2.1. Direito à integridade psíquica Este direito permite o desenvolvimento psíquico, sendo proibida a prática de lobotomia (lavagem cerebral), de tortura mental e do polígrafo (detector de mentiras). 2.2. Direito à liberdade Este direito possibilita a autodeterminação da pessoa na condução das relações sociais. A liberdade se encontra presente, de maneira ampla, em nossas vidas, quer no âmbito civil, quer no âmbito político ou religioso. 9 10 12/03/2024 6 11 DIREITOS PSÍQUICOS DA PERSONALIDADE (cont.) 2.3. Direito à intimidade Este direito se refere à privacidade a que qualquer pessoa tem direito. Consiste no direito de a pessoa não expor dados referentes à sua seara privativa ou íntima, cabendo-lhe, para impedir ou fazer xessar a violação à sua intimidade, o direito de requerer ao juiz as providências necessárias. 2.4. Direito ao segredo Consiste no direito da pessoa de conservar informes de que tem conhecimento sobre algo ou alguma pessoa, sem divulgá-los a outrem. O segredo pode ser: pessoal, profissional e comercial. 12 3. DIREITOS MORAIS DA PERSONALIDADE Conceito. São aqueles que proporcionam à pessoa condições para promover o seu desenvolvimento intelectual. São: 3.1. Direito à identidade É aquele pelo qual uma pessoa tem a oportunidade de se distinguir das demais. Consiste no nome. NOME DA PESSOA NATURAL I. Conceito: Nome é “um sinal verbal que identifica imediatamente e com clareza a pessoa a quem se refere”. (Adriano De Cupis) É “um meio geral da linguagem próprio para indicar qualquer ente, mas também é verdade que adquire particular importância social e jurídica quando serve para individualizar as pessoas” (idem) 11 12 12/03/2024 7 13 NOME DA PESSOA NATURAL II. Natureza jurídica Apesar de alguns afirmarem ser um direito de propriedade (Baudry-Lacantinerie), ou um direito sui generis (Colin et Capitant), ou um direito sobre bem material ou coisa incorpórea (Eltzbacher, Von Tuhr e Schulz-Schäffer), o nome, na verdade, é um direito da personalidade, com todas as características a ele inerentes. III. Elementos componentes do nome Prenome: expressão pela qual é identificada pelas demais e delas se distingue. Pode ser simples (ex.: José) ou composto (ex.: Antônio Carlos). Sobrenome: nome da família que segue o prenome. Pode ser simples (ex.: Silva) ou composto (ex.: Silva Oliveira). Partículas “de”, “do”, “da”, “dos”, “das”, e a conjunção “e”: integram o nome, assim como os seus similares em outras línguas. 14 NOME DA PESSOA NATURAL (cont. 1) Agnome: é a palavra distintiva que se soma ao prenome e ao sobrenome. Ex.: Júnior, Filho, Sobrinho, Sobrinha, Neto, I, II, III. Pseudônimo: é o nome fictício utilizado pela pessoa para manter em segredo a sua verdadeira identidade, dentro do âmbito literário, artístico, esportivo ou político. Ex.: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são os pseudônimos do poeta Fernando Pessoa. Codinome: é o nome dado a alguém diverso do seu nome de registro. Ex.: Tiradentes. Hipocorístico: é a expressão carinhosa pela qual a pessoa é tratada dentro de sua família. Ex.: Zé (José), Dudu (Eduardo), Benê (Benedito). 13 14 12/03/2024 8 15 NOME DA PESSOA NATURAL (cont. 2) IV. Aquisição do nome O nome pode ser adquirido pela pessoa natural pelo nascimento, pela adoção, pelo casamento e pela união estável (heteroafetiva e homoafetiva). V. Alteração do nome a) Nome que exponha o seu portador ao ridículo; b) Nome que identifique pessoa cruel ou imoral; c) Nome com evidente erro de grafia; d) Nome causador de embaraços comerciais ou profissionais; e) Nome referente a transexual; f) Proteção de vítimas e testemunhas de crime; g) Gêmeos e irmãos com igual prenome; h) Adoção. 16 3.2. Direito à honra É o que se refere à manutenção da boa fama pessoal valorada pela própria pessoa ou pela sociedade. A honra pode ser objetiva (qualidade íntima do indivíduo valorada pela sociedade) e subjetiva (qualidade íntima do indivíduo valorada exclusivamente por si próprio). A honra objetiva pode ser violada pela calúnia (imputação falsa de um crime a alguém) ou pela difamação (imputação falsa de um ato contrário à moral e aos bons costumes). A honra subjetiva pode ser violada pela injúria (ofensa à reputação de uma pessoa) 15 16 12/03/2024 9 17 3.3. Direito à educação Consiste na obtenção de dados e informes necessários à constituição e desenvolvimento dos valores educacionais na pessoa. 3.4. Direito ao emprego Consiste na oportunidade dada a qualquer pessoa de produzir riquezas, mediante o exercício de atividades com relação de emprego. 3.5. Direito à habitação Consiste no direito da pessoa de ter um local como moradia, onde possa viver dignamente. 3.6. Direito à cultura É o que se refere à absorção das várias ideias no mundo artístico, científico e literário. Prenome, sobrenove, 18 3.7. Direito às criações intelectuais É aquele em que o seu autor exterioriza as suas ideias e pensamentos na forma de obras literárias (prosa, poesia), obras estéticas ou plásticas (pintura, escultura), obras líricas (música, letra de música) e obras de propriedade industrial (invenção, modelo de utilidade). Prenome, sobrenove, 17 18 12/03/2024 10 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita FIM 19 19 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/02-Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro-1ª Parte-2024.pdf 21/02/2024 1 LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO – 1ª PARTE BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita 2024 2 1ª PARTE 1 2 21/02/2024 2 NOÇÕES PRELIMINARES Originariamente denominada Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, foi editada por meio do Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942, entrando em vigência em 24 de outubro de 1942, por força do Decreto-lei n. 4.707, de 17 de setembro de 1942. Sua promulgação provocou a revogação da anterior Lei de Introdução ao Código Civil, que estava em vigor, desde 1º de janeiro de 1917, início de eficácia conjunta com o Código de 1916. Com entrada em vigor do atual Código Civil/2002, continuou a viger a referida Lei de Introdução. Por meio da Lei n. 12.376, de 30.12.2010, passou a denominar- se Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB). 3 CONCEITO A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro é um conjunto de normas que estabelecem princípios relativos à eficácia, no tempo e no espaço, de regras jurídicas de direito público e de direito privado e, até mesmo, de direito internacional privado. LINDB de um “conjunto de normas sobre normas”. (Wilson de Campos Batalha) 4 3 4 21/02/2024 3 FUNÇÕES DA LINDB A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro objetiva: a) Regular a vigência e eficácia da norma jurídica (arts. 1º e 2º), apresentando soluções ao conflito de normas no tempo (art. 6º) e no espaço (arts. 7º a 19); b) Fornecer regras de hermenêutica (art. 5º); c) Estabelecer mecanismo de integração de normas (art. 4º); d) Garantir a eficácia global, não dando guarida ao erro de direito (art. 3º), mas dando a certeza, segurança e estabilidade da ordem jurídica, mantendo as “situações consolidadas em que o interesse individual prevalece” (art. 6º). 5 VIGÊNCIA E EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS NO TEMPO A palavra vigência provém do latim vigens, que, por sua vez, tem nascedouro no verbo vigere, significando “estar em voga”, “vigorar”. Vigência, segundo Carlos Alberto M. S. M. Violante , é a “validade formal ou técnico-jurídica da lei”. Para que haja a obrigatoriedade da norma jurídica, cumpre promover-se a sua publicação no Diário Oficial, entretanto a sua vigência não se inicia no dia da publicação, salvo se ela assim o determinar. 6 5 6 21/02/2024 4 Distinção entre validade e eficácia da norma jurídica Embora uma norma jurídica seja válida, sua eficácia somente existirá, caso possa a norma jurídica ser usada sobre o caso em concreto disposto por ela, consoante adverte Roberto Senise Lisboa . Isso poderá ocorrer em duas hipóteses: a) enquanto uma norma jurídica auto-aplicável a determinadas relações jurídicas ainda não estiver a vigorar (exemplo: Código Civil de 2002 durante o período da vacatio legis teve validade, entretanto não detinha eficácia); b) enquanto uma norma jurídica em vigor tiver a sua eficácia dependente de outra norma a ser objeto de futura promulgação (exemplo: o art. 226, § 3º, da Constituição Federal, preconiza que a lei deverá facilitar a conversão da união estável em casamento. Todavia, até esta data, não foi editada norma jurídica regulamentando esse procedimento previsto pelo dispositivo constitucional, embora as Corregedorias Gerais de Justiça dos Estados tenham procurado, por meio de Provimentos, suprir essa lacuna legal). 7 VACATIO LEGIS VACATIO LEGIS é o intervalo temporal entre a data de publicação da norma jurídica e de sua entrada em vigor. É o período de vacância da norma jurídica, a qual é chamada, de modo genérico, de lei. Esta visa a dar a oportunidade de ciência a todas as pessoas a respeito do seu conteúdo. Enquanto durar a vacatio legis, a nova norma jurídica não possuirá ainda eficácia, pelo que a norma jurídica velha estará a regular um determinado assunto até o instante em que a norma jurídica nova entre em vigência . Embora as normas jurídicas, na maioria, prevejam a data a partir da qual passarão a vigorar, que, em regra geral, é a de sua publicação, verificam-se hipóteses em que se concede tempo maior para sua adaptação, isto é, uma vacatio legis. Exemplo: o Código Civil de 2002 (Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, publicada no Diário Oficial da União em 11 de janeiro de 2002) estabeleceu, em seu art. 2.044, que entraria em vigor 1 (um) ano após a sua publicação, ou seja, a partir de 11 de janeiro de 2003. 8 7 8 21/02/2024 5 INÍCIO DE VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA (1) Uma norma jurídica começa a ter vigência de maneira progressiva ou de forma única ou simultânea, a saber: a) Vigência progressiva. Por essa forma, a norma jurídica entra em vigor em diferentes lapsos de tempo, tendo início nas regiões mais próximas, depois nas mais remotas. Era o que dispunha a revogada Lei de Introdução ao Código Civil, em seu art. 2º, que preconizava o início de vigência da lei, caso não estabelecesse prazo diverso, três dias após a sua publicação no Diário Oficial para o Distrito Federal (cidade do Rio de Janeiro); 15 (quinze) dias para o Estado do Rio de Janeiro; 30 (trinta) dias para os Estados marítimos e Minas Gerais; 100 (cem) dias para outros Estados e territórios da federação. 9 INÍCIO DE VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA (2) b) Vigência única ou simultânea. Por este modo, a norma entra em vigência a um só tempo em todo o país. É o que estabelece a atual LINDB, em seu art. 1º. Assinale-se que, caso inexista disposição em contrário, a norma jurídica passa a vigorar no Brasil 45 (quarenta e cinco) dias após a sua publicação no Diário Oficial da União. LINDB - Art. 1º. Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de oficialmente publicada. Já, no exterior, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, tem início 3 (três) meses depois de sua publicação (LINDB, art. 1º, caput e § 1º). LINDB, Art. 1º., § 1º. Nos Estados estrangeiros, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, se inicia três meses depois de oficialmente publicada. 10 9 10 21/02/2024 6 INÍCIO DE VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA (3) Porém, advirta-se que a maioria das normas jurídicas editadas, nos dias de hoje, traz em seu contexto a alusão à sua entrada em vigência no dia de sua publicação (exemplo: “Esta lei entra em vigor na data de sua publicação”) ou à data em que passará a viger futuramente (exemplo: “Esta lei entrará em vigor um ano após a sua publicação”). Código Civil, Art. 2.044. Este Código entrará em vigor 1 (um) ano após a sua publicação. 11 NOVA PUBLICAÇÃO DE TEXTO DA NORMA JURÍDICA (1) Caso necessária uma republicação da norma jurídica, que ainda não entrou em vigor, objetivando a correção, o prazo de vigência passará a ter início a partir da nova publicação (LINDB, art. 1º, § 3º). LINDB, Art. 1º, § 3º Se, antes de entrar a lei em vigor, ocorrer nova publicação de seu texto, destinada a correção, o prazo deste artigo e dos parágrafos anteriores começará a correr da nova publicação. Todavia, se a norma jurídica já se encontrava em vigor, as correções levadas a efeito a seu texto são consideradas lei nova (LINDB, art. 1º, § 4º). LINDB, Art. 1º, § 4º As correções a texto de lei já em vigor consideram-se lei nova. 12 11 12 21/02/2024 7 NOVA PUBLICAÇÃO DE TEXTO DA NORMA JURÍDICA (2) Adverte Washington de Barros Monteiro que MERO ERRO TIPOGRÁFICO dispensa a elaboração de uma lei retificativa; e mesmo que a retificação se faça por lei posterior, embora totalmente desnecessária, esta não é considerada lei nova . 13 CESSAÇÃO DA VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA A LINDB, em seu art. 2º, caput, estabelece duas espécies de normas jurídicas, quanto ao seu tempo de vigência: a norma com vigência temporária e a norma com vigência para o futuro sem prazo determinado. A NORMA COM VIGÊNCIA TEMPORÁRIA é aquela em que o legislador fixou o tempo de sua duração. É o que ocorreu, por exemplo, com a lei que criou a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras). A NORMA COM VIGÊNCIA PARA O FUTURO SEM PRAZO DETERMINADO é aquela que durará até que seja modificada ou revogada por outra. Exemplo: o Código Civil de 2002. Não se tratando de norma jurídica com vigência temporária, onde se assinala o termo final de sua eficácia, poderá a norma com vigência para o futuro sem prazo determinado ser objeto de modificação ou de revogação. 14 13 14 21/02/2024 8 REVOGAÇÃO DA NORMA JURÍDICA (1) REVOGAÇÃO é a supressão, total ou parcial, de uma norma jurídica. Espécies de revogação: ab-rogação e derrogação; expressa e tácita. Ab-rogação é a supressão total da norma jurídica anterior. Exemplo: a revogação pelo Código Civil de 2002 da Lei n. 3.071, de 1º de janeiro de 1916 – Código Civil de 1916 . Derrogação é a supressão parcial da norma jurídica. Exemplo: a revogação pelo Código Civil de 2002 da Parte Primeira do Código Comercial de 1850. 15 REVOGAÇÃO DA NORMA JURÍDICA (2) Revogação expressa é aquela que ocorre quando o legislador declara, no texto da norma jurídica, estar extinta a lei velha (LINDB, art. 2º, § 1º, 1ª parte). Exemplo: o Código Civil de 2002 preconiza, expressamente, a revogação do Código Civil de 1916 e da Primeira Parte do Código Comercial. Revogação tácita é a que ocorre quando houver incompatibilidade entre a lei velha e a nova, ou quando a lei nova regular inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior (LINDB, art. 2º, § 1º, in fine). Se a incompatibilidade entre leis for total, ou se houver integral regulação da matéria pela nova norma jurídica, teremos a revogação tácita total. Entretanto, se a incompatibilidade for parcial, ou se a regulação da matéria pela lei nova for em parte, teremos a revogação tácita parcial. 16 15 16 21/02/2024 9 REPRISTINAÇÃO REPRISTINAÇÃO é a nova vigência de uma determinada lei revogada pela lei revogadora, resultante da revogação desta última levada a efeito por uma terceira lei . Deste modo, em virtude da repristinação, uma lei revogada volta a viger novamente, porquanto a lei que, anteriormente, a revogara deixa de ter efeitos em razão de uma norma posterior, a qual promove o restabelecimento da primeira. Exemplo: a lei “A”, promulgada e publicada em 1º de maio de 2001, foi revogada pela lei “B” em 25 de outubro de 2002. Entretanto, em 17 de junho de 2003, uma lei “C” revoga a lei “B”, mencionando, de modo expresso, a restauração de vigência da lei “A”. Em conformidade com o § 3º, do art. 2º, do Código Civil, não existe, em regra geral, repristinação, a menos que a lei disponha de forma contrária. Em outras palavras, salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência. 17 EFEITOS DA NORMA JURÍDICA A LINDB, em seu art. 3º, estabelece que “ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece” . LINDB, Art. 3º Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. Essa regra é justificada pelo princípio da necessidade ou do interesse social, pelo qual, se assim não fosse, não subsistiria nenhum direito ou garantia, instalando-se um regime de insegurança e de anarquia . Excepciona-se essa regra em hipóteses relativas à sua não divulgação, oriunda de guerra, epidemia ou uma calamidade pública; ou a erro de direito, o qual somente poderá ser alegado, desde que, não implicando recusa à aplicação da lei, seja o único motivo ou principal do negócio jurídico (CC, art. 139, III). 18 17 18 21/02/2024 10 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (1) Toda vez que surge uma nova lei, alterando uma anterior, que já estava a regular determinadas relações jurídicas sob a sua égide, há um conflito de leis no tempo. A discussão gira em torno da aplicabilidade ou não da lei nova sobre as relações jurídicas existentes. Para a solução desse conflito, apresentam-se dois critérios: o das disposições transitórias e o da irretroatividade das normas. 1. CRITÉRIO DAS DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS O critério das disposições transitórias elaboradas pelo próprio legislador visa a resolver e a impedir os conflitos resultantes da nova lei em confronto com a anterior, tendo, deste modo, um período temporário de vigência . 19 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (2) Exemplo: O Livro Complementar do Código Civil de 2002, referente às Disposições Finais e Transitórias , estabelece, em seu art. 2.035, que a validade dos negócios jurídicos e demais atos jurídicos, constituídos antes da entrada em vigor do novo código, obedece ao disposto nas leis anteriores, referidas no art. 2.045 (Código Civil de 1916 e a Parte Primeira do Código Comercial de 1850), mas os seus efeitos, produzidos após a vigência do Código de 2002, subordinam- se aos preceitos deste, a menos que as partes tenham, previamente, previsto uma determinada forma de execução (a qual não poderá contrariar preceitos de ordem pública). 20 19 20 21/02/2024 11 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (3) 2. CRITÉRIO DA IRRETROATIVIDADE Pelo critério da irretroatividade da lei, tem-se que a lei não atinge as situações jurídicas constituídas anteriormente. Essa é a regra geral que visa, acima de tudo, à manutenção da paz e da segurança sociais, com o respeito ao ato jurídico perfeito, ao direito adquirido e à coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI; LICC, art. 6º, caput e §§ 1º, 2º e 3º). Consoante afirmativa de Clóvis Beviláqua, “o princípio da não retroatividade é um princípio de proteção individual”. Ex.: pessoa com idade de, no mínimo, 18 anos poderá adotar uma criança de acordo com o atual ordenamento legal. Caso, após a propositura da ação de adoção, seja majorada a idade mínima para 21 anos, essa exigência não alcançará esse adotante. 21 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (4) ATO JURÍDICO PERFEITO, DIREITO ADQUIRIDO E COISA JULGADA Ato jurídico perfeito é aquele que se consumou em conformidade com a lei vigente à época em que se realizou. Ex.: um contrato de doação celebrado em 12 de dezembro de 2000, isto é, sob a égide do Código Civil de 1916. Mesmo que este diploma legal tenha sido revogado pelo Código Civil de 2002, o negócio jurídico da doação permanecerá válido. Direito adquirido é aquele que se incorporou, de forma definitiva, ao patrimônio de seu titular. Ex.: uma pessoa obtém o direito à aposentadoria aos 35 anos de serviços e de contribuição à previdência social. Se, porventura, uma nova lei alterar a exigência para 50 anos, não poderá atingir essa pessoa que, de acordo com a lei velha, já preencheu o pretérito requisito temporal. 22 21 22 21/02/2024 12 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (5) Coisa julgada é a decisão judiciária da qual não caiba mais recurso. Ex.: uma sentença judicial declara a inexistência de uma relação jurídica obrigacional entre “A”, credor, e “B”, devedor. “A”, inconformado, interpõe todos os recursos cabíveis junto aos tribunais competentes, restando, porém, confirmada a decisão. Com a coisa julgada, não poderá mais o credor “A” rediscutir a matéria debatida anteriormente . Nem tampouco poderá uma lei nova pretender atingir, de modo retroativo, os efeitos da coisa julgada. 23 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (6) Regra geral da imediata aplicação da lei e hipóteses de retroatividade A regra geral é a da imediata aplicação da lei nova sobre: a) o estado da pessoa (ex.: se uma lei estabelece a dissolubilidade do matrimônio, significa que todo e qualquer casamento poderá se sujeitar ao divórcio, mesmo aquele celebrado à época em que não era permitido o divórcio ); b) a natureza jurídica de um bem móvel ou imóvel ; c) as regras pertinentes à posse, mesmo que a propositura da ação possessória tenha ocorrido na vigência da lei anterior; d) as normas referentes ao uso da propriedade, uma vez que a nova lei não alcança os demais efeitos do direito da propriedade; 24 23 24 21/02/2024 13 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (7) e) a organização judiciária, que regula os órgãos do Judiciário e a sua competência ratione materiae, tendo aplicação imediata sobre todos os processos já em andamento; f) processos judiciais, isto é, as leis processuais, mesmo sendo novas, terão aplicação sobre os processos que estejam ainda em tramitação perante os juízos monocráticos ou tribunais. 25 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (8) EXCEÇÕES DE RETROATIVIDADE DA LEI Há hipóteses de retroatividade da lei, pela qual se alcançam efeitos de negócios ou atos jurídicos levados a efeito em conformidade com uma lei revogada. Ela somente é admitida em situações excepcionais, como as leis favoráveis. As leis favoráveis, como as penais ou tributárias, poderão ter efeitos retroativos, desde que estabeleçam, de maneira expressa, o benefício ao réu ou ao contribuinte. 26 25 26 21/02/2024 14 CRITÉRIOS PARA SOLUCIONAR O CONFLITO DE LEIS NO TEMPO (9) IRRETROATIVIDADE DA LEIS INTERPRETATIVAS Leis interpretativas são aquelas que objetivam dar o sentido autêntico desejado pelo legislador a uma lei antiga, a qual permanecerá vigente. Caio Mário da Silva Pereira adverte que “as situações jurídicas, ou os direitos subjetivos constituídos em função da interpretação dada à lei, antes do dispositivo interpretativo, não podem mais ser alterados ou atingidos, ainda que a hermenêutica autêntica venha infirmar o entendimento dado à lei interpretada”. As leis interpretativas consideram-se contemporâneas da própria lei interpretada, fazendo-se, assim, abstração do tempo decorrido entre as duas normas jurídicas. Portanto, as leis interpretativas não possuem caráter retroativo. 27 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita FIM 28 27 28 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/000-Auto apresentação do Professor Jorge Fujita.pdf 21/02/2024 1 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS PROF. DR. JORGE SHIGUEMITSU FUJITA 2024 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita Doutor (PhD) em Direito Civil pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Professor Titular de Direito Civil dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação lato sensu do Curso de Direito do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU (São Paulo) Professor Doutor do Programa de Mestrado em Direito da Sociedade da Informação do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU Coordenador do Curso de Pós-Graduação lato sensu em Direito de Família e Sucessões da FMU Docente Voluntário Doutor do Curso de Pós-Graduação stricto sensu (Mestrado e Doutorado) da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP 1 2 21/02/2024 2 Professor do Curso de Pós-Graduação lato sensu da Faculdade de Direito da Universidade Estadual de Londrina – UEL (PR) Professor do Curso de Pós-Graduação lato sensu da Escola Superior de Advocacia (ESA) da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de São Paulo Líder do Grupo de Pesquisa “Direito de Autor, Família, Grupos Sociais e Informação” e do Grupo de Pesquisa “Biodireito e Direitos da Personalidade” Editor Responsável pela FMU Direito Revista Eletrônica Parecerista, consultor jurídico e advogado (Fujita Advocacia. Praça Ramos de Azevedo, 209, 3º andar, conjunto 32, centro, São Paulo – SP, CEP 01037-010) CV: http://lattes.cnpq.br/5202705522000286 E-mail: jorge.fujita@fmu.br BIBLIOGRAFIA AZEVEDO, Álvaro Villaça. Teoria Geral do Direito Civil: Parte Geral. 2. ed. São Paulo: Saraiva Jur, 2019, v. 1. DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral do Direito Civil. 41. ed. São Paulo: Saraiva, 2024, v. 1. FUJITA, Jorge Shiguemitsu. SCAVONE JUNIOR, Luiz Antonio. CAMILLO, Carlos Eduardo Nicoletti. TALAVERA, Glauber Moreno (Coordenadores). Comentários ao Código Civil Artigo por Artigo. 3. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2014. GAGLIANO, Pablo Stolze. PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil: Parte Geral. 25. ed. São Paulo: Saraiva, 2023, v. I. GOMES, Orlando. Introdução ao Direito Civil. Coordenador Edvaldo Brito. 20. ed. Rio de Janeiro: GEN – Forense, 2010. GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Parte Geral. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 2024, v. 1. 3 4 21/02/2024 3 BIBLIOGRAFIA LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil: Teoria Geral do Direito Civil. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, v. 1. MONTEIRO, Washington de Barros. Ana Cristina de Barros Monteiro França. Curso de Direito Civil: Parte Geral. 45. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, v. 1. NADER, Paulo. Curso de Direito Civil: Parte Geral. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense - GEN, 2018, v. 1. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil: Introdução ao Direito Civil. Teoria Geral de Direito Civil. 34. ed. Revista e atualizada por Maria Celina Bodin de Moraes. Rio de Janeiro: Forense - GEN, 2022, v. I. TARTUCE, Flávio. Direito Civil: Lei de Introdução e Parte Geral. 20. ed. São Paulo: GEN - Forense, 2024, v. 1. PLANO DE ENSINO 1. Direito 2. Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro (1ª Parte) 3. Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro (2ª Parte) 4. Pessoa Natural 5. Direitos da Personalidade 6. Pessoa Jurídica 7. Domicílio 8. Bens 9. Fatos jurídicos. Atos jurídicos. Negócios jurídicos. Elementos essenciais do negócio jurídico 10. Elementos acidentais do negócio jurídico. 5 6 21/02/2024 4 PLANO DE ENSINO 11. Defeitos do negócio jurídico: Erro, dolo e coação 12. Defeitos do negócio jurídico: Estado de perigo e Lesão 13. Defeitos do negócio jurídico: Fraude contra credores e Simulação 14. Negócios inexistentes, nulos e anuláveis 15. Atos ilícitos. Responsabilidade civil 16. Prescrição e Decadência 17. Prova dos negócios jurídicos 7 BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS - FUJITA/CONTEÚDO DAS AULAS/01-Direito-2024.pdf 21/02/2024 1 DIREITO BASES DAS RELAÇÕES PRIVADAS Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita 2023 2 LEI 1 2 21/02/2024 2 INTRODUÇÃO: LEI FÍSICA E LEI ÉTICA Antes de ingressarmos na discussão conceitual do direito, devemos distinguir a lei física da lei ética. A lei física objetiva regular a natureza. Ex.: lei da gravidade: “a matéria atrai a matéria na razão direta do produto de suas massas e na razão inversa do quadrado das distâncias que as separa” (Isaac Newton). A lei ética diz respeito ao comportamento humano. Ex.: Estatuto da Criança e do Adolescente. Regula os direitos do menor de idade. 3 LEIS FÍSICAS, consoante ensina Goffredo Telles Júnior, são fórmulas “elaboradas pelo homem, para revelar, em síntese, o que a ciência descobriu de constante, em tipos de fenômenos observados na natureza”. LEIS ÉTICAS “são fórmulas elaboradas pelo ser humano, para ordenar o seu comportamento”, “são enunciados do dever- ser”, em contrapartida às leis físicas que se limitam a revelar o ser das coisas. Entre as normas éticas, temos a religião, a moral e o direito. 4 3 4 21/02/2024 3 RELIGIÃO Religião provém do latim religare, que exprime religar, reunir, reatar. A religião traduz a religação entre o ser humano e Deus, ou seja, entre a criatura e o Criador. Deus é a causa primária de todas as coisas. É a inteligência suprema, cuja existência se manifesta pelas suas obras. Já o ser humano é uma das suas criaturas, dotado de inteligência, consistente na faculdade especial de pensar, de ter consciência de sua existência e de sua individualidade, de travar relações com os seus semelhantes e com as coisas que o rodeiam, possuindo, após o período inicial de sua vida, a capacidade de prover as suas próprias necessidades. O ser humano é detentor, acima de tudo, do livre arbítrio. 5 A religião se encontra ligada à consciência de cada ser humano, o qual, em hipótese de infringência de norma estabelecida por ela, poderá, consoante preleciona Roberto Senise Lisboa, sofrer “um sentimento de autopunição ou um prejuízo espiritual para o grupo religioso do qual a pessoa infratora ou pecadora faz parte”. 6 5 6 21/02/2024 4 MORAL Moral, cuja origem etimológica está no vocábulo latino moralis, significa “relativo aos costumes”. MORAL é o “conjunto de valores sociais vigentes num determinado grupo e dotados de coercibilidade social, convencional, não compulsiva”. É “a qualidade de conduta a que não falta qualquer dos requisitos essenciais de um ato humano perfeito, a saber, consciência e autodeterminação”. É “a qualidade de uma pessoa, que se identificou com uma larga soma de hábitos virtuosos, de sorte a torná-la inclinada a praticar condutas normadas, seja pelo direito, seja pela própria religião ou pelas convenções sociais” (Antonio Bento Betioli) 7 DIFERENÇA ENTRE MORAL E DIREITO (1) - Embora ambos se refiram aos atos do ser humano em sociedade, visando ao seu bem estar, assim como ao da sociedade, deflui-se que a moral possui uma abrangência maior que o direito. - Na moral, o ser humano tem deveres para com Deus, para consigo mesmo e para com os seus semelhantes, ao passo que, no direito, o ser humano possui deveres em relação aos demais. - A moral não possui coerção, uma vez que importa em apenas sanções internas (remorso, arrependimento, desgosto íntimo, sentimento de reprovação geral). A moral não é compatível com qualquer ideia ou plano de natureza coercitiva, quer de ordem física, quer de ordem psíquica 8 7 8 21/02/2024 5 DIFERENÇA ENTRE MORAL E DIREITO (2) - De outra parte, o direito é provido de coerção, pois aplica uma sanção ao seu transgressor. A regra jurídica conta com a sanção para obrigar o ser humano à sua obediência, visando à segurança e à justiça para a humanidade. - A moral afeta a paz interior. O direito atinge a exterior. - A moral age no foro íntimo, enquanto que o direito atua no foro exterior. - A moral não apresenta valor àquele que não a aceita. O direito vem a se impor a qualquer um, mesmo àquele que o ignore, embora seja admissível o erro de direito . - A moral é mais difusa, o direito é mais definido . 9 NOÇÕES DE DIREITO A palavra “direito” é plurívoca. Tem vários sentidos: a) como prerrogativas ou faculdades (ex.: Fulano revoltou-se, porquanto o seu direito de defesa lhe foi cerceado); b) como um complexo de normas jurídicas, que regulam a vida do ser humano em sociedade, fixadas pelo Estado, que as impõe a todos mediante coerção (ex.: o Direito Brasileiro); c) como ciência (ex.: cabe ao direito estudar a regulação da clonagem humana); d) como fato social (ex.: o direito constitui um setor da vida social ). 10 9 10 21/02/2024 6 CONCEITO DE DIREITO (1) Radbruch: direito é “o conjunto de normas, gerais e positivas, que regulam a vida social”. Caio Mário da Silva Pereira: direito é “o princípio de adequação do homem à vida social”. Roberto Senise Lisboa: direito como sendo “o conjunto de normas jurídicas elaboradas a partir de princípios naturais e da razão humana, que atribui ou autoriza uma série de condutas em sociedade”. Clóvis Bevilaqua: “direito é uma regra social obrigatória, quer sob a forma de lei, quer sob a de costume” . 11 CONCEITO DE DIREITO (2) Goffredo Telles Júnior: entende que a palavra direito é plurívoca analógica, com sentidos diversos mas conexos, ensina que o direito é “imperativo autorizante e sistema de imperativos autorizantes” (Direito Objetivo), “permissão concedida por meio de norma jurídica” (Direito Subjetivo) e “o justo segundo o Direito ou o seu, em conformidade com a lei” (justo convencional, a qualidade do que é justo, mas justo nos termos da lei) . Jorge Fujita: “direito é um complexo de normas jurídicas, que regulam a vida do ser humano em sociedade, estabelecidas pelo Estado, visando à paz e à segurança sociais”. 12 11 12 21/02/2024 7 DIREITO OBJETIVO E DIREITO SUBJETIVO (1) DIREITO OBJETIVO é o conjunto de normas jurídicas que, de modo obrigatório, regulam o comportamento humano, prescrevendo a incidência de uma sanção no caso de sua violação . O direito objetivo é sempre um conjunto de normas impostas ao comportamento humano, autorizando-o a fazer ou a não fazer algo. Estando, portanto, fora do ser humano, indica-lhe o caminho a seguir, prescrevendo sanção em caso de violação. O direito objetivo designa o direito enquanto regra (ius est norma agendi) 13 DIREITO OBJETIVO E DIREITO SUBJETIVO (2) DIREITO SUBJETIVO "é a permissão dada por meio da norma jurídica, para fazer ou não fazer alguma coisa, para ter ou não ter alguma coisa, ou, ainda, a autorização para exigir, por meio dos órgãos competentes do poder público ou por meio de processos legais, em caso de prejuízo causado por violação de norma, o cumprimento da norma infringida ou a reparação do mal sofrido" . (Goffredo da Silva Telles Júnior) 14 13 14 21/02/2024 8 DIREITO SUBJETIVO ≠ FACULTAS AGENDI Direito Subjetivo não se confunde com “facultas agendi” (= faculdade de agir), que é a possibilidade que tem o homem de agir de determinada forma. As faculdades humanas não são direitos, são qualidades próprias do ser humano, que não se encontram na dependência de uma norma jurídica para que possam existir. A faculdade de agir não se confunde com a permissão de usar essa faculdade. Em primeiro lugar, existe a faculdade de agir. Posteriormente, vem a permissão ou direito de utilizar essa faculdade, ou seja, o direito subjetivo . Enfim, o direito subjetivo é sempre a permissão que tem o ser humano de agir conforme o direito objetivo, sendo que um não pode existir sem o outro. O direito objetivo existe em razão do subjetivo, para revelar a permissão de praticar atos. O direito subjetivo, por sua vez, constitui-se de permissões dadas por meio do direito objetivo 15 DIREITO POSITIVO E DIREITO NATURAL (1) DIREITO POSITIVO é o conjunto de normas jurídicas, que regulam as relações entre os homens em sociedade e que vigoram em um determinado país e numa determinada época . Exemplos: o Código Civil de 2002 (Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002) em vigência no Brasil a partir de 11 de janeiro de 2003; o Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990) vigente desde 12 de março de 1991. 16 15 16 21/02/2024 9 DIREITO POSITIVO E DIREITO NATURAL (2) DIREITO NATURAL é “o ordenamento ideal, que corresponde a uma justiça superior e suprema”. (Andrea Torrente) Direito Natural é “o conjunto de normas éticas decorrentes do ser humano, que fundamentaram os princípios gerais, para a elaboração do direito positivo” . (Roberto Senise Lisboa) Esses princípios que formam o Direito Natural são: bonum faciendum (o bem deve ser feito), neminem laedere (não lesar a outrem), suum cuique tribuere (dar a cada um o que é seu), respeitar a personalidade do próximo, as leis da natureza, etc.” (André Franco Montoro) 17 DIREITO PÚBLICO E DIREITO PRIVADO De acordo com a Teoria mista fundada no interesse preponderante e na forma da relação jurídica: DIREITO PÚBLICO é aquele que “protege interesses preponderantemente públicos e regula relações jurídicas de subordinação”, onde “uma das partes é o Governo da sociedade política, exercendo a sua função de mando”. (Goffredo da Silva Telles Júnior) DIREITO PRIVADO é “aquele que protege interesses preponderantemente privados e regula relações jurídicas de coordenação” , onde há um “vínculo entre partes que se tratam de igual para igual”. (Goffredo da Sailva Telles Júnior) 18 17 18 21/02/2024 10 DIREITO PÚBLICO E SEUS RAMOS (1) DIREITO PÚBLICO é o conjunto de regras jurídicas que regulam as relações públicas, ou seja, em que o Estado é parte, regendo a organização e atividade do Estado, considerado em si mesmo, em sua relação com outro Estado, e em suas relações com particulares, quando atua em decorrência de seu poder soberano e age na tutela dos interesses gerais de toda a coletividade RAMOS DO DIREITO PÚBLICO: Direito Constitucional: é aquele que fixa os direitos fundamentais e regula a estrutura, organização e funcionamento do Estado, assim como as relações entre governantes e governados. Direito Administrativo: rege a estrutura e funcionamento da administração pública, seja ela direta, seja indireta, assim como suas relações entre os administradores e seus administrados 19 DIREITO PÚBLICO E SEUS RAMOS (2) Direito Penal: regula a função preventiva e repressiva do Estado, por meio da definição de crimes e contravenções e suas respectivas penas, visando à manutenção da ordem jurídica. Direito Tributário: estabelece a relação entre Estado e contribuinte e regula a arrecadação de tributos e a obtenção de receita para o Estado . Direito Processual: rege a função do Estado relativa ao exercício da tutela jurisdicional, por meio do Poder Judiciário, atribuindo a cada um o que é seu. Pode ser Direito Processual Civil e Direito Processual Penal. Direito do Trabalho: regula as relações entre empregador e empregado, estabelecendo normas correspondentes à organização do trabalho e da produção . 20 19 20 21/02/2024 11 DIREITO PÚBLICO E SEUS RAMOS (3) Direito Internacional Público: cuida das relações entre Estados, bem como a atividade dos organismos internacionais, tais como a ONU – Organização das Nações Unidas, a OMC – Organização Mundial de Comércio, a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, etc. 21 DIREITO PRIVADO E SEUS RAMOS (1) DIREITO PRIVADO é o complexo de normas jurídicas, que disciplinam as relações entre particulares de caráter privado, onde predomina imediatamente o interesse de ordem particular . RAMOS DO DIREITO PRIVADO: Direito Civil: rege as relações privadas entre as pessoas, naturais ou jurídicas, mediante normas pertinentes ao estado e à sua capacidade, às obrigações, às coisas, à família e às sucessões. Direito Empresarial: visa a reger as atividades empresariais e as relações entre empresários, assim como entre um empresário e um particular. 22 21 22 21/02/2024 12 DIREITO PRIVADO E SEUS RAMOS (2) Direito do Trabalho: regula as relações entre empregador e empregado, estabelecendo normas correspondentes à organização do trabalho e da produção . Direito do Consumidor: disciplina as relações entre o fornecedor de produto ou de serviço e o consumidor (pessoa física ou jurídica). Direito Internacional Privado: trata das relações entre o Estado com pessoas naturais ou jurídicas de outros Estados no concerto mundial. 23 Prof. Dr. Jorge Shiguemitsu Fujita FIM 24 23 24