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AULA 1 FILOSOFIA LEAN Profª Rosinda Angela da Silva 2 CONVERSA INICIAL Esta aula tem como propósito de discutir importantes temas que compõem as práticas desenvolvidas pela empresa Toyota, que foi a precursora na implantação da filosofia Lean em seus processos fabris. Assim, discutiremos como a filosofia Lean foi construída e apresentaremos alguns de seus fundamentos e principais profissionais que fizeram com que ela se tornasse sinônimo de qualidade em gestão dos sistemas de produção. TEMA 1 – INTRODUÇÃO À FILOSOFIA LEAN Os conceitos referentes ao Lean não são novidade nas organizações do Brasil e do mundo, no entanto percebe-se, em muitos casos, que os profissionais até têm ideia do que significa o termo, mas não conseguem explicar exatamente o que é, explicitando quais os objetivos e benefícios que o Lean pode trazer para as organizações. Devido a isso, trataremos de compreender não apenas seu conceito, mas também sua aplicabilidade na gestão. Saiba que, para conhecer e compreender o que é Lean, teremos que conhecer um pouco sobre a empresa precursora desse sistema no mundo: a Toyota. Então, vamos por partes! Figura 1 – Filosofia Lean Fonte: Serato/Shutterstock. 1.1 Lean: em busca de uma definição Em termos de definição, segundo Koenigsaecker (2011), um pesquisador comprometido com o sistema Lean, a própria Toyota nunca criou um termo que pudesse expressar exatamente o que é Lean! Observe o que ele diz: Se você pedir a alguém da Toyota para descrever o sistema Toyota de Produção – que seria a definição de Lean da empresa –, certamente 3 ouvirá várias explicações simples e diretas, todas corretas, mas partindo de uma perspectiva substancialmente diferente. (Koenigsaecker, 2011, p. 59) Por outro lado, o autor explica que uma das possíveis descrições evidenciariam dois elementos essenciais encontrados na filosofia Lean: “O conceito e a prática da melhoria contínua; poder do respeito pela pessoa”. (Koenigsaecker, 2011, p. 59). Já os autores Sayer; Williams (2015, p. 13), trazem outras definições para Lean: o Lean é uma filosofia, uma abordagem para sua vida e trabalho. O Lean é uma jornada, sem um caminho predefinido ou final estabelecido. Trata- se de uma forma de seguir adiante que garante o melhoramento contínuo. O Lean não é uma dieta ou um modismo; é um modo de vida disciplinado. É um lema amplo que promove uma abordagem holística e sustentável de se usar menos de tudo para obter mais. Essas definições aqui apresentadas têm como foco levar o profissional a refletir, desde já, que o Lean não abrange uma área ou departamento único da organização, mas sim que deve ser conhecido, compreendido e absorvido por todos, da alta administração às áreas operacionais. 1.2 Conhecendo a filosofia Lean Podemos compreender a filosofia Lean como um movimento contínuo em busca de aperfeiçoamento de produtos, processos e serviços com foco em entregar valor ao cliente. Sim, porque uma empresa de sucesso é aquela que consegue fazer isso e o faz por meio de processos enxutos, rápidos e eficientes. Figura 2 – A busca pelo aperfeiçoamento dos produtos Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock. 4 Para atingir esse status, o conhecimento do que é Lean e como pode contribuir para a empresa se manter competitiva deve ser do alcance de todos, ou seja, não adianta apenas capacitar gerentes e gestores se os colaboradores da fábrica ou do atendimento não compreendem como o Lean pode fazer com que sua atividade agregue mais valor ao cliente. Segundo Sayer e Williams (2015), esse movimento contínuo é percebido na empresa, nas pessoas e na cultura por meio das atitudes que os demonstrem, como por exemplo: 1.2.1 Na empresa Monitoramento de processos críticos que são responsáveis pela criação de valor ao cliente e podem ocorrer internamente ou fora dos muros da organização. No caso dos processos internos, temos: marketing, desenvolvimento de produto, pedidos, montagem, controle de qualidade, gestão de estoques, capacitação da mão de obra, entre outros. Já nos processos externos: fornecedores, distribuidores, varejistas, assistência técnica, governo, bancos, comunidade, entre outros. 1.2.2 Nas pessoas Atitude dos gestores para com os colaboradores é de respeito e valorização; atitude otimista dos colaboradores; capacitação adequada a todos no uso das ferramentas; colaboradores comprometidos com a qualidade das atividades e outros. 1.2.3 Na cultura As pessoas praticam o Lean naturalmente; utilizam ferramentas na solução de problemas, buscam identificar a causa raiz, se comunicam por meio das reuniões de equipe, eliminam atividades que não agregam valor, padronizam tudo o que é possível, e todos têm visão de longo prazo na organização. 5 Figura 3 – A atitude dos gestores Fonte: Flamingo Images/Shutterstock. Essas e muitas outras situações indicam que a empresa não apenas conhece e aplica a filosofia Lean, como já a incorporou à sua cultura de trabalho. TEMA 2 – SISTEMA DE PRODUÇÃO ENXUTA Como comentado no tópico anterior, para compreender com clareza o que é a filosofia Lean é preciso conhecer um pouco da empresa Toyota e seu modelo de produção. A empresa Toyota Motor Company, como montadora de veículos, foi criada em 1937 por Kiichiro Toyoda, depois de uma visita dele na fábrica da Ford nos Estados Unidos, em 1929. A Toyota já existia, mas como fabricante de teares e pertencia ao pai de Kiichiro, o Sr. Sakichi Toyoda. A empresa passou pela crise da Segunda Guerra como todas as indústrias japonesas, mas, após o final da guerra, assim como o Japão, a Toyota teve se reinventar para se manter no mercado. O modelo americano de produção em massa era o que dominava as indústrias com foco na rápida recuperação e na ideia de que o custo de produção por peça era menor. Os gestores da Toyota, na época, não pensavam dessa forma, até porque, em visita à fábrica da Ford nos Estados Unidos em 1950, Eiji Toyoda (primo de Kiichiro e que trabalhava com ele na Toyota) comprovou que o modelo massificado não era compatível com a realidade da Toyota. Um dos motivos era que o mercado japonês não estava tão ávido por consumo como os americanos, o que significava que produzir em massa poderia trazer mais problemas (estoques) para a Toyota do que auxílio. 6 No seu retorno ao Japão, discutiu com seus pares Taiichi Ohno e Shigeo Shingo a necessidade de pensarem um modelo de produção que pudesse auxiliar a Toyota se manter no mercado. Aproveitando a cultura e a disciplina dos japoneses, que buscavam constantemente a eliminação de quaisquer desperdícios (pensem que uma nação que entrou em uma guerra, saiu como derrotada e conhece bem a escassez de recursos), eles buscaram organizar o Sistema Toyota de Produção (STP), que tempos depois foi reconhecido mundialmente como o sistema de produção mais eficiente das últimas décadas. Figura 4 – Modelo japonês de produção Fonte: ArtNat/Shutterstock. 2.1 O TPS se tornou o sistema Lean Manufacturing O tempo passou, outras crises mundiais aconteceram, e a Toyota se manteve no mercado produzindo na mesma cadência, tornando-se referência mundial na montagem de veículos com qualidade e confiabilidade. Segundo Rodrigues (2014), na década de 1980 pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que eram vinculados ao International Motor Vehicle Program (IMVP), realizaram um profundo estudo sobre a indústria automobilística buscando compreender o que as tornava única. As montadoras analisadas eram dos Estados Unidos, Europa, Coreia e Japão, cada qual com suas características, culturas organizacionais, modelos de gestão e modelos de sistemas produtivos. Os principais elementos analisados foram: boaspráticas na gestão dos negócios; nas relações com parceiros e na eficácia dos sistemas de manufatura. Esses fatores eram considerados como os 7 responsáveis pelos êxitos de algumas dessas empresas, principalmente as asiáticas. Ainda segundo Rodrigues (2014, p. 10-11), nesse estudo, a Toyota foi a empresa que mostrou maior aderência aos fatores analisados, até porque “demonstrou possuir técnicas e modelos de gestão e de produção mais eficazes, e a sistematização dessas práticas com foco integrado nos ciclos de produção e do consumo, tendo o produto como elo”. Esse estudo se tornou o livro A máquina que mudou o mundo, de James P. Womack, Daniel T. Jones e Daniel Roos (2004), que expuseram ao mundo o modelo Toyota de produção. Nessa ocasião, um dos pesquisadores do IMVP, John Krafcik, classificou a Toyota como uma empresa Lean, em português, enxuta. Nascia assim o Sistema Lean Manufacturing ou sistema de produção enxuta! TEMA 3 – DIFERENÇA ENTRE PRODUÇÃO EM MASSA E PRODUÇÃO LEAN E quais as principais diferenças entre a produção em massa e o sistema Lean? Para construir essa resposta, é preciso entender a evolução dos sistemas de manufaturas. Vamos a eles! 3.1 Produção artesanal Antes da revolução industrial e da massificação da produção implementada por Henry Ford, os produtos eram fabricados pelos artesãos, que eram profissionais que aprendiam um ofício (por isso eram chamados de oficiais), normalmente era o negócio da família, e o artesão trabalhava em casa. A velocidade de produção dependia da complexidade do produto e o volume de produção era baixo, ou seja, cada artesão produzia uma peça de cada vez. 8 Figura 5 – Produção artesanal Fonte: Jovica Varga/Shutterstock. A qualidade do produto era basicamente visual, não havia padronização, tampouco se utilizavam ferramentas da qualidade, até porque também não existia. O resultado do produto dependia da condição da matéria-prima utilizada e do que o artesão havia compreendido da necessidade do cliente. Essas características faziam com que poucas pessoas pudessem consumir determinados produtos, pois com produção restrita o consumo também era restrito e alguns casos, com custo proibitivo para a maioria da população. O interessante nesse sistema é que o colaborador (artesão) conhecia o processo de produção como um todo, ou seja, ele acompanhava desde o preparo da matéria-prima até a finalização do produto. Isso mantinha o colaborador satisfeito por compreender que produzia um bem que atendia a uma necessidade específica, por exemplo: um par de sapatos, uma mesa com cadeiras, um terno masculino, um armário para a cozinha, um berço de bebê, uma moldura para quadro, um barco a remo, entre tantos outros. 3.2 Produção em massa (empurrada) Em contraponto à produção artesanal, que tinha como característica a produção de um único produto de cada vez, a produção em massa foi a inovação necessária para que aumentasse a capacidade produtiva e assim, mais pessoas pudessem consumir. 9 Figura 6 – Produção em massa (1) Fonte: Everett Historical;/Shutterstock. Esse movimento recebeu contribuições de profissionais e desenvolvimento de tecnologias. Por exemplo, Frederick Taylor, no início de anos de 1900, já estudava como melhorar os processos produtivos e a produtividade do operador. Suas contribuições, como o estudo dos tempos e movimentos, foram essenciais para entender como era possível aumentar a capacidade produtiva com o mesmo número de colaboradores. Para isso, buscou soluções de padronização para a fabricação dos bens e também propôs que o planejamento e a produção fossem separados. Perceba que, na produção artesanal, o profissional cuidava desde o contato com o cliente até a entrega do produto, ou seja, uma única pessoa cuidava de tudo. Taylor é considerado o pai da administração científica e suas práticas são conhecidas como Taylorismo. Outro profissional que contribuiu para a produção em massa como conhecemos hoje foi Henry Ford, um profissional do segmento automobilístico que utilizou os estudos de Taylor em sua fábrica de veículos. Ele era um empresário astuto e desejava. Já naquela época, fabricava veículos fáceis de produzir, de consertar e com custo acessível para que muitas pessoas pudessem tê-lo. Ford conseguiu isso com a utilização da linha de montagem, em que os colaboradores se movimentavam bem menos (Taylorismo) e a padronização de peças que permitiam a intercambialidade. Esses elementos trouxeram velocidade para a fabricação dos veículos e reduziu o custo de fabricação, conforme ele pretendia. No modelo de produção em massa, o operador passou a fazer apenas uma parte do processo, então, se, por um lado, ele se tornou especialista naquela 10 tarefa, por outro, deixou de conhecer o produto por inteiro. Além disso, esse colaborador também não tinha contato com o cliente final, ou seja, ele só produzia, mas a negociação passou a ser tarefa de algum colaborador da área comercial ou administrativa da empresa. Figura 7 – Produção em massa (2) Fonte: Everett Historical/Shutterstock. Outra característica que é mais inerente ao fordismo do que outras indústrias que também produziam em massa é a verticalização das atividades. A Ford criou o complexo Rouge (Rouge Complex) em Detroit – Estados Unidos, “que incluía usina de aço, fábrica de fundição, fábrica de vidro, operações de molde de metal, além das operações de montagem” (Dennis, 2008, p. 22). Com essa sistemática, a Ford tinha total controle das operações de fornecimento, não dependendo de fornecedores para os itens críticos. O sistema de produção em massa se caracterizou também pela atividade de inspeção do produto como mecanismo de qualidade. Nesse caso, a ênfase estava mais na localização do defeito já produzido, que na prevenção do defeito. E ainda, como a inspeção fosse realizada somente no final da linha de produção, o produto defeituoso já havia absorvido todos os custos produtivos e era retrabalhado ou sucateado. Em ambas as situações, aumentava o custo da operação. Os modelos de produção artesanal e em massa (nesse contexto histórico que foi apresentado) tinham como característica a forte demanda. No primeiro caso, a demanda era restrita a somente aqueles que tivessem mais condições financeiras para adquirir um produto exclusivo. Já na produção em massa, a 11 demanda que estava reprimida pela artesanal, aflorou e permitiu que muitas pessoas pudessem consumir. No entanto, com o passar do tempo, muitas indústrias começaram a fabricar em massa também, assim a demanda retraída foi suprida e começou a sobrar estoques. Esse modelo de produzir primeiro e se preocupar com a venda depois, se caracteriza como produção empurrada. Figura 8 – Produção enxuta Lean Fonte: dDara/Shutterstock. A questão do estoque se tornou, então, um dificultador para as empresas que fabricavam em larga escala e esperavam que os clientes comprassem. Para combater esse problema (e muitos outros, claro), as empresas precisavam se reinventar, por isso a produção enxuta (Lean) da Toyota passou a fazer sentido para muitas organizações. 3.3 Produção enxuta, apoiada pela produção puxada A produção puxada se baseia no pedido do cliente, ou seja, na demanda. Nesse sistema produtivo, os processos só se movimentam quando for sinalizada uma necessidade do cliente, não antes disso. O foco é não ter estoques e capacitar os colaboradores para fazer o melhor produto possível, evitando desperdícios de qualquer natureza. São produzidos lotes menores, se possível, somente o pedido que o cliente encomendou, por isso não há necessidade de manter grandes quantidades de estoques de matérias-primas no almoxarifado. É claro que, paraisso, a empresa terá que desenvolver verdadeiras parcerias com seus fornecedores priorizando o uso do Just In Time – JIT, que significa somente o necessário, quando for necessário. 12 Como na produção enxuta, os lotes de produção são menores, é mais fácil visualizar se a qualidade dos produtos está atendendo as especificações técnicas. O operador da máquina também é responsável por monitorar a qualidade tanto do produto quanto do processo e não deixar somente aos cuidados do colaborador do Controle de Qualidade. Na produção enxuta, a responsabilidade pela qualidade é de todos e não apenas de um setor ou de uma equipe de trabalho. Por sua importância, esse assunto (produção puxada) será retomado com mais detalhes quando estudarmos os princípios do Lean Thinking (pensamento enxuto). TEMA 4 – FUNDAMENTOS DO LEAN Para que uma empresa consiga implantar o sistema Lean em suas dependências, é preciso conhecer seus fundamentos para que possa criar a base sólida necessária porque o trabalho é de longo prazo. Não há uma fórmula única para iniciar esse processo, mas é possível seguir a seguinte ordem: mapear o propósito, os processos, as pessoas e solucionar os problemas, conhecidos como os 4Ps da Toyota: Philosophy, Process, People and Partners; Problem Solving – Propósito (ou filosofia de trabalho); processos; pessoas e parceiros; solução de problemas. 4.1 É preciso ter um propósito Figura 9 – A necessidade de um objetivo Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock. 13 O propósito de uma empresa tem que ficar claro tanto para a gestão quanto para os colaboradores e clientes. Se, na atualidade, definir um propósito para uma empresa não é uma tarefa fácil, imagine quando a Toyota começou a fazê-lo. É interessante esclarecer que tal propósito deve estar conectado ao valor que o cliente espera do produto ou serviço, assim, se a empresa tem claro qual é o valor percebido pelo cliente, é porque tem um propósito claro. O propósito da Toyota hoje está representado por sua filosofia Toyota Way, cujos pilares iniciais continuam os mesmos, foram apenas ampliados: melhoria contínua (engloba Kaizen, Desafio e Genchi Genbutsu – veja você mesmo ou tenha atitude) e respeito às pessoas (engloba respeito e trabalho em equipe). (Toyota, S.d.a) 4.2 Entendendo os processos Os processos são revistos e repensados continuamente, porque “tendo em vista manter o ritmo e permanecer eficaz e relevante em um mundo que está em constante mudança, assim, deve ser desenvolvido e melhorado constantemente”. (Toyota, S.d.a) Para que os processos possam ser melhorados, alguns elementos fazem parte da rotina como: mantê-lo visual, pois na Toyota acredita-se que a transparência evita desperdício, assim, se o profissional consegue visualizar o que está acontecendo, toma decisões mais rapidamente. Sayer e Williams (2015, p. 41) afirmam que, “através de uma imagem, um gráfico, uma luz de alerta, ferramentas de inteligência de processo e outras técnicas visuais, você pode rápida e facilmente entender a informação, responder aos eventos e melhorar o processo”. Figura 10 – Os processos precisam sempre ser melhorados Fonte: Leodaphne/Shutterstock. 14 Ainda em relação a processos, é preciso pensar na melhoria como uma empreitada de longo prazo, pois, por mais que alguns resultados sejam imediatos, ainda assim o resultado perene vem com a maturidade do sistema. Além disso, a melhoria advém da simplicidade, pois quanto mais complexa a solução, maior será a dificuldade dos colaboradores para compreendê-la e internalizá-la. Na prática, a solução não precisa ser cara para ser eficiente, assim, estimular a criatividade na solução de problemas geralmente custa menos. Outro elemento que reforça a melhoria contínua dos processos é como a qualidade é realizada na organização. Se a empresa ainda utiliza a inspeção como garantia de qualidade, significa dizer que ela ainda não entendeu o que é entregar valor ao cliente. Os autores Sayer e Williams (2015) comentam que, se a inspeção é realizada no produto depois de pronto, não há como imputar qualidade em um produto, pois é um risco que a empresa assume. Na filosofia Lean, todos os colaboradores são inspetores de suas atividades, assim, se detectarem qualquer anormalidade no produto, terão poder de tirá-lo da linha de produção, para evitar que o produto seja finalizado sem a qualidade necessária. Esse é o conceito de empowerment (empoderamento) do colaborador para fazer o que é certo. 4.3 Entendendo as pessoas Em relação às pessoas, já foi comentando anteriormente que o respeito às pessoas é algo indiscutível na Toyota e, consequentemente, na filosofia Lean. Esse conceito é um pouco diferente do que temos em relação a respeito às pessoas. No caso da Toyota, isso significa apoio aos seus colaboradores, comunicações abertas, ambientes de trabalho pensado para proporcionar segurança, estímulo à criatividade e capacitação extensivo a todos. Os colaboradores são ouvidos e recompensados pelas melhorias que indicam ao sistema. Para a Toyota, as pessoas valem mais que máquinas, pois entendem que o profissional precisa desenvolver atividades que agreguem mais valor ao produto ou processo. Ainda assim é preciso determinar como medir o desempenho do colaborador, até para continuamente reforçar a filosofia Lean nas rotinas diárias de busca pela melhoria contínua. 15 Figura 11 – O aprendizado contínuo Fonte: Tom Wang/Shutterstock. O aprendizado contínuo também está conectado com as pessoas na filosofia Lean, pois se entende que quem aprende são as pessoas e não existe idade para aprender. Nessa filosofia, sempre é tempo de aprender e sempre é tempo de melhorar! Outra característica desses “P” da Toyota, nesse caso são as parcerias. A Toyota considera que é mais prudente manter uma forte aliança com poucos fornecedores que estarão com a empresa em momentos de sucesso e de crise também. Por isso, a Toyota também auxilia seus fornecedores a se desenvolverem e implementarem a cultura da melhoria contínua. É mais fácil lidar com fornecedores que tenham a mesma visão estratégica perante o mercado e que acreditem que produto de qualidade é um diferencial apreciado pelos clientes. Com poucos fornecedores, porém comprometidos com os resultados da companhia, é possível trabalhar com o conceito de Keiretsu, em que a empresa cliente (nesse caso a Toyota) organiza uma teia restrita de fornecedores para atendê-la. É uma união estratégica em que os fornecedores participam desde o desenvolvimento do produto, buscam juntos as melhorias, as reduções de custo e também reduzem o tempo necessário para o lançamento de novos produtos. É como uma associação em que empresa e fornecedores se auxiliam para que todos se beneficiem dos resultados obtidos. 16 4.4 Solucionando problemas A busca constante para melhorar os processos e produtos não impede que ocorram falhas externas da qualidade (pense nos recalls que todos os anos são informados na mídia), assim, faz parte do DNA da Toyota fazer com que ações de prevenções e correções ocorram no menor tempo possível. Figura 12 – Solucionar problemas faz parte do aprendizado organizacional Fonte: Lerner Vadim/Shutterstock. Para solucionar problemas com rapidez, eficiência e eficácia, a Toyota tem como pressuposto que isso faz parte do aprendizado organizacional e determina que ferramentas apropriadas de coleta de dados, análise e plano de ação sejam utilizadas. A utilização de ferramentas e práticas já conhecidas padroniza a maneira com que os problemas são detectados e solucionados. Por meio dos eventos Kaizen, por exemplo, discutem-se as oportunidades de melhoria detectadas, bem como elas podem serresolvidas e eliminadas. TEMA 5 – CONTRIBUIÇÃO DOS GURUS DO LEAN Embora a Toyota seja a referência em Lean no mundo organizacional, esse sistema foi desenvolvido e difundido por muitas mentes, pois inúmeros profissionais de diferentes áreas do conhecimento contribuíram com suas pesquisas e o desenvolvimento de ferramentas e metodologias que se tornaram base da sustentação do Lean. Apresentaremos, em linhas gerais, os pioneiros (antes da Toyota), os precursores (linha de frente durante a construção do 17 Sistema Toyota de Produção) e os apoiadores e multiplicadores dos conhecimentos Lean. 5.1 Os precursores antes da Toyota de hoje! Antes da Toyota se tornar um gigante da indústria automobilística, diversas empresas e profissionais empenhados em melhorar os sistemas e processos já existiam tais como o Taylor e o Ford, já citados anteriormente. No entanto, nesse momento serão apresentados pontos que serviram de base para o conceito de indústria até os dias atuais e como seus procedimentos foram o berço do sistema Lean. 5.1.1 Frederick Winslow Taylor Engenheiro por formação, dedicou sua vida a estudos e experiências para melhorar a produtividade da mão de obra e começou com os estudos de tempos e movimentos. Como resultados de seus trabalhos científicos Taylor identificou que o trabalho precisava ser racionalizado nas empresas, mas chegou à conclusão de que os gestores e os operários não tinham conhecimento para isso. Segundo Taylor, as empresas sofriam de alguns males como: o operário trabalhava mais lentamente do que conseguiria propositalmente para evitar que o gestor reduzisse os valores pagos por hora; a gerência não conhecia o escopo do trabalho operário e tampouco sabia quanto tempo era necessário para sua execução; faltava uniformidade e método para a realização das tarefas. Em seus estudos, Taylor propôs métodos racionais de divisão das tarefas a serem implementados gradualmente para não causar descontentamento dos operários. (Chiavenato, 2020). 5.1.2 Casal Gilbreth Frank era engenheiro e Lilian era psicóloga e foram precursores nos estudos científicos do trabalho e da racionalidade aplicada às atividades laborais. Contribuições importantes do casal foram: as reduções dos movimentos necessários para realizar determinadas tarefas sem descuidar das questões relacionadas à fadiga causada pelo trabalho. Além disso, a criação do fluxograma de processo também foi atribuída ao casal de pesquisadores e inicialmente foi 18 utilizado pelos engenheiros industriais e depois aplicado também aos processos administrativos (Elaina, 2015). Figura 13 – Ford Fonte: James R. Martin/Shutterstock. 5.1.3 Henry Ford Como já mencionado, ele foi um empresário estadunidense do segmento de automóveis. Ford contribuiu e muito com a implementação da linha de montagem que se movimentava e com a busca pela padronização de peças e componentes. Utilizou os conhecimentos já desenvolvidos tanto de Taylor quanto do casal Gilbreth para acelerar o processo de produção, conseguindo, assim, a redução dos custos produtivos. Embora a fábrica fosse baseada no sistema de produção em massa, a noção da produção em fluxo, que é uma das características do sistema Lean, já estava em uso. Além disso, a fábrica da Ford com certeza contribuiu como parâmetro para os japoneses da Toyota, que decidiram que a Toyota também poderia ter uma linha de produção que se movimentasse, no entanto, os demais procedimentos da empresa americana não eram compatíveis com a cultura japonesa. 5.2 Os pioneiros (linha de frente na Toyota) A Toyota criou o sistema de produção conhecido como Lean ou enxuto com o auxílio de muitas mentes. Foi com base em conhecimento já existente, de ferramentas e procedimentos já testados e da singular cultura de trabalho 19 japonesa, que os gestores puderam implementar com sucesso e com muito trabalho, esse modo inovador de conduzir o sistema produtivo. Os precursores desses estudos e aplicações foram: 5.2.1 Sakichi Toyoda Nada menos que o fundador da empresa ainda com o negócio voltado para os teares. Sakichi era mais que um empreendedor, era um inventor, considerado no Japão como o pai da revolução industrial japonesa. Ele criou um modelo de automação inteligente, e depois, em conjunto com seu filho Kiichiro, criou um tear mecânico de alta velocidade e com dispositivo que o fazia parar automaticamente, caso ocorresse algum problema (esse sistema se chama jidoka e é um dos pilares do Lean). (Toyota, S.d.b) Figura 14 – Tear Fonte: ArtNat/Shutterstock. 5.2.2 Kiichiro Toyoda Filho de Sakichi, herdou do pai a inquietude, a curiosidade e a persistência e foi ele quem tornou a fábrica de tecelagem Toyoda na multinacional Toyota. Foi ele quem idealizou o sistema Just In Time (somente quando necessário, na quantidade necessária) (Toyota, S.d.b) 20 5.2.3 Eiji Toyoda Primo de Kiichiro, foi convidado para trabalhar na Toyota e fez da área da produção o seu gemba (lugar onde as coisas acontecem), no entanto, quando assumiu a presidência, Eiji fomentou o desenvolvimento das lideranças, também uma das bases do sistema Lean e o estreitamento do relacionamento com o fornecedor com foco em torná-lo um aliado. (Eiji..., 2013) 5.2.4 Taiichi Ohno O pai do Sistema Toyota de Produção (STP) era prata da casa, pois era um engenheiro que trabalhava na Toyota e estava sempre buscando a melhoria da eficiência das linhas de produção da empresa. Ohno acreditava que o Lean é nada menos que uma revolução na consciência e uma lição profunda e quebra de preconcepções, além de fomentar a experimentação e a gestão participativa (ouvir os colegas de trabalho). Esses elementos fazem parte do alicerce da cultura de trabalho Lean e de melhoria contínua. (Lean Institute Brasil, 2012) 5.2.5 Shigeo Shingo Auxiliou Ohno na criação e no fortalecimento do sistema de produção da Toyota e contribuiu com diversos mecanismos como a troca rápida de ferramentas o que reduziu consideravelmente o tempo de setup, criou o Poka Yoke (dispositivo a prova de falhas) e foi precursor do controle de qualidade zero, ou seja, o produto e o processo deveria ocorrer com tanta qualidade que não necessitaria de controle. Seus estudos também avançaram nas melhorias da qualidade de vida do trabalho dos operadores. (Banas Qualidade, S.d.) 21 5.3 Os apoiadores – multiplicadores do conhecimento Lean Figura 15 – Vantagens do sistema Lean Fonte: ArtNat/Shutterstock. Mas não foram somente os orientais que fizeram do Lean o que ele é hoje! Houve contribuição de muitos ocidentais tanto no desenvolvimento das ferramentas quanto na propagação das ideias. Segundo o site da empresa CAE Treinamentos (9 livros... S.d.), são eles: 5.3.1 James Womack Pode-se dizer que é o pesquisador mais famoso quando o assunto é sistema Lean, porque na década de 1990 publicou um livro sobre o tema, juntamente com Jones e Roos (2004). Foi nesse livro, A máquina que mudou o mundo, que o termo Lean ficou estabelecido como equivalente ao Sistema Toyota de Produção (STP). Nesse livro, os autores mapearam e documentaram o STP, evidenciando ao mundo as vantagens do sistema Lean Manufacturing (Womack; Jones; Roos, 2004). 5.3.2 Masaaki Imai Sua contribuição foi na divulgação do Kaizen (melhoria contínua) e no Gemba Kaizen (no local onde as coisas acontecem). Ambos os conceitos fazem parte do sistema Lean e ambos se tornaram livros com esses nomes: Kaizen (Imai, 1986) e Gemba Kaizen (Imai, 1988) 22 5.3.3 Jeffrey Liker Um profundo conhecedor do Sistema Toyota de Produção, sua maior contribuição foi a apresentação dos 14 princípios do sistema Lean. Em seu livro O modelo Toyota, de 2006, o autor conseguiu descrever o STP de uma maneiracompreensível a todos (Liker, 2006). 5.3.4 Mike Rother Escreveu o livro Toyota Kata: gerenciando pessoas para melhoria, adaptabilidade e resultados excepcionais (Rother, 2010), em que consegue concatenar as principais técnicas e metodologias desenvolvidas pelo sistema Lean, explanando de maneira simples e prática. O autor consegue desmistificar que o Lean exige o uso de ferramentas complexas e esclarece que são as pessoas que fazem a diferença quando aprendem a resolver problemas e realizar a melhoria continuamente. 5.3.5 George Koenigsaecker Esse autor tem o olhar de investidor, já que um dos principais investidores em empresas Lean. Em seu livro Liderando a transformação Lean nas empresas Koenigsaecker (2011) aborda o sistema de gestão e o papel do líder Lean para guiar as empresas nesse caminho de transformação. Comenta sobre o desafio da criação da cultura Lean nas empresas e como trabalhou em algumas empresas onde participou da implantação do sistema enxuto, agrega muito conhecimento prático, teórico e crítico sobre o tema. 23 Figura 16 – Sistema de gestão e o papel do líder Fonte: Livertoon/Shutterstock. 5.3.6 Pascal Dennis Trabalhou na Toyota no Canadá e aprendeu na prática a compreender o que realmente significa a cultura Lean em uma organização. Depois de muitos anos trabalhando com senseis pacientes (em sua opinião), ele mesmo se tornou um sensei e tem ajudado empresas a implementarem o sistema enxuto como seu modelo de gestão. Dennis contribuiu com o livro Lean simplificada: um guia para entender o sistema de produção mais poderoso do mundo (Dennis, 2008). Poderíamos citar outros autores, mas esses já nos dão uma visão das diferentes abordagens que podem ser trabalhadas a partir do sistema Lean. As ideias e os ideais desses e outros profissionais que contribuíram para a construção do Lean farão parte das aulas sobre a filosofia Lean. 24 REFERÊNCIAS BANAS QUALIDADE. Disponível em: <https://www.banasqualidade.com.br/>. Acesso em; 14 abr. 2020. CHIAVENATO, I. A obra de Frederick Winslow Taylor. Gen Negócios, 17 mar. 2020. Disponível em: 14 abr. 2020. DENNIS, P. Lean simplificada: um guia para entender o sistema de produção mais poderoso do mundo. Porto Alegre: Bookman, 2008. EIJI Toyota, promotor do toyotismo, morre aos 100 anos. Revista Autoesporte, 17 set. 2013. Disponível em: <https://revistaautoesporte.globo.com/Noticias/noticia/2013/09/eiji-toyoda- implementador-do-toyotismo-morre-aos-100-anos.html>. Acesso em: 14 abr. 2020. ELAINA, J. Frank e Lillian Gilbreth, os pioneiros da produtividade. Portal Gestão, 18 fev. 2015. Disponível em: <https://www.portal-gestao.com/artigos/7623-frank- e-lillian-gilbreth,-os-pioneiros-da-produtividade.html>. Acesso em: 14 abr. 2020. IMAI, M. Kaizen – a estratégia para o sucesso competitivo. São Paulo: Imam, 1986. _____. Gemba Kaizen. Porto alegre: Bookman, 1988. KOENIGSAECKER, G. Liderando a transformação Lean nas empresas. Porto Alegre: Bookman, 2011. LEAN INSTITUTE BRASIL. Disponível em: <https://www.lean.org.br/>. Acesso em: 14 abr. 2020. LIKER. O modelo Toyota. Porto Alegre: Bookman, 2006. RODRIGUES, M. V. Entendendo, aprendendo e desenvolvendo sistemas de produção Lean manufacturing. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. KOENIGSAECKER, G. Liderando a transformação Lean nas empresas. Porto alegre: Bookman, 2011. SAYER, N. J.; WILLIAMS, B. Lean para leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2015. TOYOTA. Filosofia Toyota way. Toyota, S.d.a Disponível em: <https://www.toyota.pt/world-of-toyota/toyota-no-mundo/the-toyota-way.json>. Acesso em: 14 abr. 2020. 25 _____. The story of Sakichi Toyota. Toyota, S.d.b WOMACK, J. P.; JONES, D. T.; ROOS, D. A máquina que mudou o mundo. São Paulo: Campus, 2004.