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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO REGIONAL LICENCIATURA EM CIÊNCIAS SOCIAIS GABRIELE DE SOUZA PINTO ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR: Um estudo acerca das memórias do quilombo Sossego/RJ CAMPOS DOS GOYTCAZES, RJ 2023 2023 GABRIELE DE SOUZA PINTO ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR: Um estudo acerca das memórias do quilombo Sossego/RJ Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense (UFF), como requisito parcial para conclusão do curso de Licenciatura em Ciências Sociais . Orientador: Prof. Drª Geovana Tabachi Silva. CAMPOS DOS GOYTCAZES, RJ 2023 GABRIELE DE SOUZA PINTO ENTRE O ESQUECER E O LEMBRAR: Um estudo acerca das memórias do quilombo Sossego/RJ Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal Fluminense (UFF), como requisito parcial para conclusão do curso de Licenciatura em Ciências Sociais . Aprovada em 21 de Dezembro de 2023. BANCA EXAMINADORA _____________________________________________ Prof. Dra. Geovana Tabachi Silva - UFF Orientadora _____________________________________________ Prof. Dra. Andrea Lucia da Silva de Paiva - UFF _____________________________________________ Prof. Júlia Diniz de Moraes Melo CAMPOS DOS GOYTCAZES, RJ 2023 Dedico a todas as pessoas que foram do Sossego e que não tiveram o prazer de olhar toda a luta como algo lindo e necessário para a sobrevivência. A todos do Sossego que um dia foram diminuídos por serem dessa terra. A todas as mulheres do Sossego que eram vistas como apetrechos, inferiores as mulheres brancas e não merecedoras de felicidade. A todas as crianças do Sossego que andaram quilômetros para ter acesso a educação básica. Aos talentos do Sossego que não tiveram a chance de ser. Dedico ao Meu Quilombo, a minha cor preta e a todos os meus ancestrais. AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer a uma menininha, tão pequena e tão negra com os seus cabelos crespos em penteados apertados que via tudo com os olhos brilhantes e esperança acentuada. Essa menininha sonhou em ser muito grande, em ser excelente. Em seus três anos de vida sonhava entrar em uma escola como professora. Agradeço a essa menininha por sonhar, por aguentar firme e retornar a seus sonhos. Tudo que eu faço, faço por você, pelas menininhas igual a você que nunca deveriam conhecer o que há de feio no mundo. Em segundo lugar queria agradecer a minha irmã! Tete sempre falou que eu passaria, foi ela que sempre fez as minhas inscrições, foi ela que me guardou em sua casa e fez questão que eu estudasse, o que vier de bom com esse trabalho, também é seu. Em terceiro lugar ao Caíque que andou 13km comigo mesmo eu gritando para que ele fosse embora mas só retornou quando eu estava segura, sei que você era um anjo, e agradeço a quem te enviou para a minha vida. A minha mãe por ver em mim uma das profissões mais lindas e bancar os meus sonhos, e a Junior e a Sebastiana por me ajudarem como podiam. A vovô Irênio e todos os meus ancestrais, não posso esquecer que minha história também é a de vocês! No fim, nem saberei a minha língua materna. Se eu não puder falar por mim, não penso por mim. E se eu não pensar por mim, não posso ser eu. Se eu não puder ser eu, nunca vou me conhecer. Por isso o tio Sam me disse: “Se eu não me conhecer, como você vai me conhecer?” Beyoncé RESUMO Este trabalho tem como objetivo registrar o processo de ocultação e as expressões das memórias do Quilombo Sossego, localizado em Campos dos Goytacazes, no interior do estado do Rio de Janeiro. O território neste presente trabalho é considerado um lugar de memória a partir da interpretação de concepção idealizada pelo autor francês Pierre Nora (1993). O estudo tem enquadramento metodológico qualitativo, sendo utilizadas ferramentas analíticas diferentes, como a pesquisa exploratória, o estudo de caso e os relatos de histórias e memórias dos remanescentes do quilombo, contados através de conversas informais. Além disso, inclui-se a perspectiva narrada de pesquisa da autora deste presente texto, nativa desse mesmo território que irá dissertar a partir de suas vivências e memórias que foram construídas neste espaço, com contrapontos de outros autores que irão descrever sobre memórias em meio social. O estudo destaca a influência das associações governamentais nas articulações de povos tradicionais no processo de autoconhecimento e busca por direitos, considerando a existência de diversos fatores que poderão colocar em risco a memória e cultura de um grupo, estando entre eles a educação formal, a cultura e as tradições locais. Palavras-chave: Lugar de memória. Identidades. Quilombo Sossego/RJ. ABSTRACT This work aims to record the process of concealment and expressions of memories of Quilombo Sossego, located in Campos dos Goytacazes, in the state of Rio de Janeiro. The territory in this present work is considered a place of memory from the conception interpretation idealized by the French author Pierre Nora (1993). The study has a qualitative methodological framework, using different analytical tools, such as exploratory research, case study and stories of stories and memories of the quilombo remnants, told through informal conversations. In addition, it includes the narrated research perspective of the author of this text, native of this same territory that will lecture from their experiences and memories that were built in this space, counterpoints of other authors who will describe memories in a social environment. The study highlights the influence of government associations on the articulations of traditional peoples in the process of self-knowledge and search for rights, considering the existence of several factors that may endanger the memory and culture of a group, including formal education, culture and local traditions. Keywords: Place of memory. Identities. Quilombo Sossego/RJ. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………..9 2 ASPECTOS METODOLÓGICOS……………………………………….……….…...…14 3 QUILOMBOS E SABERES TRADICIONAIS…………………………………….……16 4 MEMÓRIAS E IDENTIDADES….……………..……………………………………….20 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS……………………………………………………………..25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS…………………………………………………….26 9 1 INTRODUÇÃO Nascida e criada em um quilombo, havia sempre histórias para se ouvir, comparações do ano atual com alguns anos que já se passaram, e como eram os modos de vida das pessoas que ali residiam antes de mim. Às vezes, me encontrava imaginando como seria se eu vivesse naquele tempo, mas a minha imaginação não conseguia ir para além de pequenos montes de ideias, havia uma grande lacuna. Passei anos de minha vida tentando juntar o que faltava, conversava com o meu avô (remanescente quilombola mais antigo), com os meus pais, e continuava sem entender o que faltava para compreender o que havia mudadodesde então. Nas rodas de conversas com outras pessoas do quilombo, chegava sempre a parte do que nunca poderia dizer e do que sempre se orgulhavam. Nunca tocavam em assunto “religião”, mas demonstravam orgulhosos de ter quebrado um ciclo, o ciclo da falta de acesso à educação. Tinham orgulho dos filhos e sobrinhos que faziam cursos técnicos e adentraram em uma carreira e saiam do quilombo. E foi assim que cresci com dois problemas para serem resolvidos: sair da onde cresci e nunca me ver pertencente a uma religião, visto, que a falta de referências fazia prejuízo a minha socialização no ambiente escolar. Para sair da onde cresci só havia duas formas:casar com alguém que não morasse no meu quilombo ou "vencer" pelos estudos. Escolhido a última, estudar sempre era um problema. O acesso à educação para as pessoas no meu quilombo sempre foi precário. Quando não havia um ônibus escolar que sempre apresentava problemas, tínhamos que ir andando 12km até chegar até a escola ou, ir de coletivo ainda de madrugada em dois horários durante quatro dias na semana, esperando até o fim da tarde, sem dinheiro para refeições. Já que não ficamos à vontade para permanecer na escola todo esse horário. Sentíamos que não pertencia ao único espaço que nos era disposto, visto que não havia outra escola mais próxima que atendesse algumas séries. Íamos obrigados às aulas, mas não conseguimos nos enquadrar no ambiente escolar. Porque, primeiro, éramos vistos como os mais pobres por não conseguirmos morar em um lugar rotulado como o melhor, segundo, não conseguimos nos colocar nas regras impostas pela escola, visto que a religiosidade era um fator que consciente ou inconscientemente nos atingia. Éramos obrigados a rezar o pai nosso e outras rezas católicas em filas ordenadas por série e gênero. Ouvimos sobre a importância da oração, às vezes argumentos sobre o porquê seguir o Cristianismo com a desculpa final que quem tivesse uma religião diferente poderia fazer a reza em silêncio. Nessa fila, ouvimos recados, puxões de orelhas que às vezes extrapolavam e se tornavam um escrachamento. 10 Nós quilombolas que sabíamos mesmo que não falasse sobre o assunto que nossos griôs eram praticantes de religião de matriz africana em um passado próximo, ficávamos em silêncio e começamos a agir como se aquela religião nos pertencessem, mesmo que houvesse fé ao praticá-la. Com os meus questionamentos, terminei o ensino médio e adentrei no curso de ciências sociais sendo a primeira remanescente a cursar uma universidade pública, abrindo a oportunidade de desmistificar e estudar alguns autores obrigatórios de algumas disciplinas ou por conta própria. Com isso, pude entender um pouco mais sobre o meu território quilombola. Com aproximadamente 12 famílias, localizado na zona rural da cidade de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, no distrito de Dores de Macabu, o Quilombo Sossego foi certificado pela Fundação Cultural Palmares em 12 de junho do ano 2017, pelo processo de número 01420.001173/2007-41. Figura 1: Imagem via Satélite do Quilombo Sossego. Fonte: Screenshot do site https://www.google.com/maps/ A um bom tempo esperando a certificação até essa data, diferente de alguns outros quilombos, não era uma luta direta dos moradores que desconheciam o processo e a certificação até 2020, quando empresas privadas precisavam do aval da comunidade 11 quilombola para concluir o seu projeto de uso de terras e se deparam com uma comunidade que mantém mesmo que ocultos a outrem, lembranças de suas vivências. O Quilombo Sossego como lugar de memória que apesar de não falado, ainda mantém arquiteturas, lugares e objetos que para os que viveram ali, se mantém com alto grau de importância. Como pensado por Pierre Nora (1993. p.17) em "Entre a memória e a história", não colocar certos aspectos como história, mantém a memória, mas temos o prejuízo de perder uma parte importante do que já foi acontecido nesse território, já que segundo Nora, a transformação da memória em história ajuda na revitalização e definição de sua própria história. Com a minha curiosidade aguçada acerca da ancestralidade do lugar onde vivo, tive a oportunidade de conhecer o trabalho de associações estaduais, ACQUILERJ (Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro) e nacional CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos), através de palestras, reuniões, manifestações, atividades que realizaram e realizam. Em suas reuniões com remanescentes de quilombos, os seus representantes buscam usar coisas do próprio cotidiano do quilombos para desmitificar questões intrínsecos no grupo, como a dificuldade de auto reconhecimento de alguns remanescentes que ali moram, que mesmo nascidos e criados dentro do território, e conhecimento que alguns dos seus antepassados haviam vivido em situações análogas a escravidão, já que aparentemente pelas histórias verbais, regime de escravidão ultrapassou a o ano de 1888, não se reconhecem como quilombolas, e alguns casos há estresse interno no grupo por esse real motivo. Ser moradora do Quilombo que uso como objeto de estudo e utilizar as minhas vivências, histórias e emoções criadas socialmente dentro desse território, sempre foi um impasse metodológico. Ficava em dúvida o que era ou não ciência em minhas pesquisas, achava que precisava colocar o objeto de estudo em lugar do outro para anular qualquer sentimento que tivesse intrínseco ao meu objeto, mesmo que tenha estudado o antropólogo Malinowski e ter entendido que um dos principais necessidades da ciência é o uso “generosidade” e “sinceridade metodológica (MALINOWSKI, 2018, p.57). Nascida em um território que para saber das memórias de seu grupo é preciso o uso de cautela ao indagar certos assuntos, me sentia sozinha, como ressaltou Malinowski, “rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo uma lancha ou o barco que trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista.” (MALINOWSKI, 2018, p.58). Não entendia absolutamente nada do que acontecia com e algumas rejeições dos moradores ao contarem as suas histórias. As únicas contadas sem algum receio eram dos tempos de 12 carnavais, que saiam de seu território fantasiados para outros lugares a fim de diversões, festas com música a disco que segundo eles “causam muitas saudades”, escola e idas à igreja. Muitas vezes o questionavam como eles eram tratados em caso de doenças, já que nunca tivemos acesso rápido a saúde e ter conhecimento de mortes de mulheres no parto, eles diziam que eram tratados com rezas e medicamentos caseiros, caso não houvessem cura, alguém teria que ir pedir socorro em algum lugar para levá-lo ao centro da Cidade de Campos dos Goytacazes, alguns não resistiam e morriam, fazendo-os a construírem caixões de bambu para levarem nas costas o cadáver até o cemitério mais próximo para enterra-lo, para aguentarem o trajeto, pessoas do sexo masculino tomavam várias bebidas alcoólicas antes e durante a caminhada. Ouvi esse discurso toda a minha infância e adolescência, a minha curiosidade estava apenas em quem fazia os medicamentos e as rezas, apesar de falarem de modo simples, como se tudo aquilo fosse óbvio e eu estivesse indagando algo que não tivesse relevância. Estava como Malinowski ao observar a movimentação do Kula sem o compreender. Mas, lendo as vivências contadas em texto ficcionais ou não da autora Conceição Evaristo (2017)1, com o conceito de escrevivência, pude perceber que olhando criticamente as minhas vivências no território quilombola, faço uma leitura social teórica e faço um registro histórico crítico através de uma parcela de memórias que estão contidas nesse espaço. Com todas as limitações burocráticas em torno da pesquisa em ciências humanas, optei por usar a metodologia qualitativa, fazendo pesquisas de modo exploratório semaplicar questionário direto, observando e conversando assuntos envolvidos com o tema da pesquisa, para que assim pudesse construir uma hipótese para a mesma. Utilizo de textos de autores estudados ao longo da graduação para a construção desse trabalho, como os autores Michel Pollack (1989), Michael Foucault (1998) e Freire (1993), sobre memória, identidade social e relações de poder. A partir dos estudos de memórias dentro da universidade, comecei indagar respectivos assuntos, como por exemplo, a denominação cristã dos que na comunidade moram, já que muitos deles iam a igrejas protestantes, batizavam seus filhos em casa e na igreja católica, e, alguns não iam à igreja e criticavam a submissão às religiões. Nessa etapa, tentava entender como os moradores lidavam nos tempos passados com as religiões de matrizes africanas, já que ali tinham resquícios de terreiro, com artefatos de barros e muitas conchas do mar, em alguns pontos do território. Ao iniciar as conversas com os moradores sobre os modos de vida e os aspectos relacionados à religiosidade, as pessoas respondiam os a meus questionamentos 1 Ver: “Posfácio costurando uma colcha de memórias” do livro Becos da Memória da autora Conceição Evaristo. 13 e confirmavam que no território havia terreiros, ao mesmo tempo que apontavam antepassados que faziam parte da religião de matriz africana, embora diziam que nunca fizeram parte, mas poucas vezes chegavam a ir, uma vez que não se sentiam pertencentes a esse grupo e não acharem que está de fato é uma religião. Esse último ponto, se torna uma inverdade quando questionados sobre a prática medicinal utilizada na época. Como dito por alguns moradores do quilombo Sossego nas conversas, muitos medicamentos eram feitos a partir de ensinamentos com os saberes de religiões de matrizes africanas, e quando mesmo assim não houvesse melhoras, iam em casas de pessoas que incorporam entidades para assim, pedirem proteção e cura. Para obter essas informações, precisei fazer vários questionamentos acerca da prática de medicina e cura, pois todos eles diziam que era apenas uma reza com pessoas antigas sem ter nenhuma relação com a religião de matriz africana. Esses fatores me fazem questionar o que leva uma comunidade a deixar suas práticas e seus saberes para poder recomeçar de outro modo, após o momento de intervenção na cultura através da escola no quilombo Sossego. Sendo assim, essa pesquisa tem abordagem qualitativa, condizente com as análises que se propõe realizar sobre o objeto de estudo em questão. Serão utilizados como ferramentas analíticas métodos diferentes, como a pesquisa exploratória e o estudo de caso, assim como relatos de histórias recolhidas na oralidade, considerando o método de pesquisa oral como forma de desmembrar e descobrir aspectos da vida social de “sujeitos excluídos” (Alves, 2016). O trabalho partirá da minha vivência como estudante de ciências sociais e quilombola dentro do território do Quilombo Sossego, tendo por principal questionamento como esta comunidade quilombola entrou em processo de apagamento cultural, considerando algumas memórias contadas pelos remanescentes e utilizando autores que tratam dessa temática, com a intenção de reflexão e análise de caso. 14 2 ASPECTOS METODOLÓGICOS No Quilombo Sossego, para falarmos sobre alguns pontos da história é preciso usar das memórias do próprio grupo, como o assunto ligados à religião. Não temos acesso há histórias documentadas dessa época pelo viés dos moradores. Mas, o Sossego aparece ainda descrito como antiga fazenda em documentos históricos do município de Campos dos Goytacazes, utilizados dados importantes para a história do Quilombo, mas que somente não explicaria a minha intenção com a proposta deste trabalho, que é utilizar memórias contadas oralmente pelos moradores do Sossego para remontar a história do território. Maria Cristina Alves (2016, p.3) cita em seu texto sobre a importância da história oral como metodologia de pesquisa na qual “caracteriza-se como uma metodologia de pesquisa que busca ouvir e registrar as vozes dos sujeitos excluídos da história oficial e inseri- los dentro dela”. Por ter crescido no quilombo, ouvi muitas histórias, mesmo que por vezes desconexas, e não haviam aprofundamentos, já sabia quais pessoas poderiam questionar certos assuntos em conversas informais. Com isso, optei pelo meu avô que por ter proximidade e por ser a pessoa com a maior idade dentro do quilombo, quando tinha dúvidas sobre alguns assuntos, questionava a qualquer pessoa que pudesse me responder no momento. Nessas conversas com 07 (sete) pessoas ao todo, obtive resultados positivos, descobrindo algumas histórias que não eram contadas e por não utilizar de julgamentos eles eram espontâneos, mas não respondiam e fugiam do assunto quando o questionamento era sobre religiões que já haviam praticado, mas respondiam e apontavam outros moradores, muitas vezes sem ter sido perguntados sobre o restante do quilombo e religião. Não utilizei roteiros, apenas usava três pontos de partidas para as minhas conversas: a primeira diz respeito ao tema da religião, uma vez que eu queria saber sobre a religião praticante dos moradores já falecidos e por algumas vezes perguntava entre eles quais pessoas praticavam qual religião. A segunda pergunta foi acerca da educação, não havendo discrepância entre as respostas. A terceira pergunta que menos me aprofundei foi sobre a saúde, talvez porque é um trecho da memória que eles contam de maneira voluntária. Sobre o tempo utilizado no estudo de caso é impreciso, comecei analisar o quilombo no início da pesquisa bibliográfica para este trabalho no primeiro semestre de 2023. Conforme, Antonio Carlos Gil, o propósito de utilizar a metodologia não foi de proporcionar o conhecimento preciso das características de uma população, mas sim o de proporcionar uma visão global do problema ou de identificar possíveis fatores que o influenciam ou são por ele influenciados. (GIL, 2017, p.54) 15 Mapear todos os aspectos da comunidade demandaria bastante tempo, impossibilitando a conclusão do trabalho, sendo elencados aspectos específicos referentes à religiosidade, educação e saúde, como mencionado acima. Como bem falado por Gil (2017, p.53), o estudo de caso já é caracterizado como um “estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que permita seu amplo e detalhado conhecimento”, tendo em vista compreender as características do seu contexto natural e cultural, como explorar suas características, dinâmicas, interações e influências. Para concluir os aspectos metodológicos deixo explícito que, para que fosse preservada a identidade das pessoas entrevistadas, qualquer nome usado referente aos mesmos é ficcional. 16 3 MEMÓRIAS E IDENTIDADES Para situarmos nos apontamentos do último capítulo começamos com o conceito de quilombo que estou utilizando para esse texto, que seria: lugares que eram utilizados para o descanso ou refúgio de pessoas escravizadas, hoje é um território que residem pessoas descendentes dos mesmos, com suas características econômicas e culturais, podendo ter línguas e pronúncias próprias da língua portuguesa. Segundo o art. 2° do decreto N° 4.887, de 20 de novembro de 20032, remanescentes de quilombos são: Os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. (BRASIL, 2003) Nesse mesmo decreto, prevê a autodefinição como marcador e atribuição que hoje somam, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, em 2022 somamo número de 1,3 milhões de quilombolas autodeclarados3. Aqui encontramos um impasse, para alguém se afirmar como algo ou parte de um grupo, precisa conhecer a sua verdadeira história, porém, o negro desde a sua chegada todas as suas características são descriminadas. As suas danças, a sua luta, as suas músicas, as suas religiões foram em um certo momento aqui no Brasil proibido. E para algumas pessoas descendentes de escravizados não é condizente a sua afirmação como tal, pois a visão sobre si e sobre os seus antepassados, acontecem a partir dos estigmas que esse grupo sofreu ou vem sofrendo. Negando a sua identidade, que segundo o dicionário online é o “conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la”. Segundo uma perspectiva psicossocial, o processo de estigmatização se refere à desvalorização, perda de status e consequentemente discriminação de um indivíduo desencadeada pela atribuição de estereótipos negativos com base em características físicas e pessoais que ele possui, as quais são consideradas socialmente inaceitáveis. (FELICÍSSIMO; BEVILAQUA; et al , 2013, p. 116-129 ). A sua não aceitação acaba firmando e perpetuando o apagamento de sua história e cultura uma vez que, sua história e particularidades são passadas de uma pessoa a outra através da oratória e expressão corporal, em de rodas de conversa, rodas de danças e contação de histórias. Quando alguém desse grupo passa a ver a sua história como vergonhosa ou não 2 Ver decreto em: https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/98186/decreto-4887-03 3 Disponível em; https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/indicadores.html?localidade=BR 17 essencial, temos o apagamento da mesma. Esses acontecimentos podem atrapalhar o reconhecimento de outras comunidades quilombolas ou do grupo exato de remanescentes. No artigo Modernidade e comunidades tradicionais: memória, identidade e transmissão em território quilombola, os autores Valentim e Trindade (2011) vão descrever a percepção de alguns remanescentes de quilombos acerca das importâncias da tradição e cultura. Em um trecho, Valentim e Trindade vão citar a necessidade de uma identificação e reconhecimento do grupo que foi feito a pesquisa; Nos resultados obtidos entre os participantes dessa geração, a questão de uma identidade nomeada como “quilombola” surge como fato recente. Os participantes descrevem que no passado faltava uma palavra (ou esta era desconhecida) que sintetizasse as múltiplas variáveis da situação atual das comunidades. Como explicita a entrevistada Emília: “Eu acho assim, que você falou de quilombola e esse nome assim, esse nome pra mim ele é meio novato ainda, que antes eles falavam negro, ser negro.”. (VALENTIM; TRINDADE, 2011, p. 295-308 ). Outro ponto importante desse artigo é a demonstração de que o orgulho e o reconhecimento vieram a partir da denominação do grupo, quando foi falado dos seus aspectos culturais únicos sem colocar a escravização como ponto principal, as pessoas começaram a ter conhecimento da importância da comunidade e a se sentirem orgulhosos, como mostra esse trecho: A “falta” desta palavra pode ser interpretada como uma representação ainda não estruturada de quilombola, que só veio a se concretizar na relação com a alteridade (os parceiros, os apoiadores, o movimento) que fornece esta possibilidade discursiva. Como argumenta Pedro: “Não tinha esse conhecimento, mas através de alguns tempo, através de participação no movimento, junto com alguns parceiros e apoiadores, passou a conhecer a realidade aí eu fiquei orgulhado em saber.” (VALENTIM; TRINDADE, 2011, p. 295-308 ). Para que se tenha a prática de empoderamento das comunidades quilombolas, é preciso que se tenha uma reeducação e realinhamento no modo de reconhecimento de sua ancestralidade. A educação é um ponto importante quando falamos de identidade já que exerce um grande papel na coesão e realinhamento social. Para Dias e Pinto, educação é um processo social que enquadra as perspectivas sociais e históricas, tendo “desde a sua gênese, objetivos e funções, um fenômeno social, estando relacionada ao contexto político, econômico, científico e cultural de uma determinada sociedade.” (DIAS; PINTO, 2019, p. 449-454). A educação formal como a informal tem um grande papel na formação do indivíduo e é compreendida de diversas formas, por diferentes autores. Marandino (2017, p. 811-816) cita em seu texto. Há diferenças de definições nas literaturas anglofônica e lusofônica (CAZELLI, 2000), pois os autores de língua inglesa usam os termos informal science 18 education (educação informal em ciências) e informal science learning (aprendizagem informal em ciências) para todo o tipo de educação que pode acontecer em lugares como museus, centros culturais, exposições, zoológicos, jardins botânicos, no trabalho, em casa, entre outros. Já os de língua portuguesa muitas vezes dividem a educação que ocorre fora da escola em dois subgrupos: educação não formal e educação informal, associando esse último aos ambientes cotidianos familiares, de trabalho, do clube etc. É coerente afirmar que esta divisão, muito presente no contexto latino americano, recebeu influência dos movimentos de educação popular intensificados nas décadas de 1960, 1970 e 1980, sendo o termo não formal muitas vezes associado a iniciativas educativas de natureza política e com objetivo de transformação social que marcaram esses períodos. (MARANDINO, 2017, p. 811-816). Começando desde seus primeiros anos de vida, a educação não formal é a educação proveniente, como o nome já diz, de maneira não oficializada por um órgão, sendo desenvolvida junto às suas famílias e outros lugares de socialização. Em contraponto, podemos pensar a educação não formal no Brasil com o viés de Paulo Freire, um grande pensador e desmistificador da educação formal brasileira, que seria a educação provinda do estado para a formação social. Na perspectiva da educação formal no Brasil, desde a chegada dos portugueses até os dias de hoje, aconteceram grandes mudanças, dentre elas estão as do período jesuítico, período pombalino, período joanino, período imperial, período da primeira república, período da segunda república, período do estado novo, período do regime militar e logo após a abertura política e democracia (SAVIANI, 2005). Porém, a educação do negro no Brasil perpassa outros caminhos, colocando a história educacional do negro em outra perspectiva. Para mostrarmos que população negra não exerce o mesmo papel social do restante da sociedade e que a pedagogia que reconhece a identidade negra na escola com todas as suas nuances, temos que destacar os períodos mais importantes na educação escolar. A população negra até a década de 1870 (SILVA, 2020), em diferentes estados e entre diferentes leis, foi impedida de estudar em escolas, assim, a sua educação acontecia de maneira informal e de forma diferenciada das outras pessoas não negras. A sua entrada e permanência aconteceu de maneira não pontual, apenas tornaram extintas as leis que viessem proibir a sua frequência. a lei do ventre livre (1871), a proibição de exportação dos africanos para a sua exploração (1850), e a lei que abolia a escravatura no Brasil (1888), só apenas em 2003 foi regulamentada pela lei N° 10.639, o ensino que tornava obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e sua trajetória. No entanto, movimentos de líderes e remanescentes de quilombos viam a necessidade de uma educação voltada às suas realidades, visando a valorização de suas culturas e a não perda das suas identidades. 19 Em 5 de junho de 2012 foi aprovado o parecer CNE\CEB N° 16\20124, que orientava e ampliava as orientações para a educação quilombola. Em 20 de novembro de 2012 é estabelecido a resolução N°8 de 20125, quedefiniu as diretrizes curriculares nacionais para a educação escolar quilombola. No parágrafo V no art. 1°, diz que; “deve garantir aos estudantes o direito de apropriar dos conhecimentos tradicionais e das suas formas de produção de modo a contribuir para o seu reconhecimento, valorização e continuidade.”. No art. 2°, delimita a participação dos estados e municípios a garantia de: “I) Apoio técnico- pedagógico aos estudantes, professores e gestores em atuação nas escolas quilombolas; II) Recursos didáticos, pedagógicos, tecnológicos, culturais e literários que atendam às especificidades das comunidades quilombolas.” Falando especificamente do Quilombo Sossego, segundo as conversas informais com os moradores, a educação escolar vai se tornar realidade por volta do ano de 1950, em uma antiga casa que foi cedida por fazendeiros nessa mesma localidade. De acordo com os mais antigos que estudavam nessa escola, era oferecido almoço mas mesmo assim, havia dificuldade para se manter na escola devido ao custo dos materiais necessários para o estudo e a precisão do trabalho para manter a casa, isso fez com que todas as pessoas possuíssem uma escolaridade baixa, com apenas a alfabetização, indo com a faixa etária não muito além do fim da infância com 12 anos. Socialmente, são essas memórias que formam a história tão oculta do Quilombo, podemos olhar o Sossego por vários vieses, mas como proposto, iremos nos centrar no processo de perda de cultura, que enumerado por mim dentro da minha perspectiva de moradora e pesquisadora, podemos falar de seis características existentes no Quilombo Sossego: 1- A vinda de pessoas de outras localidades para trabalhar na fazenda provocou um choque cultural 2- O desejo das pessoas nascidas no quilombo de se aproximarem de outras culturas, para distanciar de sua própria cultura, apreendendo novos modos e ingressando no ensino escolar. 3- A ocultação da história. 4- Saídas dos remanescentes para oportunidades de trabalho, já que não mais se enquadram na cultura. 5- Falecimento das pessoas possuidoras das histórias mais longínquas desse território. Esses pontos foram enumerados conforme a junção de informações que os moradores durante as conversas que tivemos, foi repassado, inclusive o ato do não dizer, colocado nos capítulos anteriores. 4 Disponível em : https://normativasconselhos.mec.gov.br/normativa/view/CNE_PAR_CNECEBN12012.pdf query=envio 5 Parecer disponibilizado em https://normativasconselhos.mec.gov.br/normativa/view/CNE_RES_CNEC EBN82012. pdf?query=ensino%20m%C3%A9dio 20 4 MEMÓRIAS E CULTURA O Sossego como lugar ou como grupo de pessoas, é dotado de memórias. Ao conversar com os moradores encontra histórias de vida, onde aquele que irá narrar, falará com a voz saudosa, lembrando do tempo de reuniões que o único objetivo era diversão. Irão descrever os trajes desse dia, as comidas e as bebidas, os jogos, as músicas, as amizades. O modo da construção das casas, com madeira e barro molhado, que hoje dá lugar a memórias a um estopim de lembranças. Irão contar até as brigas e desentendimentos com o restante dos moradores. Ao olhar a vegetação que hoje é preservada, onde a 40 anos atrás davam lugar a bares, casas, etc. que hoje não existem mais. Contam os seus aspectos e detalhes que pessoas que não viveram naquela época, ouvem remontando trechos da história que hoje se encontram incompletos. Figura 2: Sobrado, lugar de memórias. Fonte: acervo pessoal Dessa parte da história, a população quilombola do Sossego se orgulha em contar, bem diferente de algumas outras memórias tão importantes quanto essa citada acima. Como já dito neste trabalho, há histórias que essa população omite. Michael Pollak (1989) em Memória, 21 Esquecimento, Silêncio, faz uma análise sobre o esquecimento e lembranças de memórias coletivas, e neste trecho o seu comentário acentua-se muito nesse aspecto do orgulhar dos moradores do quilombo de lembrarem algumas memórias do passado e o desejo de omitir outras lembranças. A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor. ( POLLAK, 1989, p. 3-15) Talvez o desejo dos moradores em se enquadrarem no restante da sociedade fez com que optassem pelo que deveria ser ou não dito. Uma das memórias não dizíveis é tudo o que ronda a religião que já foi praticada no Sossego. E é de reconhecimento que na sociedade brasileira há delimitações do que é ou não considerado religião. Nesse limite há vieses racistas de que o que provém de matriz africana não é bem aceito socialmente, acarretando o preconceito religioso. Sendo assim, com lembranças que para serem contadas precisaria apontar as suas participações nessas religiões, o silêncio sobre essas memórias é preferível. A construção do que é ou não dizível no quilombo Sossego pode ter sido feita através do contraste com o restante da sociedade em meio às relações de trabalho fora dos quilombos, como na ida de algumas pessoas para a área central com o objetivo de trabalho doméstico, acarretando o afastamento do quilombo. Porém, esse fator apresenta como pouco eficaz, ao passo que poucas são as pessoas que adentraram nessa forma de trabalho naquela época, voltaram a residir no quilombo, visto que não eram todas as pessoas que trabalhavam nesse ramo. Aparenta a hipótese mais aceitável, apesar de todos meios de poder e socialização, mais eficaz e rápida acontecida no quilombo para haver uma reeducação, é a escola, onde há, segundo Foucault6 (1998) a prática de disciplina, penalização, podendo haver idealização do corpo. A busca pela alfabetização, segundo os moradores, fez com que houvesse o deslocamento das crianças à escola. Com isso, podemos perceber que diferente da saída para o trabalho de algumas pessoas, as crianças continuavam no quilombo, e a ida para a escola onde há vigilância sobre o corpo foi individualizada e sobre todos, da mesma forma, voltando para as suas casas com novas ideias sobre os seus comportamentos, entre eles, a adequação em uma religião que não sofressem repúdios ou entrassem em contrastes com outra que fosse bem aceita socialmente, diferente das religiões de matrizes africanas. 6 Foucault em; Microfísica do Poder 22 Figura 3: Lugar em frente ao Sobrado que os moradores apontam ter sido localizada a antiga escola. Fonte: acervo pessoal. Coincidência ou não, essas pessoas que frequentaram a escola são remanescentes de pessoas que praticavam a religião de matriz africana. Em meus questionamentos, fiz a seguinte pergunta, de forma despretensiosa, a uma moradora: "Porque os terreiros do Sossego acabaram?", recebi a seguinte resposta; Todo mundo ia no centro do Antônio7, mas ele morreu, tinha o terreiro de Maria e Dora, mas morreram também… Ficou o terreiro de Penha, mas conforme foi passando, ela ficou com a rezas delas, foi ficando, a gente ia lá, mas ninguém se interessou de ficar fazendo isso, se envolveu com macumba, aí acabou. (CONVERSA COM MORADORA, 2023) Ao receber essa resposta, fiz outras perguntas como; "E da onde que o pessoal virou crente?", recebi a resposta que; "Não é que virou, é o que foi tendo.". Perguntei como era o ensino escolar que eles tinham e foi respondido; "As professoras eram muito católica, católica à beça, andava com blusa daquelas de coisa, e com saia. Elas são católicas até hoje.". 7 Nome fictício, como todos os outros nomes dados a moradores do Quilombo Sossego utilizado neste presente trabalho, para que oculte suaverdadeira identificação. 23 Vejamos, não há nenhum problema os professores e as professoras possuírem alguma religião contrária aos alunos onde lecionam, a problemática é quando tocava no tema religião no contexto escolar. Desse modo, como uma moradora do quilombo e pesquisadora, me atentei a indagar sobre este assunto sem falar diretamente da religião, mas obtive as mesmas respostas anteriores. Em outras palavras, eles reforçaram o que haviam dito acerca da religião, e diziam que com a morte das pessoas ficaram sem seus ritos e suas lideranças religiosas de matrizes africanas, visto que esses saberes não foram repassados às gerações posteriores. A memória entra em desalinhamento ao idealizar o que deve se tornar, assim, é escolhido entre tantas histórias, o que deve se contar para que se aparente com a idealização de parecer com outras culturas que são socialmente aceitas. Essa idealização se torna um problema quando não alcança o que foi idealizado, como falado no parágrafo acima. As histórias deixam de ser contadas, mas não deixam de ser uma memória, uma lembrança do que viveu. Guardadas internamente, ela retorna em formas de comparações entre como era o quilombo, em sua liberdade em exercer a sua identidade, com o que é acontecido fora do quilombo. Temos um exemplo disso quando há o conhecimento de alguém com uma enfermidade com dificuldade de cura. Quase sempre há falas como “antigamente nós fazíamos um remedinho, um chá e logo melhoravamos”. E são dados a importância ao espaço e essas memórias, e outras memórias que às vezes não ditas, que alguns não abrem mão de suas terras com a desculpa; “Não saio daqui! Vou sair daqui para morrer?! Aqui eu faço tudo, ando pra cá, ando pra lá. Vivi minha vida toda aqui. Se eu sair vou ficar amargurada, vou dar alguma coisa e morrer.”.O quilombo assim é associado à memória e ao bem estar. A resistência mesmo daqueles que trabalham e só conseguem passar os finais de semana no quilombo de abandonar esse espaço por uma memória de práticas e estilo vida que hoje não são realizados cabe a essa passagem do Pierre Nora; Os lugares de memória são, antes de tudo, restos. A forma extrema onde subsiste uma consciência comemorativa numa história que a chama, porque ela a ignora. É a desritualização de um mundo que faz aparecer a noção. O que se secreta, veste, estabelece, constrói e decreta. Mantém seu artifício e pela vontade numa coletividade fundamentalmente envolvida em sua transformação e sua renovação. (NORA, 1993, p. 8-28) Outro ponto importante sobre perdas da memória social, é a discussão como podemos preservá-las. No Quilombo Sossego, ainda existem memórias importantes não só para os que moram ou moraram na comunidade, também porque narra a história do Brasil em outro viés, podemos ter um olhar pela ótica da relação de trabalho, por exemplo. 24 Não basta somente conscientizá-los sobre a importância da memória, para uma comunidade que o mínimo tem acesso ao ensino superior, não haverá avanços com falas acadêmicas. O Sossego já teve várias medidas para a conscientização. Ganhávamos apostilas, éramos convidados a reuniões, mas poucos se interessavam por não ter uma linguagem de fácil entendimento. Há memórias que só foram expostas somente quando associações com linguagem utilizada na comunidade trabalharam o orgulho e a ancestralidade. Com a ajuda das associações quilombolas, tanto estadual como em nível nacional, alguns tiveram o prazer de se descobrir como quilombola, a partir de reuniões com os remanescentes e visitas frequentes das pessoas representantes dessas associações que visavam a articulação e acompanhamento do processo de contato das empresas privadas e a comunidade para que não houvesse perdas de direitos por não conhecimento do que tinha como direito, como a vacina contra a Covid-19 que remanescentes de quilombos prioridade na vacinação. Como para se vacinarem, os remanescentes precisavam ter o auto reconhecimento individual e de grupo. Os remanescentes se viram em um dilema, entender o que eram e o que fazia deles remanescentes de quilombolas, ou melhor, porque eram quilombolas, porque estavam tomando a vacina e qual era o desafio político envolvido no programa de vacinação dos povos tradicionais, fazendo não só ter impasses para uma criação de política pública, ademais o acesso à ela. 25 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esse texto teve como pretensão utilizar o quilombo Sossego como estudo de caso e fazer reflexões de como a memória de uma comunidade tradicional pode servir de viés para o apagamento cultural, e como essas memórias intrínsecas no grupo poderão servir de empoderamento de suas culturas, servindo adiante como utensílios de preservação cultural. Para que se pudesse fazer uma análise de como a cultura pode ser levada ao apagamento cultural, tive como hipótese o atravessamento da escola na comunidade quilombola. E o que podemos concluir, que apesar da instituição escolar ser um ponto importante na manutenção cultural, não é algo conclusivo nesse trabalho, visto que somente a instituição escolar não seria crucial para o apagamento cultural no quilombo Sossego. O que demandaria mais tempo e pesquisa, não só da comunidade, mas pesquisas externas ao grupo para adentrarmos no viés metodológico dessas escolas. O que podemos afirmar neste trabalho é que a constituição da memória para o quilombo Sossego é vital e deve ser cuidada e preservada para que se mantenha viva. A memória para a comunidade é algo que nos mantém coesos, mesmo que algumas memórias não sejam expostas. Há características de comportamento que são explicadas pelos mais velhos, como costumam afirmar; “Isso é coisa do pessoal do Sossego”8, que apontam um comportamento social comum para pessoas pertencentes a este grupo social Há memórias perdidas que não serão descobertas por serem repassadas na oralidade, quando se deixa de falar essas histórias elas se perdem, ainda mais quando essas memórias são marginalizadas. Uma solução alcançável, seria documentar essas histórias. Como moradora e saber da importância da memória para o quilombo, esse seria o meu desejo, mas deparei-me com a problemática do não-dizer, iria documentar as minhas memórias e memórias contadas que fariam sentido em minha individualidade mas não caberia na imensidão de acontecimentos que os griôs possuem internamente e não exteriorizam. Só foi possível o descobrimento de algumas memórias e assim, ter algum possível sucesso na pesquisa, por ser moradora, a criança que a comunidade viu nascer e crescer que também é gatilho de memórias para alguns. 8 Fala dos moradores que apontam comportamento repetitivo de gerações. 26 REFERÊNCIAS ALVES, Maria Cristina Santos de Oliveira. A importância da história oral como metodologia de pesquisa. In: SEMANA DE HISTÓRIA DO PONTAL, 4. 2016, Ituiutaba. Anais [...]. Ituiutaba: UFU, 2016. Disponível em: http://www.eventos.ufu.br/sites/eventos.ufu.br/files/ documentos/mariacristina santosdeoliveiraalves.pdf. Acesso em: 07 dez. 2023. BRASIL. Decreto-lei nº 4887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. [S. I], 2003. 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