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o MUNDO COMO DIÁLOGO E PROVOCAÇÃO* 
Djacir Menezes 
Os que fizeram da filosofia uma profissão correm o risco de jamais consegui­
rem saber o que é filosofia. O mecenato, mesmo do Estado, castra o filósofo. 
O ódio à crueldade, básico ao sentimento de fraternidade, é o privilégio que a 
história concede aos perseguidos de todos os tempos. 
A trilogia da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - é al­
go indecomponível na dialética da solidariedade do genus humanum. A com­
paixão, esse pathos geminado à convivência, é a mais genuína afeição emergente 
da racionalidade humana. Perscrutando as raízes, Razão é Sentimento depois de 
longa filogenia no devenir humano. A dissociação é fruto da metafísica intelectua­
lista. 
O componente sentimental do socialismo é a garantia mais alvissareira de seu 
futuro nos destinos da organização política dos povos. 
É no processo histórico que as fórmulas abstratas cobram o conteúdo de frater­
nidade e a eficácia realizadora das revoluções. Na solidariedade dos infelizes e 
dos miseráveis reside a legítima força de subversão dos privilégios. 
Só um São Francisco de Assis compreenderia as jacqueries medievais na sua 
plenitude cristã. Elas ameaçam hoje certas latitudes do ecúmeno civilizado e de­
sumanizado. 
Marx e Engels qualificaram de "utópico" o idealismo socialista da primeira me­
tade do século passado. Entrementes, todo o diálogo contemporâneo busca sua 
imperatividade naquelas bases afetivas ditadas pelas mesmas iniqüidades históri­
cas. 
Só há um milagre em toda a história humana: o espetáculo que o sentimento ju­
daico deu ao mundo - o prelúdio dafratemidade dos povos párias. 
De Hegel: "Nada de grandioso se faz no mundo sem paixão. Destarte, há dois 
momentos em nossa perspectiva: um é a idéia; outro, as paixões humanas; um é o 
elo, outro, a urdidura (Ei~chlag) do grande tapete que constitui a história univer­
sal distendida à nossa frente. 
Nas épocas em que se subverte a condição política, a filosofia assume seu lu­
gar: então não ocorre apenas o que geralmente se pensa, mas o pensamento adian­
ta-se e transforma a realidade; porque, quando uma forma do espírito não é mais 
satisfatória, ~ filosofia aguça o olhar de modo a perceber o que se tomou insatis­
fatório." 
E o filósofo escreveu então a sentença lapidar: "A ave de Minerva, a coruja, 
desata seu vôo ao cair do crepúsculo dos povos." A inteligibilidade não é um 
prius, mas umposterius. 
"A morte natural do espírito de um povo pode-se manifestar pela nulidade polí­
tica. É o que chamamos hábito" (Hegel). No automatismo morre o espírito. 
Marat (que Carlota Corday apunhalou na banheira onde coçava comichões), em 
uma das sessões tumultuosas da Convenção, sacou dramaticamente do punhal e 
gritou que ia provar seu amor à pátria ali mesmo, cravando a lâmina no peito. Saiu 
*Estas reflexões ficaram fora do livro O mundo como diálogo e provocação, a que se destinavam, e qut será 
lançado proximamente pela Editora Forense. 
R. C. pol., Rio de Janeiro, 31(3):21-22, julJset. 1988 
nos braços, numa ovação. Senatores boni viri, senatus autem mala bestia. A 
ovação foi um ato coletivo. Decerto, em casa, serenados, cada um pensou: "Por 
que não deixamos aquele desvairado se sangrar pela pátria?" 
O sistema educativo e a educação religiosa se acumpliciam no contubémio da 
beligerância nacionalista, base do annamentismo condenado nos congressos inter­
nacionais da paz e nas celebrações dos tribunais de arbitragem. Matai-vos uns aos 
outros, mas moderadamente, dentro das regras estabelecidas, nas zonas destinadas 
à matança, com mísseis devidamente dispostos, legitimando a periodicidade dos 
genocídios segundo o calendário aprovado. 
Aturdido, o S.S. chefe da cristandade João Paulo 11 decidiu recorrer ao arsenal 
doutrinário da Igreja para restaurar na consciência obscurecida dos fiéis a eficácia 
do Diabo e seus ancilares, causas ocultas dos infortúnios que se desentranham da 
história, e que escapam pelo anonimato à jurisdição dos homens e às instâncias 
políticas respectivas. 
"Controlar o emprego da riqueza é mais eficaz que contestar o direito do rico" 
- opinou Comte, Discours sur I' ensemble du positivisme, p. 173. 
Repitamos isso de outra maneira: contestar privilégios de uma classe que está 
destinada a perdê-los é mais perigoso que organizar sistemas de controle daquilo 
que ela já monopolizou. 
A curiosidade é a manifestação instintiva da cognição biológica, une tensio 
vers /e but, uma espécie de tropismo epistêmico. 
As classes médias no Brasil foram reduzidas a classes orçamentívoras. Ancila­
res das camadas dirigentes, querem retirar-lhes de repente a manjedoura sem lhes 
abrirem a porteira do curral para o pasto que o latifundiário cercou de arame far­
pado. Na cerca, a pedagogia marxista pregou seus conselhos redentores ... 
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