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Histórico das Políticas de Saúde

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DESCRIÇÃO
As políticas de Saúde no Brasil, a construção histórica para a sociedade brasileira e a
formação do Sistema Único de Saúde (SUS).
PROPÓSITO
Compreender o processo histórico das políticas de Saúde no Brasil, bem como a Reforma
Sanitária Brasileira (RSB).
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar a evolução das políticas de Saúde no Brasil do período pré-colonial (até 1500) até a
Era Vargas (1930 a 1945)
MÓDULO 2
Identificar a evolução das políticas de Saúde no Brasil do período de redemocratização (1945 a
1964) até o período da Reforma Sanitária Brasileira (início na década de 1970 até os dias
atuais)
INTRODUÇÃO
Todos nós temos direito de acessar o Sistema Único de Saúde (SUS), seja por serviços ou
ações de saúde, como vacinas, consultas e exames, seja pelo restaurante que você frequenta,
que tem ação da Vigilância Sanitária, ou pela medicação que você usa, que tem participação
do SUS na formulação, entre tantas outras áreas.
A concepção ampliada de saúde ultrapassa o entendimento meramente biológico. Dessa
forma, é necessário um sistema de saúde com ações de promoção, prevenção e recuperação,
incluindo no cuidado as questões sociais, econômicas, políticas, culturais, entre outras. Assim,
é preciso um sistema complexo e universal, ou seja, todos devem ter acesso sem qualquer
limitação.
Você acha que sempre foi assim? Atualmente, o nosso direito é garantido pela Constituição
Federal de 1988. Para chegar a essa grande conquista, existiu um longo caminho histórico de
construção e desconstrução na área da Saúde.
Veremos ao longo desse material os diversos períodos históricos, as dificuldades, as
mudanças e as consequências de todo o processo até chegar ao atual momento. A proposta
principal desse conteúdo é que você possa refletir sobre o impacto de toda a construção
histórica das políticas de Saúde sobre o atual sistema de saúde e que consiga ter uma atuação
profissional reflexiva baseada no conteúdo teórico trabalhado, considerando a realidade da
prática.
MÓDULO 1
 Identificar a evolução das políticas de Saúde no Brasil do período pré-colonial (até
1500) até a Era Vargas (1930 a 1945)
CONCEITOS
Fonte: Billion Photos / Shutterstock.com
Para começarmos esse módulo, é importante fazer a seguinte reflexão:
POR QUE PRECISAMOS ESTUDAR HISTÓRIA?
Existem muitas respostas possíveis para essa pergunta, mas uma resposta costuma ser
consenso: estudamos História para aprender com o passado e planejar o futuro, evitando
a ocorrência dos mesmos equívocos.
Uma parte significativa dos que escolhem cursar uma graduação na área da Saúde relata não
ter grande apreço por estudar conteúdos históricos e filosóficos. No entanto, ao trabalhamos
com o conceito ampliado de saúde, é preciso compreender todo o contexto em que vive cada
sujeito e, para isso, é imprescindível pensar nas questões históricas que geram as iniquidades
e a dificuldades de acesso aos serviços e ações públicas de saúde.
É primordial, por exemplo, conhecermos a história da profissão que escolhemos exercer, pois
isso fortalece a identidade profissional, auxiliando a configurar cada uma delas como corpo
político e social. Na mesma proporção, é essencial conhecermos a história das políticas de
Saúde, como o processo foi se construindo, desconstruindo e reconstruindo, para chegar ao
momento atual, que traz dificuldades significativas e avanços importantes. Nesse módulo, o
foco será na evolução das políticas de Saúde no Brasil.
O QUE SERIA UMA
POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE?
Podemos dizer de maneira bem simples que uma política pública de saúde diz respeito a uma
resposta do Estado para uma necessidade encontrada na sociedade. Ou seja, para enfrentar
os problemas relacionados à saúde, são criadas as políticas públicas, que trarão impactos à
vida da população.
Fonte: WAYHOME studio / Shutterstock.com
É importante ter clareza sobre um ponto: as políticas públicas de saúde nascem a partir de
questões social e coletiva e não a partir de algo individual. Não podemos utilizar situações
pontuais e isoladas para justificar uma política de saúde. A coletividade é o foco, porém,
obviamente, ocorrerão também impactos nos indivíduos de maneira singular.
O Brasil apresenta uma desigualdade social muito significativa. O Estado precisa garantir um
sistema de saúde que busque diminuir as iniquidades, aumentar o acesso, pensando muito
além da construção de hospitais. Grande parte da nossa população vive em condições
precárias e, certamente, tal fato é resultado de um processo histórico de distribuição de renda
fortemente desigual.
O SUS existe a partir da premissa de que saúde é direito da população e deve ser garantida
pelo Estado. Mesmo ainda com tantos desafios, podemos observar muitos avanços. Até
chegarmos ao SUS, tivemos um longo caminho de construção das políticas de Saúde. Vamos
ver, a partir de agora, como se dava essa questão em períodos históricos específicos.
BRASIL PRÉ-COLONIAL
Fonte: celio messias silva / Shutterstock.com
Quando falamos em Brasil pré-colonial, estamos abordando o período em que o país ainda não
havia sido colonizado por Portugal, ou seja, o período anterior ao ano de 1500. Nessa época,
milhões de indígenas viviam em diversas tribos distribuídas por todo o território nacional.
Os indígenas tinham suas próprias culturas, crenças e formas de organização social. Os rituais
e práticas curativas com uso de plantas e chás eram realizados nas aldeias e conviviam com
as questões que atravessavam a saúde, podendo realizar cuidados conhecidos até hoje.
Quando os portugueses chegaram, a população indígena foi dizimada pelas novas doenças
trazidas pelos europeus, como cólera e varíola, e sofreram inúmeras intervenções em sua
cultura e crença, sendo alfabetizados em português, catequizados pelos líderes católicos e
servindo de mão de obra escrava.
As pesquisas mostram que, na década de 1970, o país não chegava a ter 100 mil indígenas.
Lembra que vimos que milhões de indígenas moravam aqui antes da chegada dos
portugueses? Alguns estudos apontam que eram aproximadamente cinco milhões. Pense em
quantas vidas se perderam. Como seria possível responder a tal tragédia? Através de políticas
públicas voltadas para a população indígena. Em função dessas políticas públicas, o censo de
2010 apontava que o país tinha uma população de cerca de 800 mil indígenas. Ou seja, é
preciso investir nas políticas de Saúde para que essa população tenha melhores condições de
vida.
Fonte: jiunn / Shutterstock.com
BRASIL COLÔNIA
Fonte: esfera / Shutterstock.com
A partir do momento que Portugal chegou ao Brasil, iniciamos o período chamado de Brasil
Colônia, que vai de 1500 a 1822, quando sofremos grandes mudanças culturais, sociais,
políticas e econômicas.
Apesar das intervenções e perdas envolvendo os indígenas, muitas práticas utilizadas pelas
tribos nativas foram aproveitadas pelos boticários no período colonial. Você sabe quem eram
os boticários? Atualmente, entende-se que foram os precursores dos farmacêuticos. Eles
viajavam por todo o país, prescrevendo remédios, poções e misturas para pessoas
consideradas doentes. É importante reforçar que, naquele período, os médicos eram
praticamente inexistentes no país e que a população ficava muito desamparada em relação à
assistência em saúde.
Para algumas doenças como a hanseníase, conhecida popularmente como lepra, as medidas
tinham muito mais relação com afastar o chamado leproso do convício social do que em tratar
sua questão de saúde. Cabe falar que as pessoas acometidas por essas doenças
infectocontagiosas eram direcionadas para locais isolados, coordenados por religiosos. Outra
questão importante diz respeito à chegada dos escravos africanos ao Brasil. Depois de algum
tempo, o local de desembarque dos navios negreiros passou a ser realizado em local afastado
para permitir a separação de escravos considerados saudáveis dos escravos considerados
doentes.
PERCEBE QUE NÃO EXISTIA MEDIDA DE CUIDADO EM
SAÚDE, MAS UMAEXCLUSÃO HIGIENISTA E
PRECONCEITUOSA?
Fonte: Davi Sales Batista / Shutterstock.com
Somente em 1808, com a chegada da corte portuguesa no Brasil, percebemos um estímulo
maior para a presença médica, diante da necessidade de cuidar da nobreza. Foram
inauguradas a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro e o Colégio Médico-Cirúrgico em Salvador.
Alguns estudos apontam tentativas de construção de escolas de ensino superior para formação
médica antes da chegada da corte portuguesa no Brasil, mas possuir formação em nível
superior era considerado algo proibido por Portugal nos tempos do Brasil Colônia.
VOCÊ CONSEGUE PERCEBER QUE O AVANÇO QUE
COMEÇA A ACONTECER, COM A VINDA DAS
ESCOLAS DE FORMAÇÃO MÉDICA, TEM RELAÇÃO
DIRETA COM A PRESENÇA E INTERESSES DE UM
GRUPO PRIVILEGIADO E NENHUMA RELAÇÃO COM
AS NECESSIDADES DA POPULAÇÃO?
Veremos adiante que essa lógica está sempre atravessando a construção de ações e serviços
de saúde em nosso país.
BRASIL IMPERIAL
Esse período histórico começou com a proclamação da independência do Brasil por D. Pedro I
em 1822 e foi até 1889, quando aconteceu a proclamação da república. É importante reforçar
que pouco se tem para relatar sobre avanços ou mudanças na área da saúde.
As ações limitavam-se a manter certa higienização no Rio de Janeiro, a capital do Império, em
função da grande disseminação de doenças e condições precárias de vida e da proteção da
nobreza portuguesa. Essas ações eram realizadas principalmente com intuito de evitar grandes
perdas financeiras diante do aumento significativo de doenças, já a questão da qualidade de
vida para população não era levada em consideração.
Fonte: Tiago Santos de Souza / Shutterstock.com
Algumas tentativas foram feitas como a criação da Junta de Higiene Pública para unificar os
serviços sanitários do império a partir do surgimento de casos de febre amarela. Mesmo com
essa criação, alguns anos depois a situação sanitária do país ainda continuava muito frágil;
posteriormente foi instituído o Conselho Superior de Saúde Pública, que também não surtiu
grandes efeitos práticos sobre a situação da salubridade do país.
VOCÊ CONSEGUE PERCEBER A FRAGILIDADE E
DESINTERESSE NESSE PERÍODO EM CUIDAR DA
SAÚDE DA POPULAÇÃO?
Considerando nossa sociedade escravocrata, a saúde da maior parte da população não era
objeto de preocupação. Por isso, temos pouco a relatar em relação a mudanças positivas para
a saúde em seu significado amplo: biológico, social, econômico, político, entre outros.
Fonte: tereza ferreira / Shutterstock.com
PRIMEIRA REPÚBLICA
Esse período histórico, que começou em 1889 com a proclamação da República e terminou em
1930, também é conhecido como “República Velha”. Tivemos nesse período uma alternância
no governo do país entre os estados mais ricos:
Rio de Janeiro;
São Paulo;
Minas Gerais.
Fonte: kasama Watanapran / Shutterstock.com
Houve um grande incentivo à cafeicultura, que se tornou o setor de destaque na economia,
com boa parte do seu lucro direcionada para a industrialização e urbanização. Tal fato
proporcionou um grande aumento da população nas cidades, com grande êxodo rural nesse
período. Aconteceu também significativo aumento da imigração de europeus, principalmente,
para trabalhar como mão de obra assalariada nas lavouras de café, tendo em vista que a
escravidão foi abolida em 1888.
Diante desse aumento da população urbana, tivemos também um crescimento na transmissão
de doenças e o surgimento de novos agravos de saúde, o que prejudicava fortemente a
economia brasileira. Apesar de parecer estranha, essa lógica do mercado prevalecia e ganhava
mais força ao longo do tempo. A preocupação com a saúde da população era muito inferior
em relação à preocupação com as finanças do país. Existia forte ameaça com a presença
significativa de varíola e febre amarela e, para isso, era necessária a adoção de ações voltadas
para o enfrentamento dessas doenças.
Nesse período, a saúde pública começava a ter um desenvolvimento mais acelerado no país,
com práticas fortemente pautadas na Bacteriologia e Microbiologia. A partir da descoberta de
microrganismos patogênicos, as práticas sanitaristas começaram a se estruturar. As
campanhas sanitárias agiram fortemente nos portos, no controle de doenças e no saneamento,
organizando serviços de saúde pública.
Cada vez mais, no final do século XIX, ganhava visibilidade a necessidade de ampliar as ações
de comércio no exterior e contratar imigrantes para trabalhar no país. Com uma estrutura
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pouco eficaz para enfrentar a questão epidemiológica, foram criados laboratórios de saúde
pública e serviços sanitários foram organizados.
ÊXODO RURAL
Migração da população do campo para a cidade em busca de melhores condições de
vida.
 SAIBA MAIS
Nessa época, importantes atores no processo de fortalecimento da Saúde Pública, como Vital
Brasil, que testou soros e vacinas, e Emílio Ribas, que atuou fortemente no combate a
epidemias e endemias, principalmente em relação à febre amarela, que vinha apresentando
uma taxa de mortalidade muito alta. Muitos sabiam que, ao chegar no Rio de Janeiro, poderiam
adoecer gravemente ou até morrer. Então, nosso país ganhou fama de ser um local altamente
insalubre. Em função dessa situação, no ano de 1900, foi criado o Instituto Soroterápico
Municipal.
Fonte: Janusz Pienkowski / Shutterstock.com
No governo de Rodrigues Alves (1902-1906), tivemos a presença marcante do sanitarista
Oswaldo Cruz à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública, com foco em ações higienistas
para responder às questões de saúde no Brasil. O principal papel de Oswaldo Cruz era
erradicar a febre amarela, sendo necessário convencer a população sobre a as intervenções
de controle do vetor e vigilância das pessoas adoecidas.
Imagine a seguinte cena:
Fonte: happymay / Shutterstock.com
Você ouve alguém bater na porta de sua casa e, ao abrir, uma equipe invade seu espaço e
começa a destruir colchões e cortinas e limpar possíveis reservatórios de mosquitos. Ou ainda
lhe expulsa de sua moradia, alegando que sua casa está impossibilitada de continuar habitada.
Qual seria sua reação?
REFLEXÃO
Essa cena foi proposta para dar dimensão das reações populares diante do que foi chamado
de modelo campanhista de intervenção, implementado por Oswaldo Cruz para enfrentar as
epidemias da época. É importante ressaltar que essas campanhas sanitárias eram altamente
repressivas, interditando e invadindo casas, sempre com a presença da chamada polícia
sanitária.
Agora vamos imaginar outra situação:
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Fonte: FishCoolish / Shutterstock.com
Algum profissional de saúde se aproxima de você e aplica uma vacina, sem a menor
explicação.
O que você faria?
REFLEXÃO
Atualmente, recorremos à vacinação porque temos acesso à informação e sabemos que as
vacinas são potentes para a erradicação de muitas doenças. Porém, nem sempre a população
teve acesso a essas informações.
Veja como a vacinação era vista:

Em 1904, foi aprovada uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra varíola, medida
também coordenada por Oswaldo Cruz. A forma violenta e invasiva desse processo, com a
ação da polícia sanitária novamente, provocou uma revolta sangrenta da população em relação
à medida governamental. Esse movimento ficou conhecido como Revolta da Vacina, tendo
duração de aproximadamente seis dias, no Rio de Janeiro, até ser reprimido pelo governo. Em
javascript:void(0)
seguida, a lei que tornava a vacina obrigatória foi revogada. Houve significativa queda no
número de pessoas com varíola, mas a maneira como a ação foi realizada trouxe outros
prejuízos para a população.
Em 1920, houve a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública e foi implementada a
chamada Reforma Carlos Chagas, que trouxe uma separação entre saúde pública e
previdência. É importante que você saiba que, nesse período, as famílias que tinham uma
posição social privilegiada recorriam aos médicos que iam às suas casas e recebiampagamento pelos serviços prestados. Já a maior parte da população, pobre, precisava buscar
cuidados em instituições filantrópicas ou religiosas.


Em 1923, foi criada Lei Eloy Chaves, que representou o início da previdência social e trouxe as
Caixas de Aposentadoria e Pensão (CAP) – que eram responsáveis pelos benefícios dos
funcionários e organizadas por cada empresa, de natureza privada. O financiamento das CAP
era feito a partir de um desconto do valor recebido pelos funcionários e de recursos dos
empregadores. A arrecadação variava de acordo com cada empresa.
Naquele momento, a iniciativa pública somente atuava na resolução de conflitos. A partir da
criação da previdência social, podemos perceber uma mudança política do Estado diante das
questões de saúde e de trabalho, com maior atenção às questões sociais, porém ainda muito
distante das necessidades da população.
ERA VARGAS
No período conhecido como Era Vargas, que foi de 1930 a 1945, tivemos importantes
mudanças jurídicas e de proteção social no país. A perda de importância da cafeicultura trouxe
prejuízos políticos para a classe dominante da época. Houve um movimento de pessoas da
elite não ligadas à cafeicultura para fim da hegemonia da chamada “política do café com leite”,
que contou com grande apoio de diversos grupos da sociedade.
Com esse movimento, que ficou conhecido como Revolução de 1930, Getúlio Vargas chegou
ao poder, trazendo importantes avanços sociais. Mas seu governo também foi extremamente
autoritário, o que fez com que se tornasse um dos políticos mais enigmáticos da história
brasileira.
A Era Vargas foi marcada por forte perseguição à oposição e teve como um dos principais
marcos a criação do Estado Novo, em 1937 – um regime de ditadura, com forte centralização
de poder, que durou até 1945.
Fonte: Arthimedes / Shutterstock.com
O cenário da saúde no Brasil nesse momento era composto pela medicina previdenciária,
pelas instituições filantrópicas e por profissionais médicos liberais. Houve também algum
avanço com a construção de departamentos de saúde no interior do país e a criação do
Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), que focava em áreas com pouca ou nenhuma
cobertura pelos serviços oferecidos pelo governo.
Os trabalhadores da época conseguiram que o salário mínimo fosse aprovado, porém o
período era de crescente inflação, com grande piora nas condições de vida. Diante disso, a luta
trabalhista precisava continuar, inclusive para conseguir melhor assistência de saúde.
Foram criados os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP), que eram organizados por
categorias profissionais. Algumas categorias foram mais beneficiadas que outras, gerando
grandes desigualdades financeiras e nas condições de trabalho. Com a crescente
industrialização, havia preocupação com a produção e, assim, com as condições físicas dos
trabalhadores. Por isso, muitas empresas criaram serviços de saúde ambulatoriais. As classes
mais beneficiadas eram os:
MARÍTIMOS
FERROVIÁRIOS
COMERCIANTES
BANCÁRIOS
FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS
 ATENÇÃO
É importante lembrar que os trabalhadores urbanos tinham muito mais acesso a esses avanços
que os trabalhadores rurais.
LEMBRA QUE FALAMOS SOBRE AS CAP, QUE ERAM
ORGANIZADAS PELA INICIATIVA PRIVADA?
Quando ocorre a mudança para os IAP, houve incremento da participação pública e
significativa dependência do governo federal. Porém, esses institutos serviram mais como
criadores de reserva financeira para o governo do que como prestadores de serviços à
população.
Nesse ritmo acelerado de industrialização nacional, outro destaque foi o crescimento da
indústria farmacêutica, o que reforçava a concepção de saúde reducionista como algo biológico
que pressupõe uma prática unicamente curativista, restando pouco espaço para ações de
prevenção e promoção da saúde.
É possível identificar avanços importantes nessa etapa da nossa história, como a ampliação de
alguns direitos trabalhistas, porém muitas questões estruturais permaneciam, como a
orientação de estruturar um modelo embasado nos interesses das grandes empresas e pouco
estruturado nas reais necessidades de saúde da população em geral. Será que isso mudou
nos anos posteriores? Veremos mais períodos históricos adiante para analisarmos.
A SAÚDE NA ERA VARGAS
Assista ao vídeo a seguir para saber mais sobre a saúde na Era Vargas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. AO LONGO DOS ANOS, VIMOS IMPORTANTES MUDANÇAS NA
QUESTÃO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL NO BRASIL. PENSANDO NAS
ETAPAS DE CONSTRUÇÃO DO SISTEMA PREVIDENCIÁRIO, MARQUE A
OPÇÃO QUE TRAZ O DISPOSITIVO QUE FOI CRIADO COM FORTE
PARTICIPAÇÃO DO GOVERNO FEDERAL, MAS NÃO BENEFICIAVA DE
MANEIRA IGUAL TODOS OS TRABALHADORES:
A) Ministério do Trabalho.
B) Institutos de Aposentadorias e Pensões.
C) Caixas de Aposentadoria e Pensão.
D) Ministério da Educação e da Saúde.
E) Serviço Especial de Saúde Pública.
2. NO INÍCIO DO SÉCULO XX, HOUVE UM MOVIMENTO DE REAÇÃO DA
POPULAÇÃO DO RIO DE JANEIRO EM FUNÇÃO DO MODELO
CAMPANHISTA DE INTERVENÇÃO PROPOSTO E COORDENADO PELO
SANITARISTA OSWALDO CRUZ. MARQUE A OPÇÃO QUE TRAZ O NOME
DESSE MOVIMENTO:
A) Revolução de 1930.
B) Estado Novo.
C) Revolta da Vacina.
D) Revolução Sanitária.
E) República do Café com Leite.
GABARITO
1. Ao longo dos anos, vimos importantes mudanças na questão da previdência social no
Brasil. Pensando nas etapas de construção do sistema previdenciário, marque a opção
que traz o dispositivo que foi criado com forte participação do governo federal, mas não
beneficiava de maneira igual todos os trabalhadores:
A alternativa "B " está correta.
Os Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP) tinham grande participação do governo
federal, porém foi gerada grande desigualdade social em função da diferença financeira entre
esses institutos, com algumas classes de trabalhadores com melhores condições de trabalho
que outras.
2. No início do século XX, houve um movimento de reação da população do Rio de
Janeiro em função do modelo campanhista de intervenção proposto e coordenado pelo
sanitarista Oswaldo Cruz. Marque a opção que traz o nome desse movimento:
A alternativa "C " está correta.
A Revolta da Vacina aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, com a duração de seis dias,
quando foi reprimida pelo governo. A população se revoltou contra a medida de vacinação
obrigatória, pois não havia informação sobre o que estava em curso e a forma com a qual essa
ação era realizada tinha caráter extremamente violento, contando com presença de polícia
sanitária.
MÓDULO 2
 Identificar a evolução das políticas de Saúde no Brasil do período de
redemocratização (1945 a 1964) até o período da Reforma Sanitária Brasileira (início na
década de 1970 até os dias atuais)
Nesse módulo, seguiremos na linha do tempo proposta com a abordagem das questões que
envolveram a área da saúde nos principais períodos históricos brasileiros até chegarmos ao
nascimento do Sistema Único de Saúde (SUS). O foco desse módulo é mostrar as dificuldades
desses períodos e os avanços importantes nessa construção da história das políticas de Saúde
brasileira.
É essencial desenvolver uma visão crítica acerca das questões que parecem estruturar
retrocessos e das movimentações necessárias para modificá-las, tendo em mente que esse
movimento de mudança é um processo constante, dinâmico e vivo.
PERÍODO DE REDEMOCRATIZAÇÃO
Fonte: Chinnapong / Shutterstock.com
Esse período da história brasileira começou em 1945 e foi até 1964. O mundo passava por
muitas mudanças e crises decorrentes do fim da Segunda Guerra Mundial e o Brasil foi
influenciado por essas questões. A população, insatisfeita com o governo Vargas, passou a
reivindicar democracia, o que levou ao encerramento da ditadura de Vargas e ao início de um
processo democrático, de eleições diretas para os cargos políticos do governo; a imprensa
ganhou maior liberdade e os sindicatos se organizaram novamente.
Mesmo com algumas flexibilizações, certas ações anteriores aindaforam mantidas, como, por
exemplo, o intervencionismo nos sindicatos e em partidos políticos de oposição pelo presidente
Eurico Dutra. O Brasil teve fortalecida sua aliança com os Estados Unidos; os movimentos
sociais ganharam força em sua luta por melhores condições de vida e busca por melhores
condições de saúde e de trabalho.
LEMBRA QUE FALAMOS SOBRE O SERVIÇO
ESPECIAL DE SAÚDE PÚBLICA (SESP) CRIADO NO
PERÍODO ANTERIOR?
Nessa fase, em função dessa aliança do Brasil com Estados Unidos, o SESP teve uma
atuação forte de assistência à saúde dos trabalhadores da Amazônia que faziam extração de
borracha, pois eles ficavam muito suscetíveis a contraírem malária. Como a borracha era
importante para as questões que envolviam a 2ª Guerra Mundial, era primordial manter esses
trabalhadores saudáveis para não prejudicar a produção.
PERCEBE ALGO QUE ESTAMOS CONVERSANDO
DESDE O INÍCIO DESSE CONTEÚDO? QUAL QUESTÃO
PREVALECE NESSA CONDUTA: O INTERESSE DO
MERCADO OU AS NECESSIDADES DE SAÚDE DA
POPULAÇÃO?
Em função das ações de Saúde Pública passarem por uma significativa expansão, foi criado
em 1953 o Ministério da Saúde, que teve atuação pouco significativa e recebia poucos
recursos financeiros por parte do governo.
Havia uma luta para que os IAP fossem unificados e prestassem assistência médica aos seus
trabalhadores. Entretanto, essa ideia não foi adiante, pois muitos acreditavam que uma fusão
nos IAP poderia diminuir a qualidade dos serviços. Dessa maneira, os IAP que tinham mais
recursos construíam seus próprios hospitais. É importante que você saiba que, nesse período,
houve um investimento muito maior em construção de hospitais do que em serviços e ações de
atenção primária. Como vivíamos uma segunda fase da industrialização, houve crescimento no
número de equipamentos para exames e procedimentos médicos e da indústria farmacêutica,
com a produção de novas medicações consideradas promissoras. Ou seja, o foco ainda
permanecia em curar e não em prevenir e promover saúde da população.
VOCÊ CONSEGUE PERCEBER QUE, MESMO COM
AVANÇOS, O PASSADO CONTINUA BEM PRESENTE
NESSE MOMENTO?
REGIME MILITAR
Fonte: NTL studio / Shutterstock.com
Em 1964, ocorreu um golpe de Estado que colocou os militares à frente do governo do país,
encerrando todas as instituições que buscavam por reformas de base, suspendendo direitos e
punindo violentamente todas as pessoas que se opunham ao novo regime de governo. Muitos
estudantes, políticos, artistas, líderes sindicais e até religiosos que lutavam por mudanças e
melhores condições de vida foram presos e perseguidos. O argumento utilizado era a
necessidade de proteger o país contra uma possível ameaça comunista, com promessas de
garantir segurança e acabar com a corrupção.
 SAIBA MAIS
O chamado “milagre econômico” conferiu aumento da produtividade do país, aumentou a
carga horária dos trabalhadores e reduziu salários, constituindo um período de grande
concentração de renda para poucos e de altos índices de pobreza, inflação e desemprego para
a maior parte das famílias do Brasil. Com o aumento da miséria, nossa população adoeceu
mais – deu-se o surgimento de epidemias como poliomielite e meningite, e os veículos de
mídia foram censurados em relação à divulgação dos dados alarmantes sobre essas
epidemias.
Mesmo diante desse cenário, houve um corte significativo e progressivo dos recursos
destinados à saúde pública, e o Ministério da Saúde atuava muito mais numa perspectiva
individual de saúde do que numa perspectiva coletiva.
Houve também a intensificação do modelo hospitalocêntrico, ou seja, um modelo de saúde que
focava na construção de hospitais como principal estratégia de assistência.
Fonte: sfam_photo / Shutterstock.com
CONSEGUE NOTAR O PREDOMÍNIO DA LÓGICA
CURATIVISTA NA SAÚDE?
Parece fazer parte da lógica da industrialização – os grandes hospitais romperam com a lógica
artesanal de cuidado e passaram a focar em produtividade. Por conta disso, os gastos
cresceram muito, pois o governo financiava a construção de hospitais pela iniciativa privada e a
população, em sua maioria, não tinha acesso a esse parque hospitalar.
VOCÊ SABIA QUE, NESSE PERÍODO, TIVEMOS UM
CRESCIMENTO DESENFREADO DE HOSPITAIS
PSIQUIÁTRICOS, MAIS CONHECIDOS COMO
HOSPÍCIOS?
Nesses locais, muitas pessoas consideradas indesejadas pela sociedade eram depositadas,
sofrendo violência e abandono e passando por grande negligência.
QUEM ERAM ESSAS PESSOAS?
Mulheres cujos maridos não queriam mais manter o casamento, homossexuais, negros,
pessoas com deficiência física e pessoas com transtornos mentais, dentre tantas outras
situações. O sofrimento acontecia entre muros, deixando as ruas sem a presença dos que
eram vistos como desviantes.
Em 1967, tivemos a fusão de todos os IAP, formando o Instituto Nacional da Previdência Social
(INPS), com grande concentração de recursos financeiros, o que aumentou a compra de
serviços e ações da iniciativa privada. É importante reforçar que os trabalhadores sem vínculo
formal de trabalho não possuíam direito a usufruir da previdência social.
O INPS destinava boa parte dos seus gastos à cobertura de assistência médica individual
especializada. Podemos notar mais uma vez a desvalorização das ações de saúde pública de
viés preventivo e coletivo.
Fonte: Studio Romantic / Shutterstock.com
Nesse período, havia o predomínio da busca por consultas médicas individuais. A medicina era
vista como detentora da cura. Houve um crescimento importante de faculdades privadas de
medicina – muitas vezes distantes da realidade das necessidades de saúde da população –,
com formação fortemente embasada em equipamentos modernos e medicações lançadas a
todo momento pela indústria farmacêutica. Perceba que não existia grande espaço e
autonomia para as demais profissões da saúde, era um modelo hospitalocêntrico e médico-
centrado.
 ATENÇÃO
É primordial o reconhecimento da importância das universidades nesse cenário. A partir da
impossibilidade da participação de trabalhadores e pesquisadores da saúde na formulação das
políticas sanitárias, o meio acadêmico configurou-se como um importante espaço de luta e
resistência para romper com as iniquidades e barreiras encontradas para acesso à saúde.
A medicina comunitária começou a ganhar espaço no Brasil, fortemente apoiada pela
Organização Mundial de Saúde (OMS), e propunha um acompanhamento em todo o território,
com forte atuação de agentes de saúde, conhecedores da realidade do local, através de ações
mais simples, com caráter de prevenção e participação da comunidade. Aconteceu também
nesse período, o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento (PIASS) para
levar saúde às populações mais carentes e com menos acesso.
Fonte: ocphoto / Shutterstock.com
Em 1975, tivemos a V Conferência Nacional de Saúde, que instituiu o Sistema Nacional de
Saúde e deixou uma divisão clara na área:
Fonte: EnsineMe
Passou a ter uma função muito mais normativa, com foco em ações coletivas.
Fonte: EnsineMe
Concentrou-se em uma medicina curativa e individual.
Diante da grave crise financeira no INPS, foi criado o Sistema Nacional de Previdência e
Assistência Social (SINPAS), com a finalidade de reorganizar o modelo vigente através do
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Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) – responsável pela
assistência médica dos trabalhadores – e do Instituto de Arrecadação da Previdência Social
(IAPAS), que cuidaria do Fundo de Assistência da Previdência Social. Mesmo com a ideia de
organização a longo prazo, percebe-se uma fragmentação do sistema nesse modelo de
organização.
Tivemos, nesse período, a proposta do Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde
(PREV-SAÚDE), que buscava ampliar e reestruturar os serviços e ações de saúde, o
saneamento e a habitação. Propunha colocar a atenção básica como porta de entrada do
sistema, a partir de uma hierarquia no atendimento. Também propôs a regionalizaçãodo
sistema, a participação da população e integração entre serviços públicos e privados. Por
tratar-se de um período de ditadura militar, esse programa não foi aprovado.
 ATENÇÃO
É importante que você saiba que o INAMPS (1977- 1993) configurou uma assistência bem
segmentada à saúde, promovendo atendimento individual e especializado aos que contribuíam
com a Previdência Social. Há até bem pouco tempo atrás era muito comum que pessoas com
idade mais avançada apresentassem a carteira de trabalho aos profissionais de saúde,
acreditando que seria necessária para o acesso, fato ainda recorrente nos dias de hoje nos
serviços de saúde do SUS. É essencial que a população receba a informação de que,
atualmente, o sistema público da saúde é um direito de todos.
Podemos observar no início dos anos 1980 um desgaste profundo em diversos âmbitos,
inclusive no da saúde. Tal desgaste fortaleceu os movimentos em busca de uma reforma
sanitária a fim de romper com a lógica de saúde como mercadoria e a visão restritamente
biológica. Também houve uma busca maior pela inclusão das questões sociais, culturais,
políticas e econômicas ao lidar com saúde.
Fonte: Have a nice day Photo / Shutterstock.com
REFORMA SANITÁRIA
Não existe uma data específica para colocarmos como início do processo de Reforma Sanitária
Brasileira. O que podemos afirmar é que esse movimento, que ganhou força entre as décadas
de 1970 e 1980, não tem fim, precisa continuar acontecendo sempre, ou seja, a reforma
sanitária é um processo constante. Esse processo nasceu da luta contra a Ditadura e podemos
observar que um objetivo fortaleceu o outro:
Movimento de reforma sanitária fortaleceu movimento de abertura democrática
Movimento de abertura democrática fortaleceu movimento de reforma sanitária
O movimento sanitarista pela reforma vinha, desde a década de 1970, solicitando mudanças
no modelo centrado no médico e no hospital, buscando fortalecimento do setor público da
saúde e com foco em cuidados primários. Somente na década de 1980 que todos os pontos
defendidos passaram a ganhar espaço.
No início dessa década foi criado o Programa de Ações Integradas de Saúde (AIS), que
propunha a integração dos serviços de saúde prestados à determinada região. Cada estado
teria convênio com o Ministério da Saúde e o Ministério da Previdência para executar o
programa. A ideia era unir a assistência de saúde pública com a assistência médica individual,
diferentemente da lógica anterior do INAMPS e dos grupos privados de medicina.
Reforma sanitária é um movimento que busca modificar não somente a assistência à saúde,
mas mudar todo o paradigma que envolve o conceito de saúde, provocar mudanças e
transformações na prática, para melhorar as condições de vida da população. O termo
“Reforma Sanitária” teve grande inspiração na experiência italiana. Alguns chamavam os
protagonistas desse movimento de “partido sanitário”, dando um ar depreciativo ao que ia
muito além disso – tratava-se de uma ação mobilizada pelo social. É importante que você
perceba que todo processo de mudança enfrenta grandes dificuldades, desde apelidos
pejorativos e informações equivocadas a ações mais violentas de repressão.
Um tema presente no processo inicial de reforma sanitária foi “Saúde é Democracia”, que
ganhou força nas universidades e nos sindicatos, com ápice em 1986, durante a realização da
VIII Conferência Nacional de Saúde, da qual falaremos mais adiante, que teve como um dos
seus principais representantes Sérgio Arouca.
SÉRGIO AROUCA
Antônio Sérgio da Silva Arouca (1941-2003) foi médico sanitarista e político brasileiro.
Outro ponto importante é que você saiba que a concepção de saúde e assistência estava se
modificando no mundo todo. Um momento bastante importante e que influenciou o Brasil foi a
Conferência de Alma-Ata, que aconteceu em 1978 no atual Cazaquistão, organizada pela
Organização Mundial de Saúde (OMS), para priorizar os cuidados primários em saúde,
principalmente nos países em desenvolvimento. Esse encontro gerou um documento
conhecido como Declaração de Alma-Ata, que trouxe pontos essenciais e orientadores para a
implementação da Atenção Primária da Saúde.
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Fonte: BOLDG / Shutterstock.com
A tese defendida por Sérgio Arouca, em 1975, chamada “O Dilema Preventivista”,
impulsionou a ideia da reforma sanitária. Também ajudaram na ideia de um movimento que
reformasse a saúde no Brasil a criação, em 1976, do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde
(CEBES) e, em 1979, da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
(ABRASCO). Essa duas instituições ainda hoje são altamente relevantes, para um sistema que
seja integral, fazendo dentro dele a interlocução política.
Outra instituição de grande importância nas articulações e avanços na saúde, a Escola
Nacional de Saúde Pública (ENSP) da FIOCRUZ, surgiu nesse momento e, com ela, projetos
e feitos importantes, como a clínica da família e pesquisas sobre saúde comunitária.
CONSEGUE PERCEBER QUE, NO CENÁRIO DE
DESGASTE DO REGIME AUTORITÁRIO, TODA ESSA
MOVIMENTAÇÃO CRESCENTE FORMA UM GRUPO
COESO, LUTANDO POR UMA CAUSA COMUM?
O acesso universal à saúde só seria possível a partir de um modelo democrático. Uma das
propostas do movimento de Reforma Sanitária era transferir o INAMPS para o Ministério da
Saúde, diminuindo essa fragmentação.
Outro acontecimento importante nesse processo de fortalecimento da proposta da reforma
sanitária foi o I Simpósio de Política Nacional de Saúde da Câmara dos Deputados,
quando a criação do SUS foi defendida ineditamente.
Agora retornamos ao que foi chamado de ápice da Reforma Sanitária, a VIII Conferência
Nacional de Saúde, em Brasília, no ano de 1986, coordenada por Sérgio Arouca. Essa foi a
primeira conferência aberta à população, contando com participação significativa dessa parcela
tão importante para a configuração de um sistema construído dentro da concepção ampliada
de saúde.
Na VIII Conferência Nacional de Saúde, tivemos também a participação de trabalhadores,
gestores e prestadores de serviços de saúde. As propostas da conferência originaram-se de
apontamentos realizados em conferências municipais e estaduais, ou seja, um processo
ascendente, que, de fato, poderia trabalhar em torno das reais necessidades da população.
PERCEBE A BUSCA POR ROMPER COM O QUE VIMOS
ATÉ AQUI?
 SAIBA MAIS
Um legado importante da VIII Conferência Nacional de Saúde foi o documento final gerado a
partir dos debates, que trouxe uma ampliação da necessidade de cuidado e promoção de
saúde. Podemos ver nesse relatório final que saúde é definida como “resultante das condições
de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego,
lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde. É assim, antes de tudo,
o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar
desigualdades nos níveis de vida.” Esse documento é a base do texto da Constituição Federal
de 1988, ainda vigente atualmente, na parte que diz respeito à saúde. É importante que você
saiba que a pauta da saúde foi abordada dentro de um texto constitucional pela primeira vez. É
perceptível o avanço!
Fonte: rafapress / Shutterstock.com
O Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS) foi uma ferramenta de transição
para o SUS durante o processo de redemocratização. Ele propunha a transferência dos
serviços do INAMPS para estados e municípios, estabelecendo que cada esfera (nacional,
estadual e municipal) deveria contar com um gestor da saúde.
Segundo Bertolozzi e Grecco:
[...] OS PRINCIPAIS PONTOS APROVADOS NA CARTA
MAGNA DE 1988 FORAM: O DIREITO UNIVERSAL À
SAÚDE: A SAÚDE COMO UM DEVER DO ESTADO: A
CONSTITUIÇÃO DO SUS, INTEGRANDO TODOS OS
SERVIÇOS PÚBLICOS EM UMA REDE: ALÉM DA
PRESERVAÇÃO DOS PRINCÍPIOS APROVADOS PELA
VIII CONFERÊNCIA E A PARTICIPAÇÃO DO SETOR
PRIVADO NO SUS DE FORMA COMPLEMENTAR, BEM
COMO A PROIBIÇÃO DA COMERCIALIZAÇÃO DE
SANGUE E DESEUS DERIVADOS. APESAR DOS
AVANÇOS ALCANÇADOS, ALGUMAS QUESTÕES
PERMANECERAM INDEFINIDAS TAIS COMO, O
FINANCIAMENTO DO SETOR SAÚDE, A POLÍTICA DE
MEDICAMENTOS E AS AÇÕES NO ÂMBITO DA SAÚDE
DO TRABALHADOR. HÁ AINDA QUE RESSALTAR QUE
PERMANECEU INTOCÁVEL O PARADIGMA DO
MODELO ASSISTENCIAL CENTRADO NA ASSISTÊNCIA
MÉDICA INDIVIDUAL E, PORTANTO, NA FIGURA DO
MÉDICO.
Bertolozzi; Grecco, 1996.
As propostas da VIII Conferência de Saúde proporcionaram um momento único e diferente
para sociedade brasileira. Algumas dessas propostas foram:
1. Saúde como direito de todo cidadão, trabalhador rural ou urbano, contribuinte ou não.
2. Ações de saúde integrais de cunho preventivo e curativo.
3. Descentralização do sistema, em âmbito financeiro e administrativo (ou seja, o poder não
seria mais centralizado em uma única entidade, como na época da Ditadura).
4. Controle e participação social e acompanhamento das ações das políticas públicas de
saúde.
A postura de Sérgio Arouca, ao sustentar o protagonismo da população nesses espaços de
decisão, foi bastante criticada, pois, até então, esses eventos só contavam com a participação
de políticos e gestores. Sérgio Arouca foi chamado por muitos de louco e irresponsável pelo
teor de suas ideias.
É essencial que você compreenda que todo esse movimento de mudança tinha como objetivo
criticar as intervenções focadas na doença, investindo arduamente em hospitais e exames
complexos, de maneira vertical e distante.
A ideia principal era a garantia de acesso à saúde por todos (universalidade); um trabalho
pautado na concepção ampliada de saúde; a descentralização das ações entre os níveis
federal, estadual e municipal; a hierarquização do sistema, com entrada pela atenção primária;
a participação da população; a regionalização dos serviços e a integração entre saúde
previdenciária e saúde pública.
Em 1990, ocorreu a promulgação de duas leis importantes para a saúde, chamadas de leis
orgânicas da saúde, sendo a primeira a Lei nº8.080/1990, que instituiu o SUS, e a Lei nº
8.142/1990, que aborda as questões do controle e participação social no sistema.
Fonte: Brenda Rocha / Shutterstock.com
Toda essa trajetória histórica tem o intuito de sensibilizar e instrumentalizar a defesa do SUS,
entendendo como evoluímos até chegar a esse sistema, num país com tanta desigualdade
social e econômica desde o século XVI. Compreender esse processo é de grande ajuda para
tornar-se um futuro profissional que possa direcionar um olhar sensível aos serviços e em suas
ações de saúde. Defenda o SUS, pois assim você está defendendo a cidadania de todos
nós!
REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA
Assista ao vídeo a seguir para saber mais sobre a Reforma Sanitária Brasileira.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. UM MÉDICO SANITARISTA E PESQUISADOR FEZ GRANDES
MUDANÇAS NA SAÚDE PÚBLICA, COORDENANDO AÇÕES E
ESTRATÉGIAS PARA INCLUIR A POPULAÇÃO NAS QUESTÕES DA
SAÚDE. MARQUE A OPÇÃO QUE TRAZ O NOME DESSE ATOR TÃO
IMPORTANTE NA HISTÓRIA DAS POLÍTICAS DE SAÚDE:
A) Oswaldo Cruz
B) Sérgio Arouca
C) Getúlio Vargas
D) Jânio Quadros
E) Carlos Chagas
2. O PERÍODO DO REGIME MILITAR DUROU CERCA DE 20 ANOS NO
BRASIL, MARCADO POR GOVERNOS AUTORITÁRIOS E
CENTRALIZADORES. EM RELAÇÃO AO CAMPO DA SAÚDE NESSE
PERÍODO, MARQUE A OPÇÃO CORRETA:
A) A saúde primária ganhou investimento, com foco em prevenção.
B) O modelo hospitalocêntrico ganhou força, com foco num cuidado curativo.
C) Aconteceu a descentralização administrativa na saúde.
D) Todos os profissionais da saúde passam a ocupar um lugar essencial no cuidado, rompendo
com o modelo médico-centrado.
E) Houve um grande investimento financeiro no Ministério da Saúde.
GABARITO
1. Um médico sanitarista e pesquisador fez grandes mudanças na saúde pública,
coordenando ações e estratégias para incluir a população nas questões da saúde.
Marque a opção que traz o nome desse ator tão importante na história das políticas de
Saúde:
A alternativa "B " está correta.
O médico sanitarista e pesquisador Sérgio Arouca defendeu arduamente a ideia de um sistema
de saúde universal e equânime nos meios acadêmico, político e assistencial.
2. O período do Regime Militar durou cerca de 20 anos no Brasil, marcado por governos
autoritários e centralizadores. Em relação ao campo da saúde nesse período, marque a
opção correta:
A alternativa "B " está correta.
No Regime Militar, a construção de grandes hospitais era a principal estratégia do governo,
gerando grande incentivo financeiro para a iniciativa privada.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Visitamos os principais períodos históricos do Brasil, identificando e refletindo sobre as
questões da evolução das políticas de Saúde no país.
Muitos avanços foram alcançados, como o direito a um sistema de saúde universal, em que
não é necessário ser trabalhador com vínculo formal para acesso. Percebemos também que
muitas dificuldades históricas permanecem com o passar dos anos.
Além disso, ficou nítida a importância dos movimentos constantes de estudantes, profissionais
de saúde, pesquisadores e população na luta pelo direito a um sistema de saúde que funcione
pautado na integralidade, universalidade e equidade.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
BERTOLOZZI, Maria Rita; GRECO, Rosangela Maria. As políticas de saúde no Brasil:
reconstrução histórica e perspectivas atuais. In: Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v. 30, n. 3,
p. 380-398, Dez. 1996. Consultado em meio eletrônico em: 18 nov. 2020.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Consultado em meio eletrônico
em: 18 nov. 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Relatório final da VIII Conferência Nacional de Saúde.
Brasília, 1986. Consultado em meio eletrônico em: 18 nov. 2020.
BRASIL. Lei nº 8080 de 19 de setembro de 1990. Consultado em meio eletrônico em: 18 nov.
2020.
BRASIL. Lei nº 8142 de 28 de dezembro de 1990. Consultado em meio eletrônico em: 18 nov.
2020.
MAGALHÃES, Francismeire Brasileiro; GANDRA, Viviany Dias. Políticas de Saúde. 1. ed.
Livro proprietário. Publicado em: 23 mar. 2017.
EXPLORE+
Assista ao documentário produzido pela Fiocruz: A História da Saúde Pública no Brasil:
500 anos na busca de soluções, que conta o processo histórico da construção das
políticas de Saúde no Brasil.
Procure na Internet a revista Saúde em Debate. Essa revista traz diversas pesquisas,
artigos e estudos feitos nos mais distintos campos da Saúde.
Consulte também a Declaração da conferência ALMA-ATA, disponível na biblioteca virtual
do Ministério da Saúde.
CONTEUDISTA
Alice Medeiros Lima
 CURRÍCULO LATTES
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