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miolo-idosos.indd 1 2/21/2018 8:58:27 PM miolo-idosos.indd 2 2/21/2018 8:58:27 PM Rio de Janeiro – Recife, 2018 orgs. miolo-idosos.indd 3 2/21/2018 8:58:27 PM Idosos : perspectivas do cuidado / organização Spencer Júnior , Leopoldo Barbosa. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Autografia ; Recife [PE] : EDUPE, 2018. 226 p. : il. ; 23 cm. Inclui bibliografia ISBN: 978-85-518-0875-7 1. Envelhecimento. 2. Idosos - Saúde e higiene. 3. Idosos - Cuidado e tratamento. 4. Velhice - Aspectos sociais. I. Spencer Júnior. II. Barbosa, Leopoldo. 18-47790 CDD: 618.97 CDU: 616-053.9 I22 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ universidade de pernambuco – upe Reitor: Pedro Henrique Falcão Vice-reitor: Dra. Socorro Cavalcanti editora universidade de pernambuco – edupe Conselho editorial: Profª. Drª. Adriana de Farias Gehrer Prof. Dr. Amaury de Medeiros Prof. Dr. Alexandre Gusmão Prof. Dr. Álvaro Vieira de Mello Profª. Drª. Ana Célia O. dos Santos Profª. Drª. Aronita Rosenblatt Prof. Dr. Belmiro do Egito Prof. Dr. Carlos Alberto Domingos do Nascimento Gerente científico: Prof. Dr. Karl Schurster Idosos: perspectivas do cuidado Spencer Junior e Leopoldo Barbosa (org.) isbn: 978-85-518-0875-7 1ª edição, fevereiro de 2018. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais sem prévia autorização do autor, da Autografia e da Edupe. miolo-idosos.indd 4 2/21/2018 8:58:27 PM SUMÁRIO SOBRE OS AUTORES � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �7 PREFÁCIO � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 15 IDOSOS: ESPERANÇA E FINITUDE DE VIDA � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 17 José Antônio Spencer Hartmann Júnior A SAÚDE E A DOENÇA NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO � � � � � � � � � � � � � � 27 Tânia Rudnicki , Carol ina Seabra e Viv ian Kratz PSICOLOGIA DA SAÚDE, FAMÍLIA E ADOECIMENTO CRÔNICO NO IDOSO � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 41 Leopoldo Nelson Fernandes Barbosa, Jul iana Monteiro Costa , Mônica Cr ist ina Bat is ta de Melo e João Car los Alchier i O SUICÍDIO NA PESSOA IDOSA � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 52 Anésia Bezerra da Fonseca e José Antônio Spencer Hartmann Júnior ESPIRITUALIDADE E QUALIDADE DE VIDA NA TERCEIRA IDADE � � � � � � � � � � 58 Luciano da Fonseca Lins , Alessandra Andressa A . de M. Magalhães e Antônio Gabrie l Araújo Pimentel de Medeiros CUIDADOS PALIATIVOS PARA O IDOSO � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 68 D aniela Achet te e Cr ist iane Ferraz Prade LUTO COMPLICADO � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 97 Luciana Valença Garcia e José Antônio Spencer Hartmann Júnior NEUROIMAGEM E ENVELHECIMENTO: ASPECTOS BÁSICO-CLÍNICOS AVANÇADOS � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �117 Carol ine Bozzet to Ambrosi , Car los Augusto Carvalho de Vasconcelos e Patr íc ia Bozzet to Ambrosi ENVELHECIMENTO, ALTERAÇÕES COGNITIVAS E A AUTONOMIA EM IDOSOS � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �128 Olív ia D ayse Lei te Ferre i ra , Leopoldo Nelson Fernandes Barbosa e João Car los Alchier i miolo-idosos.indd 5 2/21/2018 8:58:27 PM A RELAÇÃO ENTRE AVÓS E NETOS: QUEM CUIDA E QUEM É CUIDADO? � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �141 Maria Teresa Barros Falcão Coelho, Waleska de Carvalho M. Medeiros e Cr ist ina Maria de Souza Br i to D ias NUTRIÇÃO E ENVELHECIMENTO: ASPECTOS BÁSICO-CLÍNICOS AVANÇADOS � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �160 Ana Carol ina Ribeiro de Amorim, Antonio Souto Gouveia e Car los Augusto Carvalho de Vasconcelos ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA AO PACIENTE IDOSO � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �179 El isângela S i lva , Íta la Nóbrega e Flávia Morais EXERCÍCIO FÍSICO, ENVELHECIMENTO E QUALIDADE DE VIDA � � � � � � � � �199 Tiago Albuquerque IDOSO INSTITUCIONALIZADO E QUALIDADE DE VIDA � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �209 Bruno Gi lberto de Melo e S i lva , Suely de Melo Santana e Cir lene Francisca Sales da S i lva ESPIRITUALIDADE E BEM-ESTAR MEDIANDO FUNCIONALIDADE, DOENÇAS NEUROPSIQUIÁTRICAS E TÉRMINO DA VIDA DA POPULAÇÃO DA TERCEIRA IDADE � � � � � � � � � � � � � � � �220 Ana Clara Gal indo Miranda e José Antônio Spencer Hartmann Júnior miolo-idosos.indd 6 2/21/2018 8:58:27 PM — 7 — SOBRE OS AUTORES Alessandra Andressa A. de M. Magalhães - Especialista em Neurop- sicologia e Mestranda em Saúde Mental pela Universidade de Per- nambuco - UPE. Ana Carolina Ribeiro de Amorim - Universidade Federal de Per- nambuco/UFPE, Recife, Brasil. Centro Universitário do Vale do Ipoju- ca – UNIFAVIP/DEVRY, Caruaru/PE, Brasil. Ana Clara Galindo Miranda – Acadêmica do Curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco. Antônio Gabriel Araújo Pimentel de Medeiros – Psicólogo. Inte- grante do grupo de pesquisa Grupo de Estudos sobre Saúde Mental do Idoso, vinculado ao CNPq. Antonio Souto Gouveia - Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Faculdade de Medicina do ABC/FMABC, Santo André/ SP, Brasil. Anésia Bezerra da Fonseca – Acadêmica de Medicina – FCM-UPE; Especialista em Diagnóstico Molecular – FPS – Biomédica - UFPE miolo-idosos.indd 7 2/21/2018 8:58:27 PM — 8 — Bruno Gilberto de Melo e Silva – Fisioterapeuta. Doutorando em Psi- cologia Clínica (UNICAP). Mestre em Psicologia Clínica (UNICAP), professor Assistente I da Universidade Católica de Pernambuco, Pós- -graduado em Fisioterapia Traumato-ortopédica- FIR, Especialista em Fisioterapia Esportiva- SONAFE/COFITTO. Carlos Augusto Carvalho de Vasconcelos – Universidade Federal de Pernambuco/UFPE Porfessor Efetivo, Recife/PE, Brasil: Colaborador no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Faculdade de Medicina do ABC/FMABC, Santo André/SP, Brasil Carolina Seabra – Psicóloga. Mestre em Psicologia. Especialista em Psico-oncologia, Psicologia Médica e Psicologia Hospitalar. Especiali- zanda em Terapia Cognitivo-comportamental. Sócia Diretora do Ins- tituto de Terapia Cognitiva em Psicologia da Saúde. Tutora das espe- cializações em Psico-oncologia e cuidados paliativos da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte. Caroline Bozzetto Ambrosi - Residente em Clínica Médica do Insti- tuto de Educação e Pesquisa - Hospital Moinhos de Vento, Porto Ale- gre/RS, Brasil Cirlene Francisca Sales da Silva - Psicóloga, Doutoranda em Psicolo- gia Clínica (UNICAP). Mestre em Psicologia Clínica (UNICAP), Espe- cialista em GerontologiaSocial (UFPE), Especialista em Gerontologia (SBGG), Especialista em Intervenções Clínicas na abordagem Psica- nalítica (ESUDA), Coordenadora da Especialização em Gerontologia (UNICAP). Cristiane Ferraz Prade - Psicóloga, co-fundadora e atual presidente da Casa do Cuidar miolo-idosos.indd 8 2/21/2018 8:58:28 PM — 9 — Cristina Maria de Souza Brito Dias - Doutora em Psicologia (UnB). Professora aposentada da UFPB e professora adjunta III da UNICAP. Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clíni- ca (UNICAP). Membro do Laboratório de Família, Gênero e Interação social (UNICAP). Pesquisadora do CNPq. Daniela Achette - Psicóloga da Unidade de Psicologia e da Equipe Multiprofissional de Suporte e Cuidados Paliativos do Hospital Sírio Libanês, integrante da Comissão Científica da Pós Graduação em Cui- dados Paliativos – IEP/Sírio Libanês Elisângela Silva - Farmacêutica graduada pela Universidade Fede- ral de Pernambuco (UFPE), 2003. Mestre em Ciências Farmacêuticas UFPE. Doutora em Ciências Farmacêuticas. Docente do Centro Uni- versitário CESMAC e Centro Universitário Maurício de Nassau (UNI- NASSAU). É tutor e membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do curso de Farmácia da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS). Membro do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (FPS). Flávia Morais - Graduada em Farmácia com habilitação em Indústria de Medicamentos pela Universidade Federal do Rio Grande do Nor- te. Doutora pelo Programa de Pós-graduação de Ciências Farmacêuti- cas - UFPE . Foi coordenadora de pesquisa & desenvolvimento do LA- FEPE (2003 - 2011/março. Coordenadora do curso de Farmácia da FPS. É membro da Comissão de Ensino do CRF-PE a desde 2012. Foi membro em PE da Associação Brasileira de Educação Farmacêutica (ABEF). Do- cente permanente do Mestrado em Educação na área de Saúde da FPS. Ítala Nóbrega - Mestre em Ciências Farmacêuticas pela UFPE. Espe- cialista em Farmácia Hospitalar pela SBRAFH, graduada em Farmácia e Farmácia Industrial pela UFPE, com aperfeiçoamento em Farmácia miolo-idosos.indd 9 2/21/2018 8:58:28 PM — 10 — Clínica pela Universidad de Chile. É tutor e membro do NDE do curso de Farmácia da FPS. Farmacêutica do IMIP e do Exército. João Carlos Alchieri - Doutor em Psicologia pela Universidade Fede- ral do Rio Grande do Sul (2004), bolsista produtividade (CNPq) e Prof Associado III na Universidade Federal do Rio Grande do Norte como orientador de mestrado e doutorado no PPG Ciências da Saúde. José Antônio Spencer Hartmann Júnior - Psicólogo, Pós-doutoran- do em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC- São Paulo e Doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamen- to Pela Universidade Federal de Pernambuco. Preceptor da Residên- cia em Psiquiatria do Hospital Oswaldo Cruz da Universidade de Per- nambuco. Professor Adjunto da Faculdade Ciências Médicas-UPE. Líder de pesquisa do Grupo Estudos sobre Saúde Mental do Idoso da Universidade de Pernambuco, vinculado ao CNPq. Juliana Monteiro Costa - Psicóloga Clínica e Hospitalar. Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco - UNI- CAP. Coordenadora de Tutor do curso de Psicolgia da FPS e membro do Núcleo Docente Estruturante. Docente Permanente da Pós-Gra- duação da FPS e do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da FPS. Membro do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Saúde vincula- do ao CNPq Leopoldo Nelson Fernandes Barbosa - Psicólogo Clínico e Hospita- lar. Doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Preceptor da residência em Psiquiatria e Psicologia Instituto de Medicina Integral Prof. Fernan- do Figueira – IMIP. Tutor da Graduação e Docente Permanente da Pós- -Graduação da Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS. Coordena- miolo-idosos.indd 10 2/21/2018 8:58:28 PM — 11 — dor do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da FPS. Líder do Grupo de Pesquisa em Saúde Mental vinculado ao CNPq. Luciana Valença Garcia - Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco. Residente em psiquiatria do Hospital Ulys- ses Pernambucano. Luciano da Fonseca Lins - Professor Adjunto da Universidade de Pernambuco Maria Teresa Barros Falcão Coelho - Psicóloga (UFPE). Mestre em Psicologia Cognitiva (UFPE). Doutoranda em Psicologia Clínica (UNI- CAP). Docente Permanente do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS). Docente da Graduação em Psicologia (FPS). Docente de Cursos de Pós-gradua- ção na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), FPS, na Fa- culdade Frassinetti do Recife (FAFIRE) e na Faculdade Redentor/ Ins- tituto Desenvolvimento Educacional (IDE). Mônica Cristina Batista de Melo - Psicóloga Clínica e Hospitalar. Doutora em Saúde Materno Infantil pelo IMIP. Supervisora e precep- tora de estágio do IMIP. Tutora da Graduação e Docente Permanente da Pós-Graduação da Faculdade Pernambucana de Saúde - FPS. Vi- ce-coordenadora do Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da FPS. Líder do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Saúde vincula- do ao CNPq Olívia Dayse Leite Ferreira - Psicóloga pela Universidade Federal da Paraíba ; Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente é doutoranda do Programa de Ciências da Saúde da UFRN. Tem experiência na área de Psicologia miolo-idosos.indd 11 2/21/2018 8:58:28 PM — 12 — clínica (terapia cognitiva-comportamental), neuropsicologia e neuro- ciências, com ênfase nos processos cognitivos. Patrícia Bozzetto Ambrosi - Neuri- Brain Vascular Center, Paris, França, Sócia Fundadora da ABRAZ-Sub Regional, Bento Gonçalves/ RS, Brasil Suely de Melo Santana – Psicóloga. Doutora em Psicologia pela Fa- culdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCE-UP/PT). Mestre em Psicologia Cognitiva pela Universi- dade Federal de Pernambuco – UFPE. Terapeuta Cognitivo-Compor- tamental Certificada pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC. É Docente da Graduação em Psicologia da Universidade Ca- tólica de Pernambuco – UNICAP e do Programa de Mestrado e Dou- torado em Psicologia Clínica. Líder do Grupo de Pesquisa Família, Gênero e Interação Social vinculado ao CNPq. Membro do Grupo de Trabalho sobre Pesquisa Básica e Aplicada em uma Perspectiva Cog- nitivo-Comportamental da ANPEPP. Tânia Rudnicki - Psicóloga. Doutora em Psicologia (PUC/RS) e Pós- -Doutorado em Psicologia da Saúde pelo ISPA/PT como bolsista Ca- pes - Foundation Ministry of Education Of Brazil-Brasília/DF - Brazil. Terapeuta Cognitiva certificada pela FBTC. Mestre e Especialista em Psicologia Clínica com experiência na área da saúde e hospitalar. Pes- quisadora Associada do Centro de Investigação William James ISPA/ PT. É membro do GT ANPEPP em TCC; Membro do comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário da Serra Gaúcha/FSG. Sócia Di- retora do Instituto de Terapia Cognitiva em Psicologia da Saúde. Tiago Albuquerque. Graduado em Educação Física pela UFPE. (CREF G/PE 5318). Certificação Internacional em Treinamento Fun- cional (FMS – Functional Moviments Systems). Certificado Interna- miolo-idosos.indd 12 2/21/2018 8:58:28 PM — 13 — cional na metodologia Vipr. Master MVF (Motricidade Voluntária Funcional). Vivian Kratz – Psicóloga. Especialista em Comunicação e Multimí- dia pela Université de Toulon (França); Universidade Fernando Pes- soa (Portugal) e Universidade de Caxias do Sul (UCS). Possui Aper- feiçoamento em Terapias Cognitivas pela Wainer Psicologia e Work Experience pela Universidade de Cambridge (Inglaterra). Graduada em Psicologia, com ênfase em Saúde e Educação pelo Centro Univer- sitário da Serra Gaúcha (FSG) e em Jornalismo pela UCS. Possui expe- riência com grupos, orientação vocacional, clínica e projetos de pro- moção de saúde e qualificação de equipes em Instituições de Longa Permanência paraIdosos (ILPI). Waleska de Carvalho M. Medeiros - Psicóloga. Mestre em Psicologia Clínica pela UNICAP. Doutoranda em Psicologia Clínica na Universi- dade Católica de Pernambuco. Tutora de Graduação e Pós-graduação da FPS. Docente Permanente do Programa de Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde da FPS. miolo-idosos.indd 13 2/21/2018 8:58:28 PM miolo-idosos.indd 14 2/21/2018 8:58:28 PM — 15 — PREFÁCIO A afirmação “o mundo está envelhecendo” já é quase um mantra para qualquer pessoa que se proponha a analisar a estrutura tanto do pon- to de vista social como do ponto de vista do indivíduo desse nosso sé- culo XXI. As mudanças vêm através da transição demográfica e um aumento da proporção de idosos, da transição epidemiológica e o predomínio das doenças crônicas e degenerativas, e da transição tec- nológica com o surgimento contínuo de novas estratégias diagnósti- cas e terapêuticas, além da intensa produção de artigos científicos e papers diariamente. Mas uma transição ainda em estágio inicial e que já está se tornan- do o pilar da assistência ao idoso é a transição dos cuidados. Nela se propõe que tiremos o enfoque voltado para a doença e tragamos o en- foque para o indivíduo. E essa é uma missão fácil na proposição, mas difícil na execução. Envolve a análise do indivíduo como um todo, suas fragilidades, suas dinâmicas familiares e sociais, suas vontades, e através disso entender o que é realmente o processo “saúde-doença” para aquela pessoa e como poderemos ajudá-la. Esse desafio na transição dos cuidados envolve a participação de um número maior de profissionais de várias áreas do conhecimen- to dedicados à geriatria e gerontologia. Mas ao contrário de nossas expectativas e de acordo com a realidade que estamos descobrindo, miolo-idosos.indd 15 2/21/2018 8:58:28 PM — 16 — esses profissionais não serão os especialistas pois, afinal, nunca tere- mos a quantidade de especialistas suficientes para a quantidade cada vez maior de idosos e das demandas dos mesmos. Os conhecimentos em geriatria e gerontologia estão se mostrando ser metadisciplinares e permeando todas as áreas do conhecimento e já é necessário que todo profissional de saúde independente da especialidade, por exem- plo, conheça as melhores práticas de assistência ao idoso. Nesse ponto, é com grande prazer que vemos a execução e con- clusão desse livro. O Idoso: Perspectiva do cuidado trás um forte as- pecto interdisciplinar focado no indivíduo e suas relações, abordan- do desde o quanto a tecnologia nos ajuda compreender o processo de envelhecimento do cérebro humano até as formas como o idoso e a família lidam com a compreensão da finitude e dos cuidados paliati- vos. A relação do idoso e da família, do cuidar e do ser cuidado, os cui- dados com medicações e com uma nutrição adequada, os benefícios da atividade física, e sem esquecer do importantíssimo papel da espi- ritualidade, nos fazem lembrar sempre que os nossos cuidados têm que ser centrados no indivíduo, e para isso é importante o conheci- mento dos fatores que o cercam. “O mundo está envelhecendo” e esse livro nos ajuda a compreen- der e ajudar de forma mais adequada esse novo mundo! Sérgio Murilo Maciel Fernandes Filho Médico geriatra Presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seccional Pernambuco de 2016 a 2018 miolo-idosos.indd 16 2/21/2018 8:58:28 PM — 17 — IDOSOS: ESPERANÇA E FINITUDE DE VIDA José Antônio Spencer Hartmann Júnior “Esperança não é esperar, é caminhar e caminhar no escuro...” (Heráclito) Há duas formas de contemplar uma vela acesa: uma é constatando que a luz que produz implica na própria consumação da cera que a alimenta; outra é apreciar que enquanto há cera, há luz. A finitude da cera, garantida pelo fogo que a consome, dá nobreza ao seu briho. Vi- ver é brilhar na cera do nosso tempo finito. Somos fruto do improvável. A vida é o acontecimento mais im- provável. Soubéssemos da improbabilidade da vida e nos espanta- ríamos encantadoramente com o milagre de existir. Mas, ao mesmo tempo, a consciência da improbabilidade da vida e o profundo reco- nhecimento da sua precariedade nos colocam em contato direto com a percepção do fim eminente, e, com isso, aprendemos a tratar a mor- te com negação. Mas negar o inevitável é deixar de saborear melhor o que realmente dispomos, que é o tempo presente. Negar a morte é ne- gar o impermanente, negar o impermanente é negar a nossa máxima vulnerabilidade, e quando negamos a nossa máxima vulnerabilidade, negamos, paradoxalmente, a nossa máxima potência: a potência de viver cada momento como sendo talvez o último. Portanto, é no meio, ou seja, é durante a vida que está a salvação, e o meio é o tempo pre- miolo-idosos.indd 17 2/21/2018 8:58:28 PM — 18 — sente, em que se tocam potência e gozo. Potência de saborear o me- lhor possível a vida, e isso não deve ser confundido com imprevidên- cia quanto ao futuro. Qual a grande angústia humana sobre a morte? Não termos a cer- teza para onde iremos? O medo que vem do inevitável fim biológico à medida que avançamos em idade e nos aproximamos da fatídica rea- lização desta exígua matemática existencial? Penso que a angústia e o medo venham mais de como morrere- mos, se sofreremos, que dores enfrentaremos, as limitações impos- tas pelo envelhecimento e a dependência total dos outros, viver uma morte que nos paralisa enquanto estamos vivos, do que a morte em si. Não é morrer, é deixar de viver; de se encantar e cantar a vida. A máxima ambiguidade da natureza humana nasce da colisão en- tre uma consciência de si e da sua condição precária. Disso brota a sua angústia: sabe que vai morrer e é vulnerável. Somente o homem sofre dessa consciência. A consciência adoeceu o homem diante da realidade da vida, pois reconhece que não tem controle sobre o seu inexorável destino. Essa é a sua queda; a sua expulsão do paraíso sur- ge quando toma consciência da sua morte e sensível vida. A bendi- ta inocência perdida com a consciência de si o joga no inferno exis- tencial. Quando perde a sua ignorância parece perder a sua graça de viver. A sua mais intensa experiência é a da angústia da morte ou o que a angústia da morte anuncia: a perda da vitalidade. Mais do que morrer é a de não viver em plenitude de vigor. A morte não angus- tia mais que a vida. E a vida angustia porque ela pode tanto trazer o melhor como pode também trazer o pior. Angústia é o pressentimen- to do pior. Então, não é a morte, mas a vida a causa de nossa angús- tia, e quando experimentamos a angústia de morte, experimentamos por que ela só pode ser sentida em vida. Portanto, é a vida o doce e o amargo, o mel e o fel. Tememos o que podemos passar de pior pela vida. Toda ameaça de perda de vitalidade nos coloca em estado al- terado de ser. A angústia deflagra a nossa precariedade, a nossa im- miolo-idosos.indd 18 2/21/2018 8:58:28 PM — 19 — potência, percebendo o homem não apenas a sua precariedade exis- tencial, mas de não poder fazer nada sobre isso. Só podemos, e ainda assim de modo muito limitado, retardar processos de perda de vida, mas nunca evitar. O que temos é o desejo de potência, mais do que potência em si. Mas esse desejo de potência mobiliza vitalidade; é o nosso esforço, a nossa perseverança em durar e durar em lutar; é resistir para existir. A vida tem sabor de vitalidade, de felicidade. A nossa maior fome é a fome de viver e viver em usufruto. Saber apreciar é o ato que se con- solida em aprender a produzir vitalidade que existe em potência. E essa potência não convertida em ato gera uma angústia paralisante. Portanto, a alegria é a ação consciente e inteligente de quem apren- de a fomentar movimento que previne contra a possibilidade de que apenas o pior ocorra. Por isso que a angústia enfrentada e inteligen- ciada nos coloca em contato com o fluxo do real e nos orienta melhor,porque sem ilusões, levando a tomada de decisões com mais sincro- nia com as contingências. As ilusões são a fé impensada no meu de- sejo sobre a contingência e que nos remete ao desespero. Isso porque o encontro com o desespero simboliza a negação da angústia e que a angústia é o prenúncio dos instantes inesperados da vida carregados de incertezas. As contingências e sua altíssima imprevisibilidade são o forno do inferno de onde nasce a angústia. Por isso que a angústia sendo inteli- genciada – entenda esse neologismo como tornar inteligente uma for- ça potencialmente cega – faz perceber as contingências como uma di- mensão existencial de alta motivação para a resistência humana. Quando a angústia é bloqueadora da ação, ou seja, a paralisa, sua função fica letal, pois é a ação que produz alegria e que garante a vi- talidade, que a é criadora, também, da esperança. A esperança vamos situar como sendo um afeto de horizontes e tudo que tem horizonte gera sentido, gera um caminho, uma alternativa. A esperança é o afe- to do enfrentamento das contingências com uma ação programada e miolo-idosos.indd 19 2/21/2018 8:58:28 PM — 20 — flexível, à medida que as circunstâncias permitam ou alterem os obje- tivos desse programa. A conversão da potência em ato somente é possível pelo esforço, e esforço que traga mesmo que o pouco é melhor que não ter o alen- to da tentativa. A tentativa ou a perseverança estimulam a esperança, que por si vai cavando caminhos novos de acordo com o andamento dos eventos, pois a esperança é a busca do esperado, mas com flexibi- lidade de mudanças ao contato com o inesperado. Em verdade, a es- perança é a disposição de luta com alegria no encontro com o inespe- rado. Não há esperança renovada sem inesperado. Podemos aventar a hipótese de que o maior pavor humano não seja o medo da morte, mas do autoconhecimento. Um conhecimen- to que revele a nossa condição precária, sem os cosméticos que usa- mos para esconder nossa angústia iminente. E esse conhecimento fá- tico sobre a vida perpassa com a grande questão da morte. O modo como lidamos com a vida revela como lidamos com a morte. Conhe- cer a vida em sua dinâmica impermanente é se preparar para extrair dela uma vida boa. Nossa cultura mascara essa dimensão mais obscu- ra, no entanto, é o principal capital da existência humana que é a nos- sa finitude biológica. Naturalmente, esse autoconhecimento em li- dar com a finitude e, ao modo sábio, e considere sabedoria aqui como uma inteligência pragmática que resolve os problemas de nosso coti- diano, e que coloca o maior desejo humano, que é a sua imortalidade, em sintonia com a sua realidade mortal e inexorável. Portanto, é fun- damental discutirmos de forma corajosa essa realidade tão ignorada, mas não menos importante. Ao idoso, aquele que se aproxima da última linha do tempo finito de sua vida, que esperança pode acionar para manter a sua potência de existir, quando as suas forças se exaurem no suspiro silencioso de cada célula? Seria vivendo intensamente o momento presente? Ade- mais, que outro tempo realmente temos independente da nossa ida- de? A esperança voltada apenas para o amanhã é casta de gozo, pois o miolo-idosos.indd 20 2/21/2018 8:58:28 PM — 21 — gozo se encontra no tempo que corre no instante vivido. E por que nos atormentamos tanto em nos colocarmos no tempo presente sem re- correr ao passado ou antecipando o futuro? Porque o tempo presen- te é o encontro com o caos, com a impermanência, com o inesperado, com o imprevísivel. E esse encontro é uma convocação para a gran- de consciência da morte que negamos, pois a vida é o acontecimento mais improvável. Aceitar a finitude da vida é aprender a plenificá-la. A vontade da duração da vida não pode gerar a negação de sua dinâmi- ca de perdas. Ganha mais quem sabe lidar com as perdas da idade. A afirmação da vida aumenta a sua potência e a potência de afirmação está em sabermos surfar nas flutuações. Não podemos ser os temerá- rios do devir ou os ressentidos com o impermante, não podemos des- prezar o que passa, escoa ou se vai. Destarte, é o caminho que importa, não mais o fim. Não podemos nos limitar a falar da finitude da vida, mas da plenitude do meio, do trajeto; na estrada da vida toda reta é uma curva e toda curva uma nova paisagem. Intrínseco ao ser humano se encontra o desejo de durar. Sim, que- remos durar, o duro desejo de durar; de perseverar no ser; é essa nossa disposição natural: florescer, não importa em que inverno ou sob que tempestade; temos o desejo de florescer. Esperança é o desejo de du- rar, de florescer, desejo de potência de existir. Durar é aumentar o pas- sado bom que tivemos para melhorar, mediante um presente intenso, um futuro que se encurta e que deve ser cada vez melhor. Mas durar exige saber lidar com a mudança e saber mudar requer a mais dolorosa vivência humana: a aceitação da impermanência, a aceitação da nossa precariedade. Mas o que é de mais frágil em nós é o que há de mais va- lioso: a vida. E viver é divisar horizontes, é navegar, é prosseguir, é du- rar; é manter a chama acesa até o fim do pavio e da última gota de cera desta vela sensível às intempéries da existência do homem. Mas a morte não é o dilema maior, mas uma vida sem esperança, uma vida em desespero é pior que qualquer tipo de morte. miolo-idosos.indd 21 2/21/2018 8:58:28 PM — 22 — A morte nada pode sobre o momento que vivemos, somente sobre o próximo instante. A morte só há quando não há vida, então, não é a morte que tememos, mas sim uma vida pobre de alegria; uma exis- tência desencantada. Tudo muda, tudo flui, tudo passa, escreve O filósofo pré-socrático Heráclito, O Obscuro. A aceitação da impermanência implica na acei- tação de nossa maior agonia: a fragilidade que se inscreve em nos- sas vidas. Refletir sobre essa mesma fragilidade conscientizada e enfren- tada com um conhecimento baseado na condição humana, naqui- lo que nos constitui em matéria e essência, pode nos ofertar uma es- perança vivenciada no nosso extraordinário instante existencial, nos preparando de modo fático para um envelhecimento, enraizado na vida como ela é, com todas as suas misérias e alegrias, fragilidades e potências. Desse modo, imagino que a esperança posta no meio e não mais no fim ou no além do fim; não no nunca mais e nem no ainda não, mas no que está se fazendo, é a nossa melhor resistência para a imper- manência e a sua inevitável ocorrência: a finitude da vida, enquan- to aprendemos a lidar com a nossa maior negação; a vida precária e a nossa miséria existencial. Esse é o ponto do grande encantamento, em que devemos florescer através da esperança como disposição para durar e durar em florescimento. Toda força humana brota da nossa fragilidade. A fragilidade é a mãe de todas as nossas maiores virtudes e das nossas melhores criações. A esperança não como esperar, mas como agir e agir para frente é a melhor forma de lidarmos com a fini- tude existencial? Vejamos. Os estoicos propunham alguns estratagemas curiosos para que nos conciliássemos com a morte. O primeiro seria que não há mo- tivo em nos apavorarmos com a morte, desde que não nos singula- rizemos, ou seja, desde que nos entendêssemos como fragmento de um todo e que logo seremos reabsorvidos como energia ou matéria miolo-idosos.indd 22 2/21/2018 8:58:28 PM — 23 — que será transformada numa outra parte de outra entidade viva. Esse modo proporciona profunda serenidade quanto ao nosso instinto de preservação referente à experiência de aniquilamento do nosso eu. Assim sendo, não precisamos nos atormentar com a morte, pois seremos reaproveitados. Apenas temos que desapegar de nosso ego de uma eternidade privada ou particular. No entanto, isso não ajuda em nada, porque seria uma barganha ainda com a negação da mor- te. Aqui a ideia de negação ainda subjaz, mesmo sob a efígiede uma reabsorção no todo e de forma despersonalizada. Querer ser tomado pelo todo é o mesmo que sendo um fragmento algo do meu eu se pre- servaria. Nessa ideia não haveria ainda uma madura concepção da morte ou transcendência do medo da nadificação da minha persona. O segundo modo seria em ser um herói. Fazer algo notável e ser lembrado na memória dos outros pelos meus feitos. E isso pode ser como herói ou como vilão. Os livros sobre História estão repletos de personagens heroicos e tiranos dos quais nunca esquecemos e que atravessam o périplo dos séculos sob loiros e refutações, respectiva- mente, mas ainda assim imortalizados pelos seus atos do pretérito. Aqui se percebe também a negação do aniquilamento; outro drible semântico de buscar um dispositivo de fugir da morte. Outro modo seria o da descendência. Ou seja, por meio dos meus filhos e parentes o meu DNA se perpetuaria. Esse recurso de todos pa- rece o mais apelativo e pueril, igualmente camufla a angústia de mor- rer, porque usa de um artifício lógico de que parte dos meus genes se espalharão, mas isso não garante em nada a superação do eu sobre a morte. O modo estoico mais inteligente é o da sugestão quanto ao ajusta- mento do homem à ordem cósmica. Quando o homem vive intensa- mente o seu presente, ocupando-se com um labor e construindo uma obra com o qual ele se identifica profundamente. Quando esse ho- mem descobre o seu talento e realiza na vida; quando ele encontra a sua excelência; quando retira de sua natureza a sua parte melhor, esse miolo-idosos.indd 23 2/21/2018 8:58:28 PM — 24 — homem sincroniza com o cosmos e vive o seu instante extraordina- riamente. Viver essa intensidade nesse presente, onde a sua natureza beija a sua ação, quando a sua potência se converte em ato ou quan- do a sua essência perfuma a sua atividade, então, ele encontra a eter- nidade. Eterno não é ter uma vida depois da morte; é ter vida intensa na vida pouca extensa de sua finitude. É fazer da vida curta uma bela obra, e para isso deve viver o instante presente com toda força. Mas isso só é possível quando encontramos nosso talento e o vivemos. Quando estou em florescimento, em total produção para aqui- lo que a natureza me destinou, aí ocorre a grande apoteose; a minha conciliação com o mundo. Não importa mais a morte para quem está em intensidade com a vida. A alegria de obrar naquilo que tenho de melhor, e de compartilhar o que em mim transborda para a humani- dade, me tira do passado e do futuro. Só um presente intenso pode nos proteger do passado e do futuro, e o pânico da morte existe para aquele que está preso no passado ou no futuro. E para quem vive no passado e no futuro é porque não encontrou o seu talento, ou, se o encontrou, ainda não desenvolveu o maior de todos os talentos, que é o talento da realização dos seus próprios ta- lentos. Por isso, mais importante do que ser imortal é ser eterno. Não é se vou morrer, mas o que vou deixar deve ser eterno, mas um eter- no naquilo que tenho de melhor no que faço, e esse encontro do me- lhor que tenho em mim com o melhor que faço é viver intensamen- te o presente. Portanto, não tenho passado ou futuro, estou absorvido pelos afetos que nascem do atrito entre o que mais amo e sei fazer; quando estou envolvido com o meu tempo presente, sou eterno, isso é esperança. Esperança é ação sob inspiração da minha maior dispo- sição de ser, de durar no tempo que me realizo. O idoso, por mais longevidade que alcance, não se furtará de sua finitude. Por isso que para o idoso a melhor longevidade é a garantia de seu sentido de utilidade e manutenção de sua produtividade den- tro de suas condições físicas e cognitivas. A esperança de uma vida miolo-idosos.indd 24 2/21/2018 8:58:28 PM — 25 — melhor se concentraria na seleção dos recursos que o idoso logrou durante a sua vida para otimizar no tempo presente. O aproveitamen- to de sua reserva cognitiva e cerebral, engajando-o em uma sócio-e- motividade seletiva, pode ajudá-lo a viver intensamente seu tempo presente no encontro com talentos que ficaram esquecidos ou secun- darizados em função de outras prioridades de seus anteriores ciclos de vida. Essa presentificação estoica, acima destacada, em ajuste com as contribuições da Psicologia do Envelhecimento, podem facilitar a criar uma esperança-ação e um modo eficaz de enfrentamento com a sua perspectiva aproximativa de finitude de vida. A esperança no idoso estaria em uma racionalização mais objetiva com a sua questão de finitude física e um plano de ação que fortaleça o idoso a gerar atividades adequadas às suas condições, permitindo sempre novas aprendizagens, e isso se encontra no trajeto de sua vida ou no seu momento presente. Peregrinar na vida enfrentando seus percalços diários com o encantamento, de maneira que as suas ativi- dades possam promover alegrias, ajudaria a aumentar a sua potência de existir. A alegria de produzir sempre, e em consonância com o que cada idoso singularmente tem de melhor, é garantir uma vitalidade que o abstrairia do futuro e o descondicionaria do passado. Essa seria uma nova compreensão sobre esperança como cons- tructo cognitivo promotor de um afeto de autorregulação por estimu- lar disposição para o amanhã, mas um amanhã calcado nas ações do hoje. Essa análise epistêmica, convertida em cognição e comporta- mento, pode induzir uma percepção mais correta das contingências existenciais, e que aqui, podemos usar a metáfora do Fragmento de Heráclito ‘ ... caminhar no escuro ‘ como a dimensão da incerteza e das descontinuidades da vida. Esperança como ação no tempo pre- sente, sempre indo para frente, em direção ao futuro, – enquanto for possível e estiver em nosso controle – permite enfrentar a vida com todas as suas imprevisibilidades do caminho. O que nos leva a dedu- zir que a vida boa é a vida de sermos plenos no que podemos fazer. miolo-idosos.indd 25 2/21/2018 8:58:28 PM — 26 — Querer o que podemos e seremos onipotentes. A sabedoria do ancião é um campo de forças e uma lareira para os jovens, pois o conheci- mento é ainda o melhor modo de gerar esperança e aumentarmos a nossa potência de existir. miolo-idosos.indd 26 2/21/2018 8:58:28 PM — 27 — A SAÚDE E A DOENÇA NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO Tânia Rudnicki Carolina Seabra Vivian Kratz INTRODUÇÃO O crescimento acelerado da população idosa alterou conceitos e pre- ceitos da sociedade em geral, desafiando-a em suas variadas perspec- tivas, especialmente aquelas relativas à saúde. De acordo com a legis- lação brasileira atual, que regulamenta a Política Nacional do Idoso, define-se idoso como aquele que conta com idade igual ou superior a 60 anos (Brasil, Lei nº 8842/94). O processo de envelhecimento é constituído e influenciado por mudanças complexas e não lineares. Estas envolvem aspectos bio- lógicos, fisiológicos e psicossociais, não dizendo respeito somente à idade do indivíduo (OMS, 2015). Do ponto de vista cronológico, a par- tir do modelo proposto por Belsky (2010), a fase do ciclo vital em que a pessoa se encontra, dos 60 aos 79 é denominada de velhice. A partir dos 80 anos, chama-se velhice avançada. Tendo em vista os conceitos apresentados neste texto e para fins de unificação do entendimento, utilizaremos os termos velho e idoso como sinônimos. É consenso que o envelhecimento é caracterizado como um pro- cesso determinado por múltiplos fatores e que atinge maior amplitu- de na fase da velhice, entendida como uma etapa do desenvolvimento humano, consequência do processo de envelhecimento. Definida co- mumente pela idade cronológica, a partir dos 60 anos, existem tam- miolo-idosos.indd 27 2/21/2018 8:58:28 PM — 28 — bém as idades psicológica, funcional e biológica (Torres, Camargo, Boulsfield & Silva, 2015). Junto ao aumento da expectativa de vida e ao fenômeno mundial do envelhecimento da população,o Brasil vive na atualidade, confor- me dados do IBGE (2013), o início de um processo de inversão da pi- râmide demográfica, em função do aumento da população mais velha e redução da mais jovem, em função da diminuição dos nascimentos. Ocorre, assim, um processo de mudança na configuração dos arran- jos familiares (Camarano & Kanso, 2010). Em decorrência do processo de envelhecimento, pessoas ido- sas apresentam maiores chances de desenvolver doenças crônicas não-transmissíveis. Neste contexto, os fatores genéticos e os com- portamentos de saúde prejudiciais desenvolvidos ao longo da vida contribuem para o agravo deste adoecimento (Tuoto, Lenardt & Ven- turi, 2009). Entre as mudanças biológicas do envelhecimento estão perdas sensoriais e psicomotoras: atenção e controle motor, memória, es- truturação corporal e hormonal, além do sistema imunológico. No ponto de vista funcional e psicológico, envolvem-se aspectos rela- cionados à autonomia, capacidade de executar tarefas, função cog- nitiva, vida emocional e exercício de papeis, incluindo atividades básicas, instrumentais e avançadas do dia-a-dia, graduando-se a in- capacidade funcional em níveis leve, moderado e grave (Ferreira & Batistoni, 2016). SOBRE A VELHICE, A DOENÇA ONCOLÓGICA E O IDOSO O próprio processo de envelhecimento, aliado a alguma doença, da- das as variadas limitações, podem levar alguns idosos a múltiplas hospitalizações. Apesar dos avanços no campo da medicina, a inci- dência e a mortalidade, principalmente na oncologia, aumentam cada vez mais na população idosa. A previsão entre 2007 a 2030 é de um aumento de 45% da mortalidade, devido à crise demográfica e en- miolo-idosos.indd 28 2/21/2018 8:58:28 PM — 29 — velhecimento da população. Estima-se que o número de casos novos de câncer aumentará sensivelmente (OMS, 2015). Entende-se que a prática de trabalho junto à velhice se enqua- dra na disciplina de Psicologia da Saúde, uma vez que seu trabalho é realizado de forma abrangente. As intervenções, nessa perspectiva, se dão a partir de uma ótica biopsicossocial, relacionada ao conjunto dos fatores orgânicos, emocionais, comportamentais, sociais, econô- micos, culturais, ecológicos e espirituais da saúde a da doença, sendo importante e necessário olhar ao que concerne ao idoso (Rudnicki & Schmidt, 2015). Desta forma, acredita-se no enfoque de integralidade da saúde proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), onde ter saúde não é apenas a ausência de doença, mas está ligado a um bem-estar físico, mental e social (Rudnicki, 2014). Segundo dados do IBGE (2015), a expectativa de vida dos brasilei- ros subiu para 75,2 anos em 2014. Para as mulheres, essa expectativa para nascidas em 2014 era de 78,8 anos, enquanto para os homens de 71,6 anos. No ano de 2055 a participação de idosos na população to- tal do Brasil será maior que a de crianças e jovens com até 29 anos de idade, representando mais de 30% da população (IBGE, 2013). Combinando esse aumento da expectativa de vida com as que- das acentuadas nas taxas de fertilidade, vemos, como resultado, um rápido envelhecimento da pirâmide populacional do mundo (OMS, 2015). Esse fenômeno está ocorrendo em meio a um contexto de gran- des mudanças sociais, culturais, econômicas, institucionais, no siste- ma de valores e na configuração dos arranjos familiares. Estudos mostram que pessoas em idade avançada (Baltes & Smith, 2006; Bottino, Blay & Laks, 2012), os chamados velhos-velhos – aque- les que se encontram na quarta idade, apresentam um nível de vulne- rabilidade e imprevisibilidade maior que indivíduos na velhice inicial, chamada também terceira idade, marcada por aspectos mais positi- vos. Pode-se observar na verbalização de João, 71 anos: “O sofrimento é a pior coisa que pode acontecer! Esta dor pelo corpo... eu tenho mui- miolo-idosos.indd 29 2/21/2018 8:58:29 PM — 30 — ta dor nos ossos, é uma dor horrível”. Alberto, 76 anos, refere: “Eu so- fro com a minha respiração que agora é difícil e pesada, ela dói. Não é do normal quando a gente respira. Eu sinto falta de ar e a dor que me acompanha é insuportável. ” Envelhecer de forma saudável diz respeito a medidas subjetivas e objetivas como satisfação com a vida, afetos e boa disposição (Man- tovani, Lucca & Neri, 2016), morbidade, independência e mortalida- de. Assim, por uma perspectiva biomédica, a definição passaria por três critérios: pequeno risco para doenças e deficiências relacionadas a doenças, alta atividade física, mental e envolvimento ativo na vida diária (Mantovani, Lucca & Neri, 2016). Já sob a ótica de uma perspec- tiva psicossocial, o bem-estar emocional é uma das dimensões mais valorizadas. Maria, 71 anos afirma que, “Já senti muita dor. Eu reclamo de dor e peço remédio, mas não sou de fazer alarme, fico quieta no meu cantinho até ela passar”. Roberto, 80 anos, refere “estou acostumado a trabalhar e agora eu tenho que ficar aqui deitado”. O câncer acarreta complicações importantes em todos os aspec- tos da vida de uma pessoa, sendo ainda mais complexo quando ido- sa. Apresenta variadas limitações e imposições funcionais e de saúde concernentes ao envelhecimento. São complicações e imposições no aspecto físico, psíquico, social, levando o doente a frequentes hospi- talizações. No período de internação, muitas vezes, ele experimenta situações capazes de provocar elevado nível de estresse contribuindo para significativo sofrimento (Tuoto, Lenardt & Venturi, 2009). Pedro, 69 anos, conta que “No hospital é tudo ruim, mas o meu maior sofri- mento é não conseguir comer, se como eu passo mal...”. Para o idoso o alimento traz força e energia. De tal forma, enfraquecidos pela dificul- dade em se alimentar advinda do tratamento do câncer e pela hospi- talização, o sofrimento é gerado no sentido de reforçar seu enfraque- cimento, debilitando-o e fragilizando seu organismo. Sofrimento é definido como sendo o estresse associado a eventos que ameacem a integridade ou o todo de uma pessoa. Suas causas po- miolo-idosos.indd 30 2/21/2018 8:58:29 PM — 31 — dem ser agrupadas de acordo com a origem, seja física, psicossocial, cultural e/ou espiritual. Nos pacientes com câncer, o sofrimento pode resultar de uma ou várias causas. Roberto afirma que “...o sofrimento é a coisa mais triste que pode existir para alguém, é só você acabar numa cama de hospital ou fazendo quimioterapia”. O termo sofrimento total, advindo da percepção de dor total, pro- posta por Cicely Sauders, precursora dos cuidados paliativos, é usa- do para descrever a soma dos fatores responsáveis pelo sofrimento (Santos, 2011). Seus vários aspectos são interdependentes, entretanto a dor pode ser causada ou agravada por outras causas de sofrimento. Os mecanismos de cronificação da dor em idosos relacionam-se à di- minuição da capacidade de adaptação que acompanha o envelheci- mento e às comorbidades médicas e psiquiátricas, como câncer e/ou depressão, por exemplo (Karp, 2008). DEPRESSÃO E AS TÉCNICAS COGNITIVAS E/OU COMPORTAMENTAIS Com aumento da expectativa de vida e as possíveis modificações físi- cas, psicológicas e sociais causadas pelo envelhecimento, torna-se de fundamental importância uma boa qualidade de vida (Nascimento, Rodrigues, Medeiros, Ferreira & Duarte, 2015). Para uma melhor abor- dagem de tratamento do câncer na pessoa idosa é preciso levar em consideração as comorbidades decorrentes da faixa etária, sendo que a deficiência do sistema imunológico, influências ambientais e psi- cológicas e os distúrbios fisiológicos alteram o metabolismo, influen- ciando o efeito no uso das medicações no organismo. Os processos inerentes do idoso são obstáculos importantes que devem ser considerados no planejamento do cuidado, embora não se apresentem como fatores únicos para o sucesso terapêutico. Pode-se incluir aqui a depressão, identificada nesse grupo populacional.Os fatores de risco para depressão e ansiedade em idosos incluem luto, doenças físicas, incapacidades e dificuldades cognitivas (Lobo, Rigo- miolo-idosos.indd 31 2/21/2018 8:58:29 PM — 32 — li, Sbardelloto, Rinaldi, Argimon & Kristensen, 2012; Valença & Andra- de, 2011). A terapia cognitivo-comportamental tem sido uma abordagem bastante utilizada no idoso pela facilidade de adaptação e flexibili- dade, necessárias para este paciente. Através de seus estudos, Beck, Shaw e Emery (1997) e Beck (2013) constataram que experiências pes- soais levam o indivíduo a formar pressupostos sobre si mesmo e so- bre o mundo. Estes pressupostos compõem seu sistema de crenças que determinam o sentido que dá às ocorrências de sua vida atual. Formam-se então os chamados pensamentos automáticos, que inva- dem a mente da pessoa, em geral associados a emoções desagradá- veis. Estes pensamentos interferem nas interpretações de experiên- cias atuais, previsões sobre eventos futuros, ou lembranças de fatos passados. Uma crença é um padrão bastante estável e persistente que se de- senvolve na infância e segue em elaboração durante a vida de uma pessoa. Cada pessoa percebe o mundo através de suas crenças. Es- tas são cognições importantes em relação a si mesmo e ao ambiente, aceitas sem questionamento (Beck, 2013). Habitualmente elas atuam de forma sutil, passam despercebi- das, mas quando são acionados por eventos explodem pensamentos e emoções, por elas dominados. Nestes momentos é que as pessoas apresentam emoções extremamente negativas e pensamentos dis- funcionais que podem apresentar variados sintomas, como perda de energia ou interesse; dificuldade de concentração; alterações do ape- tite e do sono; lentificação; sentimento de pesar ou fracasso; irritabi- lidade ou impaciência; sentimento de pena de si mesmo; persistên- cia de pensamentos negativos, entre outros (Bottino & Moreno, 2006; Edelstein, Northrop & Staats, 2003). As técnicas cognitivas e/ou comportamentais permitem um aprendizado sobre si mesmo e o funcionamento da mente, propor- cionando novas estratégias e equilíbrio interno. Inicialmente, o psi- miolo-idosos.indd 32 2/21/2018 8:58:29 PM — 33 — coterapeuta trabalha no sentido de devolver ao paciente a flexibilida- de através da análise de suas cognições, a fim de promover mudanças nas emoções e comportamentos. Aliviar a ansiedade, a depressão e a insegurança; reduzir os comportamentos desadaptativos, facilitando melhor relacionamento familiar; instrumentalizar o paciente a com- preender seu funcionamento e saber como lidar com este; aumentar ou reduzir o efeito protetor da família; orientar e dar suporte aos fa- miliares e cuidadores (Tuoto, Lenardt & Venturi, 2009). A readapta- ção dos pensamentos automáticos e das crenças disfuncionais provo- ca mudanças positivas nas emoções e no comportamento. Além disso, também é importante o aumento do repertório com- portamental e a busca pela melhora no funcionamento global; a rees- truturação de crenças irracionais e desmistificação de estigmas e pre- conceitos relacionados ao processo de envelhecimento. Aliado a este processo, o profissional vai trabalhar o empoderamento por meio de conhecimentos sobre a utilização mais efetiva os recursos da comu- nidade pelo idoso e o familiar e/ou cuidador, visando a reinserção so- cial, bem como promover reflexões sobre a finitude, ressignificando suas vivências (Tuoto, Lenardt & Venturi, 2009). Ao longo do processo terapêutico, atua diretamente sobre o siste- ma de esquemas e crenças do paciente, promovendo sua reestrutura- ção cognitiva. Objetiva não apenas a solução dos problemas imedia- tos do paciente, mas através da reestruturação busca dotá-lo de um novo conjunto de técnicas e estratégias, capacitando-o a processar e responder de forma funcional, concorrendo para a realização de suas metas. Há uma relação colaborativa entre o terapeuta cognitivo e o paciente, onde ambos têm um papel ativo ao longo do processo psi- coterápico (Beck, 2013). Ao terapeuta cabe entender em que condições os comportamen- tos ocorrem e o que ocorre quando o paciente apresenta esse com- portamento: investigar outras variáveis que possam estar contribuin- do para a manutenção dos sintomas, buscando identificar, além da miolo-idosos.indd 33 2/21/2018 8:58:29 PM — 34 — genética, em que condições os sintomas (o comportamento) ocor- rem. A partir disso, busca compreender o que acontece quando apre- sentam esse comportamento para ver qual o padrão cognitivo presen- te e se há o agravamento ou manutenção do quadro. A observação ao comportamento do paciente, a forma como vi- vencia o tratamento e realiza seus cuidados, são indicativos impor- tantes sobre como está sua capacidade de lidar e suportar as dificul- dades. Diante disso, a equipe envolvida nos cuidados do paciente idoso, desde a equipe de saúde, ao cuidador formal e informal, deve estar atenta às suas formas de expressão. Muitas vezes não consegue expressar, mas pode ser observado, por exemplo, algum abatimento no humor ou desinteresse no seu dia-a-dia (Tuoto, Lenardt & Ventu- ri, 2009). O tratamento do idoso na abordagem cognitivo-comportamen- tal envolve compreensão sobre a patologia especifica de tratamento (quando houver), conhecer o transtorno e sua plasticidade naquele idoso; o processo de envelhecimento, advindo das mudanças viven- ciadas pelo idoso nesta fase da vida - entre perdas e ganhos; conhe- cer as necessidades específicas do idoso em atendimento; planejar a intervenção, adequando cada procedimento as necessidades, habili- dades ou dificuldades do paciente. Cabe ao terapeuta a síntese das in- formações e a adequação de linguagem para melhorar a compreen- são do paciente. Pode apresentar as informações de várias formas, como recursos áudio visuais, por exemplo, utilizar folders ou caderno para anotações, treino de memória, mudanças no registro cognitivo. Auxiliar no enfrentamento e correção, se necessário estimulando uso de apoios ou aparelhos, pode ser necessário explorar e mudar crenças associadas a estigma de uso. Outro exemplo é a utilização de material escrito em letras maiores e cores mais fortes, como em negrito. O profissional deve estar atento pois o paciente pode apresentar dificuldade em comparecer no consultório do terapeuta e/ou se en- gajar em experimentos comportamentais. Desta forma, pode ser ne- miolo-idosos.indd 34 2/21/2018 8:58:29 PM — 35 — cessário o atendimento domiciliar, estabelecer metas realistas; consi- derar qual o melhor tratamento para cada paciente, se individual ou grupal. Proceder a psicoeducação sobre o processo de envelhecimen- to, promovendo mudanças de atitude em relação a velhice, sobre os transtornos e tratamento, aumentando a adesão ao tratamento. A te- rapia pode avançar mais lentamente, utilizar treino de habilidades, resolução de problemas, resumos para ativar memória. Auto moni- toramento do sono, alimentação, humor, pensamentos automáticos. Importante e necessário fornecer orientação familiar, como lidar com os comportamentos inadequados do idoso, dar suporte ao(s) cuida- dor(es), informar sobre a doença e o tratamento. A perda da autonomia, do papel social e as limitações físicas po- dem fazer com que se apresentem sentimentos de incapacidade e desvalia. Neste sentido, cabe aos profissionais uma postura empática e de respeito aos desejos da pessoa idosa, motivando-a e a provendo de estratégias, de maneira a lhe oferecer estímulo em sua capacida- de de autocuidado. Maria, 71 anos, conta que “ é ruim vir para o hos- pital, as pessoas me tratam bem, mas eu sinto falta das minhas flores e do meu Tobi. Eu sofro muito por isso”. Joana, 80 anos reforça, “o maior problema de ficar no hospital é não ter nada para fazer. Em casa mexo em tudo o tempo todo e na hora que eu quero”. No tratamento de câncer, o cuidado de si surge com mais intensi-dade no momento da necessidade de se fazer algo para amenizar ou sanar os sofrimentos advindos da enfermidade. Em pesquisa realiza- da com pacientes oncológicos visando investigar os sofrimentos ad- vindos da internação e as formas de enfrentamento para minimizar seu sofrimento (Maciel, Rodrigues, Naylor, Bettega, Barbosa, Burlá & Vale e Melo, 2006), foi identificado que este é geralmente, associado a dor e à perda da autonomia, atrelada a incertezas quanto à morte. O idoso com alguma doença permanece longos períodos acamado e isto significa tornar-se ainda mais frágil e desvalido (Tuoto, Lenardt & Venturi, 2009). miolo-idosos.indd 35 2/21/2018 8:58:29 PM — 36 — Em idosos com câncer, em razão das limitações próprias do enve- lhecimento e os episódios de oscilação da doença, ocorrem hospitali- zações com maior frequência. Nestas, o doente poderá experimentar maior isolamento, ruptura de laços afetivos e situações importantes na vida pessoal. Pode-se observar a partir das verbalizações que seu pensamento e sentimento é depressivo e desvalido. José, 70 anos diz que “ a doença quando começa não tem dia para ir embora. Ela é a cruz que eu carrego. Não sei quando vai acabar”. “Eu trabalhei tanto na minha vida e agora estou aqui desse jeito, dependendo dos outros. Por isso que todo mundo fala que velho só atrapalha”. Quando o idoso se recupera, mesmo que parcialmente, pode tentar retomar a vida que deixou enquanto hospitalizado. Muitas vezes imo- bilizado fisicamente, não consegue, então, se manifestar por comple- to. É preciso adaptar-se e aceitar a imobilização, a doença e/ou a mor- te. A tendência do velho é reclamar de sua condição, considerando-se, muitas vezes, como incapaz. Joana, 80 anos, diz que “eu acho horrível depender dos outros! Eu sempre trabalhei e nunca dependi de ninguém para fazer meu serviço, até o da casa. Agora nem isso consigo...” O hospital, principalmente para indivíduos desta faixa etária, é vis- to como ambiente diferenciado daquele que está acostumado, exigin- do-lhe novas formas adaptativas. Esta adequação vem acompanha- da de sofrimento que o impede de manter sua rotina. O cuidado de si, nesse momento, surge como uma tentativa de aliviar seu sofrimen- to. Para Joana, “esta doença é minha cruz, não parece que vai acabar”. No que se refere à adesão ao tratamento, na maioria das vezes, o idoso segue as orientações conforme seu próprio entendimento. É importante que o profissional de saúde entenda esta atitude. Muitas vezes acreditam que eles estão absorvendo suas orientações, porém, na verdade, estão assimilando somente aquilo que consideram como relevante. A equipe precisa entender as angústias frente a trajetória de tra- tamento e cuidado. Precisa oferecer estímulo à capacidade do ido- miolo-idosos.indd 36 2/21/2018 8:58:29 PM — 37 — so para cuidar de si, num processo que exige cooperação entrelaçada voltada para o sucesso do tratamento. Joana, 80 anos, enfatiza que “eu acho muito pesado ficar aqui no hospital, todo mundo me trata muito bem, mas eu sinto falta das minhas coisas”. O paciente idoso hospitali- zado é centrado na anuência de um comportamento quase paralisa- do por sua rotina, que parcamente se renova. Aos 80 anos o tempo fu- turo se reduz a dimensão dos planos possíveis, ou no pior dos casos, a um total vazio de intenções (Goldfarb, 1998; Santos & Simoni, 2003). CONSIDERAÇÕES FINAIS A equipe que presta cuidados ao idoso deve ter em mente que é preci- so trabalhar as aflições pelas quais eles passam, diante da trajetória de tratamentos e cuidados. Isto exige por parte dos profissionais empatia e cooperação frente às necessidades da pessoa idosa, auxiliando na provisão do autocuidado, oferecendo-lhe estímulos. Esta capacidade para cuidar de si é um processo que exige atitudes que irão fomentar o sucesso do tratamento. REFERÊNCIAS Baltes, P.B., & Smith, J. Novas fronteiras para o futuro do envelhecimento da velhice bem-sucedida do idoso jovem aos dilemas da Quarta Idade. In: Revista A Terceira Idade, 17(36), 7-31. ISSN 1676-0336. Beck, A.T., Rush, A.J., Shaw, B.F., & Emer, G. (1997). Terapia cognitiva da de- pressão. Porto Alegre: Artmed. ISBN 8573072482, 9788573072488. 316p. Beck, J. S. (2013). Terapia Cognitiva-Comportamental: teoria e prática. 2ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 413 p. Belsky, J. (2010). Desenvolvimento humano – experienciando o ciclo da vida. Porto Alegre: Artmed. Bottino, C.M.C., & Moreno, M.D.P.Q. (2006) Comprometimento cognitivo leve: Critérios diagnósticos e validade clínica. 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Uma condição crônica requer uma complexa rede de cuidados que envolve além do próprio sujeito acometido por esta condição. Esse contexto ganha relevo nos idosos, um grupo que naturalmente já seria “esperado” lidar com algum tipo de limitação à medida que a idade avança. Esse é um momento muito delicado para familiares em alguns pontos: um deles seria aprender a lidar com uma nova confi- guração de alguém, antes ativo e de referência que agora requer cui- dados; outro ponto é que muito embora condições crônicas possam acompanhar diversas pessoas por toda uma vida, na faixa etária dos idosos, em algum grau, isso pode gerar pensamentos irreais de fragili- dade ou de uma aproximação com a finitude, ocasionando comporta- miolo-idosos.indd 41 2/21/2018 8:58:29 PM — 42 — mentos de superproteção e preocupações excessivas. Por essas e ou- tras razões, o cuidado à saúde mental de todos os envolvidos merece atenção. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) tem reforçado a necessidade do desenvolvimento de estratégias de prevenção em todo o mundo e em relação a diversas doenças e as mortes prematu- ras causadas por estas doenças. Em relação ao câncer, por exemplo, o controle consiste em prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, atendimento paliativo e apoio aos sobreviventes deve fazer parte de um planejamento governamental para implementação de estratégias. O câncer, junto com diabetes, doenças cardiovasculares e doenças crônicas do pulmão, foi o responsável por cerca de 40 milhões (70%) das 56 milhões de mortes no mundo em 2015 e mais de 40% das pes- soas que morreram devido a alguma dessas doenças tinham menos de 70 anos (ONU-BR, 2017). Nessa direção, observa-se que o conceito de psicologia da saúde vem se popularizando além do campo da psicologia. Ancorado em uma perspectiva biopsicossocial, busca a compreensão das possí- veis relações do binômio saúde-doença favorecendo uma amplitude de possibilidades para o desenvolvimento de estratégias de preven- ção e intervenção em saúde. Aqui devem ser considerados aspectos não apenas de doença, mas também os de saúde. Por isso, o desen- volvimento de comportamentos e hábitos saudáveis e iniciativas para identificação precoce de agravos a saúde também fazem parte dos seus estudos. Em condições de cronicidade, a psicologia da saúde poderá be- neficiar toda a rede de suporte ao paciente. Na tentativa de manter sua condição de bem estar pode desenvolver estratégias para atenuar possíveis agravos a atual condição com informações sobre o quadro clínico e ainda favorecer a inserção de hábitos saudáveis física e emo- cionalmente à medida que uma compreensão adequada do adoeci- mento se instala. É elementar informar o quanto uma equipe multi- miolo-idosos.indd 42 2/21/2018 8:58:29 PM — 43 — disciplinar trabalhando de modo integrado pode ser fundamental neste processo. Não obstante, a família, a comunidade e a perspectiva de rede de suporte à saúde são essenciais. Condições crônicas, tais como alterações de taxas metabólicas, hipertensão, alterações cognitivas e neurológicas, sequelas de aci- dentes, entre diversas outras condições médicas podem impac- tar diretamente na saúde mental dos pacientes e dos seus familia- res (principalmente os cuidadores mais próximos) exigindo um certo grau de resiliência. Tal conceito, tão caro para a psicologia, mesmo considerando a condição do conceito da física que versa sobre a pos- sibilidade de um material voltar ao seu estado normal, resgata a con- dição humana de poder vencer obstáculos e aprender a lidar com os problemas em momentos de crise. 2. FAMÍLIA, IDOSO E DOENÇA CRÔNICA Quando se pensa em família, é possível imaginar o lugar de onde par- te a construção da história de um sujeito. Existem vários conceitos de família. Conforme Levi Strauss (1982), a palavra família serve para de- finir um grupo social com as seguintes características: tem sua ori- gem no casamento, é constituído pelo marido, pela esposa e pelos fi- lhos provenientes de sua união, os membros da família estão unidos entre si por laços legais, direitos e obrigações econômicas, religiosas ou de outra espécie com uma quantidade variada e diversificada de sentimentos psicológicos, tais como amor, afeto, respeito, medo en- tre outros. Osório (1996) define família como unidade grupal onde se desen- volvem relações pessoais. Por outro lado, Cerveny (1994) conceitua a família como sistema dentro do qual os membros vivem no mesmo espaço físico e mantém relações significativas e significantes de inter- dependências entre vários subsistemas dafamília. De acordo com Ac- kerman (1986), a família é um grupo dotado de dinâmica e especifici- dades próprias, lutando para equilibrar sentimentos, irracionalidades miolo-idosos.indd 43 2/21/2018 8:58:29 PM — 44 — e desejos. Complementando o conceito de família, Minuchin (1982) refere a uma unidade social que enfrenta uma série de tarefas de de- senvolvimento, e que funciona como a matriz do desenvolvimento psicossocial de seus membros. A família tem objetivos genéricos como preservar a espécie, nu- trir e proteger a descendência, facilitar a construção de uma identida- de pessoal, desempenhar funções como a de transmitir valores éticos, morais, estéticos, religiosos, culturais e de promover formas de aco- modação quando ela está sujeita a pressões, tanto internas quanto ex- ternas (Muscari,1998). Algumas fases e situações são vivenciadas pela família demandan- do por parte dos seus membros empenho, esforço e união, como é o caso do surgimento de uma doença crônica. Esta consiste em uma condição que afeta as funções do indivíduo em suas atividades diá- rias, podendo causar hospitalização (Muscari,1998). As doenças crô- nicas são patologias de evolução lenta, de longa duração e com cres- cimento acelerado no número de mortes em todo mundo, em torno de 17 milhões de pessoas a cada ano e, no Brasil, ultrapassam os 60%, causando elevação nos custos econômicos e sociais (OMS, 2005). Segundo Borghi et. al (2013), em decorrência do processo de en- velhecimento populacional, observa-se aumento expressivo de doenças crônico-degenerativas no idoso. A família é o primeiro am- biente propiciador de socialização, portanto quando existem pro- blemas relacionados à inserção do idoso nesse espaço, este tende a se sentir sozinho, isolado e excluído (Herédia, Cortelletti & Casa- ra, 2005). Além desses sentimentos, sabe-se que o envelhecimento e a doença crônica acarretam perdas inclusive da qualidade de vida e embora existam estratégias sociais para proteger os idosos de senti- mentos negativos, o que se sabe é que a doença crônica interrompe aspectos da vida, podendo gerar depressão, estresse e perda de es- perança (Guedes, et. al, 2006; Sena, et. al, 2006; Oman & Thoresen, 2002; Rocha & Ciosak, 2014). miolo-idosos.indd 44 2/21/2018 8:58:29 PM — 45 — Além dos custos e do impacto que a doença crônica pode acarre- tar nas famílias, ela pode provocar incapacidade, prejuízo da cogni- ção, sensação, movimento, produção de energia ou outras causas na pessoa. O efeito da incapacitação em uma pessoa e/ou na sua família depende da interação entre o tipo de incapacitação e as exigências de papel desempenhado anteriormente pelo membro doente e da estru- tura, flexibilidade e recursos familiares. A cronicidade de uma doen- ça pode ser marcada por um período de estresse e oscilações emocio- nais, portanto a habilidade da família para manter a homeostase em muitos momentos não é uma tarefa fácil, demandando inclusive ca- pacidade de resiliência dos seus membros (Gutierrez & Minayo, 2010). O envelhecimento caracteriza-se como processo multidimensio- nal onde fatores biológicos, psicológicos e sociais estão entrelaçados. Dessa forma, espera-se que as modificações na família rumo às no- vas acomodações promovam novas modalidades relacionais, dentro e fora da família, para o idoso. Na perspectiva sistêmica, dependen- do da dinâmica familiar e do processo de envelhecimento, as famílias precisam continuar promovendo saúde entre seus membros tanto em contextos de promoção da saúde ou de situações de doença, manten- do-se como fonte primária de prestação e transmissão de cuidados de saúde e também como provedora de cuidados de saúde aos idosos (Figueiredo et al, 2011). De acordo com Cerveny e Berthoud (1997), na velhice todos os membros das famílias vivenciam tentativas de reorganização dos seus padrões e regras de funcionamento. Essa experiência pode ser marca- da por sofrimentos e perdas, principalmente quando resulta em mu- danças de papéis, funções e saída de alguns membros. Garrido e Me- nezes (2002) realçam que o enfrentamento das doenças vivenciado pelos idosos e seus familiares tornou-se um problema de saúde pú- blica. No que se refere ao perfil sociodemográfico e de saúde dos ido- sos no Brasil, supõe-se que haja um número maior de mulheres na faixa etária idosa, quanto ao estado civil, a maioria casada, seguido miolo-idosos.indd 45 2/21/2018 8:58:29 PM — 46 — de viúvas, grande parte delas responsáveis pela família, e no merca- do de trabalho. No que se refere aos problemas de saúde, um núme- ro expressivo dos idosos apresentam sintomas depressivos e síndro- mes demenciais. Corroborando com o achado anterior, Loyola Filho et al (2004) apontam que as causas mais importantes de internações hospitalares entre os idosos, para ambos os sexos, nas faixas etárias de 60-69, 70-79 e 80+ anos foram descritas como insuficiência cardíaca, seguida por bronquite/enfisema e outras doenças pulmonares obstrutivas crôni- cas e pelas pneumonias. Cabe, portanto, aos profissionais e familiares a verificação das ca- pacidades funcionais do idoso, uma vez que seu declínio nas ativida- des de vida diária por doenças crônico degenerativas ou por outras razões podem colocá-lo em vulnerabilidade e, consequentemente, contribuir para redução de sua qualidade de vida e do seu bem-estar geral (Alves et al, 2007). 3. O CUIDADO AO IDOSO COM DOENÇA CRÔNICA Para Morin (1991), o ser humano é um indivíduo que apresenta ca- racterísticas de sua realidade humana que são multidimensionais e englobam aspectos biológicos, psicológicos, sociais, espirituais, eco- nômicos, sociológicos, históricos, dentre outros. Essas características, mesmo distintas, estão vinculadas, inteirando o mesmo ser humano e tornando-o complexo. Para lidar com a complexidade humana, é fundamental remeter-se à noção do Cuidado, conceito presente na história da humanidade. Con- sidera-se que o cuidado foi e ainda é essencial para o crescimento e de- senvolvimento da espécie humana. O Cuidado visto como uma atitude ética em relação a si e aos outros levaria a inclusão de um todo maior, da sociedade, do ambiente, do respeito às pessoas (Carvalho, 2009). Termo polissêmico e atravessado pelas concepções de saúde e doença, o conceito de Cuidado no campo da saúde indica um obje- miolo-idosos.indd 46 2/21/2018 8:58:29 PM — 47 — to complexo, não-linear, sintético, plural, emergente, multifacetado e fonte de múltiplos discursos, extravasando os recortes disciplinares da ciência. Uma atitude, um sentimento, uma necessidade, um pro- cesso, uma ação, uma presença e o Cuidado abrange diversas dimen- sões teórico-filosóficas (Almeida Filho, 1997). O termo Cuidado provém do latim cogitatu, que se refere ao pensa- do, imaginado, meditado. O cuidado também apresenta uma relação de dedicação, cujo comportamento, aparência, formação moral e in- telectual são primorosos (Houaiss & Salles, 2001). Dessa maneira, cui- dar de alguém é ter estima e apreço pela pessoa, querendo o seu bem- -estar de forma integral (Boff, 2003). Franzen et al (2007) caracterizam o cuidado como troca de expe- riências, conhecimentos, sentimentos e, especialmente respeito às crenças e valores de cada elemento envolvido. As autoras reforçam, ainda, que o cuidado não deve ficar restrito apenas à dimensão bioló- gica, pois envolve atitudes, valores, empatia, ética, princípios técnicos e científicos de modo a enxergar o outro como prioridade, buscan- do atender suas necessidades e de modo a restabelecer seu bem-es- tar, não necessariamente a saúde, como no caso das condições crôni- cas dos idosos. As doenças crônicas são geralmente incuráveis e incapacitantes. De acordo com Bokhour et al (2009), apesar de não terem risco de vida imediato, causam sobrecarga substancial para a saúde, provo- cando impacto econômico e deterioram a qualidade de vidados ido- sos. Em virtude disso, a avaliação da qualidade do cuidado, seu enten- dimento nas condições crônicas severas, o autocuidado de pacientes crônicos, modelos educativos para cuidados em saúde e a qualida- de de vida do doente determinada pelo nível de cuidado são algumas das inquietações da comunidade científica mundialmente (Kahn et al, 2007). Segundo Newman, Steed e Mulligan (2004), o manejo da maioria das doenças crônicas também é caracterizado pela responsabilidade miolo-idosos.indd 47 2/21/2018 8:58:29 PM — 48 — que os próprios pacientes devem ter. O envolvimento do paciente no seu cuidado é denominado autocuidado e tem sido definido como a “habilidade do indivíduo no manejo dos sintomas, tratamento, con- sequências físicas e psicológicas e mudanças no estilo de vida ineren- tes a viver com uma condição crônica” (p.1529). Não obstante, o au- tocuidado para idosos portadores de doenças crônicas é algo difícil de ser alcançado, em virtude das próprias limitações inerentes a essa fase da vida. Algumas estratégias tem sido desenvolvidas para aumentar o en- volvimento dos pacientes em seus tratamentos. Algumas focalizam na prevenção de crises, reconhecendo e evitando os fatores desen- cadeantes, monitoramento dos sintomas, ajuste e adesão às medica- ções, enquanto outras estratégias tendem a ser mais diversas, focali- zando em assuntos como estilo de vida e manejo do estresse (Holman & Lorig, 2000). Por sua vez, Veras (2012) enfatiza que no cuidado aos idosos, o profissional envolvido deverá identificar e tratar as doenças, conhe- cer como eles vivem e seu grau de satisfação. Para tanto é necessário observar alguns aspectos, tais como: autonomia, espiritualidade, ca- pacidades cognitivas e do humor, a presença de distúrbios compor- tamentais e como exercem atividades de promoção da saúde e do au- tocuidado em geral. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Tanto no campo do conhecimento quanto no âmbito das práticas, o processo Saúde-Doença-Cuidado tem sido objeto de esforços no sen- tido de compreensão e reformulação de modelos e formas de inter- venção. A discussão, conceituação e operacionalização do “Cuidado à Saúde” apresentam-se como desafios teóricos e práticos para a Psi- cologia da Saúde e sua construção conceitual abre novos diálogos no campo do conhecimento, saberes e práticas em saúde, configurando- -se como objeto privilegiado de pesquisa. miolo-idosos.indd 48 2/21/2018 8:58:29 PM — 49 — O Cuidado torna-se então desafiador, porém necessário no con- texto da enfermidade crônica em idosos. As experiências com a Saúde e a Doença permeiam as dimensões objetiva e subjetiva, pessoal e coletiva, universal e cultural. A dimensão subjetiva nos conduz a uma compreensão do Cuidado à Saúde como atitude e es- paço de construção de subjetividades, de exercício aberto de uma sabedoria prática para a Psicologia da Saúde, apoiada nos avanços da ciência, mas sem restringir-se a ela. Nesse sentido, a Psicologia da Saúde envolve a utilização de conceitos, teorias, métodos e téc- nicas advindas da psicologia, aplicando-os aos cuidados em saúde, considerando suas possibilidades de atuação em diferentes níveis de atenção a saúde pública, privada, em contextos de educação, desenvolvendo estratégias de intervenção individual, grupal, den- tre outros. REFERÊNCIAS Ackerman, N. W. (1986). Diagnóstico e Tratamento das Relações Familiares. Tradução Maria Cristina R. Goulart. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas. Almeida Filho, N. (1997). Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva. Ciência e Saúde Coletiva. 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E, de repente, aquela estreli- nha sugeriu-me a ideia e resolvi terminantemente meter a bala no corpo nessa noite. Fíodor Dostoiévski, Sonho de um homem ridículo. CONCEITOS E CONTEXTO O envelhecimento é um processo inerente e irreversível ao ser que permanece vivo. Trata-se de um fenômeno natural, produto de um processo dinâmico no qual a pessoa se modifica incessantemente. Tal processo é complexo e engloba o individuo por inteiro. Trans- formações e modificações no corpo influenciam nos comporta- mentos numa via de mão dupla em que um interage e promove o outro. Por isso, ser idoso é viver crises já que constantemente é preciso se reorganizar para se adaptar as mudanças que são ine- vitáveis. A senescência e a vivência dela estão associadas a pronunciadas variações interindividuais, de modo que cada idoso desenvolve de forma única o envelhecer, bem como o entendimento sobre o enve- lhecimento. O enfrentamento define se a velhice será um tempo de realizações ou um tempo de frustrações e lamentações sobre o passa- do, o presente e o futuro. miolo-idosos.indd 52 2/21/2018 8:58:30 PM — 53 — Os indivíduos que se adaptam bem a velhice geralmente cultiva- ram uma vida interior em outras etapas do ciclo vital. Desenvolveram sabedoria e paciência para lidar com as limitações e fragilidades que vão surgindo. Outro fator relevante na boa vivência do envelhecer está na rede de apoio: família e amigos presentes que fortalecem a vincu- lação e afetividade do idoso. Por outro lado, a percepção negativa do envelhecer favorece o en- capsulamento do idoso através de defesas psíquicas resultantes da não aceitação de sua condição. Além disso, o contexto social também ob- serva o envelhecimento de forma negativa, preconceituosa e estereo- tipada e assim promove temor e o entendimento de que a senilidade é tempo somente de fragilidades e progressiva dependência. Através da união desses fatores, percepção individual e crença social negativas, há uma potencialização do isolamento socioafetivo idoso que rejeita a si por sua condição e pelas ideias arraigadas do senso comum. O desenvolvimento tecnológico bem como da medicina favorece- reu a longevidade. Globalmente tem se vivido mais, as expectativas de vida têm aumentado e a população idosa cresce. Segundo o IBGE, em 2015 os idosos compunham cerca de 14,3% da população brasilei- ra, um aumento relevante quando em 2005 eram 9,8%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou 788.000 mor- tes por suicídio no mundo em 2015, o que indica uma taxa de suicídio de 10,7 por 100 mil pessoas. No Brasil, nesse mesmo ano, de acordo com o DataSus ocorreram mais de 11 mil mortes por suicídio, sendo cerca de 17% foram de pessoas com 60 anos ou mais. Ao se comparar os dados dos últimos 10 anos, o crescimento chega a 161% (2006 em comparação a 2015). Entretanto, a temática do suicídio na pessoa ido- sa é pouco difundida tanto nos meios sociais e acadêmicos. Há pen- samento do senso comum de que com a avançar da idade o fato de ter vencido diversos obstáculos das etapas anteriores do ciclo de vida serviria como proteção e barreira a pensamentos, ideias e realização suicidas. Portando, como alguém que já passou por tantas agruras na miolo-idosos.indd 53 2/21/2018 8:58:30 PM — 54 — vida pode desejar morrer no fim da vida? Já não teria aprendido com os anos de vida a superar dificuldades? Segundo Albert Camus, no início do livro ‘O Mito de Sísifo’, “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Com essa afirmação o filósofo quer promover a reflexão de que as razões e mo- tivações para viver são primeiras e fundamentais para qualquer ser humano, mesmo e principalmente para quem comete suicídio, pois o escritor afirma que por mais que o ato suicida carregue conjecturas mortalemente equivocadas, não se pode dizer que o indivíduo que decidiu se matar não tenha refletido antes. Émile Durkheim definiu o suicídio como todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo, rea- lizado pela própria vítima, sabendo ela que produziria como resulta- do o autoextermínio. O mesmo autor ressaltou que esse fato somente pode ser explicado analisando-se a sociedade em que os suicidas vi- vem e não se limitando a interpretar o que ocorreu com o individuo. Vê-se o suicídio como evento social em que o contexto econômico e cultural se presentifica na frequência do evento Depressão e suicídio estão intimamente relacionados. Dados da li- teratura indicam que pelo menos dois terços dos idosos tinham de- pressão ou comportamentos depressivos. Assim elementos como de- sesperança, crise existencial, sensação de abandono e desamparo tomam parte na construção suicida. A senilidade carrega no horizon- te uma finitude natural e no indivíduo cuja esperança faliu, pode vir a se transformar numa finitude antecipada e voluntária. MUDANÇAS E DESADAPTAÇÕES O envelhecimento naturalmente transforma corpo e mente. É nesta etapa do ciclo de vida que o binômio saúde-doença tende, na maio- ria dos indivíduos, mais ao segundo fator. O idoso precisa lidar com as limitações que um corpo envelhecido lhe impõe, por exemplo: di- minuição da agilidade e motricidade no âmbito físico e da atenção e miolo-idosos.indd 54 2/21/2018 8:58:30 PM — 55 — memória no âmbito mental. Essas questões estão associadas a pos- sibilidade aumentada de desenvolver doenças graves e fragilizan- tes. Ocorrem mais casos de doenças crônicas e suas complicações: a diabetes mellitus que pode promover cegueira ou amputação de membros; a hipertensão arterial sistêmica levando a infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral; além de câncer e qua- dros demenciais que são marcadamente debilitadores. Há o temor da doença e principalmente das consequências da doença. A senilidade favorece vivências de perdas além das perdas físicas. O idoso precisa lidar muitas vezes com o luto pela perda de entes queri- dos e de forma destacada do cônjuge pois sabe-se que o primeiro ano de luto é de grande risco para desenvolver depressão e outras complicações de saúde, principalmente doenças infecciosas. Pouco a pouco o ido- so vai ficando só, seja pela morte de parente, seja pelos filhos que saem de casa. Ao se compreender viver como conviver, o isolamento social e muitas vezes afetivo ao qual o idoso é relegado, conclui-se que a conse- quência da solidão é uma redução de parcela de vida do indivíduo. A progressiva diminuição das capacidades corporais, cognitivas e socioeconômicas, se encolhe a autonomia e a independência que vão dando lugar a dependência. A depreciação da qualidade de vida, o tempo desprovido de sentido, o querer, mas não conseguir, exercer uma atividade gratificante são fatores estressores que podem levar a depressão. Esta quando não tratada favorece o envelhecimento físico pelos maiores níveis de cortisol graças ao estresse prolongado. Nivelar as coisas na indiferença e ao mesmo tempo ter aversão a tudo pode gerar desespero ou desesperança sendo esses produtos pe- rigosos que podem desencadear uma crise suicida seguida de tentati- va ou de suicídio. CONSTRUINDO O PRÓPRIO FIM Fundamentalmente as condições físicas, psicológicas e econômicas estão relacionadas. O idoso experimenta diversos sentimentos e no- miolo-idosos.indd 55 2/21/2018 8:58:30 PM — 56 — ções que podem favorecer ao estresse insuportável e quena ideação suicida a única maneira de por fim ao sofrimento é a morte. O medo do estado geral físico evoluir para uma vulnerabilidade ainda maior, a sensação de inutilidade, de não-pertencimento, de ser irrelevante na tomada de decisões familiares, sentir-se infantilizado, dependên- cia para atividades de vida, arrependimentos, luto complicado, satu- ração, perda de entusiasmo com a vida, não conquista de objetivos, descaso, humilhação, exploração, abusos físicos e verbais, questões fi- nanceiras são alguns fatores frequentes que influenciam na tomada de decisão. O que fazer de si mesmo diante de tudo isto? É no silêncio e na solidão que o idoso pensa, reflete e decide ante- cipar a morte. Daí advém uma das causas da efetividade superior das tentativas de suicídio em idosos quando comparadas com outras fai- xas etárias. Não se trata de um ato impulsivo como nos jovens, mas de algo bem deliberado, bem decido intimamente. O idoso toma a firme decisão de morrer logo, pois a depressão muitas vezes o leva a enten- der que já não lucra mais nada vivendo e, portanto, um dos últimos redutos da própria vontade está em simplesmente viver ou não viver. Dessa forma, o suicídio carrega a expressão desesperada de uma li- berdade total, mesmo que fatal, sobre a própria vida e o próprio cor- po. Ao mesmo tempo, há uma sedução reconfortante por conta da ideia de que haverá cessação do sofrimento, bem como evitará dores maiores e insuportáveis. A ruína do mundo interior mostra toda a fra- gilidade e neutraliza as possibilidades e alternativas viáveis para a so- lução dos conflitos e sofrimentos, sendo a desistência da vida a res- posta de eleição. O ato suicida se dá com meios potencialmente mais letais (enfor- camento, arma de fogo e envenenamento são os métodos mais utili- zados) e tende a ocorrer na maioria das vezes em locais familiares ao suicida e se dão principalmente no próprio domicilio. O idoso faz comunicação da intenção de se matar de forma ver- bal com frases do tipo: “só queria sumir” ou “era bom que dormisse miolo-idosos.indd 56 2/21/2018 8:58:30 PM — 57 — e não acordasse mais” ou “eu sou um peso para todo mundo, era me- lhor que desaparecesse” e de forma não verbal como não tomar a me- dicação, dar os bens, recusar ou reduzir drasticamente a alimentação, reforçar vícios ou adquiri-los. Pesquisas indicam que há sinalização verbal e/ou não verbal da ideação para profissionais de saúde e fami- liares pelo menos 30 dias antes da morte. CONSIDERAÇÕES FINAIS A terceira-idade oferece ao individuo um horizonte marcado pela fi- nitude da vida que parece se aproximar a cada ano vivido. Apesar des- sa certeza, a forma positiva de enfrentamento do envelhecer asso- ciada a manutenção dos vínculos sociais são fatores que promovem a vivacidade ao favorecer cuidado, atenção e sentimento de perten- cimento. Com isso, há uma vida idosa com qualidade e assim maior proteção contra depressão, desesperança e suicídio. O processo da morte autoinfligida interfere na estrutura e na dinâ- mica familiar de forma combinada. O assunto torna-se emblemático para a família e ocorre uma multiplicidade de sentimentos como cul- pa, vergonha social, raiva, interrogações sem respostas lógicas que se instalam e pairam sobre os familiares dos suicidas. Ao abdicar da pró- pria vida, o idoso quebra o silêncio dos sofrimentos e desespero que carregou, anuncia para a família e para a sociedade a falência da es- perança. Uma pessoa que antecipa seu fim traduz uma história que se encerra por si mesma e nunca deixa um ponto final, mas interroga- ções para os que ficam. Pensar em morrer é em última instância pen- sar na vida porque é no viver está a dor e a cura. miolo-idosos.indd 57 2/21/2018 8:58:30 PM — 58 — ESPIRITUALIDADE E QUALIDADE DE VIDA NA TERCEIRA IDADE Luciano da Fonseca Lins Alessandra Andressa A � de M� Magalhães Antônio Gabriel Araújo Pimentel de Medeiros Considerando a complexidade do tema espiritualidade, envelheci- mento e qualidade de vida, o presente trabalho se propõe a realizar uma pesquisa de cunho bibliográfico com objetivo de trazer a refle- xão a respeito desse tema e como a espiritualidade pode ser fonte de qualidade de vida na terceira idade. O envelhecimento populacional brasileiro é um tema emergente que chama a sociedade e as instituições a despertarem um olhar mais aten- to a esse cenário. Envelhecer é uma etapa do ciclo da vida que deve ser vivenciada da melhor forma, buscando permanecer útil a si mesmo, aos familiares, amigos, vizinhos, enfim, a sociedade (Duarte et al., 2008). Este processo de envelhecimento é reflexo de diversas causas, en- tre elas: os altos índices de natalidade e imigração no século XX e os avanços da medicina e de estilos de vida mais saudáveis, bem como maior acesso a água potável, vacinas e saneamento básico. Contudo, ainda devemos considerar que a tendência para famílias menores di- minuiu o quantitativo das faixas etárias mais jovens (Papalia, 2006). Segundo dados do IBGE (2008), em 2050 haverá mais idosos (pes- soas de 60 anos ou mais) que crianças menores de 15 anos, e tal situa- ção é preocupante, pois estamos presenciando um crescimento po- pulacional inesperado em um país em desenvolvimento, que não está preparado para tal progresso, isto é, “vive-se um momento de grande miolo-idosos.indd 58 2/21/2018 8:58:30 PM — 59 — crescimento da expectativa de vida, no entanto, pouco se caminhou em termos de qualidade de vida” (Dátilo e Cordeiro, 2015). O envelhecimento é definido pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), como: [...] um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, univer- sal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne me- nos capaz de fazer frente ao estresse do meio ambiente e, portanto, au- mente sua possibilidade de adoecimento e morte (OPAS, 2003). Envelhecer também desencadeia uma diminuição dos processos físicos e psicológicos do sujeito, que em ambientes com condições di- tas normais, podem não propiciar problemas graves de saúde. Dife- rentemente de sujeitos idosos que são expostos a condições de so- brecarga e estresse, ou seja, ambientes instáveis e estressores, pois, possivelmente estes, diante da diminuição progressiva das funções básicas, podem sofrer com doenças, estresse emocional, depressão, acidentes, entre outros (BRASIL, 2006). Envelhecer em nossa sociedade produz hoje demandas que in- teressam a todos os profissionais da saúde, deixando de fazer parte apenas da alçada médica, o que possibilita uma reflexão a respeito da ampliação dos serviços de atendimento a essa categoria, bem como uma nova compreensão a respeito do contexto biológico, psicológico, social e espiritual desse sujeito. Contudo, o processo de perdas durante a fase de envelhecimento também se caracteriza como propício a adoecimento. O idoso viven- cia a perda da saúde, de um ente querido, financeira, da autonomia, da independência, e outras perdas que necessariamente influenciam no contexto da qualidade de vida destes. São fatores que também po- dem explicar a qualidade de vida relacionada à saúde do idoso: ida- de, sexo, escolaridade e a funcionalidade familiar (Abdala et al., 2015). miolo-idosos.indd 59 2/21/2018 8:58:30 PM — 60 — Apesar de muitos autores alegarem dificuldade em definir o termo “qualidade de vida”, outros apontam que a relação desta com a saú- de tem seu significado no papel que o sujeito desempenha na vida, nas suas relações sociais, no seu nível de função mental, físico e so- cial, bem como no seu nível de satisfação com a vida, relacionando perspectivas futuras e a satisfação do indivíduo com seu tratamento, resultados e estados de saúde. (Bowling, 2001 apud Dátilo e Cordei- ro, 2015). Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) define qualidade de vida como “apercepção do indivíduo da sua posição na vida no con- texto de sua cultura e dos sistemas de valores da sociedade em que vive e em relação aos seus objetivos, experiências, padrões e preo- cupações”. (WHOQOL, 1998 apud Dátilo e Cordeiro, 2015). Minayo (2000) nos aponta em uma de suas falas que está se tor- nando muito comum no setor da saúde a relação entre saúde e qua- lidade de vida, pois a própria OMS aponta que a saúde não significa apenas ausência de doença. Para ter saúde é preciso abarcar o sentido completo de bem-estar físico, mental e social. Porém, qualidade de vida ainda tem um significado amplo, que envolve um leque de pos- sibilidades, ou seja, um encadeamento de circunstâncias que o expli- cam, porém, não o definem. [...] saúde não é doença, saúde é qualidade de vida. Por mais correta que esteja tal afirmativa costuma ser vazia de significado e, frequentemente, revela a dificuldade que temos, como profissionais da área, de encontrar algum sentido teórico e epistemológico fora do marco referencial do sis- tema médico que, sem dúvida, domina a reflexão e a prática do campo da saúde pública (Minayo, 2000, p.8). Outra compreensão pertinente a respeito do sentido de qualidade de vida é trazida por Rufino Neto (1994) apud Minayo (2000): miolo-idosos.indd 60 2/21/2018 8:58:30 PM — 61 — Vou considerar como qualidade de vida boa ou excelente aquela que ofe- reça um mínimo de condições para que os indivíduos nela inseridos pos- sam desenvolver o máximo de suas potencialidades, sejam estas: viver, sentir ou amar, trabalhar, produzindo bens e serviços, fazendo ciência ou artes. Falta o esforço de fazer da noção um conceito e torná-lo operati- vo (p.8). Compreender a relação entre saúde e qualidade de vida, ainda na visão de Minayo (2000), faz parte de um avanço na saúde que expres- sa certo incômodo em relação ao reducionismo biomédico, o qual classifica saúde apenas como ausência de doença. Porém, faz-se ne- cessário ainda encontrar algum sentido teórico e epistemológico para a expressão de “qualidade de vida” que esteja fora do limite referen- cial do sistema médico, reducionista. Dessa forma, trazendo essa reflexão para o contexto da terceira idade, Assis et al. (2013) afirmam que, segundo a OMS, a qualidade de vida na terceira idade corresponde a ter sua saúde associada a qua- tro níveis de aspectos de vida, a saber: físico, pessoal, psíquico e espi- ritual. Ou seja, o contexto espiritual apresenta-se como uma premissa para o desenvolvimento da qualidade de vida na terceira idade. As relações sociais na terceira idade são importantes para o bem- -estar e felicidade. Amizades, ausência de solidão e participação em grupos formais, inclusive os religiosos, são fatores que estão relacio- nados diretamente com a satisfação da vida (Paschoal, 2000). Dessa forma, ainda na visão do mesmo autor, tem-se que Nessa fase da vida, a promoção de boa qualidade de vida é um empreen- dimento de caráter sociocultural, ultrapassando os limites da responsabi- lidade pessoal. Qualidade de vida depende, portanto, não apenas do indi- víduo, mas de sua interação com os outros e com a sociedade. Mostra que há uma multiplicidade de critérios e de indicadores, cada um influen- miolo-idosos.indd 61 2/21/2018 8:58:30 PM — 62 — ciando de maneira diferente a vida das pessoas, com impacto desigual so- bre o bem estar (Paschoal, 2000, p 42). Muitos estudos argumentam que a espiritualidade pode ser con- templada na velhice como um recurso de enfrentamento de situa- ções adversas, isto é, a espiritualidade pode contribuir para o bem- -estar pessoal e reduzir os níveis de depressão, angústia e mortalidade (Duarte, Lebrão e Laurenti, 2008). ESPIRITUALIDADE Até alguns anos atrás, a religião/espiritualidade não era um aspecto trabalhado pelo pensamento científico, tendo em vista que este tema era tido como antagônico à este, pois estava na ordem do sobrenatu- ral, ou seja, do imensurável. Porém, continuar a pensar sobre religio- sidade/espiritualidade como algo antagônico à ciência acarreta pen- samentos reducionistas que não contribuem em nada com o processo de cuidado ao idoso. Segundo Manchola et al. (2016), a falta de conhe- cimento da capacidade formativa da espiritualidade na saúde, educa- ção, política e cidadania tende a produzir pessoas com subjetividades reduzidas e reducionistas. Reforçando o pensamento de que religiosidade/espiritualidade são fatores preditivos para uma melhor qualidade de vida, Assis et al. (2013) compreendem que as crenças e práticas religiosas e espirituais demons- tram auxilio no enfrentamento de diversas situações de desequilíbrio na saúde, no preparo para a morte e nas relações interpessoais. Destar- te, religiosidade e espiritualidade tendem a melhorar o estado de bem- -estar da pessoa idosa, contribuindo para a superação do seu processo adoecedor, reduzindo angustias, morbidades, depressão e o processo de mortalidade e entendimento da mesma, consequentemente favorecen- do para o desenvolvimento de uma melhor qualidade de vida. Sendo assim, em relação ao processo de envelhecimento com qua- lidade de vida, entende-se que este deve haver equilíbrio entre neces- miolo-idosos.indd 62 2/21/2018 8:58:30 PM — 63 — sidades e exigências mínimas, isto é, a compreensão do idoso em sua totalidade, isso inclui os níveis individual, social, familiar e espiritual. Por fim, diante da pesquisa realizada para esse estudo, observou- -se um aumento no interesse, consequentemente maior número de pesquisas voltadas para essa temática. Os estudos revisados revelam a contribuição da religiosidade/espiritualidade no bem-estar e quali- dade de vida dos idosos. O bem estar passou a ser uma das dimensões que se utiliza para avaliar o estado de saúde, junto a ele as dimensões corporais, psíquicas, sociais e espirituais, avaliando, dessa forma, a importância de elementos da fé e da esperança no processo de cura. CONSCIÊNCIA, ESPIRITUALIDADE E ENVELHECIMENTO Consciência e espiritualidade é um campo de estudos e pesquisas no qual trata sobre a Consciência no paradigma quântico e seu campo evolutivo. Ou seja, qual o tipo de evolução no campo da Consciência no processo macrocósmico, pelo qual se realizam as expressões atra- vés dos fatos e dos fenômenos (Mctaggart, 2008). Para tanto é importante colocar neste contexto o que estamos di- zendo sobre o que a Consciência. Consciência é o universo pelo qual estamos todos conectados com todo o universo que é uma gran- de rede em forma de holograma. Somo todos Um em conexão com a Realidade, na qual está para além de nossas crenças individuais e coletivas e das limitação do nosso aparato sensório-motor, num pon- to de vazio pleno também podendo ser chamado de Vácuo ou vacui- dade. A Consciência é uma grande presença e ao mesmo tempo, um Nada, um vácuo pleno. Neste ponto passado e futuro estão fora da nossa ação, somente existindo o presente (Lins, 2017). Nesta perspectiva, podemos nos perguntar o que é o envelhecer num modo do qual a espiritualidade é foco. Importante salientar que o mando macrocósmico, regido pela linguagem e suas supostas cau- salidade, nos aponta para a degeneração dos órgãos, que torna evi- dente a relação entre nascimento, desenvolvimento da personalida- miolo-idosos.indd 63 2/21/2018 8:58:30 PM — 64 — de, envelhecimento e morte. No entanto, pesquisas efetuadas pela Biologia e Mecânica Quântica atribuem possibilidades e probabilida- des nos quais se tornam fenômenos ou manifestação de nossas cren- ças arraigadas no inconsciente coletivo que nomeia através da lingua- gem os processos vitais (Smith, 2001; Lipton, 2007). Porém, antes de tais nomeações, somos apenas um Grande Campo, denominado aqui de Consciência. O inconsciente coletivo é um grande disparador de nossos hábitos e crenças que enjaulam a humanidade em imagens e fantasias que interpretamos como verdade. Oenvelhecimento é um fenômeno dentro da causalidade do macrocosmo. No entanto a base do macrocosmo é apenas no campo duma re- presentação fantasmática e metafórica do mundo subatómico, no qual permanece intacto no campo do Real. A Consciência continua imaculada pelas nossas crenças e dogmas (Smith, 2011). Então o que é envelhecer na concepção da espiritualidade? A questão na qual colocamos merece a única ação necessária para a fluidez da vida. Tornar-se Desperto ou Consciente dos nossos dog- mas, hábitos e ideações. Isso nos concede a qualidade de estar inteiro dentro da existência. Geralmente passamos a vida sem perceber onde estamos inseridos e ainda chamamos nossas e crenças de realidade. Nesse sentido, o termo “idoso” não tem qualquer sentido para o des- pertar da Consciência, pois a maioria da humanidade passa pela vida sem sequer ter entrado nela. As faixas etárias não passam de atributos inertes da existência. Passamos a vida procurando justificativa e senti- do para a existência e esquecermos-nos do nosso sono e hipnose, nos quais nos impedem de sermos inteiros, mergulhados nos fantasmas da causalidade e temporalidade. A vida é Consciência pura e a sua qualidade somente pode ser sen- tida quando não estamos divididos e não isso possui relação direta com faixa etária. A divisão traz sempre o sofrimento. Usar a palavra evolução é apenas uma metáfora que aponta para o paraíso perdido ou esquecido que é o Reino da Espiritualidade, o qual é o campo lim- miolo-idosos.indd 64 2/21/2018 8:58:30 PM — 65 — po da Consciência. O envelhecimento acontece apenas no macrocos- mo, no modo como vivemos a existência continua sendo em todas as fases uma ilusão, na qual repercute no nosso modo de tratar com a existência (Lins, 2017). Ora, parece que tratamos tudo na vida com “paliativos” medica- mentosos e explicações que não resolvem a prática, mudando algu- mas nomenclaturas para nossa própria enganação. A nomenclatura de “melhor idade” dada ao idoso para justiçar o impossível de ser jus- tificado é um exemplo. A pessoa não mudou nada em relação a sua qualidade existencial. A pergunta que nos coloca em xeque é: até quando vamos conti- nuar nos enganando. Continuamos os mesmos egoístas dos tempos chamados primitivos, escamoteado pelo desenvolvimento da tecno- logia e outras distrações. A infelicidade é uma presença marcante nas relações e nos monó- logos humanos, trazendo uma falsa sensação de dialogo. Jesus costu- mava dizer: “Encontre a verdade e ela te libertará.” Qual essa verdade? Trata-se de um texto escrito e decorado ou uma ação da Consciên- cia que é a nossa alma? Este é o incómodo dogmático de alguns pes- quisadores. No dizer do autor da obra Decodificando o corpo Bioenergético, Fraser (2010) escreve que é quase impossível ver o corpo como um conjunto de ondas e partículas interativas que formam uma rede. Diante disso, o mistério da natureza se mostra belo a partir do mo- mento em que somos constituídos exatamente daquilo que não per- cebemos. A solução para esse problema estaria na física quântica, onde tudo está interligado, mostrando que muitas vezes nossa inca- pacidade é perceptiva. No universo Quântico da consciência não há faixa etária, não exis- te causalidade nem temporalidade. Apenas o que estar lá é a vida fluindo sem explicação ou qualquer outro argumento. O que há é ape- nas o EU SOU, ou seja, aquilo que é sem ilusões, crenças ou fantasias. miolo-idosos.indd 65 2/21/2018 8:58:30 PM — 66 — REFERÊNCIAS Abdala, G. A., Kimura, M., Duarte, Y. A. O., Lebrão, M. L., Santos, B. Religiosi- dade e qualidade de vida relacionada à saúde do idoso. Rev. Saúde Pú- blica, 2015, 49:55. Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v49/ pt_0034-8910-rsp-S0034-89102015049005416.pdf Acesso em: 7 de Maio de 2017. Assis, C., Gomes, J., Zentarski, L. Religiosidade e qualidade de vida na ter- ceira idade: Uma revisão bibliográfica a partir da produção científica. Rev. Intercâmbio, 2013, 02. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/ descarga/articulo/5175301.pdf Acesso em 7 de Maio de 2017. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. 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Na nossa cultura, o termo “paliativo” traz a conotação de uma me- dida inconsistente ou de algo sem valor, de menor importância que comumente, fica associada ao “não ter mais o que fazer”. Para mui- tos, a limitação do suporte é a principal função da abordagem do cui- dado paliativo, o que dificulta a indicação concomitante ao tratamen- to curativo. Podemos entender que existem duas atuações específicas em CP: a assistência concomitante ao tratamento curativo e a assis- tência de cuidados paliativos exclusivos, quando se amplia a priorida- de de cuidar do sofrimento biopsicossocial e espiritual (Seki; Galhei- go, 2010; Fonseca; Fonseca, 2010) miolo-idosos.indd 68 2/21/2018 8:58:31 PM — 69 — A integração do CP ao tratamento curativopossibilita uma assis- tência mais ampla e que está assentada no cuidado centrado no pa- ciente, focando na prevenção do sofrimento e promoção da qualida- de de vida. A própria origem do nome destaca esse aspecto. Paliativo vem de Pallium, do latim, manto, cobertor. Portanto, Cuidados Palia- tivos podem ser entendidos como Cuidados de Proteção que visam a melhora da qualidade de vida dos pacientes mediante o manejo e controle do sofrimento que doenças podem trazer. É muito provável que a concepção de CP, como sendo uma prática relacionada ao fim da vida, esteja calcada na gênese do movimento, que se deu em hospices nos EUA e Europa. Foi da assistência à pacien- tes oncológicos que nasceu a nova abordagem através do trabalho da médica, enfermeira e assistente social Dame Cicely Saunders, em meados dos anos 60, na Inglaterra. Numerosos trabalhos surgiram desde o início do século XIX em vários pontos da Europa e Estados Unidos, como Jeanne Garnier, Mary Aikenhead, Rose Hawthorne e Cicely Saunders. Embora essas mulheres pioneiras não se conheces- sem pessoalmente, tiveram como objetivo comum cuidar das pessoas que estavam morrendo, e em particular dos pobres. (Pessini; Bertha- chini, 2005). Atualmente, a OMS (WHO, 2017), o Conselho Regional de Medici- na de São Paulo (OLIVEIRA, 2008) , a Associação de Medicina Inten- siva do Brasil (Moritz et al., 2011), a American Thoracic Society (Lanken et al., 2008), American Society of Clinical Oncology (Ferrel et al., 2017), orientam que o cuidado paliativo deve começar no momento do diag- nóstico de uma doença grave e ameaçadora à vida. Embora os cuida- dos paliativos estejam cada vez mais integrados nos cuidados onco- lógicos contemporâneos, permanecem as barreiras ao envolvimento de cuidados paliativos na assistência a pacientes portadores de outras patologias de igual gravidade. Atualmente, integração da abordagem junto a pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) grave, em situações de prematuridade ou gestações de alto risco, in- miolo-idosos.indd 69 2/21/2018 8:58:31 PM — 70 — suficiência cardíaca congestiva avançada (ICC), hipertensão pulmo- nar, doença renal terminal, doenças neuro-degenerativas, síndrome de fragilidade e em Unidade de Terapia Intensiva vem se ampliado, entretanto há um longo caminho de educação junto aos profissionais e discussão sobre benefícios relacionados a precocidade na indicação (WHO, 2017). O modelo interdisciplinar de atuação é a base do CP e possibili- ta outro olhar sobre o mesmo. A partir da integração das diferentes abordagens envolvidas, a construção de um plano centrado nas ne- cessidades peculiares de cada paciente e seus familiares favorece o estabelecimento de uma conduta que integra e respeita demandas biológicas e biográficas, promovendo dignidade e qualidade de vida a partir de uma atuação co-responsável de todos os envolvidos. Pacien- te, família e equipe tem seus papeis e opiniões validadas nas decisões a serem tomadas possibilitando maior clareza na definição da trajetó- ria do tratamento e dos objetivos de cuidado a serem alcançados. A integralidade no cuidado solicita articulação, conexão e cumpli- cidade entre os profissionais, em função da complexidade dos sinto- mas impostos por doenças graves e seus tratamentos. Normalmente, tudo isso provoca grande impacto e desconforto em diferentes esferas da vida do paciente agravando situações de mal estar físico e emocio- nal, que demandam grande adaptação por parte de todos os envolvi- dos no processo de tratamento. Saporetti e Andrade (2012) propõem uma descrição que nos auxilia a identificar e planejar intervenções com foco na assistência ao paciente e família, ilustrando didatica- mente os principais sintomas, sofrimentos e objetivos de cuidado em cada dimensão afetada. No quadro abaixo, sugerimos os profissionais essenciais, sem nos esquecer que cada membro da equipe pode ofe- recer suporte em cada dimensão, respeitando as especificidades de sua área. O que apontamos, são diretrizes para pensar na composição de equipes e profissionais que deveriam estar acessíveis na assistên- cia em CP: miolo-idosos.indd 70 2/21/2018 8:58:31 PM — 71 — Dimensão Física Dimensão Emocional Dimensão Sócio-Familiar Dimensão Existencial Corpo Mente Interpessoal Espiritual Médicos, enfermeiras, fi- sioterapeutas, nutricio- nistas, terapeutas ocupa- cionais, fonoaudiólogos, farmacêuticos psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, volun- tários, psicólogos Líderes religiosos, sacedor- tes de diferentes crenças, capelão, psicólogos Um material desenvolvido pela EAPC, traduzido em 2013, e nos traz algumas competências que são consideradas como centrais na formação dos profissionais que atuam em CP. No quadro abaixo, te- mos a descrição dos tópicos sugeridos: Quadro: As dez competências centrais em cuidados paliativos 1. Aplicar os constituintes centrais dos cuidados paliativos, no ambiente próprio e mais seguro para os doentes e famílias 2. Aumentar o conforto físico durante as trajetórias de doença dos doentes 3. Atender às necessidades psicológicas dos doentes 4. Atender às necessidades sociais dos doentes 5. Atender às necessidades espirituais dos doentes 6. Responder às necessidades dos cuidadores familiares em relação aos objetivos do cuidar a curto, mé- dio e longo prazo 7. Responder aos desafios da tomada de decisão clínica e ética em cuidados paliativos 8. Implementar uma coordenação integral do cuidar e um trabalho de equipe interdisciplinar em todos os contextos onde os cuidados paliativos são oferecidos 9. Desenvolver competências interpessoais e comunicacionais adequadas aos cuidados paliativos 10. Promover o autoconhecimento e o contínuo desenvolvimento profissional Fonte: Gamondi; Larkin; Payne. 2013a, Quadro 4. A partir disso, podemos refletir sobre a formação específica do Psi- cólogo que se propõe a atuar nesta área. No Brasil, ainda não temos orientações curriculares estabelecidas, entretanto, o movimento de profissionais interessados vem aumentando e a expansão de CP em nosso país demandará, cada vez mais, psicólogos que tenham conhe- cimento e expertise para: miolo-idosos.indd 71 2/21/2018 8:58:31 PM — 72 — • manejar sofrimentos emocionais e existenciais intensos e refra- tários, tais como ansiedade, depressão e/ou perda de sentido de vida; • auxiliar no processo de adaptação as mudanças impostas pelos tratamentos; • oferecer técnicas de intervenção, como por exemplo: relaxamen- to e outras estratégias não verbais, para auxiliar no manejo não farmacológico de sintomas como dor, fadiga, dispneia; • apoiar e orientar pacientes e familiares no processo de elabora- ção de lutos ao longo da doença; • discutir aspectos bioéticos e contribuir para construção de do- cumentos como o Testamento Vital; • intervir com a equipe de saúde para prevenir o adoecimento dos profissionais envolvidos no cuidado; • favoreçer a comunicação entre paciente-família-equipe; • ser um educador e multiplicador da filosofia CP na instituição; Atualmente, observamos que o psicólogo atua muitas vezes indi- retamente em algumas situações, como por exemplo, na discussão de casos e elaboração de estratégias de intervenção junto a pacientes e famílias que recusam suporte psicológico formal. A educação em CP é entendida como um campo em franco cresci- mento. Temos a cada dia um maior número de profissionais que bus- cam formação e as sociedades vem se mobilizando para o reconheci- mento como uma área de atuação. CP podem ser desenvolvidos em ambiente ambulatorial, hospitalar, em hospices e no próprio domi- cílio do paciente. No Brasil, essas duas últimas modalidades têm mui- to a caminhar pelas dificuldades políticas e geográficas, além de não termos um número suficiente de profissionais capacitados. Alguns profissionais ainda confundem a abordagem como sendo uma boa prática médica. Cuidadospaliativos demandam expertise e controle impecável do sofrimento biopsicossocial e espiritual, demanda toda miolo-idosos.indd 72 2/21/2018 8:58:31 PM — 73 — uma articulação interdisciplinar, sendo um cuidado muito mais refi- nado na sua prática. IDOSO NO SÉCULO XXI Projeções das Nações Unidas (Fundo de Populações) indicam que uma em cada 9 pessoas no mundo tem 60 anos ou mais. O estudo aponta, ainda, que, em 2050, pela primeira vez, haverá mais idosos que crianças menores de 15 anos. Em 2012, 810 milhões de pessoas ti- nham 60 anos ou mais, constituindo 11,5% da população global. Pro- jeta-se que esse número alcance um bilhão em menos de dez anos e mais que duplique em 2050, alcançando 2 bilhões de pessoas ou 22% da população global. Já no Brasil, segundo pesquisa do IBGE, a popu- lação idosa totaliza 23,5 milhões de pessoas (BRASIL, 2017). Apesar de melhorias na assistência de pacientes idosos em paí- ses desenvolvidos, o aumento de idosos em quase todas as socieda- des sinaliza desafios e riscos de uma assistência de pouca qualidade. O paciente geriátrico é o mais afetado pela condição da finitude hu- mana. Ao longo de seu processo de envelhecimento frequentemen- te acumula doenças e enfrenta perdas no âmbito motor, cognitivo e social. Uma vez entendido nesses termos, parece claro que CP é uma abordagem que, por sua amplitude de atendimento, agrega suporte na assistência ao paciente geriátrico (DAVIES; HIGGINSON, 2004). No entanto, a presença de cuidados paliativos na geriatria ainda não está consolidada, mesmo compreendendo todos os declínios que podem ocorrer com o envelhecimento, acarretando prejuízos nas funções orgânicas e muitas vezes, preservando-se vida, numa exis- tência sem qualidade. A 3o idade é identificada como o tempo da maturidade, tempo de reflexão sobre a vida vivida. O ser humano envelhece e carrega con- sigo suas histórias. O processo do viver apresenta cobranças que se postergadas, acumulam e dificultam o enfrentamento do envelheci- mento. Se ao longo do viver o ser humano fez escolhas das quais se miolo-idosos.indd 73 2/21/2018 8:58:31 PM — 74 — orgulha, o processo de envelhecimento acontece de forma distinta de quando o idoso nota que suas escolhas não tiveram sentido. Solano, Scazufca e Menezes (2011) apontam em estudo realizado na cidade de São Paulo, que mais da metade dos idosos com baixa renda faleceram padecendo com os seguintes sintomas: dor, fadiga, dispnéia, depressão, anorexia, incontinência urinária, insônia e obs- tipação no último ano de vida. Apesar dos idosos terem tido uma fre- quência relativamente alta de visitas aos serviços de saúde, muitos destes sintomas deixaram de ser identificados precocemente e trata- dos, entre eles a depressão, a incontinência urinária e a ansiedade, Dependendo da patologia surgem necessidades específicas a se- rem administradas. Por exemplo, um senhor portador de demência justifica a necessidade de cuidados específicos tais como conheci- mento de gestão de problemas comportamentais bem como avalia- ção e manejo de dificuldades cognitivas. Apoio aos familiares é fun- damental na medida em que se faz necessário tomada de decisões a respeito de tratamento, sobretudo apoioá-los em relação a como li- dar com a carga elevada de cuidados com o doente crônico (Van Der Steen et al., 2014). É notório enfatizar que os cuidados paliativos e os valores funda- mentais da geriatria se articulam e se integram: o paciente está no centro dos cuidados; a abordagem é interdisciplinar, holística e com- preensiva; paciente e família passam a ser vistos como uma unidade de cuidados. Desse modo, tem-se como prioridade garantir, a inde- pendência funcional e a qualidade de vida do idoso, assim como uma avaliação regular e formal que assegure a identificação e tratamento das intercorrências que são esperadas no processo de envelhecimen- to (PESSINI; BERTACHINI, 2005). A demanda por CP é um problema atual de saúde pública, haja vis- ta o progressivo envelhecimento da população mundial, cuja conse- quência revela-se pelo substancial crescimento do número de idosos, que resulta, por sua vez, no aumento da incidência de doenças crô- miolo-idosos.indd 74 2/21/2018 8:58:31 PM — 75 — nico-degenerativas não transmissíveis (DCNT). Dentre tais doenças, destaca-se a prevalência do câncer e de outras enfermidades crôni- cas, as quais perduram por longos períodos de tempo, com múltiplos problemas coexistentes, dependência progressiva, e a necessida- de de cuidados intensos, o que aumenta o percentual dessa popula- ção dependente de cuidados hospitalares ou em seus domicílios (VE- RAS, 2009). A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2014) pensan- do na indicação do cuidado paliativo à esta população, propõe os se- guintes pilares e focos de cuidado: Reconhecem que o objetivo do cuidado é a pessoa e não a doença Uma doença não existe até que ela se manifeste em uma pessoa. Cada doença é recebida por um corpo, uma psique, uma família, uma co- munidade, um sistema. A parceria de geriatria com CP pode atender a necessidade de controle da doença, bem como controle dos sinto- mas que mais limitam a capacidade de viver do idoso, de acordo com a sua perspectiva. O controle da doença, ou das doenças, é importante, no entanto em CP os médicos reconhecem a morte como processo natural do hu- mano e valorizam ao preceito da ética médica de não causar dano e de preservar a dignidade de seu paciente. Esse reconhecimento pro- move reflexões que favorecem escolhas diferentes das mais óbvias, vistas quotidianamente em UTIs no nosso país: senhores e senhoras idosos(as), entubados(as), sedados(as), sem possibilidade terapêu- tica de cura, contidos(as) no leito, distantes de seus familiares, rece- bendo drogas de fortes efeitos colaterais, que não necessariamente irão contribuir para a saúde e para a melhora do quadro clínico da- queles pacientes. Quando o objetivo de cuidado é a doença perde- -se de vista a pessoa que vive aquela doença. Em cuidados paliativos, o paciente e sua biografia são fundamentais para o planejamento de assistência. Uma internação em UTI, por exemplo, deve ser planeja- miolo-idosos.indd 75 2/21/2018 8:58:31 PM — 76 — da de forma cuidadosa para que se preserve a dignidade do paciente. Nesses casos, oferecer controle da patologia junto com o controle de sintomas visando um propósito do paciente e da família. “Que ganho tem o médico que sabe prescrever opióides mas não sabe es- cutar atentamente aqueles que precisam dele e de sua humanidade? Me- dicina paliativa e controle de dor são ações tanto de farmacologia quanto de comunicação.” (Doyle, 1989). Promovem a autonomia São várias as questões com as quais nos deparamos quando um pa- ciente idoso portador de doença crônica apresenta um quadro agudo de agravamento. Uma delas é a posição da família perante essa rea- lidade – familiares frequentemente expressam o desejo de “poupar” o ente querido da realidade de sua situação clínica. É como se fosse uma mágica: “se não falamos sobre o assunto, ele não existe, e pode- mos seguir com nossas vidas.”. Não acontece de forma planejada, ou feita com o propósito de excluir o paciente de seu processo de trata- mento e de decisão; é feito, na maioria das vezes, com a melhor das intenções - a idéia de que o familiar sofrerá mais se souber do diag- nóstico de doença incurável. No entanto, é fundamental compreendermos e conhecermos quem se coloca aos nossos cuidados. Se foi alguém que sempre teve a necessidade de participar de todas as decisões ativamente, buscando informações, esclarecendo dúvidas e se posicionando ativamente, ou se o seu posicionamento foi “terceirizar suas escolhas”. É alguem que gosta de dividir suas histórias e compartilhar sentimentos ou alguém que foi mais racional e pouco nomeava o que sentia? A relação com o paciente deve ser de cultivoda comunicação res- peitosa e empática. Entendemos que tão importante quanto o con- teúdo do que é dito ao paciente é a forma como se dá essa fala. Ao lon- go da relação do paciente com a equipe vai-se conhecendo a história miolo-idosos.indd 76 2/21/2018 8:58:31 PM — 77 — e a personalidade do paciente, a composição e a dinâmica familiar. Promove-se a autonomia a medida que ela é desejada e cultivada pelo idoso, para assim poder lhe proporcionar escolhas de cuidado que lhe façam sentido. Um dos aspectos fundamentais em CP é favorecer escolhas para os pacientes a respeito de como desejam ser cuidado no fim de vida, onde desejam morrer, por exemplo. Apesar da grande maioria afirmar que deseja morrer em casa, de fato poucos o fazem. Mes- mo que alguns pacientes mudem de opinião a respeito de onde de- sejam morrer, ainda assim a maioria, mesmo em grupos de pacien- tes idosos de idade mais avançada, ainda prefere morrer em casa (Higginson; Sen-Gupta, 2000). Faz necessário entretanto, discutir as condições existentes para suporte para o controle de sintomas nos ultimos dias e horas de vida. Entender se há disponibilidade de home care, profissionais capacitados, acesso a medicação e prin- cipalemtne, se a família tem condições emocionais de experenciar este momento. Para usuários e familiares do serviço de cuidados paliativos, a co- municação representa um aspecto positivo da relação que eles esta- belecem com os/as profissionais da saúde. Neste sentido, sentem-se esclarecidos sobre a doença, os resultados de tratamentos e as expec- tativas de evolução da doença, o que facilita a aceitação do processo e prepara tanto o doente quanto os familiares para o desfecho final da doença (Matos; Pires; Sousa, 2010). Lidam com as comorbidades como situações próprias do fim da vida Como falamos anteriormente, um idoso tende a apresentar mais de uma doença. Entender o impacto de cada doença, limitação e perda se dá a partir da escuta do paciente. As comorbidades no idoso, de acordo com os cuidados paliativos, devem ser tratadas e paliadas. O que significa ampliar o cuidado da patologia para também o cuidado com os sintomas que a doença e o tratamento traz. miolo-idosos.indd 77 2/21/2018 8:58:31 PM — 78 — Compreender que diferentes terapias podem colaborar para sus- tentar qualidade de vida, mesmo diante de comorbidades que avan- çam, pode ser uma forma de ampliar a assistência. Sustentar o olhar para o paciente e não para as doenças que ele carrega consigo é pri- mordial para o melhor manejo das comorbidades. Uma intervenção de reabilitação, por exemplo, pode visar sustentar uma habilidade motora por um tempo maior, gerando qualidade de vida. Compreen- der o momento em que a estratégia de reabilitação gera mais frustra- ção e desconforto do que benefícios é crucial e implica em respeitar o processo do avanço de comorbidades no idoso. Intervêm desde a independência até a total dependência O acompanhamento do declínio da saúde do idoso pode favorecer a sustentação de sua autonomia e independência, com estratégias de reabilitação, controle de sintomas e suporte psicológico. Uma equi- pe preparada para lidar com o declínio como natural do processo de adoecimento age de forma muito diferente junto ao seu pacien- te, contribuindo para a aceitação do processo e entendendo o mesmo como um caminho a ser percorrido e não uma batalha a ser vencida. O enfrentamento das perdas é um aspecto importante a ser cuidado e o acompanhamento psicológico contribui de forma significativa para esse objetivo da assistência. O perceber-se mais dependente pode levar a uma perda provisó- ria de sentido, e a vivencia desse processo deve ser compreendida de modo pessoal e instranferivel, ou seja, é um processo singular. Pom- peia e Sapienza (2011) apontam o quanto a morte de um sonho, coloca ao indivíduo e a todos que o rodeiam a condição de ausência de con- trole sobre a própria vida. O mundo que existia até aquele momen- to, com determinadas referencias e “certezas” é colocado em xeque e surge a necessidade de reorganização e reconstrução de um novo projeto existencial. Apoio da psicologia pode favorecer a comunica- ção para alinhamento de expectativas e consensos em processos de miolo-idosos.indd 78 2/21/2018 8:58:31 PM — 79 — tomada de decisões, por exemplo. Dessa forma, conciliar novas possi- bilidades de existência, eventuais tratamentos que acarretem mudan- ças de papeis, convivência com perdas concretas funcionais e cogni- tivas, alterações na imagem corporal, afastamento de rotinas sociais e familiares, entre outras condições que se impõe, podem ser situações em que o idoso e a família se percebem amparados. Exigem abordagem multi-interdisciplinar Para que esse cuidado ampliado possa acontecer é necessário um tra- balho integrado de equipe. As múltiplas escutas que acontecem atra- vés de ouvidos da médica, fisioterapeuta, psicóloga, nutricionista, etc, vão gerando uma rede de cuidado e assistência que visa amparar o paciente e a família em suas diferentes necessidades. É através do diálogo entre os membros da equipe que se contrói a assistência baseada nas necessidades do paciente idoso e sua família. A abordagem do cuidado paliativo é extremamente complexa e de- manda atuação de Equipe Multiprofissional Especializada, sendo en- contradas algumas diretrizes indicando equipes mínimas (Who, 2017; Gamondi; Larkin; Payne, 2013b). Com estes olhares, de profissionais que compreendem vida e existência de modos complementares, dei- xa-se de tratar exclusivamente a doença e passa-se a tratar a pessoa que tem uma doença, uma pessoa com história, com valores e com um projeto existencial que carece ser ouvido e considerado na to- mada de decisões. Vivenciar o sofrimento do próximo e oferecer-lhe algo mais que medicamentos pode ser a descoberta que irá revigorar muitos profissionais. Assim, faz-se necessário que os profissionais se conscientizem do caráter finito de sua própria vida, para que desper- tem o interesse em aprender a respeito das formas humanas e dignas de lidar com a finitude do ser. A educação para lidar com a morte e o processo de luto é algo es- sencial na formação dos profissionais de saúde, principalmente em equipes de CP. Ainda temos o tema abordado de modo incipiente nas miolo-idosos.indd 79 2/21/2018 8:58:31 PM — 80 — graduações e especializações gerais. É urgente ampliar espaços de educação para os profissionais, através de treinamentos e educação continuada, de forma que possam estar mais bem preparados para vi- venciar e lidar com as demandas naturais e inerentes do contexto de adoecimento, morte e luto (Liberato, 2015) A percepção de que a vida tem um fim é angustiante em sua natu- reza. O profissional de saúde que se coloca presente cotidianamen- te nessa assistência se beneficia da atenção a sua própria saúde. Pode parecer óbvio que o médico deve cuidar de si mesmo para poder cui- dar de seu paciente, no entanto risco de Síndrome de Burnout e Fadi- ga de Compaixão é uma preocupação presente na assistência aos pa- cientes graves (Barbosa; Souza; Moreira, 2014). “O despreparo dos profissionais de saúde e as dificuldades pessoais dian- te da morte e do processo de morrer retiram o direito do paciente e da fa- mília de expressar nesse momento pensamentos, sentimentos, preferên- cias, pendências que, por sua vez, estão diretamente relacionados com o processo de luto, seja ele antecipatório ou pós-óbito do paciente” (Braz; Franco, 2017, p.92). Buscam otimizar a capacidade funcional com ênfase no conforto Lidar com síndromes geriátricas, bem como lidar com as doenças que mais acometem os idosos, requer atenção ao manejo de sintomas com excelência e cuidado com os efeitos colaterais. Atenção a confu- são mental e a risco de queda, por exemplo, são aspectos fundamen- tais na atenção ao idoso. Síndromes geriátricascomo incapacidade cognitiva, instabilidade postural, imobilidade e incapacidade comunicativa ocorrem com fre- quência na população de idosos. O desconhecimento das particulari- dades do processo de envelhecimento pode gerar intervenções des- necessárias, capazes de piorar o estado de saúde da pessoa idosa. A incontinência urinária também é reconhecida como uma das grandes miolo-idosos.indd 80 2/21/2018 8:58:31 PM — 81 — síndromes geriátricas. Ela afeta a independência do indivíduo, com- prometendo, indiretamente, a sua mobilidade. O idoso com incon- tinência esfincteriana sofre limitação de sua participação social, em virtude da insegurança gerada pela perda do controle miccional (Mo- raes; Santos; Marino, 2010). Reconhecer e planejar para essas situações, por exemplo, favorece maior controle para o idoso que se sente emocionalmente fragiliza- do pelas limitações que vive. Ao mesmo tempo, também pode facilitar dinâmicas familiares e a assistência de cuidadores. Uma outra questão delicada na promoção de conforto para o idoso é uma situação bastante comum em internações hospitalares, quan- do o paciente se queixa de dor. idosos e crianças são aqueles que rece- bem sub-doses de analgésicos com mais incidência (Colleau, 2000). Aceitam a finitude do ser humano Pensar que a medicina é uma área de atuação em que a morte é um inimigo a ser combatido é um conceito presente na nossa socieda- de hoje. Entende-se que é através da tecnologia e dos conhecimentos médicos que o paciente poderá viver mais. O medo de falar a respeito da morte, o medo de pensar sobre ela como se atraísse sua presença é comum. Em reuniões sociais, ou conversas entre familiares, ao surgir o tema da morte alguém pode falar: “Vira essa boca pra lá”. Para o idoso, pode ser assustador falar sobre a morte, mas também pode ser mais assustador não falar sobre o tema. O não-falado não morre dentro da boca, mais que isso o não-falado cresce no pensa- mento do idoso que muitas vezes evita expressar suas preocupações acerca do tema para não deixar seus familiares tristes ou preocupa- dos. Uma abordagem que aceita a realidade da finitude e se dispõe a trazer luz sobre o assunto, com delicadeza e respeito aos valores e crenças dos envolvidos, alivia a angustia de todos os envolvidos. No que concerne ao processo de morrer, Fratezi e Gutierrez (2011) ressaltam que este pode ser vivido de distintas maneiras, de acordo miolo-idosos.indd 81 2/21/2018 8:58:31 PM — 82 — com os significados compartilhados por esta experiência, haja vista que esses significados são influenciados pelo momento histórico e pelos contextos socioculturais nos quais o indivíduo encontra-se in- serido. Nesta perspectiva, o morrer, além de ser um processo biológi- co, apresenta-se como uma construção social. Quando o ser humano se percebe ameaçado em sua vida, existem várias questões que sur- gem e demandam atenção adequada. O familiar idoso certamente já experimentou alguns ou vários lu- tos ao longo de sua vida. Ele reconhece a existência da morte e já teve oportunidade de estar próximo dela. Validar essa realidade é uma for- ma importante de validar a trajetória de vida daquela pessoa. Um paciente idoso que, apresenta capacidade cognitiva preser- vada e demonstra desejo de manter a autonomia de cuidado mere- ce não somente ser ouvido, mas sobretudo ser respeitado e conduzido de forma ética e atenta para que sua finitude seja amparada nas di- mensões física, emocional, familiar, social e espiritual. De acordo com Saporetti (2008), Cuidados Paliativos devem abordar o ser humano em sua totalidade, incluindo o cuidado es- piritual. Existem evidências sugerindo que apoio espiritual favo- rece elaboração de questões existenciais e sintomas depressivos no final da vida. Somos uma cultura que diante da morte costuma buscar consolo religioso. É comum pacientes expressarem o desejo de estarem em paz com Deus e com seus familiares, serem capazes de rezar e sentirem que sua vida foi completa. Segundo Ira Byock (2000, p.8), a grande síntese da espiritualidade no fim da vida é dada pela reconciliação com tudo e todos, o que se resume em cin- co frases: • Perdoe-me! • Eu perdôo você! • Obrigado! • Eu te amo! • Adeus! miolo-idosos.indd 82 2/21/2018 8:58:31 PM — 83 — Para que esse caminho em direção a paz desejada e expressada por muitos pacientes e familiares possa ocorrer é necessário encarar a realidade da presença da morte. É somente através dela que o ho- mem se defronta com a realidade da vida: tudo termina, tudo finda. E a pergunta urgente é: Qual é o sentido disso tudo? Amparar e acolher o idoso doente é amparar e acolher a angustia da morte. O PROCESSO DE LUTO: ENVELHECIMENTO, FRAGILIDADE E FINITUDE Luto é o processo natural e esperado de elaboração psíquica e enfren- tamento da vivência de perdas significativas esperadas ou não, no ci- clo vital (Parkes, 1998; Franco, 2002). É interessante constatarmos que nem sempre caráter “natural e esperado” é vivido e experenciado, seja pelo idoso, seja por seus famíliares. Ariés (2003) aponta profundas mudanças em relação a experiÊncia da morte na sociedade e ela pas- sa a ser vivido de modo interdito. Isto tende a influenciar desde a pos- sibilidade de falarmos abertamente sobre nossos sentimentos frente a perda, até todo o processso de reconhecimento social dos proces- sos de luto. O luto é vivenciado como um processo de oscilação natural e ne- cessário em um movimento voltado para a perda e um movimento voltado para a restauração (aprender novas tarefas, se perceber com outras possibilidades, conciliar a vida às rotinas impostas pelo trata- mento, por ex.) e também entrar em contato com a dor da perda (en- tristecer-se, chorar, estar menos disponível para conversar, expressar dúvidas e questionamentos em relação ao adoecimento), de modo a construir seu significado único para o luto. Este processo pode ser observado tanto nos momento de um diagnóstico inicial quanto em uma fases avançada da doença e de proximidade com a finitude (Franco, 2016; Konigsberg, 2011; Stroebe; Schut, 2015). Podemos pensar a partir dessa definição que o processo de luto está colocado para o idoso e sua família a partir do próprio proces- miolo-idosos.indd 83 2/21/2018 8:58:31 PM — 84 — so de envelhecimento. Perdas percebidas como “simples e esperadas” por exemplo, acuidade visual e auditiva, memória, podem ser expe- rimentadas com profundo sofrimento. Ressignificações biográficas como a chegada da aposentadoria e mudança de papel na família, vão se colocando como imperativas no processo de envelhecimento saudável para que novos sentidos possam ser descobertos e uma vida com qualidade possa ser desfrutada. O luto revela uma situação de transição psicossocial, as perdas impõem aprendizado de novas tarefas e reestruturação de identida- de tanto para o idoso quanto para seus familiares (que inclusive po- dem ser idosos também). Faz com que tenham que assumir papéis que não eram seus anteriormente, por exemplo: cuidar das finan- ças ou de tarefas domésticas; repensar seu modo de estar no mundo e seu modo de ser-no-mundo-com os outros. Entretanto, aqui pen- samos no idoso que vive seu processo de luto, sem necessariamen- te conviver com uma doença grave ou ameaçadora da vida. Neste capítulo nos ateremos ao idoso que adoece e que portanto, terá a condição de fragilidade acentuada e escancarada pelos processos que uma situação ameaçadora da vida impõe a todos que com ela convivem. O suporte emocional ao processo de luto é um domínio essencial para qualquer profissonal que atue em CP, entretanto, cabe ao psicó- logo se instrumentalizar tanto para intervenções diretamente com pacientes-familiares ou equipes, quanto para dar subsídio para que os profissionais possam manter ações terapêuticas durante as expe- riência de perdas que ocorrem desde o diagnóstico deuma doença crônico-degenerativa, ou mesmo um processo agudo que ressalte a fragilidade no idoso, até as últimas horas de vida. Espera-se que se essa vivência for adequadamente manejada, seja por psicólogo ou por outros integrantes da equipe multiprofissional, situações de luto com- plicado podem ser previnidas e quando identificadas podem ser mo- nitoradas e encaminhadas para terapia de luto. miolo-idosos.indd 84 2/21/2018 8:58:31 PM — 85 — Para fins descritivos, a seguir ressaltamos separadamente aspectos do papel do psicólogo junto ao paciente e junto a família. Suporte ao Idoso: A idade avançada pode ser acompanhada pela necessidade de segu- rança e previsibilidade, para umas pessoas mais e outras menos, de- pende de suas características individuais. Saber que o tempo a ser vivido está se encurtando pode gerar reflexões acerca das escolhas feitas, pode intensificar a necessidade de controle, trazer o conflito de ser um grande fardo ou pode parecer sem sentido - nada realmente vale a pena uma vez que tudo acaba um dia. Esse processo fica bas- tante exacerbado a partir do diagnóstico de uma doença aguda ou crônica. Uma situação corriqueira quando se cuida de pacientes gra- ves é o momento em que os tratamentos não dão mais conta de man- ter a doença sob controle. A comunicação dessa notícia deve ser feita com atenção e respeito. O paciente tem o direto a saber a real condi- ção clínica de sua saúde, entretanto não tem o dever de o saber, caso explicíte delegar esse papel a um membro da família, por exemplo. Por outro lado, o paciente idoso desejoso de informação, merece ser comunicado da evolução de seu quadro clínico. Outro aspecto importante a considerar é o momento que conhe- cemos esta pessoa: conhecemos em uma unidade ambulatorial, con- sultório ou a beira do leito em um hospital? Em uma fase inicial de uma doença ou ja numa fase avançada, por vezes, ultimas semanas ou dias? Cada uma dessas questões pode nortear nossa intervenção junto ao paciente e também junto aos familiares. A proximidade de morrer desperta um processo chamado luto an- tecipatório. É a percepção real de que a vida pode acabar e a partir de tal percepção surgem novas reflexões, sentimentos, sensações e dinâ- micas nas relações familiares e sociais. Viver a possibilidade real da perda é algo experimentado pelo paciente e por seus familiares. Rea- ções sobrepostas de choque e negação, desespero e reorganização miolo-idosos.indd 85 2/21/2018 8:58:31 PM — 86 — podem acontecer oscilando entre o contato com a realidade da per- da e a esperança de que a morte não chegue. Ao mesmo tempo que o luto antecipatório apresenta uma realidade temida e não desejada, ele oferece a oportunidade de vivenciar um tempo de preparo e des- pedida. O suporte ao processo de luto permite neste sentido o favore- cimento de elaborações e aponta caminhos para que o paciente pos- sa decidir (se neste momento conseguir) como e de quem gostaria de se despedir, por exemplo. Também pode ser experimentado como um tempo de “ajustes de pendência” e validação do legado a ser deixado. Como mencionado antes, o trabalho da equipe de cuidados palia- tivos compreende desde a complexidade da comunicação de diag- nóstico e prognóstico à favorecer o exercício da autonomia, até o cui- dado da família, reflexões sobre bioética e validação da biografia do paciente. É levando em conta essas premissas que surge a possibili- dade da construção de um documento que ajude, especialmente, o paciente a fazer escolhas em relação a forma como quer ser cuidado até sua morte. O testamento vital é um documento de manifestação de vontade com relação a cuidados e tratamentos que a pessoa dese- ja ou não se submeter quando estiver fora de possibilidades terapêu- ticas de cura. Desde 2012, no Brasil A Resolução 1.995/2012, do Conselho Federal de Medicina (CFM), estabelece os critérios para que qualquer pessoa – desde que maior de idade e plenamente consciente – possa definir junto ao seu médico quais os limites de terapêuticos durante um pro- cesso de tratamento: “regras que estabelecerão os critérios sobre o uso de tratamentos considera- dos invasivos ou dolorosos em casos clínicos nos quais não exista qualquer possibilidade de recuperação. Sob o nome formal de diretiva antecipada de vontade (DAV), mas já conhecido como testamento vital, trata-se do registro do desejo expresso do paciente em documento, o que permitirá que a equi- pe que o atende tenha o suporte legal e ético para cumprir essa orientação.” miolo-idosos.indd 86 2/21/2018 8:58:32 PM — 87 — Deve-se ter em mente que a DAV é um instrumento de autonomia do paciente, que sustenta os princípios do cuidado centrado no pa- ciente. Ressalte-se, ainda, que a autonomia não é ilimitada, uma vez que ela limita-se pelas normas jurídicas vigentes e pelas normas éti- cas do profissional de saúde. No caso do médico, pelo Código de Ética Médica e pelas demais resoluções do CFM. Dessa forma é fundamen- tal destacar que a eutanásia é conduta ilícita no Brasil, ou seja, é crime e é também vedada pelo Código de Ética Médica. Atualmente, as Equipes de CP são acionadas por outros especilis- tas para auxiliá-los a estabelecer os objetivos de cuidado e procedi- mento/tratamento que considere proporcional e coerente com suas expectativas e valores. Vale aqui apontar o quão importante seria que as DAV’s pudessem ser construídas não apenas em momentos críti- cos, e por vezes nas últimas semanas, uma vez que o processo de luto antecipatório e toda oscilação esperada, pode dificultar que a pes- soa consiga expressar valores e com isso, preservar a dignidade na sua medida. A cada detalhamento da complexidade na assistência ao idoso en- tendemos a importância de uma equipe integrada e interdisciplinar na assistência. Acompanhar e orientar sobre a construção de tal do- cumento implica em, entre outras coisas, atestar que o paciente está em pleno gozo de suas funções cognitivas. Uma parceria entre médi- co e psicólogo favorece clarezaa partir do fornecimento de informa- ções que alinhem expectativas, permite a desconstrução de fantasias, além de favorecer a elaboração suscitada por esse processo. Por estar- mos ainda em uma fase de implementação da assistência de cuidados paliativos no Brasil e por ser essa resolução tão recente ainda, pouco se tem documentado sobre o acompanhamento psicológico na ela- boração do testamento vital junto a pacientes e familiares. Faz-se no- tável destacar que todos os que estão participando desse processo de implementação de CP estão, de alguma forma, contribuindo para a transformação de um cultura em nosso país. miolo-idosos.indd 87 2/21/2018 8:58:32 PM — 88 — O acompanhamento da psicologia oferece ao idoso a oportunida- de de revisitar sua história, resgatar relações e ressignificar seu sofri- mento, bem como possibilita a observação cuidadosa de alterações cognitivas que possam surgir, zelando por sua dignidade. A DVA é um documento que pode ser alterado a qualquer momento, conforme desejo do paciente. Apoiá-lo na identificação de incertezas e, junto a equipe, no esclarecimento de fantasias a respeito de procedimentos médicos nutre confiança na relação paciente-equipe. Suporte à família: Abordamos acima a DAV e um aspecto a ser ressaltado é a impor- tância de dar espaço para a família e incluí-la na construção desse processo, pois inclusive, muitas vezes será o cuidador principal que precisará sustentar a existência da DAV e zelar para que ela seja cum- prida. Situações nas quais há expectativas distintas entre pacientes e familiares trazem profundos conflitos e impactam no cuidado e rela- ção com equipe, além de questões jurídicas, que não nos aprofunda- remos neste capítulo. Tomemos como exemplo uma esposa idosa, cujo marido encon- tra-se em com um câncer avançado e provavelmente apresenta pou- cas semanas de vida.Sob esse prisma, em um idoso portador de uma doença crônica, a evolução para a morte ocorre quando ele se encon- tra em estado de fragilidade, com declínio das funções orgânicas e da qualidade de vida, sendo imprescindível promover uma atenção in- tegral ao paciente e seus familiares, pois a aproximação da morte do ente querido desperta na família e, em especial, no cuidador, desgaste físico, financeiro e emocional (Fratezi, Gutierrez, 2011). Imagine ainda se a esposa não está de acordo com as decisões do marido expressas na DAV. Isto poderá gerar conflitos com equipe e inclusive dificulda- des na elaboração do luto. Entender se a situação acima exemplificada é alguém que no mo- mento do agravamento lancará como modo de proteger-se um dis- miolo-idosos.indd 88 2/21/2018 8:58:32 PM — 89 — curso mais racional, buscando informações mais objetivas e man- tendo-se mais focada no controle de sintomas do marido que esta em processo de morte ou se irá abrir espaço para o próprio cuidado e permitir-se expressar e nomear o próprio sentimento frente a per- da de certo modo nos direcionará para o tipo de suporte ao luto possí- vel em cada momento. Manter espaços abertos, identificar com quem da equipe esta esposa mantem melhor vínculo é fundamental para o cuidado. Parkes (2009), traz a importância do psicólogo ser capaz de ofe- recer terapias que facilitem a expressão emocional naqueles indiví- duos que não conseguem se enlular, ou seja que precisem se manter em um nível mais racional, e terapias que facilitem a reestruturação do mundo presumido em pessoas que não conseguem sair do luto, ou seja são tão emotivas que isto pode inclusive comprometer no mo- mento de uma internação, por exemplo, a capacidade para a tomada de decisão. O autor traz o conceito de mundo presumido como o nos- so mundo interno que se crê verdadeiro. Nele inclui-se as experiên- cias ao longo da vida e nosso senso de significado e propósito de vida. Sendo assim, ao se deparar com mudanças impostas na forma como se vive a vida o ser humano vive momento de crise por ter seu mundo presumido desafiado. Frequentemente, nos deparamos com familiares que se tornaram cuidadores exclusivos(as), em situações que não há auxilio de outros familiares ou mesmo, cuidadores profissionais com quem dividam a rotina de cuidado. O suporte emocional tanto para o idoso quan- to para o cuidador principal é essencial e muito bem vindo desde o momentos que as primeiras perdas são percebidas. Pensemos em ou- tro exemplo: um idoso com Alzheimer, cuja filha(o) se torna principal cuidadora(o) e os demais membros da família não conseguem (por questões práticas ou subjetivas) dividir esse cuidado. Ouvimos comu- mente relatos de sentimentos ambiguos relacionados ao cuidado: ao mesmo tempo que estes familiares se sentem cansados, sobrecarre- miolo-idosos.indd 89 2/21/2018 8:58:32 PM — 90 — gados e exaustos, não conseguem encontrar outro modo de lidar com essa realidade. Nesses casos, o psicólogo pode identificar situações nas quais o pa- drão de vínculo estabelicido entre idoso-cuidador dificulta que outras pessoas participem do cuidado, mesmo que assim desejem. No hos- pital, nós profissionais chegamos num momento muito intenso e não podemos esquecer que esta família já vive esta história, esta de cer- to modo “aquecida”, já tem suas leituras, explicações e interpretações e é muito difícil compreender cada detalhe e cada reação. Daí a im- portância do trabalho em equipe, para que os recortes das narrativas possam se juntar e trazer o enredo do idoso e da família que o acom- panha, para que assim, possamos compreender como auxilia-los no enfrentamento e na elaboração desse capítulo de suas histórias. O desejo de fuga da realidade ou a fantasia de que nada está acon- tecendo é um relato comum entre familiares e parte do processo de luto antecipatório que oscila entre a esperança de cura e a triste rea- lidade da proximidade da morte. Acolher essa dinâmica pode ajudar a família a respeitar seus limites e a se aproximar do luto que vivem, sentindo-se menos ameaçados. Como mencionado acima, o luto antecipatório permite vivenciar a perda paulatinamente, podendo fazer escolhas. Além disso, possibilita a todos os envolvidos resolver questões pendentes (expressar sentimen- tos, perdoar e ser perdoado); gerar transformações de identidade; e para a família, a possibilidade de fazer planos para o futuro sem que se sin- tam traindo o ente doente (Rando, 2000).Esse aspecto permite a famí- lia e ao paciente a construção de novos significados que podem ampa- rar a todos no processo de finitude. (Franco; Polido, 2014; Rando 2000). “O processo de luto é necessário na medida em que nós precisamos dar sentido ao que aconteceu em nossas vidas e retomarmos o controle so- bre nós mesmos, sobre o mundo e sobre as relações afetivas” (Casellato, 2005, p.20). miolo-idosos.indd 90 2/21/2018 8:58:32 PM — 91 — Franco (2014), aponta que a abordagem do CP traz consigo a co- municação empática e o olhar com foco de intervenção em todas di- mensões pode muito contribuir para a prevenção do luto complicado, uma vez que o luto antecipatório pode ser trabalhado, respeitando e considerando o papel fundamental da família no processo de adoeci- mento e perda. Alguns fatores de proteção para o luto complicado são citados por Braz e Franco (2017) e podem ser destacados no quadro abaixo: FATOR POR QUÊ? Apego seguro Pessoas demonstram maior organização e capacidade para integrar as (novas) in- formações; tendem a ativar a resiliência. Qualidade do vínculo Uma relação sem con itos e sem pendências tem um potencial complicador menor. Tipo de apoio (como é perce- bido pelo enlutado; avalia- ção subjetiva) Adequado, necessário, su ciente (Franco, 2002) e comunicação entre membros sa- tisfatória. Con gura-se como um apoio saudável e continente. Realização de rituais Importante para o processo de separação e despedida; auxilia no fechamento do ciclo (Franco, 2002). Luto antecipatório Permite despedidas, resolução de pendências, início da construção de novos signi cados, identidades, relações (Franco, 2014; Gillies & Neimeyer, 2006). Tipo de morte Morte por doença crônica, sem sofrimento, por exemplo, situação na qual as pes- soas tiveram tempo de se despedir do ente querido, de resolver questões e pen- dências. Luto reconhecido pelo enlu- tado e pela sociedade Valoriza a própria dor e a dor do outro, é empático. Importante decodi car o sig- ni cado do luto para cada um, ou seja, tornar um código comum entre o enlutado e quem o rodeia, para que possa ter seu luto reconhecido. Permite que a pessoa viva o processo de luto, ora orientada pela perda, ora para a reparação (modelo do processo dual) (Stroebe, & Schut, 1999) e a ma- nutenção de um vínculo saudável (Klass, & Walter, 2001) sem necessariamente ha- ver um rompimento de nitivo. Resiliência Não só como uma expressão de ação após a morte de um ente querido, mas an- tes disso. Nesse sentido, é importante contextualizar a situação, as pessoas en- volvidas, utilizando a resiliência como uma estratégia: capacidade de se perceber, a partir das habilidades, a m de criar alternativas possíveis – depende da perso- nalidade do enlutado, doseu senso de competência e se foi desenvolvido um ape- go seguro. A exibilidade e a criatividade são características importantes na resi- liência. Fonte: Braz; Franco, 2017. miolo-idosos.indd 91 2/21/2018 8:58:32 PM — 92 — CONSIDERAÇÕES FINAIS A discussão sobre a necessidade do desenvolvimento do CP desde a atenção primária até a alta complexidade é urgente. Temos muito a desenvolver na capacitação dos profissionais para o melhor contro- le de sofrimentos, em sua maioria manejáveis. A capacitação bási- ca em CP com temas centrais como dignidade, autonomia, comuni- cação, controle de dor e ou sintomas mais comuns encontrados em idosos que frequentam unidadesbásica ou são assistidos pelos pro- gramas de saúde da família, além de pronto socorros, poderiam mo- dificar histórias que muitas vezes chegam permeadas por sentimen- to de desleixo e abandono. Poderíamos pensar em sintomas de mais fácil controle sendo cuidados por essas unidades e a partir do diag- nóstico de doenças crônico-degenerativas ter equipes especializa- das disponíveis, com expertise em controle de sintomas refratários, inclusive. O que vemos frequentemente em cuidados paliativos é que o pro- cesso de adoecimento e morte quando amparado por profissionais treinados traz consigo a possibilidade de enfrentamento e elaboração através da construção de novos significados. A assistência do psicó- logo inserido nessa equipe e a integração das especialidades, nesse caso, da geriatria e de cuidados paliativos cria uma realidade de assis- tência mais ampla que contribui não só no cuidado com o idoso, mas também no cuidado com familiares enlutados, atentando para a pre- venção de lutos complicados e para a possibilidade de melhor enfren- tamento da morte de forma geral em nossa cultura. REFERÊNCIAS Andrade, C.G. et al. Cuidados paliativos ao paciente idoso: uma revisão inte- grativa da literatura. Rev. Bras. Cienc. Saúde. v.16, n.3, p.411-418. Barbosa, S.C.; Souza, S.; Moreira, J.S. A fadiga por compaixão como ameaça à qualidade de vida profissional em prestadores de servi- ços hospitalares. Rev. Psicol. Organ. 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Dentre as transformações sociais e em saúde ocorridas no século XX, desta- ca-se a mudança no perfil de morbidade e mortalidade da população, o que resultou num aumento no número de pessoas idosas e, em es- pecial, no segmento que se encontra acima dos 80 anos de idade, alte- rando a composição interna do próprio grupo (Alves, 2014). Como convenção geral, o envelhecimento se desenrola com des- gaste, limita ções crescentes e perdas físicas e de papéis sociais, em trajetória que termina com a morte. O homem admite a morte como um fato, porém, apresenta grande dificuldade em assumi-la como algo inerente à natureza. Sobre o pro cesso de envelhecer, percebe-se que, ao rejeitar a morte, o ser humano tende a rejeitar também a ve- lhice, talvez por esta fase da vida ser a que mais se aproxima da mor- te e, assim, torna a velhice um peso para sua vida. A velhice, ao se tra- duzir no contexto social como negatividade, agrava no idoso o que é sentido como perda e fragiliza os seus recursos internos construídos ao longo de toda a vida. miolo-idosos.indd 97 2/21/2018 8:58:32 PM — 98 — Na prática profissional, atuando com a pessoa idosa em diferen- tes unidades, seja ela hospitalar, centro de convivência, domicílio e/ ou instituição de longa permanência para idosos, percebe-se que es- tes têm dificuldades em lidar com a temática da morte, principalmen- te por conta da idade e dos amigos que vão morrendo (Menezes et al., 2014). Diante dessas conside rações, é importante pensar em como a pessoa idosa vivencia o processo de morte/morrer e luto no seu cotidiano. O luto é um evento experimentado por toda a humanidade. O tra- tamento do luto como condição pode ser controverso já que é de se esperar que a dor seja universal e intrínseca à situação. Pode ser difícil distinguir entre as respostas típicas de luto e as reações mais intensas que constituem um transtorno mental. (Shear et al., 2013; Shear, 2015). A perda de um ente querido geralmente leva ao luto agudo carac- terizado pelo anseio e saudade, menor interesse pelas atividades em andamento e pensamentos frequentes voltados para o falecido. Para a maioria, o luto agudo evolui naturalmente para um estado de inte- gração, onde os enlutados podem se reconciliar com atividades coti- dianas e encontrar interesse ou prazer. Cerca de 7% dos adultos idosos que sofrem com o luto, no entanto, desenvolverão o estado de saú- de mental de luto complicado (LC). No LC, o movimento do luto agu- do para o integrado é descarrilado e os sintomas permanecem graves e prejudiciais. O termo luto complicado é considerado o mais adequa- do pois grande parte da literatura sobre o tema foi publicada usando essa designação e por ser um termo não-pejorativo enquanto descri- tivo (Jordan et al., 2014). Sobre a patologização do luto, podemos abordá-la com um parale- lo: a inflamação é a resposta dolorosa e universal à exposição a certas bactérias, mas não discutimos se um clínico está patologizando uma experiência humana natural ao diagnosticá-la e tratá-la. No entan- to, os transtornos mentais trazem o peso adicional do estigma e há o desafio diagnóstico: a maioria dos transtornos mentais existe em um miolo-idosos.indd 98 2/21/2018 8:58:32 PM — 99 — continuum com o funcionamento ou estados tidos como “normais”. Talvez por estas razões, o diagnóstico às vezes pareça um julgamen- to negativo gratuito e não o primeiro passo para iniciar o tratamento adequado (Shear et al., 2013). CONSEQUÊNCIAS DO LUTO COMPLICADO É importante que os clínicos que trabalham com idosos enlutados este- jam conscientes de que o luto em adultos mais velhos pode ser associa- do a uma série de resultados negativos. A perda de um ente querido está associada à piora da saúde, incluindo perda de peso, aumento das taxas de morbidade e comprometimento funcional (Shear et al., 2013). Estudos no Reino Unido (Shah et al., 2012; Shah et al., 2013, Mostofsky et al., 2012) mostram aumento de 21,1 vezes (IC 95% 13,1-34,1) na incidên- cia de infarto do miocárdio dentro de 24 horas após a notícia da mor- te de um amado. Foi verificado que a incidência declina a cada dia, po- rém, mantem-se significativamente elevada por um mês. Outro estudo avaliou o funcionamento dos sistemas cardiovascular e imune às 2 se- manas e aos 6 meses pós-perda em cuidadores (idade média de 65 anos) dos pacientes que morreram em UTI. Os autores encontraram altera- ções em pressão arterial, frequência cardíaca, sono, sistema neuroendó- crino e funcionamento imune. A maioria dessas mudanças foi normali- zada cerca 6 meses após a perda, no entanto (Buckley et al., 2012). O luto também parece aumentar o risco de mortalidade no perío- do inicial após o evento. Em um grande banco de dados de atenção primária no Reino Unido, o luto foi associado ao aumento do risco de mortalidade, sendo mais alto nos primeiros 90 dias. Esse achado foi mais significativo para aqueles que não apresentaram condições mé- dicas crônicas registradas antes da perda, e entre aqueles de comuni- dades de alto poder aquisitivo. Os cônjuges perdidos por morte ines- perada também têm uma maior taxa de mortalidade. Estas taxas de mortalidade aumentadas parecem ser principalmente atribuídas ao suicídio, acidentes, doenças cardíacas e câncer (Stroebe et al., 2007). miolo-idosos.indd 99 2/21/2018 8:58:32 PM — 100 — Prigerson et al. (2009) descobriram que o risco de hipertensão é 10 vezes maior entre os indivíduos viúvos adultos mais velhos que atendem aos critérios de LC em comparação com os que não o fazem, e o com- prometimento do sono está associado ao LC em adultos mais velhos. Os índices de suicídio são duas vezes maiores entre os adultos idosos viú- vos com LC do que aqueles sem LC. Pessoas com LC tiveram um desem- penho fraco em testes cognitivos e tiveram um menor volume cerebral total, em um trabalho holandês publicado em 2014 (Shear et al., 2013). Além disso, o luto seria um modulador significativo da expressãodos genes das células imunes. Respostas psicológicas individuais (ou seja, LC vs. luto não complicado) seriam responsáveis por padrões di- vergentes de ativação do fator de transcrição e expressão de genes en- volvidos em respostas antivirais inatas. Há uma supressão na trans- crição de genes antivirais no LC que é suportada pelo mesmo tipo de regulação para baixo vista em outros tipos de adversidade social. A regulação para baixo desses genes é consistente com o aumento da vulnerabilidade às doenças infecciosas em adultos idosos enlutados e pode sugerir que aqueles diagnosticados com LC devem ser moni- torados de forma mais próxima quanto aos efeitos na saúde (Shear et al., 2013; Khanfer et al., 2011). Para a maioria dos adultos mais velhos, as consequências saudá- veis e emocionais do luto se resolvem em alguns meses, e o funciona- mento pré-perda é restaurado. No entanto, para uma minoria clini- camente significativa, as complicações modificam o processo de luto natural e prolongam o luto agudo, resultando em uma condição sofri- mento mental. O LUTO COMPLICADO COMO DIAGNÓSTICO O LC foi proposto pela primeira vez como um diagnóstico no Ma- nual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association, 4ª edição (DSM-IV). Grupos de pesquisa- dores também vêm tentando estabelecer métodos para o diagnósti- miolo-idosos.indd 100 2/21/2018 8:58:32 PM — 101 — co da condição. O DSM-5 inclui critérios para LC na seção de “condi- ções para estudos posteriores”. Lá, é chamado de “Transtorno do Luto Complexo Persistente” (vide tabela 1) (Shear et al., 2011; Shear et al., 2013; Simon et al., 2011; Horowitz et al., 1999, Penman et al., 2014). Embora um consenso ainda precise ser alcançado, todas as propos- tas diagnósticas incluem sintomas de luto agudo prolongado, como fre- quentes e intensos anseios, dor intensa e dor emocional, preocupa- ção com o falecido e/ou circunstâncias da morte, evitação excessiva de lembranças da perda, dificuldade em aceitar a morte, sentir-se so- zinho e vazio e sentir que a vida não tem propósito ou significado sem a pessoa falecida. Tal como acontece com os transtornos de humor e ansiedade, a co-ocorrência de luto complicado e transtorno depressi- vo maior (TDM) é comum, com estudos mostrando que 25% daqueles com depressão relacionada ao luto têm LC e 36- 55% daqueles com LC apresentam depressão comórbida (Prigerson et al., 1995). É importante identificar o LC, mesmo quando é comórbido com depressão, porque o LC possui características clínicas únicas e pare- ce exigir tratamento exclusivo. O tratamento de LC em pacientes com depressão está associado a reduções nos sintomas depressivos, mas o tratamento de depressão em pacientes com LC não reduz sintomas de LC, necessariamente (Shear et al., 2013). Uma pesquisa populacional recente descobriu que 6,7% dos in- divíduos que passaram por um luto desenvolveram LC e indivíduos com 61 anos ou mais tinham mais que o dobro de incidência (9%) do que adultos mais jovens. As mulheres mais velhas, em particular, apresentaram taxa de LC (9,6%), muito superior à dos adultos mais jo- vens (2,7%). O LC pode ser crônico e persistente, interferindo marcan- temente no funcionamento (Shear et al., 2013). O LC pode ser detectado de forma confiável com medidas padro- nizadas, como o Inventory of Complicated Grief (ICG) (Prigerson et al., 1995), ainda não validado para o português, e o Texas Revised Inven- tory of Grief (TRIG), validado para o português em 2014 (Alves, 2014). miolo-idosos.indd 101 2/21/2018 8:58:32 PM — 102 — FATORES DE RISCO PARA O DESENVOLVIMENTO DO LUTO COMPLICADO Avaliações recentes resumem os possíveis fatores de risco para LC, estando, este, mais associado ao gênero feminino, baixa escolarida- de, idade avançada, baixo status socioeconômico e baixo apoio so- cial antes e depois da morte. A história de transtornos de ansiedade ou depressão antes da morte e história passada de trauma ou perda múltipla, também parece ser fator de risco. Vários pesquisadores des- cobriram que crenças espirituais podem diminuir o risco de desen- volvimento de LC. Denckla et al. (2011) compararam avaliações sobre dependência saudável, dependência excessiva destrutiva e despren- dimento disfuncional entre um pequeno grupo de pessoas de meia idade com luto e sem LC e descobriram que as pessoas com LC eram mais propensas a ter desprendimento disfuncional (Shear et al., 2012; Shear et al., 2013; Jacobs et al. 1990). O LC também tende a ocorrer após a perda alguém muito próximo, como um cônjuge. A perda de uma criança representa um risco espe- cialmente elevado. As circunstâncias traumáticas da morte, a falta de preparação ou as difíceis interações com médicos ou outros funcioná- rios no momento da morte podem aumentar o risco de LC. Cuidados paliativos diminuíram o risco. Sintomas de LC são mais intensos em cuidadores de famílias com baixo conflito antes do final da vida, mas conflitos mais elevados no final da vida, naqueles com membros fa- miliares com dificuldade em aceitar a doença e entre cuidadores com maior medo de morte. Algumas circunstâncias difíceis relacionadas a uma morte podem deixar as pessoas mais necessitadas de apoio pro- fissional. Por exemplo, após um suicídio, até 80% das pessoas enlu- tadas referem querer ajuda profissional (Shear et al., 2012; Shear et al., 2013). Devemos considerar o impacto da morte de um filho no idoso como capaz de suscitar o sentimento de culpa por estar sobreviven- do ao filho, agravado pela dificuldade em trabalhar emocionalmente miolo-idosos.indd 102 2/21/2018 8:58:32 PM — 103 — a morte, somada a tantas outras dificuldades presentes, decorrentes de alterações físicas e isolamento social. No processo de luto, quanto maior o investimento afetivo, maior será a energia para o desligamen- to (Menezes et al., 2014). PSICOTERAPIA Em uma meta-análise de ensaios controlados randomizados de psi- coterapia para adultos com LC, as intervenções em terapia cognitivo- -comportamental (TCC) dirigidas para o luto foram mais eficazes do que as condições de controle (por exemplo, terapia de suporte ou ou- tra terapia inespecífica ou lista de espera) para reduzir os sintomas de LC (Wittouck et al., 2011). Na ausência de um conjunto de consenso de critérios diagnósti- cos de LC, os estudos variaram um pouco em seus critérios de inclu- são; portanto, as variações nos resultados podem ser devidas, em par- te, às variações na severidade do LC que caracterizou cada amostra do estudo. PSICOTERAPIA INDIVIDUAL Em um estudo pioneiro, quase 100 mulheres e homens receberam 16 sessões de terapia interpessoal - um tratamento eficaz para a depres- são - ou um tratamento multifacetado explicitamente adaptado com o LC como alvo, o tratamento de luto complicado (TLC) (Shear et al., 2005). Uma proporção maior de participantes que receberam a tera- pia específica para o luto responderam favoravelmente ao tratamen- to em comparação com aqueles que receberam a terapia interpessoal, e os sintomas do luto apresentaram melhora mais rápida na TLC. As diferenças na redução de sintomas entre os grupos foram de tama- nho médio. Estudos piloto sugeriram que a terapia utilizada neste estudo pode ser eficaz em diversas populações diagnosticadas com LC, incluindo indivíduos com transtornos de uso de drogas comórbidas (Zuckoff et miolo-idosos.indd 103 2/21/2018 8:58:32 PM — 104 — al., 2006) e indivíduos enlutados em contextos culturais não-ociden- tais (Asukai et al., 2011). A terapia projetada por Shear e colegas (2005) incluiu vários com- ponentes que encorajaram os pacientes a lidar com a perda e a reali- zar tarefas voltadas para restauração/melhora. O trabalho terapêuti- co chave ocorreu durante as sessões semanais de 1 hora e nas tarefas de casa realizadas entre as sessões. A fase introdutória do tratamento centrou-sena psicoeducação sobre o luto, enfatizando a importância de processar a perda e restaurar o funcionamento da vida e o engaja- mento em um propósito de vida que pode ter sido esquecido ou per- dido após a perda. Os pacientes compartilharam a história, incluindo a história do relacionamento com o falecido e os objetivos ou aspira- ções da vida atual. Com este trabalho preparatório concluído, os pa- cientes se envolveram em um exercício centrado na perda constituído por narrações vívidas, enquanto com os olhos fechados, revisitando a morte do ente querido. Tal exercício tem como modelo a exposição imaginal do tratamento de exposição prolongada para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O exercício de revisitação na sessão era gravado em áudio e os pa- cientes ouviam a gravação em casa. Os exercícios centrados na per- da também incluíram uma conversa imaginária com o falecido e atividades como escrever e discutir memórias positivas e negativas com o amado. Os exercícios centrados na restauração centraram-se na criação e execução de planos concretos em direção a objetivos de vida valiosos e a retomada de atividades agradáveis. Os pacien- tes também foram encorajados a abordar situações que foram evi- tadas porque serviam como lembretes de perda, semelhantes às ex- posições in vivo no tratamento de TEPT. Ao longo do tratamento, a reestruturação cognitiva foi usada quando surgiram pensamentos inúteis relacionados ao sofrimento (por exemplo, auto-culpa ina- propriada pela morte, ou a crença de que avançar do luto desonra- va o falecido). miolo-idosos.indd 104 2/21/2018 8:58:33 PM — 105 — Outra psicoterapia individual que mostrou eficácia comparável para LC combina componentes de reestruturação de cognição e expo- sição (Boelen et al., 2007). Em um estudo de indivíduos enlutados na Holanda, os pacientes com LC foram designados para receber 6 se- manas de terapia de exposição, seguido de 6 semanas de reestrutu- ração cognitiva, 6 semanas de reestruturação cognitiva seguida de 6 semanas de terapia de exposição ou 12 sessões semanais de aconse- lhamento de suporte. Os participantes em ambas as condições de te- rapia cognitivo-comportamental apresentaram maior melhora clíni- ca em todas as medidas em comparação com aqueles que receberam aconselhamento de suporte. As comparações entre as TCC sugeriram que o componente de exposição do tratamento produziu maior me- lhora dos sintomas do que o componente cognitivo. Neste estudo, a exposição consistiu em relatos repetidos da história da perda do ente querido com ênfase nas partes mais dolorosas emocionalmente (foco na perda) e em construir uma hierarquia de estímulos e contextos evi- tados que serviam como lembretes da perda, seguidos por confronto graduado com esses estímulos e experiências (foco na restauração). O componente de reestruturação cognitiva envolveu aprender a iden- tificar e desafiar pensamentos negativos que ocorrem naturalmente durante a vida cotidiana. Pesquisas recentes examinaram a eficácia do tratamento de LC com foco na restauração exclusivamente. Em um ensaio randomiza- do aberto, os participantes que receberam 12-14 sessões semanais de terapia de ativação comportamental apresentaram grandes reduções em sintomas de dor em comparação com aqueles em condição de controle que estavam em lista de espera (Papa et al., 2013). A terapia foi baseada em ativação comportamental orientada para a depressão, com pequenas modificações para adaptar o tratamento ao LC. Em particular, os participantes foram educados sobre como o LC pode envolver e ser mantido pela evitação estratégica de pistas relaciona- das à perda; em seguida, os participantes se envolveram nas fases de miolo-idosos.indd 105 2/21/2018 8:58:33 PM — 106 — auto-monitoramento, análise funcional e engajamento no reforço de atividades que constituem o núcleo da ativação comportamental pa- drão. A terapia não incluiu componentes de processamento da perda ou reestruturação cognitiva. Num ensaio não controlado, Acierno et al. (2012) descobriram que um tratamento ainda mais reduzido - cinco sessões semanais de ati- vação comportamental, duas conduzidas por telefone - também pro- duziram grandes reduções nos sintomas de luto. Para testar se o tra- tamento com LC poderia ser efetivo, os terapeutas nesse estudo variavam amplamente quanto ao nível de experiência e o manual de terapia que eles seguiram foi limitado a uma única página. A princi- pal intervenção foi uma tarefa em que os participantes completavam 3 horas diárias de atividades de reforço positivo e negativo e pelo me- nos 30 minutos de atividades que poderiam servir como lembretes da perda. Sempre que possível, os participantes foram encorajados a completar suas atividades em um ambiente social para facilitar a res- tauração natural das relações sociais. Em todos estes ensaios individuais para LC, as taxas de abandono fo- ram substanciais, mas semelhante a outros ensaios de psicoterapia. No Shear et al. (2005), 27% dos participantes abandonaram a TLC; No Boelen et al. (2007), as taxas de abandono foram de 20% e 30% para as duas TCC. O abandono foi de 20% no tratamento de ativação comportamental de Papa et al. (2013). Mais análises de Shear et al. (2005) sugeriram que a me- dicação pode ajudar alguns pacientes a tolerar o tratamento. O abando- no da terapia para LC foi de apenas 9% para os pacientes que estavam tomando antidepressivos durante o curso de tratamento, enquanto que 42% dos pacientes não medicados abandonaram (Simon et al., 2008). PSICOTERAPIA EM GRUPO Os sintomas do LC podem ser abordados através de psicoterapia de grupo. Em um ensaio envolvendo pacientes psiquiátricos alemães com LC comórbido, uma terapia de grupo duas vezes por semana miolo-idosos.indd 106 2/21/2018 8:58:33 PM — 107 — (adicionada ao tratamento como de costume), feita durante um total de nove sessões, levou a uma grande redução nos sintomas de LC em comparação ao tratamento de costume (Rosner et al., 2011). A terapia em grupo usou elementos comuns de terapias para LC individuais que mostraram eficácia em outros ensaios (por exem- plo, Shear et al., 2005). Os principais componentes incluíram a psi- coeducação sobre o processo de luto, enfrentamento da perda (in- cluindo um exercício escrito), criação de motivação para mudanças, compreensão e redução de evitacão e pensamentos inúteis. Um dos principais pontos fortes deste estudo foi o complexo grupo de estu- do examinado; os pacientes foram retirados de três diferentes grupos hospitalizados: transtornos de ansiedade primários, transtornos so- matoformes e transtornos alimentares, e cada participante apresen- tava uma média de 2,5 diagnósticos, além do LC. Além disso, o trata- mento como de costume neste ambiente de internação foi altamente intensivo, incluindo sessões de psicoterapia individual e em grupo, treinamento de habilidades sociais, fisioterapia, consultas médicas e outros tratamentos indicados, como o biofeedback. Assim, a eficácia da terapia experimental de grupo breve, em comparação com o trata- mento como de costume, nesta população que naturalmente estava em busca tratamento, é um bom presságio para a efetividade no mun- do real da psicoterapia projetada especificamente para LC. Dois testes adicionais forneceram evidências para a eficácia do grupo, sendo o primeiro, a psicoterapia para LC modelada segundo a terapia individual de Shear et al. (2005), a TLC (Supiano et al.; 2013). Em um estudo de tratamento de adultos com idade inferior a 60 anos, os participantes foram designados para receber 16 sessões semanais de tratamento como de costume (um grupo geral de apoio ao luto) ou uma terapia especializada em LC em grupo (Supiano et al., 2013). Am- bos grupos apresentaram melhora, mas a terapia especializada em LC levou a uma redução significativamente maior nos sintomas do luto. Alémdisso, em um estudo não controlado de tratamento em grupo de miolo-idosos.indd 107 2/21/2018 8:58:33 PM — 108 — 10 semanas que também incluiu psicoterapia, reestruturação cogni- tiva, processamento emocional de perda e restauração de atividades positivas, os participantes mostraram reduções significativas nos sin- tomas do luto. Partindo das abordagens cognitivo-comportamentais que a maio- ria dos ensaios de terapia para o LC tomaram, Piper e colegas (2001, 2007) compararam a terapia interpretativa psicodinâmica de grupo com a terapia em grupo de suporte. Em um ensaio controlado rando- mizado de terapias de grupo de 12 semanas para LC, 139 participan- tes foram submetidos a uma intervenção interpretativa manualizada ou a uma terapia de suporte centrada no presente (Piper et al., 2001). A terapia interpretativa centrou-se no aumento da visão dos pacien- tes em padrões de conflito e perda em suas vidas, aumentando sua tolerância para suas reações emocionalmente complexas e, às vezes, ambivalentes às suas perdas. A terapia de suporte centrou-se em elo- giar os atuais esforços de enfrentamento dos pacientes e ajudá-los a se adaptarem às suas novas circunstâncias depois de perderem um ente querido. Os participantes em ambas modalidades terapêuticas mostraram melhorias equivalentes em seus sintomas de dor. Em um segundo teste envolvendo 110 participantes, resultados semelhantes foram novamente obtidos para as terapias de grupo interpretativa e de suporte, com pacientes em cada condição melhorando igualmen- te (Piper et al., 2007). INTERVENÇÃO BASEADA NA INTERNET Outra modalidade de tratamento que promete aliviar LC é baseada na Internet (Varga et al., 2014). Em uma amostra composta principal- mente (61%) por pais que sofriam a perda de uma criança, a partici- pação em uma intervenção baseada em e-mail de 5 semanas levou a uma grande redução nos sintomas de LC em comparação com um grupo controle de lista de espera (Wagner et al., 2006). Os ganhos fo- ram mantidos no seguimento de 18 meses, e resultados semelhantes miolo-idosos.indd 108 2/21/2018 8:58:33 PM — 109 — foram alcançados quando este tratamento foi administrado aos pais que sofrem a perda numa gravidez (Kersting et al., 2011). Neste tratamento, os participantes fizeram trabalhos de escrita duas vezes por semana e comunicavam-se por e-mail com um tera- peuta que forneceu orientação e feedback adaptados em resposta a cada tarefa. As tarefas de redação foram realizadas em três fases. Pri- meiro, em um exercício de exposição, os participantes escreveram re- latos vívidos das circunstâncias da morte e elaboraram pensamentos e emoções angustiantes em torno do evento. Posteriormente, para re- forçar a auto-compaixão, eles escreveram cartas de apoio a um amigo hipotético na mesma situação e, para começar a pensar sobre a possi- bilidade de avançar na vida, eles escreveram ao hipotético amigo so- bre como o falecido poderia ser lembrado de maneiras positivas, ao mesmo tempo que se envolviam em atividades novas e significativas. Em terceiro lugar, os participantes sintetizaram o que aprenderam nas duas primeiras fases, escrevendo sobre memórias do ente queri- do, o significado da perda e como eles pretendiam lidar com a conti- nuação das suas vidas. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO A farmacoterapia também pode ser útil para pessoas com LC. Simon et al. (2008) descobriram que os pacientes que tomavam antidepres- sivos eram mais propensos a completar a TLC, sem efeito sobre as ta- xas de conclusão da TIP. Zygmont et al. (1998) também descobriram que o tratamento combinado com paroxetina ou nortriptilina admi- nistrado com TLC foi efetivo na redução dos sintomas do luto. Os re- sultados com medicação isolada são mais conflitantes. Pasternak et al. (1991) e Reynolds et al. (1999) descobriram que o tratamento com medicação antidepressiva reduziu os sintomas depressivos, mas não o LC, enquanto que em um ensaio aberto de farmacoterapia, Hensley et al. (2009) descobriram que citalopram melhorou os sintomas de- pressivos, ansiosos e dolorosos nos pacientes com luto. miolo-idosos.indd 109 2/21/2018 8:58:33 PM — 110 — A morte não costuma ser vista como algo espontâneo e natural pelas pessoas. Acredita-se que a morte é vivida simbolicamente nas perdas vi- venciadas na velhice. Ao lidar com essas perdas, o idoso lida inevitavel- mente com a morte e vivencia o processo de luto. (Menezes et al., 2014) O morrer, além de ser um processo biológico, apresenta-se como uma construção social. Dessa forma, o processo do morrer pode ser vivido de distintas maneiras, de acordo com os significados compar- tilhados por esta experiência, uma vez que, esses significados são in- fluenciados pelo momento histórico e pelos contextos sócio-cultu- rais. Nesse sentido, é importante conceber a morte como um processo e não como um fim. O homem existe para morrer, assim, ao ser autên- tico é permitida a aceitação da sua possibi lidade mais própria, a sua morte. Apesar de, em nosso cotidiano, a morte ser uma contínua fuga, o certo é que ela há de vir. Morrer é a possibilidade mais extrema do idoso. Sendo assim, não há como escapar da possibili dade mais original da existência, que é não mais existir. A pessoa idosa longeva apresenta sentimentos varia- dos com a morte do outro, provocação da ruptura do vínculo amoroso que o unia aquela pessoa que lhe dava alegria de viver. Este fato leva a percepção de aproximação da própria morte, quando vê que parentes e amigos estão morrendo. (Menezes et al., 2014) O luto não é um processo linear, não tem data para terminar, po- dendo durar meses e anos, ou mesmo nunca acabar, na dependên- cia direta das características individuais da personali dade e ainda do nível e intensidade de relação que se manteve com o falecido. Nesse contexto, torna-se fundamental o in vestimento em ações educativas para a população em geral, bem como para a pessoa idosa, de forma a contribuir para desmistificar o estereótipo de que chegar a esta idade significa caminhar lado a lado com a morte. Fundamental também, é o estudo e aprofundamento nas questões que separam o luto do luto complicado, porém, não na tentativa de patologizar uma condição na- tural à vida, mas como tentativa de entender e auxiliar no sofrimento. miolo-idosos.indd 110 2/21/2018 8:58:33 PM — 111 — REFERÊNCIAS Acierno R, Rheingold A, Amstadter A, et al. (2012). Behavioral activation and therapeutic exposure for bereavement in older adults. Am J Hosp Palliat Care. 29:13–25. Alves, TM. (2014). Formação de indicadores para a psicopatologia do Luto. Tese de Doutorado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Pau- lo, São Paulo. Recuperado em 2017-07-05, de www.teses.usp.br American Psychiatric Association. (2013). 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Desde a morte, ao menos um dos seguintes sintomas é experimentado em um grau clinicamente significativo na maioria dos dias e persistiu por pelo menos 12 meses após a morte no caso de adultos enlutados e seis meses no caso de crianças enlutadas: 1. Saudade persistente do falecido. Em crianças pequenas, a saudade pode ser expressa em brincadeiras e no com- portamento, incluindo comportamentos que refletem ser separado de e também voltar a unir-se a um cuidador ou outra figura de apego. 2. Intenso pesar e dor emocional em resposta à morte. 3. Preocupação com o falecido. 4. Preocupação com as circunstâncias da morte. Em crianças, essa preocupação com o falecido pode ser expressa por meio dos temas de brincadeiras e comportamento e pode se estender à preocupação com a possível morte de outras pessoas próximas a elas. C. Desde a morte, ao menos seis dos seguintes sintomas são experimentados em um grau clinicamente significativo na maioria dos dias e persistiram por pelo menos 12 meses após a morte, no caso de adultos enlutados, e seis me- ses no caso de crianças enlutadas: Sofrimento reativo à morte 1. Marcada dificuldade em aceitar a morte. Em crianças, isso depende de sua capacidade de compreender o signifi- cado e a continuidade da morte. 2. Experimentar incredulidade ou entorpecimentoemocional quanto à perda. 3. Dificuldade com memórias positivas a respeito do falecido. 4. Amargura ou raiva relacionada à perda. 5. Avaliações desadaptativas sobre si mesmo em relação ao falecido ou à morte (p. ex., autoa- cusação). 6. Evitação excessiva de lembranças da perda (p. ex., evitação de indivíduos, lugares ou situações associados ao fa- lecido; em crianças, isso pode incluir a evitação de pensamentos e sentimentos relacionados ao falecido). Perturbação social/da identidade 7. Desejo de morrer a fim de estar com o falecido. 8. Dificuldade de confiar em outros indivíduos desde a morte. 9. Sentir-se sozinho ou isolado dos outros indivíduos desde a morte. 10. Sentir que a vida não tem sentido ou é vazia sem o falecido ou a crença de que o indivíduo não consegue funcio- nar sem o falecido. 11. Confusão quanto ao próprio papel na vida ou senso diminuído quanto à própria identidade (p. ex., sentir que uma parte de si morreu com o falecido). 12. Dificuldade ou relutância em buscar interesses desde a perda ou em planejar o futuro (p. ex., amizades, atividades). D. A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. miolo-idosos.indd 115 2/21/2018 8:58:33 PM — 116 — E. A reação de luto é desproporcional ou inconsistente com as normas culturais, religiosas ou apropriadas à idade. Especificar se: Com luto traumático: Luto devido a homicídio ou suicídio com preocupações angustiantes persistentes referentes à natureza traumática da morte (frequentemente em resposta a lembranças da perda), incluindo os últimos momentos do falecido, grau de sofrimento e lesão mutiladora ou a natureza maldosa ou intencional da morte. miolo-idosos.indd 116 2/21/2018 8:58:33 PM — 117 — NEUROIMAGEM E ENVELHECIMENTO: ASPECTOS BÁSICO-CLÍNICOS AVANÇADOS Caroline Bozzetto Ambrosi Carlos Augusto Carvalho de Vasconcelos Patrícia Bozzetto Ambrosi ENVELHECIMENTO CEREBRAL Ao longo da vida, determinadas modificações estruturais, funcionais e moleculares decorrentes de inúmeras alterações multifatoriais que resultam no processo de envelhecimento neuronal normal e muitas vezes na neurodegeneração, ocorrem constantemente no Sistema Nervoso (SN) (Mrak et al., 1997; Scheibel, 2004; Lourenço et al., 2017). Estudos longitudinais mostram que desde o nascimento, todos os neurônios necessários para o funcionamento do organismo já estão presentes e que o desenvolvimento físico provoca o crescimento dos neurônios que aumentam de tamanho, desenvolvendo-se o número de axônios e dendritos, assim como a quantidade de conexões que se estabelecem (Mueller et al., 1998; Resnick et al., 2000; Tang et al.,2001; Salat et al., 1999). Alguns desses estudos estimam que aos dois anos de idade, a massa encefálica atinge 75 % do seu tamanho adulto (Shaffer, 2002; Spear, 2017). A Figura 1 abaixo representa imagens seccionais computadori- zadas in vivo do cérebro de uma criança de 2 anos, mostrando nor- mal aparência e volume dos sulcos corticais e do sistema ventricular lateral. miolo-idosos.indd 117 2/21/2018 8:58:33 PM — 118 — Figura 1 - Imagens tomográficas seccionais in vivo ilustrando desenvolvimento normal cerebral. Ao mesmo tempo, estudos populacionais evidenciam que após os 40 anos, o volume e o peso da massa encefálica declinam conside- ravelmente, a uma taxa estimada de 5 % por década (Driscoll et al., 2009) Também mostram que existe uma acentuação no declínio a partir da sétima década de vida quando o volume cerebral diminui cerca de 7 cm3 a cada ano, com maior perda nos lobos frontal e tem- poral e maior perda de substância branca do que a substância cinzen- ta em idosos cognitivamente normais (Mueller et al, 1998; Salat et al., 1999; Resnick et al., 2000; Y Tang et al., 2001). O fluxo sanguíneo cerebral também diminui de forma heterogênea em 5 a 20 por cento, devido a aterosclerose com a deterioração dos mecanismos que mantêm o fluxo sanguíneo cerebral com flutuação da pressão arterial (Wagner et al., 2012). A seguir, a Figura 2 representa o processo de envelhecimento ce- rebral e mostra acentuação dos sulcos corticais das regiões fronto-pa- rieto-temporais e folias cerebelares sugerindo sinais de envelheci- mento cerebral em grau leve a moderado. miolo-idosos.indd 118 2/21/2018 8:58:33 PM — 119 — Figura 2 - Cortes axiais em CT de crânio normal em um adulto de 75 anos de idade mostrando alargamento dos sulcos corticais e das fissuras silvianas, bem como alargamento dos sulcos entre as folias (folhas) cerebelares e das fissuras cerebelares, com ectasia leve do sistema ventricular lateral, do 4o ventrículo e cisternas basais, por redução volumétrica encefálica proporcional ao período etário. A perda neuronal relacionada ao envelhecimento é mais proemi- nente nos neurônios do cerebelo e do córtex cerebral (Rutten et al., 2007). Enquanto os neurônios relacionados com sistema hipotalâmi- co, tronco cerebral e sistema medular apresentam modestas perdas de neurônio ou volume (Kenedy & Raz, 2016). Pesquisas moleculares su- gerem que esse processo se deve provavelmente devido à apoptose (ie, morte celular programada) ao invés de inflamação, isquemia ou outro mecanismo (Lourenco et al., 2017; clark et al., 2016). Em algumas áreas, no entanto, as conexões dendríticas podem aumentar, talvez como re- sultado da plasticidade compensatória. Apesar de que neurônios con- tinuam a formar novas sinapses, e novos neurônios são formados ao longo da vida, mas as taxas de perda são maiores do que os ganhos. Estudos tem demonstrado o potencial efeito protetor e restaurador do exercício podendo afetar a atividade cerebral embora a fisiologia ainda é desconhecia (Buchman et al., 2012, Shephard et al., 2012). Acredita-se que o processo de envelhecimento cerebral se relacio- na com alterações da homeostase do cálcio que explicam o avanço do envelhecimento cerebral (Kumar et al, 2009). Ao lado das alterações da hemóstase do cálcio, a disfunção mitocondrial tem estreita rela- ção com a morte neuronal (Cali et al., 2012). As mitocôndrias são de suma importância na geração de adenosina-5-trifosfato, no sequestro miolo-idosos.indd 119 2/21/2018 8:58:33 PM — 120 — do excesso cálcio e do estresse oxidativo e a falha desses mecanismos pode causar morte neuronal (NICHOLLS, 2006). Os fatores genéticos controlam a susceptibilidade a desregulação do cálcio e do estresse oxidativo e a falha desses mecanismos pode causar morte neuronal. Por outro lado, distúrbios neurodegenerativos progressivos entre as quais podemos salientar a doença de Alzheimer, a doença de Par- kinson, a doença de Pick, a demência vascular, a doença de Creutz- feldt- Jakob ou doença de Huntington podem ocorrer e causar dete- rioração gradual e irreversível das funções cognitivas cursando com demência muitas vezes sem aparente causa detectável (Ambrosi, P.B. et al., 1998; Greenberg, D.A. et al., 2012). PAPEL DA NEUROIMAGEM NO ENVELHECIMENTO CEREBRAL Exames de diagnóstico por imagem são uma das principais ferra- mentas de investigação usadas na prática na avaliação dos problemas neurológicos e distúrbios cognitivos relacionadas com o envelheci- mento cerebral. Apesar de sua baixa sensibilidade e especificidade, tendendo a ser mais informativo que conclusivo, o diferential entre envelhecimento normal e patológico ainda permanece ser o gran- de desafio (Meike, 2012; Murray, 2011; Relkin et al, 2015). Geralmen- te, a investigação por neuroimagem é feita como parte complemen- tar de uma avaliação clínica abrangente que inclui revisão da história e medicamentos, exame físico (incluindo componentes neurológicos e psiquiátricos) e avaliação do estado cognitivo, funcional e compor- tamental, exames de sangue e urina, análise de líquido cefalorraqui- diano, eletroencefalografia e outros procedimentos. Por isso, o papelda neuroimagem ainda é considerado controverso. Rotineiramente, os estudos de neuroimagem realizados são a To- mografia Computadorizada (TC) e a Ressonância Magnética (RM), ou também conhecidas como estudos estruturais que não somente evi- denciam os aspectos neurodegenerativos, mas também ajudam a ex- cluir outras comorbidades que podem exacerbar os sintomas. Outras miolo-idosos.indd 120 2/21/2018 8:58:33 PM — 121 — modalidades de diagnóstico de imagem também importantes são os estudos de imagem funcional incluindo a Espectroscopia de Resso- nância Magnética (MRS) e outras modalidades funcionais e de estu- dos moleculares que discutiremos mais adiante nesse capítulo (MEI- KE et al., 2012). A MRS usa técnicas de ressonância magnética para medir a ativi- dade metabólica na região de interesse. MRS tem resolução mais bai- xa do que a ressonância magnética estrutural, mas permite monitorar aspectos do metabolismo intermediário que não são obtidos por ou- tros métodos in vivo (Fritz, 2014). Os achados radiológicos estruturais mais relevantes identificados a partir da TC e/ou RM no envelhecimento cerebral são dentre ou- tras: 1) a atrofia cerebral/hipocampal, 2) a ventriculomegalia, bem como 3) as doenças cerebrovasculares e as microhemorragias. Sendo que esses achados são identificados tanto no envelhecimento normal como patológico, embora, tipicamente, as alterações relacionadas à idade se caracterizam por serem menos rápidas e, geralmente, menos graves do que as das doenças neurodegenerativas (Meike et al., 2012; Murray, 2011) A atrofia cortical manifesta-se pelo alargamento dos sulcos, estrei- tamento dos giros, diminuição da espessura da substância cinzenta, diminuição do volume da substância branca e/ ou aumento dos ven- trículos cerebrais e dos espaços subaracnóides. A atrofia cortical assi- métrica é frequentemente observada em demências neurodegenera- tivas e por vezes manifesta-se como deficiências desproporcionadas nas funções mediadas pelas regiões mais atróficas (Relkin et al., 2015). A atrofia do hipocampo é uma das manifestações mais precoces e mais salientes da DA embora não seja patognômica da DA, pode ocorrer em outras condições como a esclerose temporal mesial, a epi- lepsia do lobo temporal e certos insultos vasculares. Certas regiões do parênquima cerebral mostram vulnerabilidade seletiva a diferentes distúrbios neurodegenerativos (KOnrad et al., 2009). A imagem por miolo-idosos.indd 121 2/21/2018 8:58:33 PM — 122 — RM tem mais especificidade que a TC e a determinação automatiza- da do volume do hipocampo na RM está cada vez mais disponível e pode ser útil na determinação da probabilidade de alteração atrófi- ca patológica. O alargamento ventricular pode ocorrer em associação com atro- fia cortical progressiva sem evidência de obstrução; isto é conhecido como hidrocefalia ex-vácuo (Bertelson et al., 2014; Kazemi et al.,2007). Alternativamente, o alargamento ventricular pode ocorrer em asso- ciação com hidrocefalia de pressão normal (NPH). Recentes avanços nos estudos de imagem tem permitido distingir essas duas entidades patológicas. NPH é uma causa potencialmente tratável de demência que normalmente se apresenta como a tríade sintomática incluindo demência, incontinência e perturbação da marcha (Algin et al., 2009). A doença cerebrovascular associada ao envelhecimento cerebral pode se manifestar através déficits cognitivos que variam de compro- metimento leve à demência franca (Yang et al., 2017). A crescente pre- valência de alterações isquêmicas da substância branca com o avanço da idade tem sido implicada como um dos fatores responsáveis pelo declínio cognitivo relacionado à idade. A maioria das formas de com- prometimento cognitivo vascular manifesta alterações visíveis nos es- tudos estruturais de imagem cerebral. Outros achados comuns associados aos quadros de alteração cog- nitiva relacionados com doença cerebrovascular incluem infartos corticais e subcorticais e lesões de substância branca periventricular. Na Figura 3 abaixo, observamos um estudo de RM ilustrando sutis al- terações na substância branca periventricular relacionados com o en- velhecimento normal. Estudos de neuroimagem seriados podem às vezes ser usados para documentar a relação temporal entre as altera- ções cerebrovasculares e o início ou progressão do comprometimen- to cognitivo. miolo-idosos.indd 122 2/21/2018 8:58:33 PM — 123 — Figura 3 – Imagens seccionais axiais de Ressonância Magnética de crânio in vivo mostrando microangiopatia de grau leve. As microhemorragias cerebrais que podem ocorrer em associação com anomalias vasculares, angiopatia amilóide e microangiopatia hi- pertensiva são um achado comum em RM em indivíduos mais idosos, particularmente visualizado a partir de técnicas especiais de eco de gradiente e imagens de susceptibilidade (Charidimou et al., 2012). Em estudos populacionais, as microhemorragias cerebrais são detectadas em aproximadamente 15 a 25 por cento dos indivíduos com mais de 75 anos e se tornam mais comuns com o avanço da idade (Renlkin et al, 2015). Quando associadas a angiopatia amilóide são primaria- mente visualizadas no córtex cerebral e normalmente são associadas com prejuízo cognitivo mais grave. Por outro lado, as microhemorra- gias associadas à doença de pequenos vasos ocorrem tipicamente nos gânglios da base, tálamo ou ponte. Ambas estão associadas com au- mento do risco de sangramento e devem pesquisadas em pacientes com indicação de uso de anticoagulante. A neuroimagem funcional incluem estudos de imagem funcio- nal e medicina nuclear como a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) e a Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton úni- co (SPECT). A neuroimagem molecular deriva da Medicina Nuclear onde são imagens moleculares acopladas ao SPECT e ao PET. Am- bas as técnicas são utilizadas em pacientes com suspeita de demên- miolo-idosos.indd 123 2/21/2018 8:58:34 PM — 124 — cia ou já estabelecidas. Elas medem parâmetros que são acoplados ou correlacionados com a atividade neuronal do cérebro. Essas técni- cas apenas são disponíveis apenas em centros especializados e mui- tas somente utilizadas mais em nível de pesquisa. Na prática clínica, a maioria das imagens funcionais e moleculares é interpretada por ins- peção visual, embora os parâmetros a serem medidos sejam ineren- temente quantificáveis. O reconhecimento de padrões regionais de hipoperfusão ou hipometabolismo em imagens funcionais pode auxi- liar no diagnóstico diferencial de várias formas de demência. Exemplos de modalidades de neuroimagem molecular incluem var- reduras de tomografia por emissão de fóton único (DaT) de 123I-FP- -CIT usadas para confirmação da doença de Parkinson e imagens de PET amilóide na DA. Imagem do transportador de dopamina estriatal - Os exames de DaT utilizam o composto ioflupano iodo-123 para medir o transporte de dopamina pré-sináptica no cérebro (Brigo et al., 2015). Novas técnicas moleculares estão agora em desenvolvimento para de- tectar outros processos patológicos associados com demência, tais como neuro-inflamação e deposição de proteína tau (Niederhofer et al 2017). Outros estudos de imagem funcional incluem medidas de perfu- são cerebral ou fluxo sanguíneo e atividade metabólica cerebral. CONSIDERAÇÕES FINAIS O envelhecimento cerebral envolve uma série de eventos multifato- riais que ocorrem ao longo dos anos em decorrência de fatores mole- culares e celulares que resultam em processos de degeneração neuro- nal. Os avanços nas técnicas de neuroimagem tem permitido ampliar o campo de novas pesquisas e tratamentos para várias patologias in- cluindo as decorrentes e/ou relacionadas aos processos do envelheci- mento normal ou patológico. Apesar de nosso desafio ainda ser de di- ferenciar o envelhecimento estrutural normal do patológico, modelos funcionais devem ajudara encontrar biomarcadores que nos façam entender melhor esse processo. miolo-idosos.indd 124 2/21/2018 8:58:34 PM — 125 — REFERÊNCIAS Algin, O.; Hakyemez, B.; Taskapilioglu, O.; Ocakoglu, G,; Bekar,A.; Parlak,M. Morphologic Features and Flow Void Phenomenon in Normal Pressure Hydrocephalus and Other Dementias: Are They Really Significant? Aca- demic Radiology, v.16, p.1373-1380, 2009. Ambrosi, P. B., Thiel, G.M., Dall’agnoll, O. Alzheimer, a doença do século: dos sintomas aos fatores de risco. Rev. Cient. AMECS; 8(1): 20-3, 1998. Bertelson J.A.; Aita, B. Neuroimaging of Dementia. Neurologic Clinics, v.32, p. 59-93, 2014. Brigo F.; Turri, G.,Tinazzi, M. 1231-FP-CIT SPECT in the differential diagnosis between dementia with Lewy bodies and other dementias. Journal of the Neurological Sciences, v. 359, p.161-171, 2015. 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Com o envelhecimento surge uma série de alterações físicas, psi- cológicas e sociais que acarretam em mudanças na vida dos indiví- duos. Nessa etapa da vida, comumente observa-se que com a ocor- rência de um declínio das funções cognitivas, a exemplo de alterações na memória, na velocidade de raciocínio e na atenção (Petersen et al., 1999; Prince et al., 2013). Em geral, o declínio no desempenho cogni- tivo dos idosos pode levar a um aumento de dificuldades em realizar atividades instrumentais do cotidiano, prejudicando a autonomia e independência (Prince et al., 2013). As alterações cognitivas são constantes em casos de Comprometi- mento Cognitivo Leve (CCL) e nas demências. O CCL, especificamen- te, surgiu para classificar indivíduos que se encontram em um estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência, princi- palmente a doença de Alzheimer (DA) (Brucki, 2015). Dados etioló- miolo-idosos.indd 128 2/21/2018 8:58:34 PM — 129 — gicos estimam que a prevalência de CCL em idosos acima de 70 anos seja de 14 a 18%, sendo esta prevalência variável conforme os critérios diagnósticos adotados (Luck, Luppa, Briel, & Riedel-Heller, 2010). No diagnóstico do CCL são considerados sintomas como queixasde dificuldades na memória, comprovada por familiares; baixo de- sempenho da memória em testes, considerando idade e escolarida- de; função cognitiva global preservada; atividades da vida diária in- tactas e não evidência de demências (Brucki, 2015). Na edição recente do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) o CCL vem sendo substituído pelo termo Transtorno Neurocognitivo Leve e inclui os indivíduos que apresentam modesto declínio cogni- tivo em relação ao desempenho em um ou mais domínios (atenção, funções executivas, aprendizagem, memória, linguagem, função mo- tora e perceptiva), sendo que esses déficits não interferem na capaci- dade para independência nas atividades diárias (American Psychiatry Association, 2013). De acordo com o DSM-5, os Transtornos Neurocognitivos (TNC) se classificam entre leve ou maior. O TNC maior se caracteriza por um declínio significativo na cognição, o qual é tão grave que chega a interferir na independência. Entre os subtipos dos TNC tanto le- ves como maiores encontram-se o TNC devido à Doença de Alzhei- mer [DA] (American Psychiatry Association, 2013). A DA é uma com- plexa doença poligênica, com múltiplos fatores envolvidos. A causa ainda é desconhecida e geralmente os sintomas aparecem na oitava ou na nona década de vida (Ferri et al., 2005). Embora ocorra o au- mento mais rápido com a progressão da idade, nem todos os idosos são afetados. Estima-se que possa afetar 1% dos idosos entre 60 e 64 anos e progride para 25% a 50%, nos idosos acima de 85 anos (Prince et al., 2013). A base histopatológica da DA foi descrita pela primeira vez pelo neuropatologista Alois Alzheimer em 1906, que verificou a existên- cia de novelos neurofibrilares, os quais estão associados à muta- miolo-idosos.indd 129 2/21/2018 8:58:34 PM — 130 — ção da proteína tau, no interior dos neurotúbulos com o surgimento das placas senis, atualmente identificadas como agregados de pro- teína beta-amilóide (Jack Jr. et al., 2013). Na DA geralmente os nove- los neurofibrilares são encontrados nos neurônios do córtex cerebral sendo muito numerosos e mais comuns em estruturas do lobo tem- poral como o hipocampo e a amígdala (Lin, Wang, Wu, Rebok, & Cha- pman, 2017). O fator genético é considerado como preponderante na etiopato- genia da DA, com um terço dos casos apresentando familiaridade. Es- ses casos, em geral, são de acometimento precoce, e famílias exten- sas têm sido periodicamente estudadas. Os pacientes acometidos pela DA têm 50% de chance de ter filhos também afetados pela pato- logia (Sereniki & Vital, 2008). Além do componente genético, foram apontados como agentes etiológicos a toxicidade a agentes infeccio- sos, ao alumínio, a substâncias reativas de oxigênio e a aminoácidos neurotóxicos. As características de uma pessoa com possível DA são lapsos pro- gressivos de memória, linguagem e praxia, sendo os lapsos percebi- dos pela própria pessoa e por aqueles que convivem com a mesma; ausência de prejuízos nas tarefas do dia a dia, no entanto observa- -se mais esforços em tarefas complexas; e alterações nos marcadores biológicos (Pérès et al., 2008). Esses prejuízos começam em uma fase prondômica (comprometimento leve) e evoluem para um quadro de- mencial de forma insidiosa (Jack Jr. et al., 2013). Na fase leve ocorre alterações na memória recente e remota, com mudanças na personalidade, alternando estágios de irritabilidade, hostilidade, apatia e frustração. Na comunicação, o paciente apresen- ta dificuldades na linguagem, associadas a déficits no raciocínio lin- guístico e disfonia, principalmente no que se refere a buscar a palavra correta ou lembrar nomes de objetos ou pessoas. Na fase moderada acentua-se o déficit de memória e aprendizagem, com julgamento so- cial pobre e baixa afetividade. A comunicação se apresenta com um miolo-idosos.indd 130 2/21/2018 8:58:34 PM — 131 — conteúdo desorganizado e algumas alterações estruturais que pre- judicam a coerência. Na fase mais grave, as funções intelectuais en- contram-se globalmente deterioradas com presença de ecolalias, per- severação e mutismo. Os pacientes são totalmente dependentes de outros para solucionar problemas e realizar atividades diárias (Azeve- do, Landim, Fávero, & Chiappetta, 2008). As alterações da memória têm sido apontadas como um dos prin- cipais sintomas que afetam a qualidade de vida dos idosos e em vir- tude disto tem se configurado como um dos principais processos cog- nitivos investigados nos casos de suspeita DA (Vasconcelos, Brucki, & Bueno, 2007). No entanto, a memória não é o único processo cogniti- vo que tem se mostrado alterado em indivíduos com suspeita de DA, as funções executivas, por exemplo, têm ganhado bastante destaque na literatura (Martyr & Clare, 2012). Funções executivas (FE) são conceitualizadas como capacidades que permitem alguém manter um comportamento de auto regulação de maneira independente e intencional. Esse conjunto de processos cognitivos é responsável por controlar respostas a situações novas ou difíceis, e são geralmente associados ao córtex pré-frontal (CPF), por- ção anterior à área pré-motora do lobo frontal (Diamond, 2013). Alterações nas FE estão ligadas a sintomas neuropsiquiátricos como agitação, desinibição, apatia, ansiedade e depressão, poden- do afetar a funcionalidade dos indivíduos em executar tarefas do co- tidiano (Diamond, 2013). Défices nas FE em pacientes com DA foram encontrados associadas com mudanças estruturais nos exames de imagem cerebral em regiões como o hipocampo, o córtex pré-fron- tal, parietal e temporal (Martyr & Clare, 2012). Além disso, a disfunção executiva também pode levar a prejuízos nas atividades instrumen- tais de vida diária (AVD). O comprometimento das funções executivas em pessoas com DA ocorre devido ao envolvimento do lobo frontal e resulta em déficits de resolução de problemas, capacidade de planejamento, abstração, jul- miolo-idosos.indd 131 2/21/2018 8:58:34 PM — 132 — gamento, flexibilidade mental, tomada de decisão, memória de tra- balho e organização dos comportamentos (Martyr & Clare, 2012). As pesquisas têm revelado que os pacientes com DA na fase inicial apre- sentam um fraco desempenho em testes que avaliam FE. Os declínios nas FE também foram relatados como contribuindo para a conversão do CCL para DA (Chapman et al., 2011). O diagnóstico da DA é feito fundamentalmente através de crité- rios clínicos preestabelecidos juntamente com a exclusão de outras possíveis causas para a demência. A exclusão de outras causas é feita através de um conjunto composto pelo exame clínico, por exames la- boratoriais e pela neuroimagem cerebral (Gomar et al., 2011). O diag- nóstico definitivo é realizado pos-mortem, entretanto a avaliação dos aspectos cognitivos torna-se crucial para diagnosticá-la o mais preco- cemente possível (Yassuda, M. S., & Abreu, 2006). A detecção preco- ce da DA faz-se de suma importância para o desenvolvimento e im- plementação de intervenções que possam prevenir e/ou minimizar os efeitos causados pela progressão da demência e seus prejuízos na qualidade de vida AVALIAÇÃO COGNITIVA E DA AUTONOMIA DO IDOSO NO DIAGNÓSTICO DE QUADROS DEMENCIAIS As pesquisas vêm enfatizando a importância de uma avaliação neu- ropsicológica para auxiliar no diagnóstico de quadros demenciais como a DA e na compreensão dos declínios cognitivos acarretados pelo envelhecimento (De Paula et al., 2010). Uma avaliação neurop- sicológica busca investigar quais as funções cognitivas que estão pre- servadas e as que estão comprometidas, através do uso de instrumen- tos (testes, baterias, escalas) padronizados para avaliação das funções cognitivas (Caramelli & Teixeira, 2012). O objetivo de uma avaliação neuropsicológica é coletar dados clí- nicos buscando auxiliar a compreensão da extensão das perdas e ex- plorar os pontos intactosque cada patologia provoca no sistema ner- miolo-idosos.indd 132 2/21/2018 8:58:34 PM — 133 — voso central do paciente. A partir desta avaliação neuropsicológica é possível estabelecer tipos de intervenção, de reabilitação particular e específica para indivíduos e/ou grupos de pacientes (Camacho, 2012). Na DA os instrumentos de triagem cognitiva, comportamental e testes neuropsicológicos específicos têm sido empregados rotinei- ramente para quantificar o grau de declínio cognitivo. A avaliação neuropsicológica auxilia na diferenciação primária entre demên- cia, comprometimento cognitivo leve, distúrbios psiquiátricos (p. ex. depressão) e outras síndromes neuropsicológicas, como amné- sia, apraxia, agnosias e outros tipos de demências (Camacho, 2012). Os testes de fluência verbal (semântica e fonológica), Trail Making Test, o Random Number Generation, o Wisconsin Card Sorting Test, o Teste da Torre de Londres e a Escala Wechsler de Inteligência (WAIS) têm sido tradicionalmente empregados em baterias de avaliação para compor o exame neuropsicológico em pacientes com DA (Mortamais et al., 2016). Entretanto, uma avaliação neuropsicológica detalhada nem sem- pre é possível em situações ambulatórias, cuja demanda de pacien- tes é alta e os recursos utilizados pelo clínico muitas vezes são pre- cários. Tal fato acaba dificultando o diagnóstico precoce de TNC e prejudicando o diagnóstico diferencial entre o envelhecimento cogni- tivo normal e o patológico. Um dos recursos utilizados pelos clínicos têm sido os testes rápidos e breves de rastreio cognitivo, a exemplo do Mini Exame do Estado Mental (MEEM) e o Teste do Relógio (De Paula, Miranda, Moraes, & Malloy-Diniz, 2013). O uso de questionários de auto-relatos que avaliam comporta- mentos do cotidiano tem sido comum na prática clínica, na medida em que relatam dificuldades reais em um ambiente natural. Testes que avaliam dificuldades reais enfrentados no dia a dia proporcionam uma validade ecológica. A validade ecológica dos testes neuropsico- lógicos permite uma avaliação mais precisa de indivíduos com pro- blemas neurológicos, pois existem casos nos quais os pacientes exe- miolo-idosos.indd 133 2/21/2018 8:58:34 PM — 134 — cutam as atividades normalmente em testes executivos tradicionais, mas claramente têm deficiências executivas em suas vidas diárias (Zorluoglu, Kamasak, Tavacioglu, & Ozanar, 2014). Na literatura tem se mostrado crescente o número de questionários que avaliam atividades cotidianas, sendo os mesmos considerados im- portantes para avaliação de déficits cognitivos, principalmente quan- do são de origem pré-frontais (Allain, Etcharry-Bouyx, Verny, 2013). Os testes propostos têm se mostrado capazes de quantificar o impacto dos défices pré-frontais em tarefas reais ou o desenvolvimento dos indiví- duos na vida cotidiana (Fogarty, Almklov, Borrie, Wells, & Roth, 2017). A importância destes auto-relatos ultrapassa o campo da avaliação neu- ropsicológica, na medida em que estabelece metas específicas no pro- cesso de intervenção, auxiliando disciplinas como terapia ocupacional. De forma geral, percebe-se que a avaliação das funções cognitivas tem sido um dos principais recursos utilizados para o auxílio no pos- sível diagnostico da DA. No entanto, o clínico vêm se deparando com uma série de limitações em relação a padronização dos instrumentos para a população brasileira, tanto no que se refere a falta de evidên- cias de validade para a população com DA, como na falta de instru- mentos que considerem aspectos como a baixa escolaridade, o nível socioeconômico e as características físicas dos idosos. A autonomia dos idosos e o desempenho adequado de atividades cotidianas, importantes para o seu bem estar, são aspectos comumen- te investigados por profissionais de saúde mental. São dados qualita- tivos e geralmente surgem nas investigações sobre o que o idoso faz ao longo do seu dia, na descrição das suas relações com familiares, amigos ou outras pessoas do seu convívio. São informações que es- tão além dos números dos escores normativos de escalas ou do tempo cronometrado para o desempenho dos testes. A participação de familiares e cuidadores nesse processo é vital pois informações podem se contrapor e o esclarecimento será a cha- ve para a compreensão do quadro e o planejamento das intervenções. miolo-idosos.indd 134 2/21/2018 8:58:34 PM — 135 — REABILITAÇÃO COMO PROPOSTA DE INTERVENÇÃO De posse de informações advindas de uma avaliação global, podem ser elaboradas e determinadas diferentes tipos de intervenções. Nes- se cenário, os processos de avaliação e planejamento de reabilitação surgem como alternativa para diversas possibilidades. A reabilitação neuropsicológica e cognitiva, por exemplo, podem auxiliar não ape- nas no estímulo de funções negligenciadas ou em desuso mas, como lembram Malloy-Diniz, Fuentes e Consenza (2013) participam de um processo importante para possibilitar a restauração das ligações neu- ronais usando de psicoterapia e treinos cognitivos específicos. Em programas de reabilitação torna-se útil poder compreender o contexto de origem do idoso, quais eram suas principais motivações e interesses, com o que trabalhava, qual tipo de leitura gostava de fa- zer ou mesmo o estilo de música que costumava ouvir. São pistas im- portantes para poder planejar atividades contemplando recursos de aprendizagem e a estimulação das funções cognitivas que serão fun- damentais no desempenho da sua autonomia, bem como descrever potencialidades e pontos de vulnerabilidade. Uma revisão da literatura sobre o efeito do treino de memória em idosos encontrou dados que apontam para a melhora de desempe- nho após treino de memória, inclusive para idosos com CCL, o treino foi apontado como uma boa estratégia para aumentar o desempenho nas tarefas trabalhadas (Mattos, 2011). Outro estudo, que investigou o treinamento de memória de traba- lho e funções cognitivas, detectou melhoras cognitivas em diferentes níveis quando comparados os grupos experimental e controle. A in- tervenção foi realizada durante 12 sessões em grupo e além do trei- no com tarefas específicas de memória, as sessões envolveram técni- cas de psicoeducação sobre a relação entre as tarefas executadas no grupo e as suas tarefas no cotidiano, além de encontros para sociali- zação, nos quais ocorriam debates de diversos temas que eram pro- postos pelo coordenador do grupo, tais como olimpíadas e educação miolo-idosos.indd 135 2/21/2018 8:58:34 PM — 136 — (Netto et al, 2013). O estudo demonstrou o quanto programas de inter- venção neuropsicológica em grupo podem apresentar efetividade em processos de reabilitação e serem terapêuticos. Um protocolo de intervenção comparando idosos que se submete- ram a um protocolo de estimulação da memória com um grupo contro- le que não recebeu os estímulos, encontrou resultados bastante positi- vos da utilização da memória em atividades de vida diária. Os autores desenvolveram um protocolo que envolveu 294 idosos, e foi desenhado com foco na maximização de amplas generalizações dos resultados da pesquisa. Essa é uma proposta que pode servir de exemplo para o de- senvolvimento de outros protocolos e pesquisas que visem avaliar in- tervenções em saúde em condições reais (Bier et al, 2015). Assim, alternativas surgem com a importância de se avaliar o de- sempenho em atividades cotidianas dos pacientes. Bier et al (2016) realizaram uma intervenção em um grupo de 40 pacientes e identifi- caram que uma ferramenta com foco na avaliação ecológica de rotina de atividades diárias pode ser bastante efetiva na identificação preco- ce de alterações cognitivas, bem como pode melhorar o desempe- nho dos idosos nas suas atividades. Olchik et al (2012) em uma revisão de estudos relataram que existem uma melhora no desempenho dos idosos, após treino de memória. O treinoem idosos com comprome- timento cognitivo leve, por exemplo, é apontado como uma estratégia para aumentar o desempenho, principalmente nas tarefas trabalha- das. Entretanto, são poucos os estudos já realizados com esta popula- ção, o que indica a importância de dar continuidade aos mesmos, vis- to que há um maior risco de conversão para demências, entre elas, a doença de Alzheimer. Por vezes encontra-se na literatura uma discreta separação entre atividades de reabilitação cognitiva e treino cognitivo, sendo esses úl- timos frequentemente associados ao desempenho das funções cogni- tivas. Ressaltamos que essas possibilidades podem caminhar em par- ceria e de modo ecológico. Assim, as tarefas para atividades da vida miolo-idosos.indd 136 2/21/2018 8:58:34 PM — 137 — diária podem ser perpassadas por treinos de estimulação das funções cognitivas elaboradas com base nas informações coletadas sobre os principais interesses dos idosos. Na nossa prática, esse tipo de inter- venção tem apontado para uma série de possibilidades e os relatos dos idosos e dos familiares durante o acompanhamento são um ter- mômetro do quanto as atividades podem ser mais ou menos efetivas. REFERÊNCIAS Allain, P., Etcharry-Bouyx, F., & Verny, C. (2013). Executive functions in clini- cal and preclinical Alzheimer’s disease. 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Maria Teresa Barros Falcão Coelho Waleska de Carvalho M� Medeiros Cristina Maria de Souza Brito Dias Nas próximas décadas, o ritmo de envelhecimento da população bra- sileira tende a aumentar (IBGE, 2010). Estima-se que, em 2060, os ido- sos acima de 65 anos deverão representar 26,7% da população bra- sileira, ou seja, aproximadamente 58,4 milhões de idosos para uma população de 218 milhões de pessoas (Affonso, 2013; IBGE, 2010). O crescimento da população de idosos tem repercussões importantes em diversas esferas da vida social. Em relação às famílias, por exem- plo, tem sido possível um aumento no tempo de convivência entre pessoas de gerações diferentes. Os indivíduos que envelhecem pas- sam mais tempo a desempenhar papéis intergeracionais, em arranjos familiares com três ou quatro gerações (Harper, 2006; Motta, 2004). Dentre os papéis intergeracionais vivenciados por adultos que en- velhecem, o papel de avós e, recentemente, o de bisavós, têm sido o foco de interesse de vários pesquisadores que investigam as intera- ções familiares (Dias & Silva, 1999; Lopes, Neri & Park, 2005; Rabinovi- ch, Azambuja & Moreira, 2014). De acordo com Arantagy e Posternak (2005), pesquisas e estatísticas no mundo inteiro revelam uma ten- dência ao aumento do tempo de convivência entre avós e netos, o que possibilita considerar o século XXI como o “século dos avós”. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e no Reino Unido esti- mam que o papel de avós poderá ser vivenciado durante boa parte miolo-idosos.indd 141 2/21/2018 8:58:34 PM — 142 — da vida dos adultos (Hagestad & Burton, 1986; Harper, 2006). Na mes- ma direção, Sousa (2006) chama a atenção que as relações entre avós e netos tendem a se prolongar por duas a três décadas, possibilitan- do a convivência dos avós, no início, com netos crianças/adolescentes e, na terceira década, com netos adultos e bisnetos. No decorrer des- se período estendido de tempo podem ocorrer variações entre uma maior ou menor condição de dependência/independência dos avós e dos netos, levando em consideração os processos de desenvolvimen- to, relações saúde e doença, demandas sociais, dentre outros fatores implicados. Harper (2006) e Sousa (2006) ressaltam que o maior tempo de con- vivência entre avós e netos pode vir a constituir uma relação de cui- dados recíproca, na qual os avós cuidariam dos netos pequenos e os netos cuidariam dos avós, quando estes viessem a apresentar maior debilidade. Ao pesquisar sobre cuidados intergeracionais, Flores (2008) iden- tificou, a partir de entrevistas e situações de cuidado observadas, que a reciprocidade foi um tema central tanto para os idosos, como para os cuidadores das outras gerações. Na reciprocidade, existe a troca entre cuidar e ser cuidado, ocorrendo uma circulação entre dar, re- ceber e retribuir, o que torna o cuidado humano um processo contí- nuo e fundamental à sobrevivência das pessoas em cada ciclo da vida (Mauss, 2003). A partir de tais possibilidades de cuidar e ser cuidado, pode-se questionar sobre os contornos desta relação entre avós e netos: Quem cuida de quem? Como cuida? Em que cenários e contextos ocorre essa relação de cuidados? Este capítulo tem por objetivo analisar a re- lação de cuidados que se estabelece entre avós e netos. Para tal, serão apresentados dois casos: o de uma avó que cuida do neto adolescen- te, bem como o de uma neta adulta que cuida da avó em situação de paliação. Tais casos representam recortes das pesquisas de doutorado das duas primeiras autoras. miolo-idosos.indd 142 2/21/2018 8:58:35 PM — 143 — ESTUDO 1 - AVÓS QUE CRIAM E CUIDAM DE NETOS1 Na realidade brasileira, atualmente, ampliou-se o número de lares onde se verifica a corresidência, nos quais várias gerações residem juntas, assim como aqueles em que os avós criam seus netos integral- mente (IBGE, 2010). Nessa circunstância, os avós são chamados de “avós cuidadores”, “pais substitutos”, “avós guardiões”, e também, “avós com custódia”, quando detêm a guarda dos netos judicialmente (Car- doso & Costa, 2012; Dias & Silva, 1999; Lopes et al., 2005). Os avós têm assumido o cuidado dos netos em tempo parcial ou integral, sendo denominados, de acordo com Gerondo (2006), como cuidadores primários, quando assumem a criação integral dos ne- tos; cuidadores secundários, quando cuidam devido a uma ausência temporária dos pais; e terciários, quando são chamados para ajudar numa tarefa específica. Estudos apontam uma sobreposição de motivos para que os avós assumam a criação dos netos, principalmente quando já participa- vam dos cuidados aos netos, coabitavam ou residiam próximos. Os motivos mais frequentes são: gravidez na adolescência de um (a) filho (a), abandono/ negligência/ maus tratos aos netos por parte dos pais, ou impossibilidade dos pais de cuidar devido à dependência quími- ca, doença ou mesmo morte (Dias, 2015; Mainnert & Wanderbrooc- ke, 2013). Diante de tais situações, ocorrem mudanças na família e no pa- pel dos avós que repercutem em diferentes formas de relacionamen- to entre os avós e netos (Paula, Silva, Bessa, Morais & Marques, 2011). O estudo de Klein (2009) distingue três tendências que explicariam os padrões de vínculo que se estabelecem entre avós e netos: uma ten- dência “tradicional”, que envolve sentimento de autossacrifício por parte dos avós e um modelo assimétrico de cuidado, que faz referên- 1. Texto baseado na Tese de Doutorado “Relações entre avós, netos e escola: uma abordagem bioeco- lógica” da primeira autora com a orientação da Prof.ª Dr.ª Cristina Maria de Souza Brito Dias - Progra- ma de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco. miolo-idosos.indd 143 2/21/2018 8:58:35 PM — 144 — cia a uma entrega e dedicação total dos avós aos netos; uma tendên- cia “não tradicional” quando se constitui um vínculo de apego seguro, base a partir da qual os avós e os netos se cuidam e se ajudam mu- tuamente, configurando a solidariedade intergeracional; e, por últi- mo, uma tendência “inédita ou não compreensível”, caracterizada por conflitos, ressentimentos, raivas e confrontação dos netos aos avós e destes ao papel de avós. Ao lidar com as demandas envolvidas na criação dos netos, os avós enfrentam desafios emocionais, sociais e econômicos. Pesquisadores ressaltaram que estes vivenciam sentimentos ambivalentes em rela- ção ao papel de guardiões, estando sujeitos a desenvolver problemas funcionais e de saúde, ao mesmo tempo em que referem o amor in- condicional pelos netos e o sentimento de sentirem-se úteis (Dias & Costa, 2006; Newsome & Kelly, 2004). Este capítulo apresentaum estudo de caso, a partir dos relatos de uma avó guardiã e de seu neto, para discutir como percebem e ava- liam a experiência de cuidar e ser cuidado. Tais entrevistas compõem a tese de doutorado “Relação avós, netos e escola: uma abordagem bioecológica”, que fundamenta este trabalho. A tese propôs-se a in- vestigar a relação entre família e escola na perspectiva dos avós guar- diões, dos netos e dos professores. Ao todo, foram vinte três partici- pantes na pesquisa: sete avós, oito netos e oito professores. Para este capítulo, será apresentado um estudo de caso que tem como partici- pantes: uma avó, com idade de 57 anos, primeiro grau completo, apo- sentada e com renda familiar de dois salários mínimos, residindo com a filha e os três netos que cria; o neto, com 14 anos de idade, cursan- do o nono ano do Ensino Fundamental em uma escola da rede públi- ca de ensino. Os participantes responderam a um questionário sociodemográ- fico e a uma entrevista conduzida de forma semidirigida, com rotei- ro específico para cada geração. As entrevistas foram transcritas na íntegra e analisadas a partir da Análise de Conteúdo Temática (Mina- miolo-idosos.indd 144 2/21/2018 8:58:35 PM — 145 — yo, 2004). Dentre os eixos temáticos elencados, foram selecionados os seguintes: significado de ser avó e de ser neto; relacionamento entre avós e netos; experiência de cuidar e ser cuidado. SIGNIFICADO DE SER AVÓ E DE SER NETO A avó relatou: Ser avó é alimentar o sangue do seu sangue. É muito bom ser chamada de vovó. É muito bom você ter com quem compar- tilhar, porque com os filhos você já não compartilha mais. Quando os filhos crescem, cada um quer saber das suas esposas, da sua casa, dos seus compromissos. E quando você tá com os netos, sempre tem algu- ma coisa pra você participar. Quando estão estudando, falam o tem- po todo: ‘Vovó, diga aí, vovó faz aquilo’. Eu me lembro tanto, quando os meninos eram pequenos, eles brincavam (...) e eu ficava participando, mesmo lavando roupa, fazendo alguma coisa, mas sempre tinha como compartilhar com eles na brincadeira. Sobre ser neto, o adolescente relatou: É uma coisa especial, é um apoio de vó, é ajuda. Pode-se perceber pelos relatos apresentados que a avó destacou o compartilhar com o neto em relação aos estudos, brincadeiras, e o neto ressaltou o apoio e a ajuda recebida por parte da avó. Tais relatos evidenciam que, para os participantes, o significa- do de ser avó e ser neto implica uma relação de trocas e cuidados da avó para com o neto, confirmando vários estudos que ressaltam a im- portância dos avós que criam os netos, tanto para a família como para a sociedade (Araújo & Dias, 2010; Dias, 2015; Dias & Costa, 2006; Dias, Costa, & Rangel, 2005; Vitale, 2005). Pode-se perceber, também, que a avó fez referência ao papel pa- rental ao se referir aos filhos adultos, com os quais mencionou ter ocorrido uma diminuição no compartilhamento/participação em suas vidas, ao mesmo tempo em que salientou a oportunidade de compartilhar e participar do cotidiano da vida dos netos. A partir de alguns estudos, é possível pensar que os avós guardiões vivenciam um processo de parentalização na relação com os netos que requer miolo-idosos.indd 145 2/21/2018 8:58:35 PM — 146 — elaborações importantes, sendo percebido de maneira ambivalente: como uma segunda chance para serem pais, implicando satisfação e, ao mesmo tempo, ônus devido ao estresse físico e emocional, bem como dificuldades financeiras (Amaro, 2015; Lima & Júnior, 2014; Pin- to, Arrais & Brasil, 2014). RELACIONAMENTO ENTRE AVÓ E NETO A avó avaliou que o relacionamento com os netos é ótimo, a gente é um pouco áspera porque a gente é um pouco antiquada às vezes. Às ve- zes, eles riem de mim, eu rio deles e fica assim aquele clima... clima nor- mal de família. O neto pontuou que o relacionamento com a avó envolve senti- mentos diferentes, às vezes sou chato, às vezes brinco. Sou esse tipo de garoto, pirralho, brincalhão, chato. Relatou que, nas reuniões em fa- mília, brincam de jogos de tabuleiro e que gosta de jogar dominó com a avó. O estudo de Oliveira (1998) revelou processos coeducativos en- tre avós e netos, a partir de vivências do cotidiano. Ferrigno (2006, 2009), ao investigar relações intergeracionais, também identificou a ocorrência de processos coeducativos em atividades de natureza cul- tural e de lazer. Assim, no cotidiano e em atividades de lazer, avós e netos aprendem juntos. EXPERIÊNCIA DE CUIDAR E SER CUIDADO Ao avaliar a experiência de criar o neto, a avó pontuou: Pra mim, me deu uma nova vida, apesar de que não queria logo não, porque eu sabia que tinha certa responsabilidade, mas é muito bom. Antes de o neto nascer, a avó foi diagnosticada com um aneurisma e fez uma cirurgia. Durante sua recuperação, ela disse ter enfrentado dificuldades de criar um novo elo para sua vida. Com o nascimento prematuro do neto, que apresen- tou um problema cardiológico, a avó relatou: A partir do momento que eu passei minha atenção pra ele, eu fui me curando, e aqui estou. Papai do Céu criou esse laço maravilhoso! Então eu dediquei muito amor. miolo-idosos.indd 146 2/21/2018 8:58:35 PM — 147 — Embora identifique as responsabilidades que o papel de avó guar- diã implica, a avó enfatizou que cuidar do neto trouxe benefícios para sua saúde, dando um novo sentido para sua vida. Dias (2015) ressal- ta que não há consenso entre as pesquisas acerca de como os avós vi- venciam a experiência de criar netos. Algumas pesquisas relatam as dificuldades tais como: stress, queixas físicas, depressão, preocupa- ções financeiras, com a escolaridade e disciplina. Outras, no entanto, apontam para os sentimentos de renovação do sentido para a vida, sa- tisfação, orgulho e senso de utilidade. O neto reconheceu os cuidados da avó, ao mencionar seu apoio e ajuda, e ao referir: É muito importante ela acompanhar minhas coi- sas na escola do que outras pessoas. Prefiro que seja minha mãe, mi- nha avó. Ele avaliou que, mesmo a avó não tendo muito tempo de- vido às tarefas domésticas, participa das reuniões, da entrega dos boletins e quando ele chega a casa, todos os dias, após a escola ela pergunta se tem tarefa. A partir de tais relatos, torna-se possível identificar que a relação de cuidados implica, para os avós, acompanhar o desenvolvimento dos netos, em suas várias dimensões, a saber, física, cognitiva, emo- cional e social. Jorge e Lind (2015), tendo por base uma perspecti- va sistêmica bioecológica, analisaram várias pesquisas e destacaram dilemas individuais, intrafamiliares e extrafamiliares enfrentados por avós guardiões. Estes pesquisadores evidenciaram que a relação de cuidados aos netos crianças/adolescentes implica, para os avós, lidar com vários contextos de desenvolvimento, dentre os quais se destaca a escola. Os resultados dos vários estudos, acima apresentados, possibili- tam ressaltar a importância do papel dos avós como cuidadores dos netos, e questionar sobre sua possível influência em relação aos netos tornarem-se cuidadores. Neste sentido, Flores (2008) destaca que ao ser cuidado, aprende-se a cuidar. miolo-idosos.indd 147 2/21/2018 8:58:35 PM — 148 — ESTUDO 2 - AVÓS CUIDADOS POR NETOS ADULTOS2 Não obstante os grandes avanços tecnológicos que vêm proporcio- nando um envelhecimento mais ativo e saudável, a longevidade tam- bém é marcada pela vulnerabilidade orgânica e celular que torna o idoso mais suscetível a doenças. Burlá, Azevedo e Py (2016) falam so- bre a prevalência epidemiológica de doenças crônico-degenerativas e incapacitantes que costumam estar presentes nessa fase da vida e que acompanham o indivíduo até a morte. Os autores ressaltam que os cuidados paliativos, como modalidade assistencial à população idosa, voltam o olhar para a pessoa e não a doença, e buscam oferecer quali- dade de vida, mesmo quando a curanão é possível. A literatura aponta que é no seio da família, primordialmente, que os idosos encontram cuidado e apoio às suas necessidades, es- pecialmente no fim de vida (Brito, 2002; Caldas, 2003; Cerqueira, 2005; Mota, Oliveira, Marques, Bessa, Leite & Silva, 2010; Neri & Som- merhalder, 2012; Pereira, 2013; Silva, 2012). Seja por questões econô- micas, seja por compensação ou retribuição do cuidado recebido, é esperado que, nessa etapa do ciclo vital, o pêndulo da balança se in- verta e caiba aos descendentes o cuidado com a saúde dos mais ve- lhos. Rabelo e Neri (2016, p.34) ressaltam que, além de disponibili- zar o manejo instrumental de provimentos básicos à sobrevivência, a rede de suporte familiar oferece intercâmbio de recursos materiais, afetivos e informativos conforme as necessidades do idoso doente. Histórica e mundialmente, a mulher sempre assumiu a função de cuidado aos enfermos. Com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, outras pessoas começaram a realizar as atividades de cuida- do, dentre elas, os netos. A partir de recortes de entrevistas da tese de doutorado da pesquisadora, buscaremos compreender de que forma esse cuidado de uma neta à sua avó, em cuidados paliativos, repercu- 2. Texto baseado na Tese de Doutorado “Relações de cuidado entre avós, em cuidados paliativos, e seus netos cuidadores” da segunda autora com a orientação da Prof.ª Dr.ª Cristina Maria de Souza Bri- to Dias - Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco. miolo-idosos.indd 148 2/21/2018 8:58:35 PM — 149 — te em suas vidas e relação. Participaram da pesquisa qualitativa sete avós/avôs, em cuidados paliativos, com idades entre 63 e 100 anos, e seus respectivos netos cuidadores, de ambos os sexos, com idades en- tre 18 e 45 anos. Para este capítulo, apresentaremos um estudo de caso de uma avó de linhagem materna, 77 anos, casada, ensino fundamen- tal completo, católica, de classe média. Ela foi acometida por câncer de útero com histerectomia, ressecção de câncer no intestino com co- lostomia, em investigação de cistos nos rins, em acompanhamento médico e assistida por sua família em casa. Sua neta cuidadora tem 22 anos, solteira, filha de pais separados, mora com a mãe e uma irmã, e encontra-se concluindo o ensino superior, cristã/evangélica, de ca- mada média. Após aprovação do projeto no Comitê de Ética em Pesquisas, os participantes responderam a um questionário sociodemográfico e a uma entrevista, conduzida de forma semidiretiva, com roteiro especí- fico para cada geração. As entrevistas foram individuais e, com prévia autorização, foram audiogravadas, transcritas em sua integralidade e analisadas a partir da Análise de Conteúdo Temática (Minayo, 2004). Dentre os eixos temáticos obtidos, selecionamos para este trabalho: impactos da doença na vida de avó e neta; experiência de cuidar e ser cuidado; estratégias de enfrentamento. IMPACTOS DA DOENÇA NA VIDA DE AVÓ E NETA A avó queixou-se das mudanças ocorridas em sua vida após o adoeci- mento. Eu gostava de sair. Mas agora ninguém quer mais que eu saia. Você sabe uma pessoa podada? Eu estou sendo podada. Aí eu acho isso, assim, ruim. Eu era dona do meu dinheiro e agora eu dou o car- tão para as meninas comprarem as coisas (...). Eu sou uma pessoa que não gosto de depender de ninguém. Eu gosto de fazer as minhas coisas. A fala da avó aponta para a perda de controle e autonomia sobre sua vida, imposta pela família ao impedi-la de realizar atividades de sua vida cotidiana que antes desempenhava. Das grandes perdas vi- miolo-idosos.indd 149 2/21/2018 8:58:35 PM — 150 — venciadas pelo idoso adoecido, o medo da dependência e a perda de controle sobre sua vida costumam ser os mais relevantes temores pre- sentes nessa fase da vida e principais indicadores da percepção de baixa qualidade de vida, sendo fatores de risco para depressão (Al- meida, Moraes & Di Tommaso, 2014; Neri, 2011; Rolland, 1995; Trenti- ni, Chachamovich & Fleck, 2008; Walsh, 1995). Reportando-se ao choque diante do novo que a doença trouxe à dinâmica familiar, a neta falou: Eu nunca tinha tido esse cuidado. Até então era uma coisa de: ah, minha avó está ficando um pouco mais ve- lha e precisa de ajuda. Ajuda financeira, ajuda de locomoção, para le- var num lugar para resolver uns problemas, nunca tinha tido uma aju- da de saúde mesmo. Meu Deus, minha avó agora precisa de mim. O choque é meio grande. A doença e a necessidade de novas posturas frente à avó adoecida, estão de acordo com o que Rolland (1995) apontou como uma das ta- refas do familiar no manejo do adoecimento na família. Passado o im- pacto do diagnóstico e o ajuste ao sofrimento, o reajustamento intra- familiar se faz urgente para que os familiares possam assistir às novas demandas que a doença trouxe à rede familiar. EXPERIÊNCIA DE CUIDAR E SER CUIDADO Esse ponto traz aspectos de extrema relevância, sobretudo quando pensados frente a esse novo cenário de cuidado intergeracional en- tre avós e netos. A literatura é vasta ao apontar que tal atividade assis- tencial é percebida como agente estressor relacionada às sobrecargas física, social e psicológica do cuidador (Cerqueira, 2005; Fratezi, Gu- tierrez & Falcão, 2010; Pereira & Schwanke, 2012; Pereira, 2013; Que- roz, 2010; Rabelo & Neri, 2016; Romano, Melo & Corral, 2014; Santos, 2013). Não obstante o reconhecimento de que a ato de cuidar impõe mudanças e ajustes aos que mais diretamente assumem tal tarefa, em sua essência, o cuidado diz respeito ao inclinar-se, imbuído de afeto e solicitude, ao que é valoroso. O cuidado se dá por meio de uma re- miolo-idosos.indd 150 2/21/2018 8:58:35 PM — 151 — lação de totalidade, interdependência e mútua responsabilidade soli- dária (Zoboli, 2011) estabelecida entre quem cuida e quem é cuidado. Embora a avó apresente necessidades e limitações físicas que in- tensificaram a atenção há pouco tempo, a neta assumiu todo o con- trole de suas finanças quase dois anos antes, após detectar que sua avó vinha sendo roubada dentro de casa. Disse: Quem vai tomar conta do seu dinheiro agora sou eu. (...) Todas as filhas sabiam do que estava acontecendo, sabiam que o dinheiro tinha sido roubado e ninguém se disponibilizou para resolver (...) Fiquei indignada e disse: Não, vó, dei- xa que eu cuido disso. Quando interrogada quanto às razões para assumir a responsabi- lidade da administração financeira e, sobretudo, do cuidado de sua avó nesse momento, a neta falou de uma atitude natural de reconhe- cimento e retribuição a todo o cuidado recebido. Eles sempre fizeram muito por mim. (...) Sempre cuidaram tanto de mim que é o mínimo que eu posso fazer. Eles estão precisando, sabe? (...) Segundo ela, o amor até cresceu e a partir de então começou essa questão de cuidado. Dentre as várias justificativas apontadas na litera- tura para o ato de cuidar do outro, a solidariedade, dever moral ou re- tribuição do cuidado recebido (António, 2010; Bicudo, Teixeira, Rapo- so & Marques, 2014; Neri & Sommerhalder, 2012). Reportando-se a um estudo realizado por Robertson (1976), António (2010, p. 35) ressalta que “os netos sentem responsabilidades para com os avós no sentido de providenciar apoio emocional, ajuda palpável e evidente, e tempo significativo em conjunto”. A avó reconheceu o cuidado ao falar que a neta se desdobra, mas queixou-se da inversão hierárquica de responsabilidades, como vis- to em sua fala: Eu era uma pessoa dona do meu dinheiro, hoje eu dou o cartão para as meninas comprarem as coisas. Ao referir-se ao cer- ceamento de sua autonomia em gerir sua vida financeira, a avó pode apontar para um fenômeno conhecido como idadismo, ou seja, cer- to tipo de preconceito relacionado às questões de idade. A crença e miolo-idosos.indd 151 2/21/2018 8:58:35 PM — 152 — atribuição de incapacidade no gerenciamento daprópria vida, mui- to comum tanto por parte dos cuidadores quanto aos próprios idosos, sobretudo, dependentes, são fatores de risco à percepção de baixa qualidade de vida nessa fase da vida. (Couto & Marques, 2016). Nes- se sentido, Paschoal (2016, p. 85) ressalta a importância de o idoso ter “participação ativa na avaliação do que é melhor e mais significativo para ele, pois o padrão de qualidade de vida é um fenômeno altamen- te pessoal”. ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO Tanto a avó quanto a neta ressaltaram a fé e a espiritualidade como o caminho utilizado para encontrar fortalecimento para atravessar as dificuldades e ajustes impostos pelo adoecimento. A avó disse que re- zava demais no hospital, então isso me ajudou muito. Eu tenho uma fé muito forte. Já a neta relatou: primeiro Deus, sempre. Na hora do deses- pero, na hora que você acha que vai perder, que você acha que não vai ter nunca mais aquela pessoa na sua vida, não tem por onde recorrer se não for Deus. A expressão da fé ou experiência religiosa/espiritual podem ser vistas como importante estratégia de enfrentamento para lidar com o sofrimento, sobretudo frente a situações de adoecimento e risco de vida, pois são capazes de trazer conforto, maior sensação de controle pessoal e atribuição de sentido à experiência de sofrimento e perda. A partir dos recortes de fala dos entrevistados, percebe-se que, não obstante os ajustes intrafamiliares e o sofrimento trazidos pela doen- ça à família, por meio da mútua relação de cuidados, os laços de afe- to intergeracional puderam ser estreitados fortalecendo a relação avó-neta. Se, por um lado, as mudanças ocorridas com a chegada da doença apontam para a perda de um lugar de poder hierarquicamen- te demarcado, por outro lado a inversão de hierarquia imposta pelas circunstâncias convida avó e neta a refletirem sobre sua função sem que, no entanto, se permita que o respeito, investimento afetivo e re- miolo-idosos.indd 152 2/21/2018 8:58:35 PM — 153 — conhecimento valorativo do outro sejam minorados. O desafio de cui- dar da avó enferma pôde inaugurar novos canais de comunicação intergeracional, fortalecendo a aquisição de habilidades e competên- cias até então desconhecidas. Da mesma forma, o sentimento de per- tença e retribuição ao cuidado investido pela avó, pôde ser experien- ciado de modo a trazer bem-estar tanto a quem cuida, quanto a quem é cuidado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os Estudos 1 e 2, apresentados anteriormente, possibilitam refletir acerca das implicações do envelhecimento populacional em termos da sobrecarga para a saúde dos idosos no papel de avós guardiões (te- mática abordada no Estudo 1), assim como, possibilitam questionar a respeito dos cuidados para com os idosos (temática abordada no Es- tudo 2): quem vai cuidar deles? Os resultados dos dois estudos apontam para a importância da re- lação de cuidados que se estabelece entre avós e netos ao longo do ci- clo vital. Considerando os resultados do Estudo 1, é possível pensar que, ao serem cuidados na infância e adolescência, os netos podem aprender a cuidar, podendo vir a retribuir, na vida adulta, o cuidado recebido, tal como sugerem os resultados do Estudo 2, que se referem aos netos adultos que assumem os cuidados para com os avós. Inte- ressante ressaltar que o sentimento de cuidar e ser cuidado é mencio- nado por avós e netos em ambos os estudos. No Estudo 2, a neta que assume os cuidados para com a avó, vivencia também o sentimento de ainda ser cuidada por ela. A importância do relacionamento entre avós e netos, destaca- da nos estudos acima discutidos, provoca ainda uma reflexão sobre os vínculos afetivos que podem vir a se constituir entre avós e netos. Dentre os padrões de vínculos, Klein (2009) faz referência ao de apego seguro, no qual prevalece a solidariedade intergeracional. Os resul- tados do Estudo 1 revelam que, para a avó e para o neto, a realização miolo-idosos.indd 153 2/21/2018 8:58:35 PM — 154 — de atividades conjuntas, que envolvem o cotidiano, tais como a parti- cipação nas atividades de estudo do neto, brincadeiras e lazer em fa- mília, favorecem o relacionamento entre ambos e, provavelmente, fo- mentam a solidariedade intergeracional. Neste sentido, considerando os estudos de Ferrigno (2006, 2009), des- tacamos a importância de projetos e intervenções com propostas de ati- vidades intergeracionais que visam facilitar o desenvolvimento da solida- riedade intergeracional, a qual favorece uma relação de cuidados mútuos, tão significativos frente ao cenário do crescente processo de envelheci- mento populacional e das mudanças nos arranjos e dinâmicas familiares. REFERÊNCIAS Affonso, J. (2013). Proporção de idosos no Brasil deve ser três vezes maior em 2060, diz IBGE. Uol Notícias. Retirado de http://noticias.uol.com.br/co- tidiano/ultimas-noticias/2013/08/29/idosos-devem-ser-267-da-popula- cao-brasileira-em-2060-diz-ibge.htm Almeida, C. B. L., Moraes, N. S., & Di Tommaso, A. B. G. (2014). Depressão e ansiedade. In Moares, N. S., Di Tommaso, A. B. G., Nakaema, K. E., Sou- za, P. M. R., & Pernambuco, A. C. A. (orgs.) Cuidados paliativos com enfo- que geriátrico: a assistência multidisciplinar (pp. 209-217). 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SãoPaulo, SP: Paulinas: Centro Universitário São Camilo. miolo-idosos.indd 159 2/21/2018 8:58:35 PM — 160 — NUTRIÇÃO E ENVELHECIMENTO: ASPECTOS BÁSICO- CLÍNICOS AVANÇADOS Ana Carolina Ribeiro de Amorim Antonio Souto Gouveia Carlos Augusto Carvalho de Vasconcelos “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”. Hipócrates (* 460 a.c. NA ILHA DE Cós/GRÉCIA; † 370 a.C. em Tessália, GRÉCIA ANTIGA). ENVELHECIMENTO POPULACIONAL O envelhecimento é um processo natural, dinâmico, progressivo e ir- reversível que caracteriza uma etapa da vida humana, onde ocorrem alterações provocadas pela idade. Uma nutrição adequada influen- cia diretamente todo metabolismo orgânico, importante nessa última fase do desenvolvimento. Segundo a OMS, a faixa etária caracterizada como idosa é estabele- cida conforme o nível socioeconômico de cada nação. Países desenvol- vidos, identificados por seu alto nível de desenvolvimento econômico e social, no qual oferecem maior qualidade de vida, postos de trabalho, di- reito a saúde, acesso ao alimento e água potável tende a ter uma maior expectativa de vida, sendo definidas como pessoas idosas, aquelas com 65 anos ou mais. No entanto, países em desenvolvimento tendem a apre- sentar uma situação contrária e por isso apresentam um menor tempo de vida, sendo consideradas idosas as pessoas com 60 anos ou mais. Atualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) existem aproximadamente 650 milhões de idosos no mundo, e até miolo-idosos.indd 160 2/21/2018 8:58:35 PM — 161 — 2050 esta população alcançará entorno de 2 bilhões de pessoas. No Brasil, a projeção demográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que a população idosa (60 anos ou mais de idade) brasileira chegará a 73,55 milhões de pessoas em 2060, sendo 19 milhões com 80 anos ou mais. Em média, a população ido- sa crescerá 1,1 milhão por ano entre 2016 e 2060. Estes números mos- tram a expressividade populacional deste grupo etário e a impor- tância de se conhecer as peculiaridades e modificações ocorridas nesta fase. O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humani- dade e também um dos nossos grandes desafios. Ao entrarmos no sécu- lo XXI, o envelhecimento global causará um aumento das demandas so- ciais e econômicas em todo o mundo. no entanto, as pessoas da 3ª idade são, geralmente, ignoradas como recurso quando, na verdade, constituem recurso importante para a estrutura das nossas sociedades (WHO, 2005). SENESCÊNCIA E TEORIA CELULAR Mudanças histopatológicas progressivas, sendo estas, de ordens mor- fológicas, bioquímicas, fisiológicas, comportamentais e psicossociais, que levam ao prejuízo da homeostase e são particulares em cada in- divíduo com uma sobrevida prolongada, são as mudanças ocasiona- das nesta fase. Assim, o envelhecimento é o resultado da perda progressiva da funcionalidade do corpo, o qual é ditado com o passar dos anos. Este representa a expressão da redução gradual da atividade celular, refle- tida nos tecidos e órgãos dos sistemas fisiológicos. No entanto, sabe-se que o corpo humano é formado por um con- junto de células somáticas que se encontram em constante divisão. Se analisarmos, este processo de divisão celular ocorre continuamente, mas como o tempo biológico é marcado e este processo de renovação celular é alterado ainda não sabemos, ao certo. miolo-idosos.indd 161 2/21/2018 8:58:35 PM — 162 — Inúmeras teorias tentam explicar o processo de envelhecimento, onde muitas corroboram entre si e buscam esclarecer a mesma temá- tica sob diferentes aspectos. Estas foram separadas em dois grandes grupos: as de natureza genético-desenvolvimentista e as de nature- za estocástica. A teoria genético-desenvolvimentista defende que o envelheci- mento é desencadeado por uma programação puramente genética e inclui teorias como a teoria somática, a genética, a imunológica e a das telomerases. A teoria estocástica, por sua vez, defende que o en- velhecimento é consequência de sucessivas lesões do ácido desoxir- ribonucléico (DNA). Isto ocorre, principalmente devido ao acúmulo de agressões ambientais, inibindo o funcionamento celular e a ex- pressão apropriada dos genes. Essa inclui teorias como a da lesão/re- paração do DNA, da oxidação dos radicais livres, do DNA mitocon- drial e das radiações. Dentre estas, podemos destacar a teoria dos radicais livres que su- gere que o envelhecimento é causado pelo papel citotóxico das espé- cies reativas de oxigênio e de nitrogênio, no qual estas espécies de- pletam a função mitocondrial e assim atuam na formação de mais radicais livres. Estes provocaram inúmeras lesões moleculares ao lon- go do tempo e levaram a perda da funcionalidade celular ao longo da vida, conduzindo a morte. No entanto, mesmo havendo inúmeras hipóteses para explicar o processo de envelhecimento, sabe-se que este mecanismo é muito complexo e a contribuição fisiológica de cada teoria ainda necessita de mais estudos. Diante desta visão generalista do processo de envelhecimento, percebemos que essa etapa necessita de um acompanhamento multi- disciplinar adequado, para atenuar ou evitar as alterações fisiológicas características dessa fase, além de atuar nos aspectos promotores do envelhecimento saudável, como veremos a seguir: miolo-idosos.indd 162 2/21/2018 8:58:35 PM — 163 — FATORES ASSOCIADOS AO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO Inúmeros fatores vão estar diretamente relacionados ao processo de senescência, entre eles podemos destacar: PRINCIPAIS ALTERAÇÕES ORGÂNICAS, FISIOLÓGICAS E METABÓLICAS OCASSIONADAS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO. ALTERAÇÃO DA COMPOSIÇÃO CORPORAL E METABOLISMO BASAL Nesta fase ocorre redução de todos os compartimentos corporais (massa magra, esquelética e gorda). Estas modificações corporais tem uma influência direta na qualidade de vida dos indivíduos, especifi- camente na autonomia e capacidade funcional destes idosos. O que pode levar a um desfecho desfavorável à mobilidade, quedas, fraturas, miolo-idosos.indd 163 2/21/2018 8:58:36 PM — 164 — limitações nas tarefas de autocuidado e independência, além de ser um fator preditor de morbi-mortalidade. Dos acometimentos corporais ocorridos, a redução de massa ma- gra é quantitativamente maior e ocorre de forma mais acelerada, des- tacando-se uma maior perda nas regiões de membros superiores e in- feriores. Indivíduos com redução nível de atividade física tendem a ter um maior acometimento também. Esta perda poderá levar a um quadro de sarcopenia. Descrita na li- teratura científica como uma síndrome geriátrica caracterizada pela diminuição global e progressiva da massa e força muscular, implican- do em grandes prejuízos à funcionalidade do idoso. Os mecanismos envolvidos na sua etiologia e progressão são múl- tiplos, incluindo alterações na síntese de proteínas, proteólise, dimi- nuição da função neuromuscular, inflamação, estresse oxidativo, alte- rações hormonais e anormalidades metabólicas e nutricionais. Além disso, fatores de risco, tais como sexo, hábitos de vida, comorbida- des e fatores genéticos também podem predispor ao aparecimento da sarcopenia. O declínio do sistema muscular cursa com modificações na composição da fibra muscular, com diminuição da inervação, da vascularização, da contratilidade e comprometimento das unidades tendíneas. Há ainda alterações importantes no metabolismo da glico- se. No indivíduo idoso, tais perdas podem refletir em fragilidade e si- nais de fadiga generalizada. Devido a esta perda expressiva de massa magra, o indivíduo pas- sa a ter maior quantidade de massa gorda, no entanto não há um au- mento absoluto, e sim uma compensação corporal para equilibrar percentuais os níveis de massa corporal. Também é observada redu- ção de massa gorda (MG) do componente subcutâneo de forma mais expressiva com o avanço da idade,comparada à gordura da região visceral. Essas mudanças de composição corporal, e especificamente de massa magra, leva a uma redução das necessidades energéticas, já miolo-idosos.indd 164 2/21/2018 8:58:36 PM — 165 — que este é o tecido metabolicamente ativo. Estima-se que com o avan- ço da idade, ocorra redução de aproximadamente 10 a 20% do meta- bolismo basal, relacionadas não só a alterações corporais, mas tam- bém a possível redução do nível de atividade física e adaptações ocasionadas pelo envelhecimento. REDUÇÃO DA ACUIDADE SENSORIAL Os acometimentos nesta fase comprometem todos os sentidos (visão, audição, olfato, gustação e tato), geralmente parciais, mas interferem tanto no apetite como no comportamento alimentar. Todos os sentidos estão envolvidos na ingestão de alimentos, no entanto, à sensibilidade gustativa, essencialmente os gostos primários (doce, amargo, ácido e salgado), estão associados ao olfato, e é consi- derado o fator mais relevante, por causar o maior prejuízo para a ali- mentação adequada. Estudos mostram uma redução significativa do número de papi- las gustativas após os 70 anos, o que reflete diretamente no limiar de detecção e identificação do flavour, ocasionando um aumento do consumo de alguns ingredientes, como o sal ou açúcar para ajudar a evidenciar o sabor. Esta prática, em longo prazo, pode levar ao surgi- mento de patologias associadas ao consumo excessivo destes alimen- tos, como a hipertensão e a diabetes. ALTERAÇÕES DO TRATO GASTROINTESTINAL (TGI) E METABÓLICAS Inúmeras alterações estruturais e funcionais podem acometer o TGI, desde alterações da cavidade oral até os seguimentos intestinais. Na região oral, pode haver perda dentária parcial ou total, fazendo- -se necessário o uso de próteses dentárias, que por muitas vezes po- dem estar mal ajustadas. Além disso, a presença de cáries dentárias, doenças periodontais (gengivites, outras inflamações e infecções), tu- mores e a xerostomia (diminuição quantitativa e qualitativa de saliva), miolo-idosos.indd 165 2/21/2018 8:58:36 PM — 166 — podem levar a prejuízos do processo digestivo, enzimáticos e mecâni- cos. Este cenário pode ocasionar a redução do consumo de alimentos como carnes, frutas, verduras, legumes, por exemplo, o que leva pre- juízos ao estado nutricional. Alterações anatômicas também são observadas no esôfago. Evi- dências mostram que esta faixa etária apresenta fraqueza da muscu- latura faríngea e relaxamento anormal do músculo cricofaríngeo, de- ficiência no início do relaxamento do esfíncter superior e na peristalse primária, condições que prejudicam a deglutição e podem levar a um quadro de disfagia progressiva. Esta patologia pode levar a morte atra- vés de episódios de broncoaspiração. Além disso, alterações gástricas e intestinais podem existir. Mu- danças estruturais desta mucosa estomacal podem levar a incidência de gastrite atrófica e acloridria, que aumenta progressiva nestes gru- pos etários. No intestino, constatou-se redução da função do intesti- no delgado, que pode estar comprometido pela redução do número de células absortivas, causando diminuição da área superficial, dispo- nível para absorção. Outros fatores que podem estar relacionados são a lentidão do esvaziamento gástrico e redução do fluxo sanguíneo in- testinal, levando a prejuízos graves no processo digestivo e absortivo. Este quadro de grandes mudanças no TGI reflete diretamente no consumo e aproveitamento alimentar, o que pode gerar um cenário de déficits nutricionais, que acomete a mais de 50% da população ido- sa. Além disso, pode gerar um quadro de excessos em relação ao con- sumo de alimentos não nutritivos, como carboidratos refinados na forma de pães, bolachas e massas e o excesso de gorduras saturadas. Órgãos alvos também são prejudicados nesta etapa da vida, como exemplos, temos o pâncreas, fígado e rins. Estes além de terem ação direta no processo de digestão e filtração de substâncias tóxicas tam- bém contribuem para um adequado funcionamento metabólico, o que irá gerar em longo prazo alterações orgânicas e funcionais. Assim, é observado redução da funcionalidade destes órgãos, gerando me- miolo-idosos.indd 166 2/21/2018 8:58:36 PM — 167 — nor produção de enzimas e hormônios, o que acarretará em uma re- dução metabólica, em longo prazo. Fatores patológicos, psicológicos, econômicos e culturais também agem diretamente neste processo de envelhecimento podendo con- tribuir de forma negativa se mal administrados. As patologias podem levar a uma incapacitância do indivíduo, o que por muitas vezes, lhe exclui do convívio social e familiar, além de gerar um alto custo, o que reflete diretamente na situação econômica destes idosos. Outro fator econômico bastante frequente é o uso da aposentadoria destes idosos para sustentar suas famílias, o que pode levar a uma escassez recur- sos, inclusive alimentares, devido a partilha desta renda. Associados a isto, estão os fatores psicológicos e culturais, como a morte do cônjuge, filhos ou pessoas próximas, morar sozinho ou em instituições de longa permanência, além da presença de mitos, tabus e crenças podem afetar diretamente este período da senescência. FATORES PROMOTORES DE UM ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL Dentre os fatores promotores de um envelhecimento adequado, pode- mos destacar as escolhas alimentares mais saudáveis que irão refletir diretamente no estado nutricional (EN) desta população. Assim, é ne- cessário um oferta equilibrada de macronutrientes e micronutrientes. RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS Energia Observa-se que a partir dos 30 anos de idade, o gasto energético di- minui cerca de 2 a 4% por cada década de vida. Esta redução é atribuí- da principalmente pelas alterações corporais de massa gorda e mas- sa magra, especificamente, além da redução da atividade física, que ocorre na maioria dos idosos. Para estimativa das necessidades energéticas, o uso das equações preditivas da Dietary Reference Intake (DRI) é preconizado. Os es- miolo-idosos.indd 167 2/21/2018 8:58:36 PM — 168 — tudos mostram, que para cada ano acima dos 30, deve-se subtrair 7 kcal/dia para as mulheres e 10 kcal/dia para os homens. Proteína Segundo as recomendações da DRI, o consumo mínimo de proteína neste estágio da vida é de 46g para as mulheres e 56g para os homens. É importante ressaltar que a qualidade proteica deve ser priorizada, sendo 60% de alto valor biológico, fracionada nas três principais refei- ções do dia para garantir uma melhor digestibilidade. Lipídios As recomendações gerais da DRI mostram que a faixa de ingestão de lipídios deve ser entre 20-35% do valor energético total (VET), onde estes devem também atender o percentual de 5 a 10% de ômega 6 e 0,6 a 1,2% de ômega 3. A gordura saturada também faz parte da alimen- tação mas não deve chegar a mais de 8% do VET. É importante desta- car com este público que a gordura também faz parte da alimentação saudável desde que escolhido fontes adequadas e formas de adição as preparações corretas. Carboidratos e Fibras A complementação do VET deve ser feita com os hidratos de car- bono, para que estes possam contribuir, diretamente, no proces- so de formação de energia e assim garantir um adequado balanço proteico. A faixa de recomendação é em torno de 45-65% do VET, devendo ser priorizado os alimentos fontes de carboidratos com- plexos e de baixa carga glicêmica para garantir níveis adequados de glicemia. É importante ressaltar que o consumo de alimentos integrais tam- bém deve fazer parte da alimentação desta população, com objetivo de regularizar o trânsito intestinal, logo o consumo de fibras deve ser de 30g para os homens e 21g para as mulheres, conforme as DRIs. miolo-idosos.indd 168 2/21/2018 8:58:36 PM — 169 — Vitaminas, minerais e ingestão hídrica De um modo geral, apesar do declínio da recomendação energética, os micronutrientesapresenta recomendações semelhantes aos dos adul- tos, com exceção do cálcio, vitamina B6 e vitamina D que encontram-se com as necessidades aumentadas e o ferro que necessita de uma oferta menor (no caso das mulheres, em decorrência da interrupção das per- das menstruais). Apesar das recomendações das DRIs, os idosos fre- quentemente são cercados de suplementação de micronutrientes com objetivo de garantir uma melhor qualidade de vida. É importante cons- cientizar este público que as evidências científicas destas suplemen- tações ainda são insuficientes e só devem ser feitas com prescrição de médico e/ou nutricionistas mediante constatação de déficits. Nesta fase, a recomendação hídrica deve ser 20 a 45ml/kg de peso corporal, não esquecendo de avaliar se há situações de maior perda hídrica como, febre, diarreia e temperatura ambiental. Diante deste panorama, o Ministério da Saúde do Brasil traçou os dez passos para uma alimentação ideal nesta faixa etária, utilizando uma linguagem de fácil compreensão e aplicabilidade cotidiana. Es- tas orientações são importantes para o público em geral e para os pro- fissionais de saúde, na construção de um envelhecimento/ alimenta- ção ideal. Segue abaixo as orientações: 1º PASSO: FAÇA PELO MENOS TRÊS REFEIÇÕES (CAFÉ DA MANHÃ, ALMOÇO E JANTAR) E DOIS LANCHES SAUDÁVEIS POR DIA. NÃO PULE AS REFEIÇÕES! • Aprecie a sua refeição, sente confortavelmente à mesa, de pre- ferência em companhia de outras pessoas. Coma devagar, mas- tigando bem os alimentos. Saboreie refeições variadas dando preferência a alimentos saudáveis típicos da sua região e dispo- níveis na sua comunidade. • Caso você tenha dificuldade de mastigar, os alimentos sólidos, como carnes, frutas, verduras e legumes, podem ser picados, ra- miolo-idosos.indd 169 2/21/2018 8:58:36 PM — 170 — lados, amassados, desfiados, moídos ou batidos no liquidifica- dor. Não deixe de comer esses alimentos. • Escolha os alimentos mais saudáveis, conforme as orientações a seguir, lendo as informações e a composição nutricional nos ró- tulos. Caso tenha dificuldade na leitura ou para entender a infor- mação, peça ajuda. 2º PASSO: INCLUA DIARIAMENTE SEIS PORÇÕES DO GRUPO DOS CEREAIS (ARROZ, MILHO, TRIGO, PÃES E MASSAS), TUBÉRCULOS COMO A BATATA, RAÍZES COMO MANDIOCA/ MACAXEIRA/ AI- PIM, NAS REFEIÇÕES. DÊ PREFERÊNCIA AOS GRÃOS INTEGRAIS E AOS ALIMENTOS NA SUA FORMA MAIS NATURAL. • Alimentos como cereais (arroz, milho, trigo, pães e massas), de preferência integrais; tubérculos como as batatas, e raízes como a mandioca/macaxeira/aipim, são as mais importantes fontes de energia e devem ser o principal componente da maioria das refeições, pois são ricos em carboidratos. Distribua as seis por- ções desses alimentos nas principais refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) e nos lanches entre elas. • Nas refeições principais, preencha metade do seu prato com es- ses alimentos. Se utilizar biscoitos para os lanches, leia os ró- tulos: escolha os tipos e as marcas com menores quantidades de gordura total, gordura saturada, gordura trans e sódio. Es- ses ingredientes, se consumidos em excesso, são prejudiciais à sua saúde. 3º PASSO: COMA DIARIAMENTE PELO MENOS TRÊS PORÇÕES DE LEGUMES E VERDURAS COMO PARTE DAS REFEIÇÕES E TRÊS PORÇÕES OU MAIS DE FRUTAS NAS SOBREMESAS E LANCHES. • Frutas, legumes e verduras são ricos em vitaminas, minerais e fi- bras, e devem estar presentes diariamente em todas as refeições e lanches, pois evitam a prisão de ventre, contribuem para pro- miolo-idosos.indd 170 2/21/2018 8:58:36 PM — 171 — teger a saúde e diminuir o risco de várias doenças. E qual a dife- rença entre eles? FRUTAS são as partes polposas que rodeiam a semente da planta. Possuem aroma característico, são ricas em suco e têm sabor adocica- do. Acerola, laranja, tangerina, banana e maçã são exemplos de frutas. LEGUMES são os frutos ou sementes comestíveis da planta ou par- tes que se desenvolvem na terra. São eles a cenoura, a beterraba, a abobrinha, a abóbora, o pepino, a cebola, etc. VERDURAS são folhas comestíveis, flores, botões ou hastes tais como: acelga, agrião, aipo, alface, almeirão, etc. • Varie os tipos de frutas, legumes e verduras consumidos durante a semana. Compre os alimentos da época (estação) e esteja aten- to para a qualidade e o estado de conservação deles. Procure combinar verduras e legumes de maneira que o prato fique colo- rido, garantindo, assim, diferentes nutrientes. Sucos naturais de fruta feitos na hora são os melhores; a polpa congelada perde al- guns nutrientes, mas ainda é uma opção melhor que os sucos ar- tificiais, em pó ou em caixinha. 4º PASSO: COMA FEIJÃO COM ARROZ TODOS OS DIAS OU, PELO MENOS, CINCO VEZES POR SEMANA. ESSE PRATO BRASILEIRO É UMA COMBINAÇÃO COMPLETA DE PROTEÍNAS E BOM PARA A SAÚDE. • Coloque no prato uma parte de feijão para duas partes de ar- roz cozidos. Varie os tipos de feijões usados – preto, da colônia, manteiguinha, carioquinha, verde, de corda, branco e outros – e as formas de preparo. Use também outros tipos de leguminosas – soja, grão de bico, ervilha seca, lentilha, fava. • As sementes – de abóbora, de girassol, gergelim e outras – e as castanhas – do Brasil, de caju, amendoim, nozes, nozes-pecan, amêndoas e outras – são fontes de proteínas e de gorduras de boa qualidade. miolo-idosos.indd 171 2/21/2018 8:58:36 PM — 172 — • Evite consumir alimentos industrializados com muito sal (sódio) como hambúrguer, presunto, charque e embutidos (salsicha, lin- guiça, salame, mortadela), salgadinhos industrializados, conser- vas de vegetais, sopas, molhos e temperos prontos. Leia o rótulo dos alimentos e prefira aqueles com menor quantidade de sódio. • Para temperar e valorizar o sabor natural dos alimentos utilize temperos como cheiro verde, alho, cebola e ervas frescas e secas ou suco de frutas, como limão. 5º PASSO: CONSUMA DIARIAMENTE TRÊS PORÇÕES DE LEITE E DERIVADOS E UMA PORÇÃO DE CARNES, AVES, PEIXES OU OVOS. RETIRAR A GORDURA APARENTE DAS CARNES E A PELE DAS AVES ANTES DA PREPARAÇÃO TORNA ESSES ALIMENTOS MAIS SAUDÁVEIS! • Leite e derivados são as principais fontes de cálcio na alimen- tação e você pode escolher os desnatados ou semidesnatados. Carnes, aves, peixes e ovos também fazem parte de uma alimen- tação nutritiva e contribuem para a saúde. Todos são fontes de proteínas, vitaminas e minerais. • Procure comer peixe fresco pelo menos duas vezes por semana; tanto os de água doce como salgada são saudáveis. Coma pelo menos uma vez por semana vísceras e miúdos, como o fígado bovino, moela, coração de galinha, entre outros. 6º PASSO: CONSUMA, NO MÁXIMO, UMA PORÇÃO POR DIA DE ÓLEOS VEGETAIS, AZEITE, MANTEIGA OU MARGARINA. • Reduza o consumo de alimentos gordurosos, como carnes com gordura aparente, embutidos – salsicha, linguiça, salame, pre- sunto e mortadela –, queijos amarelos, frituras e salgadinhos, para, no máximo, uma vez por semana. • Use pequenas quantidades de óleo vegetal quando cozinhar – canola, girassol, milho, algodão e soja. Uma lata de óleo por mês miolo-idosos.indd 172 2/21/2018 8:58:36 PM — 173 — é suficiente para uma família de quatro pessoas. Use azeite de oliva para temperar saladas, sem exagerar na quantidade. • Prepare os alimentos de forma a usar pouca quantidade de óleo, como assados, cozidos, ensopados e grelhados. Evite cozinhar com margarina, gordura vegetal ou manteiga. Na hora da com- pra, dê preferência a margarinas sem gorduras trans (tipo de gordura que faz mal à saúde) ou marcas com menor quantidade desse ingrediente (procure no rótulo essa informação). 7º PASSO: EVITE REFRIGERANTES E SUCOS INDUSTRIALIZADOS, BOLOS, BISCOITOS DOCES E RECHEADOS, SOBREMESAS DOCES E OUTRAS GULOSEIMAS COMO REGRA DA ALIMENTAÇÃO. COMA- -OS, NO MÁXIMO, DUAS VEZES POR SEMANA. • Consuma no máximo uma porção do grupo dos açúcarese do- ces por dia. Valorize o sabor natural dos alimentos e das bebi- das evitando ou reduzindo o açúcar adicionado a eles. Diminua o consumo de refrigerantes e de sucos industrializados. Prefi- ra bolos, pães e biscoitos doces preparados em casa, com pouca quantidade de gordura e açúcar, sem cobertura ou recheio. 8º PASSO: DIMINUA A QUANTIDADE DE SAL NA COMIDA E RETIRE O SALEIRO DA MESA. • A quantidade de sal utilizada deve ser de, no máximo, uma co- lher de chá rasa por pessoa, distribuída em todas refeições do dia. Use somente sal iodado. Não use sal para consumo de ani- mais, que é prejudicial à saúde humana. 9º PASSO: BEBA PELO MENOS DOIS LITROS (SEIS A OITO COPOS) DE ÁGUA POR DIA. DÊ PREFERÊNCIA AO CONSUMO DE ÁGUA NOS INTERVALOS DAS REFEIÇÕES. • A água é muito importante para o bom funcionamento do or- ganismo. O intestino funciona melhor, a boca se mantém mais miolo-idosos.indd 173 2/21/2018 8:58:36 PM — 174 — úmida e o corpo mais hidratado. Use água tratada, fervida ou fil- trada para beber e preparar refeições e sucos. Bebidas açuca- radas como refrigerantes e sucos industrializados não devem substituir a água. 10º PASSO: TORNE SUA VIDA MAIS SAUDÁVEL. PRATIQUE PELO MENOS 30 MINUTOS DE ATIVIDADE FÍSICA TODOS OS DIAS E EVI- TE AS BEBIDAS ALCOÓLICAS E O FUMO. • Além da alimentação saudável, a atividade física é importan- te para manter um peso saudável. Movimente-se! Descubra um tipo de atividade física agradável! O prazer é também fundamen- tal para a saúde. Caminhe, dance, brinque com crianças, faça al- guns exercícios leves. Aproveite o espaço doméstico e os espaços públicos próximos a sua casa para movimentar-se. Convide os vizinhos e amigos para acompanhá-lo. • Evitar o fumo e o consumo frequente de bebida alcoólica tam- bém ajuda a diminuir o risco de doenças graves, como câncer e cirrose, e pode contribuir para melhorar a qualidade de vida. • Mantenha o seu peso dentro de limites saudáveis. Veja no qua- dro a seguir o seu IMC (Índice de Massa Corporal), que mos- tra se o peso está adequado para a altura. Para calcular, divida o seu peso, em quilogramas, pela sua altura em metros, elevada ao quadrado [P/A2]. Se o seu IMC estiver indicando baixo peso ou sobrepeso, procure a equipe de saúde para receber orientações. miolo-idosos.indd 174 2/21/2018 8:58:36 PM — 175 — O PAPEL DOS ALIMENTOS NA PREVENÇÃO DE DOENÇAS DO ENVELHECIMENTO Algumas patologias estão diretamente ligadas ao envelhecimento, e a demência progressiva pode vir a ocorrer nessa fase da vida, sendo uma faixa etária de risco para o desenvolvimento de doenças como o Mal ou doença de Parkinson (DP) e a demência senil, atual doença de Alzheimer (DA). Estas são caracterizadas como doenças neurológicas degenerati- vas (Neurodegenerativas) do sistema nervoso central e afetam direta ou indiretamente o estado nutricional, devido às carências e dificul- dades alimentares apresentadas nestas doenças. Inúmeros estudos têm mostrado os efeitos benéficos dos nutrien- tes nestas doenças. Entre eles podemos destacar o ácido graxo ôme- ga 3, vitamina B1(tiamina), B2 (riboflavina), B3 (niacina), e B12 (ciano- cobalamina), colina e as vitaminas antioxidantes E e C que combatem os radicais livres, como também o mineral selênio. A associação positiva dessas doenças com os fatores alimentares demonstram a importância da nutrição adequada na prevenção des- tas patologias. CONSIDERAÇÕES FINAIS O processo natural do envelhecimento humano é inevitável. Uma boa qualidade de vida é primordial e se faz necessária. Atualmente o ma- nejo e tratamento preventivo no campo da nutrição normal e dietéti- ca para idosos nessa última fase da vida é essencial e estratégico para manutenção adequada do organismo e seu metabolismo, em particu- lar o sistema nervoso e sensoriais, obedecendo sempre as leis 4 (qua- tro) leis da Ciência da Nutrição: Qualidade, Quantidade, Harmonia e Adequação. Os nutrientes essenciais são vitais para homeostasia cor- poral, como fonte original em sua maioria vinda da “mãe” natureza aliado a hidratação, somos praticamente água no início da vida e va- mos perdendo-a com o passar dos anos. O advento atual nos propor- miolo-idosos.indd 175 2/21/2018 8:58:36 PM — 176 — cionou ampliar o campo de novas pesquisas e tratamentos para vá- rias enfermidades, em especial as decorrentes e/ou relacionadas aos processos do envelhecimento normal ou patológico. Nas últimas dé- cadas foram vários os avanços inovadores na clínica médica, terapêu- tica e nutrição, bem como na prevenção e tratamento de doenças, em particular as neurodegenerativas em decorrências do envelhecimen- to humano. “O envelhecimento da população é, antes de tudo, uma história de sucesso para as políticas de saúde pública”... (Brundtland, G.H., OMS, 1999; WHO, 2005), no Brasil e no mundo atual globalizado. REFERÊNCIAS Alencar, Y.M.G.; Curitati, J.A.E. Envelhecimento do aparelho digestivo. 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São Paulo: Atheneu, 2009. miolo-idosos.indd 178 2/21/2018 8:58:36 PM — 179 — ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA AO PACIENTE IDOSO Elisângela Silva Ítala Nóbrega Flávia Morais 1. ATENÇÃO E CUIDADOS COM O USO DE MEDICAÇÕES O envelhecimento da população é um fato observado no Brasil, onde para países em desenvolvimento, pessoas acima de 60 anos são consi- deradas idosas. Essa velocidade com que a população envelhece im- plica em muitos setores da sociedade e, em relação ao uso racional de medicamento, destacam-se vários fatores relevantes que podem in- fluenciar a segurança, efetividade e sucesso da terapia farmacológica. É relevante destacar que há necessidade de se definir o perfil farma- coepidemiológico dos idosos brasileiros para que seja definida a lis- ta de medicamentos essenciais apropriados a sua prescrição (Quina- lha et al., 2010). Grande parte dos idosos apresenta múltiplas doenças crônicas ou algumas limitações funcionais que demandam cuidados constantes, aumento do uso de serviços de saúde e necessidade de medicamen- tos de uso contínuo (Veras, 2009). Para tratamento das diversas pa- tologias do idoso é necessária uma ampla variedade de alternativas farmacológicas, o que resulta no uso concomitante de medicamentos por um único paciente (Baldoni et al., 2010). Além disso, associa-se ao fato destas doenças necessitarem de um acompanhamento regular onde se percebe a baixa adesão ao trata- mento, em muitos casos, pela complexidade da prescrição e também miolo-idosos.indd 179 2/21/2018 8:58:36 PM — 180 — pela falta de compreensão do que está sendo prescrito, associado ao fato dos idosos se automedicarem, potencializando os riscos as so- bredosagens e interações medicamentosas indesejadas (Santello et al.,2013). Sendo a não adesão a farmacoterapia, considerado um dos maiores problemas de saúde pública. A automedicação é uma forma de autocuidado à saúde (WHO, 1986). No Brasil, na maioria das vezes, acontece pela dificuldade de acesso ao serviço de saúde e se desenvolve com o uso irracional do medicamento, visto que sofre influência da orientação dada por um familiar/vizinho, por já ter feito uso do medicamento e ter familiari- dade, além de já tê-lo disponível na farmácia domiciliar, por ter ob- servado o sucesso terapêutico com o seu uso e vão acarretar situações desde a ocorrência de interações medicamentosas; risco de toxicida- de; possibilidade de mascarar uma patologia grave, atrasar o trata- mento correto; abuso de medicamentos; resistência bacteriana; de- pendência e morte (Oliveira et al., 2012). É bastante comum se ter como medicamentos mais prescritos para os idosos àqueles relacionados com o novo perfil existente e associado às doenças crônico-degenerativas nesta ordem: medi- camentos para o sistema cardiovascular, sistema nervoso, trato ali- mentar e metabolismo e sangue e órgãos formadores de sangue (Aguiar et al., 2008). Vale salientar, que além desses, há os medi- camentos que também são utilizados pelo idosos com frequência, mas através da automedicação e que compreendem os analgésicos/ antitérmicos e antiinflamatórios. Algumas decisões para buscar a automedicação vêm da necessidade de sanar inconvenientes gera- dos através das interações medicamentosas que comumente aco- metem os idosos devido a polifarmácia e àqueles sinais e sintomas que são tratados pelos medicamentos isentos de prescrição (MIP) (Santos et al., 2013). Uma forma de garantir uma maior adesão ao tratamento é fazer com que a equipe multiprofissional, presente na unidade de saúde, miolo-idosos.indd 180 2/21/2018 8:58:36 PM — 181 — esteja envolvida no acolhimento e tratamento dos idosos, em espe- cial, o farmacêutico que se torna responsável por dispensar e moni- torar esta administração medicamentosa contínua e confirmar esta adesão ao tratamento (Oliveira et al., 2012). Para avaliar os aspectos farmacêuticos e farmacológicos no trata- mento dos idosos, o farmacêutico desenvolve ações de atenção far- macêutica e assim além de reafirmar as orientações já realizadas pe- los prescritores, busca minimizar erros quanto à administração dos medicamentos, tempo de tratamento e sua adesão e, armazenamento dos medicamentos em domicílio (Oliveira et al., 2013). Em se tratando de medicamentos armazenados em domicílio, prática comum entre os brasileiros, além das preocupações referen- tes à automedicação, tem-se também o desconhecimento da popu- lação sobre onde guardar os medicamentos e como guardá-los, pois as pesquisas mostram que a maioria faz a guarda dos medicamentos somente com a embalagem primária (frasco e envelope), sem bula e sem caixa, perdendo as informações da indústria farmacêutica refe- rente às orientações de uso, prazo de validade e armazenamento e em locais quentes e úmidos. Os estudos mostram que a população guarda os medicamentos na cozinha e no banheiro, locais não recomendados visto que, segundo o Ministério da Saúde, todos os produtos devem ser armazenados obe- decendo às condições técnicas ideais de luminosidade, temperatura e umidade, com o objetivo de assegurar a manutenção das caracterís- ticas e qualidade necessárias à correta utilização. Quando o medica- mento não é armazenado da forma correta, isto poderá implicar em perda de teor em princípio ativo e coloca em risco a efetividade do tratamento (Clemente et al., 2014). Recomenda-se que os medicamentos em domicílio sejam arma- zenados em locais altos (longe do alcance das crianças), com lumi- nosidade controlada (dentro de suas embalagens e com bula). Os cômodos sugeridos são os mais arejados do domicílio, assim, de pre- miolo-idosos.indd 181 2/21/2018 8:58:36 PM — 182 — ferência, os quartos e as salas. Já para os medicamentos que necessi- tam de refrigeração, que devem ser armazenados entre 2 - 8ºC, como exemplo a insulina usada pelos diabéticos, destaca-se o cuidado para que esta guarda não aconteça na porta do eletrodoméstico, nem logo abaixo do refrigerador, sendo o ideal, deixá-lo no centro (Figueiredo, Bonacina, Ortiz, 2011). E, quando o medicamento venceu ou o tratamento foi finalizado, já se encontram as pesquisas mostrando que as contaminações nos lençóis freáticos, rios e lagos, além dos lixos domésticos tem traços de medicamentos (Branco, 2007). Torna-se fundamental uma ação conjunta de educação em saú- de apoiada pelos serviços públicos e privados de saúde e regulatórios que institucionalizem o recolhimento destas sobras de medicamen- tos para que seja dado ao medicamento o destino correto, assistindo toda a população brasileira (CONAMA, 2005). 2. MUDANÇAS FISIOLÓGICAS DO IDOSO E SUA INFLUÊNCIA NA FARMACOCINÉTICA E FARMACODINÂMICA O envelhecimento é um processo universal que pode se apresentar de modo gradativo para alguns indivíduos e mais rápido para outros. Sendo este processo dependente de vários fatores, tais como: carac- terísticas genéticas, condições sociais, econômicas, estilo de vida e a existência de doenças associadas (Fechine, Trompieri, 2012). A senescência ocasiona diversas alterações orgânicas, funcionais, cognitivas e psicológicas, as quais acarretam progressivamente umadiminuição da capacidade de adaptação do organismo, reduzindo sua viabilidade, tornando-o mais vulnerável e expondo o individuo a uma maior probabilidade de morbidade e mortalidade (Fulop et al., 2010). Nesse processo, todos os órgãos e sistemas orgânicos sofrem perda progressiva de suas funções, e estas mudanças influenciam a farmacodinâmica e a farmacocinética, interferindo na efetividade da terapia farmacológica nestes pacientes. miolo-idosos.indd 182 2/21/2018 8:58:36 PM — 183 — 2.1. SISTEMA CARDIOVASCULAR O envelhecimento é frequentemente acompanhado por significantes alterações do sistema cardiovascular, tanto do ponto de vista anatô- mico quanto funcional. De fato, as doenças do sistema cardiovascu- lar estão entre as principais comorbidades presentes na pessoa idosa (North, Sinclair, 2012). As alterações cardíacas mais frequentemente observadas são: um leve aumento do peso cardíaco, refletindo ligeiro grau de hipertro- fia ventricular esquerda; redução do número dos cardiomiócitos, en- quanto suas dimensões são aumentadas; aumento da deposição de colágeno, originando um processo de fibrose. A função sistólica per- manece inalterada no repouso, com fração de ejeção e débito cardía- co inalterado, porém ocorrem mudanças na função distólica, com re- dução no enchimento diastólico precoce compensado pelo aumento do enchimento diastólico final. Ocorre degeneração parcial do forne- cimento de nervo simpático cardíaco, alterando a capacidade de res- posta a capacidade de resposta cardíaca aos estímulos β-adrenérgi- cos, fator que ocasiona redução da contratilidade cardíaca (Ferrari, Radaelli, Centola, 2003). As artérias se mostram hipertróficas e rígidas. A hipertrofia está re- lacionada a diversos fenômenos que envolvem a migração e/ou pro- liferação de células musculares lisas vasculares, com infiltração no espaço subendotelial, deposição exagerada de colágeno, elastina e proteoglicanos, juntamente com abundância anormal de leucócitos e macrófagos. Observa-se, também, que numerosas substâncias en- volvidas em processos inflamatórios e/ou ateroscleróticos, são mais abundantes no envelhecimento arterial (Ferrari, 2002). Já a redu- ção da distensibilidade ou aumento da rigidez, comum no processo aterosclerótico, não depende unicamente de alterações estruturais, ela também é afetada pela regulação humoral e endotelial do tônus muscular vascular: os vasos envelhecidos mostram uma maior per- meabilidade endotelial e uma resposta reduzida à vasodilatação in- miolo-idosos.indd 183 2/21/2018 8:58:36 PM — 184 — duzida pela a acetilcolina dependente de óxido nítrico (Mendes, Ba- rata, 2008). 2.2. SISTEMA RENAL O sistema renal é um dos impactados pelo envelhecimento e os rins passam por alterações tanto em sua estrutura como em sua função. Do ponto de vista estrutural ocorre redução do peso e volume renal; redução do número de glomérulos com aumento na porcentagem de glomérulos escleróticos, hialinização de arteríolas aferentes e, em al- guns casos, desenvolvimento de arteríolas aglomerulares, e fibrose tubulointersticial (Weinstein, Anderson, 2010). Do ponto de vista funcional, ocorre diminuição progressiva da função renal, com marcante redução da taxa de filtração glomerular, que é consequência direta da redução na taxa de fluxo plasmático ca- pilar glomerular e no coeficiente de ultrafiltração capilar glomerular. Quanto à função tubular, ocorre redução da taxa de reabsorção tubu- lar renal. Ainda é possível observar uma redução na homeostase de sódio, associada à perda da capacidade de concentrar ou diluir a uri- na, que pode estar associada à perda de néfrons, à carga de filtração por néfron ou à diminuição da atividade do sistema renina-angioten- sina-aldosterona. A redução do fluxo plasmático renal determina uma menor produção e liberação de renina e aldosterona, comprometen- do a adaptação a estados de hipovolemia ou hipercaliemia. Também ocorre defeito na acidificação e alteração no metabolismo do cálcio, sendo a osteopenia um achado frequente (Colloca, Santoro, Gambas- si, 2010). 2.3. SISTEMA GÁSTRICO No sistema digestivo as alterações relacionadas ao envelhecimento se mostram desde a cavidade oral que apresenta redução das papi- las gustativas, salivação e ação enzimática. No esôfago verifica-se uma redução no complexo de Auerbach, produzindo contrações não pe- miolo-idosos.indd 184 2/21/2018 8:58:37 PM — 185 — ristálicas de menor amplitude e relaxamento incompleto do esfíncter inferior do esôfago. Isto repercute em alterações importantes da mo- tilidade e do esvaziamento esofágico em idosos saudáveis e assinto- máticos. Isso implica que no caso de materiais refluídos como HCL e medicamentos, permanecem por tempo mais prolongado em conta- to com a mucosa esofágica, aumentando o risco de lesões e de aspira- ção. Por essa razão, é importante, mesmo em idosos assintomáticos, administrar medicamentos e alimentos, por via oral, na posição or- tostática e acompanhados de razoável quantidade de líquido (Rocha et al., 2005). No estômago observa-se moderada elevação no tempo de esvazia- mento gástrico e redução da secreção de HCL, pepsina e fator intrín- seco, que podem acarretar aumento da proliferação bacteriana além de problemas na absorção do Ferro e da Vitamina B12. Também estão reduzidos os níveis de prostaglandinas e do muco protetor, favorecen- do o surgimento de doenças pépticas (D’Ottaviano, 2002). O intestino delgado não revela alterações estruturais e funcionais com o envelhecimento. Isso é explicado com base no aumento da pro- liferação e apoptose dos enterócitos do intestino delgado em pessoas idosas, o que ajuda a manter a arquitetura da mucosa. Contudo, há re- latos de mudanças na composição da microbiota intestinal, com au- mento do número de bacilos Gram-negativos anaeróbios facultativos (principalmente Enterobacteriaceae) e uma diminuição no número de organismos benéficos, como lactobacilos e bifidobacterias (Patel, 2014). As alterações hepáticas na pessoa idosa estão entre as mais estu- dadas, em decorrência das implicações metabólicas que represen- tam. O tamanho do fígado e o fluxo sanguíneo total (veia porta e arté- ria hepática) apresentam redução com o avanço da idade. O mesmo comportamento é observado no número de hepatócitos e de suas mi- tocôndrias. Porém, as principais modificações dizem respeito a meta- bolização de medicamentos. Com o envelhecimento, a Fase 1 do me- tabolismo pode sofrer uma redução de até 30%, o que pode ocasionar miolo-idosos.indd 185 2/21/2018 8:58:37 PM — 186 — a redução da metabolização de várias drogas ou o aumento da meia- -vida de vários compostos. Já a repercussão sobre a Fase II é menor (Ferrioli, 2016). 2.4. FARMACOCINÉTICA As alterações sistêmicas acima descritas impactam na farmacocinéti- ca e farmacodinâmica dos fármacos determinando uma grande varia- bilidade interindividual na resposta aos fármacos. Absorção No trato gastrointestinal (TGI), as principais alterações observadas fo- ram: redução do fluxo sanguíneo gastrintestinal, redução do tempo de esvaziamento gástrico e da velocidade de transito intestinal, além de aumento do pH gástrico. Estas alterações podem significar mudan- ças no padrão de absorção de alguns fármacos e consequentemente de sua biodisponibilidade, porém outros permanecerão com a biodis- ponibilidade oral inalterada, portanto, é difícil fazer previsões ou ge- neralizações quanto à absorção oral baseada nas mudanças do TGI (Patel, 2014). Não foram evidenciadas alterações na mucosa intestinal, e a ab- sorção de drogas geralmente permanece inalterada. Uma exceção é o caso do carbonato de cálcio, que requer um ambiente ácido para uma absorção ideal. Os aumentos relacionados com a idade no pH gástri- co diminuem a absorção de Cálcio e aumentam o risco de constipa- ção. Assim, pacientes idosos devem usar um sal de Cálcioque se dis- solve mais facilmente em um ambiente menos ácido. Outro exemplo de absorção alterada, provocada pelo aumento do pH gástrico, é a li- beração antecipada de formas de dosagem revestidas entérica. Ainda analisando a influencia da idade sobre os mecanismos de absorção, estudos realizados com a Glicoproteína P (P-gp), um transportador de efluxo que representa uma barreira à absorção de fármacos no intesti- no e ao transporte de várias drogas através da barreira hematoencefá- miolo-idosos.indd 186 2/21/2018 8:58:37 PM — 187 — lica, mostraram uma redução da atividade da P-gp durante o envelhe- cimento. Assim, o cérebro pode estar exposto a níveis mais elevados de drogas e toxinas em indivíduos idosos (Ruscin, Linnebur, 2014). Distribuição Com a idade ocorre um aumento da massa gorda, enquanto a massa e a água corporal diminuem. Além disso, observa-se redução da albumi- na sérica e aumento da α1- Glicoproteina ácida. Estas alterações podem afetar o volume de distribuição (Vd) das drogas. Nesse contexto, os fár- macos hidrófilos, p. ex. digoxina, gentamicina e cimetidina, podem ter um Vd reduzido nos idosos e um consequente aumento das concentra- ções plasmáticas. Enquanto as drogas lipofílicas, p. ex. sedativos, hip- nóticos e tranquilizantes, apresentam um aumento do Vd, com redu- ção de suas concentrações plasmáticas. Para drogas lipofílicas, também pode haver um aumento da meia-vida de eliminação (ELDesoky, 2007). Outro fator que deve ser levado em consideração é a ligação a pro- teínas plasmáticas, embora na maior parte dos casos este fator apre- sente pouco significado clínico, quando se trata de drogas com alta taxa de ligação a proteínas plasmáticas, ou em pacientes com desnu- trição, as reduções rápidas na albumina sérica podem aumentar os efeitos de drogas, porque os níveis séricos de fármaco não ligado po- dem aumentar. Exemplos de fármacos que apresentam risco de efei- tos tóxicos em caso de redução dos níveis plasmáticos de albumina são a fenitoína e a warfarina (Ruscin, Linnebur, 2014). As alterações cardiovasculares, que implicam numa menor contra- tilidade cardíaca, redução do débito cardíaco, aumento da resistência vascular periférica e alteração da fisiologia arteriolar, podem repercu- tir na capacidade de biodistribuição dos fármacos, uma vez que este processo é dependente da circulação sanguínea, e qualquer processo que altere o funcionamento desta irá influenciar na perfusão dos ór- gãos com consequente alteração na oferta dos fármacos transporta- dos através da corrente sanguínea (North, Sinclair, 2012). miolo-idosos.indd 187 2/21/2018 8:58:37 PM — 188 — Metabolização As principais alterações observadas no fígado, condizentes com a al- teração na metabolização são: diminuição do tamanho do fígado, di- minuição do fluxo sanguíneo hepático (em cerca de 40%), diminuição da atividade das enzimas hepática, especialmente na presença de ou- tros cofatores do envelhecimento, como debilidade, comorbidades, polifarmácia e tabagismo (D’Ottaviano, 2002). Foi relatada anteriormente, uma redução na atividade enzimática do fígado, a qual resultava em uma redução de até 30% do metabo- lismo da Fase I. Sabe-se que o sistema de metabolização hepático é formado pela família de enzimas do citocromo P-450 (isoformas do CYP), destas, seis subfamílias são reconhecidas como responsáveis pela maior parte do metabolismo das drogas humanas. Estes são os CYPs 1A, 2A, 2C, 2D, 2E e 3A . Dentro destas subfamílias, destacam-se: 1A1, 1A2, 2C8, 2C9, 2C19, 2D6, 2E1 e 3A4. Estas enzimas também podem ser encontradas em locais extra-hepáticos, como o intestino para CY- P3A4 e cérebro para CYP2D6 (Kinirons, O’Mahony, 2004). Apesar da compreensão de que o processo de metabolização he- pático é alterado pelo avanço da idade, foi relatada uma discrepância entre os achados do estudo in vitro e in vivo quanto ao efeito do enve- lhecimento na atividade de diferentes enzimas do citocromo P-450, en- volvidas no metabolismo oxidativo da fase I dos medicamentos. Estudos in vitro de microssomas hepáticos não mostraram diferenças significa- tivas na atividade do CYP e / ou indutibilidade em função da idade. Por outro lado, estudos em humanos relataram um declínio relacionado com a idade no conteúdo hepático de CYP (Kinirons, O’Mahony, 2004). Estes achados permitem verificar que a depuração do fármaco não depende unicamente do conteúdo da proteína CYP, da atividade fun- cional e da modulação destas enzimas, sendo mais provável que esta alteração se deva às mudanças no tamanho do fígado e no fluxo san- guíneo que ocorrem no envelhecimento, as quais provocam uma re- dução na disponibilidade de oxigênio para o metabolismo da droga miolo-idosos.indd 188 2/21/2018 8:58:37 PM — 189 — na Fase I. Já na Fase II, o sistema enzimático responsável pelo me- tabolismo de drogas por conjugação requer oxigênio indiretamen- te para produzir energia. Portanto, as drogas que sofrem metabolis- mo de Fase II podem não são afetadas pela redução do fornecimento de oxigênio em um fígado envelhecido. Também foi observado que a coexistência de polimorfismos genéticos nas enzimas CYP e envelhe- cimento do CYP pode acelerar a modulação do metabolismo do fár- maco, por exemplo, o polimorfismo da enzima CYP2D6, interfere na metabolização do haloperidol e do propranol, aumentando o risco de eventos adversos (Ruscin, Linnebur, 2014). Eliminação No paciente idoso a taxa ocorre redução da massa renal, da taxa de Filtração Glomerular, do Fluxo sanguíneo renal e da secreção tubu- lar, essas mudanças fisiológicas levam coletivamente a uma diminui- ção constante da depuração da creatinina bem como a depuração de drogas que são excretadas inalteradas pelo rim. As implicações clíni- cas dependem da extensão em que a eliminação renal contribui para a eliminação sistêmica total e no índice terapêutico do medicamen- to. Nesse caso é importante calcular a taxa de depuração de creatini- na a fim de orientar a dosagem do fármaco (Ruscin, Linnebur, 2014). 2.5. FARMACODINÂMICA A farmacodinâmica é descrita como as alterações que a droga exer- ce sobre o corpo. Esta ação pode se dar de forma inespecífica, quando não há necessidade de interação com moléculas-alvo para a produ- ção de efeito; ou de modo específico, quando o efeito no órgão efetor se dá através de uma interação fármaco-receptor. O processo de enve- lhecimento pode estar associado a mudanças na densidade e / ou afi- nidade dos receptores, nos mecanismos de transdução de sinal e ao comprometimento da resposta celular nos órgãos afetados, resultan- tes do estado patológico (ELDesoky, 2007). miolo-idosos.indd 189 2/21/2018 8:58:37 PM — 190 — Modelos experimentais de animais mostraram que o envelheci- mento pode estar associado a uma expressão reduzida e / ou conteú- do de receptores colinérgicos muscarínicos no sistema nervoso cen- tral (M1 e M4) e no sistema cardíaco (M2), por conseguinte as ações mediadas por estes receptores estarão comprometidas. Em relação aos receptores adrenérgicos, foi detectado um decréscimo dos recep- tores α1, que estaria relacionado ao declínio do reflexo dos barorre- ceptores cardíacos. Também foi observada a associação entre o au- mento da idade e a redução da atividade dos adrenorreceptores β1. Esta redução não estaria ligada a densidade dos receptores, mas ao acoplamento do receptor à proteína Gs e à unidade catalítica da ade- nilato ciclase que se mostra prejudicada pelo envelhecimento (Rus- cin, Linnebur, 2014). Em indivíduos idosos, a intensidade e/ou a atividade intrínseca de diferentes receptores de opioides são alteradas de maneira que afe- tam a resposta aos analgésicos opioides. Em situações de baixa inten- sidade nociceptiva, não foram verificadas modificações na atividade do receptor m entre indivíduos jovens idosos. Porém, em situações de elevada intensidade nociceptiva, osratos idosos demonstraram mais sensibilidade do que os ratos mais jovens aos efeitos antinociceptivos da morfina nos receptores m. Com relação a densidade do receptores opioides d, foi verificado um forte downregulation, compatível com estados de ansiedade e depressão (ELDesoky, 2007). 3. MEDICAMENTOS POTENCIALMENTE INAPROPRIADOS PARA IDOSOS Idosos apresentam respostas a medicamentos diferentes daquelas apresentadas por pessoas mais jovens, devido a alterações farma- cocinéticas e farmacodinâmicas próprias do envelhecimento. Nes- se contexto, alguns são considerados medicamentos potencialmente inapropriados (MPI) para esse grupo etário, (Fick et al., 2008).cujos riscos associados a sua utilização podem ser superiores aos benefí- miolo-idosos.indd 190 2/21/2018 8:58:37 PM — 191 — cios terapeuticos (Hanlon et al., 1992). Apesar das evidencias associa- das com desfechos negativos, eles continuam a ser prescritos e uti- lizados em idosos (American Geriatrics Society, 2012). O uso de MPI e considerado como um dos fatores de risco mais importantes para eventos adversos com medicamentos em idosos (Ribeiro, 2005). Esse fenômeno também esta associado com a complexidade dos proble- mas de saúde nessa população, que geralmente requerem a prescri- ção de múltiplos fármacos, conceituada como polifarmacia. Somam- -se a esse fato as alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas inerentes ao envelhecimento (Gallagher et al., 2008). Diferentes métodos para prevenir reações adversas e melhorar a conduta clínica com o paciente idoso foram definidos: uns relaciona- dos ao julgamento clínico no momento em que o prescritor analisa o medicamento ou a terapia mais adequada para o paciente durante a consulta ou anamnese (métodos implícitos), e outros baseados em revisões de literatura, estudos, opiniões e consensos de especialistas para a construção de listas de medicamentos que devem ser evitados ou usados com cautela em pacientes idosos (métodos explícitos) (Tei- xeira, 2014). O desenvolvimento contínuo de listas explícitas de medicamen- tos potencialmente inapropriado para idoso é um componente críti- co, embora não seja o único, na saúde pública como estratégias para melhorar a segurança da farmacoterapia em idosos. Critério de beers Os critérios de Beers são amplamente reconhecidos na literatura e usado em vários países (Gorzoni et al., 1992). O critério original foi elaborado pelo geriatra americano Mark Beers, profissionais farma- cêuticos e clínicos em geriatria no ano de 1991 (Beers et al., 1991), e posteriormente revisado em 1997 e atualizado em 2003 (Fick, 2003). Em 2011, a American Geriatrics Society (AGS) assumiu o compro- misso de atualização regular e manutenção da lista e lançou em miolo-idosos.indd 191 2/21/2018 8:58:37 PM — 192 — 2012 a primeira atualização (Campanelli, 2012). A última versão dos critérios de Beers, (American Geriatrics Society, 2015) foi recente- mente publicado em 2015 com o apoio de uma equipe interdiscipli- nar de treze especialistas com conhecimentos e experiência clínica em geriatria e farmacoterapia. A lista é constituída por medicamen- tos ou classes medicamentosas, que oferecem maior risco do que benefício para idosos. Dividida em cinco categorias: medicamentos que são inapropriados para idosos; medicamentos que devem ser evitados em determinadas doenças ou síndromes; medicamentos que devem ser usados com precaução em idosos; medicamentos que necessitam de ajuste de dose conforme a função renal e medi- camentos que podem causar interações medicamentosas (Clemen- te et al., 2014). Stopp/start Os critérios STOPP/START (Screening Tool of Older Person’s Prescrip- tions/Screening Tool to Alert doctors to Right Treatment – Ferramen- ta para prescrição em idosos/Ferramenta de alerta para tratamento certo), constituído por dois métodos utilizados em conjunto, criados em 2008 por médicos e farmacêuticos irlandeses usando o Método Delphi (Gallagher et al., 2008). Em 2015, a segunda versão do critério STOPP foi desenvolvido e validado para permitir uma identificação mais abrangente de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Na lista os medicamentos estão organizados de acor- do com os sistemas fisiológicos. O método STOPP auxilia e facilita a identificação de prescrições dos medicamentos potencialmente ina- propriados, com foco nos medicamentos que podem causar intera- ções e análise das prescrições com duplicidade terapêutica. O START detecta os medicamentos potencialmente omissos (MPO), ou seja, fármacos que deveriam ter sido prescritos aos idosos e não foram. É assim uma ferramenta muito útil na revisão da farmacoterapia insti- tuída ao idoso (O’Mahony, 2010). miolo-idosos.indd 192 2/21/2018 8:58:37 PM — 193 — Ue (7) – pim A lista de medicamentos potencialmente inapropriados da Europa (UE (7) – PIM) é uma ferramenta de triagem desenvolvida com a aju- da de especialistas de sete países europeus publicados em 2015 que permite a identificação e comparação de perfis de prescrição de me- dicamentos potencialmente inapropriados para idosos na comunida- de europeia (Renom-Guiteras et al., 2015). Taiwan Este é o primeiro critério para a detecção de medicamentos poten- cialmente inapropriados para idosos na China. Os medicamentos contidos neste critério foram selecionados entre os medicamentos mais comumente incluídos nos critérios de medicamentos potencial- mente inapropriados publicados para três diferentes regiões, incluin- do a América do Norte, Europa e Ásia. Este aumentou a generaliza- ção dos critérios de Taiwan para estudos comparativos internacionais (Chang et al, 2012). Vale ressaltar que a utilização e aplicação correta dessas ferramen- tas traz benefício ao paciente idoso, conferindo maior segurança e qualidade ao seu cuidado. Independentemente dessas vantagens cla- ras, os critérios não são adequados para todas as situações, e deve ter cuidado para garantir que não são mal aplicadas. Por exemplo, eles não devem ser usado de forma punitiva ou para tomar decisões finan- ceiras, porque essas situações não considera as circunstâncias indivi- duais do paciente ou o melhor julgamento clínico. Além disso, são ne- cessárias considerações especiais ao aplicar esses critérios para certas populações, como pacientes terminais (Abrantes, 2013). REFERÊNCIAS Abrantes MFB. Seguimento Farmacoterapêutico em Idosos Polimedicados. Dissertação [acesso em 26 julho 2017] Porto, 2013. Universidade Fernando Pessoa. Disponível em: http://bdigital.ufp.pt/handle/10284/4102) miolo-idosos.indd 193 2/21/2018 8:58:37 PM — 194 — American Geriatrics Society 2012 Beers Criteria Update Expert Panel. Ameri- can Geriatrics Society updated Beers Criteria for potentially inappropria- te medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2012;60(4):616-31. American Geriatrics Society. Updated Beers Criteria for Potentially Inappro- priate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc 2015 2015; 63 (11): 2227–2246.) Baldoni AO, Chequer FMD, Ferraz ERA, Oliveira DP, Pereira LRL, Dorta DJ. Elderly and drugs: risks and necessity of rational use. 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Com isso é preciso quebrar alguns paradig- mas criados sobre a terceira idade, a longevidade pode sim ser vivida de forma saudável e ativa. Nesse cenário o papel do profissional de Educa- ção Física torna-se fundamental para uma mudança na mentalidade e criação de novos hábitos sociais através do exercício físico. O processo de envelhecimento apresenta mudanças fisiológicas significativas, relacionadas a aspectos hereditários, nutricionais, esta- dos hormonais e do nível de aptidão física de cada indivíduo, que pas- sam a influenciar diretamente na vida do idoso. miolo-idosos.indd 199 2/21/2018 8:58:37 PM — 200 — Segundo Alfieri (2009), a perda da mobilidade, a diminuição da força muscular, o aumento no tempo de reação e o déficit de equilí- brio são fatores importantes do grau de empobrecimento psicomo- tor na pessoa. Um grande número de evidências científica tem demonstrado, cada vez mais, que o hábito da prática de atividade física se consti- tui não apenas como instrumento fundamental em programas volta- dos a promoção da saúde, inibindo o aparecimento de muitas das al- terações orgânicas que se associam ao processo degenerativo, mas, também na reabilitação de determinadas patologias que atualmente contribuem para o aumento dos índices de morbidade e mortalidade (Toscano, 1998). Os benefícios na realização do exercício físico na terceira idade são uma realidade e inúmeros são os estudos que apontam para uma me- lhora considerável na longevidade de idosos ativos em comparação com os sedentários (Guimarães, 2004; Matsudo, 2006). É importante considerar as ponderações de Mcardle (2008) o res- saltar que os indivíduos mais velhos, porém, aptos fisicamente pos- suem muitas características de pessoas mais jovens. Nesse contexto argumenta-se que a aptidão física aprimorada pode retardar o enve- lhecimento, conferindo proteção em termos de saúde e possível lon- gevidade. A participação nos exercícios consegue reverter a perda de função, independentemente de quando uma pessoa torna-se fisica- mente mais ativa. Além de todo o benefício psicomotor, a atividade física regular ga- nha evidências que apontam para uma capacidade da diminuição na incidência de doenças crônicas, bem como desordens metabólicas, hipertensão e diabetes (ACSM, 2009; Blair & Connelly, 1996). Por isso, não se pode pensar apenas no aumento da expectativa de vida de um indivíduo, é preciso também olhar o “como” será vivi- do esses anos e buscar estratégias para prolongar o período em que uma pessoa permanece em excelente saúde. Um olhar voltado para miolo-idosos.indd 200 2/21/2018 8:58:37 PM — 201 — a qualidade, e não a quantidade de vida. Nessa perspectiva, uma das estratégias completas e adequadas envolvem a prática do exercício funcional. EFEITOS POSITIVOS DO EXERCÍCIO FÍSICO NA TERCEIRA IDADE A perda de força que comumente acompanha o envelhecimento é uma preocupação de idosos e familiares. Esclarecendo este ponto, Mcardle (2008) afirma que a sarcopenia e a perda de força observadas com o envelhecimento podem refletir efeitos combinados da deterio- ração neuromotora progressiva e da redução crônica na sobrecarga muscular regular. O treinamento com resistência moderada propor- ciona uma maneira extremamente segura de aumentar a síntese e re- tenção de proteínas e trona mais lenta a perda “normal” e até certo ponto inevitável de massa e forças musculares que ocorrem com o en- velhecimento. A circunferência da cintura é outro ponto de preocupação, até por ser utilizado como padrão para identificação de risco de algu- mas doenças. A esse respeito, Hurley & Hagberg (1998) apresentam evidências de uma diminuição dos estoques de gordura em homens e mulheres idosos, conseguidos através de treinamento aeróbico e treinamento de resistência. Esses dois tipos de treinamento são efe- tivos em diminuir os estoques de gordura intra-abdominal de pes- soas idosas. Um estudo com 40 idosos, dos quais 20 eram praticantes de ati- vidade física e os outros 20 sedentários, o autor estabelece um com- parativo da propensão de quedas entre os grupos. Para avaliar a mo- bilidade funcional foi utilizado o teste “Time Up & Go” (TUG), uma cadeira, um cronômetro, fita métrica e uma ficha para anotações dos dados. O teste é mensurado em segundos, avaliando o tempo gas- to por um idoso para levantar de uma cadeira, andar uma distância de três metros, dar a volta, caminhar em direção a cadeira e sentar miolo-idosos.indd 201 2/21/2018 8:58:37 PM — 202 — novamente. O idoso realiza o teste uma vez para se familiarizar com ele e nenhuma ajuda é dada durante a realização do teste (Guima- rães, 2004). Os dados do estudo de Guimaraes (2004) resumem que a prática de atividade física regular é uma forma de prevenir quedas em pes- soas idosas. Idosos sedentários possuem menor mobilidade e maior propensão a quedas quando comparados a idosos que praticam ati- vidade física regularmente. Este resultado corrobora com o estudo apresentado por (Soares, 2003) que correlaciona a velocidade da ca- minhada do idoso com o seu risco de queda. Mota (2006) avaliou a Qualidade de Vida de 88 idosos, dividi- dos em dois grupos, pela versão curta do instrumento SF 36. O SF- 36 é uma medida genérica do estado de saúde, incluindo 36 itens, os quais definem oito dimensões: Função Física; Percepção de Dor Cor- poral; Saúde geral; Vitalidade; Função Social; Limitações devido à saúde emocional; Limitações devido à saúde física; e Saúde Mental. Diferenças significativas entre os grupos foram encontradas, o gru- po que praticava exercício teve um desempenho superior em todos os domínios do questionário de HRQL comparado com o grupo ina- tivo. Esses dados sugerem, portanto, que a percepção de qualidade de vida associada à saúde se encontra intimamente ligada à prática de atividade física. Tendo como grave problema nessa faixa etária a perda de autono- mia e funcionalidade e consequentemente acarretando em uma ins- tabilidade postural com a ocorrência de quedas, o Treinamento Fun- cional aparece como uma ótima estratégia para diminuição desses prejuízos. Movimentos completos, multiplanares, multiarticulares, incorporados ao máximo de movimentos que tenham uma deman- da proprioceptiva, essa visão abrangente permite que o Treinamen- to Funcional atinja o objetivo de controlar o sistema musculoesquelé- tico, sem abrir mão no aperfeiçoamento do sistema sensório-motor e proprioceptivo. miolo-idosos.indd 202 2/21/2018 8:58:38 PM — 203 — POR DENTRO DO TREINAMENTO FUNCIONAL O treinamento funcional visa melhorar a capacidade funcional, atra- vés de exercícios que estimulam os receptores proprioceptivos pre- sentes no corpo, os quais proporcionam melhora no desenvolvimento da consciência sinestésica e do controle corporal; o equilíbrio muscu- lar estático e dinâmico; diminuir a incidência de lesão e aumentar a eficiência dos movimentos (Leal 2009). MOBILIDADEE ESTABILIDADE Conceitualmente estabilidade pode ser definida como a habilidade da articulação retornar ao seu estado original após sofrer uma pertur- bação, não falando de movimento mais forte, e sim de um padrão de movimento ideal (Oliveira, 2009). Algumas articulações têm funções bem definidas quanto a mobi- lidade ou estabilidade no movimento, a desarmonia dessa estrutura- ção pode criar compensações e vícios motores, sobrecarregando ou- tras áreas do corpo e possivelmente gerando lesões. POSTURA E EQUILÍBRIO A manutenção equilibrada da postura e um controle dinâmico ade- quado são condições fundamentais para o corpo responder de ma- neira eficiente ao que lhe é imposto. A maior expressão de uma boa postura é o alinhamento dinâmico. Em alguns casos nossos vícios posturais são tão frequentes que desequilibram toda a estrutura, músculos e tendões já não aguentam mais o suporte em desequi- líbrio, isso favorece as cifoses, escolioses, hiperlordoses, entre ou- tras patologias associadas com a coluna. A postura permite ao cor- po a manutenção normal entre comprimento e tensão muscular, isso envolve, e muito, o sistema nervoso central, tendo como princi- pal estrutura o cerebelo. A postura é altamente dependente da força, flexibilidade, equilíbrio e principalmente das tarefas motoras (Go- mes, 2010). miolo-idosos.indd 203 2/21/2018 8:58:38 PM — 204 — PROPRIOCEPÇÃO Aderências neurais originadas dos mecanorreceptores das articu- lações, músculos, tendões e tecidos profundos que são conduzidas em forma de impulso neural codificado para os vários níveis do SNC, para que as informações a respeito das condições dinâmicas ou está- ticas, equilíbrio ou desequilíbrio e relações biomecânicas de estresse, distensão possam ser verificadas. Estas informações podem influen- ciar no tônus muscular, programas de execução motora e percepção somática cognitiva (Giacomini, 2004; Simoneau, 1995). Bons níveis de propriocepção são necessários para a realização de movimentos funcionais durante atividades da vida diária. A diminuição da acui- dade proprioceptiva leva ao declínio no desempenho funcional (Bar- ret, 1991). Pesquisas revelam, o equilíbrio postural é mantido, tanto pelas propriedades visco elásticas dos músculos quanto por ajustes postu- rais desencadeados a partir das informações sensoriais, visuais, vesti- bulares e somatossensoriais (Mochizuki, 2006), sendo a propriocep- ção uma das fontes sensoriais que parecem ter maior expressividade no controle da postura (Goble, 2009; Antes, 2009). APLICABILIDADE DO TREINAMENTO FUNCIONAL EM IDOSOS A visão integrada do treinamento funcional oferece ao profissional de educação física a possibilidade de visualizar “compensações silencio- sas” muitas vezes assintomáticas e sem interferência aguda no padrão de movimento, mas que de forma crônica pode ser a origem de uma lesão. Os profissionais da área de saúde precisam focar no movimen- to como um todo, olhar o indivíduo como uma unidade funcional e a partir desse ângulo buscar estímulos integrados exigindo dos ido- sos níveis progressivamente desafiantes de suas capacidades condi- cionais e informacionais. Em um estudo (Leal, 2009) avaliou o grau de mudança produzido pelo Treinamento Funcional nas três variáveis dependentes analisa- miolo-idosos.indd 204 2/21/2018 8:58:38 PM — 205 — das (equilíbrio postural, anatomia funcional e qualidade de vida), em idosas ativas, com idades entre 60 e 85 anos, divididas em dois grupos onde um grupo recebeu interferência (treinamento) e um grupo con- trole. Após 12 semanas conclui-se que o treinamento funcional aplica- do, atingiu o objetivo de melhorar a autonomia funcional, equilíbrio e qualidade de vida dos sujeitos da pesquisa, sugerindo melhora no de- sempenho das atividades da vida diária das idosas. Esses dados corroboram com o estudo de Michael Whitehurst, (2005) que investigou os benefícios de exercícios funcionais em 119 idosos com idade média de 74 anos. Durante 12 semanas os indiví- duos participaram de um circuito funcional 3 vezes na semana, envol- vendo desafios de equilíbrio e direcional, atividades de transferência de peso e obstáculos.Foram encontradas melhorias relevantes na agi- lidade, equilíbrio e flexibilidade após o período da pesquisa. Outras mudanças recentes demonstram o interesse de conceitua- das escolas internacionais no assunto, as Diretrizes do ACSM/AHA atualmente recomendam o exercício de equilíbrio para os indivíduos que sofrem quedas frequentes ou para indivíduos com problemas de mobilidade. As Diretrizes do ACSM para Prescrição de Exercício recomendam o uso de atividades que incluam: (1) posturas progressivamente mais difí- ceis que reduzam gradualmente a base de apoio, (2) movimentos dinâ- micos que perturbem o centro de gravidade (por exemplo, caminhar na ponta do pé ou em círculos), (3) ênfase nos grupos musculares postu- rais (por exemplo, equilibrar-se sobre os calcanhares, sobre os antepés) ou (4) redução de campo sensorial (Por exemplo, manter-se em pé com os olhos fechados). (ACSM, 2009). Acima de tudo, é preciso respeitar a individualidade biológica do idoso, levando em consideração as suas particularidades e limitações, por isso a preocupação com a personalização dos programas de trei- no se faz necessária, tanto para otimizar os resultados como para evi- tar a acentuação de desgastes já instalados. miolo-idosos.indd 205 2/21/2018 8:58:38 PM — 206 — O objetivo principal deve ser individualizar os exercícios corretivos ao encontrar o equilíbrio ideal entre exercícios de treinamento de resis- tência funcionais e tradicionais para atender às necessidades do cliente. Apenas escolher um exercício que usa uma superfície instável não o torna necessariamente um exercício de treinamento funcional efi- caz e apropriado para esse indivíduo (Beckham, 2009) O idoso, assim como todo ser humano, necessita de movimento. É preciso otimizar os anos vividos agindo de modo preventivo com bons hábitos alimentares, prática de exercícios e socialização, para uma longevidade mais saudável e feliz. REFERÊNCIAS: Alfieri F. M., Werner A, Roschel Ab, Melo Fc, Santos K.I.S. Mobilidade funcio- nal de idosos ativos e sedentários versus adultos sedentários. Braz J Bio- motricity. 2009;3(1):89-94. American College Of Sports Medicine. Position stand Exercise and physical activity for older adults. Med Sci Sports Exerc. 2009. Antes D. L. et al. Propriocepção de joelho em jovens e idosas praticantes de exercícios físicos. Fisioter. Pesqui. vol.16 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2009. Barret D.S., Cobb A.G., Bentley Y.G. Joint proprioception in normal, osteoar- thritic and replaced knees. J Bone Joint Surg Br.;73B(1):53-6,1991. Beckham, Susan G. Ph.D., Facsm, Rcep, Cscs; Harper, Michael M.Ed. FUNC- TIONAL TRAINING: Fad or Here to Stay? 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Active ageing: a policy framework. 2002. miolo-idosos.indd 208 2/21/2018 8:58:38 PM — 209 — IDOSO INSTITUCIONALIZADO E QUALIDADE DE VIDA1 Bruno Gilberto de Melo e Silva Suely de Melo Santana Cirlene Francisca Sales da Silva INTRODUÇÃO O Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento publicado pela Or- ganização Mundial de Saúde (OMS, 2015) evidencia que a população mundial já conta com 900 milhões de idosos, o que representa 12,3% da população total. No Brasil, em 2015, já existia 23 milhões de pes- soas acima de 60 anos, cerca de 12,5% da população. A perspectiva é de que, em 2050, essa população represente em torno de 21,5% da po- pulação mundial e 30% da população brasileira. Concomitante a esse crescimento populacional surgem novos desa- fios que nos instigam a refletir sobre práticas e alternativas de respostas as novas demandas sociais e necessidades interpessoais que se interpõem. Um desses desafios remete ao problema da institucionalização dos ido- sos em Instituições de Longa Permanência (ILPI’s) e a Qualidade de Vida (QV) que os mesmos irão manter com a aumento da longevidade. O IDOSO INSTITUCIONALIZADO As ILPI’s devem fornecer um ambiente seguro, que promova o bem- -estar, fornecendo cuidados especiais, conforme as necessidades in- 1. Este capítulo foi elaborado a partir da dissertação de mestrado do primeiro autor em colaboração com a terceira autora. A dissertação foi orientada pela segunda autora. miolo-idosos.indd 209 2/21/2018 8:58:38 PM — 210 — dividuais, e suprindo as demandas de adaptação física e logística do espaço de convivência do idoso (Cortelletti, Casara, & Heredia, 2010). Nestes locais devem ser fornecidas condições para que o idoso possa receber assistência interdisciplinar integral, com controles periódicos e tratamentos adequados, caracterizando-se por prestar uma assis- tência voltada à seguridade de sua qualidade de vida. As ILPI’s po- dem ser instituições governamentais ou não governamentais, de cará- ter residencial, destinadas ao domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em condi- ção de liberdade, dignidade e cidadania (Lopes et al., 2014). Sendo as- sim, as instituições podem ser de caráter público, privado, beneficen- te ou misto, possuindo critérios de inclusão e exclusão, que variam de acordo com o grau de dependência, com a quantidade de doenças as- sociadas e com as condições socioeconômicas do idoso e da família (Leocádio, 2010; Pinto & Simson, 2012). Os motivos da institucionalização são diversos e remetem a uma indisponibilidade da família para o cuidado, a falta de ambiente e convívio familiar, a precárias condições de saúde, vontade própria do idoso, aumento do grau de dependência funcional e falta de con- dições financeiras das famílias (Garcia & Leonel, 2007; Creutzberg, Gonçalves, Sobottka, & Ojeda, 2008; Dutra et al., 2016). O aumento na expectativa de vida, aliado a redução do número de membros nas fa- mílias brasileiras, bem como a inserção da mulher no mercado de tra- balho e seu acúmulo de funções, têm propiciado a oferta e demanda pelas ILPI’s. Outro ponto importante para a institucionalização são os confli- tos familiares, o abandono e o fato de não possuir lugar para morar, além da condição de “estar doente” (Pinheiro, Holanda, Melo, Medei- ros, & Lima, 2016). Percebe-se também que a ausência dos familia- res ou recusa desses em cuidar dos idosos por diversas causas é o que mais impacta na percepção de qualidade de vida, uma vez que, para essa população, o significado de qualidade de vida está relacionado a miolo-idosos.indd 210 2/21/2018 8:58:38 PM — 211 — carinho, cuidado, acolhimento e tranquilidade (Cruz et al., 2012; Del Duca, Silva, Thumé, Santos, & Hallal, 2012; Mendes & Rezende, 2017). Esse isolamento social pode levar a um comprometimento de sua identidade, liberdade, autoestima e, muitas vezes, à recusa da própria vida, o que pode contribuir para a prevalência de depressão em al- guns casos (Stumm, Alves, Medeiros, & Ressel, 2012). Os idosos admitidos em uma ILPI se tornam membros de uma nova comunidade, vivenciando geralmente uma ruptura radical de seus vínculos relacionais afetivos, passando a conviver diariamen- te com pessoas que nunca fizeram parte de seu convívio socioafeti- vo, independente da qualidade da instituição (Freitas, Oliveira, Sou- za, & Ribeiro, 2006). Em pesquisa realizada, na qual foram abordados os construtos pessoais de seis idosos institucionalizados, eles mencionaram a insti- tuição como boa e a convivência entre os membros como satisfatória, sendo ressaltado o bom atendimento prestado aos internos, embo- ra a família continue exercendo papel de destaque e primeira opção para o cuidado aos idosos que estão ali principalmente pela ausência do cônjuge ou de filhos para lhes prestar suporte (Prochnau & Pastó- rio, 2007). Sem desconsiderar os aspectos mais sofridos da vida instituciona- lizada por parte do idoso, mas refletindo sobre outros aspectos insti- tucionais de caráter mais positivos, muitas vezes as ILPIs representam uma alternativa à dependência familiar, possibilitando um envelheci- mento mais autônomo