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A UTILIZAÇÃO DO BALANCED SCORECARD COMO MODELO DE GESTÃO ESTRATÉGICA EM UM ATERRO SANITÁRIO Francisco Gleydson Sobreira Amorim (UFC) gleydsonamorim@marquise.com.br Rogério Teixeira Mâsih (UFC) rogeriomasih@gmail.com O atual cenário competitivo tem forçado as empresas a aprimorarem a sua capacidade de gestão, principalmente no tocante ao desenvolvimento de planejamentos estratégicos envolvendo todos os níveis da empresa. Sob este contexto, este artigo ttem como objetivo principal, apresentar o desenvolvimento de um estudo de caso sobre a proposta de implantação do Balanced Scorecard como modelo de gestão estratégica em um aterro sanitário, com a apresentação de um modelo de mapa estratégico elaborado a partir da visão estratégica, perspectivas, objetivos e indicadores levantados na organização, com base em suas necessidades. Inicialmente, são descritos os principais conceitos relacionados ao assunto, enfatizando o Balanced Scorecard, mapas estratégicos e aspectos críticos de implantação. Em seguida são apresentadas análises críticas ao modelo BSC, utilizando como base, empresas exemplos reais de implantação. No estudo de caso, são apresentadas as características do ambiente em análise, o qual trata-se de um aterro sanitário, e por fim, é proposto um modelo de gestão estratégica utilizando a ferramenta balanced scorecard, no qual são apresentas as perspectivas, objetivos, indicadores, metas e um mapa estratégico para o gerenciamento da atividade. Palavras-chaves: : Balanced Scorecard, Mapa Estratégico, Aterro Sanitário XXX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO Maturidade e desafios da Engenharia de Produção: competitividade das empresas, condições de trabalho, meio ambiente. São Carlos, SP, Brasil, 12 a15 de outubro de 2010. 2 1. Introdução A disposição final dos resíduos sólidos urbanos é um dos graves problemas ambientais enfrentados pelos grandes centros urbanos, particularmente no Brasil onde o uso de lixões e aterros controlados ainda é bastante comum e recebem a maior parte dos resíduos gerados. O trabalho de coleta domiciliar é apenas a primeira etapa do processo que envolve toda a problemática do lixo. O Aterro Sanitário é definido como um método de disposição final de resíduos sólidos no solo, com base em estudos de engenharia, para reduzir ao máximo os impactos causados ao meio ambiente e os prejuízos à saúde pública. Atualmente é uma das técnicas mais utilizadas, seguras e de baixo custo de implantação e operação, dentre os métodos ambientalmente corretos. Para sua implantação, o aterro deve passar por uma série de etapas de licenciamento, estudos de impacto ambiental, elaboração de projetos executivos, planos de trabalho e cronogramas de execução. Apesar de ser, dentre as técnicas de destinação final de resíduos sólidos, a mais barata, o aterro sanitário demanda altos custos de operação aos municípios, pois trata-se de uma obra de engenharia de grande porte, que envolve o uso de técnicas da construção civil, terraplenagem, drenagem de gases, sistemas de captação e bombeamento de líquidos, movimentação e compactação de resíduos e monitoramentos ambientais, além dos custos envolvidos na implantação e manutenção pós encerramento. Portanto, para um bom gerenciamento de um aterro sanitário faz-se necessário desenvolver um sistema de gestão estratégica que possibilite atender os interesses de todas as esferas envolvidas em sua operação, são elas: Empresa que opera o aterro (acionista), prefeitura e transportadoras de resíduos particulares (clientes), funcionários, sociedade e meio ambiente. Diante desta administração complexa, a ferramenta balanced scorecard surge como uma boa opção para auxiliar o gerenciamento de aterros sanitários, uma vez que propõe o desenvolvimento de um modelo de medição de desempenho que reflete o equilíbrio entre objetivos de curto e longo prazo, entre medidas financeiras e não financeiras e, também, mede o desempenho sob as perspectivas do cliente, dos processos internos e do aprendizado e crescimento. Um sistema de gestão estratégica precisa resolver uma equação de que múltiplos interesses devem ser satisfeitos para que o resultado final seja atingido como era esperado. Por uma lógica simples, acionistas querem criação de riqueza, mas para gerar riqueza para os acionistas é necessário satisfazer os interesses dos clientes, atendendo-os bem. Clientes satisfeitos exigem processos internos eficientes e inovadores. Por sua vez, processos internos eficientes dependem de profissionais qualificados e preparados para desenvolver seus papéis com competência técnica e visão estratégica, além de sistemas de informação corretamente estruturados e distribuídos. Nesse contexto, o presente trabalho tem por objetivo propor um modelo de gestão estratégica para um aterro sanitário, baseado na ferramenta balanced scorecard, de forma a proporcionar um gerenciamento integrado entre as diversas esferas envolvidas na atividade, que são elas: Acionistas, clientes, funcionários, sociedade e meio ambiente. 3 2. Fundamentação Teórica 2.1. Balanced Scorecard Para conseguir sobreviver num ambiente de alta competição torna-se fundamental que as empresas administrem seus negócios estrategicamente. A empresa tem que ter uma visão e uma estratégia. A visão sinaliza o futuro da empresa, ou seja, onde ela pretende estar no futuro previsível. A estratégia significa o caminho escolhido pela empresa, para atingir a sua visão de futuro, conforme PORTER (1996). Tanto a visão quanto a estratégia necessitam ser traduzidas para os vários níveis da organização, para que se consiga obter o devido alinhamento entre o que o alto comando da empresa projeta para o futuro e o que está sendo decidido nos níveis inferiores. Segundo Kaplan e Norton (1997), muitas empresas pecam na implementação de suas estratégias e não na sua formulação, justamente porque não conseguem traduzir suas estratégias amplas para os vários níveis da organização. O Balanced Scorecard (BSC) é um Sistema de Gestão Estratégica que utiliza, de modo balanceado, indicadores financeiros e não-financeiros. Além disso, ele estabelece as relações de causa e efeito entre esses indicadores e as descreve em mapas estratégicos. Conforme Kaplan e Norton (1997), a empresa deve ser gerida com base num sistema de medidas financeiras e não financeiras, definidas não de forma aleatória ou desordenada, mas de acordo com a visão e a estratégia da empresa e de acordo com uma lógica de encadeamento de relações de causa e efeito, em que um resultado posterior é causado ou influenciado por alguma variável que o direciona. Os indicadores financeiros são importantes por revelar se a implementação e a execução da estratégia da empresa estão contribuindo para a melhoria dos resultados. Embora o foco de atenção do ponto de vista estratégico seja a sobrevivência no longo prazo, não pode ser negligenciada a capacidade corrente da empresa em gerar resultados e se sustentar financeiramente. Conhecimentos básicos de finanças revelam também que a geração de resultados ao longo da vida da empresa é o que garante a manutenção de um processo de crescimento sustentável, haja vista a natural preferência dos acionistas e administradores em financiar novos projetos com fundos gerados internamente. (KAPLAN E NORTON, 2000b). O Balanced Scorecard deve traduzir a missão e a estratégia da organização em objetivos e medidas tangíveis. As medidas representam o equilíbrio entre indicadores externos voltados para acionistas e clientes, e as medidas internas dos processos críticos de negócios, inovação, aprendizado e crescimento (Kaplan e Norton, 1997). As empresas criativas usam o BSC como um sistema de gestão estratégica uma vez que o método introduz uma nova forma de abordar e chamar a atenção dos gerentespara os quatro aspectos mais importantes que, separada ou complementarmente, contribuem para conectar os objetivos estratégicos a longo prazo aos resultados e ações a curto prazo. (CAMPOS, 1998). Cada uma das perspectivas do Balanced Scorecard busca um referencial relevante para uma forma de implementar o desenvolvimento da estratégia na organização em questão. Este caminho escolhido para implementar o BSC é amparado pela visão sistêmica, a qual indica que tudo está interligado em uma teia de relações, conectando a empresa ao meio-ambiente no qual está inserida. As quatro perspectivas que compõem o BSC e que alavancam o desempenho futuro são: financeira, do cliente, dos processos internos e de aprendizado e crescimento. 4 A perspectiva financeira do BSC, segundo Kaplan e Norton (1997), utiliza os objetivos financeiros tradicionais, tais como: lucratividade, retorno sobre ativos e aumento de receita. Porém os vincula à estratégia da empresa, pois esses objetivos financeiros representam a meta de longo prazo a ser alcançada por ela. Na perspectiva dos clientes, Kaplan e Norton (1997) dizem que a empresa deve determinar seu segmento-alvo de clientes e negócios e dispor de um conjunto de medidas essenciais para esses segmentos. As medidas essenciais envolvem os seguintes aspectos: participação, retenção, captação, satisfação e lucratividade. Além disso, é preciso identificar o que os clientes do segmento-alvo valorizam e elaborar uma proposta de valor a esses clientes. Ao estabelecer os indicadores dessa perspectiva, deve-se considerar os atributos de funcionalidade, qualidade, preço, experiência de compra, relações pessoais, imagem e reputação. Kaplan e Norton (1997) afirmam que, na perspectiva dos processos internos, são identificados os processo críticos em que se busca a excelência, visando atender aos objetivos financeiros e dos clientes. Eles ressaltam a inclusão, nessa perspectiva do processo de inovação, que consiste na análise de mercado e desenvolvimento de novos produtos e processos. Além disso, a empresa deve se preocupar com seu processo operacional e com serviços de pós-venda, identificando as características de custo, qualidade, tempo e desempenho, visando à oferta de produtos e de serviços de qualidade superior. Por fim, temos a perspectiva do aprendizado e crescimento, que segundo Kaplan e Norton (1997) é segmentada em três partes: funcionários, sistemas e alinhamento organizacional. Ressalta-se que os próprios autores consideram que os vetores de resultado dessa perspectiva são mais genéricos e menos desenvolvidos do que das outras perspectivas. Cada perspectiva do BSC inclui objetivos, indicadores, metas, e ações a desenvolver, necessárias para o cumprimento dos objetivos estratégicos (KAPLAN E NORTON, 2001): a) Objetivos (estratégicos). São a tradução quantitativa e qualitativa da estratégia da organização, tomando como referência as quatro perspectivas: financeira, clientes, processos internos, aprendizagem e crescimento. Os objetivos estão organizados em mapas estratégicos estabelecendo entre si relações de causa e efeito. Estes mapas auxiliam todos os indivíduos da organização a entenderem a estratégia, e em como transformar ativos intangíveis em resultados tangíveis (KAPLAN E NORTON, 2001). b) Indicadores (chave de desempenho). Informam como é medido e acompanhado o sucesso de cada objetivo (Kaplan e Norton, 2001). Um bom balanceamento dos 16 indicadores de desempenho deve ser uma combinação adequada de resultados (indicadores de ocorrências) com impulsionadores do desempenho (indicadores de tendências) ajustados à estratégia da organização. Os indicadores de ocorrência mostram o desempenho de ações passadas, enquanto os indicadores de tendência indicam os prováveis resultados futuros. c) Metas (marcos ao longo do tempo). Trata-se do nível de desempenho esperado ou a taxa de melhoria requerida para cada indicador. As metas podem ser alteradas ao longo do tempo, permitindo uma evolução do desempenho ligado aos objetivos estratégicos, sem, contudo, ser necessário alterar estes últimos (KAPLAN E NORTON, 2001). d) Ações (a desenvolver). São planos de ação e projetos associados às metas fixadas ao longo do tempo, que devem ser implementados com o fim de às viabilizar. São “ações de intervenção” para garantir que as metas sejam alcançadas. (KAPLAN E NORTON, 2001). 5 2.2. Mapas Estratégicos O sucesso da execução da estratégia de uma organização depende da compreensão desta pelos colaboradores, os quais, por sua vez, dependem de uma descrição clara da mesma (KAPLAN E NORTON, 1997). Os mapas estratégicos fornecem uma representação visual das relações de causa e efeito entre os componentes da estratégia de uma organização (Kaplan e Norton, 2001). É através desta cadeia de relações de causa e efeito que os melhoramentos específicos de uma ação criam os resultados desejados. Numa perspectiva mais global, estes mapas mostram como uma organização converte as suas ações e recursos, incluindo os ativos intangíveis, como a cultura organizacional e os conhecimentos dos colaboradores, em resultados tangíveis (KAPLAN E NORTON, 2001). Assim, o mapa estratégico é um forte instrumento de comunicação, pois, é simples e integrador, e obriga a centrar a mensagem no fundamental. Mediante este exercício de síntese, consegue fazer com que a estratégia seja mais explícita, logo mais fácil de comunicar. Por isso, a principal finalidade do mapa estratégico é a de descrever, de forma dinâmica, como a organização irá criar valor ao longo do tempo; ou seja, o mapa estratégico estabelece a ligação entre as atividades de formulação e de implementação da estratégia, mostrando como esta deve ser executada. 2.3. Fatores Críticos da Implantação do Balanced Scorecard Um dos problemas mais comuns diz respeito ao envolvimento da alta direção, a partir do momento em que os executivos passam a delegar toda a estratégia do processo de implantação ao nível hierárquico intermediário. (Kaplan e Norton, 2001) argumentam que estes gerentes intermediários podem não estar preparados para entender a estratégia nem o projeto do BSC como um todo, não tendo nem a autoridade nem o conhecimento dos processos necessários para o sucesso da implantação. Estes autores também se referem ao comprometimento da gerência como fator tão importante como conhecimento e autoridade. Além disso, Kaplan e Norton (2001) enfatizam que a posição da alta administração deve ser a de dividir funções e responsabilidades, de forma a evitar o isolamento durante a implantação do BSC. Kaplan e Norton (2001) dizem: “O resultado final desta autoconfiança excessiva é que os processos de tomada de decisão, em níveis superiores, não mudam”. Ele também destaca o ponto de vista a respeito da divisão de responsabilidades: “tirar a estratégia da mão de 10 e passar para 10 mil”. Para alcançar o propósito da empresa como um todo, Kaplan e Norton (2001) sugerem ainda atribuir os scorecards da empresa gradualmente, distribuindo o esforço da implementação e também ajustando e refinando os objetivos e necessidades em todos os setores da empresa. Segundo Kaplan e Norton (2000), uma parte significativa do conjunto total de medidas do BSC não está disponível nos primeiros meses de implantação do processo. No entanto, isto não deve ser considerado um verdadeiro problema. Porém, em vez de se deter em detalhes sem fim em busca de um começo perfeito, as empresas deveriam começar pela utilização de medidas de BSC e promover uma contínua melhoria para esta abordagem. Kaplan e Norton (2000) afirmam: “o scorecard não é um evento único - é um processo de gerenciamento 6 contínuo.” Carvalho e Laurindo (2003) alertam ainda que a implementação do BSC anda junto com o gerenciamento por processos, se a empresa ainda não mapeouseus processos críticos, vai demorar para estabelecer as métricas nesta perspectiva. 2.4. Casos de Sucesso na Implantação do Balanced Scorecard A EMBRAPA começou a implantar o BSC em 1997. Seu problema era o imobilismo da estratégia, ou seja, ela existia, mas não saía do papel. Havia pressão do governo para prestar serviços de maior qualidade e menor custo. Para iniciar a implantação foi escolhida uma das quarenta unidades da empresa, a de agroindústria de alimentos – RJ, uma vez que reunia características que facilitava o desenvolvimento do projeto. Primeiro reuniu 50 profissionais para traduzir missão da unidade numa estratégia clara e focada. O foco passou a ser o desenvolvimento de produtos que levassem praticidade ao consumidor final, como salada de frutas já lavadas e embaladas. Em segundo construiu um mapa estratégico, destacando os objetivos essenciais à concretização da estratégia, a relação e a forma como os resultados alcançados seriam medidos, com o intuito de definir no máximo três indicadores para cada objetivo. Estabeleceu prioridades como na área de pesquisa escolheu nutrição e segurança de alimentos por ser mais competitiva e traçou como objetivo estratégico uma melhoria do atendimento aos clientes. Em 1999 houve uma pesquisa sobre o grau de satisfação dos clientes e o resultado atingiu um percentual de 68%. (Guedes, 2003) A PETROBRAS iniciou a implantação em 2001 com o objetivo de implementar um sistema corporativo de avaliação de desempenho empresarial, de forma a monitorar o alinhamento estratégico da Companhia às diretrizes e metas estabelecidas no Plano. Para consolidação do novo modelo de avaliação, a Petrobras constituiu um Grupo de trabalho objetivando o desenvolvimento e a implantação do processo. Foram convidadas as seguintes empresas reconhecidas internacionalmente em implantações de BSC: Price Waterhouse e Coopers Consultores de Empresas Ltda, Symnetics Business Transformation, KPMG Consulting S/A e Arthur Andersen Buiness Consulting S/A. Executou-se o projeto em duas etapas, a primeira com duração de quatro meses, desenvolveu- se em seis painéis descritos a seguir: Corporativo, Exploração e Produção (E&P), Abastecimento, Petrobras Distribuidora (BR), Gás e Energia e Internacional. Na segunda etapa, duração de doze meses, os seis painéis foram desdobrados em oitenta painéis, alusivos as Unidades de Negócio, Corporativas, Área Financeira e suas Unidades e a Área de Serviços e suas Unidades. (Jerônimo, Ramos e Moura, 2008) A CARRIS foi fundada no ano de 1872, sendo a segunda empresa de transporte coletivo no Brasil e a primeira na Região Sul. A CARRIS utiliza o Balanced Scorecard desde 2001, Um dos motivos da adoção do BSC foi a necessidade de socializar os conhecimentos sobre a estratégia e as relações de causa e efeito, que ficavam restritos ao grupo de diretores e gerentes. O BSC permitiu difundir seu planejamento estratégico por toda empresa, em especial aos seus gerentes. O BSC também possibilitou o acompanhamento contínuo do alcance das metas estabelecidas, fazendo com que o planejamento seja permanentemente revisto. Uma das dificuldades enfrentadas quanto a utilização do BSC refere-se ao método de inserção dos dados. A empresa não possui um sistema integrado, não permitindo que os dados dos sistemas operacionais sejam automaticamente enviados ao BSC. Outra dificuldade enfrentada na utilização do BSC refere-se a visão do quadro gerencial, pois não existia um senso comum, uma unicidade de significado atribuída ao BSC pelos gerentes. Tal cenário reduzia o engajamento de todos em busca de um objetivo compartilhado. A adoção do BSC para a empresa mostrou-se como um bom auxiliar da gestão organizacional, contudo, somente 7 pode ser eficaz se for orientado pela estratégia da empresa. (Abreu, Schneider, Miranda e Tondolo, 2004) A TRANSPORTADORA BRASIL foi fundada a mais de 60 anos, atende cerca de quatro mil localidades em 16 Estados do País; possui aproximadamente 3 mil funcionários e 700 veículos, movimentando mais de 450 mil toneladas de cargas ao ano. Ela ocupa o primeiro lugar no ranking das empresas do seu setor no Norte/Nordeste. A inserção do BSC ajudou a empresa a perceber que nem todos os seus clientes eram lucrativos e estavam dentro do seu perfil de negócio. Começou então em 2001 a primeira segmentação, optando por uma estratégia que permitisse o aumento de sua participação de mercado junto a clientes que procuravam valor. Para a perspectiva dos processos internos foram identificados os processos mais críticos para a realização dos objetivos dos clientes e acionistas. Para tal, foram selecionados indicadores dos processos que mais agregam valor ao serviço e, portanto, ao cliente. Dentro da perspectiva de aprendizado e inovação foi sugerido o controle dos indicadores de treinamento, rotatividade e acidentes considerados como estratégicos para que a meta da empresa seja atingida. Para atingir a meta estratégica da empresa na perspectiva dos clientes foram selecionados os indicadores de satisfação do cliente, oportunidades de melhorias e novos serviços e meio ambiente. Os bons resultados auferidos com a implantação do BSC confirmam essa metodologia como sendo bastante eficaz quando inserida em um grande processo de mudança na organização. (Guimarães, 2005) Na SIEMENS o projeto de BSC iniciou-se em janeiro de 2001, sendo que em junho de 2001 foi contratada uma consultoria a qual foi selecionada para o acompanhamento. A implantação aconteceu por meio de fases, a primeira envolveu o treinamento da equipe central e unidade piloto e a construção do BSC para unidade piloto, na segunda foram treinadas equipes das demais unidades também alcançando a implantação da ferramenta tecnológica SAP SEM, na terceira foi implantado o BSC nas unidades de negócios que, segundo entrevista, revelaram que algumas áreas conseguiram avançar mais rapidamente que outras por motivo de reestruturação interna. A quarta fase prevê a ampliação do projeto, implantação nas empresas coligadas, desdobramento para os doze escritórios regionais de vendas e serviços no Brasil, automação de indicadores e vinculação do modelo com a remuneração dos funcionários. Na SIEMENS do Brasil o BSC está sendo conduzido por duas equipes. A equipe de coordenação central composta de dois consultores internos seniores e dois plenos que são apoiados por uma consultoria qualificada e a equipe operacional constituídas para agirem nas unidades e envolvem entre dois e 16 participantes. Desse modo, o prazo de nove semanas para a realização do projeto piloto de implantação caiu para cinco semanas e nas unidades menores a implantação ocorre em três semanas ou, até mesmo, em quatro dias. (Soares, Júnior, Prochnik, 2003). A EMPRESA COMETA é a primeira transportadora do país em volume de cargas e segunda em faturamento, ganhou mais destaque quando foi introduzido em 2002 o BSC. Para a empresa o BSC permitiu mais agilidade na identificação dos principais objetivos para o gerenciamento de pessoas e talentos, bem como complementar e dar suporte a projetos voltados para melhor qualificação do RH da empresa. Seus principais projetos foram o programa de educação continuado ligado ao pessoal operacional, que é 65% do quadro de funcionários, conferentes, motoristas e operadores de cargas recebem treinamentos gerais e específicos voltados à sua área de atuação. A reciclagem é anual. Eles lidam com o cliente. Recebem ainda o apoio para melhoria do nível educacional. A integração das ações do RH com os demais setores da empresa são considerados fundamentais para a obtenção dos resultados previstos. (Guedes, 2003). 8 3. Estudo de caso 3.1. Descrição da empresa A proposta de implantação do balanced scorecard é realizada em um aterro sanitário, localizado na região metropolitanade Fortaleza, com um efetivo de 75 trabalhadores, entre funcionários e terceirizados, possui em sua operação uma frota de 7 tratores de grande porte e 4 veículos de apoio, recebe atualmente uma média de 120 mil toneladas de resíduos por mês, iniciou sua operação em 1991 e tem sua previsão de encerramento para 2015. A gestão do aterro é realizada por uma empresa de porte médio, conceituada nacionalmente na área de limpeza urbana, na qual realiza a coleta domiciliar em diversas capitais e municípios do país e opera 4 aterros sanitários, além de ser bastante atuante nos seguimentos da construção civil, hotelaria, comunicação e no setor financeiro. Possui atualmente 4.600 funcionários e está no mercado há 36 anos. A filial responsável pela gestão do aterro em questão, à qual denominaremos de Empresa Ceará, para que possamos preservar a imagem da mesma, é também responsável pela coleta domiciliar do município no qual está inserido o aterro e realizada esta atividade há 8 anos. O planejamento estratégico da empresa é realizado anualmente e é voltado para atingir os objetivos da filial como um todo, sendo o aterro apenas o setor de destinação final, mas que possui orçamento próprio e alguns indicadores de desempenho, tais como: dispersão orçamentária, consumo de óleo diesel e área máxima de resíduos descobertos. Diante da complexidade inerente ao gerenciamento e a influência exercida sobre o meio ambiente e a sociedade, entende-se que o aterro sanitário deve possuir um planejamento estratégico específico utilizando a ferramenta balanced scorecard de modo a atender todas as perspectivas envolvidas na atividade. De uma forma simplificada, a operação do aterro sanitário pode ser descrita conforme o fluxograma apresentado na Figura 1 a seguir: Realizar os monitoramentos ambientais pertinentes a todas as atividades supracitadas. Executar sistematicamente as obras de drenagem de águas pluviais e a drenagem dos gases e líquidos provenientes da decomposição dos resíduos Executar a cobertura com material inerte a cada jornada de trabalho Efetuar a pesagem do veículo, registrando a origem, tipo de resíduo, peso bruto e peso tara, empresa transportadora, data, dados do veículo, hora de entrada e saída. Descarregar os resíduos e compactá-los com uso de tratores específicos Figura 1 - Sequência simplificada das atividades operacionais no aterro sanitário Fonte: elaborado pelo autor. 9 Divisão departamental do aterro sanitário e efetivo de mão-de-obra: Setor de pesagem: Responsável pelo registro das informações no banco de dados dos resíduos recebidos, tais como: peso, origem, hora de entrada e de saída, tipo de resíduo, transportadora, dados do veículo e registro fotográfico. Equipe: 4 auxiliares de operações. Setor Administrativo / Financeiro: Responsável pelo gerenciamento de todos os recursos do aterro, controle orçamentário e faturamento. Equipe: 1 gerente de aterro; 1 assistente administrativo; 1 auxiliar administrativo; 1 encarregado geral. Setor de Descarga de Resíduos: Responsável pela descarga dos resíduos, compactação, cobertura com material inerte e execução das obras de drenagem de líquidos e gases provenientes da decomposição dos resíduos. Equipe: 2 encarregados de turma; 8 operadores; 1 apontador; 12 serventes; 15 caçambeiros terceirizados. Setor de Manutenção de Máquinas e Equipamentos: Responsável pela manutenção dos tratores, bombas, balanças e demais equipamentos do aterro. Equipe: 1 encarregado de manutenção; 1 mecânico; 1 auxiliar de mecânica; 2 serventes. Setor de Conservação e Manutenção Predial: Responsável pela manutenção de todas as edificações, estradas internas, balanças rodoviárias, instalações elétricas, lógicas e hidrosanitárias, cercas de proteção e limpeza de todo o aterro. Equipe: 1 encarregado de manutenção predial; 1 eletricista; 10 serventes. Setor de Tratamento e Monitoramento de Efluentes e redes de bombeamento: Responsável pela execução e monitoramento ambiental da rede de bombeamento dos líquidos, dos poços de monitoramento e das lagoas de tratamento. Equipe: 1 engenheiro químico; 4 serventes. 3.2. Elaboração do Balanced Scorecard Inicialmente foram definidas as perspectivas envolvidas na atividade. Pela análise realizada para o aterro sanitário, verificou-se que as quatro perspectivas enunciadas por Kaplan e Norton (1997) não são suficientes para abranger toda a estratégia formulada para o aterro. Foi proposta para a empresa a inserção de outra perspectiva em seu mapa estratégico, Responsabilidade social e ambiental, que já faz parte do dia a dia da empresa. Em seguida foram definidos os objetivos pertinentes a cada perspectiva, de modo a definir de forma clara o que é necessário buscar para alcançar a satisfação de todos os envolvidos na atividade conforme a estratégia estabelecida pela empresa. Foram definidos os seguintes objetivos agrupados às perspectivadas estratégicas: Perspectiva financeira (objetivos): Reduzir custos e despesas; Elevar retorno sobre investimento; Reduzir inadimplência dos clientes; Garantir rapidez no processo de faturamento. Perspectiva dos clientes (objetivos): Aumentar a satisfação dos clientes. Perspectiva dos processos internos (objetivos): Melhorar a qualidade e produtividade dos processos; Investir em novas tecnologias e incrementar a inovação nos processos. 10 Perspectiva do aprendizado e crescimento (objetivos): Aumentar o nível de satisfação e motivação dos funcionários; Incentivar o desenvolvimento dos funcionários, através da habilidade, atitude e conhecimento; Melhorar a qualidade de vida dos funcionários; Manter pessoas qualificadas. Responsabilidade social e ambiental (objetivos): Gerenciar o impacto ambiental; Conquistar a credibilidade e a confiança da comunidade; Comprometer a força de trabalho com a responsabilidade social e ambiental. Com os objetivos definidos, o mapa estratégico do Balanced Scorecard foi proposto com a finalidade de explicitar a hipótese da estratégia, onde cada objetivo se converte em parte integrante de uma cadeia lógica de causa e efeito que conecta os resultados almejados da estratégia. O mapa estratégico descreve o processo de transformação de ativos intangíveis em resultados tangíveis para os clientes e, por conseguinte, em resultados financeiros. Essa ferramenta fornece aos executivos um referencial para a descrição e gerenciamento da estratégia (Kaplan e Norton 2000). O Mapa Estratégico elaborado durante este trabalho encontra-se apresentado na figura 2, a seguir. 11 Gerenciar o impacto ambiental Conquistar a credibilidade e a confiança da comunidade Comprometer a força de trabalho com a responsabilidade social e ambiental Aumentar o nível de satisfação e motivação dos funcionários Melhorar a qualidade de vida dos funcionários Aumentar a satisfação dos clientes Reduzir custos e despesas Elevar retorno sobre investimento P er sp ec ti v a d e re sp o n sa b il id ad e so ci al e a m b ie n ta l P er sp ec ti v a d o a p re n d iz ad o e cr es ci m en to P er sp ec ti v a d o s p ro ce ss o s in te rn o s P er sp ec ti v a d o s cl ie n te s P er sp ec ti v a fi n an ce ir a Reduzir inadimplência dos clientes Garantir rapidez no processo de faturamento Manter pessoas qualificadas Melhorar a qualidade e produtividade dos processos Investir em novas tecnologias e incrementar a inovação nos processos Incentivar o desenvolvimento dos funcionários, através da habilidade, atitude e conhecimento Figura 2 - Mapa Estratégico Fonte: elaborado pelo autor. Por fim, foram propostos os indicadores estratégicos e suas respectivas metas, conformeos objetivos e perspectivas da empresa. Estes indicadores permitem acompanhar o andamento dos processos identificando riscos potenciais e problemas antes de tornarem-se críticos, além de controlar a qualidade e a produtividade, possibilitando a tomada de decisões em tempo hábil. A meta proposta para cada indicador permite medir o nível de desempenho esperado ou a taxa de melhoria requerida para cada indicador, podendo ser alteradas ao longo do tempo, permitindo uma evolução do desempenho ligado aos objetivos estratégicos, sem, contudo, ser necessário alterar estes últimos. 12 Os valores propostos para as metas foram definidos a partir da análise orçamentária e das informações de produtividade e resultados anteriores. Os indicadores propostos e suas respectivas metas foram distribuídos conforme tabela 1, a seguir. OBJETIVOS INDICADORES META - Receita por tonelada * - Elevar retorno sobre o investimento - Dispersão orçamentária de custo de produção 0% - Reduzir custos e despesas - Dispersão orçamentária de receita 0% - Custo de operação por tonelada * - Garantir rapidez no processo de faturamento - Prazo para emissão de notas fiscais 7 dias - Reduzir inadimplência dos clientes - Índice de inadimplência de clientes particulares 10% - Aumentar a satisfação dos clientes - Nota de pesquisa de satisfação da prefeitura 8,5 - Nota de pesquisa de satisfação de clientes particulares 9 - Melhorar qualidade e produtividade dos processos - Consumo de combustível por tonelada 0,36 L/Ton - Tonelada processada por hora máquina 75 Ton/H - Tempo de parada para manut. corretiva das máquinas 1 dia - Tempo médio entre a pesagem de entrada e a pesagem de saída 30 min - Metros cúbicos de escavação por hora de escavadeira hidráulica 250m³/H - Investir em novas tecnologias e incrementar a inovação nos processos - Quantidade de novas técnicas aplicadas ou em andamento 1 un/tri - Aumentar o nível de satisfação e motivação dos funcionários - Nota da pesquisa de clima com todos os funcionários 8 - Melhorar a qualidade de vida dos funcionários - Incentivar o desenvolvimento dos funcionários - Número de treinamentos internos e externos realizados 2 un/mês - Manter pessoas qualificadas - Nota da avaliação invertida das lideranças 9 13 - Gerenciar o impacto ambiental - Porcentagem da produção de biogás em processo de queima 70% - Inexistência de azamentos para área externa 0% - Área máxima de resíduos descobertos por dia 500 m 2 - Conquistar a credibilidade e a confiança da comunidade - Nota da pesquisa de satisfação da comunidade mais próxima 8 - Comprometer a força de trabalho com a responsabilidade social e ambiental - Projetos sócio-ambientais implantados ou em andamento 1 un/sem (*) dados não divulgados pela empresa Tabela 1: Objetivos, indicadores e metas. Fonte: elaborado pelo autor. 4. Considerações finais A motivação para realização do trabalho surgiu da constatação da dificuldade de gerenciamento estratégico nas empresas, principalmente em atividades que lidam diretamente com o meio ambiente, como é o caso dos aterros sanitários, que além de resultados financeiros, precisam prioritariamente atender as perspectivas sócio-ambientais, de aprendizado e crescimento e dos clientes. O trabalho apresentou uma análise crítica ao modelo BSC, utilizando como base, empresas exemplos reais de implantação, demonstrando os principais pontos observados em cada caso. Nos resultados apresentados, nota-se que o modelo atende as necessidades das organizações, em conformidade com o atual cenário sócio-econômico. Os problemas surgidos na etapa de implantação revelam que não estão diretamente relacionados ao conceito ou à estrutura da ferramenta e sim aos erros que ocorrem durante o acompanhamento da implementação por parte da empresa. Com o estudo de caso do aterro sanitário foi possível identificar vários aspectos importantes que devem ser levados em consideração quando da implementação do balanced scorecard em atividades que lidam diretamente com o meio ambiente. O principal aspecto diz respeito à necessidade da criação de uma quinta perspectiva, que possibilite desenvolver objetivos e indicadores voltados diretamente à responsabilidade social e ambiental. Procurou-se demonstrar como a elaboração do BSC pode auxiliar a empresa operadora de aterros sanitários a gerenciar melhor seus recursos tangíveis e intangíveis, bem como ampliar a forma de identificação e solução de problemas, criando oportunidades de melhoria e compartilhamento de conhecimentos. A apresentação do mapa estratégico fornece uma representação visual das relações de causa e efeito entre os objetivos estratégicos da empresa, proporcionando uma comunicação simples e integradora da visão estratégica, descrevendo de forma dinâmica como a atividade deverá criar valor ao longo do tempo. 14 Referências ABREU, Flávio Cardozo; SCHNEIDER, Luis Carlos; MIRANDA, Raul Graf e TONDOLO, Vilmar Antonio Gonçalves. Vantagens e Desvantagens do uso do BSC: O caso CARRIS. ENEGEP 2004. Anais do Encontro Nacional de Engenharia de Produção. Florianópolis. Novembro/2004. CAMPOS, J. A. Cenário balanceado: painel de indicadores para a gestão estratégica dos negócios. São Paulo: Aquariana, 1998. CARVALHO, M. M.; LAURINDO, F. J. B. Estratégias para a competitividade, São Paulo: Futura, 2003. COSTA, Ana Paula Paulino da; Contabilidade Gerencial: um estudo sobre a contribuição do Balanced Scorecard. Disponível em http://www.usp.com.br. Acessado em 02/03/2010. GUEDES, Ricardo Silva. 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