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130 ANOS DA COMUNA DE PARIS: a Comuna de Paris na história
Osvaldo Coggiola *
Resumo : A Comuna de Paris inscreveu-se num quadro histórico preciso, que ilumina muitas
das suas características. A “transcendência” da Comuna, para além das suas características
imediatas, revela tratar-se de um fato histórico excepcional, o que lhe permitiu criar tanto um
“modelo” para as gerações futuras (função exemplar) quanto uma “tradição” destinada a
servir de inspiração para a ação (função mítica). A pesquisa atual sobre a Comuna leva em
conta esses dois planos diferenciados: ela se refere tanto à história da Comuna propriamente
dita, quanto à história dessa história.
Palavras-chave: Comuna de Paris; Revolução e Guerra franco-prussiana
80
1. Introdução
Para a Revolução de Outubro de 1917, a Comuna foi, de modo consciente, o grande
antecedente e o grande exemplo a ser seguido e, ao mesmo tempo, criticado. Assim como a
Comuna, a Revolução de Outubro produziu-se no quadro de uma conflagração bélica européia
e foi, de modo imediato, a resposta das massas populares do país mais afetado por aquela às
penúrias provocadas pela catástrofe. O impacto da Comuna, porém, não foi só político: uma
enorme quantidade de textos reflete o impacto mais geral, principalmente cultural, da Comuna
de Paris1. Vejamos, então, o quadro histórico em que aconteceu a Comuna de Paris.
2. Quadro Histórico
A Comuna eclodiu num quadro de crise das relações políticas na França e na Europa.
Instituído através do golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851 (e "legalizado", com amplo
apoio, através de plebiscito), o regime “bonapartista” de Napoleão III existia para garantir a
paz externa e assegurar a autoridade e a ordem contra a instabilidade demonstrada pela IIª
República de 1848-51, e contra o perigo da revolução social. Nos inícios da década de 1860,
começaram a surgir questionamentos ao regime nas bases sociais de Napoleão; estes
desacordos nas cúpulas facilitaram o renascimento de oposições, tanto republicanas como
socialistas, que o Imperador procurou esvaziar com algumas medidas liberalizantes. As
dificuldades cresciam no terreno econômico e, na política externa, aconteciam derrotas, como
na Itália ou no México: o Império já deixara de ser o regime da paz (Cf. Pongé,1996).
Uma primeira onda de greves aconteceu em 1864, ano em que foi reconhecido o direito de
coalizão (o direito de reunião, em troca, só seria reconhecido em 1868). Crescia a oposição
liberal e republicana; crescia também, mas em compasso menos impetuoso, a organização do
movimento operário, apoiando-se na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT),
fundada em 1864, em Londres. Em 1867, houve uma nova grande onda de greves, que se
repetiu em 1869-70. Nas eleições de 1869, as oposições conseguiram mais de 40% dos votos:
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uma vitória, celebrada com manifestações em Paris. Novas medidas liberalizantes de
Napoleão III (em 6 de setembro foram aumentados os poderes das duas Assembléias)
precederam a formação de um novo governo, empossado em janeiro de 1870. Em 10 de
janeiro desse ano, Victor Noir, jornalista de La Marseillaise, o periódico dos republicanos
radicais, foi assassinado pelo príncipe Pierre Bonaparte, primo do Imperador. Uma multidão
de superior a cem mil pessoas compareceu a seu enterro, que se transformou numa imponente
manifestação política.
Napoleão III, em 21 de março de 1870, anunciou uma reforma constitucional; concedida em
20 de abril, esta transformava o regime numa espécie de monarquia parlamentar. O novo
curso liberalizante do regime não o impedia, entretanto, de recorrer à repressão. Em 30 de
abril, sob o pretexto de controlar supostos "complôs", o governo mandou prender e processar
todos os membros da Internacional na França. Em 8 de maio, as reformas foram submetidas a
um plebiscito e aprovadas (sim: 7.350.000; não: 1.538.000). Paris, oposicionista, votou
majoritariamente contra.
Desde 1864 vinham se deteriorando as relações entre os governos da Prússia e da França, em
decorrência da política de unidade alemã desenvolvida por Bismarck. Uma das mais mal
sucedidas tentativas de Napoleão III foi a de obter dele algumas vantagens territoriais.
Finalmente, por ocasião do conflito pela sucessão ao trono da Espanha, Bismarck montou
uma armadilha, na qual Napoleão caiu: o governo francês declarou guerra à Prússia, em 19 de
julho de 1870. Apoiada pela imprensa, a decisão recebeu um amplo apoio da opinião pública,
provocando cenas de chauvinismo popular.
Em 2 de agosto, os combates começaram. A superioridade militar das tropas prussianas não
demorou para comprovar-se. Os franceses sofreram uma sucessão de derrotas, que levaram à
queda do governo Ollivier (primeiro-ministro desde janeiro de 1870). Em 1º de setembro,
aconteceu a Batalha de Sedan, que terminou no dia seguinte com a capitulação incondicional
francesa. As cifras do desastre: três mil mortos, 14 mil feridos, mais de oitenta mil
prisioneiros, entre os quais 39 generais e o próprio Imperador. A derrota de Sedan implicava a
perda do exército francês estacionado em Metz, e o sítio de Paris.
A notícia do desastre de Sedan levantou a população de Paris, que, no dia 4 de setembro,
invadiu a Câmara, exigindo a queda do regime; sob a pressão popular, o Império foi
derrubado, a República proclamada e formado um Governo de Defesa Nacional. A guerra
tinha dado início à revolução. O governo de defesa nacional era encabeçado pelo general
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Trochu e formado, principalmente, por deputados eleitos por Paris ao Corpo Legislativo do II
Império, por monarquistas (que controlavam a polícia e as forças armadas) e por republicanos
burgueses.
Na noite do próprio dia 4 de setembro, uma reunião conjunta da seção parisiense da AIT e da
Câmara Federal das Sociedades Operárias definia, como linha política, que "o governo
provisório não será atacado, devido à existência da guerra e, também, devido ao pequeno grau
de preparo das forças populares, ainda desorganizadas", e também impulsionar a constituição
de um Comitê Municipal formado por delegados de cada uma das vinte regiões
administrativas de Paris. No dia seguinte, para viabilizar esta última decisão, numa reunião na
qual compareceram quinhentas pessoas, decidiu-se a constituição de um Comitê Republicano
para cada região administrativa; cada Comitê delegaria quatro de seus membros para a
formação de um Comitê Municipal. Estas decisões incidirão sobre o curso dos
acontecimentos, ainda mais a partir do dia 11 de setembro, quando o Comitê Municipal ficaria
constituído sob o nome de Comitê Central Republicano de Defesa Nacional das Vinte Regiões
de Paris.
3. O início da Comuna
A reunião de 4 de setembro também definiu a luta por uma série de reivindicações, entre elas
a abolição imediata da polícia imperial, a supressão da chefatura governamental de polícia em
Paris, a organização da polícia municipal, a revogação de todas as leis contra a imprensa e
contra os direitos de reunião e de associação, o armamento imediato de todos os franceses e o
alistamento em massa para fazer frente à ofensiva da Prússia, o que o governo, pressionado,
acabaria cedendo. O “Comitê Central Republicano de Defesa Nacional das Vinte Regiões de
Paris” passou a existir lado a lado com o governo de Trochu: a AIT, portanto, impulsionou o
estabelecimento de uma “dualidade de poderes”, que foi o prelúdio da Comuna.
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Paris estava sitiada no inverno de 1871 pelo cerco prussiano. Rapidamente, a liberdade de
imprensa e de reunião ressurgiu, multiplicado o número de jornais e clubes políticos. A
palavra-de-ordem que unificava as diferentes tendências socialistas e radicais, foi a da
Comuna. As reuniões públicas eram numerosas e quase diariamente, desde o dia 5 de
setembro. Decidiu-se que em cada bairro seria eleito nas reuniões públicas um comitê de
vigilância e que um comitê central dos 20 bairros seria formado na proporção de quatro
delegados por bairro. Foi este Comitê Central que adotou na noite do13 para o 14 setembro
1870 um texto, o primeiro affiche (cartaz) publicado, com um programa de governo
Houve uma pequena tentativa parisiense de furar o cerco em 19 de setembro, novamente no
dia 29 e ainda no dia seguinte. Era opinião de Trochu que era impossível romper o sítio. Em
23 de setembro, a cidade de Toul capitulou; no dia 29, será a vez de Strasbourg. Em 24 do
mesmo mês, o governo tinha desmarcado as prometidas eleições municipais e gerais. Houve
então reações de protesto: do Comitê Central Republicano e, no dia 26, de 140 chefes de
batalhões da Guarda Nacional; outras sucederam-se, com reivindicações idênticas (defesa sem
tréguas e eleições municipais); em 5 de outubro, são os batalhões do bairro de Belleville; nos
dias 6 e 7, os blanquistas das 13ª e 14ª Regiões; no dia 8, o Comitê Central Republicano.
A 10 de outubro, houve nova derrota francesa em Orléans. Em 11 de outubro, o ministro
Gambetta escapou de Paris, de balão, para reforçar a delegação governamental; em quatro
curtos meses, conseguirá alistar, armar e equipar cerca de seiscentos mil homens, com 1.400
canhões. Corriam boatos de que o governo estaria começando negociações de paz. Entretanto,
chega a Paris a notícia da capitulação do marechal Bazaine, sitiado em Metz, que entregara,
com a posição, em torno de 150 mil soldados, cerca de 5.000 oficiais e 50 generais. Paris foi
então percorrida por ondas de perplexidade, descontentamento e revolta, que resultaram em
várias manifestações. Houve uma fracassada tentativa blanquista (de partidários do
revolucionário Auguste Blanqui) de derrubar o governo ocasionando a marcação da eleição
municipal parisiense para os dias 5 e 7 de novembro, fazendo-as anteceder de um plebiscito
de confiança no Governo de Defesa Nacional: novamente, houve vitória do sim. Porém, os
resultados da eleição municipal já revelaram um relativo equilíbrio entre os favoráveis ao
governo e os que o criticavam e contestavam.
No final de novembro, Paris tentou uma saída maciça com uma tropa de cem mil homens,
mas sem sucesso. Gambetta elaborou novos planos, colocando em ação três exércitos durante
o mês de dezembro e parte de janeiro; novamente, sem êxito. Estoicamente, a população
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parisiense suportava o sítio, o frio, a falta de combustíveis, de comida, a fome (o
racionamento foi imposto tardiamente; os ratos eram vendidos a 2 francos cada um) e os
bombardeios, iniciados em 5 de janeiro de 1871 pelo comando prussiano, para acelerar a
rendição da cidade. Na noite de 5 para 6, a delegação das vinte regiões administrativas afixou
um cartaz vermelho denunciando a incapacidade do governo: "A política, a estratégia, a
administração de 4 de setembro, na continuidade do Império, estão julgadas. Passo ao povo,
passo à Comuna!"
Em 18 de janeiro de 1871, o rei da Prússia foi proclamado Imperador da Alemanha, em
Versalhes. Em 19 de janeiro, o governo lançou uma tropa de noventa mil homens numa nova
tentativa de furar do cerco; é a sangrenta Batalha de Buzenval. Nova derrota, que servia para
justificar a rendição: isto provocou uma nova manifestação em Paris e um esboço de levante,
frustrado.
A 23 de janeiro, enquanto o governo iniciava a repressão contra os oposicionistas
(fechamento dos clubes políticos, proibição dos jornais, prisões, etc.), o ministro Jules Favre
deslocou-se para Versalhes para negociar com Bismarck. Em 28 de janeiro de 1871, foi
assinado um draconiano armistício: fim das hostilidades em praticamente todas as frentes,
rendição de Paris, que ficará desarmada (com exceção de uma tropa de 12 mil homens e da
Guarda Nacional), pagamento de um tributo de duzentos milhões de francos. Como a
Alemanha só aceitava negociar a paz com um governo legitimamente eleito, o armistício foi
previsto para um prazo de três semanas, necessárias para a eleição de uma Assembléia
Nacional que decidiria se aceitava ou não as condições de paz. O governo marcou as eleições
para 8 de fevereiro de 1871.
Durante a campanha eleitoral, a seção francesa da AIT, a Câmara Federal das Sociedades
Operárias e o Comitê das Vinte Regiões Administrativas lançaram um manifesto
posicionando-se "pelo advento político dos trabalhadores, pela queda da oligarquia
governamental e do feudo industrial".
Tendo a França rural e interiorana votado maciçamente pela paz, resulta do pleito uma
Assembléia conservadora: 360 monarquistas, uns 15 bonapartistas e 150 republicanos
convictos (entre os quais apenas quarenta favoráveis à continuação da guerra). Paris, porém,
votou maciçamente pela república e contra o armistício ; as demais grandes cidades também
votaram majoritariamente pela república.
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Em 17 de fevereiro de 1871, reunida em Bordeaux (sudoeste da França), a Assembléia elegeu
Adolphe Thiers (ex-ministro do rei Luís Felipe durante a Monarquia de Julho), "chefe do
poder executivo da República Francesa", porém apenas "enquanto não for tomada uma
decisão relativa às instituições da França", fórmula que enche os monarquistas de esperança.
No final do mês, Thiers apresentou à Assembléia o projeto do tratado de paz: entrega da
Alsácia e de parte da Lorena à Alemanha, pagamento de uma indenização de cinco bilhões de
francos, ocupação, pelas tropas alemãs, de 43 departamentos (unidade territorial que divide
administrativamente a França), até a ratificação do tratado. Na capital, acontecem
manifestações, em particular contra a cláusula que prevê a ocupação de parte da cidade por
trinta mil soldados alemães. Dos bairros que serão ocupados, a população retira os canhões
fundidos graças às subscrições populares, instalando-os nos bairros populares, aos cuidados
da Guarda Nacional. No dia 1º de março, a tropa alemã entra em Paris, desfilando nos
Campos Elíseos, esvaziados. Evita os bairros populares, acampa nos bairros ricos,
abandonando a cidade no dia seguinte, em cumprimento ao acordo (ratificado, na véspera,
pela Assembléia, por 546 votos, contra 107).
Em 15 de fevereiro, a Assembléia havia lembrado que os 15 centavos diários de soldo para os
praças da Guarda Nacional eram devidos apenas àqueles que podiam comprovar o estatuto de
carente. Em 7 de março, a Assembléia decreta o fim das moratórias relativas aos aluguéis e
aos contratos comerciais, as quais vigoravam desde meados do ano anterior, ou seja, desde o
início da crise econômica gerada pela guerra. A medida chocou a pequena e média
burguesias, que passaram para o lado dos descontentes. Finalmente, em 10 de março, por 487
votos contra 154, a Assembléia toma a decisão de deixar Bordeaux para instalar-se em
Versalhes, e não mais em Paris, como era a tradição. No dia seguinte, o governador nomeado
de Paris, Vinoy, decretou a suspensão de seis jornais republicanos; foram condenados à morte
três ativistas (Flourens, Blanqui e Levraud) processados pela sua participação na tentativa de
levante de 31 de outubro.
Todas essas medidas foram sentidas como provocações, ataques mesquinhos, humilhantes e
insultantes contra os parisienses e contra Paris. Alguns dias antes, uma Assembléia dos
delegados de duzentos batalhões da Guarda Nacional havia fundado a Federação Republicana
da Guarda Nacional, votando os estatutos da mesma e nomeando uma Comissão Executiva.
Como a grande maioria (217 em 270) dos batalhões da Guarda Nacional optou pela adesão à
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Federação, sua fundação foi ratificada em 13 de março e seu Comitê Central constituído com
um programa:
 “A República, sendo o único governo de direito e de justiça, não pode estar subordinada ao
sufrágio universal... A Guarda Nacional tem o direito absoluto de nomear todos os seus
chefes e de revogá-los assim que perderem a confiança de quem os elegeu; entretanto,
[apenas] depois de uma investigação preliminar destinada a salvaguardar os direitos
sagrados da justiça”
Paralelamente, um manifesto foi afixado nas ruas da capital:
“Somos a barreira inexoravelmente erguida contra qualquer tentativa de derrubada da
República. Não queremos mais as alienações, as monarquias,os exploradores nem os
opressores de todo tipo que, chegando a considerar seus semelhantes como uma
propriedade, fazem-nos servir à satisfação de suas paixões mais criminosas. Pela República
Francesa e, depois, pela República Universal. Chega de opressão, de escravidão ou de
ditadura de qualquer tipo; pela nação soberana, com cidadãos livres, governando-se
conforme sua vontade. Então, o lema sublime: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, não será
mais uma vã palavra”
Paris estava armada: cerca de 500.000 fuzis e 417 peças de diverso calibre, 146
metralhadoras, 271 canhões. O governo já fizera algumas tentativas localizadas de tirar os
canhões das mãos da Guarda Nacional, sem outro resultado que provocar a irritação da
população, que considerava os canhões como seus : haviam sido fundidos graças às
subscrições populares. No dia 17, o governo afixou um apelo à população parisiense,
alertando-a contra certos "homens mal intencionados" que "roubaram canhões do Estado",
"constituíram-se em senhores de uma parte da cidade", exerciam sua ditadura através de um
"comitê oculto", tendo a pretensão de "formar um governo em oposição ao governo legal
instituído pelo sufrágio universal"; o manifesto encerrava-se chamando os "bons cidadãos" a
"separarem-se dos maus".
Durante a noite de 17 para 18 de março, o governo afixou outro apelo, de conteúdo similar,
desta vez dirigido especificamente à Guarda Nacional; ao mesmo tempo, empreende uma
operação de grande envergadura, com cerca de 15 mil homens, centrada na retomada dos
canhões guardados nos bairros de Montmartre e de Belleville (o "bastião vermelho"), e na
ocupação dos bairros Saint-Antoine e Bastilha.
A população, porém, lançou um grito de alarme, tomou conta das ruas, cercou a tropa;
pressionada, esta confraterniza, recusa-se a atirar. Barricadas foram erguidas (dois generais
governistas foram fuzilados, as únicas baixas do dia, além de um Guarda Nacional morto pela
tropa governamental por ter dado o alarme em Montmartre). O governo ordenou que sua tropa
batesse em retirada. Tudo isto aconteceu durante a manhã do dia 18, fruto da reação
espontânea da população e de iniciativas isoladas de chefes de batalhões locais da Guarda.
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Durante a tarde, acontece a contra-ofensiva popular: a partir de ações inicialmente isoladas,
depois com alguma orientação do Comitê Central da Federação, batalhões da Guarda tomam
edifícios públicos, ministérios, a prefeitura, estações de trens, quartéis ... . Às 16 horas, o
governo de Thiers decide fugir, ordenando a todos os serviços governamentais (tropa e
administração) abandonarem totalmente Paris e transferiram-se para Versalhes, adotada então
como nova sede do governo (e cidade onde a Assembléia Legislativa já estava instalada). A
Guarda Nacional não os persegue.
À meia-noite, o Comitê Central da Guarda Nacional reunia-se no Hôtel de Ville (sede da
prefeitura). Com a jornada de 18 de março de 1871, a revolução iniciada em 4 de setembro de
1870 retomou e aprofundou seu curso, abrindo uma nova fase. O Comitê Central começou por
abolir o estado de sítio na cidade, suprimir os tribunais militares, decretar a anistia geral dos
delitos políticos e a imediata libertação dos presos, restabelecer a liberdade de imprensa,
nomear responsáveis pelos ministérios e pelos serviços administrativos e militares essenciais.
No dia 19, fixou para o dia 22 as eleições para a Comuna, depois postergadas para o dia 26,
por pressão dos prefeitos.
Por sua vez, o governo de Versalhes delegou, provisoriamente, a administração de Paris à
assembléia dos prefeitos das regiões administrativas: junto com os deputados eleitos por Paris
(para a Assembléia Nacional, em 8 de fevereiro). Os prefeitos condenaram o Comitê Central e
depois tentaram funcionar como mediadores junto a Versalhes, no sentido de uma volta
negociada à normalidade. No dia 21 de março, a Assembléia Nacional condena o "governo
faccioso" de Paris. No dia 22, acontece, em Paris, uma pequena manifestação contra o Comitê
Central; também os batalhões da Guarda Nacional dos bairros ricos colocam-se sob a direção
de lideranças fiéis ao governo de Versalhes, o que leva o Comitê Central a adotar algumas
medidas enérgicas, em particular, a dotar-se de uma direção militar e a tomar o controle das
prefeituras das regiões administrativas.
Já antes do fim do cerco prussiano, tinha havido tentativas para realizar uma organização
política da Guarda Nacional. Esta nomeava seus oficiais em cada batalhão, mas o comando
era nomeado pelo governo. Foi a 15 de fevereiro 1871 que se reuniram em uma grande sala
parisiense os delegados dos batalhões de 18 bairros: decidiu-se a criação de um Comitê
Central. Uma comissão parisiense de 20 membros foi designada e encarregada de elaborar um
projeto de estatuto: uma declaração de principio reconheceu como único governo a "Comuna
revolucionaria da cidade".
88
No 24 fevereiro, dois mil delegados participaram de uma segunda assembléia. A federação foi
concebida pelos delegados segundo um plano baseado no princípio da eleição pela base, da
responsabilidade e da revogabilidade dos eleitos, em todos os níveis. Isto é, a companhia
elegia seus delegados, estes escolhiam delegados de batalhão, que, por sua vez, designavam
os delegados gerais, ou generais de legião, sendo que estes últimos compunham o Comitê
Central.
O Comitê de delegados dos 20 bairros, por sua vez, elaborou uma Declaração de Princípios,
em 22/23 fevereiro de 1871, que retomava vários pontos do regulamento do 18/19 outubro de
1870:
“Todo membro do comitê de vigilância declara pertencer ao partido socialista
revolucionário. Em conseqüência, busca com todos os meios suprimir os privilégios da
burguesia, seu fim como casta dirigente e o poder dos trabalhadores. Em uma palavra, a
igualdade social .Não mais patrões, não mais proletários, não mais classes... O produto
integral do trabalho deve pertencer aos trabalhadores ...Se oporá, em caso de necessidade
com a forca, a convocação de qualquer Constituinte ou outro tipo de Assembléia Nacional,
antes que a base do atual quadro social não seja mudada por meio de uma liquidação
revolucionaria política e social. A espera desta revolução definitiva, não reconhece como
governo da cidade mais que a Comuna revolucionaria formada por delegados dos grupos
revolucionários desta mesma cidade Reconhece apenas como governo do pais, o governo
formado por delegados da Comuna revolucionaria do pais e dos principais centros
operários. Empenha-se no combate por esta idéia e a divulgará, formando onde não existe,
grupos socialistas revolucionários. Articulará estes grupos entre si e com a Delegação
central. Porá todos os meios que dispõe ao serviço da propaganda pela Associação
Internacional dos Trabalhadores”.
E concluía:
 "Não haverá mais opressores e oprimidos, fim da distinção de classes entre os cidadãos,
fim das barreiras entre os povos: a família, sendo a primeira forma de associação, todas as
famílias se unirão em uma maior, a pátria – nesta personalidade coletiva superior, a
humanidade".
4. Uma revolução operária
Os delegados marcharam para Praça da Bastilha, onde se juntaram a 14 batalhões da Guarda
Nacional. Renderam homenagem as vítimas das revoluções de 1830 e 1848 e depositaram
bandeiras vermelhas e flores ao pé da coluna de julho. A Guarda Nacional contava com
300.000 efetivos: era um organismo político-militar com maioria operária, com base na vida
dos bairros populares. O exercício deste governo popular fez-se através de "uma boa
89
cinqüentena de clubes, funcionando em abril e maio de 1871 - a maior parte nas Igrejas
laicizadas - que controlavam as ações dos eleitos para Comuna." Em 3 de marco, os delegados
adotaram os estatutos da organização. Um Comitê Central provisório foi eleito. Entre os 29
membros eleitos na comissão provisória, encontramos seis membros do Comitê Central
republicano dos vinte bairros signatários do affiche de setembro de 1870. Entre eles, Varlin e
Pindy, membros daInternacional. (Cf. Varlin, 1977) Foram estabelecidas relações estreitas
entre três organizações: o Comitê Central dos 20 bairros, o Conselho Federal da Associação
Internacional dos Trabalhadores e o Comitê Central da Guarda Nacional.
A 18 de março de 1871, quando o proletariado de Paris, incluindo mulheres e crianças, reagiu
à tentativa do governo de Thiers de desarmar a Guarda Nacional, que na prática era o povo
armado (300 a 350 mil homens em armas desde que o alistamento geral fora convocado em
1870, após as derrotas francesas na guerra contra a Prússia), começava a Comuna de Paris,
que duraria até maio).2
A proclamação do Comitê Central da Guarda Nacional de 18 de março era clara quanto ao
caráter de classe e os objetivos do poder que nascia:
“Os proletários da capital, em meio aos desfalecimentos e as traições das classes
governantes, compreenderam que para eles tinha chegado a hora de salvar a situação
tomando em mãos a direção dos negócios públicos, compreenderam que era seu dever
imperioso e seu direito absoluto tomar em mãos os seus destinos e assegurar-lhes o triunfo
conquistando o poder”.
A Comuna era um organismo proletário, no sentido estrito do termo: nas eleições para a
Comuna de 26 de março, a abstenção nos bairros burgueses foi superior a 60%. Seus 86
membros eleitos formavam um único coletivo sem presidente e eram revogáveis a qualquer
momento. Dividiam-se em nove comissões. De cada uma saía um delegado, e o conjunto
deses formava uma comissão executiva. No dia-a-dia, os batalhões da Guarda Nacional e uma
multiplicidade de organismos e coletivos que surgiam (inclusive uma União de Mulheres
criada em 8 de abril, que teve um papel fundamental na defesa da Comuna, e no início da
construção de um ensino laico e universal) levavam à prática as determinações da Comuna. A
Comuna era uma forma estatal “expansiva”, que permitia a liberação das energias e da
criatividade da sociedade.
Entre as medidas adotadas pela Comuna, contidas na "Proclamação da Comuna ao Povo
Trabalhador de Paris", cabe citar: o combate à burocracia estatal (todos os cargos
administrativos seriam revogáveis, e remunerados, no máximo, com o salário de um operário
qualificado) a abolição do exército permanente, e sua substituição pelas milícias populares; a
90
interdição do acumulo de cargos; a organização de conselhos operários nas fábricas
abandonadas pelos patrões; a redução da jornada de trabalho para 10 horas; a eleição da
direção das fábricas pelos trabalhadores; a reforma do ensino.
Para Marx,
"o verdadeiro segredo da Comuna residiu em ser essencialmente um governo da classe
operária, o produto da luta de classes dos produtores contra a classe dos expropriadores, a
forma política por fim descoberta, pela qual se podia realizar a emancipação econômica do
trabalho"..." (ela) foi uma revolução, foi o ressurgimento da autentica vida social do povo,
realizada pelo povo, foi uma revolta contra o poder executivo e as formas parlamentares".
Já para Bakunin,
"a Comuna foi uma negação audaciosa, bem clara, do Estado e a exaltação da ação
espontânea e comum das massas, dos grupos de associações populares, porque as massas
têm, eminentemente, o instinto socialista".
Mas, o que era a classe operária francesa de 1870?
Ela estava concentrada nas grandes fábricas e em algumas regiões francesas, mas a pequena
indústria e o artesanato eram numérica e socialmente predominantes - a França continuava a
ser um pais predominantemente rural. Grandes impérios industriais dominavam a França:
Schneider ocupava 10.000 operários na indústria metalúrgica no Creusot; de Wendel ocupava
cerca de 10.000 em suas fábricas siderúrgicas da Lorena. As minas de Anzin ocupavam mais
de 10.000 mineiros. A concentração era forte nas grandes empresas metalúrgicas,
siderurgicas, têxteis e químicas. Em 1860, os canteiros navais de Paris tinham mais de 70.000
operários, grande parte vinda da província, num fluxo migratório de proporções enormes,
como resultado do processo de concentração da terra. Em 1866 havia 4.715.084 pessoas
empregadas nas fábricas e na indústria, mas apenas 1.500.000 operários trabalhavam nas
empresas com mais de 10 pessoas. A concentração foi rápida e brutal, mas limitada a alguns
ramos industriais e em algumas regiões geográficas, como Paris, Norte, Lorena, Sena-inferior
e Lyon.
Dos 37 milhões de habitantes, mais de 25 milhões eram habitantes da zona rural. As
pequenas empresas eram maioria na indústria. Paris tinha uma população de 2 milhões de
habitantes: a nova divisão administrativa, de 1859, os agrupava em 20 bairros denominados
de (arrondissements), com 442.000 operários em 1866 e 550.000 em 1872. Seu número de
habitantes crescia, e também sua concentração: o número de patrões diminuiu de 65.000 em
1847 para 39.000 em 1872; a relação patrão/operário passou de 1 a 5 em 1847 para 1 a 14 em
1872. Existiam empresas com mais de 5000 operários. Cail, na metalurgia, por exemplo,
91
empregava mais de 2.000 operários. Gouin (construção de locomotivas), mais de 1.500,
assim como Gevelot. A maior parte das empresas da metalurgia, contudo, ocupava de 50 a 10
operários. Nas profissões tradicionais de Paris (têxtil, calçados, artesanato), predominava a
pequena indústria artesanal: havia na cidade 3 grandes casas de produção de calçados. Na
insurreição de março de 1871 as categorias mais presentes foram a metalurgia, a construção e
os jornalistas.3
Depois da insurreição de 18 de março, as eleições ocorreram no domingo, dia 26. O Comitê
Central da Guarda Nacional lançou um apelo geral, em 25 de março: "Nossa missão
terminou. Vamos ceder o lugar no Hôtel de Ville a vossos novos eleitos, a nossos mandatários
regulares". No 11ème arrondissement de Paris foi formado um Comitê Central eleitoral
republicano, democrata e socialista e que apresentou um programa político mais definido:
direito de viver, liberdade individual, liberdade de consciência, liberdade de reunião e
associação, liberdade de palavra, de imprensa e de todos os modos de expressão do
pensamento, liberdade de sufrágio:
 “O Estado é o povo se governando por si próprio, composto de mandatários revogáveis,
eleitos pelo sufrágio universal direto, organizado (...) O trabalho coletivo devera ser
organizado, o objetivo da vida é o desenvolvimento indefinido de nosso ser físico,
intelectual e moral; a propriedade não deve ser mais que o direito de cada um participar, em
razão da cooperação individual, no fruto coletivo do trabalho de todos, que é a forma da
riqueza social.” .
Na proclamação se afirmava que "o povo trabalhador de Paris e seus arredores proclama a
fundação da Comuna de Paris. Os delegados dos conselhos de bairro constituídos em
Assembléia da Comuna, único poder soberano” decretaram um conjunto de artigos que
deveriam reger a vida em sociedade:
"Artigo I. As velhas autoridades de tutela, criadas para oprimir o povo de Paris, são
abolidas, tais como comando da policia, governo civil, câmaras e conselho municipal. E as
suas múltiplas ramificações: comissariados, esquadras, juizes de paz, tribunais, etc., são
igualmente dissolvidos.
Artigo II. A Comuna proclama que dois princípios governarão os assuntos municipais: a
gestão popular de todos os meios da vida coletiva; a gratuidade de tudo o que é necessário e
de todos os serviços públicos.
Artigo III. O poder seria exercido pelos conselhos de bairro eleitos. São eleitores e legíveis
para estes conselhos de bairro todas as pessoas que nele habitem e que tenham mais de 16
anos de idade.
Artigo IV. Sobre o problema da habitação tomam-se as seguintes medidas: expropriação
geral dos solos e sua posta à disposição comum, requisição das residências secundarias e
dos apartamentos ocupados parcialmente; são proibidas as profissões de promotores,
agentes de imóveis e outros exploradores da miséria geral; os serviços populares de
habitação trabalharão com a finalidade de restituir verdadeiramente à população parisiense
o seu caráter trabalhador e popular.
ArtigoV. Sobre os transportes tomam-se as medidas seguintes: os autocarros, os trens
suburbanos e outros meios de transportes públicos são gratuitos e de livre utilização; o uso
de viaturas particulares é proibido em toda a zona parisiense, com exceção das viaturas de
92
bombeiros, ambulâncias e de serviço a domicilio; a Comuna põe à disposição dos
habitantes de Paris um milhão de bicicletas cuja utilização é livre, mas não poderão sair da
zona parisiense e seus arredores.
Artigo VI. Sobre os serviços sociais tomam-se as seguintes medidas: todos os serviços
ficam sob controle das juntas populares de bairro e serão geridos em condições paritárias
pelos habitantes de bairro e os trabalhadores destes serviços; as visitas médicas, consultas,
assistência médica e medicamentos serão gratuitos.
Artigo VII. A Comuna proclama a anistia geral e a abolição da pena de morte e declara que
a sua ação se baseia nos seguintes princípios: dissolução da policia municipal, dita policia
parisiense; dissolução dos tribunais e tribunais superiores; transformação do Palácio da
Justiça, situado no centro da cidade, num vasto recinto de atração e de divertimento para
crianças de todas as idades; em cada bairro de Paris é criada uma milícia popular composta
por todos os cidadãos, homens e mulheres, de idade superior a 15 anos e inferior a 60 anos,
que habitem o bairro; são abolidos todos os casos de delitos de opinião, de imprensa e as
diversas formas de censura: política, moral, religiosa, etc ; Paris é proclamada terra de asilo
e aberta a todos os revolucionários estrangeiros, expulsos pelas suas idéias e ações.
Artigo VIII. Sobre o urbanismo de Paris e arredores, consideravelmente simplificado pelas
medidas precedentes, tomam-se as decisões seguintes: proibição de todas as operações de
destruição de Paris: vias rápidas, parques subterrâneos, etc; criação de serviços populares
encarregados de embelezar a cidade, fazendo e mantendo canteiros de flores em todos os
locais onde a estupidez levou a solidão, a desolação e ao inabitável; o uso doméstico ( não
industrial nem comercial) da água, da eletricidade e do telefone é assegurado gratuitamente
em cada domicilio; os contadores são suprimidos e os empregados são colocados em
atividades mais úteis.
Artigo IX. Sobre a produção, a Comuna proclama que: todas as empresas privadas (fábricas,
grandes armazéns) são expropriados e os seus bens entregues à coletividade; os
trabalhadores que exercem tarefas predominantemente intelectuais (direção, gestão,
planificação, investigação, etc) periodicamente serão obrigados a desempenhar tarefas
manuais; todas as unidades de produção são administradas pelos trabalhadores em geral e
diretamente pelos trabalhadores da empresa, em relação à organização do trabalho,
distribuição de tarefas; fica abolida a organização hierárquica da produção; as diferentes
categorias de trabalhadores devem desaparecer e desenvolver-se a rotatividade dos cargos
de trabalho; a nova organização da produção tenderá para assegurar a gratuidade máxima
de tudo o que é necessário e diminuir o tempo de trabalho. Devem-se combater os
gastadores e parasitas. Desde já são suprimidas as funções de contramestre, cronometrista e
supervisor.
Artigo X. Os trabalhadores com mais de 55 anos, que desejem reduzir ou suspender a sua
atividade profissional, têm direito a receber integralmente os seus meios de existência. Este
limite de idade será menor em relação a trabalhos particularmente custosos.
Artigo XI. É abolida a escola "velha". As crianças devem se sentir como em sua casa, aberta
para a cidade e para a vida. A sua única função é a de torná-las felizes e criadoras. As
crianças decidem a sua arquitetura, o seu horário de trabalho, e o que desejam aprender. O
professor antigo deixa de existir: ninguém fica com o monopólio da educação, pois ela já
não é concebida como transmissão do saber livresco, mas como transmissão das
capacidades profissionais de cada um.
Artigo XII. A submissão das crianças e da mulher à autoridade do pai, que prepara a
submissão de cada um à autoridade do chefe, é declarada morta. O casal constitui-se
livremente com o único fim de buscar o prazer comum. A Comuna proclama a liberdade de
nascimento: o direito de informação sexual desde a infância, o direito ao aborto, o direito a
anti-concepção. As crianças deixam de ser propriedade de seus pais. Passam a viver em
conjunto na sua casa (a Escola) e dirigem a sua própria vida.
Artigo XIII. A Comuna decreta: todos os bens de consumo , cuja produção em massa possa
ser realizada imediatamente, são distribuídos gratuitamente; são postos à disposição de
todos nos mercados da Comuna.
93
A 16 de abril, um decreto conclamava:
“A Comuna de Paris: considerando que uma quantidade de fábricas foram abandonadas por
seus patrões para escapar as obrigações cívicas, e sem levar em conta os interesses dos
trabalhadores; considerando que, devido a este covarde abandono, numerosos trabalhos
essenciais á vida comunal estão interrompidos e a existência dos trabalhadores
comprometida; Decreta: As câmaras sindicais operárias estão convocadas à constituírem
uma comissão que tem por objetivo: 1) Fazer uma estatística das fábricas abandonadas, e
um inventario exato do estado em que se encontram e os instrumentos de trabalho
existentes; 2) Apresentar um relatório sobre a rápida ativação destas fábricas, não mais
pelos desertores que as abandonaram, mas pela associação cooperativa dos trabalhadores
nelas empregados. 3) Elaborar um projeto de formação destas sociedades cooperativas
operárias; 4) Constituir um júri para fundamentar em estatuto, quando do retorno dos
patrões, sobre as condições de cessão definitiva destas fábricas para as sociedades operárias
e sobre a cota de indenização que se deve pagar aos patrões".
Para Jacques Rougerie o decreto tinha por objetivo buscar nas organizações operárias algumas
fábricas onde pudessem iniciar o movimento. Desde o 24 abril, o delegado na Comissão do
Trabalho e de Trocas, Léo Frankel, convocou uma reunião dos representantes sindicais. No
dia 25, foi convocado o sindicato que iria ficar à frente do movimento, o dos metalúrgicos. Os
outros sindicatos atenderam a convocação, e no dia 4 maio estava definitivamente constituída
uma Comissão executiva permanente dos sindicatos. Apesar do pouco tempo da experiência,
a operação obteve resultados importantes: uma dezena de fábricas confiscadas, sobretudo as
que interessavam à defesa militar, recuperação de armas, fábricação de cartuchos e balas de
canhão. Cinco empresas haviam feito o recenseamento das fábricas antes da confiscação. A
Comuna tinha igualmente a sua disposição os estabelecimentos industriais pertencentes ao
Estado (Moeda, Impressora Nacional, Manutenção, Manufaturas de Tabacos, algumas
empresas de armas) e tinha confiado sua gestão a seus trabalhadores.
“O que brecou os sindicatos foi sua desorganização consecutiva à repressão do fim do
Império, e o cerco de Paris. Restavam apenas 3 sindicatos fortes, metalúrgicos, alfaiates,
sapateiros. O sindicato dos metalúrgicos, um dos mais influentes e numerosos, com 5 ou 6
000 filiados, controlava 20 fábricas de recuperação e de fábricação de armas, uma por
bairro, em que a mais importante era a das oficinas Louvre... As vésperas da derrota, os
metalúrgicos tentaram tomar uma das maiores fábricas metalúrgicas da capital, a fábrica
Barriquand, que tinha conhecido durante o Império greves violentas. Em torno de um sólido
núcleo de fábricas, algumas com mais de 100 trabalhadores, os metalúrgicos pensavam
conquistar o controle da produção. Os alfaiates obtiveram da Comuna a preferência sobre
as empresas privadas e, em maio, tinham o monopólio da vestimenta da Guarda Nacional
para suas fábricas. Os sapateiros não tiveram a mesma oportunidade: Godilot detinha o
monopólio da fábricação de calçados para Comuna, o que impediu o confisco de sua
empresa, mas gerou protestos violentos na categoria. As outras categorias eram menos
ativas e menores, exceto, a siderurgia,os gráficos, serralheiros , etc. A Comuna foi um
momento de intensa retomada sindical, com o apoio da Comissão do Trabalho e Trocas.
Organizaram-se, sempre com o fim de confiscar e gerir a produção: papeleiros, cozinheiros,
garçons de café e os porteiros de edifícios" (Rougerie, 1971).
94
Nas fábricas socializadas existia gestão operária. Eis alguns artigos do regulamento interno
dos operários da fábrica de armas do Louvre [onde houve uma disputa com um diretor
autoritário nomeado pela Comuna]:
“Art. 1. A fábrica fica sob a direção de um delegado da Comuna. O delegado para direção
será eleito pelos operários reunidos, e revogável toda vez que não cumprir seu dever;... Art.
2. O diretor da empresa e os chefes de setor serão igualmente eleitos pelos operários
reunidos; serão responsáveis de seus atos e mesmo revogáveis... Art .6. Um Conselho será
reunido obrigatoriamente todo dia, às 5 h 1/2 de releve, para deliberar sobre as ações do dia
seguinte e sobre as relações e propostas feitas, seja pelo delegado na direção, seja pelo
diretor da empresa, o chefe de setor ou os operários delegados. Art.7. O Conselho se
compõe do delegado na direção, do chefe de empresa, dos chefes de setor e de um operário
por cada setor eleito como delegado. Art. 8 . Os delegados são renováveis todos os 15 dias; a
renovação será feita pela metade, todos os 8 dias, e por função. Art.9. Os delegados deverão
prestar contas aos operários ; serão seus representantes diante do conselho da direção, e
deverão levar suas observações e reivindicações...Art. 13. A contratação de operários
seguirá o seguinte: por proposta do chefe da empresa, o conselho decidirá se há vagas para
empregar os operários e determinará os nomes. Os candidatos as vagas poderão ser
apresentados por todos os operários. O Conselho será o único a fazer a avaliação. Art.14. A
demissão de um operário só poderá ocorrer por decisão do Conselho, com um relatório do
chefe da empresa...Art.15. A duração da jornada é fixada em 10 horas”.
No dia 29 de março, a Comuna organizou-se em dez comissões, tendo como base de
referência os ministérios até então existentes (menos o dos cultos, que é suprimido): Militar,
Finanças, Justiça, Segurança, Trabalho, Subsistência, Indústria e Trocas, Serviços Públicos,
Ensino, coroadas por uma Comissão Executiva.
Em matéria de ensino, a Comuna de Paris deu-se por tarefa inicial erradicar da escola, em
todos os níveis, tanto a influência clerical-religiosa, que incitava os homens, desde a sua
infância, a submeter-se ao seu destino, quanto a influência da moral burguesa. O ensino
religioso nas escolas tinha sido reforçado depois do fracasso da insurreição operária de junho
de 1848: “Não se pode salvar a propriedade senão através da religião, que ensina a carregar
docilmente a cruz”, diziam Montalambert, Falloux e Thiers (Cf. Froumov, 1966, p.76).
Charles Fourier já criticava a falsidade do ensino que inculcava nas crianças o “amor ao
próximo”, enquanto a indústria e o comércio os lançavam na concorrência desenfreada, assim
como a moral que defendia a “virtude”, enquanto a sociedade lhes ensinava a ignorá-la.
A Comuna, proclamando a separação entre Igreja e o Estado, não podia senão proceder
imediatamente a excluir a instituição religiosa do ensino público que, por sua vez, devia ser
organizado. Mas a Comuna não ficou no plano puramente democratizante. Tendo levantado a
bandeira da República do Trabalho, tentou levar adiante uma verdadeira revolução cultural,
que eliminasse: 1) a divisão entre trabalho manual e intelectual; 2) a opressão das mulheres
pelos homens; 3) a opressão das crianças pelos adultos.
95
A Delegação do Ensino da Comuna proclamou, a 17 de maio de 1871, sob a assinatura de
Edouard Vaillant:
“Considerando que é importante que a Revolução Comunal afirme seu caráter
essencialmente socialista por uma reforma do ensino, assegurando a todos a verdadeira base
da igualdade social, a instrução integral a que cada um tem direito e facilitando-lhe a
aprendizagem e o exercício da profissão para a qual o dirigem seus gostos o aptidões.
“Considerando, por outro lado, que enquanto se espera que um plano completo de ensino
integral possa ser formulado e executado, é preciso decretar as reformas imediatas que
garantam, num futuro próximo, essa transformação radical do ensino.
A delegação do ensino convida as municipalidades distritais a enviar, no mais breve prazo
possível, para o doravante Ministério da Instrução Pública, Rua de Grenelle-Gerpain, 110,
as indicações e as informações sobre os locais e estabelecimentos melhor apropriados à
pronta instituição de escolas profissionais, onde os alunos, ao mesmo tempo que farão a
aprendizagem de uma profissão, completarão sua instrução científica e literária”(Dunois
apud Luquet et alii, 1968, p.71).
A Comuna, em matéria de ensino, não teve tempo de dar sua medida. A Circular Vaillant
indica, contudo, que ela pretendia realizar uma reforma socialista da escola. A instrução
integral, tendendo a fazer homens completos, a desenvolver harmoniosamente todas as
faculdades, a ligar a cultura intelectual à cultura física e ao ensino técnico, era uma das
reivindicações da Associação Internacional dos Trabalhadores 4
Notemos que, a 9 de maio de 1871, a seção das Grandes Carreiras da Internacional Parisiense
havia pedido à Comuna para perseverar na via do progresso do espírito humano, decretando a
instrução laica, primária e profissional, obrigatória e gratuita em todos os graus. No “Jornal
Oficial” de 13 de abril, um manifesto do cidadão Rama, referendado por Benoît Malon,
desenvolvia, sobre o ensino primário, opiniões inspiradas principalmente num espírito laico e
irreligioso. Por pouco que tenham podido fazer, nem por isso os communards deixaram de
entrar, bem antes da democracia burguesa, no caminho de uma reorganização completa do
ensino do povo.
A unidade das ciências, por um lado, e o ensino politécnico, pelo outro, estavam colocados
objetivamente por uma época que, ao surgirem todo tipo de teorias evolucionistas
(cosmológicas, naturais, biológicas, etc.), que traziam o próprio homem para dentro do
esquema da evolução biológica, "abolia a linha divisória entre ciências naturais, humanas ou
sociais” (Hobsbawn, 1979, p. 268).
A ciência, por sua vez, inclusive a mais abstrata, não podia ser considerada isoladamente: nos
Grundrisse, Marx afirmava que “o desenvolvimento das ciências -as naturais assim como as
outras- é sem dúvida função do desenvolvimento da produção material”. A questão
96
educacional, para Marx, líder da AIT, estava portanto duplamente vinculada ao
desenvolvimento da força de trabalho e ao da ciência, como dois aspectos de um único
processo histórico.
Nos primórdios do capitalismo, houve fortes resistências contra o início de uma educação
universal. “Como podemos ser felizes se estamos rodeados por um povo que lê?”, dizia o
reacionário Mr. Flosky em Nightmare Abbey, de Peacock. Perguntas dessa classe foram feitas
no curso do século XVIII e primeira metade do século XIX. Em 1746, a Academia de Rouen
debateu o seguinte problema: É vantajoso ou prejudicial para o Estado ter camponeses que
saibam ler?
Aproximadamente duas décadas mais tarde, De Cadadeuc de la Chalotais escrevia:
 “Nunca houve tantos estudantes como hoje. Inclusive a gente do povo quer estudar. Os
irmãos da religião cristã chamados os Ignorantins estão realizando uma política fatal.
Ensinam a ler e a escrever aqueles que só deveriam aprender a desenhar e manejar
instrumentos e já não querem mais fazer isso. Para o bem da sociedade, os conhecimentos
do povo não podem ir além do necessário para a sua própria ocupação cotidiana. Todo
homem que olhar mais longe de sua rotina diária não será nunca capaz de continuar
pacientemente e atentamente essa rotina. Entre o povo baixo é necessário que saibam ler e
escrever apenas os que têm ofícios que requeiram essa perícia” (De Cadadeuc de la
Chalotais apud Cippola,1970, p 79) .
As mesmas revoluções democráticas queimpulsionaram decisivamente o ensino público e/ou
universal valorizaram o papel da ciência na luta contra o Antigo Regime. Um membro da
Convenção Francesa afirmou:
“Não esqueçamos que muito antes que nós, as ciências e a filosofia lutaram contra os
tiranos. Seus constantes esforços fizeram a revolução. Como homens livres e agradecidos,
devemos estabelecê-las entre nós e conservá-las sempre. Pois as ciências e a filosofia
manterão a liberdade que conquistamos” (Hobsbawn, 1971, p.491).
No quadro histórico da necessidade da qualificação da mão-de-obra para a generalização da
produção industrial, na segunda metade do século XIX, floresceu a aspiração democrática a
uma educação pública e universal. Um sistema educacional só poderia existir com a vitória do
capitalismo na esfera da produção, pois aquele implica
“que a produção dos meios de existência e a produção de seres humanos sejam
institucionalmente separadas uma da outra. Isso só se produz numa medida apreciável com
o capitalismo, com o nascimento da família moderna e da obrigação escolar universal. A
educação constitui uma articulação família/escola” (Nemitz, 1987, p.69).
97
O desenvolvimento da universidade moderna se dá no mesmo período, ficando simbolizada
“pela criação em 1868 da Escola Prática de Altos Estudos [que] num quadro flexível, devia
fornecer formação para a pesquisa crítica” (Mayeur, 1973, p.149). As universidades do
período pré-capitalista pouco têm a ver com as originadas pelo desenvolvimento do capital:
“Os estudantes da Idade Média não estavam submetidos à jurisdição dos tribunais
ordinários, eles não podiam ser procurados em seus colégios ou molestados pelos agentes
de justiça, eles portavam uma vestimenta particular, eles tinham o direito de duelarem entre
si e eram reconhecidos como uma corporação fechada, com seus códigos morais, bons ou
maus. No decorrer do tempo, com a democratização progressiva da vida pública, quando
todas as outras guildas e corporações da Idade Média foram abolidos, estes privilégios de
universitários se perderam em toda a Europa” (Zweig, 1948, p.118).
O elemento de continuidade se dava em que a universidade continuava a ser considerada o
“lugar natural” da ciência (que “não cobre senão uma parte dos saberes socialmente
existentes”), portanto, da “ilusão cientificista” (a ciência como variável independente do
desenvolvimento social):
“A ciência se distingue de outros tipos de saberes por sua aproximação que visa
conhecimentos de caráter universal, atemporais, distintos da pessoa que os emite e do
‘lugar’ de onde provêm. Ela tem, portanto, uma tendência a eliminar o singular, o não
reproduzível e, em suma, a história” ( Joshua, 1995, p.96).
Existe em Marx e Engels uma crítica à educação capitalista (inclusive a universitária) como
alienada, fragmentária, parcial (excludente dos “outros saberes”), e um esboço de uma
“educação comunista”, a qual, de acordo com o Anti-Dühring, superando essas contradições,
“criará uma nova força produtiva”. A nova educação deverá ser “intelectual, física e
politécnica”: esta última, “para Marx, deve ao mesmo tempo teórica (‘transmitir os princípios
gerais de todos os processos de produção’) e prática (‘iniciação ao uso prático e ao manejo
dos instrumentos básicos de todos os ramos do trabalho’). Essa dupla formação é
indispensável para que os trabalhadores dominem as bases científicas da tecnologia, o que
lhes permitirá organizar e controlar a produção uma vez conquistado o poder político (sob o
reino da burguesia, eles possuem apenas ‘a sombra do ensino profissional”(Khôi, 1991,
p.101).5
A Comuna realizou, na sua breve existência, uma obra notável de democratização e laicização
do ensino, e de colocação do mesmo a serviço da “República do Trabalho”. Marx comentou
que “dessa maneira, não somente a instrução tornou-se acessível a todos, mas também a
própria ciência foi libertada dos grilhões que lhe tinham sido impostos pelos preconceitos de
classe e a força governamental”.
98
A Revolução de Outubro de 1917 inspirou-se explicitamente na Comuna, ao tentar desde o
início integrar educação e produção, de acordo com o seguinte princípio: “O trabalho
produtivo deve servir de fundamento da vida escolar, não como meio de pagar o sustento da
criança, nem apenas como método de ensino, mas como trabalho produtivo socialmente
necessário... A escola é a escola-comuna, estreita e organicamente vinculada mediante o
processo laboral com o seu meio ambiente” (Fitzpatrick, 1977, p.53).
Até autores, como Georges Bourgin(1962, p. 61), que consideram que a política da Comuna
“no conjunto...foi negativa”, reconhecem ter ela realizado “uma obra escolar social efetiva.”
Edouard Vaillant reuniu professoras, professores e pais para decidir as reformas necessárias
para a escola primária.
Prosper-Olivier Lissagaray, testemunha da Comuna e historiador crítico de muitos aspectos da
mesma, nos diz:
“A Delegação do Educação tinha por obrigação uma das mais belas páginas da Comuna.
Após tantos anos estudo e experiência, essa questão devia surgir inteiramente elaborada de
um cérebro realmente revolucionário. A Delegação nada deixou como testemunho para o
futuro. No entanto, o delegado era um homem dos mais instruídos. Contentou-se em
eliminar os crucifixos das salas de aula e em fazer um apelo a todos os que haviam
estudado as questões da educação. Uma comissão foi encarregada de organizar o ensino
primário e a formação profissional; todo seu trabalho foi anunciar, em 6 de maio, a
inauguração de uma escola. Outra comissão, para a educação das mulheres, foi nomeada no
dia da entrada dos versalheses.
O papel administrativo dessa delegação restringiu-se a decretos pouco viáveis e a algumas
nomecações. Dois homens dedicados e talentosos, Elisée Reclus e Benjamin Gastineau,
foram encarregados de reorganizar a Biblioteca Nacional Proibiram o empréstimo de livros,
pondo fim ao escândalo de privilegiados que constituíam bibliotecas às custas das coleções
públicas. A Federação dos Artistas, cujo presidente era Courbet -nomeado membro da
Comuna em 16 de abril- e que contava entre seus integrantes com o escultor Dalou,
ocupou-se da reabertura e da fiscalização dos museus.
Nada se saberia dessa revolução em matéria de educação sem as circulares das
municipalidades. Várias haviam reaberto as escolas abandonadas pelas congregações e
pelos professores primários da cidade, ou tinham expulsado os padres que lá restavam. A
do XX Distrito vestiu e alimentou as crianças, lanÇando assim as primeiras bases das
Caixas Escolares (cooperadoras), tão prósperas a partir de então. A delegação do IV
Distrito dizia: ‘Ensinar a criança a amar e a respeitar seu semelhante, inspirar-lhe o amor à
justiça, ensinar-lhe que deve se instruir tendo em vista o interesse de todos: eis os princípios
morais em que doravante repousará a educação comunal’. ‘Os professores das escolas
primárias e dos creches, prescrevia a delegação do XVII Distrito, ‘empregarão
exclusivamente o método experimental e científico, que parte sempre da exposição dos
fatos físicos, morais e intelectuais". Ainda se estava longe de um programa completo”
(Lissagaray , 1991, p.170).
Em apenas dois meses, é evidente que era impossível levar plenamente à prática todos os
planos. Mas ficou claro que a Comuna pretendia implementar um sistema de ensino integral, a
todos os níveis, que unisse trabalho manual e intelectual, através de um ensino
99
simultaneamente científico e profissionalizante (tal era o entendimento do termo
“politécnico”). A Comuna, por outro lado, combateu a opressão das mulheres baseada na
ignorância. Um artigo de 9 de abril de 1871, do Père Duchêne, advertia: “Se vocês
soubessem, cidadãos, o quanto a Revolução depende das mulheres. Nesse caso, estariam
atentos para a educação das meninas (filles). E não as deixariam, como se fez até agora, na
ignorância!” (Dubois, 1991, p.164).
5. Críticas à Comuna
A reação francesa e internacional acabaria, de modo ineditamente cruel, com a Comuna,
impondoum retrocesso social e cultural extraordinário. Mas a semente deixada pela Comuna
– a escola pública, laica, gratuita e obrigatória; a libertação feminina - floresceria novamente
nas lutas sociais, antes que o século XIX terminasse. A destruição do caráter de classe do
ensino e da escola, da elitização da universidade, também foi posta pela Comuna, através do
único meio possível: a destruição do Estado opressor e o fim do caráter classista da sociedade
toda.
As iniciativas dos membros da Internacional continuaram a marcar os passos seguintes da
revolução, mas na eleição da Comuna eles ficaram em minoria. A maioria coube aos adeptos
de Blanqui, revolucionário que passou a maior parte de sua vida na prisão. Os “blanquistas”,
que não faziam parte da AIT, foram sempre maioria no Comitê Central da Guarda Nacional, e
buscaram desde o início derrubar o governo burguês de Trochu e, depois, de Thiers. Por duas
vezes antes do 18 de março, em outubro de 1870 e janeiro de 1871, organizaram insurreições
que tinham como objetivo explícito a eleição da Comuna, porém foram mal-sucedidos. Os
blanquistas cultivavam uma teoria conspirativa, julgavam que a revolução seria conduzida no
início pela ditadura de um pequeno grupo de revolucionários dedicados, nos moldes do papel
dos jacobinos na Revolução Francesa. Todos os estudiosos e comentadores da Comuna
apontaram a contradição entre as idéias blanquistas e a prática que seguiram assim que
estiveram à frente da Comuna: mantendo uma organização clandestina e coesa de militantes
100
disciplinados e dedicados, os blanquistas puderam fazer um amplo trabalho de divulgação
revolucionária no proletariado, mesmo sob as repressivas condições do regime de Napoleão
II, e forjaram um conjunto de lutadores que se conheciam mutuamente e eram reconhecidos
pelos demais operários por sua honestidade e abnegação. Esse conjunto pôde, quando a
situação revolucionária se estabeleceu, tomar decisões rápidas e decisivas, e mais ou menos
afinadas com o estado de ânimo do conjunto da classe.
Os seguidores das idéias de Proudhon eram maioria entre os membros da AIT e cultivavam as
idéias econômicas mutualistas de seu mestre, uma espécie de socialismo de pequenos
produtores de mercadorias, mas acabaram impulsionando na prática as medidas na Comuna
que apontavam para uma economia coletivista gerida por associações proletárias. O outro
setor da AIT, mais próximo das posições de Marx e Engels, foi o que registrou a experiência
da Comuna para a posteridade, principalmente através da pena de Marx, em particular na
mensagem ao Conselho Geral da AIT, A Guerra Civil na França, escrita no calor da
revolução, publicada em junho de 1871.
Decorrido mais de um século, a Comuna tornou-se um patrimônio comum de todo o
movimento operário, embora não faltassem críticas a sua ação. Por outro lado, em apenas 72
dias, em condições de carestia, sob o sítio da reação nacional e internacional, as realizações da
Comuna nunca deixaram de ser elogiadas, exaltadas, pelo movimento operário e pelos
historiadores afinados com este. O primeiro erro, "decisivo", segundo Marx, aconteceu no
próprio dia inicial da Comuna, em 18 de março, quando o governo de Thiers evacuou Paris. O
Comitê Central deveria, sem demora, ter ordenado à Guarda Nacional marchar sobre
Versalhes, "então inteiramente indefesa". Também o Comitê Central deixou o exército regular
abandonar Paris; certamente, suas tropas haviam confraternizado com a população parisiense
e sua causa, mas serão posteriormente retomadas em mãos pela oficialidade e utilizadas
contra Paris. E por que a Comuna não perseguiu Thiers? Luquet opina que foi sobretudo pela
crença na possibilidade de chegar a um acordo com Thiers. De tal maneira que "o decreto de
morte da Comuna foi pronunciado no próprio dia de sua vitória, pelo Comitê Central" (Luquet
et alii, 1968).
Outra crítica à Comuna refere-se a ela ter recuado diante da medida de apossar-se do Banco
Central da França, em vez de limitar-se a tomar emprestado do mesmo, enquanto o governo
de Thiers continuou usando-o tranqüilamente. Também se censura a Comuna por ter
descuidado do apoio às lutas operárias da província e, particularmente, às Comunas que
101
surgiram em algumas grandes cidades do interior: "para levantar a França, foi alocado no
máximo cem mil francos", queixa-se Prosper-Olivier Lissagaray (Lissagaray, 1983), um dos
combatentes da Comuna, depois historiador da mesma; a Comuna não conseguiu
compreender o papel eminentemente impulsionador e centralizador que poderiam
desempenhar diretivas suas: ela poderia tentar promover uma coalizão dos diversos
movimentos municipais contra o governo de Versalhes; nem mesmo percebeu o que
representaria a busca de atividades e movimentos de solidariedade à sua luta: a possibilidade
de abertura de novos focos de luta; no mínimo, a possibilidade de esclarecer, desfazer as
mentiras de Versalhes, inclusive e sobretudo junto ao campesinato (então a esmagadora
maioria da população da França).
Também foi apontado o descuido da Comuna para com o movimento operário internacional:
havia uma comissão encarregada de manter as relações com o "exterior", mas esta esqueceu
quase totalmente o resto do mundo. Por toda a Europa, a classe operária bebia avidamente as
novas de Paris, combatia com a grande cidade, multiplicava os comícios, as passeatas, os
apelos. Seus jornais lutavam corajosamente contra as calúnias da imprensa burguesa. O dever
da comissão para o exterior era de alimentar esses auxiliares. Ela não fez quase nada. Alguns
jornais estrangeiros endividaram-se até a falência para defender esta mesma Comuna de Paris
que deixava seus defensores perecerem, por falta de apoio.
Desde o primeiro instante, as velhas classes possuidoras, agrupadas em Versalhes (com
Thiers e a Assembléia Nacional), organizaram-se para esmagar a Comuna, obtendo inclusive
da Prússia a libertação de centenas de milhares de soldados presos na guerra. Os communards,
no entanto, não organizaram o ataque a Versalhes logo depois do 18 de março. Nesse meio
tempo, Versalhes não ficara inativa. Trouxe para a região parisiense tropas oriundas do
interior. O armistício autorizava a França a manter apenas quarenta mil soldados na região
parisiense. Thiers negociou, com os alemães, a autorização para ali concentrar mais tropas,
com o fim de restabelecer a ordem. Bismarck foi muito compreensivo: o acordo de 28 de
março autorizou oitenta mil homens a ali permanecer. Após outras negociações, Versalhes
obterá, posteriormente, a autorização de concentrar 170 mil homens, dos quais cerca de 100
mil serão prisioneiros gentilmente libertados pelos alemães para este fim específico.
No dia 30, o governo de Versalhes começa a investir contra Paris, apoderando-se do
município fronteiriço de Courbevoie. Em 2 de abril, ocorre o primeiro confronto entre as
tropas de Paris e as de Versalhes, com o revés dos parisienses; os prisioneiros foram fuzilados
102
pelos versalheses. A notícia agita Paris. Cedendo à pressão popular, a Comuna decide enviar
tropas contra Versalhes. Mal organizada, com ilusões de que os soldados de Versalhes não
ousariam atirar contra os "federados", a Guarda Nacional, a iniciativa resulta em um sério
revés. Em 5 de abril, a Comuna toma a decisão de executar três reféns para cada federado
executado por Versalhes (o decreto só será aplicado nos últimos dias da Comuna). A luta
militar entra numa fase de guerra de bombardeios à distância, com escaramuças. Versalhes
afirma que não aceita qualquer pacificação ou conciliação, apenas a rendição pura e simples
de Paris.
Em 19 de abril foi votada, quase por unanimidade, uma Declaração ao Povo Francês, que
apresentava o programa da Comuna e sua proposta de Constituição Comunalista que,
segundo Marx, teria "começado a regeneração da França". Em 21 de abril, há uma
reestruturação das Comissões, que passam a ser encabeçadas por um delegado, os nove
delegados constituindo a Comissão Executiva.Como isto não bastava para fortalecer e
agilizar a ação da Comuna, foi criado um Comitê de Salvação Pública, de cinco membros,
"responsável apenas diante da Comuna" (proposta que encontrou a oposição de uma
importante minoria, entre os quais os membros da AIT). Mas essa tentativa de reviver o
jacobinismo da Grande Revolução de 1789 não teria os efeitos esperados.
A partir de 26 de abril, os federados começaram a perder posições: Les Moulineaux, naquele
dia; as fortificações de Moulin-Saquet em 4 de maio; perda de Clamart, no dia seguinte; revés
de Vanves, em 6 de maio; perda das fortificações de Issy, no dia 8, dia em que Thiers lança
um ultimato aos parisienses. Em 9 de maio, o Comitê de Salvação Pública sofre uma
renovação, na esperança de melhorar sua ação efetiva. Por sua vez, no dia 10, o governo de
Thiers assina a paz com a Alemanha em Frankfurt. No dia 20, os versalheses entram em Paris:
um traidor lhes abriu uma porta; 130 mil homens começam a penetrar na cidade. O alerta é
dado; iniciativas individuais de resistência são tomadas. No dia 22, o Comitê de Salvação
Pública lança um apelo geral às armas. Os bairros populares enchem-se de barricadas. Pratica-
se a guerra de ruas; para dificultar o avanço do adversário, incendeiam-se os edifícios na hora
de abandoná-los. Os versalheses ver-se-ão obrigados a conquistar a cidade quarteirão por
quarteirão. Em 24 de maio, a Comuna abandona o Hôtel-de-ville, para instalar-se na
Prefeitura da 11ª região administrativa. No dia 25, acontece a última reunião da Comuna. No
dia seguinte, resiste apenas um bolsão no bairro Saint-Antoine e arredores. Às 13 horas de 28
de maio caiu a última barricada dos revolucionários. Quatro mil communards morreram na
103
batalha; mais 20 mil seriam executados sumariamente nos dias que se seguiram; 10 mil
conseguiram fugir para o exílio; mais de 40 mil foram presos, destes, 91 condenados à morte,
4.000 à deportação e 5.000 a penas diversas: a batalha de Paris produziu 20.000 vitimas;
26.000 communards foram capturados entre 21 e 28 de maio; mais de 3.500 nas lutas contra
Versalhes, em abril; 5.000 foram presos em junho-julho. Um total, entre presos e fugitivos e
mortos, de cerca de 100 mil habitantes parisienses, mais de 5% da população da cidade. Entre
os 38.578 presos julgados em janeiro de 1875, 36.909 eram homens, 1.054 mulheres, e 615
crianças com menos de 16 anos. Só 1.090 foram liberados depois dos interrogatórios (Cf.
Rougerie, 1972).
6. Balanços
Lênin reconheceu na Comuna a primeira tentativa feita pela revolução proletária para destruir
a máquina do Estado burguês: "A Comuna ensinou o proletariado europeu a pôr
concretamente os problemas da revolução socialista...A causa da Comuna é a revolução
social, a emancipação política e econômica total dos trabalhadores, a do proletariado
universal. E, neste sentido, ela é universal". 6 Nas suas conclusões acerca da derrota da
Comuna, assinalou que
 "para que uma revolução social possa triunfar, duas condições ao menos são necessárias:
as forças produtivas altamente desenvolvidas e um proletariado bem preparado. Mas, em
1871, estas duas condições faziam falta. O capitalismo francês era ainda pouco
desenvolvido, e a França era sobretudo um pais de pequeno-burgueses (artesãos,
camponeses, comerciantes, etc ). Mas o que fez falta à Comuna foi o tempo e a
possibilidade de se orientar e de abordar a realização de seu programa".
Depois da derrota de maio, os blanquistas, a grande maioria presos ou exilados, acabaram
aderindo à AIT nos seus derradeiros anos de existência, mas não abandonaram suas idéias
prévias, desaparecendo enquanto corrente do movimento operário nos anos seguintes. Entre
os anarquistas, a Comuna teve a conseqüência de enfraquecer as primitivas concepções
proudhonistas e reforçar as tendências revolucionárias de Bakunin e outros: a França pós-
Comuna foi o berço das correntes que se tornaram predominantes no anarquismo europeu nas
104
décadas seguintes: o anarco-sindicalismo e o anarco-individualismo (partidário do
terrorismo), em cujo corpo de idéias as lições da revolução parisiense tinham pouquíssimo
espaço.
As correntes socialistas revolucionárias da AIT tinham a seu favor o conjunto de lições
sistematizadas por Marx. A Comuna, sem dúvida, inaugurou uma nova fase no
desenvolvimento, mas no ambiente político que se tornou predominante nas últimas décadas
do século XIX se formaram os primeiros “partidos socialistas”, progressivamente adaptados a
“fazer política” no interior da institucionalidade estatal, e cada vez mais dedicados à atividade
sindical e parlamentar. Para eles, a reflexão e a prática sobre a insurreição e o poder proletário
foram coisas cada vez mais distantes. A AIT já era teatro de disputas internas desde antes de
1870, opondo fundamentalmente Bakunin e Marx. Estas redobraram de intensidade após a
derrota da Comuna, com manobras de bastidores envolvendo todas as partes. A AIT, que
protagonizara episódios grandiosos em 1870 e 1871, não sobreviveu cinco anos à derrota dos
proletários de Paris ( Cf. Molnar, 1975).
A influência da Internacional na Comuna foi mais potencial que real, e por isso tanto mais
temida. Um dos chefes militares da Comuna, um oficial francês que nada tinha de
“internacionalista” ou de “comunista”, que entendeu ser seu dever combater junto à Comuna
“francesa” contra as orquestrações dos “prussianos” e dos “traidores”, disse claramente aos
que o julgavam pelo seu “crime”:
 “Vocês estão vendo, legisladores imbecis, que é preciso abrir a sociedade para a horda que
a sitia: sem isso, essa horda far-se-á uma sociedade fora da vossa. Se as nações não abrem
suas portas à classe operária, a classe operária se precipitará em direção da Internacional”.
E acrescentava: “Não tenho nenhum preconceito em favor dos communards: ainda assim,
em que pesem todas as vergonhas da Comuna, reivindico ter combatido junto a esses
vencidos do que junto aos vencedores...Se devesse recomeçar, talvez não serviria à
Comuna, mas com certeza não iria servir a Versalhes.” (Kessel (org.), 1971).
Marx respondeu a uma entrevista, realizada pelo jornal Woodhull & Claflin’s Weekly,7 dos
EUA, a respeito da participação da Internacional na Comuna, entrevista feita de modo
bastante agressivo:
 “Gostaria que me provasse que houve complô e que tudo que aconteceu não foi o resultado
normal das circunstâncias do momento. A supor que tivesse havido complô, peço para ver
as provas de uma participação da AIT”, foi a primeira resposta de Marx.
Mas o jornalista insistiu: “A presença de tantos membros da Associação na Comuna”. Ao
que Marx respondeu: “Poderia muito bem ter sido também um complô de maçons, pois a
sua participação, enquanto indivíduos, não foi desprezível... O levantamento de Paris foi
realizado pelos operários parisienses. Os mais capazes dentre eles deviam portanto
necessariamente ser também os chefes e os responsáveis do movimento. Ora, acontece que
105
os operários mais capazes são ao mesmo tempo membros da AIT. E, todavia, a Associação
enquanto tal não tomou em que quer que seja decisão alguma sobre a sua ação.” ( Marx e
Engels, 1975, p.111-2)8
7. Conclusão
O debate acerca da natureza da Comuna de Paris foi o grande fundamento histórico da divisão
entre as diversas correntes do movimento operário e de esquerda, entre marxistas e
anarquistas, primeiro, e entre social-democratas, como Karl Kautsky e o dirigente
menchevique Martov, “codinome”de Julij Cederbaum e, posteriormente, como os comunistas
como Lênin e Trotsky. Durante seu decorrer, a Comuna já tinha sido o grande divisor de
águas dentro do movimento democrático e de esquerda.9 Meio século depois, os teóricos
social-democratas tentarão uma interpretação democratizante, não só da Comuna, mas
também da interpretação da Comuna dada por Marx, para contrapô-las ao bolchevismo e à
Revolução de Outubro.
Vários dos “novos” debates historiográficos acerca das revoltas sociais no século XIX se
encontram antecipados nosdebates acerca da Comuna, em especial aquele que, negando o
suposto “dogma” da Comuna como revolução proletária, lhe contrapõe a noção de uma
revolta “artesanal” e dos lojistas, “plebéia”, ou seja, a última revolta de camadas sociais
fadadas a desaparecer por influência do desenvolvimento capitalista, ou o último degrau do
ciclo revolucionário que conheceu seu esplendor nos séculos XVII e XVIII.
Essas interpretações, em geral, não ultrapassam um “economicismo” cru e raso. Georges
Rudé, ao contrário, escreveu que já “em fins da década de 1820, o ouvrier substituíra o sans-
culotte de orientação pequeno-burguesa como o principal protagonista do protesto social, e os
assalariados, mesmo os que trabalhavam como compagnons em pequenas oficinas, já não
estavam tão presos aos cordões do avental de seus mestres-artesãos”. Aos revolucionários de
1848 e, principalmente, os revolucionários de 1871)
 “no vocabulário francês da época (embora talvez não no nosso) é razoável chamá-los de
prolétaires ...apesar do crescimento lento das fábricas em Paris, eles agora se consideravam
proletários, e não mais ouvriers, e muito menos sans-culottes. O capitalista, como antítese
do prolétaire, era o inimigo” ( Rudé, 1982, p. 107 et seq.).
106
Toda revolução, por outro lado, é “popular” ou “plebéia”, isto é, protagonizada pelas maiorias
sociais: esse fato nada diz respeito à dinâmica de classe10 da mesma, que varia de acordo com
a situação histórica.
Outras interpretações negam o caráter revolucionário da Comuna, assim como da Revolução
Francesa. Estas afirmações, na verdade, se limitam a repetir um velho erro: “Contra a opinião
contemporânea de seus inimigos conservadores, a Comuna de Paris de 1871 não foi só uma
sublevação das massas descontentes de pequeno-burgueses e proletários, condicionada pelas
circunstâncias críticas da capital francesa. Do mesmo modo que os movimentos paralelos de
Lyon, Saint-Étienne e Marselha, a Comuna teve um caráter marcadamente revolucionário e
aspirava a uma total transformação da organização social e política da França.” (Kernig apud
Mommsen, 1975, p.75)11
A análise da dinâmica objetiva da revolução da Comuna constitui a força da interpretação de
Marx (1953) em A Guerra Civil na França. 12 Elaborada como um informe para a AIT, o
opúsculo resultante foi o texto de Marx de maior impacto político em vida deste (superior,
nessa época, ao próprio Manifesto Comunista). O trabalho não é, como se sabe, muito
extenso, mas a edição completa do texto, ou seja, acompanhada pelo material de pesquisa
usado por Marx, assim como pelos dois primeiros ensaios de redação (só o terceiro foi
publicado em vida de Marx), mostram o souci extremo de Marx para a composição da obra
final, embora esta fosse publicada a apenas algumas semanas da repressão sangrenta da
Comuna.13 Para além da sua importância teórica, A Guerra Civil na França constitui um
verdadeiro tour de force jornalístico-historiográfico.
Nenhum texto da época (nem os de Bakunin, ou o mais conhecido, e posterior, de Prosper-
Olivier Lissagaray) se compara nesses quesitos ao de Marx, que é considerado por muitos
como o ato de nascimento do “marxismo”, quer seja como tendência no movimento operário,
quer como corrente ideológica. Daí que a divisão posterior na intelectualidade revolucionária
tenha como eixo não apenas o debate acerca da “verdadeira” natureza da Comuna de Paris,
como também o debate acerca do que Marx disse a respeito dela. E também acerca do que
não disse, e das razões para tanto, chegando-se ao ponto de se conceber um suposto “Marx
anarquista” a partir d’A Guerra Civil na França.
Uma história da historiografia da Comuna de Paris, a exemplo da realizada por Alice Gerard
(Gerard, 1981) para a Revolução Francesa, deveria então desdobrar-se em uma outra “história
das interpretações marxistas” da Comuna, uma revolução que permanece como “símbolo e
107
exemplo”, 14 por ter sido, não a última das revoluções populares “ilusórias”que precederam o
domínio político da burguesia, mas a primeira, e talvez a mais radical, das revoluções
conscientes - proletárias - da contemporaneidade capitalista, ou seja, por ser, não a conclusão
anacrônica do passado, mas o ato fundador do presente e a porta que a história abriu para o
futuro.
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*Professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo.
1 A esse respeito, pode-se consultar: Vallès et alli, 1992, assim como o interessante estudo de Paul Lidsky
(1971), onde o objeto é a atitude refratária da maior parte da intelectualidade francesa (inclusive “de esquerda”)
em relação à Comuna de Paris.
2 Sobre a história geral da Comuna de Paris, existem numerosos textos que estão indicados na bibliografia:
Andrieu, 1971; Arru, 1974; Bourgin, 1939; Bruhat et alii, 1960; Elleinstein, 1971; Azéma e Winock, 1964;
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Rougerie,1972; Sanchez, 1997; Schulkind, 1974; Tombs, 1981; Walter, 1971.
3 A respeito do contexto histórico geral da Comuna, veja (Girard, 1986; Bravo, 1979; Dubois, 1991; Plessis,
1976; Hobsbawm, 1979.
4 Ver o relatório do Conselho Geral no Congresso de Genebra, 1866, e a resolução do Congresso da AIT de
Lausanne, 1867.
5Ver também Suchodolski, 1976; Manacorda, 1991; Sarup, 1980.
6 A “universalidade” a que Lênin se refere diz respeito à projeção histórica da Comuna, mas não está demais
assinalar que o fato em si teve repercussões até em regiões longínquas, tais como Portugal, Brasil, Argentina e
México. Confira a respeito em Alves, 1971; Cantú, 1974 principalmente, Segunda parte, Cap. VIII; Melo
apud. Luquet et alii, 1968; Tavares, 1983, Cap. VIII; Chiarelli e Galmarini., 1975; Falcón, 1984, Cap. II.
7 A respeito da atitude da imprensa diante da Comuna, ver o estudo de Aimé Dupuy: 1870/1871. La Guerra, la
Comune e la Stampa. Roma, Samonà e Savelli, 1970.
8Os membros das seções parisienses da Internacional que fizeram parte, de saída, da Comuna, foram: Assi,
Avrial, Beslay, Chalain, Clémence, Lefrançais, Malon, Pindy, Theisz, Vaillant, Amouroux e Géresme. A estes se
somariam outros eleitos no decorrer da Comuna, como Serrailler, delegado de Marx e eleito a 16 de abril.
9 Cf.: J.S. Grenville. La Europa Remodelada 1848-1878 . México, Siglo XXI, 1980; Miklós Molnar. Marx,
Engels et la Politique Internationale. Paris, Gallimard, 1975; Albert Ollivier. La Commune. Paris, Gallimard,
1939; Edouard Dolléans. Histoire du Mouvement Ouvrier. Paris, Armand Colin, 1936.
10 Grifos do autor.
11 Sobre a dinâmica nacional da Comuna, Cf. Gaillard, 1971).
12 Devido razões de espaço, só reproduzimos um capítulo na coletânea.
13 O conceito poderia ser estendido às análises de Engels que chegou a elaborar um plano de defesa militar da
Comuna. A respeito da guerra franco-prussiana, guerra que precedeu à Comuna de Paris, Cf. Friedrich Engels,
1996.
14 Ver: Georges Haupt. La Commune comme symbole et comme exemple. L’Historien et le Mouvement Social.
1980.

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