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1 2 Copyright by © Luciana Ferreira Serenini Prado; Luiz Carlos do Carmo Fernandes (org.) 2023. Projeto Editorial: Luciana Hidemi Nomura Imagens criadas com Inteligência Artificial Generativa e manipuladas com softwares para edição de imagem. 1° Edição 2023 Dados de Catalogação: 9786500827989 3 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ............................................................................................... 4 MODA STREETWEAR - A CRIAÇÃO DE UM PRODUTO COMUNICACIONAL PUBLICITÁRIO ............................................................. 7 IGUALDADE EM TODOS OS CAMPOS: UMA ANÁLISE DO POSICIONAMENTO ADOTADO PELA NEOENERGIA A PARTIR DO PATROCÍNIO AO FUTEBOL BRASILEIRO FEMININO E SEUS REFLEXOS NA COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL ................................... 28 BEM-ESTAR SEXUAL: ESTUDO DE RECEPÇÃO SOBRE A INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE NA DESCONSTRUÇÃO DE TABUS DA SEXUALIDADE E DO PRAZER FEMININO ................................................. 54 SEMIÓTICA APLICADA: ESTUDO DA IDENTIDADE VISUAL DA JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE RIO DE JANEIRO ....................... 75 4 APRESENTAÇÃO Com grande entusiasmo, apresentamos o primeiro E-book do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Goiás, intitulado "Além do Anúncio: Estudos Científicos em Publicidade." Esta publicação representa um marco significativo em nossa jornada educacional e é motivo de grande orgulho para todos os envolvidos. O E-book resulta da colaboração de talentosos egressos e ex-orientadores ativos em nossas duas linhas de pesquisa de conclusão de curso: o Grupo Plurais - estudos em Publicidade, Consumo e Sociedade, e o Comdigivisual - estudos em Comunicação, Cultura Digital e Visualidades. Nele, reunimos alguns dos trabalhos de destaque que surgiram do árduo esforço intelectual e pesquisa de nossa comunidade acadêmica. Esta publicação celebra não apenas as realizações individuais de ex-alunos e orientadores, mas também destaca a busca pela qualidade da educação. Acreditamos firmemente que a visibilidade das pesquisas é crucial para o crescimento contínuo da excelência em nossa área, especialmente diante dos desafios tecnológicos e sociais em constante evolução. Por isso, valorizamos e estimulamos a disseminação do conhecimento, tornando este E-book um passo significativo nessa direção. Queremos compartilhar ideias inovadoras, descobertas relevantes e abordagens criativas de nosso curso de Publicidade e Propaganda com um público mais amplo. Nosso compromisso com a excelência acadêmica e a inovação permanece inabalável, e este E-book é apenas mais uma contribuição para o campo da publicidade e propaganda. Neste primeiro volume do Ebook "Além do Anúncio: Estudos Científicos em Publicidade," propomos reflexões sobre a criação de produtos comunicacionais, a 5 análise do patrocínio ao futebol feminino no Brasil como exemplo de busca por igualdade, a influência da publicidade na desconstrução de tabus relacionados à sexualidade feminina e sobre o uso da semiótica aplicada ao estudo da identidade visual da Jornada Mundial da Juventude. Agradecemos sua atenção, ansiosos para compartilhar nossas realizações e continuar a moldar o futuro dinâmico e promissor da publicidade e propaganda. Organizadores 6 7 MODA STREETWEAR - A CRIAÇÃO DE UM PRODUTO COMUNICACIONAL PUBLICITÁRIO Gabriel Pio Abelaira Couto1 Graziela Reis Simplício da Silva2 Núbia da Cunha Simão3 A moda está presente no dia a dia das pessoas, sendo capaz de transmitir uma comunicação simbólica, conectando culturas e estilos de vidas ao longo do tempo, por meio de transformações sociais, culturais e políticas na sociedade. A moda e a indumentária têm um grande poder de representar a identidade de um indivíduo e o grupo social ao qual ele pertence. Assim, a moda como um instrumento de comunicação não verbal, se expressa por meio de elementos comunicativos como símbolos, objetos, cores, gestos, figuras, entre outros. Para isso, o estudo toma como ponto de partida a história da moda, até o surgimento do streetwear, em meados da década de 1960, a qual houve uma grande revolução e o público jovem estava em evidência. Em relação aos períodos históricos, foram estudadas as tribos urbanas que eram vistas como subculturas nos anos 90 e as suas influências na sociedade e na moda. A partir do estudo das subculturas, pode-se perceber que o vestuário muitas vezes expressa a personalidade e o grupo social no qual uma pessoa está inserida, sem precisar a conhecer diretamente. A pesquisa também aborda a relação entre a rua e a moda, e quanto poder uma exerce sobre a outra. As redes sociais e o acesso fácil e rápido a todo tipo de informação fizeram da moda uma grande influência nos jovens. Também se pode considerar que as pessoas estão cada vez mais buscando alcançar estilos únicos e diferenciados, pois cada um quer expressar sua individualidade e singularidade. Essas referências estão intimamente relacionadas ao estilo streetwear, que é dominante, jovem e tenta trazer a essência de cada estilo a partir de uma mistura de diferentes tendências e 1 Graduado em Publicidade e Propaganda- PUC-Goiás. gabrielpiovelli@hotmail.com 2 Graduada em Publicidade e Propaganda- PUC-Goiás. grazielareissimplicio@gmail.com 3 Mestre em Comunicação. Professora de Publicidade e Propaganda- PUC-Goiás e Coordenadora do Programa de Direitos Humanos da PUC-Goiás. nubiasimao@gmail.com 8 estilos. O estilo streetwear tem suas origens em expressões culturais e sociais, representando o comportamento e o pensamento urbano, e influências como hip-hop, skate e cultura do surf tornaram-se tendências da moda. É nesse ponto que com a individualidade desses grupos, a indústria cultural exerce sua força, ditando tendência, voltadas para o consumo de produtos específicos, com o pensamento que para adentrar em determinado grupo precisa consumir sua moda e carregar suas tendências. Dessa forma, o projeto visa desenvolver a comunicação publicitária a partir da criação de uma marca de roupas, por meio de peças únicas, uma marca de streetwear representativa da juventude brasileira. METODOLOGIA A moda é uma forma de expressão e representação social que nos permite compreender os acontecimentos de um determinado período. O streetwear transmite a essência da moda na rua em peças práticas e com muita personalidade, tendo inspiração especialmente no hip hop e no skate, promovendo identidades e estilos através do vestuário. É por isso que as marcas nacionais procuram criar peças para fomentar a cultura do streetwear no Brasil. Contudo, o Estado de Goiás carece de marcas verificadas por meio de pesquisa de mercado para o nicho do streetwear. Dessa forma, o projeto tem como objetivo desenvolver a criação de uma marca de roupa no segmento streetwear, junto a sua primeira coleção de peças diretamente no mercado desejado e para os clientes que almejam. Atendendo a necessidade do mercado que é cada vez mais exigente, unindo moda, conforto, personalidade e estilo através do modo de vestir. A marca a ser desenvolvida, é uma marca de roupas voltada para a moda streetwear, buscando transmitir através de suas peças, atitude, praticidade e um design que traz consigo originalidade e frescor ao cenário streetwear brasileiro. 9 Tendo como foco o lançamento de camisetas com estampas autorais e produzidas com fibras ecológicas, como malhas de algodão, poliéster e viscose que ajudam a preservação do meio ambiente e geram bem-estar para quem produz e para quem veste. Assim,para encontrarmos nosso espaço no mercado, além da gestão de marca e das estratégias de marketing digital, como produção de conteúdo nas redes sociais. Procuramos utilizar as mídias sociais e e-commerce como canais de venda e relacionamento com o cliente. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA História da moda A moda, desde o seu surgimento, é uma ferramenta de expressão. Influenciando comportamentos, estilos e costumes da sociedade. Isso porque, por meio do vestuário, é possível se expressar e se comunicar. Segundo o dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, a palavra moda tem o seguinte significado: moda, s. f. (fr. mode). 1. Uso corrente. 2. Forma atual do vestuário. 3.Fantasia, gosto ou maneira como cada um faz as coisas. 4. Cantiga, ária, modinha. 5. Estat. O valor mais frequente numa série de observações. 6. Sociol. Ações contínuas de pouca duração que ocorrem na forma de certos elementos culturais (indumentária, habilitação, fala, recreação etc.). Sf. Pl. Artigos de vestuário para senhoras e crianças. Antôn.: anti-moda. (Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 1980, p.1156) Deste modo, procura-se refletir as relações entre moda e comunicação, evidenciando uma breve linha do tempo da história da moda do século XX, até o momento que levou a criação do estilo contemporâneo de se vestir, o streetwear. O século XX foi marcado por movimentos e inovações sociais, que refletiram nas tendências da moda no decorrer dos anos. No início da década de 1910, a moda sofreu influência da “Belle Epóque”, época marcada pela alta-costura, pelos vestidos e espartilhos, valorizando as curvas sinuosas das mulheres. 10 Os anos 20, conhecidos como “anos loucos”, foram marcados pelo contexto de pós Primeira Guerra, crise e movimentos feministas, refletindo o fim das silhuetas e a busca por liberdade e conforto. Assim, as roupas passaram a ser práticas, simples, de tecidos baratos e duradouros. A vida real – Anos 20. Fonte: (Cutedrop.com) A década de 30 é o reflexo da crise mundial da queda da bolsa de valores de Nova York, em 1929. A moda se torna menos ousada, marcada por um visual mais sofisticado, sóbrio, uso das cores cinzas, branco e preto. A moda feminina passou a ser vista de outra forma, e as curvas femininas voltaram a ser valorizadas. O cinema também foi um grande precursor da moda. As estrelas de Hollywood, Marlene Dietrich, Mae West, Katharine Hepburn e Jean Harllow eram responsáveis por liderar as tendências da época, como os vestidos de noite que ganharam decotes profundos nas costas. 11 Elegância sóbria dominou o período. Fonte: (https://shelovesthelovinthings.wordpress.com/2013/05/23/moda-de-epoca- 30s/) Atriz Katharine Hepburn- ícone feminino da década de 30. Fonte: (https://bityli.com/OOslE) Anos depois, a 2º Guerra Mundial desempenhou um papel importante na história da moda. Durante os anos 40, a moda sofreu grandes dificuldades. As mudanças no cenário político e econômico, também prejudicaram a Indústria Têxtil. Tendo como resultado a escassez de tecidos, mão de obra limitada, revelando um novo modo de se vestir, mais simplificado e alternativo, composto por acessórios, fibras sintéticas e a viscose. https://shelovesthelovinthings.wordpress.com/2013/05/23/moda-de-epoca-30s/ https://shelovesthelovinthings.wordpress.com/2013/05/23/moda-de-epoca-30s/ https://bityli.com/OOslE 12 Anúncios de roupas no início dos anos 40. Fonte: Revista Vogue. Após os períodos de guerra, o cenário no mundo da moda mudou radicalmente. Na década de 50, conhecida como “anos dourados”. A sensualidade das estrelas de cinema e o New Look de Dior marcaram os “anos dourados”. Com produções que traziam saias rodadas até os tornozelos e com cintura marcada, além de sapatos de salto e acessórios como luvas, chapéus e joias. O “New Look” de Christian Dior, em 1947. Fonte: Dior. Na segunda metade do século XX, a moda tem influências nos movimentos culturais e musicais. Enquanto nos anos 60 o movimento rock’n roll trouxe destaque para a moda, inspirando um estilo mais livre, ousado e 13 criativo de se vestir. A partir de 1970, a moda jovem entra em ascensão, e busca um rompimento com os pensamentos e comportamentos da época. O estilo “Paz e Amor” marcado pelo movimento hippie, traz consigo uma moda menos massificada, caracterizada por cores vibrantes, texturas e imagens psicodélicas. Moda da década de 60 em Londres, 1966. Fonte: The National Archives A luta por uma vida menos materialista e a estética floral foram grandes marcas dos hippies. Fonte: (https://www.todamateria.com.br/movimento-hippie/) Mas os anos 70 também tiveram muitas referências de outros movimentos culturais como o black power e punk. https://www.todamateria.com.br/movimento-hippie/ 14 Dois jovens punks rockers na década de 70. Fonte: Getty Images Por outro lado, a moda dos anos 80 foi caracterizada pela criatividade e ousadia na cultura pop, seguindo as tendências fitness e os yuppies (jovens profissionais urbanos). Grupo musical Viuda e hijas de Roque Enroll em 1986, vestindo roupas coloridas e geométricas e maquiagem extravagante. Fonte: The National Archives 15 Já nos anos 90, a moda teve inspiração nos estilos Grunge, com estampas como listras, shorts largos e cintos altos, camisas xadrez, calças, cobras, zebras e onças sendo queridinhas. Exceto por um blazer com estilo sofisticado. As cores são brilhantes e vibrantes. Neil Young foi uma grande referência na moda grunge. (http://www.modadesubculturas.com .br/2014/04) Para Pollini (2007), o século XX retrata a história da moda, que antes era apenas expressão e ocupação de um determinado grupo, como romper suas barreiras e se tornar de todos. Ou seja, todas as mudanças, guerras e revoluções tornam-se o fator definidor da moda, não apenas roupas, mas uma forma de o indivíduo mostrar sua identidade e se colocar na estrutura social em que está inserido. No início do século XXI, a moda muda o olhar e impõem-se novos comportamentos e formas de consumo. Com o desenvolvimento da globalização1 e da tecnologia, a moda representa tendências diversas. As pessoas começaram a criar seus próprios estilos para expressar sua individualidade e singularidade. É marcada por uma geração acelerada, mas que valoriza o conforto e a funcionalidade. O surgimento e evolução do Streetwear 16 O streetwear é marcado por diversos estilos urbanos, como o skate e o surfe. Porém, sua história está principalmente ligada à cultura Hip-Hop. Para entender como o estilo se tornou o que é na contemporaneidade, é necessário entender a história de surgimento e ascensão do Hip-Hop. O início do streetwear se dá em 1980, através da criação da marca Stüssy, por Shawn Stüssy. Ele desenvolveu seu logotipo através da assinatura de seu tio, e passou a estampar camisetas, bonés e pranchas com ele. Com designs inspirados em bandas rock e punk, seus produtos naturalmente começaram a fazer sucesso. “Todo mundo fala que minha marca é de surfwear, de moda urbana ou de surf urbano. Isso são apenas nomes. Eu não rotulo ela e não rotulo de propósito. Eu faço roupas básicas que podem ser usadas tanto por uma criança de 10 anos quanto pelo meu pai.” disse Shawn Stussy, em entrevista ao jornal NY Times, em 1992.4 O streetwear eventualmente se encontrou com o Hip-Hop em Nova York, e ambos foram impactados diretamente. O streetwear encontrou um cenário favorável, em que as pessoas se vestiam buscando a autenticidade, adotando um posicionamento político. E como não recebiam patrocínio de grandes marcas, DJ’s e MC’s começaram a criar roupas customizadas com logos de marcas de luxo, como Gucci, Louis Vuittone Versace. Após o sucesso da música “My Adidas” (meus Adidas) do grupo Run DMC, empresários da empresa de sportswear Adidas, perceberam a oportunidade de Marketing que haviam encontrado, e passaram a patrocinar o grupo. Marcando o início da mesclagem entre o streetwear e o sportswear. Marcas como Champion, Puma, Converse, Kangol, entre outras, logo começaram a entrar nesse novo cenário e fazer parcerias com grupos e cantores do Hip-Hop. 4 Shawn Stussy, em entrevista ao jornal NY Times, em 1992. Disponível em: https://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html. Acesso em: 3 abril. 2022. http://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html http://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html http://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html http://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html https://www.nytimes.com/1992/06/14/style/signals-mean.html 17 Grupo de rap Run-D.M.C, patrocinados pela Adidas, em 1986. Fonte: Getty Images É importante entender o streetwear como um movimento, e não uma tendência, pois é um fenômeno cultural. Camisetas estampadas, jeans folgados, e sneakers chamativos foram criados propositalmente como consequência da expressão de seus consumidores: rappers, skatistas e rebeldes. Nos anos 80 e 90, diversas marcas tradicionais não patrocinavam ou vestiam músicos e estrelas do esporte, então a comunidade não tinha outra saída além de fazer suas próprias roupas. Na atualidade, marcas criam coleções e fazem parcerias com uma grande variedade de artistas, logo, o público acaba seguindo o estilo visual do artista que o faz sentir representado. Estilo streetwear, em Nova York. Fonte: (https://www.bbc.com/portuguese/ve rt-cul-47297361) Grandes nomes do cenário de Hip-Hop atual, como o rapper Kanye West e a cantora Beyoncé, tornaram-se singulares referências no mundo da moda, marcando o cenário da moda além do streetwear, por terem assinado https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-47297361 https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-47297361 18 parceria com a Adidas, desenvolvendo linhas de peças autorais, como a Ivy Park e a Yeezy, e popularizando seu estilo próprio. Moda e Comunicação Moda diz muito sobre sua a sociedade e seu tempo. É um reflexo do que acontece em uma localidade, do que se passa em determinada época. Ela acompanha o vestuário e o tempo, num contexto político, social e cultural. Como símbolo social, o modo de vestir muda com a alteração da estrutura social e da situação geral. Segundo Stefani (2005, p. 11) “A moda é intrínseca à vida de toda a sociedade. Mesmo aqueles que dizem não se importar com o que vestem acabam, de alguma forma, sujeitos às variações dos modismos.” A moda é uma forma de linguagem, uma maneira que o ser humano tem para comunicar-se com o mundo à sua volta. Através das roupas que uma pessoa está vestindo, podemos identificá-la dentro de um determinado grupo social, ou no mínimo compreender um pouco do seu perfil. Embora a moda seja uma forma de expressão, também pode servir como um elemento de comunicação não verbal, estabelecida por meio das impressões causadas pela aparência pessoal de cada um. Quando fazemos uso da moda estamos nos comunicando, produzindo e respondendo aos estímulos que nos rodeiam. Segundo Barnard (2003), no livro Moda e Comunicação, a indumentária é um dos fatores que tornam as sociedades possíveis, visto que ela ajuda a comunicar a posição dos indivíduos. Para Garcia e Miranda (2005), a moda tem o poder de influenciar a cultura e mudar o comportamento do consumidor, por isso ele busca mudanças que o façam sentir confiante. A moda, como meio de comunicação e como instrumento de construção de uma identidade, serve tanto ao indivíduo quanto a um grupo social inteiro. Enquanto a moda é uma forma de expressão, a forma como nos vestimos, nossas escolhas são reflexo da sociedade, e está sujeita ao processo de consumo. Nesse contexto, percebe que a moda, a roupa e o vestuário são a forma como os indivíduos comunicam seus sentimentos, 19 personalidades, desejos e visões de mundo com o grupo social ao qual pertencem. A publicidade é uma maneira de se comunicar, nela existe uma mensagem que será emitida e compreendida por um receptor, como linguagem, manipula símbolos que fazem mediações entre objetos e pessoas. Têm como função, persuadir um indivíduo, através de estratégias comunicacionais, visando divulgar as características de um produto ou serviço a fim de promover suas vendas. Como área de conhecimento, dentro da Comunicação Social, visa estudar não apenas sua técnica, como também sua influência sobre as relações sociais, culturais, tecnológicas e econômicas buscando entender a sua participação direta e indireta no dia a dia da sociedade. A publicidade está presente no cotidiano de todas as pessoas, influenciando seus comportamentos e expressões sociais. Para Kotler e Keller (2012), a publicidade pode ser identificada como um meio de divulgar informações, como promoções de certos tipos de produtos ou serviços, adotando uma postura persuasiva para captar a atenção do público-alvo. Utiliza de estratégias como o branding, que por sua vez atribui características humanas para a marca, definindo sua maneira de agir e se expressar baseada em seu público-alvo. Assim como a publicidade, a moda busca sempre alcançar a originalidade e estar em constante atualização junto ao mercado. Dessa maneira, ambas andam lado a lado na busca de criar maneiras de se expressar. A moda, por meio dos novos formatos publicitários, busca uma maneira de se destacar no concorrido cenário digital. As telas de cinema e TV sempre foram vistas como de grande impacto na sociedade, tornando-se um dos maiores expressivos das tendências da moda. Portanto, a mídia sempre desempenhou um papel importante como articuladores das tendências de moda, conforme cita Freitas (2005): A mídia é um dos maiores articuladores das tendências da moda, não só por meio da publicidade e propaganda, mas também pelas coberturas jornalísticas de grandes eventos esportivos e artísticos. As telas do cinema, da televisão, dos computadores e dos outdoors luminosos têm um papel preponderante nesse contexto. Hoje, a moda é, sobretudo, consumo, seja de 20 objetos, seja de ideias. A partir desse ponto de vista, não podemos considerar só os aspectos comerciais, mas todos os aparatos ideológicos que são produzidos ou apropriados pelos meios de comunicação de massa. (Freitas, 2005, p.126) Assim, a publicidade causou, com o passar do tempo, uma ressignificação da moda, que se afastou de uma visão de futilidade e glamour e passou a ser considerada uma forma de manifestação e criatividade, tornando-se mais acessível e abrangente para o público geral. No passado, a moda era comunicada para o público geral através da mídia impressa, principalmente por revistas, por melhor se adequarem às necessidades visuais do meio. Capa Revista Vogue 2010. Fonte: (https://archive.vogue.com/issue/201 00101) Na atualidade, a comunicação é ditada pelos meios digitais. De modo que, há uma constante disputa para se destacar em uma vasta concorrência, em um cenário de dispersão e liquidez. Sabendo disso, a publicidade surge como ferramenta que fornece destaque à moda, através das estratégias de marketing, as marcas podem, de modo correto, entender seu público-alvo e melhorar a sua comunicação com este. https://archive.vogue.com/issue/20100101 https://archive.vogue.com/issue/20100101 21 RESULTADOS Para análise de viabilidade foram levantados alguns pontos principais: fornecedores, matéria prima, criação, produção e estruturação dos custos. • Fornecedores: foram escolhidos fornecedores da região de Goiânia, que oferecem tecidos e materiais comprodução ética e de menos impactos ambientais, costureiras bem remuneradas, fornecedores de produção de estamparias e bordados, fornecedores de embalagens e etiquetas, e outros funcionários ocasionais. Como Matéria prima: tecidos, aviamentos, estampas. Serão escolhidos tecidos de origem natural, como o algodão orgânico, malha fria e 100% Poliamida. • Criação: Serão realizadas pesquisas de tendências no segmento de streetwear e são tomadas decisões para definir quais produtos irão seguir com a criação das estampas e produção. • Mix de produtos: a ideia é ter peças-chaves em menores quantidades, sem fazer sentido para a produção da marca uma coleção de números muito grandes. Com um total de 58 peças, que variam entre camisetas (35), bonés (8) e ecobags (15). Estampa Camiseta “Hello World” Mockup Camiseta “Hello World” 22 Estampa Camiseta “Born Yesterday” Mockup Camiseta “Born Yesterday” Estampa Camiseta “New in Town” 23 Mockup Camiseta “New in Town” Boné “Paia” Ecobab “paiademais” 24 CONSIDERAÇÕES FINAIS Inicialmente, o objetivo desta pesquisa foi elaborar e desenvolver a criação e identidade de uma marca de roupa do segmento streetwear, focada no mercado digital. Para compreender o desenvolvimento de uma marca de vestuário, foram definidos alguns objetivos específicos. O primeiro passo do projeto foi realizar pesquisas e estudos sobre a história da moda no século XX, com foco no surgimento e influência da moda urbana. Sendo, a moda um campo de conhecimento da história cultural da sociedade. A partir dos anos 70, com a enorme influência do hip-hop, do surf e do skate, temos o surgimento do streetwear. A moda sempre teve grande influência nos comportamos da sociedade, o modo de se vestir é uma forma de expressão, de se comunicar, mostrar a sua personalidade e suas preferências, buscando se encaixar em um determinado grupo. Com isso, podemos analisar como a moda e a comunicação podem ser grandes aliadas. A moda como símbolo social torna-se uma linguagem, uma forma de um indivíduo se aproximar ou se distanciar de um grupo. Na moda, a comunicação também desempenha um papel importante na tomada de posição sobre questões sociais, ambientais e políticas. Tornando a moda sustentável um assunto importante a ser questionado pelas grandes marcas. Além disso, foi realizado um estudo de viabilidade de mercado e os dados obtidos demonstraram a viabilidade de abertura do mercado, mesmo no período de pandemia. Tais pesquisas viabilizaram o aumento do e- commerce nos últimos anos, principalmente na categoria de moda e acessórios, possibilitando realizar a criação e estruturação da marca, PAIA Streetwear e o e-commerce como seu canal de venda e proximidade com o consumidor. Diante disso, objetiva-se posicionar de acordo com a identidade adotada pela marca e em concordância com os pontos defendidos ao longo do projeto. Por isso, a identidade visual foi fundamental para a criação da coleção, trazendo uma proposta original, além de um conceito de moda mais 25 autêntico no dia a dia. Além de analisar e construir um plano estratégico digital para lançamento da marca PAIA nas redes digitais. A fim de entregar o que promete com relação às roupas, ou seja, peças bonitas, bem-feitas e com atributos sustentáveis, a estratégia de marketing garante que o cliente se sinta motivado a comprar. Contudo, a PAIA Streetwear busca inspirar o consumidor, a ser quem ele quer ser, de forma livre e original. Ao final as peças alcançaram resultados satisfatórios. Embora seja um mercado bastante competitivo, é preciso inovar e abraçar novas possibilidades, como por exemplo, ampliando o mix de produtos para gerar maior receita. Portanto, existem boas chances da marca apresentada, conforme sua visão, tornar-se referência no segmento e uma importante opção de compra para jovens. REFERÊNCIAS ASSIS, Isabel; GONÇALVES, Douglas. A moda como fator de contribuição histórica da sociedade. Rio de Janeiro, 2015. BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. São Paulo: Jorge Zahar, 2004. 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Entendemos que a Publicidade, como uma das ferramentas que conduzem a comunicação de interesse público, desempenha um papel de grande importância no reconhecimentoe propagação de demandas sociais e, cada vez mais, tem sido uma estratégia de diferenciação na estruturação dos pilares de marcas de diversos setores. Partindo desse princípio e dentro de um cenário de cobranças cada vez maiores por um posicionamento pautado na responsabilidade social, parte a nossa indagação: o posicionamento adotado pela Neoenergia, por meio do patrocínio exclusivo ao futebol brasileiro feminino em 2021 e 2022, se alinha à comunicação institucional da empresa? Os objetivos específicos desta pesquisa foram apresentar com as questões sociais que pressionam as marcas a integrar ações responsáveis quanto ao estabelecimento da responsabilidade social e corporativa em diversos campos, em particular no de trabalho feminino; e por fim, analisar como o patrocínio ao futebol brasileiro feminino se relaciona ao posicionamento da Neoenergia, observando se a imagem projetada em sua rede social atribui à marca propriedade para tratar do assunto ou colaboram para uma reputação com ruídos, na qual se comunica algo sem haver ações que o dão fundamento. 5 Graduada em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. E-mail: mariaclaracmf5@gmail.com 6 Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás. . E-mail: lserenini@gmail.com 29 Nesse sentido, presumimos que este texto contribuirá para a avaliação sobre as ações de responsabilidade social e na compreensão sobre como a publicidade deve fazer parte de uma ação estruturada que alinha avanços e desejos de grupos importantes da sociedade enquanto colabora com a construção de imagens de marca. METODOLOGIA A metodologia deste trabalho consiste em uma pesquisa qualitativa de natureza descritiva. O estudo de caso utiliza dados bibliográficos e documentais, além de um estudo netnográfico que incorpora a análise do discurso. Para responder à questão problema, aos objetivos e às hipóteses, foram realizadas coletas de dados que pautaram a análise do perfil da Neoenergia no Instagram em um período de um ano, que vai de junho de 2021, data do início do patrocínio exclusivo ao futebol brasileiro feminino, até junho de 2022. Tabela 1 - Quadro do material em análise jun/21 à jun/22 Número de postagens gerais do perfil 420 Referente à campanha Igualdade em Todos os Campos 148 Referente ao patrocínio 127 Referente à inserção da mulher no mercado de trabalho (Neoenergia) 21 Fonte: Autoria própria Período analisado Total de postagens Referentes ao patrocínio Referente à inserção da mulher no mercado de trabalho (Neoenergia) jun/2021 54 31 5 jul/2021 46 18 - ago/2021 41 11 1 set/2021 38 13 3 30 out/2021 28 7 - nov/2021 28 7 2 dez/2021 40 10 2 jan/2022 24 5 - fev/2022 21 5 - março/2022 26 4 4 abril/2022 23 7 1 maio/2022 26 4 3 jun/2022 25 5 - Fonte: Autoria própria Dentro do total das 420 postagens realizadas durante o período em destaque, foram selecionadas aquelas que têm conteúdo relacionado à campanha Igualdade Em Todos Os Campos, que totalizam 148 peças, dentre as quais 127 fazem referência ao patrocínio às seleções brasileiras femininas e ao Brasileirão Neoenergia, e 21 dizem respeito a projetos e ações que visam a inserção da mulher em campos de trabalho onde há maior participação masculina, como o da energia elétrica, bem como propostas de equidade, reforçando o compromisso com os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU assumidos pela empresa, com conteúdo que reflete a responsabilidade social da empresa. A partir dessas postagens, foi feito um recorte de 13 peças para análise, selecionadas sob os atributos de se tratar de ações que englobam o patrocínio, explorando o universo do futebol feminino e incentivando, através dessa temática, a valorização da mulher no mercado de trabalho, independentemente do campo. Tudo isso, levando em conta a forma de abordagem do discurso e de que maneira se alinha à governança corporativa apresentada pela empresa em sua comunicação institucional. É importante destacar que para além de quantidade, é necessário compreender também como se qualifica a comunicação estabelecida pela organização no Instagram, analisando o discurso construído a partir das peças compartilhadas. Antes disso, é válido retomar alguns fatores que podem ter impulsionado a Neoenergia a prosseguir com essa iniciativa. Em 2019, a Copa do Mundo de Futebol Feminino foi transmitida em TV aberta pela primeira vez, indício do aumento da visibilidade da modalidade e impulso pela tomada de cada vez mais espaço. Ainda no âmbito do futebol, não se pode esquecer da 31 grandiosidade representativa que tem Marta, a única entre homens e mulheres a conquistar seis bolas de ouro – prêmio individual de maior prestígio no meio futebolístico. Além disso, a multinacional detentora de grande parte das ações da Neoenergia, Iberdrola, já vinha realizando iniciativas voltadas ao esporte feminino. Tudo isso somado a atividades que integram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, como a Escola de Eletricistas, que se adequa ao objetivo 5, que diz respeito à igualdade de gênero. A partir desses fundamentos, é iniciada em 01 de junho de 2021, a campanha Igualdade Em Todos Os Campos. Com a composição do trabalho apresentado, deu-se início à revisão bibliográfica sobre os assuntos: comunicação institucional e corporativa, responsabilidade social, marketing e patrocínio esportivo e mulheres no futebol e na mídia, além de um breve histórico sobre a Neoenergia. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Comunicação institucional e corporativa Partindo dos valores7, propósito e compromisso social assumidos por uma organização, a comunicação institucional, em conjunto com a corporativa, visa construir e publicizar uma imagem positiva da empresa, de forma que esteja conectada aos seus princípios, com o objetivo de apresentar um posicionamento concreto e, assim, agregar valor e diferenciação à marca. Nesse sentido, Kunsch (2003) declara que A comunicação institucional está intrinsecamente ligada aos aspectos corporativos institucionais que explicitam o lado público das organizações, constrói uma personalidade creditiva organizacional e tem como proposta básica a influência político-social na sociedade onde está inserida. (2003, p. 164). 7 Os valores institucionais representam o conjunto dos princípios e crenças fundamentais de uma empresa e fornecem sustentação para a tomada de decisão (Oliveira, 2006, p. 89). 32 Dessa forma, a consolidação da identidade da empresa, em consonância com a imagem, está diretamente ligada à maneira como a comunicação institucional é estruturada, sendo o estabelecimento do diálogo com os diversos públicos da organização elemento indispensável, de modo a contribuir para o fortalecimento da identidade. Para Strunck (2003, p. 36), o posicionamento é a síntese da concepção estratégica da marca, a criação e o desenvolvimento dos diferenciais competitivos perfeitamente percebidos pela sociedade e pelos consumidores. Assim, o que está em primeiro lugar é a reputação e, por isso, são desenvolvidas e propostas ações que têm como finalidade promover a interação com o público que, conhecendo a identidade da empresa, pode se aproximar ainda mais, bem como verificar o que essa faz na prática, o que foi intensificado com o advento das redes sociais. Essa mudança de comportamento do consumidor foi observada na pesquisa realizada pela Accenture Strategy, a qual levou o nome de ‘Global Consumer Pulse’, revelando que 83% dos consumidores brasileiros têm preferência por empresas que se posicionam e são transparentes na manifestação de seus valores (Exame, 2019). Esse processo que já era importante, se torna ainda mais indispensável quando nos encontramos em uma era de imediatismo, fragilidade e liquidez8 das relações, na qual a presençada organização nos espaços onde seu público está, nunca foi tão valiosa. Para isso, uma das estratégias utilizadas está associada à humanização da marca, a fim de estabelecer vínculos mais fortes, o que pode ser feito por meio de apoio a causas, escolha de um embaixador ou mesmo através da criação de mascotes, como no caso da Magazine Luiza e Casas Bahia. Além disso, a estruturação de uma comunicação integrada, é peça fundamental para edificar relações resistentes que perpassem por todos os setores de uma organização, sem contrariar os seus valores ou perder a eficiência, sendo capaz de direcionar a convergência das diversas áreas, permitindo uma atuação sinérgica (Kunsch, 2003, p. 150). Portanto, tudo o que uma marca fala ou deixa de falar é tido como discurso que, estruturado ou não, constrói uma imagem frente ao público. Desse modo, para que não 8 Zygmunt Bauman, definiu as relações modernas como sendo mais frágeis e maleáveis, cunhando o conceito de Modernidade Líquida (Bauman, 2000). 33 haja ruídos, é preciso estabelecer uma comunicação que comprove o que realmente é defendido ou está sendo feito pela organização. Responsabilidade social e Governança Corporativa Quando se trata de reputação, uma marca não pode se limitar a estratégias administrativas, mas também criar representatividade por meio de ações que reforcem a postura da empresa e que sejam, necessariamente, condizentes ao seu caráter. Robert Dunn, presidente da organização norte-americana sem fins lucrativos voltada à responsabilidade social relacionada a negócios, Business for Social Responsability (BSR), destaca a importância desse processo em Ser socialmente responsável é um dos pilares de sustentação dos negócios, tão importante quanto a qualidade, a tecnologia e a capacidade de inovação. Quando a empresa é socialmente responsável, atrai os consumidores e aumenta o potencial de vendas, gerando maiores lucros para os acionistas. Além disso, também é, hoje, um sinal de reputação corporativa e da marca. (Dunn, 1998 apud Morcerf; Almeida, 2006, p. 5). Uma das formas de uma organização colocar em prática a responsabilidade social, é englobando em suas ações questões de interesse público e participando dos mecanismos que contribuam para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania. A fim de acolher e tornar palpável a realização de tais processos, em 2015 a ONU estruturou o que chamou de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais estabelecem metas a serem cumpridas até 2030. Essas são subdivididas em cinco áreas, sendo elas: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceria. Dessa maneira, as empresas que se interessam por incorporá-los em suas políticas, devem integrar o denominado Pacto Global9, comprometendo-se em alinhar a estratégia de desenvolvimento aos objetivos mais adequados às suas propostas e que confiram pertinência ao seu posicionamento. Relevante lembrar aqui que a identidade, o posicionamento e a imagem de uma empresa são os pilares que sustentam a sua reputação. Por isso, é importante que esses 9 Iniciativa da ONU para engajar empresas e organizações na adoção de dez princípios nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção. 34 estejam ajustados, de forma que não causem dissonância entre o que é dito e o que é feito. O alinhamento desses fatores como princípios que geram valor a longo prazo é chamado de governança corporativa, que integra gestão e comunicação, podendo ser avaliada através do modo como a marca é vista pelo público, primeiro interno - reforçando a sua missão, visão e valores aos colaboradores – e externo, considerando a lembrança que essa ocupa na mente dos consumidores e da sociedade. Segundo o IBGC10, são tidos como princípios básicos para a manutenção de uma governança corporativa de excelência: a transparência, a equidade, a prestação de contas em relação aos atos e a responsabilidade corporativa. Essa preocupação em integrar tais itens no comportamento, atualmente, é um dos principais impulsos para o crescimento das corporações, fato que pode ser observado com mais clareza na pesquisa realizada pelo Centro Sebrae de Sustentabilidade, a qual aponta que 91% das empresas consideram a sustentabilidade como um gerador de oportunidade e novos modelos de negócio, tendo em vista que o mercado se encontra em transição para uma ‘nova economia’, baseada, além do financeiro, nos resultados sociais e ambientais (CACB, 2021). Reforçando esse movimento, os resultados do estudo da Tetra Pak demonstram um crescimento de 26% no índice de preferência por marcas que apresentam preocupações ambientais, informando que Natura, Unilever, Nestlé e Samsung foram consideradas as empresas mais sustentáveis do Brasil e, não coincidentemente, as marcas com melhores reputações na 8ª edição do Monitor Empresarial de Reputação Corporativa, pesquisa realizada entre julho e dezembro do ano de 2021 com organizações atuantes no país (MERCO, 2022). Atualmente, apesar da sustentabilidade ser considerada um diferencial competitivo, o termo vem sendo englobado na política de compliance11, apontando uma migração da responsabilidade social de exceção para regra. Essa nova percepção se justifica no sentido de que estar de acordo com as questões ambientais, sociais e governamentais, atrai investidores e, consequentemente, oferece maior estabilidade e melhor reputação. Isto é, as vantagens de uma governança corporativa que atende às demandas político-sociais, são voltadas também para a organização, o que impulsiona o movimento de empresas à adesão de tal comportamento, que, cada vez mais, deixa de ser 10 Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. 11 Trata-se da conformidade de uma organização às regulamentações necessárias, considerando as políticas às quais essa precisa se adequar. 35 visto como uma conduta que mereça destaque e se torna um princípio básico dentro da estruturação de uma marca. Nesse mesmo âmbito, uma nova sigla entra em cena: o ESG (Environmental, Social e Governance), que se refere às práticas organizacionais voltadas ao meio ambiente, à responsabilidade social – incluindo direitos humanos, leis trabalhistas e diversidade de gênero – e governança, que diz respeito à administração corporativa. Segundo o Climate Change and Sustainability Services, da Ernest Young, os critérios utilizados para formular o ESG da marca estão relacionados aos ODS, que ajudam a direcionar melhor a conduta da empresa que se posiciona em favor de tais práticas. Em pesquisa realizada pela Rede Brasil do Pacto Global (2022), foi apontado que 77% dos investidores institucionais pesquisados pela PwC planejam parar de comprar produtos não ESG nos próximos anos, fato que incitou a busca pelo termo no Brasil, que apresentou um crescimento de 150% e colocou o país no top 1 de interesse pela sigla e entre os 25 que mais buscaram pela temática nos últimos 12 meses (Globo, 2022). Tudo isso marca um período em que as empresas, em especial as atuantes no Brasil, passam a exercer maior participação em questões de interesse público, o que faz com que, ainda que seja, inicialmente, um movimento que visa o favorecimento próprio, tem efeito em mudanças de percepções genuínas por parte do público e da sociedade em geral, que impactam consideravelmente em questões que, por exemplo, abranjam o meio ambiente e a representatividade no mercado de trabalho, e que contribuam para o desenvolvimento dos contextos sociais, ainda que a longo prazo. Ciberativismo e Femvertising Se com as mídias de massa, as campanhas e movimentos sociais dependiam de interações físicas para que suas ações tivessem efeitos, a migração das comunidades para o meio digital possibilitou que a coordenação e mesmo o início de novas militâncias se realizassem em rede, com a participação remota, o que facilitou e alavancouainda mais as temáticas de cunho político-social. No momento em que adquirem habilidades de domínio das tecnologias, os grupos sociais ganham autonomia e “traçam seus destinos e incorporam a capacidade de transformação das sociedades” (Castells, 1999, p. 44). Do ponto de vista comunicacional, a maior acessibilidade e imediatismo no acesso à informação, induzida pelos meios 36 digitais, permite uma proximidade maior entre emissor e receptor, da mesma forma que intensificam a checagem da autenticidade das ações organizacionais e a verificação do alinhamento entre o que as empresas têm feito mediante o que propagam. Dessa forma, o ciberativismo, nasce como forma de “disputa tecnosocial, tencionando a internet a evoluir para uma tecnologia não proprietária” (Alcântara, 2015, p. 77), evento também percebido por Castells, quando afirma: Esses movimentos sociais em rede são novos tipos de movimentos democráticos, movimentos que estão reconstruindo a esfera pública no espaço de autonomia constituído em torno da interação entre localidades e redes da internet, fazendo experiências com as tomadas de decisão com base em assembleias e reconstituindo a confiança como alicerce da interação humana. (Castells, 2013, p. 177). Portanto, quando a publicidade de uma organização assume um viés social, que tem sido englobado nos contextos administrativos de grandes marcas, essa não inviabiliza o Estado de criar métodos que proponham garantias para uma sociedade mais harmônica, todavia incentiva os próprios atores sociais a desenvolver soluções para problemas que o setor público, isoladamente, seria incapaz de resolver. Em outras palavras, ao se posicionar diante das temáticas que se fazem presentes no meio social, as organizações e instituições que são tidas como estruturas sociais dominantes, desempenham um papel estratégico na formulação da consciência social (Castells, 1999, p. 501), fortalecendo os processos de desconstrução de padrões e propondo a construção de novas perspectivas. Por isso a importância de pensar estratégias que promovam a mobilização e, consequentemente, mudanças nas relações intersociais. Nesse sentido, o ciberativismo, que segundo Araújo et al (2012) surge na fase de popularização da web, abre espaços para problemáticas de minorias sociais, também se estruturando na ideia de identidade, que reforça a participação dos públicos. A reivindicação de voz e lugares às populações reconhecidas como minorias, tem início na ideia de nacionalismo cultural, proposta por Yoshino (1992), a qual entende que os movimentos sociais nascem da meta de regenerar a comunidade nacional, criando, preservando ou fortalecendo a identidade cultural de um povo, a partir do momento em que essa é extinguida ou está sendo ameaçada (Yoshino, 1992, apud Castells, 2002, p. 58). Sabendo que apoiar identidades refutadas pela política e socialmente, é uma ação interessante, tanto do ponto de vista político como comercial, as organizações passam por 37 um movimento de incorporação de causas sociais em sua governança, de modo que seja pertinente, tendo relação com a missão, a visão e os valores da marca. A partir dessa noção, também é necessário entender que, para alcançar um bom desempenho, uma rede deve levar em conta dois importantes atributos: a conectividade, promovendo uma comunicação clara entre os envolvidos, e a coerência, considerando o teor da mensagem e como se relaciona com o caráter de quem a emite (Castells, 1999, p. 232). É notório o poder de influência que tem a publicidade na construção de lugares de fala e pertencimento, o que ficou ainda mais demarcado com a revolução das mídias no mundo pós-internet, isso vale também para a reprodução e desconstrução de comportamentos, e quando se trata de feminilidade, não é diferente. Por muitos anos, a mulher foi retratada em campanhas como sinônimo de fragilidade, delicadeza e sensualidade. O tom dos anúncios reforçava a objetificação do feminino, colocando as necessidades e desejos da mulher em segundo plano, e usando como instrumento de persuasão a satisfação ao marido. Com o passar dos anos, os contextos mudaram, a mulher passou a ocupar mais espaços no mercado de trabalho e a ter maior autonomia financeira, mudando também os comportamentos sociais, políticos e, consequentemente, de consumo. Assim, em conformidade com as transformações que acontecem na sociedade, a publicidade teve que adaptar suas temáticas, tom e abordagem às novas demandas, a partir da compreensão de que a compra é apenas o processo final e que a jornada de consumo tem início já no posicionamento da marca em relação às dores de seu público. Nesse sentido, surgiu o termo Femvertising12, que une ‘feminino’ à ‘propaganda’ e aborda o desenvolvimento de um novo modelo de comunicação direcionada à mulher. A importância da iniciativa de escutar as necessidades reais do público feminino, se faz notável nos resultados do projeto ShowUs que, em 2019, uniu as empresas Getty Images, GirlGaze e a Dove com uma proposta de criação e distribuição de imagens que representassem mulheres fora dos padrões impostos estruturalmente, propondo uma nova 12 Criado em 2014 pelo grupo She Media, com a iniciativa de abordar campanhas voltadas à igualdade de gênero. 38 linguagem à comunicação das empresas. Em 2021, dois anos após o lançamento do projeto, uma nova análise foi feita e constatou que: [...] as pesquisas globais de clientes na plataforma de imagens aumentaram para 'mulher real' (até 150%), 'beleza natural' (mais de 100%) e 'corpo positivo' (mais de 470%) enquanto novos termos de pesquisa apareceram como 'sem retoques' e 'mulher autêntica'. [...] uma nova pesquisa mostrou que apenas 43% das mulheres brasileiras disseram que estão bem representadas na publicidade e apenas 23% se consideram bem representadas nas comunicações das empresas que fazem negócios. (Glamour Globo, 2021). Assim, a publicidade assume sua responsabilidade social e através de anúncios/campanhas, ajudam a combater preconceitos e barreiras sociais e de gênero. No entanto, é necessário que a marca reproduza essas ações também em sua cultura interna, e não utilize o feminismo apenas como uma ferramenta de venda, mas com o verdadeiro propósito de adotar políticas que valorizem a mulher e garanta os seus benefícios na prática. Marketing esportivo e Patrocínios Quanto à construção contínua de imagem de marca, uma das principais formas de efetivar como ela deseja ser lembrada é por meio das conexões criadas com seus públicos por meio de iniciativas institucionais. A partir do patrocínio, é possível ampliar o reconhecimento da marca e gerar a lembrança desejada, aumentando as dimensões da comunicação, podendo criar experiências para atrair todos os sentidos, encorajando a participação e transmitindo diversas emoções inerentes ao esporte (Contursi, 2003, p. 22- 23). Além do que, quando uma ideia é proposta por uma empresa em conjunto com uma outra figura, essa tende a gerar interesse, tanto por quem a patrocina, como por quem a propaga, e ainda pela ideia em si, despertando novas percepções a respeito dessa. A noção de que produto é tudo aquilo que pode ser ofertado comercialmente para fins de atenção, aquisição, uso ou consumo, buscando satisfazer a um desejo ou necessidade, proposta por Kotler e Armstrong (2008) Aplicando esse tipo de estratégia no âmbito esportivo, é interessante pensar que para realizar uma ação com um time, atleta ou evento do esporte, uma marca não tem, necessariamente, que fazer parte desse nicho. No entanto, ainda que exista uma questão de custo/benefício que impulsiona as empresas 39 a realizarem inserções comunicacionais por meio de modalidades esportivas, buscando maior visibilidade, é extremamente importante que essas não estejam focadas apenas em chamar atenção, mas que se preocupem tambémcom a conexão real existente entre a marca e o que ou quem está sendo patrocinado, que também se trata de uma marca. Isso se deve ao fato de o patrocínio ser uma estratégia que tem como princípio o alinhamento de valores e comportamentos entre marcas diferentes, contribuem para o valor da marca e seus ativos simbólicos. Dessa forma, Aaker define valor, a partir do que chamou de brand equity: [...] um conjunto de ativos e de passivos ligados a uma marca, ao seu nome e símbolo, que se adicionam ou se subtraem ao valor proporcionado a um serviço (Aaker, 1991, p. 15). Segundo o mesmo autor, existem cinco fatores que colaboram para a estruturação do valor: a lealdade à marca; o reconhecimento da marca; a qualidade percebida; as associações feitas e outros ativos da empresa que se agregam à marca (Aaker, 1998). Assim, fica entendido que a imagem de uma empresa é formulada por diferentes circunstâncias e que, portanto, ter uma grande audiência não significa ter uma boa reputação, mas essa deve se valer também da lembrança que constrói junto ao público, levando em conta o fato de que uma boa lembrança de marca se torna uma grande vantagem competitiva. Dentro do patrocínio esportivo, é preciso também levar em conta as mudanças em relação a contextos culturais e sociais, que influenciam diretamente no comportamento do consumidor ou, no caso, do torcedor. Nesse sentido, Melo Neto (2013, p. 125) percebe implicações como “o aumento da visão crítica e do poder de conexão, a expansão do consumo, a propensão à interatividade que reflete em maiores exigências de conteúdo, a busca por gratificação instantânea e maiores exigências de desempenho, resultando em uma maior capacidade de análise”. Assim, o patrocínio pode desempenhar papel significativo no âmbito social, do ponto de vista em que propõe valores que somam à harmonia de interesses, “desestimulando práticas que desfavorecem parcelas da sociedade” (Vaz, 2003, p. 283), abraçando grupos menos favorecidos e propondo mudanças de paradigmas, como a desigualdade de gênero dentro do futebol. Com isso, é imprescindível às empresas a 40 noção de que o patrocínio é um viés que se relaciona com a comunicação institucional e, por isso, tem que se relacionar aos valores dessa instituição. Devido a demanda de pertinência nos discursos e ações realizados por uma empresa, não é mais suficiente apenas abordar atributos que possam fortalecer a marca, mas fazer com que o público os veja e vivencie na prática, possibilita compreender o patrocínio como uma ferramenta de comunicação, a qual ajuda a promover a imagem de uma marca, do mesmo modo que transmite a mensagem desejada no momento ideal, em que o público-alvo se encontra disponível para recebê-la. Dessa forma, a fim de otimizar as estratégias do marketing de patrocínio, existem quatro elementos que ajudam a promover um bom desempenho à campanha: propriedade, preço, parceria e publicidade. Abordando os últimos dois de maneira mais abrangente, é necessário entender que a parceria não se limita ao contrato estabelecido entre as duas marcas e, para Melo Neto (2013), essa conexão envolve trabalho conjunto, desempenho de novos papéis, compartilhamento de capacidades, intercâmbio de experiências e troca de sinergias, e a publicidade permite que a comunicação seja ampliada, concedendo maior visibilidade à marca, o que, portanto, exige uma boa estruturação de sua imagem e princípios, preferencialmente similares aos do patrocinado. Portanto, é indispensável que as organizações compreendam o poder de influência que tem o esporte, as representações e os representantes desse nicho sobre os valores e comportamentos de consumo de uma sociedade. Prova disso, foi quando o jogador português de futebol, Cristiano Ronaldo, retirou as garrafas de Coca-Cola de sua frente em meio a uma coletiva de imprensa, trocando pela garrafa de água. A atitude polêmica, a ponto de ocasionar um prejuízo de 4 bilhões de dólares à Coca-Cola (UOL, 2021)13, tem total alinhamento com a imagem do atleta, que tem um perfil extremamente rígido em relação à sua saúde, propagando um estilo de vida que coloca sua integridade física sempre em primeiro lugar. Tudo isso, ressalta a urgência com que deve ser tratada a coerência entre patrocinador e patrocinado, considerando o posicionamento, os valores e a reputação de ambas as partes. 13 GESTO de cristiano ronaldo faz coca-cola perder us$ 4 bilhões. Uol, 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=HzM1QezKOKk> Acesso em: 13/05/2022. 41 Mulher, e futebol e mídia Fazendo uma comparação através de dados históricos, enquanto no Brasil a prática do futebol feminino era proibida em 1941, em 1938 o jogador Leônidas da Silva – o Diamante Negro – vinha a ser consagrado o melhor na Copa do Mundo (Globo Esporte, 2013), fatos que possibilitam observar como se deu o avanço de cada modalidade e que a desigualdade se faz presente desde suas raízes. Outro fato que evidencia esse paralelo, é referente à regularização do Campeonato Brasileiro, sendo que a modalidade masculina teve a sua primeira edição em 1959 e a feminina só veio a estrear no ano de 2013, isto é, mais de meio século depois. Apesar de muito desses referenciais retrógrados serem ecoados na sociedade, atualmente, com as mídias digitais, novos contextos são percebidos, caracterizados por uma abordagem que tem como princípio a representatividade, especialmente dentro da comunicação social, em que o respeito e a equidade passam a coordenar as relações marca-público. A igualdade de gênero é uma questão que vem sendo cobrada de forma recorrente em todos os campos de trabalho, incluindo aí o futebol. Sabendo que somente na década de 70 a prática foi legalizada por lei e só regulamentada no ano de 1983, é possível imaginar os prejuízos de tamanho atraso para a modalidade. No entanto, as diferenças nos desafios que atletas homens e mulheres precisam enfrentar não param por aí. Dentro de um cenário completamente machista, algumas mulheres têm ainda que lidar com uma questão controversa no mercado de trabalho: a maternidade. Um exemplo é a jogadora da Seleção Brasileira, Tamires, que aos 21 anos descobriu a gravidez e, pela gestação em si e as demandas de cuidados com o filho, ficou afastada do gramado por quatro anos. Outro dado que escancara a maneira como a sociedade estabelece os direitos da mulher é referente ao número de atletas da Seleção Brasileira de Futebol de 2019 das modalidades feminina e masculina que eram pais: entre os homens, apenas seis não tinham filhos, enquanto em relação às mulheres, só Tamires era mãe (El País, 2019), isto é, é social, cultural e politicamente possível que o homem trabalhe e exerça a paternidade, todavia cabe à mulher o direito de escolher sobre o que renunciar. 42 Apesar de na maior parte do tempo estar nadando contra a correnteza, o futebol brasileiro feminino vem, cada vez mais, ganhando força e ocupando espaços, antes inimagináveis e algumas atitudes servem de impulsos para que essa realidade se torne a cada dia mais concreta, como em 2019, quando a CBF determinou aos times integrantes da série A do Campeonato Brasileiro, a criação e manutenção das equipes femininas nas categorias adulto e de base como requisito para a participação no torneio, considerando que apenas sete dos vinte clubes tinham as equipes femininas estruturadas (El País, 2019). Tudo isso impacta, ainda, na inserção de mulheres em outros espaços também masculinizados no futebol, como no jornalismo, na arbitragem, na comissão técnica, entre outros. Aqui, se faz necessário destacar conquistas dos últimos três anos, que somam e impactam no futebol feminino como um todo. Entre os anos de 2019 e 2021: a jornalista e narradora Renata Silveira foi contratada pelo Grupo Globo, se tornando a primeira na emissora a narrar disputasfemininas e masculinas; a árbitra brasileira Edina Alves fez história ao se tornar a primeira a apitar uma partida em um campeonato internacional masculino – o Mundial de Clubes FIFA; a Copa do Mundo de 2019, que teve sua primeira transmissão em televisão aberta; a retirada das cinco estrelas da camisa feminina, criando uma identidade própria, de uma camisa exclusiva, sem alusão à masculina e que tem o intuito de inspirar novas atletas a acreditar que podem conquistar suas próprias estrelas. Dessa forma, se faz necessário compreender a publicidade como oportunidade, e não oportunismo, em que uma marca se aproveita da visibilidade de uma pauta com o simples objetivo de obter destaque. Antes de assumir um posicionamento, portanto, é importante observar de que maneira o assunto se conecta aos princípios e às práticas da empresa patrocinadora, apresentando pertinência em sua comunicação. Neoenergia Atuante no Brasil desde 1997, a Neoenergia é uma empresa controlada pelo grupo espanhol Iberdrola e trabalha com a geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica em 18 estados e no Distrito Federal. A organização é responsável por 7 usinas hidrelétricas, 44 parques eólicos e 2 parques solares, e se encontra em um processo de transição, no qual tem o objetivo de aumentar a porcentagem da geração de 43 energia por meio de fontes renováveis (Neoenergia, 2021)14. Assim, a empresa estabelece como propósito: [...] continuar construindo, a cada dia de forma colaborativa, um modelo de energia elétrica mais saudável e acessível, que contribuirá com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) aprovados pela Organização das Nações Unidas, especialmente os relativos: ao acesso à energia elétrica; ao fornecimento de energia acessível; à luta contra a mudança climática; à promoção da inovação; ao desenvolvimento da educação; à proteção da biodiversidade; ao desenvolvimento de relações profissionais baseadas na diversidade, na inclusão e no sentido de pertencimento; à igualdade de oportunidades e à não discriminação na gestão de pessoas; ao empoderamento da mulher e dos grupos de pessoas menos favorecidas; e ao respeito e proteção dos direitos humanos, em sua esfera de atuação. (Neoenergia, 2021)15. Nesse sentido, sabendo da necessidade de assumir um posicionamento que integre a responsabilidade social, fortalecendo o valor e a qualidade da gestão da organização, a Neoenergia, em 2018, incorporou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU em sua governança corporativa, distribuindo-os como de contribuição direta, indireta e aos que são destinados maior foco. Figura 1 – Sistematização dos ODS pela Neoenergia16 Fonte: Site da Neoenergia, 2018. 14EXCELÊNCIA operacional na geração de energia limpa. Neonergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/pt-br/sobre-nos/linhas-de-negocios/renovaveis/Paginas/default.aspx> Acesso em: 24/05/2022. 15 INTRODUÇÃO ao Sistema de Governança e Sustentabilidade. Neoenergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/pt-br/governanca-corporativa/sistema-de-governanca- corporativa/Documents/politicas-2021/Introducao-Sistema-de-Governanca-e-Sustentabilidade- Atualizada-09.02.2021-vF.pdf> Acesso em: 24/05/2022. 16https://www.neoenergia.com/pt-br/sustentabilidade/comprometidos-objetivos-desenvolvimento- sustentavel/Paginas/default.aspx 44 Como forma de colocar tais objetivos em prática, a empresa conta com o suporte do Instituto Neoenergia, criado em 2015 e que tem como foco ações socioambientais, colaborando para a criação de oportunidades e maior qualidade de vida às comunidades onde a organização atua. O Corredor Verde, por exemplo, é um dos projetos do Instituto, possuindo um trecho com 18 postos de abastecimento de carros elétricos e híbridos, com cerca de 1000 km de extensão, passando pelas capitais dos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Além disso, a empresa incorporou em sua frota, veículos elétricos para uso administrativo, instalando pontos de recarga também nas bases da empresa (Neoenergia, 2021)17. Já em relação a iniciativas que promovem a maior inserção e valorização da mulher no mercado de trabalho, a Neoenergia criou o Prêmio Inspirar, que teve sua primeira edição em 2021, reconhecendo e buscando expandir projetos relacionados à arte e cultura, atuantes em periferias e liderados por mulheres. Nesse mesmo viés, foi estruturada em 2019, a Escola de Eletricistas para mulheres nos estados Bahia e Pernambuco, que surge da meta de estimular o aumento de mulheres em espaços de predominância masculina, muitas vezes por falta de oportunidades concedidas a elas. O projeto teve início em 2017 e, percebendo o crescimento do interesse do público feminino, se deu conta da necessidade de turmas exclusivas para mulheres que, após a conclusão do curso tendem a ser contratadas por distribuidoras da própria empresa (Neoenergia, 2021)18, visando também atender ao ODS de número 5, que diz respeito à incorporação da igualdade de gênero nos papeis da organização. Tal projeto ganhou ainda reconhecimento da ONU Mulheres19, que considerou a companhia brasileira um exemplo de um dos Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, na sigla em inglês): o de promoção da educação e desenvolvimento profissional para as mulheres. É importante ressaltar que tais ações não se deram repentinamente, recebendo influência do que a Iberdrola tem realizado. A empresa espanhola que detém 53,5% das 17 MOBILIDADE mais sustentável. Neoenergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/pt- br/mobilidade-mais-sustentavel/Paginas/default.aspx>Acesso em: 24/05/2022. 18 ESCOLA de eletricistas. Neoenergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/escola-de- eletricistas/Paginas/default.aspx> Acesso em: 19/09/2022. 19 ESCOLA de eletricistas da Neoenergia para mulheres é reconhecida pela ONU. Neoenergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/pt-br/sala-de-imprensa/noticias/Paginas/escola-eletricistas- neoenergia-para-mulheres-reconhecida-pela-onu-mulheres.aspx> Acesso em: 19/09/2022. 45 ações da Neoenergia20, já vinha fomentando a participação feminina no mercado de trabalho, bem como a valorização profissional dessas, criando, para isso, propostas similares em todas as suas companhias. A compreensão de que, com tamanha representatividade, poderia estender o seu suporte à profissionalização da mulher a outros campos onde a invisibilidade e a desvalorização salarial também se fazem presentes, fez com que a Iberdrola enxergasse no esporte uma oportunidade de ampliar as suas iniciativas, de maneira a promover o seu nome. Dessa forma, se tornou em 2016, a principal patrocinadora da Seleção Feminina de Futebol da Espanha e da primeira divisão do campeonato espanhol, que passou a se chamar Liga Iberdrola21, impactando em avanços para a modalidade, como o aumento da visibilidade, com coberturas gratuitas dos jogos e crescimento do público nos estádios, como aconteceu em abril de 2022 em uma partida entre Barcelona e Wolfsburg, em que a quantidade de espectadores chegou a uma marca recorde para o futebol feminino em todo o mundo: 91.648. Apesar de mostrar maior envolvimento com o futebol, a empresa ainda oferece suporte a outras modalidades na Espanha, como: atletismo, badminton, handebol, boxe, esportes praticados no gelo, esgrima, ginástica, hóquei, karatê, rugby, canoagem, triatlo, pingue-pongue, surfe e voleibol22, todas femininas. Recentemente, a Iberdrola passou também a ter a espanhola Alexia Putellas – eleita melhor jogadora de futebol do mundo em 2021 – como embaixadora da igualdade no esporte. Observando tais resultados, é possível afirmar que ações como essas foram fundamentais para a estruturação da campanha Igualdade Em Todos Os Campos pela Neoenergia, reforçando o seu compromisso comdois de seus pilares: a igualdade de gênero e o desenvolvimento social. Dessa forma, tendo o esporte como uma grande ferramenta de inclusão, respeito e disciplina, somado às iniciativas que promovem a mulher no mercado de trabalho e se alinhando à proposta institucional global, a organização introduziu o patrocínio à Seleção Brasileira de Futebol Feminino e o 20COMPOSIÇÃO acionaria. Neoenergia, 2021. Disponível em: <https://ri.neoenergia.com/governanca/composicao-acionaria/> Acesso em: 19/09/2022. 21FUTBOL feminino. Iberdrola, 2022. Disponível em: <https://www.iberdrola.com/compromiso- social/deporte-femenino/futbol-femenino> Acesso em: 19/09/2022. 22IBERDROLA e o orgulho em apoiar estrelas. Neonergia, 2021. Disponível em: <https://www.neoenergia.com/pt-br/igualdadeemtodososcampos/Paginas/iberdrola-orgulho-em-apoiar- estrelas.aspx> Acesso em: 19/09/2022. 46 campeonato brasileiro feminino, que passou a se chamar Brasileirão Neoenergia, tudo isso de forma exclusiva, feito até então inédito. Voltando a análise à comunicação institucional da Neoenergia relacionada ao patrocínio à Seleção Brasileira, o qual é o foco do presente estudo, o contrato que teve início em 2021 com previsão de se estender até 2024, permite ações como a comunicação da marca no uniforme de treino da equipe e canais da Neoenergia e da Seleção. Direcionando para o campo de atuação da Neoenergia, segundo disponibilizado no site da empresa, atualmente a organização tem nas suas equipes corporativas 43% de mulheres e 44% na Diretoria Executiva23, dados fundamentais, partindo da perspectiva de que para que um trabalho assim alcance os resultados almejados, é necessário, primeiro, que todo o conteúdo comunicado e associações construídas estejam alinhados ao que é realizado também dentro da empresa, de forma que não haja ruídos entre o que é dito e o que está sendo feito de fato. RESULTADOS DA ANÁLISE Uma vez coletados os dados do site na sua visão geral das atividades institucionais já descritas nesta pesquisa, a análise textual e imagética do corpus das 420 postagens do perfil do Instagram da Companhia foi estudada tendo como referência o método de análise do discurso. No que concerne incialmente à um olhar quantitativo do período de junho de 2021, data do início do patrocínio exclusivo ao futebol brasileiro feminino, até junho de 2022, o perfil apresentou 296 postagens relacionadas ao patrocínio diretamente a questões femininas, seja diretamente ligada ao patrocínio esportivo, seja à campanha Igualdade em Todos os Campos ou à inserção das mulheres no mercado de trabalho, ou seja, mais de 50% das mensagens neste período de um ano. A análise nos revelou coerência em retratar atletas e mulheres de forma afirmativa e positiva, não fugindo às questões desafiadoras do cenário feminino, mas incentivando e mostrando valorizar a causa que patrocina. 23NEOENERGIA reforça diversidade. Neoenergia, 2021. Disponível em: https://www.neoenergia.com/pt- br/sala-de-imprensa/noticias/Paginas/neoenergia-reforca-diversidade-promove-iniciativas-sobre-tema- colaboradores.aspx Acesso em: 19/09/2022. 47 Neste texto, afim de exemplificar o que foi coletado, apresentaremos somente uma das análises que compuseram o trabalho completo. O primeiro conteúdo analisado, que aqui representa um resumo da forma como se posicionou a empresa nas postagens sobre o patrocínio em praticamente todo o corpus da amostragem, se trata de um vídeo, com narração de uma colaboradora da Neoenergia e imagens da seleção brasileira, mescladas a atividades do setor da energia elétrica, ambas desempenhadas por mulheres, apresentando o seguinte texto: “Você faz a atividade, seja em qualquer profissão, baseado em um treinamento, baseado em conhecimento, e é isso que vai possibilitar que você faça qualquer atividade muito bem executada. Não é uma questão de gênero, é uma questão de conhecimento. Não só com eletricidade, como qualquer outra profissão.” No primeiro frame, está a comissão técnica da seleção brasileira de futebol feminino, com foco na técnica Pia Sundhage, uma das poucas mulheres à frente de uma seleção, ainda que na modalidade feminina. A isso, se soma o fato de quem em 2019, durante a Copa do Mundo, das 24 seleções classificadas para a disputa, apenas 9 estavam sob comando feminino (O Globo, 2019)24. Figura 2 - Peça 1 (primeiro frame) Fonte: Instagram Neoenergia25 Ao construir uma narrativa que incorpora a temática da igualdade de gênero, a marca assume um discurso de representatividade que, com repetição e ações pertinentes 24 https://oglobo.globo.com/esportes/celina/treinadoras-sao-minoria-no-futebol-feminino-mas-tem- melhores-resultados-23758120 25 https://www.instagram.com/p/CPlRaSDLQFn/ 48 ao que está sendo comunicado, pode, com o tempo, compor a identidade da marca. Sobre esse assunto, Maingueneau (2002) afirma: A marca encarna, assim, a sua identidade por intermédio dos discursos que ela produz, e a esse respeito o processo de incorporação desempenha um papel importante, pois ele é mediador entre o princípio abstrato representado pela marca e os conteúdos que ela pretende veicular. (Maingueneau, 2002, p. 212, 213) Nesse sentido, o discurso engloba duas profissões em que há menor participação feminina justamente pela falta de oportunidades destinadas aquelas que pretendem seguir tais carreiras, onde ainda lidam com o preconceito e a desvalorização. Ainda nesse trecho, no segundo frame, é interessante perceber como foi construída a consonância entre texto e imagem: à esquerda o vestiário feminino da seleção e a frase “baseado em um treinamento”, e à direita uma colaboradora da Neoenergia e “baseado em conhecimento”, demonstrando os principais motores de cada uma das profissões, que têm menor investimentos destinados às mulheres, não por falta de interesse ou de qualificação, mas por ausência de oportunidades que ajudem a valorizar o seu trabalho e possibilite maior inserção em campos em que a sociedade as privou por muito tempo. Figura 3 - Peça 1 (segundo frame) Fonte: Instagram Neoenergia 49 No âmbito do discurso, toda narrativa é composta por um ritmo e entonação que a configura uma personalidade. Segundo Maingueneau (2002, p. 99), “a enunciação leva o co-enunciador a conferir um ethos ao seu fiador”, isto é, quando a Neoenergia constrói um discurso de igualdade de gênero, por exemplo, a temática levantada faz com que o receptor associe uma ideia de caráter e corporalidade à empresa. Dessa forma, a utilização de uma colaboradora como porta-voz da mensagem, como foi realizado no próximo frame, acrescenta credibilidade à fala da empresa, aproximando do objetivo pelo qual um discurso é estruturado: mobilizar. Figura 4 - Peça 1 (terceiro frame) Fonte: Instagram Neoenergia Assim, a partir do vídeo e da legenda: “Não é uma questão de gênero, é uma questão de oportunidade! Está no nosso DNA o compromisso com a igualdade de gênero e o empoderamento feminino. E agora, vestimos a camisa, entramos em campo e nos tornamos a primeira empresa no país a patrocinar exclusivamente a Seleção Brasileira Feminina de futebol! A parceria também prevê apoio à competição nacional de clubes, que já a partir da próxima rodada passa a se chamar Brasileirão Feminino Neoenergia! Vamos juntos pela #igualdadeemtodososcampos?!”, a Neoenergia se apresenta como uma marca engajada em atender às demandas das mulheres no mercado de trabalho, reforçando tal posicionamento com o feito inédito de se tornar a primeira empresa no Brasil a patrocinar a Seleção Brasileira Feminina de futebol de maneira exclusiva. CONSIDERAÇÕES FINAIS 50 A compreensão de discurso não se restringe a comunicar, mas principalmente ao que está sendo desempenhado pela organização. Assim, para responder à questão problema, é de grande importância observar que,antes de dar início ao patrocínio, a Neoenergia primeiro se preocupou em incorporar os 17 ODS em sua governança corporativa, com destaque para o de número 5 que trata da igualdade de gênero, bem como aumentar a inserção de mulheres em seu corpo diretivo e corporativo26, além de criar o Instituto Neoenergia, que possibilitou a iniciação de projetos como a Escola de Eletricistas, com turmas exclusivas para mulheres. Outro fato que antecede o início da campanha, é o patrocínio da Iberdrola à Seleção Espanhola de Futebol Feminino, em que a extensão da iniciativa para a Neoenergia, pode ser vista como um modo de padronizar um posicionamento junto às filiais, como também fez a empresa brasileira posteriormente, levando o seu nome às outras sedes e fortalecendo a identidade da marca. Tudo isso prova que o discurso propagado em seus canais de comunicação, foi construído com base em ações que agregassem valor à imagem e credibilidade à voz da empresa, e assim a tornassem pertinente em seu posicionamento, confirmando a hipótese de que a campanha Igualdade Em Todos Os Campos foi uma estratégia adotada pela Neoenergia a fim de publicizar o seu papel nas transformações referentes à inserção feminina nos campos da energia elétrica e do futebol, ao mesmo tempo em que refuta a ideia de que essa foi uma maneira de aproveitar a visibilidade crescente da modalidade, sem a preocupação em ser condizente com os valores da empresa. Analisando os conteúdos publicados no perfil do Instagram da empresa, foi possível classificar os conteúdos entre informativo e de cunho institucional. O primeiro apresenta uma comunicação educativa, que trata mais especificamente de acontecimentos no âmbito do futebol brasileiro feminino, do ponto de vista de que, para impulsionar a valorização, é preciso antes, fomentar o interesse público, dando base a discussões e possibilitando a modificação de perspectivas. Já sob a ótica da comunicação corporativa, a empresa se coloca como parte importante nas conquistas do futebol feminino, não só referente a títulos – já que a marca tem destaque nas premiações – mas, principalmente, 26 Segundo dados de 2021, a organização tem nas suas equipes corporativas 43% de mulheres e 44% na Diretoria Executiva. Disponível em: https://www.neoenergia.com/pt-br/sala-de- imprensa/noticias/Paginas/neoenergia-reforca-diversidade-promove-iniciativas-sobre-tema- colaboradores.aspx Acesso em: 19/09/2022. 51 na ampliação do alcance da mensagem, que pode ser comprovada por meio do aumento do número da audiência em transmissões e nos estádios. O entendimento de que um discurso pode reforçar uma identidade, assim como a comunicação social tem o poder de construir e desconstruir padrões, são percepções significativas que impulsionam ainda mais o papel da publicidade e do esporte na transformação das relações e dos padrões estabelecidos dentro de uma sociedade. REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, Lívia. Ciberativismo e movimentos sociais: mapeando discussões. In Aurora: revista de arte, mídia e política. São Paulo: PUC-SP, 2015. ARAUJO, Willian F.; FREITAS, Ernani; C.; MONTARDO, Sandra. P. Ciberativismo como cultura de mobilização imanente à internet. AAKER, David. Brand Equity “Gerenciando o Valor da Marca”. São Paulo: Negócio Editora, 1998. AAKER, David. Managing Brand Equity: Capitalizing on the Value of a Brand Name. New York: The Free Press, 1991. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Introdução à análise do discurso. Campinas – SP: Editora da Unicamp, 2004. 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Porto Alegre: Bookman, 2010. 53 54 BEM-ESTAR SEXUAL: ESTUDO DE RECEPÇÃO SOBRE A INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE NA DESCONSTRUÇÃO DE TABUS DA SEXUALIDADE E DO PRAZER FEMININO Ana Cristina Lopes Ferreira27 Jullena Santos de Alencar28 Em um contexto histórico, o sexo possui como destaque a figura masculina, enquanto a feminina é colocada em segundo plano, onde sua sexualidade e seu prazer são desvalorizados e colocados como refém do homem e da sociedade. Assim, a sexualidade e o prazer feminino foram desvalorizados ao longo dos séculos, regados de tabus que foram desenvolvidos através de mitos, preconceitos e falta de informações que influenciam na imagem e no papel social exercido por elas. A partir destas raízes, torna-se evidente a cobrança por pureza, fragilidade e submissão, mas que também remete a um padrão irreal e performático que sexualiza estes corpos. Essa esfera fez com que o assunto fosse ignorado e barrado por muito tempo. Desta forma, o tema desta pesquisa é “bem-estar Sexual: um estudo de recepção sobre a influência da publicidade na desconstrução de tabus da sexualidade e do prazer feminino”. Analisando a trajetória feminina na sociedade, percebe-se um aumento de empresas e organizações que se preocupam em desenvolver um mercado voltado para o bem-estar sexual das mulheres, trazendo discussões sobre a mente, o corpo e a sociedade. Deste modo, a questão problema desta pesquisa é: qual a influência da publicidade na desconstrução de tabus da sexualidade e do prazer feminino? Partindo da premissa que a informação era rara e inacessível, a figura feminina que era reprimida e ignorada começou a conquistar voz e espaço no meio social a partir do século XX. Os objetivos específicos deste trabalho foram apresentar os tabus da 27 Graduada em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. E-mail: publianacristina@gmail.com 28 Doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás. E-mail: junormando@gmail.com 55 sexualidade e do prazer feminino, analisando e descrevendo a percepção de mulheres cisgênero - que se identificam com o sexo ou gênero designado - sobre a presença e influência da publicidade na desconstrução de tabus na sexualidade e no prazer através da comunicação. Para complementar o estudo é importante compreender a presença do mercado de bem-estar sexual no Brasil e o olhar sobre os temas na sociedade. O desenvolvimento e transformação desse papel criarama necessidade da construção de um novo olhar que levanta a hipótese inicial deste trabalho: a publicidade possui participação na desconstrução de tabus da sexualidade e prazer feminino. A partir deste fator, expõe a segunda hipótese, na qual nota-se que esse processo influenciou a criação de produtos e serviços para esse público que era ignorado, acarretando na expansão do mercado de bem-estar sexual através do autocuidado e do prazer. Desta forma, acredita-se que este texto auxiliará na análise e no entendimento da pluralidade do olhar e das perspectivas femininas sobre a publicidade e a influência que ela exerce nos aspectos tangíveis e intangíveis da desconstrução de tabus da sexualidade e do prazer através do mercado de bem-estar sexual. METODOLOGIA A metodologia deste texto consiste em uma pesquisa qualitativa de natureza descritiva que utiliza dados bibliográficos e documentais, além de um estudo de recepção para a pesquisa e análise de fenômenos sociais relacionados ao tema. Para responder à questão problema, aos objetivos e as hipóteses, foram realizadas quatro entrevistas em profundidade. A escolha das participantes foi definida através das diversidades étnico- raciais e da orientação sexual, mantendo o anonimato de cada uma. Tabela 1: Participantes. Participante Idade Raça Gênero Orientação Sexual 1 23 Branca Feminino Heterossexual 2 22 Negra Feminino Heterossexual 56 3 21 Branca Feminino Pansexual 4 20 Parda Feminino Homossexual Foram selecionadas mulheres e jovens, pressupondo que elas já tinham contato com a educação sexual antes da realização das entrevistas. Para a análise da influência da publicidade e do mercado de bem-estar sexual foi definido um roteiro com questões semiestruturadas. É preciso ter em mente que falar sobre sexo e sexualidade pode gerar momentos de timidez, desconforto ou constrangimento. Por isso, o modelo foi definido para criar um ambiente confortável e acolhedor, possibilitando a coleta das informações necessárias para a análise do trabalho e respeitando os limites de cada participante. As transcrições das entrevistas foram realizadas usando o aplicativo Transkriptor, revisadas pelas autoras e encaminhadas para cada participante. A partir do software Studio R foram processadas nuvens de palavras para apresentar os temas de destaque em cada entrevista e auxiliar nos comentários e resultados obtidos. Definida a composição do trabalho, iniciou-se o estudo dos temas: tabu, mulher e sexualidade, prazer e mercado de bem-estar sexual para nortear esta pesquisa. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Del Priore (1993 e 2013) aponta em seus livros “Ao Sul do Corpo: Condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia” e “Histórias Íntimas: Sexualidade e erotismo na história do Brasil" o olhar sexista e machista da sociedade que reprime as mulheres e influencia negativamente o seu espaço social. Para aprofundar essa temática, faz-se necessário apresentar os fatores que norteiam os preconceitos, mitos e tabus. Assim, torna-se indispensável analisar a trajetória da mulher e da sexualidade, apontando como o autocuidado e o prazer foram por muito tempo esquecidos e proibidos. Entretanto, o acesso à informação fortalece espaço e local de fala, na qual o mercado de bem-estar sexual se expande. Para compreender esse processo, faz-se necessário 57 aprofundar os temas relacionados à sexualidade feminina, ao prazer e ao mercado de bem- estar sexual. Tabu Segundo Ferreira (1986), o conceito como uma proibição que é imposta por tradição ou costume a diversas ações, vestimentas, assuntos e diversos outros temas que são colocados como impuros, que não podem ser violados, sob pena de reprovação, perseguição e exclusão social. Existem diversos tabus na sociedade, entre eles, se destacam os de gênero e sexualidade, induzindo a práticas rigorosas que costumam reforçar mitos e preconceitos. Para compreender esse aspecto, Moraes e Lapeiz apontam que: Seja qual for a cultura, seja qual for a etnia, seja qual for a época, sempre há regras que impõem o modus vivendi em sociedade… a moral, não é então apenas uma lei dos costumes, mas sim uma imposição autoritária de rígidas formas de comportamento. […] Devidamente interiorizada, acaba sendo considerada uma 'coisa natural', a regra passa a ser o 'normal', e o proibido é instaurado para organizar as perversões. (Moraes; Lapeiz. 1985, p. 43 e 45) Com a influência gerada pelo tabu e o abalo moral, esses costumes afetam diretamente a sexualidade e o prazer. Historicamente, a mulher era identificada como uma das formas do mal que existia na terra, seja na filosofia, moral ou na ética, Del Priore (2011, p.35). Por isso, carregam em sua história diversos tabus e mitos que determinavam cada aspecto da vida, como o tabu da castidade, que consiste no valor excessivo da virgindade feminina, presente em diversas culturas ocidentais, acreditando-se na preservação de um “bem precioso”, relacionado à inocência e pureza que Furlani explica: Um tabu de influência comportamental alicerçado por ideias como a do “mito da virgindade feminina” como sinônimo de virtude, e reforçado pelo “mito da diferença de prazer entre homens e mulheres”. Esse último afirma haver uma necessidade masculina do sexo antes do casamento “naturalmente” determinada. Ao mesmo tempo em que “retira” da mulher esta possibilidade, revela a hipócrita moral sexista na determinação de tratamentos desiguais para os sexos em relação a direitos e deveres sexuais. (Furlani, 2003, p.89) 58 Entretanto, no desenvolvimento social, ocorreu uma divisão entre as imagens femininas, na qual uma carregava pureza e a outra carregava o pecado. Del Priore (1993) narra como após o Antigo Regime29 a mulher lasciva era vista como um perigo a ser evitado pelos homens, pois elas representavam o pecado da luxúria: Pintada com cores extravagantes pela Igreja, a luxúria constituiu-se num recurso perverso para a valorização da fecundidade legítima, ao mesmo tempo em que alimentava a função paradigmática dos papéis femininos que então se constituíam. A mulher luxuriosa, sem qualidades e devassa, opunha-se à santa- mãezinha. E por extensão, opunha à rua à casa, o ‘trato ilícito’ e a paixão ao casamento, o prazer físico ao dever conjugal. (Del Priore, 1993, p. 177) Assim, a mulher não poderia viver a sua sexualidade e prazer livremente, pois era vista como pecadora. Del Priore (2011) narra a mentalidade da sociedade influenciada pelo cristianismo, onde o sexo tinha como exclusividade a reprodução, colocando como tabu toda relação sexual que não tinha como foco a geração de filhos, ou que os evita-se, tal como posições que colocassem o homem em situações de submissão a mulher, sendo vistas como sujas e feias, colocadas como pecado, profanando o sagrado. A revista Super Interessante (edição de 30 de agosto de 2019) aponta os assuntos relacionados ao sexo passaram a ser vistos como um pecado: E aqui entra a culpa. Quem não pratica sexo da forma como mandam os textos sagrados vira juiz de si mesmo. Ninguém está ali para punir, mas o comportamento aprendido é de que, de alguma forma, uma força maior está observando e, cedo ou tarde, mandará um castigo. [...] A tradição da igreja, porém, encarava os seres humanos (e, principalmente, os homens) como “sujeitos a tentações”. “Fracos” que são, vivem caindo nas graças da lascívia [...] A coisa toda acabou se misturando com o mito do primeiro pecado, até por causa da poesia que a expressão “fruto proibido” foi adquirindo. Adãos fracos em sua resistência aos prazeres da carne30, pelas Evas a provar o fruto proibido31 (Kedouk,online, 2010, ed. 30 de Agosto). 29 O Antigo Regime, refere-se ao sistema social e político aristocrático estabelecido na França, o termo era utilizado no Séc. XVIII. 30 Segundo a Bíblia Cristã, a primeira mulher (Eva)caiu na tentação de provar o pecado e em seguida induziu o homem (Adão) a realizar o mesmo ato, sendo punidos por Deus. 31 Fruto proibido: fruta que representava o pecado. 59 Essa perspectiva aponta o repúdio moral ao prazer e a sexualidade feminina que ainda está presente na sociedade nos dias atuais. Nota-se a partir dessas imposições que as instituições possuem influência na formação e propagação de mitos e preconceitos na sociedade. Outro tabu presente na vivência de mulheres é a menstruação. Realizando uma retrospectiva, Del Priore (1993) aponta que a menstruação ou sangria - como era conhecida - era parte da transformação da mulher sob o olhar masculino, que era sinal de fertilidade. A partir destes conceitos, a sociedade definia o espaço sexual e o órgão sexual da mulher como motivos de vergonha, em que ocorria o desejo e a fecundidade, mas que ainda era tratado como tabu. Ampliando o tabu contra o corpo feminino, percebe-se que ainda hoje existem mitos e preconceitos e que apesar do assunto estar se popularizando, a masturbação feminina ainda é cercada de estereótipos e é tratada como algo "errado'', pois não está relacionado a reprodução. A consequência disso é a dificuldade de se abrir na hora do sexo, impedindo os orgasmos por falta de auto exploração no corpo, Glamurama (edição de 07 de maio de 2022). Desta forma, compreende-se que apesar do avanço da tecnologia e da informação, os tabus influenciam diretamente na sexualidade e no prazer feminino. Esse fenômeno afeta ainda os aspectos físicos e emocionais que precisam ser notados, analisados e debatidos para impulsionar e realizar uma desconstrução desses mitos, preconceitos e ideais. Mulher e sexualidade A sexualidade é um reflexo psicossocial e histórico, que é vivenciada a partir dos desejos e escolhas. Entretanto, o conhecimento e discussão sobre o sexo feminino foi negado e negligenciado por muitos séculos na cultura ocidental. Del Priore (2011), apresenta como a vagina foi por muito tempo considerada um pênis interior, o útero, uma bolsa escrotal; os ovários, testículos. No século passado, Chasseguet-Smirgel (1975) aprofundou as discussões e teorias de Freud sobre a sexualidade feminina, apontando 60 como o corpo masculino é tido como a figura central e como isso afeta toda a estrutura social e sexual de uma sociedade. Segundo Del Priore (2011, p. 35), o corpo feminino era visto na cultura ocidental, sob influência da Igreja e consequentemente, por grande parte da sociedade, em que os mistérios da sua fisiologia eram considerados repugnantes e impuros, na qual a mulher não podiam ter prazer, mas para homem ele era obrigatório. Pensamentos que tornaram a menstruação, o cheiro, as secreções, seus pelos e até mesmo o sorriso, considerados perigosos para a sociedade e principalmente para o homem, excluindo o prazer e reduzindo a mulher a bestialidade. Por meio desta análise, compreende-se a existência de uma forte influência da igreja, criando uma classificação e separação entre esposa e amante, na qual a primeira tinha o papel exclusivo de reprodução, cuidando da casa e da família, enquanto a segunda deveria satisfazer os desejos sexuais do homem e vivendo à margem da sociedade. Assim, percebe-se que a mulher não sofria apenas violências físicas, mas carregava consigo o abandono, o desprezo e o mal querer, Del Priore (2011, p. 65). Para além da diferença entre homens e mulheres, o Brasil carrega o racismo da sociedade colonial, onde negras, indígenas e pardas eram vistas como objetos de desejo e pecado, enquanto para mulher branca eram reservados galanteios e palavras amorosas, Del Priore (1993). Furlani (2003) aponta como as relações sexuais são construídas historicamente, determinadas por estruturas, modelos e valores determinantes da época, tornando-as relações sociais: Numa análise mais direcionada à sociedade brasileira, percebemos como a gradativa influência da mídia tem acelerado mudanças no comportamento sexual, refletindo no conjunto dos valores sociais, nas variações linguísticas, nas manifestações artístico-culturais, nos fetiches da moda, na construção das noções de feminino e masculino, nas formas de relacionamento entre os indivíduos, no papel de homens e mulheres na sociedade, no impulso e implemento das descobertas científicas, na facilidade de acesso aos métodos contraceptivos, no crescente aumento da industrial do sexo (seja ela real ou virtual). (Furlani, 2003, p. 14) Dessa forma, é possível analisar como a sexualidade imposta, que oculta e aprisiona informações afeta diretamente a imagem e o papel feminino dentro de uma cultura. Buscando esse olhar social, compreende-se as diferenças e desigualdades na sexualidade 61 de homens e mulheres, que são construídas através das hierarquias de uma sociedade, que é versátil e culturalmente adaptativa. Entendendo a influência que a sexualidade possui, faz-se necessário conhecer e explorar estes corpos que foram por tanto tempo, demonizados, desumanizados e ignorados, explorando o autocuidado e o prazer feminino. Prazer Furlani (2003) aborda como o sexo é taxativo, tornando-o uma competição, repleta de performances e comparações, o que consequentemente, torna as pessoas escravas de um conceito, esquecendo-se do processo e focando apenas no produto final (o orgasmo). Ela aborda ainda, a existência na cultura ocidental um mito que reforça uma assimetria sexual irreal no prazer e no desejo, levando a crenças falsas, tais quais: A mulher tem menos necessidades sexuais que o homem ou o homem sente mais necessidade de sexo do que a mulher… é difícil para a mulher alcançar o prazer e o orgasmo nos relacionamentos sexuais… consideram que a mulher “não ejacula”, retirando dela a possibilidade de também sentir prazer no ato sexual… a mulher sente menos interesse pelo sexo (Furlani, 2003, p.31). Existe uma pressão vivenciada nas relações sexuais de que o prazer está ligado somente ao orgasmo e a antecipação do “fim”. Segundo Masters e Johnson (1981, p. 47), pesquisas demonstram um padrão no orgasmo masculino, enquanto o feminino apresentava cinco variações. De acordo com a teoria evolucionista, a seleção biológica32 tornou a ejaculação uma necessidade para a sobrevivência da espécie, tal qual o animal. Furlani (2003) acredita que a partir dessa premissa, o orgasmo feminino sofreu maior diversidade e versatilidade no prazer, pois não era “fundamental” para a reprodução, assim, proporcionando um desenvolvimento biológico e comportamental que pode ter privilegiado o clitóris, fazendo com que as mulheres possam ter uma vida sexual mais prazerosa. 32 A seleção biológica aborda a maximização da reprodução, desta forma, quanto mais rápido atingir a ejaculação, menores seriam as chances de interrupção. 62 Nas análises Chasseguet-Smirgel (1975) e Furlani (2003), Sigmund Freud aborda a masturbação como sinal de imaturidade e até mesmo um distúrbio sexual. No artigo “Mulheres de todo o mundo: uni-vos”, Souza aponta que o movimento feminista contemporâneo se baseou na imposição do segundo sexo, onde as mulheres exigiam igualdade, para demolir as estruturas da sociedade. Entretanto, o movimento demorou a ser adotado no Brasil, motivos pelo qual o grupo, formado por rebeldes em 1970, criticava a inércia e comodidade da passividade das brasileiras. Para Del Priore (2011), a vida doméstica e a passividade eram reforçadas, colocando tudo que fosse contrário à delicadeza e ao discurso normativo como errado, criando uma imagem negativa das mulheres na sociedade, pois enquanto o mundo estava mudando, no Brasil era apenas teoria. Del Priore (2011), narra como a Revolução Sexual33 também por influência dos meios de comunicação, movimentos estudantis e feministas nas décadas de 1960 a 1970, foi amadurecendo lentamente o slogan do direito ao prazer,o que abriu as portas para a entrada na pílula anticoncepcional no Brasil. Assim, a sexualidade feminina poderia ser abordada, pois ser mãe se tornou uma escolha, o sexo deixou de ser exclusivamente para a procriação. A revista Dicas de Mulher (edição 12.07.2021) traz o psicoterapeuta sexual do Instituto Paulista de Sexualidade (Inpasex), Oswaldo M. Rodrigues para explicar que “o desejo sexual é um mecanismo com bases biológicas, mas com modificações e direcionamentos produzidos pelo mundo social e a interação interpessoal ou intersubjetiva”. Assim, percebe-se que o prazer feminino está ganhando destaque a partir de um novo olhar na sociedade, fazendo com que as marcas busquem um lugar nesse mercado que foi ignorado e negligenciado por tanto tempo. Bem-estar Sexual 33 A revolução sexual foi a conscientização de que problemas sexuais não faziam parte de um ambiente saudável ou “normal”. 63 De acordo com a revista Cláudia (edição 14 de dezembro de 2021), o termo bem- estar sexual (sexual wellness) surgiu da necessidade em atender o universo feminino, desprendendo-o da figura masculina, focando no bem-estar sexual, apresentando uma proposta voltada para o autocuidado, desapegando da erotização do prazer, que Flores (2021), define: Cada vez mais, marcas de bem-estar sexual feminino se destacam no mercado brasileiro, reinventando produtos e a maneira como as mulheres enxergam o prazer. Esse movimento busca distanciar o sexo e a masturbação da vergonha e de tabus para lá de datados e aproximá-los mais dos conceitos de saúde, bem- estar e autoconhecimento. Ganhou o nome de "sexual wellness" —e o status de autocuidado. (Flores, Universa, online, 2021) Apesar do desenvolvimento deste mercado, por muitos anos, empresas que fabricam produtos para a sexualidade e o prazer foram vistos como clandestinos, criando tabus em seu consumo. Acreditava-se que o uso de artigos sexuais estava relacionado a vícios ou a falta de um parceiro. Entretanto, o consumo destes produtos tem crescido, seja em conjunto ou sozinhas. Segundo a revista Personare, o uso de acessórios como vibradores e masturbadores tem aumentado a integração do casal. Em uma entrevista para a Men’s Health, a psicóloga clínica e terapeuta sexual, Rita Torres aponta que: Nas últimas décadas, os brinquedos sexuais passaram a ser utilizados sem tabus. É fácil ouvir falar deles, tanto através da comunicação social, como no grupo de amigos/as [...] O uso de brinquedos sexuais, sozinho ou acompanhado, tem como finalidade proporcionar uma experiência de prazer, que, muitas vezes, passa pela introdução de novas sensações e estímulos. Todos/as nós temos direito a uma sexualidade saudável, que é uma fonte de bem-estar, físico e psicológico. (Torres, Men’s Health, online, 2019) O empoderamento que trouxe consigo o olhar para os corpos femininos e a preocupação com a sexualidade e o prazer, mas, apesar do desenvolvimento, uma pesquisa realizada pelo PROSEX (Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo) em 2016, apontou que metade das brasileiras não atingem o orgasmo durante o sexo e até mesmo abordar o assunto é visto com estigmas, convivendo com dor, falta de lubrificação, vergonha do corpo, revista Universa (Edição 8, maio, 2021). 64 Trabalhando para romper tabus e levar a discussão da sexualidade e do prazer feminino para debate e consumo, as marcas de bem-estar sexual feminino se destacam no mercado brasileiro, repaginando produtos e ressignificando o prazer, Pinheiro (2021). Flores (2021), afirma que depois da beleza, o lucrativo mercado do autocuidado mira no sexo como caminho para o bem-estar feminino. As marcas mais comuns são os sex shops, que são frequentados por diversos motivos: satisfazer uma curiosidade, adquirir produtos para si e para amigos, Furlani (2003). Mas com a internet e a comunicação global na virada do século XXI, influenciaram a imersão, expansão, diversificação e a necessidade do mercado digital. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, no ano de 2017 cerca de 75% da população brasileira utilizava a internet e destes, 41,9% dos usuários são mulheres. Desta forma, nota-se uma crescente no mercado de bem-estar sexual e a necessidade de investimento na área. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) finalizou o ano de 2019 com cerca de R$1,7 bilhões em receitas devido ao mercado em ascensão, o número de consumidores de sex shops cresceu em todo o país. número de adeptos aos sex shops vem crescendo em todo o Brasil. Apesar da crise em diversos setores da economia devido a pandemia do coronavírus, em 2020 o mercado de produtos eróticos recebeu um aumento de vendas em quase 50% se comparado ao ano de 2019. Entretanto, a divulgação deste mercado ainda enfrenta diversas barreiras. Para entender melhor, analisa-se que uma das principais fontes de divulgação destes produtos ocorre através das redes sociais e da internet. Em contrapartida, redes sociais como o Instagram e o Facebook possuem em suas diretrizes de comunidade o impedimento da criação de anúncios que promovam a compra, venda ou utilização de produtos para adultos. Em uma entrevista para a revista Universa, a fundadora da marca Lilit, fabricante e vendedora de vibradores bullet, Marília Ponte, afirmou que: As sex techs têm dificuldades em divulgar seus produtos em plataformas tradicionais de marketing, como as redes sociais. Por ser uma marca de vibrador, não consigo patrocinar nenhum post nem criar uma loja no Instagram [...] O crescimento dessas marcas acaba sendo quase totalmente orgânico. (Ponte, apud Flores, Universa, online, 2021). 65 Por isso, a divulgação destas marcas e produtos acabam ocorrendo através de conteúdos online de forma orgânica e comunicação off, neste caso, o famoso boca a boca. Este fator dificulta o desenvolvimento do mercado, que ainda encontra grandes barreiras para furar as bolhas e os tabus presentes na sociedade. Apesar do crescimento do mercado de bem-estar sexual e do seu impacto no universo feminino, nota-se uma necessidade de investimento através da publicidade, para expandir a comunicação e a visibilidade do autocuidado voltadas para a desconstrução de tabus e da sexualidade que ainda estão presentes na sociedade. RESULTADOS Buscando compreender os tabus, a sexualidade feminina, o prazer e o mercado de bem-estar sexual, este trabalho pretendia trazer como prioridade o olhar feminino sobre os temas. Por isso, a base da coleta de dados bibliográficos e documentais é fundamentada através de estudos, pesquisas, matérias e livros que foram escritos por mulheres. A pesquisa cumpriu as propostas, trazendo as perspectivas femininas através das autoras Jimena Furlani, Mary Del Priore, Janine Chasseguet-Smirgel e revistas como a Claudia e a Universa UOL. Da mesma forma, as entrevistas em profundidade, permitiu um breve estudo sobre a percepção das participantes sobre suas experiências socioculturais com o autocuidado, o sexo, o prazer, a sexualidade e o mercado de bem- estar sexual. Para facilitar a visualização dos temas abordados nas entrevistas foram geradas nuvens de palavras usando o Studio R. Desta forma, além de analisar a presença do mercado de bem-estar sexual, foram inseridos temas que auxiliaram na análise do cenário sociocultural em que as entrevistadas estão inseridas. Assuntos como a sexualidade, o sexo, o tabu, fetiches, saúde, autoestima e o acesso à informação foram fundamentais para a entrevista. A pertinência da pesquisa permitiu identificar padrões presentes em alguns assuntos. Da mesma forma, as diversidades das respostas proporcionaram um olhar individual e particular para a realidade de cada participante. Assim, fez-se necessário analisar as respostas por temas. 66 Durante as entrevistas, encontrou-seuma forte ausência de marcas que atuam no mercado de bem-estar sexual na vida de cada entrevistada. Apesar de consumirem diversos produtos ligados a empresas atuantes ou revendedoras, em muitos momentos as entrevistadas não conseguiram identificar a empresa responsável pelos produtos consumidos. Desde os produtos mais comuns como absorventes, camisinha e lingerie possuíam pouca ou nenhuma lembrança. Porém, influencers e perfis nas redes sociais mostraram estar mais presentes na memória das entrevistadas, conforme a figura abaixo: Figura 1 Nuvem de Palavras, all colors, R Studio, 20 de Novembro de 2022 Dos produtos presentes no mercado, as entrevistadas mostraram-se confortáveis e curiosas para experimentar, mas também não existe identificação de uma marca específica, neste quesito o fator preço se torna mais atrativo do que a experiência com as empresas. Porém, quando o produto ultrapassa o quesito sexual e atua na autoestima e autocuidado, existe uma presença maior de grandes marcas. As palavras que mais se repetiram durante a temática foram de produtos, tamanha a falta de presença das marcas: Figura 2 . Nuvem de Palavras Produtos, all colors, R Studio, 20 de Novembro de 2022 67 As entrevistadas apontaram durante as análises das marcas que a proposta que o mercado de bem-estar traz é inovadora e a maior parte não tinha tido contato com informações dispostas de forma tão simples, direta, divertida e que despertasse a curiosidade. Apesar da facilidade de acesso, as participantes acreditam que ainda existem tabus ao falar sobre diversos temas, o que se ressalta em figuras maternas e mais velhas. Entretanto, a comunicação com os pais e figuras paternas quase não foram citadas. Apenas uma entrevistada afirmou se sentir confortável para falar sobre os temas com o pai. Os termos em destaques foram: Figura 3 Nuvem de Palavras Informações, all colors, R Studio, 20 de novembro de 2022 Apesar de afirmarem sentir prazer na maioria das relações sexuais, a maioria das entrevistadas apontaram que esses momentos estão sempre ou quase sempre ligados ao parceiro. O desejo sexual aparece ligado à conexão, intimidade e tempo presentes no contato com uma outra pessoa. Nenhuma das participantes apontou tido um primeiro contato com o prazer antes do sexo, somente depois e nunca na primeira relação sexual. A nuvem de palavras gerada sobre o tema destacou os seguintes termos: Figura 4 68 Nuvem de Palavras Prazer, all colors, R Studio, 20 de novembro de 2022 Durante o diálogo sobre fetiche, tornou-se claro que as participantes gostam de experimentar coisas novas na relação, principalmente relacionadas ao sexo. Algumas preferem itens mais simples como lingeries e alguns itens eróticos, enquanto outras gostariam de se aventurar no menage e locais mais públicos. Da mesma forma que o prazer, o desejo do novo está relacionado ao prazer e a química compartilhados com outra pessoa, nunca sozinha. Apesar de se mostrarem confortáveis em explorar seus fetiches e os dos parceiros com quem possuem intimidade, elas apontam que existem alguns limites que não gostariam de cruzar e que estão envolvidos em alguns tabus. A nuvem de palavras do tema gerou diversos termos: Figura 5 Nuvem de Palavras Fetiche, all colors, R Studio, 20 de novembro de 2022. 69 O sexo está presente na vida de muitas pessoas, entretanto, falar sobre o assunto ainda é visto como errado, tornou-se um tabu. Apesar da internet ter facilitado o acesso à informação, falar sobre alguns assuntos causa estranheza, repreensão e censura. Durante a entrevista, a maior parte das entrevistadas apontaram que quando eram mais novas não tinham contato com a educação sexual em casa e que não se sentiam confortáveis para falar e tirar dúvidas com os pais. A sensualidade, o desejo, a sexualidade e o sexo estavam presentes nas conversas camufladas dos adultos e nas novelas, mas não em um ambiente informativo e preventivo. A tranquilidade e facilidade para falar sobre os temas aparece em um local mais acolhedor com o desenvolvimento da vida sexual, em conversas com amigas e tias e em alguns casos, até com a mãe. Os termos que ganharam destaques foram: Figura 6 Nuvem de Palavras Tabu, all colors, R Studio, 20 de novembro de 2022 Apesar do tabu presente na vida das mulheres, outro tema se torna sensível. A autoestima e a percepção que as entrevistadas possuem do próprio corpo está carregada com filtros de padrões de beleza presentes na sociedade na qual estão inseridas. Durante a entrevista, todas as entrevistadas apontaram sentir algum desconforto com a sua imagem. Algumas aprofundaram-se mais no tema e outras falaram mais superficialmente. A palavras que nuvem deram destaque a essa nuvem de palavras foram: Figura 7 70 Nuvem de Palavras Autoestima, all colors, R Studio, 20 de Novembro de 2022 A intimidade e o respeito influenciam diretamente na comunicação física e mental das entrevistadas, fazendo com que o sexo e o prazer estejam alinhados a conexão com a outra pessoa. As duas primeiras entrevistadas mostraram tranquilidade para falar sobre o tema, entretanto, a segunda e a quarta entrevistada demonstraram mais facilidade e abertura para aprofundar as questões, mas notou-se que sentiram certa vergonha ao falar sobre momentos íntimos. A terceira entrevistada demonstrou muita abertura e se sentiu confortável para falar sobre todos os temas e inserir novas perspectivas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A compreensão inicial dos termos tabu, mulher, sexualidade, prazer e mercado de bem-estar sexual revelou que tanto no âmbito acadêmico, social e mercadológico, existe a presença de mitos, tabus e preconceitos que levam a um constante julgamento moral. O fator limitante desses fenômenos atua como mediadores dos processos sociais, tal como a construção de identidade e do desenvolvimento saudável da sexualidade e do prazer feminino. Por conta destes fatores, provou-se necessário um aprofundamento teórico do tema. Considera-se, a partir da análise dos dados coletados, que foi possível responder à questão problema. A publicidade influencia na desconstrução de tabus do prazer e da sexualidade feminina. Entretanto, o seu papel é auxiliar e não principal neste processo, 71 atuando na divulgação de informações, conteúdos e impulsionando o crescimento do mercado de bem-estar sexual. Os estudos realizados neste trabalho apontam que a educação sexual é o processo que atua contra os tabus, mitos e preconceitos, pois está ligado a questões científicas, sociais e culturais. Assim, especialistas, profissionais, marcas e ONGS utilizam a publicidade para divulgar pesquisas, estudos, produtos e serviços a favor da sexualidade e do prazer. A percepção das participantes analisadas durante a entrevista em profundidade foi a de que o acesso à educação sexual aliada às informações disponíveis na internet, tiveram influência no desenvolvimento sexual e no prazer. Durante a apresentação das peças, todas as entrevistadas afirmaram que a divulgação do mercado pode sim influenciar e naturalizar a sexualidade, desconstruindo diversos tabus e ideais apontados como antiquados e ultrapassados. Durante o desenvolvimento, este trabalho cumpriu os objetivos específicos, compreendendo a trajetória da sexualidade e do prazer feminino na sociedade. Esse fator permitiu a apresentação de tabus relacionados à mulher. Além disso, a pesquisa e análise do mercado de bem-estar sexual permitiu o estudo e compreensão do olhar que a sociedade impõe sobre o papel feminino. Este processo permitiu a confirmação da primeira hipótese proposta neste trabalho. A publicidade possui participação na desconstrução de tabus no prazer e na sexualidade feminina, entretanto, o seu papel é de transmissão e propagação através dos meios decomunicação de marcas, instituições governamentais e privadas, ONG’s, influencers e profissionais atuantes no mercado. Partindo da primeira hipótese, entende-se que o processo de desconstrução não sofreu influência direta da publicidade. Entretanto, a quebra de estigmas proporcionou um novo espaço de comunicação. A criação de produtos e serviços para atender ao público feminino, que antes era ignorado, favoreceu a expansão do mercado de autocuidado e prazer. Desta forma, conclui-se que a segunda hipótese deste trabalho é verdadeira. Com a expansão, espera-se o crescimento de novas marcas e as transições de empresas que desejam ou que já atuam no mercado. Para elas, este trabalho mostra que 72 ainda existem públicos que não são alcançados e que querem desfrutar do prazer, da sexualidade e do autocuidado. Considerando o desenvolvimento do mercado e da sociedade, conclui-se que este estudo não é exaustivo, no qual pretende-se aprofundar a temática em pesquisas futuras. REFERÊNCIAS ____________, ____________. PNAD Contínua. Instituto Brasileiro ded Geografia e Estatística, 2018. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html>, Acesso em 1 março de 2022. CHASSEUGUET-SMIRGEL, Janine; LUQUET-PARAT, __________; TOROK, ______; DAVID, _______. A sexualidade feminina: Novas pesquisas psicanalíticas. 2. ed. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1975. DEL PRIORE, Mary. 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A JMJ acontece em intervalos de dois ou três anos, em país e cidade escolhidos pelo Papa e para cada edição o Pontífice sugere um tema, retirado de um versículo bíblico. Cada Jornada também possui um logotipo, hino baseado no tema e santos patronos e intercessores. A organização e coordenação das Jornadas Mundiais da Juventude são de responsabilidade do Pontifício Conselho para os Leigos, departamento do Vaticano de onde saem as diretrizes para toda a comunicação do evento. Este trabalho apresenta um estudo da identidade visual da Jornada Mundial da Juventude realizada na cidade do Rio de Janeiro, em 2013, com o objetivo de verificar que elementos da cultura do local se fazem presentes nessa identidade de forma a representá-la a nível mundial. Nessa perspectiva, é também do interesse deste estudo averiguar se a identidade da JMJ Rio pode ser considerada uma marca-lugar ou marca-país. A investigação ainda permite uma reflexão sobre identidade visual como ação comunicativa de reforço e silenciamento de características culturais de um lugar. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é uma semana de eventos da Igreja Católica para os jovens, que se reúnem para celebrar e aprender sobre a fé católica e para construir pontes de amizade e esperança entre continentes, povos e culturas. Durante a JMJ acontecem eventos como catequeses, adorações, missas, momentos de 34 Graduado em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. E-mail: saviomartins12@gmail.com 35 Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás. E-mail:adriana.cos@gmail.com 76 oração, palestras, partilhas e espetáculos. O fundador e primeiro promotor da JMJ foi o papa João Paulo II, tendo a primeira Jornada Mundial da Juventude acontecido em 1986 em Roma, na Itália. A organização e coordenação das Jornadas Mundiais da Juventude são de responsabilidade de um departamento específico do Vaticano, o Pontifício Conselho para os Leigos, que possui uma “Seção Juventude” criada para este fim, de onde também saem as diretrizes para toda a comunicação do evento. Até o ano de 2023 foram realizadas 16 edições da Jornada Mundial da Juventude, com presença em praticamente todos os continentesdo mundo, com exceção do africano, onde até o momento não aconteceu nenhuma edição. As maiores edições36 ultrapassaram a casa dos milhões de peregrinos e nenhuma possui quantitativo abaixo de meio milhão de pessoas. METODOLOGIA Para realização da análise foi adotado o método semiótico proposto por Santaella (2005), que considera três pontos: qualitativo-icônico, singular-indicativo e convencional-simbólico. Segundo a autora, sob o ponto de vista qualitativo-icônico são analisadas as qualidades do objeto que podem ser diretamente percebidas e que causam a primeira impressão no receptor. São analisados aspectos como a matéria de que é feito, cores, volumes, dimensão, textura, forma, composição, design, etc. Nesta pesquisa, sob o ponto de vista qualitativo-icônico, serão consideradas a composição, a forma e as cores da identidade visual da JMJ Rio de Janeiro. Sob o ponto de vista singular-indicativo, a autora se refere às qualidades de que é composto o objeto e que passam a ser vistas em função da sua manipulação e uso, o que indicam em relação ao contexto a que pertence e à sua finalidade. Neste 36 Todas as informações sobre as edições das JMJ foram extraídas do site Vatican News, portal de notícias oficial do Vaticano. As maiores edições em número de participantes foram: 1995 (Filipinas – 4 milhões). 2000 (Roma – 2 milhões). 2013 (Brasil – 3,7 milhões). 2016 (Polônia – 2,5 milhões). 77 ponto, a pesquisa irá analisar o que indica a composição, a forma, as cores e as texturas das identidades visuais das JMJ no contexto da religião Católica Apostólica Romana e do evento em si. Já sob o ponto de vista convencional-simbólico, Santaella (2005) afirma que por meio dele chega-se à compreensão do que simboliza o objeto analisado. A análise é feita através do seu caráter de tipo, levando em consideração o seu poder representativo de acordo com seus significados e valores. Neste trabalho, o ponto de vista convencional-simbólico levará em consideração a busca do sentido dos elementos das identidades visuais da JMJ na perspectiva cultural do local em que foram realizadas. Os pontos de vista qualitativo-icônico, singular-indicativo e convencional- simbólico constituem as três fases de análise desta pesquisa. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Identidade visual como prática de significação De acordo com Strunck (2001), identidade visual é o conjunto de elementos gráficos que irão formalizar a personalidade visual de um nome, ideia, produto ou serviço e devem informar, substancialmente, à primeira vista, estabelecendo com quem os vê um nível de comunicação. A identidade visual leva ao reconhecimento e valor de uma marca: quanto maior é a presença dos elementos na vida de alguém, maior será a sensação de proximidade e até mesmo necessidade em relação aos produtos ou serviços oferecidos. Strunck (2001) diz que somos acostumados com um mundo de símbolos e logotipos, que são úteis a quem produz, vende e consome, pois eles distinguem e identificam a marca num contexto complexo e global. A identidade visual, afirma o autor, é composta basicamente de quatro elementos: logotipo, símbolo, cor e alfabeto. https://rockcontent.com/blog/valor-de-marca/ 78 ● Logotipo: particularização da escrita de um nome. ● Símbolo: é um sinal gráfico que, com o uso, passa a identificar um nome, ideia, produto ou serviço. ● Cor: as cores usadas nas identidades visuais são chamadas de cores padrão. Na maioria das vezes passam, com o uso, a ter mais reconhecimento do que o logotipo e o símbolo. ● Alfabeto padrão: é aquele empregado para escrever todas as informações complementares numa identidade visual. A escolha de uma família de letras para alfabeto padrão de uma identidade é importante porque ele a complementa e lhe confere consistência. Esses elementos, explica Strunck (2001), são chamados de institucionais. Seu emprego, segundo um conjunto de normas e especificações, irá construir a identidade visual de uma marca. Assim, entende-se que a identidade visual cumpre um importante papel no contexto de consumo de marcas. A esse respeito Campos, Dias e Perassi (2012) afirmam: As ferramentas estratégicas de construção da imagem da marca implicam de modo positivo na sua transmissão. Normalmente, as marcas fortes possuem uma ideia principal: um slogan, uma cor, um logotipo e uma série de histórias associadas a uma determinada entidade. As marcas devem transmitir à mente das pessoas uma ideia, um conceito, um posicionamento. Por isso, as mensagens visuais devem aparecer e comunicar de forma integrada e direcionada, propiciando a compreensão e reconhecimento de modo unificado e constante e levando os consumidores a reconhecer a marca com maior facilidade. (Campos; Dias e Perassi, 2012, p. 467) Segundo esses autores, uma marca só passa a ser marca quando se torna identificável, ou seja, quando as pessoas a associam a outras coisas e outras situações. Uma marca, então, passa a ter uma história e interferir na maneira como as pessoas veem os produtos, ligando-os, definitivamente, a ela. Uma marca, explicam, é um sistema cultural aberto e interativo. Sendo a cultura de cada marca participante da cultura de mercado que, cada vez mais, participa da cultura geral e amplia o contexto interativo de emergência e influência de cada marca particular. 79 A partir disso, entende-se que os estudos para a criação de uma identidade visual buscam envolver um entendimento sobre a construção e a composição de elementos culturais, de modo a serem aplicados no processo do desenvolvimento simbólico de uma marca. Esses símbolos farão sentido para os consumidores se eles tenderem a se envolver com uma marca pela qual se sintam atraídos. Como desenvolvimento desse raciocínio vale lembrar a reflexão de Stuart Hall (1997): Os seres humanos são seres interpretativos, instituidores de sentido. A ação social é significativa tanto para aqueles que a praticam quanto para os que a observam: não em si mesma, mas em razão dos muitos e variados sistemas de significado que os seres humanos utilizam para definir o que significam as coisas e para codificar, organizar e regular sua conduta uns em relação aos outros. Estes sistemas ou códigos de significado dão sentido às nossas ações. Eles nos permitem interpretar significativamente as ações alheias. Tomados em seu conjunto, eles constituem nossas “culturas”. Contribuem para assegurar que toda ação social é “cultural”, que todas as práticas sociais expressam ou comunicam um significado e, neste sentido, são práticas de significação (Hall, 1997, p. 16). Compreendendo que o processo de produção e interpretação de sentido é chamado por Hall (1997) de práticas de significação, pode-se entender a Jornada Mundial da Juventude como uma dessas práticas, sendo a definição de uma identidade visual para cada edição do evento um de seus produtos. Cultura, cultura nacional e marca-lugar Para o antropólogo Clifford Geertz, o conceito de cultura é definido como teias de significados que o homem teceu e nas quais ele enxerga o seu mundo procurando o seu significado. O conceito de cultura que eu defendo [...] é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias 80 e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. (Geertz, 2008, p. 4) Para o autor, compreender a cultura é interpretar a teia de significados que orienta a existência humana. Já Cuche (2002) afirma que compreender a noção de cultura é necessário para pensar a unidade da humanidade na diversidade para além dos termos biológicos. O autor considera que a cultura parece fornecer a resposta mais satisfatóriaà questão da diferença entre os povos, uma vez que a resposta “racial” está cada vez mais desacreditada, à medida que há avanços da genética das populações humanas. O homem é essencialmente um ser de cultura, afirma Cuche (2002). O pesquisador ainda explica que ao longo de sua evolução os seres humanos experimentaram uma formidável regressão dos instintos, que foram “substituídos” progressivamente pela cultura. A cultura, afirma, permite ao homem adaptar-se a seu meio, mas também adaptar este meio ao próprio homem, às suas necessidades e seus projetos. Em suma, para o antropólogo a cultura torna possível a transformação da natureza. Laraia (2001) considera cultura como algo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. (Laraia, 2001, p. 57) Por meio dos conceitos de cultura aqui apresentados é que se considera a identidade visual como um elemento de expressão cultural daquilo que busca representar, seja uma ideologia religiosa, uma cidade ou um país. Nesse sentido, uma identidade visual, para partilhar sentidos com sua recepção, precisa dialogar com as referências culturais dessa audiência. 81 Hall (2005) afirma que a nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos(ãs) legais de uma nação; elas participam da ideia da nação tal como representada em sua cultura nacional. O autor também afirma que: Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas (Hall, 2005, p. 50-51). Entende-se, portanto, que a cultura nacional se constitui de símbolos e representações, fatores que permitem a produção de sentidos e que, em se tratando de uma nação, estes fatores têm a finalidade de identificação, constituindo assim uma identidade. Cada edição da JMJ ocorre em um país/cidade que recebe peregrinos de todo o mundo em celebração à fé católica. Cada um desses lugares sede é portador de uma identidade cultural que é partilhada com pessoas de diferentes nações. A identidade visual do evento é, então, parte do esforço comunicativo de expressar, em linguagem mundo, a identidade do local que acolhe a JMJ, atuando como marca de expressão da cultura do local sede do evento e da ideologia religiosa que o sustenta. Sabe-se que as marcas utilizam de gestão para se destacar e mostrar seu diferencial em relação à concorrência. A marca, além de um nome, é constituída por um conjunto de imagens, associações, significados e experiências presentes nas mentes das pessoas e precisa de estratégias para ser interativa e fortalecer seu espaço no mercado e no mundo ao seu redor. No entanto, a gestão de marcas não se limita apenas a produtos, mas também – dando enfoque ao tema desta pesquisa – a regiões, tendo-as como produtos mercadológicos. Os lugares também utilizam de estratégias de gestão de si enquanto marcas, posicionando- se e comunicando suas especificidades a fim de criar uma relação com os públicos e gerar desenvolvimento para este lugar. O ato de denominar uma região como marca é chamado de marca-lugar ou place-branding. Os países e cidades que acolhem a JMJ buscam, por meio do evento, destacar a sua imagem para os públicos. Cada cidade e país utiliza de suas particularidades para promover essa imagem. Dessa forma, podemos identificar o uso de uma região referenciada como uma marca-lugar. 82 Em se tratando do território nacional, temos o conceito de marca-país (country brand ou nation brand), que Dinnie (2008 apud Montanari; Giraldi, 2018) define como uma combinação única e multidimensional de elementos que proporcionam à nação uma diferenciação e uma relevância culturalmente fundamentada para todos os seus públicos-alvo. Para Montanari e Giraldi (2018) a marca-país deriva de sua cultura e usa elementos de marca como logo, nome, símbolos para essa diferenciação. Os autores também afirmam que assim como a marca de produtos e serviços é criada para ser única, competitiva e agregar valor ao cliente, a marca-país busca esses mesmos objetivos, contextualizados para um cenário maior, a nação. Segundo Fetscherin (apud Montanari; Giraldi, 2018, p. 16), “a marca-país pertence ao domínio público, é complexa e inclui vários níveis, componentes e disciplinas. Ela engloba a imagem inteira de uma nação, incluindo aspectos econômicos, políticos, históricos e culturais”. A imagem de um país indica como ele é percebido pelos consumidores internacionais e é um estímulo importante para provocar associações e influência em atos decisivos, como por exemplo, no mercado do turismo. Em se tratando da Jornada Mundial da Juventude, pensa-se que, ao desenvolver a identidade visual de cada edição do evento, são utilizados elementos culturais que buscam representar a nação por meio de uma diferenciação particular, o que afirma o termo marca-país. Por exemplo, a Jornada Mundial da Juventude ocorrida no Rio de Janeiro, em 2013, utilizou em sua marca a imagem do Cristo Redentor que, apesar de ser um elemento específico da cidade em que ocorreu o evento, é um símbolo reconhecido mundialmente como referência ao Brasil. Então, quando as pessoas vêem esse símbolo na identidade visual da JMJ de 2013 associam automaticamente ao Brasil, trazendo à memória aspectos da história e cultura brasileira o que, pelo lado turístico, pode influenciar na decisão de participação no evento. Para Dinnie (2008 apud Montanari; Giraldi, 2018), a identidade da marca- país é o que a define e está ligada a elementos como sua história, território, esportes, folclore e, portanto, representa a essência da nação. Neste aspecto de marca-país, Montanari e Giraldi (2018) afirmam que entre os aspectos que podem auxiliar na construção da identidade da marca-país estão os códigos de expressão da identidade da marca-país, definidos como a bandeira, a língua e os ícones. Afirmam ainda que, 83 o logotipo e o slogan da marca-país são os mais visíveis e concretos símbolos visuais e textuais que refletem a complexidade e o significado da marca, também sendo fundamentais para a divulgação e promoção internacional, como no caso das Jornadas da Juventude, evento de caráter mundial promovido pela Igreja Católica. ANÁLISE SEMIÓTICA DA JMJ RIO DE JANEIRO A Jornada Mundial da Juventude Rio 2013 foi a décima terceira edição do evento e a primeira realizada no Brasil. Realizada na cidade do Rio de Janeiro, no período de 23 a 28 de julho, foi celebrada pelo Papa Francisco e teve como lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mateus 28,19). Os atos centrais do evento aconteceram na orla da praia de Copacabana, reunindo, segundo a Arquidiocese do Rio de Janeiro37, cerca de 3,7 milhões de pessoas. A JMJ Rio 2013 é caracterizada como a segunda maior edição do evento, superada apenas pela edição de 1995, realizada nas Filipinas, que reuniu 4 milhões de peregrinos. A identidade adotada faz referência à figura do Cristo Redentor. Figura 1– Identidade visual JMJ Rio 2013. Analisada sob o ponto de vista qualitativo-icônico, tendo sob observação a composição, as formas e cores presentes na marca, é possível perceber que a identidade visual é composta por elementos imagéticos e verbais. A parte imagética está à esquerda do observador e a verbal à direita. Predominam formas curvas e arredondadas e as cores verde, amarelo, azul e branco. Os elementos imagéticos estão voltados para os elementos verbais, permitindo estabelecer entre eles uma associação, um sentido de 37 Disponível em <http://arqrio.org/noticias/detalhes/906/jmj-rio2013-supera-expectativas-3-7- milhoes-de- pessoas-na-missa-de-envio> http://arqrio.org/noticias/detalhes/906/jmj-rio2013-supera-expectativas-3-7-milhoes-de- http://arqrio.org/noticias/detalhes/906/jmj-rio2013-supera-expectativas-3-7-milhoes-de- http://arqrio.org/noticias/detalhes/906/jmj-rio2013-supera-expectativas-3-7-milhoes-de- 84 unidade, graças as mesmas características de composição que apresentam em relação às formas e cores. Na parte superior da identidade há uma forma curva na cor verde, ao centro há uma figura de braços abertos na cor amarela e em suas laterais, na parte inferior, há formas curvas azuis. O encontro dessas formas curvas forma a imagem de um coração. Na parte superior esquerda há duas linhas sobrepostas que formam uma cruz. Os elementos verbais são o nome do evento: JMJ Rio 2013. Avançando para o ponto de vista singular-indicativo, busca-se revelar os sentidos indicados pelos elementos visuais e verbais, no contexto da Igreja Católica Apostólica Romana e da JMJ. Sendo assim, a partir da pergunta-guia “o que indica a composição?” é possível obter como resposta: a associação das formas curvas e arredondadas da parte superior da imagem, que se somam à parte inferior da mesma, remetem ao traçado de um coração. Ao centro do coração se encontra uma figura de braços abertos cujo traçado indica o Cristo Redentor. Essa composição remete a gesto de abraço, à acolhida. No contexto da igreja e da proposta do evento, pode-se considerar que é o coração de Jesus que acolhe o evento e seus participantes. A sigla “JMJ” significa “Jornada Mundial da Juventude”. A parte imagética está voltada para a parte linguística, o que indica que a figura de braços abertos está em associação com a expressão “JMJ Rio 2013”. As cores dos elementos imagéticos também estão associadas às cores dos elementos linguísticos, complementando-se. No contexto da JMJ, pode-se considerar que juntos esses elementos representam o amor de Cristo acolhendo as pessoas que foram à cidade do Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude. No plano das formas, ao lançar a pergunta-guia “o que indicam?”, pode-se observar que a forma curva na cor verde indica o traçado do Pão de Açúcar, um dos lugares emblemáticos da cidade do Rio de Janeiro. As linhas perpendiculares presentes na parte superior esquerda indicam uma cruz, um dos grandes símbolos da igreja católica e que remete à importância do sacrifício de Jesus Cristo pela humanidade. No centro da identidade visual, a figura de braços abertos na cor amarela indica o Cristo Redentor, a imagem de Jesus Cristo. Jesus é pessoa mais importante na vivência da religião católica e sua posição na identidade indica sua centralidade também na JMJ Rio. Na parte inferior da identidade, as formas azuis arredondadas presentes nas laterais remetem ao mar, mais especificamente ao mar da Baía de Guanabara, que circunda o Pão de Açúcar. 85 Fechando a análise singular-indicativa cabe verificar o que as cores presentes na identidade indicam. Considerando as indicações de sentido advindas da composição e das formas, entende-se que o verde representa a cobertura natural do Morro do Pão de Açúcar, remetendo à riqueza natural do Rio de Janeiro. O amarelo, cor associada à riqueza e vivacidade, forma a imagem do Cristo de braços abertos enquanto a cor azul foi aplicada na parte inferior da identidade, indicando o mar da Baía de Guanabara. Em um segundo plano de produção de sentido, a paleta de cores adotada na identidade visual, verde, amarelo, azul e branco, também pode remeter às cores da bandeira do Brasil. Sob o ponto de vista convencional-simbólico, a composição, formas e cores da identidade visual da JMJ 2013 simbolizam o conjunto dos elementos que representam o Morro do Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara e o Cristo Redentor, um dos principais cartões postais da cidade do Rio de Janeiro e uma das formas metonímicas mais adotadas mundialmente para fazer referência ao Brasil, principalmente no contexto do turismo. A posição superior da cruz em relação aos demais elementos da identidade simboliza o comando da igreja católica sobre o evento. A análise semiótica confirma que a identidade visual da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013 representou a cultura do local em que foi realizada por meio de elementos geográficos e arquitetônicos da cidade do Rio de Janeiro, atuando, portanto, como marca-lugar. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo permitiu compreender que as expressões culturais evidenciam que somos constituídos por representações e é possível existir elementos específicos de um lugar que são capazes de identificar a sua cultura para outras nações. Assim, os lugares também podem ser considerados como produtos mercadológicos que por meio de suas marcas visam atrair a atenção da audiência, destacando algo desse lugar considerado diferencial em relação aos demais. No caso da identidade visual da JMJ 2013 o destaque coube à referências geográficas e arquitetônicas da cidade do Rio de Janeiro mundialmente conhecidas. 86 A parte geográfica ficou por conta da representação da cidade sede por meio da referência a um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro e também do Brasil: o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara, que remetem à beleza natural da cidade e são referências internacionais do Rio de Janeiro. A referência arquitetônica da identidade é a figura do Cristo Redentor, que no contexto do evento representa, juntamente com a cruz, a Igreja Católica, promotora do evento. Ao retratar ícones da cidade do Rio de Janeiro já conhecidos mundialmente a identidade visual da JMJ 2013 realiza o processo metonímico de tomar essa cidade como representante do país a que pertence. Assim, a identidade da JMJ atua como marca-lugar e reforça o estereótipo de ser a cidade do Rio de Janeiro “a cara do Brasil”, principlamente para àqueles que não são do Brasil, no caso os participantes que vêm de outros países para participar do evento. Observa-se que nem a parte linguística da identidade traz a identificação do país em que o evento foi realizado, ficando a cargo da palavra “Rio” e à referência imagética ao Pão de Açúcar e ao Cristo Redentor a responsabilidade comunicativa de evocar essa informação à memória da recepção. A identidade visual da JMJ 2013 não adotou, então, uma concepção de marca- país. O único indício presente na identidade relacionado ao país onde o evento foi realizado são as cores da bandeira do Brasil, já que o verde, amarelo, azul e branco foram as cores utilizadas na identidade. Entende-se que tal ocorrência possa ter sido motivada pelo fato de o Rio de Janeiro já ser reconhecido mundialmente por um ícone arquitetônico relacionado à ideologia católica, a figura do Cristo. No caso da JMJ 2013 a representação da cidade suplantou a representação do país em que aconteceu o evento. Isso pode indicar que para uma marca de evento comunicar sentidos mundialmente a melhor estratégia seja evocar em sua identidade elementos que já façam parte do acervo de referências culturais da audiência, ou seja, devolver à percepção da audiência-mundo aquilo que ela já reconhece. REFERÊNCIAS 87 CUCHE, Denys. O Conceito de Cultura nas Ciências Sociais. TraduçãoViviane Ribeiro. 2 ed. Bauru, SP: EDUSC, 2002. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro (RJ): Livros Técnicos e Científicos; 2008. HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 22, n. 2, 1997. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71361> HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10 ed. Rio de Janeiro, RJ: DP&A, 2005. MONTANARI, Maria Gabriela; GIRALDI, Janaina de Moura Engracia. Um ensaio teórico sobre marca-país e sua gestão. Internext, v. 13, n, 2, p. 14-29, 2018. Disponível em:<https://internext.espm.br/internext/article/view/417> SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada. 1. ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. STRUNCK, Gilberto. Como Criar Identidades Visuais Para Marcas de Sucesso. 2. ed. Rio de Janeiro: Rio Books, 2001. PERASSI, Richard Luiz de Sousa. Apostila da Disciplina de Design e Cultura (material didático). Florianópolis: SE, 2011. https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71361 https://internext.espm.br/internext/article/view/417