Prévia do material em texto
Arnold van Gennep Os ritos de passagem Estudo sistemático dos ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, ordenação, coroação, noivado, casamento, funerais, estações, etc. Tradução: Mariano Ferreira Apresentação: Roberto da Matta COLEÇÃO ANTROPOLOGIA – As estruturas elementares do parentesco Claude Lévi-Strauss – Os ritos de passagem Arnold van Gennep – A mente do ser humano primitivo Franz Boas FICHA CATALOGRÁFICA (Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte doSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ) Gennep, Arnold van. G292r Os ritos de passagem: estudo sistemático dos ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, coroação, noivado, casamento, funerais, estações, etc.; tradução de Mariano Ferreira, apresentação de Roberto da Matta. Petrópolis, Vozes, 2012. 184 p. (Antropologia, 11). Do original em francês: Les rites de passage. Bibliografia. 1. Antropologia social. 2. Ritos e cerimônias – Aspectos sociais. I. Título. II. Série. CDD – 301.2 301.4 390 CDU – 301.16 77-0612 39 © by Suzanne Bitsch Título do original francês: Les rites de passage Direitos de publicação em língua portuguesa 1977, Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689-900 Petrópolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br Brasil Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Diretor editorial Frei Antônio Moser Editores Aline dos Santos Carneiro José Maria da Silva Lídio Peretti Marilac Loraine Oleniki Secretário executivo João Batista Kreuch Projeto gráfico: AG.SR Desenv. Gráfico Capa: Felipe / Aspectos ISBN 978-85-326-4529-6 – Edição digital Editado conforme o novo acordo ortográfico. É intenção da Editora Vozes cumprir com a Lei de Direitos Autorais. No entanto, diante da impossiblidade de encontrar os detentores dos direitos autorais, os direitos ficam reservados (D.R.) para as providências cabíveis. A Suzanne e Alfred Bétant Apresentação Roberto da Matta Dos clássicos escritos ou inspirados pela chamada “escola sociológica francesa”, este livro de Van Gennep é, talvez, um dos mais famosos e discutidos. Isso não deixa de ser irônico, pois Van Gennep nasceu em 1873 em Ludwigsburg, na Alemanha1, e foi sempre hostilizado pelos membros desta tradição de estudos sociais. A verdade, porém, é que Van Gennep produziu dialogando com Durkheim e seus seguidores, tendo este livro ficado como uma prova viva de sua inclusão ideológica nesta “escola”, a despeito do ambiente de divisões que provocou sua separação. Hoje, passados tantos anos de sua publicação, o livro de Van Gennep vem sendo largamente utilizado e estudado, seja como base bibliográfica para análise dos cerimoniais, seja como ponto de partida para uma reflexão sobre o universo das relações sociais formalizadas entre os homens, os grupos, os espaços e as posições sociais fixas, seja – ainda – como uma fonte de inspiração teórica para o problema básico da natureza sociológica dos ritos e atos teatrais, essas ações que tornam a rotina diária senão suportável ou justa, pelo menos revestem-na com um certo toque de mistério, dignidade e elegância. Assim, se os ritos não resolvem a vida social, sabemos que sem eles a sociedade humana não existiria como algo consciente, uma dimensão a ser vivenciada e não simplesmente vivida, como ocorre com os gestos mais pesados da rotina cotidiana. As cerimônias, como muito bem percebeu Van Gennep, são como as etapas de um ciclo que se deseja marcar e revelar, uma espécie de moldura especial, mesmo quando o quadro que ela determina, circunscreve e torna consciente, é banal ou mesmo cruel. E, de fato, nós fazemos ritos quando amamos e fuzilamos; do mesmo modo que existem ritos marcando a expropriação e mesmo a opressão e a tortura, como não faltam atos e teatros revolucionários, messiânicos, libertários, todos anunciando como um aríete um novo mundo, uma nova madrugada livre de maldade e de exploração. O rito, assim, também enquadra – na sua coerência cênica grandiosa ou medíocre – aquilo que está aquém e além da repetição das coisas “reais” e “concretas” do mundo rotineiro. Pois o rito igualmente sugere e insinua a esperança de todos os homens na sua inesgotável vontade de passar e ficar, de esconder e mostrar, de controlar e libertar, nesta constante transformação do mundo e de si mesmo que está inscrita no verbo viver em sociedade. O livro de Van Gennep discute esses problemas e introduz, certamente pela primeira vez no campo da Antropologia Social (ou Sociologia Comparada), o ritual e seus mecanismos básicos como um tópico de estudo relevante. Aliás, pode-se mesmo dizer que é neste livro que Van Gennep insinua tomar a própria vida social na sua dialética entre rotinas e cerimoniais, repetições e inaugurações, homens e mulheres, velhos e moços, nascimentos e mortes, etc., como um ritual, posto que o mundo social se funda em atos formais cuja lógica tem raízes na própria decisão coletiva e nunca em fatos biológicos, marcas raciais ou atos individuais. Assim, o rito seria, senão a chave, pelo menos um dos elementos críticos da vida social humana, conforme se coloca a discussão moderna deste assunto, sobretudo a partir da obra de Victor Turner (cf. Processo ritual: Estrutura e antiestrutura, nesta coleção, e também The Forest of Symbols: Aspects of Ndembu Ritual. Nova York: Ithaca, Cornell Univ. Press, 1967), de Clifford Geertz (The Interpretation of Cultures. Nova York: Basic Books, 1973), de E.R. Leach (Repensando a antropologia. São Paulo: Perspectiva, 1974), de Mary Douglas (Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976) e, evidentemente, o trabalho seminal de Claude Lévi-Strauss, sobretudo seus estudos sobre os sistemas de classificação tribais (cf. Totemismo hoje. Petrópolis: Vozes, 1975 e O pensamento selvagem. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1970). De resto, e para falar apenas em estudos de rituais tomando o caso do Brasil como base de reflexão, eu tenho tentado ampliar os achados de Van Gennep, aprofundando-os, suponho, na direção de mostrar que falar em vida social é falar em ritualização, donde minhas preocupações com o fenômeno da transformação e passagem do gesto rotineiro ao ato ritual e, também, minhas reflexões sobre os movimentos sociais coletivos, quando todo o sistema passa por um período especial, invertendo, neutralizando ou reforçando a realidade cotidiana (cf. DA MATTA. “O carnaval como um rito de passagem”. In: Ensaios de Antropologia Estrutural, nesta coleção, e também “Carnavais, paradas e procissões: Reflexões sobre o mundo dos ritos”. Religião e Sociedade, n. 1, maio de 1977, São Paulo). De qualquer modo, é básico salientar que Van Gennep foi provavelmente o primeiro a tomar o rito como um fenômeno a ser estudado como possuindo um espaço independente, isto é, como um objeto dotado de uma autonomia relativa em termos de outros domínios do mundo social, e não mais como um dado secundário, uma espécie de apêndice ou agente específico e nobre dos atos classificados como mágicos pelos estudiosos. Mas, para entendermos a importância deste movimento, é essencial situar o estudo em questão no contexto de sua época. É preciso que se demonstre brevemente como os fenômenos mágicos (ou da magia) eram vistos pelos antropólogos vitorianos, todos evolucionistas, todos mais ou menos convencidos da superioridade integral (biológica e cultural) dos europeus da segunda metade do séc. XIX sobre os chamados “selvagens” ou “primitivos”. Para esses estudiosos, o ritual não surgia como algo socialmente relevante, já que nem o domínio do social existia como algo independente, autônomo, constituindo uma área apropriada para a reflexão. Assim é que nos estudos sociológicos (ou antropológicos) desta fase, os padrões decomportamento social, valores e ideologias, eram explicados tendo por base duas reduções muito importantes. De um lado, reduzia-se o social (e/ou cultural) a uma aparência de um jogo de forças biológicas, de modo que os fenômenos da sociedade eram vistos como resultantes fracos (e, às vezes, inexpressivos) de tensões e caracteres raciais (ou biológicos) já estabelecidos, dos quais pouco adiantava fugir. O social, então, submergia no biológico do mesmo modo que o diferente (o outro) desaparecia na sua história natural. Sabemos que foi assim que Morgan, por exemplo, explicou as terminologias de parentesco não europeias, cujo padrão diferente foi por ele reduzido a uma forma antiga de relacionamento familiar e de casamento, a qual tinha por base a promiscuidade primitiva e a total ausência de propriedade privada. Uma segunda vertente explicativa igualmente encontrada na Antropologia do séc. XIX é aquela que Evans-Pritchard chamou de “explicação intelectualista” ou psicológica do fenômeno social. Nós sabemos que Evans- Pritchard estava se referindo aos fenômenos religiosos, mas explicar o religioso era como explicar aquilo que muitos tomavam como o próprio coração do social, conforme faz prova o trabalho de Leszek Kolakowski, “A revanche do sagrado na cultura profana”, ensaio escrito em 1973 e publicado com uma discussão no citado número da revista Religião e Sociedade. Na interpretação intelectualista ou psicológica, o social se reduz à vontade de agentes individuais, vontade que depois é projetada por meio de um fiat obscuro para toda a sociedade. Tylor é um excelente exemplo desta posição. Ele explica a origem da religião como uma especulação na crença da alma, especulação que nasce dos sonhos dos primitivos. Sonhando com tudo e principalmente com os mortos, os homens primitivos descobrem – diz Tylor – a noção de alma, de imagem, de duplo e assim constroem o domínio do “outro mundo”, o domínio do sagrado e do sobrenatural. Descobrem também, segundo o mesmo estudioso, que pode haver uma relação entre os dois domínios e procuram então controlar um pelo outro. Estaria agora fundada a estrutura mais elementar da religião: a crença em espíritos e em almas e a condição necessária a esta crença, a divisão entre o mundo dos vivos e dos mortos. Daí, como sabemos, o nome “animismo” para designar a religiosidade básica e enganada do primitivo2. Nesta perspectiva psicológica, que engloba estudiosos de Tylor até Frazer, o interesse é discutir o religioso em suas formas mais primitivas, fazendo um corte evidente entre as religiões com tradição escrita (do Ocidente e, às vezes, das grandes civilizações) e a magia, forma de religiosidade vigente nos grupos tribais, selvagens e primitivos. Deixando de lado o conjunto de problemas que cada uma destas posições engloba, é preciso ressaltar que tanto na redução biológica quanto na redução psicológica, o fato social deixa de existir enquanto algo autônomo e independente. A outra vertente explicativa da mesma época era a redução ecológica ou geográfica, quando o mundo social se reduzia à dinâmica de climas, solos, vegetações, regime de chuvas e de ventos. Todos, como se observa, liquidam o social como um campo específico de estudo, do mesmo modo que não admitem situar num mesmo eixo humano sociedades contemporâneas umas das outras, pois reduzem umas aos primórdios da história da humanidade. A tomada do fato social como um fenômeno não explicável nem pela psicologia, nem pela geografia, nasce na tradição francesa de Comte e, sobretudo, de Émile Durkheim. Aqui, já não se trata mais de subdividir o social para estudá-lo, fazendo dele um fenômeno individualizado e redutível a uma de suas partes, mas tomar o estudo da sociedade partindo da totalidade. O social, assim, a partir dos trabalhos de Durkheim e seus seguidores, adquire aquelas características que ele próprio descobriu como fundamentais: são fatos capazes de coagir e, sobretudo, de não serem redutíveis nem à geografia, nem à biologia, nem à psicologia (ou ao indivíduo). É claro que os fatos sociais têm aspectos individuais, geográficos, econômicos, ecológicos e psicológicos, mas não é isso que faz deles fenômenos socialmente significativos. Ao contrário, na perspectiva sociológica, é básico – de acordo com a mensagem de Durkheim – tomar o psicológico, o econômico, o ecológico e o biológico só quando eles se tornam socialmente significativos. O social, assim, não se reduz a nenhum fenômeno individual, mas adota sempre a perspectiva da totalidade onde vários elementos podem tornar-se ou não socialmente significativos. O biológico, por exemplo, enquanto uma ideologia de diferenciação social, é muito mais socialmente significativo em algumas sociedades, preocupadas com o estabelecimento de hierarquias no seu corpo social, do que em outras. Em outras palavras, embora o biológico seja um dado infraestrutural da realidade humana, ele nem sempre é transformado em símbolo de posições sociais diferenciadas ou em elemento básico de elaboração dramática, capaz de justificar em vários planos, sobretudo no jurídico e econômico, a posição superior (e inferior) de certos grupos sociais uns em relação aos outros. Isso ocorre, por exemplo, no caso americano, mas não ocorreu no caso indiano, onde a justificativa para as posições diferenciadas no sistema é atribuída a fatores de ordem religiosa e nunca a uma infraestrutura biológica (ou “racial”), da qual ninguém pode se livrar. O mesmo ocorre com o geográfico. Não há dúvida de que o fato ecológico é fundamental no desenvolvimento de um dado sistema social, mas nem sempre as sociedades lançam mão destes fatores como ponto de interpretação para diferenças entre sistemas. Sabemos que as diferenças geográficas são, não obstante, um elemento muito significativo na obra de alguns estudiosos do fenômeno humano. Quando isso ocorre, isto é, um destes elementos passa a ocupar um lugar significativo para dramatizações de posições sociais diferenciadas, justificativas de opressão econômica, política e social, distinção de caráter nacional ou étnico, etc., é que o elemento passa a ser socialmente significativo. Ele então tem um peso coercitivo específico, um peso político fundamental, um papel crítico na dramatização (ou ritualização) das situações sociais e, consequentemente, passa a ser um fato da consciência: um fato social. Diria, assim, que perguntar o que é socialmente significativo numa dada formação social nada tem de redundante, sendo equivalente a procurar descobrir a ideologia dos agentes sociais nela implicados. Essa, parece-me, é uma questão crítica dos estudos sociais, questão nem sempre estudada, sobretudo no caso brasileiro, onde as Ciências Sociais admitem com relutância a posição totalizadora de Durkheim e o social é geralmente reduzido ao que é econômica ou politicamente significativo. Mas no início do século XX, quando Van Gennep escrevia e publicava seu livro, o que era socialmente significativo nos estudos sociais era a “religião”, vista da perspectiva do individualismo vitoriano, esse individualismo que os antropólogos ingleses projetavam nas suas explanações do mundo social e tomavam como princípios universais. Por causa disso, tudo era reduzido a uma questão de lógica mental e de especulação individual, como se nós pudéssemos descobrir mais sobre os cavalos, utilizando o truque de nos colocarmos no lugar deles, conforme chamou atenção Radcliffe-Brown quando denominou o método de Tylor (e de outros vitorianos) o argumento do “se eu fosse um cavalo”. Embora a fórmula tenha um certo toque de brutalidade anglo-saxônica, ela é verdadeira na medida em que revela como Spencer, Tylor e Frazer operavam em suas análises, colocando-se, eles mesmos, no lugar de um selvagem e imaginando como seriam seus problemas e soluções. A ruptura com tal modo individualista de ver a sociedade só chegou quando tais explanações começaram a ser abandonadas, e quando já não se tornava mais o biológico, o geográfico e o psicológico como dimensões exclusivas na explicação sociológica.O primeiro passo foi quando se tentou sair do universalismo individualista (típico da Europa Ocidental) que somente travava contato com leis universais, desligadas de realidades específicas (vejam-se as leis das magias descobertas por Frazer), e se procurou estabelecer relações específicas entre os vários planos de uma sociedade. No caso do estudo da magia, Sir James Frazer foi pioneiro em realizar esta tentativa, pois o seu livro mais famoso, The Golden Bough (de 1890), começa com um estudo do regicídio nas civilizações da Antiguidade. Como sabemos, foi procurando esclarecer um verdadeiro paradoxo do poder político, o fato de o Rei do Bosque poder ser morto por algum inimigo, que, quebrando o ramo de certa árvore (daí o título da obra) no Santuário de Diana do Bosque, tinha o direito de desafiar o sacerdote e reinar em seu lugar matando-o em duelo, que fez Frazer iniciar sua monumental obra. De fato, a fábula do sacerdote, que dentro do Santuário de Nemi reinava absoluto até que alguém o pudesse matar, fazia com que o exercício do seu poder estivesse conjugado com a morte e – como bem percebeu Frazer – com a eterna vigilância. Foi enfrentando esse paradoxo, expresso nesta quase parábola da dialética entre o poder e a fraqueza, o poder secular e o espiritual, que Frazer especulou vigorosamente em torno do poder total, pessoalizado e controlador, poder que se exercia ligado ao domínio da magia. Em suma, um tipo de poder relacional, totalizado, mágico, político, social e religioso simultaneamente. Foi assim que Frazer estabeleceu a separação entre magia e ciência (como técnicas de controle da natureza, uma errada e outra certa, respectivamente) e a religião. Na magia e na ciência, existe o poder; na religião há a fé, a adoração, o sacrifício e a solidariedade. Foi, portanto, ao longo desta problemática clássica dos estudos religiosos que Durkheim e seus seguidores estabeleceram o seu programa de trabalho. Assim, é na França que se estabelece o estudo da religião como o coração da sociedade. E mais, é entre os pesquisadores franceses, gente como Henry Hubert e Robert Hertz, Marcel Mauss e Celestin Bouglé, que, juntamente com Durkheim, inaugura-se a pesquisa do humano enquanto realidade social e não mais – como vimos brevemente – como realidade apenas individual, ecológica ou biológica. Mas nos estudos de religião esses sociólogos tomaram temas especiais. Assim, Marcel Mauss escreveu páginas imorredouras sobre a magia (com Hubert e sozinho), sobre a prece, a reciprocidade e naturalmente o sacrifício (também com Hubert). Durkheim, por seu turno, escreveu também sobre a magia e a religião, mas o seu foco é a religião elementar, as formas mais simples da vida religiosa3. Ambos falaram dos rituais (ou cerimoniais), mas seu objeto de estudo não era esse aspecto do mundo “religioso”, de modo que em nenhum deles o rito surge como um objeto básico de investigação. Penso que esse ponto é importante, porque ele ajuda a revelar a enorme passagem que a contribuição de Van Gennep ajudou a fazer, numa época em que o rito (e a cerimônia) eram tomados como produtos (ou melhor, subprodutos) de atos estranhos, dotados de eficácia, situados na esfera interdita do sagrado. Ou seja, quase como formas puras (categorias de categorias, como sugeriu Claude Lévi-Strauss para o mana, estudado por Mauss), onde o mago e o mundo mágico faziam sua aparição4. No Les Rites de Passage, Van Gennep também estuda os rituais, mas ele o faz – como verá o leitor – de um modo um tanto diverso. Aqui não se toma mais o rito como um apêndice do mundo mágico ou religioso, mas como algo em si mesmo. Como um fenômeno dotado de certos mecanismos recorrentes (no tempo e no espaço), e também de certo conjunto de significados, o principal deles sendo realizar uma espécie de costura entre posições e domínios, pois a sociedade é concebida pelo nosso autor como uma totalidade dividida internamente. Mas como Van Gennep realiza suas descobertas e toma os ritos como objetos de estudo? Primeiro, é preciso indicar que Van Gennep tem uma ideia da sociedade. Não é, evidentemente, uma teoria completa ou mesmo sofisticada na sociedade, como indica Max Gluckman e Meyer Fortes em suas vigorosas críticas5, mas é uma ideia da sociedade bastante poderosa. E poderosa principalmente porque Van Gennep nesta época (estamos no início do século XX) estava entre a visão de Durkheim, segundo a qual a sociedade era composta de um sistema coercitivo de regras, sobretudo de regras penais e religiosas, com uma divisão interna entre o sagrado e o profano. E a visão vitoriana e mentalista, segundo a qual a sociedade se reduzia a mecanismos gerais, universais, vigentes no espírito dos seus indivíduos. Van Gennep, diferentemente de uns e outros, concebe o sistema social como estando compartimentalizado, como uma casa – ele diz numa metáfora que se me afigura muito feliz – com os rituais sempre ajudando e demarcando esses quartos e salas, esses corredores e varandas, por onde circulam as pessoas e os grupos na sua trajetória social. Concebendo a sociedade como internamente dividida, Van Gennep introduz um dinamismo no mundo social que nem vitorianos nem os seguidores de Durkheim foram capazes de reconhecer. Tal dinamismo foi concebido como sendo recheado de contrastes, informado sobretudo pela dialética do tipológico e do estrutural, da classificação e da perspectiva combinatória, da visão estática do rito, e pelo cerimonial concebido como sequências. Assim, é possível perceber nitidamente como a visão tipológica, apresentada logo nas primeiras páginas do livro, cede lugar a uma visão estrutural, fundada não mais numa classificação exclusiva e complicada de tipos de rituais, mas em princípios organizatórios, dos quais a necessidade de incorporar o novo, reduzir a incerteza e realizar a passagem de posição para posição, num deslocar constante, é fundamental. Vendo o mundo social como um ato de deslocar-se no tempo e no espaço, pois para Van Gennep estas passagens são equivalentes, ele chegou a uma posição muito importante, que na sociologia de Durkheim logo seria um problema e um dilema para críticos e seguidores. Refiro-me à divisão clássica entre sagrado e profano, sendo visto como cerne e raiz do próprio mundo social. Nesta perspectiva dualista do mundo, portanto, Durkheim frequentemente trabalha com um jogo do sagrado ao profano, do mecânico ao orgânico, do semelhante ao diferente, do grupal ao individual, do corpo à alma, estudando a sociedade em termo de um padrão simplificado de movimentos lógicos (e também históricos) entre domínios fixos e mutuamente exclusivos. Em outras palavras, Durkheim é um evolucionista de sequências duais e também um sociólogo dos pontos polares, jamais das margens e das posições mais confusas, quando a totalidade social não se encontra nem no sagrado nem no profano, nem aqui nem lá. Neste trabalho de Van Gennep, porém, o sagrado e o profano são totalmente relativos e possuem “rotatividade” (hoje, diríamos relatividade), pois sempre haverá um lado mais sagrado dentro da própria esfera tomada como sagrada, até que um novo contraste possa ser estabelecido e assim faça nascer algo mais ou menos sagrado ainda, num movimento complexo de interdições de interdições. Do mesmo modo, e pela mesma lógica, o eixo do profano é igualmente inesgotável. Assim, em vez de tomar o sagrado e o profano como polos estáticos e nitidamente separados, Van Gennep os concebe como posições dinâmicas, com valores dados pela comparação, contraste e contradição, termos que ajudam a distinguir, separar e – consequentemente – estabelecer significado, conforme é do conhecimento geral a partir, sobretudo, da fundação da Linguística de Saussure. O sentido não está, conforme revela Van Gennep, equacionando a uma essência do sagrado (ou do profano), mas na sua posição relativa dentro de um dado contexto de relações. Foi com esta perspectiva de sequencialidade que nosso autor estudou os rituais. E assim pôde perceber que o momento ritual era feito de alguns mecanismos simples,quase óbvios, mecanismos que se ligavam entre si por meio de sequências específicas. Estudar os ritos, então, seria equivalente a determinar como um dado elemento (indivíduo, grupo, sociedade ou objeto) passava por certas operações formais, os cerimoniais. A grande descoberta de Van Gennep é que os ritos, como o teatro, têm fases invariantes, que mudam de acordo com o tipo de transição que o grupo pretende realizar. Se o rito é um funeral, a tendência das sequências formais será na direção de marcar ou simbolizar separações. Mas se o sujeito está mudando de grupo (ou de clã, família ou aldeia) pelo casamento, então as sequências tenderiam a dramatizar a agregação dele no novo grupo. Finalmente, se as pessoas ou grupos passam por períodos marginais (gravidez, noivado, iniciação, etc.), a sequência ritual investe nas margens ou na liminaridade do objeto em estado de ritualização. A posição de Van Gennep é, parece-me, muito importante. Noto que ele não estava tomando os ritos como um objeto reificado, como era comum fazer no início do século, mas procurando discernir seus mecanismos básicos, isto é, seus elementos constitutivos. Em seguida, Van Gennep revela como era possível dar sentido a um conjunto enorme de materiais etnográficos relativos a várias áreas culturais do globo e, ainda, de civilizações do passado e do presente, tomando os rituais numa sequência. Em vez de privilegiar apenas o momento culminante do rito, como faziam seus contemporâneos, ele revela que o momento culminante nada mais é do que uma fase de uma sequência que sistematicamente comporta outros momentos e movimentos. A interpretação de uma fase é sempre parcial e, por vezes, enganadora, mas o estudo do momento anterior e do momento posterior é fundamental para o entendimento do ritual. Além disso, Van Gennep, como mais tarde chamou atenção E.R. Leach (1974), tomou os rituais de separação e margem como formando uma combinatória, um todo complexo, onde cada parte – embora pudesse não ser o ponto crítico do rito – desempenhava um papel importante. Leach, por exemplo, demonstra que os carnavais (ou mascaradas, como ele chama) são geralmente encerrados com uma formalidade; ao passo que ritos de agregação (como o casamento), onde a formalidade é básica e existe frequentemente tensão e conflito em potencial (especialmente em sociedades tradicionais), são finalizados com festas onde a licenciosidade tem um lugar de destaque. O problema, como procurei mostrar seguindo Leach e Van Gennep (entre outros), é não deixar de estudar o momento anterior ao rito (as fases preparatórias), o momento mesmo do rito e as suas sequências finais (cf. DA MATTA, 1977). É vendo toda a combinação de fases que se pode não só ter uma visão globalizada de todo o ritual, como também saber qual o ponto onde ele é mais dramatizado. Este seria, teoricamente, o ponto crítico que forneceria os elementos-chave para o seu significado. Hoje sabemos que o estudo comparativo de rituais é igualmente básico. Assim, seria ainda possível chegar a dimensões mais precisas do movimento ritual tomando, por exemplo, cerimônias de uma mesma sociedade, comparando-as entre si por meio de seus objetivos simbólicos contrastantes. Fiz tal experiência no meu trabalho citado (“Carnavais, paradas e procissões”), escolhendo como ponto de partida o estudo do Carnaval e das paradas de Sete de Setembro como momentos ritualizados em contraste na sociedade nacional brasileira. Pude assim, creio, surpreender uma grande e longa sequência ritual, na sociedade brasileira, uma espécie de “triângulo ritual” onde em cada um dos seus vértices existem momentos altamente dramáticos, todos patrocinados por um elemento básico do nosso universo social: o povo com o Carnaval, as Forças Armadas com a Semana da Pátria e, finalmente, a Igreja com a Semana Santa. Esse tipo de comparação, porém, não foi realizado por Van Gennep, embora ele tivesse uma aguda consciência do modo combinatório com que as sequências de separação, margem e agregação eram todas relativas umas às outras. E por ter isto em mente, sabia ele que certas fases dramáticas da vida social apenas tendiam para salientar certas sequências. De fato, num rito de margem, quando crianças são transformadas em noviços e depois em homens adultos, temos, evidentemente, um período inicial de separação (com uma dramatização de morte dos noviços). E, naturalmente, uma sequência final de agregação, quando o grupo retoma sua posição no seio de suas famílias (clãs ou linhagens) e é integrado no sistema, mas numa nova posição. Falando em iniciação, aliás, não se pode deixar de notar a profunda observação de Van Gennep que a iniciação dos jovens tende a adquirir, em muitas sociedades, uma espécie de autonomia, com uma recriação de formas alternativas de vida social, fundadas em princípios diversos daqueles que vigoram no mundo diário. Assim, por exemplo, no Caso dos índios Apinayé, que tive a oportunidade de estudar (cf. DA MATTA. Um mundo dividido: A estrutura social dos índios Apinayé, nesta coleção), os noviços são retirados da aldeia e ficam acampados longe dos olhos de todos os seus parentes. Morrem socialmente e são assim separados do mundo cotidiano. No seu acampamento, ficam sob a orientação de instrutores e formam grupos monossexuais, pois ali tem-se uma sociedade de homens onde deve reinar a concórdia e a instrução. As duas moças que se ligam aos grupos de noviços (pois que eles se dividem simetricamente em dois grupos) formam uma visível minoria, e relações sexuais com elas são terminantemente proibidas. No seu acampamento, os noviços recebem seus emblemas de metades e ganham também o direito de escolher um “amigo”, ficando para sempre ligado a este companheiro de ritual. É formando esta espécie de sociedade invertida (onde as mulheres não servem para o prazer ou reprodução sexual, onde os grupos são monossexuais, onde todos vivem aprendendo e em harmonia) que o período liminal das sociedades Jê-Timbira do Brasil Central se revela. Ali, em pleno cerrado e no meio de uma existência temporariamente marginal (ou liminal), os jovens não só aprendem os modelos mais básicos do seu sistema, mas, fazendo isso, descobrem uma forma alternativa de viver socialmente num mundo onde as famílias e as crianças desaparecem e com elas as diferenças que constituem a principal raiz dos seus conflitos cotidianos. Por isso, as iniciações e os períodos liminais são formas paradoxais. Ao mesmo tempo que inculcam valores e reprimem sentimentos, elas também apontam na direção de sistemas de comportamento alternativos. Foi com esta posição altamente dinâmica que Van Gennep estudou os rituais de passagem e, com isso, lançou luz sobre os modos de reunião formal, tão comuns quanto a própria existência em sociedade. Ele viu, pois, tudo como sendo constituído de passagens e deslocamentos, quando as fases se resolviam entre si dialeticamente, com a anterior sendo cancelada pela posterior e, ambas, finalmente, sendo resolvidas por uma síntese ou terceira fase, quando o mundo retorna ao seu curso rotineiro e normal. Nesta dialética, Van Gennep encontrou o centro mesmo do mundo social como um processo perene de buscar a unidade na dualidade (como ocorre nos casamentos quando a sociedade deseja fazer de dois indivíduos uma entidade), a divisão no contínuo (como ocorre nos funerais quando tentamos por meio do rito nos separar dos nossos entes queridos que precisam ser colocados fora do nosso mundo), a sociedade no indivíduo (quando procuramos marcar os filhos com as formas e valores que adotamos como críticas na definição daquilo que é verdadeiramente humano e digno), o indivíduo, como símbolo da sociedade (quando investimos uma pessoa num cargo que representa todo o grupo naquilo que ele deve ter de positivo, de forte e de honrado). Foi por ter podido assim compreender a realidade social que Van Gennep foi capaz de antecipar algumas posições básicas da Antropologia Social contemporânea, como a importância do contexto na discussão do significado, o valor das sequências no estudodos rituais, a separação radical entre os fatos da biologia e os fatos da sociedade – algo que Van Gennep percebeu com clareza quando trata nas iniciações (cap. VI) e, finalmente, o fato de que o casamento não é um acontecimento individual, como comanda a nossa ideologia de amor romântico, mas algo coletivo e grupal, que sempre mobiliza as forças sociais no sentido de criar uma nova unidade (o casal), e – além disso – procura integrar esta nova unidade no seio de algum grupo mais inclusivo. Com esta posição relativa ao casamento, Van Gennep como que antecipa os achados fundamentais de Lévi-Strauss, no seu monumental As estruturas elementares do parentesco (nesta coleção). Caberia agora, para finalizar esta apresentação, fazer algumas críticas, ainda que para mostrar que o autor destas páginas não toma Van Gennep como um autor perfeito. Uma delas, muito clara e já feita por Gluckman (op. cit.), é que nosso autor optou por uma demonstração horizontal de sua tese, preferindo a quantidade à qualidade que certamente obteria se tivesse realizado uma análise profunda de uns poucos rituais. Nesta horizontalidade, Van Gennep aproximou seu trabalho aos dos vitorianos, fazendo muitas observações em que tira alguns rituais do seu contexto, numa ânsia de demonstrar, até o ponto de exaustão, que a sua descoberta das três fases era verdadeira e que ela poderia ser encontrada em todos os ritos, dos grupos tribais até as grandes civilizações. Por outro lado, terminamos o livro sem uma verdadeira elaboração teórica relativa ao significado profundo dos “ritos de passagem”. É certo, como diz Van Gennep, que as passagens seguem de algum modo um padrão de paradas e movimentos, um movimento quase que cósmico de alternância entre o velho e o novo, o dia e a noite, o primeiro e o último, etc., mas sabemos que tais explicações são universais e vagas, como mandava o espírito da época. A tarefa que os estudiosos têm agora é, por isso mesmo, a de buscarem esta resposta. Gluckman, por exemplo, sugere que os ritos de passagem são realizados para dividir papéis sociais em universos altamente totalizados, onde as relações sociais tendem a uma multiplicação (são, nas suas palavras, “relações multiplex”) e todos se ligam com todos. Nestes sistemas, que caracterizam os sistemas tribais, a teia de relações sociais tem uma realidade maior do que o indivíduo, de modo que separar papéis é um ponto básico, realizado com o auxílio dos rituais, sobretudo dos ritos de passagem. Meyer Fortes, por seu turno, procura explicar os rituais falando de apropriação de cargos públicos por certos indivíduos. Assim, o rito seria o elemento básico que permitiria relacionar uma pessoa a um dado papel social, sobretudo quando esse papel social tem um caráter corporado, como é o caso das chefias. Ambas as teorias são ricas e ambas colocam o problema básico das relações entre sistemas sociais (ou sistemas de papéis sociais) e o problema do ritual. Creio que este passo é básico e eu prefiro esta linha àquela que toma os ritos apenas nos seus aspectos comunicativos, como é o caso das posições de E.R. Leach, sobretudo nos seus últimos trabalhos. Creio, porém, que o problema do “porquê” dos ritos de passagem está ainda longe de ser resolvido, já que o próprio termo ritual precisa de uma melhor conceituação. E, de fato, este é um termo complexo, pois pensar nele equivale a pensar na própria vida social e suas qualificações (cf. DA MATTA, 1977). Acho, porém, que a posição de Gluckman está basicamente correta e que os ritos permitem indicar orientações diferenciadas, em provável correlação com a lógica do sistema social que os elabora. Em sistemas “multiplex”, os ritos separam e dividem (eu diria, individualizam), retirando a pessoa da poderosa rede de relações sociais que tende a sufocá-lo, absorvê-lo e, até mesmo, torná-lo doente. Mas o erro seria tomar essa perspectiva como única. Assim, é preciso não esquecer que o contrário parece ocorrer em sistemas “não multiplex”, em formações sociais altamente diferenciadas, atomizadas e individualizadas, como é o caso da sociedade capitalista. Nestas sociedades onde o indivíduo é central, e onde todo o “sistema” é concebido como estando a serviço do indivíduo, pois é a sociedade que deve se transformar para fazer feliz o indivíduo e não o contrário, o problema não é evidentemente separar, mas juntar e integrar. Os ritos em sistemas individualistas, então, seriam ocasiões de totalização, momentos onde é possível discernir concretamente ou não (dependendo do rito) grupos e categorias, inclusive de pessoas. Deste modo, nossos rituais seriam mecanismos que objetivam a busca da totalidade frequentemente inexistente ou difícil de ser percebida no nosso cotidiano. Num sistema como o nosso, onde o indivíduo sempre tem primazia, tudo já está separado conceitual e concretamente. Por causa disso, aqui o rito não divide, junta. Não separa, integra. Não cria o indivíduo, mas a totalidade6. Não é necessário observar novamente que nenhum desses passos poderiam ser dados sem a contribuição de Arnold van Gennep. E sua lição, que por certo ficará entre nós, foi a de que viver socialmente é passar, passar é ritualizar. Num universo como o nosso, constituído destes seres frágeis e mortais, esses entes que automatizam ritualizando e, fazendo sempre do paradoxo sua única direção, vivem num jogo constante entre o individualizar-se e o agregar-se; enfim, num universo de homens, a realidade mais viva é a do conflito ordenado e a permanência se realiza, contraditoriamente, como revelou Van Gennep, na passagem. Jardim Ubá, julho de 1977 1. Faleceu em Paris, em 1957. 2. Para mim a melhor discussão do assunto, aqui tratado de modo breve e elementar, é o estudo magistral de EVANS-PRITCHARD, E.E. Theories of Primitive Religion. Oxford: Clarendon Press, 1965. 3. Cf. DURKHEIM, E. The Elementary Forms of Religious life: [s.l.]: Coller Books: [1ª edição, 1912]. • As regras do método sociológico. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937. 4. Cf. LÉVI-STRAUSS, C. Introdução à sociologia e antropologia, de Marcel Mauss. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária/Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 5. Cf. GLUCKMAN, M. Les Rites de Passage, e FORTES, M. Ritual and Office in Tribal Society. In: GLUCKMAN, M. (org.). Essays on the Ritual of Social Relations. Manchester: Manchester Univ. Press, 1962. 6. Para uma discussão da importância do indivíduo (e do individualismo) entre nós, cf. DUMONT, L. Homo Hierarchicus. Chicago: The Univ. of Chicago Press, 1970, e Religion, Politics and History in India. Mouton, 1970. Prefácio As descrições detalhadas e os trabalhos monográficos referentes aos atos mágico-religiosos acumularam-se nestes últimos anos em número muito grande. Parece, portanto, oportuno tentar uma classificação desses atos, isto é, dos ritos, de acordo com os progressos da ciência. Várias categorias de ritos são já bem conhecidas. Julguei que um grande número de outros ritos podiam igualmente ser agrupados em uma categoria especial. Como se verá, encontram-se em numerosas cerimônias. Mas não parece que até agora tenha sido percebido seu vínculo íntimo e razão de ser, nem que se haja compreendido o motivo das semelhanças entre eles. Sobretudo, não tinha sido mostrado o motivo pelo qual são executados de acordo com determinada ordem. Tendo de tratar de assunto tão vasto, a dificuldade consistia em não nos deixarmos submergir pelos materiais. Só utilizei uma reduzida porção dos que reuni, de preferência recorrendo às mais recentes e detalhadas monografias, remetendo na maioria das vezes, no que se refere a outros fatos e, sobretudo, a parte relativa às referências bibliográficas, às grandes antologias comparativas. Do contrário, cada capítulo exigiria um volume. Acredito, no entanto, que minha demonstração é suficiente, e rogo ao leitor chegar à mesma convicção aplicando o Esquema dos Ritos de Passagem aos fatos de seu campo pessoal de estudo. Uma parte da substância do presente livro foi comunicada, quase em forma de tabela, aoCongresso de História das Religiões reunido em Oxford, em setembro último, apresentada pelos srs. Sidney Hartland, J.G. Frazer e P. Alphandéry. Devo agradecer também ao meu editor e amigo, o Sr. E. Nourry, muito conhecido entre os folcloristas por um pseudônimo. Interessou-se pelo crescimento deste volume, comunicou-me documentos e deu-me a liberdade de reestruturá-lo a meu gosto. Assim, o editor foi nele vítima do sábio e do amigo. Mas, pelo menos, espero que não seja vítima do leitor. A.v.G. Clamart, dezembro de 1908 CAPÍTULO I Classificação dos ritos O mundo profano e o mundo sagrado. – As etapas da vida individual. – O estudo dos ritos. – A escola animista e a escola do contágio. – A escola dinamista. – Classificação dos ritos: animistas ou dinamistas, simpáticos ou de contágio, positivos ou negativos, diretos ou indiretos. – O esquema dos ritos de passagem. – A noção de sagrado. – Religião e magia. Toda sociedade geral contém várias sociedades especiais, que são tanto mais autônomas e possuem contornos tanto mais definidos quanto menor o grau de civilização em que se encontra a sociedade geral. Em nossas sociedades modernas só há separação um pouco nítida entre a sociedade leiga e a sociedade religiosa, entre o profano e o sagrado. Desde o Renascimento as relações entre estas duas sociedades especiais, no interior das nações e dos Estados, sofreram toda espécie de oscilações. Ora, esta divisão é encontrada em todos os Estados da Europa, de tal maneira que as sociedades leigas, de um lado, e as sociedades religiosas, de outro, ligam-se entre si separadamente por suas bases essenciais. Assim também a nobreza, as finanças, a classe operária passam através das nações e dos Estados sem levar em conta, ao menos teoricamente, as fronteiras. Cada uma dessas categorias contém por sua vez categorias de menor amplitude, grande nobreza e fidalguia provinciana, grande e pequena finança, profissões, ofícios diversos. Para passar de uma delas a qualquer das outras, para passar de camponês a operário e mesmo de servente de pedreiro a pedreiro, é preciso satisfazer certas condições que, entretanto, têm de comum assentarem somente em uma base econômica ou intelectual. Em vez disso, para o indivíduo que é leigo tornar-se sacerdote, ou inversamente, é preciso executar cerimônias, isto é, atos de um gênero especial, ligados a uma certa tendência de sensibilidade e a determinada orientação mental. Entre o mundo profano e o mundo sagrado há incompatibilidade, a tal ponto que a passagem de um ao outro não pode ser feita sem um estágio intermediário. À medida que descemos na série das civilizações, sendo esta palavra tomada no sentido mais amplo, constatamos a maior predominância do mundo sagrado sobre o mundo profano, o qual, nas sociedades menos evoluídas que conhecemos, engloba praticamente tudo. Nascer, parir, caçar, etc., são então atos que se prendem ao sagrado pela maioria de seus aspectos. Igualmente, as sociedades especiais são organizadas sobre bases mágico- religiosas, e a passagem de uma a outra assume a aparência da passagem especial marcada entre nós por determinados ritos, batismo, ordenação, etc. Ainda aí as sociedades especiais permeiam várias sociedades gerais. Assim, o grupo totêmico constitui uma mesma unidade através das tribos da Austrália, e seus membros consideram-se irmãos, do mesmo modo que todos os padres católicos, seja qual for o país em que vivam. O caso das castas já é mais complexo, porque à noção de parentesco acrescenta-se uma especialidade profissional. Se em nossas sociedades a solidariedade sexual é reduzida ao mínimo teórico, entre os semicivilizados desempenha considerável papel em consequência da separação dos sexos nas questões econômicas, políticas e sobretudo mágico-religiosas. A família constitui também entre eles uma unidade fundada em bases ora mais estreitas, ora mais largas do que entre nós, mas em todo caso rigorosamente delimitadas. Toda tribo, quer faça, ou não, parte de uma unidade política mais vasta tendendo para a nação, possui uma individualidade, cuja rigidez pode ser bem compreendida pelo conhecimento das cidades gregas. Finalmente, a todas estas formas de grupamento acrescenta-se mais uma, que não tem equivalente entre nós. Referimo-nos ao grupamento das gerações ou classes de idades. A vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupação a outra. Nos lugares em que as idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhada por atos especiais, que, por exemplo, constituem, para os nossos ofícios, a aprendizagem, e que entre os semicivilizados consistem em cerimônias, porque entre eles nenhum ato é absolutamente independente do sagrado. Toda alteração na situação de um indivíduo implica aí ações e reações entre o profano e o sagrado, ações e reações que devem ser regulamentadas e vigiadas, a fim de a sociedade geral não sofrer nenhum constrangimento ou dano. É o próprio fato de viver que exige as passagens sucessivas de uma sociedade especial a outra e de uma situação social a outra, de tal modo que a vida individual consiste em uma sucessão de etapas, tendo por término e começo conjuntos da mesma natureza, a saber, nascimento, puberdade social, casamento, paternidade, progressão de classe, especialização de ocupação, morte. A cada um desses conjuntos acham-se relacionadas cerimônias cujo objeto é idêntico, fazer passar um indivíduo de uma situação determinada a outra situação igualmente determinada. Sendo o mesmo o objetivo, é de todo necessário que os meios para atingi-lo sejam pelo menos análogos, quando não se mostram idênticos nos detalhes. Aliás, o indivíduo modificou-se, porque tem atrás de si várias etapas, e atravessou diversas fronteiras. Daí a semelhança geral das cerimônias do nascimento, da infância, da puberdade social, noivado, casamento, gravidez, paternidade, iniciação nas sociedades religiosas e funerais. Além do mais, nem o indivíduo nem a sociedade são independentes da natureza, do universo, o qual também está submetido a ritmos que afetam a vida humana. Também no universo há etapas e momentos de passagem, marchas para adiante e estágios de relativa parada, de suspensão. Por isso, devemos associar as cerimônias de passagens humanas às que se relacionam com as passagens cósmicas, a saber, de um mês ao outro (cerimônias da lua cheia, por exemplo), de uma estação a outra (solstícios, equinócios), de um ano ao outro (Dia do Ano-Novo, etc.). Parece-me, portanto, racional agrupar todas estas cerimônias de acordo com um esquema, cuja elaboração detalhada, entretanto, é ainda impossível. Com efeito, se o estudo dos ritos nestes últimos anos fez grandes progressos, estamos longe de conhecer em todos os casos sua razão de ser e seu mecanismo, com bastante certeza para poder com segurança distribuí-los em categorias. O primeiro ponto obtido foi a distinção entre duas classes de ritos: 1º) os ritos simpáticos7; 2º) os ritos de contágio. Os ritos simpáticos são aqueles que se fundam na crença da ação de semelhante sobre o semelhante, do contrário sobre o contrário, do continente sobre o conteúdo e reciprocamente, da parte sobre o todo e reciprocamente, do simulacro sobre o objeto ou o ser real e reciprocamente, da palavra sobre o ato. Foram postos em evidência por E. Tylor8 e estudados em várias de suas formas por A. Lang9, E. Clodd10, E. Sidney Hartland11, etc.; na França, por A. Réville12, L. Marillier13, etc.; na Alemanha, por Liebrecht14, R. Andree15, Th. Koch16, F. Schulze17, etc.; na Holanda, por Tiele18, A. Wilken19, A.C. Kruijt20; na Bélgica, por E. Monseur21, A. de Cock; nos Estados Unidos, por Brinton22, etc. É um fato surpreendente, entretanto, que a escola animista não tenha elaborado uma rigorosa classificação das crenças e ritos por ela delimitados e que as obras dos sábios dessa escola sejam menos ensaios de sistematização do que coletâneas de paralelos, considerados isoladamente de seus ambientes e não com relação às sequênciasrituais. Deve-se ver nisso, sem dúvida, a influência de A. Bastian que, tendo encontrado na juventude o Voelkergedanke, manteve-se fiel a este conceito até o final de sua longa carreira. Esta influência encontra-se na base da Civilização primitiva, de Tylor, obra que durante cerca de trinta anos serviu de moldura para todos os tipos de pesquisas complementares, sobretudo na Rússia. Uma orientação diferente surgiu com Mannhardt23, que permaneceu ignorado até que seu continuador J.G. Frazer24 mostrou o partido que se podia tirar dessa nova orientação. Mannhardt e Frazer por sua vez fizeram escola, tendo Robertson Smith25 contribuído para ela com um novo filão, o estudo do santificado, do sagrado, do puro e do impuro. Esta escola compreende, entre outros sábios, Sidney Hartland26, E. Crawley27, A.B. Cook28, Miss E. Harrison29, B. Jevons30 na Inglaterra; A. Dieterich31, K. Th. Preuss32 na Alemanha; Salomon Reinach33, Hubert e Mauss34 na França; Hoffmann-Krayer35na Suíça, etc. De fato, as escolas de Bastian e Tylor, de um lado, e de Mannhardt, Robertson Smith e Frazer, de outro, ligam-se estreitamente entre si. No entanto, nascia uma escola nova, a escola dinamista. R.R. Marett36 na Inglaterra e J.N.B. Hewitt37 nos Estados Unidos tomaram claramente posição contra a teoria animista, mostraram a insuficiência dela, já entrevista por Tiele (polizoísmo, ou polizoolatrismo38), e fundaram a teoria dinamista, que foi em seguida desenvolvida por K.Th. Preuss na Alemanha39 por L.R. Farnell40, A.C. Haddon41 e Sidney Hartland42 na Inglaterra, Hubert e Mauss43, A. van Gennep44 na França, etc., teoria que recruta hoje em dia cada vez um número maior de adeptos. Esta dupla corrente permitiu verificar que, ao lado dos ritos simpáticos e dos ritos de base animista, existem grupos de ritos de base dinamista (impessoal) e ritos de contágio. Estes últimos fundam-se na materialidade e na transmissibilidade, por contato ou à distância, das qualidades naturais ou adquiridas. Os ritos simpáticos não são necessariamente animistas, nem os ritos do contágio necessariamente dinamistas. Encontram-se aí quatro categorias independentes umas das outras, mas que foram grupadas aos pares por duas escolas que estudavam os fenômenos mágico-religiosos de um ponto de vista diferente. Além disso, um rito pode agir direta ou indiretamente. Entenderemos como rito direto aquele que possui uma virtude eficiente imediata, sem intervenção de um agente autônomo, por exemplo a imprecação, o feitiço, etc. Ao contrário, o rito indireto é uma espécie de choque inicial, que põe em movimento uma potência autônoma ou personificada, ou uma série inteira de potências desta ordem, por exemplo, um demônio ou uma classe de djins, ou uma divindade, que atuam em proveito de quem realizou o rito, voto, oração, cultos, no sentido comum da palavra, etc. O efeito do rito direto é automático, e do rito indireto faz-se por ação de retorno. Os ritos indiretos não são necessariamente animistas. Ao esfregar uma flecha contra determinada pedra, o indígena do centro da Austrália carrega-a da potência mágica chamada arungquiltha, e ao atirar na direção do inimigo, quando a flecha cai, a arungquiltha segue a tangente e fere o inimigo45. A força transmitiu-se, portanto, por meio de um veículo e o rito é dinamista, de contágio, indireto. Finalmente, é possível distinguir ainda ritos positivos, que são volições traduzidas em ato, e ritos negativos. Estes são habitualmente chamados tabus. O tabu é uma proibição, uma ordem de “não fazer”, de “não agir”. Psicologicamente corresponde à não vontade [nolonté. N.T.], assim como o rito positivo corresponde à vontade [volonté. N.T.], isto é, traduz, também ele, uma maneira de querer, é um ato e não a negação de um ato. Assim como viver não consiste no contínuo não agir, assim também o tabu não pode constituir por si só um ritual, e menos ainda uma magia46. Neste sentido o tabu não é autônomo. Só existe na medida em que é a contrapartida dos ritos positivos. Noutras palavras, todo rito negativo tem individualidade própria se o considerarmos isoladamente, mas o tabu em geral só pode ser compreendido com relação aos ritos “ativos”, com os quais coexiste no ritual. O engano de Jevons, Crawley, Salomão Reinach, etc., consiste em não terem apreendido esta relação de dependência recíproca. Um mesmo rito pode, portanto, incluir-se em quatro categorias ao mesmo tempo, havendo por conseguinte 16 possibilidades de classificação para determinado rito, sendo que as quatro contrárias se eliminam, de acordo com o seguinte quadro: Ritos animistas Ritos simpáticos.__________Ritos de contágio. Ritos positivos.__________Ritos negativos. Ritos diretos.__________Ritos indiretos. Ritos dinamistas Assim, para uma mulher grávida, não comer amoras, porque isso marcaria a criança, é executar um rito dinamista, de contágio, direto, negativo. Para um marinheiro que esteve em perigo de morte, oferecer como ex-voto um naviozinho a Nossa Senhora da Guarda é um rito animista simpático, indireto, positivo. E assim por diante. Talvez se descubram ainda outras classes de ritos. Mas as que mencionamos englobam já um número considerável. A dificuldade consiste apenas em saber exatamente, em cada caso, como interpretar o rito, e a dificuldade é tanto maior porque se o mesmo rito admite várias interpretações é também frequente que uma mesma interpretação seja válida para diversos ritos muito diferentes quanto à forma. A dificuldade consiste sobretudo em distinguir se um dado rito é essencialmente animista ou dinamista; por exemplo, se certo rito de transferência de uma moléstia tem por objetivo a transferência da moléstia enquanto qualidade ou a expulsão do corpo do paciente de uma moléstia personificada, de um demônio ou espírito da moléstia. Entrando em detalhes, o rito de passar por baixo de alguma coisa ou através dela, que será discutido mais adiante, presta-se a várias interpretações, uma animista e indireta, a outra dinamista e direta. É preciso reconhecer que nesta pesquisa os tratados gerais, nos quais o autor na maioria das vezes só apresenta os elementos atualmente úteis de um rito, só raramente constituem uma ajuda para chegar- se a alguma sistematização aceitável. Além disso, neles os ritos são classificados mais de acordo com suas semelhanças formais (cf. os trabalhos dos folcloristas) do que de acordo com seus mecanismos. Em um mesmo conjunto de cerimônias a maior parte dos ritos de detalhe incluem-se em uma mesma categoria. Assim, a maioria dos ritos da gravidez são dinamistas, de contágio, diretos e negativos. A maioria dos ritos do parto são animistas, simpáticos, indiretos e positivos. Mas trata-se sempre tão somente de uma proporção. Em pleno conjunto de um ritual animista positivo encontraremos, como contrapartida, um grupo de ritos dinamista positivos ou animistas de contágio e indiretos. Não dispondo do espaço necessário, não pude em cada caso indicar a categoria na qual se inclui cada rito de detalhe, mas pelo menos lembrarei que não é no sentido da interpretação unilateral dos mecanismos que interpreto os numerosos ritos aqui passados em revista. Uma vez estabelecida a classificação dos mecanismos torna-se relativamente fácil compreender as razões de ser das sequências cerimoniais. Ainda aqui observaremos que os teóricos mal tentaram estabelecer uma classificação dessas sequências. Existem excelentes trabalhos sobre este ou aquele elemento de uma sequência, mas só é possível citar poucas pesquisas que seguem de um extremo ao outro uma sequência inteira, e menos ainda trabalhos em que estas sequências sejam estudadas umas com relação às outras (cf. o capítulo X). O presente volume é consagrado a um ensaio desta natureza. Nele tentei grupar todas as sequências cerimoniais que acompanham a passagem de uma situação a outra, e de um mundo (cósmico ou social) a outro. Dada a importância dessas passagens, acredito ser legítimo distinguir uma categoria especial de Ritos de passagem, que se decompõem, quando submetidos à análise, em Ritosde separação, Ritos de margem e Ritos de agregação. Estas três categorias secundárias não são igualmente desenvolvidas em uma mesma população nem em um mesmo conjunto cerimonial. Os ritos de separação são mais desenvolvidos nas cerimônias dos funerais; os ritos de agregação, nas do casamento. Quanto aos ritos de margem, podem constituir uma secção importante, por exemplo, na gravidez, no noivado, na iniciação, ou se reduzirem ao mínimo na adoção, no segundo parto, no novo casamento, na passagem da segunda para a terceira classe de idade, etc. Se, por conseguinte, o esquema completo dos ritos de passagem admite em teoria ritos preliminares (separação), liminares (margem) e pós-liminares (agregação), na prática estamos longe de encontrar a equivalência dos três grupos, quer no que diz respeito à importância deles, quer no grau de elaboração que apresentam. Além disso, em certos casos o esquema se desdobra, o que acontece quando a margem é bastante desenvolvida para constituir uma etapa autônoma. Assim é que o noivado constitui realmente um período de margem entre a adolescência e o casamento. Mas a passagem da adolescência ao noivado comporta uma série especial de ritos de separação, de margem e de agregação à margem. E a passagem do noivado ao casamento supõe uma série de ritos de separação da margem, de margem e de agregação ao casamento. Esta mistura é também verificada no conjunto constituído pelos ritos da gravidez, do parto e do nascimento. Embora procure grupar todos estes ritos com a maior clareza possível, não escondo que, tratando-se de atividades, não se poderia chegar nestas matérias a uma classificação tão rígida quanto a dos botânicos, por exemplo. Sem dúvida, estou longe de pretender que todos os ritos de nascimento, da iniciação, do casamento, etc., sejam apenas ritos de passagem. Porque, além de seu objetivo geral, que consiste em assegurar uma transformação do estado ou a passagem de uma sociedade mágico-religiosa ou profana para outra, estas cerimônias têm cada qual sua finalidade própria. Assim, as cerimônias do casamento admitem ritos de fecundação; as do nascimento comportam ritos de proteção e de previsão; as dos funerais, ritos de defesa; as da iniciação, ritos de propiciação; as da ordenação, ritos de apropriação pela divindade, etc. Todos estes ritos, que possuem uma finalidade especial e atual, justapõem-se aos ritos de passagem ou se combinam com estes, às vezes de maneira tão íntima que não se sabe se tal rito de detalhe é, por exemplo, um rito de proteção ou um rito de separação. Este problema levanta-se, entre outros, a propósito das diversas formas dos ritos chamados de purificação, os quais podem ser uma simples suspensão do tabu, e por conseguinte retirar somente a qualidade impura, ou ser ritos propriamente ativos, que dão a qualidade de pureza. Isto me leva a falar rapidamente do que se pode chamar a rotação da noção de sagrado. Esta representação (e os ritos que lhe correspondem) tem como característica ser alternativa. O sagrado, de fato, não é um valor absoluto, mas um valor que indica situações respectivas. Um homem que vive em sua casa, em seu clã, vive no profano. Mas vive no sagrado logo que parte em viagem e se encontra, na qualidade de estranho, na proximidade de um acampamento de desconhecidos. Toda mulher, sendo congenitamente impura, é sagrada relativamente a todos os homens adultos. Se está grávida, torna-se além disso sagrada para as outras mulheres do clã, com exceção de suas parentas próximas. São estas outras mulheres que constituem então com relação a ela um mundo profano, que compreende também nesse momento as crianças e os homens adultos. Todo brâmane vive no mundo sagrado só pelo fato de seu nascimento, mas há uma hierarquia das famílias de brâmanes, que são sagradas umas com relação às outras. Finalmente, ao praticar os ritos chamados de purificação, a mulher que acaba de dar à luz reincorpora-se à sociedade geral, mas somente em secções especiais, a saber, seu sexo, sua família, etc., e permanece no sagrado com relação aos homens iniciados e às cerimônias mágico-religiosas. Assim, alternadamente, conforme nos coloquemos em uma posição ou em outra da sociedade geral, há um deslocamento dos “círculos mágicos”. Quem passa, no curso da vida, por estas alternativas encontra-se no momento dado, pelo próprio jogo das concepções e das classificações, girando47 sobre si mesmo e olhando para o sagrado em lugar de estar voltado para o profano, ou inversamente. Estas modificações do estado não deixam de perturbar a vida social e a vida individual. Um certo número de ritos de passagem destinam-se a reduzir os efeitos nocivos de tais mudanças. A prova de que esta transformação é considerada como real e grave encontramo-la no retorno, verificado nas grandes cerimônias e entre povos muito diversos, dos ritos de morte para o mundo anterior e de ressurreição no novo mundo, dos quais falamos no capítulo XI, ritos que constituem a forma mais dramática dos ritos de passagem. Só me resta expor brevemente com maior exatidão o sentido das palavras empregadas. Por dinamismo entenderemos a teoria impersonalista do mana. Designamos por animismo a teoria personalista, quer a potência personificada seja uma alma única ou múltipla, quer se trate de uma potência animal ou vegetal (totem), antropomórfica ou amorfa (Deus). Estas teorias constituem a religião, cuja técnica (cerimônias, ritos, culto) chamo magia. Como esta prática e esta teoria são indissolúveis, pois a teoria sem a prática torna-se a metafísica, e a prática fundada sobre outra teoria torna-se a ciência, empregarei sempre o adjetivo mágico-religioso. Obtém-se assim o seguinte quadro: 7. Conservo propositadamente o termo simpático, embora Frazer, H. Hubert, Haddon, etc. tenham admitido uma magia simpática que se subdivide em magia do contágio e magia homeopática. São então obrigados a criar uma seção especial para a magia dinamista, e por outro lado à homeopática seria preciso acrescentar a alopática ou enanteropática, etc. (cf. meu resumo das Lectures on the early history of the Kingship, de Frazer, Rev. Hist. Rel. 1906, t. LIII, p. 396-401). Do mesmo modo a classificação de Hubert e Mauss, Esquisse d’une théorie générale de la magie, p. 62s. e 66ss., é demasiado artificial. Acabam por fazer das “representações abstratas e impessoais de semelhança, contiguidade e contrariedade três faces de uma mesma noção”, que é a do sagrado, a qual é também a do mana, que por sua vez “é um gênero do qual o sagrado é a espécie”. 8. TYLOR, E.B. Primitive culture. 2 vols. Londres, 1. ed., 1871; trad. franc. da 2. ed., Paris, 1876; 4. ed., Londres, 1903. 9. LANG, A. Myth, Ritual and Religion. 2 vols. Londres, 1891; trad. fr., 1 vol., Paris, 1898; The Making of Religion, Londres, 1. ed., 1899; 2. ed., 1900; Magic and Religion, 1901, etc. 10. CLODD, E. Tom Tit Tot, Londres, 1898. 11. HARTLAND, E.S. The science of fairy tales. Londres, 1891; The Legend of Perseus. 3 vols. 1895- 1896, certos capítulos. 12. RÉVILLE, A. Prolégomènes de l’histoire des religions, Paris, 1881; Les religions des peuples non- civilisés. Paris, 2 vols., 1883, etc.; dos pontos de vista do qual participa ainda REVON, M. Le shinntoisme. Paris, 1905-1906. 13. MARILLIER, L. La survivance de l’âme et l’idèe de justice. Paris, 1894; numerosas análises na Revue de l’Histoire des Religions até 1906. 14. LIEBRECHT, Zur Volkskunde, 1879. 15. ANDREE, R. Ethnographische Parallelen, duas séries, Leipzig, 1878 e 1889. 16. KOCH, T.H. Zum Animismus der Südamerikanischen Indianer. Leyde, 1900. 17. SCHULZE, F. Der Fetischismus. Leipzig, 1871; Psychologie der Naturvölker. Leipzig, 1900. 18. TIELE. Histoire des Religions, etc. 19. WILKEN, A. Het animisme bij den volken van den Indischen Archipel. Indische Gids, 1885-1886, etc. 20. KRUIJT, A.C. Het animisme in den Indischen Archipel. La Hayc, 1907. 21. MONSEUR, E. L’âme pupilline. Rev. Hist. Rel., t. XLI (1905), p. 1-23, e L’âme poucet, ibid., p. 361-375. 22. BRINTON, D.E. The religion of primitive peoples.Nova York, 1897, etc. 23. MANNHARDT. Antike Wald -und Feldkulte, 1. ed., 1877; 2. ed., 1905; Mythologische Forschungen (póstumo), 1884. 24. FRAZER, J.O. The Golden Bough, 1. ed., 2 vols. Londres, 1890; 2. ed., 3 vols., 1900; 3. ed. 1907ss.; do qual apareceram: Lectures on the early history of the kingship. Londres, 1905; Adonis, Attis, Osiris, Londres, 1. ed., 1906, 2. ed., 1907. 25. SMITH, R. The Religion of the Semites. Londres, 1. ed., 1889; nova ed., 1907; trad. alemã por Stübe, Die Religion der Semiten, Friburgo em Breisgau, 1899, tradução que será a única citada aqui. 26. HARTLAND, E.S. The Legend of Perseus, alguns capítulos e numerosas análises. Folk-Lore. Londres. 27. CRAWLEY, E. The Mystic Rose. Londres, 1903. 28. COOK, A.B. The European Skygod. Folk-Lore, 1905-1908, e artigos em The Classical Review. 29. HARRISON, E. Prolegomena to the study of greek religion. Oxford, 1903. 30. JEVONS. Introduction to the history of religion. Londres, 1896. 31. DIETERICH, A. Eine Mithras-Liturgie. Leipzig, 1903; Mutter Erde, Leipzig, 1905, etc. 32. PREUSS, K.Th. Phallische Fruchtbarkeitsdämonen als Träger des altmexikanischen Dramas. Archiv für Anthropologie, 1904. 33. REINACH, S. Cultes, Mythes et Religions (coleção de artigos publicados desde 1892). 3 vols. Paris, 1905-1908. 34. HUBERT, H. & MAUSS, M. Essai sur la nature et la fonction du sacrifice. Année sociologique, t. II, 1898. 35. HOFFMANN-KRAYER. Die Fruchtbarkeitsriten in der Schweiz, Archives suisses des traditions populaires, 1908. 36. MARETT, R.R. Preanimistic Religion. Folk-Lore, t. XI (1900), p. 162-182; From spell to prayer, ibid., t. XV (1904), p. 132-165. 37. HEWITT, J.N.B. “Orenda and a definition of religion”. American Anthropologist, New ser., t. IV (1902), p. 33-46. 38. TIELE, C.P. Religions (Encicl. Brit.) e passim em suas obras. 39. PREUSS, K.Th. Der Ursprung der Religion und Kunst. Globus, 24 de nov., 1904 a 29 de junho de 1905, in-4, 54 p. 40. FARNELL, L.R. The evolution of religion. Londres, 1905. 41. HADDON, A.C. Magic and Fetischism. Londres, 1906. 42. HARTLAND, S. Address to the anthrop. sect. Brit. Ass. Adv. Sc, York, 1906, in-16, 14 p. 43. HUBERT, H. & MAUSS, M. “Esquisse d’une théorie générale de la magie”. Ann. Soc, t. VII (1904), p. 1-146. 44. VAN GENNEP, A. Tabou et Totémisme à Madagáscar, p. 1.903-1.904; Mythes et Legendes d’Australie, 1906; Animisme en dynamisme. De Beweging. Amsterdam, 1907, p. 394-396. 45. Cf. Mythes, Lég. Austr., p. 86. 46. Sobre o tabu como rito negativo, cf. VAN GENNEP, A. Tabou Tot. Mad., 1904, p. 26-27, 298, 319; HUBERT, H. & MAUSS, M. Esquisse, p. 129; e sobre o tabu como magia negativa, FRAZER, J.G. Kingship, p. 52, 54, 56, 59, assim como minha resenha crítica deste livro, Rev. de l’Hist. des Rel., 1906, t. LIII, p. 396-401; e MARETT. Is taboo a negative magic? Anthrop. Essays presented to E.B. Tylor, Oxford, 1907, p. 219-234. Como é mais fácil enumerar o que não se deve fazer do que aquilo que se deve ou pode fazer, os teóricos, encontrando em todos os povos extensas séries de tabus, proibições, etc., superestimaram a importância destas. 47. Este movimento de mudança de direção já tinha sido bem percebido por Robertson Smith, Die Religion der Semiten, p. 327-328 e índice, verbete tabu. Cf. as passagens do sagrado ao profano e vice-versa, entre os Tarahumare e os Huichol do México (LUMHOLTZ. Unknown México. Londres, 1900, 2 vols., passim). CAPÍTULO II A passagem material Fronteiras e marcos. – Tabus de passagem. – As zonas sagradas. – A porta, a soleira, o pórtico. – As divindades da passagem. – Os ritos de entrada. – Os sacrifícios de fundação. – Os ritos de saída. A fim de fixar as ideias falarei primeiramente da passagem material. Em nossos dias, salvo nos raros países que mantiveram o passaporte, esta passagem é livre nas regiões civilizadas. A fronteira, linha ideal traçada entre marcos ou postos, só é visível nos mapas, exageradamente. Mas não está tão longe assim o tempo em que a passagem de um país para outro e, no interior do mesmo país, de uma província para outra, e anteriormente até de um domínio senhorial para outro, era acompanhada por diversas formalidades, de ordem política, jurídica e econômica. Entretanto, havia também formalidades de ordem mágico-religiosas, por exemplo, a proibição dos cristãos, muçulmanos e budistas entrarem e permanecerem na parte do globo não submetida à sua fé. É este elemento mágico-religioso que nos interessa aqui. Para vê-lo em ação plenamente é preciso retornar a tipos de civilização nos quais o elemento mágico-religioso se intromete, ou se intrometia, naquilo que atualmente é apenas um domínio leigo. Embora em regra geral o território ocupado por uma tribo semicivilizada seja definido apenas por acidentes naturais, seus habitantes e vizinhos sabem muito bem em que limites territoriais prevalecem seus direitos e prerrogativas. Acontece, porém, que o marco natural seja um rochedo ou uma árvore, um rio ou um lago sagrados, que é proibido atravessar sob pena de sanções sobrenaturais. Este caso parece, no entanto, raro. Frequentemente o limite é marcado por um objeto, poste, pórtico, uma pedra em pé (marco, termo, etc.), que foi colocado nesse lugar com acompanhamento de ritos de consagração. A proteção da proibição pode ser imediata ou mediata (divindades das fronteiras, representadas, por exemplo, nos kudurrus babilônicos; Hermes, Príapo48, etc., divindades dos marcos, etc.). Pela colocação ou fixação cerimoniais dos marcos ou dos limites (charrua, pele de animal cortada em correias, fosso, etc.), um espaço determinado do solo é apropriado por determinado grupo, de tal maneira que, sendo estrangeiro, penetrar neste espaço reservado é cometer um sacrilégio, do mesmo modo que, sendo profano, penetrar em um bosque sagrado, em um templo, etc. Houve, às vezes, confusão entre esta santidade do território assim delimitado e a crença na santidade da terra inteira, enquanto Terra-Mãe49. Na China, de acordo com os mais antigos documentos, não era a Terra que se considerava como divindade, mas cada parcela de solo era um bem sagrado para seus habitantes e possuidores50. Do mesmo modo, em Loango, ao que me parece51. O mesmo ainda acontecia no que diz respeito ao território das cidades gregas, de Roma52, etc. A proibição de penetrar num território desta espécie tem, portanto, o caráter de interdição propriamente mágico-religiosa, interdição expressa por meio de marcos, muros, estátuas no mundo clássico, e por meios mais simples entre os semicivilizados. Não é preciso dizer que estes sinais não são mais colocados em toda a linha fronteiriça, assim como também entre nós não são os postes, mas somente nos lugares de passagem, nos caminhos ou nas encruzilhadas. O meio mais simples consiste em colocar no centro do caminho ou atravessado um maço de ervas, um pedaço de pau, uma estaca munida de um feixe53, etc. Um pouco mais complicada é já a construção de um pórtico, acompanhado ou não de objetos naturais54 ou de estátuas mais ou menos grosseiras55, procedimentos diversos que não sou obrigado a descrever com detalhes neste momento56. Entre nós, atualmente, um país toca o outro. Outrora, porém, não era assim, pois então o solo cristão não formava ainda senão uma parte somente da Europa. Em redor dele existia uma faixa neutra, dividida na prática em secções, as marcas. Estas foram, pouco a pouco, recuando, por fim desapareceram, mas o termo carta de marca guardou o sentido de carta de passagem de um território para outro através da zona neutra. As zonas desta espécie desempenharam importante papel na Antiguidade Clássica, sobretudo na Grécia. Eram o lugar do mercado, ou o lugar de combate57. Entre os semicivilizados encontramos esta mesma instituição da zona, mas seus limites são menos precisos porque os territórios já apropriados são ao mesmo tempo pouco numerosos e pouco habitados. Estas zonas formam geralmente um deserto, um pântano e, sobretudo, a floresta virgem, onde qualquer pessoa pode viajar e caçar de pleno direito. Admitindo-se a rotatividadeda noção de sagrado, os dois territórios apropriados são sagrados para quem se encontra na zona, mas a zona é sagrada para os habitantes dos dois territórios. Qualquer pessoa que passe de um para outro acha-se assim, material e mágico-religiosamente, durante um tempo mais ou menos longo em uma situação especial, uma vez que flutua entre dois mundos. É esta situação que designo pelo nome margem, e um dos objetivos do presente livro consiste em demonstrar que esta margem, simultaneamente ideal e material, encontra-se mais ou menos pronunciada, em todas as cerimônias que acompanham a passagem de uma situação mágico-religiosa ou social para outra. Dito isto, vejamos algumas descrições de cerimônias da passagem material. Quando um rei de Esparta partia para a guerra fazia um sacrifício a Zeus. Se os fados eram favoráveis, um portador do fogo tomava o fogo no altar e levava-o à frente do exército até a fronteira. Aí chegado, o rei fazia novamente um sacrifício e, se os augúrios fossem novamente favoráveis, atravessava a fronteira e o portador do fogo precedia sempre o exército58. Vemos, aqui, nitidamente em ação o rito de separação do território pessoal no momento da entrada no território neutro. Vários ritos de passagem das fronteiras foram estudados por Clay Trumbull59, que menciona o seguinte rito: quando o General Grant chegou a Assiout, localidade de fronteira, ao desembarcar foi sacrificado um boi, sendo a cabeça colocada de um lado de uma ponte estreita e o corpo do outro, de modo que Grant teve de passar entre as duas partes, saltando por cima do sangue derramado60. Este rito que consiste em passar no meio de um objeto cortado em dois ou entre dois ramos, ou por baixo de alguma coisa, é um rito que se deve, em certo número de casos, interpretar como rito direto de passagem. A ideia nele contida é a de que a pessoa dessa maneira sai do mundo anterior para entrar em um mundo novo61. Os procedimentos de que falamos aplicam-se não somente quando se trata de um país ou de um território, mas também de uma aldeia, de uma cidade, quarteirão, templo ou casa. Porém, então, a zona neutra restringe-se progressivamente, até reduzir-se (exceto para o pronaos, o narthex, o vestibulum, etc.) a uma simples pedra, uma viga, uma soleira62. O pórtico- tabu-de-passagem torna-se neste caso a poterna das muralhas, a porta dos muros de bairro, a porta da casa. Vê-se assim o caráter sagrado localizar-se não somente no limiar, sendo igualmente sagrados os lintéis e a arquitrave63. A moldura inteira da porta forma um conjunto, e se os ritos especiais são diferentes isso acontece por motivos técnicos imediatos. A soleira é regada com sangue ou com água lustral. Os portais são revestidos de sangue, de perfume, ou neles se aplicam ou se penduram os sacra, fazendo-se o mesmo na arquitrave. Por não ter compreendido isto, Clay Trumbull, na monografia que dedicou à “Aliança pela soleira”, passou ao largo da interpretação natural, embora tenha escrito, a propósito da soleira de bronze na Grécia: “encontramos aí um sinônimo arcaico do limite exterior do domínio espiritual”. De maneira mais precisa é possível dizer que a porta é o limite entre o mundo estrangeiro e o mundo doméstico, quando se trata de uma habitação comum, entre o mundo profano e o mundo sagrado, no caso de um templo64. Assim, “atravessar a soleira” significa ingressar em um mundo novo. Tal é o motivo que confere a esse ato grande importância nas cerimônias do casamento, da adoção, da ordenação e dos funerais. Não insisto mais aqui sobre os ritos de passagem da porta porque serão encontrados outros exemplos descritos nos capítulos seguintes. Observaremos que os ritos realizados na própria soleira são ritos de margem. Como rito de separação do meio anterior há ritos de “purificação” (a pessoa se lava, se limpa, etc.), em seguida ritos de agregação (apresentação do sal, refeição em comum, etc.). Os ritos da soleira não são, por conseguinte, ritos “de aliança” propriamente ditos, mas ritos de preparação para a aliança, os quais são procedidos por ritos de preparação para a margem. Proponho, por conseguinte, denominar ritos preliminares os ritos de separação do mundo anterior, ritos liminares os ritos executados durante o estágio de margem e ritos pós-liminares os ritos de agregação ao novo mundo. O pórtico rudimentar da África muito provavelmente é a forma inicial dos pórticos isolados, que tomaram no Extremo Oriente tão grande desenvolvimento65, pois aí se tornaram não somente monumentos independentes, com valor arquitetural próprio (pórticos das divindades, dos imperadores, das viúvas, etc.), mas também, pelo menos no xintoísmo e no taoismo, são utilizados como instrumentos cerimoniais (cf. os ritos da infância). Esta mesma evolução, do pórtico mágico ao monumento, parece ter sido a do arco do triunfo romano, devendo o triunfador primeiramente, graças a uma série de ritos, separar-se do mundo inimigo para poder voltar, ao passar por baixo do arco, para o mundo romano, sendo neste caso o rito de agregação e sacrifício a Júpiter Capitolino e às divindades protetoras da cidade66. Até aqui o pórtico ritual atuou diretamente. Mas, em outros casos, nele se localizam divindades especiais. Estas “guardiãs da soleira”, quando tomam proporção monumental, como se dava no Egito, na Assíria, na Babilônia (dragões alados, esfinge, monstros de toda espécie)67, na China (estátuas), relegam ao segundo plano a porta e a soleira. Nesse caso, é a elas somente que se dirigem as preces e os sacrifícios. O rito de passagem material tornou- se um rito de passagem espiritual. Não é mais o ato de passar que constitui a passagem, e sim uma potência individualizada que assegura imaterialmente esta passagem68. Ora, é raro que estas duas formas se encontrem isoladas, pois na imensa maioria dos casos apresentam-se combinadas. Vemos, com efeito, nos diversos cerimoniais o rito direto ligar-se ao rito indireto, o rito dinamista ao rito animista, ou para afastar os obstáculos que podem opor-se à passagem ou para efetuar esta própria passagem. Entre os ritos de passagem material convém ainda citar os da passagem dos desfiladeiros, e que consistem em depositar diversos objetos (pedras, trapos, pelos, etc.), oferendas, invocações ao gênio do lugar, etc.: Marrocos (kerkur), Mongólia, Tibete (obo), Assam, Andes, Alpes (capelas), etc. A travessia de um rio é acompanhada frequentemente por cerimônias69, e como rito negativo correspondente encontra-se a proibição do rei ou do sacerdote atravessar este ou aquele rio, ou os cursos d’água em geral. Da mesma maneira, o embarque ou o desembarque, o ato de subir para uma carruagem ou um palanquim, de montar a cavalo para viajar, etc., acompanham-se muitas vezes de ritos de separação na partida e de ritos de agregação na volta. Finalmente, em alguns casos os sacrifícios chamados de fundação ou de construção incluem-se na categoria dos ritos de passagem. É surpreendente que tenham sido estudados isoladamente quando fazem parte de um conjunto cerimonial homogêneo, a cerimônia de mudança de domicílio70. Toda casa nova conserva-se tabu até que, mediante ritos apropriados, tenha sido tornada noa71. Esta suspensão do tabu, em suas formas e mecanismos, é a mesma que a realizada quando se trata, por exemplo, de um território ou de uma mulher, etc., sagrados. Há lavagem ou lustração, ou comensalidade. Outras práticas têm por finalidade fazer a casa manter-se inteira, sem desmoronar, etc. Foi um erro ter-se visto em um certo número dessas cerimônias sobrevivências e deformações de um antigo sacrifício humano. Aos ritos de suspensão do tabu, de fixação de um gênio protetor, de transferência da primeira morte, de segurança futura de toda espécie sucedem ritos de agregação, libações, visita cerimonial, consagração das diversas partes, divisão do pão, partilha do sal, de uma bebida, refeição em comum (na França, dar um jantar [pendre la crémaillère]). Estes ritos são propriamente ritos de identificação dos futuros habitantes com sua nova residência. Quandoforam os próprios habitantes, por exemplo, um noivo ou um jovem esposo ajudado por sua família ou sua mulher, etc., que construíram a casa, os ritos começam no início da construção. Aos ritos de entrada na casa, no templo, etc., correspondem ritos de saída, idênticos, porém inversos. Na época de Maomé os árabes ao entrarem ou saírem acariciavam com a mão o deus doméstico72, de modo que o mesmo gesto, conforme o momento, era um rito de agregação ou um rito de separação. Igualmente, todo judeu piedoso sempre que atravessa a porta principal de sua casa toca com o dedo da mão direita a mazuza, caixinha fixada no umbral da porta e onde se acha um papel, uma faixa de pano, etc., tendo escrito ou bordado o nome sagrado de Deus (Shaddai). Em seguida beija um dedo e diz: “O Senhor proteja tua saída e tua entrada, a partir desse momento e para sempre!73”, juntando neste caso o rito verbal ao rito manual. Observe-se que, em geral, unicamente a porta principal, quer porque foi consagrada por um rito especial, quer porque está orientada em uma direção favorável, é sede de ritos de entrada e de saída. As outras aberturas não têm este mesmo caráter de margem entre o mundo familiar e o mundo exterior. Daí a preferência dos ladrões (subentendo em outras civilizações diferentes da nossa) em entrarem por outro lugar e não pela porta. Daí o costume de fazer sair o cadáver pela porta traseira ou pela janela, assim como o costume de não deixar entrar e sair a mulher durante a gravidez ou o período das regras senão por uma porta secundária, e também de não fazer penetrar o cadáver do animal sagrado a não ser pela janela ou por uma brecha, etc. Estes ritos têm por objetivo não poluir uma passagem que deve permanecer livre, uma vez que se tornou tal graças a ritos especiais. Do mesmo modo, não se deve aí cuspir, caminhar, etc. Às vezes o valor sagrado da soleira encontra-se em todas as soleiras da casa. Vi na Rússia casas onde havia na soleira de cada quarto pregado uma destas pequenas ferraduras que protegem o salto das botas. Ora, nessas casas cada quarto tinha seu ícone. Em todo caso, para compreender os ritos relativos à soleira, convém lembrar que esta é apenas um elemento da porta, e que a maioria desses ritos devem ser tomados no sentido direto e material de ritos de entrada, de espera e de saída, isto é, de ritos de passagem. 48. Com a ressalva de demonstração ulterior, dou a seguir minha interpretação da associação quase universal dos marcos com o falo. Há: 1ª) assimilação entre o pau ou a pedra colocada de pé com o pênis em ereção; 2ª) ideia de união, por associação com o ato sexual tendo valor de adjutório mágico; 3ª) ideia de proteção, em consequência do poder das pontas (chifres, dedos, etc.) de “furar” a influência maligna, o gênio malfazejo, etc.; 4ª) muito raramente ideia de fecundação do território e de seus habitantes. O elemento fálico dos balizas, hermes, etc., não tem, portanto, quase nada de sexual propriamente dito. 49. Encontraremos discutidas a propósito do nascimento e da infância várias interpretações, que julgo falsas, de A. Dieterich, Mutter Erde. Leipzig, 1905. 50. “Havia um deus do solo [na antiga religião chinesa] em cada cantão [sem dúvida para vinte e cinco famílias]. O rei tinha um deus do solo para seu povo e outro para seu uso pessoal. Igualmente cada senhor feudal, cada grupo de famílias e, mais tarde, cada dinastia imperial. Estes deuses presidiam a guerra, concebida como punição, sendo figurados por um pedaço de pau e associados às divindades das colheitas. Parece que a deusa-terra é posterior, sendo resultante de vários sincretismos”. Cf. CHAVANNES, “Le dieu du sol dans l’ancienne religion chinoise”. Rev. de l’Hist. des Rel., 1901, t. XLIII, p. 124-127, 140-144. 51. Compare com DENNETT, E. At the back of the black man’s mind. Londres, 1906, e PECHUEL- LOESCHE. Volkskunde von Loango. Stuttgart, 1907. 52. Cf. a interessante discussão de W. Warde Fowler sobre a lustratio pagi em Anthropology and the Classics, Oxford, 1908, p. 173-178; os leitores do presente volume admitirão mais, espero, que a lustratio não é outra coisa senão um rito de separação territorial, cósmica ou humana (retorno da guerra, etc.). 53. Às referências dadas por GRIERSON, H. The silent trade. Edinburgh. 1903, p. 12-14, nota 4 (onde infelizmente são confundidos os ritos de apropriação com os tabus de passagem), acrescente-se: DENNETT, op. cit., p. 90, 153 nota, 192; PECHUEL-LOESCHE, op. cit., p. 223-224, 456, 472, etc.; BUTTIKOFER. Reisebilder aus Liberia. Leyde, 1890, t. II, p. 304; VAN GENNEP, A. Tabou, Tot. Mad. Paris, 1904, p. 183-186 (tabus de passagem); BURGT, Van der l’Urundi. Bar-le-Duc, 1904, s.v. Iviheko, etc. O uso de fincar na terra um pau tendo em cima um molho de palha é muito difundido na Europa e destina-se a impedir a passagem por um atalho ou a entrada em um campo. 54. DU CHAILLU. L’Afrique sauvage. Paris, 1868, p. 38: pórtico com plantas sagradas, crânio de chimpanzé, etc. (Congo); os pórticos formados de duas estacas cravadas na terra tendo em cima uma vara transversal onde se penduram crânios, ossos, etc., são frequentes na Costa do Marfim, como tabus de passagem e proteção contra os espíritos (comunicação oral de Maurice Delafosse); PECHUEL- LOESCHE. Volkskunde von Loango. Stuttgart, 1907, fig. da p. 224 e 472; etc. 55. Cf. entre outros para o Surinam, K. Martin em Bijdr. Taal-Land-Volkenkunde Ned. Indie, t. XXXV (1886), p. 28-29, e figura 2, com uma estátua de dupla face que aproximei de Janus bifrons, Rev. Trad. pop., 1907, p. 97-98, o que confirma a teoria de FRAZER, J.G. Kingship. Londres, 1906, p. 289. 56. Às vezes coloca-se atravessada no caminho uma paliçada (DU CHAILLU, op. cit., p. 133) para impedir as doenças de entrarem no território das aldeias em Loango. Buttikofer, op. cit., p. 304: barreira de esteiras para impedir a entrada no bosque sagrado onde se realizam os ritos de iniciação. Tal é talvez o sentido da barreira de ramagens e de esteiras levantada no mesmo lugar na Austrália, na Nova Guiné, e não somente, conforme se acredita, para esconder dos profanos o que aí se passa. 57. Sobre estas zonas sagradas e faixas de território neutro, cf. GIERSON, H. op. cit., p. 29, 56-59, e sobre as fronteiras e marcos de fronteiras sagradas na Palestina, na Assíria e em Babilônia, GRESSMANN, H. “Mythische Reste in der Paradieserzählung”, Arch. für Religionswissenschaft, t. X (1907), p. 361-363, nota. Sobre a Festa das Terminalia em Roma, Warde Fowler, The Roman Festivals, Londres, 1899, p. 325-327; parece que o Monte Capitolino tenha sido na origem um destes terrenos neutros de que falo (cf. ibid., p. 317), enquanto fronteira entre a cidade do Palatino e a do Quirinal. Cf. ainda Roscher’s Lexikon, s.v. luppiter, col. 668 e FOWLER, W. Anthropology and the Classics. Oxford, 1908, p. 181ss., sobre o pomerium. 58. Cf. FRAZER, J.G. The Golden Bough. 2. ed. Londres, 1900, t. I, p. 305. 59. TRUMBULL, H.C. The threshold covenant. Nova York, 1896, p. 184-196. Este livro, muito difícil de ser encontrado, foi-me emprestado por Salomon Reinach, ao qual dirijo aqui meus agradecimentos. 60. A tese de Trumbull é que o sangue derramado é um símbolo, quando não um agente de aliança. 61. Uma coleção destes ritos foi publicada em Mélusine; alguns implicam a transferência de uma moléstia, mas os que se denominam habitualmente ritos de “purificação” implicam a ideia de passagem do impuro ao puro. Todas estas noções, e por conseguinte os ritos que lhes correspondem, amalgamam-se frequentemente em um mesmo conjunto cerimonial. 62. Para o detalhe dos ritos de passagem da soleira remeto ao livro de Trumbull. As pessoas se prosternam diante da soleira, beijam-na, tocam-na com a mão, caminha-se por cima, ou, pelo contrário, tiram-se os sapatos, ou salta-se sobre elas, e às vezes a pessoa é carregada por cima, etc. Cf. ainda CROOKE, W. The lifting of the bride, Folk-Lore, t. XIII (1902), p. 238-242. Todos estes ritos variam de povo a povo e se complicam caso a soleira seja o domicílio do gênio da casa ouda família, ou de um deus da soleira, etc. 63. Cf. uma lista detalhada das práticas chinesas relativas às portas em DOOLITTLE. Social life of the Chinese (Fou-Tchou). Nova York, 1867, t. 1, p. 121-122 e t. II, p. 310-312; GRUBE, V. Pekinger Volkskunde. Berlim, 1902, p. 93-97; para as ornamentações mágicas por cima de toda a estrutura da porta cf. TRUMBULL. Op. cit., p. 69-74 e 323. 64. Não se deveria considerar, de acordo com Trumbull, a soleira como o altar primitivo e o altar como a soleira transplantada, nem atribuir ao sangue nos ritos relativos à soleira uma importância maior do que a atribuída à água ou ao simples contato como rito de agregação ou de aliança. 65. Na China: COMBAZ, G. Sépultures impériales de la Chine. Bruxelas, 1907, p. 27-33; DOOLITTLE, op. cit., t. II, p. 299-300; no Japão: GRIFFIS, W.E. apud TRUMBULL, op. cit., apêndice, p. 320-324; CHAMBERLAIN, B.H. Things Japanese. Tóquio/Londres, 1890, p. 356, s.v. torii; MUNRO, R. Primitive culture in Japan. Tóquio, 1905, p. 144. 66. Para a sequência dos ritos do triunfo, cf. MONTFAUCON. Antiquités expliquèe. Paris, 1719, fol. t. IV, p. 152-161. 67. Sobre estas divindades e os ritos a elas referentes, cf. LEFEBVRE, E. Rites Egyptiens; construction et protection des édifices. Paris: Publ. Ec. Lettres d’Alger, 1890. Para os touros alados assírios, cf. p. 62. 68. Sobre as divindades da soleira, cf. além de Trumbull, op. cit., p. 94ss., FARNELL, Anthropological Essays pres. to E.B. Tylor. Oxford, 1907, p. 82; FRAZER, J.G. Ibid., p. 167; China: em geral Shen-Shu e Jü-Lü (cf. De GROOT-CHAVANNES. Les fêtes annuellement célébrées à Emouy. Paris, 1886, p. 597ss.), mas em Pequim também Ch’in-Ch’iung e Yiichih-Kung (cf. GRUBE. Pek. Volksk., p. 93-94); Japão: Is. Bird. Unbeaten Tracks in Japan. Londres, t. I, p. 117, 273; REVON, M. “Le Shinntoisme”. Rev. de l’Hist. des Rel., 1905, t. LI, p. 389 e 390; MUNRO. Primitive culture in Japan. Yokohama, 1906, p. 144, etc. 69. Cf. entre outros GAIDOZ, H. Le dieu gaulois du soleil. Paris, 1886, p. 65. Lembro as cerimônias de construção e de primeira utilização das pontes (cf. pontifex). – Quanto aos ritos de passar entre alguma coisa ou debaixo de alguma coisa, foram recolhidos em Melusine e por quase todos os folcloristas. Seria o caso de discuti-los todos novamente, o que não poderia fazer aqui. Só citarei, portanto, o seguinte, segundo KRASCHENINNIKOV. Histoire et description du Kamtchatka. Amsterdam: M.M. Rey, 1760, t. I, p. 130-131 e cf. p. 136: “Logo depois trouxe para a iurta ramos de bétula conforme o número das famílias. Cada Kamtchadal tomou um desses ramos para sua família, e depois de tê-lo curvado em círculo, fez passar através dele duas vezes sua mulher e seus filhos, que, ao saírem desse círculo, puseram-se a rodar. Isto chama-se entre eles purificar-se de seus erros”. Ora, depreende-se das detalhadas descrições de Krascheninnikov que a bétula é uma árvore santa para os Kamtchadal, sendo utilizada ritualmente na maioria das cerimônias. A interpretação, portanto, pode ser: 1º) houve santificação direta por influência da bétula, que é pura; 2º) houve transferência da impureza das pessoas para a bétula, o que concordaria com a continuação da cerimônia. “Depois de todos purificados, os Kamtchadal saíram da iurta com esses pequenos ramos pela jupana ou a primeira abertura e foram seguidos por seus parentes dos dois sexos. Quando estavam fora da iurta passaram pela segunda vez através desse círculo de bétula, após o que enterraram estas varas ou pequenos ramos na neve, inclinando a ponta para o lado do Oriente. Os Kamtchadal, depois de terem jogado nesse lugar todo seu tonchitche e de ter sacudido suas roupas, entraram na iurta pela verdadeira abertura e não pela jupana”. Noutras palavras, os indivíduos livram-se das impurezas materiais sagradas acumuladas nas roupas, do mais importante objeto ritual, o tonchitche, que constitui, juntamente com a “erva-doce”, etc., a categoria dos sacra, e dos ramos que se tornaram recipientes do sagrado. A passagem por baixo dos arcos sagrados retira automaticamente dos que passam o caráter sagrado que tinham adquirido ao executarem as complicadas cerimônias, cujo fim é marcado por este rito, e estes arcos são o pórtico que separa o mundo sagrado do mundo profano. Reingressando no profano, os atores da cerimônia podem novamente utilizar a grande porta da cabana. 70. Sobre os sacrifícios de construção cf. SARTORI, P. Ueber das Bauopfer. Zeitschrift für Ethnologie, 1898, p. 1-54, que não viu que alguns são ritos de apropriação. Para os ritos franceses, cf. SÉBILLOT, P. Le Folk-Lore de France. Paris, 1907, t. IV, p. 96-98 e para diversas teorias, TRUMBULL, C. Op. cit., p. 45-57; WESTERMARCK. The origin and development of moral ideas. Londres, t. I, 1906, p. 461ss. Estes fitos incluem-se em uma categoria mais vasta que denomino ritos da primeira vez (cf. capítulo IX). O encanto 43, 3-15 do Kausika Sutra (CALAND, W. Altindisches Zauberrituat. La Haye, 1900, p. 147-148), refere-se não somente à construção e à entrada, mas faz menção também da mudança de moradia das pessoas e dos animais. 71. Cf. para uma cerimônia típica, HILDBURGH. “Notes on sinhalese magic”. Journ. Anthrop. Inst., t. XXXVIII (1908), p. 190. 72. SMITH, R. Die Religion der Semiten, p. 187. 73. TRUMBULL, C. Threshold Covenant, p. 69-70 (Síria). CAPÍTULO III Os indivíduos e os grupos A situação e o caráter do estrangeiro. – Ritos de agregação do estrangeiro. – A comensalidade. – As trocas como rito de agregação. – A fraternização. – Os ritos de saudação. – Ritos sexuais de agregação. – O domicílio do estrangeiro. – O viajante: ritos de partida e de retorno. – A adoção. – A mudança de senhor. – Guerra, vendeta, paz. Toda sociedade geral pode ser considerada como uma espécie de casa dividida em quartos e corredores, com paredes tanto menos espessas e portas de comunicação tanto mais largas e menos fechadas quanto mais esta sociedade se aproxima das nossas pela forma de sua civilização. Entre os semicivilizados, ao contrário, estes compartimentos são cuidadosamente isolados uns dos outros, e para passar de um ao outro são necessárias formalidades e cerimônias que apresentam a maior analogia com os ritos de passagem material de que acabamos de falar. Todo indivíduo ou grupo que por seu nascimento ou por qualidades especiais adquiridas não têm direito imediato de entrar numa casa determinada desta espécie e instalar-se em uma destas subdivisões encontram-se assim em um estado de isolamento, que toma duas formas, encontradas separadamente ou combinadas. São fracos por estarem fora desta sociedade especial ou geral; são fortes por estarem no mundo sagrado uma vez que esta sociedade constitui para seus membros o mundo profano. Daí o diverso comportamento das populações, algumas das quais matam, roubam, maltratam o estrangeiro sem outras formalidades74, enquanto outras populações temem o estrangeiro, tratam-no com deferência, utilizam-no como um ser poderoso ou tomam contra ele medidas de defesa mágico- religiosas. O fato do estrangeiro ser, para um grande número de populações, um ser sagrado, dotado de potencialidade mágico-religiosa, sobrenaturalmente benfazejo ou malfazejo, foi posto em evidência muitas vezes, principalmente por J.G. Frazer75 e E. Crawley76. Ambos explicam pelo terror mágico-religioso que é sentido em presença do estrangeiro os ritos aos quais este é submetido, os quais teriam por finalidade torná-lo neutro ou benfazejo, e ainda “desencantá-lo”. H. Grierson admite este mesmo ponto de vista, mas interessando-se além disso pela situação econômica e jurídica do estrangeiro77. Suas referências já eram numerosas, e as de Westermarck78são ainda mais frequentes. Este autor enumera também um número maior de motivos que podem condicionar o comportamento em face do estrangeiro (sensibilidade, interesse positivo ou sobrenatural, etc.), e rejeita a teoria do contágio de Crawley (o qual só via nos ritos relativos ao estrangeiro um meio de suspender o “tabu do isolamento individual”), propondouma outra ainda mais estreita, a saber, estes ritos teriam por objeto destruir o mau olhado e “a imprecação condicional” que todo estrangeiro possui a priori79. Por outro lado, Jevons tinha restringido o sentido destes ritos a serem apenas ritos de purificação com relação às roupas e aos bens do estrangeiro, mas não à pessoa dele mesmo80. Cada um destes pontos de vista vale para uma série mais ou menos considerável de fatos de detalhe. Mas não se poderia compreender assim o sentido do mecanismo dos ritos relativos ao estrangeiro, nem a razão de ser da ordem em que se seguem, nem finalmente o motivo das analogias entre estas sequências rituais e a sequência dos ritos da infância, da adolescência, do noivado, do casamento, etc. Se consultarmos os documentos que descrevem em detalhe o cerimonial a que são submetidos os estrangeiros isolados ou os grupos de estrangeiros (caravanas, expedições científicas, etc.), verificamos, por baixo da variedade das formas, notável unidade das sequências. A chegada de estrangeiros em grande número tem como contraofensiva atos de reforço da coesão social local: os habitantes fogem da aldeia e se refugiam em lugares bem defendidos, morros, floresta; ou então fecham as portas, armam-se, dão o toque de reunir (fogueiras, trompa, tambores, etc.); ou então o chefe vai, sozinho ou com seus guerreiros, ao encontro dos estrangeiros, na qualidade de representante da sociedade e pessoa melhor imunizada do que a gente comum contra o contato com os estrangeiros. Em outros lugares enviam-se intermediários especiais ou delegados escolhidos. Por outro lado (salvo os casos de exceção, de ordem política, por exemplo), os estrangeiros não podem penetrar imediatamente no território da tribo ou na aldeia. Devem comprovar de longe suas intenções e sofrer um estágio, cuja forma conhecida é a enfadonha lenga-lenga africana. É a fase preliminar, que dura um tempo mais ou menos longo. Vem em seguida o período de margem, com a troca de presentes, o oferecimento, feito pelos habitantes, de vitualhas, estabelecimento em um alojamento81, etc. Finalmente, a cerimônia termina por ritos de agregação, entrada solene, refeição em comum, apertos de mão, etc. Cada uma dessas etapas da aproximação entre os estrangeiros e os indígenas varia em comprimento e complicação82 conforme os povos. Mas quer se trate de coletividades, quer de indivíduos, o mecanismo é sempre o mesmo, a saber, parada, espera, passagem, entrada, agregação. Nos detalhes, os ritos podem consistir em um contato propriamente dito (bofetada, aperto de mãos, etc.), em troca de presentes alimentares, preciosos, etc., em comer, beber, fumar (cachimbo indígena) conjuntamente; em sacrifícios de animais; em aspersões de água, de sangue, etc., ou unções; em se amarrarem, cobrirem-se juntos, sentarem-se no mesmo assento, etc. O contato indireto realiza-se por meio do “porta-voz”, pelo toque simultâneo ou sucessivo de um objeto sagrado, da estátua de uma divindade local, de um “poste feitiço”, etc. Esta enumeração poderia ser aumentada à vontade, mas não disponho aqui de lugar para examinar mais de perto senão alguns desses ritos. A comensalidade, ou rito de comer e beber em conjunto, de que voltaremos frequentemente a falar neste volume, é claramente um rito de agregação, de união propriamente material83, o que foi chamado um “sacramento de comunhão”84. A união assim formada pode ser definitiva. Mas na maioria das vezes dura apenas o tempo da digestão, fato constatado pelo Capitão Lyon entre os esquimós, que o consideravam individualmente como visita durante vinte e quatro horas85. Às vezes a comensalidade é alternada, havendo então troca de víveres, o que constitui um vínculo reforçado. Em outras ocasiões a troca de víveres faz-se sem comensalidade, e entra então na vasta categoria das trocas de presentes86. Estas trocas têm eficácia direta, possuem ação coercitiva. Aceitar um presente de alguém significa ligar-se a tal pessoa. É o que em parte foi visto por Crawley87, mas não foi compreendido por Ciszewski em sua monografia sobre a fraternização nas populações eslavas dos Bálcãs, da Rússia88, etc. Considera os ritos de agregação como “simbólicos”, reconhecendo quatro tipos principais: a comensalidade (beber e comer), o ato de amarrar-se conjuntamente, o de beijar-se e o “símbolo da naturae imitatio89. Deixo de lado este último (parto simulado, etc.), que é de ordem simpática, e observo que os ritos descritos por Ciszewski em suas pesquisas classificam-se da seguinte maneira: comensalidade individual ou coletiva90, comunhão cristã simultânea91, serem ligadas as pessoas com uma mesma corda ou cinto92, segurarem a mão93, dar o braço94 (abraçarem-se), colocarem juntas o pé sobre o lugar da lareira95, trocarem presentes96 (tecidos, vestidos), armas97 moedas de ouro ou de prata98 ramalhetes de flores99, coroas100, cachimbos101, anéis102, beijos103, sangue104, sacra cristãos105 (cruzes, círios, ícones), beijar os mesmos sacra106 (ícone, cruz, evangelho), pronunciar um juramento107. Ora, se consultar-mos a monografia de Ciszewski, verificamos que em todo cerimonial local há sempre combinação de vários desses procedimentos de união, e que em todos há um rito de troca, às vezes vários. Será este, portanto, que ocupa o lugar central, assim como nos ritos do casamento, conforme veremos. Trata-se de um procedimento de transferência mútua da personalidade, tão simples em seu mecanismo quanto o que consiste em se amarrarem juntas as pessoas, em se cobrirem com um mesmo manto ou véu, etc. Além disso, a troca dos sangues não é um ato mais primitivo, embora mais grosseiro ou cruel, que a troca de uma parte do vestuário, de um anel, de um beijo108. Devemos acrescentar às trocas mencionadas as dos filhos (por exemplo na China), das irmãs e das mulheres (Austrália, etc.), dos vestidos inteiros, das divindades, dos sacra de toda espécie, assim como dos cordões umbilicais109. Entre alguns ameríndios setentrionais (Salish, etc.), esta troca tomou a forma de uma instituição, o potlatch, executado periodicamente e pelos vários indivíduos cada qual por sua vez110, assim como uma das obrigações da realeza entre os semicivilizados consiste em reditribuir aos súditos os “presentes” oferecidos obrigatoriamente. Em resumo, estas idas e vindas de objetos entre pessoas dão origem a um grupo delimitado e criam a continuidade do vínculo social entre as pessoas, com a mesma significação que a “comunhão”. Como rito de união do mesmo gênero que a fraternização citarei ainda a realização em conjunto de um mesmo ato cerimonial (servir de padrinho, peregrinação, etc.), união que só pode ser rompida por um rito de separação especial. O mecanismo direto e simples do rito de agregação do estrangeiro é muito claro na cerimônia a que se submeteu Thomson no momento de entrar no território dos Massai: “No dia seguinte um desertor Suaeli veio me oferecer paz e fraternidade de parte do chefe do distrito. Trazem uma cabra, que eu seguro por uma orelha, e, depois de dizer a todos os presentes a finalidade da minha viagem, declaro não querer mal a ninguém e não ser perito em ou- tchaoui (magia negra). O embaixador do sultão segura a segunda orelha e promete, em lugar de seu senhor, que não nos fará nenhum mal e nos fornecerá víveres. Em caso de roubo os objetos furtados nos serão devolvidos. Em seguida sacrifica-se o animal. Retira-se da testa uma correia de pele na qual são feitas duas incisões. O Suaeli, segurando-a entre as mãos, fez entrar cinco vezes um de meus dedos na fenda inferior, empurrando-o finalmente até a parte baixa da falange, onde a conservei, ao mesmo tempo em que fazia o mensageiro repetir a mesma cerimônia na fenda superior. Terminada a operação, a faixa foi cortada em duas, cada metade ficando presa aos nossos respectivos dedos. Daí em diante o sultão de Chira é irmão do viajante branco”111. Entre os Wazaromo, Wazegura, Wasagara, etc., há troca dos sangues. Os dois indivíduos ficam sentados defronte um do outro com as pernas entrecruzadas, enquanto um terceirobrandiu acima deles um sabre, pronunciando uma imprecação contra quem rompesse o laço de fraternidade112. Neste caso, é o contato que liga, ao mesmo tempo que a troca dos sangues, e em seguida vem uma troca de presentes113. Citei este último documento sobretudo para mostrar que se comete um engano ao isolar arbitrariamente nas cerimônias de agregação os ritos nos quais há utilização do sangue, quando na realidade estes ritos especiais raramente constituem por si sós a cerimônia inteira. Na imensa maioria dos casos o processo admite simultaneamente ritos de contato, de comunhão alimentar, de trocas, de junção (vínculo, etc.), de “lustração”, etc. A combinação desses diversos ritos de agregação por contato direto é muito visível, por exemplo, nos seguintes costumes dos Shamar, tribo árabe. “Entre os Shamar, diz Layard, se um homem pode segurar a extremidade de uma corda ou de um fio, sendo a outra extremidade segura por seu inimigo, torna-se imediatamente protegido deste (dakhil). Se toca o pano da tenda ou se pode lançar contra ela seu bastão torna-se protegido do habitante. Se pode cuspir em um homem ou tocar com seus dentes algum objeto que lhe pertença, torna-se seu dakhil, se não for caso de roubo [...] Os Shamar não pilham nunca uma caravana que se encontra à vista de seu acampamento, porque desde que um estrangeiro pode ver suas tendas já é considerado como seu dakhil”114. Neste caso, mesmo a visão é um contato. Os ritos desta espécie desempenham importante papel no cerimonial do direito de asilo115. Da mesma maneira, o fato somente de pronunciar uma palavra ou uma fórmula, como o salam para os muçulmanos, tem por efeito criar uma união, ao menos temporária. É por isso que os muçulmanos procuram de todo modo contornar a situação para não darem o salam a um cristão116. As diversas formas de saudação incluem-se igualmente na categoria dos ritos de agregação. Variam conforme o recém-chegado é mais ou menos estranho aos habitantes da casa ou às pessoas que encontra. As diversas saudações dos cristãos, cujas formas arcaicas são ainda encontradas nos países eslavos, renovavam em cada ocasião o laço místico criado pelo fato de pertencerem os indivíduos a uma mesma religião, tal como o salam entre os muçulmanos. Ao lermos algumas descrições detalhadas veremos que entre os semicivilizados estas saudações têm por efeito: 1º) quando se trata de parentes, vizinhos ou membros da tribo renovar e reforçar a relação de pertencer a uma mesma sociedade, mais ou menos restrita; 2º) e quando se trata de um estrangeiro, introduzi-lo em uma sociedade restrita primeiramente, e depois, se tal for seu desejo, em outras sociedades restritas e ao mesmo tempo na sociedade geral. Ainda aqui as pessoas dão-se as mãos ou esfregam o nariz. A pessoa separa-se do mundo exterior tirando os sapatos, o manto, a cobertura da cabeça e se agrega comendo ou bebendo junto com outras, ou executando diante das divindades domésticas os ritos prescritos, etc. Em suma, o indivíduo identifica-se de uma maneira ou de outra com aqueles que encontra, mesmo que seja apenas durante um momento. Entre os Aino, por exemplo, fazer uma saudação é propriamente realizar um ato religioso117. As mesmas sequências de ritos encontram-se na troca das visitas, que por si mesma tem já essencialmente o valor de um laço, enquanto troca, troca que, por exemplo, é um verdadeiro costume intertribal entre os australianos. Na categoria dos ritos de agregação de contágio e diretos convém situar um certo número de ritos sexuais, como a troca das mulheres. Se o rito é unilateral, tem-se o empréstimo das mulheres (esposa, filha, irmã, parente, mulher do hospedeiro ou da mesma classe ou da mesma tribo que ele)118. Embora em alguns casos a finalidade deste empréstimo seja obter filhos, que se julga serem melhor dotados e mais fortes (como consequência do mana inerente a todo estrangeiro)119, em geral, contudo, o rito tem claramente o sentido de rito de agregação ao grupo, mais ou menos restrito, do qual a mulher emprestada faz parte. Na verdade, é um equivalente da comensalidade. Entre os indígenas da Austrália Central é costume enviar como mensageiros um homem e uma mulher, ou dois homens e duas mulheres, que levam como sinal de sua missão um feixe de penas de cacatua e ossos para o nariz (que são colocados no septo perfurado). Após a discussão de negócios entre os mensageiros e os homens do acampamento, os primeiros conduzem as duas mulheres para um lugar situado a certa distância do acampamento e vão embora. Se os homens do grupo visitado aceitam a negociação, têm todos relações sexuais com as mulheres. Se não aceitam, não vão ao encontro delas. Da mesma maneira, quando um grupo de guerreiros em expedição de vendeta acha-se próximo do acampamento, tendo a intenção de matar algum habitante, oferecem-lhe mulheres. Caso tenham relações sexuais com elas a desavença está terminada, porque a aceitação é sinal de amizade. Aceitar as mulheres e continuar a vendeta seria uma grave falta contra os costumes intertribais120. O coito é evidentemente nos dois casos um ato de união e de identificação, o que concorda com outros fatos por mim citados em diferente lugar121e que provam que entre os australianos do centro da Austrália o ato sexual é uma ajuda mágica, mas não um rito de multiplicação. Explicam-se assim também como ritos de agregação a um grupo unido por um vínculo religioso numerosos casos de prostituição sagrada, nos quais exatamente estas prostitutas, conforme é expressamente estipulado, são reservadas aos estrangeiros, sendo esta palavra entendida nessa ocasião de maneira mais ampla, equivalendo, sem dúvida, a “não iniciados” ou “não adoradores especiais da divindade à qual as prostitutas estavam ligadas”122. O protocolo de recepção do estrangeiro é frequentemente combinado segundo regras que seria interessante mencionar. O estrangeiro, por exemplo, recebe muitas vezes como alojamento uma “casa comum”, do tipo da lapa em Madagáscar, a qual, conforme as populações, tem mais ou menos o caráter de uma “casa dos jovens” ou de uma “casa dos homens adultos” ou de uma “casa dos guerreiros”123. Com isso fica incorporado, de fato, não à sociedade geral, mas à sociedade especial que melhor corresponde a seu caráter de homem ativo e poderoso. Esta hospitalidade dá ao estrangeiro um certo número de direitos militares, sexuais, políticos. Este costume encontra- se espalhado sobretudo na Indonésia, na Polinésia, em algumas regiões da África, ao passo que em outras o domicílio do estrangeiro é designado pelo chefe ou pelo rei, personagem santo. O estágio seguinte compreende o caravansarai do Oriente e o antigo rito de agregação é substituído por tributos de diversas naturezas. É a fase puramente econômica que começa. Estudamos até aqui o estrangeiro enquanto tal, do ponto de vista dos indivíduos ou grupos com os quais entra em contato. Mas todo estrangeiro tem também, em geral, sua própria residência, de onde seria surpreendente que tivesse podido partir sem passar por cerimônias de sentido inverso ao das cerimônias de agregação, a respeito das quais acabamos de falar. Além disso, sempre que o estrangeiro foi agregado a um grupo, ao deixar este grupo deve, em teoria, ser submetido a ritos de separação. Com efeito, na prática verifica-se um perfeito balanço. Aos ritos de chegada correspondem os ritos de despedida, constituídos por visitas, por uma última troca de presentes, uma refeição em comum, pelo vinho que se bebe rapidamente no momento da partida [“coup de l’étrier”], desejos e votos, acompanhamento durante um “pedaço do caminho”, e às vezes mesmo sacrifícios. Fatos desta natureza encontram-se na maioria dos ritos de exploração. Em todo caso, apresentamos aqui alguns: “A religião contém, principalmente entre os muçulmanos, numerosos preceitos relativos às viagens. Os livros de hadiths, os livros de adabs consagram todos um capítulo aos viajantes [...] No norte da África lança-se água debaixo dos passos de quem vai partir. Quando em 1902 deixamos Mogador para fazeruma viagem ao interior, um membro da família de um de meus companheiros muçulmanos saiu de sua casa no momento da partida e jogou um balde de água nos pés de seu cavalo”124. Pode ser que se trate de um rito de “purificação” ou um rito “destinado a destruir os malefícios futuros ou passados”, conforme acredita Doutté, de acordo com as interpretações de Frazer125. No meu modo de entender trata-se mais de um rito de separação, porque o viajante “atravessa um rubicon” artificial. Estes ritos de separação são, entre outros, muito complicados na China, quando os mandarins mudam de província, por ocasião da partida para uma viagem126, etc. Parece-me que todos os ritos de partida para viagens, expedições, etc., têm como finalidade fazer com que a cisão não seja brusca, e sim progressiva, do mesmo modo que a agregação é feita em geral por etapas. Quanto aos ritos de retorno do viajante consistem em ritos de retirada das impurezas contraídas na viagem (separação), em ritos de agregação progressiva, como certos ritos de bestialidade e alguns ordálios em Madagáscar127. Estes ritos são visíveis, sobretudo, quando as ausências, por exemplo, do marido, são periódicas. Contudo, pelo fato de partir o viajante não fica totalmente separado de sua sociedade essencial nem da sociedade a que se tinha incorporado durante a viagem. Daí a necessidade de a família praticar durante sua ausência regras de conduta, que consistem em evitar todo ato que pudesse prejudicar simpática ou diretamente (por telepatia) o ausente128. Daí também o hábito de munir o viajante, por ocasião de cada partida, de um sinal de reconhecimento (pau, téssera, carta, etc.) que o incorpora automaticamente a outras sociedades especiais. Assim é que entre os Votiake, em casos de doença, de epizootia, etc., recorre-se a um usto-tuno (variedade de xamã): “Manda-se buscá-lo longe, a fim de não conhecer ninguém, é conduzido de uma aldeia para outra, de acordo com as necessidades. Quando parte de sua residência, exige um ‘penhor’ da aldeia que o convoca. Este penhor consiste em um pedaço de pau no qual cada chefe de família inscreveu seu tamga (marca de clã e de propriedade). O usto-tuno deixa este pedaço de pau em sua casa, para que sua mulher possa exigir que lhe tragam de volta o marido. Esta formalidade repete-se em cada passagem do usto-tuno por uma outra aldeia, ficando sempre o pedaço de pau com os tamga da aldeia seguinte nas mãos da dona da casa de onde o usto-tuno sai”129. Do mesmo modo, as passagens dos mensageiros australianos através dos clãs ou das tribos são claramente ritualizadas130. Conhecem-se as práticas medievais europeias e orientais que regulavam a chegada e a partida dos mercadores. A mesma sequência encontra-se ainda no ritual da adoção. Em Roma compreendia: 1º) a detestatio sacrorum, conjunto dos ritos que separavam da classe patrícia, da gens, do antigo culto doméstico, da antiga família estreita; 2º) a transitio in sacra, conjunto dos ritos de agregação aos novos ambientes131. O ritual chinês inclui também o abandono do clã e do culto doméstico antigos em favor dos novos. Os ritos detalhados da adoção são idênticos aos que já foram assinalados, consistindo em trocas (de sangue, de presentes, etc.), laço, véu, assento comum, amamentação real ou simulada, nascimento simulado, etc. Os ritos de separação foram menos observados. Registro que entre os eslavos do Sul existem alguns que separam indivíduos considerados aparentados porque nasceram no mesmo mês. Entre os Shamar da Índia, em caso de adoção, todos os membros do clã se reúnem e os pais do menino dizem: “Tu eras meu filho por uma ação má (pap); agora és filho de fulano por uma ação santa (dharm)”. Os membros do clã aspergem a criança com arroz e o adotante dá um banquete cerimonial a todos os assistentes132. Por fim, entre alguns ameríndios o ritual da adoção está ligado às ideias relativas ao mana (orenda, manitu, etc.) e à reencarnação. A atribuição do nome desempenha nele um papel importante, porque é pelo nome que o indivíduo se classifica em secções do clã e matrimoniais diferentes. Além disso, atribui-se ao adotado uma idade fictícia, o que é feito mesmo quando se trata de um grupo (adoção dos Tuscarora como “filhos” pelos Oneida, dos Delaware, na qualidade de “cozinheiros”, pela Liga das Cinco Nações. Daí seu vestuário especial (feminino) e sua mudança de atividade econômica)133. Os ritos de mudança de senhor, para um cliente ou um escravo, explicam- se da mesma maneira, a saber, não somente o fato de uma escrava dar um filho ao seu senhor modifica-lhe a posição social, mas esta modificação é acompanhada por ritos de agregação que, em alguns casos, lembram as cerimônias do casamento. Os ritos de agregação ligam-se aqui aos ritos do direito de asilo. Como rito de agregação cito a violenta pancada com um pau dada pelo escravo de Loango ao novo senhor que escolhe134 e a cerimônia chamada tombica (ou chimbica) dos Kimbunda135. Em seguida, lembrarei as cerimônias da mudança de clã, de casta, de tribo, as da naturalização, etc., cujo mecanismo inclui igualmente ritos de separação, de margem e de agregação. Alguns casos determinados serão estudados mais adiante. O mecanismo é ainda o mesmo quando se trata não mais de indivíduos, porém, de grupos. Neste caso os ritos de separação compreendem a declaração de guerra, tribal ou familiar. Os ritos da vendeta europeia e semítica foram bem estudados. Anotarei consequentemente as descrições detalhadas da vendeta australiana136, onde se verá que o partido encarregado da operação separa-se primeiramente da sociedade geral para adquirir individualidade própria, e só retorna a ela de novo depois de executar ritos que lhe retiram esta individualidade temporária e o reintegram na sociedade geral. A vendeta tem por finalidade, do mesmo modo que em certos casos a adoção, regenerar uma unidade social que foi destruída em algum de seus pontos. Daí a semelhança de vários de seus elementos com as cerimônias de passagem. A cessação da vendeta, do mesmo modo que a da guerra (ritos de paz)137, termina por ritos idênticos aos da fraternização138, da adoção de grupos primitivamente estrangeiros. Finalmente, neste mesmo capítulo convém lembrar os ritos de aliança com um deus ou um grupo de divindades. A páscoa judia139 (a própria palavra significa passagem) é uma destas cerimônias de agregação que, devido a um processo de convergência, ligou-se em seguida, por um lado, às cerimônias da passagem de uma estação à outra, e, por outro lado, à passagem por Babilônia e retorno a Jerusalém. Assim, o ritual desta festa apresenta, combinados, vários tipos de ritos de passagem estudados neste volume. 74. No caso de banditismo organizado, por exemplo, de caravanas, ou de direito de naufrágio, o fenômeno é sobretudo econômico-jurídico e pouco se relaciona com o aspecto mágico-religioso. Às vezes, entretanto, como em Fiji, o direito de naufrágio parece ter por objeto impedir estrangeiros magicamente perigosos de penetrarem no solo da tribo. 75. FRAZER, J.G. The Golden Bough. 2. ed., t. I, p. 297-304; TRUMBULL, C. Op. cit., p. 4-5, e passim, só considera os ritos de entrada em relação com o sangue e a soleira. 76. CRAWLEY, E. The Mystic Rose, p. 141, 239, 250ss. 77. GRIERSON, H. The Silent Trade, p. 30-36 e 70-83. 78. WESTERMARCK, E. The origin and development of moral ideas, t. I. Londres, 1906, p. 570-596. 79. Cf. sobretudo p. 586-592 e as conclusões verdadeiramente simplistas da p. 390. 80. JEVONS, F.B. Introduction to the history of religion. Londres, 1896, p. 71. Não se compreende como o vestuário e outros bens diferentes podem ser impuros, perigosos, considerados tabus sem que o mesmo aconteça com o possuidor deles, a pessoa que os transporta ou os usa. 81. Que pode ser ou a “casa comum” dos jovens ou guerreiros, ou o local especial pertencente ao chefe ou a um nobre, ou ainda um caravansará, etc., ou finalmente um apartamento em uma casa habitada por uma família local, e então há muitas vezes agregação do estrangeiro a esta família, e com issoà sociedade geral. 82. Cf. as descrições comparadas em meu Tabu, Tot., Mad., p. 40-47. Há motivos para incluir nesta categoria o protocolo das recepções de missões de embaixadores, etc., que assinalam o contato de duas coletividades. Anoto particularmente o ritual relativo às “boas-vindas” dos australianos centrais. Cf. SPENCER & GILLEN. The northern Tribes of Central Australia. Londres, 1905, p. 568-579. 83. Cf. CRAWLEY, E. Mystic Rose, p. 157ss., 214, 456ss. 84. SMITH, R. Die Religion der Semiten, p. 206-210; HARTLAND, S. The Legend of Perseus, passim, nos 3 vols. 85. The private Journal of capt. G.F. Lyon. Londres, 1824, p. 350. 86. Para as referências bibl. cf. GRIERSON, H. Op. cit., p. 20-22 e 71, WESTERMARCK. Orig. of moral ideas, t. I, p. 593-594. 87. Mystic Rose, p. 237; ele interpreta erroneamente, de um ponto de vista unicamente individualista, a suspensão do tabu e os ritos de união, p. 237-257. 88. CISZEWSKI, S. Künstliche Verwandschaft bei den Südslaven. Leipzig, 1897. 89. Ibid., p. 141. 90. Ibid., p. 2, 33, 35, 39, 43-45, 54, 57. 91. Ibid., p. 34, 63. 92. Ibid., p. 3, 38, 40. 93. Ibid., p. 35. 94. Ibid., p. 46, 54, 55. 95. Ibid., p. 45, 47. 96. Ibid., p. 27, 33, 34, 45, 46, 55. 97. Ibid., p. 32, 57, 69. 98. Ibid., p. 43-45. 99. Ibid., p. 43-46. 100. Ibid., p. 41. 101. Ibid., p. 57. 102. Ibid., p. 42. 103. Ibid., p. 27, 33, 37, 38, 41-43, 45. 104. Ibid., p. 27, 45, 60-69. 105. Ibid., p. 37, 56-57. 106. Ibid., p. 34, 37, 39, 55, 56. 107. Ibid., p. 41, etc., p. 33, Ciszewski cita um caso interessante de fraternização por etapas (com três etapas: pequena, média e grande fraternização) que lembra as etapas da iniciação e da agregação às classes de idade. 108. Sobre a fraternização ver ainda o inquérito da Revue des Traditions Populaires e de Mélusine; TAMASSIA, G. L’Affratellamento. Turim, 1886; ROB. SMITH, Religion der Semiten, p. 239-248; ROBINSOHN, J. Psychologie der Naturvölker. Leipzig, 1896, p. 20-26. Segundo o testemunho de Ciszewski, p. 94, a fraternização (social) cria um parentesco mais poderoso que a consanguinidade natural. 109. TAPLIN. The Narrinyeri. 2. ed. Adelaide, 1878, p. 32-34. Esta troca cria a relação chamada ngia ngiampe, sobre a qual Crawley, op. cit., edificou sua teoria da “inoculação mútua entre indivíduos”, sem ver que todas as formas de troca acham-se exatamente no mesmo plano. Sobre a ação social da fraternização cf. Ciszewski, op. cit., passim, sobretudo a p. 29. A fraternização pode ser definitiva ou temporária, caso em que pode então ser renovada. Cf. CISZEWSKI, op. cit., p. 7, 45, 49, etc. 110. Cf. HILL TOUT, C. et al. Journal of the Anthropological Institute, t. XXXVI (1907), p. 311-312. 111. THOMSON, J. Au pays des Massaï. Paris, 1886, p. 101-102. 112. BURTON, R. The Lake Regions in Central Africa. Londres, 1860, t. I, p. 114. 113. Ibid., p. 115. 114. LAYARD. Discoveries in the ruins of Nineveh and Babylon. Londres, p. 317ss. Sobre o dakhil, cf. ainda ROB. SMITH. Kinship and marriage in early Arabia, nova ed. Londres, 1907, p. 48-49, nota. 115. Sobre o direito de asilo, cf. TRUMBULL, op. cit., p. 58-99. Hellwig, Das Asylrecht der Naturvölker, Berlim, 1903, não viu o lado mágico-religioso, nem sobretudo o vínculo com o tabu e os ritos de agregação do direito de asilo entre os semicivilizados, já parcialmente estudado deste ponto de vista por Rob. Smith, Rel. der Semiten, p. 53-57 e 206-208 e CISZEWSKI, op. cit., p. 71-86, etc. 116. DOUTTÉ. Merrâkech, t. I, p. 35-38. 117. Cf. o detalhe dos ritos em BATCHELOR, J. The Ainu and their folk-lore. Londres, 1891, p. 188- 197. Cf. CHAMBERLAIN. Things Japanese, 1890, p. 333-339 (Tea ceremonies); HUTTER. Kamerun, p. 135-136 e 417-418, e, em geral, as monografias etnográficas dedicadas à polidez, à etiqueta, à saudação e à hospitalidade. 118. Cf. para as teorias e as referências: WESTERMARCK. The origin of human marriage. Londres, 1891, p. 73-75; CRAWLEY. Mystic Rose, p. 248, 280, 285, 479; Marco-Polo, org. Yule Cordier. Londres, 1905, t, I, p. 214; t. II, p. 48, n. 4; p. 53-54; POTTER. Sohrâb and Rustem. Londres, 1902, p. 145-152. DOUTTÉ. Merrâkech, t. I, Paris, 1905, p. 149-150. Em Marrocos, assim como entre os Cabila da Argélia, o empréstimo das moças só se faz para os “hóspedes da tenda”, mas não para os “hóspedes da comuna”. 119. Este caso inclui-se na categoria geral dos ritos de multiplicação. Por exemplo, o empréstimo das mulheres relatado por Marco-Polo, op. cit., II, 53, que tem por finalidade garantir boas colheitas e em geral “um grande aumento de prosperidade material”. 120. SPENCER & GILLEN. Native Tribes of Central Australia. Londres, 1899, p. 98. 121. Mythes et légendes d’Australie. Paris, 1906, p. LVI-LVII; sobre o empréstimo das mulheres na Austrália, cf. Nat. Tr., p. 74, 106, 108, 267; Northern Tribes. Londres, 1904, p. 133-139. 122. Cf. os fatos em HARTLAND, S. At the temple of Mylitta. Anthrop. Essays pres. to E.B. Tylor, p. 189-202. Ademais os livros de Dulaure, Frazer, etc. 123. Cf. SCHURTZ, H. Altersklassen und Mannerbünde. Berlim, 1902, p. 203-213, sobretudo para as diversas formas de casa comum e sua evolução. 124. DOUTTÉ. Merrâkech, p. 31, 91. 125. FRAZER. Golden Bough, t. I, p. 303; cf. ainda GRIERSON, H. Silent Trade, p. 33-34, 72-74; WESTERMARCK. Moral ideas, t. I, p. 589, 594. 126. “No momento em que o mandarim se dispõe a partir, todos os habitantes vão para as grandes estradas. Alinham-se de espaço em espaço, desde a porta da cidade pela qual deve passar até duas ou três léguas adiante. Por toda a parte veem-se mesas de belo verniz, envolvidas em cetim e cobertas de doces de frutas, de licores e de chá. Todo o mundo o faz parar, contra sua vontade, quando passa, obrigam-no a sentar-se, comer e beber [...] O que há de mais divertido é que todos desejam possuir alguma coisa que lhe pertença. Uns tomam-lhe as botas, outros o boné, alguns seu sobretudo, mas ao mesmo tempo dão-lhe outro, e antes que esteja fora desta multidão acontece que calce às vezes trinta pares de botas diferentes”. LE COMTE, P. Nouv. Mém. de la Chine. Paris, 1700, t. II, p. 53-54. Para mais detalhes modernos, cf. DOOLITTLE. Social Life of the Chinese (Fou-Tchéou), t. II, p. 235-236 e 302-303. 127. Tab. Tot. Mad., p. 249-251 e 169-170. Sobre os ritos de retorno em geral, cf. FRAZER. Golden Bough, t. I, p. 306-307; dos guerreiros, LAFITAU. Moeurs des Sauvages Amériquains. Paris, 1724, t. II, p. 194-195, 260. Sobre os ritos de viagem na Índia Antiga, CALAND. Altindisches Zauberritual. La Haye (Ac. Néerl. des Sc.), 1908, p. 46, 63-64, etc. 128. O mesmo acontece por ocasião da ausência dos pescadores, caçadores, guerreiros. Cf. FRAZER. Golden Bough, t. I, p. 27-35; Tabou, Tot. Mad., 171-172, com referências a Flacourt, Catat, aos quais se acrescenta ELLIS, Hist. of Mad., t. I, p. 167; a Bornéu, HEWITT, Fl.E. Some Sea-Dayak tabus. Man, 1908, p. 186-187. 129. VASILIEV, I. Obozriènie iazytcheskikh obriadov, suevièrii u vièrovanii Votiakov Kazanskoi i Viatskoi gubernii. Kazan, 1906, p. 14. Cf. a este propósito publicações sobre os paus de mensagem, etc. 130. Cf. SPENCER & GILLEN. Native Tribes, p. 97, 159, 274; Northern Tribes, p. 139, 551; HOWITT, A.W. The Native Tribes of South East Australia. Londres, 1904, p. 678-691. 131. Cf. DAREMBERG & SAGLIO. Dictionn. des Antiq. grecques et romaines, s.v., adoptio, consecratio, detestatio, etc.; sobre a adoção entre os semicivilizados, cf. HARTLAND, S. The Legend of Perseus, t. II, p. 417ss.; FRAZER. Golden Bough, t. 1, p. 21ss.; entre os eslavos, CISZEWSKI, op. cit., p. 103-109. 132. CROOKE, W. In: “Census of India 1901”. Ethnographical Appendices. Calcutá, 1903, p. 171. 133. Cf. HEWITT. “Handbook of American Indians”, Bull. Bur. Am. Ethnol., n. 30, t. I, 1907, s.v. Adoption, p. 15-16. 134. PECHUEL-LOESCHE. Volkskunde von Loango. Stuttgart, 1907, p. 245-246. 135. Referências em POST. Afrik. furisprudenz. Leipzig, 1887, t. I, p. 102-105. 136. Cf. SPENCER & GILLEN. Northern Tribes, p. 556-568. 137. Cf. sobre estes ritos: HARTLAND, S. Op. cit., p. 250-251; CRAWLEY. Mystic Rose,p. 377, 239- 246; HUTTER. Kamerun, p. 435-438. 138. E da reconciliação individual. Em Bornéu “se dois inimigos mortais encontram-se em uma casa recusam olhar um para o outro até que um frango tenha sido morto, com o sangue do qual os dois indivíduos são aspergidos. Quando duas tribos fazem a paz, após a conclusão de solenes promessas, mata-se um porco, cujo sangue cimenta o laço de amizade”. SAINT-JOHN, S. Life in the forests of the Far-east. Londres, 1862, t. I, p. 64. A palavra cimentar deve ser tomada em sentido material e não, como em geral se faz, simbólico. Este rito nada tem de comum com a soleira, como acreditava Trumbull, op. cit., p. 21. 139. Não sei se esta interpretação muito simples já foi proposta. Explica a sequência dos ritos da Páscoa judia, e a integração na Páscoa cristã da ideia de morte e renascimento, sem necessidade de empréstimo aos ritos de Adonis, etc. Sendo desde o começo um cerimonial de passagem, esta festa aos poucos atraiu a si e absorveu todos os elementos que são ainda independentes entre outras populações. CAPÍTULO IV A gravidez e o parto A reclusão; os tabus; os ritos profiláticos e simpáticos. – A gravidez como período de margem. – Os ritos de reintegração e o retorno social do parto. – O caráter social dos ritos do parto. As cerimônias da gravidez e do parto constituem, em geral, uma totalidade, de tal maneira que frequentemente ritos de separação são primeiramente executados, para fazer a mulher grávida sair da sociedade geral, da sociedade familiar e às vezes mesmo da sociedade sexual. Em seguida vêm os ritos da gravidez propriamente ditos, a qual é um período de margem. Finalmente, os ritos de parto têm por objetivo reintegrar a mulher nas sociedades a que pertencia anteriormente ou designar para ela uma situação nova na sociedade geral, na qualidade de mãe, sobretudo quando se trata do primeiro parto e do nascimento de um menino. De todos estes ritos, os que foram melhor estudados são os da separação por ocasião da gravidez e do parto. Pelo menos J.G. Frazer e E. Crawley140 chamaram a atenção para alguns desses ritos, sobretudo a reclusão em cabanas especiais ou em local especial da residência habitual. Em seguida foram postos em evidência os tabus, principalmente alimentares, santuários e sexuais, e por fim os ritos chamados “de purificação”, que se devem considerar ora como ritos de suspensão dos tabus, ora como ritos de reintegração efetiva. Ficou assim estabelecido que nesse momento a mulher é colocada em um estado de isolamento, ou porque seja considerada impura e perigosa ou porque pelo próprio fato de estar grávida a mulher se encontra em um estado fisiológico e social temporariamente anormal. Nada há, portanto, de mais natural do que ser tratada então do mesmo modo que o doente, o estrangeiro, etc. Os ritos da gravidez, assim como os do parto, compreendem, além disso, um grande número de ritos simpáticos ou de contágio, diretos ou indiretos, dinamistas ou animistas, tendo por objetivo facilitar o parto e proteger a mãe e a criança, frequentemente também o pai ou os parentes, e toda a família ou o clã inteiro contra as más influências, impessoais ou personificadas. Estes ritos foram estudados repetidas vezes, sem dúvida porque são ao mesmo tempo os mais numerosos e os mais visíveis141. Não irei aqui ocupar-me deles e só me refiro a eles para indicar que não incluo em conjunto todos estes ritos na categoria dos ritos de passagem. É muitas vezes difícil distinguir claramente em cada caso particular quando se trata de um rito de passagem, de um rito de proteção ou finalmente de um rito simpático (invejas, por exemplo). Eis a sequência dos ritos da gravidez e do parto entre os Toda da Índia142: 1º) uma mulher grávida não deve penetrar nas aldeias nem nos lugares sagrados; 2º) no quinto mês realiza-se a cerimônia chamada “abandonamos a aldeia”: a mulher deve viver em uma cabana especial, sendo ritualmente separada da leiteria, indústria sagrada que é o centro da vida social dos Toda; 3º) ela invoca duas divindades, Pirn e Piri; 4º) queima cada uma das mãos em dois lugares; 5º) cerimônia da saída da cabana; a mulher bebe o leite sagrado; 6º) volta a viver em seu domicílio até o sétimo mês; 7º) no sétimo mês, “cerimônia do arco e da flecha”, que assegura um pai social para o futuro filho, uma vez que os Toda praticam a poliandria; 8º) a mulher volta para sua casa. Estas duas cerimônias só se realizam por ocasião da primeira gravidez, ou se a mulher casou-se com um novo marido ou se quer para seus filhos futuros um outro pai, diferente daquele que tinha escolhido anteriormente; 9º) a mulher dá à luz em sua casa, na presença de qualquer pessoa e sem cerimônias especiais; 10º) dois ou três dias após a mãe e a criança vão viver em uma cabana especial, sendo os ritos de partida da casa, de partida da cabana e de volta a casa os mesmos que nas duas cerimônias acima; 11º) chegados à cabana, a mulher, o marido e a criança passam a ser manchados com a impureza chamada ichchil; 12º) as outras cerimônias protegem contra o mau espírito keirt; o retorno à vida comum é feito bebendo o leite sagrado. Lendo a detalhada descrição destes ritos feita por Rivers, vê-se que o objetivo deles consiste em separar a mulher de seu ambiente, mantê-la em uma margem mais ou menos longa por três vezes e só reintegrá-la no ambiente comum por etapas, vivendo, por exemplo, em duas casas intermediárias entre a cabana que é tabu e o domicílio habitual. Quanto aos detalhes de outros procedimentos de separação durante a gravidez (reclusão, proibições sexuais e alimentares, suspensão da atividade econômica, etc.), remeto o leitor à obra de Ploss-Bartels143. Nela se verá que a gravidez constitui claramente um período de margem por etapas, que correspondem a certos meses considerados como mais ou menos importantes, em geral o terceiro, quinto, sétimo, oitavo e nono mês144. O retorno à vida comum raramente é feito bruscamente, mas também aqui há etapas que lembram os graus da iniciação. Assim, o parto não é o momento terminal do período de margem, pois este dura ainda para a mãe um tempo mais ou menos longo, conforme as populações. Sobre esta última etapa insere-se o primeiro período de margem da infância, do qual falaremos no capítulo seguinte. Sobre este ponto apresentamos dois documentos relativos aos indígenas norte-americanos. Entre os Oraibi do Arizona145 o parto é um “momento sagrado para a mulher”. Como regra geral, a mãe desta assiste ao trabalho, e para isso a mulher permanece em casa. Mas a mãe não deve assistir ao parto propriamente dito, assim como também não o marido, os filhos nem qualquer outra pessoa. Logo que a criança nasce a mãe vem, tira a placenta e vai enterrá-la, juntamente com o tapete, a areia, etc., ensanguentados, em um lugar sagrado, “a colina das placentas”. Durante vinte dias a jovem mãe fica submetida a tabus alimentares, e caso seja sua primeira gravidez não deve sair de casa, o que pode fazer desde o quinto dia se já teve filhos. No quinto, no décimo e no décimo quinto dia há a lavagem do corpo e da cabeça em forma ritual. No vigésimo dia esta cerimônia é realizada pela mulher, o filho, a mãe, o marido e aparentados. Nesse dia as mulheres do clã dão nomes à criança, que é então apresentada ao sol. Em seguida toda a família e as mulheres que deram nome à criança participam de um banquete, ao qual são convidados todos os habitantes do pueblo, por meio de um arauto especial. A partir desse dia tudo retorna à rotina normal na casa, para a mãe, a criança, a família e o pueblo. A sequência é, portanto, a seguinte: 1º) separação; 2º) período de margem com progressiva supressão das barreiras; 3º) reintegração na vida ordinária. Nas cerimônias dos Musquaki (Utagami ou Raposa) vê-se a intervenção da sociedade sexual. A mulher grávida é separada das outras mulheres, sendo reintegrada ao meio destas depois do parto por um rito especial, no qual uma certa mulher, que desempenha um papel importante nas outras cerimônias, atua como intermediária146. Na maioriadas vezes há uma mistura de ritos de passagem e de ritos de proteção, o que explica por que não foi atribuída aos primeiros a importância que merecem. A maioria dos ritos búlgaros, por exemplo, têm como finalidade colocar a mulher, o feto, e depois a criança, ao abrigo das potências maléficas, assegurando-lhes boa saúde, etc. O mesmo ocorre, aliás, entre todos os eslavos e na maioria dos povos europeus. Contudo, a detalhada descrição, feita por Strauss147, das cerimônias búlgaras permite discernir ritos de separação, de margem e de agregação. Assim são os ritos seguintes, que enumero sem pretender, no entanto, ter razão no que se refere a cada um deles sem exceção, e sem esperar que outros, que omiti, não sejam ritos de passagem. Do dia de Santo Inácio até a Festa das Calendas (Kolieda), a futura mãe não deve lavar a cabeça nem limpar suas roupas, nem pentear-se depois do anoitecer. Não deve sair de casa no nono mês. Não deve tirar durante uma semana os vestidos que usava no dia do parto. Conserva-se o fogo aceso até o batismo e cerca-se a cama com uma corda. Em seguida preparam-se bolos, devendo a parturiente comer o primeiro pedaço, sendo o restante distribuído com os parentes, sem que nenhuma migalha saia da casa. Os aparentados trazem presentes e cada um cospe na mãe e na criança (ritos de agregação evidentes). Vêm vê-la durante toda a primeira semana. No oitavo dia realiza-se o batismo. No décimo quinto dia a jovem mãe prepara bolos e convida as vizinhas e as mulheres suas conhecidas para comê-los, mas cada convidada traz a farinha. A jovem mãe não pode sair de casa nem de seu quintal, não pode ter relações sexuais com o marido durante quarenta dias. Nesse dia toma as moedas ou as nozes consagradas no primeiro banho da criança e vai, juntamente com o filho, o marido, a mãe, uma velha ou a parteira à igreja, onde o padre as abençoa. Na volta a parteira, a mãe e a criança entram em três casas, onde lhes dão presentes, aspergindo farinha sobre a criança. No dia seguinte todos os parentes vêm visitar a jovem mãe, que asperge em seguida com água-benta todos os lugares da casa ou do quintal onde esteve durante quarenta dias. E então a vida normal retoma seu curso habitual. Aos ritos de reintegração na família e na sociedade sexual acrescentam-se aqui ritos de reintegração na sociedade restrita formada entre os eslavos pela “vizinhança” (sosiedstvo), sociedade que merecia uma monografia. As etapas da reintegração são ainda mais visíveis entre os Kota dos Nilghiri. Logo após o parto a mulher é transportada para uma cabana especial, muito afastada, onde permanece trinta dias. O mês seguinte, passa- o em uma outra cabana especial, e o terceiro mês ainda em outra. Em seguida permanece algum tempo na casa de um parente, enquanto o marido “purifica” o domicílio familiar com aspersões de água e de estrume148. A duração dessa separação, mais ou menos absoluta, varia com os povos, de dois a quarenta, cinquenta e, como no caso acima, cem dias. Daí se depreende que o retorno do parto fisiológico não é levado em consideração, mas existe um retorno social do parto, assim como existe um parentesco social diferente do parentesco físico149, um casamento (social) diferente da união (sexual), e, como se verá, uma puberdade social que não coincide com a puberdade física. Este retorno social do parto em nossa sociedade tende a coincidir com o retorno do parto físico150, tendência observada também a respeito das outras instituições enumeradas, e que está em relação direta com o progresso do conhecimento da natureza e de suas leis. A cerimônia entre nós chama-se relevailles [cerimônia de purificação, na igreja, que se fazia à mulher, depois de dar à luz: – N.T.], e embora tenha caráter mais mundano do que mágico- religioso é fácil ver nela o que era ainda na Idade Média151, a saber, a reintegração da mulher em sua família, seu sexo e na sociedade geral. Finalmente, todos estes ritos de passagem complicam-se caso haja alguma anormalidade, principalmente quando a mãe dá à luz gêmeos. Entre os Ichogo152 (Congo), a mãe é confinada em sua cabana até que as duas crianças fiquem grandes. Só pode falar com os membros de sua família e apenas seu pai e sua mãe têm direito a entrar na cabana. Qualquer estrangeiro que aí penetre é vendido como escravo. A mãe deve viver absolutamente casta, os gêmeos são também isolados das outras crianças, a louça e todos os utensílios por eles utilizados são tabus. A casa é marcada com dois paus fincados de cada lado da porta, tendo em cima um pedaço de pano. A soleira é guarnecida com uma grande quantidade de pequenas cavilhas fincadas no chão e pintadas de branco. Trata-se de ritos de separação. O período de margem dura até que as crianças tenham mais de seis anos. Eis a descrição do ritual de reintegração: “Durante todo o dia via-se diante da porta da casa duas mulheres em pé, com o rosto e as pernas pintadas de branco. Uma era a mãe (dos gêmeos), outra uma doutora. A festa começou com um passeio das duas mulheres ao longo da rua, uma tocando um tambor em compasso lento, enquanto a outra cantava com esse acompanhamento. Em seguida as danças, os cânticos e a orgia começaram e entraram pela noite adentro. Terminada a cerimônia os gêmeos tiveram a liberdade de ir e vir, tal como as outras crianças”. O passeio ritual no território da sociedade geral e a comensalidade são ritos de agregação de tipo conhecido, cujo alcance social é evidente. Nos detalhes os ritos da gravidez e do parto apresentam, aliás, um grande número de analogias com aqueles de que falamos nos capítulos precedentes e com os que mencionaremos nos capítulos seguintes, consistindo em passar por cima de alguma coisa ou através dela, em sacrifícios e orações feitas em comum, etc. É de notar o papel dos intermediários, os quais, neste caso como em outras cerimônias, têm por finalidade não apenas neutralizar a impureza ou atrair sobre si os malefícios, mas também servir realmente de ponte, de cadeia, de vínculo, em suma facilitar as mudanças de estado sem abalos sociais violentos nem paradas bruscas da vida individual e coletiva. O primeiro parto tem uma importância social considerável, expressa de diversas maneiras nos diferentes povos. Às vezes, como entre os Bontoc- Igororrote das Filipinas e outros lugares, uma moça só pode casar-se se teve um filho, dando com isso prova de poder servir como animal reprodutor. Nas populações onde o casamento só é considerado válido depois do nascimento de uma criança, os ritos da gravidez e do parto constituem os últimos atos das cerimônias do casamento (tal é o caso entre os Toda), e o período de margem estende-se para a mulher desde o começo do noivado até o nascimento do primeiro filho. Ao se tornar mãe sua situação moral e social aumenta153. Passa de mulher simplesmente a matrona, de escrava ou concubina a mulher igual às mulheres livres ou legítimas. Neste caso, entre numerosas populações poliginas, muçulmanas ou não, há ritos de passagem de primeiro estado ao novo. Igualmente nas populações onde o divórcio é fácil, entretanto, é proibido ou difícil de obter se a mulher teve um ou vários filhos. De tudo isto resulta que se deve ver nos ritos da gravidez e do parto ritos de extenso alcance individual e social. Por exemplo, os ritos de preservação ou de facilitação do parto (muitas vezes executados pelo pai) e de transposição de pessoas (couvade e pseudocouvode) devem realmente ser classificados numa categoria secundária de ritos de passagem, porque garantem precisamente aos futuros pai e mãe a entrada em um compartimento especial da sociedade, e mais importante de todos, e que representa de certo modo o núcleo permanente da sociedade. Finalmente, assinalo o seguinte fato: entre os Ngente, clã das Lushei Hills, no Assam, cada outono há uma festa que dura três dias em honra de todas as crianças nascidas durante o ano. Nas duas primeiras noites todos os adultos sentam-se para beber e comer. No terceiro dia homens disfarçados de mulher ou de Poi (clã vizinho) vão de casa em casa fazeruma visita a todas as mães do ano, que lhes dão de beber e pequenos presentes, em troca do que eles dançam154. Ora, há nisso um exato paralelo com as festas anuais dos mortos, e um exemplo interessante de caso em que a fecundidade não é ritualmente festejada somente por um grupo restrito (família), mas por um grupo geral. 140. FRAZER, J.G. The Golden Bough, t. I, p. 326-327 e t. II, p. 462; CRAWLEY, E. The Mystic Rose, p. 213, 414-416, 432; Ploss-Bartels, nas passagens citadas mais adiante. 141. TYLOR, E.B. Primitive Culture. 4. ed. Londres, 1903, t. II, p. 305; HARTLAND, E.S. The Legend of Perseus, t. I. Londres, 1894, p. 147-181; HENRY, V. La magie dans Vinde antique. Paris, 1904, p. 138-144; SKEAT, W.W. Malay magic. Londres, 1900, p. 320-352; DOUTTÉ. Magie et Religion dans l’Afrique du Nord. Alger, 1908, p. 233; SÉBILLOT, P. Le Paganisme contemporain chez les peuples celto-latins. Paris, 1908, p. 16-33; RIÉDJKO, A. Netchistaïasilavsudjbakh shenchtchiny-materi. Etriograf. Obozriènie, 1899, liv. 1-2, p. 54-131; considerável coleção de fatos, sobretudo russos, siberianos e caucasianos, que resumi na Rev. de l’Hist. des Rel., 1900, t. XLII, p. 453-464. 142. RIVERS, H. The Toda. Londres, 1906, p. 313-333. 143. PLOSS-BARTELS. Das Weib. 8. ed. Leipzig, 1905, t. I, p. 44, 843-846 e 858-877; cf. ainda meu Tabou et Totèmisme à Mad. Paris, 1904, p. 20, 165-168 e 343; os ritos Malgaxe de separação, de margem e reintegração são muito claros. Os Antimerina (Hova) consideravam mesmo a mulher grávida como morta e depois do parto felicitavam-na por ter ressuscitado (Ibid., p. 165). Cf. a este propósito o capítulo IX do presente volume. 144. Cf. entre outras as descrições dos ritos hindus e muçulmanos no Pendjab dadas por ROSE, H.A. Journ. of the Anthrop. Inst., t. XXXV (1905), p. 271-282. 145. VOTH, H.R. Oraibi natal customs. Chicago: Field Columbian Museum/Anthr. serv., t. VI, fasc. 2 (1905), p. 47-50. 146. MISS OWEN. Folk-Lore of the Musquakie Indians. Londres: Publ. Folk-Lore Soc, t. LI, 1904, p. 63-65. Para boas descrições dos ritos do parto na África do Sul cf., entre outros, JUNOD. Les Ba- Ronga. Neuchâtel, 1898, p. 15-19 e IRLE. Die Herero. Gutersloh, 1906, p. 93-99. 147. STRAUSS. Die Bulgaren. Leipzig, 1898, p. 291-300. 148. PLOSS-BARTELS. Op. cit., t. II, p. 403. Para outros fatos, cf. ibid., p. 414-418. 149. Mythes, Lég. d’Austr., p. LXIII; THOMAS, N.W. Kinship and marriage in Austrália, 1906, p. 6- 8; RIVERS. The Toda, p. 547. 150. Para um rito de retorno de parto fisiológico, cf. ROSE, H.A. Op. cit., p. 271. 151. Cf. a este respeito PLOSS-BARTELS. Op. cit., t. II, p. 402-435, onde se encontrará uma descrição dos sinais da proibição de entrar no quarto, etc., da mesma ordem que os tabus da passagem material acima citados. 152. DU CHAILLU. L’Afrique sauvage. Paris, 1868, p. 226-227. 153. Em muitos povos o mesmo acontece com o pai, e isto marca-se, entre outras coisas, pela tecnonímia. O pai perde o nome, sendo chamado pai de fulano ou pai de fulana. A mudança do nome é um dos ritos do batismo, da iniciação, do casamento, da entronização. É por conseguinte também como rito de passagem, de categorização em novo grupo especial, que convém interpretar a tecnonímia. Sobre a tecnonímia cf. entre outros: CRAWLEY. The Mystic Rose, p. 428-435; MERKER. Die Masai. Berlim, 1904, p. 59; WEBSTER. Primitive secret societies. Nova York, 1907, p. 90, etc., que não viram a ligação da tecnonímia com os outros elementos acima enumerados, ligação que é, por exemplo, muito clara entre os Wabemba do Congo: “Até o nascimento do primeiro filho a mulher nunca chamou o marido por seu nome, só lhe dando os nomes comuns de bwana (senhor) ou mwenzangu (companheiro). Logo que o pai reconheceu seu rebento a mulher chama o marido pelo nome da criança precedido de si (pai de...) e ela própria recebe o nome do recém-nascido precedido de na (mãe de...). DELHAISE, Ch. “Ethnographie congolaise; chez les Wabemba.” Bull. Soc. Belge de Geogr., 1908, p. 189-190. 154. DRAKE-BROCKMANN. In: Census of Índia 1901, t. I, Ethnographical Appendices. Calcutá, 1903, p. 228. CAPÍTULO V O nascimento e a infância O corte do cordão umbilical. – A moradia das crianças antes do nascimento. – Os ritos de separação e de agregação. – Índia, China. – A denominação. O batismo. – A apresentação e a exposição ao sol e à lua. Alguns dos ritos que mencionamos no capítulo precedente referiam-se não somente à mãe, mas também ao filho. Nas populações em que a mulher grávida é considerada impura esta impureza normalmente transmite-se ao filho, o qual, por conseguinte, é submetido a um certo número de tabus e cujo primeiro período de margem coincide com o último período de margem, até o retorno social do parto, da parturiente. Do mesmo modo, os diversos ritos de preservação contra o mau-olhado, os contágios, as doenças, os demônios de toda espécie, etc., valem ao mesmo tempo para a mãe e para a criança. Quando se destinam especialmente a esta última seu mecanismo nada apresenta de particular relativamente às outras práticas da mesma natureza. Ainda aqui encontramos a sequência dos ritos de separação, de margem e de agregação. Assim, Doutté encontrou em Marrocos, entre os Rehamna, uma opinião que poderia ser mais espalhada do que parece à primeira vista, e que daria satisfatória explicação de certo número de práticas. Não somente o recém-nascido é “sagrado”, mas “não pode nascer senão depois de ter obtido o favor de todos os assistentes”155. Há neste caso, conforme se vê, uma atitude defensiva do mesmo tipo que a tomada pela coletividade com relação a um estrangeiro. Ora, do mesmo modo que o estrangeiro, a criança deve primeiramente ser separada de seu meio anterior. Este meio pode ser simplesmente a mãe. Daí, penso, a prática de confiar a criança durante os primeiros dias a uma outra mulher, prática que não se relaciona com o tempo da apojadura. A principal separação dessa espécie exprime-se pela secção cerimonial do cordão umbilical (feita com uma faca de pedra ou de madeira, etc.), e pelos ritos relativos ao pedaço do cordão que, quando seco, cai por si mesmo, depois de um número variável de dias156. Assinalo que, às vezes, os instrumentos utilizados por ocasião do corte do cordão umbilical pertencem à categoria dos utensílios próprios para a atividade especial de cada sexo. Quando a criança é um menino corta-se o cordão com uma faca ou com o janco de um homem idoso da família no Pendjab, sobre uma flecha entre os Oraibi do Arizona, etc. Se é uma menina corta-se com um fuso no Pendjab, sobre um pau de comprimir os grãos nos potes entre os Oraibi157, etc., como se fosse questão de fixar então definitivamente o sexo da criança. O mesmo se faz em Samoa158. O corte do cordão, em numerosos casos, dá motivo a refeições em comum, festas de família, sendo neste caso claramente um rito de finalidade não somente individual, mas coletiva. O destino dado no cordão é variado. Ora, é a própria criança que o conserva, assim como conserva seus cabelos e unhas cortados, a fim de evitar toda diminuição de sua personalidade ou que alguém se apodere dela. Mas às vezes é também um aparentado que se encarrega do cordão, a fim de proteger assim a personalidade da criança (é a teoria da alma exterior), ou a fim de manter vivo o laço de parentesco entre a criança e sua família, representada pelo guardião do cordão. Em outros casos ainda o cordão é enterrado longe, fora do alcance de todos, ou debaixo da soleira ou no quarto. Nestes últimos casos ainda sou levado a ver ritos diretos de “aparentamento”. Variando de povo a povo, a placenta e também o prepúcio depois da circuncisão são submetidos aos mesmos tratamentos. Uma e outra operações têm como efeito comum o fato de marcarem uma separação que deve ser compensada, ao menos temporariamente, por medidas de precaução. Foi demonstrado pela escola inglesa e alemã que alguns destes ritos são simpáticos e preparam a criança para uma melhor utilização de seus membros, de sua força e agilidade. Mas outros são claramente ritos de separaçãocom relação ao mundo assexuado ou ao mundo anterior à sociedade humana, e ritos de agregação à sociedade sexual e à família, restrita ou ampla, ao clã ou à tribo. O primeiro banho, a lavagem da cabeça, o rito de friccionar a criança, etc., ao mesmo tempo em que têm finalidade higiênica parecem ser ritos de purificação, que se incluem na categoria dos ritos que separam da mãe e também os ritos de passar a criança por cima de alguma coisa, através dela ou por baixo dela, assim como o rito de colocar a criança no chão, embora A. Dieterich o tenha considerado159 como rito de agregação à Terra-Mãe. No entanto, alguns dos ritos assinalados por Dieterich referem se efetivamente à própria terra, sem deixar por isso de serem ritos de separação160. Kourotrophos: é preciso tomar esta expressão ao pé da letra, pois a Terra é a moradia das crianças antes do nascimento161, não simbolicamente, enquanto mãe, mas no sentido material, da mesma maneira como é a moradia dos mortos. Daí as semelhanças nos detalhes entre certos ritos de nascimento e alguns ritos dos funerais. Se uma criança que morreu antes do rito de agregação ao mundo dos vivos fosse enterrada e não incinerada, seria, no meu modo de ver, para devolvê-la a seu lugar de origem. Dieterich citou crenças alemãs (havendo crenças idênticas na Austrália, na África, etc.) segundo as quais as almas que vão nascer (tomando-se a palavra alma no sentido mais amplo) vivem debaixo da terra ou nos rochedos. Entre alguns povos acredita-se que vivem nas árvores, no mato, nas flores, nos legumes, na floresta162, etc. Igualmente espalhada é a ideia de que as crianças que vão nascer vivem primeiramente nas fontes, nos lagos, nas águas correntes163. Dito isto, considero ritos de passagem todos os que têm por objetivo fazer a criança entrar no período liminar, que dura, segundo os povos, de vinte/quarenta dias e mais. Nos lugares em que existe a crença na transmigração e na reencarnação os ritos cuja finalidade consiste em separar o recém-nascido do mundo dos mortos e agregá-lo à sociedade dos vivos, geral ou especial, são melhor sistematizados. É o caso dos Arunta dos Kaitishe, dos Warramunga, etc., do centro da Austrália164. Entre os Tchwi do Golfo da Guiné quando nasce uma criança são-lhe mostrados diversos objetos que pertenceram a membros falecidos da família, e o objeto escolhido pela criança identifica-a com um ou outro de seus antepassados165, sendo este rito suficiente para criar a agregação à família. Em outras partes esta crença na reencarnação coexiste frequentemente com muitas outras teorias. Tal é o caso dos Aino, que dão a seguinte explicação do período liminar em que vivem a mãe, o pai e a criança durante os primeiros dias depois do nascimento: admitem que é a mãe que dá à criança o corpo, enquanto o pai dá-lhe a alma, mas isto se faz progressivamente, para o corpo durante a gravidez, para a alma durante os seis dias consecutivos ao nascimento. Nesse período o pai vai viver na cabana de um amigo e depois, durante os seis dias consecutivos à sua volta, na própria cabana. Só no décimo segundo dia a criança é considerada um indivíduo completo e autônomo166. Pode ser que esta seja uma explicação elaborada a posteriori para um conjunto de ritos. Mas pode também ser, e penso que aí esteja a verdadeira explicação, que na base de um certo número de ritos de reclusão e de proteção do recém-nascido se encontre a ideia de que a criança precisa de vários dias de vida real para se individualizar. Os ritos de separação compreendem, em geral, todos aqueles nos quais se corta alguma coisa, principalmente o primeiro corte de cabelos, o ato de raspar a cabeça, e mais o rito de se vestir pela primeira vez. Os ritos de agregação, que têm por finalidade, conforme a expressão dos Wayao da África Oriental167, “introduzir a criança no mundo” ou, como dizem os Dajake de Bakarang, “lançar no mundo” como um barco na água168, são os ritos da denominação, de amamentação ritual, do nascimento do primeiro dente, de batismo, etc. Como rito de separação, citarei a recitação na Índia védica169 do hino no final do qual prende-se na criança um talismã de pûtudru (uma espécie de madeira resinosa): “Toma posse deste feitiço de imortalidade [...] Trago-te o hálito e a vida. Não te encaminhes para as trevas negras. Conserva-te salvo. Que a luz dos vivos caminhe diante de ti170, etc.” Este rito realiza-se no décimo dia, o último da reclusão da mãe. Nessa ocasião são dados à criança dois nomes, um comum, que a agrega aos vivos em geral, e outro que só deve ser conhecido pela família. No terceiro dia da terceira lua clara (crescente), o pai apresenta a criança à lua, rito que considero ser uma agregação cósmica. A primeira saída (4º mês) e a primeira alimentação sólida (6º mês) são igualmente acompanhadas de cerimônias. No terceiro ano realiza-se a cerimônia do primeiro corte dos cabelos. O fato de cada família possuir uma maneira particular de se pentear, pela qual é reconhecida, e essa maneira ser imposta à criança, faz deste rito, que em si é um rito de separação171, também um rito de agregação à sociedade familiar. Depois a infância continua, até o rito importante (aos 8, 10 ou 12 anos) da “entrada na escola”, que marca o começo da adolescência. No Pendjab moderno, o período de margem (de impureza) para a mãe e para a criança é de dez dias para os brâmanes, doze dias para os xátrias, quinze dias para os vaisias e trinta para os sudras, por conseguinte em sentido inverso ao da “pureza” da casta. Mas a reclusão na casa dura quarenta dias, durante os quais a mulher e a criança passam por uma série de cerimônias, cujo rito principal é o banho, tendo claramente por objetivo reintegrar progressivamente a mãe na sociedade familiar, sexual e geral. A criança é agregada à família pelo rito da outorga do nome, pela perfuração das orelhas, pelo primeiro corte dos cabelos (entre 1 ano e 1/4 e 4 anos). O rito da agiga sofreu entre os muçulmanos do Pendjab influências hinduístas172, porém, parece ser mais, como em geral no Islã, um rito de agregação à comunidade dos fiéis. Vejamos agora o esquema das cerimônias da infância em Fu-Tcheu173. Convém primeiramente lembrar que as crianças chinesas de ambos os sexos até 16 anos têm por protetora especial uma divindade chamada “Mãe” e que as cerimônias são idênticas para os rapazes e para as meninas, embora estas últimas sejam socialmente menos valorizadas do que os meninos. No terceiro dia depois do nascimento lava-se a criança pela primeira vez. Fazem-se sacrifícios à “Mãe”, enviam-se vitualhas, presentes, etc., aos parentes e amigos. Depois do banho, tem lugar a cerimônia “de amarrar os pulsos” com uma cordinha de algodão vermelho prendendo moedas antigas, brinquedos de prata em miniatura. A cordinha tem o comprimento de dois pés, podendo os pulsos ficarem afastados um do outro cerca de um pé (33cm). No décimo quarto dia retira-se tudo, ou substitui-se o fio por duas pulseiras de fita vermelha, usadas durante vários meses ou um ano. A explicação chinesa é que este rito torna as crianças tranquilas e obedientes. No terceiro dia igualmente prende-se na porta do quarto o sinal que indica a proibição de entrar (cf. acima capítulo II) e que consiste em um rolo contendo pelos de cachorro ou de gato “para impedir os cachorros e os gatos da vizinhança de fazerem barulho e assustar a criança”. Pendura-se também carvão “para tornar a criança espirituosa e inteligente”, medula de uma certa planta “para torná-la feliz e rica”. Amarra-se na cama umas calças do pai munidas de um papel com caracteres, ordenando “a todas as influências desfavoráveis de entrarem nas calças e não na criança”. No décimo quarto dia retira-se o embrulho e as calças, sendo feitas ações de graças à “Mãe”. No fim do mês a mãe e o filho deixam o quarto pela primeira vez e um barbeiro ou alguma pessoa da família raspa pela primeira vez a cabeça da criança diante da “Mãe” ou das tabuinhas ancestrais. Todos os parentes e amigos são convidados à festa. Trazem presentes (alimentos, etc., sobretudovinte ovos pintados de pato e bolos açucarados, com pinturas representando flores, objetos, etc., de bom augúrio, sendo as pinturas brancas proibidas, pois o branco é a cor do luto). A avó materna desempenha importante papel. No segundo e no terceiro mês os pais oferecem presentes aos parentes e amigos em troca dos que receberam por ocasião do parto e no fim do primeiro mês (biscoitos redondos). No quarto mês agradece-se à “Mãe” oferecendo-lhe presentes trazidos ou enviados pela avó materna. Faz-se uma refeição em comum com a família e convidados, instalando-se depois cerimonialmente pela primeira vez a criança numa cadeira, sendo-lhe dada pela primeira vez alimentação animal. No fim de um ano faz-se a oferta à “Mãe”, com presentes enviados pela avó materna que, teoricamente, paga todas as despesas da festa; há uma refeição da família e colocam-se diante da criança vários brinquedos que representam instrumentos de ofício. O que a criança segura em primeiro lugar indica seu caráter, profissão e condição social futuros. Faz-se a criança participar ativamente de todos os ritos realizados diante da “Mãe” ou das tabuinhas ancestrais, obrigando-a a movimentar as mãos, etc. Em cada aniversário, até os 16 anos, a menos que tenha sido realizada a cerimônia de “deixar a infância”, oferece-se à “Mãe” e às tabuinhas ações de graças, das quais não voltarei mais a falar. Quando a criança começa a andar um membro da família toma uma grande faca de cozinha, aproxima-se dela por trás e finge cortar-lhe alguma coisa entre as pernas: é a cerimônia de “cortar as cordas dos pés”, que tem por finalidade facilitar a aprendizagem da marcha. Conforme as famílias, cada ano, ou de dois em dois anos (1º, 3º, etc.), ou de três em três anos (3º, 6º etc.), e até à cerimônia da “saída da infância” e mesmo em caso de doença uma ou duas vezes por mês, e várias vezes por ano, executa-se a “passagem pela porta”. Manda-se vir de manhã vários padres taoistas que constroem o altar, superpondo várias mesas nas quais colocam pratos com iguarias variadas, castiçais, imagens de deuses, etc. Convidam, por meio de uma música e invocações apropriadas, as divindades a virem saborear as oferendas, sobretudo a “Mãe” e as deusas protetoras das crianças. Na parte anterior do quarto, chamada “diante do céu”, colocam uma mesa com pratos, etc., e sete montes de arroz representando a Grande Ursa, acendem luzes e realizam a “adoração da medida” segundo o rito ordinário. Ao cair da noite constrói-se a porta no centro do quarto. É feita de bambus recobertos de papel vermelho e branco, tendo sete pés de altura por uma largura de 2,5 a 3 pés. Os móveis de quarto são colocados de maneira que permitam as evoluções que haja necessidade de voltar atrás. Um dos padres toma em uma das mãos uma sineta e um sabre adornado com pequenos sinos e com a outra um chifre, e recita encantações. Personifica a “Mãe” no ato de afastar das crianças as influências perniciosas. O pai de família reúne todos os filhos, toma nos braços o que ainda não anda ou que está doente, e cada uma das outras crianças recebe uma vela acesa. O padre, soprando no chifre, passa lentamente debaixo da porta, seguido pelo pai de família e pelos filhos, um atrás do outro. Os outros padres tocam o tambor sagrado, etc. O padre que dirige a procissão brande o sabre ou um chicote e finge ferir alguma coisa invisível. Em seguida transporta-se a porta sucessivamente para os quatro cantos do quarto e a procissão passa por ela da mesma maneira, e depois de novo no centro. Em seguida a porta é demolida, queimam-se os fragmentos dela no quintal da casa ou na rua. Cada vez que esta cerimônia é executada confecciona-se uma pequena estátua de madeira que represnta a criança em favor da qual se realiza a cerimônia. Esta estatueta é conservada até a idade de 16 anos, sendo colocada geralmente ao lado da representação da “Mãe” no quarto de dormir. Se a criança morre antes dos 16 anos enterra-se a estatueta juntamente com ela. Se ficar muito doente é a estatueta que se faz passar debaixo da porta. Por baixo dessa porta devem passar não somente a criança, ou as crianças doentes, mas todas as crianças da casa e também os sobrinhos, sobrinhas, etc., que aí se encontrem nesse momento. Pode-se, evidentemente, interpretar toda esta cerimônia como um rito de transferência do mal, rito que, em forma de “passar por baixo ou através de alguma coisa”, é muito difundido. Além disso, o rito é parcialmente animista, como o taoismo quase inteiro. Entretanto, o fato do objeto por debaixo do qual se passa ser um pórtico, associado à santidade dos pórticos em todo o Extremo Oriente e dos pórticos africanos de que já falamos, deve ter um sentido, que julgo ser direto. As crianças passam do mundo perigoso para um mundo favorável ou neutro, do qual a porta é a entrada, progressivamente por meio da sêxtupla repetição, que tem este sentido, pelo deslocamento da porta do centro para os quatro cantos e de novo para o centro, a fim de fazer com que o quarto inteiro se torne um meio sadio para as crianças. Esta interpretação de uma parte da cerimônia como rito de passagem é confirmada pelo fato de ser repetida ainda mais solenemente no momento da “maturidade” das crianças, na idade de 16 anos. Ao contrário, “a adoração da medida”, isto é, de constelações em relação com a vida e a morte, é executada em favor dos doentes seja qual for sua idade174. Deixo de lado as festas escolares (entrada na escola, em honra de Confúcio, pela boa marcha dos estudos, etc.) e chego à cerimônia de “saída da infância”175. “Assemelha-se muito à cerimônia da passagem pela porta, exceto ser mais imponente e mais teatral”. A teoria é que aos 16 anos o rapaz sai da infância para entrar na adolescência e a moça torna-se mulher176. Uma vez executada a cerimônia, a divindade das crianças, a “Mãe”, deixa de ter as crianças sob seu cuidado e o indivíduo cai debaixo da autoridade dos deuses em geral. Por isso, a cerimônia é muitas vezes chamada “agradecimento à Mãe”. Doolittle insiste em seguida no fato de ser realmente a idade de 16 anos que marca o começo da “idade da maturidade”. A cerimônia, aliás, pode ser antecipada se a criança tiver de casar-se em breve, ou retardada pela pobreza, etc. O rito essencial consiste ainda em passar por debaixo da porta artificial e neste caso é possível ou supor que a infância, considerada como uma qualidade positiva (tal como a doença), foi transferida para a porta e destruída, ou, e esta é a interpretação por mim preferida, que a porta é o limite entre dois períodos da existência, de tal sorte que passar por debaixo dela significa sair do mundo da infância para entrar no mundo da adolescência. A destruição do objeto que serviu para o rito pode explicar-se por este fato, encontrado, entre outros casos, na Austrália177 e na América do Sul178, a saber, que os sacra só devem servir uma única vez, e, portanto, logo que uma fase cerimonial termina é preciso destruí-los (é a idade central do sacrifício) ou colocá-los de lado, por terem sido esvaziados de sua potência, e em cada nova fase é preciso sacra, às vezes uma ornamentação corporal, um vestuário e ritos verbais novos179. Finalmente, lembro que na China cada aniversário de nascimento, sobretudo de 10 em 10 anos após os 50 anos180, dá lugar a cerimônias, a ritos que também marcam a passagem de um período para outro. Vejamos agora o rito das portas em Blida181. “No sétimo dia após o nascimento, depois de ter feito a toilette da criança, a parteira segura-a estendida em seus braços. Deposita-se no peito da criancinha envolvida em faixas um espelho redondo. Este espelho sustenta o fuso de fiar da casa, uma boneca de preparar infusão cheia de anil, finalmente uma pitada de sal, objetos todos de uso frequente nas operações mágicas. A parteira, segurando nos braços a criança juntamente com esses apetrechos, aproxima-se da porta do quarto e balança-a sete vezes por cima da mdjîria ou cano de despejo. Faz a mesma coisa em cada porta, principalmente na porta das privadas, que frequentementesão no vestíbulo, e finalmente na porta da rua, mas no interior. Chama-se também este sétimo dia o dia da saída da criança (ium khroudj el mezioud). Não parece evidente que esta cerimônia no momento em que a criança vai sair do quarto materno tem por finalidade apresentá-la aos djins da casa tornando-os propícios, particularmente aqueles que presidem as aberturas e saídas?” Citei com bastantes detalhes os ritos chineses porque permitem compreender a sequência dos ritos que conduzem gradativamente o indivíduo do nascimento à idade adulta nas sociedades em que não existem classes de idade propriamente dita. O período compreendido entre o nascimento e a entrada na adolescência, iniciação, etc., decompõe-se em etapas mais ou menos longas e numerosas segundo as populações. Assim é que entre os Banto meridionais182 o período que vai da primeira à segunda dentição compreende: 1º) os ritos anteriores ao aparecimento do primeiro dente; 2º) uma margem da primeira à segunda dentição; 3º) quando esta começa supõe-se que a criança “tornou-se dona de seu sono” e, por isso, a mãe vai ao mato queimar secretamente a esteira que lhes servia de cama; 4º) começa então o período de instrução, durante o qual se ensina ao rapaz não se sentar mais no meio das mulheres, sendo impedido de aprender a linguagem secreta destas últimas. O moço só vive então junto com os outros de sua idade ou mais velhos que ele e deve mesmo sair da cabana sempre que o pai nela entra. Durante o período da primeira à segunda dentição a criança não foi informada sobre os fenômenos sexuais. Uma vez começada a segunda dentição a criança é sistematicamente instruída nesses assuntos. Em tal momento deixam-se de praticar diversas operações mágicas, de caráter protetor, e só então lhe é permitido trabalhar nos campos. Em resumo, o aparecimento da segunda dentição marca, “e isto é uma regra absoluta em diversas tribos”, menos em outras, uma completa mudança da existência para a criança entre os Banto meridionais, é retirada da sociedade feminina e infantil propriamente dita. Mas só penetrará na sociedade dos adolescentes durante as cerimônias de iniciação, e na idade madura mediante as cerimônias do casamento. Para outras sequências rituais remeto o leitor às numerosas monografias citadas neste volume. Em resumo, um esquema compreenderia os seguintes ritos: corte do cordão, aspersões e banhos, queda do resto do cordão, denominação, primeiro corte de cabelo, primeira refeição em família, primeira dentição, primeira marcha, primeira saída, circuncisão, primeiro vestuário sexual, etc. Falarei da circuncisão no capítulo seguinte. Por ora, convém dizer algumas palavras a respeito da atribuição do nome e do batismo. Os ritos de nominação mereceriam por si sós uma monografia especial. Foram estudados repetidas vezes183, sem nunca, porém, segundo creio, terem sido considerados nem em detalhe nem em seu verdadeiro aspecto. Pela nominação, a criança: 1º) é individualizada; 2º) é agregada à sociedade, quer à sociedade geral, e neste caso a festa é pública, dela participa toda a aldeia, sendo esse o caso principalmente quando se trata de um menino e mais ainda se este menino é filho de chefe, quer a uma sociedade restrita, família nas duas linhas de ascendentes, ou somente a família paterna ou somente a família materna. As variações nos detalhes são inúmeras. Às vezes dá-se à criança um nome genérico, que indica apenas ser menino ou menina, ou ser o terceiro ou o sétimo filho. Em outros casos dá-se à criança o nome de um dos antepassados, numa das linhas ou em outra. Em outros casos deixa-se que ela escolha seu nome. Por fim, muda tantas vezes de nome quantas são as categorias de idade na infância. Assim é que recebe frequentemente primeiro uma denominação vaga, depois um nome pessoal conhecido, depois um nome pessoal secreto, depois um nome de família, de clã, de sociedade secreta184, etc. Creio não haver necessidade de demonstrar extensamente que o rito de outorga de um nome à criança é um rito de agregação. Bastam os documentos anteriormente citados para provar isso. Apresentamos contudo ainda mais um: no Gabão, outrora, logo que uma criança nascia “um arauto público anunciava o nascimento e exigia para a criança um nome e um lugar entre os vivos. Alguém na outra extremidade da aldeia respondia que ficava ciente do fato e prometia, em nome do povo, que o recém-nascido seria recebido na comunidade e teria todos os direitos e vantagens pertencentes ao resto do povo. A população reunia-se então na rua, trazia-se o recém- nascido, que era exposto à vista de todos. Trazia-se uma bacia cheia de água e o chefe da aldeia ou da família aspergia-a com água, dava-lhe um nome e pronunciava uma invocação a fim de que tivesse boa saúde, crescesse até a idade de homem ou de mulher, tivesse numerosa progenitura, numerosas riquezas185, etc.”. Observar-se-á que juntamente com o rito da nominação coexistia no Gabão um rito que apresentava notável analogia com o batismo. Este último na maioria das vezes foi considerado uma lustração, um rito de purificação ou catártico, isto é, em última análise, um rito pelo qual a criança é separada do mundo anterior, em geral, profano ou impuro. Entretanto, é preciso notar que este mesmo rito pode também ter o sentido de rito de agregação, e isto quando é usada não a água ordinária, mas a água consagrada. Neste caso a criança batizada não somente perde uma qualidade, mas adquire outra. Isto nos leva a examinar uma nova categoria de ritos, os que são geralmente chamados ritos de iniciação. Antes, porém, convém lembrar que seria oportuno interpretar como ritos de passagem certos ritos de exposição ao sol, à lua, à terra cujo sentido exato não creio que tenha sido compreendido por J.G. Frazer e A. Dieterich. Com efeito, nos lugares em que, como acontece entre os Banto e os ameríndios, sobretudo os Pueblo e os ameríndios centrais, a vida social e a vida cósmica são consideradas intimamente ligadas, é normal que existam ritos de agregação do recém-nascido ao mundo cósmico, quero dizer, a seus principais elementos. Daí os ritos de apresentação à lua e ao sol, de contato com a terra186, etc. Igualmente, se o totemismo em última análise é um sistema de finalidade econômica, é normal também que a criança em um momento ou em outro seja agregada realmente ao seu totem, embora já lhe seja aparentada pelo nascimento. Estes ritos de agregação ao grupo totêmico antropoanimal, antropovegetal ou antropoplanetário são a exata contrapartida dos ritos de agregação à família, a que contudo o recém- nascido pareceria dever pertencer também automaticamente, pelo próprio fato de ter nascido de certa mãe e sem dúvida de certo pai. Mas isto leva-nos novamente a considerar os ritos de agregação a determinadas sociedades especiais. 155. DOUTTÉ. Merrâkech, t. I, p. 343, 354. 156. O Kalduke dos Narrinyeri, etc. 157. ROSE, H.A. “Hindu birth observances in the Punjab”. Journ. Anthrop. Inst., t. XXXVII, 1907, p. 224; VOTH, H.R. Oraibi natal customs and ceremonies. Col. Mus. Chicago, t. VI, n. 2, 1905, p. 48. Sobre o janeo, ou tio sagrado, cf. Ind. Antiquary, 1902, p. 216, e CROOKE, W. Things Indian. Londres, 1906, p. 471-473. 158. TURNER. Samoa a hundred years ago and long before. Londres, 1885, p. 79. 159. DIETERICH, A. Mutter Erde. Leipzig, 1905, p. 1-21. 160. Cf., para detalhes, ibid., p. 31ss., 39. 161. Ibid., p. 57ss. Cf. BURTON. The Lake Regions of Central África. Londres, 1860, t. I, p. 115; entre os Wazarome da África Oriental: “no caso de aborto ou de uma criança natimorta, dizem: ‘ele voltou’, isto é, à sua moradia na terra”. 162. Cf. meu livro Mythes et Legendes d’Australie, p. XXXI, XLIV-LXVII; almas dos Aino no vime, BATCHELOR. The Ainu and their Folk-Lore. Londres, 1901, p. 235. 163. DIETERICH. Op. cit., p. 18; DAN M’KENZIE. Children and Wells. Folk-Lore, t. XVIII (1907), p. 253-282. 164. Cf. entre outros SPENCER & GILLEN. Northern Tribes, p. 606-608. 165. KINGSLEY, M.H. Travels in West África. Londres, 1897, p. 493. 166. BATCHELOR. The Ainu, p.240 e para os ritos do parto, da denominação, etc., p. 235-237. 167. WERNER, Miss A. The Natives of British Central Africa. Londres, 1906, p. 102-103. 168. LING ROTH, H. The Natives of Sarawak and British North Borneo. Londres, 1896, t. I, p. 102. 169. Para os fatos cf. OLDENBERG, H. La religion du Véda. Paris, 1903, p. 363 e 397-398; HENRY, V. La magie dans l’Inde antique. Paris, 1904, p. 82-83; CALAND, W. Altindisches Zauberritual. La Haye, 1900, p. 107. 170. OLDENBERG, M. Op. cit., p. 361-366, notou que o corte dos cabelos, das unhas, etc., é um elemento frequente de numerosas cerimônias. Esse autor considera-o principalmente um “rito de purificação, uma lustração”. Isto é exato quando se trata do sacrifício, que inclui a passagem do profano ao sagrado. Mas estes termos são demasiado estreitos quando se trata de passagens profanas, como as de uma idade a outra, ou de uma situação social a outra, caso em que a ablação de uma parte qualquer do corpo, um banho ou a troca de roupas não implicam qualquer ideia de impureza a ser repelida nem de pureza que se tenha de adquirir. Cf. igualmente CALAND. Een indogermaansch Lustratie gebruik. Versl. Med. Ak. Wet. Amst., 1898, p. 277ss., na sua interpretação da tríplice circumambulação. 171. Para detalhes, remeto aos artigos de ROSE, H.A. “Hindu (and) Muhammedan Birth observances in the Punjab”. Journ. Anthr. Inst., t. XXXVII (1907), p. 220-260. 172. Cf. DOOLITTLE. Social Life of the Chinese. Nova York, 1867, t. I, p. 120-140; sobre as cerimônias da infância em Pequim, cf. GRUBE, W. Zur Pekinger Volkskunde. Berlim, 1901, p. 3-10; cf. entre outros p. 8-9, as cerimônias de entrega a uma ama, que comportam a sequência de passagem e são análogas ao rito de adoção (mamar era aliás um dos procedimentos de estabelecimento de parentesco). As duas famílias consideram-se em seguida como pên-chia (membros do mesmo clã). 173. Cf. DOOLITTLE. Ibid., p. 134-136. 174. DOOLITTLE. Op. cit., p. 137-138. 175. Cf. adiante o que é dito da “puberdade social”. 176. Cf. Mythes et Lég. d’Austr., p. 134-135, nota 3. 177. Koch-Grünberg, carta particular. 178. Da mesma maneira os Ogibwai (como muitos outros semicivilizados) construíam cabanas especiais, de formas diferentes para cada atividade especializada e em cada nova ocasião, cabana que só servia uma vez, sendo em seguida abandonada. A cabana servia para conselho de guerra, conselho de paz, banquete de festa, cura de um doente, isolamento de um xamã, um adivinho, uma mulher grávida, uma criança que ia ser iniciada, etc. Cf. KOHL. KitschiGami. Brema, 1859, t. I, p. 60. 179. Cf. DOOLITTLE. Op. cit., t. II, p. 217-228. TRUMBULL. Threshold Covenant, p. 176, lembra o costume (inglês?) de dar em cada aniversário de uma criança tantas pancadas quantos os anos que fazia. Este rito pode ser considerado como rito de separação dos anos decorridos. 180. DESPARMET. “La Mauresque et les maladies de l’enfance”. Rev. des Et. Ethnogr. et Sociol., 1908, p. 488. 181. DUDLEY KIDD. Savage Childhood. Londres, 1906, p. 81-89. 182. Cf. TYLOR. Primitive culture. 4. ed. Londres, 1903, t. II, p. 430, 441, 437, etc. Para os ritos de denominação, cf. ainda ORAIBI, V. Op. cit., p. 55, 57; SKEAT-BLAGDEN. Wild Tribes of Malay Peninsula. Londres, 1905, t. II, p. 3ss.; DOUTTÉ. Merrâkech, passim, etc. 183. Assinalo desde já que o nome do adulto pode também variar durante a vida, quer após atos ocasionais (façanha, falta de habilidade), cf. BEST, E. “Maori nomenclature”. Journ. Anthr. Inst., t. XXXII (1902), p. 194-196, quer sistematicamente (nascimento de filhos, passagem de uma classe de idade ou de um grau “secreto” ao seguinte, etc.). Cf. um caso interessante de mudança de nome em cada “etapa de vida ascendente” entre os Pawni, FLETCHER, A. A pawnee ritual used when changing a man’s name, Am. Anthrop., New Ser., t. I (1899), p. 85-97. 184. WILSON. Western Africa, apud NASSAU, H. Fetishism in West Africa. Londres, 1904, p. 212- 213. Poder-se-á comparar entre si as informações do Dr. Lasnet em Une mission au Senegal. Paris, 1900, p. 24 (Mouros), 50 (Beul), 64 (Laobè), 70 (Toucouleur), 88 (Mandinguo), 127 (Uolof), 145 (Serere). 185. Cf. TYLOR, E.B. Op. cit., t. II, p. 430ss., que cometeu a confusão indicada no texto. Sobre o batismo como rito de iniciação, cf. FARNELL, R. The Evolution of Religion. Londres, 1905, p. 56-57 e 156-158. 186. O sentido da apresentação ao sol como rito de agregação é muito caro entre os Tarahumar (LUMHOLTZ. Unknown Mexico. Londres, 1903, t. I, p. 273), os Oraibi (cf. acima, p. 55), os Zuni (Mme. STEVENSON, The Zuni, XXIIIª Ann. Rep. Bur. Am. Ethnol. s.v. Birth), etc. Para casos de apresentação à lua, cf. FRAZER, J.G. Adonis, Attis, Osiris. 2. ed. Londres, 1907, p. 373ss. A maioria dos ritos que cito são com efeito simpáticos, sendo a ideia central de que o crescimento da lua favorece o da criança. Lembro finalmente que a lua, o sol, etc., são às vezes totens e que nesse caso, como entre alguns ameríndios, a apresentação ao astro é um rito de agregação ao grupo totêmico. Às vezes é um rito de agregação à divindade, sendo o recém-nascido considerado em seguida como “filho do sol”. CAPÍTULO VI Os ritos de iniciação A puberdade fisiológica e a puberdade social. – A circuncisão. – As mutilações corporais. – Clãs totêmicos. – Fraternidades mágico-religiosas. – Sociedades secretas. – Sociedades políticas e guerreiras. – Classes de idade. – Mistérios antigos. – Religiões universalistas, – O Batismo. – Confrarias religiosas. – Virgens e prostitutas sagradas. – Classes, castas e profissões. – A ordenação do padre e do mago. – A entronização do chefe e dos reis. – A excomunhão e a exclusão. – O período de margem. As classes de idade e as sociedades secretas foram recentemente objeto de duas monografias, uma de H. Schurtz187, a outra de Webster188, nas quais, contudo, não foi dada a devida importância ao estudo das cerimônias que garantem o acesso a tais classes e sociedades. Embora H. Webster tenha dedicado um capítulo aos ritos, só os estudos, isoladamente e, fato curioso, não pensou em compará-los do ponto de vista de suas sequências. Por isso, estes dois autores, imbuídos aliás da ideia que a iniciação coincidia com a puberdade, e que todas estas cerimônias têm como ponto de partida este fenômeno fisiológico, lançaram-se a teorias gerais inadmissíveis. Schurtz reduz tudo ao “instinto de sociabilidade”, digamos o instinto gregário, mas sem chegar a fazer compreender nem as variações das instituições consideradas nem a natureza das cerimônias correspondentes. Webster construiu a priori um tipo de classe de idade e de sociedade secreta primitiva e vê a bem dizer por todo o lado desvios e degenerescências desse tipo hipotético. No presente capítulo demonstrarei primeiramente que a puberdade fisiológica e a “puberdade social” são duas coisas essencialmente diferentes, que só raramente convergem. Em seguida, examinaremos as cerimônias de iniciação de toda a espécie, isto é, não somente as que dão acesso às classes de idade e às sociedades secretas, mas também as que acompanham a ordenação do padre e do mago, a entronização do rei, a consagração dos monges, das freiras, das prostitutas sagradas, etc. Nas moças a puberdade física é marcada pelo entumescimento dos seios, o alargamento da bacia, o aparecimento de pelos no púbis e sobretudo pelo primeiro fluxo menstrual. Pareceria, portanto, simples datar desse momento a passagem da infância à adolescência. Na realidade, as coisas passam-se de modo inteiramente diferente na vida social, o que se explica em primeiro lugar por fatos de ordem fisiológica. 1º) O prazer sexual não depende da puberdade, mas é sentido, conforme os indivíduos, ora antes, ora depois; o espasmo pode mesmo produzir-se vários anos antes, de maneira que a puberdade só tem importância no que diz respeito ao poder de concepção. 2º) O aparecimento do primeiro sangue não acontece na mesma idade nas diversas raças, nem no interior de uma mesma raça entre os diversos indivíduos. Estas variações são extremamente consideráveis189e de tal ordem que se compreende por que nenhuma instituição se funde sobre um elemento tão pouco determinável e tão pouco constante quanto a puberdade. Mesmo na Europa estas variações não correspondem às prescrições legais. Em Roma, as moças são legalmente núbeis aos 12 anos, mas somente a duodécima parte das jovens romanas têm suas regras nessa idade, enquanto a grande maioria só as têm entre os 14 e os 15 anos, e algumas, muito raras, desde os 9 anos. Em Paris, a idade legal para o casamento é de 16 anos e seis meses. Mas a média da puberdade é 14 anos e quatro meses, segundo Brierre de Boismont, e de 15 anos e quatro meses segundo Aran. Nas classes ricas a média da puberdade ocorre mais cedo que nas classes operárias. Assim, em Roma, a puberdade social é anterior à puberdade fisiológica; em Paris é posterior. Será, portanto, mais conveniente não dar aos ritos de iniciação o nome de ritos da puberdade. Longe de mim, porém, negar que existam ritos da puberdade fisiológica, os quais em alguns casos raros coincidem com os ritos de iniciação. As moças são então isoladas, às vezes mesmo consideradas mortas, e depois ressuscitadas190. Em outros povos191, ao contrário, não se pratica nesse momento nenhum rito, apesar de haver ritos de iniciação. Assim, tudo isto nos leva a pensar que a maioria destes ritos, cujo caráter propriamente sexual não poderia ser negado, dos quais se diz que tornam o indivíduo homem ou mulher, ou aptos a sê-lo, incluem-se na mesma categoria que alguns ritos de corte do cordão umbilical, da infância e da adolescência, sendo ritos de separação do mundo assexuado, seguidos de ritos de agregação ao mundo sexual, à sociedade restrita constituída no seio de todas as outras sociedades gerais ou especiais pelos indivíduos de um ou de outro sexo. Isto é dito sobretudo a propósito das moças192, uma vez que a atividade social da mulher é muito mais simples que a do homem. A questão complica-se ainda mais quando se trata dos rapazes. Neste caso a variabilidade é tanto mais considerável quanto a primeira emissão de esperma pode ser precedida pela emissão de muco, passando muitas vezes despercebida, e produzindo-se, por fim, na maioria dos indivíduos somente por influência de um choque exterior, cuja data depende de circunstâncias impossíveis de prever ou dirigir. Segue-se que a puberdade dos rapazes é fixada, pela opinião comum, por ocasião do nascimento da barba, dos pelos do púbis, etc. Mas mesmo nesse caso as variações étnicas e individuais são consideráveis. Assim, num e noutro sexo a puberdade física é um momento muito difícil de datar, e esta dificuldade explica o fato de tão poucos etnógrafos e exploradores terem feito pesquisas a este respeito. Isto torna mais imperdoável ainda aceitar-se a expressão “ritos da puberdade” para designar o conjunto dos ritos, cerimônias, práticas de toda espécie que marcam nos diversos povos a passagem da infância à adolescência. Convém, portanto, distinguir a puberdade social da puberdade física, assim como se distingue o parentesco físico (consanguinidade) e o parentesco social, a maturidade física e a maturidade social (maioridade), etc. É uma coisa notável que mesmo observadores prudentes e que pelo menos publicaram elementos exatos de apreciação não souberem que se tratava de dois fenômenos distintos e serviram-se então da palavra puberdade alternadamente em um sentido e em outro. Eis aqui alguns exemplos desta confusão. Tendo descrito com cuidado as “cerimônias da puberdade” das moças entre os índios Thomson, cerimônias executadas longe da aldeia em uma cabana especial, incluindo tabus, lavagens, ritos simpáticos193, etc., Teit acrescenta: “as moças frequentemente eram dadas como noivas ainda crianças, a homens vinte anos mais velhos. Só se considerava que estavam aptas a se casarem quando terminavam todas as cerimônias referentes à chegada da puberdade, isto é, aproximadamente no décimo sétimo ou no décimo oitavo ano e às vezes no vigésimo terceiro”194. Devemos concordar que a puberdade física dificilmente pode ser a causa principal de cerimônias tão longas, que em seus detalhes abrangem várias etapas. Quanto aos rapazes, é dito claramente195 que o gênero de cerimônias a executar depende da profissão (caçador, guerreiro, etc.) que se propõem abraçar, e que cada adolescente começa a praticá-las a partir do dia, que cai geralmente entre o décimo segundo e o décimo sexto ano, em que sonhou pela primeira vez com uma flecha, uma canoa ou uma mulher. Do mesmo modo, nas “cerimônias da puberdade” entre os Lillooet da Colúmbia Britânica196 nada indica que se trate da puberdade física, mas, ao contrário, prova, sobretudo o fato de que para os jovens que desejam tornar-se xamãs o período durava muito tempo, que se trata, tal como entre os chineses197, da puberdade social. Lembro que da mesma maneira entre nós a idade na qual é permitido o casamento das pessoas moças não coincide com o momento da puberdade fisiológica. Se um dia estes dois momentos, um social e o outro físico, vierem a coincidir, isto será consequência do progresso científico. Se entre os Hotentote os rapazes permaneciam na sociedade feminina e infantil até o décimo oitavo ano198, por outro lado, entre os Elema do Golfo Papua a primeira cerimônia é executada quando a criança tem 5 anos, a segunda quando tem 10 e a terceira só parece realizar-se muito tempo depois, uma vez que transforma a criança em guerreiro propriamente dito, livre para se casar199. Em resumo, a questão proposta por Leo Frobenius200, que nem mesmo procura responder com exatidão, a saber, “o momento do noviciado coincide em certa medida com a maturidade sexual?”, é respondida por mim com um claro não, tanto mais quanto as cerimônias da primeira menstruação201 ou existem em populações nas quais não há ritos de iniciação ou só têm caráter mais acentuado porque se trata com efeito do primeiro aparecimento202 de um fenômeno que em seguida será sempre acompanhado de ritos especiais, devidos à qualidade impura tanto da mulher em si mesma quanto do sangue menstrual. A distinção entre a puberdade física e a puberdade social é ainda mais nitidamente observada em certas cerimônias dos Toda203, que são poliandros e ficam noivos desde os 3 anos. Algum tempo antes da puberdade fisiológica um homem da secção diferente daquela a que pertence a moça vem durante o dia à aldeia desta última, deita-se ao lado dela e estende seu manto de maneira a cobrir os dois. Ficam assim alguns minutos e em seguida o homem vai-se embora. Quinze dias depois um homem bem constituído e forte, de qualquer secção e clã que seja, vem passar a noite junto da moça, que ele deflora. “Isto deve fazer-se antes da puberdade, havendo poucas coisas capazes de desacreditarem tanto a mulher quanto a não execução desta cerimônia. Isso impede-a mesmo de casar-se”. Só aos 15 ou 16 anos começam as cerimônias do casamento propriamente dito, ou seja, alguns anos depois da puberdade. As variações da idade em que é praticada a circuncisão bastariam por si sós para fazer compreender que se trata de um ato não de alcance fisiológico, mas de significação social204. Não somente em numerosos povos a operação é executada em intervalos muito distantes, por exemplo, de dois em dois anos, de três em três, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, de maneira que a circuncisão é praticada ao mesmo tempo em crianças de desenvolvimento físico sexual diferente. Além disso, em uma mesma região, habitada por populações do mesmo tipo somático (raça), encontram-se notáveis variações. Assim, nas regiões de Marrocos205 exploradas por Doutté verifica-se que a circuncisão é realizada entre os Dukkâla sete a oito dias depois do nascimento ou aos 12 ou 13 anos; entre os Rehamna, de 2 a 5 anos; em Fez, entre 2 e 10 anos; em Tânger, aos 8 anos; entre os Jbala, dos 5 aos 10 anos; nos arredores de Mogador, de 2 a 4 anos; na Argélia, aproximadamente aos 7 ou 8 anos; entre os muçulmanos ortodoxos, quando não é feita exatamente no sétimo dia depois do nascimento, realiza-se o mais cedopossível206. É possível traçar um quadro semelhante com os materiais reunidos por R. Andree207, pelo Dr. Lasnet no Senegal208, etc. Assim, o mesmo rito assinala ora a entrada na infância ora a entrada na adolescência, mas sem nada ter a ver com a puberdade física. Poucas foram as práticas sobre as quais tanto se tem dissertado a torto e a direito. De todos os trabalhos que conheço sobre a circuncisão, o de Richard Andree é ainda aquele que melhor leva em conta a complexidade do problema. Contudo, não pôs em evidência o fato importante da circuncisão não poder ser compreendida quando examinada isoladamente. Convém conservá-la na categoria das práticas do mesmo gênero, isto é, na categoria das práticas que pela ablação, seccionamento, mutilação de qualquer parte do corpo modificam de maneira visível para todos a personalidade de um indivíduo. Foi com plena razão que Doutté209 aproximou a circuncisão do primeiro corte dos cabelos e das cerimônias da primeira dentição, Lasch210 e Westermarck211, das outras mutilações corporais. Mas o primeiro errou em ver nela ritos de purificação, e o segundo ao interpretar a série de mutilações como práticas destinadas a atrair o sexo feminino. Cortar o prepúcio equivale exatamente a arrancar um dente (Austrália, etc.), a cortar a última falange do dedo mínimo (África do Sul), a cortar o lobo da orelha ou a perfurar o lobo, o septo ou a praticar tatuagens e escarificações, ou a cortar os cabelos de certa maneira. Com estas práticas retira-se o indivíduo mutilado da humanidade comum mediante um rito de separação (ideia de secção, de perfuração, etc.) que automaticamente o agrega a um grupo determinado, e de tal maneira que a operação, deixando traços indeléveis, torna a agregação definitiva. A circuncisão judaica nada tem de particular, sendo claramente apresentada como um “sinal de aliança” com determinada divindade, e marca de que o indivíduo pertence a uma mesma comunidade de fiéis212. Em suma, se levarmos em conta ainda o corte do clitóris213, a perfuração do hímen e a secção do períneo, assim como a subincisão, verifica-se que o corpo humano foi tratado como um simples pedaço de pau, que qualquer pessoa talhou e arranjou a seu gosto. Cortou-se o que fazia saliência, furaram-se as paredes, abriram-se sulcos nas superfícies planas, às vezes com excessos reais de imaginação, por exemplo na Austrália. Entre todas estas práticas, a circuncisão é ainda uma das mais simples e das menos graves e, por sua interpretação normal, é verdadeiramente lamentável que os judeus a tenham praticado. Porque depois deles os inumeráveis comentadores da Bíblia atribuíram à circuncisão um lugar à parte, ao qual não tem qualquer direito. Se os judeus tivessem se ligado a Javé perfurando o septo quantos erros menos teria havido na literatura etnográfica! Pode-se bem compreender o motivo pelo qual não considero a circuncisão como estando em relação com a procriação. São várias as razões: 1º) porque a idade em que é praticada varia do sétimo dia ao vigésimo ano (ou mais tarde em caso de adoção, de conversão ao judaísmo, ao islã, etc.); 2º) porque é praticada, juntamente com outras mutilações dos órgãos sexuais, por populações que ignoram o mecanismo fisiológico da procriação214; 3º) porque se oporia mais ao coito, diminuindo o desejo, em consequência da menor sensibilidade da glande. Do mesmo modo, o corte do clitóris (isto é, a ablação de um centro erógeno), a secção do períneo e a subincisão do pênis diminuem também a excitabilidade sexual. No fundo, os semicivilizados não procuraram muito longe, mas fizeram cortes em órgãos que, como o nariz ou a orelha, atraem o olhar porque fazem saliência e podem, em consequência de sua constituição histológica, sofrer todos os tipos de tratamento sem causar dano nem à vida nem à atividade do indivíduo215. Uma questão sem interesse para a finalidade do presente livro é saber se cada espécie de mutilação foi inventada uma única vez, sendo em seguida transmitida de povo a povo por empréstimo, ou se foi inventada várias vezes independentemente. Observo apenas que cada tipo de mutilação, sendo um procedimento de diferenciação coletiva, o empréstimo não pode fazer-se entre tribos limítrofes, mas somente se esta forma, ainda desconhecida, pode servir para diferenciar melhor um grupo determinado em relação a seus vizinhos. As mutilações são um meio de diferenciação definitiva. Outras há, porém, como o uso de um vestuário especial ou de uma máscara, ou ainda as pinturas do corpo (sobretudo com minerais coloridos) que marcam uma diferenciação temporária. São estas que vêm desempenhar considerável papel nos ritos de passagem porque se repetem a cada mudança na vida do indivíduo. Dito isto, convém examinar em detalhes algumas sequências. Começo pela iniciação às sociedades totêmicas. Graças, sobretudo, a Spencer e Gillen216, W.E. Roth217, a A.W. Howitt218 e a R.H. Mathews219, conhecem-se até nas minúcias as cerimônias de iniciação ao grupo totêmico entre várias tribos australianas. Vão do décimo ao trigésimo ano. O primeiro ato consiste em separar o indivíduo do meio anterior, mundo das mulheres e das crianças. Tal como no caso da mulher grávida há reclusão do noviço no mato, em um lugar especial, numa cabana especial, etc., acompanhada de tabus de todo gênero, sobretudo alimentares. A ligação entre o noviço e sua mãe dura às vezes algum tempo, mas chega sempre um momento em que, por um procedimento violento, ou que parece tal, é separado definitivamente da mãe, que frequentemente chora por ele. Conforme diz Howitt a respeito dos Kurnai: “A intenção de todos os atos desta cerimônia é produzir uma modificação momentânea na vida do noviço. O passado deve ser separado dele (cut off) por um intervalo que não poderá jamais tornar a atravessar. Seu parentesco com a mãe na qualidade de criança é bruscamente quebrado e, a partir de então, permanece ligado aos homens. Deve abandonar todos os brinquedos e esportes da infância, ao mesmo tempo em que se rompem os antigos vínculos domésticos entre ele, a mãe e as irmãs. Torna-se agora homem, instruído, consciente dos deveres que lhe incumbem em sua qualidade de membro da comunidade Murring”220. O que Howitt diz sobre as cerimônias dos Kurnai vale para as das outras tribos do sul, do sudeste da Austrália Central, etc. Em algumas delas o noviço é considerado morto, e permanece morto durante o tempo do noviciado. Este dura um tempo mais ou menos longo e consiste no enfraquecimento corporal e mental do noviço, sem dúvida destinado a fazê-lo perder a memória da vida infantil. Vem em seguida uma parte positiva, o ensino do código de costumes, a educação progressiva pela execução diante do noviço das cerimônias totêmicas, a recitação de mitos, etc. O ato final é uma cerimônia religiosa (nos lugares onde existe a crença em Daramulun, etc.) e sobretudo uma mutilação especial, que varia com as tribos (arranca-se um dente, incisa-se o pênis, etc..) e torna o noviço idêntico para sempre aos membros adultos do clã. Algumas vezes a iniciação é feita de uma só vez, em outras ocasiões realiza-se por etapas. Quando o noviço é considerado morto, em seguida é ressuscitado, sendo-lhe ensinado então a viver de modo diferente da existência infantil. Sejam quais forem as variações nos detalhes chega-se sempre a distinguir uma sequência conforme o esquema geral221. As “fraternidades” mágico-religiosas fundam-se essencialmente na organização do clã, isto é, de aparentados sociais, mas são, contudo, coisa diferente. Pelo menos se na Colúmbia Britânica o clã totêmico subsiste ainda idêntico à fraternidade, existe ao lado dela nas planícies e desapareceu entre os índios Pueblo, onde a fraternidade tem base territorial (cf. os Tusaian, os Hopi, etc.). Quanto às cerimônias de iniciação dos Kwakiutle, remeto o leitor à memória de Boas222. Entre os australianos o direito de fazer parte do clã totêmico transmite-se hereditariamente. Entre os Kwakiutle adquire-se além disso pelo casamento, mas de toda maneira o indivíduo nele só penetragraças a cerimônias de passagem, que o separam de seu meio anterior para agregá-lo ao meio restrito novo. Se os australianos separam a criança da mãe, das mulheres e das crianças, entre os Kwakiutle o mundo anterior é personificado por um “espírito” que se trata de exorcizar, ponto de vista idêntico ao dos cristãos que exorcizam satanás por ocasião do batismo. A ideia de morte e ressurreição encontra-se aqui também. Finalmente, a agregação à sociedade consiste na aquisição do “espírito” protetor coletivo do clã, equivalente ao totem australiano. O animismo é mais acentuado entre os Omaha, Ojibwé, etc., onde o protetor que deve ser adquirido é mais individualizado e perde todo caráter específico. J.H. Kohl descreveu detalhadamente223 as cerimônias de admissão à “ordem dos midés” entre os Ojibwé. A sequência é a seguinte: construção de uma cabana sagrada224; a criança é amarrada a uma tábua, e durante toda a cerimônia comporta-se como se tivesse perdido a personalidade; os participantes usam roupas, são pintados, etc.; procissão geral no interior da cabana; os chefes-padres-magos matam todos os assistentes; em seguida são ressuscitados um depois do outro; a procissão, o massacre e a ressurreição realizam-se depois de cada cena importante da cerimônia; o pai, acompanhado dos padrinhos e madrinhas, apresenta o filho ao chefe, e depois dança juntamente com aqueles que o acompanham. Isto até o meio-dia. De tarde expõem-se no centro da cabana os sacra, ramagens recobertas por um pano, ao redor das quais dá-se voltas em procissão uma vez, cinco vezes, etc., até que o pano fique recoberto com um monte de conchas coloridas que cada pessoa aí deixou cair da boca; depois a procissão recomeça, cada um apanhando ao passar uma concha, que, tornando-se sagrada, servirá de poderoso “remédio”. Em seguida cada assistente por sua vez vem bater no tambor sagrado e cantar uma espécie de prece, os homens fumando (ato ritual). Ao cair da noite os chefes e os padres recebem presentes oferecidos pelo pai, ao qual dão em troca “remédios”, amuletos, etc.; discurso do sumosacerdote implorando “a bênção divina de Kitschimanitu”; refeição em comum de milho cozido na água, da qual participam as crianças; durante a cerimônia a criança recebe um nome. Entre os Zuni do Arizona toda criança masculina deve ser recebida no Ko’tikili (fraternidade mitológica) e associada a um dos kiwitsiwe (casa das cerimônias sagradas, uma espécie de templo), que é o do marido, do filho mais velho ou do irmão mais velho da parteira que trouxe ao mundo a criança; este mesmo homem serve de padrinho à criança por ocasião da iniciação, seja esta involuntária (com pouca idade) ou voluntária (cerca dos 12 ou 13 anos)225. Além disso, cada indivíduo, homem ou mulher, faz parte de várias “fraternidades”, da chuva, etc., ou mágico-médicas, etc., em cada uma das quais os ritos de iniciação são diferentes226. Damos a seguir o esquema dos ritos de entrada por ocasião da iniciação voluntária ao ko’tikili: 1º) o padrinho introduz o noviço no kiwitsiwe; 2º) duas mulheres colocam nas costas do noviço quatro tapetes dobrados em quatro; 3º) o padrinho envolve a cabeça do noviço em um pano, de modo que não possa ver nada; 4º) o noviço recebe, de cada uma das quatro divindades Sayathlia (homens mascarados), golpes com ramos de iúca, nas costas, quatro vezes seguidas; 5º) cada mulher recebe de cada Sayathlia um golpe de iúca nas costas e retiram-se os quatro tapetes; 6º) o jovem recebe de novo quatro golpes de cada deus; 7º) o padrinho retira o pano e prende uma pena de águia, ornamento sagrado, na cabeleira do noviço; 8º) os quatro deuses retiram a máscara e o noviço reconhece neles homens; 9º) quatro noviços são conduzidos diante dos quatro Sayathlias e recebem deles uma máscara e um ramo de iúca; 10º) os noviços batem em cada Sayathlia com esses ramos nos braços direito e esquerdo e nos tornozelos direito e esquerdo; 11º) os noviços devolvem a máscara a cada Sayathlia; 12º) estes recolocam suas máscaras e batem em cada padrinho nos braços e nos tornozelos, e a iniciação está terminada227. Observaremos que em toda esta cerimônia a flagelação tem claramente em primeiro lugar o sentido de um rito de separação e depois de um rito de agregação. A mesma aplicação da flagelação228 encontra-se nos ritos de iniciação dos Navaho229, onde a sequência é quase idêntica à precedente, havendo variações apenas no número dos atores divinos, das pancadas recebidas, etc. Além disso, os noviços sofrem aspersões de farinha, sendo estas as únicas que se usam na iniciação das mulheres, as quais além do mais são tocadas por sacra especiais (espiga com quatro grãos muito apertados, estando o conjunto amarrado a quatro ramos de iúca). Toca-se com esses sacra e asperge-se com farinha sucessivamente a planta dos pés, as palmas e os antebraços, o alto do peito e as clavículas, as omoplatas, os dois cimos da cabeça. Deve notar-se a analogia destes ritos com os do batismo cristão. São ritos de agregação à comunidade. Acrescento que não existe idade fixa para a iniciação, e que esta deve ser repetida, com a mesma sequência, quatro vezes, para que o indivíduo possa assistir a todas as cerimônias sem exceção e usar máscaras sagradas. Os últimos atos são: 1º) revestir-se com a máscara; 2º) aspersão da máscara pelo noviço com o pó sagrado; 3º) inalação pelo candidato da fumaça sagrada. No começo, tinha- se invertido um recipiente para servir de tambor; agora vira-se o recipiente e a cerimônia está terminada. Antes de examinar outras sequências faço questão de observar que o ato central, tanto na América do Norte quanto na Austrália, é o fato de revelar aos noviços que o bicho-papão de sua infância são simples sacra, Losango na Austrália230, máscara na América; além disso, o privilégio do iniciado consiste em poder manipular sem perigo sobrenatural os sacra segundo regras precisas, e estes três elementos constituem também os pontos culminantes da iniciação aos mistérios asiáticos, gregos, etc. Muito interessante é o ritual dos batismos repetidos a que se submetem os Sabeano, cuja religião, supostamente fundada por São João Batista, é um amálgama de mazdeísmo, de judaísmo, de cristianismo, de islã, etc. Há três categorias de batismo: 1º) o da criança (com um ano); 2º) como purificação de diversas máculas; 3º) o batismo coletivo durante os cinco dias da festa anual Pancho. Nasce-se Sabeano. Nenhum estrangeiro pode ser admitido na religião dos Subba, e por isso não há ritos de separação231. Isto confere à sociedade sabeana um lugar especial. As “sociedades secretas”, da Oceania (com exceção da Austrália) e da África, não têm, como os clãs totêmicos e as fraternidades, por finalidade o controle da natureza, mas, embora apresentem caráter mágico-religioso, têm mais objetivos políticos e econômicos, no sentido humano da palavra. Por seu curso geral, e mesmo frequentemente nos detalhes, os ritos de iniciação são entretanto, semelhantes àqueles de que acabamos de falar. O paralelismo é principalmente notável nos ritos do Congo, descritos minuciosamente por Jonghe232, que infelizmente viu neles “ritos da puberdade”, embora a idade dos noviços oscile entre 7 e 20 anos, sendo a idade comum 10 a 15 anos233. Ignora-se, porém, a idade exata da puberdade fisiológica dos negros do Congo. Todos os membros, aliás, das tribos do Baixo Congo não são obrigados a se filiarem ao nkimba ou ao niembo, o que não somente mostra que se trata realmente de sociedades especiais restritas, para as quais conservarei o nome de “secretas”234, mas sobretudo que a puberdade, a geração e o direito de casar-se não estão em questão nas cerimônias de entrada nelas. Estas sociedades secretas, tanto no Congo como no Golfo da Guiné, etc., permeiam as tribos (unidades geográficas). Nelas só são admitidos os filhos mais inteligentes de homens livres ou de escravos ricos. A duração das cerimônias vai de dois meses a seis anos, conforme a tribo e os observadores. Compreendem ritos negativos (tabus) de toda espécie e ritos positivos. A sequênciados ritos é a seguinte: separa-se o noviço de seu ambiente interior (reclusão na floresta235, para a qual é levado; lustração; flagelação; intoxicação pelo vinho de palmeira, tendo como consequência a anestesia236), ao qual está “morto”, sendo então agregado ao novo ambiente. Em seguida vem o período de margem constituído por mutilações corporais (circuncisão, que algumas vezes é praticada na criança de pouca idade, sem conexão com a sociedade secreta), pinturas corporais (em branco237, vermelho). Os noviços permanecem nus durante toda a duração das provas, porque, estando mortos, não devem sair de seu retiro e mostrar-se aos homens. Há ainda instrução pelo nganga (padre-mago), língua especial, alimento especial (tabus alimentares). Depois vêm os ritos de reintegração ao ambiente anterior, elemento que não precisa existir para os iniciados no clã totêmico ou na fraternidade. Os iniciados fingem não saber andar nem comer, etc., em resumo procedem como recém-nascidos (ressuscitados) e reaprendem todos os gestos da vida comum, para o que precisam de vários meses. Antes, banharam-se em um rio, e foi queimada a cabana sagrada. Em suma, encontramos aí uma dupla encenação: ritos de separação do meio comum, ritos de agregação ao meio sagrado; margem; ritos de separação do meio sagrado local; ritos de reintegração no meio comum. Mas desta passagem pelo mundo sagrado resta ao iniciado uma qualidade especial, mágico-religiosa. A este esquema correspondem também as cerimônias de iniciação dos Iaundé do Camerum meridional238 e, em geral, das populações do Golfo da Guiné (sociedades Purra, Egbo, Oro, Mumo-Jumbo, etc.). Para o estudo das sociedades secretas na Melanésia remeto o leitor primeiramente ao excelente livro de Codrington239, onde se encontrarão descritas as cerimônias de iniciação em Fidji, nas Ilhas Banks e nas Novas- Hébridas. Não há certeza de que estas sociedades estejam em relação com o totemismo240. Recentemente, R. Parkinson241 deu informações novas sobre as sociedades secretas chamadas duk-duk no arquipélago Bismarck e nas Ilhas Salomão. Eis a sequência dos ritos, que só variam pouco, mesmo nos detalhes242: 1º) leva-se o noviço para o lugar sagrado; 2º) aí chegando recebe pancadas com varas, mais ou menos fortes conforme a idade, aplicadas pelo Tubuan, espécie de bicho-papão divino; 3º) aos berros do noviço respondem ao longe as lamentações da mãe e dos outros parentes; 4º) o padrinho distribui presentes aos assistentes e dá-se de comer ao noviço; 5º) o Tubuan despe-se inteiramente e os noviços reconhecem que é um homem; 6º) a roupa do Tubuan conserva-se em pé graças à sua armação, o que prova estarem impregnadas de potência (mana melanésio); 7º) os assistentes dançam e ensinam sua dança aos noviços, assim como os segredos da sociedade; 8º) todos os assistentes participam de uma refeição em comum; 9º) cada noviço recebe um vestuário cerimonial, se tem cerca de 12 anos; se é uma criança pequena, deve esperar um número qualquer de anos. A doação do vestuário, que termina a iniciação, é feita em outro dia de acordo com um cerimonial especial. Há, portanto, claramente de novo ritos de separação, um período de margem e ritos de agregação243. O mesmo caberia dizer dos ritos das cerimônias fidjianas, onde o noviço deve, entre outras coisas, passar no espaço compreendido entre dois cadáveres supostos, pintados de preto dos pés à cabeça e com as entranhas (são as de porcos sacrificados) estravazantes244. A sociedade política, guerreira e rapinante dos Areoi, em Taiti e em outros lugares da Polinésia, compreendia sete classes ou graus, cujos membros se distinguiam pelas tatuagens cada vez mais complicadas e numerosas, correspondendo à elevação na hierarquia245. Recrutava-se em todas as classes da sociedade geral. Quem quisesse tornar-se membro da sociedade exibia-se vestido e adornado de maneira não ordinária e assumia um comportamento de quem parecia perturbado do espírito. Depois disso, se o julgassem útil, os Areoi adotavam o indivíduo como servidor. Assim, o primeiro ato consistia em mostrar que era diferente do vulgo. Vejo nessa cerimônia um rito de separação voluntária. Ao fim de certo tempo, o noviço era agregado: 1º) mudavam-lhe o nome; 2º) devia matar seus filhos; 3º) devia aprender certa postura necessária para cantar determinado cântico sagrado; 4º) apanhava o vestido da mulher do chefe e entrava assim na 7ª classe. A passagem de um grau ao seguinte era feita da seguinte maneira: 1º) reunião de todos os Areoi usando roupas cerimoniais; 2º) invocação ao porco sagrado, aos templos nacionais e enumeração dos nomes dos candidatos com o grau a que aspiravam; 3º) entrada processional no templo e oferenda, pelo candidato, ao deus, de um porco sagrado, que era morto e comido em comum ou ao qual se devolvia a liberdade; 4º) grande banquete em comum, com suspensão dos tabus sexuais e alimentares aos quais, em tempo ordinário, cada grau estava obrigado. Parece depreender-se do texto de Ellis246, que não somente havia orgia heterossexual, mas também sodomia; 5º) música, dança, representações dramáticas; 6º) tatuagem do candidato de acordo com seu novo grau. As cerimônias de entrada e de passagem de um grau ao outro na Melanésia247 são mais simples. Os elementos centrais são: uma troca cerimonial de moedas (Mota, Ilhas Banks) ou de esteiras (Ilha dos Leprosos); o donativo de porcos aos membros da sociedade (o suqe, huqe, etc.) e refeições cerimoniais em comum, kole248, que lembram os potlatch da Colúmbia Britânica. Embora o suqe tenha apenas alcance social e econômico, o elemento mágico-religioso aí aparece pelo fato do grau da riqueza, que condiciona a passagem de um grau a outro (nas Ilhas Banks há 18) depender do mana do indivíduo. Por conseguinte, quanto mais elevada é a categoria desse indivíduo no suqe mais é considerado portador de mana249, tendo assim cada grau de suqe uma quantidade de mana mais ou menos grande, do mesmo modo que as fraternidades ameríndias têm manitu, orenda, nanual, etc. Quanto à iniciação nas classes de idade, não examinarei aqui em detalhes senão as cerimônias de idade entre os Masai. Em várias tribos australianas o fato dos ritos distribuírem-se por uma duração mais ou menos longa levou Schurtz250 e Webster251 a confundir os ritos de iniciação ao grupo totêmico com os ritos de passagem às classes sucessivas. Entre os Masai “a puberdade produz-se aproximadamente aos 12 anos”252, a circuncisão dos rapazes tem lugar “desde que sejam bastante fortes, isto é, entre 12 e 16 anos”, às vezes mais cedo se os pais são ricos, mais tarde se são pobres, e até que tenham meios de pagar a cerimônia, prova de que também aqui a puberdade social difere da puberdade física. A circuncisão realiza-se de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, e todos aqueles que são circuncisos na mesma ocasião formam uma classe de idade tendo um nome especial escolhido pelo chefe253. Entre os Masai ingleses um rapaz ou uma moça não podem ser circuncisos a não ser que seu pai se submeta a uma cerimônia chamada “passagem da sebe”, mediante a qual aceita tornar- se “um velho” o chamar-se de então em diante o pai-de [seu filho]254. A sequência das cerimônias entre eles é a seguinte: 1º) todos os candidatos reúnem-se, sem armas; 2º) besuntam-se com argila branca e durante dois ou três meses correm de kraal em kraal; 3º) raspam-lhes a cabeça, depois mata- se um boi ou um carneiro; 4º) no dia seguinte cada um vai cortar uma árvore (asparagus, sp.), que as moças plantam diante da cabana de cada candidato; 5º) no dia seguinte colocam-se ao ar frio e lavam-se com água fria [para se insensibilizarem, Merker]; 6º) o operador corta o prepúcio e a pele de boi que contém o sangue é colocada na cama do rapaz; 7º) estes permanecem encerrados quatro dias; 8º) depois saem e provocam as moças, vestindo-se frequentemente de mulheres e pintando o rosto com argila branca; 9º) cingem a cabeça com pequenos pássaros e penas de avestruz; uma vez curados, são raspados e logo que os cabelos renascem com o comprimentosuficiente para poderem ser trançados são chamados il-muran, guerreiros. Quanto às moças: 1º) mata-se um boi ou um carneiro; 2º) a operação é feita na casa; 3º) as moças cingem a cabeça com folhas da palmeira dum ou com ervas; 4º) uma vez curadas são casadas255. Entre os Masai alemães a sequência é a mesma, exceto: 1º) após a operação há um grande banquete, do qual participam os pais dos circuncisos e todos os homens das vizinhanças; 2º) os jovens guerreiros [solteiros] dançam e se divertem com as moças, suas amantes; 3º) a reclusão dos operados dura sete dias; 4º) no dia da primeira saída matam um bode branco, cuja carne partilham, jogando os ossos no fogo. Para as moças: 1º) circuncisam-se várias ao mesmo tempo; 2º) raspam- lhes a cabeça; 3º) permanecem em casa até que a ferida tenha cicatrizado; 4º) cingem a cabeça com ervas onde plantam uma pena de avestruz e cobrem o rosto com argila branca; 5) todas as mulheres do kraal participam de uma refeição em comum; 6º) logo após, o noivo paga o que ainda deve do dote e o casamento realiza-se dentro em pouco256. Daí se depreende que as cerimônias em questão, se são independentes da puberdade, pelo menos têm caráter sexual, porque agregam os circuncisos à sociedade sexual adulta. Observar-se-á além disso que se a operação tem por finalidade o casamento é na medida em que este representa uma instituição social, e não a união dos sexos. Porque antes da circuncisão, e a partir de uma idade que Merck não indica, as meninas vivem no kraal dos jovens guerreiros (primeira classe de idade), tendo cada uma um ou vários amantes, havendo a condição absoluta de não ficar grávida257. Para as moças, a classe de idade seguinte é a das mulheres casadas. Os cabelos grisalhos e a menopausa marcam a última classe de idade. Os rapazes foram primeiramente rapazes (aijoni), depois candidatos (siboli). Durante dois anos, como guerreiros, são noviços ou aprendizes (barnoti), depois do que tornam-se guerreiros propriamente ditos (morâni). Assim permanecem até os 28 ou 30 anos, em seguida casam-se e tornam-se adultos (moruo)258. Deste modo, as cerimônias do casamento neste caso, como entre muitos outros povos, têm o caráter de rito de passagem de uma classe de idade a outra. Preciso ainda assinalar os ritos dos Wayo porque participam ao mesmo tempo dos ritos de classes de idade e dos ritos de etapas e de margens sucessivas, tal como são encontrados entre os Toda da Índia, por exemplo. O unyago das moças Wayao divide-se em quatro etapas: 1ª) chiputu: da idade de 7, 8 ou 9 anos até a primeira menstruação; reclusão, instrução de ordem sexual, deformação sistemática dos pequenos lábios até 7cm de comprimento e mais, danças eróticas, etc.; 2ª) matengusi: festa da primeira menstruação; durante o chiputu a moça foi casada, mas separa-se do marido desde as primeiras regras; reclusão; ensinam-lhe os tabus relativos ao período das regras; 3ª) chitumbu: conjunto dos ritos da primeira grandeza; no quinto mês raspam-se os cabelos; no sexto, reclusão; instrução nos assuntos da maternidade e nos tabus das mulheres grávidas; 4ª) wamwana: primeiro parto; o direito de recomeçar as relações sexuais é concedido ao marido, a pedido, pelo chefe da aldeia quando a criança pode sentar-se ou quando tem 6 ou 7 meses. Em todas estas cerimônias a solidariedade sexual exprime-se muito claramente259. Vê-se a extensão que os “ritos de iniciação” tomam entre os Wayao. Entre alguns ameríndios (Arapaho260, etc.), a passagem de uma classe a outra supõe um ritual de aspecto mais mágico-religioso, porém, na maioria das populações onde existem classes de idade, são as façanhas na guerra ou na pilhagem, ou ainda dons de toda espécie e festins oferecidos, que determinam a antecipação, a idade não sendo nunca tomada muito estritamente em consideração. Passo aos ritos de entrada no cristianismo, no islã e nos mistérios antigos, embora estes últimos pertençam à mesma categoria que as fraternidades mágico-religiosas dos índios Pueblo. Mas o cristianismo tomou tanta coisa emprestada dos mistérios egípcios, sírios, asiáticos e gregos que é difícil compreender um sem levar em conta os outros. A finalidade econômica, ora especialmente agrária, ora econômica geral (multiplicação de todos os meios de subsistência e de vida, animais, vegetais, fecundidade da terra, irrigação, etc., curso regular dos astros divinos que condicionam a vida geral) dos mistérios antigos (Osíris, Ísis, Adônis e Deusa síria, Átis, Dioniso, e mesmo o orfismo, etc.), foi bem estabelecida pelas pesquisas de Mannhardt261 J.G. Frazer262, S. Reinach263, Srta. Harrison264, Goblet d’Alviella265, Fr. Cumont266, etc. Mas os ritos que constituem estas cerimônias só foram bem estudados enquanto ritos simpáticos de multiplicação ou de fecundação e de coação sobre o mecanismo cósmico e terrestre. Suas sequências, ao contrário, quase não foram examinadas267, embora o estudo de certos rituais modernos conhecidos com mais detalhes (Austrália, índios Pueblo) assim como o dos livros ritológicos antigos (Egito, Índia) prove que sempre nas grandes linhas e às vezes nos menores detalhes a ordem em que os ritos se seguem e devem ser executados constitui, já por si, um elemento mágico-religioso de alcance essencial. O objetivo principal deste livro é precisamente reagir contra o procedimento “folclorista” ou “antropológico”, que consiste em extrair de uma sequência diversos ritos, positivos ou negativos, e em considerá-los isoladamente, tirando-lhes assim sua principal razão de ser e sua situação lógica no conjunto dos mecanismos. A Srta. Harrison268 entende por “mistérios” “um rito no qual são exibidos certos sacra que não poderiam ser vistos pelo adorador se não tivesse sofrido certa purificação”. Entendo por “mistérios” o conjunto das cerimônias que, fazendo o neófito passar do mundo profano para o mundo sagrado, põem-no em comunicação direta e definitiva com este último. A exibição dos sacra, em Elêusis como na Austrália (churinga, zunidor sagrado) ou na América (máscaras, espigas sagradas, katcinas, etc.), é o rito culminante, mas não constitui por si só os “mistérios”. Vejamos a sequência dos ritos de iniciação em Eleusis269: 1º) os candidatos se reúnem e o hierofante põe de lado, por uma proibição (tabu), todos aqueles cujas mãos são impuras e que falam de maneira ininteligível270; esta escolha é encontrada também na África, por ocasião da iniciação nas sociedades secretas, sendo um sacerdote mago que se encarrega dela; 2º) estes neófitos eram introduzidos no Eleusinion e, penetrando no recinto, sacralizavam-se no vaso de água sagrada colocado perto da porta [cf. nossas pias de água benta]; 3º) Alade mysthai!: os neófitos são conduzidos [correndo?] ao bordo do mar; esta corrida é chamada elasis, afastamento ou banimento, sentido que se encontra talvez em pompê271; este rito até agora tem sido interpretado com “afastamento das más influências, ou dos demônios, ou do mal”; vejo nele um rito de separação do profano de sua vida anterior, rito preliminar, reforçado pelo que se segue; 4º) banho no mar; este é um rito chamado de purificação; lava-se o neófito para retirar a qualidade de profano e impuro; cada neófito carregava um porco, que banhava ao mesmo tempo, rito que lembra um grande número de ritos melanésios272; 5º) retorno ao Eleusinion e sacrifício, cerimônia que encerra o primeiro ato. Os neófitos que tinham tomado parte nas cerimônias de 15 e 16 Boedromion e recebido a instrução dos pequenos mistérios não apareciam mais em público depois da corrida ao mar e do sacrifício, mas aguardavam no retiro (tabus alimentares, etc.) a partida para Eleusis; 6º) 19-20 Boedromion, procissão de Atenas a Eleusis (20 quilômetros) com transporte de Iacchos e dos sacra ao Eleusinion e numerosas paradas no percurso: no Bairro da Figueira sagrada, no palácio de Crocom (açafrão), no domínio de Raria (área sagrada), no poço Calichoros, na pedra de Demeter, etc., estações que têm todas caráter agrário273; 7º) entrada no interior do recinto, cujas paredes elevadas tinhampor finalidade, tal como em Atenas, impedir os profanos de verem o que se passava no mundo sagrado; a proibição de entrar estendia-se ao temenos inteiro e tinha por penalidade a morte, pelo menos nos dias de mistérios. Em seguida faltam informações sobre os detalhes das cerimônias. Sabe-se pelo menos que a iniciação abrangia274: a) uma viagem através de uma sala dividida em compartimentos escuros, cada qual representando uma região dos infernos; subida de uma escada; chegada às regiões vivamente iluminadas e entrada no megaron com exibição dos sacra275; b) uma representação do rapto de Coré, com elementos desconhecidos dos profanos e não compreendidos na lenda que circulava entre as pessoas vulgares. Esta parte corresponde exatamente às representações, por ocasião das cerimônias australianas, dos atos dos antepassados do Alcheringa. A primeira é também quase universal: os noviços, tendo morrido para o mundo profano, percorrem o Hades, depois renascem, mas no mundo sagrado276; 8º) em seguida vinham ritos de toda espécie, cânticos, danças, procissões, a respeito dos quais não temos informações precisas277. Vê-se que, em suas grandes linhas, a iniciação nos mistérios de Eleusis corresponde, quanto à sequência dos ritos, às cerimônias de mesma categoria que já examinamos. Esta mesma sequência encontra-se igualmente na dramatização da morte e do renascimento do noviço, na iniciação ao orfismo, às sociedades religiosas da Trácia, de Dioniso, de Mitra278 (iniciação por etapas), de Átis, de Adônis, de Ísis, etc. A iniciação na “fraternidade isíaca” é bastante conhecida, e “a passagem pelos elementos”, de que fala Apuleio, exprime, ainda melhor do que a viagem pelo Hades279 a ideia de morte do neófito, porque se admitia mesmo, ao que parece, que se decompunha, para em seguida recompor-se e formar um novo indivíduo. A mesma ideia encontra-se ainda nos ritos de iniciação ao culto de Átis. Lembro, primeiramente, que Átis, como Adônis e em geral as divindades da vegetação, morrem no outono e renascem na primavera. As cerimônias de seu culto comportam: 1º) a representação dramática desta morte, com tabus funerários (luto, etc.), lamentações; 2º) o período de margem com suspensão da vida comum; 3º) a ressurreição ou antes o renascimento. Isto foi estabelecido até nas minúcias por Mannhardt, Frazer280 e seus discípulos, mas não viram que estes conjuntos cerimoniais são conjuntos de ritos de passagem, simultaneamente cósmica, religiosa e econômica, não constituindo senão uma fração de uma categoria muito mais vasta, que o presente livro tem por finalidade delimitar. Assim é que a morte, a margem e a ressurreição são também um elemento das cerimônias da gravidez, do parto, da iniciação a sociedades sem finalidade agrária, do noivado, do casamento e dos funerais281. Admitindo-se que Atis morre e depois renasce, concebe-se que os ritos de iniciação façam também morrer e renascer seu futuro adorador: 1º) este jejua, isto é, faz sair de seu corpo a impureza profana; 2º) come e bebe nos sacra (tambor e címbalo); 3º) sendo colocado em um fosso, recebe em todo o corpo o sangue de um touro sacrificado em cima dele282, em seguida sai do fosso, vermelho dos pés à cabeça; 4º) durante vários dias só se alimenta de leite, como um recém-nascido. Parece-se, por conseguinte, que o rito sangrento, no qual habitualmente se vê o batismo no sentido cristão da palavra, enquanto rito de remissão dos pecados, segundo o testemunho de informadores afinal de contas recentes (Clemente de Alexandria, Firmicus Maternus, etc.), tinha na origem um sentido direto e material, a saber, o neófito saía ensanguentado do fosso como o recém- nascido sai ensanguentado do corpo materno. Por influência dos cultos asiáticos, gregos e egípcios a comunidade dos cristãos, a princípio uniforme, dividiu-se pouco a pouco em classes que correspondem aos graus dos mistérios283; os ritos de admissão complicaram- se pouco a pouco e foram sistematizados na ordo baptismi (começo do século XI) e no sacramentário de Gelásio. Graças à rápida difusão do cristianismo, chegou o momento em que só havia para batizar as crianças, mas o ritual conservou por muito tempo um grande número de aspectos que só convêm a um batismo de adultos. É por conseguinte este último que examinaremos aqui. O primeiro grau era o dos catecúmenos; a entrada nesse grau compreendia: 1º) a exsuflação, com uma fórmula de exorcismo; 2º) o sinal da cruz na testa; 3º) a administração do sal exorcizado. Conforme se vê, estes ritos não são mais diretos, como acontece entre alguns semicivilizados, mas são já animistas, como entre certos negros e ameríndios284; o primeiro rito é um rito de separação; o segundo simultaneamente separa e agrega, equivalendo à marcação (s�raghv) dos mistérios gregos e do cristianismo primitivo285; o terceiro rito é um rito de agregação, de acordo sobretudo com a prece que o acompanha286. Vem em seguida o período de margem: o catecúmeno, do mesmo modo que o iniciado nos pequenos mistérios, pode assistir às assembleias religiosas, tem um lugar especial da igreja, mas deve retirar-se antes do começo dos verdadeiros mistérios (missa). Era submetido periodicamente a exorcismos, de maneira a separá-lo cada vez mais do mundo não cristão. Era instruído progressivamente, “abriam-lhe os ouvidos”. Depois de um último exorcismo vinha a effeta: o padre, tendo umedecido o dedo de saliva, tocava o lábio superior e as orelhas de cada catecúmeno; os candidatos despiam-se, eram ungidos com óleo consagrado nas costas e no peito287, renunciavam a satanás, juravam ligar-se a Cristo e recitavam o Credo. É o fim do período de margem, que compreende ao mesmo tempo ritos de separação e ritos preparatórios de agregação; a duração deste período não era limitada; o indivíduo podia permanecer nele até a véspera da morte. Em seguida vinham os ritos de agregação propriamente ditos. Benzia-se a água288, aspergia-se o catecúmeno, que se tornava assim regeneratus, reconcebido, de acordo com os próprios termos da oração pronunciada por ocasião do rito seguinte289. Os batizados tiravam suas roupas para vestir outras, brancas, com auxílio dos padrinhos e madrinhas290. Reuniam-se diante do bispo, que os “marcava” com o sinal da cruz, rito evidente de apropriação à divindade291 e de agregação à comunidade dos fiéis. Somente então os neófitos eram admitidos à comunhão. Depois disso davam-lhes de beber uma bebida consagrada poucos instantes antes, feita de mel, água e leite, e que Usener aproximou, erroneamente segundo Duchêne, dos mistérios de Dioniso, e a propósito da qual observo sobretudo que era a bebida dada aos recém-nascidos, sem dúvida antes da apojadura da mãe. O “renascimento” era marcado finalmente por uma procissão dos batizados, que levavam círios acesos, a Grande Luz, que lembrava a dos mistérios gregos e em todo caso indicava que os “mortos” tinham nascido para a luz do “verdadeiro dia”. Tal é a encenação do ritual romano. As mesmas ideias e a mesma sequência encontram-se no ritual galicano. Contudo, não se deve esquecer que toda esta sistematização do ritual do batismo é relativamente recente e que nos primeiros séculos os ritos eram menos numerosos e menos complicados. Houve poderosa influência do gnosticismo, que também possuía graus e ritos de iniciação progressivos, que se incluem em nosso esquema dos ritos de passagem292. O batismo cristão primitivo compreendia: 1º) um jejum; 2º) uma imersão ou aspersão de água consagrada. Por outro lado, segundo os lugares e as épocas, foram acrescentadas à sequência fundamental todas as espécies de ritos de detalhe (de purificação, de exorcização, etc.), sob a influência de crenças e práticas locais. Seria fácil ainda mostrar como o ritual da missa é constituído por uma sequência de ritos de separação, de margem e de agregação. A única distinção teórica entre a iniciação e a missa é que esta é uma iniciação periodicamente renovada, assim como o sacrifício do soma na Índia védica e em geral os sacrifícios que têm por objetivo assegurar o curso normaldas coisas tanto cósmicas quanto humanas. Como se sabe, a admissão ao islã é feita pela circuncisão e recitação da fatiha. Entretanto, o estudo detalhado de narrativas de célebres conversões e o das variações do ritual da circuncisão entre as diversas populações muçulmanas mostraria que nos lugares onde há tendência para um desenvolvimento ritual, por exemplo na Ásia Menor, Cáucaso, Ásia Central, Índia, o esquema tripartite aqui exposto distingue-se igualmente. Encontra-se ainda a mesma sequência por ocasião da passagem de uma religião para outra, consistindo então o rito de separação na abjuração293. Quando do retorno à religião primitiva, por exemplo no ritual cristão da penitência, o penitente era considerado um cristão que, por um motivo ou outro, perdeu sua iniciação e se esforça por recuperá-la. A instrução religiosa e os exames eram substituídos por “exercícios ascéticos”: não casar-se, romper o casamento concluído, demitir-se de suas funções, austeridade alimentar e suntuária; em resumo, o penitente era muito mais “separado” do mundo profano que o catecúmeno. A penitência terminava pela imposição das mãos feita pelo bispo, pela confissão pública do penitente, que, em seguida, devia tomar luto ou retirar-se para um convento, e neste caso a cerimônia de reagregação à comunidade dos fiéis compreendia a admoestação, uma oração de “reconciliação” e, na Espanha, a cerimônia da indulgentia294. Passo aos ritos de iniciação às confrarias religiosas. Deixarei de lado as cerimônias de entrada nas confrarias budistas, para as quais existem documentos facilmente acessíveis295, e citarei a da entrada na seita dos Sikhe296. Consagra-se, por meio de preces, água açucarada, que é mexida com um pequeno punhal. Joga-se esta água na cabeça e nos olhos do neófito, que bebe o resto. Depois come, juntamente com os consagradores, uma espécie particular de pasta. “Isto regenera o neófito”, que, respondendo às perguntas feitas, deve dizer, qualquer que seja sua nacionalidade, que nasceu em Patna, que mora em Aliwalia, lugar de nascimento e residência do guru Govind Singh, que é filho de Govind Singh, o último dos dez gurus dos Sikhe. Nas cerimônias de iniciação à seita chamar do Sinnârâyani há um noviciado de cinco dias, após o qual o neófito lava o dedo grande do pé do guru e bebe a água, distribuindo bolos aos membros da confraria. Além disso queima-se cânfora297, etc. A iniciação às confrarias muçulmanas é chamada em Marrocos ouird, descida ao bebedouro, fato de dessedentar-se, e o ato de beber ou de ingerir um líquido ou de recebê-lo na boca é aí, com efeito, o principal rito de agregação. Para filiar-se à ordem dos Aissaua o neófito abre largamente a boca e três vezes seguidas o chefe da cerimônia cospe-lhe na garganta. A este rito central acrescentam-se outros298. O ahd, ou rito de iniciação, no Cairo, segundo Lane, é aproximadamente o mesmo para as diferentes confrarias. O noviço senta-se no chão diante do xeque e ambos dão a mão direita, levantando os polegares, que apertam um contra o outro, tendo a manga do xeque recobrindo-lhe as mãos. O noviço repete após o xeque um certo número de vezes algumas fórmulas consagradas. Depois o novo iniciado beija a mão do xeque. Estes ritos são idênticos aos do contrato de casamento, exceto o fato das mãos do noivo e do representante da noiva serem escondidas embaixo de um lenço. As fórmulas são jurídicas e o noivo só beija as mãos dos assistentes se for de condição social inferior299. Nas cerimônias católicas de filiação a uma ordem religiosa há sempre uma parte que permanece fixada uma vez para sempre conforme o ritual, romano, galicano, etc., e uma parte que varia com a ordem religiosa. Assim, a entrada nos carmelitas inclui ritos de funerais seguidos de ritos de ressurreição. As virgens e prostitutas sagradas para entrarem em sua nova situação submetem-se também a cerimônias construídas de acordo com o esquema dos ritos de passagem. Eis primeiramente a sequência na consagração das virgens católicas, segundo o Pontifical Romano300: 1º) trazem-se as virgens revestidas do hábito do noviciado, “sem véus nem mantos nem capuzes”; 2º) acendem seus círios e ajoelham-se duas a duas; 3º) três vezes seguidas o pontífice diz-lhes: vinde, e elas se aproximam dele em três etapas; 4º) colocam-se de pé em círculo, e depois cada uma vem prometer-lhe consagrar sua virgindade; 5º) o pontífice pergunta-lhes se aceitam “ser abençoadas, consagradas e unidas como esposas de N.S. Jesus Cristo”: “Queremos”; 6º) o bispo canta o Veni Creator Spiritus e benze os futuros hábitos das virgens; 7º) despem seus hábitos ordinários e vestem os outros; 8º) o bispo benze os véus301, em seguida os anéis, e depois as coroas; 9º) as virgens cantam: “Desprezei o reino do mundo e todo ornamento do século [...] meu coração já não se contém mais, é ao rei que sou devotada. Aquele que vi”; 10º) o pontífice reza e depois recita o vere dignum [...]; recoloca a mitra e diz: “vinde, alma querida, sereis meu trono, o rei procurou vossa união”; 11º) avançam duas a duas, ajoelham-se e “o pontífice coloca o véu na cabeça de cada uma, fazendo-o descer pelos ombros e no peito e o abaixa até os olhos, dizendo: recebei o véu sagrado como prova de que desprezastes o mundo e que [...] vos constituístes em esposa de Jesus Cristo”; 12º) já recobertas com o véu, chama-as: “vinde celebrar vossas núpcias, etc.”, e coloca o anel no dedo anular da mão direita delas, dizendo: “Eu vos uno, etc.”; 13º) a mesma cerimônia é feita com a coroa; 14º) cantos litúrgicos, orações, aleluia, comunhão, bênção, e, nos conventos cujas monjas têm o direito de começar as horas canônicas e de ler o ofício na igreja, entrega ritual do Breviário; 15º) finalmente, entrega das virgens consagradas à abadessa. As ideias postas em ação aqui são as seguintes: a separação com relação ao mundo profano, feita pela mudança de hábito e pelo uso do véu; a agregação ao mundo divino, por um casamento com Jesus Cristo, uma vez que o anel e a coroa são também objetos rituais do casamento secular. Convém notar que os ritos de separação põem um termo à margem (noviciado), marcada pela semirreclusão, havendo reclusão completa após a consagração, e o noviciado, como a consagração, assinalando também o ato de separar-se materialmente (convento, grade, etc.) do mundo profano. Não temos informação perfeita sobre o ritual da consagração das prostitutas sagradas da Antiguidade302. Por isso mencionarei alguns ritos indus. Na casta dos kaikôlans músicos, de Coinbatore, pelo menos uma moça de cada família deve dedicar-se ao serviço do templo como dançarina, executante de música e prostituta. A primeira série de cerimônias equivale ao noivado e a segunda série ao casamento: o tali (equivalente do nosso anel) é amarrado ao redor do pescoço da moça por um brâmane, como se faz no noivado e no casamento. O tio materno amarra-lhe uma faixa dourada em redor da testa e coloca-a sobre um tablado diante das pessoas. Por ocasião do primeiro coito coloca-se primeiramente um sabre durante alguns minutos entre as duas pessoas, rito nupcial muito difundido na Índia. Em suma, as cerimônias de consagração à divindade só diferem em pequenos detalhes das cerimônias nupciais ordinárias. O mesmo se faz entre os kaikôlans tecelãos303. Nas cerimônias de consagração das basavis (prostitutas sagradas) do distrito de Bellary, uma espada, representando o noivo ausente, é colocada ao lado da noviça sentada, e ela segura-a com a mão direita. Depois de vários ritos, levanta-se e vai depositar a espada no santuário do deus. Quando se trata de uma dançarina sagrada o noivo é substituído por um tambor, e ela se inclina diante dele. As basavis são ligadas pelo tali e tatuadas com o tchakra (disco furado no centro) e com uma concha304 (turbinella rapa). Classes, castas e profissões. Apesar de a condição de pertencer a esta ou àquela casta ou classe social ser hereditária, assim como também pertencer a tais ou quais grupos totêmicos, mágico-religiosos, etc., é raro que a criança seja consideradamembro propriamente dito, “completo”, desde o nascimento. Em idade que varia segundo as populações deve ser agregada, mediante cerimônias que se distinguem das que foram há pouco mencionadas pelo fato do elemento mágico-religioso ser nelas menor, sendo pelo contrário o elemento político-jurídico e social geral o mais importante. Entre os Lekugnen da Colúmbia Britânica305 há quatro classes: chefes (hereditária), nobres (hereditária), plebeus e escravos. Há endogamia de classe, protocolo rígido para a vida cotidiana (lugar na mesa, etc.). A condição de pertencer a tal ou qual classe é assinalada pelo nome, daí a cerimônia da denominação, sempre posterior às cerimônias da puberdade. O pai organiza um grande festim, e, estando reunidos todos os convidados, conduz o filho, acompanhado dos padrinhos, ao teto da casa (o interior é cavado no chão), depois canta e dança um dos cânticos e danças da família. Vem em seguida a distribuição de presentes em nome dos antepassados. O pai pede a cerca de quarenta nobres de posição elevada para servirem de testemunhas. Dois chefes idosos adiantam-se, tendo entre si o jovem, e o mais velho proclama em voz alta o nome e os títulos do antepassado que o pai deseja dar ao filho, sendo comumente os do avô. O consentimento dos assistentes exprime-se por palmas e gritos. Nova distribuição de presentes aos assistentes, e, se o pai é rico, aos plebeus que acorreram como curiosos. Depois vem a refeição em comum e o jovem não é mais conhecido senão pelo nome e pelo título assim adquiridos. Como se vê, há aí uma fórmula semicivilizada de cerimônias que foram minuciosamente elaboradas em outros lugares, como na Europa Medieval (cf. a semelhança com o velar das armas e o noviciado), no Japão, etc. As marcas exteriores são aqui as armas, a que correspondem para as classes totêmicas a representação do totem, para as classes de idade e sociedades secretas as escarificações, as tatuagens, etc. A imposição dos brasões, tal como a marca totêmica, etc., é claramente um rito de agregação, do mesmo modo que “a marcação” dos mistérios, só variando as formas segundo os povos e o gênero de agrupamento restrito306. A situação de pertencer a uma casta é por definição hereditária. Além disso, a casta é profissionalmente especializada e cada indivíduo tem um lugar determinado em uma hierarquia precisa307. Assim, a agregação à casta só se apresenta em condições definidas: 1º) agregação da criança; estas cerimônias incluem-se na categoria das cerimônias da infância estudadas no capítulo V. Não é preciso dizer que a utilização ritual dos instrumentos especiais da profissão tem neste caso um lugar importante. Não é mais, como acontece nas populações sem castas, um rito simpático, mas um verdadeiro rito de agregação do indivíduo a uma coletividade delimitada; 2º) não se pode passar de uma casta inferior a outra, superior, mas somente ir do alto para baixo. Segue-se que os ritos de agregação ou se simplificam ou mesmo giram, porque a honra é feita à casta inferior e não aos recém- chegados. Por outro lado, algumas castas em certas regiões da Índia são primariamente tribos. Neste caso os ritos de agregação parecem abstrair da avaliação feita com base na casta, para guardar apenas os caracteres das cerimônias realizadas em outros lugares diferentes da Índia para a agregação de um estrangeiro ao clã ou à tribo308; 3º) finalmente, os ritos de separação desempenham aqui um papel importante, embora o elemento consciente e voluntário possa estar ausente. Cada casta é separada das outras por tabus, e basta tocar um indivíduo de uma casta inferior, comer com ele, deitar-se em sua cama ou entrar em sua casa para ser automaticamente expulso da própria casta, sem com isso, aliás, tornar-se agregado à casta do indivíduo que se tocou. Acontece frequentemente neste caso, por exemplo em Bengala309, que o indivíduo expulso da casta se torne muçulmano porque o islã, pelo menos em teoria e em algumas regiões da Índia, não admite a hierarquia das castas. Da mesma maneira, indivíduos de todas as castas podem entrar nas confrarias religiosas budistas verdadeiras ou nas “seitas”, que são um meio- termo, e em diversos graus, entre o hinduísmo, o bramanismo, o budismo e o islã, como o aryasamadj, o sinârâyani, etc. Por fim, a entrada nas profissões supunha entre nós cerimônias especiais, que compreendiam alguns ritos pelo menos de natureza religiosa, sobretudo, quando as corporações coincidiam com confrarias religiosas de caráter especial. A aprendizagem outrora, quando não era uma separação do meio anterior, terminava por ritos de agregação (refeição em comum, etc.). Como se sabe, o recrutamento das corporações era estritamente regulamentado. Contudo, não se deveria crer que em nossos dias tenham desaparecido todas as barreiras no interior das mesmas profissões ou ofícios, ou entre os diversos ofícios e profissões. Os obstáculos opostos à passagem sem dúvida nada têm de ritual, mas convém entretanto dizer aqui algumas palavras a este respeito porque esta nova forma corresponde à tendência de que também os ritos de passagem são expressão, porém em outras bases. Assim, o ajudante (ajudante de ferreiro, ajudante de marceneiro, etc.) tende a permanecer ajudante toda a vida, sem poder passar, sejam quais forem suas aptidões pessoais, exceto em ocasiões excepcionais (pelo casamento algumas vezes), para a secção adjacente (ferreiro, marceneiro, etc.). A forma aguda desta tendência manifestou-se muitas vezes nos Estados Unidos, em forma por exemplo de luta entre os ajudantes de pedreiro e os pedreiros, quando estes últimos proibiam aos ajudantes servirem-se de seus instrumentos310 (colher de pedreiro, etc.). Conforme C. Cornelissen311, esta distinção não depende das aptidões pessoais (força, habilidade, etc.), mas de uma espécie de pressão tradicional que obriga o indivíduo a não progredir senão na estreita secção onde começou. O indivíduo é aprendiz de ajudante de pedreiro ou aprendiz de pedreiro, e toda a vida ulterior depende deste primeiro passo. Mas no interior dos ajudantes ou dos companheiros passa-se com muita facilidade de uma vasta categoria a outra: de ajudante de pedreiro a ajudante de talhador de pedras, de carpinteiro a marceneiro ou a ebanista. Por outro lado, se examinarmos todos os níveis do salário levando em conta todos estes fatores verifica-se que oscila entre dois extremos, mínimo e máximo, e que ainda aqui existe uma margem que o indivíduo tem de atravessar antes de chegar à plena satisfação de suas necessidades em um país, em uma época e em uma profissão determinada312. A classe dos brâmanes, dos “nascidos duas vezes”, marca a transição entre a casta e a profissão mágico-sacerdotal. O termo “nascido duas vezes” indica claramente o verdadeiro papel dos ritos de passagem, no sentido de que o brâmane que pertence à sua casta pelo nascimento e é agregado a ela por ritos da infância sofre em seguida cerimônias de iniciação, nas quais morre para o mundo anterior e renasce no mundo novo, e que lhe dá o poder de se entregar a atividades mágico-religiosas que deve ser sua especialidade profissional. Sendo um padre-nato, não se pode falar da ordenação, no sentido católico, do brâmane313. Mas, apesar do que pensa C. Bouglé314, o noviciado e a iniciação são necessários, sobretudo por causa da importância das fórmulas e da “maneira justa de pronunciá-las” no ritual bramânico. Nasce-se brâmane, mas é preciso aprender para agir como brâmane. Em outras palavras, no interior do mundo sagrado no qual o brâmane vive desde o nascimento há três compartimentos, um preliminar, até a upanayama (introdução junto ao preceptor), outro liminar (noviciado) e o último pós- liminar (sacerdócio). A sucessão desses períodos para o brâmane é idêntica à que tem lugar para um filho de rei semicivilizado, um e outro evoluindo sempre no interior do mundo sagrado, ao passo que um não brâmane ou um negro qualquer não evoluem, exceto durante períodos especiais (iniciação, sacrifício, etc.), senão no interior do mundo profano. As cerimôniascompreendem315 a tonsura, o banho, a mudança de roupas, a tomada de posse do coração, a mudança do nome, o aperto de mão. A criança está morta. O noviço (brahmacârin) está submetido a tabus de toda espécie. É instruído na literatura sagrada e aprende as fórmulas e os gestos. A união da criança e do preceptor identifica-se a um casamento. Em seguida o preceptor “concebe”, no momento em que coloca a mão sobre o ombro da criança. No terceiro dia, quando recita a savitri, a criança renasce. Segundo outros textos o nascimento do brâmane ocorre “no momento em que o sacrifício se inclina para ele”. Assim, ao contrário do que foi observado nas cerimônias de iniciação australianas, congolesas, etc., a morte do noviço não dura todo o tempo do noviciado. A do brâmane prolonga-se até um momento cuja época os textos não definem com precisão. Vem em seguida a cerimônia do “retorno” (samâvartana). O noviço despoja-se das insígnias do noviciado (cinto, bastão, pele de antílope), jogando-as na água. Banha-se e veste seus vestidos novos316. Ei-lo então novamente agregado à sociedade sagrada geral, por se ter separado da margem, que também é sagrada. Não insistirei sobre o noviciado e as cerimônias de ordenação dos padres católicos e ortodoxos. Nelas se reconhece a mesma sequência de ritos de separação, de margem e de agregação, mas sistematizada segundo diretrizes próprias317. A “tonsura”, que é ao mesmo tempo um rito de separação e de agregação, do mesmo modo que a tomada do véu, porque é um sinal permanente, constitui no caso o rito principal. Uma vez ordenado, o padre deve dizer sua primeira missa e este ato ritual em alguns casos assume também a forma de um casamento. Muitas vezes combina-se com ritos nupciais locais, como se dá em certas comunas do Tirol318. A Igreja neles é personificada por uma moça, irmã ou parenta próxima do padre, tendo de 8 a 12 anos. Como se fosse uma noiva comum, as pessoas tentam “roubá-la”, isto é, conduzi-la para uma hospedaria diferente daquela em que está preparado o banquete de núpcias consecutivo à primeira missa. Dão-se tiros de espingarda, estouram-se bombas, cantamse canções nupciais, mesmo eróticas, embora por ocasião da refeição a presença dos padres amigos do cura e de seus ajudantes ou padrinhos seja de natureza a acalmar o entusiasmo ritual. As autoridades eclesiásticas, por outro lado, conseguiram fazer desaparecer este costume em algumas dioceses, costumes que se mantêm entre outras na de Salzburgo. Creio que existem poucos grupos atuais a possuir um ritual tão exato do puro e do impuro quanto os Subba ou Sabeano dos arredores de Bagdá. Por ocasião da passagem de um dos graus eclesiásticos a outro, o batismo desempenha um papel importante, assim como em toda a vida dos noviços, diáconos, padres e bispos. O noviço deve ser filho legítimo de padre ou bispo, não possuir defeito corporal. Sendo julgado digno, depois de um exame, recebe um batismo especial, estuda dos 7 aos 19 anos e depois é ordenado diácono. Ao cabo de seis meses ou um ano, se o povo reunido quiser, é ordenado padre. Fecham-no em uma cabana feita de caniços. Não deve manchar-se nem dormir durante sete dias e sete noites. Troca cada dia de roupa e deve dar esmolas. “No oitavo dia efetuam-se seus funerais porque é considerado morto. Depois disso vai ao rio acompanhado de quatro padres que lhe ministram o batismo”. Durante os sessenta dias seguintes banha-se três vezes por dia. Se tiver uma polução noturna deve recomeçar o dia, e os dias em que a mãe ou a mulher têm sua menstruação não lhe são contados também, etc. Desta maneira, para alcançar os sessenta dias livres de toda mácula, é preciso às vezes quatro a cinco meses. Tabus alimentares; esmolas. O ato especial do padre consiste em ministrar o batismo. O do bispo consiste em ministrar o casamento. O bispo é eleito pelos padres; separação sexual durante dois meses; batismo, explicação em público dos livros sagrados; assistência (rito obrigatório) à morte de um “bom subba”, que se encarrega de uma mensagem para a divindade Avather; três dias depois, oração por este morto; bênção (rito obrigatório também) do casamento de um padre; o batismo de todos os padres é o rito final319. Com a iniciação do mago entramos em uma categoria de fatos de caráter híbrido. Com efeito, os magos, exceto no noroeste da América, se formam numa espécie de classe ou mesmo de casta, não são submetidos a ritos de união a determinado grupo humano. Mas têm de agregar-se ao mundo sagrado, o que só se pode fazer pondo em ação o esquema dos ritos de passagem. Quanto aos australianos, remeto o leitor às fontes citadas em uma monografia de Mauss320, onde se verá que o mago australiano muda de personalidade, às vezes a ponto de morrer para ressuscitar em seguida (extração de órgãos, viagem em sonho a um outro mundo, etc.). O xamã ural-altaico321: 1º) desde a idade jovem é nervoso e irritável; 2º) é “possuído” em diversas ocasiões por espíritos (alucinações, fobias, epilepsia, transes, catalepsia, etc.), de onde a ideia de mortes temporárias; 3º) retira-se para a floresta, a solidão, a tundra, etc., submete-se a diversas privações, a um treinamento psicológico e neuropático; 4º) aparecem-lhe cada vez com maior frequência espíritos, antropomórficos ou animais, inimigos ou protetores, isolados ou numerosos, que lhe ensinam as coisas do ofício, etc.; 5º) ou então o xamã morre e sua alma vai para o país dos espíritos, dos deuses, dos mortos para aprender a topografia desse país e assimilar os conhecimentos necessários a fim de domar os maus espíritos e transformar os bons em seus ajudantes; 6º) o xamã retorna à vida, renasce, depois entra em sua casa ou vai de aldeia em aldeia, etc. Finalmente, fato importante, mas não distintivo do xamanismo, a “xamanização” ou conjunto dos atos do xamã por ocasião de uma cerimônia compreende a mesma sequência: transes, morte, viagens da alma ou outro mundo, volta, aplicação ao caso especial (doença, etc.) dos conhecimentos adquiridos no mundo sagrado. É, portanto, um equivalente exato do sacrifício de tipo clássico. Eis agora a iniciação de um piaye Caraíba: 1º) vai viver com um “velho” às vezes durante dez anos, até os vinte e cinco ou trinta anos submete-se a provas, a um jejum prolongado, etc.; 2º) os antigos piayes reúnem-se, fecham-se em uma choupana, chicoteiam o noviço e obrigam-no a dançar até cair desfalecido; 3º) fazem-no “esvaziar o sangue” por formigas negras, obrigam-no a “ir acima e abaixo” forçando-o a beber suco de tabaco; 4º) é submetido a um jejum de três anos, progressivamente menos rigoroso, e absorve, de tempos em tempos, suco de tabaco322; o sentido interno desta sequência de rito depreende-se das descrições de Von den Steinen: 1º) extenua-se e hiperestesia-se o noviço; 2º) adormece e morre; 3º) sua alma sobe ao céu e depois desce; 4º) desperta e ressuscita piaye323. Entre os Warundi da África Oriental alemã324 o indivíduo torna-se kiranga (padre- mago-feiticeiro): 1º) por herança e ordenação; o pai ou a mãe, antes de morrer, entrega a lança sagrada ao filho ou à filha mais velha; 2º) por ter sido atingido pelo raio; 3º) por uma vocação súbita: durante uma das “cerimônias da lança” um rapaz ou uma moça levanta-se de repente, coloca-se diante do kiranga oficiante, ou melhor, diante da lança sagrada, curva-se na direção dele ou dela, contempla-o ou olha-a fixamente com toda a energia de seu ser até que ele (ou ela) comece a tremer e caia finalmente desfalecido, como morto [...] Deita-se a pessoa desfalecida em uma esteira, transporta-se a pessoa com precaução para sua casa, onde dorme três a quatro dias. Quando a pessoa voltou a si, daí em diante está consagrada como sacerdote ou sacerdotiza-esposa do deus. Chama-se os vizinhos e vizinhas, faz-se a “cerimônia da lança” e o novo kiranga preside e oficia pela primeira vez. Por conseguinte, hipnose, morte, margem e ressurreição. “Esta ideia da morte momentânea é um tema geral da iniciação mágica assim como da iniciação religiosa”, observam com razão Hubert e Mauss325 que citamfatos Esquimó, Chame, gregos, indonésios, melanésios e norte-ameríndios do mesmo gênero. A nós importa-nos verificar no detalhe destas cerimônias uma sequência idêntica às de muitas outras passagens de um estado para outro. Tudo quanto acaba de ser dito com relação aos sacerdotes e magos aplica- se igualmente ao chefe e ao rei, cujo caráter sagrado, e às vezes divino, foi bem-posto em evidência por J.G. Frazer326. Por isso, as cerimônias de entronização327 ou de convocação apresentam a maior semelhança nos detalhes essenciais e nas sequências com as cerimônias de ordenação. É possível considerar dois casos: ou o sucessor é entronizado enquanto o predecessor ainda está vivo ou só o é depois da morte deste último. Às vezes mesmo a sucessão só se abre por um rito especial em que o sucessor dá morte ao seu predecessor. Em ambos os casos, tal como na iniciação e na ordenação, há entrega e apropriação dos sacra, aqui chamados regalia: tambores, cetro, coroa, “relíquias dos antepassados”328, cadeira especial, que são ao mesmo tempo o sinal e o receptáculo da potência real-mágico- religiosa. O período de margem é também encontrado neste caso, em forma de preparação e de retiro, com tabus de todo gênero e instrução especial, às vezes desde a infância. É o equivalente do noviciado. Um outro período de margem é o que transcorre entre a morte do predecessor e a subida ao trono do sucessor. É marcado na vida geral pela suspensão da vida social, de mesma natureza que a dos noviços, a respeito da qual falaremos mais adiante. Recorrendo a descrições detalhadas veremos facilmente que também neste caso o esquema proposto é válido329, e não citarei senão dois casos, o da entronização do faraó no Egito Antigo e o do hogon dos Nabbé na bacia do Níger. Nesta mesma categoria incluem-se as cerimônias da investidura, da entrega temporária dos poderes, etc. Ainda aqui o mecanismo é condicionado pela separação com relação ao meio anterior e agregação progressiva ou imediata a um novo meio, na origem o meio sagrado. Eis a sequência dos ritos por ocasião da entronização do faraó, segundo a excelente monografia de A. Moret330. O futuro faraó nascia deus331. Contudo, entre seu nascimento e o momento da entronização devia ter perdido o caráter sagrado absoluto porque o primeiro rito o tornava “puro”, isto é, o reagregava ao mundo sagrado e o reidentificava com os deuses, entre outras coisas pela amamentação332 feita por uma deusa. Depois, o rei reinante apresentava-o ao povo, tomava-o nos braços e fazia os passes que dão o fluido da vida. O rito seguinte consistia em dar os nomes reais, sagrados e divinos, e a assistência proclamava os nomes e títulos do novo faraó, e depois dispensava-se com grandes gritos e saltos (rituais?) e era levantada a lista dos nomes e títulos a fim de que ninguém a ignorasse. Em seguida o rei proclamado “recebia as coroas dos chefes das casas divinas”, isto é, dos deuses, coroas mantidas por uma fita sagrada. Ao mesmo tempo eram-lhe entregues as outras regalia (gancho, chicote, cetro). Vinha em seguida a “reunião das duas regiões” (Egito do Sul e do Norte) por suas deusas que as transmitiam ao novo faraó, o qual tomava posse delas mediante uma circumambulação, o “rodeio do muro”, da mesma maneira o morto que se tornou deus “tomava posse” das moradias de Horus e de Sit. O rei ia em seguida em procissão ao santuário do deus e este último “beijava-o, dando- lhe o fluido da vida”, e, para conferir-lhe força, colocava-lhe o diadema na cabeça. É a consagração definitiva, equivalente da transcrição dos nomes e dos títulos. Estes ritos datam da mais alta Antiguidade e conservaram-se até a época dos Ptolomeus e parcialmente na Etiópia. Finalmente, vinham peregrinações a diversos santuários, festas públicas a expensas do rei, doações religiosas, reparações nos templos, etc. Vê-se, portanto, a cerimônia começar por um rito de separação do profano, continuar pelos ritos de agregação ao sagrado, ritos de tomada de posse do mundo divino e terrestre, sendo tudo isto feito por etapas. Faltam, por outro lado, informações sobre os períodos de margem. Os Habé do platô nigeriano são governados por hogons, de caráter ao mesmo tempo político, jurídico e religioso, sendo tanto sumo sacerdotes quanto rei eleitos. As regalia são simultaneamente os sacra do templo em que habitam e constam de colar com uma opala, bracelete de ferro na perna direita, anel de cobre na orelha direita e anel de prata no dedo médio da mão esquerda, marcas evidentes da agregação à divindade; depois, uma bengala especial, vestidos especiais, etc. Ninguém deve tocá-los, e seu nome anterior à entronização não deve ser mais pronunciado. Só lhes falam no velho dialeto Sarakolé, têm direito às primícias, são submetidos a um regime alimentar especial. Há um hogon para cada tribo ou clã e um Grande-Hogon. O primeiro é entronizado pela entrega das insígnias e condução ao templo que daí em diante lhe servirá de residência. Depois da morte de um Grande- Hogon há três anos de intervalo, sendo a morte escondida ao povo. Em seguida anuncia-se esta morte, pede-se a opinião da divindade, há grandes festas e danças públicas, o Conselho procede à eleição e entregam-se as insígnias ao novo hogon. “Acompanhado da multidão dos dignitários e dos jovens que dançam, o novo hogon vai então ao templo da divindade, choupana muito ornamentada que será daí em diante sua habitação sagrada. Este passeio é considerado como o cortejo funerário do hogon, porque desde a entrada na casa hogonal, depois de ter tomado posse dos “sinais da aliança”, o servidor sumo sacerdote da divindade é considerado morto para sua família”333. Correspondendo aos ritos de iniciação encontram-se os ritos de banimento, expulsão e excomunhão, que são por essência ritos de separação e de dessacralização. Os da Igreja Católica são bastante conhecidos. Convém observar, conforme bem percebeu Rob. Smith334, que o princípio da excomunhão e da consagração é o mesmo, a saber, pôr de lado um objeto ou um ser determinado. Daí a identidade de certo número de ritos de detalhe. A ordem na qual classifiquei as diversas sociedades especiais para examinar os ritos de admissão nelas vigentes não é baseada no acaso, mas na distinção dos elementos que as caracterizam. Isto significa dizer que não admito nem a classificação nem as teorias de Schurtz ou as de Webster. Este último autor sobretudo vê degenerescências nos casos em que vejo formas de início. Quanto a Schurt335z, ficou impressionado pela notável semelhança que apresentam entre si os ritos de iniciação nas sociedades totêmicas, nas fraternidades, nas sociedades secretas e classes de idade, tendo concluído dessa semelhança a identidade das instituições enumeradas. Seria possível ir longe nesse caminho. O presente volume tendo como objetivo mostrar que nesses casos, e em muitos outros, trata-se de uma categoria perfeitamente caracterizada de ritos, semelhantes porque possuem a mesma finalidade, concebe-se que a teoria de Schurtz me pareça inadmissíve336l. Durante todo o noviciado, os vínculos ordinários, econômicos ou jurídicos, são modificados, e às vezes mesmo claramente rompidos. Os noviços ficam fora da sociedade, que deixa de ter poder sobre eles, tanto mais quanto são propriamente sagrados e santos, por conseguinte intangíveis, perigosos, como se fossem deuses. Deste modo, por um lado, os tabus, enquanto ritos negativos, levantam uma barreira entre os noviços e a sociedade geral, e, de outro lado, esta última não tem defesa contra os empreendimentos dos noviços. Explica-se, assim, do modo mais simples do mundo, um fato observado em numerosas populações e que permaneceu incompreensível para os pesquisadores. É que durante o noviciado os jovens podem roubar e pilhar tudo a seu gosto, ou alimentar-se e adornar-se a expensas da comunidade. Bastarão por ora dois exemplos. Na Libéria enquanto por um lado os jovens Vai são instruídos nos costumes jurídicos e políticos de seu povo, por outro, o “roubo não parece ser considerado para os noviços enquantotais como um delito, porque, sob a direção de seus professores, entregam-se a ataques noturnos contra as aldeias da vizinhança e, pela astúcia ou pela força, roubam tudo o que pode servir para alguma coisa (arroz, bananas, galinhas e outros meios de subsistência) e carregam os produtos do roubo para a floresta sagrada”, embora tenham, ademais, plantações especiais que lhes fornecem os alimentos necessários337. Igualmente, no Arquipélago Bismarck, os membros do Duk-duk e do Ingiet, durante as cerimônias de iniciação, podem roubar e pilhar as casas e plantações à vontade, mas tendo o cuidado de deixar intactos os bens dos outros membros da sociedade secreta338. Estas exações aliás tomaram aí, bem como em toda a Melanésia, a forma de pagamento forçado em moeda local. A quase generalidade do fato de que se trata é aliás bem conhecida339, mas para compreender o mecanismo dele no caso que indico convém lembrar que uma permissão geral, a suspensão da vida social marcam igualmente os interregnos no período de margem entre os funerais provisórios e os definitivos. É assim talvez que se explica também, pelo menos em parte, a liberdade sexual que ocorre, em um certo número de povos, entre o começo do noivado e a terminação do casamento por apropriação da mulher a determinado homem (Austrália, etc.). Se a suspensão das regras comuns de vida nem sempre conduz a tais excessos, nem por isso deixa de constituir um elemento essencial dos períodos de margem. 187. SCHURTZ, H. Altersklassen und Männerbünde. Leipzig, 1902. 188. WEBSTER, H. Primitive secret societies. Nova York, 1908. 189. PLOSS-BARTELS. Das Weib. 8. ed. Leipzig, 1905, t. I, p. 394-420, reuniu consideráveis quantidades de documentos sobre o primeiro aparecimento, normal ou anormal (a partir de 2 meses, etc.) das regras em diversas populações. A data das primeiras regras depende ao mesmo tempo do clima, do alimento, da profissão e da hereditariedade. Os observadores, na maioria médicos, têm tanta dificuldade em chegar a um acordo sobre a idade média das primeiras regras em uma população um pouco vultosa tomada em conjunto (França, Rússia, etc.) ou mesmo em uma região limitada (grande cidade, por exemplo), que seria fazer dos negros, dos habitantes da Oceania, etc., excelentes estatísticos supô-los capazes de ter podido descobrir a média relativa às suas próprias tribos, antes de toda pesquisa metódica sobre a influência do clima e do alimento. Eis o quadro para 584 mulheres de Tóquio: Aos 11 anos, 2; aos 12 anos, 2; aos 13 anos, 26; aos 14 anos, 78; aos 15 anos, 224; aos 16 anos, 228; aos 17 anos, 68; aos 18 anos, 44; aos 19 anos, 10; aos 20 anos, 2. Damos a seguir as médias para a África: Uolofe, 11 a 12 anos; Egito, 10 a 13 anos (Pruner-Bei) ou 9 a 10 anos (Rigler); Bogo, 16 anos; Suaeli, 12 a 13 anos; Wanjanwesi, 12 a 13 anos; Berbere do Egito, 15 a 16; Somali, 16 anos; Loango, 14 a 15, raramente 12; árabes de Argel, 9 a 10; Fezan, 10 a 15 anos. 190. Fatos dessa espécie foram reunidos por FRAZER, J.G. Golden Bough, t. III, p. 204-233; cf. ainda HUTTER. Nord-Hinterland von Kamerun. Brunswich, 1902, p. 427; STEVENSON. The Zuni. XXIII Ann. Rep. Bur. Ethnol., p. 303-304, etc.; DU BOIS, G.G. The religion of the Luisenio Indians of Southern California. Univ. Cal. Publ., t. VIII, n. 3, 1908, p. 93-96. 191. JENKS. The Bontoc Igorrot. Philippines, Dep. Int., Ethnol. Survey Publ., t. I, 1904, p. 66ss. 192. Chegaríamos a resultados idênticos comparando a idade em que é executada a defloração artificial (perfuração do hímen) e a da puberdade. As duas não estão em relação, exceto raras exceções, em um mesmo povo. Além disso, a perfuração do hímen não é unicamente uma preparação para o coito, nupcial ou anterior ao casamento, ou ao noivado. Sobre este rito, cf. entre outros SIDNEY HARTLAND, H. At the temple of Mylitta, em Anthrop. Essays presented to E.B. Tylor, Oxford, 1907, p. 195-198. 193. TEIT, J. The Thomson Indians of British Columbia. Jes. N. Pacif. Exped., t. I. Nova York, 1898- 1900, p. 311-321. 194. Ibid., p. 321. 195. Ibid., p. 317-318. 196. TEIT, J. The Lillooet Indians. Jesup. N. Pac. Exp. t. II. Leide/Nova York, 1906, p. 263-267. 197. Cf. acima, p. 63, 66. 198. KOLBEN, P. The present state of the Cape of Good Hope, t. I, p. 121, apud WEBSTER. Op. cit., p. 23. 199. HOLMES, J. “Initiation ceremonies of the natives of the Papuan Gulf ”. Journ. Anthr. Inst., t. XXXII (1902), p. 418-425. 200. FROBENIUS, L. Die Masken und Geheimbünde Afrikas. Nova Acta Leopoldina, etc. Halle, 1898, p. 217. 201. Cf. entre outros FRAZER, J.C. Golden Bough. 2. ed., t. I, p. 326. 202. Cf. mais adiante, no capítulo IX. 203. RIVERS, H. The Toda. Londres, 1905, p. 502-503. 204. Cf. a que resultados estranhos foi conduzido WEBSTER. Op. cit., cap. II e III, e p. 36, 200-201, 205-206. 205. DOUTTÉ. Merrâkech. Paris, 1904, p. 262-263, 351-352, etc. 206. Depreende-se do quadro seguinte, que levantei de acordo com PLOSS & BARTELS. Das Weib, 8. ed., 1905, t. I, p. 248-249, que a excisão do clitóris é também independente da puberdade fisiológica, mas determina a puberdade social (no caso, o direito de casar-se): Arábia, algumas semanas depois do nascimento; Somali, três a quatro anos; Egito Meridional, 9 a 10 anos; Núbia, primeira infância; Abissínia, cerca de 8 anos ou no octogésimo dia depois do nascimento; Delta ou Niger, durante a infância, sem idade fixa; Malinke, Bambara, 12 a 15 anos; Malaio, etc., no início da segunda dentição; javaneses, 6 a 7 anos; makassares, 3 a 7 anos; gorontalos, 9, 12 ou 15 anos, etc. 207. ANDREE, R. “Beschneidung”. Ethnographische Parallelen, 2ª série. Leipzig, 1889, p. 166-212. 208. In: Une Mission au Senegal. Paris, 1900, p. 14 (mouros, 7 anos), 108 (Khassonkés, desde a infância até os 15 anos, e tanto mais tarde quanto mais rica é a família); a idade comum (Peules, p. 64; malinkes, p. 88; sereres, p. 145, etc.) é de 10 a 15 anos, mas as circuncisões são feitas em intervalos mais ou menos afastados conforme o número de crianças. 209. DOUTTÉ. Merrâkech, t. I, p. 353. 210. LASCH, R. Mitteilungen da Soc. Anth. de Vienne, 1901, p. 21ss. 211. WESTERMARCK. Moral ideas, t. I, p. 205. 212. A teoria de FRAZER, J.G. (The Independant Review, 1904, p. 204ss.), segundo a qual se sacrifica uma parte do indivíduo para salvar o resto explica apenas alguns fatos. A teoria de CRAWLEY (The Mystic Rose, p. 396, 397), de acordo com a qual a circuncisão e a perfuração do hímen tem como finalidade “remediar o perigo hiloidealístico resultante de uma aparente vedação” pertence quase à fantasia. A teoria de Ad. J. Reinach (“La lutte de Jacob et de Moïse avec Jahvé et l’origine de la circoncision”. Rev. des Et. Ethnogr. et Sociol., 1908, p. 360, 362), pela qual a cincuncisão seria uma espécie de blood-covenant, introduz um elemento inútil, o do sangue (porque seria preciso demonstrar que o sangue da ferida, e há pouco, seria recolhido, tornando-se objeto de ritos ulteriores). Se vale para os judeus, não explica nem a circuncisão nem a excisão entre os semicivilizados. Em último lugar ANDREE, R. Op. cit., p. 206-207, adere também à explicação pela santidade do sangue derramado. 213. O comprimento do clitóris varia com os indivíduos e as raças. Poderia acontecer que em alguns casos a excisão tenha por objetivo suprimir o apêndice pelo qual a mulher se aproxima do homem (o que é exato do ponto de vista anatômico) e que não seja outra coisa senão um rito de diferenciação sexual da mesma ordem que a primeira imposição (ritual) do vestuário, dos instrumentos e utensílios, etc., especiais de cada sexo. 214. Cf. meus Mythes et Legendes d’Australie, cap. V, e Man, 1907 e 1908. 215. O prepúcio cortado é jogado fora ou guardado, etc. Os modos de agir variam nesse caso ao infinito, como foi dito a propósito do cordão umbilical, dos cabelos, etc., cf. acima, p. 60. Lembro que o comprimento do prepúcio varia conforme as raças e que, sendo relativamente curto nas populações louras da Europa, atinge nos negros e nos árabes comprimentos desproporcionais. Sobre este ponto, ainda, seriammuito úteis pesquisas um tanto extensas. A velha teoria da significação sexual é ainda sustentada por P. Lagrange (Études sur les religions sémitiques, p. 242ss.): “É como uma consagração, por um sacrifício sangrento, da vida sexual à qual o jovem é daí em diante admitido”, e pelo P. Schmidt (Anthropos, 1908, p. 602-603, nota): “Parece cada vez mais evidente que entre os povos semicivilizados a circuncisão, de acordo com suas suposições ingênuas e errôneas, devia facilitar o ato da geração e pratica-se na maioria dos casos nessas misteriosas festas da puberdade, quando é atingida a idade viril”. Seria impossível em tão poucas palavras acumular tantos erros teóricos quantos os cometidos por estes dois eruditos. Quanto a Preuss, em Globus, t. LXXXVI, p. 362, pensa que a circuncisão facilita o “sopro gerador” pelo qual o pai transmite sua alma ao filho. Do mesmo modo, Schurtz acredita que a circuncisão tem por finalidade facilitar a geração (op. cit., p. 96-97). Tudo isto estaria muito bem se os semicivilizados soubessem, tanto quanto nossos médicos e melhor que nossos camponeses, o que se deve compreender sobre o mecanismo da concepção. Aconselho vivamente as pessoas que se interessam por estas questões a ler os Études de Psychologie sexuelle de Havelock Ellis, Das Weib de Ploss e Bartels, e em geral os tratados detalhados de fisiologia e de psicologia sexuais. 216. SPENCER & GILLEN. The Native tribes of Central Australia. Londres, 1899, p. 212-386; The Northern tribes of Central Australia. Londres, 1904, p. 328-379. 217. ROTH, W.E. Ethnological Studies among the North-West-Central Queensland Aborigines. Brisbane, 1897 e North Queensland Ethnography Bulletins, anos 1901ss. 218. HOWITT, A.W. The Native tribes of South and South-East Australia. Londres, 1904, p. 509-677. 219. MATHEWS, R.H. Numerosos artigos nas Revues des Sociétés d’Anthropologie de Paris, Viena, Londres, Washington e nas sociedades científicas da Austrália. 220. HOWITT. S.-E. Th., p. 532. 221. Atribui-se habitualmente exagerada importância ao destino dado ao pedaço do prepúcio cortado. Conforme disse, este pedaço do indivíduo participa sem dúvida de seu antigo possuidor, mas não mais que os cabelos cortados, as aparas das unhas, a saliva, a urina, etc., ou que os dentes arrancados, também como rito de iniciação. Nas tribos australianas que executam este rito o dente é recolhido e conservado com cuidado (HOWITT. S.-E. Tr., p. 542, 562, 565, 569, etc.; SPENCER & GILLEN. North. Tr., p. 594) ou pulverizado, misturado com carne e engolido pela mãe da filha que vai ser iniciada ou pela sogra do rapaz, ou ainda jogado em um pequeno charco a fim de espantar a chuva, ou finalmente enterrado (North. Tr., p. 593, 594). Este dente é sempre um objeto sagrado em algum grau (ibid., p. 594, 595). Entretanto, entre os Kaitiche deixa-se o dente no chão no lugar em que caiu, não se acreditando que possa ser utilizado para operações de magia (ibid., p. 589). Se, portanto, só nos basearmos nos ritos, não vejo por que o prepúcio seria mais que os cabelos, dentes, unhas, urina, sangue, fezes a sede da força vital. Certamente não é a sede da força de reprodução, nem uma espécie de embrião animado e independente. 222. Boas, em Report Un. St. Nat. Mus. for 1895, Washington, 1897, memória analisada em detalhe por Schurtz (salvo para os ritos) e por Webster. Cf. ainda Handbook of the American Indians, t. I. Washington, 1907, s.v. Kwakiutl. 223. KOHL, J.A. Kitschi-Gami. Brême, 1859, t. I, p. 59-76. 224. Ibid., t. II, p. 71. 225. STEVENSON, Mme. M.C. The Zuni Indians, their mythology, esoteric fraternities and ceremonies. XXIII Ann. Rep. Bur. Am. Ethnol., Washington, 1904, p. 65. 226. Cf. Ibid., sobretudo p. 490-511; 522-527; 532-549; 550-564; 570-572; 578ss., depois 413, 415, 421, 426, etc. 227. Ibid., p. 103-104; para a iniciação das crianças em tenra idade, cf. ibid., p. 94-101. 228. Sobre a flagelação como rito de iniciação, cf. fatos interessantes em LAFITAU. Moeurs des Sauvages Amériquains, Paris, 1724, t. I, p. 273. 229. MATTHEWS, W. The Night Chant, a Navaho ceremony. Mem. Am. Mus. Nat. Hist. Nova York, t. VI (1902), p. 116-120. 230. Cf., sobre estes bichos-papões divinos, meus Mythes et Légendes d’Australie, capítulo VII, Les deux doctrines religieuses et le rhombe sacré. 231. Cf. para detalhes SIOUFFI, M. Études sur la religion des Soubbas ou Sabèens, leurs dogmes, leurs moeurs. Paris, 1880, p. 76-82. 232. Org. de Jonghe, Les sociétés secrètes au Bas-Congo. Bruxelas, 1907; só se deve consultar com a maior prudência Leo Frobenius, Die Masken und Geheimbünde Afrikas. Halle, 1898; completar de Jonghe por H. Nassau, Fetishism in West Africa. Londres, 1904, p. 250ss., 263, e por Pechuel- Loesche, Volkskunde von Loango. Stuttgart, 1907, p. 452. 233. Cf. sua discussão, op. cit., p. 21-23. 234. Este termo é inexato porque todos os membros comuns da tribo sabem muito bem quem faz parte da sociedade e quem não faz, ao passo que entre nós, por exemplo, ignora-se quem é ou não é maçom, ao menos em teoria. 235. Considerando-se que o primeiro ato da maioria das cerimônias examinadas nesse livro é uma reclusão mais ou menos rigorosa e longa, é inútil discutir as estranhas interpretações de M. de Jonghe, op. cit., p. 30, e de Leo Frobenius, op. cit., passim. 236. A anestesia do noviço é um elemento importante dos ritos de iniciação. Na América é obtida pela ingestão de tabaco, toloache, peiotl, e em outros lugares mediante fumigações, flagelações, maus tratamentos, suplícios, etc. A finalidade consiste em “fazer morrer” o noviço, fazê-lo perder a lembrança de sua primeira personalidade e do mundo anterior. 237. Cf. a este respeito FRAZER, J.G. Golden Bough, t. III, p. 430, nota e uma nota de Webster, Secret societies, p. 44, que mostra que frequentemente o branco é considerado a cor tomada pelos mortos. A prática indicaria, portanto, também que o noviço está “morto”. 238. Cf. quanto aos detalhes FROBENIUS. Op. cit., p. 67-74, segundo ZENKER. Mitteit. aus den Deutsch. Schutzgeb. t. VIII (1895). 239. CODRINGTON, Rev. H. The Melanesians. Oxford, 1891, p. 69-100. 240. Sobre o totemismo melanésio, cf. a discussão de LANG, A. Social Origins. Londres, 1903, p. 176-207. 241. PARKINSON, R. Dreissig Jahre in der Südsee. Stuttgart, 1907, p. 567-612. 242. Ibid., p. 582-586. 243. Os rapazes da Península da Gazela filiam-se à sociedade chamada Maraxvot ou Ingiet desde a infância, o que é feito por um donativo em moeda local realizado pelo pai ou o tio à sociedade secreta. Mas seu noviciado, que consiste em fazê-los aprender danças especiais muito complicadas, dura muito tempo. Esta sociedade, segundo o que diz Parkinson, p. 598ss., a respeito dela, parece-me incluir-se de preferência na mesma categoria que certas fraternidades mágico-médicas dos Zuni. 244. Cf. uma descrição detalhada, que completa as de Fison e de Joske, em THOMSON, B. The Fijians. Londres, 1908, p. 148-157. 245. ELLIS, W. Polynesian Researches. Londres, 1829, in-8ª, t. I, p. 319-324. 246. Cf. ELLIS. Ibid., p. 325. 247. CODRINGTON. The Melanesians, p. 101-115. 248. Cf. ibid., p. 110-112, uma passagem muito interessante sobre o valor mágico-religioso das refeições cerimoniais em comum. 249. Ibid., p. 103. 250. SCHURTZ, H. Op. cit., p. 141-151, introduziu ademais em sua discussão uma outra categoria, a dos grupos matrimoniais ou fratrias. 251. WEBSTER. Op. cit., p. 84-85. 252. MERKER, M. Die Masai. Berlim, 1904, p. 55. Trata-se, sem dúvida, da puberdade fisiológica, mas não é declarado se a referência é à dos rapazes ou à das moças. 253. MERKER. Ibid., p. 60-61. 254. HOLLIS, A. The Masai. Oxford, 1905, p. 294-295. 255. Ibid., p. 296-299. 256. MERKER. Op. cit., p. 60-66. 257. Ibid., p. 83. 258. Ibid., p. 66-67; para os detalhes remeto ao livro de Merker. Entre os Masai casar-se é mudar de modo de vida completamente, muito diferentemente do que acontece entre nós. 259. WEULE, K. Wissenschaftliche Ergebnisse meiner ethnographischen Forschungsreise in den Südosten Ostafrikas. Berlim, 1908, Mitteil. Deutsch. Schutzgeb.Ergänz. – Heft n. 1, 4º, p. 31-34. 260. Cf. KROEBER, A.L. The Arapaho. Bull. Am. Mus. Nat. Hist. Nova York, t. XVIII (1904), p. 156-158. 261. MANNHARDT, W. Wald-und Feidkulte. 2. Ed. Berlim, 1904. 262. FRAZER, J.G. The Golden Bough e Adonis, Attis, Osiris. 2. ed. Londres, 1907. 263. REINACH, S. Cultes, mythes et religions. 3 vols., 1906-1908; cf. sobretudo t. I, p. 85-122. 264. MISS HARRISON. Prolegomena to the study of greek Religion. Cambridge, 1903. 265. D’ALVIELLA, G. Revue de l’hist. des religions, 1902 e 1903. 266. CUMONT, Fr. Les religions orientales dans le paganisme romain. Paris, 1907. 267. HARRISON, Miss. Op. cit., p. 155, escreve mesmo: “A ordem exata dos diversos ritos de iniciação certamente tem pouca importância!” 268. Op. cit., p. 151. 269. Para os mistérios de Eleusis utilizei o livro citado de Miss Harrison, e depois: FOUCART, P. Recherches sur 1’origine et la nature des mystères d’Eleusis: I, Le culte de Dionysos en Attique. Paris, 1895, e II, Les grands mystères d’Eleusis. Paris, 1900; D’ALVIELLA, G. “De quelques problèmes relatifs aux mystères d’Eleusis”. Rev. de L’ist. des Rel., 1902, t. XLV1, p. 173-203 e 339-362; 1903, t. XLVII, p. 1-33 e 141-173; deixo de lado, por nada terem a ver com a iniciação propriamente dita, as cerimônias dos dias 13 (partida dos efebos para Eleusis) e 14 (transporte dos sacra hiera para Atenas) de Boedromion. Sabe-se que o conhecimento dos ritos, a direção das cerimônias, a proteção dos sacra, etc., eram reservadas a certas famílias (Eumólpidas, etc.). Do mesmo modo, na Austrália, entre os Pueblo, etc., são determinados clãs (totêmicos ou não) que “possuem os mistérios”. Sobre os instrutores (mistagogos) cf. FOUCART. Op. cit., II, p. 93-95. 270. Cf. FOUCART. Op. cit., I, p. 31-33 e II, p. 110-111; D’ALVIELLA, G. Op. cit., p. 354-355. 271. HARRISON. Op. cit., p. 152 e REINACH, S. Op. cit., t. II, p. 347-362. 272. Cf. os trabalhos citados de W. Ellis, Codrington, etc., e por Demeter-Porca, Goblet d’Alviella. Op. cit., p. 189-190. 273. Cf., sobre estas duas primeiras paradas, REINACH, S. Op. cit., t. III, p. 102-164. 274. Cf. FOUCART. Op. cit., I, p. 43-74 e II, p. 137-139. 275. Cf. sobre estes sacra e seu caráter, HARRISON. Op. cit., p. 158-161. 276. Por isso, dizia Plutarco: “iniciar-se é morrer”. Em compensação a iniciação nos mistérios órficos era “um casamento sagrado” ou um “nascimento sagrado”. 277. Não preciso dizer que nem no conjunto nem nos detalhes a teoria de Foucart sobre a origem egípcia dos mistérios de Eleusis me parece admissível. É a necessidade de exprimir por atos as ideias de passagem de um estado a outro que condiciona as semelhanças nas quais Foucart vê empréstimos. Como explicar a exata semelhança dos ritos gregos, egípcios ou asiáticos com os dos australianos, dos negros bantos ou da Guiné e dos índios da América do Norte? 278. Cf. sobre a iniciação aos sete graus e a passagem da alma do neófito sucessivamente através das sete esferas planetárias, as referências e a discussão de CUMONT. Op. cit., p. 299-300 e 310. 279. Sobre estas viagens ao país dos mortos, cf. FÉLICE, L. de. L’Autre monde, mythes et légendes, le purgatoire de saint Patrice. Paris, 1906, que entretanto não viu que estes mitos e lendas podem, em certos casos, ser apenas resíduos orais de ritos de iniciação, porque não se deve esquecer que, sobretudo nas cerimônias de iniciação, os velhos, instrutores, chefes de cerimônias, etc., relatam o que outros membros da “sociedade” executam. Cf. entre outros meus Mythes et Légendes d’Australie, cap. IX, Mythe et Rite. Para a teoria geral, cf. o capítulo VIII do presente volume. 280. FRAZER, J.G. Adonis, Attis, Osiris. 2. ed., p. 229-230. 281. Cf. mais adiante capítulo IX. 282. Não disponho de espaço para discutir o taurobóleo e o criobóleo, mas parece-me que nenhuma das interpretações até aqui propostas poderia ser admitida, dados certos paralelos semicivilizados e o que dizemos aqui sobre os ritos de passagem. 283. Cf. os trabalhos citados de Goblet d’Alviella, S. Reinach e Cumont, depois HATCH, E. The influence of greek ideas and usages upon the Christian Church (Hibbert Lectures, 1888), Londres, 1904 e DUCHÊNE. Les origines du culte chrétien. 3. ed., 1902. 284. Cf., sobre as origens destes ritos animistas, HATCH. Op. cit., p. 20, nota 1 e REINACH, S. Op. cit., t. II, p. 359-361 (l’abrenuntiatio). 285. Cf. HATCH. Op. cit., p. 295 e nota. 286. DUCHÊNE. Op. cit., p. 296-297. 287. Cf. o rito Pueblo acima citado, p. 81, e a sequência na extrema-unção, que é um rito de passagem do mundo dos vivos cristãos ao dos mortos cristãos. 288. Cf. DUCHÊNE. Op. cit., p. 311, 321, e DIETERICH. Mutter Erde, p. 114-115, cuja interpretação sexual direta deve ser completada pelo fato dos catecúmenos, assim como a criança brâmane, estarem mortos e deverem ser novamente concebidos. – Observe-se que nas mais antigas igrejas cristãs o batistério encontrava-se fora da igreja, de tal sorte que até a Idade Média os catecúmenos, penitentes, recém-nascidos e os recentemente batizados deviam permanecer em uma região liminar. Aliás, os templos de todos os povos possuem assim um pátio, um vestíbulo, um paramento que impede a passagem brusca do profano ao sagrado. 289. O verbo regenerare deve ser tomado em sentido literal. 290. Nas perguntas feitas ao padrinho e à madrinha, e em suas respostas, é que melhor se caracteriza a destinação primordial de todo este ritual. É conveniente comparar, deste ponto de vista, o ritual ortodoxo com as práticas dos eslavos modernos. Não disponho de espaço para um estudo do parentesco especial criado pelo apadrinhamento nos ritos de iniciação semicivilizados ou cristãos. 291. Cf., sobre a passagem da condição humana à condição divina, FARNELL. Evolution of Religion. Londres, 1905, p. 49; REINACH, S. Op. cit., t. I, p. 127. 292. Cf. entre outros D’ALVIELLA, G. Op. cit., p. 145-146. 293. Sobre o ritual da abjuração do Islã, cf. MONTET. Rev. de l’Hist. des Rel., 1906, t. LIII, p. 145- 163 e EBERSOLD. Ibid., t. LIV, p. 230-231. 294. DUCHESNE. Les origines du culte chrétien. 3. ed., p. 434-445. 295. Cf. entre outros OLDENBERG. Le Bouddah, sa vie, sa doctrine, sa com munautè. 2. ed. Paris, 1902; sobre os ritos de iniciação na seita budista chinesa chamada Lung-hwa, cf. DE GROOT. Sectarianism and religious persecution in China, t. I. Amsterdam, 1903, p. 204-220. 296. OMAN, J.C. Cults, customs, superstitions of India. Londres, 1908, p. 95. 297. Census of India 1901. Ethnographical appendices, Calcutá, 1903, p. 173-174. Um guru é uma espécie de padre, de diretor de consciência e de moral, de confessor; lembro que na Índia não há clero organizado e hierarquizado. 298. Cf. MONTET. “Les confréries religieuses de l’Islam marocain”. Rev. de l’Hist. dos Rel., 1902, t. XLV, p. 11; cf. ainda DOUTTÉ. Merrâkech, p. 103, nota 3. Sobre a saliva como rito de agregação, HARTLAND, S. Legend of Perseus, t. II, p. 258-276: mas cuspir em alguém é às vezes um rito de separação. NASSAU. Fetishism in West Africa. Londres, 1904, p. 213 e de expulsão da comunidade. TSIGANES. Journ. Gypsy-lore Soc., N. Ser., t. II (1908), p. 185. 299. LANE, E.W. Manners and customs of the modem Egyptians, ed. de 1895, 8º, p. 252-253 e 174- 175. 300. MIGNE. Encyclopédie théologique, t. XVII. BOISSONNET, Dictionnaire des cérémonies et des rites sacrés (t. III), col. 539-563. 301. Não existe descrição antiga destes ritos; em todo caso este velamento não tem nada com o véu, substituto da pele do carneiro romana que se estendia por cima dos esposos na ocasião do casamento cristão primitivo. 302. Não me ocupo aqui da prostituição sagrada temporária (Mylitta, Heliópolis, Anaïtis); cf. HARTLAND, H.S. At the temple of Mylitta. Anthropological Essays, presented to E.B. Tylor. Oxford, 1907, p. 189-202. 303. THURSTON, E. Ethnographic notes in Southern India. Madras, 1906, p. 29-30. 304. Ibid., p. 40; cf. ainda p. 41. 305. HILL-TOUT, C. “Report on the Ethnology of the South-Eastern Tribes of Vancouver-Island, British Columbia”. Journ. Anthrop. Inst., t. XXXVII (1907), p.308-310. 306. Desenvolverei isto em meu trabalho “Débuts du Blason”. Cf. por enquanto meu Héraldisation de la marque de propriété. Paris: Revue Héraldique, 1906. 307. Consulte-se, sobre a teoria das castas, BOUGLÉ, C. Essais sur le regime des castes. Paris, 1908. 308. Para casos deste gênero (refeição em comum, rito de agregação alimentar especial), cf. RISLEY. The tribes and castes of Bengal. Calcutá, 1896, t. II, p. 41, 49, etc. – Lembro que a agregação à casta pode fazer-se ainda pelo casamento. Nas tribos das Nilghiri Hills, a moça muda de casta com o casamento, de onde a cerimônia chamada “o fosso tribal”. As mulheres da tribo preparam uma refeição para a qual convidam a noiva, e deste modo separam-na de sua casta primitiva, admitindo-a na nova casta. 309. Cf. GENNEP, A. van. “Pourquoi on se fait musulman au Bengale”. Revue des Idées de 15 de dezembro de 1908, p. 549ss. 310. Bull. Bur. of Labor, nov. 1906. Wash., p. 746-747. 311. CORNÉLISSEN, C. Théorie du salaire et du travail salarié. Paris, 1908, p. 173-201. 312. Ibid., p. 658. 313. Cf. BURNOUF. Essai sur le Veda, p. 283-285 e BOUGLÉ. Regime des castes, p. 73-76. 314. Ibid., p. 77. Minha interpretação concilia os pontos de vista de Burnouf e de Oldenberg. 315. Cf. OLDENBERG. La religion du Véda. Paris, 1903, p. 399-402. 316. Cf. OLDENBERG. Op. cit., p. 350. Para outros detalhes, cf. HENRY, V. La magie dans l’Inde antique. Paris, 1904, p. 84-85, etc. 317. Cf., entre outros, BOISSONNET. Op. cit., col. 985-1.032 e col. 1.032-1.043, as “ordenações gerais” que correspondem às circuncisões, casamentos, etc., múltiplas sincrônicas. Para os graus e o ritual antigos (romano, galicano e oriental), cf. DUCHÊNE. Op. cit., p. 344-378. 318. KOHL, Fr. Die Tiroler Bauernhochzeit. Viena, 1908, p. 275-281. 319. SIOUFFI, N. Études sur la religion des Soubbas, p. 66-72. 320. MAUSS, M. L’Origine des pouvoirs magiques dans les sociétés australiennes. Paris, 1904. 321. Este esquema é a substância de vários capítulos de um livro há muito tempo em preparação sobre Le Shamanisme chez les populations de l’Europe et de l’Asie septentrionales, sobretudo de acordo com os documentos russos, finlandeses e húngaros. Não é preciso dizer que as variações de detalhes entre os diversos povos são consideráveis. 322. LAFITAU. Moeurs des Sauvages Amériquains. Paris, 1724, t. I, p. 330-334; cf. nas páginas seguintes outras descrições (Moxes, etc.). 323. STEINEN, K. von den. Unter den Naturvölkern Zentral Brasiliens. 2. ed. Berlim, 1897, p. 297- 298, 300-301 (Bakaïri, Auetö, etc.). 324. VAN DER BURGT, R.P.J.M.M. L’Urundi et les Warundi (Extrait du Dictionnaire Kirundi). Bois- le Duc, 1904, p. 107. 325. HUBERT, H. & MAUSS, M. “Esquisse d’une théorie générale de la magie”. Année sociologique, t. VII (1904), p. 37-39 326. FRAZER, J.G. The Golden Bough e Lectures on the early history of the kingship. Londres, 1905. 327. Prefiro este termo ao de coroamento, uma vez que um assento especial é muito mais frequentemente a insígnia da realeza que uma faixa ou uma coroa. 328. Cf. meu Tabou, Tot. Madag., p. 115-117, e, sobre as regalia em geral como receptáculo do poderio real, FRAZER. Kingship, p. 120-124. 329. Cf. para uma boa descrição de sequências, PATTAS. Le sacre et couronnement de Louis XVI, précédé de recherches sur le sacre des Rois de France depuis Clovis, etc. Paris, 1775. 330. MORET, A. Du caractère religieux de la royauté pharaonique. Paris, 1903, p. 75-113; mesmas sequências e ritos de detalhe para a inauguração do templo; cf. MORET, A. Rituel du culte divin journalier. Paris, 1902, p. 10-15; cf. ainda ibid., p. 25-26, nota 1.101, 29-32 e a gravura I em quatro quadros correspondentes às quatro fases da sequência. 331. Sobre a teogamia, cf. Royauté pharaonique, p. 49-52 e 59-73. 332. Sobre a amamentação divina, ibid., p. 63-65 e 222. 333. DESPLAGNES, L. Le Plateau Central Nigérien. Paris, 1907, p. 321-328; numa tribo da planície do Barasana, os Udio de Uol, as cerimônias são um pouco diferentes e incluem, entre outros, um rito de recusa, a respeito do qual veja-se meu trabalho Religions, Moeurs et Légendes, p. 137-154. Também lá o hogon é considerado morto com relação a seu meio anterior. 334. SMITH, R. Die Religion der Semiten, p. 118-119. 335. SCHURTZ, H. Altersklassem und Männerbünde, p. 392. 336. Inaceitável, como demasiado estreita, é a teoria de Frazer, The Golden Bough, t. I, p. 344ss., retomada por Hubert e Mauss, Essai sur la nature et la fonction du sacrifice, Année sociologique, t. II, p. 90 da separata, que os ritos de iniciação têm por objeto introduzir uma alma em um corpo. Se assim fosse, deveríamos encontrar uma série inteira de ritos precisos de mudanças de almas, análogos aos de certas cerimônias médicas. 337. BÜTTIKOFER, J. Reisebilder aus Liberia. Leyde, 1890, t. II, p. 305-306. 338. Cf. PARKINSON, R. Dreissig Jahre in der Südsee. Stuttgart, 1907, p. 609-610. 339. Na África Ocidental Francesa a marca da iniciação é a circuncisão e o direito de roubo para os noviços dura desde o começo da cicatrização do pênis até à cicatrização completa, ou seja, aproximadamente três semanas. LASNET. Mission au Sénégal. Paris, 1900, p. 50 (Peul); 65 (Laobé); 77 (Toucouleurs); 89 (Malinké); 101 (Soninké); 127 (Khassonké); 145 (Sérères), etc. CAPÍTULO VII O noivado e o casamento O noivado como período de margem. – Categorias de ritos que constituem as cerimônias do noivado e do casamento. – Caráter social e econômico do casamento. – A margem entre os Kalmike (poliginos), os Toda e os Botia (poliandros). – Os ritos de separação: os ritos chamados de rapto. – Ritos de solidariedade sexual restrita. – Ritos de solidariedade com base no parentesco. – Ritos de solidariedade local. – Ritos de separação. – Ritos de agregação. – A extensão e a significação do período de margem. – Os casamentos múltiplos sincrônicos. – Semelhanças entre as cerimônias do casamento e as da adoção, da entronização, da iniciação. – Os ritos do divórcio. O presente capítulo é aquele para o qual são mais abundantes os documentos detalhados, mas faltam monografias explicativas e as interpretações que devem ser passadas em revista são as mais diferentes. Ainda aqui descobre-se o esquema dos ritos de passagem e percebe-se a necessidade das sequências rituais. Foi por terem considerado isoladamente os ritos, em lugar de comparar entre si cerimônias inteiras, que os teóricos perderam-se em interpretações estreitas embora frequentemente complicadas. Vimos a criança admitida à adolescência e à puberdade social. O estágio seguinte é a idade madura, que é melhor caracterizada pela fundação de uma família. Esta mudança de categoria social é extremamente importante porque acarreta, pelo menos para um dos cônjuges, uma mudança de família, de clã, aldeia ou tribo. Às vezes mesmo os novos esposos vão viver em uma casa nova. Esta mudança de domicílio é marcada nas cerimônias, de tal maneira que os ritos de separação referem-se sempre essencialmente a esta passagem material. Por outro lado, dados o número e a importância dos grupos afetados por esta união socializada de dois de seus membros, é natural que o período de margem tenha tomado aqui considerável importância. É este período que se chama comumente noivado340. Em um grande número de povos forma uma secção especial, autônoma, das cerimônias do casamento. Compreende ritos de separação e ritos de margem e termina por ritos de agregação preliminar ao novo meio ou de separação da margem considerada como meio autônomo. Vêm em seguida os ritos do casamento, que compreendem, sobretudo, ritos de agregação definitiva ao novo meio e frequentemente, menos do que se acreditava a princípio, ritos de união individual. Assim, o esquema dos ritos de passagem é neste caso mais complicado que nas cerimônias já estudadas. Veremos as sequências em ação nas descrições feitas a seguir, cujo paralelismo convém notar. Observamos, também, este fato, que torna inútil a discussão da teoria individualista e de contágio de Crawley341, que o casamento é um ato propriamente social.Alguns ritos classificam-se assim como foi dito no capítulo I a propósito da gravidez, do nascimento, etc., isto é, as cerimônias do casamento compreendem também ritos de proteção e de fecundação, os quais podem ser simpáticos ou de contágio, animistas ou dinamistas, diretos ou indiretos, positivos ou negativos (tabus). Foi precisamente esta categoria de ritos que mais tem sido estudada até agora342. Tais ritos atraíram a atenção a tal ponto que se chegou a não ver nas cerimônias do casamento mais do que ritos profiláticos, catárticos e fecundadores. Convém reagir contra esta simplificação, cuja estreiteza comprova-se quando se lê com cuidado as descrições detalhadas das cerimônias do casamento em qualquer população, da Europa ou da África, da Ásia ou da Oceania, antiga ou viva, civilizada ou semicivilizada. Tendo estes ritos sido bem estudados, posso deixá-los de lado nas discussões que se seguirão, ficando bem entendido que se situo no primeiro plano deste estudo os ritos de separação e de agregação como tais, e suas sequências, não é porque desejo reduzir exclusivamente a este rito todos os elementos das cerimônias do casamento. Farei, aliás, observar que os ritos de preservação e de fecundação parecem intercalar-se entre os ritos de passagem propriamente ditos ao acaso. Comparando descrições das cerimônias do casamento em uma mesma população, mas devidas a vários observadores, vê-se a sequência dos ritos de passagem apresentar-se com perfeita constância, só surgindo o desacordo no que se refere à data, lugar e detalhe dos ritos de proteção e de fecundação. Ainda nesse caso, nem sempre estamos seguros da interpretação a dar sobre cada rito de detalhe, e as duas enumerações adiante expostas devem ser consideradas muito incompletas. Ver-se-á que a respeito de vários ritos rejeitei interpretações admitidas, sem dúvida não absolutamente para cada caso particular em que este rito é executado, mas ao menos de maneira geral. Apresentar a cada momento as provas que reuni conduziria a fazer deste capítulo um volume. A complexidade dos ritos e os seres e objetos a eles submetidos podem variar conforme o tipo de família a constituir343. Mas de toda maneira, exceto no “casamento livre”, coletividades mais ou menos vastas estão interessadas no ato de união de dois indivíduos. As coletividades em questão são: 1º) as duas sociedades sexuais, às vezes representadas pelos rapazes e damas de honra, pelos parentes masculinos, de um lado, e femininos, de outro; 2º) os grupos dos ascendentes, em linha paterna ou em linha materna; 3º) os grupos dos ascendentes nas duas linhas ao mesmo tempo, isto é, as famílias no sentido comum da palavra, e às vezes as famílias em sentido amplo, nelas compreendidos todos os aparentados; 4º) as sociedades especiais (clã totêmico, fraternidade, classe de idade, comunidade dos fiéis, corporação profissional, casta) a que pertencem um ou outro dos jovens, ou ambos, ou o pai e a mãe deles, ou todos os seus parentes; 5º) o grupo local (povoado, aldeia, bairro da cidade, grande fazenda, etc.). Lembro, além disso, que o casamento tem sempre alcance econômico, que pode ser mais ou menos amplo, e que os atos de ordem econômica (fixação, pagamento, devolução do dote, seja da moça seja do moço, preço de compra da moça, locação dos serviços do noivo, etc.) misturam-se com os ritos propriamente ditos. Ora, os grupos acima enumerados estão todos mais ou menos interessados nas negociações e nos arranjos de ordem econômica. Se a família, a aldeia, o clã têm de perder uma força viva de produção, moça ou rapaz, que ao menos haja alguma compensação! Daí as distribuições de víveres, de vestidos, de joias, e sobretudo os numerosos ritos nos quais se “compra” alguma coisa, sobretudo a livre passagem para a nova residência. Estas “compras” coincidem sempre com ritos de separação, a tal ponto que é possível considerá-las como sendo, ao menos parcialmente, ritos de separação propriamente ditos. Em todo caso, o elemento econômico, por exemplo, o kalym dos turco-mongóis, é tão importante que o rito pelo qual fica definitivamente concluído o casamento só se realiza quando o kalym foi pago inteiramente, isto é, às vezes depois de vários anos. Neste caso o período de margem aumenta, sem que, entretanto, as relações sexuais entre os cônjuges sejam afetadas. Assim é que entre os Bachkir344 os casamentos podem ser decididos enquanto os futuros cônjuges são ainda crianças. Há intermediários (que correspondem aos svaty dos eslavos) que conduzem as negociações econômicas referentes ao montante, data de pagamento, etc. do kalym ou “preço de compra” da moça, o qual pertence legalmente a esta345. O acordo sobre o kalym é assinalado por uma refeição em comum seguida de visitas recíprocas das duas famílias, com trocas de presentes dados pelos parentes, os amigos e vizinhos. Durante estas visitas há a divisão dos sexos em dois quartos separados. Terminada a troca dos presentes, o noivo pode livremente ir ver a noiva na casa desta, e viver em sua casa, se habita em uma outra aldeia, sendo outrora a única condição: 1º) que não devia mostrar-se à sua sogra; 2º) que não devia ver o rosto da noiva, razão pela qual vinha de noite. A criança nascida durante este período de margem era confiada aos cuidados da mãe da moça. “Em resumo, as relações entre os dois jovens são propriamente maritais e nada pode quebrá-las senão a morte”. Neste último caso havia levirato tanto de um lado quanto do outro. Observarei a este propósito que o levirato funda-se não somente em razões de ordem econômica, mas também em razões rituais. Havendo um novo membro agregado à família é preciso cerimônias especiais para sair dela. Ora, o novo vínculo ligou não somente dois indivíduos, mas antes de tudo duas coletividades, que se esforçam agora por conservar sua coesão. Isto observa-se também nos ritos do divórcio. Voltando ao Bachkir. Quando o kalym foi pago integralmente, o que às vezes só acontece depois de vários anos, o pai da moça organiza a expensas do jovem um banquete ao qual são convidados todos os membros das duas famílias e o mullah (padre muçulmano). Os cônjuges comem em um quarto separado, no qual só os parentes próximos penetram. Quando chega a noite as amigas da moça levam-na e escondem-na no quintal ou na aldeia. O jovem procura-a, às vezes durante toda a noite. Uma vez encontrada, entrega-a às moças e volta para o quarto especial, onde se reuniram todos os convidados. Mas antes de entrar deve romper com o pé uma fita vermelha que duas mulheres seguram atravessada na porta. Se não vê a fita e cai, todo o mundo zomba dele. Depois senta-se e as visitas vão embora uma depois da outra. Quando fica sozinho as amigas trazem-lhe a noiva e se retiram. Ela tira-lhe as botas e ele quer beijá-la. Ela repele-o, mas ele dá-lhe uma moeda de prata e é ela que o beija. No dia seguinte a moça em companhia de seus amigos vai despedir-se de cada membro de sua família. Sobe num trenó e vai viver na família do marido. Não deve mostrar o rosto ao sogro durante mais de um ano. O rompimento da fita é um rito de passagem, esconder e achar a noiva um rito de separação do grupo sexual local. Como se vê o noivado compreende a união sexual, mas o casamento enquanto ato social só se conclui depois da liquidação das estipulações econômicas. Chega-se às mesmas conclusões estudando as cerimônias não mais de uma população polígina, mas de uma população poliandra. As “etapas” caracterizam-se com nitidez nas cerimônias dos Toda, descritas em detalhe por H. Rivers346. Porém, para compreendê-las, conviria entrar em longos detalhes sobre o sistema de parentesco e o sistema de clãs entre os Toda. Lembro somente que estas cerimônias começam antes da puberdade e prosseguem até depois da gravidez347. A seguir citarei a sequência dessas cerimônias entre os Botia do Tibete Meridional e do Siquim: 1º) os magos determinam se o casamento projetado será favorável; 2º) os tios da moça e os do rapaz reúnem-se na casa do rapaz, depois vão à da moça e pedem-na em casamento; 3º)se os presentes que levam são aceitos (cerimônia de nangchang), o negócio está concluído. Determina-se o montante do dote, e 4º) oferece-se aos intermediários uma refeição ritual acompanhada de orações (cerimônia chamada khelen). Após estas duas cerimônias, que são, como se vê, ritos de agregação das duas famílias, o rapaz e a moça podem ver-se em completa liberdade; 5º) um ano depois vem a cerimônia nyen: é uma refeição (a expensas dos parentes do noivo) a que assistem todos os aparentados dos dois lados; paga-se o preço da moça; 6º) um ano após o nyen há a cerimônia changthoong: a) um mago determina o dia favorável para a partida da noiva da casa de seus pais; b) organiza-se uma grande festa, a que são convidados os lamas; c) dois homens, alcunhados nesse momento “ladrões”, penetram à força na casa, supostamente para roubar a noiva, trava-se um combate simulado e os “ladrões” são espancados, sendo-lhes jogada na boca carne meio cozida. Escapam a este tratamento dando dinheiro aos guardas da noiva. Dois dias depois os “ladrões” são homenageados e denominados “os estrategistas felizes”; d) os convidados dão presentes à noiva e a seus pais; e) cortejo de partida com regozijo; f) o pai e a mãe do rapaz vêm ao encontro do cortejo, conduzem-nos para sua casa; festas durante dois ou três dias; g) a moça e seus parentes voltam para sua casa; 7º) novamente um ano depois, cerimônia chamada palokh; os pais da noiva entregam-lhe seu dote (o dobro do que foi pago para obtê-la ou mais) e é conduzida em grupo à casa do noivo, onde desta vez permanece definitivamente348. As cerimônias do noivado e do casamento duram, portanto, entre os Botia, ao menos três anos. Tratando dos ritos de separação devo falar primeiramente de uma classe inteira de ritos, muito semelhantes uns aos outros, geralmente considerados como “sobrevivências do casamento por rapto”349. Esse procedimento de união social permanente só muito raramente foi encontrado em forma de instituição, sendo preciso aceitar sem contestação possível a opinião de E. Grosse, que é uma forma individual esporádica e anormal. Além disso, as mulheres assim obtidas por grupos inteiros, por exemplo, durante as razias, tornam-se em seguida escravas ou concubinas, que serão sempre, em regra geral, inferiores às mulheres do mesmo clã ou tribo que os raptadores e às quais estes se unem por cerimônias especiais que não são executadas quando se trata de mulheres de outras tribos ou clãs tomadas à força. Por outro lado, se dois namorados querem casar-se contra a vontade de suas famílias ou contra regras sociais que lhes parecem mais ou menos inúteis ou absurdas, em geral há acomodação. Ou as pessoas se inclinam diante do fato consumado ou se executa uma parte das cerimônias. Mas o conjunto dessas cerimônias nem por isso deixa de existir em formas estáveis para todos os que concluem um casamento de acordo com os costumes ordinários da tribo. Dessa maneira, a pretensa instituição do casamento por rapto funda-se não em fatos observados diretamente, mas na interpretação de toda uma categoria de ritos especiais que não se sabia como explicar de outra maneira. Basta ler sem preconceito descrições detalhadas e aproximar os ritos “de rapto” dos ritos análogos da iniciação para compreender que se trata realmente com efeito de um rapto, mas não no sentido admitido de uma sobrevivência de instituição. Não há sobrevivência neste assunto, mas fato atual, repetido em cada iniciação e cada casamento, assim como em cada morte, e que consiste na mudança de meio e de estado de determinados indivíduos. Casar-se é passar da sociedade infantil ou adolescente para a sociedade madura, de certo clã para outro, de uma família para outra, e muitas vezes de uma aldeia para outra. Esta separação do indivíduo de certos meios enfraquece estes meios, mas reforça outros. O enfraquecimento é ao mesmo tempo numérico (portanto dinâmico), econômico, sentimental. Daí as práticas pelas quais os que se tornam mais fortes compensam em certa medida o enfraquecimento dos meios aos quais estão ligados por vínculos de consanguinidade, de conacionalidade, de reciprocidade, atuais ou em potência. É a resistência oposta pelos meios afetados que se exprime pelos ritos chamados de rapto. Conforme o valor atribuído ao membro que parte, a resistência será mais ou menos viva, e também conforme a riqueza comparada das partes. As compensações tomarão a forma de dote, de presentes, de festins, de regozijos públicos, de dinheiro dado para a compra de tal ou qual obstáculo oposto à partida pelos interessados. Finalmente, deve-se levar em conta sentimentos que, sem ser tão expressos como entre nós na literatura e nas fórmulas populares, existem igualmente nos semicivilizados. Quando uma moça separa-se da mãe há lágrimas vertidas que, sendo muitas vezes rituais, nem por isso deixam de corresponder a um sentimento real de pesar. As companheiras e companheiros dos futuros esposos podem também sentir pesar e manifestá-lo segundo modos às vezes muito diferentes dos nossos. Dito isto, resumo uma das descrições que foram mais frequentemente citadas para servir de prova à teoria de um antigo “casamento por rapto”. Trata-se da descrição das cerimônias do casamento entre os árabes do Sinai feita por Burckhardt350: 1º) o jovem e mais duas outras pessoas moças agarram a moça na montanha e conduzem-na à tenda de seu próprio pai; 2º) quanto mais a moça se defende “mais é aplaudida pelas companheiras”; 3º) os jovens colocam-na à força no apartamento das mulheres; 4º) um parente do futuro cobre-a com um pano e exclama: “Ninguém senão (e dá o nome do futuro esposo) te descobrirá”; 5º) a mãe da moça e seus parentes vestem-na cerimonialmente; 6º) é colocada sobre um camelo, mas continua a debater-se enquanto os amigos do noivo a seguram; 7º) obrigam-na assim a dar três vezes a volta à sua tenda e suas companheiras lamentam-se; 8º) em seguida é conduzida ao apartamento das mulheres da tenda do noivo; 9º) se esta tenda é afastada, ela chora durante todo o caminho. Visivelmente trata-se aí de uma separação da moça do grupo formado pelas moças do lugar de origem. Para que houvesse sobrevivência de rapto seria preciso que toda a família e toda a tribo da moça resistissem às intenções da tribo, da família e dos companheiros do moço. Em vez disto, são apenas duas classes de idade que estão representadas na luta. Frequentemente é assim, mas muitas vezes também as que dão apoio à moça são não somente as moças, mas todas as mulheres, jovens ou velhas, casadas ou viúvas, de sua parentela ou da tribo. Neste caso, que é o dos Khonde, conforme se verá adiante, não se trata mais da solidariedade de classe de idade, mas da solidariedade sexual restrita. Não conheço caso em que a solidariedade sexual seja geral, isto é, em que as moças e mulheres da família, do clã e da tribo do rapaz oponham-se por seu lado à entrada da noiva. Basta isto para derrubar a teoria de Crawley, que viu351, depois de Fison, Westermarck352, E. Grosse353, que “a sobrevivência do casamento por rapto” é uma fantasia, mas pretendeu que é “primordialmente ao sexo, e não à tribo ou à família, que a moça é arrancada”354. Não pode ser arrancada à sociedade sexual nem “primordialmente” nem secundariamente, porque não muda de sexo. Mas abandona uma certa sociedade sexual restrita, familiar ou local, para ser agregada a outra sociedade sexual restrita, familiar ou local. Isto se observa no seguinte rito dos Samoieda355. Os Samoieda “procuravam uma moça em outra família diferente da sua” (exogamia de clã). Um intermediário trata das negociações do kalym, que pertence metade ao pai e metade aos outros parentes da mulher casada; refeição do sogro e do jovem; o pai prepara o “presente do dia seguinte ao das núpcias”. No dia fixado “o pretendente, acompanhado de várias mulheres estranhas à família da moça, vem buscar sua mulher. Visitam-se todos os parentes que participaram do kalym; estes dão um pequeno presente aos esposos. As mulheres trazidas pelo marido seguram a recém-casada, colocam-naà força em um trenó, amarram-na e partem”. Amontoam-se os presentes recebidos nos trenós; o recém-casado vai no último. Chegados à iurta dos esposos, a jovem prepara a cama para ela e seu marido, deitam-se na mesma cama, mas as relações sexuais só se realizam um mês depois. O marido dá um presente à sogra, se sua mulher era virgem. Depois periodicamente a moça vai ver o pai e em cada vez este deve dar-lhe muitos presentes (compensações pelo kalym). Em caso de morte de sua mulher ou de separação, o sogro devolve o kalym. Vê-se que não somente o “preço de compra” (kalym) da noiva é amplamente compensado pelos presentes que lhe dão obrigatoriamente, mas são os representantes da nova sociedade sexual restrita que arrancam à força a moça da sociedade onde passou a adolescência. Entre os Khonde da Índia Meridional356, o partido da moça compreende não somente suas “companheiras”, mas as “jovens da aldeia”. Quando tudo foi combinado entre as famílias, a moça é vestida com uma fazenda vermelha e levada pelo tio materno à aldeia do noivo em companhia das moças de sua aldeia; o cortejo carrega os presentes destinados ao noivo. Este, acompanhado dos rapazes de sua aldeia, todos armados de varinhas de bambu, colocou-se no caminho. As mulheres atacam os jovens a golpes de paus, pedras, torrões de terra, contra os quais os jovens se defendem com seus bambus. Pouco a pouco as pessoas se aproximam da aldeia e em seguida a luta cessa. O tio do noivo toma a noiva e a leva para a casa deste último. “O combate é apenas um jogo, e frequentemente os homens são feridos gravemente”. Em seguida vem a refeição em comum a expensas do noivo. Este rito encontra-se em todas as tribos Khonde com variantes de detalhes. Cito-o porque Thurston357 viu nele “um excelente exemplo do antigo costume do casamento “por rapto”. Ora: 1º) é o partido da noiva que faz o do noivo recuar; 2º) há luta entre dois grupos de sexo e localidade diferentes. Tal é o motivo pelo qual vejo aí um rito de separação da moça de seu grupo sexual anterior, tanto de idade quanto de família e de aldeia. Finalmente, no caso seguinte o elemento sexual desaparece e a luta trava-se entre o pretendente e os colaterais sociais da moça, devendo a palavra “irmão” ser tomada neste caso no sentido que tem no sistema classificatório, irmãos que sem dúvida representam o clã totêmico: em Mabuiag (ilhas do estreito de Torres), é a moça que propunha casamento ao rapaz. Fabricava uma pulseira de ervas que a irmã do rapaz prendia-lhe no pulso, e em troca ele enviava um makamak que a moça amarrava na perna. Os dois jovens encontravam-se de dia e de noite e tinham relações sexuais; o rapaz prestava pequenos serviços ao pai e à mãe da moça, que fingiam nada saber. Mas os irmãos travavam com o namorado uma luta simulada, não o ferindo senão na perna e finalmente na cabeça com uma pancada de maça. A seguir o irmão da moça tomavalhe a mão e dava-a ao moço. Este amontoava então todos os tipos de riquezas, empilhadas em determinado dia sobre uma esteira colocada em um lugar público, em redor da qual todos os parentes da moça se acocoravam. Esta estava vestida e pintada cerimonialmente e acompanhada pelas mulheres de dois de seus irmãos mais velhos, que tomavam os presentes, davam-nos à moça, que os distribuía a seus irmãos, depois havia uma refeição em comum e o casamento estava consumado358. Como se vê o ato sexual é independente da união social. Há primeiramente ritos de agregação individual, um período de margem, um rito de separação e um rito de agregação sociais, e finalmente a compensação pela perda sofrida pelo grupo familiar359, sendo este fundado sobre o sistema totêmico e classificatório. Entretanto, a mulher não se tornava membro do clã do marido, que era proprietário absoluto dela “uma vez que a pagou”360. Entre os Ostiake do Irtisch361, logo que o cortejo nupcial põe-se em marcha para ir à aldeia do jovem, os rapazes da aldeia da noiva prendem seu trenó com uma corda, que só soltam quando recebem um presente em dinheiro lançado pela noiva. Mas prendem-na de novo, recebem ainda dinheiro, e depois recomeçam e só na terceira compra deixam partir o trenó. Lembro que as mulheres são em número insuficiente entre estes Ostiake que se veem reduzidos a viver em união livre com mulheres russas. Frequentemente – e isso é um fato sobre o qual chamo a atenção – os vínculos do moço ou da moça com seus ambientes anteriores (de idade, sexo, parentesco, tribo) são considerados tão poderosos que é preciso agir com cautela para rompê-los. Daí as fugas e perseguições múltiplas, na floresta ou na montanha, os pagamentos de dote ou compras por frações, as repetições dos ritos. Às vezes, igualmente, a agregação aos novos ambientes (família, classe social das mulheres ou dos homens casados, ou dos indivíduos que perderam a virgindade, clã, tribo, etc.) não se realiza à primeira vista. Durante um tempo mais ou menos longo o recém-chegado é um intruso, sobretudo com relação à família restrita. É por este aspecto que explico os tabus do sogro e da sogra para o genro e a nora, as flutuações de estado da mulher até a gravidez ou até o nascimento de um filho. Às vezes é preciso cimentar a união das duas famílias, já estabelecida pelas cerimônias anteriores à ligação sexual dos cônjuges, mediante novos presentes, festins em comum, em resumo por uma série de cerimônias posteriores ao casamento e que duram, por exemplo, sete dias no norte da África. Das descrições feitas por Gaudefroy-Demombynes362 relativas ao Tlemcen depreende-se que os homens das duas famílias, por um lado, e em seguida todos os homens, as mulheres das duas famílias, por outro, e depois todas as mulheres agregam à sua sociedade especial o novo homem e a nova mulher. Em Constantina parece que esta agregação só se impõe aos homens e mulheres das duas famílias. Assim cria-se um novo estado de equilíbrio dos grupos sexuais. Como ritos de separação citarei, além dos ritos de “rapto” dos quais acabo de falar: as mudanças de vestuário; esvaziar um pote de leite e fazer arrebentar três bagas (Galla); cortar, quebrar, arremessar alguma coisa que tenha relação com a vida da infância ou dos celibatários; desfazer o penteado, cortar, raspar os cabelos, a barba; fechar os olhos; tirar as joias; dedicar a uma divindade os brinquedos (bonecas, etc.), as joias, a roupa de criança; perfuração prévia do hímen e todas as outras mutilações; quebrar a pequena corrente chamada da virgindade; desatar o cinto; modificação das comidas e tabus alimentares temporários; distribuir entre os amigos de infância os brinquedos, joias ou distribuir a eles “lembranças”; bater, injuriar os companheiros de infância ou ser batido, injuriado por eles; lavar os pés ou mandar que outros os lavem; tomar banho, untar-se, etc., estragar, destruir, transportar a lareira, as divindades, os sacra da família primitiva; fechar as mãos, cruzar os braços, etc.; cobrir-se com um véu, encerrar-se em uma liteira, um palanquim, uma carruagem, etc.; ser empurrado, maltratado; vomitar, etc.; mudar de nome, de personalidade; submeter-se a tabus temporários ou definitivos de trabalho, sexuais, etc. Além destes, incluo nesta categoria dois ritos mais complexos. O rito que consiste em fazer passar todo o cortejo, ou os noivos, ou somente um deles por cima de alguma coisa, pode sem dúvida ser interpretado de diversas maneiras, ou pelo menos depreende-se das descrições que um ato à primeira vista idêntico não é concebido como tal pelos participantes. É possível passar por cima do obstáculo, e neste caso, quando se trata da moça, pode ser um rito de fecundação. Dá-se um pulo, e neste caso pode ser que seja para saltar de um mundo para outro, de uma família para outra. Toca-se, ou não se toca, o obstáculo, e este pode ser um rito de passagem, de fecundação ou de sacralização (preservação). O indivíduo é erguido no ar, sendo então um rito de passagem, do mesmo modo que, quando se quebra um obstáculo (corda atravessada na porta, barreira na soleira, etc.) ou quando se derruba uma porta,ou quando se faz com que a abram mediante gestos coercitivos ou rogos. Em resumo, o estudo deste rito só pode ser feito reproduzindo os documentos detalhados363. Da mesma maneira o rito da noiva ou dos noivos substituídos364 em alguns casos, segundo acredita Crawley, pode ter por objeto deslocar o perigo da “inoculação”, mas, segundo descrições detalhadas, creio que na maioria das vezes o rito tem por finalidade evitar o enfraquecimento dos grupos interessados (classe de idade sexual, família, etc.) procurando entregar ou unir indivíduos de menor valor social geral, e sobretudo econômico (moça ou mulher velha, rapazinho, etc.), o que se caracteriza pelas zombarias dirigidas aos substitutos e pelas furiosas reclamações dos amigos e parentes do noivo e da noiva365. Chego agora aos ritos de agregação. Muito frequentemente, nas descrições detalhadas que nos são dadas das cerimônias do casamento por diversos observadores, estes tomaram cuidado de notar qual é o rito que tem maior alcance e que torna definitivo o conjunto das negociações. Habitualmente este rito é a refeição em comum consecutiva ao último pagamento do kalym ou do dote; ou então é uma refeição em comum sem conexão com as estipulações econômicas; ou ainda é a participação coletiva em uma cerimônia propriamente religiosa. É possível, entre os ritos de agregação, distinguir os que têm alcance individual e unem uma à outra as duas pessoas jovens consistindo em: donativo ou troca de cintos, de pulseiras, de anéis366, das roupas usadas; amarrar uma à outra com um mesmo cordão; tocarem-se reciprocamente de uma maneira ou de outra367; utilizar os objetos que pertencem à outra (leite, betel, tabaco, utensílios profissionais etc.); oferecer à outra alguma coisa para beber ou comer; comerem juntas (comunhão, confarreatio); envolverem-se no mesmo vestuário, véu, etc.; sentarem-se no mesmo assento; beberem o sangue uma da outra; comerem uma mesma iguaria ou em um mesmo prato; beberem um mesmo líquido ou no mesmo recipiente, etc.; darem massagens, friccionarem-se, untarem-se (sangue, argila), lavarem-se uma à outra, entrarem na nova casa, etc. Estes são propriamente ritos de união. Os ritos de agregação têm significação coletiva, quer liguem um ou outro dos indivíduos a novos grupos, quer unam dois ou vários grupos. Nesta categoria entram: as trocas de presentes368, as trocas de irmãs (Austrália; Bassa-Komos da África Ocidental, etc.), a participação em cerimônias coletivas como as danças rituais, os banquetes do noivado e de núpcias, as trocas de visitas, as viagens de visitas, vestir a roupa das mulheres ou dos homens casados ou adultos; para a mulher, estar grávida ou dar à luz. Alguns ritos são ao mesmo tempo individuais e coletivos. Assim, a aceitação de um presente tem poder coercitivo não somente para o indivíduo que o aceita, mas também para os grupos a que pertence. Frequentemente este rito é o primeiro entre os que se praticam no noivado. Como rito de agregação especial assinalarei o “casamento com a árvore”, que tantas vezes intrigou os teóricos. É facilmente inteligível quando nos lembramos que o casamento em certos casos, por exemplo, entre os Kol de Bengala369, é uma cerimônia de iniciação, enquanto agregação no clã totêmico. Atualmente o casamento é celebrado entre 16 e 18 anos para os rapazes, entre 14 e 16 anos para as moças, mas outrora era realizado em idade bem mais adiantada. Os fatos para os quais desejo chamar a atenção são os seguintes: as almas dos mortos vão para uma região especial, mas as crianças não podem ir para aí porque não têm alma, nem mesmo podem tornar-se demônios. Até o casamento a criança não está submetida aos tabus alimentares de seu clã e pode ter relações sexuais sem se preocupar com a regra exogâmica. É o casamento que lhe dá uma alma, agregando-a ao clã. Os clãs Kol são totemistas. Os principais totens são a manga e o mahua (bazzia latifolia). Um dos ritos do casamento Kol consiste em casar primeiramente, por meio de um beijo, o rapaz à manga e a moça ao mahua. Este conjunto de fatos leva-me a pensar que no casamento “fictício” é preciso ver não uma transferência de personalidade para “assegurar o sucesso da verdadeira cerimônia”370, mas um rito de iniciação ao clã totêmico, entremeado nas cerimônias do casamento, que em conjunto entre os Kol são cerimônias de entrada no clã. Um indivíduo excluído do clã por esta ou aquela razão pode voltar a ele reunindo representantes das diversas aldeias e mandando o padre de sua aldeia sacrificar uma cabra branca ou um boi branco, dos quais bebo um pouco de sangue, ou com o sangue dos quais asperge a cobertura de sua casa, invocando o deus-sol, sendo depois a carne comida por todos os representantes do clã371. Todos estes ritos de agregação não devem ser tomados em sentido simbólico, mas em sentido estritamente material. A corda que liga, o anel, a pulseira, a coroa que cinge, etc., têm uma ação real, coercitiva. Deste ponto de vista são muito interessantes os ritos relativos à soleira372 e às portas. Passa-se por elas violentamente ou com o consentimento dos habitantes do mundo no qual se penetra. Assim é que na Palestina a moça aproxima-se da casa de seu futuro esposo levando um jarro cheio de água na cabeça. O noivo derruba o jarro no momento em que a moça transpõe a soleira. Não há neste caso uma ligação, conforme acredita Trumbull, mas o gesto de separação do antigo meio e agregação ao novo mediante uma espécie de batismo. Da mesma maneira, na Ilha de Scarpanto quebra-se uma vara colocada atravessada na porta. Chavannes assinala-me um rito chinês interessante, no qual a passagem material não é realizada de uma só vez, mas por etapas373. Numa tribo do grupo étnico dos Ho-mi (Iunnan Meridional), quando o futuro genro vai buscar sua mulher na casa do futuro sogro “o sogro conduz o genro fazendo-o passar pela segunda e pela terceira salas e atravessar o pavilhão dos livros para introduzi-lo no pavilhão de vestir. Em cada porta, um auxiliar anuncia em voz alta o rito que deve ser realizado e (o genro) prosterna-se duas vezes. É o que se chama a “prosternação nas portas” (pai men). É porque (o sogro) vai deixar de ver sua filha que dá importância às portas e causa dificuldades ao genro374. Entre os Tcheremiss375 o cortejo que vem buscar a noiva para nas portas do quintal da fazenda habitada pelos parentes. O sabus (diretor das cerimônias) entra na isba, cujo dono dá-lhe de beber e de comer. O sabus pede o direito de entrada para o cortejo. O pai pergunta se nada foi perdido, e o sabus responde “sim”, fulano (o noivo) perdeu uma das mangas de seu vestido e viemos ver se ela está em sua casa. O pai diz que não, o sabus vai embora e depois volta, e só depois do pai ter dito sim três vezes é que as portas se abrem e os ritos de agregação começam. O período de margem pode ter significação sexual ou não. Em algumas populações o noivo coabita com a noiva, e os filhos concebidos ou nascidos durante este período são considerados legítimos (cf. os casos acima citados). Em outros lugares a separação entre os dois jovens é absoluta e à criança que nascesse da desobediência a essa regra seria recusado um lugar regular na família ou na sociedade. Assim é que “os lapões jamais permitem que os noivos coabitem antes do dia das núpcias. Se isso acontecesse a criança seria declarada bastarda, por mais que ficasse provado que foi concebida depois do noivado e da promessa feita. Esta criança, menino ou menina, é sempre o último de seus irmãos e irmãs, porque é a mais desprezível. Quando se torna grande e as renas lucram muito com os cuidados que lhes dá, o indivíduo é frequentemente expulso da casa”376. Este último detalhe é interessante porque mostra que a criança conserva as qualidades e imperfeições contraídas por ter sido concebida durante o período impuro (que é tabu). Esta atitude é também a dos Wadshagga da África Oriental alemã, que possuem cerimônias de casamento com etapas muito nítidas, a saber: 1º) o jovem (16 anos), tendo manifestado a pretensão de obter uma moça(12 anos), pergunta-lhe sua opinião; 2º) se é favorável o pai do jovem vai procurar o chefe da família e, em troca da autorização do noivado, dá-lhe uma cabra e quatro potes de bebida fermentada; 3º) depois vai procurar o pai da moça e pede-lhe, assim como também pede à moça, seu consentimento; 4º) o jovem dá à moça pérolas e uma pulseira; a mãe do jovem convida a moça para comer e conserva-a uma noite em sua cabana; estes convites são frequentemente renovados; 5º) a jovem passa os dois últimos meses do noivado na cabana da sogra; 6º) o noivado dura vários anos, durante os quais o noivo aos poucos paga o “preço da compra” aos sogros e parentes, de acordo com um protocolo fixo; 7º) o último ato consiste em abater um boi cuja parte traseira e um omoplata são entregues ao pai da moça, e em oferecer uma cabra, que o noivo leva à cabana do sogro, presa com folhas de dracena. É a cabra levada à cabana dos sogros que constitui o elemento central do festim nupcial, ao qual assistem todos os parentes dos noivos; 8º) depois disso todos vão à cabana do jovem, caminhando a moça atrás dele com as mãos em seus ombros. Os parentes da moça lançam lamentações para indicar que a família perdeu uma filha, uma irmã, etc. Isto é o rito de separação; 9º) em seguida passam-se três meses, durante os quais a moça não deve fazer absolutamente nada, sendo todo o trabalho feito por sua mãe ou sua sogra, que a instruem na maneira de dirigir uma casa; igualmente, o jovem é instruído pelo pai e pelo sogro; 10º) este período de aprendizagem termina pela festa chamada uali, “a única que torna o casamento válido”; toda criança nascida antes é considerada ilegítima. Esta festa realiza-se dois a cinco meses depois do começo da vida em comum, conforme a época da colheita da eleusina. Todos os parentes, vizinhos e amigos são convidados para a festa, que consiste, sobretudo, na absorção de wari (bebida fermentada), em danças, em cantos, etc. Os cantos são na maioria eróticos. O jovem dá à mulher um pesado anel de cobre que ela coloca no braço esquerdo. Se já está grávida só são convidados velhos. No terceiro dia matam-se cabras, que são comidas em comum. A festa está terminada, a mulher deve trabalhar377. Vê-se que até à festa uali o casamento foi apenas um ato que interessava os indivíduos e dois grupos restritos (sexual e familiar). Vê-se, também, que a festa uali dá a este ato alcance social geral. Entre os Siena “que permaneceram fiéis a seus costumes nacionais o jovem que deseja casar-se com uma moça evita manifestar seus projetos a esta última e à sua família. Mas, espiando os movimentos dos parentes da moça, se percebe a mãe desta indo ao mato para apanhar lenha, espera-a no caminho de volta e precipita-se gentilmente para descarregá-la do fardo, que coloca em sua cabeça. Em outra ocasião ajuda da mesma maneira o pai da moça a trazer para casa fragmentos de termiteira destinados às galinhas. Alguns dias depois o enamorado vai apanhar uma carga de lenha que leva à casa de sua bem-amada. Depois, tendo obtido algumas sementes de cola, vem oferecê-las ao pai da amada. Em seguida faz-lhe presente de um frango, e depois alguns cauris. O pai da moça reúne então a família e convoca para a reunião um personagem notável da aldeia. Declara que fulano mostra-se muito atencioso com ele e que gostaria de recompensá-lo por suas atenções concedendo sua filha em casamento. A assembleia aprova e o notável vai anunciar ao pretendente que pode considerar-se aceito. Mas os sofrimentos do futuro não acabaram. Quando se aproxima a estação das culturas deve reunir seus irmãos e amigos e ir com eles lavrar o campo do futuro sogro. Uma vez feita a sementeira vem arrancar as ervas daninhas e depois compra cerveja de milho e paga a bebida para toda a família da noiva. Somente então procede-se aos esponsais oficiais. Frequentemente nesse momento a moça está longe de ser núbil. Permanece em casa do pai até a nubilidade e durante este período de espera o noivo deve continuar a ajudar a família da noiva com seu trabalho e seus recursos. Quando a moça torna-se núbil o pai entrega-a ao noivo, que dá um presente de cinco a dez francos de cauris ao pai e um outro de igual valor à mãe. Quando os jovens esposos coabitaram durante um mês o pai retoma a filha e a leva para casa onde fica dois a três meses, em seguida devolve-a ao marido contra o pagamento de dez francos de cauris. Este segundo período de coabitação dura igualmente um mês, no fim do qual o pai retoma de novo a filha durante dois ou três meses, para entregá-la definitivamente ao marido ao receber uma nova quantia de dez francos. Se a mulher fica grávida durante este período preparatório, o pai é obrigado a oferecer uma tanga ao marido por ocasião do nascimento do filho. Este costume, dizem os anciãos, tem por finalidade dar aos futuros esposos todo o tempo para se conhecerem e se apreciarem, impedindo assim as uniões desajustadas”378. No caso seguinte vê-se o período de margem do noivado ligar-se ao período de margem da iniciação, de tal maneira que do começo da iniciação à realização da união sexual socializada há apenas um único período. Entre os Vai da Libéria a separação sexual é reforçada em alguns casos pelo fato da moça só sair do sandi para se casar. O sandi é um local sagrado na floresta, onde todas as moças são conduzidas antes dos dez anos ou aproximadamente nessa idade, onde permanecem até a primeira menstruação, ou mesmo depois. Como os rapazes no belli379, enquanto aí estão são consideradas mortas, do mesmo modo que as mulheres velhas que vêm visitá-las. São instruídas nos atos domésticos sexuais. A festa da saída, feita anualmente, é um renascimento. Ora, frequentemente os pais tratam do casamento da moça enquanto esta ainda se acha no sandi, e em tal caso não sai do sandi por ocasião da festa anual, mas permanece aí até sua primeira menstruação380. Logo depois desse acontecimento os pais da moça são informados. Avisam o noivo, que envia seus presentes ao sandi. A moça é friccionada com óleo perfumado, etc., colocam-lhe suas joias, etc. e seus parentes vêm procurá-la na entrada do bosque sagrado. Depois de uma refeição cerimonial a mãe da moça leva-a para a cabana do noivo. O coito consuma-se durante uma refeição a que assistem as duas famílias e seus amigos. Terminado o ato, o marido sai da cabana e toma parte no banquete. O cerimonial é o mesmo se o noivado realiza-se depois da saída do sandi381. Assim, entre os Vai o período do noivado atinge o período da iniciação, e a primeira menstruação só tem importância para a saída do sandi se a moça já está noiva. A puberdade fisiológica é aliás uma condição legal do casamento entre os Vai, como em muitas outras populações. Além disso, a separação sexual entre os noivos é neste caso garantida pelo caráter sagrado do sandi. De todas estas descrições depreende-se com evidência que as etapas do casamento e sobretudo a principal, o noivado, têm entre outros um alcance econômico. Além do mais, todo casamento, justamente porque não são apenas dois indivíduos que se acham em jogo, mas realmente vários círculos mais ou menos vastos, é uma perturbação social. Um casamento acarreta o deslocamento de um certo número de elementos uns com relação aos outros, e este deslocamento, atuando por continuidade, determina uma ruptura de equilíbrio. Este fenômeno é pouco marcado em nossas grandes cidades, mas já é mais observado em certos recantos remotos de nosso interior. As núpcias são aí ocasiões de parada da produção, de gasto das economias, de sobressaltos da sensibilidade habitualmente apática, etc. É mais acentuado nas tribos turco-mongóis ou árabes, nos oásis, e ainda mais finalmente entre os semicivilizados, que vivem sempre em grupos pouco numerosos e muito coesos. Esta repercussão do casamento sobre a vida geral parece-me explicar, do mesmo modo que a teoria biológica de Westermarek e de Havelock Ellis, por que os casamentos são feitos na primavera, no inverno ou no outono, isto é, nas estações mortas e não no momento dos trabalhos no tempo.Não vou ao ponto de negar a persistência de antigas épocas de cio nem a influência dos ciclos cósmicos, marcada pelo renovo da vegetação e pela excitação sexual animal e humana. Mas isto dificilmente explica a multiplicidade dos casamentos no outono, quando se diz frequentemente que esta data é escolhida com satisfação porque nesse momento os trabalhos agrícolas estão terminados, os celeiros e arcas plenos, e a ocasião é boa para os solteiros arrumarem um interior para o inverno. Segue-se que não poderia admitir a interpretação muito difundida segundo a qual o casamento no mesmo momento de pares mais ou menos numerosos é uma sobrevivência ou do período de cio ou de um antigo casamento por grupos, uma vez que a “promiscuidade primitiva” é uma fantasia. Parece-me, aliás, que os casamentos múltiplos, sincrônicos, tanto em um momento quanto em dois momentos do ano, ou mais, devem ser aproximados dos outros sincronismos, cerimoniais, a saber, festa de todas as crianças nascidas no mesmo dia ou no mesmo dia que um filho de rei ou de príncipe, ou no mesmo mês ou no mesmo ano. Festa anual em honra das mulheres que deram à luz no mesmo dia do ano (Lushei); festas periódicas do retorno ou do aniversário da iniciação e sobretudo iniciações de um certo número de crianças ao mesmo tempo, cada ano ou de dois em dois, ou de três em três anos, etc.; comemorações e grande festa anual dos mortos382. Em suma, tendo todos estes atos alcance social geral, o sistema de que se trata é a forma extrema pela qual se marca este caráter social geral. Em lugar de cerimônias das quais só participam grupos restritos (famílias, clã, etc.), foram instituídas cerimônias de que participam todos os grupos constitutivos da sociedade geral. É o que se depreende, por exemplo, das curiosas cerimônias do casamento em Uargla, descritas cuidadosamente por Biarnay383. Às vezes, ao contrário, o período de margem e os ritos de noivado reduzem-se a pouca coisa. Assim, entre os Herero384 o jovem dá à moça uma bola de ferro que ela prende em seu avental. Depois vai embora e não deve mais vê-la até a cerimônia do casamento nem penetrar em seu kraal. Os elementos típicos dessa cerimônia são os seguintes: uma refeição claramente sagrada, na qual se caracteriza a solidariedade da moça com suas companheiras e seu clã. Nem o jovem nem seus amigos assistem a esse banquete. Acabada a refeição, vêm buscá-la e levam-na para seu kraal. Depois vêm os ritos de agregação da moça ao novo culto doméstico e à nova sociedade tribal. Após a refeição, a mãe tinha colocado em sua filha o “chapéu” e as roupas das mulheres casadas, portanto, antes da união sexual, que se realiza no kraal do marido. Este entrega cerimonialmente à mãe o “avental de moça” da nova esposa. Os Herero têm um kalym e são organizados em clãs totêmicos. As cerimônias do casamento apresentam analogias, muitas vezes mesmo identidades de detalhes, com a adoção, mas isto é um fato que parecerá normal a quem se lembrar que no casamento, em última análise, trata-se da agregação de um estrangeiro a um grupo. Assim é que entre os Aino, ora é o marido que vai viver na família de sua mulher, ora a mulher que vai viver na do marido, havendo participação de ambos no culto doméstico. Ora, esta entrada em uma família primitivamente estranha é claramente identificada à adoção385. Igualmente as cerimônias do casamento aprensentam muitas vezes semelhanças de detalhes com as da entronização, constantes de um véu estendido por cima do rei ou dos esposos, coroa, objetos sagrados distintivos dos noivos, tal como as regalia do futuro rei. As semelhanças são sobretudo acentuadas nos lugares em que, como no norte da África, certas regiões da Índia, etc., o noivo é rei, sultão, ou príncipe e a moça é rainha, sultana, ou princesa, e ainda na China, onde o noivo é “mandarim”. Se os casos nos quais o casamento é considerado um renascimento são raros, em compensação aqueles em que o casamento é julgado uma iniciação ou ordenação não são raros. Todas estas semelhanças e identificações são marcadas por ritos de passagem, que se fundam sempre na mesma ideia, a saber, a materialidade da modificação de situação social. Preciso dizer agora algumas palavras sobre as cerimônias que constituem a contrapartida das cerimônias do casamento, e são as do divórcio e da viuvez. Na maioria dos povos os ritos do divórcio parecem reduzidos à mais simples expressão. Em geral, basta que a mulher abandone o domicílio conjugal e volte para a casa dos pais, ou então que o marido ponha materialmente a mulher fora da casa comum. Contudo, tenho a impressão que, se as cerimônias do divórcio são tão simples, de acordo com a literatura etnográfica, é porque os observadores ou não se interessaram pela questão ou não compreenderam o sentido de certos atos, e sobretudo não viram na separação dos corpos e no divórcio senão um ato jurídico e econômico. Entretanto, é normal que um vínculo, individual ou coletivo, que foi estabelecido com tantos cuidados e complicações não possa ser rompido um belo dia por um gesto único. Por exemplo, sabe-se que na Igreja Católica o divórcio nem mesmo é admissível e que é preciso a anulação do casamento, a qual só se obtém depois de inquéritos sem nada de propriamente mágico- religioso. Ao contrário, os judeus elaboraram um cerimonial do divórcio muito complicado, a tal ponto que constitui por si mesmo um obstáculo aos desejos de muitos indivíduos. A carta entregue à mulher é ritualizada, no sentido em que deve ser escrita de maneira tão perfeita quanto um escrito sagrado. O rabino joga esta carta para o ar e uma das testemunhas da mulher deve apanhá-la antes de cair no chão, do contrário é preciso recomeçar tudo. Este constitui o rito definitivo de separação386. Entre os Habé do Platô nigeriano se o casamento foi consagrado por uma cerimônia do culto doméstico é preciso, do mesmo modo que na Antiguidade Clássica, um sacrifício para romper o laço com as divindades familiares do cônjuge que se retira387. Entre os Esquimó o marido olha para a mulher e depois sai da cabana sem dizer uma palavra. Entre os Tchuvach o marido que está descontente com a mulher e quer separar-se dela apodera-se de seu véu e rasga-o. Este rito encontra-se também entre os Tcheremis, os Mordvin, os Votiak e os Vogul388. Em Java o padre corta a “corda do casamento”389. Entre os Gala meridionais se uma mulher é maltratada pelo marido o irmão dela pode ir buscá-la, mas não tem o direito de entrar na cabana nem na aldeia se o marido proibir. Deve esperar que a irmã saia, por exemplo, para ir buscar água, e então rapta-a. Uma mulher divorciada desta maneira não pode mais voltar a casar-se e seu marido não tem o direito de reclamá-la, mas as duas coletividades interessadas reconciliam-se mediante um pagamento em carneiros ou em cabras390. Entre os Wazaromo o marido comunica à mulher que não quer mais saber dela, dando-lhe um tipo especial de caniço, e no Unioro o marido corta em dois um pedaço de couro, guardando uma metade e enviando a outra ao pai de sua mulher391. No islamismo o rito de separação é verbal, bastando que o marido diga três vezes à mulher: “Estás divorciada”, ou “eu te divorcio” e ela deve ir-se embora com os objetos que lhe pertencem, e nesse caso o marido devolve-lhe em geral um terço do dote. Mas se é a mulher que deseja divorciar-se é preciso um julgamento do cadi, cuja função e jurisprudência, como se sabe, são de ordem fundamentalmente religiosa. A princípio esta tríplice repetição era uma verdadeira fórmula mágica. Tem também este caráter na Índia e entre os Suaeli392. Às vezes, o conselho da tribo reúne-se e decreta o divórcio em proveito econômico de uma ou de outra das partes. Mas o procedimento mais difundido nada tem de cerimonial nem de ritual. Consiste na devolução ou na partida pura e simples de um ou outro dos cônjuges. Isto, porém, não apresenta nada que contrarie o esquema dos ritos de passagem nem a explicação sociológica que proponho para estes ritos, porque o casamento, uma vez consumado, faz a moça e orapaz entrarem na categoria das mulheres e dos homens socialmente adultos, e nada poderia fazê-los retroceder, nem, por outro lado, o viúvo e as viúvas. Do mesmo modo, o vínculo criado entre as famílias não é rompido pelo fato dos dois cônjuges se separarem, porque toda ameaça de ruptura é precisamente afastada pelas negociações para determinar a situação futura dos separados ou dos divorciados. Tudo é assim, salvo exceções individuais de ordem sentimental. O vínculo coletivo subsiste sobretudo quando há filhos, a tal ponto que em muitos povos o divórcio não é permitido nesse caso. Em resumo, sem pretender que o esquema e o sistema de interpretações propostas possuam rigidez e universalidade absolutas, parece-me que a ausência de complicados rituais do divórcio não poderia servir de objeção contra eles. É uma coisa notável, além disso, que estes vínculos tão facilmente quebrados pelo divórcio sejam dificilmente, ou mesmo em caso algum (suicídio das viúvas), afrouxados pela morte. Sei muito bem que o luto compreende um grande número de ritos que são simplesmente profiláticos ou protetores. Contudo, as cerimônias funerárias de que participam os viúvos compreendem também uma outra coisa diferente do luto, sendo de natureza tal que é impossível, numa teoria geral, deixar de reconhecer-lhes um sentido social393. É o que se observa, entre outros, no rito Hupa, segundo o qual basta que a viúva, para se libertar, passe entre as pernas de seu marido antes que o carreguem da casa, do contrário permanece ligada a ele para o resto da vida, e toda infidelidade ao morto lhe acarretaria desgraças394. O novo casamento, de viúvos ou de divorciados, é muito mais simples do ponto de vista das cerimônias, e isso por motivos que serão expostos a seguir. Não parece haver ritos da menopausa ou do embranquecimento dos cabelos, que contudo, são marcas da entrada em uma nova fase da vida, muito importante entre os semicivilizados. Com efeito, as velhas ou são identificadas a homens, ou participam então de suas cerimônias, de sua ação política, etc., ou então adquirem na sociedade sexual uma situação especial, principalmente a de diretoras de cerimônias. Quanto aos velhos, são os indivíduos socialmente mais consideráveis. 340. O melhor estudo que conheço sobre o noivado, examinado ao mesmo tempo do ponto de vista ritual e jurídico, é o de CORSO, R. “Gli sponsali popolari”. Rev. des Et. Ethnogr. et Sociol., 1908, nov.-dez.: contudo, não se pode admitir a opinião do autor de que os ritos (beijo, presente, velamento, ramo de flores, cinto, união das mãos, anel, sapatos, troca de pão, de frutos, de vinho, etc., deitarem-se os noivos um ao lado do outro, etc.) tenham apenas um valor simbólico. Ligam materialmente. 341. Cf. CRAWLEY. Mystic Rose, p. 321, 350, etc. S. Hartland viu bem o caráter coletivo dos ritos de agregação. A maioria dos outros teóricos da família deixaram de lado o estudo detalhado e sistemático das cerimônias, sobretudo as do noivado. 342. A atitude geral dos teóricos está bem caracterizada na seguinte frase de CROOKE, W. The Natives of Northern India. Londres, 1907, p. 206: “o casamento implica que as partes estão sob a influência do tabu e os ritos têm por finalidade contrabalançar seus perigos, sobretudo os que impedem a união de ser fecunda”. Observarei que, dado o que foi dito no capítulo I do presente volume, o “tabu” não pode “ser um perigo”, mas, em certo número de casos, é um meio de preservação do perigo. 343. Eis a classificação de THOMAS, N.W. Kinship and marriage in Australia. Cambridge, 1906, p. 104-109: A) Promiscuidade: I, não regulamentada: a) primária, b) secundária; II, regulamentada: a) primária, b) secundária; B) Casamento: III, poligamia, primária ou secundária, simples ou adélfica, unilateral ou bilateral; IV, poliandria; V, poliginia, mesmas divisões, mas sempre unilaterais; VI, monogamia; as três formas do casamento podem ser matrilocais, de retorno e patrilocais; VII, a união livre e VIII, a ligação (com sanção social); todas estas formas podem ser temporárias ou permanentes. Não parece que a forma da família influa sobre a sequência dos ritos de noivado e do casamento. 344. NAZAROV, P. K etnografii Bashkir, Etnografitcheskoe obozriènie, fasc. IV (1890), p. 186-189. 345. Se estudarmos em detalhes o montante do kalym entre os Ural-altaicos e o compararmos ao preço da compra do gado, e se fizermos em seguida o desconto dos presentes e despesas das núpcias, que recaem sobre os parentes da moça, e se finalmente notarmos a quem o kalym pertence legalmente, no total ou em parte, constatamos que os termos “preço de compra” e “dote” são inexatos. O que existe é um sistema de “compensações”, que constitui uma instituição especial e equivale, para um economista, ao sistema do potlatch dos ameríndios, às grandes festas dadas pelos chefes negros, etc. Há uma centralização e uma descentralização alternadas das riquezas, organizadas de maneira a evitar a concentração (no sentido de Marx). 346. RIVERS, H.H. The Toda. Londres, 1906, p. 502-539. 347. Para um outro caso de ritos de casamento que formam um todo orgânico com os ritos da iniciação e os ritos da gravidez, cf. DELHAISE, Ch. Ethnographie Congolaise: chez les Wabemba. Bull. Soc Belge Géogr., 1908, p. 185-207. As sequências correspondem ao esquema geral. Quanto aos casos de “usurpação” [d’enjambement] são muito mais numerosos e sistematizados do que eu acreditava a princípio, a tal ponto que mereceram uma monografia especial, tanto mais quanto este fenômeno, muito importante para a compreensão do funcionamento das sociedades semicivilizadas, não me parece ter sido estudado até agora. 348. EARLE, A. Note on polyandry in Sikkim and Tibet. Census of India, 1901, t. VI, parte I, Apêndice V, p. XXVIII-XXIX. 349. POST. Afrikanische Jurisprudenz. O’denburg e Leipzig, 1887, t. I, p. 324, distingue: A, o rapto contra a vontade da moça: 1º) pela guerra; 2º) por um jovem e seus amigos, na tribo ou fora dela; B, depois de acordo entre os interessados: 1º após a estipulação de que o casamento será realizado em seguida; 2º) após entendimento entre as duas famílias; C, como “jogo de casamento”. Vê-se que os três últimos casos são simplesmente ritos, que os dois primeiros são individuais e esporádicos e que enfim o primeiro fornece escravas, mas não mulheres usufrutuárias dos direitos tribais. WESTERMARCK. Origin of human marriage, 1891, nada acrescenta aos pontos de vista de Post, assim como também não os outros historiadores da família; para documentos sobre os ritos do casamento na África, cf. POST. Ibid., p. 326-398. 350. BURCKHARDT. Voyage en Arabie, t. III, p. 190ss. 351. CRAWLEY, E. The Mystic Rose, p. 333, 354ss., 367ss., etc. 352. Tende a adotar a teoria de Spencer, que a resistência da noiva é uma expressão tornada tradicional pelo pudor; isto vale para casos individuais, mas não explica por que as partes em luta não são sempre as mesmas, nem que esta luta não seja uma instituição tão universal quanto o próprio casamento. 353. GROSSE, E. Die Formen der Familie und die Formen der Wirtschaft. Fribourg-en-Brisgau, 1896, p. 107-108, quer ver nessa cerimônia uma sobrevivência deformada do verdadeiro rapto pela guerra nas populações que se tornaram pacíficas, mas consideram um ponto de honra conservar a fama de bravura! 354. CRAWLEY. Op. cit., p. 351-352, 370, etc. Os ritos de solidariedade sexual são particularmente desenvolvidos no islamismo, onde aliás a separação sexual vale para toda a vida social. Quanto ao norte da África comparem-se as descrições feitas por GUADEFROY-DEMOMBRYNES. Les cérémonies du mariage chez les indigènes de l’Algèrie. Paris, 1901 e Coutumes de mariage en Algérie, Extr. Rev. Trad. Pop., 1907; DOUTTÉ. Merrâkech, passim (bibliografia detalhada para a África do Norte, p. 334), os Archives Marocaines e a Revue Africaine, passim; NARBESHUBER, K. Aus dem Leben der Arabischen Bevölkerüng in Sfax. Leipzig, 1907, p. 11-16 e notas; DESTAING, E. Étude sur le dialecte berbère des Beni-Snous, t. I. Paris, 1907, p. 287-291, ondeestá declarado que o noivo, para entrar no quarto no qual a moça o espera, é obrigado a saltar por cima da mãe desta deitada na soleira (p. 289). Em todas estas cerimônias, frequentemente muito complicadas, encontra-se sempre, oculta pela multiplicidade dos ritos de preservação e de fecundação, a trama constituída pelos ritos de passagem. Por toda a parte há combinação, como nas outras cerimônias norte-africanas, de elementos berberes indígenas com elementos muçulmanos ou estritamente árabes. 355. PALLAS. Voyages dans plusieurs provinces de l’Empire de Russie et dans l’Asie septentrionale, nova ed., Paris, ano II, p. 171-174. 356. THURSTON, E. Ethnographic notes in Southern India. Madras, 1906, p. 8-13. Encontraremos nesse livro, das páginas 1 a 131, uma excelente monografia detalhada das cerimônias do casamento nas diversas tribos da Índia Meridional. 357. Ibid., p. 8. 358. HADDON, A.C. Cambridge anthropological expedition to Torres Straits, t. V (1904), p. 223- 224; cf. ainda p. 224-229 e t. VI (1907), p. 112-119. 359. Cf. esta ideia expressa, ibid., p. 225. 360. Para as “compensações” de ordem econômica, cf. ibid., p. 230-232. 361. PATKANOV, S. Die Irtysch-Ostiaken, t. I. St-Pétersbourg, 1897, p. 141. 362. GAUDEFROY-DEMOMBYNES. Les cérémonies du mariage chez les indigènes de l’Algérie. Paris, 1901, p. 71-76. 363. Cf., para os documentos, as referências e as teorias diferentes da minha: HARTLAND, S. Legend of Perseus, t. I, p. 173ss.; CRAWLEY, E. Mystic Rose, p. 337; CROOKE, W. The lifting of the bride. Folk-Lore, t. XXII (1902), p. 226-244; TRUMBULL. The threshold covenant, p. 140-143. 364. Cf. para os fatos, entre outros, HEPDING, H. Die falsche Braut. Hessische Blätter für Volkskunde, t. V (1906), p. 161-164; THURSTON, E. Ethnogr. Notes in South. India. Madras, 1906, p. 3, 29; notar-se-á que neste caso é o casado que vai habitar na casa de sua mulher e, por isso, é ele o substituído. 365. Cito, como indicação, os tabus da sogra para o genro, do sogro para a nora, etc., onde Tylor queria ver um cutting, um rito de separação (Journ. Anthrop. Inst., t. XVIII (1887), p. 246ss.), mas que Crawley, op. cit., p. 406, inclui na categoria mais vasta dos tabus de solidariedade sexual. 366. Sobre o poder coercitivo do anel nupcial como tema de lenda, cf. SAINTYVES, P. Les saints successeurs des dieux. Paris, 1907, p. 255-257. 367. Em detalhes: juntar as mãos, entrelaçar os dedos, beijar-se, abraçar-se, encostar a cabeça de um em outro, entrelaçar os dedos, beijar-se, abraçar-se, do outro, deitar-se um junto ao outro, etc. 368. A recusa do presente significa que a união proposta não é aceita. No caso de noivado antes do nascimento ou em tenra idade a devolução do presente é sinal da ruptura do acordo. 369. HAHN, F. Einführung in das Gebiet der Kolsmission. Gutersloh, 1907, p. 74-82, 87-88. Os Kol são uma seção dos Munda. 370. CRAWLEY. The Mystic Rose, p. 340-341. O rito de casamento com a árvore, descrito por Dalton, Ethnology of Bengal, p. 194, teria, segundo H.H. Risley, Census of India, 1901, t. I, Ethnographic Appendices, p. 155, caído no esquecimento. Contudo, Hahn parece falar como testemunha ocular. Cf. ainda THURSTON. Op. cit., p. 44-47. 371. HAHN. Op. cit., p. 159. 372. TRUMBULL, C. The threshold covenant, p. 26-29. 373. Toung-Pao, déc. 1905, p. 602-603. 374. Em nota, o tradutor vê nesse rito, naturalmente de modo equivocado, uma sobrevivência do casamento por rapto. 375. IAKOVLEV, G. Religiosnyie obriady Tsheremis (cerimônias religiosas dos Tcheremiss). Kazan, 1887, p. 55-56. 376. SCHEFFER, J. Histoire de la Laponie. Paris, 1678, p. 395 como complemento à p. 275 [Trad. pelo P. Aug. Lubin]. 377. MERKER, M. Rechtsverhältnisse und Sitten der Wadschagga. Peterm. Mitteil. Suppl. n. 138, 1902, p. 4-6. 378. DELAFOSSE, M. “Le peuple Siéna ou Sénoufo”. Rev. des Ét. Ethnogr. et Sociol., 1908, p. 457. 379. BÜTTIKOFER. Reisebilder aus Liberia. Leyde, 1890, t. II, p. 304-308. 380. Isso prova que também aí a cerimônia de iniciação nada tem a ver com a puberdade. 381. BÜTTIKOFER. Op. cit., p. 308-313. 382. Dedicação renovada anualmente das igrejas entre os Suba da região de Bagdá. SIOUFFI, N. Op. cit., p. 120. 383. M. René Basset teve a amabilidade de me comunicar as provas do livro de Biarnay sobre Uargla. Os casamentos fazem-se aí todos os anos na primavera. A série dos ritos segue uma ordem muito clara. A princípio só participam deles os indivíduos interessados e as duas sociedades sexuais. Em seguida os ritos socializam-se cada vez mais, as famílias participam deles, e depois os bairros do oásis e por fim o oásis inteiro. Lamento não poder fazer uma descrição, mesmo resumida, desses ritos que Biarnay recolheu com todos os detalhes, levando em conta as variações de pessoas, localidade, mecanismo mágico-religioso, etc. Cf. BIARNAY. Étude sur le dialecte de Ouargla. Paris, 1909; cf. Ap. p. 379-492. 384. IRLE, J. Die Herero. Gutersloh, 1906, p. 105-109. 385. Cf. BATCHELOR. The Ainu and their folk-lore. Londres, 1901, p. 224-225. 386. Cf., entre outros, JUNGENDRES. Jüdisches Zeremoniell oder Beschreibung, etc. Nuremberg, 1726; fewish Encyclopedia, etc. 387. DESPLAGNES. Le Plateau central nigèrien. Paris, 1903, p. 222. 388. GEORGI, J.G. Russland, Beschreibung aller Nationen des Russischen Reiches, etc. Leipzig, 1783, pet. in-4, t. I, p. 42. 389. CRAWLEY. The Mystic Rose, p. 323. 390. WAKEFIELD, E.S. Marriage customs of the Southern Gallas. Folk-Lore, t. XVIII (1907), p. 323-324. 391. POST. Afrikanische Jurisprudenz, t. I, p. 452. 392. CROOKE, W. The Folk-Lore in the Legends of the Panjab. Folk-Lore, t. X (1899), p. 409-410. Para as fórmulas entre os Suaeli (não quero mais tratar da nudez, etc.), cf. VELTEN. Sitten und Gebräuche der Suaheli. Göttingen, 1903, p. 237-238. A carta de ruptura é igualmente corrente no islamismo, em Marrocos, na Palestina, na Turquia, entre os Suaeli, etc. 393. O seginte rito judeu inclui-se igualmente na categoria dos ritos de passagem: uma viúva que não quer tornar-se mulher do irmão de seu marido falecido (levirato) tira a sandália, cospe no chão e recita uma fórmula determinada (Jewish Encyclopedia, p. 170 ss., verbete Halizat; cf. p. 174, para as interpretações, a maioria inadmissíveis). Trata-se aí, claramente, de um rito de separação da família do marido, rito destinado a assegurar a passagem para a categoria das viúvas livres ou das mulheres novamente casadas. 394. GODDARD, P.E. Life and culture of the Hupa. Calif. Univ. Public, t. I, fasc. 1, Berkeley, 1903, p. 70. CAPÍTULO VIII Os funerais Importância relativa dos ritos de separação, de margem e de agregação nas cerimônias funerárias. – O luto como rito de separação e como rito de margem. – Os funerais em duas etapas; a viagem deste mundo ao outro. – Os obstáculos materiais opostos à passagem dos mortos. – A agregação à sociedade dos mortos. – Topografia do mundo dos mortos. – O renascimento cotidiano do morto no Egito Antigo. – Pluralidade dos mundos dos mortos. – Mortos que não podem agregar-se à sociedade geral dos mortos. – Ritos de renascimento e de reencarnação. – Ritos quando o domicílio do morto é sua casa, seu túmulo ou o cemitério. – Lista dos ritos de separação e de agregação. À primeira vista pareceria que nas cerimônias funerárias são os ritos de separação que devem ter o lugar mais importante, sendo os ritos de margem e de agregação, ao contrário, pouco desenvolvidos. Entretanto, o estudo dos fatos mostra que as coisas são diferentes e que, ao contrário, os ritos de separação são pouco numerosos e muito simples, e que os ritos de margem têm uma duração e complexidade que chega às vezes a lhes dar uma espécie de autonomia. Finalmente, de todos os ritos funerários aqueles que agregam o morto ao mundo dos mortos são os mais elaborados e a eles é que se atribui a maior importância. Ainda aqui deverei contentar-me com algumas indicações rápidas. Todo mundo sabe que nada varia tanto com os povos, a idade, o sexo, a posição social do indivíduo quanto os ritos funerários. Entretanto, é possível descobrirna extraordinária multiplicidade das variações de detalhe traços dominantes, alguns dos quais serão reunidos aqui em categorias. Além disso, os ritos funerários complicam-se pelo fato de um mesmo povo ter várias concepções contraditórias ou diferentes sobre o mundo de além-túmulo. Essas concepções misturam-se entre si, o que tem repercussão sobre os ritos. O homem é considerado formado de vários elementos cujo destino não é o mesmo depois da morte. Estes elementos são: corpo, força vital, alma-sopro, alma-sombra, alma-polegar, alma-animal, alma-sangue, alma-cabeça, etc. Algumas dessas almas sobrevivem, para sempre ou por certo tempo, outras morrem, etc. No que se segue farei abstração de todas essas variações, lembrando que só têm influência sobre a complexidade formal dos ritos de passagem e não sobre a estrutura interna desses ritos. O luto, no qual outrora395 eu não tinha visto senão um conjunto de tabus e práticas negativas que marcavam o isolamento em relação à sociedade geral daqueles que a morte, considerada como qualidade real, material, tinha posto em um estado sagrado, impuro, aparece-me agora como um fenômeno mais complexo. Na realidade, é um estado de margem para os sobreviventes, no qual entram mediante ritos de separação e do qual saem por ritos de reintegração na sociedade geral (ritos de suspensão do luto). Em alguns casos este período de margem dos vivos é a contrapartida do período de margem do morto. A terminação do primeiro coincide às vezes396 com a terminação do segundo, isto é, com a agregação do morto ao mundo dos mortos. Assim é que entre os Habé do Platô nigeriano “o período de viuvez corresponde, segundo se diz, à duração da viagem da alma errante do defunto até o momento de sua entrada no conjunto dos espíritos divinos ancestrais ou de sua reencarnação”397. Durante o luto os vivos e o morto constituem uma sociedade especial, situada entre o mundo dos vivos, de um lado, e o mundo dos mortos, de outro, da qual os vivos saem mais ou menos rapidamente conforme fossem mais estreitamente aparentados ao morto. Por isso, as estipulações do luto dependem de grau de parentesco e são sistematizadas de acordo com o modo especial como cada povo determina este parentesco (paterno, materno, de grupo, etc.). É como deve ser, para o viúvo ou a viúva que pertencem durante maior tempo a este mundo especial, do qual só saem mediante ritos apropriados, e num momento tal que mesmo a relação física (pela gravidez, por exemplo) não possa mais ser suspeitada. Os ritos de suspensão de todas as proibições e de todas as regras (vestuário especial, etc.) do luto devem, portanto, ser considerados como ritos de reintegração na vida social, restrita ou geral, de mesma natureza que os ritos de reintegração do noviço. Durante o luto a vida social fica suspensa para todos quantos são atingidos por ele e por um tempo tanto maior: 1º) quanto o vínculo social com o morto é mais estreito (viúvos, parentes); 2º) quanto mais elevada era a situação social do morto. Se este era um chefe a suspensão atinge a sociedade inteira. Daí os “períodos de permissão” consecutivos à morte de alguns régulos africanos, os lutos públicos, as licenças, etc. Vemos na China necessidades políticas, econômicas e administrativas novas tenderem a suprimir os efeitos coletivos consideráveis da morte do imperador e da imperatriz regente. Outrora, a vida social ficava absolutamente suspensa na China nessas ocasiões, mesmo em suas formas domésticas, durante longos meses, suspensão que seria simplesmente um cataclisma. O período de margem nos ritos funerários caracteriza-se em primeiro lugar materialmente pela estadia mais ou menos longa do cadáver ou do caixão na câmara mortuária (velório), no vestíbulo da casa, etc. Mas esta é apenas uma forma atenuada de uma série inteira de ritos, cuja importância e universalidade já tinham sido assinaladas por Lafitau. “Na maioria das nações selvagens os corpos mortos acham-se apenas como depositados na sepultura onde foram colocados em primeiro lugar. Depois de certo tempo são feitas novas exéquias e termina-se de cumprir o que lhes é devido mediante novos deveres funerários”398. O autor descreve em seguida os ritos dos Karibe. “Estão persuadidos [que os mortos] não vão para o país das almas antes de estarem sem carne”. A existência de um período de margem tinha igualmente interessado Mikhailovski399. O rito principal consiste ou em retirar a carne ou em esperar que caia por si mesma. É nessa ideia que se fundam, por exemplo, as cerimônias dos Betsileo de Madagascar, que possuem uma primeira série de ritos (de espera) até que o cadáver se decomponha em sua casa (ativa-se a putrefação com auxílio de um grande fogo), seguida de uma série de ritos de sepultamento do esqueleto400. Além disso, a etapa decompõe-se às vezes em várias outras, e no período pós-liminar este fenômeno é sistematizado em forma de comemorações (oito dias, quinze dias, um mês, quarenta dias, um ano, etc.) da mesma ordem que os ritos do retorno de núpcias, do retorno do nascimento, às vezes do retorno da iniciação. Uma vez que as etapas dos funerais na Indonésia foram estudadas de perto401, citarei casos colhidos em outras regiões. As cerimônias dos Toda têm o mesmo caráter, a saber, incineração, conservação das relíquias e ritos de margem muito complicados. Em seguida, incineração das relíquias e enterramento das cinzas, com plantação de um círculo de pedras em pé. O rito todo dura vários meses. Os mortos vão para o Amnodr, país subterrâneo, onde são chamados amatol. O caminho para esse país não é o mesmo para todos os clãs, sendo semeado de obstáculos. Os “maus” caem de um fio que serve de ponte em um rio, nos bordos do qual vivem algum tempo, misturados com indivíduos de todas as espécies de tribos. Os búfalos vão também para o Amnodr. Os amatol caminham aí muito, e quando gastaram as pernas até o joelho voltam à terra402. Entre os Ostiake de Obdorsk403 retira- se da casa tudo quanto nela se encontra, exceto os utensílios do morto. Este é vestido e colocado em uma canoa cortada. Um xamã pergunta-lhe por que razão morreu. Conduzem-no ao lugar da sepultura de seu clã, deposita-se a canoa na terra gelada com os pés para o lado do norte e em redor coloca-se tudo de que o morto terá necessidade em outro mundo. Faz-se no local uma refeição de despedida, julgando-se que o morto dela participa, e as pessoas vão-se embora. As mulheres aparentadas fazem uma boneca semelhante ao morto, vestem, lavam e alimentam a boneca cada dia durante dois anos e meio se o falecido era um homem, dois anos se era uma mulher404, e em seguida leva-se a boneca para colocá-la em cima do túmulo. Mas o luto por um homem dura cinco meses, por uma mulher quatro meses. Ora, os mortos partem por um caminho longo e tortuoso para o norte, onde se encontra o país dos mortos. É um local sombrio e frio405, parecendo que a duração da viagem coincide com a da conservação da boneca. Há, por conseguinte, ritos preliminares, margem e funerais definitivos quando o morto chegou a seu domicílio definitivo. Os Ostiake setentrionais colocam este país dos mortos além da embocadura do Ob, no Oceano Glacial406, onde só é iluminado pela luz da lua. Não longe deste mundo há três caminhos divergentes, os quais conduzem a três entradas, uma para os assassinados, os afogados, os suicidas, etc., outra para os demais pecadores e a terceira para os que viveram uma vida normal. Para os Ostiake do Irtisch o outro mundo estava no céu, sendo um país delicioso ao qual se vai por escadas de cem a trezentos metros cada uma ou subindo ao longo de uma corrente, e por onde os deuses, os ursos sagrados, talvez totens407, e os mortos retornam às vezes à terra, tudo isso de acordo com as velhas lendas épicas408. Em resumo, parece-me que deve haver uma relação entre a duração da conservação das bonecas e a duração atribuída à viagem para o outro mundo. As cerimônias fúnebres dos Kol da Índia409 fornecem bom exemplo de combinação de ritos profiláticos conhecidos com ritos de passagem.Eis a sequência deles: 1º) logo após a morte deposita-se o cadáver no chão, “a fim de que a alma encontre mais facilmente o caminho da morada dos mortos”, situada embaixo da terra; 2º) o cadáver é lavado e pintado de amarelo, de maneira a expulsar os demônios que fariam parar a alma durante sua viagem; 3º) também com a mesma finalidade os parentes e vizinhos reunidos soltam urros lamentosos; 4º) coloca-se o cadáver numa eça, com os pés para diante, a fim de que a alma não encontre o caminho da cabana, e com o mesmo objetivo seguem-se percursos sinuosos; 5º) o cortejo não pode compreender nem crianças nem moças. As mulheres gritam, os homens calam-se; 6º) cada um destes leva um pedaço de madeira seca que jogará na fogueira; 7º) coloca-se aí arroz, utensílios, conforme o sexo, e na boca do morto pães de arroz e moedas para sua viagem, uma vez que a alma conserva uma “sombra de corpo”; 8º) as mulheres vão-se embora e põe-se fogo à pira410, queimando a padiola para impedir o regresso do morto; 9º) os homens recolhem os ossos calcinados, colocam-nos em um pote, que trazem para a casa do morto onde é suspenso a um poste; 10º) semeiam-se grãos de arroz no caminho e colocam-se alimentos diante da porta para que o morto, caso volte apesar de todas as precauções, tenha o que comer sem fazer mal a ninguém; 11º) levam-se para longe todos os utensílios, que se tornaram impuros, supondo- se que o morto neles se tenha escondido; 12º) purifica-se a casa mediante uma refeição consagrada; 13º) ao fim de certo tempo vem a cerimônia das “núpcias” ou da “união” do morto com a população do mundo inferior”. Cantam-se cânticos do casamento, dança-se e a mulher que leva o pote dá pulos de alegria; 14º) vai em cortejo matrimonial, com música, etc., até perto da aldeia de onde o morto e seus antepassados são originários; 15º) deposita- se o pote em um pequeno fosso, em cima do qual coloca-se uma pedra em pé; 16º) na volta todos os participantes devem tomar um banho, mas todos os mutilados, mortos por um tigre ou por acidente, etc., continuam maus espíritos e não podem ir para o país dos mortos. Este país é a morada dos antepassados e só os indivíduos que foram casados411 vão para ele. Voltam de vez em quando à terra, e quando lhes agrada reencarnam-se nos recém- nascidos, sobretudo os avós e bisavós412. Não podemos descrever comparadamente os mundos de além-túmulo413. A ideia mais difundida é que este mundo é análogo ao nosso, porém mais agradável, e que a sociedade nele acha-se organizada como na terra, de maneira que cada indivíduo retoma sua categoria, no clã, na classe de idade, na profissão, etc., que tinha neste mundo. Portanto, é lógico que as crianças ainda não agregadas à sociedade viva não possam ser categorizadas no outro. Assim, as crianças mortas antes do batismo católico permanecem eternamente em seu período de margem, o limbo. Da mesma maneira, o cadáver de um pequeno semicivilizado, que ainda não recebeu nome ou não foi circunciso, etc., é enterrado sem as cerimônias ordinárias ou jogado fora, ou queimado, sobretudo se a população considerada pensa que ainda não tinha alma. A viagem para o outro mundo e a entrada admitem uma série de ritos de passagem, cujos detalhes dependem da distância e da topografia deste mundo. Assinalarei primeiramente as Ilhas dos Mortos (Egito414, Assíria- Babilônia415, Hades do Canto XI, da Odisseia, gregos de diversas épocas ou regiões416, celtas417, polinésios418, australianos419, etc.). Daí, sem dúvida, a prática de dar ao morto sua canoa ou uma canoa em miniatura e remos. Outras populações consideram o outro mundo como uma cidadela cercada de muros, e tal é o Scheol420 dos hebreus, munido de portas com ferrolho, o Aralu dos babilônios421, ou como uma região com compartimentos (o Duat dos egípcios), ou situada em uma alta montanha (Daiake, etc.), ou no interior de uma montanha (Índia védica, etc.). O que nos importa aqui é que o morto, tendo de realizar uma viagem422, os sobreviventes tomam o cuidado de muni- lo de todos os objetos necessários, materiais (roupas, alimentos, armas, utensílios) ou mágico-religiosos (amuletos, signos e senhas, etc.), que lhe garantirão, como se fosse um viajante vivo, uma marcha ou travessia e depois um acolhimento favorável. Por isso, nota-se que estes ritos identificam-se por certos detalhes com os ritos de que falamos no capítulo III do presente volume. Assim é que os lapões tomavam cuidado de manter uma rena sobre o túmulo, para que o morto pudesse realizar montado nela, antes de chegar à sua moradia definitiva, sua penosa viagem, que, segundo alguns, durava três semanas, segundo outros, três anos423. Fatos análogos poderiam ser citados em grande número. A passagem caracteriza-se, entre outras coisas, pelo rito do “óbolo a Caronte”424. Foi encontrado na França, onde se dava ao morto a maior moeda possuída, “a fim de ser melhor recebido no outro mundo”425. Subsiste na Grécia moderna. Entre os eslavos o dinheiro destina-se a pagar as despesas da viagem, mas entre os budistas japoneses é dado à velha que faz atravessar o Sandzu. Os Badaga empregam o dinheiro para a passagem por cima da corda dos mortos. Os muçulmanos não podem atravessar a ponte formada por um sabre afiado a não ser que sejam puros ou “bons”. No Avesta os cães vigiam a ponte Cinvat, assim como no Rig-Veda os cães de Yama, malhados, com quatro olhos guardam os caminhos que conduzem a uma das moradias de além-túmulo dos antigos hindus, uma espécie de caverna, recinto coberto e fechado, no qual se penetra passando por um sombrio subterrâneo426. Às vezes, há potências especiais (magos, demônios, divindades) encarregadas de mostrar o caminho aos mortos ou de conduzi-los por grupos (psicopompas). Este papel de Íris ou de Hermes Mercúrio é bem conhecido. Entre os Musquaki (Raposa ou Utagami) este condutor do morto às Pradarias de além-túmulo é mesmo representado, por ocasião da suspensão do luto, por um jovem guerreiro que toma o nome do morto, galopa algumas milhas, dá a volta e retorna, guardando daí em diante este nome e considerando-se filho adotivo dos parentes do morto427. Finalmente, os Luisênio da Califórnia têm uma cerimônia dramática que, por sua ação direta, 1º) afasta os espíritos dos mortos da terra; 2º) “prende- os”, fixa-os, como se fosse por meio de um laço material, aos quatro cantos do céu e mais especialmente à Via Láctea428. Falarei agora com bastantes detalhes das ideias que os Haida têm sobre o outro mundo429 por causa dos conhecidos motivos que nelas se encontram combinados. O caminho que conduz a este país atinge a margem de uma espécie de baía, do outro lado da qual está situado o país das almas. Uma alma envia ao morto uma jangada que se move sozinha. Chegado ao outro bordo, o morto põe-se à procura de sua mulher, o que demora muito, pois as aldeias são dispersas como as dos Haida e cada morto só tem uma mulher que lhe é designada. Ao morrer o homem indica qual a aldeia em que deseja viver, sendo despachados mensageiros que o guiam em sua viagem. Cada oferenda ao morto multiplica-se para seu uso e os cânticos fúnebres fazem o morto entrar em sua aldeia de cabeça levantada. Os mortos enviam riquezas a seus parentes terrestres pobres. No país das almas executam-se danças sagradas e há divertimentos. Para lá desse país habita um chefe chamado Grande Nuvem Móvel, de quem depende a abundância do salmão. Ao fim de certo tempo o morto aparelha uma canoa, reúne seus bens e, no meio das lamentações de seus companheiros, parte para o país chamado Xada. Esta é sua segunda morte. Depois passa por uma terceira e uma quarta morte, e na quinta retorna à terra como mosca azul. Outros pensam que as quatro mortes só ocorrem depois de vários renascimentos humanos. Finalmente, há países diferentes para os afogados, os falecidos de morte violenta, os xamãs, etc. Eis agora os ritos fúnebres no caso de um morto comum430. Pinta-se o rosto do morto, coloca-se uma cobertura sagrada em sua cabeça, sendo então sentado no caixão, onde permanece de quatro a seis dias. Cantam-secantos mágicos especiais. Os “cantos” são pronunciados primeiramente pelos membros do clã e depois pelos do clã oposto. Joga-se em um “fogo de lamentação” toda espécie de víveres e de bebidas e tabaco em folhas que o morto levará, multiplicados, para o outro mundo. Os parentes tomam os sinais do luto (raspam a cabeça e mancham o rosto com piche). Retira-se o caixão por um buraco na parede, sendo colocado na “casa funerária”, onde só podem ser depositados os que pertencem ao mesmo clã. Durante dez dias a viúva jejua, utiliza uma pedra como travesseiro e banha-se todos os dias, mas não lava o rosto, etc. Em seguida reúne crianças do clã oposto e lhes oferece uma refeição “para poder se casar” (os Haida são exógamos). Um outro informante disse a Swanton que os ritos do luto “assemelham-se muito aos das moças por ocasião da puberdade”. Em suma, os ritos, tendo por objeto reunir o cadáver aos dos membros de seu clã e muni-lo do que é necessário para a viagem e estadia no além-túmulo, são ao mesmo tempo profiláticos animistas (abertura na parede da casa, o caixão, a cova, etc., impedem o retorno) e profiláticos de contágio (luto, banhos, etc.). Os ritos funerários do Egito Antigo fornecem um bom exemplo de um sistema de ritos de passagem tendo por finalidade a agregação ao mundo dos mortos. Só examinarei aqui o ritual osiriano431. A ideia fundamental é a identidade de Osíris e do morto, por um lado, do sol e do morto, por outro. Creio que devia haver a princípio dois rituais distintos que se uniram no tema da morte e do renascimento. Sendo Osíris, o morto é desmembrado e depois reconstituído. Morre e renasce no mundo dos mortos, de onde uma série de ritos de ressurreição. Enquanto Ra-Sol, o morto morre cada dia. Chegada ao limite do Hades, sua múmia é jogada em um canto e abandonada, mas a série de ritos pelos quais passa na barca do sol durante a noite ressuscita-o, e pouco a pouco de manhã torna-se de novo vivo, pronto a recomeçar a viagem cotidiana na luz, acima do mundo dos vivos. Estes múltiplos renascimentos do ritual solar combinaram-se com a reconstituição única, na primeira chegada do morto no Hades, do ritual osiriano, de tal sorte que esta reconstituição acabou operando-se todos os dias. Este fenômeno de convergência correspondia, aliás, à ideia geral segundo a qual o sagrado, o divino, o mágico, o puro perdem-se quando não são renovados mediante ritos periódicos. Eis aqui agora o esquema sincretista de acordo com o Livro do que existe no Hades e o Livro das portas432. Segundo as épocas e os lugares o Duat (Hades) foi diversamente representado. À força de remendos e combinações os padres tebanos chegaram a elaborar um plano completo dele. É considerado “como um imenso templo, muito comprido, dividido em certo número de quartos separados por portas, tendo em cada extremidade um pátio exterior e um pilono ligado simultaneamente ao mundo interior e ao mundo exterior”433. Na primeira hora da noite, o sol já morto manda abrir as portas guardadas por cinocéfalos e gênios, depois de ter acolhido em sua barca as almas “puras”, isto é, enterradas segundo os ritos e munidas dos talismãs necessários. Os outros mortos vegetarão eternamente no vestíbulo434. Segundo o Livro das portas, as portas, idênticas às das fortalezas, são guardadas na entrada e na saída por um deus mumiforme, no ângulo por dois ureus que lançam chamas e por nove deuses-múmias. A passagem era obtida por um exorcismo435. Em seguida a viagem começava de acordo com o Guia do viajante no outro mundo436. Quanto aos detalhes, remeto o leitor aos trabalhos citados e observo que cada compartimento era separado do precedente e do seguinte por portas que deviam ser abertas ritualmente. Ignora-se o nome das três primeiras e da última. Os nomes da quarta e das seguintes eram: “A que esconde corredores”, “O pilar dos deuses”, “A guarnecida de espadas”, “O portal de Osíris”, “A que se mantém de pé, imóvel(?)”, A guardiã da inundação”, “A grande dos seres, a geradora das formas”, “A que contém os deuses do Hades”. Na saída havia igualmente um vestíbulo. A estas “aberturas de portas” correspondia no ritual do culto diário a abertura das portas do naos: 1º) quebrava-se o fecho; 2º) retirava-se a terra que servia de selo; 3º) corriam-se os ferrolhos437. Vinha em seguida o desmembramento e a reconstituição de deus, rito que fazia parte igualmente dos ritos funerários (abertura da boca438, etc.). A segunda abertura dos naos confirmava a primeira. Preparava-se o deus por meio da água e do incenso, vestiam-no com faixas sagradas, ungiam-no de pintura vermelha para o rosto e de óleos perfumados. Finalmente, levava-se a estátua para o naos, instalando-a na areia. Do mesmo modo, que a múmia e a estátua do morto no ritual fúnebre, fechava-se ritualmente o naos como rito principal de saída do santuário439. Ora, a finalidade do culto divino consistia em ressuscitar diariamente o sol Ra-Osíris, finalidade que era também a dos ritos funerários, os quais: 1º) ressuscitavam o morto tornando-o deus mediante a mumificação e os diversos ritos; 2º) impediam, graças à reconstituição e ao renascimento noturno, a morte verdadeira e definitiva440. Daí o paralelismo441 dos ritos funerários, do culto diário, da inauguração do templo e do ritual da entronização. Este paralelismo é sem dúvida o caso extremo e mais sistematizado que conheço da representação dramática do tema da morte e do renascimento pela morte e renascimento simultaneamente do Sol-Ra, de Osíris, de Horus, do rei, do padre e de cada morto “puro”. Enfim, acrescentarei que o nascimento para a vida terrestre constituía por si mesmo um renascimento442. Todos estes ritos impediam o morto de morrer novamente cada dia, fato que muitos povos consideravam possível e que se combina às vezes com a ideia de que em cada vez o morto passa de uma morada para outra, conforme vimos com relação aos Haida. Da mesma maneira, os Tcheremiss acreditam ou que o morto pode morrer ou (Tcheremiss de Viatka) que o homem pode morrer sete vezes passando de um mundo a outro, sendo finalmente transformado em peixe443. Os ritos Tcheremiss consistem em alimentar o morto a princípio com frequência, depois periodicamente, por “comemorações”. Assim é que se explicam ainda, em parte, os ritos alimentares e suntuários dos Vogul e dos Ostiake, alguns dos quais acreditam que a alma do morto vive por algum tempo no mundo submarino ou celeste444. Depois diminui pouco a pouco até chegar ao tamanho de determinado pequeno inseto ou se transforma nesse inseto, e em seguida desaparece inteiramente445. A doutrina dos mundos superpostos é aliás espalhada na Ásia e existia no mitraísmo (os sete mundos planetários, com sucessivas iniciações). Os indivíduos para os quais não foram executados os ritos fúnebres, assim como as crianças não batizadas ou que não receberam nome, ou não foram iniciadas, são destinados a uma existência lamentável, sem poder jamais penetrar no mundo dos mortos nem se agregarem à sociedade aí constituída. São os mortos mais perigosos, porque desejariam reagregar-se ao mundo dos vivos, mas não podendo fazê-lo conduzem-se como estrangeiros hostis. Não dispõem dos meios de subsistência que os outros mortos encontram em seu mundo, e por conseguinte devem procurá-los à custa dos vivos. Além disso, estes mortos sem lar nem lugar sentem frequentemente um amargo desejo de vingança. Deste modo, os ritos dos funerais são ao mesmo tempo ritos utilitários de grande alcance, que ajudam a livrar os sobreviventes de inimigos eternos. A classe de mortos referida é diversamente recrutada conforme os diferentes povos. Além dos indivíduos citados nela figuram os que não têm família, os suicidas, os mortos em viagem, por um raio, pela violação de um tabu, etc. Isto em teoria geral, porque o mesmo ato não acarreta as mesmas consequências em todos os povos. Faço observar de novo que não pretendo dar universalidade e necessidade absolutas ao esquema dos ritos de passagem. Citarei a este propósito as variações do destino dos suicidas no além-túmulo. R. Lasch446 encontrou quatro categorias, a saber: 1º) o suicídio é considerado como um ato normal e o destino do suicida é o mesmo que o dos mortos comuns. Ainda mais, o suicídio em caso de doença grave, de mutilação, etc., é um meio para que a alma se conserve em bom estado e não seja enfraquecida nem mutilada; 2º) o suicídio é recompensado no outro mundo (suicídio do guerreiro, da viúva, etc.); 3º) o suicida não pode se juntar aos outros mortos e deve errar entre o mundo dos mortos e o dos vivos; 4º) o suicídio é punido no outro mundo e o suicida deve errar entre dois mundos até que tenha passado o tempo que teria vivido normalmente. Ou então só é admtido em uma região inferior do mundo dos mortos, ou finalmente é punido com suplícios, etc. (inferno). Não é preciso dizer que conforme o suicida se inclua em uma ou em outra destas quatro categorias os ritos funerários são diferentes, tanto os ritos profiláticos e purificadores quanto os ritos de passagem. Estes encontram-se ainda nos ritos de ressurreição e de reencarnação. Com efeito, mesmo se a alma foi separada dos vivos e agregada ao mundo dos mortos pode caminhar em seguida em sentido inverso e reaparecer entre nós, seja por si mesma seja sob a ação coercitiva de outrem. O mecanismo às vezes é muito simples, bastando que a alma se reencarne em uma mulher e reapareça em forma de criança. Tal é, entre outros, o caso, segundo a crença dos Arunta da Austrália, os quais pensam que as almas ficam de emboscada nas pedras, nas árvores, etc., e daí se lançam nas mulheres jovens, gordas e apetitosas. Os ritos de reintegração ao mundo dos vivos são então os que foram estudados a propósito do nascimento e da doação do nome. As cerimônias dos Luchei do Assam447 fornecem um bom exemplo deste “retorno eterno”. O morto é revestido com suas melhores vestes e amarrado em posição sentada numa armação de bambu. Colocam-se ao lado dele os utensílios e armas de seu sexo. Matam-se um porco, uma cabra e um cachorro, e todos os parentes, amigos e vizinhos participam da carne desses animais, dando-se também de beber e de comer ao morto. Depois, chegada a noite, o morto é colocado em um fosso cavado ao lado da casa, seu parente mais próximo diz-lhe adeus e pede-lhe que prepare tudo para os que irão juntar-se a ele. Com efeito, a alma, acompanhada das almas do porco, da cabra e do cachorro, sem as quais não encontraria o caminho, vai, vestida e equipada, para o país de Mi-thi-hua, onde a vida é dura e penosa. Mas se o morto matou animais na caça ou homens, ou se deu festas para toda a aldeia vai para um país agradável, do outro lado de um rio, onde faz uma festança contínua. As mulheres como não podem nem combater, nem caçar, nem dar festas, só podem ir para este belo país se seus maridos as levarem. Ao fim de certo tempo a alma abandona uma ou outra dessas regiões e volta à terra em forma de um zangão. Depois de novo lapso de tempo transforma-se em água e em seguida evapora-se em forma de orvalho. Se uma gota de orvalho cai em um homem, este fará um filho que será o morto reencarnado448. Quando a criança nasceu matam-se dois frangos; em seguida a mãe lava-se e lava o filho. A alma da criança passa os sete primeiros dias empoleirada, como se fosse um pássaro, nas roupas ou no corpo de seus pais. Por esse motivo, esses permanecem o mais tempo possível sem se mexer e apazigua-se o deus doméstico por meio de sacrifícios. Praticam-se em seguida todo gênero de cerimônia, durante as quais o parente materno mais próximo dá um nome à criança, isto é, agrega-o definitivamente ao clã. Finalmente, lembro que às vezes as almas dos mortos reencarnam-se diretamente em animais, vegetais, etc., principalmente nos totens. Neste caso há ritos de agregação do morto à espécie totêmica. Nem sempre existe um lugar do além-túmulo destinado especialmente aos mortos, ou pelo menos frequentemente acontece que seus domicílios sejam as vizinhanças da casa, o túmulo (chamado a “Isba do morto” pelos Votiak), ou o cemitério (chamado a “Aldeia dos mortos” pelos Mandane). Neste caso, o enterramento é o verdadeiro rito de agregação ao mundo geral dos mortos. Isto é muito claro entre os Tcheremiss que, por outro lado, também acreditam, talvez por influência muçulmana dos tártaros, em outro mundo449, análogo ao céu dos Ostiake e onde se vai quer por uma vara comprida que forma uma ponte em cima de uma caldeira, quer por uma escada. Assim também os mortos mordvinos têm como domicílio o túmulo ou o cemitério450. O vínculo com os vivos, por conseguinte o período de margem, dura então mais tempo, pois os vivos renovam periodicamente este laço, conforme dissemos, mediante refeições em comum ou visitas quer alimentando o morto (buraco na terra e no ataúde, caniço, vitualhas depositadas no túmulo, etc.). Mas chega sempre um momento em que este vínculo se rompe, depois de se ter relaxado pouco a pouco. Neste caso é a última comemoração ou a última visita, etc., que contém os ritos de separação com relação ao morto e de reconsolidação da sociedade, restrita ou ampla, dos vivos. Eis agora uma lista de ritos de passagem considerados isoladamente, lista que, como as outras dadas neste volume, não tem qualquer pretensão de ser completa. Entre os ritos de separação, alguns dos quais já foram passados em revista, convém incluir: os diversos procedimentos de transporte do cadáver para fora, a queima dos utensílios, da casa, das joias, das riquezas do morto, a morte das mulheres, de seus escravos, de seus animais favoritos, as lavagens, unções e em geral os ritos chamados de purificação, os tabus de toda espécie. Além disso, existem procedimentos materiais de separação, a saber, fosso, caixão, cemitério, grade, colocação nas árvores, montes de pedra, etc., os quais são construídos ou utilizados ritualmente, terminando frequentemente o fechamento do caixão ou da tumba o rito inteiro, de maneira particularmente solene. Como ritos coletivos há as cerimônias periódicas de expulsão das almas para fora da casa, da aldeia, do território da tribo. Ao “rapto” da noiva correspondem as lutas pelo cadáver, tão difundidas na África, cujo verdadeiro sentido não parece ter sido até agora compreendido, e consiste em que os vivos unicamente forçados admitem perder um de seus membros, porque há nisso uma diminuição do poderio social. Por isso estas lutas são tanto mais violentas quanto a posição do morto na sociedade era mais elevada451. Quanto à destruição do cadáver (incineração, putrefação apressada, etc.), tem por objeto a desagregação dos componentes, corpo e almas diversas. Só muito raramente os restos (ossos, cinzas) constituem o novo corpo do morto na outra vida, seja qual for a opinião de Hertz452. Como ritos de agregação citarei em primeiro lugar as refeições consecutivas aos funerais e os banquetes das festas comemorativas, refeições que têm por finalidade ligar novamente entre todos os membros de um grupo sobrevivente, e às vezes com o defunto, a corrente que foi quebrada pelo desaparecimento de um dos elos. Às vezes um festim desta ordem realiza-se também por ocasião da suspensão do luto. Quando os funerais são feitos em duas etapas (provisórias e definitivas), em geral no fim da primeira há uma refeição de comunhão dos parentes, à qual se julga que o morto assiste. Finalmente se a tribo, o clã ou a aldeia estão em questão, o modo de convocação (tambor, arauto, mensageiro, etc.) marca ainda mais o caráter ritual coletivo do banquete, ao qual se convocam os membros dos grupos interessados. Quanto aos ritos de agregação ao outro mundo, são equivalentes aos da hospitalidade, da agregação ao clã, da adoção, etc. A eles se faz frequentemente alusão nas lendas que têm por tema central a descida ao inferno e uma viagem ao país dos mortos, e isto em forma de tabus, a saber, não se deve comer com os mortos nem beber ou comer qualquer coisa produzida no país deles, nem deixar que nos toquem ou nos beijem, nem aceitar presentes deles, etc. Por outro lado, beber com um morto agrega a este e aos outros mortos, epor conseguinte permite viajar entre eles sem perigo, do mesmo modo que pagar o pedágio (dinheiro, etc.). Entre os ritos de detalhe citarei a pancada com uma maça na cabeça, dada pelos mortos ao recém-chegado453, a extrema-unção cristã, a deposição do morto no chão. Finalmente, é talvez nesta categoria que devem ser classificadas as “danças dos mortos” executadas por certos ameríndios, pelos Anianja454 da África, etc., pelos membros das sociedades secretas ou de outras sociedades mágico- religiosas especiais. 395. Tabou et Tot. à Mad., p. 40, 58-77, 88, 100-103, 338-339, 342. 396. É o que Wilken já tinha visto com relação à Indonésia (Ueber das Haaropfer, etc., Revue coloniale internationale, 1886, t. II, e 1887, t. I; cf. p. 254), seguido por R. Hertz, que generaliza, op. cit., p. 82-83, 101, 105, 120, etc. Na realidade, a duração do luto depende na maioria das vezes, como está dito adiante, de dois outros fatores. 397. DESPLAGNES. Le Plateau central nigèrien. Paris, 1907, p. 221; sobre as crenças relativas ao outro mundo, cf. ibid., p. 262-268. 398. LAFITAU. Moeurs des Sauvages amériquains comparées aux moeurs des premiers temps. Paris, 1724, t. II, p. 444. 399. MILCHAÏLOWSKI, N.M. Shamanstvo, fasc. I, Moscou, 1892, p. 13. 400. Cf. as referências no meu Tabou et Totémisme à Madagáscar, cap. VI e p. 277-278. 401. Cf. HERTZ. Contribution à l’étude d’une reprèsentation collective de la mort. Année sociologique, t. X (1907), p. 50-66; encontra-se uma coleção de detalhadas descrições do mundo de além-túmulo, das viagens que conduzem a ele, etc., em KRUIJT, A.C. Het Animisme in den Indischen Archipel. La Haye, 1906, p. 323-385, obra aliás fundada sobre as teorias e pontos de vista de Tylor, Wilken e Letourneau. 402. RIVERS, H. The Toda. Londres, 1906, p. 336-404; para a descrição dos ritos cf. ainda THURSTON, E. Ethnographic notes in Southern India. Madras, 1906, p. 145-146; 172-184. 403. Conservo este nome, dado pelo informador, embora estes Ostiake de Obdorsk sejam uma mistura de verdadeiros Ostiake e de Samoieda. Cf. VAN GENNEP, A. Origine et fortune du nom de peuple “Ostiak”. Keleti Szemle, 1902, p. 13-22. 404. GONDATTI. Sliédy iazytchestvra u inorodtsev Sièvero-Zapdnoi Sibirii (Traços de paganismo entre os indígenas do noroeste da Ásia), Moscou, 1888, p. 43, diz seis meses. Se o morto era um homem a viúva deita-o ao lado dela. Entre os Ostiake do Irtisch, segundo PATKANOV. Die Irtysch- Ostiaken. St. Pétersbourg, 1897, p. 146, a boneca é substituída atualmente pelo travesseiro e a roupa interior do defunto. 405. BARTENEV. Pogrebalnyia obytchai Obdorskikh Ostiakov (os ritos funerários dos Ostiake do Obdorsk), Shivaia Starina, t. V (1905), p. 487-492; GONDATTI. Op. cit., p. 44. 406. Não compreendo por que Gondatti, seguido por Patkanov, op. cit., p. 146, diz em seguida, a respeito desse mundo, que é “subterrâneo” quando é submarino. Está fora de dúvida que houve aliás nas crenças dos Vogule e dos Ostiake sobre este ponto uma infiltração cristã (diabo, inferno, suplícios). 407. Cf. meu resumo na Rev. de l’Hist. des Rel., 1899, t. XL, da memória de N. Kharouzine sobre Le serment par l’ours et le culte de l’ours chez les Ostiak et les Vogoul. 408. PATKANOV. Op. cit., p. 146. 409. Cf. HAHN, F. Gebiet der Kolsmission, p. 82-88. 410. Se chove demasiado sepulta-se o cadáver de acordo com determinados ritos, sendo desenterrado depois da colheita e queimado. Neste caso a cerimônia tem três etapas. 411. Cf. acima, p. 119. 412. Citei também este documento porque fornece uma prova do que foi dito acima a propósito do rito de colocar no chão os recém-nascidos (como fazem também os Kol; cf. HAHN. Op. cit., p. 72) e os cadáveres, rito do qual Dieterich. Mutter Erde, p. 25-29, encontrou paralelos, que explica como sendo “um retorno ao seio da Terra-Mãe”. Vê-se que nesse caso, pelo menos, esta teoria é inadmissível. Acrescento que os Kol enterram as crianças mortas, mas não as queimam “porque não têm alma” (os Kol só têm alma a partir do dia do casamento) e não têm o direito de ir para o país dos antepassados, cujo acesso é precisamente aberto pela cremação. Deste modo, fica derrubada também uma outra teoria de Dieterich, op. cit., p. 21-25. 413. Cf. entre outros, TYLOR, E.B. Primitive Culture, cap. XIII. 414. Cf., sobre os campos e ilhas de Ialu, o julgamento e a viagem do morto, MASPÉRO, G. Histoire ancienne des peuples de l’Orient classique, t. I, p. 180ss., com a bibliografia. 415. MASPÉRO. Ibid., p. 574ss. 416. Cf., entre outros, RONDE, E. Psyché. 2. ed. Fribourg-en-B, 1898; DIETERICH, A. Nekyia. Leipzig, 1893; REINACH, Ad. J. Victor Bérard et l’Odyssée. “Les Essais”, 1904, p. 189-193. 417. MEYER, K. & NUTT, A. The voyage of Bran. Londres: Grimm Library, 1895. 418. ZEMMRICH, J. Toteninseln und verwandte geographische Mythen. Int. Archiv. für Ethnogr., t. IV. 419. Cf. STREHLOW-LEONHARDI. Die Aranda und Luritja-Stümme. Francfort, 1907, t. I (1907), p. 15 e t. II (1908), p. 6. 420. Cf. SCHWALLY. Das Leben nach dem Tode, etc., Giessen, 1892. 421. MASPÉRO. Op. cit., t. I, p. 693ss. 422. Sobre o mundo dos mortos de acordo com as crenças sabeanas, cf. SIOUFFI, N. Études sur la religion des Soubbas. Paris, 1880, p. 156-158, sobre os caminhos que conduzem a ele e os ligam um ao outro, ibid., p. 126-129, e sobre os ritos funerários correspondentes, ibid., p. 120, 121 nota, 124- 126. A alma leva 75 dias para fazer a viagem, mas o luto dura apenas 60 dias. A refeição coletiva e a refeição de comemoração são absolutamente obrigatórias. O rito do “último bocado que se leva à boca de uma vez” fornece ao morto no outro mundo “alguma coisa ademais de sua ração habitual, que é em geral insuficiente”. 423. KHARUZIN, N. Russkie Lopary. Moscou, 1890, p. 157-158; para outros fatos da mesma ordem, cf. MIKHAÏLOWSKI. Shamanstvo, p. 19-24. 424. Cf. ANDREE, R. Totenmünze. Ethnogr. Parall., 2ª série, 1889, p. 24-29; Mêlusine, passim. 425. THIERS, J.B. Traité des superstitions. Paris, 1667; para outros paralelos franceses, cf. SÉBILLOT, P. Le FolkLore de France, t. I, p. 419, onde se encontrarão informações sobre a travessia do mar interior para ir ao Inferno. 426. Cf. OLDENBERG. La religion du Véda, trad. V. Henry, Paris, 1903, p. 450-462; uma outra moradia é no céu. Oldenberg tem razão em crer que estas duas concepções são independentes e justapostas, mas não são elementos de um sistema dualista. A coexistência de crenças diferentes em um mesmo povo é um fato frequente e quando há localização de certos mortos em um dos mundos e de outros em diferentes mundos isto ocorre em consequência de um princípio não de caráter ético, mas social e mágico-religioso. 427. MISS OWEN. Folk-Lore of the Musquakie. Londres. Folk-Lore Society, 1902, p. 83-86. 428. GODDARD DU BOIS, C. The Religion of the Luisenio Indians. Univ. Cal. Publ., t. VIII, n. 3. Berkeley, 1908, p. 83-87. 429. SWANTON, J.R. Contributions to the ethnology of the Haida. Jesup North Pacific Expedition, t. V, parte I. Nova York/Leyde, 1905, p. 34-37. 430. Cf. para os ritos, ibid., p. 52-54 e 34-35. 431. MASPÉRO, G. Les hypogées royaux de Thèbes. Ét. de myth. et d’arch. ég., t. II (1893), p. 1-187; JÉQUIER, G. Le livre de ce qu’il y a dans l’Hadès. Paris, 1894; MORET, A. Le rituel du culte divin journalier. Paris, 1902, e Du caractère religieux de la royauté pharaonique. Paris, 1903. 432. Este livro foi composto para conciliar a teoria solar com a teoria osiriana que não era levada em consideração no Livro do que existe no Hades. Cf. o resumo dado por MASPÉRO, G. Études de myth. et d’arch. ég., t. II, 163-179. 433. JÉQUIER. Op. cit., p. 19. 434. JÉQUIER. Op. cit., p. 20, 39-41; MASPÉRO. Hypogées, p. 43-44; cf. o discurso do deus aos cinocéfalos para “a abertura das portas”. 435. MASPÉRO. Op. cit., p. 166-168; sobre a porta que dá para o lugar do julgamento, cf. Livre des Morts, cap. CXXV, I, 52ss. 436. MASPÉRO. Études, t. I, p. 384. 437. MORET. Rituel, p. 35ss. 438. Ibid., p. 73-83 e 87-89; cf. MASPÉRO. Le rituel du sacrifice funéraire. Études, etc., t. II, p. 289- 318. 439. Ibid.,