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Acesso a Provas em Processo Penal

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Informativo 949-STF (04/09/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 1 
 
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 Informativo 949-STF 
Márcio André Lopes Cavalcante 
 
 
Julgamento ainda não foi concluído em virtude de pedido de vista: AO 2093/RN. Será comentado assim que chegar ao fim. 
 
ÍNDICE 
 
DIREITO PROCESSUAL PENAL 
PROVAS 
 Não há violação da SV 14 se os elementos de prova estão disponíveis nos autos para as partes. 
 
PROCEDIMENTO / NULIDADES 
 Em ação penal envolvendo réus colaborares e não colaboradores, o réu delatado tem o direito de apresentar suas 
alegações finais somente após o réu que firmou acordo de colaboração premiada. 
 
HABEAS CORPUS 
 Cabe habeas corpus para questionar a decisão do magistrado que não permite que os réus delatados apresentem 
alegações finais somente após os réus colaboradores 
 
 
DIREITO PROCESSUAL PENAL 
 
PROVAS 
Não há violação da SV 14 se os elementos de prova estão disponíveis nos autos para as partes 
 
Não há violação da súmula vinculante 14 no caso em que, ao contrário do que alega a defesa, 
os áudios interceptados foram juntados ao inquérito policial e sempre estiveram disponíveis 
para as partes, inclusive na forma digitalizada depois de deflagrada a investigação. 
Súmula vinculante 14-STF: É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso 
amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório 
realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do 
direito de defesa. 
Caso concreto: defesa ingressou com reclamação no STF alegando que o magistrado não 
permitiu que ela tivesse acesso ao procedimento de interceptação telefônica que serviu de 
base ao oferecimento da denúncia. Ficou provado, no entanto, que o procedimento estava 
disponível para a defesa, de forma que não houve violação à SV 14. 
STF. 1ª Turma. Rcl 27919 AgR/GO, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
Imagine a seguinte situação hipotética: 
No curso de inquérito policial, o Juiz Federal deferiu a interceptação telefônica de João, um dos suspeitos 
da prática dos crimes. 
As ligações telefônicas de João ficaram sendo monitoradas durante determinado tempo, até que foi 
deflagrada a operação policial. 
As conversas mantidas confirmaram os indícios do cometimento dos crimes. 
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João foi denunciado pelo MPF com base nas conversas registradas e nos demais elementos informativos 
colhidos durante a investigação. 
O Juiz Federal recebeu a denúncia. 
A defesa do réu ingressou, então, com reclamação no STF afirmando que o Juiz Federal não permitiu que 
ela tivesse acesso ao procedimento da escuta telefônica que serviu de esteio ao oferecimento da 
denúncia. Assim, a defesa alegou que não foi possível a análise da decisão judicial e de seus fundamentos. 
Desse modo, os advogados do réu argumentaram que o Juiz Federal violou a súmula vinculante 14, que 
tem a seguinte redação: 
Súmula vinculante 14-STF: É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos 
elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com 
competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. 
 
A defesa pediu, então, a procedência da reclamação, com a anulação das provas produzidas contra o réu. 
 
Cabe reclamação contra ato administrativo ou decisão judicial que viola súmula vinculante 
A Lei nº 11.417/2006 prevê o cabimento de reclamação contra decisão judicial ou ato administrativo que 
violar súmula vinculante. Confira: 
Art. 7º Da decisão judicial ou do ato administrativo que contrariar enunciado de súmula 
vinculante, negar-lhe vigência ou aplicá-lo indevidamente caberá reclamação ao Supremo Tribunal 
Federal, sem prejuízo dos recursos ou outros meios admissíveis de impugnação. 
§ 1º Contra omissão ou ato da administração pública, o uso da reclamação só será admitido após 
esgotamento das vias administrativas. 
§ 2º Ao julgar procedente a reclamação, o Supremo Tribunal Federal anulará o ato administrativo 
ou cassará a decisão judicial impugnada, determinando que outra seja proferida com ou sem 
aplicação da súmula, conforme o caso. 
 
A reclamação foi julgada procedente pelo STF? 
NÃO. 
Ao contrário do que afirmou a defesa, os áudios interceptados foram juntados ao inquérito policial e 
sempre estiveram disponíveis para a defesa, inclusive na forma digitalizada depois de deflagrada a 
investigação. 
A alegação da defesa, portanto, não corresponde à realidade. 
Segundo o STF, “inexiste, assim, substrato fático ou jurídico capaz de atrair a incidência do enunciado da 
Súmula Vinculante nº 14, uma vez franqueado o acesso da Defesa aos autos.” 
Logo, o reclamante não sofreu qualquer restrição de acesso aos elementos de prova extraídos das 
interceptações telefônicas realizadas no curso da investigação policial que deu ensejo à instauração da 
ação penal. 
Não houve, portanto, qualquer ato praticado pela autoridade reclamada capaz de afrontar o enunciado 
da súmula vinculante 14. 
 
Em suma: 
Não há violação da súmula vinculante 14 no caso em que, ao contrário do que alega a defesa, os áudios 
interceptados foram juntados ao inquérito policial e sempre estiveram disponíveis para as partes, 
inclusive na forma digitalizada depois de deflagrada a investigação. 
STF. 1ª Turma. Rcl 27919 AgR/GO, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
 
 
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PROCEDIMENTO / NULIDADES 
Em ação penal envolvendo réus colaborares e não colaboradores, o réu delatado tem o direito de 
apresentar suas alegações finais somente após o réu que firmou acordo de colaboração premiada 
 
O réu delatado tem o direito de apresentar suas alegações finais somente após o réu delator. 
Os réus colaboradores não podem se manifestar por último (ou no mesmo prazo dos réus 
delatados) porque as informações trazidas por eles possuem uma carga acusatória. 
O direito fundamental ao contraditório e à ampla defesa deve permear todo o processo legal, 
garantindo-se sempre a possibilidade de a defesa se manifestar depois do agente acusador. 
Vale ressaltar que pouco importa a qualificação jurídica do agente acusador: Ministério 
Público ou corréu colaborador. Se é um “agente acusador”, a defesa deve falar depois dele. 
Ao se permitir que os réus colaboradores falem por último (ou simultaneamente com os réus 
delatados), há uma inversão processual que ocasiona sério prejuízo ao delatado, tendo em 
vista que ele não terá oportunidade de repelir os argumentos eventualmente incriminatórios 
trazidos pelo réu delator ou para reforçar os favoráveis à sua defesa. 
Permitir o oferecimento de memoriais escritos de réus colaboradores, de forma simultânea 
ou depois da defesa — sobretudo no caso de utilização desse meio de prova para prolação da 
condenação —, compromete o pleno exercício do contraditório, que pressupõe o direito de a 
defesa falar por último, a fim de poder reagir às manifestações acusatórias. 
STF. 2ª Turma. HC 157627 AgR/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo 
Lewandowski, julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
Imagine a seguinte situação hipotética: 
João, Pedro, Tiago e Lucas formavam uma organização criminosa que praticou diversos crimes contra a 
administração pública federal. 
Os quatro foram investigados em uma operação da Polícia Federal e presos preventivamente. 
 
João e Pedro celebram acordo de colaboração premiada 
João e Pedro celebraram acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal no qual 
confessaramos crimes praticados, delataram os delitos também cometidos por Tiago e Lucas e 
apresentaram documentos que comprovariam as infrações penais. Em troca, ficou acertado que 
receberiam redução de 2/3 da pena privativa de liberdade. 
O acordo de colaboração premiada foi homologado pelo Juiz. 
 
Denúncia 
O Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra João, Pedro, Tiago e Lucas, que foi recebida pelo Juiz. 
Os réus apresentaram resposta à acusação. 
O Juiz analisou a resposta à acusação, rejeitou o pedido de absolvição sumária e designou audiência de 
instrução. 
A audiência foi realizada com a oitiva das testemunhas e o interrogatório dos réus. 
 
Alegações finais orais podem ser substituídas por memoriais 
O CPP prevê que, depois do interrogatório, não havendo diligências a serem deferidas, a regra geral é que 
as alegações finais sejam feitas na própria audiência, de forma oral. 
Contudo, o § 3º do art. 403 do Código afirma que, se o caso for muito complexo ou houver um grande 
número de acusados, é possível que, em vez de serem realizados esses debates orais, o Juiz determine 
que as partes ofereçam alegações finais escritas (que são chamadas de memoriais). 
 
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Recapitulando: 
Em regra, as alegações finais são orais (feitas na própria audiência com argumentos falados). 
Excepcionalmente*, as alegações finais podem ser escritas (memoriais) se: 
• o caso for complexo; 
• houver um grande número de acusados; 
• o juiz deferir a realização de diligências complementares; 
• o interrogatório for realizado por carta precatória. 
 
É isso que prevê o art. 403 do CPP: 
Art. 403. Não havendo requerimento de diligências, ou sendo indeferido, serão oferecidas 
alegações finais orais por 20 (vinte) minutos, respectivamente, pela acusação e pela defesa, 
prorrogáveis por mais 10 (dez), proferindo o juiz, a seguir, sentença. (Redação dada pela Lei nº 
11.719/2008). 
§ 1º Havendo mais de um acusado, o tempo previsto para a defesa de cada um será individual. 
(Incluído pela Lei nº 11.719/2008). 
§ 2º Ao assistente do Ministério Público, após a manifestação desse, serão concedidos 10 (dez) 
minutos, prorrogando-se por igual período o tempo de manifestação da defesa. (Incluído pela Lei 
nº 11.719/2008). 
§ 3º O juiz poderá, considerada a complexidade do caso ou o número de acusados, conceder às 
partes o prazo de 5 (cinco) dias sucessivamente para a apresentação de memoriais. Nesse caso, 
terá o prazo de 10 (dez) dias para proferir a sentença. (Incluído pela Lei nº 11.719/2008). 
 
* isso é na teoria; na prática, contudo, o que se observa é que as alegações finais são, na maioria das vezes, 
escritas, seja porque a audiência acaba demorando muito, seja porque o MP e os advogados, geralmente, 
preferem e ajustam isso com o magistrado. 
 
Não existe um direito subjetivo das partes de conversão dos debates orais em memorais 
Vale ressaltar, contudo, que não existe um direito subjetivo das partes de conversão dos debates orais em 
memorais. Em outras palavras, não é porque o MP ou a defesa pediu, que o Juiz será obrigado a aceitar as 
alegações finais em memoriais. O afastamento da regra da oralidade da apresentação das alegações finais 
constitui faculdade do juiz, que deve verificar, caso a caso, a adequação da medida. Nesse sentido: 
Após a reforma operada pela Lei n. 11.719/2008 no CPP, as alegações finais passaram a ser apresentadas, 
em regra, na forma oral (art. 403, caput), em homenagem ao princípio da oralidade e, portanto, à 
celeridade processual. 
Excepcionalmente, nas hipóteses admitidas pela lei, serão as alegações finais apresentadas na forma 
escrita, como ocorre, por exemplo, quando o magistrado, diante de casos complexos ou com significativa 
número de acusados, concede às partes prazo para a apresentação de memorais (art. 403, § 3º). 
O § 3º do artigo 403 do CPP, ao utilizar o verbo “poderá” - em vez de “deverá” - confere o magistrado uma 
faculdade, não um dever, ante a complexidade do caso ou se houver muitos réus. 
Assim, a conversão da sustentação oral em memorais escritos constitui faculdade do magistrado que 
examinará a necessidade da adoção da citada medida, de acordo com a complexidade do caso ou a 
quantidade de acusados. 
STJ. 5ª Turma. HC 418911/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 07/12/2017. 
STJ. 6ª Turma. RMS 33922/RN, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 13/10/2015. 
 
Voltando ao nosso exemplo: 
Depois do interrogatório dos réus João, Pedro, Tiago e Lucas, o Juiz entendeu que o caso era complexo e 
que, portanto, seria melhor não fazer alegações finais orais, e sim alegações finais por meio de memoriais, 
aplicando, portanto, o § 3º do art. 403 do CPP. 
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Qual é a ordem de apresentação das alegações finais? 
Quem primeiro apresenta as alegações finais é o Ministério Público, considerando que a defesa deve falar 
por último. 
Após o MP, a defesa terá o prazo de 5 dias para a apresentação dos seus memoriais. 
 
Tese alegada pelos réus Tiago e Lucas 
Conforme vimos, o Juiz converteu os debates orais em memoriais. 
O magistrado determinou que o MP apresentasse as alegações finais no prazo de 5 dias e que, após o 
Parquet, as defesas dos quatro réus deveriam apresentar, no prazo comum de 5 dias, as suas alegações 
finais escritas. 
Obs: vale ressaltar que o processo era eletrônico e, portanto, não se aplicaria o prazo em dobro do art. 
229, caput e § 2º, do CPC/2015. 
Tiago e Lucas não concordaram com o fato de o Juiz ter estipulado um prazo comum para as defesas e 
invocaram a seguinte tese: João e Pedro são colaboradores do Ministério Público e estão afirmando que 
nós cometemos crimes (estão nos delatando). Logo, eles devem ser encarados como “acusadores”. Isso 
significa que nós (Tiago e Lucas) temos o direito de somente apresentar nossos memorais depois de 
termos ciência daquilo que eles (colaboradores) irão afirmar nas alegações finais. 
O magistrado indeferiu o pedido de Tiago e Lucas afirmando que não há previsão legal e que o CPP 
somente exige que o MP apresente alegações finais antes da defesa, não fazendo a mesma exigência 
quanto ao colaborador premiado. Em outras palavras, a lei não exige que o réu delatado apresente suas 
alegações finais somente após o réu colaborador. 
Assim, o MP apresentou suas alegações finais e, após isso, no prazo comum de 5 dias, João, Pedro, Tiago 
e Lucas, por intermédio dos seus respectivos advogados, apresentaram memoriais. 
Os quatro réus foram condenados. 
 
Os réus Tiago e Lucas impetraram sucessivos habeas corpus questionando o procedimento adotado pelo 
magistrado, até que o tema chegou ao STF. A tese de Tiago e Lucas foi aceita pelo STF? Houve nulidade 
neste caso pelo fato de os réus delatados não terem tido o direito de apresentar seus memoriais após 
os réus colaboradores? 
SIM. 
Embora inexistente previsão legal específica, o réu delatado tem o direito de apresentar suas alegações 
finais somente após o réu delator. 
Os réus colaboradores não podem se manifestar por último (ou no mesmo prazo dos réus delatados) 
porque as informações trazidas pelos réus colaboradores possuem uma carga acusatória. 
O direito de a defesa falar por último decorre do sistema normativo, como se depreende do Código de 
Processo Penal. 
O direito fundamental ao contraditório e à ampla defesa deve permear todo o processo legal, 
garantindo-se sempre a possibilidade de a defesa se manifestar depois do agente acusador. Vale 
ressaltar aqui que pouco importa a qualificação jurídica do agente acusador: Ministério Público ou 
corréu colaborador. Se é um“agente acusador”, a defesa deve falar depois dele. 
Ao se permitir que os réus colaboradores falem por último (ou simultaneamente com os réus delatados), 
há uma inversão processual que ocasiona sério prejuízo ao delatado, tendo em vista que ele não terá 
oportunidade de repelir os argumentos eventualmente incriminatórios trazidos pelo réu delator ou para 
reforçar os favoráveis à sua defesa. 
A colaboração premiada possui natureza jurídica de meio de obtenção de prova (art. 3º, I, da Lei 
12.850/2013). Permitir o oferecimento de memoriais escritos de réus colaboradores, de forma 
simultânea ou depois da defesa — sobretudo no caso de utilização desse meio de prova para prolação 
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de édito condenatório —, compromete o pleno exercício do contraditório, que pressupõe o direito de a 
defesa falar por último, a fim de poder reagir às manifestações acusatórias. 
Fere, igualmente, as garantias de defesa todo expediente que impede o acusado, por meio do defensor, 
de usar sua palavra por último. Isso porque, independentemente de estar despida de roupagem 
acusatória, a peça processual das alegações finais do réu colaborador, ao condensar todo o histórico 
probatório, pode ser determinante ao resultado desfavorável do julgamento em relação ao acusado, o 
que legitima este a merecer a oportunidade de exercitar o contraditório. 
STF. 2ª Turma. HC 157627 AgR/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski, 
julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
Prejuízo 
Segundo entendeu o STF, o prejuízo para a defesa dos réus delatados e condenados é induvidoso 
(inquestionável). 
Só se poderia afastar o nexo entre o defeito processual e a certeza do prejuízo da defesa se o resultado 
do julgamento tivesse sido favorável a ela. Isso não se verifica na hipótese de condenação. 
 
Qual foi a consequência processual? 
O STF entendeu que houve constrangimento ilegal e, portanto, anulou a condenação imposta aos réus 
delatados determinando que o processo retorne para a fase de alegações finais. 
Assim, o STF determinou que o processo retornará para a 1ª instância e o Juiz deverá conceder novo prazo 
de alegações finais, desta vez determinando que os réus delatados tenham o direito de apresentar os 
memoriais somente após as alegações finais do MP e dos corréus colaboradores. 
 
Voto vencido 
O Min. Edson Fachin ficou vencido. Para ele, a colaboração premiada não é um “meio de prova”, mas sim 
um “meio de obtenção de prova”. 
Assim, as meras e eventuais afirmações do agente colaborador em sede de alegações finais não são aptas 
a conferir influência sobre a esfera jurídica do delatado. 
 
 
HABEAS CORPUS 
Cabe habeas corpus para questionar a decisão do magistrado que não permite que os réus 
delatados apresentem alegações finais somente após os réus colaboradores 
 
Cabe habeas corpus mesmo nas hipóteses que não envolvem risco imediato de prisão, como 
na análise da licitude de determinada prova ou no pedido para que a defesa apresente por 
último as alegações finais, se houver a possibilidade de condenação do paciente. Isso porque 
neste caso a discussão envolve liberdade de ir e vir. 
STF. 2ª Turma. HC 157627 AgR/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo 
Lewandowski, julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
Imagine a seguinte situação hipotética: 
João, Pedro, Tiago e Lucas formavam uma organização criminosa que praticou diversos crimes contra a 
administração pública federal. 
Os quatro foram investigados em uma operação da Polícia Federal e presos preventivamente. 
João e Pedro celebraram acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal no qual 
confessaram os crimes praticados, delataram os delitos também cometidos por Tiago e Lucas e 
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apresentaram documentos que comprovariam as infrações penais. Em troca, ficou acertado que 
receberiam redução de 2/3 da pena privativa de liberdade. 
O acordo de colaboração premiada foi homologado pelo Juiz. 
O Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra João, Pedro, Tiago e Lucas, que foi recebida pelo 
Juiz. 
Ao final da instrução, o magistrado abriu prazo para alegações finais escritas. 
Para tanto, determinou que o MP apresentasse as alegações finais no prazo de 5 dias e que, após o 
Parquet, as defesas dos quatro réus deveriam apresentar, no prazo comum de 5 dias, as suas alegações 
finais escritas. 
Os réus Tiago e Lucas não concordaram e pediram para apresentar alegações finais somente após os réus 
colaboradores. 
O magistrado indeferiu o pedido de Tiago e Lucas afirmando que não há previsão legal. 
Os réus Tiago e Lucas impetraram habeas corpus para o TRF pedindo a concessão da ordem para 
reconhecer o direito de eles oferecerem seus memoriais após os delatores. 
O TRF negou o pedido, o que motivou novo HC para o STJ. 
O STJ também denegou a ordem e os réus impetraram HC no STF. 
 
A discussão travada no STF foi a seguinte: esse HC pode ser conhecido mesmo que não se esteja 
discutindo diretamente liberdade de locomoção, mas sim apenas a validade do rito processual adotado? 
Cabe HC neste caso? 
SIM. 
Cabe habeas corpus mesmo nas hipóteses que não envolvem risco imediato de prisão, como na análise 
da licitude de determinada prova ou no pedido para que a defesa apresente por último as alegações 
finais, se houver a possibilidade de condenação do paciente. Isso porque neste caso a discussão envolve 
liberdade de ir e vir. 
STF. 2ª Turma. HC 157627 AgR/PR, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Ricardo Lewandowski, 
julgado em 27/8/2019 (Info 949). 
 
 
 
EXERCÍCIOS 
 
Julgue os itens a seguir: 
1) O réu delatado tem o direito de apresentar suas alegações finais somente após o réu delator. ( ) C 
2) Cabe habeas corpus mesmo nas hipóteses que não envolvem risco imediato de prisão, como na análise 
da licitude de determinada prova ou no pedido para que a defesa apresente por último as alegações 
finais, se houver a possibilidade de condenação do paciente. Isso porque neste caso a discussão envolve 
liberdade de ir e vir. ( ) C 
 
Gabarito 
1. C 2. C 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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OUTRAS INFORMAÇÕES 
 
Sessões Ordinárias Extraordinárias Julgamentos Julgamentos por meio 
eletrônico* 
 Em curso Finalizados 
Pleno - - - - 129 
1ª Turma 27.08.2019 - 2 11 225 
2ª Turma 27.08.2019 - 1 1 141 
 
* Emenda Regimental 52/2019-STF. Sessão virtual de 23 a 29 de agosto de 2019. 
 
TRANSCRIÇÕES 
 
Com a finalidade de proporcionar aos leitores do INFORMATIVO STF uma compreensão mais aprofundada 
do pensamento do Tribunal, divulgamos neste espaço trechos de decisões que tenham despertado ou possam 
despertar de modo especial o interesse da comunidade jurídica. 
 
RE 594.435 ED/SP 
RELATOR: Ministro Marco Aurélio 
O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI: 
Trata-se de embargos de declaração opostos contra acórdão proferido pelo Tribunal Pleno, o qual foi assim 
ementado: 
 
“COMPETÊNCIA – COMPLEMENTAÇÃO DE APOSENTADORIA – INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO 
SOCIAL. Compete à Justiça comum o julgamento de conflito a envolver a incidência de 
contribuição previdenciária sobre complementação de proventos de aposentadoria (RE nº 
594.435/SP, Tribunal Pleno, Relator o Ministro Marco Aurélio, DJe de 3/9/18).” 
 
Na oportunidade, foi fixada a seguinte tese para o Tema de repercussãogeral nº 149: 
“Compete à Justiça comum o julgamento de conflito de interesses a envolver a incidência de 
contribuição previdenciária, considerada a complementação de proventos.” 
 
Pedem os embargantes a modulação dos efeitos do acórdão atacado, “para que seja fixada a competência da 
Justiça do Trabalho para processar e julgar os processos em que já tenha sido proferida sentença até a data do 
julgamento do recurso no Plenário do Supremo Tribunal Federal”. 
O Relator, Ministro Marco Aurélio, votou pelo conhecimento dos embargos e por seu não provimento. 
Abriu divergência o Ministro Alexandre de Moraes, votando pela modulação dos efeitos do acórdão embargado, 
de modo a manter na Justiça do Trabalho, até o fim da fase de execução, todos os processos da espécie em que tenha sido 
proferida sentença de mérito até o dia da conclusão do julgamento do recurso extraordinário. Acompanharam Sua 
Excelência os Ministros Edson Fachin, Rosa Weber, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes. 
Pedi vista dos autos para melhor refletir sobre o assunto. 
Com a devida vênia, entendo ser o caso de se acompanhar a divergência. 
Verifica-se que a Corte já se debruçou sobre caso análogo ao examinar o RE nº 586.453/SE. Na ocasião, o 
Tribunal Pleno, por maioria, concluiu ser da Justiça Comum, e não da Justiça do Trabalho, a competência para o 
processamento de ações ajuizadas contra entidades privadas de previdência complementar. Em seguida, também por 
maioria, nos termos do voto da Relatora, Ministra Ellen Gracie, a Corte modulou os efeitos da decisão, reconhecendo 
a competência da Justiça do Trabalho “para processar e julgar, até o trânsito em julgado e a correspondente 
execução, todas as causas da espécie em que houver sido proferida sentença de mérito até a data da conclusão” do 
julgamento daquele recurso. 
Ao votar pela modulação dos efeitos, a Relatora destacou que o encaminhamento de muitos processos já 
julgados pela Justiça especializada para a Justiça Comum implicaria retrocesso às primeiras fases processuais, 
http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=2644649
 Informativo 
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causando danos à celeridade processual e à eficiência, bem como prejuízo aos interessados. A Relatora referiu 
também que “os sistemas processuais trabalhistas e civil não [guardariam] identidade procedimental”. Isso, segundo 
ela, tornaria muito complexa a simples remessa dos autos de uma Justiça para outra. Para corroborar seu 
entendimento, Sua Excelência se valeu das seguintes passagens do voto proferido pelo Ministro Ayres Britto no 
julgamento do CC nº 7.204/MG, Tribunal Pleno, DJ de 9/12/05: 
 
“ 4. A nova orientação alcança os processos em trâmite da Justiça comum estadual, desde 
que pendentes de julgamento de mérito. É dizer: as ações que tramitam perante a Justiça comum 
dos Estados, com sentença de mérito anterior à promulgação da EC 45/04, lá continuam até o 
trânsito em julgado e correspondente execução. Quanto àquelas cujo mérito ainda não foi 
apreciado, hão de ser remetidas à Justiça do Trabalho, no estado em que se encontram, com 
total aproveitamento dos atos praticados até então. A medida se impõe, em razão das 
características que distinguem a Justiça comum estadual e a Justiça do Trabalho, cujos sistemas 
recursais, órgãos e instâncias não guardam exata correlação. 
5. O Supremo Tribunal Federal, guardião-mor da Constituição Republicana, pode e deve, em 
prol da segurança jurídica, atribuir eficácia prospectiva às suas decisões, com a delimitação 
precisa dos respectivos efeitos, toda vez que proceder a revisões de jurisprudência definidora de 
competência ex ratione materiae. O escopo é preservar os jurisdicionados de alterações 
jurisprudenciais que ocorram sem mudança formal do Magno Texto. 
6. Aplicação do precedente consubstanciado no julgamento do Inquérito 687, Sessão 
Plenária de 25.08.99, ocasião em que foi cancelada a Súmula 394 do STF, por incompatível com a 
Constituição de 1988, ressalvadas as decisões proferidas na vigência do verbete” (destaquei). 
 
Penso que o mesmo raciocínio se aplica ao presente caso. 
Por fim, a respeito do instituto da translatio iudicii (art. 64, § 4º, do CPC), vale relembrar as observações 
feitas pelo Ministro Luiz Fux na sessão de 24/5/18: 
“Modernamente, hoje, quando se entende que um juízo é incompetente, a consequência imediata 
é a remessa ao juízo competente. Não há mais a regra de que os atos decisórios são nulos. Inclusive, 
essa regra tem dado ensejo a uma série de distorções graves, anulando os atos decisórios. Isso 
implica prescrições de todos os níveis, no nível cível, no nível penal etc. Então, hoje, o que se opera é 
a translatio iudicii, ou seja, sai de um juízo que era incompetente e vai para o juízo competente. Se o 
juízo competente entender que deve repetir atos, ele o fará, mas declarar a nulidade dos atos 
decisórios tem causado uma série de distorções graves” (destaquei). 
 
Como se nota, é preciso evitar o império da insegurança jurídica e a inobservância do princípio da confiança 
legítima. Desse modo, entendo ser o caso de se acolherem os embargos de declaração. 
Ante o exposto, pedindo vênia ao Relator, acompanho a divergência. 
É como voto. 
 
OUTRAS INFORMAÇÕES 
26 A 30 D AGOSTO DE 2019 
Decreto nº 9.992, de 28.8.2019 - Determina a suspensão da permissão do emprego do fogo de que trata o Decreto nº 
2.661, de 8 de julho de 1998, no território nacional pelo prazo de sessenta dias. Publicado no DOU em 29.08.2019, 
Seção 1, Edição 167, p. 3. 
 
Decreto nº 9.997, de 30.8.2019 - Altera o Decreto nº 9.992, de 28 de agosto de 2019, que determina a suspensão da 
permissão do emprego do fogo de que trata o Decreto nº 2.661, de 8 de julho de 1998, no território nacional pelo prazo 
de sessenta dias. Publicado no DOU em 30.08.2019, Seção 1-Extra, Edição 168-B, p. 1. 
 
Supremo Tribunal Federal - STF 
Secretaria de Documentação – SDO 
 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D9992.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D9997.htm

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