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Prévia do material em texto

ISBN	9788553610013
Maluf,	Sahid
Teoria	geral	do	Estado	/	Sahid	Maluf	;	atualizador	prof.	Miguel	Alfredo	Malufe	Neto.
–	35.	ed.	–	São	Paulo	:	Saraiva	Educação,	2019.
1.	O	Estado	2.	Estado	-	Teoria	I.	Malufe	Neto,	Miguel	Alfredo,	1942	-	II.	Título.
18-1504
CDU	320.101
Índices	para	catálogo	sistemático:
1.	Teoria	geral	do	Estado	:	Ciência	política	320.101
Diretoria	executiva	Flávia	Alves	Bravin
Diretora	editorial	Renata	Pascual	Müller
Gerência	editorial	Roberto	Navarro
Consultoria	acadêmica	Murilo	Angeli	Dias	dos	Santos
Edição	Eveline	Gonçalves	Denardi	(coord.)	|	Marisa	Amaro	dos	Reis
Produção	editorial	Ana	Cristina	Garcia	(coord.)	|	Carolina	Massanhi	|	Luciana
Cordeiro	Shirakawa	|	Rosana	Peroni	Fazolari
Arte	e	digital	Mônica	Landi	(coord.)	|	Claudirene	de	Moura	Santos	Silva	|	Guilherme	H.
M.	Salvador	|	Tiago	Dela	Rosa	|	Verônica	Pivisan	Reis
Planejamento	e	processos	Clarissa	Boraschi	Maria	(coord.)	|	Juliana	Bojczuk
Fermino	|	Kelli	Priscila	Pinto	|	Marília	Cordeiro	|	Fernando	Penteado	|	Mônica
Gonçalves	Dias	|	Tatiana	dos	Santos	Romão
Novos	projetos	Fernando	Alves
Diagramação	(Livro	Físico)	Fabricando	Ideias	Design	Editorial
Revisão	PBA	Preparação	e	Revisão	de	Textos
Capa	Herbert	Junior
Livro	digital	(E-pub)
Produção	do	e-pub	Guilherme	Henrique	Martins	Salvador
Data	de	fechamento	da	edição:	27-11-2018
Dúvidas?
Acesse	www.editorasaraiva.com.br/direito
Nenhuma	parte	desta	publicação	poderá	ser	reproduzida	por	qualquer	meio	ou	forma	sem	a
prévia	autorização	da	Editora	Saraiva.
A	violação	dos	direitos	autorais	é	crime	estabelecido	na	Lei	n.	9.610/98	e	punido	pelo	artigo
184	do	Código	Penal.
http://www.editorasaraiva.com.br/direito
SUMÁRIO
NOTA	AO	LEITOR
I
ESTADO	E	DIREITO
1.	TEORIA	MONÍSTICA
2.	TEORIA	DUALÍSTICA
3.	TEORIA	DO	PARALELISMO
II
TEORIA	TRIDIMENSIONAL	DO	ESTADO	E	DO	DIREITO
1.	NOÇÃO	FUNDAMENTAL
III
DIVISÃO	GERAL	DO	DIREITO
1.	DIREITO	NATURAL	E	POSITIVO
2.	DIREITO	PÚBLICO	E	PRIVADO
3.	POSIÇÃO	DA	TEORIA	GERAL	DO	ESTADO	NO	QUADRO	GERAL
DO	DIREITO
IV
TEORIA	GERAL	DO	ESTADO
1.	CONCEITO
2.	TRÍPLICE	ASPECTO
3.	POSIÇÃO	E	RELAÇÃO	COM	OUTRAS	CIÊNCIAS
4.	FONTES
V
NAÇÃO	E	ESTADO
1.	CONCEITO	DE	NAÇÃO
2.	POPULAÇÃO
3.	POVO
4.	RAÇA
5.	HOMOGENEIDADE	DO	GRUPO	NACIONAL
6.	CONCEITO	DE	ESTADO
VI
ELEMENTOS	CONSTITUTIVOS	DO	ESTADO
1.	POPULAÇÃO
2.	TERRITÓRIO
3.	GOVERNO
VII
SOBERANIA
1.	CONCEITO
2.	FONTE	DO	PODER	SOBERANO
3.	TEORIA	DA	SOBERANIA	ABSOLUTA	DO	REI
4.	TEORIA	DA	SOBERANIA	POPULAR
5.	TEORIA	DA	SOBERANIA	NACIONAL
6.	TEORIA	DA	SOBERANIA	DO	ESTADO
7.	ESCOLAS	ALEMÃ	E	AUSTRÍACA
8.	TEORIA	NEGATIVISTA	DA	SOBERANIA
9.	TEORIA	REALISTA	OU	INSTITUCIONALISTA
10.	LIMITAÇÕES
VIII
SOBERANIA:	LIMITAÇÕES	NA	ORDEM	INTERNACIONAL,
GLOBALIZAÇÃO	E	ORGANIZAÇÕES	INTERNACIONAIS
1.	CONCEITOS
2.	GLOBALIZAÇÃO
3.	ORGANIZAÇÕES	INTERNACIONAIS
4.	ORGANIZAÇÕES	POLÍTICAS
5.	ORGANIZAÇÃO	DAS	NAÇÕES	UNIDAS	—	ONU
6.	ORGANIZAÇÃO	DO	TRATADO	DO	ATLÂNTICO	NORTE	—	OTAN
7.	ORGANIZAÇÃO	DOS	ESTADOS	AMERICANOS	—	OEA
8.	ORGANIZAÇÕES	ECONÔMICAS
9.	MERCOSUL
10.	OUTRAS	ORGANIZAÇÕES	ECONÔMICAS
11.	ORGANIZAÇÃO	SUPRANACIONAL	—	UNIÃO	EUROPEIA
IX
NASCIMENTO	E	EXTINÇÃO	DOS	ESTADOS	—	I
1.	NASCIMENTO
2.	MODO	ORIGINÁRIO
3.	MODOS	SECUNDÁRIOS
4.	CONFEDERAÇÃO
5.	FEDERAÇÃO
6.	UNIÃO	PESSOAL
7.	UNIÃO	REAL
8.	DIVISÃO	NACIONAL
9.	DIVISÃO	SUCESSORAL
10.	MODOS	DERIVADOS
11.	COLONIZAÇÃO
12.	CONCESSÃO	DOS	DIREITOS	DE	SOBERANIA
13.	ATO	DE	GOVERNO
14.	DESENVOLVIMENTO	E	DECLÍNIO
15.	EXTINÇÃO
16.	CONQUISTA
17.	EMIGRAÇÃO
18.	EXPULSÃO
19.	RENÚNCIA	DOS	DIREITOS	DE	SOBERANIA
X
NASCIMENTO	E	EXTINÇÃO	DOS	ESTADOS	—	II
1.	JUSTIFICAÇÃO
2.	PRINCÍPIO	DAS	NACIONALIDADES
3.	TEORIA	DAS	FRONTEIRAS	NATURAIS
4.	TEORIA	DO	EQUILÍBRIO	INTERNACIONAL
5.	TEORIA	DO	LIVRE-ARBÍTRIO	DOS	POVOS
XI
ORIGEM	DOS	ESTADOS
1.	GENERALIDADES
2.	TEORIA	DA	ORIGEM	FAMILIAR
3.	TEORIA	PATRIARCAL
4.	TEORIA	MATRIARCAL
5.	TEORIA	DA	ORIGEM	PATRIMONIAL
6.	TEORIA	DA	FORÇA
XII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	I
1.	JUSTIFICAÇÕES	TEOLÓGICO-RELIGIOSAS
2.	TEORIA	DO	DIREITO	DIVINO	SOBRENATURAL
3.	TEORIA	DO	DIREITO	DIVINO	PROVIDENCIAL
XIII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	II
1.	TEORIAS	RACIONALISTAS	(JUSNATURALISMO)
2.	HUGO	GROTIUS
3.	EMMANUEL	KANT
4.	THOMAS	HOBBES
5.	BENEDITO	SPINOZA
6.	JOHN	LOCKE
XIV
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	III
1.	TEORIA	DO	CONTRATO	SOCIAL
2.	JEAN-JACQUES	ROUSSEAU
XV
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	IV
1.	ESCOLA	HISTÓRICA
2.	EDMUNDO	BURKE
XVI
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	V
1.	PANTEÍSMO
2.	ESCOLA	ORGÂNICA
3.	NEOPANTEÍSMO
XVII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	VI
1.	TEORIA	DA	SUPREMACIA	DE	CLASSES
2.	GUMPLOWICZ	E	OPPENHEIMER
3.	FUNDAMENTO	DOUTRINÁRIO	DO	ESTADO	BOLCHEVISTA
XVIII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	VII
1.	O	ESTADO	COMO	DIFERENCIAÇÃO	ENTRE	GOVERNANTES	E
GOVERNADOS
2.	TEORIA	DE	LÉON	DUGUIT
XIX
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	I
1.	A	“LEI	DOS	TRÊS	ESTADOS”,	DE	AUGUSTO	COMTE
2.	CLASSIFICAÇÃO
3.	O	ESTADO	ANTIGO
4.	O	ESTADO	DE	ISRAEL
XX
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	II
1.	O	ESTADO	GREGO
2.	“POLIS”
3.	PLATÃO
4.	ARISTÓTELES
XXI
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	III
1.	O	ESTADO	ROMANO
2.	ORIGEM
3.	CONCEITO	DE	“CIVITAS”
4.	PODER	DE	“IMPERIUM”
5.	CONSULADO
6.	MAGISTRATURAS	E	PRÓ-MAGISTRATURAS
7.	DITADURA
8.	COLEGIALIDADE	DAS	MAGISTRATURAS
9.	PRINCIPADO
XXII
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	IV
1.	O	ESTADO	MEDIEVAL	E	SUAS	CARACTERÍSTICAS
2.	O	FEUDALISMO
XXIII
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	V
1.	O	ESTADO	MEDIEVAL	E	A	IGREJA	ROMANA
2.	SANTO	AGOSTINHO,	SANTO	TOMÁS	DE	AQUINO	E	OUTROS
DOUTRINADORES
XXIV
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VI
1.	DAS	MONARQUIAS	MEDIEVAIS	ÀS	MONARQUIAS	ABSOLUTAS
2.	A	DOUTRINA	DE	MAQUIAVEL
XXV
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VII
1.	O	ABSOLUTISMO	MONÁRQUICO
2.	ESCRITORES	DA	RENASCENÇA
3.	JOHN	LOCKE	E	A	REAÇÃO	ANTIABSOLUTISTA
XXVI
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VIII
1.	O	LIBERALISMO	NA	INGLATERRA
2.	AMÉRICA	DO	NORTE
3.	FRANÇA
4.	DECLARAÇÃO	DOS	DIREITOS	FUNDAMENTAIS	DO	HOMEM
XXVII
A	DECADÊNCIA	DO	LIBERALISMO
1.	O	ESTADO	LIBERAL,	SEUS	ERROS	E	SUA	DECADÊNCIA
2.	A	ENCÍCLICA	“RERUM	NOVARUM”	—	DOUTRINA	SOCIAL	DA
IGREJA
3.	O	ESTADO	EVOLUCIONISTA
XXVIII
REAÇÃO	ANTILIBERAL
1.	O	SOCIALISMO	E	A	REVOLUÇÃO	RUSSA
2.	O	ESTADO	SOVIÉTICO
3.	OBSERVAÇÕES
4.	CRIAÇÃO	DA	CEI
XXIX
REAÇÃO	ANTILIBERAL	E	ANTIMARXISTA
1.	O	FASCISMO	E	SUA	DOUTRINA
2.	ORGANIZAÇÃO	DO	ESTADO	FASCISTA
3.	O	SISTEMA	CORPORATIVO
XXX
O	ESTADO	NAZISTA	ALEMÃO
1.	O	NAZISMO
2.	O	RACISMO	ALEMÃO
XXXI
OS	ESTADOS	NOVOS
1.	O	TOTALITARISMO	DO	TIPO	FASCISTA
2.	O	ESTADO	TURCO	—	KEMALISMO
3.	O	ESTADO	POLONÊS	—	PILSUDSKISMO
4.	O	ESTADO	PORTUGUÊS	—	SALAZARISMO
5.	O	ESTADO	NOVO	BRASILEIRO	—	GETULISMO
6.	O	ESTADO	ARGENTINO	—	JUSTICIALISMO
XXXII
FORMAS	DE	ESTADO
1.	CLASSIFICAÇÕES
2.	ESTADOS	PERFEITOS	E	IMPERFEITOS
3.	ESTADOS	SIMPLES	E	COMPOSTOS
4.	UNIÃO	PESSOAL
5.	UNIÃO	REAL
6.	UNIÃO	INCORPORADA
7.	CONFEDERAÇÃO
8.	OUTRAS	FORMAS
9.	IMPÉRIO	BRITÂNICO
XXXIII
ESTADO	FEDERAL
1.	ESTADO	UNITÁRIO
2.	ESTADO	FEDERAL
3.	CARACTERÍSTICAS	ESSENCIAIS	DO	ESTADO	FEDERAL
4.	O	FEDERALISMO	NOS	EEUU	DA	AMÉRICA	DO	NORTE
5.	O	PROBLEMA	DA	SOBERANIA	NO	ESTADO	FEDERAL
6.	O	FEDERALISMO	NO	BRASIL
7.	FEDERALISMO	ORGÂNICO
8.	RESUMO
XXXIV
FORMAS	DE	GOVERNO
1.	CLASSIFICAÇÕES	SECUNDÁRIAS
2.	CLASSIFICAÇÃO	ESSENCIAL	DE	ARISTÓTELES
3.	MONARQUIA	E	REPÚBLICA
4.	SUBDIVISÕES
5.	“REFERENDUM”
6.	PLEBISCITO
7.	OUTROS	INSTITUTOS
XXXV
PODER	CONSTITUINTE
1.	CONCEITO	E	NATUREZA
2.	PODER	REFORMADOR
3.	PODER	CONSTITUINTE	INSTITUCIONAL
XXXVI
O	PREÂMBULO	NAS	CONSTITUIÇÕES
1.	SUA	SIGNIFICAÇÃO
XXXVII
CONSTITUIÇÃO
1.	CONCEITO
2.	RESUMO	HISTÓRICO	DO	SISTEMA	CONSTITUCIONAL
3.	CONTEÚDO	SUBSTANCIAL
4.	DIVISÃO	FORMAL	DAS	CONSTITUIÇÕES
5.	CARTAS	DOGMÁTICAS	E	OUTORGADAS
XXXVIII
SUPREMACIA	DA	CONSTITUIÇÃO
1.	SUBORDINAÇÃO	DA	LEI	ORDINÁRIA	AOS	PRINCÍPIOS
CONSTITUCIONAIS
2.	O	CONTROLE	DA	CONSTITUCIONALIDADE	DAS	LEIS
3.	SÍNCOPES	CONSTITUCIONAIS
4.	AS	SÍNCOPES	CONSTITUCIONAIS	NO	BRASIL
XXXIX
DIVISÃO	DO	PODER
1.	NOÇÃO
2.	A	DOUTRINA	DE	MONTESQUIEU
3.	UNIDADE	DO	PODER	E	PLURALIDADE	DOS	ÓRGÃOSDE	SUA
MANIFESTAÇÃO
XL
DIREITOS	FUNDAMENTAIS	DO	HOMEM
1.	GENERALIDADES
2.	CLASSIFICAÇÕES
3.	INTERNACIONALIZAÇÃO	DOS	DIREITOS	DO	HOMEM
4.	NOVOS	DIREITOS	FUNDAMENTAIS
5.	DIREITOS	SOCIAIS
6.	GARANTIAS	DOS	DIREITOS	FUNDAMENTAIS
XLI
PRINCÍPIOS	E	SISTEMAS	ELEITORAIS
1.	SUFRÁGIO	UNIVERSAL
2.	VOTO	DO	ANALFABETO
3.	SUFRÁGIO	RESTRITO	E	CENSO	ALTO
4.	SUFRÁGIO	IGUALITÁRIO	E	VOTO	DE	QUALIDADE
5.	SUFRÁGIO	FEMININO
6.	VOTO	PÚBLICO	E	VOTO	SECRETO
7.	VOTO	COMO	DIREITO	OU	FUNÇÃO
8.	ELEIÇÃO	DIRETA	E	INDIRETA
9.	SISTEMAS	ELEITORAIS
10.	SISTEMA	PROPORCIONAL
XLII
SISTEMA	REPRESENTATIVO	—	I
1.	GENERALIDADES
2.	ORIGEM	E	FORMAÇÃO	HISTÓRICA
3.	O	SISTEMA	REPRESENTATIVO	NA	INGLATERRA
4.	NATUREZA	DO	MANDATO
5.	TEORIAS
6.	TITULARIDADE	DO	MANDATO	NO	SISTEMA	BRASILEIRO
7.	UNICAMERALIDADE	E	BICAMERALIDADE
8.	O	SENADO	NO	ESTADO	FEDERATIVO
XLIII
SISTEMA	REPRESENTATIVO	—	II
1.	DIVISÃO	SUBSTANCIAL
2.	DIVISÃO	FORMAL
3.	SISTEMA	DIRETORIAL
XLIV
SISTEMA	REPRESENTATIVO	PRESIDENCIALISTA
1.	ORIGEM	HISTÓRICA
2.	CRÍTICA
3.	MECANISMO	E	CARACTERÍSTICAS	DO	PRESIDENCIALISMO
4.	MINISTROS	DE	ESTADO
5.	RESPONSABILIDADE	E	“IMPEACHMENT”
6.	DURAÇÃO	DO	MANDATO
7.	EVOLUÇÃO	DO	SISTEMA	PRESIDENCIAL	E	SUAS
MODALIDADES
8.	COMISSÕES	PARLAMENTARES	DE	INQUÉRITO
XLV
SISTEMA	REPRESENTATIVO	PARLAMENTARISTA
1.	ORIGEM	HISTÓRICA
2.	CARÁTER	DEMOCRÁTICO	DO	SISTEMA
3.	MECANISMO	DO	SISTEMA	PARLAMENTARISTA
4.	O	CHEFE	DA	NAÇÃO
5.	EXECUTIVO	COLEGIADO
6.	RESPONSABILIDADE	POLÍTICA	DO	MINISTÉRIO
7.	PROCESSO	DA	RESPONSABILIDADE	POLÍTICA
8.	RESPONSABILIDADE	SOLIDÁRIA
9.	REMODELAÇÃO	MINISTERIAL
10.	DISSOLUÇÃO	DO	PARLAMENTO
11.	INTERDEPENDÊNCIA	DOS	PODERES
12.	PARLAMENTARISMO,	FEDERAÇÃO	E	BICAMERALIDADE
XLVI
O	PARLAMENTARISMO	NO	BRASIL
1.	RESUMO	HISTÓRICO
2.	COMENTÁRIOS
3.	NOVA	EXPERIÊNCIA	NO	BRASIL
XLVII
DEMOCRACIA
1.	ORIGEM	HISTÓRICA
2.	CONCEITO
3.	DEMOCRACIA	EM	SENTIDO	FORMAL	E	SUBSTANCIAL
XLVIII
DEMOCRACIA	E	IGUALDADE
1.	RESUMO	HISTÓRICO
2.	IGUALDADE	EM	SENTIDO	FORMAL	E	MATERIAL
3.	DESDOBRAMENTO	E	CONCEITO	SOCIAL—DEMOCRÁTICO
4.	CONCEITO	DE	IGUALDADE	ECONÔMICA
XLIX
DEMOCRACIA	E	LIBERDADE
1.	DIVISÕES	DOS	DIREITOS	DE	LIBERDADE
2.	LIBERDADES	ABSOLUTAS	E	RELATIVAS
3.	A	LIBERDADE	NAS	TEORIAS	ABSOLUTISTAS
4.	A	LIBERDADE	NA	TEORIA	DO	CONTRATO	SOCIAL
5.	CONCEITO	INDIVIDUALISTA
6.	CONCEITO	SOCIAL-DEMOCRÁTICO
7.	TEORIA	DE	GROPPALI
8.	LIBERDADE	E	AUTORIDADE
L
DEMOCRACIA	E	ELITES	DIRIGENTES
1.	CONCEITO	REAL	DE	DEMOCRACIA
2.	EXPRESSÃO	QUALITATIVA	DO	CORPO	ELEITORAL
3.	SELEÇÃO	DE	VALORES
4.	CONCEITO	DE	ELITE	DIRIGENTE	E	SUA	RESPONSABILIDADE
HISTÓRICA
LI
DEMOCRACIA	LIBERAL	E	DEMOCRACIA	SOCIAL
1.	ASPECTOS	DA	DEMOCRACIA	LIBERAL	E	SUA	DECADÊNCIA
2.	FUNDAMENTOS	DA	DEMOCRACIA	SOCIAL
3.	INTERVENCIONISMO	ESTATAL
4.	AS	CORRENTES	LIBERAIS	MODERNAS:	NEOLIBERALISMO	E
SOCIAL-LIBERALISMO
LII
PARTIDOS	POLÍTICOS
1.	CONCEITO	E	NATUREZA
2.	SISTEMAS	PARTIDÁRIOS
3.	CLASSIFICAÇÃO
4.	ORIGEM	E	EVOLUÇÃO	HISTÓRICA
5.	OS	PARTIDOS	POLÍTICOS	BRASILEIROS
LIII
O	ESTADO	E	SEU	PROBLEMA	FINALÍSTICO
1.	O	ESTADO	COMO	“MEIO”	DESTINADO	À	REALIZAÇÃO	DOS
FINS	DA	COMUNIDADE
2.	CONCEPÇÕES	INDIVIDUALISTAS	E	TOTALISTAS
3.	TEORIA	DOS	FINS	INTERMEDIÁRIOS
LIV
O	HOMEM	E	O	ESTADO
1.	O	HOMEM	COMO	UNIDADE	SOCIAL	E	COMO	PESSOA
HUMANA
2.	LIBERDADE	E	AUTORIDADE
3.	POSIÇÕES	EXTREMADAS	E	INTERMEDIÁRIA
LV
INDIVIDUALISMO,	COLETIVISMO	E	GRUPALISMO
1.	NOÇÕES	GERAIS
2.	ESPIRITUALISMO	E	MATERIALISMO
3.	COMPOSIÇÕES	DIVERSAS
4.	ANARQUISMO
5.	INDIVIDUALISMO	RACIONALISTA
6.	LIBERALISMO	ECONÔMICO
7.	COLETIVISMO	E	CORRENTES	SOCIALISTAS
8.	SOCIALISMO	MARXISTA,	RUSSISMO	E	SUA	EVOLUÇÃO
LVI
SINDICALISMO	E	CORPORATIVISMO
1.	CONCEPÇÃO	GRUPALISTA
2.	ORIGEM	HISTÓRICA
3.	FORMAÇÃO	DO	SINDICALISMO
4.	CONCEPÇÃO	SOCIAL-DEMOCRÁTICA
5.	IDENTIDADE	DOS	TERMOS	SINDICALISMO	E
CORPORATIVISMO
LVII
ESTADO	CORPORATIVO
1.	CONCEITO	DOUTRINÁRIO	DE	CORPORATIVISMO
2.	CORPORATIVISMO	DE	ESTADO	E	CORPORATIVISMO
ASSOCIATIVO
3.	REPRESENTAÇÃO	PROFISSIONAL
4.	CORPORATIVISMO	MÁXIMO,	MÉDIO	E	MÍNIMO
LVIII
SOCIALISMO
1.	ORIGENS	DOUTRINÁRIAS	DO	SOCIALISMO	UTÓPICO	OU
COMUNISMO
2.	KARL	MARX	E	O	SOCIALISMO	CIENTÍFICO
3.	SOCIALISMO	E	SUAS	VARIAÇÕES
4.	SOCIALISMO	DE	ESTADO,	COMUNISMO	E	ANARQUISMO
5.	PRINCÍPIOS	FILOSÓFICOS	DO	MARXISMO
LIX
O	ESTADO	E	A	FAMÍLIA
1.	A	FAMÍLIA	COMO	UNIDADE	INTEGRANTE	DO	ESTADO
2.	TEORIA	GRUPALISTA	CRISTÃ
3.	O	PRIMADO	DA	FAMÍLIA	NA	SOCIEDADE
4.	A	FAMÍLIA	E	O	ESTADO	BRASILEIRO
LX
O	ESTADO	E	A	IGREJA
1.	A	SOCIEDADE:	PRINCÍPIOS	DA	UNIDADE	E	DA	PLURALIDADE
2.	NATUREZA	E	AUTONOMIA	DO	PODER	ESPIRITUAL
3.	A	LUTA	ENTRE	O	ESTADO	E	A	IGREJA
4.	O	ESTADO	DO	VATICANO
5.	RELAÇÕES	ENTRE	A	IGREJA	E	O	ESTADO
6.	SEPARAÇÃO	E	HARMONIA
LXI
O	ESTADO	BRASILEIRO
1.	FORMAÇÃO	HISTÓRICA
2.	TERRITÓRIO
3.	POPULAÇÃO
4.	FORMAÇÃO	FEDERATIVA
5.	EVOLUÇÃO	DA	FORMA	DE	GOVERNO
6.	RESUMO	HISTÓRICO	DA	REPÚBLICA
7.	A	CONSTITUIÇÃO	DE	1988
ÍNDICE	ALFABÉTICO	E	REMISSIVO
NOTA	AO	LEITOR
Este	livro	foi	publicado,	pela	primeira	vez,	em	1954.	Como	disse	o	Autor,
Sahid	Maluf,	o	objetivo	foi	elaborar	um	trabalho	didático,	sistematizando	as
doutrinas	 e	 as	 ideias	 essenciais	 da	 ciência	 do	 Estado,	 com	 a	 finalidade	 de
despertar	o	interesse	dos	estudantes	e	encaminhá-los	às	pesquisas	que	levam
ao	 aprimoramento	 da	 cultura	 no	 imenso,	 complexo	 e	 fascinante	 campo	 da
Teoria	Geral	do	Estado.
A	 honrosa	 acolhida	 que	 a	 obra	 teve,	 principalmente	 nas	 Faculdades	 de
Direito,	 e	 as	 elogiosas	 referências	 recebidas	 desde	 então	 de	muitos	mestres
ilustres	e	estudiosos	da	ciência	política	animaram	as	sucessivas	edições	que	se
seguiram,	atualmente	a	de	número	trinta	e	cinco.
Desde	 o	 falecimento	 do	Autor,	 em	 1975,	 esta	 obra	 vem	 sendo	 por	mim
revista	 e	 atualizada.	Todavia,	 nenhuma	modificação	 estrutural	 foi	 feita	—	e
nem	cabia	—,	pois	o	objetivo	da	obra	é	o	estudo	da	ciência	do	Estado	e	não	o
exame	do	sistema	constitucional	brasileiro	em	particular.
Ao	entregarmos	 ao	 leitor	 esta	nova	 e	 atualizada	 edição,	queremos	deixar
registrada	nossa	homenagem	ao	Autor,	nosso	inesquecível	mestre.	Através	de
sua	 obra	 ele	 permanecerá	 sempre	 vivo	 na	 lembrança	 de	 todos.	 Aos	 jovens
estudantes	de	direito	que	não	o	conheceram	queremos	reproduzir	a	mensagem
que	 ele	 deixou,	 ao	 dedicar	 esta	 obra	 a	 todos	 os	 jovens:	 “A	 essa	 juventude
dedicamos	o	nosso	trabalho	como	penhor	de	gratidão.	A	esses	estudantes	de
hoje	e	futuros	paladinos	da	luta	pelo	direito,	lembramos	que	sobre	toda	esta
ciência	 do	 Estado,	 imperfeita,	 contingente,	mutável	 no	 espaço	 e	 no	 tempo,
paira	a	ciência	de	Deus,	com	a	sua	 justiça	perfeita,	 incontingente,	eterna	 e
infalível.	 Os	 desvirtuamentos	 do	 poder	 de	 mando,	 as	 falsidades	 e	 as
injustiças,	podem	 traspassar	 o	 nosso	 coração	mas	 nunca	 abater	 o	 espírito,
quando	 este	 se	 fortalece	 na	 fonte	 do	 direito	 divino	 para	 lutar	 pelo	 direito
humano”.
Assim	 era	 o	 Autor,	 assim	 é	 o	 Direito:	 acima	 das	 contingências	 e
imperfeições	humanas,	existe	uma	fonte	superior,	sempre	inatingível,	mas	que
deve	nortear	os	espíritos	das	pessoas	e	alimentar	as	esperanças	dos	povos.
Nossos	agradecimentos	a	todos,	pelo	prestígio	e	incentivo.	Aos	estudantes,
que	esta	obra	sirva	como	uma	das	chaves	que	abrirão	as	inúmeras	portas	que
precisam	ser	abertas	ou	reabertas	no	estudo	e	na	busca	do	objetivo	maior	que
é	 a	 implantação	 de	 um	 verdadeiro	 Estado	 de	Direito	 e	 de	 Justiça.	 Ao	meu
irmão	 José	 Roberto,	 prematuramente	 levado	 de	 nosso	 convívio,	 e	 à	 minha
mãe	Nagiba	Maria,	recentemente	falecida,	saudades…
Miguel	Alfredo	Malufe	Neto
I
ESTADO	E	DIREITO
1.	Teoria	monística.	2.	Teoria	dualística.	3.	Teoria	do	paralelismo.
O	Estado	é	uma	organização	destinada	a	manter,	pela	aplicação	do	Direito,
as	 condições	 universais	 de	 ordem	 social.	 E	 o	 Direito	 é	 o	 conjunto	 das
condições	existenciais	da	sociedade,	que	ao	Estado	cumpre	assegurar.
Para	o	estudo	do	fenômeno	estatal,	tanto	quanto	para	a	iniciação	na	ciência
jurídica,	o	primeiro	problema	a	ser	enfrentadoé	o	das	relações	entre	Estado	e
Direito.	 Representam	 ambos	 uma	 realidade	 única?	 São	 duas	 realidades
distintas	e	independentes?	No	programa	da	ciência	do	Estado,	este	problema
não	pode	passar	 sem	um	esclarecimento	preliminar.	E	 sendo	 tão	 importante
quanto	 complexo,	 daremos	 aqui	 pelo	 menos	 um	 resumo	 das	 correntes	 que
disputam	 entre	 si	 a	 primazia	 no	 campo	 doutrinário.	 Não	 comporta	 o	 nosso
programa	 mais	 do	 que	 uma	 orientação	 esquemática,	 para	 compreensão	 da
matéria	 em	 suas	 linhas	 gerais,	 servindo	 como	 um	 roteiro	 para	 maiores
indagações	nos	domínios	da	ciência	jurídica.
Dividem-se	as	opiniões	em	três	grupos	doutrinários,	que	são	os	seguintes:
1.	TEORIA	MONÍSTICA
Também	 chamada	 do	 estatismo	 jurídico,	 segundo	 a	 qual	 o	 Estado	 e	 o
Direito	confundem-se	em	uma	só	realidade.	Os	dois	fenômenos	sunt	unum	et
idem,	na	expressão	usada	por	Kelsen.
Para	os	monistas	só	existe	o	direito	estatal,	pois	não	admitem	eles	a	ideia
de	qualquer	regra	jurídica	fora	do	Estado.	O	Estado	é	a	fonte	única	do	Direito,
porque	quem	dá	vida	ao	Direito	é	o	Estado	através	da	“força	coativa”	de	que
só	ele	dispõe.	Regra	jurídica	sem	coação,	disse	Ihering,	é	uma	contradição	em
si,	um	fogo	que	não	queima,	uma	luz	que	não	ilumina.	Logo,	como	só	existe	o
Direito	emanado	do	Estado,	ambos	se	confundem	em	uma	só	realidade.
Foram	 precursores	 do	 monismo	 jurídico	 Hegel,	 Hobbes	 e	 Jean	 Bodin.
Desenvolvida	 por	Rudolf	 von	 Ihering	 e	 John	Austin,	 alcançou	 esta	 teoria	 a
sua	máxima	 expressão	 com	a	 escola	 técnico-jurídica	 liderada	 por	 Jellinek	 e
com	a	escola	vienense	de	Hans	Kelsen.
2.	TEORIA	DUALÍSTICA
Também	 chamada	 pluralística,	 que	 sustenta	 serem	 o	 Estado	 e	 o	 Direito
duas	realidades	distintas,	independentes	e	inconfundíveis.
Para	os	dualistas	o	Estado	não	é	a	fonte	única	do	Direito	nem	com	este	se
confunde.	 O	 que	 provém	 do	 Estado	 é	 apenas	 uma	 categoria	 especial	 do
Direito:	 o	 direito	 positivo.	 Mas	 existem	 também	 os	 princípios	 de	 direito
natural,	 as	 normas	 de	 direito	 costumeiro	 e	 as	 regras	 que	 se	 firmam	 na
consciência	 coletiva,	 que	 tendem	 a	 adquirir	 positividade	 e	 que,	 nos	 casos
omissos,	o	Estado	deve	acolher	para	 lhes	dar	 jurisdicidade.	Além	do	Direito
não	 escrito	 existem	 o	Direito	 canônico,	 que	 independe	 da	 força	 coativa	 do
poder	 civil,	 e	 o	Direito	das	 associações	menores,	 que	o	Estado	 reconhece	 e
ampara.
Afirma	esta	corrente	que	o	Direito	é	criação	social,	não	estatal.	Ele	traduz,
no	 seu	desenvolvimento,	 as	mutações	que	 se	operam	na	vida	de	cada	povo,
sob	 a	 influência	 das	 causas	 éticas,	 psíquicas,	 biológicas,	 científicas,
econômicas	 etc.	 O	 Direito,	 assim,	 é	 um	 fato	 social	 em	 contínua
transformação.	A	função	do	Estado	é	a	de	positivar	o	Direito,	isto	é,	traduzir
em	normas	escritas	os	princípios	que	se	firmam	na	consciência	social.
O	dualismo	(ou	pluralismo),	partindo	de	Gierke	e	Gurvitch,	ganhou	terreno
com	a	doutrina	de	Léon	Duguit,	o	qual	condenou	 formalmente	a	concepção
monista,	 admitiu	 a	 pluralidade	 das	 fontes	 do	Direito	 positivo	 e	 demonstrou
que	as	normas	jurídicas	têm	sua	origem	no	corpo	social.
Desdobrou-se	o	pluralismo	nas	correntes	sindicalistas	e	corporativistas,	e,
principalmente,	 no	 institucionalismo	 de	 Hauriou	 e	 Rennard,	 culminando,
afinal,	 com	 a	 preponderante	 e	 vigorosa	 doutrina	 de	 Santi	 Romano,	 que	 lhe
deu	um	alto	teor	de	precisão	científica.
3.	TEORIA	DO	PARALELISMO
Segundo	 a	 qual	 o	 Estado	 e	 o	 Direito	 são	 realidades	 distintas,	 porém
necessariamente	interdependentes.
Esta	 terceira	 corrente,	 procurando	 solucionar	 a	 antítese	 monismo-
pluralismo,	 adotou	 a	 concepção	 racional	 da	 graduação	 da	 positividade
jurídica,	defendida	com	raro	brilhantismo	pelo	eminente	mestre	de	Filosofia
do	Direito	na	Itália,	Giorgio	Del	Vecchio.
Reconhece	 a	 teoria	 do	 pluralismo	 a	 existência	 do	 direito	 não	 estatal,
sustentando	 que	 vários	 centros	 de	 determinação	 jurídica	 surgem	 e	 se
desenvolvem	 fora	do	Estado,	 obedecendo	 a	uma	graduação	de	positividade.
Sobre	todos	estes	centros	particulares	do	ordenamento	jurídico,	prepondera	o
Estado	 como	centro	 de	 irradiação	 da	 positividade.	O	 ordenamento	 jurídico
do	 Estado,	 afirma	 Del	 Vecchio,	 representa	 aquele	 que,	 dentro	 de	 todos	 os
ordenamentos	 jurídicos	 possíveis,	 se	 afirma	 como	 o	 “verdadeiramente
positivo”,	em	razão	da	sua	conformidade	com	a	vontade	social	predominante.
A	 teoria	 do	 paralelismo	 completa	 a	 teoria	 pluralista,	 e	 ambas	 se
contrapõem	com	vantagem	à	 teoria	monista.	Efetivamente,	Estado	e	Direito
são	 duas	 realidades	 distintas	 que	 se	 completam	 na	 interdependência.	 Como
demonstra	o	Prof.	Miguel	Reale,	a	teoria	do	sábio	mestre	da	Universidade	de
Roma	coloca	em	termos	racionais	e	objetivos	o	problema	das	relações	entre	o
Estado	e	o	Direito,	que	 se	apresenta	como	um	dos	pontos	de	partida	para	o
desenvolvimento	atual	do	Culturalismo,	como	mais	adiante	se	esclarece.
Na	equação	dos	termos	Estado—Direito	é	necessário	 ter	sempre	em	vista
esses	três	troncos	doutrinários,	dos	quais	emana	toda	a	ramificação	de	teorias
justificativas	do	Estado	e	do	Direito,	como	exporemos	em	capítulo	especial.
II
TEORIA	TRIDIMENSIONAL	DO	ESTADO	E	DO
DIREITO
1.	Noção	fundamental.
1.	NOÇÃO	FUNDAMENTAL
Como	 vimos	 no	 esquema	 antecedente,	 entre	 as	 correntes	 monistas	 (ou
estatistas),	num	extremo,	e	as	correntes	dualísticas	(ou	pluralísticas),	no	outro
extremo,	estabeleceu-se,	modernamente,	uma	corrente	eclética	(paralelística)
que	se	situa	numa	posição	de	relativo	equilíbrio	entre	os	citados	extremos.
A	esta	posição	central,	 de	equilíbrio,	prende-se	a	 concepção	 institucional
do	 Estado,	 que	 atinge	 a	 sua	 maior	 expressão	 na	 concepção	 culturalista	 do
Estado	e	do	Direito,	desenvolvida	com	amplitude	e	invulgar	brilhantismo	pelo
Prof.	Miguel	Reale.
O	 culturalismo,	 segundo	 as	 palavras	 do	 excelso	 mestre,	 integra-se	 no
historicismo	 contemporâneo	 e	 aplica,	 no	 estudo	do	Estado	 e	 do	Direito,	 os
princípios	 fundamentais	 da	 axiologia,	 ou	 seja,	 da	 teoria	 dos	 valores	 em
função	dos	graus	da	evolução	social.
Nessa	linha	de	raciocínio	se	desenvolve	a	teoria	tridimensional	do	Estado	e
do	 Direito,	 que	 tende	 a	 solucionar,	 pela	 clareza	 metodológica,	 todos	 os
conflitos	 doutrinários	 radicais.	 A	 realidade	 estatal,	 como	 o	 Direito,	 é	 uma
síntese,	ou	integração	do	“ser”	e	do	“dever	ser”;	é	 fato	e	é	norma,	pois	é	o
FATO	integrado	na	NORMA	exigida	pelo	VALOR	a	realizar.
Em	 resumo,	 o	 Estado	 não	 é	 apenas	 um	 sistema	 geral	 de	 normas,	 como
pretendem	as	correntes	monistas,	nem	um	fenômeno	puramente	sociológico,
como	 sustentam	 as	 correntes	 pluralísticas.	 É	 uma	 realidade	 cultural
constituída	historicamente	em	virtude	da	própria	natureza	social	do	homem,
que	encontra	a	sua	integração	no	ordenamento	jurídico.
Por	essa	concepção	tridimensional	do	Estado	e	do	Direito,	afasta-se	o	erro
do	formalismo	técnico-jurídico	e	se	compreende	o	verdadeiro	valor	da	 lei	e
da	função	de	governo.
Com	 efeito,	 o	 Estado,	 na	 concepção	 tridimensional,	 não	 é	 somente	 a
organização	fática	do	poder	público,	nem	simplesmente	a	realização	do	fim	da
convivência	social,	como	também	não	se	explica	só	pela	sua	função	de	órgão
produtor	 e	 mantenedor	 do	 ordenamento	 jurídico.	 É	 a	 reunião	 harmônica
desses	 três	 momentos	 ou	 fatores,	 enquanto	 dialeticamente	 se	 compõem	 na
unidade	 concreta	 do	 processo	 histórico-social.	 Os	 três	 elementos	 se
conjugam	e	se	completam	na	integração	da	realidade	estatal,	e	nenhum	deles,
isoladamente,	é	bastante	em	si	para	explicá-la.
Portanto,	FATO,	VALOR	e	NORMA	são	os	três	elementos	(momentos	ou
fatores)	 integrantes	 do	 Estado	 como	 realidade	 sócio-ética-jurídica,	 como
esclarece	o	Prof.	Miguel	Reale:	a)	o	FATO	de	existir	uma	relação	permanente
do	 Poder,	 com	 uma	 discriminação	 entre	 governantes	 e	 governados;	b)	 um
VALOR	ou	um	complexode	valores,	em	virtude	do	qual	o	Poder	se	exerce;	c)
um	complexo	de	NORMAS	que	expressa	a	mediação	do	Poder	na	atualização
dos	valores	da	convivência	social.
A	 caracterização	 apenas	 como	 uma	 realidade	 de	 fato	 leva	 fatalmente	 às
soluções	 monistas,	 desde	 o	 totalismo	 de	 Hobbes	 ao	 realismo	 simplista	 de
Duguit.	Atentando-se	apenas	para	o	aspecto	axiológico,	descamba-se	para	o
idealismo	 platônico	 e	 hegeliano,	 com	 o	 endeusamento	 do	 poder	 público.
Finalmente,	a	se	considerar	o	Estado	somente	pelo	prisma	da	sua	finalidade
parcial	 de	 criador	 e	 ordenador	 das	 normas	 jurídicas,	 incide-se	 no	 erro	 de
desprezar	 a	 realidade	 fático-axiológica,	 espraiando-se	 no	 campo	 raso	 do
materialismo,	 no	 tecnicismo	 jurídico,	 no	 normativismo	 kelseniano	 e	 nas
demais	soluções	de	caráter	monista.
A	 teoria	 tridimensional	 do	 Estado	 e	 do	 Direito	 visa	 contornar	 as
impropriedades	 dessas	 soluções	 parciais.	Correlacionando	FATO,	VALOR	 e
NORMA,	esta	teoria	reúne	os	elementos	essenciais	que	integram	a	realidade
estatal,	em	correspondência	com	o	tríplice	aspecto	da	Teoria	Geral	do	Estado:
a)	o	aspecto	SOCIOLÓGICO,	quando	estuda	a	organização	estatal	como	fato
social;	 b)	 o	 aspecto	 FILOSÓFICO	 (ou	 AXIOLÓGICO),	 quando	 estuda	 o
Estado	 como	 fenômeno	 político-cultural;	 c)	 o	 aspecto	 JURÍDICO,	 quando
encara	o	Estado	como	órgão	central	de	positivação	do	Direito.
Sobre	 a	 matéria,	 que	 é	 vasta	 e	 de	 relevante	 interesse	 para	 o	 estudo	 da
Teoria	 Geral	 do	 Estado,	 voltaremos	 a	 discorrer	 oportunamente,	 com	 mais
pormenores,	nos	pontos	referentes	à	Justificação	do	Estado.
O	 estudo	 da	 Teoria	 Tridimensional	 do	 Estado	 e	 do	 Direito	 é	 de	 suma
importância	na	formação	da	cultura	jurídica,	pelo	que	indicamos	as	seguintes
obras	do	Prof.	Miguel	Reale:	Teoria	do	Direito	e	do	Estado,	Fundamentos	do
Direito	e	Teoria	Tridimensional	do	Direito.
III
DIVISÃO	GERAL	DO	DIREITO
1.	 Direito	 Natural	 e	 Positivo.	 2.	 Direito	 público	 e	 privado.	 3.
Posição	da	Teoria	Geral	do	Estado	no	quadro	geral	do	Direito.
A	exposição	precedente	põe	em	relevo	a	impossibilidade	de	se	conceituar	a
unidade	 estatal	 com	 abstração	 do	 Direito.	 Trata-se	 de	 duas	 realidades
distintas,	interdependentes	e	inseparáveis.	Portanto,	inicialmente,	vamos	fixar
o	quadro	geral	 da	 divisão	do	direito,	 frisando	 a	 posição	da	Teoria	Geral	 do
Estado.
1.	DIREITO	NATURAL	E	POSITIVO
O	Direito	divide-se	primeiramente	em	NATURAL	e	POSITIVO.
Direito	 Natural	 é	 o	 que	 emana	 da	 própria	 natureza,	 independente	 da
vontade	do	homem	(Cícero).	É	invariável	no	espaço	e	no	tempo,	insuscetível
de	 variação	 pelas	 opiniões	 individuais	 ou	 pela	 vontade	 do	 Estado
(Aristóteles).	Ele	reflete	a	natureza	como	foi	criada.	É	anterior	e	superior	ao
Estado,	portanto	conceituado	como	de	origem	divina.
Direito	 Positivo	 é	 o	 conjunto	 orgânico	 das	 condições	 de	 vida	 e
desenvolvimento	do	indivíduo	e	da	sociedade,	dependente	da	vontade	humana
e	 das	 garantias	 dadas	 pela	 força	 coercitiva	 do	 Estado	 (Pedro	 Lessa).	 É	 o
direito	 escrito,	 consubstanciado	 em	 leis,	 decretos,	 regulamentos,	 decisões
judiciárias,	 tratados	 internacionais	 etc.,	 variando	 no	 espaço	 e	 no	 tempo.	 É
obra	 essencialmente	 humana,	 e,	 portanto,	 precária,	 falível	 e	 sujeita	 a
imperfeições.
2.	DIREITO	PÚBLICO	E	PRIVADO
O	Direito	Positivo	divide-se	em	PÚBLICO	e	PRIVADO.
Esta	 divisão	 provém	 do	 velho	 Direito	 Romano,	 e,	 segundo	 a	 definição
lapidar	 de	 Ulpiano	 —	 publicum	 jus	 est	 quod	 ad	 statum	 romanae	 spectat;
privatum	quod	ad	singulorum	utilitatem	pertinet	—,	o	direito	público	é	o	que
regula	 as	 coisas	 do	 Estado;	 o	 direito	 privado	 é	 o	 que	 diz	 respeito	 aos
interesses	particulares.
Nestes	termos,	é	sujeito	de	direito	público	o	Estado	e	de	direito	privado	a
pessoa	(física	ou	jurídica).
Kelsen	negou	 fundamento	 à	 tradicional	 divisão	dicotômica	dos	 romanos,
doutrinando	 que	 todo	 Direito	 é	 público,	 em	 relação	 à	 sua	 origem	 e	 à	 sua
condição	de	validez:	o	direito	provém	sempre	do	Estado	e	não	 tem	eficácia
sem	a	força	coativa	do	poder	estatal.	O	Direito	é	uno	e	indivisível.	A	natureza
das	 suas	 normas	 é	 que	 pode	 visar	 mais	 o	 bem	 comum	 ou	 as	 necessidades
particulares.
Esta	teoria	monística,	adotada	por	Kelsen	e	Jellinek,	não	se	harmoniza	com
a	 realidade.	 O	 Estado	 não	 é,	 absolutamente,	 a	 fonte	 exclusiva	 do	 Direito,
embora	 o	 seja	 da	 lei,	 isto	 é,	 de	 uma	 categoria	 específica	 do	 Direito	 —	 o
direito	estatal.	 Em	verdade,	 o	Estado	 não	 cria	 o	Direito;	 apenas	 verifica	 os
princípios	 que	 os	 usos	 e	 costumes	 consagram,	 para	 traduzi-los	 em	 normas
escritas	 e	 dar-lhes	 eficácia	 extrínseca	 mediante	 sanção	 coercitiva.	 O
legislador,	 como	observou	Celice,	 é	 antes	 uma	 testemunha	que	 certifica,	 do
que	um	obreiro	que	faz	a	lei.
Como	bem	acentuou	Pontes	de	Miranda,	o	Estado	é	um	meio	perfectível,
não	 exclusivo,	 de	 revelação	 das	 normas	 jurídicas.	 Fora	 do	 Estado	 existem
outros	centros	de	determinação	jurídica,	relativamente	autônomos:	as	igrejas,
as	 autarquias	 e	 entidades	 paraestatais,	 os	 clubes	 e	 associações,	 os	 grupos
menores	 em	 geral,	 revestidos	 de	 capacidade	 de	 autodeterminação,	 os	 quais,
sem	prejuízo	da	predominância	do	poder	estatal,	atuam	como	fontes	geradoras
de	normas	jurídicas.
A	 despeito	 das	 críticas	 autorizadas	 de	 Kelsen,	 Duguit,	 Posada,	 Aubry	 e
Rau,	bem	como	de	muitos	outros	gigantes	do	pensamento	jurídico	universal,	a
divisão	 do	 Direito	 em	 público	 e	 privado	 resistiu	 aos	 séculos	 impondo-se	 a
aceitação	das	ciências.
É	lógico	que	o	direito	público	e	o	direito	privado	não	se	acham	separados
por	 um	 abismo,	 como	 bem	 observou	 Fleiner,	 mas	 confundi-los	 numa	 só
realidade	 importaria	em	subverter	uma	 tradição	quase	milenária,	consagrada
pelo	consenso	geral	dos	povos.
Convém	ressaltar,	entretanto,	essa	tendência	do	Estado	moderno	no	sentido
da	 absorção	 do	 direito	 privado	 pelo	 direito	 público,	 passando	 este	 a
superintender,	 cada	 vez	 mais,	 maior	 número	 de	 relações	 jurídicas.	 É	 uma
consequência	lógica	da	decadência	do	individualismo	e	do	crescente	prestígio
das	doutrinas	do	direito	social.	Tal	tendência,	porém,	não	chegará	a	consagrar
a	 teoria	 da	 unidade	 e	 indivisibilidade	 do	 Direito	 sem	 sacrifício	 dos	 mais
salutares	princípios	democráticos.
Foi	 lançada	 por	 Gurvitch,	 ultimamente,	 a	 divisão	 tríplice	 do	 Direito,
acrescentando-se	o	direito	social	como	terceiro	ramo.	Defendem-na	Le	Fur	e
Girke,	 entre	 outros,	 e,	 no	 Brasil,	 Cesarino	 Júnior	 e	 Sousa	 Neto.	 Contratos
coletivos	 de	 trabalho,	 legislação	 industrial,	 federalismo	 econômico,
organização	do	 trabalho,	 sistema	previdenciário	etc.	 formariam	esse	 terceiro
ramo,	 isto	 é,	 o	 chamado	 “direito	 social”.	 Todavia,	 em	 que	 pesem	 os
argumentos	dos	eminentes	mestres,	a	própria	denominação	é	um	pleonasmo.
Todo	e	qualquer	direito,	 seja	público	ou	privado,	há	de	 ser	necessariamente
social.	O	objetivo	do	bem	comum	abrange	tanto	as	relações	de	ordem	pública
como	 as	 de	 ordem	 privada.	 O	 Direito	 em	 geral	 se	 socializou,	 dando	 nova
forma	 de	 equação	 aos	 termos	 “liberdade”	 e	 “autoridade”,	 com	 o	 fim	 de
restabelecer	 o	 equilíbrio	 social	 prejudicado	 pelo	 fracasso	 do	 individualismo
no	campo	político.
Voltemos,	 portanto,	 à	 clássica	 divisão	 dicotômica	 que	 é	 de	 valor
transcendental	 para	 a	 teoria	 e	 a	 prática	 da	 ciência	 jurídica.	 As	 normas
jurídicas	 se	 classificam	 como	 de	 direito	 público	 ou	 privado,	 segundo	 a
predominância	do	interesse	social	ou	particular.
Cada	um	dos	dois	ramos	fundamentais	do	Direito	se	subdivide	em	vários
outros,	como	se	vê	no	quadro	seguinte:
Incluímos	aqui	apenas	os	 ramos	principais	do	direito	público	 interno	que
formam	disciplinas	autônomas	no	currículo	das	Faculdades	de	Direito.	Outros
ramos,	 como	 direito	 tributário,	 direito	 municipal,	 direito	 militar,	 direitoaeronáutico,	 direito	 penitenciário,	 direito	 marítimo,	 direito	 escolar	 e,	 mais
recentemente,	 direito	 previdenciário,	 direito	 do	 consumidor,	 direito	 do
bancário	 etc.,	 tendem	 a	 adquirir	 autonomia	 com	 a	 crescente	 evolução	 do
Estado	moderno.
3.	POSIÇÃO	DA	TEORIA	GERAL	DO	ESTADO	NO	QUADRO	GERAL
DO	DIREITO
O	Direito	Constitucional	—	 ramo	principal	do	direito	público	 interno	—
compreende	uma	parte	geral	e	outra	especial.
A	Teoria	Geral	do	Estado	é	a	parte	geral	do	Direito	Constitucional,	a	sua
estrutura	 teórica.	 Não	 se	 limita	 a	 estudar	 a	 organização	 específica	 de	 um
determinado	Estado,	de	modo	concreto,	mas	abrange	os	princípios	comuns	e
essenciais	 que	 regem	 a	 formação	 e	 a	 organização	 de	 todos	 os	 Estados	 e
Nações,	 nas	 suas	 três	 dimensões:	 sociológica,	 axiológica	 ou	 política,	 e
normativa	 ou	 jurídica.	 Como	 acentuou	 Pedro	 Calmon,	 a	 Teoria	 Geral	 do
Estado	é	exatamente	a	mais	sociológica,	a	mais	histórica,	a	mais	variável	das
esferas	reservadas	à	compreensão	do	fenômeno	da	ordem	coletiva.
Não	é	uma	disciplina	separada,	mas	integrante,	do	Direito	Constitucional.
Daí	a	tendência	atual	de	unificação	das	duas	cátedras	tradicionais,	do	ensino
jurídico,	 sob	 a	 denominação	 única	 de	 Direito	 Constitucional,	 com
desdobramento	 em	 dois	 anos	 no	 currículo	 das	 Faculdades	 de	 Direito:	 o
primeiro,	com	predominância	da	parte	geral,	e	o	segundo,	referente	ao	direito
público	 interno,	 estendendo-se,	 naturalmente,	 ao	 Direito	 Constitucional
Comparado.
IV
TEORIA	GERAL	DO	ESTADO
1.	Conceito.	 2.	Tríplice	aspecto.	 3.	Posição	e	 relação	com	outras
ciências.	4.	Fontes.
1.	CONCEITO
A	 Teoria	 Geral	 do	 Estado	 corresponde	 à	 parte	 geral	 do	 Direito
Constitucional.	 Não	 é	 uma	 ramificação,	 mas	 o	 próprio	 tronco	 deste	 ramo
eminente	do	direito	público.
Identifica-se	 esta	 disciplina	 com	o	 que	 se	 poderia	 denominar	Ciência	do
Estado	 ou	Doutrina	 do	 Estado,	 e,	 como	 tal,	 é	 tão	 antiga	 quanto	 o	 próprio
Estado.	 Atestam	 essa	 antiguidade	 as	 obras	República	 e	As	Leis,	 de	 Platão;
Política,	de	Aristóteles;	e	De	republica	e	De	legibus,	de	Cícero.
A	matéria	política,	sem	dúvida,	é	predominante	na	Teoria	Geral	do	Estado,
decorrendo	deste	 fato	 as	denominações	de	ciência	política,	scienza	 politica,
science	 politique	 e	 political	 science,	 muitas	 vezes	 adotadas	 entre	 os	 povos
latinos	e	ingleses.	Já	Aristóteles	definia:	Política	é	a	Ciência	do	Estado.	Tal
confusão,	porém,	está	rejeitada	pelo	progresso	da	cultura	humana,	que	trouxe
o	 desdobramento	 da	 Ciência	 do	 Estado	 em	 vários	 ramos	 autônomos,	 tais
como	o	direito	internacional,	o	direito	administrativo,	a	economia	política,	a
ciência	 das	 finanças,	 o	 direito	 do	 trabalho	 etc.	 Hoje	 a	 velha	 definição
aristotélica	 teria	 de	 ser	 atualizada,	 como	 observou	 o	 Prof.	Mário	Mazagão:
política	é	o	conjunto	das	ciências	do	Estado.
Ademais,	 a	 política	 é	 uma	 ciência	 prática	 e	 de	 valorização,	 enquanto	 a
Teoria	 (ciência	 ou	 doutrina)	 do	 Estado	 é	 teórica	 e	 não	 valorizadora,	 como
demonstrou	 amplamente	 Hermann	 Heller,	 teorizador	 moderno	 da	 escola
alemã,	 trazendo	 à	 colação	 o	 fato	 de	 que	 o	 economismo	 apolítico	 do	 século
XIX,	limitando-se	quase	totalmente	aos	círculos	das	ciências	econômicas,	tem
chegado	a	esvaziar	a	denominação	de	Ciência	do	Estado.
Sem	embargo	do	seu	conteúdo	parcial	de	natureza	política,	ou	mesmo	da
predominância	 da	matéria	 política,	 a	Teoria	Geral	 do	Estado	não	objetiva	 a
aplicação	 do	 que	 é	 estritamente	 político.	 É	 uma	 ciência	 cultural,	 de	 fundo
eminentemente	 sociológico,	 com	 a	 finalidade	 precípua	 de	 investigar	 a
específica	 realidade	 da	 vida	 estatal,	 nas	 suas	mais	 amplas	 conexões.	Aspira
compreender	o	Estado	na	sua	estrutura	e	 funções,	o	seu	devir	 histórico	e	 as
tendências	da	sua	evolução.
A	denominação	“Teoria	Geral	do	Estado”,	correspondente	à	palavra	alemã
Allegemeinestaatslehre,	tem	merecido	críticas,	principalmente	pelos	que	a	não
encaram	 como	 ciência	 autônoma,	 sendo	 indevido	 o	 qualificativo	 de	 geral.
Vários	 autores	 alemães,	 como	Heller,	 preferiram	a	 denominação	 simples	 de
“Teoria	 do	 Estado”	 —	 Staatslehre.	 E	 Groppali,	 emérito	 mestre	 da
Universidade	 de	 Milão,	 preferiu	 a	 denominação	 de	 Doutrina	 do	 Estado,
suprimindo	 o	 adjetivo	 geral,	 “por	 inútil”,	 visto	 que	 uma	 doutrina,	 pelo
simples	fato	de	existir,	não	pode	ser	senão	geral.
2.	TRÍPLICE	ASPECTO
A	 Teoria	 Geral	 do	 Estado,	 na	 sua	 exata	 conceituação,	 compreende	 um
conjunto	 de	 ciências	 aplicadas	 à	 compreensão	 do	 fenômeno	 estatal,
destacando-se	principalmente	a	Sociologia,	a	Política	e	o	Direito.	Daí	o	 seu
desdobramento,	 geralmente	 aceito,	 em	 Teoria	 Social	 do	 Estado,	 Teoria
Política	do	Estado	e	Teoria	Jurídica	do	Estado.
TEORIA	 SOCIAL	 DO	 ESTADO,	 quando	 analisa	 a	 gênese	 e	 o
desenvolvimento	 do	 fenômeno	 estatal,	 em	 função	 dos	 fatores	 históricos,
sociais	e	econômicos;
TEORIA	 POLÍTICA	 DO	 ESTADO,	 quando	 justifica	 as	 finalidades	 do
governo	em	razão	dos	diversos	sistemas	de	cultura;	e
TEORIA	 JURÍDICA	 DO	 ESTADO,	 quando	 estuda	 a	 estrutura,	 a
personificação	e	o	ordenamento	legal	do	Estado.
Uma	análise	brilhante	e	objetiva	desse	tríplice	aspecto	é	apresentada	pelo
Prof.	Miguel	 Reale,	 acentuando	 que	 a	 Teoria	 Geral	 do	 Estado	 pressupõe	 a
Filosofia	 do	 Direito	 e	 do	 Estado,	 mas	 não	 se	 confunde	 com	 ela.	 Focaliza
amplamente	o	Estado	nos	 seus	 três	aspectos	—	material,	 formal	e	 teológico
—	 ao	mesmo	 tempo	 em	 que	 analisa	 o	 fenômeno	 do	 poder	 como	 realidade
social,	política	e	jurídica.
Assim	 não	 entendem	 as	 correntes	 monistas	 e	 estatistas,	 para	 as	 quais	 a
doutrina	do	Estado	se	reduz	à	ordem	jurídica	simplesmente,	 já	que	Estado	e
Direito	se	confundem	numa	só	realidade.	É	uma	verdade	parcial.
Quer	quanto	ao	Direito	em	particular,	quer	quanto	ao	Estado	em	geral,	 a
teoria	 tridimensional	 reúne	 as	 verdades	 parciais	 numa	 verdade	 integral,
oferecendo	o	conceito	amplo	e	exato	da	Teoria	Geral	do	Estado.
3.	POSIÇÃO	E	RELAÇÃO	COM	OUTRAS	CIÊNCIAS
Embora	se	trate	de	entendimento	controvertido,	a	Teoria	Geral	do	Estado
não	se	subordina	a	nenhuma	das	ciências	gerais.	É	uma	ciência	em	si	mesma,
revestida	de	autonomia,	tanto	mais	quando	considerada	no	seu	tríplice	aspecto
—	sociológico,	político	e	jurídico.	Cabe	defini-la	como	ciência	geral,	como	o
fez	Groppali,	cuja	definição	merece	destaque:
“A	Doutrina	do	Estado	é	a	ciência	geral	que,	enquanto	resume	e	 integra,
em	 uma	 síntese	 superior,	 os	 princípios	 fundamentais	 de	 várias	 ciências
sociais,	jurídicas	e	políticas,	as	quais	têm	por	objetivo	o	Estado	considerado
em	 relação	 a	 determinados	 momentos	 históricos,	 estuda	 o	 Estado	 de	 um
ponto	de	vista	unitário	na	sua	evolução,	na	sua	organização,	nas	suas	formas
mais	 típicas	 com	 a	 intenção	 de	 determinar	 suas	 leis	 formativas,	 seus
fundamentos	e	seus	fins”.
Reúne,	 pois,	 a	 Teoria	 Geral	 do	 Estado,	 numa	 síntese	 superior,	 diversas
ciências,	 umas	 descritivas,	 como	 a	 História	 e	 a	 Sociologia,	 e	 outras
normativas,	 como	 a	 Política,	 a	 Ética,	 a	 Filosofia	 e	 o	 Direito.	 Além	 disso
relaciona-se	de	perto	com	outras	ciências	auxiliares,	das	quais	recebe	valiosos
subsídios,	 como	 a	 Antropologia,	 a	 Biologia,	 a	 Geografia,	 a	 Estatística	 e	 a
Economia	Política.
4.	FONTES
As	fontes	de	estudo	da	Teoria	Geral	do	Estado	se	classificam	em	diretas	e
indiretas:
As	 fontes	diretas,	 segundo	as	 explanações	de	Groppali,	 compreendem	os
dados	 da	 paleontologia	 e	 da	 paleoetnologia,	 os	 dados	 da	 história	 e	 as
instituições	 políticas	 passadas	 e	 vigentes.	 Os	mais	 antigos	 documentos	 que
esclarecem	o	estudo	da	matéria	são	o	“Código	de	Hamurabi”,	rei	da	Babilônia
(2.300	a.C.),	as	leis	de	Manu	da	Índia	(XII	século),	o	“Código	da	China”	(XI
século),	as	leis	de	Zaleuco,	Charondas	e	Sólon	(VII	século),	as	leis	de	Gortina
(V	século)	e	a	“Leidas	XII	Tábuas”	(541	a.C.).
As	 fontes	 indiretas	 ou	 subsidiárias	 compreendem:	 a)	 o	 estudo	 das
sociedades	animais;	b)	o	estudo	das	sociedades	selvagens	contemporâneas;	e
c)	o	estudo	das	sobrevivências.
V
NAÇÃO	E	ESTADO
1.	 Conceito	 de	 Nação.	 2.	 População.	 3.	 Povo.	 4.	 Raça.	 5.
Homogeneidade	do	grupo	nacional.	6.	Conceito	de	Estado.
1.	CONCEITO	DE	NAÇÃO
Nação	 e	 Estado	 são	 duas	 realidades	 distintas	 e	 inconfundíveis.	 E	 essa
distinção	tem	absoluta	importância	no	estudo	da	nossa	disciplina.
A	Nação	é	uma	realidade	sociológica;	o	Estado,	uma	realidade	jurídica.	O
conceito	de	Nação	é	essencialmente	de	ordem	subjetiva,	enquanto	o	conceito
de	Estado	é	necessariamente	objetivo.
Procuraremos	 fixar	 bem	 o	 conceito	 de	 Nação	 cotejando	 a	 definição	 de
Mancini:	una	società	naturali	di	uomini,	da	unitá	di	territorio,	di	origine,	di
costumi	e	di	lingua,	conformata	di	vita	e	di	conscienza	sociale.
Segundo	 esse	 autor,	 são	 os	 seguintes	 os	 fatores	 que	 entram	na	 formação
nacional:	 a)	 naturais	 (territórios,	 unidade	 étnica	 e	 idioma	 comum);	 b)
históricos	 (tradições,	 costumes,	 religião	 e	 leis);	 c)	 psicológicos	 (aspirações
comuns,	consciência	nacional	etc.).
Idêntico	 conceito	 encontramos	 em	 Pradier-Fodéré:	 une	 nation	 est	 la
réunion	en	société	des	habitants	d’une	même	contrée	ayant	le	même	langage,
régis	 par	 les	 mêmes	 lois,	 unis	 par	 l’identité	 d’origine,	 de	 conformation
physique	et	de	dispositions	morales	par	une	longe	communauté	d’intérêts	et
de	sentiments	et	par	une	fusion	d’existence	amenée	par	le	laps	des	siècles.
Renan,	 sempre	 citado	pelos	 sociólogos,	 assim	conceitua	 a	Nação,	 na	 sua
linguagem	 colorida:	 une	 nation	 est	 une	 âme,	 un	 principe	 spirituel.	 Deux
choses	qui,	à	vrai	dire,	n’en	font	qu’une	constituent	cette	âme…	L’une	est	la
possession	 en	 commun	 d’un	 riche	 legs	 de	 souvenirs;	 l’autre	 est	 le
consentement	 actuel,	 le	 desir	 de	 vivre	 ensemble,	 la	 volonté	 de	 continuer	 à
faire	valoir	l’héritage	qu’on	a	reçu	indivis…	avoir	des	gloires	communes	dans
le	passé,	une	volonté	commune	dans	le	présent,	avoir	fait	de	grandes	choses
ensemble,	vouloir	en	faire	encore,	voilà	la	condition	essentielle	pour	être	un
peuple.	Une	grande	agrégation	d’hommes,	saine	d’esprit	et	chaude	de	coeur,
crée	une	conscience	morale	qui	s’appelle	une	nation.
Como	 se	 vê,	 sobre	 os	 fatores	 objetivos	 concorrentes	 preponderam,	 no
conceito	de	Nação,	os	fatores	subjetivos,	mais	ou	menos	imponderáveis.	Com
efeito,	a	humanidade	compõe-se	de	um	conjunto	de	grupos	distintos,	os	quais
se	 localizam	 em	 certas	 e	 determinadas	 regiões	 do	 globo	 terrestre.	 Fatores
éticos,	étnicos,	históricos,	geográficos,	políticos,	econômicos	etc.	determinam
esses	agrupamentos	e	lhes	dão	continuidade.	A	sua	permanência	demorada	em
determinada	 região	 acaba	 por	 imprimir	 nos	 indivíduos	 particularidades
somáticas	e	psíquicas	que	os	distinguem	dos	outros	grupos	humanos.	O	clima,
a	 alimentação,	 a	 água,	 o	 próprio	 cenário	 geográfico	 no	 seu	 conjunto	 se
encarregam	 de	 esculpir	 a	 alma	 e	 o	 corpo	 dos	 elementos	 humanos,
imprimindo-lhes	 esses	 caracteres	 psicofísicos	 comuns	 que	 identificam	 uma
raça	 e	 configuram	 uma	 personalidade	 coletiva.	A	 homogeneidade	 do	 grupo
cria	aquela	solidariedade	dos	semelhantes	a	que	alude	Spencer;	estabelece	um
parentesco	 espiritual,	 na	 expressão	 de	 Hauriou,	 determinando	 uma	 sólida
comunhão	de	ideias,	de	sentimentos	e	de	aspirações,	a	par	do	apego	ao	torrão
natal.
Comentando	 o	 fenômeno	 sociológico	 da	 formação	 das	 nacionalidades,
referiu	Joseph	de	Maistre	que,	viajando	pelo	mundo,	não	encontrou	em	parte
alguma	 o	 homem,	 indistinto,	 incaracterístico,	 universal,	 comum	 a	 todas	 as
latitudes,	mas	em	cada	região	encontrou	o	homem	nacional,	isto	é,	o	chinês,	o
japonês,	o	inglês,	o	beduíno,	o	elemento	humano	típico	de	uma	nacionalidade,
ou	seja,	o	indivíduo	característico	de	uma	unidade	étnico-social.
Assim,	Nação	é	uma	entidade	de	direito	natural	e	histórico.	Conceitua-se
como	 um	 conjunto	 homogêneo	 de	 pessoas	 ligadas	 entre	 si	 por	 vínculos
permanentes	de	sangue,	idioma,	religião,	cultura	e	ideais.
A	Nação	é	anterior	ao	Estado.	Aliás,	pode	ser	definida	como	a	substância
humana	do	Estado.	 Como	 afirmou	Clóvis	Beviláqua,	 o	 agrupamento	 social
precedeu	 aos	 primeiros	 rudimentos	 do	 Estado,	 sendo	 resultante	 da	 ação
combinada	 de	 certos	 instintos	 naturais.	 Pode-se	 dizer,	 como	Miguel	 Reale,
que	a	nação	“é	um	Estado	em	potência”.
A	Nação	pode	perfeitamente	existir	sem	Estado.	A	distinção	entre	as	duas
realidades	mais	se	evidencia	quando	se	tem	em	vista	que	várias	nações	podem
reunir-se	em	um	só	Estado,	assim	como	também	uma	só	Nação	pode	dividir-
se	 em	 vários	 Estados.	 A	 Áustria	 e	 a	 Hungria	 sempre	 foram	 nações
completamente	distintas;	não	obstante,	durante	muito	tempo	formaram	um	só
Estado	 sob	 a	 denominação	 de	 Áustria-Hungria.	 Igualmente,	 a	 Escócia,	 a
Irlanda	 e	 a	 Inglaterra	 foram	nações	 tradicionalmente	diversas	 e	 se	 reuniram
num	só	Estado	que	é	a	Grã-Bretanha.	Por	outro	lado,	a	Nação	italiana	chegou
a	 dividir-se	 em	 cerca	 de	 uma	 dezena	 de	 Estados	 (Roma,	 Nápoles,	 Veneza,
Piemonte	 etc.)	 até	 quando	 foi	 unificada	 em	 1870.	 Também	 a	 Alemanha
dividiu-se	em	vários	Estados,	finalmente	reincorporados	pela	ação	unificadora
de	 Bismarck.	 Daí	 o	 princípio	 dominante	 no	 direito	 internacional	 moderno:
cada	Nação	deve	constituir	um	Estado	próprio.
Antes	de	passarmos	ao	conceito	de	Estado,	convém	esclarecer	os	sentidos
das	palavras	população,	povo	e	raça	—	o	que	favorece	mais	o	entendimento
da	distinção	conceitual	entre	Nação	e	Estado.
2.	POPULAÇÃO
É	 expressão	 que	 envolve	 um	 conceito	 aritmético,	 quantitativo,
demográfico,	pois	designa	a	massa	total	dos	indivíduos	que	vivem	dentro	das
fronteiras	 e	 sob	 o	 império	 das	 leis	 de	 um	 determinado	 país.	 É	 o	 conjunto
heterogêneo	 dos	 habitantes	 de	 um	 país,	 sem	 exclusão	 dos	 estrangeiros,	 dos
apátridas,	dos	súditos	coloniais	etc.	Quando	se	diz	que	a	população	do	Brasil
é	 de	 cem	 milhões,	 por	 exemplo,	 nesse	 número	 não	 figuram	 apenas	 os
brasileiros	(nacionais)	mas	a	massa	total	dos	habitantes.
Os	elementos	de	outras	origens	 (não	nacionais)	poderão	 integrar	o	grupo
nacional	pelo	processo	de	naturalização,	 isto	é,	de	nacionalização,	na	 forma
das	 leis	 próprias.	 Só	 então	 poderão	 exercer	 os	 direitos	 políticos	 que	 são
privativos	dos	nacionais.
3.	POVO
No	 sentido	 amplo,	 genérico,	 equivale	 à	 população.	 Porém,	 no	 sentido
estrito,	 qualificado,	 condiz	 com	o	 conceito	 de	Nação:	povo	brasileiro,	povo
italiano	 etc.	 Com	 este	 entendimento	 foi	 que	 doutrinou	 Cícero	 em	 De
Republica,	 1,25:	 populus	 est	 non	 omnis	 hominum	 coetus,	 quoquo	 modo
congregatus	 sed	 cuetus	 moltitudinis	 iuris	 consensu	 et	 utilitatis	 comunione
sociatus.
4.	RAÇA
Difere	também	do	conceito	de	Nação.	Nação	é	uma	unidade	sociopsíquica,
como	já	vimos,	enquanto	raça	é	uma	unidade	bioantropológica.
Uma	 Nação	 pode	 ser	 formada	 de	 várias	 raças.	 A	 Nação	 brasileira,	 por
exemplo,	constituiu-se	de	três	grupos	étnicos	(lusitano,	africano	e	ameríndio).
Por	 outro	 lado,	 de	 um	 só	 tronco	 racial	 podem	 surgir	 várias	 nações,	 como	é
bastante	comum,	principalmente	no	Continente	Americano.
Portanto,	nem	sempre	coincidem	nação	e	raça.	É	certo	que	no	conceito	de
nação	 entra	 um	 fator	 natural	 que	 é	 o	 vínculo	 de	 sangue,	 mas,	 sobretudo,
predominam	os	fatores	históricos	e	psicológicos.
5.	HOMOGENEIDADE	DO	GRUPO	NACIONAL
Não	 passaremos	 ainda	 ao	 conceito	 de	 Estado	 sem	 antes	 consignar	 outro
esclarecimento:	 A	 Nação	 é	 um	 dos	 elementos	 formadores	 do	 Estado,	 mais
precisamente,	 como	 escreveu	 Carré	 de	Malberg,	 é	 a	 substância	 humana	 do
Estado.	São	três	os	elementos	constitutivos	do	Estado:	população,	território	e
governo.	E	o	elemento	população	envolve	o	requisito	de	homogeneidade,	isto
é,	deve	corresponderao	conceito	de	Nação.
Queiroz	 Lima	 define	 razoavelmente:	O	Estado	 é	 a	 Nação	 politicamente
organizada.	Quer	dizer:	a	população,	 como	elemento	 integrativo	do	Estado,
requer	 o	 atributo	 nacional.	 Não	 resta	 dúvida	 que	 este	 é	 um	 ponto
controvertido	 e	 controvertível.	 No	 mundo	 moderno	 formaram-se	 vários
Estados	 sem	 o	 estágio	 prévio	 de	 um	 processo	 de	 cristalização	 nacional.
Encontramos	várias	e	respeitáveis	contestações	ao	princípio	de	que	a	Nação,
no	seu	exato	sentido	sociológico,	seja	elemento	sine	qua	non	do	Estado,	entre
as	 quais	 se	 destaca	 a	 de	Bigne	 de	Villeneuve.	Nos	 seus	 exemplos	 cita	 este
autor	 o	 Estado	 belga,	 que	 se	 formou	 sem	 que	 existisse	 efetivamente	 uma
Nação	 belga.	 Reúne	 a	 Bélgica	 realmente	 dois	 grupos	 nacionais:	 dos
flamengos	 (de	Flandres)	e	dos	valões,	que	ocupavam	a	parte	 sul-oriental	do
país.	Daí	 a	 definição	 desse	 autor:	 “O	Estado	 é	 a	 unidade	 política	 e	 jurídica
durável,	 constituída	 por	 uma	 aglomeração	 humana,	 formando,	 sobre	 um
território	comum,	um	grupo	independente”.	Dispensa,	como	se	vê,	o	requisito
da	homogeneidade.
Exemplos	não	faltam	em	socorro	dessa	e	de	todas	as	doutrinas.	O	Estado
da	 Califórnia	mesmo,	 nos	 Estados	Unidos	 da	América	 do	Norte,	 não	 foi	 a
organização	 política	 de	 um	grupo	 nacional	 homogêneo;	 resultou	 da	 decisão
tomada	 por	 uma	 assembleia	 de	 garimpeiros	 de	 todas	 as	 origens,	 em	 1849.
Entretanto,	 é	 impróprio	 argumentar	 com	 as	 anomalias	 ou	 com	 as	 exceções
que,	afinal,	não	infirmam	o	princípio	geral	consagrado	pela	ciência.	Ademais,
a	 se	 atentar	 para	 as	 causas	deformadoras	das	 regras	dominantes,	 chega-se	 a
admitir	o	Estado	sem	território,	fato	que	se	verificou	na	Abissínia	e	em	outros
Estados	que,	invadidos	pelas	forças	agressoras,	no	decurso	da	última	guerra,
seus	 governos	 se	 refugiaram	 em	 Londres,	 conservando	 as	 prerrogativas	 de
Estado	na	ordem	internacional.
É	certo,	por	outro	lado,	que	podemos	e	devemos	fixar	a	sociedade	humana
no	momento	preciso	em	que	ela	se	agrupa	numa	determinada	área,	atingindo,
assim,	lenta	ou	precipitadamente,	um	certo	grau	de	diferenciação	política.	De
qualquer	forma,	deve	preexistir	uma	vontade	coletiva	organizada,	qualificável
como	 Nação	 pela	 convergência	 dos	 fatores	 históricos	 e	 psicológicos	 que
influem	no	agrupamento.	O	fator	racial,	como	já	observamos,	é	secundário.
O	 agrupamento	 humano	que,	 num	dado	momento,	 após	 atingir	 um	 certo
grau	de	diferenciação	política,	se	arvora	em	Estado	há	de	ser,	em	regra,	mais
ou	menos	homogêneo.	Essa	homogeneidade	pode	advir	apenas	de	alguns	dos
fatores	históricos	e	psicológicos,	 isto	é,	sem	a	presença	dos	fatores	naturais.
De	 qualquer	 modo,	 como	 bem	 observou	 Del	 Vecchio,	 um	 Estado	 que	 não
corresponda	 a	 uma	Nação	 é	 um	Estado	 imperfeito.	 E	mais:	 um	Estado	 que
não	defenda	e	promova	justamente	o	caráter	nacional	é	um	Estado	ilegítimo.
Em	remate	de	suas	ponderações	afirma	o	ilustre	professor	da	Universidade	de
Roma	 que	 “de	 tudo	 isto	 resulta,	 enfim,	 que	 se	 não	 pode	 ter	 uma	 plena	 e
verdadeira	noção	de	Estado	se	não	se	tiver	distinguido	criticamente	o	direito
ideal	 do	 positivo,	 e	 esta	 distinção	 não	 é	 possível	 sem	 um	 fundamento,
igualmente	crítico,	dos	valores	éticos	em	geral”.
Pela	 mesma	 esteira	 de	 raciocínio	 se	 desenvolvem	 os	 ensinamentos	 de
Groppali:	 a	 homogeneidade	 do	 elemento	 populacional	 reflete	 em	 um
fortalecimento	maior	 dos	 Estados	 assim	 chamados	 nacionais,	 em	 confronto
com	os	ditos	plurinacionais,	 destituídos	de	coesão	 interna	e	 frequentemente
corroídos	pelas	lutas	de	raças	e	tendências.
Finalmente,	 o	 próprio	 direito	 público	 internacional,	 procurando	 uma
fórmula	para	assegurar	a	paz	no	mundo	de	após-guerra,	tem	prestigiado	sobre
todas	as	outras	a	doutrina	das	nacionalidades,	que	consiste	em	reconhecer,	a
cada	 grupo	 nacional	 homogêneo,	 o	 direito	 de	 se	 constituir	 em	 Estado
soberano.	A	história	política	da	Europa,	principalmente,	tem	comprovado	que
a	 constituição	 arbitrária	 de	 pequenos	 Estados,	 dividindo	 ou	 incorporando
nações,	 tem	 sido	 a	 maior	 fonte	 de	 perturbação	 da	 paz	 no	 Continente	 e	 no
mundo.
6.	CONCEITO	DE	ESTADO
Passemos	 ao	 conceito	 de	 Estado.	 Este	 conceito	 vem	 evoluindo	 desde	 a
antiguidade,	 a	 partir	 da	 Polis	 grega	 e	 da	 Civitas	 romana.	 A	 própria
denominação	 de	 Estado,	 com	 a	 exata	 significação	 que	 lhe	 atribui	 o	 direito
moderno,	foi	desconhecida	até	o	limiar	da	Idade	Média,	quando	as	expressões
empregadas	 eram	 rich,	 imperium,	 land,	 terrae	 etc.	 Teria	 sido	 a	 Itália	 o
primeiro	país	a	empregar	a	palavra	Stato,	embora	com	uma	significação	muito
vaga.	A	 Inglaterra,	no	 século	XV,	depois	a	França	e	a	Alemanha,	no	 século
XVI,	usaram	o	termo	Estado	com	referência	à	ordem	pública	constituída.	Foi
Maquiavel,	criador	do	direito	público	moderno,	quem	introduziu	a	expressão,
definitivamente,	na	literatura	científica.
Um	esclarecimento	se	impõe	antes	de	tudo:	Não	há	nem	pode	haver	uma
definição	de	Estado	que	seja	geralmente	aceita.	As	definições	são	pontos	de
vista	 de	 cada	 doutrina,	 de	 cada	 autor.	 Em	 cada	 definição	 se	 espelha	 uma
doutrina.
Um	dos	mais	profundos	 tratadistas	do	direito	público,	que	foi	Bluntschli,
há	 mais	 de	 cem	 anos,	 reconheceu	 ser	 impossível	 deduzir	 um	 conceito	 de
Estado	sem	distinguir	o	Estado-ideia	(ou	Estado-instituição)	do	Estado	como
entidade	histórica,	real,	empírica.	O	primeiro	pertence	à	reflexão	filosófica,	e
o	segundo	é	o	que	se	estuda	no	domínio	dos	fatos	e	da	realidade.
Essa	 concepção	 dualística	 foi	 retomada	 por	 Kelsen,	 embora	 em	 outros
termos.	 Afirma	 o	 líder	 da	 escola	 vienense	 que	 a	 ciência	 política	 encara	 o
Estado	por	dois	ângulos	diversos:	primeiro	como	objeto	de	valoração,	isto	é,
encara	 o	Estado	 como	 deveria	 ou	 não	 deveria	 ser,	 e	 depois	 como	 realidade
social,	 ou	 seja,	 como	 efetivamente	 é.	 Só	 na	 primeira	 hipótese	 o	 estudo	 tem
caráter	 científico.	 Aí	 o	 observador	 se	 guia	 pela	 razão	 e	 pode	 formular	 os
juízos	de	valor.	Na	segunda	hipótese	o	observador	se	guia	pela	realidade.
No	 plano	 político,	 onde	 se	 encara	 o	 Estado	 principalmente	 como	 fato
social,	 os	 conceitos	 emitidos	 pelos	 autores	 decorrem	 das	 construções
doutrinárias.	Uns	consideram	o	Estado	como	organismo	natural	ou	produto	da
evolução	 histórica,	 outros	 como	 entidade	 artificial,	 resultante	 da	 vontade
coletiva	manifestada	em	um	dado	momento.	Uns	o	conceituam	como	objeto
de	 direito	 (doutrinas	 monárquicas),	 outros	 como	 sujeito	 de	 direito,	 como
pessoa	jurídica	(doutrinas	democráticas).	Outros	ainda	o	consideram	como	a
expressão	mesma	do	direito,	incluindo	em	uma	só	realidade	Estado	e	Direito
(teoria	 monista).	 Jellinek	 vê	 no	 Estado	 uma	 dupla	 personalidade,	 social	 e
jurídica,	 enquanto	Kelsen	 e	 seus	 seguidores	 o	 negam	como	 realidade	 social
para	 afirmá-lo	 estritamente	 como	 realidade	 jurídica.	No	mesmo	 sentido	 é	 a
concepção	 de	 Duguit:	 o	 Estado	 é	 criação	 exclusiva	 da	 ordem	 jurídica	 e
representa	uma	organização	da	força	a	serviço	do	direito.
Rudolf	Smend	demonstra	 que	o	Estado	 é	 resultante	 natural	 de	 um	 longo
processo	de	integração:	“O	Estado	atual	é	uma	incessante	luta	de	integração.
Reflete,	 na	 sua	 estrutura,	 forças	 independentes	 que	 congrega	 e	 comanda.	 É
um	 ângulo	 de	 convergência	 de	 todas	 as	 forças	 sociais	 propulsoras,	 sob	 sua
disciplina,	 da	 felicidade	 e	 da	 ordem,	 no	 seio	 da	 comunhão.	 Ausculta	 as
tendências,	as	influências	dos	fenômenos	da	natureza,	imprimindo-lhes	rumo
e	ritmo	dirigidos	à	sua	finalidade”.
Os	 autores	 norte-americanos	 nos	 oferecem	 as	 seguintes	 definições:	 “O
Estado	 é	 uma	 parte	 especial	 da	 humanidade	 considerada	 como	 unidade
organizada”	 (John	 W.	 Burgess);	 “O	 Estado	 é	 uma	 sociedade	 de	 homens
unidos	para	o	fim	de	promover	o	seu	interesse	e	segurança	mútua,	por	meio
da	 conjugação	 detodas	 as	 suas	 forças”	 (Thomaz	M.	Cooley);	 “O	Estado	 é
uma	 associação	 que,	 atuando	 através	 da	 lei	 promulgada	 por	 um	 governo
investido,	 para	 esse	 fim,	 de	 poder	 coercitivo,	 mantém,	 dentro	 de	 uma
comunidade	 territorialmente	 delimitada,	 as	 condições	 universais	 da	 ordem
social”	(R.	M.	Mac	Iver).	Em	todas	se	encerra	a	ideia	democrática	da	origem
nacional	do	poder	público.
Entre	nós	destaca-se,	no	mesmo	sentido	da	doutrina	americana,	a	definição
de	Clóvis	Beviláqua:	“O	Estado	é	um	agrupamento	humano,	estabelecido	em
determinado	território	e	submetido	a	um	poder	soberano	que	 lhe	dá	unidade
orgânica”.
A	 escola	 técnica	 alemã	 considera	 o	Estado	 como	uma	 realidade	 jurídica,
mas	alguns	autores	dessa	mesma	escola	admitem	que	o	Estado	é	também	uma
realidade	 social,	 embora	 apenas	 no	 tocante	 à	 origem	 do	 poder	 que	 se
corporifica	 definitivamente	 na	 organização	 estatal.	 Da	 doutrina	 de	 Von
Ihering	extraiu	Clóvis	este	conceito:	“O	Estado	é	a	sociedade	que	se	coage;	e
para	poder	coagir	é	que	ela	 se	organiza	 tomando	a	 forma	pela	qual	o	poder
coativo	social	 se	exercita	de	um	modo	certo	e	 regular;	em	uma	palavra,	é	a
organização	 das	 forças	 coativas	 sociais”.	 Em	 última	 análise,	 o	 tecnicismo
jurídico	leva	sempre	à	definição	simplista	de	Duguit	—	“O	Estado	é	a	força	a
serviço	do	Direito”.
Em	muitos	pontos	de	nossos	programas	teremos	que	examinar	o	conceito
do	 Estado	 em	 face	 de	 determinadas	 doutrinas.	 Assim	 teremos	 ocasião	 de
verificar	o	conceito	hegeliano	do	Estado	como	suprema	encarnação	da	ideia;
os	conceitos	totalitários	de	todas	as	teorias	que	sorveram	a	seiva	do	Leviatã	de
Hobbes;	a	concepção	do	Estado	como	“super	ser	coletivo”	etc.,	bem	como	a
teoria	fascista,	segundo	a	qual	a	Nação	não	faz	o	Estado,	mas	este	é	que	faz	a
Nação.	 Esta	 teoria,	 por	 exemplo,	 serviu	 aos	 objetivos	 de	 conquista	 do
fascismo,	 que	 ao	 anexar	 a	 Abissínia	 considerou	 o	 povo	 etíope	 como
integrante	 da	 nação	 italiana.	 Nem	 a	 concepção	 anarquista	 deixará	 de	 ser
examinada	no	programa	desta	disciplina.
No	 presente	 ponto	 o	 objetivo	 é	 fixar	 a	 distinção	 entre	 Nação	 e	 Estado,
firmando	o	conceito	da	primeira	e	apenas	abrindo	o	caminho	para	o	conceito
polêmico	do	fenômeno	estatal.
Podemos,	entretanto,	 consignar	a	nossa	concordância	com	a	definição	de
Queiroz	Lima,	condizente	com	a	escola	clássica	francesa:	O	Estado	é	a	Nação
encarada	sob	o	ponto	de	vista	de	sua	organização	política,	ou	simplesmente,	é
a	Nação	politicamente	organizada.
As	definições	que	pretendem	esclarecer	a	natureza	do	poder	e	a	finalidade
do	 Estado	 tornam-se	 complexas	 e	 contraditórias.	 E	 todas	 aquelas	 que
atribuem	ao	Estado	um	fim	em	si	são	contrapostas	à	doutrina	democrática.	O
Estado,	democraticamente	considerado,	é	apenas	uma	instituição	nacional,	um
meio	destinado	à	realização	dos	fins	da	comunidade	nacional.
De	acordo	com	estes	princípios,	considerando	que	só	a	Nação	é	de	direito
natural,	enquanto	o	Estado	é	criação	da	vontade	humana,	e	levando	em	conta
que	o	Estado	não	tem	autoridade	nem	finalidade	próprias,	mas	é	uma	síntese
dos	 ideais	 da	 comunhão	 que	 ele	 representa,	 preferimos	 formular	 o	 seguinte
conceito	simples:	O	Estado	é	o	órgão	executor	da	soberania	nacional.
VI
ELEMENTOS	CONSTITUTIVOS	DO	ESTADO
1.	População.	2.	Território.	3.	Governo.
No	 tocante	 à	 sua	 estrutura	 o	 Estado	 se	 compõe	 de	 três	 elementos:	 a)
população;	b)	território;	c)	governo.
A	 condição	 de	 Estado	 perfeito	 pressupõe	 a	 presença	 concomitante	 e
conjugada	 desses	 três	 elementos,	 revestidos	 de	 características	 essenciais:
população	homogênea,	território	certo	e	inalienável	e	governo	independente.
A	 ausência	 ou	 desfiguração	 de	 qualquer	 desses	 elementos	 retira	 da
organização	 sócio-política	a	plena	qualidade	de	Estado.	É	o	que	ocorre,	por
exemplo,	 com	o	Canadá,	que	deixa	de	 ser	um	Estado	perfeito	porque	o	 seu
governo	 é	 subordinado	 ao	 governo	 britânico,	 como	 integrante	 da
commonwealth.
1.	POPULAÇÃO
A	população	é	o	primeiro	elemento	formador	do	Estado,	o	que	independe
de	justificação.	Sem	essa	substância	humana	não	há	que	cogitar	da	formação
ou	existência	do	Estado.
Cabe	 examinar,	 porém,	o	 requisito	 da	homogeneidade,	 em	 torno	do	qual
giram	as	divergências	doutrinárias,	como	já	foi	visto	no	capítulo	anterior.
Para	 alguns	 autores,	 o	 núcleo	 básico	 formador	 do	 Estado	 é
caracteristicamente	nacional,	isto	é,	corresponde	a	uma	unidade	étnica.	Assim
se	constituíram	os	Estados	antigos	e	tradicionais,	como	Israel,	Roma,	Grécia,
China	 etc.,	 os	 quais	 teriam	 surgido	 como	 unidades	 políticas	 através	 dos
diversos	e	sucessivos	estágios	da	formação	nacional:	 família,	 tribo,	cidade	e
Estado.
Outros,	 porém,	 sustentam	 que	 o	 elemento	 população	 se	 entende,	 em
sentido	 amplo	 e	 puramente	 formal,	 como	 reunião	 de	 indivíduos	 de	 várias
origens,	 os	 quais	 se	 estabelecem	 num	 determinado	 território,	 com	 ânimo
definitivo,	e	aí	se	organizam	politicamente.	Argumentam	esses	autores,	entre
os	quais	se	destaca	Bigne	de	Villeneuve,	que	muitos	Estados,	como	a	Suíça,	a
Áustria,	a	Bélgica,	 reuniram	porções	de	povos	diferentes,	 sendo	certo	que	a
Bélgica	se	 formou	sem	que	existisse	 realmente	uma	nação	belga.	A	própria
nacionalidade	 italiana	 teria	 resultado	de	uma	 fusão	de	grupos	étnicos,	como
os	 umbros,	 os	 samnitas,	 os	 lígures,	 os	 etruscos	 etc.	 Citam	 exemplos	 mais
recentes,	entre	os	quais	os	da	República	Islandesa	e	do	Estado	da	Califórnia,
este	 criado	 por	 resolução	 de	 uma	 assembleia	 heterogênea	 de	 garimpeiros.
Além	 disso,	 segundo	Roger	Bonnard,	 a	 noção	 étnica	 é	 essencialmente	 uma
noção	 racista,	 e	 não	 existem	 grupos	 étnicos	morfologicamente	 homogêneos
que	possam	integrar	uma	determinada	nação.
Entretanto,	 o	 requisito	 da	 homogeneidade	 do	 agrupamento	 humano
constitutivo	 do	 Estado	 não	 envolve	 a	 ideia	 de	 raça,	 pelo	menos	 no	 sentido
biológico	 ou	 antropológico.	 Não	 pretendemos	 levar	 em	 conta	 a
homogeneidade	 racial,	 como	 fizeram	 os	 teóricos	 do	 nacional-socialismo
alemão.	 Só	 no	 sentido	 psicossociológico	 é	 que	 falamos	 em	 raça	 na
conceituação	das	nacionalidades.
Insistimos,	 assim,	 no	 requisito	 da	 homogeneidade	 em	 relação	 ao	 fator
população.	 A	 base	 humana	 do	 Estado	 há	 de	 ser,	 em	 regra,	 uma	 unidade
étnico-social	 que,	 embora	 integrada	 por	 tipos	 raciais	 diversos,	 vai	 se
formando	 como	 unidade	 política	 através	 de	 um	 lento	 processo	 de
estratificação,	de	fusão	dos	elementos	no	cadinho	da	convivência	social.
Os	 Estados	 criados	 arbitrariamente,	 por	 deliberação	 ocasional	 de
aglomerados	heterogêneos,	como	aqueles	criados	por	imposição	de	tratados	e
convenções	 internacionais,	sempre	 tiveram	existência	precária	e	 tumultuada.
Separando	 nações	 ou	 reunindo	 povos	 diversos,	 ao	 sabor	 da	 vontade	 das
grandes	potências,	como	se	vê	pelos	sucessivos	mapas	da	Europa,	tais	Estados
nunca	 lograram	 apresentar	 aquela	 firmeza	 durável	 dos	 Estados	 tradicionais.
Os	 que	 originariamente	 surgiram	 com	 base	 numa	 população	 nacional,
homogênea,	vêm	atravessando	os	séculos	e	os	milênios	ostentando	um	caráter
majestoso	de	eternidade.
Os	Estados	plurinacionais	ou	não	nacionais	são	Estados	imperfeitos,	como
acentua	 Del	 Vecchio,	 e	 só	 sobrevivem,	 em	 regra,	 quando	 tendem	 a	 se
legitimar	defendendo	e	promovendo	a	unificação	nacional.
Via	de	regra,	portanto,	o	Estado	sucede	ao	processo	de	formação	nacional,
ou	tende	a	realizar	essa	formação	como	base	de	sobrevivência.
Em	nenhum	Estado	seria	 lógico	confundir	população,	 em	sentido	amplo,
com	 a	 unidade	 nacional,	 pois	 só	 esta	 detém	 legitimamente	 o	 poder	 de
soberania	como	direito	subjetivo	absoluto.	Para	a	escola	clássica	francesa	da
soberania	 nacional,	 principalmente,	 a	 distinção	 é	 de	 importância	 primacial.
Interpretando-a	 objetivamente,	 viu	 Rousseau,	 no	 indivíduo,	 uma	 dupla
qualidade:	a	de	cidadão	membro	ativo	doEstado	e	elemento	componente	da
vontade	geral,	e	a	de	súdito,	pessoa	inteiramente	subordinada	a	essa	vontade
geral,	soberana.	A	igualdade	de	todos	perante	a	lei	compreende-se	na	esfera
dos	direitos	políticos	(ou	de	cidadania);	só	os	exercem	os	elementos	nacionais
ou	nacionalizados.	Os	estrangeiros,	que	integram	a	massa	total	da	população,
não	participam	na	formação	da	vontade	política	nacional,	em	regra.
2.	TERRITÓRIO
O	 território	é	 a	base	 física,	o	âmbito	geográfico	da	nação,	onde	ocorre	a
validade	da	sua	ordem	jurídica	—	definiu	Hans	Kelsen.
A	nação,	como	realidade	sociológica,	pode	subsistir	sem	território	próprio,
sem	se	constituir	em	Estado,	como	ocorreu	com	a	nação	judaica	durante	cerca
de	 dois	 mil	 anos,	 desde	 a	 expulsão	 de	 Jerusalém	 até	 a	 recente	 partilha	 da
Palestina.	Porém,	Estado	sem	território	não	é	Estado.
Para	Duguit	e	Le	Fur	o	território	não	é	elemento	necessário	à	existência	de
um	 Estado.	 Invocam	 eles	 o	 direito	 internacional	 moderno,	 que	 tem
reconhecido	 a	 existência	 de	 Estados	 sem	 território,	 como	 nos	 casos	 do
Vaticano,	 depois	 da	 unificação	 italiana;	 do	 Grão-Priorado	 de	 Malta;	 da
Abissínia;	 e	 de	 todos	 os	 governos	 que	 se	 refugiaram	 em	 Londres	 em
consequência	das	invasões	do	chamado	“Eixo	Roma-Berlim”.
Não	 passaram	 tais	 Estados,	 porém,	 de	mera	 ficção.	Não	 existiram	 senão
em	caráter	precário,	em	período	de	anormalidade	internacional.	Deveram	eles
a	sua	vida	às	conveniências	momentâneas	das	potências	que	os	reconheceram
e	ampararam	sob	os	imperativos	do	momento	histórico.	Foram	exceções	que
não	infirmam	a	regra.
O	Estado	moderno	é	rigorosamente	territorial,	afirma	Queiroz	Lima.	Esse
elemento	 físico,	 tanto	 quanto	 os	 dois	 outros	—	 população	 e	 governo	—,	 é
indispensável	 à	 configuração	 do	 Estado,	 segundo	 as	 concepções	 pretérita	 e
atual	do	direito	público.
As	 populações	 nômades	 não	 podem	 possuir	 individualidade	 política	 na
atual	 concepção	 do	 Estado.	 Dentre	 os	 autores	 que	 sustentam	 não	 ser	 o
território	 elemento	 necessário	 à	 existência	 do	 Estado	 merecem	 destaque
Eduardo	Meyer	e	D.	Donati,	os	quais	alinham,	em	abono	de	sua	tese,	vários
exemplos:	 os	 atenienses,	 quando	 tiveram	 as	 suas	 cidades	 ocupadas	 pelos
persas,	refugiaram-se	nos	navios	de	Milcíades,	mantendo	a	sobrevivência	dos
seus	 Estados;	 os	 holandeses,	 expulsos	 pelo	 exército	 de	 Luiz	 XIV,
conservaram	 íntegra	 a	 sua	 organização	 política	 além	 das	 suas	 fronteiras
tradicionais;	os	sérvios,	vencidos	pelas	tropas	austro-húngaras,	permaneceram
politicamente	constituídos;	o	Estado	belga	do	Havre,	o	Estado	sérvio	de	Corfu
e	Salônica,	 o	Estado	 tcheco-eslovaco	 são	 outros	 tantos	 exemplos	 invocados
pelos	citados	autores.
Tais	Estados	nômades,	 porém,	não	 se	 justificam,	porque	 são	 transitórios.
Seria	preciso	distinguir,	como	observa	Groppali,	a	perda	territorial	de	fato	por
ocupações	 temporárias	 de	 guerra,	 da	 perda	 jurídica	 e	 permanente.	 Nos
exemplos	 citados	 não	 houve	 perda	 definitiva	 do	 território,	 de	 sorte	 que	 as
organizações	políticas	puderam	subsistir	e	superar	o	momento	de	crise.
Ademais,	em	verdade,	 subsistiram	as	nações	 ateniense,	holandesa,	 sérvia
etc.,	não	os	Estados,	que	temporariamente	desapareceram.
O	 território	 é	 patrimônio	 sagrado	 e	 inalienável	 do	 povo,	 frisa	 Pedro
Calmon.	É	 o	 espaço	 certo	 e	 delimitado	 onde	 se	 exerce	 o	 poder	 do	 governo
sobre	os	indivíduos.	Patrimônio	do	povo,	não	do	Estado	como	instituição.	O
poder	diretivo	se	exerce	sobre	as	pessoas,	não	sobre	o	território.	Tal	poder	é
de	 imperium,	 não	 de	 dominium.	 Nada	 tem	 em	 comum	 com	 o	 direito	 de
propriedade.	 A	 autoridade	 governamental	 é	 de	 natureza	 eminencialmente
política,	de	ordem	jurisdicional.
O	território,	sobre	o	qual	se	estende	esse	poder	de	jurisdição,	representa-se
como	uma	grandeza	a	três	dimensões,	abrangendo	o	suprassolo,	o	subsolo	e	o
mar	territorial.
Alguns	autores	o	dividem	em	terrestre,	marítimo	e	fluvial.
Tendo	 em	 vista	 o	 seu	 exato	 conceito	 de	 espaço	 de	 validade	 da	 ordem
jurídica,	 podemos	 destrinçá-lo	 nos	 elementos	 que	 o	 integram:	 a)	 o	 solo
contínuo	e	delimitado,	ocupado	pela	corporação	política;	b)	o	 solo	 insular	e
demais	 regiões	 separadas	 do	 solo	 principal;	 c)	 os	 rios,	 lagos	 e	 mares
interiores;	d)	os	golfos,	baías,	portos	e	ancoradouros;	e)	a	parte	que	o	direito
internacional	 atribui	 a	 cada	 Estado	 nos	 rios	 e	 lagos	 divisórios;	 f)	 o	 mar
territorial	e	 respectiva	plataforma	marítima;	g)	o	subsolo;	h)	o	 espaço	aéreo
(suprassolo);	i)	os	navios	mercantes	em	alto	mar;	j)	os	navios	de	guerra	onde
quer	que	se	encontrem;	 l)	os	edifícios	das	embaixadas	e	 legações	em	países
estrangeiros.
Segundo	 a	 tendência	moderna	 do	 direito	 internacional,	 à	 vista	 das	 novas
conquistas	 científicas,	 o	 domínio	 do	 suprassolo	 se	 estende	 ilimitadamente,
usque	ad	sidera,	assim	como	o	do	subsolo	se	aprofunda	usque	ad	inferos.
No	tocante	ao	mar	 territorial,	a	determinação	da	zona	 limítrofe	é	questão
amplamente	 debatida.	 Antigamente	 prevalecia	 a	 fórmula	 preconizada	 pela
escola	 do	 direito	 natural:	 terrae	 potestas	 finitur	 ubi	 finitur	 armorum	 vis	—
cessa	o	poder	territorial	onde	cessa	a	força	das	armas.	Adotava-se	o	limite	de
três	milhas	marítimas,	que	era	o	alcance	da	artilharia	costeira,	posteriormente
ampliado	para	doze	milhas.
Atualmente,	invocando	não	só	os	interesses	da	defesa	externa	mas	também
os	de	exploração	econômica,	os	Estados,	como	o	Brasil,	Argentina,	Uruguai,
Chile,	Equador	e	outros,	vêm	adotando	o	limite	de	duzentas	milhas	marítimas.
3.	GOVERNO
O	 governo	 —	 terceiro	 elemento	 do	 Estado	 —	 é	 uma	 delegação	 de
soberania	 nacional,	 no	 conceito	metafísico	 da	 escola	 francesa.	 É	 a	 própria
soberania	posta	em	ação,	no	dizer	de	Esmein.
Segundo	 a	 escola	 alemã,	 é	 um	 atributo	 indispensável	 da	 personalidade
abstrata	do	Estado.
Positivamente,	 é	 o	 conjunto	 das	 funções	 necessárias	 à	 manutenção	 da
ordem	jurídica	e	da	administração	pública.
Ensina	Duguit	 que	 a	 palavra	 governo	 tem	 dois	 sentidos:	 coletivo,	 como
conjunto	de	órgãos	que	presidem	a	vida	política	do	Estado,	e	singular,	como
poder	 executivo,	 “órgão	 que	 exerce	 a	 função	 mais	 ativa	 na	 direção	 dos
negócios	públicos”	—	o	que,	neste	capítulo,	é	irrelevante.
A	conceituação	de	governo	depende	dos	pontos	de	vista	doutrinários,	mas
exprime	sempre	o	exercício	do	poder	soberano.	Daí	a	confusão	muito	comum
entre	 governo	 e	 soberania.	 O	 professor	 Sampaio	 Dória,	 por	 exemplo,
menciona	 como	 elementos	 constitutivos	 do	 Estado:	 população,	 território	 e
soberania,	já	que,	nesta	última,	está	implícita	a	organização	governamental.
Outros	autores	incluem	a	soberania	como	quarto	elemento.	Não	nos	parece
aceitável	 nem	 lógica	 essa	 inclusão,	 porquanto	 a	 soberania	 é	 exatamente	 a
força	 geradora	 e	 justificadora	 do	 elemento	 governo.	 Este	 pressupõe	 a
soberania.	É	seu	requisito	essencial	a	 independência,	 tanto	na	ordem	interna
como	na	ordem	externa.	Se	o	governo	não	é	independente	e	soberano,	como
ocorre	 no	Canadá,	 na	Austrália,	 na	África	 do	 Sul	 etc.,	 não	 existe	 o	 Estado
perfeito.	Faltando	uma	característica	essencial	de	qualquer	dos	três	elementos
—	população,	território	e	governo	—	o	que	se	tem	é	um	Semiestado.	E	assim,
na	noção	do	Estado	perfeito	está	implícita	a	ideia	de	soberania.
VII
SOBERANIA
1.	Conceito.	 2.	Fonte	 do	 poder	 soberano.	 3.	 Teoria	 da	 soberania
absoluta	 do	 rei.	 4.	 Teoria	 da	 soberania	 popular.	 5.	 Teoria	 da
soberania	 nacional.	 6.	 Teoria	 da	 soberania	 do	 Estado.	 7.	 Escolas
alemã	 e	 austríaca.	 8.	 Teoria	 negativista	 da	 soberania.	 9.	 Teoria
realista	ou	institucionalista.	10.	Limitações.
1.	CONCEITO
A	 exata	 compreensão	 do	 conceito	 de	 soberania	 é	 pressuposto	 necessário
para	 o	 entendimento	 do	 fenômeno	 estatal,	 visto	 que	 não	 há	Estado	 perfeito
sem	soberania.	Daí	haver	Sampaio	Dória	dado	ao	Estadoa	definição	simplista
de	organização	da	soberania.
Como	 vimos	 no	 capítulo	 anterior,	 aos	 três	 elementos	 constitutivos	 do
Estado	—	população,	 território	 e	governo	—	 alguns	 autores	 pretenderam	 a
inclusão	da	soberania	como	quarto	elemento.	Sem	razão,	porém,	visto	que	a
soberania	se	compreende	no	exato	conceito	de	Estado.	Estado	não	soberano
ou	 semissoberano	 não	 é	 Estado.	 Até	 mesmo	 o	 Canadá	 e	 a	 Austrália,	 com
amplo	 poder	 de	 autogoverno,	 se	 classificam	 como	 “Colônias	 Autônomas”,
por	se	subordinarem	à	Coroa	Britânica.
Soberania	 é	 uma	 autoridade	 superior	 que	 não	 pode	 ser	 limitada	 por
nenhum	outro	poder.
Ressalta	 logo	à	evidência	que	não	são	soberanos	os	Estados	membros	de
uma	 Federação.	 O	 próprio	 qualificativo	 de	 membro	 afasta	 a	 ideia	 de
soberania.	O	poder	supremo	é	investido	no	órgão	federal.	Conseguintemente,
convencionou-se	 na	 própria	 Constituinte	 de	 Filadélfia,	 onde	 se	 instituiu	 o
regime	 federalista,	 que	 as	 unidades	 estatais	 integrantes	 da	 União	 se
denominariam	Estados-Membros,	com	autonomia	de	direito	público	 interno,
sendo	privativo	da	União	o	poder	de	soberania	interna	e	internacional.	Aliás,
é	mais	apropriada	a	denominação	de	Província,	para	as	unidades	federadas.
Alguns	 teóricos	 do	 federalismo	 norte-americano	 atribuem	 aos	 Estados-
Membros	soberania	de	direito	 interno…	o	que	é	 rematada	 incongruência.	A
soberania	é	uma	só,	una,	 integral	 e	universal.	Não	pode	 sofrer	 restrições	de
qualquer	 tipo,	 salvo,	 naturalmente,	 as	 que	 decorrem	 dos	 imperativos	 de
convivência	pacífica	das	nações	soberanas	no	plano	do	direito	internacional.
Soberania	 relativa	 ou	 condicionada	 por	 um	 poder	 normativo	 dominante
não	é	soberania.	Deve	ser	posta	em	termos	de	autonomia,	no	contexto	geral
do	Direito.
Denominava-se	o	poder	de	soberania,	entre	os	romanos,	suprema	potestas.
Era	 o	 poder	 supremo	 do	 Estado	 na	 ordem	 política	 e	 administrativa.
Posteriormente,	passaram	a	denominá-lo	poder	de	 imperium,	com	amplitude
internacional.
Etimologicamente,	 o	 termo	 soberania	 provém	 de	 superanus,	 supremitas,
ou	 super	 omnia,	 configurando-se	 definitivamente	 através	 da	 formação
francesa	 souveraineté,	 que	 expressava,	 no	 conceito	 de	 Bodin,	 “o	 poder
absoluto	e	perpétuo	de	uma	República”.
Historicamente,	é	bastante	variável	a	formulação	do	conceito	de	soberania,
no	 tempo	 e	 no	 espaço.	 No	 Estado	 grego	 antigo,	 como	 se	 nota	 na	 obra	 de
Aristóteles,	 falava-se	 em	 autarquia,	 significando	 um	 poder	 moral	 e
econômico,	 de	 autossuficiência	 do	Estado.	 Já	 entre	 os	 romanos,	 o	 poder	 de
imperium	 era	 um	 poder	 político	 transcendente	 que	 se	 refletia	 na	majestade
imperial	 incontrastável.	Nas	monarquias	medievais	era	o	poder	de	suserania
de	fundamento	carismático	e	intocável.	No	absolutismo	monárquico,	que	teve
o	seu	climax	em	Luiz	XIV,	a	soberania	passou	a	ser	o	poder	pessoal	exclusivo
dos	 monarcas,	 sob	 a	 crença	 generalizada	 da	 origem	 divina	 do	 poder	 de
Estado.	 Finalmente,	 no	 Estado	 moderno,	 a	 partir	 da	 Revolução	 Francesa,
firmou-se	o	conceito	de	poder	político	e	 jurídico,	emanado	da	vontade	geral
da	nação.
Segundo	 o	 magistério	 superior	 de	 Miguel	 Reale,	 a	 soberania	 é	 “uma
espécie	de	 fenômeno	genérico	do	poder.	Uma	 forma	histórica	 do	poder	 que
apresenta	 configurações	 especialíssimas	 que	 se	 não	 encontram	 senão	 em
esboços	nos	corpos	políticos	antigos	e	medievos”.
O	 Prof.	 Pinto	 Ferreira	 nos	 dá	 um	 conceito	 normativo	 ético-jurídico:	 é	 a
capacidade	 de	 impor	 a	 vontade	 própria,	 em	 última	 instância,	 para	 a	 rea-
lização	do	direito	justo.
No	 mesmo	 sentido	 é	 o	 conceito	 de	 Clóvis	 Beviláqua:	 por	 soberania
nacional	 entendemos	 a	 autoridade	 superior,	que	 sintetiza,	 politicamente,	 e
segundo	os	preceitos	de	direito,	a	energia	coativa	do	agregado	nacional.
2.	FONTE	DO	PODER	SOBERANO
Problema	dominante,	neste	tema,	é	o	que	diz	respeito	à	fonte	do	poder	de
soberania	e,	consequentemente,	o	problema	da	sua	titularidade.	Para	as	teorias
carismáticas	do	direito	divino	(sobrenatural	ou	providencial)	dos	reis,	o	poder
vem	de	Deus	e	se	concentra	na	pessoa	sagrada	do	soberano.	Para	as	correntes
de	 fundo	 democrático,	 a	 soberania	 provém	 da	 vontade	 do	 povo	 (teoria	 da
soberania	 popular)	 ou	 da	 nação	 propriamente	 dita	 (teoria	 da	 soberania
nacional).	Para	as	escolas	alemã	e	vienense,	 a	 soberania	provém	do	Estado,
como	entidade	jurídica	dotada	de	vontade	própria	(teoria	da	soberania	estatal).
Desdobram-se	 estes	 troncos	 doutrinários	 em	 várias	 ramificações,	 formando
uma	variedade	imensa	de	escolas	e	doutrinas,	de	modo	que	não	seria	possível
focalizar	 todas	 elas	 no	 âmbito	 restrito	 do	 programa	 escolar	 a	 que	 nos
cingimos.
Daremos,	a	 seguir,	uma	súmula	de	cada	corrente	principal,	 remetendo	os
estudiosos	às	obras	dos	grandes	mestres	brasileiros,	que	esgotam	o	assunto,
como	Miguel	Reale	e	Pinto	Ferreira,	especialmente	à	esplêndida	monografia
de	Machado	Paupério	—	O	conceito	polêmico	de	soberania.
3.	TEORIA	DA	SOBERANIA	ABSOLUTA	DO	REI
A	 teoria	 da	 soberania	 absoluta	 do	 rei	 começou	 a	 ser	 sistematizada	 na
França,	 no	 século	 XVI,	 tendo	 como	 um	 dos	 seus	mais	 destacados	 teóricos
Jean	 Bodin,	 que	 sustentava:	 a	 soberania	 do	 rei	 é	 originária,	 ilimitada,
absoluta,	perpétua	e	irresponsável	em	face	de	qualquer	outro	poder	temporal
ou	espiritual.
Esta	 teoria	é	de	fundamento	histórico	e	 lança	suas	 raízes	nas	monarquias
antigas	 fundadas	 no	 direito	 divino	 dos	 reis.	 Eram	 os	 monarcas	 acreditados
como	 representantes	 de	 Deus	 na	 ordem	 temporal,	 e	 na	 sua	 pessoa	 se
concentravam	todos	os	poderes.	O	poder	de	soberania	era	o	poder	pessoal	do
rei	e	não	admitia	limitações.
Firmou-se	 esta	 doutrina	 da	 soberania	 absoluta	 do	 rei	 nas	 monarquias
medievais,	 consolidando-se	 nas	monarquias	 absolutistas	 e	 alcançando	 a	 sua
culminância	na	doutrina	de	Maquiavel.	Os	monarcas	da	França,	apoiados	na
doutrinação	de	Richelieu,	Fénelon,	Bossuet	e	outros,	 levaram	o	absolutismo
às	 suas	 últimas	 consequências,	 identificando	 na	 pessoa	 sagrada	 do	 rei	 o
próprio	Estado,	a	soberania	e	a	lei.	Reunia-se	na	pessoa	do	rei	o	conceito	de
senhoriagem,	 trazido	 do	 mundo	 feudal,	 que	 se	 desmoronava,	 e	 a	 ideia	 de
imperium,	 exumada	 das	 ruínas	 do	 cesarismo	 romano	 que	 ressurgia,
exuberante,	na	onipotência	das	monarquias	absolutistas.
Todavia,	 o	 próprio	 Jean	 Bodin,	 teórico	 eminente	 do	 absolutismo
monárquico,	como	observou	Touchard,	não	se	livrou	de	contradições,	quando
admitia	 a	 limitação	 do	 poder	 de	 soberania	 pelos	 princípios	 inelutáveis	 do
direito	natural.
4.	TEORIA	DA	SOBERANIA	POPULAR
A	teoria	da	soberania	popular	teve	como	precursores	Altuzio,	Marsilio	de
Padua,	Francisco	de	Vitoria,	Soto,	Molina,	Mariana,	Suarez	e	outros	teólogos
e	 canonistas	 da	 chamada	 Escola	 Espanhola.	 Reformulando	 a	 doutrina	 do
direito	divino	sobrenatural,	criaram	eles	o	que	denominaram	teoria	do	direito
divino	providencial:	 o	 poder	 público	vem	de	Deus,	 sua	 causa	 eficiente,	 que
infunde	a	inclusão	social	do	homem	e	a	consequente	necessidade	de	governo
na	ordem	temporal.	Mas	os	reis	não	recebem	o	poder	por	ato	de	manifestação
sobrenatural	da	vontade	de	Deus,	 senão	por	uma	determinação	providencial
da	onipotência	divina.	O	poder	civil	corresponde	com	a	vontade	de	Deus,	mas
promana	 da	 vontade	 popular	—	 omnis	 potestas	 a	 Deo	 per	 populum	 libere
consentientem	—,	 conforme	com	a	doutrinação	do	Apóstolo	São	Paulo	e	de
São	Tomás	de	Aquino.
Sustentou	 Suarez	 a	 limitação	 da	 autoridade	 e	 o	 direito	 de	 resistência	 do
povo,	fundamentos	do	ideal	democrático.	E	Molina,	embora	reconhecendo	o
poder	 real	 como	 soberania	 constituída,	 ressaltou	 a	 existência	 de	 um	 poder
maior,	exercido	pelo	povo,	que	denominou	soberania	constituinte.
5.	TEORIA	DA	SOBERANIA	NACIONAL
A	 teoria	 da	 soberania	 nacional	 ganhou	 corpo	 com	 as	 ideias	 político-filosóficas	que	fomentaram	o	liberalismo	e	inspiraram	a	Revolução	Francesa:
ao	 símbolo	 da	 Coroa	 opuseram	 os	 revolucionários	 liberais	 o	 símbolo	 da
Nação.	 Como	 frisou	 Renard,	 a	 Coroa	 não	 pertence	 ao	 Rei;	 o	 Rei	 é	 que
pertence	 à	 Coroa.	 Esta	 é	 um	 princípio,	 é	 uma	 tradição,	 de	 que	 o	 Rei	 é
depositário,	não	proprietário.
A	 este	 entendimento,	 aliás,	 se	 deveu	 a	 convivência	 entre	 a	 Coroa	 e	 o
Parlamento,	em	alguns	Estados	liberais.
Pertence	a	Teoria	da	Soberania	Nacional	à	Escola	Clássica	Francesa,	 da
qual	 foi	 Rousseau	 o	 mais	 destacado	 expoente.	 Desenvolveram-na	 Esmein,
Hauriou,	Paul	Duez,	Villey,	Berthélemy	e	outros,	sustentando	que	a	nação	é	a
fonte	 única	 do	 poder	 de	 soberania.	 O	 órgão	 governamental	 só	 o	 exerce
legitimamente	mediante	o	consentimento	nacional.
Esta	teoria	é	radicalmente	nacionalista:	a	soberania	é	originária	da	nação,
no	sentido	estrito	de	população	nacional	(ou	povo	nacional),	não	do	povo	em
sentido	 amplo.	 Exercem	 os	 direitos	 de	 soberania	 apenas	 os	 nacionais	 ou
nacionalizados,	 no	 gozo	 dos	 direitos	 de	 cidadania,	 na	 forma	 da	 lei.	Não	 há
que	confundir	com	a	“teoria	da	soberania	popular”,	que	amplia	o	exercício	do
poder	soberano	aos	alienígenas	residentes	no	país.
A	 soberania,	 no	 conceito	 da	 Escola	 Clássica,	 é	 UNA,	 INDIVISÍVEL,
INALIENÁVEL	e	IMPRESCRITÍVEL.
UNA	 porque	 não	 pode	 existir	 mais	 de	 uma	 autoridade	 soberana	 em	 um
mesmo	 território.	 Se	 repartida,	 haveria	 mais	 de	 uma	 soberania,	 quando	 é
inadmissível	a	coexistência	de	poderes	 iguais	na	mesma	área	de	validez	das
normas	jurídicas.
INDIVISÍVEL	 é	 a	 soberania,	 segundo	 a	 mesma	 linha	 de	 raciocínio	 que
justifica	 a	 sua	 unidade.	 O	 poder	 soberano	 delega	 atribuições,	 reparte
competências,	mas	não	divide	a	soberania.	Nem	mesmo	a	clássica	divisão	do
poder	 em	 Executivo,	 Legislativo	 e	 Judiciário	 importa	 em	 divisão	 da
soberania.	Pelos	três	órgãos	formalmente	distintos	se	manifesta	o	poder	uno	e
indivisível,	sendo	que	cada	um	deles	exerce	a	totalidade	do	poder	soberano	na
esfera	da	sua	competência.
INALIENÁVEL	 é	 a	 soberania,	 por	 sua	 própria	 natureza.	 A	 vontade	 é
personalíssima:	não	se	aliena,	não	se	transfere	a	outrem.	O	corpo	social	é	uma
entidade	 coletiva	 dotada	 de	 vontade	 própria,	 constituída	 pela	 soma	 das
vontades	individuais.	Os	delegados	e	representantes	eleitos	hão	de	exercer	o
poder	 de	 soberania	 segundo	 a	 vontade	 do	 corpo	 social	 consubstanciada	 na
Constituição	e	nas	Leis.
IMPRESCRITÍVEL	é	ainda	a	soberania	no	sentido	de	que	não	pode	sofrer
limitação	no	 tempo.	Uma	nação,	ao	se	organizar	em	Estado	soberano,	o	 faz
em	caráter	definitivo	e	eterno.	Não	se	concebe	soberania	temporária,	ou	seja,
por	tempo	determinado.
A	esta	 teoria	daremos	maior	desenvoltura	no	capítulo	do	Contrato	Social
de	Rousseau.
6.	TEORIA	DA	SOBERANIA	DO	ESTADO
A	teoria	da	soberania	do	Estado	pertence	às	escolas	alemã	e	austríaca,	as
quais	divergem	fundamentalmente	da	Escola	Clássica	Francesa.
Seu	expoente	máximo,	Jellinek,	parte	do	princípio	de	que	a	soberania	é	a
capacidade	 de	 autodeterminação	 do	 Estado	 por	 direito	 próprio	 e	 exclusivo.
Desenvolve	 esse	 autor	 o	 pensamento	 filosófico	 de	 Von	 Ihering,	 segundo	 o
qual	a	soberania	é,	em	síntese,	apenas	uma	qualidade	do	poder	do	Estado,	ou
seja,	uma	qualidade	do	Estado	perfeito.	O	Estado	é	anterior	ao	direito	e	sua
fonte	única.	O	direito	é	feito	pelo	Estado	e	para	o	Estado;	não	o	Estado	para	o
direito.	A	soberania	é	um	poder	jurídico,	um	poder	de	direito,	e,	assim	como
todo	e	qualquer	direito,	ela	tem	a	sua	fonte	e	a	sua	justificativa	na	vontade	do
próprio	Estado.
Dentro	 dessa	 linha	 de	 pensamento	 se	 desenvolvem	 as	 inúmeras	 teorias
estadísticas,	que	serviram	de	fomento	doutrinário	aos	Estados	 totalitários	de
após	guerra.
7.	ESCOLAS	ALEMÃ	E	AUSTRÍACA
Para	as	escolas	alemã	e	austríaca,	lideradas,	respectivamente,	por	Jellinek
e	Kelsen,	 que	 sustentam	a	 estatalidade	 integral	 do	Direito,	 a	 soberania	 é	de
natureza	estritamente	jurídica,	é	um	direito	do	Estado	e	é	de	caráter	absoluto,
isto	é,	sem	limitação	de	qualquer	espécie,	nem	mesmo	do	direito	natural	cuja
existência	é	negada.
Sustentam	 que	 só	 existe	 o	 direito	 estatal,	 elaborado	 e	 promulgado	 pelo
Estado,	 já	 que	 a	 vida	 do	 direito	 está	 na	 força	 coativa	 que	 lhe	 empresta	 o
Estado,	e	não	há	que	falar	em	direito	sem	sanção	estatal.	Negam	a	existência
do	 direito	 natural	 e	 de	 toda	 e	 qualquer	 normatividade	 jurídica	 destituída	 da
força	de	coação	que	só	o	poder	público	pode	dar.	Daí	a	conclusão	de	Austin,
com	 base	 na	 doutrina	 do	 mestre	 vienense,	 de	 que	 não	 existe	 direito
internacional	por	falta	de	sanção	coercitiva.
Portanto,	 se	 a	 soberania	 é	 um	poder	 de	 direito	 e	 todo	 direito	 provém	do
Estado,	 o	 tecnicismo	 jurídico	 alemão	 e	 o	 normativismo	 kelseniano	 levam	 à
conclusão	 lógica	de	que	o	poder	de	 soberania	 é	 ilimitado	 e	 absoluto.	Logo,
toda	 forma	 de	 coação	 estatal	 é	 legítima,	porque	 tende	 a	 realizar	 o	 direito
como	expressão	da	vontade	soberana	do	Estado.
Realmente,	 em	 face	 desse	 princípio	 da	 estatalidade	 do	 direito,	 princípio
pan-estadístico,	não	se	concede	limitação	alguma	ao	poder	do	Estado.	É	certo
que	 Jellinek	 chegou	 a	 esboçar	 a	 doutrina	 da	 autolimitação	do	poder	 estatal,
porém,	sem	nenhuma	significação	prática.	Com	efeito,	se	todo	direito	emana
do	 Estado	 e	 este	 se	 coloca	 acima	 do	 direito,	 ressalta	 à	 evidência	 que	 a
limitação	do	poder	estatal	por	regras	que	dele	próprio	derivam	não	passa	de
mera	ficção.	O	próprio	Luiz	XIV	não	seria	um	monarca	absolutista,	a	levar-se
em	conta	a	sua	faculdade	pessoal	de	autolimitação.	Nem	o	próprio	Deus	seria
absoluto…
Em	verdade,	porém,	a	primeira	e	inarredável	limitação	ao	poder	soberano
dos	 governos	 decorre	 dos	 princípios	 incontingentes	 e	 imprescritíveis	 do
direito	 natural.	 A	 ordem	 natural	 é	 anterior	 e	 superior	 ao	 Estado,	 e	 sua
observância	 constitui	mesmo	 uma	 condição	 de	 legitimidade	 do	 direito	 e	 de
qualquer	ato	estatal.	Outra	limitação,	também	imperiosa,	é	a	que	decorre	das
regras	de	convivência	social	e	internacional.
O	Estado	não	pode	criar	arbitrariamente	o	direito;	ele	cria	a	 lei,	o	direito
escrito,	que	é	 apenas	uma	categoria	do	direito	no	 seu	 sentido	amplo.	Como
acentua	 Pontes	 de	 Miranda,	 o	 Estado	 é	 apenas	 um	 meio	 perfectível,	 não
exclusivo,	de	 revelação	 das	 normas	 jurídicas.	 A	 lei	 que	 dele	 emana	 há	 de
corporificar	 o	 direito	 justo	 como	 condição	 de	 legitimidade.	 Sobretudo,	 o
Estado	não	é	um	fim	em	si	mesmo,	mas	um	meio	pelo	qual	o	homem	tende	a
realizar	o	seu	fim	próprio,	o	seu	destino	transcendental,	como	o	demonstram
as	teorias	liberais	e	humanistas.
As	 teorias	 da	 soberania	 absoluta	 do	 Estado,	 malgrado	 o	 seu	 caráter
absolutista	 e	 totalitário,	 tiveram	 ampla	 repercussão	 no	 pensamento	 político
universal,	inclusive	na	própria	França	com	Carré	de	Malberg	e	Louis	Le	Fur.
Justificaram	 os	 Estados	 nazista,	 fascista	 e	 todos	 os	 totalitarismos,	 que
conflagraram	 o	 mundo	 por	 duas	 vezes,	 mas	 foram	 contidos	 pela	 força
superior	do	humanismo	liberal.
8.	TEORIA	NEGATIVISTA	DA	SOBERANIA
A	 teoria	 negativista	 da	 soberania	 é	 da	 mesma	 natureza	 absolutista.
Formulou-a	 Léon	 Duguit,	 desenvolvendo	 o	 pensamento	 de	 Ludwig
Gumplowicz:
A	soberania	é	uma	ideia	abstrata.	Não	existe	concretamente.	O	que	existe	é
apenas	a	crença	na	soberania.	Estado,	nação,	direito	e	governo	são	uma	só	e
única	 realidade.	 Não	 há	 direito	 natural	 nem	 qualquer	 outra	 fonte	 de
normatividade	 jurídica	 que	 não	 seja	 o	 próprio	 Estado.	 E	 este	 conceitua-se
como	organização	da	 força	a	 serviço	do	direito.	Ao	 conceito	metafísico	de
soberania	nacional	opõe	Duguit	o	conceito	simplista	de	regra	de	direito	como
norma	 de	 direção	 social.	 Assim,	 a	 soberania	 resume-se	 em	mera	 noção	 de
serviço	público.
A	teoria	negativista	de	Duguit,considerando	a	soberania	“um	princípio	ao
mesmo	 tempo	 indemonstrado,	 indemonstrável	 e	 inútil”,	 suscitou	 sempre	 as
mais	acirradas	polêmicas	no	mundo	da	ciência	política,	destacando-se	entre	os
seus	mais	fortes	opositores	Bigne	de	Villeneuve	e	Jean	Dabin.	A	negação	da
soberania,	 acentuou	 Esmein,	 só	 pode	 levar	 a	 um	 resultado	 claro:	 afirmar	 o
reino	da	força.
Com	efeito,	o	conceito	de	 soberania,	 tal	 como	predomina	entre	os	povos
democráticos,	 lança	 raízes	 na	 filosofia	 aristotélico-tomista:	 soberana,	 em
última	análise,	é	a	lei,	e	esta	encontra	sua	legitimidade	no	direito	natural,	que
preside	 e	 limita	 o	 direito	 estatal.	Vale	 lembrar	 aqui	 as	 palavras	 com	que	 os
constituintes	argentinos	de	1853	encerraram	seus	 trabalhos	—	os	homens	 se
dignificam	prostrando-se	perante	a	lei,	porque	assim	se	livram	de	ajoelhar-se
perante	tiranos.
9.	TEORIA	REALISTA	OU	INSTITUCIONALISTA
A	 teoria	 realista	 ou	 institucionalista,	 modernamente,	 vem	 ganhando
terreno	em	face	das	novas	realidades	mundiais.
É	 forçoso	admitir	que	a	 soberania	é	originária	da	Nação,	mas	 só	adquire
expressão	 concreta	 e	 objetiva	 quando	 se	 institucionaliza	 no	 órgão	 estatal,
recebendo	através	deste	o	seu	ordenamento	jurídico-formal	dinâmico.
Impõe-se	afastar	a	confusão	oriunda	do	voluntarismo	radical	entre	os	dois
momentos	 distintos	 da	 formação	 do	 poder	 soberano:	 o	 momento	 social	 ou
genético,	e	o	momento	jurídico	ou	funcional.
A	 soberania	 é	originariamente	da	Nação	 (quanto	 à	 fonte	do	poder),	mas,
juridicamente,	do	Estado	(quanto	ao	seu	exercício).
Patenteia-se	então	irrelevante,	em	última	análise,	a	polêmica	entre	os	dois
grandes	grupos	doutrinários	que	disputam	a	primazia	no	tocante	à	titularidade
do	poder	 e	 suas	 consequências:	 a	 escola	 francesa	da	 soberania	 nacional	 e	 a
corrente	germânica	da	soberania	do	Estado.
Se	é	certo	que	Nação	e	Estado	são	realidades	distintas,	uma	sociológica	e
outra	jurídica,	certo	é	também	que	ambas	compõem	uma	só	personalidade	no
campo	 do	 Direito	 Público	 Internacional.	 E	 neste	 campo	 não	 se	 projeta	 a
soberania	 como	 vontade	 do	 povo,	 senão	 como	 vontade	 do	 Estado,	 que	 é	 a
Nação	politicamente	organizada,	segundo	a	definição	que	nos	vem	da	própria
escola	clássica	francesa.
Este	entendimento,	evidentemente,	não	exclui	a	possibilidade	de	retomar	a
Nação	o	seu	poder	originário,	sempre	que	o	órgão	estatal	se	desviar	dos	seus
fins	legítimos,	conflitando	abertamente	com	os	fatores	reais	do	poder.
O	 eminente	 Prof.	 Machado	 Paupério,	 em	 sua	 magnífica	 monografia	 O
conceito	 polêmico	 de	 soberania,	 tira	 a	 conclusão	 de	 que	 “soberania	 não	 é
propriamente	 um	 poder,	mas,	 sim,	 a	 qualidade	 desse	 poder;	 a	 qualidade	 de
supremacia	que,	em	determinada	esfera,	cabe	a	qualquer	poder”.
É,	 pois,	 um	 atributo	 de	 que	 se	 reveste	 o	 poder	 de	 auto-organização
nacional,	e	de	autodeterminação,	uma	vez	institucionalizado	no	órgão	estatal.
Caberia	 acrescentar,	 como	 inarredável	 verdade,	 que	 todas	 as	 correntes
doutrinárias	da	soberania	se	 resumem,	afinal,	numa	afirmação	dogmática	da
onipotência	do	Estado.
Fora	 da	 teoria	 anarquista,	 o	 Estado	 é	 sempre	 a	 racionalização	 do	 poder
supremo	na	ordem	temporal,	armado	de	força	coativa	irredutível,	autoridade,
unidade	 e	 rapidez	 de	 ação,	 para	 fazer	 face,	 de	 imediato,	 aos	 impactos	 e
arremetidas	das	forças	dissolventes	que	tentem	subverter	a	paz	e	a	segurança
da	vida	social.
Portanto,	embora	seja	poder	essencialmente	nacional,	quanto	à	sua	origem,
sua	expressão	concreta	e	funcional	resulta	da	sua	institucionalização	no	órgão
estatal.	Passado	o	momento	genético	de	sua	manifestação	na	organização	da
ordem	 constitucional,	 concretiza-se	 a	 soberania	 no	 Estado,	 que	 passa	 a
exercê-la	em	nome	e	no	interesse	da	Nação.
Este	entendimento	não	se	confunde	com	as	teorias	absolutistas	do	Estado
nem	 com	 o	 radicalismo	 voluntarista	 da	 soberania	 nacional	 defendido	 pela
escola	 clássica	 francesa.	 Conduz	 à	 conceituação	 da	 soberania	 como	 poder
relativo,	sujeito	a	limitações	como	a	seguir	se	ressalta.
10.	LIMITAÇÕES
A	 soberania	 é	 limitada	 pelos	 princípios	 de	 direito	 natural,	 pelo	 direito
grupal,	 isto	é,	pelos	direitos	dos	grupos	particulares	que	compõem	o	Estado
(grupos	biológicos,	pedagógicos,	econômicos,	políticos,	espirituais	etc.),	bem
como	 pelos	 imperativos	 da	 coexistência	 pacífica	 dos	 povos	 na	 órbita
internacional.
O	Estado	—	proclamou	 Jefferson	—	 existe	 para	 servir	 ao	 povo	 e	 não	 o
povo	para	servir	ao	Estado.	O	governo	há	de	ser	um	governo	de	 leis,	não	a
expressão	da	soberania	nacional,	simplesmente.	As	leis	definem	e	limitam	o
poder.	 E	 a	 este	 conceito,	 brilhantemente	 desenvolvido	 por	 Mathews,
acrescentou	Krabbe	esta	afirmação	eloquente:	a	autoridade	do	direito	é	maior
do	que	a	autoridade	do	Estado.
Limitam	a	soberania	os	princípios	de	Direito	Natural,	porque	o	Estado	é
apenas	instrumento	de	coordenação	do	direito,	e	porque	o	direito	positivo,	que
do	Estado	emana,	só	encontra	 legitimidade	quando	se	conforma	com	as	 leis
eternas	e	 imutáveis	da	natureza.	Como	afirmou	São	Tomás	de	Aquino,	uma
lei	humana	não	é	verdadeiramente	lei	senão	enquanto	deriva	da	lei	natural;
se,	em	certo	ponto,	se	afasta	da	lei	natural,	não	é	mais	lei	e	sim	uma	violação
da	 lei.	 E	 acrescenta	 que	 nem	 mesmo	 Deus	 pode	 alterar	 a	 lei	 natural	 sem
alterar	a	matéria	—	Neque	 ipse	Deus	dispensare	potest	a	 lege	naturali,	nisi
mutando	 materiam.	 Ergo	 lex	 naturalis	 est	 immutabilis	 seu	 proprio	 mutari
omnino	non	potest.
Limita	 a	 soberania	 o	 direito	 grupal,	 porque	 sendo	 o	 fim	 do	 Estado	 a
segurança	 do	 bem	 comum,	 compete-lhe	 coordenar	 a	 atividade	 e	 respeitar	 a
natureza	de	cada	um	dos	grupos	menores	que	 integram	a	sociedade	civil.	A
família,	 a	 escola,	 a	 corporação	 econômica	 ou	 sindicato	 profissional,	 o
município	ou	a	comuna	e	a	igreja	são	grupos	intermediários	entre	o	indivíduo
e	o	Estado,	alguns	anteriores	ao	Estado,	como	é	a	família,	todos	eles	com	sua
finalidade	 própria	 e	 um	direito	 natural	 à	 existência	 e	 aos	meios	 necessários
para	a	realização	dos	seus	fins.
Assim,	o	poder	de	soberania	exercido	pelo	Estado	encontra	fronteiras	não
só	 nos	 direitos	 da	 pessoa	 humana	 como	 também	 nos	 direitos	 dos	 grupos	 e
associações,	tanto	no	domínio	interno	como	na	órbita	internacional.
Notadamente	 no	 plano	 internacional,	 a	 soberania	 é	 limitada	 pelos
imperativos	 da	 coexistência	 de	 Estados	 soberanos,	 não	 podendo	 invadir	 a
esfera	de	ação	das	outras	soberanias.
Uma	 vez	 não	 contrariando	 as	 normas	 de	 direito	 nem	 ultrapassando	 os
limites	 naturais	 da	 competência	 estatal,	 a	 soberania	 é	 imperiosa,
incontrastável.	 Sem	 ser	 arbítrio	 nem	 onipotência,	 acentuou	 Mouskheli,	 é
poder	 absoluto,	 encontrando,	 porém,	 sua	 limitação	 natural	 na	 própria
finalidade	que	lhe	é	essencial.
Assim,	 no	 plano	 internacional	 limita	 a	 soberania	 o	 princípio	 da
coexistência	pacífica	das	soberanias.
Atualmente,	 as	 nações	 integram	 uma	 ordem	 continental,	 e,	 dentro	 dessa
ordem	 superior,	 o	 poder	 de	 autodeterminação	 de	 cada	 uma	 limita-se	 pelos
imperativos	da	preservação	e	da	sobrevivência	das	demais	soberanias.
Na	ordem	 internacional,	 essas	 limitações	decorrem	das	participações	dos
Estados	 em	 organizações	 internacionais,	 são	 justificadas	 pelas	 necessidades
de	coexistência	pacífica,	segurança	e	desenvolvimento	e	são	alavancadas	pela
globalização,	merecendo,	pela	relevância	dos	temas,	o	tratamento	específico,
constante	do	capítulo	seguinte.
VIII
SOBERANIA:	LIMITAÇÕES	NA	ORDEM
INTERNACIONAL,	GLOBALIZAÇÃO	E
ORGANIZAÇÕES	INTERNACIONAIS
1.	Conceitos.	 2.	Globalização.	 3.	Organizações	 internacionais.	 4.
Organizações	políticas.	5.	Organização	das	Nações	Unidas	—	ONU.
6.	 Organização	 do	 Tratado	 do	 Atlântico	 Norte	 —	 OTAN.	 7.
Organização	 dos	 Estados	 Americanos	 —	 OEA.	 8.	 Organizações
econômicas.	 9.	 Mercosul.10.	 Outras	 organizações	 econômicas.	 11.
Organização	supranacional	—	União	Europeia.
1.	CONCEITOS
No	capítulo	anterior	 tratamos	da	soberania	na	sua	acepção	clássica	como
uma	autoridade	superior,	que	não	pode	ser	limitada	por	nenhum	outro	poder
além	 dos	 relativos,	 basicamente,	 ao	 direito	 natural,	 ao	 direito	 grupal	 e	 ao
direito	internacional.
Especialmente	na	ordem	internacional,	a	experiência	adquirida	no	decorrer
das	 últimas	 décadas	 demonstra	 que	 o	 exercício	 do	 poder	 soberano	 sem
limitações	certamente	levaria	a	uma	guerra	“de	todos	contra	todos”,	usando	a
expressão	de	Hobbes.
A	humanidade	sentiu	na	pele	as	consequências	da	inexistência	de	limites,
como	foi	a	corrida	imperialista	que	provocou	a	I	Guerra	Mundial.	Essa	trágica
experiência	 gerou	 os	 primeiros	movimentos	 para	 o	 estabelecimento	 de	 uma
ordem	 internacional	 que	 resultou,	 em	 1919,	 na	 criação	 da	 fracassada
Sociedade	 das	 Nações,	 também	 chamada	 Liga	 das	 Nações.	 Apesar	 dos
esforços	 desenvolvidos	 e	 da	 nobre	 finalidade	 no	 sentido	 de	 desenvolver	 a
cooperação	 entre	 os	 povos	 e	 a	 paz	mundial,	 essa	 sociedade	 teve	 existência
praticamente	 nominal	 por	 não	 ter	 despertado	 o	 interesse	 das	 grandes
potências.	Sua	extinção	foi	formalizada	em	1946.
Deflagrada	 a	 II	 Guerra	 Mundial,	 a	 comunidade	 internacional	 saiu
convencida	 da	 necessidade	 de	 uma	 entidade	 com	 vocação	 universal	 que
viesse	a	atuar	com	a	autoridade	e	o	peso	necessários	para	o	desenvolvimento,
a	 independência	dos	povos	e	a	defesa	da	paz	mundial.	Com	esses	principais
objetivos,	 foi	 criada,	 em	1945,	 a	Organização	das	Nações	Unidas	—	ONU,
seguindo-se	 a	 criação	 ou	modernização	 de	 outras,	 com	 ambições	 universais
ou	regionais.
Há	 que	 se	 destacar,	 desde	 logo,	 que	 essas	 entidades,	 classificadas	 como
“organizações	internacionais”,	não	são	soberanas.	Pelo	menos,	não	no	sentido
do	conceito	de	soberania	aplicado	aos	Estados.
Essas	 organizações	 possuem	 personalidades	 jurídicas	 próprias	 de	 direito
internacional.	No	aspecto	da	representatividade	são	equiparadas	aos	Estados,
mas	com	eles	não	se	confundem,	pois	não	têm	população	nem	território.	As
organizações	 internacionais	 existem	 e	 atuam	 nos	 limites	 dos	 respectivos
objetos	 e	 dos	 poderes	 que	 por	 investidura	 recebem	 dos	 Estados	 que	 as
integram.
A	 existência	 dessas	 organizações	 internacionais	 e	 a	 justificação	 ética	 e
política	à	 imposição	de	 limites	ao	exercício	da	soberania	 já	era	preconizada
desde	 a	 primeira	metade	 do	 século	 passado	 pelo	 clássico	 jurista	Alexandre
Groppali,	 tornando-se	 oportuna	 a	 transcrição	 de	 suas	 palavras,	 as	 quais,
atualmente,	ainda	expressam	o	ideal	da	humanidade:
É	de	 esperar,	 portanto,	 que,	 acima	 dos	Estados	 reconstituídos	 dentro	 de
fronteiras	que	correspondam	melhor	às	grandes	unidades	étnicas,	com	zonas
de	influência	e	disposição	de	matérias-primas	adequadas	à	sua	potência	e	à
sua	capacidade	de	expansão,	se	forme	uma	nova	ordem	jurídica	interestatal	e
que,	 mediante	 a	 criação	 de	 um	 exército	 supranacional,	 essa	 ordem	 saiba,
pela	 força	 se	 necessário,	 reconduzir	 à	 razão	 os	 Estados	 recalcitrantes,
fazendo	 atuar	 as	 sentenças	 das	 Cortes	 de	 justiça	 internacional,	 frente	 às
quais	os	Estados	deverão	levar	para	ser	divididas	todas	as	controvérsias	que,
sem	exceção,	possam	surgir	entre	eles.
Agora	que,	com	a	transformação	dos	aviões	em	pavorosos	instrumentos	de
matança	e	dada	a	capacidade	fulminante	de	seus	ataques,	a	vida	das	nações
está	 continuamente	 exposta	 ao	 perigo	 de	 uma	 guerra,	 o	 problema	 de	 sua
segurança	não	é	mais	um	problema	nacional,	mas	internacional.	Assim	como
os	indivíduos	renunciaram	ao	exercício	das	próprias	razões	no	dia	em	que	o
Estado	avocou	a	si	a	 função	 jurisdicional,	assim	também	os	Estados	devem
renunciar	 ao	 direito	 de	 fazer	 valer	 pela	 guerra	 as	 suas	 pretensões,	 para
sujeitá-las	 ao	 juízo	 de	 uma	 Corte	 de	 justiça	 internacional,	 que	 tenha	 a
autoridade	e	a	força	para	fazer	executar	até	mesmo	coativamente	as	próprias
sentenças.	 Por	 isso,	 se	 a	 ordenação	que	 vier	 a	 sair	 da	 crise	 atual	 não	 for
dotada	 dos	 meios	 necessários	 à	 execução	 das	 próprias	 resoluções	 e
sentenças,	 ela	 terá	 fatalmente	 o	mesmo	destino	que	 coube	à	 Sociedade	das
Nações,	 a	 qual,	 por	 estar	 desarmada,	 não	 pode	 sobreviver	 à	 primeira
borrasca	 (Alexandre	 Groppali,	Doutrina	 do	 Estado,	 trad.	 da	 8ª	 edição	 por
Paulo	E.	de	Souza	Queiroz,	Saraiva,	1953,	p.	332).
Modernamente	outros	fatores	têm	sido	acrescidos,	levando	alguns	autores
a	afirmar	que	a	soberania	estaria	em	via	de	extinção,	se	não	mesmo	extinta,
pelo	menos	no	que	se	refere	ao	seu	conceito	clássico.
O	 advento	 da	 era	 tecnológica,	 o	 desenvolvimento	 dos	 meios	 de
comunicação	eletrônicos,	 a	 facilidade	de	 locomoção,	o	desenvolvimento	e	a
dinâmica	do	 comércio	 estreitaram	os	vínculos	obrigacionais	 e	 acentuaram	a
interdependência	recíproca	dos	Estados.
2.	GLOBALIZAÇÃO
Na	 esteira	 dos	 acontecimentos	 das	 duas	 últimas	 décadas	 e	 na	 busca	 dos
argumentos	 que	 reforçam	 a	 existência	 e	 a	 força	 das	 organizações
internacionais	 existentes	 ou	 novas,	 a	 palavra	 que	 surge	 é	 “globalização”,
utilizada	 genericamente	 por	 juristas,	 políticos,	 economistas,	 sociólogos	 e
jornalistas	 como	 representativa	 do	 fenômeno	 da	 disseminação	 de	 processos
globais	 que	 extrapolam	 os	 limites	 das	 fronteiras	 nacionais	 e	 influenciam	 as
culturas,	 as	 economias,	 as	 liberdades	 e	 até	 as	 organizações	 políticas	 dos
países,	em	escala	mundial.
O	 conceito	 de	 globalização	 não	 é	 uniforme.	 Por	 alguns	 estudiosos	 é
considerado	sob	o	aspecto	da	atribuição	de	um	sentido	integral	e	uniforme	ao
mundo	contido	no	globo	 terrestre.	Por	outros,	a	globalização	não	pode	 ter	o
sentido	de	uniformidade,	pois	cada	país	é	por	ela	atingido	de	forma	diversa.
Para	este	estudo,	consideraremos	que	a	globalização	constitui	um	processo	de
internacionalização	 de	 regras	 de	 convivência	 ou	 interferência	 política	 entre
países,	 impulsionado	por	 fatores	da	produção	 e	da	 circulação	do	 capital	 em
âmbito	 internacional,	 movidos	 pela	 força	 propulsora	 da	 revolução
tecnológica.
A	 globalização,	 assim	 considerada,	 produz	 reflexos	 no	 conceito	 de
soberania,	na	medida	em	que	acaba	por	atingir	cada	país	de	forma	desigual,
na	 proporção	 da	 riqueza,	 poder,	 ou	 desenvolvimento	 social,	 econômico	 e
tecnológico	 de	 cada	 um.	 Esses	 reflexos	 assumem	maior	 gravidade	 entre	 os
países	 chamados	 de	 “terceiro	 mundo”	 ou	 “em	 desenvolvimento”,	 os	 quais
ficam	 mais	 vulneráveis,	 diante	 da	 incapacidade	 de	 enfrentamento	 das
imposições	 originadas	 da	 ordem	 internacional.	 Tal	 realidade	 não	 pode	 ser
negada,	 bastando	 lembrar	 que	 a	 primeira	 sanção	 imposta	 aos	 governos
considerados	“dissidentes”	da	ordem	internacional	é	a	imposição	de	embargo
comercial,	 um	 dos	 fatores	 que	 acaba	 por	 obrigar	 a	 adesão	 à	 exigência	 que
determinou	 o	 embargo,	 sob	 pena	 de	 comprometimento	 da	 própria
sobrevivência	da	população.
Os	efeitos	da	globalização	sobre	o	conceito	de	soberania	 têm	sido	objeto
dos	 mais	 variados	 e	 polêmicos	 posicionamentos	 dos	 doutrinadores,
destacando-se	por	um	lado	os	que	enfatizam	o	aspecto	econômico	e	preveem
a	extinção	da	soberania,	e	por	outro	lado	os	que	enfatizam	o	aspecto	político,
defendendo	a	 sobrevivência	da	 soberania	de	 forma	absoluta,	 como	conceito
inerente	ao	Estado.
Sobre	o	tema,	afirma	Miguel	Reale:	“por	mais	que	constitua	um	fenômeno
inevitável,	 capaz	 de	 produzir	 os	 esperados,	 mas	 ainda	 não	 comprovados
resultados	benéficos	para	a	humanidade,	(a	globalização)	se	desenvolve	antes
como	 uma	 gradativa	 mundialização,	 por	 meio	 de	 empresas	 multinacionais,
com	 sedes	 em	 distintos	 países,	 e	 empresas	 transnacionais,	 de	 caráter
universal,	sendo	respeitados,	porém,	os	organismos	regionais,	como	a	União
Europeia	 e	 oMercosul,	 bem	 como	 os	 estatais,	 que	 constituem	 entidades
histórico-culturais	 dotadas	 de	 identidade	 própria,	 insuscetíveis	 de
aniquilamento,	 como	 pensam	 os	 anarquizantes	 e	 precipitados	 ‘cidadãos	 do
mundo’.	 Pode-se	 mesmo	 dizer	 que	 os	 riscos	 da	 globalização	 aumentam	 a
responsabilidade	dos	Estados,	que	não	podem	deixar	de	salvaguardar	o	que	é
próprio	e	peculiar	de	cada	nação”	(Ainda	o	social-liberalismo,	O	Estado	de	S.
Paulo,	15	nov.	1997,	p.	A-2).
3.	ORGANIZAÇÕES	INTERNACIONAIS
Justificadas	pelos	argumentos	anteriormente	resumidos,	o	mundo	moderno
conta,	atualmente,	com	várias	organizações	internacionais,	de	maior	ou	menor
importância	dentro	das	respectivas	áreas	de	atuação	e	finalidades.
Dalmo	 de	Abreu	Dallari	 (Elementos	 de	 teoria	 geral	 do	 Estado,	 Saraiva,
1979,	 p.	 234)	 identifica	 três	 espécies:	 organizações	 para	 fins	 específicos,
como	a	Comunidade	Europeia	do	Carvão	e	do	Aço,	organizações	regionais
de	 fins	 amplos,	 como	 a	 Organização	 dos	 Estados	 Americanos	 (OEA),	 e
organizações	de	vocação	universal,	como	a	Organização	das	Nações	Unidas
(ONU).
A	 realidade	 atual	 permitiria	 uma	 classificação	 focada	 nos	 aspectos
políticos,	 inerentes	ao	grau	de	poder	de	 interferência	 sobre	os	governos	dos
Estados	e	os	aspectos	econômicos	visados.	É	 inegável	o	 reconhecimento	da
inexistência	 de	 linhas	 delimitadoras	 claras,	 para	 qualquer	 tipo	 de
classificação,	 pois	 mesmo	 em	 se	 tratando	 de	 organização	 com	 objetivo
econômico,	será	inafastável	o	reflexo	político	que	a	economia	poderá	exercer,
e	 vice-versa.	 Uma	 sanção	 comercial,	 por	 exemplo,	 poderá	 ser	 imposta	 por
motivação	 política,	 como	 foi	 o	 embargo	 comercial	 imposto	 a	 Cuba,	 ou,	 ao
contrário,	 uma	 sanção	 comercial	 (taxação	 de	 determinados	 produtos	 para
importação,	por	exemplo)	poderá	trazer	consequências	políticas.	Nessa	linha
de	 raciocínio	 e	 para	 efeitos	 didáticos,	 classificaremos	 as	 organizações
internacionais	 em	 organizações	 de	 caráter	 preponderantemente	 político,	 ou
preponderantemente	comercial.
Na	 espécie	 organizações	 com	 caráter	 preponderantemente	 político,	 está
em	 primeiro	 lugar	 a	 Organização	 das	 Nações	 Unidas	 (ONU).	 Na	 espécie
organizações	 de	 caráter	 preponderantemente	 comercial,	 as	 comumente
chamadas	 de	 Blocos	 Econômicos.	 Uma	 terceira	 espécie	 merece	 estar
destacada	 das	 demais,	 pela	 importância	 e	 relevância	 que	 assume	 como
modelo	 na	 busca	 universal	 de	 uma	união	 entre	 os	 povos,	 e	 por	 reunir,	 com
igual	importância,	as	características	de	relevância	política	e	comercial,	que	é	a
União	 Europeia,	 à	 qual	 atribuiremos	 a	 classificação	 de	 organização
supranacional.
4.	ORGANIZAÇÕES	POLÍTICAS
A	 característica	 “política”	 decorre	 da	 inserção,	 nos	 objetivos	 da
organização,	 da	 possibilidade	 de	 intervenção	 política,	 caracterizada	 pela
prática	de	atos	que	a	rigor	só	poderiam	ser	praticados	pelos	próprios	Estados,
por	serem	inerentes	ao	seu	poder	soberano.
A	abertura	dessa	possibilidade	de	ingerência	política	interna	não	significa
que	 os	 Estados	 tenham	 abdicado	 de	 sua	 soberania.	 A	 vinculação	 de	 cada
membro	 ocorre	 sob	 a	 forma	 de	 um	 tratado,	 cada	 um	preservando	 a	 própria
soberania,	podendo	retirar-se	da	organização	quando	quiser.
Mesmo	 nas	 hipóteses	 de	 efetiva	 intervenção,	 às	 vezes	 pela	 força,	 as
organizações	não	possuem,	por	si	próprias,	meios	eficazes	de	fazer	valer	suas
decisões.	 Não	 possuem	 exército	 próprio	 e	 dependem	 de	 contribuições
materiais	 e	 pessoais	 dos	 países-membros,	 principalmente	 dos	 grandes
Estados.	 Daí	 por	 que	 as	 deliberações	 não	 passam,	 em	 alguns	 casos,	 de
recomendações	 e	 em	 outros	 de	 legitimação	 dos	 atos	 praticados	 por	 seus
membros.	 Essas	 limitações	 que	 impedem	 ou	 dificultam	 a	 execução	 dos
empreendimentos	 mais	 significativos	 não	 diminuem	 a	 importância	 dessas
organizações.	Elas	constituem,	sem	qualquer	dúvida,	passo	decisivo	na	busca
da	 consecução	 de	 seus	 objetivos,	 sendo	 relevantes	 para	 o	 desenvolvimento
dos	povos,	para	a	preservação	da	liberdade,	para	a	manutenção	da	estabilidade
econômica	e	para	a	paz	mundial.	Especial	destaque	assume	a	possibilidade	de
obtenção	de	visibilidade	por	parte	dos	pequenos	Estados,	os	quais	têm,	nessas
organizações,	um	veículo	de	comunicação	e	um	palco	para	a	apresentação	de
suas	reivindicações,	com	repercussão	mundial.
As	mais	importantes	intervenções	políticas	ocorrem,	em	alguns	casos,	por
solicitações	dos	próprios	países	abalados	por	comoções	 internas,	na	maioria
das	 vezes	 por	 exércitos	 formados	 por	 determinação	 da	 ONU,	 chamados
comumente	 de	 “força	 internacional	 de	 paz”	 ou	 de	Missão	 de	Estabilização,
como	ocorreu	no	Haiti.	Outras	vezes	ocorrem	por	legitimação	outorgada	a	um
ato	de	ocupação	ou	invasão,	praticado	por	um	ou	vários	países	contra	outro,
como	 ocorreu	 no	 Iraque,	 e	 outras,	 ainda,	 por	 imposição	 de	 sanções
econômicas	e	comerciais	com	finalidades	coercitivas.
Entre	as	organizações	que	possuem	essas	características	está	em	primeiro
plano	 a	 ONU	—	 Organização	 das	 Nações	 Unidas,	 a	 mais	 importante,	 por
abrigar	entre	seus	membros	193	Estados	soberanos.	Destacam-se,	a	seguir,	a
OEA	—	Organização	dos	Estados	Americanos	e	a	OTAN	—	Organização	do
Tratado	do	Atlântico	Norte.
5.	ORGANIZAÇÃO	DAS	NAÇÕES	UNIDAS	—	ONU
A	Organização	das	Nações	Unidas	—	ONU	foi	fundada	em	1945,	após	a	II
Guerra	Mundial.	Inicialmente	com	51	países,	conta	hoje	com	a	adesão	de	193
Estados	 soberanos.	 Seu	 objetivo	 é	 a	manutenção	 da	 paz	 e	 da	 segurança	 no
mundo,	 fomentar	 um	 relacionamento	 cordial	 entre	 as	 nações,	 promover	 o
progresso	social	e	melhores	padrões	de	vida	e	direitos	humanos.	Os	Estados
integrantes	 estão	 unidos	 por	 um	 tratado	 internacional,	 chamado	 “Carta	 da
ONU”,	 em	 que	 estão	 enunciados	 os	 direitos	 e	 deveres	 dos	 seus	 membros
perante	a	comunidade	internacional.
Os	órgãos	principais	são	a	Assembleia	Geral,	o	Conselho	de	Segurança,	o
Conselho	Econômico	e	Social,	o	Conselho	de	Direitos	Humanos,	o	Tribunal
Internacional	 de	 Justiça,	 sediado	 em	 Haia,	 e	 o	 Secretariado.	 Vários	 outros
órgãos	 especializados	 atuam	 nas	 diversas	 áreas,	 com	 destaques	 para	 a
Organização	Mundial	da	Saúde,	a	Organização	 Internacional	do	Trabalho,	o
Banco	 Mundial	 e	 o	 Fundo	 Monetário	 Internacional,	 todos	 compondo	 o
chamado	Sistema	das	Nações	Unidas.
A	 ONU	 é	 alvo	 de	 críticas,	 entre	 as	 quais	 a	 impossibilidade	 de	 efetiva
aplicação	 da	 Declaração	 Universal	 dos	 Direitos	 do	 Homem,	 por	 excessivo
respeito	à	soberania	dos	Estados,	ao	direito	de	veto	dos	membros	permanentes
do	Conselho	de	Segurança,	à	falta	de	poder	coercitivo	de	suas	decisões,	por
ausência	 de	 recursos	 próprios	 e	 pelo	 fato	 de	 depender	 excessivamente	 dos
Estados	mais	poderosos.
Independentemente	 das	 críticas,	 é	 inegável	 a	 relevância	 da	 ONU	 no
cenário	mundial	 e	 sua	 importância	 na	 busca	 do	 ideal	 da	 igualdade	 entre	 os
povos	e	da	paz	mundial.
6.	 ORGANIZAÇÃO	 DO	 TRATADO	 DO	 ATLÂNTICO	 NORTE	 —
OTAN
A	 Organização	 do	 Tratado	 do	 Atlântico	 Norte	—	 OTAN	 foi	 criada	 por
tratado	 que	 lhe	 deu	 nome,	 assinado	 em	Washington,	 DC	 em	 4	 de	 abril	 de
1949.	Os	seus	nomes	oficiais	são	North	Atlantic	Treaty	Organization	(NATO),
em	 inglês,	 e	 Organisation	 du	 Traité	 de	 l’Atlantique	 Nord	 (OTAN),	 em
francês.
É	 uma	 organização	 de	 colaboração	 político-econômica,
predominantemente	 política,	 em	 razão	 dos	 objetivos	 militares.	 Os	 Estados-
membros	 estabeleceram	 um	 compromisso	 de	 cooperação	 estratégica	 em
tempo	de	paz	e	de	obrigação	de	auxílio	mútuo	em	caso	de	guerra	ou	agressão.
Conforme	 o	 disposto	 no	 artigo	 V	 do	 Tratado	 que	 lhe	 deu	 origem,	 cada
membro	 se	 compromete	 a	 considerar	 um	 ataque	 armado	 contra	 um	 dos
Estados	 como	 um	 ataque	 armado	 contra	 todos	 os	 Estados.	 Seus	 integrantes
são:	Bélgica,	França,	Noruega,	Canadá,Islândia,	Países	Baixos,	Dinamarca,
Itália,	 Portugal,	 Estados	 Unidos	 da	 América,	 Luxemburgo	 e	 Reino	 Unido,
considerados	 os	 fundadores,	 e	 Alemanha,	 Espanha,	 Letônia,	 Bulgária,
Estônia,	Lituânia,	Romênia,	Eslováquia,	Grécia,	Polônia,	Turquia,	Eslovênia,
Hungria,	 República	 Checa,	 Albânia,	 Croácia	 e	 Montenegro,	 admitido	 em
2017.
A	cláusula	de	defesa	mútua	 foi	 invocada	pela	primeira	vez	em	2001,	em
resposta	 aos	 ataques	 de	 11	 de	 setembro	 contra	 o	 World	 Trade	 Center	 e	 o
Pentágono.
7.	ORGANIZAÇÃO	DOS	ESTADOS	AMERICANOS	—	OEA
A	Organização	 dos	 Estados	 Americanos	—	OEA	 foi	 fundada	 em	 30	 de
abril	 de	 1948.	 Seus	 integrantes	 assumiram	 o	 compromisso	 prioritário	 de
defender	os	interesses	do	continente	americano,	buscando	o	fortalecimento	da
democracia	 e	 dos	 assuntos	 relacionados	 com	 o	 comércio	 e	 a	 integração
econômica,	 o	 controle	 de	 entorpecentes,	 a	 repressão	 ao	 terrorismo	 e	 à
corrupção,	a	lavagem	de	dinheiro	e	as	questões	ambientais.
Em	 11	 de	 setembro	 de	 2001,	 os	 países-membros	 assinaram	 a	 Carta
Democrática	Interamericana,	com	o	objetivo	de	fortalecer	o	estabelecimento
de	democracias	representativas	no	continente.
São	 membros	 da	 OEA:	 Antígua	 y	 Barbuda,	 Argentina,	 Bahamas,
Barbados,	 Belize,	 Bolívia,	 Brasil,	 Canadá,	 Chile,	 Colômbia,	 Costa	 Rica,
Cuba,	Dominica,	Equador,	El	Salvador,	Estados	Unidos,	Granada,	Guatemala,
Guiana,	 Haiti,	 Honduras,	 Jamaica,	 México,	 Nicarágua,	 Panamá,	 Paraguai,
Peru,	República	Dominicana,	San	Kitts	y	Nevis,	Santa	Lucía,	San	Vicente	y
las	Granadinas,	Suriname,	Trinidad	y	Tobago,	Uruguai	e	Venezuela.
Cuba	foi	suspensa	em	1962,	após	aliar-se	à	antiga	URSS,	declarando	sua
adesão	ao	marxismo-leninismo.	Essa	decisão	foi	revogada,	em	2009,	pela	39a
Assembleia	 Geral	 da	 OEA.	 A	 efetivação	 da	 readmissão	 plena	 ainda	 está
subordinada	 a	 um	 processo	 de	 diálogo	 que	 dependerá	 de	 solicitação	 do
governo	de	Cuba.
Honduras	 foi	 suspensa	 em	 julho	de	2009,	 por	decisão	unânime	da	OEA,
em	razão	do	golpe	de	Estado	que	expulsou	do	poder	o	presidente	eleito	José
Manuel	Zelaya,	mas	 reintegrada	 em	 2011	 após	 cumprimento	 das	 condições
impostas.
Os	 Estados	 suspensos,	 tecnicamente,	 ainda	 continuam	 a	 fazer	 parte	 da
OEA,	mas	durante	a	suspensão	não	têm	direito	de	representação,	participação
nas	reuniões	e	demais	atividades	da	organização.
8.	ORGANIZAÇÕES	ECONÔMICAS
Classificamos	 como	 organizações	 preponderantemente	 econômicas
aquelas	 também	 chamadas	 de	 Blocos	 Econômicos.	 Essas	 organizações
existem	 na	 ordem	 internacional,	 formadas	 por	 uniões	 de	 Estados	 soberanos
formalizadas	 por	 tratados	 e	 convenções	 que	 traçam	 as	 regras	 a	 serem
respeitadas	mutuamente.	Essas	regras,	conforme	a	relevância	das	restrições	ou
obrigações	 de	 conduta	 impostas	 aos	 países	 participantes,	 constituem	 o
combustível	 que	 alimenta	 a	 elaboração	 dos	 diversos	 posicionamentos	 dos
doutrinadores	 a	 respeito	 de	 constituírem	 ou	 não	 restrições	 ao	 conceito	 de
soberania.
Embora	 não	 se	 possa	 negar	 que	 a	 mola	 propulsora	 da	 formação	 desses
blocos	 seja,	 no	 mundo	 capitalista	 atual,	 o	 interesse	 econômico,	 é	 possível
identificar	 a	 presença	 do	 elemento	 político,	 já	 que	 as	 regras	 aplicáveis	 à
cooperação	 econômica	 abrangerão,	 necessariamente,	 a	 concessão	 de
prerrogativas	 que	 estão	 incluídas	 no	 conceito	 de	 soberania	 de	 cada	 país-
membro.
O	 relacionamento	 entre	 os	 países-membros	 nesse	 tipo	 de	 organização	 é
classificado	como	intergovernamental.	Significa	que	as	decisões	que	vierem	a
ser	tomadas	pela	Organização	não	têm	força	de	execução	sobre	cada	Estado-
membro.	Para	que	as	decisões	adquiram	força	de	execução,	elas	dependem	da
inserção	dessas	decisões	no	sistema	legislativo	interno,	mediante	a	aprovação
individual	dos	órgãos	políticos	de	cada	Estado-membro.
9.	MERCOSUL
O	Mercado	Comum	do	Sul	(Mercosul)	é	atualmente	um	exemplo	de	bloco
econômico	cuja	atuação	e	finalidades	são	preponderantemente	comerciais.
Situado	 na	 região	 denominada	 Cone	 Sul	 do	 Continente	 Americano,	 o
Mercosul	 foi	 criado	 através	 do	 Tratado	 de	 Assunção,	 assinado	 em	 26	 de
março	 de	 1991,	 complementado	 pelo	 Protocolo	 de	 Ouro	 Preto,	 de	 17	 de
dezembro	 de	 1994.	 É	 formado	 atualmente	 por	 cinco	 países-membros	 —
Argentina,	 Brasil,	 Paraguai,	 Uruguai	 e	 Venezuela,	 cujo	 nome	 oficial	 é
República	Bolivariana	da	Venezuela	—	esta	última	suspensa	em	dezembro	de
2016;	 cinco	países-associados	—	Bolívia,	Chile,	Colômbia,	Equador	 e	Peru
—;	e	dois	países	observadores	—	Nova	Zelândia	e	México.
O	Paraguai	 foi	 suspenso	do	bloco	em	29	de	 junho	de	2012,	em	razão	da
destituição	do	presidente	Fernando	Lugo,	mas	 foi	 reintegrado	em	agosto	de
2013.	A	Venezuela	foi	admitida	como	membro	pleno	em	31	de	julho	de	2012,
mas	foi	suspensa	em	dezembro	de	2016	por	não	cumprir	diretrizes	do	bloco
relativas	à	promoção	e	proteção	dos	direitos	humanos.
Por	meio	do	Protocolo	de	Brasília,	 firmado	em	17	de	dezembro	de	1991,
complementado	 pelo	 Protocolo	 de	 Olivos,	 firmado	 em	 18	 de	 fevereiro	 de
2002,	 os	 Estados-membros	 trataram	 do	 estabelecimento	 de	 normas	 para	 a
Solução	de	Controvérsias	no	Mercosul,	constituindo	um	Tribunal	Permanente
de	Revisão,	para	consolidar	a	segurança	jurídica	na	região.
O	objetivo	principal	 é	criar	um	mercado	comum	com	 livre	circulação	de
bens,	serviços	e	fatores	produtivos,	complementado	pela	busca	de	adoção	de
uma	 política	 externa	 comum,	 pela	 coordenação	 de	 posições	 conjuntas	 em
foros	internacionais,	pela	formulação	conjunta	de	políticas	macroeconômicas
setoriais	e,	por	fim,	pela	harmonização	das	legislações	nacionais,	com	vistas	a
maior	integração,	segundo	consta	de	seus	atos	constitutivos.
A	estrutura	orgânica	do	Mercosul	conta	com	uma	presidência	exercida	pro
tempore,	ou	seja,	por	sistema	de	rodízio	semestral.	As	decisões	do	Mercosul
são	sempre	tomadas	por	consenso.
Compõem	a	sua	organização	um	órgão	superior,	denominado	Conselho	do
Mercado	 Comum,	 responsável	 pela	 condução	 política	 do	 processo	 de
integração	 e	 composto	 pelos	 Ministros	 das	 Relações	 Exteriores	 e	 da
Economia	 dos	 quatro	 Estados-membros,	 ao	 qual	 estão	 subordinados	 vários
Grupos	 de	Trabalho,	 além	do	Parlamento	 do	Mercosul,	 do	Foro	Consultivo
Econômico-Social	(FCES),	do	Tribunal	Permanente	de	Revisão	e	outros.
Em	 atenção	 à	 característica	 da	 intergovernabilidade,	 o	 Mercosul	 não
possui	órgãos	supranacionais.	Consequentemente	 as	decisões	 emanadas	dos
órgãos	 diretivos	 ficam	 subordinadas	 à	 obediência	 das	 formalidades
legislativas	 próprias	 de	 cada	 Estado-membro	 para	 que	 tenham	 força	 exe-
cutória.	 Em	 razão	 dessa	 necessidade,	 chamada	 de	 internacionalização	 da
norma,	pode-se	afirmar	que	o	conceito	de	soberania	sofre	menor	restrição,	já
que	 fica	 mantida	 a	 prerrogativa	 interna	 de	 eventualmente	 não	 aprovar	 a
disposição	emanada	do	órgão	internacional.
10.	OUTRAS	ORGANIZAÇÕES	ECONÔMICAS
Com	características	semelhantes	às	do	Mercosul,	divergindo	especialmente
quanto	 ao	grau	de	 integração	 entre	os	Estados-membros,	 estão	 constituídos,
segundo	 dados	 relativos	 ao	 ano	 de	 2008,	 os	 seguintes	 blocos	 econômicos
internacionais:
NAFTA	—	North	America	Free	 Trade	Agreement:	 teve	 início	 em	 1988,
com	o	relacionamento	comercial	entre	os	Estados	Unidos	e	o	Canadá.	Contou
com	 a	 adesão	 do	México	 em	 1992,	 e	 entrou	 em	 vigor	 em	 1º	 de	 janeiro	 de
1994.	 Tem	 por	 objetivo	 a	 fixação	 de	 um	 prazo	 de	 quinze	 anos	 para	 a	 total
eliminação	das	 barreiras	 alfandegárias	 entre	 os	 três	 países,	 estando	 aberto	 a
todos	os	Estados	da	América	Central	e	do	Sul.	Em	2018,	o	presidente	norte-
americano	Donald	 Trump	 divulgou	 acordo	 de	 integração	 econômica	 com	 o
México,	o	que	significa	o	fim	do	NAFTA,	pois	não	conta	com	a	participação
do	Canadá.
ALADI	—	Associação	Latino-Americana	de	Integração.	Criada	em	12	de
agosto	 de	 1980pelo	Tratado	de	Montevidéu,	 substituiu	 a	ALALC,	 a	 antiga
Associação	 Latino-Americana	 de	 Livre	 Comércio,	 que	 foi	 criada	 em	 1960.
Tem	por	objetivo	criar	um	mercado	comum	latino-americano,	a	longo	prazo.
É	integrada	pela	Argentina,	Bolívia,	Brasil,	Chile,	Colômbia,	Cuba,	Equador,
México,	 Panamá,	 Paraguai,	 Peru,	 Uruguai	 e	 República	 Bolivariana	 da
Venezuela.
CAN	 —	 Comunidade	 Andina,	 ou	 Pacto	 Andino	 (Comunidad	 Andina).
Criada	em	26	de	maio	de	1969,	 inicialmente	como	uma	União	Aduaneira	e
Econômica.	 São	 membros	 atuais	 a	 Bolívia,	 Colômbia,	 Equador	 e	 Peru.
Membros	 associados	 Argentina,	 Brasil,	 Chile	 Paraguai	 e	 Uruguai.	 São
observadores	 o	México	 e	 o	 Panamá.	Tem	por	 objetivo	 a	 integração	 andina,
sul-americana	e	latino-americana,	para	a	formação	de	uma	União	das	Nações
Sul-Americanas	(UNASUL).
CARICOM	 —	 Comunidade	 do	 Caribe,	 ou	 Comunidade	 das	 Caraíbas,
antes	 denominada	 Comunidade	 e	 Mercado	 Comum	 do	 Caribe.	 Criado	 em
1973,	é	integrado	por	quinze	países	e	territórios	da	região	caribenha:	Antígua
e	 Barbuda,	 Bahamas,	 Barbados,	 Belize,	 Dominica,	 Granada,	 Guiana,	 Haiti,
Jamaica,	 Montserrat,	 Santa	 Lúcia,	 São	 Cristóvão	 e	 Névis,	 São	 Vicente	 e
Granadinas,	 Suriname	 e	 Trinidad	 e	 Tobago.	 São	 considerados	 territórios
associados	Bermudas,	Ilhas	Virgens	Britânicas,	Turks	e	Caicos,	Ilhas	Cayman
e	Anguilla.
EFTA	—	Associação	Europeia	de	Livre	Comércio	(European	Free	Trade
Association).	 Criada	 em	 1960,	 como	 oposição	 à	 Comunidade	 Econômica
Europeia	 (CEE),	 tinha	 como	 primeiros	 parceiros	 Áustria,	 Dinamarca,
Noruega,	Portugal,	Suécia,	Suíça	e	Reino	Unido	(Inglaterra,	Escócia,	País	de
Gales	 e	 Irlanda	do	Norte).	Com	o	 fortalecimento	da	Comunidade	Europeia,
perdeu	a	maioria	dos	seus	integrantes,	restringindo-se	atualmente	à	associação
de	apenas	quatro	países:	Islândia,	Liechtenstein,	Noruega	e	Suíça.	Em	1992	a
EFTA	 assinou	 acordo	 com	 a	União	Europeia,	 criando	 o	Espaço	Econômico
Europeu	 (EEE),	 objetivando	 aumentar	 o	 volume	 de	 comércio	 com	 a	União
Europeia	 e	 a	 participação	 dos	 seus	 quatro	 Estados-Membros,	 em	 outros
programas.
SADC	 —	 Comunidade	 para	 o	 desenvolvimento	 da	 África	 Austral
(Southern	Africa	Development	Community).	Criada	em	1992,	é	integrada	por
quinze	 países:	África	 do	 Sul,	Angola,	Botsuana,	República	Democrática	 do
Congo,	 Lesoto,	 Madagascar,	 Malavi,	 Maurício,	 Moçambique,	 Namíbia,
Suazilândia,	Tanzânia,	Zâmbia,	Zimbábue	e	Seicheles.	Objetiva	incentivar	as
relações	comerciais	entre	seus	membros,	por	meio	da	criação	de	um	mercado
comum	a	médio	prazo,	seguindo	o	modelo	básico	da	União	Europeia	e	alguns
aspectos	do	Mercosul,	além	de	desenvolver	esforços	para	promover	a	paz	e	a
segurança	na	região	meridional	africana.
ANZCERTA	 —	 Acordo	 Comercial	 Sobre	 Relações	 Econômicas	 entre
Austrália	 e	 Nova	 Zelândia	 (Australia	 New	 Zealand	 Closer	 Economic
Relations	Trade	Agreement).	Criado	em	1983,	integrado	por	esses	dois	países,
objetiva	 a	 criação	de	uma	 área	de	 livre	 comércio	 e	 planejando	 a	 integração
com	o	ASEAN	até	2010.	Destaca-se	pelo	seu	protocolo	sobre	livre	comércio
na	área	de	serviços,	o	primeiro	do	mundo	globalizado.
ASEAN	 —	 Associação	 de	 Nações	 do	 Sudeste	 Asiático	 (Association	 of
Southeast	Asian	Nations).	Surgiu	em	1967,	liderada	pela	Tailândia.	Os	países
que	 a	 integram	 são:	 Brunei,	 Camboja,	 Indonésia,	 Laos,	 Malásia,	 Mianmar,
Filipinas,	 Cingapura,	 Tailândia	 e	 Vietnã.	 São	 Países	 observadores:	 Papua-
Nova	Guiné	e	Timor-Leste.	Tem	por	objetivo	assegurar	a	estabilidade	política
e	 acelerar	 o	 processo	 de	 desenvolvimento	 da	 região,	 promovendo	 o
desenvolvimento	 econômico,	 social	 e	 cultural,	 mediante	 programas
cooperativos,	incluindo	em	seus	objetivos	também	o	livre	comércio.
APEC	 —	 Fórum	 Econômico	 da	 Ásia	 e	 do	 Pacífico	 (Asia-Pacific
Economic	Cooperation).	Trata-se	de	um	Organismo	intergovernamental	para
consulta	 e	 cooperação	 econômica,	 oficializado	 em	 1993.	 Constitui	 um
poderoso	 bloco	 econômico	 que	 objetiva	 promover	 a	 abertura	 de	 mercados
entre	 os	 países-membros:	 Austrália,	 Brunei	 Darussalam,	 Canadá,	 Chile,
República	da	China,	Hong	Kong,	 Indonésia,	 Japão,	Coreia	do	Sul,	Malásia,
México,	 Nova	 Zelândia,	 Papua	 Nova	 Guiné,	 Peru,	 Filipinas,	 Rússia,
Cingapura,	 Taipé	 Chinesa	 (Taiwan),	 Tailândia,	 Estados	Unidos	 e	Vietnã.	 A
meta	é	o	estabelecimento	do	livre	comércio	entre	os	países	participantes,	até	o
ano	 2010	 para	 as	 economias	 dos	 países	 desenvolvidos	 e	 até	 2020	 para	 as
economias	dos	países	em	desenvolvimento.
11.	ORGANIZAÇÃO	SUPRANACIONAL	—	UNIÃO	EUROPEIA
Em	 uma	 organização	 que	 classificamos	 como	 supranacional,	 cada	 país
cede	ou	transfere	parcelas	de	suas	respectivas	soberanias	a	um	órgão	comum,
admitindo	que	 as	decisões	 tomadas	por	 esse	órgão	 se	 tornem	de	obediência
interna	 obrigatória,	 independentemente	 de	 qualquer	 outra	 manifestação
política	 ou	 legislativa	 interna.	 Em	 outras	 palavras,	 as	 decisões	 desse	 órgão
supranacional	passam	a	integrar	automaticamente	o	ordenamento	jurídico	de
cada	Estado-membro.
Os	blocos	de	integração	supranacionais	constituem	exemplo	marcante	da
relativização	do	conceito	clássico	da	soberania	absoluta.
Na	atualidade	a	União	Europeia	constitui	a	meta	almejada,	pelo	menos	em
teoria,	 pelas	 demais	Organizações	 Internacionais,	 por	 representar,	 de	 forma
mais	 expressiva,	 o	 resultado	 do	 processo	 de	 globalização,	 e	 de	 integração
política,	em	suas	diversas	concepções	e	formas	de	atuação.
A	União	Europeia	é	originada	da	Comunidade	Econômica	Europeia	(CEE),
fundada	em	1957.	Teve	a	eliminação	das	últimas	barreiras	alfandegárias	entre
os	países-membros	consolidada	em	1992,	e	entrou	em	funcionamento	em	1º
de	 novembro	 de	 1993,	 através	 do	 Tratado	 de	 Maastricht.	 É	 integrada	 por:
Alemanha,	 Áustria,	 Bélgica,	 Espanha,	 Finlândia,	 França,	 Grécia,	 Irlanda,
Itália,	 Luxemburgo,	 Holanda	 (Países	 Baixos),	 Portugal,	 Reino	 Unido
(Inglaterra,	 em	 processo	 de	 saída	 do	 bloco),	 Suécia,	 Dinamarca,	 Chipre,
Eslováquia,	 Eslovênia,	 Estônia,	 Hungria,	 Letônia,	 Lituânia,	Malta,	 Polônia,
República	Tcheca,	Bulgária,	Croácia	e	Romênia.	Estão	oficialmente	em	fase
de	negociação:	Albânia,	Macedônia,	Montenegro	e	Turquia.
O	órgão	máximo	da	União	Europeia	é	o	Parlamento	Europeu,	eleito	pelo
voto	 direto	 dos	 cidadãos	 europeus,	 a	 cada	 cinco	 anos.	 Juntamente	 com	 o
Conselho	 da	União	 Europeia,	 constituído	 pelos	ministros	 dos	 governos	 dos
Estados-membros,	 é	 o	 responsável	 pela	 elaboração	 da	 legislação	 Europeia,
mediante	 propostas	 oriundas	 da	 Comissão	 Europeia.	 Outros	 órgãos	 atuam
também	com	poderes	supranacionais:	Tribunal	de	Justiça,	Tribunal	de	Contas,
Comitê	Econômico	e	Social,	Comitê	das	Regiões,	Banco	Central	Europeu	e
Banco	Europeu	de	Investimento.
A	União	Europeia	caracteriza	uma	forma	de	cessão,	mesmo	que	parcial,	da
soberania,	 critério	 também	 chamado	 eufemisticamente	 de	 “agrupamento	 de
soberania”.	 Na	 observação	 de	 Ives	 Gandra	Martins,	 “o	 direito	 comunitário
prevalece	 sobre	 o	 Direito	 local,	 e	 os	 poderes	 comunitários	 (Tribunal	 de
Luxemburgo,	 Parlamento	 Europeu)	 têm	 mais	 força	 que	 os	 poderes	 locais.
Embora	 no	 exercício	 da	 soberania,	 as	 nações	 aderiram	 a	 tal	 espaço
plurinacional,	 mas,	 ao	 fazê-lo,	 abriram	 mão	 de	 sua	 soberania	 ampla	 para
submeterem-se	a	regras	e	comandos	normativos	da	comunidade.	Perderam,	de
rigor,	sua	soberania	para	manter	uma	autonomia	maior	do	que	nas	Federações
clássicas,	 criando	uma	 autêntica	Federação	de	 países”	 (O	Estado	 do	 futuro,
São	Paulo,	Thomson	Pioneira,	1998,	p.	15).
IX
NASCIMENTO	E	EXTINÇÃO	DOS	ESTADOS	—
I
1.	 Nascimento.	 2.	 Modo	 originário.	 3.	 Modos	 secundários.	 4.
Confederação.	 5.	 Federação.	 6.	 União	 pessoal.	 7.	 União	 real.	 8.
Divisão	 nacional.	 9.	 Divisão	 sucessoral.	 10.	 Modos	 derivados.	 11.
Colonização.	 12.	 Concessão	 dos	 direitosde	 soberania.	 13.	 Ato	 de
governo.	14.	Desenvolvimento	e	declínio.	15.	Extinção.	16.	Conquista.
17.	Emigração.	18.	Expulsão.	19.	Renúncia	dos	direitos	de	soberania.
1.	NASCIMENTO
Concorrendo	 os	 três	 elementos	 necessários	 —	 população,	 território	 e
governo	—	nasce	um	Estado.
Resta	 saber,	 porém,	 como	 esses	 elementos	 se	 reúnem	 ou	 de	 que	 forma
nasce	o	Estado.
Neste	ponto	não	indagamos	das	causas	genéticas	da	formação	social,	mas,
sim,	do	ato	formal	do	nascimento	ou	de	criação	de	um	Estado,	conforme	com
o	 depoimento	 da	 história,	 o	 consenso	 dos	 povos	 e	 os	 princípios	 de	 direito
internacional.
O	 conhecimento	 dos	 fatores	 determinantes	 do	 surgimento	 e	 do
perecimento	 dos	 Estados	 mais	 antigos	 perdeu-se	 na	 poeira	 dos	 tempos.
Mesmo	 em	 relação	 aos	 que	 chegaram	 aos	 tempos	 atuais,	 como	 a	 Índia,	 a
China	e	o	Egito,	a	história	da	sua	origem	permanece	embuçada	nas	brumas	de
um	passado	muito	remoto.
Os	 primeiros	 Estados,	 ao	 que	 se	 tem	 apurado	 por	 indução	 dos	 sábios,
teriam	 surgido,	 originariamente,	 como	 decorrência	 natural	 da	 evolução	 das
sociedades	 humanas.	 Emergiram	 do	 seio	 das	 primitivas	 comunidades	 e
caminharam,	paulatinamente,	para	a	instauração	de	forma	política	específica.
E,	 se	 mais	 nos	 adentramos	 procurando	 desvendar	 na	 nebulosidade	 das
priscas	eras	a	gênese	da	ordem	civil,	veremos	que	se	nos	 impõe,	ainda	pelo
critério	indutivo,	a	conclusão	de	que,	antes	do	aparecimento	do	fenômeno	que
hoje	 chamamos	Estado,	 já	 existiam	 regras	de	 comportamento	 social	 ditadas
pelo	 direito	 natural,	 e	 que	 este	 gerou	 o	Estado	 erigindo-o	 em	 órgão	 da	 sua
positivação.
Extinguiram-se	 os	 Estados	 primitivos	 oriundos	 dessa	 ordem	 natural
primitiva,	e	sobre	os	seus	escombros	ergueram-se	os	Estados	do	mundo	atual.
Na	sua	maioria,	representam	estes	o	renascimento	ou	a	reformação	dos	velhos
impérios	extintos,	conservando,	muitas	vezes,	o	nome	e	as	 tradições,	porém
ostentando	nova	configuração	geográfica	e	política.
Como	o	desaparecimento	da	organização	estatal	não	implica,	geralmente,	o
desaparecimento	 dos	 agrupamentos	 étnicos,	 conservam-se	 estes	mantendo	 a
sua	continuidade	histórica.	A	comunidade	 romana,	por	 exemplo,	 sobreviveu
ao	aniquilamento	do	Império	ocasionado	pelas	 invasões	dos	bárbaros,	assim
como	a	comunidade	judaica,	depois	da	destruição	de	Jerusalém,	se	conservou
coesa	até	restabelecer,	na	Palestina,	as	vetustas	tradições	do	velho	Estado	de
Israel.
É	oportuno	ressaltar	aqui,	mais	uma	vez,	a	nítida	diferença	que	existe	entre
Nação	 e	 Estado.	 A	Nação	 é	 uma	 entidade	 de	 direito	 natural.	 O	 Estado,	 ao
revés,	 é	 um	 fenômeno	 jurídico;	 é	 obra	 do	 homem,	 portanto,	 contingente	 e
falível.	Sua	estrutura	pode	desintegrar-se	num	dado	momento,	desaparecer	e
reaparecer.
Tal	como	um	ser	vivo	—	disse	Montaigne	—,	o	Estado	nasce,	 floresce	e
morre.	 Essa	 interpretação	 mística	 do	 fenômeno	 estatal,	 desenvolvida	 por
Hegel,	 Schelling,	 Krause	 e	 outros	 corifeus	 da	 chamada	 escola	 orgânica,
fundada,	 aliás,	 na	 filosofia	 platônica,	 não	 convém	 à	 objetividade	 com	 que
devemos	encarar	os	fatos	do	nascimento	e	da	extinção	dos	Estados.
Se	o	Estado	em	si,	na	sua	estrutura	morfológica	e	na	sua	realidade	vital,	se
compara	ao	ritmo	da	vida	orgânica,	tal	não	ocorre	em	relação	à	comunidade
nacional,	pois	esta,	independentemente	daquele,	se	eterniza	na	sucessividade
das	gerações.
O	 Estado	 não	 morre	 por	 completar	 um	 determinado	 ciclo	 orgânico.	 A
perpetuidade,	 aliás,	 é	 um	 dos	 pressupostos	 jurídicos	 da	 sua	 condição,	 e,
contrariamente	às	leis	naturais	que	regem	a	vida	dos	seres,	a	sua	velhice	é	um
penhor	de	vigorosa	durabilidade.	Um	dos	fatores	que	levam	o	Estado	à	morte
está	em	que	a	sua	estrutura,	de	certo	modo,	 se	apoia	na	 força,	e	esta	gera	a
resistência.	 Sujeita-se	 a	 sua	 estrutura	 às	 mutações	 do	 poder	 que	 são
imperativos	necessários	da	evolução	humana.
Feitos	estes	esclarecimentos	preliminares,	vamos	analisar	aqui	os	fatos	que
assinalam	o	nascimento,	o	crescimento	ou	declínio	e	o	desaparecimento	dos
Estados.
A	condição	de	Estado,	 como	 já	vimos,	 requer	 a	 presença	 simultânea	dos
seus	três	elementos	constitutivos	—	população,	território	e	governo	—,	sendo,
entretanto,	diversos	os	modos	como	se	realiza	a	combinação	desses	elementos
e	como	se	explica	o	surgimento	da	entidade	estatal.
Três	 são	 os	modos	 de	 nascimento	 dos	Estados:	 originário,	 secundários	 e
derivados.	Desdobram-se,	 cada	 um	deles,	 em	vários	 casos	 específicos.	 Para
bem	estudá-los	faremos	primeiro	o	seguinte	enquadramento	sinótico:
2.	MODO	ORIGINÁRIO
Pode	 surgir	 o	 Estado,	 originariamente,	 do	 próprio	 meio	 nacional,	 sem
dependência	 de	 qualquer	 fator	 externo.	 Um	 agrupamento	 humano	 mais	 ou
menos	homogêneo,	 estabelecendo-se	num	determinado	 território,	organiza	o
seu	governo	e	passa	a	apresentar	as	condições	universais	da	ordem	política	e
jurídica.	Roma	e	Atenas	são	exemplos	típicos	da	formação	originária.
Esse	 núcleo	 inicial,	 via	 de	 regra,	 é	homogêneo,	 isto	 é,	 uma	 comunidade
identificada	 por	 vínculos	 de	 raça,	 língua,	 religião,	 usos,	 costumes,
sentimentos	 e	 aspirações	 comuns,	 e	 que,	 atingindo	 lentamente	 certas	 e
determinadas	 condições,	 adota	 um	 sistema	 de	 organização	 social	 e
administrativa	tendente	a	facilitar	a	concretização	dos	anseios	comuns.
Os	 Estados	 primitivos,	 sem	 dúvida,	 foram	 precedidos	 de	 uma	 lenta
preparação	nacional,	mas	nos	tempos	atuais	tivemos	exemplos	de	criação	de
Estados	originariamente,	sem	o	estágio	preparatório	a	que	nos	referimos,	ou
seja,	 sem	 que	 o	 núcleo	 humano	 inicial	 apresentasse	 esse	 aspecto	 de
homogeneidade	próprio	dos	chamados	Estados	Nacionais.	Assim	ocorreu,	por
exemplo,	 no	 caso	 já	 citado	 do	 Estado	 da	Califórnia,	 na	América	 do	Norte,
onde	 legiões	 de	 indivíduos	 de	 todas	 as	 origens	 formaram	 uma	 população
numerosa	e	reuniram-se,	em	1849,	numa	assembleia	constituinte,	organizando
o	 seu	governo	próprio	 e	 proclamando	 ao	mundo	 a	 fundação	do	 seu	Estado,
posteriormente	 incorporado	 à	 federação	dos	Estados	Unidos	 da	América	 do
Norte.
Deixando	de	lado	maior	 indagação	sobre	a	formação	dos	Estados	antigos
para	fixarmos	a	sociedade	humana	no	momento	exato	em	que	ela,	por	força
de	variadas	circunstâncias,	se	organiza	em	Estado,	constatamos	que	no	mundo
moderno	 inúmeras	 são	 as	 circunstâncias	 que	 cercam	 e	 determinam	 o
nascimento	de	novas	unidades	políticas.	Queiroz	Lima	assim	enumera	essas
circunstâncias:	 “Irredutibilidade	 de	 interesses;	 necessidade	 de	 autonomia
econômica	 e	 política;	 divergências	 de	 raças,	 índoles	 e	 aspirações,	 ou
coligação	 de	 povos	 unidos	 pela	 identidade	 de	 raça	 ou	 por	 um	 forte	 laço	 de
interesse	comum;	 influência	dissolvente	de	uma	guerra	 infeliz	ou	 imposição
de	 um	 inimigo	 vencedor;	 e,	 finalmente,	 combinações	 políticas	 das	 grandes
potências	em	congresso	internacional”.
Diante	 desse	 panorama	 realmente	 verídico,	 perde	 muito	 do	 seu	 valor	 a
regra	 geral	 da	 formação	 originária	 e	 se	 avultam	 em	 importância	 os	 modos
secundários	e	derivados.
3.	MODOS	SECUNDÁRIOS
Uma	nova	unidade	política	pode	nascer	da	união	ou	da	divisão	de	Estados.
São	casos	de	união:	a)	confederação;	b)	 federação;	c)	união	pessoal;	e	d)
união	real.
4.	CONFEDERAÇÃO
É	 uma	 união	 convencional	 de	 países	 independentes,	 objetivando	 a	 rea-
lização	de	grandes	empreendimentos	de	interesse	comum	ou	o	fortalecimento
da	defesa	de	todos	contra	a	eventualidade	de	uma	agressão	externa.
São	exemplos	dessa	forma	de	união,	nos	tempos	antigos,	as	confederações
gregas	 dos	 Beócios,	 dos	 Arcádios,	 dos	 Acheus	 e	 dos	 Estólios.	 Os	 antigos
cantões	 da	 Suíça	 uniram-se	 formando	 a	 Confederação	Helvética,	 que	 ainda
subsiste,	agora	com	feição	própria	de	uma	união	federal.	Mais	recentemente,
tivemos	 a	 Confederação	 dos	 Estados	 Unidos	 da	 América	 do	 Norte	 (1776-
1787)	e	a	Confederação	Germânica(1815).
A	 atual	Comunidade	dos	Estados	 Independentes	 (CEI)	 é	 um	exemplo	da
união	 sob	 a	 forma	 confederativa.	 A	 partir	 de	 um	 manifesto	 lançado	 pela
Rússia,	Ucrânia	e	Bielorrússia,	outras	nove	repúblicas	também	ex-integrantes
da	 extinta	 URSS	 formalizaram	 sua	 adesão,	 dando	 início	 a	 um	 processo	 de
unificação	política	e	econômica	cujas	bases	definitivas	ainda	hoje	estão	sendo
processadas.
5.	FEDERAÇÃO
É	uma	união	nacional	mais	 íntima,	perpétua	e	indissolúvel,	de	províncias
que	 passam	 a	 constituir	 uma	 só	 pessoa	 de	 direito	 público	 internacional.
Exemplo	 clássico	de	união	 federal	 é	 a	América	do	Norte.	Temos,	 ainda,	 no
continente	americano,	México,	Brasil,	Argentina	e	República	Bolivariana	da
Venezuela.
6.	UNIÃO	PESSOAL
É	o	governo	de	dois	ou	mais	países	por	um	só	monarca.	É	uma	união	de
natureza	 precária,	 transitória,	 porque	 decorre	 exclusivamente	 de	 eventuais
direitos	sucessórios	ou	convencionais	de	um	determinado	príncipe.	Registra	a
história,	entre	outros,	os	seguintes	exemplos	de	união	pessoal:	a)	Alemanha	e
Espanha	sob	o	poder	de	Carlos	V;	b)	Inglaterra	e	Hanover	sob	o	governo	de
George	IV;	c)	Polônia	e	Sarre,	sob	o	reinado	de	Augusto	etc.
7.	UNIÃO	REAL
É	 a	 união	 efetiva,	 com	 caráter	 permanente,	 de	 dois	 ou	 mais	 países
formando	 uma	 só	 pessoa	 de	 direito	 público	 internacional.	 Exemplos:	 a)
Suécia	e	Noruega;	b)	Áustria	e	Hungria;	c)	Inglaterra,	Escócia	e	Irlanda,	que
se	juntaram	para	a	formação	da	Grã-Bretanha.
São	casos	de	divisão:	a)	divisão	nacional,	e	b)	divisão	sucessoral.
8.	DIVISÃO	NACIONAL
É	a	que	se	dá	quando	uma	determinada	região	ou	província	integrante	de
um	Estado	obtém	a	sua	independência	e	forma	uma	nova	unidade	política.	Há
os	 exemplos	 da	 divisão	 da	 monarquia	 de	 Alexandre,	 do	 retalhamento	 do
primeiro	império	napoleônico	e	da	separação	dos	chamados	Países	Baixos	em
1830.	Na	reorganização	da	Europa,	depois	da	primeira	guerra	mundial,	vários
casos	 de	 divisão	 nacional	 se	 verificaram	 por	 conveniência	 e	 imposição	 dos
vencedores.
9.	DIVISÃO	SUCESSORAL
É	 uma	 forma	 típica	 das	 monarquias	 medievais:	 o	 Estado,	 considerado
como	 propriedade	 do	 monarca,	 era	 dividido	 entre	 os	 seus	 parentes	 e
sucessores,	desdobrando-se,	assim,	em	reinos	menores	autônomos.	O	direito
público	 moderno	 não	 dá	 agasalho	 a	 essa	 antiquada	 forma	 de	 criação	 de
Estado.
10.	MODOS	DERIVADOS
Segundo	estas	hipóteses,	o	Estado	surge	em	consequência	de	movimentos
exteriores,	 quais	 sejam:	 a)	 colonização;	 b)	 concessão	 dos	 direitos	 de
soberania;	e	c)	ato	de	governo.
11.	COLONIZAÇÃO
Foi	a	forma	primeiramente	utilizada	pelos	gregos	que	povoaram	as	terras	e
criaram	 Estados	 ao	 longo	 do	 Mediterrâneo.	 Modernamente,	 temos	 os
exemplos	do	Brasil	e	das	demais	antigas	colônias	americanas	povoadas	pelos
ingleses,	espanhóis	e	portugueses,	as	quais	se	 transformaram	posteriormente
em	Estados	livres.
12.	CONCESSÃO	DOS	DIREITOS	DE	SOBERANIA
Ocorria	frequentemente	na	Idade	Média,	quando	os	monarcas,	por	sua	livre
vontade	 pessoal,	 outorgavam	 os	 direitos	 de	 autodeterminação	 aos	 seus
principados,	ducados,	condados	etc.	Nos	tempos	atuais,	a	Irlanda,	o	Canadá	e
outras	“colônias	autônomas”	da	British	Commonwealth	of	Nations	caminham
progressivamente	para	a	 sua	completa	 independência,	através	de	concessões
feitas	pelo	governo	inglês.
13.	ATO	DE	GOVERNO
É	a	forma	pela	qual	o	nascimento	de	um	novo	Estado	decorre	da	simples
vontade	 de	 um	 eventual	 conquistador	 ou	 de	 um	 governante	 absoluto.
Napoleão	 I	 criou	 assim	diversos	Estados,	 tão	 somente	pela	manifestação	da
sua	vontade	incontestável.
14.	DESENVOLVIMENTO	E	DECLÍNIO
O	 Estado	 se	 desenvolve,	 em	 sentido	 progressivo,	 quando	 fortalece	 e
sublima	 a	 sua	 ordem	 social,	 jurídica	 e	 econômica,	 em	 consonância	 com	 a
civilização	nacional.
O	seu	eventual	declínio,	ao	revés,	provém	da	corrupção	dos	costumes,	do
amortecimento	 da	 consciência	 cívica,	 do	 abastardamento	 da	 raça,	 do
relaxamento	 do	 sistema	 educacional,	 da	 perversão	 da	 justiça	 etc.	 Em	 tais
contingências	entra	o	Estado	num	processo	de	depauperamento	orgânico	—
como	dizem	os	teóricos	da	escola	organicista	—,	tornando-se	presa	fácil	aos
conquistadores	estrangeiros.
Quando	não	consegue	o	Estado	reagir	no	sentido	de	restabelecer	em	bases
seguras	a	normalidade	da	sua	vida,	poderá	sofrer	o	colapso	geral	e	a	morte.
Assim	 desapareceram:	 Cartago	 pelas	 dissenções	 internas;	 Roma	 pela
incapacidade	de	organizar	a	resistência	contra	as	hordas	bárbaras;	o	Império
de	Carlos	Magno	pelo	esfacelamento	feudal;	o	Império	Grego	do	Oriente	pela
sua	desastrosa	 indolência	bizantina;	 e	 a	Polônia	 (três	vezes)	pela	debilidade
das	suas	forças	internas	e	pela	inconstância	da	sua	nobreza.
15.	EXTINÇÃO
Causas	 gerais	 ou	 específicas	 ocasionam	 a	 extinção	 (morte)	 dos	 Estados,
como	resumimos	no	seguinte	quadro:
Em	 geral,	 ocorre	 o	 desaparecimento	 do	 Estado	 como	 unidade	 de	 direito
público	 sempre	 que,	 por	 qualquer	 motivo,	 faltar	 um	 dos	 seus	 elementos
morfológicos	(população,	território	e	governo).
As	 uniões	 e	 divisões	 de	 Estados,	 que	 ensejam	 a	 formação	 de	 novas
entidades	estatais,	determinam,	ipso	facto,	o	desaparecimento	dos	Estados	que
se	uniram	ou	daquele	que	se	dividiu.
16.	CONQUISTA
Quando	o	Estado,	desorganizado,	enfraquecido,	sem	amparo	de	um	órgão
internacional	 de	 justiça	 e	 segurança,	 é	 invadido	 por	 forças	 estrangeiras,	 ou
dividido	violentamente	por	um	movimento	separatista	insuflado	por	interesses
externos.
Por	 essa	 forma	 ocorreu	 três	 vezes	 o	 eclipse	 da	 Polônia	 na	 órbita
internacional,	em	1772,	em	1793	e	no	decurso	da	primeira	guerra	mundial.
17.	EMIGRAÇÃO
Quando,	 sob	 a	 pressão	 de	 qualquer	 acontecimento	 imprevisto,	 toda	 a
população	nacional	abandona	o	país,	como	se	deu	com	os	helvéticos	ao	tempo
de	César.
18.	EXPULSÃO
Quando	 as	 forças	 conquistadoras,	 ocupando	 plenamente	 o	 território	 do
Estado	invadido,	obrigam	a	população	vencida	a	se	deslocar	para	outra	região.
Foi	 o	 que	 ocorreu	 em	 diversos	 países	 da	 Europa	 por	 ocasião	 das	 invasões
bárbaras.
19.	RENÚNCIA	DOS	DIREITOS	DE	SOBERANIA
É	forma	de	desaparecimento	espontâneo.	Uma	comunidade	nacional	pode
renunciar	aos	seus	direitos	de	autodeterminação,	em	benefício	de	outro	Estado
mais	 próspero,	 ao	 qual	 se	 incorpora,	 formando	 um	 novo	 e	 maior	 Estado.
Várias	 unidades	 feudais	 com	 prerrogativas	 de	 Estado,	 na	 Idade	 Média,
desapareceram	 por	 este	 modo,	 passando	 a	 integrar	 a	 poderosa	 monarquia
francesa	de	Luiz	XI.
Mais	 recentemente	 tivemos	 o	 exemplo	 do	 Estado	mexicano	 do	 Texas,	 o
qual,	 tendo	 proclamado	 a	 sua	 independência	 em	 1837,	 deliberou
posteriormente,	 em	 1845,	 abrir	 mão	 da	 sua	 soberania	 para	 ingressar	 na
federação	norte-americana.
A	 Baviera,	 o	 Wurtenberg	 e	 o	 Grão-Ducado	 de	 Bade	 também
desapareceram	por	 renúncia	dos	direitos	de	soberania,	passando	a	 integrar	o
Império	Alemão.
X
NASCIMENTO	E	EXTINÇÃO	DOS	ESTADOS	—
II
1.	 Justificação.	 2.	 Princípio	 das	 nacionalidades.	 3.	 Teoria	 das
fronteiras	naturais.	4.	Teoria	do	equilíbrio	internacional.	5.	Teoria	do
livre-arbítrio	dos	povos.
1.	JUSTIFICAÇÃO
O	 nascimento	 e	 a	 extinção	 de	 Estados,	 como	 fatos	 que	 alteram
sensivelmente	a	situação	geográfica	e	política	de	uma	determinada	região	ou
mesmo	 de	 um	 Continente,	 revestem-se	 de	 importância	 transcendental,	 pois
envolvem,	direta	ou	 indiretamente,	os	 interesses	comuns	de	 todos	os	povos.
Na	 antiguidade	 esses	 fatos	 eram	 inteiramente	 arbitrários,	 sujeitos	 apenas	 às
imposições	 da	 força.	 Com	 o	 advento	 do	 jus	 gentium,	 porém,	 passaram	 a
subordinar-se	 aos	princípios	 estabelecidos	com	o	consenso	geral	das	nações
civilizadas.
A	 soberania	 política	 de	 uma	 comunidade	 nacional	 exclui	 a	 interferência
estrangeira	no	campo	do	direito	público	interno,	porém,	no	âmbito	maior	do
direito	público	internacional,	há	o	limite	impostonaturalmente	pelo	interesse
de	convivência	das	soberanias.	Não	há	mesmo	como	repelir,	no	plano	ético,	o
primado	 do	 direito	 internacional,	 que	 preside,	 no	 mundo	 moderno,	 a
existência	 de	 uma	 sociedade	 de	 Estados.	 Impõe	 o	 direito	 internacional,
consequentemente,	que	a	criação	ou	a	supressão	de	um	Estado	seja	aprovada
prévia	ou	posteriormente	pelas	outras	potências,	particularmente	por	aquelas
que	se	situam	no	mesmo	Continente,	para	que	a	integração	de	um	fato	político
de	 interesse	 da	 sociedade	 de	 Estados	 se	 harmonize	 com	 o	 princípio	 da
coexistência	 pacífica	 de	 soberanias	 internas	 sobre	 uma	 base	 normal	 de
paridade	jurídica.
Procurando	 dar	 a	 esses	 fatos	 a	 juridicidade	 de	 que	 carecem	 para	 que	 se
imponham	 ao	 respeito	 e	 ao	 acatamento	 de	 todos	 os	 povos,	 no	 jogo	 de
interesses	 legítimos	 ou	 ilegítimos	 das	 maiores	 potências,	 a	 política
internacional	tem	adotado,	desde	o	século	passado,	as	seguintes	teorias:
a)	princípio	das	nacionalidades;
b)	teoria	das	fronteiras	naturais;
c)	teoria	do	equilíbrio	internacional;	e
d)	teoria	de	livre-arbítrio	dos	povos.
2.	PRINCÍPIO	DAS	NACIONALIDADES
Com	a	vitória	da	revolução	francesa	verificou-se	a	 transposição	do	poder
de	governo	do	rei	para	a	nação.	Mas,	acima	da	nação	como	realidade	política
—	 observa	 Pedro	 Calmon	—,	 surgiu	 com	 a	 reação	 contra	 a	 Santa	 Aliança
(1815-1830)	 um	 novo	 princípio	 de	 direito	 natural	 e	 histórico,	 calcado	 no
conceito	de	nacionalidade.
A	divisão	arbitrária	dos	povos,	como	vinha	sendo	feita	pela	diplomacia	de
Viena,	 S.	 Petersburgo	 e	 Paris,	 estabelecera	 um	 clima	 de	 inquietação	 no
panorama	europeu,	prejudicando	os	esforços	tendentes	à	consolidação	da	paz.
O	 conceito	 de	 nacionalidade	 veio	 impor	 uma	 nova	 fórmula	 baseada	 na
liberdade	 que	 deve	 ter	 cada	 nação	 de	 organizar-se	 segundo	 suas	 tradições:
consistindo	 o	 Estado	 na	 organização	 política	 de	 uma	 nação,	 a	 cada
nacionalidade	 diferenciada	 deverá	 corresponder	 uma	 composição	 política
autônoma.
Em	outros	termos:	os	grupos	humanos,	diferenciados	por	vínculos	de	raça,
língua,	usos	e	costumes,	tradições	etc.,	constituem	grupos	nacionais	e	devem
formar,	cada	um,	o	seu	próprio	Estado.
Foi	 essa	 teoria	 formulada	 por	 Mancini	 em	 1851	 e	 defendida	 com
entusiasmo	 por	muitos	 autores	 e	 estadistas.	 Era	 praticamente	 a	 doutrina	 da
não	 intervenção	 e	 nela	 se	 apoiaram,	 sobretudo,	 as	 pequenas	 nações
subjugadas	 e	 transformadas	 em	moedas	 de	 troca	 nos	 negócios	 das	 grandes
potências.
O	 princípio	 das	 nacionalidades,	 nos	 termos	 em	 que	 foi	 formulado	 —
observou	Queiroz	Lima	—,	tanto	se	presta	para	o	bem	como	para	o	mal;	tanto
serve	 às	 reivindicações	 legítimas	 como	 às	mais	 injustas	 espoliações.	 Sob	 a
égide	 dessa	 teoria	 realizaram-se	 movimentos	 benéficos,	 como	 a
independência	 da	 Grécia	 (1829),	 a	 separação	 entre	 a	 Holanda	 e	 a	 Bélgica
(1830),	a	unificação	da	Itália	(1859),	a	unificação	da	Alemanha	(1867-1871)	e
a	 independência	 dos	 países	 balcânicos	 (Rumânia,	 Sérvia,	 Bulgária	 e
Montenegro),	que	se	desligaram	do	jugo	otomano.
Por	outro	lado,	realizaram-se	violentas	usurpações,	como	as	anexações	de
Alsácia,	Lorena	e	Hanover	à	Alemanha,	e	bem	assim	as	de	outros	pequenos
Estados	 reivindicados	 pelo	 racismo	 germânico.	 Também	 a	 Rússia	 procurou
estender	 a	 sua	 hegemonia	 sobre	 as	 pequenas	 nações	 de	 raça	 eslava,	 com	 a
criação	 da	União	 das	Repúblicas	 Socialistas	 Soviéticas	 (URSS),	 extinta	 em
1991.
3.	TEORIA	DAS	FRONTEIRAS	NATURAIS
Esta	 teoria	 é	 um	 desvirtuamento,	 uma	 excrescência	 do	 princípio	 das
nacionalidades,	 senão	mesmo	 uma	 caricatura	 da	 salutar	 doutrina	 formulada
pelo	Professor	Mancini,	da	Universidade	de	Turim.
Surgiu	 a	 teoria	 das	 fronteiras	 naturais	 como	 instrumento	 a	 ser	 utilizado
pelos	países	militarmente	fortes,	os	quais	alegaram	que	a	nação	deveria	ter	o
seu	 território	 (complemento	 natural)	 delimitado	 pelos	 grandes	 acidentes
geográficos	 naturais.	 A	 geografia	 indica	 em	 relevos	 naturais	 os	 justos
contornos	das	nações.	Não	é	 razoável	que	 sejam	 traçados	 limites	 arbitrários
quando	 há	 um	 rio	 navegável,	 uma	 cordilheira,	 um	 mar,	 como	 fronteira
natural…	e	a	tendência	dos	Estados	é	procurar	esses	limites	e	adotá-los.
Muito	mais	 do	que	o	 princípio	 das	 nacionalidades	 tornou-se	 a	 teoria	 das
fronteiras	 naturais	 uma	 espada	de	dois	 gumes:	 a	França	procurou	divisar-se
com	a	Espanha	pelos	Pirineus	e	com	a	Alemanha	pelo	Reno.	A	Alemanha,	por
sua	vez,	reivindicou	contra	a	França	a	sua	divisa	pelo	Vosgues…
Dissidências	 dessa	natureza	 contribuíram	para	 a	 conflagração	do	mundo,
levando	os	estadistas	à	procura	de	outros	princípios	capazes	de	assegurar	uma
harmonia	efetiva	e	duradoura	no	campo	áspero	das	relações	internacionais.
4.	TEORIA	DO	EQUILÍBRIO	INTERNACIONAL
Esta	 teoria	 foi	 formulada	 visando	 particularmente	 o	 equilíbrio	 europeu.
Parte	do	princípio	de	que	a	paz	decorre	do	equilíbrio	que	se	possa	estabelecer
entre	as	forças	das	várias	potências.
Chamaram-na	 também	 teoria	 da	 paz	 armada.	 Correspondia	 ela,	 como
lembra	o	Professor	Machado	Paupério,	com	o	rifão	popular	—	lobo	não	come
lobo.	Entre	as	principais	potências	deveria	haver	uma	igualdade	de	domínios
territoriais,	 porque	 o	 fortalecimento	 desproporcional	 de	 uma	 redundaria	 em
ameaça	à	segurança	das	outras.
Esboçada	 por	 Richelieu,	 essa	 teoria	 teve	 aceitação	 entre	 os	 estadistas
europeus.	 Não	 obstante,	 a	mística	 desse	 equilíbrio	 ideal	 não	 evitou	 fosse	 a
Europa	mergulhada	na	imensa	catástrofe	de	1914.
O	Brasil	mesmo	chegou	a	sustentar	essa	teoria,	invocando	a	conveniência
de	 um	 equilíbrio	 sul-americano,	 quando	 defendeu	 a	 soberania	 do	 Uruguai,
reconheceu	a	do	Paraguai	e	impediu	que,	sob	o	governo	despótico	de	Rosas,
fosse	reorganizado	o	vice-reinado	do	Prata.
Na	Partilha	 da	Polônia,	 nos	 tratados	 de	Viena	 e	 sempre	 que	 se	 procurou
reformar	 a	 configuração	 do	 mapa	 europeu,	 essa	 doutrina	 foi	 objeto	 de
considerações	 e	 debates.	 Ponderável	 corrente	 de	 doutrinadores	 e	 estadistas
continua	 a	 entender	 que	 a	 força	deve	 ser	 contida	pela	 força,	 por	 isso	que	o
desenvolvimento	do	poderio	bélico	é	um	dos	mais	respeitáveis	fatores	da	paz.
Não	 condiz	 esta	 teoria	 com	os	 ideais	 democráticos	 nem	 com	os	 naturais
anseios	de	justiça	da	maioria	das	nações.
5.	TEORIA	DO	LIVRE-ARBÍTRIO	DOS	POVOS
Semelhante,	 na	 sua	 essência,	 ao	 princípio	 das	 nacionalidades,	 esta	 teoria
defende	 a	 vontade	nacional	 como	 razão	de	Estado.	Preceitua	que	 só	o	 livre
consentimento	de	cada	povo	justifica	e	preside	a	vida	do	Estado.
Lançando	as	suas	raízes	na	filosofia	liberal	do	século	XVIII,	inspirando-se
principalmente	 nas	 pregações	 de	 Rousseau	 e	 nos	 postulados	 da	 revolução
francesa,	 defendeu	 esta	 teoria	 a	 plena	 liberdade	 de	 autodeterminação	 dos
povos.	Como	afirmou	Condorcet,	em	1792,	cada	nação	tem	o	direito	de	dispor
sobre	 o	 seu	 destino	 e	 de	 se	 dar	 as	 próprias	 leis.	 Em	 tais	 condições	 diz
textualmente	esta	doutrina:	“nenhuma	potência	tem	o	direito	de	submeter	um
Estado	contra	a	vontade	soberana	da	respectiva	população”.
Não	 obstante,	 como	 frisa	 Queiroz	 Lima,	 a	 república	 implantada	 pela
revolução	francesa	e	o	primeiro	império	foram	a	negação	prática	dessa	teoria.
E	 o	 próprio	Congresso	 de	Viena,	 em	 1815,	 ao	 refundir	 o	mapa	 da	 Europa,
negou	reconhecimento	à	teoria	do	livre-arbítrio	dos	povos.
Em	 1919	 voltou	 o	 Presidente	Wilson	 a	 proclamar	 que	 “cada	 povo	 deve
formar	a	sua	nacionalidade,	não	se	admitindo	a	intervenção	de	outros	Estados
nos	negócios	internos	de	cada	um”.	Mas	a	própria	América	do	Norte	negou	a
aplicação	 dos	 princípios	 de	 Wilson	 em	 favor	 dos	 Estados	 do	 Sul	 quando
quiseram	estes	formar	a	sua	própria	federação.
A	esta	acusação,	aliás,	retrucaram	os	teóricos	do	sistema	federativo	que	os
princípios	 básicos	 da	 doutrinado	 livre-arbítrio	 não	 autorizam	 a	 desunião
nacional.	 São	 válidos	 os	 princípios	 para	 a	 União	 Federal;	 nunca	 para	 as
unidades	federadas.
Em	nome	da	 teoria	do	 livre-arbítrio	dos	povos	foram	feitas	a	 restauração
da	 Polônia,	 a	 independência	 da	 Iugoslávia,	 a	 criação	 da	 Checoslováquia,	 a
integração	da	Grécia,	a	unificação	da	Itália	e	a	devolução	da	Alsácia	Lorena	à
França.	Solucionaram-se	as	questões	da	Bacia	do	Sarre,	Alta	Silésia,	Prússia
Oriental,	 Nice,	 Bélgica,	 e	 de	 outros	 pequenos	 Estados	 e	 territórios
contestados,	 nos	 quais	 foram	 realizados	 plebiscitos	 para	 a	 apuração	 da
vontade	de	cada	povo.
Nem	todas	as	pequenas	nações,	porém,	tiveram	respeitados	os	seus	direitos
de	 autodeterminação,	 notadamente	 depois	 da	 segunda	 guerra	 mundial.
Continuaram	as	grandes	potências,	no	jogo	dos	seus	interesses,	a	fazer	tábula
rasa	da	teoria	do	livre-arbítrio	dos	povos,	a	qual,	sem	dúvida,	teoricamente,	é
uma	alta	expressão	dos	ideais	democráticos.
Todavia,	 a	 negação	 do	 “livre-arbítrio”	 dos	 povos,	 sem	 dúvida	 uma	 alta
expressão	 dos	 ideais	 democráticos,	 dificilmente	 prevalece;	 quando	 negado,
mesmo	a	médio	ou	longo	prazo,	acarreta	sempre	a	reação	do	povo	oprimido.
Exemplo	disso	é	a	recente	extinção	da	URSS,	provocada	pelas	declarações	de
independência	 dos	 Estados	 que	 a	 ela	 eram	 submetidos,	 e	 a	 criação	 da	 CEI
que,	 embora	 signifique	 uma	 união	 de	 Estados,	 conserva	 e	 mantém	 sua
independência	 sob	 a	 forma	 confederativa,	 respeitando	 o	 “livre-arbítrio”	 dos
povos	que	a	compõem.
XI
ORIGEM	DOS	ESTADOS
1.	 Generalidades.	 2.	 Teoria	 da	 origem	 familiar.	 3.	 Teoria
patriarcal.	 4.	Teoria	matriarcal.	 5.	Teoria	da	origem	patrimonial.	 6.
Teoria	da	força.
1.	GENERALIDADES
Numerosas	e	variadas	teorias	tentam	explicar	a	origem	do	Estado,	e	todas
elas	se	contradizem	nas	suas	premissas	e	nas	suas	conclusões.	O	problema	é
dos	mais	difíceis,	porquanto	a	ciência	não	dispõe	de	elementos	seguros	para
reconstituir	a	história	e	os	meios	de	vida	das	primeiras	associações	humanas.
Basta	ter	em	vista	que	o	homem	apareceu	na	face	da	terra	há	cem	mil	anos,
pelo	menos,	enquanto	os	mais	antigos	elementos	históricos	de	que	dispomos
remontam	apenas	a	seis	mil	anos.
Assim	é	que	todas	as	teorias	são	baseadas	em	meras	hipóteses.	A	verdade,
sem	 embargo	 dos	 subsídios	 que	 nos	 fornecem	 as	 ciências	 particulares,
permanece	envolta	nas	brumas	da	era	pré-histórica.	Escassos	são	os	informes
que	temos,	por	exemplo,	da	formação	do	Estado	egípcio,	que	é	um	dos	mais
antigos.	 Nem	mesmo	 o	 bramanismo	 nos	 esclarece	 com	 dados	 objetivos	 os
pródromos	do	Estado	hindu.
Com	 esta	 nota	 preliminar	 fica	 a	 advertência	 de	 que	 as	 teorias	 sobre	 a
origem	 do	 Estado,	 que	 vamos	 resumir,	 são	 meramente	 conjecturais,	 isto	 é,
resultantes	de	raciocínios	hipotéticos.
Mencionaremos,	resumidamente,	as	principais,	que	assim	se	agrupam:
a)	teorias	da	origem	familiar;
b)	teorias	da	origem	patrimonial;	e
c)	teorias	da	força.
Nestas	teorias	o	problema	da	origem	do	Estado	é	equacionado	sob	o	ponto
de	vista	 histórico-sociológico.	Mais	 adiante,	 ao	 tratarmos	da	 justificação	do
Estado,	 o	 problema	 será	 examinado	 objetivamente,	 sob	 o	 ponto	 de	 vista
racional.
2.	TEORIA	DA	ORIGEM	FAMILIAR
Esta	 teoria,	de	 todas	a	mais	antiga,	apoia-se	na	derivação	da	humanidade
de	um	casal	originário.	Portanto,	é	de	fundo	bíblico.
Compreende	duas	correntes	principais:
a)	teoria	patriarcal	(ou	patriarcalística);	e
b)	teoria	matriarcal	(ou	matriarcalística).
3.	TEORIA	PATRIARCAL
Sustenta	 esta	 teoria	 que	 o	 Estado	 deriva	 de	 um	 núcleo	 familiar,	 cuja
autoridade	suprema	pertenceria	ao	ascendente	varão	mais	velho	(patriarca).	O
Estado	 seria,	 assim,	 uma	 ampliação	 da	 família	 patriarcal.	 Grécia	 e	 Roma
tiveram	essa	origem,	segundo	a	tradição.	O	Estado	de	Israel	(exemplo	típico)
originou-se	da	família	de	Jacob,	conforme	o	relato	bíblico.
Conta	esta	 teoria	com	a	 tríplice	autoridade	da	Bíblia,	de	Aristóteles	e	do
Direito	Romano.
Seus	principais	divulgadores	foram	Summer	Maine,	Westermack	e	Starke.
Na	Inglaterra	deu-lhe	notável	vulgarização	Robert	Filmer,	que	defendeu	o
absolutismo	de	Carlos	I	perante	o	Parlamento.
Os	pregoeiros	da	teoria	patriarcal	encontram	na	organização	do	Estado	os
elementos	 básicos	 da	 família	 antiga:	 unidade	 do	 poder,	 direito	 de
primogenitura,	 inalienabilidade	 do	 domínio	 territorial	 etc.	 Seus	 argumentos,
porém,	se	ajustam	mais	às	monarquias,	especialmente	às	antigas	monarquias
centralizadas,	 nas	 quais	 o	monarca	 representava,	 efetivamente,	 a	 autoridade
do	pater	familias.
É	 ponto	 quase	 pacífico,	 em	 sociologia,	 a	 origem	 familiar	 dos	 primeiros
agrupamentos	 humanos.	 Entretanto,	 se	 esta	 teoria	 explica	 de	 maneira
aceitável	a	gênese	da	sociedade,	certo	é	que	não	encontra	a	mesma	aceitação
quando	 procura	 explicar	 a	 origem	 do	 Estado	 como	 organização	 política.
Como	observa	La	Bigne	de	Villeneuve,	uma	família	fecunda	pode	ser	o	ponto
de	partida	de	um	Estado	—	e	disso	há	muitos	exemplos	históricos.	Mas,	em
regra,	 o	 Estado	 se	 forma	 pela	 reunião	 de	 várias	 famílias.	 Os	 primitivos
Estados	 gregos	 foram	 grupos	 de	 clãs.	 Estes	 grupos	 formavam	 as	 gens;	 um
grupo	de	gens	formava	a	fratria;	um	grupo	de	fratrias	formava	a	tribu;	e	esta
se	 constituía	 em	 Estado-Cidade	 (polis).	 O	 Estado-Cidade	 evoluiu	 para	 o
Estado	nacional	ou	plurinacional.
Bem	afirmou	Rousseau,	em	harmonia	com	a	doutrina	de	Aristóteles,	que	a
família	é	o	primeiro	modelo	da	sociedade	política.	Mas	é	preciso	não	perder
de	vista	que	a	família	é	mais	unidade	social	do	que	propriamente	política.	E	o
Estado	é	mais	um	desenvolvimento	da	 tribu,	unidade	mais	ampla,	composta
de	uma	reunião	de	diversas	famílias.
4.	TEORIA	MATRIARCAL
Dentre	 as	 diversas	 correntes	 teóricas	 da	 origem	 familiar	 do	Estado	 e	 em
oposição	 formal	 ao	 patriarcalismo,	 destaca-se	 a	 teoria	 matriarcal	 ou
matriarcalística.
Bachofen	 foi	 o	 principal	 defensor	 desta	 teoria,	 seguido	 por	 Morgan,
Grosse,	Köhler	e	Durkheim.
A	primeira	organização	familiar	 teria	sido	baseada	na	autoridade	da	mãe.
De	 uma	 primitiva	 convivência	 em	 estado	 de	 completa	 promiscuidade,	 teria
surgido	a	família	matrilínea,	naturalmente,	por	razões	de	natureza	fisiológica
—	mater	 semper	 certa.	 Assim,	 como	 era	 geralmente	 incerta	 a	 paternidade,
teria	sido	a	mãe	a	dirigente	e	autoridade	suprema	das	primitivas	famílias,	de
maneira	 que	 o	 clã	matronímico,	 sendo	 a	mais	 antiga	 forma	 de	 organização
familiar,	seria	o	fundamento	da	sociedade	civil.
O	 matriarcado,	 que	 não	 deve	 ser	 confundido	 com	 a	 ginecocracia	 ou
hegemonia	 política	 da	 mulher,	 precedeu	 realmente	 ao	 patriarcado,	 na
evolução	 social.	 Entretanto,	 foi	 a	 família	 patriarcal	 a	 que	 exerceu	 crescente
influência,	em	todas	as	fases	da	evolução	histórica	dos	povos.
5.	TEORIA	DA	ORIGEM	PATRIMONIAL
A	teoria	patrimonial	tem	as	raízes,	segundo	alguns	autores,	na	filosofia	de
Platão,	 que	 admitiu,	 no	 Livro	 II	 de	 sua	República,	 originar-se	 o	 Estado	 da
união	das	profissões	econômicas.
Também	 Cícero	 explicava	 o	 Estado	 como	 uma	 organização	 destinada	 a
proteger	a	propriedade	e	regulamentar	as	relações	de	ordem	patrimonial.
Decorre	 desta	 teoria,	 de	 certo	 modo,	 a	 afirmação	 de	 que	 o	 direito	 de
propriedade	é	um	direito	natural,	anterior	ao	Estado.
O	 Estado	 feudal,	 da	 Idade	 Média,	 ajustava-se	 perfeitamente	 a	 esta
concepção:	 era	 uma	 organização	 essencialmente	 de	 ordem	 patrimonial.
Entretanto,	como	instituição	anômala,	não	pôde	fornecer	elementos	seguros	à
determinação	das	leis	sociológicas.
Haller,	 que	 foi	 o	 principal	 corifeu	 da	 teoria	 patrimonial,	 afirmava	 que	 a
posse	da	terra	gerou	o	poder	público	e	deu	origem	à	organização	estatal.
Modernamente	 esta	 teoria	 foi	 acolhida	 pelo	 socialismo,	 doutrina	 política
que	considera	o	fator	econômico	como	determinante	dos	fenômenos	sociais.
6.TEORIA	DA	FORÇA
A	teoria	da	força,	também	chamada	da	origem	violenta	do	Estado,	afirma
que	 a	 organização	 política	 resultou	 do	 poder	 de	 dominação	 dos	mais	 fortes
sobre	 os	 mais	 fracos.	 Dizia	 Bodin	 que	 o	 que	 dá	 origem	 ao	 Estado	 é	 a
violência	dos	mais	fortes.
Glumplowicz	 e	 Oppenheimer	 desenvolveram	 amplos	 estudos	 a	 respeito
das	primitivas	organizações	sociais,	concluindo	que	foram	elas	resultantes	das
lutas	travadas	entre	os	indivíduos,	sendo	o	poder	público	uma	instituição	que
surgiu	 com	 a	 finalidade	 de	 regulamentar	 a	 dominação	 dos	 vencedores	 e	 a
submissão	dos	vencidos.	Franz	Oppenheimer,	médico,	filósofo	e	professor	de
ciência	 política	 em	 Frankfurt,	 escreveu	 textualmente:	 “o	 Estado	 é
inteiramente,	 quanto	 à	 sua	 origem,	 e	 quase	 inteiramente,	 quanto	 à	 sua
natureza,	 durante	 os	 primeiros	 tempos	 da	 sua	 existência,	 uma	 organização
social	 imposta	 por	 um	 grupo	 vencedor	 a	 um	 grupo	 vencido,	 destinada	 a
manter	esse	domínio	internamente	e	a	proteger-se	contra	ataques	exteriores”.
Thomas	Hobbes,	discípulo	de	Bacon,	foi	o	principal	sistematizador	dessa
doutrina	no	começo	dos	tempos	modernos.	Afirma	este	autor	que	os	homens,
no	 estado	 de	 natureza,	 eram	 inimigos	 uns	 dos	 outros	 e	 viviam	 em	 guerra
permanente	—	bellum	 omnium	 contra	 omnes.	 E	 como	 toda	 guerra	 termina
com	a	vitória	dos	mais	fortes,	o	Estado	surgiu	como	resultado	dessa	vitória,
sendo	uma	organização	do	grupo	dominante	para	manter	o	poder	de	domínio
sobre	os	vencidos.
Note-se	que	Hobbes	distinguiu	duas	categorias	de	Estados:	real	e	racional.
O	Estado	que	 se	 forma	por	 imposição	da	 força	é	o	Estado	 real,	 enquanto	o
Estado	racional	provém	da	razão,	segundo	a	fórmula	contratualista.
Essa	 teoria	 da	 força,	 disse	 Jellinek,	 “apoia-se	 aparentemente	 nos	 fatos
históricos:	 no	 processo	 da	 formação	 originária	 dos	 Estados	 quase	 sempre
houve	 luta;	 a	 guerra	 foi,	 em	geral,	 o	 princípio	 criador	 dos	povos.	Ademais,
essa	doutrina	parece	encontrar	confirmação	no	fato	incontestável	de	que	todo
Estado	representa,	por	sua	natureza,	uma	organização	de	força	e	dominação.
Entretanto,	como	afirma	Queiroz	Lima,	o	conceito	de	força	como	origem
da	autoridade	é	insuficiente	para	dar	a	justificação,	a	base	de	legitimidade	e	a
explicação	jurídica	dos	fenômenos	que	constituem	o	Estado.
Ressalta	à	evidência	que,	sem	força	protetora	e	atuante,	muitas	sociedades
não	 teriam	 podido	 organizar-se	 em	Estado.	 Todos	 os	 poderes,	 inicialmente,
foram	protetores.	Para	refrear	a	tirania	das	inclinações	individuais	e	conter	as
pretensões	opostas	recorreu-se,	a	princípio,	à	criação	de	um	poder	coercitivo,
religioso,	patriarcal	ou	guerreiro.	E	tal	poder	teria	sido	o	primeiro	esboço	do
Estado.
Segundo	um	entendimento	mais	racional,	porém,	a	força	que	dá	origem	ao
Estado	não	poderia	ser	a	força	bruta,	por	si	só,	sem	outra	finalidade	que	não
fosse	a	de	dominação,	mas,	sim,	a	força	que	promove	a	unidade,	estabelece	o
direito	 e	 realiza	 a	 justiça.	 Neste	 sentido	 é	 magnífica	 a	 lição	 de	 Fustel	 de
Coulanges:	 as	 gerações	 modernas,	 em	 suas	 ideias	 sobre	 a	 formação	 dos
governos,	 são	 levadas	 a	 crer	ora	que	eles	 são	 resultantes	 exclusivamente	da
força	e	da	violência,	ora	que	 são	uma	criação	da	 razão.	É	um	duplo	erro:	 a
origem	das	instituições	sociais	não	deve	ser	procurada	tão	alto	nem	tão	baixo.
A	 força	 bruta	 não	 poderia	 estabelecê-las;	 as	 regras	 da	 razão	 são	 impotentes
para	 criá-las.	Entre	 a	 violência	 e	 as	 vãs	 utopias,	 na	 região	média	 em	que	 o
homem	 se	move	 e	 vive,	 encontram-se	 os	 interesses.	 São	 eles	 que	 fazem	 as
instituições	 e	 que	 decidem	 sobre	 a	 maneira	 pela	 qual	 uma	 comunidade	 se
organiza	politicamente.
Passaremos,	 a	 seguir,	 ao	 estudo	 das	 teorias	 que	 justificam	 o	 Estado,	 as
quais	envolvem	e	englobam	mesmo,	necessariamente,	o	problema	da	origem.
XII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	I
1.	 Justificações	 teológico-religiosas.	 2.	 Teoria	 do	 direito	 divino
sobrenatural.	3.	Teoria	do	direito	divino	providencial.
1.	JUSTIFICAÇÕES	TEOLÓGICO-RELIGIOSAS
O	 poder	 de	 governo,	 sob	 o	 ponto	 de	 vista	 social,	 político	 ou	 jurídico,
precisou	 sempre	 de	 crenças	 ou	 doutrinas	 que	 o	 justificassem,	 tanto	 para
legitimar	o	comando	quanto	para	legitimar	a	obediência.
A	princípio,	o	poder	de	governo	era	exercido	em	nome	e	sob	a	 influência
dos	deuses,	contando,	assim,	pacificamente	com	uma	justificação	natural,	de
ordem	 carismática,	 aceitável	 de	 pronto	 pela	 simples	 crença	 religiosa.	 Mas,
desde	 os	 primeiros	 esboços	 do	 governo	 como	 organização	 da	 soberania
popular,	a	necessidade	de	uma	firme	justificação	doutrinária	do	poder	foi	se
tornando	 cada	 vez	 mais	 imperiosa,	 até	 apresentar-se,	 na	 atualidade,	 como
problema	crucial	da	ciência	política.
Todas	 as	 doutrinas	 que	 se	 propõem	 justificar	 a	 organização,	 social	 ou
política,	 remontam	 à	 origem	 da	 sociedade,	 aos	 primeiros	 agrupamentos
humanos,	 e,	 assim,	 invariavelmente,	 envolvem	 o	 problema	 da	 origem	 do
Estado,	 razão	 por	 que,	 como	 já	 foi	 acentuado,	 não	 imprimimos	 maior
desenvoltura	ao	ponto	anterior.	Como	observou	o	Prof.	Pedro	Calmon,	as	teo-
rias	 que	 procuram	 justificar	 o	 Estado	 têm	 o	 mesmo	 valor	 especulativo
daquelas	que	explicam	o	direito	na	sua	gênese.	Refletem	elas	o	pensamento
político	dominante	nas	diversas	fases	da	evolução	da	humanidade	e	procuram
explicar	a	derivação	do	Estado:	a)	do	sobrenatural	(Estado	divino);	b)	da	 lei
ou	da	razão	(Estado	humano);	e	c)	da	história	ou	da	evolução	(Estado	social).
Essas	diversas	doutrinas	ou	correntes	filosóficas	assinalam,	precisamente,
a	marcha	da	evolução	estatal	no	 tempo,	da	antiguidade	 remota	à	atualidade,
ou	 seja,	 a	 partir	 do	 Estado	 fundado	 no	 direito	 divino,	 entendido	 como
expressão	 sobrenatural	 da	 vontade	 de	 Deus,	 ao	 Estado	moderno,	 entendido
como	expressão	concreta	da	vontade	popular.
Repetimos,	pois,	que	é	problema	dos	mais	difíceis	na	 teoria	política	o	da
justificação	 doutrinária	 do	 poder.	 E	 dos	mais	 delicados,	 porque	 conduz	 aos
conflitos	 ideológicos	 que	 acabam	 sempre	 por	 solapar	 os	 alicerces	 da	 paz
universal.
Nosso	 programa	 não	 comporta	 senão	 um	 resumo	 dessas	 crenças	 e
doutrinas,	 como	 passaremos	 a	 demonstrar,	 partindo	 do	 seguinte	 quadro
sinótico:
As	mais	 antigas	 teorias,	 aquelas	 que	 atribuem	ao	Estado	 uma	 contextura
mística,	 isto	é,	uma	origem	sagrada,	 têm	maior	 importância	histórica	porque
predominaram	 no	mundo	 inteiro,	 durante	 alguns	milênios,	 até	 ao	 limiar	 da
Idade	 Moderna.	 São	 as	 chamadas	 teorias	 teológico-religiosas,	 as	 quais	 se
dividem	 em	 várias	 correntes,	 dentro	 de	 dois	 grupos	 principais:	 do	 direito
divino	sobrenatural	e	do	direito	divino	providencial.
2.	TEORIA	DO	DIREITO	DIVINO	SOBRENATURAL
Segundo	 esta	 teoria,	 o	 Estado	 foi	 fundado	 por	 Deus,	 através	 de	 um	 ato
concreto	 de	manifestação	 da	 sua	 vontade.	 O	 Rei	 é	 ao	mesmo	 tempo	 sumo
sacerdote,	representante	de	Deus	na	ordem	temporal	e	governador	civil.
Nas	remotas	civilizações	da	Índia	e	da	Pérsia,	os	soberanos	coroados	eram
delegados	de	Deus,	porquanto	se	acreditava	que	eles	haviam	recebido	o	poder
diretamente	de	Deus,	por	uma	manifestação	sobrenatural	da	sua	vontade.	Os
Faraós	do	Egito	eram	descendentes	das	divindades	que	reinaram	no	Vale	do
Nilo.	O	Imperador	da	China	era	possuidor	de	Mandado	do	Céu.	O	Imperador
do	Japão	era	parente	próximo	dos	deuses.	Os	reis	assírios	diziam-se	vigários
dos	 deuses.	 Cada	 povo	 possuía	 (e	 muitos	 deles	 conservam	 ainda)	 a	 sua
concepção	tradicional	sobre	a	origem	do	poder,	na	qual	repousa	o	princípio	de
legitimidade	da	autoridade	soberana.
Vamos	explicar	aqui	apenas	um	exemplo	dessas	concepções:	no	Tibete	o
soberano	 é	 considerado	 como	 o	 próprio	 deus,	 isto	 é,	 uma	 reencarnação	 de
Buda.	Cada	vez	que	morre	um	soberano,	cabe	a	um	conselho	de	 sacerdotes
descobrir	 imediatamente,	 entreos	 meninos	 recém-nascidos,	 a	 nova
encarnação	de	Buda.	Esses	sacerdotes	percorrem	o	país,	examinam	todas	as
crianças,	 e,	 logo	que	descobrem	o	menino	 em	que	 reencarnou	o	 espírito	 de
Buda,	se	apoderam	dele	e	o	preparam	para	o	exercício	da	missão	soberana.
Em	 todas	 as	monarquias	 orientais,	 fundadas	 na	 crença	 do	 direito	 divino
sobrenatural,	cada	uma	a	seu	 título	e	a	seu	modo,	o	Estado	não	é	apenas	de
fundamento	teológico;	é	o	Estado	teocrático,	governado	pelo	Rei-Deus.
Essa	 concepção	 teocrática	 do	 poder,	 que	 dominou	 todo	 o	 panorama
político	 da	 antiguidade,	 não	 continuou	 no	 mundo	 medieval	 submetido	 à
influência	 do	 cristianismo,	 mas	 ressurgiu	 no	 fim	 da	 Idade	 Média,	 com	 o
absolutismo	 monárquico,	 que	 foi	 uma	 reação	 do	 poder	 temporal	 contra	 o
Papado.	 Sua	 personificação	 realizou-se	 integralmente	 na	majestade	 de	 Luiz
XIV,	o	Rei-Sol,	que	declarou	textualmente:	“a	autoridade	em	que	os	reis	são
investidos	é	uma	delegação	de	Deus.	Está	em	Deus	e	não	no	povo	a	fonte	de
todo	poder,	e	somente	a	Deus	é	que	os	 reis	 têm	de	dar	contas	do	poder	que
lhes	 foi	confiado”.	O	soberano	era	a	 fonte	única	e	exclusiva	do	direito.	Sua
pessoa	confundia-se	com	o	Estado.	Daí	a	afirmação	que	constantemente	fazia
Luiz	XIV:	L’État	c’est	moi.
Foi	 Jacques	 Bossuet,	 Bispo	 de	 Condom,	 1627-1704,	 o	 mais	 extremado
defensor	 dessa	 teoria	 absolutista.	 Preceptor	 do	 Delfim,	 de	 1670	 a	 1679,
escreveu	 A	 política,	 obra	 em	 dez	 volumes,	 dos	 quais	 os	 seis	 primeiros,
inspirados	 em	Aristóteles	 e	 Hobbes,	 são	 dedicados	 à	 instrução	 do	 herdeiro
real,	e,	os	demais,	ao	estudo	da	origem	e	do	fundamento	divino	do	poder.	A
autoridade	 real,	 disse	 Bossuet,	 é	 invencível,	 sendo-lhe	 único	 contrapeso	 o
temor	de	Deus.	É	devida	a	obediência	ao	Rei	ainda	quando	seja	este	injusto	e
infiel.	 Só	 no	 caso	 de	 agir	 o	Rei	 contra	Deus	 é	 que	 pode	 cessar	 o	 dever	 de
obediência,	 mas,	 ainda	 assim,	 “nenhum	 pretexto,	 nenhuma	 causa,	 qualquer
que	seja”,	deve	diminuir	o	respeito	integral.	A	pessoa	do	Rei	é	sagrada,	e	em
face	 das	 suas	 violências	 devem	 os	 súditos	 opor	 apenas	 advertências
respeitosas,	orando	pela	sua	conversão.
Essa	 doutrina	 teve	 ampla	 divulgação	 na	 Europa,	 inclusive	 na	 Inglaterra,
onde	Carlos	I	(1600-1649)	pretendeu	implantar	o	absolutismo	monárquico.	O
Parlamento	inglês,	porém,	fez	valer	o	princípio	da	monarquia	de	direito	legal.
O	 Rei	 foi	 preso	 na	 revolução	 popular	 de	 Cromwell,	 acusado	 de	 traição	 e
condenado	à	morte.	Carlos	I	subiu	ao	cadafalso	reafirmando	o	caráter	divino	e
absoluto	da	sua	autoridade	—	kingship	exist	by	divine	right…
A	doutrina	da	divindade	do	poder	 temporal	foi	 também	o	fundamento	do
Estado	 imperial	 romano.	 César	 não	 se	 apresentava	 apenas	 como	 um
mandatário	 de	 Deus,	 mas	 como	 a	 personificação	 mesma	 de	 Deus.	 Essa
concepção	foi	combatida	pelos	cristãos	até	quando	se	deu	a	queda	do	Império
Romano,	no	século	V.
Na	Idade	Média,	a	teoria	do	direito	divino	sobrenatural	teve	o	beneplácito
de	muitos	cristãos	proeminentes	e	poderosos,	mas	não	do	Cristianismo,	tanto
que	a	Igreja	Romana	a	rejeitou	formalmente,	havendo-a	por	herética.
3.	TEORIA	DO	DIREITO	DIVINO	PROVIDENCIAL
Esta	 teoria,	 dominante	 na	 Idade	Média	 e	 nos	 tempos	 modernos,	 é	 mais
racional.	Admite	que	o	Estado	é	de	origem	divina,	porém	por	manifestação
providencial	da	vontade	de	Deus.
Deus	 dirige	 providencialmente	 o	 mundo,	 guiando	 a	 vida	 dos	 povos	 e
determinando	os	acontecimentos	históricos.	Dessa	direção	suprema	resulta	a
formação	do	Estado;	o	poder	vem	de	Deus,	mas	não	por	manifestação	visível
e	 concreta	 da	 sua	 vontade.	 O	 poder	 vem	 de	 Deus	 através	 do	 povo	—	 per
populum	—,	 como	 doutrinou	 Santo	 Tomás	 de	Aquino.	 Em	 outras	 palavras:
todo	 poder	 vem	 de	 Deus,	 in	 abstracto,	 não	 in	 concreto.	 Os	 homens,
conformando-se	com	a	vontade	divina,	devem	reconhecer	e	acatar	a	vontade
do	 Estado.	 Dotados	 de	 livre-arbítrio	 no	 seu	 procedimento,	 como	 ensina
Queiroz	 Lima,	 os	 homens	 organizam	 os	 governos,	 estabelecem	 as	 leis	 e
confirmam	 as	 autoridades	 nos	 cargos	 e	 ofícios,	 sob	 a	 direção	 invisível	 da
providência	divina	sempre	presente.
A	 doutrina	 do	 direito	 divino	 providencial	 fez-se	 doutrina	 da	 Igreja,	 por
estar	 conforme	 com	 os	 ensinamentos	 de	 Cristo	 e	 dos	 Apóstolos.	 Afirmou
Cristo	que	o	seu	reino	não	era	deste	mundo	 e,	 ao	ser	 tentado	pelos	 fariseus
que	 lhe	 perguntavam	 se	 deviam	 pagar	 tributos	 ao	 Imperador	 romano,
respondeu:	Dai	a	César	o	que	é	de	César	e	a	Deus	o	que	é	de	Deus.	Nessas
palavras	 o	Divino	Mestre	 traçou	 a	 linha	 divisória	 entre	 os	 dois	 poderes:	 ao
poder	temporal,	o	governo	do	corpo	e	dos	bens	terrenos;	ao	poder	espiritual,	o
governo	da	alma.	O	poder	 temporal,	doutrinou	São	Paulo,	é	uma	criação	da
lei	divina	—	omnis	potestas	a	Deo.	Tinham	esta	significação	as	palavras	de
Cristo	quando	retrucou	a	Pilatos	que	este	exercia	um	poder	que	lhe	era	dado
lá	de	cima.
Remonta	a	teoria	do	direito	divino	providencial	aos	teóricos	da	justificação
teológica	 do	 poder	 civil,	 São	 João	 Crisostomo,	 Santo	 Agostinho	 e	 Santo
Tomás	de	Aquino,	sendo	defendida	e	sistematizada	por	Suarez,	Soto,	Molina,
Mariana	 e	 outros	 integrantes	 da	 Escola	 Espanhola.	 Na	 mesma	 esteira
doutrinária	destacaram-se	posteriormente	Joseph	de	Maistre	e	De	Bonald.	Foi
uma	doutrina	de	franca	reação	ao	absolutismo	monárquico.
Santo	 Agostinho	 (354-430),	 cujas	 pregações	 doutrinárias	 foram
continuadas	por	Santo	Tomás	de	Aquino	(1225-1274),	sustentou	que	o	poder
temporal	é	uma	decorrência	do	poder	divino.	O	poder	temporal,	na	sua	obra,	é
figurado	como	a	Civitas	Terrena,	 subordinada	à	Civitas	Dei,	assim	como	os
destinos	humanos	estão	subordinados	à	ordem	divina.
Nestes	 termos,	a	 teoria	do	direito	divino	providencial	pregou	a	separação
dos	 dois	 poderes	—	 temporal	 e	 espiritual	—	 sob	 o	 dogma	 de	 que	 o	 poder
divino	 é	 originário	 e	 superior,	 devendo	 o	 Estado	 respeitar	 as	 leis	 eternas	 e
imutáveis	do	Criador	na	ordem	temporal.	Comentando	esta	doutrina	observou
Loysseau	 que	 o	Rei	 é	 senhor	 e	 servo	 ao	mesmo	 tempo,	 tanto	 aos	 olhos	 de
Deus	como	aos	olhos	do	povo.
De	 conformidade	 com	 esta	 teoria,	 somente	 as	 instituições	 que	 repousam
sobre	uma	base	histórica	legítima	e	respeitam	as	leis	incontingentes	do	direito
natural	 são	 harmoniosas	 com	 a	 ordem	 estabelecida	 por	 Deus	 e	 devem	 ser
acatadas	pelos	homens.	O	princípio	de	que	 todo	poder	provém	de	Deus	não
conduz	 a	 uma	 determinada	 forma	 de	 governo,	 porque,	 como	 argumentou
Santo	Tomás,	Deus	 quis	 que	 houvesse	 governo	 na	 ordem	 civil,	mas	 deixou
aos	homens	a	 forma	e	o	modo	de	sua	realização.	E	foi	este	o	entendimento
que	 levou	 o	 Papa	 Leão	 XIII,	 na	 Encíclica	 Libertas	 (1888)	 a	 afirmar:	 das
diversas	formas	de	governo,	contanto	que	sejam	aptas	à	segurança	do	bem-
estar	dos	cidadãos,	a	Igreja	não	rejeita	nenhuma,	mas	quer,	e	a	natureza	está
de	 acordo	 com	 ela	 em	 o	 exigir,	que	 sua	 instituição	 não	 viole	 o	 direito	 de
ninguém,	e,	principalmente,	guarde	respeito	absoluto	aos	direitos	da	Igreja.	E
na	 Encíclica	 Immortale	Dei,	 que	 trata	 da	 “constituição	 cristã	 dos	 Estados”,
reafirmou	 a	 mesma	 prescrição,	 definindo	 a	 distinção	 entre	 os	 poderes
espiritual	e	temporal,	bem	como	a	soberania	de	cada	um	deles,	no	seu	gênero
e	na	sua	finalidade.	Encareceu	Leão	XIII	a	necessidade	de	se	estabelecer	um
meio,	um	processo,	para	fazer	desaparecer	as	causas	de	contestações	e	firmar
um	 acordo,	 na	 prática,	 para	 a	 convivência	 harmônica	 das	 duas	 soberanias
distintas,	cada	uma	no	seu	gênero	e	na	sua	finalidade.
XIII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	II
1.	Teorias	racionalistas	(jusnaturalismo).	2.	Hugo	Grotius.	3.	Kant.
4.	Hobbes.	5.	Spinoza.	6.	Locke.
1.	TEORIAS	RACIONALISTAS	(JUSNATURALISMO)
Sob	a	denominação	de	teorias	racionalistas,	agrupam-se	todas	aquelas	que
justificam	o	Estado	 como	de	origem	convencional,isto	 é,	 como	produto	da
razão	humana.	São	as	chamadas	teorias	contratualistas	ou	pactistas.	Partem	de
um	estudo	das	primitivas	comunidades,	em	estado	de	natureza,	e,	através	de
uma	 concepção	metafísica	 do	 direito	 natural,	 chegam	 à	 conclusão	 de	 que	 a
sociedade	 civil	 (o	 Estado	 organizado)	 nasceu	 de	 um	 acordo	 utilitário	 e
consciente	entre	os	indivíduos.
Essas	 teorias	 foram	 corporificadas	 e	 ganharam	 maior	 evidência	 com	 a
Reforma	 religiosa,	 a	 qual	 foi	 uma	 autêntica	 rebelião	 racionalista	 contra	 a
Igreja	Romana,	que	culminou	com	a	revisão	das	Sagradas	Escrituras.	Fazendo
coro	com	a	 filosofia	de	Descartes,	 delineada	em	Discursos	 sobre	o	método,
filosofia	 esta	 que	 ensinou	 o	 raciocínio	 sistemático	 que	 conduz	 à	 dúvida
completa,	sustentou	Lutero	a	supremacia	da	inteligência	individual	e	pregou	a
liberdade	de	interpretação	da	lei	religiosa	revelada.
Depois	 de	 ter	 influído	 nas	 ciências	 econômicas,	 traçando-lhes	 novos
rumos,	o	racionalismo	religioso	passou	a	orientar	as	ciências	do	Direito	e	do
Estado.	O	homem,	como	Erasmo,	Rabelais	e	Montaigne,	deveria	duvidar	de
tudo,	para	reconstruir	a	verdade,	liberada	dos	dogmas,	valendo-se,	para	isso,
da	razão,	da	liberdade	de	consciência	e	da	sua	inteligência	livre.	E	foi	assim
que	as	teorias	tradicionais	sustentadas	pelas	escolas	teológicas	foram	arguidas
de	falsidade.	O	direito	divino	dos	reis	cedeu	lugar	ao	direito	humano.
As	teorias	racionalistas	de	justificação	do	Estado,	partindo,	como	partem,
de	 um	 pressuposto	 a	 respeito	 do	 homem	 primitivo	 em	 estado	 de	 natureza,
entrosam-se	com	os	princípios	de	direito	natural.
Lançam	 essas	 teorias	 as	 suas	 raízes	 na	 filosofia	 grega,	 tanto	 que	 é
frequentemente	citado	Lucrécio	 (95-52	a.C.),	que	assim	se	expressou	no	De
Natura	 Rerum:	 Como	 cada	 qual	 quisesse	 mandar	 e	 erigir-se	 em	 soberano,
escolheu-se	entre	eles	um	certo	número	de	magistrados,	instituíram-se	as	leis,
às	 quais	 os	 homens	 se	 submeteram	voluntariamente.	 É	 essa,	 aliás,	 uma	 das
fontes	da	filosofia	contratualista.
2.	HUGO	GROTIUS
Holandês	 (1583-1647),	 foi	 precursor	 da	 doutrina	 do	 direito	 natural	 e,	 de
certo	modo,	do	 racionalismo	na	ciência	do	Estado.	Em	sua	 famosa	obra	De
Jure	 Belli	 et	 Pacis,	 esboçou	 a	 divisão	 dicotômica	 do	Direito	 em	 positivo	 e
natural:	 acima	 do	 direito	 positivo,	 contingente,	 variável,	 estabelecido	 pela
vontade	 dos	 homens,	 existe	 um	 direito	 natural,	 imutável,	 absoluto,
independente	do	tempo	e	do	espaço,	decorrente	da	própria	natureza	humana,
alheio	e	superior	à	vontade	do	soberano.
Hugo	 Grotius	 conceituou	 o	 Estado	 como	 uma	 sociedade	 perfeita	 de
homens	 livres	 que	 tem	 por	 finalidade	 a	 regulamentação	 do	 direito	 e	 a
consecução	do	bem-estar	coletivo.
3.	EMMANUEL	KANT
Kant,	 Hobbes,	 Puffendorf,	 Thomazius,	 Leibnitz,	 Wolf,	 Rousseau,
Blackstone	 e	 outros	 gênios	 luminosos	 do	 século	 XVII	 desenvolveram	 essa
doutrina	dando-lhe	magno	esplendor.
Emmanuel	Kant,	o	grande	filósofo	de	Koenigsberg	(1724-1804),	doutrinou
o	 seguinte:	 O	 homem	 reconhece	 que	 é	 a	 causa	 necessária	 e	 livre	 das	 suas
ações	 (razão	 pura)	 e	 que	 deve	 obedecer	 a	 uma	 regra	 de	 comportamento
preexistente,	ditada	pela	razão	prática	(imperativo	categórico).	O	direito	tem
por	 fim	 garantir	 a	 liberdade,	 e	 por	 fundamento,	 um	 conceito	 geral,	 inato,
inseparável	do	homem,	fornecido	a	priori	pela	razão	prática,	sob	a	forma	de
um	 preceito	 absoluto:	 conduze-te	 de	 modo	 tal	 que	 a	 tua	 liberdade	 possa
coexistir	com	a	liberdade	de	todos	e	de	cada	um.
Conclui	Kant	que,	ao	saírem	do	estado	de	natureza	para	o	de	associação,
submeteram-se	 os	 homens	 a	 uma	 limitação	 externa,	 livre	 e	 publicamente
acordada,	surgindo,	assim,	a	autoridade	civil,	o	Estado.
4.	THOMAS	HOBBES
Filósofo	inglês	(1588-1679),	o	mais	reputado	dentre	os	escritores	do	século
XVII,	 foi	 o	 primeiro	 sistematizador	 do	 contratualismo	 como	 teoria
justificativa	 do	 Estado.	 É	 havido	 também	 como	 teórico	 do	 absolutismo,
embora	não	o	tenha	pregado	à	maneira	de	Filmer	e	Bossuet,	com	fundamento
no	direito	divino.	Seu	absolutismo	é	racional	e	sua	concepção	do	Estado	tende
a	conformar-se	com	a	natureza	humana.
Para	 justificar	 o	poder	 absoluto,	Hobbes	parte	da	descrição	do	 estado	de
natureza:	 o	 homem	 não	 é	 naturalmente	 sociável	 como	 pretende	 a	 doutrina
aristotélica.	 No	 estado	 de	 natureza	 o	 homem	 era	 inimigo	 feroz	 dos	 seus
semelhantes.	Cada	um	devia	se	defender	contra	a	violência	dos	outros.	Cada
homem	era	um	lobo	para	os	outros	homens	—	homo	homini	lupus.	Por	todos
os	 lados	 havia	 a	 guerra	 mútua,	 a	 luta	 de	 cada	 um	 contra	 todos	—	 bellum
omnium	contra	omnes.	E	continua:
Cada	 homem	 alimenta	 em	 si	 a	 ambição	 do	 poder,	 a	 tendência	 para	 o
domínio	 sobre	 os	 outros	 homens,	 que	 só	 cessa	 com	a	morte.	 Só	 triunfam	 a
força	 e	 a	 astúcia.	 E,	 para	 saírem	 desse	 estado	 caótico,	 todos	 os	 indivíduos
teriam	cedido	os	seus	direitos	a	um	homem	ou	a	uma	assembleia	de	homens,
que	personifica	a	coletividade	e	que	assume	o	encargo	de	conter	o	estado	de
guerra	mútua.	A	fórmula	se	resumiria	no	seguinte:	—	Autorizo	e	 transfiro	a
este	homem	ou	assembleia	de	homens	o	meu	direito	de	governar-me	a	mim
mesmo,	com	a	condição	de	que	vós	outros	 transfirais	 também	a	ele	o	vosso
direito,	e	autorizeis	todos	os	seus	atos	nas	mesmas	condições	como	o	faço.
Ao	se	associarem,	portanto,	segundo	Hobbes,	procederam	os	homens	por
interesse	e	necessidade,	reconhecendo	a	conveniência	de	se	armar	um	poder
forte,	capaz	de	conter	a	fúria	natural	dos	indivíduos.	Esse	poder,	em	vista	da
missão	que	lhe	cabe,	há	de	ser	irresistível	e	ilimitado.
Assim,	 a	 sociedade	 civil	 é	 um	produto	 artificial	 de	 um	pacto	 voluntário,
que	se	explica	pelo	cálculo	egoísta.
Embora	 teórico	 do	 absolutismo	 e	 partidário	 do	 regime	 monárquico,
Hobbes,	 admitindo	 a	 alienação	 dos	 direitos	 individuais	 em	 favor	 de	 uma
assembleia	de	homens,	não	afastou	das	suas	cogitações	a	forma	republicana.
Hobbes	 admitia	 a	 existência	 de	 Deus,	 mas	 atribuía	 ao	 Estado	 a
regulamentação	dos	cultos:	o	domínio	do	poder	coativo	há	de	estender-se	ao
espírito,	 para	 que	 nenhuma	 ação	 do	 homem	escape	 ao	 poder	 de	 dominação
livremente	instituído	e	destinado	a	reprimir	os	maus	instintos	naturais	de	cada
um.	E,	para	isso,	o	Estado	deve	governar	também	a	Igreja.	O	reino	de	Deus,
na	 terra,	 é	 um	 reino	 civil.	 Cada	Estado	 é	 um	 imediato	 de	Deus,	 sendo	 que
Deus	fala	aos	homens	pela	boca	do	Estado.
Em	 sua	 obra	 Elements	 of	 natural	 and	 political	 law	 (1640)	 escreveu
Hobbes:	 “considerando	 que	 a	 vontade	 de	 atacar	 é	 inata	 no	 homem;
considerando	 que	 cada	 homem,	 atacando,	 está	 no	 seu	 direito,	 e	 o	 outro,
resistindo,	 também	está	no	seu	direito;	considerando	que	daí	a	desconfiança
mútua	 está	 justificada	 e	 cada	 um	 medita	 sobre	 os	 meios	 de	 se	 defender,
porque	o	Estado	natural	do	homem	é	o	estado	de	guerra…”.
Em	1642	publicou	o	De	cive	em	latim,	em	defesa	do	absolutismo	de	Carlos
I.
Na	sua	velhice,	publicou	História	da	guerra	civil	inglesa.
Sua	maior	obra,	porém,	obra	monumental	que	empolgou	o	mundo,	 foi	O
Leviatã	 (1651),	 escrita	 em	 inglês	 —	 Leviathan,	 or	 the	 Matter,	 Form	 and
Power	of	the	Commonwealth,	Eclesiastical	and	Civil.	Foi	publicada	essa	obra
na	época	e	ao	tempo	dos	triunfos	de	Cromwell.
Distinguiu	Hobbes,	 em	O	Leviatã,	 duas	 categorias	 de	 Estados:	 o	 Estado
real,	formado	historicamente	e	baseado	sobre	as	relações	da	força,	e	o	Estado
racional	(Civitas	institutiva),	deduzido	da	razão.
O	 título	do	 livro	 foi	 escolhido	para	mostrar	a	onipotência	que	o	governo
devia	 possuir.	O	Leviatã	 é	 aquele	 peixe	monstruoso	 de	 que	 fala	 a	Bíblia,	 o
qual,	sendo	o	maior	de	todos	os	peixes,	impedia	os	mais	fortes	de	engolirem
os	menores.	O	Leviatã	está	assentado	no	trono	de	Deus.	Por	isso	mesmo,	no
frontispício	do	livro	estão	as	palavras	de	Job,	XLI,	25:	nonest	potestas	super
terram	quae	comparetur	ei.	O	Estado	(Leviatã)	é	o	deus	onipotente	e	mortal
(The	mortal	God).
5.	BENEDITO	SPINOZA
Filósofo	 holandês	 (1632-1677),	 em	 sua	 obra	 principal,	 Tractatus
theologicus	 politicus,	 defendeu	 as	 mesmas	 ideias	 de	 Hobbes,	 embora	 com
conclusões	diferentes:	a	razão	ensina	ao	homem	que	a	sociedade	é	útil,	que	a
paz	 é	 preferível	 à	 guerra	 e	 que	 o	 amor	 deve	 prevalecer	 sobre	 o	 ódio.	 Os
indivíduos	cedem	os	seus	direitos	ao	Estado	para	que	este	lhes	assegure	a	paz
e	 a	 justiça.	 Falhando	 nestes	 objetivos,	 o	 Estado	 deve	 ser	 dissolvido,
formando-se	 outro.	O	 indivíduo	 não	 transfere	 ao	Estado	 a	 sua	 liberdade	 de
pensar,	por	isso	que	o	governo	há	de	harmonizar-se	com	os	ideais	que	ditaram
a	 sua	 formação.	 Conclui,	 pois,	 por	 colocar	 a	 Nação	 acima	 do	 Estado.
Desenvolveu	ele	o	seu	pensamento	nas	obras	Ética	e	De	Deus	e	do	homem.
6.	JOHN	LOCKE
Filósofo	 inglês	 (1632-1704),	 desenvolveu	 o	 contratualismo	 em	 bases
liberais,	opondo-se	ao	absolutismo	de	Hobbes.	Foi	Locke	o	vanguardeiro	do
liberalismo	na	Inglaterra.	Em	sua	obra	Ensaio	sobre	o	governo	civil	 (1690),
em	 que	 faz	 a	 justificação	 doutrinária	 da	 revolução	 inglesa	 de	 1688,
desenvolve	os	seguintes	princípios:	o	homem	não	delegou	ao	Estado	senão	os
poderes	de	regulamentação	das	relações	externas	na	vida	social,	pois	reservou
para	 si	 uma	 parte	 de	 direitos	 que	 são	 indelegáveis.	 As	 liberdades
fundamentais,	 o	 direito	 à	 vida,	 como	 todos	 os	 direitos	 inerentes	 à
personalidade	humana,	são	anteriores	e	superiores	ao	Estado.
Locke	encara	o	governo	como	troca	de	serviços:	os	súditos	obedecem	e	são
protegidos;	a	autoridade	dirige	e	promove	justiça;	o	contrato	é	utilitário	e	sua
moral	é	o	bem	comum.
No	 tocante	à	propriedade	privada,	afirma	Locke	que	ela	 tem	sua	base	no
direito	natural:	o	Estado	não	cria	a	propriedade,	mas	a	reconhece	e	protege.
Pregou	Locke	 a	 liberdade	 religiosa,	 sem	dependência	do	Estado,	 embora
tivesse	recusado	tolerância	para	com	os	ateus	e	combatido	os	católicos	porque
estes	não	toleravam	as	outras	religiões.
Locke	 foi	 ainda	 o	 precursor	 da	 teoria	 dos	 três	 poderes	 fundamentais,
desenvolvida	posteriormente	por	Montesquieu.
Dentre	as	obras	de	John	Locke,	destacam-se,	pela	sua	importância	e	larga
influência	no	pensamento	filosófico	moderno,	Cartas	de	 tolerância,	Ensaios
sobre	 o	 entendimento	 humano,	A	 racionabilidade	 do	Cristianismo,	Tratado
sobre	governo	e	Algumas	reflexões	sobre	a	educação.
Prosseguiremos,	 no	 capítulo	 seguinte,	 analisando	 a	 teoria	 contratualista,
nos	 termos	 em	 que	 a	 colocou	 o	 gênio	 fulgurante	 de	 Rousseau,	 que	 foi	 o
dínamo	propulsor	da	Revolução	Francesa.
XIV
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	III
1.	Teoria	do	contrato	social.	2.	Jean-Jacques	Rousseau.
1.	TEORIA	DO	CONTRATO	SOCIAL
A	teoria	contratualista,	da	origem	convencional	da	sociedade	humana,	teve
sua	 gênese	 mais	 remota	 nas	 especulações	 filosóficas	 dos	 sofistas,
desenvolvendo-se	na	Idade	Média	através	da	Escola	Espanhola.	Identificou-se
com	o	jusnaturalismo	a	partir	de	Hugo	Grotius,	que	deu	as	bases	doutrinárias
desenvolvidas	pelos	filósofos	do	século	XVII.	Em	Emmanuel	Kant	atingiu	o
contratualismo	uma	sólida	precisão	científica.
No	mundo	moderno	 foi	 Hobbes	 o	mais	 destacado	 expositor	 da	 ideia	 do
pacto	 social.	 Mas,	 como	 já	 vimos	 no	 capítulo	 anterior,	 partia	 Hobbes	 do
pressuposto	de	que	o	homem,	em	estado	de	natureza,	era	de	uma	ferocidade
instintiva	 impeditiva	 da	 convivência	 pacífica.	 Vivia	 em	 estado	 de	 luta
permanente.	 O	 homem	 é	 o	 lobo	 do	 homem	 —	 foi	 sua	 máxima.
Consequentemente,	os	homens	realizaram	o	pacto	voluntário	constitutivo	do
Estado,	 delegando	 cada	 um,	 ao	 governo	 organizado,	 a	 totalidade	 dos	 seus
direitos	 naturais	 de	 liberdade	 e	 autodeterminação.	 Convencionaram	 todos	 a
sua	submissão	física	e	espiritual	ao	poder	diretivo,	em	benefício	da	paz	social
e	 da	 segurança	 de	 todos.	 Daí	 a	 sujeição	 total	 do	 homem	 ao	 Estado	 e	 o
absolutismo	necessário	do	poder	soberano.
Essa	concepção	voluntarista	do	Estado	 foi	desenvolvida	de	maneira	mais
humana	e	mais	racional	por	Locke,	precursor	do	liberalismo	na	Inglaterra,	o
qual	limitava	o	poder	de	governo	ao	controle	das	relações	externas	do	homem
no	 meio	 social.	 Os	 homens	 não	 delegaram	 ao	 órgão	 diretivo	 da	 sociedade
todos	os	seus	direitos,	mas	somente	aqueles	necessários	à	manutenção	da	paz
e	da	segurança	de	todos.	O	poder	público	é	instituído	por	um	pacto	voluntário,
artificial,	porém	de	fundo	utilitário,	com	o	objetivo	precípuo	do	bem	comum.
Ao	Estado	cabe	regulamentar	as	condições	externas	da	vida	em	sociedade	e,
ao	mesmo	tempo,	respeitar	e	garantir	aqueles	direitos	fundamentais	da	pessoa
humana,	 que	 lhe	 são	 anteriores	 e	 superiores.	 Nestes	 termos,	 deu	 Locke	 o
necessário	 respaldo	 de	 humanismo	 e	 liberalismo	 à	 doutrina	 contratualista.
Dada	 a	 conservação,	 pelos	 pactuantes,	 dos	 seus	 direitos	 naturais	 e,
consequentemente,	 do	 seu	 poder	 originário	 de	 deliberação,	 assiste-lhes	 a
qualquer	momento	 o	 direito	 de	 insurreição,	 isto	 é,	 de	mudar	 a	 forma	 ou	 a
composição	do	governo	que	se	houver	desviado	da	sua	finalidade,	que	é	a	de
promover	a	paz,	a	segurança	e	o	bem-estar	da	sociedade.
2.	JEAN-JACQUES	ROUSSEAU
A	 este	 genial	 filósofo	 coube	 a	 tarefa	 de	 dar	 à	 teoria	 contratualista	 a	 sua
máxima	 expressão.	 Natural	 de	 Genebra	 (1712-1778),	 destacou-se,	 dentre
todos	 os	 teóricos	 do	 voluntarismo,	 pela	 profundidade	 da	 sua	 construção
filosófica	e	pela	amplitude	da	sua	influência	em	todo	o	panorama	do	mundo
moderno.	Seus	livros	a	respeito	da	formação	e	da	fundamentação	dos	Estados
—	Discurso	 sobre	 as	 causas	 da	 desigualdade	 entre	 os	 homens	 e	Contrato
social	 —	 tiveram	 a	 mais	 ampla	 divulgação	 em	 todos	 os	 tempos,	 sendo
recebidos	 como	 evangelhos	 revolucionários	 da	 Europa	 e	 da	 América,	 no
século	XVIII.
No	seu	Discurso	desenvolve	Rousseau	a	parte	crítica	e,	no	Contrato	social,
a	 parte	 dogmática.	Este	 último,	 que	 representa,	 na	 expressão	 de	Bergson,	a
mais	 poderosa	 das	 influências	 que	 jamais	 se	 exerceram	 sobre	 o	 espírito
humano,	 continua	 sendo	 objeto	 de	 discussões	 entre	 os	 mais	 altos
representantes	do	pensamento	político	universal,	quer	pelos	seus	erros	que	a
evolução	 do	 mundo	 trouxe	 à	 tona,	 quer	 pelo	 seu	 conteúdo	 respeitável	 de
verdades	imperecíveis.
O	Estado	é	convencional,	afirmou	Rousseau.	Resulta	da	vontade	geral,	que
é	 uma	 soma	 da	 vontade	manifestada	 pela	maioria	 dos	 indivíduos.	 A	 nação
(povo	organizado)	é	superior	ao	rei.	Não	há	direito	divino	da	Coroa,	mas,	sim,
direito	 legal	 decorrente	 da	 soberania	 nacional.	 A	 soberania	 nacional	 é
ilimitada,	 ilimitável,	 total	 e	 inconstrangível.	 O	 governo	 é	 instituído	 para
promover	 o	 bem	 comum,	 e	 só	 é	 suportável	 enquanto	 justo.	 Não
correspondendo	 ele	 com	 os	 anseios	 populares	 que	 determinaram	 a	 sua
organização,	 o	 povo	 tem	 o	 direito	 de	 substituí-lo,	 refazendo	 o	 contrato…
(sustenta,	pois,	o	direito	de	revolução).
Sob	 o	 martelar	 constante	 dessas	 máximas	 que	 empolgaram	 a	 alma	 da
humanidade	 sofredora,	 ruíram-se	 os	 alicerces	 da	 construção	 milenária	 do
Estado	 teológico	 e	 desencadeou-se	 a	 revolução	 francesa	 contra	 a	 ordem
precária	do	absolutismo	monárquico.
No	seu	ponto	de	partida,	a	filosofia	de	Rousseau	é	diametralmente	oposta	à
de	Hobbes	e	Spinoza.	Segundo	a	concepção	destes,	o	estado	natural	primitivo
era	de	guerra	mútua:	status	hominum	naturalis	bellum	fuerit.
Para	Rousseau	o	estado	de	natureza	era	de	 felicidade	perfeita:	o	homem,
em	estado	de	natureza,	é	sadio,	ágil	e	robusto.	Encontra	facilmente	o	pouco	de
que	 precisa.	 Os	 únicos	 bens	 que	 conhece	 são	 os	 alimentos,	 a	 mulher	 e	 o
repouso.	Os	únicos	males	que	teme	são	a	dor	e	a	fome	(Discours	sur	l’origine
de	l’inegalité	parmi	les	hommes).
Entretanto,	para	sua	felicidade,	a	princípio,e	para	sua	desgraça,	mais	tarde,
o	homem	adquiriu	duas	virtudes	que	o	extremam	dos	outros	animais	e	que,
pouco	a	pouco,	modificaram	o	seu	estado	primitivo:	a	primeira,	a	 faculdade
de	aquiescer	ou	resistir;	e	a	segunda,	a	faculdade	de	aperfeiçoar-se.	Essas	duas
capacidades,	auxiliadas	por	múltiplas	circunstâncias	fortuitas,	sem	as	quais	a
humanidade	 teria	 ficado	 eternamente	 na	 sua	 condição	 primitiva,
desenvolveram	a	 inteligência,	a	 linguagem,	e	 todas	as	outras	faculdades	que
os	 homens	 haviam	 recebido	 em	 potencial.	 Por	 outro	 lado,	 o	 surgimento	 da
metalurgia	 e	 da	 agricultura	 veio	 engendrar	 a	 desigualdade.	 Os	 que
acumulavam	maiores	posses	passaram	a	dominar	e	submeter	os	mais	pobres.
A	 propriedade	 individual	 do	 solo,	 a	 riqueza,	 a	 miséria,	 as	 rivalidades,	 os
sentimentos	 violentos,	 as	 usurpações	 dos	 ricos,	 os	 roubos	 dos	 pobres,
desencadearam	 as	 paixões,	 abafaram	 a	 piedade	 e	 a	 justiça,	 tornando	 os
homens	avaros,	 licenciosos	e	perversos.	Nesse	período,	que	 foi	de	 transição
do	 estado	 de	 natureza	 para	 a	 sociedade	 civil,	 os	 homens	 trataram	de	 reunir
suas	forças,	armando	um	poder	supremo	que	a	todos	defenderia,	mantendo	o
estado	de	coisas	existente.	Ao	se	associarem,	porém,	 tinham	necessidade	de
salvaguardar	 a	 liberdade,	 que	 é	própria	do	homem	e	que,	 segundo	o	direito
natural,	é	 inalienável.	O	problema	social	consistia,	assim,	em	encontrar	uma
forma	 de	 associação	 capaz	 de	 proporcionar	 os	meios	 de	 defesa	 e	 proteção,
com	 toda	a	 força	comum,	às	pessoas	e	 aos	 seus	bens,	 e	pela	qual	 cada	um,
unindo-se	 a	 todos,	 não	 tivesse	 de	 obedecer	 senão	 a	 si	 próprio,	 ficando	 tão
livre	como	antes	do	pacto.
Esse	convênio	determinante	da	sociedade	civil,	isto	é,	esse	contrato	social,
teria	resultado,	assim,	das	seguintes	proposições	essenciais:	cada	um	põe	em
comum	 sua	 pessoa	 e	 todo	 o	 seu	 poder	 sob	 a	 suprema	 direção	 da	 vontade
geral;	 e	 cada	um,	obedecendo	 a	 essa	vontade	geral,	 não	obedece	 senão	 a	 si
mesmo.	 A	 liberdade	 consiste,	 em	 última	 análise,	 em	 trocar	 cada	 um	 a	 sua
vontade	 particular	 pela	 sua	 vontade	 geral.	 Ser	 livre	 é	 obedecer	 ao	 corpo
social,	o	que	equivale	a	obedecer	a	 si	próprio.	O	homem	 transfere	o	 seu	eu
para	a	unidade	comum,	passando	a	ser	parte	do	todo	coletivo,	do	corpo	social,
que	 é	 a	 soma	 de	 vontades	 da	maioria	 dos	 homens.	O	 povo,	 organizado	 em
corpo	social,	passa	a	ser	o	soberano	único,	enquanto	a	lei	é,	na	realidade,	uma
manifestação	positiva	da	vontade	geral.
Com	 essa	 volonté	 générale,	 eixo	 de	 toda	 a	 construção	 filosófica	 de
Rousseau,	confunde-se	a	soberania,	que	é	 inalienável,	 indivisível,	 infalível	 e
absoluta.
Inalienável	porque,	se	o	corpo	social	cedesse	a	sua	vontade,	deixaria	de	ser
soberano.	 A	 nação	 não	 aliena,	 não	 transfere	 a	 sua	 vontade;	 apenas	 nomeia
representantes,	 deputados,	 que	 devem	 ser	 denominados,	 mais	 exatamente,
comissários,	e	devem	executar	a	vontade	nacional	com	mandato	 imperativo,
isto	é,	mandato	válido	enquanto	o	mandatário	bem	servir.	Indivisível,	porque	a
vontade	é	geral	ou	não	o	é.	Não	sendo	geral,	a	vontade	é	particular,	e	como
vontade	particular	não	pode	obrigar	a	todos.	Infalível,	porque	a	vontade	geral,
por	ser	geral,	encerra	a	verdade	em	si	mesma.	Absoluta,	no	sentido	de	que	o
corpo	social	não	pode	sujeitar-se	à	vontade	particular	no	que	tange	às	relações
externas	 dos	 indivíduos	 em	 sociedade,	 nem	 à	 vontade	 de	 outras	 nações,
embora	deva	respeitar	e	garantir	os	direitos	naturais,	personalíssimos,	de	cada
um.	Finalmente,	por	ser	inalienável,	indivisível,	infalível	e	absoluta,	a	vontade
geral	é	também	sagrada	e	inviolável.
O	Contrato	social	de	Rousseau,	embora	inspirado	em	ideias	democráticas,
tem	muito	 do	 absolutismo	 de	 Hobbes,	 diz	 Jacques	Maritain,	 acrescentando
que	 essa	 teoria	 “infundiu	 nas	 novas	 democracias	 uma	 noção	 antitética	 de
soberania	que	veio	abrir	caminho	para	o	Estado	totalitário”.
O	 Prof.	 Ataliba	 Nogueira	 entende	 que	 a	 teoria	 de	 Rousseau	 reduziu	 o
homem	à	 condição	 de	 escravo	 da	 coletividade,	 justificando	 toda	 espécie	 de
opressão.
Contestando	 essa	 teoria	nos	 seus	 fundamentos,	 observa	o	Prof.	Machado
Paupério	que,	“ensinando	Rousseau	que	o	estado	natural	do	homem	era	o	de
isolamento,	 imaginou-se,	 daí	 por	 diante,	 que	 a	 sociedade	 e	 o	 Estado	 eram
artificiais,	o	que	não	é	absolutamente	verdadeiro”.
Mantendo-se	rigorosamente	dentro	do	terreno	das	abstrações	racionalistas
—	 escreveu	 Queiroz	 Lima	—,	 a	 teoria	 de	 Rousseau	 mostrou	 bem	 cedo	 a
inanidade	do	seu	teorismo	transcendente,	servindo	de	alvo	fácil	às	arremetidas
do	ecletismo	oportunista	e	inconsequente.
O	Prof.	Duguit	afirma	que	o	pensamento	de	Rousseau	inspirou	a	filosofia
panteísta	 de	 Hegel,	 em	 que	 os	 juristas	 germânicos	 se	 abeberaram	 para	 a
pregação	da	sua	doutrina	de	absolutismo	e	violências.
Defensor	 brilhante	 da	 concepção	 aristotélico-tomista	 do	 Estado,	 acentua
Alceu	Amoroso	Lima	que	a	teoria	do	Contrato	social	é	precursora	da	 teoria
do	distrato	social	com	que	a	revolução	russa	procura	destruir	violentamente	a
ordem	burguesa	e	liberal,	arrastando	nas	suas	ondas	os	direitos	da	lei	natural	e
da	lei	divina.
Essas	 e	 muitas	 outras	 críticas	 formuladas	 pelos	 pensadores	 modernos	 e
pelos	 escritores	 positivistas,	 baseados	 em	 observações	 indutivas,	 ressalvam,
entretanto,	a	importância	transcendente	da	teoria	contratualista	como	primeiro
alicerce	do	Estado	liberal.	Foi	ela	a	base	filosófica	da	revolução	francesa,	que
proclamou:	os	homens	nascem	e	permanecem	 livres	e	 iguais	 em	direitos.	O
fim	 de	 toda	 associação	 política	 é	 a	 conservação	 dos	 direitos	 naturais	 do
homem.
A	maior	vulnerabilidade	do	contratualismo	está	no	seu	profundo	conteúdo
metafísico	 e	 deontológico.	 Sem	 dúvida,	 a	 falência	 do	 Estado	 liberal	 e
individualista,	 que	 não	 pôde	 dar	 solução	 aos	 problemas	 desconcertantes
manifestados	pela	evolução	social	a	partir	da	segunda	metade	do	século	XIX,
trouxe	 à	 tona	 muitos	 erros	 dessa	 teoria.	 A	 estrutura	 mística	 revelou-se
inadequada	à	solução	dos	problemas	reais	criados	pela	civilização	industrial	e
muito	bem	retratados	na	famosa	Encíclica	Rerum	Novarum,	de	Leão	XIII.
Entretanto,	encerra	a	teoria	do	Contrato	social	um	conteúdo	respeitável	de
verdades	 imperecíveis,	 que	 continuará	 dominando	 superiormente	 o
pensamento	democrático	da	atualidade	e	do	futuro.
XV
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	IV
1.	Escola	histórica.	2.	Edmundo	Burke.
1.	ESCOLA	HISTÓRICA
Opondo-se	 ao	 artificialismo	 da	 teoria	 contratualista,	 surgiu	 no	 cenário
político	 a	 escola	 histórica,	 afirmando	 que	 o	 Estado	 não	 é	 uma	 organização
convencional,	não	é	uma	instituição	jurídica	artificial,	mas	é	o	produto	de	um
desenvolvimento	 natural	 de	 uma	 determinada	 comunidade	 estabelecida	 em
determinado	território.
Quando	 uma	 comunidade	 social	 alcança	 um	 certo	 grau	 de
desenvolvimento,	a	organização	estatal	surge	por	um	imperativo	indeclinável
da	natureza	humana,	e	se	desenvolve	demandando	o	seu	aperfeiçoamento	em
consonância	com	os	fatores	telúricos	e	sociais	que	determinam	fatalmente	as
leis	 da	 evolução.	 Os	 usos	 e	 costumes	 do	 agrupamento	 humano	 influem
preponderantemente	nesse	desenvolvimento.	Logo,	o	Estado	é	um	fato	social
e	uma	realidade	histórica;	não	uma	manifestação	formal	de	vontades	apuradas
num	dado	momento.
O	Estado	reflete	a	alma	popular,	o	espírito	da	 raça.	A	sua	atuação,	como
poder	 político	 organizado,	 deve	 traduzir	 a	 vontade	 coletiva	 segundo	 a	 sua
revelação	no	correr	dos	tempos.
Segundo	 esta	 concepção,	 as	 instituições	 sociais,	 políticas	 e	 jurídicas
somente	são	legítimas	quando	condizentes	com	as	tradições	históricas.
Apoia-se	esta	escola	nos	ensinamentos	de	Aristóteles:	o	homem	é	um	ser
eminentemente	 político;	 sua	 tendência	 natural	 é	 para	 a	 vida	 em	 sociedade,
para	a	 realização	das	superiores	 formas	associativas.	No	espíritoassociativo
está	a	gênese	da	Polis	(Estado-cidade	da	Grécia	antiga).	A	família	é	a	célula
primária	do	Estado;	a	associação	da	família	constitui	o	grupo	político	menor;
a	 associação	 destes	 grupos	 constitui	 o	 grupo	 maior,	 que	 é	 o	 Estado.	 É	 o
Estado	uma	união	de	famílias	e	de	comunas,	união	bastante	em	si	mesma,	não
apenas	para	viver,	mas,	 ainda,	para	viver	bem	e	 feliz.	O	 fim	do	Estado,	 em
suma,	é	a	prosperidade	da	vida.
Savigny	 e	 Gustavo	 Hugo,	 na	 Alemanha,	 adotaram	 e	 desenvolveram
amplamente	 esta	 concepção	 realista	 do	 Estado	 como	 fato	 social,
especialmente	no	campo	do	direito	privado,	mesmo	porque,	segundo	observa
Pedro	 Calmon,	 a	 doutrina	 histórica	 servia	 a	 duas	 ideias	 profundamente
germânicas:	o	espírito	da	raça	e	a	tendência	a	um	progresso	ilimitado.
Adam	 Muller,	 Ihering	 e	 Bluntschli	 foram	 outros	 corifeus	 desta	 mesma
doutrina.
2.	EDMUNDO	BURKE
O	 principal	 expoente	 da	 escola	 histórica,	 no	 vasto	 campo	 do	 direito
público,	foi	Edmundo	Burke,	notável	orador	e	parlamentar	inglês,	membro	da
Câmara	 dos	 Comuns	 a	 partir	 de	 1766	 pelo	 partido	 Whig,	 e	 autor	 da
monumental	obra	Reflexões	sobre	a	Revolução	Francesa.
Burke	 condenou	 corajosamente	 certos	 princípios	 da	 revolução	 francesa,
notadamente	a	noção	dos	direitos	do	homem	na	sua	abstração	e	seu	absoluto
e	a	impessoalidade	das	instruções.
Na	 teoria	deste	 eminente	pensador	britânico,	 somente	 é	natural	 e	 justo	o
que	 provém	 do	 desenvolvimento	 histórico,	 do	 longo	 hábito:	 a	 natureza	 e	 a
história	 se	 identificam	 como	 determinantes	 e	 justificativas	 dos	 fenômenos
sociais.	E	acrescenta:	“deixadas	a	si	mesmas,	as	coisas	encontram	geralmente
a	ordem	que	lhes	convém”.
Admite	Queiroz	Lima	que	a	escola	histórica	é	profundamente	racionalista.
Ao	 afirmar	 que	 o	Estado	 é	 a	 forma	 por	 que	 se	manifesta	 a	 nação,	 parte	 da
concepção	 de	 que	 existe,	 para	 cada	 povo,	 uma	 consciência	 psicológica,	 ou
seja,	um	senso	íntimo	coletivo,	distinto	da	consciência	de	cada	indivíduo.
O	 Estado	 inglês	 metropolitano,	 com	 o	 seu	 direito	 constitucional
consuetudinário,	 é	 bem	 uma	 expressão	 real	 desta	 doutrina.	 Os	 usos	 e
costumes	 seculares,	 formando	 princípios	 de	 direito	 público	 de	 natureza
dogmática,	 alheios	 a	 todas	 as	 mutações	 da	 lógica	 abstrata,	 explicam	 a
formação	e	o	desenvolvimento	daquele	Estado.
A	doutrina	de	Burke	teve	grande	repercussão	mundial.	Sua	obra	alcançou
onze	edições	em	um	ano.	Como	expressou-se	Chevalier,	as	Reflexões	 foram
recebidas	na	Europa	como	o	catecismo	da	reação	contrarrevolucionária.
As	 diversas	 correntes	 de	 exaltação	 nacionalista,	 que	 encheram	 o
conturbado	 panorama	 político	mundial	 no	 século	 XX,	 derivam	 da	 doutrina
histórica,	 notadamente	 o	 fascismo,	 que	 trazia	 no	 seu	 bojo	 o	 ideal	 de
restauração	das	glórias	do	antigo	império	romano.
XVI
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	V
1.	Panteísmo.	2.	Escola	orgânica.	3.	Neopanteísmo.
1.	PANTEÍSMO
A	escola	orgânica	é	um	ramo	político	da	filosofia	panteísta.
Vejamos	primeiramente	em	que	consiste	o	panteísmo.
A	palavra	panteísmo	vem	do	grego:	pan,	 todo,	 tudo;	 théos,	Deus;	mais	o
sufixo	ismo.
O	 panteísmo	 é	 um	 sistema	 filosófico	 monista	 que	 integra	 em	 uma	 só
realidade	Deus	e	o	mundo.	 Identifica	o	sujeito	com	o	objeto	no	absoluto.	O
absoluto	manifesta-se	na	natureza,	pelos	 reinos	animal,	vegetal	e	mineral;	e
na	história,	através	da	família,	da	sociedade,	do	Estado.	O	Estado	é	uma	das
expressões	do	absoluto.	Nega	este	sistema	o	livre-arbítrio	e	todas	as	formas	de
convencionalismo	 jurídico,	 para	 admitir	 em	 tudo	 um	 fatalismo	 cego,	 um
determinismo	 invencível.	 Deus	 está	 presente	 em	 todas	 as	manifestações	 da
natureza;	 assim,	 no	 Direito	 e	 no	 Estado.	 Como	 resumiu	 Krause,	 Deus	 é
infinito	e	contém	em	si	todos	os	seres	finitos;	é	o	todo	que	contém	em	si	todas
as	 partes.	 O	 Direito	 é	 imanente	 a	 Deus,	 irradiando-se	 por	 todos	 os	 seres
finitos;	 e	para	manifestá-lo	 é	que	 existe	o	Estado.	O	poder	do	Estado	 é	um
poder	absoluto,	já	que	essa	entidade	é	a	suprema	encarnação	da	ideia.
Ernesto	Haeckel	(1834-1919),	sustentando	a	unidade	de	Deus	e	do	mundo,
afirma	que	“cada	átomo	é	provido	de	alma,	e	assim	o	éter	cósmico.	Pode-se,
portanto,	definir	Deus	como	a	soma	infinita	de	todas	as	forças	naturais,	ou	a
soma	de	todas	as	forças	atômicas	e	de	todas	as	vibrações	do	éter”.	Com	efeito,
Haeckel	define	Deus	como	a	 lei	suprema	do	mundo,	 e	 o	 representa	 como	a
obra	do	espaço	geral.	O	espírito	de	Deus	encontra-se	em	todas	as	coisas.	Não
existe	corpo,	por	mais	pequeno	que	seja,	que	não	contenha	em	si	uma	parcela
da	 substância	 divina	 que	 o	 anima.	 Todos	 os	 fenômenos,	 por	 mais
insignificantes	que	sejam,	como	a	folha	que	cai	da	árvore,	são	manifestações
de	Deus.
São	ainda	afirmações	de	Haeckel:	“Quer	admiremos	o	esplendor	das	altas
montanhas	 ou	 o	 mundo	 maravilhoso	 do	 mar,	 quer	 observemos	 com	 o
telescópio	as	maravilhas	infinitamente	grandes	do	mundo	estrelado,	ou	com	o
microscópio	 as	 maravilhas	 ainda	 mais	 estonteantes	 dos	 infinitamente
pequenos,	o	Deus-Natureza	oferece-nos	por	toda	parte	uma	fonte	inesgotável
de	gozos	estéticos”.
O	objetivo	do	panteísmo	é	o	conhecimento	do	verdadeiro;	a	sua	moral,	a
prática	 do	 bem;	 e	 a	 sua	 estética,	 o	 culto	 do	 belo.	 Pela	 união	 natural	 e
complemento	recíproco	desses	três	pontos	é	que	obtém	o	monismo	panteísta	o
conceito	natural	de	Deus.
Como	 filosofia	 contemplativa,	 muito	 sedutora,	 o	 panteísmo	 serve	 à
inspiração	dos	poetas,	como	inspirou	Goethe	na	elaboração	do	seu	Fausto	e
do	seu	maravilhoso	poema	Deus	e	o	mundo;	entretanto,	não	resiste	às	análises
da	ciência,	menos	ainda	da	lógica.
Sobretudo,	 o	 panteísmo	 é	 contraditório	 em	 si,	 porque	 encerra	 num	 todo
íntegro,	 numa	 só	 ideia,	 os	 princípios	 opostos	—	 o	 absoluto	 e	 o	 relativo,	 o
espírito	e	a	matéria,	o	infinito	e	o	finito,	o	eterno	e	o	efêmero,	a	perfeição	e	a
imperfeição…
2.	ESCOLA	ORGÂNICA
A	 Escola	 orgânica,	 na	 ciência	 do	 Estado,	 é	 eminentemente	 panteísta.
Floresceu	 na	Alemanha,	 durante	 o	 século	XIX,	 sob	 a	 liderança	 de	Hegel	 e
Schelling,	seguidos	por	Herbhart,	Krause,	Roeder,	Ahrens	e	muitos	outros.
O	Estado,	segundo	esta	doutrina,	é	um	organismo	natural,	semelhante	aos
organismos	 dos	 seres	 vivos,	 sujeito	 às	 mesmas	 leis	 biológicas.	 É	 um	 ser
coletivo,	 um	 superser,	 dotado	 de	 membros,	 órgãos,	 unidade	 biológica	 e
fisiologia	própria,	tal	como	os	seres	do	reino	animal.	Elucidando	o	conteúdo
dessa	 teoria	 organicista,	 o	 Prof.	 Pedro	 Calmon	 registrou	 o	 seguinte:	 “os
indivíduos	 são	os	membros	do	Estado;	 sua	 alma,	 a	 religião	 e	 a	 cultura;	 seu
órgão	de	discernimento,	o	governo;	seus	braços,	o	funcionalismo;	seus	pés,	o
comércio	 e	 o	 trabalho;	 seu	 aparelho	 digestivo,	 a	 economia;	 seu	 sistema
circulatório,	 a	 produção	 e	 o	 consumo;	 a	 pátria	 é	 a	 sua	 entidade	 moral;	 o
território,	 a	 sua	 estrutura	 física.	 A	 paz	 é	 a	 saúde	 do	 Estado;	 as	 crises	 e
convulsões	políticas	correspondem	aos	processos	mórbidos	que	podem	levá-
lo	à	perda	da	unidade	vital	e	à	morte”.
Tal	 como	 os	 seres	 vivos,	 disse	 Montaigne,	 o	 Estado	 nasce,	 floresce	 e
morre.
Os	 fundamentos	 dessa	 escola	 remontariam	 às	 obras	 de	 Platão,	 que
considerava	o	Estado	como	um	homem	em	grande;	e	ainda,	segundo	Jellinek,
aos	ensinamentos	de	São	Paulo:	todos	somos	membros	de	um	mesmo	corpo.
Discordam	os	autores	da	escola	organicista	quanto	à	justificação	do	Estado
ou	da	sociedade	pelo	sistema	comparativo.	Spencer	sustenta	que	o	organismo
é	 a	 sociedade,	 não	 o	 Estado,	 sendo	 este	 um	 órgão	 de	 discernimento	 da
entidade	orgânica	coletiva.
3.	NEOPANTEÍSMO
Bluntschli	 (1808-1881),	 jurisconsulto	 suíço	 (Teoria	do	Estado	Moderno),
seguido	por	Schaffle,	Lilienfeld	e	outros,	deu	nova	orientação	ao	organicismo,
abandonando	 o	 paralelismo	 do	 Estado	 com	 os	 organismos	 biológicos	 para
compará-lo	com	os	organismos	psicológicosou	éticos,	por	 lhe	parecer	mais
defensável	esta	segunda	atitude.
A	corrente	neopanteísta,	entretanto,	continuou	no	mesmo	campo	da	ficção.
A	 comparação	 do	 organismo	 estatal	 com	 os	 organismos	 físicos	 ou
psíquicos,	 como	 observa	 Groppali,	 não	 tem	 outro	 valor	 que	 não	 seja	 o	 de
metáfora.	Serve	para	tornar	mais	inteligível	a	complexa	estrutura	jurídica	do
Estado,	mas	não	a	define	na	sua	essência	e	na	sua	realidade.
XVII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	VI
1.	Teoria	da	supremacia	de	classes.	2.	Gumplowicz	e	Oppenheimer.
3.	Fundamento	doutrinário	do	Estado	bolchevista.
1.	TEORIA	DA	SUPREMACIA	DE	CLASSES
A	escola	sociológica	alemã,	coordenada	por	Gumplowicz	e	Oppenheimer,
reunindo	 os	 princípios	 da	 força	 e	 do	 interesse	 patrimonial,	 formulou	 uma
teoria	justificativa	do	Estado	baseada	na	supremacia	de	classes.
2.	GUMPLOWICZ	E	OPPENHEIMER
Ludwig	Gumplowicz	 (1838-1909),	 professor	 de	 ciência	 política	 em	Graz,
Alemanha,	 estabeleceu	 uma	 dupla	 noção	 de	 propriedade:	 a	 propriedade
individual	 sobre	 bens	 móveis,	 resultante	 do	 trabalho	 do	 indivíduo,	 é	 um
direito	natural;	mas	a	propriedade	sobre	a	terra	é	ilegítima	e	inadmissível.	O
solo,	 por	 sua	 natureza,	 não	 comporta	 apropriação	 individual;	 pertence	 à
coletividade.
Afirma	esse	autor	que	a	propriedade	da	terra	começou	quando	uma	horda
se	assenhoreou	de	outra	e	obrigou	os	homens	vencidos	a	cultivarem	a	terra	em
seu	 proveito.	Em	 seguida,	 a	 horda	 vencedora	 armou	 o	 poder	 para	manter	 a
defesa	das	suas	conquistas.
O	Estado,	como	o	definem	ambos	os	autores	citados,	 é	a	organização	da
supremacia	da	classe	dominante.	Textualmente:	é	um	conjunto	de	instituições
que	tem	por	finalidade	assegurar	o	domínio	de	uma	minoria	vencedora	sobre
uma	maioria	vencida.
Completa	 essa	 concepção	 doutrinária	 o	 princípio	 do	 fato	 consumado;	 o
emprego	da	violência	não	é	permanente	e	toda	guerra	chega	a	um	fim,	quando
os	 mais	 fracos	 renunciam	 a	 continuar	 uma	 inútil	 resistência.	 Portanto,	 a
natureza	 se	 encarrega	 de	 estabilizar	 uma	 situação	 criada	 pela	 força
predominante.	A	ordem	estabelecida	produz	o	hábito,	o	costume	e	o	direito.
Léon	Duguit,	professor	de	direito	em	Bordéus,	cuja	doutrina	exporemos	no
capítulo	 seguinte,	 aderiu	 a	 esta	 escola,	 afirmando	 que	 o	 Estado	 é	 uma
superposição	de	classes,	sendo	que	a	classe	dos	governantes,	dispondo	de	uma
maior	 força,	 impõe	 a	 sua	 vontade	 aos	 governados.	 Procurou	 Duguit
racionalizar	 a	 teoria	 da	 força	 pelo	 princípio	 da	 preeminência	 do	 direito.	 O
Estado,	segundo	a	sua	concepção,	é	a	força	a	serviço	do	direito.
Duguit	relegou	a	um	plano	secundário	o	problema	de	ordem	sociológica	da
origem	 do	 Estado,	 para	 se	 preocupar	 com	 a	 justificação	 objetiva	 do	 poder
estatal.	 Afirma	 que	 não	 há	 elementos	 de	 certeza	 para	 se	 determinar	 se	 a
separação	da	sociedade	em	classes	de	governantes	e	governados	apareceu	na
horda	ou	no	clã	ou	nos	agrupamentos	segmentários	à	base	do	clã.	Sua	teoria
limita-se	a	explicar	o	Estado	como	fato	consumado:	os	fracos	submeteram-se
à	 autoridade	 dos	 fortes,	 para	 poderem	 contar	 com	 segurança	 e	 proteção.	O
poder	 político	 é	 o	 poder	 dos	mais	 fortes,	 e,	 assim,	 o	 Estado	 consiste	 numa
organização	 em	 que	 vontades	 individuais	 dominantes	 dirigem	 a	 massa	 dos
governados.
Franz	 Oppenheimer,	 professor	 de	 ciência	 política	 da	 Universidade	 de
Frankfurt,	deu	a	essa	 teoria	um	sentido	diretamente	marxista:	 todo	Estado	é
uma	 organização	 de	 classe;	 toda	 teoria	 política	 é	 uma	 teoria	 de	 classe.
Somente	 por	meio	 de	 uma	 pesquisa	 histórico-sociológica	 se	 pode	 chegar	 à
compreensão	do	Estado	como	fato	historicamente	universal.	O	poder	político
é	 sempre	 a	 organização	 de	 uma	 classe	 vencedora,	 destinada	 a	 manter	 seu
domínio	no	interior	e	a	proteger-se	contra	ataques	exteriores.
3.	FUNDAMENTO	DOUTRINÁRIO	DO	ESTADO	BOLCHEVISTA
Marx	e	Engels	deram	ampla	desenvoltura	a	esse	pensamento,	conceituando
o	Estado	 como	 instrumento	 de	 dominação	 da	 classe	 operária	 e,	 nessa	 base,
construindo	o	arcabouço	doutrinário	do	Estado	comunista.
Lenin	e	Stalin	conceituaram	o	Estado,	precisamente,	como	instrumento	de
dominação	da	classe	operária.
XVIII
JUSTIFICAÇÃO	DO	ESTADO	—	VII
1.	O	Estado	como	diferenciação	entre	governantes	e	governados.	2.
Teoria	de	Léon	Duguit.
1.	O	ESTADO	COMO	DIFERENCIAÇÃO	ENTRE	GOVERNANTES	E
GOVERNADOS
Dentre	as	doutrinas	que	tendem	a	explicar	e	justificar	o	fenômeno	estatal,
destaca-se	 a	 de	 Léon	 Duguit,	 famoso	 mestre	 do	 direito	 social	 em	 França
(1859-1928).
Essa	doutrina,	 pela	 sua	 simplicidade,	 pela	 sua	 lógica	 aparente	 e	pela	 sua
consonância	 com	 os	 relevos	 superficiais	 da	 ordem	 constituída,	 empolgou	 a
opinião	pública	universal	e	os	meios	culturais	de	todos	os	países,	tornando-se
objeto	de	comentários	e	polêmicas	entre	os	mais	categorizados	expoentes	da
ciência	política.
Em	 razão	 dessa	 importância	 é	 que	 lhe	 dedicamos	 aqui	 um	 capítulo
especial.	 E	 o	 fazemos	 com	 a	 finalidade	 de	 refutá-la,	 porquanto	 não
encontramos	nessa	teoria	qualquer	consistência	científica.
2.	TEORIA	DE	LÉON	DUGUIT
Duguit	 reduz	 o	 Estado	 a	 uma	 expressão	 simplíssima,	 tanto	 que	 o	 define
como	 “uma	 sociedade	 onde	 vontades	 individuais	mais	 fortes	 se	 impõem	 às
outras	 vontades”.	 Perfilha,	 como	 se	 vê,	 a	 teoria	 da	 força,	 em	 sua	 essência,
desenvolvendo	o	pensamento	de	Gumplowicz.
Sua	 doutrina	 acolhe	 um	 conceito	 encontrado	 na	 filosofia	 de	 Aristóteles,
referindo-se	a	que	o	Estado	é	formado	de	governantes	e	governados.	Partindo
desse	 fato	 facilmente	 aceitável,	 chega	 Duguit	 a	 construir	 a	 sua	 teoria
eminentemente	 subjetiva	 e	 profundamente	 impressionante,	 que	 pode	 ser
condensada	no	seguinte	resumo:	A	organização	política	do	Estado	repousa	na
diferenciação	 entre	 governantes	 e	 governados;	 a	 classe	 dos	 governantes,
dispondo	de	uma	maior	força,	impõe	a	sua	vontade	aos	governados.
Não	obstante	haver	certa	aparência	de	verdade,	não	é	juridicamente	certo
nem	 democraticamente	 admissível	 que	 o	 Estado	 seja	 formado	 por	 duas
classes	antagônicas,	uma	dirigente	e	outra	dirigida.
Também	não	é	exato	que	o	 fenômeno	governo	possa	 ser	 reduzido	a	uma
simples	manifestação	de	vontades	pessoais.	O	poder	de	governo,	em	verdade,
baseia-se	na	lei	que	é	expressão	da	vontade	geral.
O	 que	 distingue	 o	 regime	 democrático	 —	 diz	 Queiroz	 Lima	 —	 é	 a
sistematização	do	equilíbrio	das	duas	correntes	de	forças:	a	do	governo,	poder
de	mando,	e	a	do	povo,	poder	de	resistência.	Não	há	vontade	individual	nem
grupal	armada	de	maior	força,	mas	um	crescente	automatismo	de	funções	de
disciplina	 tendendo	 idealmente	 para	 a	 completa	 supressão	 do	 arbítrio	 da
autoridade.	 O	 direito	 superintende	 a	 organização	 administrativa,	 regula	 as
funções	 de	 governo	 e	 define	 as	 normas	 de	 conduta	 dos	 agentes	 do	 poder
público.
A	maior	força	é	o	poder	de	soberania,	proveniente	da	nação.	Ora,	a	nação
não	 delega	 inteiramente	 essa	 suprema	 potesta	 aos	 seus	 representantes.	 Não
delega,	 não	 aliena,	 não	 transfere	 a	 sua	 vontade.	 A	 soberania	 (vontade
nacional),	 sendo	 inalienável	 segundo	o	 judicioso	conceito	da	escola	clássica
francesa,	 é	 indelegável	 e	 intransferível.	 A	 população	 nacional	 transfere	 aos
seus	representantes	o	exercício	do	poder	de	soberania,	mas	o	conserva	na	sua
substância.	O	poder	de	soberania	(maior	força)	é	da	nação	e	se	distribui	pelas
diversas	funções	criadas	e	definidas	por	leis.	Os	órgãos	(pessoas)	incumbidos
do	desempenho	dessas	funções	são	 instrumentos	de	execução	da	vontade	da
lei.	Não	 têm	eles	nenhuma	autoridade,	pelo	menos	no	 sistema	democrático,
para	substituírem	a	vontade	da	lei	pela	sua	vontade	própria.
É	natural	que	os	indivíduos	ou	colegiados	que	exercem	funções	de	mando
tenham	destacada	preeminência	no	meio	social.	São	eles	envolvidos	por	uma
evidente	auréola	de	prestígio	público.	Mas	essa	preeminência,	esseprestígio
dos	governantes,	é	mais	um	reflexo	das	funções	públicas	que	eles	exercem.	O
respeito,	o	acatamento	e	a	reverência	são	devidos	diretamente	à	função	e	só
indiretamente	à	pessoa	que	a	exerce.	Os	que	assim	não	entendem	igualam-se
ao	 asno	 da	 fábula	 de	 La	 Fontaine,	 que	 se	 empertigava	 ante	 as	 reverências
públicas	sem	se	aperceber	de	que	eram	elas	dirigidas	à	imagem	do	santo	que
lhe	vinha	nos	costados.
No	 Estado	 democrático,	 acresce	 notar,	 as	 funções	 de	 mando	 são
sistematizadas,	 hierarquizadas	 e	 subordinadas	 a	 um	 sistema	 de	 freios	 e
contrapesos.	Um	ato	discricionário	e	ilegal	pode	ser	anulado	pela	autoridade
superior.	 O	 governado	 não	 está	 obrigado	 a	 obedecer	 a	 ordens	 ilegais.	 No
próprio	Código	Penal	se	lhe	reconhece	o	direito	de	resistir.	O	funcionário	não
age	validamente	 senão	 em	nome	e	nos	 termos	da	 lei.	Quando	 ele	 pretender
substituir	a	vontade	da	lei	pela	sua	vontade	individual,	 já	não	terá	a	couraça
da	função	pública.
De	 acordo	 com	 este	 entendimento,	 o	 conceito	 de	 uma	 classe	 dotada	 de
poder	de	mando,	que	age	em	 função	do	 seu	arbítrio,	 é	 absurdo.	Ademais,	 é
contra	a	natureza	do	Estado	democrático	a	existência	de	classes	superpostas.
O	poder	de	governo,	repetimos,	é	puramente	funcional.	A	autoridade	não
se	delega	ao	governante	—	diz	Queiroz	Lima	—,	porque	não	é	prerrogativa
de	 ninguém	 que	 a	 possa	 delegar.	 A	 autoridade	 é	 inseparável	 da	 própria
função,	que	 representa	um	aspecto	particular,	variável	na	medida	das	 forças
que	 se	 combinam	 e	 conforme	 se	 apresenta,	 no	meio	 nacional,	 o	 sistema	 de
equilíbrio	necessário	à	preservação	da	ordem	jurídica.
Para	 a	 boa	 ordem	 do	 Estado,	 inegavelmente,	 é	 necessário	 que	 haja	 uma
força	material	 à	disposição	dos	agentes	da	autoridade	pública	—	a	 força	de
coação.	Essa	 força,	porém,	 só	é	 legítima,	 só	é	 justa,	quando	satisfaz	a	estas
duas	condições:	a)	exato	enquadramento	nos	preceitos	do	direito	objetivo;	e
b)	aceitação	voluntária	e	pacífica	por	parte	da	massa	dos	governados.
Ora,	o	povo	(massa	de	governados)	não	aceita	voluntária	e	pacificamente
aquilo	 que	 não	 condiz	 com	 o	 direito.	 As	 imposições	 da	 força,	 da	 tirania,
podem	submeter	o	povo	num	dado	momento,	mas	receberão,	cedo	ou	 tarde,
os	efeitos	de	uma	reação	própria	da	contingência	humana.
O	Prof.	Sampaio	Dória,	comentando	a	teoria	subjetivista	de	Duguit,	chega
a	 admitir	 a	 existência	 de	 uma	 classe	 de	 predestinados	 para	 o	 governo:
“Também	 há	 os	 mais	 aptos	 para	 o	 governo	 dos	 homens.	 As	 qualidades
primaciais	de	estadista	não	 se	encontram	a	granel:	discernimento	 rápido	em
ver,	com	acerto,	no	emaranhado	das	ambições;	certa	perspicácia	em	prever	os
acontecimentos;	o	senso	realista	de	transigência	e	de	firmeza;	cultura	social;
uma	 intuição	 segura	 da	 psicologia	 do	 indivíduo	 e	 das	 multidões;	 até
resistência	física	para	os	esforços	prolongados.	Pois	nem	todos	nascem,	senão
bem	 poucos,	 com	 tendências	 aprimoráveis	 para	 o	 governo	 dos	 homens.
Ninguém	duvida	da	predestinação	de	homens	para	o	exercício	do	governo,	ou
pelo	menos,	de	grandes	aptidões	para	dirigir	os	destinos	coletivos”.
Não	 negamos	 a	 conveniência	 ou	 necessidade	 mesmo	 de	 uma	 elite
coordenadora	 das	 forças	 opinativas	 no	Estado	 democrático.	 Essa	 elite	 é	 até
imprescindível	 para	 a	 vitalidade	 da	 democracia.	 Porém,	 daí	 a	 aceitar	 a
existência	de	uma	classe	de	governantes	 armada	de	maior	 força	 por	 direito
próprio,	 submetendo	 à	 sua	 vontade	 a	 massa	 de	 governados,	 vai	 longa
distância.
A	existência	de	uma	classe	dotada	de	poder	de	mando	por	direito	próprio
só	 se	 coaduna	 com	 o	 sistema	 monárquico,	 talvez	 com	 a	 república
aristocrática,	 nunca	 com	 a	 república	 democrática.	 Nesta,	 convém	 repetir:	 o
poder	de	governo	é	puramente	funcional.	A	atividade	dos	governantes	não	se
prende,	 absolutamente,	 às	 vontades	 individuais,	mas,	 sim,	 a	 um	 sistema	 de
funções	 traçado	 objetivamente	 pelas	 leis.	 No	 ato	 de	 governo	 ou	 de
administração,	 o	 poder	 se	 exercita	 precisamente	 em	 função	 dos	 princípios
universais	de	equilíbrio	e	harmonia	entre	o	Estado	e	o	povo.
Como	 síntese	 do	 arbítrio	 e	 da	 prepotência	 dos	 homens,	 o	Estado	 seria	 a
opressão	 organizada.	 Como	 primado	 do	 direito,	 é	 um	 instrumento	 de	 rea-
lização	dos	ideais	de	liberdade	e	justiça.
Completando	esta	noção	da	famosa	teoria	de	Duguit,	cumpre	observar	que
esse	autor,	por	considerar	o	governo	como	um	simples	fato	social	e	não	como
um	fato	jurídico,	desenvolve	a	teoria	do	direito	independentemente	da	teoria
do	Estado:	“uma	regra	econômica	ou	moral	 torna-se	norma	jurídica	quando,
na	consciência	da	massa	dos	indivíduos	que	integram	um	certo	grupo	social,
penetra	 a	 ideia	 de	 que	 os	 detentores	 da	 maior	 força	 podem	 intervir	 para
reprimir	 a	 violação	 dessa	 regra.	 Antes,	 portanto,	 de	 receber	 a	 sanção	 do
Estado,	 a	 lei	 existe	 na	 consciência	 do	 povo.	 Forma-se	 o	 direito
espontaneamente,	da	própria	natureza	das	coisas”.
Essa	 teoria	 do	 eminente	 professor	 de	 Bordéus,	 particularmente	 no	 que
concerne	à	formação	mecânica	do	direito,	 tem	sido	refutada	com	veemência
pelos	mais	autorizados	expoentes	do	pensamento	 jurídico	universal.	O	Prof.
Miguel	 Reale,	 na	 sua	 monumental	 obra	 Teoria	 do	 Direito	 e	 do	 Estado,
demonstra	 com	 firmeza	 a	 inconsistência	 de	 tal	 doutrina,	 fulminando-a	 com
esta	imperiosa	conclusão:	“Em	verdade,	a	teoria	de	Duguit,	por	ser	a	negação
da	 soberania	 como	 princípio	 jurídico,	 é	 também	 uma	 teoria	 essencialmente
antiestatal	uma	vez	que	ele	confunde	o	Estado	com	o	governo,	usando	estas
expressões	como	sinônimos”.
Efetivamente,	 para	Duguit	 a	 soberania	 é	 apenas	um	 fato	do	poder.	 Ele	 a
reduz	 a	 uma	 simples	 noção	 de	 serviço	 público.	 Tanto	 assim	 que,	 ao	 ser
acusado	por	Hauriou	como	“anarquista	de	cátedra”,	 respondeu:	“eu	somente
nego	 que	 o	 poder	 governamental	 seja	 de	 direito;	 afirmo	 que	 aqueles	 que
detêm	esse	poder,	detêm	um	poder	de	fato,	não	um	poder	de	direito”.
O	 direito	 é	 independente	 —	 disse	 mais	 —,	 sendo	 insuscetível	 de
qualificação	jurídica	o	fato	do	poder	público.
Claudicando,	 pois,	 no	 seu	 ponto	 de	 partida,	 segue	 a	 teoria	 de	 Duguit
demandando	conclusões	insustentáveis.	Como	bem	observou	Queiroz	Lima,	é
somente	 pela	 simplicidade	 da	 sua	 fórmula	 e	 pela	 exatidão	 aparente	 do	 seu
conceito	 que	 essa	 teoria	 tem	 adquirido	 muita	 vulgarização,	 chegando	 a
conquistar	 os	 próprios	 juristas	 clássicos	 filiados	 na	 tradicional	 corrente	 da
soberania	nacional.
À	 inconsistente	 concepção	 realista	 de	 Duguit	 respondem	 as	 teorias
objetivas:	a	única	vontade	que	comanda	a	organização	do	Estado	e	o	exercício
do	poder	do	governo	é	a	vontade	nacional,	manifestada	através	dos	poderes
constituinte	e	legislativo.	Não	há	classe	de	governantes	em	oposição	à	massa
dos	governados,	nem	os	 atos	de	governo	 resultam	da	vontade	arbitrária	dos
detentores	 eventuais	 do	 poder	 de	mando.	O	 poder	 de	 governo,	 se	 bem	 que
exercido	por	meio	de	pessoas,	reside	no	sistema	de	funções	criado	e	mantido
pelo	 direito	 objetivo.	 Os	 indivíduos	 investidos	 nos	 cargos	 de	 governo	 são
apenas	 órgãos	 de	 realização	 das	 funções	 governamentais,	 ou	 melhor,
instrumentos	de	realização	da	vontade	da	lei.
XIX
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	I
1.	A	“lei	dos	três	estados”,	de	Augusto	Comte.	2.	Classificação.	3.
O	Estado	antigo.	4.	O	Estado	de	Israel.
1.	A	“LEI	DOS	TRÊS	ESTADOS”,	DE	AUGUSTO	COMTE
Desde	o	seu	aparecimento	como	organização	do	meio	nacional,	 desde	 as
mais	primitivas	 formas	de	associação	política,	o	Estado,	 elemento	dinâmico
por	 excelência,	 vem	 evoluindo	 sempre,	 e	 refletindo,	 nessa	 evolução,	 a
trajetória	 ascensional	 da	 civilização	 humana.	 O	 seu	 desenvolvimento	 não
segue,	naturalmente,	uma	progressão	retilínea:	avanços	arrojados,	retrocessos
profundos,	 longas	estagnações	e	até	mesmo	eclipses	duradouros	assinalam	a
suamarcha	no	tempo	e	no	espaço.
Um	estudo	 completo	 e	 detalhado	 sobre	 a	 evolução	 histórica	 de	Estado	 é
matéria	 própria	 do	 curso	 de	 sociologia.	 Nosso	 programa	 limita-se	 à
compreensão	do	assunto	nas	suas	linhas	gerais.
Como	 esquema	 que	 facilita	 o	 estudo	 é	 conveniente	 invocar,	 de	 início,	 a
chamada	 lei	 dos	 três	 estados,	 formulada	 por	 Augusto	 Comte:	 “cada
manifestação	 do	 pensamento	 humano	 passa	 sucessivamente	 por	 três	 graus
teóricos	 diferentes	—	o	 estado	 teológico	ou	 fictício,	 o	 estado	metafísico	ou
abstrato	e	o	estado	positivo	ou	científico”.
Valendo-se	 dessa	 lei	 da	 filosofia	 positivista	 para	 reconstituir	 a	 rota	 do
desenvolvimento	 das	 ideias	 sobre	 o	 Estado	 através	 das	 diversas	 ordens	 de
civilização,	Queiroz	Lima	adotou	para	a	sua	exposição	doutrinária	a	seguinte
fórmula:	 1º)	 o	 Estado	 primitivo	 foi	 teocrático,	 explicado	 pelas	 teorias	 do
direito	divino	sobrenatural;	2º)	vem,	a	seguir,	a	noção	metafísica	do	Estado,
deslocando	para	a	vontade	do	povo	a	origem	do	poder	soberano;	3º)	segue-se
a	noção	positiva	do	Estado,	segundo	a	qual	a	soberania	decorre	das	próprias
circunstâncias	objetivas,	do	império	da	lei	ou	da	concepção	realista	do	Estado
como	força	a	serviço	do	direito.
A	 fórmula	 não	 é	 rigorosamente	 exata,	 pois	 não	 houve	 uma	 sucessão
cronológica	das	diversas	noções	de	Estado:	nos	tempos	modernos	reaparecem
as	 monarquias	 de	 direito	 divino,	 ao	 passo	 que,	 na	 antiguidade	 clássica,
floresceram	 as	 concepções	modernas	 de	Estado,	 nas	 teorias	 racionalistas	 de
Aristóteles	e	Cícero.	São	os	avanços	e	recuos	acima	referidos.
2.	CLASSIFICAÇÃO
Sem	 embargo	 deste	 reparo,	 tem	 destacado	 valor	 metodológico	 a
classificação	de	Queiroz	Lima,	seguida	pela	maioria	dos	autores,	no	estudo	da
evolução	histórica	do	Estado,	porque	coloca	em	conveniente	relevo	os	traços
característicos	 dominantes	 da	 organização	 estatal	 em	 cada	 um	 dos	 grandes
estágios	da	civilização.	Adotamos,	portanto,	a	sua	ordem	de	exposição:
1º)	O	Estado	oriental,	teocrático	e	politeísta,	destacando-se,	pelo	seu	feitio
mais	humano	e	mais	racional,	o	Estado	de	Israel.
2º)	O	Estado	grego,	 que	 se	 caracteriza	 por	 uma	 nítida	 separação	 entre	 a
religião	e	a	política.
3º)	 O	 Estado	 romano,	 expressão	 máxima	 da	 concentração	 política	 e
econômica.
4º)	 O	 Estado	 feudal,	 consequente	 da	 invasão	 dos	 bárbaros,	 que	 foi	 a
expressão	máxima	da	descentralização	política,	administrativa	e	econômica.
5º)	O	Estado	medieval,	a	partir	do	século	XI,	que	foi	uma	nova	expressão
da	 centralização	 do	 poder,	 com	 a	 preeminência	 do	Papado	 sobre	 o	 governo
temporal.
6º)	 O	 Estado	 moderno,	 que	 reagiu	 contra	 a	 descentralização	 feudal	 da
Idade	Média	 e	 contra	 o	 controle	 da	 Igreja	 Romana,	 revestindo	 a	 forma	 do
absolutismo	monárquico.
7º)	 O	Estado	 liberal,	 implantado	 pela	 revolução	 francesa	 e	 baseado	 no
princípio	da	soberania	nacional.
8º)	O	Estado	social	—	acrescentamos	—,	com	as	suas	diversas	variantes,	a
partir	da	primeira	guerra	mundial.
Podemos	traçar	aqui	o	seguinte	quadro	sinótico:
3.	O	ESTADO	ANTIGO
Os	Estados	mais	 antigos	 que	 a	 história	 relata	 foram	os	 grandes	 impérios
que	se	formaram	no	Oriente	desde	3.000	anos	antes	da	era	cristã.	Os	maiores
e	mais	 antigos	 foram	 os	 que	 se	 formaram	 na	Baixa	Mesopotâmia,	 banhada
pelas	águas	do	Tigre	e	do	Eufrates,	e	no	Egito,	banhado	pelo	Nilo.
É	comprovado	que	houve	anteriormente	outras	civilizações.	A	ciência	do
Estado,	 porém,	 estudando	 a	 evolução	 do	 poder	 político	 com	 base	 em
elementos	históricos,	 embora	deficientes,	 tem	como	 Idade	Antiga	 o	 período
que	 vem	 desde	 3.000	 a.C.	 até	 o	 século	 V	 da	 era	 cristã,	 quando	 o	 império
romano	desmoronou	ante	a	invasão	dos	bárbaros,	época	em	que	tem	início	a
Idade	Média.
Cerca	de	 2.800	 a.C.,	 na	Mesopotâmia,	 um	 rei	 de	Uruk	 teria	 conquistado
todas	 as	 cidades	 das	 regiões	 dos	 rios	 Tigre	 e	 Eufrates,	 criando	 um	 grande
império,	que	se	estendia	do	Golfo	da	Pérsia	ao	Mediterrâneo.	Outros	grandes
impérios	 surgiram	 na	 Ásia	 central	 e	 meridional.	 Ao	 norte	 da	 Babilônia
formaram-se	 os	 impérios	 dos	Mitâneos	 e	 dos	 Hititas.	 Na	 Índia	 e	 na	 China
ergueram-se	outros	impérios,	resultantes	de	novas	civilizações.
Em	 geral,	 nas	 antigas	 civilizações	 orientais	 não	 existiam	 doutrinas
políticas,	 mas,	 sim,	 uma	 única	 forma	 de	 governo,	 que	 era	 a	 monarquia
absoluta,	exercida	em	nome	dos	deuses	tutelares	dos	povos.
Os	 impérios	orientais	apresentavam	cada	um	suas	características	 formais,
seus	traços	peculiares;	porém,	tinham	muito	de	comum	nas	suas	linhas	gerais.
Não	comporta	o	nosso	programa	um	estudo	particular	de	cada	império.	Nosso
objetivo,	 neste	 ponto,	 é	 destacar	 as	 características	 comuns	 dos	 Estados
antigos,	definindo	em	linhas	gerais	o	seu	padrão.
O	primeiro	traço	comum	que	devemos	colocar	em	relevo	é	o	que	se	refere
à	 estrutura	 heterogênea	 daqueles	 Estados:	 eram	 formados	 e	 mantidos	 pela
força	 das	 armas.	Os	 povos	 viviam	 constantemente	 em	 guerra.	O	 imperador
que	 triunfasse	 em	 maior	 número	 de	 batalhas	 anexava	 os	 territórios
conquistados	 e	 escravizava	 as	 populações	 vencidas,	 formando	 um	 grande
império	com	plena	hegemonia	sobre	vastas	e	determinadas	regiões.
Em	 decorrência	 dessa	 origem	 pelo	 triunfo	 das	 armas,	 os	 impérios	 não
tinham	 uma	 base	 física	 definida.	 Seus	 territórios	 ora	 diminuíam	 em
consequência	de	derrotas	militares,	ora	aumentavam	em	decorrência	de	novas
conquistas.	Eram,	portanto,	instáveis,	sujeitos	às	modificações	que	resultavam
tanto	de	dissenções	internas	como	de	agressões	externas.
Pelas	 mesmas	 razões,	 os	 impérios	 antigos	 não	 eram	 Estados	 nacionais:
reuniam	 povos	 de	 diferentes	 raças,	 conquistados	 e	 escravizados.	 Eram,	 em
regra,	agrupamentos	humanos	heterogêneos.
A	diferenciação	de	classes	e	castas	era	outro	traço	comum.	Os	nobres,	os
chefes	militares	e	os	sacerdotes	do	culto	nacional	gozavam	de	largas	regalias,
enquanto	os	párias	e	os	escravos	viviam	à	margem	das	leis.	A	diferenciação
de	 castas,	 aliás,	 persiste	 ainda	 atualmente	 na	 Índia,	 embora	 com	 menor
intensidade.
Outro	 de	 seus	 caracteres	 gerais	 era	 a	 concentração	 de	 poderes	 numa
mesma	 pessoa,	 que	 acumulava	 as	 funções	 militar,	 judicial,	 sacerdotal	 e	 de
coleta	 de	 impostos.	 Essa	 acumulação	 de	 funções,	 principalmente	 nas
províncias	 longínquas,	 tornava	 o	 chefe	 local	 praticamente	 independente	 do
poder	central,	a	tal	ponto	que	o	emprego	se	transmitia	hereditariamente.
As	 monarquias	 orientais	 eram	 todas	 de	 feitio	 teocrático:	 o	 monarca	 era
representante	das	divindades,	descendente	 dos	deuses.	O	poder	 do	monarca
era	 absoluto,	 e,	 sendo	 equivalente	 ao	 poder	 divino,	 não	 encontrava
possibilidade	 de	 limitação	 na	 ordem	 temporal.	 No	 Egito,	 por	 exemplo,	 o
Faraó	era	a	encarnação	do	próprio	Deus	ou	descendente	direto	das	divindades
que	reinavam	no	Vale	do	Nilo.	Os	terríveis	reis	assírios	chamavam-se	vigários
dos	 deuses.	 O	 rei	 persa	 era	 sacerdote	magno.	 Amon,	 no	 Egito,	 Barduk	 ou
Shamasch,	na	Babilônia,	eram	deuses	nacionais.	O	califa,	vigário	do	profeta,
titulava-se	 príncipe	 dos	 crentes	 (Emir	 El	 Mumenin)	 e	 governava	 pelos
princípios	constantes	do	Alcorão.
Em	geral,	os	povos	orientais	eram	politeístas,	e,	por	isso,	como	nos	relata
Bigne	 de	 Villeneuve,	 o	 poder	 real	 só	 encontrava	 uma	 limitação	 de	 fato
imposta	 pelos	 privilégios	 de	 outras	 divindades,	 sempre	 defendidas	 por
poderosos	colégios	sacerdotais.
Politicamente,	os	antigos	impérios	orientais,	fundados	no	poder	das	armas
e	 no	 regime	 de	 escravidão,	 não	 possuindo	 um	 conceito	 de	 liberdade	 como
tiveram	 os	 gregos	 e	 os	 romanos,	 nada	 legaram	 ao	 Estado	 moderno.	 No
entanto,	no	que	tange	ao	progresso	cultural,	não	se	deve	perder	de	vista	que
no	 Egito	 e	 na	 Mesopotâmia	 nasceram	 a	 matemática	 e	 a	 astronomia.	 A
contribuiçãodos	 antigos	 impérios	 orientais	 ao	 progresso	 moral	 da
humanidade	 é	 também	 digna	 de	 nota:	 no	 antigo	 Código	 Hamurabi,	 que
vigorou	 na	 Babilônia	 por	 volta	 de	 2.200	 a.C.,	 encontram-se	 os	 princípios
basilares	 da	 ordem	 social	 e	 que	 foram	 as	 fontes	 luminosas	 da	 legislação
moderna.	O	mesmo	se	pode	dizer	do	Livro	dos	Mortos	dos	antigos	egípcios.
Além	disso,	foi	no	Oriente	que	se	formaram	as	grandes	religiões	educadoras
dos	povos,	como	o	budismo,	o	cristianismo	e	o	islamismo,	estas	duas	últimas,
ramos	do	vigoroso	tronco	judaico.
4.	O	ESTADO	DE	ISRAEL
Constituía	uma	exceção	entre	os	Estados	 antigos	do	Oriente	o	Estado	de
Israel,	 que	 era	 caracteristicamente	 democrático,	 no	 sentido	 de	 que	 todos	 os
indivíduos	tinham	a	proteção	da	lei,	inclusive	contra	o	poder	público.	O	povo
não	tinha	participação	efetiva	nos	negócios	do	Estado;	entretanto,	o	governo
dava	 proteção	 aos	 fracos	 e	 desamparados,	 fossem	 cidadãos	 ou	 escravos,
nacionais	ou	estrangeiros.
Embora	desconhecesse	qualquer	limitação	jurídica,	o	governo	israelita,	em
verdade,	 conceituava-se	 como	 um	 poder	 limitado	 pelas	 leis	 de	 Jeová.	 As
Tábuas	 do	 Sinai,	Constituição	 do	 Estado	 de	 Israel,	 teriam	 sido	 ditadas	 por
Jeová	a	Moisés	quando	este	salvara	o	povo	do	cativeiro	no	Egito.	Segundo	a
crença	geral,	Deus	dirigia	 o	 povo	hebraico	pela	 voz	dos	 chefes	 e	 patriarcas
cheios	de	sabedoria.
O	rei	de	Israel	era	apenas	chefe	civil	e	militar,	escolhido	por	Deus	através
de	 uma	 manifestação	 providencial	 da	 vontade	 divina.	 E,	 em	 razão	 dessa
origem	do	seu	poder,	o	rei	era,	na	ordem	temporal,	o	intérprete	e	o	executor
da	vontade	de	Deus.
Toda	 a	 legislação	 judia	 era	 impregnada	 de	 profundo	 sentido	 humano	 e
democrático.	 Suas	 instituições,	 descritas	 na	 Bíblia,	 influíram
preponderantemente	 na	 configuração	 da	 Igreja	 primitiva,	 na	 formação	 do
pensamento	 político	 da	 Idade	 Média	 e,	 até	 mesmo,	 nos	 rumos	 do	 direito
público	dos	tempos	modernos.
Uma	 das	 instituições	 próprias	 do	 povo	 israelita	 foi	 o	 profetismo.	 Os
profetas	eram	homens	que	recebiam	inspiração	de	Deus,	e,	por	essa	razão,	a
sua	palavra	era	respeitada	e	acatada	por	todos,	inclusive	pelos	próprios	reis.	E
como	pregassem	os	princípios	eternos	das	leis	de	Deus	puderam	eles	impedir,
nos	 seus	domínios,	a	 tirania	dos	monarcas	absolutos,	 imprimindo	ao	Estado
de	Israel	uma	orientação	mais	humana,	mais	condizente	com	o	direito	natural
e	que	hoje	poderia	receber	o	qualificativo	de	democrática.
Extinguiu-se	o	Estado	antigo	de	Israel,	com	a	expulsão	de	Jerusalém.	Mas
a	 nação	 israelita	 subsistiu	 nestes	 dois	mil	 anos,	 sem	Estado,	 conservando	 a
sua	unidade	étnica,	religiosa	e	histórica.	E	ressurgiu	em	1948,	no	novo	Estado
de	Israel,	criado	pela	divisão	da	Palestina,	sob	a	liderança	de	Ben-Gurion	—	o
novo	Moisés	da	eterna	nação	judaica.
XX
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	II
1.	O	Estado	grego.	2.	“Polis”.	3.	Platão.	4.	Aristóteles.
1.	O	ESTADO	GREGO
Para	se	esboçar	os	traços	definidores	do	Estado	grego	não	se	poderia	seguir
à	 risca	 os	 modelos	 ideais	 de	 Platão	 e	 Aristóteles,	 expostos	 em	 divagações
metafísicas	 de	 filosofia	 e	 de	 ética,	 à	 margem	 da	 realidade	 e	 em	 sentido
programático.	Nem	 se	 poderia	 tomar	 como	modelo	 o	Estado	 lacedemônico,
de	 feitio	 ímpar,	 ou	 a	 república	 militarista	 de	 Esparta,	 como	 a	 descreveram
Platão	e	Xenofonte.
O	 Estado	 helênico	 típico,	 que	 exerceu	 larga	 influência	 no	 evolver	 da
civilização	 clássica,	 encontra-se	 nas	 magníficas	 instituições	 atenienses	 do
Século	de	Péricles.
Este	 período	 de	maior	 esplendor	 da	 civilização	 grega	 se	 coloca	 entre	 os
séculos	VI	e	IV	a.C.,	e	Péricles	viveu	precisamente	nos	anos	de	490-429	a.C.,
tendo	projetado	Atenas	ao	apogeu	do	seu	poderio	militar,	do	seu	prestígio	e
das	suas	glórias	imorredouras.
Primeiramente,	a	partir	do	século	IX	a.C.,	o	Estado	grego	era	monárquico	e
tipicamente	 patriarcal.	 Cada	 Cidade	 tinha	 o	 seu	 Rei	 e	 o	 seu	 Conselho	 de
Anciãos.	Só	em	casos	de	maior	 importância	se	convocavam	as	Assembleias
Gerais	dos	Cidadãos.	Os	dirigentes	daqueles	pequenos	Estados	monárquicos
apoiavam-se	na	classe	aristocrática,	a	qual,	na	realidade,	tanto	na	monarquia
quanto	na	república,	se	manteve	como	classe	dominante.
O	Estado	 grego	 antigo,	 geralmente	 apontado	 como	 fonte	 da	 democracia,
nunca	 chegou	 a	 ser	 um	 Estado	 democrático	 na	 acepção	 do	 direito	 público
moderno.	O	próprio	Estado	ateniense,	no	auge	da	sua	glória,	sob	a	liderança
de	 Péricles,	 apresentava,	 na	 sua	 população	 de	 meio	 milhão	 de	 habitantes,
cerca	de	60%	de	escravos,	sem	direitos	políticos	de	qualquer	espécie,	além	de
cerca	 de	 20.000	 estrangeiros.	 Resumiam-se	 a	 pouco	 mais	 de	 40.000	 os
cidadãos	que	governavam	Atenas	e	constituíam	a	soberania	do	Estado.
2.	“POLIS”
O	Estado	grego	antigo,	monárquico	ou	republicano,	foi	sempre	o	Estado-
Cidade,	denominado	Polis,	circunscrito	aos	limites	da	comunidade	urbana	ou
cantonal.
A	 Polis	 começou	 a	 evoluir,	 a	 partir	 do	 século	 VIII	 ou	 IX	 a.C.,	 da
monarquia	 patriarcal	 para	 a	 república	 democrática	 direta,	 de	 fundo
aristocrático.	Todavia,	mesmo	no	tempo	dos	reis,	não	chegou	a	ser	um	regime
de	 tirania	 ou	 de	 desenfreado	 despotismo	 monárquico,	 pois	 havia	 já	 a
contenção	 do	 poder	 real	 pelo	Conselho	 dos	Anciãos	 e	 pela	Assembleia	 dos
Cidadãos.	 Por	 isso	 mesmo,	 fácil	 foi	 o	 caminhamento	 da	 evolução	 para	 a
forma	republicana.
Em	 fins	 do	 século	 IV	 a.C.	 completou-se	 essa	 evolução,	 surgindo	 a
constituição	 clássica	 da	 Cidade	 helênica.	 O	 Estado	 ateniense,	 com	 seu
magnífico	corpo	de	leis,	foi,	sem	dúvida,	a	mais	bela	expressão	da	democracia
grega.
O	 Conselho	 dos	 Anciãos	 deixara	 de	 ser	 o	 órgão	 principal	 do	 Estado:
tornara-se	eletivo	e	subordinado	à	Assembleia	dos	Cidadãos.	As	magistraturas
tornaram-se	 temporárias;	 as	 pessoas	 eram	 escolhidas	 e	 nomeadas	 pela
Assembleia	 Geral	 com	 mandato	 por	 um	 ano.	 Os	 cidadãos	 investidos	 em
funções	públicas	eram	obrigados	a	prestar	contas	periódicas,	e,	quando	assim
não	procedessem,	eram	citados	diante	da	Assembleia	popular.
A	Polis	era	uma	associação	política	e	ao	mesmo	tempo	uma	comunidade
religiosa,	mas	não	se	confundiam	Estado	e	Religião	nas	mesmas	instituições.
As	 divindades	 gregas	 não	 conferiam	 caráter	 místico	 à	 autoridade,	 como
ocorria	nas	monarquias	orientais.
Não	 obstante,	 a	 Polis	 era	 de	 certo	 modo	 onipotente,	 e	 seu	 poder	 só
encontrava	limites	na	intervenção	do	povo	—	demos	—	nos	negócios	estatais
e	na	distribuição	da	justiça.
Os	Estados-Cidades	eram	numerosos	e,	consequentemente,	contavam	com
reduzida	capacidade	de	expansão.	Por	esse	motivo,	 instituíram	o	sistema	de
hegemonia,	 formando	 Confederações	 de	 Estados.	 Instituiu-se	 o	 Senado	 em
cada	 Polis,	 Assembleias	 Regionais	 para	 as	 ligas	 ou	 confederações,	 e
Assembleia	Geral	de	representação	dos	Estados	gregos,	como	a	anfitriônica,
de	caráter	confederal	amplo.
3.	PLATÃO
A	Grécia,	no	seu	período	clássico,	destacou-se	não	apenas	como	pioneira
no	desenvolvimento	das	artes	e	da	filosofia,	mas,	principalmente,	da	ciência
política.	Perseguindo	sempre	um	ideal	ético-estético,	como	diz	Pedro	Calmon,
os	atenienses	entendiam	que	a	verdade	(filosofia)	do	Estado	consistia	na	boa
opinião.	A	República	de	Platão,	por	isso	considerada	ideal,	é	o	Estado	justo,
que	realiza	a	unidade	possível	e	está	nas	mãos	dos	filósofos.
Segundo	 o	 ideal	 platônico,	 incumbe	 aos	 sábios	 reinar,	 aos	 guerreiros
proteger,	e	às	classes	obreiras	obedecer.	O	Estado	é	a	mais	alta	revelação	da
virtude	 humana;	 e	 só	 no	 Estado	 pode	 o	 homem	 atingir	 a	 sua	 perfeição	 e
realizar	a	plena	satisfação	do	seu	destino.
Na	 República,	 sua	 grande	 obra,	 Platão	 limita	 a	 1.000	 o	 número	 de
guerreiros,	 e	 afirma	 que,	 se	 o	 número	 de	 sábios	 é	 o	 mesmo,	 o	 número	 de
cidadãos	não	pode	ultrapassar	de	2.000.	Posteriormente,	no	Diálogo	das	Leis,admitiu	que	o	número	de	cidadãos	poderia	atingir	5.000.
Admitia	 a	 propriedade	 privada,	 com	 a	 condição	 de	 que	 dela	 não
resultassem	 sensíveis	 desigualdades	 de	 fortuna	 entre	 os	 cidadãos.	 A	 cada
cidadão	 deve	 ser	 dado	 um	 trecho	 de	 terra,	 clausulado	 de	 inalienabilidade	 e
transmissível	a	um	só	dos	filhos	herdeiros.
Manteve	 a	 instituição	 da	 família,	 mas	 preceituou	 que	 os	 jovens	 devem
contrair	matrimônio	de	acordo	com	os	conselhos	dos	sábios.	Em	decorrência
do	 princípio	 de	 limitação	 populacional	 da	 Polis,	 prescreve	 limites	 à
procriação	 e	 determina	 a	 necessidade	 de	 serem	 eliminados	 os	 filhos	 que	 se
apresentem	com	defeitos	físicos	ou	psíquicos,	sob	a	supervisão	do	Estado.
Conquanto	 revelasse	 profunda	 intuição	 política,	 relativamente	 à	 doutrina
do	 Estado-Cidade,	 certo	 é	 que	 Platão	 se	 extremou	 como	 teórico	 do	 Estado
forte,	 onipotente,	 totalitário.	 Tanto	 assim	 que	 reclamou	 para	 as	 classes
dirigentes	 dos	 sábios	 e	 guerreiros	 a	 comunidade	 das	 mulheres	 e	 dos	 bens,
rompendo,	 de	 certo	 modo,	 com	 os	 liames	 invioláveis	 da	 família	 e	 com	 o
princípio	tradicional	da	propriedade	privada.
4.	ARISTÓTELES
Aristóteles,	 menos	 imaginoso	 e	 mais	 realista,	 defende	 a	 manutenção	 da
família	 e	 da	 propriedade	 privada.	 Considera	 o	 homem	 como	 um	 ser
eminentemente	 político,	 com	 tendência	 inata	 para	 a	 vida	 em	 sociedade,	 e
encara	 o	 Estado	 como	 uma	 instituição	 natural,	 necessária,	 decorrente	 da
própria	natureza	humana.
O	 Estado,	 na	 doutrina	 sempre	 nova	 do	 grande	 filósofo	 estagirita,	 é
resultante	 dos	 movimentos	 naturais	 de	 coordenação	 e	 harmonia.	 Sua
finalidade	 primeira	 seria	 a	 segurança	 da	 vida	 social,	 a	 regulamentação	 da
convivência	 entre	 os	 homens	 e,	 em	 seguida,	 a	 promoção	 do	 bem-estar
coletivo.
Afirma	Aristóteles	que	o	Estado	deve	bastar-se	a	si	mesmo,	isto	é,	deve	ser
autossuficiente.	 Observe-se	 que	 nessa	 ideia	 de	 autarquia	 encontram	muitos
autores	a	gênese	da	soberania	nacional.
Em	 sua	 monumental	 obra	 Política	 chega	 Aristóteles	 a	 conclusões
diferentes	daquelas	que	Platão	consignou	na	sua	República.	Enquanto	o	 seu
mestre	 idealizou	o	 futuro	 alteando-se	muito	 além	da	 realidade	palpitante	 da
vida,	 o	 estagirita	 encarou	 a	 realidade	 corajosamente,	 procurando	 solucionar
praticamente	 os	 problemas	 atuais	 por	 aplicação	 imediata	 dos	 princípios	 de
justiça	 social.	Muito	 embora	 defendesse	 a	 escravidão	 por	 contingências	 do
momento	histórico,	estabeleceu	que	o	supremo	poder	da	cidade	deve	caber	à
multidão.	 Encaminhando	 a	 sua	 doutrina,	 seguramente,	 em	 direção	 do	 ideal
democrático,	 ensinou	 que,	 nas	 manifestações	 populares,	 a	 expressão
qualitativa	 deve	 ser	 levada	 em	 conta	 justamente	 com	 a	 expressão
quantitativa.
As	 experiências	 do	mundo	moderno,	 diga-se	 de	 passagem,	 confirmaram
plenamente	 esta	 assertiva:	 a	maioria	 que	 delibera	 não	 deve	 ser	 apenas	 uma
expressão	 numérica,	 mas	 também	 uma	 expressão	 das	 qualidades	 morais	 e
cívicas	 da	 comunidade	 nacional.	 Afinam	 com	 a	 doutrina	 aristotélica	 os
autores	modernos	quando	asseveram	que	a	educação	é	a	alma	da	democracia.
XXI
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	III
1.	O	Estado	romano.	2.	Origem.	3.	Conceito	de	“Civitas”.	4.	Poder
de	“Imperium”.	5.	Consulado.	6.	Magistraturas	e	pró-magistraturas.
7.	Ditadura.	8.	Colegialidade	das	magistraturas.	9.	Principado.
1.	O	ESTADO	ROMANO
O	 Estado	 romano	 que	 vamos	 focalizar	 é	 o	 Estado-Cidade,	 chamado
Civitas,	 paritário	 da	 Polis	 grega.	 A	 semelhança	 morfológica	 de	 ambos	 se
explica	 por	 um	certo	parentesco	étnico	 entre	 gregos	 e	 romanos	 antigos.	Na
formação	da	Civitas	exerceram	preponderante	influência	as	colônias	helênicas
estabelecidas	ao	longo	da	Itália	meridional.
Primitivamente	o	Estado	 romano	era	monárquico,	 do	 tipo	patriarcal.	Sua
evolução	 se	operou	da	 realeza	hereditária	para	 a	 república,	 tal	 como	 se	deu
com	a	Polis	grega.
2.	ORIGEM
O	 Estado	 romano	 tinha	 a	 sua	 origem,	 efetivamente,	 na	 ampliação	 da
família.	 A	 família	 era	 constituída	 pelo	 pater,	 seus	 parentes	 agnados,	 os
parentes	destes,	os	escravos	(servus)	e	mais	os	estranhos	que	se	associavam
ao	 grupo	 (famulus).	 A	 autoridade	 do	 pater	 familia	 era	 absoluta:	 pontífice,
censor	dos	costumes,	juiz	e	senhor,	com	poder	de	vida	e	morte	sobre	todos	os
componentes	do	grupo	(jus	vitae	et	necis).
Esse	poder	incontrastável	do	pater	familia	chamou-se	manus,	a	princípio,	e
depois	majestas.
Posteriormente	 a	 família	 assim	 constituída	 se	 dividiu	 em	 família
propriamente	dita,	conservada	sob	o	poder	soberano	do	pater,	e	gentes	(gens),
colocada	sob	o	poder	público,	e	que	foi	o	núcleo	inicial	do	Estado.
Daí	a	existência	das	duas	classes	em	que	se	dividiu	a	incipiente	população
romana:	 dos	 patrícios,	 que	 eram	 os	 próprios	 paters	 e	 seus	 descendentes,
formando	a	nobreza	dotada	de	privilégios	e	amplas	liberdades,	e	dos	clientes,
que	eram	os	servidores	das	famílias,	que	tinham	a	posse	e	o	uso	das	terras	que
cultivavam	 mas	 não	 o	 domínio,	 reservado	 este	 ao	 patrono	 (da	 classe	 dos
patrícios).	 Também	 no	 tocante	 à	 religião,	 somente	 os	 patrícios	 podiam
cumprir	as	cerimônias	do	culto	do	lar,	ou	culto	da	família.
Os	elementos	das	gens	deveriam	ser	obrigatoriamente	ligados	às	famílias.
Ainda	que	fossem	ex-escravos	ou	estrangeiros,	tinham	de	obter	a	sua	ligação
a	uma	família,	para	que	pudessem,	como	membros	de	uma	gens,	participar	da
sociedade	romana.
O	 primitivo	 Estado-Cidade	 dos	 romanos,	 portanto,	 era	 uma	 reunião	 de
gens.	As	gentes	reunidas	formavam	a	Curia;	várias	Curias	formavam	a	Tribu;
e	 diversas	 Tribus	 constituíam	 a	 Civitas.	 Esta	 possuía	 um	 Senado	 cujos
membros	 eram	 os	 pater	 familias.	 Por	 isso	 mesmo,	 ainda	 no	 decorrer	 do
Império,	os	senadores	conservaram	o	título	tradicional	de	pater.
Mais	tarde,	quando	dividida	a	sociedade	em	cinco	classes	distintas,	foram
estas	agrupadas	em	centúrias.
Inferior	à	classe	dos	clientes	 e	 inteiramente	 fora	 da	 comunidade	 romana,
existiu	 a	 plebe,	 formada	 por	 elementos	 provenientes	 de	 outras	 plagas,
desgarrados	das	famílias,	até	mesmo	patrícios	decaídos,	os	quais	não	tinham
família,	nem	pátria,	nem	religião.	Viviam	à	margem	de	vida	social,	sem	lei	e
sem	Deus.	Eram	os	párias.
Roma,	 a	 primeira	 das	 cidades	 itálicas,	 fundada	 por	 Rômulo	 no	 platô	 do
Monte	 Paladino,	 era	 a	 cidade	 dos	 patrícios	 e	 dos	 clientes.	 Dela	 não
participava,	 nem	mesmo	 se	 aproximava,	 a	 plebe,	 cujo	 alojamento	 se	 fez	 no
Asilo,	que	se	situava	no	outro	lado,	na	encosta	do	Monte	Capitolino.
Outros	 numerosos	 plebeus,	 que	 mais	 tarde	 chegaram	 às	 imediações	 de
Roma,	 se	 fixaram	 no	 Monte	 Aventino,	 onde	 permaneciam	 inteiramente
isolados	da	urbe	religiosa.
Os	 plebeus,	 multiplicando-se	 cada	 vez	 mais,	 passaram	 a	 exercer	 certa
influência,	 como	 força	 preponderante	 e	 necessária	 na	 defesa	 da	 cidade.	 E,
tendo	Sérvio	Túlio	reformado	fundamentalmente	o	sistema	de	divisão	social,
admitiu	 a	plebe	ao	convívio	dos	 romanos,	 embora	 a	mantivesse	 afastada	de
qualquer	participação	na	vida	política	e	religiosa.	Foi	então	que	se	dividiram
os	elementos	sociais	em	cinco	classes,	mas	a	nenhuma	delas	foram	admitidos
os	plebeus.
Com	a	queda	da	realeza	primitiva,	desmembraram-se	as	gens,	 libertaram-
se	os	clientes,	e	nem	a	classe	aristocrática	dos	patrícios	conseguiu	evitar	que	a
plebe	numerosa	conquistasse	os	seus	primeiros	direitos	de	cidadania.	Foi	essa
transformação	que	alguns	escritores	denominaram	revolução	social	da	Roma
republicana.
O	 Estado	 romano,	 muito	 semelhante	 ao	 Estado	 grego,	 tinha	 suas
características	 peculiares:	 distinguia	 o	 direito	 da	 moral,	 limitando-se	 à
segurança	da	ordem	pública;	a	propriedade	privada	era	um	direito	quiritário
que	 o	 Estado	 tinha	 empenho	 em	 garantir;	 o	 homem	 gozava	 de	 relativa
liberdade	em	face	do	poderestatal,	não	sendo	obrigado,	praticamente,	a	fazer
ou	deixar	de	fazer	alguma	coisa	senão	em	virtude	de	lei;	o	Estado	era	havido
como	nação	organizada;	a	vontade	nacional	era	a	 fonte	 legítima	do	Direito.
Tais	 características	 são	 expostas	 em	 interessantes	 detalhes,	 nas	 obras	 de
Cícero.
A	conquista	do	mundo,	sonho	dos	imperadores,	era	a	diretriz	suprema	de
sua	história.	Roma,	a	cidade	eterna,	seria	a	capital	do	universo.
3.	CONCEITO	DE	“CIVITAS”
Não	 se	 deve	 perder	 de	 vista,	 escreveu	 Queiroz	 Lima,	 que	 Roma	 se
conservou	 como	 Estado-municipal	 (Civitas)	 ainda	 quando	 se	 estendeu
chegando	 quase	 a	 realizar	 seu	 supremo	desideratum,	 que	 era	 o	 domínio	 do
mundo.	O	número	de	cidadãos	com	a	plenitude	dos	seus	direitos	(cives	optimo
jure)	se	estende	sobre	a	totalidade	dos	habitantes	do	Império,	mas	as	eleições
se	realizam	somente	em	Roma,	no	Campo	Marte,	única	seção	de	voto.	Os	que
ali	não	comparecessem	não	poderiam	exercer	o	direito	de	voto	(jus	sufragii)
nem	o	de	ser	votado	(jus	honorum).
4.	PODER	DE	“IMPERIUM”
Na	época	republicana,	o	poder	supremo	—	imperium	—	pertencia	ao	povo,
que	o	exercia	nos	comícios.	É	interessante	observar	que	no	Estado	romano	se
harmonizavam,	 num	complexo	 sistema	de	 governo,	 as	 três	 formas	 clássicas
de	Aristóteles:	 a	 realeza	 com	os	 cônsules,	 a	 aristocracia	 com	o	 senado,	 e	 a
democracia	com	os	comícios.
As	funções	legislativas	dos	comícios,	de	maior	 importância	na	fase	áurea
da	República,	foram	posteriormente	restringidas,	passando	ao	Imperador	e	ao
Senado.	Do	Senado	emanavam	senatus	consulta,	com	força	de	lei.	Perderam
os	 comícios,	 principalmente,	 a	 competência	 sobre	 questões	 financeiras	 e
política	 externa.	 Embora	 o	 Imperador	 Augusto	 admitisse	 ainda	 as	 funções
legislativas	 dos	 comícios,	 fazendo-os	 aprovar	 a	 lei	 Papia	 Poppea	 de
maritandis	ordinibus	e	a	lei	Julia	de	adulteriis,	destinada	a	proteger	a	família,
certo	 é	 que,	 na	 fase	 imperial,	 aquelas	 assembleias	 populares	 perderam	 a
participação	ativa	na	formação	das	leis.	Como	observa	G.	Mosca,	a	última	lei
aprovada	pelos	comícios	foi	uma	lei	agrária	de	Nerva,	no	ano	de	97	a.C.
Distinguiam-se	no	Estado	romano	três	espécies	de	poderes:	dominium	era
o	 poder	 menor,	 restrito	 ao	 âmbito	 das	 relações	 familiares;	 potestas,	 era	 o
poder	 maior,	 próprio	 dos	 magistrados	 com	 funções	 civis	 determinadas;
imperium	 era	 o	 poder	 supremo,	 poder	 político,	 de	 soberania,	 de	 comando
interno	e	externo.	O	poder	de	imperium	era	exercido	pelos	cônsules.
5.	CONSULADO
Os	primeiros	 cônsules	 foram	eleitos	pelas	 centúrias,	 no	 ano	de	510	 a.C.,
quando,	 depois	 da	 expulsão	 de	 Tarquinio,	 o	 Soberbo,	 quiseram	 os	 paters
eliminar	 a	 tirania.	 Foi	 então	 que	 Lucrécio,	 à	 vista	 das	 consultas	 que	 os
áugures	fizeram	a	Júpiter,	instituiu	o	Consulado.
Como	 os	 plebeus	 participassem	 das	 centúrias	 sem	 que	 possuíssem
qualidades	para	deliberar	em	assuntos	pertinentes	às	relações	do	Estado	com
os	seus	deuses	protetores,	foi	preciso	separar	o	poder	de	sacerdotium	do	poder
de	 imperium;	 as	 curias	 patrícias	 elegeram	 um	 sumo	 pontífice	 (pontifex
maximus)	que	exercia	o	sacerdócio,	em	caráter	vitalício,	enquanto	os	cônsules
tinham	investidura	por	um	ano.
Os	dois	cônsules,	formando	um	comando	único	do	Estado,	repartiam	entre
si	o	poder,	sendo	que,	em	tempo	de	guerra,	um	deles	ficava	na	cidade	(consul
togatus)	e	o	outro	assumia	o	comando	militar	(consul	armatus).
6.	MAGISTRATURAS	E	PRÓ-MAGISTRATURAS
A	autoridade	dos	cônsules	 foi	posteriormente	 limitada	em	decorrência	da
criação	das	diversas	magistraturas,	destacando-se,	pela	ordem:
a)	Questura	—	Escolhidos	pelos	próprios	cônsules	e	como	seus	auxiliares
imediatos,	 foram	 nomeados	 dois	 questores.	 Eram	 os	 questores	 juízes	 de
superior	alçada	na	ordem	civil.
b)	Pretura	—	 Eleitos	 mediante	 prévia	 consulta	 aos	 deuses,	 exerciam	 os
dois	 pretores	 plena	 jurisdição	 de	 fato.	 Em	 matéria	 de	 direito	 público	 suas
decisões	 estavam	 sujeitas	 ao	 veto	 consular.	 Porém,	 em	 matéria	 de	 direito
privado,	a	competência	dessa	grande	magistratura	era	absoluta.	Pronunciavam
os	 pretores	 as	 suas	 decisões	 sentados	 na	 curul,	 ditavam	posturas,	 expediam
regulamentos	e	publicavam	editais.	O	conjunto	desses	atos	formou	o	chamado
direito	pretoriano,	base	de	toda	a	maravilhosa	estrutura	do	direito	romano.
c)	 Censura	 —	 Os	 censores,	 também	 em	 número	 de	 dois,	 tinham	 a
administração	 dos	 domínios	 e	 rendas	 do	 Estado;	 exerciam	 a	 vigilância	 da
moralidade	pública	e	privada;	procediam	à	purificação	do	povo	etc.	Eram,	por
isso	mesmo,	os	mais	temidos	e	respeitados	dentre	os	magistrados	romanos.
d)	Tribunato	—	 Os	 tribunos	 eram	 eleitos	 entre	 os	 plebeus,	 nos	 comícios
das	tribus.	Essa	magistratura	foi	criada	por	uma	lex	sacrata.	Os	tribunos	eram
defensores	 do	 povo,	 pessoas	 invioláveis,	 acreditando-se	 que	 estavam	 eles
colocados	sob	a	salvaguarda	da	cólera	invencível	dos	deuses.
No	exercício	da	sua	função	protetora	dos	direitos	individuais,	os	 tribunos
recorriam	das	decisões	dos	magistrados,	interpondo	a	chamada	apelatio.	Por
esse	ato	vetavam	a	decisão	tornando-a,	de	pronto,	inoperante.
Além	 do	 direito	 de	 veto,	 conquistaram	 os	 tribunos,	 posteriormente,	 o
direito	 de	 iniciativa	 da	 plebe	 sobre	 questões	 de	 interesse	 coletivo
(plebiscitum).
e)	 Edilidade	 —	 Os	 edis	 eram	 quatro,	 sendo	 dois	 eleitos	 pela	 centúria,
mediante	consultas	simbólicas	aos	deuses,	e	dois	escolhidos	pelas	tribus,	entre
os	 plebeus,	 por	 via	 de	 manifestação	 plebiscitária.	 Conjuntamente	 os	 edis
formavam	o	Colegium.	Suas	funções	eram	equivalentes	às	dos	vereadores	dos
tempos	modernos,	com	jurisdição	administrativa	no	âmbito	municipal.
f)	 Pró-magistraturas	 —	 Com	 o	 grande	 desenvolvimento	 do	 Estado,
criando-se	 novas	 províncias	 a	 ser	 administradas,	 já	 no	 fim	 do	 período
republicano	e	 início	do	período	 imperial,	 foi	 instituído	o	pré-consulado.	Em
consequência,	desdobraram-se	as	demais	magistraturas,	 instituindo-se	a	pró-
questura,	a	pró-pretura	etc.
7.	DITADURA
Nos	casos	de	perigo	interno	ou	externo,	proclamado	o	estado	de	tumultus
(equivalente	 ao	 “estado	de	 sítio”	dos	 tempos	modernos),	 ficavam	suspensas
todas	 as	 garantias	 públicas,	 colocando-se	 todas	 as	 classes	 à	 disposição	 do
Estado.	Em	tal	emergência,	cabia	a	qualquer	dos	cônsules	nomear	um	ditador,
pelo	prazo	máximo	de	seis	meses;	nomeação	esta	que,	normalmente,	recaía	no
outro	cônsul.
O	 ditador	 ficava	 investido	 do	 poder	 de	 imperium,	 com	 autoridade
ilimitada,	 inteiramente	 irresponsável,	 sobrepondo-se	 de	 maneira	 absoluta	 a
todas	 as	 magistraturas	—	 respeitadas	 apenas	 as	 prerrogativas	 sagradas	 dos
tribunos	da	plebe.	A	 instituição	da	ditadura,	como	magistratura	excepcional,
justificava-se	em	nome	da	salvação	pública:	salus	publica	suprema	lex	est.
8.	COLEGIALIDADE	DAS	MAGISTRATURAS
O	 sistema	 de	 magistratura	 colegiada	 no	 Estado	 romano	 (dualidade	 de
magistrados	numa	função	única)	foi	uma	garantia	efetiva	contra	os	abusos	de
autoridade,	 notadamente	 pelo	 direito	 de	 veto	 que	 um	 magistrado	 podia
exercer	contra	a	decisão	do	magistrado	par.	O	cônsul,	o	questor,	o	pretor,	o
censor,	por	exemplo,	anulava	a	decisão	do	seu	par	pela	simples	declaração:	eu
me	oponho.
Cada	magistrado	era	soberano	por	si	só	na	esfera	de	ação	de	ambos,	mas	a
decisão	 definitiva	 devia	 resultar	 do	 consenso	 das	 duas	 inteligências,	 o	 que
limitava,	de	certo	modo,	o	arbítrio	de	cada	um.
Esse	veto	 do	magistrado	 par	 não	 se	 confunde	 com	 o	 veto	 do	 tribuno	 da
plebe,	que	podia	entravar	a	ação	da	magistratura	dual	em	nome	da	soberania
popular.	O	veto	do	magistrado	à	decisão	do	seu	par	equivalia	a	um	embargo
judicial,	 com	 a	 finalidade	 de	 suscitar	 um	 reexame	 do	 caso	 em	 conjunto	 e
assegurar,	 por	 esse	 meio,	 uma	 certa	 uniformidade	 das	 decisões.	 Por	 isso
mesmo,	o	veto	era	oposto	contra	a	decisão	inovadora,	para	que	prevalecesseo
princípio	tradicional.
Seria	esse	engenhoso	sistema	de	contenção	do	poder	pelo	poder,	idealizado
e	 praticado	 pelos	 romanos,	 a	 gênese	 do	 sistema	 democrático	 moderno	 de
tripartição	do	poder	do	Estado.
Temos	 aqui,	 em	 linhas	 gerais,	 um	 resumo	 dos	 princípios	 basilares	 do
Estado	romano,	no	período	da	velha	república,	sobre	o	qual	escreveu	Cícero:
“eu	o	sinto,	eu	o	declaro,	eu	o	afirmo,	não	há	nenhuma	forma	de	governo	que,
por	 sua	 constituição,	 por	 sua	 organização	 e	 por	 suas	 regras,	 possa	 ser
comparada	 a	 esta	 que	 nossos	 antepassados	 estabeleceram	 e	 nossos	 pais	 nos
transmitiram”	(De	Republica,	1,	46,	70).
9.	PRINCIPADO
Depois	 das	 ditaduras	 militares	 e	 das	 guerras	 civis,	 desmoronaram-se	 as
velhas	 e	 pujantes	 instituições	 republicanas,	 implantando-se	 o	 principado.
Depois	da	batalha	de	Actium,	disse	Tácito,	o	governo	de	um	só	apresentou-se
como	 condição	 necessária	 à	manutenção	 da	 paz,	mesmo	porque,	 acrescenta
Dion	 Cassius	 (História	 Romana	 LIII,	 19),	 era	 de	 todo	 impossível	 para	 os
romanos	salvarem-se	com	a	república.
O	regime	imperial	espezinhou	os	direitos	públicos	dos	indivíduos,	embora
possibilitasse	o	mais	amplo	desenvolvimento	do	 jus	privatum.	Até	mesmo	a
liberdade	de	religião	foi	suprimida	pela	onipotência	dos	césares,	pela	vontade
omnímoda	do	soberano	que	se	dizia	a	personificação	da	divindade.
A	 fase	 imperial,	 efetivamente,	 se	 distanciou	 muito	 das	 instituições
tradicionais.	O	imperador	concentrou	em	suas	mãos	a	totalidade	dos	poderes,
tornando-se	 a	 fonte	 única	 do	 direito,	 aureolado	 por	 uma	 completa
irresponsabilidade:	principis	legibus	solutus	est,	sentenciou	no	De	Legibus	o
próprio	Ulpiano.
XXII
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	IV
1.	O	Estado	medieval	e	suas	características.	2.	O	feudalismo.
1.	O	ESTADO	MEDIEVAL	E	SUAS	CARACTERÍSTICAS
O	império	romano	foi	o	último	dos	grandes	impérios	da	antiguidade.	O	seu
desmoronamento,	em	consequência	das	 invasões	bárbaras,	assinala	o	 fim	da
idade	antiga	e	o	início	da	Idade	Média.
Embora	 não	 haja	 termo	 inicial	 certo,	 é	 geralmente	 admitido	 que	 a	 Idade
Média	começa	no	século	V	da	era	cristã,	a	partir	da	queda	do	império	romano
no	ocidente	(ano	de	476),	e	 termina	no	século	XV,	com	o	descobrimento	da
América	(ano	de	1492).	Depois	do	século	XV	começa	a	Renascença,	com	as
grandes	descobertas.
Com	 a	 decadência	 do	 império	 romano	 deu-se	 o	 eclipse	 do	 Estado	 na
Europa	 ocidental.	 Os	 bárbaros,	 pelas	 suas	 invasões	 demolidoras,	 apagaram
todo	 o	 esplendor	 do	 cesarismo	 e	 fizeram	 erguer	 sobre	 os	 escombros	 do
paganismo	 dissoluto	 de	 Roma	 uma	 nova	 ordem	 estatal,	 segundo	 o	 estilo
germânico-oriental.
Nessa	nova	ordem	os	costumes	germânicos	substituíram	completamente	as
tradições	romanas.	Se	alguma	coisa	sobreviveu	ou	ressurgiu	da	velha	Roma,
ostentando	um	caráter	vigoroso	de	eternidade,	foi	o	direito	romano,	não	sem
passar	pelo	crivo	dos	glosadores	germânicos.
A	noção	de	Estado,	 inclusive,	desapareceu	na	voragem	daquela	violência
arrasadora,	para	 ressurgir	depois,	moldada	em	uma	nova	concepção	de	vida
mais	 compatível	 com	 a	 dignidade	 humana.	 Efetivamente,	 possuíam	 os
germânicos	 uma	 cultura	 política	 mais	 sadia,	 embora	 rudimentar,	 pois	 se
baseava	no	respeito	aos	princípios	de	direito	natural,	na	dignidade	do	homem,
na	 liberdade	 individual,	 na	 inviolabilidade	 da	 família	 e	 no	 direito	 de	 livre
associação.	 Os	 germânicos	 desconheciam	 o	 conceito	 de	 personalidade	 do
Estado,	 e,	 assim,	 todas	 as	 situações	 eram	 encaradas	 e	 solucionadas	 como
relações	de	ordem	individual,	no	plano	do	direito	natural.
Embora	 a	 princípio	 as	 hordas	 invasoras	 empregassem	 uma	 violência
extremada,	 espoliando	 e	massacrando	 as	 populações	 vencidas,	 inclusive	 no
período	 de	 transição	 quando	 procuravam	 situar-se	 como	 exército	 de
ocupação,	 é	 inegável	 que	 implantaram	 no	 ocidente	 o	 primado	 da	 lei	 e	 da
razão,	contribuindo	assim	para	a	nova	configuração	do	Estado	medieval.
O	Estado	medieval	é	uma	afirmação	solene	da	supremacia	da	lei,	segundo
a	 afirmação	 de	 Carlyle.	 Os	 usos	 e	 costumes	 foram	 as	 fontes	 principais	 do
direito,	em	consonância	com	as	regras	superiores	do	direito	natural,	de	fundo
eminentemente	cristão,	prescrevendo	como	deveres	do	homem	a	união	com
Deus	e	a	fraternidade	com	os	seus	semelhantes.	O	direito	natural	é	a	própria
lei	eterna,	incontingente,	imutável,	que	Deus	inseriu	na	consciência	de	todos,
tendo	como	preceito	basilar	que	o	homem	não	deve	fazer	aos	outros	o	que	não
quer	que	lhe	façam.
De	conformidade	com	esse	pensamento	dominante,	o	Rei	ou	legislador	na
Idade	Média,	é	antes	de	tudo	um	servo	da	lei.	Não	da	lei	como	manifestação
sobrenatural	 da	 vontade	 de	 Deus,	 nem	 como	 obra	 arbitrária	 da	 vontade
humana,	mas,	sim,	como	obra	integral	da	razão	—	sciencia	rectrix	de	todas	as
ciências	 sociais.	 A	 Idade	 Média,	 aliás,	 não	 conheceu	 o	 absolutismo
monárquico	 com	 as	 características	 que	 assumiu	 essa	 forma	 de	 governo	 na
renascença	e	no	início	da	idade	moderna.	O	absolutismo	monárquico	apareceu
no	declínio	da	civilização	medieval.
Tal	 circunstância	 levou	 Montesquieu	 a	 considerar	 como	 originários	 das
florestas	da	Germânia	os	germes	das	Constituições	democráticas.
O	Estado	medieval	caracteriza-se	ainda	pela	confusão	que	se	fazia	entre	os
direitos	 público	 e	 privado.	 Dessa	 confusão	 resultava	 que	 o	 proprietário	 de
terras	se	investia	de	direitos	soberanos	sobre	todas	as	pessoas	residentes	nos
seus	domínios.	O	direito	patrimonial	das	grandes	famílias	foi	pouco	a	pouco
assimilando	 o	 poder	 administrativo	 do	 Estado,	 surgindo	 daí	 uma	 entidade
intermediária	entre	o	Rei	e	o	indivíduo:	o	feudo	ou	comuna.
Resumindo:	são	características	fundamentais	do	Estado	medieval:	a)	forma
monárquica	de	governo;	b)	supremacia	do	direito	natural;	c)	confusão	entre	os
direitos	público	e	privado;	d)	descentralização	feudal;	e)	submissão	do	Estado
ao	poder	espiritual	representado	pela	Igreja	romana.
Passaremos	a	analisar	o	sistema	feudal,	deixando	para	o	capítulo	seguinte
as	relações	entre	o	Estado	medieval	e	a	Igreja	romana.
2.	O	FEUDALISMO
A	 descentralização	 feudal	 foi	 uma	 das	 mais	 notáveis	 características	 do
Estado	na	Idade	Média.
Para	 alguns	 autores	 foi	 uma	 continuação	 da	 fase	 de	 desaparecimento	 ou
quase	desaparecimento	do	Estado.	Quando	assim	não	seja	encarado,	não	resta
dúvida	que	o	 feudalismo	assinalou	uma	 longa	 fase	de	acentuada	decadência
da	organização	política.
O	 Estado	 medieval,	 que	 se	 ergueu	 sobre	 os	 escombros	 das	 invasões
bárbaras,	como	já	foi	dito,	 recebeu	a	 influência	preponderante	dos	costumes
germânicos.	As	tradições	romanas	pouco	ou	nada	influíram.	Os	reis	bárbaros,
francos,	godos,	lombardos	e	vândalos,	uma	vez	completada	a	dominação	dos
vastos	 territórios	 que	 integravam	 a	 órbita	 de	 hegemonia	 do	 extinto	 império
cesarista,	passaram	a	distribuir	cargos,	vantagens	e	privilégios	aos	seus	chefes
guerreiros,	resultando	daí	a	fragmentação	do	poder.	E	como	fossem	imensos
os	 territórios	 e	 impossível	 a	 manutenção	 da	 sua	 unidade	 sob	 um	 comando
central	único,	criaram	uma	hierarquia	imperial	de	condes,	marqueses,	barões	e
duques,	 os	 quais	 dominavam	 determinadas	 zonas	 territoriais,	 como
concessionários	 do	 poder	 jurisdicional	 do	 Rei.	 Em	 compensação,	 tais
concessionários	 se	 comprometiam	 a	 defender	 o	 território,	 prestar	 ajuda
militar,	pagar	 tributos	e	manter	o	princípio	da	fidelidade	de	todos	os	súditos
ao	Rei.
O	 senhor	 feudal	 era	 o	 proprietário	 exclusivo	 das	 terras,	 sendo	 todos	 os
habitantes	 seus	vassalos.	Exercia	o	 senhor	 feudal	 as	atribuições	de	chefe	de
Estado,	 decretava	 e	 arrecadava	 tributos,	 administrava	 a	 justiça,	 expedia
regulamentos	e	promovia	a	guerra.	Era	uma	espécie	de	rei	nos	seus	domínios.
Seu	reinado,	porém,	repousava	sobre	um	conceito	de	direito	privado,	não	de
direito	 público.	 Desse	 fato	 resultaram	 anomaliastais	 como	 a	 jurisdição
privada,	a	cunhagem	privada,	a	guerra	privada	etc.
A	posse	das	terras	era	vitalícia	e	hereditária,	operando-se	a	sucessão	causa
mortis	 pelo	 direito	 de	 primogenitura:	 a	 senhoria	 feudal	 passava
automaticamente	 ao	 mais	 velho	 herdeiro	 varão	 do	 feudatário	 falecido.
Idêntica	era	a	instituição	do	morgadio	no	direito	português.
O	regime	feudal	generalizou-se	inclusive	entre	o	Clero,	o	qual,	pelos	seus
altos	 dignatários,	 adquiria	 vastos	 latifúndios,	 adotando	 idêntica	 ordem
hierárquica	e	instituindo	o	sistema	dominial	como	condição	de	vida.
A	 crescente	 multiplicação	 dos	 feudos,	 a	 reação	 das	 populações
escravizadas,	 o	 desenvolvimento	 da	 indústria	 e	 do	 comércio	 e	 as	 pregações
das	 novas	 ideias	 racionalistas	 minaram	 os	 alicerces	 e	 abriram	 profundas
brechas	na	 estrutura	da	velha	 construção	 feudal,	 dando	 lugar	 ao	 surgimento
das	nacionalidades	e	à	restauração	do	Estado	sobre	a	base	do	direito	público.
As	 próprias	 populações	 sacrificadas	 por	 aquele	 longo	 regime	 de
vassalagem	 procuraram	 refúgio	 na	 unidade	 do	 Estado,	 na	 centralização	 do
poder	e	no	fortalecimento	do	governo.
Suprimidas	as	autonomias	feudais,	no	fim	da	Idade	Média,	iniciou-se	uma
nova	fase	de	grandeza	do	Estado	monárquico,	sob	a	forma	absolutista.
XXIII
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	V
1.	O	Estado	medieval	e	a	Igreja	romana.	2.	Santo	Agostinho,	Santo
Tomás	de	Aquino	e	outros	doutrinadores.
1.	O	ESTADO	MEDIEVAL	E	A	IGREJA	ROMANA
O	Estado	medieval	 que	 emergiu	 das	 invasões	 bárbaras	 cristalizou-se	 em
torno	 da	 Igreja	 romana.	 Sobreviveu	 esta	 à	 ruína	 do	 poder	 temporal,
ostentando,	 vigorosa,	 a	 força	 do	 seu	prestígio,	 como	 refúgio	 para	 o	 espírito
dos	 homens	 nos	 momentos	 mais	 graves	 da	 história	 da	 humanidade.	 Como
acentua	Pedro	Calmon,	a	Igreja	cristã,	“pelo	batismo	dos	bárbaros,	pelo	poder
dos	Bispos	e	pela	influência	da	fé	sobre	os	guerreiros	convertidos,	contrapôs
ao	Estado	marcial	o	religioso,	à	força	bruta	a	teologia,	à	violência	heroica	dos
invasores	a	disciplina	moral	do	clero	ascético”.
E,	assim,	toda	a	história	política	da	Idade	Média	gira	em	torno	das	relações
entre	o	Estado	e	a	Igreja	Romana.
Nos	 seus	 primeiros	 tempos	 os	 cristãos	 não	 se	 interessaram	 pelo	 poder
temporal.	Esse	desinteresse,	em	verdade,	resultava	dos	ensinamentos	de	Jesus
Cristo,	quando	disse	que	seu	reino	não	era	deste	mundo,	bem	assim	quando
estabeleceu	a	nítida	distinção	entre	os	dois	poderes,	dizendo	que	se	devia	dar
a	 César	 o	 que	 é	 de	 César	 e	 a	 Deus	 o	 que	 é	 de	 Deus,	 isto	 é,	 ao	 Estado	 o
governo	do	corpo	e	a	Deus	o	governo	do	espírito.
Durante	 os	 primeiros	 cinco	 séculos	 os	 Imperadores	 detinham	 o	 poder
temporal	e	o	poder	espiritual,	mas	este	era	um	poder	anticristão.	Consolidado
o	 Estado	 medieval,	 depois	 das	 invasões	 bárbaras,	 o	 Papa	 São	 Gelásio	 I
formulou	a	 teoria	da	separação	e	coexistência	dos	dois	poderes,	nos	 fins	do
século	V.	Sustentou	esse	Pontífice	que	Deus	quis	separar	o	poder	espiritual	do
poder	 temporal	 para	 evitar	 os	 abusos	 que	 decorreriam	 fatalmente	 da
acumulação	 dos	 dois	 poderes.	 E	 acentuou	 que,	 no	 domínio	 eclesiástico,	 o
Bispo	é	superior	ao	Imperador,	e,	no	domínio	das	coisas	laicas,	o	Imperador	é
superior	ao	Bispo.
No	ano	de	590,	o	Papa	Gregório	I	assumiu	o	governo	civil	de	Roma,	que	a
Igreja	 conservaria	 até	 1870,	 época	 em	que	 se	 deu	 a	 unificação	 dos	Estados
italianos,	 com	 a	 incorporação	 de	 Roma,	 estabelecendo-se	 o	 dissídio	 que
terminou	com	a	concordata	de	1929,	instituindo-se	dentro	da	antiga	Santa	Sé
o	Estado	do	Vaticano.
A	partir	do	século	VII,	começou	a	desenvolver-se	a	doutrina	da	supremacia
do	poder	 espiritual	 sobre	o	poder	 temporal.	O	 trono	de	São	Pedro	passou	a
exercer	larga	influência	sobre	os	reis	medievais,	convertidos	ao	cristianismo,
não	obstante	se	mantivesse	a	separação	teórica	entre	os	dois	domínios,	entre	o
poder	da	espada	e	o	poder	da	cruz.
A	superioridade	do	Bispo	no	domínio	espiritual	adquiriu	 foros	de	dogma
depois	 que	 Santo	 Ambrósio,	 resolutamente,	 impediu	 que	 o	 Imperador
Teodósio	 entrasse	 no	Domo	 de	Milão	 para	 comemorar	 a	 Páscoa.	 Alegou	 o
Papa	que,	por	haver	ordenado	os	massacres	de	Salônica,	o	Imperador	tinha	as
mãos	manchadas	de	sangue	humano.
O	entendimento	predominante	era	o	de	que	o	poder	espiritual	governa	as
almas	 e	 o	 poder	 laico,	 o	 corpo,	 mas,	 como	 a	 alma	 é	 superior	 ao	 corpo,	 a
autoridade	 eclesiástica	 é	 superior	 à	 autoridade	 laica.	 Demais,	 o	 poder
temporal	provém	de	Deus	—	omnis	potestas	a	Deo	—,	como	doutrinara	São
Paulo.
A	 preeminência	 do	 Papado	 sobre	 os	 monarcas	 medievais	 era	 de	 ordem
espiritual.	O	Estado	era	de	fundamento	teológico,	mas	não	se	confundia	com
o	 feitio	 teocrático	 das	monarquias	 orientais,	 isto	 é,	 com	o	 sistema	dos	 reis-
deuses	da	antiguidade.	O	rei-cristão	da	Idade	Média	recebia	o	poder	das	mãos
do	Bispo,	era	consagrado	no	ato	de	sua	 investidura	e	ungido	ao	pé	do	altar.
Daí	a	sua	subordinação	ao	poder	espiritual,	considerado	originário	e	superior.
A	partir	do	século	XI	a	Igreja	firmou	uma	completa	supremacia	do	poder
espiritual	sobre	o	poder	temporal,	pela	ação	vigorosa	de	Hildebrando,	o	Papa
Gregório	 VII,	 que	 foi	 o	 maior	 Pontífice	 em	 toda	 a	 Idade	 Média.	 Essa
supremacia	positivou-se	a	partir	do	famoso	episódio	de	Canossa.	Obstinado	e
tirano,	o	Imperador	Henrique	IV	recusou-se	a	reconhecer	os	direitos	da	Igreja
no	 tocante	 à	 nomeação	 dos	 Bispos,	 insistindo	 em	 manter	 o	 processo	 de
investidura	secular	que	vigorava	há	dois	séculos.	Hildebrando	o	excomungou
e	 o	 declarou	 deposto	 do	 trono.	 Henrique	 IV	 resistiu	 mas,	 premido	 pela
crescente	revolta	dos	nobres,	teve	que	se	submeter	ao	Papa.	Tentando	livrar-se
da	excomunhão,	empreendeu	longa	e	penosa	viagem,	com	a	rainha	e	o	filho
menor,	atravessando	os	Alpes	nevados	num	rigoroso	inverno,	até	o	castelo	de
Canossa,	 na	 Lombárdia,	 para	 implorar	 o	 perdão	 do	 Papa.	 Assim	 mesmo,
Hildebrando	 recusou-se	 a	 recebê-lo	 durante	 três	 dias.	 Finalmente,	 o
Imperador	 sujeitou-se	 a	 uma	 extrema	 humilhação:	 numa	 madrugada	 foi
descalço	até	o	portão	do	castelo,	onde	continuou	batendo	durante	todo	o	dia	e
implorando	misericórdia.	Só	depois	de	dois	dias	o	Papa	aquiesceu	em	discutir
as	condições	do	perdão.	Ficou	estabelecido	que	o	monarca	do	Santo	Império
Romano	submeteria	a	sua	coroa	à	decisão	dos	nobres	e,	se	permanecesse	com
ela,	submeter-se-ia	ao	Papa	em	tudo	o	que	fosse	de	interesse	da	Igreja.
Com	 essa	 vitória	 do	 Papa	 sobre	 o	 poderoso	 Imperador	 ficou	 firmado	 o
princípio	de	que	a	 investidura	dos	monarcas	dependeria	sempre	do	exame	e
da	 confirmação	 da	 Igreja.	 Hildebrando	 destituiu	 e	 nomeou	 Imperadores,
exercendo	inteira	soberania	sobre	o	poder	civil,	o	que	perdurou	durante	cerca
de	três	séculos,	ou	seja,	até	o	fim	da	Idade	Média.
2.	 SANTO	AGOSTINHO,	 SANTO	TOMÁS	DE	AQUINO	E	OUTROS
DOUTRINADORES
No	 campo	 doutrinário	 prevaleceu	 a	 interpretação	 de	 Santo	 Agostinho,
coerente	com	a	teoria	do	Papa	São	Gelásio	I,	estabelecendo	que	a	autoridade
temporal	tem	sua	origem	em	Deus	e	está	subordinada	à	autoridade	espiritual,
que	se	enfeixa	nas	mãos	do	Papa,	Vigário	de	Deus	na	terra.	Essa	doutrina	foi
amplamente	 desenvolvida	 por	 um	 dos	 maiores	 escritores	 da	 Idade	 Média,
Santo	 Tomás	 de	 Aquino	 (1225-1274).	 A	 sua	 doutrina	 da	 separação	 dos
poderes	 e	 da	 preeminência	 do	 Papa	 em	 relação	 aos	 governos	 temporais	 foi
consubstanciada	 na	 obra	 De	 regimine	 principium,	 sendo	 posteriormente
ratificada	 em	 concílio	 da	 Igreja.	 Alguns	 autores	 contestam	 a	 autenticidade
dessa	obra,	não	pelo	seu	conteúdo,	mas	pela	sua	forma,	que	não	corresponde
com	 o	 estilo	 elevado	 daquele	 grande	 escritor.	 Outros	 afirmam	 que	 ela
reproduz	um	curso	de	ciência	política	que	Santo	Tomás	deu	na	Universidade
de	Nápoles,	não	tendo	passado	pela	revisão	do	mestre.	Não	se	deve	confundir
o	De	 regimine	 principiumcom	 outra	 obra	 de	 igual	 título,	 escrita	 pelo	 seu
contemporâneo	Egídio,	professor	de	Felipe,	o	Belo.
A	 principal	 obra	 de	 Santo	 Tomás	 de	 Aquino,	 porém,	 é	 a	 Summa	 Theo-
logica,	que	trata	da	política,	dos	assuntos	de	ordem	social	e	das	relações	entre
a	 Igreja	 e	 o	 Estado.	Neste	 particular	 afirma	 o	 doutor	 angélico	 que	 à	 Igreja
incumbe	 a	 direção	 das	 almas	 e	 ao	 Estado	 a	 dos	 corpos.	 Cada	 uma	 destas
instituições	tem	plena	autonomia	no	seu	domínio,	não	devendo	invadir	a	área
própria	 da	 outra.	 Porém,	 sempre	 que	 ocorrer	 conflito,	 deve	 prevalecer	 a
autoridade	do	Papa,	que	é	originária	e	superior.
A	doutrina	da	separação	e	coexistência	harmônica	dos	dois	poderes,	com	o
princípio	da	 supremacia	da	autoridade	espiritual,	nos	casos	de	conflito,	 sem
embargo	de	alguns	desvirtuamentos	ou	exorbitâncias	da	autoridade	papal,	foi
sempre	 mantida	 pela	 Igreja,	 mesmo	 porque	 encontra	 ressonâncias	 nas
próprias	 palavras	 de	 Cristo,	 quando	 disse	 a	 Pilatos:	 Nenhum	 poder	 terias
sobre	mim	se	te	não	fora	dado	lá	de	cima	(Joan.	XIX,	II).	No	mesmo	sentido
foi	a	afirmação	de	São	Paulo:	non	est	enim	potestas,	nisi	a	Deo.
Como	já	 foi	 referido,	a	partir	do	século	XI	o	princípio	da	supremacia	do
poder	 espiritual	 foi	 levado	 às	 suas	 extremas	 consequências.	 O	 Papado
revestiu-se	 da	 onipotência	 do	 antigo	 império	 universal	 romano.	 Como
afirmou	o	Prof.	Machado	Paupério,	o	esplendor	do	Papado	passou	a	eclipsar	o
esplendor	 das	 monarquias.	 A	 Igreja	 seria	 como	 o	 sol,	 enquanto	 o	 Estado
espalhava	 tão	somente	a	 luz	 refletida.	Em	outra	comparação,	o	Papa	seria	o
sol,	 enquanto	o	 Imperador	 representava	 a	 lua,	 que	 recebia	do	 sol	 a	 sua	 luz.
Essa	 doutrina	 foi	 refutada	 por	 Dante	 Alighieri,	 na	 sua	 obra	De	 monarchia
(1308),	onde	sustentou	a	tese	de	que	o	Imperador	tinha	a	plenitude	do	poder
temporal	 e	 devia	 exercer	 esse	 poder	 de	 conformidade	 com	 as	 leis	 de	Deus,
porém	 independentemente	 de	 obediência	 ao	 Papa.	 Na	 sua	 argumentação
referiu-se	 o	 poeta	 ao	 sistema	 de	 Ptolomeu,	 muito	 em	 voga	 naquela	 época,
segundo	 o	 qual	 a	 lua	 recebia	 realmente	 do	 sol	 a	 sua	 luz,	 mas	 não	 o	 seu
movimento.
Guilherme	de	Ockam,	cognominado	doctor	invincibilis	et	subtilissimus,	foi
outro	 escritor	medieval	 que	 sustentou	 igual	 tese,	 quando	 tomou	 partido	 em
favor	do	Imperador	Luiz	da	Baviera.
No	 mesmo	 sentido	 de	 defesa	 da	 autoridade	 civil,	 destacou-se,	 pela	 sua
pujança	 intelectual	e	pela	sua	 influência,	o	escritor	Marsílio	de	Padua,	autor
da	 famosa	 obra	 Defensor	 pacis	 (1324),	 escrita	 em	 defesa	 do	 mesmo
Imperador	Luiz	da	Baviera,	que	se	encontrava	em	luta	acirrada	com	o	Papa
João	XXII.	Sustentou	Marsílio	o	princípio	da	soberania	popular	que	deveria
representar-se	 numa	 câmara	 legislativa;	 pregou	 a	 independência	 recíproca
entre	 a	 Igreja	 e	 o	 Estado;	 profligou	 a	 perseguição	 dos	 hereges	 porque	 a
conversão	deles	competia	à	Igreja,	devendo	ser	obtida	pela	argumentação	dos
teólogos	 e	 não	 pela	 força	 do	 braço	 secular;	 e,	 na	 sua	 obra	 De	 causis
matrimonialibus,	defendeu	o	ponto	de	vista	de	que	a	anulação	dos	casamentos
competia	exclusivamente	à	autoridade	civil.
No	 fim	 da	 Idade	Média,	 com	 a	 queda	 de	 Constantinopla,	 o	 domínio	 do
islamismo	 sobre	 todo	 o	 oriente,	 a	 reforma	 religiosa	 e	 a	 influência	 das
doutrinas	 anticlericais,	 as	monarquias	 se	 desvencilharam	 do	 domínio	 papal,
caminhando	para	a	forma	absolutista	que	assinala	o	período	de	transição	para
os	tempos	modernos.
XXIV
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VI
1.	 Das	 monarquias	 medievais	 às	 monarquias	 absolutas.	 2.	 A
doutrina	de	Maquiavel.
1.	DAS	MONARQUIAS	MEDIEVAIS	ÀS	MONARQUIAS	ABSOLUTAS
Quando	a	Igreja	romana,	já	no	ocaso	da	Idade	Média,	começou	a	sofrer	os
ataques	do	liberalismo	religioso	e	da	filosofia	racionalista,	reagiu	de	maneira
vigorosa,	 enquanto	 o	 governo	 temporal,	 por	 sua	 vez,	 entrou	 em	 luta	 aberta
contra	o	Papado.	Um	dos	episódios	que	assinalam	o	termo	inicial	dessa	 luta
foi	 a	 prisão	 do	 Papa	 Bonifácio	VIII	 por	 Felipe,	 o	 Belo,	 Rei	 da	 França,	 no
século	 XIV.	 O	 Papado	 deslocou-se	 de	 Roma	 para	 Avinhão,	 no	 Reno,	 em
território	francês,	permanecendo	nesse	Cativeiro	Babilônico	durante	sessenta
e	 oito	 anos.	 A	 volta	 do	 Papado	 com	 Gregório	 XI	 a	 Roma,	 em	 1377,	 não
restaurou	o	prestígio	da	Santa	Sé,	dado	o	advento	do	Grande	Cisma,	com	a
existência	 de	 dois	 Papas,	 um	 em	Roma	 e	 outro	 em	Avinhão,	 durante	mais
trinta	anos	aproximadamente.	Liberadas	do	poder	de	Roma	e	fortalecidas	pela
dissolução	 do	 feudalismo,	 as	 monarquias	 medievais	 caminharam	 para	 a
centralização	 absoluta	 do	 poder,	 chegando	 a	 suplantar	 a	 própria	 autoridade
eclesiástica.
Um	dos	primeiros	expoentes	do	absolutismo	monárquico	que	se	inicia	no
século	 XV	 foi	 Luiz	 XI,	 Rei	 da	 França,	 o	 qual	 anexou	 à	 coroa	 os	 feudos,
subjugou	 a	 nobreza	 guerreira	 e	 pôs	 em	 prática	 uma	 violenta	 política
unificadora	 que	 seria	 sustentada	 por	 Richelieu	 e	Mazarin,	 até	 atingir	 o	 seu
apogeu	com	Luiz	XIV.
O	 absolutismo	 monárquico	 que	 compõe	 o	 período	 de	 transição	 para	 os
tempos	modernos	teve	as	suas	fulgurações	produzidas	pelo	verniz	teórico	dos
humanistas	da	Renascença,	os	quais,	afastando	os	fundamentos	teológicos	do
Estado,	 passaram	 a	 encarar	 a	 ciência	 política	 por	 um	 novo	 prisma,
exageradamente	realista.
Ao	 mesmo	 tempo	 em	 que	 a	 Renascença	 restaurou	 e	 aperfeiçoou	 a	 ma-
jestade	das	artes	antigas	restabeleceu,	no	seu	panorama	político,	os	costumes
pagãos	e	a	prepotência	estatal	das	cidades	gregas	e	romanas.
2.	A	DOUTRINA	DE	MAQUIAVEL
Nicolau	Maquiavel,	nascido	em	Florença	em	1469,	foi	o	mais	avançado	e
influente	 entre	 os	 escritores	 da	 Renascença.	 Foi	 secretário	 da	 segunda
chancelaria	do	Domínio	senhorial	e	do	Ofício	dos	dez	da	liberdade	e	da	paz
até	1512.
Escreveu	Maquiavel	a	obra	Discursos	sobre	Tito	Lívio,	em	que	glorifica	a
república	 romana	e,	baseado	nos	exemplos	 tirados	da	sua	história,	deduz	os
meios	pelos	quais	podem	as	repúblicas	expandir-se	e	durar.
Sua	obra	principal,	denominada	O	príncipe,	foi	publicada	em	1531,	quatro
anos	depois	da	sua	morte.	Afirma-se	que	foi	com	o	imprimatur	da	autoridade
eclesiástica.	Maquiavel	tinha	dedicado	a	obra	a	Juliano	de	Medicis,	mas,	em
razão	do	falecimento	deste,	outra	dedicatória	foi	feita	a	Lourenço	de	Medicis,
sobrinho	do	Cardeal	Giovani	de	Medicis,	que	seria	logo	depois	o	Papa	Leão
X.	 Ao	 que	 tudo	 indica,	 Maquiavel	 teria	 destinado	 a	 sua	 obra	 a	 todos	 os
componentes	 da	 Casa	 dos	 Medicis,	 detentora	 do	 Domínio	 Senhorial	 de
Florença,	 prestigiada	pelo	Papado	 e	 uma	das	mais	 poderosas	 oligarquias	 da
Itália.	Através	da	Casa	dos	Medicis	esperava	Maquiavel	que	fosse	realizado	o
seu	 sonho	 de	 unificar	 os	 Estados	 italianos,	 formando	 uma	 nação	 poderosa
capaz	de	restaurar	as	glórias	do	cesarismo.
Entretanto,	 essa	 ligação	 direta	 ou	 indireta	 com	 o	 Cardeal	 Giovani	 de
Medicis,	posteriormente	elevado	ao	sumo	pontificado	romano,	não	envolve	a
Igreja	na	publicação	da	obra,	pois	a	Casa	dos	Medicis	era	antes	de	tudo	uma
oligarquia	 política	 e	 guerreira,	 dominadora	 de	 Florença	 e	 uma	 das	 mais
influentes	entre	as	de	todos	os	Estados	italianos.	Aliás,	a	Igreja	romana,	pelo
pronunciamento	 do	 Arcebispo	 de	 Cantuária,	 desde	 logo	 considerou	 O
príncipe	como	obra	escrita	pela	mão	do	diabo.	O	escritor	foi	denunciado	em
1557,	como	impuro	e	celerado,	pelo	Papa	Paulo	IV,	e	em	seguida	o	Concílio
de	Trento	o	condenou	post	mortem,	colocando	o	seu	nome	no	Índex.
Nessa	obra	Maquiavel	 se	desliga	de	 todos	os	valores	morais,	 tradições	 e
princípios	 éticos,	 para	 pregar	 o	 oportunismo	desenfreado	 e	 o	 cinismo	como
arte	 de	 governar.	Analisando	 friamente	 as	 qualidades	 que	 devem	 orientar	 a
ação	do	Príncipe,	aconselha-o	a	mentir,	a	praticar	toda	sorte	de	crueldade,	e	ao
mesmo	 tempo	 dissimular	 e	 fazer	 crer	 quea	 sua	 conduta	 é	 virtuosa.	 E
acrescenta:	o	cuidado	maior	de	um	Príncipe	deve	ser	o	da	manutenção	do	seu
Estado;	 os	meios	 que	 ele	 utilizar	 para	 esse	 fim	 serão	 sempre	 justificados	 e
terão	 o	 louvor	 de	 todos,	 porque	 o	 vulgo	 se	 deixa	 impressionar	 pelas
aparências	e	pelos	efeitos	—	e	o	vulgo	é	quem	faz	o	mundo.
O	 Príncipe,	 diz	Maquiavel,	 deve	 ser	 ao	 mesmo	 tempo	 amado	 e	 temido.
Mas,	 como	 isso	 não	 é	 sempre	 possível,	 é	 melhor	 que	 se	 faça	 temido,	 isto
porque,	dos	homens	em	geral,	se	pode	dizer	que	são	ingratos,	volúveis,	falsos,
tementes	do	perigo	e	ambiciosos	de	ganho.	Enquanto	se	lhes	fazem	benefícios
são	 todos	 fidelíssimos:	 oferecem	 seu	 sangue,	 seu	 dinheiro,	 sua	 vida,	 seus
filhos,	 contanto	 que	 a	 necessidade	 esteja	 longe,	 mas	 quando	 esta	 chega,
então	 se	 revoltam.	 O	 Príncipe	 que	 confia	 nas	 palavras	 dos	 homens	 sem
procurar	se	garantir	por	outro	lado,	está	perdido;	porque	as	amizades	que	se
conseguem,	 não	 por	 grandeza	 d’alma,	mas	 por	 dinheiro	 ou	 favores,	 são,
embora	merecidas,	amizades	falsas	que	não	podem	ser	levadas	em	conta	na
hora	da	adversidade.
…	acima	de	tudo	deve-se	evitar	despojar	as	pessoas	dos	seus	bens,	pois	o
homem	 esquece	 mais	 depressa	 a	 morte	 de	 seu	 pai	 do	 que	 a	 perda	 do	 seu
dinheiro.
…	 se	 é	 preciso	 ofender	 alguém,	que	 a	 ofensa	 seja	 de	 tal	 forma	que	 não
possibilite	vingança.
…	quando	um	Príncipe	está	à	frente	do	seu	exército,	com	uma	multidão	de
soldados	às	suas	ordens,	então	é	absolutamente	necessário	que	ele	não	dê	a
menor	importância	à	pecha	de	cruel.
É	bom	que	se	saiba	que	existem	dois	modos	de	combater:	pela	lei	ou	pela
força;	 o	 primeiro	 é	 próprio	 dos	 homens;	 o	 segundo,	 das	 feras;	 mas	 como
sucede	que	o	primeiro	muitas	vezes	não	basta,	convém	recorrer	ao	segundo.
Em	suma:	ao	Príncipe	tudo	é	permitido,	até	mesmo	a	infâmia,	a	hipocrisia,
a	crueldade,	a	mentira,	contanto	que	atinja	o	seu	escopo.	Todos	os	meios	que
forem	por	ele	utilizados	no	exercício	do	poder	são	admissíveis	e	justificados.
A	natureza	humana	e	as	circunstâncias	de	cada	momento	indicam	os	meios	e
os	instrumentos	de	que	o	Príncipe	deve	lançar	mão.
Uma	das	finalidades	que	Maquiavel	tinha	em	vista,	como	já	nos	referimos,
era	 a	de	 libertar	o	 seu	país	do	domínio	 externo,	porque,	diz	 ele,	ad	ognuno
puzza	 questo	 barbaro	 dominio.	 Com	 o	 pensamento	 voltado	 para	 esse	 fim,
sugeriu	 o	 florentino	meios	 imorais,	 baixos,	 repugnantes,	mas	 possivelmente
adequados	 ao	 momento	 histórico.	 Sobretudo,	 condizentes	 com	 a	 natureza
humana,	 pois	 o	 próprio	 escritor	 afirmou	que	os	 seus	 conselhos	 perderiam	a
razão	de	ser,	se	porventura	todos	os	homens	fossem	bons.
O	brilhante	sociólogo	e	publicista	cearense,	Abelardo	Montenegro,	em	sua
monografia	Maquiavel	 e	 o	 Estado,	 focalizando	 a	 obra	 de	 Maquiavel	 pelo
ângulo	 acima	 referido,	 observa,	 com	 razão,	 que	 “ele	 não	 firmou	 princípios
para	 todos	 os	 séculos	 e	 para	 todos	 os	 homens.	 A	 generalidade	 dos	 seus
princípios	 subordinava-se	 à	 permanência	 daqueles	 fatores	 que	 o	 levaram	 a
fazer	tal	inferência.	Enquanto	os	homens	forem	maus,	quem	quiser	conservar
o	Estado	 terá	que	 agir	 conforme	 sua	preconização.	E	os	 séculos	posteriores
deram	razão	ao	escritor	florentino”.
Sem	embargo	de	ter	sido	o	teórico	do	absolutismo	monárquico,	Maquiavel
é	 considerado	 o	 fundador	 da	 ciência	 política	 moderna,	 pois	 as	 suas	 obras
contêm	os	princípios	doutrinários	sobre	os	quais	o	Estado	moderno	assentou
as	suas	bases.
Para	Maquiavel	 toda	 organização	 política	 tem	 que	 partir	 do	 fato	 de	 que
todos	os	homens	são	fundamentalmente	maus;	e	essa	é	a	razão	por	que	a	sua
doutrina	 escandaliza	 os	 coevos	 quando	 liberta	 o	 Príncipe	 dos	 laços	morais,
desde	 que	 esteja	 em	 jogo	 o	 interesse	 do	 Estado	 —	 acentua	 Abelardo
Montenegro.
Com	 efeito,	 entre	 as	 filosofias	 de	 Hobbes	 e	 Rousseau,	 diametralmente
opostas	 no	 tocante	 à	 natureza	 humana,	 o	 pensamento	 político	 moderno
inclina-se	 indisfarçavelmente	 para	 a	 teoria	 do	 homo	 homini	 lupus…	 que
parece	mais	conforme	com	a	realidade	e	também	com	os	pressupostos	legais
que	orientam	a	estrutura	jurídica	do	Estado	moderno.	Repelem-se	o	Leviatã	e
O	príncipe,	pelo	seu	realismo	chocante,	no	plano	doutrinário,	quando	é	certo
que	 por	 eles	 se	 orientam	 os	 próprios	 Estados	 democráticos.	 É	 que	 nestes	 a
prepotência	se	exerce	em	nome	da	liberdade.	Talvez	haja	razão	no	que	foi	dito
por	Maquiavel:	o	 vulgo	 só	 se	 impressiona	 com	 as	 aparências;	 e	 o	 vulgo	 é
quem	faz	o	mundo.
Essa	verdade,	aliás,	foi	desprezada	pelo	escritor,	em	relação	à	sua	obra.	Se
ela	 teve	 acolhida	 nos	 meios	 científicos,	 pelo	 seu	 conteúdo,	 a	 ponto	 de	 ser
considerada	 como	 marco	 inicial	 do	 direito	 público	 moderno,	 o	 vulgo	 a
condenou	 pelas	 aparências,	 pelos	 exageros	 da	 linguagem	 e	 pelo	 seu
acentuado	teor	de	cinismo.	Se	os	mesmos	princípios	fossem	enunciados	com
um	certo	eufemismo	o	autor	não	seria	tão	maquiavélico	como	parece…
No	 que	 tange	 à	 atuação	 do	 Príncipe	 ou	 governante	 para	 defender	 e
conservar	 a	vida	do	Estado,	 onde	 a	 linguagem	do	escritor	 florentino	 é	mais
revoltante,	os	princípios	traçados	correspondem	com	a	realidade.	Já	diziam	os
romanos	 que	 salus	 publica	 suprema	 lex	 est.	 E	 o	 Padre	 Antônio	 Vieira,	 em
uma	das	 fulgurações	do	 seu	gênio,	 pronunciou	 esta	 frase	 lapidar:	os	reinos,
não	os	pesa	a	Justiça	na	balança;	mede-os	na	espada.
Muitos	 escritores,	 finalmente,	 exaltam	a	 doutrina	 de	Maquiavel	 como	 “a
mais	bela	e	a	mais	plena	afirmação	da	moralidade	política”,	como	vemos	em
Carlo	Curcio	(La	modernità	de	Machiavelli).	Essa	doutrina	não	foi	somente	o
sustentáculo	 do	 absolutismo	 monárquico	 que	 surgiu	 no	 limiar	 do	 mundo
moderno.	 Em	 pleno	 século	XX	 refloriu	 nos	 Estados	 autoritários.	O	 próprio
Mussolini,	escrevendo	Prelúdios	a	Maquiavel,	em	1924,	disse	que	no	Estado
fascista	 o	 maquiavelismo	 estava	 mais	 vivo	 do	 que	 na	 época	 do	 seu
aparecimento.
XXV
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VII
1.	O	absolutismo	monárquico.	2.	Escritores	da	Renascença.	3.	John
Locke	e	a	reação	antiabsolutista.
1.	O	ABSOLUTISMO	MONÁRQUICO
A	 supremacia	 do	 Papado	 sobre	 os	 monarcas,	 que	 marcou	 uma	 das
principais	características	do	Estado	medieval,	atingiu	as	raias	do	absolutismo,
provocando	 a	 reação	 violenta	 do	 poder	 temporal.	 Aliás,	 no	 seio	 da	 própria
cristandade	 formou-se	 a	 corrente	 reacionária,	 de	 fundo	 liberal-religioso,
cristalizado	na	Reforma,	sob	inspiração	e	liderança	de	Luthero	e	Calvino.	No
campo	propriamente	político,	principalmente,	 as	pregações	 racionalistas	dos
escritores	da	Renascença	levaram	os	titulares	coroados	dos	grandes	impérios
a	uma	solução	extremada,	consistente	na	concentração	de	todos	os	poderes,	de
modo	absoluto,	nas	mãos	do	monarca.
Terminada,	assim,	a	Idade	Média,	instituiu-se,	por	força	das	circunstâncias,
o	monarquismo	absolutista,	que	corresponde	a	uma	época	de	transição	para	os
tempos	modernos.
Enquanto	o	velho	edifício	feudal	se	vai	desmoronando	aos	poucos,	surgem
as	monarquias	absolutistas	em	Espanha,	França,	Prússia,	Áustria	etc.	Mesmo
nos	países	de	mais	 firmes	 tradições	católicas,	ganha	 terreno	o	monarquismo
absolutista.	Na	própria	Rússia	forma-se	a	monarquia	absoluta	com	a	dinastia
dos	Romanofs.
O	 fortalecimento	 do	 poder	 central	 era	 o	 único	meio	 de	 se	 restabelecer	 a
unidade	territorial	dos	reinos.	Sem	a	concentração	de	poderes,	ou	seja,	fora	da
ideia	do	absolutismo	monárquico,	não	havia	possibilidade	de	se	promover	a
unidade	 nacional	 dentro	 do	 Estado	 moderno.	 Tanto	 assim	 que	 onde	 tal
fenômeno	não	se	positivou	o	Estado	se	dividiu,	como	ocorreu,	por	exemplo,
na	Alemanha	e	na	Polônia.
A	Monarquia	absoluta	assentava-se	sobre	o	fundamento	teórico	do	direito
divino	 dos	 reis,	 com	 evidentes	 resquícios	 das	 concepções	 monárquicas
assírias	 e	 hebraicas.	 A	 autoridade	 do	 soberano	 era	 consideradacomo	 de
natureza	divina	e	proveniente	diretamente	de	Deus.	O	poder	de	imperium	era
exercido	 exclusivamente	 pelo	 Rei,	 cuja	 pessoa	 era	 sagrada	 e	 desligada	 de
qualquer	 liame	 de	 sujeição	 pessoal:	 “sua	 soberania	 é	 perpétua,	 originária	 e
irresponsável	em	face	de	qualquer	outro	poder	 terreno,	ainda	que	espiritual”
—	doutrinara	Bodin.
2.	ESCRITORES	DA	RENASCENÇA
Jean	 Bodin,	 francês,	 e	 Giovanni	 Botero,	 italiano,	 foram	 os	 grandes
doutrinadores	 do	 absolutismo	monárquico,	 no	 século	 XVI.	 Escreveu	 Bodin
uma	obra	em	seis	livros	intitulada	De	la	République,	e	Botero	escreveu	várias
obras	de	destaque,	entre	as	quais	Raison	d’État,	Relations	universalles	e	Des
causes	de	la	grandeur	et	de	la	magnificence	des	cités,	obras	essas	consoantes
com	 as	 prédicas	 de	 Maquiavel	 e	 que	 exerceram	 grande	 influência	 no
pensamento	político	da	primeira	metade	do	século	XVII.	Aliás,	sem	embargo
de	 ter	 sido	 membro	 da	 ordem	 dos	 jesuítas,	 secretário	 de	 São	 Carlos
Borromeu,	 Arcebispo	 de	Milão,	 doutrinou	 Botero,	 seguindo	 as	 pegadas	 de
Maquiavel,	que	o	Príncipe	deve	adotar	meios	que	não	estão	sempre	de	acordo
com	 a	 moral	 evangélica,	 principalmente	 quando	 se	 trata	 de	 combater	 os
hereges.	 E	 acrescenta:	 o	 Príncipe	 deve	 conduzi-los	 à	 verdadeira	 religião,
seduzindo-os	com	favores,	e	deverá	empregar	meios	violentos	quando	o	favor
não	der	resultado.
Tais	 escritores,	 partidários	 do	 poder	 absoluto	 dos	 reis,	 são	 chamados
monarcolatros.	 Nessa	 corrente,	 merecem	 menção	 Jerônimo	 Vita,	 italiano,
autor	de	De	optimo	statu	republicae	(1550),	François	Hotman,	francês,	autor
de	Franco	Gallia	 (1573),	 Buchanan,	 escocês,	 autor	 de	De	 jure	 regni	 apud
scotos	(1600),	e	Althusius,	alemão,	autor	de	Politica	metodice	digesta	(1602).
Mesmo	 entre	 os	 jesuítas,	 além	 de	 Botero,	 existiram	 monarcolatros,	 como
Suarez,	autor	de	um	tratado	intitulado	De	gebus,	e	Mariana,	autor	de	De	rege.
As	 monarquias	 absolutas,	 desconhecendo	 qualquer	 limitação	 do	 poder,
chegaram	a	reduzir	a	ideia	de	soberania	a	um	conceito	simplista	de	senhoria
real,	 próprio	 do	mundo	 feudal	 (o	 Rei,	 individualmente,	 é	 o	 proprietário	 do
Estado).	Assim	como	a	propriedade	é	direito	exclusivo	do	dono	sobre	a	coisa,
o	 poder	 de	 imperium	 é	 direito	 absoluto	 do	Rei	 sobre	 o	 Estado.	A	 partir	 da
segunda	metade	 do	 século	XVI,	 o	 poder	 real	 assume,	 desta	 forma,	 o	 duplo
conceito:	 de	 senhoriagem,	 próprio	 do	 feudalismo,	 e	 de	 imperium	 na
significação	extremada	que	lhe	davam	os	antigos	imperadores	romanos.
É	 o	 que	 nos	 ensina	 Pedro	 Calmon,	 citando	 Léon	 Duguit:	 a	 realeza	 que
funda	o	Estado	moderno	associa	as	concepções	latina	e	feudal	da	autoridade
—	imperium	e	senhoriagem.
Luiz	 XIV,	 cognominado	 Rei	 Sol,	 que	 foi	 o	 paradigma	 dos	 monarcas
absolutos,	dizia-se	a	personificação	do	Estado	—	L’Etat	c’est	moi.	E	Luiz	XV,
que	o	sucedeu,	declarou	textualmente:	nós	não	temos	a	nossa	coroa	senão	de
Deus	 e	 o	 direito	 de	 fazer	 as	 leis	 nos	 pertence	 sem	 coparticipação	 ou
dependência.
Idêntica	afirmação	fizera	Carlos	I	quando	levado	ao	patíbulo	pelas	forças
vitoriosas	da	revolução	de	Cromwell:	“a	 liberdade	do	povo	consiste	nas	 leis
que	lhe	assegurem	a	vida	e	bens	próprios,	nunca	no	direito	de	se	governar	por
si	mesmo.	Este	direito	é	do	soberano”.
3.	JOHN	LOCKE	E	A	REAÇÃO	ANTIABSOLUTISTA
As	 pregações	 racionalistas,	 porém,	 incutiram	 no	 espírito	 das	 populações
sofredoras	 e	 escravizadas	uma	clara	 consciência	da	noção	de	 liberdade,	 dos
direitos	 intangíveis	 dos	 indivíduos,	 abalando	 profundamente	 a	 estrutura	 do
monarquismo	absolutista.
Na	 formação	 dessa	 nova	mentalidade	 se	 destacou	 a	 figura	 gigantesca	 de
John	Locke,	que	prega	o	antiabsolutismo,	a	limitação	da	autoridade	real	pela
soberania	do	povo,	a	eliminação	dos	riscos	da	prepotência	e	do	arbítrio.
Em	 sua	 obra	 Segundo	 tratado	 do	 governo	 civil,	 baseada	 nos	 princípios
liberais	da	teoria	contratualista,	prega	a	distinção	entre	os	poderes	Legislativo
e	 Executivo,	 bem	 como	 o	 direito	 de	 insurreição	 dos	 súditos.	 Em	 caso	 de
conflito	 entre	 o	 poder	 governante	 e	 o	 povo,	 deve	 prevalecer	 a	 vontade
soberana	da	comunidade	nacional,	que	é	a	fonte	única	do	poder.
A	obra	de	Locke	é	a	 justificação	doutrinária	da	 revolução	de	1688,	e,	ao
mesmo	tempo,	o	alicerce	do	magnífico	sistema	parlamentarista	que	vigora	na
Inglaterra	desde	1695.
O	Estado,	segundo	a	doutrina	de	Locke,	resulta	de	um	contrato	entre	o	Rei
e	 o	 Povo,	 contrato	 esse	 que	 se	 rompe	 quando	 uma	 das	 partes	 lhe	 viola	 as
cláusulas.	 Os	 direitos	 naturais	 do	 homem	 são	 anteriores	 e	 superiores	 ao
Estado,	por	isso	que	o	respeito	a	esses	direitos	é	uma	das	cláusulas	principais
do	 contrato	 social.	 A	 monarquia	 absoluta,	 como	 forma	 de	 governo,
desconhecendo	limitações	de	qualquer	natureza,	é	incompatível	com	os	justos
fundamentos	da	sociedade	civil.	Se	os	homens	adotaram	a	forma	de	vida	em
sociedade	e	organizaram	o	Estado,	fizeram-no	em	seu	próprio	benefício,	e	não
é	possível,	dentro	dessa	ordem,	que	o	poder	se	afirme	com	mais	intensidade
do	que	o	bem	público	o	exige.
Em	 sua	 obra	 Ensaios	 sobre	 o	 governo	 civil,	 considerada	 como	 o
“catecismo	protestante	antiabsolutista”,	Locke	refuta	o	absolutismo	de	Filmer,
na	primeira	parte,	e	na	segunda	desenvolve	a	teoria	contratualista	de	Hobbes.
Parte	 das	 mesmas	 hipóteses	 de	 Hobbes,	 no	 tocante	 ao	 estado	 de	 natureza,
porém	contesta	o	princípio	bellum	omnium	contra	omnes,	chegando,	assim,	a
conclusões	diversas.	Sustenta	que	o	homem,	no	 estado	de	natureza,	 possuía
razão	e	era	refreado	por	sentimentos	de	equidade.	De	tal	forma,	cada	homem
poderia,	 se	 o	 quisesse,	 conservar	 a	 sua	 liberdade.	Mas,	 como	 faltasse	 uma
autoridade	 capaz	 de	 garantir	 o	 exercício	 dos	 direitos	 de	 liberdade,	 os
indivíduos	 consentiram	 em	 se	 despojar	 de	 uma	 parte	 dos	 seus	 direitos,
outorgando	ao	Estado	as	 faculdades	de	superintender	a	ordem	civil,	 julgar	e
punir	 os	 transgressores	 da	 lei	 e	 promover	 a	 defesa	 externa.	 Isso	 foi
estabelecido	 por	meio	 de	 um	 contrato	 social.	 Consequentemente,	 os	 órgãos
investidos	 de	 autoridade	 pública	 não	 podem	 abusar	 dela,	 uma	 vez	 que	 essa
autoridade	 lhes	 foi	confiada	para	o	 fim	de	proteção	dos	direitos	 individuais.
Se	o	governo	abusa	dessa	autoridade,	viola	o	contrato,	e,	neste	caso,	o	povo
reassume	a	sua	soberania	originária.	Vale	dizer	que	o	povo,	por	conservar	a
sua	vontade,	que	é	intransferível,	tem	o	direito	à	sublevação.
Para	Locke	a	propriedade	privada	é	um	direito	natural:	o	Estado	não	cria	a
propriedade,	mas	a	reconhece	e	protege.
Em	 Cartas	 sobre	 a	 tolerância	 prega	 Locke	 a	 laicização	 completa	 do
Estado	moderno,	afirmando	que	a	escolha	de	uma	religião	deve	ser	livre,	sem
dependência	 do	 Estado.	 O	 poder	 civil	 deve	 limitar-se	 às	 coisas	 temporais,
nada	tendo	a	ver	com	as	religiões.
Essa	doutrina	liberalista,	profundamente	dignificadora	da	espécie	humana,
foi	sustentada	por	inúmeros	filósofos,	juristas	e	publicistas	dos	séculos	XVII	e
XVIII,	 notadamente	 por	Montesquieu	 e	 pelo	 gênio	 fulgurante	 de	Rousseau.
Estava	 preparada	 a	 resistência	 invencível,	 impulsionada	 pela	 vontade
transcendente	 das	 massas	 sacrificadas,	 que	 viria	 culminar	 com	 a	 revolução
francesa,	abrindo	uma	nova	era	na	história	da	civilização	humana.
XXVI
EVOLUÇÃO	HISTÓRICA	DO	ESTADO	—	VIII
1.	O	liberalismo	na	Inglaterra.	2.	América	do	Norte.	3.	França.	4.
Declaração	dos	Direitos	Fundamentais	do	Homem.
1.	O	LIBERALISMO	NA	INGLATERRA
O	liberalismo	teve	o	seu	berço	na	Inglaterra,	e,	assim,	é	na	história	desse
país	que	vamos	encontrar	as	suas	origens.
O	 próprio	 termo	 liberalismo	 tem	 a	 seguinte	 origem:	 O	 segundo	 Bill	 of
Rights	 que	 o	 Parlamento	 impôs	 à	 Coroa,	 em	 1689,	 em	 um	 dos	 seus	 treze
artigos	que	estabeleciam	os	princípios	de	liberdade	individual,	especialmente
de	ordem	religiosa,	autorizava	o	porte	de	armaspelos	cidadãos	 ingleses	que
professavam	 a	 religião	 protestante,	 para	 que	 pudessem	 defender	 as	 suas
franquias	 constitucionais.	 Foi	 precisamente	 esse	 sistema	 de	 liberdade
defendida	pelas	armas	que	recebeu,	na	época,	a	denominação	de	liberalismo.
O	absolutismo	monárquico,	que	surgiu	no	fim	da	Idade	Média	e	 triunfou
em	todo	o	continente	europeu,	procurou	instalar-se	na	Inglaterra	com	Carlos	I,
mas	ali	 encontrou	a	 reação	de	uma	consciência	 liberal	 já	 amadurecida,	 cujo
processo	de	evolução	se	iniciara	com	a	revolta	das	baronias	em	1215.
O	 sistema	 inglês	 era	 de	 uma	 monarquia	 constitucional,	 limitada	 pelo
Parlamento	como	expressão	da	soberania	do	povo.	Quando	Carlos	I	pretendeu
instalar	o	absolutismo	e	chegou	ao	ponto	de	entrar	no	Parlamento	e	prender	os
líderes	da	oposição,	o	movimento	revolucionário	de	Cromwell,	que	vinha	da
Escócia,	marchou	sobre	Londres	e	destronou	o	Rei.	Julgado	por	um	conselho
de	oficiais,	Carlos	I	foi	condenado	à	morte	e	executado	em	30	de	janeiro	de
1649.
Embora	 em	 regime	 nominalmente	 republicano,	 o	 próprio	 Cromwell	 se
transformou	 em	 ditador	 absoluto,	 durante	 dez	 anos,	 tendo	 dissolvido	 o
Parlamento	 pela	 força	 policial.	 Em	 seguida,	 formou	 novo	 Parlamento,	 que
também	 se	 opôs	 ao	 absolutismo	 e	 foi	 igualmente	 dissolvido.	 O	 terceiro
Parlamento	 continuou	 a	mesma	 luta	 do	 espírito	 liberal	 contra	 as	 pretensões
absolutistas	de	Cromwell	e	dos	seus	sucessores.
Três	Declarações	 de	 Direitos,	 em	 1679,	 1689	 e	 1701,	 incorporadas	 ao
sistema	constitucional	inglês,	assinalam	as	principais	vitórias	do	Parlamento,
nessa	 luta	 de	 quase	 um	 século	 para	 refrear	 os	 ímpetos	 absolutistas	 dos
monarcas	 que	 pretenderam	 sustentar	 o	 velho	 princípio	 da	 origem	 divina	 do
poder.
Finalmente,	 no	 limiar	 do	 século	 XVIII,	 consolidou-se	 naquele	 país	 o
princípio	da	monarquia	de	direito	legal,	com	os	seus	corolários:	tripartição	do
poder,	 sistema	 representativo,	 preeminência	 da	 opinião	 nacional	 e
intangibilidade	dos	direitos	fundamentais	do	homem.
Especificando	certos	direitos	essenciais,	o	Bill	of	Rights	de	1689	firmou	os
seguintes	 princípios:	 o	 Rei	 não	 pode,	 sem	 consentimento	 do	 Parlamento,
cobrar	 impostos,	 ainda	 que	 sob	 a	 forma	 de	 empréstimos	 ou	 contribuições
voluntárias;	 ninguém	 poderá	 ser	 perseguido	 por	 haver-se	 recusado	 ao
pagamento	de	impostos	não	autorizados	pelo	Parlamento;	ninguém	poderá	ser
subtraído	aos	seus	 juízes	naturais;	o	Rei	não	 instituirá,	em	hipótese	alguma,
jurisdições	 excepcionais	 ou	 extraordinárias,	 civis	 ou	 militares;	 o	 Rei	 não
poderá,	em	caso	algum,	fazer	alojar	em	casas	particulares	soldados	de	terra	ou
mar	etc.
2.	AMÉRICA	DO	NORTE
Tais	 princípios,	 que	mais	 tarde	 passariam	 a	 figurar	 nas	 Constituições	 de
todos	os	Estados	 liberais,	 refletiram-se	primeiramente	na	América	do	Norte,
sendo	 proclamados	 na	 Declaração	 de	 Virgínia,	 em	 1776,	 na	 Constituição
Federal	 de	 1787	 e	 em	 todas	 as	Constituições	 estaduais	 das	 antigas	 colônias
inglesas	que	compuseram	a	federação	norte-americana.
Foi	 sob	 a	 influência	 das	 ideias	 liberais	 irradiadas	 da	 metrópole	 que	 os
povos	norte-americanos,	na	declaração	conjunta	de	independência,	em	data	de
4	 de	 julho	 de	 1776,	 consignaram	 esta	 magnífica	 súmula	 dos	 ideais	 que
nortearam	a	sua	arrancada	heroica	pela	independência	e	pela	liberdade:
Cremos	 axiomáticas	 as	 seguintes	 verdades:	 que	 os	 homens	 foram
criados	 iguais;	que	 lhes	conferiu	o	Criador	certos	direitos	 inalienáveis,
entre	 os	 quais	 o	 de	 vida,	 o	 de	 liberdade	 e	 o	 de	 procurarem	 a	 própria
felicidade;	que	para	a	segurança	desses	direitos	se	constituíram	entre	os
homens	 governos,	 cujos	 justos	 poderes	 emanam	 do	 consentimento	 dos
governados;	que	sempre	que	qualquer	forma	de	governo	tenda	a	destruir
esses	fins	assiste	ao	povo	o	direito	de	mudá-la	ou	aboli-la,	instituindo	um
novo	 governo	 cujos	 princípios	 básicos	 e	 organização	 de	 poderes
obedeçam	 às	 normas	 que	 lhe	 pareçam	 mais	 próprias	 a	 promover	 a
segurança	e	a	felicidade	gerais.
Precisamente	 quando	 o	 governo,	 desnaturado	 pelos	 arroubos	 absolutistas
de	 Jorge	 III,	 espezinhava	 os	 direitos	 dos	 seus	 súditos	 americanos,	 impondo
tributos	 escorchantes	 e	 exercendo	 violências	 policiais,	 o	 povo	 das	 treze
colônias,	já	entusiasmado	pelas	ideias	republicanas	que	Lafayette	viera	pregar
no	 novo	mundo,	 valeu-se	 do	direito	 de	 rebelião	 proclamado	na	doutrina	de
John	 Locke:	 quando	 um	 governo	 se	 desvia	 dos	 fins	 que	 inspiraram	 a	 sua
organização,	 assiste	 ao	 povo	 o	 direito	 de	 substituí-lo	 por	 outro	 condizente
com	 a	 vontade	 nacional.	 A	 justificação	 doutrinária	 da	 guerra	 pela
emancipação,	 redigida	 por	 Jefferson,	 contém	 os	 fundamentos	 da	 filosofia
política	norte-americana.
3.	FRANÇA
O	 liberalismo	 ganhava	 terreno,	 ao	 mesmo	 tempo,	 na	 França,	 sob	 a
liderança	 de	Montesquieu,	 Voltaire,	 D’Argenson	 e	 outros	 que	 formariam	 a
famosa	corrente	dos	enciclopedistas.	Helvetius,	Holbach,	Mably,	Condorcet	e
inúmeros	 outros	 revolucionários,	 empolgados	 principalmente	 pelo	 gênio
fulgurante	de	Rousseau,	abriram	ao	homem	a	estrada	larga	da	democracia	que
deveria	levar	o	povo	escravizado	a	um	mundo	novo	e	melhor.
A	França,	que	era	a	caldeira	fervente	das	ideias	liberais,	estava	destinada	a
conseguir	a	vitória	das	ideias	democráticas	para	si	e	para	o	mundo	inteiro.
A	monarquia	absolutista	dos	Bourbons	mantinha	a	divisão	social	em	 três
classes	—	Nobreza,	Clero	e	Povo	—	ou	Três	Estados,	cada	qual	com	as	suas
leis,	a	sua	justiça	e	o	seu	sistema	tributário.	A	nobreza	e	o	alto	clero,	somando
menos	 de	 dez	 por	 cento	 da	 população	 francesa,	 desfrutavam	 de	 todos	 os
privilégios	 e	 eram	 os	 sustentáculos	 ativos	 da	 legitimidade	 aristocrático-
monárquica,	enquanto	o	povo	se	arrastava	na	escravidão	e	na	miséria,	ao	lado
do	 fabuloso	 esplendor	 das	 Cortes.	 A	 monarquia	 absolutista	 deixara	 de
convocar	 a	 Assembleia	 dos	 Três	 Estados,	 desde	 1614,	 suprimindo,	 assim,
qualquer	 participação	 ou	 ação	 fiscalizadora	 do	 Terceiro	 Estado	 no	 plano
governamental.	 A	 partir	 de	 1750,	 intensificou-se	 a	 luta	 subterrânea	 do
princípio	democrático	 contra	 o	 regime	dominante.	Em	1786	o	Rei	 transigiu
em	parte,	convocando	a	Assembleia	dos	Notáveis	para	uma	reforma	fiscal.	Já
então	Luiz	XVI	reconhecia	que	a	sua	posição	se	tornara	insustentável,	e	o	seu
ato	foi	motivo	de	blague	entre	o	povo:	dizia-se	abertamente	nas	 ruas	que	 le
roi	donne	sa	demission…
A	convocação	da	Assembleia	dos	Notáveis	não	produziu	efeito	no	espírito
público,	porque	esse	órgão	não	representava	o	povo,	e	porque	a	reforma	fiscal
só	 podia	 ser	 consentida	 pelos	 Três	 Estados.	 Em	 17	 de	 junho	 de	 1789	 a
Assembleia	 do	 Terceiro	 Estado	 decidiu	 chamar-se	 Assembleia	 Nacional,
enfrentando	corajosamente	o	poder	 real.	Era	o	 início	da	 revolução.	A	14	de
julho	o	povo	apoderou-se	da	Bastilha,	que	era	considerada	como	símbolo	do
absolutismo.	 Em	 seguida,	 a	 Assembleia	 Nacional	 assumiu	 o	 poder
constituinte,	 empenhando-se	 na	 elaboração	 da	 Carta	 Constitucional	 da
República.
A	revolução	popular	de	1789,	baseada	nas	ideias	liberais	do	século	XVIII,
nivelou	 os	 Três	 Estados,	 suprimiu	 todos	 os	 privilégios	 e	 proclamou	 o
princípio	de	soberania	nacional.	Foram	estas	as	máximas	da	revolução:	todo
governo	que	não	provém	da	vontade	nacional	é	tirania;	a	nação	é	soberana	e
sua	soberania	é	una,	indivisível,	inalienável	e	imprescritível;	o	Estado	é	uma
organização	 artificial,	 precária,	 resultante	 de	 um	 pacto	 nacional	 voluntário,
sendo	o	seu	destino	o	de	servir	ao	homem;	o	pacto	social	 se	 rompe	quando
uma	 parte	 lhe	 viola	 as	 cláusulas;	 não	 há	 governo	 legítimo	 sem	 o
consentimento	 popular;	 a	 Assembleia	 Nacional	 representa	 a	 vontade	 da
maioria	que	equivale	à	vontade	geral;	a	lei	é	a	expressão	da	vontade	geral;	o
homem	é	livre,	podendo	fazer	ou	deixarde	fazer	o	que	quiser,	contanto	que	a
sua	ação	ou	omissão	não	seja	legalmente	definida	como	crime;	a	liberdade	de
cada	um	limita-se	pela	igual	liberdade	dos	outros	indivíduos;	todos	os	homens
são	iguais	perante	a	lei;	o	governo	destina-se	à	manutenção	da	ordem	jurídica
e	não	intervirá	no	campo	das	relações	privadas;	o	governo	é	limitado	por	uma
Constituição	escrita,	tendo	esta	como	partes	essenciais	a	tripartição	do	poder
estatal	e	a	declaração	dos	direitos	fundamentais	do	homem	etc.
Instituía-se	assim	o	Estado	liberal,	baseado	na	concepção	individualista.
4.	DECLARAÇÃO	DOS	DIREITOS	FUNDAMENTAIS	DO	HOMEM
Com	 tal	 orientação	político-filosófica,	 a	Assembleia	Nacional	proclamou
imediatamente	a	célebre	Declaração	dos	Direitos	do	Homem	e	do	Cidadão,
encimada	pelo	seguinte	preâmbulo:
Os	 representantes	 do	 povo	 francês,	 constituídos	 em	 Assembleia
Nacional,	considerando	que	a	ignorância,	o	esquecimento	ou	o	desprezo
dos	direitos	do	homem	são	as	únicas	causas	das	desgraças	públicas	e	da
corrupção	dos	governos,	resolveram	expor,	numa	declaração	solene,	os
direitos	naturais,	inalienáveis,	e	sagrados	do	homem…
O	 povo,	 que	 constituía	 o	 Terceiro	 Estado	 no	 ancien	 regime,	 assumiu	 o
poder,	 representado	 pela	Assembleia	Nacional	 que	 elaborou	 e	 promulgou	 a
primeira	 Constituição	 da	 República	 em	 1791.	 Em	 decorrência	 das
contrarrevoluções	que	se	registraram	no	conturbado	panorama	francês,	no	fim
do	 século	 XVIII	 e	 começo	 do	 século	 XIX,	 outras	 Constituições	 foram
promulgadas,	sendo	a	segunda	a	Constituição	girondina	de	1793.
Todas	 as	 Cartas	 Magnas	 do	 Estado	 liberal	 implantado	 pela	 revolução
francesa	 inseriram	 com	 destaque	 o	 conceito	 altissonante	 do	 primeiro	 dos
direitos	naturais	e	sagrados	do	homem,	o	direito	de	liberdade,	que	consiste	em
poder	 fazer	 tudo	 o	 que	 não	 for	 contrário	 aos	 direitos	 de	 outrem.	 Não
cogitaram	 essas	 Constituições	 dos	 direitos	 sociais,	 nem	 dos	 deveres	 dos
indivíduos	 para	 com	 a	 sociedade.	 Essa	 preocupação	 individualista,	 como
adiante	veremos,	levaria	o	Estado	liberal	à	decadência.
A	 partir	 da	 Constituição	 de	 4	 de	 junho	 de	 1814,	 os	 direitos	 do	 homem
passaram	 a	 receber	 definições	mais	 racionais	 e	 objetivas,	 de	modo	 que	 foi
esse	diploma	político	o	modelo	mais	adequado	das	Constituições	de	todos	os
Estados	liberais.	Os	direitos	do	homem	—	inatos,	inalienáveis,	irrenunciáveis
e	 imprescritíveis,	 anteriores	 e	 superiores	 ao	 próprio	 Estado	 —	 foram
catalogados	 sob	uma	 tríplice	divisão:	a)	 direitos	políticos	 (de	 cidadania);	b)
direitos	 públicos,	 propriamente	 ditos	 (civis	 positivos);	 e	 c)	 direitos	 de
liberdade	 (civis	 negativos).	 Esses	 últimos	 são	 exatamente	 os	 direitos
fundamentais	 do	 homem,	 que	 justificam	 a	 sua	 livre	 atividade	 no	 mundo
exterior,	sem	limites	outros	que	não	sejam	as	justas	restrições	consignadas	na
Constituição	e	nas	leis	ordinárias	complementares.
O	governo	da	Assembleia	Nacional,	convivendo	com	a	Coroa,	não	logrou
consolidar-se	 nem	 estabelecer	 a	 paz	 interna.	 A	 Convenção,	 que	 sucedeu	 a
Assembleia,	 levou	 a	 feito	 a	 execução	 dos	 soberanos	 destronados	 e,
praticamente,	 implantou	o	 terror,	 temendo	a	 reação	que	se	esboçava	no	seio
da	 Nobreza	 e	 do	 Clero,	 pois	 estes	 desfrutavam	 ainda	 de	 largo	 prestígio	 e
ameaçavam	 a	 sobrevivência	 da	 ordem	 liberal.	 Foi	 assim	 que	 o	 governo
sanguinário	 da	 Convenção,	 em	 nome	 da	 liberdade,	 cometeu	 toda	 sorte	 de
injustiças	 e	 violências,	 as	 quais	 levaram	 de	 roldão	 as	 cabeças	 dos	 próprios
líderes	proeminentes	como	Danton,	Saint	Just,	Herbert,	Camile	Desmolins	e
muitos	outros,	inclusive	o	próprio	Robespierre.
A	Constituição	do	Ano	III	criou	o	governo	do	Diretório,	com	o	Conselho
dos	500	e	o	Conselho	dos	Anciãos,	este	à	maneira	do	antigo	Senado	Romano.
Foi	 esse	 o	 governo	 de	 uma	 oligarquia	mascarada,	 na	 expressão	 de	 Albert
Vandal.	 A	 violência	 da	 revolução	 e	 das	 contrarrevoluções	 impedia	 a
consolidação	 da	 ordem	 republicana.	 Em	 curtos	 intervalos	 o	 Estado	 liberal
francês	modificou	várias	vezes	as	ideias	místicas	que	lhe	serviram	de	fomento
doutrinário.	Thiers	assim	resume	os	primeiros	estágios	dessa	evolução:	1789,
liberdade;	 1800,	 grandeza;	 1815,	 paz	 e	 ordem.	Nesse	 período,	 entre	 1791	 e
1814,	teve	a	França	dez	Constituições.
O	 governo	 do	 Diretório	 foi	 dissolvido	 pelo	 exército,	 que	 impôs	 um
Triunvirato	de	Cônsules.	Napoleão	Bonaparte,	primeiro	Cônsul,	fez-se	Cônsul
decenal,	 depois	 vitalício,	 e,	 afinal,	 imperador,	 restabelecendo,	 assim,	 o
absolutismo	 de	 Luiz	 XIV,	 com	 apenas	 a	 diferença	 de	 que	 o	 Rei	 Sol
proclamava	 que	 a	 sua	 majestade	 provinha	 de	 Deus,	 enquanto	 Napoleão	 se
dizia	investido	da	realeza	pelo	povo.	Embora	repelindo	qualquer	limitação	do
poder,	Napoleão	insistia	em	dar	ao	seu	império	o	aspecto	constitucional.
A	derrota	de	Napoleão	e	a	consequente	invasão	da	França	pelas	tropas	de
Wellington	e	Blutcher	ocasionaram	a	restauração	dos	Bourbons:	Luiz	XVIII
assume	o	poder,	porém	como	rei	constitucional,	sendo	sucedido	por	Carlos	X
(Conde	 de	 Artois).	 A	 nova	 revolução	 popular	 de	 1830	 elevou	 ao	 poder	 o
Duque	 de	 Orleans,	 sucedido	 pelo	 inteligente	 e	 magnânimo	 Luiz	 Felipe	 até
que,	em	1848,	foi	instaurada	a	Segunda	República,	cabendo	a	presidência	ao
Príncipe	Luiz	Napoleão,	que	governou	durante	vinte	e	dois	anos,	embora	com
acentuada	prepotência.
A	 república	 de	 1848	 caminhou	 desde	 logo	 para	 a	 formação	 do	 Segundo
Império,	 reeditando	as	aventuras	guerreiras	de	Bonaparte	e	 levando	o	país	à
catástrofe	militar	de	Sedan	(1870),	quando	o	povo,	a	grande	massa	espoliada,
já	 se	 empenhava	 em	 nova	 luta	 pela	 liberdade,	 agora	 contra	 as	 forças
escravizadoras	geradas	pelo	próprio	liberalismo.
XXVII
A	DECADÊNCIA	DO	LIBERALISMO
1.	 O	 Estado	 liberal,	 seus	 erros	 e	 sua	 decadência.	 2.	 A	 encíclica
“Rerum	 Novarum”	 —	 Doutrina	 Social	 da	 Igreja.	 3.	 O	 Estado
evolucionista.
1.	O	ESTADO	LIBERAL,	SEUS	ERROS	E	SUA	DECADÊNCIA
O	Estado	liberal,	marcando	o	advento	dos	tempos	modernos,	correspondia
nos	 seus	 lineamentos	 básicos	 com	 as	 ideias	 então	 dominantes.	 Era	 a
realização	 plena	 do	 conceito	 de	 direito	 natural,	 do	 humanismo,	 do
igualitarismo	 político	 que	 os	 escritores	 do	 século	 XVIII	 deduziram	 da
natureza	 racional	 do	 homem,	 segundo	 a	 fórmula	 conclusiva	 de	 que	 “os
homens	 nascem	 livres	 e	 iguais	 em	 direitos;	 a	 única	 forma	 de	 poder	 que	 se
reveste	de	 legitimidade	é	 a	que	 for	 estabelecida	 e	 reconhecida	pela	vontade
dos	cidadãos”.
Quer	 sob	 a	 forma	 de	 monarquia	 constitucional,	 quer	 sob	 a	 forma
republicana,	 a	 organização	 traduzia	 os	 ideais	 que	 empolgaram	 o	mundo	 ao
tempo	 das	 revoluções	 populares	 inglesa,	 norte-americana	 e	 francesa:
soberania	 nacional,	 exercida	 através	 do	 sistema	 representativo	 de	 governo;
regime	 constitucional,	 limitando	 o	 poder	 de	 mando	 e	 assegurando	 a
supremacia	 da	 lei;	 divisão	 do	 poder	 em	 três	 órgãos	 distintos	 (Legislativo,
Executivo	e	Judiciário)	com	limitações	recíprocas	garantidoras	das	liberdades
públicas;	 separação	 nítida	 entre	 o	 direito	 público	 e	 o	 direito	 privado;
neutralidade	 do	Estado	 em	matéria	 de	 fé	 religiosa;	 liberdade,	 no	 sentido	 de
não	ser	o	homem	obrigado	a	fazer	ou	deixar	de	fazer	alguma	coisa	senão	em
virtude	de	lei;	igualdade	jurídica,	sem	distinção	de	classe,	raça,	cor,	sexo,	ou
crença;	 igual	 oportunidade	 de	 enriquecimento	 e	 de	 acesso	 aos	 cargos
públicos,	às	conquistas	da	ciência	e	à	cultura	universitária;	não	intervenção	do
poder	público	na	economia	particular…
Era	 esse,	 pelo	menos,	 o	 arcabouço	 teórico	 do	Estado	 liberal.	 Entretanto,
estava	muito	longe	de	corresponder	essa	teoria	com	a	realidade.	Assim	como
a	República	 de	 Platão,	 que	 fora	 arquitetada	 no	mundo	 das	 ideias,	 o	 Estado
liberal	 seria	 realizável,	 como	se	disse	algures,	numa	coletividade	dedeuses,
nunca	numa	coletividade	de	homens.
Empolgados	 pelas	 novas	 ideias	 racionalistas,	 fortemente	 sedutoras	 mas
impregnadas	 de	 misticismo,	 os	 construtores	 do	 Estado	 liberal	 perderam	 de
vista	a	realidade.	Desconheceram	(e	isto	foi	o	seu	maior	erro)	uma	das	mais
importantes	 revoluções	 que	 a	 história	 política	 do	 mundo	 registra	 —	 a
revolução	 industrial	 —,	 que	 se	 iniciara	 na	 Inglaterra	 em	 1770	 e	 que
modificaria	 fatalmente	 a	 realidade	 social	 em	 todos	 os	 países,	 criando
problemas	 até	 então	 desconhecidos,	 mas	 perfeitamente	 previsíveis.
Processada	à	ilharga	da	revolução	popular	francesa,	continuaria	pelos	tempos
modernos	a	hostilizar	cada	vez	mais	o	Estado	liberal,	minando	os	alicerces	da
sua	estrutura.
Em	verdade,	o	liberalismo	que	se	apresentara	perfeito	na	teoria	bem	cedo
se	 revelou	 irrealizável	 por	 inadequado	 à	 solução	 dos	 problemas	 reais	 da
sociedade.	Converteu-se	no	reino	da	ficção,	com	cidadãos	teoricamente	livres
e	materialmente	escravizados.
A	revolução	industrial	apresentara	ao	mundo	um	novo	tipo	de	homem	até
então	 desconhecido:	 o	 operário	 de	 fábrica.	 O	 aparecimento	 das	 máquinas
produziu	 o	 desemprego	 em	 massa.	 Cada	 nova	 máquina	 introduzida	 na
organização	 industrial	 jogava	 à	 rua	 centenas	 de	milhares	 de	 empregados.	O
trabalho	 humano	 passa	 a	 ser	 negociado	 como	 mercadoria,	 sujeito	 à	 lei	 da
oferta	e	da	procura.	O	operário	se	vê	compelido	a	aceitar	salários	ínfimos	e	a
trabalhar	quinze	ou	mais	horas	por	dia	para	ganhar	o	mínimo	necessário	à	sua
subsistência.	 A	 mulher	 deixa	 o	 lar	 e	 procura	 no	 trabalho	 das	 fábricas	 um
reforço	ao	salário	 insuficiente	do	marido.	As	crianças	não	podem	frequentar
as	 escolas	 e	 são	 atiradas	 ao	 trabalho	 impróprio,	 prejudicial	 à	 sua	 formação
física	e	moral,	na	luta	pela	subsistência	que	o	pai	não	pode	prover.	E,	assim,	o
liberalismo	 trazia	 mais	 no	 seu	 bojo,	 inconscientemente,	 a	 desintegração	 da
família.
Quando	colhido	pela	doença	ou	pela	velhice	quase	sempre	precoce,	outra
alternativa	não	restava	ao	operário	senão	estender	a	mão	à	caridade	pública.
Por	outro	lado,	o	contraste	era	chocante:	fortunas	imensas	se	acumulavam
nas	mãos	 dos	 dirigentes	 do	 poder	 econômico;	 o	 luxo,	 a	 ostentação,	 a	 ânsia
irrefreada	 de	 ganhar	 cada	 vez	 mais	 criaram	 o	 conflito	 entre	 as	 classes
patronais	 e	 assalariadas.	 Organizaram-se	 as	 grandes	 empresas,	 os	 trusts,	 os
cartéis,	 os	 monopólios	 e	 todas	 as	 formas	 de	 abuso	 do	 poder	 econômico,
acentuando-se	cada	vez	mais	o	desequilíbrio	social.	E	o	Estado	liberal	a	tudo
assiste	 de	 braços	 cruzados,	 limitando-se	 a	 policiar	 a	 ordem	 pública.	 É	 o
Estado-Polícia	(L’Etat	Gendarme).	 Indiferente	ao	drama	doloroso	da	 imensa
maioria	espoliada,	deixa	que	o	forte	esmague	o	fraco,	enquanto	a	igualdade	se
torna	uma	ficção	e	a	liberdade	uma	utopia.
Sem	 dúvida,	 eram	 anti-humanos	 os	 conceitos	 liberais	 de	 igualdade	 e
liberdade.	 Era	 como	 se	 o	 Estado	 reunisse	 num	 vasto	 anfiteatro	 lobos	 e
cordeiros,	declarando-os	livres	e	iguais	perante	a	lei,	e	propondo-se	a	dirigir	a
luta	 como	árbitro,	 completamente	neutro.	Perante	o	Estado	não	havia	 fortes
ou	fracos,	poderosos	ou	humildes,	ricos	ou	pobres.	A	todos,	ele	assegurava	os
mesmos	direitos	e	as	mesmas	oportunidades…
Ressalta	 à	 evidência	 a	 desumanidade	 daqueles	 conceitos,	 porque	 os
indivíduos	 são	 naturalmente	 desiguais,	 social	 e	 economicamente	 desiguais,
devendo,	por	isso,	ser	tratados	desigualmente,	em	função	do	justo	objetivo	de
igualizá-los	no	plano	jurídico.	Além	disso,	não	basta	que	o	Estado	proclame	o
direito	 de	 liberdade,	 é	 preciso	 que	 ele	 proporcione	 aos	 cidadãos	 a
possibilidade	de	serem	livres.
Em	menos	de	meio	 século,	 tudo	o	que	o	 liberalismo	havia	prometido	 ao
povo	 redundou	 em	 conquistas	 e	 privilégios	 das	 classes	 economicamente
dominantes.
As	multidões	espoliadas,	oprimidas,	sem	lar,	sem	agasalhos,	sem	pão,	sem
a	 fé	 em	 Deus,	 que	 o	 infortúnio	 faz	 desaparecer	 do	 coração	 dos	 homens,
começam	 a	 reagir	 violentamente	 contra	 as	 injustiças	 sociais,	 já	 agora
arregimentadas	 sob	 a	bandeira	do	 socialismo	materialista,	 levando	o	Estado
liberal	ao	dilema	de	reformar-se	ou	perecer.
2.	A	ENCÍCLICA	“RERUM	NOVARUM”	—	DOUTRINA	SOCIAL	DA
IGREJA
Foi	 nessa	 gravíssima	 situação,	 nessa	 perigosa	 encruzilhada	 dos	 destinos
humanos,	 que	 surgiu	 uma	 manifestação	 formal,	 clara	 e	 positiva,	 da	 Igreja
Romana,	através	da	encíclica	Rerum	Novarum,	de	Leão	XIII,	em	15	de	maio
de	 1891,	 traduzida	 literalmente	 como	Das	Coisas	Novas.	Essa	 encíclica,	 na
prática,	 iniciou	 a	 sistematização	 do	 pensamento	 social	 católico	 recebendo	 o
título	de	Doutrina	Social	da	Igreja.	Traçou	o	Sumo	Pontífice	um	quadro	fiel
da	angustiante	situação,	analisou	as	suas	causas	determinantes	e	apontou,	com
segurança	 e	 descortínio,	 os	 rumos	 pelos	 quais	 se	 salvaria	 a	 nau	 do	 Estado
democrático	prestes	a	naufragar	em	mar	tempestuoso.
Refutando	os	princípios	do	coletivismo	materialista	e	colocando	a	pessoa
humana	no	 lugar	que	 lhe	compete	como	criatura	de	Deus,	verberou	o	Santo
Papa	o	fato	de	se	apresentarem	de	um	lado	a	onipotência	na	opulência,	uma
facção	que,	senhora	absoluta	da	 indústria	e	do	comércio,	 torce	o	curso	das
riquezas	e	faz	correr	para	o	seu	lado	todos	os	mananciais;	facção	que,	aliás,
tem	nas	mãos	mais	de	um	motor	da	administração	pública;	de	outro	lado,	a
fraqueza	na	 indigência,	uma	multidão	com	a	alma	ulcerada,	sempre	 pronta
para	a	desordem.
Acentua-se	 que	pouco	 a	 pouco	 os	 trabalhadores,	 isolados	 e	 sem	 defesa,
têm-se	 visto,	 com	 o	 decorrer	 do	 tempo,	 entregues	 à	 mercê	 de	 senhores
desumanos	e	à	cupidez	de	uma	desenfreada	concorrência.
Deve-se	acrescentar	o	monopólio	do	trabalho	e	dos	papéis	de	crédito,	que
se	tornam	o	quinhão	de	um	pequeno	número	de	ricos	e	de	opulentos,	os	quais
exercem	um	jugo	quase	servil	sobre	a	imensa	multidão	dos	proletários.
Depois	 de	 condenar	 fundamentalmente	 o	 extremismo	marxista,	 propõe	 o
Santo	Papa	as	medidas	necessárias	ao	 restabelecimento	do	equilíbrio	 social,
tais	 como:	 fixação	 de	 um	 salário	 mínimo	 compatível	 com	 a	 dignidade
humana,	 limitação	 das	 horas	 de	 trabalho,	 regulamentação	 do	 trabalho	 da
mulher	e	dos	menores,	amparo	à	gestação	e	à	maternidade,	direito	de	férias,
indenização	por	acidentes,	 amparo	à	velhice,	assistência	nos	casos	de	doen-
ças,	organização	da	previdência	social	etc.
O	 que	 é	 vergonhoso	 e	 desumano	 —	 acentua	 Leão	 XIII	 —	 é	 usar	 dos
homens	como	vis	instrumentos	de	lucro	e	não	os	estimar	senão	na	proporção
do	vigor	de	seus	braços.
Ninguém	 certamente	 é	 obrigado	 a	 aliviar	 o	 próximo	 privando-se	 do	 seu
necessário,	ou	 do	 de	 sua	 família,	nem	 mesmo	 a	 nada	 suprimir	 do	 que	 as
conveniências	 impõem	 à	 sua	 pessoa.	 Mas	 desde	 que	 haja	 suficientemente
satisfeito	à	necessidade	e	ao	decoro,	é	um	dever	 lançar	o	supérfluo	no	seio
dos	pobres.
Inegavelmente,	 foi	 a	 encíclica	 Rerum	 Novarum	 um	 farol	 luminoso	 a
dissipar	as	trevas	que	envolviam	a	realidade	social.	Alertado	por	esse	valioso
documento	histórico,	 o	Estado	 liberal	passou	a	 intervir	no	 setor	 econômico,
procurando	conjurar	o	perigo	que	o	ameaçava.
Depois	de	quarenta	anos	foi	a	grande	encíclica	reafirmada	e	atualizada	pela
Quadragesimo	 Anno	 (No	 Quadragésimo	 Ano),	 de	 Pio	 XI,	 e,	 depois	 de	 80
anos,	 pela	Octogesima	 Adveniens	 (Chegando	 a	 Octogésima),	 de	 Paulo	 VI,
continuando	 pelos	 tempos	 presentes	 e	 vindouros	 como	 eterno	 luzeiro	 da
humanidade.
A	Doutrina	Social	da	Igreja,	embora	não	tenha	finalidade	política,	constitui
importante	 fonte	 de	 inspiração	 para	 os	 cristãos,	 abordando	 o	 pensamento
católico	 sobre	 os	mais	 importantes	 temas	 que	 afligem	 atualmente	 o	mundo
globalizado,	 como	 trabalho	 e	 família,	 função	 social	 do	 Estado,	 iniciativa
privada,	participação	na	vida	social	e	política,	democracia,	respeito	humano,
entreoutros.
Compõem	 a	 Doutrina	 Social	 da	 Igreja,	 além	 das	 encíclicas	 já	 citadas,
numerosos	 outros	 documentos	 papais,	 destacando-se,	 na	 atualidade,	 as
Encíclicas	de	Bento	XVI:	Deus	Caritas	Est,	de	2005,	dirigida	aos	bispos,	aos
presbíteros	e	aos	diáconos,	e	Caritas	in	Veritate,	de	2009,	 tratando	de	 temas
socioeconômicos	 no	 mundo	 globalizado.	 Destacam-se,	 também:	 Mater	 et
Magistra,	de	1961,	e	Populorum	Progressio,	de	1967,	ambas	de	João	XXIII;
Laborem	Exercens,	 de	 1981,	 e	Centesimus	 Annus,	 de	 1991,	 ambas	 de	 João
Paulo	II,	esta	última	logo	após	a	Queda	do	Muro	de	Berlim.
3.	O	ESTADO	EVOLUCIONISTA
Se	a	função	primordial	do	Estado	consiste	em	assegurar	condições	gerais
de	 paz	 social	 e	 prosperidade	 pública,	 cumpre-lhe,	 efetivamente,	 intervir	 na
ordem	 socioeconômica,	 impor	 restrições	 ao	 capital,	 prevenir	 os	 litígios,
remover	 as	 injustiças,	 edificar	 um	 mundo	 melhor	 onde	 a	 felicidade	 seja
possível	 a	 todos	 os	 homens	 e	 o	 império	 da	 justiça	 seja	 uma	 realidade.
Cumpre-lhe	 substituir	 o	 lema	 ortodoxo	 fiat	 justitia	 pereat	mundus	 por	 uma
divisa	mais	consentânea	com	o	mundo	moderno:	fiat	mundus,	pereat	justitia.
A	crítica	demonstrou	sempre,	e	com	exuberante	evidência,	a	inconsistência
dos	princípios	teóricos	do	liberalismo,	mas	não	chegou	ainda	a	uma	conclusão
definitiva	 quanto	 à	 solução	 do	 problema.	 O	 socialismo	 comunista,	 de	 um
lado,	 o	 fascismo	 e	 o	 nazismo,	 de	 outro	 lado,	 foram	 as	 mais	 destacadas
tentativas	de	 reestruturação	básica	do	Estado	moderno.	O	comunismo	 russo
surgiu	como	uma	solução	extremista,	diametralmente	oposta	ao	 liberalismo,
enquanto	o	fascismo	e	o	nazismo	foram	movimentos	de	dupla	reação,	contra	a
decadência	liberal	e	contra	os	excessos	do	monismo	estatal	russo.	Todos	esses
movimentos	 reacionários,	 entretanto,	 importam,	 praticamente,	 numa
transposição	dos	erros	do	liberalismo	para	o	plano	coletivista.	Não	resolvem
os	 inconvenientes	 do	 regime	 capitalista,	 que	 apenas	 se	 deslocam	 para	 a
direção	estatal,	como	se	observa	no	mundo	soviético.
De	 qualquer	 forma,	 ameaçado	 pelas	 duas	 extremas	 totalitárias,	 o	 Estado
liberal	 foi	 colocado	 ante	 o	 dilema	 de	 reformar-se	 ou	 perecer.	 Efetivamente,
onde	 ele	 permaneceu	 fraco	 e	 inerte,	 ocorreu	 a	 transformação	 violenta,
surgindo	o	Estado	revolucionário,	como	na	Rússia,	na	Itália,	na	Alemanha,	na
Polônia	 e	 em	 vários	 países,	 como	 analisaremos	 nos	 capítulos	 seguintes.
Quando	não,	o	Estado	 liberal	 se	 transformou	de	maneira	pacífica	evoluindo
para	 a	 forma	 social-democrática,	 através	 de	 reformas	 constitucionais	 e
medidas	 legislativas.	 Tornou-se	 evolucionista,	 intervindo	 na	 ordem
econômica,	 colocando-se	 como	 árbitro	 nos	 conflitos	 entre	 o	 capital	 e	 o
trabalho,	superintendendo	a	produção,	a	distribuição	e	o	consumo.
Como	 veremos	 oportunamente,	 o	 Estado	 social-democrático,
evolucionista,	 procura	 harmonizar	 as	 verdades	 parciais	 e	 inegáveis	 que
existem	tanto	no	individualismo	como	no	socialismo.	É	o	Estado-eclético,	o
Estado-composição	 entre	 as	 verdades	 eternas	 do	 individualismo	 e	 os
imperativos	da	realidade	sócio-ético-econômica	do	mundo	moderno.
XXVIII
REAÇÃO	ANTILIBERAL
1.	 O	 socialismo	 e	 a	 revolução	 russa.	 2.	 O	 Estado	 soviético.	 3.
Observações.	4.	Criação	da	CEI.
1.	O	SOCIALISMO	E	A	REVOLUÇÃO	RUSSA
A	primeira	reação	antiliberal	organizada	foi	o	socialismo.	Sua	doutrinação
começou	no	campo	 literário,	no	século	XVIII,	 intensificando-se	 logo	depois
da	 implantação	do	Estado	liberal,	a	par	com	a	crítica	da	revolução	francesa,
até	 atingir	 o	 seu	clímax	 com	o	Manifesto	comunista	 de	Marx	 e	 Engels,	 em
1848.
Até	 então,	 as	 ideias	 socialistas	 ou	 comunistas	 (ambas	 tinham	 o	 mesmo
sentido)	 permaneciam	 no	 plano	 literário.	 Era	 o	 socialismo	 utópico,	 como
agora	 se	 denomina.	 No	 terreno	 político,	 confundiam-se	 socialistas	 e
anarquistas,	por	esposarem	a	mesma	ideia	da	extinção	do	Estado,	tanto	que	os
principais	líderes	socialistas	que	doutrinaram	em	Paris	nos	meados	do	século
XIX	foram	Louis	Blanc,	Joseph	Proudhon,	Miguel	Bakunin,	Natal	Babeuf	e
outros	qualificados	por	alguns	autores	como	expoentes	do	anarquismo.	Desse
mesmo	grupo	heterogêneo,	aliás,	saíram	Marx	e	Engels.
A	 partir	 da	 segunda	 metade	 do	 século	 XIX	 as	 correntes	 socialistas	 se
cristalizaram	no	marxismo,	que	dá	início	ao	chamado	socialismo	científico.
A	 obra	 de	 Marx,	 intitulada	 O	 Capital,	 condensa	 a	 doutrina	 marxista,
enquanto	o	Manifesto	comunista,	assinado	por	Marx	e	Engels,	foi	o	grito	de
guerra	que	ecoou	pelo	mundo	inteiro,	inspirando	o	socialismo	revolucionário,
e	com	este	o	socialismo	de	Estado.
As	 ideias	 marxistas	 proliferaram	 como	 sementeira	 lançada	 em	 terreno
fértil.	O	Estado	liberal,	eivado	de	erros	doutrinários,	superado	pelas	realidades
sociais,	 se	 tornara	 impotente	 para	 resolver	 o	 conflito,	 cada	 vez	mais	 grave,
entre	 as	 classes	 obreiras	 e	 patronais.	 Tal	 situação	 se	 agravara	 de	 maneira
alarmante	 nos	 primeiros	 anos	 do	 século	XX,	 ameaçando	 a	 estabilidade	 dos
governos	democráticos,	os	quais	passaram	a	adotar	medidas	excepcionais	de
autodefesa.
A	guerra	de	1914-1918,	chamando	aos	setores	da	defesa	externa	as	forças
militares	 e	 as	 atenções	 dos	 estadistas,	 criou	 ambiente	 propício	 à
transformação	 violenta	 da	 ordem	 constituída.	 Foi	 o	 que	 ocorreu	 na	 Rússia:
enquanto	o	grosso	do	exército	se	desviara	para	as	frentes	de	batalha,	sofrendo
os	 reveses	 impostos	 pelas	 armas	 alemãs,	 encontrando-se	 o	 país
desorganizado,	debatendo-se	numa	tremenda	crise	social	e	econômica,	valeu-
se	a	corrente	socialista	da	confusão	reinante,	para	suprimir	a	velha	autocracia
dos	Czares.
A	 revolução	 que	 se	 desencadeia	 nos	 centros	 industriais	 de	 Petrogrado	 e
Moscou	 é	 inspirada	 no	Manifesto	 comunista,	 tendo	 por	 objetivo	 a	 inversão
fundamental	 da	 ordem	 política,	 com	 a	 destruição	 da	 sociedade	 burguesa,	 a
abolição	da	propriedade	privada,	a	nacionalização	das	fontes	de	produção	e	a
instauração	da	ditadura	do	proletariado.
Vitoriosa	a	revolução,	abdicou	o	Czar	em	15	de	março	de	1917.	De	acordo
com	o	Comitê	Executivo,	a	Duma	nomeou	o	governo	provisório,	composto	de
representantes	 de	 todos	 os	 partidos.	Tal	 solução	 de	 emergência,	 porém,	 não
contentou	 o	Conselho	 de	 Operários	 e	 Soldados,	 o	 que	 levou	 a	 assumir	 o
poder	o	chefe	do	Partido	Socialista	Revolucionário,	Kerenski,	que	foi	um	dos
vultos	mais	 proeminentes	 e	 de	 real	mérito	 em	 toda	 a	 história	 da	 revolução
russa.
A	princípio	a	revolução	socialista	caminhava	num	sentido	mais	ou	menos
horizontal,	 tendendo	 para	 a	 estruturação	 de	 um	Estado	 liberal	 proletarista,
mas	o	governo	provisório	era	idealista	e	fraco,	o	que	permitiu	que	as	correntes
extremistas	desfechassem	a	contrarrevolução	e	organizassem	o	sovietismo.
Contra	 o	 Partido	 Socialista	 Revolucionário	 levantara-se	 o	 Partido
Operário	Russo	Social-Democrático,	que	desde	logo	se	viu	dividido	em	duas
facções:	Menchevique	e	Bolchevique.
O	 grupo	 Bolchevique	 (maioria),	 dirigido	 por	 Wladimir	 Ilitch	 Ulianov,
conhecido	 mundialmente	 pelo	 nome	 de	 Lenin,	 apoderou-se	 do	 governo
através	da	sua	Guarda	Vermelha,	sob	o	comando	de	Trotsky,	em	novembro	de
1917.	 Assumiu	 o	 poder	 o	 Conselho	 de	 Operários,	 sob	 a	 denominação
Congresso	Nacional	de	Operários,	Camponeses	 e	 Soldados,	 confiando-se	 o
poder	executivo	a	um	Conselho	de	Comissários	do	Povo,	sob	a	presidência	de
Lenin.
O	Estado,	que	se	diz	comunista,	anuncia	a	nova	ordem	como	ditadura	do
proletariado.	Em	verdade,	porém,	é	a	ditadura	do	Partido	Bolchevista	que	se
instaura,	 inaugurando	o	reino	do	terror:	eliminação	sumária	dos	adversários,
luta	feroz	pelo	extermínio	da	religião,	estatização	da	economia,	subordinação
da	 justiça	 ao	 controle	 do	 executivo,	 concentração	 de	 poderes	 nas	 mãos	 do
Presidente	 do	 Conselho	 e	 um	 simulacro	 de	 representação,	 consistente	 emconselhos,	comitês,	comissariados	etc.,	cujos	membros	são	eleitos	segundo	a
vontade	do	partido	único.
A	convocação	de	uma	Assembleia	Constituinte,	prevista	e	anunciada	pela
revolução	bolchevista,	realizou-se	efetivamente,	logo	em	dezembro	de	1917,
mas	 como	 Kerensky	 obtivesse	 esmagadora	 maioria,	 a	 Constituinte	 foi
dissolvida	por	decreto	de	Lenin,	em	18	de	janeiro	de	1918.
O	 comunismo	 de	 guerra,	 que	 se	 instaura,	 passa	 por	 sucessivas
modificações,	 para	 dar	 lugar	 à	 chamada	 Nova	 Política	 Econômica,	 cujo
arcabouço	 vem	 delineado	 nas	 Leis	 Fundamentais	 de	 1918,	 1925	 e	 1936.
Sucederam-se	as	medidas	governamentais	de	alcance	econômico,	tais	como	a
abolição	da	propriedade	da	terra,	a	nacionalização	dos	bancos,	a	organização
do	comércio	privado	etc.
Em	 fevereiro	 de	 1918	 foi	 criado	 o	 Exército	 Vermelho	 de	 Operários	 e
Camponeses.	Em	março	foi	transladada	a	capital,	de	Petrogrado	para	Moscou.
Em	julho	o	Partido	Bolchevista	determinou	a	execução	do	Czar	e	de	 toda	a
família	imperial.	Durante	o	período	do	comunismo	de	guerra,	Lenin	enfrentou
com	 pulso	 de	 aço	 a	 guerra	 civil,	 o	 bloqueio	 estrangeiro,	 a	 desarticulação
completa	 da	 indústria,	 do	 comércio,	 da	 lavoura,	 de	 todas	 as	 fontes	 de
produção,	sobretudo	a	calamidade	da	fome.
Depois	 de	 1921	 entra	 o	 país	 numa	 fase	 de	 recuperação	 nacional,	 com	 o
renascimento	da	indústria,	a	organização	dos	sindicatos,	a	fundação	do	Banco
do	Estado	etc.	Na	ordem	jurídica,	 foi	promulgada	a	Declaração	de	Direitos
do	 Povo	 Operário	 e	 Explorado,	 publicado	 o	 Código	 Civil,	 sendo	 ainda
elaboradas	diversas	leis	fundamentais.
2.	O	ESTADO	SOVIÉTICO
Segundo	 a	 Lei	 Fundamental	 de	 1923,	 a	 URSS	 (União	 das	 Repúblicas
Socialistas	Soviéticas)	era	um	tipo	sui	generis	de	confederação	ou	federação
de	 Estados,	 visando	 uma	 cooperação	 efetiva	 de	 nações	 diversas	 para	 a
manutenção	 da	 ordem	 socialista.	 A	 sua	 configuração	 política	 compreendia
vários	 círculos	 autônomos,	 hierarquizados,	 tendo	 como	 órgão	 supremo	 o
Congresso	 dos	 Soviets,	 composto	 de	 duas	 câmaras:	 o	 Soviet	 Federal	 e	 o
Soviet	das	Nacionalidades.
O	Soviet	Federal	(ou	Soviet	da	União)	era	composto	de	representantes	do
povo,	 eleitos	 por	 quatro	 anos,	 na	 proporção	 de	 1	 por	 25.000	 habitantes.	 O
Soviet	das	Nacionalidades,	equivalente	ao	Senado	dos	Estados	democráticos
federativos,	era	composto	de	representantes	das	Repúblicas	soviéticas	unidas.
O	 Partido	 Bolchevista,	 ou	 Comunista,	 partido	 único,	 era	 o	 supervisor
máximo	 de	 toda	 a	 organização	 política,	 social,	 econômica,	 administrativa	 e
jurídica.	A	lei,	em	última	análise,	era	uma	expressão	da	vontade	do	partido.	O
mais	alto	posto	de	todos	os	departamentos	estatais	era	ocupado	pelo	chefe	do
partido	dominante.
Em	resumo,	eram	características	essenciais	do	Estado	socialista	 russo:	a)
partido	 único;	 b)	 ditadura	 classista;	 c)	 governo	 coletivista	 integral	 e
materialista;	d)	concentração	de	poderes	no	órgão	executivo;	e)	eliminação	da
propriedade	 privada;	 f)	 estatização	 integral	 da	 economia;	 g)	 nacionalização
das	fontes	de	produção;	h)	imperialismo	internacionalista.
3.	OBSERVAÇÕES
Segundo	 o	 ideal	 comunista,	 o	 Estado	 seria	 um	 mal	 necessário,	 uma
organização	 transitória,	 devendo	 extinguir-se	 por	 etapas.	Atingido	 o	 estágio
superior	da	ordem	comunista,	extinguir-se-ia	o	governo	de	pessoas,	para	dar
lugar	a	um	sistema	de	simples	administração	das	coisas	comuns.
Até	1936,	pelos	menos,	essa	era	a	doutrina.	O	Estado	desapareceria	como
consequência	do	nivelamento	das	classes.	Suprimidas	estas,	ao	ser	atingido	o
estágio	superior	da	ordem	comunista,	cessariam	as	lutas,	e	com	elas,	a	razão
de	ser	do	Estado.
Posteriormente,	 porém,	 o	 bolchevismo	 resolveu	 cancelar	 essa	 parte
programática,	 mandando	 liquidar	 sumariamente	 os	 que	 a	 defendiam,
notadamente	o	líder	Pashunkanis,	que	foi	um	dos	mais	destacados	teóricos	do
comunismo.
Assim,	 o	 sovietismo,	 firmando-se	 como	 uma	 ditadura	 classista,	 é	 uma
negação	do	ideal	comunista.
Tornou-se	ainda	uma	negação	do	marxismo,	desde	que	se	degenerou	num
sistema	de	capitalismo	de	Estado	e	numa	ditadura	que	Marx	só	previa	como
período	de	transição	para	a	implantação	da	ordem	socialista	ideal.
A	ideologia	soviética	se	diz	essencialmente	dinâmica;	seria	uma	Revolução
em	marcha.	Por	 isso	mesmo	estaria	sujeita	a	contínuas	 transformações,	para
atender	aos	novos	fatores	e	adaptar-se	aos	novos	fenômenos	sociais.	A	tática
de	recuos,	disse	Lenin,	faz	parte	dessa	revolução	em	marcha	para	a	conquista
do	mundo.
O	 Estado	 soviético	 era	 essencialmente	 ecumênico,	 transcendendo	 do
campo	 interno	 para	 o	 internacional;	 pregava	 a	 união	 dos	 trabalhadores	 do
mundo	inteiro,	açulando	as	reivindicações	proletárias	além	das	suas	fronteiras
e	criando	uma	atmosfera	de	instabilidade	e	de	agitação	social,	como	convinha
aos	seus	objetivos	de	expansão.
Nos	 últimos	 anos,	 porém,	 a	 história	 registrou	 a	 falência	 do	 modelo
marxista	corporificado	pela	extinta	URSS.
Mikhail	 Gorbachev	 assumiu	 em	 março	 de	 1985	 a	 secretaria	 geral	 do
Partido	 Comunista,	 disposto	 a	 modernizar	 o	 modelo	 então	 vigente,	 cujos
sinais	 de	 exaustão	 já	 eram	 mais	 do	 que	 visíveis.	 Lançou,	 logo	 nos	 meses
seguintes,	 o	 programa	 da	 “Perestroika”	 (reestruturação)	 e	 da	 “Glasnost”
(transparência),	 compromissos	 de	 reforma	 da	 economia	 e	 das	 estruturas
políticas.	 Em	 outubro	 de	 1988,	 ampliou	 o	 seu	 poder	 político	 e	 foi	 eleito
Presidente	da	URSS,	cargo	que	em	maio	de	1989	acumulou	com	a	presidência
do	novo	Parlamento	Soviético.
Em	 fevereiro	 de	 1990,	 o	 Partido	Comunista	 da	União	 Soviética	 (PCUS)
renuncia	ao	monopólio	do	poder,	 ao	mesmo	 tempo	em	que	começam	a	cair
governos	comunistas	de	países	vizinhos	do	Leste	Europeu.
Em	19	de	agosto	de	1991	ocorre	uma	tentativa	frustrada	de	golpe	por	parte
dos	 setores	militaristas	 ortodoxos	da	URSS.	Esse	golpe	 frustrado	 acaba	por
consolidar	 os	 poderes	 políticos	 dos	 reformistas	mais	 radicais,	 liderados	 por
Boris	Yeltsin,	primeiro	presidente	da	Rússia	eleito	por	voto	direto	em	junho
de	 1991,	 e	 precipita	 irremediavelmente	 o	 fim	 do	 modelo	 marxista	 então
praticado	e	da	própria	URSS.
4.	CRIAÇÃO	DA	CEI
Uma	das	primeiras	manifestações	da	desintegração	da	URSS	aconteceu	em
11	de	março	de	1990,	com	a	declaração	de	independência	da	Lituânia,	seguida
em	1991	pelas	da	Geórgia,	Estônia,	Letônia,	Ucrânia	e	demais	Estados.	Em	8
de	dezembro,	os	Presidentes	da	Rússia,	Ucrânia	e	Bielorrússia,	reunidos	nos
arredores	da	cidade	bielorussa	de	Brest,	firmaram	o	documento	de	criação	da
Comunidade	 dos	 Estados	 Independentes	—	 CEI,	 no	modelo	 confederativo,
oferecendo-o	 para	 a	 adesão	 das	 demais	 repúblicas,	 numa	 ação	 direta	 e
decisiva	 contra	 a	 estrutura	 da	 URSS,	 ainda	 comandada	 por	 Mikhail
Gorbachev.
Com	 a	 adesão	 de	 mais	 nove	 Estados	 aos	 princípios	 ali	 expostos,
consolidando	a	nova	Confederação,	e	sem	outra	alternativa,	a	25	de	dezembro
de	 1991	 Gorbachev	 renuncia	 e	 a	 bandeira	 soviética	 no	 Kremlim	 é	 arriada,
marcando	o	fim	da	União	das	Repúblicas	Socialistas	Soviéticas.
Em	 seu	 discurso	 de	 renúncia	 e	 despedida,	 Gorbachev	 encontrou	 espaço
para	 reafirmar	 sua	 fé	 comunista,	 dizendo	 que	 o	 PCUS	 não	 poderia	 ser
responsabilizado	pelos	pecados	de	seus	líderes.	Registrou	que	a	CEI	nascia	da
dissolução	de	um	Estado	que	ele	tentara	preservar	a	qualquer	custo,	e	que	as
reformas	 haviam	 nascido	 do	 próprio	 Partido:	 “Foi	 no	 Partido	 que	 essas
mudanças	 nasceram,	 e	 foram	 líderes	 do	 Partido	 que	 tiveram	 a	 coragem	 de
lançar	suas	plataformas”.
XXIX
REAÇÃO	ANTILIBERAL	E	ANTIMARXISTA
1.	O	fascismo	e	sua	doutrina.	2.	Organização	do	Estado	fascista.	3.
O	sistema	corporativo.
1.	O	FASCISMO	E	SUA	DOUTRINA
O	 fascismo	 italiano,	 depois	 do	 comunismo	 russo,	 foi	 a	 mais	 notável
tentativa	levada	a	efeito	no	sentido	de	reformar	as	bases	do	Estadomoderno.
Apresentou-se	como	um	movimento	de	dupla	reação:	contra	a	desintegração
socioeconômica	do	liberalismo	decadente	e	contra	a	infiltração	do	comunismo
internacionalista.
No	campo	da	filosofia	política	situou-se	numa	posição	intermediária,	entre
o	coletivismo	e	o	individualismo,	formulando	a	concepção	de	que	o	Estado	é
união	de	grupos	ou	corporações.
Eminentemente	nacionalista,	apresentou-se	com	as	características	do	velho
cesarismo	romano,	sonhando	com	o	restabelecimento	das	glórias	do	passado
imperial.	Mais	radical	do	que	o	bonapartismo,	amparou-se	na	teoria	do	poder
absoluto,	 segundo	 a	 fórmula	 do	 Leviatã	 de	 Hobbes.	 Não	 obstante	 tivesse
antecedido	ao	nazismo,	abeberou-se	na	fonte	da	filosofia	alemã	para	deduzir
uma	ideologia	própria,	um	sistema	político	especialíssimo,	e,	sobretudo,	uma
teoria	 original	 de	 soberania	 e	 de	 justificação	 do	 Estado,	 que	 Mussolini	 e
Rocco	assim	enunciaram:	 la	dottrina	 fascista	nega	 il	dogma	della	sovranitá
populare,	che	é	ogni	giorno	smentido	della	realtá,	e	proclama	in	sua	vece	il
dogma	della	sovranitá	dello	Stato.
Embora	 surgisse	 do	 oportunismo,	 sem	 doutrina,	 o	 fascismo,	 depois	 de
consolidado	 no	 poder,	 passou	 a	 teorizar	 um	 sistema	 peculiar:	 o	 Estado	 é
criador	 exclusivo	 do	direito	 e	 da	moral;	 os	 homens	 não	 têm	mais	 do	 que	 o
direito	 que	 o	 Estado	 lhes	 concede;	 o	 Estado	 é	 personificado	 no	 partido
fascista,	 e	 este	 não	 encontra	 limites	 morais	 ou	 materiais	 à	 sua	 autoridade;
todos	os	cidadãos	e	seus	bens	lhe	pertencem;	os	opositores	são	considerados
como	traidores	e	sujeitos	à	justiça	que	é	controlada	pelo	órgão	executivo.
A	 nação,	 segundo	 a	 Carta	 del	 Lavoro,	 de	 1927,	 “é	 a	 unidade	 moral,
política	 e	 econômica,	 que	 se	 realiza	 integralmente	 no	 Estado	 fascista”.	 E	 o
Estado	 “é	 a	 unidade	 formada	 pela	 série	 infinita	 de	 gerações	 passadas,
presentes	e	futuras,	superando	os	indivíduos,	com	vida,	fins	e	meios	de	ação,
superiores,	no	poder	e	na	duração,	aos	das	pessoas	que	o	compõem”.
Colocando-se,	 portanto,	 em	 posição	 diametralmente	 oposta	 à	 concepção
liberal	proclama	Mussolini	que	a	nação	não	é	elemento	integrante	do	Estado.
Ao	revés,	é	criada	pelo	Estado,	cabendo	a	este	dar	ao	povo,	consciente	da	sua
unidade	moral,	uma	vontade,	consequentemente,	uma	existência	efetiva.	Nos
termos	 da	 filosofia	 alemã	 hegeliana,	 afirmou	 que	 o	 Estado	 é	 o	 absoluto,
diante	do	qual,	 indivíduos	e	grupos	são	o	relativo.	Daí	a	 sua	célebre	divisa:
Tudo	dentro	do	Estado,	nada	 fora	do	Estado,	nada	contra	o	Estado.	A	esse
extremismo	 monista	 Pio	 XI	 deu	 a	 denominação	 de	 estatolatria	 —
endeusamento	do	Estado.
É	evidente	a	afinidade	entre	o	fascismo	e	a	doutrina	do	famoso	secretário
florentino,	 exposta	 no	 livro	 O	 príncipe,	 tanto	 que	 o	 próprio	 Mussolini,
escrevendo	Prelúdios	 a	Maquiavel,	 em	 1924,	mencionou	 que	 na	 atualidade
italiana	 o	 maquiavelismo	 estava	 mais	 vivo	 do	 que	 na	 época	 do	 seu
aparecimento.
Na	ordem	econômica	o	fascismo	condenou	formalmente	o	liberalismo	e	o
socialismo	 marxista.	 Pretendeu	 pôr	 fim	 à	 luta	 de	 classes	 pela	 organização
sindicalista,	 agrupando	nas	mesmas	corporações	 todos	os	membros	de	cada
ramo	 da	 produção,	 sem	 distinção	 entre	 patrões	 e	 operários.	 Esse
corporativismo	 mussoliniano	 lançava	 suas	 raízes	 nas	 antigas	 corporações
medievais	 e	 seguia,	 particularmente,	 a	 teoria	 de	 Georges	 Sorel,	 de	 quem
Mussolini	se	dizia	discípulo.	O	sistema	permitia	um	rígido	controle	partidário,
pois	 as	 corporações	 funcionavam	 como	 órgãos	 do	 partido	 único	 e	 ninguém
poderia	 exercer	 uma	 atividade	qualquer	 sem	prévia	 autorização	 corporativa.
Entretanto,	 não	 correspondia	 a	 uma	 doutrina	 preestabelecida:	 o	 sistema
corporativo	 fascista	 foi	 idealizado	e	posto	em	prática	posteriormente,	 isto	é,
no	período	de	adaptação	e	consolidação	da	ordem	revolucionária.
O	 Partido	 Nacional	 Fascista,	 que	 uma	 vez	 vitorioso	 se	 tornaria	 partido
único	de	estilo	jacobino,	estava	organizado	militarmente	e	contava	com	uma
forte	milícia	de	Camisas	Negras.	Foi	quando	Benito	Mussolini,	à	frente	dessa
milícia,	empreendeu	a	célebre	marcha	sobre	Roma,	em	1922.	Reconhecendo	a
inutilidade	de	qualquer	reação,	o	Rei	entregou	a	Mussolini	o	leme	do	Estado,
nomeando-o	presidente	do	Conselho	de	Ministros.
O	 Partido	 que	 então	 assume	 o	 poder	 não	 é	 um	 órgão	 de	 representação
política,	mas	depositário	único	da	confiança	nacional	e	o	intérprete	exclusivo
da	vontade	do	povo.	É	a	própria	nação	italiana	que	se	integra	no	Partido	e	se
deixa	 dirigir	 pela	 vontade	 incontrastável	 do	 homem	 providencial.	 Por	 isso
mesmo,	 o	 fascismo	não	 admitia	 a	 existência	 de	 outros	 partidos	 e	 procurava
impor	 a	 sua	 ideologia	 a	qualquer	preço.	O	Partido	Nacional	Fascista	 era	 ao
mesmo	 tempo	 Estado,	 nação,	 governo	 e	 organização	 produtiva,	 como
acentuou	 Olivetti.	 Ou,	 como	 no	 dizer	 de	 Agostinho	 Sisto,	 um	 Órgão	 de
educação	e	unificação	política	da	nação,	por	isso,	uma	instituição	integrativa
da	ação	do	Estado.	Verdadeiro	instituto	de	direito	público.
2.	ORGANIZAÇÃO	DO	ESTADO	FASCISTA
Mantém	 o	 fascismo	 como	 órgãos	 constitucionais	 a	 Coroa,	 o	 Chefe	 do
Governo,	 o	 Grande	 Conselho	 do	 Fascismo,	 o	 Senado,	 a	 Câmara	 e	 os
Ministros.
A	Câmara	de	 representação	nacional,	que	aceitara	a	nova	ordem	fascista,
transforma-se	em	Câmara	Corporativa,	órgão	técnico	e	consultivo,	constituído
de	400	membros	eleitos	pelas	associações	profissionais.
Toda	a	organização	estatal,	porém,	se	apoiava	na	milícia	civil	e	voluntária,
mantida	pelo	Partido,	que	 lhe	deu	a	denominação	ORDEM	 pela	 lei	 de	9	de
dezembro	de	1928.	Aliás,	como	cita	Pedro	Calmon,	quando	em	1924	se	falou
na	Câmara	 sobre	 a	 conveniência	de	dissolver	 a	milícia	de	Camisas	Negras,
advertiu	o	Duce	em	tom	enérgico:	quem	tocar	nas	milícias	receberá	chumbo.
No	 tocante	 ao	Rei,	 agiu	 o	 fascismo	 com	 inteligência	 e	 perspicácia.	Não
convinha	 ao	 Partido,	 certamente,	 romper	 de	 pronto	 com	 as	 tradições
monárquicas	 imanentes	 na	 consciência	 do	 povo.	 Por	 isso,	 a	 exemplo	 do
Parlamento	 inglês	 que	 se	 harmonizou	 perfeitamente	 com	 a	 monarquia
segundo	o	 princípio	 de	 que	o	 rei	 reina	mas	 não	 governa,	 o	 Estado	 fascista
manteve	a	Coroa	como	um	símbolo,	fato	que	lhe	valeu,	sem	dúvida,	o	apoio
da	população	italiana	e	 lhe	possibilitou	a	realização	pacífica	de	uma	notável
obra	social	e	econômica.
3.	O	SISTEMA	CORPORATIVO
Em	 face	 dos	 conflitos	 entre	 o	 capital	 e	 o	 trabalho,	 conseguiu	 o	 Estado
fascista,	 inegavelmente,	 estabelecer	 uma	 paz	 duradoura,	 lançando	 mão	 dos
contratos	 coletivos	 de	 trabalho	 e	 de	 uma	 completa	 organização	 corporativa
das	 categorias	 profissionais.	 Manteve	 a	 iniciativa	 privada	 e	 a	 livre
concorrência,	 subordinadas,	 porém,	 aos	 superiores	 interesses	 sociais.	 O
trabalho	foi	considerado	como	dever	social.	O	direito	de	greve	foi	abolido,	e
considerado	qualquer	movimento	paredista	como	crime	contra	a	organização
corporativa	 estatal.	 A	 liberdade	 do	 trabalhador	 —	 doutrina	 Chimienti	 —
realiza-se	 de	 uma	 maneira	 certa	 e	 institucional	 na	 igualdade	 de	 todos	 os
trabalhadores	perante	a	 lei	e	na	proteção	e	assistência	social	que	o	Estado
lhes	assegura.
A	Carta	do	Trabalho,	organizada	pelo	Grande	Conselho	do	Fascismo,	é	o
documento	fundamental	do	regime	corporativo	italiano,	que	estudaremos	em
outra	 parte	 do	 nosso	 programa.	 Desbravou	 esse	 documento	 básico	 do
fascismo	 largos	 caminhos,	 pelos	 quais	 a	 humanidade	 procurou	 e	 vem
procurando	encontrar	a	solução	dos	seus	problemas,	tanto	assim	que	serviu	de
modelo	a	muitos	códigos	trabalhistas	de	outros	países.
Conquanto	 sejam	 realmente	 inegáveis	 as	 vantagens	 apresentadas	 pelo
corporativismo	 orgânico,	 no	 campo	 da	 economia,	 certo	 é	 que	 o	 regime
político	fascista	foi	funesto	como	todas	as	ditaduras.	De	mãos	dadas	com	as
forças	dominantes	do	capitalismo,	entronizoua	violência,	internamente	como
método	de	governo,	e,	no	plano	internacional,	como	programa	de	conquista,
arrastando	o	povo	heroico	da	Itália	a	uma	autêntica	catástrofe	nacional.
XXX
O	ESTADO	NAZISTA	ALEMÃO
1.	O	nazismo.	2.	O	racismo	alemão.
1.	O	NAZISMO
Assim	 como	 o	 fascismo	 italiano,	 surgiu	 o	 nazismo	 na	Alemanha	 com	 o
duplo	objetivo	de	combater	o	 liberalismo	democrático	decadente	e	de	reagir
contra	a	infiltração	comunista.
Duas	 outras	 finalidades	 integravam	 o	 programa	 de	 ação	 do	 Partido
Nacional	 Socialista:	 desvencilhar	 a	 Alemanha	 das	 cláusulas	 asfixiantes	 do
Tratado	de	Versalhes	e	impor	a	supremacia	da	raça	ariana.
Desenvolveu-se	o	nazismo	à	 sombra	das	 instituições	democráticas,	 sob	a
égide	da	Constituição	de	Weimar,	ascendendo	ao	poder	através	das	eleições
de	maio	de	1933.	A	república	alemã	de	Weimar	era	excessivamente	liberal,	o
que	 propiciou	 o	 rápido	 desenvolvimento	 de	 um	 partido	 declaradamente
subversivo,	totalitarista	e	revestido	de	caráter	militar.	Aliás,	a	corrente	nazista
exaltava	as	tradições	e	reunia	os	expoentes	do	antigo	militarismo	prussiano.
Por	 decreto	 de	 6	 de	 fevereiro	 de	 1933,	 o	 governo	 da	 federação	 alemã
dissolveu	o	Landtag	 (câmara	 de	 deputados)	 da	 Prússia,	 província	 que	 já	 se
encontrava	 sob	 intervenção	 federal.	 Consequentemente,	 o	 Comissário	 do
Reich	 foi	 investido	 de	 plenos	 poderes	 para	 realizar	 ali	 novas	 eleições,
conjuntamente	com	as	do	Reichtag.	Na	renovação	de	ambas	as	assembleias	o
Partido	Nacional	 Socialista,	 liderado	 por	Adolph	Hitler,	 obteve	 esmagadora
vitória.
Diante	 do	 triunfo	 dos	 nacional-socialistas,	 o	 Presidente	 Hindenburg
nomeou	Hitler	Chanceler	do	Reich,	iniciando-se	uma	profunda	transformação
política.
Foram	 desde	 logo	 elaboradas	 pelo	 novo	 governo	 diversas	 leis	 de
uniformização,	 pelas	 quais	 se	 extinguiram	 os	 laços	 da	 antiga	 federação,
tornando-se	 os	 Estados-Membros	 simples	 províncias	 diretamente
subordinadas	 ao	 governo	 central.	 O	 sistema	 republicano	 parlamentarista,
regido	pela	famosa	Constituição	de	Weimar,	de	1919,	foi	abolido	por	etapas,
rapidamente,	caminhando	o	Estado	a	passos	largos	para	a	plena	integração	da
ditadura	hitleriana.
Com	 o	 falecimento	 do	 Presidente	 Hindenburg	 deu-se	 a	 sucessão	 nos
termos	do	art.	1º	da	lei	de	1º	de	agosto	de	1934,	verbis:	O	cargo	de	presidente
do	Reich	fica	unido	ao	de	Chanceler	do	Reich.	Os	poderes	do	Presidente	do
Reich,	consequentemente,	passam	ao	Führer	 e	Chanceler	 do	Reich,	Adolph
Hitler.	Ele	designará	o	seu	substituto.
Investido	 de	 poderes	 ditatoriais,	 Hitler	 extinguiu	 os	 demais	 partidos
políticos,	 dissolveu	 todos	 os	 grupos	 nacionais	 considerados	 perigosos,
subordinando-os	à	disciplina	férrea	do	Partido	Nacional	Socialista	e	lançou	as
bases	estruturais	do	Terceiro	Reich,	 que	 iria	 reconstruir	 a	Grande	Alemanha
sobre	os	escombros	da	primeira	grande	guerra	mundial.
Adolph	 Hitler,	 antigo	 oficial	 subalterno,	 de	 nacionalidade	 austríaca,
iniciara	 a	 luta	 pela	 posse	 do	 governo	 fundando	 um	 partido	 militarizado	 à
maneira	 fascista	 com	 a	 sua	 milícia	 de	 Camisas	 Pardas.	 Possuindo
extraordinário	poder	de	domínio	sobre	as	massas,	adquiriu	imenso	prestígio	e
tornou-se	um	semideus,	aureolado	pela	pretensão	de	um	destino	místico,	qual
fosse	 o	 de	 realizar	 o	 pangermanismo	 pregado	 pelas	 teorias	 caducas	 de
Chamberlain	e	Gobineau.
O	 Partido	 Nacional	 Socialista	 tornou-se	 a	 personificação	 do	 próprio
Estado.	Era	o	poder	mais	alto	e	incontrastável,	ao	qual	se	subordinavam	todas
as	 atividades	 públicas	 e	 privadas.	 Procurou	 o	 Partido	 reeducar	 as	massas	 e
formar	 uma	 juventude	 hitlerista	 semelhante	 a	 um	 exército	 de	 autômatos.
Realizou	 gigantescas	 obras	 públicas	 e	 desenvolveu	 intensivamente	 a
preparação	bélica	do	país.	Desenvolveu	no	plano	internacional	uma	atividade
diplomática	 agressiva,	 procurando	 libertar	 a	 Alemanha	 dos	 tratados
humilhantes	 que	 lhe	 foram	 impostos	 pelos	 vencedores	 da	 grande	 guerra	 de
1914-1918,	levando	esse	programa	de	ação	à	provocação	da	segunda	guerra.
2.	O	RACISMO	ALEMÃO
A	parte	 construtiva	 do	 seu	 programa	no	 plano	 interno	 tinha	 por	 objetivo
principal	 a	 exaltação	 dos	 vínculos	 nacionais,	 como	 resume	 Queiroz	 Lima:
proteção	aos	 símbolos	nacionais	 e	dignificação	da	história	 alemã	 segundo	a
interpretação	nacional-socialista;	e	depuração	da	nacionalidade	com	o	fim	de
realizar	 uma	 Alemanha	 isenta	 da	 influência	 dos	 não	 arianos.	 Com	 esta
finalidade,	aliás,	foi	elaborada	a	lei	sobre	esterilização,	em	vigor	a	partir	de	1º
de	janeiro	de	1934.
A	 ideia	 racial	 trouxe	 a	 separação	 entre	 alemães	 e	 não	 alemães,
especialmente	entre	alemães	e	judeus,	afirmando	os	nazistas	que	a	luta	contra
os	 judeus	 é	 questão	 de	 vida	 ou	 morte.	 Assim,	 as	 teorias	 racistas	 foram
dirigidas	com	ferocidade	particular	aos	judeus,	condenados	ao	extermínio	nos
terríveis	campos	de	concentração.
O	 racismo	 alemão,	 em	 última	 análise,	 era	 um	 racismo	 político,	 fundado
sobre	o	estado	civil	e	o	vínculo	de	 religião.	Se	o	 fosse	sobre	as	mesurações
somáticas,	 observa	 G.	 Mosca,	 teria	 esse	 racismo	 o	 inconveniente	 de	 fazer
aparecer	 o	 fato	 de	 que	 Hitler	 pertencia	 à	 raça	 inferior	 dos	 braquicéfalos
morenos	e	que	Goebbels	tinha	um	tipo	judaico	característico.
Fazendo	 reviver	 os	 velhos	 mitos	 germânicos	 e	 procurando	 impor	 ao
mundo	o	domínio	da	raça	superior	ariana,	o	 regime	nazista	apresentava	um
nítido	 contraste	 em	 cotejo	 com	 o	 regime	 fascista,	 como	 observa	 Pedro
Calmon	—	a	moral	do	fascismo	era	clássica:	sonhava	com	o	império	romano;
a	do	nazismo	era	 romântica	 (romantismo	de	aço	de	Goebbels):	 reavivava	as
origens	 germânicas.	 O	 fascismo	 considerava	 a	 raça	 uma	 comunidade	 de
sentimentos;	 o	 nazismo,	 um	 laço	 de	 sangue.	 O	 fascismo	 considerava	 o
império	 como	 uma	 tendência	 política:	 é	 o	 fim	 dominador	 do	 Estado;	 o
nazismo,	como	uma	predominância	racial:	o	destino	superior	dos	arianos.	A
Itália	 deu	 à	 conquista	 da	 Etiópia	 a	 justificação	 de	 um	 objetivo	 civilizador-
colonial;	 a	 Alemanha	 explicou	 a	 incorporação	 da	 Áustria	 como	 sentido
unitarista	da	raça	germânica	na	luta	contra	os	não	arianos.	O	fascismo	era	um
movimento	de	 romanidade;	o	nazismo,	estendendo-se	aos	países	onde	havia
minorias	étnicas	alemãs,	era	um	movimento	de	consanguinidade.
No	 que	 tange	 à	 sua	 organização	 econômica	 declarou	 o	 nazismo	 que	 a
totalidade	 dos	 alemães	 forma	 uma	 comunidade	 econômica,	os	 atentados	 à
economia	 nacional	 devem	 ser	 castigados	 com	 a	 pena	 de	 morte.	 O
estabelecimento	 de	 um	 ano	 de	 trabalho	 obrigatório	 gratuito	 para	 a	 pátria,
dado	como	serviço	militar,	tem	um	alto	valor	educativo	e	econômico.
O	princípio	da	 igualdade	perante	 a	 lei,	 no	Estado	nazista,	 foi	 substituído
pelo	da	 igualdade	de	deveres	e	pelo	de	prevalência	do	bem	comum	sobre	o
bem	 individual.	 Sectário	 e	 intolerante	 como	 todas	 as	 ditaduras,	 a	 ditadura
nazista	 absorveu	 inteiramente	 a	 personalidade	 humana	 e	 anulou	 todos	 os
valores	individuais.
Mais	ainda	do	que	o	fascismo,	personificou-se	o	nazismo	no	seu	chefe,	e,
com	este,	desapareceu	nas	ruínas	da	imensa	hecatombe	que	o	seu	desvario	fez
desencadear	 sobre	 o	 mundo	 mal	 refeito	 das	 desastrosas	 consequências	 da
primeira	guerra.
XXXI
OS	ESTADOS	NOVOS
1.	 O	 totalitarismo	 do	 tipo	 fascista.	 2.	 Turquia.	 3.	 Polônia.	 4.
Portugal.	5.	Brasil.	6.	Argentina.
1.	O	TOTALITARISMO	DO	TIPO	FASCISTA
O	Estado	 fascista	 criado	 por	Benito	Mussolini,	 na	 Itália,	 em	1922,	 foi	 o
ponto	 de	 partida	 do	 chamado	 totalitarismo	 da	 direita,	 que	 teve	 notável
incremento	 na	 Europa	 depois	 da	 primeira	 guerra	 mundial	 (1914-1918)	 e
atingiu	a	América	Latina	a	par	dos	movimentos	de	exaltação	nacionalista.
A	 liberal	 democracia,	 em	 franca	 decomposição,	 não	 podia	 fazer	 face	 à
terrível	 crise	 social	 que	 assolava	 o	 mundo,nem	 podia	 oferecer	 resistência
eficaz	 à	 ameaça	 do	 imperialismo	 russo.	 Nessa	 conjuntura	 perigosa	 para	 a
liberdade	dos	povos	e	para	a	sobrevivência	da	civilização	ocidental,	foi	que	se
deu	 o	 aparecimento	 dos	 homens	 providenciais,	 ousados	 condutores	 das
massas	que	sabiam	explorar	não	só	o	descontentamento	do	proletariado	como
também	os	sentimentos	nacionalistas,	arvorando-se	em	salvadores	das	nações.
Como	 bem	 acentuou	 Pedro	 Calmon,	 em	 todas	 as	 épocas	 a	 ruptura	 do
equilíbrio	 entre	 um	método	 clássico	 de	 governo	 e	 a	 inquietação	 social	 que
impõe	 outras	 formas	 políticas,	 proporcionou	 o	 advento	 de	 homens
providenciais.
As	 novas	 organizações	 políticas	 que	 surgem,	 inspiradas	 pela	 vontade
onipotente	 desses	 líderes	 ou	 detentores	 eventuais	 do	 poder,	 constituem	 esse
conjunto	 heterogêneo	 de	 Estados	 Novos,	 no	 panorama	 confuso	 do	 após-
guerra,	 todos	eles	adaptados	arbitrariamente,	em	cada	país,	às	contingências
transitórias	de	um	dado	momento	histórico.	São	todos	galhos	de	um	mesmo
tronco,	que	é	o	fascismo,	do	qual	recebem	a	seiva	de	que	precisam	para	a	sua
floração	doutrinária.
Não	obstante	essa	diversidade	resultante	da	adaptação	sistemática	ao	meio
nacional,	apresentam	tais	Estados	certas	características	invariáveis	e	comuns,
quais	 sejam:	 a)	 concentração	 de	 toda	 a	 autoridade	 nas	 mãos	 de	 um	 chefe
supremo;	 b)	 restrições	 às	 liberdades	 públicas	 e	 regime	 de	 censura;	 c)
prevalecimento	do	 interesse	coletivo	sobre	o	 individual;	d)	partido	único;	e)
dirigismo	econômico;	 f)	 estatismo,	 nacionalismo	ou	 racismo,	 como	objetivo
moral	do	Estado.
Valeram-se	os	ditadores	de	ideias-forças	(unificação	e	grandeza	da	pátria,
culto	das	tradições	etc.)	para	galvanizar	os	espíritos	e	polarizar	os	sentimentos
cívicos	 da	 comunidade	 nacional.	 No	 setor	 econômico,	 postergaram	 a	 livre
concorrência,	 o	 laissez-faire,	 laissez-passer	 do	 liberalismo,	 estabelecendo	 o
primado	da	coletividade	sobre	o	indivíduo.
Afastando	 formalmente	 a	 concepção	 abstrata	 do	homem	 soberano	 criado
pelo	liberalismo	da	revolução	francesa,	os	Estados	Novos	só	admitiam	como
sujeito	 de	 direito	 público	 a	 totalidade	 dos	 cidadãos	 —	 por	 isso	 que	 eram
Estados	 totalitários	 ou	 coletivistas.	 As	 leis	 e	 atos	 governamentais
objetivavam	 a	 população	 no	 seu	 todo,	 pouco	 importando	 o	 sacrifício	 ou	 a
negação	de	interesses	ou	direitos	individuais.
A	segunda	guerra	mundial	(1939-1945),	pelo	lado	ideológico,	foi	o	choque
inevitável	entre	as	duas	concepções	filosóficas	extremadas	(o	individualismo
e	 o	 totalitarismo)	 que	 jamais	 poderão	 coexistir	 sem	 perigo	 para	 a	 paz
internacional.
Já	 analisados	 em	 suas	 linhas	 gerais	 os	 dois	 principais	 Estados	Novos	 (o
italiano	 e	 o	 alemão),	 passaremos	 em	 revista,	 neste	 capítulo,	 sumariamente,
outros	tipos	de	totalitarismo	fascista	que	apresentam	um	mais	acentuado	teor
de	originalidade.
2.	O	ESTADO	TURCO	—	KEMALISMO
A	 Turquia	 organizou	 também	 o	 seu	 governo	 de	 após-guerra	 à	 maneira
fascista.	Sua	Constituição	republicana,	de	20	de	abril	de	1924,	não	é	propria-
mente,	 literalmente,	 um	 código	 característico	 de	 Estado	 totalitário.	 Revela,
antes,	 um	 certo	 arremedo	 de	 parlamentarismo	 à	 inglesa,	 pois	 preceitua	 a
supremacia	da	Assembleia	Legislativa	eleita	mediante	sufrágio	popular.	O	seu
art.	7º	estabelece	que	A	Assembleia	exerce	o	Poder	Executivo	por	intermédio
de	um	Presidente	da	República	e	de	um	Conselho	de	Ministros	nomeado	por
ela.
O	Presidente	da	República	é	escolhido	pela	Assembleia,	para	o	prazo	de
uma	legislatura;	podendo	ser	exonerado,	e	não	tem	o	direito	de	dissolvê-la.
Uma	 coisa,	 porém,	 é	 a	 Constituição,	 e	 outra	 a	 realidade.	 O	 Presidente
Mustafá	 Kemal,	 valendo-se	 do	 direito	 de	 reeleição	 consignado	 no	 art.	 31,
manteve-se	no	poder,	como	ditador,	enfeixando	em	suas	mãos	a	totalidade	dos
poderes	de	Estado.	Revestiu-se	de	poder	pessoal	 incontrastável.	Suprimiu	as
oposições,	dentro	e	fora	da	Assembleia,	e	fazia	eleger	os	deputados	pela	lista
de	nomes	adrede	organizada	pelo	partido	único	do	qual	era	o	presidente.
Sob	 as	 aparências	 de	 uma	 democracia	 que	 só	 existia	 na	 letra	 da
Constituição,	 governou	 ditatorialmente,	 chegando	 a	 afirmar,	 em	 1932:	 No
momento,	é	preciso	que	o	povo	não	se	imiscua	em	política.	Deve	interessar-se
apenas	no	seu	campo	ou	no	seu	negócio.	Durante	10	ou	12	anos,	farei	eu	a
lei.	Depois	poderei,	talvez,	permitir-lhe	que	diga	o	que	pensa.
O	califado	de	Kemal,	entretanto,	foi	altamente	benéfico	ao	país:	dominou	a
anarquia	 resultante	 da	 extinção	 do	 sultanato,	 aboliu	 os	 velhos	 costumes
islâmicos,	 restabeleceu	 a	 ordem	econômica	 em	bases	 sólidas,	 reorganizou	 a
força	 militar	 dotando-a	 de	 moderno	 equipamento	 bélico,	 desenvolveu	 o
comércio	e	a	indústria,	incentivou	a	cultura	e	as	artes,	e,	sobretudo,	criou	uma
nova	 civilização	 de	 estilo	 europeu.	 Tão	 profundas	 foram	 as	 transformações
que	introduziu	no	campo	social	que,	sob	esse	aspecto,	realizou	a	maior	obra
de	governo	de	que	se	tem	notícia	na	história	de	todos	os	povos.
3.	O	ESTADO	POLONÊS	—	PILSUDSKISMO
A	 Polônia,	 pela	 sua	 Constituição	 de	 1921,	 firmara	 o	 princípio	 da
supremacia	 do	 poder	 legislativo,	 com	 franca	 tendência	 para	 o	 sistema
parlamentarista,	que	dominava	o	pensamento	político	na	Europa.
Entretanto,	 a	 nova	 República,	 que	 se	 desligara	 da	 Rússia	 pelo	 valoroso
feito	das	armas	comandadas	pelo	Marechal	Pilsudski,	em	1920,	passava	por
um	 tremendo	 período	 de	 crise	 interna,	 além	 de	 correr	 sérios	 perigos.	 A
situação	interna	era	gravíssima,	tanto	mais	pela	constante	agitação	das	forças
conservadoras	da	extinta	monarquia.	Isso	tudo	impossibilitava	uma	resistência
coesa	contra	as	ameaças	e	a	infiltração	do	comunismo	russo.
Compreendendo	 a	 gravidade	 do	 momento	 nacional,	 o	 Presidente	 e
fundador	da	República,	Marechal	Pilsudski,	desfechou	o	golpe	de	Estado,	 a
12	 de	maio	 de	 1926,	 assumindo	 a	 plenitude	 dos	 poderes	 e	 determinando	 a
reforma	constitucional	no	sentido	de	estabelecer	a	supremacia	do	executivo.
Pela	 Constituição	 de	 23	 de	 abril	 de	 1935	 (que	 teria	 inspirado	 a
Constituição	 brasileira	 de	 1937)	 tornou-se	 a	 Polônia	 uma	 República
espiritualista,	nacional	e	autoritária.
O	Parlamento	ficou	submetido	à	autoridade	suprema	do	Chefe	de	Estado	e
sujeito	 à	 dissolução,	 cessando	 ainda	 a	 sua	 competência	 para	 nomear	 ou
destituir	o	órgão	do	poder	executivo.
Estabeleceu	 ainda	 a	 Constituição	 de	 1935	 os	 seguintes	 princípios:	 o
Presidente	da	República	está	à	frente	do	Estado,	e	não	responde	senão	perante
Deus	e	a	história	pelos	destinos	do	Estado;	a	autoridade	única	e	indivisível	do
Estado	 está	 concentrada	 em	 sua	 pessoa;	 seu	 dever	 supremo	 é	 velar	 pelos
interesses	do	Estado.	São	órgãos	do	Estado	o	Governo,	a	Dieta,	o	Senado,	as
Forças	Armadas,	os	Tribunais	e	o	Controle	de	Estado,	colocados	todos	sob	a
autoridade	do	Presidente	 da	República;	 as	 liberdades	 públicas	 são	 limitadas
pelo	interesse	social	e	nada	se	permitirá	contra	ele.
Instituiu-se,	assim,	um	governo	ditatorial	regulado	num	sistema	orgânico	e
integrativo.
O	pilsudskismo	 procurou	 harmonizar	 os	 imperativos	 do	momento	 com	o
clássico	maquinismo	estatal,	opondo-se	à	desintegração	democrática	por	meio
de	uma	ditadura	orgânica,	eminentemente	nacionalista.
4.	O	ESTADO	PORTUGUÊS	—	SALAZARISMO
O	Estado	Novo	português	é	um	contubérnio	de	República	 representativa,
parlamentarismo,	corporativismo	e	ditadura	orgânica…	Uma	República	 “sui
generis”,	definiu	o	Prof.	Fézas	Vidal	da	Universidade	de	Lisboa	em	1937.
Como	 reação	 ao	 liberalismo	 impotente	 e	 à	 agressão	 comunista	 traduzida
em	frequentes	comoções	intestinas,	foi	imposto	pelo	exército,	sob	a	chefia	do
General	Carmona,	o	qual,	imediatamente,	entregou	a	direção	do	governo	a	um
professor	catedrático	da	Universidade	de	Coimbra,	economista	emérito	e	um
dos	espíritos	mais	lúcidos	daatualidade	portuguesa.
Garantido	 pela	 espada	 de	 Carmona,	 que	 assumiu	 a	 Presidência	 da
República	 como	 símbolo	 vivo	 da	 nova	 ordem	 nacional,	 Antônio	 Oliveira
Salazar,	 como	 Presidente	 do	 Conselho	 de	 Ministros,	 iniciou	 a	 tarefa	 de
promover	a	nova	estruturação	política,	social	e	econômica	do	país.
A	 Constituição	 portuguesa,	 aprovada	 pelo	 plebiscito	 nacional	 de	 19	 de
março	de	1933,	que	entrou	em	vigor	em	data	de	11	de	abril	do	mesmo	ano,
declara	 no	 seu	 art.	 5º	 o	 seguinte:	 “O	 Estado	 Português	 é	 uma	 República
unitária	 e	 corporativa,	 baseada	 na	 igualdade	 dos	 cidadãos	 perante	 a	 lei,	 no
livre	 acesso	 de	 todas	 as	 classes	 sociais	 aos	 benefícios	 da	 civilização	 e	 na
interferência	 de	 todos	 os	 elementos	 estruturais	 da	 nação	 na	 vida
administrativa	e	na	feitura	das	leis”.
O	Chefe	de	Estado	é	o	Presidente	da	República,	eleito	pela	nação	(art.	72).
Mas	 o	 governo	 (como	 nos	 sistemas	 parlamentaristas)	 é	 exercido	 pelo
Ministério	(art.	107).	A	autoridade	do	Presidente	do	Conselho	é	envolvente	e
domina	 toda	 a	 vida	 política,	 social	 e	 econômica	 do	 país.	 Os	 próprios
Ministros	 são	politicamente	 responsáveis	perante	 o	Presidente	 do	Conselho
(art.	 108),	 podendo	 este	 nomear	 e	 demitir	 os	 titulares	 das	 diversas	 pastas.
Poderá	o	Presidente	do	Conselho,	querendo,	acumular	em	suas	mãos	todas	as
funções	ministeriais.	Em	última	análise,	 todos	os	poderes	se	concentram	nas
mãos	do	Presidente	do	Conselho,	que	é,	realmente,	o	Chefe	do	Governo.
A	 Assembleia	 Nacional,	 que	 é	 composta	 de	 120	 deputados	 eleitos	 por
sufrágio	 direto,	 por	 4	 anos,	 tem	 o	 poder	 de	 votar	 as	 leis,	mas	 estas	 devem
restringir-se	 à	 aprovação	das	bases	gerais	 dos	 regimes	 jurídicos	 (art.	 92).	A
competência	 legislativa	 da	 Assembleia,	 nesses	 casos,	 é	 cumulativa,
dependendo	 sempre	 da	 sanção	 do	 Chefe	 do	 Governo,	 e,	 em	 geral,
compartível,	 pois	 tem	o	Governo	plena	competência	para	 expedir	Decretos-
leis.
Ao	 lado	 da	 Assembleia	 Nacional	 funciona	 uma	 Câmara	 Corporativa,
composta	de	representantes	das	autarquias	locais	e	dos	interesses	sociais.
Essa	 Câmara	 Corporativa,	 de	 natureza	 sindical,	 é	 apenas	 um	 órgão
consultivo	que	 age	 em	estreita	 e	 necessária	 colaboração	 com	a	Assembleia.
Todos	 os	 assuntos	 de	 ordem	 econômica	 são	 estudados	 e	 resolvidos
preliminarmente	na	Câmara	Corporativa.
A	função	judicial	é	exercida	por	tribunais	ordinários	e	especiais	(art.	116).
Na	 realidade,	 o	Estado	Novo	de	Portugal	 não	 se	 afasta	muito	 do	 regime
fascista,	chegando	mesmo	a	um	excessivo	cerceamento	da	liberdade	humana.
Entretanto,	segundo	as	próprias	palavras	de	Salazar	(Discursos,	Coimbra,
1935)	 “a	 ditadura	 deve	 resolver	 o	 problema	 político	 português	 como	 um
meio,	 não	 como	um	 fim	em	 si.	Há	que	 contrapor	 a	 um	e	outro	 extremo	do
Estado	forte,	mas	limitado	pela	moral	e	pelos	princípios	de	direito	das	gentes,
pelas	 garantias	 e	 liberdades	 individuais	 que	 são	 a	 exigência	 superior	 da
solidariedade	social.	Esse	conceito	deve	informar	a	organização	e	movimento
do	Estado	português	na	realização	de	sua	finalidade	histórica”.
Por	 outro	 lado,	 afirmou	Salazar	 que	 “é	 preciso	 afastar	 de	 nós	 o	 impulso
tendente	 à	 formação	 do	 que	 poderia	 chamar-se	 o	 Estado	 totalitário…”.	 E
acrescenta:	 “a	 nação	 é	 para	 nós	 una	 e	 eterna;	 nela	 não	 existem	 classes
privilegiadas	 nem	 classes	 diminuídas.	 O	 povo	 somos	 nós	 todos,	 mas	 a
igualdade	não	se	opõe	e	a	justiça	exige	que	onde	há	maior	necessidade	aí	seja
maior	a	solicitude:	não	se	é	justo	quando	se	não	é	humano”.
Salazar	governou	até	1968,	quando	adoeceu	gravemente	e	 foi	substituído
no	 cargo	 por	Marcelo	Caetano,	 que	manteve	 a	mesma	 política	 ditatorial	 do
regime	salazarista,	até	que,	em	25	de	abril	de	1974,	um	movimento	liderado
pelos	 militares	 jovens	 depõe	 o	 Primeiro-Ministro	 Marcelo	 Caetano	 e	 o
Presidente	 Américo	 Tomás.	 Assumiu	 a	 presidência	 o	 General	 Antônio
Sebastião	Ribeiro	de	Spínola,	 inaugurando	o	regime	socialista,	que	passou	a
viger,	pondo	fim	a	quase	cinquenta	anos	do	regime	salazarista.
5.	O	ESTADO	NOVO	BRASILEIRO	—	GETULISMO
O	Brasil	teve	também	o	seu	Estado	Novo,	imposto	por	um	golpe	de	Estado
do	próprio	Presidente	da	República,	Getúlio	Vargas,	com	o	apoio	das	forças
armadas	e	cedendo	às	aspirações	da	opinião	nacional.
Antecipando-se	 ao	 Partido	 Integralista,	 que	 pregava	 uma	 doutrina
totalitária	e	nacionalista	e	pugnava	pelo	Estado	forte,	Getúlio	Vargas	elaborou
e	outorgou	ao	País	a	Constituição	de	10	de	novembro	de	1937,	que	continha
os	 seguintes	 princípios	 básicos:	 fortalecimento	 do	 Executivo;	 competência
para	 expedir	 Decretos-leis;	 eliminação	 das	 lutas	 internas	 e	 dos	 dissídios
partidários;	 orientação	 e	 coordenação	 da	 economia	 nacional	 pelo	 Estado;
limitação	 dos	 direitos	 individuais	 pelo	 bem	 público;	 proteção	 efetiva	 ao
trabalho;	nacionalização	de	certas	atividades	e	fontes	de	riqueza	etc.
Sob	a	vigência	da	Carta	de	1937	não	funcionou	o	sistema	representativo.
Não	havia	partidos	políticos.	A	função	legislativa	foi	exercida	exclusivamente
pelo	Chefe	 do	Governo.	Os	 Estados	 componentes	 da	 federação	 perderam	 a
sua	 autonomia,	 sendo	governados	por	 interventores	 federais	 nomeados	 pelo
ditador.	 Os	 municípios	 foram	 administrados	 por	 prefeitos	 nomeados	 pelo
interventor,	sob	a	supervisão	de	um	departamento	estadual.	A	imprensa	escrita
e	falada	foi	submetida	a	rigorosa	censura.	A	ordem	econômica	foi	controlada
e	policiada	por	agentes	civis	e	militares.
O	 que	 de	 mais	 odioso	 apresentou	 o	 Estado	 autoritário	 de	 1937	 foi	 a
instituição	de	uma	justiça	de	exceção,	exercida	por	um	Tribunal	de	Segurança
Nacional,	 que	 estava	 encarregado	 da	 aplicação	 das	 leis	 de	 emergência,	 que
definiam	os	 chamados	 crimes	políticos,	 assim	 considerados	 os	 de	 abuso	 da
liberdade	 de	manifestação	 do	 pensamento	 e	 os	 atos	 que	 atentavam	 contra	 a
ordem	política	e	econômica.
Embora	 enquadrado	 no	 modelo	 fascista,	 manteve-se	 o	 Estado	 Novo
brasileiro	 fiel	 ao	 sentido	 humano	 da	 tradição	 nacional	 e	 aos	 princípios
orientadores	da	nossa	civilização	cristã.
Como	 todos	 os	Estados	 fortes	 e	 autoritários,	 surgidos	 para	 disciplinar	 os
espíritos,	compor	os	interesses,	assegurar	a	unidade	nacional,	repelir	a	ameaça
comunista	 e	 firmar	 a	 paz	 interna,	 o	 Estado	 brasileiro	 de	 1937	 encontrou
justificativa	razoável	no	imperativo	da	salvação	pública.
Foi	 uma	 organização	 estatal	 necessariamente	 forte	 para	 enfrentar	 a
borrasca	que	a	crise	internacional	provocou	e,	ao	mesmo	tempo,	para	resolver
os	 gravíssimos	 problemas	 que	 vieram	 à	 tona	 e	 que	 ameaçavam	 subverter	 a
paz	e	a	segurança	da	nação	brasileira.
Em	verdade,	foi	uma	ditadura	absorvente,	usurpadora	das	tradições	liberais
do	 povo	 brasileiro,	 mas	 teria	 sido	 um	 mal	 necessário.	 Se	 trouxe	 muitos
malefícios,	 próprios	 das	 ditaduras,	 por	 outro	 lado	 prestou	 assinalados
serviços,	 conduzindo	a	nau	do	Estado,	num	mar	encapelado,	 a	um	porto	de
salvação.
6.	O	ESTADO	ARGENTINO	—	JUSTICIALISMO
A	Argentina	se	desviou	do	liberalismo	clássico,	tomando	posição	entre	os
Estados	 fortes	 do	 após-guerra,	 sendo	 de	 se	 notar	 que	 assimilou	 mais	 os
princípios	do	socialismo	alemão	do	que	os	do	corporativismo	fascista.
A	solução	adotada	por	este	país	sul-americano	é	tipicamente	nacionalista,
equivalente	 a	 uma	 terceira	 posição	 entre	 os	 extremos	 revolucionários	 do
individualismo	e	do	coletivismo.
A	 Primeira	 Constituição	 da	 Nação	 Argentina,	 republicana	 e
presidencialista,	promulgada	a	1º	de	maio	de	1853,	passou	pelas	reformas	de
1860,	1866,	1898	e	1949,	 continuando	ainda	em	vigor.	Esta	última	 reforma
introduziu-lhe	 substancial	 modificação,	 para	 incluir	 na	 estrutura
constitucional	os	princípios	da	nova	política	social-trabalhista	que	definem	o
chamado	sistema	justicialista	do	General	Perón.
Aexemplo	 da	 Turquia	 de	 Mustafá	 Kemal,	 manteve	 a	 Argentina,	 sob	 a
égide	 de	 uma	Constituição	 aparentemente	 democrática,	 um	 governo	 forte	 e
autoritário,	 cuja	 atuação,	 ao	 tempo,	 foi	 benéfica	 no	 sentido	 de	 fortalecer	 o
país,	 no	 plano	 internacional,	 e	 estabelecer,	 na	 ordem	 interna,	 um	 razoável
equilíbrio	 entre	 o	 capital	 e	 o	 trabalho.	 Efetivamente,	 criou	 um	 ambiente	 de
segurança	e	de	prosperidade	econômica,	numa	atmosfera	edificante	de	justiça
social.
O	 justicialismo,	 como	 proclamaram	 os	 argentinos,	 é	 uma	 solução
intermediária,	 não	 extrema,	 do	 problema	 político	 da	 humanidade.	 Sem	 se
definir	 pelo	 espiritualismo	 ou	 pelo	 materialismo,	 procura	 harmonizar	 o
espírito	 e	 a	 matéria	 na	 pessoa	 humana.	 Igualmente,	 sem	 se	 definir	 pelo
individualismo	ou	pelo	coletivismo,	tende	a	conciliar	a	unidade	e	a	totalidade
no	 meio	 social.	 Adota	 o	 justicialismo	 uma	 terceira	 posição,	 variável,	 que
“não	 está	 sempre	 a	 igual	 distância	 dos	 extremos”.	 Em	 cada	 caso,	 ao
considerar	 o	 problema	 do	 homem	 ou	 da	 sociedade,	 elege	 um	 determinado
ponto	de	equilíbrio.
O	primeiro	objetivo	do	justicialismo,	diz	Raul	A.	Mende,	é	a	felicidade	do
homem	 na	 sociedade	 humana,	 pelo	 equilíbrio	 das	 forças	 materiais	 e
espirituais,	individuais	e	coletivas,	cristãmente	valorizadas.
O	 trabalho	 é	 considerado	 “meio	 indispensável	 para	 satisfazer	 as
necessidades	espirituais	e	materiais	do	indivíduo	e	da	comunidade,	a	causa	de
todas	as	conquistas	da	civilização	e	o	fundamento	da	prosperidade	geral”.
Assim,	 considerada	 a	 riqueza	 como	 fruto	 exclusivo	do	 trabalho	humano,
compete	ao	Estado	intervir	nas	fontes	de	produção	para	“possibilitar	e	garantir
ao	 trabalhador	 uma	 retribuição	 moral	 e	 material	 que	 satisfaça	 as	 suas
necessidades	 vitais	 e	 corresponda	 ao	 rendimento	 obtido	 e	 ao	 esforço
empregado”.	O	 trabalho	 é	 um	direito,	mas	 também	 tem	uma	 função	 social,
constituindo,	portanto,	um	dever	de	cada	membro	da	sociedade.	Esse	direito	e
esse	 dever	 recebem	 a	 mais	 ampla	 proteção	 do	 Estado.	 Os	 abusos	 que
importem	em	exploração	do	homem	são	punidos	pelas	leis.
A	propriedade	tem	também	uma	função	eminentemente	social	ou	coletiva,
pelo	 que	 está	 submetida	 às	 restrições	 legais	 em	 razão	 do	 interesse	 comum.
Pelo	mesmo	motivo,	“o	capital	deve	estar	a	serviço	da	economia	nacional	e
ter	como	principal	objeto	o	bem-estar	social”,	isto	é,	não	pode	ser	empregado
senão	em	benefício	da	comunidade	nacional.
No	 tocante	 ao	 problema	 da	 liberdade	 individual,	 diz	 o	 art.	 15	 da
Constituição	 que	 “o	 Estado	 não	 reconhece	 liberdade	 para	 atentar	 contra	 a
liberdade”.	 Impõe	 assim	 aos	 indivíduos	 as	 limitações	 ditadas	 pelo	 interesse
superior	da	sociedade,	em	benefício	mesmo	da	liberdade	individual,	que,	para
ser	permanente,	não	pode	ser	absoluta.
Pelo	fortalecimento	da	ordem	econômica	e	pela	garantia	de	um	alto	nível
de	 justiça	 social,	 a	 doutrina	 peronista	 criou	 uma	 resistência	 eficaz	 às
infiltrações	 comunistas,	 com	 o	 que,	 na	 ausência	 de	 outros	 valores,	 deu	 um
magnífico	exemplo	e	prestou	inegável	contribuição	à	causa	da	humanidade.
Entretanto,	 não	 se	 despiu	 o	 Estado	 peronista	 das	 roupagens	 de	 uma
ditadura	do	 tipo	 fascista,	 pois	 todo	o	 seu	 sistema	gira	 em	 torno	da	doutrina
ditada	por	um	homem	providencial.
Não	obstante	o	seu	caráter	ditatorial,	o	justicialismo	realizou	na	Argentina
uma	grande	obra	social	e	econômica,	 lançando	profundas	raízes	no	seio	das
massas	obreiras.
Destituído	 pelas	 Forças	Armadas	 e	 exilado	 durante	 18	 anos,	 Perón	 pôde
conservar	o	prestígio	da	sua	pessoa	e	da	sua	doutrina,	sendo	reconduzido	ao
poder	em	1973,	por	via	eleitoral,	 tendo	governado	até	29	de	 junho	de	1974,
quando	 afastou-se	 do	 poder	 por	 doença,	 tendo	 assumido	 a	 presidência	 sua
mulher,	 Maria	 Estela	 Martínez	 de	 Perón,	 então	 vice-presidente	 eleita.	 Em
março	 de	 1976,	 entretanto,	 as	 Forças	 Armadas	 Argentinas	 reassumiram	 o
poder,	 pondo	 fim,	 definitivamente,	 ao	 justicialismo	 de	 Perón,	 que	 a	 esse
tempo	já	falecera.
Em	 1982,	 a	 aventura	 do	 governo	 militar	 nas	 Ilhas	 Malvinas,	 ou
“Falklands”,	contra	a	Inglaterra,	precipitou	sua	derrocada	e	provocou	a	volta
da	 democracia	 na	 Argentina,	 com	 o	 restabelecimento	 das	 eleições	 livres	 e
diretas.
XXXII
FORMAS	DE	ESTADO
1.	 Classificações.	 2.	 Estados	 perfeitos	 e	 imperfeitos.	 3.	 Estados
simples	 e	 compostos.	 4.	 União	 pessoal.	 5.	 União	 real.	 6.	 União
incorporada.	7.	Confederação.	8.	Outras	formas.	9.	Império	britânico.
1.	CLASSIFICAÇÕES
Como	 fato	 social	 o	 Estado	 caracteriza-se	 pela	 reunião	 dos	 seus	 três
elementos	morfológicos	—	população,	território	e	governo.
As	 variações	 típicas	 de	 cada	 um	 desses	 elementos	 sugerem	 diversas
classificações	 do	 Estado.	 Assim,	 quanto	 ao	 seu	 primeiro	 elemento	 —
população	—,	o	Estado	pode	ser	nacional,	 como	o	Japão,	ou	plurinacional,
como	 a	 Grã-Bretanha.	 Quanto	 ao	 seu	 segundo	 elemento	 —	 território	 —,
levando	em	conta	a	sua	posição	geográfica,	o	Estado	pode	ser	central,	como	o
Paraguai,	ou	marítimo,	como	o	Chile.	Mas	as	classificações	sob	tais	aspectos,
adotadas	 por	 Schvartz,	 são	 destituídas	 de	 maior	 interesse	 para	 o	 nosso
programa.	 Somente	 no	 que	 tange	 ao	 terceiro	 elemento	 —	 governo	 —	 as
classificações	 se	 avultam	 em	 importância,	 tanto	 que	 as	 deixamos	 para	 o
capítulo	seguinte,	quando	trataremos	das	formas	de	governo.
Neste	ponto	examinaremos	as	variações	que	se	apresentam	na	combinação
dos	 três	 elementos	 morfológicos,	 cujas	 variações	 determinam	 a	 forma	 do
Estado.
Em	outras	palavras,	estudaremos	aqui	a	formação	material	do	Estado,	sua
estrutura,	 sua	 morfologia,	 não	 a	 sua	 organização	 política	 (não	 confundir
formas	de	Estado	com	formas	de	governo).
2.	ESTADOS	PERFEITOS	E	IMPERFEITOS
Primeiramente,	 cumpre-nos	 avisar	 que	 afastamos	 de	 cogitação	 a
classificação	 dos	 Estados	 em	 soberanos	 e	 semissoberanos,	 precisamente
porque	 não	 admitimos	 a	 existência	 de	 semissoberania.	 O	 conceito	 de
soberania,	 já	 exposto,	 não	 admite	 meio-termo:	 a	 soberania	 é	 ou	 não	 é
soberania.	 O	 Estado	 semissoberano,	 admitido	 por	 muitos	 autores,
provavelmente	pela	maioria,	equivale	a	Estado	não	soberano.	E	chegamos	à
conclusão	de	que	essa	figura	esdrúxula	de	Semiestado	entra	como	cavalo	de
Troia	no	recinto	do	direito	público	para	provocar	sérias	confusões.
Para	 que	 se	 enquadre	 como	 objeto	 de	 estudo	 esse	 Estado	 não	 soberano,
criado	para	servir	como	moeda	de	troca	nos	negócios	das	grandes	potências,
abrimos	aqui	uma	classificação	de	Estados	em	perfeitos	e	imperfeitos.
ESTADO	PERFEITO	é	 aquele	 que	 reúne	os	 três	 elementos	 constitutivos
—	 população,	 território	 e	 governo	 —,	 cada	 um	 na	 sua	 integridade.	 O
elemento	governo	entende-se	como	poder	soberano	irrestrito.	É	característica
do	 Estado	 perfeito,	 sobretudo,	 a	 plena	 personalidade	 jurídica	 de	 direito
público	internacional.
ESTADO	 IMPERFEITO	 é	 aquele	 que,	 embora	 possuindo	 os	 três
elementos	 constitutivos,	 sofre	 restrição	 em	qualquer	deles.	Essa	 restrição	 se
verifica,	 com	 maior	 frequência,	 sobre	 o	 elemento	 governo.	 O	 Estado
imperfeito	 pode	 ter	 administração	 própria,	 poder	 de	 auto-organização,	 mas
não	é	Estado	na	exata	acepção	do	termo	enquanto	estiver	sujeito	à	influência
tutelar	 de	 uma	 potência	 estrangeira.	 Não	 sendo	 soberano,	 não	 é	 pessoa
jurídica	de	direito	público	internacional.	Logo,	não	é	Estado	perfeito.
São	tipos	de	Estados	imperfeitos	os	vassalos	e	os	protegidos.	Os	Estados-
vassalos	 existiram	 em	 toda	 a	 Idade	 Média,	 principalmente	 sob	 o	 império
turco.
Os	 Estados	 protegidos,	 chamados	 protetorados,	 foram	 criados	 pela
diplomacia	de	após-guerra,	no	jogo	das	grandes	potências	vitoriosas.	O	Pacto
da	Sociedade	das	Nações,	de	1919,	criou	diversos	protetorados,	notadamente
a	Síriae	 a	Palestina.	Foi	 a	França	 o	 país	 que	mais	 se	 valeu	desse	 processo
para	 manter	 o	 seu	 vasto	 império	 colonial,	 abrangendo	 Taiti,	 Madagascar,
Tunísia,	Marrocos,	Tonkin	etc.
Estado	imperfeito	é	também	aquele	que,	num	dado	momento,	perde	o	seu
território,	 mas	 subsiste	 pelo	 reconhecimento	 do	 direito	 internacional.	 Essa
figura	 de	 Estado	 sui	 generis	 foi	 criada	 pela	 diplomacia	 do	 século	 XX,
principalmente	 nos	 casos	 da	Abissínia	 e	 dos	 outros	 Estados	 invadidos	 pelo
chamado	eixo	Roma-Berlim,	cujos	governos	se	refugiaram	em	Londres,	onde
continuaram	a	exercer	as	suas	prerrogativas	de	Estado	soberano.
3.	ESTADOS	SIMPLES	E	COMPOSTOS
No	 plano	 do	 direito	 público	 internacional	 os	 Estados	 se	 dividem	 em
simples	e	compostos.
Note-se	que	o	direito	público	interno	dá	outra	divisão	(unitários	e	federais)
porque	vê	o	Estado	por	dentro,	 na	 sua	 estrutura	 interna,	 enquanto	 o	 direito
público	internacional	vê	o	sujeito	como	unidade	ou	pluralidade,	isto	é,	como
Estado	único	ou	como	união	de	Estados.
ESTADO	SIMPLES	 é	 aquele	 que	 corresponde	 a	 um	 grupo	 populacional
homogêneo,	com	o	seu	 território	 tradicional	e	seu	poder	público	constituído
por	 uma	 única	 expressão,	 que	 é	 o	 governo	 nacional.	 Exemplos:	 França,
Portugal,	Itália,	Peru	etc.
ESTADO	 COMPOSTO	 é	 uma	 união	 de	 dois	 ou	 mais	 Estados,
apresentando	duas	esferas	distintas	de	poder	governamental,	e	obedecendo	a
um	 regime	 jurídico	 especial,	 variável	 em	 cada	 caso,	 sempre	 com	 a
predominância	 do	 governo	 da	 união	 como	 sujeito	 de	 direito	 público
internacional.	É	uma	pluralidade	de	Estados,	perante	o	direito	público	interno,
mas	no	exterior	se	projeta	como	uma	unidade.
São	 tipos	característicos	de	Estado	composto:	a)	união	pessoal;	b)	 união
real;	c)	união	incorporada;	d)	confederação.
Resume-se	o	que	foi	enunciado	no	seguinte	esquema:
A	federação	é	Estado	simples	perante	o	direito	público	internacional.	Seu
estudo	será	iniciado	no	capítulo	seguinte,	quando	estudaremos	o	Estado	sob	o
ponto	de	vista	do	direito	público	interno.
Aqui	 estamos	 focalizando	 o	 Estado	 no	 campo	 do	 direito	 público
internacional,	e	vamos	definir	as	suas	formas	compostas:
4.	UNIÃO	PESSOAL
UNIÃO	PESSOAL	é	uma	forma	própria	da	monarquia,	que	ocorre	quando
dois	ou	mais	Estados	são	submetidos	ao	governo	de	um	só	monarca.	Resulta
esse	fato,	em	regra	geral,	do	direito	de	sucessão	hereditária,	pois	um	mesmo
Príncipe,	descendente	de	duas	ou	mais	dinastias,	poderá	herdar	duas	ou	mais
Coroas.	 Entretanto,	 pode	 resultar	 também	 de	 eleição	 ou	 de	 acordo
internacional.
Na	 união	 pessoal	 os	 Estados	 conservam	 a	 sua	 autonomia	 interna	 e
internacional,	esta	última	personificada	no	Rei.	Ligam-se	apenas	pela	pessoa
física	 do	 imperante.	 Como	 ensina	 Pedro	 Calmon,	 a	 união	 pessoal	 é	 um
acidente	de	ordem	dinástica:	segue	a	sorte	das	famílias	reais.	Cessada	a	razão
política	ou	jurídica	que	determinou	a	união,	cessa	o	fato.
Foram	 exemplos	 deste	 tipo	 de	 união:	 Espanha	 e	 Portugal,	 sob	 Felipe
d’Áustria;	Inglaterra	e	Hanover,	sob	Jorge	I;	Inglaterra	e	Escócia,	sob	Jayme
I;	Castela	e	Aragão,	sob	D.	Joana,	a	louca.
5.	UNIÃO	REAL
UNIÃO	REAL	é	também	uma	forma	tipicamente	monárquica.	Consiste	na
união	íntima	e	definitiva	de	dois	ou	mais	Estados,	conservando	cada	um	a	sua
autonomia	 administrativa,	 a	 sua	 existência	 própria,	 mas	 formando	 uma	 só
pessoa	jurídica	de	direito	público	internacional.
Foram	 exemplos	 de	 união	 real:	 Escócia,	 Irlanda	 e	 Inglaterra,	 até	 1707;
Suécia	e	Noruega;	Áustria	e	Hungria.
6.	UNIÃO	INCORPORADA
UNIÃO	INCORPORADA	é	uma	união	de	dois	ou	mais	Estados	distintos
para	a	formação	de	uma	nova	unidade.	Neste	caso,	os	Estados	se	extinguem;
são	completamente	absorvidos	pela	nova	entidade	resultante	da	incorporação.
A	Grã-Bretanha	é	exemplo	clássico	de	união	incorporada.	Os	reinos,	outrora
independentes,	 Inglaterra,	 Escócia	 e	 Irlanda	 do	 Norte,	 formaram	 união
pessoal,	depois	união	real,	e,	finalmente,	fundiram-se	formando	um	só	Estado
com	a	denominação	de	Grã-Bretanha.
7.	CONFEDERAÇÃO
CONFEDERAÇÃO	 é	 uma	 reunião	 permanente	 e	 contratual	 de	 Estados
independentes	 que	 se	 ligam	 para	 fins	 de	 defesa	 externa	 e	 paz	 interna
(Jellinek).
Esta	forma	de	Estado	composto	requer	maior	explicação.
Na	 união	 confederativa	 os	 Estados	 confederados	 não	 sofrem	 qualquer
restrição	 à	 sua	 soberania	 interna,	 nem	 perdem	 a	 personalidade	 jurídica	 de
direito	público	internacional.	A	par	dos	Estados	soberanos,	unidos	pelos	laços
da	união	contratual,	 surge	a	Confederação,	como	entidade	supraestatal,	 com
as	 suas	 instituições	 e	 as	 suas	 autoridades	 constituídas.	 No	 plano	 do	 Jus
Gentium	é	uma	nova	unidade,	representativa	de	uma	pluralidade	de	Estados.
Não	 se	 limita	 a	União	 Confederal	 a	 determinados	 casus	 foederis,	 mas
promove	amplamente	todas	as	medidas	conducentes	ao	alcance	do	seu	duplo
objetivo:	assegurar	a	defesa	externa	de	todos	e	a	paz	interna	de	cada	um	dos
Estados	confederados.	No	que	respeita	a	esses	objetivos	de	interesse	comum,
obrigam-se	 os	 Estados	 a	 não	 proceder	 ut	 singuli:	 delegam	 a	 maior
competência	ao	supergoverno	da	união	confederal.
Como	acentua	Jellinek,	citado	por	Queiroz	Lima,	“a	confederação	é	uma
forma	instável	da	união	política;	a	união	só	pode	existir	enquanto	aos	Estados
componentes	 convier;	 os	 Estados	 guardam	 como	 corolário	 natural	 de	 sua
soberania	política	a	possibilidade	de,	 a	 todo	 tempo,	 se	desligarem	da	união,
segundo	a	fórmula	os	Estados	não	foram	feitos	para	o	acordo,	mas	o	acordo
para	os	Estados”.
Nos	 tempos	 antigos,	 existiram	 as	 Confederações	 dos	 pequenos	 Estados
gregos	—	Alianças	 pan-helênicas,	Ligas	Anfitionais,	Ligas	Hanseáticas	 etc.
—	com	os	objetivos	de	realizarem	conjuntamente	o	culto	dos	deuses	ou	jogos
olímpicos.	 Tais	 confederações,	 porém,	 eram	 provisórias;	 faltava-lhes	 o
requisito	 de	 durabilidade	 por	 tempo	 indeterminado,	 que	 caracteriza	 os
contratos	dessa	natureza	no	direito	público	atual.
Conquanto	 fossem	 as	 uniões	 confederativas	 contratadas	 em	 caráter
permanente,	 eram	 instáveis,	 de	 fato,	 notadamente	 pela	 inconstância	 dos
motivos	que	determinavam	a	união.
A	 Suíça	 foi	 uma	 das	 mais	 antigas	 Confederações.	 Conserva	 ainda	 a
denominação	 histórica	 de	 Confederação	 Helvética,	 mas	 evoluiu	 para	 a
estrutura	 federativa.	O	mesmo	fato	ocorreu	nos	Estados	Unidos	da	América
do	 Norte	 e	 na	 Alemanha,	 o	 que	 vem	 confirmar	 que	 a	 tendência	 da
Confederação	 é	 caminhar	 para	 uma	 penetração	 mais	 íntima,	 sob	 a	 forma
federativa,	ou	dissolver-se.
A	 Comunidade	 dos	 Estados	 Independentes	 —	 CEI	 é	 o	 exemplo	 mais
recente	 da	 união	 de	 Estados	 sob	 a	 forma	 confederativa	 (vide	 Capítulo
XXVIII-4).
8.	OUTRAS	FORMAS
Enquanto	 existiu,	 a	 URSS,	 sob	 a	 liderança	 exclusiva	 da	 Rússia,	 que
confundia	 sua	 identidade	 como	 Estado	 dominante	 com	 a	 própria	 URSS,
apresentava-se	como	Estado	federal,	sendo,	entretanto,	uma	forma	especial	de
Confederação.
Na	 opinião	 de	 Esmein	 a	 URSS	 se	 enquadrava	 exatamente	 na	 forma
federativa.	 Queiroz	 Lima,	 estudando	 as	 leis	 fundamentais	 da	 URSS,	 não
encontra	as	características	essenciais	de	federação	ou	confederação.	Trata-se
de	 “uma	 cooperação	 efetiva	 de	 nações,	 com	o	 fim	de	 estabelecer	 a	 paz,	 de
forma	duradoura,	dentro	da	ordem	comunista”.
As	 unidades	 que	 integravam	 a	 união	 russa	 eram	 classificadas	 como
Repúblicas	 e	 gozavam	 de	 soberania	 nos	 limites	 da	 Constituição	 (Lei
Fundamental	de	6-7-1923).
O	 art.	 4º	 da	 Lei	 Fundamental,	 embora	 contivesse	 expressa	 referência	 ao
sistema	 federativo,	 consignava	 o	 princípio	 característico	 da	 confederação:
cada	 uma	 das	 Repúblicas	 federadas	 conserva	 o	 direito	 de	 abandonar
livremente	a	união.	Esse	princípio	de	livre	associação	é	negativo	do	sistema
federal	e	tende	mais	para	a	natureza	da	confederação.
O	enunciado	teórico,	porém,	não	correspondiaà	realidade;	as	unidades	que
anteriormente	 procuraram	 desligar-se	 foram	 submetidas	 pelas	 armas	 do
exército	 russo,	 o	 qual	 procurou	 ainda	 reincorporar	 a	 Polônia,	 heroicamente
defendida	pelo	Marechal	Pilsudski.
A	 Espanha	 republicana	 adotou	 também	 um	 sistema	 federativo
especialíssimo:	a	autonomia	provincial	 é	 semelhante	à	autonomia	municipal
nos	Estados	Unidos	da	América	do	Norte,	onde	as	comunas	gozam	de	pleno
direito	 de	 auto-organização	 administrativa,	 com	 um	 acentuado	 teor	 de
autonomia	 política.	 O	 sistema	 espanhol	 franquista	 é	 uma	 deturpação	 do
federalismo,	 isto	 é,	 como	 se	 expressa	 Pedro	 Calmon,	 “uma	 adaptação
empírica,	 oportunista,	 do	 princípio	 da	 desintegração	 autonômica,	 como
recurso	de	equilíbrio	estatal”.
9.	IMPÉRIO	BRITÂNICO
O	 Império	 Britânico	 é	 uma	 forma	 de	 Estado	 sui	 generis	 que	 desafia
qualquer	classificação	—	disse	Lord	Balfour.
É	realmente	uma	gigantesca	construção	política	que	se	estende	pelas	cinco
partes	do	Mundo,	abrange	quase	um	quarto	da	superfície	habitável	da	 terra,
reúne	 perto	 de	 meio	 bilhão	 de	 almas	 e	 compreende	 mais	 de	 cinquenta
governos.
O	 Império	 Britânico	 não	 é	 confederação,	 nem	 federação,	 nem	 união
pessoal	 ou	 real.	 É	 uma	 interessante	 combinação	 de	 Colônias	 da	 Coroa,
Domínios	 e	 outras	 unidades	 que	 formam	 a	British	Commonwealth	 —	 “um
grupo	de	nações	livres”,	segundo	a	definição	de	Ware.
As	unidades	que	integram	esse	vasto	Império	dividem-se	em	quatro	classes
distintas:	a)	Colônias	da	Coroa;	b)	Colônias	com	instituições	representativas,
mas	 sem	 governo	 responsável;	 c)	 Colônias	 autônomas;	 e	 d)	 Federações
coloniais.
As	 colônias	 da	Coroa	 são	 integralmente	 submetidas	 ao	 governo	 inglês	 e
diretamente	administradas	pelas	autoridades	da	metrópole.
Outras	Colônias	possuem	suas	próprias	 instituições	 legislativas,	mas	 sem
governo	responsável:	a	função	executiva	subordina-se	ao	governo	central,	não
à	 assembleia	 local.	 Essa	 combinação	 de	 dois	 governos	 —	 local	 e
metropolitano	—	nunca	produziu	bons	 resultados.	A	 repetição	dos	 conflitos
entre	 as	 duas	 competências	 paralelas	 tem	 levado	 essas	 possessões	 a
regredirem	para	a	simples	condição	de	Colônia	da	Coroa,	ou	a	evoluírem	para
a	forma	de	Colônia	autônoma.
Uma	 vez	 constatado	 o	 desenvolvimento	 social,	 político	 e	 econômico	 de
uma	 Colônia,	 adquire	 ela	 maior	 soma	 de	 autonomia,	 organizando-se	 nos
moldes	do	regime	parlamentar	inglês,	com	executivo	colegiado	e	responsável
perante	a	própria	assembleia	dos	representantes	nacionais.
O	regime	de	autonomia	colonial	foi	outorgado	a	partir	de	1848	às	seguintes
unidades:	 Nova	 Escócia,	 Nova	 Brunswick,	 Canadá,	 Nova	 Zelândia,	 Nova
Gales	do	Sul,	Vitória,	Tasmânia,	Austrália	do	Sul,	Terra	Nova,	Queensland,
Colônia	do	Cabo,	Transvaal,	Orange	e	outras.
O	regime	de	autonomia,	na	sua	constante	evolução,	caminhou	ainda	para	a
formação	 das	 Federações	 coloniais	 —	 Austrália,	 Canadá	 e	 União	 Sul-
Africana	—,	que	desfrutam	de	amplas	prerrogativas,	até	mesmo	no	campo	do
direito	 público	 internacional.	Essas	 federações,	 que	 reuniram	cerca	 de	 vinte
comunidades	 menores,	 possuem	 certos	 atributos	 de	 soberania:	 mantêm
representantes	diplomáticos	nos	países	estrangeiros	e	firmam	tratados.	Vários
países	da	Commonwealth	faziam	parte	da	ONU	como	membros	originários.
Três	princípios	foram	expressamente	fixados	em	1926,	como	garantia	das
boas	relações	entre	os	domínios	e	a	metrópole:	a)	o	reconhecimento	de	um	só
Rei;	b)	a	igualdade	de	estatutos;	e	c)	a	livre	associação.
Todos	os	membros	do	agregado	britânico	prestam	obediência	à	Coroa,	que
é	o	símbolo	vivente	da	união.	O	espírito	prático	dos	 ingleses,	a	sua	elevada
cultura	 democrática,	 o	 seu	 profundo	 senso	 de	 compreensão	 e	 tolerância,	 a
sagacidade	 e	 a	 prudência	 dos	 seus	 estadistas	 são	 fatores	 que	 explicam	 a
permanência	dessa	vasta	estrutura	política	no	correr	dos	tempos.	Mesmo	nos
momentos	mais	difíceis	 da	 sua	história,	 como	na	última	guerra	mundial,	 os
Domínios	 votaram	 livremente	 a	 sua	 solidariedade	 à	 metrópole,	 sendo-lhes
respeitada	a	faculdade	de	se	conservarem	neutros,	como	ocorreu	em	relação	à
Irlanda.
A	evolução	das	comunidades	é	contínua:	de	Colônias	da	Coroa	chegam	à
categoria	 de	 nações	 livres,	 adquirindo,	 progressivamente,	 os	 direitos	 de
soberania,	como	se	verificou,	depois	da	guerra	de	1939-1945,	com	referência
à	 Índia	 e	 à	 Malásia.	 Caminham,	 do	 mesmo	 modo,	 para	 a	 sua	 completa
emancipação	o	Canadá,	a	Austrália	e	a	África	do	Sul.
A	British	Commonwealth	 está,	no	ano	de	2007,	 integrada	pelas	seguintes
nações:	Austrália,	Barbados,	Botswana,	Canadá,	Chipre,	Ilhas	Fidji,	Gâmbia,
Gana,	 Guiana,	 Índia,	 Jamaica,	 Lesoto,	 Malásia,	 Malawi,	 Malta,	 Maurício,
Nauru,	 Nigéria,	 Nova	 Zelândia,	 Paquistão,	 Quênia,	 Reino	 Unido,	 Samoa,
Serra	 Leoa,	 Singapura,	 Suazilândia,	 Tanzânia,	 Tonga,	 Trinidad	 e	 Tobago,
Uganda,	Zâmbia,	Antígua	 e	Barbuda,	Bahamas,	Bangladesh,	Belize,	Brunei
Darussalam,	Camarões,	Dominica,	Grenada,	Kiribati,	Maldivia,	Moçambique,
Namíbia,	 Papua	 Nova	 Guiné,	 São	 Cristóvão	 e	 Nevis,	 Santa	 Lúcia,	 São
Vicente	 e	 Grenadines,	 Seicheles,	 Ilhas	 Salomão,	 África	 do	 Sul,	 Sirilanka,
Tuvalu,	Vanuatu,	totalizando	53	países	nos	cinco	Continentes.
XXXIII
ESTADO	FEDERAL
1.	Estado	unitário.	2.	Estado	federal.	3.	Características	essenciais
do	Estado	federal.	4.	O	federalismo	nos	EEUU	da	América	do	Norte.
5.	O	problema	da	 soberania	no	Estado	 federal.	6.	O	 federalismo	no
Brasil.	7.	Federalismo	orgânico.	8.	Resumo.
Sob	 o	 ponto	 de	 vista	 do	 direito	 público	 interno,	 mais	 precisamente	 do
Direito	Constitucional,	os	Estados	dividem-se	em	unitários	e	federais.
1.	ESTADO	UNITÁRIO
ESTADO	 UNITÁRIO	 é	 aquele	 que	 apresenta	 uma	 organização	 política
singular,	 com	um	governo	 único	 de	 plena	 jurisdição	 nacional,	 sem	divisões
internas	 que	 não	 sejam	 simplesmente	 de	 ordem	 administrativa.	 O	 Estado
unitário	 é	 o	 tipo	 normal,	 o	 Estado	 padrão.	 A	 França	 é	 um	Estado	 unitário.
Portugal,	 Bélgica,	 Holanda,	 Uruguai,	 Panamá,	 Peru	 são	 Estados	 unitários.
Embora	 descentralizados	 em	 municípios,	 distritos	 ou	 departamentos,	 tais
divisões	 são	 de	 direito	 administrativo.	 Não	 têm	 esses	 organismos	 menores
uma	autonomia	política.
2.	ESTADO	FEDERAL
ESTADO	FEDERAL	é	aquele	que	se	divide	em	províncias	politicamente
autônomas,	possuindo	duas	fontes	paralelas	de	direito	público,	uma	nacional	e
outra	 provincial.	 Brasil,	 Estados	 Unidos	 da	 América	 do	 Norte,	 México,
Argentina	e	República	Bolivariana	da	Venezuela	são	Estados	federais.
O	que	caracteriza	o	Estado	federal	é	justamente	o	fato	de,	sobre	o	mesmo
território	 e	 sobre	 as	 mesmas	 pessoas,	 se	 exercer,	 harmônica	 e
simultaneamente,	a	ação	pública	de	dois	governos	distintos:	o	federal	e	o	esta-
dual	(J.	Bryce,	The	American	Commonwealth).
O	Estado	 federal	—	define	Queiroz	Lima	—	é	 um	Estado	 formado	 pela
união	de	vários	Estados;	é	um	Estado	de	Estados.	Denominam-no	os	alemães
staatenstaat.
Esta	 definição	 se	 ajusta	 a	 um	conceito	 de	 direito	 público	 interno,	 o	 qual
tem	por	 objetivo	o	 estudo	das	 unidades	 estatais	 na	 sua	 estrutura	 íntima.	No
plano	 internacional,	porém,	 já	o	dissemos,	o	Estado	federal	se	projeta	como
unidade,	não	como	pluralidade.	Como	observa	Pontes	de	Miranda	o	adjetivo
federal	não	interessa	ao	direito	internacional,	nem	dele	emana.
O	 Prof.	 Pinto	 Ferreira,	 da	 Universidade	 de	 Recife,	 formulou	 a	 seguinte
definição:	“O	Estado	federal	é	uma	organização	formada	sob	a	base	de	uma
repartição	de	competências	entre	o	governo	nacional	e	os	governos	estaduais,
de	 sorte	 que	 a	 União	 tenha	 supremacia	 sobre	 os	 Estados-membros	 e	 estes
sejam	entidades	dotadas	de	autonomia	constitucional	perante	a	mesma	união”.
A	forma	federativa	moderna	não	se	estruturou	sobre	bases	 teóricas.	Ela	é
produto	de	uma	experiência	bem-sucedida	—	a	experiência	norte-americana.As	 federações	 ensaiadas	 na	 antiguidade,	 todas	 elas,	 foram	 instáveis	 e
efêmeras.	Extinguiram-se	antes	que	pudessem	comprovar	resultados	positivos
em	função	dos	problemas	que	as	inspiraram.	Apenas	a	Suíça	manteve-se	até
agora,	 conservando,	 em	 linhas	 gerais,	 os	 princípios	 básicos	 da	 antiga
Confederação	Helvética,	 de	 natureza	 federativa,	 o	 que	 se	 explica	 pela	 sua
geografia	e	pela	presença	constante	de	um	inimigo	temível	à	sua	ilharga.
Os	 exemplos	 históricos	 foram	 experiências	 de	 descentralização
administrativa,	não	de	descentralização	política,	que	é	característica	primacial
do	 sistema	 federativo.	A	simples	descentralização	administrativa	consistente
na	 autonomia	 de	 circunscrições	 locais	 (províncias,	 comunas,	 conselhos,
municípios,	 cantões,	 departamentos	 ou	 distritos),	 como	 ocorria	 na	 Grécia
antiga	e	ocorre	na	Espanha	atual,	é	sistema	municipalista,	e	não	federativo.
A	forma	federativa	consiste	essencialmente	na	descentralização	política:	as
unidades	 federadas	 elegem	 os	 seus	 próprios	 governantes	 e	 elaboram	 as	 leis
relativas	 ao	 seu	 peculiar	 interesse,	 agindo	 com	 autonomia	 predefinida,	 ou
seja,	dentro	dos	limites	que	elas	mesmas	estipularam	no	pacto	federativo.
A	autonomia	administrativa	das	unidades	federadas	é	consequência	lógica
da	autonomia	política	de	direito	público	interno.
3.	CARACTERÍSTICAS	ESSENCIAIS	DO	ESTADO	FEDERAL
São	características	fundamentais	do	sistema	federativo,	segundo	o	modelo
norte-americano:
a)	Distribuição	do	poder	de	governo	em	dois	planos	harmônicos:	federal	e
provincial	(ou	central	e	local).	O	governo	federal	exerce	todos	os	poderes	que
expressamente	 lhe	 foram	 reservados	 na	Constituição	 Federal,	 poderes	 esses
que	 dizem	 respeito	 às	 relações	 internacionais	 da	 união	 ou	 aos	 interesses
comuns	 das	 unidades	 federadas.	 Os	 Estados-Membros	 exercem	 todos	 os
poderes	que	não	foram	expressa	ou	implicitamente	reservados	à	União,	e	que
lhes	não	foram	vedados	na	Constituição	Federal.	Somente	nos	casos	definidos
de	 poderes	 concorrentes,	 prevalece	 o	 princípio	 da	 superioridade	 hierárquica
do	Governo	Federal.
b)	Sistema	judiciarista,	consistente	na	maior	amplitude	de	competência	do
Poder	 Judiciário,	 tendo	 este,	 na	 sua	 cúpula,	 um	 Supremo	 Tribunal	 Federal,
que	é	órgão	de	equilíbrio	federativo	e	de	segurança	da	ordem	constitucional.
c)	 Composição	 bicameral	 do	 Poder	 Legislativo,	 realizando-se	 a
representação	 nacional	 na	 Câmara	 dos	 Deputados	 e	 a	 representação	 dos
Estados-membros	no	Senado,	sendo	esta	última	representação	rigorosamente
igualitária.
d)	Constância	dos	princípios	 fundamentais	 da	Federação	 e	da	República,
sob	as	garantias	da	imutabilidade	desses	princípios,	da	rigidez	constitucional	e
do	instituto	da	intervenção	federal.
4.	O	FEDERALISMO	NOS	EEUU	DA	AMÉRICA	DO	NORTE
Para	melhor	compreensão	do	mecanismo	federativo,	é	preciso	ter	em	vista
a	origem	histórica	dessa	 forma	de	Estado.	E	a	Constituição	norte-americana
de	1787	é	o	marco	inicial	do	moderno	federalismo.
As	 treze	 colônias	 que	 rejeitaram	 a	 dominação	 britânica,	 em	 1776,
constituíram-se	em	outros	tantos	Estados	livres.	E	sustentando	a	luta	pela	sua
independência,	 ante	 a	 reação	 da	 Inglaterra,	 uniram-se,	 em	 prol	 da	 defesa
comum,	 sob	 a	 forma	 contratual	 da	 Confederação	 de	 Estados,	 em	 1781,
visando	 ao	 fortalecimento	 da	 defesa	 comum.	 Verificou-se	 que	 o	 governo
resultante	 dessa	 união	 confederal,	 instável	 e	 precário	 como	 era,	 não
solucionava	 os	 problemas	 internos,	 notadamente	 os	 de	 ordem	 econômica	 e
militar.	 As	 legislações	 conflitantes,	 as	 desconfianças	mútuas,	 as	 rivalidades
regionais	 ocasionavam	 o	 enfraquecimento	 dos	 ideais	 nacionalistas	 e
dificultavam	sobremaneira	o	êxito	da	guerra	de	libertação.
Discutidos	 amplamente	 os	 problemas	 sociais,	 jurídicos,	 econômicos,
militares,	políticos	e	diplomáticos,	de	interesse	comum,	durante	noventa	dias,
na	Convenção	de	Filadélfia,	decidiram	os	convencionais,	sob	a	presidência	de
George	 Washington,	 transformar	 a	 Confederação	 em	 uma	 forma	 de	 união
mais	íntima	e	definitiva.	Enfrentados	os	problemas	comuns	à	luz	da	realidade,
concertaram-se	as	soluções	que	o	bom-senso	indicava	diante	das	vicissitudes
do	 momento	 histórico,	 e,	 afinal,	 os	 resultados	 da	 Convenção	 foram
consubstanciados	 na	 Constituição	 Federal	 de	 1787.	 Assim,	 foi	 essa
Constituição	 elaborada	 empiricamente,	 adaptando-se	 aos	 problemas
imperiosos,	 aplainando	 divergências,	 procurando	 resguardar,	 tanto	 quanto
possível,	 os	 princípios	 do	 self-government	 defendidos	 intransigentemente
pelos	Estados	pactuantes.
Foi	 assim	 que	 a	 Constituição	 norte-americana,	 de	 caráter	 experimental,
espírito	prático	e	acomodativo,	estruturou	o	federalismo,	como	era	possível	e
não	como	era	desejável.
Uma	das	acomodações	consistiu	na	conservação	do	nome	Estado,	quando
os	 países	 livres,	 ciosos	 da	 sua	 independência,	 relutavam	 em	 sujeitar-se	 à
condição	 de	 província.	 Ao	 que	 depois	 se	 acrescentou	 uma	 qualificação
restritiva	—	Estado-Membro.
5.	O	PROBLEMA	DA	SOBERANIA	NO	ESTADO	FEDERAL
Surgiram	 inúmeras	 controvérsias	 doutrinárias,	 que	 ainda	 persistem,
notadamente	 quanto	 à	 harmonização	 do	 sistema	 federativo	 com	 o	 conceito
clássico	da	 soberania	una	e	 indivisível.	Destacaram-se	as	 teorias	de	Le	Fur,
Duguit,	 Kelsen,	 Jellinek,	 Mouskholi,	 Verdross,	 Carré	 de	 Malberg,	 e	 tantos
outros,	 notadamente	 a	 do	 escritor	 norte-americano	 Calhoun,	 divulgada	 na
Europa	por	Seydel,	sustentando	que	a	soberania,	sendo	indivisível,	permanece
com	os	Estados	federados,	por	isso	que,	sendo	a	união	resultante	de	simples
relação	contratual,	poderá	ser	desfeita	como	os	acordos	em	geral.	E,	baseados
nesta	 teoria,	 os	 Estados	 do	 Sul,	 essencialmente	 agrícolas,	 discordando	 da
libertação	dos	escravos,	insurgiram-se	contra	os	do	Norte	e	declararam	extinta
a	União.	O	triunfo	das	armas	do	Norte,	porém,	consagrou	definitivamente	o
princípio	da	soberania	exclusiva	da	União.
A	soberania	é	nacional,	e	a	nação	é	uma	só.	Logo,	o	exercício	do	poder	de
soberania	compete	ao	governo	federal	e	não	aos	governos	regionais.	Ademais,
a	federação	não	resulta	de	uma	simples	relação	contratual,	como	ocorre	com	a
confederação.	 As	 unidades	 federadas	 são	 divisões	 histórico-geográficas	 e
político-administrativas	de	uma	só	nação.	Unem-se	pelo	pacto	federativo	que
expressa	 a	 vontade	 nacional,	 que	 é	 permanente	 e	 indissolúvel.	 Daí	 a
inadmissibilidade	da	teoria	de	Calhoun.
É	certo	que	a	autonomia	política	das	unidades	federadas	sofre	limitações,
mas	 estas	 limitações	 são	 determinadas	 na	 Constituição	 Federal,	 que	 não	 é
outorgada	 arbitrariamente	 pelo	 governo	 central,	 mas	 elaborada	 livremente
pela	 nação,	 através	 dos	 seus	 Deputados,	 e	 pelos	 Estados	 pactuantes,
representados	 por	 seus	 Senadores.	 Em	 suma	 o	 que	 ocorre	 é	 uma
autolimitação,	 e	 esta	 significa,	 em	 última	 análise,	 uma	 reafirmação	 da
autonomia	política.
Nos	Estados	Unidos	da	América	do	Norte	a	autonomia	estadual	é	ampla.
Variam	os	Estados-Membros	norte-americanos	quanto	à	forma	unicameral	ou
bicameral,	 quanto	 às	 linhas	 gerais	 do	 sistema	 presidencialista,	 quanto	 aos
sistemas	 de	 organização	 e	 governo	 municipais,	 quanto	 à	 estruturação	 do
sistema	 judiciário,	 e	 até	 mesmo	 chegam	 a	 adotar	 institutos	 de	 democracia
direta,	como	o	referendum,	o	recall,	a	 iniciativa	ou	veto	popular	das	leis	e	a
revogação	do	mandato	por	um	pronunciamento	extraordinário	do	eleitorado.
As	 próprias	 leis	 penais,	 civis,	 comerciais	 e	 processuais	 são	 da	 competência
estadual.	Como	exemplos,	podemos	mencionar	que	alguns	Estados	da	união
norte-americana	 adotam	 a	 pena	 de	 morte	 e	 outros	 não,	 alguns	 adotam	 o
divórcio	 e	 outros	 não.	 Exige	 a	 ordem	 federal,	 tão	 somente,	 que	 sejam
respeitados	 os	 princípios	 fundamentais,	as	 vigas	 mestras	 da	 Federação,	 da
República	e	do