Prévia do material em texto
ISBN 9788553610013 Maluf, Sahid Teoria geral do Estado / Sahid Maluf ; atualizador prof. Miguel Alfredo Malufe Neto. – 35. ed. – São Paulo : Saraiva Educação, 2019. 1. O Estado 2. Estado - Teoria I. Malufe Neto, Miguel Alfredo, 1942 - II. Título. 18-1504 CDU 320.101 Índices para catálogo sistemático: 1. Teoria geral do Estado : Ciência política 320.101 Diretoria executiva Flávia Alves Bravin Diretora editorial Renata Pascual Müller Gerência editorial Roberto Navarro Consultoria acadêmica Murilo Angeli Dias dos Santos Edição Eveline Gonçalves Denardi (coord.) | Marisa Amaro dos Reis Produção editorial Ana Cristina Garcia (coord.) | Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa | Rosana Peroni Fazolari Arte e digital Mônica Landi (coord.) | Claudirene de Moura Santos Silva | Guilherme H. M. Salvador | Tiago Dela Rosa | Verônica Pivisan Reis Planejamento e processos Clarissa Boraschi Maria (coord.) | Juliana Bojczuk Fermino | Kelli Priscila Pinto | Marília Cordeiro | Fernando Penteado | Mônica Gonçalves Dias | Tatiana dos Santos Romão Novos projetos Fernando Alves Diagramação (Livro Físico) Fabricando Ideias Design Editorial Revisão PBA Preparação e Revisão de Textos Capa Herbert Junior Livro digital (E-pub) Produção do e-pub Guilherme Henrique Martins Salvador Data de fechamento da edição: 27-11-2018 Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.editorasaraiva.com.br/direito SUMÁRIO NOTA AO LEITOR I ESTADO E DIREITO 1. TEORIA MONÍSTICA 2. TEORIA DUALÍSTICA 3. TEORIA DO PARALELISMO II TEORIA TRIDIMENSIONAL DO ESTADO E DO DIREITO 1. NOÇÃO FUNDAMENTAL III DIVISÃO GERAL DO DIREITO 1. DIREITO NATURAL E POSITIVO 2. DIREITO PÚBLICO E PRIVADO 3. POSIÇÃO DA TEORIA GERAL DO ESTADO NO QUADRO GERAL DO DIREITO IV TEORIA GERAL DO ESTADO 1. CONCEITO 2. TRÍPLICE ASPECTO 3. POSIÇÃO E RELAÇÃO COM OUTRAS CIÊNCIAS 4. FONTES V NAÇÃO E ESTADO 1. CONCEITO DE NAÇÃO 2. POPULAÇÃO 3. POVO 4. RAÇA 5. HOMOGENEIDADE DO GRUPO NACIONAL 6. CONCEITO DE ESTADO VI ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO 1. POPULAÇÃO 2. TERRITÓRIO 3. GOVERNO VII SOBERANIA 1. CONCEITO 2. FONTE DO PODER SOBERANO 3. TEORIA DA SOBERANIA ABSOLUTA DO REI 4. TEORIA DA SOBERANIA POPULAR 5. TEORIA DA SOBERANIA NACIONAL 6. TEORIA DA SOBERANIA DO ESTADO 7. ESCOLAS ALEMÃ E AUSTRÍACA 8. TEORIA NEGATIVISTA DA SOBERANIA 9. TEORIA REALISTA OU INSTITUCIONALISTA 10. LIMITAÇÕES VIII SOBERANIA: LIMITAÇÕES NA ORDEM INTERNACIONAL, GLOBALIZAÇÃO E ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 1. CONCEITOS 2. GLOBALIZAÇÃO 3. ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 4. ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS 5. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS — ONU 6. ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DO ATLÂNTICO NORTE — OTAN 7. ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS — OEA 8. ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS 9. MERCOSUL 10. OUTRAS ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS 11. ORGANIZAÇÃO SUPRANACIONAL — UNIÃO EUROPEIA IX NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS — I 1. NASCIMENTO 2. MODO ORIGINÁRIO 3. MODOS SECUNDÁRIOS 4. CONFEDERAÇÃO 5. FEDERAÇÃO 6. UNIÃO PESSOAL 7. UNIÃO REAL 8. DIVISÃO NACIONAL 9. DIVISÃO SUCESSORAL 10. MODOS DERIVADOS 11. COLONIZAÇÃO 12. CONCESSÃO DOS DIREITOS DE SOBERANIA 13. ATO DE GOVERNO 14. DESENVOLVIMENTO E DECLÍNIO 15. EXTINÇÃO 16. CONQUISTA 17. EMIGRAÇÃO 18. EXPULSÃO 19. RENÚNCIA DOS DIREITOS DE SOBERANIA X NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS — II 1. JUSTIFICAÇÃO 2. PRINCÍPIO DAS NACIONALIDADES 3. TEORIA DAS FRONTEIRAS NATURAIS 4. TEORIA DO EQUILÍBRIO INTERNACIONAL 5. TEORIA DO LIVRE-ARBÍTRIO DOS POVOS XI ORIGEM DOS ESTADOS 1. GENERALIDADES 2. TEORIA DA ORIGEM FAMILIAR 3. TEORIA PATRIARCAL 4. TEORIA MATRIARCAL 5. TEORIA DA ORIGEM PATRIMONIAL 6. TEORIA DA FORÇA XII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — I 1. JUSTIFICAÇÕES TEOLÓGICO-RELIGIOSAS 2. TEORIA DO DIREITO DIVINO SOBRENATURAL 3. TEORIA DO DIREITO DIVINO PROVIDENCIAL XIII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — II 1. TEORIAS RACIONALISTAS (JUSNATURALISMO) 2. HUGO GROTIUS 3. EMMANUEL KANT 4. THOMAS HOBBES 5. BENEDITO SPINOZA 6. JOHN LOCKE XIV JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — III 1. TEORIA DO CONTRATO SOCIAL 2. JEAN-JACQUES ROUSSEAU XV JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — IV 1. ESCOLA HISTÓRICA 2. EDMUNDO BURKE XVI JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — V 1. PANTEÍSMO 2. ESCOLA ORGÂNICA 3. NEOPANTEÍSMO XVII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — VI 1. TEORIA DA SUPREMACIA DE CLASSES 2. GUMPLOWICZ E OPPENHEIMER 3. FUNDAMENTO DOUTRINÁRIO DO ESTADO BOLCHEVISTA XVIII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — VII 1. O ESTADO COMO DIFERENCIAÇÃO ENTRE GOVERNANTES E GOVERNADOS 2. TEORIA DE LÉON DUGUIT XIX EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — I 1. A “LEI DOS TRÊS ESTADOS”, DE AUGUSTO COMTE 2. CLASSIFICAÇÃO 3. O ESTADO ANTIGO 4. O ESTADO DE ISRAEL XX EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — II 1. O ESTADO GREGO 2. “POLIS” 3. PLATÃO 4. ARISTÓTELES XXI EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — III 1. O ESTADO ROMANO 2. ORIGEM 3. CONCEITO DE “CIVITAS” 4. PODER DE “IMPERIUM” 5. CONSULADO 6. MAGISTRATURAS E PRÓ-MAGISTRATURAS 7. DITADURA 8. COLEGIALIDADE DAS MAGISTRATURAS 9. PRINCIPADO XXII EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — IV 1. O ESTADO MEDIEVAL E SUAS CARACTERÍSTICAS 2. O FEUDALISMO XXIII EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — V 1. O ESTADO MEDIEVAL E A IGREJA ROMANA 2. SANTO AGOSTINHO, SANTO TOMÁS DE AQUINO E OUTROS DOUTRINADORES XXIV EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VI 1. DAS MONARQUIAS MEDIEVAIS ÀS MONARQUIAS ABSOLUTAS 2. A DOUTRINA DE MAQUIAVEL XXV EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VII 1. O ABSOLUTISMO MONÁRQUICO 2. ESCRITORES DA RENASCENÇA 3. JOHN LOCKE E A REAÇÃO ANTIABSOLUTISTA XXVI EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VIII 1. O LIBERALISMO NA INGLATERRA 2. AMÉRICA DO NORTE 3. FRANÇA 4. DECLARAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DO HOMEM XXVII A DECADÊNCIA DO LIBERALISMO 1. O ESTADO LIBERAL, SEUS ERROS E SUA DECADÊNCIA 2. A ENCÍCLICA “RERUM NOVARUM” — DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA 3. O ESTADO EVOLUCIONISTA XXVIII REAÇÃO ANTILIBERAL 1. O SOCIALISMO E A REVOLUÇÃO RUSSA 2. O ESTADO SOVIÉTICO 3. OBSERVAÇÕES 4. CRIAÇÃO DA CEI XXIX REAÇÃO ANTILIBERAL E ANTIMARXISTA 1. O FASCISMO E SUA DOUTRINA 2. ORGANIZAÇÃO DO ESTADO FASCISTA 3. O SISTEMA CORPORATIVO XXX O ESTADO NAZISTA ALEMÃO 1. O NAZISMO 2. O RACISMO ALEMÃO XXXI OS ESTADOS NOVOS 1. O TOTALITARISMO DO TIPO FASCISTA 2. O ESTADO TURCO — KEMALISMO 3. O ESTADO POLONÊS — PILSUDSKISMO 4. O ESTADO PORTUGUÊS — SALAZARISMO 5. O ESTADO NOVO BRASILEIRO — GETULISMO 6. O ESTADO ARGENTINO — JUSTICIALISMO XXXII FORMAS DE ESTADO 1. CLASSIFICAÇÕES 2. ESTADOS PERFEITOS E IMPERFEITOS 3. ESTADOS SIMPLES E COMPOSTOS 4. UNIÃO PESSOAL 5. UNIÃO REAL 6. UNIÃO INCORPORADA 7. CONFEDERAÇÃO 8. OUTRAS FORMAS 9. IMPÉRIO BRITÂNICO XXXIII ESTADO FEDERAL 1. ESTADO UNITÁRIO 2. ESTADO FEDERAL 3. CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DO ESTADO FEDERAL 4. O FEDERALISMO NOS EEUU DA AMÉRICA DO NORTE 5. O PROBLEMA DA SOBERANIA NO ESTADO FEDERAL 6. O FEDERALISMO NO BRASIL 7. FEDERALISMO ORGÂNICO 8. RESUMO XXXIV FORMAS DE GOVERNO 1. CLASSIFICAÇÕES SECUNDÁRIAS 2. CLASSIFICAÇÃO ESSENCIAL DE ARISTÓTELES 3. MONARQUIA E REPÚBLICA 4. SUBDIVISÕES 5. “REFERENDUM” 6. PLEBISCITO 7. OUTROS INSTITUTOS XXXV PODER CONSTITUINTE 1. CONCEITO E NATUREZA 2. PODER REFORMADOR 3. PODER CONSTITUINTE INSTITUCIONAL XXXVI O PREÂMBULO NAS CONSTITUIÇÕES 1. SUA SIGNIFICAÇÃO XXXVII CONSTITUIÇÃO 1. CONCEITO 2. RESUMO HISTÓRICO DO SISTEMA CONSTITUCIONAL 3. CONTEÚDO SUBSTANCIAL 4. DIVISÃO FORMAL DAS CONSTITUIÇÕES 5. CARTAS DOGMÁTICAS E OUTORGADAS XXXVIII SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO 1. SUBORDINAÇÃO DA LEI ORDINÁRIA AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS 2. O CONTROLE DA CONSTITUCIONALIDADE DAS LEIS 3. SÍNCOPES CONSTITUCIONAIS 4. AS SÍNCOPES CONSTITUCIONAIS NO BRASIL XXXIX DIVISÃO DO PODER 1. NOÇÃO 2. A DOUTRINA DE MONTESQUIEU 3. UNIDADE DO PODER E PLURALIDADE DOS ÓRGÃOSDE SUA MANIFESTAÇÃO XL DIREITOS FUNDAMENTAIS DO HOMEM 1. GENERALIDADES 2. CLASSIFICAÇÕES 3. INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM 4. NOVOS DIREITOS FUNDAMENTAIS 5. DIREITOS SOCIAIS 6. GARANTIAS DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS XLI PRINCÍPIOS E SISTEMAS ELEITORAIS 1. SUFRÁGIO UNIVERSAL 2. VOTO DO ANALFABETO 3. SUFRÁGIO RESTRITO E CENSO ALTO 4. SUFRÁGIO IGUALITÁRIO E VOTO DE QUALIDADE 5. SUFRÁGIO FEMININO 6. VOTO PÚBLICO E VOTO SECRETO 7. VOTO COMO DIREITO OU FUNÇÃO 8. ELEIÇÃO DIRETA E INDIRETA 9. SISTEMAS ELEITORAIS 10. SISTEMA PROPORCIONAL XLII SISTEMA REPRESENTATIVO — I 1. GENERALIDADES 2. ORIGEM E FORMAÇÃO HISTÓRICA 3. O SISTEMA REPRESENTATIVO NA INGLATERRA 4. NATUREZA DO MANDATO 5. TEORIAS 6. TITULARIDADE DO MANDATO NO SISTEMA BRASILEIRO 7. UNICAMERALIDADE E BICAMERALIDADE 8. O SENADO NO ESTADO FEDERATIVO XLIII SISTEMA REPRESENTATIVO — II 1. DIVISÃO SUBSTANCIAL 2. DIVISÃO FORMAL 3. SISTEMA DIRETORIAL XLIV SISTEMA REPRESENTATIVO PRESIDENCIALISTA 1. ORIGEM HISTÓRICA 2. CRÍTICA 3. MECANISMO E CARACTERÍSTICAS DO PRESIDENCIALISMO 4. MINISTROS DE ESTADO 5. RESPONSABILIDADE E “IMPEACHMENT” 6. DURAÇÃO DO MANDATO 7. EVOLUÇÃO DO SISTEMA PRESIDENCIAL E SUAS MODALIDADES 8. COMISSÕES PARLAMENTARES DE INQUÉRITO XLV SISTEMA REPRESENTATIVO PARLAMENTARISTA 1. ORIGEM HISTÓRICA 2. CARÁTER DEMOCRÁTICO DO SISTEMA 3. MECANISMO DO SISTEMA PARLAMENTARISTA 4. O CHEFE DA NAÇÃO 5. EXECUTIVO COLEGIADO 6. RESPONSABILIDADE POLÍTICA DO MINISTÉRIO 7. PROCESSO DA RESPONSABILIDADE POLÍTICA 8. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 9. REMODELAÇÃO MINISTERIAL 10. DISSOLUÇÃO DO PARLAMENTO 11. INTERDEPENDÊNCIA DOS PODERES 12. PARLAMENTARISMO, FEDERAÇÃO E BICAMERALIDADE XLVI O PARLAMENTARISMO NO BRASIL 1. RESUMO HISTÓRICO 2. COMENTÁRIOS 3. NOVA EXPERIÊNCIA NO BRASIL XLVII DEMOCRACIA 1. ORIGEM HISTÓRICA 2. CONCEITO 3. DEMOCRACIA EM SENTIDO FORMAL E SUBSTANCIAL XLVIII DEMOCRACIA E IGUALDADE 1. RESUMO HISTÓRICO 2. IGUALDADE EM SENTIDO FORMAL E MATERIAL 3. DESDOBRAMENTO E CONCEITO SOCIAL—DEMOCRÁTICO 4. CONCEITO DE IGUALDADE ECONÔMICA XLIX DEMOCRACIA E LIBERDADE 1. DIVISÕES DOS DIREITOS DE LIBERDADE 2. LIBERDADES ABSOLUTAS E RELATIVAS 3. A LIBERDADE NAS TEORIAS ABSOLUTISTAS 4. A LIBERDADE NA TEORIA DO CONTRATO SOCIAL 5. CONCEITO INDIVIDUALISTA 6. CONCEITO SOCIAL-DEMOCRÁTICO 7. TEORIA DE GROPPALI 8. LIBERDADE E AUTORIDADE L DEMOCRACIA E ELITES DIRIGENTES 1. CONCEITO REAL DE DEMOCRACIA 2. EXPRESSÃO QUALITATIVA DO CORPO ELEITORAL 3. SELEÇÃO DE VALORES 4. CONCEITO DE ELITE DIRIGENTE E SUA RESPONSABILIDADE HISTÓRICA LI DEMOCRACIA LIBERAL E DEMOCRACIA SOCIAL 1. ASPECTOS DA DEMOCRACIA LIBERAL E SUA DECADÊNCIA 2. FUNDAMENTOS DA DEMOCRACIA SOCIAL 3. INTERVENCIONISMO ESTATAL 4. AS CORRENTES LIBERAIS MODERNAS: NEOLIBERALISMO E SOCIAL-LIBERALISMO LII PARTIDOS POLÍTICOS 1. CONCEITO E NATUREZA 2. SISTEMAS PARTIDÁRIOS 3. CLASSIFICAÇÃO 4. ORIGEM E EVOLUÇÃO HISTÓRICA 5. OS PARTIDOS POLÍTICOS BRASILEIROS LIII O ESTADO E SEU PROBLEMA FINALÍSTICO 1. O ESTADO COMO “MEIO” DESTINADO À REALIZAÇÃO DOS FINS DA COMUNIDADE 2. CONCEPÇÕES INDIVIDUALISTAS E TOTALISTAS 3. TEORIA DOS FINS INTERMEDIÁRIOS LIV O HOMEM E O ESTADO 1. O HOMEM COMO UNIDADE SOCIAL E COMO PESSOA HUMANA 2. LIBERDADE E AUTORIDADE 3. POSIÇÕES EXTREMADAS E INTERMEDIÁRIA LV INDIVIDUALISMO, COLETIVISMO E GRUPALISMO 1. NOÇÕES GERAIS 2. ESPIRITUALISMO E MATERIALISMO 3. COMPOSIÇÕES DIVERSAS 4. ANARQUISMO 5. INDIVIDUALISMO RACIONALISTA 6. LIBERALISMO ECONÔMICO 7. COLETIVISMO E CORRENTES SOCIALISTAS 8. SOCIALISMO MARXISTA, RUSSISMO E SUA EVOLUÇÃO LVI SINDICALISMO E CORPORATIVISMO 1. CONCEPÇÃO GRUPALISTA 2. ORIGEM HISTÓRICA 3. FORMAÇÃO DO SINDICALISMO 4. CONCEPÇÃO SOCIAL-DEMOCRÁTICA 5. IDENTIDADE DOS TERMOS SINDICALISMO E CORPORATIVISMO LVII ESTADO CORPORATIVO 1. CONCEITO DOUTRINÁRIO DE CORPORATIVISMO 2. CORPORATIVISMO DE ESTADO E CORPORATIVISMO ASSOCIATIVO 3. REPRESENTAÇÃO PROFISSIONAL 4. CORPORATIVISMO MÁXIMO, MÉDIO E MÍNIMO LVIII SOCIALISMO 1. ORIGENS DOUTRINÁRIAS DO SOCIALISMO UTÓPICO OU COMUNISMO 2. KARL MARX E O SOCIALISMO CIENTÍFICO 3. SOCIALISMO E SUAS VARIAÇÕES 4. SOCIALISMO DE ESTADO, COMUNISMO E ANARQUISMO 5. PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DO MARXISMO LIX O ESTADO E A FAMÍLIA 1. A FAMÍLIA COMO UNIDADE INTEGRANTE DO ESTADO 2. TEORIA GRUPALISTA CRISTÃ 3. O PRIMADO DA FAMÍLIA NA SOCIEDADE 4. A FAMÍLIA E O ESTADO BRASILEIRO LX O ESTADO E A IGREJA 1. A SOCIEDADE: PRINCÍPIOS DA UNIDADE E DA PLURALIDADE 2. NATUREZA E AUTONOMIA DO PODER ESPIRITUAL 3. A LUTA ENTRE O ESTADO E A IGREJA 4. O ESTADO DO VATICANO 5. RELAÇÕES ENTRE A IGREJA E O ESTADO 6. SEPARAÇÃO E HARMONIA LXI O ESTADO BRASILEIRO 1. FORMAÇÃO HISTÓRICA 2. TERRITÓRIO 3. POPULAÇÃO 4. FORMAÇÃO FEDERATIVA 5. EVOLUÇÃO DA FORMA DE GOVERNO 6. RESUMO HISTÓRICO DA REPÚBLICA 7. A CONSTITUIÇÃO DE 1988 ÍNDICE ALFABÉTICO E REMISSIVO NOTA AO LEITOR Este livro foi publicado, pela primeira vez, em 1954. Como disse o Autor, Sahid Maluf, o objetivo foi elaborar um trabalho didático, sistematizando as doutrinas e as ideias essenciais da ciência do Estado, com a finalidade de despertar o interesse dos estudantes e encaminhá-los às pesquisas que levam ao aprimoramento da cultura no imenso, complexo e fascinante campo da Teoria Geral do Estado. A honrosa acolhida que a obra teve, principalmente nas Faculdades de Direito, e as elogiosas referências recebidas desde então de muitos mestres ilustres e estudiosos da ciência política animaram as sucessivas edições que se seguiram, atualmente a de número trinta e cinco. Desde o falecimento do Autor, em 1975, esta obra vem sendo por mim revista e atualizada. Todavia, nenhuma modificação estrutural foi feita — e nem cabia —, pois o objetivo da obra é o estudo da ciência do Estado e não o exame do sistema constitucional brasileiro em particular. Ao entregarmos ao leitor esta nova e atualizada edição, queremos deixar registrada nossa homenagem ao Autor, nosso inesquecível mestre. Através de sua obra ele permanecerá sempre vivo na lembrança de todos. Aos jovens estudantes de direito que não o conheceram queremos reproduzir a mensagem que ele deixou, ao dedicar esta obra a todos os jovens: “A essa juventude dedicamos o nosso trabalho como penhor de gratidão. A esses estudantes de hoje e futuros paladinos da luta pelo direito, lembramos que sobre toda esta ciência do Estado, imperfeita, contingente, mutável no espaço e no tempo, paira a ciência de Deus, com a sua justiça perfeita, incontingente, eterna e infalível. Os desvirtuamentos do poder de mando, as falsidades e as injustiças, podem traspassar o nosso coração mas nunca abater o espírito, quando este se fortalece na fonte do direito divino para lutar pelo direito humano”. Assim era o Autor, assim é o Direito: acima das contingências e imperfeições humanas, existe uma fonte superior, sempre inatingível, mas que deve nortear os espíritos das pessoas e alimentar as esperanças dos povos. Nossos agradecimentos a todos, pelo prestígio e incentivo. Aos estudantes, que esta obra sirva como uma das chaves que abrirão as inúmeras portas que precisam ser abertas ou reabertas no estudo e na busca do objetivo maior que é a implantação de um verdadeiro Estado de Direito e de Justiça. Ao meu irmão José Roberto, prematuramente levado de nosso convívio, e à minha mãe Nagiba Maria, recentemente falecida, saudades… Miguel Alfredo Malufe Neto I ESTADO E DIREITO 1. Teoria monística. 2. Teoria dualística. 3. Teoria do paralelismo. O Estado é uma organização destinada a manter, pela aplicação do Direito, as condições universais de ordem social. E o Direito é o conjunto das condições existenciais da sociedade, que ao Estado cumpre assegurar. Para o estudo do fenômeno estatal, tanto quanto para a iniciação na ciência jurídica, o primeiro problema a ser enfrentadoé o das relações entre Estado e Direito. Representam ambos uma realidade única? São duas realidades distintas e independentes? No programa da ciência do Estado, este problema não pode passar sem um esclarecimento preliminar. E sendo tão importante quanto complexo, daremos aqui pelo menos um resumo das correntes que disputam entre si a primazia no campo doutrinário. Não comporta o nosso programa mais do que uma orientação esquemática, para compreensão da matéria em suas linhas gerais, servindo como um roteiro para maiores indagações nos domínios da ciência jurídica. Dividem-se as opiniões em três grupos doutrinários, que são os seguintes: 1. TEORIA MONÍSTICA Também chamada do estatismo jurídico, segundo a qual o Estado e o Direito confundem-se em uma só realidade. Os dois fenômenos sunt unum et idem, na expressão usada por Kelsen. Para os monistas só existe o direito estatal, pois não admitem eles a ideia de qualquer regra jurídica fora do Estado. O Estado é a fonte única do Direito, porque quem dá vida ao Direito é o Estado através da “força coativa” de que só ele dispõe. Regra jurídica sem coação, disse Ihering, é uma contradição em si, um fogo que não queima, uma luz que não ilumina. Logo, como só existe o Direito emanado do Estado, ambos se confundem em uma só realidade. Foram precursores do monismo jurídico Hegel, Hobbes e Jean Bodin. Desenvolvida por Rudolf von Ihering e John Austin, alcançou esta teoria a sua máxima expressão com a escola técnico-jurídica liderada por Jellinek e com a escola vienense de Hans Kelsen. 2. TEORIA DUALÍSTICA Também chamada pluralística, que sustenta serem o Estado e o Direito duas realidades distintas, independentes e inconfundíveis. Para os dualistas o Estado não é a fonte única do Direito nem com este se confunde. O que provém do Estado é apenas uma categoria especial do Direito: o direito positivo. Mas existem também os princípios de direito natural, as normas de direito costumeiro e as regras que se firmam na consciência coletiva, que tendem a adquirir positividade e que, nos casos omissos, o Estado deve acolher para lhes dar jurisdicidade. Além do Direito não escrito existem o Direito canônico, que independe da força coativa do poder civil, e o Direito das associações menores, que o Estado reconhece e ampara. Afirma esta corrente que o Direito é criação social, não estatal. Ele traduz, no seu desenvolvimento, as mutações que se operam na vida de cada povo, sob a influência das causas éticas, psíquicas, biológicas, científicas, econômicas etc. O Direito, assim, é um fato social em contínua transformação. A função do Estado é a de positivar o Direito, isto é, traduzir em normas escritas os princípios que se firmam na consciência social. O dualismo (ou pluralismo), partindo de Gierke e Gurvitch, ganhou terreno com a doutrina de Léon Duguit, o qual condenou formalmente a concepção monista, admitiu a pluralidade das fontes do Direito positivo e demonstrou que as normas jurídicas têm sua origem no corpo social. Desdobrou-se o pluralismo nas correntes sindicalistas e corporativistas, e, principalmente, no institucionalismo de Hauriou e Rennard, culminando, afinal, com a preponderante e vigorosa doutrina de Santi Romano, que lhe deu um alto teor de precisão científica. 3. TEORIA DO PARALELISMO Segundo a qual o Estado e o Direito são realidades distintas, porém necessariamente interdependentes. Esta terceira corrente, procurando solucionar a antítese monismo- pluralismo, adotou a concepção racional da graduação da positividade jurídica, defendida com raro brilhantismo pelo eminente mestre de Filosofia do Direito na Itália, Giorgio Del Vecchio. Reconhece a teoria do pluralismo a existência do direito não estatal, sustentando que vários centros de determinação jurídica surgem e se desenvolvem fora do Estado, obedecendo a uma graduação de positividade. Sobre todos estes centros particulares do ordenamento jurídico, prepondera o Estado como centro de irradiação da positividade. O ordenamento jurídico do Estado, afirma Del Vecchio, representa aquele que, dentro de todos os ordenamentos jurídicos possíveis, se afirma como o “verdadeiramente positivo”, em razão da sua conformidade com a vontade social predominante. A teoria do paralelismo completa a teoria pluralista, e ambas se contrapõem com vantagem à teoria monista. Efetivamente, Estado e Direito são duas realidades distintas que se completam na interdependência. Como demonstra o Prof. Miguel Reale, a teoria do sábio mestre da Universidade de Roma coloca em termos racionais e objetivos o problema das relações entre o Estado e o Direito, que se apresenta como um dos pontos de partida para o desenvolvimento atual do Culturalismo, como mais adiante se esclarece. Na equação dos termos Estado—Direito é necessário ter sempre em vista esses três troncos doutrinários, dos quais emana toda a ramificação de teorias justificativas do Estado e do Direito, como exporemos em capítulo especial. II TEORIA TRIDIMENSIONAL DO ESTADO E DO DIREITO 1. Noção fundamental. 1. NOÇÃO FUNDAMENTAL Como vimos no esquema antecedente, entre as correntes monistas (ou estatistas), num extremo, e as correntes dualísticas (ou pluralísticas), no outro extremo, estabeleceu-se, modernamente, uma corrente eclética (paralelística) que se situa numa posição de relativo equilíbrio entre os citados extremos. A esta posição central, de equilíbrio, prende-se a concepção institucional do Estado, que atinge a sua maior expressão na concepção culturalista do Estado e do Direito, desenvolvida com amplitude e invulgar brilhantismo pelo Prof. Miguel Reale. O culturalismo, segundo as palavras do excelso mestre, integra-se no historicismo contemporâneo e aplica, no estudo do Estado e do Direito, os princípios fundamentais da axiologia, ou seja, da teoria dos valores em função dos graus da evolução social. Nessa linha de raciocínio se desenvolve a teoria tridimensional do Estado e do Direito, que tende a solucionar, pela clareza metodológica, todos os conflitos doutrinários radicais. A realidade estatal, como o Direito, é uma síntese, ou integração do “ser” e do “dever ser”; é fato e é norma, pois é o FATO integrado na NORMA exigida pelo VALOR a realizar. Em resumo, o Estado não é apenas um sistema geral de normas, como pretendem as correntes monistas, nem um fenômeno puramente sociológico, como sustentam as correntes pluralísticas. É uma realidade cultural constituída historicamente em virtude da própria natureza social do homem, que encontra a sua integração no ordenamento jurídico. Por essa concepção tridimensional do Estado e do Direito, afasta-se o erro do formalismo técnico-jurídico e se compreende o verdadeiro valor da lei e da função de governo. Com efeito, o Estado, na concepção tridimensional, não é somente a organização fática do poder público, nem simplesmente a realização do fim da convivência social, como também não se explica só pela sua função de órgão produtor e mantenedor do ordenamento jurídico. É a reunião harmônica desses três momentos ou fatores, enquanto dialeticamente se compõem na unidade concreta do processo histórico-social. Os três elementos se conjugam e se completam na integração da realidade estatal, e nenhum deles, isoladamente, é bastante em si para explicá-la. Portanto, FATO, VALOR e NORMA são os três elementos (momentos ou fatores) integrantes do Estado como realidade sócio-ética-jurídica, como esclarece o Prof. Miguel Reale: a) o FATO de existir uma relação permanente do Poder, com uma discriminação entre governantes e governados; b) um VALOR ou um complexode valores, em virtude do qual o Poder se exerce; c) um complexo de NORMAS que expressa a mediação do Poder na atualização dos valores da convivência social. A caracterização apenas como uma realidade de fato leva fatalmente às soluções monistas, desde o totalismo de Hobbes ao realismo simplista de Duguit. Atentando-se apenas para o aspecto axiológico, descamba-se para o idealismo platônico e hegeliano, com o endeusamento do poder público. Finalmente, a se considerar o Estado somente pelo prisma da sua finalidade parcial de criador e ordenador das normas jurídicas, incide-se no erro de desprezar a realidade fático-axiológica, espraiando-se no campo raso do materialismo, no tecnicismo jurídico, no normativismo kelseniano e nas demais soluções de caráter monista. A teoria tridimensional do Estado e do Direito visa contornar as impropriedades dessas soluções parciais. Correlacionando FATO, VALOR e NORMA, esta teoria reúne os elementos essenciais que integram a realidade estatal, em correspondência com o tríplice aspecto da Teoria Geral do Estado: a) o aspecto SOCIOLÓGICO, quando estuda a organização estatal como fato social; b) o aspecto FILOSÓFICO (ou AXIOLÓGICO), quando estuda o Estado como fenômeno político-cultural; c) o aspecto JURÍDICO, quando encara o Estado como órgão central de positivação do Direito. Sobre a matéria, que é vasta e de relevante interesse para o estudo da Teoria Geral do Estado, voltaremos a discorrer oportunamente, com mais pormenores, nos pontos referentes à Justificação do Estado. O estudo da Teoria Tridimensional do Estado e do Direito é de suma importância na formação da cultura jurídica, pelo que indicamos as seguintes obras do Prof. Miguel Reale: Teoria do Direito e do Estado, Fundamentos do Direito e Teoria Tridimensional do Direito. III DIVISÃO GERAL DO DIREITO 1. Direito Natural e Positivo. 2. Direito público e privado. 3. Posição da Teoria Geral do Estado no quadro geral do Direito. A exposição precedente põe em relevo a impossibilidade de se conceituar a unidade estatal com abstração do Direito. Trata-se de duas realidades distintas, interdependentes e inseparáveis. Portanto, inicialmente, vamos fixar o quadro geral da divisão do direito, frisando a posição da Teoria Geral do Estado. 1. DIREITO NATURAL E POSITIVO O Direito divide-se primeiramente em NATURAL e POSITIVO. Direito Natural é o que emana da própria natureza, independente da vontade do homem (Cícero). É invariável no espaço e no tempo, insuscetível de variação pelas opiniões individuais ou pela vontade do Estado (Aristóteles). Ele reflete a natureza como foi criada. É anterior e superior ao Estado, portanto conceituado como de origem divina. Direito Positivo é o conjunto orgânico das condições de vida e desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, dependente da vontade humana e das garantias dadas pela força coercitiva do Estado (Pedro Lessa). É o direito escrito, consubstanciado em leis, decretos, regulamentos, decisões judiciárias, tratados internacionais etc., variando no espaço e no tempo. É obra essencialmente humana, e, portanto, precária, falível e sujeita a imperfeições. 2. DIREITO PÚBLICO E PRIVADO O Direito Positivo divide-se em PÚBLICO e PRIVADO. Esta divisão provém do velho Direito Romano, e, segundo a definição lapidar de Ulpiano — publicum jus est quod ad statum romanae spectat; privatum quod ad singulorum utilitatem pertinet —, o direito público é o que regula as coisas do Estado; o direito privado é o que diz respeito aos interesses particulares. Nestes termos, é sujeito de direito público o Estado e de direito privado a pessoa (física ou jurídica). Kelsen negou fundamento à tradicional divisão dicotômica dos romanos, doutrinando que todo Direito é público, em relação à sua origem e à sua condição de validez: o direito provém sempre do Estado e não tem eficácia sem a força coativa do poder estatal. O Direito é uno e indivisível. A natureza das suas normas é que pode visar mais o bem comum ou as necessidades particulares. Esta teoria monística, adotada por Kelsen e Jellinek, não se harmoniza com a realidade. O Estado não é, absolutamente, a fonte exclusiva do Direito, embora o seja da lei, isto é, de uma categoria específica do Direito — o direito estatal. Em verdade, o Estado não cria o Direito; apenas verifica os princípios que os usos e costumes consagram, para traduzi-los em normas escritas e dar-lhes eficácia extrínseca mediante sanção coercitiva. O legislador, como observou Celice, é antes uma testemunha que certifica, do que um obreiro que faz a lei. Como bem acentuou Pontes de Miranda, o Estado é um meio perfectível, não exclusivo, de revelação das normas jurídicas. Fora do Estado existem outros centros de determinação jurídica, relativamente autônomos: as igrejas, as autarquias e entidades paraestatais, os clubes e associações, os grupos menores em geral, revestidos de capacidade de autodeterminação, os quais, sem prejuízo da predominância do poder estatal, atuam como fontes geradoras de normas jurídicas. A despeito das críticas autorizadas de Kelsen, Duguit, Posada, Aubry e Rau, bem como de muitos outros gigantes do pensamento jurídico universal, a divisão do Direito em público e privado resistiu aos séculos impondo-se a aceitação das ciências. É lógico que o direito público e o direito privado não se acham separados por um abismo, como bem observou Fleiner, mas confundi-los numa só realidade importaria em subverter uma tradição quase milenária, consagrada pelo consenso geral dos povos. Convém ressaltar, entretanto, essa tendência do Estado moderno no sentido da absorção do direito privado pelo direito público, passando este a superintender, cada vez mais, maior número de relações jurídicas. É uma consequência lógica da decadência do individualismo e do crescente prestígio das doutrinas do direito social. Tal tendência, porém, não chegará a consagrar a teoria da unidade e indivisibilidade do Direito sem sacrifício dos mais salutares princípios democráticos. Foi lançada por Gurvitch, ultimamente, a divisão tríplice do Direito, acrescentando-se o direito social como terceiro ramo. Defendem-na Le Fur e Girke, entre outros, e, no Brasil, Cesarino Júnior e Sousa Neto. Contratos coletivos de trabalho, legislação industrial, federalismo econômico, organização do trabalho, sistema previdenciário etc. formariam esse terceiro ramo, isto é, o chamado “direito social”. Todavia, em que pesem os argumentos dos eminentes mestres, a própria denominação é um pleonasmo. Todo e qualquer direito, seja público ou privado, há de ser necessariamente social. O objetivo do bem comum abrange tanto as relações de ordem pública como as de ordem privada. O Direito em geral se socializou, dando nova forma de equação aos termos “liberdade” e “autoridade”, com o fim de restabelecer o equilíbrio social prejudicado pelo fracasso do individualismo no campo político. Voltemos, portanto, à clássica divisão dicotômica que é de valor transcendental para a teoria e a prática da ciência jurídica. As normas jurídicas se classificam como de direito público ou privado, segundo a predominância do interesse social ou particular. Cada um dos dois ramos fundamentais do Direito se subdivide em vários outros, como se vê no quadro seguinte: Incluímos aqui apenas os ramos principais do direito público interno que formam disciplinas autônomas no currículo das Faculdades de Direito. Outros ramos, como direito tributário, direito municipal, direito militar, direitoaeronáutico, direito penitenciário, direito marítimo, direito escolar e, mais recentemente, direito previdenciário, direito do consumidor, direito do bancário etc., tendem a adquirir autonomia com a crescente evolução do Estado moderno. 3. POSIÇÃO DA TEORIA GERAL DO ESTADO NO QUADRO GERAL DO DIREITO O Direito Constitucional — ramo principal do direito público interno — compreende uma parte geral e outra especial. A Teoria Geral do Estado é a parte geral do Direito Constitucional, a sua estrutura teórica. Não se limita a estudar a organização específica de um determinado Estado, de modo concreto, mas abrange os princípios comuns e essenciais que regem a formação e a organização de todos os Estados e Nações, nas suas três dimensões: sociológica, axiológica ou política, e normativa ou jurídica. Como acentuou Pedro Calmon, a Teoria Geral do Estado é exatamente a mais sociológica, a mais histórica, a mais variável das esferas reservadas à compreensão do fenômeno da ordem coletiva. Não é uma disciplina separada, mas integrante, do Direito Constitucional. Daí a tendência atual de unificação das duas cátedras tradicionais, do ensino jurídico, sob a denominação única de Direito Constitucional, com desdobramento em dois anos no currículo das Faculdades de Direito: o primeiro, com predominância da parte geral, e o segundo, referente ao direito público interno, estendendo-se, naturalmente, ao Direito Constitucional Comparado. IV TEORIA GERAL DO ESTADO 1. Conceito. 2. Tríplice aspecto. 3. Posição e relação com outras ciências. 4. Fontes. 1. CONCEITO A Teoria Geral do Estado corresponde à parte geral do Direito Constitucional. Não é uma ramificação, mas o próprio tronco deste ramo eminente do direito público. Identifica-se esta disciplina com o que se poderia denominar Ciência do Estado ou Doutrina do Estado, e, como tal, é tão antiga quanto o próprio Estado. Atestam essa antiguidade as obras República e As Leis, de Platão; Política, de Aristóteles; e De republica e De legibus, de Cícero. A matéria política, sem dúvida, é predominante na Teoria Geral do Estado, decorrendo deste fato as denominações de ciência política, scienza politica, science politique e political science, muitas vezes adotadas entre os povos latinos e ingleses. Já Aristóteles definia: Política é a Ciência do Estado. Tal confusão, porém, está rejeitada pelo progresso da cultura humana, que trouxe o desdobramento da Ciência do Estado em vários ramos autônomos, tais como o direito internacional, o direito administrativo, a economia política, a ciência das finanças, o direito do trabalho etc. Hoje a velha definição aristotélica teria de ser atualizada, como observou o Prof. Mário Mazagão: política é o conjunto das ciências do Estado. Ademais, a política é uma ciência prática e de valorização, enquanto a Teoria (ciência ou doutrina) do Estado é teórica e não valorizadora, como demonstrou amplamente Hermann Heller, teorizador moderno da escola alemã, trazendo à colação o fato de que o economismo apolítico do século XIX, limitando-se quase totalmente aos círculos das ciências econômicas, tem chegado a esvaziar a denominação de Ciência do Estado. Sem embargo do seu conteúdo parcial de natureza política, ou mesmo da predominância da matéria política, a Teoria Geral do Estado não objetiva a aplicação do que é estritamente político. É uma ciência cultural, de fundo eminentemente sociológico, com a finalidade precípua de investigar a específica realidade da vida estatal, nas suas mais amplas conexões. Aspira compreender o Estado na sua estrutura e funções, o seu devir histórico e as tendências da sua evolução. A denominação “Teoria Geral do Estado”, correspondente à palavra alemã Allegemeinestaatslehre, tem merecido críticas, principalmente pelos que a não encaram como ciência autônoma, sendo indevido o qualificativo de geral. Vários autores alemães, como Heller, preferiram a denominação simples de “Teoria do Estado” — Staatslehre. E Groppali, emérito mestre da Universidade de Milão, preferiu a denominação de Doutrina do Estado, suprimindo o adjetivo geral, “por inútil”, visto que uma doutrina, pelo simples fato de existir, não pode ser senão geral. 2. TRÍPLICE ASPECTO A Teoria Geral do Estado, na sua exata conceituação, compreende um conjunto de ciências aplicadas à compreensão do fenômeno estatal, destacando-se principalmente a Sociologia, a Política e o Direito. Daí o seu desdobramento, geralmente aceito, em Teoria Social do Estado, Teoria Política do Estado e Teoria Jurídica do Estado. TEORIA SOCIAL DO ESTADO, quando analisa a gênese e o desenvolvimento do fenômeno estatal, em função dos fatores históricos, sociais e econômicos; TEORIA POLÍTICA DO ESTADO, quando justifica as finalidades do governo em razão dos diversos sistemas de cultura; e TEORIA JURÍDICA DO ESTADO, quando estuda a estrutura, a personificação e o ordenamento legal do Estado. Uma análise brilhante e objetiva desse tríplice aspecto é apresentada pelo Prof. Miguel Reale, acentuando que a Teoria Geral do Estado pressupõe a Filosofia do Direito e do Estado, mas não se confunde com ela. Focaliza amplamente o Estado nos seus três aspectos — material, formal e teológico — ao mesmo tempo em que analisa o fenômeno do poder como realidade social, política e jurídica. Assim não entendem as correntes monistas e estatistas, para as quais a doutrina do Estado se reduz à ordem jurídica simplesmente, já que Estado e Direito se confundem numa só realidade. É uma verdade parcial. Quer quanto ao Direito em particular, quer quanto ao Estado em geral, a teoria tridimensional reúne as verdades parciais numa verdade integral, oferecendo o conceito amplo e exato da Teoria Geral do Estado. 3. POSIÇÃO E RELAÇÃO COM OUTRAS CIÊNCIAS Embora se trate de entendimento controvertido, a Teoria Geral do Estado não se subordina a nenhuma das ciências gerais. É uma ciência em si mesma, revestida de autonomia, tanto mais quando considerada no seu tríplice aspecto — sociológico, político e jurídico. Cabe defini-la como ciência geral, como o fez Groppali, cuja definição merece destaque: “A Doutrina do Estado é a ciência geral que, enquanto resume e integra, em uma síntese superior, os princípios fundamentais de várias ciências sociais, jurídicas e políticas, as quais têm por objetivo o Estado considerado em relação a determinados momentos históricos, estuda o Estado de um ponto de vista unitário na sua evolução, na sua organização, nas suas formas mais típicas com a intenção de determinar suas leis formativas, seus fundamentos e seus fins”. Reúne, pois, a Teoria Geral do Estado, numa síntese superior, diversas ciências, umas descritivas, como a História e a Sociologia, e outras normativas, como a Política, a Ética, a Filosofia e o Direito. Além disso relaciona-se de perto com outras ciências auxiliares, das quais recebe valiosos subsídios, como a Antropologia, a Biologia, a Geografia, a Estatística e a Economia Política. 4. FONTES As fontes de estudo da Teoria Geral do Estado se classificam em diretas e indiretas: As fontes diretas, segundo as explanações de Groppali, compreendem os dados da paleontologia e da paleoetnologia, os dados da história e as instituições políticas passadas e vigentes. Os mais antigos documentos que esclarecem o estudo da matéria são o “Código de Hamurabi”, rei da Babilônia (2.300 a.C.), as leis de Manu da Índia (XII século), o “Código da China” (XI século), as leis de Zaleuco, Charondas e Sólon (VII século), as leis de Gortina (V século) e a “Leidas XII Tábuas” (541 a.C.). As fontes indiretas ou subsidiárias compreendem: a) o estudo das sociedades animais; b) o estudo das sociedades selvagens contemporâneas; e c) o estudo das sobrevivências. V NAÇÃO E ESTADO 1. Conceito de Nação. 2. População. 3. Povo. 4. Raça. 5. Homogeneidade do grupo nacional. 6. Conceito de Estado. 1. CONCEITO DE NAÇÃO Nação e Estado são duas realidades distintas e inconfundíveis. E essa distinção tem absoluta importância no estudo da nossa disciplina. A Nação é uma realidade sociológica; o Estado, uma realidade jurídica. O conceito de Nação é essencialmente de ordem subjetiva, enquanto o conceito de Estado é necessariamente objetivo. Procuraremos fixar bem o conceito de Nação cotejando a definição de Mancini: una società naturali di uomini, da unitá di territorio, di origine, di costumi e di lingua, conformata di vita e di conscienza sociale. Segundo esse autor, são os seguintes os fatores que entram na formação nacional: a) naturais (territórios, unidade étnica e idioma comum); b) históricos (tradições, costumes, religião e leis); c) psicológicos (aspirações comuns, consciência nacional etc.). Idêntico conceito encontramos em Pradier-Fodéré: une nation est la réunion en société des habitants d’une même contrée ayant le même langage, régis par les mêmes lois, unis par l’identité d’origine, de conformation physique et de dispositions morales par une longe communauté d’intérêts et de sentiments et par une fusion d’existence amenée par le laps des siècles. Renan, sempre citado pelos sociólogos, assim conceitua a Nação, na sua linguagem colorida: une nation est une âme, un principe spirituel. Deux choses qui, à vrai dire, n’en font qu’une constituent cette âme… L’une est la possession en commun d’un riche legs de souvenirs; l’autre est le consentement actuel, le desir de vivre ensemble, la volonté de continuer à faire valoir l’héritage qu’on a reçu indivis… avoir des gloires communes dans le passé, une volonté commune dans le présent, avoir fait de grandes choses ensemble, vouloir en faire encore, voilà la condition essentielle pour être un peuple. Une grande agrégation d’hommes, saine d’esprit et chaude de coeur, crée une conscience morale qui s’appelle une nation. Como se vê, sobre os fatores objetivos concorrentes preponderam, no conceito de Nação, os fatores subjetivos, mais ou menos imponderáveis. Com efeito, a humanidade compõe-se de um conjunto de grupos distintos, os quais se localizam em certas e determinadas regiões do globo terrestre. Fatores éticos, étnicos, históricos, geográficos, políticos, econômicos etc. determinam esses agrupamentos e lhes dão continuidade. A sua permanência demorada em determinada região acaba por imprimir nos indivíduos particularidades somáticas e psíquicas que os distinguem dos outros grupos humanos. O clima, a alimentação, a água, o próprio cenário geográfico no seu conjunto se encarregam de esculpir a alma e o corpo dos elementos humanos, imprimindo-lhes esses caracteres psicofísicos comuns que identificam uma raça e configuram uma personalidade coletiva. A homogeneidade do grupo cria aquela solidariedade dos semelhantes a que alude Spencer; estabelece um parentesco espiritual, na expressão de Hauriou, determinando uma sólida comunhão de ideias, de sentimentos e de aspirações, a par do apego ao torrão natal. Comentando o fenômeno sociológico da formação das nacionalidades, referiu Joseph de Maistre que, viajando pelo mundo, não encontrou em parte alguma o homem, indistinto, incaracterístico, universal, comum a todas as latitudes, mas em cada região encontrou o homem nacional, isto é, o chinês, o japonês, o inglês, o beduíno, o elemento humano típico de uma nacionalidade, ou seja, o indivíduo característico de uma unidade étnico-social. Assim, Nação é uma entidade de direito natural e histórico. Conceitua-se como um conjunto homogêneo de pessoas ligadas entre si por vínculos permanentes de sangue, idioma, religião, cultura e ideais. A Nação é anterior ao Estado. Aliás, pode ser definida como a substância humana do Estado. Como afirmou Clóvis Beviláqua, o agrupamento social precedeu aos primeiros rudimentos do Estado, sendo resultante da ação combinada de certos instintos naturais. Pode-se dizer, como Miguel Reale, que a nação “é um Estado em potência”. A Nação pode perfeitamente existir sem Estado. A distinção entre as duas realidades mais se evidencia quando se tem em vista que várias nações podem reunir-se em um só Estado, assim como também uma só Nação pode dividir- se em vários Estados. A Áustria e a Hungria sempre foram nações completamente distintas; não obstante, durante muito tempo formaram um só Estado sob a denominação de Áustria-Hungria. Igualmente, a Escócia, a Irlanda e a Inglaterra foram nações tradicionalmente diversas e se reuniram num só Estado que é a Grã-Bretanha. Por outro lado, a Nação italiana chegou a dividir-se em cerca de uma dezena de Estados (Roma, Nápoles, Veneza, Piemonte etc.) até quando foi unificada em 1870. Também a Alemanha dividiu-se em vários Estados, finalmente reincorporados pela ação unificadora de Bismarck. Daí o princípio dominante no direito internacional moderno: cada Nação deve constituir um Estado próprio. Antes de passarmos ao conceito de Estado, convém esclarecer os sentidos das palavras população, povo e raça — o que favorece mais o entendimento da distinção conceitual entre Nação e Estado. 2. POPULAÇÃO É expressão que envolve um conceito aritmético, quantitativo, demográfico, pois designa a massa total dos indivíduos que vivem dentro das fronteiras e sob o império das leis de um determinado país. É o conjunto heterogêneo dos habitantes de um país, sem exclusão dos estrangeiros, dos apátridas, dos súditos coloniais etc. Quando se diz que a população do Brasil é de cem milhões, por exemplo, nesse número não figuram apenas os brasileiros (nacionais) mas a massa total dos habitantes. Os elementos de outras origens (não nacionais) poderão integrar o grupo nacional pelo processo de naturalização, isto é, de nacionalização, na forma das leis próprias. Só então poderão exercer os direitos políticos que são privativos dos nacionais. 3. POVO No sentido amplo, genérico, equivale à população. Porém, no sentido estrito, qualificado, condiz com o conceito de Nação: povo brasileiro, povo italiano etc. Com este entendimento foi que doutrinou Cícero em De Republica, 1,25: populus est non omnis hominum coetus, quoquo modo congregatus sed cuetus moltitudinis iuris consensu et utilitatis comunione sociatus. 4. RAÇA Difere também do conceito de Nação. Nação é uma unidade sociopsíquica, como já vimos, enquanto raça é uma unidade bioantropológica. Uma Nação pode ser formada de várias raças. A Nação brasileira, por exemplo, constituiu-se de três grupos étnicos (lusitano, africano e ameríndio). Por outro lado, de um só tronco racial podem surgir várias nações, como é bastante comum, principalmente no Continente Americano. Portanto, nem sempre coincidem nação e raça. É certo que no conceito de nação entra um fator natural que é o vínculo de sangue, mas, sobretudo, predominam os fatores históricos e psicológicos. 5. HOMOGENEIDADE DO GRUPO NACIONAL Não passaremos ainda ao conceito de Estado sem antes consignar outro esclarecimento: A Nação é um dos elementos formadores do Estado, mais precisamente, como escreveu Carré de Malberg, é a substância humana do Estado. São três os elementos constitutivos do Estado: população, território e governo. E o elemento população envolve o requisito de homogeneidade, isto é, deve corresponderao conceito de Nação. Queiroz Lima define razoavelmente: O Estado é a Nação politicamente organizada. Quer dizer: a população, como elemento integrativo do Estado, requer o atributo nacional. Não resta dúvida que este é um ponto controvertido e controvertível. No mundo moderno formaram-se vários Estados sem o estágio prévio de um processo de cristalização nacional. Encontramos várias e respeitáveis contestações ao princípio de que a Nação, no seu exato sentido sociológico, seja elemento sine qua non do Estado, entre as quais se destaca a de Bigne de Villeneuve. Nos seus exemplos cita este autor o Estado belga, que se formou sem que existisse efetivamente uma Nação belga. Reúne a Bélgica realmente dois grupos nacionais: dos flamengos (de Flandres) e dos valões, que ocupavam a parte sul-oriental do país. Daí a definição desse autor: “O Estado é a unidade política e jurídica durável, constituída por uma aglomeração humana, formando, sobre um território comum, um grupo independente”. Dispensa, como se vê, o requisito da homogeneidade. Exemplos não faltam em socorro dessa e de todas as doutrinas. O Estado da Califórnia mesmo, nos Estados Unidos da América do Norte, não foi a organização política de um grupo nacional homogêneo; resultou da decisão tomada por uma assembleia de garimpeiros de todas as origens, em 1849. Entretanto, é impróprio argumentar com as anomalias ou com as exceções que, afinal, não infirmam o princípio geral consagrado pela ciência. Ademais, a se atentar para as causas deformadoras das regras dominantes, chega-se a admitir o Estado sem território, fato que se verificou na Abissínia e em outros Estados que, invadidos pelas forças agressoras, no decurso da última guerra, seus governos se refugiaram em Londres, conservando as prerrogativas de Estado na ordem internacional. É certo, por outro lado, que podemos e devemos fixar a sociedade humana no momento preciso em que ela se agrupa numa determinada área, atingindo, assim, lenta ou precipitadamente, um certo grau de diferenciação política. De qualquer forma, deve preexistir uma vontade coletiva organizada, qualificável como Nação pela convergência dos fatores históricos e psicológicos que influem no agrupamento. O fator racial, como já observamos, é secundário. O agrupamento humano que, num dado momento, após atingir um certo grau de diferenciação política, se arvora em Estado há de ser, em regra, mais ou menos homogêneo. Essa homogeneidade pode advir apenas de alguns dos fatores históricos e psicológicos, isto é, sem a presença dos fatores naturais. De qualquer modo, como bem observou Del Vecchio, um Estado que não corresponda a uma Nação é um Estado imperfeito. E mais: um Estado que não defenda e promova justamente o caráter nacional é um Estado ilegítimo. Em remate de suas ponderações afirma o ilustre professor da Universidade de Roma que “de tudo isto resulta, enfim, que se não pode ter uma plena e verdadeira noção de Estado se não se tiver distinguido criticamente o direito ideal do positivo, e esta distinção não é possível sem um fundamento, igualmente crítico, dos valores éticos em geral”. Pela mesma esteira de raciocínio se desenvolvem os ensinamentos de Groppali: a homogeneidade do elemento populacional reflete em um fortalecimento maior dos Estados assim chamados nacionais, em confronto com os ditos plurinacionais, destituídos de coesão interna e frequentemente corroídos pelas lutas de raças e tendências. Finalmente, o próprio direito público internacional, procurando uma fórmula para assegurar a paz no mundo de após-guerra, tem prestigiado sobre todas as outras a doutrina das nacionalidades, que consiste em reconhecer, a cada grupo nacional homogêneo, o direito de se constituir em Estado soberano. A história política da Europa, principalmente, tem comprovado que a constituição arbitrária de pequenos Estados, dividindo ou incorporando nações, tem sido a maior fonte de perturbação da paz no Continente e no mundo. 6. CONCEITO DE ESTADO Passemos ao conceito de Estado. Este conceito vem evoluindo desde a antiguidade, a partir da Polis grega e da Civitas romana. A própria denominação de Estado, com a exata significação que lhe atribui o direito moderno, foi desconhecida até o limiar da Idade Média, quando as expressões empregadas eram rich, imperium, land, terrae etc. Teria sido a Itália o primeiro país a empregar a palavra Stato, embora com uma significação muito vaga. A Inglaterra, no século XV, depois a França e a Alemanha, no século XVI, usaram o termo Estado com referência à ordem pública constituída. Foi Maquiavel, criador do direito público moderno, quem introduziu a expressão, definitivamente, na literatura científica. Um esclarecimento se impõe antes de tudo: Não há nem pode haver uma definição de Estado que seja geralmente aceita. As definições são pontos de vista de cada doutrina, de cada autor. Em cada definição se espelha uma doutrina. Um dos mais profundos tratadistas do direito público, que foi Bluntschli, há mais de cem anos, reconheceu ser impossível deduzir um conceito de Estado sem distinguir o Estado-ideia (ou Estado-instituição) do Estado como entidade histórica, real, empírica. O primeiro pertence à reflexão filosófica, e o segundo é o que se estuda no domínio dos fatos e da realidade. Essa concepção dualística foi retomada por Kelsen, embora em outros termos. Afirma o líder da escola vienense que a ciência política encara o Estado por dois ângulos diversos: primeiro como objeto de valoração, isto é, encara o Estado como deveria ou não deveria ser, e depois como realidade social, ou seja, como efetivamente é. Só na primeira hipótese o estudo tem caráter científico. Aí o observador se guia pela razão e pode formular os juízos de valor. Na segunda hipótese o observador se guia pela realidade. No plano político, onde se encara o Estado principalmente como fato social, os conceitos emitidos pelos autores decorrem das construções doutrinárias. Uns consideram o Estado como organismo natural ou produto da evolução histórica, outros como entidade artificial, resultante da vontade coletiva manifestada em um dado momento. Uns o conceituam como objeto de direito (doutrinas monárquicas), outros como sujeito de direito, como pessoa jurídica (doutrinas democráticas). Outros ainda o consideram como a expressão mesma do direito, incluindo em uma só realidade Estado e Direito (teoria monista). Jellinek vê no Estado uma dupla personalidade, social e jurídica, enquanto Kelsen e seus seguidores o negam como realidade social para afirmá-lo estritamente como realidade jurídica. No mesmo sentido é a concepção de Duguit: o Estado é criação exclusiva da ordem jurídica e representa uma organização da força a serviço do direito. Rudolf Smend demonstra que o Estado é resultante natural de um longo processo de integração: “O Estado atual é uma incessante luta de integração. Reflete, na sua estrutura, forças independentes que congrega e comanda. É um ângulo de convergência de todas as forças sociais propulsoras, sob sua disciplina, da felicidade e da ordem, no seio da comunhão. Ausculta as tendências, as influências dos fenômenos da natureza, imprimindo-lhes rumo e ritmo dirigidos à sua finalidade”. Os autores norte-americanos nos oferecem as seguintes definições: “O Estado é uma parte especial da humanidade considerada como unidade organizada” (John W. Burgess); “O Estado é uma sociedade de homens unidos para o fim de promover o seu interesse e segurança mútua, por meio da conjugação detodas as suas forças” (Thomaz M. Cooley); “O Estado é uma associação que, atuando através da lei promulgada por um governo investido, para esse fim, de poder coercitivo, mantém, dentro de uma comunidade territorialmente delimitada, as condições universais da ordem social” (R. M. Mac Iver). Em todas se encerra a ideia democrática da origem nacional do poder público. Entre nós destaca-se, no mesmo sentido da doutrina americana, a definição de Clóvis Beviláqua: “O Estado é um agrupamento humano, estabelecido em determinado território e submetido a um poder soberano que lhe dá unidade orgânica”. A escola técnica alemã considera o Estado como uma realidade jurídica, mas alguns autores dessa mesma escola admitem que o Estado é também uma realidade social, embora apenas no tocante à origem do poder que se corporifica definitivamente na organização estatal. Da doutrina de Von Ihering extraiu Clóvis este conceito: “O Estado é a sociedade que se coage; e para poder coagir é que ela se organiza tomando a forma pela qual o poder coativo social se exercita de um modo certo e regular; em uma palavra, é a organização das forças coativas sociais”. Em última análise, o tecnicismo jurídico leva sempre à definição simplista de Duguit — “O Estado é a força a serviço do Direito”. Em muitos pontos de nossos programas teremos que examinar o conceito do Estado em face de determinadas doutrinas. Assim teremos ocasião de verificar o conceito hegeliano do Estado como suprema encarnação da ideia; os conceitos totalitários de todas as teorias que sorveram a seiva do Leviatã de Hobbes; a concepção do Estado como “super ser coletivo” etc., bem como a teoria fascista, segundo a qual a Nação não faz o Estado, mas este é que faz a Nação. Esta teoria, por exemplo, serviu aos objetivos de conquista do fascismo, que ao anexar a Abissínia considerou o povo etíope como integrante da nação italiana. Nem a concepção anarquista deixará de ser examinada no programa desta disciplina. No presente ponto o objetivo é fixar a distinção entre Nação e Estado, firmando o conceito da primeira e apenas abrindo o caminho para o conceito polêmico do fenômeno estatal. Podemos, entretanto, consignar a nossa concordância com a definição de Queiroz Lima, condizente com a escola clássica francesa: O Estado é a Nação encarada sob o ponto de vista de sua organização política, ou simplesmente, é a Nação politicamente organizada. As definições que pretendem esclarecer a natureza do poder e a finalidade do Estado tornam-se complexas e contraditórias. E todas aquelas que atribuem ao Estado um fim em si são contrapostas à doutrina democrática. O Estado, democraticamente considerado, é apenas uma instituição nacional, um meio destinado à realização dos fins da comunidade nacional. De acordo com estes princípios, considerando que só a Nação é de direito natural, enquanto o Estado é criação da vontade humana, e levando em conta que o Estado não tem autoridade nem finalidade próprias, mas é uma síntese dos ideais da comunhão que ele representa, preferimos formular o seguinte conceito simples: O Estado é o órgão executor da soberania nacional. VI ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO ESTADO 1. População. 2. Território. 3. Governo. No tocante à sua estrutura o Estado se compõe de três elementos: a) população; b) território; c) governo. A condição de Estado perfeito pressupõe a presença concomitante e conjugada desses três elementos, revestidos de características essenciais: população homogênea, território certo e inalienável e governo independente. A ausência ou desfiguração de qualquer desses elementos retira da organização sócio-política a plena qualidade de Estado. É o que ocorre, por exemplo, com o Canadá, que deixa de ser um Estado perfeito porque o seu governo é subordinado ao governo britânico, como integrante da commonwealth. 1. POPULAÇÃO A população é o primeiro elemento formador do Estado, o que independe de justificação. Sem essa substância humana não há que cogitar da formação ou existência do Estado. Cabe examinar, porém, o requisito da homogeneidade, em torno do qual giram as divergências doutrinárias, como já foi visto no capítulo anterior. Para alguns autores, o núcleo básico formador do Estado é caracteristicamente nacional, isto é, corresponde a uma unidade étnica. Assim se constituíram os Estados antigos e tradicionais, como Israel, Roma, Grécia, China etc., os quais teriam surgido como unidades políticas através dos diversos e sucessivos estágios da formação nacional: família, tribo, cidade e Estado. Outros, porém, sustentam que o elemento população se entende, em sentido amplo e puramente formal, como reunião de indivíduos de várias origens, os quais se estabelecem num determinado território, com ânimo definitivo, e aí se organizam politicamente. Argumentam esses autores, entre os quais se destaca Bigne de Villeneuve, que muitos Estados, como a Suíça, a Áustria, a Bélgica, reuniram porções de povos diferentes, sendo certo que a Bélgica se formou sem que existisse realmente uma nação belga. A própria nacionalidade italiana teria resultado de uma fusão de grupos étnicos, como os umbros, os samnitas, os lígures, os etruscos etc. Citam exemplos mais recentes, entre os quais os da República Islandesa e do Estado da Califórnia, este criado por resolução de uma assembleia heterogênea de garimpeiros. Além disso, segundo Roger Bonnard, a noção étnica é essencialmente uma noção racista, e não existem grupos étnicos morfologicamente homogêneos que possam integrar uma determinada nação. Entretanto, o requisito da homogeneidade do agrupamento humano constitutivo do Estado não envolve a ideia de raça, pelo menos no sentido biológico ou antropológico. Não pretendemos levar em conta a homogeneidade racial, como fizeram os teóricos do nacional-socialismo alemão. Só no sentido psicossociológico é que falamos em raça na conceituação das nacionalidades. Insistimos, assim, no requisito da homogeneidade em relação ao fator população. A base humana do Estado há de ser, em regra, uma unidade étnico-social que, embora integrada por tipos raciais diversos, vai se formando como unidade política através de um lento processo de estratificação, de fusão dos elementos no cadinho da convivência social. Os Estados criados arbitrariamente, por deliberação ocasional de aglomerados heterogêneos, como aqueles criados por imposição de tratados e convenções internacionais, sempre tiveram existência precária e tumultuada. Separando nações ou reunindo povos diversos, ao sabor da vontade das grandes potências, como se vê pelos sucessivos mapas da Europa, tais Estados nunca lograram apresentar aquela firmeza durável dos Estados tradicionais. Os que originariamente surgiram com base numa população nacional, homogênea, vêm atravessando os séculos e os milênios ostentando um caráter majestoso de eternidade. Os Estados plurinacionais ou não nacionais são Estados imperfeitos, como acentua Del Vecchio, e só sobrevivem, em regra, quando tendem a se legitimar defendendo e promovendo a unificação nacional. Via de regra, portanto, o Estado sucede ao processo de formação nacional, ou tende a realizar essa formação como base de sobrevivência. Em nenhum Estado seria lógico confundir população, em sentido amplo, com a unidade nacional, pois só esta detém legitimamente o poder de soberania como direito subjetivo absoluto. Para a escola clássica francesa da soberania nacional, principalmente, a distinção é de importância primacial. Interpretando-a objetivamente, viu Rousseau, no indivíduo, uma dupla qualidade: a de cidadão membro ativo doEstado e elemento componente da vontade geral, e a de súdito, pessoa inteiramente subordinada a essa vontade geral, soberana. A igualdade de todos perante a lei compreende-se na esfera dos direitos políticos (ou de cidadania); só os exercem os elementos nacionais ou nacionalizados. Os estrangeiros, que integram a massa total da população, não participam na formação da vontade política nacional, em regra. 2. TERRITÓRIO O território é a base física, o âmbito geográfico da nação, onde ocorre a validade da sua ordem jurídica — definiu Hans Kelsen. A nação, como realidade sociológica, pode subsistir sem território próprio, sem se constituir em Estado, como ocorreu com a nação judaica durante cerca de dois mil anos, desde a expulsão de Jerusalém até a recente partilha da Palestina. Porém, Estado sem território não é Estado. Para Duguit e Le Fur o território não é elemento necessário à existência de um Estado. Invocam eles o direito internacional moderno, que tem reconhecido a existência de Estados sem território, como nos casos do Vaticano, depois da unificação italiana; do Grão-Priorado de Malta; da Abissínia; e de todos os governos que se refugiaram em Londres em consequência das invasões do chamado “Eixo Roma-Berlim”. Não passaram tais Estados, porém, de mera ficção. Não existiram senão em caráter precário, em período de anormalidade internacional. Deveram eles a sua vida às conveniências momentâneas das potências que os reconheceram e ampararam sob os imperativos do momento histórico. Foram exceções que não infirmam a regra. O Estado moderno é rigorosamente territorial, afirma Queiroz Lima. Esse elemento físico, tanto quanto os dois outros — população e governo —, é indispensável à configuração do Estado, segundo as concepções pretérita e atual do direito público. As populações nômades não podem possuir individualidade política na atual concepção do Estado. Dentre os autores que sustentam não ser o território elemento necessário à existência do Estado merecem destaque Eduardo Meyer e D. Donati, os quais alinham, em abono de sua tese, vários exemplos: os atenienses, quando tiveram as suas cidades ocupadas pelos persas, refugiaram-se nos navios de Milcíades, mantendo a sobrevivência dos seus Estados; os holandeses, expulsos pelo exército de Luiz XIV, conservaram íntegra a sua organização política além das suas fronteiras tradicionais; os sérvios, vencidos pelas tropas austro-húngaras, permaneceram politicamente constituídos; o Estado belga do Havre, o Estado sérvio de Corfu e Salônica, o Estado tcheco-eslovaco são outros tantos exemplos invocados pelos citados autores. Tais Estados nômades, porém, não se justificam, porque são transitórios. Seria preciso distinguir, como observa Groppali, a perda territorial de fato por ocupações temporárias de guerra, da perda jurídica e permanente. Nos exemplos citados não houve perda definitiva do território, de sorte que as organizações políticas puderam subsistir e superar o momento de crise. Ademais, em verdade, subsistiram as nações ateniense, holandesa, sérvia etc., não os Estados, que temporariamente desapareceram. O território é patrimônio sagrado e inalienável do povo, frisa Pedro Calmon. É o espaço certo e delimitado onde se exerce o poder do governo sobre os indivíduos. Patrimônio do povo, não do Estado como instituição. O poder diretivo se exerce sobre as pessoas, não sobre o território. Tal poder é de imperium, não de dominium. Nada tem em comum com o direito de propriedade. A autoridade governamental é de natureza eminencialmente política, de ordem jurisdicional. O território, sobre o qual se estende esse poder de jurisdição, representa-se como uma grandeza a três dimensões, abrangendo o suprassolo, o subsolo e o mar territorial. Alguns autores o dividem em terrestre, marítimo e fluvial. Tendo em vista o seu exato conceito de espaço de validade da ordem jurídica, podemos destrinçá-lo nos elementos que o integram: a) o solo contínuo e delimitado, ocupado pela corporação política; b) o solo insular e demais regiões separadas do solo principal; c) os rios, lagos e mares interiores; d) os golfos, baías, portos e ancoradouros; e) a parte que o direito internacional atribui a cada Estado nos rios e lagos divisórios; f) o mar territorial e respectiva plataforma marítima; g) o subsolo; h) o espaço aéreo (suprassolo); i) os navios mercantes em alto mar; j) os navios de guerra onde quer que se encontrem; l) os edifícios das embaixadas e legações em países estrangeiros. Segundo a tendência moderna do direito internacional, à vista das novas conquistas científicas, o domínio do suprassolo se estende ilimitadamente, usque ad sidera, assim como o do subsolo se aprofunda usque ad inferos. No tocante ao mar territorial, a determinação da zona limítrofe é questão amplamente debatida. Antigamente prevalecia a fórmula preconizada pela escola do direito natural: terrae potestas finitur ubi finitur armorum vis — cessa o poder territorial onde cessa a força das armas. Adotava-se o limite de três milhas marítimas, que era o alcance da artilharia costeira, posteriormente ampliado para doze milhas. Atualmente, invocando não só os interesses da defesa externa mas também os de exploração econômica, os Estados, como o Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Equador e outros, vêm adotando o limite de duzentas milhas marítimas. 3. GOVERNO O governo — terceiro elemento do Estado — é uma delegação de soberania nacional, no conceito metafísico da escola francesa. É a própria soberania posta em ação, no dizer de Esmein. Segundo a escola alemã, é um atributo indispensável da personalidade abstrata do Estado. Positivamente, é o conjunto das funções necessárias à manutenção da ordem jurídica e da administração pública. Ensina Duguit que a palavra governo tem dois sentidos: coletivo, como conjunto de órgãos que presidem a vida política do Estado, e singular, como poder executivo, “órgão que exerce a função mais ativa na direção dos negócios públicos” — o que, neste capítulo, é irrelevante. A conceituação de governo depende dos pontos de vista doutrinários, mas exprime sempre o exercício do poder soberano. Daí a confusão muito comum entre governo e soberania. O professor Sampaio Dória, por exemplo, menciona como elementos constitutivos do Estado: população, território e soberania, já que, nesta última, está implícita a organização governamental. Outros autores incluem a soberania como quarto elemento. Não nos parece aceitável nem lógica essa inclusão, porquanto a soberania é exatamente a força geradora e justificadora do elemento governo. Este pressupõe a soberania. É seu requisito essencial a independência, tanto na ordem interna como na ordem externa. Se o governo não é independente e soberano, como ocorre no Canadá, na Austrália, na África do Sul etc., não existe o Estado perfeito. Faltando uma característica essencial de qualquer dos três elementos — população, território e governo — o que se tem é um Semiestado. E assim, na noção do Estado perfeito está implícita a ideia de soberania. VII SOBERANIA 1. Conceito. 2. Fonte do poder soberano. 3. Teoria da soberania absoluta do rei. 4. Teoria da soberania popular. 5. Teoria da soberania nacional. 6. Teoria da soberania do Estado. 7. Escolas alemã e austríaca. 8. Teoria negativista da soberania. 9. Teoria realista ou institucionalista. 10. Limitações. 1. CONCEITO A exata compreensão do conceito de soberania é pressuposto necessário para o entendimento do fenômeno estatal, visto que não há Estado perfeito sem soberania. Daí haver Sampaio Dória dado ao Estadoa definição simplista de organização da soberania. Como vimos no capítulo anterior, aos três elementos constitutivos do Estado — população, território e governo — alguns autores pretenderam a inclusão da soberania como quarto elemento. Sem razão, porém, visto que a soberania se compreende no exato conceito de Estado. Estado não soberano ou semissoberano não é Estado. Até mesmo o Canadá e a Austrália, com amplo poder de autogoverno, se classificam como “Colônias Autônomas”, por se subordinarem à Coroa Britânica. Soberania é uma autoridade superior que não pode ser limitada por nenhum outro poder. Ressalta logo à evidência que não são soberanos os Estados membros de uma Federação. O próprio qualificativo de membro afasta a ideia de soberania. O poder supremo é investido no órgão federal. Conseguintemente, convencionou-se na própria Constituinte de Filadélfia, onde se instituiu o regime federalista, que as unidades estatais integrantes da União se denominariam Estados-Membros, com autonomia de direito público interno, sendo privativo da União o poder de soberania interna e internacional. Aliás, é mais apropriada a denominação de Província, para as unidades federadas. Alguns teóricos do federalismo norte-americano atribuem aos Estados- Membros soberania de direito interno… o que é rematada incongruência. A soberania é uma só, una, integral e universal. Não pode sofrer restrições de qualquer tipo, salvo, naturalmente, as que decorrem dos imperativos de convivência pacífica das nações soberanas no plano do direito internacional. Soberania relativa ou condicionada por um poder normativo dominante não é soberania. Deve ser posta em termos de autonomia, no contexto geral do Direito. Denominava-se o poder de soberania, entre os romanos, suprema potestas. Era o poder supremo do Estado na ordem política e administrativa. Posteriormente, passaram a denominá-lo poder de imperium, com amplitude internacional. Etimologicamente, o termo soberania provém de superanus, supremitas, ou super omnia, configurando-se definitivamente através da formação francesa souveraineté, que expressava, no conceito de Bodin, “o poder absoluto e perpétuo de uma República”. Historicamente, é bastante variável a formulação do conceito de soberania, no tempo e no espaço. No Estado grego antigo, como se nota na obra de Aristóteles, falava-se em autarquia, significando um poder moral e econômico, de autossuficiência do Estado. Já entre os romanos, o poder de imperium era um poder político transcendente que se refletia na majestade imperial incontrastável. Nas monarquias medievais era o poder de suserania de fundamento carismático e intocável. No absolutismo monárquico, que teve o seu climax em Luiz XIV, a soberania passou a ser o poder pessoal exclusivo dos monarcas, sob a crença generalizada da origem divina do poder de Estado. Finalmente, no Estado moderno, a partir da Revolução Francesa, firmou-se o conceito de poder político e jurídico, emanado da vontade geral da nação. Segundo o magistério superior de Miguel Reale, a soberania é “uma espécie de fenômeno genérico do poder. Uma forma histórica do poder que apresenta configurações especialíssimas que se não encontram senão em esboços nos corpos políticos antigos e medievos”. O Prof. Pinto Ferreira nos dá um conceito normativo ético-jurídico: é a capacidade de impor a vontade própria, em última instância, para a rea- lização do direito justo. No mesmo sentido é o conceito de Clóvis Beviláqua: por soberania nacional entendemos a autoridade superior, que sintetiza, politicamente, e segundo os preceitos de direito, a energia coativa do agregado nacional. 2. FONTE DO PODER SOBERANO Problema dominante, neste tema, é o que diz respeito à fonte do poder de soberania e, consequentemente, o problema da sua titularidade. Para as teorias carismáticas do direito divino (sobrenatural ou providencial) dos reis, o poder vem de Deus e se concentra na pessoa sagrada do soberano. Para as correntes de fundo democrático, a soberania provém da vontade do povo (teoria da soberania popular) ou da nação propriamente dita (teoria da soberania nacional). Para as escolas alemã e vienense, a soberania provém do Estado, como entidade jurídica dotada de vontade própria (teoria da soberania estatal). Desdobram-se estes troncos doutrinários em várias ramificações, formando uma variedade imensa de escolas e doutrinas, de modo que não seria possível focalizar todas elas no âmbito restrito do programa escolar a que nos cingimos. Daremos, a seguir, uma súmula de cada corrente principal, remetendo os estudiosos às obras dos grandes mestres brasileiros, que esgotam o assunto, como Miguel Reale e Pinto Ferreira, especialmente à esplêndida monografia de Machado Paupério — O conceito polêmico de soberania. 3. TEORIA DA SOBERANIA ABSOLUTA DO REI A teoria da soberania absoluta do rei começou a ser sistematizada na França, no século XVI, tendo como um dos seus mais destacados teóricos Jean Bodin, que sustentava: a soberania do rei é originária, ilimitada, absoluta, perpétua e irresponsável em face de qualquer outro poder temporal ou espiritual. Esta teoria é de fundamento histórico e lança suas raízes nas monarquias antigas fundadas no direito divino dos reis. Eram os monarcas acreditados como representantes de Deus na ordem temporal, e na sua pessoa se concentravam todos os poderes. O poder de soberania era o poder pessoal do rei e não admitia limitações. Firmou-se esta doutrina da soberania absoluta do rei nas monarquias medievais, consolidando-se nas monarquias absolutistas e alcançando a sua culminância na doutrina de Maquiavel. Os monarcas da França, apoiados na doutrinação de Richelieu, Fénelon, Bossuet e outros, levaram o absolutismo às suas últimas consequências, identificando na pessoa sagrada do rei o próprio Estado, a soberania e a lei. Reunia-se na pessoa do rei o conceito de senhoriagem, trazido do mundo feudal, que se desmoronava, e a ideia de imperium, exumada das ruínas do cesarismo romano que ressurgia, exuberante, na onipotência das monarquias absolutistas. Todavia, o próprio Jean Bodin, teórico eminente do absolutismo monárquico, como observou Touchard, não se livrou de contradições, quando admitia a limitação do poder de soberania pelos princípios inelutáveis do direito natural. 4. TEORIA DA SOBERANIA POPULAR A teoria da soberania popular teve como precursores Altuzio, Marsilio de Padua, Francisco de Vitoria, Soto, Molina, Mariana, Suarez e outros teólogos e canonistas da chamada Escola Espanhola. Reformulando a doutrina do direito divino sobrenatural, criaram eles o que denominaram teoria do direito divino providencial: o poder público vem de Deus, sua causa eficiente, que infunde a inclusão social do homem e a consequente necessidade de governo na ordem temporal. Mas os reis não recebem o poder por ato de manifestação sobrenatural da vontade de Deus, senão por uma determinação providencial da onipotência divina. O poder civil corresponde com a vontade de Deus, mas promana da vontade popular — omnis potestas a Deo per populum libere consentientem —, conforme com a doutrinação do Apóstolo São Paulo e de São Tomás de Aquino. Sustentou Suarez a limitação da autoridade e o direito de resistência do povo, fundamentos do ideal democrático. E Molina, embora reconhecendo o poder real como soberania constituída, ressaltou a existência de um poder maior, exercido pelo povo, que denominou soberania constituinte. 5. TEORIA DA SOBERANIA NACIONAL A teoria da soberania nacional ganhou corpo com as ideias político-filosóficas que fomentaram o liberalismo e inspiraram a Revolução Francesa: ao símbolo da Coroa opuseram os revolucionários liberais o símbolo da Nação. Como frisou Renard, a Coroa não pertence ao Rei; o Rei é que pertence à Coroa. Esta é um princípio, é uma tradição, de que o Rei é depositário, não proprietário. A este entendimento, aliás, se deveu a convivência entre a Coroa e o Parlamento, em alguns Estados liberais. Pertence a Teoria da Soberania Nacional à Escola Clássica Francesa, da qual foi Rousseau o mais destacado expoente. Desenvolveram-na Esmein, Hauriou, Paul Duez, Villey, Berthélemy e outros, sustentando que a nação é a fonte única do poder de soberania. O órgão governamental só o exerce legitimamente mediante o consentimento nacional. Esta teoria é radicalmente nacionalista: a soberania é originária da nação, no sentido estrito de população nacional (ou povo nacional), não do povo em sentido amplo. Exercem os direitos de soberania apenas os nacionais ou nacionalizados, no gozo dos direitos de cidadania, na forma da lei. Não há que confundir com a “teoria da soberania popular”, que amplia o exercício do poder soberano aos alienígenas residentes no país. A soberania, no conceito da Escola Clássica, é UNA, INDIVISÍVEL, INALIENÁVEL e IMPRESCRITÍVEL. UNA porque não pode existir mais de uma autoridade soberana em um mesmo território. Se repartida, haveria mais de uma soberania, quando é inadmissível a coexistência de poderes iguais na mesma área de validez das normas jurídicas. INDIVISÍVEL é a soberania, segundo a mesma linha de raciocínio que justifica a sua unidade. O poder soberano delega atribuições, reparte competências, mas não divide a soberania. Nem mesmo a clássica divisão do poder em Executivo, Legislativo e Judiciário importa em divisão da soberania. Pelos três órgãos formalmente distintos se manifesta o poder uno e indivisível, sendo que cada um deles exerce a totalidade do poder soberano na esfera da sua competência. INALIENÁVEL é a soberania, por sua própria natureza. A vontade é personalíssima: não se aliena, não se transfere a outrem. O corpo social é uma entidade coletiva dotada de vontade própria, constituída pela soma das vontades individuais. Os delegados e representantes eleitos hão de exercer o poder de soberania segundo a vontade do corpo social consubstanciada na Constituição e nas Leis. IMPRESCRITÍVEL é ainda a soberania no sentido de que não pode sofrer limitação no tempo. Uma nação, ao se organizar em Estado soberano, o faz em caráter definitivo e eterno. Não se concebe soberania temporária, ou seja, por tempo determinado. A esta teoria daremos maior desenvoltura no capítulo do Contrato Social de Rousseau. 6. TEORIA DA SOBERANIA DO ESTADO A teoria da soberania do Estado pertence às escolas alemã e austríaca, as quais divergem fundamentalmente da Escola Clássica Francesa. Seu expoente máximo, Jellinek, parte do princípio de que a soberania é a capacidade de autodeterminação do Estado por direito próprio e exclusivo. Desenvolve esse autor o pensamento filosófico de Von Ihering, segundo o qual a soberania é, em síntese, apenas uma qualidade do poder do Estado, ou seja, uma qualidade do Estado perfeito. O Estado é anterior ao direito e sua fonte única. O direito é feito pelo Estado e para o Estado; não o Estado para o direito. A soberania é um poder jurídico, um poder de direito, e, assim como todo e qualquer direito, ela tem a sua fonte e a sua justificativa na vontade do próprio Estado. Dentro dessa linha de pensamento se desenvolvem as inúmeras teorias estadísticas, que serviram de fomento doutrinário aos Estados totalitários de após guerra. 7. ESCOLAS ALEMÃ E AUSTRÍACA Para as escolas alemã e austríaca, lideradas, respectivamente, por Jellinek e Kelsen, que sustentam a estatalidade integral do Direito, a soberania é de natureza estritamente jurídica, é um direito do Estado e é de caráter absoluto, isto é, sem limitação de qualquer espécie, nem mesmo do direito natural cuja existência é negada. Sustentam que só existe o direito estatal, elaborado e promulgado pelo Estado, já que a vida do direito está na força coativa que lhe empresta o Estado, e não há que falar em direito sem sanção estatal. Negam a existência do direito natural e de toda e qualquer normatividade jurídica destituída da força de coação que só o poder público pode dar. Daí a conclusão de Austin, com base na doutrina do mestre vienense, de que não existe direito internacional por falta de sanção coercitiva. Portanto, se a soberania é um poder de direito e todo direito provém do Estado, o tecnicismo jurídico alemão e o normativismo kelseniano levam à conclusão lógica de que o poder de soberania é ilimitado e absoluto. Logo, toda forma de coação estatal é legítima, porque tende a realizar o direito como expressão da vontade soberana do Estado. Realmente, em face desse princípio da estatalidade do direito, princípio pan-estadístico, não se concede limitação alguma ao poder do Estado. É certo que Jellinek chegou a esboçar a doutrina da autolimitação do poder estatal, porém, sem nenhuma significação prática. Com efeito, se todo direito emana do Estado e este se coloca acima do direito, ressalta à evidência que a limitação do poder estatal por regras que dele próprio derivam não passa de mera ficção. O próprio Luiz XIV não seria um monarca absolutista, a levar-se em conta a sua faculdade pessoal de autolimitação. Nem o próprio Deus seria absoluto… Em verdade, porém, a primeira e inarredável limitação ao poder soberano dos governos decorre dos princípios incontingentes e imprescritíveis do direito natural. A ordem natural é anterior e superior ao Estado, e sua observância constitui mesmo uma condição de legitimidade do direito e de qualquer ato estatal. Outra limitação, também imperiosa, é a que decorre das regras de convivência social e internacional. O Estado não pode criar arbitrariamente o direito; ele cria a lei, o direito escrito, que é apenas uma categoria do direito no seu sentido amplo. Como acentua Pontes de Miranda, o Estado é apenas um meio perfectível, não exclusivo, de revelação das normas jurídicas. A lei que dele emana há de corporificar o direito justo como condição de legitimidade. Sobretudo, o Estado não é um fim em si mesmo, mas um meio pelo qual o homem tende a realizar o seu fim próprio, o seu destino transcendental, como o demonstram as teorias liberais e humanistas. As teorias da soberania absoluta do Estado, malgrado o seu caráter absolutista e totalitário, tiveram ampla repercussão no pensamento político universal, inclusive na própria França com Carré de Malberg e Louis Le Fur. Justificaram os Estados nazista, fascista e todos os totalitarismos, que conflagraram o mundo por duas vezes, mas foram contidos pela força superior do humanismo liberal. 8. TEORIA NEGATIVISTA DA SOBERANIA A teoria negativista da soberania é da mesma natureza absolutista. Formulou-a Léon Duguit, desenvolvendo o pensamento de Ludwig Gumplowicz: A soberania é uma ideia abstrata. Não existe concretamente. O que existe é apenas a crença na soberania. Estado, nação, direito e governo são uma só e única realidade. Não há direito natural nem qualquer outra fonte de normatividade jurídica que não seja o próprio Estado. E este conceitua-se como organização da força a serviço do direito. Ao conceito metafísico de soberania nacional opõe Duguit o conceito simplista de regra de direito como norma de direção social. Assim, a soberania resume-se em mera noção de serviço público. A teoria negativista de Duguit,considerando a soberania “um princípio ao mesmo tempo indemonstrado, indemonstrável e inútil”, suscitou sempre as mais acirradas polêmicas no mundo da ciência política, destacando-se entre os seus mais fortes opositores Bigne de Villeneuve e Jean Dabin. A negação da soberania, acentuou Esmein, só pode levar a um resultado claro: afirmar o reino da força. Com efeito, o conceito de soberania, tal como predomina entre os povos democráticos, lança raízes na filosofia aristotélico-tomista: soberana, em última análise, é a lei, e esta encontra sua legitimidade no direito natural, que preside e limita o direito estatal. Vale lembrar aqui as palavras com que os constituintes argentinos de 1853 encerraram seus trabalhos — os homens se dignificam prostrando-se perante a lei, porque assim se livram de ajoelhar-se perante tiranos. 9. TEORIA REALISTA OU INSTITUCIONALISTA A teoria realista ou institucionalista, modernamente, vem ganhando terreno em face das novas realidades mundiais. É forçoso admitir que a soberania é originária da Nação, mas só adquire expressão concreta e objetiva quando se institucionaliza no órgão estatal, recebendo através deste o seu ordenamento jurídico-formal dinâmico. Impõe-se afastar a confusão oriunda do voluntarismo radical entre os dois momentos distintos da formação do poder soberano: o momento social ou genético, e o momento jurídico ou funcional. A soberania é originariamente da Nação (quanto à fonte do poder), mas, juridicamente, do Estado (quanto ao seu exercício). Patenteia-se então irrelevante, em última análise, a polêmica entre os dois grandes grupos doutrinários que disputam a primazia no tocante à titularidade do poder e suas consequências: a escola francesa da soberania nacional e a corrente germânica da soberania do Estado. Se é certo que Nação e Estado são realidades distintas, uma sociológica e outra jurídica, certo é também que ambas compõem uma só personalidade no campo do Direito Público Internacional. E neste campo não se projeta a soberania como vontade do povo, senão como vontade do Estado, que é a Nação politicamente organizada, segundo a definição que nos vem da própria escola clássica francesa. Este entendimento, evidentemente, não exclui a possibilidade de retomar a Nação o seu poder originário, sempre que o órgão estatal se desviar dos seus fins legítimos, conflitando abertamente com os fatores reais do poder. O eminente Prof. Machado Paupério, em sua magnífica monografia O conceito polêmico de soberania, tira a conclusão de que “soberania não é propriamente um poder, mas, sim, a qualidade desse poder; a qualidade de supremacia que, em determinada esfera, cabe a qualquer poder”. É, pois, um atributo de que se reveste o poder de auto-organização nacional, e de autodeterminação, uma vez institucionalizado no órgão estatal. Caberia acrescentar, como inarredável verdade, que todas as correntes doutrinárias da soberania se resumem, afinal, numa afirmação dogmática da onipotência do Estado. Fora da teoria anarquista, o Estado é sempre a racionalização do poder supremo na ordem temporal, armado de força coativa irredutível, autoridade, unidade e rapidez de ação, para fazer face, de imediato, aos impactos e arremetidas das forças dissolventes que tentem subverter a paz e a segurança da vida social. Portanto, embora seja poder essencialmente nacional, quanto à sua origem, sua expressão concreta e funcional resulta da sua institucionalização no órgão estatal. Passado o momento genético de sua manifestação na organização da ordem constitucional, concretiza-se a soberania no Estado, que passa a exercê-la em nome e no interesse da Nação. Este entendimento não se confunde com as teorias absolutistas do Estado nem com o radicalismo voluntarista da soberania nacional defendido pela escola clássica francesa. Conduz à conceituação da soberania como poder relativo, sujeito a limitações como a seguir se ressalta. 10. LIMITAÇÕES A soberania é limitada pelos princípios de direito natural, pelo direito grupal, isto é, pelos direitos dos grupos particulares que compõem o Estado (grupos biológicos, pedagógicos, econômicos, políticos, espirituais etc.), bem como pelos imperativos da coexistência pacífica dos povos na órbita internacional. O Estado — proclamou Jefferson — existe para servir ao povo e não o povo para servir ao Estado. O governo há de ser um governo de leis, não a expressão da soberania nacional, simplesmente. As leis definem e limitam o poder. E a este conceito, brilhantemente desenvolvido por Mathews, acrescentou Krabbe esta afirmação eloquente: a autoridade do direito é maior do que a autoridade do Estado. Limitam a soberania os princípios de Direito Natural, porque o Estado é apenas instrumento de coordenação do direito, e porque o direito positivo, que do Estado emana, só encontra legitimidade quando se conforma com as leis eternas e imutáveis da natureza. Como afirmou São Tomás de Aquino, uma lei humana não é verdadeiramente lei senão enquanto deriva da lei natural; se, em certo ponto, se afasta da lei natural, não é mais lei e sim uma violação da lei. E acrescenta que nem mesmo Deus pode alterar a lei natural sem alterar a matéria — Neque ipse Deus dispensare potest a lege naturali, nisi mutando materiam. Ergo lex naturalis est immutabilis seu proprio mutari omnino non potest. Limita a soberania o direito grupal, porque sendo o fim do Estado a segurança do bem comum, compete-lhe coordenar a atividade e respeitar a natureza de cada um dos grupos menores que integram a sociedade civil. A família, a escola, a corporação econômica ou sindicato profissional, o município ou a comuna e a igreja são grupos intermediários entre o indivíduo e o Estado, alguns anteriores ao Estado, como é a família, todos eles com sua finalidade própria e um direito natural à existência e aos meios necessários para a realização dos seus fins. Assim, o poder de soberania exercido pelo Estado encontra fronteiras não só nos direitos da pessoa humana como também nos direitos dos grupos e associações, tanto no domínio interno como na órbita internacional. Notadamente no plano internacional, a soberania é limitada pelos imperativos da coexistência de Estados soberanos, não podendo invadir a esfera de ação das outras soberanias. Uma vez não contrariando as normas de direito nem ultrapassando os limites naturais da competência estatal, a soberania é imperiosa, incontrastável. Sem ser arbítrio nem onipotência, acentuou Mouskheli, é poder absoluto, encontrando, porém, sua limitação natural na própria finalidade que lhe é essencial. Assim, no plano internacional limita a soberania o princípio da coexistência pacífica das soberanias. Atualmente, as nações integram uma ordem continental, e, dentro dessa ordem superior, o poder de autodeterminação de cada uma limita-se pelos imperativos da preservação e da sobrevivência das demais soberanias. Na ordem internacional, essas limitações decorrem das participações dos Estados em organizações internacionais, são justificadas pelas necessidades de coexistência pacífica, segurança e desenvolvimento e são alavancadas pela globalização, merecendo, pela relevância dos temas, o tratamento específico, constante do capítulo seguinte. VIII SOBERANIA: LIMITAÇÕES NA ORDEM INTERNACIONAL, GLOBALIZAÇÃO E ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 1. Conceitos. 2. Globalização. 3. Organizações internacionais. 4. Organizações políticas. 5. Organização das Nações Unidas — ONU. 6. Organização do Tratado do Atlântico Norte — OTAN. 7. Organização dos Estados Americanos — OEA. 8. Organizações econômicas. 9. Mercosul.10. Outras organizações econômicas. 11. Organização supranacional — União Europeia. 1. CONCEITOS No capítulo anterior tratamos da soberania na sua acepção clássica como uma autoridade superior, que não pode ser limitada por nenhum outro poder além dos relativos, basicamente, ao direito natural, ao direito grupal e ao direito internacional. Especialmente na ordem internacional, a experiência adquirida no decorrer das últimas décadas demonstra que o exercício do poder soberano sem limitações certamente levaria a uma guerra “de todos contra todos”, usando a expressão de Hobbes. A humanidade sentiu na pele as consequências da inexistência de limites, como foi a corrida imperialista que provocou a I Guerra Mundial. Essa trágica experiência gerou os primeiros movimentos para o estabelecimento de uma ordem internacional que resultou, em 1919, na criação da fracassada Sociedade das Nações, também chamada Liga das Nações. Apesar dos esforços desenvolvidos e da nobre finalidade no sentido de desenvolver a cooperação entre os povos e a paz mundial, essa sociedade teve existência praticamente nominal por não ter despertado o interesse das grandes potências. Sua extinção foi formalizada em 1946. Deflagrada a II Guerra Mundial, a comunidade internacional saiu convencida da necessidade de uma entidade com vocação universal que viesse a atuar com a autoridade e o peso necessários para o desenvolvimento, a independência dos povos e a defesa da paz mundial. Com esses principais objetivos, foi criada, em 1945, a Organização das Nações Unidas — ONU, seguindo-se a criação ou modernização de outras, com ambições universais ou regionais. Há que se destacar, desde logo, que essas entidades, classificadas como “organizações internacionais”, não são soberanas. Pelo menos, não no sentido do conceito de soberania aplicado aos Estados. Essas organizações possuem personalidades jurídicas próprias de direito internacional. No aspecto da representatividade são equiparadas aos Estados, mas com eles não se confundem, pois não têm população nem território. As organizações internacionais existem e atuam nos limites dos respectivos objetos e dos poderes que por investidura recebem dos Estados que as integram. A existência dessas organizações internacionais e a justificação ética e política à imposição de limites ao exercício da soberania já era preconizada desde a primeira metade do século passado pelo clássico jurista Alexandre Groppali, tornando-se oportuna a transcrição de suas palavras, as quais, atualmente, ainda expressam o ideal da humanidade: É de esperar, portanto, que, acima dos Estados reconstituídos dentro de fronteiras que correspondam melhor às grandes unidades étnicas, com zonas de influência e disposição de matérias-primas adequadas à sua potência e à sua capacidade de expansão, se forme uma nova ordem jurídica interestatal e que, mediante a criação de um exército supranacional, essa ordem saiba, pela força se necessário, reconduzir à razão os Estados recalcitrantes, fazendo atuar as sentenças das Cortes de justiça internacional, frente às quais os Estados deverão levar para ser divididas todas as controvérsias que, sem exceção, possam surgir entre eles. Agora que, com a transformação dos aviões em pavorosos instrumentos de matança e dada a capacidade fulminante de seus ataques, a vida das nações está continuamente exposta ao perigo de uma guerra, o problema de sua segurança não é mais um problema nacional, mas internacional. Assim como os indivíduos renunciaram ao exercício das próprias razões no dia em que o Estado avocou a si a função jurisdicional, assim também os Estados devem renunciar ao direito de fazer valer pela guerra as suas pretensões, para sujeitá-las ao juízo de uma Corte de justiça internacional, que tenha a autoridade e a força para fazer executar até mesmo coativamente as próprias sentenças. Por isso, se a ordenação que vier a sair da crise atual não for dotada dos meios necessários à execução das próprias resoluções e sentenças, ela terá fatalmente o mesmo destino que coube à Sociedade das Nações, a qual, por estar desarmada, não pode sobreviver à primeira borrasca (Alexandre Groppali, Doutrina do Estado, trad. da 8ª edição por Paulo E. de Souza Queiroz, Saraiva, 1953, p. 332). Modernamente outros fatores têm sido acrescidos, levando alguns autores a afirmar que a soberania estaria em via de extinção, se não mesmo extinta, pelo menos no que se refere ao seu conceito clássico. O advento da era tecnológica, o desenvolvimento dos meios de comunicação eletrônicos, a facilidade de locomoção, o desenvolvimento e a dinâmica do comércio estreitaram os vínculos obrigacionais e acentuaram a interdependência recíproca dos Estados. 2. GLOBALIZAÇÃO Na esteira dos acontecimentos das duas últimas décadas e na busca dos argumentos que reforçam a existência e a força das organizações internacionais existentes ou novas, a palavra que surge é “globalização”, utilizada genericamente por juristas, políticos, economistas, sociólogos e jornalistas como representativa do fenômeno da disseminação de processos globais que extrapolam os limites das fronteiras nacionais e influenciam as culturas, as economias, as liberdades e até as organizações políticas dos países, em escala mundial. O conceito de globalização não é uniforme. Por alguns estudiosos é considerado sob o aspecto da atribuição de um sentido integral e uniforme ao mundo contido no globo terrestre. Por outros, a globalização não pode ter o sentido de uniformidade, pois cada país é por ela atingido de forma diversa. Para este estudo, consideraremos que a globalização constitui um processo de internacionalização de regras de convivência ou interferência política entre países, impulsionado por fatores da produção e da circulação do capital em âmbito internacional, movidos pela força propulsora da revolução tecnológica. A globalização, assim considerada, produz reflexos no conceito de soberania, na medida em que acaba por atingir cada país de forma desigual, na proporção da riqueza, poder, ou desenvolvimento social, econômico e tecnológico de cada um. Esses reflexos assumem maior gravidade entre os países chamados de “terceiro mundo” ou “em desenvolvimento”, os quais ficam mais vulneráveis, diante da incapacidade de enfrentamento das imposições originadas da ordem internacional. Tal realidade não pode ser negada, bastando lembrar que a primeira sanção imposta aos governos considerados “dissidentes” da ordem internacional é a imposição de embargo comercial, um dos fatores que acaba por obrigar a adesão à exigência que determinou o embargo, sob pena de comprometimento da própria sobrevivência da população. Os efeitos da globalização sobre o conceito de soberania têm sido objeto dos mais variados e polêmicos posicionamentos dos doutrinadores, destacando-se por um lado os que enfatizam o aspecto econômico e preveem a extinção da soberania, e por outro lado os que enfatizam o aspecto político, defendendo a sobrevivência da soberania de forma absoluta, como conceito inerente ao Estado. Sobre o tema, afirma Miguel Reale: “por mais que constitua um fenômeno inevitável, capaz de produzir os esperados, mas ainda não comprovados resultados benéficos para a humanidade, (a globalização) se desenvolve antes como uma gradativa mundialização, por meio de empresas multinacionais, com sedes em distintos países, e empresas transnacionais, de caráter universal, sendo respeitados, porém, os organismos regionais, como a União Europeia e oMercosul, bem como os estatais, que constituem entidades histórico-culturais dotadas de identidade própria, insuscetíveis de aniquilamento, como pensam os anarquizantes e precipitados ‘cidadãos do mundo’. Pode-se mesmo dizer que os riscos da globalização aumentam a responsabilidade dos Estados, que não podem deixar de salvaguardar o que é próprio e peculiar de cada nação” (Ainda o social-liberalismo, O Estado de S. Paulo, 15 nov. 1997, p. A-2). 3. ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS Justificadas pelos argumentos anteriormente resumidos, o mundo moderno conta, atualmente, com várias organizações internacionais, de maior ou menor importância dentro das respectivas áreas de atuação e finalidades. Dalmo de Abreu Dallari (Elementos de teoria geral do Estado, Saraiva, 1979, p. 234) identifica três espécies: organizações para fins específicos, como a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, organizações regionais de fins amplos, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), e organizações de vocação universal, como a Organização das Nações Unidas (ONU). A realidade atual permitiria uma classificação focada nos aspectos políticos, inerentes ao grau de poder de interferência sobre os governos dos Estados e os aspectos econômicos visados. É inegável o reconhecimento da inexistência de linhas delimitadoras claras, para qualquer tipo de classificação, pois mesmo em se tratando de organização com objetivo econômico, será inafastável o reflexo político que a economia poderá exercer, e vice-versa. Uma sanção comercial, por exemplo, poderá ser imposta por motivação política, como foi o embargo comercial imposto a Cuba, ou, ao contrário, uma sanção comercial (taxação de determinados produtos para importação, por exemplo) poderá trazer consequências políticas. Nessa linha de raciocínio e para efeitos didáticos, classificaremos as organizações internacionais em organizações de caráter preponderantemente político, ou preponderantemente comercial. Na espécie organizações com caráter preponderantemente político, está em primeiro lugar a Organização das Nações Unidas (ONU). Na espécie organizações de caráter preponderantemente comercial, as comumente chamadas de Blocos Econômicos. Uma terceira espécie merece estar destacada das demais, pela importância e relevância que assume como modelo na busca universal de uma união entre os povos, e por reunir, com igual importância, as características de relevância política e comercial, que é a União Europeia, à qual atribuiremos a classificação de organização supranacional. 4. ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS A característica “política” decorre da inserção, nos objetivos da organização, da possibilidade de intervenção política, caracterizada pela prática de atos que a rigor só poderiam ser praticados pelos próprios Estados, por serem inerentes ao seu poder soberano. A abertura dessa possibilidade de ingerência política interna não significa que os Estados tenham abdicado de sua soberania. A vinculação de cada membro ocorre sob a forma de um tratado, cada um preservando a própria soberania, podendo retirar-se da organização quando quiser. Mesmo nas hipóteses de efetiva intervenção, às vezes pela força, as organizações não possuem, por si próprias, meios eficazes de fazer valer suas decisões. Não possuem exército próprio e dependem de contribuições materiais e pessoais dos países-membros, principalmente dos grandes Estados. Daí por que as deliberações não passam, em alguns casos, de recomendações e em outros de legitimação dos atos praticados por seus membros. Essas limitações que impedem ou dificultam a execução dos empreendimentos mais significativos não diminuem a importância dessas organizações. Elas constituem, sem qualquer dúvida, passo decisivo na busca da consecução de seus objetivos, sendo relevantes para o desenvolvimento dos povos, para a preservação da liberdade, para a manutenção da estabilidade econômica e para a paz mundial. Especial destaque assume a possibilidade de obtenção de visibilidade por parte dos pequenos Estados, os quais têm, nessas organizações, um veículo de comunicação e um palco para a apresentação de suas reivindicações, com repercussão mundial. As mais importantes intervenções políticas ocorrem, em alguns casos, por solicitações dos próprios países abalados por comoções internas, na maioria das vezes por exércitos formados por determinação da ONU, chamados comumente de “força internacional de paz” ou de Missão de Estabilização, como ocorreu no Haiti. Outras vezes ocorrem por legitimação outorgada a um ato de ocupação ou invasão, praticado por um ou vários países contra outro, como ocorreu no Iraque, e outras, ainda, por imposição de sanções econômicas e comerciais com finalidades coercitivas. Entre as organizações que possuem essas características está em primeiro plano a ONU — Organização das Nações Unidas, a mais importante, por abrigar entre seus membros 193 Estados soberanos. Destacam-se, a seguir, a OEA — Organização dos Estados Americanos e a OTAN — Organização do Tratado do Atlântico Norte. 5. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS — ONU A Organização das Nações Unidas — ONU foi fundada em 1945, após a II Guerra Mundial. Inicialmente com 51 países, conta hoje com a adesão de 193 Estados soberanos. Seu objetivo é a manutenção da paz e da segurança no mundo, fomentar um relacionamento cordial entre as nações, promover o progresso social e melhores padrões de vida e direitos humanos. Os Estados integrantes estão unidos por um tratado internacional, chamado “Carta da ONU”, em que estão enunciados os direitos e deveres dos seus membros perante a comunidade internacional. Os órgãos principais são a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, o Conselho de Direitos Humanos, o Tribunal Internacional de Justiça, sediado em Haia, e o Secretariado. Vários outros órgãos especializados atuam nas diversas áreas, com destaques para a Organização Mundial da Saúde, a Organização Internacional do Trabalho, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, todos compondo o chamado Sistema das Nações Unidas. A ONU é alvo de críticas, entre as quais a impossibilidade de efetiva aplicação da Declaração Universal dos Direitos do Homem, por excessivo respeito à soberania dos Estados, ao direito de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança, à falta de poder coercitivo de suas decisões, por ausência de recursos próprios e pelo fato de depender excessivamente dos Estados mais poderosos. Independentemente das críticas, é inegável a relevância da ONU no cenário mundial e sua importância na busca do ideal da igualdade entre os povos e da paz mundial. 6. ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DO ATLÂNTICO NORTE — OTAN A Organização do Tratado do Atlântico Norte — OTAN foi criada por tratado que lhe deu nome, assinado em Washington, DC em 4 de abril de 1949. Os seus nomes oficiais são North Atlantic Treaty Organization (NATO), em inglês, e Organisation du Traité de l’Atlantique Nord (OTAN), em francês. É uma organização de colaboração político-econômica, predominantemente política, em razão dos objetivos militares. Os Estados- membros estabeleceram um compromisso de cooperação estratégica em tempo de paz e de obrigação de auxílio mútuo em caso de guerra ou agressão. Conforme o disposto no artigo V do Tratado que lhe deu origem, cada membro se compromete a considerar um ataque armado contra um dos Estados como um ataque armado contra todos os Estados. Seus integrantes são: Bélgica, França, Noruega, Canadá,Islândia, Países Baixos, Dinamarca, Itália, Portugal, Estados Unidos da América, Luxemburgo e Reino Unido, considerados os fundadores, e Alemanha, Espanha, Letônia, Bulgária, Estônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Grécia, Polônia, Turquia, Eslovênia, Hungria, República Checa, Albânia, Croácia e Montenegro, admitido em 2017. A cláusula de defesa mútua foi invocada pela primeira vez em 2001, em resposta aos ataques de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono. 7. ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS — OEA A Organização dos Estados Americanos — OEA foi fundada em 30 de abril de 1948. Seus integrantes assumiram o compromisso prioritário de defender os interesses do continente americano, buscando o fortalecimento da democracia e dos assuntos relacionados com o comércio e a integração econômica, o controle de entorpecentes, a repressão ao terrorismo e à corrupção, a lavagem de dinheiro e as questões ambientais. Em 11 de setembro de 2001, os países-membros assinaram a Carta Democrática Interamericana, com o objetivo de fortalecer o estabelecimento de democracias representativas no continente. São membros da OEA: Antígua y Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, Equador, El Salvador, Estados Unidos, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, San Kitts y Nevis, Santa Lucía, San Vicente y las Granadinas, Suriname, Trinidad y Tobago, Uruguai e Venezuela. Cuba foi suspensa em 1962, após aliar-se à antiga URSS, declarando sua adesão ao marxismo-leninismo. Essa decisão foi revogada, em 2009, pela 39a Assembleia Geral da OEA. A efetivação da readmissão plena ainda está subordinada a um processo de diálogo que dependerá de solicitação do governo de Cuba. Honduras foi suspensa em julho de 2009, por decisão unânime da OEA, em razão do golpe de Estado que expulsou do poder o presidente eleito José Manuel Zelaya, mas reintegrada em 2011 após cumprimento das condições impostas. Os Estados suspensos, tecnicamente, ainda continuam a fazer parte da OEA, mas durante a suspensão não têm direito de representação, participação nas reuniões e demais atividades da organização. 8. ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS Classificamos como organizações preponderantemente econômicas aquelas também chamadas de Blocos Econômicos. Essas organizações existem na ordem internacional, formadas por uniões de Estados soberanos formalizadas por tratados e convenções que traçam as regras a serem respeitadas mutuamente. Essas regras, conforme a relevância das restrições ou obrigações de conduta impostas aos países participantes, constituem o combustível que alimenta a elaboração dos diversos posicionamentos dos doutrinadores a respeito de constituírem ou não restrições ao conceito de soberania. Embora não se possa negar que a mola propulsora da formação desses blocos seja, no mundo capitalista atual, o interesse econômico, é possível identificar a presença do elemento político, já que as regras aplicáveis à cooperação econômica abrangerão, necessariamente, a concessão de prerrogativas que estão incluídas no conceito de soberania de cada país- membro. O relacionamento entre os países-membros nesse tipo de organização é classificado como intergovernamental. Significa que as decisões que vierem a ser tomadas pela Organização não têm força de execução sobre cada Estado- membro. Para que as decisões adquiram força de execução, elas dependem da inserção dessas decisões no sistema legislativo interno, mediante a aprovação individual dos órgãos políticos de cada Estado-membro. 9. MERCOSUL O Mercado Comum do Sul (Mercosul) é atualmente um exemplo de bloco econômico cuja atuação e finalidades são preponderantemente comerciais. Situado na região denominada Cone Sul do Continente Americano, o Mercosul foi criado através do Tratado de Assunção, assinado em 26 de março de 1991, complementado pelo Protocolo de Ouro Preto, de 17 de dezembro de 1994. É formado atualmente por cinco países-membros — Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, cujo nome oficial é República Bolivariana da Venezuela — esta última suspensa em dezembro de 2016; cinco países-associados — Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru —; e dois países observadores — Nova Zelândia e México. O Paraguai foi suspenso do bloco em 29 de junho de 2012, em razão da destituição do presidente Fernando Lugo, mas foi reintegrado em agosto de 2013. A Venezuela foi admitida como membro pleno em 31 de julho de 2012, mas foi suspensa em dezembro de 2016 por não cumprir diretrizes do bloco relativas à promoção e proteção dos direitos humanos. Por meio do Protocolo de Brasília, firmado em 17 de dezembro de 1991, complementado pelo Protocolo de Olivos, firmado em 18 de fevereiro de 2002, os Estados-membros trataram do estabelecimento de normas para a Solução de Controvérsias no Mercosul, constituindo um Tribunal Permanente de Revisão, para consolidar a segurança jurídica na região. O objetivo principal é criar um mercado comum com livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos, complementado pela busca de adoção de uma política externa comum, pela coordenação de posições conjuntas em foros internacionais, pela formulação conjunta de políticas macroeconômicas setoriais e, por fim, pela harmonização das legislações nacionais, com vistas a maior integração, segundo consta de seus atos constitutivos. A estrutura orgânica do Mercosul conta com uma presidência exercida pro tempore, ou seja, por sistema de rodízio semestral. As decisões do Mercosul são sempre tomadas por consenso. Compõem a sua organização um órgão superior, denominado Conselho do Mercado Comum, responsável pela condução política do processo de integração e composto pelos Ministros das Relações Exteriores e da Economia dos quatro Estados-membros, ao qual estão subordinados vários Grupos de Trabalho, além do Parlamento do Mercosul, do Foro Consultivo Econômico-Social (FCES), do Tribunal Permanente de Revisão e outros. Em atenção à característica da intergovernabilidade, o Mercosul não possui órgãos supranacionais. Consequentemente as decisões emanadas dos órgãos diretivos ficam subordinadas à obediência das formalidades legislativas próprias de cada Estado-membro para que tenham força exe- cutória. Em razão dessa necessidade, chamada de internacionalização da norma, pode-se afirmar que o conceito de soberania sofre menor restrição, já que fica mantida a prerrogativa interna de eventualmente não aprovar a disposição emanada do órgão internacional. 10. OUTRAS ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS Com características semelhantes às do Mercosul, divergindo especialmente quanto ao grau de integração entre os Estados-membros, estão constituídos, segundo dados relativos ao ano de 2008, os seguintes blocos econômicos internacionais: NAFTA — North America Free Trade Agreement: teve início em 1988, com o relacionamento comercial entre os Estados Unidos e o Canadá. Contou com a adesão do México em 1992, e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1994. Tem por objetivo a fixação de um prazo de quinze anos para a total eliminação das barreiras alfandegárias entre os três países, estando aberto a todos os Estados da América Central e do Sul. Em 2018, o presidente norte- americano Donald Trump divulgou acordo de integração econômica com o México, o que significa o fim do NAFTA, pois não conta com a participação do Canadá. ALADI — Associação Latino-Americana de Integração. Criada em 12 de agosto de 1980pelo Tratado de Montevidéu, substituiu a ALALC, a antiga Associação Latino-Americana de Livre Comércio, que foi criada em 1960. Tem por objetivo criar um mercado comum latino-americano, a longo prazo. É integrada pela Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e República Bolivariana da Venezuela. CAN — Comunidade Andina, ou Pacto Andino (Comunidad Andina). Criada em 26 de maio de 1969, inicialmente como uma União Aduaneira e Econômica. São membros atuais a Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Membros associados Argentina, Brasil, Chile Paraguai e Uruguai. São observadores o México e o Panamá. Tem por objetivo a integração andina, sul-americana e latino-americana, para a formação de uma União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). CARICOM — Comunidade do Caribe, ou Comunidade das Caraíbas, antes denominada Comunidade e Mercado Comum do Caribe. Criado em 1973, é integrado por quinze países e territórios da região caribenha: Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Suriname e Trinidad e Tobago. São considerados territórios associados Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas, Turks e Caicos, Ilhas Cayman e Anguilla. EFTA — Associação Europeia de Livre Comércio (European Free Trade Association). Criada em 1960, como oposição à Comunidade Econômica Europeia (CEE), tinha como primeiros parceiros Áustria, Dinamarca, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça e Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Com o fortalecimento da Comunidade Europeia, perdeu a maioria dos seus integrantes, restringindo-se atualmente à associação de apenas quatro países: Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. Em 1992 a EFTA assinou acordo com a União Europeia, criando o Espaço Econômico Europeu (EEE), objetivando aumentar o volume de comércio com a União Europeia e a participação dos seus quatro Estados-Membros, em outros programas. SADC — Comunidade para o desenvolvimento da África Austral (Southern Africa Development Community). Criada em 1992, é integrada por quinze países: África do Sul, Angola, Botsuana, República Democrática do Congo, Lesoto, Madagascar, Malavi, Maurício, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue e Seicheles. Objetiva incentivar as relações comerciais entre seus membros, por meio da criação de um mercado comum a médio prazo, seguindo o modelo básico da União Europeia e alguns aspectos do Mercosul, além de desenvolver esforços para promover a paz e a segurança na região meridional africana. ANZCERTA — Acordo Comercial Sobre Relações Econômicas entre Austrália e Nova Zelândia (Australia New Zealand Closer Economic Relations Trade Agreement). Criado em 1983, integrado por esses dois países, objetiva a criação de uma área de livre comércio e planejando a integração com o ASEAN até 2010. Destaca-se pelo seu protocolo sobre livre comércio na área de serviços, o primeiro do mundo globalizado. ASEAN — Associação de Nações do Sudeste Asiático (Association of Southeast Asian Nations). Surgiu em 1967, liderada pela Tailândia. Os países que a integram são: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã. São Países observadores: Papua- Nova Guiné e Timor-Leste. Tem por objetivo assegurar a estabilidade política e acelerar o processo de desenvolvimento da região, promovendo o desenvolvimento econômico, social e cultural, mediante programas cooperativos, incluindo em seus objetivos também o livre comércio. APEC — Fórum Econômico da Ásia e do Pacífico (Asia-Pacific Economic Cooperation). Trata-se de um Organismo intergovernamental para consulta e cooperação econômica, oficializado em 1993. Constitui um poderoso bloco econômico que objetiva promover a abertura de mercados entre os países-membros: Austrália, Brunei Darussalam, Canadá, Chile, República da China, Hong Kong, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Malásia, México, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Peru, Filipinas, Rússia, Cingapura, Taipé Chinesa (Taiwan), Tailândia, Estados Unidos e Vietnã. A meta é o estabelecimento do livre comércio entre os países participantes, até o ano 2010 para as economias dos países desenvolvidos e até 2020 para as economias dos países em desenvolvimento. 11. ORGANIZAÇÃO SUPRANACIONAL — UNIÃO EUROPEIA Em uma organização que classificamos como supranacional, cada país cede ou transfere parcelas de suas respectivas soberanias a um órgão comum, admitindo que as decisões tomadas por esse órgão se tornem de obediência interna obrigatória, independentemente de qualquer outra manifestação política ou legislativa interna. Em outras palavras, as decisões desse órgão supranacional passam a integrar automaticamente o ordenamento jurídico de cada Estado-membro. Os blocos de integração supranacionais constituem exemplo marcante da relativização do conceito clássico da soberania absoluta. Na atualidade a União Europeia constitui a meta almejada, pelo menos em teoria, pelas demais Organizações Internacionais, por representar, de forma mais expressiva, o resultado do processo de globalização, e de integração política, em suas diversas concepções e formas de atuação. A União Europeia é originada da Comunidade Econômica Europeia (CEE), fundada em 1957. Teve a eliminação das últimas barreiras alfandegárias entre os países-membros consolidada em 1992, e entrou em funcionamento em 1º de novembro de 1993, através do Tratado de Maastricht. É integrada por: Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda (Países Baixos), Portugal, Reino Unido (Inglaterra, em processo de saída do bloco), Suécia, Dinamarca, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Polônia, República Tcheca, Bulgária, Croácia e Romênia. Estão oficialmente em fase de negociação: Albânia, Macedônia, Montenegro e Turquia. O órgão máximo da União Europeia é o Parlamento Europeu, eleito pelo voto direto dos cidadãos europeus, a cada cinco anos. Juntamente com o Conselho da União Europeia, constituído pelos ministros dos governos dos Estados-membros, é o responsável pela elaboração da legislação Europeia, mediante propostas oriundas da Comissão Europeia. Outros órgãos atuam também com poderes supranacionais: Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas, Comitê Econômico e Social, Comitê das Regiões, Banco Central Europeu e Banco Europeu de Investimento. A União Europeia caracteriza uma forma de cessão, mesmo que parcial, da soberania, critério também chamado eufemisticamente de “agrupamento de soberania”. Na observação de Ives Gandra Martins, “o direito comunitário prevalece sobre o Direito local, e os poderes comunitários (Tribunal de Luxemburgo, Parlamento Europeu) têm mais força que os poderes locais. Embora no exercício da soberania, as nações aderiram a tal espaço plurinacional, mas, ao fazê-lo, abriram mão de sua soberania ampla para submeterem-se a regras e comandos normativos da comunidade. Perderam, de rigor, sua soberania para manter uma autonomia maior do que nas Federações clássicas, criando uma autêntica Federação de países” (O Estado do futuro, São Paulo, Thomson Pioneira, 1998, p. 15). IX NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS — I 1. Nascimento. 2. Modo originário. 3. Modos secundários. 4. Confederação. 5. Federação. 6. União pessoal. 7. União real. 8. Divisão nacional. 9. Divisão sucessoral. 10. Modos derivados. 11. Colonização. 12. Concessão dos direitosde soberania. 13. Ato de governo. 14. Desenvolvimento e declínio. 15. Extinção. 16. Conquista. 17. Emigração. 18. Expulsão. 19. Renúncia dos direitos de soberania. 1. NASCIMENTO Concorrendo os três elementos necessários — população, território e governo — nasce um Estado. Resta saber, porém, como esses elementos se reúnem ou de que forma nasce o Estado. Neste ponto não indagamos das causas genéticas da formação social, mas, sim, do ato formal do nascimento ou de criação de um Estado, conforme com o depoimento da história, o consenso dos povos e os princípios de direito internacional. O conhecimento dos fatores determinantes do surgimento e do perecimento dos Estados mais antigos perdeu-se na poeira dos tempos. Mesmo em relação aos que chegaram aos tempos atuais, como a Índia, a China e o Egito, a história da sua origem permanece embuçada nas brumas de um passado muito remoto. Os primeiros Estados, ao que se tem apurado por indução dos sábios, teriam surgido, originariamente, como decorrência natural da evolução das sociedades humanas. Emergiram do seio das primitivas comunidades e caminharam, paulatinamente, para a instauração de forma política específica. E, se mais nos adentramos procurando desvendar na nebulosidade das priscas eras a gênese da ordem civil, veremos que se nos impõe, ainda pelo critério indutivo, a conclusão de que, antes do aparecimento do fenômeno que hoje chamamos Estado, já existiam regras de comportamento social ditadas pelo direito natural, e que este gerou o Estado erigindo-o em órgão da sua positivação. Extinguiram-se os Estados primitivos oriundos dessa ordem natural primitiva, e sobre os seus escombros ergueram-se os Estados do mundo atual. Na sua maioria, representam estes o renascimento ou a reformação dos velhos impérios extintos, conservando, muitas vezes, o nome e as tradições, porém ostentando nova configuração geográfica e política. Como o desaparecimento da organização estatal não implica, geralmente, o desaparecimento dos agrupamentos étnicos, conservam-se estes mantendo a sua continuidade histórica. A comunidade romana, por exemplo, sobreviveu ao aniquilamento do Império ocasionado pelas invasões dos bárbaros, assim como a comunidade judaica, depois da destruição de Jerusalém, se conservou coesa até restabelecer, na Palestina, as vetustas tradições do velho Estado de Israel. É oportuno ressaltar aqui, mais uma vez, a nítida diferença que existe entre Nação e Estado. A Nação é uma entidade de direito natural. O Estado, ao revés, é um fenômeno jurídico; é obra do homem, portanto, contingente e falível. Sua estrutura pode desintegrar-se num dado momento, desaparecer e reaparecer. Tal como um ser vivo — disse Montaigne —, o Estado nasce, floresce e morre. Essa interpretação mística do fenômeno estatal, desenvolvida por Hegel, Schelling, Krause e outros corifeus da chamada escola orgânica, fundada, aliás, na filosofia platônica, não convém à objetividade com que devemos encarar os fatos do nascimento e da extinção dos Estados. Se o Estado em si, na sua estrutura morfológica e na sua realidade vital, se compara ao ritmo da vida orgânica, tal não ocorre em relação à comunidade nacional, pois esta, independentemente daquele, se eterniza na sucessividade das gerações. O Estado não morre por completar um determinado ciclo orgânico. A perpetuidade, aliás, é um dos pressupostos jurídicos da sua condição, e, contrariamente às leis naturais que regem a vida dos seres, a sua velhice é um penhor de vigorosa durabilidade. Um dos fatores que levam o Estado à morte está em que a sua estrutura, de certo modo, se apoia na força, e esta gera a resistência. Sujeita-se a sua estrutura às mutações do poder que são imperativos necessários da evolução humana. Feitos estes esclarecimentos preliminares, vamos analisar aqui os fatos que assinalam o nascimento, o crescimento ou declínio e o desaparecimento dos Estados. A condição de Estado, como já vimos, requer a presença simultânea dos seus três elementos constitutivos — população, território e governo —, sendo, entretanto, diversos os modos como se realiza a combinação desses elementos e como se explica o surgimento da entidade estatal. Três são os modos de nascimento dos Estados: originário, secundários e derivados. Desdobram-se, cada um deles, em vários casos específicos. Para bem estudá-los faremos primeiro o seguinte enquadramento sinótico: 2. MODO ORIGINÁRIO Pode surgir o Estado, originariamente, do próprio meio nacional, sem dependência de qualquer fator externo. Um agrupamento humano mais ou menos homogêneo, estabelecendo-se num determinado território, organiza o seu governo e passa a apresentar as condições universais da ordem política e jurídica. Roma e Atenas são exemplos típicos da formação originária. Esse núcleo inicial, via de regra, é homogêneo, isto é, uma comunidade identificada por vínculos de raça, língua, religião, usos, costumes, sentimentos e aspirações comuns, e que, atingindo lentamente certas e determinadas condições, adota um sistema de organização social e administrativa tendente a facilitar a concretização dos anseios comuns. Os Estados primitivos, sem dúvida, foram precedidos de uma lenta preparação nacional, mas nos tempos atuais tivemos exemplos de criação de Estados originariamente, sem o estágio preparatório a que nos referimos, ou seja, sem que o núcleo humano inicial apresentasse esse aspecto de homogeneidade próprio dos chamados Estados Nacionais. Assim ocorreu, por exemplo, no caso já citado do Estado da Califórnia, na América do Norte, onde legiões de indivíduos de todas as origens formaram uma população numerosa e reuniram-se, em 1849, numa assembleia constituinte, organizando o seu governo próprio e proclamando ao mundo a fundação do seu Estado, posteriormente incorporado à federação dos Estados Unidos da América do Norte. Deixando de lado maior indagação sobre a formação dos Estados antigos para fixarmos a sociedade humana no momento exato em que ela, por força de variadas circunstâncias, se organiza em Estado, constatamos que no mundo moderno inúmeras são as circunstâncias que cercam e determinam o nascimento de novas unidades políticas. Queiroz Lima assim enumera essas circunstâncias: “Irredutibilidade de interesses; necessidade de autonomia econômica e política; divergências de raças, índoles e aspirações, ou coligação de povos unidos pela identidade de raça ou por um forte laço de interesse comum; influência dissolvente de uma guerra infeliz ou imposição de um inimigo vencedor; e, finalmente, combinações políticas das grandes potências em congresso internacional”. Diante desse panorama realmente verídico, perde muito do seu valor a regra geral da formação originária e se avultam em importância os modos secundários e derivados. 3. MODOS SECUNDÁRIOS Uma nova unidade política pode nascer da união ou da divisão de Estados. São casos de união: a) confederação; b) federação; c) união pessoal; e d) união real. 4. CONFEDERAÇÃO É uma união convencional de países independentes, objetivando a rea- lização de grandes empreendimentos de interesse comum ou o fortalecimento da defesa de todos contra a eventualidade de uma agressão externa. São exemplos dessa forma de união, nos tempos antigos, as confederações gregas dos Beócios, dos Arcádios, dos Acheus e dos Estólios. Os antigos cantões da Suíça uniram-se formando a Confederação Helvética, que ainda subsiste, agora com feição própria de uma união federal. Mais recentemente, tivemos a Confederação dos Estados Unidos da América do Norte (1776- 1787) e a Confederação Germânica(1815). A atual Comunidade dos Estados Independentes (CEI) é um exemplo da união sob a forma confederativa. A partir de um manifesto lançado pela Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, outras nove repúblicas também ex-integrantes da extinta URSS formalizaram sua adesão, dando início a um processo de unificação política e econômica cujas bases definitivas ainda hoje estão sendo processadas. 5. FEDERAÇÃO É uma união nacional mais íntima, perpétua e indissolúvel, de províncias que passam a constituir uma só pessoa de direito público internacional. Exemplo clássico de união federal é a América do Norte. Temos, ainda, no continente americano, México, Brasil, Argentina e República Bolivariana da Venezuela. 6. UNIÃO PESSOAL É o governo de dois ou mais países por um só monarca. É uma união de natureza precária, transitória, porque decorre exclusivamente de eventuais direitos sucessórios ou convencionais de um determinado príncipe. Registra a história, entre outros, os seguintes exemplos de união pessoal: a) Alemanha e Espanha sob o poder de Carlos V; b) Inglaterra e Hanover sob o governo de George IV; c) Polônia e Sarre, sob o reinado de Augusto etc. 7. UNIÃO REAL É a união efetiva, com caráter permanente, de dois ou mais países formando uma só pessoa de direito público internacional. Exemplos: a) Suécia e Noruega; b) Áustria e Hungria; c) Inglaterra, Escócia e Irlanda, que se juntaram para a formação da Grã-Bretanha. São casos de divisão: a) divisão nacional, e b) divisão sucessoral. 8. DIVISÃO NACIONAL É a que se dá quando uma determinada região ou província integrante de um Estado obtém a sua independência e forma uma nova unidade política. Há os exemplos da divisão da monarquia de Alexandre, do retalhamento do primeiro império napoleônico e da separação dos chamados Países Baixos em 1830. Na reorganização da Europa, depois da primeira guerra mundial, vários casos de divisão nacional se verificaram por conveniência e imposição dos vencedores. 9. DIVISÃO SUCESSORAL É uma forma típica das monarquias medievais: o Estado, considerado como propriedade do monarca, era dividido entre os seus parentes e sucessores, desdobrando-se, assim, em reinos menores autônomos. O direito público moderno não dá agasalho a essa antiquada forma de criação de Estado. 10. MODOS DERIVADOS Segundo estas hipóteses, o Estado surge em consequência de movimentos exteriores, quais sejam: a) colonização; b) concessão dos direitos de soberania; e c) ato de governo. 11. COLONIZAÇÃO Foi a forma primeiramente utilizada pelos gregos que povoaram as terras e criaram Estados ao longo do Mediterrâneo. Modernamente, temos os exemplos do Brasil e das demais antigas colônias americanas povoadas pelos ingleses, espanhóis e portugueses, as quais se transformaram posteriormente em Estados livres. 12. CONCESSÃO DOS DIREITOS DE SOBERANIA Ocorria frequentemente na Idade Média, quando os monarcas, por sua livre vontade pessoal, outorgavam os direitos de autodeterminação aos seus principados, ducados, condados etc. Nos tempos atuais, a Irlanda, o Canadá e outras “colônias autônomas” da British Commonwealth of Nations caminham progressivamente para a sua completa independência, através de concessões feitas pelo governo inglês. 13. ATO DE GOVERNO É a forma pela qual o nascimento de um novo Estado decorre da simples vontade de um eventual conquistador ou de um governante absoluto. Napoleão I criou assim diversos Estados, tão somente pela manifestação da sua vontade incontestável. 14. DESENVOLVIMENTO E DECLÍNIO O Estado se desenvolve, em sentido progressivo, quando fortalece e sublima a sua ordem social, jurídica e econômica, em consonância com a civilização nacional. O seu eventual declínio, ao revés, provém da corrupção dos costumes, do amortecimento da consciência cívica, do abastardamento da raça, do relaxamento do sistema educacional, da perversão da justiça etc. Em tais contingências entra o Estado num processo de depauperamento orgânico — como dizem os teóricos da escola organicista —, tornando-se presa fácil aos conquistadores estrangeiros. Quando não consegue o Estado reagir no sentido de restabelecer em bases seguras a normalidade da sua vida, poderá sofrer o colapso geral e a morte. Assim desapareceram: Cartago pelas dissenções internas; Roma pela incapacidade de organizar a resistência contra as hordas bárbaras; o Império de Carlos Magno pelo esfacelamento feudal; o Império Grego do Oriente pela sua desastrosa indolência bizantina; e a Polônia (três vezes) pela debilidade das suas forças internas e pela inconstância da sua nobreza. 15. EXTINÇÃO Causas gerais ou específicas ocasionam a extinção (morte) dos Estados, como resumimos no seguinte quadro: Em geral, ocorre o desaparecimento do Estado como unidade de direito público sempre que, por qualquer motivo, faltar um dos seus elementos morfológicos (população, território e governo). As uniões e divisões de Estados, que ensejam a formação de novas entidades estatais, determinam, ipso facto, o desaparecimento dos Estados que se uniram ou daquele que se dividiu. 16. CONQUISTA Quando o Estado, desorganizado, enfraquecido, sem amparo de um órgão internacional de justiça e segurança, é invadido por forças estrangeiras, ou dividido violentamente por um movimento separatista insuflado por interesses externos. Por essa forma ocorreu três vezes o eclipse da Polônia na órbita internacional, em 1772, em 1793 e no decurso da primeira guerra mundial. 17. EMIGRAÇÃO Quando, sob a pressão de qualquer acontecimento imprevisto, toda a população nacional abandona o país, como se deu com os helvéticos ao tempo de César. 18. EXPULSÃO Quando as forças conquistadoras, ocupando plenamente o território do Estado invadido, obrigam a população vencida a se deslocar para outra região. Foi o que ocorreu em diversos países da Europa por ocasião das invasões bárbaras. 19. RENÚNCIA DOS DIREITOS DE SOBERANIA É forma de desaparecimento espontâneo. Uma comunidade nacional pode renunciar aos seus direitos de autodeterminação, em benefício de outro Estado mais próspero, ao qual se incorpora, formando um novo e maior Estado. Várias unidades feudais com prerrogativas de Estado, na Idade Média, desapareceram por este modo, passando a integrar a poderosa monarquia francesa de Luiz XI. Mais recentemente tivemos o exemplo do Estado mexicano do Texas, o qual, tendo proclamado a sua independência em 1837, deliberou posteriormente, em 1845, abrir mão da sua soberania para ingressar na federação norte-americana. A Baviera, o Wurtenberg e o Grão-Ducado de Bade também desapareceram por renúncia dos direitos de soberania, passando a integrar o Império Alemão. X NASCIMENTO E EXTINÇÃO DOS ESTADOS — II 1. Justificação. 2. Princípio das nacionalidades. 3. Teoria das fronteiras naturais. 4. Teoria do equilíbrio internacional. 5. Teoria do livre-arbítrio dos povos. 1. JUSTIFICAÇÃO O nascimento e a extinção de Estados, como fatos que alteram sensivelmente a situação geográfica e política de uma determinada região ou mesmo de um Continente, revestem-se de importância transcendental, pois envolvem, direta ou indiretamente, os interesses comuns de todos os povos. Na antiguidade esses fatos eram inteiramente arbitrários, sujeitos apenas às imposições da força. Com o advento do jus gentium, porém, passaram a subordinar-se aos princípios estabelecidos com o consenso geral das nações civilizadas. A soberania política de uma comunidade nacional exclui a interferência estrangeira no campo do direito público interno, porém, no âmbito maior do direito público internacional, há o limite impostonaturalmente pelo interesse de convivência das soberanias. Não há mesmo como repelir, no plano ético, o primado do direito internacional, que preside, no mundo moderno, a existência de uma sociedade de Estados. Impõe o direito internacional, consequentemente, que a criação ou a supressão de um Estado seja aprovada prévia ou posteriormente pelas outras potências, particularmente por aquelas que se situam no mesmo Continente, para que a integração de um fato político de interesse da sociedade de Estados se harmonize com o princípio da coexistência pacífica de soberanias internas sobre uma base normal de paridade jurídica. Procurando dar a esses fatos a juridicidade de que carecem para que se imponham ao respeito e ao acatamento de todos os povos, no jogo de interesses legítimos ou ilegítimos das maiores potências, a política internacional tem adotado, desde o século passado, as seguintes teorias: a) princípio das nacionalidades; b) teoria das fronteiras naturais; c) teoria do equilíbrio internacional; e d) teoria de livre-arbítrio dos povos. 2. PRINCÍPIO DAS NACIONALIDADES Com a vitória da revolução francesa verificou-se a transposição do poder de governo do rei para a nação. Mas, acima da nação como realidade política — observa Pedro Calmon —, surgiu com a reação contra a Santa Aliança (1815-1830) um novo princípio de direito natural e histórico, calcado no conceito de nacionalidade. A divisão arbitrária dos povos, como vinha sendo feita pela diplomacia de Viena, S. Petersburgo e Paris, estabelecera um clima de inquietação no panorama europeu, prejudicando os esforços tendentes à consolidação da paz. O conceito de nacionalidade veio impor uma nova fórmula baseada na liberdade que deve ter cada nação de organizar-se segundo suas tradições: consistindo o Estado na organização política de uma nação, a cada nacionalidade diferenciada deverá corresponder uma composição política autônoma. Em outros termos: os grupos humanos, diferenciados por vínculos de raça, língua, usos e costumes, tradições etc., constituem grupos nacionais e devem formar, cada um, o seu próprio Estado. Foi essa teoria formulada por Mancini em 1851 e defendida com entusiasmo por muitos autores e estadistas. Era praticamente a doutrina da não intervenção e nela se apoiaram, sobretudo, as pequenas nações subjugadas e transformadas em moedas de troca nos negócios das grandes potências. O princípio das nacionalidades, nos termos em que foi formulado — observou Queiroz Lima —, tanto se presta para o bem como para o mal; tanto serve às reivindicações legítimas como às mais injustas espoliações. Sob a égide dessa teoria realizaram-se movimentos benéficos, como a independência da Grécia (1829), a separação entre a Holanda e a Bélgica (1830), a unificação da Itália (1859), a unificação da Alemanha (1867-1871) e a independência dos países balcânicos (Rumânia, Sérvia, Bulgária e Montenegro), que se desligaram do jugo otomano. Por outro lado, realizaram-se violentas usurpações, como as anexações de Alsácia, Lorena e Hanover à Alemanha, e bem assim as de outros pequenos Estados reivindicados pelo racismo germânico. Também a Rússia procurou estender a sua hegemonia sobre as pequenas nações de raça eslava, com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), extinta em 1991. 3. TEORIA DAS FRONTEIRAS NATURAIS Esta teoria é um desvirtuamento, uma excrescência do princípio das nacionalidades, senão mesmo uma caricatura da salutar doutrina formulada pelo Professor Mancini, da Universidade de Turim. Surgiu a teoria das fronteiras naturais como instrumento a ser utilizado pelos países militarmente fortes, os quais alegaram que a nação deveria ter o seu território (complemento natural) delimitado pelos grandes acidentes geográficos naturais. A geografia indica em relevos naturais os justos contornos das nações. Não é razoável que sejam traçados limites arbitrários quando há um rio navegável, uma cordilheira, um mar, como fronteira natural… e a tendência dos Estados é procurar esses limites e adotá-los. Muito mais do que o princípio das nacionalidades tornou-se a teoria das fronteiras naturais uma espada de dois gumes: a França procurou divisar-se com a Espanha pelos Pirineus e com a Alemanha pelo Reno. A Alemanha, por sua vez, reivindicou contra a França a sua divisa pelo Vosgues… Dissidências dessa natureza contribuíram para a conflagração do mundo, levando os estadistas à procura de outros princípios capazes de assegurar uma harmonia efetiva e duradoura no campo áspero das relações internacionais. 4. TEORIA DO EQUILÍBRIO INTERNACIONAL Esta teoria foi formulada visando particularmente o equilíbrio europeu. Parte do princípio de que a paz decorre do equilíbrio que se possa estabelecer entre as forças das várias potências. Chamaram-na também teoria da paz armada. Correspondia ela, como lembra o Professor Machado Paupério, com o rifão popular — lobo não come lobo. Entre as principais potências deveria haver uma igualdade de domínios territoriais, porque o fortalecimento desproporcional de uma redundaria em ameaça à segurança das outras. Esboçada por Richelieu, essa teoria teve aceitação entre os estadistas europeus. Não obstante, a mística desse equilíbrio ideal não evitou fosse a Europa mergulhada na imensa catástrofe de 1914. O Brasil mesmo chegou a sustentar essa teoria, invocando a conveniência de um equilíbrio sul-americano, quando defendeu a soberania do Uruguai, reconheceu a do Paraguai e impediu que, sob o governo despótico de Rosas, fosse reorganizado o vice-reinado do Prata. Na Partilha da Polônia, nos tratados de Viena e sempre que se procurou reformar a configuração do mapa europeu, essa doutrina foi objeto de considerações e debates. Ponderável corrente de doutrinadores e estadistas continua a entender que a força deve ser contida pela força, por isso que o desenvolvimento do poderio bélico é um dos mais respeitáveis fatores da paz. Não condiz esta teoria com os ideais democráticos nem com os naturais anseios de justiça da maioria das nações. 5. TEORIA DO LIVRE-ARBÍTRIO DOS POVOS Semelhante, na sua essência, ao princípio das nacionalidades, esta teoria defende a vontade nacional como razão de Estado. Preceitua que só o livre consentimento de cada povo justifica e preside a vida do Estado. Lançando as suas raízes na filosofia liberal do século XVIII, inspirando-se principalmente nas pregações de Rousseau e nos postulados da revolução francesa, defendeu esta teoria a plena liberdade de autodeterminação dos povos. Como afirmou Condorcet, em 1792, cada nação tem o direito de dispor sobre o seu destino e de se dar as próprias leis. Em tais condições diz textualmente esta doutrina: “nenhuma potência tem o direito de submeter um Estado contra a vontade soberana da respectiva população”. Não obstante, como frisa Queiroz Lima, a república implantada pela revolução francesa e o primeiro império foram a negação prática dessa teoria. E o próprio Congresso de Viena, em 1815, ao refundir o mapa da Europa, negou reconhecimento à teoria do livre-arbítrio dos povos. Em 1919 voltou o Presidente Wilson a proclamar que “cada povo deve formar a sua nacionalidade, não se admitindo a intervenção de outros Estados nos negócios internos de cada um”. Mas a própria América do Norte negou a aplicação dos princípios de Wilson em favor dos Estados do Sul quando quiseram estes formar a sua própria federação. A esta acusação, aliás, retrucaram os teóricos do sistema federativo que os princípios básicos da doutrinado livre-arbítrio não autorizam a desunião nacional. São válidos os princípios para a União Federal; nunca para as unidades federadas. Em nome da teoria do livre-arbítrio dos povos foram feitas a restauração da Polônia, a independência da Iugoslávia, a criação da Checoslováquia, a integração da Grécia, a unificação da Itália e a devolução da Alsácia Lorena à França. Solucionaram-se as questões da Bacia do Sarre, Alta Silésia, Prússia Oriental, Nice, Bélgica, e de outros pequenos Estados e territórios contestados, nos quais foram realizados plebiscitos para a apuração da vontade de cada povo. Nem todas as pequenas nações, porém, tiveram respeitados os seus direitos de autodeterminação, notadamente depois da segunda guerra mundial. Continuaram as grandes potências, no jogo dos seus interesses, a fazer tábula rasa da teoria do livre-arbítrio dos povos, a qual, sem dúvida, teoricamente, é uma alta expressão dos ideais democráticos. Todavia, a negação do “livre-arbítrio” dos povos, sem dúvida uma alta expressão dos ideais democráticos, dificilmente prevalece; quando negado, mesmo a médio ou longo prazo, acarreta sempre a reação do povo oprimido. Exemplo disso é a recente extinção da URSS, provocada pelas declarações de independência dos Estados que a ela eram submetidos, e a criação da CEI que, embora signifique uma união de Estados, conserva e mantém sua independência sob a forma confederativa, respeitando o “livre-arbítrio” dos povos que a compõem. XI ORIGEM DOS ESTADOS 1. Generalidades. 2. Teoria da origem familiar. 3. Teoria patriarcal. 4. Teoria matriarcal. 5. Teoria da origem patrimonial. 6. Teoria da força. 1. GENERALIDADES Numerosas e variadas teorias tentam explicar a origem do Estado, e todas elas se contradizem nas suas premissas e nas suas conclusões. O problema é dos mais difíceis, porquanto a ciência não dispõe de elementos seguros para reconstituir a história e os meios de vida das primeiras associações humanas. Basta ter em vista que o homem apareceu na face da terra há cem mil anos, pelo menos, enquanto os mais antigos elementos históricos de que dispomos remontam apenas a seis mil anos. Assim é que todas as teorias são baseadas em meras hipóteses. A verdade, sem embargo dos subsídios que nos fornecem as ciências particulares, permanece envolta nas brumas da era pré-histórica. Escassos são os informes que temos, por exemplo, da formação do Estado egípcio, que é um dos mais antigos. Nem mesmo o bramanismo nos esclarece com dados objetivos os pródromos do Estado hindu. Com esta nota preliminar fica a advertência de que as teorias sobre a origem do Estado, que vamos resumir, são meramente conjecturais, isto é, resultantes de raciocínios hipotéticos. Mencionaremos, resumidamente, as principais, que assim se agrupam: a) teorias da origem familiar; b) teorias da origem patrimonial; e c) teorias da força. Nestas teorias o problema da origem do Estado é equacionado sob o ponto de vista histórico-sociológico. Mais adiante, ao tratarmos da justificação do Estado, o problema será examinado objetivamente, sob o ponto de vista racional. 2. TEORIA DA ORIGEM FAMILIAR Esta teoria, de todas a mais antiga, apoia-se na derivação da humanidade de um casal originário. Portanto, é de fundo bíblico. Compreende duas correntes principais: a) teoria patriarcal (ou patriarcalística); e b) teoria matriarcal (ou matriarcalística). 3. TEORIA PATRIARCAL Sustenta esta teoria que o Estado deriva de um núcleo familiar, cuja autoridade suprema pertenceria ao ascendente varão mais velho (patriarca). O Estado seria, assim, uma ampliação da família patriarcal. Grécia e Roma tiveram essa origem, segundo a tradição. O Estado de Israel (exemplo típico) originou-se da família de Jacob, conforme o relato bíblico. Conta esta teoria com a tríplice autoridade da Bíblia, de Aristóteles e do Direito Romano. Seus principais divulgadores foram Summer Maine, Westermack e Starke. Na Inglaterra deu-lhe notável vulgarização Robert Filmer, que defendeu o absolutismo de Carlos I perante o Parlamento. Os pregoeiros da teoria patriarcal encontram na organização do Estado os elementos básicos da família antiga: unidade do poder, direito de primogenitura, inalienabilidade do domínio territorial etc. Seus argumentos, porém, se ajustam mais às monarquias, especialmente às antigas monarquias centralizadas, nas quais o monarca representava, efetivamente, a autoridade do pater familias. É ponto quase pacífico, em sociologia, a origem familiar dos primeiros agrupamentos humanos. Entretanto, se esta teoria explica de maneira aceitável a gênese da sociedade, certo é que não encontra a mesma aceitação quando procura explicar a origem do Estado como organização política. Como observa La Bigne de Villeneuve, uma família fecunda pode ser o ponto de partida de um Estado — e disso há muitos exemplos históricos. Mas, em regra, o Estado se forma pela reunião de várias famílias. Os primitivos Estados gregos foram grupos de clãs. Estes grupos formavam as gens; um grupo de gens formava a fratria; um grupo de fratrias formava a tribu; e esta se constituía em Estado-Cidade (polis). O Estado-Cidade evoluiu para o Estado nacional ou plurinacional. Bem afirmou Rousseau, em harmonia com a doutrina de Aristóteles, que a família é o primeiro modelo da sociedade política. Mas é preciso não perder de vista que a família é mais unidade social do que propriamente política. E o Estado é mais um desenvolvimento da tribu, unidade mais ampla, composta de uma reunião de diversas famílias. 4. TEORIA MATRIARCAL Dentre as diversas correntes teóricas da origem familiar do Estado e em oposição formal ao patriarcalismo, destaca-se a teoria matriarcal ou matriarcalística. Bachofen foi o principal defensor desta teoria, seguido por Morgan, Grosse, Köhler e Durkheim. A primeira organização familiar teria sido baseada na autoridade da mãe. De uma primitiva convivência em estado de completa promiscuidade, teria surgido a família matrilínea, naturalmente, por razões de natureza fisiológica — mater semper certa. Assim, como era geralmente incerta a paternidade, teria sido a mãe a dirigente e autoridade suprema das primitivas famílias, de maneira que o clã matronímico, sendo a mais antiga forma de organização familiar, seria o fundamento da sociedade civil. O matriarcado, que não deve ser confundido com a ginecocracia ou hegemonia política da mulher, precedeu realmente ao patriarcado, na evolução social. Entretanto, foi a família patriarcal a que exerceu crescente influência, em todas as fases da evolução histórica dos povos. 5. TEORIA DA ORIGEM PATRIMONIAL A teoria patrimonial tem as raízes, segundo alguns autores, na filosofia de Platão, que admitiu, no Livro II de sua República, originar-se o Estado da união das profissões econômicas. Também Cícero explicava o Estado como uma organização destinada a proteger a propriedade e regulamentar as relações de ordem patrimonial. Decorre desta teoria, de certo modo, a afirmação de que o direito de propriedade é um direito natural, anterior ao Estado. O Estado feudal, da Idade Média, ajustava-se perfeitamente a esta concepção: era uma organização essencialmente de ordem patrimonial. Entretanto, como instituição anômala, não pôde fornecer elementos seguros à determinação das leis sociológicas. Haller, que foi o principal corifeu da teoria patrimonial, afirmava que a posse da terra gerou o poder público e deu origem à organização estatal. Modernamente esta teoria foi acolhida pelo socialismo, doutrina política que considera o fator econômico como determinante dos fenômenos sociais. 6.TEORIA DA FORÇA A teoria da força, também chamada da origem violenta do Estado, afirma que a organização política resultou do poder de dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Dizia Bodin que o que dá origem ao Estado é a violência dos mais fortes. Glumplowicz e Oppenheimer desenvolveram amplos estudos a respeito das primitivas organizações sociais, concluindo que foram elas resultantes das lutas travadas entre os indivíduos, sendo o poder público uma instituição que surgiu com a finalidade de regulamentar a dominação dos vencedores e a submissão dos vencidos. Franz Oppenheimer, médico, filósofo e professor de ciência política em Frankfurt, escreveu textualmente: “o Estado é inteiramente, quanto à sua origem, e quase inteiramente, quanto à sua natureza, durante os primeiros tempos da sua existência, uma organização social imposta por um grupo vencedor a um grupo vencido, destinada a manter esse domínio internamente e a proteger-se contra ataques exteriores”. Thomas Hobbes, discípulo de Bacon, foi o principal sistematizador dessa doutrina no começo dos tempos modernos. Afirma este autor que os homens, no estado de natureza, eram inimigos uns dos outros e viviam em guerra permanente — bellum omnium contra omnes. E como toda guerra termina com a vitória dos mais fortes, o Estado surgiu como resultado dessa vitória, sendo uma organização do grupo dominante para manter o poder de domínio sobre os vencidos. Note-se que Hobbes distinguiu duas categorias de Estados: real e racional. O Estado que se forma por imposição da força é o Estado real, enquanto o Estado racional provém da razão, segundo a fórmula contratualista. Essa teoria da força, disse Jellinek, “apoia-se aparentemente nos fatos históricos: no processo da formação originária dos Estados quase sempre houve luta; a guerra foi, em geral, o princípio criador dos povos. Ademais, essa doutrina parece encontrar confirmação no fato incontestável de que todo Estado representa, por sua natureza, uma organização de força e dominação. Entretanto, como afirma Queiroz Lima, o conceito de força como origem da autoridade é insuficiente para dar a justificação, a base de legitimidade e a explicação jurídica dos fenômenos que constituem o Estado. Ressalta à evidência que, sem força protetora e atuante, muitas sociedades não teriam podido organizar-se em Estado. Todos os poderes, inicialmente, foram protetores. Para refrear a tirania das inclinações individuais e conter as pretensões opostas recorreu-se, a princípio, à criação de um poder coercitivo, religioso, patriarcal ou guerreiro. E tal poder teria sido o primeiro esboço do Estado. Segundo um entendimento mais racional, porém, a força que dá origem ao Estado não poderia ser a força bruta, por si só, sem outra finalidade que não fosse a de dominação, mas, sim, a força que promove a unidade, estabelece o direito e realiza a justiça. Neste sentido é magnífica a lição de Fustel de Coulanges: as gerações modernas, em suas ideias sobre a formação dos governos, são levadas a crer ora que eles são resultantes exclusivamente da força e da violência, ora que são uma criação da razão. É um duplo erro: a origem das instituições sociais não deve ser procurada tão alto nem tão baixo. A força bruta não poderia estabelecê-las; as regras da razão são impotentes para criá-las. Entre a violência e as vãs utopias, na região média em que o homem se move e vive, encontram-se os interesses. São eles que fazem as instituições e que decidem sobre a maneira pela qual uma comunidade se organiza politicamente. Passaremos, a seguir, ao estudo das teorias que justificam o Estado, as quais envolvem e englobam mesmo, necessariamente, o problema da origem. XII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — I 1. Justificações teológico-religiosas. 2. Teoria do direito divino sobrenatural. 3. Teoria do direito divino providencial. 1. JUSTIFICAÇÕES TEOLÓGICO-RELIGIOSAS O poder de governo, sob o ponto de vista social, político ou jurídico, precisou sempre de crenças ou doutrinas que o justificassem, tanto para legitimar o comando quanto para legitimar a obediência. A princípio, o poder de governo era exercido em nome e sob a influência dos deuses, contando, assim, pacificamente com uma justificação natural, de ordem carismática, aceitável de pronto pela simples crença religiosa. Mas, desde os primeiros esboços do governo como organização da soberania popular, a necessidade de uma firme justificação doutrinária do poder foi se tornando cada vez mais imperiosa, até apresentar-se, na atualidade, como problema crucial da ciência política. Todas as doutrinas que se propõem justificar a organização, social ou política, remontam à origem da sociedade, aos primeiros agrupamentos humanos, e, assim, invariavelmente, envolvem o problema da origem do Estado, razão por que, como já foi acentuado, não imprimimos maior desenvoltura ao ponto anterior. Como observou o Prof. Pedro Calmon, as teo- rias que procuram justificar o Estado têm o mesmo valor especulativo daquelas que explicam o direito na sua gênese. Refletem elas o pensamento político dominante nas diversas fases da evolução da humanidade e procuram explicar a derivação do Estado: a) do sobrenatural (Estado divino); b) da lei ou da razão (Estado humano); e c) da história ou da evolução (Estado social). Essas diversas doutrinas ou correntes filosóficas assinalam, precisamente, a marcha da evolução estatal no tempo, da antiguidade remota à atualidade, ou seja, a partir do Estado fundado no direito divino, entendido como expressão sobrenatural da vontade de Deus, ao Estado moderno, entendido como expressão concreta da vontade popular. Repetimos, pois, que é problema dos mais difíceis na teoria política o da justificação doutrinária do poder. E dos mais delicados, porque conduz aos conflitos ideológicos que acabam sempre por solapar os alicerces da paz universal. Nosso programa não comporta senão um resumo dessas crenças e doutrinas, como passaremos a demonstrar, partindo do seguinte quadro sinótico: As mais antigas teorias, aquelas que atribuem ao Estado uma contextura mística, isto é, uma origem sagrada, têm maior importância histórica porque predominaram no mundo inteiro, durante alguns milênios, até ao limiar da Idade Moderna. São as chamadas teorias teológico-religiosas, as quais se dividem em várias correntes, dentro de dois grupos principais: do direito divino sobrenatural e do direito divino providencial. 2. TEORIA DO DIREITO DIVINO SOBRENATURAL Segundo esta teoria, o Estado foi fundado por Deus, através de um ato concreto de manifestação da sua vontade. O Rei é ao mesmo tempo sumo sacerdote, representante de Deus na ordem temporal e governador civil. Nas remotas civilizações da Índia e da Pérsia, os soberanos coroados eram delegados de Deus, porquanto se acreditava que eles haviam recebido o poder diretamente de Deus, por uma manifestação sobrenatural da sua vontade. Os Faraós do Egito eram descendentes das divindades que reinaram no Vale do Nilo. O Imperador da China era possuidor de Mandado do Céu. O Imperador do Japão era parente próximo dos deuses. Os reis assírios diziam-se vigários dos deuses. Cada povo possuía (e muitos deles conservam ainda) a sua concepção tradicional sobre a origem do poder, na qual repousa o princípio de legitimidade da autoridade soberana. Vamos explicar aqui apenas um exemplo dessas concepções: no Tibete o soberano é considerado como o próprio deus, isto é, uma reencarnação de Buda. Cada vez que morre um soberano, cabe a um conselho de sacerdotes descobrir imediatamente, entreos meninos recém-nascidos, a nova encarnação de Buda. Esses sacerdotes percorrem o país, examinam todas as crianças, e, logo que descobrem o menino em que reencarnou o espírito de Buda, se apoderam dele e o preparam para o exercício da missão soberana. Em todas as monarquias orientais, fundadas na crença do direito divino sobrenatural, cada uma a seu título e a seu modo, o Estado não é apenas de fundamento teológico; é o Estado teocrático, governado pelo Rei-Deus. Essa concepção teocrática do poder, que dominou todo o panorama político da antiguidade, não continuou no mundo medieval submetido à influência do cristianismo, mas ressurgiu no fim da Idade Média, com o absolutismo monárquico, que foi uma reação do poder temporal contra o Papado. Sua personificação realizou-se integralmente na majestade de Luiz XIV, o Rei-Sol, que declarou textualmente: “a autoridade em que os reis são investidos é uma delegação de Deus. Está em Deus e não no povo a fonte de todo poder, e somente a Deus é que os reis têm de dar contas do poder que lhes foi confiado”. O soberano era a fonte única e exclusiva do direito. Sua pessoa confundia-se com o Estado. Daí a afirmação que constantemente fazia Luiz XIV: L’État c’est moi. Foi Jacques Bossuet, Bispo de Condom, 1627-1704, o mais extremado defensor dessa teoria absolutista. Preceptor do Delfim, de 1670 a 1679, escreveu A política, obra em dez volumes, dos quais os seis primeiros, inspirados em Aristóteles e Hobbes, são dedicados à instrução do herdeiro real, e, os demais, ao estudo da origem e do fundamento divino do poder. A autoridade real, disse Bossuet, é invencível, sendo-lhe único contrapeso o temor de Deus. É devida a obediência ao Rei ainda quando seja este injusto e infiel. Só no caso de agir o Rei contra Deus é que pode cessar o dever de obediência, mas, ainda assim, “nenhum pretexto, nenhuma causa, qualquer que seja”, deve diminuir o respeito integral. A pessoa do Rei é sagrada, e em face das suas violências devem os súditos opor apenas advertências respeitosas, orando pela sua conversão. Essa doutrina teve ampla divulgação na Europa, inclusive na Inglaterra, onde Carlos I (1600-1649) pretendeu implantar o absolutismo monárquico. O Parlamento inglês, porém, fez valer o princípio da monarquia de direito legal. O Rei foi preso na revolução popular de Cromwell, acusado de traição e condenado à morte. Carlos I subiu ao cadafalso reafirmando o caráter divino e absoluto da sua autoridade — kingship exist by divine right… A doutrina da divindade do poder temporal foi também o fundamento do Estado imperial romano. César não se apresentava apenas como um mandatário de Deus, mas como a personificação mesma de Deus. Essa concepção foi combatida pelos cristãos até quando se deu a queda do Império Romano, no século V. Na Idade Média, a teoria do direito divino sobrenatural teve o beneplácito de muitos cristãos proeminentes e poderosos, mas não do Cristianismo, tanto que a Igreja Romana a rejeitou formalmente, havendo-a por herética. 3. TEORIA DO DIREITO DIVINO PROVIDENCIAL Esta teoria, dominante na Idade Média e nos tempos modernos, é mais racional. Admite que o Estado é de origem divina, porém por manifestação providencial da vontade de Deus. Deus dirige providencialmente o mundo, guiando a vida dos povos e determinando os acontecimentos históricos. Dessa direção suprema resulta a formação do Estado; o poder vem de Deus, mas não por manifestação visível e concreta da sua vontade. O poder vem de Deus através do povo — per populum —, como doutrinou Santo Tomás de Aquino. Em outras palavras: todo poder vem de Deus, in abstracto, não in concreto. Os homens, conformando-se com a vontade divina, devem reconhecer e acatar a vontade do Estado. Dotados de livre-arbítrio no seu procedimento, como ensina Queiroz Lima, os homens organizam os governos, estabelecem as leis e confirmam as autoridades nos cargos e ofícios, sob a direção invisível da providência divina sempre presente. A doutrina do direito divino providencial fez-se doutrina da Igreja, por estar conforme com os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos. Afirmou Cristo que o seu reino não era deste mundo e, ao ser tentado pelos fariseus que lhe perguntavam se deviam pagar tributos ao Imperador romano, respondeu: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Nessas palavras o Divino Mestre traçou a linha divisória entre os dois poderes: ao poder temporal, o governo do corpo e dos bens terrenos; ao poder espiritual, o governo da alma. O poder temporal, doutrinou São Paulo, é uma criação da lei divina — omnis potestas a Deo. Tinham esta significação as palavras de Cristo quando retrucou a Pilatos que este exercia um poder que lhe era dado lá de cima. Remonta a teoria do direito divino providencial aos teóricos da justificação teológica do poder civil, São João Crisostomo, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, sendo defendida e sistematizada por Suarez, Soto, Molina, Mariana e outros integrantes da Escola Espanhola. Na mesma esteira doutrinária destacaram-se posteriormente Joseph de Maistre e De Bonald. Foi uma doutrina de franca reação ao absolutismo monárquico. Santo Agostinho (354-430), cujas pregações doutrinárias foram continuadas por Santo Tomás de Aquino (1225-1274), sustentou que o poder temporal é uma decorrência do poder divino. O poder temporal, na sua obra, é figurado como a Civitas Terrena, subordinada à Civitas Dei, assim como os destinos humanos estão subordinados à ordem divina. Nestes termos, a teoria do direito divino providencial pregou a separação dos dois poderes — temporal e espiritual — sob o dogma de que o poder divino é originário e superior, devendo o Estado respeitar as leis eternas e imutáveis do Criador na ordem temporal. Comentando esta doutrina observou Loysseau que o Rei é senhor e servo ao mesmo tempo, tanto aos olhos de Deus como aos olhos do povo. De conformidade com esta teoria, somente as instituições que repousam sobre uma base histórica legítima e respeitam as leis incontingentes do direito natural são harmoniosas com a ordem estabelecida por Deus e devem ser acatadas pelos homens. O princípio de que todo poder provém de Deus não conduz a uma determinada forma de governo, porque, como argumentou Santo Tomás, Deus quis que houvesse governo na ordem civil, mas deixou aos homens a forma e o modo de sua realização. E foi este o entendimento que levou o Papa Leão XIII, na Encíclica Libertas (1888) a afirmar: das diversas formas de governo, contanto que sejam aptas à segurança do bem- estar dos cidadãos, a Igreja não rejeita nenhuma, mas quer, e a natureza está de acordo com ela em o exigir, que sua instituição não viole o direito de ninguém, e, principalmente, guarde respeito absoluto aos direitos da Igreja. E na Encíclica Immortale Dei, que trata da “constituição cristã dos Estados”, reafirmou a mesma prescrição, definindo a distinção entre os poderes espiritual e temporal, bem como a soberania de cada um deles, no seu gênero e na sua finalidade. Encareceu Leão XIII a necessidade de se estabelecer um meio, um processo, para fazer desaparecer as causas de contestações e firmar um acordo, na prática, para a convivência harmônica das duas soberanias distintas, cada uma no seu gênero e na sua finalidade. XIII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — II 1. Teorias racionalistas (jusnaturalismo). 2. Hugo Grotius. 3. Kant. 4. Hobbes. 5. Spinoza. 6. Locke. 1. TEORIAS RACIONALISTAS (JUSNATURALISMO) Sob a denominação de teorias racionalistas, agrupam-se todas aquelas que justificam o Estado como de origem convencional,isto é, como produto da razão humana. São as chamadas teorias contratualistas ou pactistas. Partem de um estudo das primitivas comunidades, em estado de natureza, e, através de uma concepção metafísica do direito natural, chegam à conclusão de que a sociedade civil (o Estado organizado) nasceu de um acordo utilitário e consciente entre os indivíduos. Essas teorias foram corporificadas e ganharam maior evidência com a Reforma religiosa, a qual foi uma autêntica rebelião racionalista contra a Igreja Romana, que culminou com a revisão das Sagradas Escrituras. Fazendo coro com a filosofia de Descartes, delineada em Discursos sobre o método, filosofia esta que ensinou o raciocínio sistemático que conduz à dúvida completa, sustentou Lutero a supremacia da inteligência individual e pregou a liberdade de interpretação da lei religiosa revelada. Depois de ter influído nas ciências econômicas, traçando-lhes novos rumos, o racionalismo religioso passou a orientar as ciências do Direito e do Estado. O homem, como Erasmo, Rabelais e Montaigne, deveria duvidar de tudo, para reconstruir a verdade, liberada dos dogmas, valendo-se, para isso, da razão, da liberdade de consciência e da sua inteligência livre. E foi assim que as teorias tradicionais sustentadas pelas escolas teológicas foram arguidas de falsidade. O direito divino dos reis cedeu lugar ao direito humano. As teorias racionalistas de justificação do Estado, partindo, como partem, de um pressuposto a respeito do homem primitivo em estado de natureza, entrosam-se com os princípios de direito natural. Lançam essas teorias as suas raízes na filosofia grega, tanto que é frequentemente citado Lucrécio (95-52 a.C.), que assim se expressou no De Natura Rerum: Como cada qual quisesse mandar e erigir-se em soberano, escolheu-se entre eles um certo número de magistrados, instituíram-se as leis, às quais os homens se submeteram voluntariamente. É essa, aliás, uma das fontes da filosofia contratualista. 2. HUGO GROTIUS Holandês (1583-1647), foi precursor da doutrina do direito natural e, de certo modo, do racionalismo na ciência do Estado. Em sua famosa obra De Jure Belli et Pacis, esboçou a divisão dicotômica do Direito em positivo e natural: acima do direito positivo, contingente, variável, estabelecido pela vontade dos homens, existe um direito natural, imutável, absoluto, independente do tempo e do espaço, decorrente da própria natureza humana, alheio e superior à vontade do soberano. Hugo Grotius conceituou o Estado como uma sociedade perfeita de homens livres que tem por finalidade a regulamentação do direito e a consecução do bem-estar coletivo. 3. EMMANUEL KANT Kant, Hobbes, Puffendorf, Thomazius, Leibnitz, Wolf, Rousseau, Blackstone e outros gênios luminosos do século XVII desenvolveram essa doutrina dando-lhe magno esplendor. Emmanuel Kant, o grande filósofo de Koenigsberg (1724-1804), doutrinou o seguinte: O homem reconhece que é a causa necessária e livre das suas ações (razão pura) e que deve obedecer a uma regra de comportamento preexistente, ditada pela razão prática (imperativo categórico). O direito tem por fim garantir a liberdade, e por fundamento, um conceito geral, inato, inseparável do homem, fornecido a priori pela razão prática, sob a forma de um preceito absoluto: conduze-te de modo tal que a tua liberdade possa coexistir com a liberdade de todos e de cada um. Conclui Kant que, ao saírem do estado de natureza para o de associação, submeteram-se os homens a uma limitação externa, livre e publicamente acordada, surgindo, assim, a autoridade civil, o Estado. 4. THOMAS HOBBES Filósofo inglês (1588-1679), o mais reputado dentre os escritores do século XVII, foi o primeiro sistematizador do contratualismo como teoria justificativa do Estado. É havido também como teórico do absolutismo, embora não o tenha pregado à maneira de Filmer e Bossuet, com fundamento no direito divino. Seu absolutismo é racional e sua concepção do Estado tende a conformar-se com a natureza humana. Para justificar o poder absoluto, Hobbes parte da descrição do estado de natureza: o homem não é naturalmente sociável como pretende a doutrina aristotélica. No estado de natureza o homem era inimigo feroz dos seus semelhantes. Cada um devia se defender contra a violência dos outros. Cada homem era um lobo para os outros homens — homo homini lupus. Por todos os lados havia a guerra mútua, a luta de cada um contra todos — bellum omnium contra omnes. E continua: Cada homem alimenta em si a ambição do poder, a tendência para o domínio sobre os outros homens, que só cessa com a morte. Só triunfam a força e a astúcia. E, para saírem desse estado caótico, todos os indivíduos teriam cedido os seus direitos a um homem ou a uma assembleia de homens, que personifica a coletividade e que assume o encargo de conter o estado de guerra mútua. A fórmula se resumiria no seguinte: — Autorizo e transfiro a este homem ou assembleia de homens o meu direito de governar-me a mim mesmo, com a condição de que vós outros transfirais também a ele o vosso direito, e autorizeis todos os seus atos nas mesmas condições como o faço. Ao se associarem, portanto, segundo Hobbes, procederam os homens por interesse e necessidade, reconhecendo a conveniência de se armar um poder forte, capaz de conter a fúria natural dos indivíduos. Esse poder, em vista da missão que lhe cabe, há de ser irresistível e ilimitado. Assim, a sociedade civil é um produto artificial de um pacto voluntário, que se explica pelo cálculo egoísta. Embora teórico do absolutismo e partidário do regime monárquico, Hobbes, admitindo a alienação dos direitos individuais em favor de uma assembleia de homens, não afastou das suas cogitações a forma republicana. Hobbes admitia a existência de Deus, mas atribuía ao Estado a regulamentação dos cultos: o domínio do poder coativo há de estender-se ao espírito, para que nenhuma ação do homem escape ao poder de dominação livremente instituído e destinado a reprimir os maus instintos naturais de cada um. E, para isso, o Estado deve governar também a Igreja. O reino de Deus, na terra, é um reino civil. Cada Estado é um imediato de Deus, sendo que Deus fala aos homens pela boca do Estado. Em sua obra Elements of natural and political law (1640) escreveu Hobbes: “considerando que a vontade de atacar é inata no homem; considerando que cada homem, atacando, está no seu direito, e o outro, resistindo, também está no seu direito; considerando que daí a desconfiança mútua está justificada e cada um medita sobre os meios de se defender, porque o Estado natural do homem é o estado de guerra…”. Em 1642 publicou o De cive em latim, em defesa do absolutismo de Carlos I. Na sua velhice, publicou História da guerra civil inglesa. Sua maior obra, porém, obra monumental que empolgou o mundo, foi O Leviatã (1651), escrita em inglês — Leviathan, or the Matter, Form and Power of the Commonwealth, Eclesiastical and Civil. Foi publicada essa obra na época e ao tempo dos triunfos de Cromwell. Distinguiu Hobbes, em O Leviatã, duas categorias de Estados: o Estado real, formado historicamente e baseado sobre as relações da força, e o Estado racional (Civitas institutiva), deduzido da razão. O título do livro foi escolhido para mostrar a onipotência que o governo devia possuir. O Leviatã é aquele peixe monstruoso de que fala a Bíblia, o qual, sendo o maior de todos os peixes, impedia os mais fortes de engolirem os menores. O Leviatã está assentado no trono de Deus. Por isso mesmo, no frontispício do livro estão as palavras de Job, XLI, 25: nonest potestas super terram quae comparetur ei. O Estado (Leviatã) é o deus onipotente e mortal (The mortal God). 5. BENEDITO SPINOZA Filósofo holandês (1632-1677), em sua obra principal, Tractatus theologicus politicus, defendeu as mesmas ideias de Hobbes, embora com conclusões diferentes: a razão ensina ao homem que a sociedade é útil, que a paz é preferível à guerra e que o amor deve prevalecer sobre o ódio. Os indivíduos cedem os seus direitos ao Estado para que este lhes assegure a paz e a justiça. Falhando nestes objetivos, o Estado deve ser dissolvido, formando-se outro. O indivíduo não transfere ao Estado a sua liberdade de pensar, por isso que o governo há de harmonizar-se com os ideais que ditaram a sua formação. Conclui, pois, por colocar a Nação acima do Estado. Desenvolveu ele o seu pensamento nas obras Ética e De Deus e do homem. 6. JOHN LOCKE Filósofo inglês (1632-1704), desenvolveu o contratualismo em bases liberais, opondo-se ao absolutismo de Hobbes. Foi Locke o vanguardeiro do liberalismo na Inglaterra. Em sua obra Ensaio sobre o governo civil (1690), em que faz a justificação doutrinária da revolução inglesa de 1688, desenvolve os seguintes princípios: o homem não delegou ao Estado senão os poderes de regulamentação das relações externas na vida social, pois reservou para si uma parte de direitos que são indelegáveis. As liberdades fundamentais, o direito à vida, como todos os direitos inerentes à personalidade humana, são anteriores e superiores ao Estado. Locke encara o governo como troca de serviços: os súditos obedecem e são protegidos; a autoridade dirige e promove justiça; o contrato é utilitário e sua moral é o bem comum. No tocante à propriedade privada, afirma Locke que ela tem sua base no direito natural: o Estado não cria a propriedade, mas a reconhece e protege. Pregou Locke a liberdade religiosa, sem dependência do Estado, embora tivesse recusado tolerância para com os ateus e combatido os católicos porque estes não toleravam as outras religiões. Locke foi ainda o precursor da teoria dos três poderes fundamentais, desenvolvida posteriormente por Montesquieu. Dentre as obras de John Locke, destacam-se, pela sua importância e larga influência no pensamento filosófico moderno, Cartas de tolerância, Ensaios sobre o entendimento humano, A racionabilidade do Cristianismo, Tratado sobre governo e Algumas reflexões sobre a educação. Prosseguiremos, no capítulo seguinte, analisando a teoria contratualista, nos termos em que a colocou o gênio fulgurante de Rousseau, que foi o dínamo propulsor da Revolução Francesa. XIV JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — III 1. Teoria do contrato social. 2. Jean-Jacques Rousseau. 1. TEORIA DO CONTRATO SOCIAL A teoria contratualista, da origem convencional da sociedade humana, teve sua gênese mais remota nas especulações filosóficas dos sofistas, desenvolvendo-se na Idade Média através da Escola Espanhola. Identificou-se com o jusnaturalismo a partir de Hugo Grotius, que deu as bases doutrinárias desenvolvidas pelos filósofos do século XVII. Em Emmanuel Kant atingiu o contratualismo uma sólida precisão científica. No mundo moderno foi Hobbes o mais destacado expositor da ideia do pacto social. Mas, como já vimos no capítulo anterior, partia Hobbes do pressuposto de que o homem, em estado de natureza, era de uma ferocidade instintiva impeditiva da convivência pacífica. Vivia em estado de luta permanente. O homem é o lobo do homem — foi sua máxima. Consequentemente, os homens realizaram o pacto voluntário constitutivo do Estado, delegando cada um, ao governo organizado, a totalidade dos seus direitos naturais de liberdade e autodeterminação. Convencionaram todos a sua submissão física e espiritual ao poder diretivo, em benefício da paz social e da segurança de todos. Daí a sujeição total do homem ao Estado e o absolutismo necessário do poder soberano. Essa concepção voluntarista do Estado foi desenvolvida de maneira mais humana e mais racional por Locke, precursor do liberalismo na Inglaterra, o qual limitava o poder de governo ao controle das relações externas do homem no meio social. Os homens não delegaram ao órgão diretivo da sociedade todos os seus direitos, mas somente aqueles necessários à manutenção da paz e da segurança de todos. O poder público é instituído por um pacto voluntário, artificial, porém de fundo utilitário, com o objetivo precípuo do bem comum. Ao Estado cabe regulamentar as condições externas da vida em sociedade e, ao mesmo tempo, respeitar e garantir aqueles direitos fundamentais da pessoa humana, que lhe são anteriores e superiores. Nestes termos, deu Locke o necessário respaldo de humanismo e liberalismo à doutrina contratualista. Dada a conservação, pelos pactuantes, dos seus direitos naturais e, consequentemente, do seu poder originário de deliberação, assiste-lhes a qualquer momento o direito de insurreição, isto é, de mudar a forma ou a composição do governo que se houver desviado da sua finalidade, que é a de promover a paz, a segurança e o bem-estar da sociedade. 2. JEAN-JACQUES ROUSSEAU A este genial filósofo coube a tarefa de dar à teoria contratualista a sua máxima expressão. Natural de Genebra (1712-1778), destacou-se, dentre todos os teóricos do voluntarismo, pela profundidade da sua construção filosófica e pela amplitude da sua influência em todo o panorama do mundo moderno. Seus livros a respeito da formação e da fundamentação dos Estados — Discurso sobre as causas da desigualdade entre os homens e Contrato social — tiveram a mais ampla divulgação em todos os tempos, sendo recebidos como evangelhos revolucionários da Europa e da América, no século XVIII. No seu Discurso desenvolve Rousseau a parte crítica e, no Contrato social, a parte dogmática. Este último, que representa, na expressão de Bergson, a mais poderosa das influências que jamais se exerceram sobre o espírito humano, continua sendo objeto de discussões entre os mais altos representantes do pensamento político universal, quer pelos seus erros que a evolução do mundo trouxe à tona, quer pelo seu conteúdo respeitável de verdades imperecíveis. O Estado é convencional, afirmou Rousseau. Resulta da vontade geral, que é uma soma da vontade manifestada pela maioria dos indivíduos. A nação (povo organizado) é superior ao rei. Não há direito divino da Coroa, mas, sim, direito legal decorrente da soberania nacional. A soberania nacional é ilimitada, ilimitável, total e inconstrangível. O governo é instituído para promover o bem comum, e só é suportável enquanto justo. Não correspondendo ele com os anseios populares que determinaram a sua organização, o povo tem o direito de substituí-lo, refazendo o contrato… (sustenta, pois, o direito de revolução). Sob o martelar constante dessas máximas que empolgaram a alma da humanidade sofredora, ruíram-se os alicerces da construção milenária do Estado teológico e desencadeou-se a revolução francesa contra a ordem precária do absolutismo monárquico. No seu ponto de partida, a filosofia de Rousseau é diametralmente oposta à de Hobbes e Spinoza. Segundo a concepção destes, o estado natural primitivo era de guerra mútua: status hominum naturalis bellum fuerit. Para Rousseau o estado de natureza era de felicidade perfeita: o homem, em estado de natureza, é sadio, ágil e robusto. Encontra facilmente o pouco de que precisa. Os únicos bens que conhece são os alimentos, a mulher e o repouso. Os únicos males que teme são a dor e a fome (Discours sur l’origine de l’inegalité parmi les hommes). Entretanto, para sua felicidade, a princípio,e para sua desgraça, mais tarde, o homem adquiriu duas virtudes que o extremam dos outros animais e que, pouco a pouco, modificaram o seu estado primitivo: a primeira, a faculdade de aquiescer ou resistir; e a segunda, a faculdade de aperfeiçoar-se. Essas duas capacidades, auxiliadas por múltiplas circunstâncias fortuitas, sem as quais a humanidade teria ficado eternamente na sua condição primitiva, desenvolveram a inteligência, a linguagem, e todas as outras faculdades que os homens haviam recebido em potencial. Por outro lado, o surgimento da metalurgia e da agricultura veio engendrar a desigualdade. Os que acumulavam maiores posses passaram a dominar e submeter os mais pobres. A propriedade individual do solo, a riqueza, a miséria, as rivalidades, os sentimentos violentos, as usurpações dos ricos, os roubos dos pobres, desencadearam as paixões, abafaram a piedade e a justiça, tornando os homens avaros, licenciosos e perversos. Nesse período, que foi de transição do estado de natureza para a sociedade civil, os homens trataram de reunir suas forças, armando um poder supremo que a todos defenderia, mantendo o estado de coisas existente. Ao se associarem, porém, tinham necessidade de salvaguardar a liberdade, que é própria do homem e que, segundo o direito natural, é inalienável. O problema social consistia, assim, em encontrar uma forma de associação capaz de proporcionar os meios de defesa e proteção, com toda a força comum, às pessoas e aos seus bens, e pela qual cada um, unindo-se a todos, não tivesse de obedecer senão a si próprio, ficando tão livre como antes do pacto. Esse convênio determinante da sociedade civil, isto é, esse contrato social, teria resultado, assim, das seguintes proposições essenciais: cada um põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral; e cada um, obedecendo a essa vontade geral, não obedece senão a si mesmo. A liberdade consiste, em última análise, em trocar cada um a sua vontade particular pela sua vontade geral. Ser livre é obedecer ao corpo social, o que equivale a obedecer a si próprio. O homem transfere o seu eu para a unidade comum, passando a ser parte do todo coletivo, do corpo social, que é a soma de vontades da maioria dos homens. O povo, organizado em corpo social, passa a ser o soberano único, enquanto a lei é, na realidade, uma manifestação positiva da vontade geral. Com essa volonté générale, eixo de toda a construção filosófica de Rousseau, confunde-se a soberania, que é inalienável, indivisível, infalível e absoluta. Inalienável porque, se o corpo social cedesse a sua vontade, deixaria de ser soberano. A nação não aliena, não transfere a sua vontade; apenas nomeia representantes, deputados, que devem ser denominados, mais exatamente, comissários, e devem executar a vontade nacional com mandato imperativo, isto é, mandato válido enquanto o mandatário bem servir. Indivisível, porque a vontade é geral ou não o é. Não sendo geral, a vontade é particular, e como vontade particular não pode obrigar a todos. Infalível, porque a vontade geral, por ser geral, encerra a verdade em si mesma. Absoluta, no sentido de que o corpo social não pode sujeitar-se à vontade particular no que tange às relações externas dos indivíduos em sociedade, nem à vontade de outras nações, embora deva respeitar e garantir os direitos naturais, personalíssimos, de cada um. Finalmente, por ser inalienável, indivisível, infalível e absoluta, a vontade geral é também sagrada e inviolável. O Contrato social de Rousseau, embora inspirado em ideias democráticas, tem muito do absolutismo de Hobbes, diz Jacques Maritain, acrescentando que essa teoria “infundiu nas novas democracias uma noção antitética de soberania que veio abrir caminho para o Estado totalitário”. O Prof. Ataliba Nogueira entende que a teoria de Rousseau reduziu o homem à condição de escravo da coletividade, justificando toda espécie de opressão. Contestando essa teoria nos seus fundamentos, observa o Prof. Machado Paupério que, “ensinando Rousseau que o estado natural do homem era o de isolamento, imaginou-se, daí por diante, que a sociedade e o Estado eram artificiais, o que não é absolutamente verdadeiro”. Mantendo-se rigorosamente dentro do terreno das abstrações racionalistas — escreveu Queiroz Lima —, a teoria de Rousseau mostrou bem cedo a inanidade do seu teorismo transcendente, servindo de alvo fácil às arremetidas do ecletismo oportunista e inconsequente. O Prof. Duguit afirma que o pensamento de Rousseau inspirou a filosofia panteísta de Hegel, em que os juristas germânicos se abeberaram para a pregação da sua doutrina de absolutismo e violências. Defensor brilhante da concepção aristotélico-tomista do Estado, acentua Alceu Amoroso Lima que a teoria do Contrato social é precursora da teoria do distrato social com que a revolução russa procura destruir violentamente a ordem burguesa e liberal, arrastando nas suas ondas os direitos da lei natural e da lei divina. Essas e muitas outras críticas formuladas pelos pensadores modernos e pelos escritores positivistas, baseados em observações indutivas, ressalvam, entretanto, a importância transcendente da teoria contratualista como primeiro alicerce do Estado liberal. Foi ela a base filosófica da revolução francesa, que proclamou: os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. O fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais do homem. A maior vulnerabilidade do contratualismo está no seu profundo conteúdo metafísico e deontológico. Sem dúvida, a falência do Estado liberal e individualista, que não pôde dar solução aos problemas desconcertantes manifestados pela evolução social a partir da segunda metade do século XIX, trouxe à tona muitos erros dessa teoria. A estrutura mística revelou-se inadequada à solução dos problemas reais criados pela civilização industrial e muito bem retratados na famosa Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII. Entretanto, encerra a teoria do Contrato social um conteúdo respeitável de verdades imperecíveis, que continuará dominando superiormente o pensamento democrático da atualidade e do futuro. XV JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — IV 1. Escola histórica. 2. Edmundo Burke. 1. ESCOLA HISTÓRICA Opondo-se ao artificialismo da teoria contratualista, surgiu no cenário político a escola histórica, afirmando que o Estado não é uma organização convencional, não é uma instituição jurídica artificial, mas é o produto de um desenvolvimento natural de uma determinada comunidade estabelecida em determinado território. Quando uma comunidade social alcança um certo grau de desenvolvimento, a organização estatal surge por um imperativo indeclinável da natureza humana, e se desenvolve demandando o seu aperfeiçoamento em consonância com os fatores telúricos e sociais que determinam fatalmente as leis da evolução. Os usos e costumes do agrupamento humano influem preponderantemente nesse desenvolvimento. Logo, o Estado é um fato social e uma realidade histórica; não uma manifestação formal de vontades apuradas num dado momento. O Estado reflete a alma popular, o espírito da raça. A sua atuação, como poder político organizado, deve traduzir a vontade coletiva segundo a sua revelação no correr dos tempos. Segundo esta concepção, as instituições sociais, políticas e jurídicas somente são legítimas quando condizentes com as tradições históricas. Apoia-se esta escola nos ensinamentos de Aristóteles: o homem é um ser eminentemente político; sua tendência natural é para a vida em sociedade, para a realização das superiores formas associativas. No espíritoassociativo está a gênese da Polis (Estado-cidade da Grécia antiga). A família é a célula primária do Estado; a associação da família constitui o grupo político menor; a associação destes grupos constitui o grupo maior, que é o Estado. É o Estado uma união de famílias e de comunas, união bastante em si mesma, não apenas para viver, mas, ainda, para viver bem e feliz. O fim do Estado, em suma, é a prosperidade da vida. Savigny e Gustavo Hugo, na Alemanha, adotaram e desenvolveram amplamente esta concepção realista do Estado como fato social, especialmente no campo do direito privado, mesmo porque, segundo observa Pedro Calmon, a doutrina histórica servia a duas ideias profundamente germânicas: o espírito da raça e a tendência a um progresso ilimitado. Adam Muller, Ihering e Bluntschli foram outros corifeus desta mesma doutrina. 2. EDMUNDO BURKE O principal expoente da escola histórica, no vasto campo do direito público, foi Edmundo Burke, notável orador e parlamentar inglês, membro da Câmara dos Comuns a partir de 1766 pelo partido Whig, e autor da monumental obra Reflexões sobre a Revolução Francesa. Burke condenou corajosamente certos princípios da revolução francesa, notadamente a noção dos direitos do homem na sua abstração e seu absoluto e a impessoalidade das instruções. Na teoria deste eminente pensador britânico, somente é natural e justo o que provém do desenvolvimento histórico, do longo hábito: a natureza e a história se identificam como determinantes e justificativas dos fenômenos sociais. E acrescenta: “deixadas a si mesmas, as coisas encontram geralmente a ordem que lhes convém”. Admite Queiroz Lima que a escola histórica é profundamente racionalista. Ao afirmar que o Estado é a forma por que se manifesta a nação, parte da concepção de que existe, para cada povo, uma consciência psicológica, ou seja, um senso íntimo coletivo, distinto da consciência de cada indivíduo. O Estado inglês metropolitano, com o seu direito constitucional consuetudinário, é bem uma expressão real desta doutrina. Os usos e costumes seculares, formando princípios de direito público de natureza dogmática, alheios a todas as mutações da lógica abstrata, explicam a formação e o desenvolvimento daquele Estado. A doutrina de Burke teve grande repercussão mundial. Sua obra alcançou onze edições em um ano. Como expressou-se Chevalier, as Reflexões foram recebidas na Europa como o catecismo da reação contrarrevolucionária. As diversas correntes de exaltação nacionalista, que encheram o conturbado panorama político mundial no século XX, derivam da doutrina histórica, notadamente o fascismo, que trazia no seu bojo o ideal de restauração das glórias do antigo império romano. XVI JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — V 1. Panteísmo. 2. Escola orgânica. 3. Neopanteísmo. 1. PANTEÍSMO A escola orgânica é um ramo político da filosofia panteísta. Vejamos primeiramente em que consiste o panteísmo. A palavra panteísmo vem do grego: pan, todo, tudo; théos, Deus; mais o sufixo ismo. O panteísmo é um sistema filosófico monista que integra em uma só realidade Deus e o mundo. Identifica o sujeito com o objeto no absoluto. O absoluto manifesta-se na natureza, pelos reinos animal, vegetal e mineral; e na história, através da família, da sociedade, do Estado. O Estado é uma das expressões do absoluto. Nega este sistema o livre-arbítrio e todas as formas de convencionalismo jurídico, para admitir em tudo um fatalismo cego, um determinismo invencível. Deus está presente em todas as manifestações da natureza; assim, no Direito e no Estado. Como resumiu Krause, Deus é infinito e contém em si todos os seres finitos; é o todo que contém em si todas as partes. O Direito é imanente a Deus, irradiando-se por todos os seres finitos; e para manifestá-lo é que existe o Estado. O poder do Estado é um poder absoluto, já que essa entidade é a suprema encarnação da ideia. Ernesto Haeckel (1834-1919), sustentando a unidade de Deus e do mundo, afirma que “cada átomo é provido de alma, e assim o éter cósmico. Pode-se, portanto, definir Deus como a soma infinita de todas as forças naturais, ou a soma de todas as forças atômicas e de todas as vibrações do éter”. Com efeito, Haeckel define Deus como a lei suprema do mundo, e o representa como a obra do espaço geral. O espírito de Deus encontra-se em todas as coisas. Não existe corpo, por mais pequeno que seja, que não contenha em si uma parcela da substância divina que o anima. Todos os fenômenos, por mais insignificantes que sejam, como a folha que cai da árvore, são manifestações de Deus. São ainda afirmações de Haeckel: “Quer admiremos o esplendor das altas montanhas ou o mundo maravilhoso do mar, quer observemos com o telescópio as maravilhas infinitamente grandes do mundo estrelado, ou com o microscópio as maravilhas ainda mais estonteantes dos infinitamente pequenos, o Deus-Natureza oferece-nos por toda parte uma fonte inesgotável de gozos estéticos”. O objetivo do panteísmo é o conhecimento do verdadeiro; a sua moral, a prática do bem; e a sua estética, o culto do belo. Pela união natural e complemento recíproco desses três pontos é que obtém o monismo panteísta o conceito natural de Deus. Como filosofia contemplativa, muito sedutora, o panteísmo serve à inspiração dos poetas, como inspirou Goethe na elaboração do seu Fausto e do seu maravilhoso poema Deus e o mundo; entretanto, não resiste às análises da ciência, menos ainda da lógica. Sobretudo, o panteísmo é contraditório em si, porque encerra num todo íntegro, numa só ideia, os princípios opostos — o absoluto e o relativo, o espírito e a matéria, o infinito e o finito, o eterno e o efêmero, a perfeição e a imperfeição… 2. ESCOLA ORGÂNICA A Escola orgânica, na ciência do Estado, é eminentemente panteísta. Floresceu na Alemanha, durante o século XIX, sob a liderança de Hegel e Schelling, seguidos por Herbhart, Krause, Roeder, Ahrens e muitos outros. O Estado, segundo esta doutrina, é um organismo natural, semelhante aos organismos dos seres vivos, sujeito às mesmas leis biológicas. É um ser coletivo, um superser, dotado de membros, órgãos, unidade biológica e fisiologia própria, tal como os seres do reino animal. Elucidando o conteúdo dessa teoria organicista, o Prof. Pedro Calmon registrou o seguinte: “os indivíduos são os membros do Estado; sua alma, a religião e a cultura; seu órgão de discernimento, o governo; seus braços, o funcionalismo; seus pés, o comércio e o trabalho; seu aparelho digestivo, a economia; seu sistema circulatório, a produção e o consumo; a pátria é a sua entidade moral; o território, a sua estrutura física. A paz é a saúde do Estado; as crises e convulsões políticas correspondem aos processos mórbidos que podem levá- lo à perda da unidade vital e à morte”. Tal como os seres vivos, disse Montaigne, o Estado nasce, floresce e morre. Os fundamentos dessa escola remontariam às obras de Platão, que considerava o Estado como um homem em grande; e ainda, segundo Jellinek, aos ensinamentos de São Paulo: todos somos membros de um mesmo corpo. Discordam os autores da escola organicista quanto à justificação do Estado ou da sociedade pelo sistema comparativo. Spencer sustenta que o organismo é a sociedade, não o Estado, sendo este um órgão de discernimento da entidade orgânica coletiva. 3. NEOPANTEÍSMO Bluntschli (1808-1881), jurisconsulto suíço (Teoria do Estado Moderno), seguido por Schaffle, Lilienfeld e outros, deu nova orientação ao organicismo, abandonando o paralelismo do Estado com os organismos biológicos para compará-lo com os organismos psicológicosou éticos, por lhe parecer mais defensável esta segunda atitude. A corrente neopanteísta, entretanto, continuou no mesmo campo da ficção. A comparação do organismo estatal com os organismos físicos ou psíquicos, como observa Groppali, não tem outro valor que não seja o de metáfora. Serve para tornar mais inteligível a complexa estrutura jurídica do Estado, mas não a define na sua essência e na sua realidade. XVII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — VI 1. Teoria da supremacia de classes. 2. Gumplowicz e Oppenheimer. 3. Fundamento doutrinário do Estado bolchevista. 1. TEORIA DA SUPREMACIA DE CLASSES A escola sociológica alemã, coordenada por Gumplowicz e Oppenheimer, reunindo os princípios da força e do interesse patrimonial, formulou uma teoria justificativa do Estado baseada na supremacia de classes. 2. GUMPLOWICZ E OPPENHEIMER Ludwig Gumplowicz (1838-1909), professor de ciência política em Graz, Alemanha, estabeleceu uma dupla noção de propriedade: a propriedade individual sobre bens móveis, resultante do trabalho do indivíduo, é um direito natural; mas a propriedade sobre a terra é ilegítima e inadmissível. O solo, por sua natureza, não comporta apropriação individual; pertence à coletividade. Afirma esse autor que a propriedade da terra começou quando uma horda se assenhoreou de outra e obrigou os homens vencidos a cultivarem a terra em seu proveito. Em seguida, a horda vencedora armou o poder para manter a defesa das suas conquistas. O Estado, como o definem ambos os autores citados, é a organização da supremacia da classe dominante. Textualmente: é um conjunto de instituições que tem por finalidade assegurar o domínio de uma minoria vencedora sobre uma maioria vencida. Completa essa concepção doutrinária o princípio do fato consumado; o emprego da violência não é permanente e toda guerra chega a um fim, quando os mais fracos renunciam a continuar uma inútil resistência. Portanto, a natureza se encarrega de estabilizar uma situação criada pela força predominante. A ordem estabelecida produz o hábito, o costume e o direito. Léon Duguit, professor de direito em Bordéus, cuja doutrina exporemos no capítulo seguinte, aderiu a esta escola, afirmando que o Estado é uma superposição de classes, sendo que a classe dos governantes, dispondo de uma maior força, impõe a sua vontade aos governados. Procurou Duguit racionalizar a teoria da força pelo princípio da preeminência do direito. O Estado, segundo a sua concepção, é a força a serviço do direito. Duguit relegou a um plano secundário o problema de ordem sociológica da origem do Estado, para se preocupar com a justificação objetiva do poder estatal. Afirma que não há elementos de certeza para se determinar se a separação da sociedade em classes de governantes e governados apareceu na horda ou no clã ou nos agrupamentos segmentários à base do clã. Sua teoria limita-se a explicar o Estado como fato consumado: os fracos submeteram-se à autoridade dos fortes, para poderem contar com segurança e proteção. O poder político é o poder dos mais fortes, e, assim, o Estado consiste numa organização em que vontades individuais dominantes dirigem a massa dos governados. Franz Oppenheimer, professor de ciência política da Universidade de Frankfurt, deu a essa teoria um sentido diretamente marxista: todo Estado é uma organização de classe; toda teoria política é uma teoria de classe. Somente por meio de uma pesquisa histórico-sociológica se pode chegar à compreensão do Estado como fato historicamente universal. O poder político é sempre a organização de uma classe vencedora, destinada a manter seu domínio no interior e a proteger-se contra ataques exteriores. 3. FUNDAMENTO DOUTRINÁRIO DO ESTADO BOLCHEVISTA Marx e Engels deram ampla desenvoltura a esse pensamento, conceituando o Estado como instrumento de dominação da classe operária e, nessa base, construindo o arcabouço doutrinário do Estado comunista. Lenin e Stalin conceituaram o Estado, precisamente, como instrumento de dominação da classe operária. XVIII JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO — VII 1. O Estado como diferenciação entre governantes e governados. 2. Teoria de Léon Duguit. 1. O ESTADO COMO DIFERENCIAÇÃO ENTRE GOVERNANTES E GOVERNADOS Dentre as doutrinas que tendem a explicar e justificar o fenômeno estatal, destaca-se a de Léon Duguit, famoso mestre do direito social em França (1859-1928). Essa doutrina, pela sua simplicidade, pela sua lógica aparente e pela sua consonância com os relevos superficiais da ordem constituída, empolgou a opinião pública universal e os meios culturais de todos os países, tornando-se objeto de comentários e polêmicas entre os mais categorizados expoentes da ciência política. Em razão dessa importância é que lhe dedicamos aqui um capítulo especial. E o fazemos com a finalidade de refutá-la, porquanto não encontramos nessa teoria qualquer consistência científica. 2. TEORIA DE LÉON DUGUIT Duguit reduz o Estado a uma expressão simplíssima, tanto que o define como “uma sociedade onde vontades individuais mais fortes se impõem às outras vontades”. Perfilha, como se vê, a teoria da força, em sua essência, desenvolvendo o pensamento de Gumplowicz. Sua doutrina acolhe um conceito encontrado na filosofia de Aristóteles, referindo-se a que o Estado é formado de governantes e governados. Partindo desse fato facilmente aceitável, chega Duguit a construir a sua teoria eminentemente subjetiva e profundamente impressionante, que pode ser condensada no seguinte resumo: A organização política do Estado repousa na diferenciação entre governantes e governados; a classe dos governantes, dispondo de uma maior força, impõe a sua vontade aos governados. Não obstante haver certa aparência de verdade, não é juridicamente certo nem democraticamente admissível que o Estado seja formado por duas classes antagônicas, uma dirigente e outra dirigida. Também não é exato que o fenômeno governo possa ser reduzido a uma simples manifestação de vontades pessoais. O poder de governo, em verdade, baseia-se na lei que é expressão da vontade geral. O que distingue o regime democrático — diz Queiroz Lima — é a sistematização do equilíbrio das duas correntes de forças: a do governo, poder de mando, e a do povo, poder de resistência. Não há vontade individual nem grupal armada de maior força, mas um crescente automatismo de funções de disciplina tendendo idealmente para a completa supressão do arbítrio da autoridade. O direito superintende a organização administrativa, regula as funções de governo e define as normas de conduta dos agentes do poder público. A maior força é o poder de soberania, proveniente da nação. Ora, a nação não delega inteiramente essa suprema potesta aos seus representantes. Não delega, não aliena, não transfere a sua vontade. A soberania (vontade nacional), sendo inalienável segundo o judicioso conceito da escola clássica francesa, é indelegável e intransferível. A população nacional transfere aos seus representantes o exercício do poder de soberania, mas o conserva na sua substância. O poder de soberania (maior força) é da nação e se distribui pelas diversas funções criadas e definidas por leis. Os órgãos (pessoas) incumbidos do desempenho dessas funções são instrumentos de execução da vontade da lei. Não têm eles nenhuma autoridade, pelo menos no sistema democrático, para substituírem a vontade da lei pela sua vontade própria. É natural que os indivíduos ou colegiados que exercem funções de mando tenham destacada preeminência no meio social. São eles envolvidos por uma evidente auréola de prestígio público. Mas essa preeminência, esseprestígio dos governantes, é mais um reflexo das funções públicas que eles exercem. O respeito, o acatamento e a reverência são devidos diretamente à função e só indiretamente à pessoa que a exerce. Os que assim não entendem igualam-se ao asno da fábula de La Fontaine, que se empertigava ante as reverências públicas sem se aperceber de que eram elas dirigidas à imagem do santo que lhe vinha nos costados. No Estado democrático, acresce notar, as funções de mando são sistematizadas, hierarquizadas e subordinadas a um sistema de freios e contrapesos. Um ato discricionário e ilegal pode ser anulado pela autoridade superior. O governado não está obrigado a obedecer a ordens ilegais. No próprio Código Penal se lhe reconhece o direito de resistir. O funcionário não age validamente senão em nome e nos termos da lei. Quando ele pretender substituir a vontade da lei pela sua vontade individual, já não terá a couraça da função pública. De acordo com este entendimento, o conceito de uma classe dotada de poder de mando, que age em função do seu arbítrio, é absurdo. Ademais, é contra a natureza do Estado democrático a existência de classes superpostas. O poder de governo, repetimos, é puramente funcional. A autoridade não se delega ao governante — diz Queiroz Lima —, porque não é prerrogativa de ninguém que a possa delegar. A autoridade é inseparável da própria função, que representa um aspecto particular, variável na medida das forças que se combinam e conforme se apresenta, no meio nacional, o sistema de equilíbrio necessário à preservação da ordem jurídica. Para a boa ordem do Estado, inegavelmente, é necessário que haja uma força material à disposição dos agentes da autoridade pública — a força de coação. Essa força, porém, só é legítima, só é justa, quando satisfaz a estas duas condições: a) exato enquadramento nos preceitos do direito objetivo; e b) aceitação voluntária e pacífica por parte da massa dos governados. Ora, o povo (massa de governados) não aceita voluntária e pacificamente aquilo que não condiz com o direito. As imposições da força, da tirania, podem submeter o povo num dado momento, mas receberão, cedo ou tarde, os efeitos de uma reação própria da contingência humana. O Prof. Sampaio Dória, comentando a teoria subjetivista de Duguit, chega a admitir a existência de uma classe de predestinados para o governo: “Também há os mais aptos para o governo dos homens. As qualidades primaciais de estadista não se encontram a granel: discernimento rápido em ver, com acerto, no emaranhado das ambições; certa perspicácia em prever os acontecimentos; o senso realista de transigência e de firmeza; cultura social; uma intuição segura da psicologia do indivíduo e das multidões; até resistência física para os esforços prolongados. Pois nem todos nascem, senão bem poucos, com tendências aprimoráveis para o governo dos homens. Ninguém duvida da predestinação de homens para o exercício do governo, ou pelo menos, de grandes aptidões para dirigir os destinos coletivos”. Não negamos a conveniência ou necessidade mesmo de uma elite coordenadora das forças opinativas no Estado democrático. Essa elite é até imprescindível para a vitalidade da democracia. Porém, daí a aceitar a existência de uma classe de governantes armada de maior força por direito próprio, submetendo à sua vontade a massa de governados, vai longa distância. A existência de uma classe dotada de poder de mando por direito próprio só se coaduna com o sistema monárquico, talvez com a república aristocrática, nunca com a república democrática. Nesta, convém repetir: o poder de governo é puramente funcional. A atividade dos governantes não se prende, absolutamente, às vontades individuais, mas, sim, a um sistema de funções traçado objetivamente pelas leis. No ato de governo ou de administração, o poder se exercita precisamente em função dos princípios universais de equilíbrio e harmonia entre o Estado e o povo. Como síntese do arbítrio e da prepotência dos homens, o Estado seria a opressão organizada. Como primado do direito, é um instrumento de rea- lização dos ideais de liberdade e justiça. Completando esta noção da famosa teoria de Duguit, cumpre observar que esse autor, por considerar o governo como um simples fato social e não como um fato jurídico, desenvolve a teoria do direito independentemente da teoria do Estado: “uma regra econômica ou moral torna-se norma jurídica quando, na consciência da massa dos indivíduos que integram um certo grupo social, penetra a ideia de que os detentores da maior força podem intervir para reprimir a violação dessa regra. Antes, portanto, de receber a sanção do Estado, a lei existe na consciência do povo. Forma-se o direito espontaneamente, da própria natureza das coisas”. Essa teoria do eminente professor de Bordéus, particularmente no que concerne à formação mecânica do direito, tem sido refutada com veemência pelos mais autorizados expoentes do pensamento jurídico universal. O Prof. Miguel Reale, na sua monumental obra Teoria do Direito e do Estado, demonstra com firmeza a inconsistência de tal doutrina, fulminando-a com esta imperiosa conclusão: “Em verdade, a teoria de Duguit, por ser a negação da soberania como princípio jurídico, é também uma teoria essencialmente antiestatal uma vez que ele confunde o Estado com o governo, usando estas expressões como sinônimos”. Efetivamente, para Duguit a soberania é apenas um fato do poder. Ele a reduz a uma simples noção de serviço público. Tanto assim que, ao ser acusado por Hauriou como “anarquista de cátedra”, respondeu: “eu somente nego que o poder governamental seja de direito; afirmo que aqueles que detêm esse poder, detêm um poder de fato, não um poder de direito”. O direito é independente — disse mais —, sendo insuscetível de qualificação jurídica o fato do poder público. Claudicando, pois, no seu ponto de partida, segue a teoria de Duguit demandando conclusões insustentáveis. Como bem observou Queiroz Lima, é somente pela simplicidade da sua fórmula e pela exatidão aparente do seu conceito que essa teoria tem adquirido muita vulgarização, chegando a conquistar os próprios juristas clássicos filiados na tradicional corrente da soberania nacional. À inconsistente concepção realista de Duguit respondem as teorias objetivas: a única vontade que comanda a organização do Estado e o exercício do poder do governo é a vontade nacional, manifestada através dos poderes constituinte e legislativo. Não há classe de governantes em oposição à massa dos governados, nem os atos de governo resultam da vontade arbitrária dos detentores eventuais do poder de mando. O poder de governo, se bem que exercido por meio de pessoas, reside no sistema de funções criado e mantido pelo direito objetivo. Os indivíduos investidos nos cargos de governo são apenas órgãos de realização das funções governamentais, ou melhor, instrumentos de realização da vontade da lei. XIX EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — I 1. A “lei dos três estados”, de Augusto Comte. 2. Classificação. 3. O Estado antigo. 4. O Estado de Israel. 1. A “LEI DOS TRÊS ESTADOS”, DE AUGUSTO COMTE Desde o seu aparecimento como organização do meio nacional, desde as mais primitivas formas de associação política, o Estado, elemento dinâmico por excelência, vem evoluindo sempre, e refletindo, nessa evolução, a trajetória ascensional da civilização humana. O seu desenvolvimento não segue, naturalmente, uma progressão retilínea: avanços arrojados, retrocessos profundos, longas estagnações e até mesmo eclipses duradouros assinalam a suamarcha no tempo e no espaço. Um estudo completo e detalhado sobre a evolução histórica de Estado é matéria própria do curso de sociologia. Nosso programa limita-se à compreensão do assunto nas suas linhas gerais. Como esquema que facilita o estudo é conveniente invocar, de início, a chamada lei dos três estados, formulada por Augusto Comte: “cada manifestação do pensamento humano passa sucessivamente por três graus teóricos diferentes — o estado teológico ou fictício, o estado metafísico ou abstrato e o estado positivo ou científico”. Valendo-se dessa lei da filosofia positivista para reconstituir a rota do desenvolvimento das ideias sobre o Estado através das diversas ordens de civilização, Queiroz Lima adotou para a sua exposição doutrinária a seguinte fórmula: 1º) o Estado primitivo foi teocrático, explicado pelas teorias do direito divino sobrenatural; 2º) vem, a seguir, a noção metafísica do Estado, deslocando para a vontade do povo a origem do poder soberano; 3º) segue-se a noção positiva do Estado, segundo a qual a soberania decorre das próprias circunstâncias objetivas, do império da lei ou da concepção realista do Estado como força a serviço do direito. A fórmula não é rigorosamente exata, pois não houve uma sucessão cronológica das diversas noções de Estado: nos tempos modernos reaparecem as monarquias de direito divino, ao passo que, na antiguidade clássica, floresceram as concepções modernas de Estado, nas teorias racionalistas de Aristóteles e Cícero. São os avanços e recuos acima referidos. 2. CLASSIFICAÇÃO Sem embargo deste reparo, tem destacado valor metodológico a classificação de Queiroz Lima, seguida pela maioria dos autores, no estudo da evolução histórica do Estado, porque coloca em conveniente relevo os traços característicos dominantes da organização estatal em cada um dos grandes estágios da civilização. Adotamos, portanto, a sua ordem de exposição: 1º) O Estado oriental, teocrático e politeísta, destacando-se, pelo seu feitio mais humano e mais racional, o Estado de Israel. 2º) O Estado grego, que se caracteriza por uma nítida separação entre a religião e a política. 3º) O Estado romano, expressão máxima da concentração política e econômica. 4º) O Estado feudal, consequente da invasão dos bárbaros, que foi a expressão máxima da descentralização política, administrativa e econômica. 5º) O Estado medieval, a partir do século XI, que foi uma nova expressão da centralização do poder, com a preeminência do Papado sobre o governo temporal. 6º) O Estado moderno, que reagiu contra a descentralização feudal da Idade Média e contra o controle da Igreja Romana, revestindo a forma do absolutismo monárquico. 7º) O Estado liberal, implantado pela revolução francesa e baseado no princípio da soberania nacional. 8º) O Estado social — acrescentamos —, com as suas diversas variantes, a partir da primeira guerra mundial. Podemos traçar aqui o seguinte quadro sinótico: 3. O ESTADO ANTIGO Os Estados mais antigos que a história relata foram os grandes impérios que se formaram no Oriente desde 3.000 anos antes da era cristã. Os maiores e mais antigos foram os que se formaram na Baixa Mesopotâmia, banhada pelas águas do Tigre e do Eufrates, e no Egito, banhado pelo Nilo. É comprovado que houve anteriormente outras civilizações. A ciência do Estado, porém, estudando a evolução do poder político com base em elementos históricos, embora deficientes, tem como Idade Antiga o período que vem desde 3.000 a.C. até o século V da era cristã, quando o império romano desmoronou ante a invasão dos bárbaros, época em que tem início a Idade Média. Cerca de 2.800 a.C., na Mesopotâmia, um rei de Uruk teria conquistado todas as cidades das regiões dos rios Tigre e Eufrates, criando um grande império, que se estendia do Golfo da Pérsia ao Mediterrâneo. Outros grandes impérios surgiram na Ásia central e meridional. Ao norte da Babilônia formaram-se os impérios dos Mitâneos e dos Hititas. Na Índia e na China ergueram-se outros impérios, resultantes de novas civilizações. Em geral, nas antigas civilizações orientais não existiam doutrinas políticas, mas, sim, uma única forma de governo, que era a monarquia absoluta, exercida em nome dos deuses tutelares dos povos. Os impérios orientais apresentavam cada um suas características formais, seus traços peculiares; porém, tinham muito de comum nas suas linhas gerais. Não comporta o nosso programa um estudo particular de cada império. Nosso objetivo, neste ponto, é destacar as características comuns dos Estados antigos, definindo em linhas gerais o seu padrão. O primeiro traço comum que devemos colocar em relevo é o que se refere à estrutura heterogênea daqueles Estados: eram formados e mantidos pela força das armas. Os povos viviam constantemente em guerra. O imperador que triunfasse em maior número de batalhas anexava os territórios conquistados e escravizava as populações vencidas, formando um grande império com plena hegemonia sobre vastas e determinadas regiões. Em decorrência dessa origem pelo triunfo das armas, os impérios não tinham uma base física definida. Seus territórios ora diminuíam em consequência de derrotas militares, ora aumentavam em decorrência de novas conquistas. Eram, portanto, instáveis, sujeitos às modificações que resultavam tanto de dissenções internas como de agressões externas. Pelas mesmas razões, os impérios antigos não eram Estados nacionais: reuniam povos de diferentes raças, conquistados e escravizados. Eram, em regra, agrupamentos humanos heterogêneos. A diferenciação de classes e castas era outro traço comum. Os nobres, os chefes militares e os sacerdotes do culto nacional gozavam de largas regalias, enquanto os párias e os escravos viviam à margem das leis. A diferenciação de castas, aliás, persiste ainda atualmente na Índia, embora com menor intensidade. Outro de seus caracteres gerais era a concentração de poderes numa mesma pessoa, que acumulava as funções militar, judicial, sacerdotal e de coleta de impostos. Essa acumulação de funções, principalmente nas províncias longínquas, tornava o chefe local praticamente independente do poder central, a tal ponto que o emprego se transmitia hereditariamente. As monarquias orientais eram todas de feitio teocrático: o monarca era representante das divindades, descendente dos deuses. O poder do monarca era absoluto, e, sendo equivalente ao poder divino, não encontrava possibilidade de limitação na ordem temporal. No Egito, por exemplo, o Faraó era a encarnação do próprio Deus ou descendente direto das divindades que reinavam no Vale do Nilo. Os terríveis reis assírios chamavam-se vigários dos deuses. O rei persa era sacerdote magno. Amon, no Egito, Barduk ou Shamasch, na Babilônia, eram deuses nacionais. O califa, vigário do profeta, titulava-se príncipe dos crentes (Emir El Mumenin) e governava pelos princípios constantes do Alcorão. Em geral, os povos orientais eram politeístas, e, por isso, como nos relata Bigne de Villeneuve, o poder real só encontrava uma limitação de fato imposta pelos privilégios de outras divindades, sempre defendidas por poderosos colégios sacerdotais. Politicamente, os antigos impérios orientais, fundados no poder das armas e no regime de escravidão, não possuindo um conceito de liberdade como tiveram os gregos e os romanos, nada legaram ao Estado moderno. No entanto, no que tange ao progresso cultural, não se deve perder de vista que no Egito e na Mesopotâmia nasceram a matemática e a astronomia. A contribuiçãodos antigos impérios orientais ao progresso moral da humanidade é também digna de nota: no antigo Código Hamurabi, que vigorou na Babilônia por volta de 2.200 a.C., encontram-se os princípios basilares da ordem social e que foram as fontes luminosas da legislação moderna. O mesmo se pode dizer do Livro dos Mortos dos antigos egípcios. Além disso, foi no Oriente que se formaram as grandes religiões educadoras dos povos, como o budismo, o cristianismo e o islamismo, estas duas últimas, ramos do vigoroso tronco judaico. 4. O ESTADO DE ISRAEL Constituía uma exceção entre os Estados antigos do Oriente o Estado de Israel, que era caracteristicamente democrático, no sentido de que todos os indivíduos tinham a proteção da lei, inclusive contra o poder público. O povo não tinha participação efetiva nos negócios do Estado; entretanto, o governo dava proteção aos fracos e desamparados, fossem cidadãos ou escravos, nacionais ou estrangeiros. Embora desconhecesse qualquer limitação jurídica, o governo israelita, em verdade, conceituava-se como um poder limitado pelas leis de Jeová. As Tábuas do Sinai, Constituição do Estado de Israel, teriam sido ditadas por Jeová a Moisés quando este salvara o povo do cativeiro no Egito. Segundo a crença geral, Deus dirigia o povo hebraico pela voz dos chefes e patriarcas cheios de sabedoria. O rei de Israel era apenas chefe civil e militar, escolhido por Deus através de uma manifestação providencial da vontade divina. E, em razão dessa origem do seu poder, o rei era, na ordem temporal, o intérprete e o executor da vontade de Deus. Toda a legislação judia era impregnada de profundo sentido humano e democrático. Suas instituições, descritas na Bíblia, influíram preponderantemente na configuração da Igreja primitiva, na formação do pensamento político da Idade Média e, até mesmo, nos rumos do direito público dos tempos modernos. Uma das instituições próprias do povo israelita foi o profetismo. Os profetas eram homens que recebiam inspiração de Deus, e, por essa razão, a sua palavra era respeitada e acatada por todos, inclusive pelos próprios reis. E como pregassem os princípios eternos das leis de Deus puderam eles impedir, nos seus domínios, a tirania dos monarcas absolutos, imprimindo ao Estado de Israel uma orientação mais humana, mais condizente com o direito natural e que hoje poderia receber o qualificativo de democrática. Extinguiu-se o Estado antigo de Israel, com a expulsão de Jerusalém. Mas a nação israelita subsistiu nestes dois mil anos, sem Estado, conservando a sua unidade étnica, religiosa e histórica. E ressurgiu em 1948, no novo Estado de Israel, criado pela divisão da Palestina, sob a liderança de Ben-Gurion — o novo Moisés da eterna nação judaica. XX EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — II 1. O Estado grego. 2. “Polis”. 3. Platão. 4. Aristóteles. 1. O ESTADO GREGO Para se esboçar os traços definidores do Estado grego não se poderia seguir à risca os modelos ideais de Platão e Aristóteles, expostos em divagações metafísicas de filosofia e de ética, à margem da realidade e em sentido programático. Nem se poderia tomar como modelo o Estado lacedemônico, de feitio ímpar, ou a república militarista de Esparta, como a descreveram Platão e Xenofonte. O Estado helênico típico, que exerceu larga influência no evolver da civilização clássica, encontra-se nas magníficas instituições atenienses do Século de Péricles. Este período de maior esplendor da civilização grega se coloca entre os séculos VI e IV a.C., e Péricles viveu precisamente nos anos de 490-429 a.C., tendo projetado Atenas ao apogeu do seu poderio militar, do seu prestígio e das suas glórias imorredouras. Primeiramente, a partir do século IX a.C., o Estado grego era monárquico e tipicamente patriarcal. Cada Cidade tinha o seu Rei e o seu Conselho de Anciãos. Só em casos de maior importância se convocavam as Assembleias Gerais dos Cidadãos. Os dirigentes daqueles pequenos Estados monárquicos apoiavam-se na classe aristocrática, a qual, na realidade, tanto na monarquia quanto na república, se manteve como classe dominante. O Estado grego antigo, geralmente apontado como fonte da democracia, nunca chegou a ser um Estado democrático na acepção do direito público moderno. O próprio Estado ateniense, no auge da sua glória, sob a liderança de Péricles, apresentava, na sua população de meio milhão de habitantes, cerca de 60% de escravos, sem direitos políticos de qualquer espécie, além de cerca de 20.000 estrangeiros. Resumiam-se a pouco mais de 40.000 os cidadãos que governavam Atenas e constituíam a soberania do Estado. 2. “POLIS” O Estado grego antigo, monárquico ou republicano, foi sempre o Estado- Cidade, denominado Polis, circunscrito aos limites da comunidade urbana ou cantonal. A Polis começou a evoluir, a partir do século VIII ou IX a.C., da monarquia patriarcal para a república democrática direta, de fundo aristocrático. Todavia, mesmo no tempo dos reis, não chegou a ser um regime de tirania ou de desenfreado despotismo monárquico, pois havia já a contenção do poder real pelo Conselho dos Anciãos e pela Assembleia dos Cidadãos. Por isso mesmo, fácil foi o caminhamento da evolução para a forma republicana. Em fins do século IV a.C. completou-se essa evolução, surgindo a constituição clássica da Cidade helênica. O Estado ateniense, com seu magnífico corpo de leis, foi, sem dúvida, a mais bela expressão da democracia grega. O Conselho dos Anciãos deixara de ser o órgão principal do Estado: tornara-se eletivo e subordinado à Assembleia dos Cidadãos. As magistraturas tornaram-se temporárias; as pessoas eram escolhidas e nomeadas pela Assembleia Geral com mandato por um ano. Os cidadãos investidos em funções públicas eram obrigados a prestar contas periódicas, e, quando assim não procedessem, eram citados diante da Assembleia popular. A Polis era uma associação política e ao mesmo tempo uma comunidade religiosa, mas não se confundiam Estado e Religião nas mesmas instituições. As divindades gregas não conferiam caráter místico à autoridade, como ocorria nas monarquias orientais. Não obstante, a Polis era de certo modo onipotente, e seu poder só encontrava limites na intervenção do povo — demos — nos negócios estatais e na distribuição da justiça. Os Estados-Cidades eram numerosos e, consequentemente, contavam com reduzida capacidade de expansão. Por esse motivo, instituíram o sistema de hegemonia, formando Confederações de Estados. Instituiu-se o Senado em cada Polis, Assembleias Regionais para as ligas ou confederações, e Assembleia Geral de representação dos Estados gregos, como a anfitriônica, de caráter confederal amplo. 3. PLATÃO A Grécia, no seu período clássico, destacou-se não apenas como pioneira no desenvolvimento das artes e da filosofia, mas, principalmente, da ciência política. Perseguindo sempre um ideal ético-estético, como diz Pedro Calmon, os atenienses entendiam que a verdade (filosofia) do Estado consistia na boa opinião. A República de Platão, por isso considerada ideal, é o Estado justo, que realiza a unidade possível e está nas mãos dos filósofos. Segundo o ideal platônico, incumbe aos sábios reinar, aos guerreiros proteger, e às classes obreiras obedecer. O Estado é a mais alta revelação da virtude humana; e só no Estado pode o homem atingir a sua perfeição e realizar a plena satisfação do seu destino. Na República, sua grande obra, Platão limita a 1.000 o número de guerreiros, e afirma que, se o número de sábios é o mesmo, o número de cidadãos não pode ultrapassar de 2.000. Posteriormente, no Diálogo das Leis,admitiu que o número de cidadãos poderia atingir 5.000. Admitia a propriedade privada, com a condição de que dela não resultassem sensíveis desigualdades de fortuna entre os cidadãos. A cada cidadão deve ser dado um trecho de terra, clausulado de inalienabilidade e transmissível a um só dos filhos herdeiros. Manteve a instituição da família, mas preceituou que os jovens devem contrair matrimônio de acordo com os conselhos dos sábios. Em decorrência do princípio de limitação populacional da Polis, prescreve limites à procriação e determina a necessidade de serem eliminados os filhos que se apresentem com defeitos físicos ou psíquicos, sob a supervisão do Estado. Conquanto revelasse profunda intuição política, relativamente à doutrina do Estado-Cidade, certo é que Platão se extremou como teórico do Estado forte, onipotente, totalitário. Tanto assim que reclamou para as classes dirigentes dos sábios e guerreiros a comunidade das mulheres e dos bens, rompendo, de certo modo, com os liames invioláveis da família e com o princípio tradicional da propriedade privada. 4. ARISTÓTELES Aristóteles, menos imaginoso e mais realista, defende a manutenção da família e da propriedade privada. Considera o homem como um ser eminentemente político, com tendência inata para a vida em sociedade, e encara o Estado como uma instituição natural, necessária, decorrente da própria natureza humana. O Estado, na doutrina sempre nova do grande filósofo estagirita, é resultante dos movimentos naturais de coordenação e harmonia. Sua finalidade primeira seria a segurança da vida social, a regulamentação da convivência entre os homens e, em seguida, a promoção do bem-estar coletivo. Afirma Aristóteles que o Estado deve bastar-se a si mesmo, isto é, deve ser autossuficiente. Observe-se que nessa ideia de autarquia encontram muitos autores a gênese da soberania nacional. Em sua monumental obra Política chega Aristóteles a conclusões diferentes daquelas que Platão consignou na sua República. Enquanto o seu mestre idealizou o futuro alteando-se muito além da realidade palpitante da vida, o estagirita encarou a realidade corajosamente, procurando solucionar praticamente os problemas atuais por aplicação imediata dos princípios de justiça social. Muito embora defendesse a escravidão por contingências do momento histórico, estabeleceu que o supremo poder da cidade deve caber à multidão. Encaminhando a sua doutrina, seguramente, em direção do ideal democrático, ensinou que, nas manifestações populares, a expressão qualitativa deve ser levada em conta justamente com a expressão quantitativa. As experiências do mundo moderno, diga-se de passagem, confirmaram plenamente esta assertiva: a maioria que delibera não deve ser apenas uma expressão numérica, mas também uma expressão das qualidades morais e cívicas da comunidade nacional. Afinam com a doutrina aristotélica os autores modernos quando asseveram que a educação é a alma da democracia. XXI EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — III 1. O Estado romano. 2. Origem. 3. Conceito de “Civitas”. 4. Poder de “Imperium”. 5. Consulado. 6. Magistraturas e pró-magistraturas. 7. Ditadura. 8. Colegialidade das magistraturas. 9. Principado. 1. O ESTADO ROMANO O Estado romano que vamos focalizar é o Estado-Cidade, chamado Civitas, paritário da Polis grega. A semelhança morfológica de ambos se explica por um certo parentesco étnico entre gregos e romanos antigos. Na formação da Civitas exerceram preponderante influência as colônias helênicas estabelecidas ao longo da Itália meridional. Primitivamente o Estado romano era monárquico, do tipo patriarcal. Sua evolução se operou da realeza hereditária para a república, tal como se deu com a Polis grega. 2. ORIGEM O Estado romano tinha a sua origem, efetivamente, na ampliação da família. A família era constituída pelo pater, seus parentes agnados, os parentes destes, os escravos (servus) e mais os estranhos que se associavam ao grupo (famulus). A autoridade do pater familia era absoluta: pontífice, censor dos costumes, juiz e senhor, com poder de vida e morte sobre todos os componentes do grupo (jus vitae et necis). Esse poder incontrastável do pater familia chamou-se manus, a princípio, e depois majestas. Posteriormente a família assim constituída se dividiu em família propriamente dita, conservada sob o poder soberano do pater, e gentes (gens), colocada sob o poder público, e que foi o núcleo inicial do Estado. Daí a existência das duas classes em que se dividiu a incipiente população romana: dos patrícios, que eram os próprios paters e seus descendentes, formando a nobreza dotada de privilégios e amplas liberdades, e dos clientes, que eram os servidores das famílias, que tinham a posse e o uso das terras que cultivavam mas não o domínio, reservado este ao patrono (da classe dos patrícios). Também no tocante à religião, somente os patrícios podiam cumprir as cerimônias do culto do lar, ou culto da família. Os elementos das gens deveriam ser obrigatoriamente ligados às famílias. Ainda que fossem ex-escravos ou estrangeiros, tinham de obter a sua ligação a uma família, para que pudessem, como membros de uma gens, participar da sociedade romana. O primitivo Estado-Cidade dos romanos, portanto, era uma reunião de gens. As gentes reunidas formavam a Curia; várias Curias formavam a Tribu; e diversas Tribus constituíam a Civitas. Esta possuía um Senado cujos membros eram os pater familias. Por isso mesmo, ainda no decorrer do Império, os senadores conservaram o título tradicional de pater. Mais tarde, quando dividida a sociedade em cinco classes distintas, foram estas agrupadas em centúrias. Inferior à classe dos clientes e inteiramente fora da comunidade romana, existiu a plebe, formada por elementos provenientes de outras plagas, desgarrados das famílias, até mesmo patrícios decaídos, os quais não tinham família, nem pátria, nem religião. Viviam à margem de vida social, sem lei e sem Deus. Eram os párias. Roma, a primeira das cidades itálicas, fundada por Rômulo no platô do Monte Paladino, era a cidade dos patrícios e dos clientes. Dela não participava, nem mesmo se aproximava, a plebe, cujo alojamento se fez no Asilo, que se situava no outro lado, na encosta do Monte Capitolino. Outros numerosos plebeus, que mais tarde chegaram às imediações de Roma, se fixaram no Monte Aventino, onde permaneciam inteiramente isolados da urbe religiosa. Os plebeus, multiplicando-se cada vez mais, passaram a exercer certa influência, como força preponderante e necessária na defesa da cidade. E, tendo Sérvio Túlio reformado fundamentalmente o sistema de divisão social, admitiu a plebe ao convívio dos romanos, embora a mantivesse afastada de qualquer participação na vida política e religiosa. Foi então que se dividiram os elementos sociais em cinco classes, mas a nenhuma delas foram admitidos os plebeus. Com a queda da realeza primitiva, desmembraram-se as gens, libertaram- se os clientes, e nem a classe aristocrática dos patrícios conseguiu evitar que a plebe numerosa conquistasse os seus primeiros direitos de cidadania. Foi essa transformação que alguns escritores denominaram revolução social da Roma republicana. O Estado romano, muito semelhante ao Estado grego, tinha suas características peculiares: distinguia o direito da moral, limitando-se à segurança da ordem pública; a propriedade privada era um direito quiritário que o Estado tinha empenho em garantir; o homem gozava de relativa liberdade em face do poderestatal, não sendo obrigado, praticamente, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; o Estado era havido como nação organizada; a vontade nacional era a fonte legítima do Direito. Tais características são expostas em interessantes detalhes, nas obras de Cícero. A conquista do mundo, sonho dos imperadores, era a diretriz suprema de sua história. Roma, a cidade eterna, seria a capital do universo. 3. CONCEITO DE “CIVITAS” Não se deve perder de vista, escreveu Queiroz Lima, que Roma se conservou como Estado-municipal (Civitas) ainda quando se estendeu chegando quase a realizar seu supremo desideratum, que era o domínio do mundo. O número de cidadãos com a plenitude dos seus direitos (cives optimo jure) se estende sobre a totalidade dos habitantes do Império, mas as eleições se realizam somente em Roma, no Campo Marte, única seção de voto. Os que ali não comparecessem não poderiam exercer o direito de voto (jus sufragii) nem o de ser votado (jus honorum). 4. PODER DE “IMPERIUM” Na época republicana, o poder supremo — imperium — pertencia ao povo, que o exercia nos comícios. É interessante observar que no Estado romano se harmonizavam, num complexo sistema de governo, as três formas clássicas de Aristóteles: a realeza com os cônsules, a aristocracia com o senado, e a democracia com os comícios. As funções legislativas dos comícios, de maior importância na fase áurea da República, foram posteriormente restringidas, passando ao Imperador e ao Senado. Do Senado emanavam senatus consulta, com força de lei. Perderam os comícios, principalmente, a competência sobre questões financeiras e política externa. Embora o Imperador Augusto admitisse ainda as funções legislativas dos comícios, fazendo-os aprovar a lei Papia Poppea de maritandis ordinibus e a lei Julia de adulteriis, destinada a proteger a família, certo é que, na fase imperial, aquelas assembleias populares perderam a participação ativa na formação das leis. Como observa G. Mosca, a última lei aprovada pelos comícios foi uma lei agrária de Nerva, no ano de 97 a.C. Distinguiam-se no Estado romano três espécies de poderes: dominium era o poder menor, restrito ao âmbito das relações familiares; potestas, era o poder maior, próprio dos magistrados com funções civis determinadas; imperium era o poder supremo, poder político, de soberania, de comando interno e externo. O poder de imperium era exercido pelos cônsules. 5. CONSULADO Os primeiros cônsules foram eleitos pelas centúrias, no ano de 510 a.C., quando, depois da expulsão de Tarquinio, o Soberbo, quiseram os paters eliminar a tirania. Foi então que Lucrécio, à vista das consultas que os áugures fizeram a Júpiter, instituiu o Consulado. Como os plebeus participassem das centúrias sem que possuíssem qualidades para deliberar em assuntos pertinentes às relações do Estado com os seus deuses protetores, foi preciso separar o poder de sacerdotium do poder de imperium; as curias patrícias elegeram um sumo pontífice (pontifex maximus) que exercia o sacerdócio, em caráter vitalício, enquanto os cônsules tinham investidura por um ano. Os dois cônsules, formando um comando único do Estado, repartiam entre si o poder, sendo que, em tempo de guerra, um deles ficava na cidade (consul togatus) e o outro assumia o comando militar (consul armatus). 6. MAGISTRATURAS E PRÓ-MAGISTRATURAS A autoridade dos cônsules foi posteriormente limitada em decorrência da criação das diversas magistraturas, destacando-se, pela ordem: a) Questura — Escolhidos pelos próprios cônsules e como seus auxiliares imediatos, foram nomeados dois questores. Eram os questores juízes de superior alçada na ordem civil. b) Pretura — Eleitos mediante prévia consulta aos deuses, exerciam os dois pretores plena jurisdição de fato. Em matéria de direito público suas decisões estavam sujeitas ao veto consular. Porém, em matéria de direito privado, a competência dessa grande magistratura era absoluta. Pronunciavam os pretores as suas decisões sentados na curul, ditavam posturas, expediam regulamentos e publicavam editais. O conjunto desses atos formou o chamado direito pretoriano, base de toda a maravilhosa estrutura do direito romano. c) Censura — Os censores, também em número de dois, tinham a administração dos domínios e rendas do Estado; exerciam a vigilância da moralidade pública e privada; procediam à purificação do povo etc. Eram, por isso mesmo, os mais temidos e respeitados dentre os magistrados romanos. d) Tribunato — Os tribunos eram eleitos entre os plebeus, nos comícios das tribus. Essa magistratura foi criada por uma lex sacrata. Os tribunos eram defensores do povo, pessoas invioláveis, acreditando-se que estavam eles colocados sob a salvaguarda da cólera invencível dos deuses. No exercício da sua função protetora dos direitos individuais, os tribunos recorriam das decisões dos magistrados, interpondo a chamada apelatio. Por esse ato vetavam a decisão tornando-a, de pronto, inoperante. Além do direito de veto, conquistaram os tribunos, posteriormente, o direito de iniciativa da plebe sobre questões de interesse coletivo (plebiscitum). e) Edilidade — Os edis eram quatro, sendo dois eleitos pela centúria, mediante consultas simbólicas aos deuses, e dois escolhidos pelas tribus, entre os plebeus, por via de manifestação plebiscitária. Conjuntamente os edis formavam o Colegium. Suas funções eram equivalentes às dos vereadores dos tempos modernos, com jurisdição administrativa no âmbito municipal. f) Pró-magistraturas — Com o grande desenvolvimento do Estado, criando-se novas províncias a ser administradas, já no fim do período republicano e início do período imperial, foi instituído o pré-consulado. Em consequência, desdobraram-se as demais magistraturas, instituindo-se a pró- questura, a pró-pretura etc. 7. DITADURA Nos casos de perigo interno ou externo, proclamado o estado de tumultus (equivalente ao “estado de sítio” dos tempos modernos), ficavam suspensas todas as garantias públicas, colocando-se todas as classes à disposição do Estado. Em tal emergência, cabia a qualquer dos cônsules nomear um ditador, pelo prazo máximo de seis meses; nomeação esta que, normalmente, recaía no outro cônsul. O ditador ficava investido do poder de imperium, com autoridade ilimitada, inteiramente irresponsável, sobrepondo-se de maneira absoluta a todas as magistraturas — respeitadas apenas as prerrogativas sagradas dos tribunos da plebe. A instituição da ditadura, como magistratura excepcional, justificava-se em nome da salvação pública: salus publica suprema lex est. 8. COLEGIALIDADE DAS MAGISTRATURAS O sistema de magistratura colegiada no Estado romano (dualidade de magistrados numa função única) foi uma garantia efetiva contra os abusos de autoridade, notadamente pelo direito de veto que um magistrado podia exercer contra a decisão do magistrado par. O cônsul, o questor, o pretor, o censor, por exemplo, anulava a decisão do seu par pela simples declaração: eu me oponho. Cada magistrado era soberano por si só na esfera de ação de ambos, mas a decisão definitiva devia resultar do consenso das duas inteligências, o que limitava, de certo modo, o arbítrio de cada um. Esse veto do magistrado par não se confunde com o veto do tribuno da plebe, que podia entravar a ação da magistratura dual em nome da soberania popular. O veto do magistrado à decisão do seu par equivalia a um embargo judicial, com a finalidade de suscitar um reexame do caso em conjunto e assegurar, por esse meio, uma certa uniformidade das decisões. Por isso mesmo, o veto era oposto contra a decisão inovadora, para que prevalecesseo princípio tradicional. Seria esse engenhoso sistema de contenção do poder pelo poder, idealizado e praticado pelos romanos, a gênese do sistema democrático moderno de tripartição do poder do Estado. Temos aqui, em linhas gerais, um resumo dos princípios basilares do Estado romano, no período da velha república, sobre o qual escreveu Cícero: “eu o sinto, eu o declaro, eu o afirmo, não há nenhuma forma de governo que, por sua constituição, por sua organização e por suas regras, possa ser comparada a esta que nossos antepassados estabeleceram e nossos pais nos transmitiram” (De Republica, 1, 46, 70). 9. PRINCIPADO Depois das ditaduras militares e das guerras civis, desmoronaram-se as velhas e pujantes instituições republicanas, implantando-se o principado. Depois da batalha de Actium, disse Tácito, o governo de um só apresentou-se como condição necessária à manutenção da paz, mesmo porque, acrescenta Dion Cassius (História Romana LIII, 19), era de todo impossível para os romanos salvarem-se com a república. O regime imperial espezinhou os direitos públicos dos indivíduos, embora possibilitasse o mais amplo desenvolvimento do jus privatum. Até mesmo a liberdade de religião foi suprimida pela onipotência dos césares, pela vontade omnímoda do soberano que se dizia a personificação da divindade. A fase imperial, efetivamente, se distanciou muito das instituições tradicionais. O imperador concentrou em suas mãos a totalidade dos poderes, tornando-se a fonte única do direito, aureolado por uma completa irresponsabilidade: principis legibus solutus est, sentenciou no De Legibus o próprio Ulpiano. XXII EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — IV 1. O Estado medieval e suas características. 2. O feudalismo. 1. O ESTADO MEDIEVAL E SUAS CARACTERÍSTICAS O império romano foi o último dos grandes impérios da antiguidade. O seu desmoronamento, em consequência das invasões bárbaras, assinala o fim da idade antiga e o início da Idade Média. Embora não haja termo inicial certo, é geralmente admitido que a Idade Média começa no século V da era cristã, a partir da queda do império romano no ocidente (ano de 476), e termina no século XV, com o descobrimento da América (ano de 1492). Depois do século XV começa a Renascença, com as grandes descobertas. Com a decadência do império romano deu-se o eclipse do Estado na Europa ocidental. Os bárbaros, pelas suas invasões demolidoras, apagaram todo o esplendor do cesarismo e fizeram erguer sobre os escombros do paganismo dissoluto de Roma uma nova ordem estatal, segundo o estilo germânico-oriental. Nessa nova ordem os costumes germânicos substituíram completamente as tradições romanas. Se alguma coisa sobreviveu ou ressurgiu da velha Roma, ostentando um caráter vigoroso de eternidade, foi o direito romano, não sem passar pelo crivo dos glosadores germânicos. A noção de Estado, inclusive, desapareceu na voragem daquela violência arrasadora, para ressurgir depois, moldada em uma nova concepção de vida mais compatível com a dignidade humana. Efetivamente, possuíam os germânicos uma cultura política mais sadia, embora rudimentar, pois se baseava no respeito aos princípios de direito natural, na dignidade do homem, na liberdade individual, na inviolabilidade da família e no direito de livre associação. Os germânicos desconheciam o conceito de personalidade do Estado, e, assim, todas as situações eram encaradas e solucionadas como relações de ordem individual, no plano do direito natural. Embora a princípio as hordas invasoras empregassem uma violência extremada, espoliando e massacrando as populações vencidas, inclusive no período de transição quando procuravam situar-se como exército de ocupação, é inegável que implantaram no ocidente o primado da lei e da razão, contribuindo assim para a nova configuração do Estado medieval. O Estado medieval é uma afirmação solene da supremacia da lei, segundo a afirmação de Carlyle. Os usos e costumes foram as fontes principais do direito, em consonância com as regras superiores do direito natural, de fundo eminentemente cristão, prescrevendo como deveres do homem a união com Deus e a fraternidade com os seus semelhantes. O direito natural é a própria lei eterna, incontingente, imutável, que Deus inseriu na consciência de todos, tendo como preceito basilar que o homem não deve fazer aos outros o que não quer que lhe façam. De conformidade com esse pensamento dominante, o Rei ou legislador na Idade Média, é antes de tudo um servo da lei. Não da lei como manifestação sobrenatural da vontade de Deus, nem como obra arbitrária da vontade humana, mas, sim, como obra integral da razão — sciencia rectrix de todas as ciências sociais. A Idade Média, aliás, não conheceu o absolutismo monárquico com as características que assumiu essa forma de governo na renascença e no início da idade moderna. O absolutismo monárquico apareceu no declínio da civilização medieval. Tal circunstância levou Montesquieu a considerar como originários das florestas da Germânia os germes das Constituições democráticas. O Estado medieval caracteriza-se ainda pela confusão que se fazia entre os direitos público e privado. Dessa confusão resultava que o proprietário de terras se investia de direitos soberanos sobre todas as pessoas residentes nos seus domínios. O direito patrimonial das grandes famílias foi pouco a pouco assimilando o poder administrativo do Estado, surgindo daí uma entidade intermediária entre o Rei e o indivíduo: o feudo ou comuna. Resumindo: são características fundamentais do Estado medieval: a) forma monárquica de governo; b) supremacia do direito natural; c) confusão entre os direitos público e privado; d) descentralização feudal; e) submissão do Estado ao poder espiritual representado pela Igreja romana. Passaremos a analisar o sistema feudal, deixando para o capítulo seguinte as relações entre o Estado medieval e a Igreja romana. 2. O FEUDALISMO A descentralização feudal foi uma das mais notáveis características do Estado na Idade Média. Para alguns autores foi uma continuação da fase de desaparecimento ou quase desaparecimento do Estado. Quando assim não seja encarado, não resta dúvida que o feudalismo assinalou uma longa fase de acentuada decadência da organização política. O Estado medieval, que se ergueu sobre os escombros das invasões bárbaras, como já foi dito, recebeu a influência preponderante dos costumes germânicos. As tradições romanas pouco ou nada influíram. Os reis bárbaros, francos, godos, lombardos e vândalos, uma vez completada a dominação dos vastos territórios que integravam a órbita de hegemonia do extinto império cesarista, passaram a distribuir cargos, vantagens e privilégios aos seus chefes guerreiros, resultando daí a fragmentação do poder. E como fossem imensos os territórios e impossível a manutenção da sua unidade sob um comando central único, criaram uma hierarquia imperial de condes, marqueses, barões e duques, os quais dominavam determinadas zonas territoriais, como concessionários do poder jurisdicional do Rei. Em compensação, tais concessionários se comprometiam a defender o território, prestar ajuda militar, pagar tributos e manter o princípio da fidelidade de todos os súditos ao Rei. O senhor feudal era o proprietário exclusivo das terras, sendo todos os habitantes seus vassalos. Exercia o senhor feudal as atribuições de chefe de Estado, decretava e arrecadava tributos, administrava a justiça, expedia regulamentos e promovia a guerra. Era uma espécie de rei nos seus domínios. Seu reinado, porém, repousava sobre um conceito de direito privado, não de direito público. Desse fato resultaram anomaliastais como a jurisdição privada, a cunhagem privada, a guerra privada etc. A posse das terras era vitalícia e hereditária, operando-se a sucessão causa mortis pelo direito de primogenitura: a senhoria feudal passava automaticamente ao mais velho herdeiro varão do feudatário falecido. Idêntica era a instituição do morgadio no direito português. O regime feudal generalizou-se inclusive entre o Clero, o qual, pelos seus altos dignatários, adquiria vastos latifúndios, adotando idêntica ordem hierárquica e instituindo o sistema dominial como condição de vida. A crescente multiplicação dos feudos, a reação das populações escravizadas, o desenvolvimento da indústria e do comércio e as pregações das novas ideias racionalistas minaram os alicerces e abriram profundas brechas na estrutura da velha construção feudal, dando lugar ao surgimento das nacionalidades e à restauração do Estado sobre a base do direito público. As próprias populações sacrificadas por aquele longo regime de vassalagem procuraram refúgio na unidade do Estado, na centralização do poder e no fortalecimento do governo. Suprimidas as autonomias feudais, no fim da Idade Média, iniciou-se uma nova fase de grandeza do Estado monárquico, sob a forma absolutista. XXIII EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — V 1. O Estado medieval e a Igreja romana. 2. Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e outros doutrinadores. 1. O ESTADO MEDIEVAL E A IGREJA ROMANA O Estado medieval que emergiu das invasões bárbaras cristalizou-se em torno da Igreja romana. Sobreviveu esta à ruína do poder temporal, ostentando, vigorosa, a força do seu prestígio, como refúgio para o espírito dos homens nos momentos mais graves da história da humanidade. Como acentua Pedro Calmon, a Igreja cristã, “pelo batismo dos bárbaros, pelo poder dos Bispos e pela influência da fé sobre os guerreiros convertidos, contrapôs ao Estado marcial o religioso, à força bruta a teologia, à violência heroica dos invasores a disciplina moral do clero ascético”. E, assim, toda a história política da Idade Média gira em torno das relações entre o Estado e a Igreja Romana. Nos seus primeiros tempos os cristãos não se interessaram pelo poder temporal. Esse desinteresse, em verdade, resultava dos ensinamentos de Jesus Cristo, quando disse que seu reino não era deste mundo, bem assim quando estabeleceu a nítida distinção entre os dois poderes, dizendo que se devia dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, isto é, ao Estado o governo do corpo e a Deus o governo do espírito. Durante os primeiros cinco séculos os Imperadores detinham o poder temporal e o poder espiritual, mas este era um poder anticristão. Consolidado o Estado medieval, depois das invasões bárbaras, o Papa São Gelásio I formulou a teoria da separação e coexistência dos dois poderes, nos fins do século V. Sustentou esse Pontífice que Deus quis separar o poder espiritual do poder temporal para evitar os abusos que decorreriam fatalmente da acumulação dos dois poderes. E acentuou que, no domínio eclesiástico, o Bispo é superior ao Imperador, e, no domínio das coisas laicas, o Imperador é superior ao Bispo. No ano de 590, o Papa Gregório I assumiu o governo civil de Roma, que a Igreja conservaria até 1870, época em que se deu a unificação dos Estados italianos, com a incorporação de Roma, estabelecendo-se o dissídio que terminou com a concordata de 1929, instituindo-se dentro da antiga Santa Sé o Estado do Vaticano. A partir do século VII, começou a desenvolver-se a doutrina da supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal. O trono de São Pedro passou a exercer larga influência sobre os reis medievais, convertidos ao cristianismo, não obstante se mantivesse a separação teórica entre os dois domínios, entre o poder da espada e o poder da cruz. A superioridade do Bispo no domínio espiritual adquiriu foros de dogma depois que Santo Ambrósio, resolutamente, impediu que o Imperador Teodósio entrasse no Domo de Milão para comemorar a Páscoa. Alegou o Papa que, por haver ordenado os massacres de Salônica, o Imperador tinha as mãos manchadas de sangue humano. O entendimento predominante era o de que o poder espiritual governa as almas e o poder laico, o corpo, mas, como a alma é superior ao corpo, a autoridade eclesiástica é superior à autoridade laica. Demais, o poder temporal provém de Deus — omnis potestas a Deo —, como doutrinara São Paulo. A preeminência do Papado sobre os monarcas medievais era de ordem espiritual. O Estado era de fundamento teológico, mas não se confundia com o feitio teocrático das monarquias orientais, isto é, com o sistema dos reis- deuses da antiguidade. O rei-cristão da Idade Média recebia o poder das mãos do Bispo, era consagrado no ato de sua investidura e ungido ao pé do altar. Daí a sua subordinação ao poder espiritual, considerado originário e superior. A partir do século XI a Igreja firmou uma completa supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal, pela ação vigorosa de Hildebrando, o Papa Gregório VII, que foi o maior Pontífice em toda a Idade Média. Essa supremacia positivou-se a partir do famoso episódio de Canossa. Obstinado e tirano, o Imperador Henrique IV recusou-se a reconhecer os direitos da Igreja no tocante à nomeação dos Bispos, insistindo em manter o processo de investidura secular que vigorava há dois séculos. Hildebrando o excomungou e o declarou deposto do trono. Henrique IV resistiu mas, premido pela crescente revolta dos nobres, teve que se submeter ao Papa. Tentando livrar-se da excomunhão, empreendeu longa e penosa viagem, com a rainha e o filho menor, atravessando os Alpes nevados num rigoroso inverno, até o castelo de Canossa, na Lombárdia, para implorar o perdão do Papa. Assim mesmo, Hildebrando recusou-se a recebê-lo durante três dias. Finalmente, o Imperador sujeitou-se a uma extrema humilhação: numa madrugada foi descalço até o portão do castelo, onde continuou batendo durante todo o dia e implorando misericórdia. Só depois de dois dias o Papa aquiesceu em discutir as condições do perdão. Ficou estabelecido que o monarca do Santo Império Romano submeteria a sua coroa à decisão dos nobres e, se permanecesse com ela, submeter-se-ia ao Papa em tudo o que fosse de interesse da Igreja. Com essa vitória do Papa sobre o poderoso Imperador ficou firmado o princípio de que a investidura dos monarcas dependeria sempre do exame e da confirmação da Igreja. Hildebrando destituiu e nomeou Imperadores, exercendo inteira soberania sobre o poder civil, o que perdurou durante cerca de três séculos, ou seja, até o fim da Idade Média. 2. SANTO AGOSTINHO, SANTO TOMÁS DE AQUINO E OUTROS DOUTRINADORES No campo doutrinário prevaleceu a interpretação de Santo Agostinho, coerente com a teoria do Papa São Gelásio I, estabelecendo que a autoridade temporal tem sua origem em Deus e está subordinada à autoridade espiritual, que se enfeixa nas mãos do Papa, Vigário de Deus na terra. Essa doutrina foi amplamente desenvolvida por um dos maiores escritores da Idade Média, Santo Tomás de Aquino (1225-1274). A sua doutrina da separação dos poderes e da preeminência do Papa em relação aos governos temporais foi consubstanciada na obra De regimine principium, sendo posteriormente ratificada em concílio da Igreja. Alguns autores contestam a autenticidade dessa obra, não pelo seu conteúdo, mas pela sua forma, que não corresponde com o estilo elevado daquele grande escritor. Outros afirmam que ela reproduz um curso de ciência política que Santo Tomás deu na Universidade de Nápoles, não tendo passado pela revisão do mestre. Não se deve confundir o De regimine principiumcom outra obra de igual título, escrita pelo seu contemporâneo Egídio, professor de Felipe, o Belo. A principal obra de Santo Tomás de Aquino, porém, é a Summa Theo- logica, que trata da política, dos assuntos de ordem social e das relações entre a Igreja e o Estado. Neste particular afirma o doutor angélico que à Igreja incumbe a direção das almas e ao Estado a dos corpos. Cada uma destas instituições tem plena autonomia no seu domínio, não devendo invadir a área própria da outra. Porém, sempre que ocorrer conflito, deve prevalecer a autoridade do Papa, que é originária e superior. A doutrina da separação e coexistência harmônica dos dois poderes, com o princípio da supremacia da autoridade espiritual, nos casos de conflito, sem embargo de alguns desvirtuamentos ou exorbitâncias da autoridade papal, foi sempre mantida pela Igreja, mesmo porque encontra ressonâncias nas próprias palavras de Cristo, quando disse a Pilatos: Nenhum poder terias sobre mim se te não fora dado lá de cima (Joan. XIX, II). No mesmo sentido foi a afirmação de São Paulo: non est enim potestas, nisi a Deo. Como já foi referido, a partir do século XI o princípio da supremacia do poder espiritual foi levado às suas extremas consequências. O Papado revestiu-se da onipotência do antigo império universal romano. Como afirmou o Prof. Machado Paupério, o esplendor do Papado passou a eclipsar o esplendor das monarquias. A Igreja seria como o sol, enquanto o Estado espalhava tão somente a luz refletida. Em outra comparação, o Papa seria o sol, enquanto o Imperador representava a lua, que recebia do sol a sua luz. Essa doutrina foi refutada por Dante Alighieri, na sua obra De monarchia (1308), onde sustentou a tese de que o Imperador tinha a plenitude do poder temporal e devia exercer esse poder de conformidade com as leis de Deus, porém independentemente de obediência ao Papa. Na sua argumentação referiu-se o poeta ao sistema de Ptolomeu, muito em voga naquela época, segundo o qual a lua recebia realmente do sol a sua luz, mas não o seu movimento. Guilherme de Ockam, cognominado doctor invincibilis et subtilissimus, foi outro escritor medieval que sustentou igual tese, quando tomou partido em favor do Imperador Luiz da Baviera. No mesmo sentido de defesa da autoridade civil, destacou-se, pela sua pujança intelectual e pela sua influência, o escritor Marsílio de Padua, autor da famosa obra Defensor pacis (1324), escrita em defesa do mesmo Imperador Luiz da Baviera, que se encontrava em luta acirrada com o Papa João XXII. Sustentou Marsílio o princípio da soberania popular que deveria representar-se numa câmara legislativa; pregou a independência recíproca entre a Igreja e o Estado; profligou a perseguição dos hereges porque a conversão deles competia à Igreja, devendo ser obtida pela argumentação dos teólogos e não pela força do braço secular; e, na sua obra De causis matrimonialibus, defendeu o ponto de vista de que a anulação dos casamentos competia exclusivamente à autoridade civil. No fim da Idade Média, com a queda de Constantinopla, o domínio do islamismo sobre todo o oriente, a reforma religiosa e a influência das doutrinas anticlericais, as monarquias se desvencilharam do domínio papal, caminhando para a forma absolutista que assinala o período de transição para os tempos modernos. XXIV EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VI 1. Das monarquias medievais às monarquias absolutas. 2. A doutrina de Maquiavel. 1. DAS MONARQUIAS MEDIEVAIS ÀS MONARQUIAS ABSOLUTAS Quando a Igreja romana, já no ocaso da Idade Média, começou a sofrer os ataques do liberalismo religioso e da filosofia racionalista, reagiu de maneira vigorosa, enquanto o governo temporal, por sua vez, entrou em luta aberta contra o Papado. Um dos episódios que assinalam o termo inicial dessa luta foi a prisão do Papa Bonifácio VIII por Felipe, o Belo, Rei da França, no século XIV. O Papado deslocou-se de Roma para Avinhão, no Reno, em território francês, permanecendo nesse Cativeiro Babilônico durante sessenta e oito anos. A volta do Papado com Gregório XI a Roma, em 1377, não restaurou o prestígio da Santa Sé, dado o advento do Grande Cisma, com a existência de dois Papas, um em Roma e outro em Avinhão, durante mais trinta anos aproximadamente. Liberadas do poder de Roma e fortalecidas pela dissolução do feudalismo, as monarquias medievais caminharam para a centralização absoluta do poder, chegando a suplantar a própria autoridade eclesiástica. Um dos primeiros expoentes do absolutismo monárquico que se inicia no século XV foi Luiz XI, Rei da França, o qual anexou à coroa os feudos, subjugou a nobreza guerreira e pôs em prática uma violenta política unificadora que seria sustentada por Richelieu e Mazarin, até atingir o seu apogeu com Luiz XIV. O absolutismo monárquico que compõe o período de transição para os tempos modernos teve as suas fulgurações produzidas pelo verniz teórico dos humanistas da Renascença, os quais, afastando os fundamentos teológicos do Estado, passaram a encarar a ciência política por um novo prisma, exageradamente realista. Ao mesmo tempo em que a Renascença restaurou e aperfeiçoou a ma- jestade das artes antigas restabeleceu, no seu panorama político, os costumes pagãos e a prepotência estatal das cidades gregas e romanas. 2. A DOUTRINA DE MAQUIAVEL Nicolau Maquiavel, nascido em Florença em 1469, foi o mais avançado e influente entre os escritores da Renascença. Foi secretário da segunda chancelaria do Domínio senhorial e do Ofício dos dez da liberdade e da paz até 1512. Escreveu Maquiavel a obra Discursos sobre Tito Lívio, em que glorifica a república romana e, baseado nos exemplos tirados da sua história, deduz os meios pelos quais podem as repúblicas expandir-se e durar. Sua obra principal, denominada O príncipe, foi publicada em 1531, quatro anos depois da sua morte. Afirma-se que foi com o imprimatur da autoridade eclesiástica. Maquiavel tinha dedicado a obra a Juliano de Medicis, mas, em razão do falecimento deste, outra dedicatória foi feita a Lourenço de Medicis, sobrinho do Cardeal Giovani de Medicis, que seria logo depois o Papa Leão X. Ao que tudo indica, Maquiavel teria destinado a sua obra a todos os componentes da Casa dos Medicis, detentora do Domínio Senhorial de Florença, prestigiada pelo Papado e uma das mais poderosas oligarquias da Itália. Através da Casa dos Medicis esperava Maquiavel que fosse realizado o seu sonho de unificar os Estados italianos, formando uma nação poderosa capaz de restaurar as glórias do cesarismo. Entretanto, essa ligação direta ou indireta com o Cardeal Giovani de Medicis, posteriormente elevado ao sumo pontificado romano, não envolve a Igreja na publicação da obra, pois a Casa dos Medicis era antes de tudo uma oligarquia política e guerreira, dominadora de Florença e uma das mais influentes entre as de todos os Estados italianos. Aliás, a Igreja romana, pelo pronunciamento do Arcebispo de Cantuária, desde logo considerou O príncipe como obra escrita pela mão do diabo. O escritor foi denunciado em 1557, como impuro e celerado, pelo Papa Paulo IV, e em seguida o Concílio de Trento o condenou post mortem, colocando o seu nome no Índex. Nessa obra Maquiavel se desliga de todos os valores morais, tradições e princípios éticos, para pregar o oportunismo desenfreado e o cinismo como arte de governar. Analisando friamente as qualidades que devem orientar a ação do Príncipe, aconselha-o a mentir, a praticar toda sorte de crueldade, e ao mesmo tempo dissimular e fazer crer quea sua conduta é virtuosa. E acrescenta: o cuidado maior de um Príncipe deve ser o da manutenção do seu Estado; os meios que ele utilizar para esse fim serão sempre justificados e terão o louvor de todos, porque o vulgo se deixa impressionar pelas aparências e pelos efeitos — e o vulgo é quem faz o mundo. O Príncipe, diz Maquiavel, deve ser ao mesmo tempo amado e temido. Mas, como isso não é sempre possível, é melhor que se faça temido, isto porque, dos homens em geral, se pode dizer que são ingratos, volúveis, falsos, tementes do perigo e ambiciosos de ganho. Enquanto se lhes fazem benefícios são todos fidelíssimos: oferecem seu sangue, seu dinheiro, sua vida, seus filhos, contanto que a necessidade esteja longe, mas quando esta chega, então se revoltam. O Príncipe que confia nas palavras dos homens sem procurar se garantir por outro lado, está perdido; porque as amizades que se conseguem, não por grandeza d’alma, mas por dinheiro ou favores, são, embora merecidas, amizades falsas que não podem ser levadas em conta na hora da adversidade. … acima de tudo deve-se evitar despojar as pessoas dos seus bens, pois o homem esquece mais depressa a morte de seu pai do que a perda do seu dinheiro. … se é preciso ofender alguém, que a ofensa seja de tal forma que não possibilite vingança. … quando um Príncipe está à frente do seu exército, com uma multidão de soldados às suas ordens, então é absolutamente necessário que ele não dê a menor importância à pecha de cruel. É bom que se saiba que existem dois modos de combater: pela lei ou pela força; o primeiro é próprio dos homens; o segundo, das feras; mas como sucede que o primeiro muitas vezes não basta, convém recorrer ao segundo. Em suma: ao Príncipe tudo é permitido, até mesmo a infâmia, a hipocrisia, a crueldade, a mentira, contanto que atinja o seu escopo. Todos os meios que forem por ele utilizados no exercício do poder são admissíveis e justificados. A natureza humana e as circunstâncias de cada momento indicam os meios e os instrumentos de que o Príncipe deve lançar mão. Uma das finalidades que Maquiavel tinha em vista, como já nos referimos, era a de libertar o seu país do domínio externo, porque, diz ele, ad ognuno puzza questo barbaro dominio. Com o pensamento voltado para esse fim, sugeriu o florentino meios imorais, baixos, repugnantes, mas possivelmente adequados ao momento histórico. Sobretudo, condizentes com a natureza humana, pois o próprio escritor afirmou que os seus conselhos perderiam a razão de ser, se porventura todos os homens fossem bons. O brilhante sociólogo e publicista cearense, Abelardo Montenegro, em sua monografia Maquiavel e o Estado, focalizando a obra de Maquiavel pelo ângulo acima referido, observa, com razão, que “ele não firmou princípios para todos os séculos e para todos os homens. A generalidade dos seus princípios subordinava-se à permanência daqueles fatores que o levaram a fazer tal inferência. Enquanto os homens forem maus, quem quiser conservar o Estado terá que agir conforme sua preconização. E os séculos posteriores deram razão ao escritor florentino”. Sem embargo de ter sido o teórico do absolutismo monárquico, Maquiavel é considerado o fundador da ciência política moderna, pois as suas obras contêm os princípios doutrinários sobre os quais o Estado moderno assentou as suas bases. Para Maquiavel toda organização política tem que partir do fato de que todos os homens são fundamentalmente maus; e essa é a razão por que a sua doutrina escandaliza os coevos quando liberta o Príncipe dos laços morais, desde que esteja em jogo o interesse do Estado — acentua Abelardo Montenegro. Com efeito, entre as filosofias de Hobbes e Rousseau, diametralmente opostas no tocante à natureza humana, o pensamento político moderno inclina-se indisfarçavelmente para a teoria do homo homini lupus… que parece mais conforme com a realidade e também com os pressupostos legais que orientam a estrutura jurídica do Estado moderno. Repelem-se o Leviatã e O príncipe, pelo seu realismo chocante, no plano doutrinário, quando é certo que por eles se orientam os próprios Estados democráticos. É que nestes a prepotência se exerce em nome da liberdade. Talvez haja razão no que foi dito por Maquiavel: o vulgo só se impressiona com as aparências; e o vulgo é quem faz o mundo. Essa verdade, aliás, foi desprezada pelo escritor, em relação à sua obra. Se ela teve acolhida nos meios científicos, pelo seu conteúdo, a ponto de ser considerada como marco inicial do direito público moderno, o vulgo a condenou pelas aparências, pelos exageros da linguagem e pelo seu acentuado teor de cinismo. Se os mesmos princípios fossem enunciados com um certo eufemismo o autor não seria tão maquiavélico como parece… No que tange à atuação do Príncipe ou governante para defender e conservar a vida do Estado, onde a linguagem do escritor florentino é mais revoltante, os princípios traçados correspondem com a realidade. Já diziam os romanos que salus publica suprema lex est. E o Padre Antônio Vieira, em uma das fulgurações do seu gênio, pronunciou esta frase lapidar: os reinos, não os pesa a Justiça na balança; mede-os na espada. Muitos escritores, finalmente, exaltam a doutrina de Maquiavel como “a mais bela e a mais plena afirmação da moralidade política”, como vemos em Carlo Curcio (La modernità de Machiavelli). Essa doutrina não foi somente o sustentáculo do absolutismo monárquico que surgiu no limiar do mundo moderno. Em pleno século XX refloriu nos Estados autoritários. O próprio Mussolini, escrevendo Prelúdios a Maquiavel, em 1924, disse que no Estado fascista o maquiavelismo estava mais vivo do que na época do seu aparecimento. XXV EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VII 1. O absolutismo monárquico. 2. Escritores da Renascença. 3. John Locke e a reação antiabsolutista. 1. O ABSOLUTISMO MONÁRQUICO A supremacia do Papado sobre os monarcas, que marcou uma das principais características do Estado medieval, atingiu as raias do absolutismo, provocando a reação violenta do poder temporal. Aliás, no seio da própria cristandade formou-se a corrente reacionária, de fundo liberal-religioso, cristalizado na Reforma, sob inspiração e liderança de Luthero e Calvino. No campo propriamente político, principalmente, as pregações racionalistas dos escritores da Renascença levaram os titulares coroados dos grandes impérios a uma solução extremada, consistente na concentração de todos os poderes, de modo absoluto, nas mãos do monarca. Terminada, assim, a Idade Média, instituiu-se, por força das circunstâncias, o monarquismo absolutista, que corresponde a uma época de transição para os tempos modernos. Enquanto o velho edifício feudal se vai desmoronando aos poucos, surgem as monarquias absolutistas em Espanha, França, Prússia, Áustria etc. Mesmo nos países de mais firmes tradições católicas, ganha terreno o monarquismo absolutista. Na própria Rússia forma-se a monarquia absoluta com a dinastia dos Romanofs. O fortalecimento do poder central era o único meio de se restabelecer a unidade territorial dos reinos. Sem a concentração de poderes, ou seja, fora da ideia do absolutismo monárquico, não havia possibilidade de se promover a unidade nacional dentro do Estado moderno. Tanto assim que onde tal fenômeno não se positivou o Estado se dividiu, como ocorreu, por exemplo, na Alemanha e na Polônia. A Monarquia absoluta assentava-se sobre o fundamento teórico do direito divino dos reis, com evidentes resquícios das concepções monárquicas assírias e hebraicas. A autoridade do soberano era consideradacomo de natureza divina e proveniente diretamente de Deus. O poder de imperium era exercido exclusivamente pelo Rei, cuja pessoa era sagrada e desligada de qualquer liame de sujeição pessoal: “sua soberania é perpétua, originária e irresponsável em face de qualquer outro poder terreno, ainda que espiritual” — doutrinara Bodin. 2. ESCRITORES DA RENASCENÇA Jean Bodin, francês, e Giovanni Botero, italiano, foram os grandes doutrinadores do absolutismo monárquico, no século XVI. Escreveu Bodin uma obra em seis livros intitulada De la République, e Botero escreveu várias obras de destaque, entre as quais Raison d’État, Relations universalles e Des causes de la grandeur et de la magnificence des cités, obras essas consoantes com as prédicas de Maquiavel e que exerceram grande influência no pensamento político da primeira metade do século XVII. Aliás, sem embargo de ter sido membro da ordem dos jesuítas, secretário de São Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão, doutrinou Botero, seguindo as pegadas de Maquiavel, que o Príncipe deve adotar meios que não estão sempre de acordo com a moral evangélica, principalmente quando se trata de combater os hereges. E acrescenta: o Príncipe deve conduzi-los à verdadeira religião, seduzindo-os com favores, e deverá empregar meios violentos quando o favor não der resultado. Tais escritores, partidários do poder absoluto dos reis, são chamados monarcolatros. Nessa corrente, merecem menção Jerônimo Vita, italiano, autor de De optimo statu republicae (1550), François Hotman, francês, autor de Franco Gallia (1573), Buchanan, escocês, autor de De jure regni apud scotos (1600), e Althusius, alemão, autor de Politica metodice digesta (1602). Mesmo entre os jesuítas, além de Botero, existiram monarcolatros, como Suarez, autor de um tratado intitulado De gebus, e Mariana, autor de De rege. As monarquias absolutas, desconhecendo qualquer limitação do poder, chegaram a reduzir a ideia de soberania a um conceito simplista de senhoria real, próprio do mundo feudal (o Rei, individualmente, é o proprietário do Estado). Assim como a propriedade é direito exclusivo do dono sobre a coisa, o poder de imperium é direito absoluto do Rei sobre o Estado. A partir da segunda metade do século XVI, o poder real assume, desta forma, o duplo conceito: de senhoriagem, próprio do feudalismo, e de imperium na significação extremada que lhe davam os antigos imperadores romanos. É o que nos ensina Pedro Calmon, citando Léon Duguit: a realeza que funda o Estado moderno associa as concepções latina e feudal da autoridade — imperium e senhoriagem. Luiz XIV, cognominado Rei Sol, que foi o paradigma dos monarcas absolutos, dizia-se a personificação do Estado — L’Etat c’est moi. E Luiz XV, que o sucedeu, declarou textualmente: nós não temos a nossa coroa senão de Deus e o direito de fazer as leis nos pertence sem coparticipação ou dependência. Idêntica afirmação fizera Carlos I quando levado ao patíbulo pelas forças vitoriosas da revolução de Cromwell: “a liberdade do povo consiste nas leis que lhe assegurem a vida e bens próprios, nunca no direito de se governar por si mesmo. Este direito é do soberano”. 3. JOHN LOCKE E A REAÇÃO ANTIABSOLUTISTA As pregações racionalistas, porém, incutiram no espírito das populações sofredoras e escravizadas uma clara consciência da noção de liberdade, dos direitos intangíveis dos indivíduos, abalando profundamente a estrutura do monarquismo absolutista. Na formação dessa nova mentalidade se destacou a figura gigantesca de John Locke, que prega o antiabsolutismo, a limitação da autoridade real pela soberania do povo, a eliminação dos riscos da prepotência e do arbítrio. Em sua obra Segundo tratado do governo civil, baseada nos princípios liberais da teoria contratualista, prega a distinção entre os poderes Legislativo e Executivo, bem como o direito de insurreição dos súditos. Em caso de conflito entre o poder governante e o povo, deve prevalecer a vontade soberana da comunidade nacional, que é a fonte única do poder. A obra de Locke é a justificação doutrinária da revolução de 1688, e, ao mesmo tempo, o alicerce do magnífico sistema parlamentarista que vigora na Inglaterra desde 1695. O Estado, segundo a doutrina de Locke, resulta de um contrato entre o Rei e o Povo, contrato esse que se rompe quando uma das partes lhe viola as cláusulas. Os direitos naturais do homem são anteriores e superiores ao Estado, por isso que o respeito a esses direitos é uma das cláusulas principais do contrato social. A monarquia absoluta, como forma de governo, desconhecendo limitações de qualquer natureza, é incompatível com os justos fundamentos da sociedade civil. Se os homens adotaram a forma de vida em sociedade e organizaram o Estado, fizeram-no em seu próprio benefício, e não é possível, dentro dessa ordem, que o poder se afirme com mais intensidade do que o bem público o exige. Em sua obra Ensaios sobre o governo civil, considerada como o “catecismo protestante antiabsolutista”, Locke refuta o absolutismo de Filmer, na primeira parte, e na segunda desenvolve a teoria contratualista de Hobbes. Parte das mesmas hipóteses de Hobbes, no tocante ao estado de natureza, porém contesta o princípio bellum omnium contra omnes, chegando, assim, a conclusões diversas. Sustenta que o homem, no estado de natureza, possuía razão e era refreado por sentimentos de equidade. De tal forma, cada homem poderia, se o quisesse, conservar a sua liberdade. Mas, como faltasse uma autoridade capaz de garantir o exercício dos direitos de liberdade, os indivíduos consentiram em se despojar de uma parte dos seus direitos, outorgando ao Estado as faculdades de superintender a ordem civil, julgar e punir os transgressores da lei e promover a defesa externa. Isso foi estabelecido por meio de um contrato social. Consequentemente, os órgãos investidos de autoridade pública não podem abusar dela, uma vez que essa autoridade lhes foi confiada para o fim de proteção dos direitos individuais. Se o governo abusa dessa autoridade, viola o contrato, e, neste caso, o povo reassume a sua soberania originária. Vale dizer que o povo, por conservar a sua vontade, que é intransferível, tem o direito à sublevação. Para Locke a propriedade privada é um direito natural: o Estado não cria a propriedade, mas a reconhece e protege. Em Cartas sobre a tolerância prega Locke a laicização completa do Estado moderno, afirmando que a escolha de uma religião deve ser livre, sem dependência do Estado. O poder civil deve limitar-se às coisas temporais, nada tendo a ver com as religiões. Essa doutrina liberalista, profundamente dignificadora da espécie humana, foi sustentada por inúmeros filósofos, juristas e publicistas dos séculos XVII e XVIII, notadamente por Montesquieu e pelo gênio fulgurante de Rousseau. Estava preparada a resistência invencível, impulsionada pela vontade transcendente das massas sacrificadas, que viria culminar com a revolução francesa, abrindo uma nova era na história da civilização humana. XXVI EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ESTADO — VIII 1. O liberalismo na Inglaterra. 2. América do Norte. 3. França. 4. Declaração dos Direitos Fundamentais do Homem. 1. O LIBERALISMO NA INGLATERRA O liberalismo teve o seu berço na Inglaterra, e, assim, é na história desse país que vamos encontrar as suas origens. O próprio termo liberalismo tem a seguinte origem: O segundo Bill of Rights que o Parlamento impôs à Coroa, em 1689, em um dos seus treze artigos que estabeleciam os princípios de liberdade individual, especialmente de ordem religiosa, autorizava o porte de armaspelos cidadãos ingleses que professavam a religião protestante, para que pudessem defender as suas franquias constitucionais. Foi precisamente esse sistema de liberdade defendida pelas armas que recebeu, na época, a denominação de liberalismo. O absolutismo monárquico, que surgiu no fim da Idade Média e triunfou em todo o continente europeu, procurou instalar-se na Inglaterra com Carlos I, mas ali encontrou a reação de uma consciência liberal já amadurecida, cujo processo de evolução se iniciara com a revolta das baronias em 1215. O sistema inglês era de uma monarquia constitucional, limitada pelo Parlamento como expressão da soberania do povo. Quando Carlos I pretendeu instalar o absolutismo e chegou ao ponto de entrar no Parlamento e prender os líderes da oposição, o movimento revolucionário de Cromwell, que vinha da Escócia, marchou sobre Londres e destronou o Rei. Julgado por um conselho de oficiais, Carlos I foi condenado à morte e executado em 30 de janeiro de 1649. Embora em regime nominalmente republicano, o próprio Cromwell se transformou em ditador absoluto, durante dez anos, tendo dissolvido o Parlamento pela força policial. Em seguida, formou novo Parlamento, que também se opôs ao absolutismo e foi igualmente dissolvido. O terceiro Parlamento continuou a mesma luta do espírito liberal contra as pretensões absolutistas de Cromwell e dos seus sucessores. Três Declarações de Direitos, em 1679, 1689 e 1701, incorporadas ao sistema constitucional inglês, assinalam as principais vitórias do Parlamento, nessa luta de quase um século para refrear os ímpetos absolutistas dos monarcas que pretenderam sustentar o velho princípio da origem divina do poder. Finalmente, no limiar do século XVIII, consolidou-se naquele país o princípio da monarquia de direito legal, com os seus corolários: tripartição do poder, sistema representativo, preeminência da opinião nacional e intangibilidade dos direitos fundamentais do homem. Especificando certos direitos essenciais, o Bill of Rights de 1689 firmou os seguintes princípios: o Rei não pode, sem consentimento do Parlamento, cobrar impostos, ainda que sob a forma de empréstimos ou contribuições voluntárias; ninguém poderá ser perseguido por haver-se recusado ao pagamento de impostos não autorizados pelo Parlamento; ninguém poderá ser subtraído aos seus juízes naturais; o Rei não instituirá, em hipótese alguma, jurisdições excepcionais ou extraordinárias, civis ou militares; o Rei não poderá, em caso algum, fazer alojar em casas particulares soldados de terra ou mar etc. 2. AMÉRICA DO NORTE Tais princípios, que mais tarde passariam a figurar nas Constituições de todos os Estados liberais, refletiram-se primeiramente na América do Norte, sendo proclamados na Declaração de Virgínia, em 1776, na Constituição Federal de 1787 e em todas as Constituições estaduais das antigas colônias inglesas que compuseram a federação norte-americana. Foi sob a influência das ideias liberais irradiadas da metrópole que os povos norte-americanos, na declaração conjunta de independência, em data de 4 de julho de 1776, consignaram esta magnífica súmula dos ideais que nortearam a sua arrancada heroica pela independência e pela liberdade: Cremos axiomáticas as seguintes verdades: que os homens foram criados iguais; que lhes conferiu o Criador certos direitos inalienáveis, entre os quais o de vida, o de liberdade e o de procurarem a própria felicidade; que para a segurança desses direitos se constituíram entre os homens governos, cujos justos poderes emanam do consentimento dos governados; que sempre que qualquer forma de governo tenda a destruir esses fins assiste ao povo o direito de mudá-la ou aboli-la, instituindo um novo governo cujos princípios básicos e organização de poderes obedeçam às normas que lhe pareçam mais próprias a promover a segurança e a felicidade gerais. Precisamente quando o governo, desnaturado pelos arroubos absolutistas de Jorge III, espezinhava os direitos dos seus súditos americanos, impondo tributos escorchantes e exercendo violências policiais, o povo das treze colônias, já entusiasmado pelas ideias republicanas que Lafayette viera pregar no novo mundo, valeu-se do direito de rebelião proclamado na doutrina de John Locke: quando um governo se desvia dos fins que inspiraram a sua organização, assiste ao povo o direito de substituí-lo por outro condizente com a vontade nacional. A justificação doutrinária da guerra pela emancipação, redigida por Jefferson, contém os fundamentos da filosofia política norte-americana. 3. FRANÇA O liberalismo ganhava terreno, ao mesmo tempo, na França, sob a liderança de Montesquieu, Voltaire, D’Argenson e outros que formariam a famosa corrente dos enciclopedistas. Helvetius, Holbach, Mably, Condorcet e inúmeros outros revolucionários, empolgados principalmente pelo gênio fulgurante de Rousseau, abriram ao homem a estrada larga da democracia que deveria levar o povo escravizado a um mundo novo e melhor. A França, que era a caldeira fervente das ideias liberais, estava destinada a conseguir a vitória das ideias democráticas para si e para o mundo inteiro. A monarquia absolutista dos Bourbons mantinha a divisão social em três classes — Nobreza, Clero e Povo — ou Três Estados, cada qual com as suas leis, a sua justiça e o seu sistema tributário. A nobreza e o alto clero, somando menos de dez por cento da população francesa, desfrutavam de todos os privilégios e eram os sustentáculos ativos da legitimidade aristocrático- monárquica, enquanto o povo se arrastava na escravidão e na miséria, ao lado do fabuloso esplendor das Cortes. A monarquia absolutista deixara de convocar a Assembleia dos Três Estados, desde 1614, suprimindo, assim, qualquer participação ou ação fiscalizadora do Terceiro Estado no plano governamental. A partir de 1750, intensificou-se a luta subterrânea do princípio democrático contra o regime dominante. Em 1786 o Rei transigiu em parte, convocando a Assembleia dos Notáveis para uma reforma fiscal. Já então Luiz XVI reconhecia que a sua posição se tornara insustentável, e o seu ato foi motivo de blague entre o povo: dizia-se abertamente nas ruas que le roi donne sa demission… A convocação da Assembleia dos Notáveis não produziu efeito no espírito público, porque esse órgão não representava o povo, e porque a reforma fiscal só podia ser consentida pelos Três Estados. Em 17 de junho de 1789 a Assembleia do Terceiro Estado decidiu chamar-se Assembleia Nacional, enfrentando corajosamente o poder real. Era o início da revolução. A 14 de julho o povo apoderou-se da Bastilha, que era considerada como símbolo do absolutismo. Em seguida, a Assembleia Nacional assumiu o poder constituinte, empenhando-se na elaboração da Carta Constitucional da República. A revolução popular de 1789, baseada nas ideias liberais do século XVIII, nivelou os Três Estados, suprimiu todos os privilégios e proclamou o princípio de soberania nacional. Foram estas as máximas da revolução: todo governo que não provém da vontade nacional é tirania; a nação é soberana e sua soberania é una, indivisível, inalienável e imprescritível; o Estado é uma organização artificial, precária, resultante de um pacto nacional voluntário, sendo o seu destino o de servir ao homem; o pacto social se rompe quando uma parte lhe viola as cláusulas; não há governo legítimo sem o consentimento popular; a Assembleia Nacional representa a vontade da maioria que equivale à vontade geral; a lei é a expressão da vontade geral; o homem é livre, podendo fazer ou deixarde fazer o que quiser, contanto que a sua ação ou omissão não seja legalmente definida como crime; a liberdade de cada um limita-se pela igual liberdade dos outros indivíduos; todos os homens são iguais perante a lei; o governo destina-se à manutenção da ordem jurídica e não intervirá no campo das relações privadas; o governo é limitado por uma Constituição escrita, tendo esta como partes essenciais a tripartição do poder estatal e a declaração dos direitos fundamentais do homem etc. Instituía-se assim o Estado liberal, baseado na concepção individualista. 4. DECLARAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DO HOMEM Com tal orientação político-filosófica, a Assembleia Nacional proclamou imediatamente a célebre Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, encimada pelo seguinte preâmbulo: Os representantes do povo francês, constituídos em Assembleia Nacional, considerando que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos governos, resolveram expor, numa declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis, e sagrados do homem… O povo, que constituía o Terceiro Estado no ancien regime, assumiu o poder, representado pela Assembleia Nacional que elaborou e promulgou a primeira Constituição da República em 1791. Em decorrência das contrarrevoluções que se registraram no conturbado panorama francês, no fim do século XVIII e começo do século XIX, outras Constituições foram promulgadas, sendo a segunda a Constituição girondina de 1793. Todas as Cartas Magnas do Estado liberal implantado pela revolução francesa inseriram com destaque o conceito altissonante do primeiro dos direitos naturais e sagrados do homem, o direito de liberdade, que consiste em poder fazer tudo o que não for contrário aos direitos de outrem. Não cogitaram essas Constituições dos direitos sociais, nem dos deveres dos indivíduos para com a sociedade. Essa preocupação individualista, como adiante veremos, levaria o Estado liberal à decadência. A partir da Constituição de 4 de junho de 1814, os direitos do homem passaram a receber definições mais racionais e objetivas, de modo que foi esse diploma político o modelo mais adequado das Constituições de todos os Estados liberais. Os direitos do homem — inatos, inalienáveis, irrenunciáveis e imprescritíveis, anteriores e superiores ao próprio Estado — foram catalogados sob uma tríplice divisão: a) direitos políticos (de cidadania); b) direitos públicos, propriamente ditos (civis positivos); e c) direitos de liberdade (civis negativos). Esses últimos são exatamente os direitos fundamentais do homem, que justificam a sua livre atividade no mundo exterior, sem limites outros que não sejam as justas restrições consignadas na Constituição e nas leis ordinárias complementares. O governo da Assembleia Nacional, convivendo com a Coroa, não logrou consolidar-se nem estabelecer a paz interna. A Convenção, que sucedeu a Assembleia, levou a feito a execução dos soberanos destronados e, praticamente, implantou o terror, temendo a reação que se esboçava no seio da Nobreza e do Clero, pois estes desfrutavam ainda de largo prestígio e ameaçavam a sobrevivência da ordem liberal. Foi assim que o governo sanguinário da Convenção, em nome da liberdade, cometeu toda sorte de injustiças e violências, as quais levaram de roldão as cabeças dos próprios líderes proeminentes como Danton, Saint Just, Herbert, Camile Desmolins e muitos outros, inclusive o próprio Robespierre. A Constituição do Ano III criou o governo do Diretório, com o Conselho dos 500 e o Conselho dos Anciãos, este à maneira do antigo Senado Romano. Foi esse o governo de uma oligarquia mascarada, na expressão de Albert Vandal. A violência da revolução e das contrarrevoluções impedia a consolidação da ordem republicana. Em curtos intervalos o Estado liberal francês modificou várias vezes as ideias místicas que lhe serviram de fomento doutrinário. Thiers assim resume os primeiros estágios dessa evolução: 1789, liberdade; 1800, grandeza; 1815, paz e ordem. Nesse período, entre 1791 e 1814, teve a França dez Constituições. O governo do Diretório foi dissolvido pelo exército, que impôs um Triunvirato de Cônsules. Napoleão Bonaparte, primeiro Cônsul, fez-se Cônsul decenal, depois vitalício, e, afinal, imperador, restabelecendo, assim, o absolutismo de Luiz XIV, com apenas a diferença de que o Rei Sol proclamava que a sua majestade provinha de Deus, enquanto Napoleão se dizia investido da realeza pelo povo. Embora repelindo qualquer limitação do poder, Napoleão insistia em dar ao seu império o aspecto constitucional. A derrota de Napoleão e a consequente invasão da França pelas tropas de Wellington e Blutcher ocasionaram a restauração dos Bourbons: Luiz XVIII assume o poder, porém como rei constitucional, sendo sucedido por Carlos X (Conde de Artois). A nova revolução popular de 1830 elevou ao poder o Duque de Orleans, sucedido pelo inteligente e magnânimo Luiz Felipe até que, em 1848, foi instaurada a Segunda República, cabendo a presidência ao Príncipe Luiz Napoleão, que governou durante vinte e dois anos, embora com acentuada prepotência. A república de 1848 caminhou desde logo para a formação do Segundo Império, reeditando as aventuras guerreiras de Bonaparte e levando o país à catástrofe militar de Sedan (1870), quando o povo, a grande massa espoliada, já se empenhava em nova luta pela liberdade, agora contra as forças escravizadoras geradas pelo próprio liberalismo. XXVII A DECADÊNCIA DO LIBERALISMO 1. O Estado liberal, seus erros e sua decadência. 2. A encíclica “Rerum Novarum” — Doutrina Social da Igreja. 3. O Estado evolucionista. 1. O ESTADO LIBERAL, SEUS ERROS E SUA DECADÊNCIA O Estado liberal, marcando o advento dos tempos modernos, correspondia nos seus lineamentos básicos com as ideias então dominantes. Era a realização plena do conceito de direito natural, do humanismo, do igualitarismo político que os escritores do século XVIII deduziram da natureza racional do homem, segundo a fórmula conclusiva de que “os homens nascem livres e iguais em direitos; a única forma de poder que se reveste de legitimidade é a que for estabelecida e reconhecida pela vontade dos cidadãos”. Quer sob a forma de monarquia constitucional, quer sob a forma republicana, a organização traduzia os ideais que empolgaram o mundo ao tempo das revoluções populares inglesa, norte-americana e francesa: soberania nacional, exercida através do sistema representativo de governo; regime constitucional, limitando o poder de mando e assegurando a supremacia da lei; divisão do poder em três órgãos distintos (Legislativo, Executivo e Judiciário) com limitações recíprocas garantidoras das liberdades públicas; separação nítida entre o direito público e o direito privado; neutralidade do Estado em matéria de fé religiosa; liberdade, no sentido de não ser o homem obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; igualdade jurídica, sem distinção de classe, raça, cor, sexo, ou crença; igual oportunidade de enriquecimento e de acesso aos cargos públicos, às conquistas da ciência e à cultura universitária; não intervenção do poder público na economia particular… Era esse, pelo menos, o arcabouço teórico do Estado liberal. Entretanto, estava muito longe de corresponder essa teoria com a realidade. Assim como a República de Platão, que fora arquitetada no mundo das ideias, o Estado liberal seria realizável, como se disse algures, numa coletividade dedeuses, nunca numa coletividade de homens. Empolgados pelas novas ideias racionalistas, fortemente sedutoras mas impregnadas de misticismo, os construtores do Estado liberal perderam de vista a realidade. Desconheceram (e isto foi o seu maior erro) uma das mais importantes revoluções que a história política do mundo registra — a revolução industrial —, que se iniciara na Inglaterra em 1770 e que modificaria fatalmente a realidade social em todos os países, criando problemas até então desconhecidos, mas perfeitamente previsíveis. Processada à ilharga da revolução popular francesa, continuaria pelos tempos modernos a hostilizar cada vez mais o Estado liberal, minando os alicerces da sua estrutura. Em verdade, o liberalismo que se apresentara perfeito na teoria bem cedo se revelou irrealizável por inadequado à solução dos problemas reais da sociedade. Converteu-se no reino da ficção, com cidadãos teoricamente livres e materialmente escravizados. A revolução industrial apresentara ao mundo um novo tipo de homem até então desconhecido: o operário de fábrica. O aparecimento das máquinas produziu o desemprego em massa. Cada nova máquina introduzida na organização industrial jogava à rua centenas de milhares de empregados. O trabalho humano passa a ser negociado como mercadoria, sujeito à lei da oferta e da procura. O operário se vê compelido a aceitar salários ínfimos e a trabalhar quinze ou mais horas por dia para ganhar o mínimo necessário à sua subsistência. A mulher deixa o lar e procura no trabalho das fábricas um reforço ao salário insuficiente do marido. As crianças não podem frequentar as escolas e são atiradas ao trabalho impróprio, prejudicial à sua formação física e moral, na luta pela subsistência que o pai não pode prover. E, assim, o liberalismo trazia mais no seu bojo, inconscientemente, a desintegração da família. Quando colhido pela doença ou pela velhice quase sempre precoce, outra alternativa não restava ao operário senão estender a mão à caridade pública. Por outro lado, o contraste era chocante: fortunas imensas se acumulavam nas mãos dos dirigentes do poder econômico; o luxo, a ostentação, a ânsia irrefreada de ganhar cada vez mais criaram o conflito entre as classes patronais e assalariadas. Organizaram-se as grandes empresas, os trusts, os cartéis, os monopólios e todas as formas de abuso do poder econômico, acentuando-se cada vez mais o desequilíbrio social. E o Estado liberal a tudo assiste de braços cruzados, limitando-se a policiar a ordem pública. É o Estado-Polícia (L’Etat Gendarme). Indiferente ao drama doloroso da imensa maioria espoliada, deixa que o forte esmague o fraco, enquanto a igualdade se torna uma ficção e a liberdade uma utopia. Sem dúvida, eram anti-humanos os conceitos liberais de igualdade e liberdade. Era como se o Estado reunisse num vasto anfiteatro lobos e cordeiros, declarando-os livres e iguais perante a lei, e propondo-se a dirigir a luta como árbitro, completamente neutro. Perante o Estado não havia fortes ou fracos, poderosos ou humildes, ricos ou pobres. A todos, ele assegurava os mesmos direitos e as mesmas oportunidades… Ressalta à evidência a desumanidade daqueles conceitos, porque os indivíduos são naturalmente desiguais, social e economicamente desiguais, devendo, por isso, ser tratados desigualmente, em função do justo objetivo de igualizá-los no plano jurídico. Além disso, não basta que o Estado proclame o direito de liberdade, é preciso que ele proporcione aos cidadãos a possibilidade de serem livres. Em menos de meio século, tudo o que o liberalismo havia prometido ao povo redundou em conquistas e privilégios das classes economicamente dominantes. As multidões espoliadas, oprimidas, sem lar, sem agasalhos, sem pão, sem a fé em Deus, que o infortúnio faz desaparecer do coração dos homens, começam a reagir violentamente contra as injustiças sociais, já agora arregimentadas sob a bandeira do socialismo materialista, levando o Estado liberal ao dilema de reformar-se ou perecer. 2. A ENCÍCLICA “RERUM NOVARUM” — DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA Foi nessa gravíssima situação, nessa perigosa encruzilhada dos destinos humanos, que surgiu uma manifestação formal, clara e positiva, da Igreja Romana, através da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, em 15 de maio de 1891, traduzida literalmente como Das Coisas Novas. Essa encíclica, na prática, iniciou a sistematização do pensamento social católico recebendo o título de Doutrina Social da Igreja. Traçou o Sumo Pontífice um quadro fiel da angustiante situação, analisou as suas causas determinantes e apontou, com segurança e descortínio, os rumos pelos quais se salvaria a nau do Estado democrático prestes a naufragar em mar tempestuoso. Refutando os princípios do coletivismo materialista e colocando a pessoa humana no lugar que lhe compete como criatura de Deus, verberou o Santo Papa o fato de se apresentarem de um lado a onipotência na opulência, uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, torce o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais; facção que, aliás, tem nas mãos mais de um motor da administração pública; de outro lado, a fraqueza na indigência, uma multidão com a alma ulcerada, sempre pronta para a desordem. Acentua-se que pouco a pouco os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cupidez de uma desenfreada concorrência. Deve-se acrescentar o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornam o quinhão de um pequeno número de ricos e de opulentos, os quais exercem um jugo quase servil sobre a imensa multidão dos proletários. Depois de condenar fundamentalmente o extremismo marxista, propõe o Santo Papa as medidas necessárias ao restabelecimento do equilíbrio social, tais como: fixação de um salário mínimo compatível com a dignidade humana, limitação das horas de trabalho, regulamentação do trabalho da mulher e dos menores, amparo à gestação e à maternidade, direito de férias, indenização por acidentes, amparo à velhice, assistência nos casos de doen- ças, organização da previdência social etc. O que é vergonhoso e desumano — acentua Leão XIII — é usar dos homens como vis instrumentos de lucro e não os estimar senão na proporção do vigor de seus braços. Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário, ou do de sua família, nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências impõem à sua pessoa. Mas desde que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres. Inegavelmente, foi a encíclica Rerum Novarum um farol luminoso a dissipar as trevas que envolviam a realidade social. Alertado por esse valioso documento histórico, o Estado liberal passou a intervir no setor econômico, procurando conjurar o perigo que o ameaçava. Depois de quarenta anos foi a grande encíclica reafirmada e atualizada pela Quadragesimo Anno (No Quadragésimo Ano), de Pio XI, e, depois de 80 anos, pela Octogesima Adveniens (Chegando a Octogésima), de Paulo VI, continuando pelos tempos presentes e vindouros como eterno luzeiro da humanidade. A Doutrina Social da Igreja, embora não tenha finalidade política, constitui importante fonte de inspiração para os cristãos, abordando o pensamento católico sobre os mais importantes temas que afligem atualmente o mundo globalizado, como trabalho e família, função social do Estado, iniciativa privada, participação na vida social e política, democracia, respeito humano, entreoutros. Compõem a Doutrina Social da Igreja, além das encíclicas já citadas, numerosos outros documentos papais, destacando-se, na atualidade, as Encíclicas de Bento XVI: Deus Caritas Est, de 2005, dirigida aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, e Caritas in Veritate, de 2009, tratando de temas socioeconômicos no mundo globalizado. Destacam-se, também: Mater et Magistra, de 1961, e Populorum Progressio, de 1967, ambas de João XXIII; Laborem Exercens, de 1981, e Centesimus Annus, de 1991, ambas de João Paulo II, esta última logo após a Queda do Muro de Berlim. 3. O ESTADO EVOLUCIONISTA Se a função primordial do Estado consiste em assegurar condições gerais de paz social e prosperidade pública, cumpre-lhe, efetivamente, intervir na ordem socioeconômica, impor restrições ao capital, prevenir os litígios, remover as injustiças, edificar um mundo melhor onde a felicidade seja possível a todos os homens e o império da justiça seja uma realidade. Cumpre-lhe substituir o lema ortodoxo fiat justitia pereat mundus por uma divisa mais consentânea com o mundo moderno: fiat mundus, pereat justitia. A crítica demonstrou sempre, e com exuberante evidência, a inconsistência dos princípios teóricos do liberalismo, mas não chegou ainda a uma conclusão definitiva quanto à solução do problema. O socialismo comunista, de um lado, o fascismo e o nazismo, de outro lado, foram as mais destacadas tentativas de reestruturação básica do Estado moderno. O comunismo russo surgiu como uma solução extremista, diametralmente oposta ao liberalismo, enquanto o fascismo e o nazismo foram movimentos de dupla reação, contra a decadência liberal e contra os excessos do monismo estatal russo. Todos esses movimentos reacionários, entretanto, importam, praticamente, numa transposição dos erros do liberalismo para o plano coletivista. Não resolvem os inconvenientes do regime capitalista, que apenas se deslocam para a direção estatal, como se observa no mundo soviético. De qualquer forma, ameaçado pelas duas extremas totalitárias, o Estado liberal foi colocado ante o dilema de reformar-se ou perecer. Efetivamente, onde ele permaneceu fraco e inerte, ocorreu a transformação violenta, surgindo o Estado revolucionário, como na Rússia, na Itália, na Alemanha, na Polônia e em vários países, como analisaremos nos capítulos seguintes. Quando não, o Estado liberal se transformou de maneira pacífica evoluindo para a forma social-democrática, através de reformas constitucionais e medidas legislativas. Tornou-se evolucionista, intervindo na ordem econômica, colocando-se como árbitro nos conflitos entre o capital e o trabalho, superintendendo a produção, a distribuição e o consumo. Como veremos oportunamente, o Estado social-democrático, evolucionista, procura harmonizar as verdades parciais e inegáveis que existem tanto no individualismo como no socialismo. É o Estado-eclético, o Estado-composição entre as verdades eternas do individualismo e os imperativos da realidade sócio-ético-econômica do mundo moderno. XXVIII REAÇÃO ANTILIBERAL 1. O socialismo e a revolução russa. 2. O Estado soviético. 3. Observações. 4. Criação da CEI. 1. O SOCIALISMO E A REVOLUÇÃO RUSSA A primeira reação antiliberal organizada foi o socialismo. Sua doutrinação começou no campo literário, no século XVIII, intensificando-se logo depois da implantação do Estado liberal, a par com a crítica da revolução francesa, até atingir o seu clímax com o Manifesto comunista de Marx e Engels, em 1848. Até então, as ideias socialistas ou comunistas (ambas tinham o mesmo sentido) permaneciam no plano literário. Era o socialismo utópico, como agora se denomina. No terreno político, confundiam-se socialistas e anarquistas, por esposarem a mesma ideia da extinção do Estado, tanto que os principais líderes socialistas que doutrinaram em Paris nos meados do século XIX foram Louis Blanc, Joseph Proudhon, Miguel Bakunin, Natal Babeuf e outros qualificados por alguns autores como expoentes do anarquismo. Desse mesmo grupo heterogêneo, aliás, saíram Marx e Engels. A partir da segunda metade do século XIX as correntes socialistas se cristalizaram no marxismo, que dá início ao chamado socialismo científico. A obra de Marx, intitulada O Capital, condensa a doutrina marxista, enquanto o Manifesto comunista, assinado por Marx e Engels, foi o grito de guerra que ecoou pelo mundo inteiro, inspirando o socialismo revolucionário, e com este o socialismo de Estado. As ideias marxistas proliferaram como sementeira lançada em terreno fértil. O Estado liberal, eivado de erros doutrinários, superado pelas realidades sociais, se tornara impotente para resolver o conflito, cada vez mais grave, entre as classes obreiras e patronais. Tal situação se agravara de maneira alarmante nos primeiros anos do século XX, ameaçando a estabilidade dos governos democráticos, os quais passaram a adotar medidas excepcionais de autodefesa. A guerra de 1914-1918, chamando aos setores da defesa externa as forças militares e as atenções dos estadistas, criou ambiente propício à transformação violenta da ordem constituída. Foi o que ocorreu na Rússia: enquanto o grosso do exército se desviara para as frentes de batalha, sofrendo os reveses impostos pelas armas alemãs, encontrando-se o país desorganizado, debatendo-se numa tremenda crise social e econômica, valeu- se a corrente socialista da confusão reinante, para suprimir a velha autocracia dos Czares. A revolução que se desencadeia nos centros industriais de Petrogrado e Moscou é inspirada no Manifesto comunista, tendo por objetivo a inversão fundamental da ordem política, com a destruição da sociedade burguesa, a abolição da propriedade privada, a nacionalização das fontes de produção e a instauração da ditadura do proletariado. Vitoriosa a revolução, abdicou o Czar em 15 de março de 1917. De acordo com o Comitê Executivo, a Duma nomeou o governo provisório, composto de representantes de todos os partidos. Tal solução de emergência, porém, não contentou o Conselho de Operários e Soldados, o que levou a assumir o poder o chefe do Partido Socialista Revolucionário, Kerenski, que foi um dos vultos mais proeminentes e de real mérito em toda a história da revolução russa. A princípio a revolução socialista caminhava num sentido mais ou menos horizontal, tendendo para a estruturação de um Estado liberal proletarista, mas o governo provisório era idealista e fraco, o que permitiu que as correntes extremistas desfechassem a contrarrevolução e organizassem o sovietismo. Contra o Partido Socialista Revolucionário levantara-se o Partido Operário Russo Social-Democrático, que desde logo se viu dividido em duas facções: Menchevique e Bolchevique. O grupo Bolchevique (maioria), dirigido por Wladimir Ilitch Ulianov, conhecido mundialmente pelo nome de Lenin, apoderou-se do governo através da sua Guarda Vermelha, sob o comando de Trotsky, em novembro de 1917. Assumiu o poder o Conselho de Operários, sob a denominação Congresso Nacional de Operários, Camponeses e Soldados, confiando-se o poder executivo a um Conselho de Comissários do Povo, sob a presidência de Lenin. O Estado, que se diz comunista, anuncia a nova ordem como ditadura do proletariado. Em verdade, porém, é a ditadura do Partido Bolchevista que se instaura, inaugurando o reino do terror: eliminação sumária dos adversários, luta feroz pelo extermínio da religião, estatização da economia, subordinação da justiça ao controle do executivo, concentração de poderes nas mãos do Presidente do Conselho e um simulacro de representação, consistente emconselhos, comitês, comissariados etc., cujos membros são eleitos segundo a vontade do partido único. A convocação de uma Assembleia Constituinte, prevista e anunciada pela revolução bolchevista, realizou-se efetivamente, logo em dezembro de 1917, mas como Kerensky obtivesse esmagadora maioria, a Constituinte foi dissolvida por decreto de Lenin, em 18 de janeiro de 1918. O comunismo de guerra, que se instaura, passa por sucessivas modificações, para dar lugar à chamada Nova Política Econômica, cujo arcabouço vem delineado nas Leis Fundamentais de 1918, 1925 e 1936. Sucederam-se as medidas governamentais de alcance econômico, tais como a abolição da propriedade da terra, a nacionalização dos bancos, a organização do comércio privado etc. Em fevereiro de 1918 foi criado o Exército Vermelho de Operários e Camponeses. Em março foi transladada a capital, de Petrogrado para Moscou. Em julho o Partido Bolchevista determinou a execução do Czar e de toda a família imperial. Durante o período do comunismo de guerra, Lenin enfrentou com pulso de aço a guerra civil, o bloqueio estrangeiro, a desarticulação completa da indústria, do comércio, da lavoura, de todas as fontes de produção, sobretudo a calamidade da fome. Depois de 1921 entra o país numa fase de recuperação nacional, com o renascimento da indústria, a organização dos sindicatos, a fundação do Banco do Estado etc. Na ordem jurídica, foi promulgada a Declaração de Direitos do Povo Operário e Explorado, publicado o Código Civil, sendo ainda elaboradas diversas leis fundamentais. 2. O ESTADO SOVIÉTICO Segundo a Lei Fundamental de 1923, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) era um tipo sui generis de confederação ou federação de Estados, visando uma cooperação efetiva de nações diversas para a manutenção da ordem socialista. A sua configuração política compreendia vários círculos autônomos, hierarquizados, tendo como órgão supremo o Congresso dos Soviets, composto de duas câmaras: o Soviet Federal e o Soviet das Nacionalidades. O Soviet Federal (ou Soviet da União) era composto de representantes do povo, eleitos por quatro anos, na proporção de 1 por 25.000 habitantes. O Soviet das Nacionalidades, equivalente ao Senado dos Estados democráticos federativos, era composto de representantes das Repúblicas soviéticas unidas. O Partido Bolchevista, ou Comunista, partido único, era o supervisor máximo de toda a organização política, social, econômica, administrativa e jurídica. A lei, em última análise, era uma expressão da vontade do partido. O mais alto posto de todos os departamentos estatais era ocupado pelo chefe do partido dominante. Em resumo, eram características essenciais do Estado socialista russo: a) partido único; b) ditadura classista; c) governo coletivista integral e materialista; d) concentração de poderes no órgão executivo; e) eliminação da propriedade privada; f) estatização integral da economia; g) nacionalização das fontes de produção; h) imperialismo internacionalista. 3. OBSERVAÇÕES Segundo o ideal comunista, o Estado seria um mal necessário, uma organização transitória, devendo extinguir-se por etapas. Atingido o estágio superior da ordem comunista, extinguir-se-ia o governo de pessoas, para dar lugar a um sistema de simples administração das coisas comuns. Até 1936, pelos menos, essa era a doutrina. O Estado desapareceria como consequência do nivelamento das classes. Suprimidas estas, ao ser atingido o estágio superior da ordem comunista, cessariam as lutas, e com elas, a razão de ser do Estado. Posteriormente, porém, o bolchevismo resolveu cancelar essa parte programática, mandando liquidar sumariamente os que a defendiam, notadamente o líder Pashunkanis, que foi um dos mais destacados teóricos do comunismo. Assim, o sovietismo, firmando-se como uma ditadura classista, é uma negação do ideal comunista. Tornou-se ainda uma negação do marxismo, desde que se degenerou num sistema de capitalismo de Estado e numa ditadura que Marx só previa como período de transição para a implantação da ordem socialista ideal. A ideologia soviética se diz essencialmente dinâmica; seria uma Revolução em marcha. Por isso mesmo estaria sujeita a contínuas transformações, para atender aos novos fatores e adaptar-se aos novos fenômenos sociais. A tática de recuos, disse Lenin, faz parte dessa revolução em marcha para a conquista do mundo. O Estado soviético era essencialmente ecumênico, transcendendo do campo interno para o internacional; pregava a união dos trabalhadores do mundo inteiro, açulando as reivindicações proletárias além das suas fronteiras e criando uma atmosfera de instabilidade e de agitação social, como convinha aos seus objetivos de expansão. Nos últimos anos, porém, a história registrou a falência do modelo marxista corporificado pela extinta URSS. Mikhail Gorbachev assumiu em março de 1985 a secretaria geral do Partido Comunista, disposto a modernizar o modelo então vigente, cujos sinais de exaustão já eram mais do que visíveis. Lançou, logo nos meses seguintes, o programa da “Perestroika” (reestruturação) e da “Glasnost” (transparência), compromissos de reforma da economia e das estruturas políticas. Em outubro de 1988, ampliou o seu poder político e foi eleito Presidente da URSS, cargo que em maio de 1989 acumulou com a presidência do novo Parlamento Soviético. Em fevereiro de 1990, o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) renuncia ao monopólio do poder, ao mesmo tempo em que começam a cair governos comunistas de países vizinhos do Leste Europeu. Em 19 de agosto de 1991 ocorre uma tentativa frustrada de golpe por parte dos setores militaristas ortodoxos da URSS. Esse golpe frustrado acaba por consolidar os poderes políticos dos reformistas mais radicais, liderados por Boris Yeltsin, primeiro presidente da Rússia eleito por voto direto em junho de 1991, e precipita irremediavelmente o fim do modelo marxista então praticado e da própria URSS. 4. CRIAÇÃO DA CEI Uma das primeiras manifestações da desintegração da URSS aconteceu em 11 de março de 1990, com a declaração de independência da Lituânia, seguida em 1991 pelas da Geórgia, Estônia, Letônia, Ucrânia e demais Estados. Em 8 de dezembro, os Presidentes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, reunidos nos arredores da cidade bielorussa de Brest, firmaram o documento de criação da Comunidade dos Estados Independentes — CEI, no modelo confederativo, oferecendo-o para a adesão das demais repúblicas, numa ação direta e decisiva contra a estrutura da URSS, ainda comandada por Mikhail Gorbachev. Com a adesão de mais nove Estados aos princípios ali expostos, consolidando a nova Confederação, e sem outra alternativa, a 25 de dezembro de 1991 Gorbachev renuncia e a bandeira soviética no Kremlim é arriada, marcando o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em seu discurso de renúncia e despedida, Gorbachev encontrou espaço para reafirmar sua fé comunista, dizendo que o PCUS não poderia ser responsabilizado pelos pecados de seus líderes. Registrou que a CEI nascia da dissolução de um Estado que ele tentara preservar a qualquer custo, e que as reformas haviam nascido do próprio Partido: “Foi no Partido que essas mudanças nasceram, e foram líderes do Partido que tiveram a coragem de lançar suas plataformas”. XXIX REAÇÃO ANTILIBERAL E ANTIMARXISTA 1. O fascismo e sua doutrina. 2. Organização do Estado fascista. 3. O sistema corporativo. 1. O FASCISMO E SUA DOUTRINA O fascismo italiano, depois do comunismo russo, foi a mais notável tentativa levada a efeito no sentido de reformar as bases do Estadomoderno. Apresentou-se como um movimento de dupla reação: contra a desintegração socioeconômica do liberalismo decadente e contra a infiltração do comunismo internacionalista. No campo da filosofia política situou-se numa posição intermediária, entre o coletivismo e o individualismo, formulando a concepção de que o Estado é união de grupos ou corporações. Eminentemente nacionalista, apresentou-se com as características do velho cesarismo romano, sonhando com o restabelecimento das glórias do passado imperial. Mais radical do que o bonapartismo, amparou-se na teoria do poder absoluto, segundo a fórmula do Leviatã de Hobbes. Não obstante tivesse antecedido ao nazismo, abeberou-se na fonte da filosofia alemã para deduzir uma ideologia própria, um sistema político especialíssimo, e, sobretudo, uma teoria original de soberania e de justificação do Estado, que Mussolini e Rocco assim enunciaram: la dottrina fascista nega il dogma della sovranitá populare, che é ogni giorno smentido della realtá, e proclama in sua vece il dogma della sovranitá dello Stato. Embora surgisse do oportunismo, sem doutrina, o fascismo, depois de consolidado no poder, passou a teorizar um sistema peculiar: o Estado é criador exclusivo do direito e da moral; os homens não têm mais do que o direito que o Estado lhes concede; o Estado é personificado no partido fascista, e este não encontra limites morais ou materiais à sua autoridade; todos os cidadãos e seus bens lhe pertencem; os opositores são considerados como traidores e sujeitos à justiça que é controlada pelo órgão executivo. A nação, segundo a Carta del Lavoro, de 1927, “é a unidade moral, política e econômica, que se realiza integralmente no Estado fascista”. E o Estado “é a unidade formada pela série infinita de gerações passadas, presentes e futuras, superando os indivíduos, com vida, fins e meios de ação, superiores, no poder e na duração, aos das pessoas que o compõem”. Colocando-se, portanto, em posição diametralmente oposta à concepção liberal proclama Mussolini que a nação não é elemento integrante do Estado. Ao revés, é criada pelo Estado, cabendo a este dar ao povo, consciente da sua unidade moral, uma vontade, consequentemente, uma existência efetiva. Nos termos da filosofia alemã hegeliana, afirmou que o Estado é o absoluto, diante do qual, indivíduos e grupos são o relativo. Daí a sua célebre divisa: Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado. A esse extremismo monista Pio XI deu a denominação de estatolatria — endeusamento do Estado. É evidente a afinidade entre o fascismo e a doutrina do famoso secretário florentino, exposta no livro O príncipe, tanto que o próprio Mussolini, escrevendo Prelúdios a Maquiavel, em 1924, mencionou que na atualidade italiana o maquiavelismo estava mais vivo do que na época do seu aparecimento. Na ordem econômica o fascismo condenou formalmente o liberalismo e o socialismo marxista. Pretendeu pôr fim à luta de classes pela organização sindicalista, agrupando nas mesmas corporações todos os membros de cada ramo da produção, sem distinção entre patrões e operários. Esse corporativismo mussoliniano lançava suas raízes nas antigas corporações medievais e seguia, particularmente, a teoria de Georges Sorel, de quem Mussolini se dizia discípulo. O sistema permitia um rígido controle partidário, pois as corporações funcionavam como órgãos do partido único e ninguém poderia exercer uma atividade qualquer sem prévia autorização corporativa. Entretanto, não correspondia a uma doutrina preestabelecida: o sistema corporativo fascista foi idealizado e posto em prática posteriormente, isto é, no período de adaptação e consolidação da ordem revolucionária. O Partido Nacional Fascista, que uma vez vitorioso se tornaria partido único de estilo jacobino, estava organizado militarmente e contava com uma forte milícia de Camisas Negras. Foi quando Benito Mussolini, à frente dessa milícia, empreendeu a célebre marcha sobre Roma, em 1922. Reconhecendo a inutilidade de qualquer reação, o Rei entregou a Mussolini o leme do Estado, nomeando-o presidente do Conselho de Ministros. O Partido que então assume o poder não é um órgão de representação política, mas depositário único da confiança nacional e o intérprete exclusivo da vontade do povo. É a própria nação italiana que se integra no Partido e se deixa dirigir pela vontade incontrastável do homem providencial. Por isso mesmo, o fascismo não admitia a existência de outros partidos e procurava impor a sua ideologia a qualquer preço. O Partido Nacional Fascista era ao mesmo tempo Estado, nação, governo e organização produtiva, como acentuou Olivetti. Ou, como no dizer de Agostinho Sisto, um Órgão de educação e unificação política da nação, por isso, uma instituição integrativa da ação do Estado. Verdadeiro instituto de direito público. 2. ORGANIZAÇÃO DO ESTADO FASCISTA Mantém o fascismo como órgãos constitucionais a Coroa, o Chefe do Governo, o Grande Conselho do Fascismo, o Senado, a Câmara e os Ministros. A Câmara de representação nacional, que aceitara a nova ordem fascista, transforma-se em Câmara Corporativa, órgão técnico e consultivo, constituído de 400 membros eleitos pelas associações profissionais. Toda a organização estatal, porém, se apoiava na milícia civil e voluntária, mantida pelo Partido, que lhe deu a denominação ORDEM pela lei de 9 de dezembro de 1928. Aliás, como cita Pedro Calmon, quando em 1924 se falou na Câmara sobre a conveniência de dissolver a milícia de Camisas Negras, advertiu o Duce em tom enérgico: quem tocar nas milícias receberá chumbo. No tocante ao Rei, agiu o fascismo com inteligência e perspicácia. Não convinha ao Partido, certamente, romper de pronto com as tradições monárquicas imanentes na consciência do povo. Por isso, a exemplo do Parlamento inglês que se harmonizou perfeitamente com a monarquia segundo o princípio de que o rei reina mas não governa, o Estado fascista manteve a Coroa como um símbolo, fato que lhe valeu, sem dúvida, o apoio da população italiana e lhe possibilitou a realização pacífica de uma notável obra social e econômica. 3. O SISTEMA CORPORATIVO Em face dos conflitos entre o capital e o trabalho, conseguiu o Estado fascista, inegavelmente, estabelecer uma paz duradoura, lançando mão dos contratos coletivos de trabalho e de uma completa organização corporativa das categorias profissionais. Manteve a iniciativa privada e a livre concorrência, subordinadas, porém, aos superiores interesses sociais. O trabalho foi considerado como dever social. O direito de greve foi abolido, e considerado qualquer movimento paredista como crime contra a organização corporativa estatal. A liberdade do trabalhador — doutrina Chimienti — realiza-se de uma maneira certa e institucional na igualdade de todos os trabalhadores perante a lei e na proteção e assistência social que o Estado lhes assegura. A Carta do Trabalho, organizada pelo Grande Conselho do Fascismo, é o documento fundamental do regime corporativo italiano, que estudaremos em outra parte do nosso programa. Desbravou esse documento básico do fascismo largos caminhos, pelos quais a humanidade procurou e vem procurando encontrar a solução dos seus problemas, tanto assim que serviu de modelo a muitos códigos trabalhistas de outros países. Conquanto sejam realmente inegáveis as vantagens apresentadas pelo corporativismo orgânico, no campo da economia, certo é que o regime político fascista foi funesto como todas as ditaduras. De mãos dadas com as forças dominantes do capitalismo, entronizoua violência, internamente como método de governo, e, no plano internacional, como programa de conquista, arrastando o povo heroico da Itália a uma autêntica catástrofe nacional. XXX O ESTADO NAZISTA ALEMÃO 1. O nazismo. 2. O racismo alemão. 1. O NAZISMO Assim como o fascismo italiano, surgiu o nazismo na Alemanha com o duplo objetivo de combater o liberalismo democrático decadente e de reagir contra a infiltração comunista. Duas outras finalidades integravam o programa de ação do Partido Nacional Socialista: desvencilhar a Alemanha das cláusulas asfixiantes do Tratado de Versalhes e impor a supremacia da raça ariana. Desenvolveu-se o nazismo à sombra das instituições democráticas, sob a égide da Constituição de Weimar, ascendendo ao poder através das eleições de maio de 1933. A república alemã de Weimar era excessivamente liberal, o que propiciou o rápido desenvolvimento de um partido declaradamente subversivo, totalitarista e revestido de caráter militar. Aliás, a corrente nazista exaltava as tradições e reunia os expoentes do antigo militarismo prussiano. Por decreto de 6 de fevereiro de 1933, o governo da federação alemã dissolveu o Landtag (câmara de deputados) da Prússia, província que já se encontrava sob intervenção federal. Consequentemente, o Comissário do Reich foi investido de plenos poderes para realizar ali novas eleições, conjuntamente com as do Reichtag. Na renovação de ambas as assembleias o Partido Nacional Socialista, liderado por Adolph Hitler, obteve esmagadora vitória. Diante do triunfo dos nacional-socialistas, o Presidente Hindenburg nomeou Hitler Chanceler do Reich, iniciando-se uma profunda transformação política. Foram desde logo elaboradas pelo novo governo diversas leis de uniformização, pelas quais se extinguiram os laços da antiga federação, tornando-se os Estados-Membros simples províncias diretamente subordinadas ao governo central. O sistema republicano parlamentarista, regido pela famosa Constituição de Weimar, de 1919, foi abolido por etapas, rapidamente, caminhando o Estado a passos largos para a plena integração da ditadura hitleriana. Com o falecimento do Presidente Hindenburg deu-se a sucessão nos termos do art. 1º da lei de 1º de agosto de 1934, verbis: O cargo de presidente do Reich fica unido ao de Chanceler do Reich. Os poderes do Presidente do Reich, consequentemente, passam ao Führer e Chanceler do Reich, Adolph Hitler. Ele designará o seu substituto. Investido de poderes ditatoriais, Hitler extinguiu os demais partidos políticos, dissolveu todos os grupos nacionais considerados perigosos, subordinando-os à disciplina férrea do Partido Nacional Socialista e lançou as bases estruturais do Terceiro Reich, que iria reconstruir a Grande Alemanha sobre os escombros da primeira grande guerra mundial. Adolph Hitler, antigo oficial subalterno, de nacionalidade austríaca, iniciara a luta pela posse do governo fundando um partido militarizado à maneira fascista com a sua milícia de Camisas Pardas. Possuindo extraordinário poder de domínio sobre as massas, adquiriu imenso prestígio e tornou-se um semideus, aureolado pela pretensão de um destino místico, qual fosse o de realizar o pangermanismo pregado pelas teorias caducas de Chamberlain e Gobineau. O Partido Nacional Socialista tornou-se a personificação do próprio Estado. Era o poder mais alto e incontrastável, ao qual se subordinavam todas as atividades públicas e privadas. Procurou o Partido reeducar as massas e formar uma juventude hitlerista semelhante a um exército de autômatos. Realizou gigantescas obras públicas e desenvolveu intensivamente a preparação bélica do país. Desenvolveu no plano internacional uma atividade diplomática agressiva, procurando libertar a Alemanha dos tratados humilhantes que lhe foram impostos pelos vencedores da grande guerra de 1914-1918, levando esse programa de ação à provocação da segunda guerra. 2. O RACISMO ALEMÃO A parte construtiva do seu programa no plano interno tinha por objetivo principal a exaltação dos vínculos nacionais, como resume Queiroz Lima: proteção aos símbolos nacionais e dignificação da história alemã segundo a interpretação nacional-socialista; e depuração da nacionalidade com o fim de realizar uma Alemanha isenta da influência dos não arianos. Com esta finalidade, aliás, foi elaborada a lei sobre esterilização, em vigor a partir de 1º de janeiro de 1934. A ideia racial trouxe a separação entre alemães e não alemães, especialmente entre alemães e judeus, afirmando os nazistas que a luta contra os judeus é questão de vida ou morte. Assim, as teorias racistas foram dirigidas com ferocidade particular aos judeus, condenados ao extermínio nos terríveis campos de concentração. O racismo alemão, em última análise, era um racismo político, fundado sobre o estado civil e o vínculo de religião. Se o fosse sobre as mesurações somáticas, observa G. Mosca, teria esse racismo o inconveniente de fazer aparecer o fato de que Hitler pertencia à raça inferior dos braquicéfalos morenos e que Goebbels tinha um tipo judaico característico. Fazendo reviver os velhos mitos germânicos e procurando impor ao mundo o domínio da raça superior ariana, o regime nazista apresentava um nítido contraste em cotejo com o regime fascista, como observa Pedro Calmon — a moral do fascismo era clássica: sonhava com o império romano; a do nazismo era romântica (romantismo de aço de Goebbels): reavivava as origens germânicas. O fascismo considerava a raça uma comunidade de sentimentos; o nazismo, um laço de sangue. O fascismo considerava o império como uma tendência política: é o fim dominador do Estado; o nazismo, como uma predominância racial: o destino superior dos arianos. A Itália deu à conquista da Etiópia a justificação de um objetivo civilizador- colonial; a Alemanha explicou a incorporação da Áustria como sentido unitarista da raça germânica na luta contra os não arianos. O fascismo era um movimento de romanidade; o nazismo, estendendo-se aos países onde havia minorias étnicas alemãs, era um movimento de consanguinidade. No que tange à sua organização econômica declarou o nazismo que a totalidade dos alemães forma uma comunidade econômica, os atentados à economia nacional devem ser castigados com a pena de morte. O estabelecimento de um ano de trabalho obrigatório gratuito para a pátria, dado como serviço militar, tem um alto valor educativo e econômico. O princípio da igualdade perante a lei, no Estado nazista, foi substituído pelo da igualdade de deveres e pelo de prevalência do bem comum sobre o bem individual. Sectário e intolerante como todas as ditaduras, a ditadura nazista absorveu inteiramente a personalidade humana e anulou todos os valores individuais. Mais ainda do que o fascismo, personificou-se o nazismo no seu chefe, e, com este, desapareceu nas ruínas da imensa hecatombe que o seu desvario fez desencadear sobre o mundo mal refeito das desastrosas consequências da primeira guerra. XXXI OS ESTADOS NOVOS 1. O totalitarismo do tipo fascista. 2. Turquia. 3. Polônia. 4. Portugal. 5. Brasil. 6. Argentina. 1. O TOTALITARISMO DO TIPO FASCISTA O Estado fascista criado por Benito Mussolini, na Itália, em 1922, foi o ponto de partida do chamado totalitarismo da direita, que teve notável incremento na Europa depois da primeira guerra mundial (1914-1918) e atingiu a América Latina a par dos movimentos de exaltação nacionalista. A liberal democracia, em franca decomposição, não podia fazer face à terrível crise social que assolava o mundo,nem podia oferecer resistência eficaz à ameaça do imperialismo russo. Nessa conjuntura perigosa para a liberdade dos povos e para a sobrevivência da civilização ocidental, foi que se deu o aparecimento dos homens providenciais, ousados condutores das massas que sabiam explorar não só o descontentamento do proletariado como também os sentimentos nacionalistas, arvorando-se em salvadores das nações. Como bem acentuou Pedro Calmon, em todas as épocas a ruptura do equilíbrio entre um método clássico de governo e a inquietação social que impõe outras formas políticas, proporcionou o advento de homens providenciais. As novas organizações políticas que surgem, inspiradas pela vontade onipotente desses líderes ou detentores eventuais do poder, constituem esse conjunto heterogêneo de Estados Novos, no panorama confuso do após- guerra, todos eles adaptados arbitrariamente, em cada país, às contingências transitórias de um dado momento histórico. São todos galhos de um mesmo tronco, que é o fascismo, do qual recebem a seiva de que precisam para a sua floração doutrinária. Não obstante essa diversidade resultante da adaptação sistemática ao meio nacional, apresentam tais Estados certas características invariáveis e comuns, quais sejam: a) concentração de toda a autoridade nas mãos de um chefe supremo; b) restrições às liberdades públicas e regime de censura; c) prevalecimento do interesse coletivo sobre o individual; d) partido único; e) dirigismo econômico; f) estatismo, nacionalismo ou racismo, como objetivo moral do Estado. Valeram-se os ditadores de ideias-forças (unificação e grandeza da pátria, culto das tradições etc.) para galvanizar os espíritos e polarizar os sentimentos cívicos da comunidade nacional. No setor econômico, postergaram a livre concorrência, o laissez-faire, laissez-passer do liberalismo, estabelecendo o primado da coletividade sobre o indivíduo. Afastando formalmente a concepção abstrata do homem soberano criado pelo liberalismo da revolução francesa, os Estados Novos só admitiam como sujeito de direito público a totalidade dos cidadãos — por isso que eram Estados totalitários ou coletivistas. As leis e atos governamentais objetivavam a população no seu todo, pouco importando o sacrifício ou a negação de interesses ou direitos individuais. A segunda guerra mundial (1939-1945), pelo lado ideológico, foi o choque inevitável entre as duas concepções filosóficas extremadas (o individualismo e o totalitarismo) que jamais poderão coexistir sem perigo para a paz internacional. Já analisados em suas linhas gerais os dois principais Estados Novos (o italiano e o alemão), passaremos em revista, neste capítulo, sumariamente, outros tipos de totalitarismo fascista que apresentam um mais acentuado teor de originalidade. 2. O ESTADO TURCO — KEMALISMO A Turquia organizou também o seu governo de após-guerra à maneira fascista. Sua Constituição republicana, de 20 de abril de 1924, não é propria- mente, literalmente, um código característico de Estado totalitário. Revela, antes, um certo arremedo de parlamentarismo à inglesa, pois preceitua a supremacia da Assembleia Legislativa eleita mediante sufrágio popular. O seu art. 7º estabelece que A Assembleia exerce o Poder Executivo por intermédio de um Presidente da República e de um Conselho de Ministros nomeado por ela. O Presidente da República é escolhido pela Assembleia, para o prazo de uma legislatura; podendo ser exonerado, e não tem o direito de dissolvê-la. Uma coisa, porém, é a Constituição, e outra a realidade. O Presidente Mustafá Kemal, valendo-se do direito de reeleição consignado no art. 31, manteve-se no poder, como ditador, enfeixando em suas mãos a totalidade dos poderes de Estado. Revestiu-se de poder pessoal incontrastável. Suprimiu as oposições, dentro e fora da Assembleia, e fazia eleger os deputados pela lista de nomes adrede organizada pelo partido único do qual era o presidente. Sob as aparências de uma democracia que só existia na letra da Constituição, governou ditatorialmente, chegando a afirmar, em 1932: No momento, é preciso que o povo não se imiscua em política. Deve interessar-se apenas no seu campo ou no seu negócio. Durante 10 ou 12 anos, farei eu a lei. Depois poderei, talvez, permitir-lhe que diga o que pensa. O califado de Kemal, entretanto, foi altamente benéfico ao país: dominou a anarquia resultante da extinção do sultanato, aboliu os velhos costumes islâmicos, restabeleceu a ordem econômica em bases sólidas, reorganizou a força militar dotando-a de moderno equipamento bélico, desenvolveu o comércio e a indústria, incentivou a cultura e as artes, e, sobretudo, criou uma nova civilização de estilo europeu. Tão profundas foram as transformações que introduziu no campo social que, sob esse aspecto, realizou a maior obra de governo de que se tem notícia na história de todos os povos. 3. O ESTADO POLONÊS — PILSUDSKISMO A Polônia, pela sua Constituição de 1921, firmara o princípio da supremacia do poder legislativo, com franca tendência para o sistema parlamentarista, que dominava o pensamento político na Europa. Entretanto, a nova República, que se desligara da Rússia pelo valoroso feito das armas comandadas pelo Marechal Pilsudski, em 1920, passava por um tremendo período de crise interna, além de correr sérios perigos. A situação interna era gravíssima, tanto mais pela constante agitação das forças conservadoras da extinta monarquia. Isso tudo impossibilitava uma resistência coesa contra as ameaças e a infiltração do comunismo russo. Compreendendo a gravidade do momento nacional, o Presidente e fundador da República, Marechal Pilsudski, desfechou o golpe de Estado, a 12 de maio de 1926, assumindo a plenitude dos poderes e determinando a reforma constitucional no sentido de estabelecer a supremacia do executivo. Pela Constituição de 23 de abril de 1935 (que teria inspirado a Constituição brasileira de 1937) tornou-se a Polônia uma República espiritualista, nacional e autoritária. O Parlamento ficou submetido à autoridade suprema do Chefe de Estado e sujeito à dissolução, cessando ainda a sua competência para nomear ou destituir o órgão do poder executivo. Estabeleceu ainda a Constituição de 1935 os seguintes princípios: o Presidente da República está à frente do Estado, e não responde senão perante Deus e a história pelos destinos do Estado; a autoridade única e indivisível do Estado está concentrada em sua pessoa; seu dever supremo é velar pelos interesses do Estado. São órgãos do Estado o Governo, a Dieta, o Senado, as Forças Armadas, os Tribunais e o Controle de Estado, colocados todos sob a autoridade do Presidente da República; as liberdades públicas são limitadas pelo interesse social e nada se permitirá contra ele. Instituiu-se, assim, um governo ditatorial regulado num sistema orgânico e integrativo. O pilsudskismo procurou harmonizar os imperativos do momento com o clássico maquinismo estatal, opondo-se à desintegração democrática por meio de uma ditadura orgânica, eminentemente nacionalista. 4. O ESTADO PORTUGUÊS — SALAZARISMO O Estado Novo português é um contubérnio de República representativa, parlamentarismo, corporativismo e ditadura orgânica… Uma República “sui generis”, definiu o Prof. Fézas Vidal da Universidade de Lisboa em 1937. Como reação ao liberalismo impotente e à agressão comunista traduzida em frequentes comoções intestinas, foi imposto pelo exército, sob a chefia do General Carmona, o qual, imediatamente, entregou a direção do governo a um professor catedrático da Universidade de Coimbra, economista emérito e um dos espíritos mais lúcidos daatualidade portuguesa. Garantido pela espada de Carmona, que assumiu a Presidência da República como símbolo vivo da nova ordem nacional, Antônio Oliveira Salazar, como Presidente do Conselho de Ministros, iniciou a tarefa de promover a nova estruturação política, social e econômica do país. A Constituição portuguesa, aprovada pelo plebiscito nacional de 19 de março de 1933, que entrou em vigor em data de 11 de abril do mesmo ano, declara no seu art. 5º o seguinte: “O Estado Português é uma República unitária e corporativa, baseada na igualdade dos cidadãos perante a lei, no livre acesso de todas as classes sociais aos benefícios da civilização e na interferência de todos os elementos estruturais da nação na vida administrativa e na feitura das leis”. O Chefe de Estado é o Presidente da República, eleito pela nação (art. 72). Mas o governo (como nos sistemas parlamentaristas) é exercido pelo Ministério (art. 107). A autoridade do Presidente do Conselho é envolvente e domina toda a vida política, social e econômica do país. Os próprios Ministros são politicamente responsáveis perante o Presidente do Conselho (art. 108), podendo este nomear e demitir os titulares das diversas pastas. Poderá o Presidente do Conselho, querendo, acumular em suas mãos todas as funções ministeriais. Em última análise, todos os poderes se concentram nas mãos do Presidente do Conselho, que é, realmente, o Chefe do Governo. A Assembleia Nacional, que é composta de 120 deputados eleitos por sufrágio direto, por 4 anos, tem o poder de votar as leis, mas estas devem restringir-se à aprovação das bases gerais dos regimes jurídicos (art. 92). A competência legislativa da Assembleia, nesses casos, é cumulativa, dependendo sempre da sanção do Chefe do Governo, e, em geral, compartível, pois tem o Governo plena competência para expedir Decretos- leis. Ao lado da Assembleia Nacional funciona uma Câmara Corporativa, composta de representantes das autarquias locais e dos interesses sociais. Essa Câmara Corporativa, de natureza sindical, é apenas um órgão consultivo que age em estreita e necessária colaboração com a Assembleia. Todos os assuntos de ordem econômica são estudados e resolvidos preliminarmente na Câmara Corporativa. A função judicial é exercida por tribunais ordinários e especiais (art. 116). Na realidade, o Estado Novo de Portugal não se afasta muito do regime fascista, chegando mesmo a um excessivo cerceamento da liberdade humana. Entretanto, segundo as próprias palavras de Salazar (Discursos, Coimbra, 1935) “a ditadura deve resolver o problema político português como um meio, não como um fim em si. Há que contrapor a um e outro extremo do Estado forte, mas limitado pela moral e pelos princípios de direito das gentes, pelas garantias e liberdades individuais que são a exigência superior da solidariedade social. Esse conceito deve informar a organização e movimento do Estado português na realização de sua finalidade histórica”. Por outro lado, afirmou Salazar que “é preciso afastar de nós o impulso tendente à formação do que poderia chamar-se o Estado totalitário…”. E acrescenta: “a nação é para nós una e eterna; nela não existem classes privilegiadas nem classes diminuídas. O povo somos nós todos, mas a igualdade não se opõe e a justiça exige que onde há maior necessidade aí seja maior a solicitude: não se é justo quando se não é humano”. Salazar governou até 1968, quando adoeceu gravemente e foi substituído no cargo por Marcelo Caetano, que manteve a mesma política ditatorial do regime salazarista, até que, em 25 de abril de 1974, um movimento liderado pelos militares jovens depõe o Primeiro-Ministro Marcelo Caetano e o Presidente Américo Tomás. Assumiu a presidência o General Antônio Sebastião Ribeiro de Spínola, inaugurando o regime socialista, que passou a viger, pondo fim a quase cinquenta anos do regime salazarista. 5. O ESTADO NOVO BRASILEIRO — GETULISMO O Brasil teve também o seu Estado Novo, imposto por um golpe de Estado do próprio Presidente da República, Getúlio Vargas, com o apoio das forças armadas e cedendo às aspirações da opinião nacional. Antecipando-se ao Partido Integralista, que pregava uma doutrina totalitária e nacionalista e pugnava pelo Estado forte, Getúlio Vargas elaborou e outorgou ao País a Constituição de 10 de novembro de 1937, que continha os seguintes princípios básicos: fortalecimento do Executivo; competência para expedir Decretos-leis; eliminação das lutas internas e dos dissídios partidários; orientação e coordenação da economia nacional pelo Estado; limitação dos direitos individuais pelo bem público; proteção efetiva ao trabalho; nacionalização de certas atividades e fontes de riqueza etc. Sob a vigência da Carta de 1937 não funcionou o sistema representativo. Não havia partidos políticos. A função legislativa foi exercida exclusivamente pelo Chefe do Governo. Os Estados componentes da federação perderam a sua autonomia, sendo governados por interventores federais nomeados pelo ditador. Os municípios foram administrados por prefeitos nomeados pelo interventor, sob a supervisão de um departamento estadual. A imprensa escrita e falada foi submetida a rigorosa censura. A ordem econômica foi controlada e policiada por agentes civis e militares. O que de mais odioso apresentou o Estado autoritário de 1937 foi a instituição de uma justiça de exceção, exercida por um Tribunal de Segurança Nacional, que estava encarregado da aplicação das leis de emergência, que definiam os chamados crimes políticos, assim considerados os de abuso da liberdade de manifestação do pensamento e os atos que atentavam contra a ordem política e econômica. Embora enquadrado no modelo fascista, manteve-se o Estado Novo brasileiro fiel ao sentido humano da tradição nacional e aos princípios orientadores da nossa civilização cristã. Como todos os Estados fortes e autoritários, surgidos para disciplinar os espíritos, compor os interesses, assegurar a unidade nacional, repelir a ameaça comunista e firmar a paz interna, o Estado brasileiro de 1937 encontrou justificativa razoável no imperativo da salvação pública. Foi uma organização estatal necessariamente forte para enfrentar a borrasca que a crise internacional provocou e, ao mesmo tempo, para resolver os gravíssimos problemas que vieram à tona e que ameaçavam subverter a paz e a segurança da nação brasileira. Em verdade, foi uma ditadura absorvente, usurpadora das tradições liberais do povo brasileiro, mas teria sido um mal necessário. Se trouxe muitos malefícios, próprios das ditaduras, por outro lado prestou assinalados serviços, conduzindo a nau do Estado, num mar encapelado, a um porto de salvação. 6. O ESTADO ARGENTINO — JUSTICIALISMO A Argentina se desviou do liberalismo clássico, tomando posição entre os Estados fortes do após-guerra, sendo de se notar que assimilou mais os princípios do socialismo alemão do que os do corporativismo fascista. A solução adotada por este país sul-americano é tipicamente nacionalista, equivalente a uma terceira posição entre os extremos revolucionários do individualismo e do coletivismo. A Primeira Constituição da Nação Argentina, republicana e presidencialista, promulgada a 1º de maio de 1853, passou pelas reformas de 1860, 1866, 1898 e 1949, continuando ainda em vigor. Esta última reforma introduziu-lhe substancial modificação, para incluir na estrutura constitucional os princípios da nova política social-trabalhista que definem o chamado sistema justicialista do General Perón. Aexemplo da Turquia de Mustafá Kemal, manteve a Argentina, sob a égide de uma Constituição aparentemente democrática, um governo forte e autoritário, cuja atuação, ao tempo, foi benéfica no sentido de fortalecer o país, no plano internacional, e estabelecer, na ordem interna, um razoável equilíbrio entre o capital e o trabalho. Efetivamente, criou um ambiente de segurança e de prosperidade econômica, numa atmosfera edificante de justiça social. O justicialismo, como proclamaram os argentinos, é uma solução intermediária, não extrema, do problema político da humanidade. Sem se definir pelo espiritualismo ou pelo materialismo, procura harmonizar o espírito e a matéria na pessoa humana. Igualmente, sem se definir pelo individualismo ou pelo coletivismo, tende a conciliar a unidade e a totalidade no meio social. Adota o justicialismo uma terceira posição, variável, que “não está sempre a igual distância dos extremos”. Em cada caso, ao considerar o problema do homem ou da sociedade, elege um determinado ponto de equilíbrio. O primeiro objetivo do justicialismo, diz Raul A. Mende, é a felicidade do homem na sociedade humana, pelo equilíbrio das forças materiais e espirituais, individuais e coletivas, cristãmente valorizadas. O trabalho é considerado “meio indispensável para satisfazer as necessidades espirituais e materiais do indivíduo e da comunidade, a causa de todas as conquistas da civilização e o fundamento da prosperidade geral”. Assim, considerada a riqueza como fruto exclusivo do trabalho humano, compete ao Estado intervir nas fontes de produção para “possibilitar e garantir ao trabalhador uma retribuição moral e material que satisfaça as suas necessidades vitais e corresponda ao rendimento obtido e ao esforço empregado”. O trabalho é um direito, mas também tem uma função social, constituindo, portanto, um dever de cada membro da sociedade. Esse direito e esse dever recebem a mais ampla proteção do Estado. Os abusos que importem em exploração do homem são punidos pelas leis. A propriedade tem também uma função eminentemente social ou coletiva, pelo que está submetida às restrições legais em razão do interesse comum. Pelo mesmo motivo, “o capital deve estar a serviço da economia nacional e ter como principal objeto o bem-estar social”, isto é, não pode ser empregado senão em benefício da comunidade nacional. No tocante ao problema da liberdade individual, diz o art. 15 da Constituição que “o Estado não reconhece liberdade para atentar contra a liberdade”. Impõe assim aos indivíduos as limitações ditadas pelo interesse superior da sociedade, em benefício mesmo da liberdade individual, que, para ser permanente, não pode ser absoluta. Pelo fortalecimento da ordem econômica e pela garantia de um alto nível de justiça social, a doutrina peronista criou uma resistência eficaz às infiltrações comunistas, com o que, na ausência de outros valores, deu um magnífico exemplo e prestou inegável contribuição à causa da humanidade. Entretanto, não se despiu o Estado peronista das roupagens de uma ditadura do tipo fascista, pois todo o seu sistema gira em torno da doutrina ditada por um homem providencial. Não obstante o seu caráter ditatorial, o justicialismo realizou na Argentina uma grande obra social e econômica, lançando profundas raízes no seio das massas obreiras. Destituído pelas Forças Armadas e exilado durante 18 anos, Perón pôde conservar o prestígio da sua pessoa e da sua doutrina, sendo reconduzido ao poder em 1973, por via eleitoral, tendo governado até 29 de junho de 1974, quando afastou-se do poder por doença, tendo assumido a presidência sua mulher, Maria Estela Martínez de Perón, então vice-presidente eleita. Em março de 1976, entretanto, as Forças Armadas Argentinas reassumiram o poder, pondo fim, definitivamente, ao justicialismo de Perón, que a esse tempo já falecera. Em 1982, a aventura do governo militar nas Ilhas Malvinas, ou “Falklands”, contra a Inglaterra, precipitou sua derrocada e provocou a volta da democracia na Argentina, com o restabelecimento das eleições livres e diretas. XXXII FORMAS DE ESTADO 1. Classificações. 2. Estados perfeitos e imperfeitos. 3. Estados simples e compostos. 4. União pessoal. 5. União real. 6. União incorporada. 7. Confederação. 8. Outras formas. 9. Império britânico. 1. CLASSIFICAÇÕES Como fato social o Estado caracteriza-se pela reunião dos seus três elementos morfológicos — população, território e governo. As variações típicas de cada um desses elementos sugerem diversas classificações do Estado. Assim, quanto ao seu primeiro elemento — população —, o Estado pode ser nacional, como o Japão, ou plurinacional, como a Grã-Bretanha. Quanto ao seu segundo elemento — território —, levando em conta a sua posição geográfica, o Estado pode ser central, como o Paraguai, ou marítimo, como o Chile. Mas as classificações sob tais aspectos, adotadas por Schvartz, são destituídas de maior interesse para o nosso programa. Somente no que tange ao terceiro elemento — governo — as classificações se avultam em importância, tanto que as deixamos para o capítulo seguinte, quando trataremos das formas de governo. Neste ponto examinaremos as variações que se apresentam na combinação dos três elementos morfológicos, cujas variações determinam a forma do Estado. Em outras palavras, estudaremos aqui a formação material do Estado, sua estrutura, sua morfologia, não a sua organização política (não confundir formas de Estado com formas de governo). 2. ESTADOS PERFEITOS E IMPERFEITOS Primeiramente, cumpre-nos avisar que afastamos de cogitação a classificação dos Estados em soberanos e semissoberanos, precisamente porque não admitimos a existência de semissoberania. O conceito de soberania, já exposto, não admite meio-termo: a soberania é ou não é soberania. O Estado semissoberano, admitido por muitos autores, provavelmente pela maioria, equivale a Estado não soberano. E chegamos à conclusão de que essa figura esdrúxula de Semiestado entra como cavalo de Troia no recinto do direito público para provocar sérias confusões. Para que se enquadre como objeto de estudo esse Estado não soberano, criado para servir como moeda de troca nos negócios das grandes potências, abrimos aqui uma classificação de Estados em perfeitos e imperfeitos. ESTADO PERFEITO é aquele que reúne os três elementos constitutivos — população, território e governo —, cada um na sua integridade. O elemento governo entende-se como poder soberano irrestrito. É característica do Estado perfeito, sobretudo, a plena personalidade jurídica de direito público internacional. ESTADO IMPERFEITO é aquele que, embora possuindo os três elementos constitutivos, sofre restrição em qualquer deles. Essa restrição se verifica, com maior frequência, sobre o elemento governo. O Estado imperfeito pode ter administração própria, poder de auto-organização, mas não é Estado na exata acepção do termo enquanto estiver sujeito à influência tutelar de uma potência estrangeira. Não sendo soberano, não é pessoa jurídica de direito público internacional. Logo, não é Estado perfeito. São tipos de Estados imperfeitos os vassalos e os protegidos. Os Estados- vassalos existiram em toda a Idade Média, principalmente sob o império turco. Os Estados protegidos, chamados protetorados, foram criados pela diplomacia de após-guerra, no jogo das grandes potências vitoriosas. O Pacto da Sociedade das Nações, de 1919, criou diversos protetorados, notadamente a Síriae a Palestina. Foi a França o país que mais se valeu desse processo para manter o seu vasto império colonial, abrangendo Taiti, Madagascar, Tunísia, Marrocos, Tonkin etc. Estado imperfeito é também aquele que, num dado momento, perde o seu território, mas subsiste pelo reconhecimento do direito internacional. Essa figura de Estado sui generis foi criada pela diplomacia do século XX, principalmente nos casos da Abissínia e dos outros Estados invadidos pelo chamado eixo Roma-Berlim, cujos governos se refugiaram em Londres, onde continuaram a exercer as suas prerrogativas de Estado soberano. 3. ESTADOS SIMPLES E COMPOSTOS No plano do direito público internacional os Estados se dividem em simples e compostos. Note-se que o direito público interno dá outra divisão (unitários e federais) porque vê o Estado por dentro, na sua estrutura interna, enquanto o direito público internacional vê o sujeito como unidade ou pluralidade, isto é, como Estado único ou como união de Estados. ESTADO SIMPLES é aquele que corresponde a um grupo populacional homogêneo, com o seu território tradicional e seu poder público constituído por uma única expressão, que é o governo nacional. Exemplos: França, Portugal, Itália, Peru etc. ESTADO COMPOSTO é uma união de dois ou mais Estados, apresentando duas esferas distintas de poder governamental, e obedecendo a um regime jurídico especial, variável em cada caso, sempre com a predominância do governo da união como sujeito de direito público internacional. É uma pluralidade de Estados, perante o direito público interno, mas no exterior se projeta como uma unidade. São tipos característicos de Estado composto: a) união pessoal; b) união real; c) união incorporada; d) confederação. Resume-se o que foi enunciado no seguinte esquema: A federação é Estado simples perante o direito público internacional. Seu estudo será iniciado no capítulo seguinte, quando estudaremos o Estado sob o ponto de vista do direito público interno. Aqui estamos focalizando o Estado no campo do direito público internacional, e vamos definir as suas formas compostas: 4. UNIÃO PESSOAL UNIÃO PESSOAL é uma forma própria da monarquia, que ocorre quando dois ou mais Estados são submetidos ao governo de um só monarca. Resulta esse fato, em regra geral, do direito de sucessão hereditária, pois um mesmo Príncipe, descendente de duas ou mais dinastias, poderá herdar duas ou mais Coroas. Entretanto, pode resultar também de eleição ou de acordo internacional. Na união pessoal os Estados conservam a sua autonomia interna e internacional, esta última personificada no Rei. Ligam-se apenas pela pessoa física do imperante. Como ensina Pedro Calmon, a união pessoal é um acidente de ordem dinástica: segue a sorte das famílias reais. Cessada a razão política ou jurídica que determinou a união, cessa o fato. Foram exemplos deste tipo de união: Espanha e Portugal, sob Felipe d’Áustria; Inglaterra e Hanover, sob Jorge I; Inglaterra e Escócia, sob Jayme I; Castela e Aragão, sob D. Joana, a louca. 5. UNIÃO REAL UNIÃO REAL é também uma forma tipicamente monárquica. Consiste na união íntima e definitiva de dois ou mais Estados, conservando cada um a sua autonomia administrativa, a sua existência própria, mas formando uma só pessoa jurídica de direito público internacional. Foram exemplos de união real: Escócia, Irlanda e Inglaterra, até 1707; Suécia e Noruega; Áustria e Hungria. 6. UNIÃO INCORPORADA UNIÃO INCORPORADA é uma união de dois ou mais Estados distintos para a formação de uma nova unidade. Neste caso, os Estados se extinguem; são completamente absorvidos pela nova entidade resultante da incorporação. A Grã-Bretanha é exemplo clássico de união incorporada. Os reinos, outrora independentes, Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte, formaram união pessoal, depois união real, e, finalmente, fundiram-se formando um só Estado com a denominação de Grã-Bretanha. 7. CONFEDERAÇÃO CONFEDERAÇÃO é uma reunião permanente e contratual de Estados independentes que se ligam para fins de defesa externa e paz interna (Jellinek). Esta forma de Estado composto requer maior explicação. Na união confederativa os Estados confederados não sofrem qualquer restrição à sua soberania interna, nem perdem a personalidade jurídica de direito público internacional. A par dos Estados soberanos, unidos pelos laços da união contratual, surge a Confederação, como entidade supraestatal, com as suas instituições e as suas autoridades constituídas. No plano do Jus Gentium é uma nova unidade, representativa de uma pluralidade de Estados. Não se limita a União Confederal a determinados casus foederis, mas promove amplamente todas as medidas conducentes ao alcance do seu duplo objetivo: assegurar a defesa externa de todos e a paz interna de cada um dos Estados confederados. No que respeita a esses objetivos de interesse comum, obrigam-se os Estados a não proceder ut singuli: delegam a maior competência ao supergoverno da união confederal. Como acentua Jellinek, citado por Queiroz Lima, “a confederação é uma forma instável da união política; a união só pode existir enquanto aos Estados componentes convier; os Estados guardam como corolário natural de sua soberania política a possibilidade de, a todo tempo, se desligarem da união, segundo a fórmula os Estados não foram feitos para o acordo, mas o acordo para os Estados”. Nos tempos antigos, existiram as Confederações dos pequenos Estados gregos — Alianças pan-helênicas, Ligas Anfitionais, Ligas Hanseáticas etc. — com os objetivos de realizarem conjuntamente o culto dos deuses ou jogos olímpicos. Tais confederações, porém, eram provisórias; faltava-lhes o requisito de durabilidade por tempo indeterminado, que caracteriza os contratos dessa natureza no direito público atual. Conquanto fossem as uniões confederativas contratadas em caráter permanente, eram instáveis, de fato, notadamente pela inconstância dos motivos que determinavam a união. A Suíça foi uma das mais antigas Confederações. Conserva ainda a denominação histórica de Confederação Helvética, mas evoluiu para a estrutura federativa. O mesmo fato ocorreu nos Estados Unidos da América do Norte e na Alemanha, o que vem confirmar que a tendência da Confederação é caminhar para uma penetração mais íntima, sob a forma federativa, ou dissolver-se. A Comunidade dos Estados Independentes — CEI é o exemplo mais recente da união de Estados sob a forma confederativa (vide Capítulo XXVIII-4). 8. OUTRAS FORMAS Enquanto existiu, a URSS, sob a liderança exclusiva da Rússia, que confundia sua identidade como Estado dominante com a própria URSS, apresentava-se como Estado federal, sendo, entretanto, uma forma especial de Confederação. Na opinião de Esmein a URSS se enquadrava exatamente na forma federativa. Queiroz Lima, estudando as leis fundamentais da URSS, não encontra as características essenciais de federação ou confederação. Trata-se de “uma cooperação efetiva de nações, com o fim de estabelecer a paz, de forma duradoura, dentro da ordem comunista”. As unidades que integravam a união russa eram classificadas como Repúblicas e gozavam de soberania nos limites da Constituição (Lei Fundamental de 6-7-1923). O art. 4º da Lei Fundamental, embora contivesse expressa referência ao sistema federativo, consignava o princípio característico da confederação: cada uma das Repúblicas federadas conserva o direito de abandonar livremente a união. Esse princípio de livre associação é negativo do sistema federal e tende mais para a natureza da confederação. O enunciado teórico, porém, não correspondiaà realidade; as unidades que anteriormente procuraram desligar-se foram submetidas pelas armas do exército russo, o qual procurou ainda reincorporar a Polônia, heroicamente defendida pelo Marechal Pilsudski. A Espanha republicana adotou também um sistema federativo especialíssimo: a autonomia provincial é semelhante à autonomia municipal nos Estados Unidos da América do Norte, onde as comunas gozam de pleno direito de auto-organização administrativa, com um acentuado teor de autonomia política. O sistema espanhol franquista é uma deturpação do federalismo, isto é, como se expressa Pedro Calmon, “uma adaptação empírica, oportunista, do princípio da desintegração autonômica, como recurso de equilíbrio estatal”. 9. IMPÉRIO BRITÂNICO O Império Britânico é uma forma de Estado sui generis que desafia qualquer classificação — disse Lord Balfour. É realmente uma gigantesca construção política que se estende pelas cinco partes do Mundo, abrange quase um quarto da superfície habitável da terra, reúne perto de meio bilhão de almas e compreende mais de cinquenta governos. O Império Britânico não é confederação, nem federação, nem união pessoal ou real. É uma interessante combinação de Colônias da Coroa, Domínios e outras unidades que formam a British Commonwealth — “um grupo de nações livres”, segundo a definição de Ware. As unidades que integram esse vasto Império dividem-se em quatro classes distintas: a) Colônias da Coroa; b) Colônias com instituições representativas, mas sem governo responsável; c) Colônias autônomas; e d) Federações coloniais. As colônias da Coroa são integralmente submetidas ao governo inglês e diretamente administradas pelas autoridades da metrópole. Outras Colônias possuem suas próprias instituições legislativas, mas sem governo responsável: a função executiva subordina-se ao governo central, não à assembleia local. Essa combinação de dois governos — local e metropolitano — nunca produziu bons resultados. A repetição dos conflitos entre as duas competências paralelas tem levado essas possessões a regredirem para a simples condição de Colônia da Coroa, ou a evoluírem para a forma de Colônia autônoma. Uma vez constatado o desenvolvimento social, político e econômico de uma Colônia, adquire ela maior soma de autonomia, organizando-se nos moldes do regime parlamentar inglês, com executivo colegiado e responsável perante a própria assembleia dos representantes nacionais. O regime de autonomia colonial foi outorgado a partir de 1848 às seguintes unidades: Nova Escócia, Nova Brunswick, Canadá, Nova Zelândia, Nova Gales do Sul, Vitória, Tasmânia, Austrália do Sul, Terra Nova, Queensland, Colônia do Cabo, Transvaal, Orange e outras. O regime de autonomia, na sua constante evolução, caminhou ainda para a formação das Federações coloniais — Austrália, Canadá e União Sul- Africana —, que desfrutam de amplas prerrogativas, até mesmo no campo do direito público internacional. Essas federações, que reuniram cerca de vinte comunidades menores, possuem certos atributos de soberania: mantêm representantes diplomáticos nos países estrangeiros e firmam tratados. Vários países da Commonwealth faziam parte da ONU como membros originários. Três princípios foram expressamente fixados em 1926, como garantia das boas relações entre os domínios e a metrópole: a) o reconhecimento de um só Rei; b) a igualdade de estatutos; e c) a livre associação. Todos os membros do agregado britânico prestam obediência à Coroa, que é o símbolo vivente da união. O espírito prático dos ingleses, a sua elevada cultura democrática, o seu profundo senso de compreensão e tolerância, a sagacidade e a prudência dos seus estadistas são fatores que explicam a permanência dessa vasta estrutura política no correr dos tempos. Mesmo nos momentos mais difíceis da sua história, como na última guerra mundial, os Domínios votaram livremente a sua solidariedade à metrópole, sendo-lhes respeitada a faculdade de se conservarem neutros, como ocorreu em relação à Irlanda. A evolução das comunidades é contínua: de Colônias da Coroa chegam à categoria de nações livres, adquirindo, progressivamente, os direitos de soberania, como se verificou, depois da guerra de 1939-1945, com referência à Índia e à Malásia. Caminham, do mesmo modo, para a sua completa emancipação o Canadá, a Austrália e a África do Sul. A British Commonwealth está, no ano de 2007, integrada pelas seguintes nações: Austrália, Barbados, Botswana, Canadá, Chipre, Ilhas Fidji, Gâmbia, Gana, Guiana, Índia, Jamaica, Lesoto, Malásia, Malawi, Malta, Maurício, Nauru, Nigéria, Nova Zelândia, Paquistão, Quênia, Reino Unido, Samoa, Serra Leoa, Singapura, Suazilândia, Tanzânia, Tonga, Trinidad e Tobago, Uganda, Zâmbia, Antígua e Barbuda, Bahamas, Bangladesh, Belize, Brunei Darussalam, Camarões, Dominica, Grenada, Kiribati, Maldivia, Moçambique, Namíbia, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Grenadines, Seicheles, Ilhas Salomão, África do Sul, Sirilanka, Tuvalu, Vanuatu, totalizando 53 países nos cinco Continentes. XXXIII ESTADO FEDERAL 1. Estado unitário. 2. Estado federal. 3. Características essenciais do Estado federal. 4. O federalismo nos EEUU da América do Norte. 5. O problema da soberania no Estado federal. 6. O federalismo no Brasil. 7. Federalismo orgânico. 8. Resumo. Sob o ponto de vista do direito público interno, mais precisamente do Direito Constitucional, os Estados dividem-se em unitários e federais. 1. ESTADO UNITÁRIO ESTADO UNITÁRIO é aquele que apresenta uma organização política singular, com um governo único de plena jurisdição nacional, sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem administrativa. O Estado unitário é o tipo normal, o Estado padrão. A França é um Estado unitário. Portugal, Bélgica, Holanda, Uruguai, Panamá, Peru são Estados unitários. Embora descentralizados em municípios, distritos ou departamentos, tais divisões são de direito administrativo. Não têm esses organismos menores uma autonomia política. 2. ESTADO FEDERAL ESTADO FEDERAL é aquele que se divide em províncias politicamente autônomas, possuindo duas fontes paralelas de direito público, uma nacional e outra provincial. Brasil, Estados Unidos da América do Norte, México, Argentina e República Bolivariana da Venezuela são Estados federais. O que caracteriza o Estado federal é justamente o fato de, sobre o mesmo território e sobre as mesmas pessoas, se exercer, harmônica e simultaneamente, a ação pública de dois governos distintos: o federal e o esta- dual (J. Bryce, The American Commonwealth). O Estado federal — define Queiroz Lima — é um Estado formado pela união de vários Estados; é um Estado de Estados. Denominam-no os alemães staatenstaat. Esta definição se ajusta a um conceito de direito público interno, o qual tem por objetivo o estudo das unidades estatais na sua estrutura íntima. No plano internacional, porém, já o dissemos, o Estado federal se projeta como unidade, não como pluralidade. Como observa Pontes de Miranda o adjetivo federal não interessa ao direito internacional, nem dele emana. O Prof. Pinto Ferreira, da Universidade de Recife, formulou a seguinte definição: “O Estado federal é uma organização formada sob a base de uma repartição de competências entre o governo nacional e os governos estaduais, de sorte que a União tenha supremacia sobre os Estados-membros e estes sejam entidades dotadas de autonomia constitucional perante a mesma união”. A forma federativa moderna não se estruturou sobre bases teóricas. Ela é produto de uma experiência bem-sucedida — a experiência norte-americana.As federações ensaiadas na antiguidade, todas elas, foram instáveis e efêmeras. Extinguiram-se antes que pudessem comprovar resultados positivos em função dos problemas que as inspiraram. Apenas a Suíça manteve-se até agora, conservando, em linhas gerais, os princípios básicos da antiga Confederação Helvética, de natureza federativa, o que se explica pela sua geografia e pela presença constante de um inimigo temível à sua ilharga. Os exemplos históricos foram experiências de descentralização administrativa, não de descentralização política, que é característica primacial do sistema federativo. A simples descentralização administrativa consistente na autonomia de circunscrições locais (províncias, comunas, conselhos, municípios, cantões, departamentos ou distritos), como ocorria na Grécia antiga e ocorre na Espanha atual, é sistema municipalista, e não federativo. A forma federativa consiste essencialmente na descentralização política: as unidades federadas elegem os seus próprios governantes e elaboram as leis relativas ao seu peculiar interesse, agindo com autonomia predefinida, ou seja, dentro dos limites que elas mesmas estipularam no pacto federativo. A autonomia administrativa das unidades federadas é consequência lógica da autonomia política de direito público interno. 3. CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DO ESTADO FEDERAL São características fundamentais do sistema federativo, segundo o modelo norte-americano: a) Distribuição do poder de governo em dois planos harmônicos: federal e provincial (ou central e local). O governo federal exerce todos os poderes que expressamente lhe foram reservados na Constituição Federal, poderes esses que dizem respeito às relações internacionais da união ou aos interesses comuns das unidades federadas. Os Estados-Membros exercem todos os poderes que não foram expressa ou implicitamente reservados à União, e que lhes não foram vedados na Constituição Federal. Somente nos casos definidos de poderes concorrentes, prevalece o princípio da superioridade hierárquica do Governo Federal. b) Sistema judiciarista, consistente na maior amplitude de competência do Poder Judiciário, tendo este, na sua cúpula, um Supremo Tribunal Federal, que é órgão de equilíbrio federativo e de segurança da ordem constitucional. c) Composição bicameral do Poder Legislativo, realizando-se a representação nacional na Câmara dos Deputados e a representação dos Estados-membros no Senado, sendo esta última representação rigorosamente igualitária. d) Constância dos princípios fundamentais da Federação e da República, sob as garantias da imutabilidade desses princípios, da rigidez constitucional e do instituto da intervenção federal. 4. O FEDERALISMO NOS EEUU DA AMÉRICA DO NORTE Para melhor compreensão do mecanismo federativo, é preciso ter em vista a origem histórica dessa forma de Estado. E a Constituição norte-americana de 1787 é o marco inicial do moderno federalismo. As treze colônias que rejeitaram a dominação britânica, em 1776, constituíram-se em outros tantos Estados livres. E sustentando a luta pela sua independência, ante a reação da Inglaterra, uniram-se, em prol da defesa comum, sob a forma contratual da Confederação de Estados, em 1781, visando ao fortalecimento da defesa comum. Verificou-se que o governo resultante dessa união confederal, instável e precário como era, não solucionava os problemas internos, notadamente os de ordem econômica e militar. As legislações conflitantes, as desconfianças mútuas, as rivalidades regionais ocasionavam o enfraquecimento dos ideais nacionalistas e dificultavam sobremaneira o êxito da guerra de libertação. Discutidos amplamente os problemas sociais, jurídicos, econômicos, militares, políticos e diplomáticos, de interesse comum, durante noventa dias, na Convenção de Filadélfia, decidiram os convencionais, sob a presidência de George Washington, transformar a Confederação em uma forma de união mais íntima e definitiva. Enfrentados os problemas comuns à luz da realidade, concertaram-se as soluções que o bom-senso indicava diante das vicissitudes do momento histórico, e, afinal, os resultados da Convenção foram consubstanciados na Constituição Federal de 1787. Assim, foi essa Constituição elaborada empiricamente, adaptando-se aos problemas imperiosos, aplainando divergências, procurando resguardar, tanto quanto possível, os princípios do self-government defendidos intransigentemente pelos Estados pactuantes. Foi assim que a Constituição norte-americana, de caráter experimental, espírito prático e acomodativo, estruturou o federalismo, como era possível e não como era desejável. Uma das acomodações consistiu na conservação do nome Estado, quando os países livres, ciosos da sua independência, relutavam em sujeitar-se à condição de província. Ao que depois se acrescentou uma qualificação restritiva — Estado-Membro. 5. O PROBLEMA DA SOBERANIA NO ESTADO FEDERAL Surgiram inúmeras controvérsias doutrinárias, que ainda persistem, notadamente quanto à harmonização do sistema federativo com o conceito clássico da soberania una e indivisível. Destacaram-se as teorias de Le Fur, Duguit, Kelsen, Jellinek, Mouskholi, Verdross, Carré de Malberg, e tantos outros, notadamente a do escritor norte-americano Calhoun, divulgada na Europa por Seydel, sustentando que a soberania, sendo indivisível, permanece com os Estados federados, por isso que, sendo a união resultante de simples relação contratual, poderá ser desfeita como os acordos em geral. E, baseados nesta teoria, os Estados do Sul, essencialmente agrícolas, discordando da libertação dos escravos, insurgiram-se contra os do Norte e declararam extinta a União. O triunfo das armas do Norte, porém, consagrou definitivamente o princípio da soberania exclusiva da União. A soberania é nacional, e a nação é uma só. Logo, o exercício do poder de soberania compete ao governo federal e não aos governos regionais. Ademais, a federação não resulta de uma simples relação contratual, como ocorre com a confederação. As unidades federadas são divisões histórico-geográficas e político-administrativas de uma só nação. Unem-se pelo pacto federativo que expressa a vontade nacional, que é permanente e indissolúvel. Daí a inadmissibilidade da teoria de Calhoun. É certo que a autonomia política das unidades federadas sofre limitações, mas estas limitações são determinadas na Constituição Federal, que não é outorgada arbitrariamente pelo governo central, mas elaborada livremente pela nação, através dos seus Deputados, e pelos Estados pactuantes, representados por seus Senadores. Em suma o que ocorre é uma autolimitação, e esta significa, em última análise, uma reafirmação da autonomia política. Nos Estados Unidos da América do Norte a autonomia estadual é ampla. Variam os Estados-Membros norte-americanos quanto à forma unicameral ou bicameral, quanto às linhas gerais do sistema presidencialista, quanto aos sistemas de organização e governo municipais, quanto à estruturação do sistema judiciário, e até mesmo chegam a adotar institutos de democracia direta, como o referendum, o recall, a iniciativa ou veto popular das leis e a revogação do mandato por um pronunciamento extraordinário do eleitorado. As próprias leis penais, civis, comerciais e processuais são da competência estadual. Como exemplos, podemos mencionar que alguns Estados da união norte-americana adotam a pena de morte e outros não, alguns adotam o divórcio e outros não. Exige a ordem federal, tão somente, que sejam respeitados os princípios fundamentais, as vigas mestras da Federação, da República e do